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Numero do processo: 11610.009614/2007-70
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 13 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Apr 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2004
NULIDADE DO ACÓRDÃO. ALEGAÇÃO DA FALTA DE APRECIAÇÃO DAS PROVAS PRODUZIDAS PELO CONTRIBUINTE. VALORAÇÃO DA PROVA POR PARTE DO JULGADOR.
Não importa em nulidade de acórdão, a valoração pela autoridade julgadora das provas trazidas aos autos, com a finalidade de formar a sua convicção sobre o litígio (art. 29, Decreto nº 70.235/72).
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2004
PERC. PERCENTUAL DE PAGAMENTO.
As ordens de emissão de certificados de investimentos terão seus valores calculados, exclusivamente, com base nas parcelas do imposto recolhidas dentro do exercício financeiro. O percentual de pagamento apurado tem em seu denominador o valor do imposto de renda devido e o efetivamente pago, não compreendendo no cômputo valores depositados judicialmente.
Numero da decisão: 1301-002.833
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar argüida, e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. Ausente momentânea e justificadamente a conselheira Bianca Felícia Rothschild, substituída pelo conselheiro Breno do Carmo Moreira Vieira.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente
(assinado digitalmente)
José Eduardo Dornelas Souza - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Breno do Carmo Moreira Vieira (suplente convocado em substituição à ausência da conselheira Bianca Felicia Rothschild) e Fernando Brasil de Oliveira Pinto.
Nome do relator: JOSE EDUARDO DORNELAS SOUZA
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ALEGAÇÃO DA FALTA DE APRECIAÇÃO DAS PROVAS PRODUZIDAS PELO CONTRIBUINTE. VALORAÇÃO DA PROVA POR PARTE DO JULGADOR. Não importa em nulidade de acórdão, a valoração pela autoridade julgadora das provas trazidas aos autos, com a finalidade de formar a sua convicção sobre o litígio (art. 29, Decreto nº 70.235/72). ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2004 PERC. PERCENTUAL DE PAGAMENTO. As ordens de emissão de certificados de investimentos terão seus valores calculados, exclusivamente, com base nas parcelas do imposto recolhidas dentro do exercício financeiro. O percentual de pagamento apurado tem em seu denominador o valor do imposto de renda devido e o efetivamente pago, não compreendendo no cômputo valores depositados judicialmente. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar argüida, e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. Ausente momentânea e justificadamente a conselheira Bianca Felícia Rothschild, substituída pelo conselheiro Breno do Carmo Moreira Vieira. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 61 0. 00 96 14 /2 00 7- 70 Fl. 413DF CARF MF Processo nº 11610.009614/200770 Acórdão n.º 1301002.833 S1C3T1 Fl. 414 2 (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Breno do Carmo Moreira Vieira (suplente convocado em substituição à ausência da conselheira Bianca Felicia Rothschild) e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte acima identificado contra o acórdão 1655.670, proferido pela 8ª Turma da DRJ/SP1, na sessão de 25 de fevereiro de 2014, que, ao apreciar a manifestação apresentada pelo contribuinte, por unanimidade de votos, julgoua improcedente. Por bem descrever o ocorrido, valhome do relatório confeccionado por ocasião do julgamento de primeira instância, a seguir transcrito: A contribuinte acima identificada ingressou, em 27/09/2007, com o PERC – Pedido de Revisão de Ordem de Emissão de Incentivos Fiscais de fls. 02/04, tendo em vista ter sido emitida a ordem de emissão para o FINOR e a contribuinte constar no sistema IRPJOEIF. O “Extrato das Aplicações em Incentivos Fiscais” aponta a seguinte ocorrência para a expedição da ordem de emissão “04 REDUÇÃO DE VALOR POR RECOLHIMENTO INCOMPLETO DO IMPOSTO” (fl. 05). 2. Por meio do Despacho de fls. 190, proferido em junho de 2011, a autoridade administrativa competente indeferiu o pedido, porquanto parte do imposto devido encontravase suspenso por liminar, o que impossibilitaria o reconhecimento da totalidade do incentivo reclamado. 2.1. A informação que norteou o indeferimento é a seguinte: O presente processo trata de Pedido de Revisão de Ordem de Emissão de Incentivos Fiscais PERC, referente à declaração de Imposto de Renda Pessoa Jurídica exercício 2005 anocalendário 2004. Conforme consta no Extrato de Aplicações em Incentivos Fiscais, o contribuinte só recebeu parte do incentivo, 31,42% que corresponde ao percentual de imposto pago em relação ao imposto devido. Como o restante do imposto devido, 68,58% está suspenso por liminar, conforme consta na DCTF, fl.176, não há incentivo de imposto não pago, e/ou não devido. Fl. 414DF CARF MF Processo nº 11610.009614/200770 Acórdão n.º 1301002.833 S1C3T1 Fl. 415 3 Sendo assim, já tendo recebido todo o incentivo a que tinha direito, proponho que o processo de PERC Pedido de Revisão de Ordem de Emissão de Incentivos Fiscais, do exercício de 2005 anocalendário 2004, seja indeferido. 3. Inconformada com o Despacho Decisório, do qual foi devidamente cientificada em 18/04/2012 (A.R. à fl. 192), a interessada, por intermédio de sua representante (procuração à fl. 198), apresentou, em 18/05/2012, a manifestação de inconformidade de fls. 193 a 197, acompanhada da documentação de fls. 198 a 223. 3.1. Na peça de defesa a interessada defende o direito a 100% do benefício pleiteado, argumentando que: tratase de Pedido de Ordem de Emissão de Incentivos Fiscais PERC 2005 anocalendário 2004, no qual o Manifestante destinou parte de seu IRPJ pago (R$3.630.664,76) aos fundos FINOR, FINAM E FUNRES, no valor de RS 435.679,77; segundo análise da RFB do extrato de Aplicações em Incentivos Fiscais, a empresa já teria recebido 31,42%, deste incentivo, percentual que corresponde ao montante de imposto pago em relação ao imposto devido; como o restante do imposto devido estaria suspenso por liminar nos autos do processo n° 2003.61.000049660 conforme declarado pelo Manifestante na DCTF do 4º Trimestre de 2004 (doc.03 – fls. 213/216), não haveria mais nenhum incentivo a ser concedido e, por esta razão, entendeu que o PERC deveria ser indeferido; Ocorre que, da análise da DIPJ 2004 (doc.04 – fls. 217/223), verificase que o percentual de incentivo determinado pela RFB encontrase equivocado, uma vez que o valor da base de cálculo do Imposto de Renda a ser aplicado nos Incentivos Fiscais em referência só levou em consideração o montante de IRPJ devidamente recolhido, ou seja, os valores suspensos foram excluídos do cálculo do benefício; Fl. 415DF CARF MF Processo nº 11610.009614/200770 Acórdão n.º 1301002.833 S1C3T1 Fl. 416 4 da leitura do quadro acima inferese que o manifestante já havia efetuado o cálculo do incentivo, com as deduções e reduções permitidas pela legislação, chegandose ao montante de R$ 3.630.664,76, que gerou incentivo fiscal pleiteado no montante de R$ 435.679,77; tal procedimento foi efetuado em conformidade com os artigos 592 e 593 do RIR (Decreto nº 3.000/99); se ocorreu um recolhimento efetivo de IRPJ no montante de R$ 6.027.107,93, consistente nas retenções de fonte sofridas durante o ano (IRRF utilizado de R$ 5.947.144,26) e uma parcela quitada por compensação (R$ 79.963,67), não há o que se falar em percentual de IRPJ "suspenso" dentro da base de cálculo aplicada ao incentivo, informada na Ficha 36 da DIPJ 2005, que abaixo reproduzimos: não restam dúvidas acerca do direito do Manifestante à 100% do incentivo requerido, pois aplicado sobre base de cálculo do IRPJ pago. A 8ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo, São Paulo, apreciando as razões trazidas pela contribuinte, decidiu, por meio do acórdão nº 16 55.670, de 25 de fevereiro de 2014, pela improcedência da Manifestação de Inconformidade. Fl. 416DF CARF MF Processo nº 11610.009614/200770 Acórdão n.º 1301002.833 S1C3T1 Fl. 417 5 O referido julgado restou assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2004 PERC. PERCENTUAL DE PAGAMENTO. As ordens de emissão de certificados de investimentos terão seus valores calculados, exclusivamente, com base nas parcelas do imposto recolhidas dentro do exercício financeiro. O percentual de pagamento apurado tem em seu denominador o valor do imposto de renda a pagar apurado no ajuste anual, somado ao imposto retido por fontes pagadoras, ao imposto incidente sobre ganhos no mercado de renda variável e ao imposto de renda pago por estimativa (excluído o somatório do imposto pago no exterior s/ lucros e ganhos de capital). In casu, não há informação prestada pela contribuinte à RFB quanto à parcela do valor de IRPJ apurado no ajuste anual que estaria com exigibilidade suspensa. Manifestação de Inconformidade Improcedente Sem Crédito em Litígio Ciente do acórdão recorrido na data de 14/07/2014 (fls. 358), e com ele inconformado, a recorrente apresentou em 13/08/2014 (fls. 361 e seguintes), tempestivamente, recurso voluntário, pugnando pelo seu provimento, onde apresenta argumentos que serão a seguir analisados. É o Relatório. Voto Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza, Relator O recurso voluntário atende aos requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235, de 1972, razão pela qual deve ser conhecido. DA ANÁLISE DO RECURSO VOLUNTÁRIO Conforme relatado, a empresa ingressou com Pedido de Revisão de Ordem de Emissão de Incentivos Fiscais (PERC), relativo ao anocalendário de 2004, em face de ter recebido apenas parte do incentivo a que teria direito, ou seja, 31,42% do imposto pago em relação ao imposto devido, sendo seu pedido indeferido, em conformidade com o despacho de fls. 190. Irresignado com o Despacho Decisório, o contribuinte apresentou a manifestação de inconformidade de fls. 193 a 197, acompanhada de documentos, onde defende o direito a 100% do benefício pleiteado. Fl. 417DF CARF MF Processo nº 11610.009614/200770 Acórdão n.º 1301002.833 S1C3T1 Fl. 418 6 Ao apreciar seus argumentos, decidiu a DRJ (decisão recorrida) por sua improcedência, motivando a interposição de recurso voluntário. DA PRELIMINAR NULIDADE ACÓRDÃO RECORRIDO Após circunstanciar os fatos, argüiu a recorrente que o v. acórdão recorrido está inquinado de nulidade, por cerceamento do direito de defesa, pois não contemplou os documentos e as argumentações que trouxe aos autos, limitandose a dizer que a recorrente não logrou êxito na comprovação de que parcela do imposto devida encontravase com exigibilidade suspensa, e que não demonstrou de forma clara sua motivação para a manutenção do "crédito tributário". No voto do v. acórdão recorrido, está descrito que: Notese que o IRPJ estimativa (código 2362) apurado em dezembro de 2004, no valor de R$ 15.884.037,536 e que se encontra com a exigibilidade suspensa (fls. 183 e 340/341), não foi levado ao ajuste anual, conforme indicado na DIPJ 2005 AC 2004 (fls. 238/244 – o somatório das linhas 13 da Ficha 11 – de jan a dez/2004 – é de R$ 15.964.004,68, e o valor levado à linha 17 da Ficha 12A foi de R$ 6.027.111,42). Portanto, a estimativa declarada em DCTF com exigibilidade suspensa não influiu no cálculo do percentual de pagamento, como acima explicitado. Registrese não constar em DCTF a informação de que o valor do IRPJ apurado na Linha 20 da Ficha 12 da DIPJ 2005 AC 2004 da interessada encontrarseia com exigibilidade suspensa. Deste modo, a despeito de a interessada reclamar que o percentual de aplicação foi calculado incorretamente sem considerar o montante de IRPJ devidamente recolhido, não tomou as providências necessárias (tal qual a declaração em DCTF do valor do imposto apurado no ajuste anual com suspensão de exigibilidade) a fim de se poder considerar que parte do imposto a pagar apurado encontrarseia com exigibilidade suspensa. Frisese que sequer está claro nos autos o valor do IRPJ devido no ajuste anual que estaria com a exigibilidade suspensa. Percebese que o v. acórdão não ignorou as provas trazidas aos autos pela recorrente, mas, na valoração delas, concluiu pela improcedência da manifestação de inconformidade, mantendo o indeferimento do PERC. Vejase que o v. acórdão, neste ponto, se coaduna com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça: RECURSO ESPECIAL. PROCESSO CIVIL. MILITAR. DESINCORPORAÇÃO. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ART. 535 DO CPC. REJEIÇÃO. MULTA. ART. 538, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC. OMISSÃO NÃO CARACTERIZADA. AUSÊNCIA DE CARÁTER PROTELATÓRIO. CASSAÇÃO DA SENTENÇA. PERÍCIA. ART. 130 DO CPC. DESNECESSIDADE. Não há omissão a inquinar de nulidade a Fl. 418DF CARF MF Processo nº 11610.009614/200770 Acórdão n.º 1301002.833 S1C3T1 Fl. 419 7 decisão vergastada se os fatos relevantes ao deslinde da causa foram enfrentados, não se podendo exigir do órgão julgador que discorra sobre todos os dispositivos de lei suscitados para cumprir com plenitude a devida prestação jurisdicional. Visava a União ao opor os embargos prequestionar a matéria, os termos da Súmula 98 deste Superior Tribunal de Justiça. Afasta se o caráter protelatório dos declaratórios. Vigora, no ordenamento processual moderno, o princípio da livre apreciação das provas, segundo o qual não existe um escalonamento valorativo apriorístico dos elementos de convencimento do juiz. Não se pode ler o artigo 130 do estatuto adjetivo como imposição de realização de perícia judicial. Se o julgador sentese seguro para julgar o feito e demonstra na sentença os elementos que o convenceram do quadro fático que o motivou, exsurge demasiada a evocação de novos meios de prova. Precedentes. Recurso parcialmente provido com a retirada da multa e o restabelecimento da decisão de primeiro grau.(REesp. nº 651340, Rel. Min. José Arnaldo da Fonseca). Logo, não se verifica a pretensa nulidade agitada pela recorrente. DO MÉRITO O ponto central de discussão reside em responder a seguinte pergunta: imposto não recolhido porque teve sua exigibilidade suspensa pode ou não ser considerado pago, para fins do cálculo do incentivo fiscal? Nos termos da decisão recorrida, as ordens de emissão de certificados de investimentos terão seus valores calculados, exclusivamente, com base nas parcelas do imposto recolhidas dentro do exercício financeiro, levandose em conta o valor pago / declarado, reproduzindo o art. 592 e o art. 603, e entendeu que a parcela que está suspensa judicialmente, ainda que depositada em juízo, deve ser considerada não recolhida, não devendo entrar no cômputo. Por outro lado, o contribuinte sustenta que o percentual de incentivo determinado pela RFB encontrase equivocado, fazendo jus à integralidade do PERC e não apenas o percentual de 31,42%, pois o valor da base de cálculo do Imposto de Renda a ser aplicado no incentivo em referência apenas levou em consideração o montante do IRPJ recolhido, desprezando uma parcela do exigível do IRPJ que se encontrava suspensa por força de decisão judicial, obtida nos autos da ação nº 2003.61.00.0049660. Pois bem. Incontroverso nos autos que valor de R$15.884.037,53 (linha 12, ficha 11, fl. 19 dos demais documentos), estimativa de dez/2004, não foi pago, porque estava com a exigibilidade suspensa. A DIPJ apresentada é coerente com isso, porque esse valor não integrou o somatório dos valores pagos por estimativa, levado à linha 17, ficha 12A, fl. 19 dos demais documentos. Do mesmo modo, também não há discussão acerca do valor de R$15.025.547,39, pois é este o valor informado a título de imposto a pagar apurado no ajuste anual ( linha 20 ficha 12A, da DIPJ, fl. 19 dos demais documentos). Fl. 419DF CARF MF Processo nº 11610.009614/200770 Acórdão n.º 1301002.833 S1C3T1 Fl. 420 8 De acordo com os artigos do RIR/99, transcritos pelo v. acórdão recorrido, o cálculo do percentual deve levar em conta o valor pago / declarado. Vejase que o 592 dispõe que a opção seria pela aplicação de parcelas do imposto de renda devido, e o art. 603, § 1º, determina que o cálculo será com base nas parcelas do imposto recolhidas. Ora, se a parcela da estimativa de dez/2004 (R$15.884.037,53) encontrase suspensa judicialmente, ainda que depositada em juízo, não há como entender que ela seria devida, pois dependerá do sucesso ou não da ação judicial, podendo, sem dúvida, a recorrente obter êxito em seu pleito.Porém, a discussão judicial de uma parte do imposto não o declara imediatamente indevida ou devida, não devendo, por isso, integrar o cômputo. Também não se pode considerar que este valor, depositado judicialmente, seja entendido como imposto recolhido. A uma, porque efetivamente não o é. A duas, somente o seria (em tese) após decisão judicial transitada em julgado e favorável aos interesses da União Federal. Não há nos autos informação sobre eventual conversão em renda dos valores depositados em juízo, dando notícia de que os valores então depositados ingressaram nos cofres públicos. Assim, por imposição legal, apenas sobre os valores efetivamente recolhidos e devidos, devem ser realizados o cálculo do incentivo, e, por isso, incorreto é o entendimento, a meu ver, de calcular o incentivo fiscal sobre algo que possa a vir ser considerado indevido, a depender do sucesso da ação judicial em favor do postulante. Diante do exposto, voto no sentido de rejeitar a preliminar alegada e no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário, mantendo incólume os termos da decisão recorrida. (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Fl. 420DF CARF MF
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Numero do processo: 16682.903278/2011-18
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 14 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Apr 05 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1201-000.389
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. As conselheiras Ester Marques Lins de Sousa e Eva Maria Los acompanharam a relatora pelas conclusões.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Gisele Barra Bossa - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa (Presidente), Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli e Gisele Barra Bossa. Ausentes, justificadamente, os Conselheiros José Carlos de Assis Guimarães e Rafael Gasparello Lima.
Relatório
Nome do relator: GISELE BARRA BOSSA
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Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. As conselheiras Ester Marques Lins de Sousa e Eva Maria Los acompanharam a relatora pelas conclusões. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Gisele Barra Bossa Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa (Presidente), Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli e Gisele Barra Bossa. Ausentes, justificadamente, os Conselheiros José Carlos de Assis Guimarães e Rafael Gasparello Lima. Relatório 1. Tratase de Pedido Eletrônico de Restituição/Declaração de Compensação PER/DCOMP nº 27807.88849.200407.1.3.020123 (fls.961/1003), objetivando a compensação do Saldo Negativo de IRPJ apurado no anocalendário 2006 (exercício 2007), na monta original de R$ 3.116.840,13 e composto exclusivamente de retenções na fonte, com débitos próprios de PIS e COFINS. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 66 82 .9 03 27 8/ 20 11 -1 8 Fl. 1148DF CARF MF Processo nº 16682.903278/201118 Resolução nº 1201000.389 S1C2T1 Fl. 3 2 2. Por economia processual e por bem descrever os fatos, adoto como parte deste, o relatório constante da decisão de primeira instância: "Versa o presente litígio sobre manifestação de inconformidade em face da homologação parcial da Declaração de Compensação (DCOMP) nº 27807.88849.200407.1.3.020123 (961 a 1003) e da não homologação da DCOMP nº 26458.53203.180507.1.3.025992, que apontam como crédito saldo negativo de IRPJ apurado no exercício 2007 (período de apuração de 01/01/2006 a 31/12/2006). A autoridade administrativa recorrida não reconheceu o direito creditório integralmente porque não confirmou no sistema DIRF (Declaração de Imposto de Renda Retido na Fonte) todo o IR informado na DCOMP como retido na fonte por outras pessoas jurídicas. A declarante informou retenções na fonte de R$ 3.116.840,13, e, no banco de dados da administração tributária, foi confirmado apenas o montante de R$ 2.001.883,90, o que resultou em saldo negativo disponível de igual valor, resultado da diferença entre o valor confirmado e a IRPJ devida de zero (fl. 950). As parcelas confirmadas de IR retido na fonte, bem como as não confirmadas e as confirmadas parcialmente encontramse no detalhamento da análise do crédito (fls. 951 a 956). À fl. 957, encontrase o Detalhamento da Compensação dos débitos declarados que aponta a homologação parcial formalizada na DCOMP nº 27807.88849.200407.1.3.020123 (961 a 1003) e da não homologação da DCOMP nº 26458.53203.180507.1.3.025992. Cientificada do despacho decisório em 22/11/2011 (fls. 960), a contribuinte, irresignada, apresentou em 22/12/2011, representada por mandatária (fls. 23 a 33) a manifestação de inconformidade de fls. 2 a 20, instruída com os documentos de fls. 44 a 948, na qual afirma que: (i) Preliminarmente, alega nulidade do despacho decisório, pois, as autoridades administrativas poderiam ter confirmado as retenções sofridas pela contribuinte pelos sistemas informatizados da administração pública federal, tal como o SIAFI; (ii) Os valores retidos, passíveis de restituição ou compensação, conforme informado na Ficha 12A da DIPJ foram de R$ 26.039,09 (por pessoas jurídicas em geral) e R$ 3.090.801,04 (por entidades da Administração Pública Federal – Lei nº 10.833/2003), somando R$ 3.166.840,13 de saldo negativo de IRPJ a ser restituído/compensado; (iii) Com relação ao IRRF de R$ 26.039,09, por equívoco no preenchimento da DCOMP nº 27807.88849.200407.1.3.020123, a despeito de ter sido pleiteada a integralidade do saldo negativo do IRPJ (R$ 3.116.840,13), não foi informado que sua composição era formada pelo valor da mencionada retenção, código 3426, realizada por Xerox Participações Ltda, erro formal que não afasta o direito creditório da Manifestante; (iv) As retenções de R$ 26.039,09 decorrem de pagamentos efetuados pela Xerox Participações Ltda, e referemse a juros de mútuo da contribuinte com esta coligada, sendo que, sobre os juros pagos, a fonte pagadora efetuou a retenção comprovada pelos DARFs anexos Fl. 1149DF CARF MF Processo nº 16682.903278/201118 Resolução nº 1201000.389 S1C2T1 Fl. 4 3 (Doc. 7), nos quais consta expressa menção à natureza do rendimento como sendo “IRRF S/ JUROS MÚTUO XCI” (obs: XCI = Xerox Comércio e Indústria), conforme composição: (v) Cada um dos DARF corresponde aos juros que serviram de base para a retenção do IRRF, registrados na conta de resultado nº 6320.22.01 (Receita de Juros de Afiliadas) pelo seu valor bruto, assim como o respectivo crédito de IRRF era registrado na conta de ativo 14122212 (IRRF s/ Rendimento de Mútuo) – Doc. 08; (vi) A retenção de R$ 78.576,80 foi informada, equivocadamente, no código de receita 1708 e na linha 13, quando na verdade se refere a serviços prestados ao Banco do Brasil (CNPJ raiz 00.000.00). Tal registro decorre de um lançamento de ajuste nas faturas do banco, efetuado no sistema de contas a receber, motivo pelo qual este valor será analisado em conjunto com as retenções do banco e os comprovantes de rendimento; (vii) Quanto às retenções realizadas por órgãos públicos, a Manifestante apresenta, nesta oportunidade, todos os comprovantes de rendimentos recebidos, os quais, somados, totalizam comprovação no valor de R$ 695.487,95; (viii) Conforme informado, o valor total do crédito inicial pleiteado relativo a IRRF sobre fatura de serviços prestados a órgãos públicos, com fundamento no art. 34 da Lei nº 10.833/2003, foi de R$ 3.090.801,04; (ix) Conforme informações das faturas emitidas, cruzadas com os recebimentos registrados nos controles de contas a receber, o valor das retenções é composto centenas de documentos fiscais, inviabilizando a juntada de todos eles; (x) A despeito do grande volume de documentos, junta cópias de faturas e notas fiscais de serviços dos valores de maior relevância, nas quais constam expressamente a indicação do imposto a ser retido pelo tomador, com respectiva cópia do extrato bancário, atestando que recebeu os valores líquidos, além do detalhamento constante de demonstrativo único (doc. 10); Fl. 1150DF CARF MF Processo nº 16682.903278/201118 Resolução nº 1201000.389 S1C2T1 Fl. 5 4 (xi) Assim, ainda que a manifestante não possua parte dos comprovantes de rendimentos, há expressa indicação dos tributos a serem retidos na fonte nas faturas e o confronto entre os totais das notas fiscais e os valores recebidos, conforme relatório contábil, demonstra o recebimento da receita líquida das retenções; (xii) Não bastassem tais evidências, a manifestante comprova a inclusão de sua receita operacional líquida, advinda de vendas de mercadorias e serviços, no total de R$ 807.022.327,13 (doc. 11), coincidente com o valor informado na linha 14 da Ficha 06A da DIPJ/2007 (doc. 06); (xx) A jurisprudência administrativa admite outros meios de prova para comprovar as retenções do imposto, devendo ser reconhecidas integralmente as retenções sobre as receitas de prestação de serviços, vendas de mercadorias a órgãos públicos, assim como sobre mútuos com pessoas ligadas, com a integral validação do saldo negativo de IRPJ apurado no anocalendário 2006; (xxi) Caso se entenda que os documentos acostados são insuficientes para o reconhecimento do saldo negativo de IRPJ, pugna pela realização de diligência para que se respondam os seguintes quesitos: quais as faturas emitidas pela Manifestante no anocalendário 2006 que ensejaram a retenção de IRPJ na forma do artigo 34 da Lei nº 10.833/2003?; referidas faturas foram emitidas com indicação dos tributos que deveriam ser retidos pelas fontes pagadoras?; é coincidente o valor líquido das notas fiscais com os valores recebidos pela Manifestante?; referidos documentos e relatórios demonstram que a Manifestante recebeu a receita líquida, tendo sofrido retenção?; qual o valor apurado de saldo negativo da IRPJ no anocalendário 2006? Ao final, pede o reconhecimento integral do saldo negativo de IRPJ do anocalendário de 2006 e a homologação total das compensações declaradas.” 3. Em sessão de 20 de fevereiro de 2015, a 1ª Turma da DRJ/SPO, por unanimidade de votos, julgou procedente em parte a Manifestação de Inconformidade (fls. 02/20) relativa aos saldos credores de IRPJ, anocalendário 2006, nos termos do Acórdão nº 1665.909 (fls. 1012/1029), cuja ementa recebeu o seguinte descritivo: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA – IRPJ Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2006 RETENÇÕES NA FONTE. CONFIRMAÇÃO. SALDO NEGATIVO RECONHECIDO. Comprovado nos autos que a manifestante sofreu retenções na fonte de imposto de renda que não foram consideradas pela autoridade recorrida na formação do saldo negativo, cabe homologar a declaração de compensação até o novo limite reconhecido. RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DE RETENÇÃO NA FONTE. AUSÊNCIA. MEIO DE PROVA ALTERNATIVO. OMISSÃO DA FONTE PAGADORA. NÃO CARACTERIZAÇÃO. Fl. 1151DF CARF MF Processo nº 16682.903278/201118 Resolução nº 1201000.389 S1C2T1 Fl. 6 5 O imposto retido por fonte pagadora de rendimentos somente poderá ser compensado com o verificado no final do respectivo período de apuração, quando for o caso, se o contribuinte possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora ou, mediante outros meios de prova, quando evidenciada a recusa ou omissão no fornecimento daquele comprovante. Manifestação de Inconformidade Procedente em Parte Direito. Creditório Reconhecido em Parte” 4. Conforme tabela abaixo, a DRJ/SPO reconheceu o direito creditório no montante adicional de R$ 531.976,62, restando não reconhecido o valor final de R$ 582.979,61. Valor original 3.116.840,13 Reconhecido no Despacho Decisório 2.001.883,9 Diferença não reconhecida objeto de Manifestação de Inconformidade 1.114.956,23 Valor Reconhecido na DRJ 531.976,62 Diferença não reconhecida objeto de Recurso Voluntário 582.979,61 5. Em apertada síntese, a DRJ/SPO fundamentou sua decisão nos seguintes aspectos: 5.1. Indeferiu o pedido diligência formulado pela contribuinte por entender desnecessário, vez que os documentos e questões trazidos aos autos constituem conjunto probatório suficiente capaz de ser analisado à luz das normas aplicáveis ao caso concreto. Não demanda conhecimento técnico especializado diverso daquele que está na esfera de competência legal do AuditorFiscal da RFB. 5.2. Para que possa aproveitar as antecipações de IRRF, considera dever e ônus do sujeito passivo (i) oferecer à tributação os respectivos rendimentos e (ii) instruir os autos com todos os comprovantes de retenção emitidos em seu nome pela fonte pagadora. 5.3. Sustenta que a contribuinte atendeu ao primeiro requisito e apenas parcialmente o segundo, pois não apresentou a totalidade dos comprovantes de retenção, conforme previsto no artigo 55, da Lei nº 7.450/1985 e modelo previsto no artigo 31, da IN/SRF nº 480/2004, tampouco demonstrou ter tomado, em época própria, qualquer iniciativa para obter, junto às fontes pagadoras, os respectivos informes de rendimentos e de retenção de tributos e contribuições. 5.4. Argumenta que a contribuinte pretende substituir a ausência parcial de documentos com relatórios contábeis e pedido de diligência. Considera que o contribuinte não pode transferir seu encargo de apresentação de prova documental para o fisco. 6. Cientificada da decisão, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário (fls. 1123/1146) em 11/06/2015 (termo de abertura de documento (DTE/Portal eCAC) de 12/05/2015, fls. 1043 e envio eletrônico do recurso às fls. 1045), reiterando algumas das razões já expostas em sede de manifestação de inconformidade (fls. 02/20) e complementando sua razões de defesa com os seguintes argumentos: Fl. 1152DF CARF MF Processo nº 16682.903278/201118 Resolução nº 1201000.389 S1C2T1 Fl. 7 6 6.1. Nulidade do Despacho Decisório ante a violação do artigo 65, da IN RFB 900/2005 (Vigente à Época). · O citado dispositivo impõe à autoridade administrativa que, em caso de dúvida, condicione o reconhecimento do direito creditório à apresentação de documentos comprobatórios do crédito tributário pleiteado pelo sujeito passivo ou ainda determinar a realização de diligência. · As autoridades fiscais não efetuaram a confirmação da integralidade do crédito decorrente de saldo negativo de IRPJ, anocalendário 2006, por meio da análise das DIRFs submetidas pelas fontes pagadoras e de seus sistemas internos (SIAFI Sistema de Acompanhamento Financeiro), tanto no caso das retenções realizadas por órgãos públicos como por outras pessoas jurídicas. 6.2. No mérito, trouxe os seguintes pontos de destaque: I. Das retenções comprovadas mediante Informes de Rendimento I. 1. Dos novos Informes de Rendimentos localizados pela Recorrente · Em nítida demonstração de boafé, localizou e acostou às fls. 1114/1140 comprovantes de retenção na fonte, códigos 6147 e 6190 (retenções efetuadas por órgãos públicos). · Alinhada com a legislação, ao apurar o montante de IRPJ retido na fonte, aplicou a proporcionalização do total de tributos retidos, código 6190 (Serviços – Retenção em pagamento por órgão público) se refere a IRPJ, aproximadamente 50,79% (4,8 dividido por 9,45) e código 6147, aproximadamente 20,51% (1,2 dividido por 5,85). Ainda, adotou o mesmo procedimento das autoridades fiscais ao não trazer distorções entre CNPJs de matriz e filial nos termos exarados à fl. 1.023, conforme tabela de fls. 1023/1029, o que totalizou o direito creditório complementar de R$ 531.976,62. · Apresentou alguns comprovantes de recolhimentos realizados sob o código 1708 (Remuneração de Serviços Profissionais Prestados por Pessoa Jurídica), cuja integralidade se reporta ao IRRF. · Portanto, tais informes devem ser considerados para fins de reconhecimento do direito creditório correspondente à monta de R$ 266.499,81 (planilha de fls. 1093/1097). I.2. Dos valores não confirmados pela DRJ em razão de mero erro no preenchimento da DCOMP · A partir da análise da tabela apresenta pela DRJ às fls. 1023/1029, verificouse que foram desconsiderados, por mero erro no preenchimento da DCOMP, tanto créditos apontados pela própria autoridade fiscal em valor superior ao reportado pela Recorrente como aqueles por ela localizados, mas não declarados pelo contribuinte, o que não pode prevalecer com fundamento nos próprios julgados do E. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Fl. 1153DF CARF MF Processo nº 16682.903278/201118 Resolução nº 1201000.389 S1C2T1 Fl. 8 7 · Sustenta que houve mero erro de fato quando do preenchimento da informação em PER/DCOMP, o que não pode, inclusive de acordo com a própria jurisprudência do C. CARF, afastar o direito ao crédito respectivo, sob pena de enriquecimento ilícito da União. · Assim, deve a autoridade fiscal reconhecer direito creditório complementar no valor de R$ 417.853,55 (cotejo da planilha de fls. 1023/1029 e fls. 1098/1103). II. Das retenções comprovadas mediante outros meios · A Recorrente sustenta que as autoridades fiscais desprezaram os demais documentos apresentados durante o deslinde do feito, mesmo sendo meios idôneos e aptos a comprovar a totalidade das retenções de IRPJ sofridas. Tal procedimento, inclusive, contraria a uníssona jurisprudência administrativa. · Nessa linha, argumenta que muito embora o documento ordinário hábil a comprovar as retenções na fonte suportadas pelo sujeito passivo seja o Informe de Rendimentos, esse não é o único meio de prova. · Considera que a falta desse documento não basta para indeferir de plano o direito creditório e, por essa razão, ainda em sede de à Manifestação de Inconformidade ofertou à apreciação das autoridades fiscais, para valores de maior relevância, cópia das faturas de serviços, notas fiscais nas quais constam expressamente a indicação do imposto a ser retido pelo tomador nos termos legais com respectiva cópia do extrato bancário, atestando ter recebido valores líquidos, além do detalhamento do Demonstrativo Único (doc. 10, fls. 578/938), sendo que o último corresponde à consolidação de várias faturas às quais também foram apresentadas. · Com fundamento no princípio da verdade material e na jurisprudência, sustenta que não pode ser penalizada por não ter recebido Informe de Rendimentos das fontes pagadoras. E consigna que, não há na legislação pátria nenhuma norma que determine à pessoa jurídica que sofreu a retenção apresentar negativa expressa da fonte pagadora em fornecer o Informe de Rendimentos. III. Da Tributação da Receita que gerou as Retenções · A DRJ reconheceu que a contribuinte ofertou à tributação a totalidade das receitas que originaram as retenções de IRPJ (fls. 1021). Portanto, este ponto é incontroverso nos autos, não cabendo qualquer discussão adicional. 6.3. Por fim, requerer o conhecimento e provimento do presente Recurso Voluntário, para o fim de decretar a nulidade da decisão da DRJ ou decidindo em favor do contribuinte (artigo 59; 3° do Decreto 70.235/72), reconhecendo integralmente o Saldo Negativo de IRPJ do anocalendário de 2006 pleiteado, homologandose as compensações declaradas. 6.4. No mais, se os esclarecimentos prestados e a documentação ofertada ainda não forem suficientes para comprovar a íntegra do Saldo Negativo de IRPJ de exercício 2007, pugna pela realização de diligência ou perícia, nos termos do art. 16, IV, Decreto Fl. 1154DF CARF MF Processo nº 16682.903278/201118 Resolução nº 1201000.389 S1C2T1 Fl. 9 8 70.235/72, a fim de corroborar que efetivamente sofreu a totalidade das retenções na fonte alegadas. É o relatório. Voto Conselheira Gisele Barra Bossa, Relatora 7. O recurso é tempestivo e cumpre os demais requisitos legais de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento e passo a apreciar. 8. Em virtude da necessidade de baixar os autos em diligência, atenhome aos pressupostos e fundamentos hábeis a justificar tal providência a ser atendida pela douta autoridade preparadora. 9. Inicialmente, cumpre consignar que somente diante da efetiva análise documental, das diligências necessárias à busca da verdade material, bem como mediante decisão fundamentada por parte das autoridades fiscais, que o direito creditório não merece ser reconhecido. 10. Nos termos do artigo, art. 3º, III, da Lei nº 9.784, de 1999, é direito do contribuinte ver a documentação probatória apresentada devidamente analisada pelo órgão competente. E, mesmo diante das hipóteses previstas no §4º, do artigo 38, da Lei nº 9.784/1999, em que as provas poderão ser recusadas, o normativo dispõe sobre a necessidade de decisão fundamentada por parte da autoridade fiscal. 11. Constam do rol as provas "ilícitas, impertinentes, desnecessárias ou protelatórias", incidências que fogem a realidade do presente caso. 12. No mais, assiste razão a contribuinte quando sustenta que meros erros no preenchimento de declarações não são suficientes para motivar o não reconhecimento do seu direito creditório. 13. Contudo, em linha com a jurisprudência deste E. Conselho, é imprescindível que tais erros sejam claramente demonstrados por meio de documentação hábil e idônea, em especial com base na análise de registros contábeis e fiscais e da documentação que lhe serve de suporte, a qual necessariamente deve ser mantida pelo contribuinte enquanto se pretender obter os efeitos fiscais correspondentes, nos termos do artigo 195, parágrafo único, do Código Tributário Nacional CTN e dos artigos 264 e 923 do RIR/99. 14. Por mais que a Recorrente não tenha efetuado a retificação das declarações, tal circunstância não pode obstar o legítimo direito de crédito do contribuinte. Exceção à essa regra se dá justamente quando a documentação suporte é insuficiente para demonstrar a origem do crédito e/ou não esclarece de forma assertiva e sem contradições a composição dos valores discutidos. 15. Logo, somente diante da efetiva análise documental e mediante decisão fundamentada por parte das autoridades fiscais, apta a demonstrar o motivo pelo qual as provas acostadas merecem ser desconsideras/ignoradas, que o direito creditório não deve ser reconhecido. Fl. 1155DF CARF MF Processo nº 16682.903278/201118 Resolução nº 1201000.389 S1C2T1 Fl. 10 9 16. Ademais, o direito creditório do contribuinte não pode ser inviabilizado pela conduta omissa da fonte pagadora. Não há na legislação pátria nenhuma norma que determine à pessoa jurídica que sofreu a retenção apresentar negativa expressa da fonte pagadora em fornecer o Informe de Rendimentos. Imaginemos a situação em que a fonte pagadora foi extinta, como o sujeito passivo obteria a negativas de fornecimento do informe por escrito? 17. De outra parte, é inequívoco que, em caso de dúvidas quanto à exatidão da informações prestadas, a autoridade fiscal poderá (i) condicionar o reconhecimento do direito creditório à apresentação de documentos comprobatórios adicionais; (ii) realizar diligência fiscal no estabelecimento do contribuinte; (iii) oficiar aos órgãos da administração pública que efetuaram a retenção; e (iv) buscar informações através de consultas aos sistemas internos SRF SIEF DIRF SINAL, com fundamento no artigo 65, da IN RFB 900/2005 e nos artigos 36 e 37 da Lei nº 9.784/1999, verbis: IN RFB 900/2005 Art. 65. A autoridade da SRF competente para decidir sobre a restituição poderá condicionar o reconhecimento do direito creditório à apresentação de documentos comprobatórios do referido direito, bem como determinar a realização de diligência fiscal nos estabelecimentos do sujeito passivo a fim de que seja verificada, mediante exame de sua escrituração contábil e fiscal, a exatidão das informações prestadas." Lei nº 9.784/1999 Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei. Art. 37. Quando o interessado declarar que fatos e dados estão registrados em documentos existentes na própria Administração responsável pelo processo ou em outro órgão administrativo, o órgão competente para a instrução proverá, de ofício, à obtenção dos documentos ou das respectivas cópias. 18. Tratase de um poder/dever da autoridade fiscal hábil a garantir o direito ao contraditório, a ampla defesa e, fundamentalmente, a busca da verdade material. Sob esse aspecto, é cediça a jurisprudência administrativa e não poderia ser diferente. Os atos praticados pela administração tributária devem ser norteados pelo princípio da verdade material, sob pena de enriquecimento ilícito da União. 19. O atendimento dos pressupostos constantes dos itens 21 e 23 garante isonomia aos litigantes, o pleno exercício da boafé, da cooperação processual e do contraditório efetivo. São mecanismos importantes capazes levar à verdade material e trazer satisfatividade às decisões proferidas, conforme prevê os artigos 5º ao 8º, da Lei nº 13.105/2015 (Código de Processo Civil), bem como no artigo 2º da Lei nº 9.784/1999, verbis: Lei nº 13.105/2015 Art. 5o Aquele que de qualquer forma participa do processo deve comportarse de acordo com a boafé. Art. 6o Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva. Art. 7o É assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos Fl. 1156DF CARF MF Processo nº 16682.903278/201118 Resolução nº 1201000.389 S1C2T1 Fl. 11 10 ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditório. Art. 8o Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência. Lei nº 9.784/1999 Art. 2o A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. 20. Não é porque estamos diante de direito creditório do contribuinte que podemos olvidar dos princípios que regem a Administração Pública, em especial do princípio da eficiência. 21. De acordo com Prof. Doutor Humberto Ávila1 "para que a administração esteja de acordo com o dever de eficiência, não basta escolher meios adequados para promover seus fins. A eficiência exige mais o que mera adequação. Ela exige satisfatoriedade na promoção dos fins atribuídos à administração. Escolher um meio adequado para promover um fim, mas que promove o fim de modo insignificante, com muitos efeitos negativos paralelos ou com pouca certeza, é violar o dever de eficiência administrativa. O dever de eficiência traduzse, pois, na exigência de promoção satisfatória, para esse propósito, a promoção minimamente intensa e certa do fim”. 22. Nessa linha, e em última análise, deixar de observar os preceitos aqui descritos viola o princípio da eficiência, pois os litígios acabam sendo levados para o âmbito do Poder Judiciário. Para além do ônus suportado pelas partes, temos o ônus para a própria Administração Pública. O Estado é um só e os custos do contencioso são suportados por todos os cidadãos brasileiros. A eficiência de gestão dos recursos públicos e o cuidado na busca de soluções satisfativas são valores legais necessários à promoção do interesse público e não podem ser considerados incompatíveis com esse objetivo. 23. Outro aspecto relevante diz respeito à necessária aplicação do artigo 29, da Lei nº 9.784/992. Em que pese o interessado tenha o dever de provar os fatos que alega (artigo 36, da Lei n º 9.784/99), as atividades de instrução destinadas a averiguar e comprovar os dados necessários à tomada de decisão devem ser realizadas de ofício e os atos de instrução que exijam a atuação do interessado devem realizarse de modo menos oneroso para estes. 24. Em termos práticos, as autoridades fiscais dispõem de eficientes meios para obtenção de determinadas provas, compartilham dados e informações entre órgãos da administração pública e possuem plataformas tecnológicas de dados alimentadas pelos órgãos e 1 ÁVILA, HUMBERTO. Moralidade, Razoabilidade e Eficiência na Atividade Administrativa. In: Revista Eletrônica sobre a Reforma do Estado, nº 04, out/nov/dez 2005, p. 2324. Disponível em: https://goo.gl/Hn3CpK. Acesso em: 01/01/2018. 2 Art. 29. As atividades de instrução destinadas a averiguar e comprovar os dados necessários à tomada de decisão realizamse de ofício ou mediante impulsão do órgão responsável pelo processo, sem prejuízo do direito dos interessados de propor atuações probatórias. § 1º O órgão competente para a instrução fará constar dos autos os dados necessários à decisão do processo. § 2º Os atos de instrução que exijam a atuação dos interessados devem realizarse do modo menos oneroso para estes. Fl. 1157DF CARF MF Processo nº 16682.903278/201118 Resolução nº 1201000.389 S1C2T1 Fl. 12 11 pelos próprios contribuintes, capazes de viabilizar a segura tomada decisão pelo julgador, reduzir os custos procedimentais e estruturais, bem como garantir que os atos sejam realizados de modo menos oneroso às partes. 25. Não foi por acaso que a Lei nº 13.105/2015 (Código de Processo Civil), em seu artigo 373, trouxe a possibilidade de distribuição diversa do ônus da prova diante da impossibilidade ou excessiva dificuldade da parte de cumprir o encargo. Essas medidas cooperativas trazem maior equilíbrio entre as partes, celeridade na condução e assertividade nas decisões. 26. Tendo essas premissas em mente, passamos à análise do caso concreto. I. Das retenções comprovadas mediante Informes de Rendimento I. 1. Dos novos Informes de Rendimentos localizados pela Recorrente 27. Diante das premissas supra e considerando que a contribuinte apresentou novos informes de rendimentos (fls. 1114/1140) relativos aos códigos de retenção 6190 e 6147 (órgãos públicos), bem como do código de retenção 1708 (Remuneração de Serviços Profissionais Prestados por Pessoa Jurídica) e, para esse último caso, esclareceu que a retenção de retenção de R$ 78.576,80 foi informada, equivocadamente, no código de receita 1708 e na linha 13, quando na verdade se refere a serviços prestados ao Banco do Brasil (CNPJ raiz 00.000.00), acolho o pedido da contribuinte para que sejam devidamente apreciados e confirmados os valores apresentados, inclusive através dos sistemas SRF SIEF DIRF SINAL e/ou através de ofício ao ente estatal, para fins de reconhecimento do direito creditório complementar, cujo valor indicado pela Recorrente é de R$ 266.499,81 (planilha de fls. 1093/1097). I. 2. Dos valores não confirmados pela DRJ em razão de mero erro no preenchimento da DCOMP 28. Conforme acima esclarecido, meros erros de fato no preenchimento da DCOMP não podem preterir o direito creditório do contribuinte. 29. De acordo com a jurisprudência desse E. Conselho, é fundamental que o contribuinte comprove (i) a efetiva ocorrência da retenção e (ii) que tais rendimentos foram oferecidos à tributação. Essa, inclusive, parece a melhor interpretação da Súmula do CARF nº 80, segundo a qual: "Na apuração do IRPJ, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor do imposto de renda retido na fonte, desde que comprovada a retenção e o cômputo das receitas correspondentes na base de cálculo do imposto." 30. No acórdão da DRJ (fls. 1012/1029) e mais precisamente às fls. 1021, restou consignado que a Recorrente atendeu ao primeiro requisito. 31. Quanto ao segundo, mesmo confirmando que a Recorrente sofreu as retenções de IRPJ relativas aos códigos 6190 e 6147 (órgãos públicos), vide tabela de fls. 1023/1029, a autoridade julgadora, nos casos em que a contribuinte não declarou alguns valores retidos ou declarou em valores inferiores aos localizados pelas autoridades fiscais, entendeu que não caberia a ela majorar de ofício o PER/DCOMP (fls. 1021). Logo, deixou de considerar complementarmente esses créditos (zerados). Fl. 1158DF CARF MF Processo nº 16682.903278/201118 Resolução nº 1201000.389 S1C2T1 Fl. 13 12 32. Contudo, estamos tratando de saldo creditório decorrente de retenções efetuadas por órgãos públicos reconhecido pelas próprias autoridades fiscais, porém não considerados para fins de composição do Saldo Negativo de IRPJ, anocalendário 2006. Desconsiderar tais valores não só afronta o princípio da verdade material como figura enriquecimento ilícito da União, real bis in idem. 33. Temos que, a desconsideração dos documentos apresentados pela Recorrente e dos valores confirmados pela própria autoridade fiscal, a par de não ser amparo legal, viola os princípios da isonomia processual, boafé, cooperação e contraditório efetivo hábeis a assegurar a busca da verdade material e da eficiência processual, conforme prevê os artigos 6º e 7º, da Lei nº 13.105/2015 (Código de Processo Civil), bem como no artigo 2º da Lei nº 9.784/1999, especialmente quando estamos tratando dos códigos de retenção 6190 e 6147 que envolvem serviços prestados pela Recorrente aos próprios órgãos públicos. 34. Por meio da planilha segregada de incidências apresentada pela Recorrente às fls. 1098/1103 em cotejo com a tabela da DRJ de fls. 1023/1029, mesmo confirmando a ocorrência das retenções de IRPJ na monta total de R$ 417.853,55, não reconheceu esse montante. 35. Portanto, desde já devem ser reconhecidos os créditos já confirmados pela própria DRJ às fls. 1023/1029, descontada eventual diferença do que já foi reconhecido quando do despacho decisório e do r. acórdão da DRJ. 36. Relativamente às demais incidências que geraram dúvidas (diferenças), caberia às autoridades fiscais adotar os procedimentos constantes do item 20 para fins de confirmar o direito creditório do contribuinte. 37. Há valores em que a Recorrente apresentou comprovantes (ex. fls. 431, 432) que foram reportados pelas autoridades fiscais como zerados, sem razão ou justificativa, bem como há valores declarados pelo contribuinte em valor superior ao reconhecido pelo fisco, cujas diferenças não foram por ele consideradas/verificadas em seus sistemas internos e/ou oficiado ao órgão público para esclarecimentos. 38. Sob aspecto, desde já acolho o pedido da Recorrente no sentido de que devem ser devidamente apreciadas e consideradas tais circunstâncias fáticas para fins de reconhecimento do direito creditório complementar. Portanto, cabível o pedido de diligência. II. Das retenções comprovadas mediante outros meios 39. Conforme já salientado, a efetiva ocorrência da retenção pode ser comprovada tanto através do Comprovante Anual de Rendimentos Pagos ou Creditados e de Retenção de Imposto de Renda na Fonte como a partir das consultas aos sistemas SRF SIEF DIRF SINAL, para a matriz e filiais, conforme códigos de receita 6147 e 6190 (retenções efetuadas por órgãos públicos, ofício das autoridades fiscais que efetuaram a retenção, por meio dos registros contábeis, fiscais e documentação que lhe sirva de suporte. 40. A Recorrente, relativamente à retenções efetuadas por órgãos públicos e outras pessoas jurídicas de direito privado, apresentou às fls. 578/938, para valores de maior relevância, cópia das faturas de serviços, notas fiscais nas quais constam expressamente a indicação do imposto a ser retido pelo tomador nos termos legais, com respectiva cópia do extrato bancário, atestando ter recebido valores líquidos. Fl. 1159DF CARF MF Processo nº 16682.903278/201118 Resolução nº 1201000.389 S1C2T1 Fl. 14 13 41. De fato, as autoridades fiscais, em caso de dúvidas acerca da idoneidade de documentação apresentada pela Recorrente, devem intimar o contribuinte a prestar esclarecimentos, realizar diligência fiscal em seu estabelecimento e/ou buscar a confirmação das informações (retenções indicadas na DCOMP e documentação complementar/suporte apresentada) através de consultas aos sistemas internos SRF SIEF DIRF SINAL e/ou ofício aos órgãos da envolvidos para fins de resguardar o direito creditório do contribuinte e, em última análise, a busca da verdade material. 42. Nesse sentido, embora não acolha o pedido de perícia requerido pela Recorrente (fls. 1109), cujos quesitos foram formulados à luz da documentação de fls. 578/938, considero fundamental converter o julgamento em diligência para que a prova apresentada seja apreciada e sejam tomadas as providências que serão abaixo relacionadas. 43. Ressaltese que, nos termos do artigo 29, da Lei nº 9.784/99, as atividades de instrução destinadas a averiguar e comprovar os dados necessários à tomada de decisão devem ser realizadas de ofício e os atos de instrução que exijam a atuação do interessado devem realizarse de modo menos oneroso para estes. 44. No mais, também em homenagem aos princípios acima citados, saliento que é dever da Recorrente apresentar com clareza, coerência e assertividade a composição dos valores e respectivos comprovantes que detém relativos às retenções por sofridas, de forma organizada e alinhada ao declarado em DCOMP ou apta a justificar eventuais erros de fato. 45. A documentação probatória contábil e fiscal (além das declarações, as notas fiscais podem fazer às vezes, por exemplo), deve ser suficiente para suprir a ausência do informe de rendimentos e cabe ao contribuinte justificar a ausência do referido documento. 46. A falta de declarações, esclarecimentos e provas eficientes sobre a composição dos montantes retidos que estejam exclusivamente em posse do contribuinte, acabam por dificultar sobremaneira a atividade da autoridade fiscal e dos julgadores, critérios estes serão observados quando do retorno dos autos para julgamento definitivo. 47. Diante do exposto, CONVERTO O JULGAMENTO EM DILIGÊNCIA, para que a autoridade preparadora: (i) Aprecie e confirme os valores das retenções apresentados às fls. fls. 1114/1140, inclusive através dos sistemas SRF SIEF DIRF SINAL e/ou através de ofício ao ente estatal, para fins de reconhecimento do direito creditório complementar, cujo valor indicado pela Recorrente é de R$ 266.499,81 (planilha de fls. 1093/1097). (ii) Informe o montante dos créditos comprovados e reconhecidos pela r. decisão da DRJ para fins de analisar se houve utilização da diferença recolhida a maior em outro PER/DCOMP apresentado pela contribuinte. (iii) Reconheça os créditos já confirmados pela própria autoridade fiscal às fls. 1023/1029, segregados pela Recorrente às fls. 1098/1103, ainda que por erro de fato da contribuinte não constem da DCOMP ou constem a menor, descontada a diferença do que já foi reconhecido quando do despacho decisório e do r. acórdão da DRJ. Fl. 1160DF CARF MF Processo nº 16682.903278/201118 Resolução nº 1201000.389 S1C2T1 Fl. 15 14 (iv) Considere e compute no montante do crédito os informes de rendimentos apresentados pela Recorrente (ex. fls. 431, 432) que porventura tenham sido reportados como zerados, sem razão ou justificativa pela autoridade fiscal, bem como analise eventual diferença entre valores declarados pelo contribuinte em valor superior ao reconhecido pelo fisco, cujas diferenças não foram por ele consideradas/verificadas em seus sistemas internos e/ou oficiado ao órgão público para esclarecimentos. (v) Relativamente às retenções comprovadas por outros meios, aprecie a documentação de fls. 578/938 e, em caso de dúvidas: intime o contribuinte a prestar esclarecimentos assertivos, realize diligência fiscal em seu estabelecimento e/ou busque a confirmação das informações (retenções indicadas na DCOMP e documentação complementar/suporte apresentada) através de consultas aos sistemas internos SRF SIEF DIRF SINAL e/ou ofício aos órgãos envolvidos, para fins de resguardar o direito creditório do contribuinte e, em última análise, a busca da verdade material. 48. Após a conclusão da diligência, a autoridade fiscal responsável deverá elaborar Relatório Conclusivo, com posterior ciência à Recorrente, para que, se assim desejar, se manifeste no prazo de 30 (trinta) dias e na seqüência retornem os autos ao E. CARF para julgamento. É como voto. (assinado digitalmente) Gisele Barra Bossa Fl. 1161DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11065.005085/2004-16
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Mar 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 1999
ADMISSIBILIDADE. PARADIGMA CONTRARIANDO SUMULA VINCULANTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. MATÉRIA NÃO CONHECIDA.
Acórdão paradigma com entendimento amparado em dispositivo normativo posteriormente declarado inconstitucional por súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal não poderá ser utilizado para demonstrar a divergência na interpretação da legislação tributária, verificação que pode ser realizada na data da admissibilidade do recurso especial, inclusive pelo Colegiado da Câmara Superior de Recursos Fiscais. Art. 67, § 12, Anexo II do Regimento Interno do CARF. Recurso não conhecido.
QUALIFICAÇÃO DA MULTA. PLUS NA CONDUTA. DOLO.
Operações empreendidas visando ocultar do Fisco deliberadamente a percepção de receitas, com escrituração a menor de valores de vendas para clientes, reiteradamente, contabilização deficiente dos ingressos auferidos e ocultação das notas fiscais, evidencia a presença dos elementos volitivo e cognitivo, caracterizando o dolo, o plus na conduta que ultrapassa o tipo objetivo da norma tributária e que é apenado com a qualificação da multa de ofício.
Numero da decisão: 9101-003.461
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial (i) quanto à decadência, vencida a conselheira Cristiane Silva Costa, que conheceu do recurso. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso (ii) quanto à qualificação da multa de ofício e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencido o conselheiro Gerson Macedo Guerra, que lhe negou provimento.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo - Presidente
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo |(Presidente).
Nome do relator: ANDRE MENDES DE MOURA
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 1999 ADMISSIBILIDADE. PARADIGMA CONTRARIANDO SUMULA VINCULANTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. MATÉRIA NÃO CONHECIDA. Acórdão paradigma com entendimento amparado em dispositivo normativo posteriormente declarado inconstitucional por súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal não poderá ser utilizado para demonstrar a divergência na interpretação da legislação tributária, verificação que pode ser realizada na data da admissibilidade do recurso especial, inclusive pelo Colegiado da Câmara Superior de Recursos Fiscais. Art. 67, § 12, Anexo II do Regimento Interno do CARF. Recurso não conhecido. QUALIFICAÇÃO DA MULTA. PLUS NA CONDUTA. DOLO. Operações empreendidas visando ocultar do Fisco deliberadamente a percepção de receitas, com escrituração a menor de valores de vendas para clientes, reiteradamente, contabilização deficiente dos ingressos auferidos e ocultação das notas fiscais, evidencia a presença dos elementos volitivo e cognitivo, caracterizando o dolo, o plus na conduta que ultrapassa o tipo objetivo da norma tributária e que é apenado com a qualificação da multa de ofício.
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ATAC. DE FRUTAS LTDA ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1999 ADMISSIBILIDADE. PARADIGMA CONTRARIANDO SUMULA VINCULANTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. MATÉRIA NÃO CONHECIDA. Acórdão paradigma com entendimento amparado em dispositivo normativo posteriormente declarado inconstitucional por súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal não poderá ser utilizado para demonstrar a divergência na interpretação da legislação tributária, verificação que pode ser realizada na data da admissibilidade do recurso especial, inclusive pelo Colegiado da Câmara Superior de Recursos Fiscais. Art. 67, § 12, Anexo II do Regimento Interno do CARF. Recurso não conhecido. QUALIFICAÇÃO DA MULTA. PLUS NA CONDUTA. DOLO. Operações empreendidas visando ocultar do Fisco deliberadamente a percepção de receitas, com escrituração a menor de valores de vendas para clientes, reiteradamente, contabilização deficiente dos ingressos auferidos e ocultação das notas fiscais, evidencia a presença dos elementos volitivo e cognitivo, caracterizando o dolo, o plus na conduta que ultrapassa o tipo objetivo da norma tributária e que é apenado com a qualificação da multa de ofício. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial (i) quanto à decadência, vencida a conselheira Cristiane Silva Costa, que conheceu do recurso. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso (ii) quanto à qualificação da multa de ofício e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencido o conselheiro Gerson Macedo Guerra, que lhe negou provimento. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 00 50 85 /2 00 4- 16 Fl. 1128DF CARF MF Processo nº 11065.005085/200416 Acórdão n.º 9101003.461 CSRFT1 Fl. 1.129 2 (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo |(Presidente). Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional PGFN (efls. 1058/1087) em face da decisão proferida no Acórdão nº 10322.344 (efls. 1026/1054), pela Terceira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, na sessão de 22/03/2006, no qual foi acolhida decadência relativa ao PIS e Cofins dos fatos geradores de janeiro a novembro de 1999 e dado provimento parcial ao recurso voluntário da SHOP FRUTAS COM. ATAC. DE FRUTAS LTDA ("Contribuinte") para reduzir a multa proporcional de 150% para 75%. O acórdão recorrido apresentou a seguinte ementa: PEDIDO DE EMISSÃO DE CERTIDÃO NEGATIVA E DE EXCLUSÃO DO CADIN. Não se conhece do pedido de emissão de certidão negativa e de exclusão da recorrente do CADIN. PEDIDO DE SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DOS TRIBUTOS LANÇADOS DE OFíCIO. A interposição regular de recurso tempestivo já é o bastante para suspender a exigibilidade dos tributos lançados de ofício. PERíCIA. DESNECESSIDADE. Deve ser indeferido o pedido de perícia, quando o exame de um técnico é desnecessário à solução da controvérsia, que só depende de matéria contábil e argumentos jurídicos ordinariamente compreendidos na esfera do saber do julgador. DECADÊNCIA. IRPJ. APURAÇÃO ANUAL. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. O IRPJ, por ajustarse à disciplina do art. 150, 4°, do CTN, tem como marco definitivo ao lançamento de ofício o último dia após cinco anos, contados da data da ocorrência do fato gerador, salvo se comprovada a fraude, o Fl. 1129DF CARF MF Processo nº 11065.005085/200416 Acórdão n.º 9101003.461 CSRFT1 Fl. 1.130 3 dolo ou a simulação. Portanto, para as pessoas jurídicas optantes pelo regime de apuração anual do tributo, a regra geral de caducidade estabelece que a contagem do lapso decadencial se inicia no último dia do encerramento do período de apuração. DECADÊNCIA. CSSL. Consoante a sólida jurisprudência administrativa, sem a comprovação de dolo, fraude ou simulação, a decadência do direito estatal de efetuar o lançamento de ofício da CSSL é regida pelo artigo 150, 4°, do CTN. MULTA. CONFISCO A multa constitui penalidade, não se revestindo das características de tributo, sendo inaplicável o conceito de confisco previsto no inciso V do artigo 150 da Constituição da República. MULTA. APLICAÇÃO DO PERCENTUAL DE 2% DO ARTIGO 52, 1°, DO CDC, COM A REDAÇÃO DA LEI N° 9.298, DE 1996. IMPOSSIBILIDADE. O Direito Tributário é autônomo em relação aos demais ramos do Direito, motivo por que as normas punitivas veiculadas na legislação que lhe é própria afasta qualquer outra que lhe seja estranha, a exemplo daquela que prevê a sanção de 2%, no máximo, aplicáveis aos casos de inadimplência, nas relações de consumo. JUROS DE MORA TAXA SELlC É legítima a utilização da taxa SELlC como índice de juros de mora incidentes sobre débitos tributários não pagos no vencimento, diante da existência de lei que determina a sua adoção, com o respaldo do art. 161, 1°, do CTN. ARGÜiÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI. Se o Constituinte concedeu legitimação ao Chefe Supremo do Executivo Federal para a propositura de Ação Declaratória de Inconstitucionalidade, não há amparo à tese de que as instâncias administrativas poderiam determinar o descumprimento de atos com força de lei, sob pena de esvaziar o conteúdo do art. 103, I,da Constituição da República. A PGFN interpôs recurso especial protestando (1) pelo restabelecimento da qualificação da multa de ofício, com fulcro no inciso I do art. 32 do Regimento Interno dos Conselhos de Contribuintes (Portaria MF nº 55, de 16 de março de 1998), decisão não unânime de Câmara, quando for contrária à lei ou à evidência da prova; e (2) sobre a decadência, com fulcro no inciso II do art. 32 do Regimento Interno dos Conselhos de Contribuintes (Portaria MF nº 55, de 16 de março de 1998), decisão com interpretação da lei tributária divergente dada por outra Câmara do Conselho de Contribuintes ou pela Câmara Superior de Recursos Fiscais. Contesta o entendimento da decisão recorrida em reconhecer a decadência para o PIS e Cofins aplicando a contagem para tributos sujeitos a lançamentos por homologação nos termos do art. 150, § 4º do CTN. Pugnou a recorrente pela aplicação do então vigente art. 45 da Lei nº 8.212, de 1991, que previa o prazo decadencial de dez anos para as contribuições sociais destinadas à seguridade social. O despacho de exame de admissibilidade (efls. 1095/1098) deu seguimento ao recurso especial. Fl. 1130DF CARF MF Processo nº 11065.005085/200416 Acórdão n.º 9101003.461 CSRFT1 Fl. 1.131 4 A Contribuinte não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro André Mendes de Moura, Relator. As matérias devolvidas no recurso especial são a (1) decadência e o (2) restabelecimento da qualificação da multa de ofício (150%). Quanto à qualificação da multa de ofício, tratase de recurso em face de decisão não unânime de Câmara, quando for contrária à lei ou à evidência da prova, prevista no Regimento Interno dos Conselhos de Contribuintes, Portaria MF nº 55, de 16 de março de 1998, razão pela qual conheço da matéria. Em relação à decadência, há que se apreciar condição específica atinente aos recursos especiais interpostos junto à Câmara Superior de Recursos Fiscais prevista no Regimento Interno do CARF. Discutese a decadência o PIS e Cofins, relativos aos meses de janeiro a novembro de 1999. A princípio, há que se esclarecer que, a respeito do exame de admissibilidade, o RICARF prevê sua operacionalização em dois momentos, ou dois atos processuais distintos: primeiro, por ocasião de análise inicial realizada pelo Presidente da Câmara, formalizado em despacho de exame de admissibilidade; segundo, em apreciação realizada pelo Colegiado da Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais. O segundo exame não se vincula ao resultado do primeiro, tanto que o Colegiado da Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais pode reformar o entendimento proferido pelo despacho de exame de admissibilidade. No caso dos autos, a PGFN interpôs recurso especial apresentando como paradigma o Acórdão nº 20306.655, com a ementa transcrita na parte que interessa ao litígio: EMENTA: NORMAS PROCESSUAIS PRAZO DECADENCIAL O direito da Fazenda Pública de efetuar o lançamento da contribuição fenece em 10 (dez) anos, contados da data prevista para o seu recolhimento (arts. 102 do Decreto n° 92.698/86; 9° do DecretoLei n° 249/83 e 45 da Lei 8.212/91) Preliminar rejeitada. Ocorre que o Supremo Tribunal Federal publicou a Súmula Vinculante nº 8 que declarou a inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei nº 8.212/1991: São inconstitucionais o parágrafo único do artigo 5º do Decreto Lei nº 1.569/1977 e os artigos 45 e 46 da Lei nº 8.212/1991, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário. Fl. 1131DF CARF MF Processo nº 11065.005085/200416 Acórdão n.º 9101003.461 CSRFT1 Fl. 1.132 5 O que se observa é que a decisão paradigma apresentada para demonstrar a divergência na interpretação da legislação tributária aplicou dispositivo normativo posteriormente declarado inconstitucional por súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal. O regimento interno atual (Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015), dispõe, no art. 67, § 12, Anexo II: Art. 67. (...) § 12. Não servirá como paradigma acórdão proferido pelas turmas extraordinárias de julgamento de que trata o art. 23A, ou que, na data da análise da admissibilidade do recurso especial, contrariar: (Redação dada pela Portaria MF nº 329, de 2017) I Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 103A da Constituição Federal; (Grifei) Merece especial destaque o termo "na data da análise da admissibilidade do recurso especial". Isso porque, na ausência da expressão, poderseia abrir debate sobre qual regimento deveria ser aplicado, o atual, ou o regimento vigente à época da interposição do recurso especial (Portaria MF nº 55, de 16 de março de 1998, que não trazia a restrição prevista no § 12 do art. 67, Anexo II do regimento atual). Nos autos do processo nº 13840.000215/0018, discutiuse os efeitos da nova redação dada ao § 11 do art. 67 do Anexo II do RICARF. Votouse, por unanimidade (pelas conclusões os Conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra) no sentido de que deveria se aplicar, para os recursos especiais interpostos sob a égide da norma processual anterior (que exigia transcrição integral da ementa do paradigma no recurso), o dispositivo regimental atual, que autorizou a reprodução parcial da ementa (quando da não apresentação das cópias integrais das decisões), desde que fosse a respeito da matéria devolvida, para fins de atendimento de requisito formal de admissibilidade. Nos presentes autos, entendo também pela aplicação do dispositivo regimental atual, mas por motivos diferentes do julgado mencionado. Fato é que o § 12 do art. 67 do Anexo II do RICARF é preciso ao determinar marco temporal para aplicação da norma, qual seja, a data da admissibilidade do recurso especial. Nesse contexto, percebese que a norma processual dispõe que, independente do ordenamento jurídico vigente à época da interposição do recurso, caso a lei que amparou o paradigma tenha sido declarada inconstitucional posteriormente (no caso, por ocasião de publicação de súmula vinculante do STF), o acórdão paradigma não poderá ser utilizado. É expressa na norma a dissociação entre a data de interposição do recurso e a data estabelecida para o exame da admissibilidade do recurso. A redação mostrase clara no sentido de aplicar a regra do regimento atual independente do cenário legislativo vigente à época da interposição do recurso. Ou seja, ainda que, na data de interposição do recurso, a parte tenha se valido de paradigma amparado em legislação com status de constitucionalidade, caso a legislação seja declarada inconstitucional posteriormente, prevalece determinação regimental no sentido de se desconsiderar a decisão paradigmática, em exame de admissibilidade. Fl. 1132DF CARF MF Processo nº 11065.005085/200416 Acórdão n.º 9101003.461 CSRFT1 Fl. 1.133 6 Podese entender que o dispositivo regimental parte da premissa de que, tendo sido declarada inconstitucional a norma, os efeitos são retroativos, tornandose inválida 1 sua aplicação mesmo em eventos pretéritos, inclusive, para ser utilizada como paradigma. Uma exceção poderia ser objeto de debate: caso em que o STF valesse da modulação dos efeitos da norma. No caso em tela, a Súmula Vinculante nº 8 teve seus efeitos modulados. Transcrevo excerto da ementa e da decisão do julgamento do RE 559.9434/RS sobre o tema: 4. Declaração de inconstitucionalidade, com efeito ex nunc, salvo para as ações judiciais propostas até 11.6.2008, data em que o Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade dos artigos 45 e 46 da Lei n. 8.212/1991. (...) Decisão: O Tribunal, por maioria, vencido o Senhor Ministro Marco Aurélio, deliberou aplicar efeitos ex nunc à decisão, esclarecendo que a modulação aplicase tãosomente em relação a eventuais repetições de indébitos ajuizadas após a decisão assentada na sessão do dia 11/06/2008, não abrangendo, portanto, os questionamentos e os processos já em curso, nos termos do voto da relatora. (...) No caso, a modulação foi no sentido de que para as ações judiciais de repetição de indébito propostas a partir de 12/6/2008, a nulidade dos artigos 45 e 46 da Lei nº 8.212/1991 teria efeito ex nunc. A situação aos presentes autos, que não trata de repetição de indébito, não foi abrangida pela modulação, ou seja, os efeitos de nulidade permanecem retroativos. Por isso, não obstante a interposição do recurso especial ter ocorrido quando a lei era constitucional, os efeitos ex tunc tornaram a lei inválida, retirando a possibilidade de decisão amparada no diploma declarado inconstitucional ser adotada como paradigma. E, no caso concreto, realizandose a admissibilidade do recurso especial, encontrase cenário no qual resta consumada a inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei nº 8.212, de 1991. Assim, a decisão amparada no dispositivo não poderá servir de paradigma, o que impossibilita o seguimento do recurso. Portanto, não se deve conhecer da matéria relativa à decadência. Assim sendo, em relação à admissibilidade, voto no sentido de conhecer parcialmente do recurso especial da PGFN, em relação à matéria qualificação da multa de ofício. Passo ao exame do mérito. 1 Aqui se parte da premissa de que o Brasil adotou o modelo norte americano de controle de constitucionalidade, no qual a declaração de inconstitucionalidade atua no plano de validade, razão pela qual se fala em nulidade. Vale lembrar que o entendimento vem sofrendo atenuações no decorrer do tempo. Fl. 1133DF CARF MF Processo nº 11065.005085/200416 Acórdão n.º 9101003.461 CSRFT1 Fl. 1.134 7 O Relatório da Ação Fiscal (efls. 795/801) discorre sobre autuação no qual se constatou que as receitas declaradas pela contribuinte foram consideradas incompatíveis com sua movimentação financeira. Sendo optante do Lucro Real anual, em razão de ter apurado sucessivos prejuízos fiscais, não recolheu qualquer valor de IRPJ e CSLL. Na ação fiscal, foram apresentados pela contribuinte extratos bancários, cujos valores depositados não puderam ser identificados em razão de escrituração deficiente nos livros Diário e Razão. Foi intimada a Contribuinte a justificar a irregularidade e esclarecer a origem dos recursos creditados nas contas bancárias. A resposta foi assim informada pela autoridade autuante: Em resposta, a fiscalizada afirmou ter adotado esta prática para “simplificar” sua contabilidade , “devido ao grande número de notas, pois eram abastecidas todas as lojas do Supermercado Nacional”. Quanto aos recursos nelas creditados, reconheceu que “os valores transacionados nas contas eram provenientes das vendas dos produtos (...) de recebimentos de fretes (...) e de recursos da empresa” (fl. 182). Concluiu a autoridade autuante que, tendo a Contribuinte reconhecido que os valores creditados nas contas correntes tinham como origem receitas auferidas, e não foram comprovadas as origens dos recursos, restou tipificada infração com base no art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, presunção de omissão de receitas decorrentes de depósitos bancários com origem não comprovada. No que concerne à qualificação da multa, informou a autoridade autuante que intimou três das maiores clientes da Contribuinte, para que disponibilizassem as suas compras no período fiscalizado. Efetuando o cotejo entre os valores das compras registradas pelas clientes, e os valores das vendas escrituradas pela contribuinte, foi constatado que, na maioria das operações, o valores registrado como compra era superior ao contabilizado como venda. Isso sem dizer que a contribuinte, apesar de intimada duas vezes, não apresentou o livro de Registros de Saídas, enquanto que as clientes apresentaram todas as notas fiscais de compra. Concluiu a autoridade fiscal, nesse contexto, que nas vendas efetuadas, a contribuinte consignava, nos documentos fiscais que emitia, valores diferentes daqueles escriturados em sua contabilidade, caracterizando portanto o evidente intuito de reduzir suas receitas e as bases de cálculo dos tributos a pagar. Contudo, registra a Fiscalização que expediente conhecido como "nota calçada" não pode ser demonstrado porque a Contribuinte não apresentou as notas fiscais que lhe foram solicitadas. Diante dos fatos apurados, foi qualificada a multa de ofício (art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996), por entender caracterizado o evidente intuito de fraude. Entendo não haver reparos ao entendimento dado pela Fiscalização. Independente a mudança na legislação, com a nova redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, no qual se retirou a expressão "evidente intuito de fraude", resta plenamente demonstrada a conduta dolosa da Contribuinte, mediante consciente, planejado e reiterado Fl. 1134DF CARF MF Processo nº 11065.005085/200416 Acórdão n.º 9101003.461 CSRFT1 Fl. 1.135 8 procedimento de escriturar a menor as vendas que efetuava para seus clientes, fato comprovado mediante comparação entre as notas fiscais das empresas clientes e os valores escriturados na contabilidade da empresa fiscalizada. Somase ainda a não escrituração das receitas, intencionalmente para ocultar a percepção dos rendimentos auferidas na vendas, e a não apresentação das notas fiscais e do Livro Registros de Saídas, visando deliberadamente encobrir os atos dolosos. Vale transcrever excerto do voto vencido do acórdão recorrido: De tudo o que relatei e das provas coligidas e, ainda, consoante a imputação fática, saio convicto de que a inação da recorrente configura a sonegação descrita na autuação, nos termos do art. 71 da Lei n° 4.502/64. Por doze meses sucessivos, a fiscalizada frustrou as expectativas de sua coletividade, obtendo proveito ilícito com informações omitidas, não revelando a totalidade dos tributos que deveria recolher, na proporção das receitas que sabia ter auferido, afinal, emitiu notas fiscais de vendas com valores maiores que os registrados no livro fiscal. A recorrente, que era garantidora do Erário, lesou voluntariamente o Fisco, ao deixar de fornecer ao Estado o retrato fiel de sua realidade tributável. As notas emitidas reforçam a convicção de que suas vendas integram as realidades tributáveis referentes aos tributos aqui exigidos, os quais deveria apurar e informar ao Estado, mediante os instrumentos criados pela legislação tributária. Assim, para evitar que a autoridade fiscal tomasse ciência da obrigação principal que lhe incumbia, em sua inteireza, quis escondêla parcialmente do conhecimento do Fisco, como, de fato, escondeu. O dolo está visível, afinal, a escrituração do Livro de Saídas, por valor inferior ao das vendas praticadas, evidencia a consciência de que poderia agir para evitar a lesão ao bem jurídico. Desse modo, sua decisão acerca da inação se dirigiu finalisticamente ao resultado típico, deixando de executar a ação que lhe era possivel, por efeito de sua vontade. O plus na conduta é evidente, ultrapassando o tipo objetivo da norma tributária. Não se trata de mero descumprimento do dispositivo legal. Verificase a presença dos elementos cognitivo e volitivo, consumandose o dolo, cuja definição é apresentada com clareza por CEZAR ROBERTO BITENCOURT2: O dolo, elemento essencial da ação final, compõe o tipo subjetivo. Pela sua definição, constatase que o dolo é constituído por dois elementos: um cognitivo, que é o conhecimento do fato constitutivo da ação típica; e um volitivo, que é a vontade de realizála. O primeiro elemento, o conhecimento, é pressuposto do segundo, a vontade, que não pode existir sem aquele. Sobre o elemento cognitivo, BITENCOURT 3 discorre com didática: 2 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal : parte geral, volume 1, 11ª ed. São Paulo : Saraiva, 2007, p. 267. 3 BITENCOURT, 2007, p. 269. Fl. 1135DF CARF MF Processo nº 11065.005085/200416 Acórdão n.º 9101003.461 CSRFT1 Fl. 1.136 9 Para a configuração do dolo exigese a consciência daquilo que esse pretende praticar. Essa consciência deve ser atual, isto é, deve estar presente no momento da ação, quando ela está sendo realizada Sobre o elemento volitivo, são claros os ensinamentos 4: A vontade, incondicionada, deve abranger a ação ou omissão (conduta), o resultado e o nexo causal. A vontade pressupõe a previsão, isto é, a representação, na medida em que é impossível querer algo conscientemente senão aquilo que se previu ou representou na nossa mente, pelo menos, parcialmente. Nesse contexto, cabe ser restabelecida a multa qualificada, devendose dar provimento ao recurso especial da PGFN em relação à matéria. Diante do exposto, voto no sentido de conhecer parcialmente do recurso especial da PGFN em relação à qualificação da multa de ofício, e, no mérito, na parte devolvida, darlhe provimento. (assinatura digital) André Mendes de Moura 4 BITENCOURT, 2007, p. 269. Fl. 1136DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10120.008365/2004-10
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Mar 08 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Apr 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003
MULTA QUALIFICADA. EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE. COMPROVAÇÃO.
A omissão reiterada de informações ao Fisco (recorrência) em montantes significativos quando comparados com a receita declarada (relevância) pode caracterizar o dolo ensejador da multa qualificada. Se a contribuinte, ao longo de cinco anos (1999/2003), apresenta sistematicamente declarações em branco à Secretaria da Receita Federal (ou mesmo nem as apresenta), e não efetua qualquer recolhimento quando ela própria sabia que tinha tributos a recolher, não há como se admitir que a infração tenha sido fruto de mero erro ou negligência contábil. Nessas circunstâncias provado está, para além de qualquer dúvida razoável, o evidente intuito do agente em fraudar o Erário Público, sendo portanto cabível a qualificação da multa de ofício.
DECADÊNCIA. 1º, 2º e 3º TRIMESTRES DE 1999.
O restabelecimento da multa qualificada produz reflexos na questão da decadência. Isso porque a caracterização do dolo, por si só, desloca o prazo de decadência do art. 150, §4º, para o do art. 173, I, ambos do CTN. Não bastasse isso, os documentos e demonstrativos apresentados pela Fiscalização evidenciam que não houve qualquer recolhimento de CSLL ao longo do período fiscalizado. E o Superior Tribunal de Justiça, ao julgar o mérito do Recurso Especial nº 973.733/SC, na sistemática dos recursos repetitivos previstos no artigo 543-C do CPC e da Resolução STJ nº 08/2008, já decidiu que se não houve nenhum pagamento e nem declaração/confissão de parte do tributo, a regra de decadência a ser aplicada é a prevista no art. 173, I, do CTN.
Numero da decisão: 9101-003.479
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, para restabelecer a qualificação da multa no percentual de 150% e aplicar a Súmula Carf nº 72. Por maioria de votos, acordam em determinar o retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação do termo a quo da contagem do prazo decadencial, caso entenda necessário, vencidos os conselheiros André Mendes de Moura, Flávio Franco Corrêa e Adriana Gomes Rêgo. Votaram pelas conclusões, em relação à multa qualificada, os conselheiros Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo - Presidente.
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal De Araujo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rêgo (Presidente).
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 19; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2171; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT1 Fl. 2 1 1 CSRFT1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 10120.008365/200410 Recurso nº Especial do Procurador Acórdão nº 9101003.479 – 1ª Turma Sessão de 8 de março de 2018 Matéria MULTA QUALIFICADA Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado MARQUEZ & MARTINS LTDA. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003 MULTA QUALIFICADA. EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE. COMPROVAÇÃO. A omissão reiterada de informações ao Fisco (recorrência) em montantes significativos quando comparados com a receita declarada (relevância) pode caracterizar o dolo ensejador da multa qualificada. Se a contribuinte, ao longo de cinco anos (1999/2003), apresenta sistematicamente declarações em branco à Secretaria da Receita Federal (ou mesmo nem as apresenta), e não efetua qualquer recolhimento quando ela própria sabia que tinha tributos a recolher, não há como se admitir que a infração tenha sido fruto de mero erro ou negligência contábil. Nessas circunstâncias provado está, para além de qualquer dúvida razoável, o evidente intuito do agente em fraudar o Erário Público, sendo portanto cabível a qualificação da multa de ofício. DECADÊNCIA. 1º, 2º e 3º TRIMESTRES DE 1999. O restabelecimento da multa qualificada produz reflexos na questão da decadência. Isso porque a caracterização do dolo, por si só, desloca o prazo de decadência do art. 150, §4º, para o do art. 173, I, ambos do CTN. Não bastasse isso, os documentos e demonstrativos apresentados pela Fiscalização evidenciam que não houve qualquer recolhimento de CSLL ao longo do período fiscalizado. E o Superior Tribunal de Justiça, ao julgar o mérito do Recurso Especial nº 973.733/SC, na sistemática dos recursos repetitivos previstos no artigo 543C do CPC e da Resolução STJ nº 08/2008, já decidiu que se não houve nenhum pagamento e nem declaração/confissão de parte do tributo, a regra de decadência a ser aplicada é a prevista no art. 173, I, do CTN. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 00 83 65 /2 00 4- 10 Fl. 511DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 3 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento, para restabelecer a qualificação da multa no percentual de 150% e aplicar a Súmula Carf nº 72. Por maioria de votos, acordam em determinar o retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação do termo a quo da contagem do prazo decadencial, caso entenda necessário, vencidos os conselheiros André Mendes de Moura, Flávio Franco Corrêa e Adriana Gomes Rêgo. Votaram pelas conclusões, em relação à multa qualificada, os conselheiros Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente. (assinado digitalmente) Rafael Vidal De Araujo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rêgo (Presidente). Relatório Tratase de recurso especial interposto pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) contra "decisão nãounânime de Câmara, quando for contrária à lei ou à evidência da prova", fundamentado no art. 7º, I, do Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) aprovado pela Portaria MF nº 147/2007, c/c art. 4º da Portaria MF nº 256/2009 (RICARF/2009) e art. 3º da Portaria MF nº 343/2015, que aprova o atual Regimento Interno do CARF. A recorrente insurgiuse contra o Acórdão nº 10808.944, de 28/07/2006, por meio do qual a Oitava Câmara do antigo Primeiro Conselho de Contribuintes, por maioria de votos, deu provimento parcial a recurso voluntário da contribuinte acima identificada, para fins de "reduzir a multa de 150% para 75% e, por decorrência, reconhecer a decadência para os fatos geradores até o 3° trimestre de 1999". O acórdão recorrido contém a ementa e a parte dispositiva transcritas abaixo: PAF MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL A competência para execução de fiscalização, delegada através de Mandado de Procedimento Fiscal, não desconhece o principio da competência vinculada do servidor administrativo e da indisponibilidade dos bens públicos. Continuação de trabalho fiscal com prorrogação feita, tempestivamente, por meio eletrônico, é válida nos termos das Portarias do Ministério da Fazenda de nos. 1265/1999 e 3007/2001. MULTA DE OFICIO QUALIFICADA DESCABIMENTO Sobre os créditos apurados em procedimento de oficio só cabe a exasperação da multa quando restar tipificada a hipótese de incidência do artigo 1° inciso I da Lei Fl. 512DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 4 3 8137/1990. No caso dos autos se aplica a multa de oficio do inciso primeiro do artigo 44 da Lei 9430/1996. Sumula 14 do 1° CC. Preliminar rejeitada. Recurso parcialmente provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos de recurso interposto por MARQUEZ & MARTINS LTDA. ACORDAM os Membros da OITAVA CÂMARA DO PRIMEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES, por unanimidade de votos, REJEITAR a preliminar de nulidade suscitada pelo recorrente e, no mérito, por maioria de votos, DAR provimento PARCIAL ao recurso para reduzir a multa de 150% para 75% e, por decorrência, reconhecer a decadência para os fatos geradores até o 3° trimestre de 1999, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Vencidos os Conselheiros José Carlos Teixeira da Fonseca (Relator), Nelson Lósso Filho e Ivete Malaquias Pessoa Monteiro que reduziam a multa de 150% para 75% apenas para o 2° trimestre de 2002. Designado o Conselheiro Margil Mourão Gil Nunes para redigir o voto vencedor. A PGFN afirma que o acórdão recorrido configura decisão nãounânime e contrária à lei, no que toca à redução da multa qualificada e ao reconhecimento da decadência. Para o processamento de seu recurso, ela desenvolve os argumentos descritos abaixo: DOS FATOS contra a contribuinte identificada no preâmbulo foi lavrado em 21/12/2004 o auto de infração às fls. 286/295, formalizando lançamento de oficio de CSLL, abrangendo os períodos de apuração de 31/03/1999 a 30/09/2003, incluindo juros de mora calculados até 30/11/2004 e multa qualificada de 150%, totalizando R$ 220.856,11; de acordo com a descrição dos fatos, a contribuinte apresentou à SRF, relativamente aos períodos de apuração examinados, declarações (DIRPJ e/ou DCTF) sem informações de tributos ou contribuições a recolher, enquanto seus assentamentos contábeis revelam obrigações da espécie a pagar, o que foi constatado em procedimento de verificações obrigatórias e ensejou a formalização do lançamento de oficio; ante a conduta da contribuinte de apresentar reiteradamente declarações omitindo da autoridade tributária os débitos fiscais apurados, foi aplicada a multa qualificada de 150% prevista no art. 44, inciso II, da Lei n° 9.430, de 1996. De outra parte, por configurar a prática da fiscalizada, em tese, crime contra a ordem tributária capitulado na Lei n° 8.137, de 1990, o que implicou formalizar a representação fiscal para fins penais constante do processo etiquetado sob o n°. 10120.008370/200414; DO CABIMENTO DO RECURSO ESPECIAL Fl. 513DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 5 4 primeiramente é importante salientar que no caso em tela, não se aplica a Súmula n° 14 do Primeiro Conselho de Contribuintes, já que prática da conduta ilícita por cinco anos consecutivos demonstra inquestionavelmente o intuito de fraude do Recorrido; ao desqualificar a multa de oficio por maioria de votos, a Câmara a quo contrariou frontalmente o art. 44, §1° da Lei n° 9.430/96 (nova redação dada pela Lei n° 11.488/2007), pois ficaram evidenciados nos autos elementos suficientes à comprovação do intuito fraudulento do Recorrido ao longo de cinco anoscalendário; assim, a demonstração desse desígnio faz com que se tenha como aplicável, relativamente ao prazo decadencial, a regra do inciso I do artigo 173 do CTN. Portanto, a Oitava Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, data venia, violou ainda o referido comando do CTN; dessa forma, demonstrada a contrariedade a dispositivos de lei, encontram se presentes os requisitos de admissibilidade do presente recurso especial, consoante o disposto no artigo 7°, I do RICSRF; DOS FUNDAMENTOS PARA A REFORMA DO ACÓRDÃO RECORRIDO. DA APLICAÇÃO DO PRAZO PREVISTO NO ART. 173, I, DO CTN PARA O CASO EM TELA. havendo, por parte do sujeito passivo, dolo, intuito de fraude ou de simulação, a disciplina da contagem do prazo decadencial deslocase daquela mais benéfica ao contribuinte, prevista no art. 150, §4° do CTN, e passa a recair na regra geral, prevista no art. 173, I, segundo a qual o prazo decadencial somente inicia seu fluxo no exercício seguinte àquele em que se torna possível ao Fisco efetuar o lançamento tributário; de acordo com De Plácido e Silva, em "Vocabulário Jurídico", Ed. Forense, o vocábulo fraudar significa toda a ação de falsear ou ocultar a verdade com a intenção de prejudicar ou de enganar, possuindo, na técnica fiscal, a acepção de usar de ardil para fugir ao pagamento de uma tributação; registrese, ainda, que qualquer conduta fraudulenta do sujeito passivo, com intuito de reduzir ou suprimir tributo, estará sempre enquadrada em uma das hipóteses previstas nos arts. 71 e 72 da Lei 4.502/64, abaixo transcritos: [...]; verificase que a conduta praticada pelo contribuinte aliada aos resultados obtidos evidenciam a clara intenção de fraudar o Fisco por meio da ação dolosa prevista no inciso I do art. 71 da Lei n° 4.502/64; tratase o caso em questão, realmente, de um comportamento planejado com o propósito de impedir o conhecimento da ocorrência do fato gerador da contribuição pela autoridade fiscal. Logo, a disciplina da contagem do prazo decadencial passa a recair na regra geral, prevista no art. 173, I, do CTN; notese, ainda, que a aplicação do art. 173, I ,do CTN se impõe não apenas em razão da conduta dolosa acima evidenciada, mas também porque, no caso dos autos, houve lançamento de oficio (art. 149, V do CTN); Fl. 514DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 6 5 assim, para o fato gerador ocorrido no anocalendário de 1999, o lançamento somente poderia ser efetuado em 2000, fazendo com que o início do prazo decadencial fosse para o dia 1° de janeiro de 2001. Contandose cinco anos, temse que a decadência ocorreria em 31/12/2005. Como a ciência do auto se deu em dezembro de 2004 (fls. 286), o lançamento não aconteceu a destempo; DA APLICABILIDADE DA MULTA DE 150%. o §1° do art. 44 da Lei n° 9.430/96 determina que nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/1964, o percentual de multa de que trata o inciso I do art. 44 será duplicado. Reza a Lei n° 4.502/64: [...]; a pessoa jurídica, ora Recorrida, durante anos consecutivos apresentou à SRF declarações omitindo informações de tributos a recolher. Com essa conduta, a Recorrida tentou impedir ou retardar, ainda que parcialmente, o conhecimento, por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal; ora, já se encontra exaustivamente demonstrado que a conduta do contribuinte enquadrase, com perfeição na previsão do art. 71 da Lei n° 4.502/64, possuindo o nítido intuito de burlar o Fisco e pagar, a menor, o tributo legalmente previsto; nesse processo fiscal, o fundamento da qualificação da multa é o dolo, é a vontade livre e consciente de omitir da autoridade fazendária o ganho auferido, muito embora tenha a obrigação legal de informar a ocorrência do fato gerador à administração pública. É certo que a linha entre o dolo ou a culpa é, muitas vezes, tênue. Todavia, nos autos, há elementos suficientes para caracterizarmos o dolo; o entendimento exposto é ratificado por outros julgamentos do Conselho de Contribuintes. Vejamos: [...]; desse modo, não resta dúvida de que a contribuinte buscou furtarse à sua obrigação tributária, omitindo reiteradamente da Administração, fatos geradores da obrigação tributária principal. Portanto, deve ser restabelecida a qualificação da multa de oficio; em face do exposto, a União (Fazenda Nacional) requer o conhecimento e o provimento do presente recurso para que seja restabelecida a qualificação da multa, bem como, seja afastada a decadência dos lançamentos apontados pela e. Oitava Câmara, vez que efetuados dentro do prazo legal. Quando do exame de admissibilidade do Recurso Especial da PGFN, a Presidente da 2ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por meio do Despacho nº 1200 0.058/2009, exarado em 07/04/2009, deu seguimento ao recurso, nos seguintes termos: [...] Analisando os pressupostos de admissibilidade do recurso especial, ditados pelo artigo 15 e seus parágrafos do RICSRF, faço as seguintes considerações: O recurso especial é tempestivo, visto que a PGFN tomou ciência do acórdão recorrido em 16/07/2008 e interpôs seu apelo em 17/07/2008. Fl. 515DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 7 6 Vejo que se trata de decisão não unânime e que a recorrente demonstrou na peça de fls. 382/388 que a decisão recorrida contrariou a evidência de provas dos autos e que, portanto, contrariou também o disposto no art. 44, § 1° da Lei n° 9.430/96 e no inciso I do artigo 173 do Código Tributário Nacional. Assim sendo, presentes os requisitos necessários para a admissibilidade e de acordo com a competência do art. 15, § 6°, do RICSRF, DOU SEGUIMENTO AO RECURSO ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL. Em 11/05/2009, a contribuinte foi cientificada do Acórdão nº 10808.944, do recurso especial da PGFN e do despacho que deu seguimento a esse recurso, e em 22/05/2009 ela apresentou tempestivamente as contrarrazões, com os argumentos descritos a seguir: DA APLICAÇÃO DO PRAZO PREVISTO NO ART. 173, I, DO CTN a tese alegada pelo Recorrente não tem aplicabilidade no caso ora enfocado, já que seria necessária a absoluta certeza do evidente intuito de fraude do Recorrido, ou seja, a caracterização do dolo, fraude ou simulação por parte do mesmo, o que não foi comprovado pelo Recorrente, restando prejudicada a regra nuclear inserta no art. 150, § 4° do CTN; assim, acertada a decisão do Colendo Conselho de Contribuintes ao reconhecer a decadência dos 1°, 2° e 3° trimestres de 1999, bem como reduzir a multa aplicada de 150% para 75%, já que o Recorrido em nenhum momento agiu com emprego de dolo, fraude ou simulação, descabendo a aplicação prevista no § 4° do art. 50 do CTN, bem como a majoração da multa foi totalmente equivocada e descabida, pois a situação apresentada nos autos não se amoldava nos tipos descritos no inciso II do art. 44 da Lei n° 9.430/96, mas sim à previsão contida no inciso I do mesmo dispositivo legal, conforme se demonstrará mais adiante; de outra parte, mesmo que fosse cabível a majoração da multa, hipótese que deslocaria a forma de contagem do prazo decadencial do art. 150, §4°, para o art. 173, I, do CTN, o que só se admite ad argumentandum tantum, mesmo assim o período 01/99 a 11/99 não mais poderia ter sido lançado, posto que também já haveria precluído, para o Fisco, o direito de fazêlo; o termo "exercício seguinte" constante do dispositivo legal em questão, art. 173, I do CTN, não mais pode, nos dias atuais, ser entendido como ano subseqüente, mas sim como período de apuração imediatamente posterior àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Esta, registrase, é a interpretação teleológica que se faz no referido artigo; realmente, tal disposição legal (art. 173, I do CTN), quando implementada no CTN, aplicavase a tributos, em geral, da modalidade de "por declaração", situação em que só permitia a constituição do crédito tributário, pois somente depois da apresentação da DIPJ é que o fisco poderia, lançando mão das informações prestadas pelo sujeito passivo, proceder ao lançamento tributário. Eis, portanto, o motivo por que o prazo decadencial encetavase somente a partir do segundo ano subseqüente ao período base, isto é, o primeiro dia subseqüente ao ano de entrega da declaração que, por sua vez, ocorria no ano seguinte ao ano calendário de incidência do tributo; Fl. 516DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 8 7 ocorre que atualmente a maioria dos tributos estão sujeitos às regras dos lançamentos da modalidade de por homologação, como é o caso da CSLL, que é apurada mensalmente e o pagamento efetuada até o décimo quinto dia do mês subseqüente; assim, concluise que o termo "exercício seguinte" tenha sentido de "ano seguinte" quando relativo aos lançamentos por declaração. No presente caso, como se trata de lançamento por homologação, o conceito gravado no art. 173, I, se amoldou e, consequentemente, passou a ter sentido de "primeiro dia do período de apuração seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado". Logo, não há que se falar que o fato gerador no ano calendário de 1999, o lançamento somente poderia ser efetuado em 2000, sendo descabida a alegação do Recorrente; DA APLICABILIDADE DA MULTA DE 150% cabe salientar que o Recorrido refuta por completo as alegações do Recorrente, já que restou evidente nos autos que a conduta do contribuinte não configurou crime de ordem tributária, que não caberia a aplicação da multa qualificada prevista no inciso II do artigo 44 da Lei 9.430/96, já que para que haja aplicação da mesma seria necessária a absoluta certeza do evidente intuito de fraude; destacase que as alegações do Recorrente não se conformam com a letra da Lei supra, tampouco com o entendimento majoritário desse Colendo Conselho dos Contribuintes, entendimento esse, aliás, já pacificado pela Câmara Superior de Recursos Fiscais, conforme demonstra uma das decisões daquela Corte: [...]; de fato, o retardamento e/ou a redução do tributo supostamente devido, bem assim a falta de apresentação ou a apresentação de declarações inexatas, mesmo em situações reiteradas, por si só não são suficientes para caracterizar o tipo penal descrito nos art. 71 a 73 da Lei 4.502/1964 e, por consequência, ensejar a aplicação da penalidade prevista no art. 44, II da Lei n° 9.430/96, uma vez que isto não evidencia que o contribuinte tenha agido dolosamente; ademais, não se pode concluir pela acusação e pelos documentos trazidos ao processo, nem tampouco pela escrituração e documentos oferecidos durante a fiscalização, que tenha havido qualquer umas das figuras tributárias estampadas nos artigos 71 a 73 da Lei 4.502/1964. Logo, tais fatos, não podem, por si só, caracterizar o evidente intuito de fraude; ora, senhores Conselheiros, para a situação da qual o contribuinte é acusado, qual seja: a prestação de informações inexatas, a própria Lei n° 9.430/96, em seu art. 44, I, já prevê multa específica, que é a de 75%, conforme também é o entendimento exarado no Acórdão prolatado; assim, ao acolher as alegações do Recorrente, de que para a situação em comento a multa aplicável é aquela prevista no inciso II do art. 44 da Lei 9.430/96, isto certamente será o mesmo que negar validade ao contido no inciso I daquele mesmo dispositivo legal, tornandoo inócuo; é de notarse, Senhores Conselheiros, que a suposta irregularidade praticada pelo Recorrido tem seu ponto na informação a menor das receitas constantes de seus livros "comerciais e fiscais” para aquelas constantes de suas DCTF e DIPJ, o que não representa uma modalidade de infração fraudulenta, mas simplesmente um caso de declaração inexata, para o Fl. 517DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 9 8 qual, conforme dito, o próprio art. 44, I da Lei n° 9.430/96 determina a aplicação da multa de 75%; de outra parte, cumpre esclarecer que a ação dolosa restaria caracterizada se houvesse sido constatada, nos autos, a distorção ilícita das formas jurídicas, que se materializaria com a falsidade ideológica ou material (falta de emissão de notas fiscais; notas fiscais "frias", "calçadas" e etc.). Isto, contudo, não ocorreu, posto que todas as notas fiscais foram emitidas corretamente e os livros fiscais do contribuinte estavam devidamente escriturados; assim, não deve prosperar as alegações do Recorrente, já que não demonstrou nos autos que a conduta do contribuinte enquadrase na previsão do art. 71 da Lei n° 4.502/64, bem como restou comprovado que o Recorrido em nenhum momento agiu de forma fraudulenta; deste modo, incabível é a aplicação da multa pleiteada pelo Recorrente, pois consoante tem decidido esse Egrégio Conselho de Contribuintes, "não se aplica a penalidade nos casos em que, embora a empresa tenha feito declaração inexata, informando receitas a menor, as receitas foram apuradas pela fiscalização a partir dos valores escriturados em livros fiscais" (Acórdão n° 10192700); com efeito, os artigos citados no inciso II do art. 44 da Lei n° 9.430/96 têm um elemento em comum: o dolo. Portanto, para se agravar a multa, necessariamente tem que estar presente, de forma inequívoca, a figura dolosa; pois bem, em situações opostas à presente estão os casos em que são emitidas notas fiscais calçadas, notas fiscais frias (...), onde a vontade livre e consciente do contribuinte em ilidir o fisco é patente. Naqueles casos, não restam dúvidas, é perfeitamente cabível a aplicação da multa majorada de 150%; todavia, no presente processo não restou comprovado, de forma inconteste, que o contribuinte tenha agido dolosamente. Pelo contrário, o que se constatou foi a licitude na sua conduta, vez que os seus livros fiscais estavam corretamente escriturados e, ademais, foram fornecidos prontamente à fiscalização, sem qualquer empecilho de sua parte. Aliás, o contribuinte muniu à fiscalização até mesmo com informações a que não estava obrigada a entregar, como é o caso, do demonstrativo de "INFORMAÇÕES À SRF" apensado aos autos; por isto, as alegações e acusações da Recorrente contra o Recorrido, de cometimento de crime contra a ordem tributária não deve prosperar, devendo, ser mantido o acórdão, o qual entendeu que não foi caracterizado o intuito de fraude pelo contribuinte e reduziu a multa de 150% para 75%, bem como reconheceu a decadência para o 1º, 2º e 3° trimestres de 1999. Finalmente, é oportuno registrar que a contribuinte, além das contrarrazões acima mencionadas, também apresentou recurso especial contra a parte do Acórdão nº 108 08.944 que lhe foi desfavorável, mas esse recurso não foi admitido, conforme o despacho exarado em 09/06/2015 pelo Presidente da 2ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF (e fls. 490/496). Fl. 518DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 10 9 E a negativa de seguimento desse recurso especial da contribuinte foi confirmada pelo Presidente da Câmara Superior de Recursos Fiscais, em caráter definitivo, conforme o despacho de reexame de admissibilidade exarado em 15/06/2015 (efls. 497/501). É o relatório. Fl. 519DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 11 10 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. Conheço do recurso, pois este preenche os requisitos de admissibilidade. Conforme relatado, a PGFN afirma que o acórdão recorrido configura decisão nãounânime e contrária à lei, no que toca à redução da multa qualificada (para todos os períodos de apuração) e ao reconhecimento da decadência para os fatos geradores até o 3° trimestre de 1999. O lançamento em questão foi realizado para exigência de CSLL, apurada no regime do lucro real trimestral, relativamente aos seguintes períodos de apuração: 1º, 2º e 3º trimestres de 1999; 1º, 2º e 3º trimestres de 2000; 1º trimestre de 2001; 2º trimestre de 2002; e 3º trimestre de 2003. De acordo com a Fiscalização, para alguns períodos de apuração, a contribuinte apresentou declarações em branco à Secretaria da Receita Federal (SRF). Para outros períodos, ela nem mesmo entregou as correspondentes declarações, e nada recolheu a título da referida contribuição social ao longo de todo o período fiscalizado (1999 a 2003). Essa foi a motivação para o lançamento com a multa qualificada de 150%. Cabe desde já registrar que o recurso especial não alcança a redução da multa para a exigência relativa ao 2º trimestre de 2002, porque em relação a esse período, a redução da multa foi determinada por decisão unânime. Portanto, o debate sobre a redução da multa abrange todos os períodos autuados, com exceção do 2º trimestre de 2002. Já a controvérsia sobre a decadência abrange apenas o 1º, 2º e 3º trimestres de 1999. Devese examinar primeiro a questão da multa qualificada, porque a configuração ou não do dolo, via de regra, repercute diretamente na definição da regra para contagem do prazo decadencial. Nos termos do inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, somente se admite a aplicação da multa no percentual de 150%, nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964, que são os que contêm o termo subjetivo (evidente intuito de fraude) demandado pela norma. Seguem os dispositivos citados: Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; Fl. 520DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 12 11 II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente; Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos artigos 71 e 72. Desse modo, a multa de 150% terá aplicação sempre que, em procedimento fiscal, a autoridade lançadora reunir elementos que a convençam da ocorrência de sonegação, fraude ou conluio. Vêse que, para enquadrar determinado ilícito fiscal nos dispositivos dessa lei, há necessidade de que esteja indicado o dolo. O dolo, que se relaciona com a consciência e a vontade, é pressuposto de todos os tipos penais de que trata a Lei nº 4.502/64, ou seja, a vontade de obtenção de um fim em desacordo com o ordenamento jurídico ao se praticar determinada conduta. Ou ainda, nos termos do inciso I do art. 18 do Código Penal (DecretoLei nº 2.848, de 7/12/1940), é o doloso o crime quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzilo. Assim, a autoridade fiscal deve estar convencida e apresentar os motivos que a convenceram de que a conduta praticada teve o intuito consciente voltado ao fim de suprimir ou reduzir o pagamento do tributo ou contribuições devidos. O dolo é a intenção da prática de um ato ilícito. Sendo um aspecto interno ao agente, não se pode comprovar o dolo diretamente (a não ser por via da confissão ou, em países em que são aceitos, por meio de testes de medição da verdade), daí que o dolo deflue do conjunto de elementos a partir dos quais seja muito aceitável ter aquela sido a intenção do agente da prática e que seja pouquíssimo aceitável de que tenha sido outra a intenção. Ou ainda, sendo o dolo sempre comprovado indiretamente, a verdade é que comprovação indireta não é uma comprovação absoluta (não é possível comprovar absolutamente a intenção, que é um elemento subjetivo, interior ao agente), é sempre uma comprovação suficiente, ou seja, tratase de um convencimento de que houve comprovação. As expressões "inequivocamente comprovado", "minuciosamente comprovada", "certeza absoluta do dolo", "plena comprovação", utilizadas numa velha jurisprudência dos Antigos Conselhos de Contribuintes (que, depois, chegou a ser encampada por algumas das turmas de julgamento de primeira instância), equivalem, em termos literários ao sonho de Tartarim1 de Tarascon, personagem do clássico francês escrito por Alphonse Daudet em 1872, sonho este que consistia em caçar leões pelos corredores da casa, onde, 1 Homem que carrega “a alma de Dom Quixote” e “o corpo barrigudo e atarracado” de Sancho Pança, personagens imortalizados pelo castelhano Miguel de Cervantes num dos maiores clássicos da literatura universal: “Dom Quixote”. Fl. 521DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 13 12 porventura, não há senão ratos e pouco mais; ou ainda, em termos populares, a enveredar na busca de um unicórnio sabendo da inexistência do mesmo. Assim, podese afirmar que a autoridade lançadora, ao qualificar a autuação, esteve convencida da intenção da prática do ilícito, ou seja, esteve convencida do dolo e da ocorrência da sonegação, o que a conduziu a aplicar a multa qualificada. Da mesma forma, o dolo estará suficientemente comprovado quando o julgador tiver firmado seu convencimento de que a conduta foi dolosa. Somente após os sucessivos convencimentos do aplicador (autoridade fiscal) e dos intérpretes (julgador/conselheiro/juiz) da lei quanto à correta subsunção dos fatos específicos à norma penal é que o dolo estará definitivamente comprovado. Portanto, a discussão deslocase para a aferição do que é aceitável/razoável, para fins de convencimento da intenção de agir. E, nesta aferição, são muito importantes critérios de relevância (magnitude do que está em jogo) e de recorrência/reiteração (repetição ao longo do tempo) da conduta. Por que esses critérios? Certamente é natural que se cometam erros até certo ponto e mesmo erros de razoável magnitude e, da mesma forma, é natural que se cometam erros durante um certo lapso de tempo. Não obstante, a medida que crescem a relevância e a duração da prática no tempo; decresce, na mesma medida, a probabilidade de algo ter sido fruto de mero erro (é o que se denomina de inversamente proporcional) e aumenta a probabilidade de ter sido premeditado ou intencional. São duas faces da mesma moeda: num lado está o erro, o equívoco; no outro a intenção (de fazer algo errado ou de deixar de fazer algo certo a que se estava obrigado), a vontade de obtenção de um fim ao se praticar uma conduta. A combinação desses critérios também pode ser determinante: podese errar pouco durante muito tempo, assim como errar muito num curto espaço de tempo; agora errar muito durante muito tempo é algo que desafia o bom senso do homem comum (e porque não dizer até do homem um pouco fora do desvio padrão). Não obstante essas diretrizes, há ainda excludentes do dolo, não tanto excludentes na intenção, mas sim muito mais na consciência do ilícito; que, para sua configuração, exige que haja: i) o reconhecimento da intenção do que foi praticado; e ii) a existência de uma justificativa plausível para se ter adotado determinado comportamento (a exemplo de dúvida na interpretação de norma legal, erro de cálculo no qual possa ser identificado a imprecisão na fórmula do cálculo e que seja coerente com os valores daí decorrentes, etc). Na mesma linha (na verdade, na sua origem) da aferição a partir dos critérios da relevância e da recorrência (ou reiteração), situase o Acórdão nº 1201001.048, de 04/06/2014, fundamentado em voto do Conselheiro Marcelo Cuba Netto, o qual reflete, a meu juízo, a mais evoluída e moderna jurisprudência sobre o tema. Confirase a ementa do mesmo, na parte pertinente: CONDUTA DOLOSA. COMPROVAÇÃO. Havendo a omissão de receitas sido levada a efeito pelo sujeito passivo por três anos consecutivos (recorrência), em montantes significativos quando comparados com a receita declarada (relevância), e dadas as demais circunstâncias do caso, não há como se admitir que a infração possa ter sido fruto de mero Fl. 522DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 14 13 erro ou negligência contábil. Nessas circunstâncias provado está, para além de qualquer dúvida razoável, o dolo do agente. Vale também transcrever trechos do voto que orientou o Acórdão nº 1201 000.841, de 06/08/2013, da lavra do mesmo conselheiro acima mencionado: "Mas antes de arrolar as razões pelas quais entendo haver sido comprovado o dolo, desejo refutar a idéia segundo a qual não seria possível qualificarse a multa de ofício em casos de presunção de omissão de receita. Como a prova do dolo é sempre indireta, os defensores dessa idéia afirmam que haveria "presunção da presunção". Pois bem, quanto a isso bastaria apontarmos o texto da aludida súmula 25 do CARF, que expressamente admite a qualificação da multa em infrações apuradas por presunção legal, desde que comprovada a ocorrência do dolo em qualquer das hipóteses previstas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/64. Mas não é só. ..., os elementos de prova juntados em qualquer processo não são propriamente "prova" dos fatos alegados pelas partes enquanto o órgão julgador não disser estar convencido de que aqueles elementos "provam" o fato alegado. ... A questão, portanto, recai sobre o "grau" de convencimento do julgador a fim de que ele possa afirmar que os elementos de prova juntados aos autos "provam" o fato alegado. As afirmações acima são particularmente importantes quando o fato a ser provado é o dolo do agente. ... Nesse sentido, o julgador dirá que está convencido de que os elementos indiretos de prova juntados aos autos "provam" o fato alegado quando atingido determinado grau de convencimento." O voto vencedor que orientou o já referido Acórdão nº 1201001.048, de 04/06/2014, que subsidiou a ementa transcrita acima, traz outros referenciais sobre o tema em pauta: "Iniciemos então o exame do julgado da DRJ pela afirmação de que " [A] princípio, o dolo não se presume...'". Como é cediço, dolo é a vontade livre e consciente de uma pessoa se conduzir contrariamente ao estabelecido pela ordem jurídica. E uma vez que a vontade é algo interno à consciência humana, não pode ser ela provada por meios diretos, a não ser pela declaração prestada pelo próprio agente. Isso posto, ao contrário do afirmado pela DRJ, o dolo do agente, no mais das vezes, somente poderá ser provado por meios indiretos, em especial mediante presunção tomada a partir da experiência comum ou pela observação do que ordinariamente acontece (art. 335 do CPC). Somente na (raríssima) hipótese de confissão do agente é que se pode falar em prova direta do dolo. Fl. 523DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 15 14 A outra afirmação do órgão a quo que merece comentário é a que diz respeito à exigência de prova "inconteste e cabal" do dolo. É que, ao contrário do alegado pela DRJ, o direito [qualquer ramo do direito] não exige que o convencimento do julgador acerca da "verdade dos fatos" atinja o grau de "certeza". Admite que o convencimento se dê com base apenas em verossimilhança, ou seja, que seja provável, ainda que não seja absolutamente inconteste, que a "verdade dos fatos" seja essa e não aquela. Tratase aqui de um dos aspectos do princípio do livre convencimento motivado. Mesmo sem adentrarmos nos alicerces teóricos dessa afirmação2, é intuitivo que, no mais das vezes, o direito se contente com mero juízo de verossimilhança. Seja porque, por vezes, o grau de certeza é impossível de ser alcançado no caso concreto. Seja porque, mesmo nos casos em que teoricamente isso seja possível, a dificuldade para alcançálo tornaria o processo infindável. Apenas para ilustrar o que acima foi dito, a prova pericial lastreada em exame de DNA de duas pessoas distintas poderá concluir, com probabilidade superior a 99,99%, mas não de 100%, que uma delas é o pai biológico da outra. Acaso o direito exigisse que o convencimento do julgador acerca da "verdade dos fatos" devesse alcançar o grau de "certeza", o juiz não poderia proferir sentença declarando a paternidade. Outro exemplo. No rumoroso caso Nardoni é inquestionável que, mesmo diante de um conjunto probatório robusto, não foi possível aos membros do Tribunal do Juri alcançar um convencimento com grau de "certeza" acerca da culpa dos réus. Não há dúvida de que a alegação da defesa, segundo à qual o autor do crime teria sido uma terceira pessoa que se encontrava no apartamento quando os acusados lá chegaram, apesar de improvável, não chegou a ser cabalmente afastada. Apesar disso, o Juri concluiu pela culpa dos réus, o que claramente foi feito com base em juízo de verossimilhança. Os exemplos acima referidos estão longe de ser incomuns. Em verdade os julgados lastreados em juízo de verossimilhança são bastante freqüentes em todos os ramos do direito. Não me surpreenderia, inclusive, se uma eventual pesquisa sobre o assunto revelasse que os julgados lastreados em juízo de verossimilhança são em número bem superior àqueles tomados em juízo de certeza. 2 Na doutrina pátria vide, dentre outros, Luiz Guilherme Marinoni, in Formação da Convicção e Inversão do Ônus da Prova Segundo as Peculiaridades do Caso Concreto (artigo acessado no sítio http://www.abdpc.org.br/abdpc/artigos/Luiz%20G%20Marinoni(15)%20formatado.pdf). Entre os muitos trabalhos estrangeiros sobre o assunto confira James Q. Whitman in The Origins of "Reasonable Doubt" (artigo acessado no sítio http://digitalcommons.law.yale.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1000&context=fss_papers). Fl. 524DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 16 15 Bem, mas se é inescusável o fato de que o convencimento do julgador poderá ser validamente alcançado com base em juízo de verossimilhança, então a questão a ser discutida resumese ao grau desse convencimento. Embora a jurisprudência pátria ainda não tenha expressamente estabelecido os padrões (standards) de grau de convencimento que devam ser adotado em cada caso concreto, é indiscutível que em processos penais os julgadores, ainda que intuitivamente, exigem um grau de verossimilhança alto para se declararem convencidos acerca da "verdade dos fatos" em caso de condenação. Esse padrão de grau de convencimento alto por nós empregado no âmbito do direito penal em caso de condenação é denominado no direito norte americano de evidência para além de qualquer dúvida razoável (evidence beyond a reasonable doubt)3. Em resumo, o emprego desse padrão implica que, para condenar o réu, o julgador somente se considerará convencido sobre a "verdade dos fatos" quando houver um alto grau de verossimilhança entre as alegações feitas pela acusação e aquilo que for possível concluir com base nos elementos de prova presentes nos autos. Havendo dúvida razoável, julgador deverá considerarse não convencido. Todavia, incertezas que extrapolem o limite do razoável devem ser desprezadas, tal como o foram nos exemplos antes referidos (paternidade e caso Nardoni). É certo que esse grau de convencimento alto, no mais das vezes, não é possível de ser determinado de maneira exata, comportando assim um certo subjetivismo. Em outras palavras, diante de um mesmo caso concreto, um julgador poderá se considerar convencido, para além de qualquer dúvida razoável, acerca da culpa do acusado, enquanto outro poderá entender que ainda restam dúvidas razoáveis que impossibilitam a condenação. Esse subjetivismo, entretanto, é minimizado pela necessária motivação da decisão e pelo duplo4 grau de jurisdição." Dito isso, adoto neste julgamento esse rigoroso parâmetro/critério de grau de convencimento que me permita afirmar, para além de qualquer dúvida razoável, que os elementos de prova juntados aos autos "provam" o dolo do agente. Em outras palavras, segundo esse critério, os elementos de prova "provarão" o dolo se, e somente se, me proporcionarem o convencimento, para além de qualquer dúvida razoável, de que o agente agiu dolosamente. 3 Esse padrão de grau de convencimento alto é também adotado nas cortes norte americanas nos julgamentos de processos penais. Existem, todavia, outros padrões de convencimento lá empregados, todos com grau mais baixo do que o do evidence beyond a reasonable doubt. Uma explanação bastante resumida da aplicação de cada um desses padrões pode ser encontrada em http://en.wikipedia.org/wiki/Legal_burden_of_proof. 4 Essa minimização do subjetivismo é maior ainda quando se considera que o processo administrativo fiscal ainda poderá ser submetido à apreciação judicial. Fl. 525DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 17 16 Pois bem, a autoridade tributária informa o seguinte na peça fiscal: Durante o procedimento de verificações obrigatórias, no período de 01/01/199 a 31/12/2003, foram constatadas falta de recolhimento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), apurada pelo confronto dos dados escriturados com os declarados em Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF) e recolhimentos efetuados. A forma de tributação do lucro adotado pela empresa foi o Lucro Real Trimestral, conforme Demonstrações de Resultado apuradas trimestralmente e ajustadas no Livro de Apuração do Lucro Real (LALUR), todas anexadas ao presente. As Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF) referentes aos 1º, 2º, 3º e 4º trimestres de 1999, 2000 e 2001; aos 2º, 3º e 4º trimestres de 2003; foram todas entregues em branco à Secretaria da Receita Federal (SRF), ou seja, não informaram qualquer crédito tributário devido. Além das DCTF, a Declaração de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ/2000, 2001 e 2002), referentes aos anos calendário de 1999, 2000 e 2001, foram entregues em branco, sem qualquer informação ao fisco. As DCTF referentes aos trimestres: 1º, 2º, 3º e 4º, de 2002 e 1º de 2003, bem como as DIPJ/2003 e 2004, referentes aos anos calendário de 2002 e 2003, até a data de início desta fiscalização não tinham sido entregues à SRF. A fiscalização aplicou a multa de ofício agravada, de 150%, prevista no Artigo 44, inciso II, da Lei 9.430/96, por ter a empresa entregue à Secretaria da Receita Federal as DCTF e DIPJ, citadas acima, sem qualquer informação ao fisco. Sendo que no período citado, houve CSLL devida, conforme demonstrações de resultado anexadas ao presente, o que em tese configura crime contra a ordem tributária. A fiscalização efetuou a compensação das Bases de Cálculo Negativas trimestrais; apuradas conforme demonstrativo denominado DEMONSTRATIVO DA COMPENSAÇÃO DE BASES NEGATIVAS, que integra o presente, nos limites estabelecidos pelo art. 58 da Lei no. 8981/95, resultando no lançamento do crédito tributário a seguir discriminado: [...] Os fatos apontados configuram evidências suficientes para me convencer, para além de qualquer dúvida razoável, de que a infração apurada tem a marca do dolo da contribuinte. Pois não é razoável admitirse que tenha sido fruto de mero erro ou negligência o fato de a pessoa jurídica, ao longo de cinco anos (1999/2003), apresentar sistematicamente declarações em branco à Secretaria da Receita Federal (ou mesmo nem apresentálas), e não efetuar qualquer recolhimento quando ela própria sabia que tinha tributos a recolher. Há relevância na infração, porque a contribuinte simplesmente não declarava o tributo à Receita Federal. Apesar de haver débitos a declarar/recolher, ela apresentava Fl. 526DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 18 17 declarações em branco, como se não tivesse nenhuma atividade. E também há recorrência, porque essa forma de proceder foi constatada ao longo dos cinco anos fiscalizados. O entendimento defendido pela contribuinte em sede de contrarrazões, no sentido de que o dolo só poderia ser caracterizado diante de situações envolvendo a comprovação da falta de emissão de notas fiscais; ou da comprovação de emissão de notas fiscais "frias", "calçadas", etc., não mais está em consonância com a atual jurisprudência administrativa. Aliás, relativamente à conduta reiterada em omitir informações do Fisco, que se caracteriza como elemento para convencimento dos julgadores quanto ao dolo que conduz à qualificação da multa de ofício, não é de hoje que a jurisprudência desta Turma da Câmara Superior (bem como de outros colegiados do CARF) vem admitindoa, conforme se depreende dos precedentes abaixo: MULTA AGRAVADA CONDUTA REITERADA Nos termos da jurisprudência majoritária da CSRF, e das Câmaras da Primeira Seção do CARF, a prática reiterada de infrações à legislação tributária denota a intenção dolosa do contribuinte defraudar a aplicação da legislação tributária e lesar o Fisco. (Acórdão nº 910100.140, sessão de 12/05/2009, da relatoria do Conselheiro Antônio Carlos Guidoni Filho). MULTA QUALIFICADA DE 150% A aplicação da multa qualificada pressupõe a comprovação inequívoca do evidente intuito de fraude, nos termos do artigo 44, inciso II, da Lei 9430/96. O fato de o contribuinte ter apresentado Declaração de Rendimentos de forma reiterada e com valores significativamente menores do que o apurado, legitima a aplicação da multa qualificada. (Acórdão nº 910100.172, sessão de 15/06/2009, que teve por relatora a Conselheira Karem Jureidini Dias). MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA É aplicável a multa de oficio qualificada de 150% naqueles casos em que restar constatado o evidente intuito de fraude. A conduta ilícita reiterada ao longo do tempo, descaracteriza o caráter fortuito do procedimento, evidenciando o intuito doloso tendente à fraude. (Acórdão nº 910100.320, sessão de 25/08/2009, relator o Conselheiro Antônio Praga). MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. Cabível quando o Contribuinte presta declaração, em três anos consecutivos, com os valores zerados, não apresenta DCTF nem realiza qualquer pagamento. Este conjunto de fatos demonstra a materialidade da conduta, configurado o dolo especifico do agente evidenciando não somente a intenção mas também o seu objetivo. (Acórdão nº 910100.417, sessão de 03/11/2009, relatora a Conselheira Ivete Malaquias Pessoa Moteiro). Logo, pelas circunstâncias descritas neste processo, estando presentes o elemento subjetivo (dolo de omitir/retardar o conhecimento do Fisco do fato gerador) e o elemento objetivo (ausência de recolhimento dos tributos devidos), decido que a infração apurada nos anos de 1999 a 2003 se amolda perfeitamente à hipótese descrita no art. 71 da Lei Fl. 527DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 19 18 nº 4.502/1964 (sonegação), o que leva ao restabelecimento da multa qualificada no percentual de 150% (com exceção do 2º trimestre de 2002). O restabelecimento da multa qualificada produz reflexos na questão da decadência. Isso porque a caracterização do dolo, por si só, desloca o prazo de decadência do art. 150, §4º, para o do art. 173, I, ambos do CTN. Não bastasse isso, os documentos e demonstrativos apresentados pela Fiscalização evidenciam que não houve qualquer recolhimento de CSLL ao longo do período fiscalizado. Partindo da base de cálculo apurada (resultado do exercício), chegouse ao valor devido, sem nenhuma dedução a título de pagamento realizado. Não houve exigência para alguns trimestres dos referidos anos, apenas em razão de apuração de resultado negativo. Mas pagamento não houve. É essa a informação que se colhe dos autos. E o Superior Tribunal de Justiça, ao julgar o mérito do Recurso Especial nº 973.733/SC, na sistemática dos recursos repetitivos previstos no artigo 543C do CPC e da Resolução STJ nº 08/2008, já decidiu que se não houve nenhum pagamento e nem declaração /confissão de parte do tributo, a regra de decadência a ser aplicada é a prevista no art. 173, I, do CTN. Ademais, deve ser observada a súmula CARF nº 72: Súmula CARF nº 72: Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial regese pelo art. 173, inciso I, do CTN. Assim, mesmo que não estivesse sendo restabelecida a multa qualificada, não haveria decadência para os referidos trimestres de 1999. O lançamento para os fatos geradores ocorridos nos três primeiros trimestres de 1999 poderia ter sido realizado no próprio ano de 1999. O primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado foi 01/01/2000, e o prazo final para o lançamento era o dia 01/01/2005. Como a contribuinte foi cientificada da autuação fiscal em 22/12/2004, não houve decadência. Em suas contrarrazões, a contribuinte argumenta que o termo "exercício seguinte" constante do art. 173, I, do CTN, não mais pode, nos dias atuais, ser entendido como ano subseqüente, mas sim como período de apuração imediatamente posterior àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Como se trata de períodos de apuração trimestrais, o argumento da contribuinte serviria apenas para antecipar o termo inicial da contagem da decadência para o 1º e o 2º trimestres de 1999. Para o 3º trimestre, o termo inicial continuaria sendo o dia 01/01/2000, sem modificação na contagem feita acima. Entretanto, o argumento (na verdade é uma matéria autônoma) que ela apresenta não foi apreciado pela turma de origem, tendo em vista que restou prejudicado àquela ocasião. Essa matéria foi trazida apenas no recurso voluntário, itens 2.2.6 a 2.2.12, mas não constou da impugnação. No item 2.2.1 o sujeito passivo informa que: “a decadência, conforme se vê dos autos, não foi arguida na fase impugnatória. Contudo, por se tratar de matéria de ordem pública, pode ser ela suscitada a qualquer tempo, em qualquer fase Fl. 528DF CARF MF Processo nº 10120.008365/200410 Acórdão n.º 9101003.479 CSRFT1 Fl. 20 19 processual e em qualquer instância, devendo, inclusive, ser reconhecida de ofício pela própria autoridade julgadora, quando for o caso.”. De fato, a decisão recorrida julgou decadência, acolheu a alegação de que se trata de matéria de ordem pública e superou a preclusão de que trata o art. 17 da Lei do Processo Administrativo Fiscal, Decreto nº 70.235, de 6/3/1972. Ocorre que agora se trata de uma tese subsidiária uma vez superada a tese do prazo da decadência, é outra matéria, tratase de se definir o termo a quo da contagem do prazo decadencial constante no art. 173, I, do CTN. A decisão recorrida superou a preclusão quanto a tese principal (prazo), mas não chegou a apreciar a tese subsidiária (termo a quo), pois naquele momento se fazia desnecessário. Entretanto, agora a decisão quanto ao prazo da decadência restou reformada e a tese subsidiária permanece não apreciada. O colegiado de origem pode tanto aplicar preclusão (não está obrigado a superar a preclusão feita pelo Acórdão nº 10808.944, de 28/07/2006) como decidir julgar essa tese subsidiária relativa à decadência por entender que também é matéria de ordem pública. A minha proposta é que a turma de origem receba o processo, decida a preliminar se entende que se trata de matéria de ordem pública (não está vinculada, portanto, à decisão anterior que afastou a preclusão) e, uma vez superando a preclusão, julgue o termo a quo do art. 173, I, do CTN. Assim, neste ponto, voto por determinar o retorno dos autos ao colegiado de origem para apreciação do termo a quo da contagem do prazo decadencial, caso entenda necessário (na hipótese de superar a preclusão da matéria/tese subsidiária). Diante de todo o exposto, voto no sentido de CONHECER e DAR provimento ao recurso especial da PGFN, para restabelecer a multa qualificada no percentual de 150% (com exceção do 2º trimestre de 2002), aplicar a Súmula CARF nº 72 (afastando a decadência que havia sido declarada para o 1º, 2º e 3º trimestres de 1999) e determinar o retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação do termo a quo da contagem do prazo decadencial, caso entenda necessário (na hipótese de superar a preclusão). (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 529DF CARF MF
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Numero do processo: 10825.721413/2011-42
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 17 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Mar 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/09/2008 a 31/12/2008
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO
Acolhem-se os embargos declaratórios para corrigir a omissão apontada sem atribuição de efeitos infringentes.
Numero da decisão: 2401-005.202
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado,.por unanimidade, em conhecer dos embargos declaratórios, na parte admitida pelo despacho da Presidente da Turma, e, no mérito, acolhê-los para o fim de sanar a omissão e o erro de fato apontados, sem atribuir-lhes efeito modificativo, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess - Presidente.em exercício.
(assinado digitalmente)
Andréa Viana Arrais Egypto - Relatora.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Rayd Santana Ferreira, Luciana Matos Pereira Barbosa, Virgilio Cansino Gil. Ausentes os Conselheiros Miriam Denise Xavier e Francisco Ricardo Gouveia Coutinho.
Nome do relator: ANDREA VIANA ARRAIS EGYPTO
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/09/2008 a 31/12/2008 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO Acolhem-se os embargos declaratórios para corrigir a omissão apontada sem atribuição de efeitos infringentes.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado,.por unanimidade, em conhecer dos embargos declaratórios, na parte admitida pelo despacho da Presidente da Turma, e, no mérito, acolhê-los para o fim de sanar a omissão e o erro de fato apontados, sem atribuir-lhes efeito modificativo, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess - Presidente.em exercício. (assinado digitalmente) Andréa Viana Arrais Egypto - Relatora. Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Rayd Santana Ferreira, Luciana Matos Pereira Barbosa, Virgilio Cansino Gil. Ausentes os Conselheiros Miriam Denise Xavier e Francisco Ricardo Gouveia Coutinho.
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OMISSÃO Acolhemse os embargos declaratórios para corrigir a omissão apontada sem atribuição de efeitos infringentes. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 82 5. 72 14 13 /2 01 1- 42 Fl. 465DF CARF MF 2 Acordam os membros do Colegiado,.por unanimidade, em conhecer dos embargos declaratórios, na parte admitida pelo despacho da Presidente da Turma, e, no mérito, acolhêlos para o fim de sanar a omissão e o erro de fato apontados, sem atribuirlhes efeito modificativo, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Presidente.em exercício. (assinado digitalmente) Andréa Viana Arrais Egypto Relatora. Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Rayd Santana Ferreira, Luciana Matos Pereira Barbosa, Virgilio Cansino Gil. Ausentes os Conselheiros Miriam Denise Xavier e Francisco Ricardo Gouveia Coutinho. Fl. 466DF CARF MF Processo nº 10825.721413/201142 Acórdão n.º 2401005.202 S2C4T1 Fl. 3 3 Relatório Tratase de embargos de declaração opostos pela contribuinte em face de decisão prolatada no Acórdão nº 2401004.920 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária da 2ª Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), em sessão do dia 04 de julho de 2017 (fls. 353/363), que possui a ementa abaixo transcrita: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/09/2008 a 31/12/2008 GLOSA DE COMPENSAÇÃO. CRÉDITO SUB JUDICE. Existindo decisão judicial que suspendia decisão anterior que conferiu ao contribuinte o direito ao crédito, deve ser mantida a glosa realizada pela autoridade fiscal, por ausência de permissão legal, via ação judicial, para a realização das compensações por parte do contribuinte. A postulante apresentou embargos de declaração alegando (i) omissão no julgado pois não houve pronunciamento quanto à alegação de nulidade do acórdão da DRJ por inovação ao fundamento jurídico do lançamento; (ii) omissão/erro de fato quanto à premissa adotada pelo voto condutor quanto à decisão proferida em sede de embargos; (iii) omissão quanto ao direito creditório reconhecido em sede de mandado de segurança; (iv) omissão quanto ao atual status dos embargos à execução. Em despacho do dia 14 de novembro de 2017 (fls.456/461), os embargos de declaração foram admitidos parcialmente com relação à omissão no pronunciamento de alteração de critério jurídico pela DRJ e para saneamento do erro de fato apontado. O processo devolvido a esta Relatora para inclusão em pauta para julgamento. É o relatório Fl. 467DF CARF MF 4 Voto Conselheira Andréa Viana Arrais Egypto Relatora Juízo de admissibilidade Conheço dos embargos declaratórios, pois presentes os requisitos de admissibilidade. Da omissão do julgado quanto ao pronunciamento da alegação de nulidade do acórdão da DRJ por inovação ao fundamento jurídico do lançamento Assevera a contribuinte que ocorreu a nulidade do Acórdão proferido pela DRJ, pois a decisão trouxe novo fundamento jurídico para o indeferimento das compensações, qual seja, a contrariedade ao art. 170A do CTN. Aduz que o lançamento denega as compensações por entender que a empresa somente teria direito à restituição do crédito reconhecido judicialmente e não a sua compensação. Passo, assim, à análise. O Relatório Fiscal de lançamento assevera que a empresa, via execução do julgado, requereu e aguarda decisão definitiva acerca da compensação. Assim, procedeu a glosa das compensações realizadas, por entender que não existia autorização judicial expressa para fazêla, na medida em que a demanda judicial tinha como objeto a restituição e não a compensação. A decisão da DRJ enfrenta a questão colocada em julgamento sob a ótica estabelecida no lançamento de que a restituição não se confunde com a compensação e, por força da nulidade da execução em que se pleiteava a compensação, não havia amparo para efetivála, conforme se destaca do trecho da decisão de piso: [...] a autuada promoveu ação judicial no sentido de ver reconhecido seu direito à restituição, tão somente, dos valores recolhidos indevidamente. A sentença condenou o então IAPS a restituir as parcelas indevidamente recolhidas: [...] Como sabido o instituto da restituição não se confunde com o da compensação. Tanto é que a autuada ingressou com ação de execução objetivando que o ressarcimento de R$ 6.808.181,90 fosse feito pela via de compensação de indébito. No entanto, em relação a esta pretensão (que a repetição de indébito fosse feita pelo instituto da compensação) foram opostos embargos à execução que foram julgados procedentes em 1ª Fl. 468DF CARF MF Processo nº 10825.721413/201142 Acórdão n.º 2401005.202 S2C4T1 Fl. 4 5 Instância, decretando a nulidade da execução, face a ausência de reexame necessário do processo de repetição de indébito. Além da nulidade da execução, a sentença judicial tornou sem efeito a certidão de trânsito em julgada, determinando a imediata remessa dos mesmos ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região para o reexame necessário. Como se verifica, o procedimento de compensação realizado pela autuada não estava amparado por sentença judicial. Nem sequer o pedido de repetição de indébito feito pela autuada estava assegurado, face à determinação judicial que tornou a certidão de trânsito em julgado sem efeito. [...] O fato da DRJ ter se pronunciado sobre os argumentos trazidos na impugnação da contribuinte acerca da não aplicação do artigo 170A do CTN, não enseja a nulidade do Acórdão, pois não se trata de alteração de critério jurídico, razão pela qual rejeito a preliminar de nulidade da decisão de Primeira instância. Dessa forma, resta sanada a omissão apontada. Do erro de fato quanto à decisão judicial proferida em sede de embargos Segundo a Embargante, o processo administrativo trata de indeferimento de compensações realizadas pela contribuinte, sendo que a decisão mencionada pelo voto condutor que impôs óbice à compensação, somente fora publicada em 13/05/2009. Alega erro de fato, pois não havia, à época das compensações, efetuadas entre 07/2005 a 12/2007, decisão judicial que retirasse o efeito da sentença que reafirmou o direito creditório da embargante. Com efeito, os embargos à execução interpostos pelo INSS, foram julgados procedentes para declarar a nulidade da execução da sentença promovida pela contribuinte em razão da ausência de reexame necessário da sentença proferida na ação ordinária de repetição de indébito, com publicação ocorrida em 13/05/2009. Ocorre que o Voto condutor do julgado aduziu que à época das compensações realizadas, a contribuinte tinha óbice judicial para a apresentação das mesmas ante a existência de sentença nos embargos que anulava a decisão judicial que reconheceu o direito creditório da recorrente. Realmente, há um erro de fato na informação prestada no voto vencedor que deve ser corrigido, cabendo, nesse caso, o saneamento e a integralização da decisão embargada, com a fundamentação aqui desenvolvida. Destarte, a maioria do colegiado negou provimento ao Recurso Voluntário decidindo pela manutenção do lançamento, efetuado em 16/6/2010. Fl. 469DF CARF MF 6 O fundamento do voto condutor será ora esclarecido. A contribuinte pleiteou junto ao poder judiciário, o reconhecimento, especificamente, do seu direito de efetuar a compensação dos valores reconhecidos como recolhidos indevidamente. A decisão judicial existente favorável à contribuinte foi no sentido de determinar ao INSS restituir os valores considerados como indevidos, razão porque a empresa optou por requerer judicialmente a compensação. Justamente por tal motivo, teria que aguardar a decisão judicial pleiteada na execução do título em que requereu a autorização para compensar. A primeira decisão que teve no processo foi a proferida dos embargos de declaração. Assim, somente após o trânsito em julgado da decisão é que ficará definido o seu direito a compensação, razão porque a maioria do colegiado firmou entendimento pela manutenção do lançamento. Resta assim sanado o erro de fato/omissão no julgado. Conclusão Ante o exposto, voto por CONHECER dos embargos declaratórios, para, na parte conhecida DARLHES PARCIAL PROVIMENTO para sanar a omissão e erro de fato apontados, sem atribuirlhe efeitos modificativos. (assinado digitalmente) Andréa Viana Arrais Egypto Fl. 470DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10821.720089/2013-47
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 17 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Feb 23 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2013
OPÇÃO PELO SIMPLES. PARCELAMENTO DE DÉBITOS. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE. DEFERIMENTO DA OPÇÃO.
Deve ser deferida a opção no Simples Nacional enquanto a exigibilidade dos débitos estiver suspensa em virtude da existência de parcelamento ainda em vigor.
Numero da decisão: 1001-000.262
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA - Presidente.
(assinado digitalmente)
EDUARDO MORGADO RODRIGUES - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues (Relator), José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa.
Nome do relator: EDUARDO MORGADO RODRIGUES
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Simples Nacional Ano-calendário: 2013 OPÇÃO PELO SIMPLES. PARCELAMENTO DE DÉBITOS. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE. DEFERIMENTO DA OPÇÃO. Deve ser deferida a opção no Simples Nacional enquanto a exigibilidade dos débitos estiver suspensa em virtude da existência de parcelamento ainda em vigor.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA - Presidente. (assinado digitalmente) EDUARDO MORGADO RODRIGUES - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues (Relator), José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa.
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PARCELAMENTO DE DÉBITOS. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE. DEFERIMENTO DA OPÇÃO. Deve ser deferida a opção no Simples Nacional enquanto a exigibilidade dos débitos estiver suspensa em virtude da existência de parcelamento ainda em vigor. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA Presidente. (assinado digitalmente) EDUARDO MORGADO RODRIGUES Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues (Relator), José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 82 1. 72 00 89 /2 01 3- 47 Fl. 167DF CARF MF Processo nº 10821.720089/201347 Acórdão n.º 1001000.262 S1C0T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fl. 145 a 163) interposto contra o Acórdão nº 0829.652, proferido pela 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Fortaleza/CE (fls. 137 a 140), que, por unanimidade, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada pela ora Recorrente, decisão esta consubstanciada na seguinte ementa: " ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2013 INDEFERIMENTO DE OPÇÃO. EXISTÊNCIA DE DÉBITO. NÃO REGULARIZAÇÃO. MANUTENÇÃO DO INDEFERIMENTO. Deve ser mantido o Termo de Indeferimento de opção no Simples Nacional quando não regularizadas as pendências impeditivas até a data final prevista para a opção. Manifestação de Inconformidade Improcedente Sem Crédito em Litígio" Por sua precisão na descrição dos fatos que desembocaram no presente processo, peço licença para adotar e reproduzir os termos do relatório da decisão da DRJ de origem: " Tratase de manifestação de inconformidade (fls. 2) oposta pelo interessado acima qualificado contra ato de indeferimento de opção pelo regime de tributação especial denominado Simples Nacional, de que trata o artigo 12 da Lei Complementar nº 123/2006, para o anocalendário 2013 (fls. 4), pelo fato de constar nos arquivos eletrônicos da Secretaria da Receita Federal do Brasil – RFB, débitos de natureza previdenciária cuja exigibilidade não estaria suspensa, conforme apontado no Termo de Indeferimento. Em suas razões de inconformidade, o contribuinte sustenta que os débitos, demonstrados no Termo de Indeferimento, foram devidamente parcelados, razão pela qual protesta pelo deferimento da opção pelo Simples Nacional." Inconformada com a decisão de primeiro grau, após ciência, a ora Recorrente apresentou Recurso Voluntário alegando, e apresentando diversos documentos, de que os débitos apontados para a negativa da opção já se encontravam parcelados à época dos fatos, portanto, com suas exigibilidades suspensas. É o relatório. Fl. 168DF CARF MF Processo nº 10821.720089/201347 Acórdão n.º 1001000.262 S1C0T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues O presente Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. A Recorrente narra que por diversas vezes compareceu à unidade da RFB para tratar de um erro do sistema que continuava a acusar a existência de débitos em aberto, mesmo tendo incluídoos todos em parcelamento. Ainda, aduz que sempre seguiu as orientações que foram lhe dadas pelos servidores responsáveis pelo atendimento, e que sempre ouviu deles que se tratava de mero erro em virtude de o parcelamento aderido ter sido em meio manual, mas que não obstaria o seu pedido de inclusão no SIMPLES. Não foi o que aconteceu, teve seu pedido indeferido, razão pela qual ingressou com a Manifestação de Inconformidade. Conforme se extraí da decisão de piso, a própria DRJ de origem reconheceu que os débitos que ocasionaram o indeferimento da opção requerida pela Recorrente se encontravam incluídos em parcelamento. Contudo, detectou que a parcela vincenda em 31/01/2012 fora paga penas em 20/02/2013, e considerou que tal atraso caracterizaria situação de "débito para com o fisco" nos termos do art. 17 da LC 123/06, de forma a obstar o deferimento da opção. In verbis: "De acordo com o Termo de Indeferimento, a pendência que impediu o contribuinte de efetuar a opção pelo Simples Nacional, para o anocalendário 2013, está relacionada à existência de débitos de natureza previdenciária, cuja exigibilidade não estaria suspensa. Sobre o tema, o inciso V do art. 17 da Lei Complementar nº 123, de 2006, assim estabelece: Art. 17. Não poderão recolher os impostos e contribuições na forma do Simples Nacional a microempresa ou a empresa de pequeno porte: ... V que possua débito com o Instituto Nacional do Seguro Social INSS, ou com as Fazendas Públicas Federal, Estadual ou Municipal, cuja exigibilidade não esteja suspensa;(grifo nosso) Analisando os extratos anexados às fls. 6/18 e 54, constatase que no final do prazo de opção, os débitos apontados no Termo de Indeferimento encontravamse incluídos em parcelamento. Já o documento de fls. 102/104 atesta que os débitos encontravamse parcelados, mas ressalta que a parcela vencida em 31/01/2013 somente fora quitada em 20/02/2013. Fl. 169DF CARF MF Processo nº 10821.720089/201347 Acórdão n.º 1001000.262 S1C0T1 Fl. 5 4 Desta feita, fica caracterizado que restavam pendências, não resolvidas até o final do prazo de opção, relativamente a débitos do contribuinte." Analisando detidamente os documentos que instruíram o presente feito e os argumentos supra citados pela decisão em comento, me parece que a DRJ de origem adotou premissas e conclusões equivocadas quanto ao direito aplicável à matéria. Conforme cediço, o art. 151, inciso V, do Código Tributário Nacional é bastante claro ao estabelecer que: "Suspendem a exigibilidade do crédito tributário: (...) VI – o parcelamento." Pois bem, conforme trazido pelo contribuinte, e reconhecido pela DRJ de origem, a totalidade dos débitos previdenciários foram incluídos no parcelamento negociado por via manual (fls. 6 e 7), em data de 18/05/2012. Sendo assim, a partir desta data se operou a suspensão da exigibilidade dos débitos, não por acaso a própria RFB expediu Certidão Positiva com Efeitos de Negativa nesta mesma data (Fl. 150). Não havendo dúvidas quanto à adesão ao parcelamento e a suspensão da exigibilidade dos débitos previdenciários do contribuinte, a DRJ escorou seu entendimento na prestação referente ao mês de Janeiro/2013 do parcelamento que foi paga com 20 dias de atraso. Ora, aqui cabe destacar o art. 14B da Lei 10.522/02 que trata deste parcelamento: Art. 14B. Implicará imediata rescisão do parcelamento e remessa do débito para inscrição em Dívida Ativa da União ou prosseguimento da execução, conforme o caso, a falta de pagamento: I – de 3 (três) parcelas, consecutivas ou não; ou II – de 1 (uma) parcela, estando pagas todas as demais. Conforme se percebe, Lei que rege o parcelamento firmado é clara em estabelecer a rescisão do mesmo apenas após a inadimplência de três parcelas (ou de uma no caso da última), tal disposição também se encontra expressamente destacada no Termo de Requerimento de Parcelamento assinado pelo Contribuinte (Fls. 6 e 7). Assim, como se percebe, a parcela paga em atraso pelo contribuinte, por ter sido a primeira e única, não teve o condão de rescindir o parcelamento e revogar o benefício da suspensão da exigibilidade do crédito. Tal circunstância se confirma pela Comunicação SORAC 25/2014 (fl. 159), expedida pela RFB em 27/01/2014, atestando que todo o débito fora liquidado por meio deste parcelamento. Ainda, se faz de extrema importância dizer que as parcelas integrantes de um programa de parcelamento de débitos não formam uma obrigação tributária nova Fl. 170DF CARF MF Processo nº 10821.720089/201347 Acórdão n.º 1001000.262 S1C0T1 Fl. 6 5 autônoma, pelo contrário, os valores financeiros nelas representados nada mais são do que os próprios valores dos débitos que foram incluídos no programa de parcelamento. Desta feita, é imperioso reconhecer que estes débitos estavam com sua exigibilidade suspensa por expressa determinação legal, e só tornariam a serem exigíveis com a rescisão do parcelamento, o que jamais aconteceu, conforme se demonstrou acima. Repisese, o mero atraso no pagamento de uma das parcelas não faz o débito previdenciário tornar a ser exigível, nem mesmo durante o período em que a parcela estava em aberto, vez que o parcelamento em si ainda era vigente em todos os seus termos. Assim, resta claro que no momento da Opção pelo Simples realizada pela Recorrente, está tinha seu parcelamento em pleno vigor e, por consequencia, todos os seus débitos estavam com a exigibilidade suspensa, jamais incorrendo na hipótese do art. 17, V, da LC 123/06. Portanto, há de se concluir pela procedência da argumentação da Recorrente e reconhecer o seu direito à opção pelo SIMPLES no anocalendário de 2013. Desta forma, VOTO no sentido de DAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, reformando a decisão de primeira instância para considerar DEFERIDA a Opção pelo Simples realizada pela Recorrente no anocalendário de 2013. É como voto. (assinado digitalmente) Eduardo Morgado Rodrigues Relator Fl. 171DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10875.905043/2010-28
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 04 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3402-001.304
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da Relatora.
(Assinado com certificado digital)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente.
(Assinado com certificado digital)
Maysa de Sá Pittondo Deligne - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: MAYSA DE SA PITTONDO DELIGNE
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da Relatora. (Assinado com certificado digital) Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente. (Assinado com certificado digital) Maysa de Sá Pittondo Deligne - Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da Relatora. (Assinado com certificado digital) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente. (Assinado com certificado digital) Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Tratase de pedido de compensação de débitos com créditos de ressarcimento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) do 2º trimestre de 2006, declarada no PERDCOMP n° 05819.82992.150410.7.7.011808. Conforme indicado no despacho decisório RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 75 .9 05 04 3/ 20 10 -2 8 Fl. 414DF CARF MF Processo nº 10875.905043/201028 Resolução nº 3402001.304 S3C4T2 Fl. 415 2 (efl. 17), o valor do crédito foi integralmente reconhecido, mas foi insuficiente para compensar integralmente os débitos declarados. Inconformada, a empresa apresentou Manifestação de Inconformidade, julgada parcialmente procedente pelo Acórdão n.º 0955.786, da 3ª Turma da DRJ/JFA, ementado nos seguintes termos: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006 RESSARCIMENTO DE IPI. SALDO CREDOR. REDUÇÃO EM VIRTUDE DE ERRO DE PREENCHIMENTO DO PER/DCOMP. RESTABELECIMENTO. Restabelecese o saldo credor pleiteado pelo contribuinte quando restar comprovado que o seu indeferimento no Despacho Decisório decorreu exclusivamente de erro de preenchimento do PER/DCOMP e os dados constantes do processo ratificam a legitimidade da petição do contribuinte. PERDCOMP. LIVRO APÓS. CRÉDITO INTEGRALMENTE UTILIZADO NA ESCRITA FISCAL ANTES DA TRANSMISSÃO DA PERDCOMP. NÃO HOMOLOGAÇÃO DAS COMPENSAÇÕES DECLARADAS. Se o saldo credor ressarcível apurado ao final do trimestre calendário foi utilizado integralmente para amortizar débitos de períodos de apuração subsequentes, nada remanescendo para lastrear as compensações objetos de PERDCOMP transmitida posteriormente, cabe não homologar as compensações declaradas. Manifestação de Inconformidade Procedente em Parte Direito Creditório Reconhecido em Parte Acordam os membros da 3ª Turma de Julgamento, por unanimidade de votos, julgar procedente em parte a manifestação de inconformidade, para reconhecer parcialmente o direito creditório em litígio administrativo, no montante de R$ 30.023,27, homologandose as compensações a ele vinculadas até este limite de direito creditório reconhecido." (efl. 304) Intimada desta decisão em 30/03/2015 (efl. 359), a empresa apresentou Recurso Voluntário em 29/04/2015 (efls. 361/367) alegando que, ao contrário do que foi indicado na decisão recorrida o saldo credor de IPI residual de R$ 113.064,45 não teria sido consumido em períodos anteriores, devendo ser integralmente reconhecido. Em seguida, os autos foram direcionados a este Conselho. É o relatório. Resolução O Recurso Voluntário é tempestivo e merece ser conhecido. Contudo, entendo que o processo não se encontra em condições para julgamento. Senão vejamos. Como relatado, o presente processo se refere à pedido de ressarcimento de IPI do 2º trimestre de 2006, cujo crédito pleiteado no pedido de ressarcimento n.º 05819.82992.150410.7.7.011808, no valor de R$ 441.993,75, foi integralmente reconhecido no Despacho Decisório proferido. Contudo, esse montante era insuficiente para homologar todas as compensações vinculadas a esse crédito. Na Manifestação de Inconformidade, a ora Recorrente evidenciou que apresentou um pedido de ressarcimento residual relativo ao 2º trimestre de 2006, de n.º Fl. 415DF CARF MF Processo nº 10875.905043/201028 Resolução nº 3402001.304 S3C4T2 Fl. 416 3 22809.65691.040407.1.1.019569 (efl. 23/31), no qual, apesar de trazer todos os documentos necessários a demonstrar o crédito residual de R$ 113.064,65, cometeu um erro material no preenchimento da declaração, preenchida com o valor de R$ 0,00. Esse equívoco foi reconhecido pela decisão recorrida, pela qual admitiuse a existência de crédito total de ressarcimento de IPI no 2º trimestre de 2006 de valor de R$ 555.058,20 (R$ 441.993,75 + R$ 113.064,65). Vejamos os termos da r. decisão recorrida: "Inicialmente devese consignar que a sistemática de apresentação de PER Residual iniciouse em 01/04/2007 e o documento em análise, PERDCOMP Residual nº 22809.65691.040407.1.1.019569, restou transmitido em 04/04/2007, isto é, imediatamente em seguida ao novo procedimento. Assim, a transmissão do documento demonstra a intenção do contribuinte em compensar débitos próprios com créditos de IPI ressarcíveis, bem como o objetivo de cumprir o novo regramento. Por outro lado, em uma análise rápida do preenchimento do PERDCOMP Residual, verificase que o contribuinte não informa corretamente o “Saldo Credor Original Passível de Ressarcimento” do 2º trimestre de 2006, bem como não informa os valores utilizados em compensações do trimestre (R$ 441.993,75), o que caracteriza erro material na transposição de informações no novo PGD, uma vez que tais dados constam da PERDCOMP nº 05819.82992.150410.1.7.011808 com demonstrativo do crédito. De forma a verificar a possibilidade de utilização do saldo credor residual do 2º trimestre de 2006 no abatimento dos débitos declarados, foi elaborada a planilha abaixo com os dados do Saldo Credor de Períodos Anteriores, Créditos e Débitos do período, considerando o ajuste do saldo credor de períodos anteriores de acordo com os valores ressarcidos ao contribuinte: Como parte do saldo credor do 2º trimestre de 2006 [R$ 441.993,75 de R$ 555.058,20] restou utilizada para homologar compensações declaradas pelo reclamante, restaria, neste julgamento, avaliar se o saldo credor residual, de R$ 113.064,45, foi consumido no abatimento de débitos de IPI em trimestres posteriores, uma vez que a PERDCOMP Residual nº 22809.65691.040407.1.1.019569 foi transmitida somente em 04/04/2007. Assim, com fulcro em informações do SIEF PERDCOMP, foi elaborado “Demonstrativo de Apuração após o Período do Ressarcimento”, em que se percebe que parte do saldo credor do 2º trimestre de 2006 foi consumido no abatimento de débitos, tendose observado o montante de R$ 30.023,27 como o “Menor Saldo Credor”, que “corresponde ao menor saldo credor apurado desde o último PA do trimestre de referência até o período de apuração imediatamente anterior”. (...) Assim, como dito, parte dos créditos ressarcíveis referentes ao 2º trimestre de 2006, mesmo com os ajustes no PERDCOMP Residual nº 22809.65691.040407.1.1.01 9569, foram consumidos no abatimento de débitos de IPI em trimestres posteriores, restando o montante de R$ 30.023,27 disponível para utilização nas compensações vinculadas a este trimestre." (efl. 310/311 grifei) Contudo, ao contrário do que pretende aduzir a r. decisão recorrida, não vislumbrei nos autos a confirmação de que os valores objeto do pedido de ressarcimento residual não teriam sido estornados da escrita fiscal do sujeito passivo, o que poderia implicar na sua utilização na escrita como indicado pelo julgador. Com efeito, nenhum livro de registro de IPI da Recorrente constava dos autos até a interposição do Recurso Voluntário, quando a Recorrente apresentou alguns de seus livros, relativos aos períodos de abril/2006 a março/2007 efls. 388/411 Fl. 416DF CARF MF Processo nº 10875.905043/201028 Resolução nº 3402001.304 S3C4T2 Fl. 417 4 Entretanto, pela análise dos livros de apuração do IPI por ela anexados, observa se que há indicações de estornos de créditos em razão de pedidos de ressarcimento relativos a outros trimestres ou mesmo de parte do valor relativo ao 2º trimestre de 2006 (valor de R$ 428.955,99 em dezembro/2006 efl. 405). Mas não foi possível confirmar o eventual estorno quanto ao pedido de ressarcimento residual n.º 22809.65691.040407.1.1.019569, vez que transmitido apenas em abril/2007 (livro não acostado ao processo). E foi igualmente em abril/2007 que a Recorrente transmitiu as compensações vinculadas (não homologadas integralmente nesse processo), nos pedidos de compensação n.º 00317.22112.090407.1.3.018601 (retificado posteriormente pelo PER/DCOMP n.º 15548.92340.260309.1.7.011722) e n.º 39246.66083.190407.1.3.019253 (retificada pelo PER/DCOMP n.º 17810.94681.180809.1.7.013310). Assim, entendo que para confirmar o valor do crédito ressarcível passível de compensação no presente processo, ainda há dúvida se os valores do crédito de ressarcimento não teriam sido efetivamente estornados da escrita fiscal da Recorrente e se efetivamente esses valores foram aproveitados em período de apuração posterior. E essa confirmação é essencial para evitar um eventual aproveitamento em duplicidade do crédito de IPI. Com efeito, para que o pedido de ressarcimento seja deferido em sua integralidade, crucial comprovar a não utilização do crédito na escrita fiscal, em conformidade com a exigência do art. 11, da Lei n.º 9.779/99: "Art. 11. O saldo credor do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, acumulado em cada trimestrecalendário, decorrente de aquisição de matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, aplicados na industrialização, inclusive de produto isento ou tributado à alíquota zero, que o contribuinte não puder compensar com o IPI devido na saída de outros produtos, poderá ser utilizado de conformidade com o disposto nos arts. 73 e 74 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, observadas normas expedidas pela Secretaria da Receita Federal do Ministério da Fazenda." (grifei) É o que igualmente expressava a Instrução Normativa n.º 600/2005, vigente à época da transmissão do PER/DCOMP, evidenciando que o crédito deve ser devidamente estornado da escrituração fiscal após a formulação do pedido de ressarcimento para evitar o seu aproveitamento em duplicidade: "Art. 17. No período de apuração em que for apresentado à SRF o pedido de ressarcimento, o estabelecimento que escriturou referidos créditos deverá estornar, em sua escrituração fiscal, o valor do crédito solicitado. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa SRF nº 728, de 20 de março de 2007)" Desta forma, para que seja possível confirmar as alegações trazidas na decisão recorrida quanto ao suposto consumo do saldo credor sob análise, não evidenciada pela documentação acostada aos presentes autos, proponho a conversão do presente processo em diligência para que a Delegacia de origem elabore um relatório informando se o valor de crédito residual de R$ 113.064,65 pleiteado no pedido de ressarcimento residual n.º 22809.65691.040407.1.1.019569 e dos pedidos de compensação vinculados foi estornado da escrita fiscal da Recorrente. Fl. 417DF CARF MF Processo nº 10875.905043/201028 Resolução nº 3402001.304 S3C4T2 Fl. 418 5 Caso positivo, informar qual o valor estornado e em qual período de apuração esse estorno foi realizado. Por outro lado, caso confirmado que o valor foi consumido pela Recorrente em sua escrita, identificar o valor consumido e em qual período de apuração teria ocorrido o consumo. A fiscalização poderá intimar a Recorrente para a apresentação de informações e documentos considerados relevantes para a elaboração da diligência, caso entender necessário. Com a conclusão da diligência, a Recorrente deverá ser intimada do seu resultado para manifestação, se assim desejar, em 30 (trinta) dias. Em seguida, os autos deverão retornar para este Conselho para julgamento. É como voto a presente Resolução. Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora Fl. 418DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13864.000094/2007-83
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jan 29 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Mar 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2002
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO.
Havendo omissão, contradição ou obscuridade, os embargos devem ser providos para saneamento.
Numero da decisão: 3201-003.270
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos declaratórios. Acompanhou o julgamento a patrona Rafaela Honesko de Alarcão OAB/DF 52.286, escritório Cescon, Barrieu, Flesh e Barretos Advogados.
(assinatura digital)
WINDERLEY MORAIS PEREIRA - Presidente Substituto.
(assinatura digital)
PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade.
Nome do relator: PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA
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Havendo omissão, contradição ou obscuridade, os embargos devem ser providos para saneamento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos declaratórios. Acompanhou o julgamento a patrona Rafaela Honesko de Alarcão OAB/DF 52.286, escritório Cescon, Barrieu, Flesh e Barretos Advogados. (assinatura digital) WINDERLEY MORAIS PEREIRA Presidente Substituto. (assinatura digital) PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 86 4. 00 00 94 /2 00 7- 83 Fl. 708DF CARF MF 2 Tratamse de Embargos de Declaração opostos pela União em fls. 692 em face do Acórdão deste Conselho de fls. 676, em razão de lapso manifesto. O Presidente desta Turma de julgamento admitiu os Embargos de Declaração conforme Despacho de admissibilidade fls. 703, transcrito a seguir: "Tratase de embargos de declaração tempestivamente opostos pela Fazenda Nacional, em face do Acórdão nº. 3201002.606, de 28/03/2017, cuja ementa abaixo transcrevese: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2002 COFINS. TERMO INICIAL DO PRAZO DECADENCIAL. ARTIGOS 150, § 4º e 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO DO ARTIGO 62 DO RICARF. MATÉRIA JULGADA NA SISTEMÁTICA DE RECURSO REPETITIVO PELO STJ. Nos termos do artigo 62, § 2º, do Regimento Interno do CARF, as decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. No presente caso, o Superior Tribunal de Justiça, em julgamento realizado na sistemática do artigo 543C do Código de Processo Civil, entendeu que o prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos termos do inciso I do artigo 173 do CTN, e não de acordo com o § 4º do artigo 150, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte. PAF. SOBRESTAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Não há previsão legal para o sobrestamento do julgamento de processo administrativo entre as normas reguladoras do Processo Administrativo Fiscal. Pelo princípio da oficialidade, a administração pública tem o dever de impulsionar o processo até sua decisão final. CONCOMITÂNCIA. AÇÃO JUDICIAL. SÚMULA CARF Nº 01. Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Fl. 709DF CARF MF Processo nº 13864.000094/200783 Acórdão n.º 3201003.270 S3C2T1 Fl. 709 3 Recurso Voluntário Provido em Parte Aponta a embargante erro material no julgado, ao declarar a decadência do lançamento de PIS/COFINS referente aos meses de janeiro a abril de 2002. Afirma a querelante que a decisão consignou que a contribuinte foi intimada do lançamento em 17 de maio de 2006 quando, na verdade, assim o foi em 17 de maio de 2007. De fato, a decisão embargada assim consigna: “Como conseqüência, em havendo pagamento, a extinção do crédito tributário ocorre após o decurso do prazo definido no § 4º do artigo 150 do CTN. Em tal hipótese, o dies a quo para contagem do prazo decadencial corresponde à data do fato gerador do tributo. Uma vez que a notificação do contribuinte ocorreu 17 de maio de 2006, a contagem do prazo decadencial nos termos do art. 150 § 4º do CTN leva à conclusão de que houve a decadência do crédito tributário lançado a título de PIS e COFINS, referente aos meses de Janeiro a Abril de 2002. (negritei)” Uma vez que o dia 17/05/2007 é a data de ciência do auto de infração, aposta ao lado da assinatura de recebimento do Auto de Infração, à efl. 221, demonstra razão a embargante. Tratandose, entretanto, de inexatidão material devida a lapso manifesto, os embargos de declaração devem ser recebidos como embargos inominados, em consonância com as disposições do artigo 66, caput, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, que assim dispõe: Art. 66. As alegações de inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e os erros de escrita ou de cálculo existentes na decisão, provocados pelos legitimados para opor embargos, deverão ser recebidos como embargos inominados para correção, mediante a prolação de um novo acórdão. Assim, na forma do art. 66 do RICARF, ACOLHO os embargos inominados opostos e determino que se promova nova distribuição dos autos, mediante sorteio, para correção do julgado, uma vez que o relator original do processo, o ex conselheiro José Luiz Feistauer de Oliveira, não mais integra este CARF." Após, os autos foram distribuídos e pautados nos moldes do regimento interno deste Conselho. Relatório proferido. Voto Conselheiro Relator Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Conforme o Direito Tributário, a legislação, as provas, documentos e petições apresentados aos autos deste procedimento administrativo e, no exercício dos trabalhos e Fl. 710DF CARF MF 4 atribuições profissionais concedidas aos Conselheiros, conforme portaria de condução e Regimento Interno deste Conselho, apresentase este voto. Por conter matéria preventa desta 3.ª Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e presentes os requisitos de admissibilidade, os tempestivos Embargos de Declaração devem ser conhecidos. Relatada o lapso manifesto na decisão a quo, é possível verificar que nas fls. 221 a data de ciência do Auto de Infração é de 17/05/07 e não 17/05/06. A decisão a quo tratou do tema e reconheceu de forma correta a decadência do período de janeiro a abril de 2002, contudo, ao mencionar a data de ciência do Auto de Infração, utlizou data equivocada, que não consta nos autos. Certamente, um pequeno lapso manifesto decorrente da atividade humana, sujeita aos erros. Assim, na oportunidade em que o nobre Conselheiro e excolega de trabalho tratou da decadência em sua relatoria de fls. 676, passase a ler: "Como conseqüência, em havendo pagamento, a extinção do crédito tributário ocorre após o decurso do prazo definido no § 4º do artigo 150 do CTN. Em tal hipótese, o dies a quo para contagem do prazo decadencial corresponde à data do fato gerador do tributo. Uma vez que a notificação do contribuinte ocorreu 17 de maio de 2007, a contagem do prazo decadencial nos termos do art. 150 § 4º do CTN leva à conclusão de que houve a decadência do crédito tributário lançado a título de PIS e COFINS, referente aos meses de Janeiro a Abril de 2002." Diante de todo o exposto, votase para DAR PROVIMENTO aos Embargos de Declaração, para que seja corrigido o texto do corpo do Acórdão a quo. Voto proferido. (assinatura digital) Conselheiro Relator – Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Fl. 711DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10380.001832/2009-16
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Mar 27 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Outros Tributos ou Contribuições
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2006
AFERIÇÃO INDIRETA DA BASE DE CÁLCULO. PROCEDIMENTO EXCEPCIONAL. CABIMENTO APENAS NAS SITUAÇÕES EM QUE FIQUE DEMONSTRADA A IMPOSSIBILIDADE DE APURAÇÃO DO TRIBUTO COM BASE NA DOCUMENTAÇÃO EXIBIDA PELO SUJEITO PASSIVO.
A mera existência de irregularidades na escrita contábil do contribuinte não autoriza, por si só, a aferição indireta das contribuições, quando o Fisco não demonstra que houve sonegação de documentos relativos à base de cálculo investigada ou que os elementos apresentados não refletem a real remuneração paga aos segurados a serviço da empresa.
Numero da decisão: 2201-004.268
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente.
(assinado digitalmente)
Dione Jesabel Wasilewski - Relatora.
EDITADO EM: 22/03/2018
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, José Alfredo Duarte Filho, Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: DIONE JESABEL WASILEWSKI
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PROCEDIMENTO EXCEPCIONAL. CABIMENTO APENAS NAS SITUAÇÕES EM QUE FIQUE DEMONSTRADA A IMPOSSIBILIDADE DE APURAÇÃO DO TRIBUTO COM BASE NA DOCUMENTAÇÃO EXIBIDA PELO SUJEITO PASSIVO. A mera existência de irregularidades na escrita contábil do contribuinte não autoriza, por si só, a aferição indireta das contribuições, quando o Fisco não demonstra que houve sonegação de documentos relativos à base de cálculo investigada ou que os elementos apresentados não refletem a real remuneração paga aos segurados a serviço da empresa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente. (assinado digitalmente) Dione Jesabel Wasilewski Relatora. EDITADO EM: 22/03/2018 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 38 0. 00 18 32 /2 00 9- 16 Fl. 3896DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, José Alfredo Duarte Filho, Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório Tratase de recurso voluntário (fls. 3882/3894) apresentado em face do Acórdão nº 0359.449, da 5ª Turma da DRJ/BSB (fls. 3860/3871), que deu parcial provimento à impugnação do sujeito passivo (fls. 87/102) ao auto de infração pelo qual se exige crédito tributário relativo à contribuição destinada ao Salário Educação, incidente sobre a remuneração dos empregados, aferida com base nos valores dos serviços de vigilância e de transporte de valores (AIOP 37.043.9171 fls. 2/83). Segundo o relatório da fiscalização (fls. 74/83), foi aferida a remuneração dos empregados com base na receita obtida através da prestação de serviços de vigilância e de transporte de valores aplicandose o percentual de 40% (quarenta por cento) sobre o valor dos serviços de vigilância e de 20% (vinte por cento) sobre o valor dos serviços de transporte de valores. Do valor assim apurado, teriam sido deduzidas as remunerações constantes nas folhas de pagamento apresentadas pela empresa. A aferição indireta realizada teria por base legal o art. 33, § 3º, da Lei nº 8.212, de 1991, e os arts. 600, I, e 603 da Instrução Normativa SRP nº 3, de 2005. O fundamento fático para esse procedimento seria a não apresentação de parte dos livros e dos documentos solicitados pela fiscalização através de termos de intimação, bem como por ter deixado de prestar informações contábeis, financeiras e cadastrais de interesse da Receita Federal do Brasil, condutas que teriam justificado a imposição de penalidade por descumprimento de obrigações acessórias (AIOA nº 37.165.7568 e 37.165.7571). Em benefício da clareza, transcrevo abaixo trecho do relatório fiscal onde são detalhadas as irregularidades apuradas pela fiscalização: • Não foram apresentados os livros Razão referentes aos exercícios de 2005 e de 2006. • Nos livros Diários apresentados, verificouse a existência de lançamentos relativos a despesas com fardamento, combustíveis, manutenção de veículos, material de escritório, material utilizado no serviço, viagens, cestas básicas, sem referência a documento fiscal, conforme cópias xerográficas anexadas ao AIOP DEBCAD 37.209.9602. • A partir de 2005, o histórico das despesas acima citadas passou a referenciar o número do documento fiscal. Por se tratarem de despesas de valor elevado, principalmente no que tange a compra de fardamento, material de escritório e utilizado no serviço, e por terem sido anteriormente escrituradas sem referência A nota fiscal, concluiuse quanto à indispensabilidade do exame de alguns desses comprovantes no sentido de Fl. 3897DF CARF MF Processo nº 10380.001832/200916 Acórdão n.º 2201004.268 S2C2T1 Fl. 3.897 3 determinar se tais gastos se referiam efetivamente à finalidade consignada nos títulos contábeis. • Solicitados os documentos fiscais comprobatórios das despesas escrituradas, apenas parte dos mesmos foi apresentada à fiscalização, tendo os comprovantes sido retidos e posteriormente, apreendidos. • Os documentos fiscais apresentados pela empresa continham indícios de inautenticidade, tais como selo fiscal sem talho doce e numeração de notas apostas com numerador manual. • Tais indícios determinaram a intimação dos fornecedores para apresentação das vias das notas fiscais com a mesma numeração e relativas aos mesmos períodos das apresentadas pela CORPVS. • Examinadas as Notas Fiscais emitidas pelos fornecedores, verificouse que: • as notas com a mesma numeração apresentada pela CORPVS não tinham sido emitidas contra este cliente ou sequer tinham sido emitidas ainda pelo fornecedor; • tanto as datas de emissão das Notas quanta os valores das mesmas eram diferentes das contidas nas apresentadas pela CORPVS; • o layout das Notas apresentadas pelos fornecedores não era compatível com o das vias encontradas na CORPVS. • Solicitadas informações A Secretaria da Fazenda do Estado do Ceará acerca das empresas para quem teriam sido emitidas as Autorizações para Impressão de Documentos Fiscais AIDF, constatouse que as Autorizações constantes das Notas Fiscais apresentadas pela CORPVS como sendo de seus fornecedores foram emitidas pela SEFAZ para outras empresas. • Foi solicitada ainda a Secretaria da Fazenda do Estado do Ceará a identificação dos contribuintes para quem foram emitidas a Autorizações para Impressão dos Selos apostos em Notas Fiscais apresentadas pela CORPVS. Também nesse caso verificouse terem sido as Autorizações emitidas para empresas diferentes daquelas constantes das Notas apresentadas pela CORPVS. • Tais constatações determinaram a conclusão quanto A apresentação deficiente de documentos bem como quanto A tese de crime de falsificação de documento público, conforme previsto no art. 297 do DecretoLei 2.848/40 Código Penal. • No caso dos selos apostos nas Notas Fiscais, deve ser levantada a tese de crime de falsificação de papéis públicos, conforme previsto no art. 293, inciso I, do Código Penal. Fl. 3898DF CARF MF 4 Pelos fatos acima narrados, foi realizada aferição indireta tendo por base valores de venda de serviços escriturados nas contas que são identificadas no item 3.5 do relatório fiscal. O lançamento foi impugnado pelo sujeito passivo, o que deu origem ao Acórdão ora atacado, que foi precedido pela realização de duas diligências determinadas pela autoridade julgadora de 1ª instância (fls. 2859/2864 e 2883/2886) para fins de averiguação de irregularidades apontadas pela impugnante nos cálculos realizados pela fiscalização. Realizados os ajustes determinados pela DRJ (fls. 2888/3856), foi proferida decisão consubstanciada em documento que tem a seguinte ementa: ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2006 CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO. ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. APRECIAÇÃO. À esfera administrativa não cabe conhecer de arguições de inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei ou ato normativo, matéria de competência do Poder Judiciário. PRAZO DECADENCIAL. INÍCIO DA CONTAGEM. DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. As contribuições lançadas sujeitamse ao prazo decadencial de 05 (cinco) anos previsto no Código Tributário Nacional, contados a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, quando houver a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. VERDADE MATERIAL. A busca da verdade material pressupõe a observância, pelo sujeito passivo, do seu dever de colaboração para com a Fiscalização, no sentido de lhe proporcionar condições de apurar a verdade dos fatos. LANÇAMENTO. IRREGULARIDADE, INCORREÇÕES OU OMISSÕES. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no art. 59 do PAF não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Tendo tomado ciência dessa decisão em 16/06/2014 (fls. 3881), o sujeito passivo apresentou tempestivamente seu recurso voluntário (fls. 3882/3894) em 07/07/2014. Fl. 3899DF CARF MF Processo nº 10380.001832/200916 Acórdão n.º 2201004.268 S2C2T1 Fl. 3.898 5 Em suas razões recursais, alega, em síntese, que: 1. As deficiências apontadas pela fiscalização limitamse à contabilização de notas fiscais tidas como inidôneas e a falta de apresentação dos Livros Razão de 2005 e 2006. 2. Como foi apresentada toda a documentação relacionada a apuração da contribuição previdenciária, o lançamento por aferição indireta é nulo, por vício formal, uma vez que lhe faltou fundamentação legal. 3. Há também nulidade por vício material, uma vez que restaram demonstrados vários erros na apuração da base de cálculo. 4. As competências anteriores a abril de 2014 já se encontravam atingidas pela decadência quando o lançamento foi realizado. 5. É inconstitucional e ilegal o arbitramento das contribuições ao salário educação com base no faturamento. 6. A presunção utilizada deve ceder diante da verdade material. A recorrente apresentou documentos capazes de elidir a presunção fustigada demonstrando o montante real da remuneração paga aos seus empregados e contribuintes individuais. 7. A decisão de piso errou ao determinar que fossem deduzidos dos valores apurados por aferição indireta apenas as folhas de pagamento dos empregados diretamente ligados à prestação dos serviços, pois este procedimento não é razoável e nem proporcional. 8. Como o lançamento se reporta a fatos geradores anteriores a dezembro de 2008, entende que a multa deve se limitar à multa de mora prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991. Pelas razões expostas acima, pede a reforma da decisão de primeira instância para que seja cancelado o lançamento materializado no AIOP nº 37.043.9171. Chegando a este Colegiado, o processo foi distribuído a esta Conselheira em sessão pública. É o que havia para ser relatado. Voto Conselheira Dione Jesabel Wasilewski Relatora O recurso voluntário apresentado preenche os requisitos de admissibilidade e dele conheço. Inicialmente, registro que, com base no art. 59, § 3º do Decreto nº 70.235, de 1972, deixarei de analisar as preliminares (nulidade por vício formal) e prejudiciais de mérito (decadência), pelas razões que serão evidenciadas a seguir. Fl. 3900DF CARF MF 6 O lançamento em análise foi realizado com base em aferição indireta, invocando como base os seguintes dispositivos: Lei nº 8.212, de 1991 Art. 33. À Secretaria da Receita Federal do Brasil compete planejar, executar, acompanhar e avaliar as atividades relativas à tributação, à fiscalização, à arrecadação, à cobrança e ao recolhimento das contribuições sociais previstas no parágrafo único do art. 11 desta Lei, das contribuições incidentes a título de substituição e das devidas a outras entidades e fundos. (...) § 3o Ocorrendo recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação deficiente, a Secretaria da Receita Federal do Brasil pode, sem prejuízo da penalidade cabível, lançar de ofício a importância devida. Instrução Normativa SRP nº 3, de 1995 Art. 600. Para fins de aferição, a remuneração da mãodeobra utilizada na prestação de serviços por empresa corresponde ao mínimo de: I quarenta por cento do valor dos serviços constantes da nota fiscal, da fatura ou do recibo de prestação de serviços; II cinqüenta por cento do valor dos serviços constantes da nota fiscal, da fatura ou do recibo, no caso de trabalho temporário. Parágrafo único. Nos serviços de limpeza, de transporte de cargas e de passageiros e nos de construção civil, que envolvam utilização de equipamentos, a remuneração da mãodeobra utilizada na execução dos serviços não poderá ser inferior aos respectivos percentuais previstos nos arts. 602, 603 e 605. (...) Art. 603. Na operação de transporte de cargas ou de passageiros, o valor da remuneração da mãodeobra utilizada na prestação de serviços não poderá ser inferior a vinte por cento do valor bruto da nota fiscal, fatura ou recibo de prestação de serviços, observado, quanto ao transporte de cargas, o disposto no inciso V do art. 176. Compulsandose a IN SRP nº 3, de 2005, vêse que os fatos que autorizam a utilização desse mecanismo de apuração da base de cálculo estão descritos no artigo que é abaixo reproduzido: Art. 597. A aferição indireta será utilizada, se: I no exame da escrituração contábil ou de qualquer outro documento do sujeito passivo, a fiscalização constatar que a contabilidade não registra o movimento real da remuneração dos segurados a seu serviço, da receita, ou do faturamento e do lucro; II a empresa, o empregador doméstico, ou o segurado recusar se a apresentar qualquer documento, ou sonegar informação, ou apresentálos deficientemente; Fl. 3901DF CARF MF Processo nº 10380.001832/200916 Acórdão n.º 2201004.268 S2C2T1 Fl. 3.899 7 III faltar prova regular e formalizada do montante dos salários pagos pela execução de obra de construção civil; IV as informações prestadas ou os documentos expedidos pelo sujeito passivo não merecerem fé em face de outras informações, ou outros documentos de que disponha a fiscalização, como por exemplo: a) omissão de receita ou de faturamento verificada por intermédio de subsídio à fiscalização; b) dados coletados na Justiça do Trabalho, Delegacia Regional do Trabalho, Secretaria da Receita Federal ou junto a outros órgãos, em confronto com a escrituração contábil, livro de registro de empregados ou outros elementos em poder do sujeito passivo; c) constatação da impossibilidade de execução do serviço contratado, tendo em vista o número de segurados constantes em GFIP ou folha de pagamento específicas, mediante confronto desses documentos com as respectivas notas fiscais, faturas, recibos ou contratos. § 1º Considerase deficiente o documento apresentado ou a informação prestada que não preencha as formalidades legais, bem como aquele documento que contenha informação diversa da realidade ou, ainda, que omita informação verdadeira. § 2º Para o fim do inciso III do caput, considerase prova regular e formalizada a escrituração contábil em livro Diário e Razão, conforme previsto no § 13 do art. 225 do RPS e no inciso IV do art. 60 desta IN. Pela redação desse dispositivo, vêse que ele estabelece uma modalidade presumida de apuração da base de cálculo dos tributos, que deve ser adotada em circunstâncias bastante peculiares, quando a contabilidade não registra o movimento real da remuneração dos segurados, ou a receita, ou o faturamento ou o lucro; quando há recusa na apresentação de documentos, sonegação de informações ou apresentação insuficiente; ou ainda quando as informações prestadas não merecerem fé. Apenas a constatação de uma das circunstâncias listadas acima autoriza o emprego do expediente excepcional, contudo, mesmo no contexto da identificação de um desses fatos, penso ser necessário haver uma relação de prejudicialidade entre as irregularidades constatadas e a matéria objeto de investigação fiscal e de autuação. Para que se revista de legitimidade, o ato que aplica medidas dessa natureza deve ser adequadamente fundamentado, o que exige que se aponte irregularidades concernentes à grandeza que está sendo auditada e argumentos que evidenciem ser inevitável a via adotada. Com isso se quer dizer que o arbitramento que se faz através de aferição indireta não é uma prerrogativa da fiscalização a ser utilizada conforme juízos de conveniência e oportunidade, mas uma via estreita cujo acesso só é permitido em circunstâncias perfeitamente delimitadas pela legislação e comprovadas dentro do processo através da linguagem adequada, seja através da narrativa empreendida no relatório fiscal, seja através de Fl. 3902DF CARF MF 8 provas. É elemento necessário dessa fundamentação, a demonstração do nexo causal entre as irregularidades verificadas e a impossibilidade de apuração do tributo pelos meios ordinários estabelecidos na legislação tributária. Nessa esteira, tratandose de tributos que têm por base a folha de pagamentos, a aferição indireta baseada no art. 597, I, da IN SRF nº 3, de 2005, por exemplo, estaria justificada pela demonstração de que a "contabilidade não registra o movimento real da remuneração dos segurados a seu serviço", pois é esta grandeza que se está a quantificar no procedimento de fiscalização. Ou então, seria necessário comprovar a recusa na prestação de informações ou documentos relativos à remuneração dos empregados, o que legitimaria a aferição indireta com suporte no art. 597, II. Estabelecida essa premissa, vêse que o auto de infração descreve irregularidades de duas ordens: não apresentação do livro razão 2005 e 2006 e contabilização de despesas suportadas por documentação fiscal inidônea. Quanto às notas inidôneas, a autoridade fiscal apresenta as seguintes informações: 6.1. No curso do procedimento de fiscalização junto ao contribuinte em referência, verificouse a existência de diversas despesas lançadas sem referência a documento fiscal no histórico dos lançamentos, nos anoscalendário 2003, 2004 e 2005. Em face de tal constatação foi solicitada a apresentação das notas fiscais que embasaram os citados lançamentos os quais diziam respeito A aquisição de fardamento, combustíveis, cestas básicas, material de limpeza, material de escritório, manutenção de veículos, conservação e manutenção em geral. 6.2. A partir do segundo semestre de 2005 e em 2006, os lançamentos verificados nas mesmas contas referenciavam os documentos fiscais, mas foram solicitados também tais comprovantes para esclarecer a natureza das despesas efetuadas. Nas contas que registravam despesas referentes a fardamento, em face dos valores elevados nelas escriturados, foram solicitados os comprovantes de despesas mesmo quando os históricos dos lançamentos referenciavam as notas fiscais. 6.3. A empresa sob fiscalização apresentou parte dos documentos fiscais solicitados, conforme Termos de Constatação e de Retenção anexados ao AIOP n° DEBCAD 37.209.960 2, tendo sido detectados indícios de que tais notas poderiam ser falsas. No sentido de determinar a autenticidade dos mesmos, solicitouse à Secretaria da Fazenda do Estado do Ceara a confirmação da emissão de autorizações para impressão tanto das referidas Notas Fiscais quanto dos selos e foram intimados os fornecedores que teriam emitido os documentos fiscais apresentados pela Corpvs. Já em relação à ausência do livro razão, destaco o seguinte trecho do relatório: 6.5. Relativamente aos exercícios de 2005 e 2006, a empresa não apresentou os Livros Razão. Em face de tal omissão todos os Fl. 3903DF CARF MF Processo nº 10380.001832/200916 Acórdão n.º 2201004.268 S2C2T1 Fl. 3.900 9 valores relativos a serviços prestados a tomadores de serviços, à remuneração paga a empregados e ao sócio, valores pagos a titulo de saláriomaternidade e de saláriofamília, contribuições descontadas e valores recolhidos, tiveram de ser obtidos através do exame dos Livros Diário, dia a dia. 6.6. Tal foi também o procedimento para verificar as despesas constantes das contas acima referenciadas, para as quais, em muitos lançamentos, inexistia referência a documento fiscal. A partir desses excertos entendo correto afirmar que não restou evidenciado como o registro de despesas com "fardamento, combustíveis, cestas básicas, material de limpeza, material de escritório, manutenção de veículos, conservação e manutenção em geral" sem a correspondente documentação fiscal comprometeria a integridade das informações constantes das folhas de pagamento. Embora seja possível a existência de uma vinculação entre essas despesas, ela não foi demonstrada pela narrativa construída pela autoridade fiscal. Da mesma forma, a ausência do livro razão não parece justificar que se negue fé aos documentos e registros que espelham as remunerações pagas, até porque, conforme explicita a própria fiscalização "todos os valores relativos a serviços prestados a tomadores de serviços, à remuneração paga a empregados e ao sócio, valores pagos a titulo de salário maternidade e de saláriofamília, contribuições descontadas e valores recolhidos, tiveram de ser obtidos através do exame dos Livros Diário, dia a dia". Ou seja, parte dos levantamentos foram feitos com base no livro diário. Além disso, como resultado do mesmo procedimento fiscal foram realizados lançamentos com base nas folhas de pagamento da empresa, conforme pode ser verificado no processo nº 10380.001829/200901. Esses fatos revelam uma conduta contraditória da autoridade fiscal, que nega credibilidade aos documentos apresentados pela empresa ao mesmo tempo em que se vale deles. Oportuno destacar que este Conselho registra jurisprudência que evidencia a excepcionalidade das medidas adotadas no lançamento que ora se analisa, bem como a necessidade de que haja adequada fundamentação para elas. Nesse sentido, o Acórdão nº 2401 02.161, de lavra do Conselheiro Kleber Ferreira de Araújo, registra em sua ementa: AFERIÇÃO INDIRETA DA BASE DE CÁLCULO. PROCEDIMENTO EXCEPCIONAL. CABIMENTO APENAS NAS SITUAÇÃO EM QUE FIQUE DEMONSTRADA A IMPOSSIBILIDADE DE APURAÇÃO DO TRIBUTO COM BASE NA DOCUMENTAÇÃO EXIBIDA PELO SUJEITO PASSIVO. A mera existência de irregularidades na escrita contábil do contribuinte não autoriza, por si só, a aferição indireta das contribuições, quando o Fisco não demonstra que houve sonegação de documentos ou que os elementos apresentados não refletem a real remuneração paga aos segurados a serviço da empresa. Da fundamentação desse Acórdão, que adoto como razão de decidir, por sua vez, extraise: Fl. 3904DF CARF MF 10 Aferição indireta do saláriodecontribuição O arbitramento da base de cálculo de tributos em geral é previsto no Código Tributário Nacional, art. 148, tendo cabimento quando as informações prestadas pelo sujeito passivo não mereçam fé. Também a legislação previdenciária tem fundamentação específica para aferição indireta das contribuições, é esta a previsão dos §§ 3.º e 4.º do art. 33 da Lei n.º 8.212/1991, os quais trazem a possibilidade de arbitramento das contribuições, quando haja recusa, sonegação ou apresentação deficiente de informações por parte do sujeito passivo. Nessa análise não se pode perder de vista que o procedimento de aferição indireta é um instituto jurídico de exceção, excepcional, incomum, por isso, a lei condicionou a sua aplicação à presença de anormalidade. Tal procedimento deve se pautar pelos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Dessa forma, o Fisco precisa apresentar relação lógica entre os fatos e as conclusões e se acautelar, para não se enveredar no excesso de exação fiscal por arbítrio e abuso de discricionariedade. Somente é admissível o citado procedimento quando o Fisco se vê diante de situação instransponível, ou seja, não tenha como se valer de outros meios para recompor o momento da ocorrência do fato gerador e obter os dados necessários ao cálculo do valor correspondente ao crédito tributário. Na situação sob enfoque, verifico que o Relatório Fiscal, por entender que a documentação do contribuinte seria deficiente, lançou mão da aferição indireta da remuneração dos empregados. De acordo com as considerações da Auditoria, o fato da empresa não ter registrado o pagamento de ART, bem como de despesas com deslocamento e hospedagem do sócio gerente do sujeito passivo, desconsiderou toda a documentação apresentada, por entendêla imprestável. Não vi no relato do Fisco qualquer menção à solicitação de documentos necessários à apuração da remuneração dos empregados, como folhas de pagamento, GFIP, RAIS, recibos, etc. O mister da fiscalização é apurar a ocorrência dos fatos geradores e calcular o tributo devido. No caso sob análise, os autos demonstram que foram prestados serviços, conforme notas fiscais apresentadas. Nesse sentido, deveria o Fisco requerer os documentos que guardassem relação com o pagamento de remunerações e, somente havendo a sonegação desses elementos, ou indícios de que os dados contidos nos mesmos não refletiriam a realidade dos valores pagos como contraprestação pelo trabalho dos segurados empregados, é que caberia a adoção do procedimento excepcional da aferição indireta. Para mim, os fatos narrados pela Auditoria para desconsiderar toda a documentação da empresa, por não se relacionarem com a remuneração dos empregados, não justificam o arbitramento da contribuição. Fl. 3905DF CARF MF Processo nº 10380.001832/200916 Acórdão n.º 2201004.268 S2C2T1 Fl. 3.901 11 Assim, entendo que na espécie somente estariam presentes os requisitos que autorizam a aferição indireta da mãoobra utilizada na prestação dos serviços, se o Fisco cabalmente demonstrasse que a empresa deixou de apresentar os comprovantes de pagamento de remunerações a empregados ou que os documentos exibidos denunciassem que a remuneração neles contidos seria irreal. Vejo, então, que a Auditoria Fiscal se desviou das normas que permitem o arbitramento dos tributos lançados, posto que não demonstrou estar diante de uma situação impeditiva de apurar as remunerações com esteio na documentação do sujeito passivo. Nesse sentido, dou razão à recorrente quanto à falta de justificativa para apuração da base de cálculo por aferição indireta. Também no caso sob análise a narrativa apresentada pelo relatório fiscal não evidencia a negativa de prestação de informações/documentos relacionados à remuneração, não restando demonstrada a impossibilidade de apuração dessa grandeza com base na documentação do sujeito passivo. Muito pelo contrário, em diversas oportunidades evidencia se que foi essa documentação utilizada pela fiscalização sem dificuldades maiores que a análise diaadia do livro diário. Merece registro que o Acórdão recorrido faz menção a irregularidades que tangenciam o objeto da fiscalização tal como defendido neste voto no seguinte trecho: No presente caso, a empresa deixou de apresentar os Livros Razão dos exercícios de 2005 e 2006, bem como os contratos de prestação de serviços firmados com empresas tomadoras de serviços, tendo recebido o Auto de Infração 37.165.7563, cuja impugnação da empresa foi julgada improcedente por esta 5a turma de julgamento, por meio do Acórdão 0343.905, de 05/07/2011.(grifouse) Apesar dessa menção na decisão de piso, que trata de irregularidade no atendimento à fiscalização que poderia reforçar as suas motivações para a medida empregada, não encontro no relatório fiscal e na documentação que foi juntada a esse processo a adequada representação desse fato, ou seja, ele não foi convertido em linguagem apta a fazer prova em favor das pretensões da Fazenda Pública. Com efeito, a autoridade fiscal concentrou seus esforços em demonstrar que a empresa registrou despesas com notas de duvidosa procedência. Contudo, a comprovação de que despesas diferentes da remuneração de empregados foram registradas sem os respectivos documentos fiscais poderia justificar a aferição indireta de tributos que tenham por base o lucro, mas não é motivação idônea para a adoção desse procedimento em relação a tributos que incidem sobre a remuneração de empregados. Quando mais não se produziu um único indício ou prova de que os valores contabilizados a esse título não são merecedores de fé. Em consequência, entendo inadequado o critério jurídico utilizado pela autoridade fiscal para fins de apuração da base de cálculo tributável, razão pela qual o lançamento realizado encontrase maculado por vício de ordem material. Fl. 3906DF CARF MF 12 Conclusão Pelos motivos expostos, voto por conhecer do recurso voluntário apresentado para, no mérito, darlhe integral provimento. Dione Jesabel Wasilewski Relatora Fl. 3907DF CARF MF
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Numero do processo: 15504.723708/2013-61
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Nov 07 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 23 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010, 2011
ÁGIO. RENTABILIDADE FUTURA. DEMONSTRAÇÃO DO VALOR ECONÔMICO-FINANCEIRO DA PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA EM AQUISIÇÃO. EFETIVIDADE E CONTEMPORANEIDADE À AQUISIÇÃO.
A lei exige que o lançamento do ágio baseado na perspectiva de rentabilidade futura seja baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Embora não houvesse, à época dos fatos, a exigência de demonstração na forma de laudo, a produção e arquivamento de documentação que apresenta, de forma objetiva e precisa, a demonstração do valor econômico-financeiro da participação societária em aquisição, a partir das perspectivas de rentabilidade futura da empresa, é ônus da adquirente e constitui requisito indispensável para a dedução da amortização do ágio correspondente. Não basta estimá-lo de forma subjetiva, é preciso determiná-lo e demonstrá-lo, matematicamente, de forma precisa, e arquivar a respectiva documentação, tudo ao tempo em que é feita a aquisição, nunca a posteriori.
ÁGIO ORIUNDO DE AQUISIÇÃO COM USO DE RECURSOS FINANCEIROS DE OUTREM. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE.
A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da confusão patrimonial a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição.
Não é possível o aproveitamento tributário do ágio se a confusão patrimonial, advinda do processo de incorporação, não envolve a pessoa jurídica que efetivamente desembolsou os valores que propiciaram o surgimento do ágio, ainda que a operação que o originou tenha sido celebrada entre terceiros independentes e com efetivo pagamento do preço.
Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2010, 2011
FALTA DE PAGAMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS DE IRPJ E DE CSLL. MULTA ISOLADA. CABIMENTO.
A partir do advento da Medida Provisória nº 351, de 2007, convertida na Lei nº 11.488, de 2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício decorrente da falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do ano-calendário.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2010, 2011
INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE.
Sobre o crédito tributário não pago no vencimento incidem juros de mora à taxa SELIC. Compõem o crédito tributário o tributo e a multa de ofício proporcional.
Numero da decisão: 9101-003.199
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial. No mérito, quanto (i) ao ágio, por voto de qualidade, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; quanto (ii) à concomitância da multa de ofício com a multa isolada, por maioria de votos, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora), Cristiane Silva Costa e Luís Flávio Neto, que lhe deram provimento; e quanto (iii) aos juros sobre a multa, por voto de qualidade, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Fizeram sustentação oral a patrona do contribuinte, Dra. Luciana Rosanova Galhardo, OAB-109.717, escritório Pinheiro Neto Advogados e o representante da Fazenda Nacional, Dr. Marco Aurélio Zortea Marques.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Daniele Souto Rodrigues Amadio Relatora
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo (Presidente em exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: DANIELE SOUTO RODRIGUES AMADIO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2010, 2011 ÁGIO. RENTABILIDADE FUTURA. DEMONSTRAÇÃO DO VALOR ECONÔMICO-FINANCEIRO DA PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA EM AQUISIÇÃO. EFETIVIDADE E CONTEMPORANEIDADE À AQUISIÇÃO. A lei exige que o lançamento do ágio baseado na perspectiva de rentabilidade futura seja baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Embora não houvesse, à época dos fatos, a exigência de demonstração na forma de laudo, a produção e arquivamento de documentação que apresenta, de forma objetiva e precisa, a demonstração do valor econômico-financeiro da participação societária em aquisição, a partir das perspectivas de rentabilidade futura da empresa, é ônus da adquirente e constitui requisito indispensável para a dedução da amortização do ágio correspondente. Não basta estimá-lo de forma subjetiva, é preciso determiná-lo e demonstrá-lo, matematicamente, de forma precisa, e arquivar a respectiva documentação, tudo ao tempo em que é feita a aquisição, nunca a posteriori. ÁGIO ORIUNDO DE AQUISIÇÃO COM USO DE RECURSOS FINANCEIROS DE OUTREM. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da confusão patrimonial a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição. Não é possível o aproveitamento tributário do ágio se a confusão patrimonial, advinda do processo de incorporação, não envolve a pessoa jurídica que efetivamente desembolsou os valores que propiciaram o surgimento do ágio, ainda que a operação que o originou tenha sido celebrada entre terceiros independentes e com efetivo pagamento do preço. Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2010, 2011 FALTA DE PAGAMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS DE IRPJ E DE CSLL. MULTA ISOLADA. CABIMENTO. A partir do advento da Medida Provisória nº 351, de 2007, convertida na Lei nº 11.488, de 2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício decorrente da falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do ano-calendário. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2010, 2011 INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. Sobre o crédito tributário não pago no vencimento incidem juros de mora à taxa SELIC. Compõem o crédito tributário o tributo e a multa de ofício proporcional.
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010, 2011 ÁGIO. RENTABILIDADE FUTURA. DEMONSTRAÇÃO DO VALOR ECONÔMICOFINANCEIRO DA PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA EM AQUISIÇÃO. EFETIVIDADE E CONTEMPORANEIDADE À AQUISIÇÃO. A lei exige que o lançamento do ágio baseado na perspectiva de rentabilidade futura seja baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Embora não houvesse, à época dos fatos, a exigência de demonstração na forma de laudo, a produção e arquivamento de documentação que apresenta, de forma objetiva e precisa, a demonstração do valor econômicofinanceiro da participação societária em aquisição, a partir das perspectivas de rentabilidade futura da empresa, é ônus da adquirente e constitui requisito indispensável para a dedução da amortização do ágio correspondente. Não basta estimálo de forma subjetiva, é preciso determiná lo e demonstrálo, matematicamente, de forma precisa, e arquivar a respectiva documentação, tudo ao tempo em que é feita a aquisição, nunca a posteriori. ÁGIO ORIUNDO DE AQUISIÇÃO COM USO DE RECURSOS FINANCEIROS DE OUTREM. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da “confusão patrimonial” a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na “mais valia” do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 72 37 08 /2 01 3- 61 Fl. 2302DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.303 2 Não é possível o aproveitamento tributário do ágio se a “confusão patrimonial”, advinda do processo de incorporação, não envolve a pessoa jurídica que efetivamente desembolsou os valores que propiciaram o surgimento do ágio, ainda que a operação que o originou tenha sido celebrada entre terceiros independentes e com efetivo pagamento do preço. ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Anocalendário: 2010, 2011 FALTA DE PAGAMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS DE IRPJ E DE CSLL. MULTA ISOLADA. CABIMENTO. A partir do advento da Medida Provisória nº 351, de 2007, convertida na Lei nº 11.488, de 2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício decorrente da falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do anocalendário. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2010, 2011 INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. Sobre o crédito tributário não pago no vencimento incidem juros de mora à taxa SELIC. Compõem o crédito tributário o tributo e a multa de ofício proporcional. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial. No mérito, quanto (i) ao ágio, por voto de qualidade, acordam em negar lhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; quanto (ii) à concomitância da multa de ofício com a multa isolada, por maioria de votos, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora), Cristiane Silva Costa e Luís Flávio Neto, que lhe deram provimento; e quanto (iii) aos juros sobre a multa, por voto de qualidade, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Fizeram sustentação oral a patrona do contribuinte, Dra. Luciana Rosanova Galhardo, OAB109.717, escritório Pinheiro Neto Advogados e o representante da Fazenda Nacional, Dr. Marco Aurélio Zortea Marques. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo – Presidente em exercício Fl. 2303DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.304 3 (assinado digitalmente) Daniele Souto Rodrigues Amadio – Relatora (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo – Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo (Presidente em exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto. Relatório Tratamse de Autos de Infração (Efls. 1231 ss.) cientificados à contribuinte em 12.07.2013 para a exigência de IRPJ e CSLL relativos aos anos calendário 2010 e 2011, juntamente com juros de mora, multa de ofício e isolada pela ausência de recolhimento de estimativas, diante do entendimento fiscal de indedutibilidade das despesas decorrentes da amortização do ágio, sob os argumentos de (i) sua inexistência; (ii) ausência de fundamentação econômica, uma vez que o laudo de avaliação teria sido produzido dois meses depois da celebração do contrato; (iii) falta de razão negocial, em face do uso de (iii.a) empresa veículo e (iii.b) empresa de prateleira; bem como (iv) não caracterização de despesa dedutível nos termos do artigo 299 do Decreto n. 3.000/99. Para uma leitura mais detalhada e melhor compreensão dessas justificativas e das operações subjacentes, sob a ótica fazendária, remetese ao Relatório de Auditoria Fiscal (Efls. 1215ss.), assim sintetizado pela decisão da DRJ: • Durante o ano de 2004 houve diversas reestruturações societárias na Mineração Belocal e em suas controladoras. As empresas envolvidas são assim referidas: Calmit Industrial Ltda (Calmit), Companhia de Cimento Portland Itaú (CCPI), Call Itaú Participações Minas Gerais S/A (Call), Lhoist do Brasil Ltda (Lhoist), Cananga Participações Ltda (Cananga) e Mineração Belocal Ltda (Belocal). • Em junho de 2004 (momento de criação da empresa), o controle da Belocal, cujo capital ainda estava inteiramente por ser integralizado, estava dividido entre a Calmit (20%) e a CCPI (80%), ambas do grupo Votorantim. • Em 30.08.2004, a Calmit e a CCPI cedem suas quotas à Call, também pertencente ao grupo Votorantim, a qual as integraliza com a cessão dos créditos decorrentes do contrato de compra de ativos, no montante de R$ 114.756.341,00. O capital social da Belocal passa de R$100.000,00, para R$ Fl. 2304DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.305 4 114.856.341,00. • Em 31.08.2004 a CCPI transfere sua única quota à Call, que passa a ser a única quotista. • Em 31.08.2004 a Call emite 100 novas ações ordinárias, com direito a voto (correspondentes a 50% do capital social e a 100% do capital votante), subscritas e integralizadas em dinheiro pela Lhoist, no montante de R$ 447.555.000,00. Desse montante, a Lhoist registrou R$ 332.698.559,00 em conta representativa de ágio. A Call, em atendimento à cláusula 1.1 do Contrato de Investimentos e Outras Avenças, registra R$ 332.698.559,00 a título de reserva de ágio. Nesse ato, a Lhoist passa a ser controladora direta da Call, que possuía o controle direto da Belocal. Assim a Lhoist passou a deter o controle indireto da Belocal. • Em 30.09.2004, a Call resgata as cem ações subscritas em agosto pela Lhoist. Em pagamento, transfere a esta a totalidade das quotas da Belocal, conforme o Acordo de Desinvestimento e Outras Obrigações. A Call então passa a ser uma controlada integral do grupo Votorantim, enquanto a Belocal assume essa condição em relação à Lhoist. Estranhamente, a Lhoist somente registra em sua contabilidade a aquisição das quotas da Belocal e a baixa de seu investimento em 01.11.2004. • Paralelamente a esses fatos, o grupo Lhoist realizou alterações na Cananga, visando a sua posterior utilização nessa reorganização societária que tinha como objetivo um planejamento tributário indevido. • A Cananga foi constituída em 22/12/2002, tendo em seu quadro societários empresas Gesellschaft Participações Ltda e Schaft Participações Ltda. O quadro societário dessas duas empresas era composto, exclusivamente, por pessoas que, à época, eram funcionários da empresa Pinheiro Neto Advogados. Tanto a Cananga quanto a Lhoist registram em sua contabilidade a prestação de serviços por essa empresa de advocacia. • Em 23/08/2004 a Lhoist e Marcos de Azevedo Ferreira França, responsável legal por todas as empresas do grupo Lhoist, substituem a Gesellschaft e Schaft no quadro societário da Cananga. • A relação entre a participação no quadro societário da Gesellschaft e da Schaft e o vínculo empregatício com a Pinheiro Neto Advogados, comum a todos seus sócios, fica ainda mais evidente quando se constata que, logo após o desligamento dos empregados Ayae Ikeda e Célia Vettore de Oliveira, ocorrido em 27/09/2001, eles deixaram também o quadro societário da Schaft e foram substituídos por outros funcionários da Pinheiro Neto Advogados. • Apesar de não possuir, na época, nenhum ativo e contar com capital social de R$100,00 (ainda não integralizado), em setembro de 2003 a Cananga obteve um empréstimo de 180.000 euros da empresa Participations et Investissements Mineraux, sediada em Luxemburgo, conforme relatório do Departamento de Capitais Estrangeiros e Câmbio do Banco Central. Essa empresa, conforme página do Journal Officiel du Grand Duché de Luxembourg, tem como administrador Leon A. Lhoist, o qual faz parte do Conselho executivo do Grupo Lhoist. • As únicas operações relevantes praticadas pela Cananga foram: a) a obtenção de empréstimo da empresa Participations et Investissements Mineraux, no valor de EUR 180.000; b) aquisição, em 2003, da Master Administração Técnica de Venda, dos direitos minerários da Extramil, que foram transferidos para a Lhoist do Brasil Ltda em 03/01/2004, por uma quantia muito semelhante ao valor daquele empréstimo; c) o pagamento dessa transferência de direitos, mediante o repasse de R$ 512.252,50 (apesar de referirse à liquidação de um Fl. 2305DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.306 5 direito creditório, a Cananga estranhamente registra a operação como “Vr. Ref. a empréstimo”); d) em 27/08/2004, a aquisição do controle acionário da Cananga pela Lhoist, por RS 100,00; e) a liquidação do empréstimo concedido pela empresa luxemburguesa, em 30.09.2004 (no histórico do razão a operação é descrita como “Vr. Ref. a pagto do empréstimo Lhoist”, em vez de se referir à mutuante; os recursos para a liquidação advieram, em grande parte, do pagamento da transferência dos direito minerários da Extramil, feito pela Lhoist na mesma data). • Em 17.12.2004, a Lhoist, já sendo a detentora do controle acionário da Belocal e da Cananga, aumenta o capital desta e o integraliza com as quotas daquela, de modo que ela passa a ser integralmente controlada pela Cananga. O capital da Cananga passa a R$456.557.006,00. • O ágio de R$ 332.698.559,00 é registrado a débito da conta 00082 – Ágios/Investimentos Mineração Belocal Ltda, tendo como descrição, na coluna histórico de seu livro razão “vr. Ref. a integralização de capital com Investimento na Mineração Belocal Ltda, parte ágio”, e, como contrapartida, o lançamento na conta capital realizado. • Em 31.12.2004 a Belocal incorpora a Cananga, voltando a ser uma controlada integral da Lhoist. Com a incorporação, o ágio que estava registrado na Cananga, relativo ao investimento na Belocal, foi lançado na escrituração da própria Belocal, a débito da conta “Ágio na Incorporação Cananga Participações” e partir de janeiro de 2005 passou a ser amortizado. • A investigação levada a efeito pela fiscalização, confirmou que esse ágio, amortizado pela Belocal, teve origem naquelas operações de reorganização societária, cuja finalidade era a obtenção de benefícios fiscais, mediante planejamento tributário indevido. Da inexistência de ágio a ser amortizado • O ágio foi gerado pela Lhoist, por ocasião do resgate das cem ações da Call, quando recebeu, como pagamento, a totalidade das quotas da Belocal. Essas quotas da Belocal foram transferidas pela Lhoist para a Cananga, por ocasião do aumento de seu capital, juntamente com o ágio, que já estava reconhecido. Quando a Belocal,que era, então, controlada da Cananga, é incorporada por esta, recebe seu próprio ágio nessa operação. • A origem do ágio, no entanto, é indevida, pois a operação a que se refere o contrato pelo qual a Lhoist cede suas ações da Call e recebe em troca a totalidade das quotas da Belocal caracterizase como permuta. Conforme o artigo 533 da Lei nº 10.406, de 2002 (Código Civil), às operações de permuta aplicamse as disposições pertinentes à compra e venda. Assim, é aplicável ao caso o artigo 426 do RIR 1999. Logo, a operação de resgate representou uma perda na alienação de investimentos pela Lhoist (332.698.659,00), que deveria ser reconhecido no resultado do exercício correspondente, e não ser novamente contabilizada como ágio. • A Cananga não pagou ágio na operação ocorrida em 17.12.2004 (fls. 78 a 89), pela qual houve a integralização de seu capital por parte da Lhoist. O custo de aquisição do investimento na Belocal foi de R$456.464.249,18, de acordo com o previsto no artigo 20 do Decretolei 1.598, de 1977, e com os registros contábeis da Lhoist, nas contas 00585 (Mineração Belocal R$ 114.856.441,00 e R$8.909.249,18, referente à equivalência patrimonial) e 00596 (Ágio sobre Investimentos Mineração Belocal (R$332.698.559,00 – fls. 348). O pagamento deuse por meio da emissão de novas quotas da Cananga, no valor exato do Fl. 2306DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.307 6 investimento adquirido, de acordo com os registros contábeis da Lhoist. • Isso se comprova pelos lançamentos contábeis na conta Capital Social Realizado, da Cananga, quando é aumentado o capital de R$ 100,00 para R$456.464.349,18, em virtude da integralização em causa, e do Protocolo de Incorporação e Justificação, no qual é discriminado o montante e o valor de cada quota da Cananga. Sendo o custo de aquisição das quotas da Belocal pela Cananga idêntico ao valor de patrimônio líquido do investimento adquirido, nos registros da Lhoist, não houve também nessa operação o surgimento de ágio, como definido no artigo 385 do RIR 1999. • Inexistindo ágio a ser contabilizado, não há valores relativos a sua amortização a serem deduzidos pela fiscalizada. Da inexistência de fundamentação econômica • Em 30.09.2004, em pagamento do resgate das cem ações da Call que havia adquirido trinta dias antes, a Lhoist recebe todas as quotas da Mineração Belocal, tornandose sua controladora direta. No entanto, a empresa somente registra na contabilidade esse investimento (e também o ágio) em 01.11.2004. • De acordo com o art. 20 do DecretoLei 1.598/77, esse registro deveria ter sido feito no momento da aquisição do investimento, e é também, no momento do lançamento deveria ser comprovado o fundamento econômico do ágio. • O documento que, de acordo com o § 3º do artigo 20 do Decretolei nº 1.598, de 1977, devia servir de base para o lançamento do ágio, foi elaborado mais de dois meses depois da data de celebração do contrato apresentado pela Lhoist. Portanto, esse documento não pode servir para o propósito desejado. • Talvez por esse motivo a Lhoist fez o lançamento contábil da aquisição do investimento somente em novembro. Tal procedimento mostrase infrutífero, pois fere o princípio contábil da oportunidade, previsto no art. 6º da Resolução CFC nº 750, de 1993. • Desrespeita também o disposto no mesmo artigo 20 do Decretolei 1.578, de 1977, que prevê que o desdobramento do custo de aquisição em valor de patrimônio líquido e ágio na aquisição deverá ser feito no momento de aquisição da participação. • Da combinação do disposto no caput do artigo 20 (obrigatoriedade de, na ocasião da aquisição do investimento, desdobrar custo de aquisição em valor de patrimônio líquido e ágio), com o seu § 3º (necessidade de que o lançamento do ágio cujo fundamento seja a rentabilidade futura seja baseado em documento que o comprove), concluise que, tanto na data da celebração do contrato de investimento (31.08.2004), quanto na data da celebração do contrato de desinvestimento (30.09.2004), não havia a comprovação do fundamento econômico do ágio pago. • O Relatório de Avaliação EconômicoFinanceira– Mineração Belocal Ltda foi elaborado com o único objetivo de adequar, extemporaneamente, o pagamento do ágio na aquisição do investimento, já ocorrido, à legislação tributária. Isto é expressamente afirmado nos seus itens 1.4, 1.5 e 1.6. • Concluise que o pagamento do ágio, ocorrido em 31.08.2004, não foi baseado em nenhum documento que comprovasse, no momento de sua ocorrência, sua fundamentação econômica. Portanto, por não se enquadrar nas disposições do artigo 7º da Lei nº 9.532, de 1997, ele não é amortizável. Da ausência de finalidade negocial • A Cananga, controladora da Belocal, que foi incorporada, é empresa veículo, Fl. 2307DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.308 7 cujo ágio não tem fundamento econômico, nos termos da alínea “a” do § 1º do art. 6º da Instrução CVM 319/99, com a redação dada pelo art. 1º da Instrução CVM 349/01. • Ficou demonstrado que não havia propósito negocial nem societário em proceder à subscrição de participação societária em empresa pertencente ao mesmo grupo econômico que, em curto espaço de tempo, foi incorporada por sua controlada. A caracterização da Cananga como empresa veículo, utilizada com a única finalidade de carrear os ágios contabilizados, é evidente. • Os procedimentos previstos na Instrução CVM 349 foram adotados pela Belocal na contabilização do ágio e sua respectiva provisão. Portanto, se o disposto na Instrução CVM 349/01 é exclusivo para os casos em que houve a utilização de empresa veículo, como esclarece a CVM através do OFÍCIO CIRCULAR/CVM/SNC/SEP nº 01/2007, e os procedimentos nela previstos foram adotados pela Belocal nos lançamentos contábeis relativos ao ágio e respectiva provisão, é inegável o papel de empresa veículo que a Cananga desempenhou. Da utilização de empresa de prateleira • A Cananga foi utilizada como empresa de prateleira, o que reforçou os indícios de ausência de finalidade negocial ou societária na operação. • A constituição da Cananga por duas empresas que tinham como sócios unicamente funcionários do escritório de advocacia que prestava serviços ao grupo Lhoist do Brasil, a sua inatividade por um ano inteiro e o perfil das alterações patrimoniais registradas por ela, resultantes unicamente de operações relacionadas ao grupo Lhoist, mesmo antes do registro contábil da aquisição de seu controle, caracterizam a Cananga como uma empresa de prateleira, controlada oficiosamente pelo grupo Lhoist a partir de 2003 e utilizada para operações internas do grupo, sem fundamento econômico que as justificasse. • Não havendo fundamento econômico para as operações, não há como admitir a amortização do ágio. A jurisprudência do Primeiro Conselho de Contribuintes (acórdão 10323290, datado de 05/12/2007) confirma a impossibilidade de aproveitamento de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, quando este se incorpora ao patrimônio da empresa por meio de incorporação sem nenhuma finalidade negocial ou societária. Da não caracterização de despesa dedutível • Nos termos do art. 299 do RIR 1999, são operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. A amortização de ágio realizada pela Belocal não é necessária à atividade da empresa, nem à manutenção da fonte produtora. Portanto, não é uma despesa dedutível. Por esse motivo, os valores referentes a essas amortizações foram adicionados ao lucro líquido apurado pela empresa, conforme determinado pelo artigo 249 do RIR 1999. Conclusão • Como foi constatada a continuação da amortização indevida de ágios, nos anos calendário 2010 e 2011, procedeuse à glosa desses valores, e o consequente lançamento dos créditos tributários respectivos. • São indevidas as despesas de amortização de ágio, uma vez que não foram satisfeitas as seguintes condições de dedutibilidade: a) demonstração do fundamento do ágio mediante documentação hábil e tempestiva; b) existência de Fl. 2308DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.309 8 substância econômica e propósito negocial nas operações de reorganização societária; c) independência entre si e possibilidade de livre negociação quanto a todas as pessoas jurídicas envolvidas na operação; d) ônus efetivo na aquisição do ágio para a pessoa jurídica que o registrar em sua contabilidade e cujo patrimônio for absorvido; e) reunião numa só pessoa jurídica do patrimônio que tiver sofrido o encargo do ágio e o patrimônio que presumivelmente gerará os lucros que justificaram o seu pagamento. • Em decorrência da glosa das despesas de amortização do ágio, os resultados mensais escriturados pelo contribuinte foram ajustados, ensejando o surgimento de estimativas devidas, e não recolhidas, de IRPJ e CSLL. Assim, nos termos da legislação em vigor, efetuouse o lançamento da multa isolada, pela falta de pagamento dessas estimativas. • Os valores informados em Dirf a título de IRRF foram deduzidos no auto de infração, tanto na apuração das estimativas como no ajuste anual. • Conforme extratos dos sistemas da RFB, fls 1.152 a 1.162, no lançamento anterior todos os prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL foram exauridos, não havendo compensações a fazer.” A contribuinte apresentou Impugnação (Efl. 1261 ss.), sustentando os seguintes pontos, novamente organizados pelo relatório da decisão da DRJ: “(…) Os fatos • A requerente é sociedade limitada que tem por objeto social, entre outros, a extração, beneficiamento e comercialização de produtos calcários. É contribuinte de diversos tributos, entre os quais o IRPJ e a CSLL, que são regularmente recolhidos aos cofres públicos nos prazos e formas previstos em lei. • Em 2004, a requerente foi objeto de uma série de operações societárias, graças às quais a totalidade do seu capital passou a ser detida pela Lhoist do Brasil Ltda (LDB). Subscrição das ações da Call pela LDB • Em 31.08.2004, conforme comprova a ata da Assembléia Geral Extraordinária da Call, essa sociedade emitiu novas ações ordinárias, representando 50% de seu capital social e 100% de seu capital votante, que foram subscritas e integralizadas em sua totalidade pela LDB ao preço de R$ 447.555.000,00. • Após a subscrição das ações, o patrimônio líquido da Call correspondia, aproximadamente, a R$562.411.441,00. Logo, o valor do ágio pago pela LDB pela aquisição de 50% do capital da Call correspondeu a aproximadamente R$166.349.279,50. • Entretanto, certa de que o investimento realizado pela LDB na Call representava, em essência, a aquisição da totalidade das quotas da requerente então detidas pela Call, a LDB, desde o início, registrou em sua contabilidade o ágio relativo ao investimento na Call pelo mesmo valor (R$332.698.559,00) que seria registrado na hipótese de a aquisição de participação no capital social da requerente tivesse sido realizada diretamente. Resgate de ações da Call • Em 30.09.2004, conforme a ata da Assembléia Geral Extraordinária da Call (doc. 5), esta promoveu o resgate de 100 ações ordinárias detidas pela LDB, que representavam 50% de seu capital social. O resgate foi realizado por meio da devolução de ativos de sua titularidade para LDB, conforme faculta a legislação. Fl. 2309DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.310 9 Esses ativos corresponderam à totalidade das quotas que a Call detinha na requerente. • As quotas foram entregues pelo seu valor contábil, conforme expressamente autorizado pelo artigo 22 da Lei nº 9.249, de 1995. O registro do investimento na requerente e a contabilização do ágio pela LDB • No momento em que recebeu as quotas da requerente como devolução de sua participação no capital social da Call, a LDB substituiu o investimento que detinha na Call pelo investimento que passou a deter na requerente, atribuindo lhe o preço (custo) inicialmente pago pelas ações da Call, conforme expressamente previsto no artigo 22, § 2º, da Lei nº 9.249, de1995. • Como a LDB passou a ser a sociedade controladora direta da requerente, ela estava legalmente obrigada a avaliar o investimento segundo o método da equivalência patrimonial, desdobrandose o seu valor total (R$447.555.000,00) em: a) patrimônio líquido da participação societária (R$114.856.441,00); b) ágio (R$ 332.698.559,00). Logo, a partir desse momento é que a LDB apurou o ágio em relação ao investimento detido na requerente. • O ágio registrado pela LDB em relação ao investimento na requerente comprova que a real intenção do grupo Lhoist sempre foi a de adquirir integralmente a requerente. • O fundamento econômico desse ágio era a expectativa de rentabilidade futura. O valor da expectativa de rentabilidade futura da requerente, de aproximadamente R$462.000.000,00, foi primeiramente calculado em estudo econômico financeiro preparado internamente pela LDB e seu controlador Lhoist S/A, sociedade constituída e existente de acordo com as leis da Bélgica. • Para que não restasse dúvida a respeito da qualidade do cálculo, em 16.08.2004, antes da aquisição das ações da Call e da requerente, a LDB solicitou à KPMG Corporate Finance Ltda a confirmação das projeções de resultados futuros, com o fim de obter sua validação para fins fiscais. • Em 12.11.2004, a KPMG emitiu o Relatório de Avaliação Econômico Financeira da Mineração Belocal Ltda (doc. 7), ratificando expressamente as premissas adotadas e o valor que a LDB tinha para a expectativa de rentabilidade futura da requerente. Aumento de capital da Cananga, integralizado com as quotas da requerente • Em 17.12.2004, o capital social da Cananga foi aumentado de R$100,00 para R$ 456.464.249,00, conforme alteração do contrato social realizada em 17.12.2004 (doc. 8). O aumento foi totalmente subscrito e integralizado pela LDB mediante a entrega da totalidade das quotas que a LDB tinha da requerente. Com isso, a Cananga passou a deter totalidade do capital social da requerente. • A transferência das quotas se deu pelo valor contábil, conforme consta da alteração contratual, o que foi atestado em laudo de avaliação datado de 17.12.2004 e emitido pela Deloitte Touche Tohmatsu Auditores Independentes (doc. 9). A incorporação da Cananga pela requerente • Em 31.12.2004 foram realizadas reuniões de quotistas da requerente e da Cananga (doc.10), por meio dos quais foi aprovada a incorporação da Cananga pela requerente, nos termos e condições estabelecidas no protocolo de incorporação, datado de 26.12.2004. A operação foi realizada pelo valor contábil e, nesse sentido, suportada por laudo de avaliação da Cananga preparado pela Deloitte Touche Tohmatsu Auditores Independentes em 27.12.2004. O tratamento fiscal do ágio registrado pela requerente após a incorporação da Fl. 2310DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.311 10 Cananga • No instante que antecedeu à incorporação, a Cananga detinha a totalidade das quotas da requerente, com o custo desdobrado em ágio e valor do patrimônio líquido. Esse ágio encontravase fundamentado na expectativa de rentabilidade futura da requerente, projetado com base em fluxo de caixa descontado preparado pela equipe financeira do grupo Lhoist, bem como suportado por laudo de avaliação emitido em 12.11.2004 por empresa especializada, de forma que a requerente passou a atender todas as condições exigidas pela legislação para que esse ágio pudesse ser tratado como despesa amortizável para fins fiscais. • Assim, a requerente passou a contabilizar esse ágio na conta de ativo diferido e a amortizálo como despesa operacional, à taxa média de 1/84, de modo que toda a amortização pudesse ser concluída em sete anos. Os autos de infração • A fiscalização adotou como premissa do lançamento que era inexistente o ágio reconhecido e amortizado pela requerente, e alega que não possuía nenhuma fundamentação econômica nem finalidade negocial. Logo, prossegue a fiscalização, a amortização fiscal do ágio corresponderia a despesas não necessárias, cuja dedução estaria limitada em face do disposto no artigo 299 do RIR 1999. Preliminar de nulidade: decadência • A exigência fiscal referese a tributos decorrentes de operações ocorridas no período base de 2004, de forma que toda ela está abrangida pela decadência. • Para os tributos sujeitos à modalidade de lançamento por homologação, como é o caso do IRPJ e da CSLL, o prazo decadencial é de cinco anos, contado da ocorrência do fato gerador, nos termos do artigo 150, § 4º, do CTN. • Os supostos fatos geradores das obrigações tributárias constantes desta exigência fiscal ocorreram ainda no ano calendário de 2004. Essa conclusão é muito clara, pois, uma vez ocorrida a incorporação da Cananga pela requerente no ano calendário de 2004 já nasce o direito de a sociedade sobrevivente amortizar o ágio no prazo previsto na legislação. Em abono do argumento, citamse precedentes atribuídos ao Carf. • Assim, o prazo para questionar os efeitos fiscais dessas operações expirou em 31.12.2009. Uma vez que a requerente foi cientificada do lançamento em 12.07.2013, está claro que o crédito tributário lançado se encontra alcançado pela decadência e deve ser cancelado. O direito à amortização do ágio • Dúvidas não existem na legislação brasileira de que toda vez que uma pessoa jurídica adquire participação societária em outra sociedade pagando ágio (com base em expectativa de rentabilidade futura), esse ágio poderá ser amortizado para fins fiscais no momento em que ocorrer a incorporação da sociedade que detenha a participação adquirida com ágio pela sociedade investida, ou vice versa (Lei 9.532, artigo 7º). • É justamente isso que ocorre no caso concreto. A LDB adquiriu junto ao grupo Votorantim, por meio de um negócio jurídico indireto, a totalidade do capital da requerente, efetuando o pagamento de R$ 447.555.000,00. Considerando o valor de patrimônio líquido da requerente equivalente a aproximadamente R$ 114 milhões, o investimento da LDB na requerente resultou no reconhecimento de um ágio no valor aproximado de R$ 333 milhões. Fl. 2311DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.312 11 • A aquisição da Belocal se deu por meio da adoção de uma estrutura que condicionava essa aquisição a um primeiro investimento na Call, sociedade holding cujo único ativo era representado pela totalidade do capital da requerente. • Essas estruturas de aquisição indireta de participações societárias são tão conhecidas pela fiscalização e pelo Carf que até ganharam um nome de referência: operação “casa e separa”. O Carf reconhece tais operações como uma compra e venda, por meio da qual o investidor (LDB) adquire a sociedade operacional (Belocal) da sociedade holding (Call) detida pelo vendedor. Tanto é assim que há uma série de decisões do Carf atribuindo os efeitos fiscais de uma operação de compra e venda à operação “casa e separa”. • Dessa forma, é indiscutível que a LDB adquiriu participação societária na requerente e reconheceu ágio em relação à referida aquisição. Este ágio é legítimo, no valor aproximado de R$ 333 milhões, pois foi gerado em uma operação entre partes independentes, mediante efetivo pagamento e realizada a valor de mercado. • Uma vez reconhecido o ágio pelo grupo Lhoist em relação ao seu investimento na Belocal, ágio esse devidamente justificado economicamente com base em perspectivas de rentabilidade futura, foram realizadas reorganizações societárias pelo grupo Lhoist que resultaram na combinação do ágio relativo à aquisição da Belocal (i.e., incorporação da Cananga pela Belocal) com os lucros da sociedade objeto da aquisição, ora requerente. • Assim, para que seja possível reconhecer a legitimidade da amortização fiscal do ágio, o que deve ser confirmado é se: a LDB adquiriu, ao final da estrutura, participação societária na Belocal; essa participação societária foi adquirida com ágio; o ágio está fundamentado com base na expectativa de rentabilidade futura da Belocal; houve a combinação do ágio relativo à aquisição do investimento com os lucros da sociedade objeto da aquisição; e a requerente tinha o direito de, após a incorporação da Cananga, amortizar o ágio gerado na sua aquisição pelo grupo Lhoist. Todas essas questões possuem respostas positivas. • Em abono da argumentação, destacamse os requisitos delineados pelo Relator Antônio José Praga de Souza, quando do julgamento do Acórdão 140200.802 (caso Santander), para os fins de reconhecer a legitimidade na amortização fiscal do ágio pelos contribuintes. • O Carf, ao julgar casos com fatos e circunstâncias substancialmente similares ao caso concreto, reconheceu a legitimidade da amortização fiscal do ágio levada a cabo pelo contribuinte no Acórdão 1301000.711 (caso Telemar) e no caso Santander. • Essas decisões do CARF, cujas ementas são transcritas na impugnação, reconheceram a validade da amortização fiscal do ágio em operação em que: a participação adquirida com ágio foi contribuída em aumento de capital de outra sociedade holding; e a sociedade holding foi, subsequentemente, incorporada pela sociedade investida (objeto da aquisição com ágio). Assim, questões como reconhecimento do ágio pela sociedade holding, fundamentação econômica do ágio, entre outras, já foram objeto de exame pelo CARF, que reconheceu a validade e legitimidade da amortização fiscal do ágio em operações análogas ao caso concreto. O reconhecimento de ágio pela LDB na aquisição de participação na Belocal • Como condição para a realização do negócio, a aquisição do investimento da LDB na Belocal foi precedida de um investimento da LDB na Call. Esse investimento foi consumado por meio da subscrição e integralização, pela LDB, Fl. 2312DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.313 12 de ações da Call no valor de R$447.555.000,00. • Um mês depois, houve o resgate da totalidade das ações da Call detidas pela LDB. Esse resgate de ações, conforme expressamente amparado pela legislação fiscal em vigor (artigo 22 da Lei 9.249/95), resultou na entrega à LDB de 100% das quotas da Belocal, avaliadas a valor contábil, detidas pela Call. • Com a implementação desses dois passos, ficou concretizada a aquisição da Belocal pela LDB. Considerando o preço de aquisição de R$ 447 milhões e o valor de patrimônio liquido da Belocal de R$ 114 milhões, o ágio reconhecido pela LDB em relação ao seu investimento na Belocal é de aproximadamente R$ 333 milhões. • Certa de que o investimento realizado pela LDB na Call representava, em sua essência, a aquisição da totalidade das quotas da requerente então detidas pela Call (Grupo Votorantim), a administração da LDB, desde o início, registrou em seus livros contábeis o ágio relativo ao investimento na Call pelo mesmo valor (R$ 332.698.559,00) que seria registrado na hipótese de a aquisição de participação de 100% no capital social da requerente ter sido realizada diretamente. • O artigo 22, § 2º, da Lei 9.249/95 determina que, quando uma pessoa jurídica (LDB) receber um bem ou direito (quotas da requerente) em devolução de sua participação no capital de uma dada sociedade (Call), este bem ou direito então recebido deverá ser obrigatoriamente registrado: (a) pelo mesmo valor contábil da participação societária (participação na Call) se a pessoa jurídica que estiver reduzindo o seu capital social (Call) tiver avaliado esse bem ou direito (quotas da requerente) pelo seu valor contábil; ou pelo valor de mercado do bem ou direito recebido (quotas da requerente) se a pessoa jurídica que estiver reduzindo o seu capital social (Call) tiver avaliado esse bem ou direito (quotas da requerente) pelo seu valor de mercado. • A Call resgatou as ações de titularidade da LDB e entregou a essa sociedade as quotas da requerente pelo seu valor contábil. Portanto, nesse momento, em obediência ao artigo 22, § 2º, da Lei 9.249/95, a LDB tinha a obrigação legal de contabilizar as quotas da requerente pelo mesmo valor contábil atribuído às ações que LDB detinha na Call antes da operação de resgate de ações ter sido realizada. • O dispositivo estabelece uma regra obrigatória para a pessoa jurídica que está recebendo o bem ou o direito, e não uma faculdade. Assim, não restava alternativa à LDB senão registrar as quotas da requerente recebidas como devolução do capital da Call pelo valor de R$447.555.000,00. • Segundo o artigo 426 do RIR/99, o valor contábil da participação societária avaliada pelo método da equivalência patrimonial deve considerar tanto o seu valor de patrimônio líquido, quanto o ágio registrado em relação a esse investimento. Portanto, a conclusão é que a LDB agiu corretamente ao atribuir à participação então recebida na requerente o mesmo custo do investimento anteriormente detido na Call, em razão da devolução de capital realizada. • Cumpre, aqui, mencionar, que a operação de resgate de ações da Call, mediante a entrega de quotas da Belocal à LDB, não se confunde com uma operação de permuta. Ora, a operação de resgate de ações nada mais é do que uma operação típica de devolução de capital ao acionista, estando tipificada na Lei das S.A. e, também, no próprio artigo 22 da Lei 9.249/95. Assim, fica comprovado ser infundada a alegação fiscal de que a operação consistiu em uma permuta de participações societárias. • Esse entendimento é corroborado pelo Parecer Técnico (doc. nº 12) do Professor Eliseu Martins, Livre Docente pela Faculdade de Economia, Fl. 2313DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.314 13 Administração e Contabilidade FEA/USP e ex diretor do Banco Central do Brasil, da Comissão de Valores Mobiliários e do Instituto Brasileiro dos Contadores IBRACON, bem como autor e coautor de diversos livros, entre os quais “Manual de Contabilidade das Sociedades por Ações (Aplicável às Demais Sociedades)”, “Contabilidade Introdutória”, e “Contabilidade de Custos”. • O propósito da LDB no negócio com o Grupo Votorantim consistia em adquirir a requerente pelo valor de R$ 447.555.000,00. A aquisição das ações da Call, em um primeiro momento, somente foi realizada pela LDB objetivando a negociação da requerente junto ao Grupo Votorantim. Este valor de R$ 447.555.000,00 era, portanto, o custo do investimento para a LDB na Call e, por força do artigo 22, § 2º da Lei 9.249/95, ele continuou a ser o custo do novo investimento que a LDB passou a deter na requerente. • Concluída a devolução de capital da Call, por meio do resgate total das ações detidas pela LDB, esta passou à condição de sociedade controladora da requerente. Desse modo, por força das disposições contidas nos artigos 384 e 385 do RIR/99, a LDB tinha a obrigação legal de avaliar esse investimento pelo método da equivalência patrimonial, ou seja, desdobrando o seu valor total em: valor de patrimônio líquido dessas quotas da requerente; e ágio ou deságio. • Nos termos do artigo 248 da Lei das S.A., os investimentos permanentes em sociedades coligadas ou controladas devem ser avaliados pelo método da equivalência patrimonial. Com a transferência das quotas da requerente para a LDB, por meio do resgate de ações da Call, a LDB passou a deter investimento relevante na requerente, de modo que a aplicação do método de equivalência patrimonial tornouse obrigatória. • Em consequência, a LDB aplicou o método da equivalência patrimonial ao investimento que passou a deter na requerente, na condição de sua sociedade controladora, de modo que, considerando o seu valor de patrimônio líquido aproximado de R$ 114 milhões, esse investimento foi registrado com um ágio de aproximadamente R$ 333 milhões. • Esse procedimento é corroborado pelo Acórdão de nº 10194.008 do Primeiro Conselho de Contribuintes, datado de 06.11.2002, bem como pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, no caso do Acórdão de nº 110100.064 – 1ª Câmara/1ª Turma Ordinária, datado de 13.05.2009. Esses precedentes confirmam o argumento da requerente, segundo o qual, a LDB agiu de acordo com a legislação fiscal em vigor quando substituiu a participação societária detida na Call pelo bem ou direito que recebeu (quotas da requerente) a título de devolução do capital da Call. • Portanto, fica afastada qualquer alegação fiscal de que o resgate de ações da Call, seguido da entrega da participação na requerente à LDB, resultou em uma perda para a LDB e na consequente baixa do ágio relativo ao seu investimento na Call/requerente. Esse entendimento é corroborado pelo parecer técnico elaborado pelo Professor Eliseu Martins. • Em suma: o reconhecimento do ágio pela LDB foi efetuado dentro das normas vigentes à época, não havendo nenhuma irregularidade contábil; não havia vedação nas normas contábeis e fiscais ao tratamento dado; e esse tratamento não era condenado por órgãos reguladores da profissão contábil (incluindo contadores que assinam as demonstrações financeiras e auditores independentes dessas demonstrações); ao contrário, tratavase de prática regulamentada e aceita. O reconhecimento de ágio pela Cananga em relação ao investimento na Belocal • A LDB pagou R$ 447.555.000,00 para adquirir as quotas da requerente até Fl. 2314DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.315 14 então detidas pelo Grupo Votorantim, valor que correspondia ao valor de mercado das quotas da requerente e que foi devidamente contabilizado pela LDB como custo de seu investimento nessa sociedade. Dessa forma, a contribuição das quotas da requerente em aumento de capital da Cananga foi feita pelo valor de R$ 447.555.000,00, ou seja, pelo mesmo valor contabilizado pela LDB relativamente a tal participação societária. • O valor contábil da participação na requerente incluía resultados positivos de equivalência patrimonial reconhecidos pela LDB durante o período em que a LDB registrou o seu investimento na requerente até o momento em que as quotas da requerente foram contribuídas em aumento de capital da Cananga. • Em consequência, por ter recebido (adquirido) a titularidade dessas quotas por um valor superior ao valor de patrimônio líquido da requerente, a Cananga foi obrigada a desdobrar, por força de expressa disposição legal, o custo de aquisição em valor de patrimônio líquido da requerente e ágio. • Do ponto de vista da Cananga, o recebimento das quotas da requerente como contribuição em aumento de seu capital social teve a natureza de uma verdadeira aquisição, para quaisquer fins de direito. • “Adquirir” é um comando verbal que exprime uma ação. A ação de adquirir um bem ou direito tem relação direta com a inclusão de um bem ou direito ao patrimônio de uma pessoa jurídica. Adquirir é, portanto, transferir para si a propriedade de um bem ou direito que até então pertencia a outrem. • A aquisição de um bem ou direito pode ocorrer de várias formas, entre elas, compra e venda, permuta, recebimento de doação, de contribuição em aumento de capital, de dação em pagamento etc. Todas essas formas implicam aquisição de propriedade para a pessoa que está recebendo o bem ou o direito transferido, a título oneroso ou gratuito. • Em relação a uma pessoa jurídica, portanto, está claro que a titularidade de um bem ou direito pode ser adquirida através do recebimento de um bem em contribuição em aumento de capital. Já se pronunciaram nesse sentido a própria Receita Federal do Brasil, o Carf e o Superior Tribunal de Justiça (Solução de Consulta nº 288/06 – 6ª Região Fiscal; Acórdão nº 10423.289, da antiga 4ª Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes; Recurso Especial nº 22.821/ PE; publicado no DJ de 31.8.1992). • No caso em exame, o que houve foi a efetiva transferência de titularidade das quotas da requerente, que antes eram detidas diretamente pela LDB e que, após a contribuição em aumento de capital, passaram a ser detidas diretamente pela Cananga. • Adquirir participação societária com ágio é uma questão factual e não uma questão interpretativa. Assim, se o custo de aquisição da participação que a Cananga passou então a deter na requerente for superior ao patrimônio líquido da requerente, como de fato o era, a Cananga tinha a obrigação legal de contabilizar essa diferença como ágio relativo ao investimento que passou a deter na requerente. Esse entendimento é corroborado peio parecer técnico elaborado pelo Professor Eliseu Martins. • O valor contábil do investimento detido pela LDB na requerente era superior ao valor do patrimônio líquido da requerente em nada menos que aproximadamente R$ 333 milhões. O custo de aquisição das quotas da requerente pela Cananga foi equivalente ao valor contábil do investimento detido pela LDB na requerente, no valor total de aproximadamente R$ 456 milhões. Com isso, está comprovado que o custo de aquisição do investimento pela Cananga (R$ 456 milhões) foi superior ao valor de patrimônio líquido da requerente (R$ 123 milhões), de forma que referida aquisição gerou um ágio de nada menos que R$ 333 milhões. Fl. 2315DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.316 15 • Tendo em vista que o ágio reconhecido pela Cananga em relação às quotas da Belocal está intrinsecamente relacionado à aquisição da requerente, a valor de mercado, pela LDB junto ao grupo Votorantim, não houve o reconhecimento de “ágio interno”, desprovido de qualquer legitimidade e fundamentação econômica pela Cananga. Pelo contrário, tratase de ágio originado de transação realizada a valor de mercado entre partes não vinculadas. A incorporação da Cananga e o tratamento fiscal do ágio artigo 386 do RIR/99 • A princípio, a amortização fiscal do ágio pela requerente está expressamente autorizada pelo artigo 386 do RIR/99 que, com base nos artigos 7º e 8º da Lei 9.532/97, estabeleceu que se a sociedade investida (requerente) proceder à incorporação da sociedade investidora(Cananga) e o investimento em questão estiver registrado com ágio fundamentado na expectativa de rentabilidade futura da sociedade investida (requerente), a sociedade resultante dessa incorporação (requerente) poderá amortizar o valor desse ágio nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados posteriormente à incorporação, à razão máxima mensal de um sessenta avos, ou seja, no prazo mínimo de cinco anos. • Após a contribuição do investimento detido com ágio pela LDB na requerente em aumento de capital da Cananga, esta sociedade passou a deter a totalidade das quotas da requerente. Está comprovado que esse investimento detido pela Cananga foi registrado com ágio, o qual era legítimo e tinha por fundamento econômico a expectativa de rentabilidade futura da requerente. • Assim, quando a requerente incorporou a Cananga em 31 de dezembro de 2004, a requerente passou a reunir todas as condições exigidas pelo artigo 386 do RIR/99 para a amortização fiscal desse ágio, o qual foi legitimamente gerado em uma operação de compra e venda realizada com parte não relacionada (Grupo Votorantim). • O fato de a requerente ter utilizado um prazo de sete anos para a amortização do ágio, em lugar dos cinco anos mínimos exigidos pela legislação, por si só, já constitui uma evidência de que a requerente jamais pretendeu obter qualquer vantagem fiscal indevida ou ilegal. Ao contrário, a sua conduta foi sempre pautada pelo conservadorismo e seriedade na adoção de seus procedimentos fiscais e contábeis. Fundamentação econômica do ágio laudo de avaliação • Conforme disposto no § 2º, inciso II e § 3º, do artigo 385 do RIR/99, a legislação fiscal exige que o ágio fundamentado na expectativa de rentabilidade futura da sociedade investida seja baseado em demonstração, que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração do ágio. • Em 31.08.2004, quando da aquisição indireta da Belocal, a LDB possuía estudos internos que estimavam o valor da expectativa de rentabilidade futura da requerente (doc. nº 6). • Esses estudos foram preparados pelo próprio grupo Lhoist para servir de base na definição do preço de aquisição do investimento na requerente então detido pelo Grupo Votorantim, como fim de permitir a análise da viabilidade do negócio que o grupo Lhoist pretendia fazer. Por meio desses estudos é que o grupo Lhoist compreendeu as premissas econômicas aplicáveis à requerente e definiu que o valor de mercado de referida sociedade correspondia à R$447.555.000,00. • Ora, levandose em consideração a magnitude dessa transação e da sofisticação do grupo Lhoist em operações de fusões e aquisições (o grupo está presente em diversos países, incluindo Bélgica, França, Reino Unido, Alemanha, Estados Fl. 2316DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.317 16 Unidos da América, Polônia, etc, tendo a sua entrada nesses mercados sido realizada, principalmente, por via de aquisições de participações societárias), seria leviano esperar que ele concordaria em pagar R$ 447 milhões pela requerente e, até mesmo, iniciar negociações com o grupo Votorantim, sem que estivesse suportado por estudos de viabilidade econômico financeira da requerente. • No entanto, para que não restasse qualquer dúvida a respeito dos estudos internos realizados pelo grupo Lhoist, a LDB solicitou também à KPMG, em 16.08.2004, portanto anteriormente à aquisição da Call e da requerente, a confirmação das projeções de resultados futuros da requerente, com o fim de obter a sua devida validação para fins fiscais. Como é de praxe na elaboração de tais laudos confirmatórios, o grupo Lhoist municiou a KPMG com seus estudos internos que suportavam o preço de aquisição pago pelo investimento na Belocal. Esse entendimento é corroborado por citação do Professor Luiz Eduardo Schoueri. • Em 12.11.2004, a KPMG emitiu o “Relatório de Avaliação Econômico Financeira da Mineração Belocal Ltda,” confirmando expressamente o preço de aquisição pago pela LDB pela participação na requerente com base nas expectativas de rentabilidade futura. • Não cabe, portanto, à fiscalização pretender lançar dúvidas sobre o cálculo dessa expectativa de rentabilidade futura da requerente, alegando que o laudo de avaliação que deu fundamento ao ágio tem data bem posterior à sua escrituração pela LDB, o que o tornaria dispensável e inidôneo para os fins de fundamentação do ágio pago pela LDB. • Ademais, o fato de esse estudo da KPMG ter sido emitido antes da conclusão da incorporação da Cananga pela requerente e, portanto, antes do início da amortização do ágio em questão, é de especial importância. Ainda que a fiscalização pudesse desconsiderar os estudos internos preparados pelo grupo Lhoist antes da escrituração do ágio pela LDB, o que se admite somente para fins de argumentação, os efeitos fiscais do lançamento desse ágio, com fundamento na rentabilidade futura da requerente, somente passaram a se materializar após a incorporação da Cananga. • A corroborar a legalidade do procedimento adotado pela requerente para os fins de amortização fiscal do ágio, cumpre mencionar que a própria legislação fiscal em vigor (artigo386, § 6º, I, do RIR/99, refletindo o disposto no artigo 8º, “a”, da Lei nº 9.532/97) estabelece que o direito à amortização fiscal do ágio é aplicável, inclusive, quando o investimento não for obrigatoriamente avaliado pelo valor de patrimônio líquido. • Na hipótese de um investimento não ser obrigatoriamente avaliado pelo valor de patrimônio líquido, o investidor não é obrigado a desdobrar, no momento da aquisição, o valor de seu investimento em valor patrimonial da participação adquirida; e ágio ou deságio gerado na aquisição. Nesse contexto, não há falar em necessidade de fundamentação do ágio com base nos critérios previstos na legislação fiscal em vigor. • Entretanto, na hipótese de a investidora incorporar a investida (ou vice versa), eventual ágio pago na aquisição de investimento não relevante também se torna dedutível, para fins fiscais, desde que os critérios para a fundamentação do ágio sejam observados (justificado com base em perspectiva de rentabilidade futura, etc). • Com isso, o momento efetivamente requerido pela legislação fiscal para que o contribuinte comprove a fundamentação do ágio na aquisição de participação societária é aquele imediatamente anterior à incorporação do investidor Fl. 2317DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.318 17 investida, uma vez que é justamente nesse momento que é concretizada a amortização fiscal do ágio. Esse entendimento é corroborado pelo parecer técnico elaborado pelo Professor Eliseu Martins. • Seguindo essa mesma linha de raciocínio, uma análise detida do artigo 385 do RIR/99 leva à conclusão de que, por ocasião da aquisição da participação societária, o contribuinte somente tem a obrigação de desdobrar o custo de aquisição em valor do patrimônio líquido à época da aquisição; e em ágio ou deságio. • Por outro lado, quando a legislação fiscal em vigor estabelece a necessidade de fundamentação econômica do ágio, esta não faz qualquer menção ao exato momento em que referida fundamentação deva ser cumprida pelo contribuinte. Há apenas uma referência genérica quanto à obrigatoriedade da justificação econômica do ágio e arquivamento da demonstração da escrituração pelo contribuinte (artigo 385, §§ 2º e 3º). • Assim, a legislação fiscal em vigor não estabelece de forma expressa que, para permitir a amortização fiscal do ágio, esse deve ser devidamente justificado, com documentação arquivada na escrituração contábil, no exato momento em que o contribuinte venha a efetuar o pagamento do preço ao vendedor. • Tendo em vista a complexidade de operações de compra e venda de empresas, escaparia a qualquer senso de razoabilidade condicionar a amortização fiscal do ágio ao arquivamento, no exato momento da aquisição, do comprovante de justificativa econômica do ágio. Até mesmo porque, como é sabido, há situações em que o próprio valor do ágio pode nem mesmo ser determinável no exato momento da aquisição, fato esse que se verifica quando o comprador e a empresa objeto da participação adquirida adotam critérios contábeis diferentes. • Nesses casos, após a sua aquisição pelo comprador, geralmente são feitos ajustes contábeis na empresa investida, com o propósito de alinhar os critérios contábeis entre as duas companhias. Esse procedimento pode resultar em uma redução no valor do patrimônio liquido da empresa investida, aumentando, assim, o valor do ágio pago pelo comprador em relação à participação adquirida. Negar legitimidade ao ágio, sob a argumentação de que ele não foi “cravado” no exato momento da aquisição, não é razoável e foge do espírito da legislação fiscal em vigor. • Considerando o modus operandi de transações de compra e venda de empresas e à falta de expressa disposição da legislação fiscal quanto ao exato momento em que o contribuinte deve arquivar em sua escrituração a fundamentação econômica do ágio, é razoável e não causa qualquer prejuízo ao fisco, que o contribuinte efetivamente tenha a fundamentação econômica do ágio arquivada em escrituração após a aquisição, mas em momento anterior ao seu aproveitamento fiscal, que somente ocorre quando da incorporação do comprador pelo investidor ou vice versa. • É indiscutível que a fundamentação econômica do ágio pago peio grupo Lhoist na aquisição da Belocal corresponde à expectativa de rentabilidade futura. Além de todos seus estudos internos utilizados ao longo da negociação, há laudo de avaliação preparado por avaliador independente, de primeira linha, que justifica o ágio com base nos lucros futuros. Essa demonstração sempre esteve arquivada pela requerente desde o primeiro momento em que esta sociedade esteve autorizada a amortizar fiscalmente o ágio nos termos da legislação fiscal em vigor. • Dessa forma, causa espanto à requerente a ânsia da fiscalização em tentar, a todo custo, desqualificar a fundamentação econômica (i.e., perspectiva de rentabilidade futura) de ágio legítimo, gerado entre partes não vinculadas, Fl. 2318DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.319 18 devidamente suportado por laudo de avaliação preparado por avaliador independente, de primeira linha. Substância Econômica e Propósito Negocial • A fiscalização alega que, por haver falta de substância econômica e de finalidade negocial na operação de reorganização societária realizada pelo grupo Lhoist no Brasil (envolvendo a LDB, Belocal e Cananga, sendo que esta última seria apenas uma empresa veículo), a requerente não faria jus à amortização fiscal do ágio. • Não há falar em utilização de empresa veículo, tampouco em ausência de finalidade negocial ou substância econômica na operação de reorganização societária levada a cabo pelo grupo Lhoist no Brasil. • A Cananga consistia, de fato, em uma empresa pertencente ao grupo Lhoist desde 2003, tendo sido utilizada pelo grupo para a realização de operações no mercado brasileiro, tal como a aquisição de direitos minerários da Extramil. • Não obstante, são infundadas alegações fiscais a respeito da finalidade da amortização fiscal do ágio trazida pela Lei 9.532/97, bem como da suposta previsão legal de que a amortização fiscal do ágio gerado em operação legítima, entre partes não vinculadas, estaria condicionada à existência de uma finalidade negocial ou a uma substância econômica na reorganização societária envolvendo a sociedade investidora e a sociedade investida. • Para que não restem dúvidas sobre a questão, a requerente transcreve diversos trechos do recente voto do Conselheiro Valmir Sandri, relator do Acórdão 1301000.711 3a Câmara, em decisão unânime e favorável aos interesses do contribuinte quanto à legitimidade da amortização fiscal do ágio em operações de reorganizações societárias envolvendo empresas veículo caso Telemar. Finalidade da Lei 9.532/97 benefício fiscal do ágio: • A finalidade do benefício fiscal de amortização do ágio previsto na Lei 9.532/97 está intrinsecamente associada à busca pelo fortalecimento da economia nacional por meio de investimentos em outras empresas e reorganizações societárias. • Essa finalidade, tal como explicada de forma pormenorizada no voto do caso Telemar (Acórdão 1301000.711), foi plenamente atendida no caso concreto, na medida em que resultou na aquisição, pelo grupo Lhoist, da Belocal, sociedade então detida pelo grupo Votorantim. Tal aquisição deu ensejo a novos investimentos no mercado de cal, contribuindo para o fortalecimento da economia brasileira. Absorção de patrimônio incorporação da Cananga pela Belocal • A incorporação da Cananga pela Belocal resultou na absorção, por essa sociedade, do ágio reconhecido pela Cananga em relação ao investimento na Belocal. Com isso, foi atendido o requisito previsto na legislação fiscal em vigor para os fins da amortização fiscal do ágio pela requerente, tal como é explicado de forma detalhada no voto do caso Telemar, em que é discutida situação análoga ao caso concreto, conforme passagem transcrita na impugnação. Esse entendimento é corroborado pelo jurista Ricardo Mariz de Oliveira, conforme passagem transcrita na impugnação. • Assim sendo, com a incorporação da Cananga pela Belocal, o ágio relativo à aquisição da Belocal foi absorvido por essa sociedade, dando efetivo e legítimo cumprimento ao requisito previsto na legislação fiscal em vigor para os fins da amortização fiscal do ágio pela requerente. Fl. 2319DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.320 19 Inexistência de prejuízo ao fisco finalidade negocial substância econômica • Por fim, a operação realizada pelo grupo Lhoist não causou nenhum prejuízo ao fisco, nem resultou na obtenção de qualquer vantagem fiscal indevida. • A própria legislação fiscal em vigor (Lei 9.532/97) induz a adoção de reorganizações societárias pelos contribuintes com o propósito de possibilitar a amortização fiscal do ágio gerado na aquisição de participações societárias. A vantagem fiscal de amortização do ágio está prevista na legislação e o pressuposto para o seu aproveitamento é que o ágio gerado seja legítimo, resultante de uma operação entre partes não vinculadas. • Não há falar, portanto, em ilicitude quando a causa do negócio jurídico (aquisição de participação societária e reconhecimento do ágio) é legítima, não relacionada à obtenção de vantagens fiscais. Motivações fiscais posteriores à causa do negócio jurídico (i.e., incorporação de empresa veículo) para dar cumprimento à vantagem fiscal prevista na legislação também não são ilícitas, devendo ser plenamente respeitadas. Confirase, nesse sentido, voto do Conselheiro Valmir Sandri no caso Telemar (Acórdão 1301000.711), cujo trecho se transcreve na impugnação. • Em seu voto no caso Santander (Acórdão 140200.802), cujo trecho se transcreve na impugnação, o Conselheiro Antônio José Praga de Souza corrobora o mesmo entendimento. • Ilustra esse raciocínio o fato de que, além de a reorganização societária realizada pela requerente (i.e., investimento na requerente é contribuído pela LDB em aumento de capital da Cananga, seguido da incorporação da Cananga pela requerente) não ter causado qualquer prejuízo ao fisco, aquela em nada diferiria de uma estrutura alternativa de reestruturação em que a LDB, ainda na qualidade de investidora da requerente, fosse incorporada pela sua investida (requerente) e, ato contínuo, o grupo Lhoist tivesse contribuído a requerente em aumento de capital de uma nova sociedade brasileira, que serviria como a nova sociedade holding do grupo no Brasil. • Não restam dúvidas de que, caso a LDB tivesse sido diretamente incorporada pela requerente, o ágio originalmente registrado pela LDB seria passível de amortização, para fins fiscais, pela requerente. Também não restam dúvidas que seria válida e legal a constituição de uma nova sociedade holding pelo grupo Lhoist no Brasil, fato esse que não comprometeria a amortização fiscal do ágio pela requerente. • Ademais, a reestruturação societária realizada pelo grupo Lhoist tem propósito negocial, uma vez era de seu interesse manter atividades minerárias (extração, propriedade das minas) no nível da Belocal, enquanto as atividades da LDB são de industrialização por encomenda em um contrato de longo prazo específico, estratégia empresarial que perdura até os dias de hoje. • Está comprovado, portanto, que a reestruturação societária realizada pelo grupo Lhoist é legítima, tendo sido originada de causa lícita (aquisição da Belocal e reconhecimento de ágio em operação com terceiro independente) e induzida pela própria legislação fiscal que regula a amortização fiscal do ágio em operações de aquisição de participações societárias. Motivações fiscais posteriores à causa do negócio jurídico (i.e., incorporação da Cananga e estratégia empresarial de segregação de atividades minerárias e de industrialização por encomenda) para dar cumprimento à vantagem fiscal de amortização do ágio prevista na legislação também não são ilícitas ou abusivas, devendo ser plenamente respeitadas. Atos normativos da CVM indicados pela fiscalização Fl. 2320DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.321 20 • Não obstante todos os esclarecimentos trazidos acima pela requerente, por meio dos quais ficou comprovado que os normativos da CVM invocados pela fiscalização não contestam a existência de fundamentação econômica de ágio reconhecido em operações de incorporações reversas, cumpre frisar que tais normativos, a Instrução CVM 319/99, a Instrução CVM 349/99 e o OFÍCIO CIRCULAR/CVM/SNC/SEP nº 01/2007, têm como propósito trazer orientações de mero cunho contábil para as companhias abertas, e não são capazes de produzir quaisquer efeitos fiscais. • A CVM não tem competência para legislar sobre matéria tributária. Logo, a legislação fiscal deve, obrigatoriamente, prevalecer sobre qualquer normativo emitido pela CVM (incluindo regras que versem sobre a amortização fiscal do ágio), sob pena de ilegalidade. • Esse foi o mesmo entendimento que prevaleceu em recente julgamento do Carf, proferido no acórdão nº 110100.354. O caso, julgado em 2 de setembro de 2010, tratou exatamente da questão dos possíveis efeitos tributários advindos dos normativos emitidos pela CVM. Ao julgar o mérito dessa questão, o Relator, acertadamente, deixou claro que, para fins tributários (inclusive, para fins de amortização fiscal de ágio), os normativos da CVM não devem ser levados em consideração. • Há ainda outro recente julgamento do CARF nesse mesmo sentido, proferido no acórdão nº140200.342, em que o órgão julgador colocou em evidência a inaplicabilidade dos instrumentos normativos da CVM para fins tributários. • Por essa razão, os atos normativos da CVM não podem ser utilizados pela fiscalização para alegar, de forma claramente equivocada, que o ágio gerado pela requerente não possui justificativa econômica e que a Cananga seria apenas uma empresa veículo. A CSLL • Os argumentos expostos são também aplicáveis à cobrança da CSLL, já que a base legal para a parcela dos autos de infração referentes à CSLL é a mesma do IRPJ, ou seja, o artigo 22da Lei 9.249/95. • Foi demonstrada a total improcedência da autuação relativamente ao IRPJ, tornandose também improcedente a exigência relativa à CSLL, cabendo a plena restituição das bases negativas dessa contribuição para os períodos subsequentes. A multa e os juros • É totalmente improcedente a exigência de multa, seja ela punitiva ou isolada, pois os tributos questionados não são devidos. Ainda assim, os autos de infração visam cobrar tanto valores a título de multa punitiva quanto de multa isolada. • As autoridades fiscais autuantes extrapolaram os limites previstos na Lei 9.430/96 ao exigira dupla cobrança de multa, que ser imediatamente cancelada. Tal é o entendimento da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), conforme ementa transcrita na impugnação. • Não cabe a cobrança de multa isolada por falta de recolhimento de tributo por estimativa concomitante com a multa de lançamento de ofício, ambas calculadas sobre os mesmos valores apurados em procedimento fiscal, • Mesmo que as multas aplicadas a titulo de falta de pagamento mensais por estimativa fossem de fato exigíveis, elas nem sequer poderiam ser cobradas da requerente porque o ordenamento jurídico tributário atual veda a exigência de estimativa após o encerramento do anobase. Abonase o argumento com a citação de precedente atribuído à Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) do Carf. • No que se refere aos juros de mora a jurisprudência tem reconhecido a Fl. 2321DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.322 21 inaplicabilidade da taxa Selic aos créditos tributários, uma vez que essa taxa não foi criada por lei para fins tributários, conforme decisão proferida pelo STJ, nos autos do Recurso Especial nº450.422/PR. • Após a lavratura dos autos de infração, as multas de ofício passam a ser mensalmente atualizadas com base na taxa de juros Selic. Essa atualização não é realizada com amparo na lei, mas com base no Parecer MF nº. 28, de 2.4.1998, emitido pela Coordenação Geral do Sistema de Tributação. Tal Parecer usa como base o artigo 61 da Lei nº. 9.430/1996. Contudo,tal dispositivo trata tão somente da incidência de juros sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, sem mencionar as multas de ofício aplicadas pela RFB. • A CSRF no julgamento do Recurso de Divergência nº. 202131351, reconheceu, no âmbito federal, a ilegalidade da incidência dos juros moratórios (seja a Taxa SELIC ou o percentual de1% ao mês) sobre a multa de ofício. A conclusão e o pedido • A amortização fiscal do ágio pela requerente atende, em sua forma e essência, as disposições previstas na legislação fiscal em vigor. O ágio foi reconhecido pelo grupo Lhoist (LDB), quando da aquisição da Belocal do grupo Votorantim, por meio da realização de um negócio jurídico indireto, amplamente reconhecido pela fiscalização e pelo Carf como “operação casa e separa” (i.e, investimento inicial da LDB na Call, seguido de resgate das ações da Call detidas pela LDB mediante o recebimento da totalidade do capital da Belocal). • Assim, na medida em que o objetivo do grupo Lhoist sempre foi o de aquisição da Belocal são atribuídos às operações de “casa e separa” os mesmos efeitos fiscais aplicáveis a operações de compra e venda; e o preço de aquisição pago pela LDB pela participação na Belocal foi substancialmente superior ao valor do patrimônio líquido dessa sociedade, o ágio de aproximadamente R$ 333 milhões reconhecido pela LDB em relação ao seu investimento na Belocal é legítimo e é passível de amortização para fins fiscais. • No caso concreto, a formação do ágio é lícita, real, resultante de uma operação realizada entre partes não vinculadas (grupo Lhoist e grupo Votorantim). O ágio está fundamentado economicamente com base na expectativa de rentabilidade futura da Belocal, tal como suportado por estudos internos do grupo Lhoist e laudo confirmatório elaborado pela KPMG, cuja emissão é anterior à data do aproveitamento fiscal do ágio pela requerente. • A contribuição da participação detida pela LDB na Belocal em aumento de capital da Cananga foi feita a valor contábil, à época equivalente ao valor de mercado da participação. Com isso, o ágio relativo ao investimento na Belocal, legítimo e originado de transação entre partes não vinculadas, passou a ser reconhecido pela Cananga. Não se trata de ágio interno. • A amortização fiscal do ágio pela Belocal passou a ser realizada com base na expectativa de rentabilidade futura dessa sociedade, tal como suportado por laudo de avaliação preparado pela KPMG. Não há admitir a existência de incorreções ou falhas no laudo que invalidem ou tornem ilegítima a amortização fiscal do ágio pela requerente. • A reestruturação societária realizada pelo grupo Lhoist é legítima, e originouse de causa lícita (aquisição da Belocal e reconhecimento de ágio em operação com terceiro independente,bem como para permitir a simplificação da estrutura societária do grupo Lhoist no Brasil com a manutenção de atividades de industrialização por encomenda e minerárias de forma independente) e induzida pela própria legislação fiscal que regula a amortização fiscal do ágio em operações de aquisição de participações societárias. Motivações fiscais Fl. 2322DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.323 22 posteriores à causado negócio jurídico (i.e., incorporação da Cananga) para dar cumprimento à vantagem fiscal de amortização do ágio prevista na legislação também não são ilícitas nem abusivas, devendo ser plenamente respeitadas, tal como atestam as decisões do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Acórdão 1301000.71133Câmara /Ia Turma Ordinária e Acórdão nº 140200.802 4^Câmara / 2a Turma Ordinária). • Pelo exposto, e tendo em vista as preliminares de nulidade e pelas razões de fato e de direito acima mencionadas, a requerente tem por comprovada a total improcedência do auto de infração, bem como da decisão de primeira instância administrativa que manteve integralmente a exação em tela. • Diante do exposto, a requerente requer seja dado integral provimento à impugnação para que seja cancelada a exigência fiscal. • Por fim, requerseque seja assegurada a produção de provas por todos os meios em direito admitidos, em especial pela posterior juntada de novos documentos, em respeito ao princípio da verdade material.” Como documento anexo à impugnação, conforme informado ao longo da peça, a recorrente juntou parecer do Ilustre Professor Eliseu Martins (Efls. 1455 ss.), no qual se propôs a responder os seguintes quesitos: Fl. 2323DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.324 23 Na sequência, a Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Belo Horizonte proferiu o acórdão n. 0253607 (Efl. 1482 ss.), por unanimidade de votos, julgando improcedente a impugnação, para indeferir o pedido de produção posterior de provas e rejeitar a arguição de decadência e, quanto ao mérito, manter integralmente a exigência de IRPJ e CSLL, com o acréscimo da multa proporcional e dos juros de mora respectivos, assim como da multa isolada pela falta ou insuficiência do pagamento de antecipações mensais por estimativa, sob a ementa abaixo: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário:2010, 2011 ÁGIO FUNDAMENTADO EM EXPECTATIVA DE RESULTADOS FUTUROS DEDUTIBILIDADE DA AMORTIZAÇÃO A pessoa jurídica que, em virtude de incorporação reversa, absorver patrimônio de sua controlada, a qual tinha desdobrado o valor da participação em seu capital em valor patrimonial e em ágio fundamentado em expectativa de resultados futuros, somente poderá deduzir a despesa com a amortização desse ágio se observadas as seguintes condições:demonstração do fundamento do ágio mediante documentação hábil e tempestiva; existência de substância econômica e propósito negocial nas operações de reorganização societária; independência entre si e possibilidade de livre negociação quanto a todas as pessoas jurídicas envolvidas na operação; ônus efetivo na aquisição do ágio para a pessoa jurídica que o registrar em sua contabilidade e cujo patrimônio for absorvido; reunião numa só pessoa jurídica do patrimônio que tiver sofrido o encargo do ágio e patrimônio que presumivelmente gerará os lucros que justificaram o seu pagamento. FALTA DE PAGAMENTO DE ANTECIPAÇÃO MENSAL Verificada a falta de pagamento de antecipação mensal por estimativa cabe exigir a multa isolada, que incidirá sobre o valor não recolhido. LANÇAMENTO DECORRENTE CSLL Fl. 2324DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.325 24 O decidido para o lançamento de IRPJ estendese ao lançamento que com ele compartilha o mesmo fundamento factual e para os quais não há nenhuma razão de ordem jurídica que lhe recomende tratamento diverso. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido” Em face da referida decisão, a contribuinte interpôs recurso voluntário (Efls. 1560 ss.), basicamente no mesmo sentido de sua impugnação administrativa. A Fazenda Nacional, por seu turno, apresentou contrarrazões (Efls. 1636 ss.) ao recurso voluntário, apresentando os argumentos transcritos: “Do ágio A recorrente admite que a aquisição da Belocal ‘se deu por meio da adoção de uma estrutura que condicionava referida aquisição a um primeiro investimento na Call, sociedade holding cujo único ativo era representado pela totalidade do capital da recorrente (Belocal)’. Ainda que por meio tortuoso, por meio da operação conhecida como ‘casa separa’, a recorrente entende ser indiscutível que a Lhoist adquiriu participação societária na recorrente com ágio. Este ágio foi gerado entre partes independents (Grupo Lhoist e Votorantim). Argumenta que segundo o artigo 22 da Lei 9.249/95, os bens e direitos do ativo da pessoa jurídica, que forem entregues ao titular ou a sócio ou acionista a título de devolução de sua participação no capital social, serão avaliados pelo valor contábil da participação, se assim estiver avaliado pela pessoa jurídica que esteja devolvendo capital. Diz que o valor de R$ 447.555.000,00 era o custo do investimento da Lhoist na Call e, por força desse artigo, ele continuou a ser o custo do novo investimento que a Lhoist passou a deter na Belocal. Por força do disposto nos artigos 384 e 385 do RIR/99, a Lhoist era obrigada a avaliar esse investimento pelo método da equivalência patrimonial, desdobrando o valor da investida em patrimônio líquido e ágio. Quando a Lhoist resolveu fazer o investimento na Cananga, deu as quotas da Belocal em aumento de capital naquela empresa pelo valor pelo qual elas estavam contabilizadas, ou seja, também por R$ 447.555.000,00. Em consequência, por ter recebido as quotas da Belocal por um valor superior ao do seu patrimônio líquido, a Cananga também desdobrou o custo de aquisição em patrimônio líquido e ágio. Argumenta que o valor do investimento da Lhoist na Cananga (ou seja, a Belocal) é o mesmo valor pago pela Lhoist ao grupo Votorantim para a aquisição da Belocal.‘E nem poderia ser diferente,’ diz, ‘pois a contribuição da Belocal em aumento de capital da Cananga ocorreu apenas 3 meses após a aquisição da recorrente pela LDB’. Diz que, não obstante o laudo da auditoria independente ter sido posterior à aquisição da Belocal, este valor foi apurado em estudos internos anteriores a essa operação. Seus argumentos, entretanto, não merecem prevalecer. De início, é de se salientar que tão somente o fato de que o ágio registrado com base em expectativa de rentabilidade futura sem a comprovação dessa expectativa em um laudo anterior à transação já seria suficiente para implicar na indedutibilidade desse ágio. Com efeito, o grupo empresarial do qual a recorrente faz parte não observou um das condições necessárias à dedução futura da amortização do ágio, qual seja: Fl. 2325DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.326 25 a existência de laudo prévio que ateste o fundamento econômico do ágio na rentabilidade futura do investimento que foi adquirido. Muito embora o ágio aqui questionado tenha surgido de uma operação que ocorreu no dia 31/08/2004, o laudo que atesta o seu fundamento econômico n a rentabilidade futura foi elaborado somente em 12/11/2004. No que se refere à exigência de prévio laudo econômico à criação do ágio, o artigo385 do RIR/99, o qual repete o disposto no DecretoLei nº 1.598/1977, prevê que o ágio pago na aquisição de uma participação societária deverá ter fundamento econômico demonstrado por documento escrito, o qual deverá ser arquivado como comprovante da escrituração. Ou seja, ao reconhecer contabilmente o ágio, a empresa que o suportou deverá indicar o documento que embasou o seu fundamento econômico. Em face dessa exigência legal, transcrita no diploma infralegal, temse então que, antes de pagar um ágio na aquisição de determinada participação societária, deve a empresa que o irá pagar, caso pretenda, no futuro, deduzir esse ágio na incorporação que envolva esse investimento, elaborar um laudo econômico que ateste que a “mais valia” que será paga decorre da rentabilidade futura da participação societária que será adquirida. O laudo, assim, deve anteceder o pagamento do ágio. Sem laudo prévio, como o contribuinte poderá embasar o fundamento da “mais valia” por ele paga? Portanto, a anterioridade do laudo econômico não é expressamente prevista em lei, porém decorre de uma estrutura lógica posta a sua materialização. Ademais, ela pode ser facilmente deduzida do artigo 20 do Decreto nº 1.598, de 1977 que fixa claramente o momento em que se deve desdobrar o custo de aquisição em valor de patrimônio líquido e em ágio ou deságio: por ocasião da aquisição da participação. Se a lei exige que o ágio pago seja fundamentado em documento escrito, o qual deve ser, inclusive, registrado na escrituração da empresa, por certo que esse documento deve ser elaborado antes do pagamento do ágio, nunca depois. Pensarem sentido contrário, além de ser um disparate hermenêutico, implicaria na permissão de inimagináveis situações de fraude. Como já dito anteriormente, o fato de o laudo ter sido elaborado posteriormente ao efetivo pagamento do ágio afasta qualquer vínculo entre esse documento e a “mais valia” paga. A recorrente alega que antes do laudo da KPMG, ela possuía estudos internos que suportavam o ágio. Contudo, por um imperativo lógico, o laudo que atesta o fundamento econômico do ágio deve ser elaborado por empresa independente, já que a adquirente tem interesse direto nessa avaliação. Ainda que a transação avaliada tenha se dado entre partes não vinculadas, isso não elimina a possibilidade de que haja distorções na avaliação do ágio feita sem independência. Por exemplo, a forma de aquisição da Belocal, mediante casa separa sem apuração de ganho de capital pela alienante, certamente teve influência na definição do preço praticado. Diversas podem ser as motivações pelas quais o adquirente decide pagar mais do que o valor patrimonial de uma participação, mas a lei concede tratamento fiscal privilegiado apenas a um dos possíveis fundamentos do ágio: o valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros, cujas subsequentes amortizações são dedutíveis no caso de incorporação, cisão ou fusão. Já quanto ao ágio pago em razão do valor de Mercado de bens pertencentes à investida, no caso dos mesmos eventos societários, permitese apenas que sejam incorporados ao custo dos bens para efeito de cálculo de ganho ou perda de capital na hipótese de baixa, ou das Fl. 2326DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.327 26 despesas regulares em virtude de depreciação, exaustão ou amortização. Por fim, se o fundamento do ágio for a existência de comércio, intangíveis e outras razões econômicas, não se permite a dedução de nenhum valor sob nenhum título. Tal disparidade de tratamento,torna indispensável que a escrituração do ágio seja amparada por documento hábil e idôneo, do contrário, devese presumir que o ágio foi pago em virtude de outras razões econômicas e não permitir a dedução de nenhum valor a título de amortização, nem muito menos a título de despesas decorrentes do uso ou da obsolescência. Portanto, é de se reconhecer que o ágio pago pela Lhoist na aquisição da participação societária na Call não pode ser utilizado para fins de dedutibilidade fiscal, por não atender ao disposto nos artigos 20 do DL 1598/77 e 7º da Lei9.532/97. Não obstante, as razões para a manutenção do auto de infração e da indedutibilidade do ágio no presente caso não param por aí. Como já mencionado pelo julgador de piso, “o artigo 22 da Lei nº 9.249, de 1995, ao permitir que a operação seja contabilizada e tributada, para efeito de apurar ganho de capital, de acordo com o valor contábil, (...). A sociedade que entrega o bem avaliado pelo valor contábil em troca da participação deixa de tributar ganho de capital, se o seu valor de mercado é superior, ou de deduzir perda, se é inferior. Já na pessoa jurídica que recebe bem e o registra pelo valor contábil da participação, e não pelo valor contábil do bem conforme registrado na contabilidade da pessoa jurídica de que se retira, tampouco poderá registrar como perda nem ganho a diferença entre os dois valores. Há, portanto, uma certa equivalência entre as perdas de um e os ganhos da outra, mas o que importa salientar é que, excepcionalmente, o legislador se desinteressa pelos valores reais efetivamente praticados nas operações realizadas pelas partes. Os valores apurados por esse método não refletem o custo de aquisição, no caso do sócio retirante, nem o preço de alienação, no caso da sociedade de que se retira. Não se comprovando que correspondem aos valores efetivamente praticados na operação, os números constantes da escrituração fiscal não podem ser levados em conta para efeito de apurar eventual direito de amortização do ágio em questão. Este deve basearse no custo efetivo de aquisição da participação em confronto com o seu valor patrimonial.” O ágio cuja amortização gera despesa dedutível na hipótese prevista pelo artigo 7º da Lei nº 9.532, de 1997, é aquele correspondente ao ônus efetivo arcado por quem adquirir a participação societária e deve levar em conta os valores realmente negociados. Esse ágio não é algo que se pode transferir. Ele deve ser produto de cada negócio ou operação pela qual a participação acionária se incorpora ao patrimônio da pessoa jurídica investidora. Neste sentido, ainda que se admitisse tempestivo o laudo de avaliação da Belocal produzido pela KPMG, ele não leva em consideração que o que o grupo Lhoist adquiriu com ágio foi 50% do capital da Call. Ele não adquiriu, diretamente, a Belocal. Apenas relembrando os fatos, a Lhoist adquiriu do Grupo Votorantim participação acionária na Call, mediante a subscrição de novas quotas de capital em 31/08/2004, que foram integralizadas em dinheiro. Somente um mês depois, é que a Lhoist assumiu a titularidade direta da participação na Belocal, em consequência de sua retirada da condição de sócio da Call e do recebimento, em troca da participação, das quotas da Belocal. Portanto, antes de mais nada, deveria haver uma demonstração dos fundamentos econômicos do ágio da primeira operação ocorrida em 31/08/2004. Essa demonstração não existe, e o Relatório de Avaliação parte de uma Fl. 2327DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.328 27 premissa equivocada, pois conforme enunciado no seu objetivo declarado, destinarseia a fundamentar o ágio pago numa transação realizada em 31/08/2004 entre a Votorantim Cimentos do Brasil e a Lhoist do Brasil Ltda pela qual esta teria adquirido, com um ágio de R$ 332.699.000,00 as quotas da Belocal. Ou seja, a única operação societária na qual existiu um efetivo desembolso negociação entre partes independentes não está devidamente amparada pelas demonstrações exigidas na Lei. A partir dessa operação, todos os demais atos societários, inclusive a retirada da Lhoist da sociedade na Call, se deram sob seu exclusivo controle (a Lhoist detinha 100% do capital votante da Call). Ademais, ainda que se admitisse válido o laudo (intempestivo) de avaliação da Belocal produzido pela KPMG para a Lhoist, é descabido que a Cananga dele se valha para fundamentar o ágio na sua “aquisição” de quotas da Belocal (que não realidade não é uma simples aquisição, mas sim a subscrição de capital com bens, operação sujeita a requisitos próprios). Sobre isso, é de se transcrever as considerações da DRJ: Esse argumento, porém, é infundado, pois ele pressupõe que o Relatório de Avaliação elaborado para fundamentar o ágio pago pela Lhoist não se sabe se n a aquisição das quotas da Call ou da Belocal (essa incerteza decorre da própria imprecisão do documento) pudesse ser aproveitado pela Cananga para registrar com ágio as quotas da Belocal que acabaram vindo a integrar o seu ativo permanente em decorrência de terem sido entregues pela Lhoist na integralização dum aumento de capital. Não se trata apenas de um aspecto meramente formal. Quanto aos requisito intrínsecos ou extrínsecos desse documento, sua forma ou conteúdo, o § 3º do artigo 20 do Decretolei nº 1.598, de 1977, não traz nenhuma disposição expressa. Daí que se deve concluir que sua forma é livre. Isso não significa, porém, que o fisco está obrigado a aceitar qualquer demonstração ou que esta não precisa se fundar em critérios coerentes e sólidos. (...) Primeiramente, convém ressalvar que, embora a Lhoist do Brasil, a Mineração Belocal e a Cananga Participações tenham sido todas constituídas como sociedades limitadas, o contrato social de todas elas, sem exceção, valendose da faculdade conferida pelo parágrafo único do artigo 1.053 do Código Civil de 2002, prevê a regência supletiva da sociedade limitada pelas normas da sociedade anônima. Logo, as normas citadas devem ser observadas no caso de aumento de capital mediante subscrição de novas ações para a realização em bens, nos dizeres do § 3º do artigo 170 supra. Daí se segue também que o Relatório de Avaliação elaborado pela KPMG, destinado expressamente a outro fim (fundamentar o ágio pago na aquisição da Belocal pela Lhoist) e sem ter observado todas as formalidades prescritas pela Lei nº 6.404, de 1976, não serve para demonstrar a fundamentação do ágio registrado pela Cananga como parte do valor do investimento na Belocal. Em vez de novo documento que demonstrasse o valor de rentabilidade da controlada adquirida, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros, por ocasião do aumento do capital da Cananga, as partes envolvidas limitaramse a elaborar o laudo de avaliação juntado pela impugnante a folhas1.439 e 1.440. Esse laudo, de apenas duas páginas, não trata de estimar o valor da Belocal com base na projeção de seus resultados futuros, mas simplesmente descreve qual o valor contábil, em 30.11.2004, da participação Fl. 2328DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.329 28 societária nela detida pela Lhoist, com base nos registros contábeis desta. A necessidade de um novo relatório de avaliação para legitimar a dedução da amortização do ágio fundamentado na expectativa de resultados futuros não é ditada apenas pela circunstância de que, em se tratando de subscrição de novas ações cuja integralização se faz com a entrega de bens, formalidades mais rigorosas devem ser observadas. Essa necessidade decorre também da própria natureza dos relatórios de avaliação. Examinandose o documentado preparado pela firma de auditoria independente KPMG, verificase que o método empregado na avaliação consiste, em essência, em projetar para o futuro, as condições observadas no presente ou no passado próximo, ajustadas, em parte, pela experiência acumulada até então e pelo possível reflexo de circunstâncias já conhecidas. Por exemplo, se a taxa de crescimento do produto interno bruto se situou nos últimos três anos, em torno de 3%, presumese que uma taxa próxima dessa prevalecerá nos anos vindouros. Há, portanto, um elevado grau de incerteza nessas previsões, sobretudo em virtude de, amiúde, os acontecimentos tomarem um rumo inesperado. O passado recente tem sido pródigo de situações que ilustram essa característica da realidade. Até setembro de 2008 viviase um momento de euforia na economia mundial. De uma maneira generalizada, os indicadores econômicos de quase todas as nações de maior peso eram positivos e apontavam para um futuro brilhante. Sucedeu, então, a quebra do banco de investimentos norteamericano Lehman Brothers, e o mundo mergulhou numa grave crise financeira, que por pouco não repetiu a Grande Depressão dos anos de 1930. Principalmente nos países mais desenvolvidos, houve significativa redução dos níveis de produção e aumento brutal do desemprego. O preço das matériasprimas, de que o Brasil é grande exportador, em questão de semanas reduziuse a menos da metade do que se observava antes. Apenas uns poucos economistas, em geral desacreditados e ridicularizados como cassandras ou profetas do caos, alertavam que havia desequilíbrios financeiros e econômicos de que pudessem resultar semelhante convulsão. E o que dizer dos grandes desastres naturais, tais como terremotos, vulcões e enchentes cuja escala ninguém consegue prever e que podem igualmente desorganizar toda a atividade econômica não só de uma região como também de um país inteiro. Em suma, o relatório sólido e coerente numa determinada ocasião pode tornar se ultrapassado num curto período de tempo subsequente. Além disso, por mais que seja abalizada e bem fundamentada a avaliação da rentabilidade futura de uma empresa, pagar ágio com base nela é sempre uma aposta no futuro, isto é, assunção de riscos. E a aptidão e a inclinação para o risco difere de uma empresa para a outra. Não é verossímil, portanto, que uma empresa cuja decisão seja tomada de maneira autônoma e tendo em vista os próprios interesses, aceite de empréstimo o laudo de avaliação elaborado por encomenda de outra. Isso só ocorre nas hipóteses em que, como no presente caso, uma empresa é totalmente controlada pela outra. Mas aí, ainda que o laudo cumpra todas as formalidades e requisitos legais, a dedução da amortização do ágio não é permitida por uma razão ainda mais relevante, que é exatamente a própria condição de dependência de uma empresa pela outra, conforme se demonstra mais adiante. Por conseguinte, por falta de cumprimento satisfatório da demonstração exigida pelo § 3º do artigo 20 do Decreto nº 1.598, de 1977, não se admite que a despesa com a amortização do ágio registrado pela Cananga pudesse ser deduzida na apuração do resultado tributável da Belocal. Também não merecem prosperar os argumentos da recorrente sobre a Fl. 2329DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.330 29 legitimidade do ágio pelo simples fato de que foi gerado em operação entre empresas independentes, e que os efeitos ficais que ela pretende seriam exatamente os mesmos se a Belocal tivesse incorporado a Lhoist diretamente. Como já mencionado, o ágio gerado entre partes independentes foi apenas o da aquisição das cotas da Call. Todas as demais operações se deram no interior do Grupo Lhoist e todo ágio “transferido” a partir de então deve ser considerado como “ágio interno”. A independência entre as partes é aspecto crucial para que se possa reconhecer efeitos tributários ao ágio gerado em virtude de reorganizações societárias. O ágio surge quando o preço pago pela aquisição de uma participação societária é maior que o seu valor patrimonial. Se durante a negociação para a aquisição não é possível que haja barganha verdadeira entre as partes em igualdade de condições, sem preponderância de uma sobre a outra, o ágio resultante não terá legitimidade nem sua amortização poderá receber tratamento fiscal favorecido. No presente caso, se a Cananga fosse empresa independente da Lhoist não há razões para supor que aceitaria, sem questionamento, que as ações da Belocal, entregues para integralização de seu aumento de capital valessem o mesmo valor que lhe foi atribuído pela Lhoist. Assim, há que se considerar que não houve efetivo pagamento de ágio na operação pela qual houve aumento de capital da Cananga e sua integralização mediante entrega das quotas da Belocal, sobretudo quando se tem em mente que o valor das quotas da Belocal, nessa última ocasião, não foi estabelecido por partes independentes entre si. Logo, a reunião da Cananga e da Belocal não cumpriu os objetivos da lei. Em verdade, após a incorporação, o quadro assumiu a mesma configuração que havia antes da breve participação da Cananga nesses episódios. A Lhoist assumiu novamente a condição de proprietária de 100% das quotas da Belocal. Aliás, a forma como a Cananga foi utilizada o tempo todo pelo Grupo Lhoist atesta a completa inexistência de propósito negocial nas operações de reestruturação societária que se seguiram à aquisição das quotas da Call. Senão vejamos. A recorrente argumenta que a reorganização societária promovida visava uma simplificação societária do grupo no país. No entanto, a presença da Cananga nessa estrutura, a aquisição do seu controle por 100 reais, o aumento de capital e a subsequente extinção por incorporação, não denota nenhuma pretensão de simplificação societária. Afinal, muito mais simples era que essa empresa, que nunca teve praticamente nenhuma atividade operacional, sequer tivesse sido adquirida em primeiro plano. Está claro que ela não passou de uma empresaveículo com vistas unicamente a possibilitar a amortização do ágio. Como revelado no relatório fiscal, a Cananga era uma empresa de prateleira constituída em 2002 por funcionários da firma de advogados que presta serviços para o grupo Lhoist. Seu capital social era de apenas R$100,00, e não viria a ser integralizado até que a Lhoist assumisse ostensivamente a condição de controladora. E esse capital só foi aumentado e integralizado em 17/12/2004, 13 dias antes de que fosse extinta. Desde a sua constituição até a sua extinção, em virtude da incorporação pela Belocal, a Cananga não realizou nenhuma atividade produtiva. As escassas operações patrimoniais significativas que realizou foram todas vinculadas a empresas do grupo Lhoist ou a ele ligadas, no Brasil ou no exterior, e consistiram em: empréstimo contraído em setembro de 2003, no valor de 180.000 euros, concedido por empresa estrangeira ligada à Lhoist; aquisição em 2003 dos direitos minerários da Extramil, presumivelmente com os recursos Fl. 2330DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.331 30 do empréstimo (não consta que os tenha explorado); alienação dos mesmos direitos minerários para a Lhoist, em janeiro de 2004; pagamento do empréstimo contraído, presumivelmente com os recursos obtidos com a alienação dos direitos minerários. Afora isso, há apenas o aumento do capital, de R$ 100,00 para R$ 456.557.006,00, mediante emissão de novas quotas subscritas pela Lhoist e integralizadas com a entrega da participação da Belocal, e a sua incorporação por esta. Em outras palavras, a Cananga nunca foi operacional e nas poucas atividades registradas ao longo de sua existência foi utilizada apenas como intermediadora dos interesses do Grupo Lhoist, inclusive operando com recursos obtidos dele. Está claro que a capitalização mediante a entrega das quotas visou apenas permitir que a Belocal incorporasse ao seu patrimônio o ágio supostamente “pago” pela Cananga na sua aquisição. Enfim, deixando de lado o ganho fiscal decorrente da amortização do ágio, não fazia nenhum sentido aumentar o capital da Cananga para, apenas 13 dias depois, a extinguir mediante incorporação, com todos os custos inerentes a essas operações. Cumpre informar, por relevante, que este egrégio CARF já julgou processo administrativo relativo a exatamente os mesmos fatos aqui discutidos, em face da mesma autuada, porém relativo aos períodos de apuração compreendidos entre 2006 e 2008. Tratase do acórdão 1301001.309 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, cuja ementa restou vazada nos seguintes termos: (…) Destarte, seja pela falta de um laudo válido e prévio que atestasse o fundamento econômico do ágio na aquisição de quotas da Call; seja pelo fato de que não houve pagamento de ágio algum na “aquisição” da Belocal pela Cananga; seja pela falta de propósito negocial e substância econômica nas reestruturações societárias promovidas pelo Grupo Lhoist no Brasil, é de se manter a glosa realizada pela autoridade fiscal.” A Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção de Julgamento, porém, negou provimento ao recurso voluntário, como revela a ementa do acórdão n.1402002.124 (Efls. 1675 ss.): “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010, 2011 DESPESAS COM AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. UTILIZAÇÃO DE EMPRESA VEÍCULO. Não há como aceitar a dedução do ágio com utilização de empresa veículo, quando o procedimento do sujeito passivo não se reveste de propósito negocial mas revela objetivo exclusivamente tributário. INSUFICIÊNCIA NO RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. MULTA ISOLADA. A partir das alterações no art. 44, da Lei nº 9.430/96, trazidas pela MP nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, em função de expressa previsão legal deve ser aplicada a multa isolada sobre os pagamentos que deixaram de ser realizados concernentes ao imposto de renda a título de estimativa, seja qual for o resultado apurado no ajuste final do período de apuração e independentemente da imputação da multa de ofício exigida em conjunto com o tributo. MULTA DE OFÍCIO. JUROS DE MORA. Fl. 2331DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.332 31 Cabe a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício com base na taxa SELIC, nos termos do nos termos do art. 61, caput e § 3º, da Lei nº 9.430/96. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, negar provimento recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Frederico Augusto Gomes de Alencar e Demetrius Nichele Macei que votaram por dar provimento parcial ao recurso para cancelar a exigência da multa isolada. LEONARDO DE ANDRADE COUTO Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Frederico Augusto Gomes de Alencar, Paulo Mateus Ciccone, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto.” Em face do referido acórdão, primeiramente, a contribuinte opôs embargos de declaração (Efls. 1722 ss.) (i) alegando omissão do acórdão recorrido quanto à (i.i) aplicação do art. 22 da Lei nº 9.249/95, cujas disposições teriam sido indevidamente afastadas para que o resgate de ações da CALL fosse equiparado a uma permuta; e (i.ii) ausência de exame do laudo produzido pela KPMG e dos estudos internos realizados pelo grupo Lhoist; (iii) suscitando questão superveniente relacionadas à publicação da MP 627/13 e Lei n. 12.973/14, com suas regras específicas referentes ao laudo; e (iv) sustentando que a decisão foi contraditória e omissa em relação à incidência da multa isolada, pois não teria levado em consideração a existência da Súmula n. 105. Os embargos foram rejeitados por despacho (Efls. 1734 ss.) que inadmitiu as alegações da contribuinte, entendendo que a decisão recorrida haveria se pronunciado sobre todos os temas ditos omissos na referida peça. A contribuinte então interpôs recurso especial (Efls. 1747 ss.), trazendo como temas divergentes, com os respectivos paradigmas, a (i) violação ao disposto no artigo 24 da Lei n. 11.457/07, requerendo a decadência do lançamento ou, ao menos, a interrupção de juros moratórios (acórdãos paradigma: precedentes proferidos no âmbito dos Tribunais Regionais Federais e do Superior Tribunal de Justiça; (ii) constatação de que o uso de empresa veículo não permitiria a necessária confusão patrimonial entre a sociedade adquirida e a real adquirente do investimento (acórdãos n. 1201001.267 e 1102000.982); (iii) desqualificação da documentação apresentada para justificar economicamente o ágio na aquisição do investimento (acórdãos n. 1301001.505 e 1102001.018); (iv) concomitância entre multas isolada e de ofício (acórdãos n. 1102001.315e1102001.018); e (v) aplicação de juros de mora sobre a multa de ofício (acórdão n. 1202001.257 e 1202001.109). Ao Recurso Especial interposto pela contribuinte foi dado parcial seguimento por despacho de admissibilidade (Efls. 2243 ss.) que compreendeu demonstrada as divergências quanto a todas as matérias indicadas, com exceção do primeiro ponto quanto à violação ao disposto no artigo 24 da Lei 11.457/07: decadência do Fl. 2332DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.333 32 lançamento e/ou interrupção de juros moratórios, porque não apresentados acórdãos paradigmas de outra câmara, turma de câmara, turma especial ou da própria CSRF. Por sua vez, a Fazenda Nacional ofereceu contrarrazões (Efls. 2255 ss.), combatendo todos os pontos apresentados pela contribuinte em seu recurso, primeiramente reproduzindo o que sustentado em suas contrarrazões ao recurso voluntário quanto à impossibilidade de amortização de ágio, seja pela falta de um laudo válido e prévio que atestasse o seu fundamento econômico na aquisição de quotas da Call, seja pelo fato de que não teria havido pagamento de ágio algum na “aquisição” da Belocal pela Cananga, ou mesmo pela falta de propósito negocial e substância econômica nas reestruturações societárias, colacionando o acórdão n. 1301001.309, que julgou os mesmo fatos, relacionados a outro período de apuração. Afora isso, defendeu a possibilidade de concomitância entre as multas de ofício e isolada pela falta de recolhimento de estimativas e incidência dos juros de mora sobre a primeira delas. Finalmente, registrase a presença de dois despachos de encaminhamento, um deles no sentido de que não haveria valores passíveis de cobrança, uma vez que, não obstante tenha sido negada a admissibilidade do recurso no que se referia a decadência, as matérias reconhecidas divergentes teriam o condão de reformar ou anular o lançamento em sua totalidade (Efls. 2299 ss.), enquanto o segundo atestando a não interposição de agravo pela contribuinte (Efls. 2300 ss.). Passase, então, à apreciação do recurso. Voto Vencido Conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio Relatora Conhecimento do Recurso Especial O conhecimento do Recurso Especial condicionase ao preenchimento de requisitos enumerados pelo artigo 67 do Regimento Interno deste Conselho, que exigem analiticamente a demonstração, no prazo regulamentar do recurso de 15 dias, de (1) existência de interpretação divergente dada à legislação tributária por diferentes câmaras, turma de câmaras, turma especial ou a própria CSRF; (2) legislação interpretada de forma divergente; (3) prequestionamento da matéria, com indicação precisa das peças processuais; (4) duas decisões divergentes por matéria, sendo considerados apenas os dois primeiros paradigmas no caso de apresentação de um número maior, descartandose os demais; (5) pontos específicos dos paradigmas que divirjam daqueles presentes no acórdão Fl. 2333DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.334 33 recorrido; além da (6) juntada de cópia do inteiro teor dos acórdãos indicados como paradigmas, da publicação em que tenha sido divulgado ou de publicação de até 2 ementas, impressas diretamente do sítio do CARF ou do Diário Oficial da União quando retirados da internet, podendo tais ementas, alternativamente, serem reproduzidas no corpo do recurso, desde que na sua integralidade. Observase que a norma ainda determina a imprestabilidade do acórdão utilizado como paradigma que, (1) na data da admissibilidade do recurso especial, contrarie (i) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal (art. 103A da Constituição Federal); (ii) decisão judicial transitada em julgado (arts. 543B e 543C do Código de Processo Civil; (iii) Súmula ou Resolução do Pleno do CARF; ou (2) de sua interposição, tenha sido reformado na matéria que aproveitaria ao recorrente. No caso concreto, entendendose preenchidos tais requisitos, nos termos do despacho de admissibilidade, votase por CONHECER o Recurso Especial. Mérito Coerentemente com a análise de conhecimento procedida, devolvese a este colegiado o julgamento (i) da tempestividade do laudo de avaliação, (ii) possibilidade de utilização de empresa veículo, (iii) concomitância entre multas isolada e de ofício, bem como (iv) incidência de juros sobre esta penalidade, temas sobre os quais se passará a manifestar na sequência, pontualmente. I. Inexistência de previsão legal quanto ao prazo do laudo de avaliação Como se infere do termo de verificação fiscal, a glosa do ágio decorreu do entendimento de sua inexistência, diante da ausência de fundamentação econômica, uma vez que o laudo de avaliação teria sido produzido dois meses depois da celebração do contrato, e falta de razão negocial, em face do uso de empresa veículo e empresa de prateleira, bem como da não caracterização de despesa dedutível nos termos do artigo 299 do Decreto n. 3.000/99. Seguindose a ordem posta pela autuação para a glosa do ágio, vêse que o seu primeiro motivo foi a inexistência do ágio em decorrência do afastamento do laudo de avaliação como prova do seu fundamento econômico, sob a justificativa de haver sido emitido posteriormente ao momento da operação, precisamente, dois meses depois – salientandose não haver questionamento quanto ao seu conteúdo. Fl. 2334DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.335 34 Com efeito, o regramento jurídico vigente à época dos fatos analisados, além de não estabelecer um forma específica de prova de tal fundamento, tampouco fixou prazo para a elaboração da demonstração a ser arquivada pelo contribuinte como prova da escrituração do ágio, como se pode observar da redação que possuía o artigo 20, parágrafo 3o., do DecretoLei n. 1.598/77, transcrita a seguir: “Art. 20. (...) § 2º. O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: (...) b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; (...) § 3º. O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º. deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. (...)” Ainda que se entenda que se possa laborar interpretação no sentido de que, fazendo uma integração com o caput do dispositivo, esse arquivamento deveria ocorrer no lançamento do ágio, previsão específica nesse sentido veio somente e justamente com a mudança de redação procedida no texto do dispositivo pela Lei n. 12.973/2014, que passou expressamente a exigir a elaboração específica de laudo por perito independente como meio de prova e determinou a forma e o prazo para a sua elaboração. Leiase: “Art. 20. (...) § 3º. O valor de que trata o inciso II do caput deverá ser baseado em laudo elaborado por perito independente que deverá ser protocolado na Secretaria da Receita Federal do Brasil ou cujo sumário deverá ser registrado em Cartório de Registro de Títulos e Documentos, até o último dia útil do 13º (décimo terceiro) mês subsequente ao da aquisição da participação. (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (...)” Pensase, assim, que ainda que se queira buscar dar uma interpretação no sentido de que haveria um momento determinado para a apresentação da prova – relembrandose a ausência de obrigação de elaboração do laudo especificamente –, muito mais forte é a circunstância de que o legislador viu a necessidade de prever o meio de prova e suas condições formais e temporais de apresentação, o que não é possível compreender como explicitação de uma regra já existente, mas sim, e portanto, como uma nova norma que se quis inserir no ordenamento, que como tal não se aplica a fatos anteriores. Não fosse suficiente – e inclusive impeditiva da exigência em questão – a ausência de previsão legal da elaboração do laudo de avaliação e do momento da apresentação da prova, observase que mesmo a redação atual do dispositivo não exige que o laudo esteja concluído no instante do fechamento da operação de aquisição do investimento com ágio, mas estabelece um prazo de 13 meses a contar da data da aquisição Fl. 2335DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.336 35 da participação societária. Isso demonstra não haver razão que sustente a razoabilidade da manutenção do crédito tributário, nos presentes autos, por motivo da conclusão do laudo de avaliação dois meses depois da operação. E assim o é, não só pela busca na nova lei de um parâmetro para demarcação de um prazo – para o que se reitera não haver previsão legal –, como também pelo motivo que se acredita respaldar o estabelecimento pelo legislador de um intervalo que não fosse tão ínfimo como imaginado pelo acórdão recorrido. E assim o é justamente em função da dinâmica negocial que envolve inúmeras tratativas, determinação de valores e complexas providências com o fechamento da operação, de modo que a conclusão específica do laudo que não ocorra exatamente antes do seu fechamento não representa intempestividade, a meu ver, continuase podendo dizer contemporâneo aos atos societários, sobretudo porque um documento como esse não é produzido instantaneamente, de modo que um laudo concluído dois meses depois, provavelmente já vinha sendo elaborado com mais antecedência. Afinal, muito embora o laudo deva possuir confiabilidade suficiente a credenciálo como meio de prova do fundamento econômico do ágio a fim de sustentar a sua quantificação, fato é que a valoração é algo que possui aspecto de subjetividade e podem ocorrer variações inclusive após a sua conclusão, daí porque entendo também não ser determinante o seu arquivamento antes do fechamento da operação. Registrase que, no caso concreto, sustenta a contribuinte que o laudo foi entregue antes do aproveitamento do ágio e que já havia estudo emitido anteriormente ao fechamento do contrato, que inclusive foi utilizado na elaboração do laudo. Indose além, ainda que assim não fosse, se o objetivo do laudo é a demonstração do fundamento econômico do ágio, também não vejo problema em ser produzido posteriormente à operação, desde que avalie a situação que o justificou ao seu tempo e considerandose as circunstâncias que formavam o contexto da negociação. Me parece, aliás, que essa é a função de laudos de diferentes natureza, inclusive. Não vejo que seja ele que definirá, necessariamente, o valor do negócio, mas a convenção entre as partes. Nesse sentido exposto, concordase com a orientação seguida pelo acórdão n. 1202001.438, no qual se analisava um laudo apresentado seis meses depois, do que se retira o seguinte trecho: “O demonstrativo, no caso em tela, fora veiculado por meio do Relatório de Avaliação, apresentado cerca de seis meses após a aquisição da participação. Restou claro que, em nenhum momento a fiscalização questionou o conteúdo deste relatório, não apontando nenhuma falha técnica que dissesse respeito ao mérito e as conclusões ali expostas. Fl. 2336DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.337 36 Assim, cabe adentrar nas questões formais, novamente, para esclarecer que além de não haver previsão legal para a confecção de laudo técnico, inexistia à época da formação do ágio, qualquer dispositivo no pátrio ordenamento jurídico que determinasse algum prazo para apresentação deste demonstrativo. Atualmente vigora a Lei nº 12.973/2014, que dispõe em seu art. 20, § 3º, sobre a exigência de um laudo elaborado por perito independente, no entanto, se referindo a comprovação da “mais ou menosvalia, que corresponde à diferença entre o valor justo dos ativos líquidos da investida, na proporção da porcentagem da participação adquirida, e o valor de que trata o inciso I do caput” (inciso II) e de forma alguma fazendo menção à comprovação do ágio (no presente artigo elencado no inciso III). Desta forma o prazo que estipula referido artigo, do ‘(...) último dia útil do 13º (décimo terceiro) mês subsequente ao da aquisição da participação.” Para apresentação do laudo, não se aplica à apresentação de demonstrativo que comprove o ágio por expectativa de rentabilidade futura.’ (...) Superando a questão, segue passagem do acórdão nº 1101000.899 (Sessão de 11/06/2013): (...) Este comprovante deve expressar razões que justifiquem a aquisição, mas não precisa ser, necessariamente, elaborado antes ou concomitantemente com a operação. (...) E, no presente caso, o laudo apresentado pela contribuinte toma por referência o faturamento da empresa adquirida contemporâneo à aquisição, e aponta o retorno dos investimentos suplementares em 2,9 anos (35 meses) (fl. 302). Ou seja, se considerada a rentabilidade futura pelo prazo de 5 anos, seria possível um pagamento maior que o efetuado. (Acórdão nº 1201001.438 – 1ª Turma da 2ª Câmara da 1ª Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – Rel. Luís Fabiano Alves Penteado – Sessão de 07 de junho de 2016 – Grifos nossos – Doc. 03)” Por essas razões, entendese que o laudo de avaliação concluído dois meses depois do fechamento da operação, mas a ela se referindo, não pode servir de justificativa para a manutenção da autuação. II. Utilização de empresa veículo Como visto no relato sobre a acusação fiscal, a glosa foi fundamentada, em segundo lugar, na ausência de propósito negocial da operação pelo uso de empresa veículo e de prateleira. No entanto, como já se posicionou por diversas vezes no presente colegiado, entendese que o seu uso, por si só, não seria capaz de invalidar automaticamente a operação, ainda que diante do argumento de transferência de um ágio registrado no contexto da operação societária. Se de um lado não se entende que a questão se resuma meramente à existência ou não de previsão legislativa para o propósito negocial, indose além para se buscar a causa do negócio jurídico, de outro também não se compreende que, havendo consistência – como se reconheceu no caso concreto, por exemplo, com a aquisição de direitos minerários – podese invalidála por se tratar de empresa veículo. Fl. 2337DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.338 37 O mesmo se diga com relação ao uso da chamada “empresa de prateleira”, que isoladamente não poderia ser aceito, não em razão de sua préexistência em nome de terceiros, mas da falta de substância atribuída à pessoa jurídica. No presente caso, porém, compreendeuse que o fato de se aproveitar CNPJs previamente constituídos não poderia ser considerado isoladamente como razão para inquinar a operação, se demonstrado que passou a ter causa jurídica o seu uso posteriormente. Não se entendeu haver prova suficiente de que o CNPJ já haveria sido criado com a única finalidade de se praticar uma operação ilícita ou inoponível ao fisco, porque nesse caso se teria que infirmar os argumentos de sua inconsistência e, como se observa no processo, não foram alegados vícios eivados de ilicitudes, o que foi confirmado pela ausência de imputação de penalidade por essa razão. Por fim, uma vez preenchidos os requisitos para a formação do ágio, também não vejo limitação legal para a sua transferência, como já me manifestei no acórdão n. 9101003.145, no qual também adotei as razões do acórdão n. 9101002.892 sobre o tema da transferência do ágio, as quais já acompanhei em julgamento neste colegiado, produzidas em voto da Conselheira Cristiane Silva Costa: “Diante disso, tratarei no presente voto da possibilidade de surgimento de ágio com a utilização de holding de investimento, denominada informalmente de “empresa veículo”. O lançamento tributário e o acórdão recorrido tratam da interpretação dos artigos artigo 7º e 8º, da Lei nº 9.532/1997. Lembro o teor do artigo 7º, da Lei nº 9.532/1997: (...) E a previsão do artigo 8º, da Lei nº 9.532/1997, verbis: (...) Em comentários aos citados dispositivos legais, Marcos Vinicius Neder e Lavínia Moraes de Almeida Nogueira Junqueira tratam da possibilidade de holding e incorporação reversa, sem prejuízo do reconhecimento do ágio dedutível: A Lei nº 9.532/1997 expressamente veio a permitir a dedução do ágio, no caso da “incorporação reversa”, algo que não estava claro na legislação anterior. Ou seja, o ágio passou a ser dedutível também no momento em que a investida incorpora a investidora. Tratase, claramente, da incorporação da investidora direta. Essa permissão expressa que autoriza deduzir o ágio na “incorporação reversa” teve como objetivo estimular o interesse da iniciativa privada na Fl. 2338DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.339 38 aquisição de participação societária em empresas públicas em fase de privatização. (...)” A Lei não proibiu o aproveitamento do ágio no caso de incorporação de empresas holdings, constituídas pelos controladores indiretos com o propósito de adquirir, consolidar e gerir a participação na empresa investida. Não apenas isso não foi proibido como foi expressamente autorizado, na medida em que a Lei permitiu a dedução do ágio no caso da incorporação reversa pela empresa investida na empresa que nela detém a participação acionária e estimulou os processos de privatização (...) A norma tributária, ao conceder o incentivo tributário de aproveitamento do ágio na Lei 9.532/1997, não fez restrição ao uso de holdings, muito pelo contrário as incentivou, como comentamos anteriormente, inclusive ao permitir a dedução do ágio na incorporação reversa. Assim, a mera existência da Instrução CVM 349/2001, que dispõe sobre o tratamento contábil do ágio na incorporação reversa de holdings em empresas de capital aberto, e a existência dos procedimentos contábeis nela sugeridos não afetam em nada a possibilidade de dedução do ágio na incorporação reversa da holding. (...) A Lei não restringiu a apuração ou a dedução fiscal de ágio quando a empresa incorporada, adquirente do investimento, fosse empresa pura de holding, ou quando a empresa tivesse recebido recursos de seu sócio ou acionista em aumento de capital, ou ainda quando tivesse recebido a participação acionária em subscrição de ações de sua emissão. Logo, o tratamento de todas essas hipóteses, quando da incorporação reversa da holding Y, é alcançado, de forma equivalente, pela Lei” (Análise do Tratamento Contábil e Fiscal do Ágio em Estrutura de Aquisição ou Titularidade de Sociedades quanto há a Interposição de Holding, in Controvérsias Jurídico Contábeis, 4ª Volume, São Paulo, Dialética, 2013, fls. 161, 162 e 179). Destaco ainda voto vencido do acórdão recorrido, apresentado pelo ex Conselheiro Benedicto Celso Benício Júnior: Considerando o detalhamento dos fatos e do direito feito por meio do relatório, principalmente quanto à diagramação das operações societárias ocorridas permitome ir direto ao ponto nevrálgico que permeou o presente lançamento, qual seja, a utilização de operações societárias sucessivas que culminaram na passagem de ágio anteriormente constituído na empresa ACCOR Participações S/A (ACOPART) para a autuada, com sua consequente amortização fiscal. Digo isto, pois, como evidenciado, restou incontroversa e, portanto, impassível de questionamento, a origem e a formação dos ágios objeto de transferência para a Fl. 2339DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.340 39 Recorrente. Os mesmos pautaramse em aquisições feitas pela Cia Sinal de participações em 1999 (ágio na aquisição do investimento na Sinal Participações) e em 2006 (ágio na aquisição dos investimentos nas empresas “Cia Sinal” e “Sinal” junto aos grupos Brascan e Espírito Santo, respectivamente), dispensandose assim maiores comentários acerca de sua procedência. Sustenta a Recorrente, que o intuito da reorganização societária ocorrida dentro do grupo ACCOR, que envolveu a criação da SOBRASER, visou segregar ativos relacionados a suas atividades financeiras e nãofinanceiras, considerando a futura intenção do grupo à época em transformála uma sociedade de crédito, investimento e financiamento (instituição financeira), que apesar de não levado a cabo após a reestruturação ocorrida, por alegadas questões conjunturais de ordem legislativo tributária e econômica, foi objeto de amplo estudo interno conforme denota prospecto anexado aos autos (fls 2773 a 2898). Por outro lado, o fisco ataca as sucessivas operações societárias ocorridas internamente no grupo ACCOR após a incorporação pela ACOPART das adquiridas “Cia Sinal” e “Sinal Participações” (detentoras de investimento na autuada), principalmente a criação e efemeridade da empresa SOBRASER Participações Ltda, para a qual foi vertido por meio de cisão o investimento na Recorrente e os ágios anteriormente constituídos. Em suma, a acusação que paira sobre a Recorrente (itens 5.2.3 e 6 do TVF, fls 2059 a 2065) foi de ter constituído empresa sem efetiva finalidade empresarial (exercício de atividade econômica, representada pela produção de bens e/ou serviços) em desrespeito a preceitos do Código Civil (arts 966, 981 e 982) para tão somente transferir o ágio da ACOPART a autuada, possibilitando nela sua amortização fiscal. Seria um clássico exemplo de ocorrência da alcunhada “empresa veículo”, tão combatida em vários julgados deste colegiado. Segundo o fisco não haveria causa econômica além da economia fiscal para a criação da SOBRASER em 19.04.07 por representantes legais da ACCOR Participações S/A e pela própria ACOPART, que teria sido utilizada apenas como artifício para a dedutibilidade na autuada do ágio pago pelas aquisições efetuadas pela ACOPART no ano anterior, tanto que em um período de 10 dias (entre 10.08.2007 e 20.08.2007) teria recebido parte do acervo patrimonial da ACOPART relativo ao investimento na autuada, bem como o ágio oriundo de operações com terceiro s, e sido incorporada por sua própria investia (a Recorrente) de forma reversa. Fl. 2340DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.341 40 A DRJ corrobora o entendimento da autoridade lançadora, concluindo que apenas um contrato social regular e um CNPJ não significam a existência de uma sociedade empresária. Enaltece que o uso de uma empresa veículo como a SOBRASER em sua acepção corriqueira em dissonância aos ditames do Código Civil para a mera transferência artificial do ágio, representa o alardeado abuso de direito. A Recorrente por sua vez, destaca que o grupo ACCOR poderia ter alcançado o mesmo resultado de outras formas, qual seja de amortização do ágio na autuada, inclusive de forma direta sem a criação da ACOBRASPART e da SOBRASER, uma vez que a partir da incorporação da “Cia Sinal” e da “Sinal” em 21.05.2007 a ACOPART já faria jus a sua dedução, bastando, por exemplo, apenas incorporar a autuada para que o benefício fiscal em debate pudesse ser gozado legitimamente no âmbito de suas atividades. Só não o fez por uma série de entraves burocráticos que decorreriam da extinção do CNPJ da autuada junto a órgãos públicos, fornecedores (incluindo credenciados) e clientes, bem como organizacionais, no âmbito do grupo ACCOR. Em suma, sustenta que a SOBRASER foi uma sociedade de propósito específico, para a qual não eram necessários empregados, nem a realização de outros negócios desconectados de sua razão de existir, não sendo necessário que tivesse longa existência. (...) Tenho acompanhado nesta casa as mais variadas discussões acerca do direito a amortização fiscal de ágio lastreado em rentabilidade futura previsto nos arts 7º e 8º da Lei nº 9.532/97 (regulamentado pelo art. 386,III do RIR/99), que surgiu à sua época como forma de incentivo às privatizações. Já foram trazidos a julgamento inúmeros debates acerca da legitimidade de sua formação, inclusive pela utilização de empresas veículo, analise das partes envolvidas (ágio de si mesmo), questionamento acerca de sua forma de pagamento (incorporação de ações), contendas sobre os critérios dos laudos de avaliação que o suportam, e como no presente no caso a análise de litígios que envolvem o uso de sucessivas operações societárias visando implementar seu aproveitamento. Pois bem. Particularmente entendo que deve ser reprimida a utilização de reorganizações societárias para fins de amortizações fiscais de ágio quando o resultado delas provenientes propicia de forma simulada a obtenção de resultados que não seriam lídimos pelas vias normais e diretas, sem a aplicação de métodos heterodoxos. Todavia, no presente caso enxergo que o direito a amortização do ágio fiscal no CNPJ da autuada, não Fl. 2341DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.342 41 necessitaria da estrutura utilizada pelo grupo ACCOR e atacada pela fiscalização, podendo realmente ser obtido de forma direta, uma vez que com a incorporação das “Cia Sinal” e da “Sinal” a ACOPART teria o legítimo de direito de amortizar o ágio pago nestas aquisições, inclusive aquele já carregado pela Cia Sinal. Neste cenário, bastaria apenas incorporar a autuada, o que seria plenamente possível, de forma a proceder a amortização fiscal do ágio no âmbito das atividades operacionais da TICKET. O resultado obtido pela reorganização societária engendrada teve o mesmo efeito do cenário ortodoxo acima descrito. Não vejo como usar o verbo simular para operação em que o resultado obtido é o mesmo independente das vias eleitas para sua obtenção. A mim resta muito claro, que os motivos que levaram a criação da ACOBRASPART e principalmente da SOBRASER tiveram nítido intuito organizacional e não sonegatório como tentar fazer crer a fiscalização. Os indícios apontados pela autoridade fiscal e o suposto desrespeito a dispositivos do Código Civil quanto a uma suposta falta de propósito negocial e econômico da SOBRASER somente perfariam prova contra a Recorrente, se por meio da reorganização realizada o resultado obtido fosse defeso pelas vias ordinárias. Não é o que ocorre. Nesta ordem de considerações, filiome à corrente jurisprudencial deste pretório e ao entendimento dos pareceristas que assessoram a Recorrente no sentido de que o uso de roupagem jurídica diferenciada, mas que não interfere no resultado obtido é um direito disponível e acessível ao contribuinte, sem que tal exercício possa ser oposto pelas autoridades fiscais, sob pena de ingerência na atividade econômica do contribuinte. Peço vênia inclusive, para a transcrição de outras possíveis operações societária elencadas pela Recorrente que levariam ao mesmo fim obtido, sem ofensa a legislação instituidora do guerreado benefício fiscal. (...) A norma legal prevê a possibilidade de transferência de ágio entre empresas na ocorrência de fusão, cisão e incorporação. Assim, o patrimônio da empresa sucedida passa para o patrimônio da sucessora, representado pelos bens, direitos e obrigações. No caso da existência de ágio no patrimônio da empresa sucedida, será o mesmo transferido para o patrimônio da sucessora. (...) Fl. 2342DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.343 42 Para mim ficou meridianamente claro que a ACOBRASPART e a SOBRASER foram criadas para evitar contratempos organizacionais e burocráticos que seriam enfrentados pela autuada, caso fosse incorporada diretamente pela ACOPART e não para redução ilícita da carga tributária, posto que tal empresa já fazia jus a dedução fiscal do ágio em razão das incorporações da “Cia Sinal” e da “Sinal”, bastando somente, como destacado, incorporar a autuada para que os efeitos fiscais da amortização também se irradiassem para suas atividades. Adoto as razões do voto vencido, acima colacionado, para confirmar a legitimidade do ágio tratado nos autos, sem que se vislumbre artificialidade na criação das empresas acima citadas. Acrescento que é legítima a transferência de ágio em operação societária, fundamentandose a hipótese no artigos 248, da Lei nº 6.404/1976 e no artigo 20, do Decreto nº 1.598/1976. O artigo 248, da Lei nº 6.404/1976 teve redação alterada nos anos de 2007 (Lei nº 11.638/2007) e 2008 (Medida Provisória nº 449/2008). Como tratamos nos autos de fatos ocorridos entre 2007 a 2010 reproduzo a seguir a redação vigente do dispositivo legal em cada um dos anos calendários. No anocalendário de 2007, a redação do artigo 248, da Lei nº 6.404/1976 era a seguinte: Art. 248. No balanço patrimonial da companhia, os investimentos em coligadas sobre cuja administração tenha influência significativa, ou de que participe com 20% (vinte por cento) ou mais do capital votante, em controladas e em outras sociedades que façam parte de um mesmo grupo ou estejam sob controle comum serão avaliados pelo método da equivalência patrimonial, de acordo com as seguintes normas: (Redação dada pela Lei nº 11.638,de 2007) I o valor do patrimônio líquido da coligada ou da controlada será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação levantado, com observância das normas desta Lei, na mesma data, ou até 60 (sessenta) dias, no máximo, antes da data do balanço da companhia; no valor de patrimônio líquido não serão computados os resultados não realizados decorrentes de negócios com a companhia, ou com outras sociedades coligadas à companhia, ou por ela controladas; II o valor do investimento será determinado mediante a aplicação, sobre o valor de patrimônio líquido referido no número anterior, da porcentagem de participação no capital da coligada ou controlada; III a diferença entre o valor do investimento, de acordo com o número II, e o custo de aquisição corrigido monetariamente; somente será registrada como resultado do exercício: Fl. 2343DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.344 43 a) se decorrer de lucro ou prejuízo apurado na coligada ou controlada; b) se corresponder, comprovadamente, a ganhos ou perdas efetivos; c) no caso de companhia aberta, com observância das normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários. § 1º Para efeito de determinar a relevância do investimento, nos casos deste artigo, serão computados como parte do custo de aquisição os saldos de créditos da companhia contra as coligadas e controladas. § 2º A sociedade coligada, sempre que solicitada pela companhia, deverá elaborar e fornecer o balanço ou balancete de verificação previsto no número I. No ano de 2008 e seguintes, aplicase a redação conferida pela Medida Provisória nº 449/2008, publicada em 03 de dezembro daquele ano e posteriormente convertida na Lei nº 11.941/2009: Art. 248. No balanço patrimonial da companhia, os investimentos em coligadas ou em controladas e em outras sociedades que façam parte de um mesmo grupo ou estejam sob controle comum serão avaliados pelo método da equivalência patrimonial, de acordo com as seguintes normas: (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) I o valor do patrimônio líquido da coligada ou da controlada será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação levantado, com observância das normas desta Lei, na mesma data, ou até 60 (sessenta) dias, no máximo, antes da data do balanço da companhia; no valor de patrimônio líquido não serão computados os resultados não realizados decorrentes de negócios com a companhia, ou com outras sociedades coligadas à companhia, ou por ela controladas; II o valor do investimento será determinado mediante a aplicação, sobre o valor de patrimônio líquido referido no número anterior, da porcentagem de participação no capital da coligada ou controlada; III a diferença entre o valor do investimento, de acordo com o número II, e o custo de aquisição corrigido monetariamente; somente será registrada como resultado do exercício: a) se decorrer de lucro ou prejuízo apurado na coligada ou controlada; b) se corresponder, comprovadamente, a ganhos ou perdas efetivos; Fl. 2344DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.345 44 c) no caso de companhia aberta, com observância das normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários. § 1º Para efeito de determinar a relevância do investimento, nos casos deste artigo, serão computados como parte do custo de aquisição os saldos de créditos da companhia contra as coligadas e controladas. § 2º A sociedade coligada, sempre que solicitada pela companhia, deverá elaborar e fornecer o balanço ou balancete de verificação previsto no número I. De toda sorte, respeitadas as condições tratadas pelo dispositivo da Lei nº 6.404/1976, desde a original redação, a Lei nº 6.404/1976 obrigava que o investimento adquirido fosse avaliado pelo método de equivalência patrimonial. O artigo 20, do Decreto nº 1.598/1976 tinha a seguinte redação ao tempo dos fatos tratados nestes autos (anos de 2006 a 2008), regulando o desdobramento do custo de aquisição em ágio por rentabilidade futura: Art. 20 – O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I – valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Consta do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto nº 3.000/1999) reprodução da disposição legal em seu artigo 385, verbis: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e Fl. 2345DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.346 45 II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Ao tratar do ágio sobre expectativa de rentabilidade futura, o artigo 20, do Decreto nº 1.598/1976 como também sua reprodução no RIR/99 trata indistintamente das hipóteses de aquisição da participação, sem qualquer restrição. Portanto, a exigência da aplicação do método de equivalência patrimonial decorre da própria lógica do artigo 248, da Lei nº 6.404/1976, como também do conceito adotado pelo artigo 20, do Decreto nº 1.598/1976. A transferência de ágio efetuada pela Recorrida em operações societárias descritas no relatório deste acórdão , portanto, decorre da regular transferência de investimento em observância a estas normas. Ressalto que o artigo 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, ao tratar da confusão patrimonial como condição da amortização do ágio não tem qualquer referência ao “investidor original”, ao contrário do que entendeu a nobre prolatora de voto vencedor no acórdão recorrido. A exigência legal é de investimento adquirido com ágio, que poderá ser deduzido quando houver a confusão patrimonial pela empresa que detenha o investimento adquirido, ou mesmo pela própria investida caso ocorra incorporação reversa. Tenho manifestado neste Colegiado a minha posição sobre a dispensabilidade de confusão patrimonial (fundada pelos artigos 7º e 8º, acima citados) entre investidora original e investida original, na medida em que a legislação não atribui interpretação restritiva nesse sentido. Afinal, há que se ponderar se a origem do ágio é legítima (com a existência de partes independentes, pagamento, demonstração da rentabilidade futura, etc.). Nesse contexto, um vez demonstrada a legítima origem do ágio, não há restrição legal ou contábil à sua transferência juntamente com o investimento a ele relacionado. Diante disso, voto por conhecer e dar provimento ao recurso especial do contribuinte, adotando razões de decidir do voto vencido acima reproduzido.” Nesse mesmo sentido, não vejo vedação legal à transferência do ágio, uma vez configurada a legitimidade de sua formação, assim como não penso que a utilização da empresa veículo e “de prateleira”, demonstrada a causa do negócio jurídico, não invalida a operação societária, permitindo a glosa procedida. Fl. 2346DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.347 46 III. Concomitância entre multas de ofício e isolada Na hipótese de restar vencida nos tópicos anteriores, adentrase na possibilidade de concomitância entre as multas isolada por não pagamento do IRPJ e CSLL calculados com base no regime de estimativas mensais e a multa de ofício aplicada pelo não recolhimento do tributo ao final dos anos calendário de 2010 e 2011, fundamentadas nos artigos 44, inciso I e II, b, da Lei n. 9430/96., com redação dada pela Lei n. 11.488/07: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I – de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II – de 50% (cinquenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (…) b) na forma do art. 2o desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (…)” Muito embora o veículo introdutor dessa norma seja posterior à edição da Súmula n. 105, editada por este conselho no ano de 2004 e aplicável aparentemente de forma pacífica para os anos calendários até 2006, entendese que a norma jurídica, enquanto significação que pode ser construída a partir do enunciado do artigo 44, II, b da Lei n. 9.430/96, em sua nova redação, não difere em sua substância daquela que deu origem à referida súmula e, portanto, continuase a aplicála: “Súmula CARF nº 105: A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício.” (grifouse) Contudo, ainda que assim não fosse, vale dizer, ainda que não houvesse súmula editada nesse sentido, a visão que se possui sobre o tema não se modificaria, pois, no posicionamento adotado, não se discorda da existência de dois fatos jurídicos distintos, embora ambos tendo como objeto central o não recolhimento do IRPJ e como obrigação o pagamento de multa pelo seu descumprimento. Entendese cuidar, sim, de dois fatos jurídicos, porque quando se altera qualquer um de seus critérios, a exemplo do temporal, tornase o fato diferente de um outro que não possua a mesma condição. Fl. 2347DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.348 47 Ocorre que se vê proximidade tanto no objeto de suas hipóteses de incidência – originadas do descumprimento de normas que se referem à obrigação tributária de recolhimento do IRPJ e CSLL –, seja em caráter antecipatório ou definitivo, como na consequência imputada correspondentes às penalidades, diferenciadas sim pela grandeza considerada, nos diferentes incisos do mencionado artigo 44 da Lei n. 9.430/96. Vêse como elemento de diferenciação, portanto, o caráter antecipatório da obrigação, cujo descumprimento gera como consequência a imputação da multa isolada – como, afinal, se vislumbra em diversas regras da sistemática do Imposto sobre a Renda, a exemplo da substituição tributária que antecipa o pagamento no regime de retenção na fonte –, mas, uma vez se encerrando o período de apuração, temse a identificação precisa da base de cálculo do tributo devido e a determinação da multa efetiva pelo seu não recolhimento, não mais devendo prevalecer aquilo que era calculado com base em estimativas, assim como a multa pelo não pagamento neste regime. O fato de haver estimativas para o cômputo do IRPJ que será adiantado mensalmente não pode significar que a sua base de cálculo – ou seja, aquilo que juntamente com a hipótese de incidência diferencia um tributo, numa linha há muito ensinada por Rubens Gomes de Sousa – seja desvirtuada daquele montante que deve sofrer os necessários ajustes para se alcançar a renda objeto da competência da União Federal, o que muito provavelmente não é o que se encontra a partir, como o próprio nome sugere, das estimativas verificadas ao longo do período de apuração. Daí porque não se considera a possibilidade de imputação de multas distintas sob a justificativa de possuírem diferentes bases de cálculo, quando se chega ao final do período e se identifica a efetiva base de cálculo do tributo e, então, se impõe uma multa pelo seu não recolhimento – ainda que isso pareça esvaziar o conteúdo do artigo 44, inciso II, alínea b, da Lei n. 9430/96, a não ser para se penalizar quando a autuação ocorra no decorrer do período de apuração ou não gerar um tratamento não equânime entre os contribuintes que, diligentes, recolhessem o tributo antecipadamente, em relação aos que não procederiam a tal adiantamento e, ao final, verificando haver prejuízo fiscal ou saldo negativo, não se sujeitariam a qualquer penalidade. Dizer ser o IRPJ no regime mensal recolhido sobre bases estimadas não infirma a proximidade substancial das obrigações, mas justamente confirma que, se se está tratando de adiantamento, apenas se pode estar estimando aquilo que ainda não foi mensurado em caráter definitivo e que, o sendo, prevalece sobre as presunções efetuadas, assim como prevalece a multa pelo seu não recolhimento, por identificarse, afinal, com a que pune igualmente o não recolhimento do tributo, mas de forma antecipada. Por essa linha, não se precisaria também buscar no Direito Penal o princípio da consunção (vide acórdãos n. 9101001.307, 1803001.263, 9101001.261), muito Fl. 2348DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.349 48 embora se coincidam quanto ao resultado alcançado, embora nesse caso não se possa sofrer as críticas de que não haveria previsão para aplicação da espécie na legislação fiscal. De todo modo, esse é um dos argumentos que sustentam os precedentes administrativos da referida Súmula n. 105 do CARF, assim como as duas decisões que se encontram proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça sobre a matéria, retratadas pelo voto do Ministro Humberto Martins no REsp 1496354, do qual se transcreve trecho representativo, em que também se orientou o acórdão do AgRg no REsp 1499389: “(…) Sistematicamente, notase que a multa do inciso II do referido artigo somente poderá́ ser aplicada quando não possível a multa do inciso I. Destacase que o inadimplemento das antecipações mensais do imposto de renda não implicam, por si só, a ilação de que haverá tributo devido. Os recolhimentos mensais, ainda que configurem obrigações de pagar, não representam, no sentido técnico, o tributo em si. Este apenas será apurado ao final do ano calendário, quando ocorrer o fato gerador. As hipóteses do inciso II, “a” e “b”, em regra, não trazem novas hipóteses de cabimento de multa. A melhor exegese revela que não são multas distintas mas apenas formas distintas de aplicação da multa do art. 44, em consequência de, nos caso ali descritos, não haver nada a ser cobrado a título de obrigação tributária principal. As chamadas “multas isoladas”, portanto, apenas servem aos casos em que não possam ser as multas exigidas juntamente com o tributo devido (inciso I), na medida em que são elas apenas formas de exigência das multas descritas no caput. Esse entendimento é corolário da lógica do sistema normativo tributário que pretende prevenir e sancionar o descumprimento de obrigações tributárias. De fato, a infração que se pretende repreender com a exigência isolada da multa (ausência de recolhimento mensal do IRPJ e CSLL por estimativa) é completamente abrangida por eventual infração que acarrete, ao final do ano calendário, o recolhimento a menor dos tributos, e que dê azo, assim, à cobrança da multa de forma conjunta. Em se tratando as multas tributárias de medidas sancionatórias, aplicase a lógica do princípio penal da consunção, em que a infração mais grave abrange aquela menor que lhe é preparatória ou subjacente. O princípio da consunção (também conhecido como Princípio da Absorção) é aplicável nos casos em que há uma sucessão de condutas típicas com existência de um nexo de dependência entre elas. Segundo tal preceito, a infração mais grave absorve aquelas de menor gravidade. Sob este enfoque, não pode ser exigida concomitantemente a multa isolada e a multa de ofício por falta de recolhimento de tributo apurado ao final do Fl. 2349DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.350 49 exercício e também por falta de antecipação sob a forma estimada. Cobrase apenas a multa de oficio pela falta de recolhimento de tributo. (…)” Assim sendo, considerandose a linha ora adotada ou os próprios fundamento dos precedentes da Súmula n. 105 do CARF, que neste caso se pautaram na compreensão da base de cálculo da multa isolada pela multa de ofício ou na aplicação do princípio da consunção, não se vê as alterações promovidas pela Lei n. 11.488 como capazes de alterar tais circunstâncias e sustentar questionamentos quanto à aplicação da súmula a períodos posteriores a 2007, ano em que publicada a lei. Portanto, além de se poder estar aplicando o entendimento da Súmula CARF n. 105 para se afastar a imputação da multa isolada mesmo fundamentada no artigo 44, inciso II, alínea b, da Lei n. 9430/96., em função de sua concomitância com a multa de ofício prevista no inciso I do mesmo dispositivo, as razões para se decidir desta maneira caberiam ainda que não houvesse referido enunciado sumulado e que a autuação se refira a ano calendário posterior à Lei n. 11.488/2007. IV. A não incidência de juros sobre a multa Alcançando o último tópico do presente voto, passase à manifestação sobre a incidência de juros sobre a multa. Inicialmente, se compreende que o artigo 161, parágrafo primeiro, do Código Tributário Nacional concede autorização para que lei ordinária imponha juros sob taxa com percentual diverso da regra geral de 1% ao mês, como se observa de seu texto: “Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1o Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês.” Registrase, primeiramente, que se compreende que a expressão crédito tributário se refira ao objeto da relação jurídica o qual concede um direito de recebimento por parte do Estado, englobando tanto aqueles valores correspondentes aos tributos, como decorrentes da aplicação de penalidades pelo seu não pagamento, em conformidade com a forma que se lê o artigo 113 do Código Tributário Nacional. Ocorre que, no mencionado artigo 161, não se consegue dar essa alcance ao termo “crédito” como utilizado pelo legislador para alcançar as multas, porque a redação, após mencionar que este pode ser acrescido de juros se não integralmente pago no Fl. 2350DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.351 50 vencimento, faz a ressalva: sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis. Neste caso, seria ilógico se compreender, portanto, que as multas então estariam compreendidas na expressão crédito, de modo que a interpretação possível que se consegue alcançar a partir deste enunciado é a de que, muito embora ele autorize a imposição de juros, e num patamar diverso de 1% caso haja previsão legal específica, não alcança as penalidades aplicadas em função do não pagamento integral no vencimento. A partir dessa norma geral, compreendese que se deve entender legítima a fixação de seus índices próprios pela legislação federal e que a leitura das demais regras que envolvem o tema deve ser feita dentro dessa moldura que estabeleceu, como sói ocorrer com artigo 61 da Lei n. 9.430/96: “Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (Vide Decreto nº 7.212, de 2010) § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (Vide Medida Provisória nº 1.725, de 1998)(Vide Lei nº 9.716, de 1998)“ O que, num momento inicial, poderia indicar duas interpretações possíveis, no sentido de a expressão “os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições” abarcar tão somente estes ou também as multas a eles relacionadas, parece restar reduzida apenas à primeira leitura, justamente em face do alcance permitido pela regra geral do artigo 161 do Código Tributário Nacional que não engloba as penalidades. Portanto, por falta de autorização legal do artigo 161 do Código Tributário Nacional, muito embora a legislação federal possa impor suas penalidades pelo não recolhimento de tributos (leiase, impostos e contribuições) e possa fixar seus próprios índices de correção dos valores, como a Taxa Selic, não há autorização para determinar a incidência de juros sobre a multa de ofício, quando exigida juntamente àquele pagamento. Por essas razões, votase por DAR PROVIMENTO ao recurso da contribuinte, desconsitutindose o crédito tributário ora exigido. Fl. 2351DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.352 51 (assinado digitalmente) Daniele Souto Rodrigues Amadio Fl. 2352DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.353 52 Voto Vencedor Conselheiro Rafael Vidal de Araújo, Redator Designado Em que pesem as razões de decidir da eminente relatora, peço vênia para dela divergir quanto ao mérito. As matérias postas à apreciação desta Câmara Superior referemse à: a) ágio tempestividade do laudo de avaliação; b) ágio empresa veículo; c) concomitância da multa de ofício com a multa isolada; e d) incidência de juros de mora sobre multa de ofício. a) ágio tempestividade do laudo de avaliação Consta da decisão recorrida a seguinte transcrição da decisão de primeira instância (efls. 1.691 e 1.692): O autuante nega validade ao documento em causa, sob o fundamento de que foi elaborado mais de dois meses depois de a Lhoist ter adquirido a participação na Belocal. Além disso, o próprio registro contábil da operação foi feito com atraso, presumivelmente em razão da espera de que ficasse pronto o relatório de avaliação. A impugnante sustenta a aptidão do documento, argumentando que estudos elaborados prévia e internamente pelo grupo Lhoist já haviam calculado o valor da Belocal com base na rentabilidade futura, que não há exigências formais rigorosas que devam ser cumpridas por esse documento e que, de qualquer forma, ele foi elaborado antes da incorporação da Cananga pela Belocal, evento que permitiu a essa começar a amortizar o ágio pago na sua própria aquisição. Invoca, ainda, o parecer técnico juntado aos autos, de autoria de Eliseu Martins. A respeito dessa questão — tempestividade do laudo de avaliação —, esta Primeira Turma já teve oportunidade de se pronunciar, por meio do Acórdão CSRF nº 9101 003.008, de 08/08/2017, assim ementado: ÁGIO. RENTABILIDADE FUTURA. DEMONSTRAÇÃO DO VALOR ECONÔMICOFINANCEIRO DA PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA EM AQUISIÇÃO. EFETIVIDADE E CONTEMPORANEIDADE À AQUISIÇÃO. A lei exige que o lançamento do ágio baseado na perspectiva de rentabilidade futura seja baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Embora não houvesse, à época dos fatos, a exigência de demonstração na forma de laudo, a produção e arquivamento de documentação que apresenta, de forma objetiva e precisa, a demonstração do valor econômicofinanceiro da participação societária em aquisição, a partir das perspectivas de Fl. 2353DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.354 53 rentabilidade futura da empresa, é ônus da adquirente e constitui requisito indispensável para a dedução da amortização do ágio correspondente. Não basta estimálo de forma subjetiva, é preciso determinálo e demonstrálo, matematicamente, de forma precisa, e arquivar a respectiva documentação, tudo ao tempo em que é feita a aquisição, nunca a posteriori. Do referido acórdão, transcrevo os seguintes principais excertos: Alega a Contribuinte, em síntese, que o ágio pago nas aquisições da LION e da NOIL se baseia em projeção de rentabilidade futura, a qual foi demonstrada, sendo que, embora o acórdão recorrido determine um rol de elementos que deveriam estar presentes no demonstrativo apresentado, “a lei em momento algum requereu a elaboração de Laudo de Avaliação econômicofinanceiro por 3 peritos ou empresa especializada para a demonstração do lançamento do ágio ou para a legitimidade de sua amortização, e nem sequer elencou os elementos trazidos pelo acórdão". Em contrarrazões, a Fazenda Nacional aduz, resumidamente, que, sendo a dedução do ágio benesse tributária, para ser autorizada deverá observar estritamente as condições legais estipuladas, sob pena de ser considerada indevida, sendo que, no presente caso, não há prova do fundamento econômico do ágio. O art. 385 do RIR/1999 estabelece que o lançamento do ágio deve indicar a razão econômica que levou ao seu pagamento, a qual, por seu turno, deve estar demonstrada em um documento arquivado em comprovação. No caso de o fundamento econômico do ágio se assentar em perspectiva de rentabilidade futura, o lançamento do ágio deve indicar o “valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros”. Confirase (sublinhouse): [...]. Embora assista razão à Contribuinte quando afirma que a lei então vigente não estabelecia uma forma determinada para a apresentação da demonstração de que aqui se trata, e, nesse sentido, não se podia exigir documento na forma de laudo assinado por três peritos, também acerta a Turma a quo quando assenta no acórdão recorrido que “não é qualquer documento que pode se valer o sujeito passivo para demonstrar e comprovar o motivo determinante dos fundamentos econômicos do valor do ágio”. Como bem se assinala ali, “para que se possa dar credibilidade ao documento que contenha a avaliação econômica da empresa, é mais do que razoável pressupor que seja um documento técnico completo, elaborado por pessoas habilitadas e que contenha uma exposição clara e consistente da forma como se chegou ao valor presente da empresa avaliada”. [...]. Vêse, portanto, que a objetiva e precisa determinação e demonstração do valor econômicofinanceiro da participação societária em aquisição a partir das perspectivas de rentabilidade futura da empresa é crucial para a fixação dos efeitos tributários do pagamento do ágio correspondente. E constitui ônus da adquirente. Não basta, assim, estimálo de forma subjetiva, é preciso determinálo, e demonstrálo, matematicamente, de forma precisa. E arquivar a documentação em que isso é feito. Só assim o ágio restará Fl. 2354DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.355 54 quantificado e demonstrado. Só assim sua amortização poderá ser deduzida na apuração do IRPJ e da CSLL. [...]. No aspecto temporal, deve a demonstração do ágio por rentabilidade futura ser contemporânea à aquisição da participação societária com ágio, não havendo sentido em se admitir fundamentação da rentabilidade futura a posteriori. A determinação do valor econômicofinanceiro da participação societária deve preceder a aquisição com ágio, não podendo se sustentar que primeiro se pague o ágio, para que depois se venha a justificálo [...]. Dito isso, comungo da conclusão a que chegou a Turma recorrida no sentido de que a Contribuinte não logrou comprovar que, ao tempo da aquisição, foi arquivada documentação que demonstra, de forma efetiva, o valor econômicofinanceiro da participação societária em aquisição, a partir das perspectivas de rentabilidade futura. E, como se viu, isso era ônus seu, não se podendo admitir, assim, a dedução de amortização do ágio correspondente. Que o ágio que se pretende amortizar deve ser devidamente demonstrado, não há nenhuma dúvida, pois que esta é a única forma de se atender às exigências legais de necessidade, normalidade e usualidade, às quais possibilitam a dedutibilidade de quaisquer despesas que se pretenda considerar. Por outro lado, se a demonstração, a ser arquivada pelo contribuinte, com a indicação do fundamento econômico do ágio — seja pelo valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, seja pelo valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros —, servirá como comprovante da escrituração, pareceme evidente que deve essa demonstração, não só conter a indicação do montante preciso do ágio a ser aproveitado fiscalmente e ter suporte em documentação do fundamento econômico do ágio, como também ser produzida antes (ou, ao menos, por ocasião) da tempestiva escrituração do registro contábil relativo ao ágio. Nego provimento ao recurso. b) ágio empresa veículo Em resumo das operações sob exame, como descritas pela decisão recorrida, temse (efls. 1.688): I – LHOIST subscreve ações da empresa CALL, ao preço de R$ 447.555.000,00 (31 de agosto de 2004); II – CALL resgata suas ações, por meio de permuta de participações societárias (30 de setembro de 2004); Fl. 2355DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.356 55 III – LHOIST integraliza capital na empresa CANANGA com quotas da BELOCAL (Recorrente), recebidas da CALL em decorrência da permuta de participações (17 de dezembro de 2004); e IV – BELOCAL incorpora CANANGA (31 de dezembro de 2004). A respeito da figura do ágio, há que se dizer que seu conceito tributário foi introduzido no ordenamento brasileiro pelo DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977. À época dos fatos discutidos nestes autos, dispunha o art. 20 do DecretoLei, antes de ter sua redação alterada pela Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014: Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras “a” e “b” do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. O art. 385 do RIR/1999 é basicamente uma cópia do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977. Em ambos os dispositivos, encontrase a determinação de que contribuintes que avaliam investimentos em sociedade controlada ou coligada pelo valor do patrimônio líquido registrem o ágio apurado na aquisição de participação societária em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Além disso, os dispositivos também prevêem que tal ágio deve ser fundamentado em pelo menos um dos três fatores: a) valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; b) expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros ou; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Quando o art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977 e o art. 385 do RIR/1999 afirmam que o destinatário das regras ali expostas é o contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido, estão se referindo ao método da equivalência patrimonial. Segundo tal método, as variações observadas nos Fl. 2356DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.357 56 patrimônios líquidos da sociedades coligadas ou controladas provocam reflexos nos valores dos investimentos registrados na investidora. Observese o que dispõem os arts. 387 a 389 do RIR/1999, a respeito do método de equivalência patrimonial: Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até dois meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda; [...]. Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). [...]. Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). [...]. O art. 389 do RIR/1999 é explícito ao determinar que os resultados auferidos pelas empresas coligadas ou controladas não devem ser computados na determinação do resultado da investidora. Assim, lucros apurados em uma investida devem ser objeto de tributação somente no âmbito daquela empresa. Embora tenham o reflexo de majorar o valor do investimento registrado na investidora, os lucros da investida não devem integrar a base tributável da pessoa jurídica que nela detém participação societária, sob pena de configurarse hipótese de dupla tributação. Caso a investidora tenha registrado, em sua contabilidade, ágio decorrente da expectativa de rentabilidade futura da investida, concluise que a causa do pagamento a maior efetivamente se concretizou, mas foi tributada somente na coligada ou controlada. Sendo assim, não há que se cogitar de amortização do ágio na investidora, uma vez que não ocorre, nesta pessoa jurídica, tributação do resultado positivo da investida. Somente seria lógico falar em amortização daquele ágio caso a concretização do motivo que lhe deu causa, qual seja, a lucratividade futura da investida, tivesse reflexos tributários na pessoa jurídica que pagou a “mais valia”. Dessa forma, o dispêndio a maior poderia ser gradativamente recuperado sob a forma de despesas dedutíveis, se os lucros que o Fl. 2357DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.358 57 motivaram provocassem um maior recolhimento de tributos nos períodos posteriores à aquisição do investimento. Como, por determinação legal, não é esta a hipótese que se verifica no método de equivalência patrimonial, podese concluir que a regra geral é a da impossibilidade de utilização fiscal do ágio registrado na investidora. É o que reza expressamente o art. 391 do RIR/1999: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). Existem, contudo, duas exceções a tal regra. A primeira delas é indicada pelo próprio art. 391, quando ressalva o disposto no art. 426 do mesmo RIR/1999: Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. A primeira exceção à regra da impossibilidade de aproveitamento tributário do ágio tratado pelo art. 385 do RIR/1999 diz respeito, portanto, à apuração de ganho ou perda de capital. Se o investimento que deu causa à “mais valia” for alienado ou liquidado, o ágio ou deságio registrados na contabilidade da controladora devem compor o custo de aquisição considerado no cálculo do resultado tributável da operação, sobre o qual incidirão IRPJ e CSLL. Já a segunda exceção, que interessa mais diretamente à discussão desenvolvida nos presentes autos, referese às transformações societárias envolvendo investidoras, investidas e o ágio associado aos investimentos. A respeito da evolução histórica das previsões legais que contemplaram a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio em hipóteses de transformações societárias, Fl. 2358DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.359 58 remetome ao irretocável apanhado feito pelo nobre Conselheiro André Mendes de Moura, no recente Acórdão nº 9101002.301: Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art. 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada período base a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à Fl. 2359DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.360 59 aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 19971, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos “planejamentos tributários”, vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI2 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. [...]. Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio 1 Cf. Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs. Disponível em: <http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2>. Acesso em: 7 nov. 2017. 2 Cf. SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo: Dialética, 2012. p. 66 e segs. Fl. 2360DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.361 60 seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista3 que trabalhou na edição da MP 1.609, de 19974: O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. [...]. Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegouse a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.607, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização. 3 Relatório da Comissão Mista publicado no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18494. Disponível em: <http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2>. Acesso em: 7 nov. 2017. 4 Na realidade, o número da Medida Provisória abordada é 1.602. Fl. 2361DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.362 61 Depreendese da retrospectiva transcrita que os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997 (produto da conversão da Medida Provisória nº 1.602, de 1997) foram erigidos pelo legislador com a específica finalidade de coibir a prática de planejamentos tributários abusivos em que empresas superavitárias adquiriam com ágio empresas deficitárias para serem, em seguida, incorporadas por elas. Tal incorporação reversa, também denominada de incorporação “às avessas”, não tinha nenhum propósito negocial que não fosse a simples geração de ganhos de natureza tributária. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, foram integralmente incorporados ao RIR/1999 por meio de seu art. 386. Como este artigo faz referência expressa a dispositivos do art. 385 (cópia do já reproduzido art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977), transcrevemse ambos a seguir: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do § 2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; Fl. 2362DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.363 62 II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do § 2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração. § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 1º). § 2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 2º): I o ágio em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; II o deságio em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. § 3º O valor registrado na forma do inciso II (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 3º): I será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; II poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. § 4º Na hipótese do inciso II do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos ou contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 4º). § 5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 5º). § 6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; Fl. 2363DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.364 63 II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. § 7º Sem prejuízo do disposto nos incisos III e IV, a pessoa jurídica sucessora poderá classificar, no patrimônio líquido, alternativamente ao disposto no § 2º deste artigo, a conta que registrar o ágio ou deságio nele mencionado (Lei nº 9.718, de 1998, art. 11). Verificase que os arts. 385 e 386 do RIR/1999 guardam uma relação indissociável entre si, uma vez que requisitos à aplicação do segundo artigo são extraídos diretamente da redação do primeiro. O art. 385, conforme já mencionado, estabelece duas regras principais. A primeira determina que o ágio apurado em uma aquisição de participação societária em sociedade controlada ou coligada seja registrado em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Já a segunda fixa os possíveis fundamentos econômicos do ágio pago na aquisição da participação societária (valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros; fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas). Por fim, o artigo ainda prevê que o ágio fundamentado em valor de mercado dos bens do ativo da investida ou na expectativa de resultados futuros deve ser baseado em documentação comprobatória, devidamente arquivada. Já o art. 386 trata, entre outras coisas, da possibilidade de aproveitamento tributário do ágio decorrente do fundamento econômico previsto no inciso II do § 2º do artigo anterior (valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros). O caput do art. 386 traz o primeiro requisito que deve ser cumprido para que seja possível o aproveitamento do ágio: uma pessoa jurídica deve absorver o patrimônio de uma segunda, em que detenha participação societária adquirida com ágio. A respeito deste primeiro requisito exigido pela norma, recorro novamente ao Acórdão nº 9101002.301, pela assertividade da análise ali desenvolvida: Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 5. Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. 5 Cf. ATALIBA, Geraldo. Hipótese de incidência tributária. 6. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2010. p. 51 e segs. Fl. 2364DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.365 64 E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado “transferido” para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim Fl. 2365DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.366 65 sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoa se o encontro de contas entre investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI6, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que, para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. 6 SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 2366DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.367 66 Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Considerandose o regime de tributação adotado pelo sujeito passivo, aperfeiçoase o lançamento fiscal e o termo inicial para contagem do prazo decadencial. Concluise, portanto, que o art. 386 do RIR/1999, sob o aspecto pessoal, se dirige à investidora que vier a incorporar sua investida (ou por ela ser incorporada), após ter, efetivamente, acreditado na mais valia do investimento, feito os estudos de rentabilidade futura e desembolsado os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço, pago em momento anterior pela investidora em razão da confiança na rentabilidade futura da investida. Destaquese que a regra se aplica tanto à incorporação da investida pela investidora quanto, no sentido inverso, à hipótese em que a investidora é que é incorporada por sua investida. Em ambos os casos, a lei exige que a investidora envolvida na incorporação seja a “original” ou stricto sensu (no sentido de que a originalidade está indissociavelmente ligada à pessoa jurídica que paga o ágio e, por isso mesmo, tem confiança na rentabilidade futura, pois é quem assume o risco). A situação em que a investida incorpora sua investidora é denominada de incorporação reversa, ou ainda de incorporação “às avessas”. A previsão da possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio nesta hipótese é trazida pelo § 6º, inciso II, do art. 386 do RIR/1999. O dispositivo faz uso de uma técnica legislativa transitiva, indicando assim que o que vale para o caput do art. 386 do RIR/1999 vale também para o seu § 6º. As premissas de exegese da norma não são afetadas, sendo necessárias apenas as devidas adaptações para contemplar a situação prevista. De forma correlata ao que se analisou quanto ao aspecto pessoal, a confusão de patrimônios, principal item do aspecto material para fins de enquadramento no art. 386 do RIR/1999, consumase quando, na sociedade incorporadora, o lucro futuro e o investimento original com expectativa desse lucro (aquele que foi sobreavaliado) passam a se comunicar diretamente (os riscos se fundem: o risco do investimento assim entendidos os recursos aportados e o risco do empreendimento). Compartilhando o mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolidase cenário no qual a pessoa jurídica detentora da “mais valia” (ágio) do investimento baseado na expectativa de rentabilidade futura passa a ser responsável também por honrar tal rentabilidade. Assim, a legislação permite que o contribuinte considere perdido o capital que foi investido com o ágio e deduza a despesa relativa à “mais valia”. Configuração semelhante ocorre na incorporação reversa, na medida em que a pessoa jurídica responsável por gerar a rentabilidade esperada para o futuro passa a ser a detentora do ágio baseado na expectativa de tal rentabilidade. Sendo assim, pressupõese que a “mais valia” porventura contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participam da “confusão patrimonial”. Para fins de acesso à dedutibilidade estabelecida pelo art. 386 do RIR/1999, a pessoa jurídica Fl. 2367DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.368 67 que efetivamente suportou o ágio pago na aquisição de um investimento deve incorporar tal investimento (incorporação da investida pela investidora) ou ser incorporada pela empresa onde investiu (incorporação “às avessas”). Em síntese, a subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/1999, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material das hipóteses ali previstas. Na atual redação destes dispositivos, exclusivamente no caso em que houver o efetivo desembolso de valores (ou sacrifício de outros ativos) a título de investimento da investidora (futura incorporadora ou, no caso da incorporação reversa, incorporada) na investida (futura incorporada ou, no caso da incorporação reversa, incorporadora), é que haverá o atendimento aos aspectos pessoal e material. Se o ágio não foi de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da “confusão patrimonial”, não há sentido em clamarse pela dedutibilidade das despesas decorrentes de amortização de ágio instituída pelo art. 386 do RIR/1999. No caso analisado nos presentes autos, é incontroverso que houve desembolso de valores por ocasião da aquisição, pela LHOIST, por intermédio da CALL, das ações da BELOCAL. Dessa operação, resultou o registro de ágio no valor de R$ 332.698.559,00. Ocorre que tal ágio foi registrado na contabilidade da LHOIST. Sendo a LHOIST uma pessoa jurídica sediada no Brasil, submetida à legislação tributária brasileira, ela poderia fazer jus à dedutibilidade das despesas de amortização do ágio de R$ 332.698.559,00 se viesse a incorporar a BELOCAL e atendesse também às demais condições exigidas legalmente. Porém a LHOIST promoveu a integralização de aumento do capital social da CANANGA. Foi realizada a entrega das ações da BELOCAL pela LHOIST, pelos exatos valores que constavam da contabilidade dessa última empresa. Assim, a CANANGA passou a possuir, em sua contabilidade, o ágio de R$ 332.698.559,00 associado às ações da BELOCAL. Conforme já foi narrado, a CANANGA foi incorporada pela BELOCAL. Julgando fazer jus ao direito de deduzir as despesas decorrentes da amortização do ágio com base nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997 (e nos arts. 385 e 386 do RIR/1999), a BELOCAL passou a reduzir seu lucro líquido a partir de 2005. Ocorre que a BELOCAL não poderia ter utilizado o ágio registrado originalmente na LHOIST para fins de deduzir as despesas decorrentes de sua amortização. Interpretandose o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verificase que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. Como não foi a CANANGA que desembolsou o valor que deu origem ao ágio contábil, restou desatendido o aspecto pessoal da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999. Como o próprio recorrido reconhece, o numerário que foi pago, indiretamente à CALL, pela aquisição das ações da BELOCAL saiu dos cofres da LHOIST. A CANANGA foi incorporada pela BELOCAL. Esta, julgando que estaria configurada a “confusão patrimonial” entre o ágio e o investimento que lhe deu causa, passou a Fl. 2368DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.369 68 aproveitar as despesas da amortização do ágio para fins tributários. Ocorre que tal “confusão patrimonial”, principal manifestação do aspecto material necessário à efetiva incidência da norma tributária prevista no art. 386 do RIR/1999, deve obrigatoriamente se dar entre a investida e a investidora originária, real. Por investidora originária, entendese aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição da participação societária. Ou seja, no caso sob análise, só existe uma real investidora: a LHOIST. Importante ressaltar que, quando se estabelece a necessidade de que a empresa participante da “confusão patrimonial” tenha arcado com a aquisição do investimento com ágio, não se restringe tal operação a uma compra e venda com o desembolso de valores monetários. O dispêndio que se exige diz respeito a qualquer operação que gere ganhos para o alienante e gastos para o adquirente. Mais do que um pagamento em dinheiro, o que se espera como resultado desta operação é que haja variações patrimoniais para os envolvidos em valores proporcionais ao negócio celebrado. No caso dos presentes autos, não se verificou a prática de tal “sacrifício patrimonial” pela CANANGA ou pelo recorrido. Sendo assim, a amortização operada pelo recorrido não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária (investimento) ou seja por ela incorporada. No caso dos autos, a investidora originária não participou de “confusão patrimonial” alguma. Além disso, o ágio registrado na CANANGA decorreu de operação meramente contábil, sem efetiva circulação de riquezas e realizada entre empresas que integram um mesmo grupo econômico. Ainda que se analise a situação debatida nos autos sob outro enfoque, a conclusão alcançada continua sendo pela impossibilidade de utilização tributária do ágio pelo recorrido. Tal aproveitamento tributário do ágio consiste, como já foi dito por diversas vezes, na dedução de despesas decorrentes de sua amortização na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Fazse relevante, portanto, analisar o caso sob a perspectiva da teoria atinente às despesas que têm relevância fiscal. Uma vez mais, pedese vênia para transcreverse excerto extraído do Acórdão nº 9101002.301, por sua concisão e clareza: Definido que o aproveitamento do ágio pode darse por meio de despesa de amortização, mostrase pertinente apreciar do que trata tal dispêndio. No RIR/99 (DecretoLei nº 3.000, de 26/03/1999), o conceito de amortização encontrase no Subtítulo II (Lucro Real), Capítulo V (Lucro Operacional), Seção III (Custos, Despesas Operacionais e Encargos). O artigo 299 do diploma em análise trata, no art. 299, na Subseção I, das Disposições Gerais sobre as despesas: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). Fl. 2369DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.370 69 § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3º O disposto neste artigo aplicase também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Para serem dedutíveis, devem as despesas serem necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, e serem usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Por sua vez, logo após as Subseções II (Depreciação de Bens do Ativo Imobilizado) e III (Depreciação Acelerada Incentivada), encontra previsão legal a amortização, no art. 324, na Subseção IV do RIR/99. Percebese que a amortização constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99. Despesa Diante de Fatos Construídos Artificialmente No mundo real os fatos nascem e morrem, decorrentes de eventos naturais ou da vontade humana. O direito elege, para si, fatos com relevância para regular o convívio social. No que concerne ao direito tributário, são escolhidos fatos decorrentes da atividade econômica, financeira, operacional, que nascem espontaneamente, precisamente em razão de atividades normais, que são eleitos porque guardam repercussão com a renda ou o patrimônio. São condutas relevantes de pessoas físicas ou jurídicas, de ordem econômica ou social, ocorridas no mundo dos fatos, que são colhidas pelo legislador que lhes confere uma qualificação jurídica. Por exemplo, o fato de auferir lucro, mediante operações espontâneas, das atividades operacionais da pessoa jurídica, amoldase à hipótese de incidência prevista pela norma, razão pela qual nasce a obrigação do contribuinte recolher os tributos. Da mesma maneira, a pessoa jurídica, no contexto de suas atividades operacionais, incorre em dispêndios para a realização de suas tarefas. Contratase um prestador de serviços, comprase uma mercadoria, operações necessárias à consecução das atividades da empresa, que surgem naturalmente. Ocorre que, em relação aos casos tratados relativos à amortização do ágio, proliferaramse situações no qual se busca, especificamente, o enquadramento da norma permissiva de despesa. Tratamse de operações especificamente construídas, mediante inclusive utilização de empresas de papel, de curtíssima duração, sem funcionários ou quadro funcional incompatível, com capital social mínimo, além de outras Fl. 2370DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.371 70 características completamente atípicas no contexto empresarial, que recebem aportes de milhões e, em questão de dias ou meses, são objeto de operações de transformação societária. Tais eventos podem receber qualificação jurídica e surtir efeitos nos ramos empresarial, cível, contábil, dentre outros. Situação completamente diferente ocorre no ramo tributário. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Impossível estender atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas, independente sua espécie, derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. Admitindose uma construção artificial, consumarseia um tratamento desigual, desarrazoado e desproporcional, que afronta o princípio da capacidade contributiva e da isonomia, vez que seria conferida a uma determinada categoria de despesa uma premissa completamente diferente, uma liberalidade não aplicável à grande maioria dos contribuintes. Concluise, assim, que as despesas de amortização de ágio criado em operações como a encontrada nos presentes autos, atípicas e integrantes de um processo de planejamento tributário que tem a finalidade específica de criar artificialmente hipótese próxima à requerida pelo art. 386 do RIR/1999, não se revestem das características de necessidade, usualidade e normalidade requeridas para sua dedutibilidade. Nego provimento ao recurso. c) concomitância da multa de ofício com a multa isolada Até o advento da MP nº 351, de 2007 e da Lei nº 11.488, de 2007, a multa isolada devida por ausência de pagamento das estimativa mensais de IRPJ e de CSLL tinha a seguinte previsão: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; II cento e cinquenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. § 1º As multas de que trata este artigo serão exigidas: [...]. Fl. 2371DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.372 71 IV isoladamente, no caso de pessoa jurídicas sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro liquido, na forma do art. 2º, que deixar de fazêlo, ainda que tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro liquido, no anocalendário correspondente; [...]. Com as alterações introduzidas pela Lei nº 11.488, de 2007, passou a dispor a mesma Lei nº 9.430, de 1996: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: [...]. b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. [...]. Observemse as alterações efetivas operadas pela mudança de redação: (i) a multa isolada não é mais calculada sobre “a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição”; passando a incidir sobre o valor do pagamento mensal que deixar de ser pago na forma prevista no art. 2º da mesma lei; (ii) o percentual aplicável no cálculo da multa passa de 75% para 50%. A antiga redação do art. 44 efetivamente não deixava tão clara a distinção entre as multas de ofício e isolada. A base sobre a qual as multas incidiam era prevista de forma conjunta, no caput do artigo (“calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição”). O percentual aplicável para ambas as multas também era fixado no mesmo dispositivo, o inciso I do artigo (“setenta e cinco por cento”). Somente no inciso IV do § 1º é que existia a previsão específica da exigência de multa isolada pelo não pagamento de IRPJ ou CSLL na forma do art. 2º da Lei nº 9.430, de 1996 (estimativas mensais com base na receita bruta do período). A falta de clareza na antiga redação do art. 44 e o fato de parte das previsões das duas multas constarem dos mesmos dispositivos (mesma base de cálculo, inclusive) foram, em grande medida, responsáveis pela sedimentação do entendimento desta Corte no sentido da impossibilidade de cobrança simultânea das multas isolada e de ofício. Por conta disso, editou se a Súmula CARF nº 105: Súmula CARF nº 105 : A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV, da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício Fl. 2372DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.373 72 por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Com o advento da MP nº 351, de 22/01/2007, e sua posterior conversão na Lei nº 11.488, de 15/06/2007, julgo terem sido extirpadas as fontes de dúbia interpretação do art. 44 no que diz respeito à previsão das multas isolada e de ofício. A nova redação é clara em relação às hipóteses de incidência de cada uma das multas, suas bases de cálculo e percentuais aplicáveis. Friso que a Súmula CARF nº 105 é explícita ao mencionar a impossibilidade de cobrança concomitante da “multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV, da Lei nº 9.430, de 1996” com a “multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual”. Tendo sido a Súmula editada pela 1ª Turma da CSRF apenas em 08/12/2014, muito tempo após a revogação do inciso IV do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, e o início da vigência da Lei nº 11.488, de 2007, seria esperado que ela fizesse alguma referência genérica como “A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas não pode ser exigida [...]” caso não desejasse se referir especificamente à multa isolada prevista no dispositivo revogado em 2007. Neste mesmo sentido já se manifestou a CSRF no Acórdão nº 910100.947, cujo voto condutor assim se pronunciou (grifos da transcrição): Da comparação entre a redação vigente e a anterior do mesmo dispositivo, constatase que com as alterações introduzidas recentemente a penalidade isolada não deve mais incidir “sobre a totalidade ou diferença de tributo”, mas apenas sobre “valor do pagamento mensal” a titulo de recolhimento de estimativa. Além disso, para compatibilizar as penalidades ao efetivo dano que a conduta ilícita proporciona, ajustouse o percentual da multa pela falta de recolhimento de estimativas para 50%, passível de redução a 25% no caso de o contribuinte, notificado, efetuar o pagamento do débito no prazo legal de impugnação. Desta forma, a penalidade isolada aplicada em procedimento de ofício em função da não antecipação no curso do exercício se aproxima da multa de mora cobrada nos casos de atraso de pagamento de tributo (20%). Providência que se fazia necessária para tomar a punição proporcional ao dano causado pelo descumprimento do dever de antecipar o tributo. Porém, este novo disciplinamento das sanções administrativas aplicadas no procedimento de ofício passaram a viger somente a partir de janeiro de 2007, portanto, após os fatos de que tratam os autos. No caso presente, em relação ao anocalendário 1998, a contribuinte foi autuada para exigir principal e multa de ofício em relação a CSLL não recolhida ao final do exercício e, concomitantemente, foi aplicada multa isolada sobre a mesma base estimada não recolhida. Como dito acima, essa dupla penalização sobre ilícitos materialmente relacionados e por força do principio da consunção, não pode subsistir. Fl. 2373DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.374 73 Interpretando a contrario sensu a referida decisão, concluise que, a partir de janeiro de 2007, quando entrou em vigência a MP nº 351, de 2007, não subsistem os motivos que outrora impediam a cobrança concomitante das duas multas. Esclareço, ainda que não vislumbro identidade entre as previsões contidas no inciso IV do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 (vigente até o final de 2006) e na alínea “b” do inciso II do art. 44 da mesma Lei (vigente a partir do início de 2007). Na redação anterior, previase a exigência de multa isolada, calculada sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição, no caso de a pessoa jurídica sujeita ao pagamento do IRPJ e da CSLL, na forma do art. 2º da Lei nº 9.430, de 1996, deixar de fazêlo, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a CSLL no ano calendário correspondente. O percentual da multa aplicável era de 75%. Já na redação introduzida pela MP nº 351, de 2007 e pela Lei nº 11.488, de 2007, prevêse a cobrança de multa isolada de 50%, calculada sobre o valor do pagamento mensal que deixar de ser efetuado na forma do art. 2º da Lei nº 9.430, de 1996, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a CSLL no anocalendário correspondente. Logo, houve alterações expressas na base de cálculo e nos percentuais aplicáveis. Diante de todo o exposto, não vislumbro óbice à cobrança cumulativa das multas isolada (art. 44, inciso II, alínea “b”, da Lei nº 9.430, de 1996) e de ofício (art. 44, inciso I, da mesma Lei) para infrações ocorridas a partir de janeiro de 2007. Nego provimento ao recurso. d) incidência de juros de mora sobre multa de ofício A cobrança de juros de mora sobre os créditos não pagos até a data de vencimento é prevista no art. 161 do CTN, nos seguintes termos: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. § 2º O disposto neste artigo não se aplica na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito. A expressão “crédito”, utilizada no caput do artigo reproduzido, obviamente se refere ao crédito tributário, pela própria natureza do diploma legal que habita. Para se definir o alcance de tal expressão, recorrese a outro dispositivo do CTN: Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Fl. 2374DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.375 74 Já a definição de “obrigação principal”, mencionada no art. 139 do CTN, é trazida pelo § 1º do art. 113 do mesmo Código. Tal obrigação tem por objeto o pagamento de tributo ou de penalidade pecuniária. In verbis: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária. O critério utilizado pelo CTN para enquadrar determinada obrigação tributária como principal é, portanto, seu conteúdo pecuniário. Uma vez que a multa de ofício tem a característica de penalidade pecuniária, fica claro que ela integra a obrigação principal, ao lado dos tributos. Interpretando em conjunto os dispositivos reproduzidos, concluise que incidem juros de mora sobre os créditos tributários não integralmente pagos no vencimento (art. 161) e que tais créditos decorrem da obrigação principal (art. 139), englobando o tributo e a multa de ofício (art. 113, § 1º). Assim, a conclusão construída é a de que o CTN prevê a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício proporcional. Os defensores da tese da ilegalidade da cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício argumentam que a interpretação literal do caput do art. 161 do CTN impossibilitaria tal incidência em razão da presença da expressão “sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis”. Se a penalidade referente à multa de ofício já estiver contemplada na expressão “crédito não integralmente pago no vencimento”, a que outras penalidades cabíveis estaria se referindo o legislador? — indagam. Ocorre que, frequentemente, a interpretação de uma norma tributária demanda a consideração da realidade jurídica e fática a que se aplica. Mais do que isso, a norma deve ser interpretada sistematicamente, levandose em conta todo o sistema tributário pátrio. A este respeito, examinese a interessante argumentação da Ilustre Conselheira Viviane Vidal Wagner, designada para redigir o voto vencedor do Acórdão CSRF nº 910100.539, de 11/03/2010: Contudo, uma norma não deve ser interpretada isoladamente, especialmente dentro do sistema tributário nacional. No dizer do jurista Juarez Freitas (2002, p. 70), “interpretar uma norma é interpretar o sistema inteiro: qualquer exegese comete, direta ou obliquamente, uma aplicação da totalidade do direito.” Merece transcrição a continuidade do seu raciocínio: Fl. 2375DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.376 75 Não se deve considerar a interpretação sistemática como simples instrumento de interpretação jurídica. É a interpretação sistemática, quando entendida em profundidade, o processo hermenêutico por excelência, de tal maneira que, ou se compreendem os enunciados prescritivos nos plexos dos demais enunciados, ou não se alcançará compreendêlos sem perdas substanciais. Nesta medida, mister afirmar, com os devidos temperamentos, que a interpretação jurídica é sistemática ou não é interpretação. (A interpretação sistemática do direito, 3. ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 74). Daí, por certo, decorrerá uma conclusão lógica, já que interpretar sistematicamente implica excluir qualquer solução interpretativa que resulte logicamente contraditória com alguma norma do sistema. Sendo assim, a melhor interpretação a ser dada ao art. 161 do CTN é, sem dúvida, aquela que guarda harmonia com os demais dispositivos daquele Código que tratam do tema sob análise, quais sejam, os arts. 113 e 139. Além do CTN, a Lei nº 9.430, de 1996, em seu art. 61, caput e § 3º, também dispõe sobre o cabimento de juros de mora sobre multa de ofício: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. [...]. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Depreendese do artigo reproduzido que incidem juros de mora sobre os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, não pagos nos prazos previstos pela legislação específica. A multa de ofício se amolda perfeitamente a tal definição, já que sua cobrança decorre, entre outras hipóteses, da falta de pagamento de imposto ou contribuição, nos termos do inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996. Sendo assim, a exemplo do que ocorre com o art. 161 do CTN, também o art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, fundamenta a possibilidade de incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Corrobora ainda tal entendimento o art. 43 da Lei nº 9.430, de 1996, que, em seu parágrafo único, prevê expressamente a incidência de juros de mora sobre a multa exigida isoladamente. Assim, vêse que a legislação não enxerga incompatibilidade entre os juros de mora e uma multa pecuniária de caráter punitivo: Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Fl. 2376DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.377 76 Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. O Egrégio Superior Tribunal de Justiça (STJ) já se pronunciou a respeito da legalidade da cobrança de juros de mora nos moldes praticados no presente processo: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: ‘É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário.’ (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. 2. Agravo regimental não provido. (STJ, 1ª T., AgRg no REsp 1335688/PR, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, dez/2012) Por fim, tanto o § 3º do art. 61 quanto o parágrafo único do art. 43, ambos da Lei nº 9.430, de 1996, fazem alusão à taxa aplicável a título de juros de mora: taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, para títulos federais. Quanto a este ponto, a matéria já foi inclusive pacificada por meio da edição da Súmula CARF nº 4: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Nego provimento ao recurso. Do exposto, voto por conhecer do Recurso Especial do sujeito passivo e, no mérito, por negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo – Redator Designado Fl. 2377DF CARF MF Processo nº 15504.723708/201361 Acórdão n.º 9101003.199 CSRFT1 Fl. 2.378 77 Fl. 2378DF CARF MF
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