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Numero do processo: 19515.721657/2011-01
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Aug 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2007
AUTO DE INFRAÇÃO. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. AUSÊNCIA APRESENTAÇÃO DOCUMENTOS FISCAIS. PENALIDADE INSCRITA LEGISLAÇÃO PREVIDENCIÁRIA. NORMA ESPECÍFICA.
A penalidade a ser aplicada em razão da ausência de apresentação de documentos pertinentes às contribuições previdenciárias ou sua exibição de maneira diversa da realidade ou omissa, na forma e nos prazos estabelecidos pelo Fisco, encontra supedâneo na legislação previdenciária, mais precisamente no artigo 33, §§ 2º e 3º , da Lei n° 8.212/91, c/c artigo 283, inciso II, alínea j, do Decreto n° 3.048/99 Regulamento da Previdência Social, o que afasta a aplicabilidade dos preceitos inscritos nos artigos 11, §§ 3º e 4º, e 12, inciso II, parágrafo único, da Lei nº 8.218/91, em face do princípio da especialidade das normas, impondo seja decretada a improcedência do lançamento escorado nestes últimos dispositivos legais.
Numero da decisão: 9202-007.167
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Patrícia da Silva - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício).
Nome do relator: PATRICIA DA SILVA
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2007 AUTO DE INFRAÇÃO. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. AUSÊNCIA APRESENTAÇÃO DOCUMENTOS FISCAIS. PENALIDADE INSCRITA LEGISLAÇÃO PREVIDENCIÁRIA. NORMA ESPECÍFICA. A penalidade a ser aplicada em razão da ausência de apresentação de documentos pertinentes às contribuições previdenciárias ou sua exibição de maneira diversa da realidade ou omissa, na forma e nos prazos estabelecidos pelo Fisco, encontra supedâneo na legislação previdenciária, mais precisamente no artigo 33, §§ 2º e 3º , da Lei n° 8.212/91, c/c artigo 283, inciso II, alínea j, do Decreto n° 3.048/99 Regulamento da Previdência Social, o que afasta a aplicabilidade dos preceitos inscritos nos artigos 11, §§ 3º e 4º, e 12, inciso II, parágrafo único, da Lei nº 8.218/91, em face do princípio da especialidade das normas, impondo seja decretada a improcedência do lançamento escorado nestes últimos dispositivos legais.
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ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2007 AUTO DE INFRAÇÃO. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. AUSÊNCIA APRESENTAÇÃO DOCUMENTOS FISCAIS. PENALIDADE INSCRITA LEGISLAÇÃO PREVIDENCIÁRIA. NORMA ESPECÍFICA. A penalidade a ser aplicada em razão da ausência de apresentação de documentos pertinentes às contribuições previdenciárias ou sua exibição de maneira diversa da realidade ou omissa, na forma e nos prazos estabelecidos pelo Fisco, encontra supedâneo na legislação previdenciária, mais precisamente no artigo 33, §§ 2º e 3º , da Lei n° 8.212/91, c/c artigo 283, inciso II, alínea “j”, do Decreto n° 3.048/99 Regulamento da Previdência Social, o que afasta a aplicabilidade dos preceitos inscritos nos artigos 11, §§ 3º e 4º, e 12, inciso II, parágrafo único, da Lei nº 8.218/91, em face do princípio da especialidade das normas, impondo seja decretada a improcedência do lançamento escorado nestes últimos dispositivos legais. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 72 16 57 /2 01 1- 01 Fl. 337DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). Relatório Temse a fls. 274/289 Recurso Especial de Divergência interposto pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional em face do Acórdão nº 2401003.533 – 4ª CÂMARA / 1ª Turma Ordinária, de 14 de maio de 2014, a fls. 263/272, o qual, por maioria de votos, deu provimento ao recurso voluntário interposto pela LEDERVIN INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA, consoante Ementa que se vos segue: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2007 AUTO DE INFRAÇÃO. DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. AUSÊNCIA APRESENTAÇÃO DOCUMENTOS FISCAIS. PENALIDADE INSCRITA LEGISLAÇÃO PREVIDENCIÁRIA. NORMA ESPECÍFICA. A penalidade a ser aplicada em razão da ausência de apresentação de documentos pertinentes às contribuições previdenciárias ou sua exibição de maneira diversa da realidade ou omissa, na forma e nos prazos estabelecidos pelo Fisco, encontra supedâneo na legislação previdenciária, mais precisamente no artigo 33, §§ 2º e 3º , da Lei n° 8.212/91, c/c artigo 283, inciso II, alínea “j”, do Decreto n° 3.048/99 Regulamento da Previdência Social, o que afasta a aplicabilidade dos preceitos inscritos nos artigos 11, §§ 3º e 4º, e 12, inciso II, parágrafo único, da Lei nº 8.218/91, em face do princípio da especialidade das normas, impondo seja decretada a improcedência do lançamento escorado nestes últimos dispositivos legais. Recurso Voluntário Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.. ACORDAM os membros do Colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso. Vencidos os conselheiro Kleber Ferreira de Araújo e Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, que negavam provimento. A) DA AUSÊNCIA DE NULIDADE NO LANÇAMENTO A Recorrente argumenta que “o v. acórdão ora recorrido destoa da jurisprudência consolidada em outras câmaras no ponto em que entendeu que eventual equívoco na indicação do fundamento legal no instrumento que consubstancia o lançamento é causa de nulidade”. Aduz a PGFN que “Em sentido diverso àquele propugnado pelo v. acórdão atacado, a 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção do Conselho de Contribuintes e a 2ª Fl. 338DF CARF MF Processo nº 19515.721657/201101 Acórdão n.º 9202007.167 CSRFT2 Fl. 338 3 Turma Especial da 2ª Câmara da 1ª Seção do Conselho de Contribuintes proferiram acórdãos no qual se verifica que a capitulação errônea do auto de infração, não é suficiente para provocar a nulidade do lançamento, ainda mais quando o fato está corretamente descrito na autuação fiscal, conforme previsão dos arts. 11, 59 e 60, do Decreto nº 70.235/72”. Para dar respaldo às suas alegações a Recorrente fez acostar aos autos a reprodução das ementas dos acórdãos paradigmas nº 1401000.894 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária e 1802001.296 – 2ª Turma Especial – 2ª Câmara, a fls. 277/279 B) DA NATUREZA DO VÍCIO O Recorrente alega existência de dissídio jurisprudencial quanto à natureza do vício. Aduz que o acórdão recorrido entendeu que o erro na fundamentação legal configura vício material enquanto que os acórdãos paradigmas, ao revés, entenderam que a natureza do vício nesse caso é formal. O recurso foi admitido, tãosomente quanto à este último item B. O contribuinte apresenta contrarrazões pela manutenção do a quo Na origem: Trata se de Auto de Infração (Descumprimento de Obrigação Acessória), lavrado em 05/12/2011, nos termos do artigo 293 do RPS, contra a contribuinte acima identificada, constituindose multa no valor de R$ 3.288.010,52 (Três milhões, duzentos e oitenta e oito mil e dez reais e cinquenta e dois centavos), com base no artigo 12, inciso III, parágrafo único, da Lei n° 8.218/1991. É o relatório Voto Conselheira Patrícia da Silva Relatora Entendo presentes todos os pressupostos de tempestividade e admissibilidade e, ainda que ressalvada minha posição pessoal desta instância superior não ser espaço ou ter competência para reapreciação de matérias de prova, sou minoria absoluta neste colegiado de modo que pelo princípio da colegiabilidade e eficiência, conheço o presente recurso. Entretanto, não entendo que deva prosperar em seus estritos termos: Com efeito, ao se debruçar sobre o tema o ilustre Conselheiro Igor Araújo Soares dissertou com muita propriedade afastando a penalidade inscrita na Lei n° 8.218/1991, em face da especificidade da Lei n° 8.212/91, a qual já contempla multa para casos dessa natureza, consoante se positiva do Acórdão n° 2401002.941, de onde peço vênia para transcrever ementa e excerto do voto e adotar como razões de decidir, in verbis: Fl. 339DF CARF MF 4 “Assunto: Obrigações Acessórias Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2006 Ementa: AUTO DE INFRAÇÃO. AUSÊNCIA DE APRESENTAÇÃO DE DOCUMENTOS CONTÁBEIS EM MEIO DIGITAL. INFORMAÇÕES RELATIVAS AO RECOLHIMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. LEGISLAÇÃO A SER APLICÁVEL. LEI 8.212/91. ART. 112 DO CTN. INFRAÇÃO AO ART. 33, 2o DA LEI 8.212/91. A não apresentação da documentação contábil em formato digital enseja infração ao disposto no art. 33, 2o da Lei 8.212/91, único dispositivo legal que deve ser aplicado no caso da exigência de informações acerca do cumprimento das obrigações relativas às contribuições previdenciárias. O dispositivo em comento se traduz em lei especial a ser aplicada no caso da inobservância da legislação previdenciária, que expressamente determina a obrigação do contribuinte em apresentar as informações em meio digital de acordo com os manuais e determinações documentos. Impossibilidade da aplicação da multa do artigo 12, inciso I e parágrafo único da Lei 8.218/91. Inteligência do art. 112 do CTN e do princípio da lex specialis derrogat lex generalis. Recurso Voluntário Provido. [...] Voto [...] Em virtude desse procedimento de fiscalização, foi lavrado o presente auto de infração, exigindo da Recorrente multa por não ter apresentado documentação requerida por meio de TIAD em meio digital infringindo, assim, as disposições da Lei 8.218/91, a seguir transcritas: Art.11. As pessoas jurídicas que utilizarem sistemas de processamento eletrônico de dados para registrar negócios e atividades econômicas ou financeiras, escriturar livros ou elaborar documentos de natureza contábil ou fiscal, ficam obrigadas a manter, à disposição da Secretaria da Receita Federal, os respectivos arquivos digitais e sistemas, pelo prazo decadencial previsto na legislação tributária. .(Redação dada pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) (Vide Mpv nº 303, de 2006) §1ºA Secretaria da Receita Federal poderá estabelecer prazo inferior ao previsto no caput deste artigo, que poderá ser diferenciado segundo o porte da pessoa jurídica. .(Redação dada pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) [...] §3ºA Secretaria da Receita Federal expedirá os atos necessários para estabelecer a forma e o prazo em que os arquivos digitais e sistemas deverão ser apresentados. (Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) Fl. 340DF CARF MF Processo nº 19515.721657/201101 Acórdão n.º 9202007.167 CSRFT2 Fl. 339 5 §4º Os atos a que se refere o § 3o poderão ser expedidos por autoridade designada pelo Secretário da Receita Federal. .(Incluído pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) E para tanto, sofreu a aplicação da seguinte multa: Art. 12 A inobservância do disposto no artigo precedente acarretará a imposição das seguintes penalidades: [...] III multa equivalente a dois centésimos por cento por dia de atraso, calculada sobre a receita bruta da pessoa jurídica no período, até o máximo de um por cento dessa, apresentação dos arquivos e sistemas. .(Redação dada pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) Analisando a Lei nº 8.212/91, não há dúvidas de que o fundamento legal da referida Multa e da própria Portaria indicada pela Lei 8.218/91, pode ser encontrado no art. 33, § 2o, da aludida Lei, que assim especifica: Art. 33. À Secretaria da Receita Federal do Brasil compete planejar, executar, acompanhar e avaliar as atividades relativas à tributação, à fiscalização, à arrecadação, à cobrança e ao recolhimento das contribuições sociais previstas no parágrafo único do art. 11 desta Lei, das contribuições incidentes a título de substituição e das devidas a outras entidades e fundos.(Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). [...] § 2o A empresa, o segurado da Previdência Social, o serventuário da Justiça, o síndico ou seu representante, o comissário e o liquidante de empresa em liquidação judicial ou extrajudicial são obrigados a exibir todos os documentos e livros relacionados com as contribuições previstas nesta Lei.(Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). Como é cediço, nos termos do art. 92 da Lei nº 8.212/91, a infração a qualquer dispositivo da Lei nº 8.212/91, para a qual não haja penalidade expressamente cominada, será verificada na forma que dispuser o Regulamento da Previdência Social. Nesse sentido, assim prevê o art. 283, inc. II, alínea “j”, do Decreto nº 3.048/99: “Art. 283.Por infração a qualquer dispositivo das Leis nos8.212e8.213, ambas de 1991, e10.666, de 8 de maio de 2003, para a qual não haja penalidade expressamente cominada neste Regulamento, fica o responsável sujeito a multa variável de R$ 636,17 (seiscentos e trinta e seis reais e dezessete centavos) a R$ 63.617,35 (sessenta e três mil, seiscentos e dezessete reais e trinta e cinco centavos), conforme a gravidade da infração, aplicandoselhe o disposto nos arts. 290 a292, e de acordo com os seguintes valores: (...) Fl. 341DF CARF MF 6 II a partir de R$ 6.361,73 (seis mil trezentos e sessenta e um reais e setenta e três centavos) nas seguintes infrações: (...) j) deixar a empresa, o servidor de órgão público da administração direta e indireta, o segurado da previdência social, o serventuário da Justiça ou o titular de serventia extrajudicial, o síndico ou seu representante, o comissário ou o liquidante de empresa em liquidação judicial ou extrajudicial, de exibir os documentos e livros relacionados com as contribuições previstas neste Regulamento ou apresentálos sem atender às formalidades legais exigidas ou contendo informação diversa da realidade ou, ainda, com omissão de informação verdadeira;” Constatase, portanto, que no âmbito das contribuições previdenciárias, há penalidade específica para a apresentação de documentos que não atendem as formalidades exigidas. Entretanto, a multa imposta tomou como base o art. 11, §§ 3º e 4º da Lei nº 8.218/91, com a redação dada pela MP nº 2.15835/ 01, tendo sido calculada com base no art. 12, inc. I e parágrafo único da Lei nº 8.218/91, que assim prescrevem: Ocorre que, tal fundamento legal advém da edição da Medida Provisória nº 2.15835/ 01, que dispõe, essencialmente, sobre a “legislação das Contribuições para a Seguridade Social COFINS, para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público PIS/ PASEP e do Imposto sobre a Renda”. No meu entender, tal dispositivo é nitidamente voltado para fins de regulamentação do PIS e da COFINS (e seus deveres instrumentais), haja vista que leva em consideração, para fins de apuração da penalidade, a receita bruta da empresa, bem como “o ano calendário em que as operações foram realizadas”. Assim, não há qualquer razão em se aplicar a referida legislação quando se está tratando sobre contribuição previdenciária (e respectivos deveres instrumentais), tendo em vista que esta possui regra de incidência totalmente dissociada do PIS e da COFINS, além do fato de que, como dito acima, possui legislação específica a penalizar a conduta descrita no Auto de Infração. Logo, também há de se considerar no presente caso, o disposto no art. 112 do CTN, a seguir: Art. 112. A lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades, interpretase da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvida quanto: I à capitulação legal do fato; II à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos; Fl. 342DF CARF MF Processo nº 19515.721657/201101 Acórdão n.º 9202007.167 CSRFT2 Fl. 340 7 III à autoria, imputabilidade, ou punibilidade; IV à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação. Em razão do exposto, voto pelo CONHECIMENTO DO RECURSO para DARLHE TOTAL PROVIMENTO, a fim de anular o lançamento por vício material.” A hipótese contemplada acima encontra consonância com o caso vertente, onde a contribuinte fora penalizada em virtude de ter deixado de apresentar no prazo estipulado pela fiscalização os livros digitais solicitados. Partindo dessas premissas, impõese adotar o mesmo entendimento acima esposado, sobretudo em face do princípio da especialidade das normas, devendo prevalecer a legislação previdenciária específica, a qual dispõe expressamente e estabelece multa para a conduta da contribuinte objeto do presente lançamento. Impossível considerar este vício de natureza formal. Desarte, NEGO provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Fl. 343DF CARF MF
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Numero do processo: 13836.000192/00-74
Turma: Primeira Câmara
Seção: Segundo Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Mon Feb 20 00:00:00 UTC 2006
Numero da decisão: 201-00.575
Decisão: RESOLVEM os Membros da Primeira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do Relator.
Matéria: PIS - proc. que não versem s/exigências de cred. Tributario
Nome do relator: Antonio Mario de Abreu Pinto
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Numero do processo: 10882.903366/2008-73
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Sep 10 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/03/2002 a 31/03/2002
NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA.
Não há ofensa à garantia constitucional do contraditório e da ampla defesa quando todos os fatos estão descritos e juridicamente embasados, possibilitando à contribuinte contestar todas razões de fato e de direito elencadas no despacho decisório.
PEDIDO DE DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO.
Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários adequada solução da lide, indefere-se, por prescindível, o pedido de diligência ou perícia.
PIS e COFINS. RECEITAS DE VENDAS A EMPRESAS SEDIADAS NA ZONA FRANCA DE MANAUS. INCIDÊNCIA.
Até julho de 2004 não há ato legal específico que conceda isenção ou outra forma de desoneração de PIS e COFINS nas vendas à Zona Franca de Manaus, a isso não bastando o art. 4º do Decreto-Lei nº 288/67.
Numero da decisão: 3402-005.430
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) que davam provimento em conformidade com o entendimento do Superior Tribunal de Justiça no AgRg no Ag 1.420.880/PE.
(assinado com certificado digital)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz de Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais de Laurentiis Galkowicz, Rodrigo Mineiro Fernandes, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado), Waldir Navarro Bezerra (Presidente).
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/03/2002 a 31/03/2002 NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. Não há ofensa à garantia constitucional do contraditório e da ampla defesa quando todos os fatos estão descritos e juridicamente embasados, possibilitando à contribuinte contestar todas razões de fato e de direito elencadas no despacho decisório. PEDIDO DE DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários adequada solução da lide, indeferese, por prescindível, o pedido de diligência ou perícia. PIS e COFINS. RECEITAS DE VENDAS A EMPRESAS SEDIADAS NA ZONA FRANCA DE MANAUS. INCIDÊNCIA. Até julho de 2004 não há ato legal específico que conceda isenção ou outra forma de desoneração de PIS e COFINS nas vendas à Zona Franca de Manaus, a isso não bastando o art. 4º do DecretoLei nº 288/67. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) que davam provimento em conformidade com o entendimento do Superior Tribunal de Justiça no AgRg no Ag 1.420.880/PE. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 2. 90 33 66 /2 00 8- 73 Fl. 77DF CARF MF Processo nº 10882.903366/200873 Acórdão n.º 3402005.430 S3C4T2 Fl. 3 2 (assinado com certificado digital) Waldir Navarro Bezerra Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz de Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais de Laurentiis Galkowicz, Rodrigo Mineiro Fernandes, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado), Waldir Navarro Bezerra (Presidente). Fl. 78DF CARF MF Processo nº 10882.903366/200873 Acórdão n.º 3402005.430 S3C4T2 Fl. 4 3 Relatório Tratase de Declaração de Compensação (DCOMP) mediante a qual a contribuinte pretendeu extinguir débito com pretenso crédito com origem em pagamento indevido de contribuição social. A Delegacia da Receita Federal de origem emitiu Despacho Decisório Eletrônico de não homologação da compensação face a inexistência de crédito disponível para compensação. Cientificada do despacho, a contribuinte manifestou sua irresignação arguindo em síntese que o crédito utilizado na compensação teria origem em pagamento da contribuição na parcela calculada sobre vendas realizadas à Zona Franca de Manaus. Argumenta que as vendas à Zona Franca de Manaus (ZFM) no período em tela estavam imunes à incidência do PIS e da Cofins e, portanto, o pagamento teria sido feito a maior. Iniciando essa linha de argumentação, assevera que o art. 4° do DecretoLei (DL) n° 288, de 1967, equiparou, para todos os efeitos fiscais, as vendas realizadas a Zona Franca de Manaus a uma operação de exportação. Tal disposição, a seu ver, possui envergadura de norma de caráter complementar, e nesse nível de hierarquia teria sido incorporado ao ordenamento jurídico pela recepção que lhe deu a Constituição Federal de 1988, pelo artigo 40 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). Defende que o mesmo tratamento dado às exportações, aplicável às vendas realizadas à Zona Franca de Manaus, seria também extensível às vendas efetuadas para destinatários sediados nos municípios integrantes das Areas de Livre Comércio. Ao fim, requer o recebimento da presente manifestação de inconformidade com o seu regular efeito suspensivo da exigibilidade do crédito. Pleiteia ainda o reconhecimento do direito credit6rio referente aos recolhimentos indevidos ou a maior a titulo de PIS e Cofins incidentes sobre as receitas de vendas de mercadorias à Zona Franca de Manaus e a consequente a homologação da compensação.” Por meio do acórdão nº 0529.888, a DRJ não acolheu as razões de defesa da manifestante, mantendo a não homologação da compensação. Regularmente cientificado, o contribuinte tempestivamente apresentou seu Recurso Voluntário, repisando os argumentos apresentados em sua Manifestação de Inconformidade, acrescentando que não foi intimado pela fiscalização, em nenhum momento, a apresentar comprovantes da origem dos seus créditos e que, no despacho eletrônico proferido, também não foi apresentado nenhum argumento para que os créditos pleiteados fossem indeferidos. Fl. 79DF CARF MF Processo nº 10882.903366/200873 Acórdão n.º 3402005.430 S3C4T2 Fl. 5 4 Argumenta ainda que trouxe aos autos planilha comprovando que os créditos indicados no pedido de compensação são originados de pagamento indevido ao a maior, uma vez que efetuou vendas destinadas à Zona Franca de Manaus. O processo foi encaminhado a este Conselho para julgamento e posteriormente distribuído a este Relator. É o relatório. Voto Conselheiro Waldir Navarro Bezerra , Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3402005.398, de 24 de julho de 2018, proferido no julgamento do processo 10882.900443/200833, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3402005.398): "O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido. A questão trazida a este colegiado cingese sobre direito creditório não reconhecido pela constatação de utilização integral do pagamento na quitação de débitos do contribuinte. Também se discute, a partir das alegações trazidas na Manifestação de Inconformidade, o direito ao crédito do PIS e da COFINS nas operações com empresas situadas na Zona Franca de Manaus, que poderia lastrear o pleito inicial da interessada. Ainda que o Despacho Decisório nada tenha se manifestado acerca de qualquer documento probatório, o sujeito passivo, além de contestar a vinculação do pagamento, também argumentou quanto às razões pela qual entendia que parte do recolhimento seria indevido, por se referir a vendas realizadas à Zona Franca de Manaus. Segundo seu entendimento, tais vendas estariam imunes à incidência das contribuições, resultando em saldo recolhido à maior. A 3ª Turma da DRJ em Campinas não acolheu as razões de defesa do sujeito passivo, entendendo que o pretendido pagamento indevido teria origem no período de apuração 01/09/2002 a 30/09/2002, em relação ao qual a isenção em comento alcançaria apenas as receitas de vendas enquadradas nas hipóteses previstas nos incisos IV, VI, VIII e IX, do artigo 14 Fl. 80DF CARF MF Processo nº 10882.903366/200873 Acórdão n.º 3402005.430 S3C4T2 Fl. 6 5 da MP n°2.15835, de 2001. Segundo a turma julgadora, os autos não trazem comprovação suportada por documentação contábilfiscal da inclusão das receitas decorrentes das mencionadas operações isentas na base que serviu para o cálculo do pagamento formador do apontado indébito, não se podendo reconhecer o pretendido direito de crédito aproveitado na compensação. Preliminarmente, a recorrente alega nulidade do processo administrativo em razão da ausência de diligências na documentação que comprovaria o indébito tributário. Não assiste razão à recorrente. Conforme disposto no artigo 29 do PAF, as diligências são determinadas pela autoridade julgadora, na apreciação da prova, caso entenda necessárias, o que não é o caso. A recorrente não apresentou qualquer documento comprobatório do crédito pleiteado, nem na fase de impugnação, nem nesta fase recursal, em descumprimento do artigo 15 do PAF que determina a instrução dos documentos comprobatórios juntamente com a impugnação. Apenas uma planilha intitulada “VENDAS PARA A ZONA FRANCA DE MANAUS E AREAS DE LIVRE COMÉRCIO UNIDADE SUMARÉ SETEMBRO DE 2002” (fls.43) foi apresentada, sem nenhum documento comprobatório. A prova deve ser feita nos autos, não fora dele, e no momento oportuno. Destacase que o indeferimento do direito creditório foi motivado pela utilização do(s) pagamento(s) na quitação de outros débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Nenhuma prova contrária à tal constatação fiscal foi apresentada. Portanto, não resta configurada qualquer nulidade quanto à ausência de diligência. Em consequência, rejeitase o pedido de diligência. A recorrente alega cerceamento de seu direito de defesa, por entender que a decisão de primeira instância teria inovado o lançamento inicial. Segundo seu entendimento, o Despacho Decisório eletrônico não mencionou qualquer documento (físico ou eletrônico) que embasasse a glosa da compensação, limitandose apenas a mencionar que o crédito não existiria, imputando penalidade a Recorrente, sem qualquer análise da materialidade do crédito compensado. Também neste ponto não assiste razão à recorrente. Nenhuma inovação foi trazida aos autos pelo julgador de primeiro grau na apreciação da matéria, que apenas trouxe os fundamentos necessários para rechaçar as alegações do sujeito passivo trazidas na Manifestação de Inconformidade. Tratase Fl. 81DF CARF MF Processo nº 10882.903366/200873 Acórdão n.º 3402005.430 S3C4T2 Fl. 7 6 do pleno exercício do contraditório, que exige a plena fundamentação das decisões na apreciação de todos os pontos levantados pela defesa do contribuinte. A motivação do indeferimento do direito creditório continua sendo a inexistência de crédito. Dessa forma, também não está configurado qualquer cerceamento do direito de defesa da recorrente, visto que a questão foi por ela trazida e por ela novamente repisada em sua peça recursal. No mérito, a recorrente alega o direito ao crédito do PIS e da COFINS nas operações com empresas situadas na Zona Franca de Manaus. O tema foi objeto de julgamento repetitivo na 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, em processos cujo interessado foi a própria recorrente. Dessa forma, adoto no presente voto os fundamentos do Acórdão nº 9303003.934, de 07 de junho de 2016, da lavra do i. Conselheiro Júlio César Alves Ramos, a seguir reproduzido: “Fui incumbido de apontar as razões que levaram o colegiado, por voto de qualidade, a negar provimento ao recurso do contribuinte, sob o entendimento de que, até a redução a zero da alíquota da contribuição efetuada em julho de 2004, não havia qualquer dispositivo legal que concedesse isenção de COFINS às vendas para aquela área. O argumento inicial em sentido contrário buscaa na própria norma que criou a Zona Franca de Manaus. Segundo tal entendimento, o art. 4º do Decretolei 288, ao afirmar que as remessas para aquela região equiparavamse a exportação para o exterior, deveria ser estendido à COFINS, embora, cediço, ela somente tenha sido posteriormente criada. E isso porque tal extensão somente caberia se o citado decreto tivesse afirmado que as remessas de produtos para a Zona Franca de Manaus são exportação. Nesse caso, a equiparação valeria mesmo para outros efeitos, não fiscais. Poderia, para o que interessa, restringila a “todos os efeitos fiscais”. Se o tivesse feito, dúvida não haveria de que qualquer mudança posterior na legislação que viesse a afetar as exportações, no que tange a tributos, afetaria do mesmo modo e na mesma medida aquela zona. Mas já foi repetidamente assinalado que o artigo 4º daquele ato legal, embora traga de fato a expressão acima, apôs a ressalva “constantes da legislação em vigor”. Não vejo como essa restrição possa ser entendida de modo diverso do que tem sido Fl. 82DF CARF MF Processo nº 10882.903366/200873 Acórdão n.º 3402005.430 S3C4T2 Fl. 8 7 interpretado pela Administração: apenas os incentivos às exportações que já vigiam em 1 de fevereiro de 1967 estavam “automaticamente” estendidos à ZFM por força desse comando. E ponho a palavra entre aspas porque nem mesmo o Poder Executivo – e vale assinalar que estamos falando de um período de exceção, em que o Poder executivo quase tudo podia pareceu estar tão seguro desse automatismo, visto que fez editar, na mesma data, o Ato Complementar 35, cujo artigo 7º assegurou aquela extensão ao ICM. Pretendem alguns que ele teria alçado ao patamar de lei complementar a equiparação já prevista no decretolei. A meu ver, porém, tudo o que faz é definir com maior precisão o que se entende por produtos industrializados para efeito da não incidência de ICM nas exportações já prevista na Constituição de 67. Defineos no parágrafo 1º, recorrendo à tabela do então criado imposto sobre produtos industrializados (tabela anexa à Lei 4.502). No parágrafo segundo, estende, também para efeito de ICM, aquela imunidade às vendas a zonas francas. Essa interpretação me parece forçosa quando se sabe que, segundo a boa técnica legislativa, os parágrafos de um dado artigo não acrescentam matéria ao disposto no caput, apenas esclarecem sobre o alcance daquela matéria. E ao esclarecer podem impor uma definição restritiva, como no parágrafo primeiro, ou extensiva, como no segundo. O que não pode um simples parágrafo é tratar de matéria que não esteja contida no caput e nos seus incisos. E não parece haver dúvida de que aí apenas se cuida da imunidade do ICM. Assim, o ato legal nem previu imunidade genérica, nem estendeu ao IPI a imunidade do ICM. Ora, se a previsão do decretolei deveria alcançar “todos os efeitos fiscais” e já havia previsão de imunidade de ICM sobre produtos industrializados, para que tal parágrafo no ato complementar? Há, contudo, razões mais profundas do que a mera literalidade. É que a zona franca de Manaus não é meramente uma área livre de restrições aduaneiras, característica das chamadas zonas francas comerciais. O que se buscou com a sua criação foi induzir a instalação naquele distante rincão nacional de empresas de caráter industrial, que gerassem emprego Fl. 83DF CARF MF Processo nº 10882.903366/200873 Acórdão n.º 3402005.430 S3C4T2 Fl. 9 8 e renda para a região Norte. Para tanto, definiu se um conjunto de incentivos fiscais que, à época de sua criação, seria suficiente, no entender dos seus formuladores, para gerar aquela atração. Tais incentivos, e apenas eles, configuram diferenciação em favor dos produtos importados e industrializados naquela área. Foi essa diferença tributária que induziu a criação do parque industrial que ali se veio a instalar e, assim, é apenas a retirada de algum daqueles incentivos que pode ser tachada de “quebra de contrato”. A contrário senso, novos incentivos fiscais que se venham a instituir podem ou não ser a ela estendidos conforme entenda útil o legislador por ocasião de sua instituição. Isso não se dá automaticamente com os incentivos genéricos à exportação cujo objetivo comum tem sido a geração das divisas imprescindíveis ao pagamento dos compromissos internacionais durante tanto tempo somente alcançáveis por meio das exportações. Por óbvio, a ninguém escapa que vendas à ZFM não geram divisas. Diferentes, pois, os objetivos, nenhum automatismo se justifica. Prova desse raciocínio é que dois anos apenas após a criação da ZFM, inventaram os “legisladores executivos” de então novo incentivo à exportação, o malsinado “crédito prêmio” posteriormente tão combatido nos acordos de livre comércio a que o País aderia. Sua legislação expressamente incluiu a Zona Franca. Fêlo, no entanto, apenas para os casos em que, após serem “exportados” para lá, fossem dali efetivamente exportados para o exterior (“reexportados”, na linguagem do declei). Em outras palavras, já em 1969 dava o executivo provas de que aquela extensão nem era automática, nem tinha que se dar sem qualquer restrição. Logo, ainda que se avance na interpretação da norma, ultrapassando o método literal e adentrandose o histórico e o teleológico, se chega à mesma conclusão: o decretolei 288 apenas determinou a adoção dos incentivos fiscais à exportação já existentes e acresceu incentivos específicos voltados a promover o desenvolvimento da região menos densamente povoada de nosso território. Nessa linha de raciocínio, portanto, há de se buscar na legislação específica do PIS e da COFINS, Fl. 84DF CARF MF Processo nº 10882.903366/200873 Acórdão n.º 3402005.430 S3C4T2 Fl. 10 9 tributos somente instituídos após a criação da ZFM, dispositivo que preveja alguma forma de desoneração nas vendas àquela região, seja a não incidência, alíquota zero ou isenção. E não se precisa ir longe para ver que ela somente começa a existir em julho de 2004, com a edição da Medida Provisória 202. De fato, a “exclusão das receitas de exportação” da base de cálculo do PIS tratada na Lei 7.714 e a isenção da COFINS sobre receitas de exportação prevista na Lei Complementar 70 e objeto da Lei complementar 85 não incluíram expressamente as vendas à ZFM ainda que tenham estendido o benefício a outras operações equiparadas a exportação. Um exame cuidadoso dessas extensões vai revelar o que se disse acima: todas elas geram, imediata ou mediatamente, divisas internacionais. A conclusão que se impõe, assim, é que não havia, até o surgimento da Medida Provisória 1.858 qualquer benefício fiscal que desonerasse de PIS e de COFINS as receitas obtidas com a venda de produtos para empresas sediadas na ZFM. É certo que esse entendimento não era uníssono, muita peleja tendo se travado entre o fisco e os contribuintes que pretendiam estarem tais vendas amparadas pelos atos legais mencionados. E essas divergências somente se agravaram com a edição da MP, cuja redação padece de diversas inconsistências. Com efeito, tal MP, que revogou a Lei 7.714 e a Lei Complementar 85, disciplinando por completo a isenção das duas contribuições nas operações de exportação trouxe dispositivo expresso “excluindo” as vendas à ZFM. Isso, por óbvio, aguçou a interpretação de que já havia dispositivo isentivo e que esse dispositivo estava sendo agora revogado. Defendo que não, embora seja forçoso reconhecer que o dispositivo apenas criou desnecessário imbróglio. É que, nos termos constitucionais, a concessão de isenção requer lei específica1 , de modo que, ou se aceita que seja ela o decretolei ou ela não existe. Não se pode inferir que haja uma lei simplesmente porque um parágrafo em artigo de lei posterior a "exclua". Em outras palavras, há apenas dois caminhos interpretativos. O primeiro: se considera que o decretolei 288 fez uma equiparação genérica das Fl. 85DF CARF MF Processo nº 10882.903366/200873 Acórdão n.º 3402005.430 S3C4T2 Fl. 11 10 vendas àquela região a exportação e, portanto, qualquer ato posterior que concedesse benefício (isenção ou outro) a operações de exportação se aplicava imediatamente e automaticamente às vendas para lá. Nesse caso, a isenção concedida pela Lei Complementar 85 a elas se estende, mesmo não tendo ela sido expressamente referida no dispositivo. Essa interpretação contraria, a meu ver, o art. 150, § 6º da Constituição. Ou, como entendo eu, considerase que não havia dispositivo que concedesse isenção ou qualquer outra forma de desoneração àquelas vendas até a redução a zero de sua alíquota, promovida em 2004. Não contemplo um terceiro caminho. Com tais considerações, negouse provimento ao recurso do contribuinte.” Também não prospera qualquer argumento que aponte a obrigatoriedade do acatamento do entendimento do STF, exceto nos casos de repercussão geral reconhecida, conforme determina o RICARF, o que não é o caso. Ante o exposto, nego provimento ao recurso voluntário do sujeito passivo." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, o colegiado negou provimento ao recurso voluntário. (assinado com certificado digital) Waldir Navarro Bezerra Fl. 86DF CARF MF
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Numero do processo: 10830.724566/2012-53
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Oct 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/11/2007 a 31/12/2007
PRODUTOS ISENTOS. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS DO IPI. INEXISTÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL. IMPOSSIBILIDADE.
Por ausência de previsão legal, é inadmissível a apropriação, na escrita fiscal do estabelecimento industrial adquirente, de créditos do IPI sobre o valor de aquisição de insumos isentos, não tributados ou sujeitos a alíquota zero, uma vez que inexiste montante do imposto cobrado na operação anterior. A apropriação de crédito presumido ou ficto do imposto depende de autorização expressa de lei específica, a teor do que dispõe o § 6º do art. 150 da CF/1988, o que não aconteceu com a isenção, instituída no art. 9º do Decreto-lei 288/1967.
RECONSTITUIÇÃO DA ESCRITA FISCAL. SALDO DEVEDOR. RESSARCIMENTO. IMPOSSIBILIDADE.
A apuração de saldo devedor do IPI em reconstituição da escrita fiscal, decorrente de lançamento de ofício, impossibilita o reconhecimento do direito creditório pleiteado pela contribuinte.
Numero da decisão: 3301-004.816
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira
(assinado digitalmente)
Liziane Angelotti Meira - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira.
Nome do relator: LIZIANE ANGELOTTI MEIRA
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APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS DO IPI. INEXISTÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL. IMPOSSIBILIDADE. Por ausência de previsão legal, é inadmissível a apropriação, na escrita fiscal do estabelecimento industrial adquirente, de créditos do IPI sobre o valor de aquisição de insumos isentos, não tributados ou sujeitos a alíquota zero, uma vez que inexiste montante do imposto cobrado na operação anterior. A apropriação de crédito presumido ou ficto do imposto depende de autorização expressa de lei específica, a teor do que dispõe o § 6º do art. 150 da CF/1988, o que não aconteceu com a isenção, instituída no art. 9º do Decretolei 288/1967. RECONSTITUIÇÃO DA ESCRITA FISCAL. SALDO DEVEDOR. RESSARCIMENTO. IMPOSSIBILIDADE. A apuração de saldo devedor do IPI em reconstituição da escrita fiscal, decorrente de lançamento de ofício, impossibilita o reconhecimento do direito creditório pleiteado pela contribuinte. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira (assinado digitalmente) Liziane Angelotti Meira Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 72 45 66 /2 01 2- 53 Fl. 481DF CARF MF Processo nº 10830.724566/201253 Acórdão n.º 3301004.816 S3C3T1 Fl. 482 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira. Relatório Por bem descrever os fatos, adoto o relatório elaborado pela decisão recorrida (fls. 399/411), abaixo transcrito: Tratase de lançamento de ofício, fls. 03 a 06, lavrado contra a contribuinte acima identificada, com a exigência do crédito tributário do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, no valor total de R$ 2.147.689,53, incluídos multa de ofício no percentual de 75% e juros de mora calculados até 29/06/2012. Na Descrição dos Fatos, fl. 05, o autuante relata que no procedimento fiscal de verificação do cumprimento das obrigatórias tributárias apurou que o estabelecimento industrial não recolheu ou recolheu a menor o IPI, por ter se utilizado de crédito indevido, conforme descrito no termo de verificação, que é parte integrante deste auto de infração. Consta do Relatório Fiscal, fls. 18 a 40, dentre outras, as seguintes informações: “1) Crédito Indevido de IPI" ENTRADAS ISENTAS MANAUS" O contribuinte não recolheu o I.P.I, ou recolheu a menor o I.P.I. por se utilizar de créditos indevidos, com a rubrica "ENTRADAS ISENTAS MANAUS" abaixo discriminados, conforme constante do Livro Registro de Apuração do IPI. Tais valores referemse ao IPI relativo a aquisição de materiais isentos de IPI adquiridos na Zona Franca dc Manaus. Nesses casos o crédito de IPI é vedado, uma vez que inexiste o destaque de IPI nas notas fiscais de entradas. (...) Em suas respostas apresentadas através do Termo de Recebimento de Documentos de 01/03/2012 o contribuinte explicou que se creditou do IPI referente à aquisição de Fl. 482DF CARF MF Processo nº 10830.724566/201253 Acórdão n.º 3301004.816 S3C3T1 Fl. 483 3 preformas isentas de IPI industrializadas na Zona Franca de Manaus, classificadas na posição 3923.30.01 da TIPI, tributado pelo IPI à alíquota 0%, tendo apresentado diversas decisões judiciais e administrativas das quais o contribuinte não era parte. (...) A partir das análises das planilhas e das notas fiscais apresentadas pelo contribuinte através do Termo de Recebimento de Documentos de 01/03/2012, constatamos que o contribuinte não apresentou as cópias das notas fiscais de entrada abaixo relacionadas: O contribuinte foi intimado através do item 2) do Termo de Intimação Fiscal de 31/05/2012 a apresentar cópia das duas notas fiscais de entradas acima discriminadas, mas elas não foram apresentadas. Em todas as notas fiscais constantes das planilhas apresentadas pelo contribuinte inexiste o destaque de IPI, por se tratar de isenção IPI decorrente de aquisição de produtos industrializados na Zona Franca de Manaus. Vale ressaltar que os produtos são preformas, classificadas na posição 3923.30.01 da TIPI, é tributado pelo IPI à alíquota 0%. Inexistindo o destaque do IPI nas notas fiscais de entrada, é vedado o crédito de IPI, por faltarlhe o documento que lhe confira legitimidade, nos termos dos artigos 164, 190, 193 e 43 do R1P1/2002: (...) No presente caso, os valores de IPI que o contribuinte utilizou para se creditar não foram aqueles que constavam das Notas Fiscais de Entrada constantes das planilhas apresentadas pelo contribuinte, condição prescrita pelo Artigo 190 do RTPI/2002. Pelo contrário, o contribuinte indicou valores de IPI inexistentes nas notas fiscais, motivo pelo qual deverão ser glosados. (...) Nas planilhas apresentadas pelo contribuinte através do Termo de Recebimento de Documentos de 01/03/2012, o contribuinte corrigiu monetariamente o valor dos créditos presumidos de IPI em R$ 56.887,42, o que não possui amparo legal. Fl. 483DF CARF MF Processo nº 10830.724566/201253 Acórdão n.º 3301004.816 S3C3T1 Fl. 484 4 (...) Conforme se observa da reconstituição da escrita, tendo em vista a existência de saldo credor de IPI em dezembro/2007 no valor de R$ 1.370.752,97, este mesmo valor não foi cobrado no Auto de Infração, do qual o presente Termo é parte integrante e inseparável, tendo sido cobrado o valor principal de IPI de 2.343.364,17 – 1.370.752,97 = 972.611,20. Cientificado da exigência fiscal em 19/07/2012, a autuada apresentou, em 20/08/2012, impugnação de folhas 307 a 336, alegando em síntese que: ÞÞTem como principal objeto social a fabricação e comercialização de recipientes de plástico, notadamente preformas e tampas, a serem utilizados na indústria em geral; ÞÞMuitos desses insumos ou materiais, como os que se verificam no presente caso (preforma), são provenientes de empresas localizadas na Zona Franca de Manaus e beneficiários do incentivo de isenção do IPI, previsto no artigo 9º do Decreto nº 288/67 e legislação especifica; ÞÞEm razão dessa isenção de IPI, o Fisco glosou parte dos créditos da Impugnante, sob o argumento de que a ausência de destaque nas notas fiscais relativas à aquisição desses insumos e materiais e consequente ausência de recolhimento desse tributo impediria o creditamento do imposto; ÞÞContudo, tal argumento não pode prosperar, pois o creditamento dos valores de IPI relativos à aquisição de materiais isentos da Zona Franca de Manaus é perfeitamente legitimo e, inclusive, encontrase em perfeita consonância com o princípio da nãocumulatividade previsto constitucionalmente para esse imposto; ÞÞO art. 40 do ADCT da CF/88 determina tratamento diferenciado às saldas da Zona Franca de Manaus, o que assegura o direito de crédito da Impugnante, pois do contrário a isenção conferida aos contribuintes na Zona Franca de Manaus não teria qualquer efeito prático, de redução dos preços das mercadorias, o que aniquilaria a razão de ser da Zona Franca, na contramão da determinação constitucional de tratar mais beneficamente as operações com a Região; ÞÞA interpretação da Fiscalização sobre o princípio da não cumulatividade do IPI é equivocada. Entende que a expressão “cobrado” do texto constitucional como imposto destacado e pago, o que não é verdadeiro; Fl. 484DF CARF MF Processo nº 10830.724566/201253 Acórdão n.º 3301004.816 S3C3T1 Fl. 485 5 ÞÞ O artigo 153, § 3º, inciso II, da Carta Magna, dispõe que o direito ao crédito do imposto não está condicionado à incidência, ao efetivo destaque, e muito menos ao pagamento do IPI nas operações anteriores; ÞÞA norma constitucional, que garante o direito ao crédito do IPI, é totalmente autônoma em relação à norma que determina a imposição do tributo. Nessa relação autônoma, o direito de crédito não pode ser atingido pelas regras de exigência do tributo, o que torna irrelevante, para fins de creditamento, se há pagamento, se há destaque, etc, nas operações anteriores; ÞÞ Em suma, a expressão "cobrado" da Constituição, para o IPI, não é sinônimo de imposto pago, como pretende o Fisco; ÞÞO Código Tributário Nacional, em seu art. 49, também dispõe que o IPI tratase de um imposto nãocumulativo, cujo direito de crédito é inerente à operação autônoma do creditamento, pouco importando como foi tributada a operação anterior. O art. 225 do Regulamento do IPI também deixa clara a existência de relações autônomas entre a imposição do tributo e o direito de crédito; ÞÞ Tomese como exemplo, ainda, uma situação em que a Impugnante adquire insumos ou materiais para seu processo produtivo, mas o contribuinte na operação anterior não realiza o efetivo pagamento do IPI, muito embora ele fosse devido, nos termos da Lei. Existiria alguma mácula no direito de crédito da Impugnante? ÞÞTrazendo tais conceitos para o caso concreto, concluise que o fato de a operação anterior de aquisição de preformas pela Impugnante ser isenta (porque proveniente da Zona Franca de Manaus), não lhe impede o direito de crédito, como fez a Fiscalização, pois a relação jurídica do direito ao crédito não é afetada pela regra de incidência do IPI nessas operações anteriores, sendo essa a correta interpretação da expressão montante "cobrado" do texto constitucional; ÞÞ A autuação em comento encontrase em total contrariedade com a sistemática da nãocumulatividade do IPI, de modo que, também por essa razão, não merece prevalecer; ÞÞA vedação ao aproveitamento de tais créditos de IPI resultaria na anulação do específico benefício de isenção de IPI concedido às empresas situadas na Zona Franca de Manaus, já que em termos práticos a diminuição do preço do produto vendido (por conta da isenção) fica sem efeito, considerando que não há direito de crédito do IPI isentado da operação; ÞÞO que existe, diante da interpretação fiscal, é o mero diferimento de pagamento do IPI. Deixa de ser pago pelo contribuinte localizado na Zona Franca de Manaus e é suportado e pago pelo contribuinte que adquire os itens beneficiados; ÞÞ O objetivo da Zona Franca de Manaus, conforme determina o art. 1º do DecretoLei n° 288/1967, foi criar "no interior da Fl. 485DF CARF MF Processo nº 10830.724566/201253 Acórdão n.º 3301004.816 S3C3T1 Fl. 486 6 Amazônia um centro industrial, comercial e agropecuária dotado de condições econômicas que permitam seu desenvolvimento, em face dos fatores locais e da grande distância em que se encontram os centros consumidores de seus produtos"; ÞÞÉ ilegítima a interpretação da Fiscalização, de vedar o direito de apropriação de créditos pela Impugnante, em situações nas quais as aquisições de insumos ou materiais são beneficiados pela isenção ou alíquota 0 (zero), sob pena de se anular os benefícios concedidos às empresas situadas na Zona Franca de Manaus; ÞÞ Não há dúvidas de que, nessas situações, o direito de crédito deve ser assegurado, em atenção ao artigo 40 do ADCT e de todos os demais princípios constitucionais que dele decorrem, na medida em que, caso os aludidos créditos sejam vedados, empresas como a Impugnante, que adquirem insumos e materiais das empresas situadas na Zona Franca de Manaus, deixarão de fazêlo, já que tais aquisições não mais serão benéficas financeiramente. Assim, restarão totalmente anulados os benefícios que são atribuídos às empresas situadas na Zona Franca de Manaus, em violação ao artigo 40 do ADCT e DecretoLei nº 288/67. Cita entendimento dos tribunais superiores sobra a matéria, notadamente em relação ao ICMS; ÞÞ Os julgados colacionados pela Fiscalização não analisaram a específica situação da Zona Franca de Manaus, os aludidos arrestos apreciaram a questão da nãocumulatividade do IPI de forma genérica, sem se ater a nenhuma questão peculiar, tal como se vê no presente caso, onde há um benefício de isenção assegurado constitucionalmente para o desenvolvimento de uma região específica do País, como ocorre com as operações realizadas com a Zona Franca de Manaus; ÞÞ Estando o Recurso Extraordinário nº 592.891/SP afetado pelo instituto da repercussão geral, o entendimento do Supremo Tribunal Federal manifestado nesse caso será aplicado a todos os demais que discorram sobre a mesma matéria; ÞÞPortanto, por mais essa razão resta demonstrada a improcedência da autuação, devendo ser cancelado o Auto de Infração ora impugnado; ÞÞA Fiscalização alega que a Impugnante teria corrigido indevidamente pela taxa SELIC o valor dos créditos de IPI, procedimento que não encontraria amparo legal; ÞÞTendo a fiscalização demonstrado que são inúmeras as suas tentativas de impedir o creditamento de IPI relacionado à aquisição de insumos isentos adquiridos de empresas situadas na ZFM, verificase nítido óbice causado pelo Fisco a esse creditamento, o que enseja o direito da impugnante a essa atualização do valor dos créditos; Fl. 486DF CARF MF Processo nº 10830.724566/201253 Acórdão n.º 3301004.816 S3C3T1 Fl. 487 7 ÞÞRequer o sobrestamento do julgamento da presente impugnação, em razão da decretação da repercussão geral do tema objeto de discussão nesse processo (RE 592.891/SP), nos moldes do artigo 62A do Regimento Interno do CARF; ÞÞ Tendo em vista o acima exposto, requer a improcedência do Auto de Infração ora impugnado e reconhecida a legitimidade dos créditos de IPI relativos à entrada de insumos adquiridos pela Impugnante de empresas situadas na Zona Franca de Manaus, por todas as razões acima apresentadas. Analisada a manifestação de inconformidade, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (BA), julgou improcedente, conforme Acórdão nº 1534.7144ª Turma da DRJ/SDR (fls . 399/411), com a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/11/2007 a 31/12/2007 DIREITO AO CRÉDITO. INSUMOS ISENTOS. É inadmissível, por total ausência de previsão legal, a apropriação, na escrita fiscal do sujeito passivo, de créditos do imposto alusivos a insumos isentos, uma vez que inexiste montante do imposto cobrado na operação anterior. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Foi apresentado Recurso Voluntário às fls. 419/436, no qual se apresentou as seguintes razões para reforma da decisão de piso: · da sistemática da nãocumulatividade do IPI; · do tratamento diferenciado da ZFM; · da jurisprudência dos tribunais pátrios sobre o tema; e · da aplicação da taxa SELIC aos créditos de IPI. É o relatório. Voto Conselheira Liziane Angelotti Meira O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos legais de admissibilidade e deve ser conhecido. A controvérsia remanescente cingese à glosa de créditos, relativos a entradas de materiais isentos de IPI. Conforme a decisão recorrida, ainda que adquiridos na Zona Franca de Manaus, continua inexistindo o direito a crédito, que somente poderia ser concedido se houvesse previsão expressa para tanto. Fl. 487DF CARF MF Processo nº 10830.724566/201253 Acórdão n.º 3301004.816 S3C3T1 Fl. 488 8 A Recorrente defende que a decisão recorrida não é compatível com a análise sistemática e finalística da norma. Voltase ao art. 153, IV,e § 3o, II, e também ao art. 49 do CTN e reafirma que o direito ao crédito do IPI não está condicionado à incidência, ao efetivo destaque e nem ao pagamento do IPI nas operações anteriores. O princípio da nãocumulatividade, contudo, conforme consignouse na decisão recorrida, não é amplo e irrestrito, sendo perfeitamente possíveis sua limitação e regulamentação por leis infraconstitucionais. Conforme consta da decisão recorrida, o crédito escritural de IPI não é crédito presumido em que são supostas incidências do imposto em cadeias anteriores e estipulada uma alíquota média para compensação do gravame. Aliás, a própria Constituição Federal, no § 6º do artigo 150, impõe a existência de lei específica, com exclusiva regulamentação, para que se concedam créditos presumidos, como incentivos fiscais, ou redução da base de cálculo. Ademais, conforme se consignou na decisão recorrida, o artigo 153, § 3º, II, da CF/88 é explícito ao acolher a técnica “imposto sobre imposto” pela qual deduzse do montante do imposto devido em cada operação o montante do imposto cobrado nas anteriores. Conforme se consignou na decisão recorrida, o pressuposto de fato do IPI é a existência do produto industrializado, esta técnica – no plano constitucional – não é concebida para dimensionar valor agregado (por ser realidade fora do pressuposto de fato); visa a dimensionar quanto de imposto o contribuinte precisa recolher: se a totalidade que resulta da aplicação da alíquota sobre o valor da sua operação ou se o montante que resultar da dedução do imposto já cobrado em operações anteriores. O foco da norma constitucional não é a base (que indicaria o elemento “agregação”), mas sim a dimensão da dívida do contribuinte (o “imposto”). Somente surge o direito à apropriação de crédito, para fins de compensação na sistemática da nãocumulatividade do IPI, quando tenha ocorrido cobrança do imposto na operação de entrada e na medida de tal cobrança. Imprescindível, assim, que o imposto não apenas tenha incidido, mas que efetivamente onerado a operação de entrada. Se não houve cobrança na operação anterior, não há requisito lógico para a cumulação, de modo que resta inaplicável o mecanismo que visa a afastar os seus efeitos. Não é outra a interpretação esposada por este CARF, entendimento, inclusive, sumulado: Súmula CARF n° 18: A aquisição de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem tributados à alíquota zero não gera crédito de IPI. Dessa forma, mantémse nesta questão a decisão recorrida com base nos seus próprios fundamentos e também na Súmula CARF n° 18. Defende também a Recorrente que haveria tratamento diferenciado para os produtos beneficiados com os incentivos da Zona Franca de Manaus. Referese à preocupação do Governo Federal com o equilíbrio socioeconômico das regiões do Brasil, especialmente da região da Amazônia; explora o histórico da criação da legislação da ZFM; defende que o modelo criado pelo DecretoLei no 288/67 visava a conceder incentivo para as empresas que se Fl. 488DF CARF MF Processo nº 10830.724566/201253 Acórdão n.º 3301004.816 S3C3T1 Fl. 489 9 estabelecessem na região; menciona o art. 40 do ADCT; e cita jurisprudência do STF. Conclui que a ZFM goza de tratamento diferenciado; e também que é "evidente, portanto, a ilegitimidade da vedação ao direito de apropriação de créditos de IPI pela Recorrente, em situações nas quais as aquisições de insumos ou materiais são beneficiadas pela isenção ou alíquota 0 (zero), sob pena de anular os benefícios concedidos às empresas situadas na ZFM, em violação ao artigo 40 do ADCT e ao DecretoLei no 288/67." Sobre esse ponto, cabe retomar que o incentivo não é absoluto e deve ser entendido de acordo com as regras e princípios constitucionais e legais aplicáveis à matéria. Assim, por ausência de previsão legal, é inadmissível a apropriação, na escrita fiscal do estabelecimento industrial adquirente, de créditos do IPI sobre o valor de aquisição de insumos isentos, não tributados ou sujeitos a alíquota zero, uma vez que inexiste montante do imposto cobrado na operação anterior. Por força do que dispõe o § 6º do art. 150 da CF/1988, a apropriação de crédito presumido ou ficto do imposto depende de autorização expressa de lei específica, o que não aconteceu com a isenção instituída no art. 9º do Decretolei 288/1967. A jurisprudência do CARF também é assente nesta matéria. Colacionamos excerto do voto da Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz (Acórdão n. 3402002.933): A Zona Franca de Manaus, nos termos da Lei n. 3.173/1957, foi criada como um porto franco. Com o advento do Decretolei n. 288/1967, tornouse “área de livre comércio de importação e exportação e de incentivos fiscais especiais, estabelecida com a finalidade de criar no interior da Amazônia um centro industrial, comercial e agropecuário dotado de condições econômicas que permitam seu desenvolvimento, em face dos fatôres locais e da grande distância, a que se encontram, os centros consumidores de seus produtos.” Vêse que se trata de regime jurídico com objetivo desenvolvimentista para o norte do país, muito anterior ao atual texto constitucional. Entretanto, o Artigo 40 Ato das Disposições Constitucionais Transitória (“ADCT”) da Constituição de 1988 recepcionou claramente a legislação referente à Zona Franca de Manaus. Não poderia ter sido outra a opção do constituinte, uma vez que a legislação referente à Zona Franca de Manaus dá efetividade à ideologia nacional desenvolvimentista trazida pelo texto de 1988, que elencou a redução das desigualdades regionais como objetivo fundamental da República (artigo 3º, inciso III)4 e da ordem econômica (artigo 170, inciso VI), 5 tudo na linha iniciada pela Constituição de 1934 (artigo 177) 6 e seguida pela Constituição de 1946 (artigo 199). É neste contexto, de patente zelo constitucional sobre a matéria, que deve ser analisada toda a legislação brasileira atinente ao desenvolvimento da região amazônica, nela incluindose, por óbvio, as leis que implementarem as isenções de IPI para produtos ali fabricados, editadas justamente para cumprir os ditames constitucionais aludidos acima. Fl. 489DF CARF MF Processo nº 10830.724566/201253 Acórdão n.º 3301004.816 S3C3T1 Fl. 490 10 Afinal, é consabido que o IPI é tributo com nítido caráter extrafiscal (artigo 153, §1º da Constituição), vale dizer, espécie tributária utilizada pela União como instrumento de intervenção sobre o domínio econômico. Isto quer dizer que o tributo (IPI) é manejado para que seja alcançado determinado fim (desenvolvimento da região amazônica), pela indução do comportamento dos particulares (instalaremse na região, que, pela sua posição geográfica, tem condições de desenvolvimento muito aquém do necessário). A finalidade do tributo, em casos como este, é preponderantemente extrafiscal, e não fiscal (arrecadatória), fato que deve guiar a interpretação da respectiva lei. Neste contexto é que a discussão sobre o direito ao crédito de IPI, decorrente de produtos oriundos da Zona Franca de Manaus, não se limita à não cumulatividade, como ocorre nos demais casos de isenção, alíquota zero e não incidência do IPI, nos quais é preciso que o tributo seja efetivamente exigido e pago na etapa antecedente da cadeia produtiva para que exista o direito ao crédito. Tal situação já é consolidada pelo STF, bem como sumulada pelo CARF (Súmula 18). Com efeito, a discussão não termina neste ponto, pois os incentivos criados pela Zona Franca de Manaus são benefícios fiscais regionais, que, para que sejam efetivos e alcancem a finalidade para a qual foram constitucionalmente criados, devem ser interpretados de forma diversa. O histórico dos julgamentos do STF a respeito do direito ao crédito de IPI oriundo de operações onde não há cobrança do imposto comprova tal necessidade de separação dos assuntos. Efetivamente, a situação dos créditos de produtos isentos oriundos da Zona Franca de Manaus vem sendo entendidos como um assunto “especial” no STF, em relação ao não dão direito ao crédito, como firmando na alteração de jurisprudência consolidada nos RE 370.682 e 566.891). A diferenciação entre as duas situações se depreende com nitidez tanto dos esclarecimento do Ministro Marco Aurélio no julgamento do RE 566.819, como do RE n. 592.891, que trata especificamente do crédito de IPI decorrente de produtos munidos de isenção da Zona Franca de Manaus, cuja repercussão geral foi reconhecida mesmo depois da consolidação do entendimento do STF sobre o “assunto geral” do crédito de IPI. Este último processo encontrase ainda pendente de julgamento. A legislação do IPI traz duas situações distintas sobre o direito ao crédito de IPI relativo a produtos da região amazônica, quais sejam: i) o artigo 9º do Decretolei n. 288/67, regulado pelo artigo 69, incisos I e II do RIPI/2002, que concede a isenção porém não traz previsão expressa para o aproveitamento do crédito presumido; ii) o artigo 6º do Decreto n. 1.435/75, regulado pelo artigo 82, inciso III do RIPI/2002, o qual expressamente estabelece o direito ao aproveitamento do crédito de IPI “calculado como se devido fosse” (sob condição de cumprimento de seus requisitos, como discutido no tópico acima). Fl. 490DF CARF MF Processo nº 10830.724566/201253 Acórdão n.º 3301004.816 S3C3T1 Fl. 491 11 Disso, conjuntamente com todo o arcabouço constitucional traçado nas linhas acima, constatase que o entendimento segundo o qual, mesmo sem previsão expressa da lei sobre o direito ao crédito de IPI relativo ao artigo 9º do Decretolei n. 288/67, ele deve ser concedido, equivale ao julgamento de que a legislação trouxe uma omissão inconstitucional, justamente ao não prever o direito ao crédito. De fato, não só atos comissivos, mas também os omissivos são passíveis de representar afronta ao texto da Constitucional, resultando em vício de validade que deve ser corrigido pelo Poder Judiciário via controle de constitucionalidade da lei. Tal faculdade, contudo, não alcança o CARF, que está vedado a se pronunciar sobre a inconstitucionalidade da lei tributária (Súmula CARF n. 2). Assim, é a sentença judicial, capaz de constituir direito do contribuinte ao efetuar a interpretação/integração da lei tributária, bem como declarar a inconstitucionalidade da omissão legislativa, que poderá suprir tal deficiência da legislação do IPI. É tal pedido que, no fundo, requer a Recorrente em sua defesa, pautada em questões constitucionais e pragmáticas. (...). Traz ainda, a Recorrente, jurisprudência dos tribunais superiores sobre o tema. Cumpre ter presente que o Supremo Tribunal Federal já entendeu, no passado, pelo direito de crédito de IPI nas aquisições de matériasprimas isentas (RE 212.484), o que chegou a ser estendido às aquisições sujeitas à alíquota zero (RE 350.446), mas este entendimento foi posteriormente alterado, passando a mesma Corte a entender que não há direito de crédito em relação às aquisições não tributadas e sujeitas à alíquota zero (RE 370.682), depois estendendo o mesmo entendimento em relação às aquisições isentas (RE 566.819), de maneira que a jurisprudência atual é no sentido de que nenhuma das aquisições desoneradas dão direito ao crédito do imposto. Nada obstante o Supremo Tribunal Federal tenha reconhecido existir a Repercussão Geral especificamente em relação à aquisição de produtos isentos da Zona Franca de Manaus ZFM (Tema 322; RE 592.891), isto não equivale ao reconhecimento do direito de crédito, além de que, não pode este Tribunal Administrativo analisar a constitucionalidade das leis (Súmula CARF nº 1). Assim, a conjuntura dos fatos determina a aplicação ao presente caso do entendimento do STF no RE 566.819, visto não haver decisão em contrário no RE 592.891. Por fim, defende a Recorrente que os créditos de IPI devem ser atualizados pela taxa SELIC. Também neste aspecto adotamse as conclusões da decisão recorrida. Primeiro, que essa questão restou prejudicada em razão da improcedência dos créditos. Segundo, a pretensão de atualizar os créditos do IPI, apurados na escrita fiscal do estabelecimento, carece de embasamento legal que lhe dê suporte; o § 4º do art. 39 da Lei nº 9.250, de 1995, inseriu no seu comando a aplicação da taxa Selic somente sobre os valores oriundos de indébitos passíveis de restituição ou compensação, não contemplando, portanto, valores oriundos de ressarcimento de crédito escritural de IPI. Desta forma, propõese manter o entendimento da decisão recorrida neste ponto, pelos seus próprios fundamentos. Diante do exposto, proponho manter integralmente a decisão recorrida e voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. Fl. 491DF CARF MF Processo nº 10830.724566/201253 Acórdão n.º 3301004.816 S3C3T1 Fl. 492 12 Liziane Angelotti Meira Relatora Fl. 492DF CARF MF
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Numero do processo: 10930.720942/2014-74
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 20 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 22 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2010, 2011
SIMPLES NACIONAL. EXCLUSÃO. INEXISTÊNCIA DE LIVRO CAIXA. FALTA DE REGISTRO DE MOVIMENTAÇÃO BANCÁRIA.
Constatada hipótese legal de exclusão do Simples Nacional, cuja ocorrência não foi afastada pela defesa, mantém-se a exclusão regularmente formalizada pela autoridade competente.
NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. INOCORRÊNCIA.
Não ocorre a nulidade do auto de infração quando forem observadas as disposições do artigo 142 do Código Tributário Nacional e os requisitos previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal.
USO DE INFORMAÇÕES BANCÁRIAS. SIGILO. LEGITIMIDADE.
A utilização de informações regularmente obtidas junto a administradoras de cartões de crédito e débito não caracteriza violação de sigilo bancário, sendo desnecessária prévia autorização judicial. Precedente vinculante do STF.
DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RECEITAS. PRESUNÇÃO LEGAL
Nos termos da lei, caracteriza-se como omissão de receita os valores creditados em conta bancária, na hipótese do titular, após intimado, não comprovar, mediante documentação hábil e idônea, coincidente em datas e valores, a sua respectiva origem.
ARGÜIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA.
A apreciação de argumentos de inconstitucionalidade resta prejudicada na esfera administrativa, conforme Súmula CARF n° 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Numero da decisão: 1201-002.507
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Luis Henrique Marotti Toselli - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Fabiano Alves Penteado e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente).
Nome do relator: LUIS HENRIQUE MAROTTI TOSELLI
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EXCLUSÃO. INEXISTÊNCIA DE LIVRO CAIXA. FALTA DE REGISTRO DE MOVIMENTAÇÃO BANCÁRIA. Constatada hipótese legal de exclusão do Simples Nacional, cuja ocorrência não foi afastada pela defesa, mantémse a exclusão regularmente formalizada pela autoridade competente. NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. INOCORRÊNCIA. Não ocorre a nulidade do auto de infração quando forem observadas as disposições do artigo 142 do Código Tributário Nacional e os requisitos previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal. USO DE INFORMAÇÕES BANCÁRIAS. SIGILO. LEGITIMIDADE. A utilização de informações regularmente obtidas junto a administradoras de cartões de crédito e débito não caracteriza violação de sigilo bancário, sendo desnecessária prévia autorização judicial. Precedente vinculante do STF. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RECEITAS. PRESUNÇÃO LEGAL Nos termos da lei, caracterizase como omissão de receita os valores creditados em conta bancária, na hipótese do titular, após intimado, não comprovar, mediante documentação hábil e idônea, coincidente em datas e valores, a sua respectiva origem. ARGÜIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA. A apreciação de argumentos de inconstitucionalidade resta prejudicada na esfera administrativa, conforme Súmula CARF n° 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 0. 72 09 42 /2 01 4- 74 Fl. 1436DF CARF MF 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Fabiano Alves Penteado e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Relatório Contra a Recorrente acima identificada foi emitido o Ato Declaratório Executivo ADE no 57, de 08 de maio de 2014 (fls.1.117), para fins de sua exclusão do regime de tributação do SIMPLES NACIONAL, com fundamento no artigo 29, incisos II e VIII, da Lei Complementar n° 123 de 14 de dezembro de 2006. De acordo com a Representação Fiscal de Exclusão do Simples Nacional (fls. 1.118/1.121): 2 DAS DIVERGÊNCIAS ENTRE RECEITAS DECLARADAS E MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA Para fins de seleção de contribuintes, a Receita Federal do Brasil realizou o cruzamento de informações entre as Declarações de Movimentações Financeiras (DIMOF) e as Declarações de Informações do Simples Nacional (DASN). Em relação ao contribuinte em questão verificouse que o mesmo recebeu recursos em suas contas correntes em valores muito superiores aos declarados, conforme quadro abaixo: Ano calendário Movimentação Financeira (MF) Créditos em conta 1 corrente ' R$ Receita Bruta . (RB) R$ Informada na DASN Proporção MF/RB MF () RB R$ 2010 22.235.216,47 188.120,67 118 vezes | 22.047.095,80 2011 24.670.545,87 159.202,31 155 vezes 24.511.343,56 Conforme demonstrado acima, em 2010 o total movimentado em conta corrente é 118 vezes maior que o declarado e em 2011 o total movimentado é 155 vezes maior que a receita declarada. Fl. 1437DF CARF MF Processo nº 10930.720942/201474 Acórdão n.º 1201002.507 S1C2T1 Fl. 3 3 [...]. Em razão da recusa com contribuinte entrega os extratos, em 10/03/2014 houve a Solicitação de Emissão de Requerimento de Informação Sobre Movimentação Financeira (RMF). Os extratos foram enviados pelos bancos Itau, HSBC e Banco do Brasil. A fiscalização confrontou os dados constantes nos livros Razão e;Diário apresentados e os extratos bancários, constatando que a elevada movimentação financeira não foi registrada. O contribuinte registrou somente os valores Ínfimos apresentados nas DASN. Diante da falta de escrituração dos créditos em conta corrente, em 24/03/2014 o contribuinte foi intimado a apresentar os documentos comprobatórios de créditos e débidos de todas as contas correntes mantidas junto às instituições financeiras. O contribuinte recebeu a intimação em 25/03/2014 e o prazo para atendimento foi de 10 (dez) dias. Não houve atendimento da intimação ou qualquer manifestação do contribuinte quanto à entrega da documentação solicitada. Em 04/04/2014 foi emitido o Termo de Intimação Fiscal, intimando o contribuinte a, no prazo de 20 (vinte) dias, informar a que ser referem os créditos em contas bancárias mantidas junto às instituições financeiras, bem como comprovar, mediante apresentação de documentos hábeis e idôneos, a origem dos recursos creditados na contas correntes mantidas nas instituições bancárias. O contribuinte recebeu a intimação em 08/04/2014 conforme Aviso de Recebimento dos Correios n° SA 78798912 5 BR. Não houve atendimento da intimação. 4 DOS MOTIVOS PARA EXCLUSÃO DO CONTRIBUINTE DO SIMPLES NACIONAL A situação em comento revela hipóteses de exclusão do Simples Nacional. A seguir detalhase o suporte fático e legal que suportam tal conclusão 4.1 Recusa injustificada de apresentar as informações da movimentação financeira [...] Tal comportamento também evidencia a hipótese de exclusão prevista no inciso II do artigo 29 da Lei Complementar 123/2006: Art. 29. A exclusão de ofício das empresas optantes pelo Simples Nacional darseá quando: II for oferecido embaraço à fiscalização, caracterizado pela negativa não justificada de exibição de livros e documentos a que estiverem obrigadas, bem como pelo não fornecimento de informações sobre bens, movimentação financeira, negócio ou atividade que estiverem intimadas a apresentar, e nas demais hipóteses que autorizam a requisição de auxílio da força pública (grifo nosso) 4.2 Falta de apresentação de escrituração bancária Fl. 1438DF CARF MF 4 Verificase que a movimentação financeira do contribuinte foi, aproximadamente, 118 (cento e dezoito) vezes maior que a declarada no ano de 2010 e 155 (cento e cinquenta e cinco) vezes superior no ano de 2011. Intimado, o contribuinte não apresentou qualquer documento relativo à escrituração bancária obrigatória, principalmente em decorrência de valores tão distorcidos. Desta forma, não é possível identificar a origem da movimentação financeria. Esta situação caracteriza hipótese de exclusão do Simples Nacional, prevista no inciso VIII do artigo 29, da Lei Complementar 123/2006: Art. 29. A exclusão de ofício das empresas optantes pelo Simples Nacional darseâ quando: VIII houver falta de escrituração do livrocaixa ou não permitir a identificação da movimentação financeira, inclusive bancária; 5 DOS EFEITOS DA EXCLUSÃO DO CONTRIBUINTE DO SIMPLES NACIONAL A exclusão deverá ter efeito a partir do mês de janeiro de 2010, como preceitua o parágrafo 1o do artigo 29, da Lei Complementar n° 123/2006, vigendo nos três anoscalendário subsequentes ao da exclusão. §1° Nas hipóteses previstas nos incisos II a XII do caput deste artigo, a exclusão produzirá efeitos a partir do próprio mês em que incorridas, impedindo a opção pelo regime diferenciado e favorecido desta Lei Complementar pelos próximos 3 (três) anos calendário seguintes. A exclusão do SIMPLES NACIONAL, segundo o ADE, possui efeitos a partir de janeiro de 2010. Houve impugnação pelo contribuinte (fls. 1.144/1.146), que alega ausência de base legal para a exclusão; que não houve embaraço e muito menos recusa de atendimento durante a fiscalização; que houve, sim, indevida quebra de sigilo bancário e que a base de cálculo não está devidamente identificada. Com base na presunção de omissão de receita prevista no artigo 42, da Lei n 9.430/1996 (depósitos bancários de origem não comprovada), o fisco também emitiu Autos de Infração (fls. 1.231/1.277) que exigem os tributos da sistemática do Simples Nacional, referente aos anos calendários de 2010 e 2011, em conformidade com o relato constante do Termo de Verificação Fiscal de fls. 1.147/1.154. A empresa apresentou defesa (fls. 1.331/1.333). Em preliminar, reitera a quebra de sigilo ilegal. No mérito, reforça a alegação de ausência de fundamento legal para a exclusão na sistemática simplificada e pede a exclusão dos valores já pagos. A impugnação aos Autos de Infração e a manifestação de inconformidade contra o ADE de exclusão do Simples foram julgadas improcedentes por meio de Acórdão da DRJ de fls. 1.346/1.357, cuja ementa foi assim redigida: Fl. 1439DF CARF MF Processo nº 10930.720942/201474 Acórdão n.º 1201002.507 S1C2T1 Fl. 4 5 NULIDADE Não há que se cogitar de nulidade do procedimento fiscal, quando não restou caracterizada nenhuma das hipóteses previstas no artigo 59 do Decreto nº 70.235, de 1972. EMBARAÇO À FISCALIZAÇÃO. EXCLUSÃO DA PESSOA JURÍDICA DA SISTEMÁTICA DO SIMPLES POR INICIATIVA DA AUTORIDADE FISCAL Conforme disposto na legislação de regência, a pessoa jurídica poderá ser excluída da sistemática do SIMPLES, por iniciativa da autoridade administrativa, quando der causa a embaraço à fiscalização, caracterizado pela negativa não justificada de exibição de livros e documentos a que estiver obrigada, bem assim pelo não fornecimento de informações sobre bens, movimentação financeira, negócio ou atividade, próprios ou de terceiros, quando intimada. SIGILO BANCÁRIO. QUEBRA. INOCORRÊNCIA. PREVISÃO LEGAL. EMISSÃO DE RMF. FORNECIMENTO DE INFORMAÇÕES PELAS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. DESNECESSIDADE DE AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. O fornecimento de informações pelas instituições financeiras sobre a movimentação do sujeito passivo, na forma da Lei Complementar nº. 105, de 2001, não constitui quebra de sigilo. Tratase de medida que prescinde de autorização judicial, quando promovida nos termos da lei, durante procedimento fiscal em curso no qual a autoridade tributária constate ser indispensável o exame de documentos, livros e registros de instituições financeiras. Cientificada da decisão de primeiro grau em 16 de maio de 2017 (fls. 1.368), a contribuinte interpôs recurso voluntário em 16 de junho de 2017 (fls. 1.385/1.389), reiterando as alegações de defesa. É o relatório. Voto Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli, Relator. O recurso voluntário interposto é tempestivo e cumpre os demais requisitos de admissibilidade. Dele, portanto, conheço. Fl. 1440DF CARF MF 6 Nulidade Da leitura do recurso voluntário, notase que a Recorrente invoca argumentos de nulidade do ADE e dos Autos de Infração correlato, a saber: (i) indevida e inconstitucional quebra de sigilo bancário; (ii) utilização de prova ilícita; e (iii) ausência de fundamento legal e identificação clara da base de cálculo. Razão, porém, não lhe assiste. A possibilidade do fisco utilizar dados bancários dos contribuintes sem autorização judicial foi introduzida inicialmente no ordenamento jurídico pelo artigo 8o da Lei n. 8.021/90, e posteriormente pelos artigos 5 o e 6 o da Lei Complementar n. 105/2001, dispositivos estes que possuem a seguinte redação: Art. 8° Iniciado o procedimento fiscal, a autoridade fiscal poderá solicitar informações sobre operações realizadas pelo contribuinte em instituições financeiras, inclusive extratos de contas bancárias, não se aplicando, nesta hipótese, o disposto no art. 38 da Lei n° 4.595, de 31 de dezembro de 1964. Parágrafo único. As informações, que obedecerão às normas regulamentares expedidas pelo Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, deverão ser prestadas no prazo máximo de dez dias úteis contados da data da solicitação, aplicandose, no caso de descumprimento desse prazo, a penalidade prevista no § 1° do art. 7°. Art. 5o O Poder Executivo disciplinará, inclusive quanto à periodicidade e aos limites de valor, os critérios segundo os quais as instituições financeiras informarão à administração tributária da União, as operações financeiras efetuadas pelos usuários de seus serviços. § 1o Consideramse operações financeiras, para os efeitos deste artigo: I – depósitos à vista e a prazo, inclusive em conta de poupança; [...] § 2o As informações transferidas na forma do caput deste artigo restringirseão a informes relacionados com a identificação dos titulares das operações e os montantes globais mensalmente movimentados, vedada a inserção de qualquer elemento que permita identificar a sua origem ou a natureza dos gastos a partir deles efetuados. § 3o Não se incluem entre as informações de que trata este artigo as operações financeiras efetuadas pelas administrações direta e indireta da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. § 4o Recebidas as informações de que trata este artigo, se detectados indícios de falhas, incorreções ou omissões, ou de cometimento de ilícito fiscal, a autoridade interessada poderá Fl. 1441DF CARF MF Processo nº 10930.720942/201474 Acórdão n.º 1201002.507 S1C2T1 Fl. 5 7 requisitar as informações e os documentos de que necessitar, bem como realizar fiscalização ou auditoria para a adequada apuração dos fatos. § 5o As informações a que refere este artigo serão conservadas sob sigilo fiscal, na forma da legislação em vigor. Art. 6o As autoridades e os agentes fiscais tributários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios somente poderão examinar documentos, livros e registros de instituições financeiras, inclusive os referentes a contas de depósitos e aplicações financeiras, quando houver processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames sejam considerados indispensáveis pela autoridade administrativa competente. Parágrafo único. O resultado dos exames, as informações e os documentos a que se refere este artigo serão conservados em sigilo, observada a legislação tributária. O direito constitucional ao "sigilo bancário" e sua quebra no contexto da política de fiscalização tributária constitui tema que não raramente desperta interesse doutrinário e que já contou (e certamente ainda contará) com longas discussões no Poder Judiciário. No âmbito do STJ, prevaleceu o entendimento favorável à quebra de sigilo para fins tributários, proferido em 2009 no REsp n. 1134665/SP, e julgado pela Primeira Seção na sistemática de recursos repetitivos. A decisão recebeu a seguinte ementa: PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. QUEBRA DO SIGILO BANCÁRIO SEM AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. CONSTITUIÇÃO DE CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS REFERENTES A FATOS IMPONÍVEIS ANTERIORES À VIGÊNCIA DA LEI COMPLEMENTAR 105/2001. APLICAÇÃO IMEDIATA. ARTIGO 144, § 1º, DO CTN. EXCEÇÃO AO PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE. 1. A quebra do sigilo bancário sem prévia autorização judicial, para fins de constituição de crédito tributário não extinto, é autorizada pela Lei 8.021/90 e pela Lei Complementar 105/2001, normas procedimentais, cuja aplicação é imediata, à luz do disposto no artigo 144, § 1º, do CTN. [...] Posteriormente o STF foi instado a definir a questão do acesso da administração tributária aos dados bancários dos contribuintes, sem ordem judicial prévia, o que ocorreu com o julgamento do Recurso Extraordinário (RE n. 601.314), que teve Fl. 1442DF CARF MF 8 repercussão geral reconhecida e cujo resultado foi no mesmo sentido do referido precedente do STJ. Vejase: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. DIREITO TRIBUTÁRIO. DIREITO AO SIGILO BANCÁRIO. DEVER DE PAGAR IMPOSTOS. REQUISIÇÃO DE INFORMAÇÃO DA RECEITA FEDERAL ÀS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. ART. 6º DA LEI COMPLEMENTAR 105/01. MECANISMOS FISCALIZATÓRIOS. APURAÇÃO DE CRÉDITOS RELATIVOS A TRIBUTOS DISTINTOS DA CPMF. PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE DA NORMA TRIBUTÁRIA. LEI 10.174/01. 1. O litígio constitucional posto se traduz em um confronto entre o direito ao sigilo bancário e o dever de pagar tributos, ambos referidos a um mesmo cidadão e de caráter constituinte no que se refere à comunidade política, à luz da finalidade precípua da tributação de realizar a igualdade em seu duplo compromisso, a autonomia individual e o autogoverno coletivo. 2. Do ponto de vista da autonomia individual, o sigilo bancário é uma das expressões do direito de personalidade que se traduz em ter suas atividades e informações bancárias livres de ingerências ou ofensas, qualificadas como arbitrárias ou ilegais, de quem quer que seja, inclusive do Estado ou da própria instituição financeira. 3. Entendese que a igualdade é satisfeita no plano do autogoverno coletivo por meio do pagamento de tributos, na medida da capacidade contributiva do contribuinte, por sua vez vinculado a um Estado soberano comprometido com a satisfação das necessidades coletivas de seu Povo. 4. Verificase que o Poder Legislativo não desbordou dos parâmetros constitucionais, ao exercer sua relativa liberdade de conformação da ordem jurídica, na medida em que estabeleceu requisitos objetivos para a requisição de informação pela Administração Tributária às instituições financeiras, assim como manteve o sigilo dos dados a respeito das transações financeiras do contribuinte, observandose um translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal. 5. A alteração na ordem jurídica promovida pela Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, uma vez que aquela se encerra na atribuição de competência administrativa à Secretaria da Receita Federal, o que evidencia o caráter instrumental da norma em questão. Aplicase, portanto, o artigo 144, §1º, do Código Tributário Nacional. 6. Fixação de tese em relação ao item “a” do Tema 225 da sistemática da repercussão geral: “O art. 6º da Lei Complementar 105/01 não ofende o direito ao sigilo bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal”. Fl. 1443DF CARF MF Processo nº 10930.720942/201474 Acórdão n.º 1201002.507 S1C2T1 Fl. 6 9 7. Fixação de tese em relação ao item “b” do Tema 225 da sistemática da repercussão geral: “A Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, tendo em vista o caráter instrumental da norma, nos termos do artigo 144, §1º, do CTN”. 8. Recurso extraordinário a que se nega provimento. Por maioria de votos (9 X 2, vencidos os ministros Celso de Mello e Marco Aurélio), ganhou a tese de que a Lei Complementar n. 105 é compatível com a Constituição Federal, não havendo quebra de sigilo bancário propriamente dito o acesso, pelo fisco, de informações bancárias obtidas diretamente de instituições financeiras. Da leitura do inteiro teor desse Acórdão paradigma, notase que prevaleceu o argumento de que a obrigatoriedade das instituições financeiras prestarem informações para exercício regular de fiscalização pela administração fazendária não deve ser vista como violação a direito fundamental, mas sim como procedimento apto e legítimo a perquirir a efetiva capacidade contributiva. O acesso aos dados bancários sem autorização judicial, portanto, pode ser feito pelo fisco para fins de constituição de crédito tributário, devendo tal procedimento ser fundamentado e as informações assim obtidas preservadas. Tanto é assim que o CTN, disciplinou, em seu artigo 1971, as formas de acesso da Administração tributária aos bancos de dados de terceiros, dentre eles de informações bancárias. No artigo 1982 do CTN ficou resguardada a inviolabilidade da informação fornecida ao Fisco, proibindo a divulgação, para qualquer fim, por parte da Fazenda Pública ou de seus funcionários, de qualquer informação obtida em razão do ofício, sobre a situação econômica ou financeira dos sujeitos passivos ou de terceiros sobre a natureza e o estado dos seus negócios ou atividades. Os dados bancários utilizados nesse caso concreto estão protegidos (o público não tem acesso aos processos dessa natureza), foram acessados com respaldo na referida lei julgada constitucional e houve motivação adequada para utilização desse expediente. Os argumentos trazidos pelos contribuintes no sentido de que o fisco não teria cumprido os requisitos para proceder com a "quebra de sigilo bancário" e que esta prova 1 "Artigo 197 Mediante intimação escrita, são obrigados a prestar à autoridade administrativa todas as informações de que disponham com relação aos bens, negócios ou atividades de terceiros: [...] II os bancos, casas bancárias, Caixas Econômicas e demais instituições financeiras." 2 "Artigo 198 Sem prejuízo do disposto na legislação criminal, é vedada a divulgação, por parte da Fazenda Pública ou de seus servidores, de informação obtida em razão do ofício sobre a situação econômica ou financeira do sujeito passivo ou de terceiros e sobre a natureza e o estado de seus negócios ou atividades. § 1o Excetuamse do disposto neste artigo, além dos casos previstos no art. 199, os seguintes: I – requisição de autoridade judiciária no interesse da justiça; II – solicitações de autoridade administrativa no interesse da Administração Pública, desde que seja comprovada a instauração regular de processo administrativo, no órgão ou na entidade respectiva, com o objetivo de investigar o sujeito passivo a que se refere a informação, por prática de infração administrativa. Fl. 1444DF CARF MF 10 seria ilícita, segundo penso, não se sustentam em face dos elementos probatórios trazidos aos autos, dos permissivos legais autorizadores dessa prática e da jurisprudência judicial acima indicada e que vincula o presente Julgador. Nos termos da lei, e de acordo com a jurisprudência dominante, caracterizam se como omissão de receita os valores creditados em conta bancária, identificados pela fisco de forma individualizada, na hipótese do titular, após intimado, não comprovar com documentação hábil e idônea, coincidente em datas e valores, a sua respectiva origem. Quanto à nulidade, do ponto de vista do processo administrativo fiscal federal, dispõem os artigos 10º e 59, ambos do Decreto nº 70.235/72, que: “Artigo 10 O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I a qualificação do autuado; II o local, a data e a hora da lavratura; III a descrição do fato; IV a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de trinta dias; VI a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula”. “Artigo 59 São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa”. Não verifico, no presente caso, qualquer nulidade formal ocasionada pela inobservância do disposto no art. 10º acima, bem como não se faz presente nenhuma das nulidades previstas no art. 59. O Auto de Infração foi emitido com observância de seus requisitos formais e essenciais, como prescreve o artigo 142 do Código Tributário Nacional, verbis: “Artigo 142 Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Fl. 1445DF CARF MF Processo nº 10930.720942/201474 Acórdão n.º 1201002.507 S1C2T1 Fl. 7 11 Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional”. Mais precisamente, a fiscalização, após instauração de regular procedimento fiscalizatório, identificou depósitos bancários cuja origem não foi comprovada pela contribuinte e daí apurou omissão de receitas com fundamento no artigo 42 da Lei nº 9.430/96. Não se vislumbra, ademais, nenhum prejuízo ao contribuinte, que notoriamente compreendeu a imputação e teve assegurado seu direito de defesa. E, ao contrário do que quer fazer crer a Recorrente, durante a fiscalização (fls. 820), assim como no demonstrativo de apuração dos valores não recolhidos, integrante dos Autos de Infração, estão demonstrados os valores individualizados dos lançamentos credores. Também os valores dos tributos já recolhidos pelo contribuinte foram abatidos, conforme esclarecido pela decisão de piso às fls. 1.356. Não existe, portanto, qualquer incorreção na motivação e disposição legal infringida, razão pela qual rejeito a preliminar de nulidade. Omissão de receitas A Recorrente, nos anoscalendário de 2010 e 2011, optou pelo SIMPLES, mas foi selecionada para procedimento fiscal de auditoria em razão da apresentação de movimentação financeira incompatível com a receita declarada. Segundo disposição legal (art. 34 da Lei Complementar nº 123/06 e art. 42 da Lei n.º 9.430/96), as empresas optantes pelo SIMPLES são obrigadas a manter livrocaixa em que será escriturada sua movimentação financeira e bancária (parágrafo 2º do art. 26 da LC n.º 123/06) e guardar em boa ordem, enquanto não decorrido o prazo decadencial e não prescritas eventuais ações pertinentes, todos os documentos suporte da escrita. Uma das causas de exclusão do Simples Nacional, aliás, é justamente a constatação de falta de escrituração do livrocaixa ou este não permitir a identificação do fluxo financeiro e bancário da empresa (inciso VIII do art. 29 da LC n.º 123/06). Referida LC 123/2006 também prescreve que: Art. 34. Aplicamse à microempresa e à empresa de pequeno porte optantes pelo Simples Nacional todas as presunções de omissão de receita existentes nas legislações de regência dos impostos e contribuições incluídos no Simples Nacional. Fl. 1446DF CARF MF 12 As presunções, como se sabe, são meios de prova previstos no ordenamento jurídico e, desde que previstas em lei, podem ser utilizadas no direito tributário. Tal expediente acaba por exercer papel auxiliador na busca de riqueza (capacidade contributiva) do contribuinte, coibindo práticas e desestimulando condutas que possam implicar abusos ou sonegação. O efeito prático da presunção consiste em inverter o ônus da prova. A regra geral a de que cabe ao fisco o ônus de provar o fato constitutivo do seu direito, e ao contribuinte o de provar o fato impeditivo, modificativo ou extintivo daquele direito é invertida. Assim, cabe ao fisco demonstrar a existência do fato definido pela lei como necessário e suficiente à subsunção da presunção ao caso concreto, transferindo ao contribuinte o ônus de provar que o fato presumido pela lei não ocorreu. Nessa situação a fiscalização fundamentou o Auto de Infração na presunção legal prevista no artigo 42 da Lei nº 9.430/96, in verbis: Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações § 1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. §2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação especificas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. §3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 12.000,00 (doze mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano calendário, não ultrapasse o valor de R$ 80.000, 00 (oitenta mil reais)." Em se tratando de omissão de receitas fundada na presunção relativa veiculada pelo art. 42 da Lei n" 9.430/1996, cumpre ao fisco produzir a prova da existência de depósitos cuja origem o contribuinte, regularmente intimado, não comprovou, e incumbe ao contribuinte a prova de que estes depósitos não têm origem em receita ou, se receita, são não tributáveis ou já foram oferecidas à tributação. Fl. 1447DF CARF MF Processo nº 10930.720942/201474 Acórdão n.º 1201002.507 S1C2T1 Fl. 8 13 A fiscalização, portanto, no uso da presunção legal de omissão de receita em face de depósito bancário, deve: (i) identificar os valores creditados; (ii) individualizálos; (iii) excluir os créditos oriundos de transferência ou resgate de contas ou aplicações do mesmo titular; e (iv) intimar o contribuinte a justificar e comprovar a respectiva origem, assegurando lhe o contraditório. A meu ver restou demonstrado que a autoridade fiscal responsável pelo lançamento bem se ateve ao fato de identificar e relacionar os depósitos bancários credores que poderiam revelar receitas mantidas à margem da escrituração de forma prévia ao lançamento, intimando e reintimando o contribuinte a apresentar comprovação da origem. O autuante intimou a interessada em diversas oportunidades, mas a empresa não logrou êxito em comprovar a origem. Na fase de contencioso, a empresa teve mais uma oportunidade de trazer documentação acerca da origem, mas novamente sem sucesso. Fundada, então, corretamente a pretensão da Fazenda Pública na presunção legal do art. 42 da Lei n.º 9.430/96, caberia ao sujeito passivo apresentar as provas que pudessem impedir a sua caracterização, o que nunca ocorreu. Posto isso, considero procedente a imputação de omissão de receitas. Da exclusão do Simples A conduta da Recorrente de não apresentar, justificar ou comprovar vultosa movimentação bancária não escriturada ou registrada é tipificada no rol das exclusões do regime do Simples, por disposição expressa. Veja o art. 29, VIII, da LC 123, base legal do ADE: Art. 29. A exclusão de ofício das empresas optantes pelo Simples Nacional darseá quando: ... VIII houver falta de escrituração do livrocaixa ou não permitir a identificação da movimentação financeira, inclusive bancária; ... § 1º Nas hipóteses previstas nos incisos II a XII do caput deste artigo, a exclusão produzirá efeitos a partir do próprio mês em que incorridas, impedindo a opção pelo regime diferenciado e favorecido desta Lei Complementar pelos próximos 3 (três) anoscalendário seguintes. Fl. 1448DF CARF MF 14 Nesse sentido, correta a exclusão do contribuinte do Simples Nacional, devendo ser mantido o Ato Declaratório Executivo Nº 57, de 08 de maio de 2014. Conclusão Pelo exposto, NEGO PROVIMENTO ao RECURSO VOLUNTÁRIO. É como voto. (assinado digitalmente) Luis Henrique Marotti Toselli Fl. 1449DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16349.000428/2009-06
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/04/2007 a 30/06/2007
PRECLUSÃO. INOVAÇÃO DE DEFESA. NÃO CONHECIMENTO
Considerar-se-á não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pela manifestante, precluindo o direito de defesa trazido somente no Recurso Voluntário. O limite da lide circunscreve-se aos termos da manifestação de inconformidade.
PIS NÃO CUMULATIVO. CRÉDITOS RELATIVOS AO FRETE TRIBUTADO, PAGO PARA A AQUISIÇÃO DE INSUMOS.
É possível o creditamento em relação ao frete pago e tributado para o transporte de insumos, independentemente do regime de tributação do bem transportado, não sendo aplicada a restrição na apuração do crédito do art. 8º da Lei n.º 10.625/2004.
CAFÉ CRU EM GRÃOS. CRÉDITO.
Uma vez que o café cru em grãos adquiridos para revenda são produtos agrícolas, classificados dentro do capítulo 9 da NCM, eles estão sujeitos à apuração do crédito presumido na forma do art. 8º, da Lei n.º 10.925/2004, não cabendo a tomada do crédito integral com fulcro no art. 3º, I, da Lei n.º 10.637/2002.
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 3402-005.609
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer em parte do Recurso Voluntário e, na parte conhecida, por maioria de votos, em dar-lhe parcial provimento para reverter a glosa dos créditos relativos aos fretes pagos na aquisição de insumos. Vencida a Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula que negava provimento ao Recurso integralmente.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Maysa de Sá Pittondo Deligne - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Rodolfo Tsuboi (suplente convocado), Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Renato Vieira de Avila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos. Ausente justificadamente a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, sendo substituída pelo Conselheiro Renato Vieira de Avila (suplente convocado). O Conselheiro Diego Diniz Ribeiro declarou-se suspeito, sendo substituído pelo Conselheiro Rodolfo Tsuboi (suplente convocado).
Nome do relator: MAYSA DE SA PITTONDO DELIGNE
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INOVAÇÃO DE DEFESA. NÃO CONHECIMENTO Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pela manifestante, precluindo o direito de defesa trazido somente no Recurso Voluntário. O limite da lide circunscrevese aos termos da manifestação de inconformidade. PIS NÃO CUMULATIVO. CRÉDITOS RELATIVOS AO FRETE TRIBUTADO, PAGO PARA A AQUISIÇÃO DE INSUMOS. É possível o creditamento em relação ao frete pago e tributado para o transporte de insumos, independentemente do regime de tributação do bem transportado, não sendo aplicada a restrição na apuração do crédito do art. 8º da Lei n.º 10.625/2004. CAFÉ CRU EM GRÃOS. CRÉDITO. Uma vez que o café cru em grãos adquiridos para revenda são produtos agrícolas, classificados dentro do capítulo 9 da NCM, eles estão sujeitos à apuração do crédito presumido na forma do art. 8º, da Lei n.º 10.925/2004, não cabendo a tomada do crédito integral com fulcro no art. 3º, I, da Lei n.º 10.637/2002. Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer em parte do Recurso Voluntário e, na parte conhecida, por maioria de votos, em darlhe parcial provimento para reverter a glosa dos créditos relativos aos fretes pagos na aquisição de insumos. Vencida a Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula que negava provimento ao Recurso integralmente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 34 9. 00 04 28 /2 00 9- 06 Fl. 465DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Rodolfo Tsuboi (suplente convocado), Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Renato Vieira de Avila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos. Ausente justificadamente a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, sendo substituída pelo Conselheiro Renato Vieira de Avila (suplente convocado). O Conselheiro Diego Diniz Ribeiro declarouse suspeito, sendo substituído pelo Conselheiro Rodolfo Tsuboi (suplente convocado). Relatório Tratase de pedido de ressarcimento de crédito de PIS relacionado às receitas de exportação, apurado no 2º trimestre de 2007, ao qual foram vinculadas declarações de compensação. O crédito pleiteado foi parcialmente reconhecido por meio do despacho decisório das efls. 320/341, assim sintetizado: "PIS. INCIDÊNCIA NÃOCUMULATIVA VINCULADA A RECEITA DE EXPORTAÇÃO. PERÍODO DE APURAÇÃO 2º TRIMESTRE DE 2007. O contribuinte que apurar crédito do PIS na forma da Lei 10.637/2002 e não puder utilizálo na dedução de débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos administrados pela RFB e, na impossibilidade de utilizar esse crédito na forma acima citada, poderá solicitar, ao final do trimestrecalendário, o seu ressarcimento em dinheiro, observada a legislação específica aplicável |à matéria, principalmente quanto aos créditos que somente podem ser utilizados para a dedução da contribuição devida e aos créditos passíveis de ressarcimento ou contribuição. CRÉDITOS PRESUMIDOS. CAFÉ. Em se tratando de mercadorias classificadas na posição 0901 da NCM, geram direito ao crédito presumido de Cofins previsto no art. 8º da Lei nº 10.925/2004 apenas aquelas que, além de serem produzidas pela empresa beneficiária, forem por ela padronizadas, beneficiadas, preparadas e misturadas para definição de aroma e sabor (blend) ou separadas por densidade dos grãos, com redução dos tipos determinados pela classificação oficial. DEVOLUÇÕES DE VENDAS. Impossibilidade da aplicação de rateio proporcional nesta rubrica. FRETES SOBRE COMPRAS. Consoante o art. 289, § 1º, do RIR/1999, os fretes sobre compras das mercadorias adquiridas integra o custo de aquisição desses bens. PEDIDO DE RESSARCIMENTO DEFERIDO PARCIALMENTE. DECLARAÇÕES DE COMPENSAÇÃO HOMOLOGADAS ATÉ O LIMITE DO CRÉDITO RECONHECIDO." (efl. 320) Fl. 466DF CARF MF Processo nº 16349.000428/200906 Acórdão n.º 3402005.609 S3C4T2 Fl. 466 3 Inconformada, a empresa apresentou Manifestação de Inconformidade, julgada improcedente pelo Acórdão 1669.894 da 6ª Turma da DRJ/SPO, ementado nos seguintes termos: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/04/2007 a 30/06/2007 REGIME NÃOCUMULATIVO. CRÉDITO. FRETE NA COMPRA DE BENS A natureza do crédito relativo ao frete pago segue a natureza do crédito proveniente da aquisição do bem transportado. REGIME NÃOCUMULATIVO. CRÉDITO. AQUISIÇÃO DE CAFÉ CRU EM GRÃOS A lei não autoriza o aproveitamento de crédito ordinário na aquisição de café cru em grãos quando a operação estiver sujeita à suspensão da incidência do Pis e da Cofins. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido" (efl. 391) Intimada desta decisão em 03/11/2015 (efl. 401), foi apresentado Recurso Voluntário em 03/12/2015 (efls. 402/424) alegando, em síntese, o direito da empresa ao reconhecimento do crédito integral: (i) das despesas de frete na aquisição de insumos, e não o cálculo proporcional feito pela fiscalização, por não estar abrangida na previsão legal do art. 8º da Lei n.º 10.925/2004. Evidencia que o frete contratado é um negócio jurídico autônomo sujeito à incidência do PIS e da COFINS diferentemente dos bens transportados. Com isso, o fato do valor do frete fazer parte do custo de aquisição da mercadoria não implica na aplicação das mesmas regras de apropriação de créditos dessa mercadoria; (ii) na aquisição do café cru em grãos, vez que não se aplicaria para a Recorrente a suspensão do PIS nas aquisições; (iii) na devolução de vendas, inclusive do exterior, vez que essas devoluções afetam seu faturamento mensal. Após a juntada de decisão judicial para o julgamento do presente feito em 60 (sessenta) dias (efls. 439/444), o processo foi distribuído para minha relatoria. É o relatório. Voto Conselheira Relatora Maysa de Sá Pittondo Deligne. O Recurso Voluntário é tempestivo e cabe ser parcialmente conhecido, vez que parcela da discussão aventada pela Recorrente em sua peça recursal, relativa a devolução Fl. 467DF CARF MF 4 de vendas, não foi veiculada na Manifestação de Inconformidade apresentada e, portanto, não foi objeto de análise pela r. decisão recorrida. Com efeito, pela leitura da Manifestação de Inconformidade (efls. 347/357) e sua emenda às efls. 366/371, observase que a ora Recorrente não suscitou qualquer questionamento quanto ao crédito de devolução de venda glosado no despacho decisório. Por conseguinte, a questão não foi apreciada pela r. decisão recorrida (efls. 391/397). É o que evidenciou a própria Recorrente no relatório de seu Recurso Voluntário, no qual sintetizou as questões controvertidas trazidas na Manifestação de Inconformidade: "Em face do r. despacho decisório mencionado, a Recorrente apresentou sua Manifestação de Inconformidade, pela qual expôs o seu direito ao deferimento integral do crédito pleiteado, alegando, em suma, que: (i) o crédito presumido de que trata o art. 8º da Lei 10.925, de 2005, aplicase, única e exclusivamente, sobre o valor de BENS adquiridos de pessoas jurídicas, nos termos dos incisos I a III do parágrafo 1º do artigo mencionado, ou seja, essa regra não se aplica aos serviços de transporte adquiridos de pessoas jurídicas; (ii) não há que se falar em suspensão da incidência do PIS dentro do período analisado neste processo, sobre as receitas auferidas por cooperativas com vendas de café, conforme previsão do o inciso II, § 1º, art. 9º, da Lei 10.925, na redação que lhe deu o art. 29 da Lei 11.051. Portanto, as aquisições de café feitas diretamente de outros comerciantes ou de cooperativas geravam, para o adquirente, o direito ao desconto de crédito integral, tendo em vista que as receitas desses fornecedores eram oferecidas à incidência integral das referidas contribuições." (e fls. 406/407 grifei) Desta forma, a Recorrente não instaurou discussão administrativa neste processo quanto ao tópico "devolução de vendas" aventado no Recurso Voluntário (efls. 422/424). Com isso, esta matéria trazida no Recurso Voluntário, por não ter sido trazida em sede de Manifestação de Inconformidade, restou preclusa na forma do art. 17 do Decreto n.º 70.235/721. E, não se tratando de matéria passível de ser conhecida de ofício por este colegiado, por não constar do rol do art. 342 do CPC/20152, aplicável de forma subsidiária ao presente processo, dela não tomo conhecimento sob pena de supressão de instância e de ferir o devido processo legal. Nesse sentido é o entendimento deste E. CARF: "Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/12/2003 a 31/12/2003 PRECLUSÃO. INOVAÇÃO DE DEFESA. NÃO CONHECIMENTO Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pela manifestante, precluindo o direito de defesa trazido somente no recurso voluntário. O limite da lide circunscrevese aos termos da manifestação de inconformidade." (Processo 10875.903610/200978 Relator Juliano Eduardo Lirani Acórdão n.º 3803004.666. Unânime grifei) Nesse sentido, não tomo conhecimento do tópico "DO CRÉDITO DE DEVOLUÇÃO DE VENDAS" do Recurso Voluntário (efls. 422/424), passando à análise dos demais pontos controvertidos. 1 "Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante." 2 "Art. 342. Depois da contestação, só é lícito ao réu deduzir novas alegações quando: I relativas a direito ou a fato superveniente; II competir ao juiz conhecer delas de ofício; III por expressa autorização legal, puderem ser formuladas em qualquer tempo e grau de jurisdição." Fl. 468DF CARF MF Processo nº 16349.000428/200906 Acórdão n.º 3402005.609 S3C4T2 Fl. 467 5 I AS DESPESAS COM FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS E O ART. 8º DA LEI N.º 10.925/2004 Neste ponto, entendeu a fiscalização que deveria ser autorizado o crédito sobre os fretes na aquisição de insumo, por integrarem o custo de produção. Contudo, uma vez que o valor do frete compõe o preço do insumo adquirido, sujeito ao crédito presumido do art. 8º da Lei n.º 10.925/2004, a mesma restrição de crédito deveria ser aplicado para o creditamento do frete. Nos termos do Despacho Decisório: "57. Constatamos que, além dos fretes sobre vendas o contribuinte creditouse sobre fretes sobre compras de insumos. 58. A Lei nº 10.637/2002, que instituiu o regime de apuração nãocumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep, já estabelecia, por meio de seu art. 3º, os valores que poderiam integrar a base de cálculo do crédito passível de utilização pelo contribuinte da contribuição, dentre os quais o valor dos serviços utilizados como insumo na fabricação de produtos destinados à venda ou na prestação de serviços. As disposições de tal artigo foram parcialmente modificadas pelo artigo 37 da Lei nº 10.865/2004, contudo, não houve qualquer modificação no que tange à parte que leva ao entendimento de que o legislador elegeu como base de cálculo, para a apuração do crédito, o valor dos serviços utilizados como insumo. 59. Com o advento da Lei no 10.833/2003, que instituiu o regime de apuração não cumulativa da Cofins, passou a ser admitido também o aproveitamento de crédito sobre os valores dos gastos efetuados com a armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, quando o ônus for suportado pela própria empresa vendedora, conforme estabelece o inciso IX do art. 3o desta lei. 60. O art. 15 da citada Lei no 10.833/2003, tratou de estender o comando previsto no inciso IX às pessoas jurídicas enquadradas no regime de incidência não cumulativa da Contribuição para o PIS, em relação aos fatos geradores ocorridos a partir de 1o de fevereiro de 2004 (a teor do art. 93, I da mesma lei). 61. Frete sobre compras de insumos. Pois bem, inferese que a legislação permite o creditamento de valores relativos a despesas com serviços de frete, desde que tomados de pessoas jurídicas domiciliada no País, nas seguintes hipóteses: (1ª) no caso de se entender o serviço de frete como utilizado como insumo na prestação de serviço ou na produção de um bem destinados à venda (inciso II do artigo 3º da Lei nº 10.833/2002 e inciso II do artigo 3º da Lei nº 10.833/2002) e (2ª) no caso de serviço de frete na operação de venda, quando o ônus for suportado pelo vendedor (inciso IX do artigo 3º c/c com artigo 15 da Lei nº 10.833/2003). 62. Observese que há a hipótese de creditamento de custos com serviços de frete possível, além das hipóteses expressamente previstas na legislação acima colocadas. Esta se verifica quando o custo deste serviço, suportado pelo adquirente, é aplicado na aquisição de um bem utilizado como insumo ou de um bem para revenda, quando o valor do serviço de frete passa a integrar o valor de aquisição de tal bem. 63. Embora somente haja previsão expressa para o crédito relativo a “frete na operação de venda”, quando o ônus for suportado pelo vendedor, há que se observar que, na compra de bens, o frete, quando pago pelo adquirente, consoante a boa técnica contábil, integra o custo de aquisição desses bens, o que está consagrado no art. 289, § 1º, do RIR/1999 (“o custo de aquisição de mercadorias destinadas à revenda compreenderá os de transporte e seguro até o estabelecimento do contribuinte”). Assim, poderá o valor do frete compor a base de cálculo dos créditos a serem descontados do PIS e da Cofins nãocumulativos, uma vez que o frete integra o custo de aquisição das mercadorias. Fl. 469DF CARF MF 6 64. Integrando os fretes sobre compras o custo de aquisição dos insumos, o crédito calculado deve ser dividido em dois tipos: insumos com direito a crédito integral e com direito a crédito presumido. Sobre os fretes de compras de insumos com direito a crédito presumido deve ser aplicada a alíquota reduzida do crédito presumido (0,5775% e 2,66%) e seus valores devem compor a base de cálculo dos insumos com direito a crédito presumido. Desta forma, excluímos esses valores da base de cálculo do crédito integral e os transportamos para a base do crédito presumido." (efls. 336/337 grifei) Diferentemente de outros casos já enfrentados por esta turma3, observase que a fiscalização reconheceu a possibilidade do crédito do frete na aquisição de insumos, com fulcro na previsão do art. 3º, II, das Leis n.º 10.637/2002 e n.º 10.833/2003, por se enquadrar no conceito de insumo. Foi reconhecido, portanto, que seriam serviços utilizados como insumos, como considerado pela empresa, conforme indicado em suas DACONs (abril/2007, e fl. 29 e junho/2007, efl. 89). Entretanto, especificamente para os fretes pagos para a aquisição de insumos sujeitos à apuração pela sistemática do crédito presumido do art. 8º da Lei n.º 10.925/2004, a fiscalização entendeu pela necessidade de se aplicar a alíquota reduzida, excluindo os valores da base de cálculo do crédito integral. Contudo, ao contrário do que pretende a fiscalização, o direito ao crédito pelo serviço de transporte prestado (frete) deve ser concedido de forma integral, na forma do art. 3º, II, das Leis n.º 10.637/2002 e 10.833/2003, vez que esse serviço não consta da previsão do crédito presumido do art. 8º da Lei n.º 10.925/2004. O cálculo diferenciado do crédito previsto na referida lei se refere, APENAS, aos bens, aos produtos especificados no referido dispositivo legal provenientes de pessoas que se dedicam à atividade agropecuária, e não aos serviços tributados que possam ser a eles relacionados, como o caso do frete. Vejamos os termos do dispositivo legal na redação vigente à época dos fatos geradores objeto do pedido de ressarcimento: "Art. 8o As pessoas jurídicas, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias de origem animal ou vegetal, classificadas nos capítulos 2, 3, exceto os produtos vivos desse capítulo, e 4, 8 a 12, 15, 16 e 23, e nos códigos 03.02, 03.03, 03.04, 03.05, 0504.00, 0701.90.00, 0702.00.00, 0706.10.00, 07.08, 0709.90, 07.10, 07.12 a 07.14, exceto os códigos 0713.33.19, 0713.33.29 e 0713.33.99, 1701.11.00, 1701.99.00, 1702.90.00, 18.01, 18.03, 1804.00.00, 1805.00.00, 20.09, 2101.11.10 e 2209.00.00, todos da NCM, destinadas à alimentação humana ou animal, poderão deduzir da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, devidas em cada período de apuração, crédito presumido, CALCULADO SOBRE O VALOR DOS BENS referidos no inciso II do caput do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. § 1º O disposto no caput deste artigo aplicase também às aquisições efetuadas de: 3 À título de exemplo: "PIS. REGIME NÃOCUMULATIVO. INSUMOS. UTILIZAÇÃO DE BENS E SERVIÇOS . CREDITAMENTO. AMPLITUDE DO DIREITO. No regime de incidência nãocumulativa do PIS/Pasep e da COFINS, as Leis 10.637/02 e 10.833/03 (art. 3º, inciso II) possibilitam o creditamento tributário pela utilização de bens e serviços como insumos na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, ou ainda na prestação de serviços, com algumas ressalvas legais. Diante do modelo prescrito pelas retrocitadas leis dadas as limitações impostas ao creditamento pelo texto normativo, vêse que o legislador optou por um regime de não cumulatividade parcial, onde o termo “insumo”, como é e sempre foi historicamente empregado, nunca se apresentou de forma isolada, mas sempre associado à prestação de serviços ou como fator de produção na elaboração de produtos destinados à venda, e, neste caso, portanto, vinculado ao processo de industrialização.." (Processo 10675.002237/200488. Sessão 15/03/2016. Relator: Conselheiro Waldir Navarro Bezerra. Acórdão n.º 3402002.965 grifei) Fl. 470DF CARF MF Processo nº 16349.000428/200906 Acórdão n.º 3402005.609 S3C4T2 Fl. 468 7 I cerealista que exerça cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal, classificados nos códigos 09.01, 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, 12.01 e 18.01, todos da NCM; (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) II pessoa jurídica que exerça cumulativamente as atividades de transporte, resfriamento e venda a granel de leite in natura; e III pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária.(Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) § 2o O direito ao crédito presumido de que tratam o caput e o § 1o deste artigo só se aplica aos bens adquiridos ou recebidos, no mesmo período de apuração, de pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no País, observado o disposto no § 4o do art. 3o das Leis nos 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003. § 3o O montante do crédito a que se referem o caput e o § 1o deste artigo será determinado mediante aplicação, sobre o valor das mencionadas aquisições, de alíquota correspondente a: I 60% (sessenta por cento) daquela prevista no art. 2o das Leis nos 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, para os produtos de origem animal classificados nos Capítulos 2 a 4, 16, e nos códigos 15.01 a 15.06, 1516.10, e as misturas ou preparações de gorduras ou de óleos animais dos códigos 15.17 e 15.18; e II 35% (trinta e cinco por cento) daquela prevista no art. 2o das Leis nos 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, para os demais produtos." (grifei) A leitura do dispositivo denota que o referido crédito presumido é aplicado na aquisição de bens/produtos de pessoas físicas e jurídicas que se dedicam à atividade agropecuária, identificadas no caput e no §1º da Lei. O montante do crédito é calculado "sobre o valor dos bens" e não sobre o seu custo de aquisição, dentro do qual se incluiria o frete como mencionado pela fiscalização. Ora, no presente caso, a empresa arcou com serviços de frete, contratados de outras pessoas jurídicas, para a aquisição dos insumos, tratandose de um serviço utilizado como insumo em sua produção devendo, por conseguinte, serlhe garantido o crédito integral de PIS com fulcro no art. 3º, II, da Lei n.º 10.637/2002, independentemente da proveniência desses insumos (pessoas que se dedicam à atividade agropecuária). Isso porque não se pode confundir as despesas incorridas com o frete (serviço utilizado como insumo) com o próprio bem que é transportado4. 4 A necessidade de se segregar o valor do frete (serviço utilizado como insumo) do bem que é transportado é bem elucidada pelo I. Conselheiro Relator Rosaldo Trevisan em seu voto no julgamento do Acórdão n.º 3403001938 quanto às aquisições de insumos não tributados, no qual indica: "A fiscalização não reconhece o crédito por ausência de amparo normativo, e afirma que o frete e as referidas despesas integram o custo de aquisição do bem, sujeito à alíquota zero (por força do art. 1o da Lei no 10.925/2004), o que inibe o creditamento, conforme a vedação estabelecida pelo inciso II do § 2o do art. 3o da Lei no 10.637/2002 (em relação à Contribuição para o PIS/Pasep), e pelo inciso II do § 2o do art. 3o da Lei no 10.833/2003 (em relação à Cofins): (...) Contudo, é de se observar que o comando transcrito impede o creditamento em relação a bens não sujeitos ao pagamento da contribuição e serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição. Não trata o dispositivo de serviços sujeitos a tributação efetuados em/com bens não sujeitos a tributação (o que é o caso do presente processo). Improcedente assim a subsunção efetuada pelo julgador a quo no sentido de que o fato de o produto não ser tributado “contaminaria” também os serviços a ele associados. Vejase que é possível um bem não sujeito ao pagamento das contribuições ser objeto de uma operação de transporte tributada. E que o dispositivo legal citado não trata desse assunto" (Processo n.º 10950.003052/200656. Sessão de 19/03/2013. Relator Rosaldo Trevisan. Acórdão n.º 3403001.938. Maioria grifei) Fl. 471DF CARF MF 8 Como evidenciado pela fiscalização no Despacho Decisório, não se discute aqui a natureza da operação sujeita ao crédito (frete na aquisição de insumos, tributado e assumido pelo adquirente). O que se discute, apenas, é a suposta impossibilidade de concessão do crédito integral em razão do bem transportado ser sujeito ao crédito presumido, restrição esta não trazida na Lei, como visto. Nesse sentido, afastada a premissa adotada pela fiscalização, deve ser dado provimento ao Recurso Voluntário neste ponto para reverter a glosa dos créditos relativos aos fretes pagos na aquisição de insumos. II O CRÉDITO NA AQUISIÇÃO DO CAFÉ CRU EM GRÃOS Quanto ao crédito na aquisição do café cru em grãos, indica a fiscalização que o crédito de todas as aquisições deveriam se sujeitar à sistemática de apuração do crédito presumido do art. 8º, da Lei n.º 10.925/2004, não podendo ser objeto de crédito integral do art. 3º, I, das Leis n.º 10.637/2002 e 10.833/2003. Como indicado no despacho decisório: "21. De acordo com o artigo 3º, inciso I, das leis 10.637/2002 e 10.833/2003, o contribuinte pode descontar créditos de PIS e COFINS sobre as aquisições de bens adquiridos para revenda: “Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (Vide Medida Provisória nº 497, de 2010) I bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) 22. A Empresa realizou, durante aquisições de “Café In Natura” para revenda, classificada na posição 0901 da TIPI, desde junho de 2007 até o final do ano de 2008. Intimamos o contribuinte a apresentar um descritivo do processo produtivo das operações com essas mercadorias, o qual nos entregou uma declaração explicando que a empresa adquire, junto a cooperativas e empresas comerciais atacadistas, além de uma pequena parcela de produtores rurais pessoas físicas, o café cru em grãos sem nenhum tipo de beneficiamento. 23. Também declara que, após ser estocado nos armazéns da companhia, o café em grãos passa por um processo de “BLEND”: preparação e mistura dos tipos de café para definição de aroma e sabor ou por separação dos grãos por densidade, para posterior comercialização. Ainda apresentou fotografias dos locais de armazenamento e dos equipamentos do processamento do “BLEND”. (...) 26. Ao referirse aos produtos classificados na posição 0901 da Nomenclatura Comum do Mercosul NCM (café, mesmo torrado ou descafeinado; cascas e películas de café; sucedâneos de café contendo café em qualquer proporção), o art. 6º, II, da IN SRF nº 660/2006, repete, praticamente sem alterações, o texto da lei. Assim sendo, entendese por atividade agroindustrial a atividade econômica de produção das mercadorias relacionadas no caput do art. 5º da IN SRF nº 660/2006, excetuadas as atividades relacionadas no art. 2º da Lei nº 8.023/1990. 27. No caso específico dos produtos da posição 0901 da NCM, entretanto, é necessário que as atividades realizadas pelo beneficiário do crédito presumido incluam: a) padronização, beneficiamento, preparação e mistura de tipos de café para definição de aroma e sabor (blend); ou b) separação por densidade dos grãos, com redução dos tipos determinados pela classificação oficial. 28. Fica claro que a empresa realiza tais operações, portanto é uma empresa agroindustrial para efeitos da IN SRF nº 660/2006 e não faz jus aos créditos integrais previstos nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, mas tão somente aos créditos presumidos de PIS e Cofins previstos no caput do art. 8º da Lei nº Fl. 472DF CARF MF Processo nº 16349.000428/200906 Acórdão n.º 3402005.609 S3C4T2 Fl. 469 9 10.925/2004, em relação a produtos classificados no código 0901 da NCM. Dessa forma, procedemos à glosa total das aquisições de café para revenda da base de cálculo dos créditos integrais objetos dos Pedidos de Ressarcimento e Declarações de Compensação." (efls. 327/329) Com efeito, o entendimento fiscal se respalda na previsão do art. 8º, §1º da Lei, que estende a aplicação do crédito presumido não apenas para aquisições realizadas de pessoas físicas e cooperados, mas também para as pessoas jurídicas e cooperativas que se dedicam à atividade agropecuária. Vejamos novamente o teor do caput e §1º do art. 8º da Lei n.º 10.925/2004: "Art. 8o As pessoas jurídicas, inclusive cooperativas, que produzam mercadorias de origem animal ou vegetal, classificadas nos capítulos 2, 3, exceto os produtos vivos desse capítulo, e 4, 8 a 12, 15, 16 e 23, e nos códigos 03.02, 03.03, 03.04, 03.05, 0504.00, 0701.90.00, 0702.00.00, 0706.10.00, 07.08, 0709.90, 07.10, 07.12 a 07.14, exceto os códigos 0713.33.19, 0713.33.29 e 0713.33.99, 1701.11.00, 1701.99.00, 1702.90.00, 18.01, 18.03, 1804.00.00, 1805.00.00, 20.09, 2101.11.10 e 2209.00.00, todos da NCM, destinadas à alimentação humana ou animal, poderão deduzir da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, devidas em cada período de apuração, crédito presumido, calculado sobre o valor dos bens referidos no inciso II do caput do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, adquiridos de pessoa física ou recebidos de cooperado pessoa física. § 1º O disposto no caput deste artigo aplicase também às aquisições efetuadas de: I cerealista que exerça cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal, classificados nos códigos 09.01, 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, 12.01 e 18.01, todos da NCM; (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) II pessoa jurídica que exerça cumulativamente as atividades de transporte, resfriamento e venda a granel de leite in natura; e III pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária e cooperativa de produção agropecuária.(Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004)" (grifei) E esse fundamento legal não foi refutado diretamente pela Recorrente, seja em sua manifestação de inconformidade, seja no Recurso Voluntário. Isso porque, para refutar esse argumento, a empresa sustenta que caberia o crédito integral vez que as aquisições objeto do pedido foram realizadas de cooperativas e pessoas jurídicas em operações que foram tributadas, por não estarem sujeitas à suspensão da incidência das contribuições com base no art. 9º, §1º, II, da Lei n.º 10.925/2004, que expressa: "Art. 9º A incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins fica suspensa no caso de venda: I de produtos de que trata o inciso I do § 1o do art. 8o desta Lei, quando efetuada por pessoas jurídicas referidas no mencionado inciso; (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II de leite in natura, quando efetuada por pessoa jurídica mencionada no inciso II do § 1o do art. 8o desta Lei; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) III de insumos destinados à produção das mercadorias referidas no caput do art. 8o desta Lei, quando efetuada por pessoa jurídica ou cooperativa referidas no inciso III do § 1o do mencionado artigo. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) § 1o O disposto neste artigo: (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) Fl. 473DF CARF MF 10 I aplicase somente na hipótese de vendas efetuadas à pessoa jurídica tributada com base no lucro real; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II não se aplica nas vendas efetuadas pelas pessoas jurídicas de que tratam os §§ 6o e 7o do art. 8o desta Lei. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) § 2o A suspensão de que trata este artigo aplicarseá nos termos e condições estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal SRF. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004)" Enfrentando essa alegação, a r. decisão recorrida indica que as mercadorias comercializadas pela Recorrente estão efetivamente sujeitas à suspensão do PIS e da COFINS. Nos termos da r. decisão: "II. Do crédito relativo às aquisições de café 22. A autoridade fazendária também glosou créditos ordinários de Pis relacionados à aquisição de café cru em grãos, por entender que a operação estaria sujeita à suspensão da incidência do Pis e da Cofins. 23. Por seu turno, a interessada afirma que o café teria sido adquirido de pessoas jurídicas (comerciantes e cooperativas) e que — ao contrário — essa operação não estaria sujeita à suspensão da incidência dessas contribuições, em razão do disposto no inciso II do § 1° do art. 9° da lei 10.925/2004. (...) 25. Segundo o texto transcrito, a suspensão da incidência do Pis e da Cofins não se aplica às vendas efetuadas pelas pessoas jurídicas de que tratam os §§ 6° e 7° do art. 8° da lei em apreço, assim redigidos: "§ 6° Para os efeitos do caput deste artigo, considerase produção, em relação aos produtos classificados no código 09.01 da NCM, o exercício cumulativo das atividades de padronizar, beneficiar, preparar e misturar tipos de café para definição de aroma e sabor (blend) ou separar por densidade dos grãos, com redução dos tipos determinados pela classificação oficial. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) (Revogado pela Medida Provisória nº 545, de 2011) (Revogado pela Lei nº 12.599, de 2012). § 7° O disposto no § 6° deste artigo aplicase também às cooperativas que exerçam as atividades nele previstas. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) (Revogado pela Medida Provisória nº 545, de 2011) (Revogado pela Lei nº 12.599, de 2012)." — Os destaques são meus. 26. A leitura dos dispositivos citados deixa patente que as vendas feitas por fornecedores de café cru em grãos estão em princípio sujeitas à suspensão da incidência do Pis e da Cofins, havendo incidência dessas contribuições apenas e tão somente se os referidos vendedores efetuarem cumulativamente as atividades de padronizar, beneficiar, preparar e misturar tipos de café para definição de aroma e sabor (blend) ou separálos por densidade dos grãos. 27. Ora, a própria empresa, em resposta a intimação lavrada pela autoridade fiscal, admite que adquire o café cru em grãos sem nenhum tipo de beneficiamento e posteriormente ela própria efetua a preparação e mistura de tipos de café para definição de aroma e sabor (blend) ou a separação dos grãos por densidade (fls. 179/180). 28. É evidente, portanto, que não se aplica às aquisições de café cru feitas pela contribuinte a exceção prevista no inciso II do § 1° do art. 9° da lei 10.925/2004. 29. De mais a mais, a IN SRF n° 660/2006 é categórica ao determinar que a venda de café cru em grãos está sujeita à suspensão da exigibilidade do Pis e da Cofins: "Art. 2º Fica suspensa a exigibilidade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) incidentes sobre a receita bruta decorrente da venda: I de produtos in natura de origem vegetal, classificados na Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) nos códigos: Fl. 474DF CARF MF Processo nº 16349.000428/200906 Acórdão n.º 3402005.609 S3C4T2 Fl. 470 11 a) 09.01, 10.01 a 10.08, exceto os códigos 1006.20 e 1006.30;" (Os destaques são meus) 30. Notese que o código 09.01.11.10 corresponde a café não torrado, não descafeinado, em grão. 31. Não merece reparo portanto a glosa feita pela autoridade fiscal, achandose em perfeita conformidade com a legislação de regência." (efl. 395/396 grifei) Atentandose para o fundamento do despacho decisório, observase que a fiscalização sequer menciona a questão da suspensão do café cru em grãos, por entender, em conformidade com a Lei n.º 10.925/2004, que as aquisições realizadas pela empresa, como empresa agroindustrial, de pessoas jurídicas e pessoas físicas somente se sujeitam ao crédito presumido do art. 8º. E esse entendimento não merece qualquer reparo, por se encontrar em conformidade com a referida lei: não cabe a tomada do crédito integral com fulcro no art. 3º, I, da Lei n.º 10.637/2002 como intentado pela ora Recorrente no pedido de ressarcimento vez que os produtos adquiridos para revenda são produtos agrícolas, classificados dentro do capítulo 9 da NCM, sujeitos à apuração do crédito presumido na forma do art. 8º, da Lei n.º 10.925/2004. A discussão em torno da suposta inaplicabilidade da suspensão do PIS e da COFINS para as aquisições de café cru foi invocada pela Recorrente como um suposto argumento modificativo do Despacho Decisório. Contudo, esse argumento não enfrenta o fundamento principal do despacho decisório cuja validade foi acima comprovada, no sentido de ser aplicável o crédito presumido para as aquisições e não o crédito básico como intentado pela empresa. De toda forma, por ter sido matéria objeto do Recurso, cumpre mencionar que não merece reparo a r. decisão recorrida quanto à suspensão. Essa questão foi bem enfrentada pelo Conselheiro Marcelo Costa Marques d´Oliveira no Acórdão n.º 3301004.736, de 19/06/2018, em processo da mesma Recorrente que envolve circunstâncias fáticas idênticas, adotado como razão de decidir desse acórdão na forma do art. 50, §1º, da Lei n.º 9.784/99: "À luz das informações prestadas pela recorrente e dos dispositivos da Lei n° 10.925/04 acima transcritos, minha leitura é a seguinte: i) O crédito presumido é conferido às compras de café de cooperativas, quando insumo ("cru em grãos"), isto é, antes de ser submetido a qualquer tipo de beneficiamento, por pessoa jurídica (recorrente) que o sujeitará, dentre outros processamentos, ao denominado de "blend" caput do art. 8° da Lei n° 10.925/04. ii) O crédito mencionado no item anterior é presumido, porque a venda da cooperativa agropecuária para a recorrente goza de suspensão. E o fundamento é o inciso III do art. 9° c/c o inciso III do § 1° e caput do art. 8° da Lei n° 10.925/04. iii) As premissas para a aplicação das regras são as seguintes: 1°) O café deve ser vendido ainda na condição de insumo. 2°) O vendedor deve ser pessoa física ou cooperado pessoa física (caput do art. 8°), cerealista que pratique beneficiamento (inciso I do § 1° do art. 8°), pessoa jurídica que exerça atividade agropecuária (inciso III do § 1° do art. 8°) ou cooperativa de produção agropecuária (caso em tela, também previsto no inciso III do § 1° do art. 8°). iv) Destaquese que pouco importa se a cooperativa agropecuária também tenha a capacidade de beneficiar o café. Se, como na situação em debate, ela vender café cru em grãos para empresa que o beneficiária, a venda será cursada com suspensão das incidências das contribuições e o comprador (recorrente) terá direito ao desconto de crédito presumido e não integral. Com isto, afastase o entendimento da recorrente, que é no sentido de que o simples fato de a vendedora Fl. 475DF CARF MF 12 ser cooperativa agropecuária produtora já seria o suficiente para se descartar a aplicação da suspensão e, por conseguinte, conferirlhe créditos integrais de PIS e COFINS. Por fim, menciono não ser necessário adentrarmos a fundo na segunda alegação da recorrente a fiscalização teria baseado seu entendimento no art. 6° da IN SRF n° 660/06, o qual estaria em desacordo com o comando do inciso II do art; 9° da Lei n° 10.925/04, não podendo, portanto, ser adotado uma vez que, como vimos, a interpretação da fiscalização está integralmente em linha com os dispositivos da Lei n° 10.925/04. Isto posto, nego provimento aos argumentos da recorrente." (grifei) Diante do exposto, não merece reparo o Despacho Decisório neste ponto, vez que respaldado na legislação aplicável. III DISPOSITIVO Diante todo o exposto, cabe conhecer em parte o Recurso Voluntário para, na parte conhecida, darlhe parcial provimento para reverter a glosa dos créditos relativos aos fretes pagos na aquisição de insumos. É como voto. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne. Fl. 476DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13971.720371/2013-07
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Sep 14 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Oct 31 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2011
SIMULAÇÃO NA CONTRATAÇÃO DE EMPREGADOS E CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS.
Constatado pela fiscalização que a contratação de serviços ocorre de forma simulada, apenas para burlar o fisco, correto o enquadramento dos empregados na empresa a que estão materialmente vinculados.
CONTRIBUIÇÕES RECOLHIDAS POR EMPRESAS INTERPOSTAS.
Inexiste autorização para que os recolhimentos efetuados por empresas interpostas sejam abatidos em processo de lançamento fiscal lavrado contra terceira empresa, verdadeiro sujeito passivo da obrigação.
Numero da decisão: 2402-006.605
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário e negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Denny Medeiros da Silveira Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Gregório Rechmann Junior - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Denny Medeiros da Silveira, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, José Ricardo Moreira (suplente convocado), Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior. Ausente, justificadamente, o conselheiro Mário Pereira de Pinho Filho.
Nome do relator: GREGORIO RECHMANN JUNIOR
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Recorrente INDUSTRIA E COMERCIO DE CALCADOS TANIA LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2011 SIMULAÇÃO NA CONTRATAÇÃO DE EMPREGADOS E CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS. Constatado pela fiscalização que a contratação de serviços ocorre de forma simulada, apenas para burlar o fisco, correto o enquadramento dos empregados na empresa a que estão materialmente vinculados. CONTRIBUIÇÕES RECOLHIDAS POR EMPRESAS INTERPOSTAS. Inexiste autorização para que os recolhimentos efetuados por empresas interpostas sejam abatidos em processo de lançamento fiscal lavrado contra terceira empresa, verdadeiro sujeito passivo da obrigação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 97 1. 72 03 71 /2 01 3- 07 Fl. 585DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário e negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira – Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Gregório Rechmann Junior Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Denny Medeiros da Silveira, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, José Ricardo Moreira (suplente convocado), Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior. Ausente, justificadamente, o conselheiro Mário Pereira de Pinho Filho. Relatório Tratase de recurso voluntário em face da decisão da 7ª Tuma da DRJ/SDR, consubstanciada no Acórdão nº 1535.429 (fls. 513), que julgou improcedente a impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da decisão de primeira instância: Tratase de processo que inclui o Auto de Infração (AI) lavrado em 05/03/2013 por descumprimento de obrigações tributárias principais, sob o seguinte DEBCAD nº: 51.024.1913. A ação fiscal foi autorizada através do MPF nº 0920400.2012.00539, iniciada através do Termo de Início de Procedimento Fiscal – TIPF em 23/10/2012 (ciência pessoal nesta data, fl. 26) e encerrada em 07/03/2013 com a lavratura Termo de Encerramento de Procedimento Fiscal (TEPF), fl. 33. A tabela abaixo apresenta um resumo do Auto de Infração que compõe o processo sob julgamento: Consta ainda do Relatório Fiscal que: Fl. 586DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 3 3 1) Além da identificação do contribuinte, consta ainda como empresa vinculada a MR Indústria e Comércio de Calçados LtdaEPP, CNPJ 08.073.730/000124, sediada na Rua José Marcelino Franco, nº 313/321, CEP 88240000, Município de São João Batista, Santa Catarina; 2) As Auditorias Fiscais desenvolvidas nas empresas citadas evidenciam, segundo a Fiscalização, a presença de subterfúgios utilizados no intuito de afastar a incidência de contribuições previdenciárias (cota patronal), por meio da constituição de CNPJ em nome de interpostas pessoas (parentes e empregados) pelo Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições SIMPLES. Tais subterfúgios consistem em trabalhar com duas empresas paralelas para dividir o faturamento e o registro dos empregados, mantendo em seus quadros societários pessoas que não são seus verdadeiros sócios e ainda deixar de incluir nestes seus sócios de fato. A manutenção de empresa ME/EPP tem por objetivo registrar parte dos empregados em firmas contempladas pela LC 123/2006 a partir de 07/2007 e, assim, deixar de recolher as contribuições (patronal e de terceiros) sobre a folha de pagamento dos empregados registrados nesses CNPJ. O contribuinte pretendeu desta forma se elidir da incidência da contribuição previdenciária patronal que recairia sobre a folha de pagamento dos empregados e contribuintes individuais registrados na empresa optante pelo SIMPLES; 3) O Levantamento MR Folha de Pagamento da Representada Vinculada (e desmembramentos) identifica as remunerações pagas e/ou creditadas aos segurados empregados registrados na empresa vinculada. As remunerações estão discriminadas nas folhas de pagamentos/GFIP dessa firma, sendo por ela declarada na GFIP, cujos valores estão indicados no campo "BASE DE CÁLCULO: 01 SC Empreg/avulso" do Discriminativo do Débito DD, integrante deste Auto de Infração. Observa a Fiscalização que o prólabore do "suposto sócio" foi considerado salário, caracterizandoo empregado da empresamãe; 4) Dos 380 empregados registrados atualmente na IND. E COM. DE CALÇADOS TÂNIA LTDA RAPHAELLA BOOZ cerca de 50% deles estiveram registrados de 2008 a 2011 na empresa vinculada, constituída na forma do SIMPLES com o objetivo de afastar as contribuições patronais destinadas à seguridade social. Essa firma foi constituída pelo administrador da sociedade, em nome de seus parentes, empregados e amigos (interpostas pessoas), sendo totalmente controlada por ele através do seu financeiro como será demonstrado a seguir; 5) A INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CALÇADOS TÂNIA LTDA CNPJ 86.154.119/000134 conhecida pela marca RAPHAELLA BOOZ iniciou suas atividades em São João Batista/SC no ano de 1966, denominandose Booz e Albanaz Ind. E Com. Ltda. Os Sócios eram Ary Booz e Artur Adelino Albanaz (50% cada um). O objetivo social era a indústria e comércio de calçados; 6) Na segunda alteração de contrato (22/01/1970), a família Booz adquiriu todo o capital e a empresa passou a ser identificada com o nome atual. Contudo, o nome fantasia (a marca da empresa: RAPHAELLA BOOZ) só foi incorporado ao nome a partir de 04/05/2009, na 14ª alteração contratual; Fl. 587DF CARF MF 4 7) Em 17/11/1992 (8ª alteração) a firma se mudou para o endereço atual: Rua José Marcelino Franco, 313. E na 9ª alteração (07/05/1998) Cláudio César Booz (filho de Ary) assumiu a administração do negócio; 8) Na 10ª alteração (12/12/2003) Ary Booz saiu da firma, doando suas ações para os filhos: Regina Booz da Silva, Rozemari Booz, Arilane Booz Ramos e Rafaella Andressa Booz e Cláudio César Booz, que permaneceu na gerência; 9) Em 12/09/2008 (12ª alteração) todas as irmãs venderam suas quotas para Cláudio Booz e se retiraram da sociedade, exceto Rozemari Booz Massotti, que permaneceu na firma com 2% do capital; 10) Na consolidação da 17ª alteração contratual (30/08/2011) a sociedade alterou a atividade para "fabricação de calçados e de partes para calçados de qualquer material, importação, exportação e comércio varejista e atacadista de calçados, bolsas, lenços, meias, cintos, bijuterias, chaveiros, artigos do vestuário e acessório e produtos para conservação de calcados"; 11) Nesse período, a empresa abriu diversas filiais, encerradas no final de 2012 para abrir um sistema de franquias da marca RAPHAELLA BOOZ (Doc. 1 Contrato Social e Alterações da Ind. Com. de Calçados Tânia Ltda Raphaella Booz); 12) Composição do quadro social da Raphaella Booz: 13) A MR INDUSTRIA E COMÉRCIO DE CALÇADOS LTDA EPP iniciou suas atividades em 01/06/2006 com o nome de Studio Booz Indústria e Comércio de Calçados Ltda EPP no mesmo endereço da Raphaella Booz (Rua José Marcelino Franco, 313 321), São João Batista SC, tendo como objetivo: "o ramo da indústria e comércio de calçados" e como sócios Ary Booz e Valdir da Silva. Valdir era um amigo da família e entrou como sóciogerente com 92% do capital declarado (R$ 50 mil); 14) Na 1ª Alteração contratual (17/03/2008) Valdir da Silva se retirou da sociedade, entrando em seu lugar Rozemari Booz Massotti, que passou à condição de gerente. Em 01/03/2010 (2ª alteração) Laércio Antônio Massotti (esposo de Rozemari) substituiu Ary Booz na sociedade. Nesta data a firma alterou também o objetivo social para "fabricação de partes de calçados preparadas para montagem e o comércio de calçados"; 15) Na 3ª alteração (02/08/2010) foi alterado o nome empresarial para MR Indústria e Comércio de Calçados LTDA EPP e o endereço para a Rua Arnaldo Antônio da Silva, 44. Rozemari saiu da firma, entrando em seu lugar Rudinei Roberto Melo como sóciogerente; Fl. 588DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 4 5 16) Em 21/10/2010 (4ª alteração de contrato social) a firma permaneceu com o mesmo capital declarado no início da atividade e alterou o objeto para "serviços de montagem e acabamentos em calçados" (Doc. 2 Contrato Social e Alterações da MR EPP); 17) Composição do quadro social da MR: 18) Relação dos sócios da MR com a Raphaella Booz: a) Ary Booz é o criador da Raphaella Booz e seu administrador até 12/2003; b) Valdir da Silva é um amigo da família Booz; c) Rozemari Booz Massotti é filha de Ary e sócia da empresamãe; d) Laércio Antônio Massotti é o técnico de segurança do trabalho, registrado na Raphaella Booz (Doc. 12) e esposo de Rozemari Booz (atualmente separados judicialmente); e) Rudinei Melo foi registrado (encarregado) na Raphaella Booz de 2004 a 2009. Registrado na Studio Booz (MR) de 2009 a 08/2010 e "sócio" da MR a partir de 09/2010. Retornou a empregado da Raphaella em 04/2011 (Doc. 12); f) Ancelmo da Silva (outro genro de Ary Booz fundador da sociedade) é o financeiro (empregado registrado) da Raphaella Booz. É o procurador dos dois CNPJ (Doc. 3 Ancelmo da Silva é procurador das duas firmas); g) Leonardo Fábio Vurtuoso é o Office Boy do Escritório Contábil (de Tijucas) que atende às duas empresas (Doc. 4 Leonardo Vurtuoso é Office Boy da Assecontábil procuração e declaração); 19) O objetivo social formal das duas empresas é o mesmo, no entanto, o que a representada fazia de fato era prestar serviço de mão de obra para a confecção dos calçados comercializados pela Raphaella Booz. Ela foi constituída pelos donos desta, em nome de parentes e empregados, dentro do seu parque industrial e ali se manteve até os dias atuais; 20) O endereço registrado no contrato social da MR (Rua José Marcelino Franco, 321) é a entrada do estacionamento da Raphaella Booz, mas a portaria da empresa, por onde entram todos os empregados registrados nos dois CNPJ, é o número 313; Fl. 589DF CARF MF 6 21) A representada foi constituída como empresa do SIMPLES e desde a sua constituição até agosto de 2010 a ela coube o registro de aproximadamente 50% dos 350 funcionários da Raphaella Booz. Esses 50% são trabalhadores da produção de calçado e todos estiveram até 08/2010 (3ª alteração contratual) exercendo suas atividades dentro da empresa, isto é, no mesmo ambiente de trabalho. Ali, parte dos funcionários estavam registrados num ou no outro CNPJ, subordinados aos gestores do negócio. Nesse período a representada chegou a ter 175 trabalhadores registrados em seu CNPJ, trabalhando dentro da empresa mãe, fechando agosto/2010 com 110 registros (Doc. 5); 22) Em setembro/2010, os administradores alugaram um pequeno galpão próximo da Raphaella Booz Rua Arnaldo Antônio da Silva, 44 e para lá enviaram 60 funcionários. Os demais voltaram a ser registrados na empresamãe. Em menos de um ano esses 60 funcionários também retornaram, restando apenas três em auxílio doença no CNPJ da representada, que paralisou suas atividades (Doc. 5); 23) A representada está em nome de amigos, parentes e empregados, mas a administração de fato do negócio sempre coube a Cláudio César Booz através de seu corpo administrativo, encabeçado por Ancelmo da Silva (financeiro da empresa) que comanda os dois CNPJ por procuração pública (Doc. 3); 24) Com a edição da MP 540/2011 (de 02/08/2011), transformada na Lei 12.546 de 14/12/2011, o setor calçadista (entre outros segmentos da economia) foi beneficiado com a desoneração da folha de pagamento e passou a recolher parte do INSS através de uma alíquota sobre o seu faturamento; 25) Ou seja, esses setores beneficiados observaram que não tinham mais razão de manter outros CNPJ paralelos, no Simples por ex., correndo o risco de serem fiscalizados como grupo econômico, como vem ocorrendo; 26) Beneficiada ou não, se teve ou não essa intenção, a partir de 12/2011 quando entrou em vigor a MP 540, a representada paralisou suas atividades. No período fiscalizado, a média de registros de empregados na Rafhaella Booz passou de 200 em 2008 para 380 em 2011. Desses, cerca de 50% estiveram por algum tempo registrados no CNPJ do Simples, ou seja, na representada (Doc. 5 Resumo da folha de pagamento e o número de registro da representada de 2008 a 2011); 27) Para o procurador Ancelmo da Silva, conforme entrevista, houve um acordo da empresa com o encarregado Rudinei Melo, que se ele não fosse bem como "empresário" (foi sóciogerente da representada por oito meses), o emprego dele estaria garantido na Raphaella Booz. O que de fato aconteceu foi o retorno de todos os funcionários e não só o encarregado, pedindo a baixa da empresa na Prefeitura (Doc. 12); 28) Desde a criação da representada, a intenção da Raphaella Booz era a de trabalhar com um CNPJ paralelo, do SIMPLES, com a finalidade exclusiva de registrar os empregados e livrar a empresamãe dos encargos trabalhistas sobre a folha de pagamento; Fl. 590DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 5 7 29) Criou, portanto, esse CNPJ em nome de terceiros para abrigar cerca de 50% de todos os vínculos empregatícios da sociedade. Ou seja, uma empresa única dividida em dois CNPJ, controlados pelas mesmos gestores, no mesmo ambiente industrial; 30) Braço direito da família, o empregado Ancelmo da Silva (cunhado de Cláudio César Booz, administrador do negócio desde 1998) é o responsável pelo setor administrativo e financeiro da sociedade. Ele tem procuração das duas empresas para gerir e administrar todos os negócios da outorgante. O negócio compreende cerca de 380 funcionários, que por um longo tempo estiveram registrados nos dois CNPJ e hoje retornaram ao CNPJ da empresamãe (Doc. 3 Procurações públicas onde Ancelmo da Silva é o procurador das duas firmas); 31) Procurador das duas empresas ao mesmo tempo e financeiro do negócio, Ancelmo da Silva controla os dois CNPJ como quer. Todos os pagamentos das duas firmas, todas as admissões, rescisões, conciliações bancárias, pagamentos de salários (folha de pagamento), transações entre contas, movimentação bancária das duas contas etc passam por dele (Doc. 11 Comprovantes de transações efetivadas pelo procurador Ancelmo); 32) A razão de ter mais de um CNPJ é a possibilidade de manter um deles no SIMPLES NACIONAL, instituído pela Lei Complementar n.° 123/2006, para trabalhar com duas empresas paralelas: uma para abrigar o faturamento e registrar parte do pessoal (principalmente os mais próximos da administração) e o outro para registrar os empregados da produção. Manter os empregados registrados no CNPJ do SIMPLES significou deixar de pagar a contribuição dos tributos gerados sobre a folha de pagamento desses funcionários da produção; 33) Com este Regime Especial de tributação, unificado, diferenciado e favorecido, no âmbito dos poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, as pessoas jurídicas consideradas como Microempresas ME e Empresas de Pequeno Porte EPP recolhem mensalmente, mediante documento único de arrecadação, o ICMS, ISS, IPI, PIS, COFINS entre outros impostos e contribuições, em contrapartida, deixam de recolher as contribuições (patronal e de terceiros) sobre a folha de pagamento; 34) Isto é, uma empresa única dividida em dois CNPJ, controlados pela família em um mesmo ambiente industrial, cujo corpo administrativo da empresa paralelamente trata de todos os funcionários independentemente de onde estejam registrados; 35) Paralisada as atividades em 2011, a representada nomeou por procuração pública (em 26/11/2010) Leonardo Fábio Vurtuoso, office boy, residente em Tijucas, empregado registrado no escritório contábil responsável pela escrita fiscal das duas empresas, para "gerir os seus negócios" (Doc. 4). Enquanto Rudinei Roberto "sócio" continuava encarregado da fábrica. Na realidade, dali ele nunca saiu; Fl. 591DF CARF MF 8 36) A representada que no auge de seu movimento, quando mantinha 50% da mão de obra da sociedade era gerida pelo financeiro do negócio, Ancelmo da Silva, empregado registrado na Raphaella Booz, passou (na depressão) a ser gerida pelo Office Boy da contabilidade terceirizada (Doc. 4). Em termos, porque o Doc. 22 comprova que Ancelmo da Silva continua até hoje no comando dos dois CNPJ; 37) A Raphaella Booz tem (e sempre teve) um único RH para tratar dos 380 funcionários registrados no dois CNPJ; 38) Todo o sistema operacional e funcional esteve centralizado dentro da Raphaella Booz comandados por empregados que já fazem parte da história da empresa como Ancelmo da Silva, do financeiro e procurador das duas firmas; 39) Sheila Adriana Motter, gerente de RH, faz o recursos humanos dos dois CNPJ (e sempre foi assim) e, embora sejam 380 empregados, conhece a todos e em qual firma esteve registrado (hoje todos os funcionários voltaram a ser registrados no CNPJ da empresamãe). Ela quem faz a entrevista de emprego, admissão e a demissão etc (Doc. 16 RH dá suporte à emissão do laudo técnico de condições do trabalho das duas firmas); 40) Todo o material de expediente era em nome da empresamãe mesmo porque a representada possuía apenas um encarregado para cuidar dos operários da produção, Rudinei Melo. Ainda, assim, no período em que esteve fora do centro administrativo da Raphaella Booz, no endereço alugado; 41) A representada paralisou as atividades, saiu do imóvel alugado, mas não emitiu nova alteração no contrato social. Seus "sócios" trabalham na Raphaella Booz e as informações sobre a firma do Simples são prestadas pelo RH da sociedade ou pela sua contabilidade. Através do RH a fiscalização encontrou Rudinei Melo para assinar o Termo de Início de Procedimento Fiscal TIPF da MR e entrevistalo (Doc. 6 TIPF da MR assinado por Rudinei Roberto Melo e entrevista); 42) Entrevistar os empregados é ouvir a unanimidade deles afirmar que são empregados da Raphaella Booz, cujo patrão é o Sr. Cláudio Booz. Os entrevistados afirmam que não existe ou existiu outra empresa no local. Ali sempre foi Raphaella Booz Ind. e Com. de Calçados Tânia Ltda; 43) Mesmo porque os fatos se confundem: até metade de 2006 tudo era Raphaella Booz (Ind. e Com. de Calçados Tânia Ltda) depois parte dos funcionários foi transferido para a representada e em 2011 todos os funcionários retornaram a Raphaella Booz; 44) Até os mais letrados se confundem, veja o caso de Marcela Xavier, recepcionista da Raphaella Booz. Declarou ser registrada na Calçados Tânia há 7 anos, quem a entrevistou para o emprego foi a Scheila Adriana Motter, gerente do RH. Por 4 anos trabalhou no setor de Corte. Conhece o Rudinei "é o encarregado da esteira", mas nunca soube que ele era dono de alguma empresa, disse, e que não tem conhecimento se ele saiu da Raphaella Booz por algum tempo. Conhece o Laércio, o outro "sócio" da representada: "trabalha no Setor Fl. 592DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 6 9 de Franquia", mas desconhece se ele tem outra firma. Confessou que sempre trabalhou na Ind. E Com. de Calçados Tânia: "eu nunca fui registrada na MR"; 45) A insistência pelo esclarecimento de outro registro da recepcionista é porque existem dois registros: o de número 38 da STUDIO BOOZ (atual MR) e o de número 2448 na Raphaella Booz, fato que ela própria desconhece. Desconhece porque ela sempre esteve dentro da Raphaella Booz, comandada por Ancelmo da Silva, financeiro e procurador, que é seu chefe imediato e quem assinou a rescisão em 2010 para mudar de empresa (Doc. 7 Entrevista de Marcela Xavier, Ficha de Registro e Rescisão assinada pelo procurador); 46) De acordo com a sua entrevista, Marcela Xavier trabalha há 7 anos na empresa e que jamais saiu dali. Formalmente a representada rescindiu o seu contrato em 29/04/2010 e foi admitida na Raphaella Booz em 18/10/2010 Ficha de Registro 2448; 47) Existe a rescisão (Doc. 7), mas no movimento de caixa da empresa de 11/2010 foi encontrado no extrato bancário pagamento em cheque da sua rescisão no dia 01/11/2010 (Doc. 8 Rescisão de Marcela Xavier paga em cheque e FRE 2448); 48) Questionada, a contabilidade apresentou documento que houve o pagamento em dinheiro (caixa) da rescisão de Marcela no dia 30/04/2010 (Doc. 9 Rescisão paga em dinheiro); 49) A entrevista de Rudinei Roberto Melo, encarregado do setor de montagem / esteira e "sócio" da representada também merece comentário. Ele trabalha há 8 anos na Ind. e Com. de Calçados Tânia (Raphaella Booz) mas não sabia que até ser demitido para "assumir" a representada estava na verdade registrado na STUDIO BOOZ (MR) na FRE número 20; 50) Nesse período disse que saiu um ano e meio para "montar" a MR Calçados, que prestava serviço exclusivo para a empresamãe. Formalmente ele ficou na representada de 09/2010 a 03/2011 quando retornou à Raphaella Booz (FRE 2583 deste CNPJ); 51) Embora tenha retornado à condição de empregado, continuou "sócio gerente" da representada. Afirmo que esse é o típico caso do retorno de quem não foi. Nesses 8 anos declarando que trabalha na empresa, de fato sempre trabalhou ali, dos quais 8 meses "sócio" da representada (Doc. 12 Rudinei volta à condição de empregado, registrado na Rafhaella Booz e Baixa da Prefeitura); 52) Da firma que foi "sóciogerente" recentemente ele pouco se lembra. Não lembra do endereço, de quanto faturava, do nome do sócio, de quem ele "comprou" a empresa. Também não sabe quem fazia a parte administrativa (entrevista de emprego, admissão, demissão etc) nem do contador: "meu serviço era a prestação de serviço", disse. Ainda declarou que não vendia nada e que fechou a empresa em 2011 (Doc. 6). O pedido de baixa foi apenas na Prefeitura de São João Batista e no Corpo de Bombeiros (Doc. 12); Fl. 593DF CARF MF 10 53) Diante disso surge uma pergunta: que empresário é esse? De fato, é a pessoa interposta (laranja) a serviço do dono do negócio. Nesse caso, um empregado sem noção nenhuma de gerir uma firma. Um trabalhador da produção, apenas; 54) Rozemari Booz Massotti tem 2% da Ind. e Com. de Calçados Tânia e foi "sóciagerente" da representada. Disse na entrevista que ela e o pai Ary Booz abriram a empresa em 2008. "Um Ateliê para prestar serviço exclusivo para a Raphaella Booz" e que não teve outros sócios até vender para o Rudinei Melo. Apesar de gerente, não lembra do faturamento, mas sabe que a firma funcionava na Rua Arnaldo Antonio da Silva; 55) Algumas verdades que a Sra. Rozemari desconhece: quem "iniciou a empresa" foi o pai dela e um amigo (Valdir da Silva, intitulado sóciogerente, no contrato social). Na época em que ela era "gerente" o seu sócio era o próprio esposo Laércio Massotti, que continuou no contrato social após a sua saída até hoje. À época de sua "administração", a STUDIO BOOZ sempre esteve dentro da Raphaella Booz com mais de 175 funcionários registrados em seu CNPJ, número três vezes superior à sua recordação (DOC. 10 Entrevistas de Rozemari Booz Massotti); 56) Valdecir Boaventura (sócio da ZR Terceirização) é o atual inquilino do galpão da Rua Arnaldo Antonio da Silva, 44 (alugado como sede da representada de 08/2010 a 07/2011). Declarou que a firma anterior que alugou aquele endereço era um ateliê da Raphaella Booz, cujo encarregado (Rudinei Melo) é empregado dela (DOC. 21 Entrevista com o atual inquilino do galpão alugado); 57) Exceto no período de 09/2010 a 03/2011 em que uma parte dos funcionários foi para um galpão alugado, a representada sempre esteve dentro da empresa mãe, utilizando o espaço físico dela sem contrato de aluguel nem contrato de comodato de uso das máquinas e equipamentos da Raphaella Booz. Dentro ou fora desta, a representada sempre viveu às custas da empresamãe (Doc. 13 Declaração informando a ausência de contrato de aluguel e de comodato. Contrato de aluguel apenas no período 09/2010 a 08/2011); 58) Em contrapartida, teve período em que a representada colocou mais de 170 funcionários à disposição da empresamãe, na produção de sua marca (Doc. 5); 59) O "milagre" no faturamento da Raphaella Booz observado no demonstrativo a seguir se deve, em parte, ao trabalho desenvolvido pelos empregados registrados na representada (do SIMPLES), que entraram na sociedade com a mão de obra; 60) Consta do Relatório Fiscal o Demonstrativo do Resultado do Exercício das Empresas: Fl. 594DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 7 11 61) Analisando o imobilizado e a contabilização dos custos, a seguir, afirma a Fiscalização que a representada faturou basicamente para pagar o custo da folha de pagamento/salários e que ela existe simplesmente para registrar parte dos empregados, é possível ainda afirmar que ela não teria capacidade de se estabelecer sozinha, de movimentar o seu negócio sem o suporte administrativo e econômico da empresamãe; 62) Ativo Imobilizado e Equipamentos: 63) O quadro abaixo demonstra a realidade do negócio: a empresamãe banca praticamente todas as despesas da sociedade. Contas como energia elétrica, água, telefone, aluguel, material de expediente, refeição do trabalhador, assistência médica, seguros e tantas outras indispensáveis para o desenvolvimento da empresa não fazem parte das despesas da representada. Fl. 595DF CARF MF 12 64) Na 3ª alteração contratual da representada (02/08/2010) alterouse o nome da firma paraMR Calçados, o endereço e o comando. Conforme a relação de demitidos daquele mês, mais de 50 funcionários simplesmente trocaram a MR pela Raphaella Booz. Ou seja, saíram no dia 25/08/2010 do CNPJ da representada e foram admitidos no dia seguinte no CNPJ da Calçados Tânia Ltda. Dos demitidos apenas dois funcionários deixaram a sociedade e um Rudinei Fl. 596DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 8 13 Melo virou "sóciogerente" a partir dessa alteração (Doc. 14 Relação de demitidos da MR e seus novos vínculos na empresamãe); 65) Apesar da representada ter conta própria no Banco do Brasil conta 003 Banco do Brasil Studio Booz, no extrato bancário ela é identificada como conta 001 IND. E COM. de CALÇADOS TANIA LTDA e ao lado (esquerdo) a logomarca da empresa "RAPHAELLA BOOZ / SB" (de Studio Booz). Isto é: é uma conta da Calçados Tânia para os pagamentos da representada (Doc. 15 Conta bancária da representada é identificada pela Calçados Tânia Ltda. e controlada pelo financeiro da sociedade Ancelmo da Silva); 66) O Laudo Técnico das Condições de Trabalho LTCAT comprova que a localização das duas firmas é a mesma. Ou seja: todos os empregados trabalham no mesmo local, na Rua José Marcelino Franco 313. O acompanhamento do laudo é feito pela mesma pessoa, a Gerente de RH Scheila Adriana Motter (registrada na Raphaella Booz) e assinado pelo mesmo Técnico de Segurança do Trabalho, Laércio Antônio Massotti, empregado da Raphaella Booz e "sócio" da representada. Ancelmo da Silva, empregado da Raphaella Booz e procurador dos dois CNPJ é quem avaliza o documento em nome das duas empresas (Doc. 16 Laudo Técnico das condições de Trabalho comprova que todos os funcionários trabalham no mesmo local e o RH único dá suporte a sua emissão); 67) Os pagamentos das duas firmas, admissões, rescisões, conciliações bancárias, pagamentos de salários (folha de pagamento), transações entre contas, movimentação bancária das duas contas, etc passam pelo financeiro Ancelmo da Silva (Doc. 11); 68) Apesar de a representada ter conta bancária própria, ela vive dos empréstimos e transferência on line feitas pela Ind. Com. de Calçados Tânia, através do procurador e financeiro. É analisar os extratos e observar que, antes de algum pagamento significativo da representada, existe uma transferência da empresamãe para cobrir a conta. (Doc. 19 Transferências on line para a representada cobrir os débitos); 69) Mesmo no período em que esteve no galpão fora da sede (09/2010 a 08/2011) a representada exercia a atividade exclusiva para a Raphaella Booz. Setores identificados como Montagem III e IV, por ex., eram as linhas de montagem 3 e 4 do endereço alugado, enquanto as linhas de Montagem I e II eram dentro da empresamãe. Revisão Saída Raphaella, Distribuição Raphaella são outros exemplos de que esses funcionários, embora fora da sede, executavam os serviços para a empresamãe (Doc. 20 Linhas de montagem III e IV dos calçados Raphaella Booz eram executados pela representada). Zabumba, também mencionada no Doc. 20, é outra linha de calçados da Raphaella Booz; 70) Esclarece a fiscalização que: a) Rudinei Melo foi "sóciogerente" da representada apenas no papel, assim mesmo no período 09/2010 a 03/2011 porque em 04/2011 voltou a ser registrado na Calçados Tânia Ltda (Doc. 12). E em todo esses 8 anos de empresa ele jamais deixou de ser um encarregado de setor da Raphaella Booz, apenas; Fl. 597DF CARF MF 14 b) A alteração do nome da representada de STUDIO BOOZ para MR (iniciais inversas de Rudinei Melo) ocorreu também só no papel do contrato social e nas fichas de registro dos empregados FRE porque ela continuou a ser tratada como STUDIO BOOZ, interna e externamente; c) Leonardo Vurtuoso, Office Boy da Contabilidade (Doc. 4), também é procurador da representada (a partir da 3ª alteração) apenas nas causas formais porque quem continuou assinando e decidindo pela representada é o procurador da sociedade Ancelmo da Silva (Doc. 3); 71) Os três itens acima são fartamente comprovados no Doc. 22 a seguir: a) Analisando o movimento bancário da representada de 12/2011 (último mês fiscalizado) observase que a conta do Banco do Brasil da representada continua em nome da STUDIO BOOZ; b) As transferências de valores entre as contas da Calçados Tânia Ltda e da representada continuam sendo feitas pelo procurador Ancelmo da Silva; c) Os pagamentos de títulos da representada (como por ex. para a Assecontábil) são feitos por Ancelmo da Silva; d) A identificação da conta do Banco do Brasil da representada continua em nome da Ind. e Com. de Calçados Tânia Ltda com logotipo "RAPHAELLA BOOZ / SB"; e) A Folha de pagamento encaminhada via Banco do Brasil e pagamentos de férias e de 13º salários foram efetuados Ancelmo da Silva ( Doc. 22 Movimento Banco do Brasil de 12/2011 da representada expõe com clareza que a firma continua sendo comandada pelo procurador empregado registrado da Raphaella Booz e cunhado do administrador Cláudio César Booz); 72) Na avaliação do PPRA do CNPJ "Raphaella Booz" observase que o programa de prevenção é o mesmo para as duas empresas. Ambas com o mesmo endereço na Rua José Marcelino Franco 313, São João Batista SC. Mesma atividade principal: Fabricação de Calçados de Couro e mesmo CNAE 15.31901. Mesma pessoa que acompanha o programa: Sra. Scheila Adriana Motter, Gerente de RH. Mesmo Técnico de Segurança de Trabalho que assina: Laércio Antônio Massotti. Mesmo Certificado de Calibração para os dois CNPJ (Doc. 17 PPRA é o mesmo para os dois CNPJ); 73) Os empregados da produção / operacional das duas firmas trabalham todos juntos nos diversos setores. É o que demonstra o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional – PCMSO (Doc. 18 Programa de Controle Médico das duas empresas). Observase que a representada contempla somente os setores operacionais (produção). Tem apenas um cargo administrativo que era ocupado pelo encarregado Rudinei Melo. Este, no período de 09/2010 a 03/2011 passou a ser "sócio" da representada, mas retornou à condição de encarregado da Raphaella Booz, a partir de 04/2011 (Doc. 12); 74) Outra prova de que se fala da mesma empresa, utilizandose de dois CNPJ, os cargos de: Vendas, Contábil, Faturamento, Compras, Financeiro, Estilista, PCP, PSI, RH, Modelista de Calçados, Técnico de Segurança do Trabalho, Motorista, Vigia e Recepcionista eram cargos apenas da empresamãe. Isto é: o controle do negócio está nas mãos dos gestores da sociedade. (Doc. 18); Fl. 598DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 9 15 75) A gestão administrativofinanceira da Raphaella Booz (Calçados Tânia Ltda) e da representada é exercida pelo administrador do negócio Cláudio César Booz e seu cunhado e procurador Ancelmo da Silva. Seus parentes e empregados estavam no contrato social da representada apenas como parte figurativa do processo, isto é, a sociedade possui um único comando, independentemente de onde estiveram registrados os trabalhadores; 76) O objetivo do grupo era desenvolver a atividade com duas empresas paralelas, a do SIMPLES para registrar 50% dos trabalhadores e a outra para registrar os outros 50% e para o faturamento. De fato, a representada não tem patrimônio e capacidade operacionais necessários à realização de seu objetivo; 77) Os segurados trabalhavam todos juntos, os pagamentos eram feitos pela mesma pessoa, o mesmo procurador para os dois CNPJ, o RH, o sistema de informação e o financeiro são os mesmos, enfim tudo era e é Raphaella Booz e atendia a todas as firmas, ou seja, era único; 78) A Fiscalização conclui que se trata de uma "simulação" quando comprovadamente uma empresa optante pelo SIMPLES não cumpre o seu objeto social; "desenvolve" suas atividades utilizando bens constantes no ativo permanente da empresamãe, sem nenhum vínculo jurídico justificador dessa utilização; igualmente possui despesas operacionais referentes a pagamentos da manutenção desses bens; possui sócios comuns, etc; 79) Este contexto tem revelado, via de regra, a prática adotada por muitas empresas que se utilizam do artifício da abertura de empresas do SIMPLES que abrigam o quadro funcional com objetivo de se elidirem da contribuição patronal sobre a folha de pagamento. Reiteradamente essas empresas têm sido autuadas por se tratar não de elisão, mas de simulação com vistas à sonegação fiscal; 80) Concluise que a representada foi criada pela Raphaella Booz com a finalidade de formalizar parte dos registros dos empregados, sendo, portanto, totalmente controlada pela empresamãe. As empresas fiscalizadas desenvolvem atividades semelhantes e se completam. Demonstrouse que há estrutura hierárquica estabelecida, onde os empregados executam suas funções sob as ordens dos administradores do negócio. Enfim, de acordo com os fatos encontrados durante a fiscalização e os depoimentos colhidos dos funcionários, o proprietário da empresa vinculada era e é o administrador da Ind. e Comércio de Calçados Tânia Ltda Raphaella Booz. Tratase de constituição simulada de pessoa jurídica em nome de interpostas pessoas físicas ("laranjas") e assim eximir a Raphaella Booz do pagamento de contribuições previdenciárias e outros tributos, tudo com o claro e primordial intento de lesar o fisco; 81) Em decorrência dos fatos relatados, esta fiscalização entende que os empregados da empresa vinculada atendem aos pressupostos necessários à caracterização de segurados empregados da Raphaella Booz, comandados por ela através de seu administrador, conforme o disposto no art. 3º da CLT e no art. 12, inciso I, alínea "a", da Lei 8.212/91. A Fiscalização discorre acerca de cada um dos pressupostos: pessoalidade; não eventualidade; subordinação e onerosidade; Fl. 599DF CARF MF 16 82) Consta no Relatório Fiscal como responsável solidário o Sr. Cláudio César Booz (Termo de Constatação, fls. 335). Transcrevendo vários artigos do CTN, afirma a Fiscalização que, como relatado no início, Cláudio César Booz é o verdadeiro sócio das fiscalizadas, o sócio de fato. Entretanto, por haver infringido a lei e por ter interesse comum na situação que constitui o fato gerador dos tributos aqui lançados, será responsabilizado solidariamente pela obrigação tributária decorrente; 83) Os saláriosdecontribuição (remunerações) lançados no Auto Infração foram declarados em GFIP na empresa vinculada com a informação: 2 Optante pelo SIMPLES. Portanto, declarado como devido na GFIP somente as contribuições descontadas dos segurados e as deduções legais (Salário Família e Salário Maternidade); 84) Não foram constituídos créditos em favor do contribuinte pelo pagamento de DARF de código 6106 em nome da empresa do Simples; 85) Em vista da edição da Medida Provisória n° 449, de 03/12/2008, convertida na Lei 11.941 de 27 de maio de 2009, a qual implementou a multa de ofício na cobrança de fato gerador de contribuição previdenciária não declarada em GFIP, e em atendimento ao disposto no art. 106, inciso II, alínea "c" do CTN, foi feita a comparação mensal entre os valores da multa de ofício e a soma da multa de mora prevista no art. 35, inciso II da Lei 8.212/91 com a multa prevista no art. 32, § 5° da Lei 8.212 (Código de Fundamentação Legal CFL 68), para as competências anteriores à edição da referida MP; 86) Acompanha a planilha "Cálculo da Multa mais Benéfica" e "SAFIS Comparação de Multa" que discriminam mensalmente os valores resultantes do cálculo das multas conforme as legislações passada e presente, e evidenciação da multa mais benéfica ao contribuinte por competência, justificando a não lavratura desse AIOA (CFL 68); 87) A Fiscalização aborda os aspectos relacionados à aplicação da multa de ofício prevista no art. 44 da Lei 9.430/96. Em suma, demonstra que no presente caso, é de se aplicar a multa em seu percentual duplicado, 2 x 75% = 150%, por restar caracterizada a prática de fraude prevista no art. 72 da Lei 4.502/64; 88) A aplicação da multa qualificada se dará a partir da competência 12/2008, tendo em vista que os dispositivos citados aplicamse as contribuições previdenciárias a partir da edição da Medida Provisória n° 449 de 04/12/2008; 89) Verificase que os fatos anteriormente narrados, que detalham a conduta das fiscalizadas, se encaixam em uma das definições estampadas nos arts. 71, 72 e 73, da Lei 4.502/64. A conduta a ser analisada no presente caso é: simular a contratação de empregados por empresas do SIMPLES (a através de interpostas pessoas) constituídas em separado para que o montante do faturamento de ambas permaneça dentro do limite instituído por lei e com o objetivo de afastar as contribuições patronais destinadas à seguridade social e aos terceiros/outras entidades; Fl. 600DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 10 17 90) Numa análise objetiva dos fatos aqui apurados frente aos dispositivos legais em comento, não há como não deixar de enquadrar a simulação na contratação de empregados por uma outra pessoa jurídica com o objetivo de afastar as contribuições patronais sobre a folha de pagamento na definição de fraude contida no art. 72 da Lei 4.502/64, já transcrito; 91) A omissão de fato gerador de contribuição previdenciária em GFIP configura a ocorrência, em tese, de crime. Tal fato motivou a emissão de Representação Fiscal para Fins Penais RFFP com comunicação à autoridade competente para providências cabíveis. Consta dos autos às fls 332333, o Termo de Sujeição Passiva Solidária em nome de Cláudio César Booz, cientificado em 18/03/2013. A Indústria e Comércio de Calçados Tânia Ltda. foi cientificada dos lançamentos pessoalmente em 18 de março de 2013, conforme assinatura aposta na folha de rosto do Auto de Infração. Às fls. 336337 consta um termo de constatação onde a Fiscalização faz uma retificação no Relatório Fiscal no item 5 do Tópico “Responsáveis Solidários”. Na oportunidade, reabre o prazo de defesa. Este documento foi cientificado ao sujeito passivo em 03 de abril de 2013. Em 17 de abril de 2013, apresenta impugnação, alegando, em síntese, o que se relata a seguir. Dos Fatos. Faz uma síntese da autuação. Deste modo, tendo em vista que o ato administrativo, fundado em conjunto probatório totalmente insubsistente e superficial, não se mantendo frente a qualquer análise mais profunda do histórico da empresa, suas rotinas e estrutura administrativa, além dos requisitos legais necessários à desconsideração da personalidade jurídica de uma empresa, vem a contribuinte demonstrar a improcedência do Auto de Infração que lhe foi impingido, requerendo, o cancelamento deste. Da representação das empresas Calçados Tânia e MR Indústria e Comércio de Calçados. Considerando o procedimento adotado pela fiscalização, que simplesmente desconsiderou a existência da empresa MR Indústria e Comercio de Calçados Ltda EPP, implicando na impossibilidade desta defenderse na via administrativa processual e própria para exercerem seu direito de defesa e contraditório, os sóciosadministradores das duas empresas decidiram, por meio dos mesmos procuradores, trazer documentos e informações para demonstrar a lisura de sua operação assim como sua total independência financeira, administrativa, operacional e societária da empresa autuada, Indústria e Comércio de Calçados Tânia Ltda e MR Indústria e Comércio de Calçados Ltda EPP. Nesta linha, solicita a MR Indústria e Comércio de Calçados Ltda EPP desde já, o efeito suspensivo previsto para a presente manifestação, em relação à suspensão de seu CNPJ, e, consequentemente, para que possa continuar suas atividades normalmente, caso tenha interesse de retomar as atividades suspensas, sem as graves repercussões do cancelamento do CNPJ. Fl. 601DF CARF MF 18 Os fatos narrados na representação fiscal que instrui o processo nº 13971.720369/201320 e que fundamentaram a conclusão dos fiscais. Segundo descreve o Fiscal que procedeu com a autuação fiscal, este ato decorreu da verificação de que a MR Ind. E Com. de Calçados não dispõem de patrimônio e capacidade operacionais necessários à realização de seu objetivo, instalandose inicialmente nas dependências da Impugnante com a única finalidade de formalizar registros dos empregados, sendo totalmente controlada pela Impugnante. A Impugnante faz um resumo do Relatório Fiscal. Da desconsideração das características do sistema produtivo da indústria calçadista. Primeiramente, cumprese destacar algumas características do mercado calçadista, o que não foi feito pelo I. Fiscal. A indústria brasileira de calçados comporta mais de 8 mil empresas constituídas quase totalmente por capital nacional, emprega diretamente cerca de 300 mil pessoas e, indiretamente, mais de 1 milhão, deste modo, caracterizase por ser uma indústria intensiva em mãodeobra. A manufatura do calçado, apesar de ser ajustável à automação, caracterizase por depender de intensiva mãodeobra, a qual não requer qualificações especiais (formação acadêmica ou profissionalizante), e, as tecnologias empregadas na produção guardam ainda muitas marcas artesanais. Portanto, percebesse que a indústria de calçados caracterizase pelo uso intensivo do trabalho manual e pela baixa complexidade tecnológica. Destarte, diante da alta competitividade do mercado (nacional e internacional) e sua sazonalidade (ex. indústria de sandália tem o mercado aquecido em período oposto à aquelas que fabricam botas — inverno/verão) torna inviável a consecução do trabalho do início ao fim. Sendo assim, é de extrema naturalidade empresas serem criadas somente para a fabricação de solas, palmilhas, cabedais e etc, e mesmo assim terão o mesmo objeto social qual seja a fabricação e industrialização de sapatos, mesmo que suas atividades sejam totalmente diversas apesar de complementaremse. Sendo assim, não restam dúvidas quanto a legalidade das operações comerciais realizadas entre Indústria e Comércio de Calçados Tânia e MR Indústria e Comércio de Calçados. Da não constituição de pessoa jurídica por interpostas pessoas. Primeiramente cumpre destacar que a Studio Booz iniciou suas atividades em meados de 2006, idealizada e iniciada pelo Sr. Ary Booz após sua retirada da Calçados Tânia em 2003, decidiu abrir uma empresa para tão somente prestar serviços de mão de obra especializada para o setor calçadista, tendo como seu sócio o Sr. Valdir da Silva. Posteriormente, em 2008 o Sr. Valdir vendeu suas cotas sociais para a filha do Sr. Ary, a Sra Rozemari, que passou a administrar a empresa. Foi justamente nesta época, que o Sr. Ancelmo recebeu procuração de sua concunhada para administrar a empresa. Após cerca de 2 anos a frente do negócio a Sra. Rozemari, diante da saída de seu pai da empresa, e do baixo lucro e alto investimento do setor, ofereceu suas cotas para o Sr Rudinei que, em conjunto com o Sr. Laércio, passaram a ser os donos da empresa, cujo nome restou alterado para MR Calçados, bem como mudandose para um novo endereço, em um galpão distante à sede da Calçados Tânia. Contudo, as arguições da Fiscal simplesmente retratam a auditoria meramente superficial que foi realizada nas operações da Impugnante, pois, ao afirmar que a Calçados Tânia mantém a empresa MR "com objetivo único de eximirse da contribuição previdenciária patronal e as destinadas a terceiros", demonstra que a fiscalização tomou caminho tendencioso ao expor suas conclusões dos documentos analisados, pois sumariamente desconsiderou a situação fática ocorrida até o final de 2011, Fl. 602DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 11 19 quando requereu a suspensão de seus cadastros, suspendendo consequentemente seus trabalhos. Caso a fiscalização tivesse encontrado indícios que outra empresa exercia a administração da MR Calçados ao invés de seus sócios ou procuradores, teria que expor e caracterizar tal fato analisando os requisitos necessários para a qualificação de empresas como pertencentes a um mesmo grupo econômico. Deveria ter levantado o Senhor Fiscal a existência de confusão patrimonial entre as empresas alegadamente componentes do Grupo Empresarial, se seus sócios também administram as demais empresas do alegado "Grupo", ou se existe pagamento de despesas de forma cruzada entre as empresas, e quais são os atos que comprovam tal ocorrência, no entanto não o fez. Ora, como restará demonstrado, a empresa MR Calçados era administrada por seus sócios e procuradores, durante o período de 01/03/2010 até a efetiva suspensão dos trabalhos, sendo que exerceu suas atividades em um antigo imóvel situado à Rua José Marcelino Franco, n° 321, — São João Batista/SC, que foi desocupado por solicitação da locatária, (Calçados Tânia) que após demolir a área construída, transformou referido espaço em estacionamento, passando a MR Calçados a locar um galpão de uso exclusivo situado à Rua Arnaldo Antônio da Silva, nº 44 São João Batista/SC. O que se falar das conclusões tiradas da fiscalização quanto a "diligência" realizada na empresa MR Calçados, que desde o final de 2011 teve suas atividades suspensas. Como pode a fiscalização afirmar que a MR Calçados não dispunha de sede exclusiva ou própria, que a estrutura era insuficiente (pequeno galpão) ou inexistente se a fiscalização ocorreu um ano após o fechamento de suas portas? Inobstante, somente com a comprovação das hipóteses descritas no art. 50 do Código Civil e o art. 116, parágrafo único do CTN, é que poderia a MR Calçados ter desconsiderada sua personalidade jurídica. Sobre o tema, existem inúmeros julgados do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, em especial o Recurso Voluntário n° 148.797, Acórdão n° 10421.969, julgado em 19/10/06. De fato, o grande pecado da Impugnante foi o de se utilizar de mão de obra especializada fornecida por empresas de parentes ou funcionários seus, ao invés de qualquer outro concorrente estabelecido em sua cidade. Sede das empresas. É bem verdade que o endereço constante no contrato social da MR Calcados, qual seja a Rua José Marcelino Franco. n° 321, São João Batista, nada encontrou além do estacionamento da Impugnante, como já restou constatado pela própria fiscalização. No entanto, cumpre considerar que enquanto a MR Calcados pertencia a parentes dos sócios da ora Impugnante, natural a cessão de espaço não utilizado por esta. Todavia, ao ser vendida a empresa MR Calcados a terceiros não pertencentes a família Booz, a Impugnante requereu que esta desocupasse o imóvel, seguindo a MR Calcados no galpão estabelecido na Rua Arnaldo Antônio da Silva. n° 44 —São João Batista, lá permanecendo até a suspensão de suas atividades. Relata a fiscalização a falta de contabilização de custos e despesas necessários ao desenvolvimento das atividades, no entanto, não sabem ou sequer questionaram como foi que a empresa funcionou sem a existência de serviços básicos como luz e água. Ora I. julgadores, ocorre que diante da informalidade de alguns contratos firmados na região com características de cidade pequena onde todos se conhecem, o cadastro junto aos fornecedores de água e luz sequer são feitos em nome do locatário e permanecem em nome do proprietário do imóvel, o que é absolutamente legal e previsto em nosso código civil (art. 107). Ou a fiscalização Fl. 603DF CARF MF 20 é capaz de ilidir a existência de fornecimento de água, esgoto e energia no local indicado, bem como o funcionamento de estabelecimento comercial, mesmo realizando a diligência somente após vários meses do fechamento da empresa? Vejam, que a fiscalização ignorou totalmente a sede da MR, só porque constatou que alguns dos funcionários da MR, ao efetuar parte da confecção dos calçados, o faziam no interior da empresa ora Impugnante. Verificase, no entanto, que a terceirização de serviços é algo extremamente comum e muito implementada nos dias de hoje, sendo raras as situações em que os serviços de terceirização de serviços não seja realizada dentro da sede da contratante. Composição acionária. Capital social. Objeto social. Outra premissa utilizada pelo i. Fiscal para defender a tese de que a MR Calçados é constituída por interpostas pessoa é de que ambas as empresas tem o Sr. Ancelmo da Silva como procurador ou um dos procuradores, incluindo este tanto no quadro social da Calçados Tânia como no quadro social da MR Calçados. Cumpre ressaltar primeiramente que o Sr. Ancelmo, além de vasta experiência na administração de empresas, possui know how acima da média da região na área calçadista e é funcionário da Calçados Tânia desde janeiro de 1996. Não suficiente seu expertise, é cunhado do Sr. Cláudio Booz, administrador da Impugnante, agregando assim maior confiabilidade do sócio administrador que confere a este alguns dos poderes de gestão. No entanto, mesmo tendo poderes para gerir o negócio, o faz segundo orientações do sócio gerente, prestando conta do realizado. Quanto aos poderes a este conferido pela MR Calçados, cumpre destacar que é facultado ao sócio gerente da empresa conferir poderes a quem bem desejar. E foi o que fez a Sra. Rozemari ao dar poderes ao seu concunhado o Sr. Ancelmo. Destacase ainda que no caso da MR, os sócios adquirentes da MR Calçados mantiveram o Sr. Ancelmo como procurador, diante do seu vasto conhecimento empresarial, sem, no entanto, deixar de acompanhar de perto a administração da empresa e os atos tomados pelo Sr. Ancelmo após a concordância dos sócios. Ademais, a manutenção do Sr. Ancelmo como procurador da empresa, serviu também para manter o contrato de prestação de mão de obra qualificada até então existente com a Calçados Tânia. O que infelizmente não foi suficiente para manter a MR em funcionamento. Vejam ainda I. Julgadores ainda o quão absurdo é presumir que determinado funcionário, neste caso o Sr. Rudinei R. Melo aceitaria colocar em seu nome uma empresa que supostamente fosse absorver os funcionários de outra empresa, sem qualquer vantagem, muito menos econômica como se pode verificar do faturamento das empresas. Portanto, tais elementos não têm o condão de sustentar a afirmação de que a MR Calçados vem sendo utilizada como mera empresa de fachada da Impugnante, pois proceder desta forma é desconsiderar a sua história de trabalho árduo, de seus sócios e funcionários. Afinal, qual o problema de uma empresa contratar como funcionário pessoa que é sócia de empresa que lhe presta serviços? No sistema normativo tributário vigente, incluindose nesse a Lei do Simples não existe qualquer vedação. Vejam I. Julgadores que ao contrário do pretendido pela fiscalização, a realidade vivida entre as empresas mencionadas restringemse a autêntica transação comercial, onde a Calçados Tânia, em contratações pontuais que envolvem atividades meio à confecção do calçado, utilizasse da mão de obra qualificada da empresa MR Calçados. Ademais, os dispositivos legais que fundamentam a aplicação da sujeição passiva solidária não tutelam o ato exarado pela fiscalização na medida em que somente empresas componentes de um grupo empresarial constituído nos termos da lei podem ser responsabilizadas por obrigações umas das outras. Regulando essa situação Fl. 604DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 12 21 editou a própria Receita Federal do Brasil instrução normativa. Dispõe o art. 494 da Instrução Normativa RFB n° 971/09, que somente quando se identificar situações de direção, controle ou administração de empresa por outra, temse identificada a existência de grupo econômico. Nessa toada, muito embora alegado, em momento algum demonstrou a fiscalização que a Calçados Tânia ou seus sócios exerça, ou tenha exercido, a administração ou o controle sobre a empresa MR Calçados, ou vice versa, nos termos definidos pelo art. 494 da IN RFB n. 971/09. Para fazêlo, deveria a Fiscalização ter demonstrado a ocorrência da situação descrita nos arts. 653 e 1011, § 2º do Código Civil. Portanto, não tendo sido apresentado pela Fiscalização atos privativos de administrador realizados pela Calçados Tânia em nome da empresa MR Calçados, ou vice versa, não há que se falar que aquela seja a administradora desta, ou vice versa. Portanto, inexistindo assim qualquer elemento ou prova que demonstre efetiva confusão patrimonial entre a Impugnante Calçados Tânia, e as empresas de calçados MR/Studio Booz, sob os auspícios dos arts. 97, III e V, e 112, ambos do CTN, vedada é a descaracterização da personalidade jurídica destas últimas. Do patrimônio das empresas. Conforme relatado em pesquisas, os principais motivos que levam as empresas a utilizar serviços terceirizados, são ausência de espaço físico para acomodar todos os funcionários dentro da fábrica, menores custo do trabalho, e a sazonalidade do mercado de calçados, que exige em determinados momentos, número elevado de mãodeobra. Aduz a fiscalização que a empresa MR Calçados sequer teria condições de arcar com suas despesas. Tal alegação não procede, pois conforme se depreende das movimentações bancárias desta empresa, quando esta não tinha caixa para pagar suas despesas socorriase ao Banco e não à Impugnante. Portanto, ao contrário do afirmado pela fiscalização, que afirma ter a Calçados Tânia arcado com os pagamentos e manutenção das empresas MR Calçados sem trazer provas para tanto, fato é que realmente ocorreram situações em que as entradas (ativos) eram menores do que as saídas (passivos), no entanto, nestas ocasiões a empresa MR Calçados como afirmado, não se socorriam à Calçados Tânia, mas sim a empréstimos bancários, criando capital de giro e honrando seus pagamentos, restrito as movimentações relatadas nos balanços e balancetes da empresa. Vejam I. Julgadores que tampouco há condições, ou ainda indícios nos balanços e balancetes, que pudessem evidenciar o afirmado pela fiscalização. Portanto, seja diante da infundada alegação, dissociada de qualquer prova documental, ou ainda diante do conjunto probatório hora apresentado, imperioso destacar que as empresas não tem qualquer confusão patrimonial. Falta de contabilização de custos e de despesas necessárias ao desenvolvimento de suas atividades. Para restar ainda mais cristalina a independência financeira e administrativa existente entre as empresas MR Calçados perante a Calçados Tânia, se pode analisar os contratos de financiamento tomados através de seus administradores, demonstrando cabalmente que cada uma das empresas é administrada efetivamente pelo sócio identificado no Contrato Social, ou por procuradores com poderes para tanto. Portanto uma administração enxuta, não pode ser motivo para o cancelamento do CNPJ destas empresas. Com relação aos valores creditados pela Calçados Tânia à Studio Booz ou MR Calçados, identificados pelo I. Fiscal, verificasse que tais valores estão devidamente Fl. 605DF CARF MF 22 lançados e justificados no livro Razão da MR Calçados, bem como através de notas fiscais. Destacase que o lançamento de valores como adiantamento, não ilide a lisura da operação. Ao contrário, é praxe do setor, tanto que como se pode verificar do livro Razão da Calçados Tânia, o qualificada a esta e não somente à MR. Com relação à insinuação da fiscal que a ausência de registro de contas de água, luz, telefone, etc, seria mais uma prova da irregularidade da empresa, mais uma vez a Requente chama a atenção para a superficialidade do trabalho fiscal. Até mesmo porque, não se pode relevar que as conclusões da equipe fiscal se baseiam em escritas contábeis realizadas por empresa optante do SIMPLES, e através de presunções, desconsidera a existência de energia elétrica, telefone, etc. no estabelecimento comercial. A inexistência de elementos robustos de prova das conclusões da equipe fiscal deixa suas conclusões ao seu exclusivo juízo pessoal, em total desrespeito aos arts. 5º, II da CF e o art. 116 do CTN, o que não pode ser aceito, pois, por certo, as presunções pessoais ainda não encontram eco no direito tributário, cuja viga mestre ainda é o princípio da legalidade, previsto nos arts. 97, III e V, c 112, ambos do CTN. Cumpre ainda salientar, que não é competência da previdência estabelecer quem possui ou não patrimônio, e ou maior ou menor capacidade operacional. As empresas em questão geram empregos, recolhem em dia seus tributos, possuem sua contabilidade devidamente registrada e apurada em livros fiscais. Enfim, não poderia o fiscal, simplesmente, presumir que a ausência de registros de pequenas despesas na contabilidade das empresas denotaria que é a sua principal cliente que arcaria com tais custos da empresa MR Calçados. Ora, tratandose de presunção pessoal da fiscal, esta necessita de prova para a ratificação da conclusão sugerida. Verificação física efetuada nas empresas na data de 30/03/2012. Apesar de relatar do início ao fim do relatório fiscal que a MR Calçados não teria estrutura mínima para exercer seu objeto social, relatando inclusive peculiaridades das sedes por onde a empresa MR Calçados passou, cumpre esclarecer que o Fiscal nunca fez uma visita física na referida empresa. Isto porque concluise que a MR Calçados e anteriormente Studio Booz jamais foram fiscalizadas fisicamente. O que é fácil de se compreender quando se sabe que a empresa suspendeu suas atividades há pelo menos 1 ano antes do início da fiscalização. Da verificação realizada pela fiscalização na Calçados Tânia, foram realizadas entrevistas com os exfuncionários da MR Calçados, e apesar de relatar a unanimidade dos entrevistados juntou somente 2 entrevistas desfavoráveis? Tal situação soa no mínimo estranha. Ademais, afirma o I. Fiscal que a MR Calçados foi criada somente para dividir o número de funcionários registrados na Calçados Tânia, no entanto, sequer prova que referidos funcionários são oriundos da Calçados Tânia. Afirma ainda, e relaciona os empregados demitidos quando da suspensão das atividades da MR Calçados, trazendo a informação de que quase todos foram trabalhar na Calçados Tânia no ano de 2010. Todavia, omitese aos fatos e características do mercado, pois sabido da escassez de mão de obra qualificada no mercado calçadista da região. Portanto, se assim fosse como descrito pela fiscalização, teria a Calçados Tânia registrado seus já funcionários e dado normal andamento ao desempenho de sua atividade, no entanto, não foi o que aconteceu. Conforme Doc. 14 do presente auto de infração lavrado, a relação de funcionários admitidos pela Calçados Tânia não se limitou em dar oportunidades de trabalho aos exfuncionários da MR Calçados, mas também a vários outros. Veja i. Julgador que os funcionários admitidos pela Calçados Tânia não representam 25% dos funcionários admitidos naquele ano. Neste mesmo ano, foram contratados vários exfuncionários da Empresa Ana Paula Calçados, e de Fl. 606DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 13 23 tantas outras, o que também não faz a impugnante responsável pelo pagamento de seus tributos. Conforme já explicado a Calçados Tânia é a proprietária do parque fabril onde eram prestados os serviços pelos funcionários da MR Calçados, e anteriormente também pelos funcionários da Studio Booz. No mais, como prevê o acordo de prestação de serviço firmado entre as empresas, é encargo da contratante (Calçados Tânia) dispor de máquinas e insumos necessários a confecção das peças, tanto que conforme se denota das notas fiscais emitidas pela Impugnante esta remetia insumos para industrialização às suas contratadas. Nesse sentido, ressaltasse o preço global atribuído a cada serviço, pois se além da mão de obra prestada, fosse as empresas MR Calçados ou Studio Booz obrigadas a fornecer ferramentas, transportes e demais encargos atribuídos à tomadora do serviço, os preços ora praticados seriam em muito superiores, sendo necessários severos reajustes. Há de se convir, que para uma empresa do porte da Calçados Tânia, com estrutura física suficiente a disponibilizar ferramentas, máquinas, transporte e o que mais se fizer necessário, dentre a estrutura atual, em troca de preços mais baixos pelos serviços realizados, com certeza a empresa não irá titubear em escolher preços mais competitivos, em virtude de um melhor aproveitamento de sua estrutura. Ademais, quanto às afirmações feitas por alguns funcionários quanto aos donos de respectivas empresas, e diante da figura da terceirização de serviços, é extremamente aceitável que confusões ocorram eventualmente, até mesmo porque os sócios da Calçados Tânia circulam por toda a fábrica, e por todos os conhecerem, e saber que são os responsáveis pela empresa, em certo momento pensaram que o futuro de seus trabalhos também estaria na mão destes. Por fim, releva notar que a Impugnante tem o nome fantasia Raphaella Booz, sendo que a empresa MR Calçados sempre utilizou o nome Studio Booz, que, por óbvio, gera confusão e deve ser interpretado em benefício das Impugnantes, e não ao contrário como pretende o Agente Autuante. pois, a grande maioria referendou aquilo que foi apresentado. Assim, ante a inexistência de elementos robustos de prova das conclusões da equipe fiscal deixa a descaracterização da personalidade jurídica da empresa MR Calçados ao seu exclusivo juízo pessoal, em total desrespeito aos arts. 50 do Código Civil e o art. 116, parágrafo único do CTN, o que não pode ser aceito, pois, por certo, as presunções pessoais ainda não encontram eco no direito tributário, cuja viga mestre ainda é o princípio da legalidade, previsto nos arts. 97, III e V, e 112, ambos do CTN. Portanto, a teor do acima exposto, e comprovado por documentos, distanciada da realidade se encontram as conclusões da equipe fiscal que sugeriu a suspensão do CNPJ da empresa MR Calçados com base cm analises superficiais e tendenciosas, se analisadas sem a documentação que ora se apresenta. Além de lançarem mão de fatos e situações para fundamentar a situação fática ocorrida, verificasse que os fiscais fecham os olhos para os comandos contidos nos arts. 50 do Código Civil e o art. 116, parágrafo único do CTN, que estabelecem em que condições poderá ser desconsiderada a personalidade jurídica das empresas. Por estes motivos, crê a Impugnante na total procedência de sua impugnação. Da incongruência verificada na base de cálculo utilizada pelo fiscal, e da ausência do computo de créditos pagos pela sistemática do Simples que deve ser considerados para fins de abatimento dos valores já pagos pela MR Indústria e Comércio de calçados Ltda EPP. Analisandose o Auto de Infração ora contestado, verificase que, a partir de informações constantes no discriminativo Fl. 607DF CARF MF 24 do débito, que o Fiscal incidiu em erros quando da composição da sua base de cálculo. Em que pese a tentativa da fiscalização de desconsiderar a personalidade jurídica da empresa MR Indústria e Comércio de Calçados Ltda EPP, a fim de atribuir a responsabilidade do recolhimento da contribuição patronal â ora Impugnante, necessário se faz o computo dos valores já pagos no SIMPLES pela empresa MR Indústria e Comercio de Calçados Ltda EPP. Inconteste a ausência de computo dos valores já recolhidos pela MR, posto que relatado pelo próprio fiscal as fis. 21 do Relatório Fiscal: "Não foram constituídos créditos em favor do contribuinte (Calçados Tânia) pelo pagamento de DARF de código 6106 em nome das empresas do SIMPLES”. Neste passo, imperioso se faz a revisão do lançamento com a correção dos equívocos cometidos na. apuração da Base de Cálculo devendo computarse os créditos utilizados já pagos pela empresa Mr Indústria e Comércio de Calçados Ltda EPP, consoante determina o art. 149 do CTN, art. 53 da Lei n° 9784/99 e a Súmula 473 do STF. Pedido. Requer a improcedência do Auto de Infração. Tendo em vista a grande quantidade do conjunto probatório a ser produzido, requer desde já seja autorizada a juntada a posterior, nos termos do §6° do art. 21 do Dec. 70.235/72, de documentação suplementar que está sendo levantada, especialmente aqueles documentos que dependem de terceiros (órgãos públicos e instituições financeiras). A DRJ julgou improcedente a impugnação do contribuinte, nos termos da ementa do Acórdão nº 1535.429 (fls.513) abaixo transcrita: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2011 PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DA REALIDADE. CONTRATAÇÃO DE EMPREGADOS POR INTERPOSTA PESSOA JURÍDICA. No tocante à relação previdenciária, os fatos devem prevalecer sobre a aparência que formal ou documentalmente possam oferecer. A sociedade que contrata empregados mediante interposta pessoa jurídica é responsável pelo pagamento das contribuições previdenciárias decorrentes destas relações de emprego. COMPENSAÇÃO. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. SIMPLES FEDERAL E NACIONAL. VEDAÇÃO. É vedada a compensação de contribuições previdenciárias com o valor recolhido indevidamente para o Simples Nacional, instituído pela Lei Complementar nº 123, de 2006, e o Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Simples), instituído pela Lei nº 9.317, de 5 de dezembro de 1996. REPRESENTAÇÃO FISCAL. PESSOA JURÍDICA INEXISTENTE DE FATO. DEVER FUNCIONAL. A pessoa jurídica inexistente de fato pode ter sua inscrição no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) baixada, sendo dever funcional do Auditor Fiscal representar quando constatada esta situação fática. PROVA DOCUMENTAL. MOMENTO DE APRESENTAÇÃO. PRECLUSÃO TEMPORAL. Fl. 608DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 14 25 A prova documental deve ser apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual. Cientificada da decisão da DRJ, a Autuada apresentou recurso voluntário (fls 554), por meio do qual reiterou os argumentos defensivos aduzidos na impugnação apresentada. É o relatório. Voto Conselheiro Gregório Rechmann Junior Relator O recurso é tempestivo e atende os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, deve ser conhecido. Nos termos do relatório supra, a ação fiscal desenvolvida nas empresas INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CALÇADOS TÂNIA LTDA CNPJ 86.154.119/000134 (conhecida pela marca RAPHAELLA BOOZ) e MR INDUSTRIA E COMÉRCIO DE CALÇADOS LTDA EPP evidencia, segundo a Fiscalização, a presença de subterfúgios utilizados no intuito de afastar a incidência de contribuições previdenciárias (cota patronal), por meio da constituição de CNPJ em nome de interpostas pessoas (parentes e empregados) pelo Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições SIMPLES. Tais subterfúgios consistem, ainda segundo a Fiscalização, em trabalhar com duas empresas paralelas para dividir o faturamento e o registro dos empregados, mantendo em seus quadros societários pessoas que não são seus verdadeiros sócios e ainda deixar de incluir nestes seus sócios de fato. A manutenção de empresa ME/EPP tem por objetivo registrar parte dos empregados em firmas contempladas pela LC 123/2006 a partir de 07/2007 e, assim, deixar de recolher as contribuições (patronal e de terceiros) sobre a folha de pagamento dos empregados registrados nesses CNPJ. A irresignação do contribuinte, em linhas gerais, gira em torno do fato de ter sido desconsiderada a personalidade jurídica da empresa vinculada MR Indústria e Comércio de Calçados Ltda EPP e, como consequência, terem sido lançadas as contribuições previdenciárias em seu nome, assumindose que os empregados contratados formalmente pela MR de fato prestaram serviços à ora Recorrente. Cingese, pois, a controvérsia, no caso concreto, em verificar se houve simulação (ou não) na instituição da empresa MR Indústria e Comércio de Calçados Ltda – EPP, ou seja, se a INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CALÇADOS TÂNIA LTDA (autuada) e a MR INDUSTRIA E COMÉRCIO DE CALÇADOS LTDA – EPP (empresa vinculada) tratamse, como aduz a Fiscalização, de “uma empresa única dividida em dois CNPJ, controlados pela família em um mesmo ambiente industrial, cujo corpo administrativo da empresa paralelamente trata de todos os funcionários independentemente de onde estejam registrados.” Fl. 609DF CARF MF 26 Pois bem!! No curso da ação fiscal, a autoridade lançadora constatou diversas situações e circunstâncias fáticas, devidamente consignadas no Relatório Fiscal (fls. 02), que respaldam a ocorrência de simulação consubstanciada na utilização, pela empresa “RAPHAELLA BOOZ”, da empresa MR CALÇADOS, na condição de interposta, com o fito de reduzir os encargos tributários previdenciários, usufruindo dos benefícios do regime de tributação Simples, mediante vinculação dos segurados empregados desta última (MR CALÇADOS) à primeira (RAPHAELLA BOOZ). Nesse sentido, assim concluiu a fiscalização (fls. 18): Concluise que a representada foi criada pela Raphaella Booz com a finalidade de formalizar parte dos registros dos empregados, sendo, portanto, totalmente controlada pela empresamãe. As empresas fiscalizadas desenvolvem atividades semelhantes e se completam. Demonstrouse que há estrutura hierárquica estabelecida, onde os empregados executam suas funções sob as ordens dos administradores do negócio. Enfim, de acordo com os fatos encontrados durante a fiscalização e os depoimentos colhidos dos funcionários, o proprietário da empresa vinculada era e é o administrador da Ind. e Comércio de Calçados Tânia Ltda – Raphaella Booz. Tratase de constituição simulada de pessoa jurídica em nome de interpostas pessoas físicas (“laranjas”) e assim eximir a Raphaella Booz do pagamento de contribuições previdenciárias e outros tributos, tudo com o claro e primordial intento de lesar o fisco. As situações e circunstâncias fáticas, minuciosamente detalhadas e comprovadas no Relatório Fiscal (fls. 02), bem assim abordadas na decisão recorrida, afastam quaisquer dúvidas quanto ao liame que vincula as empresas citadas, que, na verdade, tratamse de uma única empresa e não duas como aparentam ser, mediante simulação de terceirização que desmembrou atividades. Nesse contexto, resta caracterizada a simulação, impondose a desconsideração da relação meramente formal constatada pela autoridade lançadora, privilegiandose a real vinculação da Recorrente com os trabalhadores que lhe prestaram serviços, não obstante o registro laboral junto à empresa aparentemente "terceirizada". Sobre o tema, este colegiado, em recente julgado da relatoria do Conselheiro Luis Henrique Dias Lima (PAF 11065.003144/201060), por unanimidade de votos, assim se manifestou naquela oportunidade: Com efeito, respaldada na legislação, não há óbice para que a autoridade lançadora desconsidere a existência de certos negócios ou situações jurídicas, formalmente existentes entre os trabalhadores das empresas envolvidas, vez que os arts. 114, 116 e 149 do CTN permitem a busca da realidade subjacente a quaisquer formalidades jurídicas, com fulcro na constatação concreta e material da situação legalmente necessária à ocorrência do fato gerador, culminando com o poder de requalificar o negócio aparente entre as três empresas em tela, visando à apuração e cobrança do tributo efetivamente devido. Não há nesse ato nenhuma violação dos princípios da legalidade ou da tipicidade, nem de cerceamento de defesa, pois o conhecimento dos atos materiais e processuais pela Recorrente e o seu direito ao contraditório estiveram plenamente assegurados. Fl. 610DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 15 27 Fundase a argumentação da Recorrente no fato de a autoridade lançadora ter tratado como ilícitos atos que, no seu entendimento, caracterizamse elisão fiscal e não evasão fiscal. De fato, é cediço que é tênue linha que distingue o direito legítimo do contribuinte de organizar a sua empresa, com base na livre e na autonomia negocial, do poder do EstadoFiscal considerar tais disposições ineficazes, a partir de pressupostos fáticos lastreados em fraude, abuso de forma e simulações. É oportuna a definição de simulação, na seara tributária, conferida pela jurisprudência do TRF4 e STJ, nos julgados sumarizados nas ementas abaixo reproduzidas: "INCORPORAÇÃO. AUTUAÇÃO. ELISÃO E EVASÃO FISCAL. LIMITES. SIMULAÇÃO.EXIGIBILIDADE DO DÉBITO. 1. Dáse a elisão fiscal quando, por meios lícitos e diretos o contribuinte planeja evitar ou minimizar a tributação. Esse planejamento se fundamenta na liberdade que possui de gerir suas atividades e seus negócios em busca da menor onerosidade tributária possível, dentro da zona de licitude que o ordenamento jurídico lhe assegura. 2. Tal liberdade é possível apenas anteriormente à ocorrência do fato gerador, pois, uma vez ocorrido este, surge a obrigação tributária. 3. A elisão tributária, todavia, não se confunde com a evasão fiscal, na qual o contribuinte utiliza meios ilícitos para reduzir a carga tributária após a ocorrência do fato gerador. 4. Admitese a elisão fiscal quando não houver simulação do contribuinte. Contudo, quando o contribuinte lança mão de meios indiretos para tanto, há simulação. 5. Economicamente inviável a operação de incorporação procedida (da superavitária pela deficitária), é legal a autuação. 6. Tanto em razão social, como em estabelecimento, em funcionários e em conselho de administração, a situação final após a incorporação manteve as condições e a organização anterior da incorporada, restando demonstrado claramente que, de fato, esta "absorveu" a deficitária, e não o contrário, tendose formalizado o inverso apenas a fim de serem aproveitados os prejuízos fiscais da empresa deficitária, que não poderiam ter sido considerados caso tivesse sido ela a incorporada, e não a incorporadora, restando evidenciada, portanto, a simulação. 7. Não há fraude no caso: a incorporação não se deu mediante fraude ao fisco, já que na operação não se pretendeu enganar, ocultar, iludir, dificultando ou mesmo tornando impossível a atuação fiscal, já que houve ampla publicidade dos atos, inclusive com registro nos órgãos competentes. 8. Inviável economicamente a operação de incorporação procedida, tendo em vista que a aludida incorporadora existia apenas juridicamente, mas não mais economicamente, tendo servido apenas de "fachada" para a operação, a fim de serem aproveitados seus prejuízos fiscais cujo aproveitamento a lei expressamente vedava. 9. Uma vez reconhecida a simulação deve o juiz fazer prevalecer as conseqüências do ato simulado no caso, a incorporação da superavitária pela deficitária, conseqüentemente incidindo o tributo na forma do regulamento não havendo falar em inexigibilidade do crédito, razão pela qual a manutenção da decisão que denegou a antecipação de tutela pretendida se impõe. (grifei) (TRF4 AG: 44424 RS 2004.04.01.0444240, Relator: DIRCEU DE ALMEIDA SOARES, Data de Julgamento: 30/11/2004, SEGUNDA TURMA, Data de Publicação: DJ 26/01/2005 PÁGINA: 430)" "PROCESSUAL CIVIL. OFENSA AO ART. 535 DO CPC NÃO CONFIGURADA. MULTA DO ART. 538, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC. INAPLICABILIDADE. Fl. 611DF CARF MF 28 INCORPORAÇÃO. APROVEITAMENTO DE PREJUÍZOS. REDUÇÃO DA CSSL DEVIDA. SIMULAÇÃO. SÚMULA 7/STJ. INAPLICABILIDADE. SÚMULA 98/STJ. 1. Hipótese em que se discute compensação de prejuízos para fins de redução da Contribuição Social sobre Lucro Líquido CSSL devida pela contribuinte. 2. A empresa Supremo Industrial e Comercial Ltda. formalmente incorporou Suprarroz S/A (posteriormente incorporada pela Recorrente). Aquela acumulava prejuízos (era deficitária, segundo o TRF), enquanto esta era empresa financeiramente saudável. 3. O Tribunal de origem entendeu que houve simulação, pois, em realidade, foi a Suprarroz que incorporou a Supremo. A distinção é relevante, pois, neste caso (incorporação da Supremo pela Suprarroz), seria impossível a compensação de prejuízos realizada, nos termos do art. 33 do DL 2.341/1987. 4. A solução integral da lide, com fundamento suficiente, não caracteriza ofensa ao art. 535 do CPC. 5. Não há controvérsia quanto à legislação federal. 6. A contribuinte concorda que a incorporadora não pode compensar prejuízos acumulados pela incorporada, para reduzir a base de cálculo da CSSL, nos termos do art. 33 do DL 2.341/1987. Defende que a empresa com prejuízos acumulados (Supremo) é, efetivamente, a incorporadora. 7. O Tribunal de origem, por seu turno, não afasta a possibilidade, em tese, de uma empresa deficitária incorporar entidade financeiramente sólida. Apenas, ao apreciar as peculiaridades do caso concreto, entendeu que isso não ocorreu. 8. Tampouco se discute que, em caso de simulação, "é nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma" (art. 167, caput, do CC). 9. A regularidade formal da incorporação também é reconhecida pelo TRF. 10. A controvérsia é estritamente fática: a Recorrente defende que houve, efetivamente, a incorporação da Suprarroz (empresa financeiramente sólida) pela Supremo (empresa deficitária); o TRF, entretanto, entendeu que houve simulação, pois, de fato, foi a Suprarroz que incorporou a Supremo. 11. Para chegar à conclusão de que houve simulação, o Tribunal de origem apreciou cuidadosa e aprofundadamente os balanços e demonstrativos de Supremo e Suprarroz, a configuração societária superveniente, a composição do conselho de administração e as operações comerciais realizadas pela empresa resultante da incorporação. Concluiu, peremptoriamente, pela inviabilidade econômica da operação simulada. 12. Rever esse entendimento exigiria a análise de todo o arcabouço fático apreciado pelo Tribunal de origem e adotado no acórdão recorrido, o que é inviável em Recurso Especial, nos termos da Súmula 7/STJ. 13. Aclaratórios opostos com o expresso intuito de prequestionamento não dão ensejo à aplicação da multa prevista no art. 538, parágrafo único, do CPC, que deve ser afastada (Súmula 98/STJ). 14. Recurso Especial parcialmente conhecido e, nessa parte, provido. (STJ REsp: 946707 RS 2007/00926564, Relator: Ministro HERMAN BENJAMIN, Data de Julgamento: 25/08/2009, T2 SEGUNDA TURMA, Data de Publicação: > DJe 31/08/2009)" No caso concreto, a autoridade lançadora, para fins tributários, deu prevalência à essência sobre a forma, em razão da utilização dos trabalhadores das empresas IBS e IM de forma interposta, com vistas ao fracionamento dos respectivos faturamentos e consequente redução das contribuições previdenciárias a recolher, haja vista a opção das empresas IBS e IM pelo regime de tributação Simples. A valoração jurídica das situações e circunstâncias fáticas efetuada pela Fiscalização da RFB, e corroborada pela decisão recorrida, revela posição avançada sobre o conteúdo do conceito jurídico de simulação previsto no art. 167 do Código Civil Lei n. 10.406/2002. Fl. 612DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 16 29 Restou evidenciado, no caso em tela, o confronto da visão globalizante, material e causalista em face da tradicional visão formalista e voluntarista de simulação sustentada pelo Recorrente. Nessa perspectiva, prevaleceu o conceito amplo de simulação, que, na sua essência, privilegia aspectos econômicos e operacionais, na medida em que a autoridade lançadora examinou, no caso em apreço, a causa concreta dos negócios, comparandoa com a causa típica ou a finalidade prática para a qual os negócios jurídicos foram engendrados pelo ordenamento jurídico, avaliando as operações em sua totalidade com o fito de aferir o quanto artificiosos e ausentes de substrato jurídico efetivo podem ter sido os atos e os negócios jurídicos praticados pelas empresas Saturno, IBS e IM. (...) Por sua vez, o Direito Tributário, apesar de constituirse microssistema formado por um complexo conjunto de normas, não é hermético, nem indiferente aos demais ramos do Direito. Assim, nenhum óbice se opõe à autoridade lançadora buscar conceitos, definições e conteúdos em outros ramos do Direito visando a fortalecer a sua argumentação para fins da constituição do crédito tributário, com mais razão ainda quando o Direito em questão é fundamental à compreensão do suporte fático da hipótese de incidência tributária, conforme evidenciase nos autos o Enunciado TST 331 e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) DecretoLei n. 5.452/1943. (...) Outrossim, o princípio da primazia da realidade ou da verdade real, não obstante a sua ampla aplicação na seara justrabalhista, não é incompatível com o Direito Tributário, como sugere o Recorrente. Bem ao contrário, mantém estreita vinculação com o princípio da verdade material, tão festejado na seara tributária. Com efeito, o princípio da primazia da realidade ou da realidade dos fatos visa à priorização da verdade real em face da verdade formal, enquanto que o princípio da verdade material busca a realidade dos fatos, conforme ocorrida. Como se observa, a proximidade conceitual e teleológica é óbvia, o que dispensa maiores ponderações. Como se vê, a situação fáticajurídica objeto do susodito julgado assemelhase àquela ora em análise, razão pela qual adoto, nesta oportunidade, a fundamentação jurídica acima reproduzida, já apreciada e acolhida por este colegiado, por ocasião do julgamento do processo nº 11065.003144/201060. Sobre o tema, a DRJ sinalizou que: É de se notar que a relação de emprego não é aferida apenas pelos elementos formais existentes nos contratos, mas pela realidade fática na execução dos serviços. Para caracterizar o vínculo empregatício não há necessidade de uma subordinação mais rigorosa, bastando que o trabalhador se coloque à disposição da Impugnante, dela recebendo ordens. Assim, restando cabalmente fundamentada a autorização legal que o Auditor Fiscal possui para realizar o lançamento em nome daquele que de fato é responsável pela ocorrência do fato gerador, cabenos agora, então, a análise das provas existentes nos autos como elemento decisivo para a procedência ou não do estabelecimento do vínculo empregatício, para efeitos fiscais, diretamente com a Fl. 613DF CARF MF 30 Impugnante, desconsiderando a relação empregatícia com a empresa MR Indústria e Comércio de Calçados Ltda. EPP (“empresa vinculada”). Em primeiro lugar, temos como certo que a atribuição da Autuada como responsável pelos vínculos trabalhistas formalizados na empresa filha é corolário da própria declaração de inexistência de fato desta última, visto que reconhecida a ausência de autonomia inerente à caracterização da personalidade jurídica. Neste sentido, o que se verificou no caso em tela é que as duas empresas funcionavam em total promiscuidade patrimonial e contábil, eis que compartilhavam insumos, equipamentos, empregados, dirigentes, sede, etc. Além disto, verificouse que a empresa vinculada, optante pelo SIMPLES Nacional, registrava cerca de 50% dos segurados empregados. O Relatório Fiscal é detalhado e esclarecedor. Nesse sentido, a fiscalização reuniu um amplo conjunto não só de indícios mas também de fatos perfeitamente identificados, e concluiu acerca da existência de relação simulada entre as empresas em questão, com o objetivo de reduzir o custo de sua mãodeobra. Observamos que o intuito fraudulento foi evidenciado especialmente a partir dos seguintes elementos: (i) ausência ou deficiência de documentação comprobatória das operações realizadas; (ii) compartilhamento da infraestrutura (matéria prima, mercadorias, produtos, máquinas, equipamentos, empregados, clientes e objeto social) sem que houvesse suporte jurídico para tanto; (iii) identidade nos quadros societários das sociedades empresárias. Todos estes elementos estão presentes e configurados na hipótese dos autos. Assim sendo, afigurase evidente que a “Empresa vinculada” é utilizada pela Autuada como uma empresa interposta, eis que a mão de obra contratada formalmente pela primeira, no mundo dos fatos é coordenada e gerida pela Impugnante, visando a execução de seu contrato social. Assim sendo, configurase uma situação de subordinação da mão de obra, como acima explicado, sendo certo que o verdadeiro empregador é a Autuada. Em conclusão, considerase correto o lançamento fiscal. No que concerne às alegações acerca das características do mercado calçadista, registro que o fato de o setor em questão necessitar de ampla terceirização de mão de obra não autoriza as empresas a se utilizarem de planejamento tributário abusivo ou práticas com a finalidade de suprimir fatos geradores de tributos. A Impugnante se insurge contra as conclusões tiradas da fiscalização quanto a "diligência" realizada na empresa MR Calçados, que desde o final de 2011 teve suas atividades suspensas. Questiona como pode a fiscalização afirmar que a MR Calçados não dispunha de sede exclusiva ou própria, que a estrutura era insuficiente (pequeno galpão) ou inexistente se a fiscalização ocorreu um ano após o fechamento de suas portas. A fiscalização deve buscar todos os elementos de prova em Direito permitidos, tanto as obtidas diretamente como as chamadas provas indiretas. Nesse sentido, a fiscalização, por meio de documentos, entrevistas com funcionários e um amplo conjunto não só de indícios, mas também de fatos perfeitamente identificados, conseguiu traçar um perfil do funcionamento da empresa vinculada, mesmo estando esta com suas atividades paralisadas no momento do procedimento fiscal. Aduz a Impugnante que, ao contrário do afirmado pela fiscalização, que alega ter a Calçados Tânia arcado com os pagamentos e manutenção das empresas MR Calçados Fl. 614DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 17 31 sem trazer provas para tanto, fato é que realmente ocorreram situações em que as entradas (ativos) eram menores do que as saídas (passivos), no entanto, nestas ocasiões a empresa MR Calçados como afirmado, não se socorriam à Calçados Tânia, mas sim à empréstimos bancários, criando capital de giro e honrando seus pagamentos, restrito as movimentações relatadas nos balanços e balancetes da empresa. Tal afirmação não prospera. A Impugnante trouxe aos autos apenas dois contratos de empréstimos bancários da Indústria e Comércio de Calçados Tânia (fls. 425430 e 431446). Com relação à empresa vinculada somente há os históricos constantes na sua contabilidade. Não foram juntados contratos de empréstimos bancários da empresa vinculada. Nem tampouco se demonstra que estes empréstimos (de pouca monta, digase de passagem), constantes apenas nos históricos da sua escrita contábil, são necessários e suficientes para quitação das obrigações correntes da empresa vinculada. Em contrapartida, analisando o imobilizado e a contabilização dos custos, a Fiscalização comprova que a representada faturou basicamente para pagar o custo da folha de pagamento/salários, concluindo ainda que ela não teria capacidade de se estabelecer sozinha, de movimentar o seu negócio sem o suporte administrativo e econômico da empresamãe. Para comprovar sua tese, a Fiscalização ilustra o Relatório Fiscal com tabelas demonstrativas e farto suporte documental (fls.135174, 197201). Aduz ainda a Fiscalização que, apesar de a representada ter conta bancária própria, ela vive dos empréstimos e transferência on line feitas pela Indústria e Comércio de Calçados Tânia, através do procurador e financeiro. É analisar os extratos e observar que, antes de algum pagamento significativo da representada, existe uma transferência da empresamãe para cobrir a conta. (Doc. 19 Transferências on line para a representada cobrir os débitos, fls. 281294). Questiona a Impugnante que, da verificação realizada pela fiscalização na Calçados Tânia, foram realizadas entrevistas com os exfuncionários da MR Calçados, e apesar de relatar a unanimidade dos entrevistados juntou somente 2 entrevistas desfavoráveis. Aduz que tal situação soa no mínimo estranha. Tal afirmação não prospera. A Fiscalização relata que entrevistar os empregados é ouvir a unanimidade deles afirmar que são empregados da Raphaella Booz, cujo patrão é o Sr. Cláudio Booz. Os entrevistados afirmam que não existe ou existiu outra empresa no local. Ali sempre foi Raphaella Booz. Mesmo porque os fatos se confundem: até metade de 2006 tudo era Raphaella Booz depois parte dos funcionários foi transferido para a representada e em 2011 todos os funcionários retornaram a Raphaella Booz. A título ilustrativo, a Fiscalização junta três entrevistas: a da funcionária Marcela Xavier (fl. 129), a de Rozemari Booz (fl 140) e a de Rudinei Roberto Melo (fl. 126). O procedimento de juntar três entrevistas não é estranho, ao contrário, como descrito no Relatório Fiscal a unanimidade dos entrevistados afirma que são empregados da Raphaella Booz, assim seria redundante juntar todas as entrevistas. Aduz a Impugnante que, conforme Doc. 14 do presente auto de infração lavrado, a relação de funcionários admitidos pela Calçados Tânia não se limitou em dar portunidades de trabalho aos exfuncionários da MR Calçados, mas também a vários outros. Veja i. Julgador que os funcionários admitidos pela Calçados Tânia não representam 25% dos funcionários admitidos naquele ano. Da relação de funcionários da empresa vinculada que foram demitidos, apenas duas funcionárias não foram contratadas pela Indústria de Calçados Tânia (Alexandra dos Fl. 615DF CARF MF 32 Santos Pereira e Eduarda Carolina Machado de Azevedo). Mesmo Rudnei Roberto Melo foi recontratado pela Raphaella Bozz em 11/04/2011. Neste compasso, quase a totalidade de funcionários da MR foi absorvida pela Raphaella Booz. O fato de a Autuada ter contratado outros funcionários naquela época não tem o condão de afastar as conclusões do Relatório Fiscal. Neste contexto, concluise pela perfectibilidade da decisão de primeira instância neste particular. Outrossim, apesar de ser prescindível para a conformação do entendimento aqui firmado, registrese que nos autos do PAF 13971.720369/201320, que tem por objeto a mesma matéria daquela ora em análise, divergindo, apenas, em relação ao período de apuração, o sujeito passivo apresentou requerimento de desistência parcial da impugnação, em relação aos débitos objeto do período compreendido entre janeiro a outubro de 2008, tendo em vista a inclusão destes no parcelamento especial de que trata a Lei nº 11.941/2009, nos termos da Portaria Conjunta PGFN / RFB nº 7, de 15 de outubro de 2013. Ocorre que, embora não se possa afirmar de forma peremptória, mas, considerando que as razões defensivas referentes aos débitos de 01 a 10/2008 (em relação aos quais houve expressa desistência) são idênticas àquelas atinentes aos débitos objeto do presente PAF, podese concluir que o contribuinte não apresentou requerimento de desistência neste processoe m decorrência de trava legal. Isto porque, nos termos do art. 2º da Portaria Conjunta PGFN / RFB nº 7/2013, poderiam ser excepcionalmente pagos ou parcelados, no âmbito de cada um dos órgãos, os débitos de qualquer natureza junto à PGFN ou à RFB, vencidos até 30 de novembro de 2008, que não estivessem e nem tivessem sido parcelados até o dia 31 de maio de 2014. Registrese, mais uma vez, que não se trata de uma afirmação absolta, mas sim de uma conclusão plausível de ser alcançada, diante do contexto fático aqui já narrado, notoriamente do fato de inexistir tese defensiva específica para os débitos em análise, hábil a justificar a manutenção da sua discussão processual. Da Incongruência Verificada na Base de Cálculo Utilizada pela Fiscalização Aduz a Recorrente que a autoridade fiscal deveria proceder à compensação dos tributos já recolhidos na modalidade de pagamento do SIMPLES pela empresa vinculada MR Calçados. Razão não assiste à Recorrente. Considerando que as razões recursais são idênticas àquelas deduzidas em sede de impugnação, em vista do disposto no § 3º do art. 57 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015 – RICARF, adoto os fundamentos da decisão recorrida, mediante transcrição do inteiro teor de seu voto condutor, neste particular: Fl. 616DF CARF MF Processo nº 13971.720371/201307 Acórdão n.º 2402006.605 S2C4T2 Fl. 18 33 No Simples Nacional, instituído pela Lei Complementar nº 123, de 14/12/2006, estão incluídos os seguintes impostos e contribuições: Federais: Imposto de Renda da Pessoa Jurídica IRPJ, Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL, Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS, Contribuição para o PIS/PASEP e Contribuição para a Seguridade Social. Estaduais: Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação – ICMS. Municipais: Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza – ISS. O ingresso de empresa no Simples Nacional implica o recolhimento mensal por meio de DAS – Documento de Arrecadação do Simples Nacional. O recolhimento da contribuição dos segurados empregados e contribuintes individuais é efetuado mediante Guia de Recolhimento da Previdência Social – GPS. Ocorre que consoante o parágrafo 10º do art. 21, da Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006, que instituiu o Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte – Simples Nacional, os créditos apurados no Simples Nacional não poderão ser utilizados para extinção de outros débitos para com as Fazendas Públicas, salvo por ocasião da compensação de ofício oriunda de deferimento em processo de restituição ou após a exclusão da empresa do Simples Nacional. Reforça este entendimento o disposto no § 7º art. 84, da Instrução Normativa RFB nº 1.717, de 17 de julho de 2017, a seguir reproduzido: Art. 84. (...) § 7º É vedada a compensação de contribuições previdenciárias com o valor recolhido indevidamente para o Simples Nacional, instituído pela Lei Complementar nº 123, de 2006. Diante do exposto, está claro que os valores recolhidos pela empresa vinculada MR Indústria e Comércio de Calçados Ltda EPP, CNPJ 08.073.730/000124, para o Simples Nacional não podem ser compensados com os valores apurados pela fiscalização neste processo. Entretanto, os valores pagos indevidamente ao Simples Nacional podem ser objeto de pedido de restituição. Fl. 617DF CARF MF 34 Conclusão Face ao exposto, voto por CONHECER e NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Gregório Rechmann Junior Fl. 618DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11065.002399/2008-91
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 29 00:00:00 UTC 2011
Ementa: EXCLUSÃO DO SIMPLES – LIMITE DE RECEITA – A empresa apresentou, desde sempre, receitas efetivas em valor superior ao limite
máximo permitido para opção pelo regime Simples Federal e Nacional.
Correta está a exclusão desses regimes, cujos efeitos se processam desde a data da opção irregular.
OMISSÃO DE RECEITAS – IMPRESTABILIDADE DA ESCRITA CONTÁBIL – ARBITRAMENTO – As receitas declaradas pela contribuinte
representavam cerca de 30% das receitas totais identificadas em ação fiscal.
Intimada reapresentar escrita contábil completa, a contribuinte informou ser impossível por ausência de documentos. A escrita foi corretamente considerada imprestável, autorizando o arbitramento do lucro.
JUROS SELIC – OBRIGAÇÃO LEGAL – SÚMULA CARF 4 – Sobre os
débitos tributários aplicam-se juros SELIC.
MULTA DE OFÍCIO DE 150% CONDUTA REITERADA – EVIDENTE INTUITO DE OMITIR TRIBUTOS – É aplicável a multa de 150% já que a
empresa omitiu mais receitas da tributação do que ofereceu por quatro anos consecutivos e para isso fez uso voluntário e consciente de ponto de venda não lacrado e irregular.
Numero da decisão: 1302-000.603
Decisão: ACORDAM os membros da 3ª câmara / 2ª turma ordinária da primeira SEÇÃO DE JULGAMENTO, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário nos termos do relatório e do voto que deste formam parte integrante.
Nome do relator: LAVINIA MORAES DE ALMEIDA NOGUEIRA JUNQUEIRA
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Correta está a exclusão desses regimes, cujos efeitos se processam desde a data da opção irregular. OMISSÃO DE RECEITAS – IMPRESTABILIDADE DA ESCRITA CONTÁBIL – ARBITRAMENTO – As receitas declaradas pela contribuinte representavam cerca de 30% das receitas totais identificadas em ação fiscal. Intimada reapresentar escrita contábil completa, a contribuinte informou ser impossível por ausência de documentos. A escrita foi corretamente considerada imprestável, autorizando o arbitramento do lucro. JUROS SELIC – OBRIGAÇÃO LEGAL – SÚMULA CARF 4 – Sobre os débitos tributários aplicamse juros SELIC. MULTA DE OFÍCIO DE 150% CONDUTA REITERADA – EVIDENTE INTUITO DE OMITIR TRIBUTOS – É aplicável a multa de 150% já que a empresa omitiu mais receitas da tributação do que ofereceu por quatro anos consecutivos e para isso fez uso voluntário e consciente de ponto de venda não lacrado e irregular. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros da 3ª câmara / 2ª turma ordinária da primeira SSEEÇÇÃÃOO DDEE JJUULLGGAAMMEENNTTOO, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário nos termos do relatório e do voto que deste formam parte integrante. “documento assinado digitalmente” MARCOS RODRIGUES DE MELLO Presidente. Fl. 1DF CARF MF Impresso em 12/04/2012 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/04/2012 por LAVINIA MORAES DE ALMEIDA NOGUEI, Assinado digitalmente e m 12/04/2012 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO, Assinado digitalmente em 12/04/2012 por LAVINIA MORAES D E ALMEIDA NOGUEI 2 “documento assinado digitalmente” LAVINIA MORAES DE ALMEIDA NOGUEIRA JUNQUEIRA Relatora. Participaram, do presente julgamento, os Conselheiros Marcos Rodrigues de Mello(presidente), Irineu Bianchi (vicepresidente), Wilson Fernandes Guimarães, Eduardo de Andrade, Lavinia Moraes de Almeida Nogueira Junqueira, Daniel Salgueiro da Silva. Relatório A empresa teve contra si lavrado auto de infração de IRPJ e CSLL dos anos calendários de 2004 a 2007 pelo regime de lucro arbitrado e de PIS e COFINS sobre receitas omitidas de tributação, no montante total aproximado de R$ 2,1 milhões (fls. 1, fls. 380 a 474). O lançamento foi efetuado com multa de 150%, considerando a conduta reiterada da contribuinte que deixou por todos esses anos de informar corretamente suas receitas para a autoridade federal fazendo inclusive opção irregular pelo Simples. Segundo relatório de Ação Fiscal (fls. 290 e seguintes), em visita ao estabelecimento da contribuinte a autoridade fiscal identificou alguns pontos de venda irregulares já que estavam sem o lacre da autoridade fiscal estadual para fins de ICMS. Nessa medida, foram apreendidos computadores e hardwares bem como documentos impressos da contribuinte. Foi solicitada ainda a apresentação do livro Diário e Razão. O confronto dos livros apresentados e das declarações do Simples com a base de dados obtida nos hardwares da empresa bem como com os documentos impressos apreendidos demonstrou que a empresa processava compras e vendas à margem da contabilidade e das receitas oferecidas à tributação, por meio dos caixas eletrônicos sem lacre. Considerando o total das receitas – declaradas e não declaradas , verificouse ainda que, desde o início de suas atividades, a empresa já excedera o limite máximo de receitas/mês admissível para enquadramento no regime do Simples. Por essa razão a empresa foi desenquadrada do Simples Federal, operando a exclusão efeito desde 03092004, por meio do Ato Declaratório Executivo DRFNHO 16 de 16072008 (fls. 3). Também foi desenquadrada do Simples Nacional desde a data de sua opção em 01072007, por meio do Ato Declaratório Executivo DRFNHO 17 de 16072008 (fls.9). Considerando que as receitas e compras à margem da escrita contábil e fiscal eram muito representativas, a empresa foi intimada e reintimada algumas vezes a refazer sua escrita contábil considerando essas informações. A interessada informou que seria impossível refazer a escrita contábil pela ausência de documentos relativos ao período em questão. Nessa medida, foi efetuado o lançamento fiscal de IRPJ e CSLL por meio do arbitramento do lucro, com consequências para PIS e COFINS lançados pelo regime cumulativo. Da base de cálculo de PIS e COFINS foi retirada a receita que, segundo informações da contribuinte, eram originárias da venda de mercadorias com substituição tributária. Ciente do lançamento e da Exclusão do Simples, a empresa impugnouo e manifestou sua inconformidade, alegando, em síntese: 1 – O lançamento e o ato de exclusão do Simples estão eivados de vícios. Fl. 2DF CARF MF Impresso em 12/04/2012 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/04/2012 por LAVINIA MORAES DE ALMEIDA NOGUEI, Assinado digitalmente e m 12/04/2012 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO, Assinado digitalmente em 12/04/2012 por LAVINIA MORAES D E ALMEIDA NOGUEI Processo nº 11065.002399/200891 Acórdão n.º 1302000.603 S1C3T2 Fl. 632 3 2 É inadmissível o uso da SELIC para atualização de débitos fiscais. 3 – O percentual de multa aplicado é confiscatório, supera o valor do tributo. 4 – A exclusão do Simples foi penalidade muito onerosa para a contribuinte que não poderá pagar seus tributos regularmente pelo Simples e obter Certidões. Assim, pediu a interessada prazo para regularização de sua situação fiscal, no qual permaneceria no regime Simples. 5 – A exclusão abrupta do Simples como foi feita não tem razoabilidade ou proporcionalidade e está eivada de vícios por deixar de observar esses princípios na aplicação da Lei. 6 – A autoridade fiscal não poderia arbitrar o lucro neste caso, pois haviam elementos para reconstituir e tributar o lucro real. A decisão de arbitramento foi arbitrária e não se pautou em argumentos técnicos. 7 – Pediu a interessada perícia contábil para apuração do lucro real, de forma imparcial, em prol dos princípios da verdade material, proporcionalidade e legalidade da tributação. 8 – Por fim, pediu a empresa o cancelamento integral do lançamento fiscal e sua reinclusão no Simples, imediata ou condicional ao cumprimento de determinados requisitos a serem fixados pela autoridade administrativa. A empresa pediu ainda, subsidiariamente, o afastamento dos juros SELIC e a redução do percentual de multa para 100%. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento entendeu que o auto de infração e os atos de Exclusão do Simples seguiram a legislação pertinente e atenderam a todos os requisitos de validade. Apenas a Lei pode dispor sobre regime de apuração de tributos. No caso, a empresa apresentou receitas excedentes àquelas admitidas por Lei para enquadramento no regime Simples, razão pela qual está correta a exclusão do Simples nos termos em que foi feita. A autoridade fiscal não pode dispensar a aplicação da Lei, que no caso exige a tributação fora do regime Simples. A exclusão do Simples deveria ter sido efetuada por meio de comunicação da própria empresa e, em sua ausência, está perfeitamente correta a exclusão de ofício por meio dos Atos de Exclusão formalizados pela autoridade fiscal. Segundo a DRJ, a autoridade fiscal verificou a omissão de receita e de compras em volumes expressivos face àqueles declarados e solicitou que a contribuinte apresentasse sua escrita fiscal contemplando os valores não escriturados. A interessada informou expressamente que não era possível reconstituir a escrita por falta de documentos. A não apresentação de documentos contábeis hábeis e verossímeis justificou o arbitramento do lucro, nos termos da Lei. Esse arbitramento não é penalidade, mas sim regime de apuração de tributos expresso em Lei e aplicável à hipótese quando a escrita da contribuinte demonstra ser imprestável para refletir as receitas e despesas efetivas da empresa, como foi o caso. Concluiu a DRJ pela correção do ato de exclusão do Simples e do lançamento fiscal e entendeu a autoridade ser desnecessária qualquer perícia contábil. A DRJ pontuou a legalidade da aplicação dos juros SELIC e da multa de ofício de 150%, considerando a conduta reiterada da contribuinte de omitir volumes grandes de receita da tributação por vários anos. A DRJ esclareceu ainda que está vinculada ao cumprimento da Lei e que não lhe cabe afastar penalidades nela dispostas. Fl. 3DF CARF MF Impresso em 12/04/2012 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/04/2012 por LAVINIA MORAES DE ALMEIDA NOGUEI, Assinado digitalmente e m 12/04/2012 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO, Assinado digitalmente em 12/04/2012 por LAVINIA MORAES D E ALMEIDA NOGUEI 4 Ciente da decisão em 24072009, a interessada recorreu em 04082009 reforçando suas razões de impugnação e protestando pelo cancelamento do lançamento, reenquadramento no Simples, ou então redução da multa e afastamento da SELIC. É o relatório. Voto Conselheira Lavinia Moraes de Almeida Nogueira Junqueira O recurso é tempestivo e dele tomo conhecimento. Não cabe reparo à decisão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento. O lançamento e os Atos Executivos de Exclusão do Simples 1608 e 1708 são plenamente válidos atendendo a todos os requisitos do artigo 10 do Decreto 70.23572 e da legislação tributária específica. 1 – A exclusão do Simples não apenas é válida como seguiu expressa determinação legal. A empresa jamais teve direito a enquadrarse no Simples. A empresa começou sua operação em 2004 e nesse mesmo ano já apresentou receitas de R$ 731.269,32, equivalentes a 4 meses de atividade, em valor portanto superior àquelas admitidas para enquadramento no Simples Federal conforme Lei 9.31796. Foi então irregular a opção que a empresa fez pelo Simples. A própria empresa deveria excluirse do Simples e na ausência de ato voluntário foi formalizado ato de ofício. A empresa seguiu tendo receitas além do limite para opção pelo Simples Federal nos anos: de 2005, R$ 4.275.509,75; 2006, R$ 4.824.261,91; e 2007, R$ 4.902.554,56. Por essa razão está correta a tributação, nesses anos, fora do regime do Simples e a exclusão do Simples. Por outro lado, também foi irregular a opção que a empresa fez pelo Simples Nacional em 01072007, consoante a Lei Complementar 12306, considerando que no ano de 2006 teve receitas também superiores às autorizadas no regime Simples. A Lei 9.31796 e a Lei Complementar 12306 estabelecem o regime Simples e restringem sua aplicação a empresas cuja receita não exceda determinados limites. Como a empresa recorrente sempre excedeu esses limites de receita, jamais poderia, nos termos da Lei, se beneficiar de qualquer regime de Simples. Apenas a Lei pode definir o regime de apuração do tributo, nos termos do artigo 150 da Constituição Federal de 1988 e artigo 97 do Código Tributário Nacional. Também apenas a Lei pode dar ou tirar benefícios fiscais. Nesse sentido, não cabe ao órgão julgador ou à autoridade fiscal conceder à contribuinte o direito de permanecer no regime do Simples quando a Lei não lhe dá esse direito. 2 – Está correto o arbitramento do lucro nos termos da Lei pois a escrita contábil apresentada pela contribuinte mostrouse imprestável. Fl. 4DF CARF MF Impresso em 12/04/2012 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/04/2012 por LAVINIA MORAES DE ALMEIDA NOGUEI, Assinado digitalmente e m 12/04/2012 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO, Assinado digitalmente em 12/04/2012 por LAVINIA MORAES D E ALMEIDA NOGUEI Processo nº 11065.002399/200891 Acórdão n.º 1302000.603 S1C3T2 Fl. 633 5 O valor das receitas declaradas, escrituradas e tributadas pela empresa, somou, no período autuado, apenas 30% do valor efetivo das receitas totais da empresa, como se observa na tabela abaixo (fls. 4): Declaradas Identificadas em Ação Fiscal D T 2004 64.872,32R$ 731.269,32R$ 9% 2005 1.102.283,13R$ 4.275.509,75R$ 26% 2006 2.002.789,69R$ 4.824.261,91R$ 42% 2007 R$ 646.175,20 (*) 4.902.554,56R$ 26% Total 3.816.120,34R$ 14.733.595,54R$ 30% (*) Proporcionais aos meses de janeiro a junho. Receitas Declaradas (D) / Totais (T) Ano Vêse que as receitas à margem da tributação e da contabilidade oficial da empresa superavam as receitas escrituradas. Como a atividade da empresa é de supermercado, compra e venda de mercadorias, é razoável entender que havia estoques de mercadorias compradas pela empresa para revenda. À receita de venda de mercadorias não escriturada deveria ser contraposto o custo desse estoque de mercadorias compradas. Por outro lado, a autoridade fiscal não tinha disponíveis informações precisas sobre o custo e o estoque de mercadorias. Então, diligentemente o fiscal solicitou à contribuinte que refizesse sua contabilidade e reapresentasse sua escrita contábil inserindo as receitas e as compras até então omitidas, para que o lançamento pudesse ser feito pelo lucro real. Intimada e reintimada a contribuinte afirmou que não seria possível fazer a escrituração, por falta de documentos. Ficou assim comprovada a imprestabilidade da escrita contábil apresentada pela contribuinte e justificado o arbitramento do lucro nos termos dos artigos 529 a 539 do Decreto 3.000/99. A perícia contábil neste caso é desnecessária, pois restam plenamente esclarecidos os fatos objeto de tributação e resta plenamente correta, nos termos da Lei, a apuração da base de cálculo. Evoco inclusive a Súmula CARF nº 59: A tributação do lucro na sistemática do lucro arbitrado não é invalidada pela apresentação, posterior ao lançamento, de livros e documentos imprescindíveis para a apuração do crédito tributário que, após regular intimação, deixaram de ser exibidos durante o procedimento fiscal. Fl. 5DF CARF MF Impresso em 12/04/2012 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/04/2012 por LAVINIA MORAES DE ALMEIDA NOGUEI, Assinado digitalmente e m 12/04/2012 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO, Assinado digitalmente em 12/04/2012 por LAVINIA MORAES D E ALMEIDA NOGUEI 6 3 – Os juros SELIC são obrigação legal. A multa de 150% é determinada por Lei e aplicável dada a conduta reiterada de omitir grandes somas de receita de tributação por anos consecutivos. Quanto aos juros SELIC, evoco a Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Já com relação à multa de ofício de 150%, o artigo 44 da Lei 9.43096 determina sua aplicação. Neste caso, é aplicável a multa de 150% pois houve reiterado e evidente intuito de omitir informações do fisco e assim evadir tributação. A empresa, por 4 anos consecutivos, omitiu grandes somas de receitas da tributação, declarou à autoridade fiscal que suas receitas seriam bem inferiores àquelas que de fato auferiu. Para fazer isso, operou com pontos de vendas não lacrados, à margem da legislação estadual aplicável. Além disso, deliberadamente optou pelo Simples sem poder fazer isso, omitindo da autoridade fiscal a informação sobre o valor correto de suas receitas e assim tentando beneficiarse de alíquotas tributárias privilegiadas. Nesses termos, é plenamente válido e deve ser mantido o lançamento fiscal em sua íntegra. Assim também são regulares e válidos os Atos Executivos de Exclusão do Simples Federal 1608 e do Simples Nacional 1708, em combate. Por essas razões, nego provimento ao recurso voluntário. “documento assinado digitalmente” Lavinia Moraes de Almeida Nogueira Junqueira Relatora Fl. 6DF CARF MF Impresso em 12/04/2012 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 12/04/2012 por LAVINIA MORAES DE ALMEIDA NOGUEI, Assinado digitalmente e m 12/04/2012 por MARCOS RODRIGUES DE MELLO, Assinado digitalmente em 12/04/2012 por LAVINIA MORAES D E ALMEIDA NOGUEI
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Numero do processo: 12448.901401/2013-31
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Sep 12 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/07/2010 a 30/09/2010
INSUMOS EMPREGADOS EM PRODUTOS IMUNES. LIMITES AO CREDITAMENTO
Com exceção das aquisições de insumos empregados em produtos industrializados destinados à exportação, os dispêndios com insumos de produtos imunes não geram créditos de IPI passíveis de ressarcimento ou compensação.
ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE
O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Aplicação da Súmula CARF nº 2.
IPI. COMPENSAÇÃO. PEDIDO DE RESSARCIMENTO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO QUE ESGOTOU O SALDO CREDOR DO IPI.
Mantido em primeira instância o Auto de Infração que esgotou o saldo credor do IPI, é de se manter o indeferimento do ressarcimento pleiteado e a não homologação das compensações declaradas, em razão da perda da certeza e liquidez do direito creditório alegado pelo interessado.
Numero da decisão: 3201-004.068
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar o recurso voluntário e não reconhecer o direito creditório.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer De Castro Souza - Presidente.
Leonardo Correia Lima Macedo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisario, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: LEONARDO CORREIA LIMA MACEDO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/07/2010 a 30/09/2010 INSUMOS EMPREGADOS EM PRODUTOS IMUNES. LIMITES AO CREDITAMENTO Com exceção das aquisições de insumos empregados em produtos industrializados destinados à exportação, os dispêndios com insumos de produtos imunes não geram créditos de IPI passíveis de ressarcimento ou compensação. ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Aplicação da Súmula CARF nº 2. IPI. COMPENSAÇÃO. PEDIDO DE RESSARCIMENTO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO QUE ESGOTOU O SALDO CREDOR DO IPI. Mantido em primeira instância o Auto de Infração que esgotou o saldo credor do IPI, é de se manter o indeferimento do ressarcimento pleiteado e a não homologação das compensações declaradas, em razão da perda da certeza e liquidez do direito creditório alegado pelo interessado.
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COMPENSAÇÃO. Recorrente CHEVRON BRASIL LUBRIFICANTES LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/07/2010 a 30/09/2010 INSUMOS EMPREGADOS EM PRODUTOS IMUNES. LIMITES AO CREDITAMENTO Com exceção das aquisições de insumos empregados em produtos industrializados destinados à exportação, os dispêndios com insumos de produtos imunes não geram créditos de IPI passíveis de ressarcimento ou compensação. ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Aplicação da Súmula CARF nº 2. IPI. COMPENSAÇÃO. PEDIDO DE RESSARCIMENTO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO QUE ESGOTOU O SALDO CREDOR DO IPI. Mantido em primeira instância o Auto de Infração que esgotou o saldo credor do IPI, é de se manter o indeferimento do ressarcimento pleiteado e a não homologação das compensações declaradas, em razão da perda da certeza e liquidez do direito creditório alegado pelo interessado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar o recurso voluntário e não reconhecer o direito creditório. (assinado digitalmente) Charles Mayer De Castro Souza Presidente. Leonardo Correia Lima Macedo Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 44 8. 90 14 01 /2 01 3- 31 Fl. 283DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisario, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior. Relatório Trata o presente de Recurso Voluntário de fls. 227/248 contra o Acórdão 1456.768 2ª Turma da DRJ/RPO, fls. 211/214, que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada pela recorrente. O caso discute créditos de IPI de matériasprimas escriturados pela ora recorrente, utilizados para a compensação de PIS e COFINS. O relatório da DRJ/RPO descreve os fatos descritos nos autos. Nesse sentido, transcrevese a seguir o relatório: Trata o presente de manifestação de inconformidade contra Despacho Decisório que não reconhece o direito creditório peticionado e, consequentemente, não homologou as compensações declaradas. Segundo relatório fiscal, a contribuinte, no período discriminado na ementa deste Acórdão, deixou de recolher o imposto em virtude da utilização de créditos indevidos alusivos à aquisição de mercadorias da Zona Franca de Manaus. Com a reconstituição da escrita fiscal, houve a apuração de saldos devedores. Disso decorreu a reescrituração dos créditos do IPI, resultando na redução do saldo credor que o interessado apresentou como direito creditório para compensar os débitos confessados na presente declaração de compensação. Tempestivamente, a manifestante alegou que, como contestou o lançamento de ofício (PAF 15563.720162/201473), peticiona que o presente aguarde o julgamento da impugnação contra o Auto de Infração, reportandose aos mesmo argumentos já lá articulados. A DRJ/RPO, por unanimidade de votos, proferiu o referido Acórdão, julgando improcedente a manifestação de inconformidade, indeferindo o ressarcimento pleiteado e não homologando as compensações declaradas. O Acórdão DRJ/RPO está assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/07/2010 a 30/09/2010 IPI. COMPENSAÇÃO. PEDIDO DE RESSARCIMENTO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO QUE ESGOTOU O SALDO CREDOR DO IPI. Mantido em primeira instância o Auto de Infração que esgotou o saldo credor do IPI, é de se manter o indeferimento do ressarcimento pleiteado e a não homologação das compensações Fl. 284DF CARF MF Processo nº 12448.901401/201331 Acórdão n.º 3201004.068 S3C2T1 Fl. 284 3 declaradas, em razão da perda da certeza e liquidez do direito creditório alegado pelo interessado. Inconformada, a recorrente apresentou, no prazo legal, Recurso Voluntário, a este CARF por meio do qual, requer que a decisão do juízo a quo seja reformada, alegando, em síntese: Da decisão nos autos do processo administrativo n.º 15563.720162/201473 O contribuinte alega que a decisão final nos autos do processo administrativo n.º 15563.720162/201473 influenciará diretamente na discussão desse processo. O referido processo cuida do lançamento de ofício do IPI em razão da glosa efetuada pelo Fisco dos créditos de IPI. Nesse sentido, requer a suspensão do presente processo para aguardar o desfecho do processo administrativo n.º 15563.720162/201473. O Direito ao Crédito do IPI O contribuinte explica que utilizou créditos de IPI na compensação com débitos de PIS e COFINS. Repete vários dos mesmos argumentos utilizados no processo administrativo n.º 15563.720162/201473, do qual agora já se sabe o desfecho negativo para o contribuinte. Defende que o princípio da nãocumulatividade, art. 153, IV, 3º, II, da CF, conjugado com o art. 49 do CTN, por si só, "conduz a inequívoca conclusão de que o direito ao crédito do IPI é absoluto, amplo e irrestrito, não havendo nenhuma vedação constitucional à manutenção do crédito em caso de saída subsequente não tributada". Alega que a "vedação aos créditos de IPI no particular acaba por fazer incidir este imposto em uma das etapas do ciclo produtivo dos lubrificantes derivados de petróleo que, por força do disposto no art. 155, § 3º, da Constituição, deveria estar imune à tributação". Consigna os fundamentos constitucionais do direito creditório e que a SRF exarou diversos precedentes, que colaciona, corroborando o entendimento de que o art. 11 da Lei n.º 9.779/99 e o art. 4º da IN 33/99, eram aplicáveis, inclusive para saídas de produtos imunes. Referese a imunidade dos lubrificantes derivados de petróleo. Afirma que “era incontroverso o direito à manutenção do crédito do IPI na aquisição de insumos, ainda que o produto a ser industrializado não estivesse sujeito à tributação do IPI, a exemplo dos produtos imunes produzidos pela Recorrente à época, (...)” Demonstra estar enquadrada na categoria de industrial. Alega que o Ato Declaratório n.º 05/2006 fora contrário a legislação de regência a época dos fatos gerados visto que alterou a orientação que vinha sendo adotada pela própria SRF nos termos da IN SRF n.º 33/99 e Soluções de Consulta. Em outras palavras, que as autoridades fiscais alteraram o critério jurídico que vinham adotando. Pede o reconhecimento integral do direito creditório e a homologação das compensações de que trata este processo administrativo fiscal. É o relatório. Fl. 285DF CARF MF 4 Voto Conselheiro Leonardo Correia Lima Macedo, Relator. O recurso atende a todos os requisitos de admissibilidade previstos em lei, razão pela qual dele se conhece. A seguir passo a análise de cada um dos pontos do recurso voluntário. Da decisão nos autos do processo administrativo n.º 15563.720162/201473 O processo administrativo n.º 15563.720162/201473 foi julgado em 26/04/2016 e resultou no Acórdão 3402003.012 – 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária do CARF. O julgamento foi desfavorável ao contribuinte e o Acórdão apresenta a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Ano calendário: 2009, 2010 IPI. CRÉDITOS BÁSICOS. FALTA DE LEGITIMIDADE. AQUISIÇÃO DE INSUMOS PARA INDUSTRIALIZAÇÃO DE PRODUTOS COM SAÍDA NÃO TRIBUTADA. Súmula CARF nº 20: Não há direito aos créditos de IPI em relação às aquisições de insumos aplicados na fabricação de produtos classificados na TIPI como NT. Diante do exposto, tendo em vista a conclusão do citado processo, o pedido de suspensão para julgamento do presente processo, ainda que pudesse ser atendido, não faz mais sentido. Crédito do IPI A entrada de matérias primas e a saída do produto precisa estar dentro do campo do IPI para que se possa falar em cumulatividade e consequentemente em compensação do tributo. Sobre o assunto, reproduzo o ensinamento de Leandro Pausen: Mesmo em se tratando de matériaprima, produto intermediário ou material de embalagem ensejadores, via de regra, de creditamento, não se tem como pretendêlo no caso de a sua entrada não ser onerada pelo IPI, seja por isenção, por alíquota zero, por imunidade ou por simples nãoincidência. Implicando, a nãocumulatividade, por força do disposto no art. 153, § 3º, II, da CF, a compensação do que for devido em cada operação com o montante cobrado nas anteriores, mostrase imprescindível à incidência do imposto gerando ônus tributário. Do contrário, não há que se falar em cumulatividade e, portanto, em direito a crédito para evitála. (PAUSEN, Leandro. Direito tributário. Constituição e Código Tributário Nacional comentados à luz da doutrina e da jurisprudência. 8ª. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006, p. 357) O ciclo do IPI precisa ser completo. Afinal, é incontestável que o direito a crédito na entrada serve para evitar a cumulatividade do IPI na saída. No caso específico de matéria prima empregada em produtos imunes, aponto jurisprudência do CARF no Acórdão n.º 3102001.506, de 2012 com a seguinte ementa: Fl. 286DF CARF MF Processo nº 12448.901401/201331 Acórdão n.º 3201004.068 S3C2T1 Fl. 285 5 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/04/1999 a 30/06/1999 INSUMOS EMPREGADOS EM PRODUTOS IMUNES. LIMITES AO CREDITAMENTO Com exceção das aquisições de insumos empregados em produtos industrializados destinados à exportação, os dispêndios com insumos de produtos imunes não geram créditos de IPI passíveis de ressarcimento ou compensação. Ora, se prevalecesse a tese do contribuinte, o crédito do IPI serviria única e exclusivamente para a compensação de outras espécies de tributos, a exemplo do PIS e da COFINS. Nesse caso, entendo que tal direito creditório e compensação dependeria de previsão legal, configurando benefício fiscal. Da forma atual, o benefício fiscal constante do art. 11 da Lei n.º 9.779/99, deve ser interpretado sob o contexto da legalidade estrita alcançando apenas o produto isento ou tributado à alíquota zero. Vejase jurisprudência do STJ de 2013 sobre o assunto: IPI. CREDITAMENTO. PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO DE PRODUTO NÃO TRIBUTADO. ART. 11 DA LEI N. 9.779/99. PRINCÍPIO TRIBUTÁRIO DA LEGALIDADE ESTRITA. AUSÊNCIA DE DIREITO AO CREDITAMENTO. 1. O STJ já se manifestou sobre o tema e pacificou o entendimento de que a interpretação do art. 11 da Lei n. 9.779/99 devese dar com a observância do princípio tributário da legalidade estrita, nos termos do art. 111 do CTN. Assim, não se pode alargar a isenção contida no art. 11 da Lei n. 9.779/99 às hipóteses de industrialização de produtos não tributados, uma vez que o benefício fiscal é vinculado às hipóteses de produto final isento ou tributado à alíquota zero. 2. Agravo regimental não provido. (Superior Tribunal de Justiça. 1ª Turma, AgRg no REsp 1213196 / RS) Com base na legalidade estrita para o benefício fiscal, não há como estender a aplicação do art. 11 da Lei n.º 9.779/99 para a saída de produto imune. Quanto as Soluções de Consulta apresentadas pelo contribuinte e que estendem o benefício fiscal para as indústrias de produtos imunes, cabe mencionar que as mesmas têm caráter vinculante apenas para os próprios consulentes. Por último, no tocante aos argumentos de cunho constitucional, aplicase o disposto na Súmula CARF nº. 2 que veda a este juízo o exame dos argumentos de inconstitucionalidade. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Por todo o exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário. É como voto. (assinado digitalmente) Fl. 287DF CARF MF 6 Leonardo Correia Lima Macedo Relator. Fl. 288DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.001631/2005-16
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 16 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Sep 12 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2000
Ementa:
PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. IN SRF Nº 38/97. ADIÇÃO DE FRETE E SEGURO. OBSERVÂNCIA OBRIGATÓRIA PELOS AUDITORES - PRINCÍPIO HIERÁQUICO - NULIDADE POR FALTA DE COMPETÊNCIA
Na apuração de preços praticados, assim como do preço parâmetro, mesmo se reconhecendo que este Conselho não esteja submetido às normas da RFB, impõe-se aos auditores a obediência explícita aos ditames determinados pelo órgão hierarquicamente superior, pena de nulidade ante a falta de competência, elemento de validade do ato administrativo.
FRETE E SEGURO - INCLUSÃO FACULTATIVA - INTELIGÊNCIA DO ART. 4º DA IN 38/97, VIGENTE À ÉPOCA DOS FATOS
Nos termos do art. 4º, §4º, da IN 38/97 a inclusão do frete e seguro na composição do preço parâmetro era franqueada ao contribuinte, não podendo, destarte, a fiscalização exigir o seu computo justamente por malferir a predita norma de observância impositiva aos servidores da Receita Federal do Brasil.
PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. SAÍDAS ATÍPICAS. COMPROVAÇÃO.
Comprovado que houve a inclusão de saídas atípicas na determinação do preço parâmetro, a base de cálculo deve ser retificada.
Numero da decisão: 1302-003.081
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, vencidos os conselheiros Maria Lucia Miceli (relatora) e Paulo Henrique Silva Figueiredo. Designado para redigir o voto vencedor ao Conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca. Declarou-se impedido de participar do julgamento o conselheiro Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa que foi substituído pelo o conselheiro Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado).
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente.
(assinado digitalmente)
Maria Lucia Miceli - Relatora.
(assinado digitalmente)
Gustavo Guimarães da Fonseca - Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado, Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Leonam Rocha de Medeiros, Paulo Henrique da Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Flavio Machado Vilhena Dias e Gustavo Guimarães da Fonseca.
Nome do relator: MARIA LUCIA MICELI
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2000 Ementa: PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. IN SRF Nº 38/97. ADIÇÃO DE FRETE E SEGURO. OBSERVÂNCIA OBRIGATÓRIA PELOS AUDITORES - PRINCÍPIO HIERÁQUICO - NULIDADE POR FALTA DE COMPETÊNCIA Na apuração de preços praticados, assim como do preço parâmetro, mesmo se reconhecendo que este Conselho não esteja submetido às normas da RFB, impõe-se aos auditores a obediência explícita aos ditames determinados pelo órgão hierarquicamente superior, pena de nulidade ante a falta de competência, elemento de validade do ato administrativo. FRETE E SEGURO - INCLUSÃO FACULTATIVA - INTELIGÊNCIA DO ART. 4º DA IN 38/97, VIGENTE À ÉPOCA DOS FATOS Nos termos do art. 4º, §4º, da IN 38/97 a inclusão do frete e seguro na composição do preço parâmetro era franqueada ao contribuinte, não podendo, destarte, a fiscalização exigir o seu computo justamente por malferir a predita norma de observância impositiva aos servidores da Receita Federal do Brasil. PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. SAÍDAS ATÍPICAS. COMPROVAÇÃO. Comprovado que houve a inclusão de saídas atípicas na determinação do preço parâmetro, a base de cálculo deve ser retificada.
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MÉTODO PRL. IN SRF Nº 38/97. ADIÇÃO DE FRETE E SEGURO. OBSERVÂNCIA OBRIGATÓRIA PELOS AUDITORES PRINCÍPIO HIERÁQUICO NULIDADE POR FALTA DE COMPETÊNCIA Na apuração de preços praticados, assim como do preço parâmetro, mesmo se reconhecendo que este Conselho não esteja submetido às normas da RFB, impõese aos auditores a obediência explícita aos ditames determinados pelo órgão hierarquicamente superior, pena de nulidade ante a falta de competência, elemento de validade do ato administrativo. FRETE E SEGURO INCLUSÃO FACULTATIVA INTELIGÊNCIA DO ART. 4º DA IN 38/97, VIGENTE À ÉPOCA DOS FATOS Nos termos do art. 4º, §4º, da IN 38/97 a inclusão do frete e seguro na composição do preço parâmetro era franqueada ao contribuinte, não podendo, destarte, a fiscalização exigir o seu computo justamente por malferir a predita norma de observância impositiva aos servidores da Receita Federal do Brasil. PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. SAÍDAS ATÍPICAS. COMPROVAÇÃO. Comprovado que houve a inclusão de saídas atípicas na determinação do preço parâmetro, a base de cálculo deve ser retificada. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, vencidos os conselheiros Maria Lucia Miceli (relatora) e Paulo Henrique AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 00 16 31 /2 00 5- 16 Fl. 7013DF CARF MF 2 Silva Figueiredo. Designado para redigir o voto vencedor ao Conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca. Declarouse impedido de participar do julgamento o conselheiro Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa que foi substituído pelo o conselheiro Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado). (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente. (assinado digitalmente) Maria Lucia Miceli Relatora. (assinado digitalmente) Gustavo Guimarães da Fonseca Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado, Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Leonam Rocha de Medeiros, Paulo Henrique da Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Flavio Machado Vilhena Dias e Gustavo Guimarães da Fonseca. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto em face ao Acórdão nº 1616.429, fls. 5227/5259, lavrado em sessão do dia 19 de fevereiro de 2008, pela 5ª Turma da DRJ/SPOI, o qual julgou procedente em parte a impugnação apresentada, consubstanciado na seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA – IRPJ Ano calendário: 2000 MÉTODO PRL. PREÇOS PRATICADOS. FRETE, SEGURO E TRIBUTOS. Na apuração dos preços praticados segundo o método PRL, devese incluir o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador, e os tributos incidentes na importação. MÉTODO PRL. PREÇOS PARÂMETRO. SAÍDAS ATíPICAS. Não logrando a contribuinte comprovar a inclusão de saídas atípicas na apuração dos preços parâmetro, mantêmse os valores calculados pela fiscalização. PREJUÍZO FISCAL DO PERÍODO. RESTABELECIMENTO. Restabelecese o prejuízo fiscal do período, indevidamente alterado por autuação formalizada em outro processo. JUROS DE MORA À TAXA SELIC. Fl. 7014DF CARF MF Processo nº 16327.001631/200516 Acórdão n.º 1302003.081 S1C3T2 Fl. 7.014 3 O cálculo dos juros de mora com base na taxa SELIC tem previsão legal, não competindo à esfera administrativa a análise da legalidade ou inconstitucionalidade de normas jurídicas. CSLL. DECORRÊNCIA. Os lançamentos relativos ao IRPJ e à CSLL decorrem dos mesmos fatos e elementos de prova. Desse modo, a decisão relativa ao IRPJ se estende, mutatis mutandis, à CSLL. O lançamento decorre de ajustes no Preço de Transferência praticado pela recorrente no anocalendário de 2000 na importação de produtos com empresas vinculadas. De acordo com o Termo de Verificação, fls. 979/1.115, a recorrente informou que teria utilizado para o cálculo o método PRL, não que não teria apurado ajustes para este período. A fiscalização, conforme impõe o § 4º do artigo 4º da IN SRF nº 32/2001, utilizou o custo CIF, incluindo os valores do frete e do seguro suportados pelo importador na determinação do preço praticado. Houve ainda ajustes nos estoques de importação de vinculadas remanescentes do ano anterior, que foram realizados no anocalendário de 2000. Para o preço praticado em 1999, foi utilizado o valor do Estoque Inicial disponível no inventário de 2000, e, para fins de preço parâmetro, os valores são os mesmos apurados em 2000. A base de cálculo foi apurada conforme tabela a seguir: Método Ajuste PRL 20 (Itens de revenda) R$ 23.070.018,81 PRL 60 (Itens de produção) R$ 32.037,44 PRL ajuste do Estoque Inicial R$ 1.461.014,07 Total passível de ajuste R$ 24.563.070,32 Ajuste DIPJ R$ 0,00 Total geral do ajuste Base de Cálculo R$ 24.563.070,32 Assim, foi lavrado auto de infração para cobrança de IRPJ no valor de R$ 586.150,30, acrescido de multa de ofício de 75% e juros de mora. Ainda em conseqüência ao lançamento, houve a redução da base negativa da CSLL de R$ 25.049.414,13 para R$ 486.343,81. A decisão recorrida acatou as alegações quanto ao restabelecimento do prejuízo fiscal do anocalendário de 2000, razão pela qual julgou procedente em parte a impugnação. A ciência de decisão ocorreu em 28/07/2008, de acordo com Aviso de Recebimento de fls. 5279. Inconformada, a recorrente apresentou em 22/08/2008 recurso voluntário de fls. 5281/5329. Na primeira oportunidade que este colegiado analisou o recurso voluntário, o julgamento foi convertido em diligência por meio de Resolução de nº 1302000.344, na sessão do dia 22 de outubro de 2014, fls. 6969/6974, da lavra do i. Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior, cujo relatório transcrevo a seguir: Fl. 7015DF CARF MF 4 A recorrente, cientificada do Acórdão n° 1616.429 em 28/07/2008 (AR a fls. 5277), interpôs, em 22/08/2008, recurso voluntário (doc. a fls. 5281 e segs.), no qual alega as seguintes razões de defesa: I quanto a inclusão dos valores relativos ao frete, ao seguro e aos tributos no cálculo do preço praticado: a) que é indevida inclusão dos valores relativos ao frete, ao seguro e aos tributos no cálculo do preço praticado (método PRL); b) que não foi a intenção do legislador incluir os valores relativos ao frete, seguro e tributos no cálculo dos preços de transferência, e sim tãosomente integrálos ao custo, para efeito de dedutibilidade, conforme dispõe o §6° do artigo 18 da Lei n° 9.430/96; c) que a interpretação do §6° do artigo 18 da Lei n° 9.430/96 (aplicável a todos os métodos) pode levar a um desses dois caminhos: c.1) entender que o legislador não foi exato ao ditar a previsão legal e que ele se referiu à inclusão do frete, do seguro e dos tributos incidentes na operação no custo, para efeito de determinação do valor do cálculo em qualquer dos 3 métodos (CPL, PRL e PIC); ou c.2) entender que o legislador foi preciso, e que o frete, o seguro e os tributos incidentes na operação não integram o valor do cálculo do preço de transferência, mas apenas o custo, para efeito de dedutibilidade de despesa quando do cálculo do lucro real. d) que o §6° do artigo 18 da Lei n° 9.430/96 é geral, aplicável a todos os métodos, o absurdo resultante da interpretação de que esses valores se incluem para um método veda a sua aplicação a todos os outros; e) que, entre 2 interpretações possíveis do texto legal, a mais adequada é aquela que tende a excluir os valores do frete, do seguro e dos tributos incidentes na importação no cálculo dos preços de transferência; f) que a Administração Tributária, por meio da IN SRF n° 38/97 (no §4° de seu artigo 4°), resolveu ser ainda mais benéfica ao contribuinte, pois, diante de 2 interpretações igualmente válidas, permitiu a ele que escolhesse qual das duas aplicar: "Art. 4° Para efeito de apuração do preço a ser utilizado como parâmetro, nas importações de empresa vinculada, não residente, de bens, serviços ou direitos, a pessoa jurídica importadora poderá optar por qualquer dos métodos referidos nesta Seção exceto na hipótese do § 1°, independentemente de prévia comunicação à Secretaria da Receita Federal. § 4° Na determinação do custo de bens adquiridos no exterior, poderão, também, ser computados os valores do transporte e seguro, cujo ônus tenha sido da empresa Fl. 7016DF CARF MF Processo nº 16327.001631/200516 Acórdão n.º 1302003.081 S1C3T2 Fl. 7.015 5 importadora, e dos tributos não recuperáveis, devidos na importação." (g.n.) g) que Hiromi Higushi e Celso Hiroyuki Higushi pregam que: "Os valores do transporte e seguro, cujo ônus tenha sido da empresa importadora, e dos tributos não recuperáveis, devidos na importação, poderão ser computados na determinação do preço de comparação'"; h) que esse entendimento também evita o absurdo de se considerar uma compra a preço zero (exportadora fornecendo gratuitamente) como transferência indevida de lucro, conforme a seguir exemplificado: Preço importação 0 Preço de revenda 25 Frete 6 () 20% lucro 5 Seguro 6 = Preçoparâmetro 20 Tributos 10 = Preço praticado 22 Ajuste 2 i) que, ao enfrentar o exemplo acima disposto, a DRJ afirmou que os dados apresentados eram "fantasiosos", e foram escolhidos pela Recorrente com a finalidade de se demonstrar um resultado por ela escolhido, mas é simples a verificação de que a declaração da DRJ não passou de um artifício retórico, do qual lançou mão para desqualificar o contundente exemplo, também enfatizado na peça impugnatória, pois a situação vislumbrada é uma situação possível, dentre os infinitos fatos que podem ocorrer na chamada "vida de relação"; j) que a DRJ afirmou que o exemplo não atenderia ao fim ilustrativo ao qual se destinou, pois o ajuste ali verificado decorreria do fato de que a margem de lucro da revenda teria sido inferior a 20%, mas, nada obstante, o que se quis ressaltar, é que, em um contexto negocial no qual não houve qualquer transferência de renda para uma parte relacionada no exterior, e que, portanto, foge absolutamente ao escopo das regras de preço de transferência, a consideração dos valores de seguro, frete e impostos no preço praticado levaria à absurda necessidade de ajuste; l) que o preçoparâmetro será sempre aquele correspondente ao preço de revenda (receita de vendas), diminuído unicamente das parcelas previstas na lei (lucro de 20%, descontos incondicionais, impostos nãorecuperáveis), logo, é absurdo sustentar, com base em uma interpretação "criativa", que a faculdade contemplada no artigo 4°, § 4°, da IN 38/97, deveria ser neutralizada, mediante o reconhecimento de uma obrigação desprovida de qualquer fundamento legal; m) que a Recorrente observou, sim, a IN 38/97, valeuse de uma faculdade que tinha, e que não lhe pode ser talhada pela idiossincrasia do Fisco; Fl. 7017DF CARF MF 6 n) que, sendo a IN n° 38/97 autêntico ato normativo, e que vigorou plenamente durante os fatos abrangidos pelo Auto de Infração, sua observância jamais poderá levar o contribuinte a sofrer quaisquer penalidades nem exigência de valores a titulo de juros de mora; II quanto a indevida utilização de saídas atípicas para a formação dos preços parâmetros: a) que o AuditorFiscal considerou determinadas saídas que, dada sua peculiar natureza, jamais poderiam compor a formação dos preçosparâmetro; b) que se trata de operações facilmente identificadas pelo Código Fiscal de Operações e Prestações — C.F.O.P. indicado nas Notas Fiscais de Saída, são eles: os códigos 5.99 e 6.99v . Ao tempo das operações objeto da presente autuação tais códigos referiamse a "outras saídas ou prestações de serviço não especificadas", relativas a operações intra ou interestaduais, respectivamente; c) que saídas identificadas pelos C.F.O.P.s 5.99 e 6.99 referem se basicamente a remessas de mercadorias destinadas à reposição de peças defeituosas para clientes com os quais a Recorrente firmou contratos de prestação de serviços de manutenção; d) que, além das operações relativas aos contratos de prestação de serviços de manutenção, também foram identificadas pelos C.F.O.P.s 5.99 e 6.99 as remessas de mercadorias para demonstração ou testes por parte de clientes da Recorrente, as quais também não podem ser qualificadas como revendas; e) que vale mencionar, ainda, remessas que a Recorrente fez a titulo de investimentos em pesquisas e desenvolvimento de projetos realizados por estabelecimentos diversos que têm por finalidade a descoberta de novos conhecimentos no domínio cientifico; f) que a DRJ admitiu tais postulações, e as acatou, quanto ao seu mérito, nada obstante, alegou que a Recorrente não houvera trazido à colação documentos comprobatórios das aludidas saídas atípicas; g) que o elemento que levou a DRJ, portanto, a rejeitar os argumentos suscitados pela Recorrente, girou exclusivamente em torna da correspondente dilação probatória, muito embora a Recorrente tenha apresentado elementos de prova suficientes para atestar suas afirmações, a DRJ entendeu que não seriam eles suficientes, motivo pelo qual a Recorrente viuse na contingência de complementar sua prova; h) que, em adição às planilhas apresentas junto de sua impugnação, e para resolver, definitivamente, o mérito dessa questão, a Recorrente apresenta, anexas ao presente recurso, cópias autenticadas de todas as notas fiscais relativas às saídas atípicas descritas nas mencionadas planilhas; Fl. 7018DF CARF MF Processo nº 16327.001631/200516 Acórdão n.º 1302003.081 S1C3T2 Fl. 7.016 7 i) que a Recorrente esclarece que, com relação a algumas poucas notas fiscais (cerca de 10), o documento original não pode ser localizado. Em virtude disso, para atestar a efetividade das transações que lhe são subjacentes, são juntados documentos que espelham as referidas notas fiscais, e que serviram de base para a emissão delas no passado. Tais documentos, como não poderia deixar de ser, encontramse em total consonância com as planilhas e documentos contábeis anexados à impugnação; j) que nenhum outro fator restaria, que impedisse a exclusão dos valores relativos a tais saídas do preçoparâmetro. Por essa razão, a esta C. Câmara resta o simples ato de determinar tal exclusão, a luz da complementação de prova aqui trazida, provendo ampla eficácia ao artigo 29 da IN 38/97; l) que há de se ter em mente que as notas fiscais ora apresentadas são aquelas discriminadas na "Planilha 1" e na "Planilha 3", anexas à impugnação (Docs. 4 e 7 da impugnação, respectivamente), além disso, após o acolhimento de tão robusta prova, haverão de ser considerados, como pertinentes, os preçosparâmetro indicados na "Planilha 2", anexa à impugnação (Doc. 6 da impugnação), os quais já refletem a eliminação da influência dos valores atinentes às saídas atípicas. Naquela sessão, o colegiado entendeu que a DRJ se equivocou quanto à indevida utilização de saídas atípicas para a formação dos preços parâmetros, decidindo pela conversão do julgamento em diligência para que: a) a Autoridade Fiscal, após analisar as planilhas apresentadas com a impugnação e as notas fiscais apresentadas com o recurso voluntário, refizesse, se fosse o caso, os cálculos do ajuste de preços de transferência, objeto deste processo, excluindo as operações de saídas atípicas ou justificando a não exclusão, quando entender que a saída não é atípica; b) fosse dada ciência ao recorrente do relatório de diligência elaborado pela Autoridade Fiscal, concedendolhe prazo para se manifestar nos autos. A DEMAC/SPO, responsável pelo cumprimento da diligência, elaborou Relatório Conclusivo de Diligência Fiscal, fls. 6982/6985, no qual consta: 1) Produtos com saídas válidas e inválidas: 1.1) em função do CFOP (5.99, 6.99), por não representarem revenda, 98 itens de 83 notas fiscais devem ser expurgados do cálculo do preço parâmetro, permanecendo ainda 992 itens relativos a 45 produtos; ressalva que estas saídas devem ainda ser computadas nas quantidades de ajustes, pois ainda permanecem sob o controle do preço de transferência. 1.2) o preço parâmetro recalculado, destes 45 produtos, não coincidem com a planilha apresentada pela recorrente em função dos preços praticados diferentes dos admitidos pela fiscalização. 1.3) os ajustes da base cálculo para estes produtos ficariam retificados de R$ 492.846,47 para R$ 458.488,21. Fl. 7019DF CARF MF 8 2) Produtos com saídas inválidas. 2.1) a recorrente apresentou 690 produtos que, em função do CFOP, não representam revenda; como apenas há saídas atípicas, não é possível determinar o preço parâmetro pelo método PRL. 2.2) a fiscalização apurou pelo método PRL, relativos a estes 690 produtos, um ajuste na base de cálculo do IRPJ e CSLL no valor de R$ 1.523.664,71, mas que passariam a totalizar zero. Assim, a base de cálculo do lançamento seria retificada nos seguintes valores: Método Ajuste PRL 20 (Itens de revenda) R$ 23.005.047,40 PRL 60 (Itens de produção) R$ 32.037,44 Total passível de ajuste R$ 23.037.084,84 Ajuste DIPJ R$ 0,00 Total geral do ajuste Base de Cálculo R$ 23.037.084,84 Cientificada do resultado da diligência em 28/12/2017, a recorrente apresentou manifestação em 23/01/2018, fls. 6992/7002, com as seguintes alegações: expressa sua concordância com as conclusões da diligência fiscal, com a recálculo do preço parâmetro promovida pela autoridade fiscal, uma vez que acatou suas alegações pertinentes aos produtos destinados a saídas atípicas. entretanto, permanece o equívoco na apuração do preço praticado utilizado para cálculo dos ajustes de preços de transferência, que incluiu indevidamente valores relativos a despesas de seguros, fretes e tributos aduaneiros. a IN SRF nº 38/97 dispõe que o preço praticado pode ou não compreender os valores relativos a seguro, frete e tributos aduaneiros para fins de cálculo do preço de transferência. foi concedida a faculdade ao contribuinte de incluir, ou não, o frete, seguro e tributos na composição dos custos dos bens, serviços ou direito importados. a instrução normativa não altera o artigo 18 da Lei nº 9.430/96, que dispõe que os valores de frete, seguro e tributos aduaneiros comporão o custo de importação para efeitos de dedutibilidade e não para efeitos de cálculos do preço praticado. este é o entendimento consolidado no CSRF, conforme Acórdão nº 9101 002.426, de 17/08/2016. afirma que o preço praticado adotado na presente autuação (e também no Relatório Conclusivo de Diligência Fiscal) indevidamente abrangem os custos de fretes, seguros e tributos aduaneiros em desconformidade com a IN SRF Nº 38/97 e com o entendimento da C. CSRF sobre a interpretação desse ato normativo. É o relatório. Fl. 7020DF CARF MF Processo nº 16327.001631/200516 Acórdão n.º 1302003.081 S1C3T2 Fl. 7.017 9 Voto Vencido Conselheira Maria Lucia Miceli Relatora O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade. Assim, dele eu conheço. Os principais pontos de defesa seriam, resumidamente: (1) quanto à inclusão indevida dos valores relativos ao frete, ao seguro e aos tributos no cálculo do preço praticado e (2) quanto a indevida utilização de saídas atípicas para a formação dos preços parâmetros. Considerando o conjunto probatório apresentado juntamente com o recurso voluntário, o julgamento foi convertido em diligência para averiguar se assistia razão à recorrente quanto ao argumento de indevida utilização de saídas atípicas para formação dos preços parâmetros. A DEMAC/SPO devolveu o processo concluindo que caberia redução da base de cálculo, em função de duas situações constatadas: 1) Produtos com saídas válidas e inválidas => os valores relativos às saídas com CFOP 5.99 e 6.99, por não representarem revenda, devem ser expurgados do cálculo do preço parâmetro. Ressaltou que estes valores ainda devem ser computados nas quantidades de ajustes, uma vez que tais mercadorias permanecem sob o controle do preço de transferência. 2) Produtos com apenas saídas inválidas => não é possível calcular o preço parâmetro para 690 produtos que só tiveram saídas cujo CFOP não representa revenda. Por esse motivo, o ajuste relativo a esses 690 produtos deve ser excluído da base de cálculo do lançamento. Assim, a autoridade fiscal concluiu que a base de cálculo deveria ser reduzida de R$ 24.563.070,37 para R$ 23.037.084,84, valor este não contestado pela recorrente. Do exposto, com relação a esta matéria, e considerando que não há reparo a ser feito na diligência realizada, entendo que assiste razão à recorrente, devendo a base de cálculo do lançamento ser reduzida para R$ 23.037.084,84. Passo a análise do primeiro argumento, no que tange à inclusão dos valores relativos ao frete, ao seguro e aos tributos no cálculo do preço praticado. É importante esclarecer que o principal objetivo da legislação que trata dos preços de transferência é evitar que ocorra a transferência de lucro para o exterior através da manipulação dos preços praticados entre pessoas vinculadas. O mecanismo escolhido é a comparação entre o preço praticado entre as partes vinculadas e o preço que seria praticado se fossem partes independentes (preço parâmetro). Esclareço que, como nem sempre é possível apurar os preços entre partes independentes, a legislação permitiu que a comparação fosse feita com o preço praticado na revenda Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL, estabelecendo margens de lucro bruto. Estas margens são presunções que decorrem da observação das transações comerciais, Fl. 7021DF CARF MF 10 dentro de critérios de razoabilidade. No caso de revenda de produto, o legislador entendeu que o lucro seria, presumidamente, de 20% incidente sobre o custo. Faço essa ressalva, pois o exemplo trazido na defesa é uma exceção do que seria razoável. A recorrente criou uma situação em que, em que pese receber o produto sem custo da pessoa vinculada, acabaria tendo que ajustar o preço. Ocorre que o exemplo trazido, como bem ressaltou a decisão de primeira instância, possui um lucro inferior a 20%, motivo pelo qual distorce o resultado. Esta situação não estaria dentro do escopo do razoável, do usual, dos parâmetros que o legislador utilizou para determinar que, no caso de revenda, a margem de lucro seria de 20%. É de se ressaltar que não são as exceções que devem nortear a nossa legislação tributária. Continuando, se o mecanismo para o controle de preços de transferência é a comparação, devemos ter como diretriz que esta deve ocorrer entre valores compatíveis, para que o resultado não seja distorcido. A questão a ser resolvida nesta lide é se os valores relativos ao frete, seguro e tributos deverão ser adicionados ao preço praticado para fins de comparação. A legislação a ser aplicada no anocalendário de 2000 seria a redação original do artigo 18 da Lei nº 9.430/1996, abaixo transcrita: "Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutiveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao prego determinado por um dos seguintes métodos: I Método dos Preços Independentes Comparados PIC:[...] II Método do Prego de Revenda menos Lucro PRL[...] III Método do Custo de Produção mais Lucro CPL: [...] (...) § 6° Integram o custo, para efeito de dedutibilidade, o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador e os tributos incidentes na importação. (...)" Também estava vigente à época dos fatos geradores a IN SRF nº 38/97, cujo §4º do artigo 4º tratava da matéria com a seguinte redação: "Art. 4° Para efeito de apuração do preço a ser utilizado como parâmetro, nas importações de empresa vinculada, não residente, de bens, serviços ou direitos, a pessoa jurídica importadora poderá optar por qualquer dos métodos referidos nesta Seção, exceto na hipótese do § 1°, independentemente de prévia comunicação à Secretaria da Receita Federal. (...) § 4° Na determinação do custo de bens adquiridos no exterior, poderão, também, ser computados os valores do transporte e Fl. 7022DF CARF MF Processo nº 16327.001631/200516 Acórdão n.º 1302003.081 S1C3T2 Fl. 7.018 11 seguro, cujo ônus tenha sido da empresa importadora, e dos tributos não recuperáveis, devidos na importação". A recorrente inicia sua defesa trazendo duas interpretações relativas ao § 6º do artigo 18 da Lei nº 9.430/96: 1) o legislador não foi preciso e se referiu à inclusão dos valores do frete, seguro e tributos incidentes na operação no preço praticado em qualquer um dos métodos. Deste modo, o preço parâmetro, calculado pelos métodos PIC, CPL ou PRL, estaria sendo comparado com uma grandeza que incluiria o valor pago à parte vinculada (transação controlada) e também valores (frete e seguro) pagos a terceiros independentes, além do valor pago à própria autoridade aduaneira. A recorrente alega que esta não seria a melhor interpretação, pois: => estarseia controlando valores pagos a terceiros e; => no caso do Custo de Produção mais Lucro CPL, que parte do custo do exportador acrescido de uma margem de 20%, se chegaria a um resultado absurdo. Como o custo do exportador não inclui o frete, o seguro e os tributos incidentes na importação, significa dizer que na margem máxima de 20% exigida do exportador já deveriam estar incluídos o frete, o seguro e os tributos incidentes na importação. 2) o legislador foi preciso, e que os valores do frete, seguro e tributos incidentes na operação não integram o valor do cálculo do preço de transferência, mas apenas o custo para efeito de dedutibilidade na determinação do lucro real. A defesa conclui que esta seria a melhor interpretação, em consonância ao § 4º do artigo 4º da IN SRF nº 38/97, que permite ao contribuinte escolher se inclui ou não estes dispêndios no cálculo do preço praticado. A defesa finaliza requerendo que, caso se entenda que estes valores devam ser adicionados ao preço parâmetro, tendo em vista a concessão da IN SRF nº 38/97, deveriam ser excluídos os valores de multa de ofício e juros no caso de ajuste, com base no artigo 100 do CTN. Passo a me pronunciar. De pronto, entendo que a segunda opção não seria a melhor interpretação do dispositivo, pois a dedutibilidade destes valores já está prevista no artigo 13 do DecretoLei nº 1.598/99, fundamento legal do artigo 289 do RIR/99; abaixo transcrito: Art. 289. O custo das mercadorias revendidas e das matérias primas utilizadas será determinado com base em registro permanente de estoques ou no valor dos estoques existentes, de acordo com o Livro de Inventário, no fim do período de apuração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 14). § 1º O custo de aquisição de mercadorias destinadas à revenda compreenderá os de transporte e seguro até o estabelecimento do contribuinte e os tributos devidos na aquisição ou importação (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 13). Fl. 7023DF CARF MF 12 § 2º Os gastos com desembaraço aduaneiro integram o custo de aquisição. § 3º Não se incluem no custo os impostos recuperáveis através de créditos na escrita fiscal. Quanto à primeira opção, de fato, o § 6º do artigo 18 da Lei nº 9.430/96, que impõe a inclusão no preço praticado dos valores de frete, seguro e do tributos incidentes na importação, não faz qualquer ressalva quanto ao método que deve ser aplicada essa obrigatoriedade. Mas, por outro lado, da leitura do inciso III do mesmo artigo, o qual define o CPL como "custo médio de produção de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, no país onde tiverem sido originariamente produzidos, acrescido dos impostos e taxas cobrados pelo referido país na exportação e de margem de lucro de vinte por cento, calculada sobre o custo apurado", não nos permite concluir que no custo do exportador não estariam incluídos o frete, o seguro e os tributos incidentes na importação. Na verdade, foi a IN SRF nº 38/97 que veio disciplinar como seria calculado o preço parâmetro do método CPL, nos termos do § 4º do artigo 13, abaixo transcrito: Art. 13. A determinação do custo de bens, serviços e direitos, adquiridos no exterior, dedutível na determinação do lucro real, poderá, ainda, ser efetuada pelo método do Custo de Produção mais Lucro CPL, definido como o custo médio de produção de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, no país onde tiverem sido originariamente produzidos, acrescido dos impostos e taxas cobrados pelo referido país, na exportação, e de margem de lucro de vinte por cento, calculada sobre o custo apurado. (...) § 4º Para efeito de determinação do preço por esse método, poderão ser computados como integrantes do custo: I o custo de aquisição das matériasprimas, dos produtos intermediários e dos materiais de embalagem utilizados na produção do bem, serviço ou direito; II o custo de quaisquer outros bens, serviços ou direitos aplicados ou consumidos na produção; III o custo do pessoal, aplicado na produção, inclusive de supervisão direta, manutenção e guarda das instalações de produção e os respectivos encargos sociais incorridos, exigidos ou admitidos pela legislação do país de origem; V os custos de locação, manutenção e reparo e os encargos de depreciação, amortização ou exaustão dos bens, serviços ou direitos aplicados na produção; V os valores das quebras e perdas razoáveis, ocorridas no processo produtivo, admitidas pela legislação fiscal do país de origem do bem, serviço ou direito. Da leitura deste dispositivo verificase que, conforme alega a recorrente, o frete, o seguro e os tributos incidentes na importação não estariam considerados no custo do Fl. 7024DF CARF MF Processo nº 16327.001631/200516 Acórdão n.º 1302003.081 S1C3T2 Fl. 7.019 13 exportador, o que, a princípio, traria comparações entre preço praticado e preço parâmetro com formações incompatíveis. Esta conclusão me leva a analisar outro ponto trazido em sua defesa, no qual a recorrente afirma que o §4º do artigo 4º da IN SRF nº 38/97 teria permitido ao contribuinte escolher se incluiria ou não estes valores para cálculo do preço praticado. Mais uma vez entendo que não é esta melhor interpretação a ser dada ao citado dispositivo. Como dito anteriormente, a legislação que rege o preço de transferência tem como mecanismo basilar a comparação entre grandezas, que devem ser compatíveis. E, sendo o principal objeto da Instrução Normativa uma melhor aplicação da legislação tributária, o § 4º do artigo 4º da IN SRF nº 38/97 dispõe que, na determinação do preço praticado, o contribuinte poderá incluir os valores do frete, do seguro e dos tributos incidentes na importação. Esta decisão vai depender de como o preço parâmetro é calculado. Diferente do que alega a recorrente, o dispositivo legal não prevê uma faculdade a ser exercida simplesmente. A opção é condicional. Se o preço parâmetro não incluir o frete, o seguro e os tributos incidentes na importação, como é o caso do método CPL calculado conforme § 4º do artigo 13 da IN SRF nº 38/97, da mesma forma estes valores não poderão ser incluídos no preço praticado, de forma a obter um resultado consistente na comparação entre as grandezas. Assim, não tem cabimento aceitar a afirmação de que o § 4º do artigo 4º da IN SRF nº 38/97 trouxe um benefício ao contribuinte, já que o principal objetivo desta legislação é evitar os acordos entre pessoas vinculadas trazendo prejuízos ao erário público. A IN SRF nº 38/87 deu o ônus ao contribuinte de observar a compatibilidade entre os preços comparados, principalmente quando utilizado o método CPL. É uma fórmula matemática na qual, se de um lado o preço parâmetro contempla os valores de frete, seguro e tributos incidentes na importação, do outro lado, estes dispêndios devem computados obrigatoriamente na determinação do preço praticado para que a comparação faça sentido e seja justa. As Instruções Normativas seguintes retiraram este encargo do contribuinte de preservar esta compatibilidade entre os preços comparados. De fato, as IN SRF nº 32/2001 e IN SRF n 243/2002 mantiveram a redação quanto à determinação do preço parâmetro pelo método CPL, mas limitaram a inclusão do frete, do seguro e dos tributos incidentes na importação apenas quando utilizado o método PRL. Estas instruções normativas estão de acordo com a redação do artigo 18 da Lei nº 9.430/96 vigente até 31/12/2012. No presente caso, a recorrente informou que utilizou o método do Preço de Revenda menos Lucro, que tem como ponto de partida o preço da revenda para determinação do preço parâmetro. Como já dito anteriormente, o artigo 13 do DecretoLei nº 1.598/99 disciplina que o custo de aquisição de mercadorias destinadas à revenda compreenderá os dispêndios com transporte e seguro até o estabelecimento do contribuinte, bem como os tributos devidos na aquisição ou importação. Por óbvio que o preço de revenda incluirá estes dispêndios, salvo o caso em o contribuinte comprove que não repassou esses valores aos consumidores. Para a manter a compatibilidade entre os preços a serem comparados, devese adicionar no preço praticado os valores relativos a frete, seguro e tributos incidentes na importação, conforme determina o § 6º do artigo 18 da Lei nº 9.430/96. Fl. 7025DF CARF MF 14 A recorrente alega que este procedimento traz ao controle dos preços de transferência valores que são pagos a partes independentes, e que não poderiam ser adicionados ao preço praticado para comparação com o preço parâmetro apurado pelo PRL. De fato, o caput do artigo 18 é muito claro ao restringir o controle dos preços de transferência às operações praticadas com partes ligadas, in verbis. Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: [...](grifei) Então, qual seria a melhor interpretação para o § 6º do artigo 18 da Lei nº 9.430/96 que impõe a adição dos valores do frete, seguro e tributos incidentes na importação ? Como já visto anteriormente, o mecanismo utilizado para o controle dos preços de transferência é comparação entre o preço praticado e o preço parâmetro, devendo a legislação manter a compatibilidade entre as grandezas. É neste contexto que o § 6º deve ser entendido: a manutenção da compatibilidade entre os preços, tendo em vista que no preço de revenda estes valores estão inclusos. Acerca da importância da manutenção da comparabilidade entre o preço praticado e o preço parâmetro, trago o voto do i. Conselheiro Marcelo Cuba Júnior, proferido no Acórdão nº 1201001.061, na sessão de 30 de julho de 2014: A questão da comparabilidade entre o preço praticado entre pessoas vinculadas e aquele praticado em operações de mercado está no cerne do princípio do arm’s lenght. Tanto é assim que o OECD Transfer Pricing Guidelines dedica todo o seu capítulo III ao exame desta matéria. De fato, o objetivo da comparação do valor de uma transação realizada entre pessoas vinculadas com o valor de uma outra transação realizada entre pessoas não vinculadas é a identificação do quanto a questão da vinculação afetou o valor da transação sob exame. Tendo sido inspirado no princípio do arm’s lenght, o art. 18 da Lei nº 9.430/96 não poderia ser corretamente interpretado acaso não fosse dada a devida importância à questão da comparabilidade. Assim, deve se ter em conta que no cálculo do preço parâmetro PRL20 estão incluídos os valores pagos pela contribuinte a título de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. De fato, ao excluirmos do preço de revenda do produto a margem lucro de 20%, restará o custo do produto revendido (vide outros ajustes no art. 18, II, da Lei nº 9.430/96). Esse custo, por óbvio, é composto não só pelo preço de aquisição produto, mas também pelos valores do frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação. Isso posto, a comparação entre o preço praticado (FOB) e o preço parâmetro PRL20 (que inclui frete + seguro + tributos sobre a importação), como advoga a recorrente, seria de todo inútil ao fim a que se destina a lei de preços de transferência, qual seja, verificar, mediante comparação entre aqueles preços, se a contribuinte está, ou não, reduzindo artificialmente o lucro Fl. 7026DF CARF MF Processo nº 16327.001631/200516 Acórdão n.º 1302003.081 S1C3T2 Fl. 7.020 15 apurado no Brasil por meio de aquisições de produtos junto a sua vinculada no exterior a preços superiores aos de mercado. Assim, para corretamente comparar o preço praticado com o preço parâmetro PRL20, é necessário que ambos estejam em pé de igualdade, ou seja, ou bem se exclui do preço parâmetro os valores pagos a título de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação, ou bem se adiciona esses valores ao preço praticado. A lei adotou a segunda opção, mas se houvesse adotado a primeira o resultado seria idêntico. Concluo, portanto, como correto o procedimento da auditoria fiscal em adicionar ao preço praticado os valores de frete, seguro e tributos incidentes na importação para fins de apuração do ajuste em função do controle dos preços de transferência. Por conseguinte, concluo que não cabe a aplicação do § único do artigo 100 do CTN para fins de exoneração da multa de ofício e juros de mora, tendo em vista que a legislação tributária não permitia cálculo diverso daquele levado a efeito durante a ação fiscal. CONCLUSÃO Por todo acima exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário, reduzindo a base tributável para o valor de R$ 23.037.084,84. (assinado digitalmente) Maria Lucia Miceli Relatora Voto Vencedor Conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca Redator designado Com a devida vênia a D. Relatora, e a par do brilhantismo pelo qual pauta os seus votos, no caso em testilha há, de fato, questão insuperável que me fazem divergir de suas conclusões (no que, inclusive, fui acompanhado pela maioria de meus pares). Aliás, digase, não me oponho ao raciocínio lógico proposto pela D. Conselheira relatora para justificar a inclusão do frete e seguro ao preço parâmetro, mormente se considerarmos os objetivos da norma que trata do preço de transferência. O problema aqui, contudo, é que a época dos fatos, vigia, em sua plenitude, norma infralegal, de autoria da Receita Federal do Brasil cujo conteúdo se afastava (ou potencialmente se desgarrava) da lógica legal proposta pela D. Relatora. No caso, o art 4, § 4º, da IN 38/1997, comportava significância semântica, a meu sentir, inatacável, principalmente porque, posteriormente, com o advento da IN 32, o mesmo comando foi reformulado a fim de se emprestar à inteligência daquele dispositivo, sentido absolutamente diametral. Com efeito, rezava o predito preceito normativo: Art. 4° Para efeito de apuração do preço a ser utilizado como parâmetro, nas importações de empresa vinculada, não residente, de bens, serviços ou direitos, a pessoa jurídica Fl. 7027DF CARF MF 16 importadora poderá optar por qualquer dos métodos referidos nesta Seção, exceto na hipótese do § 1°, independentemente de prévia comunicação à Secretaria da Receita Federal. (...) § 4° Na determinação do custo de bens adquiridos no exterior, poderão, também, ser computados os valores do transporte e seguro, cujo ônus tenha sido da empresa importadora, e dos tributos não recuperáveis, devidos na importação. Vejam que o que fez a IN 32 foi, justamente, substituir o termo "poderão" pela palavra "deverão", deixando extreme de dúvidas que a Receita reviu o seu entendimento sobre o tema e, particularmente, sobre a real extensão das disposições do art. 18, § 6º, da Lei 9.430. Até a predita IN 32, a inclusão do frete e seguro no preço parâmetro era, por entendimento expressa da autoridade máxima da Receita, uma faculdade concedida ao contribuinte. Se é fato que a IN 38 contrariou, numa análise rasa, o comando inserto no citado art .18 e, lado outro, não nego o meu entendimento de que os membros deste órgão julgador podem, sim, afastar a aplicação de normas regulamentares de autoridade da Receita Federal (notadamente quando verificada a sua ilegalidade), é igualmente insuperável o entendimento de as instruções normativas da receita vinculam todos os servidores lotados neste mesmo órgão por força do princípio hierárquico. que, dentre outros, dá à autoridade superior, nas palavras de Celso Antônio Bandeira de Mello, o "poder de comando, que autoriza expedir determinações gerais (instruções) ou específicas a um dado subalterno (ordens), sobre o modo de efetuar os serviços"1. E, digase, semelhantes instruções não são meras normas programáticas de conduta, cuja consequência relativa a sua inobservância seria a falta funcional, mas seriam, isto sim, e verdadeiramente, normas de competência. Lembrando que o ato de lançamento é ato administrativo por excelência (e por remissão legal expressa art. 142 do CTN), a sua validade está igualmente jungida à observância de seus elementos ou pressupostos de validade, dentre eles, a competência (sujeito), a finalidade, o objeto, a forma e a motivação. E a competência, que nos interessa ao caso, abarca não só a autorização para a prática de determinado ato, mas, necessariamente, como afirmado pelo predito jurista, Celso Antônio Bandeira de Mello, "a existência ou inexistência de óbices a ausa atuação no caso concreto" (op. cit. p. 340). Isto é, ao praticar o ato, o agente deverá observar, obrigatoriamente, as regras que lhes são impostas como condicionantes ao exercício desta competência; a inobservância de tais regras, culminará, como já dito, não só na falta funcional do servidor, mas, objetivamente, na invalidade do ato administrativo. Como dito, a obediência aos ditames da IN 38 era impositiva ao agente fiscal (por força do mencionado princípio hierárquico) e, nesta senda, conformava a sua própria competência para autuar. Neste passo, ao desconsiderar o seus dizeres, mormente a partir da relevação da faculdade nela contemplada (inclusão ou não do frete e seguros), o ato de lançamento restou eivado de nulidade, justamente por falecer, ao Auditor Fiscal, a necessária competência para praticálo no caso concreto. 1 BANDEIRA DE MELLO, Celso Antõnio. Curso de Direito Administrativo. 12.a ed., São Paulo: Malheiros, 2001, p. 125. Fl. 7028DF CARF MF Processo nº 16327.001631/200516 Acórdão n.º 1302003.081 S1C3T2 Fl. 7.021 17 Por tais razões, e considerando que o contribuinte seguiu a risca os comandos da norma de competência acima, vigente à época dos fatos tratados neste feito, voto por dar provimento ao recurso voluntário para cancelarse a exigência. (assinado digitalmente) Gustavo Guimarães da Fonseca Fl. 7029DF CARF MF
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