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Numero do processo: 13609.001784/2008-51
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Mar 29 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon May 15 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 9202-000.097
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem, para (i) identificação de todos os processos objetos desta fiscalização e (ii) informação ao CARF, para juntada dos processos por apensação e apreciação conjunta dos recursos, se possível. Posteriormente, retornem-se os processos ao conselheiro relator, para prosseguimento. Ausente, momentaneamente, a conselheira Ana Paula Fernandes.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Heitor de Souza Lima Junior Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Fábio Piovesan Bozza (suplente convocado).
Nome do relator: HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem, para (i) identificação de todos os processos objetos desta fiscalização e (ii) informação ao CARF, para juntada dos processos por apensação e apreciação conjunta dos recursos, se possível. Posteriormente, retornemse os processos ao conselheiro relator, para prosseguimento. Ausente, momentaneamente, a conselheira Ana Paula Fernandes. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício (assinado digitalmente) Heitor de Souza Lima Junior – Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Fábio Piovesan Bozza (suplente convocado). Relatório Em litígio, o teor do Acórdão nº 2403001.704, prolatado pela 3a Turma Ordinária da 4a Câmara da 2a Seção de Julgamento deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais na sessão plenária de 17 de outubro de 2012 (efls. 140 a 147). Ali, por unanimidade de votos, deuse parcial provimento ao Recurso Voluntário, na forma de ementa e decisão a seguir: RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 36 09 .0 01 78 4/ 20 08 -5 1 Fl. 175DF CARF MF Processo nº 13609.001784/200851 Resolução nº 9202000.097 CSRFT2 Fl. 176 2 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/12/2002 a 31/12/2006 DECADÊNCIA PARCIAL. PERÍODO ATINGIDO PELA DECADÊNCIA QUINQUENAL. SÚMULA VINCULANTE DO STF. Após a publicação da Súmula Vinculante nº 8 pelo Supremo Tribunal Federal que declarou a inconstitucionalidade do art. 45 da Lei nº 8.212/1991, aplicamse as disposições do CTN para fins do cômputo da decadência. Nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo decadencial das Contribuições Previdenciárias é de 05 (cinco) anos, nos termos do art. 150, § 4º do CTN, em relação às multas pelo descumprimento de obrigação acessória, por força da Súmula Vinculante nº 08, do Supremo Tribunal Federal. PREVIDENCIÁRIO. RECÁLCULO DA MULTA COM OBSERVÂNCIA DO ART. 32A DA LEI N. 8.212/91. APLICAÇÃO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. Constitui infração, punível na forma da Lei, a apresentação de Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social (GFIP), preenchidas com informações inexatas, incompletas ou omissas. Aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN, para aplicar a multa do art. 32A da Lei n. 8.212/91. Recurso Voluntário Provido em Parte Decisão: por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso para nas preliminares reconhecer a decadência referente ao período compreendido entre: 12/2002 a 10/2003, bem como, para determinar o recálculo da multa com base no art. 32A, da Lei 8.212/91, na redação dada pela Lei 11.941/2009, prevalecendo o valor mais benéfico ao contribuinte. Enviados os autos à Fazenda Nacional em 07/01/2013 (efl. 148) para fins de ciência da decisão, insurgindose contra esta, sua Procuradoria apresenta, em 29/01/2013 (efl. 160), Recurso Especial, com fulcro no art. 67 do anexo II ao Regimento Interno deste Conselho Administrativo Fiscal aprovado pela Portaria MF no. 256, de 22 de julho de 2009, então em vigor quando da propositura do pleito recursal (efls. 149 a 158 e anexos). Duas são as matérias objeto do Recurso Fazendário, apresentadas a seguir na mesma ordem do Recurso. a) Decadência: Alegase, no pleito, divergência em relação ao decidido, em 22/11/2011, no Acórdão 1801000.801, de lavra da 1a. Turma Especial da 1a. Seção deste CARF, de ementa e decisão a seguir transcrita: Acórdão 180100.801 Assunto: Normas de Administração Tributária Anocalendário: 1998 Fl. 176DF CARF MF Processo nº 13609.001784/200851 Resolução nº 9202000.097 CSRFT2 Fl. 177 3 MULTA ISOLADA. ESTIMATIVAS. AÇÃO JUDICIAL.Enquanto albergada por ação judicial em trâmite, cuja sentença inicial foi favorável à recorrente para não recolher as contribuições CSLL, não cabe a imposição de penalidade contra a empresa que entendeu estar desonerada da obrigação de recolher as estimativas mensais de CSLL. DECADÊNCIA. PENALIDADE.Aplicase o artigo 173, inciso I, da Lei 5.172/66 (CTN) às penalidades tributárias para a contagem do prazo decadencial por ser o dispositivo que rege os créditos tributários em geral, reservandose as disposições do artigo 150, §4º, exclusivamente para os tributos sujeitos a lançamento por homologação. Decisão: por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da Relatora. Após defender a existência de divergência interpretativa, caracterizada pela similitude de situações fáticas e soluções diametralmente opostas, em linhas gerais, argumenta a Fazenda Nacional em sua demanda que o litígio em questão se refere à cobrança de multas isoladas referentes a contribuições sociais previdenciárias, que são penalidades de competência exclusiva da autoridade lançadora, não sendo possível enquadrálas como lançamentos por homologação nos moldes de que trata o art. 150, §4º do CTN, pois jamais haverá qualquer ato por parte do sujeito passivo a ser homologado, tácita ou expressamente. Portanto, não há como supor qualquer atividade de apuração realizada pelo contribuinte para pagamento dessa multa. Sendo a multa isolada um lançamento de competência do fiscal, uma vez que decorre exclusivamente da ação ou participação dos agentes da Administração Tributária, há de se aplicar, ao caso, a regra da decadência de que trata o art. 173, I do CTN, qual seja, o dispositivo que prescreve cinco anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Não há dúvidas de que, no caso concreto, o início da contagem do prazo de decadência começou no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. No caso dos autos o período de apuração compreendeu as competências de 12/2002 a 12/2006 e a notificação ocorreu em 24/11/2008. Deste modo, diferentemente do que entendeu o referido colegiado, o período atingido pela decadência é menor do que o que restou registrado no acórdão recorrido. Neste sentido, não se encontra decaído o período de 01/2003 a 12/2006, uma vez que, para a competência 01/2003, o prazo decadencial começa a fluir a partir do primeiro dia do exercício seguinte, qual seja, 01/2004, findando apenas em 12/2008. Portanto, uma vez que foi dada ciência do auto de infração, ao contribuinte, no dia 24 de novembro de 2008, obviamente não se operou a decadência reclamada pelo contribuinte recorrente em ralação ao período de 01/2003 a 12/2006. b) Retroatividade Benigna : Alegase, no pleito, divergência em relação ao decidido, em 22/11/2011, no Acórdão 20601.782, de lavra da 1a. Turma Especial da 1a. Seção deste CARF, de ementa e decisão a seguir transcrita: Acórdão 20601.782 CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Fl. 177DF CARF MF Processo nº 13609.001784/200851 Resolução nº 9202000.097 CSRFT2 Fl. 178 4 Data do fato gerador: 27/10/2006 CUSTEIO AUTO DE INFRAÇÃO ARTIGO 32, IV, § 5º E ARTIGO 41 DA LEI Nº 8.212/91 C/C ARTIGO 284, II DO RPS, APROVADO PELO DECRETO Nº 3.048/99 OMISSÃO EM GFIP CO RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS MULTA RETROATIVIDADE A inobservância da obrigação tributária acessória é fato gerador do autodeinfração, o qual se constitui, principalmente, em forma de exigir que a obrigação seja cumprida; obrigação que tem por finalidade auxiliar o INSS na administração previdenciária. Inobservância do art. 32, IV, § 5º da Lei n° 8.212/1991, com a multa punitiva aplicada conforme dispõe o art. 284, II do RPS, aprovado pelo Decreto n° 3.048/1999: “informar mensalmente ao Instituto Nacional do Seguro SocialINSS, por intermédio de documento a ser definido em regulamento, dados relacionados aos fatos geradores de contribuição previdenciária e outras informações de interesse do INSS. (Incluído pela Lei 9.528, de 10.12.97)”. A verba paga pela empresa aos segurados por intermédio de programa de incentivo, administrativo pela empresa Incentive House é fato gerador de contribuição previdenciária. Uma vez estando no campo de incidência das contribuições previdenciárias, para não haver incidência é mister previsão legal nesse sentido, sob pena de afronta aos princípios da legalidade e da isonomia. A fiscalização previdenciária não atribui responsabilidade direta aos sócios, pelo contrário, apenas elencou no relatório fiscal, quais seriam os responsáveis legais da empresa para efeitos cadastrais. Se assim não o fosse, estaríamos falando de uma empresa pessoa jurídica, com capacidade de pensar e agir. MULTA RETROATIVIDADE BENIGNA Na superveniência de legislação que estabeleça novos critérios para a apuração da multa por descumprimento de obrigação acessória, fazse necessário verificar se a sistemática atual é mais favorável ao contribuinte que a anterior. Recurso Voluntário Provido em Parte. Decisão: por unanimidade de votos, no mérito, em dar provimento parcial ao recurso para adequar o valor da multa ao disciplinado pela MP n° 449/2008. Ressalta que antes das inovações da MP nº 449, de 2008, atualmente convertida na Lei nº 11.941, de 2009, o lançamento do principal era realizado separadamente, em NFLD, incidindo a multa de mora prevista no artigo 35, II da Lei nº 8.212, de 1991, além da lavratura do auto de infração, com base no artigo 32 da Lei nº 8.212, de 1991 (multa isolada). Com o advento da MP nº 449, de 2008, instituiuse uma nova sistemática de constituição dos créditos tributários, o que torna essencial a análise de pelo menos dois dispositivos: artigo 32A e artigo 35A, ambos da Lei nº 8.212, de 1991. O atual regramento não criou maiores inovações aos preceitos do antigo art. 32 da Lei nº 8.212/91, exceto no que tange ao percentual máximo da multa que, agora, passou a ser de 20% (vinte por cento). Assim, a infração antes penalizada por meio do art. 32, passou a ser enquadrada no art. 32A, com a multa reduzida. Fl. 178DF CARF MF Processo nº 13609.001784/200851 Resolução nº 9202000.097 CSRFT2 Fl. 179 5 Já a leitura do art. 35A corrobora a tese suscitada no acórdão paradigma e ora defendida, no sentido de que a o art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430, de 1996 abarca duas condutas: o descumprimento da obrigação principal (totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento) e também o descumprimento da obrigação acessória (falta de declaração ou declaração inexata). Por certo, devese privilegiar a interpretação no sentido de que a lei não utiliza palavras ou expressões inúteis e, em consonância com essa sistemática, temse que, a única forma de harmonizar a aplicação dos artigos citados é considerar que o lançamento da multa isolada prevista no artigo 32A da Lei nº 8.212/91 ocorrerá quando houver tão somente o descumprimento da obrigação acessória, ou seja, as contribuições destinadas a Seguridade Social foram devidamente recolhidas. Por outro lado, toda vez que houver o lançamento da obrigação principal, além do descumprimento da obrigação acessória, a multa lançada será única, qual seja, a prevista no artigo 35A da Lei nº 8.212/91. Essa foi a conclusão a que chegou a eminente relatora do acórdão paradigma e que reflete a melhor interpretação da nova sistemática de lançamento das contribuições previdenciárias. Nessa linha de raciocínio, a autoridade fiscal deve aplicar a multa mais benéfica ao contribuinte considerando os seguintes parâmetros: se as duas multas anteriores (art. 35, II, e 32, IV, da norma revogada) ou o art. 35A da Lei nº 8.212/91, introduzido pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, em linha com o estabelecido no art. 4o., inciso I da Instrução Normativa RFB nº 1.027, de 2010. Requer, assim, que seja conhecido e dado provimento ao presente recurso, para reformar o acórdão recorrido, corrigindo‑ se o período abrangido pela decadência, bem como aplicandose, no que tange retroatividade benigna relativa à multa isolada, o art. 35A da Lei n. 8.212, de 1991. O recurso foi admitido pelo despacho de efls. 161 a 163. Cientificada em 17/09/13 (efls. 166/167), a contribuinte apresentou contrarrazões de efls. 168 a 170, onde, após pugnar por sua tempestividade, entende que: a) A aplicação da decadência pelo recorrido se baseou na Súmula Vinculante 08/STF, tendo sido escorreita. O confronto entre os ditames do Art. 150, § 4o e Art. 173, I do CTN não deixa margens a dúvidas uma vez convertida a obrigação acessória em principal (e aplicada a multa a isolada como in casu) na forma prevista no Art. 113, § 2° do mesmo diploma, encontra aplicação o primeiro daqueles dispositivos. Entende que, om inteiro acerto, o Acórdão recorrido fundamenta que "o acessório acompanha o principal (fls. 145). Com efeito, como a multa isolada é uma agregação ao tributo a que se refere e como este tributo (Contribuições Sociais Previdenciárias) tem por natureza o lançamento por homologação, inarredável a aplicação do Art. 150, § 4o do CTN. Logo, inatacável a decisão da Egrégia 4a. Câmara neste aspecto, devendo a mesma ser mantida. b) Defende a aplicação do instituto da retroatividade benéfica com fulcro no art. 112 do CTN. Requer assim, que o recurso não seja provido . Fl. 179DF CARF MF Processo nº 13609.001784/200851 Resolução nº 9202000.097 CSRFT2 Fl. 180 6 É o relatório. Voto Conselheiro Heitor de Souza Lima Junior, Relator Preliminarmente à análise de conhecimento e mérito recursal, verifico que se está diante de caso onde o presente auto de infração, de obrigação acessória, está intrinsecamente vinculado a eventuais autos de infração lavrados referentes à obrigação principal, sendo que, segundo entendimento de muitos membros deste Colegiado, tornase primordial saber o resultado das referidas autuações/notificações, a fim de que se possa prosseguir no presente julgamento, já que se trata de prejudicial para apreciação do Recurso Especial sob análise. Diante do exposto, voto por converter o julgamento em diligência à Unidade de Origem, para (i) identificação de todos os processos objetos desta fiscalização e (ii) informação ao CARF, para juntada dos processos por apensação e apreciação conjunta dos recursos, se possível. Posteriormente, retornemse os processos ao conselheiro relator, para prosseguimento. É como voto. (assinado digitalmente) Heitor de Souza Lima Junior Fl. 180DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11080.732817/2014-28
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon May 15 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2013
DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. ARGUMENTO ADICIONAL. LANÇAMENTO. CERCEAMENTO DE DEFESA. NÃO CONFIGURADO.
A decisão de primeira instância tem sua amplitude delimitada no debate entre a impugnação e o lançamento, razão pela qual pode conter, em relação ao lançamento original, argumentos adicionais no intuito de reforçar o posicionamento do julgador ou de rebater as razões de defesa relevantes da impugnante. Tanto é assim que há previsão no processo administrativo fiscal de apresentação de prova após a impugnação que se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos (art. 16, § 4º, "c" do Decreto nº 70.235/72). O recurso voluntário é o instrumento adequado para a contribuinte se contrapor aos fatos e fundamentos aduzidos na decisão recorrida.
A referência ao entendimento sobre classificação fiscal de órgão internacional é análoga à citação de algum precedente na jurisprudência para corroborar o raciocínio do juiz. O novo argumento utilizado na decisão recorrida não representou qualquer agravamento da exigência inicial, nem tampouco inovação ou alteração da fundamentação do lançamento, não havendo que se falar em nulidade por cerceamento de direito de defesa da recorrente ou por ofensa ao contraditório.
CRITÉRIO JURÍDICO. ALTERAÇÃO. PROCEDIMENTO FISCAL ANTERIOR. ART. 146 DO CTN. LESÃO NÃO CONFIGURADA.
A ausência de autuações anteriores para reclassificação fiscal dos produtos vendidos pela contribuinte não impede a fiscalização de fazê-lo em momento oportuno em relação a outros fatos geradores, mediante regular procedimento fiscal, com atendimento às normas atinentes à espécie, não havendo que se falar em lesão ao art. 146 do CTN.
Eventuais procedimentos fiscais anteriores efetuados em face da contribuinte e seus atos decorrentes (lançamento ou decisão motivada de não lançar) não podem ser estendidos para períodos posteriores, eis que estão vinculados aos fins para os quais foram instaurados. A ação fiscal não pode ser dissociada dos fatos ocorridos naquele período fiscalizado e da matéria sob investigação, além disso veicula posicionamento específico de um ou mais agentes administrativos, inclusive sujeito a reforma pelos órgãos julgadores, no caso de resultar em lançamento.
"KITS" PARA BEBIDAS. CLASSIFICAÇÃO INDIVIDUALIZADA. POR COMPONENTE.
Os denominados "kits" para produção de bebidas no estabelecimento do comprador, por não serem misturados, não podem ser classificados como uma única preparação sob o código NCM/SH 2106.90.10 - "Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas", devendo ser classificados individualmente, por cada componente.
A classificação de produtos não misturados sob um único código de preparação somente é autorizada quando haja previsão nos textos das posições e das notas de seção e de capítulo ou nas respectivas notas explicativas ou regras gerais do Sistema Harmonizado, o que não ocorre no caso das preparações a que se referem o código NCM/SH 2106.90.10.
Em face da classificação individualizada por componentes do denominado "kit" resta prejudicado o enquadramento no Ex tarifário 01 código NCM/SH 2106.90.10 pleiteado pela contribuinte, o que também não se revelou adequado para nenhuma das partes componentes do "kit", conforme devidamente motivado pela fiscalização.
Recurso voluntário negado
Numero da decisão: 3402-004.073
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Carlos Augusto Daniel Neto, Thais de Laurentiis Galkowicz e Maysa de Sá Pittondo Deligne. A preliminar suscitada pelo Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto no procedimento de elaboração do laudo técnico não foi acatada pelo Colegiado, na qual ficaram vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro e Carlos Augusto Daniel Neto. O Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto apresentou Declaração de Voto, a qual foi lida no julgamento. Esteve presente ao julgamento o Dr. Igor Mauler Santiago, OAB/SP nº 249.340, advogado da recorrente, e o Dr. Pedro Augusto Junger Cestari, Procurador da Fazenda Nacional.
(assinado digitalmente)
Antonio Carlos Atulim - Presidente
(assinado digitalmente)
Maria Aparecida Martins de Paula - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Antonio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: MARIA APARECIDA MARTINS DE PAULA
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ementa_s : Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2013 DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. ARGUMENTO ADICIONAL. LANÇAMENTO. CERCEAMENTO DE DEFESA. NÃO CONFIGURADO. A decisão de primeira instância tem sua amplitude delimitada no debate entre a impugnação e o lançamento, razão pela qual pode conter, em relação ao lançamento original, argumentos adicionais no intuito de reforçar o posicionamento do julgador ou de rebater as razões de defesa relevantes da impugnante. Tanto é assim que há previsão no processo administrativo fiscal de apresentação de prova após a impugnação que se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos (art. 16, § 4º, "c" do Decreto nº 70.235/72). O recurso voluntário é o instrumento adequado para a contribuinte se contrapor aos fatos e fundamentos aduzidos na decisão recorrida. A referência ao entendimento sobre classificação fiscal de órgão internacional é análoga à citação de algum precedente na jurisprudência para corroborar o raciocínio do juiz. O novo argumento utilizado na decisão recorrida não representou qualquer agravamento da exigência inicial, nem tampouco inovação ou alteração da fundamentação do lançamento, não havendo que se falar em nulidade por cerceamento de direito de defesa da recorrente ou por ofensa ao contraditório. CRITÉRIO JURÍDICO. ALTERAÇÃO. PROCEDIMENTO FISCAL ANTERIOR. ART. 146 DO CTN. LESÃO NÃO CONFIGURADA. A ausência de autuações anteriores para reclassificação fiscal dos produtos vendidos pela contribuinte não impede a fiscalização de fazê-lo em momento oportuno em relação a outros fatos geradores, mediante regular procedimento fiscal, com atendimento às normas atinentes à espécie, não havendo que se falar em lesão ao art. 146 do CTN. Eventuais procedimentos fiscais anteriores efetuados em face da contribuinte e seus atos decorrentes (lançamento ou decisão motivada de não lançar) não podem ser estendidos para períodos posteriores, eis que estão vinculados aos fins para os quais foram instaurados. A ação fiscal não pode ser dissociada dos fatos ocorridos naquele período fiscalizado e da matéria sob investigação, além disso veicula posicionamento específico de um ou mais agentes administrativos, inclusive sujeito a reforma pelos órgãos julgadores, no caso de resultar em lançamento. "KITS" PARA BEBIDAS. CLASSIFICAÇÃO INDIVIDUALIZADA. POR COMPONENTE. Os denominados "kits" para produção de bebidas no estabelecimento do comprador, por não serem misturados, não podem ser classificados como uma única preparação sob o código NCM/SH 2106.90.10 - "Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas", devendo ser classificados individualmente, por cada componente. A classificação de produtos não misturados sob um único código de preparação somente é autorizada quando haja previsão nos textos das posições e das notas de seção e de capítulo ou nas respectivas notas explicativas ou regras gerais do Sistema Harmonizado, o que não ocorre no caso das preparações a que se referem o código NCM/SH 2106.90.10. Em face da classificação individualizada por componentes do denominado "kit" resta prejudicado o enquadramento no Ex tarifário 01 código NCM/SH 2106.90.10 pleiteado pela contribuinte, o que também não se revelou adequado para nenhuma das partes componentes do "kit", conforme devidamente motivado pela fiscalização. Recurso voluntário negado
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ARGUMENTO ADICIONAL. LANÇAMENTO. CERCEAMENTO DE DEFESA. NÃO CONFIGURADO. A decisão de primeira instância tem sua amplitude delimitada no debate entre a impugnação e o lançamento, razão pela qual pode conter, em relação ao lançamento original, argumentos adicionais no intuito de reforçar o posicionamento do julgador ou de rebater as razões de defesa relevantes da impugnante. Tanto é assim que há previsão no processo administrativo fiscal de apresentação de prova após a impugnação que se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos (art. 16, § 4º, "c" do Decreto nº 70.235/72). O recurso voluntário é o instrumento adequado para a contribuinte se contrapor aos fatos e fundamentos aduzidos na decisão recorrida. A referência ao entendimento sobre classificação fiscal de órgão internacional é análoga à citação de algum precedente na jurisprudência para corroborar o raciocínio do juiz. O novo argumento utilizado na decisão recorrida não representou qualquer agravamento da exigência inicial, nem tampouco inovação ou alteração da fundamentação do lançamento, não havendo que se falar em nulidade por cerceamento de direito de defesa da recorrente ou por ofensa ao contraditório. CRITÉRIO JURÍDICO. ALTERAÇÃO. PROCEDIMENTO FISCAL ANTERIOR. ART. 146 DO CTN. LESÃO NÃO CONFIGURADA. A ausência de autuações anteriores para reclassificação fiscal dos produtos vendidos pela contribuinte não impede a fiscalização de fazêlo em momento oportuno em relação a outros fatos geradores, mediante regular procedimento fiscal, com atendimento às normas atinentes à espécie, não havendo que se falar em lesão ao art. 146 do CTN. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 73 28 17 /2 01 4- 28 Fl. 1116DF CARF MF 2 Eventuais procedimentos fiscais anteriores efetuados em face da contribuinte e seus atos decorrentes (lançamento ou decisão motivada de não lançar) não podem ser estendidos para períodos posteriores, eis que estão vinculados aos fins para os quais foram instaurados. A ação fiscal não pode ser dissociada dos fatos ocorridos naquele período fiscalizado e da matéria sob investigação, além disso veicula posicionamento específico de um ou mais agentes administrativos, inclusive sujeito a reforma pelos órgãos julgadores, no caso de resultar em lançamento. "KITS" PARA BEBIDAS. CLASSIFICAÇÃO INDIVIDUALIZADA. POR COMPONENTE. Os denominados "kits" para produção de bebidas no estabelecimento do comprador, por não serem misturados, não podem ser classificados como uma única preparação sob o código NCM/SH 2106.90.10 "Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas", devendo ser classificados individualmente, por cada componente. A classificação de produtos não misturados sob um único código de preparação somente é autorizada quando haja previsão nos textos das posições e das notas de seção e de capítulo ou nas respectivas notas explicativas ou regras gerais do Sistema Harmonizado, o que não ocorre no caso das preparações a que se referem o código NCM/SH 2106.90.10. Em face da classificação individualizada por componentes do denominado "kit" resta prejudicado o enquadramento no Ex tarifário 01 código NCM/SH 2106.90.10 pleiteado pela contribuinte, o que também não se revelou adequado para nenhuma das partes componentes do "kit", conforme devidamente motivado pela fiscalização. Recurso voluntário negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Carlos Augusto Daniel Neto, Thais de Laurentiis Galkowicz e Maysa de Sá Pittondo Deligne. A preliminar suscitada pelo Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto no procedimento de elaboração do laudo técnico não foi acatada pelo Colegiado, na qual ficaram vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro e Carlos Augusto Daniel Neto. O Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto apresentou Declaração de Voto, a qual foi lida no julgamento. Esteve presente ao julgamento o Dr. Igor Mauler Santiago, OAB/SP nº 249.340, advogado da recorrente, e o Dr. Pedro Augusto Junger Cestari, Procurador da Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Antonio Carlos Atulim Presidente (assinado digitalmente) Maria Aparecida Martins de Paula Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Antonio Carlos Atulim, Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Fl. 1117DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.117 3 Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Tratase de recurso voluntário contra decisão da Delegacia de Julgamento em Belém que julgou improcedente a impugnação da contribuinte, conforme ementa abaixo: ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2013 MERCADORIAS. CLASSIFICAÇÃO. FABRICAÇÃO INDUSTRIAL DE BEBIDAS. Consoante art. 16 do Decreto n. 4.544, de 2002 (Regulamento do IPI), reproduzido pelo art. 16 do Decreto n. 7.212, de 2010, atualmente em vigência, a classificação de mercadorias, no âmbito da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), é realizada com o emprego das seis Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI/SH), como também das duas Regras Gerais Complementares (RGC) e das Notas Complementares (NC). Assim, a classificação fiscal de determinado produto é inicialmente levada a efeito em conformidade com o texto da posição e das notas que lhe digam respeito. Uma vez classificado na posição mais adequada, passa se a classificar o produto na subposição de 1o nível (5o dígito) e, dentro desta, na subposição de 2o nível (6o dígito). O sétimo e oitavo dígitos referemse a desdobramentos atribuídos no âmbito do MERCOSUL. À luz da Tabela de Incidência do IPI (TIPI), aprovada pelo Decreto n. 6.006, de 2006, e alterações seguintes, para efeito da classificação de componentes individuais destinados à fabricação industrial de bebidas, incorreto considerálos como se mercadoria única fosse, em vista da futura preparação que eventualmente vierem a originar após deixarem a esfera da contribuinte, no lugar de individualmente atribuir a cada qual de precitados integrantes os códigos apropriados, atraindo, em conseqüência, as alíquotas correspondentes a título de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins. Ter por concentrado o que concentrado não é, se prática comercial configura, não encontra amparo em sede jurídica no que respeita à classificação de mercadorias. Inexiste norma a fazer nascer a ficção jurídica almejada, a par de obstáculo semântico que impede seja chamado de preparação o que não decorre de um processo de preparo, mistura, processamento, transformação, etc. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2013 PERÍCIA. INQUISITÓRIA. NATUREZA. PROCEDIMENTO. REQUISITOS. A perícia levada a efeito no curso do procedimento de fiscalização, porque na qualidade de inquisitória inerente ao referido procedimento, antecede eventual fase litigiosa, na qual inserida a perícia mencionada no art. 16, IV, do Decreto n. 70.235, de 1972, e as garantias processuais a tal fase afetas. Fl. 1118DF CARF MF 4 Pode, assim, ocorrer, inclusive, sem a participação da contribuinte, contanto que, por certo, sejam os resultados franqueados à interessada quando da formalização e conseqüente ciência da pretensão, reunindo a impugnante plenas condições de exercer o direito de defesa. Por outro lado, com fundamento no art. 16, §1o, do mesmo Decreto, considerase não formulado o pedido de perícia que deixa de atender a requisito previsto no inciso IV do referido artigo, qual seja, formulação dos quesitos referentes aos exames desejados. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2013 MORATÓRIA. CONTROVÉRSIA. RELAÇÃO. AUSÊNCIA. Moratória corresponde à prorrogação, pelo credor, do prazo para pagamento da dívida, ao devedor. Enquanto modalidade de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, consiste simplesmente na prorrogação do prazo para pagamento do precitado crédito. Não guarda relação, portanto, com a controvérsia relativa à classificação fiscal, à luz da TIPI, de produtos utilizados em preparações para elaboração de bebidas, e as conseqüentes repercussões no que concerne à tributação da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, pelo que inaplicável a incidência, à espécie, do art. 155, II, do CTN, de modo a se dispensar, ante suposta ausência de dolo, penalidades eventualmente impostas. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Em face da contribuinte foi lavrado auto de infração para a exigência de PIS/Pasep e Cofins, nos montantes totais de R$ 214.926.158,78 e de R$ 991.966.886,79, respectivamente, incluídos tributos, multa proporcional e juros de mora calculados até dezembro de 2014. Consta na Introdução do Termo de Verificação Fiscal a descrição da controvérsia da classificação fiscal dos produtos industrializados pela contribuinte, nos seguintes termos: I Introdução A empresa industrializa produtos destinados à fabricação de refrigerantes da posição 22.02 da TIPI. Tais produtos são constituídos de até seis componentes, sendo que cada componente saiu do estabelecimento industrial em embalagem individual. Nas notas fiscais de saída emitidas até março de 2009, em geral Recofarma identificou estes produtos como “concentrados contendo kits”, formados por “partes”. A partir de abril de 2009, mês em que o estabelecimento passou a emitir notas fiscais eletrônicas, em geral os produtos passaram a ser identificados somente como “concentrados” da marca da bebida a que se destinam. Observese que as fábricas de bebidas do Sistema CocaCola chamam de “concentrado” as matériasprimas e os produtos intermediários do concentrado como se fosse o próprio concentrado. Como será demonstrado neste relatório, o emprego desse termo é tecnicamente incorreto, e seu uso reflete apenas a prática comercial da Recofarma. Fl. 1119DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.118 5 A fiscalizada entende que os kits para bebidas que ela vende para as fábricas/ engarrafadoras do sistema CocaCola se classificam no Ex 01 do código 2106.90.10 da TIPI. Esse código é próprio para “Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado”. A classificação correta na tabela de incidência do IPI (Tipi) é imprescindível para a determinação das alíquotas aplicáveis das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins porque a lei que determina redução à alíquota zero de ambas contribuições, a qual o contribuinte faz uso de forma incorreta, prevê essa redução sobre a receita com vendas no mercado interno de produtos classificados no Ex 01 do código 2106.90.10 da Tipi (art.28, Lei 10.865/2004). Assim, ao longo deste Relatório, a fiscalização demonstrará que a classificação utilizada pela fiscalizada está incorreta o que resulta na aplicação indevida de alíquota zero, para fins de tributação das contribuições para o PIS e Cofins sobre as receitas auferidas no mercado interno com a venda de tais produtos. Concluiu a fiscalização que "nenhum dos produtos comercializados por Recofarma se enquadra no Ex 1 da NCM 2106.90.10, ficando caracterizado o erro na classificação fiscal utilizada", o que resultou na exigência relativa às contribuições para o PIS/Pasep e Cofins, objeto do presente processo O entendimento da fiscalização baseouse, conforme síntese por ela mesma efetuada, nos seguintes pontos: a) A fiscalizada alega que seu produto é uma “preparação alimentícia”, devendo ser classificada no Ex 1 da NCM 2106.90.10, código próprio para preparações compostas não alcoólicas. Entretanto, de acordo com os dicionários, a palavra “preparação” aplicase a algo que esteja preparado, pronto. Da mesma forma, a Nomenclatura do Sistema Harmonizado emprega o termo “Preparação” como uma mercadoria pronta para uso. Não é o caso do “concentrado” vendido por Recofarma, pois este é um conjunto de ingredientes, cada uma na sua embalagem individual, que não estão misturados e não estão prontos para uso. b) Recofarma afirma que não pode misturar as partes dos kits por limitações técnicas, e defende que para fins de classificação fiscal seja considerada a realidade econômica e mercadológica. Esta fiscalização não discute a veracidade da afirmação de que ocorreriam reações químicas indesejadas caso a mistura acontecesse no estabelecimento de Recofarma. Entretanto, tal fato é irrelevante para definição de classificação fiscal de mercadorias. E nem poderia existir regra neste sentido, pois não haveria como se avaliar a realidade econômica e mercadológica de cada contribuinte. Além disto, a existência de limitações técnicas é um aspecto que pode variar conforme o surgimento de Fl. 1120DF CARF MF 6 avanços tecnológicos ou a localização geográfica dos estabelecimentos, o que é incompatível com a estabilidade e uniformidade que deve existir na classificação fiscal das mercadorias. c) Não corresponde à realidade a afirmação da fiscalizada de que os componentes dos kits não poderiam ser vendidos separadamente. No caso, por exemplo, do “Concentrado Sprite”, composto por quatro partes, nada, além de questões meramente comerciais, impediria que Recofarma industrializasse uma das partes, e três diferentes empresas vendessem cada uma das demais partes (apenas uma das embalagens individuais contém o aroma do produto, onde está o chamado segredo industrial). Mesmo dentro da estrutura atual adotada por Recofarma, poderiam, por exemplo, ocorrer problemas com o conteúdo de um único componente de kit durante o transporte até o destinatário, hipótese em que não haveria impedimento de natureza físicoquímica para que Recofarma fornecesse ao engarrafador apenas a parte faltante. d) As regras de classificação de mercadorias são obedecidas internacionalmente. A Alfândega dos Estados Unidos analisou o enquadramento de um conjunto de produtos alimentícios vendidos em uma mesma caixa de transporte, cujos ingredientes são embalados individualmente (se misturados pelo vendedor, ocorreria sua deterioração). Tais componentes são transformados em um produto único pelos destinatários. Decidiuse que os diversos componentes do produto analisado são classificáveis separadamente (foi anexada ao presente processo a tradução juramentada da referida decisão). e) A possibilidade de classificação como uma mercadoria única de kits e de partes vendidas em embalagens individuais só existe nos casos específicos previstos nas Regras 2 a) e 3 b) do Sistema Harmonizado. Entretanto, como a própria empresa reconheceu, as Regras 2 a) e 3 b) não se aplicam a seus produtos. f) A primeira parte da Regra 2 a) faz referência a “artigos” mesmo incompletos ou inacabados. Tais produtos devem apresentar as características essenciais do artigo completo ou acabado, e não devem servir para outra finalidade que não seja a de se tornarem o produto completo ou acabado cujas características eles apresentam. Entretanto, os componentes dos kits comercializados por Recofarma apresentam suas próprias características individuais, sendo que várias deles podem ser utilizadas na elaboração de outros produtos da indústria de alimentos e fármacos. Nenhuma das partes dos kits apresenta as características essenciais da bebida a ser comercializada (ver também item “i”, abaixo). g) As Notas Explicativas determinam que o enquadramento de mercadorias na segunda parte da Regra 2 a), que trata de um artigo apresentado desmontado ou por montar, é possível apenas quando sejam necessárias simples operações de montagem, por meio de porcas, parafusos, soldagem, rebitagem, etc. Evidentemente, não é o caso dos kits da fiscalizada. h) A Regra 3 b) abrange mercadorias apresentadas em sortidos para a satisfação de uma necessidade específica ou exercício de uma atividade determinada, desde que acondicionadas para venda a varejo. Os kits da fiscalizada, porém, não podem ser vendidos diretamente aos consumidores. De qualquer maneira, não haveria como enquadrar os produtos da empresa nesta Fl. 1121DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.119 7 Regra, pois as Notas Explicativas excluem expressamente os kits para bebidas do campo de aplicação da regra 3 b). i) Face ao exposto, cada componente dos kits comercializados pela fiscalizada deve ser classificado individualmente. Os componentes de valor mais significativo (aqueles que contém ingrediente fundamental no aroma e/ou no sabor da bebida) devem ser classificados no código NCM 2106.90.10 (“Preparação do tipo utilizado para elaboração de bebidas”), cujas alíquotas de PIS/Pasep e Cofins são diferentes de zero. Tais componentes não se enquadram no Ex 01 do referido código, pois o extrato concentrado, por ser uma preparação composta, deve conter o extrato vegetal de sua origem e todos os demais aditivos necessários, a fim de apresentar, quando diluído, as mesmas características de identidade presentes na bebida elaborada a partir dele. A contribuinte apresentou impugnação, mediante a qual alegou, em síntese, que as alegações alinhadas pelas autoridades fiscais não guardariam pertinência quanto à classificação tarifária do concentrado, e que, ordinariamente, os produtos industrializados seriam compostos por diferentes insumos, o que não lhes impediria a caracterização como um produto individualizado, sujeito à classificação própria. Apresentou seus pedidos ao final da peça impugnatória, nestes termos: 7 CONCLUSÃO E PEDIDOS 7.1 Quanto à Classificação Tarifária 7.1.1 Às alegações da Requerente, baseadas na lei e nas Regras NESH (item 5.2), não se podem opor, como quer a autuante, nem a primária confusão entre matériaprima e produto intermediário, frequente no relatório, nem tampouco a estapafúrdia comparação da preparação alimentícia com motores que necessitem de combustível (sic!). Muito menos pela equiparação de tais preparações de destinação específica à fabricação de produtos decorrentes de fórmulas próprias, registradas e controladas pelas autoridades sanitárias, com artigos destinados à formação de sanduíches. 7.1.2 A tese da Requerente é corroborada por laudos emitidos pelo CETEA/IPAL, órgão oficial especializado, laudos estes anexados a esta impugnação (v. itens 5.3.13 e 5.3.14 e ANEXO V). 7.1.2 Resta demonstrada nesta impugnação a absoluta falta de fundamentação legal para a glosa da classificação tarifária dos concentrados da Requerente na posição 2106.90.10, ex 01 da TIPI, em face de sua homogeneidade comprovada, inclusive, pela coleta de amostras e seu exame pelo Laboratório Falcão Bauer, razão porque se requer seja o auto de infração julgado improcedente, anulandose a penalidade por ele imposta. 7.1.3 A se pretender opor à Requerente ilações que lhe sejam contrárias, supostamente extraídas do laudo do Laboratório Falcão Bauer, como se faz no Anexo 1 ao auto ora contestado (fls. 17/58 e seguintes), impõese que a decisão nelas não se Fl. 1122DF CARF MF 8 apoie, sob pena de nulidade, em face do cerceamento de defesa relatado no item 5.3.2 desta impugnação. Para eventual utilização de tais ilações, imporseá a realização de nova coleta de amostras e nova perícia, a ser realizada de acordo com o disposto no art. 18 do Decreto 70.235/72, hipótese em que a Impugnante desde logo indica como sua perita à Sra. Maria Stefania Rose da Silva Rodrigues, brasileira, casada, RG 1230857, CPF 86126865472, CQR 14300031, CFQ 022894, residente à Av. Domingos Jorge Velho 371, Manaus/AM, ao tempo e, que protesta pela apresentação de quesitos específicos, se e quando determinada esta diligência. 7.1.4 Esperase e requerse, assim, o desprovimento da autuação quanto a este ponto. 7.2 Quanto à Alíquota Zero do PIS e da COFINS 7.2.1 Acatado o pedido referente à classificação tarifária, cairá consequentemente a glosa do benefício referente ao PIS e à COFINS. 7.2.2 Se assim não for, no entanto, a Requerente pleiteia, pelo menos, a aplicação do art. 155, II do CTN. Os argumentos da impugnante não foram acolhidos pela Delegacia de Julgamento, com base, dentre outros, nos seguintes fundamentos: i) Incontroverso que os produtos reunidos pela autuada sob o apelido de “concentrado” experimentam a sobredita preparação tão somente por ocasião da elaboração das bebidas em apreço, quando já deixaram a esfera da contribuinte. Permanecem, até então, ocupando, cada qual dos itens mencionados, sua individual embalagem, ao arrepio de qualquer espécie de mistura e ainda distantes, portanto, da condição de pronto para uso. E não se mostra relevante, para efeito da classificação fiscal buscada pelas autoridades fazendárias, naturalmente, eventual alteração de sabor e perda de propriedades essenciais caso a mistura se desse de forma antecipada, ou seja, nas dependências do estabelecimento industrial da contribuinte. ii) A Regra 2.a) e a Regra 3.b), que mais se aproximam do intento de conferir única classificação fiscal à reunião levada a efeito pela fiscalizada, igualmente, acrescentese, não socorrem à impugnante. Os ditos “concentrados”, quando da saída decorrente da venda pela contribuinte realizada, simplesmente não ostentam as características essenciais do artigo completo ou acabado, servindo, inquestionavelmente, no campo das possibilidades, aos mais diversos fins; além do que não se tratam de artigo desmontado ou por montar, para serem classificados pela Regra 2.a. Também com relação à Regra 3.b), a Nota Explicativa XI dispõe: “A presente Regra não se aplica às mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas, por exemplo”. iii) O Centro de Tecnologia de Embalagem (CETEA), responsável pelos relatórios das fls. 588/597), à obviedade, não detém competência legal para promover, em caráter que se pretende terminativo, a classificação fiscal de mercadorias, atribuição sim do ocupante do cargo de Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil. Ademais, não se parte da classificação adotada pela contribuinte em busca de interpretação apta a justificála, e sim da realidade atinente aos produtos alinhados no presente trabalho de forma a corretamente classificálos no âmbito da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). Considerar o “concentrado” como já constituindo mistura formada pelos seus componentes é ficção sem qualquer esteio no regramento posto. iv) No propósito de fulminar qualquer dúvida remanescente quanto ao correto entendimento adotado pelas autoridades fiscais diante da Nota Explicativa XI à Regra 3.b), recorrese à análise levada a efeito pelo Conselho de Cooperação Aduaneira por ocasião da edição da precitada nota Fl. 1123DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.120 9 explicativa, a qual evidencia que os componentes individuais destinados à fabricação industrial de bebidas devem ser classificados separadamente nos códigos apropriados a cada um deles, não como uma mercadoria única. A contribuinte foi cientificada do Acórdão de primeira instância pessoalmente, por intermédio de seu representante legal, em 05/01/2016, tendo apresentado o recurso voluntário em 03/02/2016, alegando, em síntese: 2. NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA A empresa tem invocado a NESH XI à RGI/SH 3, que qualifica como mercadoria única o concentrado para a fabricação industrial de bebida, embora formado por componentes diversos, acondicionados em separado e apresentados em conjunto (numa única ou em várias embalagens), desde que em proporções fixas. A autuação nada contrapõe a essa tese, recorrendo à manobra de repelir a aplicação da Regra 3, que a Recorrente nunca pleiteou, com arrimo justamente na Nota, com isso fugindo à discussão do conteúdo desta última. Foi só na decisão recorrida que algum fundamento para afastarse a Nota foi dado: os trabalhos, em 1985, do Comitê de Nomenclatura e do Comitê Interino de Sistema Harmonizado do Conselho de Cooperação Aduaneira (CCA), hoje Organização Mundial da Aduanas (OMA). Nítida, portanto, a improcedência da escusa sintomaticamente antecipada pela decisão recorrida, no sentido de que invocação dos trabalhos da OMA visaria apenas a "corroborar entendimento adotado pelas autoridades fiscais e exaustivamente fundamentado no decorrer do termo de verificação fiscal", de sorte que "não inova nas razões, muito menos se revela capaz de ensejar qualquer prejuízo" à Recorrente. A interpretação da Nota XI e o debate sobre a sua relevância para o caso não foram tratadas numa única linha e muito menos "exaustivamente" no Relatório de Ação Fiscal ou nos seus Anexos. A inovação nos motivos do lançamento é inequívoca, assim como o prejuízo para o contribuinte, que não teve como se defender do fundamento que, ao cabo, veio a prevalecer. Gritante, portanto, a ofensa ao contraditório, que a Constituição estende ao processo administrativo (art. 5o, LV) e que a doutrina define como a oportunidade de participação na formação do convencimento do julgador. A consequência inevitável é a nulidade da decisão, na esteira do art. 59, II, do Decreto n° 70.235/72. A plenitude do princípio foi reconhecida no Novo CPC, em seu art. 10, cujo comando aplicase ao processo tributário administrativo, seja por força do seu art. 15, seja porque é consequência direta do princípio constitucional, tanto que já se refletia na jurisprudência anterior do CARF. 3. RAZÕES PARA A REFORMA DA DECISÃO RECORRIDA 3.1. Desnecessidade de registro dos kits da Recorrente no MAPA A Lei n° 8.918/94 (arts. 1o e 2o) e o Anexo ao Decreto n° 6.871/2009 (art. 7o) impõem o registro das bebidas junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A definição de "BEBIDA", bem como de outros termos relevantes para o setor, é fornecida pelo art. 2° do mencionado regulamento. Os kits autuados qualificamse como matériaprima das bebidas (inciso IV), sendo cada uma de suas partes composta de diversos ingredientes (inciso V) e aditivos (inciso VII). Assim, qualquer que seja a sua classificação fiscal 2106.90.10 Ex 01 ou outra , dispensam registro no Ministério, o que invalida o raciocínio a CONTRARIO SENSU desenvolvido pela fiscalização (se não há registro no MAPA para produto com aquela classificação, é porque a Recorrente não o fabrica). 3.2. Relevância da destinação do produto na classificação fiscal. Inexistência de obstáculo semântico. Fl. 1124DF CARF MF 10 Ao restringir a classificação fiscal a questões de natureza meramente semântica, as autoridades fazendárias violam as definições e aplicações do Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias (SH). O SH referese, precipuamente, à classificação de MERCADORIAS, assim entendidos produtos destinados à mercancia. Outra não pode ser a conclusão, se considerarmos que a tributação decorrente da aplicação de tal Sistema visa a alcançar o deslocamento interno e/ou internacional de mercadorias, através da identificação dos fatos geradores da incidência tributária (na hipótese de deslocamento interno, no Brasil, a tributação pelo IPI). Portanto, inaceitável e absurda a interpretação constante da decisão recorrida, no sentido de que as definições constantes do SH seriam hipóteses abstratas descoladas da realidade fática e mercantil vivenciada pelo contribuinte; no sentido de que razões de natureza mercantil ou físico químicas não poderiam influenciar na classificação tarifária. A tese não se sustenta, como demonstram com rigor HÉLDER SILVA CHAVES, JOSÉ ANTÔNIO SCHÕNTAG e RICARDO JOSÉ DE SOUZA PINHEIRO, em parecer específico para o caso (doc. n° 02). Corrobora o entendimento da Recorrente, no sentido de que o SH privilegia o uso, a destinação e o valor comercial da mercadoria, o próprio Laudo emitido pelo Laboratório Falcão Bauer, de iniciativa da fiscalização e por ela utilizado para suportar o seu entendimento quanto à suposta classificação fiscal dos concentrados comercializados pela Recofarma. De fato, (i) a Fiscalização identificou e coletou, separadamente, os diferentes kits de concentrados produzidos pela Recorrente e (ii) o Laboratório emitiu laudo específico para cada um dos produtos resultantes da utilização dos referidos concentrados, o que não deixa margem a dúvidas quanto à sua individualização e específica destinação. A afirmação de que os kits não podem ser considerados "PREPARAÇÕES", por não estarem prontos para uso (isto é, por comporemse de partes que, individualmente consideradas, não levam à produção da bebida fls. 06 e 07 do Relatório de Ação Fiscal), merece dupla censura. Desde logo porque desconsidera o uso que lhes é próprio, que consiste justamente no terem as suas partes misturadas entre si e com outras substâncias, no estabelecimento do adquirente. Fixado este ponto, resta claro que os kits estão, sim, perfeitamente prontos para uso. Depois porque a própria autuação classifica no item 2106.90.10 "PREPARAÇÕES DOS TIPOS UTILIZADOS PARA ELABORAÇÃO DE BEBIDAS" as partes 1, 2A, 2B e 3 do concentrado da CocaCola Light; a parte 3 do concentrado de Sprite Zero; e as partes 1 e 2 da CocaCola (fls. 14 do Relatório de Ação Fiscal). Ora, se o kit completo cuja diluição leva à produção da bebida não pode ser considerado uma "PREPARAÇÃO", como entender que o sejam algumas de suas partes isoladas, se nenhuma delas desemboca, PER SE, no produto final? O paradoxo só reforça a total falta de critério do lançamento e o artificialismo de suas premissas, arregimentadas a POSTERIORI unicamente para justificar a conclusão que se queria, desde o início, atingir. Nesse sentido é a precisa observação de ELLEN GRACIE NORTHFLEET, em parecer elaborado para a Recorrente (DOC. N° 03): Com efeito, os concentrados para a elaboração de bebidas da posição 22.02 da TIPI só existem sob a forma de kits, como atestam HÉLDER SILVA CHAVES, JOSÉ ANTÔNIO SCHÕNTAG e RICARDO JOSÉ DE SOUZA PINHEIRO no já referido parecer. A circunstância é também atestada pelo relatório do Comitê de Nomenclatura e do Comitê Interino de Sistema Harmonizado do CCA citado na decisão recorrida, onde se tratava de concentrados fabricados por diversos grupos empresariais (Fanta Grupo CocaCola; Mirinda Laranja e PepsiCola Grupo Pepsico), sempre sob a forma de kits. Se é assim, a interpretação predicada pelo Fisco para o Ex 01 do código 2106.90.10 conduz nada menos do que à inutilidade do comando, que não se referiria a nenhum produto existente no mundo! Noutras palavras, a interpretação das autoridades fiscais torna inaplicável o art. 28, VII, da Lei n° 10.865/2004, fazendo TABULA RASA da política industrial soberanamente instituída pelo legislador. Fl. 1125DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.121 11 3.3. Autorização normativa para a classificação unificada: a interpretação da NESH XI à RGI/SH 3 A redução feita pela autuação, e mantida pela DRJ, das partes de um concentrado (já pronto) a meros ingredientes de um concentrado (ainda por produzirse) ofende também a legislação. Anotese, de saída, que a prática da Recorrente de classificar os seus produtos de forma unificada não encontra obstáculo nos arts. 13, §4º, 30 e 31, do Anexo ao Decreto n° 6.871/2009. O primeiro nada diz sobre a apresentação em kits. Apenas dispõe que, feita a diluição (do concentrado unificado ou, sendo o caso, de todas as partes que o compõem), a mistura resultante deve ter as mesmas características da bebida final. E isso ocorre no caso da Recorrente. Os outros regulam os concentrados líquidos para refrigerantes, mas não afirmam que este é o único estado físico em que o produto pode vir vale dizer, não negam o caráter de concentrado aos produtos compostos de partes líquidas e partes sólidas. Mais do que isso, a classificação tradicionalmente adotada pela Recorrente tem respaldo expresso no Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias. A RGI/SH 3 disciplina a classificação de produtos misturados ou compostos que possam, em tese, ser enquadrados em mais de uma posição. A respectiva NESH XI, embora afaste a incidência do comando, deixa fora de dúvida ao falar em "MERCADORIAS CONSTITUÍDAS POR DIFERENTES COMPONENTES" que os concentrados de bebidas são uma mercadoria única, ainda que apresentados em partes independentes (embaladas conjuntamente ou não), e sem qualquer exigência quanto ao estado físico de suas partes integrantes (sólido ou líquido). Afastada quanto aos concentrados a Regra 3, para a qual o leitor fora remetido pela Regra 2.b, voltase a esta, que trata pela vez primeira dos produtos misturados ou compostos. Confira se, então, a NESH X a este último comando: "X) Os produtos misturados que constituam preparações mencionadas como tais, numa Nota de Seção ou de Capítulo ou nos dizeres de uma posição, devem classificarse por aplicação da Regra 1", a qual, por sua vez, determina: "Os títulos das Seções, Capítulos e Subcapítulos têm apenas valor indicativo. Para efeitos legais, a classificação é determinada pelos textos das Posições e das Notas de Seção e de Capítulo e, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas Posições e Notas, pelas Regras seguintes." Eis o texto do Ex 01 do Código 2106.90.10 da TIPI: "Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superiora 10 partes da bebida para cada parte do concentrado." Claro, assim, que esta é a sua classificação correta, não importa se apresentados sob forma unificada ou em kits. Descabida, dessa forma, a pretensão à classificação isolada de cada uma de suas partes integrantes, a qual somente procederia se estas fossem vendidas em separado, com preços individualmente estabelecidos o que, definitivamente, não ocorre aqui. Esta também a leitura de ELLEN GRACIE NORTHFLEET. As menções no Relatório Fiscal a uma capacidade de diluição de apenas 6,4 (fls. 10 e figuras 8 e 9 do Anexo 1) são equivocadas, pois miram o concentrado já diluído em solução aquosa pelo engarrafador, e não no estado em que sai da fábrica da Recorrente. Isso o que atesta o Relatório CETEA/ITAL 00242/14, juntado na impugnação, que teve por objetivo aferir a capacidade de diluição dos concentrados fornecidos pela Recorrente à Brasal Refrigerantes Ltda. (Fabricante Autorizado do Sistema CocaCola) através dos procedimentos operacionais padrão dessa empresa para fabricação das seguintes bebidas nãoalcoólicas, entre outras: CocaCola; Sprite; Guaraná Kuat; Fanta Laranja. Em todos os casos, a conclusão do órgão técnico é clara: a capacidade de diluição dos concentrados comercializados pela Recorrente é superior a 10 partes da bebida final e, portanto, a classificação fiscal dos produtos por ela produzidas é 21.06.90.10 ex 01. Fl. 1126DF CARF MF 12 O Conselho Superior da SUFRAMA define de forma expressa os produtos da Recorrente como Concentrados para Bebidas Não Alcoólicas (Resolução CAS n° 298/2007; doc. n° 04). Mais do que isso, a Portaria Interministerial MPO/MICT/MCT n° 08/98, que aprovou o Processo Produtivo Básico para os Concentrados, Bases e Edulcorantes para Bebidas Não Alcoólicas, entre outros produtos (invocada às fls. 21 do Anexo I ao Relatório de Ação Fiscal), prevê a homogeneização apenas "quando necessário", deixando claro que a venda em kits não prejudica a unicidade do produto (doe. n° 05, item 2.c). Assim, ao negar a classificação fiscal dos produtos comercializados pela recorrente é frustrar o incentivo fiscal e também violar a segurança jurídica. 3.4. Irrelevância dos trabalhos do Conselho de Cooperação Aduaneira Os trabalhos do Comitê de Nomenclatura e do Comitê Interino de Sistema Harmonizado do CCA (hoje OMA) não representam interpretação autêntica. Ademais, a IN/RFB n° 1.459/2014 tal a IN/RFB n° 873/2013, que a precedeu torna vinculantes no Brasil apenas os pareceres do Comitê de Sistema Harmonizado da OMA traduzidos para o português e integrados em coletânea publicada no site da Receita Federal do Brasil na internet. 3.5. Sucessivamente: a classificação fiscal do concentrado para a fabricação de CocaCola. A fiscalização classificou as duas únicas partes do concentrado para a fabricação de CocaCola no item 2106.90.10. Desse modo, ainda que por um absurdo raciocínio, inequivocamente contrário ao SH, devesse prevalecer a classificação em separado, combatida nos tópicos anteriores e ora aceita ad argumentandum, imporseia o enquadramento de cada uma daquelas partes no Ex 01. Com efeito, verificase aqui a identidade exigida pela RFB entre o produto final bebida e cada uma das partes analisadas, pois todas são "preparações do tipo utilizado para elaboração de bebidas". E tal identidade é perfeita (correspondência biunívoca), já que na CocaCola não há nenhuma parte que seja enquadrada pela RFB em outro código. 3.6. Sucessivamente: incidência do art. 146 do CTN Há mais de 30 anos, os concentrados destinados à fabricação das bebidas não alcoólicas do Sistema CocaCola são vendidos no Brasil sob a forma de kits, constituídos de partes, compondo uma única mercadoria com valor comercial único, passível de classificação fiscal. Só agora, na autuação aqui combatida e naquela de IPI lavrada no mesmo dia, se introduziu a classificação pulverizada dos kits, parte a parte. Tratase, sem dúvida, de inovação no critério jurídico que o Fisco vinha consistentemente adotando na matéria visàvis a Recofarma, a atrair, ad argumentandum, a regência do art. 146 do CTN. A conclusão é cristalina: os créditos devem ser extintos, mesmo que se conclua pelo acerto da classificação em separado, a qual só poderá ser oposta contra a Recorrente quanto aos fatos geradores ocorridos após a decisão administrativa final que rejeite os itens 3.2 a 3.4 supra. É o relatório. Voto Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula, Relatora Atendidos aos requisitos de admissibilidade, tomase conhecimento do recurso voluntário. "Preliminar de nulidade da decisão recorrida" Fl. 1127DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.122 13 Conforme se observa no Acórdão nº 0132.397 3ª Turma da DRJ/BEL, de 28 de outubro de 2015, a reclassificação fiscal efetuada pela fiscalização foi mantida sob vários fundamentos, dentre eles, aqueles resumidos nos itens i) a iv) do relatório acima, em decisão devidamente motivada, sem qualquer cerceamento de direito de defesa à recorrente. Alega a recorrente que a utilização pelo julgador da DRJ dos trabalhos do Comitê de Nomenclatura e do Comitê Interino de Sistema Harmonizado do Conselho de Cooperação Aduaneira (CCA), hoje Organização Mundial da Aduanas (OMA), representaria inovação nos motivos do lançamento e ofensa ao princípio do contraditório, cuja plenitude foi reconhecida no art. 10 do novo CPC. No entanto, a utilização pelo julgador de argumentos adicionais para combater as alegações da então impugnante não implica necessariamente inovação no lançamento original. Tanto é assim que há previsão no processo administrativo fiscal de apresentação de prova após a impugnação que se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos (art. 16, § 4º, "c" do Decreto nº 70.235/72). A decisão de primeira instância tem sua amplitude delimitada no debate entre a impugnação e o lançamento, razão pela qual pode conter argumentos adicionais em relação ao lançamento para rebater as razões de defesa relevantes da impugnante. No caso concreto, o julgador de primeira instância, após sustentar seu posicionamento no sentido do não cabimento da classificação fiscal pleiteada pela então impugnante, com argumentos já suficientes à compreensão de suas razões de decidir, acrescentou, a título de reforço na sua argumentação e no intuito de rebater as alegações da impugnante, a análise do Comitê de Nomenclatura e do Comitê Interino de Sistema Harmonizado do Conselho de Cooperação Aduaneira (CCA), o que foi, inclusive, bem ressalvado na decisão recorrida, nos seguintes termos: (...) Ademais, vejase, não se está, no âmbito do presente processo administrativo fiscal, em busca de interpretação capaz de considerar os chamados “concentrados” como mercadorias unitárias, mas da correta classificação dos produtos sob o abrigo de tal expressão, seja por intermédio de uma única classificação – a exemplo do que pretende a impugnante –, ou através da classificação de cada qual dos produtos envolvidos. É dizer, não se parte da classificação adotada pela contribuinte em busca de interpretação apta a justificála, e sim da realidade atinente aos produtos alinhados no presente trabalho de forma a corretamente classificálos no âmbito da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). Considerar o “concentrado” como já constituindo mistura formada pelos seus componentes, consoante já anotado, é ficção sem qualquer esteio no regramento posto. Restaria, assim, aparentemente, desfazer o equívoco pela impugnante perpetrado quando da interpretação da Nota Explicativa XI à Regra 3.b), segundo a qual referida regra não se aplicaria às mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas. Fl. 1128DF CARF MF 14 E, para tanto, no propósito de fulminar qualquer dúvida remanescente quanto ao correto entendimento adotado pelas autoridades fiscais diante da Nota Explicativa XI à Regra 3.b), recorrese à análise levada a efeito pelo Conselho de Cooperação Aduaneira por ocasião da edição da precitada nota explicativa, uma vez suscitada, ainda em 1985, a questão posta aqui. A documentação em epígrafe, cuja juntada aos autos, na seqüência deste julgado, inclui a respectiva tradução juramentada, evidencia, sem qualquer margem à dúvida, que os componentes individuais destinados à fabricação industrial de bebidas devem ser classificados separadamente nos códigos apropriados a cada um deles, não como uma mercadoria única. Tratase, simplesmente, da razão de ser da Nota Explicativa XI à Regra 3.b), em nítida colisão com a tese que a impugnante pretende fazer prosperar. E não se diga que este julgador extrapola seu mister ao trazer a lume aludido debate havido no âmbito do Conselho de Cooperação Aduaneira. Tal se deu, observese, tão apenas no intuito de corroborar entendimento adotado pelas autoridades fiscais – e exaustivamente fundamentado no decorrer do termo de verificação fiscal de fls. 346/364 – na materialização da pretensão fazendária. Não inova nas razões, muito menos se revela capaz de ensejar qualquer prejuízo à contribuinte. (...) A referência ao entendimento sobre classificação fiscal do órgão internacional pela DRJ, assim como a menção ao entendimento da Alfândega dos Estados Unidos pela fiscalização, é análoga a citação de algum precedente na jurisprudência para corroborar o raciocínio do julgador ou do agente administrativo na aplicação da lei ao caso concreto. Com efeito, o novo argumento utilizado na decisão recorrida não representou qualquer agravamento da exigência inicial, nem tampouco inovação ou alteração da fundamentação do lançamento, não havendo que se falar em nulidade por cerceamento de direito de defesa da recorrente ou ofensa ao contraditório, cabendo lembrar que o recurso voluntário é o instrumento adequado para a contribuinte se contrapor aos fatos e fundamentos aduzidos na decisão recorrida. Assim, rejeito a preliminar de nulidade da decisão recorrida suscitada pela recorrente. Do mérito A controvérsia principal do processo reside na verificação se as mercadorias, vendidas pela contribuinte às fábricas/engarrafadoras de bebidas, teriam uma classificação fiscal única como um "kit" ou conjunto para uma finalidade específica, não obstante não estejam misturados num mesmo recipiente, em especial, se classificarseiam conjuntamente sob o código único de NCM/SH 2106.90.10 da TIPI Ex 01, conforme pretende a recorrente: Fl. 1129DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.123 15 Ex 01 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado) No que concerne aos produtos (componentes ou "partes" dos denominados "kits" ou "concentrados") destinados à fabricação de refrigerantes, eles foram objeto de análise pericial para verificação das suas composições, mediante 20 Laudos Técnicos exarados pelo Centro Tecnológico de Controle de Qualidade Falcão Bauer (fls. 295/326). Com base nos resultados dos Laudos Técnicos, a fiscalização efetuou a classificação fiscal dos produtos individualmente, nos seguintes termos: Entendeu a fiscalização que os componentes de valor mais significativo dos denominados "kits" para fabricação de refrigerantes se classificariam no código NCM 2106.90.10, entretanto não se enquadrariam no Ex tarifário 01, o qual abrigaria apenas o extrato concentrado, assim considerado como uma preparação composta que deveria conter o extrato vegetal e todos os demais aditivos necessários para o refrigerante pronto após a diluição. A classificação fiscal dos componentes dos "kits" para a fabricação de outras bebidas, que não os refrigerantes acima, não foram objeto de análise pericial, mas tiveram o mesmo tratamento pela fiscalização em face da identidade das informações fornecidas pela contribuinte. Fl. 1130DF CARF MF 16 Assim, a fiscalização concluiu que nenhum dos produtos comercializados pela Recofarma se enquadraria no Ex 01 da NCM 2106.90.10, de forma que a contribuinte não faria jus à redução a zero da alíquota do PIS/Pasep e Cofins incidente sobre a receita bruta decorrente de vendas no mercado interno. Do relatório acima, podemos visualizar o problema, no âmbito do julgamento do recurso voluntário em dois questionamentos: 1º) A classificação fiscal dos componentes dos "kits" deve se dar individualmente, por cada componente do "kit"? 2º) Em caso afirmativo, algum componente do denominado "kit", reclassificado pela fiscalização no código NCM/SH 2106.90.10, poderia se enquadrar no Ex tarifário 01? No que concerne ao 1º questionamento, a fiscalização sustentou que a classificação fiscal deveria ser realizada por componente do "kit", individualmente, com base nos seguintes fundamentos: a) os produtos vendidos pela Recofarma são vários ingredientes, cada um na sua embalagem individual, que não estão misturados nem prontos para uso, não podendo formar uma única preparação; b) o fato alegado pela contribuinte de não poder misturar os componentes dos "kits" por limitações técnicas é irrelevante para a definição da classificação fiscal das mercadorias; c) os componentes dos "kits" podem, sim, ser vendidos separadamente, sendo que a Recofarma poderia, por exemplo, industrializar e vender somente a parte que contém o aroma do produto e o segredo industrial, e as demais partes poderiam ser vendidas às engarrrafadoras por outras empresas; ou mesmo, por hipótese, poderia a Recofarma substituir algumas das partes faltantes eventualmente avariadas; d) em situação semelhante, a Alfândega dos Estados Unidos decidiu da mesma forma, pela classificação fiscal dos produtos individualmente, os quais eram vendidos em uma mesma caixa de transporte, mas embalados individualmente (se misturados pelo vendedor, ocorreria sua deterioração), e eram depois transformados em um produto único pelos destinatários; e) a possibilidade de classificação dos componentes dos denominados "kits" só existiria nos casos específicos previstos nas Regras 2 a) e 3 b) do Sistema Harmonizado, entretanto, como a própria empresa reconheceu, as Regras 2 a) e 3 b) não se aplicam a seus produtos; Relativamente ao 2º questionamento, sustentou a fiscalização que os componentes de valor mais significativo, que contêm ingrediente fundamental no aroma e/ou no sabor da bebida, deveriam ser classificados no código NCM 2106.90.10 (“Preparação do tipo utilizado para elaboração de bebidas”)1, porém, tais componentes "não se enquadram no 1 Classificação da parte 1 [Termo de Verificação Fiscal] Conforme Laudo de Análise nº 1266/20133.0 exarado pelo Centro Tecnológico de Controle de Qualidade Falcão Bauer “Tratase de Preparação na forma de Solução Aquosa, à base de Extrato de Noz de Cola, Caramelo, Cafeína, Ácido Fosfórico, alfaTerpineno, Limoneno e betaTerpineno, uma Preparação do tipo utilizada na elaboração de bebidas”. Fl. 1131DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.124 17 Ex 01 do referido código, pois o extrato concentrado, por ser uma preparação composta, deve conter o extrato vegetal de sua origem e todos os demais aditivos necessários, a fim de apresentar, quando diluído, as mesmas características de identidade presentes na bebida elaborada a partir dele". Para chegar a essa conclusão para a Parte 1 do "kit" CocaCola, a fiscalização fundamentouse nos seguintes pontos: a) Segundo os textos dos Ex 01 e Ex 02, as preparações devem ser não alcoólicas, e devem se subsumir somente a “extratos concentrados” ou “sabores concentrados”. O extrato concentrado, por ser uma preparação composta, deve conter o extrato vegetal de sua origem e os todos os demais aditivos necessários (matérias de base classificadas em capítulos distintos), a fim de apresentar, quando diluído, as mesmas características de identidade presentes no refrigerante elaborado a partir dele. Esse entendimento é decorrente da leitura dos textos dos Ex 01 e Ex 02 combinados com a dicção dos arts. 13 e 30 do Decreto nº 6.871, de 04/06/2009. Já o sabor concentrado difere do anterior apenas em relação ao extrato. Neste caso o extrato do vegetal de origem é totalmente substituído por aromatizantes/saborizantes artificiais. “Ex 01 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado Ex 02 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida refrigerante do Capítulo 22, com capacidade de diluição Dada a ausência de uma posição mais específica, as preparações do gênero utilizadas na produção de bebidas refrigerantes classificamse no escopo da posição 21.06, conforme esclarecem as Notas Explicativas dessa posição: “Classificamse especialmente aqui: [...]7) As preparações compostas, alcoólicas ou não (exceto as à base de substâncias odoríferas), dos tipos utilizados na fabricação de diversas bebidas não alcoólicas ou alcoólicas. Estas preparações podem ser obtidas adicionando aos extratos vegetais da posição 13.02 diversas substâncias, tais como ácido láctico, ácido tartárico, ácido cítrico, ácido fosfórico, agentes de conservação, produtos tensoativos, sucos de frutas, etc. Estas preparações contêm a totalidade ou parte dos ingredientes aromatizantes que caracterizam uma determinada bebida. Em conseqüência, a bebida em questão pode, geralmente, ser obtida pela simples diluição da preparação em água, vinho ou álcool, com ou sem adição, por exemplo, de açúcar ou de dióxido de carbono. Alguns destes produtos são preparados especialmente para consumo doméstico; são também freqüentemente utilizados na indústria para evitar os transportes desnecessários de grandes quantidades de água, de álcool, etc. Tal como se apresentam, estas preparações não de destinam a ser consumidas como bebidas, o que as distingue das bebidas do Capítulo 22.” (grifo nosso) Verificase da estrutura da posição 21.06, que a mesma desdobrase em apenas duas subposições, estando a subposição 2106.10 reservada aos “Concentrados de proteínas e substâncias proteicas texturizadas”. Assim, a preparação em análise deve ser enquadrada na subposição 2106.90, destinada à “Outras” preparações. Aplicandose o disposto na Regra Geral Complementar Nº 1 – RGC1, a seguir transcrita, para determinação da classificação ao nível de item e subitem, verificase que a presente preparação tem como classificação mais específica o código NCM 2106.90.10, correspondente às “Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas”. “Regra Geral Complementar Nº 1 – RGC1 As Regras Gerais para interpretação do Sistema Harmonizado se aplicarão, mutatis mutandis, para determinar dentro de cada posição ou subposição, o item aplicável e, dentro desse último, o subitem correspondente, entendendose que apenas são comparáveis desdobramentos regionais (itens e subitens) do mesmo nível.” Fl. 1132DF CARF MF 18 de até 10 partes da bebida para cada parte do concentrado” [negritos do TVF] b) Em relação à concentração, não há dúvida de que as preparações compostas dessas exceções tarifárias devam ser concentradas, tanto que uma diferença fundamental entre o Ex 01 e o Ex 02 é a “capacidade de diluição”. No primeiro, esta é superior a 10 vezes, enquanto no segundo é igual ou menor do que 10 vezes. Como o legislador não emprega palavras inúteis ou desnecessárias, fica evidenciado que as mercadorias aí classificadas devem ser concentradas a fim de que posteriormente possam ser diluídas. Além disso, no próprio Ex ao final do texto há referência à preparação composta como concentrado. c) A Portaria Interministerial MPO/MICT/MCT nº 8, de 25 de fevereiro de 1998, que estabelece o Projeto Produtivo Básico – PPB para os concentrados para elaboração de refrigerantes reza: “Art. 1º Estabelecer para os produtos EXTRATOS AROMÁTICOS VEGETAIS NATURAIS, CONCENTRADOS, BASES E EDULCORANTES PARA BEBIDAS NÃO ALCOÓLICAS E CORANTE CARAMELO, industrializados na Zona Franca de Manaus, os seguintes.” Então, não há dúvidas acerca da obrigatoriedade das “Preparações compostas” do código NCM 2106.90.10 Ex 01 serem “concentrados”. d) A Lei nº 8.918/1994 foi regulamentada pelo Decreto nº 2.314, de 4 de setembro de 1994, posteriormente revogado pelo Decreto nº 6.871, de 4 de junho de 2009. Em ambos consta uma definição precisa em relação aos concentrados para bebidas, abaixo transcrita, na dicção do Regulamento vigente: "Art. 13 (...) § 4º O produto concentrado, quando diluído, deverá apresentar as mesmas características fixadas nos padrões de identidade e qualidade para a bebida na concentração normal.” e) O Regulamento Técnico para Fixação dos Padrões de Identidade e Qualidade para Refrigerantes, Anexo à Portaria nº 544, de 16 de novembro de 1998, complementa os padrões de identidade e qualidade estabelecidos no Decreto nº 6.871/2009. Quando esse Regulamento aborda a Composição e Requisitos dos refrigerantes, estabelece como requisito: “As características sensoriais e físicoquímicas deverão estar em consonância com a composição do produto”. Então, duas das características fixadas nos padrões de identidade e qualidade para a bebida na concentração normal, e que o produto concentrado, quando diluído, deverá apresentar, pelo Regulamento são: sensoriais e físicoquímicas. f) Segundo os Laudos de Análise do Centro Tecnológico de Controle de Qualidade Falcão Bauer se extrai que a parte 1 do "kit" quando diluída não apresentaria as mesmas características sensoriais e físicoquímicas do refrigerante CocaCola que por ventura viesse a ser elaborado a partir dela. O aroma, o sabor e a coloração – elementos das características sensoriais – seriam diferentes. Da mesma forma, as características físico químicas não seriam iguais, principalmente pela alta concentração ácida da parte 1. Assim, clarificase o entendimento de que a parte 1 não é um concentrado por não se enquadrar nos textos descritivos do Ex 01. É apenas um dos componentes do concentrado, ou parte do concentrado. Se assim não fosse, a outra “parte” seria desnecessária. g) Todo exposto acima relativo ao concentrado do código 2106.90.10 Ex 01, também é válido para o concentrado do código 2106.90.10 Ex 02. Tendo em vista que este último é utilizado nas máquinas Post Mix que elaboram no ato refrigerantes para venda em copos diretamente ao consumidor final, há no Decreto 6.871/2009 um tratamento específico dessa matéria, conforme se verifica nos seus arts. 29 e 30. Esse concentrado líquido usado em máquinas Post Mix2 também não é produzido pela Recofarma, mas pela fábrica de 2 As máquinas Post Mix, cujo nome numa tradução livre significa equipamento de mistura posterior, são comuns, por exemplo, em bares, restaurantes e similares, onde o refrigerante é vendido em copos. Na parte interna desses Fl. 1133DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.125 19 refrigerantes. Observese que a Lei nº 8.918/1994, o Decreto nº 6.871/2009 e o Regulamento Técnico para Fixação dos Padrões de Identidade e Qualidade para Refrigerantes Anexo à Portaria nº 544/1998, em momento algum distinguem os concentrados líquidos em função de sua capacidade de diluição. Assim, à luz da legislação específica sobre bebidas, os concentrados dos códigos NCM 2106.90.10 Ex 01 e NCM 2106.90.10 Ex 02 se submetem às mesmas regras. Entretanto, a Recofarma não possuiu registro no MAPA para o Ex 01. A conclusão é obvia: não há necessidade de registro de um produto que ela não produz. Já as fábricas de refrigerantes do Sistema CocaCola produzem o concentrado classificado no Ex 02 e posteriormente o refrigerante e, e para ambos existe registro no MAPA. h) Clarificase por diversas razões que o entendimento de que a Parte 1 não é “o concentrado” de que trata o Ex 01, mas apenas um dos componentes do concentrado, ou “parte do concentrado”. Se assim não fosse, a parte 2 seria desnecessária. A mistura das duas “partes” num único produto é que seria realmente o concentrado do refrigerante sabor Coca Cola, mas essa mistura não é feita pela fiscalizada, conforme ela mesma assevera. Na realidade esse concentrado classificado no código NCM 2106.90.10 Ex 01 que teoricamente seria fabricado pela Recofarma nunca chega a existir de fato. Quando as “partes” do “Concentrado CocaCola” são processadas na fábrica de refrigerantes, o concentrado que resulta se classifica noutro código da NCM, o 2106.90.10 Ex 02. i) Corroborando o entendimento acima esposado, nos quesitos nº 12 e 13, Centro Tecnológico de Controle de Qualidade Falcão Bauer, por meio do Laudo de Análise nº 1266/20131.0, informou que o produto (Parte 1 do "kit" CocaCola) não pode ser descrito como um concentrado ou sabor concentrado. Raciocínio semelhante foi adotado pela fiscalização para demonstrar o não enquadramento no Ex 01 dos demais componentes que puderam se classificar no código NCM 2106.90.10. Dentro desse contexto, analisemos agora as alegações do recurso voluntário. 3. "RAZÕES PARA A REFORMA DA DECISÃO RECORRIDA" 3.1. "Desnecessidade de registro dos kits da Recorrente no MAPA" Alega a recorrente que os kits autuados qualificarseiam como matériaprima das bebidas, sendo cada uma de suas partes composta de diversos ingredientes e aditivos. Assim, qualquer que seja a sua classificação fiscal 2106.90.10 Ex 01 ou outra , dispensam registro no Ministério, o que invalidaria o raciocínio a contrario sensu desenvolvido pela fiscalização (se não há registro no MAPA para produto com aquela classificação, é porque a Recorrente não o fabrica). Na verdade, a inferência contida no Termo de Verificação Fiscal é no sentido de que os produtos vendidos pela Recofarma não poderiam ser os "concentrados" referidos nos Ex tarifários 01 e 02 do código NCM/SH 2106.90.10, pois se assim o fossem teriam de ter o correspondente registro no MAPA. equipamentos estão conectados um cilindro ou bag onde está o concentrado líquido, um cilindro com gás carbônico e uma fonte de água potável. Os três componentes são misturados no momento de encher o copo. Fl. 1134DF CARF MF 20 Assim, a alegação da recorrente neste tópico não se contrapõe ao entendimento da fiscalização, pelo contrário, até o corrobora. Além do que, como resumido acima, a fiscalização teve outros fundamentos mais relevantes para o não enquadramento dos componentes do denominado "kit" no Ex 01 pela fiscalização. Ora, se a recorrente entende que seus produtos qualificarseiam apenas como matériaprima das bebidas, sendo cada uma de suas partes composta de diversos ingredientes e aditivos (e não os concentrados supostos na inferência da fiscalização), é também válida a interpretação da recorrente de que não caberia o registro no MAPA para os produtos que vende, mas isso em nada lhe favorece no presente processo. 3.2. "Relevância da destinação do produto na classificação fiscal. Inexistência de obstáculo semântico" Não houve a alegada violação das definições e aplicações do Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias (SH). Conforme definido nos arts. 16 e 17 do Regulamento do IPI, a classificação fiscal deve se dar na seguinte forma: Art. 16. Farseá a classificação de conformidade com as Regras Gerais para Interpretação RGI, Regras Gerais Complementares RGC e Notas Complementares NC, todas da Nomenclatura Comum do MERCOSUL NCM, integrantes do seu texto (Lei nº 4.502, de 1964, art. 10). Art. 17. As Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias NESH, do Conselho de Cooperação Aduaneira na versão lusobrasileira, efetuada pelo Grupo Binacional Brasil/Portugal, e suas alterações aprovadas pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, constituem elementos subsidiários de caráter fundamental para a correta interpretação do conteúdo das Posições e Subposições, bem como das Notas de Seção, Capítulo, Posições e de Subposições da Nomenclatura do Sistema Harmonizado (Lei nº 4.502, de 1964, art. 10). A Regra Geral de Interpretação nº 1 estabelece que: "Os títulos das seções, capítulos e subcapítulos têm apenas valor indicativo. Para os efeitos legais, a classificação é determinada pelos textos das posições e das notas de seção e de capítulo e, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e notas, pelas regras seguintes". O que a fiscalização fez foi exatamente classificar "mercadorias", assim consideradas como os bens que foram objeto de venda pela Recofarma, no caso, cada "kit de concentrados" foi considerado como uma única mercadoria. Mas isso não quer definitivamente dizer que cada mercadoria ou "kit" devesse ser classificado num único código NCM/SH, o que só ocorreria, obviamente, se as normas da nomenclatura conduzissem a isso. Nessa esteira, também o uso ou destinação da mercadoria serão relevantes para a classificação de uma mercadoria somente quando essas normas atinentes assim o indiquem. Com efeito, a fiscalização bem ressalvou que: "A empresa pode comercializar seus produtos da forma que considerar mais conveniente e dar a eles os nomes que julgar adequado. O que ela não pode fazer é exigir que a legislação se dobre as suas conveniências". Fl. 1135DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.126 21 Quanto à individualização dos componentes dos "kits de concentrados" no Laudo Pericial, ela só foi feita porque eles já se encontravam separados, em embalagens individuais, na forma como eram vendidos pela recorrente e, logicamente, para auxiliar na verificação da correção ou incorreção da classificação fiscal adotada pela contribuinte para o conjunto, na posição NCM/SH 2106.90.10. É certo que o Laudo Pericial destinase a solucionar as dúvidas da fiscalização na classificação e, no caso, uma delas era, até então, se a classificação se daria pelo "kit" como um todo ou individualmente, por componente. É verdade que, como afirma a recorrente, as "preparações", na acepção do código NCM/SH 2106.90.10, não necessitam estarem prontas para uso, tanto que a fiscalização enquadrou nesse código uma das partes dos "kits", com base, especialmente, na Nota Explicativa (NESH) da posição 2106, a qual dispõe: Classificamse especialmente aqui: [...] 7) As preparações compostas, alcoólicas ou não (exceto as à base de substâncias odoríferas), dos tipos utilizados na fabricação de diversas bebidas não alcoólicas ou alcoólicas. Estas preparações podem ser obtidas adicionando aos extratos vegetais da posição 13.02 diversas substâncias, tais como ácido láctico, ácido tartárico, ácido cítrico, ácido fosfórico, agentes de conservação, produtos tensoativos, sucos de frutas, etc. Estas preparações contêm a totalidade ou parte dos ingredientes aromatizantes que caracterizam uma determinada bebida. Em conseqüência, a bebida em questão pode, geralmente, ser obtida pela simples diluição da preparação em água, vinho ou álcool, com ou sem adição, por exemplo, de açúcar ou de dióxido de carbono. Alguns destes produtos são preparados especialmente para consumo doméstico; são também freqüentemente utilizados na indústria para evitar os transportes desnecessários de grandes quantidades de água, de álcool, etc. Tal como se apresentam, estas preparações não de destinam a ser consumidas como bebidas, o que as distingue das bebidas do Capítulo 22.” (grifo nosso) [da fiscalização] No entanto, não há a contradição apontada pela recorrente, vez que o que entende a fiscalização que deveria estar pronta para uso, seria a "preparação composta" a que se referem os Ex tarifários 01 e 02 do referido código, nos seguintes termos: (...) Os termos “preparações”, citados nos Ex 01 e Ex 02 devem ser entendidos como “produtos pronto para uso”, cuja origem advém de um processo de preparo. O significado da expressão “Preparações compostas” foi dissecado no RELATÓRIO DE AÇÃO FISCAL. A expressão “Preparações compostas”, significa dizer que as misturas devem obrigatoriamente ser o resultado da combinação de diversos ingredientes de base para o produto final, tais como extratos do Capítulo 13, conservantes e acidulantes do Capítulo 29, matérias odoríferas do Capítulo 31, etc. Essas preparações devem ser não alcoólicas, e devem se subsumir somente a “extratos concentrados” ou “sabores concentrados”. Fl. 1136DF CARF MF 22 O extrato concentrado, por ser uma preparação composta, deve conter o extrato vegetal de sua origem e os todos os demais aditivos necessários, a fim de apresentar, quando diluído, as mesmas características de identidade presentes no refrigerante elaborado a partir dele. Esse entendimento é decorrente dos textos dos Ex 01 e Ex 02 e da dicção dos arts. 13 e 30 do Decreto nº 6.871, de 04/06/2009. Já o sabor concentrado difere do anterior apenas em relação ao extrato. Neste caso o extrato do vegetal de origem é totalmente substituído por aromatizantes/saborizantes artificiais. (...) Não há também nenhum paradoxo em se classificar alguns componentes do denominado "kit" no código 2106.90.10 (sem o enquadramento nos Ex tarifários) e não o fazer em relação a todo o "kit", eis que, não estando os componentes do "kit" misturados entre si, não poderiam ser considerados uma preparação única. Melhor dizendo, embora alguns dos produtos (componentes do "kit") possam ser classificados individualmente como uma preparação, rejeitouse a tese da recorrente de que os vários componentes de um mesmo "kit" poderiam classificarse como uma única preparação. A tese da contribuinte de classificação do "kit" como uma preparação única não encontra abrigo nos textos das posições e das notas de seção e de capítulo ou nas respectivas Notas Explicativas (NESH), nem tampouco, conforme já reconhecido pela recorrente, nas Regras RGI/SH 2a e 3b. 3.3. "Autorização normativa para a classificação unificada: a interpretação da NESH XI à RGI/SH 3" Alega a recorrente que RGI/SH 3 disciplina a classificação de produtos misturados ou compostos que poderiam, em tese, ser enquadrados em mais de uma posição, sendo que a respectiva NESH XI, embora afaste a incidência do comando, deixaria fora de dúvida ao falar em "MERCADORIAS CONSTITUÍDAS POR DIFERENTES COMPONENTES" que os concentrados de bebidas seriam uma mercadoria única, ainda que apresentados em partes independentes (embaladas conjuntamente ou não), e sem qualquer exigência quanto ao estado físico de suas partes integrantes (sólido ou líquido). Vejase a redação da Nota: "XI) A presente Regra não se aplica às mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas, por exemplo." No entanto, essas alegações em nada favorecem a recorrente. Nunca se negou a existência no mundo concreto de "mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto". O que se rejeita, no presente caso, como já esclarecido, é a classificação dos "kits" num único código NCM de "preparação", e não a possibilidade de uma "mercadoria" ter vários componentes separados. É verdade, como afirmado pela recorrente, que há exemplos, como os citados, de produtos não misturados que podem ser classificados conjuntamente, com uma única NCM, mas isso quando haja previsão nos textos das posições e das notas de seção e de capítulo ou nas respectivas notas explicativas ou regras gerais do SH, o que não ocorre no caso das preparações a que se referem o código NCM/SH 2106.90.10, objeto de estudo. Como regra geral, o conceito de preparação pressupõe a mistura dos ingredientes, ressalvandose apenas os casos expressamente previstos nas notas e textos da nomenclatura. Fl. 1137DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.127 23 Quanto à questão da capacidade de diluição apontada por outro órgão técnico, ela não seria suficiente para o enquadramento no Ex, seja porque não há sustentação nas normas de classificação para se classificar sob uma única preparação os componentes do referido "kit", seja porque da análise dos Laudos Periciais solicitados pela fiscalização neste processo, concluise que os componentes do "kit" não apresentam as mesmas características sensoriais e físicoquímicas do refrigerante, não podendo ser considerados como um concentrado ou sabor concentrado a que se referem os Ex 01 e 02. As definições do Conselho Superior da SUFRAMA, no sentido de que seria prevista a homogeneização apenas quando necessário, não é nada relevante para a classificação fiscal dos referidos "kits", feita por AuditorFiscal no âmbito da sua competência, com observância das normas atinentes à espécie. 3.4. "Irrelevância dos trabalhos do Conselho de Cooperação Aduaneira" Os trabalhos do Comitê de Nomenclatura e do Comitê Interino de Sistema Harmonizado do CCA (hoje OMA) representaram para o julgador de primeira instância, como dito no exame da preliminar acima, apenas um reforço na sua argumentação e, ainda que eventualmente não tivessem caráter vinculante, como alegado, não há como negar que se trata de um posicionamento importante em sentido desfavorável à tese da recorrente. 3.5. "Sucessivamente: a classificação fiscal do concentrado para a fabricação de CocaCola" Não é assim tão inequívoca a tese da recorrente de que, no caso do "kit" para CocaCola, cujas duas únicas partes foram classificadas separadamente no código 2106.90.10, seria cabível o enquadramento no Ex 01, pois haveria a identidade perfeita com o refrigerante. Como já esclarecido, não há embasamento nas normas do sistema harmonizado ou da nomenclatura para a classificação do "kit", inclusive de CocaCola, como uma preparação única, de forma que não há como considerar as partes individuais do "kit" para fins de enquadramento no Ex 01, ainda que essas partes sejam individualmente classificadas no código 2106.90.10 e, como visto no início deste Voto, há vários fundamentos, com os quais concordo, para o não enquadramento dos componentes dos "kits" no Ex 01. 3.6. "Sucessivamente: incidência do art. 146 do CTN" Alega a recorrente que a presente autuação teria acarretado lesão ao art. 146 do CTN, aduzindo que, há mais de 30 anos vende os ditos concentrados sob a forma de kits, mas só agora a fiscalização teria introduzido a "classificação pulverizada dos kits". Dispõe o art. 146 do CTN sobre a modificação nos critérios jurídicos no lançamento, nos seguintes termos: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. Fl. 1138DF CARF MF 24 Sobre a interpretação de tal dispositivo, bem esclarece Ricardo Lodi Ribeiro3, que "Se a Administração identifica como correta uma determinada interpretação da norma e depois verifica que esta não é a mais adequada ao Direito, tem o poderdever de, em nome de sua vinculação com a juridicidade e com a legalidade, promover a alteração do seu posicionamento. Porém, em nome da proteção legítima, deve resguardar o direito do contribuinte em relação aos lançamentos já realizados". Em meu entendimento, para que haja a alteração de critérios jurídicos adotados no lançamento, vedada pelo art. 146 do CTN, deve ter havido um lançamento de ofício anterior em relação aos mesmos fatos geradores cujo posicionamento se pretende alterar. Não se cogita, obviamente, a impossibilidade de o Fisco mudar os critérios jurídicos adotados pelo próprio contribuinte na atividade prévia do sujeito passivo do lançamento por homologação. Como a recorrente não especifica no recurso voluntário qual teria sido o ato administrativo anterior emitido com posicionamento divergente do presente lançamento, pelo contexto de suas alegações, entendese que a recorrente esteja se referindo à ausência de autuações anteriores para reclassificação fiscal dos denominados "kits". No entanto, o art. 146 do CTN não abriga a tese da recorrente, o que representaria uma verdadeira mordaça à fiscalização. Com bem expressou o Conselheiro Relator Antonio Bezerra Neto sobre o tema, no seu voto no Acórdão nº 1401001.649– 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, de 8 de junho de 2016, "Se vingar esse entendimento da Recorrente, passase um atestado de onisciência para a fiscalização, ou seja, ela é obrigada a encontrar toda irregularidade existente na empresa, pois senão, nos anos seguintes, mesmo que detectado essa irregularidade o fiscal não poderia mais autuar, sob o fundamento de que estaria mudando o critério jurídico". Eventuais procedimentos fiscais anteriores efetuados em face da contribuinte e seus atos decorrentes (lançamento ou decisão motivada de não lançar) não podem ser estendidos para períodos posteriores, eis que estão vinculados aos fins para os quais foram instaurados. O procedimento fiscal não pode ser dissociado dos fatos ocorridos naquele período fiscalizado e da matéria sob investigação, além de veicular posicionamento específico de um ou mais agentes administrativos, inclusive sujeito a reforma pelos órgãos julgadores, no caso de resultar lançamento, por exemplo. Por essas razões não pode prosperar a alegação da recorrente de alteração dos critérios jurídicos adotados no lançamento a que se refere o art. 146 do CTN. Tampouco socorreria a recorrente o art. 146 do CTN em relação ao esclarecimento dado em 10/05/85 pelo Superintendente da Receita Federal no Rio de Janeiro, por ordem do Secretário da Receita Federal, juntado posteriormente em Memoriais, eis que não dispõe especificamente sobre os denominados "kits" para a fabricação de refrigerantes, de que trata o presente processo, mas somente das preparações consideradas individualmente, ou seja, o referido entendimento não aborda a tese da recorrente de classificação do "kit" como uma preparação única, que poderia eventualmente lhe servir no presente processo para o enquadramento Ex 01 do código NCM/SH 2106.90.10 para a aplicação da alíquota zero para o PIS/Cofins pretendida. 4 3 RIBEIRO, Ricardo Lodi. A proteção da Confiança Legítima do Contribuinte. RDDT nº 145, out/07, p. 99. 4 Notese que, em relação ao "kit" sabor CocaCola, todas as suas duas partes foram classificadas individualmente no código NCM/SH 2106.90.10, de acordo com o antigo entendimento trazido pela recorrente em Memoriais, embora não tenha sido aqui aceita a sua tese de que as duas partes não misturadas deveriam se classificar como uma preparação única. Dessa forma, sem a classificação sob único código, não há também o enquadramento do Ex Fl. 1139DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.128 25 Também o Laudo do Instituto Nacional de Tecnologia5, trazido em Memoriais, que trata de questões atinentes a "unicidade da mercadoria e capacidade de diluição", em nada altera o debate efetuado acima em face dos argumentos da recorrente aduzidos no recurso voluntário, que concluiu pela impossibilidade de classificação das partes dos "kits" como uma única NCM/SH em interpretação das normas e regras vigentes de classificação fiscal aplicáveis à espécie. Cabe mencionar que este Colegiado enfrentou recentemente a mesma questão de classificação fiscal no processo nº 11080.727433/201574, no interesse da Vonpar Refrescos S.A., que compra os referidos produtos da recorrente, sob o Acórdão nº 3402 003.802 (Redator Designado: Waldir Navarro Bezerra e Relator: Carlos Augusto Daniel Neto), de 26 de janeiro de 2017, tendo decidido, por voto de qualidade, em sentido desfavorável à tese da ora recorrente, conforme ementa abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010 IPI. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DECADÊNCIA DO DIREITO. PRESUNÇÃO DE PAGAMENTO ANTECIPADO. A presunção de pagamento antecipado prevista no art. 124, parágrafo único, III, do RIPI/2002, somente opera em relação a créditos admitidos pelo regulamento. Sendo ilegítimos os créditos glosados e tendo os saldos credores da escrita fiscal dado lugar a saldos devedores que não foram objeto de pagamento antes do exame efetuado pela autoridade administrativa, o prazo de decadência deve ser contato pela regra do art. 173, I, do CTN. ALTERAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO. ART. 146 DO CTN. NÃO OCORRÊNCIA. A alteração de critério jurídico que impede a lavratura de outro Auto de Infração diz respeito a um mesmo lançamento e não a lançamentos diversos, como aduzido neste caso. IPI. CRÉDITO. PRODUTOS ISENTOS ORIUNDOS DA ZONA FRANCA DE MANAUS (ZFM)). DECISÃO JUDICIAL COISA JULGADA. A autoridade administrativa está adstrita a aplicar exatamente o comando determinado pelo Poder Judiciário, sem qualquer margem de discricionariedade. ZFM. INSUMOS. CRÉDITO FICTO DO ART. 6º DO DECRETOLEI Nº 1.435/75. ISENÇÃO. AMAZÔNIA OCIDENTAL. 01 pretendido pela recorrente para a alíquota zero do PIS/Pasep e Cofins, eis que as partes separadas não se adequam à descrição do ex tarifário. 5 Art. 30. [ Decreto nº 70.235/72] Os laudos ou pareceres do Laboratório Nacional de Análises, do Instituto Nacional de Tecnologia e de outros órgãos federais congêneres serão adotados nos aspectos técnicos de sua competência, salvo se comprovada a improcedência desses laudos ou pareceres. § 1° Não se considera como aspecto técnico a classificação fiscal de produtos. § 2º A existência no processo de laudos ou pareceres técnicos não impede a autoridade julgadora de solicitar outros a qualquer dos órgãos referidos neste artigo. (...) Fl. 1140DF CARF MF 26 A aquisição de insumos isentos, provenientes da Zona Franca de Manaus, não legitima aproveitamento de créditos de IPI. No art. 6º do DecretoLei nº 1.435/75, entendese por "matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional", aquelas produzidas na área da Amazônia Ocidental. Não se tratando os insumos de matériasprimas agrícolas e/ou extrativas vegetais de produção regional, não há direito ao creditamento ficto. IPI. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. KITS DE CONCENTRADOS PARA PRODUÇÃO DE REFRIGERANTES. Nas hipóteses em que a mercadoria descrita como “kit ou concentrado para refrigerantes” constituise de um conjunto cujas partes consistem em diferentes matériasprimas e produtos intermediários que só se tornam efetivamente uma preparação composta para elaboração de bebidas em decorrência de nova etapa de industrialização ocorrida no estabelecimento adquirente, cada um dos componentes desses “kits” deverá ser classificado no código próprio da TIPI. SUFRAMA. CLASSIFICAÇÃO FISCAL DA MERCADORIA. Nos atos de sua competência, a SUFRAMA pode tratar os kits como se fossem uma mercadoria única, o que não afeta a validade desses atos para os objetivos propostos, porém este tratamento não prevalece para fins de Classificação Fiscal da mercadoria. (enquadramento na TIPI). MULTA DE OFÍCIO. INEFICÁCIA NORMATIVA DAS DECISÕES ADMINISTRATIVAS. PREVISÃO EM LEI. EXIGÊNCIA. É cabível a exigência de penalidade, nos casos em que não se discute o direito ao crédito de IPI oriundo de insumos isentos, pois a empresa possui decisão judicial sobre o assunto. Os valores objeto de discussão abrangem exclusivamente o aproveitamento indevido de créditos por erro na alíquota de cálculo, prescrita pelo art. 569 do RIPI/2010, com espeque no art. 80 da Lei 4.502/64, com redação dada pelo art. 13 da Lei 11.448, de 15/06/2007, assunto em relação ao qual inexiste jurisprudência administrativa. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A literalidade do artigo 61, caput e §3º da Lei n. 9.430, de 1996, separa os débitos tributários das penalidades (multas de ofício), determinando a incidência dos juros só sobre os primeiros, e não sobre as segundas. Assim falta previsão legal para a incidência da Selic sobre a multa de ofício imposta nos autos de infração lavrados pela RFB. Recurso Voluntário Provido em Parte. Assim, pelo exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. (Assinatura Digital) Maria Aparecida Martins de Paula Relatora Fl. 1141DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.129 27 Declaração de Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Peço vênia à Ilustre Conselheira Relatora para expor aqui as razões de minha divergência em relação ao seu voto, bem como os subsídios fáticos e jurídicos pelos quais entendo dever ser provido integralmente o Recurso Voluntário do Contribuinte. Em apertadíssima síntese fática, apenas para fins de contextualização, a presente autuação é relativa às contribuições para o PIS e Cofins relativos a 01/2010 12/2013, por desqualificação da situação fática da hipótese de alíquota zero prevista no artigo 28, VI da Lei nº 10.865/2004, bem como a aplicação da multa de 75% prevista no artigo 44, I da Lei nº 9.430/96. A autoridade fiscalizadora traz a síntese dos fundamentos da autuação em seu relatório fiscal, fls. 360362: a) A fiscalizada alega que seu produto é uma “preparação alimentícia”, devendo ser classificada no Ex 1 da NCM 2106.90.10, código próprio para preparações compostas não alcoólicas. Entretanto, de acordo com os dicionários, a palavra “preparação” aplicase a algo que esteja preparado, pronto. Da mesma forma, a Nomenclatura do Sistema Harmonizado emprega o termo “Preparação” como uma mercadoria pronta para uso. Não é o caso do “concentrado” vendido por Recofarma, pois este é um conjunto de ingredientes, cada uma na sua embalagem individual, que não estão misturados e não estão prontos para uso. b) Recofarma afirma que não pode misturar as partes dos kits por limitações técnicas, e defende que para fins de classificação fiscal seja considerada a realidade econômica e mercadológica. Esta fiscalização não discute a veracidade da afirmação de que ocorreriam reações químicas indesejadas caso a mistura acontecesse no estabelecimento de Recofarma. Entretanto, tal fato é irrelevante para definição de classificação fiscal de mercadorias. E nem poderia existir regra neste sentido, pois não haveria como se avaliar a realidade econômica e mercadológica de cada contribuinte. Além disto, a existência de limitações técnicas é um aspecto que pode variar conforme o surgimento de avanços tecnológicos ou a localização geográfica dos estabelecimentos, o que é incompatível com a estabilidade e uniformidade que deve existir na classificação fiscal das mercadorias. c) Não corresponde à realidade a afirmação da fiscalizada de que os componentes dos kits não poderiam ser vendidos separadamente. No caso, por exemplo, do “Concentrado Sprite”, composto por quatro partes, nada, além de questões meramente comerciais, impediria que Recofarma industrializasse uma das partes, e três diferentes empresas vendessem cada uma das demais partes (apenas uma das embalagens individuais contém o aroma do produto, onde está o chamado segredo industrial). Mesmo dentro da estrutura atual adotada por Recofarma, poderiam, por exemplo, ocorrer problemas com o conteúdo de um único componente de kit durante o transporte até o destinatário, hipótese em que não haveria impedimento de natureza físicoquímica para que Recofarma fornecesse ao engarrafador apenas a parte faltante. d) As regras de classificação de mercadorias são obedecidas internacionalmente. A Alfândega dos Estados Unidos analisou o enquadramento de um conjunto de produtos alimentícios vendidos em uma mesma caixa de transporte, cujos ingredientes são embalados individualmente (se misturados pelo vendedor, ocorreria sua deterioração). Tais componentes são transformados em um produto único pelos destinatários. Decidiuse que os diversos componentes do produto analisado são classificáveis separadamente (foi anexada ao presente processo a tradução juramentada da referida decisão). Fl. 1142DF CARF MF 28 e) A possibilidade de classificação como uma mercadoria única de kits e de partes vendidas em embalagens individuais só existe nos casos específicos previstos nas Regras 2 a) e 3 b) do Sistema Harmonizado. Entretanto, como a própria empresa reconheceu, as Regras 2 a) e 3 b) não se aplicam a seus produtos. f) A primeira parte da Regra 2 a) faz referência a “artigos” mesmo incompletos ou inacabados. Tais produtos devem apresentar as características essenciais do artigo completo ou acabado, e não devem servir para outra finalidade que não seja a de se tornarem o produto completo ou acabado cujas características eles apresentam. Entretanto, os componentes dos kits comercializados por Recofarma apresentam suas próprias características individuais, sendo que várias deles podem ser utilizadas na elaboração de outros produtos da indústria de alimentos e fármacos. Nenhuma das partes dos kits apresenta as características essenciais da bebida a ser comercializada (ver também item “i”, abaixo). g) As Notas Explicativas determinam que o enquadramento de mercadorias na segunda parte da Regra 2 a), que trata de um artigo apresentado desmontado ou por montar, é possível apenas quando sejam necessárias simples operações de montagem, por meio de porcas, parafusos, soldagem, rebitagem, etc. Evidentemente, não é o caso dos kits da fiscalizada. h) A Regra 3 b) abrange mercadorias apresentadas em sortidos para a satisfação de uma necessidade específica ou exercício de uma atividade determinada, desde que acondicionadas para venda a varejo. Os kits da fiscalizada, porém, não podem ser vendidos diretamente aos consumidores. De qualquer maneira, não haveria como enquadrar os produtos da empresa nesta Regra, pois as Notas Explicativas excluem expressamente os kits para bebidas do campo de aplicação da regra 3 b). i) Face ao exposto, cada componente dos kits comercializados pela fiscalizada deve ser classificado individualmente. Os componentes de valor mais significativo (aqueles que contém ingrediente fundamental no aroma e/ou no sabor da bebida) devem ser classificados no código NCM 2106.90.10 (“Preparação do tipo utilizado para elaboração de bebidas”), cujas alíquotas de PIS/Pasep e Cofins são diferentes de zero. Tais componentes não se enquadram no Ex 01 do referido código, pois o extrato concentrado, por ser uma preparação composta, deve conter o extrato vegetal de sua origem e todos os demais aditivos necessários, a fim de apresentar, quando diluído, as mesmas características de identidade presentes na bebida elaborada a partir dele. Em sua Impugnação, a Contribuinte alegou o seguinte: i) O fato de diversos produtos ("kit") estarem separados não impede que os mesmos sejam tratados, pela legislação, como um único produto (o "concentrado"), visto que a separação se justifica por razões sanitárias e de preservação químicobiológica do concentrado até o seu transporte às engarrafadoras. ii) Reconhecendo que as Regras Gerais de Interpretação 2 a) e 3 b) não se aplicam ao caso, menciona a Nota Explicativa XI da RGI 3 para concluir que a Nota faz explícita referência às "mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas". À luz da NE XI da RGI 3 fica claro que os componentes do concentrado não são tratados como mercadorias autônomas, ainda que para afastar a aplicação daquela regra ao caso. iii) Inaplicabilidade da consulta formulada por autoridade estrangeira por não se tratar de situação sequer semelhante. iv) Aponta nulidade do laudo pericial sob o seguinte fundamento: a Notificação GRALT nº 033/2013 foi expressa em determinar que a perita indicada pela Recorrente deveria "acompanhar a diligência solicitada pela Alfândega da Receita Federal em Manaus" (fl.), ao passo que a Notificação GRALT nº 025/2013 convocou a perita da Recorrente para "acompanhar a diligência" todavia, ao comparecer na data e horário marcados, a perita foi informada que a perícia já fora realizada, sem seu acompanhamento, e que o laudo estaria pronto. Em razão disso, aponta a nulidade da perícia por ofensa ao artigo 18, §1º do Decreto 70.235/72 e por cerceamento do direito de defesa. Fl. 1143DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.130 29 v) Alega o direito da recorrente à alíquota zero para PIS/Cofins. Por sua vez, a decisão da DRJ utilizou os seguintes fundamentos para negar provimento à Impugnação: i) O voto replica integralmente os fundamentos "e, f, g, h" listados acima, no relatório fiscal, especialmente para afirmar que a NE XI da Regra 3 b) afasta a aplicação dessa regra ao caso em tela. ii) Afirma que a CETEA não tem competência legal para promover a classificação fiscal de mercadorias, afastando valor probatório aos pareceres juntados. iii) Juntas aos autos, como fundamento de seu voto, trabalhos preparatórios do Conselho de Cooperação Aduaneira (fls. 346/364) que estaria supostamente relacionado à criação da nota explicativa XI à Regra 3.b). iv) Quanto à alegação de violação ao devido processo legal e ao direito de defesa, consubstanciado na negativa da participação da perita da Recorrente, notificada pela RFB para tal mister, afirma que não procederia, em razão da natureza inquisitorial do procedimento fiscal. v) Manutenção da multa por falta de recolhimento, sem qualificadoras. Irresignada, a Contribuinte apresentou Recurso Voluntário onde alega, em síntese: i) Nulidade da decisão recorrida, por não ter enfrentado o argumento levantado pelo Recorrente, já que desde o início a empresa tem afirmado que entende não se subsumir às RGIs 2.a) e 3.b), mas afirmado expressamente que a proibição versada na NE XI da Regra 3 traz a descrição dos elementos do kit como componentes de mercadoria e não como mercadorias autônomas. ii) Desnecessidade de registro dos kits da Recorrente no MAPA. iii) Relevância da destinação do produto na classificação fiscal. iv) Autorização normativa para a classificação unificada a partir da interpretação da NE XI à RGI/SH 3. v) Irrelevância dos trabalhos preparatórios do Conselho de Cooperação Aduaneira. vi) Sucessivamente: a classificação fiscal do concentrado para a fabricação da coca cola, que é composto de duas únicas partes do concentrado, ambas sendo preparações do tipo utilizado para elaboração de bebidas. vii) Incidência do artigo 146 do CTN. I) Preliminarmente a) Da nulidade do procedimento fiscal por inobservância de regra expressa do artigo 813 e 814 do Decreto nº 6.759/09. A atividade fiscalizatória na seara tributária tem um estatuto jurídico estritamente balizado pelas normas jurídicas, reduzindose ao máximo a discricionariedade do agente público. Tal dado é tão relevante que o legislador achou por bem incluir tal característica já no próprio conceito de tributo, presente no artigo 3º do Código Tributário Fl. 1144DF CARF MF 30 Nacional, ao consignar que sua cobrança se daria mediante "atividade administrativa plenamente vinculada". Nesse sentido, foi mais enfático ainda o artigo 142 do mesmo Código: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Com isso, afastamse inequivocamente os juízos de conveniência da Administração diante da existência de um regramento específico relativo ao procedimento administrativo de lançamento (o que precede o ato de lançamento). Dentro do procedimento fiscal que originou a presente autuação, entendeu por bem o fiscal responsável em solicitar perícia para identificação das mercadorias vendidas pela Recorrente, competência e regramento previstos nos artigos 813 e 814 do Decreto 6.759/2009, verbis: Art.813. A perícia para identificação e quantificação de mercadoria importada ou a exportar, bem como a avaliação de equipamentos de segurança e sistemas informatizados, e a emissão de laudos periciais sobre o estado e o valor residual de bens, será proporcionada: I pelos laboratórios da Secretaria da Receita Federal do Brasil; II por órgãos ou entidades da administração pública; ou IIIpor entidades privadas e técnicos, especializados, previamente credenciados. Parágrafoúnico. A Secretaria da Receita Federal do Brasil expedirá ato normativo em que: I regulará o processo de credenciamento dos órgãos, das entidades e dos técnicos a que se referem os incisos II e III do caput; e II estabelecerá o responsável, o valor e a forma de retribuição pelos serviços prestados. Art.814. Para fins de acompanhamento da perícia referida no art. 813, a pessoa que comprove legítimo interesse no caso poderá utilizar assistência técnica. Parágrafoúnico.O assistente técnico será indicado livremente, sendo sua remuneração estabelecida em contrato. Frisese, inclusive, que consta na fundamentação da realização da perícia menção específica ao fundamento na Instrução Normativa RFB nº 1.020/2010, que veio a regulamentar a perícia do artigo 813 do Decreto retrocitado. Fl. 1145DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.131 31 Pois bem. O artigo seguinte traz regra específica de participação de um assistente técnico em nome de pessoa que possua legítimo interesse no deslinde da perícia, autorizando expressamente esse acompanhamento. E tal prescrição se justifica legitimamente pela importância do papel do assistente técnico na realização de perícia, como relata Gilberto Melo: Ao perito assistente cabe diligenciar criteriosamente no sentido de verificar as diferentes hipóteses de abordagem da matéria técnica objeto da prova pericial, tentando fazer com que o perito nomeado pelo juízo perceba as diferentes interpretações da matéria fática sob estudo, para que não seja o seu cliente prejudicado com visões unilaterais, distorcidas da realidade ou que não sejam suficientemente abrangentes para dar ao juiz da causa subsídios amplos para o esclarecimento da matéria fática sob exame.(Acesso no sítio virtual: http://gilbertomelo.com.br/o papeldoperitoassistentetecnico/ em 20/04/2017) Conforme a Notificação GRALT nº 25/2013, órgão da RFB, direcionada ao Laboratório Falcão Bauer, havia determinação específica de que a perícia deveria ser acompanhada pela assistente técnica indicada pela Recorrente, ora fiscalizada, a Sra. Maria Stefania Rose da Silva Rodrigues, conforme documento de fl. 749: Da mesma forma, através da Notificação GRALT nº 33/2013, notificou a assistente técnica para que agendasse a data e horário para acompanhamento da realização da diligência solicitada pela fiscalização, conforme fl. 750. Ao comparecer à sede do laboratório na data e horário, a perita indicada pela Recorrente como assistência técnica foi informada de que a perícia já fora realizada sem o seu acompanhamento e que o laudo já estaria pronto, não podendo ser exibido a ela. Ora, indicado pela Recorrente um perito para atuar como assistente técnico na realização da perícia, a fiscalização e o laboratório eram obrigados a realizar esse ato sob acompanhamento, conforme expressamente determinado pelo artigo 814 do Decreto 6.759/09, de observância cogente tanto pela fiscalização, no momento do procedimento, quanto por este CARF, para fins de análise da validade da autuação. Repitase, para que fique absolutamente patente a violação da regra: "Art.814. Para fins de acompanhamento da perícia referida no art. 813, a pessoa que comprove legítimo interesse no caso poderá utilizar assistência técnica.". Não há, aí, qualquer espaço para conveniência e oportunidade da Administração em franquear ou não ao contribuinte o direito de acompanhamento da perícia pelo assistente técnico por ele indicado. Ao analisar tal argumento, a DRJ rechaçouo de forma apressada sob fundamento de que o procedimento fiscal seria inquisitorial. Tal argumento apenas reforça a nulidade da perícia realizada, visto que a Inquisição Medieval (de onde originouse o sentido do termo usado pela decisão recorrida), apesar de trazer a iniciativa de investigação às autoridades eclesiásticas, teve o mérito inovar com a construção de um procedimento, com ritos próprios, que deveria ser observado incluindo aí um processo penal dialético e com direito de defesa como condição de validade do provimento decisório final. Ao se afastar o Fl. 1146DF CARF MF 32 preconceito do senso comum com a expressão, e com um apuro histórico, verificase esta nuança extremamente relevante ao caso em tela. Assim, por inquisitorial que é, o procedimento fiscal deve observar regras como a versada no artigo 814 do Decreto 6.759/09 como condição sine qua non da validade de seus atos. Em não observando regra expressa acerca da produção de prova pericial, e negando direito de acompanhamento da perícia ao assistente técnico indicado pela Recorrente, há que se reconhecer a nulidade de tal prova produzida pela fiscalização. Mais do que isso, ao negar a participação da Recorrente através de seu assistente na realização da perícia, operouse inequívoco cerceamento ao direito de defesa e ofensa direta ao devido processo legal procedimental. Nesse sentido é a lição de eméritos processualistas Luiz Wambier, Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart: “O art. 431A [...] determina que as partes sejam cientificadas da data e local designados pelo juiz ou indicados pelo perito para início das diligências. Explicitase, assim, a necessidade de observância da garantia constitucional do contraditório durante a produção da prova pericial (e não só por ocasião da apresentação de seus resultados) – (WAMBIER, Luiz Rodrigues. Curso avançado de Processo Civil, 5ª ed., vol. 1, pp. 491/492) A perícia só tem início com a intimação prévia das partes da data e local em que os trabalhos são iniciados (art. 431A do CPC, introduzido pela Lei 10.358/01). A medida tem o objetivo de permitir a adequada participação das partes (e dos assistentes técnicos) no desenvolvimento da prova pericial.” (MARINONI. ARENHART. “Manual do Processo de Conhecimento”, 4ª ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005, p. 374) Ademais, abundam precedentes de todos os Tribunais de Justiça e Tribunais Regionais Federais consignando a nulidade da realização de prova pericial sem intimação do assistente técnico indicado pela parte interessada no resultado dessa prova. Ora, intimar a respeito de uma data para que, ao comparecer, descobrir que a perícia já foi realizada, é o mesmo que não intimar. É como se, ao invés de não convidar alguém para o aniversário, efetivamente o convidasse, mas informasse um horário no qual a festa já estivesse encerrada. O cerceamento do direito de defesa é causa específica de nulidade no procedimento administrativo tributário federal, nos termos do artigo 59, II do Decreto 70.235/72, verbis: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. Fl. 1147DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.132 33 É preciso atentar ao estatuto jurídico da declaração de nulidade de atos do procedimento administrativo, visto que, nos termos do §1º do artigo 59 do Decreto 70.235/72, ela só prejudicará atos posteriores que dependam ou sejam consequência do ato nulo. No caso em tela, nos parece acima de qualquer dúvida a nulidade da perícia realizada pelo Laboratório Falcão Bauer por dois motivos: i) não permitiu o acompanhamento da realização da perícia pelo assistente técnico indicado pela Recorrente, nos termos do art. 814 do Decreto 6.759/09; e ii) cerceamento do direito de defesa. Resta saber se a nulidade dessa prova prejudica a autuação. No relatório fiscal, em fl. 359, aduziu a fiscalização que: O resultado da análise pericial consta de Laudos Técnicos exarados pelo Centro Tecnológico de Controle de Qualidade Falcão Bauer, anexados nas folhas 295 a 326 deste processo. Com base nos dados constantes dos Laudos Técnicos acima citados, esta fiscalização efetuou a classificação fiscal dos componentes dos kits analisados . Pelos motivos expostos no Anexo 1 deste Relatório, concluiuse que os componentes destes kits se enquadram nos códigos NCM relacionados na tabela a seguir: Como se vê claramente da motivação da autuação, a classificação fiscal das mercadorias da Recorrente, ponto fulcral da presente autuação, foi realizada com base na perícia ferida de nulidade. Assim sendo, não há como se preservar o auto de infração, visto que seus pilares estão juridicamente rotos. Frisese, por fim, que conquanto tal matéria não tenha sido veiculada no Recurso Voluntário, tratase de nulidade procedimental e, portanto, reconhecível de ofício. Portanto, voto por reconhecer a nulidade da perícia realizada pelo Laboratório Falcão Bauer, de fls. 295326, por ofensa ao art. 814 do Decreto 6.759/09 e ao art. 59, II do Decreto 70.235/72. Por ser decorrência direta deste ato, reconheço a nulidade integral da autuação fiscal. b) Nulidade da autuação por ofensa ao artigo 146 do CTN Primeiramente gostaria de consignar que me manifestei sobre essa matéria anteriormente, no Acórdão CARF nº 3402003.802, no sentido de que a alteração de critério jurídico vedada pelo artigo 146 do CTN somente ocorreria após a realização do lançamento tributário. Todavia, tendo a oportunidade de me debruçar com maior vagar sobre a matéria, refleti sobre os argumentos e entendo que não adotei, à época, a melhor interpretação para aquele dispositivo. Diz o artigo 146: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício Fl. 1148DF CARF MF 34 do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. Ao falarse em modificação, estáse a pressupor a existência de algo anterior que será alterado, ou seja, no contexto do dispositivo, haveria o critério jurídico original e o critério jurídico modificado. A questão central para desatar a compreensão desse dispositivo é qual a base sob a que repousa o critério jurídico original. Antes de abordála, há que se frisar também que o artigo 146 traz uma limitação objetiva ao poder fiscalizador, vinculando a Administração ao critério original para todos os fatos geradores anteriores à introdução da modificação, em relação a um mesmo contribuinte. É dizer, o novo critério somente poderá ser aplicado a um contribuinte a partir do momento que ele tenha ciência de que esta será a nova "regra do jogo". Pareceme que a expressão "critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento" induz, em uma leitura apressada, a entender que a restrição se daria no bojo de um único procedimento administrativo, como regra relativa a revisão de lançamento. Todavia, tal leitura resta infirmada a partir do momento que o artigo restringe expressamente a limitação a um mesmo sujeito passivo ora, fosse essa alteração dentro de um lançamento já realizado, não haveria por quê restringir o seu alcance a um único contribuinte, pois ela já seria ab ovo restrita ao contribuinte daquele lançamento. A própria redação do dispositivo deixa em claras nuvens a erronia de se considerar o artigo 146 como restrição à revisão de lançamento. Mais ainda, não faz sentido em se falar em alteração de critério jurídico dentro de um mesmo lançamento tributário, em face do artigo 149, que traz as hipóteses expressas de revisão de ofício do lançamento, não havendo, em seu rol exaustivo, qualquer hipótese de revisão por alteração no critério jurídico. Como pode o artigo 146 se referir a uma revisão do critério jurídico adotado pelo fiscal, se o artigo 149 não incluiu tal possibilidade como hipótese de alteração do lançamento? Não faz sentido. A ideia de uma modificação de critério jurídico dentro de um lançamento resta afetada pela própria ausência de autorização legal para tanto. Ao condicionar a limitação à introdução da modificação de critério jurídico (é dizer, à ciência do sujeito passivo), verificase que não se está falando de uma alteração dentro do próprio lançamento, como cuidamos de infirmar acima, mas sim de uma alteração do critério jurídico tomada, por determinado contribuinte, como o utilizado pela fiscalização. Com esse esclarecimento, observase que o critério original não tem origem em um determinado ato de lançamento, mas possui uma base normativa autônoma. Parecenos que a leitura do artigo 146 se esclarece à partir da sua compreensão conjunta ao artigo 100 do Código Tributário, verbis: Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; II as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; Fl. 1149DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.133 35 III as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas; IV os convênios que entre si celebrem a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. Em primeiro lugar, salta aos olhos que o artigo 100, II é expressamente mencionado no corpo do artigo 146, ao apontar a decisão administrativa como causa da alteração de critério jurídico, o que indica, a meu ver, que caminhamos na direção correta para a compreensão deste comando legal. É absolutamente claro que no caso de uma decisão administrativa com eficácia vinculante que estabeleça novos critérios jurídicos, eles somente valerão para fatos geradores posteriores à sua publicação, que implicaria na ciência dos contribuintes. Quanto aos incisos I e IV, pareceme que o artigo 146 não precisa abarcálos, visto que enquanto normas gerais e abstratas não gozam de retroatividade fora das hipóteses do artigo 106 do Código Tributário Nacional, se aplicando também apenas aos fatos geradores posteriores à sua introdução. A tônica parece restar sobre o inciso III do artigo 100, que trata como normas complementares as práticas observadas reiteradamente pelas autoridades administrativas. Ao aplicar reiteradamente um critério jurídico em relação a determinado contribuinte, verificase que a há a consolidação de uma norma complementar que vincula a Administração àquela interpretação ou critério, perante aquele sujeito passivo. É a partir daí que se tem um critério original passível da modificação tratada pelo artigo 146 do CTN. Nesse sentido é a lição de Luciano Amaro: "(...) esse dispositivo expressa mais do que a mera inalterabilidade do lançamento por mudança de critério jurídico, na medida em que, repitase, estende a inalterabilidade do critério para todos os fatos geradores já ocorridos, mesmo que ainda não tenham sido objeto de lançamento. (...) O dispositivo é severo com o Fisco, ao proibir que, em determinado lançamento, ele passe a adotar novo critério (em relação ao mesmo sujeito passivo), uma vez que isso implicaria mudança de critério quanto a fato gerador ocorrido antes da introdução do novo critério... O Fisco deve primeiro divulgar o novo critério para depois poder aplicálo nos lançamentos futuros pertinentes a fatos geradores também futuros (em relação a sujeito passivo que, no passado, tenha tido obrigação lançada por outro critério)." (AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro, 13ª ed. São Paulo: Saraiva, 2007, p.354) O exemplo do celibato eclesiástico talvez esclareça o que pretendo dizer. Do nascimento da Igreja Católica até o século XII não havia qualquer exigência de celibato para sacerdotes da Igreja, com registro inclusive de papas casados. Entretanto, com os Concílios de Latrão alterouse a interpretação que era dada às Sagradas Escrituras passandose a sustentar que o clero deveria se abster do casamento. E como ficaram os sacerdotes casados à época do Concílio? Em razão da alteração do entendimento, a regra passou a ser exigida apenas aos novos candidatos ao sacerdócio. O caso em tela está sujeito ao mesmo raciocínio: a utilização reiterada de um critério jurídico que encampava a classificação fiscal adotada pelo contribuinte cristalizou uma Fl. 1150DF CARF MF 36 expectativa jurídica que foi rompida com a adoção de uma nova interpretação das regras classificatórias. Aplicar essa nova interpretação aos fatos geradores não decaídos em relação à data em que o contribuinte tomou ciência desse novo entendimento seria, ao fim e ao cabo, uma ilegítima retroação da aplicação do novo critério, o que é expressamente vedado pelo artigo 146 do CTN. O próprio artigo 150, III, "a" da Constituição Federal, ao vedar a cobrança de tributos em relação a fatos geradores ocorridos antes do início da vigência da lei que os houver instituído ou aumentado, encampa esse entendimento à partir do momento que se constata que os textos legais são vagos e ambíguos, sujeitos a mais de um sentido possível, na maioria das vezes. Assim, da mesma forma que não se pode retroagir a lei sobre fatos geradores anteriores a ela, tampouco pode retroagir uma nova interpretação dessa lei para atingir fatos geradores ocorridos durante período em que a fiscalização utilizava pacificamente outro critério jurídico seria desrespeito à norma complementar decorrente da prática reiterada da administração. Nesse sentido, calha mencionar o fato da jurisprudência pátria sufragar tal entendimento: “Recurso Especial. Mandado de segurança. PIS e COFINS. Suspensão de incidência. Obrigatoriedade. Art. 146 do CTN. Mudança de critério jurídico. Inaplicabilidade a fatos pretéritos. Erro de direito. 1. É obrigatória a 'suspensão de incidência do PIS e da COFINS' a partir da IN SRF nº 660/06, na hipótese prevista no art. 9º, III, c/c o art. 8º, §1º, III, da Lei nº 10.925/2004. 2. A inobservância dos procedimentos previstos na IN SRF 660/06 não leva à presunção de incidência das contribuições para efeito de eventual direito a creditamento. 3. Entendimento adotado pela administração tributária somente após a Solução de Consulta Interna (SCI) nº 58/SRF, de 25/11/2008. Até essa data, por equivocada valoração jurídica dos fatos, reconhecese a prática de erro de direito. 4. A orientação firmada na SCI nº 58/SRF aplicase apenas às situações cujos fatos geradores ocorreram após 25/11/2008, proibida a retroatividade – art. 146 do CTN. 5. Recurso especial parcialmente provido.” (STJ, 2ª Turma, REsp. nº 1.233.389/PR, Rel. Min. ELIANA CALMON, DJe 18.12.2013) “Tributário. Aduaneiro. Importação. Mudança de critério legal. Art. 146 do CTN. Segurança jurídica. 1. O proceder da autora foi determinado formalmente por um critério de interpretação do Fisco que depois passou a ser considerado pelo próprio Fisco como ilegal. 2. Por força do art. 146 do CTN, a exigência fiscal ora combatida, por óbvio é ilegal, uma vez que foi o próprio Fisco quem expressamente exigiu a mudança de critério adotado pela autora em importação anterior. Fl. 1151DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.134 37 3. A mudança de critério legal de interpretação adotada pelo Fisco, consoante estabelece o artigo 146 do CTN, ainda mais no caso de o Fisco compelir o contribuinte a agir de uma maneira, que, depois, passou a considerar ilegal, somente vincula o contribuinte para os fatos geradores ocorridos depois daquela mudança. 4. Em um sistema tributário absolutamente caótico, confuso e inflacionado normativamente, é absolutamente lógico e necessário o disposto no artigo 146 do CTN, na medida em que fica, por esse dispositivo, preservado o postulado da segurança jurídica, ao se exigir da administração tributária um proceder que permita ao contribuinte tomar conhecimento sobre os critérios que deverá observar nas suas condutas correlatas às obrigações tributárias principais e acessórias, previstas no cipoal da legislação tributária.” (TRF da 4ª Região, Apelação Cível nº 2008.72.01.0015054/SC, Rel. Des. Federal JOEL ILAN PACIORNIK, DJ 13.01.2011) “Tributário. Consulta fiscal. Mudança de critério jurídico. Erro de direito. Art. 146 do CTN. Dever de lealdade e proteção à confiança da relação jurídico tributária. Irretroatividade. Inaplicabilidade a fatos geradores pretéritos. Art. 48, § 12, da Lei 9.430/96. Possibilidade de alteração de entendimento a fatos geradores posteriores. 1. A normatividade do art. 146 do CTN conectase com o princípio da irretroatividade, vinculando a administração ao critério jurídico existente à época do fato gerador, tanto para a revisão de lançamento, quanto para o lançamento de ofício. Oferecendo a interpretação oficial sobre a matéria, a Administração não poderia aplicar o novo critério adotado na consulta fiscal nos fatos geradores pretéritos, em razão do dever de lealdade e da relação de confiança que norteia a relação jurídicotributária. 2. O novo entendimento exarado em consulta fiscal, que resulta em alteração de entendimento emitido anteriormente, tem aplicação tão somente aos fatos posteriores à ciência do contribuinte acerca do mesmo. O art. 48, § 12, da Lei nº 9.430/96 dispõe sobre a possibilidade de mudança da solução da consulta, relativamente a fatos geradores posteriores.” (TRF da 4ª Região, Apelação REO nº 500206176.2010.404.7005/PR, Rel. Des. Federal MARIA DE FÁTIMA FREITAS LABARRÈRE, j. 21.05.2014) Desse modo, constatandose que se trata da primeira ocasião, em mais de 30 anos, em que a RFB alterou seu entendimento jurídico sobre a classificação fiscal para autuar a Fl. 1152DF CARF MF 38 Recorrente, com notificação do mesmo em 22/12/2014, esse novo critério somente poderá ser aplicado a partir desta data, nos termos do artigo 146 do CTN. Assim, voto por reconhecer a inaplicabilidade do critério utilizado na presente autuação aos fatos geradores anteriores a 22/12/2014, afastandoa. c) Nulidade da decisão recorrida por ausência de enfrentamento de argumento autônomo suscitado na Impugnação. É de se ressaltar também evidente nulidade da decisão proferida pela DRJ em razão de não ter enfrentado fundamento autônomo da impugnação, que seria, per si, suficiente para refutar a autuação. Questão idêntica foi julgada por este E. Colegiado em Novembro de 2016, no Acórdão CARF nº 3402003.465, oportunidade em que se declarou a anulação da decisão de primeira instância, remetendose o processo à DRJ para que fosse proferida nova decisão, analisando, de forma específica, o fundamento que deixara de ser enfrentado. A decisão foi assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/03/2010 a 31/12/2011 NULIDADE DE DECISÃO. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO. FUNDAMENTO AUTÔNOMO NÃO ANALISADO. PROCEDÊNCIA DO RECURSO É nula, por ausência de motivação, a decisão que deixa de analisar um dos fundamentos invocados pelo contribuinte em sua impugnação e que, de forma autônoma, é capaz de infirmar a conclusão alcançada pelo órgão julgador na parte dispositiva do julgado. Preliminarmente ao enfrentamento da omissão da decisão da DRJ, me fio aqui na precisa lição do Conselheiro Diego Diniz Ribeiro, que naquele acórdão consignou: (i) A motivação das decisões de caráter judicativo 9. Como é sabido, as decisões proferidas pela instância administrativa, assim como ocorre na instância judicial, devem necessariamente ser motivadas, sob pena de nulidade. A respeito da motivação das decisões proferidas no âmbito do processo administrativo federal, convém destacar os disposto no art. 31 do Decreto n. 70.235/726, bem como os artigos 2o e 50, ambos da lei n. 9.784/9978. 6 "Art. 31. A decisão conterá relatório resumido do processo, fundamentos legais, conclusão e ordem de intimação, devendo referirse, expressamente, a todos os autos de infração e notificações de lançamento objeto do processo, bem como às razões de defesa suscitadas pelo impugnante contra todas as exigências." 7 "Art. 2o A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência." 8 "Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: (...). § 1o A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato. (...)." Fl. 1153DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.135 39 10. Em verdade, as aludidas normas convergem e nem poderia ser diferente para o disposto no art. 93, inciso IX da Constituição Federal, que estabelece que todas as decisões devem ser fundamentadas, sob pena de nulidade9. 11. Ainda a respeito da motivação, convém também sublinhar o disposto no art. 458, inciso II do Código de Processo Civil de 197310 (vigente à época em que proferido acórdão atacado) e que agora se encontra revigorado pelo disposto no art. 489 do novo Codex11. 12. Assim, toda e qualquer decisão proferida no âmbito de processo administrativo federal deve ser fundamentada, ou seja, deve ser justificada em concreto pelo julgador. Com isto o princípio assegura não só a transparência da atividade judiciária, mas também viabiliza que se exercite o adequado controle de todas e quaisquer decisões jurisdicionais12. E, quando se fala em controle das decisões de caráter judicativo por meio da sua motivação, se faz menção não só a um controle exterior ao processo, mas em especial a um controle interno, o que se dá pela ideia de recorribilidade13. 13. O que se quer dizer, portanto, é que a existência de motivação de uma determinada decisão é que viabiliza (não apenas sob uma perspectiva formal, mas especialmente de modo substancial) o acesso efetivo às instâncias recursais mediante a interposição do recurso cabível. Em contrapartida, decisão imotivada (sem fundamento) é o mesmo que negar acesso ao grau recursal ou reduzilo à uma questão exclusivamente de forma, isso sem falar na própria supressão de instância. 14. Não obstante, ainda quando se fala em decisão motivada, exigise também que a motivação seja completa, sem omitir pontos cuja solução pudesse conduzir o juiz a concluir diferentemente14. Assim, sempre que a sentença seja repartida em 9 A citada regra constitucional é alçada ao "status" de cláusula pétrea, não sendo passível de alteração sequer por Emenda Constitucional, nos termos do art. 60, § 4º, inciso IV da Magna Lex. 10 "Art. 458. São requisitos essenciais da sentença: (...); II os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito; (...)." 11 "Art. 489. São elementos essenciais da sentença: I o relatório, que conterá os nomes das partes, a identificação do caso, com a suma do pedido e da contestação, e o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo; II os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito; III o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões principais que as partes lhe submeterem. § 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: I se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida; II empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de sua incidência no caso; III invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão; IV não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador; V se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos; VI deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento." 12 "in" BUENO, Cássio Scarpinella. p. 165. 13 Portanto, o princípio da motivação é um instrumento "que se põe a serviço da já trabalhada ideia de recorribilidade – só é possível recorrer, convenhamos, de decisão judicial cujos fundamentos sejam conhecidos, permitindose, assim, o controle da atividade jurisdicional." (CONRADO, Paulo César. Introdução à teoria geral do processo civil. 2ª. ed. São Paulo: Max Limonad, 2003. p. 7172). 14 DINAMARCO, Cândido Rangel. "Instituições de direito processual civil (vol. I)". 6ª. ed. São Paulo: Malheiros, 2009. P. 249. Fl. 1154DF CARF MF 40 capítulos, cada um consistindo no julgamento de uma pretensão, todos eles devem ser precedidos de uma motivação que justifique a conclusão assumida pelo juiz15. 15. O que se quer dizer, portanto, é que a decisão deve fundamentar o acolhimento ou a rejeição de cada um dos pedidos e, consequentemente, de cada uma das correlatas causas de pedir próximas expostas ao longo da lide. Caso um mesmo pedido e, consequentemente, a mesma causa de pedir próxima correlata tenha mais de um fundamento, basta a adesão ou rejeição de um deles para que a decisão seja motivada. O que não se admite, em contrapartida, é que um determinado pedido e a sua correlata causa de pedir próxima fiquem sem qualquer resolução. Cabe analisar, agora, o caso em tela. Em sua Impugnação, especialmente em fls. 557 e ss., o Contribuinte reconheceu expressamente que as Regras Gerais de Interpretação 2.a) e 3.b) não se aplicariam seu caso, como de resto o fez durante todo o procedimento fiscal, fato este reconhecido pelo fiscal no seu relatório, em fl. 356: Existem, porém, regras que permitem que um kit ou um conjunto de artigos por montar sejam enquadrados em uma classificação única: são as Regra 2 a) e 3 b) do Sistema Harmonizado. Entretanto, a própria fiscalizada reconheceu que estas regras não se aplicam a seus produtos: no documento de 04/02/2014 (fls.130/147), afirmou que os concentrados destinados à fabricação de bebidas estão excluídos do campo de aplicação da regra 3 b) do Sistema Harmonizado e no documento de 16/07/2014 (fls.185/189), confirmou que a Regra 2 a) do Sistema Harmonizado também não serve de base para seu entendimento de que os kit se constituem em uma mercadoria única para fins de classificação fiscal. De qualquer maneira, esta fiscalização analisa as Regras 2 a) e 3 b) do sistema Harmonizado: Se verifica claramente que o longo arrazoado sobre o conteúdo das Regras Gerais de Interpretação nº 2 e 3, presente no relatório fiscal, foi feita por mera liberalidade do auditor, mas sem qualquer vínculo com o presente caso. Pois bem, retornando ao argumento desenvolvido pelo Contribuinte em sua Impugnação, verificase que o mesmo reconhece expressamente que a Nota Explicativa XI da RGI 3 exclui as mercadorias vendidas pela RECOFARMA do âmbito de aplicação daquela regra. O que lhe interessa, para fins de argumento, é o conteúdo conceitual dessa NE XI. É o que se vê em fls. 556557: 15 "Op. cit. Loc. cit." Fl. 1155DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.136 41 Repitase: não há qualquer dúvida, sequer é posta em questão, quanto a aplicação da NE XI para excluir as mercadorias da Recorrente da RGI 3 o afastamento é literal. O fundamento do contribuinte é outro: afirma que a NE XI, ainda que impeça a classificação dos kits para a fabricação de bebidas segundo a RGI 3, defineos de forma clara como mercadorias únicas, formadas por componentes diversos (partes), que são acondicionados em separado e apresentados em conjunto (numa única ou em várias embalagens), e em proporções fixas. O referido dispositivo deixa claro ao tratar de "mercadorias constituídas por diferentes componentes" que os kits de concentrado devem ser tratados como uma única mercadoria, pelo que pugna pela aplicação da RGI 1, o que implicaria na classificação de todos os componentes em uma única posição, correspondente àquela unidade mercadológica reconhecida implicitamente na NE XI da RGI 3. Fl. 1156DF CARF MF 42 Pois bem, neste ponto resta absolutamente claro que a argumentação do Recorrente passa ao largo da aplicação das RGIs 2 e 3, tampouco da NE XI da RGI 3. Vejamos agora os fundamentos da decisão recorrida: A Regra 2.a) e a Regra 3.b), acima reproduzidas, que mais se aproximam do intento de conferir única classificação fiscal à reunião levada a efeito pela fiscalizada, igualmente, acrescentese, não socorrem à impugnante. A título de artigo incompleto ou inacabado, ressaltese, entendese aquele produto alvo de interrupção do processo produtivo em dado ponto do referido processo. Os artigos, em conseqüência, consoante expresso por meio da Regra 2.a), apresentam, no estado em que se encontram, as características essenciais do artigo completo ou acabado. Tal regra abrange igualmente o artigo completo ou acabado, ou como tal considerado, mesmo que se apresente desmontado ou por montar. Os ditos “concentrados”, todavia, quando da saída decorrente da venda pela contribuinte realizada, simplesmente não ostentam as características essenciais do artigo completo ou acabado, servindo, inquestionavelmente, no campo das possibilidades, aos mais diversos fins. A “Parte 3” do “Concentrado CocaCola Zero” bem ilustra o que se acaba de afirmar, pois, enquanto preparação à base de acessulfame de potássio, aspartame e benzoato de sódio, na forma sólida, constitui preparação adoçante passível de uso nos mais diversos segmentos da indústria alimentícia, não apenas na de bebidas, conforme laudo técnico expedido pelo Centro Tecnológico de Controle de Qualidade Falcão Bauer (fl. 398), objeto de controvérsia a ser resolvida posteriormente. A classificação não pode restar, como já explicitado, ao sabor do destino que a contribuinte confere à mercadoria, de maneira que seja classificado no Ex 1 da NCM 2106.90.10 quando vendido para engarrafadores de bebidas, e em código distinto quando vendido como adoçante para fabricantes de outro produto da indústria alimentícia. No que respeita ao artigo desmontado ou por montar a que se refere a Regra 2.a), “Deve considerarse como artigo apresentado no estado desmontado ou por montar, para a aplicação da presente Regra, o artigo cujos diferentes elementos destinamse a ser montados, quer por meios de parafusos, cavilhas, porcas, etc., quer por rebitagem ou soldagem, por exemplo, desde que se trate de simples operações de montagem”, conforme Nota Explicativa ao Sistema Harmonizado (NESH) VII à regra em destaque. À evidência, não se trata dos produtos objeto das venda da interessada. Já com relação à Regra 3.b), a Nota Explicativa XI dispõe: “A presente Regra não se aplica às mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas, por exemplo”. Neste passo, de se sublinhar a equivocada interpretação pela impugnante emprestada à supramencionada Nota Explicativa XI à Regra 3.b). Para a interessada, os “concentrados” por ela produzidos teriam sido contemplados pela referida a fim de evidenciar que os mesmos seriam mercadorias e, como tais, unidades sujeitas à classificação fiscal, com a particularidade de serem constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente. E se a RGI n. 3 não se aplicaria às mercadorias produzidas pela autuada, a única interpretação possível a considerar o concentrado como unitária mercadoria, alega, seria têlo como já constituindo mistura formada pelos seus componentes. A interpretação conduziria à NE X a RGI n. 2, cuja parte final disporia que “Os produtos misturados que constituam preparações mencionadas como tais, numa Nota de Seção ou de Capítulo ou nos dizeres de uma posição, devem classificarse por aplicação da Regra 1”. Aplicar a RGI n. 1, sustenta, importaria classificar a mercadoria na posição 21.06 e, sucessivamente, no código 2106.90.10 – Ex 01. A corroborar as conclusões da autuada, restariam anexados o laudo CETEA A1301/13 e o relatório CETEA 242/14. Desde já, frisese que o Centro de Tecnologia de Embalagem (CETEA), responsável pelos aludidos relatórios (fls. 588/597), à obviedade, não detém competência legal para Fl. 1157DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.137 43 promover, em caráter que se pretende terminativo, a classificação fiscal de mercadorias, atribuição sim do ocupante do cargo de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil, conforme facilmente se depreende da legislação tributária. Ademais, vejase, não se está, no âmbito do presente processo administrativo fiscal, em busca de interpretação capaz de considerar os chamados “concentrados” como mercadorias unitárias, mas da correta classificação dos produtos sob o abrigo de tal expressão, seja por intermédio de uma única classificação – a exemplo do que pretende a impugnante –, ou através da classificação de cada qual dos produtos envolvidos. É dizer, não se parte da classificação adotada pela contribuinte em busca de interpretação apta a justificá la, e sim da realidade atinente aos produtos alinhados no presente trabalho de forma a corretamente classificálos no âmbito da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). Considerar o “concentrado” como já constituindo mistura formada pelos seus componentes, consoante já anotado, é ficção sem qualquer esteio no regramento posto. Restaria, assim, aparentemente, desfazer o equívoco pela impugnante perpetrado quando da interpretação da Nota Explicativa XI à Regra 3.b), segundo a qual referida regra não se aplicaria às mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas. E, para tanto, no propósito de fulminar qualquer dúvida remanescente quanto ao correto entendimento adotado pelas autoridades fiscais diante da Nota Explicativa XI à Regra 3.b), recorrese à análise levada a efeito pelo Conselho de Cooperação Aduaneira por ocasião da edição da precitada nota explicativa, uma vez suscitada, ainda em 1985, a questão posta aqui. Como se verifica da literalidade dos trechos grifados, o argumento da decisão da DRJ foi no sentido de que a NE XI da RGI 3 excluiria a aplicação deste às mercadorias vendidas pela Recorrente afirmando que estaria assim "desfazendo um equívoco pela impugnante perpretado". Ora, como se vê da Impugnação e do Relatório Fiscal, citados acima, esse equívoco de pretender aplicar a Regra 3.b ao presente caso nunca existiu. O argumento da Recorrente se baseava na distinção entre componentes e unidade mercadológica, implícita na redação da NE XI da RGI 3, e que por razões de uniformidade e coerência geraria implicações quando da classificação das mercadorias pela RGI 1 ponto este que não foi enfrentado, sequer tangencialmente, pela decisão recorrida. Corrobora o equívoco do relator da DRJ quanto às razões do Contribuinte (ou uma mácompreensão do que foi arguido) o fato do mesmo juntar aos autos cópia traduzida dos trabalhos preparatórios do Conselho de Cooperação Aduaneira relativos à NE XI da RGI 3, para afirmar que aquela nota pretendia excluir da Regra 3 os preparados para refrigerantes. Como se costuma dizer no colóquio, a DRJ "choveu no molhado", apenas reiterando o que foi dito desde o início, ainda no procedimento fiscalizatório, sem enfrentar o ponto efetivamente colocado na Impugnação. Em rigor, a decisão recorrida estaria em um metafórico Estreito de Messina, navegando rumo a um inevitável e fatal encontro com Cila ou Caribdis. Digo isto pois vejo o seguinte raciocínio como inescapável, em termos lógicos: i) caso se reconheça como me parece absolutamente claro que a decisão recorrida errou ao analisar um ponto que sequer estava em discussão (aplicação da NE XI da RGI 3 ao caso), a consequência é o reconhecimento de omissão quanto à análise de um argumento autônomo e fundamental da impugnação, o que acarretaria sua nulidade; ou Fl. 1158DF CARF MF 44 ii) caso se reconheça que a aplicação da NE XI da RGI 3 é o que pretende o Recorrente a despeito da própria fiscalização reconhecer o contrário há que se conceder que o argumento das trabalhos preparatórios do Conselho de Cooperação Aduaneira (inclusive anexados ao processo sem que haja qualquer previsão legal para tanto) seriam um fundamento novo a favor da "tese" do relator, que não fora veiculado nem pela autuação, nem pela impugnação, que ofenderia expressamente o artigo 10 do NCPC, aplicável ao PAF por força do artigo 15 daquele mesmo código, verbis: Art. 10. O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matéria sobre a qual deva decidir de ofício. Fundamentandose a decisão em argumento novo, certamente o direito de defesa do Recorrente terá sido prejudicado, pois não se permitiu um contraditório perante a DRJ sobre aquele argumento, em clara incidência do artigo 59, II do Decreto 70.235/72. Mais do que isso: a motivação é vinculante nos atos administrativos. O procedimento fiscal gira em torno dos fatos apontados e da motivação declarada para a imputação jurídica na autuação essas são as balizas da discussão de modo que, inovandose o fundamento se estaria, indiretamente, inovando na autuação. São alternativas excludentes e exaustivas: ou uma, ou outra. Pareceme, todavia, que tratase de um caso de omissão da decisão da DRJ, que no afã de reproduzir os fundamentos do relatório fiscal, olvidou da efetiva problemática instaurada pela Impugnação. É de solar clareza a confusão do Colegiado a quo, pelo que me permito complementar o raciocínio aqui esgrimido com as razões da melhor técnica da lavra do Conselheiro Diego Diniz Ribeiro, no acórdão citado anteriormente: 21. Resta, entretanto, a análise da causa de pedir próxima remanescente e que, por si só, i.e., de forma autônoma, tem o condão de afastar a pretensão fiscal em apreço: [...]. 22. Por se tratar de fundamento autônomo, referida causa de pedir deve ser objeto de tratamento específico da decisão recorrida, sob pena de nulidade, sendo este também o entendimento da mais abalizada doutrina, aqui representada pelas lições de Gabriel Lacerda Troianelli16: "(...) Provocado pelos fatos e argumentos apresentados pelo contribuinte, o julgador administrativo deverá apreciálos, a todos, em sua decisão. Caso contrário, tal decisão será total ou parcialmente desmotivada, e, portanto, nula. (...) Assim sendo, se responde que: a motivação na decisão do julgador administrativo consiste no expresso exame dos fatos e argumentos invocados pelo contribuinte. (grifos nosso)." [...] 24. Em última ratio, as considerações aqui tecidas estão em compasso com o disposto na Súmula 283 do STF, que assim prevê: "É inadmissível o recurso extraordinário, quando a decisão recorrida assenta em mais de um fundamento suficiente e o recurso não abrange todos êles." 16 "in" "Processo Administrativo Fiscal". São Paulo: Dialética. 5º volume. p. 74. Fl. 1159DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.138 45 25. Da mesma forma que um recurso não é admitido quando deixa de se opor a um fundamento capaz de, por si só, sustentar a decisão atacada, também não pode ser considerada motivada aquela decisão que deixa de analisar um motivo trazido por uma das partes litigantes e que, autonomamente, é suficiente para infirmar a parte dispositiva da decisão. Aliás, neste exato sentido é o disposto no art. 489, § 1o, inciso IV do NCPC, in verbis: Art. 489. São elementos essenciais da sentença: § 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: IV não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador; 26. Tratando do assunto, Fredie Didier Junior, Paula Sarno Braga e Rafael Alexandria de Oliveira assim professam: "Se a decisão não analisa todos os fundamentos da tese derrotada, seja ela invocada pelo autor ou pelo réu, será inválida por falta de fundamentação.(...) essa decisão contraria a garantia do contraditório, vista sob a perspectiva substancial, e não observa a regra da motivação da decisão"17. Diante disso, tenho plena convicção de que a r. decisão recorrida é nula, por carecer de motivação em relação ao fundamento desenvolvido pelo contribuinte, e que diz respeito à necessidade de observância dos conceitos empregados na NE XI da RGI 3, quando da classificação da mercadoria pela RGI 1. Assim, voto para dar provimento ao recurso voluntário interposto pela Recorrente, no sentido de reconhecer a nulidade da decisão emitida, devendo o órgão julgador veicular nova decisão para enfrentar, de forma específica, o fundamento que fora detalhado no presente voto e invocado pelo contribuinte em sua impugnação. II) Do mérito: A classificação fiscal dos "kits de concentrado para preparo de refrigerantes" O cerne da autuação fiscal consiste na afirmação de a classificação fiscal adotada pelo contribuinte (Ex 01 do código 2106.90.10) estaria equivocada, pois "preparações" deve ser entendida apenas como produtos prontos para uso, razão pela qual a Recorrente não faria jus ao benefício da alíquota zero de PIS e Cofins previsto na legislação retromencionada. O Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias (SH) é um sistema padronizado de codificação e classificação desenvolvido e mantido pela Organização Mundial das Aduanas — OMA, da qual o Brasil faz parte (Decreto 97.409/1988 que promulgou a Convenção Internacional sobre o SH, aprovada pelo Decreto Legislativo 71/1988). Um dos compromissos assumidos como Parte Contratante dessa Convenção (art. 3º) consiste em aplicar as Regras Gerais para a Interpretação do Sistema Harmonizado, sem aditamentos nem modificações, bem como todas as Notas de Seção, de Capítulo e de Subposição e a não modificar a estrutura das Seções, dos Capítulos, das posições ou das subposições. 17 "in" " Curso de direito processual civil vol. 02.". 10a. ed. Salvador: Jus Podivm, 20115. p. 337. Fl. 1160DF CARF MF 46 De acordo com os arts. 16 e 17 do RIPI/2002 (art. 10 da Lei 4.502/1964), a classificação deverá ser feita de acordo com as Regras Gerais para Interpretação RGI, Regras Gerais Complementares RGC e Notas Complementares NC, todas da Nomenclatura Comum do MERCOSUL NCM, integrantes do seu texto. As Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias NESH, do Conselho de Cooperação Aduaneira na versão luso brasileira, efetuada pelo Grupo Binacional Brasil/Portugal, e suas alterações aprovadas pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (IN RFB 807/2008), constituem elementos subsidiários de caráter fundamental para a correta interpretação do conteúdo das Posições e, bem como das Notas de Seção, Capítulo, Posições e Subposições da Nomenclatura do Sistema Harmonizado. Os fundamentos são resumidos pelo fiscal nas fls. 2627 desta acórdão. Em síntese, podese dizer que a fiscalização se baseou em um dos sentidos lexicais do verbete "preparação" e partiu do pressuposto de que "preparação" seria apenas a mistura já homogeneizada e passível de diluição, diferentemente dos ingredientes que compõem o "concentrado" vendido pela Recorrente. Primeiramente, a fiscalização afirma que o Laudo exarado pelo laboratório Falcão Bauer (fls.295326) cuja patente nulidade já foi apontada anteriormente confirmaria de forma inequívoca que a classificação fiscal adotada pelo Contribuinte está errada. Todavia, uma simples análise do documento atesta exatamente o contrário, como será demonstrado abaixo, apresentandose o resultado por amostragem: 1) Concentrado/Kit sabor cocacola parte 1 2) Concentrado/Kit sabor cocacola parte 2 3) Concentrado/Kit sabor cocacola zero parte 1 4) Concentrado/Kit sabor cocacola zero parte 2A 5) Concentrado/Kit sabor cocacola zero parte 2B 6) Concentrado/Kit sabor cocacola zero parte 1B Fl. 1161DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.139 47 7) Concentrado/Kit sabor cocacola zero parte 1C 8) Concentrado/Kit sabor cocacola zero parte 3 9) Concentrado/Kit sabor sprite parte 2 10) Concentrado/Kit sabor sprite parte 1 11) Concentrado/Kit sabor sprite parte 1A 12) Concentrado/Kit sabor sprite parte 1G 13) Concentrado/Kit sabor sprite light ou zero parte 1B No Laudo anexado aos autos, se verifica que os "kits de concentrados" abrangem basicamente preparações líquidas e sólidas, sendo estas últimas compostas de Ácido Cítrico, Sorbato de Sódio e Benzoato de Sódio, que vem às vezes misturados com outros sais, e em outras isolados. Em seguida, o Fiscal desconsidera a indicação feita pelo Laudo de que se tratariam de preparações, para adotar seu próprio sentido atécnico, digase que obteve à partir de uma consulta ao dicionário Priberam, na internet, concluindo assim que "preparações" devem ser entendidos apenas como produtos prontos para uso, já tendo sido processados, enquanto no caso dos kits, os componentes são misturados no processo de elaboração da bebida final. Para fundamentar, cita a distinção entre preparações alimentícias simples e compostas, para enquadrar o caso em tela na preparação alimentícia composta homogeneizada. Pontua então uma de suas premissas inadequadas a meu ver: "a utilização dos produtos do kit e a realidade mercadológica, incluindo as limitações técnicas de transporte Fl. 1162DF CARF MF 48 daquele produto seriam irrelevantes para fins de classificação fiscal". Tal ponto foi corroborado pela decisão recorrida em fls. 774: Ora, não apenas a utilização da mercadoria é relevante para fins de classificação como a própria TIPI delineia elementos teleológicos no bojo de suas classificações, especialmente na posição 2106.90.10 e seus Ex 01 e 02: 2106.90.10 Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas Ex 01 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado Ex 02 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida refrigerante do Capítulo 22, com capacidade de diluição de até 10 partes da bebida para cada parte do concentrado É dizer, faz toda a diferença para fins classificatórios o fato da mercadoria receber determinada destinação ou não, para esse caso dos concentrados, como também para diversos outros. O Parecer juntado pela Recorrente, de lavra dos expertos Helder Silva Chaves, José Antônio Schöntag e Ricardo José de Souza, possui tópico específico para demonstrar o patente equívoco na premissa adotada pela fiscalização e pela decisão recorrida: A suscetibilidade de ser comprado e vendido é o que caracteriza mercadoria. Assim, para que um produto possa ser considerado mercadoria é necessário que tenha determinados atributos ou características, sejam elas físicoquímicas ou de natureza funcional, tecnológica, utilitária, forma de apresentação, etc., que o tornem susceptível de ser comprado e vendido, de ser negociado, enfim. São essas características que motivam a compra e venda de determinada mercadoria e por elas (características) o produto é conhecido. Por exemplo: as NESH à Posição 35.06, onde estão classificados adesivos e colas, deixam evidente a importância da destinação, da motivação que o produto desperta em quem o adquire: "35.06 Colas e outros adesivos preparados, não especificados nem compreendidos noutras posições; produtos de qualquer espécie utilizados como colas ou adesivos, acondicionados para venda a retalho como colas ou adesivos, com peso líquido não superior a 1kg. Esta posição compreende: A) Este grupo compreende as colas e outros adesivos, preparados da parte B) abaixo, bem como outros produtos de qualquer natureza utilizados como colas e outros adesivos, desde que sejam acondicionados para venda a retalho como colas ou adesivos, em embalagens cujo conteúdo não pese mais do que 1 kg. Fl. 1163DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.140 49 Estas embalagens para venda a retalho são, em geral, frascos ou potes de vidro, latas ou bisnagas metálicas, caixas de cartão, sacos de papel, etc.; podem mesmo consistir, por exemplo, numa simples tira de papel envolvendo uma plaqueta de cola de ossos. Às vezes, juntase um pincel, de tipo apropriado, às colas ou adesivos prontos para o uso e apresentados em frascos, em potes ou em latas; neste caso, o pincel segue o regime das colas ou adesivos e classificase nesta posição. Os produtos que possam empregarse com outras finalidades além de como colas ou adesivos (a dextrina ou a metilcelulose granulada, por exemplo) só se classificam nesta posição quando a sua embalagem para venda a retalho contenha dizeres indicando que tais produtos se vendem como colas ou adesivos." Outro exemplo: as tesouras se classificam normalmente na Posição 82.13, mas se o formato de determinado tipo de tesoura indicar que se destina a uso médico, ela passa a classificarse na posição 90.18, onde se encontram, de forma geral, os instrumentos para usos médicos. Nos exemplos citados, como se vê, não é importante somente as características físicoquímicas da mercadoria, mas como ela, mercadoria, é apresentada para ser vendida, qual a motivação que busca o consumidor ao comprar tal produto. Assim também o Capítulo 28 que, de forma geral, compreende os produtos químicos inorgânicos puros, isolados, não misturados. Esses produtos são aqui classificados de acordo com a sua constituição química, mas se a função de alguns desses produtos o caracteriza melhor, do ponto de vista merceológico, do que sua constituição química, e se essa função está especificada noutro Capítulo do SH, esse produto se classifica neste Capítulo, e não no Capítulo 28. As considerações transcritas acima são inconstestáveis, restando trivial que o Sistema Harmonizado privilegia a destinação da mercadoria e o papel comercial que a mesma exercerá, sobre o simples dado de sua constituição físicoquímica, especialmente para fins de classificação. Vejamos o que a NESH tem a dizer a respeito da posição 2106, indicada pelo Contribuinte: A) As PREPARAÇÕES para utilização na alimentação humana, quer no estado em que se encontram, quer depois de tratamento (cozimento, dissolução ou ebulição em água, leite, etc.). A Nota Explicativa A referente à classificação 2106.90 é expressa em afirmar que a preparação não perde o seu caráter enquanto tal pelo simples fato de posteriormente passar por um tratamento, mencionando especificamente a possibilidade de dissolução, que implica mistura fato este utilizado pelo fiscal como argumento para afastar a natureza de preparação. É dizer, os diversos componentes que fazem parte do "kit" nada mais são do que um Preparado Sólido, apto a ser diluído para a produção de refrigerantes. Os diversos componentes serão, para todos os efeitos, tratados como uma única mercadoria. Esse é o cerne do principal argumento da Recorrente, cujo enfrentamento deixou de ocorrer no âmbito da DRJ como já demonstrado anteriormente. Fl. 1164DF CARF MF 50 Partese da NE XI à RGI/SH 3, que traz exceção expressa à aplicação da regra 3 de interpretação do SH às preparações produzidas pela Recorrente: XI) A presente Regra não se aplica às mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas, por exemplo. Em momento algum fiscal ou a Recorrente pretenderam que tal NE se aplicasse ao caso em tela pelo contrário, sempre consignaram concordância com a exclusão expressa das mercadorias em análise do âmbito da RGI 3, diferentemente do que foi abordado pela decisão recorrida. A consolidação das Notas Explicativas, realizada pela IN RFB 807/2008 está sujeita às regras técnicas de consolidação, versadas no artigo 13, §2º da Lei Complementar 95/1998, especialmente o seu inciso VIII, que traz regra de homogeneização terminológica do texto, além das regras de clareza e precisão do artigo 11, I, "a" e II, "b" da mesma lei: Art. 11. As disposições normativas serão redigidas com clareza, precisão e ordem lógica, observadas, para esse propósito, as seguintes normas: I para a obtenção de clareza: a) usar as palavras e as expressões em seu sentido comum, salvo quando a norma versar sobre assunto técnico, hipótese em que se empregará a nomenclatura própria da área em que se esteja legislando; II para a obtenção de precisão: a) articular a linguagem, técnica ou comum, de modo a ensejar perfeita compreensão do objetivo da lei e a permitir que seu texto evidencie com clareza o conteúdo e o alcance que o legislador pretende dar à norma; b) expressar a idéia, quando repetida no texto, por meio das mesmas palavras, evitando o emprego de sinonímia com propósito meramente estilístico; Portanto, é decorrência necessária desses dispositivos que haja uma unidade conceitual dentro de um determinado regramento, isto é, que as palavras e expressões sejam utilizadas de forma constante. O referido dispositivo deixa claro ao tratar de "mercadorias constituídas por diferentes componentes" que os kits de concentrado, apesar de serem compostos por componentes sólidos, devem ser tratados como uma única mercadoria, a despeito da existência de diversas partes (em embalagem comum ou não) e em proporções fixas. Não há qualquer contradição senão meramente aparente com a RGI/SH 2.b, que trata da classificação de produtos misturados ou artigos compostos, remetendo expressamente à Regra 3, verbis: Qualquer referência a uma matéria em determinada posição diz respeito a essa matéria, quer em estado puro, quer misturada ou associada a outras matérias. Da mesma forma, qualquer Fl. 1165DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.141 51 referência a obras de uma matéria determinada abrange as obras constituídas inteira ou parcialmente por essa matéria. A classificação destes produtos misturados ou artigos compostos efetuase conforme os princípios enunciados na Regra 3. Tal dúvida se dissipa, todavia, diante da NESH X à RGI/SH 2.b, que determina expressamente que: Os produtos misturados que constituam preparações mencionadas como tais, numa Nota de Seção ou de Capítulo ou nos dizeres de uma posição, devem classificarse por aplicação da Regra 1. Em razão disso, a metarregra interpretativa a ser aplicada passa a ser a RGI 1, com o respaldo das Notas Explicativas mencionadas acima. Ora, como a referência feita ao "kit concentrado" foi construída sobre o contraste entre "mercadoria" e "componentes", resta claro que, ao excluílo da aplicação da RGI 3, o legislador tratou as partes do kit como componentes de uma única mercadoria, autorizando o Contribuinte a tratála como uma unidade, constituída por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), e em proporções fixas. Em seu voto, a Ilustre Relatora afirmou: Nunca se negou a existência no mundo concreto de "mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto". O que se rejeita, no presente caso, como já esclarecido, é a classificação dos "kits" num único código NCM de "preparação", e não a possibilidade de uma "mercadoria" ter vários componentes separados. Ora, data vênia, é preciso lembrar que a NCM é utilizada para a classificação de mercadorias, e não de componentes de mercadorias. Ou seja, a partir do momento que a própria legislação contrasta componentes e mercadorias, para afirmar categoricamente que as partes do "kit concentrado" pertencem ao primeiro grupo, o que ele está implicitamente determinando é a impossibilidade dessas partes serem classificadas individualmente pois, repitase, a NCM é utilizada para classificar mercadorias, e não seus componentes. A mercadoria é o "kit", com todas as suas partes, acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), e em proporções fixas. Cabe frisar, inclusive, que a exclusão expressa da preparação da Recofarma do âmbito da RGI 3.b é eloquente, pois pressupõe que, inexistindo a NE XI, a mercadoria estaria a ela sujeita. Vejamos a NE VI, que traz o rol de produtos que estão sujeito à aplicação da RGI 3.b: VI) Este segundo método de classificação visa unicamente: 1) os produtos misturados; 2) as obras compostas por matérias diferentes; 3) as obras constituídas pela reunião de artigos diferentes; 4) as mercadorias apresentadas em sortidos acondicionados para venda a retalho. Fl. 1166DF CARF MF 52 De cara, verificase que não se trata de "obras", e tampouco é mercadoria para "venda a retalho", restando apenas a categorização como "produtos misturados". Além disso, afirma categoricamente o auditorfiscal que a existência ou não de limitações técnicas é irrelevante para enquadramento de produtos na Nomenclatura. Novamente, equivocase a fiscalização. Com tal afirmativa em mente, que nos parece ser a segunda premissa errônea da autuação, prossigamos para a Nota Explicativa B, relativa à classificação 2106.90 da NESH: B) As preparações constituídas, inteira ou parcialmente, por substâncias alimentícias que entrem na preparação de bebidas ou de alimentos destinados ao consumo humano. Incluem se, entre outras, nesta posição as preparações constituídas por misturas de produtos químicos (ÁCIDOS ORGÂNICOS, SAIS DE CÁLCIO, ETC.) com SUBSTÂNCIAS ALIMENTÍCIAS (farinhas, açúcares, leite em pó, por exemplo), para serem incorporadas em preparações alimentícias, quer como ingredientes destas preparações, quer para melhorar lhes algumas das suas características (apresentação, conservação, etc.) (ver as Considerações Gerais do Capítulo 38). E prossegue no subitem 7: 7) As preparações compostas, alcoólicas ou não (exceto as à base de substâncias odoríferas), dos tipos utilizados na fabricação de diversas bebidas não alcoólicas ou alcoólicas. Estas preparações podem ser obtidas adicionando aos extratos vegetais da posição 13.02 diversas substâncias, tais como ácido láctico, ácido tartárico, ácido cítrico, ácido fosfórico, agentes de conservação, produtos tensoativos, sucos de frutas, etc. Estas preparações contêm a totalidade ou parte dos ingredientes aromatizantes que caracterizam uma determinada bebida. Em conseqüência, a bebida em questão pode, geralmente, ser obtida pela simples diluição da preparação em água, vinho ou álcool, com ou sem adição, por exemplo, de açúcar ou de dióxido de carbono. Alguns destes produtos são preparados especialmente para consumo doméstico; SÃO TAMBÉM FREQÜENTEMENTE UTILIZADOS NA INDÚSTRIA PARA EVITAR OS TRANSPORTES DESNECESSÁRIOS DE GRANDES QUANTIDADES DE ÁGUA, DE ÁLCOOL, ETC. Tal como se apresentam, estas preparações não de destinam a ser consumidas como bebidas, o que as distingue das bebidas do Capítulo 22. Em primeiro lugar, a NESH considera expressamente que Ácido Cítrico e conservantes (Sorbato de Sódio, Benzoato de Sódio e Citrato de Sódio) fazem parte da "preparação" que se enquadra na posição indicada pelo contribuinte ela é absolutamente literal a esse respeito! E mais, ela desce à minúcia de indicar que a "preparação" pode ser enviada sem passar pela diluição, ou seja, encampando as diversas partes do "kit", para evitar os transportes desnecessários de grandes quantidades de água, de álcool, etc. Há uma preocupação expressa com uma limitação técnica, ao contrário do afirmado pela autoridade fiscalizadora. Isso não implica dizer que o auditor necessite pesquisar a realidade econômica e mercadológica para definir a classificação fiscal de todas as Fl. 1167DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.142 53 mercadorias, mas apenas daquelas cujas disposições do NCMSH e a respectiva NESH tragam expressas a relevância da destinação e a pertinência na consideração da limitação técnica. No caso em tela, a preocupação da Nota Explicativa tem fundamento claro. Vejamos a foto que consta no relatório fiscal em fl.369: Nessa foto, conforme explica a própria fiscalização, estão quatro kits sabor Sprite, retirados das caixas de papelão. Com cada kit, é possível a diluição em aproximadamente 3.000 litros de xarope, que serão diluídos em 16.000 litros de refrigerante. Ou seja, nessa foto temos aproximadamente o suficiente para produção de 12 mil litros de xarope e 56.000 litros de refrigerante, somados os 4 kits. Para se ter uma noção, esse volume de xarope seria o suficiente para encher uma piscina de 12 mil litros, semelhante a esta da foto abaixo: Fica evidente, pois, o que o subitem 7 da NE à Posição 2106 quer dizer ao falar de transportes desnecessários de grandes quantidades de água. Ora, ao invés de se transportar um volume de mercadoria manejável até mesmo por uma só pessoa e que cabe sobre uma mesa, a empresa seria obrigada a transportar uma considerável "piscina de xarope" cada vez que vendesse a sua mercadoria para alguma engarrafadora no Brasil. Assim, contrariamente ao que a fiscalização assumiu por correto, o dispositivo é sensível às limitações técnicas de transporte a que estão sujeitas as preparações e os kits para produção de refrigerante. A NE deixa claro que a posição é pensada especificamente para as preparações sólidas que compõem os kits. E mais, vejamos o subitem 12: Fl. 1168DF CARF MF 54 12) As preparações compostas para fabricação de refrescos ou refrigerantes ou de outras bebidas, constituídas por exemplo, por: (...) Estas preparações destinam se a ser consumidas como bebidas, por simples diluição em água ou depois de tratamento complementar. Algumas preparações deste tipo servem para se adicionar a outras preparações alimentícias. Novamente, a NESH desce ao detalhe a respeito de tal posição do NCM, para indicar que a "preparação" não perde seu caráter enquanto tal simplesmente pelo fato de sofrer diluição ou algum tipo de tratamento complementar no estabelecimento da Recorrente. Portanto, resta claro pela leitura das notas explicativas e da legislação de regência que: i) o fato do kit envolver partes sólidas e líquidas que sofreram diluição ou dissolução posteriormente no estabelecimento da adquirente não desnatura a sua natureza de "preparação". ii) o fato do kit ser destinado a uma empresa que produz refrigerantes é relevante para a classificação de tal mercadoria no Ex 01 da posição 2106.90.10. iii) os sólidos presentes no kit são produtos de conservação e ácido cítrico, todos expressamente mencionados como partes integrantes das preparações, podendo ser misturados posteriormente aos extratos, no momento da diluição. Minha convicção pessoal é de que a questão estaria definitivamente sepultada já neste ponto, pela leitura minimamente atenciosa da NESH, mas devemos prosseguir na análise do longo arrazoado fiscal. E mais, não deve causar qualquer espécie tal situação. Situação análoga é presente na classificação dos produtos químicos importados em "kits" para, após mistura, comporem os explosivos classificados na Posição 36.02 (Seção VI) do SH nesse caso, ainda que não se apresentem prontos para a utilização, se classificam na Posição por determinação da Nota 3 da Seção VI: 3) Os produtos apresentados em sortidos compostos de diversos elementos constitutivos distintos, classificáveis, no todo ou em parte, pela presente Seção e reconhecíveis como destinados, depois de misturados, a constituir um produto das Seções VI ou VII, devem classificarse na posição correspondente a este último produto, desde que esses elementos constitutivos sejam: a)Em razão do seu acondicionamento, nitidamente reconhecíveis como destinados a serem utilizados conjuntamente sem prévio reacondicionamento; b)Apresentados ao mesmo tempo; c)Reconhecíveis, dada a sua natureza ou quantidades respectivas, como complementares uns dos outros. Um segundo exemplo igualmente análogo ao caso em tela diz respeito à Posição "21.03 Preparações para molhos e molhos preparados; condimentos e temperos compostos; farinha de mostarda e mostarda preparada". Consta na Coletânea de Pareceres da Fl. 1169DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.143 55 OMA, editado pela RFB em 2014, o enquadramento de um produto composto na posição 2103.90. Tratase de produto apresentado em oito frascos de vidro, contando cada frasco duas preparações diferentes, e cujos componentes poderiam ser classificados em pelo menos seis diferentes códigos do NCM caso fossem mercadorias. Nesse caso, a OMA entendeu que deveriam ser classificados como uma única mercadoria sob dois fundamentos: 1) existência de uma determinada finalidade para reunir os diversos componentes; e 2) existência de uma posição na nomenclatura do SH cuja designação faz referência a preparações que resultem daqueles componentes. Ora, esses mesmos fundamentos estão presentes no caso da mercadoria vendida pela Recorrente: 1) eles tem uma única finalidade que é serem dissolvidos para a produção de refrigerantes, mantidas inclusive as proporções fixas; e 2) a posição 2106.90.10 faz referência expressa a preparações para produção de refrigerantes, e a NE XI da RGI 3 diz expressamente que as partes do kit serão tratados como componentes de uma só mercadoria. Ubi eadem ratio ibi eadem dispositio! Onde houver as mesmas razões e fundamentos, devem haver também as mesmas prescrições e disposições tratase de um princípio geral do Direito, corolário da igualdade e da coerência na interpretação e aplicação da legislação. Tratamse de critérios que só aclaram (ainda que por analogia) ainda mais os parâmetros que devem ser considerados para a classificação dos kits de concentrados, os quais são nitidamente destinados à fabricação de bebidas não alcoólicas, em utilização conjunta, enviados simultaneamente (kits) e em proporção e quantidades suficientes para a produção dos concentrados a serem diluídos. Em seguida, o fiscal recorre a classificações fiscais do U.S. Customs and Border Protection, órgão aduaneiro dos Estados Unidos responsável pela classificação de mercadorias, para sustentar que os produtos de um kit devem ser considerados individualmente. Como se verifica no documento, o produto importado era um kit com um número exato de panquecas, hambúrgueres de salsicha e/ou de ovo para a feitura de doze sanduíches, além de embalagens e etiquetas para o sanduíche pronto. O Fiscal responsável pelo parecer acerca da questão entendeu que como as partes vinham separadas, deveriam receber suas classificações próprias, porque passariam por um processo de montagem. Todavia, parece que o auditor responsável pela lavratura deste auto de infração "esqueceu" de citar o seguinte trecho do parece estrangeiro: Na tradução juramentada, anexa ao TVF: Fl. 1170DF CARF MF 56 Convenientemente, o fiscal colheu do parecer apenas o que lhe interessava, esquecendo de mencionar a exceção expressamente feita pelo autor do mesmo, na interpretação das regras de classificação fiscal. Ele tenta, insistentemente, induzir à ideia de que a Recorrente pretende aplicar aos kits as regras de classificação a produtos sujeitos a montagem (como foi feito com o caso dos sanduíches), a despeito de nada ter a ver tal classificação com o caso em tela, no qual envolve mera diluição dos componentes tratamento este expressamente previsto nas Notas Explicativas ao Sistema Harmonizado. A insistência do fiscal em justificar o injustificável fica clara com a profusão desordenada de portarias e dispositivos que cita, onde o termo "concentrado" está presente, mas que em nada tem a ver com classificação fiscal. O fato do "kit" envolver diversos produtos que serão reunidos no estabelecimento da Recorrente não altera o fato de que a legislação aduaneira determina que a sua classificação deverá ser na posição 2106.90.10, no Ex 01. Mais ainda, recorre à Lei nº 8918/1994 e ao Decreto 6.871/2009 para afirmar que o fato dos "kits de concentrados" não terem registro no MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) desqualificaria o mesmo como "Preparados líquidos ou sólidos para bebidas". Ora, a mencionada lei exige o registro de bebidas junto ao MAPA. Inclusive o regulamento veiculado pelo Decreto º 6.871/09 traz uma expressa definição da mesma, para estes fins: Art.2o Para os fins deste Regulamento, considerase: Iestabelecimento de bebida: o espaço delimitado que compreende o local e a área que o circunda, onde se efetiva conjunto de operações e processos, que tem como finalidade a obtenção de bebida, assim como o armazenamento e transporte desta e suas matériasprimas; IIbebida: o produto de origem vegetal industrializado, destinado à ingestão humana em estado líquido, sem finalidade medicamentosa ou terapêutica; III também bebida: a polpa de fruta, o xarope sem finalidade medicamentosa ou terapêutica, os preparados sólidos e líquidos para bebida, a soda e os fermentados alcoólicos de origem animal, os destilados alcoólicos de origem animal e as bebidas elaboradas com a mistura de substâncias de origem vegetal e animal; IVmatériaprima: todo produto ou substância de origem vegetal, animal ou mineral que, para ser utilizado na composição da bebida, necessita de tratamento e transformação, em conjunto ou separadamente; Vingrediente: toda substância, incluídos os aditivos, empregada na fabricação ou preparação de bebidas e que Fl. 1171DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.144 57 esteja presente no produto final, em sua forma original ou modificada; VIcomposição: a especificação qualitativa e quantitativa da matériaprima e dos ingredientes empregados na fabricação ou preparação da bebida; VIIaditivo: qualquer ingrediente adicionado intencionalmente à bebida, sem propósito de nutrir, com o objetivo de conservar ou modificar as características físicas, químicas, biológicas ou sensoriais, durante a produção, elaboração, padronização, engarrafamento, envasamento, armazenagem, transporte ou manipulação; Entendeu o fiscal que o "kit de concentrado" se enquadraria nos "preparados sólidos e líquidos", equiparados a bebida pelo inciso II, pois tais preparados são aqueles produtos destinados ao consumidor ou varejista, para preparação de refrigerante nas máquinas em que a venda ocorre diretamente nos copos (máquinas Post Mix), através da adição de água à mistura é o que deixa claro os artigos 27 a 29 do Decreto, verbis: Art.29.Preparado líquido ou concentrado líquido para refrigerante é o produto que contiver suco ou extrato vegetal de sua origem, adicionado de água potável para o seu consumo, com ou sem açúcares. Art.30.O preparado líquido ou concentrado líquido para refrigerante, quando diluído, deverá apresentar as mesmas características fixadas nos padrões de identidade e qualidade para o respectivo refrigerante. Parágrafo único.O preparado líquido para refrigerante, quando adicionado de açúcares, deverá ter a designação adoçado, acrescido à sua denominação. Se verifica com clareza que se tratam de preparações absolutamente diferentes. O "kit de concentrado" é vendido à indústria que produz o refrigerante, e qualifica se como um conjunto de matériasprimas e aditivos, conforme expressamente acatados pela Nota Explicativa B, relativa à classificação 2106.90 da NESH, já mencionada anteriormente. O que se verifica, pois, é a utilização por parte do fiscal, de uma terminologia eminentemente técnica para induzir à falsa ideia de que os preparados de que trata o inc. III do art. 2º do Decreto 6871/09 seriam a mesma coisa das preparações da Posição 2106.90.10 do NCMSH. Por fim, para a mais absoluta surpresa deste julgador, a decisão a quo não apenas inovou na argumentação trazida por extenso TVF, como também anexou documentos novos ao processo! O documento anexo, por si, sequer deveria ser conhecido por este colegiado, por se tratar de "prova" (apenas em um sentido largamente lato) nova, produzida por sujeito incompetente para tanto e sem que fosse oportunizada o direito de defesa do contribuinte a seu respeito, em sede de Impugnação. Fl. 1172DF CARF MF 58 Apenas por amor à argumentação, e por um dever de retidão, irei demonstrar que, ainda que considerado, tal documento em nada altera o desfecho do raciocínio alinhavado neste voto. A decisão recorrida, ao invocar os trabalhos preparatórios da CCA (atual OMA), que estiveram por trás da redação da NESH XI à RGI/SH 3, não está se socorrendo de interpretação autêntica! Já descrevemos o que é a interpretação autêntica em outras oportunidades, pelo que reproduzimos abaixo algumas dessas considerações: Em primeiro lugar, falar em lei interpretativa é falar em interpretação autêntica, que é aquela praticada através de toda lei ou disposição legislativa cujo conteúdo consista na determinação do significado de uma ou mais disposições legislativas anteriores (GUASTINI, Ricardo. Interpretare e Argomentare. Milano: Giuffré, 2011. P.81). (...) O caráter "autêntico" é dado a qualquer interpretação decorrente do próprio sujeito que tenha produzido o texto a ser interpretado seria como se Machado de Assis subscrevesse carta em que confirmasse a traição de Capitu, que deveria ser tomada com a interpretação autêntica da obra "Dom Casmurro". Naturalmente que ao falarmos de Direito, especialmente Direito Tributário, cujas principais regras são produzidas por um Parlamento, fica evidente o caráter ficcional dessa autenticidade (Cf. PUGIOTTO, Andrea. La legge interpretativa e i suoi giudici. Milano: Giuffré, 2003. P.125127) de modo que a subjetividade do legislador se revela como uma noção meramente metafórica, para não dizer ideológica, diante da possibilidade de composições absolutamente distintas desse órgão emitirem leis interpretativas. Isso demanda que substituamos o pressuposto da identidade do autor ou do órgão para a identidade de função (legislativa), que liga a força normativa dos dois atos, lei interpretada e lei interpretativa se prestando a justificar a interpretação autêntica. Portanto, a interpretação autêntica decorre de um ato legislativo de mesma natureza e hierarquia, veiculado pelo sujeito detentor da mesma função, com o objetivo de aclarar dispositivo anteriormente veiculado. Como a própria decisão coloca "O documento anexado consiste em interpretação autêntica, que decorre da análise realizada pela CCA para fins de formalização do item XI da Nota Explicativa da Regra 3 b" tratase, pois, de documento que representa trabalhos preparatórios, anteriores à redação da Nota Explicativa em comento. Salta aos olhos a impossibilidade de um trabalho preparatório ser tratado como interpretação autêntica. Em primeiro lugar, não possui natureza normativa, por não veicular qualquer comando vinculante, e sequer se qualifica como norma jurídica, para fins de hierarquização em um sistema graduado verticalmente. Fl. 1173DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.145 59 Em segundo lugar, o trabalho preparatório é anterior à Nota Explicativa, de modo que não poderia ser interpretação autêntica de algo que sequer existe ainda. Como qualquer ato comunicativo, a norma jurídica de desprende de seu autor no momento que é exarada, da mesma forma que a vontade do legislador e o sentido objetivo da lei não podem se confundir. Quando muito, os trabalhos preparatórios servem para auxiliar na interpretação dos dispositivos legais, em caso de dúvida, mas nunca contra a sua própria literalidade, nem para lhe agravar o conteúdo essa é a lição clássica de Karl Engisch no seu Einführung in das juristsche Denken, ao enfrentar o embate entre as escolas objetivistas e subjetivistas de interpretação. A justificação subjacente a uma determinada norma pode, sim, ser utilizada para identificar casos de sobreinclusão e subinclusão normativa aptos a serem sanados por meio de analogia ou pela técnica de dissociação no momento da aplicação, mas nunca para fins de ampliar o alcance de regras restritivas, como em matéria tributária e penal. Prosseguindo, cabe ressaltar que diversos pareceres do CCA foram internalizados e tornados vinculantes por meio de Instruções Normativas, e disponibilizados no site da RFB, mas que em nenhum deles consta o documento apresentado pelo julgador a quo. Portanto, tais atas de reuniões não são e nem podem ser tratadas como pareceres oficiais daquela organização, mas como registros históricos dos debates, tampouco tendo sido oficialmente introduzidos no sistema jurídico nacional. É dizer, nem soft law chegam a ser, porque nem Direito são. Desse modo, devese afastar de pronto o argumento levantado pela decisão a quo pelos seguintes motivos: I) o julgador de 1ª instância não pode juntar novos documentos ao processo; II) não foi oportunizado à Recorrente o direito de se manifestar sobre esse documento na impugnação; c) tratase de inovação à fundamentação da autuação; d) o documento juntado não possui qualquer valor normativo, não tendo sido publicado oficialmente como parecer, tampouco internalizado no Direito Brasileiro. Fica clara a improcedência dos argumentos esgrimidos na autuação e na decisão a quo. Se todos os argumentos a respeito da correção da classificação fiscal ainda não forem suficientes para construir materialmente o convencimento dos demais membros do Colegiado, cabe ressaltar aqui razões formais para a adoção da classificação dos kits na Posição 2106.90.10: a existência de laudo técnico elaborado pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT) que, por força do artigo 30 do Decreto 70.235/72, deverá ser adotado nos aspectos técnicos de sua competência. Senão vejamos: "Sendo assim, observouse que a parte A e a parte B quando misturadas e/ou homogeneizadas no próprio estabelecimento industrial da Recofarma provocam reações químicas indesejadas e mudanças nas características físico químicas da mistura, formando produtos finais não conformes, segundo os padrões de qualidade da Recofarma. A tabela 1 apresenta um resumo das principais diferenças observadas pela equipe técnica do INT." (Resposta ao quesito 1) "As substâncias componentes das partes acima identificadas (kit de concentrado) devem ser apresentadas em quantidades e proporções fixas entre si para manter as características essenciais do produto Cocacola. A necessidade Fl. 1174DF CARF MF 60 de manter as proporções fixas entre si foi comprovada pelos testes realizados no laboratório de Controle de Qualidade da Recofarma em Manaus e que foram acompanhados pela equipe técnica do INT." (Resposta ao quesito 5) "O Kit da preparação da Recofarma sob análise, fornecido em IBCs e bombonas, não possui outra destinação que não seja a elaboração da bebida, neste caso, o refrigerante Cocacola, pois o kit da preparação da Recofarma é vendido especificamente para os fabricantes da Cocacola como mercadoria única, que só podem utilizar seu conteúdo de forma total ou seja, a formulação é fechada e a composição e qualidade da bebida só é garantida mediante sua utilização total seguindo sistematicamente a receita determinada, garantindo a padronização da bebida em todas as fábricas." (Resposta ao quesito 7) "Tanto a parte A como a parte B são preparações compostas, ou seja, preparações formadas por mais de um componente. Quimicamente, existem preparações simples e compostas. Uma preparação simples é um único composto diluído em solução. Portanto a parte A e B são preparações líquidas constituídas de mais de um componente formando uma preparação composta assim como kit (parte A e B) é o resultado de duas preparações compostas" (Resposta ao quesito 11) "Conforme descrito nos quesitos anteriores, a mercadoria vendida pela Recofarma é uma única mercadoria formada por duas partes, com capacidade de diluição muito superior a 10 partes da bebida final Cocacola. A capacidade de diluição total do concentrado para a bebida final é superior a 350 vezes." (Resposta ao quesito 12) É bem verdade que o laudo não pode se manifestar sobre a classificação fiscal do produto tanto que não o fez expressamente , mas este Colegiado está adstrito à observância de suas conclusões de ordem técnica. E as posições versadas no laudo vão de encontro a algumas assunções realizadas pela fiscalização, servindo para infirmálas, minando a base de motivação da já frágil autuação. Vejamos: I) "notese que os kits vendidos pela Recofarma, embora comercialmente sejam definidos como uma mercadoria única chamada de “concentrado”, para fins de classificação fiscal jamais poderiam ser enquadrados como tal." (fl. 353). Verificase, ao contrário, que a resposta ao quesito 12 é categórica ao afirmar que as partes do kit configuram componentes de uma única mercadoria. Portanto, para todos os efeitos técnicos, o conjunto das partes deve ser visto por esse colegiado como uma única mercadoria, sujeita a classificação pela RGI 1. II) "Mesmo dentro da estrutura atual adotada por Recofarma, é possível imaginar situações em que a empresa classificaria individualmente uma parte: por exemplo, caso efetue a remessa de kits para um cliente, e posteriormente apenas uma das partes seja objeto de furto ou deterioração. Neste caso, o procedimento normal seria a empresa fazer uma nova remessa contendo apenas a parte faltante." Em primeiro lugar, tal afirmação não encontra qualquer fundamento na autuação, se tratando de mera suposição do fiscal. Quando questionada sobre o procedimento assumido nessas hipóteses (fl. 256), a Recofarma informou que "na hipótese de furto ou deterioração de uma das partes do kit, citada pela fiscalização, o Fabricante é obrigado a destruir o restante do concentrado e a Recofarma, a vender um novo concentrado.". Ignorou se, no caso, completamente os esclarecimentos da Recorrente, para em seguida adotar uma posição desprovida de fundamento fático. Fl. 1175DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.146 61 Em segundo lugar, a resposta ao quesito 7 veio a corroborar as informações prestadas pela Recorrente, justificando a destruição do concentrado, sob fundamento de que as engarrafadoras "só podem utilizar seu conteúdo de forma total ou seja, a formulação é fechada e a composição e qualidade da bebida só é garantida mediante sua utilização total seguindo sistematicamente a receita determinada". Em terceiro lugar, a resposta ao quesito 11 deixou claro que o conjunto das partes que compõem o kit são, tecnicamente, uma preparação composta. Se verifica, pois, que: a) tecnicamente o kit de concentrado deve ser tratado como uma única mercadoria e como uma preparação, por força do artigo 30 do Decreto 70.235/72; e b) os fundamentos técnicos utilizados pela fiscal foram todos rechaçados pelo parecer técnico, razão pela qual não vejo outra possibilidade de classificação da mesma senão na posição 2106.90.10, como corretamente realizado pela Recorrente. Diante de todo o exposto, reconheço a procedência do mérito do pleito da Recorrente, dandolhe provimento integral. III) Da inadequação da sanção aplicada. A presente autuação englobou, além das contribuições sociais para o PIS e a Cofins entendidas como devidas pela fiscalização, a multa de ofício de 75%, prevista no artigo 44, I da Lei nº 9.430/96. Entretanto, diante das especialíssimas circunstâncias do caso concreto, é patente a inadequação da sanção que se pretende aplicar, pelo que a mesma deve ser afastada, de ofício, com fundamento no artigo 65 da Lei nº 9.784/99, verbis: Art. 65. Os processos administrativos de que resultem sanções poderão ser revistos, a qualquer tempo, a pedido ou de ofício, quando surgirem fatos novos ou circunstâncias relevantes suscetíveis de justificar a inadequação da sanção aplicada. Explicome com mais vagar adiante. Em primeiro lugar, não há que causar espécie a existência de uma cláusula de equidade no bojo da legislação que rege todo o processo administrativo federal. Tal disposição já existe há muito na Lei nº 8.112/90, especificamente em seu artigo 174, mas com escopo restrito ao processo disciplinar: Art.174.O processo disciplinar poderá ser revisto, a qualquer tempo, a pedido ou de ofício, quando se aduzirem fatos novos ou circunstâncias suscetíveis de justificar a inocência do punido ou a inadequação da penalidade aplicada. O que a Lei nº 9.784/99 fez, na esteira do princípio da razoabilidade consignado na literalidade de seu artigo 2º, foi estender uma cláusula de equidade aplicável aos processos disciplinares de servidores públicos para todos que estejam sujeitos a processo administrativo que aplique algum tipo de sanção. Fl. 1176DF CARF MF 62 Não se inovou, mas se estendeu por óbvias razões de igualdade a consideração das circunstâncias específicas do caso concreto a todos os processos administrativos que apliquem sanções. Tratase da positivação de uma cláusula de equidade condicionada à demonstração de uma peculiaridade do caso concreto que justifique a inadequação da sanção, para fins de aplicação de razoabilidade nas decisões administrativas. O Professor Humberto Ávila bem define no que consiste a razoabilidade: A razoabilidade é utilizada como critério que exige a relação das normas gerais com as individualidades do caso concreto, quer mostrando sob qual perspectiva a norma deve ser aplicada, quer indicando em quais hipóteses o caso individual, em virtude de suas especificidades, deixa de se enquadrar na norma geral. (ÁVILA, Humberto. Teoria dos Princípios. São Paulo: Malheiros, 2010, p.425). A noção de razoabilidade e a sua aplicabilidade ao Direito Tributário Sancionador vai na mesma mão da evolução do pensamento jurídico após a segunda metade do século XX, com uma retomada do logos prático aristotélico, especialmente com a retomada da tópica em Viehweg (Topik und Jurisprudenz), com a consciência da necessidade de correção da justiça legal, diante de algumas questões de ordem prática que exigiam mais do que a generalidade da lei, pela riqueza de elementos pertinentes que o legislador não tinha como considerar aprioristicamente no texto legislado. Mais ainda, o preceito do artigo 65 da Lei nº 9.784/99 se encontra em fina harmonia com o artigo 108, §2º (§ 2º O emprego da eqüidade não poderá resultar na dispensa do pagamento de tributo devido.), haja vista que o dispositivo veda a utilização da equidade apenas em relação aos tributos devidos, mas não quanto às multas e outras sanções tributárias não vislumbramos qualquer incompatibilidade entre eles, mas, pelo contrário, uma redundância na indicação da relevância do postulado da razoabilidade na aplicação da leis tributárias sancionatórias (nesse sentido, SILVA, Paulo Roberto Coimbra. Direito Tributário Sancionador. São Paulo: Quartier Latin, 2007, p. 301, e SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário, 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2017, p.845). Frisese, inclusive, a existência de precedentes no Superior Tribunal de Justiça reconhecendo a inaplicabilidade da sanção de 100% por razões de equidade, a exemplo do REsp 494.080, da relatoria do saudoso Min. Teori Albino Zavascki, no qual foi aplicado o artigo 108, §2º, diante da boafé comprovada do contribuinte, nos seguintes termos: Deve ser confirmado, no entanto, à luz da doutrina antes citada, o julgamento por eqüidade realizado pelo Tribunal de origem, que, analisando as circunstâncias de fato do caso, reconheceu a boafé da impetrante, ao formular consulta ao Consulado, mantendo, com isso, a exigência do pagamento do tributo, mas dispensandoa da multa imposta. (grifo nosso) No mesmo sentido, refiro aqui ao REsp 699.700/RS, de relatoria da Min. Francisco Falcão, e no AgRg no REsp 1.129.805/PR, de relatoria do Min. Benedito Gonçalves, assim ementados: TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. EQUÍVOCO NO PREENCHIMENTO DO FORMULÁRIO DE AJUSTE SIMPLIFICADO. ART. 136 DO CTN. INFRAÇÃO TRIBUTÁRIA. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO AGENTE. BOAFÉ DO CONTRIBUINTE E INEXISTÊNCIA DE DANO OU DE INTENÇÃO DE O PROVOCAR RECONHECIDAS Fl. 1177DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.147 63 PELO TRIBUNAL DE ORIGEM. JULGAMENTO BALIZADO PELA EQÜIDADE E PELO PRINCÍPIO IN DUBIO PRO CONTRIBUINTE. AFASTAMENTO DA MULTA. I Apesar da norma tributária expressamente revelar ser objetiva a responsabilidade do contribuinte ao cometer um ilícito fiscal (art. 136 do CTN), sua hermenêutica admite temperamentos, tendo em vista que os arts. 108, IV e 112 do CTN permitem a aplicação da eqüidade e a interpretação da lei tributária segundo o princípio do in dubio pro contribuinte. Precedente: REsp nº 494.080/RJ, Rel. Min. TEORI ALBINO ZAVASCKI, DJ de 16/11/2004. II In casu, o Colegiado a quo, além de expressamente haver reconhecido a boafé do contribuinte, sinalizou a inexistência de qualquer dano ao Erário ou mesmo de intenção de o provocar, perfazendose, assim, suporte fácticojurídico suficiente a se fazerem aplicar os temperamentos de interpretação da norma tributária antes referidos. (...) (REsp 699.700/RS, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 21/06/2005, DJ 03/10/2005, p. 140) PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. EMBARGOS À EXECUÇÃO FISCAL. ICMS. ARTIGO 108, IV, DO CTN. APLICAÇÃO DA EQUIDADE PARA EXCLUSÃO DE MULTA. RECONHECIMENTO POR PARTE DO ÓRGÃO JULGADOR A QUO DA BOAFÉ DO CONTRIBUINTE E DA AUSÊNCIA DE DOLO NA CONDUTA. APLICAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DA PROPORCIONALIDADE E DA BOAFÉ. REVISÃO DO JULGAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. REEXAME DO CONTEXTO FÁTICOPROBATÓRIO. PRECEDENTES. INCIDÊNCIA DAS SÚMULAS 7 E 83 DO STJ. (...) 2. A Corte de origem afastou a multa correspondente a 60% sobre o creditamento irregular de ICMS prevista na legislação estadual paranaense (art. 55, § 1º, III, "a", da Lei 11.580/96). E assim o fez com fundamento na equidade, diante das circunstâncias fáticas do caso concreto (inexistência de dolo contribuinte e aplicação dos princípios da proporcionalidade e da boafé). (AgRg no REsp 1129805/PR, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, julgado em 10/05/2011, DJe 13/05/2011) Como se vê, a jurisprudência do STJ tem levado em conta a boafé do contribuinte para fins de aplicação da equidade para dispensa de multas, diante de circunstâncias específicas do caso concreto. E não se argumente, eventualmente, que o artigo 136 do Código Tributário tornaria a responsabilidade tributária por infrações objetiva. Vejamos seu teor: Art. 136. Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. Fl. 1178DF CARF MF 64 A responsabilidade independente, certamente, da presença de uma elemento doloso para configurar a responsabilidade, salvo nas hipóteses em que o dolo seja elemento do próprio tipo penal, por opção do legislador. Explica a melhor exegese deste dispositivo Schoueri: Com efeito, o artigo 136 constitui importante variação da disciplina do Direito Tributário Penal, em relação ao Direito Penal. Neste, nos termos do parágrafo único do artigo 18 do Código Penal, "salvo os casos expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato previsto como crime, senão quando o pratica dolosamente". Em síntese: se para o Direito Penal Tributário, a forma culposa é exceção, devendo vir expressamente prevista em lei, na matéria tributária penal a regra é a infração meramente culposa, não se exigindo a presença do dolo, exceto se a lei assim o previr. Não tem cabimento, por outro lado, imposição de penalidade se que sequer se evidencie a culpa do agente. Ao contrário, viuse acima que até mesmo o Princípio da Pessoalidade da Pena foi absorvido pelo Direito Tributário Penal. Inexistindo culpa ou dolo, não surge a pretensão punitiva do Estado, pelo mero fato de que não há o que punir. (Direito Tributário, 7ªed. São Paulo: Saraiva, 2017, p.859860) A mesma interpretação é dada, também, por Luciano Amaro, ao consignar: "Quando cometo uma infração por engano, um erro material que não dependeu da minha vontade, que pode ter decorrido da minha imperícia, da minha negligência, mas não decorreu da minha intenção, a coisa parece que muda um pouco de figura. O Código não está aqui dizendo que todos podem ser punidos independentemente de culpa. Ele está dizendo que a aplicação penal independe de intenção, o que libera o Fisco de obter a prova diabólica de que, em cada situação de infração fiscal, o indivíduo queria mesmo descumprir a lei. O Fisco não precisa fazer essa prova." (Direito Tributário Brasileiro, São Paulo: Saraiva, 2003, p.) O que o artigo 136 dispensa para as infrações tributárias é a presença de dolo, invertendo assim a lógica do Direito Penal, no âmbito sancionador tributário, mas sem que se possa, propriamente, falar em responsabilidade objetiva aliviase, por razões de implementação das sanções tributárias e praticidade dessa imputação, a necessidade de comprovação da intenção do agente, mas daí a implicar na punição independente de prova ou não da existência de algum grau de culpa, há um salto lógico não comportado pelo artigo 136 do CTN. Em rigor, falar em responsabilidade objetiva para fins de imputação de norma sancionatória de natureza punitiva configura um evidente desconhecimento do surgimento dessa teoria de responsabilização. Cabe aqui um breve adendo. As teorias sobre a responsabilidade objetiva despontaram na necessidade de reparar os danos sofridos pelos empregados, com o desenvolvimento industrial e tecnológico ocorrido na Europa durante o século XVIII e XIX, especialmente em razão das dificuldades existentes no processo de demonstração de intenção da empresa por conta dos danos ocorridos. Fl. 1179DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.148 65 Foi da lavra de civilistas consagrados, como Victor Mataja, na Alemanha, e Josserand e Saleilles, na França, o desenvolvimento dos fundamentos teóricos da responsabilidade objetiva. Mataja, especificamente, escreveu preciosa monografia datada de 1888 (Das Recht des Schadensersatzes vom Standpunkte der Nationalökonomie "O Direito da Responsabilidade Civil sob o ponto de vista da economia política"), na qual trata dos efeitos de incentivo na legislação de responsabilidade civil e antecipando as discussões tratadas no âmbito da escola do Law and Economics, que foram a base da consolidação da chamada "teoria do risco", no século XX. Salleiles escreveu, em 1897, trabalho em que abordava a desnecessidade de comprovação de culpa para reparação dos danos sofridos por empregados decorrentes de acidentes de trabalho (Les Accident de Travail et la Responsabilité Civile), incluindo a responsabilidade civil nos riscos da atividade, sob fundamento de que por tirar proveito dela, a empresa deveria arcar com o danos cuja causa material tenha sido essa atividade (LIMA, Alvino. Culpa e Risco. São Paulo: RT, 1960, p.122). Até esse momento, a teoria preponderante para fundamentar a responsabilidade objetiva é a do riscoproveito, que vincula o benefício econômico à responsabilidade civil. Todavia, a existência de diversas outras hipóteses de criação de riscos desvinculados à atividade empresarial demandou um desenvolvimento nessa fundamentação, evoluindose para a teoria do riscocriado. O exemplo do dano decorrente de acidente de trânsito ilustra bem essa transição visto que existem acidentes que não decorrem de dolo nem de culpa: o motorista só poderia ser responsabilizado, dentro da teoria do riscoproveito, se ele dirigisse profissionalmente, nunca a lazer, ao passo que com a teoria do riscocriado a responsabilidade decorreria do risco inerente a guiar um automóvel (Cf. MÁRIO, Caio. Responsabilidade Civil. Rio de Janeiro: Forense, 2001, p.285). A teoria do risco, eventualmente, sofreu críticas e foi substituída por uma ideia de garantia, relacionada a um direito à reparação dos danos sofridos. Isso é bem sintetizado por Facchini Neto nos seguintes termos: O fato é que a teoria da responsabilidade civil comporta tanto a culpa como o risco. Um como o outro devem ser encarados não propriamente como fundamentos da responsabilidade civil, mas sim como meros processos técnicos de que se pode lançar mão para assegurar às vítimas o direito à reparação dos danos injustamente sofridos. Onde a teoria subjetiva não puder explicar e basear o direito a indenização, devese socorrer da teoria objetiva. Isto porque, numa sociedade realmente justa, todo dano deve ser reparado. (FACCHINI NETO, Eugênio. “Da responsabilidade civil no novo Código”, in: SARLET, Ingo Wolfgang (org). O novo Código Civil e a Constituição. Porto Alegre: Liv. do Advogado, 2003. P.160161) Pois bem. Esse brevíssimo resumo dos fundamentos da responsabilidade objetiva deixa absolutamente claro que ela só tem cabimento quanto a reparação ou indenização, nunca para punição. E podese dizer ser acima de qualquer dúvida que as multas tributárias cobradas de ofício não tem natureza indenizatória em rigor, as sanções tributárias tem duas funções: i) antes da sua aplicação, de desestimular o descumprimento de regras impositivas, e ii) após sua aplicação, de golpear (colpire) o autor do ilícito pelo comportamento que assumiu (DUS, Angelo. Teoria Generale Dell'illecito Fiscale. Milano: Giuffrè, 1957, p.1920). Fl. 1180DF CARF MF 66 Isso deixa em evidência o contrassenso que é pugnar pela existência de uma responsabilidade objetiva no Direito Tributário Penal, independente de dolo ou culpa, em um sistema punitivo voltado a retribuição do descumprimento de regras tributárias pelo contribuinte. Novamente, é preciso se ater ao que efetivamente diz o artigo 136 do CTN: independe da intenção do agente. Intenção é dolo, e não culpa ao se excluir a necessidade de um, a exclusão do outro não é consequência, muito pelo contrário. A sistemática do próprio Código deixa claro que há relevância normativa para a boafé e a ausência de culpa do contribuinte, basta que se compulse, por exemplo, o artigo 172, II, verbis: Art. 172. A lei pode autorizar a autoridade administrativa a conceder, por despacho fundamentado, remissão total ou parcial do crédito tributário, atendendo: II ao erro ou ignorância excusáveis do sujeito passivo, quanto a matéria de fato; Como se vê, o Código reconhece a possibilidade de extinção do crédito tributário nos casos em que aquele crédito decorreu de conduta na qual restou comprovado erro ou ignorância excusável do sujeito passivo o que implica em um reenvio direto à teoria do erro de tipo no Direito Penal. A teoria do erro, no âmbito do direito sancionador, assume papel de materialização do chamado princípio da culpabilidade. Dentre as espécies de erro, existem duas modalidades: o erro vencível (ou inescusável) e o invencível (excusável). Este último será aquele que não puder ser evitado pela pessoa cuidadosa, mesmo que atue com todo o zelo, enquanto o primeiro será aquele que, com zelo, possa ser evitado (OLIVÉ, Juan Carlos Ferré et al. Direito penal brasileiro: parte geral, 2ªed. São Paulo: Saraiva, 2017, p.340). Diante do erro, o artigo 20 do Código Penal determina que "art. 20 O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei". Todavia, há que se relembrar, dos bancos da graduação jurídica, que o art. 18, II do mesmo código determina que a infração será culposa apenas "quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia". Ora, o erro excusável é aquele que, mesmo que o agente atue com toda a diligência devida, não é possível de ser evitado, o que implica dizer que tampouco há que se falar em culpa diante dessa espécie de erro. É a lição de Zaffaroni e Nilo Batista: "Quando o agente, empenhando a diligência cabível nas circunstâncias concretas, não tinha possibilidade de adquirir consciência sobre os elementos típicos objetivos, a ação será atípica quanto ao tipo doloso e quanto ao tipo culposo" (ZAFFARONI, Eugenio. BATISTA, Nilo. Direito Penal Brasileiro, Volume II, tomo I. Rio de Janeiro: Revan, 2010, p.190). Na seara punitiva, mesmo a tributária (ou melhor dizendo: especialmente na tributária, por força do artigo 136 do CTN), é preciso pelo menos a culpa para que haja a responsabilização do agente. Não estamos aqui pretendendo inovar de qualquer forma, mas apenas alinhavando a compreensão da legislação posta sob análise com a doutrina do Direito Sancionatório e, mais ainda, com a jurisprudência do STJ, a exemplo do REsp 777.732/MG, cuja ementa é absolutamente clara a este respeito: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. SUPOSTA OFENSA AO ART. 535 DO CPC. INEXISTÊNCIA DE OMISSÃO NO ACÓRDÃO RECORRIDO. TRIBUTÁRIO. ICMS. MULTA Fl. 1181DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.149 67 APLICADA POR CANCELAMENTO DE NOTAS FISCAIS. AFASTAMENTO PELO TRIBUNAL DE ORIGEM. DISCUSSÃO ACERCA DA INCIDÊNCIA DO ART. 136 DO CTN. 1. Não viola o art. 535 do CPC o acórdão que, mesmo sem se ter pronunciado sobre todos os temas trazidos pelas partes, manifestouse de forma precisa sobre aqueles relevantes e aptos à formação da convicção do órgão julgador, resolvendo de modo integral o litígio. 2. Tratandose de infração tributária, a sujeição à sanção correspondente impõe, em muitos casos, o questionamento acerca do elemento subjetivo, em virtude das normas contidas no art. 137 do CTN, e da própria ressalva prevista no art. 136. Assim, ao contrário do que sustenta a Fazenda Estadual, "não se tem consagrada de nenhum modo em nosso Direito positivo a responsabilidade objetiva enquanto sujeição à sanção penalidade" (MACHADO, Hugo de Brito. "Comentários ao Código Tributário Nacional", Volume II, São Paulo: Atlas, 2004, pág. 620). No mesmo sentido: REsp 494.080/RJ, 1ª Turma, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 16.11.2004; REsp 699.700/RS, 1ª Turma, Rel. Min. Francisco Falcão, DJ de 3.10.2005; REsp 278.324/SC, 2ª Turma, Rel. Min. João Otávio de Noronha, DJ de 13.3.2006. 3. Recurso especial desprovido. (REsp 777.732/MG, Rel. Ministra DENISE ARRUDA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 05/08/2008, DJe 20/08/2008) No mesmo sentido é o REsp 743.839/SP, relatado pelo Min. Luiz Fux, de eloquente ementa: TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. EMBARGOS DO DEVEDOR. CRÉDITOS DE ICMS REFERENTES À SUBCONTRATAÇÃO DE FRETES, INCLUSIVE OS COM CLÁUSULA CIF. MULTA. AUSÊNCIA DE PROVA DE MÁFÉ, FALSIFICAÇÃO OU DE ADULTERAÇÃO. ERRO DE DIREITO CONFIGURADO. INTERPRETAÇÃO MAIS FAVORÁVEL AO CONTRIBUINTE. JUROS MORATÓRIOS. ALEGAÇÃO DE SUCUMBÊNCIA RECÍPROCA. SÚMULA 7/STJ. (...) 6. A multa moratória distinguese dos juros moratórios e a sua oscilação expressiva, como, in casu, de 200% (duzentos por cento) para 120% (cento e vinte por cento) recomenda, ao ângulo da Justiça Tributária, a aplicação da lei mais benéfica, que fixou o patamar inferior, com fulcro não só no artigo 106, II, do CTN, com também por concluir o juízo singular e o Tribunal local que o proceder do contribuinte "não revelou máfé; não houve qualquer busca de ocultação de dados, tanto que os creditamentos foram feitos em seus livros contábeis, ensejando a glosa dos referidos creditamentos". Fl. 1182DF CARF MF 68 7. Deveras, o erro de direito, assim inferido das conclusões do aresto recorrido, impede a aplicação acrílica do artigo 136, do CTN, porquanto, na atividade de concreção, o magistrado há de pautar a sua conclusão iluminado pela regra de hermenêutica do artigo 112, do CTN, verbis: "Art. 112. A lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades, interpretase da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvida quanto: I à capitulação legal do fato; II à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos; III à autoria, imputabilidade, ou punibilidade; IV à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação." 8. In casu, as circunstâncias materiais do fato exibição da escrita e erro de direito, acrescido da carência probatória, conduziram o Tribunal a quo a preconizar a minimização da multa. 9. Outrossim, a responsabilidade objetiva e gravosa, preconizada pelo recorrente, não encontra respaldo na justa aplicação do direito tributário, nem na doutrina sobre o tema, que leciona: "=> Culpa. "... o que o art. 136, em combinação com o item III do art. 112, deixa claro.é que para a matéria da autoria, imputabilidade ou punibilidade, somente é exigida a intenção ou dolo para os casos das infrações fiscais mais graves e para as quais o texto da lei tenha exigido esse requisito. Para as demais, isto é, não dolosas, é necessário e suficiente um dos três graus de culpa. De tudo isso decorre o princípio fundamental e universal, segundo o qual se não houver dolo nem culpa. não existe infração da legislação tributária." (Ruy Barbosa Nogueira, Curso de Direito Tributário, 14' edição, Ed. Saraiva, 1995, p. 106/107)(...) "Se ficar evidenciado que o indivíduo não quis descumprir a lei, e o eventual descumprimento se deveu a razões que escaparam a seu controle, a infração ficará descaracterizada, não cabendo, pois, falarse em responsabilidade." (AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro, 2ª ed., Ed. Saraiva, 1998, p. 418) 11. Recurso especial conhecido e parcialmente provido para acolher o pedido de incidência dos juros moratórios. (REsp 743.839/RS, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 14/11/2006, DJ 30/11/2006, p. 154) E mais, o próprio CARF já reconheceu seja de forma vinculante por súmula como de forma não vinculante pela sua jurisprudência, a impossibilidade de se responsabilizar objetivamente o contribuinte, sem qualquer traço de culpa. Exemplo disso são as decisões da Câmara Superior de Recursos Fiscais nos acórdãos CSRF/01.0.217 e CSRF/0195.032, que afastaram a sanção por erro de preenchimento nos casos que o contribuinte foi induzido a erro pelo informe de rendimentos emitido pela fonte pagadora. A consolidação desse entendimento gerou a Súmula CARF nº 73 que diz: Súmula CARF nº 73: Erro no preenchimento da declaração de ajuste do imposto de renda, causado por informações erradas, prestadas pela fonte pagadora, não autoriza o lançamento de multa de ofício. Fl. 1183DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.150 69 Compulsando os precedentes que originaram esta súmula e sua motivação, verificase claramente a assunção dos fundamentos apresentados acima, como se vê no Acórdão CSRF/0400.409: Ora, fosse a responsabilidade objetiva, haveria que se penalizar o contribuinte independente da presença ou ausência de culpa o que não se verifica na súmula apontada. Em rigor, não vejo óbices à aplicação dessa súmula ao presente caso, em vista de seus fundamentos determinantes serem universalizáveis, e não restritos apenas à hipótese da declaração inexata, sendo portanto aptos a fundamentar a decisão com base no artigo 489, §1º, V do CPC, verbis: Art. 489. São elementos essenciais da sentença: § 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: V se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos; Portanto, é que se afastar, por incabível no Direito Tributário brasileiro, a ideia de responsabilidade objetiva despida de dolo ou culpa pelas infrações, por ausência de fundamento legal para tanto, e pela circunstância da responsabilidade objetiva ser adequada à hipótese de reparação, mas não de punição, conforme jurisprudência do STJ e do CARF, bem como a melhor doutrina sobre a matéria. Retomando o que dissemos acima, o artigo 108, §2º do CTN e o artigo 65 da Lei nº 9.784/99 determinam, dentro de uma perspectiva material e procedimental, respectivamente, a aplicação de equidade para o afastamento de sanções tributárias diante de peculiares circunstâncias do caso concreto. É preciso, todavia, que se comprove que o presente caso traz circunstâncias relevantes que justifiquem a inadequação da sanção. Em primeiro lugar, é preciso frisar que a adoção da classificação fiscal na posição 2106.90.10 para o "kit concentrado" não é recente, mas vem sendo adotada pela Recorrente há várias décadas, mais de 30 anos, sem que tivesse sido contestada de qualquer forma pela Receita Federal, ainda que a empresa tenha sofrido diversas fiscalizações, sem prejuízos das engarrafadoras que também estiveram sujeitas ao olho atento da RFB durante todo esse tempo. A reiterada concordância com a classificação adotada pela Recorrente tem efeitos normativos expressos, atribuídos pelo artigo 100 do CTN, assumindo caráter de normas complementares, nos seguintes termos: Fl. 1184DF CARF MF 70 Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: (...) III as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas; Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. Ou seja, por si só, esse aval reiterado e prolongado temporalmente por décadas tem o condão de, autonomamente, excluir a multa de ofício cobrada. Além disso, a concordância do órgão fiscalizador com a classificação adotada durante um período enorme e contínuo de tempo é condição apta a gerar uma presunção material de correção da classificação adotada, pois a Recorrente tomou como adequada, diante da ausência de qualquer resistência da fiscalização. Em segundo lugar, é fato notório para todos deste Colegiado que centenas processos administrativos decorrentes de glosa de créditos de IPI das saídas isentas dos "kits concentrados" da Zona Franca de Manaus já foram julgados por este e por todas as demais turmas de julgamento da Terceira Seção do CARF. Em minha experiência e em consulta aos julgados de outras turmas, posso afirmar que em nenhum deles sequer a título de obter dictum se questionou a correção da classificação fiscal daquelas mercadorias. Nunca foi posta qualquer dúvida sobre a sua adequação ao contrário, sempre foi tomada como correta e como ponto de partida para outras discussões jurídicas. E não se diga que a classificação era irrelevante para os casos mencionados, pois não era. O crédito glosado era calculado sobre a classificação fiscal efetuada na posição 2106.90.10, mas o motivo da glosa era a ausência de recolhimento na saída, e não o erro na classificação. Ou seja, tacitamente, sempre se acatou a classificação adotada. Diante da existência de uma jurisprudência administrativa consolidada e pacificada que, da mesma forma que a fiscalização, avaliza a classificação fiscal da recorrente também está sujeita a um regime jurídico específico, veiculado pelo artigo 926, §4º do CPC, verbis: Art. 927. Os juízes e os tribunais observarão:(...) §4o A modificação de enunciado de súmula, de jurisprudência pacificada ou de tese adotada em julgamento de casos repetitivos observará a necessidade de fundamentação adequada e específica, considerando os princípios da segurança jurídica, da proteção da confiança e da isonomia. É dizer, a ausência de qualquer contestação no âmbito contencioso administrativo em todas as vezes em que a referida classificação fiscal fez parte da autuação, ainda que indiretamente ou assumida como correta pela fiscalização, também contribui para o fortalecimento da presunção material de correção mencionada acima, em razão de uma consolidada e histórica jurisprudência não vinculante desse CARF, que constitui base de uma confiança legítima do contribuinte, tutelada pela legislação contra a modificação desse entendimento. Fl. 1185DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.151 71 Em terceiro lugar, é de especial relevância o fato da Recorrente ter efetuado consulta acerca de classificação de mercadorias para a Superintendência Regional da Receita Federal da 7ª Região, que foi respondida com base no TelexCircular SRRF nº 1325 de 10/05/1985 (fl. 1107), enviado por ordem do Secretário da Receita Federal, no qual se esclareceu que o "kit concentrado" (importado à época pela empresa) deveria ser classificado na posição 21.07.02.99 da antiga TAB (Tarifa Aduaneira do Brasil), que corresponde à atual posição 2106.90.10 na NCM. Vejamos: O TelexCircular SRRF recebia, no passado, a alcunha de "Telexlei", por se tratar de determinações do Secretário da Receita Federal que deveriam ser observadas por todos, com uma eficácia formalmente normativa, especialmente em razão da vinculação hierárquica do emissor sobre os auditores da RFB. Tal determinação gera, no destinatário, não apenas uma expectativa formal acerca da atuação da fiscalização em razão da obediência ao provimento de superior hierárquico, mas também uma expectativa material sobre o a correção do conteúdo do provimento, especialmente por se tratar de matéria de classificação fiscal. Quanto à expectativa formal, ela recebe guarida jurídica do artigo 100, I do CTN, ensejando o afastamento da multa por força do parágrafo único desse dispositivo: Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. Já a expectativa material em relação ao conteúdo do ato gera uma base de confiança acerca da correção da classificação que vinha sendo adotada, corroborando novamente a presunção material de correção, já apontada anteriormente. Em quarto lugar, a alteração no entendimento da RFB ocorreu apenas recentemente, passando a fiscalização a cobrar o PIS e Cofins devidos com base na sua interpretação atual, sobre períodos anteriores, em que não havia qualquer indício ou evidência de que essa orientação seria alterada. Fl. 1186DF CARF MF 72 A circunstâncias apontadas acima deixam claro que: i) O Recorrente adotava a classificação atacada pela fiscalização com base em: a) anuência contínua da fiscalização; b) ausência de contestação na jurisprudência do CARF; e c) ato expresso por ordem do Secretário da Receita Federal determinando a classificação correta; ii) o Recorrente não tinha qualquer grau culpa na infração de ausência de recolhimento, por não haver qualquer grau de diligência que pudesse antever a alteração na orientação. Diante disso, vislumbro diversas causas autônomas paralelamente para a exclusão das multas de ofício no presente caso: I) A ocorrência de erro excusável ou invencível implica em ausência de culpa, impedindo a aplicação da multa prevista no artigo 44, I da Lei nº 9.430/96 em razão de atipicidade, na esteira dos fundamentos determinantes da Súmula CARF nº 73. II) A reiterada anuência da fiscalização com a classificação constitui norma complementar, nos termos do art. 100, III do CTN, com o condão de excluir a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. III) A existência de uma determinação expressa e vinculante do chefe da Receita Federal configura ato normativo expedido por autoridade administrativa, que por força do art. 100, I co CTN implica a exclusão da imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. IV) A circunstâncias especialíssimas do caso concreto, que inclusive qualificam a ocorrência de erro excusável e a constatação de uma ampla e sólida base de confiança em razão da presunção material de correção que se construiu em torno da classificação fiscal, determinam a inadequação da sanção aplicada, pelo que ela deve ser afastada pela aplicação conjunta do artigo 108, §2º do CTN, cumulado com o artigo 65 da Lei nº 9.784/99. Observese que as causas "II" e "III" tem efeitos mais amplos que as causas "I" e "IV", mas são argumentos que não são passíveis de serem conhecidos de ofício por este juízo. Por outro lado, as causas "I" e "IV" são pacificamente aceitas como aplicáveis de ofício, o "I" por se tratar a atipicidade de questão de ordem pública, e a "IV" em razão de previsão expressa do art. 65 da Lei nº 9.784/99. Frisese que este Colegiado, mais de uma oportunidade, teve a sensibilidade de perceber as nuanças dos casos concretos e aplicar corretamente a disposição do art. 108, §2º do CTN e o art. 65 da Lei nº 9784/99, ao constatar a inadequação da sanção que se pretendia aplicar. Em composição praticamente idêntica, no julgamento do Acórdão CARF nº 3402002.882, afastou a cobrança de multa por descumprimento de regime aduaneiro de drawbacksuspensão, sob o argumento de que a quantidade de material que não foi industrializado e exportado seria "desprezível", constatando assim a inadequação da sanção aplicada. Raciocínio semelhante foi esgrimido no Acórdão CARF nº 3402003.023, onde afastouse a desconsideração dos efeitos da denúncia espontânea, em razão da ausência de depósito da multa de mora por dois dias de atraso, de um crédito de 12 mil reais, pago Fl. 1187DF CARF MF Processo nº 11080.732817/201428 Acórdão n.º 3402004.073 S3C4T2 Fl. 1.152 73 integralmente, sob fundamento de razoabilidade e inadequação da sanção frente a finalidade do instituto da denúncia espontânea. Portanto, ante o exposto, voto por reconhecer de ofício a atipicidade da conduta infracional imputada à Recorrente e, subsidiariamente, reconhecer a inadequação da sanção aplicada para afastála, nos termos dos arts. 108, §2º do CTN e art. 65 da Lei nº 9.784/99. É como voto. (Assinatura Digital) Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Fl. 1188DF CARF MF
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Numero do processo: 10909.720994/2011-75
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri May 05 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Período de apuração: 23/07/2008 a 22/08/2008
NULIDADE. NÃO OCORRÊNCIA.
A recorrente foi cientificada do auto de infração, o qual está corretamente motivado, e tendo apresentado sua impugnação, assim como documentos, e se manifestado sobre a imputação que lhe foi feita; bem como o recurso voluntário, portanto, não houve qualquer nulidade quanto à fundamentação, motivação ou violação aos princípios do contraditório e da ampla defesa.
VALORAÇÃO ADUANEIRA. DESCARACTERIZAÇÃO DO PRIMEIRO MÉTODO. FRAUDE. ARBITRAMENTO. TRIBUTOS. MULTAS.
Nos casos de fraude, sonegação e conluio, quando o preço real praticado não puder ser identificado, a fiscalização deverá arbitrar o preço da mercadoria importada, seguindo os critérios apontados nos incisos I e II do artigo 88 da Medida Provisória n° 2.158-35/01.
MULTA ADMINISTRATIVA. IMPORTAÇÃO. PREÇO. DECLARAÇÃO ERRÔNEA.
A multa do controle administrativo das importações, por conta do subfaturamento, correspondente a cem por cento da diferença entre o preço declarado e o efetivamente praticado ou arbitrado.
DIFERENÇA DE TRIBUTOS. DISCREPÂNCIA DE VALORES.
Provada a discrepância dos valores declarados, torna-se cabível a exigência das diferenças de Imposto de Importação, IPI-Vinculado à Importação, do PIS/PASEP-Importação e da COFINS-Importação, calculadas com base no preço arbitrado, além dos juros de mora (art. 61, § 3° da Lei n° 9.430/1996).
TRIBUTOS. INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO. FRAUDE. MULTA QUALIFICADA.
Em caso de infração praticada mediante fraude, aplicam-se as multas qualificadas por insuficiência de recolhimento, no percentual de 150% sobre as diferenças de tributos, sem prejuízo de outras penalidades cabíveis. Recurso a que se nega provimento.
Numero da decisão: 3201-002.605
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos em afastar a preliminar e no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. Ficou de apresentar declaração de voto a Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário.
(assinado digitalmente)
WINDERLEY MORAIS PEREIRA - Presidente Substituto.
(assinado digitalmente)
MÉRCIA HELENA TRAJANO DAMORIM- Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira, Mércia Helena Trajano DAmorim, José Luiz Feistauer de Oliveira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário e Cássio Schappo. Ausentes justificadamente a Conselheira Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo, bem como o Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza.
Nome do relator: MERCIA HELENA TRAJANO DAMORIM
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Período de apuração: 23/07/2008 a 22/08/2008 NULIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. A recorrente foi cientificada do auto de infração, o qual está corretamente motivado, e tendo apresentado sua impugnação, assim como documentos, e se manifestado sobre a imputação que lhe foi feita; bem como o recurso voluntário, portanto, não houve qualquer nulidade quanto à fundamentação, motivação ou violação aos princípios do contraditório e da ampla defesa. VALORAÇÃO ADUANEIRA. DESCARACTERIZAÇÃO DO PRIMEIRO MÉTODO. FRAUDE. ARBITRAMENTO. TRIBUTOS. MULTAS. Nos casos de fraude, sonegação e conluio, quando o preço real praticado não puder ser identificado, a fiscalização deverá arbitrar o preço da mercadoria importada, seguindo os critérios apontados nos incisos I e II do artigo 88 da Medida Provisória n° 2.15835/01. MULTA ADMINISTRATIVA. IMPORTAÇÃO. PREÇO. DECLARAÇÃO ERRÔNEA. A multa do controle administrativo das importações, por conta do subfaturamento, correspondente a cem por cento da diferença entre o preço declarado e o efetivamente praticado ou arbitrado. DIFERENÇA DE TRIBUTOS. DISCREPÂNCIA DE VALORES. Provada a discrepância dos valores declarados, tornase cabível a exigência das diferenças de Imposto de Importação, IPIVinculado à Importação, do PIS/PASEPImportação e da COFINSImportação, calculadas com base no preço arbitrado, além dos juros de mora (art. 61, § 3° da Lei n° 9.430/1996). TRIBUTOS. INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO. FRAUDE. MULTA QUALIFICADA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 90 9. 72 09 94 /2 01 1- 75 Fl. 367DF CARF MF 2 Em caso de infração praticada mediante fraude, aplicamse as multas qualificadas por insuficiência de recolhimento, no percentual de 150% sobre as diferenças de tributos, sem prejuízo de outras penalidades cabíveis. Recurso a que se nega provimento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos em afastar a preliminar e no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. Ficou de apresentar declaração de voto a Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário. (assinado digitalmente) WINDERLEY MORAIS PEREIRA Presidente Substituto. (assinado digitalmente) MÉRCIA HELENA TRAJANO DAMORIM Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira, Mércia Helena Trajano DAmorim, José Luiz Feistauer de Oliveira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário e Cássio Schappo. Ausentes justificadamente a Conselheira Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo, bem como o Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza. Relatório O interessado acima identificado recorre a este Conselho, de decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Fortaleza/CE. Por bem descrever os fatos ocorridos até o julgamento da impugnação, transcrevese o relatório da instância a quo, seguido da ementa da decisão recorrida e das razões do Recurso Voluntário ora examinado: Da autuação Tratase de lançamentos no valor total de R$ 1.034.980,21 (fls. 02), referentes aos autos de infração de fls. 0120, lavrados em 26/09/2011, através dos quais a fiscalização, segundo declarado no Relatório Fiscal, constatou subfaturamento nas importações amparadas pelas DI's n°s 08/11186266 e 08/13011331, tendo formalizado exigências relativas a multa ao controle administrativo das importações, prevista no art. 88, parágrafo único, da Medida Provisória n° 2.15835, de 24/08/2001; assim como diferenças de Imposto sobre as Importações II; Imposto sobre Produtos Industrializados IPI; Contribuição para Financiamento da Seguridade Social COFINS; Contribuição ao Programa de Integração Social PIS, vinculados à importação, todos esses tributos acrescidos da multa de ofício de 150% (art. 44, inciso I e §1°, da Lei n° 9.430/1996), assim como dos juros de mora (art. 61, § 3°, da Lei n° 9.430/1996); Fl. 368DF CARF MF Processo nº 10909.720994/201175 Acórdão n.º 3201002.605 S3C2T1 Fl. 368 3 Segundo o Relatório Fiscal (fls. 180213), parte integrante dos autos de infração acima referenciados, os lançamentos foram motivados pelo subfaturamento, mediante fraude, de importações de películas plásticas para janelas, popularmente conhecidas por "insulfilm" ou "window film", através das duas DI's acima citadas. Tais declarações foram submetidas ao Procedimento Especial de Controle Aduaneiro (PECA), previsto no art. 68 da MP 2.15835/2001, regulamentado pela IN SRF 206/2002. O início do procedimento ocorreu em 09/09/2008, tendo havido retenção das mercadorias, e, no decorrer do procedimento, a APEX ingressou com Ação Ordinária (n° 2008.72.08.0042836/SC) com pedido de antecipação de tutela objetivando a liberação das mercadorias amparadas pelas citadas DI's. Em 18/02/2009, em sede de Agravo de Instrumento (n° 2008.04.00.046222 5/SC), manejado contra o indeferimento da tutela antecipada, a 1a Turma do Tribunal Regional Federal da 4a Região, acolhendo os argumentos da autuada no sentido de que as mercadorias foram retidas pela autoridade fiscal por suposta fraude, exclusivamente quanto ao preço de importação, e com base no entendimento de que subfaturamento não acarreta a pena de perdimento, mas sim a aplicação da multa prevista no parágrafo único do art. 88 da MP 2.15835/2001, proferiu decisão (fls. 79 a 83) determinando o imediato término do despacho aduaneiro e a liberação das mercadorias, mediante compromisso de Fiel Depositário da APEX. Posteriormente à liberação das mercadorias e antes de proferida a sentença nos autos da citada ação ordinária, foi solicitada à Polícia Federal a elaboração de exame grafotécnico para averiguar suposta falsidade material dos documentos utilizados para instruir despachos de importação promovidos pela autuada, dentre os quais os das mencionadas. O que motivou o pedido de exame foi, segundo a fiscalização, a semelhança das assinaturas constantes das faturas comerciais instrutivas das DI's em comento, supostamente atribuídas a S. H. LIM (presidente da empresa vendedora/exportadora AHIL CO., LTD.), com a rubrica de uma das sócias da APEX, IN HYON YU, aposta no documento da 4a Alteração Contratual da APEX e na procuração outorgada por esta ao seu representante legal (fls. 99 a 117). Segundo a fiscalização, apesar da robustez do indício, o laudo da Polícia Federal não foi conclusivo, tendo os peritos informado que não se poderia afirmar categoricamente que as assinaturas lançadas nas faturas comerciais e a rubrica nos documentos da APEX partiram de um único punho escritor, não obstante tenham identificado nestas elementos de convergência que são evidenciados no laudo. Em 05/05/2011, foi proferida sentença na referida Ação Ordinária (fls. 84 a 90) extinguindo o processo, com resolução do mérito, na qual foram julgados parcialmente procedentes os pedidos veiculados pela autuada na ação, no sentido de determinar a liberação das mercadorias objeto das mencionadas DI s . Conforme entendimento esposado pelo Juízo na fundamentação, com as constatações da autoridade fiscal e laudo técnico elaborado administrativamente, revelouse, segundo a fiscalização, a discrepância Fl. 369DF CARF MF 4 entre o valor declarado e o preço real da mercadoria, sendo cabível, no caso, a multa prevista no parágrafo único do art. 88 da Medida Provisória n° 2.15835/2001 e o lançamento de ofício da eventual diferença de tributos, o que foi levado a efeito através do auto de infração de fls. 0420. No item 2 do Relatório Fiscal, a autuante, analisa as DFs n°s 08/11186266 e 08/13011331. Informa ela que as películas plásticas para janelas ou "window filma' classificamse na NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul) na posição 3919, que abrange todas as formas planas autoadesivas de plásticos, mesmo em rolos. Aduz que existe no mercado uma variedade de "window filmS" para as mais diversas finalidades e utilizações, sendo que a principal matériaprima para a produção de películas para janelas é o filme base de poliéster (filme de PET), que corresponde a cerca de 90% do produto acabado. De acordo com informações merceológicas obtidas junto à Coordenação Geral de Administração Aduaneira (Coana) da RFB, as películas para janelas são comercializadas em rolos, chamados "comercial", normalmente de dimensões 1,52 m X 30 m (tamanho padrão), que, de acordo com o tipo de window film, apresentam as características a que se refere o Quadro IV (fl. 190). O produto geralmente é importado em rolos maiores, chamados "master", de tamanhos variados, conforme Quadro V (fl. 190). Como nas DIs em debate não há, no campo "Descrição Detalhada da Mercadoria" (fls. 25 e 43), informação quanto ao tipo, mas somente sobre a finalidade das películas importadas (aplicação de proteção), a autuada foi intimada a detalhar a descrição, tendo sido informado que as películas importadas são do tipo tintado, o que, posteriormente, foi, segundo a fiscalização, confirmado por laudo técnico, sendo que na DI n° 08/1118626 6 há películas com diferentes espessuras (mais grossas, de 2 PLY, e mais finas, de 1 PLY), enquanto que na DI n° 08/13011331 somente há películas de 1 PLY, observandose que o termo PLY é utilizado para indicar o número de camadas de filme de poliéster que uma determinada película para janelas contém. De um dos principais fabricantes da Coréia do Sul que exportam para o Brasil, a empresa CNC Tech Ltd., a fiscalização obteve o custo de produção da película do tipo tintado ("glue film"), de 1 PLY, conforme planilha (quadro VI), à fl. 192, sendo este custo de US$ 7,908/Kg. Também foram obtidas cotações de window films com outros dois fabricantes da Coréia do Sul, as empresas Sang Bo Corporation e Nexfil Ltd.. Os documentos foram devidamente autenticados e consularizados, sendo que o quadro VII (fl. 192) resume as cotações de menor valor, indicando o custo unitário por quilograma para cada tipo de película (US$ 11,44 e US$ 9,25, respectivamente). Segundo a fiscalização, o filme de poliéster, utilizado como base na produção da película para janela, tem como principal matériaprima a resina de PET (tereftalato de polietileno). De acordo com o resultado da consulta efetuada ao Sistema de Análise das Informações de Comércio Exterior (ALICE), da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), no site http://aliceweb.desenvolvimento.gov.br/, o preço FOB médio das importações brasileiras da Coréia do Sul, por via marítima, de resina de PET em formas primárias (NCM 3907.60.00), no período de janeiro a Fl. 370DF CARF MF Processo nº 10909.720994/201175 Acórdão n.º 3201002.605 S3C2T1 Fl. 369 5 dezembro de 2008, foi de US$ 1,51/kg; às fls. 193195 são apresentadas cotações dessa resina, no ano de 2008. Frisa, a autuante, que os preços se referem à resina de PET no estado bruto. Sendo que, na fabricação das películas para janelas acabadas temse, ainda, o processo intermediário de produção do filme base de poliéster. Além do filme base de poliéster para window film, existem outras matériasprimas como o liner (proteção do adesivo); S/R (camada de antirrisco); adesivo (camada de cola); proteção UV; solvente; tinta e a embalagem. No item 2.3, a fiscalização discorre acerca da "discrepância entre o valor declarado e o preço real da mercadoria", relativamente às mencionadas DI s . Para a autuante, conforme o Quadro VIII (fl. 196), os preços declarados, de US$ 0,75/kg (CFR), em ambas DI's, e de US$ 0,50/kg (FOB) (DI 08/11186266) e US$ 0,49/kg (FOB) (DI 08/13011331), respectivamente, revelamse absurdamente inferiores (menos de 7%) ao custo de produção de uma película do tipo tintado de 1PLY (US$ 7,908/kg), que é a versão de fabricação mais econômica existente no mercado. Segundo a autuante, os preços declarados pela APEX são tão incrivelmente baixos que sequer cobrem o valor da resina de PET (o preço mais baixo entre as várias cotações obtidas é de US$ 0,88/kg), matériaprima constitutiva do filme de poliéster, que, por sua vez, serve de base para a produção do window film. Respondendo ao Termo de Início de Fiscalização, a autuada, para justificar os baixos preços, explicou que as películas foram importadas em rolos maiores por se tratar de produto que não foi selecionado no controle de qualidade no país de origem, podendo apresentar uma série de defeitos que ocasionam perdas antes e após a aplicação. Também alegou que as ofertas do exportador, no caso a empresa AHIL CO., LTD., são sempre de preços inferiores, pois o mesmo geralmente trabalha com vários produtos originários de saldos, pontas de estoque, fora de linha e de baixa qualidade. A fiscalização afirma que não encontrou informações sobre esse exportador na internet e que esta empresa consta como exportador e/ou fabricante somente em DI's em que a APEX é declarada a adquirente da mercadoria. Afirma, ainda que, se fossem verdade as explicações da empresa, os produtos importados não estariam, pela legislação de defesa do consumidor, aptos a serem colocados em circulação no mercado de consumo. Para fundamentar o periculum in mora no citado Agravo de Instrumento (fl. 81) a autuada, segundo a fiscalização, alegou que as mercadorias apreendidas em depósito poderiam se desvalorizar com a ação do tempo. Isso levaria à conclusão, segundo a autuante, de que a informação da APEX, de que os produtos eram de baixa qualidade, não era verdadeira. Além disso, segundo a fiscalização, o fato de serem transportados através de rolos maiores não significa que os produtos têm qualidade baixa, sendo normal esse transporte. No item 2.4, a fiscalização comenta a respeito de laudos técnicos elaborados relativos às DFs (fls. 144155; e 158171). Por esses meios de prova, segundo a autuante, os produtos não são de baixa qualidade; as películas importadas através da DI n° 08/13011331 contêm duas camadas de Fl. 371DF CARF MF 6 poliéster (2PLY), com custo de produção mais caro, de forma diversa do que respondido pela autuada (1PLY); a menor cotação da resina de PET, em estado bruto é de US$ 0,99/kg. Assim, segundo a fiscalização, tendo em vista que os preços declarados pela APEX na DI n° 08/11186266, de US$ 0,75/kg (CFR) e de US$ 0,50/kg (FOB), e na 08/13011331, de US$ 0,75/kg (CFR) e US$ 0,49/kg (FOB), são tão vis que sequer cobrem o valor da resina de PET no estado bruto, matériaprima constitutiva do filme de poliéster, que, por sua vez, serve de base para a produção do window film, restou caracterizado o SUBFATURAMENTO nas operações de importação em comento, ilícito que foi praticado pela autuada com o objetivo de subtrair substancial valor da tributação, tendo como resultado consequente o DANO AO ERÁRIO PÚBLICO. No item 3, a autuante se manifesta a respeito das "Infrações e Penalidades". No item 3.1., referese à fraude. No 3.2, afirma que, caracterizado o subfaturamento, procedimento doloso com intuito de fraude, afigurase aplicável a multa administrativa de 100% sobre a diferença entre o preço declarado e o preço arbitrado, sem prejuízo da exigência dos impostos, da multa de ofício do art. 44 da Lei n° 9.430/1996, e dos acréscimos legais cabíveis, conforme previsto no parágrafo único do art. 88 da Medida Provisória n° 2.15835/2001. Aduz, ainda, a fiscalização, que o arbitramento do preço da mercadoria para fins de determinação da base de cálculo dos valores lançados foi efetuado observandose o primeiro dos critérios definidos no caput do art. 88 da MP n° 2.15835/2001, que é o preço de exportação, para o País, de mercadoria idêntica ou similar. A fiscalização afirma que, para realizar o arbitramento, pesquisou, através do sistema DW aduaneiro, DFs relativas a mercadorias com NCM 3919.90.00, procedentes da Coréia do Sul, em 2008, sem vínculo entre as partes, tendo identificado pela descrição da mercadoria na DI, aliado, em alguns casos, às informações obtidas na Internet no site do exportador, 06 (seis) DI's que ampararam a importação de películas para controle solar do tipo tintado, similares, portanto, às importadas pela APEX através das DIs em causa, conforme Quadro IX (fl. 207). Como o preço unitário das importações de películas variava de US$ 8,00/Kg a US$ 9,62/Kg, a fiscalização optou pelo menor deles. À fl. 210 constam as tabelas contendo o cálculo dos valores aduaneiros declarados nas DIs n°s 08/11186266 e 08/13011331; os valores aduaneiros calculados com base no preço arbitrado e o demonstrativo de apuração da multa prevista no art. 88, § único da MP 2.15835/2001, perfazendo o valor de R$ 229.203,33 para a primeira DI acima, e R$ 221.487,46, para a segunda. No item 3.3, a fiscalização trata da "Falta de Recolhimento de Tributos". À fl. 211, apresenta, respectivamente, alíquotas de Imposto de Importação, IPI, PIS/PASEP e COFINS; diferenças a recolher relativamente a cada um desses tributos, referentes à DI n° 08/11186266; e diferenças a recolher relativamente à DI n° 08/13011331. Em continuidade, a autuante afirma que a autuada, mediante FRAUDE, deixou de recolher, por ocasião dos despachos aduaneiros, valores expressivos a título de impostos e contribuições. Por tal motivo, aplicou a multa qualificada prevista no art. 44, inc. I e §1°, da Lei n° 9.430/96, por ser cabível nos casos de evidente intuito de fraude, conforme definido no art. 72 Fl. 372DF CARF MF Processo nº 10909.720994/201175 Acórdão n.º 3201002.605 S3C2T1 Fl. 370 7 da Lei n° 4.502/64, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis, além dos juros de mora a serem calculados até a data do efetivo pagamento. Outrossim, nos termos da Portaria RFB n° 2.439, de 21/12/2010, formalizou, em autos apartados, a respectiva Representação Fiscal para Fins Penais. Da impugnação Cientificada dos lançamentos em 10/10/2011 (fl. 214), pelos Correios, com Aviso de Recebimento, a autuada insurgiuse contra as exigências, tendo apresentado, em 08/11/2011, a impugnação de fls. 216241, onde traz, inicialmente um retrospecto dos fatos, em que alega: a impugnante realizou a importação das mercadorias vinculadas às Declarações de Importação n° 08/11186266 e 08/13011331, através de contatos diretos mantidos com o exportador dos produtos, com fins de comercializálos no mercado interno, tendo por base os valores da transação internacional fixados nas Faturas Comerciais; após o registro da primeira DI (n° 08/11186266), por exigência fiscal, houve a coleta de amostras para confecção de Laudo Técnico que, nas suas conclusões, não apurou quaisquer disparidades entre a qualidade, classificação tarifária, peso ou volume das mercadorias declaradas, bem como não apontou qualquer discrepância quanto ao preço pago. Os documentos apresentados encontravamse devidamente autenticados perante o Consulado Brasileiro na Coréia, atestando a realidade e transparência da transação; na sequência, foi interrompido o despacho aduaneiro, retendose toda carga, incluindose também nos Procedimentos Especiais de Fiscalização a DI n° 08/13011331, momento em que a impugnante interpelou a Autoridade Aduaneira com objetivo de assinar e assumir um Termo de Responsabilidade Tributária, previsto na legislação vigente, que garantiria em favor da União Federal, a cobrança de eventuais diferenças no montante dos tributos recolhidos por conta de uma eventual desconsideração dos valores declarados na transação internacional; em resposta, a Autoridade Aduaneira se pronunciou contrária e negativamente quanto a essa possibilidade, insistindo na aplicação da Pena de Perdimento como penalidade pela infração supostamente identificada; por presunção, a fiscalização passou a atribuir às Faturas Comerciais que amparam as DI's em exame, a condição de falsidade quanto ao preço pago ou declarado para os produtos importados, por comparação de preços com alguns outros exportadores/importadores de produtos similares e originários do mesmo país; a fiscalização, em nenhum momento, atribuiu às faturas comerciais qualquer irregularidade tais como: documento forjado ou com conteúdo adulterado, ou de ter encontrado outras faturas comerciais emitidas pelo exportador, contendo outros valores, ou ainda, de ter o exportador negado a existência da transação internacional e dos preços constantes das faturas. O Fl. 373DF CARF MF 8 que se concluiu, nitidamente, é que foi identificada uma divergência entre o preço declarado nestas importações, quando comparados a outras operações de importação, relacionadas a outros exportadores e importadores; além disso, às fls. 204 dos autos, quanto à referência que o Auto de Infração faz ao Laudo Técnico, sustentando que o preço da matériaprima teria sido identificado em "cotações de preços da resina PET no estado bruto", através de "duas diferentes fontes", não possui tal Laudo qualquer informação da origem e fidelidade dessa cotação, como também do preço praticado no mercado coreano, o que impossibilita, admitilo como fonte de fixação do custo da matéria prima; as significativas diferenças de cotações do produto, são reconhecidas no mercado mundial que envolve as "películas de proteção solar", posto que há uma possibilidade considerável de variação entre os preços praticados em diversas regiões, tendo a fiscalização reconhecido, expressamente, essa circunstância, ao declarar, à fl. 189, que "o processo produtivo de cada tipo de película possui suas respectivas peculiaridades, fazendo com que os respectivos custos de produção sejam diferentes entre si"; após a confecção do segundo Laudo Técnico, não é possível imputar a prática do "subfaturamento" aos produtos importados, porque há no mercado mundial uma vasta variedade de produtos similares, com características muito peculiares quanto ao custo de produção, qualidade, durabilidade e modalidades de industrialização, que direta ou indiretamente influenciam no preço final do produto; ao lavrar o Auto de Infração, a fiscalização insiste em mencionar as mesmas circunstâncias que a levaram a proceder com a retenção da carga, cuja finalidade era a aplicação da Pena de Perdimento, isto é, continua insistindo na falsidade das Faturas como pressuposto para aplicação direta do arbitramento, conforme fl. 182 dos autos, sem levar em consideração o EXAME DE VALORAÇÃO; essas mesmas alegações da fiscalização, já foram objeto de análise e verificação pelo Poder Judiciário, quando do julgamento da Ação Ordinária (processo n°. 2008.72.08.0042836/SC); para desconsiderar o valor de transação com base no art. 88 da MP n°. 2.15835/2001, deve a Autoridade Aduaneira, obrigatoriamente, provar a ocorrência de uma daquelas situações (fraude, sonegação ou conluio), previstas no dispositivo apontado, ou seja, deve provar a ocorrência inequívoca da "fraude relacionada a falsidade", que por sua vez, não pode ser meramente PRESUMIDA; o Auto de Infração reconhece também que o exportador que emitiu as Faturas Comerciais não possui registros de outras operações que permitissem identificar divergências entre os valores negociados com a empresa impugnante, não havendo assim, parâmetros entre a negociação "sub judice" e aquelas outras apontadas pela Fiscalização, inviabilizando a imputação de "fraude quanto ao preço declarado", imprescindível para sustentar a prática do "arbitramento do novo valor aduaneiro"; Fl. 374DF CARF MF Processo nº 10909.720994/201175 Acórdão n.º 3201002.605 S3C2T1 Fl. 371 9 portanto, apontar a prática de fraude quanto ao preço em razão de uma comparação entre o preço praticado nestas importações, com aquele praticado por outro produtor Coreano, não parece ser a melhor técnica, nem estar sintonizado com os Princípios da Razoabilidade, Proporcionalidade e a Estrita Legalidade, já que, reconhecidamente, existem no mercado diferentes tipos de filmes de controle solar, cada qual, com suas características peculiares e distintas entre si; o art. 88 da MP n°. 2.15835/2001 é imperativo em fixar os critérios substitutivos e sequenciais para aplicação do "arbitramento", cuja desobediência, macula de completa nulidade o lançamento fiscal em questão, por violação a forma prescrita em Lei; a fiscalização registrou, à fl. 206, a impossibilidade de aplicar o primeiro dos métodos previstos no citado art. 88. Para comprovar a "fraude ou falsidade" das faturas são necessárias provas contundentes; a fraude, por comportar o elemento subjetivo do dolo específico, não pode ser presumida. Há que ser provada, seja com provas materiais diretas ou com provas indiciárias que possam demonstrar, de forma inequívoca, a sua ocorrência no caso em questão. "Perguntase então: no caso concreto, em que consistiu a fraude, sonegação ou conluio?" não é apontado pela fiscalização qualquer ato ou conduta com fins de alterar os dados ou informações dos documentos emitidos pelo Exportador; porque a confecção das Faturas Comerciais é ato privativo do próprio Exportador, demonstrandose que os preços ali constantes se encontram relacionados à negociação comercial; haveria fraude se estivesse sendo atribuído à impugnante atos tendenciosos à, sorrateiramente, alterar ou modificar informações ou dados lançados pelo Exportador nas Faturas Comerciais. Só que isto, verdadeiramente, não ocorreu; a previsão para o arbitramento, foi implantada em nosso Sistema Jurídico através da Medida Provisória n°. 2.15835/2001, e seguida pelo art. 84 do Decreto n°. 4.543/2002 (RA/2002), para casos específicos em que fique caracterizada fraude, sonegação ou conluio, o que não é sequer mencionado pela fiscalização; se as suspeitas de fraude da fiscalização estão relacionadas ao fato de os preços declarados estarem abaixo daqueles praticados no mercado, isso não é suficiente para aplicação direta do arbitramento, sem antes, discorrer sobre os motivos pelos quais estão sendo preteridos os MÉTODOS SUBSTITUTIVOS E SEQUENCIAIS DE VALORAÇÃO ADUANEIRA; além da prova da "fraude", é necessário antes de se aplicar o arbitramento do novo valor aduaneiro, obedecer aos critérios sequenciais fixados no art. 88 da MP n°. 1.25838/2001, sob pena de restar violada expressa disposição de Lei (forma prescrita em lei art. 104, inciso III, Código Civil), bem como, resultar na impossibilidade do regular exercício da ampla defesa e do pleno contraditório; Fl. 375DF CARF MF 10 a invocação do arbitramento, conforme preceitua o art. 148 do CTN, somente é cabível, como comenta Aliomar Baleeiro, quando o sujeito passivo for omisso, reticente ou mendaz em relação a valor ou preço de bens, direitos e serviços; cita doutrina de Leandro Paulsen sobre arbitramento; pela legislação, o valor de transação constitui a base primeira de valoração aduaneira e, somente na sua impossibilidade, devem ser aplicados os demais métodos substitutivos e sequenciais, conforme decisões administrativas (transcritas) da DRJFlorianópolis, o que não foi feito pela fiscalização, que aplicou diretamente o arbitramento; cita doutrina de Celso Antônio Bandeira de Mello sobre a atividade administrativa, assim como de Hely Lopes Meirelles, sobre o princípio da legalidade; a Administração Pública deve pautar seus atos pelos princípios da estrita legalidade, segurança jurídica, razoabilidade e proporcionalidade; conforme fl. 192, a fiscalização entende que os documentos autenticados e consularizados relativos a outros fabricantes da Coréia do Sul, referentes a cotações de window films retratam a verdade de uma transação comercial, mas os da impugnante, também autenticados e consularizados não merecem credibilidade; ainda que o Laudo Técnico mencionado faça referência ao site da internet onde obteve as cotações do preço do filme de poliéster, ele não aponta quaisquer detalhes sobre qual o País Produtor, a referência dos produtos, outras informações que possibilitassem averiguar se há uma equivalência entre o produto importado e aquele informado no "site". Ainda que os atos administrativos gozem de presunção, o ônus da prova, em se tratando de imputação de "falsidade ", é daquele que alega; as informações coletadas através de dois sites, apresentando uma sugestão de preços, não podem prevalecer sobre as constantes das faturas comerciais, já que correspondem à verdadeira transação comercial; antes de ter desconsiderado o preço declarado, deveria a fiscalização ter determinado a instauração do devido procedimento de valoração aduaneira (exame conclusivo de valor); cita o art. 85 do RA/2002; não basta a alfândega comparar o preço das importações com os valores identificados em outras operações envolvendo outras empresas importadoras com outros exportadores, tomando como parâmetro as informações de (02) dois sites, mas sim, comprovar de forma irrefutável que os valores da transação internacional foram alterados por conta exclusiva da empresa impugnante, ou que os mesmos, não correspondam à verdadeira transação internacional; como expressamente reconheceu a fiscalização às fls. 206 destes autos, não foi possível aplicar o arbitramento com base em mercadorias idênticas, resultando na necessidade de extração de dados e informações do SISTEMA DW ADUANEIRO, que é um sistema exclusivo e privativo da própria Receita Federal do Brasil; o descumprimento da exigência legal de motivação, trazendo detalhadamente os métodos de valoração que foram sendo aplicados e descartados, acompanhada dos motivos para o descarte, não ficou superado Fl. 376DF CARF MF Processo nº 10909.720994/201175 Acórdão n.º 3201002.605 S3C2T1 Fl. 372 11 pela afirmação da fiscalização, à fl. 210, de que adotou, no arbitramento, o menor preço entre as importações de produtos idênticos/similares encontradas, e não o preço médio; o relatório da fiscalização não traz nenhuma referência à aplicação dos métodos substitutivos sequenciais, o que é rechaçado por inúmeras decisões das DRJ (transcritas); entre os métodos substitutivos previstos na IN SRF n° 327/2003 não se encontra o arbitramento; importar por um valor mais baixo que o mercado não significa subfaturamento (a Opinião Consultiva 2.1 da IN 17/98 é nesse sentido), principalmente quando os parâmetros para desconsideração dos valores de transação são completamente diferentes (sites da internet que apontam custo da matériaprima, e preços praticados por outros exportadores, fabricantes e importadores); a ocorrência de subfaturamento não pode ser presumida, devendo haver exame conclusivo de valor; para obter o novo valor aduaneiro, a fiscalização deve descaracterizar o valor de transação declarado, mediante prova, e determinar o valor correto nos termos dos Decretos n°s 92.930/86 e 1.355/94; ato da Administração restritivo do patrimônio de particular, baseado em arbitramento aplicado em desacordo com os princípios da ampla defesa e do contraditório, é ilegal e nulo; cita jurisprudência administrativa mencionada por Paulo César Alves Rocha, relativa a valoração aduaneira; cita os princípios referidos no art. 2° da Lei n° 9.784/1999; deve ser aplicado, no caso concreto, em favor da impugnante, o disposto no art. 112 do CTN; a discricionariedade não cria um poder paralelo do administrador, como se ele pudesse estabelecer um sistema próprio de valores, paralelo àquele posto pelo legislador constituinte. Os atos discricionários, assim como os vinculados, norteiamse pelo mesmo vértice constitucional, devendo representar, em homenagem ao princípio da boafé e da moralidade administrativa, a antítese da arbitrariedade; não é possível a fiscalização se afastar dos princípios da legalidade e da razoabilidade, pilares básicos da Administração Pública, cujos atos devem ser conformes à Constituição Federal e às demais leis; em concordância com os argumentos já citados, a impugnante reafirma que não praticou declaração inexata do valor aduaneiro nem declarou preços inferiores àqueles efetivamente praticados na operação, pois instruiu o despacho de importação com as faturas comerciais regularmente emitidas e entregues pelo exportador, tendo fechado câmbio pelos exatos e precisos valores correspondentes àqueles constantes nas invoices; sendo julgado improcedente o lançamento, deverão ser julgadas improcedentes as multas, aplicandose o princípio de que o acessório segue o principal; Fl. 377DF CARF MF 12 Com base nas alegações acima relatadas, requer a autuada o seguinte, verbis: "I Dignese V. Exa., em receber a presente Impugnação que é tempestivamente ofertada, conhecendoa e conferindolhe integral provimento, para os fins de julgar improcedente o Auto de Infração que ampara este Processo Administrativo Fiscal n°. 10909.720994/201175, pois o "arbitramento" foi aplicado sem observar a respectiva motivação e fundamentação da exclusão dos critérios e métodos substitutivos, e sequenciais previstos no art. 88, da MP n°. 2.15835/2001, afastandose as exigências e seus lançamentos, por não traduzirem os fatos caracterizadores da infração administrativa/tributária imputada, considerandose insubsistente o seu registro e por consequência, determine o seu arquivamento; II Diante da aplicação direta do arbitramento por parte da Autoridade Fiscal, como forma de apuração do VALOR ADUANEIRO das mercadorias importadas, o auto de infração violou os Princípios da Legalidade, da Proporcionalidade e da Razoabilidade, na oportunidade em que não adotou os critérios referidos no art. 88, da MPn°. 2.15835/2001, e do art. 84 do Regulamento Aduaneiro vigente à época dos fatos, deixando de motivar ou justificar de forma pormenorizada as razões que o levaram a preterir os métodos substitutivos e sequenciais ali legalmente previstos, utilizandose como parâmetro outras importações, sem fazer referência a forma de pagamento antecipado; III Seja reconhecida a existência de vício formal que macula de completa nulidade este Auto de Infração, porque deixou de descrever os motivos, razões e fundamentos que levaram a afastar a aplicabilidade dos MÉTODOS SUBSTITUTIVOS previstos no Acordo de Valoração Aduaneira, sem que fosse realizada a instauração do EXAME CONCLUSIVO DE VALOR ADUANEIRO, sendo o mesmo condição 'sine qua non, para comprovação e descaracterização daqueles valores inicialmente atribuídos, por força da legislação pertinente Decreto 1.355/94 e Decreto 2.498/98, do Decreto n°. 92.930, de julho de 1986, que promulgou o Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio Código de Valoração Aduaneira, possibilitando à empresa Impugnante o exercício da ampla defesa e pleno contraditório; IV Protesta, outrossim, pela juntada posterior de documentos que julgar necessários para o melhor esclarecimento do presente processo. É o relatório. O pleito foi julgado improcedente, no julgamento de primeira instância, nos termos do Acórdão DRJ/FOR no 0826.458, de 21/08/2013, proferido pelos membros da 7ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Fortaleza/CE, cuja ementa dispõe, verbis: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 23/07/2008 a 22/08/2008 PRODUÇÃO DE PROVA. PROTESTO GENÉRICO. APRESENTAÇÃO "A POSTERIORI". INADMISSIBILIDADE. O protesto genérico pela produção de todos os meios de prova em direito admitidos não produz efeitos no processo Fl. 378DF CARF MF Processo nº 10909.720994/201175 Acórdão n.º 3201002.605 S3C2T1 Fl. 373 13 administrativo fiscal. A prova documental deve ser apresentada juntamente com a impugnação, salvo nos casos expressamente admitidos em lei. Em caso de obtenção de provas por meio de diligências ou perícias, estas devem ser expressamente solicitadas, especificando o seu objeto e atendendose os requisitos previstos em lei, sob pena de considerarse não formulado o pedido. Assunto: Imposto sobre a Importação II Período de apuração: 23/07/2008 a 22/08/2008 VALOR ADUANEIRO. FRAUDE. APURAÇÃO DO PREÇO DA MERCADORIA. ARBITRAMENTO. TRIBUTOS. MULTAS. Comprovada, por meio de indícios convergentes, a fraude na declaração do valor aduaneiro, e não sendo conhecido o preço efetivamente praticado na importação, devese proceder ao arbitramento do preço da mercadoria em conformidade com os métodos previstos no art. 88 da Medida Provisória n° 2.158 35/2001, para efeito de determinação da base de cálculo dos tributos aduaneiros, cujas diferenças, que deixaram de ser recolhidas, devem ser exigidas com o acréscimo de juros de mora e multas. TRIBUTOS. INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO. FRAUDE. MULTA QUALIFICADA. Em caso de infração praticada mediante fraude, aplicamse as multas qualificadas por insuficiência de recolhimento, no percentual de 150% sobre as diferenças de tributos, sem prejuízo de outras penalidades cabíveis. MULTA ADMINISTRATIVA. IMPORTAÇÃO. PREÇO. DECLARAÇÃO ERRÔNEA. Havendo declaração inverídica do valor aduaneiro na importação, aplicase a multa de cem por cento sobre a diferença entre o preço declarado da mercadoria e o preço efetivamente praticado na importação ou entre o preço declarado e o preço arbitrado. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 23/07/2008 a 22/08/2008 ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DE NORMA LEGAL. INCOMPETÊNCIA DA AUTORIDADE ADMINISTRATIVA. A instância administrativa não possui competência para afastar a aplicação da norma sob fundamento de inconstitucionalidade, uma vez que tal apreciação é exclusiva do Poder Judiciário, nos termos dos artigos 97 e 102 da Constituição Federal. Impugnação Improcedente Fl. 379DF CARF MF 14 Crédito Tributário Mantido O julgamento de primeira instância concluiu, nos seguintes termos: I PRELIMINARMENTE, REJEITAR o protesto genérico pela produção de provas e o pedido de apresentação de provas "a posteriori"; a arguição de nulidade do lançamento por falta de motivação e por violação ao contraditório e à ampla de defesa; DECLARAR não configurada a renúncia à instância administrativa II NO MÉRITO, JULGAR IMPROCEDENTE a impugnação, CONSIDERANDO DEVIDOS todos os valores lançados, a título de tributos, contribuições, multa do controle administrativo, multas de ofício e juros de mora. Registrese, inclusive, que a decisão de piso indica que não há concomitância com processo judicial, quando informa: ....... Entretanto, à vista da fl. 84, onde consta a primeira folha da sentença referente à ação ordinária ajuizada pela impugnante, depreendese que esta ação, apesar de se referir às mesmas DI's a que se refere o processo administrativo aqui em discussão, tinha como finalidade principal apenas a liberação das mercadorias, não adentrando no exame de mérito acerca da legalidade da exigência consubstanciada nos autos de infração, matéria que é tratada unicamente neste processo administrativo. Assim, ante a divergência de objetos do processo judicial e do processo administrativo, não se configurou a renúncia ao julgamento administrativo da lide, sendo, por esse motivo, cabível o pronunciamento desta instância administrativa sobre a exigência formulada no auto de infração, em face da impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Inconformado, o recorrente apresenta recurso voluntário, tempestivamente onde repisa basicamente os mesmos argumentos já delineados na impugnação. Ressalta, dentre outros, em síntese: não se conforma com o decidido pela DRJ e observa que na própria ementa do julgado aponta a identificação"fraude através de indícios" como meio empregado para alcançar o subfaturamento, violando os meios de defesa à recorrente; não há como sustentar a fraude, podendo até ser considerada a questão da "desconsideração do valor aduaneiro declarado"; mas jamais para sustentar a fraude; as faturas não foram consideradas adulteradas ou forjadas; não há como aplicar o arbitramento, tendo em vista que se deve observar os critérios de ordem sequencial na valoração aduaneira; Fl. 380DF CARF MF Processo nº 10909.720994/201175 Acórdão n.º 3201002.605 S3C2T1 Fl. 374 15 que desconsiderouse o valor da transação, sem a comprovação da sonegação, fraude ou conluio (somada a uma alegada "ausência de realização dos procedimentos específicos de valoração aduaneira"); cita jurisprudência do CARF; sendo aplicado o arbitramento, logo, maculando o procedimento fiscal, ensejando nulidade do lançamento, o que impossibilita o exercício da ampla defesa; e sendo julgado improcedente o lançamento, deverão ser julgadas improcedentes as multas, aplicandose o princípio de que o acessório segue o principal; O processo foi redistribuído a esta Conselheira, de forma regimental. É o relatório. Voto Conselheiro MÉRCIA HELENA TRAJANO DAMORIM O presente recurso é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade, razão por que dele tomo conhecimento. Tratase de lançamentos, referentes aos autos de infração de efls. 02/21; através dos quais a fiscalização, segundo declarado no Relatório Fiscal, constatou subfaturamento nas importações amparadas pelas DI's n°s 08/11186266 e 08/13011331, tendo formalizado exigências relativas: multa ao controle administrativo das importações, prevista no art. 88, parágrafo único, da Medida Provisória n° 2.15835, de 24/08/2001; assim como diferenças de Imposto sobre as Importações II; Imposto sobre Produtos Industrializados IPI; Contribuição para Financiamento da Seguridade Social COFINS; Contribuição ao Programa de Integração Social PIS, vinculados à importação, todos esses tributos acrescidos da multa de ofício de 150% (art. 44, inciso I e §1°, da Lei n° 9.430/1996), assim como dos juros de mora (art. 61, § 3°, da Lei n° 9.430/1996). Consta no Relatório Fiscal (fls. 180213), parte integrante dos autos de infração, os lançamentos foram motivados pelo subfaturamento, mediante fraude, de importações de películas plásticas para janelas, popularmente conhecidas por "insulfilm" ou "window film", através das DI's acima citadas acima. Tais declarações foram submetidas ao Procedimento Especial de Controle Aduaneiro (PECA), previsto no art. 68 da MP 2.158 35/2001, regulamentado pela IN SRF 206/2002. Afirma a autoridade fiscal que a recorrente importou filmes e películas automotivas e outros artigos, mas declarara preços inferiores aos efetivamente praticados. Quanto aos argumentos Da ausência de nulidade por falta de motivação, contraditório e ampla defesa Essas questões preliminares de nulidade, trazidas pela recorrente, serão apreciadas quando do exame do mérito, por estarem a ele intimamente associadas e se confundirem com o próprio mérito. Fl. 381DF CARF MF 16 MÉRITO Inicialmente, como se verifica, em tais razões de defesa, a recorrente basicamente limitase a sustentar: i) que haveria uma incompatibilidade entre as penalidades aplicadas no lançamento a decorrente do subfaturamento e dano ao erário e que não houve fraude; e ii) que desconsiderouse o valor da transação, sem a comprovação da sonegação, fraude ou conluio (somada a uma alegada "ausência de realização dos procedimentos específicos de valoração aduaneira"). Portanto, sequer a mesma, contestou uma das inúmeras provas carreadas aos autos pela fiscalização, que, cumpre ressaltar, baseouse em minucioso trabalho de investigação, com origem em operação realizada pela Polícia Federal, a partir da qual, com apoio em documentos apreendidos em cumprimento a Mandados de Busca e Apreensão (documentos apreendidos no estabelecimento da recorrente), constatouse que a recorrente subfaturou a importação de produtos estrangeiros. Transcrevo, apenas para situar os integrantes deste Colegiado sobre os motivos que levaram à autuação, os seguintes parágrafos do Relatório Fiscal: ..... Na conferência física verificouse tratarse a mercadoria importada de películas plásticas para janelas, popularmente conhecidas por “insulfilm” ou “window film”, com diversas referências, informação esta omissa nas DIs, apresentadas em rolos master (dimensões 1,52 m x 610 m) acondicionados individualmente em caixas de papelão. Em relação à quantidade, o importador declarou 206 rolos na DI nº 08/11186266 e 218 rolos na DI nº 08/13011331, totalizando 424 rolos. No entanto, em 04 das 424 caixas de papelão (02 caixas de cada DI), ao invés de um rolo de “window film”, foram encontrados produtos diversos não declarados nas DIs (vide Relatórios de Verificação Física – RVFs e anexos às fls. 35 a 39 e 54 a 70), o que caracteriza uma tentativa ardilosa de introdução clandestina de mercadoria no País baseada em falsa declaração de conteúdo6. Independentemente deste flagrante, o Chefe da Equipe de Despacho Aduaneiro 1 – EDA 1 da, hoje extinta, Delegacia da Receita Federal do Brasil de Itajaí/SC, usando da competência que lhe foi delegada pela Portaria DRF/ITJ nº 100/2008, determinou, por meio da COMUNICAÇÃO/INT/EFA/DRF/ITJ nº 009/2008 (fls. 72 a 73), que os 420 rolos de “window film” amparados pelas DIs 08/11186266 e 08/13011331 fossem submetidos ao Procedimento Especial de Controle Aduaneiro (PECA) previsto no art. 68 da Medida Provisória nº 2.158 35/20017 e regulamentado, à época, pelos arts. 65 a 69 da Instrução Normativa nº 206/20028, em decorrência da existência de indícios de fraude quanto ao valor declarado das mercadorias, mediante a falsificação das faturas comerciais instrutivas das DIs, infração esta punível com a pena de perdimento, conforme previsto no art. 105, inciso VI, do DecretoLei nº 37/669, atualmente regulamentado pelo art. 689, inciso VI e §3ºA, do Decreto nº 6.759/09 (Regulamento Aduaneiro), que revogou o Decreto nº 4.543/02, então vigente. Fl. 382DF CARF MF Processo nº 10909.720994/201175 Acórdão n.º 3201002.605 S3C2T1 Fl. 375 17 ...... Descreve a natureza das mercadorias importadas: Apesar das peculiaridades mencionadas, o processo produtivo é o mesmo para todos os tipos de películas em qualquer lugar do mundo. Assim, podese afirmar que o preço do produto é facilmente verificado pelos produtores mundiais que não enfrentam sazonalidade que provoque o seu aumento, nem tecnologias que permitam uma redução significativa no preço. Descreve a discrepância entre o valor declarado e o preço real da mercadoria: Os preços declarados pela APEX são tão incrivelmente baixos que sequer cobrem o valor da resina de PET (o preço mais baixo entre as várias cotações obtidas é de US$ 0,88/kg), matéria prima constitutiva do filme de poliéster, que, por sua vez, serve de base para a produção do window film. No intento de justificar os preços exíguos declarados, a autuada, em admitindo que os mesmos são inferiores aos usualmente praticados no mercado, prestou em 12/09/2008 a seguinte declaração à fiscalização aduaneira (parte final da resposta ao TERMO DE INÍCIO DE PROCEDIMENTO – INTIMAÇÃO FISCAL nº 102/2008 – fls. 76 a 77): Ou seja, de acordo com a explicação da APEX, as películas foram importadas em rolos maiores por se tratar de produto que não foi selecionado no controle de qualidade no país de origem, podendo apresentar uma série de defeitos que ocasionam perdas antes e após a aplicação. Alega, ainda, a APEX, que as ofertas do exportador, no caso a empresa AHIL CO., LTD., são sempre de preços inferiores, pois o mesmo geralmente trabalha com vários produtos originários de saldos, pontas de estoque, fora de linha e de baixa qualidade. ....... Laudo Técnico: Em 07/08/2008, ou seja, antes do início do PECA, o Auditor Fiscal Guilherme Tarran Veronezzi, matrícula 65.647, responsável pela conferência aduaneira da DI nº 08/11186266, solicitou laudo técnico da mercadoria amparada pela mesma, objetivando precipuamente verificar se a classificação fiscal adotada pelo importador (NCM 3919.90.00) estava correta. Às fls. 144 a 155 foram anexados o formulário contendo os quesitos elaborados pela autoridade fiscal e o respectivo laudo técnico, datado de 02/09/2008, emitido por técnico químico do Departamento de Química da Universidade Federal de Santa Catarina, instituição pública devidamente credenciada pela Receita Federal. Fl. 383DF CARF MF 18 Conforme esclarecido pelo laudo técnico, a mercadoria importada está corretamente enquadrada na Nomenclatura Comum do Mercosul. Em 22/09/2008, já no âmbito do PECA, esta fiscalização aduaneira solicitou laudo técnico da mercadoria objeto da DI nº 08/13011331. O objetivo, desta feita, era o de identificar qual ou quais os tipos de window films importados (tintado, profissional, arquitetura/reflectivo ou de segurança) e, principalmente, verificar a veracidade ou não das informações prestadas pela autuada para justificar o valor irrisório declarado. Neste sentido, foram formulados quesitos (fls. 156 a 157) para apurar questões de natureza merceológica, ou seja, relativas a aspectos técnicos e comerciais (identificação do produto; aplicação; especificações técnicas; insumos e matériasprimas utilizados; processo produtivo; preços internacionais) e também para averiguar a qualidade do produto. Às fls. 158 a 171 foi anexado o laudo técnico relativo à DI nº 08/13011331, datado de 13/11/2008, emitido pelo mesmo técnico químico do Departamento de Química da Universidade Federal de Santa Catarina responsável pela confecção do laudo da mercadoria da DI nº 08/11186266. ........ Resta, portanto, caracterizado o SUBFATURAMENTO nas operações de importação em comento, ilícito que foi praticado pela autuada com o objetivo de subtrair substancial valor da tributação, tendo como resultado conseqüente o DANO AO ERÁRIO PÚBLICO. ........ Da fraude: O conceito de FRAUDE está devidamente estabelecido na Lei nº 4.502/64: Art. 72 Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Entre as características essenciais do fato gerador, podemos citar seus elementos constitutivos: o temporal (momento da ocorrência); o espacial (local da ocorrência); o subjetivo (os sujeitos ativo e passivo da obrigação); e o quantitativo (a base de cálculo). Logo, a modificação dolosa da base de cálculo, de modo a reduzir o montante dos tributos devidos, constituise FRAUDE, por EXPRESSA DEFINIÇÃO LEGAL. Do arbitramento e multa: Fl. 384DF CARF MF Processo nº 10909.720994/201175 Acórdão n.º 3201002.605 S3C2T1 Fl. 376 19 ..... (explicações, como se chegou aos valores) E, por fim, a tabela 3 traz o demonstrativo de apuração da multa prevista no art. 88, § único, da MP nº 2.15835/2001: Tabela 3 DI /Valor Aduaneiro Arbitrado /Valor Aduaneiro Declarado /Diferença (Base de Cálculo)/ Multa (%) Valor da Multa: 08/11186266/ R$ 252.555,76 /R$ 23.352,43/ R$ 229.203,33 (100) R$ 229.203,33 08/13011331 R$ 244.029,19 R$ 22.541,73 R$ 221.487,46 (100) R$ 221.487,46 E por fim, multa qualificada, juros e os tributos devidos: Verificase, portanto, que a autuada, mediante FRAUDE, deixou de recolher, por ocasião dos despachos aduaneiros, valores expressivos a título de impostos e contribuições. Por tal motivo, aplicase a multa qualificada prevista no art. 44, inc. I e §1º, da Lei nº 9.430/96, abaixo transcrito, por ser cabível nos casos de evidente intuito de fraude, conforme definido no art. 72 da Lei nº 4.502/64, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis, além dos juros de mora a serem calculados até a data do efetivo pagamento. Como bem ressaltou a decisão de primeira instância sobre os fatos dos autos: O exame dos documentos relacionados às transações comerciais relativas às DI s objeto deste processo, aliado aos diversos elementos, laudos e pesquisas apresentados pela fiscalização, tudo em conjunto, leva à conclusão de que, embora não se possa atestar com certeza a falsidade da fatura, pela inconclusão do laudo grafotécnico, as informações apresentadas nas DI's não refletem as efetivas transações, configurando fraude. É dizer, de acordo com diversos indícios, as operações registradas nas DFs, inclusive em relação ao valor, não condizem com a realidade. Inicialmente, com base nos extratos das DFs (fls. 2225 e 4043) conforme fl. 196, temse, conforme resumido na tabela de fl. 196, que os preços unitários das películas importadas, em dólar, por quilograma, declarados nas DFs n°s 08/11186266 e 08/13011331, são US$ 0,75/Kg CFR e US$ 0,50/Kg FOB para a primeira, e US$ 0,75/Kg CFR e US$ 0,49/Kg FOB para a segunda. Entretanto, conforme fl. 141, o custo de produção do mesmo produto de outra empresa coreana fornecedora (CNC Tech Ltd) é de US$ 7,908/Kg, ou seja, bastante superior aos declarados pela impugnante. Além disso, há, conforme documentos autenticados e consularizados (fls. 136140), cotações de window films de outros dois fabricantes da Coréia do Sul, as empresas Sang Bo Corporation e Nexfil Ltd., sendo que, conforme quadro VII (fl. Fl. 385DF CARF MF 20 192), são indicados os custos unitários por quilograma para cada tipo de película citada no quadro, semelhantes às importadas pela impugnante, de US$ 11,44 e US$ 9,25, respectivamente; também bastante superiores aos US$ 0,75/Kg CFR e US$ 0,50/Kg FOB declarados na DI n° 08/11186266, e US$ 0,75/Kg CFR e US$ 0,49/Kg FOB relativos à DI n° 08/13011331. FRAUDE. ARBITRAMENTO. MULTA AO CONTROLE DAS IMPORTAÇÕES. DIFERENÇA DOS TRIBUTOS E JUROS. Verificase, além dos fatos apontados pelo relatório da fiscalização acima, outro indício de fraude, que se observa na resposta ao Termo de Início de Fiscalização, para tentar justificar os baixos preços das películas, registrados nas DI's, ter explicado que estas foram importadas em rolos maiores por se tratarem de produtos defeituosos, que poderiam ocasionar perdas e, além desse fato, as ofertas do exportador AHIL CO., LTD., eram sempre de preços inferiores, por este geralmente trabalhar com produtos originários de saldos, pontas de estoque, fora de linha e de baixa qualidade. No entanto, em sentido contrário, o laudo técnico afirma que os produtos eram de boa qualidade, o que, em conjunto com os demais indícios acima já referenciados, provam o dolo da recorrente, no sentido de apresentar informações inverídicas nas DI's. Ressaltese, inclusive, que na sentença relativa à Ação Ordinária ajuizada, transitada em julgado favorável à defendente, o juiz, em sua fundamentação, menciona expressamente a existência de discrepância entre o valor declarado e o preço real das mercadorias importadas, o que autorizaria a aplicação de multa e lançamento de ofício de diferença de tributos, fato que reforça a existência de irregularidade nas DI's objeto do presente processo, que são as mesmas sobre as quais recaiu a citada decisão judicial. Em assim sendo, a fraude encontrase demonstrada por meio do conjunto probatório acostado aos autos, composto dos diversos indícios citados, não se resumindo unicamente às DIs, mas constituído pelas diversas pesquisas, laudos técnicos e todos os demais documentos acima já mencionados, além da prestação de informações inverídicas sobre os produtos, por parte da recorrente; aposição de informações incompletas nas DI's, resultados de laudo técnico e cotações de preços; manifestação judicial, pesquisas no endereço do MDIC; planilha de custos do mesmo produto de empresa do país exportador. Pelo exposto, observase que o lançamento oferece elementos vários que indica a conclusão acerca da prestação intencional de informações inverídicas nas D Is , não retratando a realidade das operações de importação relacionadas neste processo. Esse conjunto probatório, é óbvio, deve ser cotejado com elementos contrários eventualmente trazidos pela recorrente, dessa contraposição, no presente caso, resulta que a prova produzida pela fiscalização se inclina favoravelmente ao direito reclamado pelo Fisco devendo, assim, prevalecer, uma vez que nenhuma outra prova a veio ilidir. Os documentos trazidos pela recorrente, em nada alteram as conclusões sobre o quadro probatório produzido pela fiscalização, tratandose tãosomente de procuração, cartão do CNPJ, contrato social e alterações, Termo de Início de Fiscalização, despacho da DRF/Itajaí/SC, parte de laudo técnico já anexado pela fiscalização, excertos de decisões administrativas e extrato de localização do processo. Afirmou a recorrente que as informações apresentadas sobre as transações eram verdadeiras; questionou as cotações de preços das películas de outros fornecedores na Fl. 386DF CARF MF Processo nº 10909.720994/201175 Acórdão n.º 3201002.605 S3C2T1 Fl. 377 21 Coréia do Sul, apresentadas pela fiscalização, afirmando que os processos produtivos podem levar a diversos preços finais, mas nada apresentou de concreto quanto a isso. Ainda que possam existir variações nos preços das películas, por conta dos processos produtivos, estas não podem ser tão gritantes, num mesmo país, como as identificadas pela fiscalização em relação aos produtos importados pela mesma nas DIs em litígio. Não aduzindo provas relativas à materialidade dos valores que pretende comprovar. No que tange à prova, é de se observar o esclarecimento de Paulo Celso B. Bonilha (Da Prova no Processo Administrativo Tributário, 2ª Edição, Dialética, São Paulo, 1997): “Embora de maior amplitude, o poder de prova das autoridades administrativas deve ser, por uma questão de princípio, distinto do direito de prova a ser exercido pela Fazenda na relação processual. Essa conclusão elementar decorre da própria estrutura da relação processual administrativa, visto que ela pressupõe modos de atuação distintos da Administração: não se confundem as atribuições de defesa da pretensão fiscal e a de julgamento, por isso mesmo desempenhadas por órgãos autônomos. Essas premissas, a nosso ver, justificam as seguintes assertivas: o poder instrutório das autoridades de julgamento (aqui englobamos a de preparo) deve se nortear pelo esclarecimento dos pontos controvertidos , mas sua atuação não pode implicar invasão dos campos de exercício de prova do contribuinte ou da Fazenda. Em outras palavras, o caráter oficial da atuação dessas autoridades e o equilíbrio e imparcialidade com que devem exercer suas atribuições, inclusive a probatória, não lhes permite substituir as partes ou suprir a prova que lhes incumbe carrear para o processo.” (Grifei) A conclusão que se obtém dos fatos é a de que a recorrente apenas traz alegações dos fatos, sem qualquer documentação necessária à comprovação dessa afirmação. Se a defesa entende que a verdade material não está contida nos documentos apresentados à fiscalização, deveria trazer ao processo elementos probantes do contrário, desde quando, é um direito seu apresentar as provas que julgar necessárias para reforçar seu ponto de vista. Registrese quanto ao sistema DW aduaneiro, tratase apenas de um extrator de dados, que obtém e processa informações relativas a Declarações de Importação registradas pelos diversos intervenientes do comércio exterior, inclusive importadores, no sistema Siscomex, o que não resultou nenhum prejuízo à recorrente. Tratandose de fraude, descabe a nulidade alegada pela recorrente quanto à motivação referente ao citado exame conclusivo de valor, também sendo incabível, quanto a esse tema, o argumento relativo à suposta violação aos princípios do contraditório e da ampla defesa. A recorrente foi cientificada do auto de infração, o qual está corretamente motivado, e tendo apresentado sua impugnação, assim como documentos, e se manifestado sobre a imputação que lhe foi feita; bem como o recurso voluntário, portanto, não houve Fl. 387DF CARF MF 22 qualquer nulidade quanto à fundamentação, motivação ou violação aos princípios do contraditório e da ampla defesa. Verificase que o auto de infração foi lavrado por autoridade competente. Constam nos autos todos os elementos que embasaram o lançamento, permitindo o pleno direito de defesa da recorrente. Além do minucioso Termo de Verificação Fiscal descreve perfeitamente a infração ocorrida e todos os documentos que suportaram o lançamento estão juntados aos autos. Verificase nos autos que a apuração fiscal foi efetuada sobre dados fornecidos pela recorrente, inclusive e, portanto, os dados fornecidos e juntados ao processo são de total conhecimento da autuada. Em sendo assim, não se aplica o art. 112 do CTN, já que inexistem quaisquer dúvidas quanto à capitulaçao legal do fato ou a às outras matérias listadas nos incisos do referido artigo. Pois bem, os tributos incidentes sobre as operações de comércio exterior desempenham ao lado da função arrecadatória ou fiscal, que é inerente à toda e qualquer exação um relevante papel regulatório ou extrafiscal. Por meio do aumento ou da redução desses tributos, é possível controlar a demanda interna de determinados produtos, incentivando a indústria nacional ou contendo eventual pressão inflacionária, entre outras finalidades de política econômica e internacional. Daí a importância da adequada valoração aduaneira da mercadoria e da previsão, na legislação tributária, de mecanismos que garantam a fiscalização e a repressão da manipulação artificial dos preços, sobretudo os praticados entre partes relacionadas. Então, tendo havido fraude, incide o caput do art 88, da MP 2.15835/2001, cabendo o arbitramento. Os preços declarados pela recorrente, como visto, não merecem fé, não podendo ser aceitos como valor de transação. Entretanto, não tendo a fiscalização localizado o preço real das transações, foise para o método do inciso I, ou seja, o preço de exportação para o País, de mercadoria idêntica ou similar, como se observa, quando não sendo possível quantificar o preço efetivamente praticado na importação, aplicase, um valor de arbitramento em consonância com os seguintes critérios: (1) preço de exportação para o País, de mercadoria idêntica ou similar; (2) preço no mercado internacional, apurado mediante: (2.1) cotação de bolsa de mercadoria ou em publicação especializada; (2.2) método previsto no Artigo 7 do GATT (método do último recurso), observados os dados disponíveis e o princípio da razoabilidade; ou (2.3) mediante laudo expedido por entidade ou técnico especializado. Destarte, nos casos de fraude de valor, não há subvaloração, mas subfaturamento, que se diferencia da primeira justamente em razão da ilicitude da conduta do importador. É o que ensina Rodrigo Mineiro Fernandes, Conselheiro da Terceira Seção de Julgamento do CARF, em estudo doutrinário sobre o tema: É importante, mais uma vez, separar as operações lícitas das operações ilícitas para conceituarmos o subfaturamento, diferenciandoo de outra prática aparentemente similar: a Fl. 388DF CARF MF Processo nº 10909.720994/201175 Acórdão n.º 3201002.605 S3C2T1 Fl. 378 23 subvaloração. Esta, uma irregularidade dentro do campo da licitude. Aquela, através da prática de um ato ilícito. O subfaturamento é realizado mediante o registro da Declaração de Importação com declaração de preço inferior ao efetivamente praticado, com base numa fatura comercial falsa (ideológica ou material)1. Portanto, o subfaturamento ocorre quando o importador registra a declaração de importação (DI) tendo por base um fatura comercial que não reflete o preço realmente pago pelo produto importado. Essa discrepância pode resultar da falsificação da fatura, mediante apresentação de versão não verdadeira substitutiva da fatura genuína ou por alteração do documento verdadeiro (falsidade material). Também pode ocorrer quando, mediante conluio entre importador e exportação, emitese uma fatura verdadeira, porém, com valores menores que os efetivamente praticados (falsidade ideológica)2. Relativamente à valoração aduaneira, concluiu a fiscalização que as faturas comerciais apresentadas não mereciam fé quanto aos valores declarados, tendo em vista os fatos apurados. Assim entendeu a fiscalização pela necessidade de arbitramento dos valores aduaneiros das mercadorias importadas, como já comentado. Pois bem, o arbitramento previsto no artigo 88 da Medida Provisória n° 2.15835/01 caracterizase como uma exceção à apuração da base de cálculo do Imposto de Importação (e consequentemente dos demais tributos incidentes na importação): nos casos regulares, a base de cálculo do Imposto de Importação, de acordo com o artigo 2º do Decreto Lei nº 37/66, com a redação dada pelo artigo 1º do DecretoLei no 2.472/88, é o Valor Aduaneiro definido no Artigo VII do Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio (GATT); já nos casos de fraude, sonegação ou conluio, em que não seja possível a apuração do preço efetivamente praticado na importação, a base de cálculo será determinada mediante arbitramento do preço da mercadoria. Desta forma, os novos valores de transação atribuídos para as mercadorias valoradas foi processado conforme a legislação de regência, na medida que aplicouse ao caso o disposto no art. 88 da Medida Provisória n°.2.15835, de 24 de agosto de 2001, em consonância com a Interpretação Consultiva 10.1 do Comitê Técnico de Valoração Aduaneira acerca da aplicação do art. 17 do Acordo de Valoração Aduaneira (AVAGATT), haja vista a apuração de fraude de valor na importação. Art. 88. No caso de fraude, sonegação ou conluio, em que não seja possível a apuração do preço efetivamente praticado na importação, a base de cálculo dos tributos e demais direitos incidentes será determinada mediante arbitramento do preço da mercadoria, em conformidade com um dos seguintes critérios, observada a ordem seqüencial: I preço de exportação para o País, de mercadoria idêntica ou similar; 1 FERNANDES, Rodrigo Mineiro. Valoração aduaneira e subfaturamento. In: DOMINGO et.al., Tributação..., op. cit., p. 250251. 2 COSTA JUNIOR, Paulo José. "Comentários ao Código Penal". 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 926927. Fl. 389DF CARF MF 24 II preço no mercado internacional, apurado: a) em cotação de bolsa de mercadoria ou em publicação especializada; b) de acordo com o método previsto no Artigo 7 do Acordo para Implementação do Artigo VII do GATT/1994, aprovado pelo Decreto Legislativo nº 30, de 15 de dezembro de 1994, e promulgado pelo Decreto nº 1.355, de 30 de dezembro de 1994, observados os dados disponíveis e o princípio da razoabilidade; ou c) mediante laudo expedido por entidade ou técnico especializado. Parágrafo único. Aplicase a multa administrativa de cem por cento sobre a diferença entre o preço declarado e o preço efetivamente praticado na importação ou entre o preço declarado e o preço arbitrado, sem prejuízo da exigência dos impostos, da multa de ofício prevista no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, e dos acréscimos legais cabíveis. Por sua vez, a Opinião Consultiva 10.1 do Comitê Técnico de Valoração Aduaneira, interpretando o disposto no Artigo 17 e demais princípios do AVA/GATT, afirma que as Administrações Aduaneiras não são obrigadas pelo Acordo a levar em conta os documentos fraudulentos. Para o Comitê, o Acordo de Valoração Aduaneira baseiase nos elementos de fato reais, não fraudulentos, e “qualquer documentação que proporcione informações inexatas sobre esses elementos estaria em contradição com as intenções do Acordo.” Nas operações fraudulentas, quando um ou mais elementos da operação real de importação estiverem em desacordo com os elementos reproduzidos na Declaração de Importação e nos documentos instrutivos da importação, como por exemplo o real exportador, o importador, o adquirente de fato, a quantidade de mercadoria importada, além obviamente do valor aduaneiro, aplicação do Acordo de Valoração Aduaneira ficará prejudicada. Então, em relação à multa do controle administrativo das importações,, por conta do subfaturamento, correspondente a cem por cento da diferença entre o preço declarado e o efetivamente praticado ou arbitrado: Art. 88. No caso de fraude, sonegação ou conluio, em que não seja possível a apuração do preço efetivamente praticado na importação, a base de cálculo dos tributos e demais direitos incidentes será determinada mediante arbitramento do preço da mercadoria, em conformidade com um dos seguintes critérios, observada a ordem seqüencial: [...] Parágrafo único. Aplicase a multa administrativa de cem por cento sobre a diferença entre o preço declarado e o preço efetivamente praticado na importação ou entre o preço declarado e o preço arbitrado, sem prejuízo da exigência dos impostos, da multa de ofício prevista no art. 44 da Lei no 9.430, de 1996, e dos acréscimos legais cabíveis. Além do mais, tornase cabível a exigência das diferenças de Imposto de Importação, IPIVinculado à Importação, do PIS/PASEPImportação e da COFINS Importação, calculadas com base no preço arbitrado, além dos juros de mora (art. 61, § 3° da Lei n° 9.430/1996). Fl. 390DF CARF MF Processo nº 10909.720994/201175 Acórdão n.º 3201002.605 S3C2T1 Fl. 379 25 Registrese, por fim, que o detalhamento do critério adotado para a valoração das mercadorias em cada importação e a notificação à autuada de tal arbitramento, inclusive antes da autuação, entendo não estar caracterizado o cerceamento do direito de defesa. Também, relativamente à aplicação sequencial dos métodos de valoração aduaneira, alegada pela recorrente, o arbitramento de preço em conformidade com o art. 88 da Medida Provisória n° 2.158 exclui a aplicação do Acordo de Valoração Aduaneira, o qual somente é aplicável a operações comerciais nas quais não configuradas fraude, sonegação ou conluio que comprometam a confiabilidade dos documentos comprobatórios das negociações. Pelo exposto, entendo correto o arbitramento dos valores das mercadorias e a correspondente exigência das diferenças de tributos, bem como da multa administrativa pela diferença entre o preço declarado e o arbitrado. MULTA QUALIFICADA Quanto à multa qualificada, o dispositivo aplicado, conforme indicado no auto de infração, foi o inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, que, expressa e objetivamente, prevê: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (...) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Logo, a multa de ofício calculada sobre o valor do imposto cuja falta de recolhimento se apurou, está em consonância com a legislação de regência, sendo o percentual 150 % o legalmente previsto para a situação descrita no Termo de Verificação Fiscal. Portanto, quanto aos lançamentos relativos às diferenças de Imposto de Importação, IPIVinculado à Importação, do PIS/PASEPImportação e da COFINS Importação, pelo exposto, configurada a discrepância dos valores declarados, logo, cabível a exigência das diferenças de Imposto de Importação, IPIVinculado à Importação, do PIS/PASEPImportação e da COFINSImportação, calculadas com base no preço arbitrado , conforme acima mencionado, além dos juros de mora (art. 61, § 3º da Lei nº 9.430/1996). Houve julgamento desta mesma empresa, no tocante a conversão da multa pecuniária, tendo em vista a pena de perdimento (existência de ocultação do real adquirente e do subfaturamento de preços na importação (falsidade da fatura — declaração inexata), conforme acórdão de n° 3202001.422, de 10/12/2014, conforme ementa reproduzida abaixo: Assunto: Imposto sobre a Importação II Período de apuração: 13/11/2007 a 19/10/2011 Fl. 391DF CARF MF 26 PENA DE PERDIMENTO CONVERTIDA EM MULTA PECUNIÁRIA. EXIGÊNCIA CONCOMITANTE COM TRIBUTOS. FATOS GERADORES POSTERIORES AO INÍCIO DA VIGÊNCIA DA MEDIDA PROVISÓRIA 135/2003. Em relação aos fatos geradores ocorridos posteriormente ao início da vigência da Medida Provisória MP n.º 135/2003, que introduziu o § 4º ao art. 1º do Decretolei n.º 37/1966, passou a ser possível a exigência concomitante da multa de conversão da pena de perdimento com os tributos devidos por irregularidades na importação. Recurso voluntário negado. CONCLUSÃO Por todo o exposto, voto no sentido de rejeitar a arguição de nulidade do lançamento por falta de motivação e por violação ao contraditório e à ampla defesa e no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) MÉRCIA HELENA TRAJANO DAMORIM Relator Declaração de Voto Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário Registro que atenteime ao cuidadoso exame dos autos em razão da matéria nele em debate, na qual se discute a existência de prática fraudulenta em operações de importação, com a consequente aplicação do regime de valoração aduaneira. Diante do exame procedido, destaco que o voto da D. Relatora cuidou de observar com detalhes os elementos constantes da autuação e também da defesa apresentada, analisando com correção toda a matéria de fato e de direito envolvida, empreendendo o efetivo papel do julgador em exame não apenas do direito, mas, precipuamente, da sua aplicação em face dos fatos concretos. Desse modo, ratifico integralmente o entendimento exposto no voto vencedor. (assinado digitalmente) Tatiana Josefovicz Belisário Fl. 392DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11618.003438/2007-92
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Dec 12 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/02/2006 a 31/05/2007
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Recurso Especial do Procurador Provido.
Numero da decisão: 9202-004.902
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: Relator
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Recurso Especial do Procurador Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 61 8. 00 34 38 /2 00 7- 92 Fl. 183DF CARF MF Processo nº 11618.003438/200792 Acórdão n.º 9202004.902 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 10380.005876/200753. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202004.792, de 12/12/2016, proferido no julgamento do processo 10380.005876/200753, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202004.792): O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Fl. 184DF CARF MF Processo nº 11618.003438/200792 Acórdão n.º 9202004.902 CSRFT2 Fl. 0 3 Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 185DF CARF MF Processo nº 11618.003438/200792 Acórdão n.º 9202004.902 CSRFT2 Fl. 0 4 Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Fl. 186DF CARF MF Processo nº 11618.003438/200792 Acórdão n.º 9202004.902 CSRFT2 Fl. 0 5 Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. Fl. 187DF CARF MF Processo nº 11618.003438/200792 Acórdão n.º 9202004.902 CSRFT2 Fl. 0 6 § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há Fl. 188DF CARF MF Processo nº 11618.003438/200792 Acórdão n.º 9202004.902 CSRFT2 Fl. 0 7 que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Fl. 189DF CARF MF Processo nº 11618.003438/200792 Acórdão n.º 9202004.902 CSRFT2 Fl. 0 8 Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 190DF CARF MF Processo nº 11618.003438/200792 Acórdão n.º 9202004.902 CSRFT2 Fl. 0 9 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Fl. 191DF CARF MF Processo nº 11618.003438/200792 Acórdão n.º 9202004.902 CSRFT2 Fl. 0 10 Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Em face do acima exposto, voto por conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 192DF CARF MF
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Numero do processo: 13839.908140/2009-63
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 20 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Mar 22 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Data do fato gerador: 12/11/2003
RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. CRÉDITO LÍQUIDO E CERTO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS
Nos processos derivados de pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, a comprovação dos créditos ensejadores incumbe ao postulante, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, capaz de demonstrar a liquidez e certeza do pagamento indevido.
Assunto: Classificação de Mercadorias
Data do fato gerador: 12/11/2003
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. VIDROS DE SEGURANÇA APLICADOS EM VEÍCULOS AUTOMÓVEIS.
O produto denominado vidros de segurança não emoldurados utilizados como pára-brisas e nas janelas dos veículos automóveis, classifica-se na posição 7007 da TIPI.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 12/11/2003
NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA
Não padece de nulidade o despacho decisório, proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pode exercer o contraditório e a ampla defesa, onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3301-003.191
Decisão:
ACORDAM os membros da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto do Couto Chagas - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Augusto do Couto Chagas (Presidente), José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DO COUTO CHAGAS
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Data do fato gerador: 12/11/2003 RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. CRÉDITO LÍQUIDO E CERTO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS Nos processos derivados de pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, a comprovação dos créditos ensejadores incumbe ao postulante, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, capaz de demonstrar a liquidez e certeza do pagamento indevido. Assunto: Classificação de Mercadorias Data do fato gerador: 12/11/2003 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. VIDROS DE SEGURANÇA APLICADOS EM VEÍCULOS AUTOMÓVEIS. O produto denominado vidros de segurança não emoldurados utilizados como pára-brisas e nas janelas dos veículos automóveis, classifica-se na posição 7007 da TIPI. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 12/11/2003 NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA Não padece de nulidade o despacho decisório, proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pode exercer o contraditório e a ampla defesa, onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal. Recurso Voluntário Negado.
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COMPENSAÇÃO. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. Recorrente VITROTEC VIDROS DE SEGURANÇA LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: 12/11/2003 RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. CRÉDITO LÍQUIDO E CERTO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS Nos processos derivados de pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, a comprovação dos créditos ensejadores incumbe ao postulante, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, capaz de demonstrar a liquidez e certeza do pagamento indevido. ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Data do fato gerador: 12/11/2003 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. VIDROS DE SEGURANÇA APLICADOS EM VEÍCULOS AUTOMÓVEIS. O produto denominado vidros de segurança não emoldurados utilizados como párabrisas e nas janelas dos veículos automóveis, classificase na posição 7007 da TIPI. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 12/11/2003 NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA Não padece de nulidade o despacho decisório, proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pode exercer o contraditório e a ampla defesa, onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal. Recurso Voluntário Negado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 9. 90 81 40 /2 00 9- 63 Fl. 57DF CARF MF Processo nº 13839.908140/200963 Acórdão n.º 3301003.191 S3C3T1 Fl. 3 2 ACORDAM os membros da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Augusto do Couto Chagas (Presidente), José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. Relatório Trata o presente de Recurso Voluntário contra o Acórdão 1429.654, exarado pela 2ª Turma da DRJ/RPO em face de Despacho Decisório que denegou restituição pleiteada e, conseqüentemente, não homologou as compensações declaradas. A recorrente formalizou PER/DComp objetivando a compensação de pretensa diferença recolhida a maior relativa ao IPI. A fiscalização, a partir das características do DARF discriminado no PER/DComp, constatou que o crédito alegado como indevidamente pago foi integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para a compensação pretendida. O interessado apresentou manifestação de inconformidade tempestiva, onde alegou, em sede preliminar, que a fundamentação legal genérica do Despacho Decisório implicou cerceamento do seu direito de defesa. No mérito, sustentou que o direito à restituição decorre de recolhimento a maior de IPI face a erro de classificação de seus produtos (vidros não emoldurados destinados exclusivamente para serem utilizados no párabrisas e nas janelas dos veículos automotores das posições 8701 a 8705). Os mesmos foram classificados na posição 7007 (Vidros de Segurança), com alíquota de 15% de IPI, quando o correto, segundo motivos, julgados e princípio da seletividade, deveria ser na posição 8708 da TIPI (partes e acessórios dos veículos automóveis das posições 8701 a 8705), com alíquota de 5%. Ao analisar a Manifestação de Inconformidade, a DRJ/RPO julgoua IMPROCEDENTE, nos termos do Acórdão 1429.654, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: 12/11/2003 NULIDADE. DESPACHO DECISÓRIO. Somente são nulos os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com comprovada preterição do direito de defesa. Fl. 58DF CARF MF Processo nº 13839.908140/200963 Acórdão n.º 3301003.191 S3C3T1 Fl. 4 3 RESTITUIÇÃO. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. VIDROS DE SEGURANÇA APLICADOS EM VEÍCULOS AUTOMÓVEIS. Inexiste erro de classificação fiscal se contribuinte lançou nos documentos fiscais e recolheu com a respectiva alíquota os vidros, utilizados como pára brisas e nas janelas dos veículos automóveis, classificados na posição 7007 da TIPI. Conseqüentemente, inexiste recolhimento indevido ou maior que o devido que se enquadre como crédito líquido e certo contra a Fazenda Nacional. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Inconformado o contribuinte apresentou Recurso Voluntário replicando as alegações da Manifestação de Inconformidade. É o relatório, em sua essência. Voto Conselheiro Luiz Augusto do Couto Chagas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3301003.171, de 20 de fevereiro de 2017, proferido no julgamento do processo 13839.904308/200961, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3301003.171): "O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos para sua admissibilidade. Dele tomo conhecimento. As indicações de folhas no presente voto, não havendo informação contrária, referemse à numeração constante no eprocesso. 1 Da Preliminar de Nulidade A recorrente alega que houve preterição do direito de defesa, ensejando a nulidade do despacho Decisório, por indicação inespecífica de dispositivo legal, nos seguintes termos: No despacho decisório que não homologou a compensação em tela constam como enquadramento legal: "Artigo 165 e 170, da Lei n°5.172 (CTN); Art. 74 da Lei 9.430, de 27 de dezembro de 1996. " Fl. 59DF CARF MF Processo nº 13839.908140/200963 Acórdão n.º 3301003.191 S3C3T1 Fl. 5 4 Ocorre que os artigos contém parágrafos e incisos QUE NÃO FORAM DEVIDAMENTE ESPECIFICADOS, o que resultou na impossibilidade de a recorrente identificar qual deles fundamenta a decisão não homologatória da compensação, ou seja, EVIDENCIASE INDICAÇÃO INESPECÍFICA QUE CARACTERIZA FORMALIZAÇÃO INCORRETA, em flagrante contrariedade ao que dispõe a legislação que rege a matéria e que prevê a indicação clara e precisa dos dispositivos legais supostamente infringidos , o que não ocorreu no caso. Tal fato resulta em flagrante prejuízo à defesa do contribuinte, resultando em vício insanável que enseja a nulidade do despacho decisório". Não vislumbro nos autos qualquer preterição do direito de defesa. O Acórdão recorrido não merece reparos, nesse pormenor. O despacho Decisório encontrase suficientemente fundamentado e o enquadramento legal está adequado aos fatos apurados. Não há, na espécie, motivo para que a autoridade fiscal indicasse os incisos ou alíneas em que se subdividiam os artigos elencados. Andou bem o julgador de primeira instância, vejamos parte dos fundamentos de seu voto que: [...] "Contudo, o que constato é que, para um pedido genérico lastreado num DARF, regularmente utilizado, para a integral quitação de débitos, mormente por inexistir qualquer retificação do DARF e da DCTF, nenhuma outra capitulação legal seria possível, aliás, creio que foi até exaustiva no caso, pois, bastaria citar o artigo 171 do CTN, ou seja, que a compensação só se faz com créditos líquidos e certos contra a Fazenda Nacional." [...] O excerto acima transcrito é suficientemente didático. Não há coerência lógica nos argumentos trazidos pela recorrente, senão o intuito de dar sobrevida ao litígio. Com o exposto, não se verifica qualquer cerceamento do direito de defesa, tampouco algum ato ou fato que ampare, ainda que de longe, a nulidade do Despacho Decisório. 2 Do Mérito O cerne do litígio está centrado da [in]existência do crédito disponível para restituição, submetido à PER/DComp, i.é., [in]existência de pagamento a maior de IPI por parte do contribuinte. A fiscalização, em procedimento de análise de PER/DComp, detectou que o crédito alegado como indevidamente pago fora integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para a compensação pretendida. O recorrente, por sua vez, alega que efetuou recolhimento de IPI a maior em face de equívoco na classificação fiscal de vidros não emoldurados destinados para uso nos párabrisas e janelas de veículos automotores das posições 8701 a 8705 da Fl. 60DF CARF MF Processo nº 13839.908140/200963 Acórdão n.º 3301003.191 S3C3T1 Fl. 6 5 TIPI. Originariamente efetuou os recolhimento do IPI com base na posição da TIPI 7007, alíquota de 15%, conquanto, no seu entender, deveria ter recolhido com base na posição 8708, alíquota de 5%. Sustenta que tem o direito de classificar os vidros não emoldurados nas subposições 8708.29.19 ou 8708.29.99 da TIPI. Tece comentários sobre a metodologia do sistema de classificação fiscal e procura demonstrar a correção da classificação utilizada. Adentra em comentários acerca do princípio da seletividade do IPI sustentando que os princípios constitucionais devem ser considerados prioritariamente para fim de classificar um produto na TIPI, em detrimento às regras do Sistema harmonizado. Em resumo temos que o recorrente sustenta que cometeu erro na classificação de vidros não emoldurados destinados para uso nos párabrisas e janelas de veículos automotores, de sua fabricação e, como conseqüência, recolheu IPI a maior. É nessa matéria, classificação fiscal, que se limita a peça recursal. Outrossim, a exigência fiscal emerge da constatação por parte da fiscalização de que o crédito alegado como indevidamente pago fora integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para a compensação pretendida. Essa é a matéria posta originariamente pela fiscalização. Sobre ela nada falou o recorrente. Apressome a afirmar: ainda que o recorrente tenha êxito quanto a classificação por ele pretendida, fazse necessária a comprovação de que eventual pagamento a maior do IPI fora devidamente escriturado, bem assim que as obrigações acessórias tenham sido alteradas para contemplar os valores efetivamente devido do tributo, tornadoo liquido e certo. Portanto temos dois pontos a serem apreciados: (i) a liquidez e certeza do crédito alegadamente pago a maior e (ii) a correta classificação do produto. 2.1 A LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO ALEGADAMENTE PAGO A MAIOR É notoriamente sabido que, nos processos derivados de pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, a comprovação dos créditos ensejadores incumbe ao postulante, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, capaz de demonstrar a liquidez e certeza do pagamento indevido. Essa é a dicção do art. 373, inciso I, do Código de Processo Civil – CPC, aplicado subsidiariamente ao processo administrativo fiscal Decreto nº 70.235/72 (PAF): Art. 373 O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; [...] Disso não se desincumbiu o contribuinte. Do compulsar dos autos não se vislumbra nenhum elemento apresentado pela recorrente que tenha o condão de afastar as alegações da fiscalização que alicerçaram a negativa relativa ao pedido de restituição. Fl. 61DF CARF MF Processo nº 13839.908140/200963 Acórdão n.º 3301003.191 S3C3T1 Fl. 7 6 Noutra esteira, a fiscalização demonstrou que, relativamente ao crédito que se pretende ser indevido, há débitos a ele originariamente vinculados, portanto não disponíveis para restituição e, conseqüentemente, não servindo para custear compensação. Dessarte, depreendese que os valores de IPI que o recorrente pretende considerar indevidamente recolhidos para fins de fruição de restituição não se encontram devidamente comprovados, portanto não revestidos de certeza e liquidez. 2.2 A CORRETA CLASSIFICAÇÃO DO PRODUTO Passo a apreciar a classificação fiscal adotada pelo contribuinte para o produto vidro não emoldurados destinados para uso nos párabrisas e janelas de veículos automotores. Ressaltese que a classificação fiscal, no caso concreto, não influenciará diretamente na decisão quanto ao direito à restituição, posto que, isoladamente, eventual erro na classificação não é suficiente para dotar de liquidez e certeza o crédito pago a maior,. O recorrente sustenta que tem o direito de classificar os vidros não emoldurados nas subposições 8708.29.19 ou 8708.29.99 da TIPI. Tece comentários sobre a metodologia do sistema de classificação fiscal e procura demonstrar a correção da classificação utilizada. Adentra em comentários acerca do princípio da seletividade do IPI sustentando que os princípios constitucionais devem ser considerados prioritariamente para fim de classificar um produto na TIPI, em detrimento às regras do Sistema harmonizado. O Julgador a quo, em seu voto, constante do Acórdão recorrido, fundamenta exaustivamente as razões para descaracterizar a pretensa classificação dos vidros na posição 8708 e a necessária e correta classificação na posição 7007. vejamos excerto do voto: [...] Quanto ao mérito, nenhuma razão assiste ao interessado, sendo que a classificação fiscal do produto em questão já é pacificada na Receita Federal do Brasil desde 1998, quando, mediante o DEC SRRF 8ª RF nº 155/98, publicado no DOU em 06/08/98, classificou na posição 7007 da TIPI os vidros a serem utilizados como párabrisas e nas janelas dos veículos automóveis. [...] Não vislumbro razão para o aprofundamento da análise da presente matéria, a uma, pelo brilhante voto constante do Acórdão recorrido, não merecendo reparos, a duas, em face da publicação da Solução de Consulta do Centro de Classificação de Mercadorias da RFB, SC 56/2014, 1ª Turma, com a qual concordo e a utilizo como fundamento de minha decisão. Sua ementa é suficientemente esclarecedora: 7007.21.00 Vidro de segurança não emoldurado, formado por folhas contracoladas (vidro laminado), de espessuras que variam de 1 mm até mais de 6,5 mm, acompanhado de guarnição de borracha para vedação, destinado a uso como parabrisa de automóveis SC 296/2015 1ª Turma Fl. 62DF CARF MF Processo nº 13839.908140/200963 Acórdão n.º 3301003.191 S3C3T1 Fl. 8 7 Como se vê o produto denominado vidro de segurança não emoldurado, destinado a uso como parabrisa de automóveis tem definida e consolidada sua classificação fiscal na posição 7007. Dispositivo Ante o exposto, considerando que (i) os créditos de IPI que se pretende considerar indevidamente recolhidos para fins de fruição de restituição, não se encontram devidamente comprovados, portanto não revestidos de certeza e liquidez e que (ii) o produto denominado vidro de segurança não emoldurado, destinado a uso como parabrisa de automóveis deve ser classificado fiscal na posição 7007, da TIPI, voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, negase provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Fl. 63DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 36624.010781/2005-73
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 11 00:00:00 UTC 2015
Data da publicação: Tue Apr 25 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Ano-calendário: 2010, 2011, 2012
CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA.
Não há cerceamento do direito de defesa se a notificação de lançamento não apresenta quaisquer falhas ou inconsistências, sendo análoga às que são julgadas ordinariamente por este Colegiado, apresentado todos os requisitos determinados pelo art. 11 do Decreto nº 70.235, de 1972 e pelo art. 142 do CTN. A apresentação de minuciosa defesa, abordando todos os tópicos do lançamento, é prova inconteste de que a recorrente bem compreendeu a matéria tributada e pôde apresentar sua defesa pelos meios inerentes ao processo administrativo fiscal.
DECADÊNCIA. PRAZO DE CINCO ANOS. DISCUSSÃO DO DIES A QUO NO CASO CONCRETO.
De acordo com a Súmula Vinculante nº 08, do STF, os artigos 45 e 46 da Lei nº 8.212/1991 são inconstitucionais, devendo prevalecer, no que tange à decadência e prescrição, as disposições do Código Tributário Nacional (CTN). O prazo decadencial, portanto, é de cinco anos. O dies a quo do referido prazo é, em regra, aquele estabelecido no art. 173, inciso I do CTN (primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado), mas a regra estipulativa deste é deslocada para o art. 150, §4º do CTN (data do fato gerador) para os casos de lançamento por homologação nos quais haja pagamento antecipado em relação aos fatos geradores considerados no lançamento. Constatando-se dolo, fraude ou simulação, a regra decadencial é reenviada para o art. 173, inciso I do CTN. Havendo pagamentos relativos aos fatos geradores em discussão, é de ser aplicada a regra do art. 150, § 4º.
LANÇAMENTO. CRITÉRIO MATERIAL.
Não sendo comprovados erros de cálculo no lançamento, mantém-se os valores presentes na NLFD.
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS.
As contribuições devidas à Seguridade Social, como também as decorrentes de SAT e as destinadas a terceiros incidem sobre a remuneração paga aos segurados empregados e contribuintes individuais.
EMPRESAS URBANAS. CONTRIBUIÇÃO PARA O INCRA.
É legítima a cobrança da contribuição para o INCRA das empresas urbanas, sendo inclusive desnecessária a vinculação ao sistema de previdência rural.
TAXA SELIC.
A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. (Súmula CARF nº 4.)
Numero da decisão: 2302-003.712
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para excluir do lançamento os fatos geradores ocorridos até a competência 09/2000, inclusive, pela homologação tácita do crédito, de acordo com o artigo 150, §4º, do Código Tributário Nacional, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.]
João Bellini Júnior Presidente e redator ad hoc na data de formalização do acórdão.
EDITADO EM: 25/04/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liege Lacroix Thomasi (Presidente), Luciana Matos Pereira Barbosa, Arlindo da Costa e Silva, Andre Luis Marsico Lombardi, Juliana Campos de Carvalho Cruz, Leonardo Henrique Pires Lopes.
Nome do relator: LEONARDO HENRIQUE PIRES LOPES
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Não há cerceamento do direito de defesa se a notificação de lançamento não apresenta quaisquer falhas ou inconsistências, sendo análoga às que são julgadas ordinariamente por este Colegiado, apresentado todos os requisitos determinados pelo art. 11 do Decreto nº 70.235, de 1972 e pelo art. 142 do CTN. A apresentação de minuciosa defesa, abordando todos os tópicos do lançamento, é prova inconteste de que a recorrente bem compreendeu a matéria tributada e pôde apresentar sua defesa pelos meios inerentes ao processo administrativo fiscal. DECADÊNCIA. PRAZO DE CINCO ANOS. DISCUSSÃO DO DIES A QUO NO CASO CONCRETO. De acordo com a Súmula Vinculante nº 08, do STF, os artigos 45 e 46 da Lei nº 8.212/1991 são inconstitucionais, devendo prevalecer, no que tange à decadência e prescrição, as disposições do Código Tributário Nacional (CTN). O prazo decadencial, portanto, é de cinco anos. O dies a quo do referido prazo é, em regra, aquele estabelecido no art. 173, inciso I do CTN (primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado), mas a regra estipulativa deste é deslocada para o art. 150, §4º do CTN (data do fato gerador) para os casos de lançamento por homologação nos quais haja pagamento antecipado em relação aos fatos geradores considerados no lançamento. Constatandose dolo, fraude ou simulação, a regra decadencial é reenviada para o art. 173, inciso I do CTN. Havendo pagamentos relativos aos fatos geradores em discussão, é de ser aplicada a regra do art. 150, § 4º. LANÇAMENTO. CRITÉRIO MATERIAL. Não sendo comprovados erros de cálculo no lançamento, mantémse os valores presentes na NLFD. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 36 62 4. 01 07 81 /2 00 5- 73 Fl. 1189DF CARF MF 2 CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. As contribuições devidas à Seguridade Social, como também as decorrentes de SAT e as destinadas a terceiros incidem sobre a remuneração paga aos segurados empregados e contribuintes individuais. EMPRESAS URBANAS. CONTRIBUIÇÃO PARA O INCRA. É legítima a cobrança da contribuição para o INCRA das empresas urbanas, sendo inclusive desnecessária a vinculação ao sistema de previdência rural. TAXA SELIC. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. (Súmula CARF nº 4.) Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para excluir do lançamento os fatos geradores ocorridos até a competência 09/2000, inclusive, pela homologação tácita do crédito, de acordo com o artigo 150, §4º, do Código Tributário Nacional, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.] João Bellini Júnior – Presidente e redator ad hoc na data de formalização do acórdão. EDITADO EM: 25/04/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liege Lacroix Thomasi (Presidente), Luciana Matos Pereira Barbosa, Arlindo da Costa e Silva, Andre Luis Marsico Lombardi, Juliana Campos de Carvalho Cruz, Leonardo Henrique Pires Lopes. Relatório Conselheiro João Bellini Júnior Para registro e esclarecimento, consigno que, pelo fato do conselheiro Leonardo Henrique Pires Lopes, relator original, ter deixado os quadros do CARF antes da formalização do acórdão, estou procedendo à formalização na condição de redator ad hoc. Esclareço que em virtude de não ter sido localizada a minuta de voto do conselheiro originário, utilizo como base o registro da ata, a Resolução 230100.068 e votos do mesmo conselheiro em processos similares, como nos Acórdãos 2301002.669 e 230101.808. Feito o registro. Fl. 1190DF CARF MF Processo nº 36624.010781/200573 Acórdão n.º 2302003.712 S2C3T2 Fl. 3 3 Tratase de recurso voluntário que ataca a DecisãoNotificação N° 21.003.0/0100/2006, de 09/03/2006, referente às contribuições previdenciárias e destinadas à Seguridade Social, correspondentes à parte da empresa, ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho – RAT e as destinadas a Terceiros (INCRA 11/99 a 12/03; SEBRAE 11/99 a 12/99; SESC/SENAC 11/99 a 05/00). De acordo com o Relatório Fiscal de ris. 233/245, a ação fiscal que originou a NFLD tratase de refiscalização para o período compreendido entre 11/1999 a 09/2000, em atendimento ao determinado no processo n° 35366.001462/200331, da Corregedoria Regional do INSS, e de fiscalização para o período compreendido entre 10/2000 a 12/2003. Inconformada, a ora Recorrente apresentou Defesa tempestiva de fls. 484/519, e, em seguida, peticionou às fls. 1017/1038. juntando os demonstrativos dos cálculos apontados em sua defesa, tendo a DecisãoNotificação de fls. 1039/1053, julgado procedente o lançamento. Irresignada interpôs Recurso Voluntário tempestivo de fls. 1062/1110, alegando, em síntese: a) encontrase suspensa a exigibilidade do crédito tributário, uma vez que ajuizou bem antes de tal lançamento, ação ordinária com pedido de tutela antecipada, com o objetivo de reconhecer a inconstitucionalidade da cobrança de determinadas contribuições, restituindose dos valores pagos via compensação, razão pela qual deixou de recolher as contribuições relativas as rubricas lançadas nessa NFLD, por força de suas compensações efetivadas sob autorização judicial previamente declarada; b) a ação judicial que corre em paralelo tem relação indireta com a NFLD combatida, pois a ação judicial discute a constitucionalidade da exação fiscal, enquanto que na esfera administrativa enfocase a ilegitimidade da existência de uma lavratura dessa natureza. Assim, o objeto de uma lide difere do da outra, razão pela qual não há que se falar em renúncia ao processo administrativo; c) não há razão que justifique a lavratura da NFLD, uma vez que as ações judiciais em que se pautou a empresa para realizar compensações de contribuições previdenciárias, ainda permanecem no aguardo de manifestação judicial diante do TRF 3ª Região e, portanto, sem ocorrência do trânsito em julgado, não se justifica o lançamento em fustigo; d) a impossibilidade de determinação dos valores lançados, pois a apresentação das planilhas pela autoridade fiscal não auxiliam o contribuinte a entender tais valores; e) o lançamento de débitos fiscais considerados e reconhecidos pela própria fiscalização como "sobrestados", sob o pretexto de se evitar a decadência do direito de constituição desses débitos é ato que afronta a natureza jurídica do lançamento tributário; f) devem ser excluídos da NFLD os valores objeto das outras NFLD que restaram sobrestadas, por estarem sendo cobrados em duplicidade, no montante de R$1.119,927,80; Fl. 1191DF CARF MF 4 g) a inconstitucionalidade da taxa SELIC; h) a ilegitimidade e inconstitucionalidade da cobrança de contribuições devidas a Terceiros e ao INCRA; i) a ilegitimidade da cobrança de contribuições sociais devidas ao SAT; j) a desnecessidade do depósito prévio recursal. Requereu a nulidade do lançamento, excluindose da cobrança os valores já inseridos nas NFLDs 35.842.4348, 35.842.4330, 35.842.4321 e 35.842.4313, no valor total de R$ 1.119.927,80 e também os valores relativos ao período compreendido entre setembro de 1999 e dezembro de 2002 cobrados indevidamente a título de SESC/SENAC, sendo que o valor remanescente deverá resultar em NFLD a ser desmembrada e que deverá ficar sobrestada até o final julgamento a medida judicial em trâmite perante o Poder Judiciário. Por fim, fora apresentada Contrarrazões às fls. 1124/1141, em que aduz a desnecessidade de reforma da Decisão, posto que o Recurso interposto não trouxe qualquer elemento ou fato novo que modifique as razões do lançamento. Em 10/06/2010 foi determinada diligência, por meio da Resolução 2301 00.068, nos seguintes termos (efls. 1151 a 1157): Em seu Recurso Voluntário de fls. 1062/1110, a Recorrente apontou diversas inconsistências nos cálculos apresentados pela fiscalização, bem como apresenta planilha de cálculo feita por perito contábil particular, aduzindo que do cotejo das planilhas e cálculos efetuados pela autoridade fiscal, com as guias de recolhimento apresentadas pela empresa, o que se verifica é que os valores recolhidos e compensados não foram apurados corretamente pela fiscalização. Aduz ainda, no tocante as contribuições devidas a terceiros, que a fiscalização apurou que foram recolhidos valores a maior do que eram efetivamente devidos, não computando, todavia, no total a compensar. Pois bem. Analisando os autos e tendo em vista a busca do principio da verdade material, tenho para mim ser imprescindível ao deslinde da controvérsia, a conversão do julgamento em diligência para que a autoridade fiscal se manifeste expressamente sobre as alegações da Recorrente no tocante à apuração dos valores recolhidos e compensados, informando se há algum valor a ser deduzido do presente lançamento, bem como refutando expressamente as alegações do Contribuinte nesse aspecto. Ressalto, que em sede de contrarrazões, a r. autoridade fiscal limitouse a reproduzir integralmente as razões trazidas na DecisãoNotificação de fls. 1039/1053, não refutando os novos argumentos e planilhas do contribuinte trazidos no Recurso Voluntário. Ante as razões acima expostas, converto o julgamento em diligência, a fim de que a fiscalização verifique se os cálculos apresentados pela perícia particular da ora Recorrente guarda Fl. 1192DF CARF MF Processo nº 36624.010781/200573 Acórdão n.º 2302003.712 S2C3T2 Fl. 4 5 pertinência com a presente NFLD, para, se for o caso, sejam tais valores excluídos do lançamento. Em resposta, a unidade preparadora aduziu que (efls. 1164 a 1171): 3. Quanto aos valores recolhidos e compensados segue a análise abaixo. 3.1. Do Salário Educação, os valores não foram incluídos na presente NFLD, basta ver a alíquota considerada em cada competência no Discriminativo Analítico do Débito DAD (fls.14 a 59). A alíquota total de terceiros seria 5,8% discriminada conforme quadro abaixo: (...) 3.1.1. Assim podemos perceber que não existe duplicidade nesse levantamento quanto aos valores levantados nas outras NFLDs que ficaram sobrestadas em virtude de ações judiciais, nem tão pouco aqui, cabe a análise do cálculo do valor do Salário Educação recolhido e compensado. 3.2. Já quanto aos valores das contribuições recolhidas e compensadas, sobre as remunerações dos administradores e autônomos foram feitas as análises abaixo. 3.2.1. Não existe duplicidade de lançamento desses valores, pois os mesmos foram deduzidos do valor devido nas respectivas competências, conforme se verifica no DAD. 3.2.2. Ressaltamos que a competência onde houve a compensação referese à competência anterior (ex: compensação efetuada em 10/2000 referese à competência de 09/2000) e também existem competências com salário família, cujo valor foi somado à compensação no campo "deduções". No Relatório de Lançamentos RL (fls.89 a 136), é possível verificar esses valores separadamente. 3.2.3. Entretanto, verificando as planilhas de compensações elaboradas pela fiscalização (fls. 473 a 477), observase que a fiscal notifícante corrigiu os valores conforme os índices determinados na liminar, porém deixou de aplicar a taxa SELIC a partir de 01/1996. Elaboramos novas planilhas, através do nosso sistema "Compensa" com os mesmos índices e aplicando a taxa SELIC a partir de 01/1996 (ver fls. 1152 A 1156), gerando um valor maior a ser deduzido do presente lançamento, conforme os quadros abaixo. Intimada a recorrente asseverou (efls. 1176 a 1181): (...) A autoridade fiscalizadora simplesmente negou a duplicidade, mas não demonstrou que esta não ocorreu, conforme determinou aquela resolução. Fl. 1193DF CARF MF 6 Com efeito, com relação às contribuições devidas a terceiros, a autoridade fiscal apurou que foram recolhidos a maior do que eram efetivamente devidos, mas não computou no total a compensar, conforme demonstrou a planilha demonstrativa anexada a petição de 02/12/2005 documento 04. Assim, deveria ser totalmente refeito o cálculo dos valores apurados, uma vez que se encontram totalmente equivocados. Devem ser computados todos os valores recolhidos indevidamente aos terceiros, conforme apurado na planilha em anexo (doe. 04), e não apenas parcialmente, como fez a fiscalização. Entretanto, a fiscalização sequer se manifestou a este respeito, simplesmente alegando que não teria havido duplicidade. Com relação aos valores das contribuições recolhidas e compensadas, sobre o que deveria se manifestar expressamente, levando em consideração os argumentos lançados em sua defesa e recurso voluntário, bem como em sua petição onde foram apresentados os cálculos demonstrativos, nada disse, apenas alegando que "não existe duplicidade de lançamento desses valores". Ora, Exa., em nenhum momento foi alegado duplicidade de valores! O que foi alegado é que os valores recolhidos e compensados não foram apurados corretamente. (...) (...) A autoridade fiscalizadora deveria ter apresentado quadro demonstrativo na forma do DAD, demonstrando o valor que entende devido e o valor compensado que será descontado, para que a recorrente pudesse verificar a exatidão destes valores. Da forma como foi apresentado, novamente, é impossível a recorrente verificar a exatidão dos valores. É o relatório. Voto Conselheiro João Bellini Júnior Para registro e esclarecimento, consigno que, pelo fato do conselheiro Leonardo Henrique Pires Lopes, relator original, ter deixado os quadros do CARF antes da formalização do acórdão, estou procedendo à formalização na condição de redator ad hoc. Esclareço que em virtude de não ter sido localizada a minuta de voto do conselheiro originário, utilizo como base o registro da ata, a Resolução 230100.068 e Fl. 1194DF CARF MF Processo nº 36624.010781/200573 Acórdão n.º 2302003.712 S2C3T2 Fl. 5 7 votos do mesmo conselheiro em processos similares, como nos Acórdãos 2301002.669 e 230101.808. Feito o registro. DA PRELIMINAR DA INEXISTÊNCIA DE CERCEAMENTO À DEFESA Não prospera a alegação de que o relatório fiscal é apresentado de forma confusa e sem nexo, a dificultar a apresentação da defesa. Os anexos elaborados pela fiscalização, os demonstrativos analítico e sintético e o Relatório Fiscal retratam que a ação fiscal atendeu às normas da Lei 8.212, de 1991 e adotou os procedimentos previstos e regulamentados, devidamente especificados no relatório de fundamentos legais do débito. A NFLD não apresenta quaisquer falhas ou inconsistências, sendo análoga às que são julgadas ordinariamente por este Colegiado, apresentado todos os requisitos determinados pelo art. 11 do Decreto nº 70.235, de 1972 e pelo art. 142 do CTN. Ademais, a minuciosa defesa apresentada pela autuada é prova inconteste de que ela bem compreendeu a matéria tributada e pôde apresentar sua defesa pelos meios inerentes ao processo administrativo fiscal. DA DECADÊNCIA Com relação à decadência, verificase que, no caso em apreço, o lançamento foi realizado enquanto vigorava os art. 45 e 46 da Lei nº 8.212/1991, segundo os quais os prazos decadencial e prescricional das contribuições previdenciárias seriam de 10 anos. Ocorre que, nas sessões plenárias dos dias 11 e 12/06/2008, respectivamente, o Supremo Tribunal Federal STF, por unanimidade, declarou inconstitucionais aqueles dispositivos legais e editou a Súmula Vinculante n° 08. Seguem transcrições: Parte final do voto proferido pelo Exmo Senhor Ministro Gilmar Mendes, Relator: Resultam inconstitucionais, portanto, os artigos 45 e 46 da Lei nº 8.212/91 e o parágrafo único do art.5º do Decretolei n° 1.569/77, que versando sobre normas gerais de Direito Tributário, invadiram conteúdo material sob a reserva constitucional de lei complementar. Sendo inconstitucionais os dispositivos, mantémse hígida a legislação anterior, com seus prazos qüinqüenais de prescrição e decadência e regras de fluência, que não acolhem a hipótese de suspensão da prescrição durante o arquivamento administrativo das execuções de pequeno valor, o que equivale a assentar que, como os demais tributos, as contribuições de Seguridade Social sujeitamse, entre outros, aos artigos 150, § 4º, 173 e 174 do CTN. Fl. 1195DF CARF MF 8 Diante do exposto, conheço dos Recursos Extraordinários e lhes nego provimento, para confirmar a proclamada inconstitucionalidade dos arts. 45 e 46 da Lei 8.212/91, por violação do art. 146, III, b, da Constituição, e do parágrafo único do art. 5º do Decretolei n° 1.569/77, frente ao § 1º do art. 18 da Constituição de 1967, com a redação dada pela Emenda Constitucional 01/69. É como voto. Súmula Vinculante n° 08: São inconstitucionais os parágrafo único do artigo 5º do Decretolei 1569/77 e os artigos 45 e 46 da Lei 8.212/91, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário. Os efeitos da Súmula Vinculante são previstos no artigo 103A da Constituição Federal, regulamentado pela Lei n° 11.417, de 19/12/2006, in verbis: Art. 103A da Constituição Federal O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, mediante decisão de dois terços dos seus membros, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, aprovar súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma estabelecida em lei. Lei n° 11.417, de 19/12/2006 Regulamenta o art. 103A da Constituição Federal e altera a Lei no 9.784, de 29 de janeiro de 1999, disciplinando a edição, a revisão e o cancelamento de enunciado de súmula vinculante pelo Supremo Tribunal Federal, e dá outras providências. ... Art. 2º O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, editar enunciado de súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma prevista nesta Lei. Temos que a partir da publicação na imprensa oficial, que se deu em 20/06/2008, todos os órgãos judiciais e administrativos ficaram obrigados a acatar a Súmula Vinculante. Assim, afastado por inconstitucionalidade o artigo 45 da Lei n° 8.212/91, resta verificar qual regra de decadência prevista no Código Tributário Nacional CTN se aplica ao caso concreto. Ocorre que este Código prevê a aplicação de duas regras, aparentemente conflitantes, tomando a primeira como termo inicial o pagamento indevido (art. 150, §4º), e a segunda o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido realizado (art. 173, I). Cumpre transcrever os referidos dispositivos legais: Fl. 1196DF CARF MF Processo nº 36624.010781/200573 Acórdão n.º 2302003.712 S2C3T2 Fl. 6 9 Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. (...). § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Harmonizando os referidos dispositivos legais, o Superior Tribunal de Justiça, no REsp 973.733/SC esclareceu a aplicação do art. 173 para os casos em que o tributo sujeitarse a lançamento por homologação: 1) Quando não tiver havido pagamento antecipado; 2) Quando tiver ocorrido dolo, fraude ou simulação; 3) Quando não tiver havido declaração prévia do débito. No voto lavrado no referido REsp 973.733/SC, foi transcrito entendimento firmado em outros julgamento (REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, DJ 25.02.2008), que limitam a aplicação do art. 150, §4º do CTN às hipóteses que tratam de tributo sujeito a lançamento por homologação, "quando ocorrer pagamento antecipado inferior ao efetivamente devido, sem que o contribuinte tenha incorrido em fraude, dolo ou simulação, nem sido notificado pelo Fisco de quaisquer medidas preparatórias". A comprovação da presença de tais circunstâncias seria imprescindível para o afastamento do art. 150, § 4º do CTN e aplicação do seu art. 173, I, o que não se vislumbra em qualquer momento da autuação. Verificase na análise do Rada – Relatório de Apropriação de Documentos Apropriados que houve a apresentação de GPS referentes aos períodos de 11/1999 a 09/2000 (efls. 155 a 158); assim, comprovase que a Recorrente efetuou o pagamento parcial das contribuições devidas à Seguridade Social, o que afasta, de início, um dos pressupostos para aplicação do art. 173 do CTN. Outrossim, não tendo sido comprovado que sua conduta tenha sido eivada de dolo, fraude ou simulação, restando configurado, portanto, o pressuposto fático ensejador da aplicação do prazo decadencial previsto no artigo 150, §4º do Código Tributário Nacional, fica definitivamente afastada a incidência do disposto no artigo 173, I do mesmo Fl. 1197DF CARF MF 10 dispositivo legal. Desta feita, considerando que a consolidação do crédito previdenciário se deu em 25/10/2005, as competências anteriores a 10/2000 estão atingidas pela decadência quinquenal. DA INEXISTÊNCIA DE VALORES LANÇADOS EM DUPLICIDADE Primeiramente, em sede de recurso voluntário, a recorrente arguiu a duplicidade dos valores lançados nos seguintes termos: “Pelo reconhecimento de ofício da situação sub judice que deve ser observada no presente e nas outras NFLDs lavradas contra a recorrente, COM BASE NAS MESMAS CONTRIBUIÇÕES. OU SEJA. EM DUPLICIDADE” (efl. 1071) e “De início, devem ser sumariamente excluídos desta NFLD os seguintes valores, que estão sendo cobrados em duplicidade (...)” (efl. 1082) (Grifos no original.) Porém, em sua manifestação em decorrência da diligência, se retratou, aceitando não ter havido qualquer duplicidade, afirmando mesmo que “Ora, Exa., em nenhum momento foi alegado duplicidade de valores!” (efl. 1178) (Grifos no original.) Em face desta retratação por parte da recorrente, considero não controversa a questão da inexistência de valores lançados em duplicidade. Mesmo que assim não fosse, os créditos tributários em discussão não se confundem com os lançados nas NFLD DEBCAB 35.842.4348, 35.842.4330, 35.842.4321 e 35.842.4313, não existindo qualquer duplicidade no presente lançamento. Transcrevo, por pertinentes, as razões do acórdão recorrido, que assumos como minhas, mutatis mutandis: 5.2.2 Improcedente, também, o equivocado entendimento de que os valores envolvidos estariam em duplicidade, face as outras Notificações emitidas.Na verdade, conforme já esclarecido e claramente consignado no Relatório Fiscal, esta ação fiscal redundou na lavratura das seguintes Notificações (inscrições Debcad): n° 35.842.4305 (a presente Notificação, onde foram levantadas as divergências entre as contribuições apuradas como devidas tendo por base de cálculo as remunerações pagas pela empresa aos seus empregado, e as efetivamente recolhidas, observadas integralmente as demandas judiciais movidas pela empresa, como se favoráveis lhe fossem); n° 35.842.4313 (que lança os valores devidos ao SalárioEducação, com o intuito de prevenir a decadência, no caso de a solução da lide ser desfavorável à empresa); n° 35.432.4321 (que lança os valores devidos ao SEBRAE, com o intuito de prevenir a decadência e caso a solução da lide seja desfavorável à empresa); n° 35.432.4330 (onde são constituídos os créditos relativos ao SESC/SENAC, com o intuito de prevenir a decadência e para o caso de a solução da lide ser desfavorável à empresa); n° 35.842.4348 (onde se encontram lançados os créditos concedidos a título de compensação da contribuição devida pelos administradores e autônomos, também constituída com o fito da prevenção da decadência e também na hipótese de solução da lide desfavorável à empresa impetrante). E, finalmente, da ação fiscal redundou também o Auto de Infração n° 35.435.5147, lavrado pela infração à obrigação acessória de Fl. 1198DF CARF MF Processo nº 36624.010781/200573 Acórdão n.º 2302003.712 S2C3T2 Fl. 7 11 prestar todas as informações e esclarecimentos necessários à fiscalização, obrigação esta prevista no inciso III, do art. 32 da Lei n° 8.212/91. Portanto, de maneira nenhuma se vislumbra a hipótese de duplicidade, aventada na impugnação. DA INEXISTÊNCIA DE AFRONTA AO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE É alegada afronto ao princípio da legalidade na lavratura da NFLD para prevenir a decadência. Não lhe assiste razão. A autuada possui quatro ações judiciais, não transitadas em julgado, nas quais demanda: a) a declaração de inconstitucionalidade da contribuição ao "Salário Educação", bem como a compensação das importâncias pagas a este título com parcelas vincendas da mesma contribuição (Processo n° 97.00019179); b) a compensação dos valores recolhidos indevidamente a título de contribuição previdenciária a cargo do empregador, incidente sobre as remunerações efetuadas aos administradores, autônomos e avulsos, sem as limitações de 25% e 30% impostas pelas Leis n° 9.032/95 e 9.129/95 (Processo n° 2000.61.00.0365167); c) a suspensão, em relação ao período base do ano de 2000 e subseqüentes, da exigibilidade da contribuição para o Sebrae, sem pedido de compensação (Processo n° 2000.61.00.0291482); e d) a suspensão da contribuição destinada ao Sesc/Senac, também sem pedido de compensação. Tais demandas judiciais, no que tange a NFLD em discussão, foram integralmente respeitadas como se favoráveis fossem à contribuinte, muito embora, no momento da autuação, estivessem com decisões desfavoráveis a essa. Assim, os créditos tributários foram lançados: a) sem os valores devidos ao "salárioeducação", o que equivale a conceder lhe o crédito correspondente; b) com as deduções das compensações relativas à contribuição incidente sobre a remuneração dos administradores e autônomos, corrigidas pelos índices determinados na liminar obtida, aplicada a Selic, e limitadas a 30% do valor a ser recolhido, nos exatos limites determinados em sentença; c) sem as contribuições devidas ao Sebrae a partir do período base de 2000, conforme pedido na liminar; d) sem as contribuições devidas ao Sesc/Senac a partir da competência 06/2000, conforme obtido em liminar. Fl. 1199DF CARF MF 12 Decorrentemente, a presente Notificação se compõe apenas da parte incontroversa, resultante dos valores apurados a partir da base de cálculo que se constitui das remunerações pagas aos segurados empregados, discriminadas nas folhas de pagamento, excetuadas todas as situações em que há demanda judicial. Com o intuito de prevenir a decadência, tais créditos foram constituídos à parte, objeto de outras Notificações Fiscais, essas sim permanecendo sobrestadas quanto aos atos executórios, que somente terão seqüência no deslinde dos processos judiciais, se desfavoráveis à autuada e serão submetidas à eficácia das decisões judiciais que transitarem em julgado. DA RENÚNCIA À ESFERA ADMINISTRATIVA A recorrente alega que as ações judiciais têm relação indireta com a NFLD combatida, pois discute judicialmente a constitucionalidade da exação fiscal, enquanto que na esfera administrativa enfocase a ilegitimidade da existência de uma lavratura dessa natureza. Assim, o objeto de uma lide difere do da outra, razão pela qual não há que se falar em renúncia ao processo administrativo. A renúncia à esfera administrativa necessariamente deve coincidir com o objeto das ações judiciais, ou seja, só há renúncia em relação às seguintes matérias: (a) a declaração de inconstitucionalidade da contribuição ao "Salário Educação", bem como a compensação das importâncias pagas a este título com parcelas vincendas da mesma contribuição (Processo n° 97.00019179); b) a compensação dos valores recolhidos indevidamente a título de contribuição previdenciária a cargo do empregador, incidente sobre as remunerações efetuadas aos administradores, autônomos e avulsos, sem as limitações de 25% e 30% impostas pelas Leis n° 9.032/95 e 9.129/95 (Processo n° 2000.61.00.0365167); c) a suspensão, em relação ao período base do ano de 2000 e subseqüentes, da exigibilidade da contribuição para o Sebrae, sem pedido de compensação (Processo n° 2000.61.00.0291482); e d) a suspensão da contribuição destinada ao Sesc/Senac, também sem pedido de compensação. Como relatado, a autuação trata de matérias distintas, pelo que não se configura a renúncia à esfera administrativa no caso concreto. DAS AÇÕES JUDICIAIS A litigante afirma que se deve aguardar o julgamento das ações de reconhecimento do direito de compensar; a impossibilidade de se apurar o montante devido e a ofensa ao artigo 142 do CTN. Assevera que efetivou compensações de valores referentes às contribuições sociais por força de ordem judicial expressa nos autos das ações competentes que se encontram em trâmite na Justiça Federal, abatendose dos valores devidos ao INSS os montantes dos quais apontaramse expressos das aludidas decisões judiciais. Contudo, o trabalho fiscal considerou os valores compensados pela peticionária por força da ordem judicial como se devidos fossem em sua totalidade, Fl. 1200DF CARF MF Processo nº 36624.010781/200573 Acórdão n.º 2302003.712 S2C3T2 Fl. 8 13 desprezando a situação "subjudice. Não poderia a autarquia previdenciária simplesmente ignorar o mandado de segurança e as compensações efetuadas com base nas decisões proferidas em seu bojo e lançar débitos fiscais em desfavor da empresa requerente. Questiona como pode existir a constituição do crédito tributário através do lançamento de um valor que não se sabe ao certo se deve ser considerado devido ou não e, ainda, mesmo com a constituição do crédito fiscal, sua exigibilidade está reconhecidamente suspensa? Tal situação é inviável diante do artigo 142 do CTN, especificamente na parte "calcular o montante devido". Como já tratado, o objeto desta NFLD não coincide com os das ações judiciais, razão pela qual não há nem renúncia à discussão administrativa nem óbice ao lançamento ao à exigibilidade do crédito tributário. Quanto aos alegados erros de cálculo, entendo que não restou comprovada a existência de erro de cálculo e tenho como corretos os cálculos efetivados por ocasião do lançamento. Por pertinente, transcrevo as razões do acórdão recorrido, que assumo como minhas, mutatis mutandis: Das compensações efetuadas 5.2 Improcedente a alegação de que as compensações autorizadas por força de ordem judicial não foram respeitadas, pois na verdade o foram, conforme se observa do relato fiscal e dos anexos que compõem a presente Notificação. Senão vejamos: a empresa solicita a compensação em dois processos judiciais, um relativo ao SalárioEducação, outro relativo aos pagamentos efetuados aos administradores e autônomos. Pois bem, informa o item 7.2 "a", do Relatório Fiscal, fls. 232, que "a contribuição social ao Salário Educação não foi incluídas nesta NFLD, pois a empresa obteve a autorização judicial para efetuar a compensação das contribuições relativas ao salário educação de 05/89 a 10/96, com a mesma contribuição, a partir de 11/99", o que, na prática revertese num crédito de 2,5% (alíquota do SE), por competência constituída. Elabora, ainda, a planilha com as bases de cálculo e a contribuição de 2,5% devida ao SE, constituindose no anexo VI, de fls. 434/438. 5.2.1 Por outro lado, as compensações relativas às contribuições dos \ administradores e autônomos são tratadas, no Relatório Fiscal, no item 7.2."e", nos seguintes termos: "As compensações relativas à contribuição incidente sobre a remuneração dos administradores e autônomos do período 01/90 a 12/95 foram corrigidas pelos índices determinados na liminar, com a aplicação da SELIC a partir de 01/96, e limitadas a 30% do valor a ser recolhido, conforme sentença, e encontramse lançadas como dedução, código de levantamento F03, constando no Discriminativo Analítico do Débito DA D, e do Relatório de Lançamentos RL, com a especificação no campo observação do RL, conforme abaixo:..." De fato, tais créditos são prontamente identificáveis nos citados anexos DAD e RL. Não obstante, o trabalho fiscal elabora ainda o anexo V, de fls. 422/433, onde demonstra as contribuições originárias, passíveis Fl. 1201DF CARF MF 14 de compensação, com os respectivos acréscimos legais proporcionais, recolhidos à época, tendo por base as guias de recolhimento apresentadas e outras constantes do banco de dados da Previdência, e o anexo VII, de fls. 439/477, onde se encontra a planilha de cálculo das compensações efetuadas. DAS CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS A TERCEIROS – SESC, SENAC / INCRA O reconhecimento da decadência do lançamento em relação às competências anteriores a 10/2000 atinge a totalidade das contribuições destinadas ao Sesc e ao Senac, que foram lançadas para o período de 11/99 a 05/2000 por terem sua exigibilidade suspensa a partir de 06/2000. A recorrente afirma serlhe inexigível a contribuição ao Incra , uma vez que não está entre os contribuintes do tributo. Não lhe assiste razão, pois a referida contribuição é devida pelas empresas em geral. A Lei 2.613, de 1955 criou o Serviço Social Rural (SSR), instituindo a cobrança da contribuição incidente sobre a folha de salários das empresas, destinada à formação profissional no âmbito rural. Com a extinção do SSR, foram criadas duas novas entidades, quais sejam, o Instituto Brasileiro de Reforma Agrária (Ibra) e o Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário (Inda). Nos termos do artigo 35, § 2.°, da lei 4.863, de 1965, o adicional que era destinado ao SSR passou para o Inda. Com o advento do DecretoLei n.° 1.110, de 1970, foi criado o Incra e extintos o Ibra e o Inda, sendo o referido adicional destinado ao Incra pelo DecretoLei n.° 1.146, de 1970. Em 1971, criouse o Programa de Assistência ao Trabalhador Rural (Prorural), ficando sua gestão a cargo do Funrural, mediante financiamento advindo, dentre outras, da contribuição de que trata o Decretolei n° 1.146, de 1970, sendo a alíquota elevada para 2,6%, cabendo 2,4% ao Funrural, e 0,2% ao Incra. Tendo em vista que o Prorural foi criado com o objetivo específico de proporcionar aos rurícolas os benefícios que lhes eram pertinentes, a partir de sua criação, o Incra passou a ser responsável somente pelas ações ligadas à realização da Reforma Agrária. Levandose em consideração que o objetivo do Incra passou a ser a justa distribuição ou redistribuição de terras, é induvidoso que a contribuição que lhe era destinada ficou totalmente desvinculada da previdência rural ou da assistência social no âmbito rural. Com o advento da Constituição Federal de 1988, houve uniformização das previdências urbana e rural, sendo estabelecida a equivalência e uniformidade entre os benefícios concedidos às populações urbana e rural. Desse modo, o Prorural foi extinto pela lei 7.787, de 1989 e, por conseqüência, a contribuição ao Funrural também se extinguiu, subsistindo, entretanto, a contribuição destinada ao Incra, visto estar totalmente desvinculada do Prorural. Do exposto, chegase à conclusão de que inexiste correlação entre a contribuição destinada ao Incra e a devida ao Funrural até a edição da Lei 7.787, de 1989, motivo pelo qual, embora esta esteja extinta, aquela continua a subsistir. Com efeito, o fundamento da contribuição ao Incra é o parágrafo 4.° do artigo 6.° da Lei 2.613, de 1955, o Fl. 1202DF CARF MF Processo nº 36624.010781/200573 Acórdão n.º 2302003.712 S2C3T2 Fl. 9 15 qual estabelece obrigação para todos os empregadores de contribuir com o adicional fixado sobre a totalidade da folha de salários, independentemente da atividade que exerçam. A conclusão a que se chega é a de que a contribuição destinada ao Incra financia atividades de profundas repercussões sociais, que interessa ao Estado incentivar e desenvolver, inexistindo, pois, identidade com seus fatos geradores. Destarte, se tal contribuição está vinculada a atividades essencialmente sociais, cujo beneficiário é, em última análise, a coletividade como um todo, não se concebe que a obrigação de pagálas pressuponha qualquer tipo de contraprestação direta ou indireta. Sob o aspecto de sua constitucionalidade, o Supremo Tribunal Federal dirimiu todas as dúvidas ao manifestarse no RE n° 263.2082, relatado pelo Ministro Néri da Silveira, cujo inteiro teor repousa no DJU de 10 de maio de 2000, p. 38. Por sua vez, o STJ revisou a jurisprudência de suas Turmas de Direito Público a partir do julgamento do EResp nº 770451/SC e passou a reconhecer na exação instituída pelo art. 15, II, da Lei Complementar nº 11, de 1971, a natureza de contribuição de intervenção no domínio econômico, e não mais de contribuição social, de modo que sua imposição estaria mantida mesmo após a vigência da Lei nº 8.212, de 1991. Admitiuse, dessa forma, que a arrecadação promovida em nome do Incra não seria destinada ao financiamento de benefícios e de serviços previdenciários destinados ao trabalhador rural, mas ao custeio das atividades institucionais cometidas constitucionalmente ao Incra para a realização da reforma agrária. Induvidosa, portanto, a recepção da exação em comento pela Constituição Federal de 1988, devendo, nos moldes de sua instituição, ser paga por todos os empregadores, independentemente da atividade exercida. Assim, com fundamento no art. 94 da Lei 8.212, de 1991, que autoriza o INSS a arrecadar e fiscalizar a contribuição devida por lei a terceiros, desde que provenha de empresa, segurado, aposentado ou pensionista a ele vinculado, verifica se ser correto o levantamento dos valores devidos ao INCRA. LEGITIMIDADE DAS CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS DEVIDAS AO SEGURO ACIDENTE DE TRABALHO SAT A recorrente afirma que a utilização de decreto para estabelecer a base de cálculo macula a pretensão. Não lhe assiste razão. A exigência da contribuição para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente de riscos ambientais do trabalho é prevista no art. 22, II da Lei n ° 8.212/1991, alterada pela Lei n ° 9.732/1998, in verbis: Art.22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de: (...) Fl. 1203DF CARF MF 16 II para o financiamento do benefício previsto nos arts. 57 e 58 da Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, e daqueles concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, sobre o total das remunerações pagas ou creditadas, no decorrer do mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos: (Redação dada pela Lei nº 9.732, de 11/12/98) a) 1% (um por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante o risco de acidentes do trabalho seja considerado leve; b) 2% (dois por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado médio; c) 3% (três por cento) para as empresas em cuja atividade preponderante esse risco seja considerado grave. Ademais, o dispositivo acima transcrito é regulamentado pelo art. 202 do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto n° 3.048/1999, com alterações posteriores, in verbis: Art.202. A contribuição da empresa, destinada ao financiamento da aposentadoria especial, nos termos dos arts. 64 a 70, e dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho corresponde à aplicação dos seguintes percentuais, incidentes sobre o total da remuneração paga, devida ou creditada a qualquer título, no decorrer do mês, ao segurado empregado e trabalhador avulso: I um por cento para a empresa em cuja atividade preponderante o risco de acidente do trabalho seja considerado leve; II dois por cento para a empresa em cuja atividade preponderante o risco de acidente do trabalho seja considerado médio; ou III três por cento para a empresa em cuja atividade preponderante o risco de acidente do trabalho seja considerado grave. Quanto ao Decreto 612/92 e posteriores alterações (Decretos 2.173/97 e 3.048/99) que, regulamentando a contribuição ao RAT, estabeleceram os conceitos de "atividade preponderante" e "grau de risco leve, médio ou grave", repelese a possível argüição de contrariedade ao princípio da legalidade, uma vez que a lei fixou padrões e parâmetros, deixando para o regulamento apenas a delimitação dos conceitos necessários à aplicação concreta da norma. Assim, os conceitos de atividade preponderante e grau de risco de acidente de trabalho não precisariam estar definidos em lei, pois o Regulamento é ato normativo suficiente para definição de tais conceitos, uma vez que são complementares e não essenciais na definição da exação. Esta foi a posição do STF ao apreciar Recurso Extraordinário em que se questionava a constitucionalidade do SAT: EMENTA: CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO: SEGURO DE ACIDENTE DO TRABALHO SAT. Lei 7.787/89, arts. 3º e 4º; Lei 8.212/91, art. 22, II, redação Fl. 1204DF CARF MF Processo nº 36624.010781/200573 Acórdão n.º 2302003.712 S2C3T2 Fl. 10 17 da Lei 9.732/98. Decretos 612/92, 2.173/97 e 3.048/99. C.F., artigo 195, § 4º; art. 154, II; art. 5º, II; art. 150, I. I. Contribuição para o custeio do Seguro de Acidente do Trabalho SAT: Lei 7.787/89, art. 3º, II; Lei 8.212/91, art. 22, II: alegação no sentido de que são ofensivos ao art. 195, § 4º, c/c art. 154, I, da Constituição Federal: improcedência. Desnecessidade de observância da técnica da competência residual da União, C.F., art. 154, I. Desnecessidade de lei complementar para a instituição da contribuição para o SAT. II. O art. 3º, II, da Lei 7.787/89, não é ofensivo ao princípio da igualdade, por isso que o art. 4º da mencionada Lei 7.787/89 cuidou de tratar desigualmente aos desiguais. III. As Leis 7.787/89, art. 3º, II, e 8.212/91, art. 22, II, definem, satisfatoriamente, todos os elementos capazes de fazer nascer a obrigação tributária válida. O fato de a lei deixar para o regulamento a complementação dos conceitos de "atividade preponderante" e "grau de risco leve, médio e grave", não implica ofensa ao princípio da legalidade genérica, C.F., art. 5º, II, e da legalidade tributária, C.F., art. 150, I. IV. Se o regulamento vai além do conteúdo da lei, a questão não é de inconstitucionalidade, mas de ilegalidade, matéria que não integra o contencioso constitucional. V. Recurso extraordinário não conhecido. (RE 343.446/SC, Rel. Min. Carlos Velloso, julgado em 20.3.2003, DJ 04.04.2003, p. 40). Ademais, imperioso ressaltar que, no ponto de vista pessoal desse Relator, o SAT deve ser cobrado por estabelecimento conforme farta orientação jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça, ao contrário do entendimento adotado por esta Câmara. Ocorre que, no caso em apreço, tendo em vista que apenas há um único estabelecimento objeto da autuação, tal discussão não traz qualquer mudança. Afasto, portanto, as alegações da recorrente de inaplicabilidade do SAT ao presente lançamento. DA TAXA SELIC A recorrente alega ser inaplicável a utilização da taxa Selic. Não está com a razão. A incidência da taxa Selic é reconhecida pela Súmula CARF nº 4, de vinculação obrigatória aos membros deste CARF: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Conclusão Voto por dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para excluir do lançamento os fatos geradores ocorridos até a competência 09/2000, inclusive, pela Fl. 1205DF CARF MF 18 homologação tácita do crédito, de acordo com o artigo 150, § 4º, do Código Tributário Nacional. ASSIM VOTOU O CONSELHEIRO NA SESSÃO DE JULGAMENTO. (assinado digitalmente) João Bellini Júnior Redator ad hoc Fl. 1206DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.722977/2013-32
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu May 04 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008
OMISSÃO DE RECEITAS. VALORES DE DEVOLUÇÃO E CANCELAMENTO DE VENDAS OU DE SERVIÇOS REGISTRADOS NA CONTABILIDADE SEM DOCUMENTAÇÃO COMPROBATÓRIA A LHES DAR LASTRO.
Caracterizam-se como prova direta da omissão de receitas, os valores escriturados pelo sujeito passivo em sua contabilidade a título de devoluções, cancelamento ou redução de vendas e/ou serviços sem que tenham sido apresentados à Autoridade Fiscal os necessários e correspondentes documentos que comprovem tais operações, mormente quando a fiscalizada não atende às intimações para sua apresentação.
ANTECIPAÇÕES E RETENÇÕES NA FONTE. UTILIZAÇÃO.
Quando for constatada omissão de receitas não cabe a dedução dos valores antecipados ou retidos na fonte que se encontrem escriturados e que tenham sido utilizados pelo sujeito passivo na apuração de suas bases de cálculo.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CONSEQUÊNCIAS.
Na medida em que as exigências reflexas têm por base os mesmos fatos que ensejaram o lançamento do imposto de renda, a decisão de mérito prolatada naquele constitui prejulgado na decisão dos autos de infração decorrentes.
ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO
LIVROS CONTÁBEIS. ESCRITURAÇÃO. DOCUMENTOS COMPROBATÓRIOS.
A escrituração só faz prova a favor do contribuinte se suportada por documentos hábeis, idôneos e contemporâneos aos fatos e registrada em livros revestidos das formalidades intrínsecas e extrínsecas impostas por lei.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2008
Nos termos da Súmula 103 do CARF, não se conhece de recurso de ofício que suplante o limite de alçada vigente à data de sua apreciação em segunda instância.
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso de ofício em função do limite de alçada. Por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e votos que passam a integrar o presente julgado. Vencido o Conselheiro Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira que votou por dar provimento. Designado o Conselheiro Paulo Mateus Ciccone para redigir o voto vencedor.
Leonardo de Andrade Couto - Presidente.
Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira - Relator.
Paulo Mateus Ciccone - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Leonardo de Andrade Couto (Presidente), Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella e Demetrius Nichele Macei.
Numero da decisão: 1402-002.399
Decisão:
Nome do relator: LUCAS BEVILACQUA CABIANCA VIEIRA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2008 OMISSÃO DE RECEITAS. VALORES DE DEVOLUÇÃO E CANCELAMENTO DE VENDAS OU DE SERVIÇOS REGISTRADOS NA CONTABILIDADE SEM DOCUMENTAÇÃO COMPROBATÓRIA A LHES DAR LASTRO. Caracterizam-se como prova direta da omissão de receitas, os valores escriturados pelo sujeito passivo em sua contabilidade a título de devoluções, cancelamento ou redução de vendas e/ou serviços sem que tenham sido apresentados à Autoridade Fiscal os necessários e correspondentes documentos que comprovem tais operações, mormente quando a fiscalizada não atende às intimações para sua apresentação. ANTECIPAÇÕES E RETENÇÕES NA FONTE. UTILIZAÇÃO. Quando for constatada omissão de receitas não cabe a dedução dos valores antecipados ou retidos na fonte que se encontrem escriturados e que tenham sido utilizados pelo sujeito passivo na apuração de suas bases de cálculo. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CONSEQUÊNCIAS. Na medida em que as exigências reflexas têm por base os mesmos fatos que ensejaram o lançamento do imposto de renda, a decisão de mérito prolatada naquele constitui prejulgado na decisão dos autos de infração decorrentes. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO LIVROS CONTÁBEIS. ESCRITURAÇÃO. DOCUMENTOS COMPROBATÓRIOS. A escrituração só faz prova a favor do contribuinte se suportada por documentos hábeis, idôneos e contemporâneos aos fatos e registrada em livros revestidos das formalidades intrínsecas e extrínsecas impostas por lei. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2008 Nos termos da Súmula 103 do CARF, não se conhece de recurso de ofício que suplante o limite de alçada vigente à data de sua apreciação em segunda instância. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso de ofício em função do limite de alçada. Por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e votos que passam a integrar o presente julgado. Vencido o Conselheiro Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira que votou por dar provimento. Designado o Conselheiro Paulo Mateus Ciccone para redigir o voto vencedor. Leonardo de Andrade Couto - Presidente. Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira - Relator. Paulo Mateus Ciccone - Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Leonardo de Andrade Couto (Presidente), Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella e Demetrius Nichele Macei.
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VALORES DE DEVOLUÇÃO E CANCELAMENTO DE VENDAS OU DE SERVIÇOS REGISTRADOS NA CONTABILIDADE SEM DOCUMENTAÇÃO COMPROBATÓRIA A LHES DAR LASTRO. Caracterizamse como prova direta da omissão de receitas, os valores escriturados pelo sujeito passivo em sua contabilidade a título de devoluções, cancelamento ou redução de vendas e/ou serviços sem que tenham sido apresentados à Autoridade Fiscal os necessários e correspondentes documentos que comprovem tais operações, mormente quando a fiscalizada não atende às intimações para sua apresentação. ANTECIPAÇÕES E RETENÇÕES NA FONTE. UTILIZAÇÃO. Quando for constatada omissão de receitas não cabe a dedução dos valores antecipados ou retidos na fonte que se encontrem escriturados e que tenham sido utilizados pelo sujeito passivo na apuração de suas bases de cálculo. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CONSEQUÊNCIAS. Na medida em que as exigências reflexas têm por base os mesmos fatos que ensejaram o lançamento do imposto de renda, a decisão de mérito prolatada naquele constitui prejulgado na decisão dos autos de infração decorrentes. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO LIVROS CONTÁBEIS. ESCRITURAÇÃO. DOCUMENTOS COMPROBATÓRIOS. A escrituração só faz prova a favor do contribuinte se suportada por documentos hábeis, idôneos e contemporâneos aos fatos e registrada em livros revestidos das formalidades intrínsecas e extrínsecas impostas por lei. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2008 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 72 29 77 /2 01 3- 32 Fl. 3806DF CARF MF 2 Nos termos da Súmula 103 do CARF, não se conhece de recurso de ofício que suplante o limite de alçada vigente à data de sua apreciação em segunda instância. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso de ofício em função do limite de alçada. Por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e votos que passam a integrar o presente julgado. Vencido o Conselheiro Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira que votou por dar provimento. Designado o Conselheiro Paulo Mateus Ciccone para redigir o voto vencedor. Leonardo de Andrade Couto Presidente. Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira Relator. Paulo Mateus Ciccone Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Leonardo de Andrade Couto (Presidente), Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella e Demetrius Nichele Macei. Relatório Diante do objetivo relato empreendido pela DRJ de Porto Alegre quando do julgamento da impugnação adotoo como em sua integralidade complementandoo ao final no que necessário. "Trata o processo de autos de infração de IRPJ (fls. 3564/3571); de CSLL (fls. 3572/3578); de COFINS (fls. 3580/3587) e de PIS/PASEP (fls. 3588/3596), exigindo um crédito tributário total de R$ 11.404.063,69. De acordo com o Termo de Constatação de folhas 3553 a 3563, o contribuinte foi intimado, em 23/03/2012 e 13/03/2012, a comprovar Fl. 3807DF CARF MF Processo nº 19515.722977/201332 Acórdão n.º 1402002.399 S1C4T2 Fl. 3.807 3 com documentos hábeis e idôneos os registros contábeis efetuados em contas de cancelamentos de revendas de produtos, mercadorias e de prestações de serviços. Depois de diversas solicitações de prorrogação de prazos deferidas, o contribuinte apresentou cópias de notas fiscais de venda, notas fiscais de entrada e notas fiscais de devoluções, deixando, entretanto, de comprovar uma série de lançamentos, conforme relação às folhas 3554 a 3557, que totalizaram R$ 1.750.398,48; R$ 4.192.542,95; R$ 5.234.004,31 e R$ 4.391.075,08, no primeiro, segundo, terceiro e quarto trimestres de 2008, respectivamente. Em conseqüência, os referidos valores foram considerados como omissão de receitas para fins de constituição do crédito tributário. O contribuinte apresentou a impugnação de folhas 3600 a 3630, alegando que a fiscalização efetuou o lançamento baseandose em presunções não previstas em lei e sem mesmo provar o fato indiciário. Não provou que houve auferimento de rendas ou de receitas, em evidente inobservância do art. 142 do CTN, visto que o autuante não logrou êxito em verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação, nem mesmo a matéria tributável. Alega erro nas apurações do IRPJ e da CSLL, pois o autuante não recompôs a sua apuração, deixando de considerar todas as antecipações pagas e retenções sofridas durante todo o anocalendário da autuação, que implicariam no lançamento a menor de R$ 1.311.114,09 de IRPJ e R$ 372.708,56 de CSLL. Desse modo, identificado erro no pressuposto de direito, ferese a substância da exigência e surge a necessidade do cancelamento dos autos de infração, conforme a própria CoordenaçãoGeral de Tributação – COSIT – determina na Solução de Consulta Interna nº 23, de 21 de dezembro de 2006, e Ato Declaratório Normativo nº 58 de 7 de outubro de 1994. Alega ter ocorrido a decadência em relação aos fatos geradores do PIS/Pasep e Cofins dos meses de janeiro a novembro de 2008, tendo em vista o disposto no art. 150, § 4º do CTN. O mesmo acontece se a decadência for analisada sob a ótica do art. 173, I, do referido Código." Diante dos argumentos expendidos a DRJ de Porto Alegre entendeu que assistia razão ao contribuinte apenas no que respeita ao último argumento considerando que "em havendo pagamento o termo inicial da prescrição é a data da ocorrência do fato gerador", portanto, decaído o direito de lançamento de PIS/COFINS de janeiro a novembro de 2008. A decisão restou, ao final, assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 IRPJ/CSLL/PIS/COFINS. DEVOLUÇÃO/CANCELAMENTO DE VENDAS. COMPROVAÇÃO. Os valores contabilizados a título devolução ou cancelamento de vendas devem estar lastreados em documentos hábeis, cuja prova é encargo do sujeito passivo. Fl. 3808DF CARF MF 4 IRPJ/CSLL/PIS/COFINS. DEVOLUÇÃO/CANCELAMENTO DE VENDAS. A falta de comprovação de devoluções de vendas de mercadorias, produtos ou serviços caracterizase como omissão de receitas por reduzir as bases tributáveis dos tributos e contribuições. IRPJ/CSLL/PIS/COFINS. ANTECIPAÇÕES E RETENÇÕES NA FONTE. Quando for constatada omissão de receitas não cabe a dedução dos valores antecipados ou retidos na fonte que encontramse escriturados e que foram utilizados pelo sujeito passivo na apuração de suas bases de cálculo. PIS/PASEP/COFINS. DECADÊNCIA Nos casos de lançamento por homologação, havendo pagamento antecipado, o termo inicial para contagem do prazo decadencial é a data da ocorrência do fato gerador. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Em função do cancelamento parcial do auto de infração ante a constatação pela DRJ da ocorrência da decadência do direito de lançar PIS/COFINS referente ao período de janeironovembro de 2008 houve a interposição de Recurso de Ofício que merece ser enfrentado nos termos do RICARF. Mantido o crédito tributário de IRPJ e CSLL em função da omissão de receitas ante a ausência de comprovação das devoluções de vendas e notas fiscais canceladas a contribuinte interpõe o presente Recurso Voluntário por meio do qual argumenta basicamente a "inexistência de presunção legal de omissão de receita em cancelamento de Nota Fiscal ou devolução de vendas" (item II1) e que, no julgamento pela DRJ, houve alteração do critério jurídico na medida em que para "salvar" o lançamento empreendido a autoridade julgadora (fls.4 acórdão) alterou o critério de presunção de omissão de receita para redução indevida de base de cálculo de IRPJ e CSLL. Subsidiariamente, alega ainda a recorrente que esta presente vício de apuração de IRPJ/CSLL na medida em que a autoridade fiscal ao proceder o lançamento tributário tomando em conta as devoluções de vendas e notas fiscais canceladas ante a caracterização de omissão de receitas ignorou a existência de saldo negativo na medida em que sustenta ter ocorrido o pagamento com base em estimativas mensais. É o relatório. Fl. 3809DF CARF MF Processo nº 19515.722977/201332 Acórdão n.º 1402002.399 S1C4T2 Fl. 3.808 5 Voto Vencido Conselheiro Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira Relator 1. ADMISSIBILIDADE: O recurso é tempestivo e foi interposto por signatária devidamente legitimada, motivo pelo qual dele conheço. 2. NO MÉRITO: 2.1. Presunções legais de omissão de receitas: É regra basilar no direito que toda presunção implica em uma inversão do ônus da prova. Constatada determinada omissão de receitas em quaisquer das situações acima indicadas temse, automaticamente, uma inversão do ônus da prova incumbindo ao contribuinte demonstrar que não omitiu determinada receita ou rendimento do fisco na medida em que a atuação fisco limitarse a evidenciar meros indícios de que determinado fato implica situação suficiente e necessária para incidência tributária. As presunções de omissão de receita são classificadas pela doutrina como espécies de provas indiretas. A doutrina do Direito Tributário identifica duas espécies distintas: as legais e as simples (comuns). As presunções legais se subdividem em absolutas (jure et de jure) e relativas (juris tantum). As presunções absolutas não admitem prova em contrário ao fato presumido, já as relativas admitem prova contrária, reputandose verdadeiro o fato presumido até que a parte interessada prove o contrário. Temse, dessa forma, como ensina Maria Rita Ferragut (in Presunções no Direito Tributário, Dialética, São Paulo, 2001), uma prova indireta condutora da mesma ‘probabilidade fática’ da prova direta, in verbis: “Assim, tem a Administração Pública o deverpoder de investigar livremente a verdade material diante do caso concreto, analisando todos os elementos necessários à formação de sua convicção acerca da existência e conteúdo do fato jurídico, já que é uma constatação a prática de atos simulatórios por parte do contribuinte, visando diminuir ou anular o encargo fiscal. E essa liberdade pressupõe o direito de considerar fatos conhecidos não Fl. 3810DF CARF MF 6 expressamente previstos como indiciários de outros fatos, cujos eventos são desconhecidos de forma direta. A presunção homini de forma alguma significa que a tributação ocorrerá em mera verossimilhança, probabilidade ou verdade material aproximada. Pelo contrário, veiculará conclusão provável do ponto de vista fático, mas certa do jurídico. Por isso, resta uma vez mais observar que também a prova direta levanos à certeza jurídica e à probabilidade fática, já que não relata com certeza absoluta o evento, inatingível. Detém, apenas, maior probabilidade do fato corresponder à realidade sensível.” Em seu trabalho ‘Evasão Fiscal: o parágrafo único do artigo 116 do CTN e os limites de sua aplicação’ (in Revista Dialética de Direito Tributário n.º 67, Dialética, São Paulo), a mesma autora acrescenta: “As presunções assumem vital importância quando se trata de produzir provas indiretas acerca de atos praticados mediante dolo, fraude, simulação, dissimulação e máfé geral, tendo em vista que, nessas circunstâncias, o sujeito pratica o ilícito de forma a dificultar em demasia a produção de provas diretas. Os indícios, por essa razão, convertemse em elementos fundamentais para a identificação de fatos propositadamente ocultados para se evitar a incidência normativa.” Assim, concretizada a hipótese abstrata prevista na lei, a Fiscalização pode lançar mão da figura da presunção legal, como nos casos de omissão de receitas, oportunidade em que resta provocada, como dito, a chamada “inversão do ônus da prova”, cabendo ao contribuinte provar que o Fisco está equivocado. A falta de adequada comprovação impede o acolhimento do pleito (Código de Processo Civil, art. 373, II). O artigo 281, do RIR, prevê situações nas quais presente “presunção legal” que impõe ao contribuinte o ônus de provar a correção de seu procedimento sob pena de ver aquilo que era “presumido”, se tornar real e definitivo, caso não contrapostas provas robustas que infirmem tal presunção. Tais situações são verificadas, por exemplo, nos casos de omissão de receita no caso: (i) de depósitos bancários de origem não comprovada (art.42, Lei n.9430/1996; (ii) passivo fictício (art.40, da Lei n.9.430/1996 e (iii) saldo credor de caixa (art.12, p. 2º, DL1598/1977). Temse, ainda, que a presunção legal veiculada no art. 281 é relativa na medida em que comporta a possibilidade de a acusada elidir o trabalho do Fisco de perpetrar os lançamentos calcados na hipótese prevista no referido dispositivo, desde que carreie aos autos documentos, livros e comprovantes que destruam a pretensão da Autoridade Fiscal, visto que, como dito, a presunção tem cunho de relatividade. No caso ora em exame a autuação foi lavrada em função da Fiscalização presumir inadvertidamente que a recorrente auferiu receitas ou rendimentos decorrentes de notas fiscais canceladas. A autoridade fiscal partiu da presunção de que deixando a recorrente de apresentar a cópia física das notas fiscais devidamente escrituradas esta teria percebido receita tributável. Fl. 3811DF CARF MF Processo nº 19515.722977/201332 Acórdão n.º 1402002.399 S1C4T2 Fl. 3.809 7 Basicamente a autoridade fiscal tributou a partir do mero fato da recorrente não ter demonstrado as cópias físicas das notas fiscais canceladas, enquanto, ausente tal presunção legal a estabelecer tal ônus probatório. Considerando que inexistente previsão legal, ausente qualquer inversão do ônus da prova, logo, à autoridade fiscal incumbia demonstrar que aquelas notas fiscais não foram canceladas não sendo lícito imputar ao contribuinte realizar prova negativa. A legislação tributária federal prescreve expressamente que a exigência do crédito tributário federal, a partir do lançamento tributário, demanda a demonstração mediantes elementos de prova bastantes a ocorrência do fato gerador, nos termos do art.142 do CTN, que instrumentalizase, a partir do prescrito no art.9º, caput, do Decreto n.70.235/72: " A exigência do crédito tributário, a retificação do prejuízo fiscal e a aplicação da penalidade isolada serão formalizadas em auto de infração ou notificação de lançamento, distintos para cada imposto, contribuição ou penalidade, os quais deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito." Pois bem, a análise dos documentos que compõem todo o presente processo administrativo, desde os Termos e Intimações emitidos pela Fiscalização, passando pelas respostas da contribuinte, os autos de infração, o Relatório Fiscal, o Termo de Encerramento de Ação Fiscal, as diversas impugnações e os documentos juntados por ambas as partes, até se chegar a esta fase do julgamento, verificase que, ante a ausência de previsão legal a estabelecer inversão do ônus da prova, a Fiscalização não emprenhouse em demonstrar a ausência do cancelamento das notas fiscais, portanto, ausente qualquer rendimento a permitir a incidência de IRPJ e CSLL. Na doutrina brasileira Fabiana Del Padre Tomé é peremptória ao afirmar que "tendo em vista o caráter vinculado do lançamento e do ato de aplicação de penalidade tributária, é dever da autoridade administrativa certificarse da ocorrência ou não do fato jurídico desencadeador do liame obrigacional , o que só é possível mediante linguagem de provas" ( A prova no direito tributário. São Paulo: Noeses, 2006, p.292.) A Autoridade Fiscal ao adotar a falsa premissa de que se estaria diante de uma presunção legal a estabelecer uma inversão do ônus da prova deixou de demonstrar que de fato houve a percepção de receitas não se desincumbindo do dever da prova que havia ao que o auto de infração lavrado merece ser cancelado. Porventura fosse subsistente o auto de infração lavrado a recorrente argüiu que houve alteração do critério jurídico do lançamento pela DRJ de presunção de omissão de receita para redução indevida de base de cálculo na tentativa de "salvar" o auto lavrado; o que representaria ofensa ao art.146 do CTN. Fl. 3812DF CARF MF 8 Considerando que a fiscalização não diligenciou com seu dever de demonstração da inocorrência das vendas devolvidas o auto de infração merece ser cancelado de modo que o argumento subsidiário sustentado pela recorrente resta prejudicado. Recurso de Ofício: Por ocasião da impugnação do auto de infração lavrado a contribuinte sustentou a ocorrência da decadência das contribuições do PIS e COFINS de janeiro a novembro de 2008 sendo o crédito tributário mantido apenas em parte. Ante os valores que não foram mantidos a configurar a sucumbência parcial submetese a presente matéria a Recurso de Ofício ora posto em julgamento. A decisão proferida pela DRJ restou nessa parte assim ementada: PIS/PASEP/COFINS. DECADÊNCIA Nos casos de lançamento por homologação, havendo pagamento antecipado, o termo inicial para contagem do prazo decadencial é a data da ocorrência do fato gerador. A controvérsia gira em torno do marco inicial para contagem do prazo decadencial no lançamento por homologação que tais contribuições se encontram sujeitas: data da ocorrência do fato gerador ou data em que o tributo deveria ter sido recolhido. Para o contribuinte, nos termos em que lançado na peça impugnatória, "não é a circunstância de haver pagamento (ou não) que define o tipo do lançamento" (p.25); o que corroborou para fixação do entendimento pela DRJ que "havendo pagamento o termo inicial é a data da ocorrência do fato gerador". O entendimento fixado pela DRJ se encontra em consonância com a jurisprudência deste Eg. CARF ao que a decisão deve ser mantida nos exatos termos em que lavrada, vejamos: Fl. 3813DF CARF MF Processo nº 19515.722977/201332 Acórdão n.º 1402002.399 S1C4T2 Fl. 3.810 9 3. CONCLUSÃO: De todo o exposto voto por dar provimento ao Recurso Voluntário interposto pela contribuinte cancelando, assim, o auto de infração lavrado na medida em que ausente previsão legal para inversão do ônus da prova não tendo a Fiscalização cumprido com o dever de demonstrar que as vendas não foram devolvidas. Da análise da matéria do Recurso de Ofício voto por manter o entendimento da DRJ pela decadência do PIS/COFINS de janeiro a novembro de 2008 julgandoo, assim, improcedente, logo, crédito tributário cancelado. É como voto. Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira Relator Fl. 3814DF CARF MF 10 Voto Vencedor Em que pese o bem concatenado voto do ilustre relator, dele divirjo por fazer outra leitura dos autos, especialmente acerca da omissão de receita detectada pelo Fisco. As alegações da contribuinte, acatadas pelo voto vencido, foram no sentido de que os lançamentos de “omissão de receitas” perpetrados teriam se lastreado em “presunção”, o que imporia o dever da Autoridade Fiscal de “ao adotar a falsa premissa de que se estaria diante de uma presunção legal a estabelecer uma inversão do ônus da prova”, teria deixado de demonstrar que, “de fato houve a percepção de receitas não se desincumbindo do dever da prova que havia ao que o auto de infração lavrado merece ser cancelado”. Na mesma linha a manifestação de que a decisão a quo teria alterado o critério jurídico na intenção de “salvar” o lançamento, não mais tratando o tema como “presunção”, mas “redução indevida da base de calculo do IRPJ, da CSLL, do PIS e da COFINS”. (RV – fls. 3755). Data vênia, não é o que está estampado nos autos, bastando ver pela simples leitura dos artigos utilizados pela autoridade autuante para tipificar a infração que, em nenhum momento, o Fisco fez referência a “omissão de receita por presunção legal”. Veja se a reprodução do AI naquilo que interessa (fls. 3566): E, a seguir, a reprodução dos citados dispositivos regulamentares (com sua base legal): Conceito de Lucro Real Art. 247. Lucro real é o lucro líquido do período de apuração ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou Fl. 3815DF CARF MF Processo nº 19515.722977/201332 Acórdão n.º 1402002.399 S1C4T2 Fl. 3.811 11 autorizadas por este Decreto (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 6º). § 1º A determinação do lucro real será precedida da apuração do lucro líquido de cada período de apuração com observância das disposições das leis comerciais (Lei nº 8.981, de 1995, art. 37, § 1º). § 2º Os valores que, por competirem a outro período de apuração, forem, para efeito de determinação do lucro real, adicionados ao lucro líquido do período de apuração, ou dele excluídos, serão, na determinação do lucro real do período de apuração competente, excluídos do lucro líquido ou a ele adicionados, respectivamente, observado o disposto no parágrafo seguinte (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 6º, § 4º). § 3º Os valores controlados na parte "B" do Livro de Apuração do Lucro Real LALUR, existentes em 31 de dezembro de 1995, somente serão atualizados monetariamente até essa data, observada a legislação então vigente, ainda que venham a ser adicionados, excluídos ou compensados em períodos de apuração posteriores (Lei nº 9.249, de 1995, art. 6º). Seção III Conceito de Lucro Líquido Art. 248. O lucro líquido do período de apuração é a soma algébrica do lucro operacional (Capítulo V), dos resultados não operacionais (Capítulo VII), e das participações, e deverá ser determinado com observância dos preceitos da lei comercial (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 6º, § 1º, Lei nº 7.450, de 1985, art. 18, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 4º). Seção IV Ajustes do Lucro Líquido Adições Art. 249. Na determinação do lucro real, serão adicionados ao lucro líquido do período de apuração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 6º, § 2º): (...) II os resultados, rendimentos, receitas e quaisquer outros valores não incluídos na apuração do lucro líquido que, de acordo com este Decreto, devam ser computados na determinação do lucro real. Art. 251. A pessoa jurídica sujeita à tributação com base no lucro real deve manter escrituração com observância das leis comerciais e fiscais (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 7º). Parágrafo único. A escrituração deverá abranger todas as operações do contribuinte, os resultados apurados em suas Fl. 3816DF CARF MF 12 atividades no território nacional, bem como os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior (Lei nº 2.354, de 29 de novembro de 1954, art. 2º, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 25). Art. 277. Será classificado como lucro operacional o resultado das atividades, principais ou acessórias, que constituam objeto da pessoa jurídica (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 11). Parágrafo único. A escrituração do contribuinte, cujas atividades compreendam a venda de bens ou serviços, deve discriminar o lucro bruto, as despesas operacionais e os demais resultados operacionais (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 11, § 1º). Seção II Lucro Bruto Art. 278. Será classificado como lucro bruto o resultado da atividade de venda de bens ou serviços que constitua objeto da pessoa jurídica (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 11, § 2º). Parágrafo único. O lucro bruto corresponde à diferença entre a receita líquida das vendas e serviços (art. 280) e o custo dos bens e serviços vendidos Subseção III (Lei nº 6.404, de 1976, art. 187, inciso II). Subseção I Disposições Gerais sobre Receitas Receita Bruta Art. 279. A receita bruta das vendas e serviços compreende o produto da venda de bens nas operações de conta própria, o preço dos serviços prestados e o resultado auferido nas operações de conta alheia (Lei nº 4.506, de 1964, art. 44, e DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 12). Parágrafo único. Na receita bruta não se incluem os impostos não cumulativos cobrados, destacadamente, do comprador ou contratante, dos quais o vendedor dos bens ou o prestador dos serviços seja mero depositário. Receita Líquida Art. 280. A receita líquida de vendas e serviços será a receita bruta diminuída das vendas canceladas, dos descontos concedidos incondicionalmente e dos impostos incidentes sobre vendas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 12, § 1º). Art. 288. Verificada a omissão de receita, a autoridade determinará o valor do imposto e do adicional a serem lançados de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período de apuração a que corresponder a omissão (Lei nº 9.249, de 1995, art. 24). Sem necessidade de maiores digressões, não tratam estes dispositivos do RIR/1999 de “presunções”, estando estas literalmente definidas nos artigos 281 (Omissão de Fl. 3817DF CARF MF Processo nº 19515.722977/201332 Acórdão n.º 1402002.399 S1C4T2 Fl. 3.812 13 Receita por existência de Saldo Credor de Caixa, Falta de Escrituração de Pagamento, Manutenção no Passivo de Obrigações Pagas e Falta de Comprovação do Passivo), 282 (Suprimentos de Caixa) e 287 (Depósitos Bancários – artigo 42, da Lei nº 9.430/1996). O que os autos tratam, na verdade, é de ‘omissão de receitas” POR PROVA DIRETA, ou seja, o Fisco detectou a existência de inúmeros lançamentos contábeis de “devolução ou cancelamento de vendas” e intimou – diversas vezes – a recorrente a esclarecer o motivo destes “estornos de vendas” – que no fundo reduzem as bases imponíveis dos tributos objeto dos lançamentos aqui tratados e comprovar com documentação hábil e idônea as operações, procedimento absolutamente corriqueiro e consentâneo com os mais elementares princípios de auditoria e fiscalização. Nessa linha, como sabido, a escrituração só tem validade e faz prova a favor do sujeito passivo quando feita de acordo com as normas legais e preceitos contábeis vigentes e quando suportada por documentação correspondente, hábil, idônea e contemporânea aos fatos. Posta a matéria em seus devidos limites, é evidente que a contabilidade deve registrar TODOS os fatos contábeis que afetam a azienda, sejam relativos a contas patrimoniais ou de resultado, sob pena de não cumprir os fins a que se destina, sejam eles de natureza societária, empresarial, fiscal, tributária, etc, e que tais lançamentos devem possuir os necessários documentos que os comprovem, sob pena de serem vazios e sem nenhum propósito. A respeito, a legislação e normatização da matéria: Resolução CFC (Conselho Federal de Contabilidade nº 563/83, de 28/10/1983, que aprovou a NBC T 2 “Da Escrituração Contábil” – NBC T 2.1 “Das Formalidades da Escrituração Contábil”: 1 2.1.1 – A Entidade deve manter um sistema de escrituração uniforme dos seus atos e fatos administrativos, através de processo manual, mecanizado ou eletrônico. 2.1.2 – A escrituração será executada: a) em idioma e moeda corrente nacionais; b) em forma contábil; c) em ordem cronológica de dia, mês e ano; d) com ausência de espaços em branco, entrelinhas, borrões, rasuras, emendas ou transportes para as margens; e) com base em documentos de origem externa ou interna ou, na sua falta, em elementos que comprovem ou evidenciem fatos e a prática de atos administrativos. 2.1.2.1 – A terminologia utilizada deve expressar o verdadeiro significado das transações. 1 Referida Resolução, vigente à época dos fatos, foi revogada pela Resolução CFC nº 1.300/2011, de 18/03/2011, que aprovou a ITG 2000 Escrituração Contábil, sendo mantidas, na nova norma, essencialmente, as mesmas determinações do texto revogado, com as adaptações e ajustes resultantes das evoluções legislativa e administrativa ocorridas. Fl. 3818DF CARF MF 14 2.1.2.2 – Admitese o uso de códigos e/ou abreviaturas nos históricos dos lançamentos, desde que permanentes e uniformes, devendo constar, em elenco identificador, no "Diário" ou em registro especial revestido das formalidades extrínsecas. 2.1.3 – A escrituração contábil e a emissão de relatórios, peças, análises e mapas demonstrativos e demonstrações contábeis são de atribuição e responsabilidade exclusivas de Contabilista legalmente habilitado. 2.1.4 – O Balanço e demais Demonstrações Contábeis de encerramento de exercício serão transcritos no "Diário", completandose com as assinaturas do Contabilista e do titular ou representante legal da Entidade. Igual procedimento será adotado quanto às Demonstrações Contábeis elaboradas por força de disposições legais, contratuais ou estatutárias. 2.1.5 – O "Diário" e o "Razão" constituem os registros permanentes da Entidade. Os registros auxiliares, quando adotados, devem obedecer aos preceitos gerais da escrituração contábil, observadas as peculiaridades da sua função. No "Diário" serão lançadas, em ordem cronológica, com individuação, clareza e referência ao documento probante, todas as operações ocorridas, incluídas as de natureza aleatória, e quaisquer outros fatos que provoquem variações patrimoniais. 2.1.5.1 – Observado o disposto no "caput", admitese: a) a escrituração do "Diário" por meio de partidas mensais; b) a escrituração resumida ou sintética do "Diário", com valores totais que não excedam a operações de um mês, desde que haja escrituração analítica lançada em registros auxiliares. 2.1.5.2 – Quando o "Diário" e o "Razão" forem feitos por processo que utilize fichas ou folhas soltas, deverá ser adotado o registro "Balancetes Diários e Balanços". 2.1.5.3 – No caso de a Entidade adotar para sua escrituração contábil o processo eletrônico, os formulários contínuos, numerados mecânica ou tipograficamente, serão destacados e encadernados em forma de livro. 2.1.5.4 – O Livro Diário será registrado no Registro Público competente, de acordo com a legislação vigente. Adicionalmente (mas não menos relevantes), outros textos legislativos cuidam do tema: 1) √ RIR/1999 (Decreto nº 3.000): Art. 251. A pessoa jurídica sujeita à tributação com base no lucro real deve manter escrituração com observância das leis comerciais e fiscais (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 7º). Parágrafo único. A escrituração deverá abranger todas as operações do contribuinte, os resultados apurados em suas atividades no território nacional, bem como os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior (Lei nº 2.354, de 29 de novembro de 1954, art. 2º, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 25). Art. 276. A determinação do lucro real pelo contribuinte está sujeita à verificação pela autoridade tributária, com base no exame de livros e documentos Fl. 3819DF CARF MF Processo nº 19515.722977/201332 Acórdão n.º 1402002.399 S1C4T2 Fl. 3.813 15 de sua escrituração, na escrituração de outros contribuintes, em informação ou esclarecimentos do contribuinte ou de terceiros, ou em qualquer outro elemento de prova, observado o disposto no art. 922 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 9º). §1º A escri turação mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis , segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. Da Prova Art. 923. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 9º, § 1º). 2) √ Decretolei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: Art 7º O lucro real será determinado com base na escrituração que o contribuinte deve manter, com observância das leis comerciais e fiscais. Assim, inconcebível possa qualquer empresa manter registros contábeis sem apresentar comprovantes que os validem, de modo que ao Fisco, após os procedimentos de auditoria realizados e nos quais foi dada à recorrente toda a oportunidade de apresentar os documentos requisitados – que quedou infrutífera , ou seja, basicamente as simples “notas de devolução” que, por óbvio deveria possuir, não caberia outra medida que não a de perpetrar os lançamentos ora apreciados. Vejase (Termo de Constatação – fls. 3554): E aí se listam diversas devoluções, de valores expressivos, que resultaram nos valores imputados (TC – fls. 3558): Fl. 3820DF CARF MF 16 Não se olvide, ainda, que a ação fiscal foi finalizada em 2013 e este julgamento ocorre em 2017, ou seja, além do período sob fiscalização em que poderia ter comprovado as devoluções que teriam ocorrido, a recorrente ainda dispôs de mais de três anos para carrear aos autos os documentos questionados. Não o fez. Ora, existem normas e preceitos de observância direta pelas pessoas jurídicas estabelecidas, pelos profissionais responsáveis pela escrituração e por seus administradores e sócios, não se olvidando que a escrituração só faz prova a favor da pessoa jurídica quando revestida e dotada de todos os requisitos intrínsecos e extrínsecos que compõe sua estrutura e suportada por documentação idônea e contemporânea aos fatos. A respeito do tema: √ Decretolei nº 486, de 3 de março de 1969: Art. 8º Os livros e fichas de escrituração mercantil somente provam a favor do comerciante quando mantidos com observância das formalidades legais. √ Código Civil Brasileiro (Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002): Art. 226. Os livros e fichas dos empresários e sociedades provam contra as pessoas a que pertencem, e, em seu favor, quando, escriturados sem vício extrínseco ou intrínseco, forem confirmados por outros subsídios. Também a linha jurisprudencial: ASSUNTO: ESCRITURAÇÃO. FORÇA PROBANTE. A escrituração contábil mantida com observância das disposições legais somente faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados se forem comprovados por documentos hábeis e idôneos, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. (Acórdão CARF nº 1402000.290 – 09/11/2010 – Relator Antonio José Praga de Souza) Portanto, não tendo a recorrente conseguido apresentar os documentos probatórios que dariam substância aos lançamentos de estorno de vendas que consignou em sua Fl. 3821DF CARF MF Processo nº 19515.722977/201332 Acórdão n.º 1402002.399 S1C4T2 Fl. 3.814 17 escrituração (contas abaixo), o trabalho fiscal se robusteceu e as imputações foram feitas corretamente. Contas de redução de vendas da recorrente (cf. TC – fls. 3554): Quanto às arguições de que não teria a Fiscalização considerado as antecipações pagas e as eventuais retenções sofridas no anocalendário das autuações, como bem observado pela decisão recorrida (aqui adotada neste aspecto), tratamse de “valores escriturados e que já foram utilizados pelo contribuinte na apuração de suas bases de cálculos” (Ac. DRJ – fls. 3724) e acerca de uma possível desconsideração de prejuízos e base de cálculo negativa por ocasião dos lançamentos, basta verse os autos de infração de IRPJ e de CSLL para se comprovar a inocorrência deste fato. Confirase (AI – fls. 3567): Pelo exposto, encaminho meu voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário, mantendo a decisão recorrida naquilo que restou sob julgamento. É como voto. Brasília (DF), em 15 de fevereiro de 2017. (documento assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone – Redator designado Fl. 3822DF CARF MF 18 Fl. 3823DF CARF MF
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Numero do processo: 10510.002164/2007-50
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Dec 12 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/03/2003 a 31/12/2004
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Recurso Especial do Procurador Provido.
Numero da decisão: 9202-004.816
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Recurso Especial do Procurador Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Patrícia da Silva. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 51 0. 00 21 64 /2 00 7- 50 Fl. 480DF CARF MF Processo nº 10510.002164/200750 Acórdão n.º 9202004.816 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Gerson Macedo Guerra e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 10380.005876/200753. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202004.792, de 12/12/2016, proferido no julgamento do processo 10380.005876/200753, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202004.792): O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Fl. 481DF CARF MF Processo nº 10510.002164/200750 Acórdão n.º 9202004.816 CSRFT2 Fl. 0 3 Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 482DF CARF MF Processo nº 10510.002164/200750 Acórdão n.º 9202004.816 CSRFT2 Fl. 0 4 Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Fl. 483DF CARF MF Processo nº 10510.002164/200750 Acórdão n.º 9202004.816 CSRFT2 Fl. 0 5 Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. Fl. 484DF CARF MF Processo nº 10510.002164/200750 Acórdão n.º 9202004.816 CSRFT2 Fl. 0 6 § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há Fl. 485DF CARF MF Processo nº 10510.002164/200750 Acórdão n.º 9202004.816 CSRFT2 Fl. 0 7 que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Fl. 486DF CARF MF Processo nº 10510.002164/200750 Acórdão n.º 9202004.816 CSRFT2 Fl. 0 8 Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou Fl. 487DF CARF MF Processo nº 10510.002164/200750 Acórdão n.º 9202004.816 CSRFT2 Fl. 0 9 II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Fl. 488DF CARF MF Processo nº 10510.002164/200750 Acórdão n.º 9202004.816 CSRFT2 Fl. 0 10 Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Em face do acima exposto, voto por conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 489DF CARF MF
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Numero do processo: 11050.000719/2009-18
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 29 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed May 10 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Período de apuração: 09/04/2004 a 29/09/2004
PRESTAÇÃO DE DADOS DE EMBARQUE DE FORMA INTEMPESTIVA. INFRAÇÃO CARACTERIZADA.
A prestação de informação de dados de embarque, de forma intempestiva, por parte do transportador ou de seu agente é infração tipificada no artigo 107, inciso IV, alínea "e" do Decreto-Lei 37/66, com a nova redação dada pelo artigo 61 da MP 135/2003, que foi posteriormente convertida na Lei 10.833/2003.
ATIPICIDADE DA CONDUTA. INOCORRÊNCIA.
A infração cometida no caso concreto está prevista nos artigos 37 e 107, IV, "e", ambos do Decreto-Lei 37/66, com a redação dada pelo artigo 77 da Lei 10.833/04 c/c art. 44 da IN/SRF 28/94, com a redação dada pela IN/SRF 510/05.
AGENTE MARÍTIMO. REPRESENTANTE DO TRANSPORTADOR ESTRANGEIRO. RESPONSABILIDADE POR INFRAÇÕES. LEGITIMIDADE PASSIVA.
Respondem pela infração à legislação aduaneira, conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para a sua prática.
FALTA DE ELEMENTO ESSENCIAL. INOCORRÊNCIA.
A ausência de informações ou informações prestadas a destempo prejudicam o controle aduaneiro, e de modo finalístico, o Erário, nos termos do artigo 237 da Constituição Federal de 1988, de modo que no caso concreto não há violação ao artigo 113, § 2o do CTN.
Numero da decisão: 3401-003.465
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, negou-se provimento ao recurso voluntário apresentado, vencidos os Conselheiros André Henrique Lemos (relator), Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Hélcio Lafetá Reis e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, sendo designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida. Após votação inicial, restaram três teses em debate: (a) a encampada pelo relator; (b) a divergência aberta pelo Conselheiro Eloy Eros da Silva Nogueira, acompanhado pelos Conselheiros Fenelon Moscoso de Almeida, Rodolfo Tsuboi e Rosaldo Trevisan; e (c) a divergência aberta pelo Conselheiro Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, acompanhado pelos Conselheiros Hélcio Lafetá Reis e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, no sentido de cancelar a autuação por ter sido fundamentada em norma que não se encontrava vigente ao momento dos fatos. Apreciadas pelo colegiado, na forma regimental, as duas teses menos votadas, prevaleceu o posicionamento do Conselheiro Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, acompanhado por todos os demais conselheiros, exceto o relator. Confrontada a tese do Conselheiro Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, à qual aderiu o relator, com a do Conselheiro Eloy Eros da Silva Nogueira, prevaleceu esta, pela negativa de provimento. Processo julgado em 30/03/2017.
ROSALDO TREVISAN Presidente.
ANDRÉ HENRIQUE LEMOS - Relator.
FENELON MOSCOSO DE ALMEIDA - Redator Designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Hélcio Lafetá Reis (suplente), Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, Fenelon Moscoso de Almeida, André Henrique Lemos (relator), Rodolfo Tsuboi e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
Nome do relator: ANDRE HENRIQUE LEMOS
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 09/04/2004 a 29/09/2004 PRESTAÇÃO DE DADOS DE EMBARQUE DE FORMA INTEMPESTIVA. INFRAÇÃO CARACTERIZADA. A prestação de informação de dados de embarque, de forma intempestiva, por parte do transportador ou de seu agente é infração tipificada no artigo 107, inciso IV, alínea "e" do DecretoLei 37/66, com a nova redação dada pelo artigo 61 da MP 135/2003, que foi posteriormente convertida na Lei 10.833/2003. ATIPICIDADE DA CONDUTA. INOCORRÊNCIA. A infração cometida no caso concreto está prevista nos artigos 37 e 107, IV, "e", ambos do DecretoLei 37/66, com a redação dada pelo artigo 77 da Lei 10.833/04 c/c art. 44 da IN/SRF 28/94, com a redação dada pela IN/SRF 510/05. AGENTE MARÍTIMO. REPRESENTANTE DO TRANSPORTADOR ESTRANGEIRO. RESPONSABILIDADE POR INFRAÇÕES. LEGITIMIDADE PASSIVA. Respondem pela infração à legislação aduaneira, conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para a sua prática. FALTA DE ELEMENTO ESSENCIAL. INOCORRÊNCIA. A ausência de informações ou informações prestadas a destempo prejudicam o controle aduaneiro, e de modo finalístico, o Erário, nos termos do artigo 237 da Constituição Federal de 1988, de modo que no caso concreto não há violação ao artigo 113, § 2o do CTN. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 05 0. 00 07 19 /2 00 9- 18 Fl. 164DF CARF MF Processo nº 11050.000719/200918 Acórdão n.º 3401003.465 S3C4T1 Fl. 165 2 Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, negouse provimento ao recurso voluntário apresentado, vencidos os Conselheiros André Henrique Lemos (relator), Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Hélcio Lafetá Reis e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, sendo designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida. Após votação inicial, restaram três teses em debate: (a) a encampada pelo relator; (b) a divergência aberta pelo Conselheiro Eloy Eros da Silva Nogueira, acompanhado pelos Conselheiros Fenelon Moscoso de Almeida, Rodolfo Tsuboi e Rosaldo Trevisan; e (c) a divergência aberta pelo Conselheiro Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, acompanhado pelos Conselheiros Hélcio Lafetá Reis e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, no sentido de cancelar a autuação por ter sido fundamentada em norma que não se encontrava vigente ao momento dos fatos. Apreciadas pelo colegiado, na forma regimental, as duas teses menos votadas, prevaleceu o posicionamento do Conselheiro Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, acompanhado por todos os demais conselheiros, exceto o relator. Confrontada a tese do Conselheiro Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, à qual aderiu o relator, com a do Conselheiro Eloy Eros da Silva Nogueira, prevaleceu esta, pela negativa de provimento. Processo julgado em 30/03/2017. ROSALDO TREVISAN – Presidente. ANDRÉ HENRIQUE LEMOS Relator. FENELON MOSCOSO DE ALMEIDA Redator Designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Hélcio Lafetá Reis (suplente), Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, Fenelon Moscoso de Almeida, André Henrique Lemos (relator), Rodolfo Tsuboi e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). Relatório Tratase de recurso voluntário, cujo nascedouro se deu por meio de Auto de Infração que exige da contribuinte a multa pelo atraso na prestação de informações sobre veículo ou carga nele transportada, penalidade prevista no art. 107, inciso IV, alínea "e", do DL 37, de 1966, cuja redação foi alterada pela Lei 10.833, de 2003. No caso concreto, foi impingida a referida multa, referente a apuração de 19 (dezenove) atracações de navios com registros intempestivos dos dados de embarque, ou seja, informadas após 7 (sete) dias da data de embarque, conforme noticia o Auto de Infração, fl. 09, do presente PAF e a lista das várias Declarações de Despachos de Exportações DDE's (fl. 04 06), as quais correspondem aos fatos geradores de 09/04/2004 a 29/09/2004 (fl. 09). Fl. 165DF CARF MF Processo nº 11050.000719/200918 Acórdão n.º 3401003.465 S3C4T1 Fl. 166 3 Inconformada com a autuação, a contribuinte apresentou impugnação, tecendo os seguintes argumentos: a) ausência de tipicidade, vez que não deixou de prestar informações, bem como não é uma empresa de transporte internacional, tampouco um agente de carga, não havendo hipótese para seu enquadramento e não se prestando o art. 107, IV, "e" do DL 37/66 para este desiderato. b) ilegitimidade passiva, não podendo figurar no pólo passivo da autuação, posto que é mera agência de navegação marítima, age em nome do Armador e com este não se confunde, logo, não pode responder pessoalmente por eventuais tributos e/ou obrigações acessórias devidos com base no DL 37/66. Colacionou jurisprudência do E. STF (RE 87.138, de 1979); Súmula 192, do extinto TFR e também precedentes do STJ (AGREsp. 2003/01586385/PE, de 2004, REsp. 223836/RS, de 2005, REsp. 148683/SP, de 1998, REsp. 132.624/SP, de 2000, REsp. 724.295/PE, de 2005, REsp. 170997/SP, de 2005 e REsp. 640.895/PR, de 2004). c) desconstituição do auto de infração, pois é nítido que o método em que a Receita Federal agiu, dá ensejo, sem dúvidas, a declaração de nulidade. d) desobediência aos princípios da legalidade e da motivação, contrariando o art. 37, da CF/88, já que a Administração só respeitou o princípio da legalidade no atinente à impossibilidade de observância de disposição legal por parte da recorrente, mas no respeitante é (sic) sua conduta comissiva, quando devia ficar inerte foi ignorada. E ai (sic) reside a prova de que o fato que gerou o auto de infração não trouxe prejuízo algum, bem como qualquer dificuldade para os tramites (sic) normais da movimentação de carga no navio e, portanto, a multa é desnecessária e até abusiva. e) denúncia espontânea, sendo descabida a multa, pois as informações foram prestadas antes que o procedimento fiscal fosse instaurado, e por corolário, incidindo o art. 138 do CTN c/c art. 102 do DL 37/66. A DRJ/FLN apreciando todos os argumentos da contribuinte, manteve em parte a autuação, mantendose apenas a parte do crédito tributário referente ao fato gerador de 29/04/2004. Irresignada com a referida decisão, interpôs a contribuinte, recurso voluntário, basicamente repisando os argumentos asseverados em sua impugnação. Julgando o feito, a E. Turma deu provimento ao recurso voluntário, aplicando a denúncia espontânea para afastar a exigência da multa em comento. Cientificada do acórdão mencionado o Representante da Fazenda Nacional interpôs recurso especial suscitando divergência quanto à exoneração da penalidade em comento por aplicação da denúncia espontânea prevista no art. 102, § 2º, do Decretolei nº 37/1966, com a nova redação dada pela Lei 12.350, de 2010. O recurso foi admitido por intermédio de despacho do Presidente da Câmara recorrida, e o contribuinte apresentou contrarrazões. Fl. 166DF CARF MF Processo nº 11050.000719/200918 Acórdão n.º 3401003.465 S3C4T1 Fl. 167 4 A matéria submetida à Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF restringiuse, exclusivamente, à possibilidade de aplicar a denúncia espontânea após a alteração promovida pela Lei 12.350/2010, para afastar a exigência da multa pelo atraso na prestações de informações sobre veículo ou carga nele transportada. Em sede do recurso excepcional, aplicouse a sistemática prevista nos §§ 1º a 3º do art. 47 do RICARF (recursos repetitivos), dandose provimento parcial ao recurso interposto pela Fazenda Nacional, por voto de qualidade, para considerar inaplicável ao caso o instituto da denúncia espontânea ao caso concreto (art. 138 do CTN e art. 102 do DL 37/66), pois este não alcança as penalidades exigidas pelo descumprimento do dever instrumental caracterizado pelo atraso na prestação de informação à Administração. Citou o voto do relatorpresidente, precedente da 2a Turma Ordinária da 2a Câmara da 3a Seção, acórdão 310200.988, bem como o proferido no acórdão 3802002.314, e ainda, nos autos da AC 500599981.2012.404.7208/SC, da 2a Turma do TRF da 4a Região. Ato contínuo, decidiu que a denúncia espontânea é questão prejudicial de mérito, impedindo o julgamento das demais questões, devendo o processo retornar à instância a quo para apreciação das demais questões trazidas no recurso voluntário e que não foram objeto de deliberação da E. CSRF. Em razão disso, deuse ciência da decisão ao contribuinte, e após, ascenderam os autos para manifestação do Colegiado desta 3a Seção quanto aos demais argumentos expendidos pelo contribuinte em seu recurso voluntário. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro André Henrique Lemos, relator O recurso voluntário é tempestivo e preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. A questão se restringe na autuação fiscal, por ter a Recorrente, supostamente, infringido o art. 102, § 2º, do Decretolei nº 37/1966, com a nova redação dada pela Lei 12.350, de 2010, ou seja, tivera a Recorrente prestado informações no Siscomex, referente ao embarque no prazo superior a 7 (sete) dias como exige o ordenamento. Como se viu, o argumento da denúncia espontânea foi enfrentado e julgado em desfavor do contribuinterecorrente por decisão da E. CSRF, restando a análise dos demais temas, quais sejam: 1) Ilegitimidade passiva (já relatado). 2) Do não enquadramento da multa prevista na alínea "e", IV, art. 107, do DL 37/66 (ausência de tipicidade), também já relatado. 3) falta de elemento essencial para a validade da autuação disse o Recorrente que não há no caso concreto um fim específico e próprio que justificasse a Fl. 167DF CARF MF Processo nº 11050.000719/200918 Acórdão n.º 3401003.465 S3C4T1 Fl. 168 5 penalidade, a teor do art. 113, § 2° do CTN, sendo faltante o elemento essencial da finalidade "no interesse da arrecadação ou fiscalização dos tributos", não restando qualquer prejuízo arrecadatário ou fiscalizatório. O recurso voluntário merece prosperar em parte, somente no tocante à aplicação da multa no tempo, respeitando a vigência da Instrução Normativa 510, de 15/02/2005, como se perceberá a seguir. Quanto à legitimidade, entendo que os artigos 95, I do DL 37/66 c/c o artigo 135, II, do CTN, resolvem a questão, respectivamente: "Art. 94 Constitui infração toda ação ou omissão, voluntária ou involuntária, que importe inobservância, por parte da pessoa natural ou jurídica, de norma estabelecida neste DecretoLei, no seu regulamento ou em ato administrativo de caráter normativo destinado a completálos. Art. 95 Respondem pela infração: I conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie;(...)" "Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I as pessoas referidas no artigo anterior; II os mandatários, prepostos e empregados;(...)" Deste modo, na condição de agência marítima e mandatário do transportador estrangeiro, a Recorrente estava obrigada a prestar, tempestivamente, as informações no Siscomex, e assim não procedendo, cometeu a infração contida na alínea "e" do inciso IV do artigo 107 do DL 37/66, com a redação dada pelo artigo 77 da Lei 10.833/2003, respondendo, pessoalmente pela infração em comento. A Recorrente cita a Súmula 192 do extinto Tribunal Federal de Recursos: "O agente marítimo, quando no exercício exclusivo das atribuições próprias, não é considerado responsável tributário, nem se equipara ao transportador para efeitos do DecretoLei nº 37, de 1966." Esta Súmula restou superada ao longo do tempo, mormente pela redação do artigo 32, I do DL 37/66, dada pelo DL 2.472/1988 e do inciso II, do parágrafo único do mesmo artigo, dada pela MP 215835/2001: "Art . 32. É responsável pelo imposto: (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) I o transportador, quando transportar mercadoria procedente do exterior ou sob controle aduaneiro, inclusive em percurso interno; (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) Fl. 168DF CARF MF Processo nº 11050.000719/200918 Acórdão n.º 3401003.465 S3C4T1 Fl. 169 6 Parágrafo único. É responsável solidário: .(Redação dada pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) II o representante, no País, do transportador estrangeiro; (Redação dada pela Medida Provisória nº 215835, de 2001)" Demais disso, a solidariedade tributária passiva está contida nos artigos 121, parágrafo único, II, 124, I e II e 128, todos do CTN, respectivamente, a saber: "Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz se: II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; II as pessoas expressamente designadas por lei. Art. 128. Sem prejuízo do disposto neste capítulo, a lei pode atribuir de modo expresso a responsabilidade pelo crédito tributário a terceira pessoa, vinculada ao fato gerador da respectiva obrigação, excluindo a responsabilidade do contribuinte ou atribuindoa a este em caráter supletivo do cumprimento total ou parcial da referida obrigação." (grifei). A referida Súmula 192 do TFR também restou superada pela decisão do REsp 1.129.430/SP, relator ministro Luiz Fux, Primeira Seção, DJE de 14/12/2010, julgado em sede de recurso repetitivo, o qual assentou que o agente marítimo, no exercício exclusivo de atribuições próprias, no período anterior à vigência do DecretoLei nº 2.472/88 (que alterou o art. 32, do DecretoLei nº 37/66), não ostentava a condição de responsável tributário, porque inexistente previsão legal para tanto. Todavia, a partir da vigência do DecretoLei nº 2.2472/88 já não há mais óbice para que o agente marítimo figurasse como responsável tributário. Ademais, para os 2 (dois) primeiros argumentos tecidos pela Recorrente em seu voluntário, este E. Tribunal em inúmeros precedentes idênticos ao caso concreto já teve a oportunidade de se manifestar, mantendo as autuações, dentre outros, os acórdãos 3302 002.733, 3802003.962, 3403003.252, 3802001.127 e 3302002.732. Por economia, cito apenas a ementa do acórdão 3301002.972 (17/06/2016): "Assunto: Obrigações Acessórias Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004 AGENTE MARÍTIMO. LEGITIMIDADE PASSIVA. Por expressa determinação legal, o agente marítimo, representante do transportador estrangeiro no País, é responsável solidário com este em relação à exigência de tributos e penalidades decorrentes da prática de infração à Fl. 169DF CARF MF Processo nº 11050.000719/200918 Acórdão n.º 3401003.465 S3C4T1 Fl. 170 7 legislação tributária. O agente marítimo é, portanto, parte legítima para figurar no polo passivo do auto de infração. REGISTRO NO SISCOMEX DOS DADOS DE EMBARQUE. PRAZO. O registro dos dados de embarque no Siscomex em prazo superior a 7 dias, contados da data do efetivo embarque, para o transporte marítimo, caracteriza a infração contida na alínea "e", inciso IV, do artigo 107 do DecretoLei n° 37/66. Recurso de Ofício negado e Recurso Voluntário negado." Demais disso, impende consignar que a Recorrente, sendo parte em outros Processos Administrativos Fiscais PAF em casos de prestação de informações referente aos embarques, portanto, idênticos ao contido no presente feito , já obteve manifestação deste E. Tribunal, como são os processos resultantes dos acórdãos 3102002.072, 3102002.073, 3102 002.075 e 3102002.077, cuja ementa abaixo se refere ao primeiro acórdão (sendo as demais no mesmo sentido): "Assunto: Obrigações Acessória. Data do fato gerador: 11/06/2008. Multa pela Prestação de Informações em Desacordo com a Legislação. Agente Marítimo. Responsabilidade. Agente Marítimo que, em nome próprio, presta informações relativas ao embarque da mercadoria em desacordo com o estabelecido na legislação de regência, responde pela multa decorrente do descumprimento de obrigação acessória. Denúncia Espontânea. Obrigações Acessórias. Descabimento. As penalidades decorrentes do descumprimento de obrigação acessória não se beneficiam da excludente de responsabilidade fixada no art. 138 do CTN. Cobrança de Multa Isolada. Legalidade. A incidência de multa isolada, escora (sic) Insurgese (sic) ainda a recorrente contra a aplicabilidade, em abstrato, das multas que formam a exigência fiscal. Recurso Voluntário Negado." Portanto, no tocante às arguições de ilegitimidade passiva e atipicidade da conduta não tem razão a Recorrente. O terceiro argumento articulado pela Recorrente diz respeito a falta de elemento essencial, defendendo que o descumprimento do prazo não representaria qualquer prejuízo à arrecadação ou fiscalização dos tributos. O artigo 237 da Constituição Federal de 1988, dispõe: "Art. 237. A fiscalização e o controle sobre o comércio exterior, essenciais à defesa dos interesses fazendários nacionais, serão exercidos pelo Ministério da Fazenda." Fl. 170DF CARF MF Processo nº 11050.000719/200918 Acórdão n.º 3401003.465 S3C4T1 Fl. 171 8 Vêse que a fiscalização e o controle sobre o comércio exterior são essenciais à defesa dos interesses do Erário nacional, portanto, este os bens jurídicos tutelados, não podendo o descumprimento da obrigação acessória, nesta hipótese, se sobrepor àqueles. Neste particular fora o voto proferido no acórdão 3102002.073. Por estas razões, não há violação ao artigo 113, § 2o do CTN, como afirma a Recorrente. Por fim, entendo que a autuação deve ser cancelada com relação aos fatos geradores até o dia 15/02/2005, dia em que entrou em vigor a Instrução Normativa SRF 510/2005, vez que até esta data não existia no ordenamento ato regulamentar fixando prazo para prestar informações acerca dos embargos, ou seja, dar eficácia ao at. 37 do DL 37/66, com a redação dada pela Lei 10.833/2003. O artigo 37 da IN/SRF 28, de 27/04/1994 (DOU de 28/04/1994, seção 1, pág. 6167), não precisava o prazo para prestar as informações: "Art. 37. Imediatamente após realizado o embarque da mercadoria, o transportador registrará os dados pertinentes, no SISCOMEX, com base nos documentos por ele emitidos." (grifei). A precisão sobreveio com a alteração do mencionado texto normativo por meio da redação do artigo 1º da IN/SRF nº 510, de 14/02/2005 (Diário Oficial da União, Seção 1, 15/02/2005. p. 21): "Art. 37. O transportador deverá registrar, no Siscomex, os dados pertinentes ao embarque da mercadoria, com base nos documentos por ele emitidos, no prazo de dois dias, contado da data da realização do embarque." Vêse, portanto, que somente a partir de 15/02/2005 é que se fixou prazo para prestar as informações, logo, até esta data não se deve penalizar o contribuinte. Neste sentido são os votoscondutores dos acórdãos 3202.000.341 e 3102 002.073, este tendo como parte a própria Recorrente, a qual teve seu recurso voluntário provido em parte para afastar a exigência aos embarques anteriores a 15/02/2005, cuja ementa possui o seguinte teor: "Assunto: Obrigações Acessórias Data do fato gerador: 03/11/2009 Multa pela Prestação de Informações em Desacordo com a Legislação. Agente Marítimo. Responsabilidade. Agente Marítimo que, em nome próprio, presta informações relativas ao embarque da mercadoria em desacordo com o estabelecido na legislação de regência, responde pela multa decorrente do descumprimento de obrigação acessória. Fl. 171DF CARF MF Processo nº 11050.000719/200918 Acórdão n.º 3401003.465 S3C4T1 Fl. 172 9 Denúncia Espontânea. Obrigações Acessórias. Descabimento As penalidades decorrentes do descumprimento de obrigação acessória não se beneficiam da excludente de responsabilidade fixada no art. 138 do CTN. Cobrança de Multa Isolada. Legalidade A incidência de multa isolada, decorrente do descumprimento de obrigação acessória, encontrase plenamente amparada pela legislação que disciplina o Controle Aduaneiro. Registro Extemporâneo dos Dados de Embarque na Exportação. Multa do Art. 107, IV, “e” do DL 37/1966 (INsSrf 28/1994 e 510/2005). Vigência e Aplicabilidade. A expressão “imediatamente após, constante da vigência original do art. 37 da IN SRF no 28/1994, traduz subjetividade e não se constitui em prazo certo e induvidoso para o cumprimento da obrigação de registro do prazo de registro dos dados de embarque na exportação. Para os efeitos dessa obrigação, a multa que lhe corresponde, instituída no art. 107, IV, “e” do Decretolei no 37/1966, na redação dada pelo art. 77 da Lei no 10.833/2003, somente começou a ser passível de aplicação a partir de fatos ocorridos a partir de 15/2/2005, data em que a IN SRF no 510/2005 entrou em vigor e fixou prazo certo para o registro desses dados no Siscomex. Recurso Voluntário Provido em Parte." À mão de ilustrar, atualmente o prazo é de 7 (sete) dias para se prestar as informações pertinentes ao embarque, a teor da IN/SRF 1.096/2010, que deu nova redação ao multicitado art. 37. No caso concreto os fatos geradores são de 29/04/2004, logo, deve ser totalmente cancelado o presente auto de infração. Com essas considerações, dou provimento parcial ao recurso voluntário para afastar a multa referente aos fatos geradores (embarques) anteriores a 15/02/2005 que, no caso concreto abrange todos os fatos geradores da autuação. André Henrique Lemos Fl. 172DF CARF MF Processo nº 11050.000719/200918 Acórdão n.º 3401003.465 S3C4T1 Fl. 173 10 Voto Vencedor Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida, redator designado Com as vênias de praxe, dissinto do entendimento do eminente Relator no sentido da exclusão do auto de infração dos fatos geradores anteriores à IN/SRF nº 510, de 15/02/2005. Entendeu o Relator que a autuação deve ser cancelada com relação aos fatos geradores até o dia 15/02/2005, posto que, antes desta data, não existia regra fixadora de prazo para se implementar a eficácia do art. 37, do DL nº 37/66, na redação dada pelo art. 77, da Lei nº 10.833/03. Argúi a relatoria que o art. 37, da IN/SRF no 28, de 27/04/1994, ao estabelecer que as informações deveriam ser prestadas: "Imediatamente após realizado o embarque da mercadoria..", não precisava o prazo para prestar as informações e que a precisão somente sobreveio com a alteração do mencionado texto normativo por meio da redação do art. 1o, da IN/SRF no 510, de 14/02/2005. Com essas razões, propôs ao Colegiado fosse dado provimento parcial ao recurso voluntário. Entretanto, foi correta a fiscalização ao exigir a observância dos prazos de antecedência de prestação de informações, considerando intempestivos os registros dos dados informadas após 7 (sete) dias da data de embarque. O caput do art. 37, da IN/SRF no 28, de 27/04/1994 determina que "imediatamente" após realizado o embarque da mercadoria, o transportador deve registrar os dados pertinentes, no Sistema Siscomex, com base nos documentos por ele emitidos. Por sua vez, a Noticia Siscomex no 105, de 27/07/1994, esclareceu que o termo "imediatamente" deveria ser interpretado como em até 24 (vinte e quatro) horas. Posteriormente, de acordo com a Noticia Siscomex no 2, de 07/01/2005, o prazo passou a ser de 7(sete) dias para embarques por via marítima. Entendeu a divergência não ser adequado o entendimento de que antes da IN/SRF no 510, de 15/02/2005, não existia regra fixadora de prazo para se implementar a eficácia do art. 37, do DL no 37/66. A norma do art. 37, do DL no 37/66, possui plena eficácia para determinar a imediata prestação de informações. Ocorreu que, as Notícias Siscomex supracitadas, apenas, permitiram que os dados exigidos fossem fornecidos com menor antecedência, nos casos, 48 (quarenta e oito) horas [Noticia Siscomex no 105/94] e 7 (sete) dias [Noticia Siscomex no 2/05], após realizados os embarques, portanto, interpretando a lei tributária que define infrações de maneira mais favorável ao acusado, na linha do que determina o art. 112, do CTN. Fl. 173DF CARF MF Processo nº 11050.000719/200918 Acórdão n.º 3401003.465 S3C4T1 Fl. 174 11 Tendo em vista que a Recorrente não forneceu as informações imediatamente após realizados os embarques, tampouco, com a menor antecedência permitida, nos casos, 48 (quarenta e oito) horas [Noticia Siscomex no 105/94] e 7 (sete) dias [Noticia Siscomex no 2/05], não houve respeito aos prazos de antecedência previstos na legislação de regência em questão. Então, uma vez descumprida a obrigação acessória, não há como afastar a multa aplicada, pois, decorre de lei específica, na forma do art. 37, do DL no 37/66, na redação dada pelo art. 77, da Lei no 10.833/03, não havendo motivos, no caso, para afastar a aplicação ou deixar de observar lei válida. Assim, penso que a presente exigência fiscal, cujo objetivo é desestimular o descumprimento das obrigações aduaneiras, resulta de adequada subsunção dos fatos às normas que regem a matéria, de modo que não vislumbro argumentos capazes de invalidar o presente auto de infração. Pelo exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário, mantendose a exigência fiscal. Fenelon Moscoso de Almeida Fl. 174DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19985.721302/2013-30
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Mar 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2009
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ERRO MATERIAL. INTEMPESTIVIDADE. NULIDADE DO ACÓRDÃO.
Constatado equívoco no acórdão recorrido quanto à contagem do prazo recursal, acolhem-se os embargos declaratórios para reconhecer a nulidade do julgado, devido à existência de erro material.
RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO.
Deixa-se de apreciar o recurso voluntário interposto fora do prazo estabelecido no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972.
Embargos Acolhidos.
Numero da decisão: 2401-004.610
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos embargos de declaração, e, no mérito, acolhê-los, com efeitos infringentes, para: a) sanando a contradição apontada, declarar nulo o Acórdão 2401-004.383; e b) não conhecer do recurso voluntário, por intempestividade, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Lazarini - Presidente
(assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini, Maria Cleci Coti Martins, Carlos Alexandre Tortato, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira, Márcio de Lacerda Martins e Andréa Viana Arrais Egypto.
Nome do relator: CLEBERSON ALEX FRIESS
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2009 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ERRO MATERIAL. INTEMPESTIVIDADE. NULIDADE DO ACÓRDÃO. Constatado equívoco no acórdão recorrido quanto à contagem do prazo recursal, acolhem-se os embargos declaratórios para reconhecer a nulidade do julgado, devido à existência de erro material. RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO. Deixa-se de apreciar o recurso voluntário interposto fora do prazo estabelecido no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972. Embargos Acolhidos.
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DEDUÇÃO DE DESPESAS MÉDICAS Embargante FAZENDA NACIONAL Interessado MARIA LÚCIA REGNIER GUIMARÃES ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2009 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ERRO MATERIAL. INTEMPESTIVIDADE. NULIDADE DO ACÓRDÃO. Constatado equívoco no acórdão recorrido quanto à contagem do prazo recursal, acolhemse os embargos declaratórios para reconhecer a nulidade do julgado, devido à existência de erro material. RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE. NÃO CONHECIMENTO. Deixase de apreciar o recurso voluntário interposto fora do prazo estabelecido no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972. Embargos Acolhidos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 98 5. 72 13 02 /2 01 3- 30 Fl. 75DF CARF MF Processo nº 19985.721302/201330 Acórdão n.º 2401004.610 S2C4T1 Fl. 76 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos embargos de declaração, e, no mérito, acolhêlos, com efeitos infringentes, para: a) sanando a contradição apontada, declarar nulo o Acórdão 2401004.383; e b) não conhecer do recurso voluntário, por intempestividade, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Lazarini Presidente (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini, Maria Cleci Coti Martins, Carlos Alexandre Tortato, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira, Márcio de Lacerda Martins e Andréa Viana Arrais Egypto. Fl. 76DF CARF MF Processo nº 19985.721302/201330 Acórdão n.º 2401004.610 S2C4T1 Fl. 77 3 Relatório Tratamse de embargos de declaração opostos pela Fazenda Nacional, às fls. 66/69, contra o Acórdão nº 2401004.383, de minha relatoria, o qual está juntado conforme fls. 57/64. 2. Alega a embargante a existência de omissão no v. acórdão, dado que o recurso voluntário foi apresentado extemporaneamente. 2.1 Segundo a Fazenda Nacional, a contribuinte foi intimada da decisão de primeira instância em 14/3/2014 (fls. 48), porém interpôs o recurso voluntário somente em 17/4/2014 (fls. 50), ou seja, após transcorrido o lapso temporal de 30 (trinta) dias previsto em lei para sua apresentação. 3. Os autos digitais foram enviados à Procuradoria da Fazenda Nacional em 11/8/2016, conforme fls. 65, que interpôs os embargos de declaração em 25/8/2016 (fls. 70). 4. Os aclaratórios foram admitidos por meio de despacho do presidente da Turma, Conselheira Miriam Denise Xavier Lazarini, cujo processo foi devolvido para relatoria e inclusão em pauta de julgamento (fls. 72/73). É o relatório. Fl. 77DF CARF MF Processo nº 19985.721302/201330 Acórdão n.º 2401004.610 S2C4T1 Fl. 78 4 Voto Conselheiro Cleberson Alex Friess – Relator 5. Preenchidos os requisitos de admissibilidade dos embargos de declaração, passo ao exame de mérito (art. 65, § 1º, do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015). 1 6. Quanto à análise da tempestividade do recurso voluntário protocolado pela contribuinte, o votocondutor do acórdão recorrido posicionouse pelo atendimento do requisito de admissibilidade recursal, adotando o dia 17/3/2014 como data da ciência da decisão de primeira instância (item 4, fls. 59). 7. Acontece que o aviso de recebimento de fls. 48, relacionado à ciência do acórdão de primeira instância, contém 2 (duas) datas de entrega: (i) uma, em 14/3/2014, escrita pelo recebedor do objeto, constando ainda uma informação de insucesso de entrega em relação a essa mesma data, com a observação de "s/doc" (1ª tentativa); e (ii) outra, em 17/3/2014, constante do carimbo aposto pelos Correios. 8. Em visto disso, o voto deveria ter examinado as circunstâncias fáticas acima, ainda que após a deliberação do colegiado a Turma mantivesse a tempestividade do recurso voluntário. 9. Contudo, existe uma questão prejudicial à análise das ponderações da Fazenda Nacional. É que houve equívoco do relator na própria contagem do prazo de interposição do recurso voluntário protocolado pela contribuinte. 10. Como sabido, a análise dos requisitos de admissibilidade recursal configura matéria de ordem pública, não havendo óbice que a correção de erro material relativa à contagem do prazo recursal possa ser determinada em sede de embargos declaratórios, atribuindolhe, inclusive, efeitos infringentes. 1 Tempestividade, conforme §§ 3º, 5º e 6º do art. 7º da Portaria MF nº 527, de 9 de novembro de 2010. Fl. 78DF CARF MF Processo nº 19985.721302/201330 Acórdão n.º 2401004.610 S2C4T1 Fl. 79 5 11. Pois bem. Das decisões de primeira instância, cabe recurso voluntário dentro de trinta dias, contados da ciência do acórdão. Nesse sentido, prescreve o art. 33 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, "in verbis": Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão. 12. Segundo registrou o acórdão embargado, intimada em 17/3/2014, por via postal, da decisão do colegiado de primeira instância, às fls. 47/48, a recorrente apresentou recurso voluntário no dia 17/4/2014 (fls. 50/51). 13. Vale dizer, ao se adotar a ciência da decisão de primeira instância em 17/3/2014, segundafeira, por via postal, seria conferido à contribuinte prazo de trinta dias para interposição de recurso. Com isso, o termo do prazo recursal iniciaria em 18/3, terçafeira, e finalizaria no dia 16/4/2014, quartafeira. 14. Nada obstante, o recorrente protocolou seu recurso somente no dia 17/4/2014, ou seja, depois de transcorrido o lapso temporal previsto em lei para sua apresentação. 15. Esclareço que não identifiquei a existência de feriado, tampouco há informação nos autos de que a repartição não teve seu funcionamento normal nos dias de início e/ou término da contagem do prazo. 16. Destarte, mesmo nessa hipótese mais benéfica para a contribuinte no que se refere à fixação do termo inicial do prazo recursal, no dia 18/3, o recurso foi interposto a destempo. Caso adotada a ciência do acórdão de primeira instância em 14/3, como defende a Fazenda Nacional, a intempestividade é ainda mais evidente. 17. É de se reconhecer, portanto, a existência de erro material com a consequente nulidade do Acórdão nº 2401004.383, acostado às fls. 57/64. 18. Nula a decisão anterior, o recurso voluntário não deve ser conhecido, por intempestivo. A decisão "a quo" tornouse definitiva, nos termos do inciso I do art. 42 do Decreto nº 70.235, de 1972: Art. 42. São definitivas as decisões: I de primeira instância esgotado o prazo para recurso voluntário sem que este tenha sido interposto; (...) Conclusão Ante o exposto, voto por CONHECER dos embargos declaratórios e, no mérito, ACOLHER OS DECLARATÓRIOS, com efeitos infringentes, para: (i) declarar nulo o Acórdão nº 2401004.383, juntado às fls. 57/64, pela existência de erro material; e Fl. 79DF CARF MF Processo nº 19985.721302/201330 Acórdão n.º 2401004.610 S2C4T1 Fl. 80 6 (ii) não conhecer do recurso voluntário protocolado pela contribuinte, acostado às fls. 50/51, por intempestivo. É como voto (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess. Fl. 80DF CARF MF
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