Busca Facetada
Turma- Terceira Câmara (29,283)
- Segunda Câmara (27,810)
- Primeira Câmara (25,086)
- Segunda Turma Ordinária d (17,966)
- Primeira Turma Ordinária (16,488)
- Primeira Turma Ordinária (16,437)
- Primeira Turma Ordinária (16,296)
- 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR (16,295)
- Segunda Turma Ordinária d (16,013)
- Segunda Turma Ordinária d (14,534)
- Primeira Turma Ordinária (13,106)
- Primeira Turma Ordinária (12,545)
- Segunda Turma Ordinária d (12,532)
- Quarta Câmara (11,514)
- Primeira Turma Ordinária (11,508)
- Quarta Câmara (85,725)
- Terceira Câmara (68,203)
- Segunda Câmara (57,034)
- Primeira Câmara (21,275)
- 3ª SEÇÃO (16,295)
- 2ª SEÇÃO (11,352)
- 1ª SEÇÃO (6,877)
- Pleno (788)
- Sexta Câmara (302)
- Sétima Câmara (172)
- Quinta Câmara (133)
- Oitava Câmara (123)
- Terceira Seção De Julgame (127,959)
- Segunda Seção de Julgamen (115,716)
- Primeira Seção de Julgame (77,508)
- Primeiro Conselho de Cont (49,053)
- Segundo Conselho de Contr (48,969)
- Câmara Superior de Recurs (38,120)
- Terceiro Conselho de Cont (25,979)
- IPI- processos NT - ressa (5,020)
- Outros imposto e contrib (4,458)
- PIS - ação fiscal (todas) (4,062)
- IRPF- auto de infração el (3,972)
- PIS - proc. que não vers (3,963)
- IRPJ - AF - lucro real (e (3,943)
- Cofins - ação fiscal (tod (3,868)
- Simples- proc. que não ve (3,681)
- IRPF- ação fiscal - Dep.B (3,045)
- IPI- processos NT- créd.p (2,251)
- IRPF- ação fiscal - omis. (2,215)
- Cofins- proc. que não ver (2,102)
- IRPJ - restituição e comp (2,088)
- Finsocial -proc. que não (1,996)
- IRPF- restituição - rendi (1,991)
- Não Informado (56,472)
- GILSON MACEDO ROSENBURG F (5,545)
- RODRIGO DA COSTA POSSAS (4,442)
- WINDERLEY MORAIS PEREIRA (4,272)
- CLAUDIA CRISTINA NOIRA PA (4,256)
- PEDRO SOUSA BISPO (4,108)
- HELCIO LAFETA REIS (3,896)
- ROSALDO TREVISAN (3,243)
- CHARLES MAYER DE CASTRO S (3,219)
- MARCOS ROBERTO DA SILVA (3,150)
- Não se aplica (2,936)
- PAULO GUILHERME DEROULEDE (2,840)
- WILDERSON BOTTO (2,674)
- RODRIGO LORENZON YUNAN GA (2,654)
- LIZIANE ANGELOTTI MEIRA (2,636)
- 2020 (41,088)
- 2021 (35,847)
- 2019 (30,960)
- 2018 (26,046)
- 2024 (25,923)
- 2012 (23,622)
- 2023 (22,473)
- 2014 (22,376)
- 2013 (21,088)
- 2011 (20,979)
- 2025 (19,655)
- 2010 (18,059)
- 2008 (17,137)
- 2017 (16,841)
- 2009 (15,846)
- 2009 (69,612)
- 2020 (39,854)
- 2021 (34,153)
- 2019 (30,463)
- 2023 (25,918)
- 2024 (23,872)
- 2014 (23,412)
- 2018 (23,139)
- 2025 (19,745)
- 2026 (19,010)
- 2013 (16,584)
- 2017 (16,398)
- 2008 (15,520)
- 2006 (14,857)
- 2022 (13,225)
Numero do processo: 16682.900373/2022-12
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 12 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/02/2015 a 28/02/2015
PRAZO DECADENCIAL DOS ARTIGOS 150, §4º E 173 DO CTN. INAPLICABILIDADE PARA A VERIFICAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA DO DIREITO CREDITÓRIO A verificação da liquidez e certeza do direito creditório não se sujeita ao prazo decadencial previsto nos artigos 150, §4º e 173 do CTN.
REAPURAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO DIREITO CREDITÓRIO. POSSIBILIDADE. DESNECESSIDADE DE LANÇAMENTO DE OFÍCIO. SÚMULA CARF Nº 159.
A verificação da liquidez e certeza do direito creditório permite a recomposição da base de cálculo para aferir se o pagamento é indevido ou a maior que o devido, sem necessidade de lançamento de ofício.
CRÉDITOS DA NÃO-CUMULATIVIDADE. INSUMOS. DEFINIÇÃO. APLICAÇÃO DO ARTIGO 99 DO ANEXO DO RICARF. RESP 1.221.170/PR O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, conforme decidido no REsp 1.221.170/PR, julgado na sistemática de recursos repetitivos, cuja decisão deve ser reproduzida no âmbito deste conselho.
CRÉDITO DA NÃO-CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÕES DE BENS SUJEITOS À ALÍQUOTA ZERO EM TODA A CADEIA DE COMERCIALIZAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE.
A aquisição de bens sujeitos à alíquota zero em toda a cadeia de comercialização não gere créditos da não-cumulatividade prevista no artigo 3º das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, conforme a vedação contida no inciso II, §2º, art. 3º das referidas leis.
TRANSPORTE FIRME DE GÁS NATURAL. ENCARGO DE RESERVA DE CAPACIDADE DE TRANSPORTE. “SHIP OR PAY”. CRÉDITOS. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE.
Nos contratos de Serviço de Transporte Firme, o Transportador está obrigado a programar e transportar o volume diário de gás natural solicitado pelo Carregador até a Capacidade Contratada de Transporte estabelecida no contrato. O Encargo de Reserva de Capacidade de Transporte (Ship or Pay) é o valor devido pela reserva da capacidade de transporte, independentemente do efetivo transporte da Capacidade Tal Encargo é devido em razão do controle tarifário pelo custo exigido na Resolução ANP nº 15/2014, que impõe a remuneração dos custos arcados pelo Transportador mesmo que sem movimentar o volume total diário reservado. Assim, o SoP não configura custo à parte do contrato, mas Encargo que compõe a remuneração contratual do Serviço de Transporte Firme, de modo que gera direito ao creditamento das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02.
AQUISIÇÕES DE BENS E SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO DE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO COM AUMENTO DA VIDA ÚTIL EM PRAZO SUPERIOR A 1 (UM) ANO). CREDITAMENTO POR DEPRECIAÇÃO.
Os gastos com manutenção de bens pertencentes ao ativo imobilizado e empregados na atividade operacional do contribuinte, que acarretem o aumento da vida útil do bem superior a um ano, e que, portanto, sejam capitalizados, nos termos do art. 48 da Lei nº 4.506/64, podem ser apropriados com fundamento no inciso VI dos art. 3º das Lei nº 10.637/02 e 10.833/03.
CREDITAMENTO DO ARTIGO 1º DA LEI 11.774/2008. BENS E SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO. IMPOSSIBILIDADE.
O creditamento de que trata o artigo 1º da Lei nº 11.774/2008 se restringe a aquisição de máquinas e equipamentos de terceiros e não se refere a outros bens ou serviços adquiridos para manutenção do bens do ativo imobilizado que aumentem a vida útil por mais de um ano, que devem ser ativados para futura depreciação.
DESPESAS DE ALIMENTAÇÃO E HOTELARIA INCORRIDAS DENTRO DO PROCESSO PRODUTIVO. EXIGÊNCIA ESTABELECIDA EM LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA. RELEVÂNCIA. INSUMO As despesas de alimentação e hotelaria incorridas no âmbito do processo produtivo e decorrentes de exigência de legislação específica podem ser consideradas relevantes e gerar crédito como insumo, nos termos do inciso II do artigo 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003.
DESPESAS DE AFRETAMENTO DE EMBARCAÇÕES POR TEMPO.
As despesas de afretamento de embarcações por tempo, para transporte de insumos e mão-de-obra nas plataformas marítiimas, por se tratar de contrato complexo, envolvendo obrigações de fazer e dar, podem gerar créditos da não-cumulatividade como insumos.
AFRETAMENTO DE AERONAVES. TRANSPORTE DE PESSOAS PARA AS PLATAFORMAS MARÍTIMAS.
As despesas incorridas com o afretamento de aeronaves para transporte de pessoas para as plataformas preenchem com os requisitos de relevância e essencialidade, devendo, portanto, ser considerados insumos.
CESSÃO E ARQUIVAMENTO DE DADOS SÍSMICOS. INSUMOS.
A cessão de dados sísmicos é despesa essencial na atividade de exploração de petróleo. O arquivamento de dados sísmicos é despesa relevante na atividade de exploração de petróleo.
ALUGUEL DE DUTOS PARA ESCOAMENTO DA PRODUÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO COMO EQUIPAMENTOS. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO COMO INSUMOS.
Dutos não são considerados equipamentos, mas instalações, não gerando crédito nos termos do inciso IV do artigo 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003. Também não podem ser considerados como insumos, por se tratar de despesa incorrida após o processo produtivo.
CRÉDITO EXTEMPORÂNEO. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DACON E EFD-CONTRIBUIÇÕES.
O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DACON e EFD-Contribuições retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes.
Numero da decisão: 3301-014.670
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para reconhecer o crédito sobre aquisição de gás da Bolívia, afretamento de embarcações e aeronaves, alimentação e hotelaria marítimas, cessão de uso e arquivamento de dados sísmicos, encargos ship or pay, exceto em relação aos créditos extemporâneos, vencidos os Conselheiros Bruno Minoru Takii e Keli Campos de Lima, que convertiam o julgamento em diligência para verificação da localização do dutos e gasodutos, objeto da glosa de aluguel e cessão. A Conselheira Rachel Freixo Chaves votou pelas conclusões em relação à negativa de provimento sobre aluguel de dutos e cessão de uso de gasoduto.
(documento assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède – Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Bruno Minoru Takii, Marco Unaian Neves de Miranda (substituto[a] integral), Rachel Freixo Chaves, Keli Campos de Lima e Paulo Guilherme Deroulede (Presidente).
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
1.0 = *:*
toggle all fields
dt_index_tdt : Sat Feb 28 09:00:00 UTC 2026
anomes_sessao_s : 202511
camara_s : Terceira Câmara
turma_s : Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
dt_publicacao_tdt : Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
numero_processo_s : 16682.900373/2022-12
anomes_publicacao_s : 202602
conteudo_id_s : 7337851
dt_registro_atualizacao_tdt : Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
numero_decisao_s : 3301-014.670
nome_arquivo_s : Decisao_16682900373202212.PDF
ano_publicacao_s : 2026
nome_relator_s : PAULO GUILHERME DEROULEDE
nome_arquivo_pdf_s : 16682900373202212_7337851.pdf
secao_s : Terceira Seção De Julgamento
arquivo_indexado_s : S
decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para reconhecer o crédito sobre aquisição de gás da Bolívia, afretamento de embarcações e aeronaves, alimentação e hotelaria marítimas, cessão de uso e arquivamento de dados sísmicos, encargos ship or pay, exceto em relação aos créditos extemporâneos, vencidos os Conselheiros Bruno Minoru Takii e Keli Campos de Lima, que convertiam o julgamento em diligência para verificação da localização do dutos e gasodutos, objeto da glosa de aluguel e cessão. A Conselheira Rachel Freixo Chaves votou pelas conclusões em relação à negativa de provimento sobre aluguel de dutos e cessão de uso de gasoduto. (documento assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Bruno Minoru Takii, Marco Unaian Neves de Miranda (substituto[a] integral), Rachel Freixo Chaves, Keli Campos de Lima e Paulo Guilherme Deroulede (Presidente).
dt_sessao_tdt : Wed Nov 12 00:00:00 UTC 2025
id : 11228009
ano_sessao_s : 2025
ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/02/2015 a 28/02/2015 PRAZO DECADENCIAL DOS ARTIGOS 150, §4º E 173 DO CTN. INAPLICABILIDADE PARA A VERIFICAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA DO DIREITO CREDITÓRIO A verificação da liquidez e certeza do direito creditório não se sujeita ao prazo decadencial previsto nos artigos 150, §4º e 173 do CTN. REAPURAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO DIREITO CREDITÓRIO. POSSIBILIDADE. DESNECESSIDADE DE LANÇAMENTO DE OFÍCIO. SÚMULA CARF Nº 159. A verificação da liquidez e certeza do direito creditório permite a recomposição da base de cálculo para aferir se o pagamento é indevido ou a maior que o devido, sem necessidade de lançamento de ofício. CRÉDITOS DA NÃO-CUMULATIVIDADE. INSUMOS. DEFINIÇÃO. APLICAÇÃO DO ARTIGO 99 DO ANEXO DO RICARF. RESP 1.221.170/PR O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, conforme decidido no REsp 1.221.170/PR, julgado na sistemática de recursos repetitivos, cuja decisão deve ser reproduzida no âmbito deste conselho. CRÉDITO DA NÃO-CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÕES DE BENS SUJEITOS À ALÍQUOTA ZERO EM TODA A CADEIA DE COMERCIALIZAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. A aquisição de bens sujeitos à alíquota zero em toda a cadeia de comercialização não gere créditos da não-cumulatividade prevista no artigo 3º das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, conforme a vedação contida no inciso II, §2º, art. 3º das referidas leis. TRANSPORTE FIRME DE GÁS NATURAL. ENCARGO DE RESERVA DE CAPACIDADE DE TRANSPORTE. “SHIP OR PAY”. CRÉDITOS. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. Nos contratos de Serviço de Transporte Firme, o Transportador está obrigado a programar e transportar o volume diário de gás natural solicitado pelo Carregador até a Capacidade Contratada de Transporte estabelecida no contrato. O Encargo de Reserva de Capacidade de Transporte (Ship or Pay) é o valor devido pela reserva da capacidade de transporte, independentemente do efetivo transporte da Capacidade Tal Encargo é devido em razão do controle tarifário pelo custo exigido na Resolução ANP nº 15/2014, que impõe a remuneração dos custos arcados pelo Transportador mesmo que sem movimentar o volume total diário reservado. Assim, o SoP não configura custo à parte do contrato, mas Encargo que compõe a remuneração contratual do Serviço de Transporte Firme, de modo que gera direito ao creditamento das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. AQUISIÇÕES DE BENS E SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO DE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO COM AUMENTO DA VIDA ÚTIL EM PRAZO SUPERIOR A 1 (UM) ANO). CREDITAMENTO POR DEPRECIAÇÃO. Os gastos com manutenção de bens pertencentes ao ativo imobilizado e empregados na atividade operacional do contribuinte, que acarretem o aumento da vida útil do bem superior a um ano, e que, portanto, sejam capitalizados, nos termos do art. 48 da Lei nº 4.506/64, podem ser apropriados com fundamento no inciso VI dos art. 3º das Lei nº 10.637/02 e 10.833/03. CREDITAMENTO DO ARTIGO 1º DA LEI 11.774/2008. BENS E SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. O creditamento de que trata o artigo 1º da Lei nº 11.774/2008 se restringe a aquisição de máquinas e equipamentos de terceiros e não se refere a outros bens ou serviços adquiridos para manutenção do bens do ativo imobilizado que aumentem a vida útil por mais de um ano, que devem ser ativados para futura depreciação. DESPESAS DE ALIMENTAÇÃO E HOTELARIA INCORRIDAS DENTRO DO PROCESSO PRODUTIVO. EXIGÊNCIA ESTABELECIDA EM LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA. RELEVÂNCIA. INSUMO As despesas de alimentação e hotelaria incorridas no âmbito do processo produtivo e decorrentes de exigência de legislação específica podem ser consideradas relevantes e gerar crédito como insumo, nos termos do inciso II do artigo 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003. DESPESAS DE AFRETAMENTO DE EMBARCAÇÕES POR TEMPO. As despesas de afretamento de embarcações por tempo, para transporte de insumos e mão-de-obra nas plataformas marítiimas, por se tratar de contrato complexo, envolvendo obrigações de fazer e dar, podem gerar créditos da não-cumulatividade como insumos. AFRETAMENTO DE AERONAVES. TRANSPORTE DE PESSOAS PARA AS PLATAFORMAS MARÍTIMAS. As despesas incorridas com o afretamento de aeronaves para transporte de pessoas para as plataformas preenchem com os requisitos de relevância e essencialidade, devendo, portanto, ser considerados insumos. CESSÃO E ARQUIVAMENTO DE DADOS SÍSMICOS. INSUMOS. A cessão de dados sísmicos é despesa essencial na atividade de exploração de petróleo. O arquivamento de dados sísmicos é despesa relevante na atividade de exploração de petróleo. ALUGUEL DE DUTOS PARA ESCOAMENTO DA PRODUÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO COMO EQUIPAMENTOS. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO COMO INSUMOS. Dutos não são considerados equipamentos, mas instalações, não gerando crédito nos termos do inciso IV do artigo 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003. Também não podem ser considerados como insumos, por se tratar de despesa incorrida após o processo produtivo. CRÉDITO EXTEMPORÂNEO. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DACON E EFD-CONTRIBUIÇÕES. O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DACON e EFD-Contribuições retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes.
atualizado_anexos_dt : Sat Feb 28 09:41:26 UTC 2026
sem_conteudo_s : N
_version_ : 1858361586861735936
conteudo_txt : Metadados => date: 2026-02-13T17:41:34Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-02-13T17:41:34Z; Last-Modified: 2026-02-13T17:41:34Z; dcterms:modified: 2026-02-13T17:41:34Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-02-13T17:41:34Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-02-13T17:41:34Z; meta:save-date: 2026-02-13T17:41:34Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-02-13T17:41:34Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-02-13T17:41:34Z; created: 2026-02-13T17:41:34Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 50; Creation-Date: 2026-02-13T17:41:34Z; pdf:charsPerPage: 1777; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-02-13T17:41:34Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 16682.900373/2022-12 ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 12 de novembro de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE PETRÓLEO BRASILEIRO S.A. (PETROBRAS) INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/02/2015 a 28/02/2015 PRAZO DECADENCIAL DOS ARTIGOS 150, §4º E 173 DO CTN. INAPLICABILIDADE PARA A VERIFICAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA DO DIREITO CREDITÓRIO A verificação da liquidez e certeza do direito creditório não se sujeita ao prazo decadencial previsto nos artigos 150, §4º e 173 do CTN. REAPURAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO DIREITO CREDITÓRIO. POSSIBILIDADE. DESNECESSIDADE DE LANÇAMENTO DE OFÍCIO. SÚMULA CARF Nº 159. A verificação da liquidez e certeza do direito creditório permite a recomposição da base de cálculo para aferir se o pagamento é indevido ou a maior que o devido, sem necessidade de lançamento de ofício. CRÉDITOS DA NÃO-CUMULATIVIDADE. INSUMOS. DEFINIÇÃO. APLICAÇÃO DO ARTIGO 99 DO ANEXO DO RICARF. RESP 1.221.170/PR O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, conforme decidido no REsp 1.221.170/PR, julgado na sistemática de recursos repetitivos, cuja decisão deve ser reproduzida no âmbito deste conselho. CRÉDITO DA NÃO-CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÕES DE BENS SUJEITOS À ALÍQUOTA ZERO EM TODA A CADEIA DE COMERCIALIZAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. A aquisição de bens sujeitos à alíquota zero em toda a cadeia de comercialização não gere créditos da não-cumulatividade prevista no artigo 3º das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, conforme a vedação contida no inciso II, §2º, art. 3º das referidas leis. Fl. 697DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 2 TRANSPORTE FIRME DE GÁS NATURAL. ENCARGO DE RESERVA DE CAPACIDADE DE TRANSPORTE. “SHIP OR PAY”. CRÉDITOS. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. Nos contratos de Serviço de Transporte Firme, o Transportador está obrigado a programar e transportar o volume diário de gás natural solicitado pelo Carregador até a Capacidade Contratada de Transporte estabelecida no contrato. O Encargo de Reserva de Capacidade de Transporte (Ship or Pay) é o valor devido pela reserva da capacidade de transporte, independentemente do efetivo transporte da Capacidade Tal Encargo é devido em razão do controle tarifário pelo custo exigido na Resolução ANP nº 15/2014, que impõe a remuneração dos custos arcados pelo Transportador mesmo que sem movimentar o volume total diário reservado. Assim, o SoP não configura custo à parte do contrato, mas Encargo que compõe a remuneração contratual do Serviço de Transporte Firme, de modo que gera direito ao creditamento das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. AQUISIÇÕES DE BENS E SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO DE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO COM AUMENTO DA VIDA ÚTIL EM PRAZO SUPERIOR A 1 (UM) ANO). CREDITAMENTO POR DEPRECIAÇÃO. Os gastos com manutenção de bens pertencentes ao ativo imobilizado e empregados na atividade operacional do contribuinte, que acarretem o aumento da vida útil do bem superior a um ano, e que, portanto, sejam capitalizados, nos termos do art. 48 da Lei nº 4.506/64, podem ser apropriados com fundamento no inciso VI dos art. 3º das Lei nº 10.637/02 e 10.833/03. CREDITAMENTO DO ARTIGO 1º DA LEI 11.774/2008. BENS E SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. O creditamento de que trata o artigo 1º da Lei nº 11.774/2008 se restringe a aquisição de máquinas e equipamentos de terceiros e não se refere a outros bens ou serviços adquiridos para manutenção do bens do ativo imobilizado que aumentem a vida útil por mais de um ano, que devem ser ativados para futura depreciação. DESPESAS DE ALIMENTAÇÃO E HOTELARIA INCORRIDAS DENTRO DO PROCESSO PRODUTIVO. EXIGÊNCIA ESTABELECIDA EM LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA. RELEVÂNCIA. INSUMO As despesas de alimentação e hotelaria incorridas no âmbito do processo produtivo e decorrentes de exigência de legislação específica podem ser consideradas relevantes e gerar crédito Fl. 698DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 3 como insumo, nos termos do inciso II do artigo 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003. DESPESAS DE AFRETAMENTO DE EMBARCAÇÕES POR TEMPO. As despesas de afretamento de embarcações por tempo, para transporte de insumos e mão-de-obra nas plataformas marítiimas, por se tratar de contrato complexo, envolvendo obrigações de fazer e dar, podem gerar créditos da não-cumulatividade como insumos. AFRETAMENTO DE AERONAVES. TRANSPORTE DE PESSOAS PARA AS PLATAFORMAS MARÍTIMAS. As despesas incorridas com o afretamento de aeronaves para transporte de pessoas para as plataformas preenchem com os requisitos de relevância e essencialidade, devendo, portanto, ser considerados insumos. CESSÃO E ARQUIVAMENTO DE DADOS SÍSMICOS. INSUMOS. A cessão de dados sísmicos é despesa essencial na atividade de exploração de petróleo. O arquivamento de dados sísmicos é despesa relevante na atividade de exploração de petróleo. ALUGUEL DE DUTOS PARA ESCOAMENTO DA PRODUÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO COMO EQUIPAMENTOS. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO COMO INSUMOS. Dutos não são considerados equipamentos, mas instalações, não gerando crédito nos termos do inciso IV do artigo 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003. Também não podem ser considerados como insumos, por se tratar de despesa incorrida após o processo produtivo. CRÉDITO EXTEMPORÂNEO. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DACON E EFD-CONTRIBUIÇÕES. O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DACON e EFD- Contribuições retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para reconhecer o crédito sobre aquisição de gás da Bolívia, afretamento de Fl. 699DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 4 embarcações e aeronaves, alimentação e hotelaria marítimas, cessão de uso e arquivamento de dados sísmicos, encargos ship or pay, exceto em relação aos créditos extemporâneos, vencidos os Conselheiros Bruno Minoru Takii e Keli Campos de Lima, que convertiam o julgamento em diligência para verificação da localização do dutos e gasodutos, objeto da glosa de aluguel e cessão. A Conselheira Rachel Freixo Chaves votou pelas conclusões em relação à negativa de provimento sobre aluguel de dutos e cessão de uso de gasoduto. (documento assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marcio Jose Pinto Ribeiro, Bruno Minoru Takii, Marco Unaian Neves de Miranda (substituto[a] integral), Rachel Freixo Chaves, Keli Campos de Lima e Paulo Guilherme Deroulede (Presidente). RELATÓRIO Trata de pedidos de restituição de Cofins, cujo crédito originalmente pleiteado foi indeferido por Despacho Decisório, em razão das seguintes infrações apuradas (fls. 2/75): 1. Glosa de créditos em aquisições para o ativo imobilizado por não apresentação de notas fiscais e por aquisições sem a incidência das contribuições; 2. Glosa do crédito integral relativo a incorporação ao ativo imobilizado de máquinas e equipamentos construídos pela recorrente, nos termos do art. 1º da Lei nº 11.774/2008, por não terem sido adquiridos de terceiros, admitido, contudo, o crédito com base no encargo de depreciação; 3. Glosa de aquisição de bens para insumos sem a incidência das contribuições; 4. Glosa de afretamento por tempo de embarcações; 5. Glosa de afretamento de aeronaves para transporte de mão-de-obra por não serem considerados insumos e por serem extemporâneos; 6. Glosa de alimentação e hotelaria por não serem considerados insumos e por serem, em alguns casos, extemporâneos; 7. Glosa de cessão de uso e arquivamento de dados sísmicos por não serem considerados insumos e, parte, por serem extemporâneos: 8. Glosa de aluguel de duto de GLP por não serem prédios, máquinas ou equipamentos; 9. Glosa de encargos de capacidade – ship or pay por não serem considerados insumos nem máquinas e equipamentos. Fl. 700DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 5 10. Glosa de cessão de uso de gasoduto por não ser considerado insumo, nem aluguel de prédios, máquinas e equipamentos; 11. Glosa de Créditos extemporâneos por não terem sido feitas retificações das escriturações e declarações; 12. Glosa de aquisição isenta de gás da Bolívia para revenda Em manifestação de inconformidade, a recorrente contestou, resumidamente, as seguintes matérias: 1. Decadência quanto à reapuração de outubro de 2015; 2. Inobservância, pela fiscalização, dos critérios do Recurso Especial 1.221.170/PR para definição do conceito de insumos; 3. Glosa de créditos sobre: a. Aquisição de bens sem a incidência das contribuições; b. Aquisições de bens e serviços para ativo imobilizado construído pelo próprio contribuinte; c. Afretamento de embarcações; d. Afretamento de aeronaves; e. Alimentação e hotelaria; f. Cessão de uso e arquivamento de dados sísmicos; g. Aluguel de dutos; h. Despesas com contratos do tipo ship or pay; i. Cessão de uso de gasoduto; j. Créditos extemporâneos k. Importação de gás da Bolivia; A DRJ proferiu o Acórdão nº 108-038.382, julgando a manifestação parcialmente procedente, reconhecendo o crédito sobre o gás importado da Bolívia, sem, contudo, tal reversão impactar o presente processo, uma vez que a mesma glosa, no mesmo período, já havia sido revertida no processo 16682.900365/2022-68, não havendo crédito a ser reconhecido nos presentes autos. Cientificada do Acórdão da DRJ em 01/08/2023, a recorrente interpôs recurso voluntário em 26/08/2023, alegando, sinteticamente, o seguinte: 1. Glosa indevida dos créditos decorrentes da importação do gás da Bolívia; 2. Ausência de autorização legal para revisar o lançamento tributário e abater indébito reconhecido e a homologação tácita da obrigação tributária; Fl. 701DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 6 3. Legitimidade do crédito sobre aquisição de bens e serviços sem incidência da contribuição; 4. Glosa de créditos sobre: a. Aquisições de bens e serviços para ativo imobilizado construído pelo próprio contribuinte; b. Despesas com afretamento de embarcações e aeronaves c. Alimentação e hotelaria; d. Cessão de uso e arquivamento de dados sísmicos e. Aluguel de dutos; f. Despesas com contratos do tipo ship or pay; g. Cessão de uso de gasoduto; h. Créditos extemporâneos É o relatório. VOTO Conselheiro Paulo Guilherme Deroulede, Relator. A recorrente tomou ciência do Acórdão de Manifestação de Inconformidade em 01/08/2023 e interpôs a peça recursal em 26/08/2023, dentro de prazo de trinta dias, sendo, portanto, tempestiva. Passo a apreciar os capítulos recursais. Ausência de autorização legal para revisar o lançamento tributário e abater indébito reconhecido e homologação tácita da obrigação tributária Neste ponto, a DRJ decidiu que o art. 150, §4º do CTN somente se aplica a lançamento de ofício e não a pedidos de restituição. Por seu turno, a recorrente alega que a fiscalização não poderia ter reapurado a base de cálculo, sem a efetivação de um lançamento de ofício para constituição de crédito tributário e que este não foi realizado em razão do prazo decadencial previsto no art. 150, §4º do CTN. Quanto à alegação de decadência, pontue-se que a efetivação da restituição e das compensações pressupõe a existência de créditos líquidos e certos, nos termos do art. 170 do CTN. A análise deste direito creditório é prerrogativa da Administração Tributária e não configura lançamento de ofício, mas procedimento para aferir a certeza e liquidez do indébito pleiteado. Ressalta-se que a verificação da condição de o pagamento ser indevido ou a maior implica a Fl. 702DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 7 comparação entre o valor recolhido e o valor devido relativo ao fato gerador, como prevê o artigo 165 do CTN: Art. 165. O sujeito passivo tem direito, independentemente de prévio protesto, à restituição total ou parcial do tributo, seja qual for a modalidade do seu pagamento, ressalvado o disposto no § 4º do artigo 162, nos seguintes casos: I - cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido; II - erro na edificação do sujeito passivo, na determinação da alíquota aplicável, no cálculo do montante do débito ou na elaboração ou conferência de qualquer documento relativo ao pagamento; III - reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória. Frise-se que a recorrente efetuou um recolhimento antecipado, o qual consiste na atividade a que se refere o artigo 150 do CTN, portanto, lançamento tributário por homologação, homologação esta atividade privativa da Administração Fazendária. Decorre disto que compete à Administração definir do pagamento antecipado o que é passível de homologação e o que é indébito tributário, a partir da verificação da ocorrência do fato gerador, da matéria tributável, da base de cálculo e do tributo devido, de acordo com as disposições legais e a natureza e circunstâncias materiais do fato gerador, apuráveis em sua documentação fiscal e contábil. Apurando que parte do pagamento antecipado é homologável, pela existência do tributo devido correspondente, configurado já está o lançamento pelo pagamento antecipado, sendo desnecessário o lançamento de ofício. Conclui-se, pois, que o procedimento de se determinar o montante de pagamento indevido pela comparação entre o valor devido apurado na documentação fiscal e contábil com o Darf recolhido dispensa lançamento de ofício, a uma, por consistir em prerrogativa da Administração Tributária decorrente da disposição do artigo 170 do CTN quanto à liquidez e certeza do direito creditório, e, a duas, porque na situação específica já houve o lançamento tributário por homologação nos termos do artigo 150, §4º do CTN. Por fim, a matéria está pacificada no âmbito do CARF pela edição da Súmula nº 159, que apesar de se referir a ressarcimento, com muito mais força se aplica a restituição de tributos, nos quais já foi efetuado o lançamento por homologação, hipótese inclusive referenciada no acórdão paradigma nº 3302-002.353: Súmula CARF nº 159 Não é necessária a realização de lançamento para glosa de ressarcimento de PIS/Pasep e Cofins não cumulativos, ainda que os ajustes se verifiquem na base de cálculo das contribuições. Rejeito, portanto, as preliminares arguidas. Fl. 703DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 8 Glosa indevida dos créditos de importação de gás da Bolívia A recorrente afirma que houve a glosa em duplicidade nos dois processos mencionados pela DRJ e, portanto, deve ser revertida em ambos os processos. Parece-me que a recorrente possui razão. Se a glosa foi efetuada nos dois processos, de forma indevida, deve ser revertida nos dois processos, pois se, originalmente, a glosa não tivesse sido realizada, o valor relativo a ela comporia o saldo credor. Não se trata de reconhecer o crédito em duplicidade, mas de anular uma glosa indevida feita em duplicidade. Inobservância do conceito de insumos trazido no REsp 1.221.170/PR A recorrente pugna que tanto a fiscalização quanto o acórdão recorrido contrariaram o entendimento do STJ quanto ao conceito de insumo de que trata o inciso II do artigo 3º as Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, proferido no REsp 1.221.170/PR. Neste aspecto, o conceito de insumos foi dado pelo STJ ao julgar, na sistemática de como recurso repetitivo, o REsp 1.221.170/PR, em 22/02/2018, com publicação em 24/04/2018 e trânsito em julgado em 29/06/2023, o qual restou decidido com a seguinte ementa: EMENTA TRIBUTÁRIO. PIS E COFINS. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. NÃO-CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. DEFINIÇÃO ADMINISTRATIVA PELAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS 247/2002 E 404/2004, DA SRF, QUE TRADUZ PROPÓSITO RESTRITIVO E DESVIRTUADOR DO SEU ALCANCE LEGAL. DESCABIMENTO. DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE INSUMOS À LUZ DOS CRITÉRIOS DA ESSENCIALIDADE OU RELEVÂNCIA. RECURSO ESPECIAL DA CONTRIBUINTE PARCIALMENTE CONHECIDO, E, NESTA EXTENSÃO, PARCIALMENTE PROVIDO, SOB O RITO DO ART. 543-C DO CPC/1973 (ARTS. 1.036 E SEGUINTES DO CPC/2015). 1. Para efeito do creditamento relativo às contribuições denominadas PIS e COFINS, a definição restritiva da compreensão de insumo, proposta na IN 247/2002 e na IN 404/2004, ambas da SRF, efetivamente desrespeita o comando contido no art. 3o., II, da Lei 10.637/2002 e da Lei 10.833/2003, que contém rol exemplificativo. 2. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 3. Recurso Especial representativo da controvérsia parcialmente conhecido e, nesta extensão, parcialmente provido, para determinar o retorno dos autos à instância de origem, a fim de que se aprecie, em cotejo com o objeto social da empresa, a possibilidade de dedução dos créditos relativos a custo e despesas com: água, combustíveis e lubrificantes, materiais e exames laboratoriais, materiais de limpeza e equipamentos de proteção individual-EPI. Fl. 704DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 9 4. Sob o rito do art. 543-C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), assentam-se as seguintes teses: (a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de não-cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de terminado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, prosseguindo no julgamento, por maioria, a pós o realinhamento feito, conhecer parcialmente do Recurso Especial e, nessa parte, dar-lhe parcial provimento, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator, que lavrará o ACÓRDÃO. Votaram vencidos os Srs. Ministros Og Fernandes, Benedito Gonçalves e Sérgio Kukina. O Sr. Ministro Mauro Campbell Marques, Assusete Magalhães (voto- vista), Regina Helena Costa e Gurgel de Faria (que se declarou habilitado a votar) votaram com o Sr. Ministro Relator. Não participou do julgamento o Sr. Ministro Francisco Falcão. Brasília/DF, 22 de fevereiro de 2018 (Data do Julgamento). NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO MINISTRO RELATOR O Ministro-relator adotou as razões expostas no voto da Ministra Regina Helena Costa: "Demarcadas tais premissas, tem-se que o critério da essencialidade diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço, constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço, ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência. Por sua vez, a relevância, considerada como critério definidor de insumo, é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva (v.g., o papel da água na fabricação de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria), seja por imposição legal (v.g.,equipamento de proteção individual - EPI), distanciando-se, nessa medida, da acepção de pertinência, caracterizada, nos termos propostos, pelo emprego da aquisição na produção ou na execução do serviço. Fl. 705DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 10 Desse modo, sob essa perspectiva, o critério da relevância revela-se mais abrangente do que o da pertinência. No caso em tela, observo tratar-se de empresa do ramo alimentício, com atuação específica na avicultura (fl. 04e). Assim, pretende sejam considerados insumos, para efeito de creditamento no regime de não-cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS ao qual se sujeitam, os valores relativos às despesas efetuadas com "Custos Gerais de Fabricação", englobando água, combustíveis e lubrificantes, veículos, materiais e exames laboratoriais, equipamentos de proteção individual - EPI, materiais de limpeza, seguros, viagens e conduções, "Despesas Gerais Comerciais" ("Despesas com Vendas", incluindo combustíveis, comissão de vendas, gastos com veículos, viagens, conduções, fretes, prestação de serviços - PJ, promoções e propagandas, seguros, telefone e comissões) (fls. 25/29e). Como visto, consoante os critérios da essencialidade e relevância, acolhidos pela jurisprudência desta Corte e adotados pelo CARF, há que se analisar, casuisticamente, se o que se pretende seja considerado insumo é essencial ou de relevância para o processo produtivo ou à atividade desenvolvida pela empresa. Observando-se essas premissas, penso que as despesas referentes ao pagamento de despesas com água, combustíveis e lubrificantes, materiais e exames laboratoriais, materiais de limpeza e equipamentos de proteção individual - EPI, em princípio, inserem-se no conceito de insumo para efeito de creditamento, assim compreendido num sistema de não-cumulatividade cuja técnica há de ser a de "base sobre base". Todavia, a aferição da essencialidade ou da relevância daqueles elementos na cadeia produtiva impõe análise casuística, porquanto sensivelmente dependente de instrução probatória, providência essa, como sabido, incompatível com a via especial. Logo, mostra-se necessário o retorno dos autos à origem, a fim de que a Corte a quo, observadas as balizas dogmáticas aqui delineadas, aprecie, em cotejo com o objeto social da empresa, a possibilidade de dedução dos créditos relativos a custos e despesas com: água, combustíveis e lubrificantes, materiais e exames laboratoriais, materiais de limpeza e equipamentos de proteção individual - EPI." As teses propostas pelo Ministro-relator foram: 43. Sob o rito do art. 543-C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), assentam-se as seguintes teses: (a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de não-cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de Fl. 706DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 11 terminado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte. Assim, as premissas estabelecidas no voto do Ministro-relator foram: 1. Essencialidade, que diz respeito ao item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço, constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço, ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência; 2. Relevância, considerada como critério definidor de insumo, é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva (v.g., o papel da água na fabricação de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria), seja por imposição legal (v.g.,equipamento de proteção individual - EPI), distanciando-se, nessa medida, da acepção de pertinência, caracterizada, nos termos propostos, pelo emprego da aquisição na produção ou na execução do serviço. Com base nestas premissas, o julgado afastou a tese restritiva da Fazenda Nacional, bem como a tese ampliativa lastreada no IRPJ, como sendo todas os custos e despesas necessárias às atividades da empresa. Ainda, no caso concreto analisado, foram afastados os creditamentos sobre algumas despesas gerais comerciais, como “combustíveis, comissão de vendas, gastos com veículos, viagens, conduções, fretes, prestação de serviços - PJ, promoções e propagandas, seguros, telefone e comissões”. Deste modo, os critérios adotados pelo STJ não abrangem despesas operacionais ocorridas após o processo produtivo e cuja supressão não importa em impedimento à obtenção do produto. Por óbvio, tais despesas são necessárias à empresa e por certo são dedutíveis para o IRPJ, mas este critério foi afastado pelo julgado proferido pelo STJ, inclusive, expressamente, quanto aos fretes. Passo à análise das glosas. Legitimidade do crédito sobre aquisição de bens e serviços sem incidência da contribuição A recorrente alega que não há restrição ao creditamento quando se adquire insumos com alíquota zero, mas a saída à qual estão vinculados é tributada. Contudo, a legislação não suporta a alegação da recorrente. A vedação disposta no §2º do artigo 3º da Lei nº 10.637/2002 e 10.833/2003 é a seguinte: § 2º Não dará direito a crédito o valor: [...] Fl. 707DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 12 II - da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição; Da leitura do dispositivo depreende-se que a exceção é a aquisição isenta vinculada a uma saída tributada e não a aquisição de alíquota zero, conforme defendido pela recorrente. Destarte, em regra, as aquisições sujeitas à não incidência, suspensão ou alíquota zero não geram crédito, sendo irrelevante a tributação ou não da saída à qual estão vinculadas. Aquisições de bens e serviços para ativo imobilizado construído pelo próprio contribuinte A fiscalização glosou créditos sobre o ativo imobilizado apropriados pela recorrente de acordo com o artigo 1º da Lei nº 11.774/2008 por não se referirem a máquinas e equipamentos adquiridos de terceiros, mas a bens e serviços utilizados para construir ativo imobilizado próprio, tendo, contudo, reconhecido o crédito sobre estes bens mediante a depreciação, conforme excerto do Termo de Verificação Fiscal (fls “Relativamente aos ativos relacionados, a PETROBRAS apurou o crédito sobre os valores integrais de aquisição, conforme notas fiscais emitidas ao longo do tempo de construção dos ativos, com base no permissivo do artigo 1º da Lei nº 11.774/2008. As notas fiscais de serviços apresentadas em resposta ao TIF 008 ostentam as seguintes descrições de diversos serviços prestados: “mobilização de equipe de gerenciamento”, “implantação, construção e montagem”, “implantação, projeto e construção civil”, “locação e manutenção de estruturas”, “serviços de engenharia”, “serviços de manutenção do sistema elétrico”, “serviços de testes e condicionamento”, “construção civil”, “empreitada de obras civis”, “serviços de montagem”, “serviços de implantação de estação de tratamento de água”, “serviços de operação assistida”, “serviços de assistência a operação”, “serviços de implantação de estação de tratamento de despejos industriais”, “serviços de implantação de torres de resfriamento”, “serviços de implantação de unidade de manuseio de coque”, “serviços de comissionamento”, “implantação de canteiros”, “serviços de projetos e implementação de dutos e instalações”. Entre os serviços prestados incluem-se fornecimento de materiais e equipamentos, projeto, comissionamento, mobilização, desmobilização, construção civil, montagem, preservação, condicionamento, testes, assistência técnica e treinamentos. Primeiramente, é importante destacar que, de acordo com as descrições dos ativos informadas nas respostas aos TIF 002 e 008, nem todos podem ser propriamente caracterizados como máquinas e equipamentos para fins de aplicação do artigo 1º da Lei nº 11.774/2008, tais como os dutos de drenagem e de transferência, que mais se caracterizam como instalações. Fl. 708DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 13 Não obstante, independentemente do enquadramento dos ativos em questão como máquinas ou equipamentos, não se aplica aos mesmos o disposto no artigo 1º da Lei nº 11.774/2008. A apuração dos créditos segundo o tempo de vida útil do ativo, prevista no inciso VI e § 1º do artigo 3º da Lei nº 10.833/2003, se aplica ao imobilizado adquirido de terceiros e ainda ao imobilizado fabricado ou construído pela própria pessoa jurídica que o incorpora. No entanto, os métodos alternativos de apropriação do crédito sobre o ativo imobilizado, previstos no § 14 do artigo 3º da Lei nº 10.833/2003 e no artigo 1º da Lei nº 11.774/2008 (utilizado pela PETROBRAS), restringem-se às máquinas e equipamentos adquiridos de terceiros, não contemplando a hipótese do ativo imobilizado construído pelo próprio contribuinte. Nesses casos, a apropriação dos créditos leva em consideração não o prazo de depreciação do ativo, mas prazos fixados para o contribuinte que adquire os bens de terceiros. Sobre o assunto, tem-se a Solução de Consulta Cosit nº 78/2017: [...] Dessa forma, no que tange às retificações das EFD-Contribuições, reprovou-se o desconto do crédito feito integralmente sobre os ativos em questão, admitindo- se, entretanto, os créditos da depreciação usual prevista no art. 1º, § 1º, da IN SRF nº 457/2004, observando o disposto na IN SRF nº 162/1998 quanto ao prazo de vida útil (10 anos para máquinas, equipamentos e instalações). (Grifos não originais) No recurso voluntário, a recorrente reconhece que os valores glosados se referem a gastos vinculados ao ativo imobilizado com o objetivo de aumentar-lhe a vida útil, pugnando pelo crédito na forma do artigo 3º, VI c/c o inciso III do §1º do referido artigo, conforme o excerto abaixo extraído da peça recursal: “Sendo incontroverso que as despesas em tela são gastos assumidos com o ativo imobilizado dedicado à produção, ao objetivo de aumentar-lhes a vida útil dos bens e garantir-lhes a segurança necessária, o direito ao crédito é também assegurado à luz do entendimento constante da Solução de Consulta COSIT 59/2021, do art. 48 da Lei 4.506/64 e dos incisos VII e VIII do § 1º do art. 172 da Instrução Normativa RFB nº 1.911/2019, e na forma do artigo 3º, VI, com o § 1º, III, das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003. Veja-se o seguinte trecho da Solução de Consulta mencionada: [...] Cumpre observar que tais despesas consistem nos gastos incorridos pela recorrente diretamente na realização de grandes manutenções planejadas de seu complexo parque industrial (ativo imobilizado), realizadas em prazo nunca inferior a um ano, com a finalidade de restaurar ou manter os padrões originais de desempenho e segurança previstos pelos fornecedores e exigidos pela legislação Fl. 709DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 14 vigente, representando a única alternativa para perpetuar a utilização da unidade produtiva até o final de sua vida útil estimada.” A meu ver, há uma confusão quanto às glosas efetuadas. A fiscalização glosou a aquisição dos bens nos termos do art. 1º da Lei nº 11.774/2008, a seguir reproduzidos, pelo fato de os bens não tratarem de máquinas ou equipamentos adquiridos de terceiros: Art. 1º As pessoas jurídicas, nas hipóteses de aquisição no mercado interno ou de importação de máquinas e equipamentos destinados à produção de bens e prestação de serviços, poderão optar pelo desconto dos créditos da Contribuição para o Programa de Integração Social/Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PIS/Pasep) e da Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins) de que tratam o inciso III do § 1º do art. 3º da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, o inciso III do § 1º do art. 3º da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003, e o § 4º do art. 15 da Lei nº 10.865, de 30 de abril de 2004, da seguinte forma: (Redação dada pela Lei nº 12.546, de 2011) (...) XII – imediatamente, no caso de aquisições ocorridas a partir de julho de 2012. (Incluído pela Lei nº 12.546, de 2011) Todavia, concedeu o crédito nos termos do art.3º, VI c/c inciso III de seu §1º, ou seja, com base na depreciação, que é justamente o pedido da recorrente, conforme o excerto abaixo: “[...] Esse entendimento, contudo, não se coaduna com o mais recente posicionamento adotado por este Conselho que, por meio do Acórdão 3301-010.377, em sessão de 22/07/2021, entendeu que “não é apenas sobre bens, máquinas e equipamentos que se apura crédito de PIS/COFINS sobre as despesas de depreciação, mas também sobre serviços, partes e peças utilizados em reparos e manutenção do ativo que, por prolongar a vida útil do ativo em mais de 12 meses, devem ser ativados.”. Neste acórdão, é oportuno destacar o seguinte trecho do voto vencedor: “No entanto, diferentemente do posicionamento da fiscalização, não é apenas sobre bens, máquinas e equipamentos que se apura crédito de PIS/COFINS sobre as despesas de depreciação, mas também sobre serviços, partes e peças utilizados em reparos e manutenção do ativo que, por prolongar a vida útil do ativo em mais de 12 meses, devem ser ativados. Não se trata de mera norma contábil, mas também exigência da própria Lei n. 4.506/1964, ao prescrever, em seu artigo 48, parágrafo único, a necessidade de escrituração de referidas despesas no ativo imobilizado quando prolongar a vida útil do ativo, para serem deduzidas do lucro real pelos encargos de depreciação, vedando seu tratamento como despesas operacionais.”(destacou-se). Sendo incontroverso que as despesas em tela são gastos assumidos com o ativo imobilizado dedicado à produção, ao objetivo de aumentar-lhes a vida útil dos Fl. 710DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 15 bens e garantir-lhes a segurança necessária, o direito ao crédito é também assegurado à luz do entendimento constante da Solução de Consulta COSIT 59/2021, do art. 48 da Lei 4.506/64 e dos incisos VII e VIII do § 1º do art. 172 da Instrução Normativa RFB nº 1.911/2019, e na forma do artigo 3º, VI, com o § 1º, III, das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003. Veja-se o seguinte trecho da Solução de Consulta mencionada: [...] Diante de toda essa análise, o direito ao crédito da recorrente, quanto ao presente item, é justificável como gastos com manutenção e com partes e peças de reposição, enquadráveis no art. 3º, VI, combinado com o § 1º, III, do mesmo artigo, devendo-se acrescentar ainda que as Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003 não vedam que se aproveitem tais créditos, ainda que o ativo imobilizado tenha sido desenvolvido pelo próprio contribuinte, exatamente porque os itens que compuseram a manutenção foram adquiridos perante terceiros. “ Destarte, não há litígio quanto ao reconhecimento do crédito com base na depreciação. Alternativamente, a recorrente pede o reconhecimento como bens e serviços utilizados como insumos, o que é vedado, pela natureza dos bens e serviços adquiridos, que, conforme afirmados pela própria recorrente, devem ser ativados no imobilizado, o que implica, necessariamente, o creditamento sob a forma de depreciação, já concedido pela fiscalização, nos termos do inciso VI do artigo 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, hipótese à qual se subsomem os bens e serviços aqui tratados. Considerar tudo como insumo como pleiteia a recorrente significaria tornar inócua a existência do inciso VI do referido artigo. Neste sentido, os Acórdãos nº 3301-010.381 e 9303-016.349: Ac. 3301-010.381: DOCAGENS E PARADAS PROGRAMADAS. ATIVO IMOBILIZADO. ENCARGOS DE DEPRECIAÇÃO. CRÉDITOS. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. Gastos com manutenção, reparos e substituição de peças de um ativo são tratados como insumos, passíveis de apuração de crédito, desde que não prolonguem a vida útil do bem em mais de um ano. Gastos com manutenção, reparos e substituição de peças de um ativo que prolongam a vida útil do bem em prazo superior a um ano, conforme a legislação do imposto sobre a renda, devem ser ativados, apurando-se sobre eles despesas de depreciação. Sobre as despesas de depreciação é possível a apuração de créditos não cumulatividade do PIS/COFINS, nos termos artigo 3º, § 1º, III, da Lei n. 10.833/2003. Inteligência da Solução Cosit n. 59/2021. Ac. 9303-016.349: Fl. 711DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 16 NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. MANUTENÇÃO DE BENS DO ATIVO IMOBILIZADO COM AUMENTO DA VIDA ÚTIL EM PRAZO SUPERIOR A 1 (UM) ANO). Os gastos com manutenção de bens pertencentes ao ativo imobilizado e empregados na atividade operacional do contribuinte, que acarretem o aumento da vida útil do bem superior a um ano, e que, portanto, sejam capitalizados, nos termos do art. 48 da Lei nº 4.506/64, podem ser apropriados com fundamento no inciso VI dos art. 3º das Lei nº 10.637/02 e 10.833/03. Despesas com afretamento de embarcações e aeronaves A fiscalização glosou os afretamentos de embarcações por não se enquadrarem como serviço (obrigação de fazer), nem de máquina ou equipamento, de modo a impedir o creditamento como aluguel de equipamentos. Quanto a sua natureza, os considerou como afretamento por tempo. Por sua vez, a recorrente alega que os afretamentos de embarcações e aeronaves estão intimamente ligados ao processo produtivo, seja para transportar insumos, mão-de-obra para as plataformas marítimas, sendo essenciais e relevantes para a exploração de petróleo. Alternativamente, pugna pelo creditamento como aluguel de máquinas ou equipamentos, nos termos do inciso IV do art. 3º da Lei nº 10.637/2002 e 10.833/2003. No que tange ao afretamento de embarcações, a fiscalização considerou como afretamento por tempo, o que não foi contestado pela recorrente. A Lei nº 9.432/1997 definiu a existência de três espécies de afretamento (gênero) para a regulação do transporte aquaviário no Brasil, e que são utilizados na contratação de embarcações brasileiras e estrangeiras pelas Empresas Brasileira de Navegação (EBN) para desempenharem as atividades de navegação de longo curso, cabotagem, apoio marítimo e apoio portuário no Brasil, e que são regulados pela Agência Nacional de Transporte Aquaviário – ANTAQ: “Art. 1º Esta Lei se aplica: I - aos armadores, às empresas de navegação e às embarcações brasileiras; II - às embarcações estrangeiras afretadas por armadores brasileiros; III - aos armadores, às empresas de navegação e às embarcações estrangeiras, quando amparados por acordos firmados pela União. Art. 2º Para os efeitos desta Lei, são estabelecidas as seguintes definições: I - afretamento a casco nu: contrato em virtude do qual o afretador tem a posse, o uso e o controle da embarcação, por tempo determinado, incluindo o direito de designar o comandante e a tripulação; (uso)II - afretamento por tempo: contrato em virtude do qual o afretador recebe a embarcação armada e tripulada, ou parte dela, para operá-la por tempo determinado; (fruição)III - afretamento por viagem: contrato em virtude do qual o fretador se obriga a colocar o todo ou parte de uma Fl. 712DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 17 embarcação, com tripulação, à disposição do afretador para efetuar transporte em uma ou mais viagens;”(grifou-se) Em relação ao afretamento por tempo, o STJ decidiu no Recurso Especial 792.444/RJ que os contratos de afretamento a casco nu assemelham-se a uma locação, enquanto os contratos de afretamento por tempo são complexos e que, portanto, não podem ser desmembrados para efeitos fiscais: STJ REsp 792.444/RJ. “RECURSO ESPECIAL 2005/0178205-4. Relator(a) Ministra ELIANA CALMON (1114). Órgão Julgador: T2 - SEGUNDA TURMA. Data do Julgamento: 06/09/2007. Data da Publicação/Fonte: DJ 26/09/2007 p. 207. Ementa TRIBUTÁRIO – ISSQN – AGENCIAMENTO MARÍTIMO E AGENCIAMENTO, CORRETAGEM OU INTERMEDIAÇÃO NO AFRETAMENTO DE NAVIOS – ILEGALIDADE DA EXIGÊNCIA – ANÁLISE DE VIOLAÇÃO A DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS: DESCABIMENTO. (...)5. Nos termos do art. 2º da Lei 9.432/97, o contrato de afretamento de navios pode-se dar em três modalidades: a) afretamento a casco nu: contrato em virtude do qual o afretador tem a posse, o uso e o controle da embarcação, por tempo determinado, incluindo o direito de designar o comandante e a tripulação; b) afretamento por tempo: contrato em virtude do qual o afretador recebe a embarcação armada e tripulada, ou parte dela, para operá-la por tempo determinado; c) afretamento por viagem: contrato em virtude do qual o fretador se obriga a colocar o todo ou parte de uma embarcação, com tripulação, à disposição do afretador para efetuar transporte em uma ou mais viagens. 6. Os contratos de afretamento a casco nu, por natureza, assemelham-se aos contratos de locação e os navios, por força do art. 82 do Código Civil/1916, são considerados bens móveis. Assim, aplicável em tese o item 79 da Lista de Serviços anexa ao Decreto-lei 406/68 (com a redação dada pela LC 56/87), que prevê a incidência de ISS sobre a locação de bens móveis. (...)8. Os contratos de afretamento por tempo ou por viagem são complexos, não podem ser desmembrados para efeitos fiscais (Precedentes desta Corte) e não são passíveis de tributação pelo ISS porquanto a específica atividade de afretamento não consta da lista anexa ao DL 406/68. Portanto, igualmente não tributável o agenciamento, a corretagem ou a intermediação no afretamento de navios. (…) (grifou-se) Fl. 713DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 18 O contrato de afretamento por tempo é um contrato complexo, composto tanto de contrato de locação quanto de contrato de prestação de serviços, no caso a gestão náutica e comercial da embarcação, nos termos da Resolução Antaq nº 1.811/2010: Art. 2º Para os efeitos desta norma, consideram-se: I – gestão náutica da embarcação: é o controle efetivo pela empresa brasileira de navegação sobre a administração dos fatos relativos ao aprovisionamento, equipagens, à navegação, estabilidade e manobra do navio, à segurança do pessoal e do material existente a bordo, à operação técnica em geral, ao cumprimento das normas nacionais e internacionais sobre segurança, prevenção da poluição do meio ambiente marinho e direito marítimo, e à manutenção apropriada da embarcação; II – gestão comercial da embarcação: é o controle efetivo pela empresa brasileira de navegação sobre a negociação de contratos de transporte ou de operações de apoio marítimo e portuário, inclusive o adimplemento das obrigações comerciais assumidas nas esferas pública e privada; Contudo, considero que a complexidade da natureza deste contrato não afasta a possibilidade de creditamento com base no conceito de insumo. A locação corresponde a uma cessão de direito de uso e gozo de coisa não fungível (art. 565 do Código Civil). Já os artigos 80 e 82 equiparam os direitos reais e os direitos pessoais patrimoniais a bens, para efeitos legais: CAPÍTULO I Dos Bens Considerados em Si Mesmos Seção I Dos Bens Imóveis Art. 79. São bens imóveis o solo e tudo quanto se lhe incorporar natural ou artificialmente. Art. 80. Consideram-se imóveis para os efeitos legais: I - os direitos reais sobre imóveis e as ações que os asseguram; II - o direito à sucessão aberta. [...] Seção II Dos Bens Móveis Art. 82. São móveis os bens suscetíveis de movimento próprio, ou de remoção por força alheia, sem alteração da substância ou da destinação econômico-social. Art. 83. Consideram-se móveis para os efeitos legais: I - as energias que tenham valor econômico; II - os direitos reais sobre objetos móveis e as ações correspondentes; III - os direitos pessoais de caráter patrimonial e respectivas ações. Destarte, a locação pode ser tomada como direito obrigacional patrimonial, decorrente do contrato entre as partes, equiparando-se a bens para efeitos legais, podendo assim ser tomado o crédito sobre a despesa. Fl. 714DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 19 Destaca-se que a Lei nº 10.865/2004, ao tratar do crédito da não-cumulatividade nas importações, estabeleceu no §6º do artigo 15, que os direitos autorais pagos pela indústria fonográfica são insumos, o que indica a equiparação a bens. A Lei nº 9.610/1998 confirma a equiparação em seu artigo 3º: “Art. 3º Os direitos autorais reputam-se, para os efeitos legais, bens móveis.” Art. 15. As pessoas jurídicas sujeitas à apuração da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, nos termos dos arts. 2º e 3º das Leis nº s 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 200 3, poderão descontar crédito, para fins de determinação dessas contribuições, em relação às importações sujeitas ao pagamento das contribuições de que trata o art. 1º desta Lei, nas seguintes hipóteses: (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008) (Produção de efeitos) (Regulamento) (Vide Lei Complementar nº 214, de 2025) Produção de efeitos I - bens adquiridos para revenda; II – bens e serviços utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustível e lubrificantes; III - energia elétrica consumida nos estabelecimentos da pessoa jurídica; IV - aluguéis e contraprestações de arrendamento mercantil de prédios, máquinas e equipamentos, embarcações e aeronaves, utilizados na atividade da empresa; V - máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos para locação a terceiros ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) [...] § 6º O disposto no inciso II do caput deste artigo alcança os direitos autorais pagos pela indústria fonográfica desde que esses direitos tenham se sujeitado ao pagamento das contribuições de que trata esta Lei. Por outro lado, o STF, ao apreciar o RE 603.136, em sede de repercussão geral e transitado em julgado em 30/09/022, definiu que os contratos de franquia estão sujeitos à incidência de ISS, reconhecendo que em contratos complexos, que contêm obrigações de fazer, estariam inseridos no conceito de serviço. Destaca-se a ementa abaixo e os excertos: RECURSO EXTRAORDINÁRIO 603.136 RIO DE JANEIRO RELATOR : MIN. GILMAR MENDES RECTE.(S) :VENBO COMÉRCIO DE ALIMENTOS LTDA ADV.(A/S) :ALBERTO PAVIE RIBEIRO E OUTRO(A/S) RECDO.(A/S) :MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO PROC.(A/S)(ES) :PROCURADOR-GERAL DO MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO INTDO.(A/S) :ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS SECRETARIAS DE FINANÇAS DAS CAPITAIS BRASILEIRAS - ABRASF ADV.(A/S) :RICARDO ALMEIDA RIBEIRO DA SILVA INTDO.(A/S) :MUNICÍPIO DE SÃO PAULO PROC.(A/S)(ES) :PROCURADOR-GERAL DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO INTDO.(A/S) :ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE FRANCHISING - ABF ADV.(A/S) :SACHA CALMON NAVARRO COELHO E OUTRO(A/S) Fl. 715DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 20 AM. CURIAE. :MUNICÍPIO DE BELO HORIZONTE PROC.(A/S)(ES) :PROCURADOR- GERAL DO MUNICÍPIO DE BELO HORIZONTE AM. CURIAE. :ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE FRANQUIAS POSTAIS - ABRAPOST ADV.(A/S) :ALFREDO BERNARDINI NETO ADV.(A/S) :SEBASTIÃO DO ESPÍRITO SANTO NETO ADV.(A/S) :SAVIO DE FARIA CARAM ZUQUIM Recurso extraordinário com repercussão geral. Tema 300. 2. Tributário. Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza. 3. Incidência sobre contrato de franquia. Possibilidade. Natureza híbrida do contrato de franquia. Reafirmação de jurisprudência. 4. Recurso extraordinário improvido. Excerto: “II – Demarcação do conceito de serviço na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal Firme nessas premissas, esta Corte já teve oportunidade de examinar diferentes situações em que se discutia a inclusão de certa atividade nº conceito de “serviço” para efeitos tributários. Destaco, à guisa de exemplo, o caso dos programas de computador(RE 176.626, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJ 11.12.1998); das operações de leasing (RE 592.905, Rel. Min. Eros Grau, DJ 5.3.2010); da locação de bens móveis (RE 116.121, Rel. Min. Octavio Gallotti, redator para o acórdão Ministro Marco Aurélio, DJ 25.5.2001); e também das atividades realizadas pelas operadoras de plano de saúde (RE 651.703, Rel. Min. Luiz Fux, DJ 26.4.2017). Entre todos esses, destaco a firme e pacífica orientação que afastou a incidência do ISS em relação à locação de bens móveis. Penso que o exame dos precedentes relativos a essa matéria pode ser particularmente ilustrativo para o julgamento do caso em tela. Como é cediço, esta Corte afastou a incidência de ISS sobre a locação de bens móveis, ao fundamento de que a atividade desbordaria do figurino constitucional desse imposto, especialmente por envolver obrigação de dar, não de fazer. A tese já está firmada no Plenário desta Corte, reafirmada em sede de repercussão geral e cristalizada em verbete de súmula vinculante (SV 31). Cito, a propósito, o teor da Súmula Vinculante 31: “É inconstitucional a incidência do Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza – ISS sobre operações de locação de bens móveis”. A razão dessa orientação é que, nos casos de locação de bem móvel, está-se diante de uma obrigação de dar, não de uma obrigação de fazer, como é típico da prestação de serviço. Daí porque não se justificaria a aplicação do ISS, que é precisamente imposto sobre serviço. Fl. 716DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 21 O leading case na matéria é o RE 116.121, de relatoria do Ministro Octavio Gallotti, redator para o acórdão Ministro Marco Aurélio, julgado em 11.10.2000, com a seguinte ementa: “TRIBUTO - FIGURINO CONSTITUCIONAL. A supremacia da Carta Federal é conducente a glosar-se a cobrança de tributo discrepante daqueles nela previstos. IMPOSTO SOBRE SERVIÇOS - CONTRATO DE LOCAÇÃO. A terminologia constitucional do Imposto sobre Serviços revela o objeto da tributação. Conflita com a Lei Maior dispositivo que imponha o tributo considerado contrato de locação de bem móvel. Em Direito, os institutos, as expressões e os vocábulos têm sentido próprio, descabendo confundir a locação de serviços com a de móveis, práticas diversas regidas pelo Código Civil, cujas definições são de observância inafastável - artigo 110 do Código Tributário Nacional”. Quero destacar as circunstâncias do caso e os fundamentos que orientaram a decisão da Corte. Vejamos. Na espécie, cuidava-se especificamente da locação de guindastes para construção civil, então tributada pelo município de Santos como serviço. Concluiu esta Corte que, ao simplesmente alugar os guindastes a terceiros (em geral, empresas de construção civil), não estaria o locador, ele mesmo, a empregar qualquer esforço pessoal, isto é, não estaria a executar serviço de natureza alguma. O serviço em si seria realizado pelas empresas de construção civil (locadoras), por meio do emprego dos guindastes, e não pelo locador, que apenas cederia o uso do bem em questão. Destaco a seguinte passagem do voto do nosso decano, Ministro Celso de Mello, no qual Sua Excelência sublinha a importância de distinguir, para efeitos tributários, as obrigações de dar das obrigações de fazer. Transcrevo o seguinte trecho: [...] A passagem é ilustrativa da ratio decidendi do Tribunal neste e em outros julgamentos de mesmo teor. A locação, em si mesma, não poderia ser tomada como serviço, por tratar-se de uma obrigação de dar, e não de fazer. Por sua vez, quando do julgamento do RE 651.703, que discutiu a incidência de ISS sobre atividades realizadas pelas operadoras de planº de saúde, esta Suprema Corte voltou a discutir se o ISS só poderia incidir sobre obrigações de fazer, e não de dar. Naquela oportunidade, defendeuse uma interpretação mais ampla do conceito constitucional de serviços, desvinculada da teoria civilista, que classifica as obrigações entre “de dar” e “de fazer”, a fim de tornar a tributação mais consentânea com a realidade econômica atual. Transcrevo, por oportuno, trecho do voto do Ministro Luiz Fux, relator do RE 651.703: [...] Fl. 717DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 22 Entendeu, portanto, esta Suprema Corte, em sede de repercussão geral, que “as operadoras de planos de saúde realizam prestação de serviço sujeita ao Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza - ISS, previsto no art. 156, III, da CRFB/88”. Entretanto, como as atividades realizadas pelas operadoras de planos de saúde foram consideradas de natureza mista (isto é, englobam tanto um “dar” quanto um “fazer”), não se pode afirmar que tenha havido – ainda – uma superação total do entendimento de que o ISS incide apenas sobre obrigações de fazer, e não sobre obrigações de dar. Pode-se assentar, contudo, que, de acordo com o entendimento do Supremo Tribunal Federal, o ISS incide sobre atividades que representem tanto obrigações de fazer quanto obrigações mistas, que também incluem uma obrigação de dar. Assentadas essas premissas, resta definir se a mesma linha de argumentação pode ser aplicada também ao contrato de franquia empresarial (franchising), a fim de afastá-lo ou incluí-lo no conceito de serviço para efeito do que dispõe o art. 156, III, da Constituição Federal. III – Contrato de franquia como prestação de serviço A cobrança de ISS sobre os contratos de franquia empresarial(franchising) já vem de longa data no Brasil, mesmo antes da edição da Lei Complementar 116/2003, que incluiu expressamente essa atividade na lista de serviços passíveis de cobrança pelo imposto (item 17.08). Entretanto, essa exação nunca esteve livre de questionamentos, seja em sede doutrinária, seja em sede judicial. Contra a incidência do imposto, argumenta-se, em síntese, que o objeto do contrato é essencialmente uma obrigação de dar, e não uma obrigação de fazer. Por isso, a cobrança do ISS, na hipótese, destoaria do figurino constitucional desse imposto. A questão não é simples assim, e a controvérsia, segundo me parece, reside na natureza híbrida, na maneira de ser complexa desse contrato mercantil, o contrato de franquia empresarial. A bem dizer, diferentes prestações podem estar compreendidas nº bojo do contrato de franquia, tais como a cessão do uso de marca, a assistência técnica, direito de distribuição de produtos ou serviços, entre outras. Algumas delas podem ser tomadas como atividades-meio; outras, como atividades-fim no contexto da relação entre franqueador e franqueado. Esse, aliás, é um aspecto destacado com muita ênfase pela doutrina brasileira, sempre no sentido de que se trata de um contrato “híbrido”, “misto”, “complexo” ou “eclético”, isto é, um negócio jurídico que não tem por objeto uma só prestação. Sobre a natureza complexa dos contratos de franquia, vale trazer à baila a seguinte passagem de artigo acadêmico do saudoso Ministro Menezes Direito, no Fl. 718DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 23 qual discutia a aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor aos contratos de franquia. Dizia a então Sua Excelência: [...] Ressalte-se que nova lei de franquias, Lei nº 13.966, de 26 de dezembro de 2019, a qual entrou em vigor 90 dias após a data de sua publicação, não muda esse aspecto conceitual, que caracteriza a franquia como um contrato híbrido e complexo. Confira-se, a esse respeito, o caput do art. 1º e o inciso XIII do art. 2º da nova lei de franquias: [...] IV – Validade da cobrança de ISS sobre contratos de franquia Delineado esse quadro, a mim me parece que a velha distinção entre as ditas obrigações de dar e de fazer não funciona como critério suficiente para definir o enquadramento do contrato de franquia no conceito de “serviço de qualquer natureza”, previsto no texto constitucional Digo isso porque, para mim, está mais do que evidente que esta tal estrutura negocial inclui tanto prestações de “dar” como prestações de “fazer”. A rigor, nem mesmo entre os civilistas a distinção entre essas duas situações – obrigações de dar e de fazer – é posta sempre com tal clareza. Veja-se, a propósito, o que ensina o Professor Arnoldo Wald: [...] Enfim, por todas essas razões, estou convencido de que não viola o texto constitucional nem destoa da orientação atual desta Corte a cobrança de ISS sobre os contratos de franquia (franchising). Reitere-se que os contratos de franquia são de caráter mistos ou híbridos, o que engloba tanto obrigações de dar quanto de fazer. Em sendo assim, o caso é de reafirmar a jurisprudência desta Corte, no sentido da incidência do ISS, conforme já decidido em sede de repercussão geral tanto no RE 651.703, Rel. Ministro Luiz Fux, DJe 26.4.2017, quanto no RE 592.905, Rel. Ministro Eros Grau, DJe 5.3.2010. VI – Conclusão Assim, proponho a seguinte tese de repercussão geral: “É constitucional a incidência de Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) sobre contratos de franquia(franchising) (itens 10.04 e 17.08 da lista de serviços prevista nº Anexo da Lei Complementar 116/2003).” Ante o exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso extraordinário. O mencionado RE 651.703 - PR, julgado em 29/09/2016, submetido a repercussão geral (tema sujeição das atividades das operadoras de planos de saúde e seguro-saúde ao ISS), também adotou um conceito mais amplo para serviços, em relação à incidência do ISS: Fl. 719DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 24 EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. ISSQN. ART. 156, III, CRFB/88. CONCEITO CONSTITUCIONAL DE SERVIÇOS DE QUALQUER NATUREZA. ARTIGOS 109 E 110 DO CTN. AS OPERADORAS DE PLANOS PRIVADOS DE ASSISTÊNCIA À SAÚDE (PLANO DE SAÚDE E SEGURO-SAÚDE) REALIZAM PRESTAÇÃO DE SERVIÇO SUJEITA AO IMPOSTO SOBRE SERVIÇOS DE QUALQUER NATUREZA ISSQN, PREVISTO NO ART. 156, III, DA CRFB/88. 1. O ISSQN incide nas atividades realizadas pelas Operadoras de Planos Privados de Assistência à Saúde (Plano de Saúde e Seguro-Saúde). 2. A coexistência de conceitos jurídicos e extrajurídicos passíveis de recondução a um mesmo termo ou expressão, onde se requer a definição de qual conceito prevalece, se o jurídico ou o extrajurídico, impõe não deva ser excluída, a priori, a possibilidade de o Direito Tributário ter conceitos implícitos próprios ou mesmo fazer remissão, de forma tácita, a conceitos diversos daqueles constantes na legislação infraconstitucional, mormente quando se trata de interpretação do texto constitucional. 3. O Direito Constitucional Tributário adota conceitos próprios, razão pela qual não há um primado do Direito Privado. 4. O art. 110, do CTN, não veicula norma de interpretação constitucional, posto inadmissível interpretação autêntica da Constituição encartada com exclusividade pelo legislador infraconstitucional. 5. O conceito de prestação de “serviços de qualquer natureza” e seu alcance no texto constitucional não é condicionado de forma imutável pela legislação ordinária, tanto mais que, de outra forma, seria necessário concluir pela possibilidade de estabilização com força constitucional da legislação infraconstitucional, de modo a gerar confusão entre os planos normativos. 6. O texto constitucional ao empregar o signo “serviço”, que, a priori, conota um conceito específico na legislação infraconstitucional, não inibe a exegese constitucional que conjura o conceito de Direito Privado. 7. A exegese da Constituição configura a limitação hermenêutica dos arts. 109 e 110 do Código Tributário Nacional, por isso que, ainda que a contraposição entre obrigações de dar e de fazer, para fins de dirimir o conflito de competência entre o ISS e o ICMS, seja utilizada no âmbito do Direito Tributário, à luz do que dispõem os artigos 109 e 110, do CTN, novos critérios de interpretação têm progressivamente ampliado o seu espaço, permitindo uma releitura do papel conferido aos supracitados dispositivos. 8. A doutrina do tema, ao analisar os artigos 109 e 110, aponta que o CTN, que tem status de lei complementar, não pode estabelecer normas sobre a interpretação da Constituição, sob pena de restar vulnerado o princípio da sua supremacia constitucional. Fl. 720DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 25 9. A Constituição posto carente de conceitos verdadeiramente constitucionais, admite a fórmula diversa da interpretação da Constituição conforme a lei, o que significa que os conceitos constitucionais não são necessariamente aqueles assimilados na lei ordinária. 10. A Constituição Tributária deve ser interpretada de acordo com o pluralismo metodológico, abrindo-se para a interpretação segundo variados métodos, que vão desde o literal até o sistemático e teleológico, sendo certo que os conceitos constitucionais tributários não são fechados e unívocos, devendo-se recorrer também aos aportes de ciências afins para a sua interpretação, como a Ciência das Finanças, Economia e Contabilidade. 11. A interpretação isolada do art. 110, do CTN, conduz à prevalência do método literal, dando aos conceitos de Direito Privado a primazia hermenêutica na ordem jurídica, o que resta inconcebível. Consequentemente, deve-se promover a interpretação conjugada dos artigos 109 e 110, do CTN, avultando o método sistemático quando estiverem em jogo institutos e conceitos utilizados pela Constituição, e, de outro, o método teleológico quando não haja a constitucionalização dos conceitos. 12. A unidade do ordenamento jurídico é conferida pela própria Constituição, por interpretação sistemática e axiológica, entre outros valores e princípios relevantes do ordenamento jurídico. 13. Os tributos sobre o consumo, ou tributos sobre o valor agregado, de que são exemplos o ISSQN e o ICMS, assimilam considerações econômicas, porquanto baseados em conceitos elaborados pelo próprio Direito Tributário ou em conceitos tecnológicos, caracterizados por grande fluidez e mutação quanto à sua natureza jurídica. 14. O critério econômico não se confunde com a vetusta teoria da interpretação econômica do fato gerador, consagrada no Código Tributário Alemão de 1919, rechaçada pela doutrina e jurisprudência, mas antes em reconhecimento da interação entre o Direito e a Economia, em substituição ao formalismo jurídico, a permitir a incidência do Princípio da Capacidade Contributiva. 15. A classificação das obrigações em “obrigação de dar”, de “fazer” e “não fazer”, tem cunho eminentemente civilista, como se observa das disposições no Título “Das Modalidades das Obrigações”, no Código Civil de 2002 (que seguiu a classificação do Código Civil de 1916), em: (i) obrigação de dar (coisa certa ou incerta) (arts. 233 a 246, CC); (ii) obrigação de fazer (arts. 247 a 249, CC); e (iii) obrigação de não fazer (arts. 250 e 251, CC), não é a mais apropriada para o enquadramento dos produtos e serviços resultantes da atividade econômica, pelo que deve ser apreciada cum grano salis. 16. A Suprema Corte, ao permitir a incidência do ISSQN nas operações de leasing financeiro e leaseback (RREE 547.245 e 592.205), admitiu uma interpretação mais ampla do texto constitucional quanto ao conceito de “serviços” desvinculado do Fl. 721DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 26 conceito de “obrigação de fazer” (RE 116.121), verbis: “EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. DIREITO TRIBUTÁRIO. ISS. ARRENDAMENTO MERCANTIL. OPERAÇÃO DE LEASING FINANCEIRO. ARTIGO 156, III, DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. O arrendamento mercantil compreende três modalidades, [i] o leasing operacional, [ii] o leasing financeiro e [iii] o chamado leaseback. No primeiro caso há locação, nos outros dois, serviço. A lei complementar não define o que é serviço, apenas o declara, para os fins do inciso III do artigo 156 da Constituição. Não o inventa, simplesmente descobre o que é serviço para os efeitos do inciso III do artigo 156 da Constituição. No arrendamento mercantil (leasing financeiro), contrato autônomo que não é misto, o núcleo é o financiamento, não uma prestação de dar. E financiamento é serviço, sobre o qual o ISS pode incidir, resultando irrelevante a existência de uma compra nas hipóteses do leasing financeiro e do leaseback. Recurso extraordinário a que se nega provimento.” (grifo nosso)(RE 592905, Relator Min. EROS GRAU, Tribunal Pleno, julgado em 02/12/2009). 17. A lei complementar a que se refere o art. 156, III, da CRFB/88, ao definir os serviços de qualquer natureza a serem tributados pelo ISS a) arrola serviços por natureza; b) inclui serviços que, não exprimindo a natureza de outro tipo de atividade, passam à categoria de serviços, para fim de incidência do tributo, por força de lei, visto que, se assim não considerados, restariam incólumes a qualquer tributo; e c) em caso de operações mistas, afirma a prevalência do serviço, para fim de tributação pelo ISS. 18. O artigo 156, III, da CRFB/88, ao referir-se a serviços de qualquer natureza não os adstringiu às típicas obrigações de fazer, já que raciocínio adverso conduziria à afirmação de que haveria serviço apenas nas prestações de fazer, nos termos do que define o Direito Privado, o que contrasta com a maior amplitude semântica do termo adotado pela constituição, a qual inevitavelmente leva à ampliação da competência tributária na incidência do ISSQN. 19. A regra do art. 146, III, “a”, combinado com o art. 146, I, CRFB/88, remete à lei complementar a função de definir o conceito “de serviços de qualquer natureza”, o que é efetuado pela LC nº 116/2003. 20. A classificação (obrigação de dar e obrigação de fazer) escapa à ratio que o legislador constitucional pretendeu alcançar, ao elencar os serviços no texto constitucional tributáveis pelos impostos (v.g., serviços de comunicação – tributáveis pelo ICMS, art. 155, II, CRFB/88; serviços financeiros e securitários – tributáveis pelo IOF, art. 153, V, CRFB/88; e, residualmente, os demais serviços de qualquer natureza – tributáveis pelo ISSQN, art. 156. III, CRFB/88), qual seja, a de captar todas as atividades empresariais cujos produtos fossem serviços sujeitos a remuneração no mercado. 21. Sob este ângulo, o conceito de prestação de serviços não tem por premissa a configuração dada pelo Direito Civil, mas relacionado ao oferecimento de uma utilidade para outrem, a partir de um conjunto de atividades materiais ou Fl. 722DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 27 imateriais, prestadas com habitualidade e intuito de lucro, podendo estar conjugada ou não com a entrega de bens ao tomador. 22. A LC nº 116/2003 imbricada ao thema decidendum traz consigo lista anexa que estabelece os serviços tributáveis pelo ISSQN, dentre eles, o objeto da presente ação, que se encontra nos itens 4.22 e 4.23, verbis: “Art. 1º O Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza, de competência dos Municípios e do Distrito Federal, tem como fato gerador a prestação de serviços constantes da lista anexa, ainda que esses não se constituam como atividade preponderante do prestador. (…) 4.22 – Planos de medicina de grupo ou individual e convênios para prestação de assistência médica, hospitalar, odontológica e congêneres. 4.23 – Outros planos de saúde que se cumpram através de serviços de terceiros contratados, credenciados, cooperados ou apenas pagos pelo operador do plano mediante indicação do beneficiário.” 23. A exegese histórica revela que a legislação pretérita (Decreto-Lei nº 406/68) que estabelecia as normas gerais aplicáveis aos impostos sobre operações relativas à circulação de mercadorias e sobre serviços de qualquer natureza já trazia regulamentação sobre o tema, com o escopo de alcançar estas atividades. 24. A LC nº 116/2003 teve por objetivo ampliar o campo de incidência do ISSQN, principalmente no sentido de adaptar a sua anexa lista de serviços à realidade atual, relacionando numerosas atividades que não constavam dos atos legais antecedentes. 25. A base de cálculo do ISSQN incidente tão somente sobre a comissão, vale dizer: a receita auferida sobre a diferença entre o valor recebido pelo contratante e o que é repassado para os terceiros prestadores dos serviços, conforme assentado em sede jurisprudencial. 27. Ex positis, em sede de Repercussão Geral a tese jurídica assentada é: “As operadoras de planos de saúde e de seguro- saúde realizam prestação de serviço sujeita ao Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza – ISSQN, previsto no art. 156, III, da CRFB/88”. 28. Recurso extraordinário DESPROVIDO. O excerto abaixo do voto proferido esclarece o alcance do termo "serviço" adotado no julgado: "Porquanto, a Suprema Corte, no julgamento dos RREE 547.245 e 592.905, ao permitir a incidência do ISSQN nas operações de leasing financeiro e leaseback sinalizou que a interpretação do conceito de “serviços” no texto constitucional tem um sentido mais amplo do que tão somente vinculado ao conceito de “obrigação de fazer”, vindo a superar seu precedente no RE 116.121, em que decidira pela adoção do conceito de serviço sinteticamente eclipsada numa obrigação de fazer. [...] Fl. 723DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 28 A finalidade dessa classificação (obrigação de dar e obrigação de fazer) escapa totalmente àquela que o legislador constitucional pretendeu alcançar, ao elencar os serviços no texto constitucional tributáveis pelos impostos (por exemplo, serviços de comunicação – tributáveis pelo ICMS; serviços financeiros e securitários – tributáveis pelo IOF; e, residualmente, os demais serviços de qualquer natureza – tributáveis pelo ISS), qual seja, a de captar todas as atividades empresariais cujos produtos fossem serviços, bens imateriais em contraposição aos bens materiais, sujeitos a remuneração no mercado. A doutrina também sufraga esta tese: Essa adjetivacao “de qualquer natureza”, alias, faz muito mais sentido quando se entende que o constituinte incorporou o conceito economico de servicos. Isso porque, diferentemente do conceito de servicos no Direito Civil (e nao no Direito Privado como um todo) que nao demanda maiores exercicios interpretativos, por ser facilmente apreensivel (embora dificilmente aplicavel numa serie de atividades economicas) –, o conceito de servicos na Economia, de maneira distinta, ja apresenta, de pronto, uma vagueza semantica caracterizada pelo conjunto de atividades economicas que nao consubstanciam, como produtos, bens materiais. Tal vagueza, ao ser acompanhada da expressao “de qualquer natureza”, denota que e tributavel pelo ISS toda a residualidade desse conceito no universo da atividade economica, depois de afastados os servicos de comunicacao e de transporte interestadual ou intermunicipal, tributaveis pelo ICMS; os servicos financeiros, tributaveis pelo IOF. (MACEDO, Alberto. ISS - O Conceito Econômico de Serviços Já Foi Juridicizado Há Tempos Também pelo Direito Privado. In: XII Congresso Nacional de Estudos Tributários - Direito Tributário e os Novos Horizontes do Processo. MACEDO, Alberto [et all]. - São Paulo: Editora Noeses, 2015, p. 71/79). Assim, embora seja possível verificar a existência de corrente doutrinária a identificar o conceito de serviços com obrigação de fazer, há também categorização no sentido de que o conceito econômico de prestação de serviço não se confunde com o conceito de prestação de serviço de Direito Civil, verbis: Servico, portanto, vem a ser o resultado da atividade humana na criacao de um bem que nao se apresenta sob a forma de bem material, v.g., a atividade do transportador, do locador de bens imoveis, do medico, etc. O conceito economico de “prestacao de servico” (fornecimento de bem imaterial) nao se confunde nem se equipara ao conceito de “prestacao de servicos” do direito civil, que e conceituado como fornecimento apenas de trabalho (prestacao de servicos e o fornecimento mediante remuneracao, do trabalho a terceiro). O conceito economico nao se apresenta acanhado, abrange tanto o simples fornecimento de trabalho (prestacao de servicos de direito civil) como outras atividades: v.g.: locacao de bens moveis, transporte, publicidade, hospedagem, diversoes publicas, cessao de direitos, deposito, execucao de obrigacoes de nao fazer, etc. (venda de bens imateriais). (MORAES, Bernardo Ribeiro de. Doutrina e Prática do Imposto Fl. 724DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 29 sobre Serviços. 1ª Ed, 3ª tiragem. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1984, p. 42/43). Sob este ângulo, o conceito de prestação de serviços não tem por premissa a configuração dada pelo Direito Civil, mas relacionado ao oferecimento de uma utilidade para outrem, a partir de um conjunto de atividades imateriais, prestados com habitualidade e intuito de lucro, podendo estar conjugada ou não com a entrega de bens ao tomador." Ao que parece, a jurisprudência da Suprema Corte está se consolidando, admitindo que o termo “serviço” não se restringe a obrigação de fazer para efeitos tributários, nos casos de contratos que ensejam obrigações tanto de fazer como de dar, de natureza híbrida ou complexa. Embora a discussão tenha sido em relação ao ISS, a legislação do PIS e da Cofins parece ter adotado também esse conceito mais amplo, senão vejamos. A Lei nº 10.865/2004 não adotou o conceito civilista de “serviço”, mas um conceito econômico, nos termos decididos no RE 651.703-PR, como se observa no artigo 7º, §§1º e 2º, artigo 8º, §14 e no art. 15, que trata do creditamento, ao se referirem à base de cálculo sobre prêmios de resseguros, aos prêmios de seguros não enquadrados como serviços componentes do valor aduaneiro, à redução a zero sobre os valores incidentes relativos a aluguel e arrendamento mercantil, incluídos, portanto, nas hipóteses de incidência, o que implica considerar que o conceito civilista não foi o aplicado. Lei 10.865/2004 Art. 7º A base de cálculo será: [...] § 1º A base de cálculo das contribuições incidentes sobre prêmios de resseguro cedidos ao exterior é de 15% (quinze por cento) do valor pago, creditado, entregue, empregado ou remetido. (Redação dada pela Lei nº 12.249, de 2010) (Produção de efeito) § 2º O disposto no § 1º deste artigo aplica-se aos prêmios de seguros não enquadrados no disposto no inciso X do art. 2º desta Lei. Art. 8º As contribuições serão calculadas mediante aplicação, sobre a base de cálculo de que trata o art. 7º desta Lei, das alíquotas: [...] § 14. Ficam reduzidas a 0 (zero) as alíquotas das contribuições incidentes sobre o valor pago, creditado, entregue, empregado ou remetido à pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no exterior, referente a aluguéis e contraprestações de arrendamento mercantil de máquinas e equipamentos, embarcações e aeronaves utilizados na atividade da empresa. (Incluído pela Lei nº 10.925, 2004) (Vigência)Art. 15. As pessoas jurídicas sujeitas à apuração da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, nos termos dos arts. 2º e 3º das Leis nos 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, poderão descontar crédito, para fins de determinação dessas contribuições, em Fl. 725DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 30 relação às importações sujeitas ao pagamento das contribuições de que trata o art. 1º desta Lei, nas seguintes hipóteses: (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008) (Produção de efeitos) (Regulamento)I - bens adquiridos para revenda; II – bens e serviços utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustível e lubrificantes; III - energia elétrica consumida nos estabelecimentos da pessoa jurídica; IV - aluguéis e contraprestações de arrendamento mercantil de prédios, máquinas e equipamentos, embarcações e aeronaves, utilizados na atividade da empresa; § 1º O direito ao crédito de que trata este artigo e o art. 17 desta Lei aplica-se em relação às contribuições efetivamente pagas na importação de bens e serviços a partir da produção dos efeitos desta Lei. § 6º O disposto no inciso II do caput deste artigo alcança os direitos autorais pagos pela indústria fonográfica desde que esses direitos tenham se sujeitado ao pagamento das contribuições de que trata esta Lei. Frise-se, ainda, que a instituição do PIS/Pasep-Importação e Cofins-Importação permitiu o tratamento isonômico em relação à tributação dos bens e serviços prestados no país pelo PIS/Pasep e Cofins sobre o faturamento, como se depreende da exposição de motivos da MP nº 164/2004, parcialmente transcrita a seguir, o que significa dizer que a acepção do termo serviço deve ser a mesma. Exposição de motivos da MP nº 164/2004 2. As contribuições sociais ora instituídas dão tratamento isonômico entre a tributação dos bens produzidos e serviços prestados no País, que sofrem a incidência da Contribuição para o PIS-PASEP e da Contribuição para o Financiamento Seguridade Social (COFINS), e os bens e serviços importados de residentes ou domiciliados no exterior, que passam a ser tributados às mesmas alíquotas dessas contribuições. (grifei) 3. Considerando a existência de modalidades distintas de incidência da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS - cumulativa e não-cumulativa - no mercado interno, nos casos dos bens ou serviços importados para revenda ou para serem empregados na produção de outros bens ou na prestação de serviços, será possibilitado, também, o desconto de créditos pelas empresas sujeitas à incidência não-cumulativa do PIS/PASEP e da COFINS, nos casos que especifica. 4. A proposta, portanto, conduz a um tratamento tributário isonômico entre os bens e serviços produzidos internamente e os importados: tributação às mesmas alíquotas e possibilidade de desconto de crédito para as empresas sujeitas à incidência não-cumulativa. As hipóteses de vedação de créditos vigentes para o mercado interno foram estendidas para os bens e serviços importados sujeitos às contribuições instituídas por esta Medida Provisória. (grifei) Fl. 726DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 31 Já na legislação anterior, no regime cumulativo, o conceito de “serviço” já havia sido adotado de modo a abarcar obrigações que não apenas a de fazer, conforme o Parecer PGFN/CAT nº 2.773/2007, ao definir a intermediação financeira e o prêmio no recebimento de seguros como serviços financeiros. A respeito, transcreve-se trecho do referido parecer: "32. Dessa forma, fica. claro que a atividade bancária é constituída por serviços que são disponibilizados aos clientes, dentre os quais se inclui a intermediação financeira. Efetivamente, o ponto fundamental do presente trabalho é possuir a clara avaliação do que se pode considerar serviço para fins tributários. Assim, o conceito de serviço, deve ser considerado sob o "contexto sistemático da Constituição", que "leva à conclusão de que o conceito constitucional de serviço não coincide com o emergente da acepção comum, ordinária, desse vocábulo". Foi Alfredo Augusto Becker - apoiado em Pontes de Miranda - quem melhor mostrou que a norma jurídica como que "deturpa" ou "deforma" os fatos, do inundo, ao erigi-los em fatos jurídicos".17 Ainda, segundo Aires Barreto, "serviço tributável é o desempenho de atividade economicamente apreciável, produtiva, de utilidade para outrem, porém sem subordinação, sob regime de direito privado, com fito de remuneração". [...] 35. Tal conceito (de serviços) compreende a. totalidade das atividades desenvolvidas pelas instituições financeiras em torno do seu objeto social legalmente tipificado - ou seja., compreendendo tanto as "operações" quanto os "serviços" bancários/financeiros, como caracterizado no item 5 do Anexo sobre Serviços Financeiros do Acordo Gerai sobre Comércio de Serviços (GATS), firmado na Rodada Uruguai do GATT (1994) e promulgado pelo Decreto n° 1.355, de 30 de dezembro de 1994." O STJ também não adotou a tese restritiva de serviço como obrigação de fazer, ao julgar o REsp 929.521-SP, sob a sistemática de recursos repetitivos, no qual decidiu-se pela incidência de PIS e Cofins sobre a locação de bens móveis com a seguinte ementa: PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543-C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. COFINS. LOCAÇÃO DE BENS MÓVEIS. INCIDÊNCIA. VIOLAÇÃO DO ARTIGO 535, DO CPC. INOCORRÊNCIA. 1. A Contribuição para Financiamento da Seguridade Social - COFINS incide sobre as receitas provenientes das operações de locação de bens móveis, uma vez que "o conceito de receita bruta sujeita à exação tributária envolve, não só aquela decorrente da venda de mercadorias e da prestação de serviços, mas a soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais " (Precedente do STF que versou sobre receitas decorrentes da locação de bens imóveis: RE 371.258 AgR, Relator(a): Min. Cezar Peluso, Segunda Turma, julgado em 03.10.2006, DJ 27.10.2006). Precedentes das Turmas de Direito Público do STJ acerca de receitas decorrentes da locação de bens móveis: AgRg no Ag 1.136.371/PR, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 04.08.2009, DJe 27.08.2009; AgRg Fl. 727DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 32 no Ag 1.067.748/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 19.05.2009, DJe 01.06.2009; REsp 1.010.388/PR, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, julgado em 03.02.2009, DJe 11.02.2009; e AgRg no Ag 846.958/MG, Rel. Ministra Denise Arruda, Primeira Turma, julgado em 05.06.2007, DJ 29.06.2007. 2. Deveras, "a base de incidência da COFINS é o faturamento, assim entendido o conjunto de receitas decorrentes da execução da atividade empresarial e (b) no conceito de mercadoria da LC 70/91 estão compreendidos até mesmo os bens imóveis, com mais razão se há de reconhecer a sujeição das receitas auferidas com a operações de locação de bens móveis à mencionada contribuição" (REsp 1.010.388/PR, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, julgado em 03.02.2009, DJe 11.02.2009; e EDcl no REsp 534.190/PR, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, julgado em 19.08.2004, DJ 06.09.2004). 3. Conseqüentemente, a definição de faturamento/receita bruta engloba as receitas advindas das operações de locação de bens móveis, que constituem resultado mesmo da atividade econômica empreendida pela empresa. 4. O artigo 535, do CPC, resta incólume quando o Tribunal de origem, embora sucintamente, pronuncia-se de forma clara e suficiente sobre a questão posta nos autos. Ademais, o magistrado não está obrigado a rebater, um a um, os argumentos trazidos pela parte, desde que os fundamentos utilizados tenham sido suficientes para embasar a decisão. 5. A ofensa a princípios e preceitos da Carta Magna não é passível de Superior Tribunal de Justiça apreciação em sede de recurso especial. 6. A ausência de similitude fática entre os arestos confrontados obsta o conhecimento do recurso especial pela alínea "c", do permissivo constitucional. 7. Recurso especial parcialmente conhecido e, nesta parte, desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543-C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. Proposição de verbete sumular. Tal recurso especial foi interposto por contribuinte, em cujas razões recursais, dentre outras, alegou violação aos artigos 565 a 594 do Códifo Civil (distinção entre os contratos de locação e de prestação de serviços), violação ao artigo 110 do CTN, por alteração dos conceitos de direito privado e violação ao artigo 2º da LC nº 70/1991 que definia o fato gerador da Cofins. Constata-se, assim, que o conceito civilista não foi o adotado para se definir o alcance do termo serviço para a incidência das contribuições sobre o faturamento. De modo similar, são os entendimentos que adotam como serviços financeiros o spread bancário e o prêmio recebido nas atividades de seguros. No caso, os contratos de afretamento por tempo se enquadram nesta natureza, conforme entendimento da própria RFB, e poderiam ser alcançados pela incidência da exação tanto na base de cálculo quanto na geração de créditos, seja por equiparação a bens, seja por uma Fl. 728DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 33 ampliação do conceito de serviços, que abarque os contratos complexos que envolvam obrigações de fazer. Já em relação ao afretamento de aeronaves, a fiscalização os considerou como contrato de prestação de serviços, mas que não era diretamente utilizado na atividade produtiva, mas sim para viabilizar o dispêndio de mão-de-obra. Todavia, a própria RFB reconhece a possibilidade de creditamento de transporte de pessoas, na IN RFB nº 2121/2022, em seu art. 176, §1º, inciso XXI: Art. 176. Para efeito do disposto nesta Subseção, consideram-se insumos, os bens ou serviços considerados essenciais ou relevantes para o processo de produção ou fabricação de bens destinados à venda ou de prestação de serviços (Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 37; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, caput, inciso II, com redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004, art. 21). § 1º Consideram-se insumos, inclusive: XXI - dispêndios com contratação de pessoa jurídica para transporte da mão de obra; Além disso, a recorrente cita a Lei nº 5.811/72, que dispõe sobre o regime de trabalho nas atividades de exploração de petróleo, estabeleceu em seu artigo 3º o direito ao transporte gratuito para o local de trabalho: Art. 3º Durante o período em que o empregado permanecer no regime de revezamento em turno de 8 (oito) horas, ser-lhe-ão assegurados os seguintes direitos: I - Pagamento do adicional de trabalho noturno na forma do art. 73 da Consolidação das Leis do Trabalho; II - Pagamento em dobro da hora de repouso e alimentação suprimida nos termos do § 2º do art. 2º; III - Alimentação gratuita, no posto de trabalho, durante o turno em que estiver em serviço; IV - Transporte gratuito para o local de trabalho; V - Direito a um repouso de 24 (vinte e quatro) horas consecutivas para cada 3 (três) turnos trabalhados. Destarte, considerando que as aeronaves são utilizadas para transporte de mão-de- obra para as plataformas de exploração, trata de uma atividade essencial e relevante ao processo produtivo. Destaca-se que este colegiado, por unanimidade, já reconheceu o crédito sobre o afretamento de embarcações e aeronaves utilizadas no transporte de carga ou pessoas, dentro do processo produtivo, como insumo, no Acórdão nº 3301-014.224: Fl. 729DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 34 DESPESAS DE AFRETAMENTO DE EMBARCAÇÕES E AERONAVES. FRETES À UNIDADE PRODUTIVA. As despesas incorridas com o afretamento de embarcações e aeronaves preenchem com os requisitos de relevância e essencialidade, devendo, portanto, ser considerados insumos. Alimentação e hotelaria A fiscalização glosou os gastos com alimentação e hotelaria marítima e terrestre, por não os considerar insumos, nos termos do PN Cosit nº 5/2018, mas destinados a viabilizar as atividades exercidas pela mão-de-obra contratada, além de parte dos valores terem sido glosados com fundamento também na extemporaneidade da apuração. Por sua vez, a recorrente afirma que tais dispêndios ocorrem em plataformas marítimas, cuja obrigação decorre da Lei nº 5.811/72, artigos 3º, III e 4º, I, a seguir transcritos: Art. 3º Durante o período em que o empregado permanecer no regime de revezamento em turno de 8 (oito) horas, serlhe-ão assegurados os seguintes direitos: III – Alimentação gratuita, no posto de trabalho, durante o turno em que estiver em serviço. Art. 4º Ao empregado que trabalhe no regime de revezamento em turno de 12 (doze) horas, ficam assegurados, além dos já previstos nos itens I, II, III e Iv do art. 3º, os seguintes direitos: I – Alojamento coletivo gratuito e adequado ao seu descanso e higiene. A referida lei dispõe sobre o regime de trabalho dos empregados nas atividades de exploração, perfuração, produção e refinação de petróleo, industrialização do xisto, indústria petroquímica e transporte de petróleo e seus derivados por meio de dutos. Tais dispêndios se amoldam ao critério de relevância, inclusive nos termos da Solução de Consulta Cosit nº 45/2022, cuja ementa, parcialmente, transcrevo: NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. INSUMOS. BENS E SERVIÇOS UTILIZADOS POR IMPOSIÇÃO LEGAL. Para que um item seja considerado insumo pelo critério de relevância, por imposição legal, é inafastável a condição de que seja exigido da pessoa jurídica adquirente pela legislação específica de sua área de atuação, seja indispensável para que o bem ou serviço por ela produzido ou prestado possa ser disponibilizado à venda ou à prestação de serviços, e atenda aos requisitos para creditamento estabelecidos pela legislação de regência. A legislação é específica da atividade de exploração de petróleo, peculiar à situação de trabalho em plataformas marítimas. Assim, dou provimento às despesas de alojamento e alimentação nas plataformas marítimas, à exceção dos créditos extemporâneos associados a tais Fl. 730DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 35 despesas, nos termos da razão de decidir do Acórdão nº 9303-014.081, um dos paradigmas da Súmula CARF nº 231: O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes. Embora a súmula se refira apenas a Dacon, as razões veiculadas no referido paradigma se aplicam à EFD-Contribuições, razão pela qual as adoto como fundamento: CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. DACON NÃO RETIFICADO. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. O aproveitamento de créditos extemporâneos está condicionado à apresentação dos Demonstrativos de Apuração (DACON) retificadores dos respectivos trimestres, demonstrando os créditos e os saldos credores trimestrais, bem como das respectivas Declarações de Débitos e Créditos (DCTF) retificadoras. Voto: “[...] Do Mérito As matérias trazidas à cognição desta Câmara uniformizadora de jurisprudência são as seguintes: (a) aproveitamento de créditos extemporâneos no regime não cumulativo; (b) créditos de COFINS sobre gastos com equipamentos de proteção individual (EPI); e (c) créditos de COFINS sobre aquisição de materiais de limpeza. (a)créditos extemporâneos A fiscalização entende que bens e serviços somente poderiam ter seus créditos imputados ao período de competência em que foram adquiridos. No acórdão recorrido entendeuse pela admissão do creditamento extemporâneo, sem necessidade de prévia retificação de DACON e DCTF, sob o fundamento de inexistência de previsão legal para tal exigência, observados os demais requisitos legais para o creditamento. De fato, o aproveitamento de créditos extemporâneos da COFINS não cumulativa só seria permitido se o contribuinte tivesse retificado suas Declarações (DACON e DCTF) relativas aos períodos de apuração originários dos créditos, como se expõe a seguir. Essa matéria já foi objeto de discussão por esta CSRF no Acórdão n. 9303-013.263, de 13/04/2022, chegando o colegiado majoritariamente à seguinte conclusão: “CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. DACON NÃO RETIFICADO. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. O aproveitamento de créditos extemporâneo s está condicionado à apresentação dos Demonstrativos de Apuração (DACON) retificadores dos respectivos trimestres demonstrando os créditos e os saldos credores trimestrais, bem como das respectivas Declarações de Débitos e Créditos (DCTF) retificadoras.” (Rel. Cons. Luiz Eduardo de Oliveira Santos, maioria, vencidas as Cons. Tatiana Midori Fl. 731DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 36 Migiyama e Érika Costa Camargos Autran, tendo votado pelas conclusões a Cons. Vanessa Marini Cecconello. Presentes ainda os Cons. Rodrigo da Costa Possas, Valcir Gassen, Jorge Olmiro Lock Freire e Adriana Gomes Rego). O voto condutor do referido Acórdão n. 9303-013.263 remete a voto vencedor proferido pelo Cons. Andrada Márcio Canuto Natal, em precedente no qual se assentou que: “O direito de se aproveitar créditos da COFINS sobre os custos/despesas com insumos utilizados na produção de bens e/ ou na prestação de serviços está previsto no art. 3º da Lei nº 10.833/2003, que assim dispõe: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) II - bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; (...) § 1º Observado o disposto no §15 deste artigo, o crédito será determinado mediante a aplicação da alíquota prevista no caput do art.2º desta Lei sobre o valor: (...) II - dos itens mencionados nos incisos III a V e IX do caput, incorridos no mês; (...). § 4º O crédito não aproveitado em determinado mês poderá sê-lo nos meses subsequentes. (...). Já o art. 74 da Lei nº 9.430/1996, assim dispõe quanto ao ressarcimento/compensação dos créditos: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. (...) § 12. A Secretaria da Receita Federal disciplinará o disposto neste artigo, podendo, para fins de apreciação das declarações de compensação e dos pedidos de restituição e de ressarcimento, fixar critérios de prioridade em função do valor compensado ou a ser restituído ou ressarcido e dos prazos de prescrição. (...). Por sua vez a IN SRF nº 600, de 28/12/2005, que disciplinou o ressarcimento/ compensação do saldo credor das contribuições do PIS e da COFINS, ambas com incidência não cumulativa, assim dispõe: Art. 1º A restituição e a compensação de quantias recolhidas a título de tributo ou contribuição administrados pela Secretaria da Receita Federal (SRF), a restituição e a compensação de outras receitas da União arrecadadas mediante Documento de Arrecadação de Receitas Federais (Darf) e o ressarcimento e a compensação de Fl. 732DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 37 créditos do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), da Contribuição para o PIS/Pasep e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) serão efetuados conforme o disposto nesta IN. Art. 3º A restituição a que se refere o art. 2º poderá ser efetuada: (...) § 1º A restituição de que trata o inciso I será requerida pelo sujeito passivo mediante utilização do Programa Pedido Eletrônico de Ressarcimento ou Restituição e Declaração de Compensação (PER/DCOMP) ou, na impossibilidade de sua utilização, mediante o formulário Pedido de Restituição constante do Anexo I, ao qual deverão ser anexados documentos comprobatórios do direito creditório. Art. 21. Os créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins apurados na forma do art. 3º da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e do art. 3º da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003, que não puderem ser utilizados na dedução de débitos das respectivas contribuições, poderão sê-lo na compensação de débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições de que trata esta Instrução Normativa, se decorrentes de: I - custos, despesas e encargos vinculados às receitas decorrentes das operações de exportação de mercadorias para o exterior, prestação de serviços a pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no exterior, cujo pagamento represente ingresso de divisas, e vendas a empresa comercial exportadora, com o fim específico de exportação; II - custos, despesas e encargos vinculados às vendas efetuadas com suspensão, isenção, alíquota zero ou não-incidência; ou (...) Art. 22. Os créditos a que se referem os incisos I e II e o § 4º do art. 21, acumulados ao final de cada trimestre- calendário, poderão ser objeto de ressarcimento. (...) §3º Cada pedido de ressarcimento deverá: I - referir-se a um único trimestre-calendário. II - ser efetuado pelo saldo credor remanescente no trimestre calendário, líquido das utilizações por dedução ou compensação. Ora, segundo essas normas legais, os créditos da COFINS devem ser apurados mensalmente e deduzidos do valor da contribuição calculada sobre o faturamento mensal. Já o crédito não aproveitado no mês, poderá sê-lo nos meses seguintes, sendo que o saldo credor trimestral poderá ser objeto de ressarcimento/compensação, mediante a transmissão de PER/DCOMP. O instrumento legal para se apuara os créditos da contribuição é o DACON mensal que deve ser preenchido e transmitido a RFB pelo contribuinte. Já a IN SRF nº 590, de 22 de dezembro de 2005, assim dispõe: Art. 11. Os pedidos de alteração nas informações prestadas no Dacon serão formalizados por meio de Dacon retificador, mediante a apresentação de novo demonstrativo elaborado com observância das mesmas normas estabelecidas para o demonstrativo retificado. Fl. 733DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 38 §1º O Dacon retificador terá a mesma natureza do demonstrativo originariamente apresentado, substituindo-o integralmente, e servirá para declarar novos débitos, aumentar ou reduzir os valores de débitos já informados ou efetivar qualquer alteração nos créditos informados em demonstrativos anteriores. (...) § 4º A pessoa jurídica que entregar o Dacon retificador, alterando valores que tenham sido informados em DCTF, deverá apresentar, também, DCTF retificadora. (...). Assim, nos casos em que se deixa de apurar créditos relativos a determinados meses, ou seja, deixa de apropriá-los, é necessário retificar o Dacon relativo ao período em que o crédito não foi apropriado, a fim de incluí-lo na apuração. A apuração extemporânea de créditos só é admitida mediante retificação das declarações e demonstrativos correspondentes, em especial as DCTF e os Dacon. O ressarcimento/compensação de créditos extemporâneos da COFINS é possível, desde que retificados os respectivos Dacon e as DCTF. No presente caso, conforme demonstrados nos autos, o contribuinte não transmitiu os Dacon retificadores nem as DCTF. Diante do exposto, voto por DAR PROVIMENTO ao recurso especial da Fazenda, quanto ao aproveitamento de créditos extemporâneos, sem a devida retificação dos Dacon e DCTF. Em resumo, temos que a verificação dos valores a ser apurados se dá por meio dos DACON apresentados pelo Contribuinte, conforme definido pela IN SRF 384/2004. Isto porque no regime da não-cumulatividade, a utilização de créditos não aproveitados à época própria (créditos extemporâneos) deve ser precedida da revisão da apuração -confronto entre créditos e débitos - do período a que pertencem tais créditos. Os créditos extemporâneos devem ser utilizados para desconto, compensação ou ressarcimento em procedimentos referentes aos períodos específicos a que pertencem. Assim, a utilização do crédito pressupõe primeiro a sua apuração, com o registro apropriado no DACON, sendo necessário ainda compensar o crédito com débitos do próprio mês, e havendo saldo remanescente, compensá-lo nos meses subsequentes. Desta forma, não se constatando a prévia apuração do montante a ser aproveitado, mediante a devida retificação dos DACON (e da DCTF), não se pode ter como certa a dedução de tais créditos extemporâneos e, portanto, a glosa de tais créditos devem ser mantida por absoluta falta de liquidez e certeza”. Em adição, informe-se, ainda com escopo na decisão majoritária tomada no Acórdão n. 9303-013.263, que os arts. 3º, § 4º, das Leis nº 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003, permitem que um crédito já apurado em um determinado mês, e não utilizado, possa ser aproveitado em meses posteriores. Porém não permite Fl. 734DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 39 que se aproveite um crédito não apurado no mês incorrido seja efetuado diretamente em outro período de apuração. Portanto, para esse aproveitamento seria necessária apuração prévia relativa aos períodos de apuração correspondentes, o que demandaria a retificação dos DACON dos períodos anteriores. As exigências impostas pelas IN SRF utilizadas pela Fiscalização estão amparadas no art. 92 da Lei nº 10.833/2003, que atribuiu à SRF a regulamentação da operacionalização dos aproveitamentos desses créditos. A análise da existência e da natureza do crédito necessitam de aferição dentro do período específico de geração do crédito. Como os créditos referem-se a 4 ou 5 anos antes do seu efetivo aproveitamento, há que se perquirir, se naquela data, eram créditos apropriáveis segundo a legislação de regência da época. Em endosso aos argumentos aqui expostos, cite-se excerto do voto condutor do Acórdão n. 3302-004.156, de 22/05/2017: “(...) Não se pode olvidar, ademais, que o registro extemporâneo de créditos, se permitido fosse, além do descumprimento do disposto no art. 3º, § 1º, das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, impossibilitaria ou dificultaria em muito o controle das operações com direito a crédito. Se houvesse tal permissão, como saber se as operações registradas extemporaneamente não foram registradas anteriormente no mês correspondente e nos seguintes? Somente mediante a realização de auditoria em todos os meses anteriores ao registro extemporâneo do crédito seria possível confirmar ou não essa informação. Ademais, tendo em conta que a autoridade fiscal não é autorizada a fiscalizar/auditar os períodos pretéritos não alcançados pelo procedimento fiscal em curso, o registro de operações de créditos extemporâneas, por certo, oportunizaria e facilitaria a prática de fraudes, mediante a apropriação, por mais de uma vez, de crédito de uma mesma operação”. Por fim, registro que o entendimento aqui externado corresponde ao posicionamento que tem prevalecido nos últimos julgados desta 3ª Turma da CSRF, como pode ser verificado nos Acórdãos nº 9303-011.780, de 18/08/2021; 9303-012.971, de 16/03/2022, e no aqui referido Acórdão 9303-013-263, de 13/04/2022. Tendo em vista o aqui exposto, deve ser reformado o Acórdão recorrido nesta matéria, para rejeitar o creditamento extemporâneo, ante a necessidade de prévia retificação de declarações.” Cessão de uso e arquivamento de dados sísmicos A recorrente alega que são essenciais e relevantes e, portanto, devem gerar créditos da não-cumulatividade. Já a fiscalização considera que se trata de cessão de uso e, por ser obrigação de dar e não de fazer, não se considera serviço e, portanto, não gera crédito. Já para o arquivamento de dados, considera que não faz parte do processo produtivo. Fl. 735DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 40 A aquisição de dados mediante cessão de uso ou licenças de uso é essencial nos termos do artigo 271 da Resolução ANP nº 11/2011. Já o arquivamento está determinado no artigo 28, §5º2. A infração aos dispositivos da referida resolução sujeita o infrator às penalidades previstas na Lei nº 9.847, de 1999 , no Decreto nº 2.953, de 1999 , e na Portaria ANP nº 234, de 2003, dentre elas: Lei 9.847/99: Art. 2º Os infratores das disposições desta Lei e demais normas pertinentes ao exercício de atividades relativas à indústria do petróleo, à indústria de biocombustíveis, ao abastecimento nacional de combustíveis, ao Sistema Nacional de Estoques de Combustíveis e ao Plano Anual de Estoques Estratégicos de Combustíveis ficarão sujeitos às seguintes sanções administrativas, sem prejuízo das de natureza civil e penal cabíveis: (Redação dada pela Lei nº 12.490, de 2011) I - multa; II - apreensão de bens e produtos; III - perdimento de produtos apreendidos; IV - cancelamento do registro do produto junto à ANP; V - suspensão de fornecimento de produtos; VI - suspensão temporária, total ou parcial, de funcionamento de estabelecimento ou instalação; VII - cancelamento de registro de estabelecimento ou instalação; VIII - revogação de autorização para o exercício de atividade. Parágrafo único. As sanções previstas nesta Lei poderão ser aplicadas cumulativamente. Decreto nº 2.953/99: Art. 21. As infrações cometidas nas atividades a que se refere o art. 1º deste Decreto, sujeitarão os responsáveis às seguintes sanções administrativas, sem prejuízo das de natureza civil e penal cabíveis: I - multa; II - cancelamento do registro do produto junto à ANP; III - suspensão de fornecimento de produtos; IV - suspensão temporária, total ou parcial, de funcionamento de estabelecimento ou instalação; 1 Art. 27. O concessionário, ainda que dispensado de requerer autorização para a aquisição de dados em sua área de concessão, somente poderá dar início à operação de aquisição de dados: 2 § 5º Durante o período de confidencialidade dos Dados Exclusivos, o Concessionário, além da cópia dos dados entregues à ANP, também ficará responsável pelo armazenamento físico dos dados adquiridos pela empresa. Fl. 736DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 41 V - cancelamento de registro de estabelecimento ou instalação; VI - revogação de autorização para o exercício de atividade. Parágrafo único. As sanções previstas neste artigo poderão ser aplicadas cumulativamente. Portaria ANP 234/2003: Art. 2º As infrações às disposições legais e contratuais relativas ao exercício das atividades concedidas dispostas no § 2º do art. 1º deste Regulamento sujeitarão o infrator às seguintes sanções administrativas, sem prejuízo das de natureza civil e penal cabíveis: a) advertência; b) multas; c) suspensão temporária, parcial ou total, do exercício das atividades; d) suspensão temporária do direito de participar de futuras licitações para obtenção de novas concessões e de contratar com a ANP; e) interdição; f) apreensão; e g) rescisão do contrato de concessão. As penalidades previstas podem implicar a paralisação das atividades, o que considero se enquadrar dentro da relevância para o processo produtivo. Já no que concerne à natureza de bem ou serviço, valem as considerações tecidas na apreciação de afretamento de embarcações e de aeronaves. Assim, seja por se tratar de direito obrigacional patrimonial equiparado a bens, seja por adoção de um conceito econômico no âmbito do PIS e da Cofins, entendo que as cessões de uso podem gerar crédito. Aluguel de dutos A recorrente alega que os dutos são equipamentos destinados ao transporte da produção da recorrente, e, alternativamente, prédios, razão pela qual se enquadrariam no inciso IV do artigo 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, e, subsidiariamente, insumos nos termos do inciso II do artigo 3º, prédios, ao passo que a fiscalização argumentou que dutos não são equipamentos, de modos a atrair a aplicação do inciso IV. Quanto a este ponto, concordo com as razões expostas na decisão recorrida, cujos argumentos transcrevo abaixo e adoto como razão de decidir: “92. Os dutos para o transporte de gás ou petróleo são considerados instalações para a ANP, conforme se depreende do Regulamento Técnico ANP nº 2/2011: 4.21 Duto Designação genérica de instalação constituída por tubos ligados entre si, incluindo os Componentes e Complementos, destinada ao transporte ou Fl. 737DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 42 transferência de fluidos, entre as fronteiras de Unidades Operacionais geograficamente distintas. No mesmo sentido, a Lei nº 9.478/1997, ao dispor sobre a política energética nacional, referiu-se aos dutos como sendo instalações: Art. 58. Será facultado a qualquer interessado o uso dos dutos de transporte e dos terminais marítimos existentes ou a serem construídos, mediante remuneração ao titular das instalações ou da capacidade de movimentação de gás natural, nos termos da lei e da regulamentação aplicável. (Redação dada pela Lei nº 14.134, de 2021) § 1º A ANP fixará o valor e a forma de pagamento da remuneração da instalação com base em critérios previamente estabelecidos, caso não haja acordo entre as partes, cabendo-lhe também verificar se o valor acordado é compatível com o mercado. (Redação dada pela Lei nº 14.134, de 2021) § 2º A ANP regulará a preferência a ser atribuída ao proprietário das instalações para movimentação de seus próprios produtos, com o objetivo de promover a máxima utilização da capacidade de transporte pelos meios disponíveis. (g.n.)94. E, para que não pairem dúvidas sobre o tema, o Código Civil segue na mesma trilha: Art. 1.286. Mediante recebimento de indenização que atenda, também, à desvalorização da área remanescente, o proprietário é obrigado a tolerar a passagem, através de seu imóvel, de cabos, tubulações e outros condutos subterrâneos de serviços de utilidade pública, em proveito de proprietários vizinhos, quando de outro modo for impossível ou excessivamente onerosa. Parágrafo único. O proprietário prejudicado pode exigir que a instalação seja feita de modo menos gravoso ao prédio onerado, bem como, depois, seja removida, à sua custa, para outro local do imóvel. Art. 1.287. Se as instalações oferecerem grave risco, será facultado ao proprietário do prédio onerado exigir a realização de obras de segurança. (g.n.) 95. Como bem destacou a autoridade fiscal em seu Relatório, o próprio contrato de aluguel de dutos, firmados pela Petrobrás, tratou de identificar os dutos como instalações: O próprio contrato de locação apresentado define o objeto da locação ORSOL II como o conjunto de instalações relacionadas ao GLPduto (duto de gás liquefeito de petróleo) Rio Solimões II (cláusula 2.2), referindo-se tantas outras cláusulas do contrato às instalações locadas, tais como a cláusula quinta que trata da locação das instalações, a cláusula vigésima-primeira que trata da utilização das instalações e as cláusulas 4.1, 7.1 e 7.2 96. Definida a natureza dos dutos, é necessário destacar que somente o aluguel de máquinas, prédios e equipamentos podem originar créditos não cumulativos: Fl. 738DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 43 Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003 Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (Produção de efeito) (Vide Medida Provisória nº 497, de 2010) (Regulamento)(....) IV - aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; 97. De pronto, afasta-se a possibilidade de equiparar instalações a máquinas. 98. Poderia se aventar a equiparação de dutos/instalações a equipamentos, entretanto, essa hipótese foi descartada pelo próprio legislador, quando ao lavrar o “caput” do art. 57 da Lei nº 9.478/1997, tratou de diferenciar equipamentos e instalações de transporte dutoviário: Art. 57. No prazo de cento e oitenta dias, a partir da publicação desta Lei, a PETROBRÁS e as demais empresas proprietárias de equipamentos e instalações de transporte marítimo e dutoviário receberão da ANP as respectivas autorizações, ratificando sua titularidade e seus direitos. (g.n.) 99. Resta analisar a figura dos “prédios”. 100. O prédio, nada mais é do que um bem imóvel, assim se difere dos dutos, exatamente por essa característica, afinal os dutos são inegavelmente bens móveis: Código Civil Art. 82. São móveis os bens suscetíveis de movimento próprio, ou de remoção por força alheia, sem alteração da substância ou da destinação econômico-social. 101. Na exata conceituação do Código Civil, os dutos podem, a qualquer tempo, ser removidos, sem perder sua substância ou finalidade. 102. No caso julgado pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, destacado pelo contribuinte, havia um detalhe de suma importância, houve o aluguel concomitante de “prédios, depósitos, casas de bombas, casas de controle, prédios administrativos, guaritas, terrenos e outros “. Nessa situação, o conselheiro equiparou os dutos a bem imóvel, nos termos do art. 79 do Código Civil: Art. 79. São bens imóveis o solo e tudo quanto se lhe incorporar natural ou artificialmente 103. No presente estudo, esse entendimento não poderia sair vitorioso, afinal trata-se do aluguel de dutos, isoladamente, não houve a locação de prédios ou terrenos. Ademais, esses dutos passam por imóveis pertencentes a terceiros, distintos do locador dos dutos, mais uma razão para que a tese da defesa não possa prosseguir. Fl. 739DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 44 104. Desta forma, os gastos com a locação de dutos não podem compor a base de cálculo dos créditos das contribuições, por ausência de previsão legal. Em relação à alegação de serem insumos, a própria recorrente afirmou que se trata de aluguel para escoamento da produção, portanto, após o processo produtivo, razão pela qual não há que se falar em insumos. Despesas com contratos do tipo ship or pay A fiscalização glosou os dispêndios relativos ao encargo de capacidade não utilizada, por não representarem remuneração por algum bem ou serviço, não sendo, portanto, insumos. Também não poderiam tomar créditos como aluguel, por não serem prédios, máquinas ou equipamentos, mas sim instalações. O encargo de capacidade não utilizada compõe cláusula do contrato de transporte de gás natural, que, segundo a recorrente, é utilizado como insumo no processo de fabricação de combustíveis, fertilizantes, geração de energia elétrica e revenda do próprio gás. Já a recorrente defende a imprescindibilidade da cláusula ship or pay para desenvolvimento das atividades da recorrente e que o encargo de capacidade consiste em parcela componente do preço do transporte do gás, segundo a Resolução ANP 15/2014. Defende o creditamento sob a natureza de insumos, de acordo com o inciso II do artigo 3º ou como aluguel de equipamentos, de acordo com o inciso IV do referido artigo. Passo à apreciação. A Resolução ANP nº 15/2014 tem por objeto a definição dos critérios para cálculo das tarifas referentes aos Serviços de Transporte firme, interruptível e extraordinário de gás natural e assim estipulou: Art. 2° | Ficam estabelecidas as seguintes definições para fins desta Resolução: [...] II- Capacidade de Transporte: volume máximo diário de gás natural que o Transportador pode movimentar em um determinado Gasoduto de Transporte; III- Capacidade Contratada de Transporte: volume diário de gás natural que o Transportador é obrigado a movimentar para o Carregador, nos termos do respectivo contrato de transporte; IV- Capacidade Disponível: parcela da capacidade de movimentação do Gasoduto de Transporte que não tenha sido objeto de contratação sob a modalidade firme; V- Capacidade Ociosa: parcela da capacidade de movimentação do Gasoduto de Transporte contratada que, temporariamente, não esteja sendo utilizada; [...] Fl. 740DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 45 IX - Contrato de Serviço de Transporte: qualquer contrato firmado entre o Carregador e o transportador para prestação de serviço de transporte, incluindo seus aditivos; [...] XIV - Serviço de Transporte: receber, movimentar e entregar volumes de gás natural por meio de gasodutos de transporte, nos termos do respectivo Contrato de Serviço de Transporte; XV - Serviço de Transporte Extraordinário: modalidade de contratação de Capacidade Disponível, a qualquer tempo, e que contenha condição resolutiva, na hipótese de contratação da capacidade na modalidade firme; XVI - Serviço de Transporte Firme: Serviço de Transporte no qual o Transportador se obriga a programar e transportar o volume diário de gás natural solicitado pelo Carregador até a Capacidade Contratada de Transporte estabelecida no contrato com o Carregador; XVII - Serviço de Transporte Interruptível: Serviço de Transporte que poderá ser interrompido pelo Transportador, dada a prioridade de programação do Serviço de Transporte Firme; XVIII - Tarifa de Transporte: valor a ser pago pelo Carregador ao Transportador pelo Serviço de Transporte, em conformidade com o disposto no Contrato de Serviço de Transporte celebrado entre as partes, o qual dispõe sobre as regras e condições específicas da contratação do serviço; XIX - Tarifa Compartilhada: tarifa de transporte calculada com base nos custos, despesas e investimentos relacionados à Capacidade de Transporte existente somados aos custos, despesas e investimentos relacionados à Capacidade de Transporte resultante de ampliação da capacidade de transporte; XX - Tarifa Incremental: tarifa de transporte calculada com base nos custos, despesas e investimentos relacionados exclusivamente à Capacidade de Transporte resultante de ampliação da capacidade de transporte; XXI - Transportador: empresa autorizada ou concessionária da atividade de transporte de gás natural por meio de duto [...] Art. 4º O Serviço de Transporte prestado pelo Transportador será remunerado por meio de Tarifas de Transporte, as quais devem atender aos seguintes princípios: Fl. 741DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 46 I - representar a contraprestação da operação eficiente, segura e confiável do Gasoduto de Transporte; II - permitir que o Transportador obtenha receita suficiente para arcar com os seus custos e despesas vinculados à prestação do Serviço de Transporte, obrigações tributárias, assim como para a obtenção da remuneração justa e adequada do investimento em bens e instalações vinculados à prestação do Serviço de Transporte e a respectiva depreciação e amortização da Base Regulatória de Ativos, o que corresponde à sua Receita Máxima Permitida; e III - não implicar tratamento discriminatório ou preferencial entre Carregadores. Art. 5º A Tarifa de Transporte aplicável a cada Serviço de Transporte deve ser composta por uma estrutura de encargos relacionados à natureza dos custos, despesas e investimentos atribuíveis a sua prestação, devendo refletir: I - os custos, despesas e investimentos incorridos em bases econômicas que efetivamente contribuam para a prestação do respectivo Serviço de Transporte; II - os determinantes de custos, tais como a distância entre os pontos de recebimento e de entrega, a Capacidade de Transporte, o volume movimentado, o desequilíbrio entre os volumes recebidos e entregues, e o prazo de contratação; III - uma remuneração justa e adequada do investimento durante a sua vida útil esperada. Art. 8º A Tarifa de Transporte aplicável ao Serviço de Transporte Firme será estruturada, no mínimo, com base nos seguintes encargos: I - Encargo de capacidade de entrada: destinado a cobrir os investimentos relacionados à capacidade de recebimento, e os custos e as despesas fixos da prestação do Serviço de Transporte Firme; II - Encargo de capacidade de transporte: destinado a cobrir os investimentos relacionados à Capacidade de Transporte; III - Encargo de capacidade de saída: destinado a cobrir os investimentos relacionados à capacidade de entrega; IV - Encargo de movimentação: destinado a cobrir os custos e as despesas variáveis com a movimentação de gás. Parágrafo único. A parcela dos custos e despesas fixos relacionados à capacidade de entrega, de forma compatível com sua natureza, pode ser alocada no encargo de capacidade de saída.” (destacou-se). Pela normatização da ANP, a tarifa de transporte é a remuneração pelos serviços de transporte e deve representar a contraprestação da operação eficiente, segura e confiável do Gasoduto de Transporte, bem como para a obtenção da remuneração justa e adequada do investimento em bens e instalações vinculados à prestação do Serviço de Transporte e a respectiva depreciação e amortização da Base Regulatória de Ativos. Fl. 742DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 47 Por sua vez, as tarifas são estruturadas em encargos relacionados à natureza dos custos, despesas e investimentos atribuíveis a sua prestação. Assim, não vejo como segregar determinado encargo da prestação do serviço de transporte, pois todos eles se destinam a remunerar determinado custo, despesa ou investimento necessários à prestação do serviço de transporte, devendo ser considerados todos no custo do frete, ou seja, na remuneração pelo contrato de transporte. Neste sentido, cito Ac. CSRF 9101-002-206, no qual se discutiu as parcelas do custo de frete na importação de gás da Bolívia, para efeito de aplicação das regras de preço de transferência, do qual extraio o seguinte excerto: “Em relação ao argumento de estarem inclusos neste preço os encargos com Capacidade Não Utilizada, como ele também foi considerado no preço de revenda, até porque o contrato foi do tipo “ship or pay”, ou seja, o custo do transporte é devido independente da utilização ou não do gasoduto, também não podem ter sido excluídos do custo de aquisição para efeito do cálculo do preço de transferência, conforme já se manifestou a decisão recorrida, no voto vencido, cujo trecho ora colaciono: Em relação ao argumento de que o valor dos encargos de capacidade não utilizada teria de ser excluído do valor do frete, também não merece acolhida o argumento da recorrente, tendo em vista que é associado diretamente à aquisição e transporte do bem e também porque foi considerado pelo recorrente na formação do preço parâmetro.” Também neste sentido, o Ac. nº 3202-002.340: TRANSPORTE FIRME DE GÁS NATURAL. ENCARGO DE RESERVA DE CAPACIDADE DE TRANSPORTE. “SHIP OR PAY”. CRÉDITOS. APROPRIAÇÃO. POSSIBILIDADE. Nos contratos de Serviço de Transporte Firme, o Transportador está obrigado a programar e transportar o volume diário de gás natural solicitado pelo Carregador até a Capacidade Contratada de Transporte estabelecida no contrato. O Encargo de Reserva de Capacidade de Transporte (Ship or Pay) é o valor devido pela reserva da capacidade de transporte, independentemente do efetivo transporte da Capacidade Contratada. Tal Encargo é devido em razão do controle tarifário pelo custo exigido na Resolução ANP nº 15/2014, que impõe a remuneração dos custos arcados pelo Transportador mesmo que sem movimentar o volume total diário reservado. Assim, o SoP não configura custo à parte do contrato, mas Encargo que compõe a remuneração contratual do Serviço de Transporte Firme, de modo que gera direito ao creditamento das contribuições ao PIS e da COFINS, nos termos do artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02. Transcrevo ainda exceto do voto proferido no Ac nº 3202-002.360, acerca da matéria, cujas razões adoto suplementarmente: “[...] Fl. 743DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 48 Conforme se extraí deste julgado, o entendimento firmado é de que a parte do preço do contrato de transporte de gás atinente à tarifa de ship or pay não poderia ser considerada insumo porque corresponderia a um pagamento convencionado e não decorrente de prestação de serviço ou fornecimento de produto. Todavia, conforme verificado a tarifa de capacidade (ship or pay) é paga pela recorrente tanto na hipótese em que o transporte é utilizado como na que não ocorre. Isso é o que consta tanto dos contratos firmados pela recorrente como também da norma que os disciplina, qual seja, a Resolução ANP 15/2014. Ainda, destaca que, ao contrário do entendimento manifestado pela autoridade fiscal e pela DRJ, a tarifa de ship or pay é um pagamento por capacidade de transporte. Não se trata de um pagamento pela ociosidade do duto, mas uma remuneração pela estrutura que está sendo disponibilizada ao contratante (“investimentos relacionados à Capacidade de Transporte”, no texto da Resolução ANP 15/2014). Tanto é assim que os contratos fazem referência à quantidade diária contratada para o transporte, cujo preço é formado de acordo com os critérios de tarifação da ANP. Neste sentido, aponta que os contratos em questão têm por objeto o transporte da sua produção de gás natural, por meio de gasodutos, seja para utilização como insumo no seu processo produtivo (maior parte) seja para sua destinação à venda. Daí a lógica de se pagar pela estrutura disponibilizada, que fica exclusivamente dedicada ao transporte do gás natural da recorrente. Frisa que o objeto do contrato é a capacidade do gasoduto, remunerada de acordo com as tarifas pré-definidas pela ANP, cujo cálculo considera tanto a quantidade de gás efetivamente transportada quanto a capacidade que restou ociosa no período. Trata-se, portanto, de uma fórmula de cálculo do preço contratual, composto por tarifas, que, juntas, constituem o preço contratual. Dessa forma, não merece subsistir o entendimento exarado no auto de infração de que não existiria previsão legal para tomada de crédito das contribuições ao PIS e da COFINS sobre fretes não inclusos nos custos de aquisição dos serviços ou produtos. Conforme já reconhecido pela jurisprudência pacífica deste e. Tribunal, “é permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições” (Súmula CARF nº 188). Apesar da Súmula tratar apenas dos casos em que o insumo adquirido não é onerado pelas contribuições ao PIS e da COFINS, revela o entendimento pacífico deste e. Órgão Julgador no sentido de que os fretes registrados de forma autônoma também dão direito ao crédito quando relacionados à aquisição de insumos e onerados pelas referidas contribuições. Fl. 744DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 49 Ademais, a interpretação restritiva de que os fretes só dariam direito ao crédito na aquisição de insumos também não resiste a uma breve análise da legislação que disciplina a matéria, uma vez que, nos casos aqui tratados - transporte da produção de gás natural, por meio de gasodutos, para utilização como insumo no processo produtivo (maior parte) e para destinação à venda -, não há dúvidas quanto ao direito ao creditamento, com base no artigo 3º, inciso II, das Leis nº 10.833/03 e 10.637/02, no primeiro caso, e com base no artigo 3º, inciso IX, c/c artigo 15, inciso II , da Lei nº 10.833/03, no segundo. Neste ponto, deve-se considerar que a própria Receita Federal passou a admitir expressamente que despesas decorrentes de exigência de normas legais ou infralegais, como é o caso do ship or pay, são considerados insumos. É o que passou a constar da Instrução Normativa RFB 2.121/2022, em seu art. 177, a seguir transcrito: ““Art. 177. Também se consideram insumos, os bens ou os serviços especificamente exigidos por norma legal ou infralegal para viabilizar as atividades de produção de bens ou de prestação de serviços por parte da mão de obra empregada nessas atividades. Parágrafo único. O disposto no caput não se aplica nas hipóteses em que a exigência dos bens ou dos serviços decorrem de celebração de acordos ou convenções coletivas de trabalho.” (destacou-se). Diante do exposto, conclui-se que o Encargo de Reserva de Capacidade de Transporte (Ship or Pay) remunera o Serviço de Transporte Firme, tanto no que se refere ao Encargo de Serviço de Transporte quanto ao Encargo de Capacidade de Transporte não utilizada, razão pela qual voto por dar provimento ao Recurso Voluntário neste tópico, para o fim de reverter a glosa efetuada sobre os valores referentes ao pagamento na modalidade “Ship or Pay” Destarte, na utilização como insumo, o crédito deve ser reconhecido sob o inciso II do artigo 3º. Já no caso de revenda do gás, o crédito deve ser reconhecido como frete em operação de venda, nos termos do inciso IX do artigo 3º da Lei nº 10.833/2003. Cessão de uso de gasoduto A fiscalização efetuou por dois motivos: não haver crédito na cessão de uso de ativo e por não se tratar de prédios, máquinas e equipamentos a permitir o creditamento com base no inciso IV do artigo 3º da Lei nº 10.637/2002 e 10.833/2003. Já a recorrente afirma que a cessão de uso de gasoduto se enquadra na hipótese do inciso IV do artigo 3º, assim como o aluguel de dutos, pois o gasoduto pode ser entendido como prédio ou equipamento. Além disso, devido à essencialidade, também pode ser enquadrado como insumo do inciso II. Entendo que as mesmas considerações já tecidas para o aluguel de dutos se aplicam à cessão de uso de gasoduto, razão pela qual nego provimento a este tópico. Fl. 745DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3301-014.670 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16682.900373/2022-12 50 Créditos extemporâneos A fiscalização glosou créditos extemporâneos relativos a bens e serviços adquiridos como insumos, armazenagem e frete na operação de venda e aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, em razão da falta de retificação das escriturações e declarações. Alega que a apropriação em períodos distintos da competência altera o prazo decadencial para sua utilização, bem como distorce o rateio de créditos vinculados a receitas tributadas e não tributadas, cujos créditos podem ser ressarcidos ou compensados. Por sua vez, a recorrente defende que o crédito pode ser aproveitado independente da retificação das escriturações digitais e declarações, nos termos do §4º do artigo 3º das leis já referidas: § 4º O crédito não aproveitado em determinado mês poderá sê-lo nos meses subseqüentes. Em relação ao Dacon, a matéria está pacificada nos termos da Súmula CARF nº 231: O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes. Já em relação às EFD-Contribuições, cabem as considerações já tecidas no tópico “Despesas com alimentação e hotelaria”, concluindo pela necessidade de retificação da EFD- Contribuições para aproveitamento do crédito extemporâneo. Destarte, nego provimento a esta matéria. Diante do exposto, voto para rejeitar as preliminares e, no mérito, para dar provimento parcial ao recurso voluntário para reverter as glosas sobre as despesas de alimentação e hotelaria marítima, sobre a cláusula “ship or pay”, sobre o afretamento de embarcações e aeronaves, sobre cessão de uso e arquivamento de dados sísmicos, exceto, para todas as situações acima, as associadas à extemporaneidade. Assinado Digitalmente PAULO GUILHERME DEROULEDE Fl. 746DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 15746.721756/2022-63
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 21 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Fri Feb 20 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Ano-calendário: 2018
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. CONHECIMENTO. ADEQUAÇÃO DE MULTA AO PERÍODO EM QUE VIGENTE MEDIDA LIMINAR. SÚMULA CARF 1.
GILRAT. CONTRIBUIÇÃO ADICIONAL PARA APOSENTADORIA ESPECIAL. EXPOSIÇÃO A AGENTE NOCIVO RUÍDO. FATOR ACIDENTÁRIO DE PREVENÇÃO (FAP). INOBSERVÂNCIA DOS PRESSUPOSTOS LEGAIS PARA O LANÇAMENTO. FALTA DE MOTIVAÇÃO TÉCNICA IDÔNEA. UTILIZAÇÃO DE CRITÉRIO PRESUNTIVO.
I. CASO EM EXAME
1.1. Recurso voluntário interposto contra acórdão da 7ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DRJ09), que julgou improcedente a impugnação apresentada contra lançamento de ofício referente às contribuições sociais previdenciárias devidas pela empresa parte-recorrente, relativamente às competências de 01/2018 a 13/2018.
1.2. O lançamento versou sobre a cobrança da contribuição adicional de 6% prevista no art. 22, II, da Lei nº 8.212/91, com fundamento no art. 57, §6º, da Lei nº 8.213/91, em razão da exposição de trabalhadores ao agente nocivo ruído, bem como sobre diferenças no cálculo do GILRAT ajustado, decorrentes da aplicação do Fator Acidentário de Prevenção (FAP).
1.3. A parte-recorrente sustenta a nulidade do lançamento por vício de motivação e adoção de critério presuntivo (classificação CBO) como substituto da análise técnica individualizada, além de questionar a validade da contribuição adicional diante da eficácia dos EPIs. Alega, ainda, a existência de decisão judicial que autoriza a aplicação do FAP neutro e impede a aplicação da multa de ofício.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
2.1. Há duas questões em discussão:
2.1.1. saber se é válida a constituição do crédito tributário com base exclusiva na correspondência entre códigos CBO e exposição a agente nocivo ruído, sem individualização técnica das condições de trabalho; e
2.1.2. saber se a demonstração técnica da eficácia dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) pode afastar a exigência da contribuição adicional para financiamento da aposentadoria especial, à luz da tese fixada pelo Supremo Tribunal Federal no Tema 555 da Repercussão Geral (ARE 664.335/SC).
III. RAZÕES DE DECIDIR
3.1. O recurso voluntário foi parcialmente conhecido, excluindo-se da apreciação administrativa a discussão relativa ao Fator Acidentário de Prevenção (FAP) e aos efeitos da decisão judicial, em razão da aplicação da Súmula CARF nº 1, segundo a qual:
Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo.
3.2. No mérito, reconhece-se que a autoridade lançadora adotou critério presuntivo baseado em códigos CBO para identificar a exposição a ruído superior a 85 dB(A), sem examinar individualmente os documentos técnicos (PPP, PPRA) que poderiam indicar a efetiva exposição dos empregados.
3.3. A metodologia adotada, confirmada pelo Relatório de Diligência, configura vício material, pois contraria o art. 57, §6º, da Lei nº 8.213/91 e o art. 293 da IN RFB nº 971/2009, os quais exigem a comprovação da efetiva exposição ao agente nocivo. A posterior exclusão de empregados com base em PPPs evidencia a insuficiência do critério adotado.
3.4. A ausência de análise individualizada caracteriza lançamento por arbitramento indevido, e a ausência de motivação técnica afronta os arts. 142, parágrafo único, do CTN e 50 da Lei nº 9.784/99, além do art. 59, II, do Decreto nº 70.235/72.
3.5. A utilização do critério CBO como substituto do exame técnico-ambiental, sem fundamentação individualizada, compromete a legalidade do lançamento e enseja sua nulidade parcial, por vício na formação da base de cálculo da contribuição adicional.
3.6. No tocante à eficácia dos EPIs, a decisão do STF no ARE 664.335/SC (Tema 555) estabelece que, embora a declaração de eficácia no PPP não baste por si só para afastar o direito à aposentadoria especial, não se veda a apresentação de provas técnicas aptas a demonstrar a neutralização ou mitigação do agente nocivo ruído.
3.7. A autoridade lançadora não considerou os documentos técnicos apresentados pela parte-recorrente, o que configurou desvio da tese vinculante fixada pelo STF. A desconsideração liminar dessas provas violou as regras da legalidade e da motivação, tornando o lançamento insubsistente.
Numero da decisão: 2202-011.759
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso, exceto as razões recursais e do respectivo pedido relacionados à aplicação do Fator Acidentário de Prevenção (FAP) e decisão judicial, e, na parte conhecida, por maioria de votos, dar-lhe provimento para anular o lançamento por vício material. Vencidos os conselheiros Sara Maria de Almeida Carneiro Silva e Ronnie Soares Anderson, que consideraram ser de natureza formal o vício.
Assinado Digitalmente
Thiago Buschinelli Sorrentino – Relator
Assinado Digitalmente
Ronnie Soares Anderson – Presidente
Participaram da reunião de julgamento os conselheiros Andressa Pegoraro Tomazela, Henrique Perlatto Moura, Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Thiago Buschinelli Sorrentino, Sara Maria de Almeida Carneiro Silva, Ronnie Soares Anderson (Presidente).
Nome do relator: THIAGO BUSCHINELLI SORRENTINO
1.0 = *:*
toggle all fields
dt_index_tdt : Sat Feb 28 09:00:00 UTC 2026
anomes_sessao_s : 202601
camara_s : Segunda Câmara
turma_s : Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
dt_publicacao_tdt : Fri Feb 20 00:00:00 UTC 2026
numero_processo_s : 15746.721756/2022-63
anomes_publicacao_s : 202602
conteudo_id_s : 7338891
dt_registro_atualizacao_tdt : Fri Feb 20 00:00:00 UTC 2026
numero_decisao_s : 2202-011.759
nome_arquivo_s : Decisao_15746721756202263.PDF
ano_publicacao_s : 2026
nome_relator_s : THIAGO BUSCHINELLI SORRENTINO
nome_arquivo_pdf_s : 15746721756202263_7338891.pdf
secao_s : Segunda Seção de Julgamento
arquivo_indexado_s : S
decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso, exceto as razões recursais e do respectivo pedido relacionados à aplicação do Fator Acidentário de Prevenção (FAP) e decisão judicial, e, na parte conhecida, por maioria de votos, dar-lhe provimento para anular o lançamento por vício material. Vencidos os conselheiros Sara Maria de Almeida Carneiro Silva e Ronnie Soares Anderson, que consideraram ser de natureza formal o vício. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino – Relator Assinado Digitalmente Ronnie Soares Anderson – Presidente Participaram da reunião de julgamento os conselheiros Andressa Pegoraro Tomazela, Henrique Perlatto Moura, Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Thiago Buschinelli Sorrentino, Sara Maria de Almeida Carneiro Silva, Ronnie Soares Anderson (Presidente).
dt_sessao_tdt : Wed Jan 21 00:00:00 UTC 2026
id : 11232893
ano_sessao_s : 2026
ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Ano-calendário: 2018 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. CONHECIMENTO. ADEQUAÇÃO DE MULTA AO PERÍODO EM QUE VIGENTE MEDIDA LIMINAR. SÚMULA CARF 1. GILRAT. CONTRIBUIÇÃO ADICIONAL PARA APOSENTADORIA ESPECIAL. EXPOSIÇÃO A AGENTE NOCIVO RUÍDO. FATOR ACIDENTÁRIO DE PREVENÇÃO (FAP). INOBSERVÂNCIA DOS PRESSUPOSTOS LEGAIS PARA O LANÇAMENTO. FALTA DE MOTIVAÇÃO TÉCNICA IDÔNEA. UTILIZAÇÃO DE CRITÉRIO PRESUNTIVO. I. CASO EM EXAME 1.1. Recurso voluntário interposto contra acórdão da 7ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DRJ09), que julgou improcedente a impugnação apresentada contra lançamento de ofício referente às contribuições sociais previdenciárias devidas pela empresa parte-recorrente, relativamente às competências de 01/2018 a 13/2018. 1.2. O lançamento versou sobre a cobrança da contribuição adicional de 6% prevista no art. 22, II, da Lei nº 8.212/91, com fundamento no art. 57, §6º, da Lei nº 8.213/91, em razão da exposição de trabalhadores ao agente nocivo ruído, bem como sobre diferenças no cálculo do GILRAT ajustado, decorrentes da aplicação do Fator Acidentário de Prevenção (FAP). 1.3. A parte-recorrente sustenta a nulidade do lançamento por vício de motivação e adoção de critério presuntivo (classificação CBO) como substituto da análise técnica individualizada, além de questionar a validade da contribuição adicional diante da eficácia dos EPIs. Alega, ainda, a existência de decisão judicial que autoriza a aplicação do FAP neutro e impede a aplicação da multa de ofício. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2.1. Há duas questões em discussão: 2.1.1. saber se é válida a constituição do crédito tributário com base exclusiva na correspondência entre códigos CBO e exposição a agente nocivo ruído, sem individualização técnica das condições de trabalho; e 2.1.2. saber se a demonstração técnica da eficácia dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) pode afastar a exigência da contribuição adicional para financiamento da aposentadoria especial, à luz da tese fixada pelo Supremo Tribunal Federal no Tema 555 da Repercussão Geral (ARE 664.335/SC). III. RAZÕES DE DECIDIR 3.1. O recurso voluntário foi parcialmente conhecido, excluindo-se da apreciação administrativa a discussão relativa ao Fator Acidentário de Prevenção (FAP) e aos efeitos da decisão judicial, em razão da aplicação da Súmula CARF nº 1, segundo a qual: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo. 3.2. No mérito, reconhece-se que a autoridade lançadora adotou critério presuntivo baseado em códigos CBO para identificar a exposição a ruído superior a 85 dB(A), sem examinar individualmente os documentos técnicos (PPP, PPRA) que poderiam indicar a efetiva exposição dos empregados. 3.3. A metodologia adotada, confirmada pelo Relatório de Diligência, configura vício material, pois contraria o art. 57, §6º, da Lei nº 8.213/91 e o art. 293 da IN RFB nº 971/2009, os quais exigem a comprovação da efetiva exposição ao agente nocivo. A posterior exclusão de empregados com base em PPPs evidencia a insuficiência do critério adotado. 3.4. A ausência de análise individualizada caracteriza lançamento por arbitramento indevido, e a ausência de motivação técnica afronta os arts. 142, parágrafo único, do CTN e 50 da Lei nº 9.784/99, além do art. 59, II, do Decreto nº 70.235/72. 3.5. A utilização do critério CBO como substituto do exame técnico-ambiental, sem fundamentação individualizada, compromete a legalidade do lançamento e enseja sua nulidade parcial, por vício na formação da base de cálculo da contribuição adicional. 3.6. No tocante à eficácia dos EPIs, a decisão do STF no ARE 664.335/SC (Tema 555) estabelece que, embora a declaração de eficácia no PPP não baste por si só para afastar o direito à aposentadoria especial, não se veda a apresentação de provas técnicas aptas a demonstrar a neutralização ou mitigação do agente nocivo ruído. 3.7. A autoridade lançadora não considerou os documentos técnicos apresentados pela parte-recorrente, o que configurou desvio da tese vinculante fixada pelo STF. A desconsideração liminar dessas provas violou as regras da legalidade e da motivação, tornando o lançamento insubsistente.
atualizado_anexos_dt : Sat Feb 28 09:41:35 UTC 2026
sem_conteudo_s : N
_version_ : 1858361586900533248
conteudo_txt : Metadados => date: 2026-02-20T17:37:31Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-02-20T17:37:31Z; Last-Modified: 2026-02-20T17:37:31Z; dcterms:modified: 2026-02-20T17:37:31Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-02-20T17:37:31Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-02-20T17:37:31Z; meta:save-date: 2026-02-20T17:37:31Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-02-20T17:37:31Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-02-20T17:37:31Z; created: 2026-02-20T17:37:31Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 44; Creation-Date: 2026-02-20T17:37:31Z; pdf:charsPerPage: 1917; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-02-20T17:37:31Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 15746.721756/2022-63 ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 21 de janeiro de 2026 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE VOLKSWAGEN DO BRASIL INDUSTRIA DE VEICULOS AUTOMOTORES LTDA INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Ano-calendário: 2018 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. CONHECIMENTO. ADEQUAÇÃO DE MULTA AO PERÍODO EM QUE VIGENTE MEDIDA LIMINAR. SÚMULA CARF 1. GILRAT. CONTRIBUIÇÃO ADICIONAL PARA APOSENTADORIA ESPECIAL. EXPOSIÇÃO A AGENTE NOCIVO RUÍDO. FATOR ACIDENTÁRIO DE PREVENÇÃO (FAP). INOBSERVÂNCIA DOS PRESSUPOSTOS LEGAIS PARA O LANÇAMENTO. FALTA DE MOTIVAÇÃO TÉCNICA IDÔNEA. UTILIZAÇÃO DE CRITÉRIO PRESUNTIVO. I. CASO EM EXAME 1.1. Recurso voluntário interposto contra acórdão da 7ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DRJ09), que julgou improcedente a impugnação apresentada contra lançamento de ofício referente às contribuições sociais previdenciárias devidas pela empresa parte-recorrente, relativamente às competências de 01/2018 a 13/2018. 1.2. O lançamento versou sobre a cobrança da contribuição adicional de 6% prevista no art. 22, II, da Lei nº 8.212/91, com fundamento no art. 57, §6º, da Lei nº 8.213/91, em razão da exposição de trabalhadores ao agente nocivo ruído, bem como sobre diferenças no cálculo do GILRAT ajustado, decorrentes da aplicação do Fator Acidentário de Prevenção (FAP). 1.3. A parte-recorrente sustenta a nulidade do lançamento por vício de motivação e adoção de critério presuntivo (classificação CBO) como substituto da análise técnica individualizada, além de questionar a validade da contribuição adicional diante da eficácia dos EPIs. Alega, ainda, a existência de decisão judicial que autoriza a aplicação do FAP neutro e impede a aplicação da multa de ofício. Fl. 8350DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 2 II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2.1. Há duas questões em discussão: 2.1.1. saber se é válida a constituição do crédito tributário com base exclusiva na correspondência entre códigos CBO e exposição a agente nocivo ruído, sem individualização técnica das condições de trabalho; e 2.1.2. saber se a demonstração técnica da eficácia dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) pode afastar a exigência da contribuição adicional para financiamento da aposentadoria especial, à luz da tese fixada pelo Supremo Tribunal Federal no Tema 555 da Repercussão Geral (ARE 664.335/SC). III. RAZÕES DE DECIDIR 3.1. O recurso voluntário foi parcialmente conhecido, excluindo-se da apreciação administrativa a discussão relativa ao Fator Acidentário de Prevenção (FAP) e aos efeitos da decisão judicial, em razão da aplicação da Súmula CARF nº 1, segundo a qual: "Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo". 3.2. No mérito, reconhece-se que a autoridade lançadora adotou critério presuntivo baseado em códigos CBO para identificar a exposição a ruído superior a 85 dB(A), sem examinar individualmente os documentos técnicos (PPP, PPRA) que poderiam indicar a efetiva exposição dos empregados. 3.3. A metodologia adotada, confirmada pelo Relatório de Diligência, configura vício material, pois contraria o art. 57, §6º, da Lei nº 8.213/91 e o art. 293 da IN RFB nº 971/2009, os quais exigem a comprovação da efetiva exposição ao agente nocivo. A posterior exclusão de empregados com base em PPPs evidencia a insuficiência do critério adotado. 3.4. A ausência de análise individualizada caracteriza lançamento por arbitramento indevido, e a ausência de motivação técnica afronta os arts. 142, parágrafo único, do CTN e 50 da Lei nº 9.784/99, além do art. 59, II, do Decreto nº 70.235/72. 3.5. A utilização do critério CBO como substituto do exame técnico- ambiental, sem fundamentação individualizada, compromete a legalidade do lançamento e enseja sua nulidade parcial, por vício na formação da base de cálculo da contribuição adicional. Fl. 8351DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 3 3.6. No tocante à eficácia dos EPIs, a decisão do STF no ARE 664.335/SC (Tema 555) estabelece que, embora a declaração de eficácia no PPP não baste por si só para afastar o direito à aposentadoria especial, não se veda a apresentação de provas técnicas aptas a demonstrar a neutralização ou mitigação do agente nocivo ruído. 3.7. A autoridade lançadora não considerou os documentos técnicos apresentados pela parte-recorrente, o que configurou desvio da tese vinculante fixada pelo STF. A desconsideração liminar dessas provas violou as regras da legalidade e da motivação, tornando o lançamento insubsistente. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso, exceto as razões recursais e do respectivo pedido relacionados à aplicação do Fator Acidentário de Prevenção (FAP) e decisão judicial, e, na parte conhecida, por maioria de votos, dar-lhe provimento para anular o lançamento por vício material. Vencidos os conselheiros Sara Maria de Almeida Carneiro Silva e Ronnie Soares Anderson, que consideraram ser de natureza formal o vício. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino – Relator Assinado Digitalmente Ronnie Soares Anderson – Presidente Participaram da reunião de julgamento os conselheiros Andressa Pegoraro Tomazela, Henrique Perlatto Moura, Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Thiago Buschinelli Sorrentino, Sara Maria de Almeida Carneiro Silva, Ronnie Soares Anderson (Presidente). RELATÓRIO Por brevidade, transcrevo o relatório elaborado pelo órgão julgador de origem, 7ª TURMA/DRJ09, de lavra do Auditor-Fiscal Rafael Rigoni dos Santos (Acórdão 109-019.761): Fl. 8352DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 4 Tratam os autos do seguinte lançamento efetuado contra a empresa acima identificada: Conforme Relatório Fiscal de fls. 1.047 a 1.055, o lançamento de ofício em pauta foi lavrado por ter a empresa deixado de declarar e recolher a contribuição adicional de 6%, constante do art. 22, II da Lei 8212/91, referente às competências de 01/2018 a 13/2018, para o financiamento da aposentadoria especial decorrente da exposição de seus empregados ao agente nocivo ruído, com fundamento no disposto no art. 57, §6º da Lei 8.213/91. Também foram lançadas diferenças verificadas na alíquota de GILRAT declarada pela empresa decorrente da aplicação do Fator Acidentário de Prevenção - FAP. Intimado, o contribuinte apresentou impugnação tempestiva alegando, em síntese, que: Após narrar os fatos e a fundamentação da Autuação, aduz que, com base nos documentos disponibilizados pela Impugnante, a Autoridade Fiscal concluiu que todos os empregados que possuem o mesmo CBO daqueles que obtiveram o benefício da aposentadoria especial no ano de 2018 também fariam jus ao benefício. Assim, afirma que o lançamento fiscal é nulo, uma vez que a metodologia adotada para a apuração e cobrança da contribuição carece de fundamento legal. Com relação às diferenças de GILRAT ajustadas pelo FAP, alega que, da análise dos Anexos XV e XVI, é possível aferir que as divergências apuradas têm relação com o FAP, uma vez que a Impugnante aplicou e declarou o FAP = 1.000. Assim, aponta que o lançamento fiscal é nulo, pois a Autoridade Fiscal desconsiderou o fato de que a Impugnante possui decisão judicial em vigor que autoriza a adoção do FAP “neutro” (igual a 1.000). Afirma também que a imposição da multa de ofício é ilegal, dado que o pretenso crédito tributário está com a sua exigibilidade suspensa por determinação judicial. Alega que a Autoridade Fiscal não respeitou o inciso III do art. 10 do Decreto 70.235, de 1972 (PAF), pois não descreveu com precisão (i) a matéria tributável; (ii) o fato gerador, com a respectiva discriminação da base de cálculo e (iii) os fatos que infringiram a legislação tributária. Destarte, a Autuação é nula por cerceamento da defesa, nos termos do inciso II do art. 59, também do PAF. Ressalta que, conforme atesta a documentação juntada (doc. 02), a Impugnante possui medida judicial que almeja o reconhecimento da ilegalidade e inconstitucionalidade do FAP, na qual foi proferida decisão, em 13/01/2010, que permite a adoção do FAP “neutro”, correspondente a 1.000. Dessa forma, conclui que a lavratura do Auto de Infração é medida totalmente infundada, despicienda e contrária a decisão judicial em vigor. Via de consequência, a inexigibilidade do crédito tributário também denota a total ilegalidade a cobrança da multa de ofício, por força do que determina o art. 63 da Lei nº 9.430/1996, que afasta a imposição da multa de ofício quando houver, Fl. 8353DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 5 dentre outras, a suspensão da exigibilidade com base em decisão judicial, como ocorre no presente caso. Complementa citando julgados do CARF afastando a multa de ofício em casos de suspensão da exigibilidade do crédito em razão de liminar em mandado de segurança. Com relação ao adicional para aposentadoria especial, cita o art. 293 da IN 971/2009, artigos 57 e 58 da Lei 8.213/1991 e aduz que a legislação determina que a eventual cobrança da contribuição RAT adicional deve estar estritamente baseada na análise de documentos que evidenciem: • A existência de agentes nocivos no ambiente de trabalho; • A identificação de quais os empregados expostos aos agentes nocivos e os níveis de exposição; • As medidas de controle e prevenção adotadas pela empresa; e • As informações prestadas pela empresa ao Fisco. Informa que a Sra. Agente Fiscal requereu a apresentação da relação de empregados que obtiveram o benefício da aposentadoria especial no ano de 2018 e, posteriormente, cópia dos documentos PPRA - Programa de Prevenção de Riscos Ambientais, PPP - Perfil Profissiográfico Previdenciário e Folhas de pagamento de todos os segurados (empregados, contribuintes individuais e trabalhadores avulsos) no formato MANAD (GFIP e e-Social) referente à matriz e todas as filiais, o que foi fiel e integralmente atendido pela Impugnante. Aduz ainda que, após analisar os documentos apresentados pela Impugnante, ao invés de avaliar detalhadamente quais eram os empregados efetivamente expostos ao agente nocivo ruído, o nível de exposição e as medidas protetivas adotadas pela Impugnante, a Sra. Agente Fiscal optou por presumir que todos os empregados que possuíam o mesmo CBO daqueles que obtiveram o benefício da aposentadoria especial fariam jus ao benefício e, portanto, seria devida a contribuição RAT adicional. Entende que essa medida, além de contrariar o procedimento descrito na legislação, desvirtua a realidade dos fatos, uma vez que o PPRA, oportunamente apresentado pela Impugnante, deixa claro que existem empregados de um mesmo setor, até mesmo com o mesmo CBO, que estão sujeitos a níveis distintos de exposição ao ruído. Acrescenta que entre o Termo de Início do Procedimento Fiscal e a lavratura do Auto de Infração transcorreram mais de 18 (dezoito) meses, período em que foram apresentados 9 (nove) “Termos de Ciência e Continuação de Procedimento Fiscal” sem qualquer solicitação de esclarecimentos por parte da Sra. Agente Fiscal. Argumenta que a mera disponibilização de uma planilha que indica a competência, a base de cálculo e o CBO dos empregados da Impugnante – sem qualquer fundamento legal ou explicação dos motivos que ensejaram a autuação Fl. 8354DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 6 – não se presta, sob qualquer circunstância, a preencher os requisitos estipulados nos arts. 10, III e 59, II do Decreto nº 70.235/72. Alega que tal medida, em última análise, prejudica o pleno exercício da ampla defesa e do contraditório pela Impugnante, que teve prazo exíguo para entender o racional adotado pela Sra. Agente Fiscal e buscar elementos para refutá-lo. Afirma também que a falta de indicação pormenorizada e precisa dos fatos e fundamentos que motivaram a cobrança impede qualquer exercício do direito de defesa da Impugnante, que não possui todos os elementos necessários para confrontar o que está sendo exigido. Entende que não se trata de meros vícios formais, pois os vícios apontados vão muito além dos aspectos formais do lançamento ou da mera ausência de motivação ou descrição incompleta dos fatos. No presente caso, alega que se verifica total ausência no relatório fiscal da indicação dos elementos que levaram à concretização da norma descrita na regra matriz de incidência tributária. Segue contestando o lançamento baseado em mera presunção, cita o art. 142 do CTN e conclui que, não tendo a Sra. Agente Fiscal adotado os critérios legais adequados para a apuração e cobrança da contribuição RAT adicional, se está diante de lançamento fiscal baseado em mera presunção, motivo pelo qual o lançamento fiscal deve ser declarado integralmente nulo. Repete que apresentou todos os documentos solicitados e que, por isso, não seria cabível no caso o arbitramento previsto no art. 33, §6º da Lei 8.212/1991. Cita jurisprudência nesse sentido. Portanto, entende que por qualquer ângulo que se analise a questão, sobressai a conclusão de que o lançamento fiscal carece de fundamentação fática e legal, motivo pelo qual deve ser declarado integralmente nulo. Cita os arts. 57 e 58 da Lei 8.213/91, trechos do Ato Declaratório Interpretativo RFB 2/2019 e afirma que o entendimento da RFB carece de fundamento legal (lei, em sentido estrito) e é contrário à jurisprudência aplicável. Reproduz excertos da decisão do STF (RE 664.335/SC) e afirma que o entendimento apresentado pelo Ministro Relator Luiz Fux é de inquestionável clareza e assertividade: é legítima a presunção de que a mera indicação de EPI eficaz pela empresa – quando desacompanhada da real demonstração de ausência dos potenciais e/ou efetivos danos causados pelo agente nocivo à saúde do trabalhador – não elide o direito à obtenção da aposentadoria especial. Por outro lado, ressalta que nos casos em que for comprovado que os potenciais e/ou efetivos danos à saúde causados pelo agente nocivo foram afastados, em virtude da concessão de Equipamento de Proteção e o acompanhamento de sua utilização, não se justifica a concessão da aposentadoria especial. Fl. 8355DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 7 Alega, então, que o Ato Declaratório Interpretativo RFB nº 2/2019 não reflete corretamente a interpretação dada pelo STF a respeito do tema, tampouco o disposto nos artigos 57 e 58 da Lei nº 8.212/1991. Em consequência, pede que o presente lançamento fiscal seja julgado integralmente improcedente, por manifesta ilegalidade. Cita o art. 150, III, da Constituição Federal e aduz que mesmo na remota hipótese de prosperar a interpretação contida no Ato Declaratório Interpretativo RFB nº 2/2019, fato incontroverso é o de que jamais poderia ser aplicado ao presente caso, cujo período em discussão é do ano de 2018. Argumenta também que não foi levado em conta a eficiência de seus EPIs e, não tendo a Sra. Agente Fiscal solicitado quaisquer informações acerca das medidas adotadas pela Impugnante para garantir a eficácia dos seus Equipamentos de Proteção, tampouco tecido quaisquer comentários a respeito do tema, resta evidenciada a adoção de uma presunção absoluta e equivocada para a lavratura do presente Auto de Infração, o que é juridicamente inadmissível. Ressalta que o procedimento adotado pela Sra. Agente Fiscal desconsidera, sem qualquer motivação, todos os investimentos e medidas de segurança realizados pela Impugnante, os seus controles e suas políticas internas relacionados à prevenção da ocorrência de doença e acidentes, a seriedade e dedicação da mão- de-obra exclusivamente alocada para a gestão da saúde e segurança dos trabalhadores. Enfim, entende que o procedimento adotado pela Sra. Agente Fiscal vai na contramão da garantia constitucional da proteção dos trabalhadores. Cita julgado do CARF com entendimento contrário à manutenção de lançamento lastreado em presunção, sem comprovação da efetiva exposição aos agentes nocivos, e conclui que o lançamento fiscal carece de fundamentos fáticos e legais que lhe deem suporte, motivo pelo qual não poderá prosperar. Referido acórdão foi assim ementado: ASSUNTO: Contribuições Sociais Previdenciárias Ano-calendário: 2018 APOSENTADORIA ESPECIAL. FINANCIAMENTO. ADICIONAL DO GILRAT. AGENTE NOCIVO RUÍDO. Na hipótese de exposição do trabalhador a ruído acima dos limites legais de tolerância, a declaração do empregador, no âmbito do Perfil Profissiográfico Previdenciário (PPP), no sentido da eficácia do Equipamento de Proteção Individual – EPI, não descaracteriza o tempo de serviço especial para aposentadoria, conforme tese fixada no Agravo do Recurso Extraordinário 664.335/SC relativa ao Tema 555 do STF. Fl. 8356DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 8 Cientificado do resultado do julgamento em 16/10/2023, uma segunda-feira (fls. 5.306), a parte-recorrente interpôs o presente recurso voluntário em 16/11/2023, uma quinta- feira (fls. 5.309), no qual se sustenta, sinteticamente: a) A metodologia utilizada para cobrança da contribuição adicional do RAT, com base exclusiva na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), ofende os arts. 57 e 58 da Lei nº 8.213/1991 e o art. 293 da Instrução Normativa RFB nº 971/2009, porquanto presume a exposição dos empregados ao agente nocivo ruído sem a devida comprovação técnica individualizada, contrariando os requisitos legais para caracterização da atividade especial. b) A manutenção da cobrança da contribuição adicional do RAT, apesar da existência de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) eficazes, contraria o entendimento do Supremo Tribunal Federal no RE nº 664.335/SC (Tema 555), na medida em que admite prova em sentido contrário à presunção de nocividade da exposição ao ruído, especialmente quando demonstrada a neutralização efetiva do risco. c) A inclusão de valores relativos à diferença do FAP (Fator Acidentário de Prevenção), fere o art. 63 da Lei nº 9.430/1996, uma vez que a parte-recorrente possui decisão judicial vigente que lhe autoriza a aplicação do FAP neutro (1.000), o que afasta a exigibilidade do crédito e impede a imposição de multa de ofício. d) A lavratura do Auto de Infração viola o art. 142 do Código Tributário Nacional, por ausência de motivação técnico-probatória, dado que o lançamento se baseou em presunções e não em provas individualizadas extraídas dos documentos apresentados pela parte-recorrente. e) A ausência de análise técnica dos documentos de saúde e segurança do trabalho apresentados, fere o contraditório e a ampla defesa, uma vez que desconsidera as provas constantes dos autos, que demonstram que os trabalhadores não estavam, em sua totalidade, sujeitos a níveis de ruído superiores ao limite legal. f) A exigência da contribuição adicional do RAT contraria os princípios da legalidade e da capacidade contributiva, porquanto impõe obrigação tributária sem base fática ou jurídica suficiente, resultando em cobrança desprovida de respaldo normativo. g) A não exclusão da multa de ofício nos lançamentos com exigibilidade suspensa desrespeita o art. 63 da Lei nº 9.430/1996 e a jurisprudência consolidada do CARF, que afasta a penalidade em casos de lançamento para prevenir decadência com crédito suspenso por decisão judicial. h) A presunção de nocividade baseada em nível de ruído acima de 85 dB(A), desconsidera evidências técnicas (como o estudo da ABNT de 2019), segundo as Fl. 8357DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 9 quais apenas níveis superiores a 120 dB justificariam preocupação com efeitos adversos mesmo com o uso de EPI eficaz. Diante do exposto, pede-se, textualmente: “78. Diante de todo o exposto, a Recorrente requer seja reformado o Acórdão recorrido, para que: (i) Seja declarada NULA a autuação fiscal, na medida em que: • Em relação às diferenças de RAT, relacionadas ao FAP, não há fundamento legal para a cobrança de diferenças decorrentes da não aplicação do FAP-2018, tampouco que permita o lançamento da multa de ofício, já que a Impugnante possui decisão judicial em vigor que suspende a exigibilidade do tributo; e • Em relação à contribuição RAT adicional, destinada ao custeio da aposentadoria especial, o critério adotado para a cobrança configura mera presunção, desprovida de fundamento legal e contrária à realidade dos fatos. Porém, caso assim não se entenda, que: (ii) Seja declarada INTEGRALMENTE IMPROCEDENTE a autuação fiscal, uma vez que: • Em relação às diferenças de RAT, é ilegal a cobrança de tributo cuja exigibilidade está suspensa, assim como é ilegal a aplicação da multa de ofício, por conta da decisão judicial em vigor; • Em relação à contribuição RAT adicional, não houve a obrigatória desqualificação da informação prestada pela Impugnante, de que os potenciais prejuízos causados pela exposição ao agente nocivo ruído, acima do limite de tolerância, foi efetivamente afastado pela utilização dos EPIs.” Convertido o julgamento em diligência (Resolução CARF 2202-001.003 – fls. 5.838- 5;8340), sobreveio relatório de diligência fiscal (fls. 5.848-5.851), bem como manifestação da parte-recorrente (fls. 8.306-8.313). Requerimento para juntada de memorial aos autos, formulado em 18/11/2025, foi indeferido, porquanto a orientação indica que esse tipo de documento deve ser apresentado a tempo e modo próprios, pelo canal adequado (fls. 8.318). É o relatório. VOTO Fl. 8358DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 10 Conselheiro Thiago Buschinelli Sorrentino, Relator 1 CONHECIMENTO Presentes os pressupostos, conheço parcialmente do recurso voluntário, com exceção da matéria indicada a seguir. Aplicação do Fator Acidentário de Prevenção (FAP) e decisão judicial O acórdão da DRJ reconheceu que a parte-recorrente apresentou cópia de decisão judicial que a autorizaria a aplicar o FAP neutro (1,000), conforme consignado nos autos do processo judicial nº 0002492-19.2010.4.03.6100. Entretanto, o órgão julgador considerou que não foi comprovada a vigência da referida liminar no período fiscalizado (ano-calendário de 2018), razão pela qual entendeu não haver óbice à exigência fiscal. Com base nisso, considerou legítima a aplicação do FAP superior ao neutro, conforme valores divulgados pela Previdência Social para o estabelecimento da empresa. Consequentemente, manteve o lançamento na parte correspondente à diferença de alíquota do RAT ajustado, bem como a imposição da multa de ofício, por entender ausente causa suspensiva da exigibilidade. A parte-recorrente afirma que possui decisão judicial válida e vigente desde 13/01/2010, proferida pelo Juízo Federal da 2ª Vara de São Bernardo do Campo/SP, que suspende os efeitos do ato administrativo que lhe atribuiu FAP superior a 1,000, garantindo-lhe o direito à aplicação da alíquota neutra. Sustenta que tal decisão se manteve eficaz durante todo o período fiscalizado, não havendo qualquer revogação ou cassação judicial. Defende que a autoridade lançadora ignorou os efeitos da decisão judicial, violando os arts. 151, II e 63 da Lei nº 9.430/96, que vedam a constituição de crédito tributário e a imposição de multa de ofício quando a exigibilidade do crédito estiver suspensa. Afirma, ainda, que não cabe à autoridade fiscal ou à DRJ reavaliar a vigência ou os efeitos da decisão judicial, salvo mediante provocação ao juízo competente, o que não ocorreu. Nos termos da Súmula CARF nº 1, aprovada pelo Pleno do Conselho em 2006 e dotada de caráter vinculante nos termos da Portaria ME nº 12.975/2021, “Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo [...]”. Fl. 8359DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 11 Aplicando esse entendimento ao caso concreto, a matéria concernente à validade e à eficácia da decisão judicial que assegura a aplicação do FAP neutro não pode ser objeto de análise no âmbito deste julgamento administrativo, por consistir em objeto direto da ação judicial proposta pela parte-recorrente perante a Justiça Federal, conforme comprovação constante dos autos. Conforme o disposto no art. 151, II, do CTN, e no art. 63 da Lei nº 9.430/96, a existência de medida judicial suspensiva da exigibilidade do crédito tributário impede a constituição válida do lançamento correspondente e a aplicação da multa de ofício. Contudo, nos termos da jurisprudência firmada deste Conselho, e especialmente à luz da Súmula nº 1, não cabe ao CARF, nem tampouco à autoridade julgadora de primeira instância, reavaliar os efeitos ou o alcance da decisão judicial. Tal competência é exclusiva do juízo que a proferiu. Assim, no caso em exame, a existência da decisão judicial torna a matéria estranha à jurisdição administrativa. Compete, portanto, à autoridade responsável pela liquidação do crédito tributário adotar as medidas necessárias ao cumprimento da ordem judicial, inclusive quanto à eventual exclusão dos valores indevidamente incluídos no lançamento e à inaplicabilidade da multa de ofício. Diante do exposto, reconhece-se que a matéria relativa à aplicação do FAP neutro está sub judice e constitui objeto de ação judicial previamente proposta, atraindo a aplicação da Súmula CARF, o que impede o seu conhecimento por este Conselho, sem prejuízo da observância obrigatória da decisão judicial pela autoridade competente para a liquidação e cobrança do crédito. 2 MÉRITO 2.1 ERRO NA DEFINIÇÃO DA ALÍQUOTA REFERENTE AO GILRAT, DECORRENTE DA MÁ- APRECIAÇÃO DO CONJUNTO PROBATÓRIO, DADA A NECESSIDADE DE AFERIÇÃO DO RISCO EFETIVO DA EXPOSIÇÃO DE CONDIÇÃO NOCIVA AO TRABALHADOR - RUÍDO. 2.1.1 AS QUESTÕES DE FUNDO Há duas questões de fundo determinantes devolvidas ao conhecimento deste Colegiado. A primeira delas consiste em se decidir se a circunstância de o recorrente eventualmente neutralizar ou mitigar os danos e os riscos aos trabalhadores, decorrente da exposição de ruídos, impede o ajuste da alíquota da Contribuição Social destinada ao Custeio da Previdência Social, pertinente à aposentadoria especial (Grau de Incidência de Incapacidade Laborativa decorrente dos Riscos Ambientais do Trabalho - GIIL-RAT ou GILRAT), segundo a orientação vinculante firmada pelo Supremo Tribunal Federal. Fl. 8360DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 12 Se a resposta for positiva, surge a questão pertinente ao tipo e consequências do vício constante em lançamento baseado, linearmente, na impossibilidade ou na inutilidade de comprovação da neutralização ou da mitigação dos riscos e danos causados pela exposição ao ruído, como agente nocivo. Essa matéria está, atualmente, sujeita à orientação vinculante do Supremo Tribunal Federal. Desse modo, é imprescindível bem compreender essa orientação, para aplica-la, ao caso em julgamento. 2.1.2 NECESSIDADE DE EXAME CUIDADOSO DO ALCANCE DA ORIENTAÇÃO VINCULANTE. IDENTIFICAÇÃO DE CRITÉRIOS DETERMINANTES PARA APLICAÇÃO PRESSUPÕE AFASTAMENTO DE EVENTUAIS DISTINÇÕES (TÉCNICA DO DISTINGUISHING) O emprego da técnica de distinção não viola a autoridade do precedente, que permanece intacta, pois a razão para se deixar de aplicar a orientação então firmada é a divergência entre os pressupostos fáticos-jurídicos determinantes, isto é, a falta de incidência e de subsunção (Duxbury, N. (2008). The Nature and Authority of Precedent. Cambridge: Cambridge University Press. doi:10.1017/CBO9780511818684). Como bem observou o Min. Victor Nunes Leal, não se deve estender o espectro de aplicabilidade de uma orientação jurisprudencial para âmbito alheio ao que permitem os critérios determinantes que fundamentaram o precedente. Num debate pouco conhecido havido no Supremo Tribunal Federal – STF, durante o julgamento de um recurso extraordinário que não costuma ser encontrado na base de pesquisa aberta ao público, mantida pela Corte, o Ministro Victor Nunes Leal registrou um aviso cardeal àqueles que desejassem bem aplicar os enunciados sumulares, como instrumentos de estabilização de precedentes. Como se sabe, deve-se ao Ministro Victor Nunes Leal a adoção da “Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal” como técnica decisória, destinada a assegurar homogeneidade, segurança jurídica e celeridade à atuação jurisdicional do STF. Na assentada em que julgado o RE 54.190, os colegas do Ministro Victor Nunes Leal estenderam a aplicação da Súmula 303/STF para uma suposta elipse nela contida. Dado o enunciado afirmar que um dado tributo não seria devido antes de 21/11/1961, alguns ministros entenderam que o enunciado permitira a tributação após aquela data. Evidentemente, o texto sumular não comportava essa interpretação, pois havia outros fundamentos determinantes que poderiam invalidar a tributação após a data indicada, e que nela não constavam, simplesmente porque o Tribunal não os havia examinado. Diferentemente do recurso voluntário, apenas o recurso extraordinário baseado no art. 102, III, b da Constituição e aquele sujeito ao regime da repercussão geral têm a causa de Fl. 8361DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 13 pedir aberta. Os demais recursos extraordinários têm a causa de pedir fechada, de modo que a Corte não pode conhecer de novos fundamentos. Disse o Ministro Victor Nunes Leal, à época: “O Sr. Ministro Victor Nunes: Exatamente por isso, eminente Ministro Gonçalves de Oliveira, é que me parece não estar previsto. [...] O Sr. Ministro Victor Nunes: Retomando o fio de meu raciocínio, contraditado, antecipadamente, pelos eminentes Ministros Gonçalves de Oliveira e Pedro Chaves7, peço vênia para uma consideração preliminar. Se tivermos de interpretar a Súmula com todos os recursos de hermenêutica, como interpretamos as leis, parece-me que a Súmula perderá sua principal vantagem. Muitas vezes, será apenas uma nova complicação sobre as complicações já existentes. A Súmula deve ser entendida pelo que exprime claramente, e não a contrario sensu, com entrelinhas, ampliações ou restrições. Ela pretende pôr termo a dúvidas de interpretação e não gerar outras dúvidas. No ponto em debate, a Súmula declara que não é devido o selo nos contratos celebrados anteriormente à Emenda Constitucional 5. Mas não afirma que, celebrado o contrato posteriormente, o selo seja devido. [...] O Sr. Ministro Victor Nunes: A Súmula foi criada para pôr termo a dúvidas. Se ela própria puder ser objeto de interpretação laboriosa, de modo que tenhamos de interpretar, com novas dúvidas, o sentido da Súmula, então ela perderá a sua razão de ser. [...] O Sr. Ministro Victor Nunes: Faço um apelo aos eminentes colegas, para não interpretarmos a Súmula de forma diferente do que nela se exprime, intencional e claramente. Do contrário, ela falhará, em grande parte, à sua finalidade. Quando a Súmula afirma que não é devido o selo se o contrato for celebrado anteriormente à vigência da Emenda Constitucional 5, sobre esta afirmação, e somente sobre ela, é que já está tranqüila a orientação do Tribunal. Quanto a ser devido o selo nos contratos posteriores, o Tribunal Pleno ainda não definiu a sua jurisprudência”. Acautelados pelo aviso do responsável pela introdução do sistema sumular em nosso ordenamento jurídico, devemos dar máxima efetividade ao que diz os textos dos precedentes vinculantes, sem, contudo, estendê-los para hipóteses diversas. Em sentido semelhante, a necessidade de análise prévia da aplicabilidade do precedente é essencial, conforme reconhecido pelo Superior Tribunal de Justiça, no seguinte julgado: Fl. 8362DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 14 Inicialmente, cabe frisar que a aplicação de um precedente judicial [...] apenas pode ocorrer após a aplicação da técnica da distinção (distinguishing), a qual se refere a um método de comparação entre a hipótese em julgamento e o precedente que se deseja a ela aplicar. A aplicação de tese firmada em sede de recurso repetitivo a uma outra hipótese não é automática, devendo ser fruto de uma leitura dos contornos fáticos e jurídicos das situações em comparação pela qual se verifica se a hipótese em julgamento é análoga ou não ao paradigma. Dessa forma, para aplicação de um precedente, é imperioso que exista similitude fática e jurídica entre a situação em análise com o precedente que visa aplicar. A jurisprudência deste STJ aplica a técnica da distinção (distinguishing), a fim de reputar se determinada situação é análoga ou não a determinado precedente. Nesse sentido: RE nos EDcl nos EDcl no REsp 1.504.753/AL, 3ª Turma, DJe 29/09/2017); REsp 1.414.391/DF, 3ª Turma, DJe 17/05/2016; e, AgInt no RE no AgRg nos EREsp 1.039.364/ES, Corte Especial, DJe 06/02/2018. (AgInt nos EDcl no AREsp n. 1.254.567/SP, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 14/8/2018, DJe de 16/8/2018.) Nesse momento, é importante lembrar: aplicar uma orientação lógica ou semanticamente incompatível com os elementos determinantes colhidos do quadro fático equivaleria a violar a norma judicialmente construída, assim como aplicar equivocadamente uma norma promanada do legislativo equivale a negar-lhe vigência, por vias oblíquas. Portanto, deve-se analisar os critérios determinantes da legislação de regência, tal como fixados pelo STF. 2.2 PROPOSTA DE REEXAME DA QUESTÃO, DEVIDO À NOVA FORMAÇÃO DO COLEGIADO Esta 2ª Turma, em precedente de minha relatoria, no qual restei vencido, inaugurou orientação sobre a manutenção da presunção da invencibilidade da nocividade do agente ambiental ruído. Referido acórdão foi assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2019 a 31/12/2020 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. PRELIMINAR DE NULIDADE. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO. ALEGADA CONTRARIEDADE ÀS PROVAS Fl. 8363DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 15 CONSTANTES DOS AUTOS E ÀS ALEGAÇÕES RECURSAIS. CONFUSÃO OU SOBREPOSIÇÃO À ARGUMENTAÇÃO DE MÉRITO. REJEIÇÃO. Se o órgão julgador de origem alegadamente errou, por apreciar equivocadamente as provas apresentadas, ou por falhar na aplicação de precedentes vinculantes firmados pelo Supremo Tribunal Federal, além de orientações da própria administração tributária, tais questões se revelam matéria de fundo, próprias de revisão da fundamentação recursal (error in judicando), e não, propriamente, erro de procedimento ou de aplicação de normas regulamentares da atividade decisória (error in judicando). PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. JULGAMENTO PELA DELEGACIA REGIONAL (DRJ). PRELIMINAR DE NULIDADE POR CERCEAMENTO DE DEFESA. NEGATIVA DE REALIZAÇÃO DE PERÍCIA. ANODICIDADE OU FALTA DE UTILIDADE PROCESSUAL. REJEIÇÃO. Nos termos da Súmula CARF 163, “o indeferimento fundamentado de requerimento de diligência ou perícia não configura cerceamento do direito de defesa, sendo facultado ao órgão julgador indeferir aquelas que considerar prescindíveis ou impraticáveis”. A circunstância de o órgão julgador de origem considerar desnecessária a realização de diligência, para aferir o risco concreto e específico de exposição dos trabalhadores ao agente nocivo, porquanto se teve por deflagrador do dever de pagamento da aposentadoria especial a mera presença de benzeno no ambiente de trabalho, em qualquer quantidade, não viola o art. 59, II do Decreto 70.235/1972. De fato, se o critério determinante para aplicação da alíquota ajustada é a simples presença de benzeno no ambiente, a aferição do risco efetivo e concreto, tal como mitigado pelas salvaguardas adotadas pelo recorrente, perde a utilidade. AGENTE NOCIVO RUÍDO ACIMA DO LIMITE LEGAL. INEFICÁCIA DE UTILIZAÇÃO DE EPI. EXIGIBILIDADE DO ADICIONAL DE CONTRIBUIÇÃO. As empresas que tenham empregados expostos ao agente nocivo “ruído” acima dos limites de tolerância não têm elidida, pelo fornecimento de EPI, a obrigação de recolhimento da Contribuição Social para o Financiamento da Aposentadoria Especial, conforme entendimento esposado na Súmula 9 da Turma Nacional dos Juizados Especiais Federais e de julgado do pleno do STF no ARE 664335, sessão 09/12/2014, em sede de Repercussão Geral. SÚMULA CARF 46. APLICABILIDADE AO EXAME DA CONTRIBUIÇÃO CALCULADA COM BASE NO GILRAT. ALCANCE. Nos termos da Sùmula CARF 46, o “ lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário”. No caso do GILRAT, essa aplicação somente seria crível no caso de o único elemento disponível ao sujeito passivo ser a declaração unilateral do PPP, já declarada iníqua pelo STF. Nas demais hipóteses, a autoridade não poderia pressupor a anodicidade dos EPIs Fl. 8364DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 16 ou de outros instrumentos de proteção eventualmente utilizados pelo sujeito passivo. AGENTE NOCIVO BENZENO. ANÁLISE QUALITATIVA. A avaliação de riscos do agente nocivo do benzeno é qualitativa, com nocividade presumida e independente de mensuração, constatada pela simples presença do agente no ambiente de trabalho. Havendo exposição a agente nocivo reconhecidamente cancerígeno para humanos, a mera presença no ambiente de trabalho já basta à comprovação da exposição efetiva do trabalhador, sendo suficiente a avaliação qualitativa e irrelevante, para fins de contagem especial, a utilização de EPI eficaz. Acórdão nº 2202-010.507, RV 10530.724661/2023-94, Relator THIAGO BUSCHINELLI SORRENTINO, Redatora Designada SARA MARIA DE ALMEIDA CARNEIRO SILVA, sessão de 06/03/2024 Desde então, em homenagem ao Princípio do Colegiado, não vinculante legalmente, mas no qual deposito alto valor pessoal, vinha aplicando essa orientação nos processos de minha relatoria, e em votos vogais, nos julgamentos de recursos relatados pelos eminentes colegas. Segundo argumenta o sábio juiz da Suprema Corte de Israel, AHARON BARAK, ao discorrer sobre o papel de um magistrado em uma democracia (The Judge in a Democracy. Mercer County: Princeton University Press, 2009, p. 209-211), uma das funções da adjudicação é estabilizar expectativas, de modo a conferir previsibilidade e segurança jurídica. Portanto, uma vez que um dado colegiado tiver apreciado uma matéria, seria de bom aviso aos julgadores vencidos que aderissem à posição vencedora, em nome do que chamaríamos aqui de “Princípio do Colegiado”. Não obstante, em questões tidas por essenciais à própria jurisdição, prossegue BARAK, deve o juiz insistir em divergência, nas hipóteses em que houver oportunidade para convencimento da maioria sobre a solução adequada a ser tomada. Evidentemente, o CARF não é um órgão jurisdicional, e seus conselheiros não são juízes. O papel do exame do recurso voluntário é realizar controle de legalidade, e não de validade amplo (SORRENTINO, Thiago B. Pode o fisco ajuizar ação para rever decisão administrativa favorável ao contribuinte?. Revista de Doutrina Jurídica, Brasília, DF, v. 111, n. 2, p. 205–225, 2020. DOI: 10.22477/rdj.v111i2.613). Contudo, há espaços de intersecção entre a jurisdição e a atividade de controle administrativo, tal como estruturada no âmbito federal, e essa sobreposição pontual permite aplicar a orientação sugerida por BARAK, acerca da necessária estabilidade e previsibilidade após o Fl. 8365DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 17 exame de uma determinada questão pelo colegiado, e sobre as hipóteses que sugeririam a necessidade de propor a revisão de entendimentos já tomados. Ademais, por idiossincrasia, também deposito enorme valor à observância das orientações firmadas pelo Supremo Tribunal Federal, e, como testemunha privilegiada da formação de alguns dos respectivos precedentes, entendo que as vicissitudes das técnicas decisórias e da política de formação e da mutação de entendimentos impõem dificuldades e riscos adicionais, nem sempre visíveis, nem previsíveis, aos olhos do auditório mais amplo. Dado que houve mudança substancial na composição deste Colegiado, e que os próprios debates acerca da matéria evoluíram nos âmbitos judiciais, administrativos, acadêmicos e da sociedade civil (ressaltada a contribuição individual dispersa e descentralizada), peço licença aos colegas para reintroduzir o debate. 2.2.1 CRITÉRIOS DETERMINANTES: FICÇÃO OU PRESUNÇÃO DA NOCIVIDADE DO RUÍDO PRECEDENTES NÃO VINCULANTES DESTE CARF RECUPERAM DO ACÓRDÃO PROLATADO PELO STF DUAS CONCLUSÕES DETERMINANTES: a) SEMPRE HAVERÁ O DEVER DE RECOLHIMENTO DE VALORES A TÍTULO DE AJUSTE PARA CUSTEIO DA APOSENTADORIA ESPECIAL, INDEPENDENTEMENTE DE QUALQUER SALVAGUARDA ADOTADA, POIS OS EMPREGADOS E CONTRATADOS SUJEITOS AO AMBIENTE RUIDOSO TAMBÉM SEMPRE FARÃO JUS À ESSA MODALIDADE DE APOSENTADORIA (REGRA DO BENEFÍCIO OU DO CUSTEIO); b) SEMPRE HAVERÁ O DEVER DE RECOLHIMENTO DE VALORES A TÍTULO DE AJUSTE PARA CUSTEIO DA APOSENTADORIA ESPECIAL, INDEPENDENTEMENTE DE QUALQUER SALVAGUARDA ADOTADA, POIS INEXISTEM MEIOS TECNICAMENTE EFICAZES DE NEUTRALIZAÇÃO OU MITIGAÇÃO DOS DANOS CAUSADOS PELA EXPOSIÇÃO AO RUÍDO. PEÇO LICENÇA PARA EXPOR UM JUÍZO DIVERSO. SEM PREJUÍZO DE UMA RELEITURA OPORTUNA DO QUADRO FÁTICO-JURÍDICO, OBSERVO QUE O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, POR OCASIÃO DO JULGAMENTO DO ARE 664.335, FIXOU A SEGUINTE ORIENTAÇÃO, VINCULANTE: a) O DIREITO À APOSENTADORIA ESPECIAL PRESSUPÕE A EFETIVA EXPOSIÇÃO DO TRABALHADOR A AGENTE NOCIVO A SUA SAÚDE, DE MODO QUE, SE O EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL (EPI) FOR REALMENTE CAPAZ DE NEUTRALIZAR A NOCIVIDADE, NÃO HAVERÁ RESPALDO CONSTITUCIONAL À APOSENTADORIA ESPECIAL; Fl. 8366DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 18 b) NA HIPÓTESE DE EXPOSIÇÃO DO TRABALHADOR A RUÍDO ACIMA DOS LIMITES LEGAIS DE TOLERÂNCIA, A DECLARAÇÃO DO EMPREGADOR, NO ÂMBITO DO PERFIL PROFISSIOGRÁFICO PREVIDENCIÁRIO (PPP), DA EFICÁCIA DO EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL (EPI), NÃO DESCARACTERIZA O TEMPO DE SERVIÇO ESPECIAL PARA APOSENTADORIA. APENAS PARA REFERÊNCIA, TRANSCREVO A EMENTA DO PRECEDENTE: RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. DIREITO CONSTITUCIONAL PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA ESPECIAL. ART. 201, § 1°, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. REQUISITOS DE CARACTERIZAÇÃO. TEMPO DE SERVIÇO PRESTADO SOB CONDIÇÕES NOCIVAS. FORNECIMENTO DE EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL - EPI. TEMA COM REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA PELO PLENÁRIO VIRTUAL. EFETIVA EXPOSIÇÃO A AGENTES NOCIVOS À SAÚDE. NEUTRALIZAÇÃO DA RELAÇÃO NOCIVA ENTRE O AGENTE INSALUBRE E O TRABALHADOR. COMPROVAÇÃO NO PERFIL PROFISSIOGRÁFICO PREVIDENCIÁRIO PPP OU SIMILAR. NÃO CARACTERIZAÇÃO DOS PRESSUPOSTOS HÁBEIS À CONCESSÃO DE APOSENTADORIA ESPECIAL. CASO CONCRETO. AGENTE NOCIVO RUÍDO. UTILIZAÇÃO DE EPI. EFICÁCIA. REDUÇÃO DA NOCIVIDADE. CENÁRIO ATUAL. IMPOSSIBILIDADE DE NEUTRALIZAÇÃO. NÃO DESCARACTERIZAÇÃO DAS CONDIÇÕES PREJUDICIAIS. BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO DEVIDO. AGRAVO CONHECIDO PARA NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. 1. CONDUZ À ADMISSIBILIDADE DO RECURSO EXTRAORDINÁRIO A DENSIDADE CONSTITUCIONAL, NO ARESTO RECORRIDO, DO DIREITO FUNDAMENTAL À PREVIDÊNCIA SOCIAL (ART. 201, CRFB/88), COM REFLEXOS MEDIATOS NOS CÂNONES CONSTITUCIONAIS DO DIREITO À VIDA (ART. 5°, CAPUT, CRFB/88), À SAÚDE (ARTS. 3°, 5° E 196, CRFB/88), À DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA (ART. 1°, III, CRFB/88) E AO MEIO AMBIENTE DE TRABALHO EQUILIBRADO (ARTS. 193 E 225, CRFB/88). 2. A ELIMINAÇÃO DAS ATIVIDADES LABORAIS NOCIVAS DEVE SER A META MAIOR DA SOCIEDADE -ESTADO, EMPRESARIADO, TRABALHADORES E REPRESENTANTES SINDICAIS -, QUE DEVEM VOLTAR-SE INCESSANTEMENTE PARA COM A DEFESA DA SAÚDE DOS TRABALHADORES, COMO ENUNCIA A CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA, AO ERIGIR COMO PILARES DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO A DIGNIDADE HUMANA (ART. 1°, III, CRFB/88), A VALORIZAÇÃO SOCIAL DO TRABALHO, A PRESERVAÇÃO DA VIDA E DA SAÚDE (ART. 3°, 5°, E 196, CRFB/88), E O MEIO AMBIENTE DE TRABALHO EQUILIBRADO (ART. 193, E 225, CRFB/88). 3. A APOSENTADORIA ESPECIAL PREVISTA NO ARTIGO 201, § 1°, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA, SIGNIFICA QUE PODERÃO SER ADOTADOS, PARA CONCESSÃO DE APOSENTADORIAS AOS BENEFICIÁRIOS DO REGIME GERAL DE PREVIDÊNCIA SOCIAL, REQUISITOS E CRITÉRIOS Fl. 8367DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 19 DIFERENCIADOS NOS "CASOS DE ATIVIDADES EXERCIDAS SOB CONDIÇÕES ESPECIAIS QUE PREJUDIQUEM A SAÚDE OU A INTEGRIDADE FÍSICA, E QUANDO SE TRATAR DE SEGURADOS PORTADORES DE DEFICIÊNCIA, NOS TERMOS DEFINIDOS EM LEI COMPLEMENTAR". 4. A APOSENTADORIA ESPECIAL POSSUI NÍTIDO CARÁTER PREVENTIVO E IMPÕE-SE PARA AQUELES TRABALHADORES QUE LABORAM EXPOSTOS A AGENTES PREJUDICIAIS À SAÚDE E A FORTIORI POSSUEM UM DESGASTE NATURALMENTE MAIOR, POR QUE NÃO SE LHES PODE EXIGIR O CUMPRIMENTO DO MESMO TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO QUE AQUELES EMPREGADOS QUE NÃO SE ENCONTRAM EXPOSTOS A NENHUM AGENTE NOCIVO. 5. A NORMA INSCRITA NO ART. 195, § 5°, CRFB/88, VEDA A CRIAÇÃO, MAJORAÇÃO OU EXTENSÃO DE BENEFÍCIO SEM A CORRESPONDENTE FONTE DE CUSTEIO, DISPOSIÇÃO DIRIGIDA AO LEGISLADOR ORDINÁRIO, SENDO INEXIGÍVEL QUANDO SE TRATAR DE BENEFÍCIO CRIADO DIRETAMENTE PELA CONSTITUIÇÃO. DEVERAS, O DIREITO À APOSENTADORIA ESPECIAL FOI OUTORGADO AOS SEUS DESTINATÁRIOS POR NORMA CONSTITUCIONAL (EM SUA ORIGEM O ART. 202, E ATUALMENTE O ART. 201, § 1°, CRFB/88). PRECEDENTES: RE 151.106 AGR/SP, REL. MIN. CELSO DE MELLO, JULGAMENTO EM 28/09/1993, PRIMEIRA TURMA, DJ DE 26/11/93; RE 220.742, REL. MIN. NÉRI DA SILVEIRA, JULGAMENTO EM 03/03/98, SEGUNDA TURMA, DJ DE 04/09/1998. 6. EXISTÊNCIA DE FONTE DE CUSTEIO PARA O DIREITO À APOSENTADORIA ESPECIAL ANTES, ATRAVÉS DOS INSTRUMENTOS TRADICIONAIS DE FINANCIAMENTO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL MENCIONADOS NO ART. 195, DA CRFB/88, E DEPOIS DA MEDIDA PROVISÓRIA N° 1.729/98, POSTERIORMENTE CONVERTIDA NA LEI N° 9.732, DE 11 DE DEZEMBRO DE 1998. LEGISLAÇÃO QUE, AO REFORMULAR O SEU MODELO DE FINANCIAMENTO, INSERIU OS §§ 6° E 7° NO ART. 57 DA LEI N.° 8.213/91, E ESTABELECEU QUE ESTE BENEFÍCIO SERÁ FINANCIADO COM RECURSOS PROVENIENTES DA CONTRIBUIÇÃO DE QUE TRATA O INCISO II DO ART. 22 DA LEI N° 8.212/91, CUJAS ALÍQUOTAS SERÃO ACRESCIDAS DE DOZE, NOVE OU SEIS PONTOS PERCENTUAIS, CONFORME A ATIVIDADE EXERCIDA PELO SEGURADO A SERVIÇO DA EMPRESA PERMITA A CONCESSÃO DE APOSENTADORIA ESPECIAL APÓS QUINZE, VINTE OU VINTE E CINCO ANOS DE CONTRIBUIÇÃO, RESPECTIVAMENTE. 7. POR OUTRO LADO, O ART. 10 DA LEI N° 10.666/2003, AO CRIAR O FATOR ACIDENTÁRIO DE PREVENÇÃO-FAP, CONCEDEU REDUÇÃO DE ATÉ 50% DO VALOR DESTA CONTRIBUIÇÃO EM FAVOR DAS EMPRESAS QUE DISPONIBILIZEM AOS SEUS EMPREGADOS EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO DECLARADOS EFICAZES NOS FORMULÁRIOS PREVISTOS NA LEGISLAÇÃO, O QUAL FUNCIONA COMO INCENTIVO PARA QUE AS EMPRESAS CONTINUEM A CUMPRIR A SUA FUNÇÃO SOCIAL, PROPORCIONANDO UM AMBIENTE DE TRABALHO HÍGIDO A SEUS TRABALHADORES. 8. O RISCO SOCIAL APLICÁVEL AO BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO DA APOSENTADORIA ESPECIAL É O EXERCÍCIO DE ATIVIDADE EM CONDIÇÕES PREJUDICIAIS À SAÚDE OU À INTEGRIDADE FÍSICA (CRFB/88, ART. 201, § 1°), DE FORMA QUE TORNA INDISPENSÁVEL QUE O INDIVÍDUO TRABALHE EXPOSTO A UMA NOCIVIDADE NOTADAMENTE CAPAZ DE ENSEJAR O REFERIDO DANO, PORQUANTO A TUTELA LEGAL CONSIDERA A EXPOSIÇÃO DO SEGURADO PELO RISCO PRESUMIDO PRESENTE NA RELAÇÃO ENTRE AGENTE NOCIVO E O TRABALHADOR. 9. A INTERPRETAÇÃO DO INSTITUTO DA APOSENTADORIA ESPECIAL MAIS CONSENTÂNEA COM O TEXTO CONSTITUCIONAL É AQUELA QUE CONDUZ A UMA PROTEÇÃO EFETIVA DO TRABALHADOR, Fl. 8368DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 20 CONSIDERANDO O BENEFÍCIO DA APOSENTADORIA ESPECIAL EXCEPCIONAL, DESTINADO AO SEGURADO QUE EFETIVAMENTE EXERCEU SUAS ATIVIDADES LABORATIVAS EM "CONDIÇÕES ESPECIAIS QUE PREJUDIQUEM A SAÚDE OU A INTEGRIDADE FÍSICA". 10. CONSECTARIAMENTE, A PRIMEIRA TESE OBJETIVA QUE SE FIRMA É: O DIREITO À APOSENTADORIA ESPECIAL PRESSUPÕE A EFETIVA EXPOSIÇÃO DO TRABALHADOR A AGENTE NOCIVO À SUA SAÚDE, DE MODO QUE, SE O EPI FOR REALMENTE CAPAZ DE NEUTRALIZAR A NOCIVIDADE NÃO HAVERÁ RESPALDO CONSTITUCIONAL À APOSENTADORIA ESPECIAL. 11. A ADMINISTRAÇÃO PODERÁ, NO EXERCÍCIO DA FISCALIZAÇÃO, AFERIR AS INFORMAÇÕES PRESTADAS PELA EMPRESA, SEM PREJUÍZO DO INAFASTÁVEL JUDICIAL REVIEW. EM CASO DE DIVERGÊNCIA OU DÚVIDA SOBRE A REAL EFICÁCIA DO EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL, A PREMISSA A NORTEAR A ADMINISTRAÇÃO E O JUDICIÁRIO É PELO RECONHECIMENTO DO DIREITO AO BENEFÍCIO DA APOSENTADORIA ESPECIAL. ISTO PORQUE O USO DE EPI, NO CASO CONCRETO, PODE NÃO SE AFIGURAR SUFICIENTE PARA DESCARACTERIZAR COMPLETAMENTE A RELAÇÃO NOCIVA A QUE O EMPREGADO SE SUBMETE. 12. IN CASU, TRATANDO-SE ESPECIFICAMENTE DO AGENTE NOCIVO RUÍDO, DESDE QUE EM LIMITES ACIMA DO LIMITE LEGAL, CONSTATA-SE QUE, APESAR DO USO DE EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL (PROTETOR AURICULAR) REDUZIR A AGRESSIVIDADE DO RUÍDO A UM NÍVEL TOLERÁVEL, ATÉ NO MESMO PATAMAR DA NORMALIDADE, A POTÊNCIA DO SOM EM TAIS AMBIENTES CAUSA DANOS AO ORGANISMO QUE VÃO MUITO ALÉM DAQUELES RELACIONADOS À PERDA DAS FUNÇÕES AUDITIVAS. O BENEFÍCIO PREVISTO NESTE ARTIGO SERÁ FINANCIADO COM OS RECURSOS PROVENIENTES DA CONTRIBUIÇÃO DE QUE TRATA O INCISO II DO ART. 22 DA LEI NO 8.212, DE 24 DE JULHO DE 1991, CUJAS ALÍQUOTAS SERÃO ACRESCIDAS DE DOZE, NOVE OU SEIS PONTOS PERCENTUAIS, CONFORME A ATIVIDADE EXERCIDA PELO SEGURADO A SERVIÇO DA EMPRESA PERMITA A CONCESSÃO DE APOSENTADORIA ESPECIAL APÓS QUINZE, VINTE OU VINTE E CINCO ANOS DE CONTRIBUIÇÃO, RESPECTIVAMENTE. O BENEFÍCIO PREVISTO NESTE ARTIGO SERÁ FINANCIADO COM OS RECURSOS PROVENIENTES DA CONTRIBUIÇÃO DE QUE TRATA O INCISO II DO ART. 22 DA LEI NO 8.212, DE 24 DE JULHO DE 1991, CUJAS ALÍQUOTAS SERÃO ACRESCIDAS DE DOZE, NOVE OU SEIS PONTOS PERCENTUAIS, CONFORME A ATIVIDADE EXERCIDA PELO SEGURADO A SERVIÇO DA EMPRESA PERMITA A CONCESSÃO DE APOSENTADORIA ESPECIAL APÓS QUINZE, VINTE OU VINTE E CINCO ANOS DE CONTRIBUIÇÃO, RESPECTIVAMENTE. 13. AINDA QUE SE PUDESSE ACEITAR QUE O PROBLEMA CAUSADO PELA EXPOSIÇÃO AO RUÍDO RELACIONASSE APENAS À PERDA DAS FUNÇÕES AUDITIVAS, O QUE INDUBITAVELMENTE NÃO É O CASO, É CERTO QUE NÃO SE PODE GARANTIR UMA EFICÁCIA REAL NA ELIMINAÇÃO DOS EFEITOS DO AGENTE NOCIVO RUÍDO COM A SIMPLES UTILIZAÇÃO DE EPI, POIS SÃO INÚMEROS OS FATORES QUE INFLUENCIAM NA SUA EFETIVIDADE, DENTRO DOS QUAIS MUITOS SÃO IMPASSÍVEIS DE UM CONTROLE EFETIVO, TANTO PELAS EMPRESAS, QUANTO PELOS TRABALHADORES. 14. DESSE MODO, A SEGUNDA TESE FIXADA NESTE RECURSO EXTRAORDINÁRIO É A SEGUINTE: NA HIPÓTESE DE EXPOSIÇÃO DO TRABALHADOR A RUÍDO ACIMA DOS LIMITES LEGAIS DE TOLERÂNCIA, A DECLARAÇÃO DO EMPREGADOR, NO ÂMBITO DO PERFIL PROFISSIOGRÁFICO PREVIDENCIÁRIO (PPP), NO SENTIDO DA EFICÁCIA DO EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL - EPI, NÃO DESCARACTERIZA O TEMPO DE SERVIÇO ESPECIAL PARA APOSENTADORIA. 15. AGRAVO CONHECIDO PARA NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. Fl. 8369DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 21 ARE 664335, RELATOR(A): LUIZ FUX, TRIBUNAL PLENO, JULGADO EM 04-12-2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJE-029 DIVULG 11-02-2015 PUBLIC 12-02- 2015 CONFORME TIVE A OPORTUNIDADE DE EXPOR POR OCASIÃO DO IX SEMINÁRIO CARF DE DIREITO TRIBUTÁRIO E ADUANEIRO, E EM TEXTO AUXILIAR QUE DEVE SER PUBLICADO ACERCA DESSE EVENTO, NÃO É TRIVIAL DETERMINAR OS CRITÉRIOS DECISÓRIOS DETERMINANTES DE UMA DECISÃO PROFERIDA PELOS TRIBUNAIS SUPERIORES, ESPECIALMENTE NO ÂMBITO DO CONTROLE ADMINISTRATIVO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. EM ESPECIAL, ESTAMOS A TRATAR DE PRECEDENTE QUE VERSOU SOBRE MATÉRIA PREVIDENCIÁRIA, E CUJA INCURSÃO NA SEARA TRIBUTÁRIA FOI, QUANDO MUITO, TANGENCIAL, DESTINADA APENAS A ENDEREÇAR AS PREOCUPAÇÕES DA PROCURADORIA-GERAL DO INSS SOBRE O ATENDIMENTO DA REGRA DA REFERIBILIDADE (ART. 195, CAPUT E § 5° DA CONSTITUIÇÃO – ARGUMENTO POR CONSEQUÊNCIAS ). COM BASE NA CONCEPÇÃO DE WICKSELL, REFERENTE AO PRINCÍPIO DO BENEFÍCIO, AQUI EXTRAPOLADA PARA O CAMPO DA VALIDADE LEGAL (INFRACONSTITUCIONAL) DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO, TENHO POR VINCULANTE OS SEGUINTES CRITÉRIOS DECISÓRIOS DETERMINANTES, ADOTADOS PELO STF NO PRECEDENTE INDICADO, CONQUANTO QUE PARA FINS PREVIDENCIÁRIOS: a) O PAGAMENTO DE REMUNERAÇÃO A EMPREGADOS OU CONTRATADOS ATUANTES EM ATIVIDADES SUJEITAS À APOSENTADORIA ESPECIAL, SUBMETIDOS A RUÍDO SUPERIOR A 85 DB, IMPLICA O AJUSTE DA ALÍQUOTA (OU A INCIDÊNCIA DO TRIBUTO ESPECÍFICO, CONFORME SE ENTENDA), SEGUNDO O GILRAT. b) A DECLARAÇÃO DO EMPREGADOR, NO ÂMBITO DO PERFIL PROFISSIOGRÁFICO PREVIDENCIÁRIO (PPP), NO SENTIDO DA EFICÁCIA DO EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL - EPI, NÃO DESCARACTERIZA O TEMPO DE SERVIÇO ESPECIAL PARA APOSENTADORIA. A PROPÓSITO, CONFIRAM-SE OS SEGUINTES PRECEDENTES: NUMERO DO PROCESSO: 10580.722503/2020-61 TURMA:SEGUNDA TURMA ORDINÁRIA DA SEGUNDA CÂMARA DA SEGUNDA SEÇÃO CÂMARA: SEGUNDA CÂMARA SEÇÃO: SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Data da sessão:Thu Feb 02 00:00:00 UTC 2023 Data da publicação: Tue May 09 00:00:00 UTC 2023 Fl. 8370DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 22 Ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2016 a 31/12/2017 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO VOLUNTÁRIO. DUPLO GRAU DO CONTENCIOSO TRIBUTÁRIO. JUÍZO DE ADMISSIBILIDADE. CONHECIMENTO PARCIAL. MATÉRIA NÃO CONSTANTE NA IMPUGNAÇÃO QUE INSTAUROU O LITÍGIO. INOVAÇÕES. PRECLUSÃO. Em procedimento de exigência fiscal o contencioso administrativo instaura-se com a impugnação, que delineia especificamente a matéria a ser tornada controvertida, considerando-se preclusa a específica controvérsia que não tenha sido diretamente indicada ao debate naquela oportunidade. Inadmissível a apreciação em grau de recurso voluntário de ponto novo não apresentado para enfrentamento por ocasião da impugnação. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2016 a 31/12/2017 LANÇAMENTO FISCAL. ADICIONAL PARA CUSTEIO DE APOSENTADORIA ESPECIAL. A existência de segurados que prestam serviço em condições especiais e prejudiciais à saúde ou à integridade física obriga a empresa ao recolhimento do adicional para financiamento do benefício da aposentadoria especial, nos termos do art. 57, § 6°, da Lei n° 8.213/91 c/c art. 22, inciso II, da Lei n° 8.212/91. ADICIONAL DESTINADO AO FINANCIAMENTO DO BENEFÍCIO DE APOSENTADORIA ESPECIAL. PRÉVIA INSPEÇÃO "IN LOCO". DESNECESSIDADE. A legislação tributária não demanda a verificação "in loco" para a constatação da efetiva exposição dos empregados aos agentes nocivos, como requisito necessário, indispensável e prévio à constituição do crédito tributário relativo ao adicional destinado ao financiamento do benefício de aposentadoria especial. AGENTE NOCIVO BENZENO. ANÁLISE QUALITATIVA. A avaliação de riscos do agente nocivo do benzeno é qualitativa, com nocividade presumida e independente de mensuração, constatada pela simples presença do agente no ambiente de trabalho. Havendo exposição a agente nocivo reconhecidamente cancerígeno para humanos, a mera presença no ambiente de trabalho já basta à comprovação da exposição efetiva do trabalhador, sendo suficiente a avaliação qualitativa e irrelevante, para fins de contagem especial, a utilização de EPI eficaz. Fl. 8371DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 23 AGENTE NOCIVO RUÍDO. ANÁLISE QUANTITATIVA DE ACORDO COM METODOLOGIA DA FUNDACENTRO. As empresas que tenham empregados expostos ao agente nocivo "ruído" a Níveis de Exposição Normalizados (NEN) superiores a 85 dB(A) estão obrigadas a recolher o adicional para financiamento do benefício da aposentadoria especial. Numero da decisão:2202-009.597 Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso, deixando de conhecer o capítulo "Dos Demais Erros Constatados na Revisão da Base de Cálculo"; e na parte conhecida, dar-lhe provimento parcial, para decotar da base de cálculo do lançamento a remuneração do trabalhador Lincolne de Souza Santos em relação a todas as competências do ano de 2016. (documento assinado digitalmente) Mário Hermes Soares Campos - Presidente (documento assinado digitalmente) Leonam Rocha de Medeiros - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Sara Maria de Almeida Carneiro Silva, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Sonia de Queiroz Accioly, Leonam Rocha de Medeiros, Martin da Silva Gesto e Mário Hermes Soares Campos (Presidente). Ausente o conselheiro Christiano Rocha Pinheiro. Nome do relator: LEONAM ROCHA DE MEDEIROS Numero do processo: 12045.000552/2007-65 Turma:Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção Câmara: Segunda Câmara Seção: Segunda Seção de Julgamento Data da sessão:Wed Jul 10 00:00:00 UTC 2019 Data da publicação: Tue Aug 13 00:00:00 UTC 2019 Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/04/1999 a 28/02/2004 DECADÊNCIA. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. TRIBUTOS LANÇADOS POR HOMOLOGAÇÃO. APLICAÇÃO DO ART. 150, § 4° DO CTN. COMPROVAÇÃO DE INÍCIO DE PAGAMENTO. Tratando-se de tributos sujeitos à homologação e comprovada a ocorrência de antecipação de pagamento, aplica-se, quanto à decadência, a regra do art. 150, § 4 ° do CTN. Não constatada a ocorrência de recolhimento, ainda que parcial, incide a regra geral do art. 173, I do CTN, segundo a qual o prazo quinquenal de Fl. 8372DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 24 decadência é contado a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. ADICIONAL PARA FINANCIAMENTO DA APOSENTADORIA ESPECIAL. DOCUMENTO EXTEMPORÂNEO. LANÇAMENTO POR ARBITRAMENTO Havendo apresentação deficitária dos documentos necessários à comprovação do efetivo gerenciamento de riscos no ambiente de trabalho, tal como laudo extemporâneo à competência autuada, deve a autoridade fiscalizadora proceder ao lançamento por arbitramento. AGENTE NOCIVO RUÍDO. EXPOSIÇÃO ACIMA DO LIMITE DE TOLERÂNCIA DO MTE. CONFIGURAÇÃO DA APOSENTADORIA ESPECIAL. O STF decidiu no ARE/SC n° 664335, em repercussão geral, que no caso de exposição do trabalhador ao agente nocivo ruído em nível acima do limite de tolerância definido pelo MTE, o uso de EPI eficaz não tem o condão de afastar a configuração da aposentadoria especial. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. BIS IN IDEM. INOCORRÊNCIA. Não há ocorrência de bis in idem por aplicação em duplicidade de multa, quando esta tem fatos geradores diversos: descumprimento da obrigação principal e descumprimento de obrigação acessória, tendo em vista serem obrigações tributárias distintas, e, portanto, passíveis de distintas penalizações. Numero da decisão:2202-005.305 Decisão:Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson - Presidente (assinado digitalmente) Ludmila Mara Monteiro de Oliveira - Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ludmila Mara Monteiro de Oliveira (Relatora), Leonam Rocha de Medeiros, Marcelo de Sousa Sáteles, Martin da Silva Gesto, Ricardo Chiavegatto de Lima, Rorildo Barbosa Correia, Ronnie Soares Anderson (Presidente) e Thiago Duca Amoni (Suplente Convocado). Ausente a Conselheira Andréa de Moraes Chieregatto. Nome do relator:LUDMILA MARA MONTEIRO DE OLIVEIRA A ambos os critérios, acresço os dois seguintes critérios: a) Não viola os arts. 142, par. ún., 145, III e 149 do CTN; 50 da Lei 9.784/1999, associados à Súmula 473/STF, nem o art. 59, II do Decreto 70.235+1972, o ato de lançamento que rejeite imotivadamente a declaração do empregador, no âmbito do Perfil Profissiográfico Previdenciário (PPP), no sentido da eficácia do Equipamento de Proteção Individual - EPI, por tal declaração não descaracterizar o tempo de Fl. 8373DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 25 serviço especial para aposentadoria, nos termos da citada orientação vinculante do STF; b) Viola os arts. 142, par. ún., 145, III e 149 do CTN; 50 da Lei 9.784/1999, associados à Súmula 473/STF, bem como o art. 59, II do Decreto 70.235+1972, o ato de lançamento que rejeite imotivadamente declarações consubstanciadas em outros elementos probatórios, que não se reduzam ao PPP. O que me parece ausente do precedente vinculante é a conclusão de que, em qualquer universo possível, ou seja, em todos, quaisquer e cada um dos casos concretos, inexistiria qualquer modo de neutralização ou de mitigação dos danos causados pela exposição ao ruído. Essa conclusão é inferida ou extrapolada, mas, rigorosamente, não está em nenhum dos elementos até agora identificados a partir do texto do precedente. Assim, se for possível conceber, ainda que conjenturalmente, a possibilidade técnica de neutralização ou de mitigação dos efeitos deletérios, caberia ao sujeito passivo apresentá-los à autoridade lançadora, para formação do respectivo juízo, fosse ele de aceitação ou de rejeição. O que não poderia ser feito é a rejeição linear e liminar dessa possibilidade. Retiro essa conclusão, acerca da possibilidade teórica de comprovação da neutralidade ou da mitigação dos danos causados pela exposição ao ruído, da composição entre as razões de decidir constantes dos votos dos min. Luiz Fux e Roberto Barroso. Como exposto há pouco, a leitura que transforma a presunção em ficção construtiva adota dois fundamentos determinantes para concluir pela inexorável incidência da alíquota de ajuste (ou específica), se houver a exposição a ruídos acima de 85 db: a) Regra do benefício ou do custeio: sempre haverá o dever de pagar proventos de aposentadoria especial, então sempre haverá o dever de custeio específico dessa despesa; b) Bloqueio empírico: inexistem meios técnicos para neutralizar ou mitigar os efeitos da exposição ao ruído. Como se lê no voto-vogal do min. Roberto Barroso, que muito impressionou ao min. Luiz Fux, não há correlação direta e inequívoca entre a concessão de proventos por aposentadoria especial e o custeio isolado a cargo do empregador ou do contratante. Fl. 8374DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 26 Por oportuno, anoto os seguintes trechos de referido voto: 60. Conclui o INSS que, caso seja mantida a aposentadoria especial na hipótese de o empregador ter afirmado no PPP o uso de EPI eficaz, e assim ter obtido a redução de 50% da SAT especial, teria ocorrido a criação de benefício previdenciário sem a corresponde fonte de custeio. Assim, seriam oneradas empresas que não desempenham atividades insalubres, em contrariedade à teleologia da Lei n. 9.732/98 e ao próprio princípio da isonomia. 61. A meu ver, não assiste razão ao INSS. Note-se que a norma inscrita no art. 195, § 5°, da CF veda a criação, majoração ou extensão de benefício sem a correspondente fonte de custeio. Ocorre que diversas razões evidenciam que o reconhecimento do direito à aposentadoria especial a trabalhador exposto a ruído acima dos limites de tolerância, quando o empregador declara no PPP ter lhe fornecido EPI eficaz, não consiste em criação, majoração ou extensão de benefício por força de decisão judicial, como equivocadamente se sustenta. [...] 67. Não há dúvida acerca da constitucionalidade desse novo modelo de financiamento da aposentadoria especial, diante do seu propósito de onerar apenas as empresas que desempenham atividades insalubres (as quais geram o direito à aposentadoria especial), em consonância ao princípio da isonomia. Porém, é um rematado equívoco considerar ausente a fonte de custeio da aposentadoria especial pelo fato de as empresas haverem obtido redução de 50% do SAT especial por terem declarado no PPP a disponibilização de EPI eficaz. 68. Primeiro, porque as aposentadorias especiais serão custeadas pelos demais instrumentos de financiamento da seguridade social (recursos orçamentários e contribuições sociais) e pelos restantes 50% do SAT especial. Segundo, porque a exigência de prévia fonte de custeio se projeta para o plano normativo, e não sobre os planos da interpretação e aplicação da legislação tributária. Assim, diante da instituição legal das fontes de custeio da aposentadoria especial (recursos orçamentários, contribuições sociais em geral, e especialmente o SAT especial) eventuais questões afetas à exigibilidade, ou não, do pagamento do tributo por determinadas empresas não afastam a precedência da fonte de custeio. 69. Terceiro, porque não podem ser desconsiderados os incentivos econômicos a que o empregador declare, no perfil profissiográfico previdenciário, a eficácia do EPI para a neutralização do agente nocivo a que seus trabalhadores se encontram expostos, tendo em vista a expressiva redução tributária obtida (50% do SAT especial, que corresponde a doze, nove ou seis por cento do valor da folha de salários das empresas que desempenhem atividades que permitam a aposentadoria após quinze, vinte ou vinte e cinco anos, respectivamente.) Fl. 8375DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 27 Em relação ao bloqueio empírico, as observações do min. Roberto Barroso são inequívocas em três sentidos: a) Atualmente (i.e., no momento do julgamento, e consideradas as deficiências conhecidas da inquirição no controle de constitucionalidade concentrado), segundo o estado da arte tecnológico, o isolado uso de EPIs seria insuficiente para neutralizar os dados causados pela exposição ao ruído (o INSS desejava firmar a suficiência dos EPIs, para impedir a concessão da aposentadoria especial); b) Não obstante, haveria outras salvaguardas, mais eficazes, capazes de contribuir para debelar os danos da exposição ao ruído, como os EPCs. A orientação firmada pelo STF não afasta, peremptoriamente, que a associação de salvaguardas possa efetivamente isolar o trabalhador contra o agente nocivo; c) Trata-se de orientação condicional, pela técnica de transição se, enquanto, isto é, dependente das circunstâncias de cada quadro fático. De fato, a utilização de técnicas condicionais, como a constitucionalidade ou inconstitucionalidade transitória, dependente essencialmente do quadro fático (a técnica se, então), é algo tomado como básico na seara da jurisdição estratégica (o “contencioso estratégico perante os Tribunais Superiores”, no jargão), mas não é amplamente estudada nas graduações, pós-graduações e no treinamento técnico de profissionais jurídicos ou paralegais. Em apoio às conclusões expostas, transcrevo os seguintes trechos do voto do min. Roberto Barroso: 11. O segundo argumento diz respeito à inviabilidade de os equipamentos de proteção individual eliminarem ou neutralizarem, por completo, o prejuízo à saúde causado pelas condições especiais de trabalho. Especificamente em relação ao ruído, salienta-se a existência de um sem-número de variáveis de campo que limitam a eficácia do EPI. Por exemplo, as diferentes formações do aparelho auricular dificultam a sua vedação completa, ao passo que condições de higiene e de uso inadequadas limitam bastante a eficácia do EPI. São também destacados os efeitos extra-auditivos da exposição ao ruído, notadamente os distúrbios causados aos sistemas gastrointestinal, cardiovascular e psiquiátrico, que causam aumento da pressão arterial, estresse, ansiedade, irritação, náuseas, tonturas etc. Por fim, salienta-se que os ruídos são absorvidos não só pela via aérea, mas também pela via óssea, em razão da vibração mecânica de ossos, cartilagens e músculos envoltos no aparelho auditivo. Concluem ser evidente a inviabilidade de um protetor auricular eliminar esses diversos danos à saúde causados pela presença de ruído no ambiente de trabalho acima dos limites de tolerância. Fl. 8376DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 28 12. Em razão de todas essas restrições à sua eficácia, sustentam haver consenso científico de que os equipamentos de proteção individual consistem em medidas emergenciais e paliativas, que só deveriam ser usados após o emprego dos equipamentos e medidas de proteção coletiva, os quais têm maior eficácia na garantia da salubridade do ambiente de trabalho. [...] 17. Proponho que o Tribunal limite o seu pronunciamento, em sede de repercussão geral, à hipótese de exposição do trabalhador a ruído acima dos limites legais de tolerância. Penso que essa redução temática se justifica amplamente. A questão original exigiria que o Tribunal examinasse a eficácia do EPI para a neutralização de todos os agentes nocivos à saúde do trabalhador, abordando não apenas, mas decerto todos aqueles previstos no rol exemplificativo da Norma Regulamentadora n. 15 do Ministério do Trabalho (NR- 15): [...] 31. Portanto, considero que o direito à aposentadoria especial pressupõe a efetiva exposição do trabalhador a agente nocivo à sua saúde (embora não exija a perda da capacidade laborativa), de modo que, se o EPI for realmente capaz de neutralizar a nocividade não haverá respaldo constitucional à aposentadoria especial. [...] 38. Com efeito, a posição majoritária na doutrina previdenciária afirma a inviabilidade da exclusão da aposentadoria especial mediante declaração do empregador, no âmbito do PPP, de que o equipamento de proteção individual elimina a nocividade da exposição do trabalhador a ruído acima dos limites de tolerância. [... ] [...] 43. Segundo, o entendimento vertido na Súmula n. 9 do TNU e no Enunciado n. 21 do CRPS não se choca com a compreensão de que somente a efetiva exposição do trabalhador ao agente nocivo é capaz de justificar a aposentadoria especial. Ao contrário, há, especificamente em relação ao agente ruído, uma série de estudos técnicos que sustentam que os equipamentos de proteção individual são ineficazes para a eliminação ou neutralização da nocividade da exposição do trabalhador a ruído para além dos limites de tolerância. [...] [...]. O argumento igualmente desconsidera que o conhecimento padrão e as NRs 6 e 9 do Ministério do Trabalho preconizam a prioridade dos equipamentos de proteção coletiva em face dos individuais, enquanto a tese do INSS levaria à priorização, na prática, dos equipamentos individuais em detrimento dos coletivos, diante do menor custo que os primeiros, via de regra, possuem. Fl. 8377DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 29 [...] 55. Note-se, por fim, que o tema em análise se sujeita à - rápida - evolução tecnológica. Portanto, a solução aqui preconizada deve ser compreendida como provisória, pois, se atualmente prevalece a compreensão de que não há neutralização completa da nocividade da exposição a ruído acima dos limites de tolerância, no futuro podem ser desenvolvidos equipamentos, treinamentos e sistemas de fiscalização que garantam a eliminação dos riscos à saúde do trabalhador. (grifamos) No caso em exame, o acórdão-recorrido considerou que a utilização de equipamentos de proteção individual seria anódinos ou irrelevantes para mitigar ou neutralizar o risco causado pelo ruído, acima dos índices de tolerância natural (“nua”), de modo a transformar tal critério em "qualitativo", no léxico adotado pelas decisões deste CARF. O entendimento do julgado citado tornou-se obrigatório a partir da 12/02/2015, de modo que, considerando a caracterização de tempo especial mesmo com a utilização de equipamentos de proteção individual (EPIs) no caso de ruído acima do limite de tolerância de 85 dB(A), é devido o adicional da contribuição previdenciária para custeio do benefício especial. A meu sentir, o órgão julgador de origem destoou da orientação fixada pelo STF, na medida em que ela não é linear, de modo a considerar inútil a utilização de meios para calibração dos danos causados pela exposição ao ruído, para fins previdenciários (e, por extrapolação, tributários, dada a ideia adaptada de WICKSELL). O que o STF reconheceu como insuficiente foi a declaração no PPP, tão-somente. Desse modo, a autoridade lançadora não poderia ter desconsiderado os laudos apresentados pelo sujeito passivo, que não se limitassem a replicar o quanto declarado no PPP. Nesse ponto, é imprescindível reiterar meu entendimento pessoal de que o julgamento do recurso voluntário, ou da impugnação, são inaptos para suprir eventuais deficiências do ato de constituição do crédito tributário. A rejeição aos laudos de que dispusesse o então sujeito passivo em fiscalização deve ser feito pela autoridade competente, que é a autoridade lançadora. Se a autoridade lançadora não os examinou, por entendê-los inúteis, a partir da ficção (e não presunção) de que seria impossível provar a neutralização ou a mitigação dos danos, faltaria à motivação do ato administrativo elemento essencial para definição da alíquota. Dito de outro modo, a impugnação e o respectivo julgamento pela DRJ não fazem parte da constituição do crédito tributário, por não servem à inauguração ou ao reforço de seus motivos, nem de sua fundamentação. Para contextualizar, cabe a aplicação adequada da Súmula CARF 46. Conforme observam SZENTE e LACHMEYER (SZENTE et al., 2016): Fl. 8378DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 30 A observância da prolação de decisões administrativas aos requisitos tanto da lei quanto de direitos fundamentais é necessária para a aceitação dos atos administrativos um exercício legítimo do poder público. A imprescindibilidade da motivação decorre do caráter plenamente vinculado do lançamento (art. 142, par. ún., 145, III e 149 do CTN, associados à Súmula 473/STF) e da circunstância de ele se tratar de ato administrativo (art. 50 da Lei 9.784/1999). Afinal, sabe-se que "a presunção de validade do lançamento tributário será tão forte quanto for a consistência de sua motivação, revelada pelo processo administrativo de constituição do crédito tributário" (AI 718.963-AgR, Segunda Turma, julgado em 26/10/2010, DJe- 230 DIVULG 29-11-2010 PUBLIC 30-11-2010 EMENT VOL-02441-02 PP-00430), e, dessa forma, o processo administrativo de controle da validade do crédito tributário pauta-se pela busca do preciso valor do crédito tributário. A propósito, "[...] por respeito à regra da legalidade, à indisponibilidade do interesse público e da propriedade, a constituição do crédito tributário deve sempre ser atividade administrativa plenamente vinculada. É ônus da Administração não exceder a carga tributária efetivamente autorizada pelo exercício da vontade popular. Assim, a presunção de validade juris tantum do lançamento pressupõe que as autoridades fiscais tenham utilizado os meios de que legalmente dispõem para aferir a ocorrência do fato gerador e a correta dimensão dos demais critérios da norma individual e concreta, como a base calculada, a alíquota e a sujeição passiva" RE 599194 AgR, Segunda Turma, julgado em 14/09/2010, DJe-190 DIVULG 07-10-2010 PUBLIC 08-10-2010 EMENT VOL-02418-08 PP-01610 RTJ VOL-00216-01 PP-00551 RDDT n. 183, 2010, p. 151-153 A relevância da preleção do min. VICTOR NUNES LEAL à atividade do CARF pode ser demonstrada a partir da Súmula CARF 46, que permite a realização do lançamento de ofício sem prévia intimação ao sujeito passivo, se dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. A condição prevista na permissão limita em grande monta o escopo de validação do lançamento por dever de ofício, especialmente nos casos em que documentos ou alegações do sujeito passivo necessitarem de afastamento ou infirmação, como tende a ocorrer no controle das Declarações de Ajuste Anual/Declaração do Imposto de Renda devido pela Pessoa Física (DAA/DIRPF). A colocação, em segundo plano, dessas alegações ou documentos, pressupõe tanto Fl. 8379DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 31 (a) motivação explícita (arts. 142, par. ún., 145, III e 149 do CTN, associados à Súmula 473/STF e ao art. 50 da Lei 9.784/1999), quanto a efetiva participação desse interessado no processo de controle (art. 59, II do Decreto 70.235/1972). A Súmula CARF 46 somente desvincula o dever de a autoridade motivar especificamente o lançamento, bem como deixar de considerar elementos probatórios em potencial posse do sujeito passivo, se eles forem absolutamente desnecessários, isto é, se a autoridade tiver elementos suficientes em si. No caso do GILRAT, essa aplicação somente seria crível no caso de O ÚNICO elemento disponível ao sujeito passivo ser a declaração unilateral do PPP. Nas demais hipóteses, não intuo como a autoridade poderia pressupor a anodicidade dos EPIs, especialmente aqueles que superassem o estado da arte contemporâneo ao exame do precedente vinculante pelo STF, ou de outros instrumentos de proteção, isolados ou associados (ainda mais se associados aos EpCs, Equipamentos de Proteção Coletiva). Como exemplos do atual estágio da evolução da compreensão sobre o quadro técnico, destaca-se: a) Ajuizamento da ADI 7.773; a interpretação do adicional ao RAT (Risco Ambiental do Trabalho) para exposição a ruído está sendo discutida judicialmente, com a Ação Direta de Inconstitucionalidade 7.773, buscando reverter a exigência de cobrança imposta pela Receita Federal. A Receita Federal (Ato Declaratório Interpretativo RFB 2/2019) teria consolidado o entendimento de que o uso de EPIs não descaracteriza o tempo de serviço especial, o que implica na incidência do adicional ao RAT. Já o STJ (Tema 1090) teria definiu que o uso de EPI, quando adequado, afastaria o adicional do RAT, mas exclui o agente ruído da aplicação da tese. Argumenta-se erro de leitura do Tema 555; b) Rediscussão da necessidade de concessão de adicionais relacionados à insalubridade no próprio âmbito da Justiça do Trabalho, dada a existência de prova técnica sobre a eficácia dos meios aplicados para anular ou mitigar os efeitos deletérios do ruído (cf., por todos, PROCESSO TST-Ag-EDCiv-RR - 0001013-60.2022.5.17.0003). Em conclusão parcial, sempre que se observar que (a) tanto a autoridade lançadora, como o órgão julgador de origem, consideraram juridicamente inúteis elementos probatórios tendentes a demonstrar a neutralização ou a mitigação dos danos, em contrariedade ao quanto firmado no julgamento do ARE 664.335, e, por tê-los como irrelevantes (transformação de presunção em ficção), ou, disjuntiva-inclusivamente, que (b) a autoridade lançadora deixou de Fl. 8380DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 32 considerar outros elementos relevantes, em potencial domínio do sujeito passivo, a majoração ou incidência da alíquota pertinente ao GILRAT violará os arts. 142, par. ún., 145, III e 149 do CTN; 50 da Lei 9.784/1999, associados à Súmula 473/STF, bem como o art. 59, II do Decreto 70.235/1972. 2.2.2 APLICAÇÃO AO QUADRO FÁTICO-JURÍDICO Originariamente, a autoridade lançadora constituiu crédito tributário relativo à Contribuição Previdenciária da Empresa e do Empregador, por ter identificado os seguintes fatos jurídicos tributários e as seguintes infrações: a) Infração: Divergência de GILRAT sobre bases declaradas de empregado, referente aos fatos geradores ocorridos entre 01/01/2018 e 31/12/2018, com fundamento nos seguintes dispositivos legais: a. Lei nº 8.212/91: art. 22, II; art. 32, IV; art. 33, caput e § 7º; b. Decreto nº 2.803/98; c. Decreto nº 3.048/99: art. 12, I e parágrafo único; art. 202, I a III e §§ 1º a 6º; art. 202-A, IV e §§ 1º a 4º; art. 225, caput e § 1º; art. 245, caput e § 1º; d. Decreto nº 6.957/09: arts. 2º e 4º; e. Lei nº 10.666/03: art. 10. b) Infração: Adicional de GILRAT para financiamento da aposentadoria especial – 25 anos – empresas em geral, também relativa ao período de 01/01/2018 a 31/12/2018, com fundamento nos seguintes dispositivos legais: a. Lei nº 8.212/91: art. 15, I e parágrafo único; art. 22, II; b. Lei nº 8.213/91: art. 57, §§ 6º e 7º; c. Lei nº 9.732/98: art. 6º, III; d. Decreto nº 3.048/99: art. 12, I, parágrafo único, I a IV; art. 202, I a III e §§ 1º a 5º. A autoridade fiscal, no exercício regular de suas atribuições, instaurou procedimento fiscal em face da parte-recorrente, Volkswagen do Brasil Indústria de Veículos Automotores Ltda., com vistas a apurar a regularidade das contribuições previdenciárias devidas à Seguridade Social, referentes ao período de janeiro a dezembro de 2018 e ao 13º salário do mesmo ano. Fl. 8381DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 33 Inicialmente, a fiscalização procedeu à intimação do contribuinte, solicitando planilhas e documentos que envolviam segurados empregados potencialmente beneficiários de aposentadoria especial, o que incluiu, entre outros, os documentos PPRA, PPP e folhas de pagamento no formato MANAD. Foram registrados diversos atos de intimação e de prorrogação de prazo ao longo do processo fiscal, tendo sido apresentados os documentos pela parte autuada, os quais foram analisados. A ação fiscal resultou na lavratura do auto de infração com base em duas constatações principais: 1) Adicional do RAT de 6% para custeio da aposentadoria especial: (a) Constatou-se que a parte-recorrente não declarou, em GFIP/eSocial, os segurados empregados cujas atividades foram caracterizadas como ensejadoras de aposentadoria especial. (b) A identificação se deu mediante análise dos códigos CBO constantes nos documentos ambientais apresentados (PPRA e PPP) e da relação de segurados. Foram apurados níveis de exposição a ruído superiores a 85 dB(A), configurando atividade especial. (c) A fiscalização elaborou uma lista dos códigos CBO associados a atividades com direito à aposentadoria especial e, com base nela, cruzou com os dados dos sistemas declaratórios, apurando omissões. (d) Foi lançado, portanto, o adicional de 6% sobre a remuneração dos segurados identificados, nos termos do art. 57 da Lei nº 8.213/91 e do art. 22, II, da Lei nº 8.212/91. 2) Divergências no cálculo do RAT ajustado: (a) A apuração revelou inconsistências entre o RAT ajustado (RAT multiplicado pelo FAP) declarado em GFIP/eSocial e o efetivamente aplicável conforme análise da fiscalização. Essas divergências, que resultaram em menor recolhimento das contribuições devidas, também fundamentaram parte do lançamento tributário. O relatório explicita que as informações e valores foram consolidados em anexos que acompanham o auto de infração (Anexos I a XVI), incluindo telas comprobatórias da não declaração e a memória de cálculo do lançamento. O contribuinte impugnou esse ato de constituição do crédito tributário, ao narrar que a fiscalização teria desconsiderado, de forma indevida, os documentos técnicos e legais apresentados, que comprovariam a inexistência de exposição habitual e permanente dos Fl. 8382DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 34 empregados a agentes nocivos em níveis superiores aos limites legais de tolerância, bem como a correta classificação e recolhimento das contribuições sobre o GILRAT e RAT ajustado. Argumentou, inicialmente, que a caracterização da exposição a agentes nocivos com base exclusivamente na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) e em supostos níveis de ruído, sem análise do efetivo exercício das atividades e da implementação de medidas de controle ambiental, seria insuficiente para fundamentar o lançamento de contribuição adicional para aposentadoria especial. Destacou que os documentos apresentados, i.e., PPRA, LTCAT e PPP, evidenciariam que os ambientes de trabalho estão em conformidade com os padrões de segurança e saúde ocupacional, com adoção de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) eficazes, devidamente registrados e monitorados, de forma a neutralizar a exposição a ruído, nos termos da legislação vigente e da jurisprudência administrativa do próprio CARF. Defendeu que a Instrução Normativa RFB nº 971/2009, vigente à época dos fatos geradores, exigiria a análise da efetiva exposição do trabalhador, em caráter habitual e permanente, não ocasional nem intermitente, a agentes nocivos. A autoridade fiscal, por outro lado, teria realizado uma análise abstrata, com base exclusivamente em CBOs e cruzamento de dados, sem inspecionar os locais de trabalho e sem considerar os laudos técnicos apresentados. Sustentou, ademais, que o Ato Declaratório Interpretativo RFB nº 2/2019, invocado pela fiscalização, não poderia retroagir para alcançar fatos geradores ocorridos em 2018, além de afrontar os princípios da legalidade e da segurança jurídica. No tocante ao RAT ajustado, impugnou as alegadas divergências com base na observância da legislação pertinente, sustentando que os valores informados em GFIP e eSocial decorreram da correta aplicação das alíquotas, considerando o Fator Acidentário de Prevenção (FAP) divulgado oficialmente e adotado conforme orientação normativa. Fundamentou sua impugnação em dispositivos legais da Constituição Federal, da Lei nº 8.213/91, da Lei nº 8.212/91, da Instrução Normativa RFB nº 971/2009, do Decreto nº 3.048/99 e da jurisprudência administrativa consolidada no âmbito do CARF, em especial os entendimentos que reconhecem a eficácia dos EPIs no afastamento da insalubridade e da necessidade de contribuição adicional. Ao final, pediu o cancelamento integral do crédito tributário constituído, por ausência de fato gerador da contribuição adicional de 6% e por inexistência de divergência no cálculo do RAT ajustado. Ao apreciar a impugnação, o órgão julgador de origem houve por bem julgá-la improcedente, por unanimidade de votos, mantendo integralmente o crédito tributário constituído. Segundo o voto do relator, Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil Rafael Rigoni dos Santos, não se reconheceu a nulidade do auto de infração, tendo em vista que o relatório Fl. 8383DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 35 fiscal teria descrito de forma adequada os fatos geradores, fundamentos legais e metodologias utilizadas, o que permitiu ao contribuinte o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa. No tocante às divergências relacionadas ao Fator Acidentário de Prevenção (FAP), o colegiado consignou que, embora a impugnante tenha alegado a existência de decisão judicial que lhe permitiria aplicar o FAP neutro (1,000), não teria sido apresentada, junto à impugnação, prova inequívoca da vigência da medida liminar para o período fiscalizado, conforme exigido pelo § 4º do art. 16 do Decreto nº 70.235/72. Quanto ao adicional de 6% do GILRAT para financiamento da aposentadoria especial, o julgamento reconheceu como legítima a metodologia adotada pela fiscalização, baseada em documentos fornecidos pela própria contribuinte (PPRA, PPP e relação de segurados aposentados), para relacionar códigos CBO expostos a ruído acima de 85 dB(A) e identificar os segurados não informados nos sistemas declaratórios. Rechaçou-se a alegação de que o lançamento teria sido presumido, uma vez que se baseou em elementos objetivos e documentais. O voto destacou que caberia à impugnante indicar, de forma precisa, os casos em que a exposição não teria ocorrido ou em que os EPIs utilizados teriam sido eficazes a ponto de afastar a insalubridade. No mérito, quanto ao argumento de que a eficácia dos EPIs afastaria a necessidade da contribuição adicional, o acórdão aplicou a tese fixada pelo Supremo Tribunal Federal no Tema 555 (RE 664.335/SC), segundo a qual, na hipótese de exposição a ruído acima dos limites legais, a mera declaração de eficácia dos EPIs no PPP não descaracteriza o tempo especial de serviço, tampouco afasta a obrigatoriedade da contribuição adicional prevista no art. 22, II, da Lei nº 8.212/91, combinada com o art. 57, §§ 6º e 7º, da Lei nº 8.213/91. Registrou-se que, mesmo após investimentos em proteção, a exposição ao agente ruído continua a demandar custeio específico, tendo em vista os potenciais danos que ultrapassam a perda auditiva. Rechaçou-se também a tese de que o Ato Declaratório Interpretativo RFB nº 2/2019 teria inovado no critério jurídico, pois a exigência já estava fundamentada em legislação e jurisprudência anteriores. Dessa forma, o órgão julgador confirmou a higidez do lançamento e manteve o crédito tributário em sua totalidade. Inconformada com esse resultado, a parte-recorrente interpôs o presente recurso voluntário, no qual argumenta-se, inicialmente, pela nulidade do lançamento, por considerar que a autoridade lançadora teria se valido de presunções genéricas e desprovidas de respaldo técnico ou legal ao identificar exposição a agente nocivo ruído com base apenas na classificação CBO dos trabalhadores. Sustenta que a fiscalização desconsiderou os documentos apresentados, como PPRA, PPP e LTCAT, os quais comprovariam a adoção de medidas de proteção eficazes e ausência de exposição habitual e permanente acima dos limites legais. Fl. 8384DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 36 Reitera que o critério adotado para constituição da base de cálculo do adicional de 6% sobre o GILRAT é equivocado, pois desconsidera que trabalhadores com mesmo CBO podem estar submetidos a condições ambientais distintas, inclusive dentro de um mesmo setor ou planta fabril. A ausência de análise individualizada da exposição tornaria o lançamento ilegítimo, por violar o art. 142 do CTN e os princípios do contraditório e da ampla defesa. No tocante ao argumento de mérito, sustenta que o fornecimento e a comprovação da eficácia dos EPIs são aptos a afastar a necessidade de recolhimento do adicional de 6%, conforme previsão do §2º do art. 293 da Instrução Normativa RFB nº 971/2009. Argumenta que o julgamento recorrido teria feito interpretação equivocada da decisão do STF no RE 664.335/SC (Tema 555), ao admitir, de forma absoluta, a irrelevância da comprovação da eficácia dos EPIs no caso de exposição a ruído. A parte-recorrente destaca que o próprio STF, na fundamentação da decisão no RE 664.335/SC, reconheceu que a demonstração técnica da eliminação ou neutralização do agente nocivo pode afastar o direito à aposentadoria especial, de modo que a exigência da contribuição adicional não poderia ser automática. Ressalta que a interpretação correta da tese fixada exige a demonstração de que o agente nocivo, mesmo com EPI eficaz, ainda representa risco à saúde do trabalhador, o que, no caso concreto, não teria sido caracterizado. Alega também que o Ato Declaratório Interpretativo RFB nº 2/2019 não pode ser aplicado retroativamente aos fatos geradores de 2018, pois constituiria inovação interpretativa prejudicial ao contribuinte, em violação ao princípio da anterioridade. Quanto às divergências relativas ao Fator Acidentário de Prevenção – FAP, a parte- recorrente reitera que detém decisão judicial vigente, datada de 13/01/2010, que garante a aplicação do FAP “neutro” (1,000), decisão essa que suspende a exigibilidade do crédito tributário discutido. Argumenta que a autoridade fiscal teria ignorado tal decisão judicial, o que invalida o lançamento e a imposição da multa de ofício, nos termos do art. 63 da Lei nº 9.430/96. Por fim, pede-se que: a) seja declarada a nulidade do lançamento, por vício material na constituição da base de cálculo e cerceamento de defesa; b) caso assim não se entenda, que seja julgado integralmente improcedente o lançamento fiscal, ante a ausência de fato gerador da contribuição adicional e a suspensão da exigibilidade quanto ao FAP; c) subsidiariamente, que se reconheça a ilegitimidade da multa de ofício, diante da existência de decisão judicial que suspende o crédito tributário, com fundamento no art. 63 da Lei nº 9.430/96. Fl. 8385DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 37 É possível visualizar as questões fundamentais deste exame a partir da seguinte matriz: MOTIVAÇÃO E FUNDAMENTAÇÃO (Autoridade lançadora) ARGUMENTO NA IMPUGNAÇÃO FUNDAMENTO DO ACÓRDÃO (DRJ) ARGUMENTO NAS RAZÕES RECURSAIS 1 A autoridade considerou devida a contribuição adicional de 6% ao GILRAT, por ter identificado empregados expostos a ruído superior a 85 dB(A), com base em documentos fornecidos (PPRA, PPP e relação de segurados aposentados). A identificação se deu por meio da correspondência entre CBOs e os níveis de exposição declarados. A fiscalização presumiu indevidamente a exposição com base em CBOs, sem verificar a efetiva exposição dos empregados. A empresa alega ter apresentado laudos e documentos que demonstram que nem todos os empregados com mesmo CBO estavam expostos. A DRJ entendeu que não houve presunção, pois a identificação partiu de documentação fornecida pela própria empresa. A falta de impugnação específica por empregado e por competência impediu a revisão da base de cálculo. O recurso reitera que o critério adotado é genérico e sem respaldo legal. Sustenta que a correspondência entre CBO e exposição não basta e que a ausência de análise individual viola o art. 142 do CTN. 2 Considerou que a eficácia dos EPIs não afasta a incidência da contribuição adicional quando se trata de ruído, com base na decisão do STF no RE 664.335/SC (Tema 555), que fixou tese no sentido de que, para ruído, a declaração de EPI eficaz não afasta o direito à aposentadoria especial. A empresa sustentou que seus EPIs são eficazes, conforme documentação técnica apresentada, e que a fiscalização não analisou esses elementos, desconsiderando laudos e controles de entrega e uso de EPI. A DRJ entendeu que, conforme o Tema 555 do STF, mesmo com a eficácia do EPI, a exposição a ruído acima de 85 dB(A) caracteriza direito à aposentadoria especial e, portanto, justifica a contribuição adicional. A recorrente reitera que a decisão do STF foi interpretada de forma equivocada e que a eficácia comprovada dos EPIs afasta o direito à aposentadoria especial e, por consequência, a exigência da contribuição adicional. 3 A autoridade fiscal apontou diferenças no cálculo do RAT ajustado, pois a empresa teria declarado FAP = 1,000, quando o índice oficial divulgado era diverso. Com isso, recolheu a menor contribuição. Alegou possuir decisão judicial válida desde 13/01/2010, que a autoriza a aplicar o FAP neutro (1,000), motivo pelo qual não haveria qualquer divergência ou infração. A DRJ reconheceu que a empresa juntou cópia da liminar, mas não comprovou sua vigência no período fiscalizado. Não foi apresentada certidão atualizada ou prova da eficácia da decisão no momento do lançamento. A recorrente reitera que a decisão judicial está vigente e que a fiscalização desconsiderou seu efeito, contrariando o art. 63 da Lei nº 9.430/96, que impede a multa de ofício quando há suspensão da exigibilidade por ordem judicial. 4 Aplicação da multa de ofício de 75%, com base no art. Alega que, havendo suspensão da A DRJ reconheceu a alegação, mas A parte-recorrente reitera que a decisão Fl. 8386DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 38 MOTIVAÇÃO E FUNDAMENTAÇÃO (Autoridade lançadora) ARGUMENTO NA IMPUGNAÇÃO FUNDAMENTO DO ACÓRDÃO (DRJ) ARGUMENTO NAS RAZÕES RECURSAIS 44, I, da Lei nº 9.430/96, em razão da omissão de valores e ausência de recolhimento das contribuições devidas. exigibilidade por decisão judicial quanto ao FAP, não é cabível a multa de ofício, nos termos do art. 63 da Lei nº 9.430/96. entendeu que a ausência de prova da vigência da decisão judicial no período obstaria a aplicação do art. 63, mantendo a multa. judicial é válida e eficaz e que a imposição da multa viola o art. 63 da Lei nº 9.430/96. 5 Fundamentação legal do lançamento ancorada nos arts. 22 da Lei nº 8.212/91 e 57 da Lei nº 8.213/91, bem como nos arts. 291 e 293 da IN RFB nº 971/2009 e no ADI RFB nº 2/2019. Argumenta que o ADI RFB nº 2/2019 não pode retroagir para alcançar fatos de 2018 e que não haveria base legal anterior para sustentar a autuação nos moldes adotados. A DRJ entendeu que o ADI não foi o fundamento principal do lançamento e que a exigência já estava prevista em lei e em instrução normativa anteriores à autuação. A recorrente insiste que houve alteração de critério jurídico, o que viola os princípios da legalidade e da anterioridade, e que a cobrança seria indevida para fatos anteriores a 2019. Efetividade dos EPIs e Tema 555 do STF O órgão julgador de origem rejeitou os argumentos da parte-recorrente, ao entender que, em se tratando do agente físico ruído, mesmo a declaração da eficácia dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) não descaracteriza a exposição nociva, nem afasta o direito à aposentadoria especial do segurado, tampouco a incidência da contribuição adicional prevista no art. 57, §6º, da Lei nº 8.213/91. Para tanto, ancorou-se no entendimento fixado pelo Supremo Tribunal Federal no ARE 664.335/SC (Tema 555 da Repercussão Geral), extraindo dele a conclusão de que, no caso de exposição a ruído superior a 85 dB(A), não seria possível neutralizar os efeitos deletérios do agente nocivo, ainda que mediante o uso de EPI eficaz. Com base nesse raciocínio, entendeu-se que a demonstração da eficácia dos equipamentos não teria relevância jurídica para descaracterizar o fato gerador do tributo exigido. Por sua vez, a parte-recorrente sustenta que o acórdão recorrido extrapolou indevidamente o entendimento do STF, ao transformar uma presunção relativa de nocividade em verdadeira ficção jurídica, tornando irrelevante qualquer prova técnica sobre a eficácia dos EPIs. Afirma que apresentou laudos técnicos, controles de fornecimento e uso de EPIs, e pareceres que demonstram a neutralização ou mitigação do agente nocivo ruído, inclusive mediante a adoção de medidas combinadas de proteção coletiva e individual, conforme padrões reconhecidos pelas normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho. Argumenta que a tese firmada no Tema 555 não inviabiliza, em absoluto, a produção de prova concreta da neutralização da nocividade, e que a simples menção à exposição a ruído acima de 85 dB(A) não dispensa a análise individualizada da Fl. 8387DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 39 proteção efetiva. Sustenta, ainda, que o lançamento desconsiderou tais provas, ao assumir, desde logo, a insuperabilidade dos efeitos do ruído, em clara violação aos princípios da legalidade e da motivação. Nos termos do art. 57, §§ 6º e 7º, da Lei nº 8.213/91, combinados com o art. 22, II, da Lei nº 8.212/91, a empresa é responsável pelo recolhimento da contribuição adicional para o financiamento da aposentadoria especial, sempre que mantenha trabalhadores expostos, de forma permanente, não ocasional nem intermitente, a agentes nocivos à saúde. Essa obrigação decorre da lógica constitucional de custeio da seguridade social (art. 195, caput e §5º da CF), bem como da necessidade de garantir a sustentabilidade do regime geral de previdência. No julgamento do ARE 664.335/SC, o Supremo Tribunal Federal assentou duas teses fundamentais, ambas com repercussão geral: a) que a efetiva exposição a agente nocivo é requisito constitucional para o reconhecimento de tempo especial; e b) que, no caso específico da exposição ao ruído acima dos limites legais, a mera declaração de eficácia do EPI no PPP não basta, por si só, para afastar o direito à aposentadoria especial. É importante ressaltar, no entanto, que o STF não estabeleceu uma ficção legal de nocividade irreversível, tampouco afastou a possibilidade de produção de prova técnica complementar, além do PPP, que demonstre, no caso concreto, a neutralização da exposição ou a mitigação relevante de seus efeitos. O que se firmou foi uma diretriz de presunção relativa, exigente, mas não absoluta. No caso dos autos, verifica-se que a parte-recorrente, ao longo da fiscalização, apresentou documentação técnica que não se limitou à declaração padrão constante do PPP. Foram juntados laudos técnicos, pareceres de especialistas e documentação sobre medidas combinadas de proteção (EPCs e EPIs), os quais foram reiterados e detalhados em sede recursal. Entretanto, nem o Relatório Fiscal, nem o auto de infração, nem tampouco a decisão da DRJ, demonstram ter examinado ou rebatido tecnicamente esses elementos. A motivação adotada pela autoridade lançadora limita-se à alegação de que, havendo ruído acima de 85 dB(A), seria irrelevante qualquer comprovação de eficácia do EPI, o que revela uma adoção implícita da ficção da insuperabilidade da nocividade, vedada pela jurisprudência vinculante do STF. Tal como ressalta o voto do Min. Luís Roberto Barroso no julgamento do ARE 664.335, o reconhecimento da insalubridade, e, por conseguinte, do direito à aposentadoria especial e da obrigação de custeio adicional, não pode prescindir da análise da eficácia concreta das salvaguardas adotadas, especialmente diante de evolução tecnológica, métodos de controle Fl. 8388DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 40 combinados e monitoramento técnico do ambiente laboral. Trata-se, portanto, de juízo dependente de circunstâncias fáticas, que não pode ser substituído por uma presunção absoluta. Assim, ao deixar de examinar as provas técnicas apresentadas, a autoridade lançadora incorreu em motivação insuficiente e inválida, o que compromete a higidez do lançamento, na medida em que a base legal para exigência da contribuição adicional pressupõe a efetiva exposição insalubre, e não apenas o indicativo abstrato de intensidade sonora. Diante do exposto, acolhe-se o argumento recursal, para reconhecer a nulidade do lançamento, naquilo que deixou de considerar e examinar tecnicamente os elementos probatórios aptos a demonstrar a neutralização ou mitigação da exposição ao agente nocivo ruído, contrariando o parâmetro vinculante fixado pelo STF no ARE 664.335/SC e os deveres de motivação previstos no art. 142 do CTN e art. 50 da Lei nº 9.784/99. A consequência dessa nulidade é a anulação do lançamento, por falta de motivos adequados (substrato fático), capaz de demonstrar que os específicos empregados segurados estariam sujeitos a ruídos superiores aos 85 dB(A), sem a mitigação dos efeitos nocivos desse agressor ambiental. Não obstante, ante a contingência de restar vencido nesse ponto, que me parece prejudicial a todo o lançamento, prossigo no exame do argumento e respectivo pedido autônomo e suficiente, pertinente à invalidade da base de cálculo (calculada), decorrente da ausência de permissão para o arbitramento. Presunção indevida de exposição com base em CBO O acórdão recorrido considerou legítima a metodologia adotada pela autoridade lançadora, que identificou a exposição de empregados ao agente nocivo ruído com base na correspondência entre os códigos CBO informados no PPP e no PPRA e os níveis de exposição superiores a 85 dB(A), apurados a partir da documentação apresentada pela própria contribuinte. Para a Delegacia de Julgamento, o lançamento não fora baseado em presunção, mas sim em elementos objetivos constantes dos autos, especialmente os relatórios técnicos e declarações da parte. Ainda segundo o entendimento do órgão julgador, caberia à contribuinte, que detém o controle de seus registros ambientais e ocupacionais, indicar com precisão as divergências por segurado e por competência, ônus que não teria sido atendido. De forma diversa, a parte-recorrente sustenta, em sede recursal, que a metodologia adotada pela fiscalização incorre em vício de presunção, por ter desconsiderado os elementos técnicos e documentos específicos concreta e efetivamente apresentados nos autos. Argumenta que a mera correspondência entre códigos CBO e a concessão de aposentadoria especial não autoriza a inferência automática de exposição a agentes nocivos, tampouco o lançamento do adicional de 6% sobre a folha de remuneração de todos os trabalhadores jungidos àqueles códigos. Defende que essa prática contraria os parâmetros legais estabelecidos no art. 293 da IN Fl. 8389DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 41 RFB nº 971/2009, por não ter havido individualização das condições de trabalho de cada empregado, nem aferição das medidas de controle adotadas, o que desconsidera, inclusive, diferenças ambientais dentro do mesmo setor ou planta fabril. Ao apreciar o recurso voluntário interposto pela parte-recorrente, esta 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção do CARF, em sessão de 7 de agosto de 2024, deliberou por converter o julgamento em diligência. O fundamento da deliberação foi a constatação de que não caberia à fiscalização identificar os empregados expostos ao agente nocivo ruído com base unicamente no CBO, sem considerar a documentação técnica específica apresentada pela empresa. Para preservar os arts. 142, 145 e 149 do CTN, determinou-se que a unidade de origem esclarecesse se todos os segurados incluídos nos CBOs utilizados no lançamento estavam efetivamente submetidos ao agente nocivo ruído. Em resposta à determinação da diligência, a autoridade fiscal reiterou os fundamentos do lançamento. Explicou que, embora tenha sido apresentado o PPRA e parte dos PPPs, não foi apresentada a totalidade dos PPPs dos segurados empregados, impossibilitando a comprovação da exposição individual de todos os trabalhadores. Por essa razão, adotou-se como critério de apuração o CBO, enquanto “indicador do enquadramento para fins de aposentadoria especial”, com base no que considerou arbitramento da base de cálculo. A agente fiscal reconheceu, contudo, que alguns dos PPPs posteriormente apresentados comprovaram que determinados empregados, embora inicialmente incluídos no lançamento, não estavam expostos a ruído acima de 85 dB(A). Em razão disso, promoveu ajustes nos valores lançados, conforme demonstrativos constantes dos anexos ao relatório. A recorrente, em sua manifestação à diligência, sustentou que o Relatório revela e confirma as falhas originais do lançamento, reforçando a tese de nulidade. Rejeitou a alegação de que não teria atendido integralmente à intimação fiscal, destacando que apresentou, no curso da fiscalização, os PPPs relativos aos empregados aposentados no período de 2018, conforme solicitado. Alega que, se a fiscalização entendesse que o atendimento estava incompleto, deveria ter expedido nova intimação para complementação, o que não ocorreu. Ressaltou ainda que o uso do CBO como critério substitutivo para a identificação de exposição a agente nocivo é ilegal e equivocado, principalmente diante da existência de documentos técnicos como o PPRA, que identifica exposições por Grupos Homogêneos de Exposição (GHE). A recorrente destacou que a adoção do critério de CBO não apenas carece de base legal, como também resultou em distorções graves, demonstradas pela divergência de enquadramentos entre os exercícios de 2018 e 2019 para CBOs idênticos. Finalmente, argumentou que a própria exclusão de alguns empregados pelo Fisco, com base em PPPs apresentados, implica o reconhecimento de que o critério adotado era falho, pois a presunção não se sustentou diante da prova documental específica. Por essa razão, reiterou o pedido de nulidade do lançamento, afirmando que houve arbitramento indevido, não Fl. 8390DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 42 fundamentado, e aplicação de critério presuntivo incompatível com o devido processo legal e com a legislação vigente. Nos termos do art. 57, §6º, da Lei nº 8.213/91, o financiamento da aposentadoria especial deve ser custeado por contribuição adicional incidente exclusivamente sobre a remuneração dos segurados sujeitos a condições especiais. O art. 293, §2º, da Instrução Normativa RFB nº 971/2009 prevê que tal contribuição não será devida quando medidas de proteção neutralizarem ou reduzirem os riscos a níveis legais de tolerância, exigindo, portanto, aferição concreta da exposição e da eficácia dos controles ambientais. No caso dos autos, verifica-se que a autoridade fiscal estruturou o lançamento com base em documentos técnicos fornecidos pela própria parte-recorrente, entre eles o PPRA e os PPPs dos empregados. A partir desses elementos, estabeleceu a lista de códigos CBO que, de acordo com a análise, estavam associados a exposição a ruído acima de 85 dB(A). Essa associação foi utilizada como critério para selecionar os empregados que deveriam ter sido incluídos na base de cálculo da contribuição adicional e não o foram. Contudo, a própria parte-recorrente alega que apresentou documentos que evidenciariam que nem todos os trabalhadores com o mesmo CBO estariam expostos aos níveis de ruído mencionados e que a fiscalização teria desconsiderado esses elementos. Apesar disso, a impugnação e o recurso não indicam, de forma individualizada, quais empregados ou quais competências teriam sido indevidamente incluídas no cálculo. A ausência dessa contestação pontual, diante de um lançamento lastreado em documentação fornecida pela própria empresa, fragiliza a alegação de presunção. Nos termos do art. 142 do Código Tributário Nacional, a autoridade administrativa deve constituir o crédito tributário com base em elementos de fato e de direito concretamente apurados, observando o devido processo legal. No âmbito previdenciário, a apuração da base de cálculo do adicional de 6% deve observar o disposto no art. 57, §6º, da Lei nº 8.213/91 e no art. 293 da IN RFB nº 971/2009, que exigem a comprovação da exposição efetiva do trabalhador a agentes nocivos, de forma habitual e permanente, e vedam presunções generalizadas. O Relatório de Diligência elaborado pela autoridade lançadora confirmou que não foram apresentados os PPPs de todos os empregados abrangidos pelo lançamento, o que a levou a adotar o critério de CBO como indicador substitutivo de exposição. A fiscal declarou expressamente que a apuração da base de cálculo foi feita com base nos códigos de ocupação de empregados vinculados a CBOs associados a ruído, conforme informações disponíveis nos laudos e nas folhas de pagamento. Ainda assim, reconheceu que, após análise de PPPs apresentados após o lançamento, excluiu do lançamento determinados empregados inicialmente incluídos, por ausência de exposição caracterizada. Esse reconhecimento da exclusão parcial confirma que o critério utilizado era falível e incompatível com a exigência legal de individualização da exposição, sobretudo considerando que a própria fiscalização admitiu a insuficiência do critério e realizou ajuste Fl. 8391DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 43 quantitativo nos valores lançados. O uso de CBO como critério substitutivo da análise técnico- ambiental individualizada não encontra respaldo na legislação previdenciária vigente nem tampouco nos normativos internos da Receita Federal, os quais exigem a identificação do agente nocivo com base em documentos técnicos específicos (PPRA, LTCAT, PPP). Além disso, a parte-recorrente demonstrou, de forma documentada, que atendeu às intimações no curso da fiscalização e apresentou os PPPs solicitados, sem que tenha havido posterior diligência da autoridade fiscal para exigir complementações, o que reforça o caráter incompleto e arbitrário da apuração. Diante desse conjunto de elementos, i.e., a adoção de critério presuntivo, a posterior exclusão parcial de contribuintes inicialmente incluídos no lançamento, a ausência de diligência complementar e a existência de documentação técnica mais apropriada (GHE), conclui- se que o lançamento, nesse aspecto, não observou os parâmetros legais de precisão e individualização exigidos para constituição de crédito tributário. Desse modo, acolhe-se o argumento recursal quanto à nulidade parcial do lançamento em razão da utilização indevida do critério de CBO como substituto da aferição técnica individualizada de exposição ao agente nocivo ruído, nos termos da legislação aplicável. Classificação ou “natureza” do vício: formal ou material Conforme exposto ao longo dos debates da sessão de julgamento, entendo que o vício analisado é material, porquanto versa sobre os critérios constitutivos do próprio crédito tributário (norma individual e concreta resultante do lançamento, especificamente a presença, no antecedente normativo, do elemento que autorizaria a presunção ou a ficção da anodicidade dos meios de neutralização, mitigação ou demonstração da ausência de contato do empregado ao agente nocivo, com o resultante arbitramento da base calculada). De fato, o vício não se refere apenas à competência, nem ao procedimento de constituição do crédito (“enunciação”), de forma que, mesmo se corrigido durante a refeitura, ainda assim não tornaria possível produzir um crédito materialmente válido (“enunciado”). 3 DISPOSITIVO Diante do exposto, CONHEÇO PARCIALMENTE do recurso voluntário, com exceção das razões recursais e do respectivo pedido relacionados à aplicação do Fator Acidentário de Prevenção (FAP) e decisão judicial, e, na parte conhecida, DOU-LHE PROVIMENTO, para anular o lançamento. É como voto. Fl. 8392DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.759 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.721756/2022-63 44 Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino Fl. 8393DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 CONHECIMENTO 2 MÉRITO 2.1 Erro na definição da alíquota referente ao GILRAT, decorrente da má-apreciação do conjunto probatório, dada a necessidade de aferição do risco efetivo da exposição de condição nociva ao trabalhador - ruído. 2.1.1 As questões de fundo 2.1.2 NECESSIDADE DE EXAME CUIDADOSO DO ALCANCE DA ORIENTAÇÃO VINCULANTE. IDENTIFICAÇÃO DE CRITÉRIOS DETERMINANTES PARA APLICAÇÃO PRESSUPÕE AFASTAMENTO DE EVENTUAIS DISTINÇÕES (TÉCNICA DO DISTINGUISHING) 2.2 PROPOSTA DE REEXAME DA QUESTÃO, DEVIDO À NOVA FORMAÇÃO DO COLEGIADO 2.2.1 CRITÉRIOS DETERMINANTES: FICÇÃO OU PRESUNÇÃO DA NOCIVIDADE DO RUÍDO 2.2.2 APLICAÇÃO AO QUADRO FÁTICO-JURÍDICO 3 DISPOSITIVO OLE_LINK2 OLE_LINK2 OLE_LINK2 OLE_LINK2 OLE_LINK2
score : 1.0
Numero do processo: 11000.725728/2021-05
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Jan 23 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Thu Feb 19 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Período de apuração: 01/12/2017 a 31/12/2019
RECEITA BRUTA. DADOS FORNECIDOS PELO DETRAN.
Correta a identificação da receita bruta do contribuinte a partir dos dados fornecidos pelo Detran/RS de receitas auferidas pelo contribuinte, compostas dos valores pagos à autuada pelo Detran/RS e aqueles, registrados nos sistemas do Detran/RS, que foram recebidos pela autuada, pagos pelos cidadãos a quem prestou serviços.
OMISSÃO DE RECEITAS. FORMA DE APURAÇÃO.
Verificada a omissão de receita, a autoridade tributária determinará o valor do imposto e do adicional a serem lançados de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período-base a que corresponder a omissão.
CSL, PIS E COFINS. DECORRÊNCIA. LANÇAMENTO REFLEXO. MESMOS EVENTOS.
A ocorrência de eventos geradores de vários tributos impõe a constituição dos respectivos créditos tributários, e a decisão quanto à ocorrência desses eventos repercute na decisão de todos os tributos a eles vinculados. Assim, o decidido em relação ao Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ aplica-se à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido — CSLL, à Contribuição ao PIS/Pasep e à COFINS.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE.
Não tendo sido comprovado o intuito de fraude, sonegação ou conluio, por parte do sujeito passivo, há de ser afastada a multa de ofício qualificada.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/12/2017 a 31/12/2019
RESPONSABILIDADE PESSOAL. CTN, ART. 135, II. SOLIDARIEDADE DO CONTRIBUINTE.
“Dizer que são pessoalmente responsáveis as pessoas que indica não quer dizer que a pessoa jurídica fica desobrigada. A presença do responsável, daquele a quem é atribuída a responsabilidade tributária nos termos do art. 135 do Código Tributário Nacional, não exclui a presença do contribuinte”.
SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE PESSOAL.
A responsabilidade pessoal atribuída aos relacionados no inciso III do artigo 135 não representa a sua inserção obrigatória como sujeitos passivos do auto lavrado, se tal responsabilidade, quando da prática do referido ato, não se mostrar necessariamente aplicável.
Numero da decisão: 1101-002.014
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em: i) dar provimento parcial ao recurso voluntário do contribuinte, nos termos do voto do Relator, para afastar a multa qualificada de 150% e reduzí-la ao patamar de 75%; ii) dar provimento ao recurso voluntário dos responsáveis solidários para afastar a responsabilidade de Jair Francisco Quilin e Ivilene Salete Quilin e excluí-los do polo passivo da obrigação tributária.
assinado digitalmente
Conselheiro Edmilson Borges Gomes – Relator
assinado digitalmente
Conselheiro Efigênio de Freitas Júnior – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Edmilson Borges Gomes (Relator), Efigênio de Freitas Júnior (Presidente), Jeferson Teodorovicz, Roney Sandro Freire Correa , Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira.
Nome do relator: EDMILSON BORGES GOMES
1.0 = *:*
toggle all fields
dt_index_tdt : Sat Feb 28 09:00:00 UTC 2026
anomes_sessao_s : 202601
camara_s : Primeira Câmara
ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Período de apuração: 01/12/2017 a 31/12/2019 RECEITA BRUTA. DADOS FORNECIDOS PELO DETRAN. Correta a identificação da receita bruta do contribuinte a partir dos dados fornecidos pelo Detran/RS de receitas auferidas pelo contribuinte, compostas dos valores pagos à autuada pelo Detran/RS e aqueles, registrados nos sistemas do Detran/RS, que foram recebidos pela autuada, pagos pelos cidadãos a quem prestou serviços. OMISSÃO DE RECEITAS. FORMA DE APURAÇÃO. Verificada a omissão de receita, a autoridade tributária determinará o valor do imposto e do adicional a serem lançados de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período-base a que corresponder a omissão. CSL, PIS E COFINS. DECORRÊNCIA. LANÇAMENTO REFLEXO. MESMOS EVENTOS. A ocorrência de eventos geradores de vários tributos impõe a constituição dos respectivos créditos tributários, e a decisão quanto à ocorrência desses eventos repercute na decisão de todos os tributos a eles vinculados. Assim, o decidido em relação ao Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ aplica-se à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido — CSLL, à Contribuição ao PIS/Pasep e à COFINS. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. Não tendo sido comprovado o intuito de fraude, sonegação ou conluio, por parte do sujeito passivo, há de ser afastada a multa de ofício qualificada. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/12/2017 a 31/12/2019 RESPONSABILIDADE PESSOAL. CTN, ART. 135, II. SOLIDARIEDADE DO CONTRIBUINTE. “Dizer que são pessoalmente responsáveis as pessoas que indica não quer dizer que a pessoa jurídica fica desobrigada. A presença do responsável, daquele a quem é atribuída a responsabilidade tributária nos termos do art. 135 do Código Tributário Nacional, não exclui a presença do contribuinte”. SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE PESSOAL. A responsabilidade pessoal atribuída aos relacionados no inciso III do artigo 135 não representa a sua inserção obrigatória como sujeitos passivos do auto lavrado, se tal responsabilidade, quando da prática do referido ato, não se mostrar necessariamente aplicável.
turma_s : Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
dt_publicacao_tdt : Thu Feb 19 00:00:00 UTC 2026
numero_processo_s : 11000.725728/2021-05
anomes_publicacao_s : 202602
conteudo_id_s : 7338373
dt_registro_atualizacao_tdt : Thu Feb 19 00:00:00 UTC 2026
numero_decisao_s : 1101-002.014
nome_arquivo_s : Decisao_11000725728202105.PDF
ano_publicacao_s : 2026
nome_relator_s : EDMILSON BORGES GOMES
nome_arquivo_pdf_s : 11000725728202105_7338373.pdf
secao_s : Primeira Seção de Julgamento
arquivo_indexado_s : S
decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em: i) dar provimento parcial ao recurso voluntário do contribuinte, nos termos do voto do Relator, para afastar a multa qualificada de 150% e reduzí-la ao patamar de 75%; ii) dar provimento ao recurso voluntário dos responsáveis solidários para afastar a responsabilidade de Jair Francisco Quilin e Ivilene Salete Quilin e excluí-los do polo passivo da obrigação tributária. assinado digitalmente Conselheiro Edmilson Borges Gomes – Relator assinado digitalmente Conselheiro Efigênio de Freitas Júnior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Edmilson Borges Gomes (Relator), Efigênio de Freitas Júnior (Presidente), Jeferson Teodorovicz, Roney Sandro Freire Correa , Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira.
dt_sessao_tdt : Fri Jan 23 00:00:00 UTC 2026
id : 11231168
ano_sessao_s : 2026
atualizado_anexos_dt : Sat Feb 28 09:41:31 UTC 2026
sem_conteudo_s : N
_version_ : 1858361586912067584
conteudo_txt : Metadados => date: 2026-02-13T20:05:03Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-02-13T20:05:03Z; Last-Modified: 2026-02-13T20:05:03Z; dcterms:modified: 2026-02-13T20:05:03Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-02-13T20:05:03Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-02-13T20:05:03Z; meta:save-date: 2026-02-13T20:05:03Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-02-13T20:05:03Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-02-13T20:05:03Z; created: 2026-02-13T20:05:03Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 24; Creation-Date: 2026-02-13T20:05:03Z; pdf:charsPerPage: 1749; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-02-13T20:05:03Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 11000.725728/2021-05 ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 23 de janeiro de 2026 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE C F C DOIS IRMAOS LTDA INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Período de apuração: 01/12/2017 a 31/12/2019 RECEITA BRUTA. DADOS FORNECIDOS PELO DETRAN. Correta a identificação da receita bruta do contribuinte a partir dos dados fornecidos pelo Detran/RS de receitas auferidas pelo contribuinte, compostas dos valores pagos à autuada pelo Detran/RS e aqueles, registrados nos sistemas do Detran/RS, que foram recebidos pela autuada, pagos pelos cidadãos a quem prestou serviços. OMISSÃO DE RECEITAS. FORMA DE APURAÇÃO. Verificada a omissão de receita, a autoridade tributária determinará o valor do imposto e do adicional a serem lançados de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período-base a que corresponder a omissão. CSL, PIS E COFINS. DECORRÊNCIA. LANÇAMENTO REFLEXO. MESMOS EVENTOS. A ocorrência de eventos geradores de vários tributos impõe a constituição dos respectivos créditos tributários, e a decisão quanto à ocorrência desses eventos repercute na decisão de todos os tributos a eles vinculados. Assim, o decidido em relação ao Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ aplica-se à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido — CSLL, à Contribuição ao PIS/Pasep e à COFINS. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. Não tendo sido comprovado o intuito de fraude, sonegação ou conluio, por parte do sujeito passivo, há de ser afastada a multa de ofício qualificada. Fl. 2976DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 2 Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/12/2017 a 31/12/2019 RESPONSABILIDADE PESSOAL. CTN, ART. 135, II. SOLIDARIEDADE DO CONTRIBUINTE. “Dizer que são pessoalmente responsáveis as pessoas que indica não quer dizer que a pessoa jurídica fica desobrigada. A presença do responsável, daquele a quem é atribuída a responsabilidade tributária nos termos do art. 135 do Código Tributário Nacional, não exclui a presença do contribuinte”. SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE PESSOAL. A responsabilidade pessoal atribuída aos relacionados no inciso III do artigo 135 não representa a sua inserção obrigatória como sujeitos passivos do auto lavrado, se tal responsabilidade, quando da prática do referido ato, não se mostrar necessariamente aplicável. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em: i) dar provimento parcial ao recurso voluntário do contribuinte, nos termos do voto do Relator, para afastar a multa qualificada de 150% e reduzí-la ao patamar de 75%; ii) dar provimento ao recurso voluntário dos responsáveis solidários para afastar a responsabilidade de Jair Francisco Quilin e Ivilene Salete Quilin e excluí-los do polo passivo da obrigação tributária. assinado digitalmente Conselheiro Edmilson Borges Gomes – Relator assinado digitalmente Conselheiro Efigênio de Freitas Júnior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Edmilson Borges Gomes (Relator), Efigênio de Freitas Júnior (Presidente), Jeferson Teodorovicz, Roney Sandro Freire Correa , Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira. RELATÓRIO 1. Tratam os autos de lançamento de IRPJ – Imposto Sobre a Renda da Pessoa Jurídica, de CSLL – Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido, de Contribuição para o PIS/Pasep, de Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS, período de 01.12.2017 a Fl. 2977DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 3 31.12.2019, no valor global de R$ 1.273.018,84 (um milhão, duzentos e setenta e três mil e dezoito reais e oitenta e quatro centavos), cujos fatos serão a seguir detalhados conforme Autuações e Termo de Verificação Fiscal de e-fls. 02/80: 2. Descreve o Termo de Verificação Fiscal - TVF: - Previamente ao início da ação fiscal foram obtidos, por meio do Ofício nº 94/2020/SRRF10/RFB/ME -RS, junto ao Departamento de Trânsito do Rio Grande do Sul (DETRAN - RS), dados constantes nos seus sistemas informatizados que permitiram apurar o faturamento mensal estimado do sujeito passivo, que é um Centro de Formação de Condutores, nos anos de 2017, 2018 e 2019 . - O procedimento fiscal teve por escopo verificar a regularidade dos valores da receita mensal declarada pela contribuinte frente aos valores efetivamente auferidos, mediante o cotejo das informações de receita constantes das respectivas PGDAS -D com os valores de receita informados pelo Detran/RS. - A fiscalização iniciou -se em 29/10/2020 quando o CFC DOIS IRMÃOS foi intimado a apresentar, através de Termo de Início de Fiscalização, no prazo de vinte dias, os seguintes documentos: 1. cópia dos Atos Constitutivos e respectivas alterações posteriores. 2. Livros Caixa relativos aos anos -calendário de 2017, 2018 e 2019 devidamente escriturados, devendo estar neles contidos os registros de toda a movimentação financeira, inclusive bancária. Opcionalmente, a critério da empresa, a exigência do Livro Caixa poderá ser substituída pelos livros contábeis (Diário e Razão), caso a empresa mantenha contabilidade para o registro de suas operações. 3. cópia da Carteira de Identidade (RG) e do comprovante de residência dos sócios integrantes do quadro social nos anos de 2017 a 2019. - Em 16/11/2020 a Fiscalizada apresentou todos os itens solicitados. - O DETRAN/RS, em resposta ao ofício encaminhado pela fiscalização, esclareceu que “as informações financeiras informadas se trata de estimativas baseadas nas informações constantes em nosso sistema informatizado que controla e registra a prestação de serviços realizados pelos CFCs, contemplando aulas teóricas e práticas e aluguel de veículos para aulas e provas práticas aos cidadãos. Assim, os valores informados pela prestação dos serviços são calculados com base na data efetiva da execução da aula ou prova registrada no sistema do DETRAN/RS e não da data efetiva de contratação do serviço e possível emissão da Nota Fiscal pelo CFC. Contudo, entendemos que tais informações, considerando uma temporalidade anual, podem ser utilizados como base de Faturamento médio/mínimo dos CFCs”. - Para melhor compreensão, o DETRAN/RS esclareceu, ainda, que os serviços que o CFC presta ao cidadão se dividem em dois tipos: Fl. 2978DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 4 “1 - Os delegados pelo DETRAN/RS: esses serviços o cidadão paga as Taxas para o DETRAN/RS, que posteriormente remunera o CFC por esses serviços. Nesse caso o CFC emite Nota Fiscal em nome do DETRAN/RS: Abertura RENACH (processo) de Expedição de CNH ou Renovação de CNH; Avaliação Psicológica (estrutura física e de suporte para a realização as avaliações); Exame de Aptidão Física Mental (estrutura física e de suporte para a realização dos exames); 2. Os próprios do CFC: esses serviços o cidadão efetua o pagamento diretamente para o CFC. Nesse caso o CFC emite Nota Fiscal em nome do Cidadão: Aulas Práticas e Teóricas; Aluguel de veículos para as Aulas Práticas e Provas Práticas”. “Quando o cidadão realiza a abertura de um processo que envolve aulas teóricas e/ou práticas, o CFC cobra esses serviços diretamente do cidadão, neste ato, podendo efetuar o parcelamento ou não dos valores, e em regra emite a Nota Fiscal para o Cidadão; Posteriormente, se houve necessidade e desejo do Cidadão, ele poderá contratar aulas extras, efetuando o pagamento em separado, com uma nova emissão de Nota Fiscal; Todas essas aulas e aluguéis de veículos são registrados no sistema do DETRAN/RS. -O DETRAN -RS elabora três relatórios para estimar o faturamento mensal do CFC: 1. RELATÓRIO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DETRANRS/ESTIMATIVA FATURAMENTO HORAS/AULA, com três colunas: a. Valores da Remuneração Total paga pelo DETRAN/RS ao CFC; b. Valores da Retenção que o DETRAN -RS faz no momento do repasse mensal da remuneração devida ao CFC, equivalente a 5% do valor total das aulas teóricas e práticas; c. Estimativa de valores com aulas teóricas e práticas recebido pelo CFC dos cidadãos, conforme a data de execução das aulas teóricas e práticas. 2. RELATÓRIO DE PRESTAÇÃO SERVIÇOS ALUGUEL VEÍCULO AULAS CAT. C, D e E, com duas colunas: a. Quantidades de aulas; b. Valores com aluguel de veículos para a realização de aulas práticas. 3. RELATÓRIO DE PRESTAÇÃO SERVIÇOS ALUGUEL DE VEÍCULO PARA PROVA PRÁTICA, com duas colunas: a. Quantidade de provas; b. Valores com aluguel de veículos para a realização de provas práticas. - Assim, o faturamento mensal do CFC apurado pelo DETRAN/RS corresponde à soma do valor da remuneração total paga pelo DETRAN -RS ao CFC (serviços delegados) com a remuneração total pelos serviços próprios do CFC (aulas teóricas e práticas e aluguel de veículos para realização de aulas e provas práticas), ou seja, “1a" + Fl. 2979DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 5 ”1c” + ”2b” + 3b”. - De posse das informações descritas nos itens 1.3 e 2.3 a 2.7 do Parecer, a fiscalização montou planilhas, obtendo uma comparação, nos anos de 2017, 2018 e 2019, entre o faturamento mensal do CFC DOIS IRMÃOS informado pelo DETRAN -RS e o declarado pela Fiscalizada na PGDAS -D . - Pela análise das planilhas, é possível constatar a existência de divergências que superam R$1.900.000,00, ou seja, quase 25% das receitas auferidas subtraídas da tributação, prática recorrente em 33 dos 36 meses do período destacado . -Em virtude das diferenças apuradas entre os dados declarados nas PGDASD e os dados obtidos junto ao DETRAN/RS, conforme itens 2.8 e 2.9 do Parecer, o CFC DOIS IRMÃOS foi cientificado do Termo de Intimação 01, por meio do qual foram solicitados esclarecimentos das divergências. - Em resposta, em 26/02/2021, o CFC DOIS IRMÃOS apresentaram resposta ao Termo de Intimação Fiscal nº 1, no qual afirma que : “O sistema informatizado do DETRAN/RS registra a prestação de serviços realizados pelos CFC. Assim, prestação dos serviços são informados com base na data efetiva da execução da aula ou prova registrada no sistema do Detran/RS e não da data efetiva de contratação do serviço quando se dá emissão da Nota Fiscal pelo CFC. O Centro de Formação de Condutores é uma empresa de prestação de serviços, que apura a sua receita tributada pelo regime de competência, ou seja, quando da contratação prestação de serviços. Nas suas operações, existe um volume significativo de valores que são recebidos antes da efetiva prestação do serviço, em função de o seu cliente efetuar o pagamento no momento da contratação. Porém, em praticamente todos os casos o serviço é prestado em competências posteriores ao recebimento, e em alguns casos, nem chega a ser prestado. O faturamento da empresa está consubstanciado na escrituração contida nos livros diários e razão juntados a este dossiê eletrônico, os relatórios gerados pelo sistema informatizado do Detran/RS, tão somente tem a função de disponibilizar as informações, referentes aos processos de habilitação de condutores e de veículos e dos demais serviços correlatos sob sua responsabilidade. Outrossim, os 5% referente a retenção efetuada pelo DETRAN/RS sobre a remuneração do CFC, não tem natureza de faturamento, já que se revela como ônus a ser pago pelo contribuinte à Autarquia Estadual, não podendo ser incluído na base de cálculo para a cobrança do Simples Nacional.” - Em 13 /05 /2021 a Fiscalizada apresentou resposta ao TIF 04, onde afirmou que: “É preciso registrar que os Centros de Formação de Condutores são empresas privadas, que exercem atividades de Formação e Aperfeiçoamento de Condutores de Veículos Automotores, cujo objetivo social é atividade de instrução teórico - técnica e prática de direção veicular; formação, atualização e reciclagem de candidatos e condutores de veículos automotores; avaliação psicológica, exames Fl. 2980DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 6 de aptidão física e mental; serviços de processo de habilitação de condutores, mediante a delegação do serviço público através do credenciamento. Dentro deste contexto, é oportuno esclarecer que a Portaria 181/2016 institui regulamentação e operacionalização dos Centros de Formação de Condutores, determina que os Centros de Formação de Condutores disponibilizem em sistema informatizado informações, relativas às condições administrativas do CFC, referentes aos processos de habilitação de condutores e de veículos e dos demais serviços correlatos sob sua responsabilidade. O artigo 5º do anexo I, da supracitada portaria, afirma que dentre as obrigações do CFC, estão “os registros necessários às atividades diárias dos CFCs credenciados serão realizados no sistema informatizado do DETRAN/RS, por seus profissionais”, não contemplando o dever de informar os seus dados contábeis e financeiros. Os registros obtidos juntos ao Detran/RS referem -se tão somente as quantidades de aulas ministradas, de acordo com registrado no sistema informatizado. O faturamento da empresa está consubstanciado na escrituração contida nos livros contábeis, bem como as Notas Fiscais juntadas a este dossiê eletrônico, os relatórios gerados pelo sistema informatizado do Detran/RS, tão somente tem a função de disponibilizar as informações, referentes aos processos de habilitação de condutores e de veículos e dos demais serviços correlatos sob sua responsabilidade. De outro lado, os 5% referente a retenção efetuada pelo DETRAN/RS sobre a remuneração do CFC, não tem natureza de faturamento, já que se revela como ônus a ser pago pelo contribuinte à Autarquia Estadual, não podendo ser incluído na base de cálculo para a cobrança do Simples Nacional.” - Tendo em vista que o regime de apuração das receitas do CFC DOIS IRMÃOS é o de competência, conforme afirmado pela Fiscalizada e verificado nos PGDAS -D entregues, destaca a fiscalização que no regime de competência a receita é considerada realizada e, portanto, auferida, quando um serviço é prestado com anuência do tomador e com o compromisso contratual deste de pagar o preço acertado, sendo irrelevante, nesse caso, a ocorrência de sua efetiva quitação. - Portanto, no regime de competência a receita é auferida no momento da efetiva prestação do serviço, que coincide, conforme relatado anteriormente, com o do efetivo registro nos sistemas informatizados do DETRAN/RS. - Relata a fiscalização que, admitindo -se a possibilidade da existência de emissão de Nota Fiscal pelo CFC em determinado período, com o registro da prestação de serviços em período subsequente, também deve se supor a existência no período subsequente, de Notas Fiscais relativas a serviços prestados posteriormente, portanto, ao longo do tempo existiria uma equalização de valores, justificando a observação no ofício encaminhado pelo DETRAN -RS nº DFC 0004 -2021, datado de 04 de março de 2021, de “Faturamento médio/mínimo”, considerando uma temporalidade anual. A expressão “mínimo”, entende a fiscalização derivar da impossibilidade da Fl. 2981DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 7 autarquia de controlar a emissão ou não das notas fiscais para os cidadãos, como afirmado no Ofício nº DFC 0004 -2021, o que poderia acarretar a existência de serviços prestados sem o correspondente registro, ficando o faturamento decorrente à margem da tributação. - Prossegue a fiscalização aduzindo que, quanto à alegação do CFC de que a retenção de 5% (cinco por cento) efetuada pelo DETRAN -RS sobre o valor das aulas, não corresponderia à receita do CFC, constituindo receita de terceiros, tratar -se -ia de afirmação improcedente, uma vez que tal valor compõe a base de cálculo do Simples Nacional. Isto porque, segundo a fiscalização, não cabe ao contribuinte deduzir da base de cálculo qualquer tipo de custo ou despesa da atividade, como os repasses de 5% (cinco por cento) ao Detran -RS dos valores de horas -aula práticas e teóricas ministradas (conforme art. 2º do Anexo VIII da Portaria Detran/RS nº 181/2016). Caso desejasse abater esses custos da base de cálculo de tributação, por óbvio, deveria o sujeito passivo optar por outro regime de tributação (como o Lucro Real). - Nesse sentido a Solução de Consulta Cosit nº 160, de 28 de dezembro de 2020, reitera que a receita bruta para definição da base de cálculo, no caso de prestação de serviços, corresponde ao preço integral constante na nota fiscal . - Considerando que o CFC tem as obrigações acessórias de: (a) emitir nota fiscal pela totalidade da remuneração decorrente dos serviços prestados ao Detran -RS, conforme valores definidos em Portarias, tendo como destinatário dos serviços o Detran -RS, e (b) emitir nota fiscal pela totalidade dos serviços realizados, como aulas teóricas e práticas e aluguéis de veículos para aulas e provas, sendo que estas têm como destinatário os cidadãos que solicitam tais serviços; conclui a fiscalização que não encontra amparo na legislação que regula o Simples Nacional a não inclusão na base de cálculo, nem é possibilitada a dedução da retenção correspondente aos 5% (cinco por cento) dos serviços próprios . - Face a manifestação da fiscalizada, não assumindo como corretos os valores de faturamento extraído das informações constantes nos sistemas informatizados do DETRAN -RS, que serviriam no seu entendimento “tão somente para disponibilizar informações referentes aos processos de habilitação de condutores e de veículos e dos demais serviços...” foi lavrado o Termo de Intimação Fiscal 02, o qual solicitava a apresentação dos seguintes elementos: “1. Apresentar os relatórios/consultas mensais denominados TOTAL REMUNERAÇÃO, disponibilizados pelo Detran ao Sujeito Passivo nos termos do caput do art. 6º do anexo VII da Portaria DETRAN -RS 181 de 2016 e referentes aos serviços e valores de remuneração dos CFC. 2. Cópia das Informações dirigidas ao DETRAN -RS, contendo as discrepâncias encontradas na comparação entre o relatório do DETRAN -RS e o registro do CFC, a respeito das receitas obtidas pela Dois irmãos, bem como eventual resposta do órgão estadual e as correções realizadas. - Em 22 /03 /2021 foi apresentada a resposta, na qual o contribuinte juntou os relatórios solicitados no item 1 do Termo de Intimação, bem como as notas fiscais Fl. 2982DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 8 emitidas ao Detran -RS em valores coerentes com as planilhas do item 2.11 do Parecer, sem menção a correções que teriam sido encaminhadas ao órgão estadual. - Em análise ao relatório “Totais de Remuneração” (item 1 do Termo de Intimação), a fiscalização verificou que o documento especifica a competência e o período em que se deu a prestação dos serviços delegados, a discriminação deles, o valor unitário de cada serviço, e, por fim, o valor total correspondente. Ao final de cada período mensal, encontra -se o somatório dos serviços delegados prestados pelo CFC no respectivo mês, designado pela expressão “TOTAL CRÉDITOS (R$)”. Também, ao final de cada período, foi constatada a existência de valor lançado com o histórico de “PREVISÃO DE RETENÇÃO DO PERC. HORAS AULA”. Tal valor corresponde ao previsto no art. 2º do Anexo VIII da Portaria DETRAN/RS nº 181/2016, referindo -se aos serviços próprios de horas -aula teóricas e práticas de direção veicular. - Quanto ao item 2 do Termo de Intimação Fiscal nº 02, que solicitava a apresentação de contestação aos dados mensais disponibilizados pelo DETRAN -RS ao CFC DOIS IRMÃOS e respectiva documentação comprobatória, o contribuinte nada apresentou. Ora, o referido relatório serve de base para o pagamento dos serviços delegados (RENACH expedição e renovação, exame de aptidão física e mental e avaliação psicológica) e para a retenção de 5% sobre os valores das aulas práticas e teóricas ministradas pelo CFC. As quantidades de serviços delegados e de aulas práticas e teóricas ministradas, constantes nos sistemas informatizados do DETRAN -RS ,são dados reais e permitem apurar o faturamento efetivo do contribuinte, não servindo apenas para os controles dos processos de habilitação dos condutores, como anteriormente afirmado pelo sujeito passivo, os quais multiplicados pelos seus valores unitários previstos nos anexos VII e VIII da Portaria DETRAN/RS nº 181, de 2016, correspondem ao faturamento real do CFC DOIS IRMÃOS no período de janeiro de 2017 a dezembro de 2019. - Ressalta a fiscalização que, conforme disposto na Portaria DETRAN/RS nº 181/2016, é com base nesses registros que o Detran apura o valor correspondente a 5% (de todas as aulas teóricas e práticas de direção veicular ministradas) que o CFC deve repassar ao órgão. - Observa a fiscalização que a empresa teve acesso mensalmente ao relatório produzido pelo DETRAN -RS denominado “Total da Remuneração”, referente aos serviços e valores de remuneração do CFC. Solicitada pelo item 2 do Termo de Intimação nº 02 a apresentar contestação encaminhada ao DETRAN/RS, refutando os dados constantes do relatório em questão, o que poderia ter feito em consonância com o estabelecido na Portaria DETRAN/RS nº 181/2016, Anexo VII, art. 6º, parágrafo único, a intimada adotou o silêncio, nada apresentando. Então pressupõe a fiscalização que o CFC DOIS IRMÃOS aceitaram como legítimos os dados expressos no relatório em comento, tendo sua remuneração pelos serviços delegados pelo DETRAN -RS em função dos valores lá consignados. - Desta forma, não tendo a fiscalizada encaminhado ao DETRAN -RS nenhuma manifestação de discordância ao relatório “Total da Remuneração”, e não tendo Fl. 2983DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 9 sido apresentado ao Fisco qualquer elemento que viesse a refutar os dados informados pelo DETRAN -RS, a não ser as meras alegações antes referidas, todas tidas como inconsistentes, entendeu a fiscalização como legítimo o faturamento mensal constante da informação recebida do DETRAN -RS . - Em 20/04/2021 , o contribuinte foi cientificado, via DTE, do Termo de Intimação Fiscal nº 3, por meio do qual foi solicitado a apresentar Livro de Registro do Imposto sobre Serviços, elaborado para a Prefeitura Municipal, ou documento equivalente, preferencialmente em meio digital, ou justificativa que ampare sua dispensa. Em 20/04/2021 apresentou os Relatórios das NFS Emitidas – Prestador entregues à Prefeitura Municipal. - A fiscalização, ao analisar os Relatórios das NFSe Emitidas – Prestador entregues para a Prefeitura Municipal, referentes aos anos de 2017, 2018 e 2019, chegou à conclusão de que o CFC DOIS IRMÃOS não emitiu as notas fiscais sobre as receitas omitidas, portanto, muitos tomadores de serviço não receberam a correspondente nota fiscal relativa à prestação do serviço (nos 33 meses listados, dos 36 do período sob fiscalização), prática usual quando se deseja sonegar tributos. - Apesar de constar nos sistemas informatizados do DETRAN -RS o registro da aula prática ou teórica no momento da prestação deste serviço, e, apesar do seu valor servir de base para a retenção de 5% sobre o repasse da remuneração mensal do CFC, aduz a fiscalização que não foram emitidas as notas fiscais sobre a totalidade dos serviços prestados e não foi declarado em PGDAS -D a totalidade das receitas auferidas, sistematicamente, deliberadamente, visando ao pagamento a menor de tributos, caracterizando a conduta dolosa do CFC DOIS IRMÃOS . - Portanto, relata a fiscalização que a não emissão de nota fiscal de prestação de serviços sobre quase 1/4 do total dos serviços prestados ao longo dos anos de 2017, 2018 e 2019, constitui -se em descumprimento reiterado do inciso I do caput do art. 26 da Lei Complementar nº 123, de 2006, estando previsto no inciso XI do art. 29 deste mesmo diploma legal como mais uma das hipóteses de exclusão de ofício do Simples Nacional. - Assim, com base nos dados constantes nas planilhas inseridas junto ao parágrafo 2.8 do Parecer Fiscal, foram elaborados os quadros demonstrativos nos quais restou a omissão mensal apurada após o aproveitamento do saldo de faturamento declarado a maior pela fiscalizada em períodos anteriores. - Confrontada a receita declarada pelo CFC DOIS IRMÃOS com aquela informada pelo DETRAN -RS, verificou a fiscalização que houve uma expressiva omissão de receitas no período auditado. O valor omitido alcançou soma superior a R$ 1.900.000,00, concluindo a fiscalização que cerca de 25% das receitas auferidas foram subtraídas da tributação, prática recorrente do CFC DOIS IRMÃOS em 33 dos 36 meses do período destacado. - Aduz a fiscalização que não é concebível que nos 36 períodos mensais auditados, em 33 tenha -se verificado faturamento declarado pelo CFC DOIS IRMÃOS em valor inferior ao obtido com base no sistema informatizado do DETRAN -RS, e, que tal fato como reputado pela Fiscalizada deva Fl. 2984DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 10 -se ao simples descompasso entre a efetiva prestação dos serviços e a sua contratação ou recebimento. Além disso, no regime de competência a receita é auferida no momento da efetiva prestação do serviço, que coincide com o efetivo registro nos sistemas informatizados do DETRAN/RS . - Desse modo, de janeiro de 2017 a dezembro de 2019, constatou a fiscalização a prática de omissão de receitas, mês a mês, configurando prática reiterada a fim de suprimir ou reduzir o pagamento de tributo apurável no Simples Nacional. - Portanto, a fiscalização concluiu pela ocorrência da situação prevista como hipótese de exclusão de ofício do Simples Nacional prevista no inciso V do art. 29 da Lei Complementar nº 123, de 2006 . - Segundo a fiscalização, o CFC DOIS IRMÃOS, inequivocamente, utilizaram -se de meio fraudulento com intuito de fraude, ao preencher o PGDAS -D nos meses de janeiro de 2017 a dezembro de 2019, de forma contínua e deliberada, com informações que reduziram os tributos que deveriam ser informados e pagos ao erário. A ocorrência da segunda infração idêntica, no caso de utilização de artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento é suficiente para caracterizar a prática reiterada, para os fins dispostos no inciso V do caput do art. 29 da Lei Complementar nº 123, de 2006, sendo que, no caso em tela, foram 33 infrações idênticas de um total de 36 possíveis. - A exclusão de ofício foi formalizada no Ato Declaratório Executivo DRF/PEL nº 15, de 9 de agosto de 2021. - Em decorrência da mencionada exclusão, a fiscalização lavrou o Termo de Intimação Fiscal nº 5, (ciência eletrônica em 16 -08 -2021) que intimou a empresa a informar, no prazo de 20 dias, para fins de constituição do crédito tributário decorrente da exclusão declarada, qual a sua opção de regime de tributação nos anos de 2017 a 2019, com base no qual seria feita a apuração do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (Lucro Real ou Lucro Presumido). Conforme constava do corpo da intimação, o silêncio ao fim do prazo concedido implicaria na apuração dos tributos pelo regime do Lucro Presumido. - Considerando-se que o prazo se esgotou sem manifestação, os tributos foram apurados nos termos da legislação do Lucro Presumido. - Relata a fiscalização que o crédito tributário constituído em consequência da auditoria decorre de duas situações. A primeira inerente à exclusão da fiscalizada do SIMPLES NACIONAL, com a consequente tributação dos valores declarados pelo sistema, recalculados pelas regras do Lucro Presumido, conforme opção manifestada pela contribuinte. A segunda, decorre da apuração de omissão de receitas, conforme demonstrado nas tabelas constantes do item 2.8 do Relatório Fiscal . - Desta forma, foi efetuado o lançamento do IRPJ e reflexos, CSLL, PIS/Pasep e COFINS, conforme valores apurados pela fiscalização e demonstrados nas tabelas constantes do item 2.8 do Relatório Fiscal, de acordo com o que preceitua o art. 24 da Lei nº 9.249/1995, devido à caracterização das infrações: Omissão de receitas da atividade e Exclusão do Simples Nacional – Receita Bruta mensal na prestação de serviços em geral. - Aduz a fiscalização que de acordo com o artigo Fl. 2985DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 11 44 da Lei nº 9.430/96, a multa a ser aplicada na infração “Exclusão do Simples Nacional” será de 75%. Por sua vez, em relação à infração “Omissão de receitas da atividade”, a multa aplicada deverá ser de 150%, visto que examinando o comportamento da fiscalizada, verificou -se ao longo dos três anos auditados, omissão de parcela expressiva do faturamento auferido. - Prossegue a fiscalização relatando que a situação constatada permitiu concluir que a conduta da fiscalizada não foi obra de mero e simples engano ou equívoco, mas, sim, resultado de um descaso sistemático e deliberado para com as obrigações tributárias decorrentes de sua atividade empresarial, evidenciando a intenção, o dolo, de evitar o pagamento dos tributos devidos, impedindo o conhecimento, por parte da autoridade fazendária, da ocorrência do fato gerador. - Destarte, no entendimento da fiscalização, agiu o contribuinte no manifesto intuito de fraudar a arrecadação e fiscalização dos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal. Ademais, relata a fiscalização que o CFC DOIS IRMÃOS conhecia os atos que realizava e sua significação. Além disso, certamente estava disposto a produzir o resultado deles decorrente. Em seu comportamento estão hospedados todos os elementos que compõe o dolo, de acordo com a teoria da vontade: a vontade de agir, a consciência da conduta e do seu resultado e a consciência de que sua ação levaria ao resultado desejado. - Com isto, aduz a fiscalização que restaram materializadas as hipóteses previstas no artigo 71 da Lei 4.502/64 (sonegação) e artigo 1º, inciso II da Lei nº 4.729/65, motivo pelo qual houve agravamento da penalidade a ser aplicada no lançamento de ofício, nos termos do que dispõe o § 1º do artigo 44 da Lei nº 9.430/96, com redação dada pela Lei nº 11.488/07. - Observa a fiscalização que em três períodos mensais o valor do faturamento declarado nos PGDAS -D superou aquele obtido com base no sistema informatizado do DETRAN/RS. - De modo a considerar os valores declarados a maior pela contribuinte, o critério adotado foi de aproveitamento dos valores excedentes apurados, compensando - os com as omissões verificadas nos períodos subsequentes. - Assim, com base nos dados constantes nas planilhas inseridas junto ao parágrafo 2.8 do Parecer Fiscal, foram elaborados quadros demonstrativos nos quais restou evidenciada na coluna (6) a omissão mensal apurada após o aproveitamento do saldo de faturamento declarado a maior pela fiscalizada em períodos anteriores . - Em conformidade com os art. 1º a 4º da Portaria RFB nº 1.750, de 12/11/2018, foi feita a Representação Fiscal para Fins Penais ao Ministério Público Federal, consubstanciado pelo processo administrativo nº 11000.725.813/2021 -65, tendo em vista que os atos praticados pelo contribuinte, acima detalhados, configuram, em tese, crime contra a ordem tributária, tipificado no art. 1º, incisos I e II e art. 2º, inciso I da Lei nº 8.137, de 27/12/1990. - O Código Tributário Nacional – Lei nº 5.172/1966, em seu artigo 135, inciso III, estabeleceu que os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado respondem pessoalmente pelos créditos tributários exigidos por conta de atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos. Portanto, Fl. 2986DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 12 nestas situações, a norma legal os qualificou como responsáveis solidários pelos créditos tributários que forem exigidos da pessoa jurídica. - Desse modo, respondem pelos créditos tributários, solidariamente com a pessoa jurídica, as pessoas físicas que nela tinham poderes de gestão na época da ocorrência dos fatos geradores, se constatada a prática de atos que corresponderam à infração de lei. Segundo a fiscalização, a lei infringida não precisa ser, necessariamente, tributária, mas as suas consequências devem ter efeitos tributários. - Aduz a fiscalização que se constatou a prática de sonegação, nos termos do art. 71 da Lei nº 4.502/64, em função da adoção de conduta dolosa, tendente a impedir ou retardar o conhecimento, por parte da autoridade fazendária, da ocorrência dos fatos geradores correspondentes aos créditos tributários ora exigidos. - Portanto, restou caracterizado que os administradores da fiscalizada praticaram atos enquadrados como infração de lei, com reflexos tributários. - No caso em foco, a empresa fiscalizada possui em seu quadro societário Jair Francisco Quilin, (CPF 518.505.400 -04), Ivilene Salete Quilin (CPF 533.229.910 -91) e Ione Lorenz Goulart (CPF 665.610.350 -20). - Na alteração contratual registrada na Junta Comercial em 12 -03 -2005 e aprovada em 04 -04 -2005, ficou determinado que administração da Sociedade caberia a Jair Francisco Quilin (cláusula 7ª). A partir de alteração contratual registrada em 04 -12 -2017 e aprovada em 13 - 12 -2017, Ivilene Salete Quilin passou a também exercer a administração da sociedade. - Desse modo, em função do disposto no art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional, aduz a fiscalização que JAIR FRANCISCO QUILIN, (CPF 518.505.400 -04 e RG 9039361465 - SSP/RS) e IVILENE SALETE QUILIN (CPF 533.229.910 -91 e RG 604914) devem ser erigidos à condição de responsáveis solidários pelos créditos tributários apurados na ação fiscal, sendo Jair Francisco Quilin em relação aos fatos geradores de janeiro/2017 a dezembro/2019 e Ivilene Salete Quilin quanto aos fatos geradores entre dezembro/2017 a dezembro de 2019 . - Informa a fiscalização que, em razão da responsabilidade tributária solidária atribuída aos sócios com poderes de administração referir -se a períodos distintos, a formalização dos lançamentos de ofício deu -se em dois processos administrativos fiscais digitais (e -processo). o PAF 11000.725.742/2021 -09 corresponde ao crédito tributário apurado em relação aos fatos geradores de janeiro a novembro de 2017. De outra parte, o PAF 11000.725.728/2021 -05, reporta -se aos créditos tributários correspondentes aos fatos geradores de dezembro de 2017 a dezembro de 2019 . 3. A empresa (e-fl. 2660-2697) e os responsáveis solidários (e-fls. 2735-2764) apresentaram impugnações alegando, em síntese, que: i) a cobrança dos tributos (IRPJ, CSLL, PIS/COFINS) deveria ser suspensa, pois existe um processo administrativo paralelo em que se discute a exclusão da empresa do Simples Nacional. A decisão sobre a exclusão é um pré-requisito para a validade desta autuação. Fl. 2987DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 13 ii) a fiscalização errou ao calcular a receita da empresa. A autoridade fiscal comparou a receita declarada (no PGDAS) com uma "estimativa" de faturamento baseada nos registros de aulas no sistema do Detran/RS (Sistema GID). A impugnante sustenta que: O sistema do Detran/RS registra apenas os serviços prestados (aulas ministradas) em um determinado mês, e não o faturamento (serviços contratados e pagos), que ocorre em momento anterior. O próprio Diretor Geral do Detran/RS, por meio de ofício, esclareceu que os dados do sistema são estatísticos, referem-se à quantidade de serviços, e não representam o faturamento dos Centros de Formação de Condutores (CFCs). iii) a empresa alega que, mesmo que a autuação fosse mantida, a base de cálculo dos tributos está incorreta. Os valores repassados ao Detran/RS (5% sobre os serviços) são receitas de terceiros e não deveriam compor a receita bruta da empresa para fins de tributação, conforme a Solução de Consulta Cosit nº 129/2020. iv) Solicita-se a desqualificação da multa de 150% para o patamar de 75%, argumentando que não houve comprovação de dolo ou fraude que justificasse a penalidade agravada. v) contesta a inclusão do sócio administrador como responsável solidário pelo débito. Argumenta-se que, para tal, a fiscalização precisaria comprovar que o administrador agiu com excesso de poderes ou infração à lei e que se beneficiou pessoalmente, o que não teria sido demonstrado. vi) ao final, requer a anulação integral da autuação fiscal por vício no método de apuração da receita. Subsidiariamente, pede a revisão da base de cálculo, a redução da multa e o afastamento da responsabilidade do sócio. 4. A DRJ através do Acórdão nº 108 -042.422 – 10ª TURMA/DRJ08, sessão de 27 de março de 2024 (e-fls. 2802-2845), julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, verbis: Assunto : Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Período de apuração: 01/12/2017 a 31/12/2019 RECEITA BRUTA. DADOS FORNECIDOS PELO DETRAN. Correta a identificação da receita bruta do contribuinte a partir dos dados fornecidos pelo Detran/RS de receitas auferidas pelo contribuinte, compostas dos valores pagos à autuada pelo Detran/RS e aqueles, registrados nos sistemas do Detran/RS, que foram recebidos pela autuada, pagos pelos cidadãos a quem prestou serviços. OMISSÃO REITERADA DE RECEITA. ALEGAÇÃO DE DIFERENÇA TEMPORAL DE REGISTROS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. Não pode ser admitida argumentação de defasagem temporal de registros de receita para invalidar autuação quando reclamante não apresenta quaisquer Fl. 2988DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 14 provas de sua defesa retórica. Ainda mais quando a análise fiscal em tempo ampliado demonstra claramente a impossibilidade de cabimento da referida argumentação da defesa e, ao contrário, comprova a prática reiterada de sonegação fiscal. Assunto : Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/12/2017 a 31/12/2019 MULTA QUALIFICADA. SONEGAÇÃO, FRAUDE OU CONLUIO. APLICAÇÃO. Será aplicada multa de 100% sobre o imposto ou contribuição objeto de lançamento de ofício nos casos previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. RETROATIVIDADE BENIGNA . A lei aplica -se a ato ou fato pretérito, tratando -se de ato não definitivamente julgado, quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. OMISSÃO DE RECEITA. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ARTIGO 135, III, DO CTN. POSSIBILIDADE. A omissão reiterada de receita configura infração à lei e enseja a responsabilização dos administradores da pessoa jurídica pelos fatos geradores que ensejaram o surgimento da obrigação tributária. CSLL, PIS E COFINS. LANÇAMENTO REFLEXO. MESMOS EVENTOS. DECORRÊNCIA. A ocorrência de eventos que representam, ao mesmo tempo, fatos geradores de vários tributos impõe a constituição dos respectivos créditos tributários, e a decisão quanto à ocorrência desses eventos repercute na decisão de todos os tributos a eles vinculados. Assim, o decidido em relação ao Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ aplica -se à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, à Contribuição ao PIS/Pasep e à COFINS. Assunto : Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/12/2017 a 31/12/2019 PROCESSOS COM RELAÇÃO DE CONEXÃO. EFEITOS DA IMPUGNAÇÃO DE EXCLUSÃO AO SIMPLES. SOBRESTAMENTO. AÇÃO JUDICIAL. CONCOMITÂNCIA. RENÚNCIA. A propositura de ação judicial com o mesmo objeto do processo administrativo fiscal configura renúncia às instâncias administrativas. PRODUÇÃO DE PROVAS APÓS A IMPUGNAÇÃO. PROTESTO GENÉRICO. Deve ser indeferido o protesto genérico pela produção de provas, face ao não atendimento das condições previstas no art. 16 do Decreto nº 70.235/72. Impugnação Improcedente. Fl. 2989DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 15 Crédito Tributário Mantido em Parte. ACÓRDÃO Acordam os membros da 10ª TURMA/DRJ08 de Julgamento, por unanimidade de votos, JULGAR IMPROCEDENTE S AS IMPUGNAÇÕES, nos termos do relatório e voto que integram o julgado, para: i- INDEFERIR o protesto genérico para produção de provas; ii - NÃO CONHECER do pedido de sobrestamento em razão de a matéria estar submetida à via judicial ; iii - MANTER os créditos tributários relativos ao principal (IRPJ, CSLL, PIS/Pasep e COFINS) em sua integralidade; iv - MANTER A RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA dos sócio s administradores JAIR FRANCISCO QUILIN, CPF: 518.505.400 -04 e IVILENE SALETE QUILIN, CPF: 533.229.910 -91 . v - REDUZIR o percentual da multa de ofício de 150% para 100%, nos lançamentos relativos à omissão de receitas . À Delegacia da Receita Federal que jurisdiciona o domicílio da contribuinte e dos responsáveis solidários, para dar ciência deste Acórdão aos interessados, com a ressalva do direito de interpor Recurso Voluntário, no prazo máximo de 30 (trinta) dias, conforme facultado pela legislação aplicável e demais providências de sua alçada. 5. O contribuinte e responsáveis solidários apresentam Recursos Voluntários (e-fls. 2863 e ss), com as mesmas alegações das impugnações. 6. É o relatório. VOTO Conselheiro Edmilson Borges Gomes, Relator 7. Os recursos voluntários são tempestivos e atendem os demais requisitos de admissibilidade, não havendo, inclusive, questionamento pela parte quanto ao seu seguimento, razão, pela qual deles conheço. 8. Trata-se de Recursos Voluntários interpostos pelo contribuinte (C F C DOIS IRMAOS LTDA) e os responsáveis solidários JAIR FRANCISCO QUILIN e IVILENE SALETE QUILIN em face do Acórdão nº 108-042.422, proferido pela 10ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DRJ), que manteve o lançamento de ofício referente a IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, apurados no âmbito do Simples Nacional, relativos ao período de 01.12.2017 a 31.12.2019, com a aplicação de multa qualificada e a responsabilização solidária dos sócios. Fl. 2990DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 16 9. A autuação fiscal decorreu da apuração de omissão de receitas, identificada a partir do cruzamento de dados fornecidos pelo Departamento Estadual de Trânsito (DETRAN/RS) com as receitas declaradas pela empresa no PGDAS-D, nos anos-calendário de 2017, 2018 e 2019. A fiscalização constatou que os valores registrados nos sistemas do DETRAN/RS, referentes aos serviços prestados pelo Centro de Formação de Condutores (CFC), eram significativamente superiores aos valores declarados como receita bruta pela contribuinte. 10. A decisão do colegiado a quo rejeitou a impugnação, validando a metodologia de apuração da receita utilizada pela fiscalização e mantendo a exigência fiscal, a multa qualificada e a responsabilidade dos sócios. 11. Inconformados, os recorrentes apelam a este Conselho, onde alegam que o método de apuração da receita é equivocado, tratando-se de mera "estimativa" que não reflete o faturamento real, argumentando haver uma defasagem temporal entre o registro do serviço no sistema do DETRAN e o efetivo recebimento dos valores. 12. Os sócios, JAIR FRANCISCO QUILIN e IVILENE SALETE QUILIN, em recursos apartados, pleiteiam o afastamento de suas responsabilidades solidárias, sustentando que a fiscalização não individualizou suas condutas nem comprovou a prática de atos com excesso de poderes ou infração à lei, conforme exige o artigo 135, inciso III, do Código Tributário Nacional (CTN). 13. Requerem, ao final, a desconstituição do crédito tributário ou, subsidiariamente, o afastamento da responsabilidade solidária e a redução da multa. 14. Passo à análise dos pontos controvertidos. I- Do mérito da autuação (omissão de receita) 15. A decisão recorrida manteve a apuração da omissão de receita por entender que a Recorrente não se desincumbiu de seu ônus probatório. A tese do "descasamento temporal" entre o faturamento e a prestação de serviços, embora plausível em teoria, não foi sustentada por qualquer prova documental. Veja-se excertos da decisão recorrida: “ DA OMISSÃO DE RECEITAS. Conforme relatado, a autuação é referente ao lançamento de IRPJ, CSLL, PIS/Pasep e COFINS, nos anos calendários de 2017, 2018 e 2019, sobre as receitas declaradas em PGDAS-D, visto que a contribuinte foi excluída do Simples Nacional de forma retroativa, conforme processo administrativo nº 11000.724732/2021-48, e sobre as receitas omitidas apuradas durante o procedimento fiscal, tendo por base as informações prestadas pelo Detran/RS. Ressalte-se que, neste processo, foram efetuados os lançamentos referentes ao período de 01/01/2017 a 30/11/2017. Registre-se, por oportuno, que a exclusão do Simples Nacional já foi objeto de análise nessa mesma sessão de julgamento, sendo que o Acórdão nº 108-042.421 decidiu pela improcedência da manifestação de inconformidade, mantendo a Fl. 2991DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 17 exclusão de ofício da contribuinte do sistema do Simples Nacional a partir de 01/01/2017. Em sua defesa, a Impugnante contesta a utilização pela Fiscalização dos dados fornecidos pelo Detran/RS, defendendo que em nenhum momento teria omitido receitas e/ou descumprido de forma reiterada a legislação em vigor. Afirma, em síntese, que a prestação dos serviços envolveria várias etapas e um longo período, mas que registraria a receita no momento da contratação do serviço e da correspondente emissão da nota fiscal, independentemente de ter recibo o pagamento ou de ter prestado por completo os serviços, ao passo que o Detran/RS efetuaria o registro em seus sistemas no momento da prestação do serviço. Acrescenta que a retenção de 5% efetuada pelo Detran/RS sobre os serviços próprios seria receita do Estado e não do CFC, não podendo compor a base de cálculo para fins de tributação. Questiona, por fim, a qualificação da multa de ofício de 75% para 150% e a responsabilidade tributária dos sócios. (...)Com base em informações prestadas pelo Detran/RS, a Fiscalização apurou omissão de receitas que deixaram de ser declaradas no Programa Gerador do Documento de Arrecadação do Simples Nacional — Declaratório (PGDASD), como se observa do comparativo abaixo: Fl. 2992DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 18 (...) É que a Portaria Detran/RS nº 181/2016, prevê em seu Anexo VII!, a possibilidade de o CFC informar imediatamente ao Detran/RS, para fins de averiguação e providência, qualquer discrepância entre as receitas constantes dos relatórios do Detran/RS e aquelas constantes dos registros do CFC. Mas, como mencionado, o sujeito passivo não trouxe qualquer comprovação de ter manifestado discordância das receitas consideradas pelo Detran/RS. Os únicos documentos juntados aos autos com a Impugnação (fls. 2662/2696) são o Ofício DG236/2020 do Detran/RS e dados de alguns poucos contratos da Impugnante dos anos de 2017 a 2019, que não trazem qualquer comprovação das alegações de defesa. (...)Desta feita, tendo em vista que os valores de receitas considerados foram aqueles registrados pelo Detran/RS na data da efetiva execução dos serviços, não se trata, pois, de estimativas de receitas, mas do efetivo auferimento de receitas pela contribuinte, conforme previsto nas normas de regência, não havendo reparos a fazer no procedimento adotado pela Fiscalização. Quanto aos Ofícios nºs DFCOO04-2021 e DG236/020 do Detran/RS citados pela defesa, temos que as informações neles constantes em nada alteram as conclusões deste voto, tendo em vista que o Detran no próprio Ofício nº DFC 0004/2021, informou à fiscalização que: (...)A interessada alega, ainda, que outros fatores corroborariam a imprestabilidade da apuração de receitas pela fiscalização, tais como: (a) concessão de descontos e bonificações nos valores, (b) realização de algumas etapas em um CFC e finalização em outro, (c) o cidadão pode estender o processo de habilitação etc. Entretanto, essas alegações também não podem ser acatadas, pois a determinação da receita foi realizada a partir da efetiva prestação do serviço. Analisando as tabelas constantes do relatório fiscal, chama a atenção não apenas os valores apontados, mas a frequência. Em 33 dos 36 meses analisados houve expressiva omissão. Assim, a linha de argumentos da fiscalizada não parece manter qualquer solidez. Se o principal argumento da defesa é a diferença de momento em que ocorrem os Fl. 2993DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 19 respectivos registros na sua contabilidade e no sistema do Detran/RS, como poderia esta significativa diferença a menor se manter no decorrer do tempo? Por exemplo, se seu recebimento efetivo em 2018 tivesse sido menor que o recebimento em 2017, justificando que em algum mês sua declaração ao Fisco fosse menor que a informação prestada ao Detran, por evidente que nos meses anteriores teria ocorrido o oposto, ou seja, nos meses anteriores sua receita para declarar ao Fisco teria sido maior. Ocorre que esta lógica de variação de valores que se compensa ao longo do tempo não se identifica, tampouco a fiscalizada busca demonstrar seus argumentos com dados objetivos e documentos idôneos. A Fiscalização procedeu análise de todo um triênio e em nenhum momento esta dinâmica, que pudesse justificar a argumentação do impugnante, realiza-se. Ademais, a receita informada e tributada não pode sofrer dedução de bonificações e descontos, estes salvo se incondicionais. Se a realização de uma etapa do processo se dá em outro CFC, a interessada não registra a hora-aula como se fosse serviço prestado por ela. A demora no processo não interfere no modo que foi determinada a receita, pois o CFC só registra o valor correspondente a 5% de retenção quando presta o serviço. Já, quanto ao reajuste posteriormente à contratação, a interessada não indica em relação a quais registros teria ocorrido este fato. Impende ressaltar que a interessada foi intimada a justificar as divergências constatadas pela fiscalização e, em sua resposta, apresentou, em resumo, as mesmas alegações trazidas em sua manifestação, porém não apresentou qualquer documentação comprobatória nem durante a ação fiscal, nem junto com sua impugnação. Todo o procedimento fiscal prestigiou a busca da verdade material, não se revestindo de nenhum caráter de subjetividade. Também não merecem acolhida as alegações da Impugnante no que diz respeito à retenção de 5% efetuada pelo Detran/RS sobre os valores mensais das aulas teóricas e práticas ministradas pelo CFC MD. Registre-se que não cabe ao contribuinte reduzir da base de cálculo qualquer tipo de custo ou despesa da atividade, como os repasses de 5% (cinco por cento) ao Detran/RS dos valores de horas-aula práticas e teóricas ministradas. Nesse sentido a Solução de Consulta Cosit nº 160, de 28 de dezembro de 2020, é clara definir que a receita bruta para definição da base de cálculo, no caso de prestação de serviços, corresponde ao preço integral constante na nota fiscal: (...) Caso desejasse abater esses custos da base de cálculo de tributação, por óbvio, deveria o sujeito passivo optar por outro regime de tributação (como o Lucro Real). Assim, a integralidade dos valores cobrados pela consulente na prestação de seus serviços está inserida no conceito de receita bruta porque representa o preço dos Fl. 2994DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 20 serviços prestados. Os valores recebidos somente não comporiam a base de cálculo no caso de não lhes pertencer, mas apenas circular pela sua contabilidade, sendo a nota fiscal de responsabilidade de outra pessoa jurídica, conforme define a Solução de Consulta Cosit nº 159, de 28 de dezembro de 2020, em especial na passagem que transcrevo seguir: (...) Portanto, os valores de 5% repassados ao Detran/RF compõem a receita bruta da Impugnante. Em vista do acima exposto, estão corretas as bases de cálculos apuradas pela Fiscalização, sobre as quais incidiu o imposto de renda pessoa jurídica — IRPJ sob a sistemática do Lucro Presumido, sendo improcedentes, portanto, as alegações da Impugnante quanto à base de cálculo apurada. As mesmas razões de decidir que se mostraram adotadas na análise do IRPJ são consideradas como aplicáveis, no que se refere à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), à Contribuição para o PIS/Pasep e à Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS). 16. Corroboro integralmente o entendimento da nobre relatora da instância julgadora a quo. A fiscalização partiu de indícios objetivos e consistentes, apurados a partir de registros oficiais. Caberia à Recorrente, e não à autoridade fiscal, o ônus de provar que sua realidade fática era diversa daquela que os indícios apontavam. Ao optar por não apresentar as provas, a empresa atraiu para si as consequências de sua omissão processual. 17. Assim, nego provimento ao recurso neste ponto, mantendo a decisão da DRJ que considerou hígida a apuração da omissão de receita. II – Da multa de ofício qualificada 18. A DRJ, de ofício, reduziu a multa de 150% para 100%, aplicando a retroatividade benigna da Lei nº 14.689/2023. A defesa, contudo, pleiteia a desqualificação total da multa, para que seja aplicada no patamar de 75%. 19. A controvérsia, nesta instância, cinge-se a definir se a conduta apurada configura o dolo qualificado (sonegação, fraude ou conluio) que justifica a manutenção da multa em 100%, ou se trata de mera declaração inexata, apenada com 75%. 20. A decisão da DRJ fundamentou a manutenção da qualificação no fato de que a omissão sistemática de receitas, combinada com a falta de emissão de notas fiscais, caracteriza a sonegação prevista no art. 71 da Lei nº 4.502/64. Veja-se excertos da decisão recorrida: Foram aplicadas duas multas de ofício pela autoridade fiscal. Uma multa de 75% para a infração “Receita Bruta na Prestação de Serviços” que se refere aos valores anteriormente reconhecidos nas declarações do Simples Nacional, e em relação à infração “Omissão de Receitas na Prestação de Serviços da Atividade” a multa foi qualificada para 150%. Fl. 2995DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 21 A multa de ofício qualificada foi aplicada com base no art. 44, I, § 1º, da Lei 9.430, de 1996, na redação vigente na data dos fatos geradores: (...) Já os artigos 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1964, constantes do §1º da Lei citada acima, assim dispõem: (...) É importante salientar que a elevação da penalidade requer a devida caracterização do dolo, pois quando se pratica uma determinada conduta delitiva, de forma isolada ou de forma não reiterada, há a possibilidade de ser considerada como um erro escusável, dependendo, é claro, de uma análise do conjunto dos fatos. Entretanto, quando se pratica a conduta delitiva articulada em um conjunto de atos planejados e de forma reincidente, não se pode aceitar que se trate simplesmente de erro. No presente caso, o intuito doloso restou caracterizado pela prática reincidente e planejada dos atos descritos pela Fiscalização, conforme consta do Relatório Fiscal em fls. 02/23. 4.7 Por sua vez, em relação à infração “Omissão de receitas da atividade”, a multa aplicada deverá ser de 150%. Ocorre, que examinando o comportamento da fiscalizada, verificamos ao longo dos três anos auditados, omissão de parcela expressiva do faturamento auferido. De acordo com relato constante nos itens 2.8 e 2.9, a prática deu se em 33 dos 36 períodos mensais dos anos-calendário de 2017, 2018 e 2019. Considerado todo o período auditado, a receita declarada corresponde a 25% da efetivamente auferida, isto é, cerca de um quarto da receita auferida foi omitida. 4.8 A situação constatada permite concluir que a conduta da fiscalizada não foi obra de mero e simples engano ou equívoco, mas, sim, resultado de um descaso sistemático e deliberado para com as obrigações tributárias decorrentes de sua atividade empresarial, evidenciando a intenção, o dolo, de evitar o pagamento dos tributos devidos, impedindo o conhecimento, por parte da autoridade fazendária, da ocorrência do fato gerador. 4.9 Agiu o contribuinte no manifesto intuito de fraudar a arrecadação e fiscalização dos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal. A fiscalização concluiu pela qualificação da multa na parcela de receitas omitidas ao constatar sonegação recorrente em todo período fiscalizado. Tal prática não ocorreria sem um planejamento mínimo de implementação das informações apresentadas com o fim de manter o Fisco sem controle dos fatos geradores de tributo. Assim, pode-se imputar a existência de artifícios utilizados para manter perene o procedimento de sonegação sistemática em valores que superam 25% da receita bruta com emissão de notas fiscais em valores próximos dos declarados, mas com sonegação mensal de receitas combinada com omissão de notas fiscais. Ou seja, não se trata de mera utilização de subjetividade por parte da Fiscalização como pretende interpretar a defesa. Fl. 2996DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 22 As alegações apresentadas pelos impugnantes não se justificam pelos elementos apresentados pela Fiscalização referentes à prática rotineira de sonegação implementada pela fiscalizada, sob o álibi da diferença temporal de informações, a qual não resiste às verificações em tempo mais largo como comprovou o procedimento fiscal. No caso restou claramente caracterizada a prática de Sonegação (art. 71 da Lei nº 4.502, de 1964), dada a omissão dolosa a fim de impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, que foram as receitas auferidas e não declaradas. Sendo este enquadramento no artigo 71 da Lei nº 4.502/64 suficiente para a exigência da multa qualificada. 21. Com a devida vênia ao entendimento da turma julgadora a quo, considero que a qualificação da multa exige um passo além da mera constatação da omissão, ainda que reiterada. A jurisprudência deste Conselho, consolidada na Súmula CARF nº 14, exige a comprovação do "evidente intuito de fraude". No caso, a fiscalização não apontou a existência de artifícios, simulações ou outros elementos fraudulentos para além da própria subdeclaração de receitas. A discussão sobre a validade da metodologia, embora não tenha sido suficiente para anular o lançamento, demonstra a existência de uma controvérsia fática que afasta a certeza necessária para a imposição da penalidade mais gravosa. Súmula CARF nº 14 Aprovada pelo Pleno em 2006 A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo. Acórdãos Precedentes: Acórdão nº 101-94258, de 01/07/2003 Acórdão nº 101-94351, de 10/09/2003 Acórdão nº 104-19384, de 11/06/2003 Acórdão nº 104-19806, de 18/02/2004 Acórdão nº 104-19855, de 17/03/2004 22. Dessa forma, entendo que a conduta se amolda à hipótese de declaração inexata, devendo a multa ser fixada no patamar de 75%. III – Da responsabilidade solidária dos sócios administradores 23. O ponto central dos recursos dos sócios JAIR FRANCISCO QUILIN e IVILENE SALETE QUILIN reside na sua inclusão no polo passivo da obrigação tributária. 24. Conforme jurisprudência consolidada, a aplicação do artigo 135, inciso III, do CTN exige a comprovação de que o administrador agiu com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos. A responsabilidade não é objetiva e não pode decorrer da mera condição de sócio administrador. Fl. 2997DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 23 25. Nos autos, a fiscalização atribuiu a responsabilidade aos sócios de forma genérica, presumindo que a omissão de receitas, por ser sistemática, decorreu de ato deliberado dos administradores. No entanto, não descreveu nem comprovou quais atos específicos eles teriam praticado que se enquadrariam nas hipóteses do art. 135 do CTN. A omissão de receita, por si só, constitui infração da pessoa jurídica, e sua ocorrência não implica, automaticamente, a responsabilidade pessoal do administrador. 26. A decisão recorrida manteve a responsabilidade solidária. Veja-se excertos: Observa-se que a Fiscalização atribuiu responsabilidade tributária solidária aos impugnantes com fundamento no inciso III do artigo 135 do Código Tributário Nacional (CTN): Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: (..) III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Os impugnantes eram os responsáveis pela empresa à época dos fatos que resultaram nos lançamentos e a autoridade fiscal assim justificou sua responsabilização: 6.3 Como descrito nos itens anteriores deste Relatório, constatou-se a prática de sonegação, nos termos do art. 71 da Lei nº 4.502/64, em função da adoção de conduta dolosa, tendente a impedir ou retardar o conhecimento, por parte da autoridade fazendária, da ocorrência dos fatos geradores correspondentes aos créditos tributários ora exigidos. 6.4 Portanto, restou caracterizado que os administradores da fiscalizada praticaram atos enquadrados como infração de lei, com reflexos tributários. Conforme já apreciado no item anterior que trata da multa de ofício, restou caracterizada a prática de Sonegação (art. 71 da Lei nº 4.502, de 1964), pela omissão sistemática de receitas visando impedir ou retardar o conhecimento, por parte da autoridade fazendária, da ocorrência dos fatos geradores com a não declaração de receitas auferidas. Tal prática não ocorreria sem um planejamento mínimo com o fim de manter o Fisco sem controle de tais fatos geradores de tributo. Assim, para manter perene o procedimento de sonegação sistemática em valores que superam 25% da receita bruta, artifícios de planejamento são utilizados. Estas ações não se implementam sem a participação e decisão do responsável da empresa. As alegações apresentadas pelos impugnantes não se justificam pelos elementos apresentados pela Fiscalização referentes à prática rotineira de sonegação implementado pela fiscalizada, sob o álibi da diferença temporal de informações, a qual não resiste às verificações em tempo mais largo como comprovou o procedimento fiscal. Fl. 2998DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-002.014 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.725728/2021-05 24 Ademais, restou comprovada a combinada falta de emissão das notas fiscais, na tentativa de compatibilizar os valores declarados à Fazenda por meio do PGDAS e as notas emitidas. Com efeito, restou caracterizada a prática de Sonegação (art. 71 da Lei nº 4.502, de 1964), dada a omissão dolosa a fim de impedir o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência dos fatos geradores. Este enquadramento no artigo 71 da Lei nº 4.502/64 para a prática identificada se faz suficiente tanto para a exigência da multa qualificada, quanto para a responsabilização do administrador com fulcro no artigo 135 do CTN. Quanto às alegações de que a responsabilidade por infrações prevista no artigo, 135, III, do CTN, seria exclusiva e não poderia, portanto, o contribuinte ser responsabilizado em conjunto com os administradores, deve-se destacar que tal assunto já se encontra resolvido de forma definitiva em âmbito administrativo nos termos da Súmula Carf Vinculante nº 130: (...)Assim, deve ser mantida a responsabilidade tributária solidária de JAIR FRANCISCO QUILIN, CPF: 518.505.400-04 e de IVILENE SALETE QUILIN, CPF: 533.229.910-91. 27. O ônus de comprovar o dolo, a fraude ou o excesso de poder é da autoridade fiscal. Não havendo nos autos elementos que demonstrem a prática de atos de gestão fraudulentos e individualizados pelos sócios, a sua responsabilização solidária é indevida. 28. Portanto, assiste razão aos recorrentes JAIR FRANCISCO QUILIN e IVILENE SALETE QUILIN quanto à necessidade de seu afastamento do polo passivo da obrigação tributária. Conclusão 29. Ante o exposto, voto no sentido de dar provimento parcial ao Recurso Voluntário do contribuinte, para reduzir a multa de ofício de 150% para 75%, afastando-se a sua qualificação e dar provimento aos Recursos Voluntários dos responsáveis solidários, para afastar a responsabilidade solidária e excluí-los do polo passivo da obrigação tributária. É como voto. assinado digitalmente Edmilson Borges Gomes Fl. 2999DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10315.720464/2015-31
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 17 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Thu Feb 19 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010, 2011, 2012, 2013
IRPJ E CSLL. DESPESAS COM ALUGUEL. CRITÉRIO DA NECESSIDADE. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. PROPÓSITO NEGOCIAL. AUTONOMIA PRIVADA. AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO OU FRAUDE.
É legítima a dedução de despesas com aluguel de veículos utilizados na atividade fim da empresa distribuidora, nos termos do art. 47 da Lei nº 4.506/64 e do art. 13 da Lei nº 9.249/95. A simples vinculação societária entre locadora e locatária, bem como a eventual origem comum dos ativos, não descaracteriza a necessidade da despesa. Inexiste fundamento legal para desconsiderar operações válidas com base exclusiva em juízo subjetivo de ausência de propósito negocial. A desqualificação econômica de atos jurídicos demanda comprovação robusta de artificialidade ou simulação, o que não se verificou nos autos. Aplicação do entendimento do STF na ADI 2.446: o contribuinte tem o direito de estruturar suas atividades de forma a reduzir licitamente sua carga tributária.
Numero da decisão: 1102-001.828
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em rejeitar a preliminar de nulidade suscitada – vencidos os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton (Relatora), Gustavo Schneider Fossati e Gabriel Campelo de Carvalho, que a acolhiam -, e no mérito, por maioria de votos, em dar provimento aos recursos voluntários, cancelando integralmente as exigências, restando prejudicada a apreciação da responsabilidade imputada a terceiro – vencidos os Conselheiros Lizandro Rodrigues de Sousa e Cassiano Romulo Soares, que negavam provimento. O Conselheiro Fernando Beltcher da Silva acompanhou, no mérito, a Relatora pelas conclusões. Designado para redigir o voto vencedor, quanto à preliminar de nulidade, o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa, que manifestou intenção de fazer declaração de voto.
Assinado Digitalmente
Cristiane Pires McNaughton – Relatora
Assinado Digitalmente
Fernando Beltcher da Silva – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires Mcnaughton, Cassiano Romulo Soares, Gustavo Schneider Fossati, Gabriel Campelo de Carvalho, Fernando Beltcher da Silva (Presidente).
Nome do relator: CRISTIANE PIRES MCNAUGHTON
1.0 = *:*
toggle all fields
dt_index_tdt : Sat Feb 28 09:00:00 UTC 2026
anomes_sessao_s : 202512
camara_s : Primeira Câmara
ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2010, 2011, 2012, 2013 IRPJ E CSLL. DESPESAS COM ALUGUEL. CRITÉRIO DA NECESSIDADE. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. PROPÓSITO NEGOCIAL. AUTONOMIA PRIVADA. AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO OU FRAUDE. É legítima a dedução de despesas com aluguel de veículos utilizados na atividade fim da empresa distribuidora, nos termos do art. 47 da Lei nº 4.506/64 e do art. 13 da Lei nº 9.249/95. A simples vinculação societária entre locadora e locatária, bem como a eventual origem comum dos ativos, não descaracteriza a necessidade da despesa. Inexiste fundamento legal para desconsiderar operações válidas com base exclusiva em juízo subjetivo de ausência de propósito negocial. A desqualificação econômica de atos jurídicos demanda comprovação robusta de artificialidade ou simulação, o que não se verificou nos autos. Aplicação do entendimento do STF na ADI 2.446: o contribuinte tem o direito de estruturar suas atividades de forma a reduzir licitamente sua carga tributária.
turma_s : Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
dt_publicacao_tdt : Thu Feb 19 00:00:00 UTC 2026
numero_processo_s : 10315.720464/2015-31
anomes_publicacao_s : 202602
conteudo_id_s : 7338394
dt_registro_atualizacao_tdt : Thu Feb 19 00:00:00 UTC 2026
numero_decisao_s : 1102-001.828
nome_arquivo_s : Decisao_10315720464201531.PDF
ano_publicacao_s : 2026
nome_relator_s : CRISTIANE PIRES MCNAUGHTON
nome_arquivo_pdf_s : 10315720464201531_7338394.pdf
secao_s : Primeira Seção de Julgamento
arquivo_indexado_s : S
decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em rejeitar a preliminar de nulidade suscitada – vencidos os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton (Relatora), Gustavo Schneider Fossati e Gabriel Campelo de Carvalho, que a acolhiam -, e no mérito, por maioria de votos, em dar provimento aos recursos voluntários, cancelando integralmente as exigências, restando prejudicada a apreciação da responsabilidade imputada a terceiro – vencidos os Conselheiros Lizandro Rodrigues de Sousa e Cassiano Romulo Soares, que negavam provimento. O Conselheiro Fernando Beltcher da Silva acompanhou, no mérito, a Relatora pelas conclusões. Designado para redigir o voto vencedor, quanto à preliminar de nulidade, o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa, que manifestou intenção de fazer declaração de voto. Assinado Digitalmente Cristiane Pires McNaughton – Relatora Assinado Digitalmente Fernando Beltcher da Silva – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires Mcnaughton, Cassiano Romulo Soares, Gustavo Schneider Fossati, Gabriel Campelo de Carvalho, Fernando Beltcher da Silva (Presidente).
dt_sessao_tdt : Wed Dec 17 00:00:00 UTC 2025
id : 11231251
ano_sessao_s : 2025
atualizado_anexos_dt : Sat Feb 28 09:41:31 UTC 2026
sem_conteudo_s : N
_version_ : 1858361586929893376
conteudo_txt : Metadados => date: 2026-02-16T19:04:29Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-02-16T19:04:29Z; Last-Modified: 2026-02-16T19:04:29Z; dcterms:modified: 2026-02-16T19:04:29Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-02-16T19:04:29Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-02-16T19:04:29Z; meta:save-date: 2026-02-16T19:04:29Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-02-16T19:04:29Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-02-16T19:04:29Z; created: 2026-02-16T19:04:29Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 21; Creation-Date: 2026-02-16T19:04:29Z; pdf:charsPerPage: 2069; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-02-16T19:04:29Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 10315.720464/2015-31 ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 17 de dezembro de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE JODIBE - DISTRIBUIDORA DE BEBIDAS DO CARIRI LTDA INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2010, 2011, 2012, 2013 IRPJ E CSLL. DESPESAS COM ALUGUEL. CRITÉRIO DA NECESSIDADE. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. PROPÓSITO NEGOCIAL. AUTONOMIA PRIVADA. AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO OU FRAUDE. É legítima a dedução de despesas com aluguel de veículos utilizados na atividade fim da empresa distribuidora, nos termos do art. 47 da Lei nº 4.506/64 e do art. 13 da Lei nº 9.249/95. A simples vinculação societária entre locadora e locatária, bem como a eventual origem comum dos ativos, não descaracteriza a necessidade da despesa. Inexiste fundamento legal para desconsiderar operações válidas com base exclusiva em juízo subjetivo de ausência de propósito negocial. A desqualificação econômica de atos jurídicos demanda comprovação robusta de artificialidade ou simulação, o que não se verificou nos autos. Aplicação do entendimento do STF na ADI 2.446: o contribuinte tem o direito de estruturar suas atividades de forma a reduzir licitamente sua carga tributária. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em rejeitar a preliminar de nulidade suscitada – vencidos os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton (Relatora), Gustavo Schneider Fossati e Gabriel Campelo de Carvalho, que a acolhiam -, e no mérito, por maioria de votos, em dar provimento aos recursos voluntários, cancelando integralmente as exigências, restando prejudicada a apreciação da responsabilidade imputada a terceiro – vencidos os Conselheiros Lizandro Rodrigues de Sousa e Cassiano Romulo Soares, que negavam provimento. O Conselheiro Fernando Beltcher da Silva acompanhou, no mérito, a Relatora pelas conclusões. Fl. 2236DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 2 Designado para redigir o voto vencedor, quanto à preliminar de nulidade, o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa, que manifestou intenção de fazer declaração de voto. Assinado Digitalmente Cristiane Pires McNaughton – Relatora Assinado Digitalmente Fernando Beltcher da Silva – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires Mcnaughton, Cassiano Romulo Soares, Gustavo Schneider Fossati, Gabriel Campelo de Carvalho, Fernando Beltcher da Silva (Presidente). RELATÓRIO A Recorrente foi submetida, a procedimento fiscalizatório - Termo de Distribuição do Procedimento Fiscal - TDPF n. 03.1.02.00-2014-00179-2, abrangendo o período de apuração de janeiro de 2010 a dezembro de 2013, no qual esteve submetida ao regime do Lucro Real (anual nos anos de 2010 e 2011 e trimestral nos anos de 2012 e 2013). A fiscalização teve como objeto principal a análise das despesas contabilizadas a título de locação de veículos, consideradas pela autoridade fiscal como indedutíveis por não serem necessárias à atividade da empresa e por carecerem de propósito negocial. Segundo consta do Termo de Verificação Fiscal, a partir de 2010 a JODIBE – DISTRIBUIDORA DE BEBIDAS DO CARIRI LTDA (“Jodibe Distribuidora”) passou a contratar serviços de locação de veículos, gestão de transporte e logística com a empresa, à época, chamada JODIBE LOCADORA DE BENS MÓVEIS E IMÓVEIS LTDA (“Jodibe Locadora”), constituída em fevereiro de 2010. A fiscalização identificou que as duas empresas possuíam sócios em comum e compartilham o mesmo administrador, destacando-se que, embora a administração formal da Locadora estivesse atribuída a um dos sócios, os contratos de locação eram assinados por outro, ao passo que contratos de financiamento de veículos e livros-caixa eram firmados pelo administrador comum. Tal estrutura foi considerada indicativa de ausência de autonomia entre as pessoas jurídicas. Fl. 2237DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 3 No tocante à estrutura operacional da Locadora, o Termo registra que a empresa não possuía funcionários, não apresentava despesas típicas de uma empresa autônoma e funcionava em sala cedida gratuitamente pela própria Distribuidora, sem qualquer ônus. Consta ainda que a Locadora transmitiu apenas uma GFIP sem movimento e não indicou pagamento de pró-labore aos sócios. Ademais, sua carteira de clientes restringia-se praticamente às empresas do próprio grupo econômico, sendo a maior parte de sua receita proveniente da empresa fiscalizada. A análise do livro-caixa da Locadora indicou que suas despesas se concentravam em tributos, licenciamento de veículos, multas de trânsito e despesas bancárias, inexistindo gastos com folha de pagamento, infraestrutura ou manutenção administrativa. Em contrapartida, verificou-se que os recursos auferidos foram utilizados para a aquisição de novos veículos, inclusive veículo de luxo, bem como para a construção de um centro de distribuição no município de Salgueiro/PE, posteriormente destinado à locação para terceiros. A fiscalização destacou, ainda, os valores expressivos pagos mensalmente pela Distribuidora à Locadora a título de aluguel de veículos, ressaltando que, em diversos casos, tais valores representavam percentual elevado do custo de aquisição dos bens, de modo que poucos meses de aluguel seriam suficientes para a compra dos próprios veículos. Foram apontadas, também, inconsistências específicas, como a cobrança de aluguel de veículos antes do respectivo emplacamento, conforme consultas ao RENAVAN. Com base nesse conjunto de elementos, a autoridade fiscal concluiu pela inexistência de propósito negocial nas operações realizadas entre as empresas, entendendo que a Locadora não possuía existência fática autônoma e que as operações de locação tinham como finalidade principal a redução artificial do lucro tributável da Distribuidora, que se encontrava sujeita ao regime do Lucro Real. Assim, as despesas com locação de veículos foram consideradas indedutíveis, determinando-se sua adição ao Lucro Real para fins de apuração do IRPJ e da CSLL. Concluído o procedimento fiscalizatório, foi lavrado Auto de Infração relativo ao IRPJ e à CSLL, com aplicação da multa de ofício no percentual de 75%, nos termos do art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96, constituindo-se crédito tributário no montante de R$ 8.616.723,97. Ademais, foi promovida a inclusão da empresa Jodibe Locadora no polo passivo, na qualidade de responsável solidária pelos créditos tributários constituídos, com fundamento no art. 124, inciso I, do Código Tributário Nacional, sob o argumento de que haveria interesse comum na situação que deu origem aos fatos geradores. Cientificada, a Recorrente apresentou Impugnação (fls. 2091/2114), sustentando a improcedência do lançamento. Ao examinar a defesa apresentada pela Recorrente, a 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (BA), proferiu o Acórdão nº 15-43.709 (fls. 2170/2188), no qual, por unanimidade de votos, julgou-a improcedente, para manter os lançamentos do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica – IRPJ e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, nos termos extraídos do voto: Fl. 2238DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 4 (...) DA PRELIMINAR - ARGUIÇÃO DE NULIDADE 9. As impugnantes arguem a nulidade dos lançamentos, sob a alegação de inexistência de dispositivo legal que fundamente a desconsideração das despesas e custos realizados e apropriados pela autuada. Alega que o parágrafo único do art. 116 do CTN (norma antielisão) depende de regulamentação de lei ordinária para sua aplicação. (...) 13. É de bom alvitre ressaltar que a ação fiscal é procedimento inquisitorial, iniciando-se a fase contraditória do processo de constituição do crédito tributário tão somente com a impugnação. É na fase contraditória que se busca salvaguardar plenamente o direito do contribuinte ao contraditório e à ampla defesa. 14. Ressalte-se ainda que não procede a alegação de falta de fundamentação legal dos lançamentos, considerando que a autoridade fiscal fez clara descrição dos fatos geradores da obrigação tributária, os quais, sob sua ótica, subsomem-se ao previsto nos artigos 247 e 249, I, do RIR/ 99, ou seja, as despesas de aluguel em tela devem ser adicionadas ao lucro líquido do período em que incorreram, por não serem dedutíveis na determinação do lucro real ou não necessárias a atividade. 15. Assente-se que no curso da ação fiscal foi concedido ao recorrente os prazos legais para a apresentação de documentos e prestação de esclarecimentos; os Autos de Infração foram devidamente motivados e foi concedido ao sujeito passivo o prazo legal para a formulação de impugnação; os Autos de Infração e o Termo de Verificação Fiscal - TVF, emitidos pela autoridade lançadora (com ciência dada aos sujeitos passivos), contém clara descrição do fato gerador da obrigação, da matéria tributável, do montante do tributo devido, da identificação do sujeito passivo e da penalidade aplicável; assim, não houve nenhum prejuízo para os direitos de defesa e do contraditório do recorrente, que puderam ser exercidos na forma e no prazo legal. 16. Assim, rejeito o pedido de cancelamento dos lançamentos sob alegação de nulidade por ausência de fundamentação, uma vez que os autos de infração foram lavrados por pessoa competente, em consonância com a legislação vigente e, com base na descrição pormenorizada dos fatos efetuada no TVF, o contribuinte pode exercer, plenamente, o seu direito de defesa. DO MÉRITO – EXISTÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL NO CASO EM TELA 17. Antes de adentrar-se na análise das despesas de pagamento de aluguel efetuadas pela DISTRIBUIDORA junto à LOCADORA, devido a alegação de ofensa a diversos princípios constitucionais – liberdade econômica, propriedade privada, livre iniciativa, livre concorrência, liberdade de exercício da profissão, legalidade, Fl. 2239DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 5 segurança jurídica, Tipicidade, Capacidade Contributiva, dentre outros -, importa deixar consignado que não cabe às autoridades administrativas se manifestarem sobre matéria do ponto de vista constitucional, excetuado os casos em que houver declaração de inconstitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal de lei, de tratado ou de ato normativo, situação em que é permitido às autoridades fiscais a quo afastar a sua aplicação (Decreto nº 2.346, de 10 de outubro de 1997, e Parecer da PGFN/CRE n.º 948, de 2 de junho de 1998). 18. Por seu turno, a alegação de falta de fundamentação legal para desconsiderar negócios jurídicos licitamente praticados por ausência de propósito negocial não procede. (...) 19. O cerne do litígio está na verificação da existência de propósito negocial na reorganização do grupo JODIBE, com a criação da sociedade empresária Jodibe Locadora de Bens Móveis e Imóveis Ltda, denominada LOCADORA pela autoridade fiscal, CNPJ 11.812.394/0001-07, a qual passou a alugar veículos para empresas do grupo, em especial à autuada Jodibe – Distribuidora de Bebidas do Cariri Ltda, denominada DISTRIBUIDORA pela autoridade fiscal, CNPJ 08.606.343/0001-06. 20. A ausência de propósito negocial em transações comerciais no âmbito do planejamento tributário configura ofensa à ordem jurídica posta, contudo, compete à autoridade fiscal demonstrar sua ocorrência. Presume-se que as transações e operações societárias ocorridas na atuação empresarial guardem correspondência com o seu objeto social. Havendo indícios do contrário, deve a fiscalização tributária municiar-se de provas aptas a afastar tal presunção. (...) 22. Em que pese os argumentos das impugnantes, os fatos trazidos à baila pela autoridade fiscal confluem para a conclusão de que a intenção das partes envolvidas visava tão somente a diminuição da carga tributária da DISTRIBUIDORA, não se vislumbrando a ocorrência de propósito negocial que justifique a criação da LOCADORA. 23. A LOCADORA funciona em uma sala cedida pela DISTRIBUIDORA, no mesmo endereço desta e sem ônus pela sua utilização, não possui funcionários, desde sua abertura, e não incorreu em despesas próprias de empresa independente, tais como energia, telefone, água, internet, material de escritório, limpeza, segurança ou aluguéis. A ausência de despesas regulares comprova a relação de dependência da LOCADORA com a DISTRIBUIDORA, caracterizando uma separação ficta, apenas jurídica, e não de fato. 24. A carteira de clientes da LOCADORA restringe-se às empresas do grupo Jodibe, com os serviços sendo prestados majoritariamente para a empresa fiscalizada. Importante ressaltar que os veículos da DISTRIBUIDORA (5 caminhões) foram vendidos em condições bastantes vantajosas para a LOCADORA, sendo que os aluguéis foram pagos em valores bastante elevados, alcançando no mês de Fl. 2240DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 6 dezembro de 2013 quase 24% do valor do bem. Mesmo outros veículos adquiridos pela LOCADORA eram alugados também a valores exacerbados. A título de exemplo, cite-se as diversas Motos Honda FAN CG 125 KS, que eram alugadas no ano de 2011 a valores mensais que correspondiam a mais de 28% do valor do bem. Um dos indícios mais relevantes para identificar a falta de propósito negocial é a ocorrência de despesas em valores muito discrepantes dos que ocorrem entre empresas que não são relacionadas. A venda dos 5 caminhões para a LOCADORA e o pagamento posterior de aluguéis pela DISTRIBUIDORA quando da utilização de veículos da LOCADORA foram realizados em condições e valores bem divergentes dos comumente adotados pelo mercado. 25. Com o recebimento dos aluguéis em valores “inflacionados”, a LOCADORA, mesmo tendo sido constituída com um capital social de R$ 10.000,00, conseguiu, em pouco tempo, adquirir diversos veículos e investir na construção de um centro de distribuição no município de Salgueiro-PE, avaliado em quase R$ 5.000.000,00, a ser alugado à AMBEV. É límpido que o investimento na construção do centro de distribuição somente foi feito por dois motivos: a capitalização da LOCADORA através da criação de despesas desnecessárias para a DISTRIBUIDORA e a relação negocial existente entre o grupo Jodibe e a AMBEV. Mais uma vez cai por terra a alegação de existência de propósito negocial na criação da LOCADORA. 26. Os seguintes fatos demonstram ainda a existência de incoerências nos registros das despesas de aluguel: pagamento de aluguéis dos citados caminhões no mês de junho de 2011, anteriormente à assinatura do contrato de compra e venda, e pagamento de aluguéis de motos antes do emplacamento das mesmas. 27. Os administradores das impugnantes são os mesmos, ressaltando, mais uma vez a ausência de funcionários na LOCADORA. Foi citada por diversas vezes na impugnação a complexidade das operações de logística da primeira Impugnante para viabilizar a distribuição e a entrega dos diversos produtos da AMBEV na região do Cariri/PE. Esta complexidade, segundo as impugnantes, foi um dos fatores para a criação da LOCADORA, separando o controle dos veículos para uma outra empresa, melhorando, desta forma, a logística das operações. Em que pese os argumentos apresentados pelas interessadas, não faz sentido criar altas despesas de aluguéis para a DISTRIBUIDORA, tão somente para segregar uma atividade que passou a ser controlada, segundo as impugnantes, por duas pessoas, no caso os dois sócios diretores, os quais ainda acumulavam a gestão da própria DISTRIBUIDORA. 28. Evidenciado o planejamento tributário abusivo, desprovido de propósito negocial, os efeitos das operações perpetradas não são oponíveis à Fazenda Pública. Assim, rejeito as alegações das impugnantes, para considerar escorreita a glosa das despesas de aluguel que lastreou os lançamentos em litígio. 29. Em sendo as matérias que serviram de base ao lançamento da referida contribuição idênticas àquelas que motivaram o lançamento do Imposto sobre a Renda Pessoa Jurídica, como idêntica é a contestação, e, uma vez que tais Fl. 2241DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 7 matérias já foram aqui apreciadas, mutatis mutandis, devem ser estendidas as conclusões advindas da apreciação do Auto de Infração relativo ao lançamento do Imposto sobre a Renda Pessoa Jurídica – IRPJ àquele relativo ao lançamento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, em razão da relação de causa e efeito advindas dos mesmos elementos fáticos. 30. Face ao exposto, voto por julgar improcedente a impugnação para manter os lançamentos do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica – IRPJ e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL em litígio. O acórdão restou assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2010, 2011, 2012, 2013 AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. Descabe a argüição de nulidade quando se verifica que o Auto de Infração foi lavrado por pessoa competente para fazê-lo e em consonância com a legislação vigente. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2010, 2011, 2012, 2013 GLOSA DE DESPESA DE ALUGUEL. DESPESAS DESNECESSÁRIAS. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO ABUSIVO. FALTA DE PROPÓSITO NEGOCIAL. EFEITOS NÃO OPONÍVEIS À FAZENDA PUBLICA. Evidenciado que as despesas de aluguel foram geradas através de transações com empresa relacionada, criada sem propósito negocial, unicamente para locação de bens às empresas do grupo econômico, em valores nitidamente superiores aos adotados pelo mercado, resta configurado o planejamento tributário abusivo. Os efeitos de operações perpetradas no âmbito de planejamento tributário, em que não existe outra motivação senão a de criação artificial de condições para auferimento de vantagens tributárias, não são oponíveis à Fazenda Pública. Justificada a glosa das despesas, por serem desnecessárias. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO - CSLL IRPJ. MATÉRIA FÁTICA IDÊNTICA. RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO. Em se tratando de matéria fática idêntica àquela que serviu de base para o lançamento do Imposto sobre a Renda Pessoa Jurídica, devem ser estendidas as conclusões advindas da apreciação daquele lançamento ao relativo à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, em razão da relação de causa e efeito advindas dos mesmos fatos geradores e elementos probantes. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido. Fl. 2242DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 8 Irresignada com a decisão, as Recorrentes interpuseram Recurso Voluntário (fls. 2193/ 2216), no qual, em síntese: Inexistência de economia tributária substancial (a) Alegam que eventual economia tributária seria irrisória, o que afasta a alegação de que esse teria sido o objetivo das Recorrentes. (b) Destacam que, no período fiscalizado (2010 a 2013), a segunda Recorrente (Locadora) recolheu aproximadamente R$ 1.950.000,00 a título de tributos federais. (c) Sustentam que, caso os investimentos na aquisição de caminhões e demais veículos tivessem sido realizados pela primeira Recorrente, esta se beneficiaria da depreciação acelerada dos bens e dos juros dos financiamentos, o que também reduziria o montante de tributos devidos, afastando a premissa adotada pela fiscalização. Ausência de fundamento legal para a desconsideração por falta de propósito negocial (d) Defendem que não há qualquer dispositivo legal indicado nos autos que autorize a desconsideração de atos jurídicos lícitos sob o argumento de ausência de propósito negocial. Invocam o art. 150, inciso I, da Constituição Federal. (e) Alegam que a DRJ afirmou a inexistência de fundamento legal para a exigência de propósito negocial, o que implicaria análise de constitucionalidade, vedada às autoridades administrativas. (f) Pugnam, assim, pela nulidade dos lançamentos, por ausência de fundamentação legal. Dedutibilidade das despesas com aluguel de veículos (g) Destacam que o acórdão recorrido entendeu que as despesas de aluguel deveriam ser adicionadas ao lucro líquido por não serem necessárias à atividade da primeira Recorrente. (h) Invocam o art. 13 da Lei nº 9.249/1996, que autoriza a dedução de despesas com aluguel quando vinculadas à atividade operacional. (i) Afirmam que a primeira Recorrente atua no ramo de distribuição de cervejas, refrigerantes e outros produtos AMBEV, sendo indispensável o uso de caminhões, motos e outros veículos para o exercício da atividade empresarial. Fl. 2243DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 9 (j) Ressaltam que a glosa das despesas não se fundamentou na ausência de vinculação com a atividade empresarial, mas exclusivamente na suposta falta de propósito negocial. (k) Sustentam que a autoridade julgadora, ao decidir de forma diversa, pretendeu alterar a fundamentação dos autos de infração, o que não é juridicamente admissível. Existência de propósito negocial na constituição da locadora (l) Alegam que a empresa foi constituída em 25/01/2007 por quatro sócios, com o objetivo de distribuir e revender produtos da AMBEV na região do Cariri/CE, composta por diversos municípios, o que torna complexa a operação logística. (m) Destacam que, entre as obrigações contratuais da primeira Recorrente perante a AMBEV, está a adesão ao sistema de margem, frete e carreto, conforme previsto no Contrato de Distribuição. (n) Explicam que o sistema de frete e carreto corresponde à remuneração estabelecida pela AMBEV para ressarcir, parcialmente, os custos logísticos de transporte, dependendo da adequada gestão e dimensionamento da frota. (o) Sustentam que, embora a logística seja relevante, a atividade principal da primeira Recorrente é a distribuição e revenda dos produtos AMBEV. (p) Em razão do elevado impacto dos custos logísticos, o sócio minoritário Erick Tinoco constituiu, em 08/03/2010, a segunda Recorrente (JODIBE – Locadora de Bens Móveis e Imóveis Ltda.), em conjunto com a Transduque Transportes Ltda. (q) Afirmam que a segunda Recorrente não se limita à locação de bens, exercendo também atividades de gestão de transportes e logística. (r) Sustentam que a constituição da locadora decorreu de necessidade operacional, não tendo sido criada com o objetivo de reduzir a carga tributária, sendo eventual economia mero efeito reflexo. (s) Invocam os princípios constitucionais da livre iniciativa, da livre concorrência, da competitividade e da preservação da empresa. (t) Citam precedente do CARF que reconhece a licitude do planejamento tributário que separa atividades em pessoas jurídicas distintas (Acórdão nº 3403-002.519). (u) Destacam que a segunda Recorrente presta consultoria à primeira, envolvendo diagnóstico e dimensionamento de frota, gestão de custos de frete e carreto e análise de indicadores de desempenho. (v) Alegam que o negócio jurídico entre as Recorrentes é viável economicamente para ambas. Fl. 2244DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 10 (w) Ressaltam que a primeira Recorrente aluga máquinas de terceiros e que, se o objetivo fosse reduzir a carga tributária, tais contratos teriam sido celebrados com a segunda Recorrente. (x) Contestam a afirmação de que a segunda Recorrente teria como clientes apenas empresas do grupo. Negócio jurídico firmado entre a segunda Recorrente e a AMBEV (y) Explicam que um dos objetivos da segunda Recorrente é o investimento no mercado imobiliário, com a finalidade de locar imóveis para terceiros. (z) No ano de 2012, a segunda Recorrente firmou com a AMBEV o Contrato de Locação e Outras Avenças, negócio jurídico conhecido no mercado imobiliário como built to suit (construção sob medida), decorrente da necessidade da AMBEV de expandir suas atividades na região de Salgueiro/PE. (aa) Ressaltam que o referido contrato gera para a segunda Recorrente receita mensal de aluguel aproximada de R$ 50.000,00, evidenciando a efetividade e a viabilidade econômica do negócio jurídico. (bb) Afirmam que os contribuintes não estão obrigados a optar pelo tratamento fiscal mais oneroso, destacando que “a redução da carga tributária é ela mesma um propósito negocial, cabendo ao Fisco apurar apenas se a conduta adotada está ou não maculada por simulação ou abuso de direito”. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheira Cristiane Pires McNaughton, Relatora. 1 ADMISSIBILIDADE O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos legais para sua admissibilidade, razão, pela qual, dele conheço. 2 PRELIMINAR – NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO POR AUSÊNCIA DE FUNDAMENTO LEGAL As Recorrentes suscitam, em preliminar, a nulidade do Auto de Infração, ao argumento de inexistir base legal que permita à Administração Tributária desconsiderar, com Fl. 2245DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 11 fundamento exclusivo na suposta ausência de “propósito negocial”, atos e negócios jurídicos regularmente celebrados por pessoas jurídicas. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DRJ) invoca os artigos 247 e 249 do RIR/1999 como fundamento do lançamento. Tais dispositivos, contudo, disciplinam de forma genérica a apuração do lucro real e os ajustes decorrentes da legislação fiscal, não conferindo à autoridade administrativa poder para desconsiderar negócios jurídicos válidos, com base em juízo subjetivo sobre a finalidade negocial dos atos praticados. Nos termos do artigo 13 da Lei nº 9.249/1995, são dedutíveis as despesas com aluguel de bens móveis ou imóveis, desde que necessárias às atividades da empresa e regularmente escrituradas. No caso em exame, trata-se de sociedade empresária dedicada à distribuição de bebidas, cuja atividade operacional demanda, notoriamente, o uso intensivo de veículos, justificando, de forma objetiva, a contratação de locação desses bens. Ocorre que a autoridade fiscal não questionou a vinculação das despesas locatícias à atividade da empresa, mas sim fundamentou a glosa exclusivamente na suposta ausência de propósito negocial, invocando teoria não positivada no ordenamento jurídico nacional. Tal construção teórica – importada do direito estrangeiro – carece de respaldo legal no Brasil e não pode ser utilizada como fundamento autônomo para desconsiderar atos jurídicos válidos. Nos termos do artigo 150, inciso I, da Constituição Federal, e do artigo 97 do Código Tributário Nacional, a legalidade estrita constitui baliza inafastável da atuação fiscal. A exigência de tributo sem previsão legal específica – ou a desconsideração de atos jurídicos por ausência de critério normativo objetivo – configura violação a esse princípio. O próprio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) tem rechaçado a aplicação automática da teoria do propósito negocial como fundamento suficiente para a desconsideração de atos jurídicos legítimos, exigindo demonstração de elementos objetivos de ilicitude ou simulação. Acrescente-se, ainda, que o artigo 10, inciso IV, do Decreto nº 70.235/1972 estabelece, de forma clara, a obrigatoriedade de o Auto de Infração indicar a disposição legal infringida, nos seguintes termos: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente (...) e conterá obrigatoriamente: (...) IV - a disposição legal infringida e a penalidade aplicável. Assim, sendo o lançamento fiscal fundado em critério subjetivo não positivado e ausente a indicação da norma legal supostamente violada, impõe-se reconhecer a nulidade do Auto de Infração, por vício formal insanável, nos termos do artigo 142 do CTN, por ausência de pressuposto de validade do lançamento tributário. Fl. 2246DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 12 Diante do exposto, voto pelo acolhimento da preliminar de nulidade do Auto de Infração. Como fui vencida nesta preliminar, passo à análise do mérito. 3 MÉRITO No caso concreto, tem-se, em síntese, que a fiscalização constatou que o sujeito passivo realizou gastos de aluguéis que não satisfariam às condições de necessidade para serem apropriados como custos ou despesas operacionais com o objetivo de dedução na apuração do IRPJ e da CSLL, tendo em vista a ausência de “propósito negocial”. Isto porque a Recorrente teria realizado planejamento tributário consistente em alugar veículos de empresa com mesmos sócios e cuja parcela da frota havia sido adquirida da própria contribuinte. A DRJ entendeu que pelos fatos trazidos aos autos pela autoridade fiscal confluem para a conclusão de que a intensão das partes envolvidas visaria tão somente a diminuição da carga tributária da distribuída, não se vislumbrando propósito negocial que justificasse a criação da locadora. Com a devida vênia, analisando o caso concreto, enxergo-o de maneira distinta, conforme explicarei na sequência. O caput do artigo 47 da Lei n. 4.506/64 prescreve que são operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias às atividades das empresas e à manutenção da fonte produtora. Entendo que esse critério, o da necessidade, há de ser observado a partir de uma relação entre o tipo de gasto e a operação da pessoa jurídica. E, no caso em concreto, os veículos eram utilizados pela Recorrente para operacionalizar o seu negócio de distribuição de bebidas e, portanto, necessários à sua atividade. Não há dúvida, portanto, que pelo critério acima estampado, isto é, que avalia o tipo de gasto e a atividade da pessoa jurídica, os gastos incorridos são necessários e devem ser apropriados como despesas operacionais à luz da legislação de regência. O Fisco, porém, e assim como o respeitável voto vencedor, adota posição distinta porque efetiva juízo que avalia o mérito da relação entre a Recorrente e a Jodibe Locadora, tanto em relação aos sócios como à existência de venda de veículos da primeira para a segunda, contestando, a partir de um viés econômico, se aquelas operações seriam necessárias. Trata-se de uma avaliação que observa elementos extrínsecos à despesa e que importa uma espécie de ingerência estatal na atividade do contribuinte, como se o Estado pudesse intervir na liberdade da iniciativa privada de organizar suas próprias atividades. Não pode, porém. A liberdade negocial se encontra consagrada em diversos artigos da Constituição da República, desde seu preâmbulo: Fl. 2247DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 13 Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. (g.n.) Positivando o valor acima transcrito, o artigo 1º, inciso VI, da CF/88, consagra o princípio da livre iniciativa como fundamento do Estado Democrático Brasileiro: Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: (...) IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; (g.n.) Não bastasse, o princípio da liberdade também é reforçado no artigo 5º da Constituição Federal1, e é consagrado, novamente no artigo 170, que o coloca como fundamento da ordem econômica: Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: Da livre iniciativa se infere o direito de se auto-organizar do modo que leve a uma otimização tributária. Se as organizações não tiverem o direito de se estruturar, ressalvados os atos simulados, para a redução da carga tributária, teríamos uma livre iniciativa mitigada. Neste sentido caminhou o STF no julgamento da ADI n. 2446 que analisava a constitucionalidade do parágrafo único do artigo 116 do CTN. Na oportunidade a Suprema Corte fixou o entendimento de que não se admite qualquer análise de natureza subjetiva sobre a motivação para a realização do fato jurídico. O fato jurídico tributário pode ser lícito, caracterizando elisão, ou ilícito, configurando evasão. Tertium non datur. 1 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; XIII - é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer; XV - é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens; XXVII - aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar; Fl. 2248DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 14 Em seu voto, a Ministra Relatora Carmen Lúcia esclarece que o aludido dispositivo não retira incentivo ou estabelece proibição ao planejamento tributário: A norma não proíbe o contribuinte de buscar, pelas vias legítimas e comportamentos coerentes com a ordem jurídica, economia fiscal, realizando suas atividades de forma menos onerosa, e, assim, deixando de pagar tributos quando não configurado fato gerador cuja ocorrência tenha sido licitamente evitada. Ora, se antes da decisão acima havia controvérsia, significativa, se o contribuinte teria o direito de se auto-organizar para fins de redução de carga tributária, inclusive com posições doutrinárias respeitáveis que relativizavam tal direito, a partir da decisão acima cabe aos órgãos julgadores passarem a reavaliar seus próprios posicionamentos, a fim de se atingir um ordenamento jurídico com um mínimo de coerência e previsibilidade. Recapitulando, é justamente porque a administração tributária não pode impedir o direito do contribuinte de buscar se organizar no modo fiscalmente menos oneroso, como expressamente reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal na ADI 2446, que o critério de necessidade da despesa deve levar em conta a natureza, em si, da despesa, e não o contexto societário de reestruturação da qual a despesa deriva. É contraditória a assertiva que assegura o direito do contribuinte de se auto-organizar nos moldes mais eficientes, do ponto de vista fiscal, à postura que imputa, como não necessária, toda despesa que seja decorrente dessa auto- organização. Dito isso, entendo que a despesa necessária poderia ser glosada, sim, caso derivada de uma operação simulada. Isso porque, no caso da simulação, a operação jurídica efetivamente não teria ocorrido, sendo a despesa, portanto, inexistente. Não é, porém, o caso dos autos. O conjunto probatório constante dos autos, apresentado desde a fase fiscal, evidencia a lisura e substancialidade das operações realizadas pelas Recorrentes. Com efeito, entendo que as Recorrentes lograram demonstrar que a constituição da empresa locadora atendeu a um propósito negocial legítimo, compatível com a dimensão e a complexidade da estrutura empresarial do grupo. As provas documentais indicam que a reorganização societária conferiu maior eficiência operacional à atividade empresarial, o que afasta a hipótese de artificialidade. Ademais, destaca-se que o sócio minoritário da contribuinte, que igualmente figura como sócio da Jodibe Locadora, possui comprovada expertise no segmento de logística, conforme demonstram os certificados de sua formação técnica. Tal circunstância justifica o interesse na constituição de uma empresa com atuação especializada nessa área, com o claro objetivo de agregar eficiência a um elemento essencial à atividade empresarial da contribuinte. É relevante enfatizar que a contribuinte atua como distribuidora, de modo que a logística — especialmente a eficiência no transporte e na entrega das mercadorias — representa um vetor central para a otimização de sua operação como um todo. Fl. 2249DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 15 Como exemplo prático da aplicação da expertise logística da Jodibe Locadora em benefício da contribuinte, constata-se, às fls. 2.146 e seguintes, a juntada de consulta técnica elaborada por aquela, na qual se realiza estudo analítico da frota fixa da empresa, com vistas a identificar deficiências e propor soluções de dimensionamento e planejamento dos serviços prestados em cada área de atuação, promovendo, assim, maior rendimento operacional e contribuindo diretamente para o crescimento do negócio. Ademais, a Recorrente esclarece que está sendo corretamente remunerada pela locação de veículos, dentro dos padrões e limites das receitas recebidas pela AMBEV pela contribuinte, como restituição do custo de frete e carreto. No período fiscalizado (parte de 2010 a 2013), o valor pago/ressarcido pela AMBEV, nos moldes da Tabela Pontual (anexada à impugnação), foi de, aproximadamente, R$ 29 milhões, o que representa, também, aproximadamente, 10% do seu faturamento total do período. Valor bastante superior ao custo que a contribuinte teve com a locação de veículos da Jodibe Locadora. Adicionalmente, não se verificou qualquer vantagem fiscal relevante que permita inferir que a motivação preponderante das operações tenha sido a economia tributária, tampouco se identificou qualquer desvio abusivo na forma jurídica adotada. A Recorrente, inclusive, comprova documentalmente que, no período de 2010 a 2013, a suposta economia tributária decorrente da estrutura adotada foi inferior a R$ 137.000,00 por ano — o que representa, em média, cerca de R$ 11.400,00 mensais. Tal valor, à luz da dimensão e da complexidade da atividade empresarial desenvolvida, revela-se absolutamente desproporcional para sustentar a alegação de que a estrutura teria sido constituída com o propósito único ou principal de redução de tributos. Importante destacar que a autoridade fiscal não logrou comprovar qualquer elemento concreto indicativo de simulação ou fraude, tanto que não houve imputação de multa qualificada. Limitou-se a desconsiderar os pagamentos de aluguéis sob o argumento de ausência de necessidade, desconsiderando, no entanto, a efetiva realização das operações, o pagamento dos valores contratados e a formalidade jurídica das sociedades envolvidas. Ora, se as operações foram efetivamente realizadas, as empresas regularmente constituídas, os contratos executados e os pagamentos devidamente efetuados, não se pode cogitar de simulação. A pretensão fiscal, neste caso, configura indevida interferência na liberdade de organização dos negócios pelo contribuinte, direito esse expressamente reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento da ADI 2.446, que rechaça a vedação genérica ao planejamento tributário lícito. Ainda que se admitisse que os atos poderiam ser desconsiderados pela administração tributária, a partir de um viés econômico que transcende a análise da simulação, seria necessária, então, no mínimo, exigir que a avaliação seja profunda, fundamentada, e não baseada em presunções. Seria necessário que a fiscalização descartasse, de modo holístico, qualquer possibilidade de ganhos econômicos pelo contribuinte. Sobre essa necessidade, é preciso Fl. 2250DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 16 considerar que a desconsideração empreendida, no caso concreto, incorreu em consequências como a responsabilização solidária da Jodibe Locadora. Por isso, jamais poderia ser efetivada com base em presunções. Com a devida vênia, para desqualificar economicamente uma operação, o TVF deveria, no mínimo, afastar qualquer hipótese de que a operação poderia ter alguma racionalidade. Qualquer visão parcial, não holística, acaba incorrendo no campo da presunção. Em suma, o que gostaria de reforçar é que a avaliação econômica convive com complexidades consideráveis, de modo que, se fosse admissível, no mínimo, deveria exigir uma postura criteriosa e comprovação robusta por parte da administração pública para invocá-la, sob pena de constituir situações arbitrárias e presuntivas que não devem ser admitidas em nosso direito pátrio. Por isso, seja porque entendo que o Fisco não pode desqualificar operações praticadas sem simulação, seja porque entendo que a ADI 2446 legitima o direito de se auto- organizar para economizar tributos, o que pressupõe que o critério de necessidade de despesa deva ser aferido pela sua natureza e não pelo contexto de organização societária/patrimonial da qual essa despesa varia, seja porque não se poderia admitir uma interpretação econômica fragmentada, que não leve em conta todos os aspectos relevantes para que deixe de ser mera presunção, entendo que o Recurso Voluntário deve ser provido. 4 DISPOSITIVO Por todo o exposto, voto por acolher a preliminar de nulidade e, caso vencida, voto, no mérito, por dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Cristiane Pires McNaughton VOTO VENCEDOR Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa, redator designado. Peço vênia para divergir da relatora, em sua conclusão de que houve “vício formal insanável” na autuação. Defendeu a relatora, entendendo que a glosa fiscal se fundamentou exclusivamente em critério não positivado no ordenamento jurídico nacional, que se imporia o reconhecimento da Fl. 2251DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 17 nulidade do auto de infração por “vício formal insanável”, nos termos do artigo 142 do CTN, por ausência de pressuposto de validade do lançamento tributário. Entendo que não se sustenta no ordenamento jurídico nacional a acusação de “vício formal insanável”. O art. 173, II, prevê expressamente a constituição de crédito tributário em até cinco anos após a data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado: Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após 5 (cinco) anos, contados: I - do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II - da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Ou seja, ou se trata de vício formal, que tornaria anulável o ato administrativo, ou se trata de vício material, insanável. Importante trazer breve diferenciação de nulidade formal X nulidade material: o vício formal ocorre no instrumento de lançamento (ato fato administrativo). É quando há erro no auto de infração que tem o condão de prejudicar o direito de defesa do autuado ou notificado. São os atos considerados anuláveis. Já no erro de direito há incorreção no cotejo entre a norma tributária (hipótese de incidência) com o fato jurídico tributário em um dos elementos do consequente da regra matriz de incidência. Neste sentido a Solução de Consulta Cosit nº 8/2013: (...)Se o vício formal decorre do erro de fato, o material decorre do erro de direito. No conceito de Paulo de Barros de Carvalho: (...)Já o erro de direito é também um problema de ordem semântica, mas envolvendo enunciados de normas jurídicas diferentes, caracterizando-se como um descompasso de feição externa, internormativa. (...)Quer os elementos do fato jurídico tributário, no antecedente, quer os elementos da relação obrigacional, no consequente, quer ambos, podem, perfeitamente, estar em desalinho com os enunciados da hipótese ou da conseqüência da regra matriz do tributo, acrescendo-se, naturalmente, a possibilidade de inadequação com outras normas gerais e abstratas, que não a regra padrão de incidência. (CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 22ª ed. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 486). 10.1. No erro de direito há incorreção no cotejo entre a norma tributária (hipótese de incidência) com o fato jurídico tributário em um dos elementos do consequente da regra matriz de incidência... Como houve a fundamentação e o enquadramento legal, posso divergir do seu conteúdo, mas não alegar a omissão destes requisitos na autuação. Logo, não há nulidade formal. E se houvesse, tornaria o lançamento sanável, anulável. Fl. 2252DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 18 Por isso, entendo como a Delegacia de Julgamento (DRJ), que sustenta que o lançamento se fundamenta nos artigos 247 e 249 do RIR/1999, os quais dispõem, respectivamente, sobre a definição do lucro real e os ajustes a serem realizados sobre o lucro líquido para fins fiscais, proibindo, expressamente, a adição de despesas indedutíveis. Pelo exposto, voto por afastar a alegação de nulidade formal. Assinado Digitalmente Lizandro Rodrigues de Sousa DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa. Peço vênia para divergir da Ilustre relatora em sua alegação de nulidade do auto de infração por aventada ausência ou deficiência do enquadramento legal. A infração foi: “ADIÇÕES NÃO COMPUTADAS NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL CUSTO/DESPESA INDEDUTÍVEL” (Auto de Infração, e-fls. 2003/2029). Há dois problemas insuperáveis na afirmação da relatora. O primeiro é de constatação fática: o auto de infração é expresso na tipificação do enquadramento legal (e-fls. 2003/2029), com base no art. 249, I do RIR/99, além de transbordar em motivação (TVF, e-fls. 2067/2077) de despesa inexistente. Dispôs o auto de infração: Aqui não há muito o que falar. É só ler. E consultar o dispositivo legal citado e o próprio Decreto referido. Observar que o art. 10, IV, do Decreto n. 70.235/72 prescreve que o auto de infração conterá obrigatoriamente “a disposição legal infringida”, no singular. Assim dispõe o dispositivo: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I - a qualificação do autuado; II - o local, a data e a hora da lavratura; III - a descrição do fato; Fl. 2253DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 19 IV - a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; (Destaquei) A objetividade imposta na previsão legal é óbvia. O enquadramento legal há de ser objetivo. E a norma foi cumprida. Desta forma injustificável os estridentes protestos de nulidade do lançamento. Ouvi nos debates que se estava afastando a lei (Decreto 70235/72, art. 10, IV), em eventual confirmação do auto de infração “sem enquadramento legal”. Marque-se aqui: esta foi a razão de decidir, da qual restei vencido. Nada mais incompreensível e sem fundamento. Se se teria afastado a lei, não seria por mim e nem neste caso. Acho que não cabe explicar que despesa inexistente (e se comprovada que é inexistente) não pode ser deduzida do lucro real, segundo o art. 249, I do RIR/99, contido no enquadramento legal do auto de infração, conforme já comprovado. Assim motivou o TVF, após cansar de descrever a estratégia do Recorrente: É possível concluir que a LOCADORA só existe juridicamente e não na realidade fática, de modo que o objetivo dessa existência jurídica é o planejamento tributário abusivo mediante geração de despesas. (Destaquei) Ou seja, trata-se da acusação de despesa indedutível, visto que despesa inexistente, gerada artificialmente, decorrente de uma estratégia extensamente descrita no Termo de Verificação Fiscal e frontalmente debatido pelo Recorrente. E o enquadramento legal traz exatamente o preceito legal infringido. Mesmo que houvesse parcial ausência de dispositivo infringido, não se estaria diante de nulidade, mesmo que formal, visto que o recorrente demonstra entender a infração e contesta a acusação. Neste sentido repetida jurisprudência desta CARF: Acórdão 3001-003.730, de 06/10/2025: NULIDADE. NÃO OCORRÊNCIA. Não se declara a nulidade por vício formal, em razão de erro no enquadramento legal, quando este não tiver causado prejuízo à parte e ao exercício do direito de defesa. (Destaquei) (...) Acórdão 1002-003.842, de 09/09/2025 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE. DISPOSIÇÃO LEGAL INFRINGIDA. INOCORRÊNCIA. O erro ou a deficiência no enquadramento legal da infração cometida não acarreta a nulidade do auto de infração quando comprovada a não ocorrência da preterição do direito de defesa, dada a descrição satisfatória dos fatos contida no auto de infração e a apresentação de impugnação das imputações formalizadas. (...) Acórdão 2301-011.727, 09/09/2025 Fl. 2254DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 20 NULIDADE DO LANÇAMENTO. ALEGAÇÃO DE DEFICIÊNCIA NO ENQUADRAMENTO LEGAL. DESCRIÇÃO PRECISA DOS FATOS. INOCORRÊNCIA. Se há precisa descrição dos fatos inerentes ao lançamento, de modo a permitir a defesa do interessado, a eventual deficiência ou erro no enquadramento legal é insuficiente para ensejar a nulidade do lançamento. O segundo problema insuperável na acusação de nulidade diz respeito à afirmação repetida em debates de que a alegada falta no enquadramento legal de citação do artigo 299 do RIR/99 (que traz previsão do que seria uma despesa operacional necessária) seria um cerceamento do direito de defesa. Mas, repito, trata-se de uma despesa inexistente: como caracterizar o inexistente? Adicione-se, como já dito, que o enquadramento legal foi composto pelo art. 149, I do RIR/99, norma expressa sobre a proibição de adição de despesa indedutível. E, ressalte-se que a Súmula CARF nº 162, de observância obrigatória aos conselheiros do CARF, prescreve que o direito ao contraditório e à ampla defesa somente se instaura com a apresentação de impugnação ao lançamento. Se houvesse, como se alega, cerceamento do direito de defesa, dever-se-ia requerer a declaração de nulidade formal do auto de infração: de que faltou a aposição do art. 299 no enquadramento legal (em adição ao art. 249, I do RIR/99). Ou seja, que se anulasse o lançamento por vício formal, para que outro fosse confeccionado na devida forma (para a aposição literal do art. 299 no enquadramento legal, em adição ao art. 249, I do RIR/99), pois motivação sobre a inexistência da despesa não faltou. Está fundamentada, e bem fundamentada no TVF. E divergir dos fundamentos é uma questão de mérito, e não uma nulidade. Importante trazer breve diferenciação de nulidade formal X nulidade material: o vício formal ocorre no instrumento de lançamento (ato fato administrativo). É quando há erro no auto de infração que tem o condão de prejudicar o direito de defesa do autuado ou notificado. São os atos considerados anuláveis. No erro de direito há incorreção no cotejo entre a norma tributária (hipótese de incidência) com o fato jurídico tributário em um dos elementos do consequente da regra matriz de incidência. Neste sentido a Solução de Consulta Cosit nº 8/2013: (...) Se o vício formal decorre do erro de fato, o material decorre do erro de direito. No conceito de Paulo de Barros de Carvalho: (...) Já o erro de direito é também um problema de ordem semântica, mas envolvendo enunciados de normas jurídicas diferentes, caracterizando-se como um descompasso de feição externa, internormativa. (...) Quer os elementos do fato jurídico tributário, no antecedente, quer os elementos da relação obrigacional, no consequente, quer ambos, podem, perfeitamente, estar em desalinho com os enunciados da hipótese ou da conseqüência da regra Fl. 2255DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.828 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10315.720464/2015-31 21 matriz do tributo, acrescendo-se, naturalmente, a possibilidade de inadequação com outras normas gerais e abstratas, que não a regra padrão de incidência. (CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 22ª ed. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 486). 10.1. No erro de direito há incorreção no cotejo entre a norma tributária (hipótese de incidência) com o fato jurídico tributário em um dos elementos do consequente da regra matriz de incidência... Como se aventurar, então, em uma fundamentação na acusação de que haveria um vício material no lançamento? Para isto, ter-se-ia de defender que os fatos descritos (despesas indedutíveis, por inexistentes) teriam sido enquadrados em norma impositiva que não trata da matéria (despesas indedutíveis/inexistente). Art. 249. Na determinação do lucro real, serão adicionados ao lucro líquido do período de apuração (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 6º, § 2º): I - os custos, despesas, encargos, perdas, provisões, participações e quaisquer outros valores deduzidos na apuração do lucro líquido que, de acordo com este Decreto, não sejam dedutíveis na determinação do lucro real; (...) Destaquei O art. 249, I não trata de proibição, direcionada ao contribuinte, de adição de despesa indedutível? De novo. É só ler o dispositivo. Desta forma, da boa análise dos autos, não há como sustentar que tratam de matéria diversa. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. Assinado Digitalmente Lizandro Rodrigues de Sousa. Fl. 2256DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art6%C2%A72 Acórdão Relatório Voto Vencido 1 Admissibilidade 2 Preliminar – nulidade do auto de infração por ausência de fundamento legal 3 Mérito 4 Dispositivo Voto Vencedor Declaração de Voto
score : 1.0
Numero do processo: 16692.721805/2017-36
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 28 00:00:00 UTC 2022
Data da publicação: Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
Numero da decisão: 3201-003.368
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, sobrestar o processo na Dipro/Cojul para aguardar o que vier a ser decidido definitivamente nos autos do processo administrativo relativo à compensação. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3201-003.361, de 28 de setembro de 2022, prolatada no julgamento do processo 16692.721809/2017-14, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(documento assinado digitalmente)
Helcio Lafeta Reis Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Lara Moura Franco Eduardo (suplente convocada), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Carlos Delson Santiago (suplente convocado), Laercio Cruz Uliana Junior, Marcio Robson Costa, Helcio Lafeta Reis (Presidente).
Nome do relator: Não se aplica
1.0 = *:*
toggle all fields
dt_index_tdt : Sat Feb 28 09:00:00 UTC 2026
anomes_sessao_s : 202209
camara_s : Quarta Câmara
turma_s : Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
dt_publicacao_tdt : Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
numero_processo_s : 16692.721805/2017-36
anomes_publicacao_s : 202602
conteudo_id_s : 7337913
dt_registro_atualizacao_tdt : Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
numero_decisao_s : 3201-003.368
nome_arquivo_s : Decisao_16692721805201736.PDF
ano_publicacao_s : 2026
nome_relator_s : Não se aplica
nome_arquivo_pdf_s : 16692721805201736_7337913.pdf
secao_s : Terceira Seção De Julgamento
arquivo_indexado_s : S
decisao_txt : Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, sobrestar o processo na Dipro/Cojul para aguardar o que vier a ser decidido definitivamente nos autos do processo administrativo relativo à compensação. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3201-003.361, de 28 de setembro de 2022, prolatada no julgamento do processo 16692.721809/2017-14, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Helcio Lafeta Reis Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Lara Moura Franco Eduardo (suplente convocada), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Carlos Delson Santiago (suplente convocado), Laercio Cruz Uliana Junior, Marcio Robson Costa, Helcio Lafeta Reis (Presidente).
dt_sessao_tdt : Wed Sep 28 00:00:00 UTC 2022
id : 11228411
ano_sessao_s : 2022
atualizado_anexos_dt : Sat Feb 28 09:41:28 UTC 2026
sem_conteudo_s : N
_version_ : 1858361586982322176
conteudo_txt : Metadados => date: 2023-01-13T17:15:59Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2023-01-13T17:15:59Z; Last-Modified: 2023-01-13T17:15:59Z; dcterms:modified: 2023-01-13T17:15:59Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2023-01-13T17:15:59Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2023-01-13T17:15:59Z; meta:save-date: 2023-01-13T17:15:59Z; pdf:encrypted: true; modified: 2023-01-13T17:15:59Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2023-01-13T17:15:59Z; created: 2023-01-13T17:15:59Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 5; Creation-Date: 2023-01-13T17:15:59Z; pdf:charsPerPage: 2357; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2023-01-13T17:15:59Z | Conteúdo => S3-C 2T1 MINISTÉRIO DA ECONOMIA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 16692.721805/2017-36 Recurso Voluntário Resolução nº 3201-003.368 – 3ª Seção de Julgamento / 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 28 de setembro de 2022 Assunto CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Recorrente COFCO INTERNATIONAL BRASIL S.A. Interessado FAZENDA NACIONAL Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, sobrestar o processo na Dipro/Cojul para aguardar o que vier a ser decidido definitivamente nos autos do processo administrativo relativo à compensação. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3201-003.361, de 28 de setembro de 2022, prolatada no julgamento do processo 16692.721809/2017-14, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Helcio Lafeta Reis – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Lara Moura Franco Eduardo (suplente convocada), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Carlos Delson Santiago (suplente convocado), Laercio Cruz Uliana Junior, Marcio Robson Costa, Helcio Lafeta Reis (Presidente). Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado na resolução paradigma. Por bem retratar os fatos, reproduzo parte do relatório DRJ: Trata-se de lançamento formalizado em desfavor do contribuinte em epígrafe no qual foi exigida multa isolada no valor de R$ 4.999.556,58 (fl. 107 – Auto de Infração), medida que foi adotada em razão da não homologação do(s) pedido(s) de compensação tratado(s) no processo administrativo fiscal de nº 10880.941598/2012-26 (processo vinculado a este). O lançamento de ofício teve por fundamentação legal o estabelecido no §17, do art. 74, da Lei nº 9.430/96 (multa isolada de 50% (cinqüenta por cento) sobre o valor do débito tributário objeto da(s) compensação(ões) não homologada(s) ou parcialmente homologada(s)). RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 66 92 .7 21 80 5/ 20 17 -3 6 Fl. 611DF CARF MF Original Fl. 2 da Resolução n.º 3201-003.368 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16692.721805/2017-36 Ressalte-se que a compensação formalizada pelo contribuinte se efetivou com substrato em direito creditório relacionado a COFINS apurado na modalidade não-cumulativa no 4º trimestre de 2011, conforme se observa nos autos do processo administrativo fiscal citado no parágrafo anterior. Em 14/12/2017, o contribuinte teve ciência do lançamento fiscal por meio eletrônico (fl. xx). No dia 12/01/2018 (fl.xx – READ), o contribuinte requereu eletronicamente a juntada da sua irresignação (Impugnação às fls. xx e seguintes). Nela, o contribuinte alega, em síntese e sem prejuízo da sua leitura integral: I.Tempestividade. Itens 1 a 3. 1)Informa sobre as datas da sua intimação e de protocolo de sua irresignação. Apontando a tempestividade da sua impugnação. II.Dos Fatos. Itens 4 a 7. 2)Identifica as razões pelas quais ocorreu a presente autuação (fundamentos, valores, etc.) e afirma que irá demonstrar que a mesma não merece prosperar. III. Do Direito. III.1. Da revogação da multa isolada pela Lei nº13.097/2015. Itens 8 a 34. 3)Após fazer um histórico da introdução da multa isolada no ordenamento jurídico, sustenta o entendimento de que haveria referência cruzada (entrega de DCOMP não homologada e apresentação de PER não homologado) e conclui que a introdução (promovida pela Lei nº 12.249/2010 (conversão da MP nº 472/2009)) dos §§15 e 17 no art.74 da Lei nº 9.430/96 objetivou a criação de um mecanismo para inibir a apresentação desenfreada e arbitrária de pedidos de restituição e compensação. Informa que, entretanto, o que se obteve foi o desestímulo à apresentação de todo e qualquer PER/DCOMP, pois o percentual de multa fixado em 50% era demasiadamente severo. 3.1)Informa que, com a publicação da Lei nº 13.097/2015 - que revogou o §15, do art. 74 da Lei nº 9.430/96 e alterou a redação do §17 do mesmo dispositivo - houve modificação na fixação da base de cálculo da multa isolada de modo que deixou de ser apurada sobre o valor do “crédito” e passou a ser apurada sobre o valor do “débito”. Conclui que houve a criação de uma nova penalidade a partir desta nova redação. Afirma que a diferença não é apenas nominal e que é incontroverso o animus do legislador em conceber uma nova modalidade punitiva; fato que ficaria caracterizado também em razão da alteração do bem jurídico tutelado. Transcreve ofício enviado pela RFB ao Poder Legislativo quando da apreciação da MP nº 472/2009 e contrapõe seu conteúdo a respeito do bem jurídico tutelado (“deixou de ser a celeridade do processamento das Dcomp´s”) àquele que consta na exposição de motivos da MP nº 656/2014 (convertida na Lei nº 13.097/2015) (“passou a ser evitar o retardo e até mesmo a ausência de recolhimento de tributos”). Invoca ainda o princípio da retroatividade benigna (alínea “c”, inciso II, art.106 do CTN) e suas premissas para concluir que é o caso dos autos e pedir pelo cancelamento do lançamento. III.2. Da ilegitimidade da multa aplicada por afronta ao Direito de Petição. Itens 35 a 47. 4)Expõe argumentos para fundamentar sua afirmação de que a imposição de multa isolada viola o seu Direito de Petição (“prerrogativa universal de se submeter ao crivo das Autoridades Públicas uma petição para que aquela tome determinada decisão ou adote Fl. 612DF CARF MF Original Fl. 3 da Resolução n.º 3201-003.368 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16692.721805/2017-36 medida certa”). Entende ser o art.74 da Lei nº 9.430/96 desdobramento emblemático do Direito de Petição, caracterizando-se um contrassenso que lhe seja imposta penalização pelo exercício. deste direito. Ademais, a imposição da multa isolada de 50%, engendraria um obstáculo à operacionalização da sistemática da compensação. Transcreve doutrina sobre o tema. Afirma inexistir má-fé ou dolo, observando a existência de multa majorada de 150% quando comprovado em sentido diverso. Caracterizando-se a imposição de multa isolada de 50% em uma punição direta aos sujeitos passivos de boa-fé. Ademais, a boa-fé é que deve ser presumida. III.3. Da impossibilidade de cumulação da multa de mora e da multa isolada em razão de seu efeito confiscatório. Itens 48 a 64. 5)Estaria caracterizado o “bis in idem” em razão de já lhe ter sido imposto a multa de mora de 20% pelo despacho decisório que não homologou a(s) compensação(ões). A dupla penalização do contribuinte com imposição simultânea de multa de mora (20%) e multa isolada (50%) caracterizaria o “bis in idem”. Ademais, está presente o efeito confiscatório e é violado o direito de propriedade do contribuinte. Cita jurisprudência para demonstrar que seria pacífico o entendimento de que é vedada a concomitância entre multas isoladas e multas de ofício. Na hipótese de se reconhecer que apenas uma delas deve subsistir, opõe-se ao prevalecimento da multa isolada de 50% sobre a multa de mora de 20%, transcreve jurisprudência e pede pelo cancelamento da multa isolada de 50%. III.4. Subsidiariamente: Impossibilidade de exigência de multa no caso de dúvida. Itens 65 a 68. 6)Afirma existir dúvida quanto à suposta infração e pede, em razão deste fato e com fundamento no CTN, que não lhe seja imposta a multa. Transcreve entendimento que diz a respeito da impossibilidade de se impor tratamento mais gravoso quando a decisão definitiva se dá por voto de qualidade. III.5. Necessário sobrestamento do processo até o definitivo julgamento do processo nº 10880.941598/2012-26. Itens 69 a 71. 7)Pede pela suspensão da exigibilidade da multa e sobrestamento do feito enquanto não for julgado definitivamente o processo vinculado. IV. PEDIDO. Itens 72 a 75. 8)Reafirma os seus pedidos de sobrestamento, de homologação das DComp´s apresentadas e cancelamento do Auto de Infração. Subsidiariamente, na hipótese de não serem as DComp´s homologadas, reafirma seus pedidos para que se reconheça como revogado o dispositivo legal que fundamenta a penalidade, para que se reconheça a afronta ao direito de petição e no sentido de que é inviável a aplicação concomitante de multa de mora e de ofício. Em ocorrendo voto de qualidade, pede que se reconheça a existência de dúvida. Solicita por diligência na hipótese de não ser a documentação juntada tida por suficiente pela D.DRJ. Seguindo a marcha processual normal, foi julgado Procedente em Parte o pleito da contribuinte: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/10/2011 a 31/12/2011 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. MULTA ISOLADA. CÁLCULO SOBRE O VALOR DO DÉBITO NÃO HOMOLOGADO. Fl. 613DF CARF MF Original Fl. 4 da Resolução n.º 3201-003.368 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16692.721805/2017-36 A multa isolada correspondente a 50% do valor do débito objeto da Declaração de Compensação não homologada ou parcialmente homologada e tem como fundamento legal o §17 do art.74 da Lei nº 9.430/96 (redação dada pela Lei nº13.097/15) c/c art. 106, II, “c” do CTN (retroatividade benigna). O exame da exposição de motivos da Medida Provisória nº 656/14 permite concluir que houve mero ajuste na redação do citado parágrafo. APLICAÇÃO DA MULTA ISOLADA E DA MULTA DE MORA. ALEGAÇÃO DE DUPLA PUNIÇÃO SOBRE A MESMA BASE DE CÁLCULO. A multa moratória de até 20% (vinte por cento) exigida na cobrança do débito resultante de compensação não homologada e a multa isolada de 50% (cinquenta por cento) aplicada sobre o débito decorrente de compensação não homologada possuem distintos fundamentos legais e materiais, além da primeira não possuir natureza punitiva, o que bem demonstra a possibilidade da imposição concomitante das duas penalidades pecuniárias. DIREITO DE PETIÇÃO. COMPETÊNCIA. PODER JUDICIÁRIO. ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. Não cabe à DRJ se manifestar acerca da alegação de que a multa isolada viola o princípio constitucional do direito de petição, mas ao Poder Judiciário, pois este é órgão competente para aferir a validade da norma posta pelo legislador ordinário em face de Lei Complementar ou da Constituição Federal e, se for o caso, afastá-la. INEXISTÊNCIA DE FATO A SER PUNIDO. INOCORRÊNCIA DE DOLO OU DE MÁ-FÉ. Aplica-se a multa prevista no §17 do art. 74 da Lei nº 9.430/96 sobre o valor do débito objeto de DComp não homologada ou parcialmente homologada, salvo no caso de falsidade da declaração apresentada pelo sujeito passivo, quando a penalidade será agravada. Diante dos fatos acima narrados, a contribuinte pede reforma da decisão em recurso voluntário repisamos os mesmos argumentos da manifestação de inconformidade. É o relatório. Voto Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado na resolução paradigma como razões de decidir: O Recurso Voluntário é tempestivo. O presente processo, trata-se de multa decorrente dá não homologação do(s) pedido(s) de compensação tratado(s) no processo administrativo fiscal de nº 10880.941597/2012-81 Entendo que de fato o julgamento de um processo irá influenciar no outro, sendo caso de “decorrência” prevista no RICARF, pois não posso decidir aqui sobre um crédito que esta pendente de legitimidade e reconhecimento. Assim, tendo em vista que os processos acima referidos foram convertidos em diligência, voto por determinar o sobrestamento deste, até o retorno dos demais processos conexos. Fl. 614DF CARF MF Original Fl. 5 da Resolução n.º 3201-003.368 - 3ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16692.721805/2017-36 Tendo em vista que o PAF 10880.941597/2012-81 foi convertido em diligência, este deve ser sobrestado na DIPRO, até o retorno do mencionado processo para julgamento conjunto. Conclusão Importa registrar que, nos autos em exame, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduz-se o decidido na resolução paradigma, no sentido de sobrestar o processo na Dipro/Cojul para aguardar o que vier a ser decidido definitivamente nos autos do processo administrativo relativo à compensação. (documento assinado digitalmente) Helcio Lafeta Reis – Presidente Redator Fl. 615DF CARF MF Original
score : 1.0
Numero do processo: 10970.720145/2016-82
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Nov 17 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014
FALTA DE PRORROGAÇÃO DO MPF. NULIDADE DO PROCEDIMENTO FISCAL E DO LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA.
Alegação de nulidade por falta de prorrogação válida do MPF. Consulta ao sítio eletrônico da Receita Federal que indica a existência da referida renovação. Além disso, eventual falta de prorrogação do MPF não enseja nulidade do lançamento, nos termos da Súmula Carf nº 171, vez que tratar-se-ia de mero vício formal, incapaz de prejudicar o direito de defesa do contribuinte e, por isso, insuscetível de ocasionar a nulidade dos atos seguintes, considerando que não há nulidade sem prejuízo.
AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DO RESPONSÁVEL TRIBUTÁRIO DURANTE O PROCEDIMENTO DE FISCALIZAÇÃO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA.
Conforme precedentes deste Carf, o procedimento de fiscalização é informado pelo princípio inquisitório. A fase litigiosa do processo administrativo tributário se inicia com a impugnação (art. 14 do Decreto nº 70.235/1972), oportunidade em que é assegurado ao contribuinte o exercício do seu direito ao contraditório e à ampla defesa (art. 5º, LV, da Constituição da República).
RESPONSABILIADE SOLIDÁRIA. OFENSA A LEI E A ESTATUTO. PROCEDÊNCIA.
Cabe a responsabilidade solidária, prevista no art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional, quando comprovada a prática de atos com infração à lei e a estatuto da empresa.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014
GLOSA DE DESPESAS. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA REALIZAÇÃO DOS SERVIÇOS.
Ausente prova efetiva da execução dos serviços, com a demonstração mínima da utilidade proporcionada pelo contratado ao contratante, é cabível a glosa das despesas deduzidas.
QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO. FRAUDE COMPROVADA. PROCEDÊNCIA.
A multa de ofício deve ser qualificada quando comprovada, pela fiscalização, que houve fraude na prática de geração de despesas sem a correspondente prestação de serviços, fundamentalmente quando demonstrado que os sócios das empresas envolvidas são coincidentes com o quadro diretivo da fiscalizada, o que denota a liberalidade e poder decisório nas mãos das mesmas pessoas nos dois polos.
Numero da decisão: 1301-007.918
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade. Quanto ao mérito, acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em lhe dar provimento parcial para cancelar a qualificação da multa de ofício, salvo em relação às despesas feitas com as prestadoras de serviços Prime Medical Ltda. e Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda., vencidos os Conselheiros Eduardo Monteiro Cardoso (Relator), José Eduardo Dornelas Souza e Eduarda Lacerda Kanieski, que lhe deram provimento parcial em maior extensão, para cancelar (i) na íntegra, a qualificação da multa de ofício, (ii) a responsabilidade tributária imputada a Paulo Cesar Monteiro e (iii) as multas isoladas, remanescendo apenas as de ofício, face à impossibilidade de cumulação delas. Decidiu-se, por unanimidade de votos, que o percentual da multa qualificada, em relação à parcela em que foi mantida, será reduzido de 150% para 100%, nos termos do inc. VI do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, na redação que lhe deu o art. 8º da Lei nº 14.689, de 2023, nos termos da alínea “c” do inc. II do art. 106 do Código Tributário Nacional. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Luís Ângelo Carneiro Baptista.
Assinado Digitalmente
Eduardo Monteiro Cardoso – Relator
Assinado Digitalmente
Rafael Taranto Malheiros – Presidente
Assinado Digitalmente
Luis Angelo Carneiro Baptista – Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Iágaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski, Rafael Taranto Malheiros (Presidente).
Nome do relator: EDUARDO MONTEIRO CARDOSO
1.0 = *:*
toggle all fields
dt_index_tdt : Sat Feb 28 09:00:00 UTC 2026
anomes_sessao_s : 202511
camara_s : Terceira Câmara
ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 FALTA DE PRORROGAÇÃO DO MPF. NULIDADE DO PROCEDIMENTO FISCAL E DO LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA. Alegação de nulidade por falta de prorrogação válida do MPF. Consulta ao sítio eletrônico da Receita Federal que indica a existência da referida renovação. Além disso, eventual falta de prorrogação do MPF não enseja nulidade do lançamento, nos termos da Súmula Carf nº 171, vez que tratar-se-ia de mero vício formal, incapaz de prejudicar o direito de defesa do contribuinte e, por isso, insuscetível de ocasionar a nulidade dos atos seguintes, considerando que não há nulidade sem prejuízo. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DO RESPONSÁVEL TRIBUTÁRIO DURANTE O PROCEDIMENTO DE FISCALIZAÇÃO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. Conforme precedentes deste Carf, o procedimento de fiscalização é informado pelo princípio inquisitório. A fase litigiosa do processo administrativo tributário se inicia com a impugnação (art. 14 do Decreto nº 70.235/1972), oportunidade em que é assegurado ao contribuinte o exercício do seu direito ao contraditório e à ampla defesa (art. 5º, LV, da Constituição da República). RESPONSABILIADE SOLIDÁRIA. OFENSA A LEI E A ESTATUTO. PROCEDÊNCIA. Cabe a responsabilidade solidária, prevista no art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional, quando comprovada a prática de atos com infração à lei e a estatuto da empresa. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 GLOSA DE DESPESAS. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA REALIZAÇÃO DOS SERVIÇOS. Ausente prova efetiva da execução dos serviços, com a demonstração mínima da utilidade proporcionada pelo contratado ao contratante, é cabível a glosa das despesas deduzidas. QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO. FRAUDE COMPROVADA. PROCEDÊNCIA. A multa de ofício deve ser qualificada quando comprovada, pela fiscalização, que houve fraude na prática de geração de despesas sem a correspondente prestação de serviços, fundamentalmente quando demonstrado que os sócios das empresas envolvidas são coincidentes com o quadro diretivo da fiscalizada, o que denota a liberalidade e poder decisório nas mãos das mesmas pessoas nos dois polos.
turma_s : Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
dt_publicacao_tdt : Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
numero_processo_s : 10970.720145/2016-82
anomes_publicacao_s : 202602
conteudo_id_s : 7337846
dt_registro_atualizacao_tdt : Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
numero_decisao_s : 1301-007.918
nome_arquivo_s : Decisao_10970720145201682.PDF
ano_publicacao_s : 2026
nome_relator_s : EDUARDO MONTEIRO CARDOSO
nome_arquivo_pdf_s : 10970720145201682_7337846.pdf
secao_s : Primeira Seção de Julgamento
arquivo_indexado_s : S
decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade. Quanto ao mérito, acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em lhe dar provimento parcial para cancelar a qualificação da multa de ofício, salvo em relação às despesas feitas com as prestadoras de serviços Prime Medical Ltda. e Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda., vencidos os Conselheiros Eduardo Monteiro Cardoso (Relator), José Eduardo Dornelas Souza e Eduarda Lacerda Kanieski, que lhe deram provimento parcial em maior extensão, para cancelar (i) na íntegra, a qualificação da multa de ofício, (ii) a responsabilidade tributária imputada a Paulo Cesar Monteiro e (iii) as multas isoladas, remanescendo apenas as de ofício, face à impossibilidade de cumulação delas. Decidiu-se, por unanimidade de votos, que o percentual da multa qualificada, em relação à parcela em que foi mantida, será reduzido de 150% para 100%, nos termos do inc. VI do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, na redação que lhe deu o art. 8º da Lei nº 14.689, de 2023, nos termos da alínea “c” do inc. II do art. 106 do Código Tributário Nacional. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Luís Ângelo Carneiro Baptista. Assinado Digitalmente Eduardo Monteiro Cardoso – Relator Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Assinado Digitalmente Luis Angelo Carneiro Baptista – Redator designado Participaram da sessão de julgamento os julgadores Iágaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski, Rafael Taranto Malheiros (Presidente).
dt_sessao_tdt : Mon Nov 17 00:00:00 UTC 2025
id : 11227996
ano_sessao_s : 2025
atualizado_anexos_dt : Sat Feb 28 09:41:26 UTC 2026
sem_conteudo_s : N
_version_ : 1858361587005390848
conteudo_txt : Metadados => date: 2026-02-13T13:35:55Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-02-13T13:35:55Z; Last-Modified: 2026-02-13T13:35:55Z; dcterms:modified: 2026-02-13T13:35:55Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-02-13T13:35:55Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-02-13T13:35:55Z; meta:save-date: 2026-02-13T13:35:55Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-02-13T13:35:55Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-02-13T13:35:55Z; created: 2026-02-13T13:35:55Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 36; Creation-Date: 2026-02-13T13:35:55Z; pdf:charsPerPage: 1832; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-02-13T13:35:55Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 10970.720145/2016-82 ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 17 de novembro de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE HOSPITAL SANTA CATARINA S.A. INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 FALTA DE PRORROGAÇÃO DO MPF. NULIDADE DO PROCEDIMENTO FISCAL E DO LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA. Alegação de nulidade por falta de prorrogação válida do MPF. Consulta ao sítio eletrônico da Receita Federal que indica a existência da referida renovação. Além disso, eventual falta de prorrogação do MPF não enseja nulidade do lançamento, nos termos da Súmula Carf nº 171, vez que tratar- se-ia de mero vício formal, incapaz de prejudicar o direito de defesa do contribuinte e, por isso, insuscetível de ocasionar a nulidade dos atos seguintes, considerando que não há nulidade sem prejuízo. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DO RESPONSÁVEL TRIBUTÁRIO DURANTE O PROCEDIMENTO DE FISCALIZAÇÃO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. Conforme precedentes deste Carf, o procedimento de fiscalização é informado pelo princípio inquisitório. A fase litigiosa do processo administrativo tributário se inicia com a impugnação (art. 14 do Decreto nº 70.235/1972), oportunidade em que é assegurado ao contribuinte o exercício do seu direito ao contraditório e à ampla defesa (art. 5º, LV, da Constituição da República). RESPONSABILIADE SOLIDÁRIA. OFENSA A LEI E A ESTATUTO. PROCEDÊNCIA. Cabe a responsabilidade solidária, prevista no art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional, quando comprovada a prática de atos com infração à lei e a estatuto da empresa. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 Fl. 5150DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 2 GLOSA DE DESPESAS. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA REALIZAÇÃO DOS SERVIÇOS. Ausente prova efetiva da execução dos serviços, com a demonstração mínima da utilidade proporcionada pelo contratado ao contratante, é cabível a glosa das despesas deduzidas. QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO. FRAUDE COMPROVADA. PROCEDÊNCIA. A multa de ofício deve ser qualificada quando comprovada, pela fiscalização, que houve fraude na prática de geração de despesas sem a correspondente prestação de serviços, fundamentalmente quando demonstrado que os sócios das empresas envolvidas são coincidentes com o quadro diretivo da fiscalizada, o que denota a liberalidade e poder decisório nas mãos das mesmas pessoas nos dois polos. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade. Quanto ao mérito, acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em lhe dar provimento parcial para cancelar a qualificação da multa de ofício, salvo em relação às despesas feitas com as prestadoras de serviços Prime Medical Ltda. e Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda., vencidos os Conselheiros Eduardo Monteiro Cardoso (Relator), José Eduardo Dornelas Souza e Eduarda Lacerda Kanieski, que lhe deram provimento parcial em maior extensão, para cancelar (i) na íntegra, a qualificação da multa de ofício, (ii) a responsabilidade tributária imputada a Paulo Cesar Monteiro e (iii) as multas isoladas, remanescendo apenas as de ofício, face à impossibilidade de cumulação delas. Decidiu-se, por unanimidade de votos, que o percentual da multa qualificada, em relação à parcela em que foi mantida, será reduzido de 150% para 100%, nos termos do inc. VI do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, na redação que lhe deu o art. 8º da Lei nº 14.689, de 2023, nos termos da alínea “c” do inc. II do art. 106 do Código Tributário Nacional. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Luís Ângelo Carneiro Baptista. Assinado Digitalmente Eduardo Monteiro Cardoso – Relator Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Fl. 5151DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 3 Assinado Digitalmente Luis Angelo Carneiro Baptista – Redator designado Participaram da sessão de julgamento os julgadores Iágaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski, Rafael Taranto Malheiros (Presidente). RELATÓRIO 1. Trata-se de Recursos Voluntários interpostos por HOSPITAL SANTA CATARINA S.A. (fls. 4.887)1 e PAULO CESAR MONTEIRO (fls. 5.116/5.135) em face de acórdão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro (DRJ/RJ1) que julgou improcedentes as Impugnações apresentadas, mantendo o crédito tributário cobrado. 2. Referido crédito tributário decorre de Autos de Infração (fls. 4.670/4.737) lavrados para exigir IRPJ e CSLL dos anos-calendário de 2011 a 2014, em função das seguintes infrações: (i) dedução indevida de despesas da base de cálculo desses tributos, (ii) compensação indevida de prejuízo operacional e base de cálculo negativa de CSLL, (iii) falta de recolhimento dos tributos declarados no Lalur e (iv) falta de recolhimento dos tributos sobre as bases de cálculo estimadas. Os valores foram acrescidos de juros de mora e multa de ofício, que foi qualificada para as duas primeiras infrações. A Fiscalização também imputou responsabilidade tributária às pessoas físicas PAULO ROBERTO SALOMÃO e PAULO CESAR MONTEIRO, com base no art. 135 do CTN. 3. De acordo com o Termo de Verificação Fiscal (fls. 4.605/4.669), o procedimento de auditoria teve início após demanda externa da Procuradoria da República no Município de Uberlândia/MG, em face de denúncia formalizada pelo Ministério Público de Minas Gerais por conta de suposta celebração fraudulenta de contratos entre o HOSPITAL SANTA CATARINA S/A e a pessoa jurídica Integração Saúde Serviços Médicos e Hospitalares Ltda. 4. Após a análise da escrituração contábil apresentada, a Fiscalização intimou o contribuinte a demonstrar a efetiva ocorrência de diversas despesas contabilizadas. Diante do atendimento insatisfatório, houve a glosa de diversos gastos, conforme fundamentos adotados no TVF e descritos a seguir: (i) Despesas escrituradas na conta contábil 5.1.01.07.001-Serviços Advocatícios: a. Despesas Escrituradas a Título de Serviços Prestados pela Pessoa Jurídica Bolsão Comércio e Representação Ltda.: 1 Recurso Voluntário juntado como arquivo não paginável. Fl. 5152DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 4 1- Embora as despesas tenham sido lastreadas em sua quase totalidade em documentos fiscais emitidos pela referida pessoa jurídica, não restou comprovado que tenham decorrido de uma efetiva prestação de serviços, eis que não foram apresentados quaisquer contratos de prestação de serviços, documentos hábeis a atestar a materialidade dos serviços prestados, e comprovantes de pagamento, em que pese o contribuinte sob auditoria tenha sido intimado para tanto reiteradas vezes; 2- Não restou comprovada a necessidade das despesas à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora; 3- Existe uma discrepância entre os serviços advocatícios de cobrança judicial e extrajudicial discriminados nos documentos fiscais emitidos e o objeto social da prestadora dos serviços, consignado em seu Contrato Social, que é a representação comercial por conta de terceiros a pessoas jurídicas; 4- Os documentos fiscais apresentados foram emitidos anos após a sua impressão gráfica, revelando uma situação anormal da empresa emitente, quando comparado à dinâmica das atividades operacionais das empresas em geral. b. Despesas Escrituradas a Título de Serviços Prestados pela Pessoa Física Ricardo Peres de Oliveira: 1- As autorizações de pagamento e comprovantes de transferências bancárias isoladamente não são documentos hábeis a comprovar as despesas escrituradas, a sua necessidade à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora e a efetividade e materialidade dos serviços prestados; 2- Não foram apresentadas quaisquer Notas Fiscais de Serviços ou Recibos de Pagamento a Autônomo, e o contrato de prestação de serviços, conforme solicitado; 3- Não foram apresentados quaisquer documentos hábeis a comprovar que os serviços foram efetivamente prestados; 4- Não restou comprovada a necessidade das despesas à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. c. Despesas Escrituradas a Título de Serviços Prestados pela Pessoa Jurídica Aerx Representações Comerciais Ltda.: A pessoa jurídica Aerx Representações Comerciais Ltda. tem como objeto social a representação comercial por conta de terceiros, conforme consta de seu contrato social registrado na Junta Comercial do Estado de Minas Gerais em 09/05/2008. Consta do campo das Notas Fiscais de Serviços emitidas, destinado à discriminação dos serviços prestados, a informação genérica “Prestação de Serviços”. Ou seja, as despesas sob análise foram escrituradas em conta contábil de serviços advocatícios, com lastro em documentos fiscais emitidos por pessoa jurídica cujo Fl. 5153DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 5 objeto social é a representação comercial por conta de terceiros, nos quais consta de forma genérica os serviços prestados. Estes fatos constatados, aliados à falta de comprovação por parte do sujeito passivo da efetividade dos serviços prestados e da sua necessidade à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, em que pese tenha sido reiteradas vezes intimado para tanto, aliados à incompatibilidade detectada entre o objeto social da pessoa jurídica Aerx Representações Comerciais Ltda. (representação comercial) e a indicação de que tenha prestados serviços advocatícios, eis que as despesas foram escrituradas em conta contábil de serviços advocatícios, são elementos determinantes para que se proceda à glosa das mesmas. Admitindo-se ainda que as despesas tenham sido escrituradas de forma equivocada na conta contábil de serviços advocatícios, não se mostra razoável que uma pessoa jurídica prestadora de serviços hospitalares contrate os serviços de outra pessoa jurídica cuja atividade seja a representação comercial por conta de terceiros. Essas considerações aplicam-se inclusive às despesas escrituradas e para as quais não foram apresentados os respectivos documentos fiscais, irregularidade esta que por si só já autoriza a sua glosa. No que diz respeito às despesas escrituradas, cujos registros contábeis foram procedidos em duplicidade, conforme identificado no demonstrativo acima, são passíveis de glosa em função da própria irregularidade de escrituração detectada (duplicidade de lançamento contábil). d. Despesas Escrituradas a Título de Serviços Prestados pela Pessoa Jurídica Rodrigues Pereira Sociedade de Advogados: 1- Embora parte das despesas tenham sido escrituradas com lastro em recibos e em uma Nota Fiscal de Serviços e tenham sido apresentados o “Contrato Particular de Prestação de Serviços e Honorário Advocatícios” e o “Termo de Confissão de Dívida e Novação” celebrados entre o Hospital Santa Catarina SA e Rodrigues Pereira Sociedade de Advogados, não restou comprovado que tais documentos tenham sido emitidos em decorrência de uma efetiva prestação de serviços, e tampouco restou comprovada a necessidade das despesas escrituradas à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, em que pese o contribuinte tenha sido reiteradas vezes intimado para tanto; 2- Não foi detectada a propositura da ação judicial, nos termos pactuados no contrato de prestação de serviços; 3- O valor dos honorários pactuados no contrato de prestação de serviços, à razão de 12% sobre o montante de R$ 535.339,83, determinado como o valor a ser restituído mediante a propositura da ação judicial, resultaria na importância de R$ 64.240,78 a ser paga à Rodrigues Pereira Sociedade de Advogados, ao passo que as despesas escrituradas totalizaram R$ 395.949,00; Fl. 5154DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 6 4- Não consta do “Termo de Confissão de Dívida e Novação” apresentado, quais atos jurídicos resultaram na confissão de dívida; 5- Os recibos apresentados no intuito de comprovar parte das despesas escrituradas foram emitidos em desacordo com a legislação tributária do município de origem do suposto prestador dos serviços; 6- Não foram apresentados quaisquer comprovantes de pagamento das despesas escrituradas; 7- Não foram apresentados quaisquer Notas Fiscais de Serviços pertinentes às receitas escrituradas no ano-calendário 2012, no montante de R$ 77.251,40, no ano-calendário 2013, nº montante de R$ 148.167,42, e no ano-calendário 2014, no montante de R$ 16.376,73, sendo aplicáveis neste caso, cumulativamente, os mesmos fundamentos para glosa discriminados nos itens antecedentes. (ii) Despesas Escrituradas na conta contábil 5.1.01.07.003-Consultoria e Assessoria: a. Despesas Escrituradas a Título de Serviços Prestados pela Pessoa Jurídica Inovar Consultoria Empresarial Ltda.: 1- Embora as despesas tenham sido escrituradas, em sua quase totalidade, com lastro em documentos fiscais emitidos pela referida pessoa jurídica, não restou comprovada a sua necessidade à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora e que tenham decorrido de uma efetiva prestação de serviços, eis que não foram apresentados quaisquer contratos de prestação de serviços ou documentos hábeis a atestar a materialidade dos serviços prestados, em que pese tenha sido intimado reiteradas vezes para tanto; 2- Não foram apresentados quaisquer comprovantes de pagamento das despesas escrituradas; 3- Não foram apresentados quaisquer documentos comprobatórios da despesa escriturada em 01/10/2013, no valor de R$ 2.180,00, sendo aplicáveis neste caso, cumulativamente, os mesmos fundamentos para a glosa discriminados nos itens 01 e 02 acima. b. Despesas Escrituradas a Título de Serviços Prestados pela Pessoa Física Paulo César Silveira Pessoa – PC Pivô Irrigação-ME: 1- Não foram apresentadas as Notas Fiscais de Serviços, o contrato de prestação de serviços e quaisquer elementos hábeis a comprovar a efetividade e materialidade dos serviços prestados, em que pese o contribuinte sob auditoria tenha sido intimado reiteradas vezes para tanto; 2- Ainda que os elementos mencionados no tópico antecedente tivessem sido apresentados, as despesas com a contratação de serviços de irrigação por pessoa jurídica que atue no ramo Hospitalar não são necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, sendo, portanto, indedutíveis. Fl. 5155DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 7 (iii) Despesas Escrituradas na conta contábil 5.1.01.07.010-Consultoria Gestão Téc. Adm. Hospitalar: a. Despesas Escrituradas a Título de Serviços Prestados pela Pessoa Jurídica Prime Medical Ltda.: 1- Não restou comprovado pelo contribuinte sob auditoria, a efetividade e materialidade dos serviços prestados e a necessidade das despesas à atividade da empresa e à manutenção da fonte produtora, em que pese tenha sido reiteradas vezes intimado para tanto; 2- A diligência fiscal procedida junto à Prime Medical Ltda., com o objeto de obter elementos comprobatórios da efetiva prestação dos serviços não prosperou; 3- Foram escrituradas na conta contábil de custos, 4.1.01.06.006-Plantões Médicos, custos incorridos/pagos com lastro nas Notas Fiscais de Serviços emitidas pela Prime Medical Ltda., cujo valor médio dos serviços prestados (R$ 6.581,82), considerado no período compreendido entre janeiro e dezembro do ano de 2011, aproximou-se do valor médio dos serviços sob a mesma titularidade (R$ 3.878,43), fornecidos por outros prestadores de serviços no mesmo período e escriturados na mesma conta-contábil; 4- Nas Notas Fiscais de Serviços emitidas pela Prime Medical Ltda., escrituradas na conta contábil de custos, 4.1.01.06.006-Plantões Médicos, no campo destinado à discriminação dos serviços, foram especificados o profissional prestador do serviço de plantão médico e o respectivo valor atribuído ao serviço; 5- Já o valor médio das despesas incorridas/pagas escrituradas na conta contábil, 5.1.01.07.010-Consultoria Gestão Téc. Adm. Hospitalar, com lastro nas Notas Fiscais de Serviços emitidas pela mesma Prime Medical Ltda., resultou no montante de R$ 105.112,05 sendo a importância de R$ 84.000,00 o menor valor escriturado a título de despesa incorrida/paga, e a importância de R$ 277.456,65 o maior valor escriturado a título de despesa incorrida/paga; 6- Nas Notas Fiscais de Serviços emitidas pela Prime Medical Ltda., escrituradas na conta contábil de despesas 5.1.01.07.010-Consultoria Gestão Téc. Adm. Hospitalar, no campo destinado à discriminação dos serviços, foram especificados de forma genérica os serviços prestados, sem indicação do profissional médico prestador do serviço e do valor a ele atribuído individualmente; 7- O valor médio das despesas escrituradas na conta contábil 5.1.01.07.010- Consultoria Gestão Téc. Adm. Hospitalar, com lastro nas Notas Fiscais de Serviços emitidas pela Prime Medical Ltda., superou em muito ao valor médio dos custos escriturados na conta contábil 4.1.01.06.006-Plantões Médicos, com lastro nas Notas Fiscais de Serviços emitidas pela mesma pessoa jurídica e por outros prestadores de serviços, evidenciando um distanciamento dos valores dos serviços praticados no mercado e dos valores praticados pela própria Prime Medical Ltda.; Fl. 5156DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 8 8- A constatação de que o Presidente do Conselho de Administração, o Diretor Administrativo e Financeiro e o Diretor Técnico do Hospital Santa Catarina S/A, Antônio Daud, Paulo Roberto Salomão e Valdevino Casarotti, respectivamente, detentores do poder decisório acerca da contratação de serviços de terceiros, bem como de proceder aos respectivos pagamentos, figuravam simultaneamente na condição de sócios administradores da Prime Medical Ltda., aliada aos demais fatos apurados, permite inferir que as operações foram praticadas visando o alcance de objetivos estranhos às atividades operacionais do contribuinte auditado; 9- Os fatos apurados constituem elementos hábeis a atestar que os serviços não foram executados e que a apropriação contábil das despesas, ao menos sob a ótica tributária, prestou-se à redução dos resultados tributáveis e, consequentemente à redução do valor dos tributos devidos pelo sujeito passivo sob auditoria. 5. Além do grupo de despesas citado, a Fiscalização concentrou sua atenção nas despesas escrituradas com lastro em Notas Fiscais emitidas pela pessoa jurídica Integração Saúde e Serviços Médicos Hospitalares Ltda. (conta contábil 5.1.01.07.010-Consultoria Gestão Téc. Adm. Hospitalar). Seguindo o mesmo procedimento, o Auditor Fiscal intimou o contribuinte a apresentar documentação comprobatória das despesas, do seu efetivo pagamento e a especificar os serviços prestados, justificando a sua necessidade. Após a apresentação das respostas, a Fiscalização concluiu o seguinte: Com fundamento nos fatos apurados, conforme relatado, conclui-se que o Hospital Santa Catarina S/A apropriou-se nos anos-calendário 2011, 2012, 2013 e 2014, de despesas incorridas/pagas à pessoa jurídica Integração Saúde Serviços Médicos Ltda., no montante global de R$ 8.206.891,91, não logrando êxito na comprovação da efetiva prestação dos serviços pactuados em contrato e da necessidade das despesas incorridas/pagas à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, nos termos do art. 299, do Decreto 3.000/99 (RIR/99). O contribuinte sob auditoria limitou-se, em atendimento aos Termos de Intimação Fiscal, a apresentar o contrato de prestação de serviços celebrado com a Integração Saúde Serviços Médicos Ltda., bem como as Notas Fiscais de Serviços por ela emitidas. A Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda. por sua vez, sob procedimento de diligência fiscal, apresentou apenas alguns contratos de prestação de serviços por ela pactuados com terceiros, vigentes em poucos meses do ano calendário de 2014, ao custo total apurado no montante de R$ 52.000,00, no intuito de demonstrar o cumprimento das obrigações assumidas no contrato de prestação de serviços celebrado com o Hospital Santa Catarina SA, abstendo-se de apresentar quaisquer outros elementos comprobatórios no período compreendido entre novembro de 2011 e dezembro de 2014. Fl. 5157DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 9 A constatação de que a Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda. tenha recebido do Hospital Santa Catarina S/A, no ano de 2014, a importância de R$ 2.750.000,00, em retribuição a serviços contratados, não os tenha prestado pelos seus próprios meios e sim contratado terceiros a pretexto de prestá-los, ao custo de R$ 52.000,00 no mesmo ano, indica e existência de uma situação totalmente atípica, a qual inclusive contraria a lógica, o senso comum de mercado. Efetivamente não restou comprovado que a Integração Saúde Serviços Médicos Ltda. tenha prestado os serviços contratados pelo Hospital Santa Catarina S/A, e o fato daquela ter contratado terceiros a pretexto cumprir com as obrigações contratuais assumidas com este, não se constitui em elemento hábil a comprovar a necessidade das despesas à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, eis que os serviços poderiam ter sidos contratados diretamente pelos Diretores do Hospital Santa Catarina S/A, no regular exercício de suas funções. E, de fato, ainda que fosse comprovada a efetiva prestação dos serviços pela Integração Saúde Serviços Médicos Ltda., verifica-se que as obrigações pactuadas no contrato prestação de serviços são de competência da Diretoria Executiva, nos termos do Estatuto Social do Hospital Santa Catarina SA, levando à convicção de que as despesas apropriadas não figuram como necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. É o que se conclui após a leitura das competências da Diretoria Executiva, nos Termos do Estatuto Social, cuja amplitude das atribuições demonstra-se superior em relação àquelas estabelecidas no contrato celebrado com a Integração Saúde Serviços Médicos Ltda. [...] Como se vê, os serviços previstos nas alíneas “a”, “b”, “e”, “f”, “g”, “h”, “i”, “k”, “m”, “n”, “o” e “p” do contrato de prestação de serviços, sem dúvida, enquadram- se nas atribuições de direção geral, administrativa e financeira de competência do Diretor Presidente, nos termos do Estatuto Social. Os serviços previstos na alínea “l” enquadram-se nas atribuições estatutárias previstas para o cargo de Diretor de Relações Institucionais. Os serviços previstos nas alíneas “c” e “d” são atribuições a nível de execução, passíveis de serem operacionalizadas pelo corpo funcional do Hospital. A obrigação contratual prevista na alínea “j” revela-se um tanto incomum, tendo em vista que insere em situação de risco o patrimônio da pessoa jurídica que se habilita a assumir a obrigação de apresentar garantias pessoais através de avais e patrimônio pessoal, em garantia a empréstimos contraídos por terceiros. Trata-se de mera liberalidade de quem se propõe a assumir tal ônus. Fl. 5158DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 10 Salvo melhor juízo, não é de se esperar que tal atribuição seja imposta em Estatutos ou Contratos Sociais de quaisquer pessoas jurídicas, aos seus diretores ou administradores. Portanto, tal obrigação contratual não se compatibiliza com as atribuições estatutárias da Diretoria Executiva do Hospital Santa Catarina S/A. Também não foram apresentados quaisquer elementos hábeis a comprovar que tal obrigação tenha sido posta em prática pela contratada Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda. 6. A Fiscalização também avançou na análise da capacidade operacional da suposta prestadora dos serviços, destacando que esta “[...] jamais contou com um quadro de colaboradores em quantitativo suficiente ao cumprimento das amplas atribuições assumidas no contrato de prestação de serviços celebrado com o HOSPITAL SANTA CATARINA S/A, no período compreendido entre outubro de 2011 e dezembro de 2014.” Além disso, destacou o seguinte: A visão global dos registros contábeis da Integração Saúde Serviços Médicos Ltda. não demonstra a existência de atividade operacional típica, nos termos de seu objeto social. Verifica-se que a partir de sua constituição em outubro de 2011, até dezembro de 2014, a contabilidade espelhou essencialmente o registro das receitas recebidas do Hospital Santa Catarina SA, conforme estipulado no contrato de prestação de serviços celebrado, a apuração do lucro em cada exercício, e sua distribuição, inclusive de forma antecipada, mediante adiantamento de recursos sob a rubrica “Adiantamento de Distribuição de Lucro”. Foi detectada ainda a contração de empréstimos de recursos financeiros junto a pessoas físicas e jurídicas, mediante a celebração de contratos de mútuo no primeiro semestre de 2012, e, ato contínuo, o repasse desses recursos aos seus sócios. No demonstrativo que segue é sintetizado de forma clara a inexpressiva atividade operacional da Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda., mediante a análise vertical da Demonstração do Resultado do Exercício constante de seus registros contábeis, nos anos-calendário 2011 a 2014. [...] Nota-se que na apuração do lucro de cada exercício foram computadas as receitas recebidas com lastro no contrato de prestação de serviços celebrado com o Hospital Santa Catarina SA, e basicamente deduzidos os tributos devidos e as despesas financeiras decorrentes de encargos de juros devidos em função da contração de empréstimos junto a pessoas físicas e jurídicas. As despesas operacionais e administrativas revelaram-se irrelevantes nos anos- calendário 2011 a 2013, tendo um significativo acréscimo apenas no ano- calendário 2014, permanecendo, entretanto, em percentual inexpressivo em relação às receitas auferidas no mesmo período. Fl. 5159DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 11 A par das considerações acerca da falta de comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados com a Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda. e da necessidade à atividade da empresa e à manutenção da fonte produtora, a análise dos eventos societários registrados na Junta Comercial do Estado de Minas Gerais, envolvendo as pessoas jurídicas contratante e contratada, fortalece a convicção de que as despesas escrituradas com lastro nas notas fiscais emitidas pela Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda. não correspondeu a uma efetiva prestação de serviços, mas sim, atendeu a interesses diversos e estranhos às atividades operacionais do Hospital Santa Catarina S/A. 7. Em seguida, a Fiscalização faz considerações sobre eventos societários ocorridos na pessoa jurídica Integração Saúde e Serviços Médicos Hospitalares Ltda., destacando “[...] os vínculos dos integrantes do seu quadro societário com a administração do HOSPITAL SANTA CATARINA S/A, no período sob análise”. Apurou que a sociedade foi constituída em 19/10/2011, com capital social distribuído entre quatro pessoas físicas, entre as quais PAULO ROBERTO SALOMÃO, também administrador. Na segunda alteração do Contrato Social da Integração Saúde, registrada em 07/11/2013, todas as cotas do capital foram transferidas e distribuídas a PAULO CESAR MONTEIRO e MARIA CARRIAS MONTEIRO, passando o primeiro a ser o administrador da sociedade. 8. As mesmas quatro pessoas físicas sócias da Integração Saúde também seriam as sócias da contribuinte HOSPITAL SANTA CATARINA S/A, sendo Diretor Presidente desta a pessoa física PAULO ROBERTO SALOMÃO até a formalização de renúncia ocorrida em 05/11/2013, oportunidade em que assumiu o cargo, em substituição, PAULO CESAR MONTEIRO. 9. A Fiscalização também trouxe elementos que teriam sido utilizados pelo Ministério Público de Minas Gerais para a formalização de denúncia contra CARLOS ALBERTO SALOMÃO, EMÍLIO CARLOS DE OLIVEIRA, PAULO ROBERTO SALOMÃO, VALTER JOSÉ VON KRUGER SOBRINHO e PAULO CESAR MONTEIRO, processada na Ação Penal nº 702.14.071078-2. O processo penal teria fundamento na fraude envolvendo o contrato de prestação de serviços firmado entre o HOSPITAL SANTA CATARINA S/A e a Integração Saúde, com a imputação de estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. 10. Diante dos elementos mencionados, foram glosadas as despesas com a Integração Saúde (conta contábil nº 5.1.01.07.010-Consultoria Gestão Téc. Adm. Hospitalar). 11. Também foram efetuadas outras glosas de despesas por falta de apresentação de elementos probatórios por parte do sujeito passivo, sem estarem relacionadas diretamente a um prestador de serviço específico, como nos outros casos: Diante da omissão do sujeito passivo sob auditoria em apresentar os elementos comprobatórios, em que pese tenha sido reiteradas vezes intimado para tanto, impõe-se a glosa das despesas escrituradas nas contas contábeis 5.1.01.07.001- Serviços Advocatícios, 5.1.01.07.003-Consultoria e Assessoria, 5.1.01.07.009- Serviços de Auditoria Externa e 5.1.01.07.010-Consultoria Gestão Téc. Adm. Hospitalar, nos anos-calendário 2011, 2012, 2013 e 2014. Fl. 5160DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 12 12. Além das referidas glosas, foi efetuado lançamento de ofício de valores de IRPJ e CSLL escriturados para o ano-calendário de 2014 (R$ 189.224,78 e 67.700,56), mas não declarados em DCTF e nem recolhidos. 13. No que se refere à infração de glosa de despesas, houve qualificação da multa de ofício (art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/1996), por conta da suposta constatação de fraude, descrita pela Fiscalização da seguinte forma: A dedução de despesas não comprovadas mediante a apresentação do correspondente documento fiscal, a dedução de despesas que não corresponderam a uma efetiva prestação de serviços, ainda que escrituradas com lastro em Notas Fiscais de Serviços e a dedução de despesas desnecessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, teve o evidente intuito de reduzir a base tributável do Imposto de Renda Pessoa Jurídica- IRPJ e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido-CSLL. As denúncias de irregularidades em contrato de prestação de serviços celebrado entre o Hospital Santa Catarina SA e a empresa Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda., oferecidas pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais, coadunam-se com os fatos apurados na presente auditoria fiscal. Efetivamente restou caracterizada a prática contumaz na apropriação de despesas sem a correspondente prestação de serviços, mediante a ação dolosa do sujeito passivo, visando, dentre outros resultados que extrapolam a esfera tributária, à redução dos tributos devidos pelo Hospital Santa Catarina SA, apurada não só em relação ao contrato de prestação de serviços celebrado com a pessoa jurídica Integração Serviços Médicos Hospitalares Ltda., mas também em relação à contratação das demais pessoas jurídicas e físicas, cujas despesas apropriadas foram igualmente glosadas. A contratação das empresas prestadoras de serviços Prime Medical Ltda. e Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda., cujos sócios administradores coincidentemente ocupavam os cargos de direção do Hospital Santa Catarina SA, nos períodos em que foram constatadas as deduções das despesas, aliado à falta de comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados e de sua necessidade à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, revela evidente intuito de fraude nos atos praticados. Da mesma forma é evidenciado o intuito de fraude, mediante a dedução de despesas escrituradas com lastro em documentos fiscais, nos quais consta uma modalidade de prestação de serviços incompatível com o objeto social das pessoas jurídicas emitentes (Bolsão Comércio e Representação Ltda., Aerx Representações Comerciais Ltda.), aliado à constatação de que os serviços espelhados nas Notas Fiscais de Serviços não foram efetivamente prestados. Situação análoga ocorre em relação à dedução de despesas escrituradas apenas com lastro em comprovantes de pagamento em favor de empresário individual Fl. 5161DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 13 (Paulo César Siveira Pessoa – PC Pivô Irrigação-ME) cujo ramo de negócios é absolutamente incompatível com a atividade hospitalar. Pelo exposto, haja vista os elementos narrados, fica patente a caracterização do intuito fraudulento, justificando plenamente a aplicação da multa de 150%, nos termos do art. 44, §1º, da Lei nº 9.430/96, com redação dada pela Lei n.º 11.488/2007, exceto em relação ao IRPJ e CSLL devidos no ano-calendário 2014, apurados com lastro na escrituração do sujeito passivo, informados na Escrituração Contábil Fiscal-ECF, não informados na Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais-DCTF e não recolhidos, os quais sujeitam-se ao lançamento de ofício com aplicação de multa de 75%. 14. A Fiscalização também atribuiu responsabilidade tributária às pessoas físicas que teriam sido responsáveis pelos “[...] atos praticados com infração de lei”, com fundamento no art. 135, III, do CTN. Incluiu no polo passivo da obrigação tributária às pessoas físicas (i) Paulo Roberto Salomão, para o período de janeiro/2011 a outubro/2013 e (ii) Paulo Cesar Monteiro, para o período de novembro/2013 a dezembro/2014, de acordo com os momentos em que cada um deles teria dirigido o contribuinte, na condição de Diretor Presidente. 15. Inconformados, o contribuinte HOSPITAL SANTA CATARINA S/A e o responsável PAULO CESAR MONTEIRO apresentaram suas Impugnações (fls. 4.754/4.766 e 4.770/4.786), que foram rejeitadas pela DRJ, por meio de acórdão (fls. 4.837/4.868) ementado da seguinte forma: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 NULIDADE. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. O Mandado de Procedimento Fiscal é mero instrumento interno de planejamento e controle das atividades e procedimentos da fiscalização, não implicando nulidade dos procedimentos, notadamente, quando emitido em conformidade com a norma administrativa. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 JURISPRUDÊNCIA ADMINISTRATIVA. EFEITOS. As decisões administrativas proferidas por órgão colegiado, sem lei que lhes atribua eficácia, não constituem normas complementares do Direito Tributário. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA PESSOAL. DIRETORES. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei os mandatários, prepostos e empregados e os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA PESSOAL. DIRETORES. Não tendo sido expressamente contestada, a matéria considera-se não impugnada. Fl. 5162DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 14 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 DESPESAS NÃO COMPROVADAS. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. Mantém-se o lançamento, se não apresentada a documentação comprobatória das despesas escrituradas e utilizadas na apuração do resultado fiscal. GLOSA DE DESPESAS. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. As despesas devem ser glosadas se as condutas praticadas pelo sujeito passivo evidenciam que foram criadas artificialmente, sem a efetiva prestação de serviços. CUSTOS, DESPESAS E ENCARGOS NÃO NECESSÁRIOS. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. As despesas operacionais dedutíveis são aquelas necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, devem ser documentalmente comprovada e preencher os requisitos da usualidade e normalidade no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. MULTA DE OFÍCIO POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ANTECIPAÇÃO MENSAL. MULTA DE OFÍCIO POR FALTA DE PAGAMENTO DO IMPOSTO. COMPATIBILIDADE. Verificada a falta de pagamento do IRPJ por estimativa, após o término do ano- calendário, o lançamento de ofício abrangerá a multa de ofício de 50% sobre o valor do pagamento mensal que deixar de ser efetuado e o IRPJ devido com base no lucro real apurado em 31 de dezembro, caso não recolhido, acrescido de multa de ofício e juros de mora. MULTA QUALIFICADA. É cabível a multa por infração qualificada (duplicação do percentual da multa de 75%), quando configuradas as hipóteses previstas nos arts. 71, 72 e 73, da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964. PREJUÍZO FISCAL. COMPENSAÇÃO. SALDO INSUFICIENTE. Mantém-se o lançamento quando o saldo de prejuízo fiscal se revela insuficiente em decorrência da compensação de ofício integral do saldo existente em períodos de apuração anteriores. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. IMPOSTO A PAGAR. VALORES ESCRITURADOS E NÃO DECLARADOS/PAGOS. O lançamento consolida-se administrativamente no que se refere à matéria não impugnada. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO - CSLL Ano-calendário: 2011, 2012, 2013, 2014 MULTA DE OFÍCIO POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ANTECIPAÇÃO MENSAL. MULTA DE OFÍCIO POR FALTA DE PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO SOCIAL. COMPATIBILIDADE. Fl. 5163DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 15 Verificada a falta de pagamento da CSLL por estimativa, após o término do ano- calendário, o lançamento de ofício abrangerá a multa de ofício de 50% sobre o valor do pagamento mensal que deixar de ser efetuado e a CSLL devida com base no resultado ajustado apurado em 31 de dezembro, caso não recolhida, acrescida de multa de ofício e juros de mora. BASE DE CÁLCULO NEGATIVA. COMPENSAÇÃO. SALDO INSUFICIENTE. Mantém-se o lançamento quando a base de cálculo negativa de CSLL se revela insuficiente em decorrência da compensação de ofício integral do saldo existente em períodos de apuração anteriores. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL A PAGAR. VALORES ESCRITURADOS E NÃO DECLARADOS/PAGOS. O lançamento consolida-se administrativamente no que se refere à matéria não impugnada. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Aplica-se ao lançamento reflexo o mesmo tratamento dispensado ao lançamento matriz, em razão da relação de causa e efeito que os vincula. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido 16. O contribuinte HOSPITAL SANTA CATARINA S.A. (fls. 4.887) interpôs Recursos Voluntários, sustentando em síntese o seguinte: deve ser aceita a prova que seria juntada aos autos, diante da “sobreposição do princípio da verdade material”; o processo administrativo seria nulo, pois o procedimento fiscal não teria observado o prazo de 60 (sessenta) dias para o término dos trabalhos e nem foi formalizado ato administrativo motivado explicitando a necessidade de dilação de prazo; a jurisprudência apresentada na defesa administrativa deveria ser observada, ou ao menos deveria a DRJ ter realizado a distinção para justificar a sua não aplicação neste caso; seria indevida a aplicação conjunta da multa de ofício e da multa isolada pela falta de recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e CSLL; a qualificação da multa de ofício teria sido feita com base “[...] única e exclusivamente em presunções jamais comprovadas”, contrariando a Súmula Carf nº 14, que exige a comprovação efetiva da fraude; as despesas devem ser consideradas dedutíveis, pois ilegítima a sua desconsideração sem que seja desconstituída a “[...] validade jurídica da documentação fiscal apresentada”, o que não pode ser feito por presunção; houve violação à presunção de inocência por parte da Fiscalização. 17. Já o responsável PAULO CESAR MONTEIRO (fls. 5.116/5.135) sustentou, fundamentalmente, que houve nulidade do Auto de Infração, por cerceamento do seu direito de defesa, pois não lhe foi oportunizada a manifestação durante o procedimento de fiscalização; não seria o caso de imputação de responsabilidade tributária com fundamento no art. 135 do CTN, pois ausente a comprovação da prática de ato específico por ele praticado com dolo; não poderia haver responsabilidade tributária sobre fatos ocorridos antes da sua inclusão no quadro societário Fl. 5164DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 16 do contribuinte; no mínimo, deveria ser excluída a sua responsabilidade quanto às multas e sanções aplicadas, tendo em vista que não concorreu para o ilícito. 18. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheiro Eduardo Monteiro Cardoso, Relator. 19. Os Recursos Voluntários foram interpostos pelos próprios sujeitos passivos em 13/10/2017 (fls. 4.885 e 5.116), dentro do prazo de 30 (trinta) dias contados das respectivas intimações (fls. 4.882/4.883). Assim, presentes os pressupostos formais, conheço dos recursos. I. Preliminares alegadas pelos sujeitos passivos 20. Preliminarmente, o contribuinte HOSPITAL SANTA CATARINA S/A sustentou a nulidade do processo administrativo, pois o procedimento de fiscalização não teria observado o prazo de 60 (sessenta) dias para a finalização, bem como não teria sido proferido ato administrativo motivado contendo a dilação do referido prazo. 21. Apesar das alegações da Recorrente, o MPF é simples instrumento interno para controle da Receita Federal, sendo a competência dos Auditores-Fiscais da Receita Federal decorrente de disposição expressa de lei (art. 6º da Lei nº 10.593/2002). Disso decorre que, conforme entendimento desta Turma, qualquer irregularidade do MPF “poderia, no máximo, dar azo a procedimento interno de natureza administrativa, mas nunca invalidar o lançamento do crédito tributário” (Acórdão n. 1301-002.573, Rel. Cons. José Eduardo Dornelas Souza, Sessão de 15/08/2017). 22. Nesse sentido, este Carf consolidou o entendimento de que a falta de prorrogação do MPF não enseja nulidade do lançamento (Súmula Carf nº 171). Ainda que o MPF não tenha sido prorrogado, tratar-se-ia de mero vício formal, incapaz de prejudicar o direito de defesa do Recorrente e, por isso, insuscetível de ocasionar a nulidade dos atos seguintes, considerando que não há nulidade sem prejuízo. Veja-se precedente deste Carf: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. De acordo com o princípio pas de nullité sans grief, que na sua tradução literal significa que não há nulidade sem prejuízo, não se declarará a nulidade por vício formal se este não causar prejuízo. Podemos, então, estar diante a uma violação à prescrição legal sem que disso, necessariamente, decorra a nulidade. Como no presente caso, em que o art. 10, IV do Decreto nº 70.235/72 prescreve que o auto de infração conterá obrigatoriamente a disposição legal. Não obstante a existência de vício formal nº lançamento, a sua nulidade não deve ser decretada, por ausência de efetivo prejuízo por parte do contribuinte em sua defesa. Não há de se falar em nulidade do lançamento, por não restar configurado o binômio defeito-prejuízo. Recurso Fl. 5165DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 17 especial provido. (Acórdão nº 9202-001.523, Rel. Cons. Elias Sampaio Freire, Sessão de 09/05/2011) 23. Além disso, consultando a validade do TDPF no sítio eletrônico da Receita Federal,2 verifico que houve a sua efetiva prorrogação até 13/01/2017, sendo que o Auto de Infração foi lavrado em 10/11/2016 (fls. 4.670), não havendo que se falar em ausência de prorrogação: 24. Portanto, deve ser rejeitada a alegação. 25. O responsável, por sua vez, alegou nulidade do Auto de Infração por cerceamento ao seu direito de defesa, pois em momento algum do procedimento de fiscalização lhe foi dada a oportunidade de participar, apresentando alegações e documentos. 26. Sobre tal alegação, é importante destacar que o procedimento fiscalizatório é instrumentalizado a partir do princípio inquisitório, sendo garantido o contraditório e a ampla defesa com a possibilidade de apresentação posterior de Impugnação, instaurando a fase contenciosa e litigiosa do processo administrativo (art. 14 do Decreto nº 70.235/1972). Ou seja, a ampla defesa e o contraditório são garantidos a partir da oportunidade de apresentação da defesa administrativa, não havendo que se falar em necessidade de participação do responsável durante o procedimento de fiscalização. 27. Por conta disso, esta Turma Ordinária já se manifestou no sentido de que “salvo excepcionais exceções, não se caracteriza o cerceamento de defesa durante o procedimento fiscal que tem nítido caráter inquisitório” (Acórdão nº 1301-006.935, Rel. Cons. Rafael Taranto Malheiros, Sessão de 15/05/2024). Inclusive, tal entendimento está consolidado na Súmula Carf nº 162, segundo a qual “o direito ao contraditório e à ampla defesa somente se instaura com a apresentação de impugnação ao lançamento”. 28. Por tais razões, rejeito a alegação de nulidade. II. Mérito II.1. GLOSA DAS DESPESAS DEDUZIDAS 29. Como relatado, o objeto principal da autuação é a glosa de diversas despesas deduzidas pelo contribuinte nos anos-calendário de 2011, 2012, 2013 e 2014 (itens 3 a 6 do Termo de Verificação Fiscal). 30. O contribuinte alega, em suas razões recursais, que as notas fiscais de serviços teriam “comprovada idoneidade” e que esta condição não teria sido afastada em momento algum 2 https://servicos.receita.fazenda.gov.br/Servicos/MPF/ Fl. 5166DF CARF MF Original https://servicos.receita.fazenda.gov.br/Servicos/MPF/ D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 18 pela Fiscalização. Afirma que não seria possível desconsiderar, com base em presunções, documentos com validade jurídica, sendo que “se há nota fiscal de prestação de serviços e correspondente comprovante de pagamento, há efetiva prestação de serviços, a menos que a Fiscalização prove o contrário”. Também juntou, com o Recurso Voluntário, “documentação comprobatória das despesas deduzidas”, sustentando o seu conhecimento com base no princípio da verdade material. 31. Analisando o Termo de Verificação Fiscal, entendo que as despesas foram analisadas de forma pormenorizada, com a descrição individual das razões que levaram às glosas, especialmente a ausência de documentos hábeis para atestar a materialidade dos serviços prestados, isto é, da sua efetiva ocorrência. Embora em alguns casos a Fiscalização tenha mencionado a falta de apresentação de Nota Fiscal e respectivo comprovante de pagamento, o questionamento foi além, destacando outros elementos. 32. No caso das despesas com a pessoa jurídica Bolsão Comércio e Representação Ltda. (item 3.1), os fundamentos foram os seguintes: 1- Embora as despesas tenham sido lastreadas em sua quase totalidade em documentos fiscais emitidos pela referida pessoa jurídica, não restou comprovado que tenham decorrido de uma efetiva prestação de serviços, eis que não foram apresentados quaisquer contratos de prestação de serviços, documentos hábeis a atestar a materialidade dos serviços prestados, e comprovantes de pagamento, em que pese o contribuinte sob auditoria tenha sido intimado para tanto reiteradas vezes; 2- Não restou comprovada a necessidade das despesas à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora; 3- Existe uma discrepância entre os serviços advocatícios de cobrança judicial e extrajudicial discriminados nos documentos fiscais emitidos e o objeto social da prestadora dos serviços, consignado em seu Contrato Social, que é a representação comercial por conta de terceiros a pessoas jurídicas; 4- Os documentos fiscais apresentados foram emitidos anos após a sua impressão gráfica, revelando uma situação anormal da empresa emitente, quando comparado à dinâmica das atividades operacionais das empresas em geral. 33. Para a pessoa física Ricardo Peres de Oliveira (item 3.2), a Fiscalização destacou o seguinte: 1- As autorizações de pagamento e comprovantes de transferências bancárias isoladamente não são documentos hábeis a comprovar as despesas escrituradas, a sua necessidade à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora e a efetividade e materialidade dos serviços prestados; 2- Não foram apresentadas quaisquer Notas Fiscais de Serviços ou Recibos de Pagamento a Autônomo, e o contrato de prestação de serviços, conforme solicitado; Fl. 5167DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 19 3- Não foram apresentados quaisquer documentos hábeis a comprovar que os serviços foram efetivamente prestados; 4- Não restou comprovada a necessidade das despesas à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora; 34. A glosa relativa às despesas com a pessoa jurídica Aerx Representações Comerciais Ltda. (item 3.3) teve a seguinte fundamentação: Consta do campo das Notas Fiscais de Serviços emitidas, destinado à discriminação dos serviços prestados, a informação genérica “Prestação de Serviços”. Ou seja, as despesas sob análise foram escrituradas em conta contábil de serviços advocatícios, com lastro em documentos fiscais emitidos por pessoa jurídica cujo objeto social é a representação comercial por conta de terceiros, nos quais consta de forma genérica os serviços prestados. Estes fatos constatados, aliados à falta de comprovação por parte do sujeito passivo da efetividade dos serviços prestados e da sua necessidade à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, em que pese tenha sido reiteradas vezes intimado para tanto, aliados à incompatibilidade detectada entre o objeto social da pessoa jurídica Aerx Representações Comerciais Ltda. (representação comercial) e a indicação de que tenha prestados serviços advocatícios, eis que as despesas foram escrituradas em conta contábil de serviços advocatícios, são elementos determinantes para que se proceda à glosa das mesmas. Admitindo-se ainda que as despesas tenham sido escrituradas de forma equivocada na conta contábil de serviços advocatícios, não se mostra razoável que uma pessoa jurídica prestadora de serviços hospitalares contrate os serviços de outra pessoa jurídica cuja atividade seja a representação comercial por conta de terceiros. Essas considerações aplicam-se inclusive às despesas escrituradas e para as quais não foram apresentados os respectivos documentos fiscais, irregularidade esta que por si só já autoriza a sua glosa. No que diz respeito às despesas escrituradas, cujos registros contábeis foram procedidos em duplicidade, conforme identificado no demonstrativo acima, são passíveis de glosa em função da própria irregularidade de escrituração detectada (duplicidade de lançamento contábil). 35. As despesas com a pessoa jurídica Rodrigues Pereira Sociedade de Advogados (item 3.4) foi feita com base no seguinte: 1- Embora parte das despesas tenham sido escrituradas com lastro em recibos e em uma Nota Fiscal de Serviços e tenham sido apresentados o “Contrato Particular de Prestação de Serviços e Honorário Advocatícios” e o “Termo de Confissão de Dívida e Novação” celebrados entre o Hospital Santa Catarina SA e Fl. 5168DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 20 Rodrigues Pereira Sociedade de Advogados, não restou comprovado que tais documentos tenham sido emitidos em decorrência de uma efetiva prestação de serviços, e tampouco restou comprovada a necessidade das despesas escrituradas à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, em que pese o contribuinte tenha sido reiteradas vezes intimado para tanto; 2- Não foi detectada a propositura da ação judicial, nos termos pactuados no contrato de prestação de serviços; 3- O valor dos honorários pactuados no contrato de prestação de serviços, à razão de 12% sobre o montante de R$ 535.339,83, determinado como o valor a ser restituído mediante a propositura da ação judicial, resultaria na importância de R$ 64.240,78 a ser paga à Rodrigues Pereira Sociedade de Advogados, ao passo que as despesas escrituradas totalizaram R$ 395.949,00; 4- Não consta do “Termo de Confissão de Dívida e Novação” apresentado, quais atos jurídicos resultaram na confissão de dívida; 5- Os recibos apresentados no intuito de comprovar parte das despesas escrituradas foram emitidos em desacordo com a legislação tributária do município de origem do suposto prestador dos serviços; 6- Não foram apresentados quaisquer comprovantes de pagamento das despesas escrituradas; 7- Não foram apresentados quaisquer Notas Fiscais de Serviços pertinentes às receitas escrituradas no ano-calendário 2012, no montante de R$ 77.251,40, no ano-calendário 2013, nº montante de R$ 148.167,42, e no ano-calendário 2014, no montante de R$ 16.376,73, sendo aplicáveis neste caso, cumulativamente, os mesmos fundamentos para glosa discriminados nos itens antecedentes. 36. As despesas com a pessoa jurídica Inovar Consultoria Empresarial Ltda. (item 4.1) decorreu dos seguintes motivos: 1- Embora parte das despesas tenham sido escrituradas com lastro em recibos e em uma Nota Fiscal de Serviços e tenham sido apresentados o “Contrato Particular de Prestação de Serviços e Honorário Advocatícios” e o “Termo de Confissão de Dívida e Novação” celebrados entre o Hospital Santa Catarina SA e Rodrigues Pereira Sociedade de Advogados, não restou comprovado que tais documentos tenham sido emitidos em decorrência de uma efetiva prestação de serviços, e tampouco restou comprovada a necessidade das despesas escrituradas à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, em que pese o contribuinte tenha sido reiteradas vezes intimado para tanto; 2- Não foi detectada a propositura da ação judicial, nos termos pactuados no contrato de prestação de serviços; 3- O valor dos honorários pactuados no contrato de prestação de serviços, à razão de 12% sobre o montante de R$ 535.339,83, determinado como o valor a ser restituído mediante a propositura da ação judicial, resultaria na importância de R$ Fl. 5169DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 21 64.240,78 a ser paga à Rodrigues Pereira Sociedade de Advogados, ao passo que as despesas escrituradas totalizaram R$ 395.949,00; 4- Não consta do “Termo de Confissão de Dívida e Novação” apresentado, quais atos jurídicos resultaram na confissão de dívida; 5- Os recibos apresentados no intuito de comprovar parte das despesas escrituradas foram emitidos em desacordo com a legislação tributária do município de origem do suposto prestador dos serviços; 6- Não foram apresentados quaisquer comprovantes de pagamento das despesas escrituradas; 7- Não foram apresentados quaisquer Notas Fiscais de Serviços pertinentes às receitas escrituradas no ano-calendário 2012, no montante de R$ 77.251,40, no ano-calendário 2013, nº montante de R$ 148.167,42, e no ano-calendário 2014, no montante de R$ 16.376,73, sendo aplicáveis neste caso, cumulativamente, os mesmos fundamentos para glosa discriminados nos itens antecedentes. 37. Já as despesas com a Paulo César Silveira Pessoa – PC Pivô Irrigação (item 4.2) foi feita com base no seguinte: 1- Não foram apresentadas as Notas Fiscais de Serviços, o contrato de prestação de serviços e quaisquer elementos hábeis a comprovar a efetividade e materialidade dos serviços prestados, em que pese o contribuinte sob auditoria tenha sido intimado reiteradas vezes para tanto; 2- Ainda que os elementos mencionados no tópico antecedente tivessem sido apresentados, as despesas com a contratação de serviços de irrigação por pessoa jurídica que atue no ramo Hospitalar não são necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, sendo, portanto, indedutíveis. 38. Igualmente, as despesas glosadas nos itens 5 e 6 foram feitas com base noutros motivos além da simples falta de apresentação da nota fiscal e do respectivo comprovante de pagamento. 39. É evidente que as notas fiscais, acompanhadas dos comprovantes de pagamento, constituem fortes indícios de que as operações ocorreram. Porém, uma vez questionada tal presunção pela Fiscalização, cabe ao contribuinte trazer aos autos outros documentos que demonstrem a efetiva ocorrência do serviço prestado ou da aquisição da mercadoria. 40. Neste caso, após várias intimações ao longo do procedimento de fiscalização, a Autoridade Fiscal glosou as despesas apontando diversas inconsistências, a depender do prestador. O contribuinte nada trouxe em Impugnação. Em Recurso Voluntário, trouxe aos autos documentação (fls. 4.910/5.094) e planilha (fls. 5.095/5.098). Porém, analisando tais documentos, verifico que se trata de comprovantes de pagamento, notas fiscais – algumas delas com descrição genérica (“serviços prestados”) – e alguns contratos. Não houve qualquer demonstração, na peça recursal, de que foram infirmados os demais questionamentos apresentados pela Fiscalização. Por exemplo: foi apresentado o contrato de prestação de serviços com a PC Pivô Irrigação, mas não Fl. 5170DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 22 houve qualquer demonstração de sua necessidade, como contestado pela Autoridade Fiscal. Tal contrato, inclusive, tem como objeto “a prestação de serviços de apoio administrativo para terceiro” (fls. 4.941), sem qualquer descrição pormenorizada da utilidade proporcionada pelo contratado. 41. Portanto, entendo que não foram infirmadas as conclusões da Fiscalização, razão pela qual concordo com o acórdão recorrido, que destacou o seguinte: 102 Em sede recursal, o interessado não conseguiu desconstituir o que foi coletado pela autoridade lançadora para subsidiar a glosa das despesas ora em análise e demonstrar a inexistência da prestação de serviços que os documentos, utilizados pelo interessado, pretendiam atestar. 103 Na verdade, o interessado se limitou a arguir, de forma genérica, que as despesas foram comprovadas e que a autoridade lançadora se pautou em presunções, não levando em consideração a verdade material, o que, como se viu, não corresponde aos fatos descritos no termo de verificação fiscal, razão pela qual o lançamento deve ser mantido. 42. Diante do exposto, rejeito as alegações. II.2. EXIGÊNCIA CUMULATIVA DE MULTA DE OFÍCIO E MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS DE IRPJ E CSLL 43. Em seguida, o contribuinte questiona a exigência cumulativa da multa de ofício e da multa isolada por falta de recolhimento sobre as bases de cálculo estimadas do IRPJ e da CSLL. Sustenta a aplicação da Súmula Carf nº 105. 44. De fato, entendo indevida a exigência de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas cumulada com a multa de ofício, por conta da aplicação da Súmula Carf nº 105: "A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício.” 45. Vale destacar que não ignoro a existência de manifestações, neste Carf, no sentido de que tal enunciado não seria aplicável após a alteração feita pela Lei nº 11.488/2007 no art. 44 da Lei nº 9.430/1996. No entanto, entendo que o racional da súmula permanece aplicável, pois não se trata de penalidades para condutas distintas. Nesse sentido há precedentes desta Turma Ordinária: MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA. MULTA DE OFÍCIO INAPLICABILIDADE. Não é cabível a multa isolada de forma cumulativa com a multa de ofício sobre as faltas de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ, de forma cumulativa, com a multa de ofício. (Acórdão nº 1301-003.347, Rel. Cons. Amelia Wakako Morishita Yamamoto, Sessão de 18/09/2018) Fl. 5171DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 23 FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS. MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFÍCIO. SÚMULA CARF 105. ALCANCE. A Súmula CARF 105, que anuncia que a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no artigo 44, §1º, IV, da Lei 9.430/96, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL, apurados no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Em que pese o entendimento sumulado ter sido construído antes da alteração promovida pela MP 351/2007, sua aplicação deve alcançar os casos em que a exigência tenha sido formalizada já com o percentual reduzido de 50%. (Acórdão nº 1301-005.681, Rel. Cons. Lucas Esteves Borges, Sessão de 15/09/2021 – decisão com base no art. 19-E da Lei nº 10.522/02) 46. Além disso, o E. STJ tem se manifestado no mesmo sentido, vedando a exigência cumulativa das referidas multas, inclusive após a edição da Lei nº 11.488/07: 5. A Segunda Turma do STJ, em julgados mais recentes, continua a aplicar o entendimento de que a vedação à cumulação das multas "isolada" e "de ofício" persiste, mesmo após as alterações promovidas pela Lei 11.488/2007. Nesse sentido: AREsp 1.603.525/RJ, Rel. Min. Francisco Falcão, Segunda Turma, DJe 25.11.20. 6. Agravo Interno não provido. (AgInt no AREsp n. 1.878.192/SC, relator Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 28/3/2022, DJe de 12/4/2022) 47. Assim, concluo pela ilegitimidade da multa isolada aplicada pela Fiscalização pela falta de recolhimento de estimativas mensais, pois absorvida pela multa de ofício. II.3. APLICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA 48. O contribuinte também alega a ilegitimidade da qualificação da multa no patamar de 150% feito pela Fiscalização. Afirma que a Autoridade Fiscal se valeu de denúncia apresentada pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais como premissa, mas sem que tenha tramitado o processo penal respectivo ou que exista decisão judicial com trânsito em julgado, o que contraria a presunção de inocência. Também menciona que a qualificação da multa depende de comprovação da fraude, conforme Súmula Carf nº 14, bem como que “a documentação [...] comprova que as despesas deduzidas [...] advêm da efetiva contratação de serviços para fins de exercício de seu objetivo social”. 49. De acordo com o § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/1996, a qualificação da multa de ofício tem como hipóteses legais a ocorrência de sonegação, fraude ou conluio, descritas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964 da seguinte forma: Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; Fl. 5172DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 24 II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. 50. Neste caso, a Fiscalização caracterizou a conduta da contribuinte como fraudulenta, nos seguintes termos: A dedução de despesas não comprovadas mediante a apresentação do correspondente documento fiscal, a dedução de despesas que não corresponderam a uma efetiva prestação de serviços, ainda que escrituradas com lastro em Notas Fiscais de Serviços e a dedução de despesas desnecessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, teve o evidente intuito de reduzir a base tributável do Imposto de Renda Pessoa Jurídica- IRPJ e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido-CSLL. As denúncias de irregularidades em contrato de prestação de serviços celebrado entre o Hospital Santa Catarina SA e a empresa Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda., oferecidas pelo Ministério Público do Estado de Minas Gerais, coadunam-se com os fatos apurados na presente auditoria fiscal. Efetivamente restou caracterizada a prática contumaz na apropriação de despesas sem a correspondente prestação de serviços, mediante a ação dolosa do sujeito passivo, visando, dentre outros resultados que extrapolam a esfera tributária, à redução dos tributos devidos pelo Hospital Santa Catarina SA, apurada não só em relação ao contrato de prestação de serviços celebrado com a pessoa jurídica Integração Serviços Médicos Hospitalares Ltda., mas também em relação à contratação das demais pessoas jurídicas e físicas, cujas despesas apropriadas foram igualmente glosadas. A contratação das empresas prestadoras de serviços Prime Medical Ltda. e Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda., cujos sócios administradores coincidentemente ocupavam os cargos de direção do Hospital Santa Catarina SA, nos períodos em que foram constatadas as deduções das despesas, aliado à falta de comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados e de sua necessidade à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, revela evidente intuito de fraude nos atos praticados. Da mesma forma é evidenciado o intuito de fraude, mediante a dedução de despesas escrituradas com lastro em documentos fiscais, nos quais consta uma modalidade de prestação de serviços incompatível com o objeto social das pessoas jurídicas emitentes (Bolsão Comércio e Representação Ltda., Aerx Fl. 5173DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 25 Representações Comerciais Ltda.), aliado à constatação de que os serviços espelhados nas Notas Fiscais de Serviços não foram efetivamente prestados. Situação análoga ocorre em relação à dedução de despesas escrituradas apenas com lastro em comprovantes de pagamento em favor de empresário individual (Paulo César Siveira Pessoa – PC Pivô Irrigação-ME) cujo ramo de negócios é absolutamente incompatível com a atividade hospitalar. Pelo exposto, haja vista os elementos narrados, fica patente a caracterização do intuito fraudulento, justificando plenamente a aplicação da multa de 150%, nos termos do art. 44, §1º, da Lei nº 9.430/96, com redação dada pela Lei n.º 11.488/2007, exceto em relação ao IRPJ e CSLL devidos no ano-calendário 2014, apurados com lastro na escrituração do sujeito passivo, informados na Escrituração Contábil Fiscal-ECF, não informados na Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais-DCTF e não recolhidos, os quais sujeitam-se ao lançamento de ofício com aplicação de multa de 75%. 51. Sintetizando os fatos descritos no TVF, verifico que a imputação da fraude se deu em função dos seguintes elementos: (i) a dedução das despesas teve evidente intuito de reduzir a base tributável, (ii) as denúncias de irregularidade mencionadas pelo MPMG com relação ao contrato entre o Recorrente e a Integração Saúde e Serviços Médicos Hospitalares Ltda., (iii) prática contumaz na apropriação das despesas sem a correspondente prestação de serviços, (iv) a contratação de duas empresas prestadoras que teriam sócios administrativos que ocupavam cargos de direção no Recorrente; e (v) documentos fiscais em que constariam serviços incompatíveis com o objeto social das emitentes. 52. Com efeito, a caracterização da fraude, para fins de aplicação do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/1995, depende da comprovação da ocorrência de atos adicionais à infração tributária, praticados dolosamente com o fim de ocultar a sua ocorrência. A falta de comprovação das despesas ou a sua desnecessidade estão inseridos na premissa da própria infração fiscal, sendo imprescindível a demonstração, por parte da Fiscalização, de que os sujeitos passivos foram além da falta de recolhimento dos tributos, agindo também para esconder o fato gerador do conhecimento da autoridade fiscal. Nesse sentido: IRRF. PAGAMENTO PARA BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO OU SEM CAUSA. QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO. FRAUDE. NOTAS FISCAIS INIDÔNEAS. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS. A multa de ofício deve ser qualificada quando o contribuinte faz um esforço adicional para ocultar a infração, praticando ato que não faz parte do núcleo da ação que concretizou a infração. A emissão de notas fiscais inidôneas e a interposição de terceiros para iludir a realização de pagamentos, além dos atos que materializam a infração (omissão), é ato que exterioriza e evidencia o dolo do contribuinte, dando ensejo à qualificação da multa de ofício, mesmo no caso de presunção legal de omissão. (Acórdão nº 1201- 005.640, Rel. Cons. Gisele Barra Bossa, Red. Desig. Cons. Neudson Cavalcante Albuquerque, Sessão de 17/11/2022) Fl. 5174DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 26 MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. DOLO. A omissão de receitas dá ensejo à qualificação da multa de ofício quando o contribuinte faz um esforço adicional para ocultar a omissão do Fisco, praticando atos preparatórios para a omissão, como uma simulação, praticando atos contemporâneos à omissão, como o subfaturamento, ou praticando atos posteriores à infração, como a ocultação de documentos ou registros contábeis. (Acórdão nº 1201-002.724, Rel. Cons. Neudson Cavalcante Albuquerque, Sessão de 20/02/2019) 53. Neste caso, entendo que a Fiscalização não se desincumbiu do ônus probatório quanto aos mencionados atos adicionais. A dedução indevida das despesas, embora tenha ocorrido seguidamente e de forma contumaz, faz parte, a meu ver, da própria infração imputada ao contribuinte, já apenada com a multa de ofício ordinária de 75%. Já os fatos mencionados na denúncia do MPMG, embora graves, não foram submetidos ao contraditório judicial, não havendo notícia nos autos a respeito da existência de sentença penal condenatória e nem aprofundamento próprio pela Fiscalização para fins de se confirmar a sua ocorrência, uma vez que a autuação se limitou à falta de comprovação dos serviços. 54. É comum que, no âmbito dos serviços médicos, muitas vezes os diretores responsáveis pelos hospitais mantenham pessoas jurídicas com atividade especializada, as quais eventualmente são contratadas pela instituição para a realização de sua atividade. Por isso que o fato de existir tal coincidência de sócios tão somente quanto a dois prestadores de serviços e sem qualquer elemento adicional que indique direcionamento ilícito de recursos, não pode significar a prática de fraude. Do mesmo modo a menção de serviços incompatíveis com o objeto de alguns prestadores. 55. Vale destacar que, por diversas vezes, votei para manter a qualificação da multa no caso da utilização de notas fiscais ideologicamente falsas para documentar fictícia aquisição de mercadorias ou prestação de serviços (cf. Acórdão nº 1301-007.836, Sessão de 07/08/2025). Porém, nestes casos o procedimento fiscal está lastreado em elementos que permitem atestar a falsidade do documento fiscal, como a inexistência de fato das prestadoras ou vendedoras, com eventual declaração de inaptidão do CNPJ, ou a sua mera interposição para que os pagamentos retornem aos sócios ou sejam redirecionados a participantes do esquema fraudulento. Neste caso, reforço: a glosa está baseada na falta de comprovação dos serviços documentos em notas fiscais. Falta de comprovação do serviço, porém, não é o mesmo que a prova de que a Nota Fiscal é ideologicamente falsa. 56. Deste modo, entendo que a qualificação da multa deve ser cancelada, com a aplicação da multa de ofício no seu patamar ordinário de 75%. II.4. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA IMPUTADA COM FUNDAMENTO NO ART. 135, III, DO CTN 57. A Fiscalização imputou às pessoas físicas PAULO ROBERTO SALOMÃO (2011 a 2013) e PAULO CESAR MONTEIRO (2013 e 2014) a responsabilidade tributária pelo cometimento das infrações Fl. 5175DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 27 fiscais, com fundamento no art. 135, III, do CTN, de acordo com os períodos em que seriam administradores do contribuinte. O primeiro não apresentou Impugnação, tendo sido declarada a definitividade de sua responsabilidade pela DRJ (fls. 4.865), e nem interpôs Recurso Voluntário. 58. O responsável PAULO CESAR MONTEIRO, por sua vez, interpôs Recurso Voluntário questionando a imputação de responsabilidade tributária, pois não estariam comprovados os atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei. Sustentou também que teria assumido a administração do contribuinte em novembro/2013, sendo ilegítima a sua responsabilização pelo fato gerador ocorrido em 31/12/2013, pois até novembro não tinha qualquer atuação. Subsidiariamente, afirmou que a responsabilidade não poderia ser aplicada quanto às multas e sanções. 59. Com efeito, a responsabilização de sócios e administradores pelo crédito tributário está prevista no art. 135, III, do CTN, dependendo da comprovação da prática de atos “com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos”. Para aplicação do referido dispositivo, não basta a indicação da circunstância que levou à falta de recolhimento do tributo e à constatação da infração. É necessária a comprovação de ato específicos dos administradores que comprovem os ilícitos praticados. Nesse sentido, o E. STJ firmou a seguinte tese vinculante no REsp 1.101.728/SP (Rel. Min. Teori Zavascki, DJ 11/03/2009): A simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa. 60. De igual forma, a Súmula nº 430 do STJ prescreve que “o inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sócio- gerente”. Assim, para a aplicação do art. 135, III, do CTN é fundamental avaliar se há prova dos atos ilícitos que transbordem a falta de recolhimento do tributo, conforme já entendeu esta Turma: RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135 DO CTN. FALTA DE RECOLHIMENTO DE TRIBUTO. IMPOSSIBILIDADE. NECESSIDADE DE INDICAÇÃO OBJETIVA DAS IRREGULARIDADES PRATICADAS A interpretação sistemática do CTN faz com que a mera falta de recolhimento de tributos se subsuma ao art. 134 do CTN, enquanto o art. 135 do CTN abarque as hipóteses de infração a leis diversas daquelas que instituem obrigações tributárias principais. A Autoridade Fiscal deve indicar de forma objetiva as irregularidades supostamente praticadas, comprovar os atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto e demonstrar o nexo causal entre as irregularidades e a obrigação tributária delas decorrente. (Acórdão nº 1301-006.253, Rel. Cons. Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, Sessão de 13/12/2022) 61. Como mencionado na análise da qualificação da multa de ofício, entendo que a Fiscalização não demonstrou a prática de atos dolosos além daqueles que caracterizaram a Fl. 5176DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 28 infração, relativa à falta de comprovação dos serviços e glosa das despesas correspondentes. Ausente tal demonstração, entendo que a responsabilidade imputada à pessoa física deve ser cancelada. III. Dispositivo 62. Diante do exposto, conheço dos Recursos Voluntários, rejeito as preliminares e lhes dou provimento parcial, tão somente para cancelar a multa por falta de recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e de CSLL, a qualificação da multa de ofício e a responsabilidade tributária imputada a PAULO CESAR MONTEIRO. Assinado Digitalmente Eduardo Monteiro Cardoso VOTO VENCEDOR Conselheiro Luis Angelo Carneiro Baptista, redator designado 1. Com a devida vênia, irei discordar do voto do ilustre Relator quanto a três pontos específicos, abaixo discriminados: EXIGÊNCIA CUMULATIVA DE MULTA DE OFÍCIO E MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS DE IRPJ E CSLL 2. O Relator votou por exonerar integralmente as multas isoladas por falta de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ e CSLL. Neste ponto divergimos integralmente pelas razões que seguem. 3. Para o entendimento da razão de existir da multa isolada em comento, se deve primeiro compreender a razão da existência do recolhimento de IRPJ/CSLL por estimativa. A forma de recolhimento padrão de IRPJ/CSLL é através da apuração do lucro real trimestral. Mas o contribuinte pode optar por fazer a sua apuração do lucro anualmente (conforme art. 2º da Lei 9.430/96). E se assim o fizer, este mesmo artigo prevê o pagamento mensal do IRPJ por estimativa, como forma de antecipação do tributo a ser apurado no final do ano-calendário. Ao mesmo tempo, o art. 28 da mesma Lei 9.430/96 cita que se aplica à CSLL as mesmas normas aplicadas para o IRPJ. 4. Então, há uma expectativa de entrada de recursos pelo Estado com o recolhimento do tributo por estimativa. Por essa razão, então, há a imposição de multa isolada, caso não se observe o dever do contribuinte de efetuar os recolhimentos por estimativa. Fl. 5177DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 29 5. A Súmula CARF nº 105 pacificou o entendimento sobre a concomitância entre a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas e a multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ/CSLL: Súmula CARF nº 105: A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. 6. Contudo, com a edição da Medida Provisória nº 351/2007 em 22/01/2007, posteriormente convertida na Lei nº 11.488/2007, a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas de IRPJ e CSLL passou a ter novo regramento previsto no art. 44, inciso II, da Lei nº 9.430/96: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II - de 50% (cinquenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: a) na forma do art. 8º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano-calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. 7. A alteração da redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96 buscou adequar o dispositivo face à jurisprudência então dominante no CARF, que resultou na Súmula CARF nº 105. A forma legislativa anterior dava margem a interpretação da existência de bis in idem, entendendo que a "mesma" multa seria aplicada quando do lançamento de ofício do tributo. 8. Assim, a Súmula CARF nº 105 ficou restrita às multas isoladas relativas a períodos anteriores à nova legislação, já que todos os Acórdãos Precedentes são referentes a multas isoladas aplicadas com base na redação legal anterior às alterações referidas. 9. Partindo para a nova configuração legal, se percebe que as multas isoladas e as em conjunto com os tributos, como definidas no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, vinculam-se a infrações de naturezas distintas. São, na verdade, duas as penalidades previstas no art. 44: uma, exigida juntamente com o tributo faltante, nas hipóteses de “de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata”, valorada em 75% “sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição”; outra, exigida de forma isolada, no percentual de 50%, na hipótese da falta recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e da CSLL. Fl. 5178DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 30 10. Conclui-se, pois, que as multas são distintas e autônomas. Isso decorre, acima de tudo, das evidentes diferenças que existem entre as hipóteses de incidência e os consequentes das normas punitivas. No IRPJ e na CSLL, se observa que os critérios material e temporal são completamente distintos. O tributo não pago, decorrente da existência de lucro apurado trimestralmente ou anualmente, submete-se à multa do inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430 de 1996, enquanto a estimativa não recolhida, decorrente da existência de receita bruta mensal ou balanços de redução, submete-se à multa do inciso II do dispositivo antes citado. 11. No caso do inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430 de 1996, a quantificação toma por base o tributo devido em função do lucro, fazendo incidir o percentual de 75%. No caso do inciso II, letra “b”, do dispositivo antes citado, a quantificação toma por base a estimativa apurada em função da receita bruta ou resultados mensais, fazendo incidir o percentual de 50%. 12. Desta forma, são duas normas distintas e autônomas, que punem, em diferentes graus, ilicitudes diversas, por razões diversas. 13. Desse modo, após o advento da MP nº 351/2007, entendo que as multas isoladas devem ser mantidas, ainda que aplicadas em concomitância com as multas de ofício pela ausência de recolhimento/pagamento de tributo apurado de forma definitiva. Tal conclusão decorre da constatação de se tratar de penalidades distintas, com origem em fatos geradores e períodos de apuração diversos, e ainda aplicadas sobre bases de cálculos diferenciadas. A legislação, em nenhum momento, vedou a aplicação concomitante das penalidades em comento. 14. Corroborando este entendimento, recente julgado da 1 ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais deste Conselho julgou procedente a multa isolada em tela através do Acórdão 9101-007.399 – CSRF/1ª TURMA, de 13/08/2025, por voto de qualidade, estando assim ementada no que interessa: MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. A partir do ano-calendário 2007, a alteração legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44, da Lei nº 9.430, de 1996, deixa clara a possibilidade de aplicação de duas penalidades em caso de lançamento de ofício frente a sujeito passivo optante pela apuração anual do lucro tributável. A redação alterada é direta e impositiva ao firmar que "serão aplicadas as seguintes multas". A lei ainda estabelece a exigência isolada da multa sobre o valor do pagamento mensal ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa no ano-calendário correspondente, não havendo falar em impossibilidade de imposição da multa após o encerramento do ano-calendário. 15. Pelo exposto, entendo que devem ser mantidas as multas isoladas lançadas referentes à falta de recolhimento de estimativa de IRPJ e CSLL. APLICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA Fl. 5179DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 31 16. O Relator exonerou a qualificação da multa de ofício para todo o lançamento. No entanto, divirjo sobre esta exoneração quando às despesas glosadas supostamente prestadas pelas empresas Prime Medical Ltda e Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda. 17. Sobre as despesas glosadas da Prime Medical Ltda (CNPJ 08.569.209/0001-82) a Autoridade Fiscal relata (e-fls. 4626 a 4633): a) Que consta contabilização de despesas na conta-contábil “5.1.01.07.010- Consultoria Gestão Téc. Adm. Hospitalar” no período 01/2011 a 10/2011 junto à Prime Medical Ltda no valor total de R$ 1.186.456,65. As notas fiscais especificam “Serviços Médicos Plantões”, “Serviços Médicos Prestados” e “Plantões Administrativos” de forma genérica, sem detalhar quais seriam os prestadores dos serviços. O custo médio destas notas fiscais se mostrou muito mais elevado que o custo médio de outras empresas que prestavam o mesmo serviço de plantões médicos. b) Que há também custos contabilizados na conta “4.1.01.06.006-Plantões Médicos” cujo prestador foi a mesma Prime Medical Ltda no período 01/2011 a 12/2011, no valor total de R$ 72.400,00. As notas fiscais referentes a estes custos possuem detalhamento dos médicos prestadores dos serviços e seus valores médios se aproximam das médias de outras empresas que prestavam o mesmo serviço (plantões médicos). c) Que, intimada, a fiscalizada informou não possuir contratos com a Prime Medical Ltda nem documentos que comprovem a materialidade dos serviços prestados relativos aos períodos que houve escrituração das despesas. d) Que a Prime Medical Ltda foi diligenciada e intimada a apresentar contratos com a fiscalizada, informando que o contrato era somente verbal. Informou também que os serviços prestados eram de plantões médicos, mas que quem poderia fornecer documentos que comprovassem a execução dos serviços era a fiscalizada. Que não havia como apresentar os livros fiscais e contábeis próprios. e) Que Antônio Daud, Paulo Roberto Salomão e Valdevino Casarotti eram sócios administradores da empresa Prime Medical Ltda no período dos supostos serviços prestados contabilizados como despesas. Ao mesmo tempo, Antônio Daud era Presidente do Conselho de Administração da fiscalizada, Paulo Roberto Salomão era Diretor Administrativo e Financeiro da mesma, assim como Valdevino Casarotti era Diretor Técnico. Ou seja, “coincidentemente no período compreendido entre janeiro e novembro de 2011, quando foram escrituradas as despesas sob análise, as pessoas físicas Antônio Daud, Paulo Roberto Salomão e Valdevino Casarotti, as quais detinham o poder decisório acerca da contratação de serviços de terceiros, bem como de proceder aos respectivos pagamentos, além de estarem investidos em cargos de Fl. 5180DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 32 administração no Hospital Santa Catarina SA, integravam o quadro societário da Prime Medical Ltda., na condição de sócios administradores.” 18. Frente a realidade posta, a Autoridade Fiscal glosou as supostas despesas prestadas pela Prime Medical Ltda escrituradas na conta “5.1.01.07.010-Consultoria Gestão Téc. Adm. Hospitalar” no valor total de R$ 1.186.456,65. 19. Já sobre as despesas escrituras como serviços prestados pela Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda (CNPJ 14.482.802/0001-90), assim se pronunciou a Autoridade Fiscal (e-fls. 4633 a 4651): a) Que consta contabilização de despesas na conta-contábil “5.1.01.07.010- Consultoria Gestão Téc. Adm. Hospitalar” no período 11/2011 a 12/2014 junto à Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda no valor total de R$ 8.206.891,91. b) Que, intimada, a fiscalizada apresentou contrato entre as partes de “Prestação de Serviços de Consultoria e Gestão Administrativa Hospitalar” celebrado em 01/11/2011. Contudo, não apresentou qualquer elemento ou documento que comprovasse a efetividade e materialidade dos supostos serviços prestados. c) Que no contrato pactuado entre as partes consta que o objeto do serviço prestado seria “prestação de consultoria administrativa de gestão hospitalar” com pagamento mensal de R$ 250.000,00 e com produção de “relatório mensal constando os resultados técnicos e estatísticos da consultoria”. Intimada a apresentar tais relatórios, a fiscalizada disse não os possuir. d) Que a Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda foi diligenciada a apresentar os relatórios previstos em contrato, informando também não os possuir. Esta somente se pronunciou no sentido de que contratou o empresário individual Alex dos Santos Lima (sem apresentar contrato), apresentando relatórios produzidos por este para os meses 04/2014 a 06/2014 sobre análise dos departamentos da fiscalizada. Por este serviço constam 3 pagamentos a “Alex dos Santos Lima – ME”, cada um de R$ 12.000,00, valor irrisório frente ao suposto serviço prestado pela Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda, que era da ordem R$ 250.000,00 por mês. Para outros dois prestadores que a diligenciada informou ter tomado serviços para o contrato com a fiscalizada, não consta contabilização. Em resumo, não há nenhum documento que demonstre qualquer prestação de serviço para os anos de 2011 a 2013. E, para o ano de 2014, apesar de ter recebido valores da ordem de R$ 2.750.000,00 da fiscalizada, a Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda apresentou documentos referentes a contratação de terceiro para prestar tais serviços no valor de R$ 52.000,00, absolutamente incompatível e que contraria a lógica do mercado. Fl. 5181DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 33 e) Que as escritas contábeis e fiscais da Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda demonstram que a empresa praticamente não tinha custos/despesas da atividade no período de 2011 a 2014, registrando lucro de quase toda receita líquida, excluída de mútuos realizados com e para sócios. Isso denotaria a falta de prestação de serviço efetiva. f) Que Valter José Von Kruger Sobrinho, Emílio Carlos de Oliveira, Carlos Alberto Salomão e Paulo Roberto Salomão foram sócios da Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda desde sua fundação (19/10/2011) até 07/11/2013. Em 2010 os quatro sócios, à época, da Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda adquiriram ações da fiscalizada da ordem de R$ 5.558.383,00, sendo integralizadas na Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda. g) Que, ao mesmo tempo, Paulo Roberto Salomão foi Diretor Administrativo e Financeiro da fiscalizada no período 01/04/2010 a 31/03/2013. Em Assembleia realizada em 26/04/2013, Paulo Roberto Salomão foi eleito para o cargo de Diretor Presidente da fiscalizada, tendo Emílio Carlos de Oliveira como Diretor de Operações. h) Que em 07/11/2013 a Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda teve suas cotas transferidas para Paulo Cesar Monteiro e Maria Carrias Monteiro. i) Que em 18/11/2013, Paulo Roberto Salomão e Emílio Carlos de Oliveira renunciam a seus cargos na fiscalizada, sendo eleito para Diretor Presidente o Sr. Paulo Cesar Monteiro. Exatamente a mesma pessoa que adquiriu a Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda na mesma época. 20. Frente a realidade posta, a Autoridade Fiscal glosou as supostas despesas prestadas pela Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda escrituradas na conta “5.1.01.07.010- Consultoria Gestão Téc. Adm. Hospitalar” no valor total de R$ 8.206.891,91 por falta de comprovação da necessidade das despesas à atividade da empresa. 21. Considerando, então, todas as constatações que vieram à luz com a lavra do Relatório Fiscal, é clara a demonstração de fraude na prática de geração de despesas sem a correspondente prestação de serviços na contratação das empresas Prime Medical Ltda e Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda pela fiscalizada. A ação dolosa se dá quando os sócios das empresas envolvidas, em cada período, são coincidentes com o quadro diretivo da fiscalizada, o que denota a liberalidade e poder decisório nas mãos das mesmas pessoas nos dois polos (contratante e contratados). 22. Desta forma, para as despesas glosadas referentes aos supostos prestadores Prime Medical Ltda e Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda deve ser mantida a qualificação da multa de ofício, nos termos do art. 44, §1º, da Lei nº 9.430/96, combinado com o art. 72 da Lei nº 4.502/64. Fl. 5182DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 34 23. No entanto, o art. 44 da Lei nº 9.430/96 foi alterada pelo art. 8º da Lei nº 14.689/2023, reduzindo o percentual da multa qualificada para 100%. Resta aplicável, no caso, a retroatividade benigna prevista na alínea c do inciso II do art. 106 do CTN. 24. Pelo exposto, entendo que deve ser mantida a qualificação da multa de ofício sobre as despesas glosadas referentes aos supostos prestadores Prime Medical Ltda e Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda, reduzindo-as para 100% nos termos do inc. VI do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, na redação que lhe deu o art. 8º da Lei nº 14.689, de 2023, conforme preconiza a alínea c do inciso II do art. 106 do CTN. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA IMPUTADA COM FUNDAMENTO NO ART. 135, III, DO CTN 25. Dos responsáveis solidários imputados pela Autoridade Fiscal, somente Paulo Cesar Monteiro (2013 e 2014) interpôs Recurso Voluntário. Nas palavras do Relator, este questionou “a imputação de responsabilidade tributária, pois não estariam comprovados os atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei. Sustentou também que teria assumido a administração do contribuinte em novembro/2013, sendo ilegítima a sua responsabilização pelo fato gerador ocorrido em 31/12/2013, pois até novembro não tinha qualquer atuação. Subsidiariamente, afirmou que a responsabilidade não poderia ser aplicada quanto às multas e sanções”. 26. O Relator cancelou a responsabilidade tributária atribuída a Paulo Cesar Monteiro por entender ausente a demonstração de prática de atos dolosos além daqueles que caracterizaram a infração. Neste ponto também divirjo do relator. 27. Como bem frisado no item anterior, que versou sobre a qualificação da multa, Paulo Cesar Monteiro adquiriu, em 07/11/2013, a Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda em conjunto com Maria Carrias Monteiro, sendo Paulo Cesar Monteiro sócio administrador. 28. Em período próximo, em 18/11/2013, Paulo Cesar Monteiro é eleito Diretor- presidente da fiscalizada. 29. Ou seja, ele passou a estar no comando diretivo das duas empresas (a fiscalizada e a Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda), praticando atos dolosos e fraudulentos que resultaram na geração de despesas sem a correspondente prestação de serviços. 30. Neste sentido, a Autoridade Fiscal relatou as razões da responsabilização: No caso sob análise, a responsabilidade pelos créditos tributários constituídos na presente ação fiscal, nos termos do art. 135, inciso III, retro, é imputável aos integrantes de cargos de direção do Hospital Santa Catarina SA, à época do cometimento das infrações, cujas atribuições, nos termos definidos pelo Estatuto Social, estavam diretamente relacionadas aos atos praticados com infração à legislação tributária. (...) Fl. 5183DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 35 Nos termos da Ata da 46ª Assembleia Geral Extraordinária realizada em 18/11/2013, registrada na Junta Comercial do Estado de Minas Gerais em 27/11/2013, procedeu-se à eleição da Diretoria Executiva em função da renúncia, em 05/11/2013, do Diretor Presidente, Paulo Roberto Salomão, e do Diretor de Operações, sendo eleito e empossado no cargo de Diretor Presidente, Paulo César Monteiro, permanecendo no cargo até 11/06/2015, data em que procedeu-se à eleição de novo Diretor Presidente, conforme Ata da 49ª Assembleia Geral Extraordinária Realizada em 11/06/2015, e registrada na Junta Comercial do Estado de Minas Gerais em 09/09/2015. (...) Já a responsabilidade pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com infração de lei, constituídos na presente auditoria fiscal, cujos fatos geradores ocorreram no período compreendido entre novembro de 2013 e dezembro de 2014, é imputável à pessoa física Paulo César Monteiro, CPF 354.284.497-72. Por outro lado, cumpre observar que no ano-calendário 2013 o sujeito passivo procedeu à apuração anual do Imposto de Renda Pessoa Jurídica-IRPJ e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido-CSLL, conforme opção manifesta na Declaração de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica-DIPJ, ano- calendário 2013. Tendo em vista que o fato gerador dos tributos em questão consiste no conjunto de fatos ocorridos e globalmente considerados no período compreendido entre os meses de janeiro a dezembro e se completa em 31/12/2013, e que tanto Paulo Roberto Salomão e Paulo César Monteiro, no ano de 2013, estavam investidos em cargo de administração do Hospital Santa Catarina SA, cujas atribuições eram diretamente relacionadas aos atos praticados com infração à legislação tributária, a responsabilidade pelo crédito tributário decorrente das infrações constatadas na apuração anual dos tributos, cujo fato gerador ocorreu até 31 de dezembro de 2013, é imputável a ambas as pessoas físicas. 31. Como se vê no caso em tela, Paulo César Monteiro passou a ser Diretor Presidente da fiscalizada em 18/11/2013, cuja Ata da Assembleia foi registrada na Junta Comercial do Estado de Minas Gerais em 27/11/2013. Atos praticados, a partir de então, com infração à lei (que é o caso, onde se identificou fraude praticada com participação do responsável) e a estatutos (que também é o caso) torna Paulo César Monteiro responsável solidário do lançamento em questão com base no art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional. 32. E não há que se alegar que Paulo César Monteiro não deve ser responsabilizado por tributo referente a 31/12/2013. Afinal, nesta data, ele era o Diretor-Presidente da entidade e sócio da principal empresa partícipe do esquema fraudulento (Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda). Os atos praticados foram contínuos, não se interrompendo a partir da sua assunção ao comando das duas empresas. Fl. 5184DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.918 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10970.720145/2016-82 36 33. Da mesma sorte, não se vê razões de a responsabilidade solidária não ser aplicada a multas e sansões. A responsabilidade tributária, prevista no art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional, é atribuída a todo crédito tributário lançado, não havendo previsão legal para afastamento sobre a multa e outras sanções. 34. Pelo exposto, entendo que deve ser mantida a responsabilidade tributária solidária de Paulo César Monteiro, com base do art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional, conforme consta no lançamento. DISPOSITIVO 35. Diante do exposto, divirjo do relator sobre os seguintes pontos: a) Mantenho as multas isoladas lançadas referentes à falta de recolhimento de estimativa de IRPJ e CSLL. b) Mantenho a qualificação da multa de ofício sobre as despesas glosadas referentes aos supostos prestadores Prime Medical Ltda e Integração Saúde Serviços Médicos Hospitalares Ltda, reduzindo-as para 100% nos termos do inc. VI do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, na redação que lhe deu o art. 8º da Lei nº 14.689, de 2023, conforme preconiza a alínea c do inciso II do art. 106 do CTN. c) Mantenho a responsabilidade tributária solidária de Paulo César Monteiro, com base do art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional, conforme consta no lançamento. 36. É como voto. Assinado Digitalmente Luis Angelo Carneiro Baptista Fl. 5185DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor
score : 1.0
Numero do processo: 10850.902506/2010-88
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 16 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
Numero da decisão: 3001-000.724
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência para atender, de forma conclusiva, à necessidade de se aferir a materialidade das operações e, principalmente, o ingresso efetivo, na contribuinte, dos insumos em questão. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3001-000.716, de 19 de dezembro de 2025, prolatada no julgamento do processo 10850.902499/2010-14, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Luiz Carlos de Barros Pereira – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Conselheiros(as) Daniel Moreno Castillo, Larissa Cassia Favaro Boldrin, Marco Unaian Neves de Miranda, Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow (substituto [a] integral), Sergio Roberto Pereira Araujo, Luiz Carlos de Barros Pereira (Presidente).
Nome do relator: LUIZ CARLOS DE BARROS PEREIRA
1.0 = *:*
toggle all fields
dt_index_tdt : Sat Feb 28 09:00:00 UTC 2026
anomes_sessao_s : 202512
turma_s : Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
dt_publicacao_tdt : Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
numero_processo_s : 10850.902506/2010-88
anomes_publicacao_s : 202602
conteudo_id_s : 7337936
dt_registro_atualizacao_tdt : Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
numero_decisao_s : 3001-000.724
nome_arquivo_s : Decisao_10850902506201088.PDF
ano_publicacao_s : 2026
nome_relator_s : LUIZ CARLOS DE BARROS PEREIRA
nome_arquivo_pdf_s : 10850902506201088_7337936.pdf
secao_s : Terceira Seção De Julgamento
arquivo_indexado_s : S
decisao_txt : Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência para atender, de forma conclusiva, à necessidade de se aferir a materialidade das operações e, principalmente, o ingresso efetivo, na contribuinte, dos insumos em questão. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3001-000.716, de 19 de dezembro de 2025, prolatada no julgamento do processo 10850.902499/2010-14, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Luiz Carlos de Barros Pereira – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os julgadores Conselheiros(as) Daniel Moreno Castillo, Larissa Cassia Favaro Boldrin, Marco Unaian Neves de Miranda, Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow (substituto [a] integral), Sergio Roberto Pereira Araujo, Luiz Carlos de Barros Pereira (Presidente).
dt_sessao_tdt : Tue Dec 16 00:00:00 UTC 2025
id : 11228705
ano_sessao_s : 2025
atualizado_anexos_dt : Sat Feb 28 09:41:29 UTC 2026
sem_conteudo_s : N
_version_ : 1858361587023216640
conteudo_txt : Metadados => date: 2026-02-18T19:54:47Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-02-18T19:54:47Z; Last-Modified: 2026-02-18T19:54:47Z; dcterms:modified: 2026-02-18T19:54:47Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-02-18T19:54:47Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-02-18T19:54:47Z; meta:save-date: 2026-02-18T19:54:47Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-02-18T19:54:47Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-02-18T19:54:47Z; created: 2026-02-18T19:54:47Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 4; Creation-Date: 2026-02-18T19:54:47Z; pdf:charsPerPage: 1668; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-02-18T19:54:47Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 10850.902506/2010-88 RESOLUÇÃO 3001-000.724 – 3ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA SESSÃO DE 19 de dezembro de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE SZR - EMPRESARIAL INDUSTRIAL E EXPORTADORA DE SUB PRODUTOS INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Conversão do Julgamento em Diligência RESOLUÇÃO Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência para atender, de forma conclusiva, à necessidade de se aferir a materialidade das operações e, principalmente, o ingresso efetivo, na contribuinte, dos insumos em questão. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo- lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3001-000.716, de 19 de dezembro de 2025, prolatada no julgamento do processo 10850.902499/2010-14, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Luiz Carlos de Barros Pereira – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os julgadores Conselheiros(as) Daniel Moreno Castillo, Larissa Cassia Favaro Boldrin, Marco Unaian Neves de Miranda, Rodrigo Pinheiro Lucas Ristow (substituto [a] integral), Sergio Roberto Pereira Araujo, Luiz Carlos de Barros Pereira (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 87, §§ 1º, 2º e 3º, do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado na resolução paradigma. Fl. 7150DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3001-000.724 – 3ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10850.902506/2010-88 2 O caso em questão envolve pedido de ressarcimento de crédito presumido de IPI relacionado à aquisições de insumos (miúdos bovinos), em restituição com fulcro na Lei 10.267/01. A empresa fiscalizada junta ao processo inúmeras notas fiscais do período, seguidas de guias de transporte e de fiscalização sanitária Federal de verificação física do recebimento da carga. As razões da fiscalização são, resumidamente: a) Notas emitidas por empresas declaradas inaptas em aquisições de insumos; b) Notas emitidas por empresas ativas, mas em relação às quais a emitente não atendeu à fiscalização; c) Notas emitidas por empresas ativas, sobre as quais os emitentes negaram relação comercial com a recorrente. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado na resolução paradigma como razões de decidir: Tempestividade. O presente recurso é tempestivo, sendo a matéria do mesmo de competência para essa Turma Extraordinária apreciar, nos termos do art. 65 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF. Questão posta. Ainda que a inaptidão de alguma das empresas tenha sido declarada pela RFB, nenhuma dessas declarações ocorreram antes ou durante o período em questão (2004). Mesmo que a inidoneidade seja uma presunção, no caso concreto, a verdade material das provas relativas às operações deve ser levada em consideração, sob pena de glosas indevidas de créditos de direito do contribuinte. Até o momento em que a RFB declara a inidoneidade, caso a empresa esteja operando no mercado, ou enquanto a mesma estava operando, os adquirentes de boa-fé permanecem protegidos contra a possibilidade de glosa ao creditamento. Por outro lado, Colegas, entendo um tanto restritiva a postura de presumir que, apenas pelo fato de algumas empresas não terem atendido à fiscalização, as operações teriam inexistido. Ainda para aquelas que Fl. 7151DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3001-000.724 – 3ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10850.902506/2010-88 3 negaram a relação comercial, poucas em relação ao todo, havendo a comprovação material e, efetiva da entrada no estabelecimento, essa verdade material deve prevalecer, autorizando a tomada do crédito presumido. Verifica-se ter o acórdão da DRJ apontado que o ônus da prova seria do contribuinte. Aponta que esse ônus não teria sido devidamente atendido, uma vez que: Seria necessário que a manifestante apresentasse o Livro de Controle da Produção e Estoque, ou controle alternativo, nos termos dos artigos 383 a 388 do RIPI/2004. A prova carreada aos autos não foi adequada e tecnicamente verificada pela DRJ, que, com as devidas venias, diante das mesmas limitou-se a genericamente cotejá-las, sem, por exemplo, que se tenha notícia nos autos da intimação para a apresentação desse elemento de prova, uma vez que era, desde o início da fiscalização, um elemento essencial de prova. Assim, Turma, voto pela conversão do processo em diligência para que a Unidade de competência proceda com o cotejo da documentação pertinente de forma técnica, notificando a contribuinte para que proceda com eventuais complementações de prova necessárias à verificação do período, incluída a apresentação do Livro de Controle da Produção e Estoque, ou controle alternativo, nos termos dos artigos 383 a 388 do RIPI/2004. A Unidade deve apresentar um resultado conclusivo sobre a existência de documentação fiscal adequada e subjacente às operações e em que medida essa documentação, incluídas as de suporte (guias de trânsito; certificados sanitários; etc.) suporta os créditos requeridos. A análise deve incluir um juízo técnico acerca da adequação dos registros no referido Livro de Controle da Produção e Estoque. O elemento essencial da diligência é atender, de forma conclusiva, à necessidade de se aferir a materialidade das operações e, principalmente, o ingresso efetivo, na contribuinte, dos insumos em questão. Cumprida a diligência com a emissão do relatório conclusivo, retornem os autos para julgamento. Fl. 7152DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3001-000.724 – 3ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10850.902506/2010-88 4 Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido na resolução paradigma, no sentido de converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência para atender, de forma conclusiva, à necessidade de se aferir a materialidade das operações e, principalmente, o ingresso efetivo, na contribuinte, dos insumos em questão. Assinado Digitalmente Luiz Carlos de Barros Pereira – Presidente Redator Fl. 7153DF CARF MF Original Resolução Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 11131.001322/2008-62
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 25 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
Numero da decisão: 3402-004.281
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, sobrestar a apreciação do presente Recurso Voluntário, até a ocorrência do trânsito em julgado dos Recursos Especiais 2147578/SP e 2147583/SP, afetos ao Tema Repetitivo 1293 (STJ), nos termos do disposto no artigo 100, do RICARF/2023. Após retornem-se os autos, para julgamento do Recurso Voluntário interposto. Os conselheiros José de Assis Ferraz Neto, Celso José Ferreira de Oliveira e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles acompanharam o voto da relatora pelas conclusões. Designado o Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles para, nos termos do art. 114, § 9º, do RICARF, apresentar voto vencedor em que faça consignar os fundamentos adotados pela maioria.
Assinado Digitalmente
Mariel Orsi Gameiro – Relatora
Assinado Digitalmente
Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente e Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Jose de Assis Ferraz Neto, Anna Dolores Barros de Oliveira Sa Malta, Celso Jose Ferreira de Oliveira (substituto[a] integral), Mariel Orsi Gameiro, Cynthia Elena de Campos, Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Anselmo Messias Ferraz Alves, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Celso Jose Ferreira de Oliveira.
Nome do relator: MARIEL ORSI GAMEIRO
1.0 = *:*
toggle all fields
dt_index_tdt : Sat Feb 28 09:00:00 UTC 2026
anomes_sessao_s : 202509
camara_s : Quarta Câmara
turma_s : Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
dt_publicacao_tdt : Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
numero_processo_s : 11131.001322/2008-62
anomes_publicacao_s : 202602
conteudo_id_s : 7337864
dt_registro_atualizacao_tdt : Wed Feb 18 00:00:00 UTC 2026
numero_decisao_s : 3402-004.281
nome_arquivo_s : Decisao_11131001322200862.PDF
ano_publicacao_s : 2026
nome_relator_s : MARIEL ORSI GAMEIRO
nome_arquivo_pdf_s : 11131001322200862_7337864.pdf
secao_s : Terceira Seção De Julgamento
arquivo_indexado_s : S
decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, sobrestar a apreciação do presente Recurso Voluntário, até a ocorrência do trânsito em julgado dos Recursos Especiais 2147578/SP e 2147583/SP, afetos ao Tema Repetitivo 1293 (STJ), nos termos do disposto no artigo 100, do RICARF/2023. Após retornem-se os autos, para julgamento do Recurso Voluntário interposto. Os conselheiros José de Assis Ferraz Neto, Celso José Ferreira de Oliveira e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles acompanharam o voto da relatora pelas conclusões. Designado o Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles para, nos termos do art. 114, § 9º, do RICARF, apresentar voto vencedor em que faça consignar os fundamentos adotados pela maioria. Assinado Digitalmente Mariel Orsi Gameiro – Relatora Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente e Redator designado Participaram da sessão de julgamento os julgadores Jose de Assis Ferraz Neto, Anna Dolores Barros de Oliveira Sa Malta, Celso Jose Ferreira de Oliveira (substituto[a] integral), Mariel Orsi Gameiro, Cynthia Elena de Campos, Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Anselmo Messias Ferraz Alves, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Celso Jose Ferreira de Oliveira.
dt_sessao_tdt : Thu Sep 25 00:00:00 UTC 2025
id : 11228149
ano_sessao_s : 2025
atualizado_anexos_dt : Sat Feb 28 09:41:27 UTC 2026
sem_conteudo_s : N
_version_ : 1858361587095568384
conteudo_txt : Metadados => date: 2026-02-16T01:54:12Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-02-16T01:54:12Z; Last-Modified: 2026-02-16T01:54:12Z; dcterms:modified: 2026-02-16T01:54:12Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-02-16T01:54:12Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-02-16T01:54:12Z; meta:save-date: 2026-02-16T01:54:12Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-02-16T01:54:12Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-02-16T01:54:12Z; created: 2026-02-16T01:54:12Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 28; Creation-Date: 2026-02-16T01:54:12Z; pdf:charsPerPage: 1699; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-02-16T01:54:12Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 11131.001322/2008-62 RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 25 de setembro de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE VULCABRAS DO NORDESTE S/A INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Conversão do Julgamento em Diligência RESOLUÇÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, sobrestar a apreciação do presente Recurso Voluntário, até a ocorrência do trânsito em julgado dos Recursos Especiais 2147578/SP e 2147583/SP, afetos ao Tema Repetitivo 1293 (STJ), nos termos do disposto no artigo 100, do RICARF/2023. Após retornem-se os autos, para julgamento do Recurso Voluntário interposto. Os conselheiros José de Assis Ferraz Neto, Celso José Ferreira de Oliveira e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles acompanharam o voto da relatora pelas conclusões. Designado o Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles para, nos termos do art. 114, § 9º, do RICARF, apresentar voto vencedor em que faça consignar os fundamentos adotados pela maioria. Assinado Digitalmente Mariel Orsi Gameiro – Relatora Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente e Redator designado Participaram da sessão de julgamento os julgadores Jose de Assis Ferraz Neto, Anna Dolores Barros de Oliveira Sa Malta, Celso Jose Ferreira de Oliveira (substituto[a] integral), Mariel Orsi Gameiro, Cynthia Elena de Campos, Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Anselmo Messias Ferraz Alves, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Celso Jose Ferreira de Oliveira. Fl. 2087DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 2 RELATÓRIO Por bem descrever os fatos e direitos no presente processo administrativo fiscal, peço vênia para me utilizar do relatório constante à decisão de primeira instância: I) Do objeto da autuação Trata-se da exigência de crédito tributário, que, à época da atuação, perfazia o valor total de R$ 2.620.399,83, correspondente a diferença do Imposto de Importação, do IPI vinculado à importação, das Contribuições Sociais para o PIS/PASEP e COFINS, além de multa de ofício, multa por classificação fiscal incorreta e juros de mora, por entender, a fiscalização: a) que houve descumprimento parcial do regime de drawback, modalidade suspensão, em relação ao Ato Concessório nº 20030122554, em decorrência da não comprovação da utilização integral dos insumos importados sob o amparo do AC nos produtos exportados informados à Secex para comprovação do regime, em ofensa ao princípio da vinculação física, configurando a inadimplência parcial da obrigação de exportar. b) que houve desconformidade da classificação fiscal dos insumos Poliuretano Termoplástico - TPU PU1515, importado ao amparo da DI n° 04/1002159-2, adição 001 (fls. 10), e Masterbatch Transparente Antitack - MB1020, importado ao amparo das DI identificadas às fls. 10-11. II) Da ação fiscal Conforme o relatório fiscal, a ação fiscal que resultou nos lançamentos em questão teve por finalidade a verificação do cumprimento das obrigações fiscais decorrentes dos Atos Concessórios de Drawback Suspensão - AC nº 1604- 01/000083-2 e 20010027238, e o exame da conformidade da classificação fiscal das mercadorias importadas ao amparo das Dl n° 03/0642045-1, 03/0646616-8, 03/0827311-1 e 03/0827326-0. Consta que o sujeito passivo foi intimado a apresentar laudos técnicos com a relação insumo-produto de cada insumo importado ao amparo dos AC; registros do Livro de Controle e Apuração de Estoque referente à movimentação de cada um dos insumos importados ao amparo dos AC nos respectivos períodos de validade dos atos e a identificação das exportações (n° de RE) cujas mercadorias tivessem sido produzidas com cada um dos insumos importados ao amparo dos AC fiscalizados, individualmente por insumo. De acordo com a fiscalização, a empresa autuada informou a relação insumo- produto de alguns dos insumos importados, apresentou folhas soltas a título de registro de movimentação do estoque de insumos de 01/2001 a 05/2002 e 07/2002 a 12/2005, e declarou não ser possível fazer o referenciamento entre as exportações (RE) e os insumos supostamente nelas empregados. Fl. 2088DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 3 III) Do não cumprimento do requisito de vinculação física A fiscalização afirma que, para comprovar, no regime de Drawback, modalidade suspensão, o atendimento ao princípio da vinculação física, que descreve como a incorporação dos insumos importados ao amparo do regime em produtos exportados no prazo de vigência do respectivo ato concessivo, mediante operações de industrialização, o beneficiário deve, necessariamente, manter registros e controles de estoques e consumo dos insumos importados sob o regime, e controles de estoques e saídas dos produtos finais elaborados com os insumos importados sob o regime, e que, no caso concreto, a empresa autuada não apresentou esses controles. Conforme a fiscalização, a empresa autuada, para fins de comprovação do regime, apresentou, além dos Atos Concessórios, Aditivos, Relatórios de Comprovação e extratos de Baixa do Sistema Siscomex: 1) Arquivos digitais referentes a Arquivos de Exportação, Registros de Entrada e Saída de Mercadorias, de Notas fiscais e de Controle de Estoque; 2) Descrição das qualidades e características dos insumos importados ao amparo do regime; 3) Planilha de consumo por modelo de calçado; 4) Registros de movimentação de estoque mensal e por insumo abrangendo o período de validade dos AC; 5) Informação da relação insumo-produto de alguns dos insumos importados ao amparo dos AC. A fiscalização afirma que embora devessem informar os números de RE e do DDE relacionados a cada nota fiscal de saída de mercadorias, os Arquivos de Exportação apresentados pela empresa autuada não identificavam a exportação (n° de RE e do DDE) correspondente à saída de mercadoria. A fiscalização salienta que a empresa não apresentou Livro de Registro da Produção e Controle de Estoque, e que os Registros de Movimentação de Estoque apresentados, informam toda a movimentação de estoque do insumo no período, não distinguindo os registros referentes aos insumos importados ao amparo do AC daqueles relativos a insumos de origem diversa, e que também não identificou, dentre as exportações informadas nas comprovações dos AC, as que teriam sido produzidas com cada insumo individualmente. Em referência à falta dos aludidos registros, a fiscalização afirma que a documentação apresentada permitiu verificar apenas a possibilidade de que determinado insumo importado tenha sido efetivamente utilizado nas exportações informadas na comprovação do ato concessório (princípio da vinculação física). Explica a fiscalização que, de posse do registro de movimentação de estoque (RME) apresentado pela empresa, começou a examinar a compatibilidade entre a saída do insumo para produção e a exportação informada, em termos de quantidade e do momento da saída do insumo para produção e do embarque da exportação do produto final informada na comprovação do AC. A fiscalização informa ter verificado a possibilidade de que cada saída de insumo importado ao amparo dos AC tenha sido efetivamente Fl. 2089DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 4 destinada aos produtos exportados informados para comprovação dos AC, valendo-se, nessa análise: 1) do método PEPS (Primeiro a Entrar, Primeiro a Sair) de controle de estoque, nos registros de movimentação de estoque apresentados pela empresa; 2) do tempo médio de 20 (vinte) dias desde a saída do insumo do estoque para produção até a data do embarque do produto final para exportação, que foi obtido a partir da informação da empresa autuada de que o tempo médio de produção dos calçados (produto compromissado para exportação nos AC) era de dez dias e de que o tempo médio de saída do produto final para exportação é de 10 (dez) dias. Conforme consta do relatório fiscal, a vinculação física somente seria admitida caso o embarque do produto final para exportação ocorresse no prazo médio de 20 (vinte) dias, contados do momento da saída do insumo para produção. Informa a fiscalização que, se houvesse extrapolação relevante desse prazo, restaria caracterizada a não vinculação física dos insumos na produção dos calçados exportados informados na comprovação do AC, sendo que, neste caso, seria ainda verificada a data da efetiva saída do produto final da empresa, constante do Registro de Saídas de Mercadorias apresentado pela empresa (arquivo magnético). Consta também da descrição dos fatos que a fiscalização utilizou as informações das notas fiscais de saída relacionadas a cada exportação, prestadas pelo exportador nas Declarações de Exportação (DDE). Diz ainda a fiscalização que a quantidade de insumo em tese consumida na produção de calçados exportados foi calculada pela aplicação da relação insumo/produto informada pela empresa (fls. 804-805) na quantidade de calçados exportada com possibilidade de vinculação física à saída do insumo importado para a produção. A) ATO CONCESSÓRIO N° 1640-01/000083-2 Segundo a fiscalização, esse AC foi adimplido parcialmente, pois, em quatro dos cinco insumos importados ao amparo do regime de Drawback, teria sido constatada a impossibilidade de atendimento ao princípio da vinculação física em quase que a totalidade dos insumos importados. a) Primer Agente - SOL 007 A fiscalização afirma que dos 8.050 kg desse insumo importado ao amparo do regime de Drawback no AC acima identificado, em duas importações, caracterizou-se o não atendimento ao princípio da vinculação física de 6.672,68 kg, pela extemporaneidade do embarque das exportações dos calçados informadas na comprovação do AC em relação às datas de entrada do insumo importado na produção. Diz a fiscalização que, conforme mostrado no DVVF, a última saída desse insumo do estoque para produção foi registrada em março/2002, enquanto que as exportações informadas na comprovação do AC Fl. 2090DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 5 mais próxima a essa data somente foram embarcadas em setembro/2002, decorrendo mais de 120 dias desde a entrada no insumo da produção. Além disso, conforme a fiscalização, mesmo que fosse aplicada a maior relação insumo- produto informada sobre a quantidade total desse insumo importado ao amparo do AC, teriam que ser produzidos, em tese, 230.000 pares de calçados, enquanto na comprovação do AC foram informados apenas 127.638 pares. b) Bolhas Crawded DMX-6 — CRD001 Explica a fiscalização que, dos 27.795 pares desse insumo importado ao amparo do AC, em duas DI, foi constatado que no máximo 13.600 pares poderiam ter sido utilizados na fabricação de 13.600 pares de calçados exportados, cujos RE foram informados na comprovação do AC, pois decorreram pelo menos 135 dias entre a requisição do insumo para produção e a saída do produto final referente à primeira exportação informada na comprovação do AC, que, segundo a empresa seria de apenas 20 dias. c) Stimpak - SPK001 A fiscalização afirma que, do total importado desse insumo (cinco importações de 170.000 pares) ao amparo do AC, 130.648 pares tiveram a última saída do estoque para produção registrada até abril/2002, mas as exportações informadas na comprovação do AC mais próxima a essa data, dentre as ainda não consideradas, somente foram embarcadas em 03/09/2002, passados mais de 120 dias entre a entrada na produção e o embarque mais próximo, considerando, ainda, que a primeira saída dos calçados da empresa, correspondentes a essa exportação embarcada em setembro de 2002, ocorreu em 30/07/2002. d) Resina de Eva - RE 182 A fiscalização relata que a entrada dos 6.000 kg dessa resina, descrita na DI com o código RE 181, mas registrada na empresa com o código RE 182, importada ao amparo do AC foi registrada em 24/11/2001, mas não foi assinalada, nos meses de novembro e dezembro/2001, nem no controle de estoque nem no arquivo magnético de registro de movimentação de estoque por insumo de 2001, nenhuma saída desse insumo para produção, o que caracterizaria a saída do insumo importado para outras finalidades que não a produção, configurando-se, dessa forma, a não vinculação física do total de resina importada ao amparo do AC às exportações informadas na comprovação do AC. e) Falso Tecido - LPU030 De acordo com a fiscalização, foi evidenciada a possibilidade de utilização no regime de Drawback para apenas 3.694,76 m2 do total importado (38.378 m2 ) desse insumo ao amparo do AC, conforme explicitado no DVVF. É mencionado, como importante, pela autoridade fiscal que aplicada a relação insumo-produto de 0,057 à quantidade total do insumo LPU030 importado ao amparo desse AC, obtém-se uma produção em tese de 673.298 pares de calçados, mas a quantidade total de calçados exportados informados na comprovação desse AC totalizava apenas 109.827 pares (RE formalmente válidos). B) ATO CONCESSÓRIO N° 20010027238 Consigna a fiscalização que os produtos constantes das notas fiscais de saída relativas à primeira das exportações informada na comprovação do AC, Fl. 2091DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 6 embarcada em maio/2003 (DDE n° 2030386005-7 - RE n° 03050999001) saíram da empresa entre 17/04/2003 e 05/05/2003, e que, considerando a última entrada do insumos abaixo identificados, em maio/2002, agosto/2002, novembro/2002, outubro/2002 e julho/2002, respectivamente, até a primeira saída da empresa de produto final para a exportação acima mencionada, em 17/04/2003, teriam se passado pelo menos 120 dias, indicativo da inadimplência parcial do cumprimento de exportar calçados que utilizassem os insumos importados ao amparo do AC. Para a fiscalização, a extemporaneidade das exportações informadas, em relação à requisição do insumo pela produção, revela-se também tomando como comparativo a data de efetiva saída da empresa dos produtos exportados, à exceção do falso tecido (LPU030), em relação ao qual a fiscalização afirma ter constatado a possibilidade de emprego parcial da quantidade importada na produção dos calçados exportados, sendo que para os demais insumos teria ficado evidenciada a não comprovação de utilização no regime da quantidade total importada. a) Primer Agente - SOL 007 Segundo a fiscalização, não teria sido utilizada a quantidade total (5.950,00 kg) desse insumo, importada ao amparo do regime, numa única importação no processo produtivo, a qual saiu integralmente para a produção em maio/2002, mas o embarque da primeira exportação informada na comprovação do AC somente ocorreu em maio/2003, configurando-se o descumprimento ao princípio da vinculação física, uma vez que o prazo médio para embarque de produto final para exportação, a partir da entrada do insumo na produção, informado pela empresa seria de apenas 20 dias. No DVVF, a fiscalização afirma: Portanto, o decurso de mais de 300 dias entre a ida do insumo para produção e o embarque do produto final, configura a impossibilidade de que tais insumos tenham sido utilizados nos produtos finais exportados informados na comprovação do AC. Acrescenta a fiscalização que, mesmo em função da extemporaneidade das saídas da empresa desse produto final exportado, revela-se a impossibilidade de utilização do insumo nos calçados exportados informados na comprovação do AC, pois as saídas dos produtos finais da empresa exportados mediante essa primeira exportação informada no AC, RE n° 2030386005-7, ocorreram no período de 17/04/2003 a 05/05/2003. b) Bolhas Crawded DMX-6 — CRD001 Para a fiscalização, ficou caracterizado o não atendimento ao princípio da vinculação física para os 83.570 pares desse insumo importados ao amparo do AC, em nove DI, uma vez que a última saída do estoque para produção desse insumo importado ao amparo do AC foi registrada em novembro/2002, enquanto o embarque da primeira exportação informada na comprovação do AC somente ocorreu em maio/2003, revelando a impossibilidade de utilização do insumo na produção dos calçados exportados constantes da comprovação do AC. Reforça a fiscalização que essa extemporaneidade se Fl. 2092DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 7 configura também tomando como termo final a data de efetiva saída da empresa para exportação dos calçados. c) Bolhas Crawded DMX-10 — CRD002 Conforme a fiscalização, configurou-se o não atendimento ao princípio da vinculação física, em decorrência da extemporaneidade das exportações informadas na comprovação do AC, em relação às saídas de insumo para produção, conforme evidenciado no DVVF, para os 21.470 pares desse insumo importados ao amparo do AC em duas DI, isso porque última saída do estoque para produção teria ocorrido em agosto/2002, mas as saídas do produto final da empresa correspondentes à primeira exportação informada no AC somente ocorreram no período de 17/04/2003 a 05/05/2003. d) Stimpak - SPK001 A fiscalização considera que a quantidade total desse insumo importada ao amparo do AC (242.500 pares) não foi utilizada na produção dos calçados, cujas exportações constam da comprovação do AC, visto que a última saída para produção registrada desse insumo importado ocorreu em outubro/2002, enquanto a primeira exportação informada na comprovação desse AC somente foi embarcada em maio/2003, de modo que o tempo ocorrido entre essa última saída do insumo para produção e o embarque da primeira exportação informada na comprovação do AC, de no mínimo, 180 dias, configuraria a impossibilidade de que esse insumo tivesse sido empregado na produção desses calçados. Também é aduzida pela fiscalização a informação de que a quantidade total (158.916) de pares de calçados informada na comprovação do AC seria insuficiente para comprovar a utilização no regime de Drawback dos 274.500 pares de Stimpak importados ao amparo do AC, visto que a relação insumo- produto desse insumo é de 1. e) Falso Tecido – LPU030 Foram importados 96.416 m2 de falso tecido ao amparo desse AC, mas, conforme o DVVF, para apenas 3.439,36 m2 foi evidenciada a possibilidade de utilização na produção dos calçados exportados, cujas exportações constam da comprovação do AC. No DVVF, a fiscalização detalha a análise da aplicação desse insumo: De abril/2002 a janeiro/2003, da quantidade do insumo LPU030 importada ao amparo desse AC ingressada no estoque (44.100 m2 ), 39.924,34 m2 foram requisitados para produção nesse período. As saídas dos calçados da empresa relacionadas às primeiras exportações informadas na comprovação do AC, embarcadas em maio/2003, por exemplo, DDE nº 2030386005-7 - RE nº 03050999001, saíram da empresa no período de 17/04/2003 a 05/05/2003 (fls. 993). Observa-se assim que da requisição do insumo para produção até a saída da empresa do produto final informada decorreram, no mínimo, 70 dias. Esse tempo decorrido em relação à primeira exportação, revela que essa quantidade de insumo requisitada até janeiro/2003 Fl. 2093DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 8 não poderia ter sido utilizada em nenhum dos produtos exportados informados. Em março/2003, foram requisitados para a produção 6.557,46 m2 ainda em estoque das primeiras importações ao amparo do AC. Existindo exportações de 10.211 pares de calçados compatíveis a tal requisição, comprova-se em tese a utilização de 528,13 m2 de insumo importado ao amparo do regime nesse AC. Ainda nesse mês, ingressaram no estoque da empresa 10.391 kg importados ao amparo desse AC. No mês seguinte, da quantidade requisitada para produção oriunda de importações ao amparo do AC (4.727,42 m2 ), 2.857,23 m2 do insumo em tese foram consumidas na produção de 50.118 pares de calçados exportados constantes da comprovação informada pela empresa. No período de maio a dezembro/2003 não foram registradas saídas do insumo para produção. Assim sendo, para a quantidade do insumo importada ao amparo do AC existente em estoque no final de abril/2003 (5.663,58 m2 ) e ingressada no período (10.425 m2 ), configura-se a impossibilidade de utilização na produção dos calçados exportados informados, tendo em vista que a última exportação informada na comprovação do AC foi embarcada em novembro/2003. A entrada do insumo importado ao amparo do AC mediante a DI nº 03/0559849- 4 (fls. 551/557) não foi registrada na movimentação de estoque do insumo apresentada até 31/12/2003 (fls. 946/949). Assim sendo, é impossível que a quantidade total importada por meio dessa DI (21.000 m2 ) tenha sido empregada na fabricação dos calçados exportados, cujos RE foram informados na comprovação do AC, uma vez que a última exportação foi embarcada em novembro/2003. Merece destaque o fato de que aplicando a maior relação insumo/produto informada (0,2411) à quantidade total importada desse insumo ao amparo do AC (96.416 m2 ), obtém-se uma produção em tese de mais de 390 mil pares de calçados. Na comprovação do AC foram informados menos de 140 mil pares (RE formalmente válidos). f) Borracha de Poliuretano Millathane – BS 149 A fiscalização acusa a extemporaneidade das exportações de calçados informadas na comprovação do AC em relação às saídas desse insumo importado ao amparo do AC para produção, caracterizando a não vinculação física do total do insumo importado às exportações informadas, cuja última saída do estoque para a produção teria ocorrido em agosto/2002, enquanto as saídas do produto final da empresa, correspondentes à primeira exportação informada no AC, somente ocorreram no período de 17/04/2003 a 05/05/2003. No DVVF, a fiscalização consigna: ... constatamos que até o mês de agosto/2002, o total da borracha de PU - BS 149, importada ao amparo do AC, 14.247,40 kg saiu integralmente do estoque para a produção, sendo que o primeiro embarque de exportação informada na comprovação do AC ocorreu em maio de 2003. Evidenciando, assim, a não vinculação física desses insumos aos produtos objeto das exportações informadas na comprovação do AC, pois, o tempo decorrido Fl. 2094DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 9 entre a última saída do insumo para produção e o embarque da primeira exportação (270 dias) é mais de 13 vezes maior ao tempo médio (20 dias) informado pela empresa. g) Borracha Sintética – BS 101 Relata a fiscalização que os 6.103 kg deste insumo importados ao amparo desse AC foram integralmente requisitados para produção em julho/2002, mas as saídas das mercadorias dos produtos finais correspondentes à primeira exportação informada ocorreram a partir de 17/04/2003, o que revelaria a impossibilidade de que tais insumos tenham sido efetivamente empregados na produção dos calçados exportados constantes da comprovação do AC informada. IV) Da não vinculação dos Registros de Exportação (RE) A fiscalização identificou os Registros de Exportação (RE) nº 011379948001, 020041140001, 020508351001, 020501215001, 020501215002, 020501215003, 021080347001 e 021080347002, informados pela empresa na comprovação do AC nº 1640-01/000083-2, como não tendo sido enquadrados no regime de Drawback nem vinculados ao AC, glosando-os da respectiva comprovação. No caso do AC nº 20010027238, a fiscalização informa ter glosado da respectiva comprovação os RE de nº 030467799001, 030477631001, 030477631002, 030477631003, 030654766001, 030723883001, 030738475001, 030738475001, 031154305001, 031245998001 e 031246094001, informados pela empresa na comprovação desse AC. Adverte a fiscalização que, mesmo que em referidos RE constasse a informação do AC a que se vinculavam, os produtos correspondentes aos mesmos não teriam cumprido o requisito de vinculação física aos insumos importados ao amparo desse AC, pois, como demonstrado no DVVF e Demonstrativo Analítico os embarques dessas exportações ocorreram a partir de 30/04/2003, extemporaneamente à entrada do insumo na produção. Também assinala a fiscalização que na comprovação do regime de Drawback, nos termos do item 4 do Anexo "G" da Portaria Secex n° 14/2004, além da vinculação do RE a um determinado Ato Concessório de Drawback realizada no "campo 24" do Registro de Exportação, no qual é informado o número do Ato Concessório que o exportador está comprovando, deve ser também enquadrada a exportação como operação do regime de Drawback, inserindo o código 81101 ou 81102 ou 81103 ou 81104 no campo 2-a do RE. 4. Para a fiscalização, somente seria aceito para comprovação do Regime, modalidade suspensão, o RE que contivesse, no campo 2-a, o código de enquadramento constante da Tabela de Enquadramento da Operação do SISCOMEX-Exportação, bem como as informações exigidas no campo 24 (dados do fabricante). V) Da desconformidade da classificação fiscal de produtos importados Fl. 2095DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 10 a) Borracha Cristal A fiscalização relata que, com o intuito de verificar a conformidade da classificação fiscal dos produtos importados ao amparo das DI n° 03/0646616-8 (desembaraçada por força de determinação judicial em mandado de segurança), 03/0827311-1 e 03/0827326-0 (desembaraçadas no canal verde de parametrização automática para conferência no Siscomex), intimou a empresa a apresentar os respectivos documentos instrutórios, prestar informações sobre as características e aplicações do produto e apresentar documentos comprobatórios do cumprimento das condições estabelecida no § 3° do artigo 17 da Instrução Normativa (IN) SRF nº 296, de 6 de fevereiro de 2003 para gozo da isenção de IPI, instituída pela Lei n° 10.637, de 30 de dezembro de 2002. Pelo entendimento da fiscalização, o produto importado, “Raw Material for Shoes Making Compounded Rubber Sheet Crystal Ultra - Borracha de Poliuretano”, foi classificado no código tarifário da NCM 3909.50.29 - Outros Poliuretanos em formas primárias, quando o certo seria o código da NCM 4005.10.90 - Outras Borrachas adicionadas de negro de fumo ou de sílica. Observa a fiscalização que, nas faturas instrutivas dessas DI apresentadas em atendimento ao Termo de Início de Fiscalização consta o código tarifário da NCM 4005.10.10, que contempla a Borracha etileno-propileno-dieno não conjugado- propileno (EPDM-propileno), com sílica e plastificante, em grânulos, e que, em atendimento ao mesmo Termo, a empresa identificou o produto como “Borracha Cristal” e informou a seguinte característica: “Composto de Borracha pronto para uso (prensagem)” para fabricação de solas, o que evidenciaria que o produto se amolda perfeitamente ao item 5 da letra “B” da Nota Explicativa do Sistema Harmonizado - Página 760 (NESH) referente à posição 4005 - Borracha Misturada, Não Vulcanizada, em Formas Primarias ou em Chapas, Folhas ou Tiras (Consultas das posições 3909 e 4005 da NESH), conforme os termos do parágrafo único do art. 94 do Decreto nº 4.543, de 26 de dezembro de 2002. Informa, ainda a fiscalização, que a própria empresa, em outras importações (DI n° 03/1104102-1, 04/04776870, 04/06862847, 0500454811, etc.), classificou o mesmo produto no código NCM 4005.10.90 - Outras borrachas adicionadas de negro de fumo ou de sílica. Consta que, intimada a explicar tal divergência na classificação fiscal do produto, a empresa declarou que quando iniciou a importação da “borracha de cristal” utilizou a mesma classificação fiscal de outro produto que seria similar (denominado Milathane), e que, posteriormente, teria detectado que se tratava de borracha misturada e deveria ser classificada no código tarifário do NCM 4005.10.90, e, assim, as importações posteriores dessa borracha de cristal passaram a ser classificadas nesse código, mas que de tal erro de classificação não teria obtido nenhuma vantagem. Fl. 2096DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 11 De acordo com a fiscalização, porém, essas importações foram feitas com isenção de IPI, tendo por base informação prestada em classificação fiscal diversa daquela em que deveria ter-se enquadrado o produto. b) Borracha Millathane De acordo com o relato da fiscalização, a empresa declarou que esse produto seria similar à borracha cristal, e, considerando a descrição e a característica desse produto apresentada pela empresa, se trataria de borracha sintética enquadrada também no código tarifário da NCM 4005.10.90. c) Falso Tecido de Fibras A fiscalização informa que nas importações feitas ao amparo do AC nº 1604- 01/0000083-2 e em uma importação ao amparo do AC n° 20010027238 as mesmas mercadorias foram classificadas no código tarifário da NCM 5603.94.00, enquanto nas demais foram classificadas no código tarifário da NCM 5603.14.90, tendo a empresa autuada, em resposta a intimação para esclarecer a divergência, declarado que a classificação fiscal adequada seria mesmo no código tarifário da NCM 5603.14.90, mas que, nas importações em que foi informado o código NCM 5603.94.00, não teria ocorrido redução de alíquotas ou qualquer outra vantagem financeira. A fiscalização conclui, então, que o produto descrito como “Falso tecido de fibras, modificado por coagulação de PU, revestido de PU” classifica-se na NCM 5603.14.90, posto que são falsos tecidos de filamentos sintéticos de peso superior a 150 g/m². VI) Dos Autos de Infração Complementares A fiscalização ainda juntou ao processo os Autos de Infração Complementares de fls. 1284-1287, tendo por finalidade explicitar o procedimento adotado para a reclassificação fiscal das citadas mercadorias, com o seguinte teor: Auto de Infração Complementar ao Auto de Infração lavrado em 07/07/2008 (Processo Administrativo-Fiscal nº 11131.000840/2008-69), cuja ciência ao sujeito passivo foi dada em 09/07/2008, referente à infração abaixo identificada, com o objetivo de explicitar o enquadramento legal referente à reclassificação das mercadorias importadas (borracha de poliuretano e falso tecido) importadas ao amparo das DI identificadas no quadro 6 do Relatório Parcial de Procedimento Fiscal anexo ao Auto de Infração Original (fls. 73), acrescentando a Descrição dos Fatos e o Enquadramento Legal deste Auto de Infração Complementar às do Auto de Infração original (fls. 8 e 9), nos termos do § 3º do artigo 18 do Decreto nº 70.235/1972, com redação dada pela Lei nº 8.748/1993 002 - MERCADORIA CLASSIFICADA INCORRETAMENTE NA NOMENCLATURA COMUM DO MERCOSUL REQUISITOS EXIGIDOS PARA A FRUIÇÃO DO BENEFÍCIO A reclassificação fiscal das mercadorias importadas (borracha de poliuretano e falso tecido) ao amparo das DI identificadas no quadro 6 do Relatório Parcial de Procedimento Fiscal anexo ao Auto de Infração Original (fls. 73) do NCM 3905.90.29 para o NCM 4005.10.90, no Fl. 2097DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 12 caso da borracha de PU, e de 5603.94.00 para 5603.14.90, no caso do falso tecido, foram efetuadas com base no parágrafo único do artigo 94 do RA/2002, pela aplicação das seguintes regras: - Borracha de PU do NCM 3905.90.29 para o NCM 4005.10.90: Regras Gerais Interpretativas do Sistema Harmonizado 1ª (texto da posição 4005, e item 5 da letra b do texto da posição 4005 da NESH) e 6ª (texto da subposição 4005.10) e a Regra Geral Complementar n° 1 (texto do subitem 4005.10.90), no código 4005.10.90 da Tarifa Externa Comum (TEC) aprovada pela Resolução Camex 42/2001. - Falso tecido de microfibras do NCM 5603.94.00 para o NCM 5603.14.90: Regras Gerais Interpretativas do Sistema Harmonizado 1' (texto daposição5603 e item 3 do texto da posição 5603 da NESH) e 6ª (texto da subposição 5603.14) e a Regra Geral Complementar nº 1 (texto do subitem 5603.14.90), no código 5603.14.90 da Tarifa Externa Comum (TEC) aprovada pela Resolução Camex 42/2001. Auto de Infração Complementar ao Auto de Infração lavrado em 07/07/2008 (Processo Administrativo-Fiscal n° 11131.000840/2008- 69), cuja ciência ao sujeito passivo foi dada em 09/07/2008, referente à infração abaixo identificada, com o objetivo de explicitar o enquadramento legal referente a reclassificação das mercadorias importadas (borracha de poliuretano) ao amparo das DI n° 03/0646616-8, 03/0827311-1 e 03/0827326-0 (fls. 66 e 67), acrescentando a Descrição dos Fatos e o Enquadramento Legal deste Auto de Infração Complementar aos do Auto de Infração original (fls. 40), nos termos do § 3° do artigo 18 do Decreto n° 70.235/1972, com redação dada pela Lei n° 8.748/1993. 001 - DESCUMPRIMENTO DE OUTROS REQUISITOS EXIGIDOS PARA A FRUIÇÃO DO BENEFÍCIO A reclassificação fiscal da mercadoria importada (borracha de PU/cristal) ao amparo das DI nº 03/0646616-8, 03/0827311-1 e 03/0827326-0 do NCM 3905.90.29 para o NCM 4005.10.90 foi efetuada com base no parágrafo único do artigo 94 do RA/2002, pela aplicação das Regras Gerais Interpretativas do Sistema Harmonizado l (texto da posição 4005 e item 5 da letra b do texto da posição 4005 da NESH) e 6º (texto da subposição 4005.10) e a Regra Geral Complementar nº 1 (texto do subitem 4005.10.90), no código 4005.10.90 da Tarifa Externa Comum (TEC) aprovada pela Resolução Camex 42/2001. VII) Da isenção indevida de IPI em importações Relata a fiscalização haver detectado que a mercadoria objeto da Declaração de Importação nº 03/0646616-8, descrita como RAW MATERIAL FOR SHOES MAKING COMPOUNDED RUBBER SHEET CRYSTAL ULTRA – BORRACHA DE POLIURETANO, importada com isenção do IPI, ao amparo do artigo 29, caput e §§ 4º e 7º da Lei nº 10.637, de 2002, não atendia às condições estabelecidas pelo § 3º do art. 17 da IN SRF nº 296, de 2003, uma vez que a informação prestada à Delegacia da Receita Federal não contemplava o referido produto, embora um dos requisitos para essa isenção fosse a apresentação, no despacho aduaneiro, de documento comprobatório da prestação de informação, à Delegacia da Receita Federal, dos produtos que seriam importados com isenção de IPI ao abrigo da Lei nº 10.637, de 2002. Fl. 2098DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 13 Já em relação às DI nº 03/0827311-1 e 03/0827326-0, que ampararam a importação de idêntico produto, a fiscalização afirma que, apesar de também terem sido feitas com isenção de IPI, ao amparo da Lei nº 10.637, de 2002, não foram objeto de exame no desembaraço aduaneiro, visto que submetidas ao canal verde de parametrização automática para conferência no Siscomex. No entendimento da fiscalização, o produto importado nas três DI acima mencionadas classifica-se no código tarifário da NCM 4005.10.90 e não no código declarado. Conforme o relato do fato, em resposta a intimação fiscal para apresentar documentação comprobatória do preenchimento da condição para gozo de isenção do IPI, a empresa apresentou duas informações prestadas à Delegacia da Receita Federal: 1) Na primeira, de 24/02/2002 (fls. 621), igual à apresentada no despacho da DI nº 03/0646616-8, consta que os produtos que seriam importados com isenção de IPI ao amparo da Lei nº 10.637, de 2002 seriam os classificados nos códigos da NCM 4002.19.19 - Borracha Sintética de Estireno e Butadieno e 3905.99.10 - Agente Pré-colagem (Primer), respectivamente; 2) Na outra informação, de 10/09/2003 (fls. 622), foram incluídos os produtos classificados nos códigos da NCM 3909.50.29 e 3901.30.90, descritos como Outros Poliuretanos em formas primárias - Borracha de PU e Copolímero de Etileno e Acetato de Vinila - Resina de Eva, respectivamente. Para a fiscalização, ficou revelado o descumprimento da condição estabelecida para gozo da isenção do IPI, uma vez que os produtos importados ao amparo das DI n° 03/0646616-8, 03/0827311-1 e 03/0827326-0 se classificariam no código da NCM 4005.10.90 e que esse código não consta das informações prestadas pela empresa à DRF, e, dessa forma, nos termos do artigo 179 do Código Tributário Nacional (CTN), seria o caso de não reconhecimento da isenção do IPI, nas DI acima identificadas. VIII) Dos tributos exigíveis e das penalidades aplicáveis a) Descumprimento do regime de Drawback A fiscalização reafirma que a empresa beneficiária não comprovou integralmente o compromisso de exportar firmado nos Aos Concessórios objeto da ação fiscal, tornando assim exigíveis os tributos suspensos desde o momento da importação dos insumos estrangeiros, para os quais não houve comprovação: Imposto de Importação - II e Imposto sobre Produtos Industrializados vinculado à importação - IPI, b) Da desconformidade da classificação fiscal Considerando que as mercadorias relacionadas no quadro abaixo foram classificadas em códigos da NCM diversos aos em que deveriam ter sido feitas, a fiscalização entende aplicável sobre tais importações a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro das mercadorias, prevista no art. 84 da Medida Provisória nº 2.158-35, de 24 de agosto de 2001. Fl. 2099DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 14 c) Do descumprimento de condição para isenção de IPI A fiscalização afirma haver efetuado o lançamento do IPI devido, acrescido das penalidades cabíveis, nos termos da legislação aplicável, por considerar que as importações de Borracha Cristal (“Borracha não vulcanizada, adicionada de sílica”), feitas ao amparo das DI nº 03/0646616-8, 03/0827311-1 e 03/0827326-05 não atenderam à condição estabelecida no § 3º do art. 17 da IN SRF nº 296, de 2003, c/c o art. 29 da Lei nº 10.637, de 2002, para fruição de isenção (suspensão) do IPI. IX) Da decadência A fiscalização, evocando o art. 138 do Decreto-lei nº 37, de 18 de novembro de 1966, com redação dada pelo art. 4º do Decreto-Lei nº 2.472, de 1º de setembro de 1988, e com fulcro no inciso I do artigo 173 do CTN, afirma que o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após 5 (cinco) anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, argumenta: No caso especifico do regime de Drawback suspensão, excetuando-se casos de fraudes, apenas após o término do prazo para cumprimento do regime, pois, consoante o disposto no art. 319 do RA, aprovado pelo Decreto nº 91.030/95, só é possível a Receita Federal fazer qualquer lançamento após tomar conhecimento Fl. 2100DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 15 do adimplemento ou não dos compromissos assumidos pela beneficiária do regime, o que se dá somente no encerramento do Ato Concessório, quando a SECEX envia o Relatório de Comprovação de Drawback a RFB informando a baixa do ato concessório. Com a instituição do chamado Drawback eletrônico, na prática, não há mais envio do Relatório de Comprovação de Drawback a RFB, pois a informação referente à baixa do AC é disponibilizada no próprio SISCOMEX pela SECEX à RFB. Conclui, então, a fiscalização que, para importações efetuadas ao amparo do regime de Drawback suspensão, a contagem do prazo decadencial inicia-se no 1º dia do exercício seguinte ao da entrega do Relatório Unificado do Drawback -RUD à Secex ou ao do envio das informações de comprovação por meio eletrônico, ou seja, a data de baixa do Ato Concessório, e não a partir da data do fato gerador, como previsto no § 4º do art. 150 do CTN, por não se tratar de lançamento por homologação, já que nesse caso não há pagamento antecipado de tributos, afastando, dessa forma, a possibilidade de os créditos tributários lançados neste processo terem sido alcançados pelo instituto da decadência. Cientificada do lançamento em 09/07/2008 (fls. 6 e 41) e do Auto de Infração Complementar em 15/07/2008 (fls. 1.284 e 1.286), a empresa autuada apresentou, por intermédio de seus representantes (fls. 1.330-1.345), em 08/08/2008, a impugnação de fls. 1.290-1.330, na qual requer a anulação do auto de infração, em face dos motivos que apresenta, a seguir resumidamente descritos. 1. Da decadência A impugnante alega que: 1) Para os tributos objeto de lançamento por homologação, aplica-se a regra inserta no artigo 150, § 4º, do Código Tributário Nacional, que impõe a contagem do prazo quinquenal, a partir da data da ocorrência do fato gerador; 2) Os tributos incidentes na importação adequam-se à modalidade do tributo lançado por homologação, tendo por fato gerador a data do registro da Declaração de Importação, que é, para todos os efeitos jurídicos, a data de nacionalização do produto importado; 3) É desde o registro das Declarações de Importação objeto da autuação que deverá ser contado o prazo decadencial de cinco anos; 4) que o Relatório de Comprovação do Regime – RUD não é fato gerador do Imposto de Importação, tampouco do IPI, e não se confunde com a data "em que o lançamento poderia ter sido efetuado"; 5) que a suspensão do tributo ou mesmo a sua isenção não modificam a data do fato gerador do tributo; 6) que a fiscalização confundiu lançamento com exigibilidade do crédito tributário; Fl. 2101DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 16 7) À exceção dos créditos atrelados às DI nº 03/0646616-8, 03/0827311-1 e 03/0827326-0, todos os demais foram atingidos pela decadência. 2. Do compromisso de exportar A impugnante afirma ter cumprido de forma integral e tempestiva o compromisso de exportar assumido nos Atos Concessórios nº 1604-01/000083-2 e 20010027238; que a autoridade fiscal autuante utilizou critério não contemplado em lei, ao considerar o tempo estimado de 20 dias para avaliar a vinculação física dos insumos aos produtos exportados e concluir pelo inadimplemento parcial do regime de Drawback, deixando de observar o prazo oficialmente estabelecido nos Atos Concessórios; e que tinha até 03/08/2003 para cumprir o compromisso de exportar, no caso das importações realizados sob o AC 1604- 01/000083-2, e até 26/11/2003, no caso das importações realizadas em vinculação ao AC 20010027238. Alega também a impugnante que a própria fiscalização reconheceu a realização das exportações dentro do citado prazo, apenas negando a vinculação dos insumos outrora importados a essas exportações em razão do transcurso de prazo superior a 20 dias. 2.1. Do Ato Concessório 1640-01/000083-2 - Validade: 03.08.2003 2.1.1. Primer Agente SOL 007 A impugnante argui que logrou comprovar, dentro do prazo de vencimento do Ato Concessório, a exportação de 127.638 pares de calçados, de modo que, considerada a relação insumo/produto, haveria ao menos que ser reconhecida a utilização de 4.467,33 kg do insumo importado, que é o resultado da multiplicação do fator 0,035 (medida relação insumoproduto) pelo número de pares comprovadamente exportados no período. Para a impugnante, haveria a necessidade de revisão dos tributos lançados em relação às DI nº 01/1048208-0 e 02/0029793-1, para ser observada, no recálculo dos valores, a proporção de uso que entende aplicável, correspondente a 55,49% do total importado. 2.1.2. Bolhas Crawded DMX-6 — CRD001 A impugnante entende que as exportações relativas a esse insumo, importado pelas DI nº 01/1148071-4 e 02/029619-6, ocorreram dentro do prazo do regime e que a única razão para o não reconhecimento da vinculação para esse insumo está no transcurso de mais de 20 dias entre a data da saída do estoque para produção e a data da exportação, o que não aceita. 2.1.3. Stimpak — SPK 001 Conforme a impugnante, se a fiscalização reconheceu a exportação em quantidade compatível com esse insumo dentro do período de vigência do regime de Drawback, não há razão alguma para se invocar o descumprimento parcial do regime. 2.1.4. Resina de Eva - RE 182 Fl. 2102DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 17 A impugnante rejeita as conclusões da fiscalização no sentido de que essa mercadoria, importada sob a DI nº 01/1000290-8, por não ter sido registrada no controle de estoque de novembro e dezembro de 2001, não poderia ser considerada na produção dos calçados exportados em dezembro de 2001; e de que essa falta de registro sugeriria a saída do insumo para outras finalidades que não a produção. Alegando que não teria em que aplicar o insumo senão em sua produção, a impugnante entende que a fiscalização deveria admitir que o insumo deu entrada no estoque em novembro de 2001, foi empregado na produção dos calçados exportados em dezembro e que a empresa falhou no registro do estoque, e aceitar a vinculação por ela feita no Registro de Exportação (RE). 2.1.5. Falso Tecido - LPU030 A impugnante alega que a fiscalização, ao considerar como não vinculadas as operações ocorridas há mais do que vinte dias da data da saída do insumo para produção, não considerou que, por razões comerciais ou cambiais, a empresa pode ter optado por manter a produção em estoque para posterior exportação. Diz ainda, a impugnante, que nunca se apegou “ao prazo de 20 dias estranhamente adotado pela Fiscal em seu trabalho”. 2.2. Do Ato Concessório 20010027238 - Validade: 26.11.2003 A impugnante afirma que a fiscalização reconheceu o cumprimento do prazo do regime, em relação a todos os insumos vinculados a esse Ato Concessório, exceto quanto ao prazo de vinte dias entre a saída dos insumos importados do estoque para produção e a data dos embarques das operações de exportações, sendo que este critério ofenderia o seu direito legal de beneficiário do Drawback de exportar dentro do prazo que lhe foi conferido no Ato Concessório. Conforme a impugnante, a fiscalização cria regras individualizadas de controle de estoque sem considerar se tal é ou não a regra adotada pela empresa. A impugnante argumenta que “a lei remete o controle [do regime de Drawback-suspensão] exclusivamente à quantidade, qualidade e valor dos produtos importados e exportados, enfatizando o resultado cambial da operação”. 3. Da glosa de RE não vinculados aos Atos Concessórios A impugnante alega que comprovou, pelos documentos de fls. 652-655 e 658-667, a vinculação formal dos RE nº 1379948001, 020041140001, 02058351001, 02501215001, 02501215002, 020501215003, 021080347001 e 021080347002 ao AC nº 1604- 1/000083-2, e dos RE nº 0467799001, 030477631001, 030477631002, 030477631003, 030654766001, 03072883001, 030738475001, 031154305001, 031245998001 e 031246094001 ao AC nº 20010027238, e que a acusação de não vinculação feita pela fiscalização com base nos extratos do Sistema Siscomex anexados às fls. 1.225-1.232 e 1.215- 1.231 não se sustenta. Aduz ainda a impugnante: Tanto houve a tal vinculação que o SECEX, quem seja o órgão competente para verificar o cumprimento do regime, de forma expressa, Fl. 2103DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 18 reconhece o cumprimento dos dois Atos Concessórios, bem como a vinculação apresentada pela empresa, a qual, portanto, não poderá ser descartada pela SRF, sob pena, inclusive, de se incorrer em contradição com ato já emanado pelo SECEX. 4. Da classificação fiscal das mercadorias A impugnante afirma que não errou ao classificar a Borracha de PU (Poliuretano) sob o código 3909.50.29, em vez do código 4005.10.90, alegando que o insumo tanto é um poliuretano quanto é uma borracha. Também argui, em relação à mercadoria descrita como Borracha de Poliuretano Millathane nas DI nº 01/1185600-5, 01/1211192-5, 02/0010034-8, 02/0029608-0. 02/0332891-9, 02/0406699-3, 02/0524055-5 e 02/0562609-7, que a classificação fiscal adotada pela fiscalização não poderia ser aceita, por não haver adição de negro de fumo ou de sílica nessa mercadoria. Alega, ainda, a impugnante, a propósito dessas mercadorias: ... seja sob o código 3909.50.29 ou pelo código 4005.10.90, o fato é que nenhum prejuízo teria sido causado ao Fisco em razão de eventual classificação incorreta desse insumo, pois que ambas [as] NCM têm igual previsão de alíquota, além do que, in casu, a importação do insumo se deu sob o amparo do regime DrawbackSuspensão. Quanto à mercadoria descrita como Falso Tecido de Fibras, classificada pelo importador no código NCM 5603.94.00 e, pela fiscalização, na NCM 5603.14.90, a impugnante alega que, para ambos os códigos, as alíquotas do Imposto de Importação, bem com as do IPI, são iguais e que eventual erro não causou nem teve por intuito causar prejuízo ao Fisco, motivo pelo qual caberia a relevação da multa pretendida, inclusive porque o erro seria completamente escusável. 5. Da exigência de IPI A impugnante questiona a exigência do IPI decorrente da reclassificação fiscal (da NCM 3969.50.29 para a NCM 4005.10.90) da mercadoria descrita nas DI nº 03/0646616-8, 03/0827311-1 e 03/08/27326-0 como Borracha de PU, alegando, com base no art. 29 da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e no art. 17 da Instrução Normativa SRF nº 296, de 6 de fevereiro de 2003, que a suspensão do IPI não está vinculada à classificação fiscal das matérias-primas, produtos intermediários e material de embalagem adquiridos, mas, sim, à classificação fiscal dos produtos preponderantemente fabricados pelo adquirente, situação em que se enquadra, por ser preponderantemente produtora de calçados, ou seja, de produtos classificados no Capitulo 64 da TIPI, contemplado no referido dispositivo legal. Em relação aos requisitos estabelecidos para o gozo do benefício nos § 2º e 3º do art. 17 da IN SRF nº 296, de 2003, a impugnante alega: ... a empresa informou à SRF quanto as matérias primas e produtos intermediários que adquiriu (fls. 78, 581/583). Embora tenha informado os produtos com identificação de classificação tarifária com a qual não concordou a I. Agente Fiscal, o fato é que a empresa Fl. 2104DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 19 também cuidou de descrever esses produtos, não havendo dúvida alguma de que a Impugnante noticiou a aquisição de Borracha de PU para a fabricação de calçados! A empresa cumpriu com a obrigação de informar a aquisição do produto (Borracha de PU), pouco importando se tal produto é classificado sob o NCM 3909.50.29 ou NCM 4005.10.90, até porque, repita-se, mais uma vez, a natureza do produto importado não afeta o direito do aproveitamento da suspensão do IPI na importação, o qual se vincula exclusivamente à natureza dos produtos a serem produzidos pela importadora. 6. Da nulidade por erro formal Apontando erro formal da fiscalização ao reportar no Auto de Infração Complementar que a empresa autuada teria se valido da NCM 3905.90.29, quando o código por ela adotado foi o da NCM 3909.50.29, a impugnante defende a nulidade do lançamento na parte em que pretende a cobrança do IPI em razão da classificação equivocada da Borracha de PU. É o relatório. A 7ª Turma da DRJ/FOR, em 24 de abril de 2017, através do acórdão nº 08-38.677, julgou improcedente a impugnação sob os termos da seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 31/07/2003 PROPOSITURA DE AÇÃO JUDICIAL. DIFERENÇA DE OBJETO NAS VIAS JUDICIAL E ADMINISTRATIVA. Quando diferentes os objetos do processo judicial e do processo administrativo, a este será dado prosseguimento normal no que se relaciona à matéria diferenciada. ASSUNTO: REGIMES ADUANEIROS Período de apuração: 22/08/2001 a 03/07/2003 REGIME ADUANEIRO ESPECIAL DE DRAWBACK. SUSPENSÃO. PRAZO DECADENCIAL. A Fazenda Pública tem o prazo de cinco anos, contados a partir do primeiro dia do exercício seguinte ao do dia imediatamente posterior ao trigésimo dia da data limite para exportação, para constituir o crédito tributário decorrente do inadimplemento do regime aduaneiro especial de Drawback, modalidade suspensão. REGIME ADUANEIRO ESPECIAL DE DRAWBACK. SUSPENSÃO. FISCALIZAÇÃO. COMPETÊNCIA. Compete exclusivamente à Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) a fiscalização do regime aduaneiro especial de Drawback, modalidade suspensão, e a verificação do regular cumprimento dos requisitos e condições fixados pela legislação. REGIME ADUANEIRO ESPECIAL DE DRAWBACK. SUSPENSÃO. INADIMPLEMENTO. As mercadorias admitidas no regime aduaneiro especial de Drawback, modalidade suspensão, que não forem empregadas no processo produtivo ou o tenham sido em desconformidade com o ato concessório ficam sujeitas ao pagamento dos tributos suspensos quando da importação, com os acréscimos legais, e à penalidade cabível. ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 25/09/2001 a 26/09/2003 CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA. PENALIDADE. É cabível a multa de 1% do valor aduaneiro da mercadoria importada que tenha sido erroneamente classificada na Nomenclatura Comum do Mercosul. INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO. JUROS DE MORA. MULTA. A Fl. 2105DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 20 insuficiência de pagamento de tributos na importação enseja o lançamento das diferenças que deixaram de ser recolhidas, acrescidas de juros de mora e da multa prevista no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS - IPI Período de apuração: 31/07/2003 a 26/09/2003 IPI. SUSPENSÃO. REQUISITOS. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. DESCABIMENTO. Não se insere entre as exigências para fruição da suspensão do IPI, sob a égide do art. 29 da Lei nº 10.637, de 2002, a prestação de informação acerca da classificação fiscal dos insumos importados. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte O contribuinte apresentou tempestivo recurso voluntário em que ratifica os argumentos postos em sede de impugnação. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheira Mariel Orsi Gameiro, Relatora O recurso é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo integral conhecimento. Cinge-se a controvérsia na exigência de R$ 2.433.363,79, correspondente a diferença do Imposto de Importação e do IPI vinculado à importação, além de multa de ofício, multa por classificação fiscal incorreta e juros de mora, por entender a fiscalização pelo descumprimento integral e parcial de compromissos de drawback pelo interveniente. De início, destaco que não analisarei o mérito dos argumentos, tão menos as provas acostadas pela fiscalização e pelo recorrente, sem adentrar na configuração ou não da infração apontada pelo auto de infração, porque entendo que a multa substitutiva da pena de perdimento, pelo revestimento de natureza aduaneira, atrai a prescrição intercorrente e o sobrestamento do feito, sob os termos dos artigos 99 e 1001, do Regimento Interno deste Conselho. 1 Art. 99. As decisões de mérito transitadas em julgado, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, ou pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática da repercussão geral ou dos recursos repetitivos, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Parágrafo único. O disposto no caput não se aplica nos casos em que houver recurso extraordinário, com repercussão geral reconhecida, pendente de julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, sobre o mesmo tema decidido pelo Superior Tribunal de Justiça, na sistemática dos recursos repetitivos. Art. 100. A decisão pela afetação de tema submetido a julgamento segundo a sistemática da repercussão geral ou dos recursos repetitivos não permite o sobrestamento de julgamento de processo administrativo fiscal no âmbito do CARF, contudo o sobrestamento do julgamento será obrigatório nos casos em que houver acórdão de mérito ainda não transitado em julgado, proferido pelo Supremo Tribunal Federal e que declare a norma inconstitucional ou, no caso de matéria exclusivamente infraconstitucional, proferido pelo Superior Tribunal de Justiça e que declare ilegalidade da norma. Parágrafo único. O sobrestamento do julgamento previsto no caput não se aplica na hipótese em que o julgamento do recurso puder ser concluído independentemente de manifestação quanto ao tema afetado. Fl. 2106DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 21 Para conduzir o presente voto, vale, antes, mencionar qual a tese fixada pelo Superior Tribunal de Justiça, no Tema 1293: 1. Incide a prescrição intercorrente prevista no art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/1999 quando paralisado o processo administrativo de apuração de infrações aduaneiras, de natureza não tributária, por mais de 3 anos. 2. A natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela infração à legislação aduaneira é de direito administrativo (não tributário) se a norma infringida visa primordialmente ao controle do trânsito internacional de mercadorias ou à regularidade do serviço aduaneiro, ainda que, reflexamente, possa colaborar para a fiscalização do recolhimento dos tributos incidentes sobre a operação. 3. Não incidirá o art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/99 apenas se a obrigação descumprida, conquanto inserida em ambiente aduaneiro, destinava-se direta e imediatamente à arrecadação ou à fiscalização dos tributos incidentes sobre o negócio jurídico realizado. O acórdão publicado – Recurso Especial nº 2147578, tem como ementa: ADMINISTRATIVO. ADUANEIRO. RECURSO ESPECIAL REPETITIVO. PROCESSO ADMINISTRATIVO. INFRAÇÃO À LEGISLAÇÃO ADUANEIRA. PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. ART. 1º, § 1º, DA LEI 9.873/99. INCIDÊNCIA DO COMANDO LEGAL NOS PROCESSOS DE APURAÇÃO DE INFRAÇÕES DE NATUREZA ADMINISTRATIVA (NÃO TRIBUTÁRIA). DEFINIÇÃO DA NATUREZA JURÍDICA DO CRÉDITO CORRESPONDENTE À SANÇÃO PELA INFRAÇÃO À LEGISLAÇÃO ADUANEIRA QUE SE FAZ A PARTIR DO EXAME DA FINALIDADE PRECÍPUA DA NORMA INFRINGIDA. FIXAÇÃO DE TESES JURÍDICAS VINCULANTES. SOLUÇÃO DO CASO CONCRETO: PROVIMENTO DO RECURSO ESPECIAL. 1. A aplicação da prescrição intercorrente prevista no art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/99 encontra limitações de natureza espacial (relações jurídicas havidas entre particulares e os entes sancionadores que componham a administração federal direta ou indireta, excluindo-se estados e municípios) e material (inaplicabilidade da regra às infrações de natureza funcional e aos processos e procedimentos de natureza tributária, conforme disposto no art. 5º da Lei 9.873/99). 2. O processo de constituição definitiva do crédito correspondente à sanção por infração à legislação aduaneira segue o procedimento do Decreto 70.235/72, ou seja, faz-se conforme "os processos e procedimentos de natureza tributária" mencionados no art. 5º da Lei 9.873/99. Todavia, o rito estabelecido para a apuração ou constituição definitiva do crédito Fl. 2107DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 22 correspondente à sanção pelo descumprimento de uma norma de conduta é desimportante para a definição da natureza jurídica da norma descumprida. 3. É a natureza jurídica da norma de conduta violada o critério legal que deve ser observado para dizer se tal ou qual infração à lei deve ou não obediência aos ditames da Lei 9.873/99, e não o procedimento que tenha sido escolhido pelo legislador para se promover a apuração ou constituição definitiva do crédito correspondente à sanção pela infração praticada. O procedimento, seja ele qual for, não tem aptidão para alterar a natureza das coisas, de modo que as infrações de normas de natureza administrativa não se convertem em infrações tributárias apenas pelo fato de o legislador ter estabelecido, por opção política, que aquelas serão apuradas segundo processo ou procedimento ordinariamente aplicado para estas. 4. Este Tribunal Superior possui sedimentada jurisprudência a reconhecer que nos processos administrativos fiscais instaurados para a constituição definitiva de créditos tributários, é a ausência de previsão normativa específica acerca da prescrição intercorrente a razão determinante para se impedir o reconhecimento da extinção do crédito por eventual demora no encerramento do contencioso fiscal, valendo a regra de suspensão da exigibilidade do art. 151, III, do CTN para inibir a fluência do prazo de prescrição da pretensão executória do art. 174 do mesmo diploma Nesse particular aspecto, o regime jurídico dos créditos "não tributários" é absolutamente distinto, haja vista que, para tais créditos, temos justamente a previsão normativa específica do art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/99 a instituir prazo para o desfecho do processo administrativo, sob pena de extinção do crédito controvertido por prescrição intercorrente. 5. Em se tratando de infração à legislação aduaneira, a natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela violação da norma será de direito administrativo se a norma infringida visa primordialmente ao controle do trânsito internacional de mercadorias ou à regularidade do serviço aduaneiro, ainda que, reflexamente, possa colaborar para a fiscalização do recolhimento dos tributos incidentes sobre a operação. Não incidirá o art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/99 apenas se a obrigação descumprida, conquanto inserida em ambiente aduaneiro, destinava-se direta e imediatamente à arrecadação ou à fiscalização dos tributos incidentes sobre o negócio jurídico realizado. Precedente sobre a matéria: REsp n. 1.999.532/RJ, relatora Ministra Regina Helena Costa, Primeira Turma, julgado em 9/5/2023, DJe de 15/5/2023. Fl. 2108DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 23 6. Teses jurídicas de eficácia vinculante, sintetizadoras da ratio decidendi do julgado paradigmático: 1. Incide a prescrição intercorrente prevista no art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/1999 quando paralisado o processo administrativo de apuração de infrações aduaneiras, de natureza não tributária, por mais de 3 anos. 2. A natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela infração à legislação aduaneira é de direito administrativo (não tributário) se a norma infringida visa primordialmente ao controle do trânsito internacional de mercadorias ou à regularidade do serviço aduaneiro, ainda que, reflexamente, possa colaborar para a fiscalização do recolhimento dos tributos incidentes sobre a operação. 3. Não incidirá o art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/99 apenas se a obrigação descumprida, conquanto inserida em ambiente aduaneiro, destinava-se direta e imediatamente à arrecadação ou à fiscalização dos tributos incidentes sobre o negócio jurídico realizado. concreto, o acórdão recorrido negou vigência a esse dispositivo legal, divergindo da tese jurídica vinculante ora proposta, bem como do entendimento estabelecido sobre a matéria em precedentes específicos do STJ (REsp 1.999.532/RJ; AgInt no REsp 2.101.253/SP; AgInt no REsp 2.119.096/SP e AgInt no REsp 2.148.053/RJ). 8. Recurso especial provido. Por entender que a multa pelo erro da classificação fiscal, no valor de 1%, tem natureza aduaneira-administrativa, está sob a guarida da prescrição intercorrente. Voto, portanto, por sobrestar o presente processo até julgamento definitivo do Tema 1293, pelo Superior Tribunal de Justiça. Assinado Digitalmente Mariel Orsi Gameiro VOTO VENCEDOR Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, redator designado. Em que pese o colegiado tenha resolvido, por unanimidade de votos, sobrestar o julgamento até a ocorrência do trânsito em julgado dos Recursos Especiais 2147578/SP e 2147583/SP, afetos ao Tema Repetitivo 1293 (STJ), nos termos do disposto no artigo 100, do RICARF/2023, três dos seis conselheiros que participaram da votação acompanharam o voto da i. Relatora pelas conclusões, o que caracterizou a qualidade em relação às razões de decidir. Dessa Fl. 2109DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 24 forma, coube a mim a elaboração do presente voto para, nos termos do art. 114, § 9º, do RICARF, apresentar os fundamentos adotados pela maioria. O acompanhamento do voto da i. Relatora pelas conclusões se deu em razão do fato de ela ter deixado consignado que a multa de 1% por erro de classificação fiscal possui natureza meramente administrativa, o que, para mim, não se revela de forma tão evidente Sobre as razões para o sobrestamento, é preciso destacar que, em 27 de março de 2025, foi publicado o Acórdão relativo ao julgamento do Tema Repetitivo 1.293, proferido pela 1ª Seção do Superior Tribunal de Justiça, que, de fato, pode, potencialmente, influir no resultado do presente processo, e que deixou assim consignado em sua ementa: ADMINISTRATIVO. ADUANEIRO. RECURSO ESPECIAL REPETITIVO. PROCESSO ADMINISTRATIVO. INFRAÇÃO À LEGISLAÇÃO ADUANEIRA. PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. ART. 1º, § 1º, DA LEI 9.873/99. INCIDÊNCIA DO COMANDO LEGAL NOS PROCESSOS DE APURAÇÃO DE INFRAÇÕES DE NATUREZA ADMINISTRATIVA (NÃO TRIBUTÁRIA). DEFINIÇÃO DA NATUREZA JURÍDICA DO CRÉDITO CORRESPONDENTE À SANÇÃO PELA INFRAÇÃO À LEGISLAÇÃO ADUANEIRA QUE SE FAZ A PARTIR DO EXAME DA FINALIDADE PRECÍPUA DA NORMA INFRINGIDA. FIXAÇÃO DE TESES JURÍDICAS VINCULANTES. SOLUÇÃO DO CASO CONCRETO: PROVIMENTO DO RECURSO ESPECIAL. 1. A aplicação da prescrição intercorrente prevista no art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/99 encontra limitações de natureza espacial (relações jurídicas havidas entre particulares e os entes sancionadores que componham a administração federal direta ou indireta, excluindo-se estados e municípios) e material (inaplicabilidade da regra às infrações de natureza funcional e aos processos e procedimentos de natureza tributária, conforme disposto no art. 5º da Lei 9.873/99). 2. O processo de constituição definitiva do crédito correspondente à sanção por infração à legislação aduaneira segue o procedimento do Decreto 70.235/72, ou seja, faz-se conforme "os processos e procedimentos de natureza tributária" mencionados no art. 5º da Lei 9.873/99. Todavia, o rito estabelecido para a apuração ou constituição definitiva do crédito correspondente à sanção pelo descumprimento de uma norma de conduta é desimportante para a definição da natureza jurídica da norma descumprida. 3. É a natureza jurídica da norma de conduta violada o critério legal que deve ser observado para dizer se tal ou qual infração à lei deve ou não obediência aos ditames da Lei 9.873/99, e não o procedimento que tenha sido escolhido pelo legislador para se promover a apuração ou constituição definitiva do crédito correspondente à sanção pela infração praticada. O procedimento, seja ele qual for, não tem aptidão para alterar a natureza das coisas, de modo que as infrações de normas de natureza administrativa não se convertem em infrações tributárias apenas pelo fato de o legislador ter estabelecido, por opção política, que aquelas serão apuradas segundo processo ou procedimento ordinariamente aplicado para estas. Fl. 2110DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 25 4. Este Tribunal Superior possui sedimentada jurisprudência a reconhecer que nos processos administrativos fiscais instaurados para a constituição definitiva de créditos tributários, é a ausência de previsão normativa específica acerca da prescrição intercorrente a razão determinante para se impedir o reconhecimento da extinção do crédito por eventual demora no encerramento do contencioso fiscal, valendo a regra de suspensão da exigibilidade do art. 151, III, do CTN para inibir a fluência do prazo de prescrição da pretensão executória do art. 174 do mesmo diploma Nesse particular aspecto, o regime jurídico dos créditos "não tributários" é absolutamente distinto, haja vista que, para tais créditos, temos justamente a previsão normativa específica do art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/99 a instituir prazo para o desfecho do processo administrativo, sob pena de extinção do crédito controvertido por prescrição intercorrente. 5. Em se tratando de infração à legislação aduaneira, a natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela violação da norma será de direito administrativo se a norma infringida visa primordialmente ao controle do trânsito internacional de mercadorias ou à regularidade do serviço aduaneiro, ainda que, reflexamente, possa colaborar para a fiscalização do recolhimento dos tributos incidentes sobre a operação. Não incidirá o art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/99 apenas se a obrigação descumprida, conquanto inserida em ambiente aduaneiro, destinava- se direta e imediatamente à arrecadação ou à fiscalização dos tributos incidentes sobre o negócio jurídico realizado. Precedente sobre a matéria: REsp n. 1.999.532/RJ, relatora Ministra Regina Helena Costa, Primeira Turma, julgado em 9/5/2023, DJe de 15/5/2023. 6. Teses jurídicas de eficácia vinculante, sintetizadoras da ratio decidendi do julgado paradigmático: 1. Incide a prescrição intercorrente prevista no art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/1999 quando paralisado o processo administrativo de apuração de infrações aduaneiras, de natureza não tributária, por mais de 3 anos. 2. A natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela infração à legislação aduaneira é de direito administrativo (não tributário) se a norma infringida visa primordialmente ao controle do trânsito internacional de mercadorias ou à regularidade do serviço aduaneiro, ainda que, reflexamente, possa colaborar para a fiscalização do recolhimento dos tributos incidentes sobre a operação. 3. Não incidirá o art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/99 apenas se a obrigação descumprida, conquanto inserida em ambiente aduaneiro, destinava-se direta e imediatamente à arrecadação ou à fiscalização dos tributos incidentes sobre o negócio jurídico realizado. 7. Solução do caso concreto: ao conferir natureza jurídica tributária à multa prevista no art. 107, IV, e, do DL 37/66, e, por consequência, afastar a aplicação do art. 1º, § 1º, da Lei 9.873/99 ao procedimento administrativo apuratório objeto do caso concreto, o acórdão recorrido negou vigência a esse dispositivo legal, divergindo da tese jurídica vinculante ora proposta, bem como do entendimento estabelecido sobre a matéria em precedentes específicos do STJ Fl. 2111DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 26 (REsp 1.999.532/RJ; AgInt no REsp 2.101.253/SP; AgInt no REsp 2.119.096/SP e AgInt no REsp 2.148.053/RJ). 8. Recurso especial provido. Como se percebe das teses firmadas pelo STJ sob esse Tema 1.293, a prescrição intercorrente prevista no § 1º do art. 1º da Lei nº 9.873, de 1999, incide quando paralisado o processo administrativo de apuração de infrações aduaneiras, de natureza não tributária, por mais de 3 anos, sendo que, para o STJ, a natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela infração à legislação aduaneira é de direito administrativo (não tributário) se a norma infringida visa primordialmente ao controle do trânsito internacional de mercadorias ou à regularidade do serviço aduaneiro, ainda que, reflexamente, possa colaborar para a fiscalização do recolhimento dos tributos incidentes sobre a operação. Nos termos do que decidido pelo STJ, só não incide o § 1º do art. 1º da Lei nº 9.873, de 1999, se a obrigação descumprida, conquanto inserida em ambiente aduaneiro, destinava-se direta e imediatamente à arrecadação ou à fiscalização dos tributos incidentes sobre o negócio jurídico realizado. Então, dois são os aspectos que devem ser considerados para a aplicação do que foi decidido pelo STJ na sistemática dos recursos repetitivos: 1) o prazo de paralisação do processo; e 2) a natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela infração cometida. Em relação ao primeiro aspecto, é de se notar que o processo se encontra neste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), pendente de julgamento ou de despacho, há mais de oito anos, o que ultrapassa o prazo previsto no § 1º do art. 1º da Lei nº 9.873, de 1999, para que reste caracterizada a prescrição intercorrente. Quanto à natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela infração cometida, em que pese a decisão do STJ tenha estabelecido alguns parâmetros definidores, a aplicação e elucidação desses parâmetros envolvem um grau de subjetividade bastante significativo. Não há dúvidas de que a prescrição intercorrente pode se operar em relação à multa prevista no art. 107, inciso IV, alínea “e” do Decreto-Lei nº 37, de 1966, aplicada, em uma operação de exportação, em razão do descumprimento de obrigação de prestar informação sobre veículo ou carga nele transportada, afinal de contas essa foi a multa especificamente analisada pelo STJ no Tema 1.293. Mas parece não haver certeza de quais são as outras multas que podem estar sujeitas à prescrição intercorrente de que trata o § 1º do art. 1º da Lei nº 9.873, de 1999. No caso que aqui se analisa, além dos tributos e das multas incidentes sobre esses tributos lançados, a Fiscalização aplicou a multa de 1% prevista no art. 84, inciso I, da MP nº 2.158- 35, de 2001, que visa punir o erro de classificação fiscal, aspecto fundamental para a definição do Fl. 2112DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 27 elemento que corresponde a um dos critérios materiais da regra matriz de incidência tributária, no caso a alíquota. Para mim, não há dúvidas de que essa multa visa punir o cometimento de uma infração que ocorre no ambiente aduaneiro, mas, considerando os parâmetros estabelecidos pelo STJ, tenho dúvidas a respeito da natureza da infração que dá azo a essa penalidade. Segundo o STJ, a natureza tributária da infração se revela caso a obrigação descumprida se destine direta e imediatamente à arrecadação ou à fiscalização dos tributos incidentes sobre a operação de comércio exterior. O problema é que, muitas vezes, não é possível analisar as obrigações aduaneiras de forma isolada, como se elas existissem para um só propósito. É inegável que as informações prestadas na declaração de importação, que incluem a classificação fiscal da mercadoria, têm por objetivo propiciar à Fiscalização a apuração da regularidade dos tributos devidos, mas não só isso. Essas informações se prestam também a garantir que a Aduana brasileira possa proteger a diversos outros bens que foram eleitos pelo Estado para serem tutelados, como, entre outros, a saúde, o meio ambiente e a sociedade em geral. Por isso, não me parece razoável pensar que as ações de fiscalização aduaneira possam ser vistas, de forma segmentada, apenas em relação aos seus aspectos tributários ou apenas em relação aos seus aspectos aduaneiros. Mas, aparentemente, essa discussão foi ignorada na decisão prolatada pelo STJ no âmbito do Tema 1.293, talvez porque a multa lá analisada dizia respeito ao descumprimento, em uma operação de exportação, de obrigação de prestar informação sobre veículo ou carga nele transportada. Diante disso, devo reconhecer que, a depender do entendimento que possamos ter a respeito da natureza da infração que ensejou a aplicação da multa discutida no presente processo, a decisão prolatada pelo STJ no Tema 1.293 pode ter aqui aplicação no que diz respeito à prescrição intercorrente. Não obstante, é de se observar que o STJ ainda não decidiu de forma definitiva sobre a matéria, de tal sorte que o caminho a ser seguido no presente processo é aquele que foi apontado pela i. Relatora e que está expresso no art. 100 da Portaria MF nº 1.634, de 2003 (RICARF), que diz que o processo deve ser sobrestado até que ocorra o trânsito em julgado: Art. 100. A decisão pela afetação de tema submetido a julgamento segundo a sistemática da repercussão geral ou dos recursos repetitivos não permite o sobrestamento de julgamento de processo administrativo fiscal no âmbito do CARF, contudo o sobrestamento do julgamento será obrigatório nos casos em que houver acórdão de mérito ainda não transitado em julgado, proferido pelo Supremo Tribunal Federal e que declare a norma inconstitucional ou, no caso de matéria exclusivamente infraconstitucional, proferido pelo Superior Tribunal de Justiça e que declare ilegalidade da norma. Fl. 2113DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3402-004.281 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11131.001322/2008-62 28 Por isso acompanho o voto da i. Relatora, pelas conclusões, para sobrestar o feito na 4ª Câmara da 3ª Seção do CARF, até que haja o trânsito em julgado do Tema Repetitivo 1.293 do STJ. Acrescento que, havendo o trânsito em julgado da matéria no STJ, o presente processo deverá retornar para o colegiado, com a devolução de todas as matérias, inclusive no que diz respeito à natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela infração cometida, para que o julgamento possa ser concluído. Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles Fl. 2114DF CARF MF Original Resolução Relatório Voto Vencido Voto Vencedor
score : 1.0
Numero do processo: 10825.721551/2014-74
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 20 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Feb 20 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2011
CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA INCIDENTE SOBRE AQUISIÇÃO DA PRODUÇÃO RURAL DE PESSOA FÍSICA. ARTIGO 25 DA LEI N° 8.212/91 COM A REDAÇÃO DADA PELA LEI N° 10.256/01.
Com o trânsito em julgado do RE 718874/RS, em 06/11/18, o STF pacificou a questão da incidência da contribuição previdenciária sobre a comercialização da produção rural do produtor pessoa física, declarando a constitucionalidade do artigo 25, inclusive de seus incisos I e II, da Lei n° 8.212/91, com a redação dada pela Lei n° 10.256/01.
ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2).
No âmbito do processo administrativo fiscal, é vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Assim, a autoridade administrativa não possui atribuição para apreciar a arguição de inconstitucionalidade ou ilegalidade de dispositivos legais.
Numero da decisão: 2001-007.993
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo a questão que versa acerca da inconstitucionalidade arguida e daquela não submetida ao crivo da autoridade de piso, para, no mérito, negar-lhe provimento.
Assinado Digitalmente
Raimundo Cássio Gonçalves Lima – Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Marne Dias Alves (substituto[a] integral), Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Cleber Ferreira Nunes Leite(substituto[a] integral), Lilian Claudia de Souza, Wilderson Botto, Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente) Ausente(s) o conselheiro(a) Ricardo Chiavegatto de Lima, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Carlos Marne Dias Alves.
Nome do relator: RAIMUNDO CASSIO GONCALVES LIMA
1.0 = *:*
toggle all fields
dt_index_tdt : Sat Feb 28 09:00:00 UTC 2026
anomes_sessao_s : 202508
ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2011 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA INCIDENTE SOBRE AQUISIÇÃO DA PRODUÇÃO RURAL DE PESSOA FÍSICA. ARTIGO 25 DA LEI N° 8.212/91 COM A REDAÇÃO DADA PELA LEI N° 10.256/01. Com o trânsito em julgado do RE 718874/RS, em 06/11/18, o STF pacificou a questão da incidência da contribuição previdenciária sobre a comercialização da produção rural do produtor pessoa física, declarando a constitucionalidade do artigo 25, inclusive de seus incisos I e II, da Lei n° 8.212/91, com a redação dada pela Lei n° 10.256/01. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2). No âmbito do processo administrativo fiscal, é vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Assim, a autoridade administrativa não possui atribuição para apreciar a arguição de inconstitucionalidade ou ilegalidade de dispositivos legais.
turma_s : Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
dt_publicacao_tdt : Fri Feb 20 00:00:00 UTC 2026
numero_processo_s : 10825.721551/2014-74
anomes_publicacao_s : 202602
conteudo_id_s : 7338800
dt_registro_atualizacao_tdt : Fri Feb 20 00:00:00 UTC 2026
numero_decisao_s : 2001-007.993
nome_arquivo_s : Decisao_10825721551201474.PDF
ano_publicacao_s : 2026
nome_relator_s : RAIMUNDO CASSIO GONCALVES LIMA
nome_arquivo_pdf_s : 10825721551201474_7338800.pdf
secao_s : Segunda Seção de Julgamento
arquivo_indexado_s : S
decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo a questão que versa acerca da inconstitucionalidade arguida e daquela não submetida ao crivo da autoridade de piso, para, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Raimundo Cássio Gonçalves Lima – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Marne Dias Alves (substituto[a] integral), Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Cleber Ferreira Nunes Leite(substituto[a] integral), Lilian Claudia de Souza, Wilderson Botto, Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente) Ausente(s) o conselheiro(a) Ricardo Chiavegatto de Lima, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Carlos Marne Dias Alves.
dt_sessao_tdt : Wed Aug 20 00:00:00 UTC 2025
id : 11232360
ano_sessao_s : 2025
atualizado_anexos_dt : Sat Feb 28 09:41:32 UTC 2026
sem_conteudo_s : N
_version_ : 1858361587129122816
conteudo_txt : Metadados => date: 2026-02-20T12:01:07Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-02-20T12:01:07Z; Last-Modified: 2026-02-20T12:01:07Z; dcterms:modified: 2026-02-20T12:01:07Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-02-20T12:01:07Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-02-20T12:01:07Z; meta:save-date: 2026-02-20T12:01:07Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-02-20T12:01:07Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-02-20T12:01:07Z; created: 2026-02-20T12:01:07Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 6; Creation-Date: 2026-02-20T12:01:07Z; pdf:charsPerPage: 1813; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-02-20T12:01:07Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 10825.721551/2014-74 ACÓRDÃO 2001-007.993 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA SESSÃO DE 22 DE AGOSTO DE 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE TEMPERALHO TRADING, COMERCIO, IMPORTACAO E EXPORTACAO LTDA INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2011 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA INCIDENTE SOBRE AQUISIÇÃO DA PRODUÇÃO RURAL DE PESSOA FÍSICA. ARTIGO 25 DA LEI N° 8.212/91 COM A REDAÇÃO DADA PELA LEI N° 10.256/01. Com o trânsito em julgado do RE 718874/RS, em 06/11/18, o STF pacificou a questão da incidência da contribuição previdenciária sobre a comercialização da produção rural do produtor pessoa física, declarando a constitucionalidade do artigo 25, inclusive de seus incisos I e II, da Lei n° 8.212/91, com a redação dada pela Lei n° 10.256/01. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2). No âmbito do processo administrativo fiscal, é vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Assim, a autoridade administrativa não possui atribuição para apreciar a arguição de inconstitucionalidade ou ilegalidade de dispositivos legais. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo a questão que versa acerca da inconstitucionalidade arguida e daquela não submetida ao crivo da autoridade de piso, para, no mérito, negar-lhe provimento. Fl. 463DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.993 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10825.721551/2014-74 2 Assinado Digitalmente Raimundo Cássio Gonçalves Lima – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Carlos Marne Dias Alves (substituto[a] integral), Christianne Kandyce Gomes Ferreira de Mendonca, Cleber Ferreira Nunes Leite(substituto[a] integral), Lilian Claudia de Souza, Wilderson Botto, Raimundo Cassio Goncalves Lima (Presidente) Ausente(s) o conselheiro(a) Ricardo Chiavegatto de Lima, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Carlos Marne Dias Alves. RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto contra a decisão prolatada pela Delegacia de Julgamento (DRJ08), acórdão 108-006.198,-14ª Turma, fls. 388/404 que julgou improcedente a impugnação aos lançamentos consubstanciados nas Notificações de Lançamento que se encontram às fls. 3/18, relativas ao DEBCAD 51.045.052-0 e DEBCAD 51.045.053-9, para Recolhimento do Débito no valor original de R$ 545.790,35 e R$ 52.130,65, respectivamente. O acórdão da autoridade de piso de nº 108-006.198, 14ª Turma, DRJ08, se encontra devidamente ementado como segue: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2011 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA INCIDENTE SOBRE AQUISIÇÃO DA PRODUÇÃO RURAL DE PESSOA FÍSICA. ARTIGO 25 DA LEI N° 8.212/91 COM A REDAÇÃO DADA PELA LEI N° 10.256/01. Com o trânsito em julgado do RE 718874/RS, em 06/11/18, o STF pacificou a questão da incidência da contribuição previdenciária sobre a comercialização da produção rural do produtor pessoa física, declarando a constitucionalidade do artigo 25, inclusive de seus incisos I e II, da Lei n° 8.212/91, com a redação dada pela Lei n° 10.256/01. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2011 CONTRIBUIÇÃO DESTINADA A TERCEIROS - SENAR, INCIDENTE SOBRE AQUISIÇÃO DA PRODUÇÃO RURAL DE PESSOA FÍSICA. ARTIGO 6o DA LEI N° 9.528/97, COM A REDAÇÃO DADA PELA LEI N° 10.256/01. Fl. 464DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.993 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10825.721551/2014-74 3 A empresa adquirente da produção rural do produtor pessoa física deve recolher a contribuição devida ao SENAR. Devidamente cientificado da citada decisão em 07/02/2021, fls. 429, protocolou o presente recurso voluntário em 11/02/2021, fls. 432/455, onde em síntese alega, após longa dissertação doutrinária e judicial, ser, ao seu entender, inconstitucional a cobrança da exação FUNRURAL objeto de divergência dentro do presente processo, basicamente renovando os termos da sua impugnação de fls. 366/378, contudo inovando ao trazer intempestivamente para a apreciação deste colegiado a matéria atinente ao que entende como efeito confiscatório da multa. Alfim, requer: DO PEDIDO Por todo o exposto, requer seja o presente recurso voluntário recebido, processado, e ao final conhecido e provido, para o fim específico de cancelar o lançamento de ofício do crédito tributário que originou o Auto de Infração em combate, uma vez que deverão ser acolhidas todas as matérias levantadas nesta peça, como medida de mais lídima Justiça! É o relatório. VOTO Conselheiro Raimundo Cássio Gonçalves Lima, Relator 1. Delimitação da matéria e conhecimento Cinge-se a questão debatida no presente processo sobre a constitucionalidade da exação FUNRURAL a que se refere a informação constante do relatório de fiscalização de fls. 19/24. 1.1. Matéria de inconstitucionalidade e conhecimento parcial do recurso voluntário Questão relevante a se pontuar, preliminarmente, é no sentido de que é vedado ao órgão julgador administrativo negar vigência a normas jurídicas por motivo de alegações de ilegalidade ou inconstitucionalidade. O controle de legalidade efetivado por este Conselho, dentro da devolutividade que lhe compete frente à decisão de primeira instância, analisa a conformidade do ato da administração tributária em consonância com a legislação vigente. Perquirindo se o ato administrativo de lançamento atendeu aos requisitos de validade e observou corretamente os elementos da competência, finalidade, forma e fundamentos de fato e de direito que lhe dão suporte, não havendo permissão para declarar ilegalidade ou inconstitucionalidade de leis e decretos. Nesse sentido temos a Súmula nº 2, deste Conselho, com o seguinte comando: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.” e os Fl. 465DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.993 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10825.721551/2014-74 4 comandos do art. 26A do Decreto nº 70.235 de 6 de março de 1972 e art. 62 do Regimento Interno do CARF, confira-se: Decreto nº 70.235 de 6 de março de 1972 Art. 26-A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Regimento Interno do CARF Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Destarte, não conheço da matéria. Por sua vez, reza o artigo 17 do Decreto nº 70.235/72 que se considera como não impugnada a matéria não contestada pelo impugnante. Destarte, não conheço da matéria trazida somente em sede recursal e que versa no tópico intitulado de efeito confiscatório da multa O presente recurso voluntário é tempestivo e dele tomo conhecimento parcial, não conhecendo acerca da matéria da inconstitucionalidade arguida bem como daquela não levada ao conhecimento da autoridade de piso. 2. Mérito 2.1. Quanto à exigência da contribuição para o FUNRURAL DO FUNRURAL A tônica da tese apresentada pela defesa parte de considerações acerca da inconstitucionalidade da cobrança relativa ao FUNRURAL e respectivos aspectos de cobrança. Sobre a materialidade do tributo, é trazido um retrospecto jurídico de embate perante o STF do qual se extrai a perspectiva de invalidação da base de cálculo, segundo argumenta, em razão de possível superveniência de declaração de inconstitucionalidade da base de cálculo da contribuição devida pelo segurado especial, na ocasião em análise no RE 761.253. Entretanto, já há desfecho para os casos apreciados pela Corte Suprema. TEMA 669 – STF É constitucional formal e materialmente a contribuição social do empregador rural pessoa física, instituída pela Lei 10.256/2001, incidente sobre a receita bruta obtida com a comercialização de sua produção. TEMA 723 – STF É constitucional, formal e materialmente, a contribuição social do segurado especial prevista no art. 25 da Lei 8.212/1991. Fl. 466DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.993 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10825.721551/2014-74 5 Como visto, a constitucionalidade das contribuições sociais concernentes tanto ao empregador rural pessoa física, como ao segurado especial, foi reconhecida em ocasiões próprias pelo STF. Sendo assim, pela validade da norma contida no art. 25 da Lei nº 8.212/1991, com redação dada pela Lei nº 10.256/2001, vigente à época dos fatos, é imperativa a regularidade a cobrança do FUNRURAL da maneira como apurou a autoridade fiscal. Art. 25. A contribuição do empregador rural pessoa física, em substituição à contribuição de que tratam os incisos I e II do art. 22, e a do segurado especial, referidos, respectivamente, na alínea a do inciso V e no inciso VII do art. 12 desta Lei, destinada à Seguridade Social, é de: I - 2% (dois por cento), no caso da pessoa física, e 2.2% (dois inteiros e dois décimos por cento), no caso do segurado especial, da receita bruta da comercialização da sua produção; II - um décimo por cento da receita bruta proveniente da comercialização da sua produção para financiamento de complementação das prestações por acidente de trabalho. Pelo exposto, não acato o fundamento. DA SUB-ROGAÇÃO DO FUNRURAL Da mesma maneira que no tópico precedente, a defesa intenta apontar vício de inconstitucionalidade, ou ao menos sua suspeição, pela pendência de deliberação sobre o tema no âmbito do STF. Ao analisar a matéria, a DRJ/CTA logrou suas conclusões amparada pelo Parecer RFB COSIT nº 19/2017 e pelo Parecer PGFN/CRJ nº 1.447/2017, ambos convergentes no sentido da regularidade tanto das contribuições previstas no art. 25, I e II da Lei nº 8.212/1991, quanto da obrigação de retenção contida no art. 30, IV do mesmo diploma, fl. 745. Diante do contido no Parecer RFB/COSIT n.º 19, de 26/09/2017, e no Parecer PGFN/CRJ nº 1.447/2017, vinculantes para a Administração Pública, nos termos do art. 44 da LC 73/93, combinado com o art. 48 da Lei 11.457/2007, tem-se que a interpretação tanto das contribuições previstas nos incisos I e II do art. 25, quanto da obrigação das empresas adquirentes de retê-las, conforme inciso IV do art. 30, ambos da Lei nº 8.212/91, são perfeitamente exigíveis desde a vigência da Lei nº 10.256/01. (...)Do exposto, conclui-se que as contribuições lançadas nos períodos de 01/2015 a 12/2016, por sub-rogação, sob responsabilidade da impugnante, nos termos do inciso IV do art. 30 da Lei nº 8.212/91, tem respaldo em legislação válida e vigente, devendo-se tanto a autoridade lançadora quanto a julgadora observá-la, uma vez que a atividade da autoridade administrativa é vinculada, nos termos do artigo 142 do CTN, a seguir transcrito. Fl. 467DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2001-007.993 – 2ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10825.721551/2014-74 6 Enquanto vigente, na ausência da revogação de um ato normativo, ou de decisão suspensiva ou anulatória de cunho administrativo ou judicial, sua força cogente impõe a observação obrigatória por parte da autoridade fiscal, com fulcro no art. 142, parágrafo único do CTN. Acrescente-se que a CSRF também já deliberou e tem assentado o entendimento no sentido da legalidade da sub-rogação. CSRF – 2ª Seção- 2ª Turma – Acórdão 9202-006.636 – Mar/2018 PRODUTOR RURAL PESSOA FÍSICA. COMERCIALIZAÇÃO DE SUA PRODUÇÃO RURAL. SUBROGAÇÃO DA CONTRIBUIÇÃO SOBRE A RECEITA BRUTA DA PESSOA JURÍDICA ADQUIRENTE. São devidas pelo produtor rural pessoa física empregador as contribuições incidentes sobre a receita bruta proveniente da comercialização de sua produção rural, ficando a pessoa jurídica adquirente responsável pela retenção e recolhimento dessas contribuições em virtude da sub-rogação a que está legalmente obrigado. CSRF – 2ª Seção- 2ª Turma – Acórdão 9202-007.846 – Mai/2019 PRODUTOR RURAL. SUB-ROGAÇÃO DA EMPRESA ADQUIRENTE. A empresa adquirente de produtos rurais fica sub-rogada nas obrigações da pessoa física produtora rural pelo recolhimento da contribuição incidente sobre a receita bruta da comercialização de sua produção, nos termos e nas condições estabelecidas na legislação previdenciária vigente. Por oportuno, registre-se o conhecimento deste colegiado acerca da tramitação do ADI nº 4395 no STF, que trata especificamente do tema relativo a constitucionalidade do FUNRURAL e respectivo modelo de sub-rogação do recolhimento aos adquirentes de produtos rurais de pessoas físicas. Todavia, referido processo ainda não alcançado definitividade típica da coisa julgada. Sendo assim, não acolho os argumentos arrolados no presente apartado 3. Conclusão Ante ao exposto, conheço do presente recurso voluntário parcialmente, não conhecendo a questão que versa acerca da inconstitucionalidade arguida e daquela não submetida ao crivo da autoridade de piso, para, no mérito, NEGAR-LHE PROVIMENTO. É o meu voto. Assinado Digitalmente Raimundo Cássio Gonçalves Lima Fl. 468DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 15983.720256/2017-44
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 17 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Thu Feb 19 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2014
OMISSÃO DE RECEITAS. CRÉDITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA.
Caracterizam-se omissão de receitas os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimada, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações.
LANÇAMENTOS DECORRENTES.
Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido - CSLL Contribuição para o PIS/Pasep Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Em se tratando de tributação reflexa, no que couber, deve ser observado o que for decidido para o Auto de Infração principal, uma vez que todas as exigências tiveram o mesmo suporte fático.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA.
Correta a aplicação da multa de ofício qualificada de 150% quando restar evidenciado nos autos a prática de sonegação.
Numero da decisão: 1102-001.833
Decisão: Acordam os membros do colegiado em rejeitar as preliminares de nulidade suscitadas por unanimidade de votos e, no mérito, o seguinte: (i) por unanimidade de votos, (i.1) em dar parcial provimento ao recurso voluntário do contribuinte, apenas para afastar a tributação referente aos depósitos de 22/05/2014, 26/06/2014 e 18/07/2014, no valor total de R$ 280.234,00, e depósito de 22/05/2014, no total de R$ 69.000,00, em nome de Eliseu Pereira de Sousa e Odilon Martins Neto, e reduzir a multa qualificada de 150% para 100%, dada a retroatividade benigna de lei, medidas que aproveitam aos responsáveis solidários mantidos no polo passivo, e (i.2) em negar provimento ao recurso voluntário de PAULO FERRAMENTA DA SILVA, confirmando sua sujeição passiva; (ii) por voto de qualidade, em negar provimento aos recursos voluntários de EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ e de ANTENOR GERALDO FERRAZ, confirmando as responsabilidades solidárias a eles imputadas – vencidos os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton, Gustavo Schneider Fossati e Gabriel Campelo de Carvalho, que afastavam as responsabilidades; e (iii) por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário de MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ, para afastar a responsabilidade solidária a si atribuída – vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa (Relator), que negava provimento, mantendo, com isso, a responsabilidade. Designado o Conselheiro Gustavo Schneider Fossati para redigir o voto vencedor quanto ao afastamento da responsabilidade solidária de MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ.
Assinado Digitalmente
Lizandro Rodrigues de Sousa – Relator
Assinado Digitalmente
Gustavo Schneider Fossati – Redator do voto vencedor
Assinado Digitalmente
Fernado Beltcher da Silva – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires Mcnaughton, Cassiano Romulo Soares, Gustavo Schneider Fossati, Gabriel Campelo de Carvalho, Fernando Beltcher da Silva (Presidente).
Nome do relator: LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA
1.0 = *:*
toggle all fields
dt_index_tdt : Sat Feb 28 09:00:00 UTC 2026
anomes_sessao_s : 202512
camara_s : Primeira Câmara
ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2014 OMISSÃO DE RECEITAS. CRÉDITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. Caracterizam-se omissão de receitas os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimada, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. LANÇAMENTOS DECORRENTES. Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido - CSLL Contribuição para o PIS/Pasep Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Em se tratando de tributação reflexa, no que couber, deve ser observado o que for decidido para o Auto de Infração principal, uma vez que todas as exigências tiveram o mesmo suporte fático. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. Correta a aplicação da multa de ofício qualificada de 150% quando restar evidenciado nos autos a prática de sonegação.
turma_s : Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
dt_publicacao_tdt : Thu Feb 19 00:00:00 UTC 2026
numero_processo_s : 15983.720256/2017-44
anomes_publicacao_s : 202602
conteudo_id_s : 7338383
dt_registro_atualizacao_tdt : Thu Feb 19 00:00:00 UTC 2026
numero_decisao_s : 1102-001.833
nome_arquivo_s : Decisao_15983720256201744.PDF
ano_publicacao_s : 2026
nome_relator_s : LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA
nome_arquivo_pdf_s : 15983720256201744_7338383.pdf
secao_s : Primeira Seção de Julgamento
arquivo_indexado_s : S
decisao_txt : Acordam os membros do colegiado em rejeitar as preliminares de nulidade suscitadas por unanimidade de votos e, no mérito, o seguinte: (i) por unanimidade de votos, (i.1) em dar parcial provimento ao recurso voluntário do contribuinte, apenas para afastar a tributação referente aos depósitos de 22/05/2014, 26/06/2014 e 18/07/2014, no valor total de R$ 280.234,00, e depósito de 22/05/2014, no total de R$ 69.000,00, em nome de Eliseu Pereira de Sousa e Odilon Martins Neto, e reduzir a multa qualificada de 150% para 100%, dada a retroatividade benigna de lei, medidas que aproveitam aos responsáveis solidários mantidos no polo passivo, e (i.2) em negar provimento ao recurso voluntário de PAULO FERRAMENTA DA SILVA, confirmando sua sujeição passiva; (ii) por voto de qualidade, em negar provimento aos recursos voluntários de EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ e de ANTENOR GERALDO FERRAZ, confirmando as responsabilidades solidárias a eles imputadas – vencidos os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton, Gustavo Schneider Fossati e Gabriel Campelo de Carvalho, que afastavam as responsabilidades; e (iii) por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário de MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ, para afastar a responsabilidade solidária a si atribuída – vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa (Relator), que negava provimento, mantendo, com isso, a responsabilidade. Designado o Conselheiro Gustavo Schneider Fossati para redigir o voto vencedor quanto ao afastamento da responsabilidade solidária de MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ. Assinado Digitalmente Lizandro Rodrigues de Sousa – Relator Assinado Digitalmente Gustavo Schneider Fossati – Redator do voto vencedor Assinado Digitalmente Fernado Beltcher da Silva – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires Mcnaughton, Cassiano Romulo Soares, Gustavo Schneider Fossati, Gabriel Campelo de Carvalho, Fernando Beltcher da Silva (Presidente).
dt_sessao_tdt : Wed Dec 17 00:00:00 UTC 2025
id : 11231191
ano_sessao_s : 2025
atualizado_anexos_dt : Sat Feb 28 09:41:31 UTC 2026
sem_conteudo_s : N
_version_ : 1858361587147997184
conteudo_txt : Metadados => date: 2026-02-16T16:57:06Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-02-16T16:57:06Z; Last-Modified: 2026-02-16T16:57:06Z; dcterms:modified: 2026-02-16T16:57:06Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-02-16T16:57:06Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-02-16T16:57:06Z; meta:save-date: 2026-02-16T16:57:06Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-02-16T16:57:06Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-02-16T16:57:06Z; created: 2026-02-16T16:57:06Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 53; Creation-Date: 2026-02-16T16:57:06Z; pdf:charsPerPage: 1880; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-02-16T16:57:06Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 15983.720256/2017-44 ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 17 de dezembro de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE EFX LOGÍSTICA IMPORTAÇÃO, EXPORTAÇÃO E COMÉRCIO INTERNACIONAL LTDA INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2014 OMISSÃO DE RECEITAS. CRÉDITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. Caracterizam-se omissão de receitas os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimada, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. LANÇAMENTOS DECORRENTES. Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido - CSLL Contribuição para o PIS/Pasep Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Em se tratando de tributação reflexa, no que couber, deve ser observado o que for decidido para o Auto de Infração principal, uma vez que todas as exigências tiveram o mesmo suporte fático. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. Correta a aplicação da multa de ofício qualificada de 150% quando restar evidenciado nos autos a prática de sonegação. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado em rejeitar as preliminares de nulidade suscitadas por unanimidade de votos e, no mérito, o seguinte: (i) por unanimidade de votos, (i.1) em dar parcial provimento ao recurso voluntário do contribuinte, apenas para afastar a tributação referente aos depósitos de 22/05/2014, 26/06/2014 e 18/07/2014, no valor total de R$ 280.234,00, e depósito de 22/05/2014, no total de R$ 69.000,00, em nome de Eliseu Pereira de Sousa e Odilon Martins Neto, e reduzir a multa qualificada de 150% para 100%, dada a Fl. 5290DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 2 retroatividade benigna de lei, medidas que aproveitam aos responsáveis solidários mantidos no polo passivo, e (i.2) em negar provimento ao recurso voluntário de PAULO FERRAMENTA DA SILVA, confirmando sua sujeição passiva; (ii) por voto de qualidade, em negar provimento aos recursos voluntários de EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ e de ANTENOR GERALDO FERRAZ, confirmando as responsabilidades solidárias a eles imputadas – vencidos os Conselheiros Cristiane Pires McNaughton, Gustavo Schneider Fossati e Gabriel Campelo de Carvalho, que afastavam as responsabilidades; e (iii) por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário de MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ, para afastar a responsabilidade solidária a si atribuída – vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa (Relator), que negava provimento, mantendo, com isso, a responsabilidade. Designado o Conselheiro Gustavo Schneider Fossati para redigir o voto vencedor quanto ao afastamento da responsabilidade solidária de MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ. Assinado Digitalmente Lizandro Rodrigues de Sousa – Relator Assinado Digitalmente Gustavo Schneider Fossati – Redator do voto vencedor Assinado Digitalmente Fernado Beltcher da Silva – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Lizandro Rodrigues de Sousa, Cristiane Pires Mcnaughton, Cassiano Romulo Soares, Gustavo Schneider Fossati, Gabriel Campelo de Carvalho, Fernando Beltcher da Silva (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de recursos voluntários contra acórdão da DRJ que confirmou o lançamento de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, do ano-calendário 2014, em nome de EFX LOGÍSTICA IMPORTAÇÃO, EXPORTAÇÃO E COMÉRCIO INTERNACIONAL LTDA e dos responsáveis solidários. Assim dispôs o Relatório da decisão recorrida: Trata o presente processo de Autos de Infração por meio dos quais foram formalizados lançamentos de ofício relativos ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica – IRPJ, no valor de R$ 7.212.468,06 (sete milhões, duzentos e doze mil, quatrocentos e sessenta e oito reais e seis centavos), à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, no valor de R$ 2.173.400,35 (dois milhões, cento e setenta e três mil, quatrocentos reais e trinta e cinco centavos), à Contribuição para o Programa de Integração Social – PIS/PASEP, no valor de R$ 488.858,74 (quatrocentos e oitenta e oito mil, oitocentos e cinquenta e oito reais e setenta e quatro centavos) e à Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – Cofins, no valor de R$ 2.256.271,33 (dois milhões, duzentos e cinquenta e seis reais, Fl. 5291DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 3 duzentos e setenta e um reais e trinta e três centavos), acrescidos da multa de ofício qualificada, no percentual de 150% (cento e cinquenta por cento) e dos juros de mora. De acordo com a “Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal” do Auto de Infração referente ao IRPJ (fls. 5 e 6), em relação aos quatro períodos de apuração trimestral, ocorridos no ano-calendário de 2014, foi efetuado o arbitramento do lucro da pessoa jurídica autuada, tendo em vista que a contribuinte, sujeita à tributação com base no Lucro Real, não possui escrituração na forma das leis comerciais e fiscais. Enquadramento Legal: Art. 530, inciso I, do Regulamento do Imposto de Renda – RIR/1999. A receita que serviu de base para a determinação do Lucro Arbitrado é constituída por: 1) Receitas omitidas, apuradas com base em presunção legal, representadas por valores creditados em contas de depósito ou de investimento mantidas junto a instituições financeiras, em relação aos quais a contribuinte, regularmente intimada, não comprovou, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações, conforme relatório fiscal em anexo. Enquadramento Legal: Art. 3º da Lei nº 9.249 de 1995 e Art. 42 da Lei nº 9.430 de 1996 c/c art. 537 do RIR/99. 2) Receita bruta na revenda de mercadorias, levantada conforme relatório fiscal em anexo. Enquadramento Legal: Art. 3º da Lei nº 9.249, de 1995 e Art. 532 do RIR/1999. Os Autos de Infração referentes à CSLL (fls. 18/32), ao PIS (fls. 34/42) e à Cofins (fls. 44/52) são decorrentes dos fatos que ensejaram o lançamento principal relativo ao IRPJ. Foi atribuída Responsabilidade Solidária por Excesso de Poderes, Infração de Lei, Contrato Social ou Estatuto, pelo crédito tributário exigido, às seguintes pessoas físicas, e com as motivações assim descritas pelo autuante: PAULO FERRAMENTA DA SILVA: CPF 035.232.377-93 Motivação: Agiu com excesso de poderes ao assinar fichas cadastrais de bancos com informações falsas. Foi omisso quanto à escrituração contábil e fiscal da empresa. Mesmo tendo conhecimento da farta movimentação bancária deixou de declarar e recolher tributos devidos ao fisco. Declarou que a empresa estava INATIVA, mesmo tendo operado normalmente, conforme detalhes no Relatório Fiscal. EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ: CPF 088.150.068-26 Motivação: Agiu com excesso de poderes ao assinar diversos documentos como se sócio de direito fosse no ano de 2014. Na verdade, foi sócio de fato. Tornou-se sócio administrador em 26/12/2016 conforme dados do Cadastro do CNPJ. Foi omisso quanto à escrituração contábil e fiscal da empresa. Mesmo tendo conhecimento da farta movimentação bancária deixou de declarar e recolher tributos devidos ao fisco. Declarou a empresa como INATIVA mesmo sabendo das operações normais conforme detalhes no Relatório Fiscal. MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ: CPF 213.466.658-77 Motivação: sujeição passiva decorrente de formação de grupo econômico familiar, conforme detalhes no Relatório Fiscal. ANTENOR GERALDO FERRAZ: CPF 068.867.108-00 Motivação: sujeição passiva decorrente de formação de grupo econômico familiar, conforme detalhes no Relatório Fiscal. Fl. 5292DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 4 No Relatório Fiscal (fls. 56/184) encontra-se detalhado todo o procedimento fiscal e expostos os fundamentos fáticos e jurídicos que ensejaram a autuação, importando destacar o conteúdo dos tópicos 17 a 20, em que está relatado o seguinte: 17. DA AUTUAÇÃO O sujeito passivo teve, em 2014, movimentação financeira a débito e a crédito, conforme indicado na tabela a seguir, e declarou como INATIVA. Portanto, sem escrita contábil e fiscal. Intimado a comprovar o motivo dos depósitos bancários, o sujeito passivo não conseguiu justificar todos. Os detalhes das intimações e as respectivas respostas podem ser vistas nos seguintes tópicos, deste Relatório Fiscal: 5.DO TERMO DE INTIMAÇÃO FISCAL N° 1 e N° 2 6.DO TERMO DE INTIMAÇÃO FISCAL N° 3 7.DO TERMO DE INTIMAÇÃO FISCAL N° 4 Como não houve justificativa para a maioria dos depósitos e não tendo escrita contábil e fiscal, foram selecionadas as pessoas físicas depositantes na conta da fiscalizada, cujo valor total dos depósitos por pessoa foi igual ou superior de R$50.000,00. Estas pessoas físicas foram intimadas a justificar o motivo dos depósitos. Os detalhes destas intimações e as respectivas respostas estão no tópico n° "9. DAS INTIMAÇÕES DE PESSOAS FÍSICAS DEPOSITANTES NA CONTA DA EFX LOGÍSTICA", deste Relatório Fiscal. Da mesma forma, foram selecionadas as pessoas jurídicas depositantes, cujo valor total do depósito por pessoa jurídica foi igual ou superior a R$2.000.000,00. Estas pessoas jurídicas foram intimadas e os detalhes das intimações encontram-se no tópico n° 10. DAS INTIMAÇÕES DE PESSOAS JURÍDICAS DEPOSITANTES NA CONTA DA EFX LOGÍSTICA, deste Relatório Fiscal. Após o recebimento das respostas das intimações, os dados foram compilados e encontram- se no seguinte documento/arquivo ("A0197-TIF-04-ANEXO-039-DOC-038-EXTRATO- BANCARIO.zip"). Este arquivo contém várias planilhas sendo a principal a de nome "DOC-01", sobre a qual são feitos alguns comentários: çamentos bancários e colunas de "A" a pelos bancos; – destinada ao sujeito passivo para justificar o motivo dos depósitos bancários; – destinada ao Auditor-Fiscal para justificar e classificar os depósitos. Fl. 5293DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 5 Após a classificação dos depósitos e usando a técnica da tabela dinâmica do aplicativo Excel, foi possível construir as planilhas denominadas de "T1" a "T16" e "DOC-02" a "DOC-03". Estas planilhas são resumos de dados a partir de "DOC-01". Do total de depósitos efetuados na conta da empresa EFX LOGÍSTICA eles estão assim classificados: O conceito de depósito tributável aqui empregado foi aquele depósito que mais se identificou com a atividade principal da empresa que é a de assessoria e serviços complementares de comércio exterior. Foram incluídos como tributáveis os depósitos que no extrato bancário não há um CNPJ ou CPF do depositante a ele vinculado. Estes são os autênticos depósitos de origem não comprovada. Em uma análise da planilha "DOC-01", pode-se observar que de acordo com a resposta dada pelo intimado a classificação pode ter sido mudada para não tributável. É o caso de algumas intimações em que o terceiro intimado respondeu que o depósito foi destinado ao pagamento de compra de caminhão da EFX LOGÍSTICA. Nestes casos a classificação foi de "Venda de Bens Patrimoniais", portanto, não tributável. Seguem na mesma linha os depósitos referentes a pagamentos de mútuo. A única forma de tributar a empresa é fazendo o arbitramento do seu lucro. Isto se justifica pelo fato de ter ela declarado como INATIVA e não possuir qualquer forma de escrituração. A emissão de notas fiscais está muito aquém da sua movimentação bancária. Neste caso admitiu-se que as receitas decorrentes de vendas por notas fiscais, e os seus respectivos recebimentos, estão incluídos na movimentação bancária. Mais adiante, serão demonstrados os valores relativos a depósitos bancários de origem não comprovada como base de apuração do IRPJ/CSLL e o reflexo em PIS/COFINS, bem como a Receita Bruta conhecida (Vendas por Notas Fiscais) base de cálculo do IRPJ/CSLL/PIS/COFINS. Feitas estas observações, precisou-se dar um enquadramento jurídico para uma situação real ocorrida. O amparo legal é da Lei n° 9.430/96 (transcreve). Neste caso específico, têm-se depósitos de origem comprovada com CPF e CNPJ identificados no extrato bancário dos respectivos depositantes, bem como o motivo, mas a empresa não contabilizou, portanto, trata-se de Receita Omitida; Têm-se depósitos de origem não comprovada (ausência de CPF/CNPJ do depositante no extrato bancário), portanto, Receita Omitida; Fl. 5294DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 6 Têm-se depósitos com origem comprovada, CPF e CNPJ do depositante identificado no extrato bancário, mas não há comprovação do motivo dos depósitos, portanto, Receita Omitida. Feitas as observações, reproduz-se a tabela com os depósitos classificados como omissão de receita: Foi constatado que a empresa age como interposta pessoa, em decorrência de constar em seus extratos bancários débitos expressivos destinados a fechamento de câmbio (remessa ao exterior). Contratos de câmbio acostados nos autos têm como motivação "Pagamento de Frete Aéreo". Acontece que por meio de pesquisa no SISCOMEX não foram apurados dados de importação para a EFX LOGÍSTICA. O fechamento de câmbio se justifica se houver um motivo que seja compatível com a sua finalidade. Como isto não ocorreu com a fiscalizada, o entendimento da Fiscalização é que a empresa está angariando de diversas fontes de pessoas físicas e jurídicas recursos, via depósitos bancários em sua conta corrente, para em seguida usá-los na aquisição de moeda estrangeira, via contrato de câmbio, conforme indicado de forma sintética na tabela a seguir: Fl. 5295DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 7 A tabela acima indica que a empresa gastou R$145.486.696,74 para fechar câmbio. Estes valores foram debitados em suas contas bancárias, conforme extratos. A fonte de recursos para bancar estas despesas não foi justificada, quer pela fiscalizada ou quer por terceiros quando intimados a justificar os depósitos efetuados a favor da EFX LOGÍSTICA. Os detalhes das intimações das pessoas físicas e jurídicas, bem como as respectivas respostas, estão nos seguintes tópicos deste Relatório Fiscal: 9. DAS INTIMAÇÕES DE PESSOAS FÍSICAS DEPOSITANTES NA CONTA DA EFX LOGÍSTICA; 10. DAS INTIMAÇÕES DE PESSOAS JURÍDICAS DEPOSITANTES NA CONTA DA EFX LOGÍSTICA Após a compilação das respostas das intimações no documento/arquivo “A0197-TIF-04- ANEXO-039-DOC-038-EXTRATO-BANCARIO.XLS” Planilha “DOC-01”, foi criada a planilha “T12”, cuja finalidade é demonstrar como as pessoas jurídicas responderam às intimações a elas encaminhadas e como foram considerados os depósitos após respostas das intimações. Ao final, 479 de 510 (93,9%) dos lançamentos foram classificados como tributáveis quer por falta de documentos que dessem respaldo aos depósitos bancários, ou por não ter encontrado a PJ ou o responsável pelo CNPJ, ou por respostas inconsistentes. Em termos de valor isto corresponde a R$144.793.608,39, que é aproximadamente o valor gasto com fechamento de câmbio que foi de R$145.486.696,74. Além dos Termos de Intimações destinados às pessoas jurídicas depositantes na conta da EFX Logística foi elaborado mini DOSSIÊ dessas empresas tendo como finalidade demonstrar a falta de estrutura econômica e inconsistência ao comparar algumas variáveis como: Receita Bruta incompatível com os depósitos efetuados; Movimentação Financeira incompatível com a receita declarada; ausência de importação e de exportação, quando estas ocorrem são quase sempre em valores incompatíveis com os depósitos efetuados. Os DOSSIES serão inseridos no processo de Auto de Infração com o seguinte nome de documento/arquivo DOSSIE-01-CNPJ.PDF, em que: Fl. 5296DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 8 -BÁSICO da empresa à qual o dossiê pertence. A tabela a seguir indica a relação de Dossiês – Situação Cadastral: (Fonte Cadastro do CNPJ) CNPJ básico da empresa depositante; "Ativa"); LES; – Indícios da empresa depositante: vor da EFX LOGÍSTICA; -se ao valor da receita declarada em 2014; -se ao total de saídas (débitos) das contas bancárias mantidas pela empresa; -se aos depósitos (Créditos) em contas bancárias mantidas pela empresa; -se ao valor anual de exportação da empresa; -se ao valor anual de importação da empresa; Fl. 5297DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 9 – Lista de RPF em nome do depositante: Tem como finalidade saber se há procedimento fiscal em andamento ou encerrado); – Situação do Responsável Pelo CNPJ: Lista as principais variáveis relativas à pessoa responsável pelo CNPJ. A intenção do DOSSIÊ é demonstrar inconsistência ou incompatibilidade entre o total depositado e a capacidade financeira do depositante de efetuá-lo. No primeiro Dossiê já foi observada profunda incompatibilidade, pois a empresa depositou R$25.000.696,50; Receita Bruta = 0; Compras e Vendas = 0; Movimentação Financeira a Crédito = R$123.267.885,34. Indaga-se, como pode uma empresa depositar R$25.000,696,50 a favor da EFX LOGÍSTICA sem ter efetuado vendas no ano de 2014? Tudo leva a crer que está agindo como interposta pessoa para ocultar o verdadeiro interessado nestes depósitos. A EFX LOGÍSTICA que é objeto desta fiscalização recebe estes depósitos e os usa como fonte de recursos para fechamento de contrato de câmbio para pagamento de frete sobre importação (remessa ao exterior), sem, contudo, ter efetuado ou comprovado quaisquer importações em seu nome. Isto prova que está havendo formação de quadrilha (vários depositantes) para remessa irregular de divisas ao exterior, via contrato de câmbio com aparência de legalidade. Para maiores detalhes sobre as empresas depositantes ler o seguinte tópico deste Relatório Fiscal: "10. DAS INTIMAÇÕES DE PESSOAS JURÍDICAS DEPOSITANTES NA CONTA DA EFX LOGÍSTICA" Para corroborar as afirmações anteriores, foi produzido o quadro abaixo que demonstra a quantidade de pessoas físicas, jurídicas e não identificadas, bem como o valor por elas depositados na conta da EFX LOGÍSTICA, no ano de 2014. Entretanto, não foi possível encontrar o verdadeiro interessado no fechamento de câmbio. Não pode ser a EFX LOGÍSTICA, pois esta não realizou importação em 2014, nem os depositantes intimados, pois como ficou patente em suas respostas, trata-se, em boa parte dos casos, de empresas interpostas. Intimada conforme Termo de Intimação Fiscal n° 4, a informar quais as empresas interessadas no fechamento de câmbio a EFX LOGÍSTICA respondeu que eram três empresas a seguir relacionadas: – MAXTEL LIGHTING EIRELI -EPP - CNPJ: 21.039.807/0001-08; – MAXTEL TECNOLOGIA LTDA - CNPJ: 03.174.269/0001-82; – MAXTEL – COMÉRCIO DE MATERIAIS DE COMUNICAÇÃO LTDA – EPP Fl. 5298DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 10 O Termo de Intimação Fiscal n° 4 está no documento/arquivo: "A0158-TIF-04-ANEXO- 00.PDF" A resposta da EFX LOGÍSTICA ao Termo de Intimação Fiscal n° 4 está no documento/arquivo: "A0198-TIF-04-ANEXO-040-DOC-039 EMPRESAS RESP DEP CAMBIO.PDF" Através do documento/arquivo "AO690-TiF-00360-ANExo-01.pdf f a MAXTEL TECNOLOGIA LTDA -EPP foi intimada a informar à Fiscalização se houve relacionamento comercial com a EFX LOGÍSTICA. Através do documento/arquivo: "A0692-TIF-00360-ANEXO-03- RESPOSTA-TIF-00360.PDF" respondeu que nunca houve relação comercial com a EFX LOGÍSTICA. Através do documento/arquivo "AO693-TiF-0036i-ANExo-01.pdf r a MAXTEL- COMERCIO DE MATERIAIS DE COMUNICAÇÃO LTDA - EPP foi intimada a informar se houve relacionamento comercial com a EFX LOGÍSTICA. Através do documento/arquivo "A0695-TIF-0036I-ANEXO-03-RESPOSTA.PDF" respondeu que nunca houve relacionamento comercial com a EFX LOGÍSTICA. Através do documento/arquivo "A0696-TiF-00362-ANExo-0i.pdf r a MAXTEL LIGHTING EIRELI -EPP foi intimada a informar se houve relacionamento comercial com a EFX LOGÍSTICA. Através do documento/arquivo "A0698-TIF-00362-ANEXO-03- RESPOSTA.PDF", respondeu que sim. Houve compras conforme notas fiscais eletrônicas de emissão da EFX LOGÍSTICA relacionadas na tabela a seguir: Embora a MAXTEL LIGHTING EIRELI – EPP confirme a existência de relação comercial, conforme notas fiscais da tabela acima, esta se deu no ano de 2017, portanto fora do escopo desta ação fiscal. Com base nas respostas obtidas, das três empresas intimadas, verificou-se que não houve relação comercial com a EFX LOGÍSTICA no ano de 2014, portanto estas empresas não podem ser vinculadas aos contratos de câmbio contratados pela EFX LOGÍSTICA no ano de 2014. Ademais, o valor da Receita Bruta declarada e a movimentação financeira das três empresas, de acordo com os dados disponíveis nos sistemas da Receita Federal são muito inferiores ao total de câmbio fechado pela EFX LOGÍSTICA, que foi de R$145.486.696,74. A comprovação dos valores remetidos ao exterior está nos extratos bancários analisados. Para corroborar os dados do fechamento de câmbio, foram anexados ao processo, arquivos em formato não paginável, ou seja, cópia de contratos de câmbio entregues pela EFX LOGÍSTICA referentes aos bancos: "BIC/BANCO" e "BANIF". Estes documentos/arquivos estão assim denominados: – A0711-TIF-06-DOC-06-CD-CONTRATOS-CAMBIO-BANIF.zip – A0712-TIF-06-DOC-07-CD-CONTRATOS-CAMBIO-CCB.zip Fl. 5299DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 11 Para facilitar a análise foram relacionados em planilhas 876 contratos de câmbio e salvo no documento/arquivo: A0724-CONTRATOS-CAMBIO.zip Este arquivo contém três planilhas sendo: – CAMBIO: Relação dos contratos de câmbio; -PAISES: Total de contratos por países destinatários; -BENEFICIÁRIOS: Total de contratos por beneficiários A quantidade constante das planilhas não representa a totalidade dos contratos, pois a Fiscalização não recebeu todos os contratos de câmbio, mas constitui-se em uma amostra mais do que significativa para dar respaldo às remessas ao exterior via débitos em conta corrente da EFX LOGÍSTICA. Considerando a impossibilidade de definir o(s) real(ais) interessado(s) no fechamento de câmbio, bem como a causa dos depósitos efetuados por diversas pessoas jurídicas e físicas que dariam respaldo ao fechamento de câmbio em nome da EFX LOGÍSTICA, eliminou-se da base tributável o total de despesas relacionadas aos débitos com câmbio nos extratos bancários. O fundamento legal para esta exclusão é o artigo 42 § 5° da Lei n° 9.430/96, in verbis: § 5° Quando provado que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento. (Redação dada pela Lei n° 10.637, de 2002) No presente caso como não foi possível definir o(s) terceiro(s), portanto, sem possibilidade de tributação. Isto posto, será feita representação fiscal de crime contra o sistema financeiro nacional, tendo como representada a EFX LOGÍSTICA, em decorrência da violação dos seguintes dispositivos legais: EVASÃO DE DIVISAS A tentativa de ocultar os ordenantes das operações de câmbio pode configurar crime contra o sistema financeiro, conforme art. 21 da Lei nº 7.492, de 16 de junho de 1986: Art. 21. Atribuir-se, ou atribuir a terceiro, falsa identidade, para realização de operação de câmbio: Pena - Detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, para o mesmo fim, sonega informação que devia prestar ou presta informação falsa. Para visualizar a relação de pessoas físicas e jurídicas que depositaram na conta da EFX LOGÍSTICA, sugere-se consultar o seguinte documento/arquivo: "A0197-TIF-04-ANEXO-039-DOC-038-EXTRATO-BANCARIO.ZIP", "T15" O fato de excluir da tributação o valor relativo a depósitos que dariam respaldo como fonte de recursos para que a EFX LOGÍSTICA fechasse Câmbio em seu nome, não exime o Fisco de efetuar a tributação deste valor, no caso de prosseguimento das investigações, seguida de sucesso na identificação do(s) verdadeiro(s) beneficiário(s), o lançamento deverá ser efetuado. Feitas as considerações acima, a base tributável segue demonstrada na tabela a seguir: Fl. 5300DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 12 Fontes: 1) “T16” do arquivo: “A0197-TIF-04-ANEXO-039-DOC-038-EXTRATO- BANCARIO.ZIP” 2) “T1” do arquivo: “A0197-TIF-05-ANEXO-04-RESPOSTA-TIF-05.xls” 3) “A0760-MAD-01-NF-SAIDA-EFX.zip” Observações sobre os valores da tabela acima: Fl. 5301DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 13 – Coluna 1: Refere-se aos valores dos extratos bancários dos bancos que entregaram em meio magnético no formato da carta circular do Banco Central. Fonte: (1); – Coluna 2: Extrato Bancário da CICREDI fora do padrão da carta circular do Bancen. Fonte: (2); – Coluna 3: Soma da coluna (1) e (2); – Coluna 4: Valor Excluído Referente a Contrato de Câmbio. Fonte: (1); – Coluna 5: Coluna (3) – (4); – Coluna 6: Valor referente a venda por Notas Fiscais. Tributada como Lucro Arbitrado com os seguintes coeficientes de arbitramento: IRPJ: 9,6%; CSLL: 12% (Sem reflexo para Pis/Cofins); – Coluna 7: Coluna (5) – (6). Tributada como Lucro Arbitrado referente a “Depósitos Bancários de Origem Não Comprovada” tendo os seguintes coeficientes de arbitramento: IRPJ: 38,4%; CSLL: 32%, com reflexo em PIS/COFINS. Fonte: (1) – Coluna 8: Exportação Por Notas Fiscais. Valor isento de PIS/COFINS. Fonte: (3); – Coluna 9: Coluna (6) – (8). Base de Cálculo de PIS/COFINS (Venda no Mercado Interno). Fonte: (3). Processados os dados acima, foram gerados os seguintes Auto de Infração: Multa Qualificada: Foi aplicada multa qualificada de 150% pelos seguintes motivos: Prática de sonegação: A empresa teve expressiva movimentação financeira e declarou como INATIVA. Prestou serviços como ela própria assume em resposta aos termos de intimações fiscais. Em sua Ficha Cadastral junto à Caixa Econômica Federal declarou que a sua Receita Bruta Anual foi de R$49.031.785,00. Na Ficha Cadastral do BIC/BANCO informou que tem 20 (vinte) funcionários, mas não entregou GFIP. Sua sede está dentro de um galpão com amplo espaço para armazenar ou estocar mercadorias. Além disso, a empresa tem uma página na internet de causar inveja a qualquer concorrente. Nestas condições, a empresa deveria ter cumprido as obrigações acessórias (Entrega de DIRPJ/DCTF/GFIP, escrituração Fiscal: EFD-CONTRIBUIÇÕES e ECF) e principal (pagamento dos tributos). Nada disso foi feito. Isto prova que houve intenção de ocultar a apuração da base de cálculo dos tributos e esquivar-se dos pagamentos. A empresa parece que está operando em paraíso fiscal, pois o seu histórico indica vários anos apresentando declaração do IRPJ como INATIVA e apenas no ano-calendário de 2013 é que entregou DIRPJ LUCRO PRESUMIDO, assim mesmo com Receita Bruta zerada, como pode ser visto nas Telas coladas nos itens seguintes. A conduta da empresa está tipificada nos seguintes atos legais: Fl. 5302DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 14 Lei 4.502/1964. Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Lei nº 4.729/1965 Art 1º Constitui crime de sonegação fiscal: I - prestar declaração falsa ou omitir, total ou parcialmente, informação que deva ser produzida a agentes das pessoas jurídicas de direito público interno, com a intenção de eximir-se, total ou parcialmente, do pagamento de tributos, taxas e quaisquer adicionais devidos por lei; II - inserir elementos inexatos ou omitir, rendimentos ou operações de qualquer natureza em documentos ou livros exigidos pelas leis fiscais, com a intenção de exonerar-se do pagamento de tributos devidos à Fazenda Pública; III - alterar faturas e quaisquer documentos relativos a operações mercantis com o propósito de fraudar a Fazenda Pública; IV - fornecer ou emitir documentos graciosos ou alterar despesas, majorando-as, com o objetivo de obter dedução de tributos devidos à Fazenda Pública, sem prejuízo das sanções administrativas cabíveis. V - Exigir, pagar ou receber, para si ou para o contribuinte beneficiário da paga, qualquer percentagem sobre a parcela dedutível ou deduzida do impôsto sobre a renda como incentivo fiscal. (Incluído pela Lei nº 5.569, de 1969) Pena: Detenção, de seis meses a dois anos, e multa de duas a cinco vezes o valor do tributo. Lei nº 9.430/96 artigo 44, I, § 1º. (Base legal da Multa de Ofício). Comportamento irregular quanto ao cumprimento de obrigações acessórias. Vejamos como a empresa declarou IRPJ nos últimos anos: Exercícios 2016 e subsequentes: Não transmitiu dados ao SPED. Com relação ao exercício de 2014 a empresa declarou como lucro presumido, porém com receita zero para todos os trimestres. As telas extraídas de consultas aos sistemas informatizados da Secretaria da Receita Federal do Brasil – RFB (apresentadas no Relatório Fiscal) indicam o comportamento da empresa quanto ao cumprimento de: entrega de Declarações de IRPJ: FONTE: HOD-CNPJ (fls. 176/177); Movimentação Financeira: Fonte DIMOF (fl. 177); DCTF AC-2014 (fl. 177); ausência de transmissão de GFIP para o ano de 2014 (fl. 178). Também são apresentadas telas com imagens do site da empresa na internet (fl. 179). As empresas do grupo têm comportamento similar ao da EFX LOGÍSTICA veja os dados abaixo: Fl. 5303DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 15 – COMERCIAL E TRANSPORTADORA BÚFALO LTDA – FERRAZPORT COM IMP EXP E LOG INT LOGIMPEX LOG IMP E EXP LTDA Os prints de telas extraídas dos sistemas da RFB (constantes do Relatório Fiscal, às fl. 180 e 181 do processo), indicam que somente a empresa Búfalo entregou DIPJ até o ano- calendário de 2013, assim mesmo com receita zerada. Conclusão da Multa Qualificada: Os dados acima não deixam dúvidas de que os administradores agiram no sentido de ocultar do fisco as informações necessárias para apuração dos tributos devidos. O auto de infração ora lavrado só foi possível com uso de fontes externas, repassadas pelas instituições financeiras, via DIMOF. Não cumpriram o disposto no art. 147 do CTN, in verbis: Art. 147. O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiro, quando um ou outro, na forma da legislação tributária, presta à autoridade administrativa informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efetivação. A empresa sob fiscalização deixou de cumprir do disposto no artigo 147 do CTN e demais normas da Receita Federal do Brasil quanto ao cumprimento de obrigações acessórias, por isso dificultou o conhecimento do Fisco quanto aos fatos geradores de tributos a que estava sujeita. Diante do exposto, entendeu-se que houve prática de sonegação, portanto sujeita à aplicação da multa qualificada de e 150%. 18. DA SUJEIÇÃO PASSIVA Em razão da constatação de grupo econômico familiar, conforme tópico 16 deste Relatório Fiscal, serão arrolados como responsáveis solidários as seguintes pessoas: Na presente fiscalização, o contribuinte principal é a EFX LOGÍSTICA e a sua responsabilidade decorre do disposto no artigo 121 do CTN (transcreve). Fl. 5304DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 16 Já a sujeição passiva solidária, na presente fiscalização decorre do disposto no artigo 135 do CTN (transcreve). De fato, os sócios da empresa EFX LOGÍSTICA e das demais empresas do grupo agiram com excesso de poder ao praticar crimes de sonegação, crimes contra o sistema financeiro nacional, crime contra a ordem tributária, ou melhor, agiram com infração de lei. A caracterização delituosa está mais detalhada nos seguintes tópicos deste Relatório Fiscal: 16. DA CARACTERIZAÇÃO DE GRUPO ECONÔMICO FAMILIAR; e 17. DA AUTUAÇÃO. Com relação ao crime contra o sistema tributário nacional a sua tipificação decorre de práticas de remessa ao exterior de divisas, via contrato de câmbio, tendo como finalidade pagamento de frete aéreo, sem que a contratante, EFX LOGÍSTICA, tenha feito importação de mercadorias, pelo menos em seu nome. Em decorrência será feita Representação Fiscal para Fins Penais, conforme tópico 20 deste Relatório Fiscal. 19. DO ARROLAMENTO DE BENS E DIREITOS Tendo em vista o disposto no artigo 2º da Instrução Normativa nº 1.565/2011 da Receita Federal do Brasil (transcreve) e considerando que na presente fiscalização o sujeito passivo enquadra-se nos dois incisos do referido artigo, pois o valor do crédito tributário constituído excede a dois milhões de reais e a 30% do patrimônio dos devedores principal e solidário, foram abertos os seguintes processo de Arrolamento de Bens e Direito. Observação: Não foi aberto processo de arrolamento de bens em nome do Sr. Antenor Lopez Ferraz em virtude de ausência de bens em seu nome. 20. DAS REPRESENTAÇÕES FISCAIS Crime Contra Ordem Tributária O sujeito passivo e solidários incorreram em práticas, que em tese, caracterizam de crimes contra a ordem tributária por isso foi aberto o processo nº 15983.720265/2017-35 de Representação Fiscal Para Fins Penais, o qual será encaminhado ao Ministério Público Federal, caso não haja pagamento e nem impugnação dos créditos tributários decorrentes desta fiscalização. Crime Contra Sistema Financeiro Tendo em vista que o sujeito passivo, principal e solidários, incorreram em práticas que, em tese, configuram crimes contra o Sistema Financeiro, bem como lavagem de dinheiro, foi aberto o Processo nº 15983.720.266/2017- 80 de Representação Fiscal Para Fins Penais, o qual deverá ser encaminhado ao Ministério Publico Federal independentemente do desfecho dos processos de Auto de Infração decorrente desta fiscalização. A contribuinte e os sujeitos passivos solidários, por seus procuradores, apresentaram impugnação aos lançamentos (fls. 4.979/5.022), em que, após digressão fática do procedimento fiscal, apresentam os seguintes argumentos: DAS PRELIMINARES Da ausência de motivo do AIIM Preliminarmente, arguem não ter havido o motivo que ensejou a lavratura do Auto de Infração, qual seja, a omissão de receita, pois os valores Fl. 5305DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 17 depositados em sua conta, por clientes ou por terceiros a pedido de clientes, foram utilizados para realização de importação/exportação a pedido de terceiros e, em assim sendo, não há que se falar em omissão de rendimentos. Portanto, o Auto de Infração é nulo, conforme doutrina e jurisprudência judicial e administrativa acerca da nulidade de atos administrativos por falta de motivação, que transcreve. Requer a nulidade do Auto de Infração, considerando que, por todo o exposto em sua impugnação, é de se verificar que o ato administrativo deve conter tanto o motivo quanto a motivação, baseados em premissas verdadeiras, pois, além de ferir o direito de defesa do contribuinte, o lançamento baseado em premissas falsas, como é o caso do presente Auto de Infração, gera vício material insanável. DO MÉRITO Da não incidência do Imposto de Renda sobre depósitos bancários que não se agregam ao patrimônio do contribuinte. Ressalta que a hipótese de incidência do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica é a obtenção de renda e proventos de qualquer natureza conforme disposto no artigo 43, I e II do CTN, desde que este acréscimo patrimonial se incorpore ao patrimônio do contribuinte (reproduz doutrina sobre esse tema). Da doutrina que transcreveu, depreende que nem todo depósito bancário significa obtenção de renda e de proventos de qualquer natureza que agrega ao patrimônio do contribuinte, portanto, não se pode tributar o que não é efetivamente renda (acréscimo patrimonial que se incorpora ao patrimônio do contribuinte), como no caso dos depósitos bancários que, por si só, não podem ser considerados renda sem os demais elementos de configuração do seu efetivo conceito. Acrescenta que, não se pode perder de vista que são diversas as possibilidades de valores movimentados nas contas correntes que não caracterizam rendimentos tributáveis, desta forma, para a validade da presunção, a Fazenda Pública deverá procurar outros elementos probatórios de que se trata de disponibilidade de riqueza nova, ou seja, de renda ou proventos de qualquer natureza, o que não ocorreu no presente caso, pois, o Auditor Fiscal apenas efetuou o lançamento do IRPJ sobre os valores dos depósitos que considerou não comprovados/justificados, sem ter constatado que aqueles valores configuraram acréscimo patrimonial da Impugnante. Segue argumentando que a Receita Federal do Brasil tem hoje acesso a informações privilegiadas dos contribuintes que, na opinião de muitos juristas, são obtidas de forma ilegal e inconstitucional, em especial os dados conseguidos com instituições financeiras, que incluem as movimentações bancárias. E que, além dessa prática de quebra de sigilo bancário ser questionável, tanto nos termos da Constituição Federal como no que dispõe a Lei Complementar nº 105, de 2001, que em seu art. 10 prevê o sigilo das instituições financeiras sobre as operações ativas e passivas e os serviços prestados, a Secretaria da Receita Federal abusa dessa presunção legal, na lavratura de autos de infrações. Entende que a simples falta de escrituração e declaração dos depósitos bancários, por si só, não é suficiente para que sejam presumidas as omissões de receitas. Desta forma, somente os depósitos bancários não constituem fato gerador do imposto de renda, pois não caracterizam disponibilidade econômica de rendas e proventos. O lançamento que tem como base unicamente os depósitos bancários só é admissível quando ficar comprovado o nexo causal entre o depósito e o fato que representa omissão de rendimento. Transcreve a planilha elaborada pelo Auditor Fiscal, discriminando os depósitos reputados tributáveis, após intimar as pessoas físicas e jurídicas a prestarem esclarecimentos acerca dos depósitos efetuados nas contas da Impugnante, e entende que os motivos pelos quais o Auditor Fiscal considerou como tributáveis os depósitos realizados, tanto pelas pessoas Fl. 5306DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 18 físicas quanto jurídicas, não são suficientes para comprovar que os referidos valores acresceram efetivamente o patrimônio da Impugnante, pois, a presunção legal não elide o dever por parte do Fisco de apresentar provas contundentes para que não restem dúvidas quanto a incidência tributária do IRPJ. A título de exemplo, diz ter verificado que os depositantes Srs. Eliseu Pereira de Sousa e Odilon Martins Neto (constantes da mencionada planilha) justificaram claramente que os recursos depositados na conta da Impugnante foram destinados à aquisição de medicamentos no exterior, portanto, não seriam passíveis de incidência de imposto de renda, e mesmo assim o Fisco os considerou como tributáveis. Destaca que, em resposta ao termo de intimação n°4 a Impugnante alegou que o montante dos depósitos referente àquele termo, foi realizado pelas empresas do Grupo Maxtel para realização de câmbio, mas, ao serem intimadas as empresas alegaram não ter relação comercial com a Impugnante no período fiscalizado e, desta forma, os valores foram considerados como tributáveis. Alega que não poderia o Auditor Fiscal se basear somente nas meras repostas das empresas intimadas. Deste modo, a fiscalização deveria ter percorrido outros caminhos para apresentação de provas mais contundentes a fim de considerar os valores como tributáveis. Argui que de acordo com a norma jurídica contida no art. 142 do CTN, a fiscalização tem que percorrer todo o caminho para verificar qual o fato jurídico tributário que realmente o contribuinte realizou, utilizar todos os esforços e meios possíveis para apurar a materialidade da tributação. Nessa linha de pensamento, a presunção legal é adotada como técnica de lançamento indiciário que, somente junto com outros elementos, comprovam que os créditos bancários injustificados, de fato e de direito, representam efetivamente a receita omitida à tributação. Aponta que, o relatório fiscal consignou a eliminação, da base tributável, do total de despesas relacionadas aos débitos com câmbio nos extratos bancários, com fundamento legal para esta exclusão no artigo 42 § 5° da Lei n° 9.430, de 1996. Ou seja, quando os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada naquele na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento. Conclui restar evidente, portanto, que as despesas de câmbio não são passíveis de incidência do imposto de renda da pessoa jurídica, uma vez que se referem à saída de recursos que não acresceram o patrimônio da Impugnante. Desta forma, os demais valores depositados por terceiros com finalidade de realizar contrato câmbio, também, não devem ser tributados, pois não representam acréscimo patrimonial. Salienta que a simples presunção legal de que os depósitos constituem renda tributável não é suficiente para que seja comprovado o acréscimo patrimonial. Entende que, diante da realidade antes aludida, pode o contribuinte, licitamente, alegar que os valores movimentados em contas correntes provêm de empréstimos obtidos com pessoas interessadas com o destino da empresa ou até para realização de câmbio, capitais estes que, pela origem, não são rendimentos e, portanto, não são tributáveis. Argui que, entre o fato conhecido e o fato desconhecido deve haver uma correlação segura e direta, não podendo haver dúvidas sobre a materialização dessa correlação, sob pena desse artifício legal resultar indevido por absoluta inadequação do conceito jurídico escolhido para sua concreção. Vale dizer, nem sempre o volume de depósitos injustificado leva ao rendimento omitido correlato. Fl. 5307DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 19 Diz que a movimentação bancária não corporifica fato gerador do Imposto de Renda. Em uma linguagem econômica, depósito bancário é estoque e não fluxo, e não sendo fluxo não tipifica renda. Juridicamente, só o fluxo tem a conotação de acréscimo patrimonial. Reproduz ementa de acórdão do então Conselho de Contribuintes, publicada no DOU de 13.09.2000, no sentido de que “...o lançamento baseado em depósitos bancários só é admissível quando ficar comprovado o nexo causal entre o depósito e o fato que representa omissão de rendimento”. Pontua que qualquer tentativa de imputar à impugnante o ônus de demonstrar que não incidiu em alguma das hipóteses de incidência do tributo equivaleria a impor-lhe a produção de prova sobre fato negativo, o que é rechaçado pela mais alta instância do poder judiciário brasileiro. Transcreve ementa assim intitulada: "Processual civil. Execução fiscal. Ônus da prova. Fato negativo. Ausência de notificação do devedor no procedimento administrativo embasado da extração dos títulos executivos. Nulidade. Presunção de liquidez e certeza da CDA afastada. Ausência de intimação pessoal da fazenda”. Conclui que, qualquer que seja a espécie de presunção (legal ou simples), é descabido falar- se em inversão ou eliminação do ônus da prova. Diante de presunção legal, impõe-se à autoridade tributária comprovar a relação causal predisposta em lei, ou seja, incumbia ao Fisco comprovar que os valores objeto do presente Auto de Infração constituem hipótese de incidência do IRPJ (renda e proventos de qualquer natureza entendidos com acréscimo patrimonial que se incorporaram de fato ao patrimônio do contribuinte), o que não ocorreu no presente caso. DA CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE LUCRO LÍQUIDO Após algumas considerações tecidas acerca da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, depreende ser possível afirmar que, tanto no regime do lucro real quanto do lucro presumido, não ocorrendo o fato gerador dessa contribuição, descartada estará a incidência da Lei n° 7.689, de 1988 que a instituiu. Em assim sendo, se a empresa não auferir receita, não há que se falar em lucro. Reafirma que, no caso em tela, os valores depositados por clientes ou por terceiros a pedido de clientes, nas contas da empresa, foram efetuados para realização de câmbio com o objetivo de importar mercadorias do exterior a pedido de terceiros, em assim sendo, os referidos montantes se referem a despesas de câmbio e não receitas, portanto, não ocorreu obtenção de lucro sobre esses depósitos pela empresa Impugnante. Logo, não havendo lucro, cuja existência é o fato gerador da contribuição social sobre o lucro, não há que se falar em hipótese de incidência dessa contribuição social. DO PIS E DA COFINS Transcreve dispositivos legais que tratam da base de cálculo do PIS e da Cofins, tece comentários sobre as alterações sofridas pela mencionada legislação e verifica que o fato gerador para incidência do PIS e da COFINS é o faturamento, assim entendido a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica. Prossegue, concluindo que, em assim sendo, no presente caso, não há que se falar sobre a incidência do PIS e da COFINS, pois, como já acima demonstrado os depósitos realizados na conta da Impugnante foram efetuados para realização de câmbio, com o objetivo de importar mercadorias do exterior a pedido de terceiros, os referidos montantes se referem a despesas de câmbio e não a obtenção de receita, desde modo, não ocorreu o fato gerador para incidência do PIS e da COF1NS. DOS SÓCIOS SOLIDÁRIOS – PAULO FERRAMENTA DA SILVA – EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ – ANTENOR GERALDO FERRAZ E MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ Fl. 5308DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 20 Argui que as alegações do Auditor-Fiscal em relação aos sócios solidários não merecem acolhimento. Sustenta que a acusação fiscal, que considera errônea, de que o Sr. Eduardo seria sócio de fato da empresa, na medida em que supostamente teria exercido a gerência da empresa no ano de 2014, baseia-se em alguns documentos apresentados e suposições fáticas sem qualquer respaldo, não sendo suficientes as alegações trazidas à baila para que os sócios supostamente solidários sejam incluídos na sujeição passiva do presente AIIM. E, por mais que tente, em vão, o contexto probatório que o Auditor dignou-se em apresentar não possui o condão de ensejar a sujeição passiva ao Sr. Eduardo, de tal sorte que tais alegações devem ser rechaçadas. Alega ter entendido o Auditor que supostamente os responsáveis declinados teriam incorrido no quanto disposto no artigo 135, do CTN. Porém, para que a cobrança do crédito da empresa autuada seja redirecionada para a pessoa de seus diretores, gerentes ou representantes legais, há de serem observados determinados pressupostos. Diz que tal informação merece destaque, haja vista que inúmeros termos de sujeição passiva são lavrados sem a devida comprovação da sua atuação, especificamente no que concerne a eventual excesso de poderes ou infração à lei, estatutos ou contrato social. E, no entanto, essa prática acaba por mitigar o direito de defesa das referidas pessoas. Pondera que, numa interpretação do artigo 135 do CTN, é notório que não é sempre que a pessoa física poderá ser responsabilizada pelos débitos da empresa (pessoa jurídica). E que a jurisprudência é pacífica no sentido de que a simples ausência de pagamento dos tributos não é suficiente para denotar infração à lei, bem como a contratos sociais e/ou estatutos, de tal sorte que se faz necessário provar que a pessoa tenha sido beneficiada com a aludida inadimplência. Assevera que caberia tão somente ao Fisco a demonstração da prática dos supostos atos infracionais. E que, a autoridade fiscal, ao indicar as pessoas como responsáveis solidárias no âmbito do processo administrativo, deveria apurar a real conduta culposa ou dolosa por parte daqueles na prática de atos com excesso de poderes ou infração à lei ou ao estatuto social, única possibilidade a ensejar a responsabilidade solidária dos sócios administradores ou ainda do representante legal. Pontua que qualquer tentativa de imputar ao responsável solidário o ônus de demonstrar que não incidiu em alguma das hipóteses de sua responsabilização equivaleria a Prossegue, arguindo que deveria pautar-se o Fisco na busca da verdade material, devendo valer-se dos meios de prova para atingir tal fim, para, somente após, realizar a lavratura de autos de infração, com a consequente indicação dos eventuais atos infracionais, pois é dever do Fisco motivar todos os seus atos administrativos praticados, cuja vinculação possui origem na Constituição Federal, como corolário dos magnos princípios da legalidade e da tipicidade. Reprisa que a bem da verdade, a não observância do dever jurídico de motivar os atos administrativos, em outras palavras, a tentativa de responsabilizar terceiros (como no presente AIIM) sem prova cabal do quanto alegado, resulta na declaração de nulidade do aludido termo. Frisa que é cediço que todo lançamento de ofício ou AIIM contém motivação (ocorrência do fato imponível), consoante o artigo 114 do Código Tributário Nacional. Ademais, necessariamente deve conter a motivação, que nada mais é do que a justificativa plausível, ou seja, a demonstração inequívoca da ocorrência do fato. Desta forma, não há espaço para presunções. Fl. 5309DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 21 Logo, entende que, no presente feito, a mera hipótese de lavratura de termo de sujeição passiva solidária em desfavor das pessoas supramencionadas, desprovidas de provas cabais das infrações alegadas, faz com que o suporte fático da autuação inexista, por carência de motivação. Com a inexistência de provas de que os gestores/diretores agiram com fraude, dolo ou simulação, contrários à lei ou ao contrato social, não há que se falar em sua responsabilização. Afirma que os atuais julgados do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais — CARF, vem, reiteradamente, não admitindo a responsabilização dos sócios sem provas contundentes para justificar o aludido redirecionamento, valendo-se do fundamento de que se não restar comprovada a sua vinculação com o fato gerador da obrigação tributária, inaplicável a responsabilização tributária (artigo 128, do Código Tributário Nacional). E, que entende também o CARF que não se aplica o quanto disposto no artigo 135, inciso III do mesmo diploma legal, se o Fisco não comprovar, de forma estreme de dúvidas, que a obrigação tributária decorre de ato praticado por sócios com excesso de poderes / infração à lei, estatuto e contrato social. Assim, alega que a fiscalização deveria ter se pautado em constituir o fato jurídico tributário relativo ao interesse comum entre a pessoa jurídica e seus sócios administradores. Ou mesmo, ter demonstrado a previsão legal em que os nomes incluídos como responsáveis tributários, simplesmente pelo fato de serem administradores ou pelo fato de supostamente constituírem grupo familiar, poderiam responder pelo crédito tributário devido pela empresa EFX Logística Importação, Exportação e Comércio Internacional Ltda (traz jurisprudência sobre responsabilidade solidária de sócios administradores). Pondera, que o artigo 135 do CTN, versa acerca da responsabilidade pessoal e exclusiva, de tal sorte que, ao ser utilizado como motivação para justificar a exigência do crédito perante terceiros, não poderia subsistir a exigência fiscal em desfavor do contribuinte. Em outros dizeres, não se permite a exigência da satisfação do crédito tributário perante a empresa e, simultaneamente, de seu administrador, com fulcro no artigo 135, inciso III, do CTN, vez que o referido comando legal possui aplicação quando o dirigente atua em benefício próprio, contrários aos da pessoa jurídica que representa legalmente. Argui que, como já pacificado em nossos Tribunais, as figuras da pessoa jurídica e de seus sócios ou dirigentes são distintas e inconfundíveis, de forma que o patrimônio pessoal destes últimos não pode ser atingido coativamente para saldar dívidas da empresa, senão nas hipóteses previstas, em caráter de exceção que, repita-se, não foram verificadas no processo administrativo. DA NÃO CARACTERIZAÇÃO DO GRUPO FAMILIAR Afirma que é apontada a existência de grupo econômico familiar no tópico 16 do Auto de Infração, entretanto, no presente caso estariam ausentes as provas de que há confusão patrimonial das empresas aludidas, isto porque as atividades comerciais são desenvolvidas em endereços diferentes, não possuem o mesmo nome fantasia e sequer mesmo objeto social. E, ainda que atuassem no mesmo ramo de atividade, do conjunto probatório colacionado ao relatório fiscal, é impossível constatar que houve alteração da estrutura da empresa EFX, bem como transferência dos negócios de uma empresa para a outra. Salienta que a mera alegação de parentesco existente entre os sócios não tem o condão de caracterizar confusão patrimonial, inexistindo disposição legal neste sentido. Ademais, faz- se necessária a comprovação por parte do Fisco da colaboração mútua na busca de um resultado comum entre as empresas. Assim sendo, considera que a documentação que acompanha o relatório fiscal não é suficiente, até o presente momento, para comprovar o desvio de finalidade ou a confusão Fl. 5310DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 22 patrimonial entre as empresas, razão pela qual não deve prosperar a alegação de estar caracterizado grupo familiar e a confusão patrimonial. DA EVASÃO DE DIVISAS Ressalta que, em relação à evasão de divisas, o Auditor-Fiscal deu capitulação errada ao suposto crime que alega, isso porque o crime de evasão de divisas está tipificado no artigo 22 da Lei n° 7.492, de 16 de junho de 1986 (quando a pessoa física ou jurídica deveria declarar no ajuste anual e a injeção de valores poderia constituir receita, que é, em princípio, tributável). E, posta assim a questão, é de se dizer que o art. 21 da Lei n° 7.492, de 16 de junho de 1986, mencionado no relatório fiscal, trata de Crimes de "Lavagem" ou Ocultação de Bens, Direitos ou Valores. Segue, entendendo que, ultrapassada esta questão, no caso em apreço, não houve utilização de sistema bancário paralelo concebido por terceiros, bem como não houve sonegações de informações que deveria prestar. O próprio regulamento do mercado de capitais não permite o registro do contrato de câmbio por parte de pessoa física ou jurídica que não se enquadre no conceito de agente autorizado, nas hipóteses expressamente previstas. Acrescenta que, ainda que estivesse capitulado e justificado corretamente sobre o crime de evasão de divisas, este não foi cometido porque não houve injeção de valores que constituíram receita e nem logrou-se provar de forma cabal que tais valores agregaram ao patrimônio do contribuinte, tudo fora fundamentado em meras alegações. DA ILEGALIDADE DAS MULTAS IMPOSTAS Sustenta que não assiste razão, mais uma vez, ao Auditor Fiscal, quanto à aplicação das multas, haja vista que as porcentagens aplicadas ferem os princípios do não confisco, da capacidade contributiva, da razoabilidade e da proporcionalidade, além do fato de o Contribuinte ter atendido à fiscalização com extremo zelo. Aduz que, no caso em tela, é de se constatar a boa-fé do Impugnante, que apresentou toda a documentação que possuía para comprovar a escrituração dos depósitos bancários nos respectivos livros. Verifica que não houve intenção deliberada de fraudar a apuração do imposto supostamente devido, portanto, a multa aplicada não é condizente com a conduta do Impugnante. Acrescenta que, para configuração de sonegação fiscal, faz-se necessário que o contribuinte atue com a intenção de fraudar o Fisco, e a simples não escrituração de depósitos bancários ou o não pagamento do imposto não configura sonegação fiscal. No presente caso não restou comprovado que a intenção do ora Impugnante era de fraudar o Fisco, bem como não houve provas de que todos os depósitos realizados na conta corrente da Impugnante configuram de fato acréscimo patrimonial, portanto, a aplicação da multa de oficio qualificada é abusiva. Reclama que o percentual de 150% de multa aplicada pela suposta omissão de Receita fere os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade que apesar de serem instrumentos de limitação do Poder Estatal, sua aplicação está claramente adstrita ao excesso de poder cometido pelo Fisco. Diz ainda, que, os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade são instrumentos jurídicos de controle de tributo com efeito confiscatório alcançando também as normas sancionatórias, pois, as sanções devem guardar proporção com a infração cometida, e não podem ir além sob o risco de causar CONFISCO, o que ocorreu no caso em tela, pois as multas aplicadas somam um total de R$18.196,497,63 (dezoito milhões, cento e noventa e seis mil, quatrocentos e noventa e sete reais e sessenta e três centavos), ou seja, corresponde Fl. 5311DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 23 a 184,23 % do valor do imposto supostamente devido (transcreve o art. 150, inciso IV, da Constituição Federal e também doutrina sobre o princípio da proporcionalidade. Assevera que não se pode falar que a vedação à atividade confiscatória da Administração Pública aplica-se tão somente ao valor principal do tributo, não exercendo função sobre a multa, visto o caráter sancionatório dessa última. E, não pode a UNIÃO escusar-se no artigo 150 da Constituição Federal, alegando que tal dispositivo somente diz respeito ao tributo em si, não envolvendo a multa cominada. Com base em trechos de decisões judiciais, que determinam a redução de percentual de multa aplicada, afirma a Impugnante não ser possível permitir que o Fisco arrogue o direito de exigir multa que não encontra parâmetros com a situação econômica que o País atravessa, nem com o contexto social hoje visualizado, devendo ser afastada. Conclui que, no presente caso a multa aplicada não pode prevalecer, quer seja em razão da sua desproporcionalidade com a infração supostamente praticada, quer seja pelo seu caráter confiscatório. DOS PEDIDOS Por todo o exposto, a Impugnante pleiteia que seja acolhida a presente Impugnação, com a qual requer o acolhimento das preliminares apontadas, com a consequente declaração de nulidade do presente Auto de Infração. E caso não seja este o posicionamento deste órgão julgador, a Impugnante requer a desconstituição do Auto de Infração lavrado, pelas razões expostas acerca do mérito da questão. Requer, outrossim, enquanto perdure a discussão administrativa que a Fazenda Nacional abstenha-se de quaisquer procedimentos de cobrança, em decorrência da suspensão da exigibilidade do mesmo por força do quanto disposto no artigo 151, inciso III, do CTN. Caso seja necessária a realização de instrução probatória para a comprovação do quanto ora alegado, a Impugnante requer a produção de todos os tipos de prova em direito admitidos, inclusive as provas documentais ora juntadas. Protesta, ademais, no momento oportuno, pela realização de sustentação oral. Acórdão da DRJ (e-fls. e ss, n. 15-45.497 - 2ª Turma da DRJ/SDR) confirmou os autos de infração e atestou como acertadas as responsabilidades tributárias atribuídas. Assim dispôs em ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2014 NULIDADE. Descabe a arguição de nulidade nos casos em que os Autos de Infração foram lavrados por autoridade fiscal competente e que o procedimento fiscal foi realizado em total consonância com a legislação vigente. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2014 OMISSÃO DE RECEITAS. CRÉDITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. Fl. 5312DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 24 Caracterizam-se omissão de receitas os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimada, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. LANÇAMENTOS DECORRENTES. Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido - CSLL Contribuição para o PIS/Pasep Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Em se tratando de tributação reflexa, no que couber, deve ser observado o que for decidido para o Auto de Infração principal, uma vez que todas as exigências tiveram o mesmo suporte fático. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. Correta a aplicação da multa de ofício qualificada de 150% quando restar evidenciado nos autos a prática de sonegação. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2014 ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. A apreciação de questionamentos relacionados a ilegalidade e inconstitucionalidade da legislação tributária não é de competência da autoridade administrativa, sendo exclusiva do Poder Judiciário. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. COMPROVAÇÃO DE OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA DECORRENTE DA PRÁTICA DE ATOS COM EXCESSO DE PODERES E INFRAÇÃO DE LEI. Comprovado que os sócios de fato e de direito que administravam a pessoa jurídica praticaram atos dolosos com intenção de ocultar do Fisco a ocorrência do fato gerador e/ou de impedir ou retardar o conhecimento da autoridade fiscal sobre a sua ocorrência, conclui- se pela manutenção da responsabilidade solidária. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM. São solidariamente responsáveis pelo crédito tributário as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, incluindo-se na hipótese a confusão patrimonial entre o sujeito passivo solidário e a devedora principal. Cientificados, os sujeitos passivos apresentaram recurso voluntário em que repetem seus fundamentos trazidos nas respectivas impugnações. SUJEITO PASSIVO: ELX PAULO FERRAMENTA EDUARDO FERRAZ ANTENOR GERALDO MARIA DEL DATA CIÊNCIA AC 06/12/2018 14/12/2018 14/12/2018 11/01/2019 14/12/2018 E-FL CIÊNCIA AC: 5145 5146 5149 5152 5150 MEIO CAIXA P AR/POSTAL AR/POSTAL EDITAL AR/POSTAL DATA REC VOL: 03/01/2019 03/01/2019 03/01/2019 14/01/2019 14/01/2019 E-FL. RV: 5150 5173 5173 5254 5225 Os recursos voluntários também trazem pontos em comum, como a afirmação de que os valores que foram depositados nas contas correntes não integraram o patrimônio do titular, vez que teriam sido depositados por terceiros licitamente para realização de câmbio; ou que o Fisco Fl. 5313DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 25 incluiu como tributável os depósitos que o extrato bancário não identificou o CNPJ ou o CPF do depositante, sem ao menos verificar se esses valores se incorporaram ao patrimônio da Recorrente. Destaco do recurso voluntário apresentado pela ELX Logística(e-fls. 5150 e ss): - o Fisco não pode esquivar-se de se pronunciar sobre as alegações realizadas pela Recorrente em sede de Impugnação, acerca da afronta aos princípios constitucionais, pois, desta maneira fere o direito ao contraditório e a ampla defesa. - o motivo pelo qual o presente Auto de Infração foi lavrado, qual seja, omissão de receitas, não ocorreu, desta maneira não houve a subsunção do fato a norma, pois os valores que foram depositados nas contas correntes da ora Recorrente, não integraram seu patrimônio, vez que foram depositados por terceiros licitamente para realização de câmbio. - não merece acolhimento a alegação do Fisco de que a Recorrente por meio de simulação agiu como interposta pessoa a fim de ocultar os verdadeiros ordenantes das operações de câmbio, pois, todas as operações realizadas pela Recorrente foram efetuadas de forma lícita. - Os medicamentos importados pelos senhores Eliseu Pereira de Sousa e Odilon Martins Neto, são isentos de tributação, pois, ao contrário do que alega o Fisco os valores dos depósitos correspondem ao valor da medicação importada, portanto, não há que se falar em incidência do IRPJ e tributação reflexa. - Para configuração de grupo familiar faz-se necessária uma vasta dilação probatória sob o risco de colocar em risco o desenvolvimento da atividade empresarial da Recorrente. - Não merece acolhimento a alegação do Fisco de que as empresas EFX Logística, a Comercial e Transportadora Búfalo Ltda e Bull Express, por terem mesmo endereço e sócios configuram grupo familiar, pois, como já acima exposto, faz-se necessária a prova de que agiram com interesse comum entre as empresas, o que não restou devidamente comprovado nos presentes autos. - O fato de a empresa Recorrente ter efetuado depósito na conta as Sra. Daniela Ferramenta da Silva, irmã do Sr. Paulo Ferramenta e esposa do Sr. Eduardo Antenor, por si só, não configura confusão patrimonial, até porque sequer consta como sócia das empresas. - Ademais as transferências bancárias entre as empresas, unicamente, também não configuram a existência de grupo familiar, faz-se necessário a prova de que esses valores foram utilizados para obtenção de benefício comum entre as empresas. - Desta feita, a mera existência de identidade de sócios entre as empresas não configura a existência de grupo familiar, sendo necessário identificar se há outros indícios como a força de trabalho utilizada em benefício comum, o controle administrativo e financeiro entre as empresas, bem como a existência de atos gerenciais de uma empresa na outra, o que não restou devidamente comprovado nos presentes autos. Destaco do recurso voluntário apresentado por Paulo Ferramenta da Silva (e-fls. 5173 e ss): - não merece acolhimento a alegação do Fisco de que a empresa EFX, tendo como sócio solidário o ora Recorrente, por meio de simulação, agiu como interposta pessoa a fim de Fl. 5314DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 26 ocultar os verdadeiros ordenantes das operações de câmbio, pois, todas as operações realizadas foram efetuadas de forma lícita. - Segundo a fiscalização o Recorrente foi responsabilizado solidariamente por supostamente ter agido com excesso de poderes ao assinar fichas cadastrais de bancos com informações supostamente falsas, omissão na escrituração contábil e fiscal da empresa, deixou de declarar e recolher tributos ao fisco. Pois bem, a simples argumentação genérica e abstrata de que o Recorrente agiu com excesso de poderes não é capaz de atribuir responsabilidade ao sócio administrador. - a responsabilidade solidária nasce somente se o administrador agir intencionalmente, com o intuito de praticar a conduta típica, o que não ocorreu no presente caso, pois, em momento algum o Recorrente agiu com dolo, fraude ou simulação a fim de obter vantagens ilícitas em detrimento do Fisco. - Isto posto, é de se ressaltar que não basta a simples inadimplência no recolhimento de tributos, ou ausência de escrituração contábil ou preenchimentos de dados bancários com meros erros, o Fisco deve-se ater a fatos que comprovam a conduta com excesso de mandato ou infringência da lei com intenção dolosa. - Insta salientar, que nos temos do art. 135, III, do CTN, respondem pelo crédito tributário devido pela sociedade empresária limitada apenas os sócios que estejam na direção, gerência ou representação sociedade empresária limitada e tão somente quando pratiquem atos com excesso de poder ou infração à lei, contrato social ou estatutos. (Destaque no original). Destaco do recurso voluntário apresentado por Eduardo Antenor Lopez Ferraz (e-fls. 5173 e ss): - importante se faz esclarecer que à época dos fatos o Sr. Eduardo Antenor Lopez Ferraz sequer era sócio da empresa EFX, assim, impossível praticar atividade de gerência na sociedade, portanto, deve ser excluído e eximido de qualquer responsabilidade ou redírecionamento. - mesmo que na época fosse sócio administrador da empresa, o que se alega somente para fins de argumentação, não basta a simples inadimplência no recolhimento de tributos, deve-se ater a fatos que comprovam a conduta com excesso de mandato ou infringência da lei. Além disso, e o mais importante, é a análise do contrato social ou estatuto, constatando qual o sócio possui poder de gestão, bem como a divisão social das cotas. - Não merece acolhimento a alegação do Fisco de que as empresas EFX Logística e a Comercial e Transportadora Búfalo Ltda. e Bull Express, por terem mesmo endereço e sócios configuram grupo familiar, pois, como já acima exposto, faz-se necessária a prova de que agiram com interesse comum entre as empresas, o que não restou devidamente comprovado nos presentes autos. - O fato da empresa Recorrente ter efetuado depósito na conta as Sra. Daniela Ferramenta da Silva, irmã do Sr. Paulo Ferramenta e esposa do Sr. Eduardo Antenor, por si só, não configura confusão patrimonial, até porque sequer consta como sócia das empresas. Ademais as Fl. 5315DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 27 transferências bancárias entre as empresas, unicamente, também não configuram a existência de grupo familiar, faz-se necessário a prova de que esses valores foram utilizados para obtenção de benefício comum entre as empresas. É o relatório. VOTO VENCIDO Lizandro Rodrigues de Sousa - relator Os recursos são tempestivos. Cumpridas as demais condições de procedibilidade, deles tomo conhecimento. Trata-se de recursos voluntários contra acórdão da DRJ que confirmou os lançamentos de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, do ano-calendário 2014, em nome FX LOGÍSTICA IMPORTAÇÃO, EXPORTAÇÃO E COMÉRCIO INTERNACIONAL LTDA e dos responsáveis solidários PAULO FERRAMENTA DA SILVA, EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ, MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ e ANTENOR GERALDO FERRAZ. Os recursos voluntários também trazem pontos em comum que serão primeiro apreciados, como: a afirmação de que os valores que foram depositados nas contas correntes não integraram seu patrimônio, vez que teriam sido depositados por terceiros licitamente para realização de câmbio; que o Fisco incluiu como tributável os depósitos que o extrato bancário não identificou o CNPJ ou o CPF do depositante, sem ao menos verificar se esses valores se incorporaram ao patrimônio da Recorrente; o Fisco não pode esquivar-se de se pronunciar sobre as alegações realizadas pela Recorrente em sede de Impugnação, acerca da afronta aos princípios constitucionais, pois, desta maneira fere o direito ao contraditório e a ampla defesa; não merece acolhimento a alegação do Fisco de que a Recorrente por meio de simulação agiu como interposta pessoa a fim de ocultar os verdadeiros ordenantes das operações de câmbio, pois, todas as operações realizadas pela Recorrente foram efetuadas de forma lícita; os medicamentos importados pelos senhores Eliseu Pereira de Sousa e Odilon Martins Neto, são isentos de tributação, pois, ao contrário do que alega o Fisco os valores dos depósitos correspondem ao valor da medicação importada, portanto, não há que se falar em incidência do IRPJ e tributação reflexa; para configuração de grupo familiar faz-se necessária uma vasta dilação probatória sob o risco de colocar em risco o desenvolvimento da atividade empresarial da Recorrente. Os Recorrentes alegam que deve ser decretada a nulidade do auto de infração e do acórdão, haja vista flagrante desrespeito à Constituição Federal, cercearam o pleno exercício ao direito de defesa e do contraditório. No âmbito do processo administrativo fiscal são tidos como nulos os atos lavrados por pessoa incompetente ou com preterição do direito de defesa, nos termos do artigo 59 do Decreto nº 70.235 de 1972. Para serem considerados nulos os atos, termos e a decisão têm que ter sido Fl. 5316DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 28 lavrados por pessoa incompetente ou violar a ampla defesa do contribuinte. Ademais, a violação à ampla defesa deve sempre ser comprovada, ou ao menos existir fortes indícios do prejuízo sofrido pelo contribuinte. No presente caso, o auto de infração foi lavrado por autoridade competente (Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil), estão presentes os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal e contra os quais o contribuinte pôde exercer o contraditório e a ampla defesa. Também não houve qualquer cerceamento do direito de defesa, posto que a matéria está sendo rediscutida nos presentes recursos pelo contribuinte e pelas responsáveis solidárias, não havendo que se falar ainda em supressão de instâncias. O Relatório Fiscal detalha minuciosamente os fatos ocorridos durante a ação fiscal e que culminaram com o auto de infração ora combatido. Verifica-se que foram inúmeras as intimações expedidas ao contribuinte e diligências direcionadas a terceiros, solicitando documentos e esclarecimentos, já que a autuada não apresentou escrita contábil e fiscal para o ano de 2014. Depósitos Bancários não Justificados. A infração de omissão de rendimentos caracterizada por valores creditados nas contas de titularidade da contribuinte, decorreu do fato de, regularmente intimada, não ter comprovado mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Tal disposição está expressa no artigo 42 da Lei nº 9.430 de 27 de dezembro de 1996. Pertinente deixar consignado que a Lei nº 9.430 de 1996 revogou o § 5º do artigo 6º da Lei nº 8.021 de 12 de abril de 1990, abaixo reproduzido, que exigia a prévia demonstração de sinais exteriores de riqueza pelo agente fiscal para o lançamento de ofício com base na renda presumida decorrente de depósitos ou aplicações realizadas junto a instituições financeiras: Art. 6° O lançamento de ofício, além dos casos já especificados em lei, far-se-á arbitrando- se os rendimentos com base na renda presumida, mediante utilização dos sinais exteriores de riqueza. (...) § 5° O arbitramento poderá ainda ser efetuado com base em depósitos ou aplicações realizadas junto a instituições financeiras, quando o contribuinte não comprovar a origem dos recursos utilizados nessas operações. (...) Com o advento do artigo 42 da Lei nº 9.430 de 1996, o agente fazendário ficou dispensado de demonstrar, a partir dos fatos geradores do ano de 1997, a existência de sinais exteriores de riqueza ou acréscimo patrimonial incompatível com os rendimentos declarados pelo contribuinte. Os extratos bancários possuem força probatória, recaindo o ônus de comprovar a origem dos depósitos sobre o contribuinte, por meio de documentação hábil e idônea, sob pena de presumir-se rendimentos tributáveis omitidos em seu nome. Nessa linha de entendimento, o enunciado sumulado nº 26 deste Tribunal Administrativo: Súmula CARF nº 26: A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. Fl. 5317DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 29 Do exposto, por definição legal, a omissão de rendimentos caracterizada por valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações constitui- se em fato gerador do imposto de renda, nos termos do disposto no artigo 43 da Lei nº 5.172 de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional). Logo, não há qualquer ilegalidade a utilização de valores depositados em conta do contribuinte fiscalizado, quando regularmente intimado, deixa de comprovar a origem de tais recursos. Nos termos do § 3º do artigo 42 da Lei nº 9.430 de 1996, é ônus do contribuinte para elidir a tributação, a comprovação individualizada, mediante documentação hábil e idônea, da origem dos recursos depositados nas contas. O sujeito passivo foi devidamente intimado a apresentar todos os contratos de câmbio onde constaria, conforme alega, como comprador de moeda estrangeira para remessa ao exterior. Embora tenha atendido parcialmente ao solicitado, os contratos apresentados não corresponderam a todos os débitos registrados nos extratos bancários, razão pela qual considerou-se omissão de receitas para os depósitos para o qual não houve a apresentação de qualquer documento. Neste particular, além do óbice previsto na Súmula CARF nº 2 já reconhecido pela DRJ, a competência para avaliar questões de constitucionalidade não cabe ao CARF. Há forte indício de interposição de pessoas entre aquelas pessoas que figuram como compradoras de divisas estrangeiras, de formação de grupo irregular de empresas e de sonegação fiscal, já que a empresa teve expressiva movimentação financeira e declarou-se como INATIVA, razão pela qual justifica-se a qualificação da multa, apreciada a seguir. Os Recorrentes não trazem qualquer documento adicional ao já apresentados com as impugnações. Mas, entendo que uma conclusão dos autuantes deve ser revista. Trata-se do TIF- 00315 (Termo de Intimação Fiscal de Eliseu Pereira de Sousa) e TIF-00322 (Termo de Intimação Fiscal de Odilon Martins Neto (fls. 50 e 53, Item 9 do Relatório Fiscal), referente aos depósitos de 22/05/2014, 26/06/2014 e 18/07/2014, no valor total de R$ 280.234,00, e depósito de 22/05/2014, no total de R$ 69.000,00. No Relatório Fiscal os autuantes confirmam que : “o Sr. Elizeu Pereira de Sousa é patrono em uma ação judicial a favor da Sra Junia Hissa Neiva. O objeto da ação judicial foi obter autorização para importar medicamentos (Sovaldi e Olisyo). Nesta condição o Sr. Elizeu contratou os serviços de assessoria da EFX Logística para importar o referidos medicamentos.” (...) De acordo com a resposta acima, os depósitos objeto desta intimação teve como finalidade pagar serviço de assessoria contratado junto à empresa EFX Logística, para importar o medicamento “SOVALDI”, Comparando o valor total depositado nas contas da EFX Logística e o valor depositado em nome dos beneficiários das decisões judiciais, entendo que é mais provável que o Fl. 5318DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 30 valor depositado nas contas da EFX Logística, neste caso, destinava-se a gasto na compra de medicamento (não tributável), e não retribuição pela prestação de serviços (tributável, como entendeu a DRJ). Das responsabilidades solidárias A sujeição passiva solidária, foi imposta conforme o disposto no artigo 135 do CTN, in-verbis: Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I - as pessoas referidas no artigo anterior; II - os mandatários, prepostos e empregados; III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. (negritei). O Sr. PAULO FERRAMENTA DA SILVA era o administrador da pessoa jurídica ELX, o Sr. EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ era administrador de fato e os senhores ANTENOR GERALDO FERRAZ e MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ compunham ativamente o Grupo Familiar empresarial, responsável último pelos fatos geradores tributados nestes autos. De fato, os sócios da empresa EFX LOGÍSTICA e das demais empresas do grupo, agiram com excesso de poder ao praticar crimes de sonegação, crimes contra o sistema financeiro nacional, crime contra a ordem tributária, ou melhor, agiram com infração de lei. A caracterização delituosa está mais detalhada no Item 16 do Relatório Fiscal, em que destaco os seguintes pontos: Configuração de grupo familiar No item 16 do relatório Fiscal os autuantes trazem os fundamentos de que há profunda confusão patrimonial entre empresas do grupo familiar (EFX LOGISTICA IMPORTACAO, EXPORTACAO E COMERCIO; LOGIMPEX LOGISTICA IMPORTACAO E EXPORTACAO LT; FERRAZPORT COMERCIO IMPORTACAO, EXPORTACAO; EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ – ME; COMERCIAL E TRANSPORTADORA BUFALO LTDA – ME) na forma de sócios comum, endereços e atividades complementares, além da movimentação financeira entre as empresas, sem contabilização. Exemplifica com pagamentos feitos pela EFX LOGÍSTICA para Maria Del Carmem Lopez Ferraz, sendo esta proprietária do imóvel onde estão localizadas as empresas do grupo familiar (fl. 93/131) e transferências bancárias entre as empresas do grupo, como da LOGIMPEX depositando na conta da EFX LOGÍSTICA, sem registro contábil (e-fls. 94/131). Na análise das justificativas apresentadas aos depósitos bancários nota-se várias ocorrências que denotam que as empresas do grupo se comportam como um empreendimento único, apesar de formalmente independentes. Por exemplo, os trechos do Relatório Fiscal: Fl. 5319DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 31 DO TIF-00278 (Termo de Intimação Fiscal de SONIA SUELI PERES JOSE) A0322-TIF-00278-ANEXO-00-SONIA SUELI A0323-TIF-00278-ANEXO-01-Detalhes Depósitos A0324-TIF-00278-ANEXO-02-Ciencia-TIF-00278 A0325-TIF-00278-ANEXO-03-RESPOSTA-TIF-00278 Em atendimento do Termo de Intimação Fiscal a intimada assim respondeu: A resposta acima indica que há profunda confusão patrimonial entre empresas do grupo familiar. Os depósitos foram feitos na conta da EFX LOGÍSTICA tendo como justificativa o pagamento de aquisição de caminhões que estavam registrados na empresa COMERCIAL e TRANSPORTADORA BUFALO LTDA, sendo esta empresa de propriedade do pai do Sr. Eduardo Ferraz que é um dos sócios da (...) DO TIF-00334 (Termo de Intimação Fiscal de LOGIMPEX LOGISTICA IMPORTACAO E EXPORTACAO LTDA) A0582-TIF-00334-ANEXO-00-LOGIMPEX LOGISTICA.pdf A0583-TIF-00334-ANEXO-01-RelaçãoDepósitos.pdf A0584-TIF-00334-ANEXO-02-AR-CIENCIA-TIF-00334.PDF A0585-TIF-00334-ANEXO-03-RESPOSTA.PDF Em atendimento ao Termo de Intimação Fiscal (TIF-00334), assim respondeu o intimado: Fl. 5320DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 32 (...) DO TIF-00286 (Termo de Intimação Fiscal de HELEN LACERDA NUNES SOUZA) A0358-TIF-00286-ANEXO-00-HELEN LACERDA.pdf A0359-TIF-00286-ANEXO-01-DetalhesDeposito.pdf A0360-TIF-00286-ANEXO-02-AR.PDF A0361-TIF-00286-ANEXO-03-RESPOSTA-TIF-00286.PDF Em atendimento ao Termo de Intimação Fiscal a Senhora Helen Lacerda Nunes Souza, assim respondeu: (...) DO TIF-00305 (Termo de Intimação Fiscal de Saulo de Tarso Ventura Grijo) A0445-TIF-00305-ANEXO-00-SAULO TARSO.pdf A0446-TIF-00305-ANEXO-01-DetalhesDeposito.pdf A0447-TIF-00305-ANEXO-02-AR-CIENCIA-TIF.PDF A0448-TIF-00305-ANEXO-03-RESPOSTA-TIF-00305.PDF A0449-TIF-00305N2-ANEXO-00.pdf A0449-TIF-00305N2-ANEXO-00.pdf A0450-TIF-00305N2-ANEXO-01-AR-CIENCIA.PDF Fl. 5321DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 33 A0451-TIF-00305N2-ANEXO-02-RESPOSTA.PDF Em atendimento do Termo de Intimação Fiscal, o Sr. Saulo de Tarso Ventura Grijo assim respondeu: De acordo com a resposta acima, verifica-se outra confusão patrimonial. O intimado afirma que o depósito na conta da empresa EFX LOGÍSTICA foi para pagar sua conta de capital referente ao seu ingresso como sócio na empresa LOGIMPEX – LOGÍSTICA IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA. Neste caso o depósito deveria ocorrer a favor da LOGIMPEX ou de eventual sócio alienante de quotas de capital e não a favor da EFX LOGÍSTICA. Portanto, diante de todas as provas analisadas nesse processo, restou comprovado a existência de um grupo econômico que abusa da personalidade jurídica de suas empresas, transferindo valores indiscriminadamente, sem lastro fiscal, intragrupo, com intuito de pagar menos impostos e contribuições (OU NÃO PAGAR NADA), dentro de uma série de irregularidades mapeadas. A fiscalização atribuiu responsabilidade solidária, em razão da participação em operações com o grupo econômico de fato, apresentando interesse comum nos fatos geradores objeto do lançamento, na forma do artigo 124, I do CTN. As impugnantes contestaram a aplicação, pela fiscalização, do art. 124, I, do CTN, para respaldar a imputação de responsabilidade solidária, pois, segundo eles, o "interesse comum" teria que ser jurídico e não econômico e que só poderiam ser responsabilizadas Fl. 5322DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 34 pessoas que estão “do mesmo lado” na relação jurídica tributária, e não as que estão em “lados opostos” dessa relação. Eis o dispositivo legal: “Art. 124. São solidariamente obrigadas: I - as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; II – as pessoas expressamente designadas por lei. Parágrafo único. A solidariedade referida neste artigo não comporta benefício de ordem.” (negritei) O grupo econômico irregular decorre da unidade de direção e de operação das atividades empresariais de mais de uma pessoa jurídica, a qual demonstra a artificialidade da separação jurídica de personalidade; esse grupo irregular realiza indiretamente o fato gerador dos respectivos tributos e, portanto, seus integrantes possuem interesse comum para serem responsabilizados. Uma variável para a criação do grupo irregular é a corriqueira situação de confusão patrimonial com o intuito de fraude a credores, principalmente a Fazenda Nacional; seu objetivo é não só a manipulação da ocorrência dos fatos geradores futuros, mas também ocultar os reais sócios do empreendimento e/ou esvaziar o patrimônio referente ao passivo tributário. Os Recorrentes repetem os termos de suas impugnações, refutados com precisão pela Decisão de Primeira instância. Por concordar com seus termos, reproduzo a seguir como razão de decidir: A respeito das alegações de afronta aos diversos princípios constitucionais citados pela Impugnante, cabe salientar que a atividade administrativa é plenamente vinculada, devendo o julgador administrativo limitar seu pronunciamento à legalidade dos atos administrativos trazidos à sua apreciação, esgotando a sua competência em declarar se o ato administrativo questionado encontra, ou não, fundamento de validade na legislação de regência. Assim, estando o ato administrativo em análise em conformidade com a legislação de regência, estaria a impugnante a insurgir-se contra normas legais plenamente em vigor e, portanto, carecem as Delegacias de Julgamento da Receita Federal, no desempenho de suas funções, de competência para se pronunciar a respeito de conformidade de lei ou ato normativo com preceitos emanados da Constituição Federal, por ser matéria reservada exclusivamente ao Poder Judiciário. Com relação à doutrina e a jurisprudência citadas ou transcritas pela impugnante em sua defesa, registre-se que servem apenas como forma de ilustrar e reforçar sua argumentação, não vinculando a administração àquela interpretação, isto porque não têm eficácia normativa. Portanto, não cabe ao agente do Fisco deixar de aplicar a legislação tributária com base em entendimentos doutrinários contrários à legislação tributária ou com fulcro em decisões judiciais sem efeito erga omnes, em que o sujeito passivo não for parte do processo. Ademais, a simples leitura de acórdãos não permite uma vinculação imediata à situação em que se enquadra a situação concreta, dada as peculiaridades de cada caso, nem sempre evidenciadas pelas ementas transcritas. Fl. 5323DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 35 Da mesma forma, se utilizadas neste voto, as citações e transcrições jurisprudenciais ou doutrinárias terão como objetivo ilustrar e reforçar o posicionamento desta julgadora. DAS PRELIMINARES Preliminarmente, a impugnante argui a nulidade dos Autos de Infração por ausência de motivação. Afirma que o motivo que ensejou a lavratura do Auto de Infração não ocorreu, qual seja, a omissão de receita, uma vez que os valores depositados em sua conta, por clientes, ou terceiros a pedido de clientes, foram utilizados para realização de importação/exportação a pedido de terceiro. Assim, estaria o lançamento baseado em premissas falsas que, além de ferir o direito de defesa do contribuinte, geram vício material insanável. Sobre o assunto nulidade no processo administrativo fiscal, o artigo 59 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, dispõe textualmente que: Art. 59. São nulos; I – os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II – os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Só há, portanto, duas hipóteses de nulidade no processo administrativo fiscal, e entre elas não se acha a inobservância da verdade material dos fatos que supostamente afastariam a infração imputada. Na hipótese de o lançamento padecer de semelhante falha, deverá ser julgado improcedente, mas não nulo. A nulidade reserva-se para os vícios de natureza puramente processual elencados no art. 59, acima transcrito, enquanto a demonstração de que ocorreu ou não fato constitui matéria de mérito. Portanto, deve-se rejeitar o pedido de declaração de nulidade com base na alegação de inocorrência da infração apontada – omissão de receita. Contudo, a discussão da alegação é retomada adiante, neste voto, quando se julga o mérito do lançamento. Observe-se, também, que cerceamento do direito de defesa classifica-se como vício processual cujo cometimento pode levar à nulidade do ato. Não obstante, nem por isso cabe acatar a arguição da impugnante. É verdade que a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º, inciso LV, assegura o direito à ampla defesa aos litigantes em processo administrativo ou judicial. Note-se, porém, que o texto constitucional alude a litigante, e não meramente a investigado ou fiscalizado. Significa que antes de instaurado o litígio não se pode falar em cerceamento do direito de defesa. Isso porque o procedimento de fiscalização tem natureza inquisitiva. De acordo com o artigo 14 do Decreto nº 70.235, de 1972, no âmbito do processo administrativo fiscal, é a impugnação que instaura a fase litigiosa. Já o artigo 15 do mesmo decreto dispõe que a impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de 30 dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. Logo, é após a ciência do lançamento que se abre ao contribuinte a oportunidade de exercer o seu direito de defesa. Então, ele tem o prazo de trinta dias para ter vista do inteiro teor do processo e apresentar impugnação escrita, instruída com os documentos em que se fundamentar. Ressalte-se que nos Autos de Infração constantes do presente processo foram identificados os fatos geradores, delineadas as matérias tributáveis, calculados os montantes dos tributos devidos, identificados os sujeitos passivos, proposta a aplicação da penalidade cabível, com clara descrição dos fatos e enquadramento legal, abrindo-se o prazo legal para impugnação, com perfeita observância aos princípios constitucionais da legalidade e da ampla defesa e o do contraditório. Fl. 5324DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 36 A contribuinte teve acesso a todos os elementos constantes das peças de autuação, os quais permitiram identificar o fundamento da exigência fiscal, de forma que a autuada apresentou sua impugnação – no prazo de 30 (trinta) dias da data da ciência da exigência tributária, conforme preceitua o artigo 15 do mencionado Decreto – cujo teor demonstra amplo conhecimento da matéria tratada, exercendo plenamente o seu direito de defesa. Portanto, deve-se rejeitar arguição de nulidade. DO MÉRITO Passa-se à análise das arguições expostas na impugnação com o intuito de infirmar a omissão de receita apontada pela fiscalização, as quais são, basicamente, no sentido de que: somente os depósitos bancários não constituem fato gerador do imposto de renda, pois não caracterizam disponibilidade econômica de rendas e proventos; o lançamento que tem como base unicamente os depósitos bancários só é admissível quando ficar comprovado o nexo causal entre o depósito e o fato que representa omissão de rendimento; os motivos pelos quais o Auditor Fiscal considerou como tributáveis os depósitos realizados, tanto pelas pessoas físicas quanto jurídicas intimadas, não são suficientes para comprovar que os referidos valores acresceram efetivamente o patrimônio da Impugnante, pois, a presunção legal não elide o dever por parte do Fisco de apresentar provas contundentes para que não restem dúvidas quanto a incidência tributária do IRPJ, o que não teria ocorrido no presente caso; qualquer que seja a espécie de presunção (legal ou simples), é descabido falar-se em inversão ou eliminação do ônus da prova; o motivo que teria ensejado a lavratura do Auto de Infração não ocorreu, qual seja, a omissão de receita, pois os valores depositados em sua conta, por clientes, ou por terceiros a pedido de clientes, foram utilizados para realização de importação/exportação a pedido de terceiros e, em assim sendo, não há que se falar em omissão de rendimentos. Alega, ainda, ter comprovado que grande parte dos depósitos efetuados em sua conta foram utilizados para fechamento de contrato de câmbio com instituições financeiras devidamente autorizadas a operar em câmbio, o que se pode verificar pelos documentos acostados aos autos (A0116-TIF-02-ANEXO-05R1 BAN1F CAMBIO 124161026. PDF a A0150-TIF-02- MAD-01-NF-SAIDA-EFX.zip), tendo o Fisco excluído as despesas relativas aos contratos de câmbio por comprovarem por si sós, que os valores depositados na conta da Impugnante foram utilizados para compra de mercadoria no exterior, a pedido de terceiros, portanto, o mesmo entendimento deveria ter sido aplicado aos depósitos bancários efetuados na conta da Impugnante para realização de contrato de câmbio, pois, não são passíveis de incidência do IRPJ, uma vez que se referem a saída de recursos que não acresceram o patrimônio da impugnante. O lançamento com base em depósitos ou créditos bancários tem como fundamento legal o artigo 42 da lei 9.430 de 1996. A partir de sua entrada em vigor, estabeleceu-se uma presunção de omissão de rendimentos que autoriza o lançamento do imposto correspondente, sempre que o titular da conta bancária, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou de investimento. Art. 42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. § 1º. O valor das receitas ou dos rendimentos omitidos será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. Fl. 5325DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 37 § 2º. Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeter-se-ão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. § 3º. Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I – os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II -no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 1.000,00 (mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano-calendário, não ultrapasse o valor de R$ 12.000,00 (doze mil reais).(Vide Medida Provisória nº 1.563-7, de 1997)(Vide Lei nº 9.481, de 1997) §4º Tratando-se de pessoa física, os rendimentos omitidos serão tributados no mês em que considerados recebidos, com base na tabela progressiva vigente à época em que tenha sido efetuado o crédito pela instituição financeira. § 5º Quando provado que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento.(Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) § 6º Na hipótese de contas de depósito ou de investimento mantidas em conjunto, cuja declaração de rendimentos ou de informações dos titulares tenham sido apresentadas em separado, e não havendo comprovação da origem dos recursos nos termos deste artigo, o valor dos rendimentos ou receitas será imputado a cada titular mediante divisão entre o total dos rendimentos ou receitas pela quantidade de titulares.(Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) O Código Tributário Nacional define, em seus artigos 43, 44 e 45 o fato gerador, a base de cálculo e os contribuintes do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza. De acordo com o art. 44, a tributação do imposto de renda não se dá somente sobre rendimentos reais, mas, também, sobre rendimentos arbitrados ou presumidos: Art. 43 O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I - de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II - de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. Art. 44. A base de cálculo do imposto é o montante real, arbitrado ou presumido, da renda ou dos proventos tributáveis. (grifou-se) As presunções legais, também chamadas presunções jurídicas, dividem-se em absolutas (juris et jure) e relativas (juris tantum). Denomina-se presunção juris et jure aquela que, por expressa determinação de lei, não admite prova em contrário nem impugnação. Diz-se que a presunção é juris tantum, quando a norma legal é formulada de tal maneira que a verdade enunciada pode ser elidida pela prova de sua irrealidade. Conclui-se, por conseguinte, pela leitura dos textos normativos citados, que a presunção legal de renda, caracterizada por depósitos bancários, é do tipo juris tantum (relativa), ou seja, cabe ao contribuinte a comprovação da origem dos ingressos ocorridos em suas contas-correntes. Fl. 5326DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 38 No caso específico da presunção de omissão com base em depósitos bancários de origem não comprovada, é necessária a comprovação dos fatos-base indicados pela norma como requisitos para se concluir pela existência do fato presumido. Trata-se de uma construção lógica do legislador baseada em um juízo de verossimilhança, na medida em que ocorridos os pressupostos indiciários, há uma grande probabilidade de que o fato presumido seja real. A leitura do artigo 42, da Lei 9.430/96, que fundamenta a presunção, é clara e indica quais os fatos antecedentes que devem ser comprovados para que se chegue ao conseqüente que é a presunção de omissão de rendimentos. Como se trata de presunção legal e não de uma presunção simples, há necessidade de se refazer todo o caminho construído pelo legislador no processo presuntivo. É, portanto, função do Fisco, comprovar o crédito dos valores em contas de depósito ou de investimento, identificando cada um individualizadamente e, por fim, intimar o titular da conta a comprovar a origem dos recursos. Intimada, cabe a contribuinte, nos termos do disposto legal examinado, apresentar de documentação hábil e idônea que permita identificar a fonte do crédito, o valor, a data e, principalmente, que deixe clara a natureza do crédito. Há necessidade de se estabelecer uma relação biunívoca entre cada crédito em conta e a origem que se deseja comprovar, com coincidências de data e valor. É de se ver, como já analisado acima, que o ônus desta prova recai exclusivamente sobre a contribuinte, amparadas por provas hábeis, idôneas e robustas. Sobre a questão, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF aprovou a Súmula nº 26, DOU de 22/12/2009, com o seguinte enunciado: Súmula CARF nº 26. A presunção estabelecida no art. 42, da Lei 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem não comprovada. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é pacífica e consolida o entendimento de que Súmula 182 do extinto TFR não mais se aplica após a entrada em vigor do art. 42, da Lei 9.430/96. TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. ALEGAÇÕES GENÉRICAS DE OFENSA AO ART. 535 DO CPC. SÚMULA 284/STF. IMPOSTO DE RENDA. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. ART. 42 DA LEI 9.430/1996. LEGALIDADE. DECADÊNCIA. TERMO INICIAL. AUSÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. INCIDÊNCIA DO ART. 173, I, DO CTN. 1. Não se conhece da alegada ofensa ao art. 535 do CPC quando a parte se limita a apresentar alegações genéricas, sem demonstrar a razão pela qual a apreciação de determinados dispositivos legais seria obrigatória no âmbito do Tribunal a quo e sem explicitar a relevância deles para o deslinde da controvérsia. Aplicação analógica da Súmula 284/STF. 2. Não comprovado o pagamento antecipado do tributo, incide a regra do art. 173, I, do CTN, em detrimento do disposto no art. 150, § 4°, consoante orientação assentada em julgamento submetido ao rito do art. 543-C do CPC (REsp 973.733/SC, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Seção, DJe 18.9.2009). 3. A análise do inteiro teor do acórdão recorrido revela que a causa não foi decidida, sequer implicitamente, à luz dos arts. 332 do CPC e 6° da LINDB. A falta Fl. 5327DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 39 de prequestionamento impede o conhecimento do recurso quanto a esse ponto (Súmula 211/STJ). 4. A jurisprudência do STJ reconhece a legalidade do lançamento do imposto de renda com base no art. 42 da Lei 9.430/1996, tendo assentado que cabe ao contribuinte o ônus de comprovar a origem dos recursos a fim de ilidir a presunção de que se trata de renda omitida (AgRg no REsp 1.467.230/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 28.10.2014; AgRg no AREsp 81.279/MG, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 21.3.2012). (grifou-se) 5. Agravo Regimental não provido. (AgRg no AREsp 664675 / RN, Rel. Min. HERMAN BENJAMIN, DJe 21/05/2015). Trata-se, pois, de hipótese legal em que todos os seus requisitos estão definidos de forma expressa na Lei nº 9.430, de 1996, inexistindo, desta forma, motivação para discussões sobre os conceitos de “depósito bancário e renda” ou “nexo causal entre o depósito e a renda” ou “fato gerador e acréscimo patrimonial” ou que “os depósitos não são renda, lucro, rendimento ou receita”. Com a entrada em vigor do disposto no art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, não há mais lugar para essas discussões, uma vez que o legislador adotou a hipótese de que depósitos de origem não comprovada caracterizam-se como omissão de receitas, no momento do crédito, sendo que o montante desses depósitos configura-se como base de cálculo dos tributos. Esta foi a forma eleita pelo legislador, a qual só pode ser afastada pelo Poder Judiciário ou revogada pelo Poder Legislativo. Saliente-se, também, que as pessoas jurídicas quando submetidas ao Lucro Real devem manter obrigatoriamente escrituração com observância das leis comerciais e fiscais, devendo a escrituração abranger todas as operações do contribuinte (art. 251 do RIR/1999). Aquelas optantes pelo Lucro Presumido devem manter escrituração contábil nos termos da legislação comercial ou o Livro Caixa, no qual deverá estar escriturada toda a movimentação financeira, inclusive bancária (art. 527 do RIR/1999). Já as microempresas e empresas de pequeno porte optantes pelo Simples Nacional ficam obrigadas a manter o Livro Caixa em que será escriturada sua movimentação financeira e bancária (art. 26 da Lei Complementar nº 123 de 2006). Portanto, independentemente da forma de tributação a que estão submetidas, todas as pessoas jurídicas são legalmente obrigadas a manter escrituração de toda a sua movimentação financeira, inclusive bancária, assim como a conservar os comprovantes dos lançamentos escriturados até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos àqueles períodos de apuração (art. 264 do RIR/1999). No presente caso, em relação ao período autuado – ano-calendário de 2014 – a pessoa jurídica apresentou movimentação financeira na ordem de R$ 325.728.773,10, entregou, à Secretaria da Receita Federal do Brasil – RFB, declaração de INATIVA, encontrava-se omissa quanto à transmissão de Escrituração Contábil Fiscal – SPED-ECF e também omissa quanto à transmissão de Escrituração Fiscal Digital – SPED EFD-Contribuições. Durante o procedimento fiscal, a empresa foi intimada a apresentar os extratos bancários relativos à movimentação financeira do ano-calendário de 2014, e os apresentou, parcialmente e em papel. Devido à dificuldade de obter a totalidade dos extratos bancários, no formato estabelecido pela legislação de regência, estes foram requisitados às instituições financeiras, conforme detalhadamente descrito no Relatório Fiscal e documentado nos autos. De posse dos extratos das contas bancárias, a autoridade fiscal intimou e reintimou a contribuinte a justificar e comprovar, por meio da apresentação de documentos hábeis e Fl. 5328DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 40 idôneos, a origem e o motivo ou causa dos depósitos efetuados em suas contas-correntes, relacionados nos anexos aos Termos de Intimação Fiscal. Em atendimento aos Termos de Intimação Fiscal, foram entregues diversas notas fiscais de exportação e diversos contratos de câmbio, bem como planilhas com justificativas parciais das origens e motivos dos depósitos, conforme detalhadamente demonstrado pela Fiscalização. Diante da não comprovação para a maioria dos depósitos bancários e não tendo a contribuinte escrituração contábil e físcal, o autuante selecionou as pessoas físicas e jurídicas depositantes de valores totais superiores a R$50.000,00 e R$2.000.000,00, respectivamente, e as intimou para justificar a origem e o motivo dos depósitos efetuados nas contas bancárias da EFX LOGÍSTICA, mediante apresentação de documentos hábeis e idôneos. Após o recebimento das respostas das intimações e empregando o conceito de depósito tributável como aquele depósito que mais se identificou com a atividade principal da empresa, que é de assessoria e serviços complementares de comércio exterior, e incluindo também como tributáveis os depósitos que o extrato bancário não identifica o CPF ou CNPJ do depositante a ele vinculado, a autoridade fiscal verificou que do total dos depósitos bancários efetuados nas contas da contribuinte – R$325.728.773,10 – o valor de R$104.349.712,22 era não-tributável e o montante de R$221.379.060,88, tributável. Compõem o montante de R$104.349.712,22, considerado não-tributável, os lançamentos identificados como referentes a: Câmbio (estorno); devolução da compensação; empréstimos/financiamento; estornos; resgate de aplicação; transferência entre contas do mesmo titular; transferência interbancária (DOC, TED) do mesmo titular. O montante de R$221.379.060,88 reputado como tributável, refere-se a: depósitos com CPF e CNPJ do depositante identificados no extrato bancário bem como o motivo, mas a empresa não contabilizou, portanto é receita omitida; depósitos de origem não comprovada (ausência de CPF e CNPJ) portanto receita omitida; depósitos com origem comprovada (CPF e CNPJ identificados) mas sem comprovação do motivo, portanto receita omitida. Do total de R$221.379.060,88 considerado tributável, a Fiscalização, com fundamento legal no art. 42, § 5º, da Lei nº 9.430, de 1996, excluiu da base de cálculo do arbitramento do lucro a quantia de R$145.486.696,74, correspondente aos débitos efetuados nas contas correntes da contribuinte para fechamento de câmbio em seu nome. Isto porque, conforme minuciosamente relatado pela Fiscalização, com respaldo nas provas colhidas, foi demonstrado que a contribuinte agia como interposta pessoa, angariando recursos de diversas fontes de pessoas físicas e jurídicas, via depósitos bancários em sua conta-corrente, para em seguida usá-los na aquisição de moeda estrangeira, via contrato de câmbio. Não foi possível a Fiscalização encontrar o verdadeiro interessado no fechamento do câmbio, mas, ficou patente que não pode ser a EFX LOGÍSTICA, pois esta não realizou importação em 2014, tampouco os depositantes intimados, tendo em vista estar evidente em suas respostas que, em boa parte dos casos, trata-se de empresas interpostas. A receita omitida, considerada como base para a determinação do lucro arbitrado importa em R$75.892.364,14 (R$221.379.060,88 - R$145.486.696,74), sendo que desse montante, R$75.209.046,70, correspondem a omissão de receita com base em depósitos bancários de origem não comprovada e R$683.317,44, refere-se a receita omitida relativa a vendas conforme notas fiscais eletrônicas emitidas pela empresa autuada. Portanto, depreende-se que a autoridade fiscal agiu nos estritos moldes estabelecidos na legislação fiscal de regência, ou seja: do rol dos valores creditados nas contas bancárias da contribuinte foram excluídos de tributação aqueles identificados nos extratos bancários Fl. 5329DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 41 como não representativos de receita tributável, assim como o montante tributável correspondente ao total das despesas relacionadas aos débitos com câmbio, com relação aos quais foi demonstrado não ser a contribuinte a verdadeira interessada no fechamento do câmbio em seu nome, tampouco os depositantes intimados; tributou como receitas omitidas, assim caracterizadas por presunção legal, os demais depósitos efetuados nas contas-correntes da contribuinte, cuja origem dos recursos utilizados, a contribuinte, regularmente intimada, não logrou comprovar, excetuadas as importâncias correspondentes aos valores constantes das notas fiscais emitidas pela contribuinte, as quais foram tributadas como receitas omitidas provenientes de revenda de mercadorias. (...) A respeito da doutrina e jurisprudência citadas ou transcritas pela Impugnante em sua defesa, além de se reiterar que não vinculam a administração àquela interpretação, nota-se que, como visto anteriormente, o entendimento da Súmula 182, do antigo TFR, que permeia os argumentos oferecidos na impugnação, não subsiste à edição da Lei nº 9.430, de 1996, por esta ter autorizado, explicitamente, a caracterização como renda omitida pelo contribuinte, na hipótese de não restar comprovada a origem dos depósitos efetuados em instituição financeira, conforme dispõe o seu artigo 42. Trata-se de presunção legal inexistente à época da formulação da aludida súmula, a qual foi editada em um outro contexto institucional e jurídico do País, não subsistindo hodiernamente, ainda que o regramento da matéria guarde relação com o conteúdo do enunciado. Da mesma forma, a jurisprudência administrativa citada expressa o entendimento do então Conselho de Contribuintes, para fatos geradores anteriores a 1º de janeiro de 1997, entendimento esse que também, com se vê pelo teor da Súmula nº 26, anteriormente reproduzida, não subsiste à edição da Lei nº 9.430, de 1996, em face do disposto em seu artigo 42. Como se vê, diferentemente do alegado pela impugnante, consiste a norma do art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, em uma presunção legal tributária, instituto cuja propriedade é a de inverter o ônus da prova contra o sujeito passivo, autorizando o fisco a presumir a ocorrência do fato gerador pela verificação da situação tipificada em lei. Portanto, não se vislumbra qualquer irregularidade no ato administrativo adotado, conforme alegado, mas sim um procedimento legal que objetivou viabilizar a fiscalização, estando devidamente amparado pela legislação em vigor. Dessa forma, mantém-se, na íntegra o lançamento relativo ao IRPJ, incidente sobre o Lucro Arbitrado, que por sua vez foi determinado com base na receita bruta apurada pela Fiscalização, tudo em consonância com a legislação fiscal citada no enquadramento legal do respectivo Auto de Infração. DA CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO DO PIS E DA COFINS Quanto aos demais Autos de Infração, decorrentes da omissão de receitas detectada na apuração do IRPJ (CSLL, Contribuição para o PIS e COFINS), em se tratando de tributação reflexa, deve ser observado, no que couber, o que foi decidido para o Auto de Infração principal, uma vez que todas as exigências tiveram o mesmo suporte fático. Sobre os questionamentos da contribuinte acerca da ocorrência do fato gerador destas contribuições, convém registrar que a ocorrência da omissão de receita omitida, base de cálculo para a incidência destas contribuições, está sobejamente demonstrada nos autos, conforme se concluiu anteriormente, neste voto, quando da análise do lançamento principal, relativo ao IRPJ. Fl. 5330DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 42 Cabe registrar que os valores de PIS e Cofins lançados no presente processo são reflexos da omissão de receita apurada com base nos depósitos bancários de origem não comprovada (item 1 do AI de IRPJ). Os lançamentos destas contribuições relativos à receita omitida tributável, extraída dos valores das notas fiscais emitidas pela contribuinte, são objeto dos processos nº 15983.720257/2017-99 e 15983.720258/2017-33, respectivamente. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA A impugnante insurgiu-se, também, contra a multa de ofício qualificada, no percentual de 150%, incidente sobre os tributos lançados. Alega que os percentuais aplicados ferem os princípios do não-confisco, da capacidade contributiva, da razoabilidade e da proporcionalidade, além de ter a contribuinte atendido à fiscalização com extremo zelo e que não houve intenção deliberada de fraudar a apuração do imposto supostamente devido, nem prova de que os depósitos realizados em sua conta corrente configuram acréscimo patrimonial. Reproduz-se o inciso I e § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96, base legal da exigência da multa qualificada: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (...) § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. Para explicitar a aplicabilidade da multa em exame, transcrevem-se os dispositivos da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, que a fundamentam, in verbis: Art. 71 – Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I – da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II – das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72 – Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73 – Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos artigos 71 e 72.” Em todas estas situações existe a figura do dolo, que ocorre quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo. A sonegação se caracteriza em razão de uma ação ou omissão, de uma simulação ou ocultação, e pressupõe sempre a intenção de causar dano à fazenda pública, num propósito deliberado de se subtrair, no todo ou em parte, ou retardar uma obrigação tributária. Assim, ainda que o conceito de sonegação seja amplo, deve sempre estar caracterizada a presença do dolo, um comportamento intencional, específico, de causar dano à fazenda pública, onde, utilizando-se de subterfúgios, escamoteia-se a ocorrência do fato gerador ou retarda- Fl. 5331DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 43 se o seu conhecimento por parte da autoridade fazendária; ou seja, o dolo é elemento específico da sonegação, que a diferencia da mera falta de pagamento do tributo ou da simples omissão de rendimentos na declaração de ajuste, seja ela pelos mais variados motivos que se aleguem. No caso concreto, vê-se que a aplicação da multa qualificada de 150% deu-se em virtude de a Fiscalização haver lhe imputado a prática de sonegação, caracterizada pelos seguintes fatos elencados no Relatório Fiscal e documentalmente comprovados nos autos: – a empresa teve expressiva movimentação financeira, mas, à RFB, declarou ser INATIVA; – prestou serviços, como ela própria assumiu em resposta aos termos de intimação fiscal; – declarou em sua ficha cadastral junto à Caixa Econômica Federal que sua receita anual fora de R$49.031.785,00; – na ficha cadastral do BIC/BANCO informou que tem 20 (vinte) funcionários, mas não entregou GFIP; – sua sede está dentro de um galpão com amplo espaço para armazenar ou estocar mercadorias. Além disso, a empresa tem uma página na internet bem elaborada. Nestas condições, a empresa deveria ter cumprido as obrigações acessórias (Entrega de DIRPJ/DCTF/GFIP, escrituração Fiscal: EFD-CONTRIBUIÇÕES e ECF) e principal (pagamento dos tributos). Nada disso foi feito; – dados extraídos dos sistemas informatizados da RFB, em relação às declarações de IRPJ, revelam que é reiterado o comportamento irregular da contribuinte quanto ao cumprimento de obrigações acessórias: nos exercícios de 2005 a 2013 e 2015 declarou como INATIVA; no exercício de 2014, como Lucro Presumido, porém com receita zero para todos os trimestres; no exercício de 2016 e subsequentes não transmitiu dados ao SPED; – DCTF transmitida sem débitos para o ano de 2014; – as empresas do grupo têm comportamento similar ao da EFX; Todos esses fatos provam que, efetivamente, houve intenção de ocultar a apuração da base de cálculo dos tributos e esquivar-se dos pagamentos, pois não deixam dúvidas de que os administradores agiram no sentido de ocultar do Fisco as informações necessárias para apuração dos tributos devidos. Verifica-se que a lavratura dos Autos de infração em julgamento só foi possível com uso de fontes externas, repassadas pelas instituições financeiras, via DIMOF. Assim, reputa-se correta a conclusão fiscal ao identificar dolo na ação da contribuinte e caracterizar a situação fática aqui configurada, como sonegação fiscal, tal como descrito no inciso I do art. 71 da Lei nº 4.502 de 1964. Por conseguinte, deve ser mantida a multa de ofício qualificada, no percentual de 150%, aplicada sobre os montantes do IRPJ, CSLL, PIS e Cofins lançados. Sobre a arguição de ofensa aos princípios constitucionais citados pela impugnante, cumpre reprisar que declarar ou reconhecer a inconstitucionalidade ou ilegalidade de norma legitimamente inserida no ordenamento pátrio é prerrogativa reservada ao Poder Judiciário (artigos 97 e 102 da Constituição Federal), portanto, foge à competência da autoridade administrativa apreciá-la. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA A autoridade fiscal, com fundamento no art. 135, III, do CTN, atribuiu sujeição passiva solidária aos sócios da empresa EFX LOGÍSTICA e das demais empresas do grupo Fl. 5332DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 44 econômico familiar, por considerar que agiram com excesso de poder ao praticar crimes de sonegação, crimes contra o sistema financeiro nacional, crime contra a ordem tributária, ou seja, agiram com infração de lei, conforme relatado nos tópicos 16 e 17 do Relatório Fiscal. Na impugnação foi arguido, em síntese, que: o contexto probatório apresentado pelo Auditor-Fiscal não possui condão de ensejar a sujeição passiva ao Sr. Eduardo Antenor Lopez Ferraz; não há comprovação, de fato, acerca da infração à lei ou atuação com excesso de poderes dos sócios solidários, indicando nitidamente uma arbitrariedade por parte do Fisco, mitigando o direito de defesa das pessoas indicadas como responsáveis tributárias; mera ausência do recolhimento dos tributos não pode ser indicativa de infração à lei, estatutos ou contrato social, havendo a necessidade, em tais casos, de prova robusta de que o administrador tenha se beneficiado da mencionada inadimplência, ou mesmo que tenha ocorrido dissolução irregular da empresa, para denotar eventual caracterização da sua reponsabilidade tributária; a fiscalização deveria ter demonstrado a previsão legal em que os nomes incluídos como responsáveis tributários, simplesmente pelo fato de serem administradores ou pelo fato de supostamente constituírem grupo familiar, poderiam responder pelo crédito tributário devido pela empresa EFX Logística Importação, Exportação e Comércio Internacional Ltda; o artigo 135 do CTN versa acerca da responsabilidade pessoal e exclusiva, de tal sorte que, ao ser utilizado como motivação para justificar a exigência do crédito perante terceiros, não poderia subsistir a exigência fiscal em desfavor do contribuinte. Primeiro, observa-se que, efetivamente, todos os fatos apontados e verificados pela fiscalização convergem para o entendimento de que há um grupo econômico familiar e a correlação dos impugnantes com os fatos geradores objeto dos lançamentos. No tópico 16. DA CARACTERIZAÇÃO DE GRUPO ECONÔMICO FAMILIAR, inicialmente a autoridade fiscal mostra telas do sistema CNPJ, CONSULTA, CNPJ, contendo os dados cadastrais da contribuinte, inclusive do seu quadro societário, que assim se apresenta: – EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ (CPF: 088.150.068-26 incluído em 26/12/2016 é sócio administrador e responsável pelo CNPJ) – PAULO FERRAMENTA DA SILVA (CPF: 035.232.377-93 incluído 25/06/2013) Sócios Excluídos: – ANTENOR GERALDO FERRAZ (068.867.108-00) – MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ (213.466.658-77) Em seguida, a autoridade relata que: – EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ (088.150.068-26) é sócio ativo de: (47.787.056/0001-00); XPORTACÃO LT (20.441.398/0001- 09); - 64). - ME (03.316.020/0001-64, extinta em 17/04/2014 – esta empresa não consta no GRAFO). – PAULO FERRAMENTA DA SILVA (035.232.377-93) é sócio ativo de: Fl. 5333DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 45 (47.787.056/0001-00); – ANTENOR GERALDO FERRAZ (068.867.108-00) é sócio ativo de: – ME (58.128.083/0001-89) e sócio excluído de: EFX LOGISTICA IMPORTACÃO, EXPORTACÃO E COMERCIO INTERNA (47.787.056/0001-00) – MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ (213.466.658-77) é ex sócia ou sócia excluída de: (47.787.056/0001-00); ANSPORTADORA BÚFALO LTDA – ME (58.128.083/0001-89). Prossegue a autoridade fiscal expondo telas com extratos de consulta ao sistema CNPJ, CONSULTA, CNPJ, contendo os dados cadastrais das empresas acima citadas e ainda da empresa BULL EXPRESS AGENCIAMENTO E TRANSPORTE, pertencente ao Sr. EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ. Segue a autoridade fiscal afirmando que as empresas acima relacionadas têm em comum sócios, endereço e atividades complementares, por isso formam um grupo econômico familiar. A empresa COMERCIAL E TRANSPORTADORA BÚFALO LTDA – ME, mesmo tendo sido baixada em 26/10/2017, estava ativa durante ao de 2014, período em que a empresa EFX LOGÍSTICA foi submetido a procedimento de fiscalização. A Autoridade Fiscal assegura que a caracterização do grupo familiar e a confusão patrimonial vai tornando-se evidente pelos fatos indicados a seguir: – pagamento feito pela EFX LOGÍSTICA a favor de DANIELA FERRAMENTA DA SILVA, via depósito bancário, conforme tabela (que apresenta); – os dados cadastrais de DANIELA FERRAMENTA DA SILVA, extraídos da base CPF (tela no Relatório Fiscal) mostram que o endereço de Daniela é ao lado do Galpão onde estão domiciliadas as empresas acima citadas. Daniela não é sócia de empresa, mas é irmã do Sr. Paulo Ferramenta da Silva e esposa do Sr. EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ, ambos são sócios da EFX LOGÍSTICA; – constam pagamentos efetuados pela EFX LOGÍSTICA a favor de Paulo Ferramenta da Silva, via transferência bancária, conforme tabela (que apresenta); – não foram encontrados pagamentos, via transferência bancária, da EFX LOGÍSTICA para o sócio Eduardo Antenor Lopes Ferraz; – da tela do sistema NI-CPF, fl. 147, com os dados cadastrais do Sr. Eduardo Antenor Lopes Ferraz, observa-se que o Sr. Eduardo tem domicílio fiscal ao lado do Galpão onde estão domiciliadas as empresas do grupo familiar e que é filho da senhora Maria Del Carmem Lopez Ferraz, sendo esta beneficiária de pagamentos feitos pela EFX LOGÍSTICA, via transferência bancária conforme tabela (que apresenta); – a senhora Maria Del Carmem Lopez Ferraz é proprietária do imóvel em que estão localizadas as empresas do grupo familiar conforme dados extraídos sua DIRPF/2015 (reproduz informaçãos da ficha Declaração de Bens); – são apresentadas telas com fotos do galpão do local onde estão domiciliadas as empresas do grupo familiar e do local da residência do sócio, sendo que referidos imóveis de nº 801 e Fl. 5334DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 46 805 estão em sequência na Avenida Afonso Pena, em Santos/SP, sendo o primeiro destinado a atividade comercial e o segundo a residência; – foram observadas transferências bancárias entre as empresas do grupo, ou seja a LOGIMPEX depositando na conta da EFX LOGÍSTICA, conforme indicado na tabela apresentada (fl. 149); – nas alterações contratuais verificadas desde a constituição das empresas do grupo (EFX LOGÍSTICA, Comercial Transportadora Búfalo Ltda., Logimpex Logística Importação e Exportação Ltda. e Ferrazport Comércio Importação Exportação e Logística Internacional EIRELI) conforme dados extraídos das fichas cadastrais da JUCESP e resumidas nas tabelas elaboradas no Relatório Fiscal (fls. 150/157), observa-se saídas de sócios da sociedade com entradas de outros sócios membros de uma mesma família; – o ingresso do Sr. EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ na sociedade se deu formalmente em 25/09/2017, mas o Sr. Eduardo já exercia de fato a gerência da empresa no ano de 2014, como pode ser visto nos seguintes documentos: -TIF-00277-ANEXO-03-RESPOSTA-TIF-00277.PDF: Trata-se de resposta ao Termo de Intimação Fiscal destinado à Daniela Ferramenta da Silva para justificar R$290.500,00 depositados na conta da EFX LOGÍSTICA. Neste documento a senhora Daniela Ferramenta da Silva, esposa do Sr. Eduardo Ferraz, efetuou os depósitos na conta da EFX LOGÍSTICA, empresa de seu marido, a pedido de Sr. Eduardo Ferraz. Em sua resposta ela afirma que os depósitos referem-se a recebimentos de serviços prestados de transporte, armazenagem, separação de grades de mercadorias de clientes. Portanto a referida senhora recebe valores que deveriam estar contabilizados na empresa EFX Logística e posteriormente os transfere para a empresa por meio de Ordem de Crédito (DOC) bancário; -TIF-00278-ANEXO-03-RESPOSTA-TIF-00278.PDF. Trata-se de resposta ao Termo de Intimação Fiscal destinado a SONIA SUELI PERES JOSÉ para justificar depósitos efetuados na conta da EFX LOGÍSTICA, com o seguinte teor: A resposta acima indica que há profunda confusão patrimonial entre empresas do grupo familiar. Os depósitos foram feitos na conta da EFX LOGÍSTICA tendo como justificativa o pagamento de aquisição de caminhões que estavam registrados na empresa COMERCIAL e TRANSPORTADORA BÚFALO LTDA, sendo esta empresa de propriedade do pai do Sr. Eduardo Ferraz que é um dos sócios da empresa EFX LOGÍSTICA. A0361-TIF-00286-ANEXO-03-RESPOSTA-TIF-00286.PDF: Trata-se de resposta ao Termo de Intimação Fiscal destinado a HELEN LACERDA NUNES SOUZA para justificar R$ 55.000,00 de depósito efetuado na conta da EFX LOGÍSTICA. Respondeu que o depósito como finalidade pagamento de dívida pessoal contraída com o Sr. Eduardo Ferraz, que por orientação deste, ordenou que o depósito fosse efetuado na conta da EFX LOGÍSTICA. Fl. 5335DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 47 -TIF-00288N2-ANEXO-02-RESPOSTA.PDF. Entre os documentos apresentados por MAURO BLEICH juntamente com resposta ao Termo de Intimação Fiscal nº 2 relativo a justificativas para o depósito efetuado na conta da EFX LOGÍSTICA, apresentou recibos assinados pelo senhor Sr. Eduardo Ferraz; -TIF-00305N2-ANEXO-02-RESPOSTA.PDF: Neste documento o Sr. Eduardo Ferraz, ordena o Sr. Saulo de Tarso Ventura Grijó, depositar na conta da EFX LOGÍSTICA, valores destinados à aquisição de quotas de capital da empresa LOGIMPEX. Posteriormente o Sr. Eduardo Ferraz adquire as cotas de capital do Sr. Saulo e torna sócio da LOGIMPEX. Verifica-se outra confusão patrimonial. -TIF-00315-ANEXO-03-RESPOSTA.PDF: Trata-se de resposta ao Termo de Intimação Fiscal destinado ao Sr. Elizeu Pereira de Sousa, para justificar R$280.234,00 de depósitos efetuados na conta da EFX LOGÍSTICA. Neste documento há um recibo emitido pela EFX LOGÍSTICA e assinado pelo Sr. Eduardo Ferraz, dando quitação dos serviços prestados no valor de R$280.234,00. -TIF-00322-ANEXO-03-Resposta.PDF: Neste documento há um recibo emitido pela EFX LOGÍSTICA e assinado pelo Sr. Eduardo Ferraz, referente à quitação de serviços prestados ao Sr. Odilon Martins Neto, depositante de R$ 69.000,00 na conta da EFX LOGÍSTICA. -TIF-00334-ANEXO-03-RESPOSTA.PDF: Trata-se de Termo de Intimação Fiscal destinado à empresa LOGIMPEX, para justificar R$3.885.850,00 depositados na conta da EFX LOGÍSTICA. Este documento foi assinado por Eduardo Ferraz. -TIF-00354-ANEXO-04-RESPOSTA.PDF: Trata-se Termo de Intimação Fiscal destinado a MIDAS CONS COM EXTERIOR LTDA para justificar R$ 2.515.726,23, efetuados na conta da EFX LOGÍSTICA. No final deste documento, constam diversos recibos assinados por Eduardo Ferraz, dando quitação aos depósitos efetuados. Portanto, os dados acima relatados não deixam dúvidas quanto à configuração do grupo econômico familiar, pois nele pode-se observar as seguintes características, consoante acertadamente apontou a autoridade fiscal: – Sócios comuns às empresas; – Vínculo familiar entre os sócios; – Saídas de sócios da sociedade com entradas de outros sócios membros de uma mesma família; – Transferências bancárias da empresa para sócios ou parentes sem vínculo societário; – Transferências bancárias entre empresas do grupo; – Localização das empresas no mesmo endereço; – Atividades semelhantes ou complementares entre as empresas do grupo; – Confusão Patrimonial. Os art. 121 e 135 do CTN, citados pela autoridade fiscal assim dispõem: Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz-se: I - contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II - responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. Fl. 5336DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 48 Art. 135 – São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatuto: [...] II – os mandatários, prepostos e empregados; III – os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado.(grifou-se) Vê-se que a definição de sujeito passivo, nos termos do artigo 121 do CTN e seu parágrafo único, engloba tanto o contribuinte como o responsável. Quanto à natureza da responsabilidade conferida por força do artigo 135 do CTN, importa dizer que, nos termos do Parecer PGFN CRJ/CAT n° 55, de 2009, que tem como fundamento a jurisprudência dominante do Superior Tribunal de Justiça (STJ), não há dúvida tratar-se de responsabilidade solidária, ao contrário do que alegam os impugnantes, que defendem a tese de que tal responsabilidade seria estritamente pessoal, hipótese esta que implicaria o afastamento do contribuinte, assumindo, em seu lugar, o dever de pagar o tributo e/ou a penalidade decorrente da obrigação tributária, os terceiros (responsáveis tributários) indicados nos incisos do referido dispositivo do CTN. Na verdade, esses terceiros são responsáveis solidários para com o devedor originário, o que significa que todos permanecem, de forma conjunta, no pólo passivo da obrigação tributária. Até porque, segundo o artigo 128 do CTN, a exclusão da responsabilidade do contribuinte só pode ser feita, e de modo expresso, por lei, o que não ocorre com a hipótese do artigo 135 do CTN. No caso do presente processo, a prática irregular a que alude a Fiscalização, capaz de ensejar a responsabilidade solidária prevista no art. 135 do CTN, cinge-se à prática de sonegação fiscal, sobejamente demonstrada nos autos, conforme se concluiu anteriormente neste voto, quando da análise dos argumentos oferecidos contra a aplicação da multa de ofício qualificada, bem como da verificação de fatos que, em tese, configuram a prática de ilícitos caracterizadores de crimes contra a ordem tributária e contra o sistema financeiro, que ensejaram as Representações Fiscais de que trata o tópico 20 do Relatório Fiscal, as quais são objetos dos processos 15983.720265/2017-35 e 15983.720266/2017-80, respectivamente. Vale sintetizar apenas algumas das práticas delituosas constatadas pela Fiscalização que caracterizam sonegação e crimes contra a ordem tributária e contra o sistema financeiro: – Teve movimentação financeira em conta bancária no valor de R$323.360.476,18, no ano- calendário de 2014; – Declarou como INATIVA em 2014, isto é, sem movimentação financeira e patrimonial, assim como não transmitiu dados de sua escrituração contábil e fiscal ao SPED, tampouco GFIP, e transmitiu DCTF sem débitos; – Interposição fraudulenta, pois a EFX LOGÍSTICA ao fechar câmbio declarando-o como relativo a pagamento de frete aéreo, em seu nome, sem comprovação efetiva das respectivas importações, bem como da origem dos recursos utilizados nos respectivos fechamentos de câmbio, utilizando-se de interpostas pessoas, está incorrendo em prática de simulação, ao ocultar os verdadeiros ordenantes das operações de câmbio aqui narradas. Logo, não se trata aqui de mera inadimplência como quer fazer parecer a impugnação. Todos os fatos relatados e comprovados pela autoridade fiscal provam que, efetivamente, a intenção de ocultar a apuração da base de cálculo dos tributos e esquivar-se dos Fl. 5337DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 49 pagamentos, agindo no sentido de ocultar do Fisco as informações necessárias para apuração dos tributos devidos, as quais só foram possíveis com uso de fontes externas, repassadas pelas instituições financeiras, via DIMOF. Por outro lado, a pessoa jurídica é uma ficção da lei, não sendo capaz, portanto, de implementar suas ações por si própria, mas sim por meio da atuação dos seus diretores, gerentes e representantes ou dos seus mandatários, prepostos e empregados, quem demonstra capacidade de expressar vontade, elemento subjetivo necessário para caracterizar o ato ilícito, do qual resulta a responsabilidade. A autoridade fiscal aponta, in verbis: PAULO FERRAMENTA DA SILVA Responsabilidade Solidária por Excesso de Poderes, Infração de Lei, Contrato Social ou Estatuto Motivação Agiu com excesso de poderes ao assinar fichas de cadastrais de bancos com informações falsas. Foi omisso quanto a falta de escrituração contábil e fiscal da empresa. Mesmo tendo conhecimento da farta movimentação bancária deixou de declarar e recolher tributos devidos ao fisco. Declarou que a empresa estava INATIVA, mesmo tendo operado normalmente, conforme detalhes no Relatório Fiscal. EDUARDO ANTENOR LOPEZ FERRAZ Responsabilidade Solidária por Excesso de Poderes, Infração de Lei, Contrato Social ou Estatuto Motivação Agiu com excesso de poderes ao assinar diversos documentos como se sócio de direito fosse no ano de 2014. Na verdade foi sócio de fato. Tornou-se sócio administrador em 26/12/2016 conforme dados do Cadastro do CNPJ. Foi omisso quanto a falta de escrituração contábil e fiscal da empresa. Mesmo tendo conhecimento da farta movimentação bancária deixou de declarar e recolher tributos devidos ao fisco. Declarou a empresa como INATIVA mesmo sabendo das operações normais conforme detalhes no Relatório Fiscal. O que foi apontado pela autoridade fiscal está fartamente demonstrado no processo. O senhor Paulo Ferramenta da Silva era o único sócio de direito e representante legal da empresa, assinava as fichas cadastrais de bancos e como representante legal da empresa, prestou informação falsa à RFB de que a pessoa jurídica acima identificada, por seu representante legal, declara que permaneceu, durante todo o período de 01/01/2014 sem efetuar qualquer atividade operacional, financeira e patrimonial. O senhor Eduardo Antenor Lopez Ferraz tornou-se sócio-administrador em 26/12/2006, mas já exercia de fato a gerência da empresa no ano de 2014, como pode ser visto nas respostas e documentos apresentadas por diversas pessoas físicas e jurídicas intimadas a justificar depósitos efetuados em contas bancárias da EFX, conforme comentado anteriormente neste voto, documentos estes que revelam, inclusive, a confusão patrimonial entre as empresas do grupo. Portanto, também tinha conhecimento da farta movimentação bancária e financeira e, dolosamente, deixou de declarar e recolher tributos devidos ao fisco. Os atos ilícitos apontados pela Fiscalização foram praticados com excesso de poderes e infração de lei e sob a responsabilidade dos senhores Paulo Ferramenta da Silva, sócio e representante legal da empresa, e Eduardo Antenor Lopez Ferraz, sócio de fato e praticante de atos de gerência em 2014, na condição de administradores da pessoa jurídica, subsumindo-se à hipótese descrita no inciso III do artigo 135 do CTN. Tais circunstâncias propiciam a manutenção da condição de responsáveis solidários pelo crédito tributário apurado e lançado no Auto de Infração ora apreciado dos senhores Paulo Ferramenta da Silva e Eduardo Antenor Lopez Ferraz, sócios e administradores da Autuada, na forma que lhes foi atribuída. Fl. 5338DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 50 Com relação ao senhor Antenor Geraldo Ferraz e à senhora Maria Del Carmen Lopez Ferraz, a Fiscalização assim descreveu: ANTENOR GERALDO FERRAZ Responsabilidade Tributária Responsabilidade Solidária por Excesso de Poderes, Infração de Lei, Contrato Social ou Estatuto Motivação A sujeição passiva decorrente de formação de grupo econômico familiar conforme detalhes no Relatório Fiscal. Enquadramento Legal A partir de 01/01/2000 Art. 135 da Lei n° 5.172/66. MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ Responsabilidade Tributária Responsabilidade Solidária por Excesso de Poderes, Infração de Lei, Contrato Social ou Estatuto Motivação A sujeição passiva decorrente de formação de grupo econômico familiar conforme detalhes no Relatórios Fiscal. Enquadramento Legal A partir de 01/01/2000 Art. 135 da Lei n° 5.172/66. Observe-se que uma das hipóteses de responsabilização solidária entre integrantes de um grupo econômico ocorre quando são constatadas situações de confusão patrimonial, vinculação gerencial, coincidência de sócios e administradores, conforme se depreende das conclusões expressas no Parecer PGFN CRJ/CAT n° 55, de 2009, fundamentado na jurisprudência dominante do Superior Tribunal de Justiça (STJ), transcritas a seguir: a) Nos Grupos Econômicos – a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça possui interpretação restritiva do art. 124, inciso I, pois entende que o interesse comum só ocorre se as empresas realizam a mesma atividade (REsp 834.044). Em razão disso, para caracterizar o interesse comum, a Fiscalização deve demonstrar a existência de um liame inequívoco entre as atividades desempenhadas pelos integrantes do grupo econômico, fazendo constar que as empresas têm apenas aparência de unidades autônomas, quando, na verdade, a atuação das empresas é complementar; ou, no caso em que ficar caracterizada confusão patrimonial, vinculação gerencial, coincidência de sócios e administradores, enfim, em todos os casos em que há abuso da forma entre as empresas integrantes do agrupamento. O senhor Antenor Geraldo Ferraz, pai do Sr. Eduardo Ferraz, também figura como sócio de empresas do grupo, inclusive da EFX, em diversos períodos ao longo da existência destas, sendo que em 2014 era sócio e administrador da COMERCIAL e TRANSPORTADORA BÚFALO LTDA, uma das empresas do grupo e que também participa da confusão patrimonial constatada pela autoridade fiscal, pois foram verificados depósitos feitos na conta da EFX LOGÍSTICA tendo como justificativa o pagamento de aquisição de caminhões que estavam registrados na empresa COMERCIAL e TRANSPORTADORA BÚFALO LTDA. A senhora Maria Del Carmem Lopez Ferraz, mãe do senhor Eduardo Ferraz, aparece como sócia de empresas do grupo, inclusive da EFX, em diversos períodos ao longo da existência destas, mas, em 2014, não figura no quadro societário de nenhuma delas. Entretanto, é beneficiária de pagamentos feitos pela EFX LOGÍSTICA, via transferência bancária e é proprietária do imóvel em que estão localizadas as empresas do grupo familiar, conforme dados extraídos sua DIRPF/2015. Assim, restando evidente a caracterização do grupo econômico familiar e confusão patrimonial entre as empresas e do interesse jurídico comum das pessoas dele integrantes, inclusive do senhor Antenor Geraldo Ferraz e da senhora Maria Del Carmem Lopez Ferraz, mantém-se também a responsabilidade solidária destas pessoas físicas. Fl. 5339DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 51 Em relação às alegações sobre evasão de divisas, cabe informar que as DRJ não são competentes para seu conhecimento e julgamento, uma vez que não dizem respeito à determinação e exigência de crédito tributário. Sobre o assunto, a Fiscalização relatou, in verbis: Tendo em vista que o sujeito passivo, principal e solidários, incorreram em práticas que, em tese, configuram crimes contra o Sistema Financeiro, bem como lavagem de dinheiro, foi aberto o Processo nº 15983.720.266/2017-80 de Representação Fiscal Para Fins Penais, o qual deverá ser encaminhado ao Ministério Publico Federal independentemente do desfecho dos processos de Auto de Infração decorrente desta fiscalização. Ante o exposto, voto por julgar improcedente a impugnação, mantendo integralmente o crédito tributário exigido e as responsabilidades solidárias atribuídas. Pelo exposto, voto por dar parcial provimento aos recursos voluntários, para afastar a tributação referente aos depósitos de 22/05/2014, 26/06/2014 e 18/07/2014, no valor total de R$ 280.234,00, e depósito de 22/05/2014, no total de R$ 69.000,00, em nome de Eliseu Pereira de Sousa e Odilon Martins Neto, mantendo todo o lançamento restante e responsabilidade tributária. Assinado Digitalmente Lizandro Rodrigues de Sousa VOTO VENCEDOR Conselheiro Gustavo Schneider Fossati, redator designado Peço vênia para divergir do ilustre relator quanto ao afastamento da responsabilidade solidária de MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ. Conforme bem relatado, o presente processo possui origem em auto de infração visando à cobrança de IRPJ e tributação reflexa face a valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantidas em instituições financeiras, referentes ao período de janeiro a dezembro de 2014, os quais a autoridade administrativa entendeu estarem desprovidos de origem comprovada. Ocorre que a Sra. Maria Del Carmen Lopez Ferraz, à época dos fatos, sequer era sócia da sociedade EFX, pois se retirou da sociedade em 25/06/2013, conforme consta na ficha cadastral expedida pela Junta Comercial do Estado de São Paulo (fls. 4888-4890): Fl. 5340DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 52 Além disso, a fiscalização, ao descrever a sujeição passiva no Relatório Fiscal (fls. 182s), limita-se a justificar sua inclusão como responsável pela mera constatação de grupo econômico familiar (tópico 16 do Relatório Fiscal) e pelo suposto enquadramento na norma contida no art. 135, III, do CTN. Ocorre que a mera existência de grupo econômico, o que inclui o familiar, não basta para fundamentar a imputação de responsabilidade tributária solidária ou pessoal à pessoa física. É necessária a prova que traduz a necessária materialidade vinculada à determinada pessoa – autoria – individualmente ligada aos fatos e atos subsumidos às infrações identificadas. Sem a devida prova material da correlação individual entre a conduta da pessoa acusada e os resultados, apurados por meio da identificação dos ilícitos, não há o que se falar na consequência jurídica da imputação da responsabilidade tributária solidária ou pessoal. Neste caso, de um lado, o entendimento pela caracterização do grupo econômico familiar, sem a comprovação da atuação infracional da Recorrente, não é suficiente para a sua condenação. Conforme consta do Relatório Fiscal, especialmente nas fls. 182s, não há prova imediatamente imputável à Recorrente, seja na condição de administradora ou de representante Fl. 5341DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1102-001.833 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15983.720256/2017-44 53 da pessoa jurídica, com relação a eventuais atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei ou de contrato social, da mesma forma que não há individualização de conduta que possa aferir, com a devida segurança jurídica, o aspecto subjetivo da responsabilização tributária. Por fim, conforme descrito na parte inicial deste voto, a Sra. Maria Del Carmen Lopez Ferraz, à época dos fatos (janeiro a dezembro de 2014), sequer era sócia da sociedade EFX, pois se retirou dela em 25/06/2013. Isso posto, voto por afastar a responsabilidade tributária solidária de MARIA DEL CARMEN LOPEZ FERRAZ, com base nos fatos e nos fundamentos descritos acima. Assinado Digitalmente Gustavo Schneider Fossati Fl. 5342DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor
score : 1.0
