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Numero do processo: 11000.724763/2021-07
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 18 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Oct 17 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Ano-calendário: 2016, 2017, 2018
DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PAGAMENTOS. Tratando-se de tributos submetidos a lançamento por homologação, e caso haja valores recolhidos, o direito de a Fazenda Nacional constituir o crédito tributário se extingue no prazo de 5 anos, contado da ocorrência do fato gerador específico de cada tributo.
AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE.
Descabe a nulidade do Auto de Infração se o Contribuinte, no decorrer do procedimento fiscal, tomou conhecimento de toda matéria que deu causa ao lançamento, teve assegurado e exerceu o seu direito de defesa nos termos da legislação vigente, demonstrando em sua impugnação amplo conhecimento da matéria que deu causa ao lançamento.
BONIFICAÇÕES RECEBIDAS. RECEITAS DA PESSOA JURÍDICA
As bonificações recebidas por desempenho ou perfomance constituem receita tributável da beneficiária, impondo-se a obrigação do seu reconhecimento na apuração dos tributos e contribuições devidos.
SÓCIO-GERENTE E/OU DIRETOR DE PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PRIVADO. RESPONSABILIDADE PESSOAL PELO NÃO-PAGAMENTO DE TRIBUTO. ART. 135, III, DO CTN. DOLO.
A responsabilidade do gerente ou diretor de pessoa jurídica de direito privado, pelo não-pagamento de tributo decorre da atuação dolosa. Restando comprovado nos autos que esta ação ocorreu, deve ser mantida as responsabilidades dos coobrigados.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. INTERESSE COMUM.
Com fundamento no artigo 124, inciso I, do CTN, apenas se comprovado o interesse comum, estaria correta a responsabilização solidária dos beneficiários.
“MULTA QUALIFICADA – NÃO CARACTERIZAÇÃO
Restando devidamente comprovado o intuito doloso pela omissão reiterada na apresentação de contrato regularmente celebrado pela pessoa jurídica autuada, impõe-se a qualificação da multa de ofício. Contudo, nos termos da legislação vigente, a multa qualificada deve ser de 100% dos valores exigidos a título de principal.
Numero da decisão: 1202-002.098
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade e a arguição de decadência, dar provimento ao recurso voluntário da coobrigada Raizen Combustíveis S/A para excluí-la do polo passivo da relação jurídico-tributária e, de ofício, reduzir a 100% (cem por cento) o percentual da multa aplicada. No mérito, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário da pessoa jurídica autuada e manter os coobrigados João Alberto Freire Sobral, Fábio Santos Sobral e Marcelo Santos Sobral no polo passivo da relação jurídico tributária. Vencidos os conselheiros André Luis Ulrich Pinto que votou por dar provimento parcial ao recurso para reduzir a multa ao percentual de 75% (setenta e cinco por cento) e excluir a responsabilização dos demais coobrigados e o Conselheiro Fellipe Honório Rodrigues da Costa (relator) que votou por dar provimento integralmente ao recurso. A Conselheira Liana Carine Fernandes de Queiróz acompanhou o voto vencedor pelas conclusões em relação â responsabilidade solidária dos coobrigados. Designado o Conselheiro Maurício Novaes Ferreira para redigir o voto vencedor.
Assinado Digitalmente
Fellipe Honório Rodrigues da Costa – Relator
Assinado Digitalmente
Maurício Novaes Ferreira – Redator designado
Assinado Digitalmente
Leonardo de Andrade Couto – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Mauricio Novaes Ferreira, Andre Luis Ulrich Pinto, Jose Andre Wanderley Dantas de Oliveira, Fellipe Honorio Rodrigues da Costa, Liana Carine Fernandes de Queiroz, Leonardo de Andrade Couto (Presidente).
Nome do relator: FELLIPE HONORIO RODRIGUES DA COSTA
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LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PAGAMENTOS. Tratando-se de tributos submetidos a lançamento por homologação, e caso haja valores recolhidos, o direito de a Fazenda Nacional constituir o crédito tributário se extingue no prazo de 5 anos, contado da ocorrência do fato gerador específico de cada tributo. AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. Descabe a nulidade do Auto de Infração se o Contribuinte, no decorrer do procedimento fiscal, tomou conhecimento de toda matéria que deu causa ao lançamento, teve assegurado e exerceu o seu direito de defesa nos termos da legislação vigente, demonstrando em sua impugnação amplo conhecimento da matéria que deu causa ao lançamento. BONIFICAÇÕES RECEBIDAS. RECEITAS DA PESSOA JURÍDICA As bonificações recebidas por desempenho ou perfomance constituem receita tributável da beneficiária, impondo-se a obrigação do seu reconhecimento na apuração dos tributos e contribuições devidos. SÓCIO-GERENTE E/OU DIRETOR DE PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PRIVADO. RESPONSABILIDADE PESSOAL PELO NÃO-PAGAMENTO DE TRIBUTO. ART. 135, III, DO CTN. DOLO. A responsabilidade do gerente ou diretor de pessoa jurídica de direito privado, pelo não-pagamento de tributo decorre da atuação dolosa. Restando comprovado nos autos que esta ação ocorreu, deve ser mantida as responsabilidades dos coobrigados. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. INTERESSE COMUM. Fl. 1436DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 2 Com fundamento no artigo 124, inciso I, do CTN, apenas se comprovado o interesse comum, estaria correta a responsabilização solidária dos beneficiários. “MULTA QUALIFICADA – NÃO CARACTERIZAÇÃO Restando devidamente comprovado o intuito doloso pela omissão reiterada na apresentação de contrato regularmente celebrado pela pessoa jurídica autuada, impõe-se a qualificação da multa de ofício. Contudo, nos termos da legislação vigente, a multa qualificada deve ser de 100% dos valores exigidos a título de principal. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade e a arguição de decadência, dar provimento ao recurso voluntário da coobrigada Raizen Combustíveis S/A para excluí-la do polo passivo da relação jurídico-tributária e, de ofício, reduzir a 100% (cem por cento) o percentual da multa aplicada. No mérito, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário da pessoa jurídica autuada e manter os coobrigados João Alberto Freire Sobral, Fábio Santos Sobral e Marcelo Santos Sobral no polo passivo da relação jurídico tributária. Vencidos os conselheiros André Luis Ulrich Pinto que votou por dar provimento parcial ao recurso para reduzir a multa ao percentual de 75% (setenta e cinco por cento) e excluir a responsabilização dos demais coobrigados e o Conselheiro Fellipe Honório Rodrigues da Costa (relator) que votou por dar provimento integralmente ao recurso. A Conselheira Liana Carine Fernandes de Queiróz acompanhou o voto vencedor pelas conclusões em relação â responsabilidade solidária dos coobrigados. Designado o Conselheiro Maurício Novaes Ferreira para redigir o voto vencedor. Assinado Digitalmente Fellipe Honório Rodrigues da Costa – Relator Assinado Digitalmente Maurício Novaes Ferreira – Redator designado Assinado Digitalmente Leonardo de Andrade Couto – Presidente Fl. 1437DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 3 Participaram da sessão de julgamento os julgadores Mauricio Novaes Ferreira, Andre Luis Ulrich Pinto, Jose Andre Wanderley Dantas de Oliveira, Fellipe Honorio Rodrigues da Costa, Liana Carine Fernandes de Queiroz, Leonardo de Andrade Couto (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário contra Acórdão 105-008.002 - 1ª TURMA DA DRJ05, data da sessão 25 de agosto de 2022, que julgou improcedente a impugnação da contribuinte. Por bem descrever os fatos e por economia processual, adoto o relatório da decisão da DRJ, nos termos abaixo: RELATÓRIO 1. Da Autuação Trata o presente processo dos Autos de Infração (fls. 02 a 109), lavrados contra o Sujeito Passivo acima identificado, para a exigência de crédito tributário no montante de R$ 690.982,14 (seiscentos e noventa mil, novecentos e oitenta e dois reais e catorze centavos), assim distribuído: Imposto de Renda Pessoa Jurídica – IRPJ...........................................R$ 129.415,23; Juros de Mora (calculados até 08/2021) ............................................R$ 19.930,92; Multa Proporcional (passível de redução) ..........................................R$ 194.122,83; Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL.................................R$ 47.780,05; Juros de Mora (calculados até 08/2021) .................................................R$ 7.482,51; Multa Proporcional (passível de redução) ............................................R$ 71.670,07; Contribuição para Financiamento da Seguridade Social – COFINS....R$ 67.172,46; Juros de Mora (calculados até 08/2021)..............................................R$ 13.303,01; Multa Proporcional (passível de redução)..........................................R$ 100.758,66; Contribuição para o Programa de Integração Social – PIS.................R$ 14.583,39; Juros de Mora (calculados até 08/2021)...................................................R$ 2888,00; Multa Proporcional (passível de redução).............................................R$ 21.875,01. De acordo com o Auto de Infração do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (fls. 02 a 48) e o “Relatório Fiscal” (fls. 110 a 131), o crédito tributário ali lançado Fl. 1438DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 4 foi constituído pelo Regime do Lucro Real Trimestral. Segundo o citado relatório, foi apurada a seguinte infração: “OMISSÃO DE RECEITAS – RECEITAS DE BONIFICAÇÕES POR DESEMPENHO/PERFORMANCE”. Abaixo, são citados os fatos e os elementos utilizados na constituição do lançamento tributário: a) Procedimento de Fiscalização: a.1) intimada a apresentar informações e documentos referentes aos contratos de bonificação celebrados com a sua matriz es filiais, a Fiscalizada apresentou “cópias dos Contratos referentes à Raízen Combustíveis S/A (CNPJ n° 33.453.598/0001- 23)”; a.2) “em Relação ao ‘Contrato de Posto Revendedor’ celebrado com a Raízen Combustíveis S/A em 31/03/2016, ‘A Intimada esclarece, por oportuno, que o contrato celebrado com a Raízen Combustíveis S/A se trata de contrato de mútuo (empréstimo), possuindo data de vencimento em 31/03/2022, conforme previsto na Cláusula Primeira do Termo Aditivo do referido contrato’”; a.3) “no que diz respeito ao ‘Contrato de Posto Revendedor’ apreseacntado, cedido para si pela empresa Posto Imperador LTDA, CNPJ n° 09.098.213/0001-72, a fiscalizada colocou que: I - ‘nesse ponto, como se pode depreender da análise dos documentos que seguem anexos, os contratos solicitados decorrem, em verdade, de um ‘Termo de Cessão de Direitos e Obrigações’, em que são partes o Posto Imperador S/A (Cedente), a Intimada (Cessionária) e a Raízen Combustíveis S/A (Cedido), por meio do qual ocorreu apenas a cessão de direitos de operação, ou seja, a Intimada assumiu as obrigações relacionadas à atividade operacional do Posto Imperador’; II - ‘registre-se que o contrato objeto de cessão foi o ‘Contrato de Posto Revendedor’ e seus aditivos, os quais, por sua vez, tem como objetos: a licença de uso da marca e manifestação visual; a compra e revenda exclusiva de produtos combustíveis; o estabelecimento de regras básicas de operação do Posto Revendedor’; III - ‘assim, a Intimada esclarece que desconhece acerca da existência de quaisquer Contratos de Bonificação eventualmente celebrados entre o Posto Imperador (Cedente) e a Raízen (Cedido), não tendo ocorrido, em favor da Intimada, a cessão ou subrogação de direitos ou deveres frutos de eventuais Contratos de Bonificação, e, por via de consequência, não houve o recebimento de qualquer valor pela Intimada, a título de bonificação, decorrente dos referidos contratos’”; a.4) “no que diz respeito ao questionamento sobre a forma como os valores recebidos referentes as Bonificações por Desempenho/Performance foram oferecidos à tributação, assim informou a fiscalizada no que diz respeito ao Fl. 1439DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 5 Contrato com a Raízen Combustíveis S.A.: ‘esclarece, ainda, que não ofereceu à tributação os valores recebidos a título de mútuo (empréstimo), registrados na Conta Contábil ‘1215’, por entender estarem os mesmos fora do campo de incidência do IRPJ, da CSLL, do PIS e da COFINS (Contrato de Mútuo n° 119628 Celebrado com a Raízen)”; a.5) intimada a informar a relação entre os contratos nº 119628 (referente ao contrato de mútuo) e nº 119881 (referente às bonificações) e se os valores recebidos através do contrato nº 119628 foram adiantamento do bônus previsto no contrato nº 119881, a Fiscalizada respondeu que “o empréstimo decorrente do Contrato de Mútuo nº 119628 foi obtido junto à Raízen como forma de lhe assegurar a obtenção de capital de giro necessário para o cumprimento do Contrato de Posto Revendedor nº 119881”. b) Diligência/Raízen Combustíveis S/A: b.1) intimada a “apresentar os contratos de bonificação por desempenho, performance ou volume de aquisição de produtos, contratos vinculados de bonificação e aditivos celebrados com a JMF Comércio de Combustíveis LTDA (CNPJ nº 04.524.416/0001-60) e com a filial dessa mesma empresa (CNPJ nº 04.524.416/0006-74)”, a Raízen apresentou os contratos e respectivos termos de aditamento, prorrogação e cessão de direitos e obrigações, informando ainda que “que todos os pagamentos das bonificações foram feitos diretamente para o estabelecimento matriz da fiscalizada e apresentou a tabela de pagamentos”; b.2) intimada a informar a relação entre os contratos nº 119628 (referente ao contrato de mútuo) e nº 119881 (referente às bonificações) e se os valores recebidos através do contrato nº 119628 foram adiantamento do bônus previsto no contrato nº 119881, a Raízen respondeu que: “I - o mútuo firmado entre as partes não representa um pagamento antecipado de bonificação”, pois “tem como objetivo a disponibilização de recursos a título de capital de giro para a rede varejista, como consta expressamente do item VI do contrato de mútuo; II - a disponibilização de recursos ao posto varejista no início do ‘CPR’ trata se, na realidade, de um modelo de negócios amplamente utilizado e bem sucedido em todo o mercado de distribuição de combustíveis, em especial dos postos bandeirados, tendo em vista a fidelização do posto revendedor de combustíveis a uma única distribuidora por força do art. 25, §4º da Resolução ANP 41/2013 (direito de exclusividade); III - esse empréstimo concedido quando da assinatura do ‘CPR’, que é devidamente tributado pelo IOF pela Raízen, visa, naturalmente, o incremento das vendas do posto revendedor, que por consequência gera receita tributável para a distribuidora de combustíveis tendo em vista a revenda exclusiva dos seus produtos pelo varejista; Fl. 1440DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 6 IV - a celebração do contrato de mútuo decorre do modelo de negócios que vem se mostrando extremamente eficiente nos últimos anos, de modo a impulsionar as vendas realizadas pela Raízen, geradores de receitas tributadas pelo IRPJ, CSLL, PIS e COFINS em favor da União Federal; V - o mútuo firmado não pode ser caracterizado como pagamento de uma bonificação antecipada, em que pese, naturalmente, o mútuo apenas tenha sido firmado em virtude da existência de Contrato de Posto de Revendedor – CPR e contribua, de forma relevante, para que o revendedor varejista atinja a sua meta de aquisição de volume de combustíveis prevista no ‘CPR’, que por sua vez enseja o pagamento da bonificação ao final do contrato caso não haja infração a nenhuma disposição do contrato. VI - assim, o empréstimo concedido no início do contrato e a bonificação eventualmente paga ao final do contrato devem ser vistos e interpretados de forma individualizada, na medida em que a bonificação, em regra, conforme expressa disposição contratual, apenas é devida ao final do contrato quando o revendedor adimple por completo suas obrigações de aquisição de combustíveis e, igualmente, não comete qualquer infração aos dispositivos do CPR; VII - representa um ‘facilitador’ financeiro para as partes, pois permite que distribuidora compense o valor do bônus de todo e qualquer débito do revendedor porventura existente na data do seu pagamento, de modo que, em regra, quando o revendedor atinge as metas do contrato, e o bônus se torna devido, pode ocorrer a compensação com o valor do mútuo concedido; VIII - por outro lado, na eventualidade de o revendedor cometer infrações contratuais ou não atingir a meta para pagamento da bonificação, não haverá possibilidade de compensação do mútuo e o revendedor deve pagar o empréstimo na data do vencimento do contrato pelo valor integral atualizado, independentemente do volume já adquirido, também por força de expressa disposição contratual; IX - justamente por isso, o valor do mútuo só poderá ser integralmente compensado na eventualidade de o posto revendedor cumprir por completo a cláusula contratual de aquisição da totalidade dos volumes contratados e igualmente não venha a infringir qualquer uma das obrigações contratuais assumidas com a distribuidora. A partir desse momento, então, em uma interpretação ampliativa, pode-se sustentar que o valor do mútuo assumiria, apenas ao final do ‘CPR’, natureza de bonificação. Ou seja, não se trata de pagamento de bonificação antecipada. X - nessa linha, percebe-se que não há que se falar que os contratos são necessariamente vinculados e condicionados, pois ainda que não houvesse cláusula de bonificação no ‘CPR’, certamente haveria um contrato de mútuo no início da operação, cujo adimplemento se daria de uma forma diversa do que um acerto contábil/compensação com o valor da bonificação, que Fl. 1441DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 7 inclusive, nem sempre é devida, como exposto acima, pois o posto revendedor pode não atingir as metas que ensejam o pagamento da bonificação. b.3) no que tange ao subitem b.2, inciso III, “a Raízen cita a incidência e a tributação pelo IOF dos valores referentes ao ‘mútuo’ albergado pelo Contrato n° 119628. O motivo da disponibilização de recursos financeiros entre duas pessoas jurídicas é irrelevante para que o IOF incida na operação, basta que os recursos sejam disponibilizados que haverá a incidência do imposto, conforme dispõe o Ato Declaratório SRF n° 30, de 24 de março de 1999, que deixa claro o campo de incidência do IOF. Ou seja, o motivo de ser tributada pelo IOF não descaracteriza a operação de ter sido uma antecipação de valores referentes às bonificações”; b.4) no que tange ao subitem b.2, inciso V, “a própria Raízen reconhece a vinculação entre o CPR e o contrato de mútuo e a natureza de bonificação dos valores, repisamos ‘em que pese, naturalmente, mútuo apenas tenha sido firmado em virtude da existência de Contrato de Posto de Revendedor – CPR e contribua, de forma relevante, para que o revendedor varejista atinja a sua meta de aquisição de volume de combustíveis prevista no ‘CPR’, que por sua vez enseja o pagamento da bonificação ao final do contrato caso não haja infração a nenhuma disposição do contrato, conforme cláusula contratual abaixo transcrita. A cláusula contratual citada é a 2.2, que reforça ainda mais a situação dos valores adiantados pelo Contrato de Mútuo serem referentes as bonificações. Se ao final do CPR, a fiscalizada tiver direito ao bônus, basta utilizá-lo para quitar o contrato de mútuo. Caso não cumpra as obrigações contratuais e perca o direito aos bônus, a Raízen possui o contrato de mútuo para buscar os valores adiantados”; b.5) no que tange ao subitem b.2, incisos VII, VIII e IX, “a própria Raízen reconhece, mais uma vez, a natureza de bonificação para os valores do contrato de mútuo ao final dos contratos, em uma "interpretação ampliativa". Na verdade, não se trata de interpretação ampliativa, mas sim da implementação de uma condição resolutiva ou resolutória”; b.6) no que tange ao subitem b.2, inciso X, “a Raízen coloca que, mesmo que não houvesse bonificação, haveria um contrato de mútuo, cujo adimplemento se daria de forma ‘diversa do que um acerto contábil/compensação com o valor da bonificação’. No entanto, neste caso concreto, há a bonificação, pactuada na mesma data, no mesmo valor e com data de vencimento idêntica ao do mútuo. Além disso, não há previsão de juros no contrato de mútuo e foi realizado, segundo a própria Raízen, somente em razão da existência do Contrato de Posto Revendedor, onde foi prevista a bonificação. Provavelmente, caso o contrato de mútuo fosse realizado de forma isolada, traria a previsão de incidência de juros”; b.7) pelo fato da Raízen ter realizado amortizações mensais referentes aos valores adiantados através do Contrato n° 119628, foi mais uma vez intimada, no sentido de “informar por escrito o nome e o nº da Conta Contábil (sintética e analítica) Fl. 1442DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 8 onde as amortizações periódicas (...) foram registradas em vossas ECD’s referentes aos anos-calendário de 2016, 2017 e 2018”. Em resposta, a Raízen apresentou uma tabela detalhando as contas utilizadas para registro das amortizações, respectivo grupo e período de utilização; em complemento, informou que as amortizações “são encerradas em contas de resultado mensalmente durante o transcorrer do período contratual, nas contas demonstradas”; b.8) “da forma como a Raízen realizou o registro das amortizações, houve a partir do envio, uma redução mensal no lucro da distribuidora a título de despesa de amortização de bonificação. Paralelamente, a fiscalizada registrou em sua ECD referente ao recebimento dos valores, creditando a conta contábil n° 1215 (Passivo) e n° 9 (Ativo)”; b.9) “o fato de a própria Raízen ter amortizado mensalmente em contas de custos/despesas, no transcorrer do contrato, os valores adiantados, ratificam ainda mais que os valores repassados pela Raízen à fiscalizada têm natureza de antecipação de bonificação”; b.10) “ou seja, a formalidade do contrato apresenta uma situação de bonificação postecipada sujeita a uma cláusula suspensiva (compra do volume total contratado ou transcorrer do tempo), seguindo o previsto no Contrato de Posto Revendedor n° 119881. Todavia, a materialidade verificada nessa operação mostra que houve uma antecipação da bonificação, dissimulada através do contrato de Mútuo n° 119628. Neste caso concreto, torna-se clara a distorção proporcionada à natureza e ao aspecto temporal do fato gerador de tributos federais”; b.11) “a celebração do negócio jurídico de mútuo (que é simulado) interfere na execução do contrato de fornecimento de combustíveis com bonificação (que ocorreria somente após o implemento da condição suspensiva de aquisição dos volumes de combustível pactuados no contrato de fornecimento)”; b.12) “materialmente, o conjunto de operações (bonificação e mútuo) propicia a antecipação da bonificação”. c) Data de Reconhecimento das Receitas Auferidas Referentes às Bonificações por Desempenho Recebidas: c.1) “o pacto formal de bonificação sob condição suspensiva, previsto no Contrato de Posto Revendedor n° 119881, materialmente, passa a ser um negócio sob condição resolutiva, que está sendo executado pelas partes, inclusive com amortizações mensais em contas de resultado pela distribuidora ao longo do transcorrer do prazo contratual, como visto acima. Dessa forma, a receita de bonificação deve ser tributada de imediato no posto de combustíveis, segundo o regime de competência, conforme será exposto”; Fl. 1443DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 9 c.2) “a Solução de Consulta COSIT n° 110, de 26/03/2019 tratou do assunto ‘bonificações por desempenho recebidas de forma antecipada’, dizendo que essas bonificações devem ser tributadas pelo regime de competência, ou seja, serem apropriadas no transcurso do período contratual”; c.3) “a própria Raízen apropriou e amortizou mensalmente valores proporcionais referentes aos adiantamentos, seguindo a Solução de Consulta COSIT n° 110, de 26/03/2019”; c.4) “dessa forma, os valores das receitas auferidas pela fiscalizada das bonificações antecipadas recebidas por si, ainda que formalmente identificadas como valores de mútuo/empréstimo, serão reconhecidas pelo regime de competência e apropriadas no transcurso do período do contrato, tomando por base as amortizações mensais das parcelas feitas pela Raízen”. d) Infração Apurada. Omissão de Receitas Referentes às Bonificações por Desempenho Recebidas: d.1) “materialmente houve o adiantamento dos valores do bônus previsto no Contrato de Posto Revendedor n° 119881, através da simulação de uma operação de empréstimo/mútuo através do Contrato de Mútuo n° 119628”; d.2) “a fiscalizada não registrou os valores recebidos referentes às bonificações por desempenho recebidas por si em contas de receita em sua escrituração contábil, tendo, por conseguinte, excluído esses valores das bases de cálculo do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS do período verificado. Assim, a fiscalizada omitiu as receitas auferidas por si referentes aos valores das bonificações por desempenho tratadas neste Relatório Fiscal”; d.3) “dessa forma, efetuamos o lançamento dos valores do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS devidos, após a inclusão dos valores recebidos dos bônus por desempenho nas bases de cálculo do imposto e das contribuições federais, da forma a seguir colocada”; d.4) “o lançamento teve por base os valores das amortizações mensais registradas pela Raízen, conforme a tabela abaixo, sendo incluídos esses valores nas respectivas bases de cálculo trimestrais do IRPJ e da CSLL”; d.5) “no lançamento foram considerados os valores das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL informados pela fiscalizada nas ECF’s referentes aos anos-calendários de 2016, 2017 e 2018. Também foram considerados e aproveitados os saldos de prejuízos operacionais (IRPJ) e de base de cálculo negativa da CSLL, constantes dos E-LALUR e E-LACS das ECF’s referentes aos anos-calendário de 2016, 2017 e 2018" e "os valores já lançados do IRPJ e CSLL constantes do Processo Administrativo Fiscal n° 11000. 723822/2021-11”; d.6) “as contribuições PIS e COFINS foram apuradas e lançadas no regime não- cumulativo, aplicando-se diretamente as alíquotas sobre os valores das amortizações mensais realizadas pela Raízen. Fl. 1444DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 10 Todos os créditos da fiscalizada existentes referentes a essas contribuições, bem como os valores declarados em DCTF foram aproveitados no lançamento autuado no Processo Administrativo Fiscal n° 11000.723.822/2021-11”. e) Multa Aplicada: e.1) “conforme exposto neste Relatório Fiscal, em síntese, os valores enviados pela distribuidora ao posto revendedor seriam, talvez, tributados em um futuro distante pelo posto, enquanto geram para fins fiscais, a partir do envio, uma redução mensal no lucro da distribuidora a título de despesa de amortização de bonificação. Não há dúvidas que a Administração Tributária Federal, terceira interessada nos efeitos da relação contratual, está sendo lesada nessa interpretação negocial”; e.2) “há, de forma inegável, prejuízo ao Fisco Federal quando uma das partes antecipa despesas e a outra posterga receitas, a partir de uma mesma base. É visível a deformação proporcionada à natureza e ao aspecto temporal do fato gerador de tributos federais”; e.3) “a sistemática contratual utilizada pela Raízen e pela JMF denota a existência de ato simulado em relação à Administração Tributária Federal. A opção contratual da Raízen e da JMF estabeleceu um regramento diverso do resultado que se observa à luz das características já elencadas e da contabilização praticada pela Raízen”; e.4) “no caso deste Procedimento Fiscal, foi observada a formalização de um conjunto de negócios jurídicos, quais sejam: contratos de fornecimento de combustíveis com previsão de pagamento de bonificação financeira por desempenho postecipada (sujeita a uma cláusula suspensiva de aquisição total do volume de combustíveis contratado ou de transcorrer do tempo contratual) e, também, contrato de mútuo financeiro não oneroso”; e.5) “o contrato de fornecimento/bonificação e o mútuo foram formalizados nas mesmas datas com valores absolutamente idênticos. Com isso, o montante da bonificação, cujo pagamento estava sujeito ao cumprimento integral do contrato de fornecimento de combustíveis, foi materialmente antecipado ao contribuinte fiscalizado, através da simulação de uma operação de mútuo”; e.6) “ou seja, por meio do referido conjunto de negócios jurídicos, foi simulada a existência de um contrato de mútuo, para dissimular bonificação financeira antecipada sujeita a uma cláusula resolutiva”; e.7) “os fatos descritos neste Relatório Fiscal evidenciam que a fiscalizada aproveitou-se de um modelo contratual para ocultar da Administração Tributária Federal a ocorrência de fatos geradores de tributos federais. A utilização da simulação já descrita é caracterizadora da conduta descrita no artigo 72 da Lei n° 4.502/1964 (fraude)”; e.8) “dessa forma aplicamos às infrações de que trata este Relatório Fiscal a multa de ofício de 150%, nos termos do § 1° do artigo 44 da Lei n° 9.430/1996”. Fl. 1445DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 11 f) Inclusão de Responsáveis Solidários f.1) Sócios-Administradores da JMF: f.1.1) “o CTN, em seu artigo 135, inciso III, estabeleceu que os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado respondem pessoalmente pelos créditos tributários exigidos por conta de atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos”; f.1.2) “desse modo, respondem pelos créditos tributários, solidariamente com a pessoa jurídica, as pessoas físicas que nela tinham poderes de gestão na época da ocorrência dos fatos geradores, se constatada a prática de atos que corresponderam à infração de lei. A lei infringida não precisa ser, necessariamente, tributária, mas as suas consequências devem ter efeitos tributários”; f.1.3) “como descrito nos tópicos anteriores deste Relatório, constatou-se a prática de fraude, nos termos do artigo 72 da Lei n° 4.502/64, em função da adoção de conduta dolosa, tendente a impedir ou retardar a ocorrência dos fatos geradores correspondentes aos créditos tributários ora exigidos”; f.1.4) “assim, de acordo com o inciso III do artigo 135 da Lei n° 5.172/66, com base no exposto neste Relatório Fiscal, incluímos como Responsáveis Solidários das obrigações constituídas neste Procedimento Fiscal os Srs. João Alberto Freire Sobral, CPF n° 018.018.215-34, Marcelo Santos Sobral, CPF n° 458.209.455-49 e Fábio Santos Sobral, CPF n° 650.055.705-00, todos sócios- administradores do contribuinte fiscalizado no período das infrações de que trata este Relatório Fiscal, conforme consta no cadastro CNPJ da RFB”. f.2) Raízen Combustíveis S/A: f.2.1) “o vínculo da responsabilidade solidária se estabelece quando há pessoas que têm interesse comum da situação que constitui o fato gerador da obrigação principal. O ajuste doloso de vontades de duas ou mais pessoas para realizar atos simulados com fins tributários implica interesse comum no fato gerador e atrai a responsabilidade de que trata o art. 124, I, da Lei n° 5.172/66”; f.2.2) “dessa forma, de acordo com o inciso I do artigo 124 do CTN, com base nos fatos expostos neste Relatório Fiscal, também incluímos como Responsável Solidária das obrigações constituídas neste Procedimento Fiscal a empresa Raízen, tendo em vista que, buscando vantagens em sua prática comercial, essa empresa participou da estrutura contratual simulada, propiciando o ambiente para a execução da fraude”. Em razão dos apontados fatos, também foram lavrados os Autos de Infração relativos à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL (fls. 49 a 85), este com base na “FALTA DE RECOLHIMENTO DA CSLL DEVIDA SOBRE RECEITAS OMITIDAS”, à Contribuição para Financiamento da Seguridade Social – COFINS (fls. 86 a 96) e à Contribuição para o Programa de Integração Social – PIS (fls. 97 a 107); com Fl. 1446DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 12 relação à COFINS e ao PIS, os lançamentos foram feitos pelo regime de “INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA PADRÃO”, sendo ali apontada a “OMISSÃO DE RECEITA”. Os enquadramentos legais encontram-se discriminados nos respectivos Autos de Infração. Por fim, foram lavrados pela Autoridade Fiscal “Termos de Responsabilidade Tributária” em nome de João Alberto Freire Sobral (CPF nº 018.018.215-34; fls. 495 a 497), Marcelo Santos Sobral (CPF nº 458.209.455-49; fls. 498 a 500), Fábio Santos Sobral (CPF nº 650.055.705-00; fls. 492 a 494), com base no artigo 135, inciso III, do Código Tributário Nacional – CTN, e em nome da empresa “Raízen S.A.” (CNPJ nº 33.453.598/0001-23; fls. 489 a 491)”, com base no artigo 124, inciso I, do CTN, fundamentado nos seguintes fatos: 2. Da Impugnação 2.1. JMF – Comércio de Combustíveis Ltda, João Alberto Freire Sobral, Marcelo Santos Sobral e Fábio Santos Sobral Ciente em 13/08/2021 (fl. 504), em 14/09/2021, por intermédio de instrumento de defesa (fls. 510 a 560), a Impugnante, em conjunto com os seus sócios-administradores, através de seu representante legal, alegaram, em síntese, que: a) Nulidade do Lançamento Fiscal. Falta de Segurança da Infração. Cerceamento do Direito de Defesa: a.1) “oportuno se faz repisar que, para sustentar os lançamentos ora impugnados, a Autoridade Fiscal considerou que o Contrato de Mútuo n° 119628 celebrado entre a Impugnante JMF e a Raízen, seria um ato simulado para descaracterizar o pagamento de bonificação antecipada, cujos valores recebidos, no entender da Fiscalização, deveriam ter sido oferecidos à tributação”; a.2) “a Fiscalização chegou à referida e indevida conclusão, após analisar a conduta unilateral da Raízen, que realizou a amortização mensal em contas de despesas do montante referente ao Contrato de Mútuo, enquanto a Impugnante JMF as registrou de acordo com as formalidades exigidas para o mútuo celebrado”; a.3) “conforme registrou expressamente em seu Relatório Fiscal, para realizar a apuração do tributo supostamente devido pela Impugnante JMF, o Fisco baseou- se, exclusivamente, na contabilização indevidamente realizada pela Raízen”; a.4) “em outras palavras, a Raízen contabilizou de forma indevida amortizações mensais, consistentes na diferença estornada por ela dos valores contratados como mútuo, e o Fisco considerou como receita da JMF os valores que a Raízen, unilateralmente, definiu e registrou como estorno, de forma manifestamente indevida. Como se pode verificar, tal procedimento adotado pelo Fisco encontra se dissociado dos preceitos legais, sobretudo quando se analisa o artigo 43 do CTN”; Fl. 1447DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 13 a.5) “deste modo, em face da total insegurança trazida pelos lançamentos de ofício ora combatidos, com flagrante restrição ao direito à ampla defesa e ao contraditório da Impugnante, corolários do princípio constitucional do devido processo legal, requer seja declarada a sua nulidade absoluta, com fulcro no artigo 59, II, do Decreto n° 70.235/72 c/c artigo 53 da Lei n° 9.784/99, assim como no artigo 5°, LV, da Constituição Federal”. b) Ocorrência da Decadência. Perda do Direito do Fisco de Realizar o Lançamento: b.1) “a Impugnante adquiriu a ‘disponibilidade jurídica’ relativa aos valores objeto dos mencionados dos Contratos no momento da sua celebração, indiscutivelmente ocorridos em 31/03/2016, conforme reconhecido pelo próprio Relatório Fiscal elaborado pelo Autuante”; b.2) “no momento em que os Autos de Infração ingressaram no mundo jurídico (13/08/2021, data da efetiva notificação do contribuinte), já havia ocorrido a perda do direito do Fisco de cobrar os créditos tributários em relação aos fatos geradores ocorridos em 31/03/2016 (data da celebração dos Contratos), pois evidentemente ultrapassado o lapso temporal quinquenal entre a ocorrência dos fatos geradores do tributos cobrados e sua constituição através do lançamento de ofício ora impugnado, restando, tais créditos, claramente fulminados pela decadência, nos termos do art. 150, §4°, do CTN”; b.3) “no caso concreto, não há dúvidas que os tributos analisados se sujeitam às regras do lançamento ‘ficto’, por homologação, realizado pelo contribuinte. Diz-se ‘ficto’ pois, como se sabe, o lançamento tributário é ato privativo da autoridade administrativa (ex vi do art. 142 CTN), desse modo, à luz da técnica jurídica, não se pode admitir que as prévias atividades de apuração e pagamento, realizadas pelo contribuinte sem a participação da autoridade administrativa, se prestem à perfectibilizar o lançamento tributário”; b.4) “o prévio pagamento parcial dos saldos devedores trimestrais do IRPJ e seus reflexos (CSLL, PIS e COFINS), realizados pela Impugnante relativamente às competências em discussão não pode ser confundido com o ato de lançamento e constituição do crédito tributário”; b.5) “desse modo, como a autoridade administrativa autuante só formalizou o lançamento de ofício em 13/08/2021 (data da efetiva notificação do contribuinte), é óbvio que decaído já estava o seu direito de alcançar todos fatos ocorridos antes de 13/08/2016. Não há como se afastar dessa realidade, sob pena de se cometer flagrante ilegalidade”; b.6) “de toda sorte, ainda que eventualmente não seja considerada a data da celebração dos referidos Contrato de Posto Revendedor (fornecimento/bonificação) e Contrato de Mútuo (empréstimo) para efeito de demarcação do termo a quo para contagem do prazo decadencial (ocorrida em 31/03/2016), importa salientar que, no que se refere à primeira parcela do Fl. 1448DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 14 empréstimo concedido para a Impugnante JMF, no importe de R$ 1.079.358,50, o próprio Autuante reconhece ao longo de todo o Relatório Fiscal que o repasse do valor ocorreu no dia 15/05/2016”; b.7) “como se pode depreender, não obstante a data da celebração do contrato (aquisição da disponibilidade jurídica) e a data do efetivo recebimento do primeira parcela paga pela Raízen (aquisição da disponibilidade econômica), a Autoridade Fiscal, por meio de uma interpretação equivocada do artigo 117, II, do CTN, deslocou indevidamente a data da ocorrência dos pretensos fatos geradores das obrigações tributárias para o momento dos lançamentos contábeis realizados pela distribuidora Raízen, alegadamente com supedâneo na Solução de Consulta COSIT n° 110, de 26/03/2019”; b.8) “com isto, a Fiscalização desprezou completamente as regras estabelecidas pelo supramencionado art. 43 do CTN, que consagra ‘a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou proventos de qualquer natureza’ como fato gerador do Imposto de Renda, para considerar as meras amortizações mensais realizadas pela Raízen ‘no transcurso do contrato’ como sendo os fatos jurídicos tributários a serem considerados para efeito de lançamento dos créditos tributários em discussão”; b.9) “como se pode depreender, tendo sido desvirtuados os empréstimos recebidos pela Impugnante JMF como se fossem bonificação antecipada, negócio jurídico sujeito à condição resolutória, como destacado pela própria Autoridade Fiscal em seu Relatório Fiscal, considera-se ocorrido o fato gerador nele consubstanciado desde ‘o momento da prática do ato ou da celebração do negócio’, sendo irrelevante a implementação ou não da condição estabelecida para fins tributários”; b.10) “deste modo, ao contrário da conclusão alcançada pelo Fiscal, todos os efeitos jurídicos decorrentes do Contratos de Mútuo e de Posto Revendedor, e, com eles, os fatos geradores das obrigações tributárias, devem ser considerados ocorridos, para efeito de demarcação do termo a quo para contagem do prazo decadencial, desde o momento da prática do ato ou da celebração do negócio, ou seja, deste 31/03/2016, data da celebração dos referidos Contratos (aquisição da disponibilidade jurídica), ou, no pior cenário, nas datas dos efetivos recebimentos dos pagamentos realizados pela distribuidora Raízen, em virtude da indiscutível aquisição da disponibilidade econômica dos pretensos rendimentos”; b.11) “destarte, não restam dúvidas de que deve ser reconhecida a decadência do direito do fisco de realizar o lançamento por homologação no prazo de 5 anos, a contar da ocorrência dos fatos geradores das obrigações tributárias, seja considerando as datas das celebração dos Contratos de Mútuo e de Posto Revendedor (ocorrida em 31/03/2016), seja ainda considerando as datas dos pagamentos recebidos pela Impugnante, na forma do §4° do art. 150 do CTN, devendo ser excluídos do lançamento fiscal os valores referentes aos fatos Fl. 1449DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 15 geradores anteriores a 13/08/2016, pois estes foram alcançados pela decadência”; b.12) “note-se ainda, que o Autuante entendeu que a sistemática verificada no Contrato de Posto Revendedor (fornecimento/bonificação) e no Contrato de Mútuo (empréstimo) teria revelado uma ‘simulação’, com vista a ocultar a suposta ocorrência de fatos geradores dos tributos federais”; b.13) “neste cenário, diante da conduta imputada como fraudulenta, a regra aplicada ao caso em deslinde seria a prevista no art. 173, I do CTN, ou seja, a contagem do prazo decadencial qüinqüenal para lançamento do crédito tributário pelo Fisco somente teria início no primeiro dia do exercício seguinte àquele ao qual o lançamento poderia ter sido efetuado”; b.14) “contudo, conforme será pormenorizadamente tratado nos tópicos seguintes, ao contrário do que alega a Fiscalização, não houve comprovação do ato simulado, tendo a Impugnante JMF se comportado fielmente segundo a expectativa dos Contratos celebrados, bem como agido, a todo instante, em absoluto respeito à legislação tributária”; b.15) “deste modo, descaracterizada a conduta fraudulenta ou dissimulada, há que ser afastada a incidência da regra prevista no artigo 173, I, do CTN em relação aos créditos tributários em discussão, devendo ser aplicada, conforme sobejamente demonstrado, a norma do art. 150, §4° do CTN, ou seja, o prazo quinquenal decadencial para a fiscalização efetuar a revisão do lançamento do crédito se inicia na data da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária”. c) Validade do Contrato de Mútuo Celebrado. Hipótese de Não Incidência dos Tributos Cobrados: c.1) “ao contrário do que entendeu o Autuante, o Contrato de Posto Revendedor e o Contrato de Mútuo firmados são independentes entre si e não se confundem, embora tenham sido celebrados na mesma oportunidade, o que, todavia, não é suficiente para descaracterizar nenhum dos negócios em análise”; c.2) “isto porque a bonificação prevista no Contrato de Posto Revendedor está atrelada, exclusivamente, à meta de aquisição de volume de combustível prevista em suas cláusulas, cujo bônus, inclusive, somente será devido após o cumprimento da referida meta. Caso a meta não seja atingida, não será devido nenhum valor à Impugnante”; c.3) “já o Contrato de Mútuo formaliza o empréstimo fornecido pela distribuidora Raízen para auxiliar no exercício das atividades da Impugnante, com previsão de devolução em 31/03/2022, ou seja, termo em que a Impugnante JMF deve realizar a restituição do valor emprestado”; c.4) “assim, analisando os contratos individualmente, é possível concluir que ambos são independentes, pois, caso não houvesse o Contrato de Mútuo, a bonificação prevista no CPR poderia existir plenamente. Da mesma forma, se não Fl. 1450DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 16 houvesse a previsão de bonificação no CPR, o mútuo também poderia ser realizado, haja vista estarem presentes todos os requisitos legais para a celebração de cada negócio”; c.5) “nesse contexto, cumpre destacar que a própria Raízen, em suas respostas às intimações da Autoridade Fiscal, esclarece que ‘o mútuo firmado entre as partes não representa um pagamento antecipado de bonificação’, em que pese a previsão no Contrato de Posto Revendedor de uma cláusula ‘facilitadora’, em que JMF autoriza a distribuidora Raízen a realizar a compensação do bônus a ser eventualmente pago, em caso de cumprimento de todas as obrigações pactuadas no Contrato de Posto Revendedor, com quaisquer débitos que a JMF porventura possua com a distribuidora na data do pagamento”; c.6) “o que se verifica é a existência de dois contratos distintos e independentes, os quais permitem a realização de uma compensação, ou seja, de um encontro de contas entre os débitos e os créditos devidos por ambas as partes, o que, por sua vez, não desvirtua ou deslegitima o Contrato de Mútuo celebrado, como equivocadamente entendeu a Autoridade Fiscal”; c.7) “ocorre que, segundo informações constantes no próprio Relatório Fiscal, a Raízen não teria agido de acordo com os termos pactuados nos contratos celebrados com a Impugnante JMF, tampouco com os próprios esclarecimentos prestados nas respostas às intimações, quando confirmou a independência entre a bonificação e o mútuo”; c.8) “isso se verifica, pois, segundo o Autuante, a Raízen procedeu com amortizações mensais dos pagamentos a título de bonificação antecipada, encerradas em contas de resultado, dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, e, ‘da forma como a Raízen realizou o registro das amortizações, houve a partir do envio, uma redução mensal no lucro da distribuidora a título de despesa de amortização de bonificação’, procedimento este desconhecido pelos Impugnantes até então e com o qual eles não corroboram”; c.9) “já a Impugnante JMF comportou-se em estrita observância ao Contrato de Mútuo celebrado, tendo esclarecido em suas respostas à Fiscalização que não ofereceu à tributação os valores recebidos a título de mútuo (empréstimo), registrados na Conta Contábil ‘1215’, por entender estarem os mesmos fora do campo de incidência do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS”; c.10) “nesta linha de intelecção, verifica-se que o entendimento manifestado pela Autoridade Fiscal da suposta ocorrência de prática criminosa, com fins de fraudar o Fisco e omitir receitas pretensamente sujeitas à tributação, jamais decorreu do comportamento dos Impugnantes. Todo o procedimento descrito pelo Autuante tem como base os atos praticados exclusivamente pela Raízen e à revelia do conhecimento, participação e quiçá o consentimento dos Impugnantes”; Fl. 1451DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 17 c.11) “ademais, frise-se que a própria Raízen reconhece que efetuou o pagamento do IOF correspondente empréstimo concedido, demonstrando que todas as formalidades referentes ao referido Contrato de Mútuo foram devidamente cumpridas, sobretudo por parte da JMF, ora Impugnante. Se, após o contrato firmado, a Raízen decidiu registrar como despesa os valores emprestados à JMF, esta foi, repise-se, uma conduta unilateral sua, que não pode ser imputada aos Impugnantes”; c.12) “considerando que sua principal característica é a restituição do montante emprestado, é cediço que os valores recebidos a título de mútuo não se enquadram no conceito de receita tributável, haja vista que não incorporam de forma definitiva ao patrimônio da empresa mutuária, e não configuram, por consequência, hipótese de incidência do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS”; c.13) “verifica-se que os valores recebidos pela Impugnante JMF, fruto do Contrato de Mútuo objeto de discussão no presente processo, com prazo de devolução quando do encerramento do contrato (previsto para 31/03/2022), não podem ser tratados como receita para fins de tributação, por não configurarem ingresso financeiro que se integra no patrimônio da pessoa jurídica na condição de elemento novo e positivo”. d) Vantagens Econômicas Proporcionadas por Contratos de Bonificação. Natureza Jurídica de Redução de Custo de Aquisição para o Comprador. Ajustes Posteriores Não Podem Transformar Custo em Receita: d.1) “as pretensas ‘vantagens econômicas' recebidas a título de bonificação, possuiriam natureza de ‘redução de custo de aquisição', de modo que, também por esta razão, não se enquadram no conceito de 'receita’ para efeito de incidência do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS”; d.2) “a cobrança fiscal tem origem nos valores recebidos pela Impugnante JMF, em decorrência do Contrato de Mútuo firmado com a Raízen, interpretado pela Autoridade Fiscal como Contrato de Bonificação por Antecipação e considerado como sendo ‘receita’ não oferecida à tributação”; d.3) “as bonificações podem ser traduzidas como a prática comercial em que o fornecedor, por política de vendas ou outra razão econômica, concede vantagem ao seu cliente, geralmente condicionada ao volume de itens adquiridos, ou mesmo pelo tratamento de exclusividade, sempre com o claro propósito de induzir a conduta positiva do comprador”; d.4) “não é por outra razão que os Contratos de Bonificação estão sempre relacionados e vinculados a um respectivo Contrato de Compra e Venda, decorrentes de pacto firmado na relação comercial existente entre o fornecedor e o revendedor, pelo que sobreleva trazer à tona algumas classificações desta modalidade de contrato, categoria na qual se insere o Contrato de Posto Revendedor firmado entre a distribuidora de combustíveis Raízen e a Impugnante”; Fl. 1452DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 18 d.5) “vale dizer, a causa jurídica do Contrato de Bonificação emerge claramente dos negócios pactuados com os fornecedores, atuando no dimensionamento da pretendida ‘vantagem econômica' para ambas as partes, ou seja, interfere diretamente no ajuste de ‘preço’ da mercadoria adquirida, que, ao final, dá definitividade no valor da contraprestação pactuada para a operação de compra”; d.6) “no caso de se considerar os empréstimos concedidos à Impugnante como sendo bonificação antecipada, não seria diferente, haja vista que a existência de supostas ‘receitas’ de bonificações pagas pela distribuidora de combustíveis somente ocorreria pelo compromisso de adquirir produtos do respectivo fornecedor com exclusividade e em determinados volumes mínimos”; d.7) “por sua vez, é cediço que, no recebimento de mercadorias adquiridas para a revenda, deve a pessoa jurídica registrar a compra pelo seu ‘custo de aquisição’, conhecido naquele momento, que deve corresponder ao ‘preço’ efetivamente ajustado com o vendedor, acrescido dos demais gastos suportados até a entrada no estabelecimento da adquirente”; d.8) “tal assertiva está ainda sustentada nas diretrizes ditadas pela ciência contábil, de onde se extrai que as ‘bonificações’ devem ser tratadas como parcelas redutoras na determinação do ‘custo de aquisição’ das mercadorias, e não como ‘receitas’”; d.9) “de acordo com o Pronunciamento Técnico CPC n° 16, aprovado pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis em 08/05/2009, o custo de aquisição dos estoques compreende: ‘o preço de compra, os impostos de importação e outros tributos (exceto os recuperáveis junto ao fisco), bem como os custos de transporte, seguro, manuseio e outros diretamente atribuíveis à aquisição de produtos acabados, materiais e serviços. Descontos comerciais, abatimentos e outros itens semelhantes devem ser deduzidos na determinação do custo de aquisição’”; d.10) “desta forma, em atendimento à regra contábil destacada, se o registro do ‘custo’ da operação de compra está majorado frente ao pacto negocial firmado com o fornecedor, porque não foi considerada a ‘bonificação’ na modalidade de ‘desconto’ financeiro que reduz o valor da obrigação ou contribui para liquidá-la, haveria a necessidade de ajustes para redução do valor do custo inicialmente registrado”; d.11) “no entanto, não poderia a correlata conta ‘redutora de custo’ ser tomada indevidamente como conta de ‘receita’, como se pode depreender do Pronunciamento Técnico – CPC n° 30 (aprovado pela Deliberação CVM n° 597/2009), por meio do qual o Comitê de Pronunciamentos Contábeis esclarece sobre o adequado tratamento contábil para o reconhecimento de ‘receita’ auferida pelas pessoas jurídicas: ‘A receita deve ser mensurada pelo valor justo da contraprestação recebida ou a receber. O montante da receita proveniente de uma transação é geralmente acordado entre a entidade e o comprador ou usuário do ativo e é mensurado pelo valor justo da contraprestação recebida, deduzida de Fl. 1453DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 19 quaisquer descontos comerciais e/ou bonificações concedidos pela entidade ao comprador’”; d.12) “as vantagens econômicas proporcionadas pelas supostas ‘bonificações’, por interferirem na finalização do ‘preço’ do negócio pactuado, teriam natureza jurídica de ‘redução do custo de aquisição’ na perspectiva da Impugnante (adquirente das mercadorias), não podendo, portanto, serem qualificadas como ‘receita’ da beneficiária da vantagem, como indevidamente entendeu a Autoridade Fiscal na hipótese em discussão”; d.13) “as bonificações concedidas aos compradores serão sempre descontos condicionais ou incondicionais, não tendo natureza de faturamento ou receita, mas sim de redutor de custo das mercadorias vendidas, conforme demonstrado nas linhas precedentes”; d.14) “considerando o entendimento firmado pela jurisprudência administrativa e judicial a respeito do tema em discussão, alinhado com as diretrizes ditadas pela ciência contábil, verifica-se que as ‘bonificações’ como gênero, abrangendo também os chamados ‘descontos financeiros’ vinculados às compras, não podem ser catalogadas com o rótulo de ‘receita’, mesmo quando equivocadamente registradas na escrituração contábil para neutralizar encargo anterior registrado a maior, por faltar-lhes os predicados jurídicos inerentes ao conceito de ‘receita’ enquanto base de cálculo do IRPJ, da CSLL do PIS e da COFINS”; d.15) “finalmente, a Impugnante não poderia deixar de esclarecer que, no Contrato de Posto Revendedor celebrado com a distribuidora de combustíveis Raízen, envolvendo fidelidade de compra, com a contrapartida das ‘vantagens comerciais’ obtidas através de bonificações, o valor do combustível praticado com a Impugnante é superior (mais caro) do que o valor do combustível comumente praticado no mercado (vendido pelas mesmas distribuidoras) com postos de ‘bandeira branca’ (sem fidelidade)”; d.16) “significa dizer que, no caso dos autos, se os valores recebidos a título de mútuo forem considerados como bonificações, estas não representariam aumento de patrimônio (ganho auferido) da Impugnante JMF, na medida em que a redução do custo de aquisição dos combustíveis (pretensa diminuição do passivo) sequer é efetiva, na medida em que, no decorrer do Contrato de Posto Revendedor formalizado com a distribuidora, com a consequente aquisição do combustível em valores maiores (mais caro) do que o comumente praticado no mercado, é evidente que a margem de lucro da Impugnante, efetivo resultado da operação, restará claramente comprometida”; d.17) “logo, por mais este fundamento demonstra-se que, caso o empréstimo obtido pela Impugnante seja considerado como bonificações, estas não se caracterizariam auferimento de receita, na medida em que, ao fim e ao cabo, além de não se enquadrarem no conceito ‘receita’, não representariam acrescimento do patrimônio da Impugnante”. Fl. 1454DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 20 e) Inaplicabilidade da Multa Qualificada. Ausência de Comprovação de Dolo, Fraude ou Sonegação Praticada Pela Empresa JMF e Seus Sócios: e.1) “no caso em apreço, não há comprovação da prática de qualquer conduta fraudulenta por parte da Impugnante JMF, nem dos seus sócios. Muito pelo contrário, a qualificação da multa decorre de uma interpretação forçada dos fatos por parte da Fiscalização, especialmente quando se avalia o comportamento probo da Impugnante JMF”; e.2) “isto, porque, consoante evidenciado ao longo da defesa, os Contratos de Posto Revendedor (fornecimento/bonificação) e de Mútuo (empréstimo) celebrados com a distribuidora de combustível Raízen Combustíveis S/A são independentes entre si e não se confundem, razão pela qual não há que se falar em ato simulado, com vista a ocultar suposta ‘receita’ decorrente do pagamento de bonificação antecipada”; e.3) “a Impugnante JMF comportou-se fielmente segundo a expectativa do Contrato de Mútuo, agindo, a todo instante, em absoluto respeito à legislação tributária, tendo esclarecido em suas respostas à Fiscalização que não ofereceu à tributação os valores recebidos a título de mútuo (empréstimo), registrados na Conta Contábil ‘1215’, por entender estarem os mesmos fora do campo de incidência do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS”; e.4) “ora, ilustres Julgadores, se por ação unilateral da distribuidora Raízen, à revelia das formalidades pactuadas com a Impugnante e do seu conhecimento, a autuação fiscal desdobrou, além da cobrança dos tributos que se entendeu serem devidos, na imputação da conduta criminosa de Fraude (art. 72 da Lei n° 4.502/1964), com a consequente aplicação de multa agravada/criminal de 150%, bem como na instauração dos Termos de Responsabilidade Tributária Solidária, inclusive contra a própria Raízen, apenas a Raízen deveria responder de forma exclusiva pelos atos isolados e ilícitos apontados pela Fiscalização, decorrentes exclusivamente do seu comportamento”; e.5) “inclusive, importa salientar que os Impugnantes (JMF e seus sócios) notificarão formalmente a distribuidora Raízen, por meio de Notificação Extrajudicial, acerca dos fatos narrados na presente impugnação”; e.6) “isto, porque, conforme evidenciado nos tópicos acima, mesmo que os mútuos pactuados fossem considerados antecipação de bonificação, o que foi admitido apenas para efeito de argumentação, ainda assim sequer tais vantagens econômicas seriam tributáveis, pois, nesta hipótese, os valores recebidos representariam redução de custo de aquisição, fora, portanto, do campo de incidência do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS”; e.7) “portanto, por mais este argumento verifica-se que, na hipótese destes autos, o que se tem é a mera presunção de conduta fraudulenta por parte dos Impugnantes, supostamente com fins de ocultar fatos geradores, na medida em que, seja através dos empréstimos formalmente concedidos, sejam por meio de Fl. 1455DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 21 bonificação antecipada, não haveria que se falar em tributação do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS sobre os valores recebidos pela Impugnante JMF”; e.8) “a multa qualificada não pode prosperar, pois não houve demonstração de maneira pormenorizada de que os Impugnantes tenham agido com dolo, fraude ou simulação, com o intuito de ocultar a ocorrência de fato gerador ou reduzir a base de cálculo dos tributos, como afirma inconsistentemente a Fiscalização”. f) Não Incidência dos Juros Moratórios Sobre a Multa de Ofício: f.1) “deve ser afastada a incidência dos juros moratórios sobre a multa de ofício, uma vez que, no âmbito dos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, a legislação atualmente em vigor não autoriza a exigência de juros sobre multa”; f.2) “neste sentido, ressalte-se que o §3° do art. 61 da Lei n° 9.430/96 determina que:‘sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o §3° do art. 5°, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento’”; f.3) “à evidência, a expressão ‘Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora...’, que inaugura o dispositivo supra transcrito, diz respeito somente ao valor do principal relativo à obrigação tributária não paga no vencimento”. g) Ilegitimidade Passiva dos Sócios Administradores da JMF Comércio. Ausência de Prova do Ato Ilícito Praticado Com Excesso de Poderes ou Infração de Lei, Contrato Social ou Estatutos. Inaplicabilidade do Art. 135, Inciso III, do CTN: g.1) “verifica-se, pela própria dicção do art. 135, III, do CTN, que é necessário que os terceiros elencados neste dispositivo legal tenham agido de forma dolosa e que deste ato tenha resultado na inadimplência de tributos. A atribuição da responsabilidade se refere aos créditos tributários que tiveram origem em atos ilegais ou abusivos, não se tratando de simples inadimplência tributária gerada por incapacidade financeira”; g.2) “inexistindo prova de que se tenha agido dolosamente, com excesso de poderes, ou infração de contrato social ou estatutos, não há falar-se em responsabilidade tributária. Em outras palavras, sem prova do dolo ou fraude, não há a ‘infração legal’ deflagradora da responsabilidade pessoal e direta de terceiro”; g.3) “a responsabilidade pessoal dos Impugnantes somente seria admitida caso a Fiscalização comprovasse que o crédito tributário cobrado na ação fiscal é resultante da prática de ato ou fato ilícito praticado por ele, bem como que tal ato encontra-se eivado de dolo, excesso de poderes, infração de lei e/ou ao contrato Fl. 1456DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 22 social, e ainda que este ilícito foi capaz de dar origem à aplicação excepcional da norma de responsabilidade tributária prevista art. 135, III, do CTN”; g.4) “é oportuno salientar que, independente das alegações genéricas perpetradas pela Fiscalização, os Impugnantes demonstraram que, se por ação unilateral da distribuidora Raízen, à revelia das formalidades pactuadas com a Impugnante e do seu conhecimento, a autuação fiscal desdobrou, além da cobrança dos tributos que se entendeu serem devidos, na imputação da conduta criminosa de Fraude (art. 72 da Lei n° 4.502/1964), com a consequente aplicação de multa agravada/criminal de 150%, bem como na instauração dos Termos de Responsabilidade Tributária Solidária, inclusive contra a própria Raízen, apenas esta deveria responder de forma exclusiva pelos atos isolados e ilícitos apontados pela Fiscalização, decorrentes exclusivamente do seu comportamento”; g.5) “reitere-se mais uma vez que os Impugnantes (JMF e seus sócios) agiram fielmente segundo a expectativa dos Contrato de Mútuo e de Posto Revendedor, em absoluto respeito à legislação tributária, tendo esclarecido em suas respostas à Fiscalização que não ofereceu à tributação os valores recebidos a título de mútuo (empréstimo), por estarem os mesmos fora do campo de incidência do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS”; g.6) “a suposta prática de atos enquadrados como infração de lei, com reflexos tributários, consiste apenas em uma presunção, não havendo qualquer prova efetiva de que os Impugnantes agiram visando impedir ou retardar a ocorrência dos fatos geradores correspondentes aos créditos tributários exigidos”; g.7) “ademais, ainda que defendido o suposto ato simulado incorrido pela Impugnante JMF, caberia ao Autuante a comprovação da participação e envolvimento dos seus sócios administradores na atuação dolosa deflagrada durante a fiscalização, o que também não ocorreu”. Por fim, fazem os seus pedidos nos seguintes termos, “ante todo o exposto, requerem os Impugnantes que”: a) “sejam julgados improcedentes os Autos de Infração, uma vez que o empréstimo recebido pela JMF – Comércio de Combustíveis Ltda, em decorrência do Contrato de Mútuo celebrado com a distribuidora Raízen Combustíveis S/A, não está sujeito à incidência do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, por não se enquadrar no conceito de receita para fins tributários”; b) “em caráter sucessivo, ainda que por eventualidade se entenda que o mútuo concedido à JMF – Comércio teria natureza de antecipação de bonificação, o que se considera apenas para efeito de argumentação, ainda assim os Autos de Infração devem ser julgados improcedentes, uma vez que as vantagens econômicas proporcionadas pelas bonificações antecipadas, vinculadas ao Contrato de Posto Revendedor celebrados com as distribuidoras de Raízen Combustíveis S/A, teriam natureza jurídica de ‘redução do custo de aquisição’ das mercadorias correspondentes, não podendo ser qualificadas como ‘receita’ da Fl. 1457DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 23 Impugnante JMF, beneficiária da vantagem, para efeito de incidência dos referidos tributos cobrados”; c) “considerando a hipótese remota de serem ultrapassados os argumentos expendidos nos itens ‘a’ e ‘b’ acima, que demonstram a inconteste improcedência dos lançamentos fiscais, requerem os Impugnantes que seja reconhecida a decadência do direito de o Fisco de lançar os créditos tributários de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, em relação aos fatos geradores ocorridos em datas anteriores a 13/08/2016, pois evidentemente ultrapassado o lapso temporal quinquenal entre a ocorrência dos aludidos fatos geradores dos tributos cobrados e sua constituição através dos lançamentos fiscais ora impugnados, restando, tais créditos, claramente fulminados pela decadência, nos termos do art. 150, §4°, do CTN”; d) “ainda de forma sucessiva aos itens acima, requerem os Impugnantes que os Autos de Infração sejam julgados nulos, em face da total insegurança trazida pelas bases de cálculo dos tributos em discussão, com flagrante restrição ao direito à ampla defesa e ao contraditório dos Impugnantes, corolários do princípio constitucional do devido processo legal, com fulcro no art. 59, II, do Decreto n°.70.235/72 c/c art. 53 da Lei n°. 9.784/99, assim como no art. 5°, LV, da Constituição Federal, sobretudo diante da afronta direta ao preceito legal previsto no art. 43 do CTN”; e) “ainda sucessivamente, determinar a redução da multa qualificada para o patamar simples de 75%, tendo em vista a ausência de dolo, fraude ou simulação na sua conduta dos Impugnantes”; f) “seja ainda reconhecida, em qualquer hipótese, a ilegitimidade dos Impugnantes João Alberto Freire Sobral, Marcelo Santos Sobral e Fábio Santos Sobral (apontados como responsáveis solidários pelos créditos tributários em discussão) para figurarem no polo passivo da relação jurídica tributária em questão, tendo em vista a inaplicabilidade do art. 135, III, do CTN, julgando-se, por via de consequência, improcedentes os Termos de Sujeição Passiva Solidária lavrados pela Fiscalização”; g) “pugna também seja afastada a incidência de juros moratórios sobre a multa de ofício, na forma da jurisprudência do CARF”. 2.2. Raízen S.A. Ciente em 16/08/2021 (fl. 506), em 15/09/2021, por intermédio de instrumento de defesa (fls. 657 a 686), através de seu representante legal, alegou, em síntese, que: a) Preliminar. Nulidade do Auto de Infração Lavrado Contra a Impugnante por Cerceamento do seu Direito de Defesa. Impossibilidade de Acesso à Íntegra do Processo Administrativo. Ausência de Elementos Essenciais para a Defesa: Fl. 1458DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 24 a.1) “muito embora a Impugnante componha o polo passivo da autuação por pretensa solidariedade, bem assim tenha sido devidamente intimada da lavratura da autuação, a Autoridade Fiscal não lhe franqueou acesso integral aos documentos que compõem o processo administrativo. Apesar de inúmeras tentativas, a Impugnante não teve oportunidade de acessar a cópia integral do processo até o momento da elaboração dessa impugnação, o que prejudica claramente o exercício pleno do contraditório e do seu direito de defesa”; a.2) “quando da elaboração da defesa, a Impugnante viu necessidade de analisar os inúmeros documentos que são referenciados no Relatório Fiscal, a exemplo das respostas aos Termos de Fiscalização prestados pelo posto revendedor, contratos fornecidos, entre outras informações”; a.3) “contudo, na tentativa de acessar a íntegra do processo administrativo pelo E-Cac, a Impugnante percebeu que ele não está disponível no campo de ‘Meus Processos’, tampouco no campo de ‘Processos que sou Solidário’”; a.4) “o artigo 59, inciso II, do Decreto n° 70.235/72, se aplica justamente a esse tipo de situação, uma vez que aduz que são nulos os despachos e decisões proferidos com preterição do direito de defesa, que justamente se amolda ao caso em apreço, na medida em que não fora dada ciência à Impugnante a respeito da íntegra do processo administrativo e também dos documentos que instruem os fatos narrados no auto de infração e no próprio relato fiscal”; a.5) “é cristalino a indispensabilidade que a Impugnante tenha acesso à integra do processo administrativo para pleno exercício do contraditório no caso em apreço, de modo que pugna seja, de plano, decretada a nulidade do lançamento, por preterição do direito de defesa, na esteira do art. 59, II, do Decreto 70.235/72”; a.6) “caso assim não se entenda, que seja determinada que a autoridade fiscal lhe franqueie o acesso à integra dos autos, sendo reaberto o prazo de 30 dias para impugnação administrativa, como de direito”. b) Propósito Negocial para Elaboração do Contrato de Mútuo Dentro da Estrutura Comercial das Distribuidoras e Revendedores. Negócio Jurídico Plenamente Válido. Ausência de Dolo e Simulação: b.1) “no setor de distribuição de combustíveis, é comum que as distribuidoras celebrem contratos com postos revendedores para: I - garantir uma distribuição mínima de combustível por determinado período, e II - 'fidelizar' postos revendedores, que passam a utilizar a bandeira da distribuidora e comercializar produtos de uma marca específica. São os ditos postos bandeirados, cuja prática é, inclusive, regulamentada pela ANP”; b.2) “dessa forma, o contrato de fornecimento firmado pela Raízen com o revendedor JMF prevê: Fl. 1459DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 25 I - a licença de uso da marca e manifestação visual Shell ao posto revendedor; II - a compra e revenda exclusiva de produtos combustíveis a serem fornecidos pela Distribuidora; e III - as regras básicas de operação pelo posto revendedor”; b.3) “para o posto fidelizado, são estabelecidas obrigações como: I - concessão do direito de exclusividade e de não adquirir combustíveis de outras marcas; II - consumo mínimo determinado de volume de combustíveis, durante o prazo de vigência do contrato; III - instalação de manutenção de manifestação visual com a marca da distribuidora”; b.4) “para a distribuidora, por outro lado, é estabelecida, entre outras avenças, a obrigação de pagamento de determinado valor ao posto fidelizado, a título de bonificação, que passa a ser devida quando do cumprimento integral do contrato, ou seja, quando o revendedor adquire a totalidade dos volumes contratados, dentro dos prazos preestabelecidos”; b.5) “como se infere da cláusula acima do Contrato de Fornecimento, a bonificação apenas se torna devida ao final da relação contratual e desde que não haja qualquer infração por parte do revendedor. Assim, na hipótese de o volume de combustível contratado não ser integralmente consumido pelo posto fidelizado, por exemplo, a bonificação deixaria de ser devida, não se admitindo, a priori, qualquer pagamento a esse título, ainda que de forma parcial”; b.6) “com efeito, dentro do escopo da contratação firmada para fornecimento de combustíveis, a Raízen também celebra, concomitantemente, um contrato de mútuo (empréstimo financeiro), por meio do qual o revendedor fidelizado recebe um auxílio financeiro a título de capital de giro, logo que assina a contratação para aquisição de combustíveis, de modo a desenvolver suas atividades como revendedor”; b.7) “apesar de ser possível fazer uma correlação entre o contrato de posto revendedor e o contrato de mútuo, eis que firmados na mesma data e cujo valor do mútuo equivaleao da bonificação prevista no 'CPR', entende a Raízen que o mútuo não representa um pagamento antecipado de bonificação e tampouco é possível afirmar que os referidos contratos são necessariamente firmados de forma condicionada”; b.8) “o empréstimo concedido quando da assinatura do contrato de fornecimento de combustíveis, que é devidamente tributado pelo IOF pela Raízen, visa, naturalmente, o incremento das vendas do posto revendedor, que por consequência gera receita tributável para a distribuidora (Raízen) tendo em vista a revenda exclusiva dos seus produtos pelo varejista. Ou seja, a celebração do contrato de mútuo decorre do modelo de negócios que vem se mostrando Fl. 1460DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 26 extremamente eficiente nos últimos anos, de modo a impulsionar as vendas realizadas pela Raízen, geradores de receitas tributadas pelo IRPJ, CSLL, PIS e COFINS em favor da União Federal”; b.9) “ademais disso, quando encerrado o prazo o contrato de mútuo, caso este não seja adimplido pelo devedor (posto revendedor), a Raízen dispõe de um título executivo extrajudicial, cuja cobrança em juízo dispensa ação de conhecimento, conforme art. 784, III do CPC/2015. Assim, independentemente de qualquer obrigação que a Raízen possa ter com o posto fidelizado, em razão do contrato de fornecimento, o mútuo permanece plenamente exequível e juridicamente autônomo, resguardando o direito da Raízen na qualidade de credora”; b.10) “o contrato de fornecimento de combustíveis ainda representa um ‘facilitador’ financeiro para as partes, pois permite que distribuidora compense o valor do bônus de todo e qualquer débito do revendedor porventura existente na data do seu pagamento, de modo que, em regra, quando o revendedor atinge as metas do contrato, e o bônus se torna devido, pode ocorrer a compensação com o valor do mútuo concedido, na eventualidade de não subsistirem outros débitos”; b.11) “o empréstimo/mútuo concedido no início do contrato e a bonificação eventualmente paga ao final do contrato devem ser vistos e interpretados de forma individualizada, na medida em que a bonificação, conforme expressa disposição contratual apenas é devida ao final do contrato quando o revendedor adimple por completo suas obrigações de aquisição de combustíveis e, igualmente, não comete qualquer infração aos dispositivos do CPR”; b.12) “por outro lado, na eventualidade de o revendedor cometer infrações contratuais ou não atingir a meta para pagamento da bonificação, não haverá possibilidade de compensação do mútuo e o revendedor deve pagar o empréstimo na data do vencimento do contrato pelo valor integral atualizado, independentemente do volume já adquirido, também por força de expressa disposição contratual”; b.13) “simplesmente não se mostram presentes nenhum dos elementos acima. O fisco pode argumentar que a companhia buscou ocultar a verdade do pagamento de uma bonificação como se fosse um mútuo, mas pergunta-se: qual vantagem teria a Raízen com essa prática para agir dolosamente junto ao revendedor?”; b.14) “a bonificação está prevista em contrato devidamente documentada. O mútuo fora previsto em contrato devidamente documentado, houve o devido recolhimento dos IOF nas operações avençadas com mútuo. Se prevalecer o entendimento do fisco que o mútuo representa uma bonificação antecipada e que deveria haver a tributação pelo IRPJ, CSLL, PIS e COFINS no momento do pagamento do mútuo, resta claro que o benefício recaiu única e exclusivamente em face do revendedor e não da Impugnante, denotando a total ausência de dolo e responsabilidade solidária da Impugnante”; Fl. 1461DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 27 b.15) “a fiscalização não aponta qual foi o resultado incorrido pela Raízen para praticar a conduta dolosa típica. Há uma afirmação genérica, que a companhia teria vantagens comerciais, o que naturalmente não pode ser considerado justificativa hábil para reconhecimento do dolo”. c) Tratamento Fiscal Dado Pela Raízen às Operações. Ausência de Prejuízo ao Fisco: c.1) “quando da celebração do contrato de fornecimento, a Raízen registra, contabilmente, o direito de exclusividade decorrente da bonificação, o que implica o registro de um ativo a ser amortizado, na medida do fornecimento de combustível ao posto revendedor fidelizado, em regime de exclusividade. O ativo (direito de exclusividade), que é associado à bonificação gera uma despesa de amortização, que impacta o resultado contábil da companhia e é contabilizada na medida da geração das receitas das vendas associadas. A fiscalização utilizou esse fato para tentar justificar que os valores pagos a título de mútuo teriam natureza de bonificação”; c.2) “durante a vigência da relação contratual, as despesas são adicionadas ao lucro real e à base de cálculo da CSLL, para dedução apenas quando efetivamente for cumprido o contrato de fornecimento. Ou seja, a Raízen tem o devido cuidado na apuração do IRPJ e da CSLL de apenas deduzir essas despesas quando do efetivo cumprimento do contrato, momento em que se torna devida a bonificação ao revendedor, por expressa cláusula contratual”; c.3) “na prática, portanto, a Raízen não reduziu a base de cálculo do IRPJ e da CSLL com deduções da pretensa bonificação paga, visto que essa dedução apenas seria efetivada quando do efetivo adimplemento do contrato pelo revendedor. Esse ponto foi totalmente ignorado pelo fisco em sua análise, que simplesmente aduziu que em virtude das amortizações, tornava-se clara a distorção à natureza e ao aspecto temporal do fato gerador dos tributos”; c.4) “houve o pagamento do IOF na operação de mútuo. Em segundo lugar, a Raízen adicionou ao lucro real as amortizações incorridas ao longo do contrato, só tendo as deduzido efetivamente”; c.5) “se a Impugnante entendesse que o pagamento do mútuo seria uma efetiva bonificação, poderia tê-la deduzido, desde o princípio, das bases de cálculo do IRPJ e CSLL. Isso porque, segundo a Solução de Consulta DISIT 6.15 de 15/06/2021, as bonificações pagas a cliente, visando incremento de vendas e, consequentemente, dos lucros, enquadram-se no conceito de despesa operacional dedutível para fins e IRPJ, os quais poderiam ser abatidas pela Impugnante desde o princípio e não apenas ao término do contrato de fornecimento”; c.6) “na prática, percebe-se que a estrutura contratual, a contabilização e reconhecimento das despesas pela Raízen, na realidade, não lhe trouxeram nenhuma vantagem financeira, pelo contrário, ensejou o recolhimento de tributos Fl. 1462DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 28 a maior do que deveria, seja o IOF, seja a ausência de dedução do IRPJ e da CSLL no momento da realização do mútuo, que para a fiscalização seria uma bonificação antecipada”; c.7) “se prevalecer o entendimento do fisco que o mútuo representa um negócio jurídico dissimulado para ocultar uma bonificação, deve ser reconhecido que Impugnante pagou mais tributo do que deveria. Se o pagamento ocorresse a título de bonificação, sem que houvesse um mútuo, o IOF simplesmente não seria devido e as despesas poderiam ser deduzidas de imediato”; c.8) “ademais, o fisco simplesmente não expõe qual seria a vantagem financeira que a Raízen teria ao supostamente simular o pagamento de mútuo para dissimular a ocorrência do fato gerador do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS que são devidos pelo posto revendedor”. d) Ausência de Subsunção do Fato à Norma Insculpida no Artigo 124, Inciso I, do CTN. Impossibilidade de Imputar Responsabilidade Solidária à Raízen por Fato Gerador do Tributo Incorrido pelo Posto Revendedor: d.1) “não há qualquer simulação, dolo ou intuito de fraudar o fisco no modelo de negócios pactuado entre a Impugnante e a JMF, sendo as relações comerciais e os instrumentos firmados plenamente válidos e admitidas pela legislação. Tampouco há tentativa de retardar ou omitir o fato gerador da obrigação fiscal, ao menos da parte da Impugnante, visto que há nítido propósito negocial na estrutura contratual existente, a qual foi desenhada sem qualquer motivação tributária por trás e, inclusive, ensejou o pagamento de tributos pela Impugnante que não seria devidos acaso prevalecesse o entendimento da fiscalização”; d.2) “com efeito, ainda que assim não fosse, de qualquer forma a Raízen não poderia ser incluída no polo passivo da presente autuação como ‘responsável solidária’, na medida em que o art. 124, I do CTN insculpe norma que trata de situação jurídica diversa daquela tratada nos autos”; d.3) “na ausência de um conceito definido por lei, tanto a doutrina, quanto jurisprudência conceituam que apenas possuem ‘interesse em comum’ as pessoas que estão no mesmo polo na situação que constitui o fato jurídico tributário”; d.4) “percebe-se de antemão que o fato autuado no presente auto de infração não preenche o dito requisito, uma vez que se tem duas pessoas jurídicas em polos distintos da situação que constitui fato gerador do tributo. A Raízen é a vendedora/distribuidora do combustível e conferiu um mútuo financeiro, que foi qualificado como bonificação pelo fisco, ao comprador/revendedor de seus produtos, em virtude do contrato comercial que detém com este”; Fl. 1463DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 29 d.5) “não é possível sustentar que há ‘interesse comum’ no fato jurídico tributário quando a Impugnante apenas disponibilizou recursos, seja a título de mútuo ou de bonificação, ao posto revendedor por cumprimento de sua relação comercial”; d.6) “não houve ajuste doloso algum entre a Raízen e a JMF, uma vez e a celebração o contrato de mútuo é um instrumento válido da relação comercial entre a distribuidora e revendedor. Mas ainda que houvesse esse interesse e dolo na fraude, estando as partes em posições antagônicas em um contrato e ocorrendo fato gerador apenas no recebimento das receitas por parte da JMF, não se mostra aplicável o art. 124, I do CTN, sob pena de se criar uma hipótese de responsabilidade tributária não prevista em lei”; d.7) “ademais, fica a pergunta: qual seria a vantagem auferida pela Raízen ao simular uma bonificação como se mútuo fosse? O fisco simplesmente não explicou esse fato!! Na verdade, a justificativa contida no Relatório Fiscal é extremamente vazia, se limitando a aduzir que a Impugnante buscaria vantagens na relação comercial, ao passo que sequer se esclareceu que vantagens seriam essas”; d.8) “não há dúvidas que a Raízen e a JMF possuem uma relação comercial contratual, no entanto, isso não implica dizer que qualquer negócio jurídico pactuado entre as partes ensejará a responsabilidade solidária de ambos pelos tributos devidos nas operações”. Por fim, faz os seus pedidos nos seguintes termos, “ante todo o acima exposto, a pugna Impugnante pelo provimento da presente defesa, para que”: a) “seja decretada a nulidade do auto de infração por cerceamento do direito de defesa da Impugnante, na esteira do que dispõe o art. 59, I, do Decreto nº 70.235/72, na medida em que apesar de sua imputação como ‘responsável solidária’, não foi franqueado à Impugnante o acesso integral ao processo, tendo a presente defesa sido elaborada, apenas, a partir dos documentos recebidos da intimação do e-CAC, sem acesso aos inúmeros documentos reportados no Relatório Fiscal que instruiu a autuação”; b) “seja reconhecido que, ao revés do que afirma o fiscal autuante, a estrutura contratual e o modelo de negócios praticado junto aos postos revendedores no que tange à elaboração de CPR e Mútuo não possui qualquer simulação ou propósito tributário 'por trás' que visa omitir ou retardar a ocorrência do fato gerador dos tributos, sejam aqueles devidos pela própria Impugnante (distribuidora) ou, ainda, pelos postos revendedores com os quais firmou contrato de fornecimento de combustíveis. Há nítido propósito negocial na estrutura eleita, houve pagamento de IOF quando da celebração do contrato de mútuo e o modelo de negócios aqui estabelecimento é amplamente utilizado no mercado de distribuição, tendo se mostrado extremamente eficiente nos últimos anos e, Fl. 1464DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 30 inclusive, impulsionando vendas das distribuidoras que, ao cabo, ensejam receitas devidamente tributadas em favor da União Federal”; c) “por fim, seja afastada a imputação da Impugnante como ‘responsável solidária’ pelo crédito tributário constituído, visto que a hipótese narrada nos autos não se insere na hipótese de interesse comum na situação que constitui o fato gerador que aduz o art. 124, I do CTN, na linha da jurisprudência do CARF e da melhor doutrina sobre o tema”; d) “por fim, requer que todas as publicações atinentes ao presente feito sejam realizadas em conjunto, sob pena de nulidade, em nome dos advogados, Drs. Ronaldo Redenschi, OAB/RJ NS 94.238 e Julio Salles Costa Janolio, OAB/RJ NS 119.528, todos com escritório na Praça XV de novembro, n° 20, 12° andar, grupo 1201, Centro, no Município do Rio de Janeiro, no Estado do Rio de Janeiro”. Em 16/11/2021, protocolou “Petição de Ratificação de Impugnação”, na qual afirmou o que se segue: a) “em sua Impugnação, entre outros argumentos, foi suscitada preliminar de nulidade do lançamento por cerceamento de defesa, visto que não lhe foi franqueado o acesso à íntegra da autuação”; b) “conforme documentos de fls. 1.164/1.167, a RAÍZEN foi intimada acerca da reabertura do prazo de defesa, uma vez que a RFB corrigiu o erro do e-CAC que estava impedindo o acesso ao processo administrativo”; c) “verificado os autos, a Impugnante entende que não há elementos novos a serem suscitados além daqueles constantes da defesa anteriormente apresentada, de modo que, nesse momento, apenas reitera e ratifica por inteiro os termos da impugnação às fls. 657/686, requerendo o seu regular processamento com envio para apreciação pela DRJ”. A 1ª TURMA DA DRJ05 julgou improcedente a impugnação, ratificando a decisão da Delegacia de jurisdição da contribuinte, cuja decisão segue a seguir ementada: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2016, 2017, 2018 AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. Descabe a nulidade do Auto de Infração se o Contribuinte, no decorrer do procedimento fiscal, tomou conhecimento de toda matéria que deu causa ao lançamento, teve assegurado e exerceu o seu direito de defesa nos termos da legislação vigente, demonstrando em sua impugnação amplo conhecimento da matéria que deu causa ao lançamento. CERCEAMENTO. DIREITO DE DEFESA. FASE PROCEDIMENTAL. CARÁTER INQUISITÓRIO. SÚMULA CARF Nº 162. Fl. 1465DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 31 No processo administrativo fiscal, a impugnação instaura a fase litigiosa ou procedimental, não encontrando amparo jurídico a alegação de cerceamento do direito de defesa ou da inobservância ao devido processo legal, durante o procedimento fiscalizatório, o qual tem caráter meramente inquisitório. INTIMAÇÃO ENDEREÇADA AO ADVOGADO. IMPOSSIBILIDADE. Por existir determinação legal expressa no sentido de que as intimações sejam endereçadas ao domicílio tributário eleito pelo Sujeito Passivo, indefere-se o pedido de endereçamento de intimações a domicílio profissional do procurador ou advogado. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA – IRPJ Ano-calendário: 2016, 2017, 2018 OMISSÃO DE RECEITAS. BONIFICAÇÕES POR DESEMPENHO E/OU PERFORMANCE RECEBIDAS ANTERIORMENTE AO CUMPRIMENTO DAS METAS PRÉ ESTABELECIDAS. TRIBUTAÇÃO. REGIME DE COMPETÊNCIA. O IRPJ apurado pela sistemática do Lucro Real incide sobre as bonificações recebidas a título de desempenho e/ou performance por antecipação, devendo a receita ser reconhecida pelo regime de competência. Exteriorizada na conduta do contribuinte a inequívoca intenção dolosa de furtar se ao recolhimento de tributos através da utilização de sonegação, fraude e conluio, correta a aplicação da multa de ofício qualificada de 150%. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 108. Incidem juros moratórios, calculados à Taxa Referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Ano-calendário: 2016, 2017, 2018 IRPJ. MATÉRIA FÁTICA IDÊNTICA. RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO. Em se tratando de matéria fática idêntica àquela que serviu de base para o lançamento do IRPJ, mutatis mutandis, devem ser estendidas as conclusões advindas da apreciação daquele lançamento aos relativos à CSLL, PIS e COFINS, em razão da relação de causa e efeito existente entre as matérias. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2016, 2017, 2018 DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PAGAMENTOS. Tratando-se de tributos submetidos a lançamento por homologação, e caso haja valores recolhidos, o direito de a Fazenda Nacional constituir o crédito tributário se extingue no prazo de 5 anos, contado da ocorrência do fato gerador específico de cada tributo. Fl. 1466DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 32 RESPONSABILIDADE PESSOAL. SÓCIO-ADMINISTRADOR. Com fundamento no artigo 135, inciso III, do CTN, o sócio-administrador será responsabilizado pela prática de atos que forem considerados infração à lei. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. INTERESSE COMUM. Com fundamento no artigo 124, inciso I, do CTN, caso reste comprovado o interesse comum, correta está a responsabilização solidária dos beneficiários. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Ciente do acórdão recorrido, e com ele inconformado, a RAÍZEN S.A na condição de responsável solidária interpôs Recurso Voluntário (e-fls. 1243/1279) basicamente repisando os argumentos da impugnação e os recorrentes JMF - COMÉRCIO DE COMBUSTÍVEIS LTDA. (principal), JOÃO ALBERTO FREIRE SOBRAL (solidário), MARCELO SANTOS SOBRAL (solidário) e FÁBIO SANTOS SOBRAL (solidário), apresentaram Recurso Voluntário único (e-fls. 1356/1421) também basicamente repisando os argumentos insertos na impugnação requerendo o provimento do recurso nos seguintes termos: RV - RAÍZEN S.A IV – PEDIDO 123. Ante todo o acima exposto, a pugna RECORRENTE pelo provimento do presente recurso voluntário, de modo que seja reformado o acórdão da DRJ, para que: (i) Seja afastada a ante o reconhecimento que, ao revés do que afirma o fiscal autuante e o acórdão recorrido, a estrutura contratual e o modelo de negócios praticado junto aos postos revendedores no que tange à elaboração de CPR e Mútuo não possui qualquer simulação ou propósito tributário ‘obscuro’ que visa omitir ou retardar a ocorrência do fato gerador dos tributos, sejam aqueles devidos pela própria RECORRENTE (distribuidora) ou, ainda, pelos postos revendedores com os quais firmou contrato de fornecimento de combustíveis. Há nítido propósito negocial na estrutura eleita, houve pagamento de IOF quando da celebração do contrato de mútuo e o modelo de negócios aqui estabelecimento é amplamente utilizado no mercado de distribuição, tendo se mostrado extremamente eficiente nos últimos anos e, inclusive, impulsionando vendas das distribuidoras que, ao cabo, ensejam receitas devidamente tributadas em favor da União Federal; (ii) Subsidiariamente, ao menos seja afastada a imputação da RECORRENTE como “responsável solidária” pelo crédito tributário constituído, visto que a hipótese Fl. 1467DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 33 narrada nos autos não se insere na hipótese de ““interesse comum na situação que constitui o fato gerador que aduz o art. 124, I do CTN, na linha da jurisprudência do CARF e da melhor doutrina sobre o tema; RV - JMF - COMÉRCIO DE COMBUSTÍVEIS LTDA. (principal) - JOÃO ALBERTO FREIRE SOBRAL (solidário) - MARCELO SANTOS SOBRAL (solidário) - FÁBIO SANTOS SOBRAL (solidário) (...) XI. DOS PEDIDOS 271. Diante de tudo quanto exposto, os Recorrentes pugnam pelo provimento do presente Recurso, com a consequente reforma do Acórdão nº 105-008.002 proferido pela DRJ/05, a fim de que este Egrégio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais se digne de julgar totalmente IMPROCEDENTES os Autos de Infração em discussão, naquilo em que foram impugnados, por todos os fundamentos expostos pormenorizadamente em cada tópico respectivo e resumidamente discriminados a seguir: a) sejam julgados improcedentes os Autos de Infração, uma vez que o empréstimo recebido pela JMF - COMÉRCIO DE COMBUSTIVEIS LTDA, em decorrência do Contrato de Mútuo celebrado com a distribuidora RAÍZEN COMBUSTÍVEIS S/A, não está sujeito à incidência do IRPJ, da CSLL, do PIS e da COFINS, por não se enquadrar no conceito de receita para fins tributários; b) em caráter sucessivo, ainda que por eventualidade se entenda que o mútuo concedido à JMF - COMÉRCIO teria natureza de antecipação de bonificação, o que se considera apenas para efeito de argumentação, ainda assim os Autos de Infração devem ser julgados improcedentes, uma vez que as vantagens econômicas proporcionadas pelas bonificações antecipadas, vinculadas ao Contrato de Posto Revendedor celebrados com as distribuidoras de RAÍZEN COMBUSTÍVEIS S/A, teriam natureza jurídica de “redução do custo de aquisição” das mercadorias correspondentes, não podendo ser qualificadas como “receita” da Recorrente JMF, beneficiária da vantagem, para efeito de incidência dos referidos tributos cobrados; c) considerando a hipótese remota de serem ultrapassados os argumentos expendidos nos itens “a” e “b” acima, que demonstram a inconteste improcedência dos lançamentos fiscais, requerem os Recorrentes que seja reconhecida a decadência do direito de o Fisco de lançar os créditos tributários de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, em relação aos fatos geradores ocorridos em datas anteriores a 13/08/2016, pois evidentemente ultrapassado o lapso temporal quinquenal entre a ocorrência dos aludidos fatos geradores dos tributos cobrados e sua constituição através dos lançamentos fiscais ora impugnados, restando, tais créditos, claramente fulminados pela decadência, nos termos do art. 150, §4º, do CTN; d) ainda de forma sucessiva aos itens acima, requerem os Recorrentes que os Autos de Infração sejam julgados NULOS, em face da total insegurança trazida Fl. 1468DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 34 pelas bases de cálculo dos tributos em discussão, com flagrante restrição ao direito à ampla defesa e ao contraditório dos Recorrentes, corolários do princípio constitucional do devido processo legal, com fulcro no art. 59, II, do Decreto nº. 70.235/72 c/c art. 53 da Lei nº. 9.784/99, assim como no art. 5º, LV, da Constituição Federal, sobretudo diante da afronta direta ao preceito legal previsto no art. 43 do Código Tributário Nacional, argumento este que não foi apreciado no Acórdão recorrido; e) ainda sucessivamente, determinar a redução da multa qualificada para o patamar simples de 75%, tendo em vista a ausência de dolo, fraude ou simulação na sua conduta dos Recorrentes; f) seja ainda reconhecida, em qualquer hipótese, a ilegitimidade dos Recorrentes JOÃO ALBERTO FREIRE SOBRAL, MARCELO SANTOS SOBRAL e FÁBIO SANTOS SOBRAL (apontados como responsáveis solidários pelos créditos tributários em discussão) para figurarem no polo passivo da relação jurídica tributária em questão, tendo em vista a inaplicabilidade do art. 135, III, do Código Tributário Nacional, julgando-se, por via de consequência, improcedentes os Termos de Sujeição Passiva Solidária lavrados pela Fiscalização; g) pugna também seja afastada a incidência de juros moratórios sobre a multa de ofício, na forma da jurisprudência do CARF. É o relatório. VOTO VENCIDO Fellipe Honório Rodrigues da Costa – Conselheiro Relator ADMISSIBILIDADE Inicialmente, reconheço a plena competência deste Colegiado para apreciação do Recurso Voluntário. Demais disso, observo que os recursos são tempestivos e atendem os outros requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Destaca-se que os recorrentes JMF - COMERCIO DE COMBUSTIVEIS LTDA, João Alberto Freire Sobral, Marcelo Santos Sobral e Fábio Santos Sobral concentraram seus argumentos em apenas um Recurso Voluntário e RAÍZEN S/A protocolou Recurso Voluntário autônomo. Nesse sentido, a análise dos Recursos será realizada em separado naquilo que os distinguem e em conjunto naquilo que há identidade de argumentos. Fl. 1469DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 35 DA VALIDADE DOS CONTRATOS CELEBRADOS No que diz respeito à validade do contrato de Mútuo celebrado entre a recorrente, JMF - COMERCIO DE COMBUSTIVEIS LTDA e a responsável solidária, a RAÍZEN S/A, a presente demanda se refere a Autos de Infração (fls. 02 a 99), para a exigência de crédito tributário no montante de R$ 690.982,14, sendo IRPJ no valor de R$ 129.415,23; CSLL no valor de R$ 47.780,05; da COFINS no valor de R$ 67.172,46; e do PIS/PASEP no valor de R$ 14.583,39, juntamente com a multa de ofício de 150% e, por suposta prática de fraude houve a inclusão dos sócios administradores da JMF, o Srs. FÁBIO SANTOS SOBRAL, JOÃO ALBERTO FREIRE SOBRAL e MARCELO SANTOS SOBRAL, como sujeitos passivos solidários pelo crédito tributário constituído, nos termos do art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional (Lei 5.172/1966), e a RAÍZEN S/A foi arrolada como responsável solidária pela autuação, com base no art. 124, I do CTN, sugerindo que ela teria “interesse comum na situação que constituiu o fato gerador da obrigação principal.” No que diz respeito ao presente tópico, o ponto controvertido a ser analisado é a legitimidade, a validade e natureza dos dois contratos firmados junto à Raízen S/A pessoa jurídica e JMF COMÉRCIO DE COMBUSTÍVEIS LTDA. O primeiro, firmado em 31/03/2016, (FLS. 1.125/1.149) de fornecimento de combustíveis (Contrato de Posto Revendedor ‘CPR’ nº 119881) junto à Raízen S/A pessoa jurídica e JMF COMÉRCIO DE COMBUSTÍVEIS LTDA., que atua no ramo revenda de combustíveis (‘posto de gasolina’). O segundo, também firmado em 31/03/2016, o Contrato de Mútuo nº 119628 (Fls. 274/281), para fins de disponibilização de recursos no valor de R$ 1.890.000,00 ao posto revendedor a título de capital de giro. Segundo a autoridade fiscal e o Acórdão recorrido o Contrato de Mútuo estaria dissimulado para escamotear o pagamento de bonificação já que os instrumentos foram subscritos no mesmo dia, entre as mesmas partes, sem a cobrança de juros, além disso, havia a previsão de que o pagamento da bonificação em favor da JMF poderia ser antecipado, porém a Raízen teria a prerrogativa de fazer a amortização da contraprestação financeira devida pela JMF à Raízen (compensação). Como forma de ilustrar os referidos entendimentos, reproduz-se excertos da decisão de 1ª instância: 3. Omissão de Receitas – Bonificações Recebidas (...) Cotejando as informações, argumentações e documentos constantes dos autos, verifica se que o contrato de bonificação e o contrato de mútuo celebrados entre a Fiscalizada e a Raízen, não são independentes e incondicionados, como as partes contratantes afirmam, mas dependentes e condicionados, perfazendo um verdadeiro binômio, decorrente da indiscutível vinculação de objetos e de interesses. Com efeito, inicialmente “salta aos olhos” a coincidência de valores e datas de vencimento dos referidos contratos, a levar à conclusão de que foram firmados Fl. 1470DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 36 simultaneamente, sobretudo pela coincidência de partes e interesses econômicos, o que, por si só, já descarta a alegação de independência entre eles. Um outro aspecto a ser analisado é a existência de uma “cláusula compensatória” ou “cláusula de compensação”, através da qual, como informaram ambas as partes durante o procedimento fiscal e o contencioso administrativo, seria possível ao revendedor que atinja as metas estipuladas contratualmente compensar os valores a receber com aqueles devidos a título de empréstimo/mútuo. Ademais, se o contrato de mútuo fosse não vinculado ao contrato de bonificação, forçosamente deveria existir uma cláusula a estipular os juros devidos pelo mutuário (Fiscalizada) em favor do mutuante (Raízen), o que não há no caso em análise. Pelo exposto, especialmente no que tange as características dos contratos firmados entre as partes, conclui-se que o contrato de mútuo foi utilizado para adiantar, de forma disfarçada, os valores referentes a “bonificações por desempenho”, de uma maneira que tais receitas não frequentassem as contas de resultado da Fiscalizada (diminuindo o seu lucro). As condutas perpetradas convergem no sentido de imiscuir-se das obrigações tributárias legalmente impostas às partes. A Fiscalizada, ao apropriar os valores recebidos nas contas de passivo (contrato de mútuo), e não nas contas de resultado (receita de bonificações), deixou de oferecer à tributação os valores decorrentes do exercício da sua atividade econômica. Em que pese a Raízen afirmar a existência e a idoneidade do contrato de mútuo, na sua contabilidade efetuou amortizações mensais no período entre 08/2016 e 12/2018, que perfizeram o montante de R$ 883.484,71 (conforme tabela constante do Relatório Fiscal; fl. 121). Intimada a esclarecer como se deu a escrituração dos referidos valores, a Raízen declarou que foram efetuadas na “Conta nº 6110300 – Amortização Direitos de Exclusividade Fornecimento”, indicada como sendo uma “conta de resultado” (custos/despesas). Ou seja, a sua escrituração contábil contradiz os seus próprios argumentos – além de fortalecer as conclusões exaradas pela Autoridade Fiscal –, haja vista aquela se coadunar com a existência de custos/despesas relacionadas a um “contrato de bonificação antecipada” (utilização de contas de resultado à medida em que as bonificações mensais sejam pagas) e não com os direitos relacionados a um “contrato de mútuo” (utilização de contas do ativo, a qual seria amortizada uma única vez, ao final do prazo contratual). Ademais, seria, no mínimo, temerário, celebrar um contrato de mútuo (no valor de R$ 1.890.000,00) independente e desvinculado do contrato de bonificação de desempenho, cujos recursos seriam disponibilizados ao mutuário em 2016 (sendo o valor de R$ 775.175,65 entregue em e o valor de R$ 1.079.358,50 entregue em 13/09/2016) para o pagamento somente em 2021 (20/03/2021), sem a incidência de quaisquer juros. Fl. 1471DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 37 (...)A conclusão que sobressai é que o contrato de mútuo, apesar de existir formalmente, não existe materialmente, configurando-se em uma verdadeira simulação contratual, com vistas a diminuir o recolhimento dos tributos devidos pela Fiscalizada, em conluio com a Raízen. Os fatos narrados afastam a existência da operação de mútuo e caracterizam o pagamento antecipado de bonificações contratuais, legitimando a autuação a título de “omissão de receitas/bonificações recebidas”, tendo por base os valores amortizados pela Raízen entre 08/2016 e 12/2018, totalizando R$ 883.484,71. Diante da similaridade de argumentos, haverá a análise em conjunto dos fundamentos insertos no Recurso Voluntário da Raízen, até por entender que a consequência da conclusão da presente decisão afetará igualmente as partes. Sendo assim, as recorrentes contrapõem os fundamentos da autoridade fiscal e do Acórdão Recorrido basicamente explicando que os contratos de mútuo e de bonificação antecipada deveriam ser tratados de forma independentes e autônomos nos seguintes termos: RECURSO VOLUNTÁRIO JMF IV. PRIMEIRO ARGUMENTO. DA VALIDADE DO CONTRATO DE MÚTUO CELEBRADO. HIPÓTESE DE NÃO INCIDÊNCIA DOS TRIBUTOS COBRADOS. TÓPICO “3” DA DECISÃO PROFERIDA PELA DRJ/05. (...)33. Contudo, ao contrário do que entendeu o Acórdão recorrido, o Contrato de Posto Revendedor e o Contrato de Mútuo firmados são independentes entre si e não se confundem, embora tenham sido celebrados na mesma oportunidade, o que, todavia, não é suficiente para descaracterizar nenhum dos negócios em análise. 34. Isto porque a bonificação prevista no Contrato de Posto Revendedor está atrelada, exclusivamente, à meta de aquisição de volume de combustível prevista em suas cláusulas, cujo bônus, inclusive, somente será devido após o cumprimento da referida meta. Caso a meta não seja atingida, não será devido nenhum valor à Recorrente JMF. 35. Já o Contrato de Mútuo formaliza o empréstimo fornecido pela distribuidora RAÍZEN para auxiliar no exercício das atividades da Recorrente JMF. 36. Assim, analisando os contratos individualmente, é possível concluir que ambos são independentes, pois, caso não houvesse o Contrato de Mútuo, a bonificação prevista no CPR poderia existir plenamente. Da mesma forma, se não houvesse a previsão de bonificação no CPR, o mútuo também poderia ser realizado, haja vista estarem presentes todos os requisitos legais para a celebração de cada negócio. Fl. 1472DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 38 37. Nesse contexto, cumpre destacar a este eg. Conselho que a própria RAÍZEN, em suas respostas às intimações da Autoridade Fiscal, esclareceu que “o mútuo firmado entre as partes não representa um pagamento antecipado de bonificação”, em que pese a previsão no Contrato de Posto Revendedor de uma cláusula “facilitadora”, em que JMF autoriza a distribuidora RAÍZEN a realizar a compensação do bônus a ser eventualmente pago, em caso de cumprimento de todas as obrigações pactuadas no Contrato de Posto Revendedor, com quaisquer débitos que a JMF porventura possua com a distribuidora na data do pagamento. 38. Dessa forma, explicou a RAÍZEN que a cláusula 2.2 do Anexo I do CPR: “[...] permite que distribuidora compense o valor do bônus de todo e qualquer débito do revendedor porventura existente na data do seu pagamento, de modo que, em regra, quando o revendedor atinge as metas do contrato, e o bônus se torna devido, pode ocorrer a compensação com o valor do mútuo concedido”. 39. E prosseguiu narrando: “Por outro lado, na eventualidade de o revendedor cometer infrações contratuais ou não atingir a meta para pagamento da bonificação, não haverá possibilidade de compensação do mútuo e o revendedor deve pagar o empréstimo na data do vencimento do contrato pelo valor integral atualizado, independentemente do volume já adquirido, também por força de expressa disposição contratual [...] Nessa linha, percebe-se que não há que se falar que os contratos são condicionados, pois ainda que não houvesse cláusula de bonificação no “CPR”, certamente haveria um contrato de mútuo no início da operação, cujo adimplemento se daria de uma forma diversa do que um acerto contábil/compensação com o valor da bonificação, que inclusive, nem sempre é devida, como exposto acima, pois o posto revendedor pode não atingir as metas que ensejam o pagamento da bonificação”. 41. Ocorre que, segundo informações constantes no próprio Relatório Fiscal, a RAÍZEN não teria agido de acordo com os termos pactuados nos contratos celebrados com a Recorrente JMF, tampouco com os próprios esclarecimentos prestados nas respostas às intimações, quando confirmou a independência entre a bonificação e o mútuo. 42. Isso se verifica, pois, segundo o Autuante, que a RAÍZEN procedeu com amortizações mensais dos pagamentos a título de bonificação antecipada, encerradas em contas de resultado, dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, e, “da forma como a RAÍZEN realizou o registro das amortizações, houve a partir do envio, uma redução mensal no lucro da distribuidora a título de despesa Fl. 1473DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 39 de amortização de bonificação”, procedimento este desconhecido pelos Recorrentes até então e com o qual eles não corroboram. 43. Já a Recorrente JMF comportou-se em estrita observância ao Contrato de Mútuo celebrado, tendo esclarecido em suas respostas à Fiscalização que não ofereceu à tributação os valores recebidos a título de mútuo (empréstimo), registrados na Conta Contábil “1215”, por entender estarem os mesmos fora do campo de incidência do IRPJ, da CSLL, do PIS e da COFINS. 44. Nesta linha de intelecção, verifica-se que o entendimento manifestado pela Autoridade Fiscal e surpreendentemente mantido pela DRJ/05, quando da prolação do Acórdão, acerca da suposta ocorrência de prática criminosa, com fins de fraudar o Fisco e omitir receitas pretensamente sujeitas à tributação, jamais decorreu do comportamento dos Recorrentes. Todo o procedimento descrito tem como base os atos praticados exclusivamente pela RAÍZEN e à revelia do conhecimento, participação e quiçá o consentimento dos Recorrentes. (...)48. Ademais, frise-se que a própria RAÍZEN reconhece que efetuou o pagamento do IOF correspondente empréstimo concedido – como reconhecido pela Acórdão recorrido -, demonstrando que todas as formalidades referentes ao referido Contrato de Mútuo foram devidamente cumpridas, sobretudo por parte da JMF, ora Recorrente. Se, após o contrato firmado, a RAÍZEN decidiu registrar como despesa os valores emprestados à JMF, esta foi, repise-se, uma conduta unilateral sua, que não pode ser imputada aos Recorrentes. 49. Desse modo, da leitura do Relatório Fiscal, constata-se que a Fiscalização deveria ter sido direcionada exclusivamente contra a RAÍZEN, na medida em que foi a RAÍZEN que teria reduzido indevidamente os seus lucros ao amortizar como “despesa” os valores pagos à Recorrente JMF a título de mútuo, enquanto a Recorrente JMF cumpriu fielmente com o que lhe cabia, registrando a operação como mútuo, que sempre foi. (...)56. Não obstante, considerando que sua principal característica é a restituição do montante emprestado, é cediço que os valores recebidos a título de mútuo não se enquadram no conceito de receita tributável, haja vista que não incorporam de forma definitiva ao patrimônio da empresa mutuária, e não configuram, por consequência, hipótese de incidência do IRPJ, da CSLL, do PIS e da COFINS. (...) 64. E se assim o é, forçoso este Nobre Conselho reconhecer que os valores recebidos em decorrência do referido Contrato de Mútuo não estão sujeitos à incidência do IRPJ, da CSLL, do PIS e da COFINS, por não se enquadrarem no conceito de receita para fins tributários, razão pela qual o r. Acórdão de primeira instância administrativa merece reforma neste ponto, com o consequente julgamento pela improcedência dos lançamentos ficais. RECURSO VOLUNTÁRIO DA RAÍZEN Fl. 1474DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 40 III.1 – O PROPÓSITO NEGOCIAL PARA ELABORAÇÃO DO CONTRATO DE MÚTUO DENTRO DA ESTRUTURA COMERCIAL DAS DISTRIBUIDORAS E REVENDEDORES NEGÓCIO JURÍDICO PLENAMENTE VÁLIDO - AUSÊNCIA DE DOLO E SIMULAÇÃO NO NEGÓCIO JURÍDICO FIRMADO ENTRE AS PARTES (...)29. Em suma, pode-se dizer que o racional econômico do Contrato de Fornecimento envolve a aquisição de um direito de exclusividade4 para fornecimento de combustível ao revendedor por determinado prazo e, como contrapartida ao direito de exclusividade, o revendedor faz jus a uma bonificação que é condicionada ao cumprimento integral do contrato, que basicamente envolve o consumo do volume de combustível predeterminado entre as partes durante a vigência da relação contratual, bem assim nenhuma infração aos seus termos. (...)31. Apesar de ser possível fazer uma correlação entre o contrato de posto revendedor (FLS. 1.125/1.149) e o contrato de mútuo (Fls. 274/281), eis que firmados na mesma data e cujo valor do mútuo equivale ao da bonificação prevista no ‘CPR’, entende a Raízen que o mútuo não representa um pagamento antecipado de bonificação e tampouco é possível afirmar que os referidos contratos são necessariamente firmados de forma condicionada. 32. Isso porque, a disponibilização de recursos ao posto varejista no início do contrato de posto revendedor trata-se de um MODELO DE NEGÓCIOS AMPLAMENTE UTILIZADO E BEM SUCEDIDO EM TODO O MERCADO DE DISTRIBUIÇÃO DE COMBUSTÍVEIS, em especial dos postos bandeirados, (1) tendo em vista a fidelização do posto revendedor de combustíveis a uma única distribuidora por força do art. 25, §4º da Resolução ANP 41/2013 – direito de exclusividade; (2) bem assim pela necessidade de franquear o início das atividades do varejista de forma plena, conferindo-lhe capital de giro para (2.a) investimento em obras estruturais, como por exemplo a instalação de tanques de combustíveis; (2.b) abertura de lojas de conveniências; (2.c) aquisição de material de manifestação visual; (2.d) realização de programas promocionais, entre outras medidas que necessitam de recursos financeiros para a consecução da atividade do posto revendedor. (...)38. Ademais disso, quando encerrado o prazo do contrato de mútuo, caso este não seja adimplido pelo devedor (posto revendedor), a RAÍZEN dispõe de um título executivo extrajudicial, cuja cobrança em juízo dispensa ação de conhecimento, conforme art. 784, III do CPC/2015. Assim, independentemente de qualquer obrigação que a RAÍZEN possa ter com o posto fidelizado, em razão do contrato de fornecimento, o mútuo permanece plenamente exequível e juridicamente autônomo, resguardando o direito da Raízen na qualidade de credora. (...)43. Por outro lado, na eventualidade de o revendedor cometer infrações contratuais ou não atingir a meta para pagamento da bonificação, não haverá Fl. 1475DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 41 possibilidade de compensação do mútuo e o revendedor deve pagar o empréstimo na data do vencimento do contrato PELO VALOR INTEGRAL ATUALIZADO PELO ÍNDICE IGP-M, independentemente do volume já adquirido, também por força de expressa disposição contratual. (...) 44. O índice de reajuste pela inflação afasta as ilações contidas na decisão da DRJ que não haveria correção monetária e juros no contrato de mútuo, o que, na interpretação fiscal, comprovaria a expressa correlação entre o contrato de mútuo e a bonificação ajustada no CPR. 45. Com efeito, a inexistência de juros de mora não é um fator que pode ser arguido para comprovar a vinculação entre os contratos de mútuo e bonificação como pretende fazer crer a fiscalização. Como destacado, o mútuo é conferido a título de capital de giro para que o revendedor possa impulsionar suas atividades e vendas no momento inicial da sua relação comercial com a distribuidora, empregando os recursos em investimentos no posto de combustíveis e outras medidas que entender cabíveis. 46. A alegação que deveria haver estipulação de juros contratuais não se sustenta, seja porque é um questionamento indevido por parte da administração pública do modelo de negócios adotado pela RECORRENTE e seus revendedores, seja porque há no contrato de mútuo a previsão de atualização monetária dos valores, o que já resguarda a RECORRENTE dos efeitos inflacionários do tempo. 49. Ainda assim, ao final do contrato, sendo cumprido o volume pelo revendedor, o mútuo não assume natureza de bonificação. Mesmo que haja a compensação das dívidas, com o valor da bonificação devida ao revendedor, é feita a baixa da dívida do contrato de mútuo. Ou seja, não se trata de pagamento de bonificação antecipada, como entendeu o fiscal autuante e o acórdão da DRJ, tampouco negócios jurídicos simulados. 50. Essa é a essência dos negócios jurídicos celebrados entre a Raízen e a JMF Comércio de Combustíveis, os quais detém nítido propósito negocial. As estruturas são plenamente válidas, a teor do que prescreve o art. 104 do Código Civil, visto que firmados por agentes capazes, com objeto lícito, possível e determinado e sem qualquer impedimento previsto em lei. (...) 64. Ocorre que a fiscalização não aponta qual foi o resultado incorrido pela RAÍZEN para praticar a conduta dolosa típica. Há uma afirmação genérica, que a companhia teria vantagens comerciais, o que naturalmente não pode ser considerado justificativa hábil para reconhecimento do dolo, até porque, repita-se à exaustão, NÃO FOI PROVADA VANTAGEM TRIBUTÁRIA OBTIDA PELA COMPANHIA, sendo certo que vantagens comerciais são lícitas e não podem ser punidas dentro de um ambiente saudável de negócios. Fl. 1476DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 42 III.2 – O TRATAMENTO FISCAL DADO PELA RAÍZEN ÀS OPERAÇÕES – AMORTIZAÇÕES MENSAIS QUE NÃO GERARAM QUALQUER PREJUÍZO AO FISCO - AUSÊNCIA DE PREJUÍZO AO FISCO (...) Pois bem, passa-se a analisar, portanto, a existência de simulação entre Contrato de Posto Revendedor ‘CPR’ nº 119881 (FLS. 1.125/1.149) e o Contrato de Mútuo nº 119628 (Fls. 274/281) entre à Raízen S/A e a JMF COMÉRCIO DE COMBUSTÍVEIS LTDA. Após o cotejo da documentação e análise dos fatos expostos, entendo que assiste razão à recorrente, porquanto o Acórdão recorrido merece ser reformado. Em que pese haver uma correlação entres os contratos supramencionados, entendo que a identidade de valores e a data da subscrição dos instrumentos não se afiguram por si só intenção fraudulenta, mas reside na livre iniciativa comercial, afinal não é surpresa que a distribuidora, ao se colocar na posição de credora de um contrato de mútuo frente ao revendedor de seu produto, possa comercialmente avaliar a hipótese de estabelecer o mesmo valor de bonificação (ainda que antecipada) para amortizar o empréstimo, assim como a forma de compensação pode ser analisada sob o prisma da garantia do recebimento das parcelas do mútuo. A referida circunstância, na visão deste relator, representa muito mais a ideia de livre negociação entre as partes em que a revendedora dos produtos (JMF) recebe um valor para ajudar a alavancar as vendas do combustível, no sentido de alcançar a meta que resulta na bonificação desejada, ao mesmo tempo em que a distribuidora (Raízen) garante na outra ponta a solidez e longevidade da atividade de uma unidade comercial consumidora do seu produto, ao que parece uma estrutura comercial estrategicamente pensada para se desenvolver e não necessariamente para se imiscuir das obrigações tributárias correspondentes. Não se pode perder de vista também que a fiscalização ocorreu perante a JMF e, partindo do pressuposto de que a autoridade fiscal considera que a bonificação por ela recebida Fl. 1477DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 43 se enquadra no conceito de receita, e, portanto, passível de lançamento de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, é nítido que o contrato de mútuo não teria utilidade alguma para fins de fiscalização na JMF, logo despiciendo para sua autuação. No entanto, se a fiscalização tivesse ocorrido na Raízen, aí sim, haveria a relevância mencionada para avaliar que na sua contabilidade ela indevidamente teria realizado amortizações mensais no período entre 08/2016 e 12/2018, em que ela declarou que foram efetuadas na “Conta nº 6110300 – Amortização Direitos de Exclusividade Fornecimento”, indicada como sendo uma “conta de resultado” (custos/despesas), na referida hipótese a autoridade faria as glosas necessárias e as demais providencias cabíveis face a incongruência de usar o contrato de mútuo para deduzir custos/despesas relacionadas a um “contrato de bonificação antecipada” e não com os direitos relacionados a um “contrato de mútuo”. Noutro giro, no contexto da fiscalização face a JMF, como já mencionado, partindo da premissa fixada pela autoridade fiscal de que a bonificação por desempenho se enquadra no conceito de receita, a autuação seria lançada independentemente do contrato de mútuo, tal contrato seria irrelevante para a exação no caso concreto, portanto, na perspectiva da fiscalizada não há qualquer lógica do contrato de mútuo escamotear as hipóteses tributárias diante de um contrato de bonificação que por si só ensejava a autuação. Sendo assim, entendo como legítimo os contratos nº 119628 (referente ao contrato de mútuo) e nº 119881 (referente às bonificações), dado que conforme respondido pela Raízen na ocasião da intimação “o mútuo firmado entre as partes não representa um pagamento antecipado de bonificação”, pois “tem como objetivo a disponibilização de recursos a título de capital de giro para a rede varejista, como consta expressamente do item VI do contrato de mútuo” - e ainda: III - esse empréstimo concedido quando da assinatura do ‘CPR’, que é devidamente tributado pelo IOF pela Raízen, visa, naturalmente, o incremento das vendas do posto revendedor, que por consequência gera receita tributável para a distribuidora de combustíveis tendo em vista a revenda exclusiva dos seus produtos pelo varejista; V - o mútuo firmado não pode ser caracterizado como pagamento de uma bonificação antecipada, em que pese, naturalmente, o mútuo apenas tenha sido firmado em virtude da existência de Contrato de Posto de Revendedor – CPR e contribua, de forma relevante, para que o revendedor varejista atinja a sua meta de aquisição de volume de combustíveis prevista no ‘CPR’, que por sua vez enseja o pagamento da bonificação ao final do contrato caso não haja infração a nenhuma disposição do contrato. (...) Fl. 1478DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 44 Dessa forma, pelo que dos autos consta de fato o Contrato de Mútuo nº 119628 foi obtido junto à Raízen como forma de lhe assegurar a obtenção de capital de giro necessário para o cumprimento do Contrato de Posto Revendedor nº 119881, cabendo acrescentar que resta demonstrado nas clausulas contratuais de que uma vez não alcançadas as metas previamente estabelecidas, a consequência seria impossibilidade de pagamento da bonificação e, se ela eventualmente já houvesse sido percebida, a recorrente JMF teria a obrigação de restituí-la para a Raízen, nesse caso, na eventual hipótese da compensação prévia das parcelas, por óbvio a Raízen teria garantido a quitação do contrato de mútuo e remanesceria a necessidade de restituição da exata medida da bonificação não alcançada na data do vencimento do contrato pelo valor integral atualizado, independentemente do volume já adquirido, também por força de expressa disposição contratual. Nessa esteira, tenho que o contrato de mútuo e de bonificação apesar de estarem vinculados a um contexto comercial são válidos, não me convence os elementos trazidos pela fiscalização para considerá-los fraudulentos ou simulados, isso porque de fato o contrato de bonificação existiria independente do contrato de mútuo e o contrato de mútuo existiria independente do contrato de bonificação, a estrutura pelo qual as partes convencionaram a possibilidade de compensação entre eles é uma conveniência legal que não os desnatura do ponto de vista legal, logo se compreendido que não há dependência ou autonomia entre eles, isso se deu porque as partes por si convencionaram dentro de um limite legal, ao meu sentir, não para se esquivar do pagamento de tributos, mas por estratégia comercial válida. No que diz respeito à fundamentação de que uma das provas que sustenta a ideia de simulação contratual seria a ausência de estipulação de juros no contrato de mútuo, considerando o cenário de alta inflação no Brasil nos últimos anos, também não entendo que tal fato seja crucial para caracterizar simulação, isso porque se a possibilidade de usar a bonificação para pagar o mútuo, fatalmente haveria a garantia do recebimento da contraprestação do empréstimo, somado a isto, o item V do Contrato de Bonificação garante índice de reajuste e respectivo percentual de IGP-M 100%, reproduzo: Diante dos fatos acima expostos, entendo que assiste razão aos recorrentes, acolho os argumentos esposados para considerar legítimos os negócios jurídicos celebrados entre a Raízen e a JMF Comércio de Combustíveis, pelo que os considero válidos, a teor do que prescreve o art. 104 do Código Civil, posto que firmados por agentes capazes, com objeto lícito, possível e determinado e sem qualquer impedimento previsto em lei. Fl. 1479DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 45 Nessa esteira, ultrapassada a presente análise, faz-se necessário analisar a natureza jurídica dos contratos de bonificação como sendo receita ou redutor de custo, passa-se a análise também em conjunto por se tratar de alegação comum as partes. NATUREZA JURÍDICA DA BONIFICAÇÃO No que diz respeito à natureza jurídica das bonificações, os contornos da controvérsia em relação à acusação realizada pela autoridade fiscal de “omissão de receita” em razão de antecipação de bonificações recebidas pela recorrente decorrentes do Contrato de Mútuo firmado entre ela e Raízen S/A, que por sua vez foi interpretado pela Autoridade Fiscal como Contrato de Bonificação por Antecipação e considerado indevidamente como sendo “receita” não oferecida à tributação. Nesses termos, conforme análise dos autos, tanto na impugnação como no Recurso Voluntário, o contribuinte escora suas razões de defesa principalmente no argumento de que os bônus recebidos em decorrência dos referidos contratos se afiguram como “redutores dos custos de aquisição”, e, portanto, não poderiam ser qualificadas como ‘receita', para efeito de incidência do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS. O Acórdão recorrido, após fazer a distinção entre bonificação de mercadorias e bonificação de desempenho, explica que em relação a primeira a Solução de Consulta COSIT nº 202, de 14 de dezembro de 2021, define que “as bonificações recebidas na forma de mercadorias em documento fiscal próprio, ou seja, adquiridas sem vinculação a uma operação de venda não se caracterizam como descontos incondicionais, mas enquadram-se no conceito de doação (mera liberalidade), nos termos do artigo 538 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil/2002), e configuram receitas auferidas pela pessoa jurídica adquirente”. No que diz respeito a bonificação por desempenho, o decisium a quo arremata que as bonificações (...) “recebidas antecipadamente ou posteriormente ao cumprimento das metas pré-estabelecidas contratualmente, também compõem o resultado operacional do sujeito passivo. Neste sentido, citam-se os itens relacionados à matéria constantes da Solução de Consulta COSIT nº 110, de 26 de março de 2019: 4. A bonificação monetária por performance recebida após o cumprimento de metas pré-estabelecidas decorre do desempenho das atividades empresariais da pessoa jurídica bonificada. Consequentemente, seu valor integra a receita operacional e a receita bruta desse beneficiário, conforme se depreende do exame dos arts. 11 e 12 do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: Art 11. Será classificado como lucro operacional o resultado das atividades, principais ou acessórias, que constituam objeto da pessoa jurídica. §1º A escrituração do contribuinte, cujas atividades compreendam a venda de bens ou serviços, deve discriminar o lucro bruto, as despesas operacionais e os demais resultados operacionais. Fl. 1480DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 46 §2º Será classificado como lucro bruto o resultado da atividade de venda de bens ou serviços que constitua objeto da pessoa jurídica. §3º As ações ou quotas bonificadas, recebidas sem custo pela pessoa jurídica, não importarão modificação no valor, pelo qual a participação societária estiver registrada no ativo nem serão computadas na determinação do lucro real. Receita de Vendas e Serviços Art. 12. A receita bruta compreende : (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) I - o produto da venda de bens nas operações de conta própria; (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) II - o preço da prestação de serviços em geral; (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) III - o resultado auferido nas operações de conta alheia; e (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) IV - as receitas da atividade ou objeto principal da pessoa jurídica não compreendidas nos incisos I a III. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (...) 5. Como a antecipação do recebimento dessa bonificação não tem o condão de alterar sua natureza jurídica, o valor da bonificação monetária por performance recebido antes do cumprimento de metas pré-estabelecidas também integra a receita operacional e a receita bruta da pessoa jurídica bonificada. 6. A diferença entre essas duas situações é que, enquanto o recebimento posterior ao cumprimento das metas pré-estabelecidas tem caráter definitivo, o recebimento anterior tem caráter condicional, vinculado ao cumprimento das referidas metas. (...) 12. Sendo assim, o IRPJ apurado no regime do Lucro Real pela pessoa jurídica bonificada incide sobre as bonificações monetárias por performance recebidas antes do cumprimento de metas pré-estabelecidas. 13. Essa mesma conclusão também se aplica à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, em decorrência do previsto no art. 2º da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988. 14. Nos termos do art. 1º da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003, a base de cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, no regime de apuração não cumulativa, é a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente da sua denominação ou classificação contábil, admitidas apenas as exclusões expressamente previstas no § 3º do artigo 1º de cada uma dessas leis. Fl. 1481DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 47 15. Assim, a legislação de regência estabelece detalhadamente quais receitas podem ser excluídas das bases de cálculo das referidas contribuições, e, assim sendo, todas as receitas que não se encontram expressamente excluídas pela legislação devem sofrer tributação. 16. Dessa forma, a Contribuição para o PIS/Pasep e a Cofins apuradas de forma não cumulativa pela pessoa jurídica bonificada incidem sobre as bonificações monetárias por performance recebidas antes do cumprimento de metas pré- estabelecidas por se tratarem de receitas auferidas pela pessoa jurídica consulente. (...) 18. O regime de competência aplicado ao caso em análise implica o reconhecimento da receita durante o transcurso do prazo de 5 anos pactuado no contrato. 19. O mesmo regime de competência também se aplica à apuração da CSLL, por força do art. 57 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995. 20. Já a apuração da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins sempre segue o regime adotado na apuração do IRPJ e da CSLL apurados pelo Lucro Real, como se depreende do art. 20 da Medida Provisória nº 2.158-35, de 24 de agosto de 2001. 21. Com base no exposto, conclui-se que a bonificação monetária por performance recebida antecipadamente: a) encontra-se sujeita à incidência do IRPJ e da CSLL apurados pelo Lucro Real, bem como à incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins apuradas de forma não cumulativa; b) deve ser reconhecida pelo regime de competência. Desta forma, afastada a existência material do contrato de mútuo, vez que, na verdade, tratavam-se de antecipação de bonificações, e em razão da adequação do caso concreto às conclusões exaradas pela Solução de Consulta COSIT nº 110/2019, no sentido de que as bonificações por desempenho recebidas de forma antecipada devem integrar a receita operacional e a receita bruta do beneficiário, o lançamento tributário deverá ser mantido. Assim, segundo a Solução de Consulta Cosit n° 110/2019 as bonificações recebidas devem ser tributadas pelo regime de competência à medida da realização das metas preestabelecidas no contrato, seja no regime de tributação trimestral ou por estimativa mensal. Nesse contexto, partindo da premissa de que o contrato firmado entre a recorrente e a Raízen S/A ensejou bonificações por antecipação, cabe a esta Turma de Julgamento enfrentar a controvérsia cujo contorno se dá em face da Infração Apurada de Omissão de Receitas Referentes às Bonificações Recebidas, tendo em vista que a recorrente não registrou os valores recebidos Fl. 1482DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 48 referentes às bonificações por desempenho recebidas em contas de receita de sua escrituração contábil, tendo, por conseguinte, excluído esses valores das bases de cálculo do IRPJ, da CSLL, do PIS e da COFINS do período verificado. Noutra senda, acaso acolhida a tese da recorrente de que as bonificações recebidas em acordos comerciais não acarretam um acréscimo de patrimônio, mas sim uma redução no custo de aquisição das mercadorias, e, por essa razão, essas bonificações não poderiam ser consideradas como parte da receita tributável, daí o lançamento deve ser cancelado e, portanto, afastados os efeitos do Auto de Infração lavrado. Passo a decidir. Assim, entendo que assiste razão ao contribuinte, posto que as operações em questão não se enquadram no conceito de receita como sendo o ingresso financeiro, o qual se integra de forma definitiva ao patrimônio da pessoa jurídica e decorre de suas atividades empresariais. A bonificação nada mais é que a concessão que o vendedor (distribuidor) faz ao comprador (revendedor) em contrapartida à vantagem econômica decorrente de eventual fidelização e exclusividade no sentido de estimular a revenda e prestigiar o revendedor exclusivo, o qual terá maior competitividade na oferta com menor preço diante da redução do custo originada pela bonificação oferecida. Como a bonificação não constitui receita para o vendedor, o valor correspondente a tais mercadorias não integra a base de cálculo do IRPJ, CSLL e contribuição ao PIS e da COFINS. Nesse caso, como o recebimento de bonificações não está atrelado diretamente à atividade de venda do produto ao consumidor final, não haveria incidência da tributação aqui discutida sobre tais parcelas, especialmente porque o recebimento destas diz respeito à relação jurídica entre a distribuidora atacadista e a contribuinte revendedora, dentro de um contexto vinculado ao contrato de compra e venda de combustíveis. Isto posto, tais valores sequer decorrem da atividade precípua da revenda do combustível no varejo na outra ponta, capaz de gerar efetivamente as receitas que se busca tributar, ou seja, a relação existente entre a revendedora de combustível e o consumidor final, o que reforça o conceito de que as bonificações ensejam a redução do custo de aquisição em relação ao atingimento de metas, e, portanto, não seriam receitas. A fundamentação jurídica pertinente ao caso em apreço se encontra preconizada nos artigos 289 e 301 do RIR/2018, bem como no Pronunciamento Técnico CPC nº 16, 30 e 47, aprovado pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis em 08/05/2009, nos seguintes termos: RIR/2018 Art. 289. Será classificado como lucro operacional o resultado das atividades, principais ou acessórias, que constituam objeto da pessoa jurídica ( Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 11, caput ). Fl. 1483DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art11 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art11 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 49 Parágrafo único. A escrituração do contribuinte, cujas atividades compreendam a venda de bens ou serviços, deverá discriminar o lucro bruto, as despesas operacionais e os demais resultados operacionais ( Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 11, § 1º) . Art. 301. O custo das mercadorias revendidas e das matérias-primas utilizadas será determinado com base em registro permanente de estoques ou no valor dos estoques existentes, de acordo com o livro de inventário, no fim do período de apuração ( Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 14 ). Pronunciamento Técnico CPC nº 16 “o preço de compra, os impostos de importação e outros tributos (exceto os recuperáveis junto ao fisco), bem como os custos de transporte, seguro, manuseio e outros diretamente atribuíveis à aquisição de produtos acabados, materiais e serviços. Descontos comerciais, abatimentos e outros itens semelhantes devem ser deduzidos na determinação do custo de aquisição”. Pronunciamento Técnico CPC nº 30 “Mensuração da Receita 9. A receita deve ser mensurada pelo valor justo da contraprestação recebida ou a receber. 10. O montante da receita proveniente de uma transação é geralmente acordado entre a entidade e o comprador ou usuário do ativo e é mensurado pelo valor justo da contraprestação recebida, deduzida de quaisquer descontos comerciais e/ou bonificações concedidos pela entidade ao comprador.” Pronunciamento Técnico CPC nº 47 52. A variabilidade relativa à contraprestação prometida ao cliente pode ser declarada expressamente no contrato. Além dos termos do contrato, a contraprestação prometida é variável se existir qualquer das seguintes circunstâncias: (a) o cliente possui uma expectativa válida decorrente das práticas usuais de negócios da entidade, das políticas publicadas ou de declarações específicas de que a entidade deva aceitar um valor de contraprestação que seja inferior ao preço declarado no contrato. Isto é, espera-se que a entidade ofereça uma concessão de preço. Dependendo da jurisdição, do setor ou do cliente, essa oferta pode ser referida como desconto, abatimento, restituição ou crédito; Fl. 1484DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art11 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art11 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art14 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 50 (b) outros fatos e circunstâncias indicam que a intenção da entidade, ao celebrar o contrato com o cliente, é oferecer uma concessão de preço ao cliente. Nessa mesma linha a Instrução Normativa SRF Nº 51 DE 03/11/1978 também chegou a classificar as bonificações como Descontos Incondicionais, porém alinhando a necessidade de identificar a exata medida do valor nas notas fiscais emitidas, nos seguintes termos: 4. A receita líquida de vendas e serviços é a receita bruta de vendas e serviços, diminuída: (...)b) dos descontos e abatimentos concedidos incondicionalmente; e 4.2. Descontos incondicionais são parcelas redutoras do preço de venda, quando constarem da nota fiscal de venda dos bens ou da fatura de serviços e não dependerem de evento posterior à emissão desses documentos. No que diz respeito à necessidade da Nota Fiscal emitida segregando o desconto incondicional, o Superior Tribunal de Justiça decidiu, nos autos do AREsp 556050, que o preenchimento incorreto ou lacunoso das notas não obsta o reconhecimento dos referidos descontos. Sendo assim, ao que parece, a autoridade fiscal pressupõe que como a bonificação é contabilizada como uma “outra receita”, implicando acréscimo patrimonial da pessoa jurídica, o recebimento de bonificação se configuraria como receita para fins de incidência dos tributos cobrados. Em termos técnicos, o simples incremento patrimonial seria suficiente para a realização da hipótese de incidência, tendo em vista que o fato gerador advém da receita. Por outro lado, compreender o recebimento de bonificações como auferimento de receita contrapõe as normas internacionais de contabilidade segundo as quais orientam que as bonificações recebidas devem ser reconhecidas como uma redução do custo dos produtos vendidos (conta redutora). Por essa razão, na visão deste relator as bonificações e descontos comerciais não podem ser reconhecidos como receita. Vale destacar, conforme mencionado no Recurso Voluntário, a Câmara Superior enfrentou a matéria inserta no Acórdão nº 9303-013.338, e na ocasião por determinação do art. 19-E da Lei nº 10.522/2002, acrescido pelo art. 28 da Lei nº 13.988/2020, em face do empate no julgamento, deu-se provimento em relação a considerar as “bonificações e descontos” como parte redutora do custo que influencia o preço ao invés de entende-las como receita, para tanto, passa- se a transcrever excerto do voto vencedor em relação ao tema: (...)Das Bonificações Fl. 1485DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 51 Quanto à esse ponto, entendo que as bonificações, por ser modalidade de desconto, tal como definiu o próprio STJ, como dito alhures, devem ser registradas como redutores de custos. Nas operações com produtos bonificados, o fornecedor entrega ao adquirente uma quantidade de produto maior do que a quantidade contratada, sem acréscimo do preço total. A bonificação, de per si, tem a mesma natureza de um desconto concedido, pois o vendedor, apesar de não reduzir o preço, aumenta a quantidade de produtos. O que, por conseguinte, resulta na diminuição do valor unitário do bem – ou seja, redução de custo. Vê-se que a própria Administração Tributária, por meio de sua Coordenação do Sistema de Tributação, emitiu entendimento sobre as “bonificações” - Parecer CST/SIPR nº 1.386/1982 – transcrito parte: “Bonificação significa, em síntese, a concessão que o vendedor faz ao comprador, diminuindo o preço da coisa vendida ou entregando quantidade maior que a estipulada. Diminuição do preço da coisa vendida pode ser entendido também como parcelas redutoras do preço de venda [...]”. A diminuição do custo não confere constituição de receita, vez que os bens bonificados não implicam também em valor maior de créditos no regime não cumulativo. Assim, as mercadorias recebidas como bonificações não integram a base de cálculo de PIS e de Cofins. E, conforme já transcrito, é de se considerar o disposto na Súmula nº 57 do STJ que teve como motivação o decidido, sob o rito de recurso repetitivo, em REsp 1.111.156-SP - de relatoria do Ministro Humberto Martins. No feito, restou decidido à sistemática dos recursos repetitivos – que a bonificação é uma modalidade de desconto que consiste na entrega de uma maior quantidade de produto vendido em vez de conceder uma redução do valor da venda. Dessa forma, o provador das mercadorias é beneficiado com a redução do preço médio de cada produto, mas sem que isso implique redução do preço do negócio. Destaca-se esse apontamento o escrito sobre descontos e bonificações contemplado no recente livro “PIS e Cofins na Teoria e na Prática – uma abordagem completa dos regimes cumulativo e não cumulativo”, coordenado pelos nobre Professores Marcelo Magalhães Peixoto e Adoplho Bergamini lançado pela MP Editora. Continuando, cumpre também relevar os dizeres do ilustre tributarista Dr. José Antonio Minatel (in “Conteúdo do Conceito de Receita”, Editora MP, págs. 227/228) – o que, peço vênia, para transcrever parte: “[...] Comecemos com a análise da prática comercial em que o fornecedor, por política de vendas ou qualquer outra razão econômica, concede vantagem ao seu cliente, geralmente condicionada ao volume de itens adquiridos com o objetivo de induzir a conduta do comprador, vantagem batizada como bonificação em mercadorias, Fl. 1486DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 52 linguagem que se tem revelado unívoca para traduzir um quantitativo adicional de mercadorias com o qual é brindado o comprador, além da quantidade de produtos efetivamente negociados numa determinada operação, despachados em conjunto, sem onerar a venda e compra, a título de bonificação. Para o vendedor, que faz a entrega dos produtos ditos bonificados, parece não existir dúvida quanto à receita auferida na operação dever corresponder ao valor efetivamente recebido pela totalidade das mercadorias entregues ao comprador (vendidas + bonificadas), cuja aferição individual do preço de venda poderá ser obtida mediante divisão do valor total, pelos valores equivalentes de cada item transacionado. Quem entrega mercadoria em bonificação não está auferindo qualquer receita adicional, nem está fazendo doação, tampouco caracteriza perda pelo não recebimento do valor teórico correspondente. Se para o vendedor há consenso de que a mercadoria entregue em bonificação não altera seu regime de reconhecimento de receita, podendo significar, quando muito, a prática do denominado desconto incondicional, ou seja, já concedido no momento da emissão do documento fiscal e não vinculado a qualquer evento superveniente à operação, a mesma sintonia não se observa no tratamento a ser atribuído pelo adquirente dos produtos. No outro pólo da relação comercial, é muito comum a adoção de procedimentos não condizentes com a natureza jurídica do negócio realizado, mediante registro da operação que, na maioria dos casos, implica em precipitada majoração de base de cálculo de tributos. Nesse sentido, não é incomum encontrar registro das mercadorias recebidas em bonificação apontando a conta de receita como contrapartida para a escrituração das mercadorias que, nessa condição, adentram o estoque da empresa, sistemática que conduz à indevida apuração de “receita” no momento da entrada das mercadorias. Esse procedimento não condiz com a realidade, nem com os preceitos norteadores da elaboração das demonstrações financeiras, além de distorcer a apuração do resultado da entidade empresarial. Não há receita no momento da aquisição de mercadorias bonificadas, pois anda não há atividade inerente à sua obtenção, tampouco ingresso financeiro; pelo contrário, no recebimento de mercadorias é pertinente a aferição de conteúdo de outra realidade: a mensuração dos custos dos bens adquiridos, levando em consideração os desembolsos já efetuados e outros líquidos e certos já compromissados. Tampouco é possível sustentar a legitimidade do impróprio procedimento (registro como receita) ao argumento de que a operação viabilizadora do recebimento de mercadorias em bonificação teria natureza equivalente à de uma doação. Se não bastassem outros argumentos de igual relevância, é de ser lembrado que “considera-se doação o contrato em que uma pessoa, por liberalidade, transfere do seu patrimônio bens ou vantagens para o de outra, hipótese incompatível com a prática negocial que carrega consigo a indução da compra na figura da bonificação, entabulada num único contrato em que a oferta condicionada de produtos tem como objetivo implementar o contrato de compra e venda, e não o da doação. Mais ainda, e para não alongar no exame de outras particularidades distintas, ainda que de doações se tratasse, também esta não reúne os atributos essenciais para ser qualificada como receita, como será oportunamente demonstrado. O reconhecimento da receita em relação à mercadoria recebida em bonificação dar-se- á quando do exercício de atividade empresarial que implemente sua alienação, em posterior operação de venda e compra, oportunidade em que serão efetuados registros pertinentes em função dos objetivos de apuração das diferentes realidades: com obediência aos preceitos da ciência contábil indicativa do regime de competência Fl. 1487DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 53 para apuração do resultado da entidade que, como já vimos, interessa para dimensionamento da base de cálculo de outros tributos (IRPJ e CSLL), não das contribuições incidentes sobre a receita (COFINS e PIS), para as quais só tem relevância o efetivo ingresso proveniente da comercialização das mercadorias bonificadas. [...]” E, por fim, refletir o entendimento exarado pelo antigo 2º Conselho de Contribuintes, esposado abaixo (Grifos Meus): “BONIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. NÃO INCIDÊNCIA. Não se subsume ao conceito de faturamento, nem no conceito de receita, a obtenção de descontos mediante a bonificação de mercadorias, eis que tais vantagens não se originam da venda de mercadorias nem da prestação de serviços, mas estão ligadas essencialmente a operações que ensejam custos e não receitas”. (2º Conselho de Contribuintes, 3ª Câmara, RV nº 223.405, Rel Cons. José Henrique Longo, j 18.05.05) Evidente, portanto, e, síntese, trazer que: O desconto incondicional é aquele concedido independente de qualquer condição futura, ou seja, não é necessário que o adquirente pratique ato subsequente ao de compra para a fruição do benefício; A bonificação é uma modalidade de desconto que consiste na entrega de uma maior quantidade de produto vendido em vez de conceder uma redução do valor da venda; Os descontos incondicionais, assim como as bonificações, não possuem natureza de receita – e, por conseguinte, não devem ser tributados pelo PIS e Cofins – devendo ser, ambos, registrados como redutores de custo. Em vista de todo o exposto, com a máxima vênia ao relator, votamos por dar provimento ao Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo nessa parte – para considerar os descontos como incondicionais e as bonificações como modalidades de desconto e, por conseguinte, afastá-los da tributação pelo PIS e Cofins, eis que não conferem a natureza de receita, mas sim como redutores de custo. (Processo nº 10480.722794/2015-59 Recurso Especial do Contribuinte Acórdão nº 9303-013.338 – CSRF / 3ª Turma Sessão de 20 de setembro de 2022 Recorrente BOMPRECO SUPERMERCADOS DO NORDESTE LTDA Interessado FAZENDA NACIONAL) Por todo o exposto, entendo por dar provimento aos Recursos Voluntários e, por considerar que as bonificações antecipadas não são receitas, porquanto não acarretam um acréscimo de patrimônio, mas sim uma redução no custo de aquisição das mercadorias, e, por essa razão, essas bonificações não poderiam ser consideradas como parte da receita tributável, o lançamento deve ser cancelado e, portanto, afastados os efeitos do Auto de Infração lavrado. Fl. 1488DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 54 DA INCIDÊNCIA DE JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO E DA SUA QUALIFICAÇÃO O Acórdão recorrido considerou a existência das três condutas descritas na Lei nº 4.502/1964, a saber: sonegação, fraude e conluio, razão pela qual concluiu pela aplicação da multa preconizada no artigo 44, §1º, da Lei nº 9.430/1996, segundo a qual leciona: Lei nº 9.430/1996 Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (...) §1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. Lei nº 4.502/1964 Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos artigos 71 e 72. No entanto, conforme explanado nos tópicos acima, de que os fundamentos que culminaram o provimento dos Recursos, especialmente àqueles que redundaram na declaração de legitimidade dos Contratos de Mútuo e de Bonificação acrescido do reconhecimento de que as bonificações recebidas se qualificam como redução de custo e não como receitas auferidas, a Fl. 1489DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 55 consequência direta é afastar a existência das condutas dolosas, tipificadas com fins de sonegação, fraude e conluio, razão pela qual deverá ser afastada a aplicação da Multa Qualificada de 150%. Além disso, dado ao provimento do Recurso, resta prejudicada a análise sobre a alegação da não incidência dos juros moratórios sobre a multa de ofício, ressaltando, apesar disso, que a matéria é objeto da Súmula CARF 108, conforme consignado na decisão recorrida. DA RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA O Acórdão recorrido manteve a atribuição da responsabilidade tributária às seguintes pessoas: João Alberto Freire Sobral (CPF nº 018.018.215-34); Marcelo Santos Sobral (CPF nº 458.209.455-49); Fábio Santos Sobral (CPF nº 650.055.705-00); RaÍzen S.A. (CNPJ nº 33.453.598/0001-23). No que diz respeito à Responsabilidade Tributária dos Sócios-Administradores, como as alegações do Recurso Voluntário são semelhantes, a análise será em conjunto, para tanto, o Acórdão recorrido assim pronunciou: De acordo com o Relatório Fiscal, constatou-se que “a prática de fraude, nos termos do artigo 72 da Lei n° 4.502/64, em função da adoção de conduta dolosa, tendente a impedir ou retardar a ocorrência dos fatos geradores correspondentes aos créditos tributários ora exigidos”, sendo, assim, responsabilizadas as pessoas físicas que possuíam poderes de gestão à época da ocorrência dos fatos geradores das infrações apuradas. Em sua peça de defesa, os Responsáveis Tributários alegaram, em síntese, que: I - “sem prova do dolo ou fraude, não há a ‘infração legal’ deflagradora da responsabilidade pessoal e direta de terceiro”; II - “os Impugnantes (JMF e seus sócios) agiram fielmente segundo a expectativa dos Contrato de Mútuo e de Posto Revendedor, em absoluto respeito à legislação tributária, tendo esclarecido em suas respostas à Fiscalização que não ofereceu à tributação os valores recebidos a título de mútuo (empréstimo), por estarem os mesmos fora do campo de incidência do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS”; III - “caberia ao Autuante a comprovação da participação e envolvimento dos seus sócios administradores na atuação dolosa deflagrada durante a fiscalização, o que também não ocorreu”. Fl. 1490DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 56 Nesse contexto, sendo reconhecido a legalidade dos contratos de mútuo e de bonificação, outra conclusão não há senão reconhecer que não restaram presentes atos insertos no artigo 135, inciso III, do CTN (atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, por diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado), razão pela qual afasto a responsabilidade dos senhores João Alberto Freire Sobral (CPF nº 018.018.215-34); Marcelo Santos Sobral (CPF nº 458.209.455-49); Fábio Santos Sobral (CPF nº 650.055.705-00). RESPONSABILIDADE POR INTERESSE COMUM No que diz respeito à responsabilidade por interesse comum, o Acórdão recorrido defendeu que o sujeito passivo solidário seria integrante da própria relação jurídico-tributária ab initio, de maneira que sua sujeição passiva é congênita ao acontecimento do fato gerador, ou seja, a obrigação tributária já nasce apresentando dois ou mais sujeitos passivos igualmente responsáveis por seu adimplemento, em solidariedade. E, nos termos do artigo 124, I do CTN, fui imputada a responsabilidade “a empresa Raízen, tendo em vista que, buscando vantagens em sua prática comercial, essa empresa participou da estrutura contratual simulada, propiciando o ambiente para a execução da fraude”. O Acórdão ainda assim tratou o assunto: (...) Em que pese os argumentos trazidos pela Raízen, a imputação da responsabilidade tributária solidária deverá ser mantida. Conforme já citado no Item 3 deste Voto, verificou-se a inexistência material do contrato de mútuo firmado entre a Fiscalizada e a Raízen, configurando-se em verdadeira simulação contratual, com o desiderato de sonegar tributos, em detrimento dos cofres públicos. A Raízen, ao simular a celebração de um contrato de mútuo com a Fiscalizada (sobretudo pela sua escrituração contábil contradizer a existência do mútuo e comprovar os pagamentos de bonificações mensais de desempenho), forneceu a esta os elementos, os instrumentos, para que sonegasse tributos federais, na medida em que deixou de oferecer à tributação receitas decorrentes de “contratos de bonificação antecipada”, mediante conduta fraudulenta. (...) Nesse contexto, sendo reconhecido a legalidade dos contratos de mútuo e de bonificação, outra conclusão não há senão reconhecer que não restaram presentes atos insertos no artigo 124, inciso I, do CTN (atos praticados com interesse comum), razão pela qual é de se dar provimento ao Recurso interposto pela Raízen S/A para afastar a sua responsabilidade. Fl. 1491DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 57 DA ALEGAÇÃO DE DECADÊNCIA E DE NULIDADE PARCIAL DO LANÇAMENTO FISCAL O Acórdão de primeiro grau, em relação a decadência, firmou o seguinte entendimento: (...)2. Prejudicial de Decadência Com relação ao instituto da decadência, deve-se destacar que os tributos sujeitos ao lançamento por homologação encontram-se vinculados à norma jurídica contida no artigo 150, §4º, do Código Tributário Nacional – CTN: Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, opera-se pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. §1º O pagamento antecipado pelo obrigado nos termos deste artigo extingue o crédito, sob condição resolutória da ulterior homologação do lançamento. (...) §4º Se a lei não fixar o prazo à homologação, será ele de 5 (cinco) anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considera-se homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Observa-se que, caso ocorrido e comprovada a existência de dolo, fraude ou simulação, a regra decadencial se deslocaria para o artigo 173, inciso I, do CTN, iniciando-se o prazo de contagem a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, como ocorreu na presente hipótese. Ressalte-se que a qualificação da multa será analisada em item próprio. Pelo regime de apuração do Lucro Real trimestral, os fatos geradores do IRPJ e da CSLL ocorrem ao final de cada trimestre de apuração (31/03, 30/06, 30/09 e 31/12); por outro lado, segundo suas respectivas normas de regência, os fatos geradores para o PIS/PASEP e a COFINS ocorrem ao final de cada mês de apuração. (...)De início, ressalte-se que o tratamento do fato gerador difere em relação a cada tipo de contrato celebrado, em que pese a aplicação do regime de competência para ambos. Com relação ao “contrato de bonificação antecipada”, por revestir-se de um caráter condicional e resolutório, somente ocorrerá o fato gerador no momento em que as metas forem efetivamente cumpridas, ou seja, quando houver o efetivo reconhecimento, e respectivas amortizações das parcelas adiantadas, pela outra parte contratante, e não quando do recebimento Fl. 1492DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 58 dos valores, haja vista que, o descumprimento das metas irá acarretar no dever de restituir os valores antecipadamente recebidos. De outro giro, os “contratos de bonificação por desempenho”, por representarem um recebimento de valores posterior ao cumprimento de uma meta pré- estabelecida, possui um caráter de definitividade, não dependente de fatores posteriores a ensejar eventuais restituições, ocorrendo o fato gerador quando do efetivo cumprimento das metas. Ou seja, em ambas as hipóteses, os fatos geradores não estão relacionados com a data da celebração dos respectivos “contratos de bonificação”, mas com a consecução e/ou o reconhecimento posterior das metas pré-estabelecidas. Outrossim, como afirmado pela Autoridade Fiscal, o contrato de mútuo que a Autuada celebrou com a empresa “Raízen” foi tido por “simulado” (temática a ser tratada no próximo Item deste Voto), não restando, pois, quaisquer fundamentos de decadência relacionados às datas de recebimento de parcelas do referido contrato de empréstimo. Já no que tange à alegação de decadência dos valores cujos fatos geradores tenham ocorrido até 13/08/2016, verifica-se que também é infundada. Com efeito, analisando as tabelas que constam do Relatório Fiscal (fls. 127 e 128), conclui-se que o período inicial do lançamento tributário é a competência de “Agosto/2016”, cujo fato gerador, nos casos em que há recolhimento do tributo, ocorre para PIS e COFINS em “31/08” (apuração mensal), e para IRPJ e CSLL em “30/09” (apuração trimestral). Por todo o exposto, não há que se falar na ocorrência de decadência. A recorrente JMF, por sua vez, sustenta em seu Recurso Voluntário o seguinte: 92. Transpondo a discussão acima para o caso destes autos, verifica-se que a Impugnante adquiriu a “disponibilidade jurídica” relativa aos valores objeto dos mencionados dos Contratos no momento da sua celebração, indiscutivelmente ocorridos em 31/03/2016, conforme reconhecido pelo próprio Relatório Fiscal elaborado pelo Autuante. (...)96. Todavia, no momento em que os Autos de Infração ingressaram no mundo jurídico (13.08.2021, data da efetiva notificação do contribuinte), já havia ocorrido a perda do direito do Fisco de cobrar os créditos tributários em relação aos fatos geradores ocorridos em 31/03/2016 (data da celebração dos Contratos), pois evidentemente ultrapassado o lapso temporal quinquenal entre a ocorrência dos fatos geradores do tributos cobrados e sua constituição através do lançamento de ofício ora impugnado, restando, tais créditos, claramente fulminados pela DECADÊNCIA, nos termos dos arts. art. 150, §4º, do Código Tributário Nacional. (...)101. Por outro lado, para os tributos cujo lançamento é feito pelo próprio contribuinte (por homologação), esta regra não se aplica. Ocorrido o fato gerador, Fl. 1493DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 59 já nasce para o contribuinte a obrigação de apurar e pagar o tributo, sem qualquer participação do Fisco, que tem, a partir daquele fato gerador, o prazo de 05 anos para formalizar e constituir o seu crédito, através do auto de infração. É exatamente isto que está expresso no CTN, em seu art. 150, § 4º. (...)108. Desse modo, como a autoridade administrativa autuante só formalizou o lançamento de ofício em 13/08/2021 (data da efetiva notificação do contribuinte), é óbvio que decaído já estava o seu direito de alcançar todos os fatos ocorridos antes de 13/08/2021!! Não há como se afastar dessa realidade, sob pena de se cometer flagrante ilegalidade. 109. De toda sorte, ainda que eventualmente não seja considerada a data da celebração dos referidos Contrato de Posto Revendedor (fornecimento/bonificação) e Contrato de Mútuo (empréstimo) para efeito de demarcação do termo a quo para contagem do prazo decadencial (ocorrida em 31/03/2016), importa salientar que, no que se refere à primeira parcela do empréstimo concedido para a Impugnante JMF, no importe de R$ 1.079.358,50, o próprio Autuante reconhece ao longo de todo o Relatório Fiscal que o repasse do valor ocorreu no dia 15/05/2016. (...)118. Deste modo, ao contrário da conclusão alcançada pelo Fiscal, todos os efeitos jurídicos decorrentes do Contratos de Mútuo e de Posto Revendedor, e, com eles, os fatos geradores das obrigações tributárias, devem ser considerados ocorridos, para efeito de demarcação do termo a quo para contagem do prazo decadencial, desde o momento da prática do ato ou da celebração do negócio, ou seja, deste 31/03/2016, data da celebração dos referidos Contratos (aquisição da disponibilidade jurídica), ou, no pior cenário, nas datas dos efetivos recebimentos dos pagamentos realizados pela distribuidora RAÍZEN, em virtude da indiscutível aquisição da disponibilidade econômica dos pretensos rendimentos, nos termos do arts. 43 e 117, II, do Código Tributário Nacional. (...)120. Destarte, não restam dúvidas de que deve ser reconhecida a decadência do direito do fisco de realizar o lançamento por homologação no prazo de 5 (cinco) anos, a contar da ocorrência dos fatos geradores das obrigações tributárias, seja considerando as datas das celebração dos Contratos de Mútuo e de Posto Revendedor (ocorrida em 31/03/2016), seja ainda considerando as datas dos pagamentos recebidos pela Impugnante, na forma do §4º do art. 150 do Código Tributário Nacional, devendo ser excluídos do lançamento fiscal os valores referentes aos fatos geradores anteriores a 13/08/2016, pois estes foram alcançados pela decadência. (...)125. Não há qualquer dúvida, deste modo, que os Autos de Infração em lide não possuem qualquer respaldo legal, de modo que devem ser julgados improcedentes por esta eg. Delegacia de Julgamento, tendo em vista a ocorrência da decadência tributária. Fl. 1494DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 60 No entanto, entendo que não assiste razão ao contribuinte. No caso concreto, entendo que a hipótese tributária relativa ao contrato de bonificação que é atrelado ao contrato de compra e venda de combustível depende do atingimento das respectivas metas previamente estabelecidas, sob pena de não ocorrer o motivo que determina seu pagamento. Assim, acaso a meta não seja batida, no caso das antecipações de bonificação, haveria a necessidade de restituição do valor, e, em caso de metas pré-estabelecidas, na ocasião de não alcance do objetivo firmado, não haveria qualquer bonificação. Por essa razão, entendo que a subscrição dos contratos por si só não é hipótese capaz de iniciar a contagem do prazo decadencial, noutro giro, o pagamento antecipado também não indicaria o termo de início da contagem do referido prazo em função da possibilidade do não atingimento da meta e a necessidade de restituição do valor, logo, o prazo do início da contagem ocorre quando houver se consubstanciado a condição contratual previamente estabelecida para o ensejo do bônus. Assim, a contrário sensu, seria incorreto na visão deste relator, atribuir a obrigação tributária frente a contrato de bonificação por estabelecimento de metas que não foram atingidas, tendo em vista que não haveria bônus disponível passível de mensurar acréscimo patrimonial, portanto, não se vislumbraria a possibilidade de lançamentos dos tributos aqui discutidos pelo esvaziamento dos motivos que determinam o fato gerador, qual seja o efetivo pagamento do bônus. Sendo assim, pelo que dos autos consta, toda autuação fiscal respeitou o prazo decadencial nos termos defendidos pelo contribuinte, uma vez que mesmo afastando a alegação de fraude o que por si atrai a aplicação do artigo 150, parágrafo 4º do CTN para o caso em apreço, conclui-se que de acordo com a ‘Tabela de Pagamentos Antecipados de Bonificações’ constante do Relatório Fiscal, (fls. 127 e 128), não há cobranças referentes aos fatos geradores anteriores a 13/08/2016, já que o lançamento foi em 13/08/2021, razão pela qual se repete a conclusão de que “que o período inicial do lançamento tributário é a competência de “Agosto/2016”, cujo fato gerador, nos casos em que há recolhimento do tributo, ocorre para PIS e COFINS em “31/08” (apuração mensal), e para IRPJ e CSLL em “30/09” (apuração trimestral). Portanto rejeito a prejudicial de mérito de decadência suscitada pelo recorrente. O contribuinte em tópico específico, também suscitou a nulidade absoluta de parte do lançamento fiscal na medida em que a Autoridade Fiscal teria adotado como base de cálculo para cobrança do IRPJ, CSLL, PIS e da COFINS valores que não guardam qualquer correção com a materialidade destes tributos, nos seguintes termos: 130. Conforme registrou expressamente em seu Relatório Fiscal, para realizar a apuração do tributo supostamente devido pela Impugnante JMF, o Fisco Fl. 1495DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 61 baseou-se, exclusivamente, na contabilização indevidamente realizada pela RAÍZEN. 131. Vejamos o quanto narrado pelo Autuante: “O lançamento teve por base os valores das amortizações mensais registradas pela Raízen Combustíveis S/A, conforme a tabela abaixo, sendo incluídos esses valores nas respectivas bases de cálculo trimestrais do IRPJ e da CSLL. No lançamento foram considerados os valores das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL informados pela fiscalizada nas ECFs referentes aos anos-calendários de 2016, 2017 e 2018.” 134. Todavia, a Fiscalização desprezou completamente as regras estabelecidas pelo supramencionado art. 43 do Código Tributário Nacional, que consagra “a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou proventos de qualquer natureza” como fato gerador do Imposto de Renda, para considerar as meras amortizações mensais realizadas unilateralmente pela RAÍZEN “no transcurso do contrato” como sendo os fatos jurídicos tributários a serem considerados para efeito de lançamento dos créditos tributários em discussão. 135. Se mantido o entendimento da Autoridade Fiscal, estaria se admitido que uma das partes decidisse, de forma unilateral, qual o fato gerador do tributo e, consequentemente sua base de cálculo, com base nos seus meros registros contábeis, o que evidentemente afronta a materialidade dos tributos, especialmente ao quanto estabelecido pelo art. 43 do CTN. 137. Não foi este, porém, o procedimento observado pelo Agente Fiscal, o que evidencia a ilegalidade incorrida e consequente NULIDADE ABSOLUTA dos lançamentos fiscais, por insegurança da base de cálculo dos tributos em discussão. Após análise dos argumentos supramencionados, não há que se falar em nulidade do auto de infração em função do lançamento ter considerado a necessidade de reconhecer os valores das receitas auferidas a título de bonificação pelo regime de competência levando em consideração as amortizações mensais das parcelas pagas. Dessa forma, os valores das receitas auferidas pela fiscalizada relativos às bonificações antecipadas recebidas em virtude do Contrato de Antecipação foram reconhecidas pelo regime de competência e apropriadas no transcurso do período do contrato pela autoridade fiscal, tomando por base as amortizações mensais das parcelas pagas feitas pela Raízen no sentido de identificar a justa medida da receita supostamente omitida e proceder o lançamento de ofício apenas daquilo que o recorrente eventualmente deve, matéria esta que foi enfrentada no mérito da demanda, porém inapropriada a título de reconhecimento da nulidade pretendida. Ademais, não se identifica qualquer hipótese de nulidade inserta no artigo 59 do Decreto 70235/72, porquanto o auto foi lavrado por autoridade competente e garantido o direito Fl. 1496DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 62 do contraditório e da ampla defesa do contribuinte e não foi identificado qualquer prejuízo que minimamente ensejasse cerceamento ao seu direito de defesa. Nesses termos, rejeito a preliminar de nulidade. CONCLUSÃO Pelo exposto, conheço dos Recurso Voluntários da JMF – COMÉRCIO DE COMBUSTÍVEIS LTDA, dos responsáveis solidários JOÃO ALBERTO FREIRE SOBRAL, MARCELO SANTOS SOBRAL, FÁBIO SANTOS SOBRAL e RAÍZEN COMBUSTÍVEIS S/A para: (i) rejeitar a prejudicial de decadência e preliminar de nulidade, e, no mérito: (ii) dou-lhes provimento para cancelar o auto de infração por considerar legítimos os negócios jurídicos celebrados entre a Raízen e a JMF Comércio de Combustíveis, bem como por considerar que as bonificações antecipadas não são receitas, porquanto não acarretam um acréscimo de patrimônio, mas sim uma redução no custo de aquisição das mercadorias, portanto, devem ser afastados os efeitos do Auto de Infração lavrado; (iii) por consequência, afastar a responsabilidade JOÃO ALBERTO FREIRE SOBRAL, MARCELO SANTOS SOBRAL, FÁBIO SANTOS SOBRAL por ausência das hipóteses do art. 135, III do CTN, e RAÍZEN COMBUSTÍVEIS S/A por ausência de interesse comum inserto no artigo 124, inciso I, do CTN. (documento assinado digitalmente) Fellipe Honório Rodrigues da Costa VOTO VENCEDOR Conselheiro Maurício Novaes Ferreira, redator designado Inobstante a fundamentação exposta no voto condutor do julgado, o Colegiado, após os debates e por maioria de votos, houve por bem negar provimento ao recurso voluntário da pessoa jurídica autuada e dos coobrigados sócios administradores da mesma, cabendo-me a tarefa de apresentar as razões que embasaram a decisão. Fl. 1497DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 63 Em brevíssima síntese, o caso em análise busca aferir a natureza das bonificações recebidas pela Recorrente de seus fornecedores, ou de um único fornecedor. A autuada é pessoa jurídica que atua no comércio varejista de combustíveis e firmou, no período sob escrutínio, dois contratos com a Raízen (fornecedora). Os dois contratos, como assentado no acórdão de impugnação, estão umbilicalmente ligados. O primeiro contrato, designado no Relatório Fiscal (RF, fls. 110 a 131) como contrato de Posto Revendedor nº 119881 previa o pagamento de bonificação à fiscalizada conforme seguintes condições estabelecidas no anexo I da avença: Indiscutível, portanto, que havia contrato entre a Raízen e a autuada prevendo o pagamento da bonificação, que foi efetivamente paga, conforme demonstrado no RF. Fl. 1498DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 64 O segundo contrato, vinculado ao primeiro, era um contrato de mútuo, de valor idêntico ao da bonificação pactuada. A autoridade fiscal reputou que este segundo contrato seria artificial e visava ocultar a natureza tributável dos valores recebidos pela pessoa jurídica autuada. O Colegiado, contudo, considerou-o válido como contrato autônomo entre as partes signatárias, e concluiu que sua natureza específica não tem o condão de alterar o pactuado no denominado contrato de Posto Revendedor, que estabeleceu o pagamento da bonificação, que foi efetivamente paga. Esclarecida a existência dos dois contratos, a discussão voltou-se para a natureza da bonificação recebida pela Recorrente. Segundo o fisco, com a concordância da maioria do Colegiado, o valor constitui receita tributável. A pessoa jurídica autuada, por outro lado, reputa que a bonificação deveria ser considerada como redutora do custo dos combustíveis adquiridos. O voto vencido fundamentou sua decisão pelo provimento do recurso voluntário ao considerar que a bonificação não constitui receita, esta considerada como ingresso definitivo no patrimônio de quem a recebe. Afirmou que a bonificação é uma concessão que o distribuidor faz ao vendedor, visando sua fidelização e melhor condição de competitividade. Sustentou que o recebimento de bonificações não está atrelado diretamente à atividade de venda do produto ao consumidor final, já que seu recebimento diz respeito à relação jurídica entre a distribuidora atacadista e a contribuinte revendedora. Concluiu que as bonificações não decorrem da atividade de revenda do combustível no varejo, esta sim geradora de receitas, decorrente da relação existente entre a revendedora de combustível e o consumidor final. Em função destes argumentos, arrematou o voto vencido que as bonificações ensejariam a redução do custo de aquisição em relação ao atingimento de metas, e, portanto, não seriam receitas. Fundamentou sua conclusão com base na previsão contida nos artigos 289 e 301 do RIR/2018, bem como nos Pronunciamentos Técnicos CPC nºs 16, 30 e 47. Afirmou que a Instrução Normativa SRF Nº 51 DE 03/11/1978 considerou que as bonificações equivalem a descontos incondicionais e, como tais, não constituem receita tributável. Sustentou que a necessidade de notas fiscais discriminando os descontos incondicionais teria sido afastada pelo Superior Tribunal de Justiça, que decidira que o preenchimento incorreto ou lacunoso daqueles documentos não obstaria o reconhecimento dos referidos descontos. Arrematou que considerar o recebimento de bonificações como auferimento de receita contrapõe as normas internacionais de contabilidade, que orientariam considerá-las como redução do custo dos produtos vendidos. Fl. 1499DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 65 Como reforço de argumento, apresentou no Acórdão nº 9303-013.338 que concluiu no mesmo sentido, ou seja, que as “bonificações e descontos” são redutores do custo e não receita tributável. Com todas as vênias, o voto vencido não apreciou adequadamente os fatos apurados pela autoridade fiscal, bem como valeu-se de fundamentação inadequada ao caso em análise. É incontroverso nos autos que a Recorrente auferiu vantagem pecuniária denominada no contrato de posto revendedor como “bonificação”. Tem razão o voto vencido quando considera que as bonificações não decorrerem diretamente de vendas efetuadas ao consumidor final. Ocorre, contudo, que a incidência dos impostos e contribuições exigidos nos lançamentos ora em julgamento não se dá, exclusivamente, sobre a receita de vendas. Como bem fundamentou a autoridade fiscal, desde o Decreto-Lei nº 1.598/1977, o lucro operacional compreendia o resultado das atividades, principais ou acessórias, da pessoa jurídica: Art 11 - Será classificado como lucro operacional o resultado das atividades, principais ou acessórias, que constituam objeto da pessoa jurídica. Mais, a mesma norma estatui que a receita bruta é mais do que a mera receita de vendas ou de prestação de serviços: Art. 12. A receita bruta compreende: (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I - o produto da venda de bens nas operações de conta própria; (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II - o preço da prestação de serviços em geral; (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) III - o resultado auferido nas operações de conta alheia; e (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) IV - as receitas da atividade ou objeto principal da pessoa jurídica não compreendidas nos incisos I a III. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência). É induvidoso que as bonificações recebidas (em dinheiro, no caso dos autos) decorrem da atividade da empresa e constituem um ganho decorrente do alcance de metas estabelecidas pelo fornecedor: Fl. 1500DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 66 Deste modo, ao contrário do afirmado no voto vencido, nada há que sustente a tese esgrimida pela defesa que trata-se de parcela redutora do custo. Note-se, de passagem, que a Contribuinte sequer demonstrou que o valor recebido foi efetivamente contabilizado como redutor de custo no período sob exame, o que faz crer que a argumentação é meramente retórica, à mingua de outros argumentos capazes de macular a exigência dos autos. Ademais, a IN nº 51/78, que regulamentou o Decreto-Lei nº 1.598/1977, não faz qualquer menção à bonificação ou sua equiparação ao desconto incondicional. O voto vencido assim abordou a questão (destaques acrescidos): Nessa mesma linha a Instrução Normativa SRF Nº 51 DE 03/11/1978 também chegou a classificar as bonificações como Descontos Incondicionais, porém alinhando a necessidade de identificar a exata medida do valor nas notas fiscais emitidas, nos seguintes termos: 4. A receita líquida de vendas e serviços é a receita bruta de vendas e serviços, diminuída: (...) b) dos descontos e abatimentos concedidos incondicionalmente; e 4.2. Descontos incondicionais são parcelas redutoras do preço de venda, quando constarem da nota fiscal de venda dos bens ou da fatura de serviços e não dependerem de evento posterior à emissão desses documentos. A vinculação entre descontos incondicionais e bonificações não existe no texto do ato normativo. A conclusão do voto vencido correlacionando os dois institutos não encontra amparo na norma jurídica apontada. Ademais, a mera leitura dos enunciados acima é mais do que suficiente para se concluir que nada há no caso em análise que contemple os requisitos acima transcritos para a caracterização de eventual desconto incondicional. Nem se fale que a decisão proferida no Agravo em Recurso Especial 556050 RS ampara a pretensão da Recorrente. Veja-se o seguinte excerto da decisão (com destaques ora acrescidos): Relativamente ao requisito de constar o desconto concedido expressamente na nota fiscal, tenho que a questão restou superada quando do julgamento da apelação anterior, na qual se anulou a sentença para possibilitar a apresentação de outras provas para demonstrar a concessão dos descontos incondicionais, tais como duplicatas, boletos bancários, etc., nas quais se pudesse aferir os valores efetivamente cobrado nas operações de compra e venda. Com efeito, o preenchimento incorreto ou lacunoso das notas fiscais não obsta o reconhecimento dos descontos em questão, bastando a comprovação de que estão vinculados a uma operação onerosa. Nesse sentido leciona Roque Antônio Fl. 1501DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 67 Carraza (CARRAZA, Roque Antônio. ICMS. 8ª. ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p.110) em caso análogo: Podem, portanto, as empresas recuperar os créditos de ICMS correspondentes ao valor das mercadorias bonificadas ainda que a vantagem dada aos adquirentes tenha sido documentada em notas fiscais em separado. A leitura da passagem transcrita é suficiente para concluir que, na ausência da nota fiscal discriminando o desconto incondicional concedido, o fato deve ser provado por outros meios suficientes para demonstrar sua ocorrência. No caso dos autos, nada disso foi juntado ao processo. Os julgados nºs 3402-010.764, de 26/07/2023 e 3201-011.279, de 26/10/2023, ambos unânimes, corroboram a conclusão a que chegou o Colegiado. As decisões restaram assim ementadas (destaques acrescidos): Acórdão 3402-010.764 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Período de apuração: 01/04/2010 a 31/12/2010 BONIFICAÇÃO POR DESEMPENHO DE VENDAS. CONCEITUAÇÃO DE RECEITAS TRIBUTÁVEIS PARA INCIDÊNCIA DA COFINS. COMPOSIÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. Bonificações pagas em cumprimento a condições suspensivas relacionadas a desempenho de vendas compõem a base de cálculo da COFINS, por terem a natureza de receitas brutas na prestação de serviços, entre concessionárias e fabricantes de veículos, independente da forma de cálculo e dos valores que originaram estas bonificações. [...] Acórdão 3201-011.279 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Período de apuração: 01/10/2011 a 31/12/2011 COFINS. DESCONTOS CONDICIONAIS RECEBIDOS. REDUÇÃO DO PASSIVO SEM CONTRAPARTIDA NO ATIVO. REGIME NÃO CUMULATIVO. A base de cálculo da Cofins inclui os descontos condicionais recebidos de fornecedores ainda que não informados nas notas fiscais, por implicarem em redução do passivo, sem contrapartida no ativo. COFINS. BASE DE CÁLCULO. BONIFICAÇÕES. DESCONTOS COMERCIAIS CONDICIONADOS. INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO. Os descontos obtidos pelo contribuinte junto aos fornecedores integram a base de cálculo da Cofins não cumulativa; os valores recebidos dos fornecedores, Fl. 1502DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 68 independentemente do tipo de condição, compõem o conceito de receita na sistemática não-cumulativa das contribuições. Por estes fundamentos, decidiu o Colegiado por negar provimento ao mérito do recurso voluntário, por considerar que as bonificações recebidas são receitas tributáveis, nos termos da autuação fiscal. A Turma Julgadora também decidiu pela manutenção da qualificadora da multa de ofício. Para tanto, conforme evidenciado no Relatório Fiscal, restou demonstrado que a pessoa jurídica autuada se negou a apresentar o contrato de Posto Revendedor e afirmou, de maneira enganosa, que apenas sucedera o Posto Imperador Ltda, este sim recebedor da bonificação. Eis os termos constantes do Relatório Fiscal: Em Relação ao “Contrato de Posto Revendedor” celebrado com a Raízen Combustíveis S/A em 31/03/2016, “A Intimada esclarece, por oportuno, que o contrato celebrado com a Raízen Combustíveis S/A, (Doc. 4.1) se trata de contrato de mútuo (empréstimo), possuindo data de vencimento em 31/03/2022, conforme previsto na Cláusula Primeira do Termo Aditivo do referido contrato (Doc. 4.2,)”, nessas palavras. No que diz respeito ao “Contrato de Posto Revendedor” apresentado, cedido para si pela empresa Posto Imperador LTDA, CNPJ nº 09.098.213/0001-72, a fiscalizada colocou que “Nesse ponto, como se pode depreender da análise dos documentos que seguem anexos (Doc. 5.1 ao Doc. 5.5), os contratos solicitados decorrem, em verdade, de um “Termo de Cessão de Direitos e Obrigações” (Doc. 5.1), em que são partes o Posto Imperador S/A (Cedente), a Intimada (Cessionária) e a Raízen Combustíveis S/A (Cedido), por meio do qual ocorreu apenas a cessão de direitos de operação, ou seja, a Intimada assumiu as obrigações relacionadas à atividade operacional do Posto Imperador. Registre-se que o contrato objeto de cessão foi o “Contrato de Posto Revendedor” (Doc. 5.2) e seus aditivos (Doc. 5.3, Doc. 5.4 e Doc. 5.5), os quais, por sua vez, tem como objetos: a) a licença de uso da marca e manifestação visual; b) compra e revenda exclusiva de produtos combustíveis; e c) o estabelecimento de regras básicas de operação do Posto Revendedor. Assim, a Intimada esclarece que desconhece acerca da existência de quaisquer Contratos de Bonificação eventualmente celebrados entre o Posto Imperador (Cedente) e a Raízen (Cedido), não tendo ocorrido, em favor da Intimada, a cessão ou subrogação de direitos ou deveres frutos de eventuais Contratos de Bonificação, e, por via de consequência, não houve o recebimento de qualquer valor pela Intimada, a título de bonificação, decorrente dos referidos contratos (Doc. 5.1 ao Doc. 5.5).” Diante da afirmação de inexistência de contrato de posto revendedor entre a autuada e a Raízen, a fiscalização intimou esta última, que apresentou o contrato de fls. 353 a 376. Trata-se, ao contrário do que afirmado pela então fiscalizada, de contrato de posto revendedor celebrado entre ela e a Raízen em março de 2016. Fl. 1503DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.098 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11000.724763/2021-07 69 Restou comprovado, portanto, que a fiscalizada pretendeu ocultar da autoridade fiscal o contrato celebrado com a Raízen, que previa o pagamento da bonificação, e limitou-se a apresentar o contrato de mútuo, que não ensejaria, no seu entendimento, tributação dos valores recebidos. O Relatório Fiscal, para justificar a qualificação da multa, apresentou, dentre outros, o seguinte argumento: Os fatos descritos neste Relatório Fiscal evidenciam que a fiscalizada aproveitou- se de um modelo contratual para ocultar da Administração Tributária Federal a ocorrência de fatos geradores de tributos federais. Em razão da ocultação, por parte da pessoa jurídica fiscalizada, do contrato de posto revendedor, entendeu o Colegiado que restou comprovada a hipótese de qualificação da multa de ofício, nos termos do art. 44 da Lei nº 9.430/1996, combinado com o art. 72 da Lei nº 4.502/1964. Entretanto, com o advento da Lei nº 14.689/2023, o percentual máximo da multa qualificada, exceção feita à hipótese do art. 44, § 1º, inciso VII da Lei nº 9.430/1996, será de 100%. Deste modo, com base no previsto no art. 106, inciso II, alínea “c” do CTN, há de se reduzir a multa de ofício para 100% dos valores constituídos de ofício. Finalmente, a Turma Julgadora decidiu por manter a responsabilidade solidária atribuída aos sócios administradores da autuada, Srs. João Alberto Freire Sobral; Marcelo Santos Sobral; e Fábio Santos Sobral, fundamentadas no art. 135, inciso III do CTN. A decisão foi alicerçada no fato de que a empresa, por seus administradores, celebrou contrato de posto revendedor com a Raízen e, deliberadamente, ocultou do fisco a dita avença, de modo a fazer transparecer que tratava-se de mero mútuo celebrado entre a autuada e sua fornecedora. O ato de deliberadamente ocultar da autoridade fiscal o contrato é manifesta prática de infração à Lei, de modo que as responsabilidades solidárias atribuídas aos sócios administradores da autuada foi mantida. Estes os fundamentos que levaram o Colegiado a divergir do ilustre Conselheiro relator e negar provimento aos recursos voluntários da autuada e dos corresponsáveis Srs. João Alberto Freire Sobral; Marcelo Santos Sobral; e Fábio Santos Sobral. Assinado Digitalmente Maurício Novaes Ferreira Fl. 1504DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor
score : 1.0
Numero do processo: 10166.722043/2016-86
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Oct 13 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2013
RECURSO VOLUNTÁRIO. NÃO CONHECIMENTO. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2.
O processo administrativo não é via própria para a discussão da constitucionalidade das leis ou legalidade das normas. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade.
Assunto: Outros Tributos ou Contribuições
Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2013
ÔNUS DA PROVA. FATO CONSTITUTIVO DO DIREITO. INCUMBÊNCIA DO INTERESSADO. IMPROCEDÊNCIA.
Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, não tendo ele se desincumbindo deste ônus, não há como se considerar argumentos de que a fiscalização teria calculado equivocadamente o tributo devido. Simples alegações desacompanhadas dos meios de prova que as justifiquem revelam-se insuficientes para comprovar os fatos alegados.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA.
Restando comprovada a ocorrência de dolo por parte do contribuinte, cabível a aplicação da multa de ofício qualificada. Contudo, em função da alteração legislativa trazida pelo Art. 14 da Lei 14.689/2023, o montante desta multa restringe-se ao montante de 100% do crédito tributário apurado.
Numero da decisão: 2101-003.323
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos: a) por conhecer parcialmente dos recursos voluntários da contribuinte e dos coobrigados, não conhecendo das alegações de confisco, desproporcionalidade e irrazoabilidade da multa; de inconstitucionalidade das contribuições destinadas ao Incra e ao Sebrae; e b) na parte conhecida, dar-lhes provimento parcial, para reduzir a multa de ofício qualificada a 100%.
Assinado Digitalmente
Ana Carolina da Silva Barbosa – Relatora
Assinado Digitalmente
Mário Hermes Soares Campos – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Heitor de Souza Lima Junior, Roberto Junqueira de Alvarenga Neto, Cleber Ferreira Nunes Leite, Silvio Lucio de Oliveira Junior, Ana Carolina da Silva Barbosa, Mario Hermes Soares Campos (Presidente).
Nome do relator: ANA CAROLINA DA SILVA BARBOSA
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2013 RECURSO VOLUNTÁRIO. NÃO CONHECIMENTO. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O processo administrativo não é via própria para a discussão da constitucionalidade das leis ou legalidade das normas. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. Assunto: Outros Tributos ou Contribuições Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2013 ÔNUS DA PROVA. FATO CONSTITUTIVO DO DIREITO. INCUMBÊNCIA DO INTERESSADO. IMPROCEDÊNCIA. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, não tendo ele se desincumbindo deste ônus, não há como se considerar argumentos de que a fiscalização teria calculado equivocadamente o tributo devido. Simples alegações desacompanhadas dos meios de prova que as justifiquem revelam-se insuficientes para comprovar os fatos alegados. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. Restando comprovada a ocorrência de dolo por parte do contribuinte, cabível a aplicação da multa de ofício qualificada. Contudo, em função da alteração legislativa trazida pelo Art. 14 da Lei 14.689/2023, o montante desta multa restringe-se ao montante de 100% do crédito tributário apurado.
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NÃO CONHECIMENTO. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O processo administrativo não é via própria para a discussão da constitucionalidade das leis ou legalidade das normas. Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. Assunto: Outros Tributos ou Contribuições Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2013 ÔNUS DA PROVA. FATO CONSTITUTIVO DO DIREITO. INCUMBÊNCIA DO INTERESSADO. IMPROCEDÊNCIA. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, não tendo ele se desincumbindo deste ônus, não há como se considerar argumentos de que a fiscalização teria calculado equivocadamente o tributo devido. Simples alegações desacompanhadas dos meios de prova que as justifiquem revelam-se insuficientes para comprovar os fatos alegados. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. Restando comprovada a ocorrência de dolo por parte do contribuinte, cabível a aplicação da multa de ofício qualificada. Contudo, em função da alteração legislativa trazida pelo Art. 14 da Lei 14.689/2023, o montante desta multa restringe-se ao montante de 100% do crédito tributário apurado. Fl. 444DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.323 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.722043/2016-86 2 ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos: a) por conhecer parcialmente dos recursos voluntários da contribuinte e dos coobrigados, não conhecendo das alegações de confisco, desproporcionalidade e irrazoabilidade da multa; de inconstitucionalidade das contribuições destinadas ao Incra e ao Sebrae; e b) na parte conhecida, dar-lhes provimento parcial, para reduzir a multa de ofício qualificada a 100%. Assinado Digitalmente Ana Carolina da Silva Barbosa – Relatora Assinado Digitalmente Mário Hermes Soares Campos – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Heitor de Souza Lima Junior, Roberto Junqueira de Alvarenga Neto, Cleber Ferreira Nunes Leite, Silvio Lucio de Oliveira Junior, Ana Carolina da Silva Barbosa, Mario Hermes Soares Campos (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interpostos por CHAVE BR-SERVICOS DE LIMPEZA E CONSERVACAO LTDA - EPP (e-fls. 395/417), em face do Acórdão nº. 01-33.321 (e-fls. 362/369), que julgou a Impugnação improcedente. O Auto de Infração teve origem na exclusão de ofício da CHAVE BR-SERVICOS DE LIMPEZA E CONSERVACAO LTDA – EPP (Chave BR) do Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições- SIMPLES NACIONAL (Ato Declaratório Executivo (ADE) DRF/DF nº 1, de 5 de janeiro de 2016 nº 10166.730444/2015-29), e foi lavrado para cobrança de contribuições destinadas a outras entidades e fundos (Terceiros) - FNDE (Salário Educação), INCRA, SENAC, SESC e SEBRAE - conforme base de cálculo declarada pela empresa, referente ao período compreendido entre as competências 01/2012 a 12/2013. Foi aplicada multa de ofício qualificada de 150%, em razão de terem sido adotadas condutas fraudulentas como a constituição por interpostas pessoas; Fl. 445DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.323 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.722043/2016-86 3 a manutenção de sócio-administrador oculto; a tentativa de ocultar a existência de grupo econômico de fato. Foi ainda lavrado o Auto de Infração para cobrança de contribuições patronais e por descumprimento de obrigação acessória, PTA nº. 10166-722.042/2016-31, ao qual este processo é conexo e que está sendo julgado conjuntamente. Além disso, em decorrência da prática de atos com excesso de poder, infração à lei e ao contrato social da empresa, o sócio-administrador de fato, Sr. Leandro José Leal, foi incluído no processo como responsável solidário. O sujeito passivo e o responsável solidário foram cientificados do Auto de Infração pela via postal (e-fls. 189/201) e em 20/04/2016, o sujeito passivo apresentou Impugnação (e-fls. 204/252), que teve os argumentos assim resumidos pela decisão de piso: Devidamente cientificado, o contribuinte apresentou impugnação tempestiva, inclusive em relação à solidariedade atribuída à pessoa física. Em síntese, foram levantados os seguintes assuntos, relatados de maneira mais detalhada no item seguinte, nº momento da elaboração do voto: • Exclusão do Simples Nacional: que a sua exclusão de ofício do regime diferenciado foi indevida e, consequentemente, que os lançamentos decorrentes dos efeitos retroativos da exclusão seriam improcedentes. • Inclusão de verbas de caráter indenizatório na base de cálculo apurada: que sobre as verbas consideradas indenizatórias não incidem as contribuições devidas às entidades conveniadas (terceiros), motivo pelo qual devem ser excluídas da base de cálculo utilizada. • Contribuições devidas às entidades conveniadas INCRA e SEBRAE: alega que, após a edição da Emenda Constitucional nº 33/2001, ambas as contribuições passaram a ter base de cálculo considerada inconstitucional. • Responsabilidade solidária do sócio-administrador de fato: que não se pode atribuir responsabilidade solidária aos sócios pelo simples inadimplemento das contribuições e que não foram apresentadas provas demonstrando a prática de atos com excesso de poder, ilegais ou em contrariedade ao contrato social. Subsidiariamente, defendem que se trata de responsabilidade subsidiária e não solidária. • Afronta aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade na aplicação da multa: que a multa aplicada, apesar do seu aspecto punitivo, não pode exceder o limite da razoabilidade e deve, portanto, ser reduzida em observação aos princípios constitucionais do não confisco e da capacidade contributiva. Ao final, a impugnação solicita que o crédito tributário seja declarado improcedente, que seja afastada a responsabilidade solidária do sócio- administrador e, subsidiariamente, que seja acatada a defesa no sentido de adequação das penalidades. Fl. 446DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.323 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.722043/2016-86 4 Sobreveio o julgamento da Impugnação, e foi proferido o Acórdão nº. 01-33.321 (e- fls. 362/369), que restou assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2013 SIMPLES NACIONAL. EXCLUSÃO. Não cabe questionamento em relação à exclusão de ofício do Simples Nacional após os efeitos do Ato Declaratório Executivo terem se tornado definitivos. BASE DE CÁLCULO. NÃO COMPROVAÇÃO. A alegação de que na base de cálculo foram incluídas verbas indenizatórias não é cabível quando desacompanhada de provas, ainda mais quando os valores utilizados foram informados pela própria empresa através de GFIP. CONTRIBUIÇÃO TERCEIROS. INCRA. SEBRAE. LANÇAMENTO. É valido o lançamento da contribuições devidas às entidade conveniadas INCRA e SEBRAE quando em conformidade com a legislação de regência. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. ARGÜIÇÃO. A instância administrativa é incompetente para se manifestar sobre inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei ou ato normativo. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. EXCLUSÃO. A responsabilidade solidária não se aplica às contribuições destinadas a outras entidades ou fundos. MULTA DE OFÍCIO. DETERMINAÇÃO LEGAL. PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E DA PROPORCIONALIDADE. A alegação de afronta aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade não autoriza o julgador administrativo a dispensar ou reduzir multas expressas na lei, não havendo desrespeito a estes princípios quando a autuação se pauta pelo princípio da legalidade. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A decisão afastou a responsabilidade solidária do sócio administrador Leandro José Leal, nos termos do art. 151, §2º, inciso I da Instrução Normativa nº. 971/2009, tendo mantido os lançamentos. O sujeito passivo foi cientificado do resultado do julgamento pela via postal, conforme Aviso de Recebimento (e-fls. 389), em 19/10/2016, e apresentou Recurso Voluntário em 18/11/2016, com os seguintes argumentos: Da Revisão de base de cálculo do salário educação FDNE e das contribuições ao SESC e SENAC | Discorre sobre a base de cálculo das contribuições e destaca que Fl. 447DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.323 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.722043/2016-86 5 nem todas as verbas pagas têm caráter remuneratório. Com base em julgados apresentados, defende que as verbas: férias indenizadas, proporcionais e em dobro, 1/3 constitucional de férias, auxílio doença, aviso prévio indenizado, multa de 40% do FGTS, auxílio-alimentação pago in natura, auxílio-creche, descanso semanal remunerado, 13º Salário, adicional noturno, hora extra e salário maternidade, deveriam ser excluídas da base de cálculo das contribuições devidas. Da inexigibilidade das contribuições ao INCRA após a edição da EC nº. 33/2001 | Questiona a constitucionalidade da cobrança da contribuição ao INCRA, após a EC nº. 33/2001 Da multa abusiva – da clara afronta aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade | Defende que a multa de 150% seria confiscatória, irrazoável e desproporcional, requerendo a sua adequação ao percentual de 20% ou 30%. O Sr. Leandro José Leal foi cientificado do resultado de julgamento por meio de Edital (e-fls. 393), tendo em vista que a intimação via postal teve o Aviso de Recebimento devolvido com a informação de que ele teria se mudado (e-fls. 392), e não apresentou recurso voluntário. Em seguida, os autos foram remetidos a este Conselho para apreciação e julgamento do Recurso Voluntário. Não foram apresentadas contrarrazões. É o relatório. VOTO Conselheira Ana Carolina da Silva Barbosa, Relatora 1. Admissibilidade O Recurso Voluntário é tempestivo, porém, atende apenas parcialmente aos requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº. 70.235/72. Não se pode conhecer dos argumentos: (i) alegação de confisco, desproporcionalidade e irrazoabilidade da multa, e da (ii) inconstitucionalidade das contribuições destinadas ao INCRA e ao SEBRAE após a EC nº. 33/2001, por se tratar de matérias de cunho constitucional, cuja apreciação é vedada a este Colegiado, nos termos da Súmula CARF nº 2, que estabelece que: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Fl. 448DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.323 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.722043/2016-86 6 Portanto, conheço parcialmente do Recurso Voluntário, deixando de conhecer dos argumentos: (i) a alegação de confisco, desproporcionalidade e irrazoabilidade da multa e (ii) a inconstitucionalidade das contribuições destinadas ao INCRA e ao SEBRAE após a EC nº. 33/2001. 2. Da base de cálculo das contribuições e inclusão de verbas não remuneratórias O recorrente alega que o lançamento seria indevido em razão da impossibilidade de inclusão de verbas de cunho indenizatório na base de cálculo adotada pela fiscalização. A DRJ analisou os argumentos, que foram trazidos em sede de Impugnação. Vale o destaque: Da alegação de inclusão de verbas de caráter indenizatório na base de cálculo apurada O sujeito passiva defende “a impossibilidade de manter-se a cobrança do salário educação e das contribuições ao SESC e ao SENAC” sobre as verbas que classifica como indenizatórias. Insurge-se especialmente contra as seguintes parcelas: “férias indenizadas, proporcionais e em dobro, 1/3 constitucional de férias, auxílio-doença, aviso prévio indenizado, multa de 40% do FGTS, auxílio alimentação pago in natura, auxílio creche, descanso semanal remunerado, do 13º salário, adicional noturno, horas extras e do salário maternidade”. Apresenta vasto conteúdo jurisprudencial em relação à matéria questionada. Verifica-se que os valores buscados pela fiscalização para compor a base de cálculo foram aqueles declarados pelo próprio contribuinte através de GFIP´s exportadas e validadas antes de iniciado o procedimento fiscal. Em outras palavras, utilizou-se as verbas declaradas pela própria empresa como passíveis de incidência das contribuições. Além disso, trata-se de questionamento abstrato e genérico. A simples juntada de folhas de pagamento do período não fundamenta suas alegações. No caso, seria necessário que o interessado comprovasse que foram utilizadas verbas consideradas indenizatórias na composição da base de cálculo e apresentasse os documentos correspondentes. O recorrente traz longo arrazoado sobre verbas que não teriam caráter remuneratório e não deveriam ser incluídas na base de cálculo das contribuições devidas, porém, não traz qualquer prova de que teria promovido o pagamento de tais verbas ou ainda, provas de que tais valores teriam sido incluídos indevidamente na base de cálculo das contribuições lançadas. Caberia ao sujeito passivo apresentar as provas necessárias para mostrar que o lançamento estaria equivocado e não pedir de forma genérica a revisão das bases de cálculo adotadas pela fiscalização. Assim como estabelece o Código de Processo Civil: Art. 373. O ônus da prova incumbe: I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; Fl. 449DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.323 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.722043/2016-86 7 II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Dessa forma, o que se conclui é que o sujeito passivo reitera os argumentos apresentados em sede de Impugnação sem apresentar qualquer prova de que teriam sido incluídas indevidamente verbas de natureza não remuneratória na base de cálculo das contribuições lançadas, não se desincumbindo do ônus comprobatório. Por estas razões, deve ser mantido o lançamento em tela. 3. Da multa qualificada A autuação fiscal aplicou a multa qualificada de 150% sobre as contribuições apuradas, em razão da exclusão da empresa do Simples Nacional. Considerou-se como clara a estratégia fraudulenta adotada com a interposição de pessoa jurídica, manutenção de sócio oculto e a estratégia do grupo econômico para manter empresa no Simples diminuindo a tributação devida. O recorrente alega que a penalidade seria confiscatória, como se viu anteriormente, e requer a diminuição da penalidade para 20% ou 30% apoiando-se em julgados dos tribunais superiores sobre o tema. A decisão de piso entendeu que a multa da forma qualificada estaria embasada na legislação e que as empresas envolvidas e sócio administrador teriam agido em conluio para reduzir a carga tributária, senão, vejamos: Conforme já citado anteriormente, não cabe à esfera administrativa apreciar eventuais afrontas a princípios constitucionais. No caso em tela, a instância julgadora deve se ater apenas à análise do fiel cumprimento dos dispositivos legais vigentes. A fiscalização impôs aos contribuintes a multa de ofício com o percentual de 150% com base no § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/1996: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. Lei nº 4.502/1964 Art . 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; Fl. 450DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2101-003.323 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.722043/2016-86 8 II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. De acordo com as informações apresentadas pela fiscalização, combinadas com o conjunto probatório juntado aos autos, pode-se considerar que não é descabida a duplicação do percentual da multa de ofício pois as evidências sustentam que os interessados agiram com objetivo de reduzir a carga tributária e de afastar o pagamento das contribuições em análise. Portanto, não cabe à autoridade julgadora afastar a aplicação de penalidade prevista em lei. No presente caso, entendo que ficou comprovada a intenção de fraudar o Fisco e que a multa qualificada deve ser mantida. Ressalto que, com a alteração promovida pela Lei nº. 14.689/2023, no artigo 44 da Lei nº. 9.430/96, e a aplicação do princípio da retroatividade da norma mais benigna, a penalidade deve ser reduzida a 100%. 4. Conclusão Ante o exposto, conheço parcialmente do Recurso Voluntário, não conheço dos seguintes argumentos: (i) a alegação de confisco, desproporcionalidade e irrazoabilidade da multa e (ii) a inconstitucionalidade das contribuições destinadas ao INCRA e ao SEBRAE após a EC nº. 33/2001. Na parte conhecida, dou-lhe parcial provimento para reduzir a multa qualificada a 100%. Assinado Digitalmente Ana Carolina da Silva Barbosa Fl. 451DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 10880.920284/2017-02
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Sep 15 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Oct 14 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2017
RETENÇÃO NA FONTE. CRÉDITO. COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DA RETENÇÃO POR OUTROS MEIOS. SÚMULA CARF 143.
Para casos de comprovação de retenção sem informe de rendimentos, como o ora analisado, admite-se a comprovação da retenção por outros meios, conforme entendimento pacífico neste Colegiado, de acordo com a Súmula CARF n° 143 do CARF. No caso concreto, não há documentação suficiente para autorizar o reconhecimento da integralidade do crédito pleiteado.
Numero da decisão: 1101-001.817
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator.
Assinado Digitalmente
Jeferson Teodorovicz – Relator
Assinado Digitalmente
Efigênio de Freitas Júnior – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Jeferson Teodorovicz, Edmilson Borges Gomes, Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira e Efigênio de Freitas Júnior (Presidente).
Nome do relator: JEFERSON TEODOROVICZ
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2017 RETENÇÃO NA FONTE. CRÉDITO. COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DA RETENÇÃO POR OUTROS MEIOS. SÚMULA CARF 143. Para casos de comprovação de retenção sem informe de rendimentos, como o ora analisado, admite-se a comprovação da retenção por outros meios, conforme entendimento pacífico neste Colegiado, de acordo com a Súmula CARF n° 143 do CARF. No caso concreto, não há documentação suficiente para autorizar o reconhecimento da integralidade do crédito pleiteado.
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2017 RETENÇÃO NA FONTE. CRÉDITO. COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DA RETENÇÃO POR OUTROS MEIOS. SÚMULA CARF 143. Para casos de comprovação de retenção sem informe de rendimentos, como o ora analisado, admite-se a comprovação da retenção por outros meios, conforme entendimento pacífico neste Colegiado, de acordo com a Súmula CARF n° 143 do CARF. No caso concreto, não há documentação suficiente para autorizar o reconhecimento da integralidade do crédito pleiteado. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator. Assinado Digitalmente Jeferson Teodorovicz – Relator Assinado Digitalmente Efigênio de Freitas Júnior – Presidente Fl. 196DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.817 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.920284/2017-02 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Jeferson Teodorovicz, Edmilson Borges Gomes, Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira e Efigênio de Freitas Júnior (Presidente). RELATÓRIO Trata-se recurso voluntário interposto contra Acórdão da DRJ, que julgou improcedente a manifestação de inconformidade contra Despacho Decisório que não homologou declarações de compensação relativas à compensação de débitos com direito creditório de saldo negativo de IRPJ e CSLL do ano calendário de 2013, composto por retenções na fonte: A autoridade de origem não homologou os créditos compensados pela contribuinte no valor total de R$ 360.217,11. A decisão fundamentou-se na ausência de comprovação do direito creditório. Foram realizados diversos despachos decisórios entre 2014 e 2017, todos com conclusões semelhantes, apontando a não comprovação das retenções utilizadas pela empresa para pleitear o crédito. A contribuinte, por sua vez, apresentou manifestação de inconformidade sustentando que os valores compensados tinham origem em retenções de IRPJ e CSLL sobre notas fiscais emitidas para clientes como Sonda Supermercados, Via Varejo, Arcos Dourados e Bradesco. Alegou que anexou os comprovantes dessas retenções e que os valores foram devidamente oferecidos à tributação. Por outro lado, a DRJ São Paulo indeferiu a manifestação de inconformidade. Primeiramente, por considerar que a compensação pleiteada não poderia ser considerada “declarada” pois o crédito já teria sido objeto de compensações anteriores e teria recebido negativas em despachos decisórios. Assim, na interpretação do acórdão recorrido, a compensação deveria ser considerada não declarada. Ademais, a decisão destacou que, apesar da contribuinte alegar que os valores foram retidos na fonte e oferecidos à tributação, os comprovantes anexados não eram suficientes para comprovar a efetiva retenção e o oferecimento à tributação dos rendimentos. Assim, concluiu pela manutenção da decisão que não homologou o crédito pleiteado. No recurso voluntário, a contribuinte reitera os argumentos anteriores, mas agora, em etapa recursal, com anexação mais detalhada de documentos, como DARFs, notas fiscais, contratos e extratos da contabilidade que demonstrariam o registro dos valores. Alega também que houve erro na análise pela autoridade fiscal, que desconsiderou documentos relevantes que comprovariam o direito ao crédito. Após, os autos foram encaminhados ao CARF, para análise e julgamento. É o Relatório. Fl. 197DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.817 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.920284/2017-02 3 VOTO Conselheiro Jeferson Teodorovicz, Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e interposto por parte legítima, dele tomo conhecimento. O objeto do recurso é a compensação de créditos de IRPJ e CSLL do ano-calendário de 2013, com origem declarada em valores retidos na fonte. A autoridade fiscal não homologou o crédito no valor de R$ 360.217,11, sob o fundamento de ausência de provas suficientes da retenção e do efetivo oferecimento dos valores à tributação. A título exemplificativo, pode-se ver, pelos dados apresentados, que, inclusive, há mais de um despacho decisório sobre crédito tributário correspondente ao mesmo valor do DARF (R$ 142.231,41), data de arrecadação (17/02/2012) e referente ao mesmo período de apuração (31/01/12): Fl. 198DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.817 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.920284/2017-02 4 Ambos pretendiam compensar débitos com crédito tributário identificado no DARF: O crédito informado referia-se a IRRF (códigos 0561, 1708 e 5952), e foi objeto de retificação na DCTF, em 20 de agosto de 2013 (conforme consta no doc 8 anexo à manifestação de inconformidade, às efls. 66/82). Portanto, posterior ao despacho decisório. A recorrente alega que retificou a DCTF original (DCTF original no doc 6 da manifestação, às efls. 48/59) de forma a incluir os valores de IRRF que teriam sido indevidamente omitidos ou declarados de forma incorreta, sustentando que os valores compensados constavam da nova versão da DCTF. Argumenta que a retificação da DCTF deve ser considerada válida e eficaz Fl. 199DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.817 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.920284/2017-02 5 para fins de reconhecimento do crédito, conforme normativos da Receita Federal e jurisprudência do CARF. A recorrente alega que os créditos decorrem de retenções efetuadas por diversos clientes (ex. Via Varejo, Arcos Dourados, Bradesco) e que foram devidamente comprovados por meio de documentos anexos, como notas fiscais, contratos, DARFs (constantes no doc 7 junto à manifestação de inconformidade, às efls. 61/65) e escrituração contábil. Contudo, conforme bem pontuado no acórdão recorrido da DRJ São Paulo, os documentos apresentados em primeira instância não permitiram verificar naquele momento processual: a) a efetiva retenção dos valores; e b) que os valores foram oferecidos à tributação. A DRJ considerou que a contribuinte não comprovou de forma suficiente e inequívoca o direito ao crédito compensado. Ainda que a DCTF tenha sido retificada, não foram apresentados documentos que confirmassem a efetiva retenção e recolhimento dos valores nem a sua tributação como receita da empresa. Também entendeu que a simples retificação da DCTF não supre a ausência de provas materiais da origem do crédito. Para a DRJ, a retificação tem valor apenas declaratório e depende de comprovação, não sendo suficiente para comprovar a existência do direito creditório. Esse entendimento, aliás, também resta consignado na Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção (Acórdão n. 3002-000.481): ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/07/2003 a 31/07/2003 COMPENSAÇÃO. RETIFICAÇÃO DE DCTF POSTERIOR AO DESPACHO DECISÓRIO. PROVAS DO ERRO COMETIDO. NÃO HOMOLOGAÇAO. A retificação da DCTF, após a emissão do despacho decisório, não há de impedir o deferimento do pleito. Entretanto, a retificação deve estar acompanhada de provas documentais hábeis e idôneas que comprovem a erro cometido no preenchimento da declaração original. Não comprovada a existência do crédito originário do pagamento indevido informado como suporte para o crédito mencionado na declaração de compensação, não há que se falar em homologação da compensação. No mesmo passo, a Segunda Turma Extraordinária da Terceira Seção (Acórdão n. 3002-000.201): Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2006 COMPENSAÇÃO. NÃO HOMOLOGAÇÃO. DCTF RETIFICADORA APRESENTADA APÓS DCOMP. EFEITOS. NECESSIDADE DE ANÁLISE DA LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO PELA DRJ. A análise de DCTF retificadora enviada após a transmissão da DCOMP não encontra óbice na legislação. Com fulcro no disposto no art. 60 do Decreto nº 70.235/1972, os autos deverão retornar à DRJ para que proceda à verificação da certeza e liquidez do crédito tributário pleiteado, sob pena de supressão de instância. Recurso Voluntário Provido em Parte. Aguardando Nova Decisão. Logo, a retificação da DCTF posterior ao despacho decisório necessita de comprovação adequada. Ainda, embora no recurso voluntário também haja informação de que novos documentos haviam sido incluídos aos autos, observa-se que apenas foi localizado documento na efls.181, cuja apresentação não supre automaticamente as exigências legais. Fl. 200DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.817 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.920284/2017-02 6 Cabe, pois, à contribuinte demonstrar de forma inequívoca: a) o vínculo entre o documento de retenção (DARF, contrato, nota fiscal) e o efetivo crédito; b) oferecimento da receita correspondente à tributação. A Súmula CARF nº 80 dispõe que o reconhecimento de retenções do IRRF e CSLL requer, além da prova da retenção, a demonstração de que os valores foram incluídos na base de cálculo do tributo devido. No caso, nota-se que os documentos apresentados nos docs 1 a 8 anexos à manifestação de inconformidade, não são suficientes para concluir com segurança que os valores foram oferecidos à tributação, ainda que baseiem o argumento do recorrente. Por exemplo, ao contrário do que sustenta o recorrente, não se identificam nos autos documentos contábeis (a exemplo da escrituração contábil) que poderiam indicar o oferecimento dos rendimentos à tributação. Semelhante raciocínio foi exposto no acórdão recorrido: Mas mesmo que se pudesse superar a impossibilidade de nova análise do mesmo crédito, o que não é possível, ou mesmo que estivéssemos julgando aquele primeiro Despacho Decisório, não há no processo comprovação de que o valor recolhido não era devido. O § 1º do art. 147 do Código Tributário Nacional estabelece que, quando a retificação de declaração tiver por objetivo excluir ou reduzir tributo, caberá ao contribuinte comprovar o erro. No caso em pauta, a DCTF retificadora juntada ao processo, transmitida em agosto de 2013, reduzindo o débito, é posterior ao primeiro Despacho Decisório referente ao crédito. A partir da ciência do Despacho Decisório, o reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a apuração da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, verificando-se a exatidão das informações a ele referentes, confrontando-as com os registros contábeis e fiscais, de modo a se conhecer qual seria o tributo devido e compará-lo ao pagamento efetuado. A existência, certeza e liquidez do crédito pleiteado são requisitos essenciais ao deferimento da compensação requerida, na forma do art. 170 do CTN. E, conforme art. 373, inciso I, do novo Código de Processo Civil – CPC (Lei nº 13.105/2015), que reproduz o art. 333, I, do antigo CPC, ao autor incumbe o ônus da prova do fato constitutivo do seu direito. No caso em questão, além de se tratar de nova análise do crédito, não foram anexados quaisquer documentos comprobatórios do valor real do débito reduzido em DCTF. Não há no processo documentos contábeis-fiscais comprovando os valores devidos de IRRF – código 0561 no mês de janeiro de 2012. Logo, os documentos produzidos não são suficientes para comprovar efetiva retenção na fonte. Assim, não tendo a Recorrente apresentado novas provas, entendo que não se desincumbiu do ônus que lhe cabia. Ainda que a Súmula CARF 143 autorize que as retenções na fonte sejam comprovadas de outras formas, no caso concreto, não há documentação suficiente para autorizar o reconhecimento da integralidade do crédito pleiteado. Conclusão Fl. 201DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.817 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.920284/2017-02 7 Ante o exposto, conheço do presente recurso voluntário para, no mérito, negar-lhe provimento. É como voto. Assinado Digitalmente Jeferson Teodorovicz Fl. 202DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 18088.720334/2014-50
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Thu Oct 16 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2011
NÃO APRESENTAÇÃO DE NOVAS RAZÕES DE DEFESA PERANTE A SEGUNDA INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. CONFIRMAÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA.
Não tendo sido apresentadas novas razões de defesa perante a segunda instância administrativa, adota-se os fundamentos da decisão recorrida, nos termos do inc. I, § 12, do art. 144, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 1.634/2023 - RICARF.
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS E DE TERCEIROS. OBRIGAÇÃO DO RECOLHIMENTO.
A empresa é obrigada a recolher, nos prazos definidos em lei, as contribuições incidentes sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas, a qualquer título, aos segurados empregados e contribuintes individuais a seu serviço.
ARGUIÇÃO DE NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA.
O Relatório Fiscal e os Anexos dos Autos de Infração (AI’s), bem como os demais elementos constantes dos autos, oferecem as condições necessárias para que o sujeito passivo conheça o procedimento fiscal e apresente a sua defesa aos lançamentos, estando discriminados, nestes, a situação fática constatada e os dispositivos legais que amparam as autuações.
Somente ensejam a nulidade a lavratura de atos e termos por pessoa incompetente e o proferimento de despachos e decisões por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa.
DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA.
Com a declaração de inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei n.º 8.212/91, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por meio da Súmula Vinculante n.º 8, publicada no Diário Oficial da União em 20/06/2008, o lapso de tempo de que dispõe a Secretaria da Receita Federal do Brasil para constituir os créditos relativos às contribuições previdenciárias e às contribuições de terceiros, mencionadas no artigo 3º da Lei n.º 11.457/07 será regido pelo Código Tributário Nacional (CTN - Lei n.º 5.172/66).
As contribuições lançadas sujeitam-se ao prazo decadencial de 5 (cinco) anos previsto no CTN, contados a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, na hipótese de ocorrência de dolo, fraude ou simulação.
O lançamento realizado no prazo previsto no artigo 173, inciso I do CTN não se encontra atingido pela decadência.
EXCLUSÃO DO SIMPLES NACIONAL. DISCUSSÃO INOPORTUNA EM PROCESSO DE LANÇAMENTO FISCAL.
O foro adequado para a discussão acerca da exclusão da empresa do Simples Nacional é o respectivo processo instaurado para esse fim, não cabendo, em sede de processo de lançamento fiscal de crédito tributário, a discussão acerca dos motivos que conduziram à expedição de Ato Declaratório Executivo da exclusão.
CONTRIBUIÇÃO DAS EMPRESAS PARA FINANCIAMENTO DOS BENEFÍCIOS EM RAZÃO DA INCAPACIDADE LABORATIVA DECORRENTE DOS RISCOS AMBIENTAIS DO TRABALHO.
A contribuição da empresa, para financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, incidente sobre as remunerações pagas ou creditadas, no decorrer do mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos, está incluída no rol das contribuições previstas no artigo 195, inciso I da Constituição Federal de 1988, e varia de 1% a 3%, de acordo com o risco de acidentes do trabalho de sua atividade preponderante.
A cobrança do SAT/GILRAT reveste-se de legalidade, os elementos necessários à sua exigência foram definidos em lei, sendo que os decretos regulamentadores em nada a excederam.
TERCEIROS.
As legislações referentes às contribuições devidas a terceiros foram recepcionadas pela Constituição Federal de 1988.
SALÁRIO-EDUCAÇÃO.
A contribuição do Salário-Educação é constitucional, sendo devida pelas empresas vinculadas à Seguridade Social, ressalvadas as exceções legais.
INCRA.
A contribuição destinada ao INCRA, se configurando como contribuição de intervenção no domínio econômico, é devida tanto pela empresa urbana como pela empresa rural.
EXCLUSÃO DO SIMPLES. DEDUÇÃO DE RECOLHIMENTOS DE MESMA NATUREZA.
Na determinação dos valores a serem lançados de ofício para cada tributo, após a exclusão do Simples, devem ser deduzidos eventuais recolhimentos da mesma natureza efetuados nessa sistemática, observando-se os percentuais previstos em lei sobre o montante pago de forma unificada. (Súmula CARF nº 76).
TERMOS DE SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA.
São solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal.
São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado.
Não elididos os fatos que lhes deram causa, os termos de sujeição passiva solidária devem ser mantidos.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DOS GESTORES.
Os diretores, gerentes ou representantes da pessoa jurídica respondem pessoalmente pelos créditos tributários correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos, por previsão expressa no art. 135, III, CTN.
JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE.
A multa de ofício, porquanto parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês subsequente ao do vencimento. Matéria já pacificada no CARF, através da Súmula nº 108 (vinculante).
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. CABIMENTO. PREVISÃO LEGAL. REDUÇÃO DO VALOR. IMPOSSIBILIDADE.
Sempre que restar configurada a sonegação, a fraude ou o conluio, previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964, o percentual da multa de que trata o inciso I do artigo 44 da Lei nº 9.430/1996, deverá ser duplicado.
Cabe a aplicação da multa qualificada quando comprovado o intuito doloso do sujeito passivo tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento, por parte da Autoridade Tributária, da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais.
MULTA QUALIFICADA. RETROATIVIDADE BENIGNA DA LEI TRIBUTÁRIA. ART. 106, II, c, CTN. APLICAÇÃO.
Cabe reduzir a multa de ofício qualificada na forma da legislação superveniente, na hipótese de penalidade não definitivamente julgada.
Numero da decisão: 2402-013.141
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado: (1) por unanimidade de votos, negar provimento aos recursos voluntários interpostos pelos responsáveis solidários; (2) por maioria de votos (2.1) em relação ao recurso voluntário interposto pela Contribuinte FRIGOIBI – Indústria e Comércio de Carnes LTDA, rejeitar as preliminares de nulidade suscitada e, no mérito, dar-lhe parcial provimento, determinando-se (2.1.1) o aproveitamento, na apuração das contribuições lançadas no presente processo administrativo, dos valores recolhidos pela Contribuinte através do regime simplificado, observando-se a natureza das contribuições e os percentuais previstos em lei e (2.1.2) a redução da multa qualificada de 150% para 100%, mantido o seu agravamento. Vencidos os Conselheiros Rafael De Aguiar Hirano e Rodrigo Duarte Firmino, que deram provimento parcial em menor extensão ao recurso voluntário do contribuinte principal, por discordar do aproveitamento dos valores recolhidos pela FRIGOIBI – Indústria e Comércio de Carnes LTDA na sistemática do Simples. O Conselheiro Rafael De Aguiar Hirano manifestou interesse em apresentar declaração de voto. Entretanto, findo o prazo regimental, o Conselheiro não apresentou a declaração de voto, que deve ser tida como não formulada, nos termos do § 7º, do art. 114 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela da Portaria MF nº 1.634/2023.
Assinado Digitalmente
Gregório Rechmann Junior – Relator
Assinado Digitalmente
Rodrigo Duarte Firmino – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Gregório Rechmann Junior, João Ricardo Fahrion Nüske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Marcus Gaudenzi de Faria, Rafael de Aguiar Hirano (substituto integral) e Rodrigo Duarte Firmino.
Nome do relator: GREGORIO RECHMANN JUNIOR
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O Relatório Fiscal e os Anexos dos Autos de Infração (AI’s), bem como os demais elementos constantes dos autos, oferecem as condições necessárias para que o sujeito passivo conheça o procedimento fiscal e apresente a sua defesa aos lançamentos, estando discriminados, nestes, a situação fática constatada e os dispositivos legais que amparam as autuações. Somente ensejam a nulidade a lavratura de atos e termos por pessoa incompetente e o proferimento de despachos e decisões por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Com a declaração de inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei n.º 8.212/91, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por meio da Súmula Vinculante n.º 8, publicada no Diário Oficial da União em 20/06/2008, o lapso de tempo de que dispõe a Secretaria da Receita Federal do Brasil para constituir os créditos relativos às contribuições previdenciárias e às contribuições de terceiros, mencionadas no artigo 3º da Lei n.º 11.457/07 será regido pelo Código Tributário Nacional (CTN - Lei n.º 5.172/66). As contribuições lançadas sujeitam-se ao prazo decadencial de 5 (cinco) anos previsto no CTN, contados a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, na hipótese de ocorrência de dolo, fraude ou simulação. O lançamento realizado no prazo previsto no artigo 173, inciso I do CTN não se encontra atingido pela decadência. EXCLUSÃO DO SIMPLES NACIONAL. DISCUSSÃO INOPORTUNA EM PROCESSO DE LANÇAMENTO FISCAL. O foro adequado para a discussão acerca da exclusão da empresa do Simples Nacional é o respectivo processo instaurado para esse fim, não cabendo, em sede de processo de lançamento fiscal de crédito tributário, a discussão acerca dos motivos que conduziram à expedição de Ato Declaratório Executivo da exclusão. CONTRIBUIÇÃO DAS EMPRESAS PARA FINANCIAMENTO DOS BENEFÍCIOS EM RAZÃO DA INCAPACIDADE LABORATIVA DECORRENTE DOS RISCOS AMBIENTAIS DO TRABALHO. A contribuição da empresa, para financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, incidente sobre as remunerações pagas ou creditadas, no decorrer do mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos, está incluída no rol das contribuições previstas no artigo 195, inciso I da Constituição Federal de 1988, e varia de 1% a 3%, de acordo com o risco de acidentes do trabalho de sua atividade preponderante. A cobrança do SAT/GILRAT reveste-se de legalidade, os elementos necessários à sua exigência foram definidos em lei, sendo que os decretos regulamentadores em nada a excederam. TERCEIROS. As legislações referentes às contribuições devidas a terceiros foram recepcionadas pela Constituição Federal de 1988. SALÁRIO-EDUCAÇÃO. A contribuição do Salário-Educação é constitucional, sendo devida pelas empresas vinculadas à Seguridade Social, ressalvadas as exceções legais. INCRA. A contribuição destinada ao INCRA, se configurando como contribuição de intervenção no domínio econômico, é devida tanto pela empresa urbana como pela empresa rural. EXCLUSÃO DO SIMPLES. DEDUÇÃO DE RECOLHIMENTOS DE MESMA NATUREZA. Na determinação dos valores a serem lançados de ofício para cada tributo, após a exclusão do Simples, devem ser deduzidos eventuais recolhimentos da mesma natureza efetuados nessa sistemática, observando-se os percentuais previstos em lei sobre o montante pago de forma unificada. (Súmula CARF nº 76). TERMOS DE SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. São solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Não elididos os fatos que lhes deram causa, os termos de sujeição passiva solidária devem ser mantidos. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DOS GESTORES. Os diretores, gerentes ou representantes da pessoa jurídica respondem pessoalmente pelos créditos tributários correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos, por previsão expressa no art. 135, III, CTN. JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. A multa de ofício, porquanto parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês subsequente ao do vencimento. Matéria já pacificada no CARF, através da Súmula nº 108 (vinculante). MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. CABIMENTO. PREVISÃO LEGAL. REDUÇÃO DO VALOR. IMPOSSIBILIDADE. Sempre que restar configurada a sonegação, a fraude ou o conluio, previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964, o percentual da multa de que trata o inciso I do artigo 44 da Lei nº 9.430/1996, deverá ser duplicado. Cabe a aplicação da multa qualificada quando comprovado o intuito doloso do sujeito passivo tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento, por parte da Autoridade Tributária, da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais. MULTA QUALIFICADA. RETROATIVIDADE BENIGNA DA LEI TRIBUTÁRIA. ART. 106, II, c, CTN. APLICAÇÃO. Cabe reduzir a multa de ofício qualificada na forma da legislação superveniente, na hipótese de penalidade não definitivamente julgada.
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CONFIRMAÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA. Não tendo sido apresentadas novas razões de defesa perante a segunda instância administrativa, adota-se os fundamentos da decisão recorrida, nos termos do inc. I, § 12, do art. 144, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 1.634/2023 - RICARF. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS E DE TERCEIROS. OBRIGAÇÃO DO RECOLHIMENTO. A empresa é obrigada a recolher, nos prazos definidos em lei, as contribuições incidentes sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas, a qualquer título, aos segurados empregados e contribuintes individuais a seu serviço. ARGUIÇÃO DE NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. O Relatório Fiscal e os Anexos dos Autos de Infração (AI’s), bem como os demais elementos constantes dos autos, oferecem as condições necessárias para que o sujeito passivo conheça o procedimento fiscal e apresente a sua defesa aos lançamentos, estando discriminados, nestes, a situação fática constatada e os dispositivos legais que amparam as autuações. Somente ensejam a nulidade a lavratura de atos e termos por pessoa incompetente e o proferimento de despachos e decisões por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Fl. 1556DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 2 DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Com a declaração de inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei n.º 8.212/91, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por meio da Súmula Vinculante n.º 8, publicada no Diário Oficial da União em 20/06/2008, o lapso de tempo de que dispõe a Secretaria da Receita Federal do Brasil para constituir os créditos relativos às contribuições previdenciárias e às contribuições de terceiros, mencionadas no artigo 3º da Lei n.º 11.457/07 será regido pelo Código Tributário Nacional (CTN - Lei n.º 5.172/66). As contribuições lançadas sujeitam-se ao prazo decadencial de 5 (cinco) anos previsto no CTN, contados a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, na hipótese de ocorrência de dolo, fraude ou simulação. O lançamento realizado no prazo previsto no artigo 173, inciso I do CTN não se encontra atingido pela decadência. EXCLUSÃO DO SIMPLES NACIONAL. DISCUSSÃO INOPORTUNA EM PROCESSO DE LANÇAMENTO FISCAL. O foro adequado para a discussão acerca da exclusão da empresa do Simples Nacional é o respectivo processo instaurado para esse fim, não cabendo, em sede de processo de lançamento fiscal de crédito tributário, a discussão acerca dos motivos que conduziram à expedição de Ato Declaratório Executivo da exclusão. CONTRIBUIÇÃO DAS EMPRESAS PARA FINANCIAMENTO DOS BENEFÍCIOS EM RAZÃO DA INCAPACIDADE LABORATIVA DECORRENTE DOS RISCOS AMBIENTAIS DO TRABALHO. A contribuição da empresa, para financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, incidente sobre as remunerações pagas ou creditadas, no decorrer do mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos, está incluída no rol das contribuições previstas no artigo 195, inciso I da Constituição Federal de 1988, e varia de 1% a 3%, de acordo com o risco de acidentes do trabalho de sua atividade preponderante. A cobrança do SAT/GILRAT reveste-se de legalidade, os elementos necessários à sua exigência foram definidos em lei, sendo que os decretos regulamentadores em nada a excederam. TERCEIROS. Fl. 1557DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 3 As legislações referentes às contribuições devidas a terceiros foram recepcionadas pela Constituição Federal de 1988. SALÁRIO-EDUCAÇÃO. A contribuição do Salário-Educação é constitucional, sendo devida pelas empresas vinculadas à Seguridade Social, ressalvadas as exceções legais. INCRA. A contribuição destinada ao INCRA, se configurando como contribuição de intervenção no domínio econômico, é devida tanto pela empresa urbana como pela empresa rural. EXCLUSÃO DO SIMPLES. DEDUÇÃO DE RECOLHIMENTOS DE MESMA NATUREZA. Na determinação dos valores a serem lançados de ofício para cada tributo, após a exclusão do Simples, devem ser deduzidos eventuais recolhimentos da mesma natureza efetuados nessa sistemática, observando-se os percentuais previstos em lei sobre o montante pago de forma unificada. (Súmula CARF nº 76). TERMOS DE SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. São solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Não elididos os fatos que lhes deram causa, os termos de sujeição passiva solidária devem ser mantidos. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DOS GESTORES. Os diretores, gerentes ou representantes da pessoa jurídica respondem pessoalmente pelos créditos tributários correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos, por previsão expressa no art. 135, III, CTN. JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. A multa de ofício, porquanto parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês Fl. 1558DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 4 subsequente ao do vencimento. Matéria já pacificada no CARF, através da Súmula nº 108 (vinculante). MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. CABIMENTO. PREVISÃO LEGAL. REDUÇÃO DO VALOR. IMPOSSIBILIDADE. Sempre que restar configurada a sonegação, a fraude ou o conluio, previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964, o percentual da multa de que trata o inciso I do artigo 44 da Lei nº 9.430/1996, deverá ser duplicado. Cabe a aplicação da multa qualificada quando comprovado o intuito doloso do sujeito passivo tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento, por parte da Autoridade Tributária, da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais. MULTA QUALIFICADA. RETROATIVIDADE BENIGNA DA LEI TRIBUTÁRIA. ART. 106, II, "c", CTN. APLICAÇÃO. Cabe reduzir a multa de ofício qualificada na forma da legislação superveniente, na hipótese de penalidade não definitivamente julgada. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado: (1) por unanimidade de votos, negar provimento aos recursos voluntários interpostos pelos responsáveis solidários; (2) por maioria de votos (2.1) em relação ao recurso voluntário interposto pela Contribuinte FRIGOIBI – Indústria e Comércio de Carnes LTDA, rejeitar as preliminares de nulidade suscitada e, no mérito, dar-lhe parcial provimento, determinando-se (2.1.1) o aproveitamento, na apuração das contribuições lançadas no presente processo administrativo, dos valores recolhidos pela Contribuinte através do regime simplificado, observando-se a natureza das contribuições e os percentuais previstos em lei e (2.1.2) a redução da multa qualificada de 150% para 100%, mantido o seu agravamento. Vencidos os Conselheiros Rafael De Aguiar Hirano e Rodrigo Duarte Firmino, que deram provimento parcial em menor extensão ao recurso voluntário do contribuinte principal, por discordar do aproveitamento dos valores recolhidos pela FRIGOIBI – Indústria e Comércio de Carnes LTDA na sistemática do Simples. O Conselheiro Rafael De Aguiar Hirano manifestou interesse em apresentar declaração de voto. Entretanto, findo o prazo regimental, o Conselheiro não apresentou a declaração de voto, que deve ser tida como não formulada, nos termos do § 7º, do art. 114 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela da Portaria MF nº 1.634/2023. Fl. 1559DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 5 Assinado Digitalmente Gregório Rechmann Junior – Relator Assinado Digitalmente Rodrigo Duarte Firmino – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Gregório Rechmann Junior, João Ricardo Fahrion Nüske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Marcus Gaudenzi de Faria, Rafael de Aguiar Hirano (substituto integral) e Rodrigo Duarte Firmino. RELATÓRIO Trata-se de recursos voluntários interpostos em face da decisão da 12ª Turma da DRJ/SPO, consubstanciada no Acórdão 16-78.180 (p. 1.255), que julgou improcedente as impugnações apresentadas. Na origem, trata-se de lançamento fiscal com vistas a exigir crédito tributário referente aos seguintes autos de infração: * AI DEBCAD nº 51.050.700-0: contribuições devidas à Seguridade Social, correspondente à parte da empresa e para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho (Sat/rat) (p. 899); e * AI DEBCAD nº 51.050.701-8: contribuições devidas aos Terceiros (INCRA - Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – 0,2%; SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – 0,6%; Salário Educação – 2,5%; SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – 1,0%; SESI - Serviço Social da Indústria – 1,5%) (p. 911). De acordo com o Relatório Fiscal (p. 921), tem-se que: 3. Da Ação Fiscal: 3.1. A análise dos dados cadastrais das empresas Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda e Frigorífico Dom Glutão Ltda e dos sócios das mesmas, contidos nos sistemas de informação da Secretaria da Receita Federal do Brasil (SRFB), indicou os seguintes fatos: (a) As duas empresas exercem atividades enquadradas no mesmo CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas): 101.120-1 Frigorífico – Abate de Bovinos; (b) Os endereços são muito próximos, acrescido apenas, no caso da Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, pela indicação “+ 200 mts”; Fl. 1560DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 6 (c) A Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda foi optante do SIMPLES NACIONAL (regime tributário simplificado instituído pela Lei Complementar no 123/2006) da data de sua constituição até 12/2011, enquanto que o Frigorífico Dom Glutão Ltda é tributado pelo regime do Lucro Real desde o ano-calendário 2006; (d) Há coincidência de sócios entre as duas empresas, a saber: · O Sr. Dirceu José Corte, sócio administrador do Frigorífico Dom Glutão Ltda desde 26/02/2007, tornou-se sócio administrador da Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda em 15/12/2011; · O Sr. Dedier Ribas Ferreira, sócio administrador do Frigorífico Dom Glutão Ltda desde 07/06/2006, também se tornou sócio administrador da Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda em 15/12/2011. (e) Dos 5 (cinco) sócios que passaram pelo quadro social da Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, até 15/12/2011, 4 (quatro) são ex-empregados do Frigorífico Dom Glutão Ltda, a saber: O Sr. Claysson Flávio Correa, CPF 288.000.808-55, foi admitido no Frigorífico Dom Glutão Ltda em 01/09/2006, como Gerente de Recursos Humanos (Classificação Brasileira de Ocupações - CBO 1422), foi demitido em 29/02/2008 (conforme informação prestada em GFIP), ingressou como sócio administrador na Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, em 26/12/2007, onde permaneceu como sócio até 15/01/2013, em 01/03/2013 passou a empregado, na função de Gerente de Recursos Humanos; · O Sr. Edvaldo Ferreira de Souza, CPF 969.643.756-00, foi admitido no Frigorífico Dom Glutão Ltda em 01/12/2007, na função de megarefe (CBO 8485), foi demitido em 31/03/2008 (conforme informação prestada em GFIP), ingressou como sócio administrador na Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, em 26/12/2007, onde permaneceu como sócio até 31/03/2008, em 02/05/2008 passou a empregado, na função de megarefe (esta função envolve os mais diversos trabalhos, tais como: abate de animais, com controle da temperatura e velocidade de máquinas; o preparo das carcaças, em operações que envolvem a limpeza, retirada das vísceras e depilação; o preparo das carnes para comercialização, com procedimentos de desossa, classificação, corte e pesagem; a realização de tratamentos especiais em carnes, salgando, secando, prensando e adicionando conservantes; o acondicionamento e embalagem dos produtos); · O Sr. João Silveira Filho, CPF 959.337.358-68, foi empregado do Frigorífico Dom Glutão Ltda de 03/05/2004 a 18/09/2007 (conforme informações constantes do CNIS – Cadastro Nacional de Informações Sociais), na função de megarefe (CBO 8485), ingressou como sócio administrador na Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, em 26/12/2007, onde permaneceu como sócio até 31/03/2008, em 19/04/2008 passou a empregado, na função de megarefe; Fl. 1561DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 7 · O Sr. José Carlos Ferreira, CPF 208.118.379-04, foi admitido no Frigorífico Dom Glutão Ltda em 01/02/2005, na função de trabalhador artesanal na conservação de alimentos (CBO 8481), foi demitido em 29/02/2008 (conforme informação prestada em GFIP), ingressou como sócio administrador na Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, em 26/12/2007, onde permaneceu como sócio até 31/03/2008, em 02/05/2008 passou a empregado, na função de megarefe. (f) Destacou-se o fato de os Srs. Claysson Flávio Correa, José Carlos Ferreira e Edvaldo Ferreira de Souza terem permanecidos, concomitantemente, como empregados do Frigorífico Dom Glutão Ltda e sócios da Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda por dois meses, os primeiros, e por três meses, o último. Desta forma, verifica-se que, dos quatro sócios da Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, na data de sua constituição, três eram empregados e um era ex - empregado do Frigorífico Dom Glutão Ltda. 3.2. A evolução do número de empregados das duas empresas, no período imediatamente posterior à constituição da Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, com base nas informações prestadas pelas mesmas em Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), contidas nos sistemas de informação da SRFB, indicou os seguintes fatos: (a) O número de empregados do Frigorífico Dom Glutão Ltda diminuiu, nos termos da tabela a seguir: (b) O número de empregados da Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda evoluiu, nos termos da tabela a seguir: (c) De 02/2008 para 03/2008, dos 15 trabalhadores que deixaram o Frigorífico Dom Glutão Ltda, incluindo os sócios Claysson Flávio Correa e José Carlos Ferreira, 7 ingressaram imediatamente na Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda; (d) De 03/2008 para 04/2008, 72 empregados deixaram o Frigorífico Dom Glutão Ltda (a tabela a seguir apresenta o número de segurados por função). Destes, Fl. 1562DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 8 apenas 13 não se tornaram empregados da Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda. (...) (e) De 06/2008 para 07/2008, foram demitidos do Frigorífico Dom Glutão Ltda 11 empregados. Destes, 6 foram admitidos na Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda. Destacou-se o caso do empregado José Evânio da Conceição, que consta como admitido na Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda em 09/05/2008, antes de ser demitido do Frigorífico Dom Glutão Ltda, em 26/06/2008; (f) Dos 115 demitidos do Frigorífico Dom Glutão Ltda, no período analisado, 78 foram admitidos na Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda. 3.3. A comparação entre as receitas brutas declaradas pela Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, com base nas Declarações Anuais do SIMPLES NACIONAL (DASN), e pelo Frigorífico Dom Glutão Ltda, nas Declarações de Informações Econômico-fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ), e as respectivas massas salariais (bases de cálculo das Contribuições previdenciárias declaradas em GFIP), conforme dados contidos nos sistemas de informação da SRFB, demonstrados nas tabelas baixo, indicou os seguintes fatos: (...) (a) Relação entre a massa salarial e receita evidentemente incompatível, para uma empresa industrial, como é o caso da Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, que chega a ter mais de 70% de sua receita comprometida com este tipo de despesa; (b) No caso do Frigorífico Dom Glutão Ltda, a massa salarial possui valor ínfimo, se comparado à receita declarada, chamando a atenção, portanto, no sentido inverso. 3.4. Destacou-se o fato de o Frigorífico Dom Glutão Ltda, em 2007, possuir em torno de 130 empregados por mês e que, neste ano, sua massa salarial (base de cálculo total das Contribuições previdenciárias declaradas em GFIP) superou um milhão de reais. Para este ano-calendário, declarou em DIPJ uma receita bruta de R$ 48.914.991,26. 3.5. Os fatos descritos acima indicam que, onde havia uma empresa tributada pelo lucro real, passaram a existir duas empresas, sendo a segunda optante do SIMPLES NACIONAL, com a base de cálculo de contribuições previdenciárias substituída por um faturamento de pequeno valor, sem a contribuição para Terceiros, constituída por empregados e ex-empregado da primeira, com a transferência da mão-de-obra da primeira para a segunda. (...) Foram emitidos Termos de Sujeição Passiva Solidária em face de FRIGORÍFICO DOM GLUTÃO LTDA (p. 06), DIRCEU JOSÉ CORTE (p. 09) e DEDIER RIBAS FERREIRA (p. 12). Fl. 1563DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 9 A multa de ofício foi aplicada em sua forma qualificada e agravada, resultando, assim, em um percentual de 225%. Cientificados do lançamento fiscal, a Contribuinte Devedora Principal (FRIGOIBI) e os responsáveis solidários apresentaram as suas respectivas impugnações (p.p. 1.073, 1.134, 1.158 e 1.184), esgrimindo suas razões de defesa nos tópicos abaixo destacados, conforme sintetizado pelo órgão julgador de primeira instância: DA IMPUGNAÇÃO DA FRIGOIBI INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CARNES LTDA. – ME (...) Da situação especial vivenciada pela impugnante: Observa, aqui, a impugnante, que teria sido excluída da sistemática do Simples por, supostamente, tratar-se da mesma empresa, considerando-se somadas as receitas com a empresa Frigorífico Dom Glutão Ltda. Defende, no entanto, que se estaria, no caso, diante de empresas completamente distintas, sendo impossível somar-se o faturamento de ambas, para fins de exclusão do Simples. (...) Da alegação de decadência: Sustenta, aqui, a impugnante, que haveria decadência parcial no presente caso, com relação às competências de 01/2009 a 10/2009. (...) Da arguição de nulidade – cerceamento de defesa – devido processo legal administrativo: Segundo a impugnante, o primeiro ponto que mereceria destaque, aqui, é o fato de que inexistiria a individualização dos funcionários abrangidos e a rubrica de todos os valores recebidos, lembrando que sobre verbas eventuais e de caráter indenizatório não incidiria contribuição previdenciária. (...) Da questão do artigo 116 do CTN e a falta de regulamentação: Para a impugnante, outro ponto que mereceria destaque se refere ao fato de que a autuação se fundamentaria no parágrafo único do art. 116 do CTN, segundo o qual “A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária.”. Alega que, para ser válido, o parágrafo único do artigo 116 do CTN careceria de regulamentação por lei ordinária, o que de fato não teria ocorrido. Fl. 1564DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 10 Defende, também, a impossibilidade de desconsideração sem intervenção do Poder Judiciário, e faz menção à Lei n.º 11.196/2005. (...) Da contribuição da empresa: Trata, aqui, a impugnante da contribuição da empresa lançada no DEBCAD 51.050.700-0. Afirma que, conforme se observaria da análise da NFLD e de seus anexos, não teriam sido segregados os valores supostamente devidos por ela em razão de sua folha salarial, compreendendo seus empregados devidamente registrados indistintamente, sem que fossem discriminadas as parcelas do débito lançado com relação ao respectivo trabalhador que a ela teria dado ensejo. Destaca o fato de que inexistiria a individualização dos funcionários abrangidos e a rubrica de todos os valores recebidos, uma vez que sobre verbas eventuais e de caráter indenizatório não incidiria contribuição previdenciária. Entende que, para que se imputasse a ela a responsabilidade pelo recolhimento do débito exigido, seria necessária a apresentação especificada dos mesmos, referenciando a cada empregado seu a parcela do débito respectiva. (...) Da contribuição incidente sobre as remunerações pagas ou creditadas a autônomos e administradores: Menciona, aqui, a impugnante, que aludida contribuição teria seu fundamento na Lei Complementar n.º 84/96, mas que suas disposições não se sintonizariam com as regras estatuídas nos artigos 195, § 4º, e 154, inciso I, da Constituição Federal. (...) Da contribuição incidente sobre a folha salarial para efeito de complementação do financiamento do seguro de acidentes do trabalho – SAT/RAT: Relata a impugnante que a contribuição em foco está prevista no art. 22, II da Lei n.º 8.212/91, e tem como base de cálculo o valor das remunerações pagas ou creditadas no decorrer do mês aos segurados empregados, à alíquota de 1%, 2% ou 3%, conforme o grau de risco existente na empresa. Segundo ela, em termos jurídicos, a contribuição ao SAT, prevista no inciso II do art. 22 da Lei n.° 8.212/91, por ser distinta da contribuição destinada ao universo da seguridade social, prevista no inciso I do art. 22 da mesma Lei, seria indevida, porquanto sua instituição não teria observado o disposto no art. 154, I da Constituição Federal, que se aplicaria às contribuições de seguridade social, por expressa disposição do art. 195, § 4º do mesmo Estatuto Político. (...) Fl. 1565DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 11 Das verbas trabalhistas indenizatórias e eventuais – não incidência da contribuição sobre a folha de salários: (...) Para ela, não incidiriam contribuições previdenciárias no tocante às verbas indenizatórias, não salariais ou encargos sociais, uma vez que não se encaixariam no conceito constitucional de salário ou remuneração, nos moldes do art. 195, inciso I da Constituição Federal de 1988, bem como do próprio art. 22 da Lei n.º 8.212/91. (...) Das contribuições devidas a terceiros: Trata, aqui, a impugnante, das contribuições devidas aos terceiros lançadas no DEBCAD 51.050.701-8 – SALÁRIO-EDUCAÇÃO, SESI, SENAI, SEBRAE e INCRA. Segundo ela, não seria possível a instituição ou recepção de mais nenhuma contribuição sobre a folha salarial, e cita o art. 240 da Constituição Federal. (...) Dos valores pagos no SIMPLES: Segundo a impugnante, em momento algum teria havido a menção de que os pagamentos efetuados no Simples – que se trataria de um regime unificado de pagamento de tributos e contribuições, consistente numa alíquota única incidente sobre o faturamento – teriam sido considerados. E defende que, nessas condições, esses valores, ao menos, deveriam ser abatidos da autuação – DEBCAD’s 51.050.700-0 e 51.050.701-8. Dos juros: Alega, aqui, a impugnante, que os juros são devidos à razão de 1% (um por cento) ao mês, nos termos do artigo 161, § 1º do Código Tributário Nacional, sendo de total improcedência o lançamento realizado. (...) Da multa: Informa, aqui, a empresa, que o auto de infração teria imputado multa qualificada no percentual de 225%, e sustenta que esta multa qualificada deveria ser reduzida, no mínimo, para o percentual de 75%, já que se estaria diante de vários equívocos. Lembra que a qualificação da multa seria "exceção da exceção", não podendo ser aplicada mediante ilações subjetivas, e cita doutrina e jurisprudência. Ressalta que a fiscalização, no auto de infração, no tocante à multa qualificada, não teria descrito, de forma pormenorizada quais seriam as condutas praticadas Fl. 1566DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 12 por ela, a fim de tipificar o evidente intuito de fraude, nos termos dos arts. 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502/64. (...) Dos juros sobre a multa: Defende, aqui, a impugnante, a impossibilidade de incidência de juros sobre a multa de ofício, afirmando não haver previsão legal para tanto. DAS IMPUGNAÇÕES DE DEDIER RIBAS FERREIRA E DE DIRCEU JOSÉ CORTE (...) Dos aspectos não relacionados à responsabilidade tributária – inconstitucionalidade e ilegalidade: * Dever de obediência ao devido processo legal. Necessidade de lançamento tributário. (...) Destacam que, no presente caso, o devido processo legal não teria sido observado para a sua inclusão como co-responsáveis, sendo que, conforme auto de infração, não teriam sido devidamente incluídos, mas tão somente citados no relatório fiscal. (...) Da responsabilidade tributária – inconstitucionalidade e ilegalidade – impossibilidade: * Premissa. Personalidades jurídicas distintas entre sócio e pessoa jurídica. Registram, aqui, os impugnantes, que, para a apreciação deste caso, haveria de se ter em mente o fato de que as pessoas (físicas e jurídicas) possuiriam personalidade jurídica próprias, de sorte que cada uma delas teria seus deveres e obrigações, as quais não seriam extensivas às outras. (...) * A responsabilidade tributária solidária. Breves considerações ao art. 124 do Código Tributário Nacional. Lembram que a solidariedade no Direito não se presumiria, de sorte que se tornaria necessária previsão legal, sendo preciso que o legislador descrevesse as situações onde seria, ao menos de início, possível impor a solidariedade. (...) * Imposição de Responsabilidade tributária. Necessidade de comprovação. Ônus da prova. Fl. 1567DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 13 Mencionam que, embora exista previsão no CTN para se impor responsabilidade tributária solidária a determinadas pessoas, seria preciso verificar como isto ocorreria e, principalmente, a quem competiria o ônus de demonstrar a sua existência, com o preenchimento dos requisitos legais, mediante justificativas fáticas, jurídicas e, principalmente, com base em provas. (...) * A solidariedade e o interesse comum (art. 124, I, do CTN). Informam que, apesar da inexistência de qualquer prova, nos autos dos processos administrativos, para justificar a sua inclusão como responsáveis solidários, por força do disposto no art. 124, inciso I do CTN, o fato é que, no presente caso, seria impossível esta comprovação, eis que inexistiria qualquer situação que configurasse o "interesse comum na constituição do fato gerador" nos créditos tributários descritos no extrato da Procuradoria da Fazenda Nacional. (...) * O art. 135 do Código Tributário Nacional. Informam que seria princípio comezinho a distinção entre os sócios e a pessoa jurídica, tendo esta vida própria, devendo a Lei n.º 8.397/92 estar em consonância com o Código Tributário Nacional, que é lei complementar. Mencionam que o art. 135, inciso III do CTN, em exceção à distinção entre os sócios e a pessoa jurídica, disporia que "são pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos": os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. (...) DA IMPUGNAÇÃO DE FRIGORÍFICO DOM GLUTÃO LTDA. Da alegação de improcedência do lançamento – inconstitucionalidade e ilegalidade – e da responsabilidade tributária – impossibilidade: * Premissa. Personalidades jurídicas distintas. Cada pessoa jurídica responde com seu patrimônio por seu passivo. Impossibilidade de confusão entre pessoas jurídicas. Registra, aqui, o impugnante, que, para a apreciação deste caso, haveria de se ter em mente o fato de que as pessoas (físicas e jurídicas) possuiriam personalidade jurídica próprias, de sorte que cada uma delas teria seus deveres e obrigações, as quais não seriam extensivas às outras. (...) * A responsabilidade tributária solidária. Breves considerações ao art. 124 do Código Tributário Nacional. Fl. 1568DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 14 Lembra que a solidariedade no Direito não se presumiria, de sorte que se tornaria necessária previsão legal, sendo preciso que o legislador descrevesse as situações onde seria, ao menos de início, possível impor a solidariedade. (...) * Imposição de Responsabilidade tributária. Necessidade de comprovação. Ônus da prova. Menciona que, embora exista previsão no CTN para se impor responsabilidade tributária solidária a determinadas pessoas, seria preciso verificar como isto ocorreria e, principalmente, a quem competiria o ônus de demonstrar a sua existência, com o preenchimento dos requisitos legais, mediante justificativas fáticas, jurídicas e, principalmente, com base em provas. (...) * A solidariedade e o interesse comum (art. 124, I, do CTN). Informa que, apesar da inexistência de qualquer prova, nos autos dos processos administrativos, para justificar a sua inclusão como responsável solidário, por força do disposto no art. 124, inciso I do CTN, o fato é que, no presente caso, seria impossível esta comprovação, eis que inexistiria qualquer situação que configurasse o "interesse comum na constituição do fato gerador" nos créditos tributários descritos no lançamento. (...) * Inaplicabilidade do art. 30, IX da Lei n.º 8.212/91. Grupo econômico. Afirma que, embora o único fundamento que deveria buscar o Fisco, no sentido de tentar lhe impor a responsabilidade tributária, fosse aquele previsto no art. 124, inciso I do Código Tributário Nacional, faria uma breve consideração acerca da inaplicabilidade do art. 30 da Lei n.º 8.212/91. (...) * A inconstitucionalidade do art. 30, IX da Lei n.º 8.212/91. Grupo econômico. Observa que a imposição de responsabilidade tributária, na hipótese de grupo econômico, teria seu advento pela Lei n.º 8.212/91, que teria natureza de lei ordinária. Segundo ele, restaria impossível impor responsabilidade tributária, senão por meio de lei complementar. (...) * Solidariedade tributária. Grupo Econômico. Requisitos e ônus da prova. A solidariedade não resulta da existência de grupo econômico. Segundo o impugnante, apesar de, no caso, não restar configurado o interesse comum no fato gerador (art. 124, I, CTN) e não ser aplicável a Lei n.º 8.212/91, de modo a possibilitar a imposição de responsabilidade tributária solidária a ele, por Fl. 1569DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 15 necessidade de extirpar qualquer dúvida, também se esclareceria que, na hipótese de se buscar a aplicação desta última legislação ao presente caso, também não haveria razão ao Fisco. Para ele, não obstante o art. 30, IX da Lei n.º 8.212/91 não ser aplicável ao presente caso, para a finalidade de impor responsabilidade tributária solidária, de modo que o dispositivo aplicável seria tão somente o art. 124, inciso I do Código Tributário Nacional, o fato é que, mesmo na hipótese do denominado "grupo econômico", onde, talvez, a configuração do "interesse comum" pudesse ficar mais fácil de ser identificada, não se justificaria a imputação de tal responsabilidade. (...) A DRJ julgou improcedente as impugnações apresentadas, nos termos do susodito Acórdão nº 16-78.180 (p. 1.255), conforme ementa abaixo reproduzida: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2011 Ementa: CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS E DE TERCEIROS. OBRIGAÇÃO DO RECOLHIMENTO. A empresa é obrigada a recolher, nos prazos definidos em lei, as contribuições incidentes sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas, a qualquer título, aos segurados empregados e contribuintes individuais a seu serviço. ARGUIÇÃO DE NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. O Relatório Fiscal e os Anexos dos Autos de Infração (AI’s), bem como os demais elementos constantes dos autos, oferecem as condições necessárias para que o sujeito passivo conheça o procedimento fiscal e apresente a sua defesa aos lançamentos, estando discriminados, nestes, a situação fática constatada e os dispositivos legais que amparam as autuações. AUTOS DE INFRAÇÃO. FORMALIDADES LEGAIS. SUBSUNÇÃO DOS FATOS À HIPÓTESE NORMATIVA. Os Autos de Infração (AI’s) encontram-se revestidos das formalidades legais, tendo sido lavrados de acordo com os dispositivos legais e normativos que disciplinam o assunto, apresentando, assim, adequada motivação jurídica e fática, bem como os pressupostos de liquidez e certeza, podendo ser exigidos nos termos da lei. Constatado que os fatos descritos se amoldam à norma que prevê a tributação ou a aplicação de penalidade, deve o Fisco proceder ao lançamento, eis que esta é atividade vinculada e obrigatória, nos termos do artigo 142, parágrafo único do Código Tributário Nacional. Fl. 1570DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 16 DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Com a declaração de inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei n.º 8.212/91, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por meio da Súmula Vinculante n.º 8, publicada no Diário Oficial da União em 20/06/2008, o lapso de tempo de que dispõe a Secretaria da Receita Federal do Brasil para constituir os créditos relativos às contribuições previdenciárias e às contribuições de terceiros, mencionadas no artigo 3º da Lei n.º 11.457/07 será regido pelo Código Tributário Nacional (CTN - Lei n.º 5.172/66). As contribuições lançadas sujeitam-se ao prazo decadencial de 5 (cinco) anos previsto no CTN, contados a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, na hipótese de ocorrência de dolo, fraude ou simulação. O lançamento realizado no prazo previsto no artigo 173, inciso I do CTN não se encontra atingido pela decadência. EXCLUSÃO DO SIMPLES NACIONAL. DISCUSSÃO INOPORTUNA EM PROCESSO DE LANÇAMENTO FISCAL. O foro adequado para a discussão acerca da exclusão da empresa do Simples Nacional é o respectivo processo instaurado para esse fim, não cabendo, em sede de processo de lançamento fiscal de crédito tributário, a discussão acerca dos motivos que conduziram à expedição de Ato Declaratório Executivo da exclusão. DESCONSIDERAÇÃO DE ATO OU NEGÓCIO JURÍDICO PARA FINS TRIBUTÁRIOS. PREVALÊNCIA DA SUBSTÂNCIA SOBRE A FORMA. É permitido à autoridade tributária desconstituir ato ou negócio jurídico praticado pelo sujeito passivo, em desconformidade com a lei, com o objetivo de reduzir o montante do tributo devido. SALÁRIO-DE-CONTRIBUIÇÃO. PARCELAS INTEGRANTES. Entende-se por salário de contribuição a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma. Somente as exclusões arroladas exaustivamente no parágrafo 9º do artigo 28 da Lei n.º 8.212/91 não integram o salário-de-contribuição. IMPUGNAÇÃO. ALEGAÇÕES DESACOMPANHADAS DE PROVA. INEFICÁCIA. As alegações, apresentadas em impugnação, desacompanhadas de prova não produzem efeito em sede de processo administrativo fiscal, sendo insuficientes para elidir o lançamento de ofício. CONTRIBUIÇÃO DAS EMPRESAS PARA FINANCIAMENTO DOS BENEFÍCIOS EM RAZÃO DA INCAPACIDADE LABORATIVA DECORRENTE DOS RISCOS AMBIENTAIS DO TRABALHO. Fl. 1571DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 17 A contribuição da empresa, para financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, incidente sobre as remunerações pagas ou creditadas, no decorrer do mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos, está incluída no rol das contribuições previstas no artigo 195, inciso I da Constituição Federal de 1988, e varia de 1% a 3%, de acordo com o risco de acidentes do trabalho de sua atividade preponderante. A cobrança do SAT/GILRAT reveste-se de legalidade, os elementos necessários à sua exigência foram definidos em lei, sendo que os decretos regulamentadores em nada a excederam. TERCEIROS. As legislações referentes às contribuições devidas a terceiros foram recepcionadas pela Constituição Federal de 1988. SALÁRIO-EDUCAÇÃO. A contribuição do Salário-Educação é constitucional, sendo devida pelas empresas vinculadas à Seguridade Social, ressalvadas as exceções legais. INCRA. A contribuição destinada ao INCRA, se configurando como contribuição de intervenção no domínio econômico, é devida tanto pela empresa urbana como pela empresa rural. RECOLHIMENTOS EFETUADOS INDEVIDAMENTE PARA O SIMPLES NACIONAL. COMPENSAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. É vedada, pelas normas que regem a matéria, a compensação de contribuições previdenciárias com os valores recolhidos indevidamente para o Simples Nacional. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA E AGRAVADA. CABIMENTO. Sempre que restar configurado pelo menos um dos casos previstos nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502/64, o percentual da multa de que trata o inciso I do artigo 44 da Lei n.º 9.430/1996 deverá ser duplicado. O percentual da multa de ofício será aumentado de metade quando o contribuinte deixar de apresentar os esclarecimentos solicitados pela autoridade lançadora, mediante intimação. JUROS. TAXA SELIC. Sobre as contribuições sociais pagas com atraso, incidem juros equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês subsequente ao do vencimento. Fl. 1572DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 18 LEGALIDADE. CONSTITUCIONALIDADE. A declaração de inconstitucionalidade de lei ou atos normativos federais, bem como de ilegalidade destes últimos, é prerrogativa outorgada pela Constituição Federal ao Poder Judiciário. PEDIDOS DE DILIGÊNCIA E PERÍCIA. INDEFERIMENTO. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendê-las necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis. A diligência ou perícia objetiva subsidiar a convicção do julgador e não inverter o ônus da prova já definido na legislação. TERMOS DE SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. São solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Não elididos os fatos que lhes deram causa, os termos de sujeição passiva solidária devem ser mantidos. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Cientificados da decisão de primeira instância, a Contribuinte Devedora Principal e os Responsáveis Solidários Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira apresentaram os respectivos recursos voluntários (p.p. 1.424, 1.491 e 1.514), reiterando, em síntese, os termos de suas impugnações. A responsável solidária Frigorífico Dom Glutão, devidamente cientificada dos termos do Acórdão da DRJ, através do AR de p. 1.416, não recorreu para esse Egrégio Conselho. Sem contrarrazões. É o relatório. VOTO Conselheiro Gregório Rechmann Junior, Relator. Os recursos voluntários apresentados são tempestivos e atendem os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, devem ser conhecidos. Fl. 1573DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 19 Conforme exposto no relatório supra, trata-se o presente caso de lançamento fiscal com vistas a exigir (i) as contribuições destinadas à Seguridade Social, correspondentes à parte da empresa e do financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho (DEBCAD 51.050.700-0, p. 899), bem como (ii) as contribuições destinadas a terceiros – SALÁRIO-EDUCAÇÃO, INCRA, SENAI, SESI e SEBRAE (DEBCAD 51.050.701-8, p. 911). Do Relatório Fiscal (p. 921), conforme destacado pelo órgão julgador de primeira instância, extrai-se as seguintes informações: No item “4. Dos Fatos Apurados na Auditoria Fiscal”: * que foi realizada uma visita ao endereço cadastral dos contribuintes em pauta, no dia 03/12/2013, sendo que o Termo de Constatação n.º 01 apresenta a descrição e o registro fotográfico do estabelecimento e das edificações que o compõem; * que a leitura do referido termo indica que: (a) as empresas Frigoibi e Dom Glutão, apesar de constituírem formalmente duas empresas, funcionam no que seriam do ponto de vista formal dois estabelecimentos, mas, de fato, constituem uma única unidade produtiva industrial, que engloba desde a compra da matéria prima até o produto final; (b) a diferença entre os endereços cadastrais, com a indicação de que ficariam distantes 200 metros um do outro não corresponde à realidade dos fatos, uma vez que os estabelecimentos das duas empresas constituem um conjunto, ou seja, um é exatamente a continuação do outro ou, ainda, são imediatamente contíguos; (c) não há nenhum letreiro, placa ou qualquer tipo de identificação que identifique ou diferencie as empresas que funcionam no estabelecimento ou, formalmente, estabelecimentos; * que a leitura do Termo de Constatação n.º 02 indica os seguintes fatos, que constituem indícios de que as empresas Frigoibi e Dom Glutão compõem uma única unidade produtiva: (a) o responsável pelo controle de qualidade dos produtos produzidos no estabelecimento que constitui, formalmente, a empresa Frigoibi, na parte industrial, situa-se no estabelecimento onde se localiza o Dom Glutão, na parte administrativa; (b) empregados que exercem funções típicas da área industrial e que trabalham no estabelecimento onde se localiza a Frigoibi, na parte industrial, são empregados do Dom Glutão; * que os empregados do Dom Glutão tiveram os registros dos contratos de trabalho rescindidos com esta empresa e firmados com a Frigoibi, de forma gradativa; * que empregados registrados nestas duas empresas trabalharam no mesmo processo produtivo, na área industrial que passou constituir a Frigoibi, havendo indício de confusão operacional entre as duas empresas; Fl. 1574DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 20 * que foram realizadas entrevistas com os empregados do Dom Glutão, expostas no Termo de Constatação n.º 03, ficando evidenciadas nas respostas apresentadas e dependências visitadas: (a) que o Dom Glutão, antes da constituição da Frigoibi, era uma empresa industrial constituída por um estabelecimento único, descrito e fotografado no Termo de Constatação n.º 01, que foi desmembrado, formalmente, em dois estabelecimentos, sendo sua parte industrial transformada na Frigoibi; (b) que o Sr. Claysson Flávio Correa, apesar de constar no quadro societário da Frigoibi até 15/01/2013, era conhecido e atuava como responsável pelo setor de recursos humanos do Dom Glutão; (c) que empregados do Dom Glutão atuavam dentro do estabelecimento industrial que constituiria a Frigoibi, havendo o trabalho de empregados registrados nas duas empresas, na mesma linha de produção; (d) que a transferência de empregador teria sido objeto de uma reunião presidida pelos Srs. Claysson Flávio Correa e Dirceu José Corte indicando a possibilidade de ocorrência de conluio, nos termos do artigo 73 da Lei n.º 4.502/1964; (e) que ocorreu, de fato, a mera alteração do empregador no registro de trabalho, de forma que os empregados que aderiram ao acordo permaneceram trabalhando nas mesmas funções, desempenhando as mesmas tarefas, com as mesmas máquinas e equipamentos e nos mesmos locais de trabalho, existindo, também, indícios de sonegação, nos termos do artigo 71 da Lei n.º 4.502/1964, uma vez que, de tal fato, decorreu a supressão do pagamento de contribuições previdenciárias e de terceiros com base na remuneração dos empregados; * que restaram confirmados os indícios de confusão administrativa e operacional entre a Frigoibi e o Dom Glutão; * que, no Contrato de Constituição de Sociedade Limitada da Frigoibi, de 26/12/2007, observam-se as seguintes informações: (a) a sociedade foi constituída pelos Srs. Claysson Flávio Correa, Edvaldo Ferreira de Souza, João Silveira Filho e José Carlos Ferreira; (b) na cláusula 5ª, consta o capital subscrito, no valor de R$ 100.000,00, distribuído de forma igual para cada um dos sócios, e no seu parágrafo primeiro, que cada um dos sócios integralizou, no ato da assinatura e em moeda corrente, R$ 2.500,00, e que o saldo deveria ser integralizado num prazo máximo de dois anos; (d) na cláusula 8ª, consta que a administração da sociedade seria exercida por todos os sócios; * que, na Primeira Alteração Contratual, de 31/03/2008, observam-se as seguintes informações: (a) ficou admitido na sociedade o Sr. Geraldo Ferreira; (b) deixam a sociedade os sócios Edvaldo Ferreira de Souza, Joã o Silveira Filho e José Carlos Ferreira; (c) na cessão de capital, consta que o Sr. Geraldo Ferreira ingressou na sociedade com as quotas correspondentes aos sócios demissionários, que receberam, neste ato e em moeda corrente, os R$ 7.500,00 correspondentes ao capital que já teria sido integralizado; (d) na cláusula 5ª, parágrafo primeiro, consta Fl. 1575DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 21 que o saldo de capital a integralizar, no valor de R$ 90.000,00, deveria ser integralizado no prazo máximo de 2 anos; (e) na cláusula 9ª, consta que a administração da sociedade seria feita pelos dois sócios; * que, na Segunda Alteração Contratual, de 15/12/2011, constam as seguintes informações: (a) foram admitidos na sociedade os Srs. Dedier Ribas Ferreira e Dirceu José Corte e demitiu-se o Sr. Geraldo Ferreira; (b) na cessão e aumento de capital, consta que o Sr. Geraldo Ferreira recebeu do Sr. Dirceu José Corte R$ 75.000,00, em moeda corrente e neste ato; que o capital social de R$ 100.000,00 estava totalmente integralizado; que houve aumento do capital social para R$ 312.000,00, dividido da seguinte forma: 8% para o Sr. Claysson Flávio Correa, 46% para o Sr. Dedier Ribas Ferreira e 46% para o Sr. Dirceu José Corte; (c) a administração da sociedade passou a ser exercida pelos Srs. Dedier Ribas Ferreira e Dirceu José Corte; * que, na Terceira Alteração Contratual, de 15/01/2013, consta a saída da sociedade do Sr. Claysson Flávio Correa; * que o Sr. Geraldo Ferreira, sócio majoritário da Frigoibi de 31/03/2008 a 15/12/2011, era um aposentado por invalidez, ou seja, indivíduo incapacitado para o trabalho em virtude de uma entidade mórbida, que havia trabalhado por longa data em empresas do Sr. Dirceu José Corte, de pouca instrução formal e de baixa renda, sendo que tais situações mostram-se incompatíveis com a versão de que seria um empresário, dono de 75% de uma empresa com capacidade para abate e industrialização de 130 cabeças de boi por dia, como é o caso da Frigoibi; * que foram realizadas entrevistas com o sócio, ex-sócios e empregados da Frigoibi, descritas no Termo de Constatação n.º 04; * que, formalmente, os Srs. Claysson Flávio Correa e Geraldo Ferreira foram os únicos sócios da Frigoibi, de 31/03/2008 até 15/12/2011, que, neste período, teriam administrado uma empresa com cerca de 100 trabalhadores, que abateu e industrializou mais de 100.000 cabeças de gado; * que as informações prestadas pelo Sr. Claysson Flávio Correa indicam, claramente, que esta verdade formal não correspondeu à realidade dos fatos, tendo sido destacadas, neste sentido, as seguintes circunstâncias: (a) não é verossímil que alguém convide uma pessoa, com quem jogou futebol algumas vezes, para ser sócia de uma empresa da qual participe, vindo a possuir 75% da mesma, sem que tenha conhecimento de sua habilitação pessoal e técnica para o negócio e, ainda, indiferente em relação ao capital a ser investido pela mesma; (b) não é possível uma pessoa administrar um negócio desta complexidade com outra, durante quase 4 anos, e não saber dizer nada sobre o trabalho realizado em comum, sobre as Fl. 1576DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 22 questões pessoais mais elementares e, mais ainda, não saber dizer o que a outra pessoa fazia na empresa; * que ficaram evidenciados, ante o exposto, indícios de que o Sr. Geraldo Ferreira não foi sócio administrador, de fato, da Frigoibi; * que as informações prestadas pelo Sr. João Silveira Filho revelam as seguintes circunstâncias: (a) da assinatura do contrato de constituição da Frigoibi, em 26/12/2007, até a sua data de admissão como empregado desta empresa, em 19/04/2008, ele continuou trabalhando como açougueiro em estabelecimentos comerciais localizados na cidade de Ibitinga; (b) durante a sua constância no quadro social da Frigoibi, ele não participou de nenhum ato relativo a esta sociedade; (c) a integralização parcial descrita no contrato de constituição da Frigoibi, de fato, não ocorreu; (h) ele não recebeu os valores que teriam sido integralizados pelo mesmo, ao deixar a sociedade, como consta na Primeira Alteração Contratual; * que as informações prestadas pelo Sr. José Carlos Ferreira revelam as seguintes circunstâncias: (a) durante a sua constância no quadro social da Frigoibi, ele não participou de nenhum ato relativo a esta sociedade e continuou a exercer exatamente as mesmas atividades laborais que exercia na condição de empregado do Dom Glutão; (b) a integralização parcial descrita no contrato de constituição da Frigoibi, de fato, não ocorreu; (c) ele não recebeu os valores que teriam sido integralizados pelo mesmo, ao deixar a sociedade, como consta na Primeira Alteração Contratual; * que foram entrevistados, também: (I) o Sr. Benedito Aparecido Rodrigues da Silva, empregado do Dom Glutão de 03/05/2004 a 14/03/2008 e da Frigoibi a partir de 16/03/2008; (II) o Sr. Mauro Soares, empregado do Dom Glutão de 24/04/2006 até 29/02/2008 e da Frigoibi a partir de 01/03/2008; (III) o Sr. Luciano Cássio Dadério, empregado do Dom Glutão de 02/05/2006 a 12/03/2008 e da Frigoibi a partir de 14/03/2008; * que foi confirmado que houve uma transferência formal dos empregados do Dom Glutão para a Frigoibi, com alteração do registro na CTPS dos empregados, mantendo-se todas as demais condições de realização do trabalho; * que, ao final da visita, a fiscalização efetuou a retenção dos livros contábeis da Frigoibi, para realização da auditoria contábil; * que, diante da confirmação dos indícios que provocaram a programação da ação fiscal, foi solicitada a transformação da diligência realizada na Frigoibi em auditoria fiscal; * que, no dia 04/04/2014, a fiscalização efetuou a devolução dos livros contábeis retidos, encerrou o procedimento de diligência fiscal, com a apresentação do Termo Fl. 1577DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 23 de Encerramento do Procedimento Fiscal, e iniciou o procedimento de auditoria fiscal, comandado pelo Mandado de Procedimento Fiscal n.º 0812200.2014.00031, através do Termo de Início do Procedimento Fiscal e do Termo de Intimação Fiscal (TIF) n.º 01; * que, em relação à movimentação patrimonial escriturada no Livro Razão n.º 01, para o período de 01/01/2008 a 31/12/2008 (despesas discriminadas na Tabela 1 do Anexo I), destacam-se, entre outros, os seguintes pontos: (a) as despesas registradas em sua contabilidade e o valor total do seu ativo são incompatíveis com o volume e valor dos bens industrializados; (b) não há registro contábil das despesas com transporte de empregados e com os itens que compõem a cesta básica fornecida mensalmente; (c) não há o registro contábil das despesas que caracterizam uma empresa que funcione, de fato, tais como telefone, energia elétrica (03/2008 a 11/2008), materiais de uso e consumo, manutenção, aquisição de máquinas, equipamentos e ferramentas; * que, em relação à movimentação patrimonial escriturada no Livro Razão n.º 02, para o período de 01/01/2009 a 31/12/2009 (despesas discriminadas na Tabela 2 do Anexo I), destacam-se, novamente, as situações já expostas, acima, ressalvada a ocorrência de despesas com energia elétrica, durante todos os meses de 2009, e de despesas com cesta básica e transporte de empregados, em alguns meses deste ano; * que, em relação à movimentação patrimonial escriturada no Livro Razão n.º 03, para o período de 01/01/2010 a 31/12/2010 (despesas discriminadas na Tabela 3 do Anexo I), destacam-se, novamente, as situações já expostas acima, ressalvada a ocorrência de despesas com energia elétrica, durante o primeiro trimes tre de 2010, e de despesas com cesta básica e transporte de empregados, em todos os meses deste ano; * que, em relação à movimentação patrimonial escriturada no Livro Razão n.º 04, para o período de 01/01/2011 a 31/12/2011 (despesas discriminadas na Tabela 4 do Anexo I), destacam-se, novamente, as situações já expostas acima, ressalvada a ocorrência de despesas com cesta básica e transporte de empregados, durante todos os meses de 2011, e da despesa com energia elétrica, que não ocorreu neste ano; * que foi solicitada ao contribuinte, por meio do TIF n.º 01, a apresentação de esclarecimentos e documentos, relacionados, entre outros, aos seguintes fatos e circunstâncias: (a) como a empresa obteve a infraestrutura necessária para industrializar tão grande quantia em mercadorias; (b) discriminação de todos os bens móveis e imóveis cedidos por terceiros, com a identificação do seu proprietário; (c) como adquiriu os materiais de uso e consumo; (d) se a empresa Fl. 1578DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 24 possuía alguma linha telefônica ou utilizava linha de terceiros; (e) como a empresa calculava o valor cobrado pelos serviços de industrialização, ou seja, se era por número de cabeças abatidas, peso ou volume processado, tipo de corte ou procedimento específico utilizado; * que, em 30/04/2014, o contribuinte protocolou resposta ao TIF n.º 01, contendo as seguintes informações: (a) que a infraestrutura necessária para o processo de industrialização teria sido obtida através de locação; (b) como discriminação dos bens móveis e imóveis, a descrição contida na cláusula 1ª do contrato de locação; (c) que não foi necessária a aquisição de nenhum material de uso e consumo ou de material de escritório, uma vez teria locado o almoxarifado completo; (d) que não possuía linha telefônica, e que utilizava o telefone celular dos sócios e o PABX de um de seus clientes; (e) que os serviços de industrialização teriam sido cobrados por animal processado; * que, em relação às respostas apresentadas, a fiscalização faz as seguintes considerações: (I) que não foi apresentada, pela empresa, a discriminação de todos os bens móveis locados, constituindo tal fato um indício de que não haveria o controle efetivo dos bens cedidos, observando que, numa relação comercial, de fato, o controle de todos os bens móveis incluídos num contrato de locação seria algo evidente, o que não se encontraria presente; (II) que a justificativa de que nunca teria sido necessária a aquisição de um simples papel higiênico ou lâmpada, bem como de qualquer produto ou material de limpeza, materiais de us o e consumo e materiais para escritório, em virtude de o almoxarifado ter sido locado com estes bens é evidentemente inverossímil, pois, para que isto correspondesse à realidade dos fatos, seria necessário: que fosse possível prever, com antecedência de 4 anos, todos os bens necessários para suprir as necessidades e demandas eventuais de uma atividade industrial com tamanha complexidade; que os bens fossem de propriedade do locador e que o locador doasse estes bens ao locatário, observando que, além disto, tal fato não encontra registro contábil, uma vez que não há uma conta de estoques de mercadorias e produtos que varie ao longo do tempo à medida que os bens são consumidos; (III) que o fato de a empresa não possuir sequer uma linha telefônica também constitui um indício de que a Frigoibi não é uma empresa de fato, não sendo possível crer que uma indústria que movimente tal quantidade de mercadorias, em volume e em valores, possa prescindir deste meio óbvio de comunicação, sendo que, além disto, a Frigoibi informa que usava o PABX “de clientes” que, no caso em pauta, somente poderia significar que utilizava o PABX do Dom Glutão; (IV) que a Frigoibi informou que os serviços de industrialização eram cobrados por animal processado, contudo, nas notas fiscais de saídas do Dom Glutão para a Frigoibi, nos anos de 2009, 2010 e 2011, constam o envio de 949.299,97, 286.934,88 e 704.072,00 quilos de diferentes partes para industrialização (tais como, testículo, traqueia, tendão, carne industrial Fl. 1579DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 25 e bucho), respectivamente, e, se, conforme informou a Frigoibi, a cobrança se deu apenas pelo número de animais processados, não houve cobrança pela industrialização das partes enviadas, o que descaracterizaria a relação comercial, de fato, entre as duas empresas; * que, observando tabela contendo dados referentes a “Receita auferida pela Frigoibi” e “Cabeças de gado recebidas para abate do Dom Glutão”, se destacam os seguintes fatos: (a) que, de 05/2009 para 06/2009, o número de cabeças abatidas aumentou, mas a receita auferida pela Frigoibi diminuiu; (b) que, comparando 08/2009 com os demais meses, observa-se que, no mês em que houve o maior número de abates, a receita auferida foi menor; (c) que, comparando 04/2011 com 05/2009, observa-se que, praticamente dois anos depois, a Frigoibi abateu mais cabeças de gado para o Dom Glutão, mas auferiu menos receitas; * que os dados evidenciam, portanto, que não havia, de fato, uma relação comercial entre as duas empresas; * que a única operação de industrialização realizada pela Frigoibi que não foi para o Dom Glutão é a representada pelo seguinte lançamento contábil: * que não há registro contábil, no período de 03/2008 a 12/2011, da integralização do capital social a integralizar, no valor de R$ 90.000,00, previsto na cláusula 5ª do Contrato de Constituição de Sociedade Limitada; * que, no que diz respeito à resposta ao TIF n.º 01, o contribuinte juntou, como documentos comprobatórios, apenas a fotocópia de dois documentos: Contrato de Industrialização Frigorífica Bovina e Contrato de Locação Não Residencial; * que os fatos e análises expostos até o momento, em seu conjunto, constituem veementes indícios de que a Frigoibi e o Dom Glutão constituíram, no período de apuração, de fato, uma única empresa, dividida apenas formalme nte em duas pessoas jurídicas diferentes, de forma fraudulenta, uma vez que se deu através de interpostas pessoas, sendo que, de tal fato, decorreu supressão de pagamento de contribuições previdenciárias com base na remuneração dos segurados e do pagamento de contribuições destinadas aos terceiros; * que o Contrato de Industrialização Frigorífica Bovina, de 01/03/2008, constitui prova documental da participação dos dois sócios do Dom Glutão; * que, com relação ao Contrato de Locação Não Residencial, de 26/12/2007, seria possível extrair dele informações muito importantes para a análise do caso em Fl. 1580DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 26 pauta que, em conjunto com os fatos já relatados, demonstrariam: (a) que a Frigoibi locou toda a parte industrial do estabelecimento em 26/12/2007, mas passou a industrializar para o Dom Glutão apenas em 01/03/2008, o que significa que, no período de 01/2008 e 02/2008, o Dom Glutão exercia atividade industrial no estabelecimento já locado, formalmente, por outra empresa, no caso, a Frigoibi, com seus empregados, que foram transferidos gradativamente para a Frigoibi, no decorrer de 2008; (b) a complexidade e dimensão do complexo industrial instalado naquela localidade; (c) o preço vil pago pela locação de toda esta estrutura industrial, no valor de R$ 4.500,00 por mês, nos termos da Cláusula 3ª, com o efetivo pagamento de R$1.500,00 por mês a partir de 03/2009; (d) que os locadores são todos familiares do Sr. Dirceu José Corte; (e) que, de 03/2008 a 12/2011, a Frigoibi auferiu uma receita total de R$ 7.228.631,50, embora tenha remetido para o Dom Glutão R$ 223.340.401,89 em mercadorias industrializadas, sendo observado que o valor das mercadorias industrializadas fornece uma boa estimativa da capacidade de geração de receita do parque industrial, neste período, e mostra enorme discrepância em relação ao valor da receita auferida, e que, do ponto de vista empresarial, não seria razoável uma empresa com potencial para faturar em torno de 200.000.000 realizar negócios de forma a faturar em torno de 7.000.000, ou seja, cerca de 3,5% do seu potencial de geração de receita; (f) que, enquanto a Frigoibi gerava tal valor em mercadorias industrializadas, os seus sócios não usufruíam de vantagem financeira ou usufruíam em valores insignificantes – os 4 sócios receberam R$ 415,00 a título de “pro labore” em 03/2008, conforme contabilizado na conta 460.005-3, o Sr. Claysson Flavio Correa, segundo os registros contábeis, recebeu R$ 2.000,00 por mês a título de “pro labore”, de 04/2008 a 01/2013, quando deixou a sociedade, e o Sr. Geraldo Ferreira nada recebeu; (g) que foram observados, ante o exposto, indícios de blindagem patrimonial, com a constituição de pessoa jurídica interposta, no caso, a Frigoibi, através de pessoas físicas interpostas (os chamados “laranjas”), com patrimônio próprio (valor total do ativo imobilizado) insignificante, R$ 5.650,00 em 31/11/2011, que produziu centenas de milhões de reais em mercadorias para o Dom Glutão, que tem como sócios administradores os Srs. Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira, os reais beneficiários; * que, no Termo de Início do Procedimento Fiscal da Frigoibi, foram apresentadas ao contribuinte outras situações constatadas na auditoria contábil, como: (i) lançamentos contábeis que registram os recebimentos de adiantamentos e pagamentos feitos pelo Frigorífico Dom Glutão Ltda., em dinheiro – no TIPF, a fiscalização solicitou a apresentação dos documentos que comprovassem tais registros contábeis, mas eles não foram apresentados pelo contribuinte; (ii) lançamentos contábeis que registram os suprimentos de caixa que teriam sido feitos pelos sócios da empresa, em dinheiro, sendo que os valores movimentados Fl. 1581DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 27 são incompatíveis com as rendas declaradas dos Srs. Claysson Flávio Correa e Geraldo Ferreira, sócios da Frigoibi no período – no TIPF, a fiscalização solicitou a apresentação dos documentos comprobatórios dos citados registros contábeis, mas eles não foram apresentados pelo contribuinte; * que, no item 4 do TIPF, consta a análise dos saldos das contas “100.105-5 – Caixa” e “101.031-0 – Banco Santander S/A C/C 2154-1”, em 2009, sendo destacadas as seguintes circunstâncias: (a) a análise das referidas contas não indicou a necessidade de dinheiro em espécie para quitar obrigação ou obrigações que justificassem a manutenção de saldos negativos em instituição financeira; (b) movimentação de grandes quantidades de dinheiro em espécie, de forma reiterada; (c) a manutenção de grandes quantidades de dinheiro em espécie no caixa da empresa, enquanto a mesma suporta os ônus de uma conta bancária com saldo negativo; (d) transferência de recursos de sua conta bancária, ficando com saldo negativo, para ficar com dinheiro em espécie “em mãos”, ou seja, no Caixa da Empresa, sendo que o Caixa já dispunha de recursos suficientes para arcar com os compromissos registrados em sua contabilidade; (e) que os registros contábeis de ocorrências de situações que são teoricamente possíveis, mas improváveis do ponto de vista prático, constituem indícios de que os registros contábeis não correspondem a movimentações patrimoniais que ocorreram de fato; * que situações análogas se repetem nos anos calendário 2010 e 2011, e estão detalhadas nos itens 5 a 10 do TIPF; * que, em relação às solicitações feitas através do Termo de Início do Procedimento Fiscal (TIPF), a Frigoibi protocolou resposta por escrito, em 08/05/2014, onde informou: (a) que, por ser optante do SIMPLES NACIONAL, possuía apenas o que chamou de “contabilidade simplificada” e que os livros obrigatórios já foram apresentados à Fiscalização; (b) que todos os recebimentos de clientes foram feitos por transferências bancárias e que não houve recebimento em dinheiro em espécie; (c) que, em relação à movimentação contabilizada entre CAIXA e BANCOS, foram realizadas apenas movimentações contábeis, de forma que não houve movimentação efetiva de valores; (d) que, por se tratar do que chamou de “contabilidade simplificada”, apenas ao final do exercício realizava o balanço patrimonial e apurava os valores existentes na conta bancária e na conta caixa; (e) que, a respeito da relação de contas bancárias, informações das contas e extratos bancários, não apresentou as informações e documentos solicitados por estarem, no seu entendimento, acobertadas pelo sigilo bancário e sujeitas, desta forma, a ordem do Poder Judiciário; * que, diante da resposta apresentada, a fiscalização fez as seguintes considerações, através do TIF n.º 02, recebido pelo Sr. Dirceu José Corte em 10/07/2014: (a) que a contabilidade apresentada pelo contribuinte, relativa aos anos calendário 2008 a Fl. 1582DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 28 2011, é constituída por Livros Diários e Razões, ou seja, é uma contabilidade comercial padrão, exigida para empresas optantes do lucro real, e que a empresa, nos termos do artigo 27 da Lei Complementar n.º 123/2006, poderia optar pela contabilidade simplificada, regulamentada pelo Comitê Gestor do SIMPLES NACIONAL (CGSN), mas não o fez; (b) que o CGSN, através da Resolução CGSN n° 10/2007, define o que seria a contabilidade simplificada através do inciso I do artigo 3°, como sendo o livro-caixa, com a escrituração de toda a sua movimentação financeira e bancária, sendo observado que a falta de escrituração do livro-caixa, ou quando a escrituração contábil não permitir a identificação da movimentação financeira, inclusive bancária, é hipótese de exclusão de ofício do SIMPLES NACIONAL, nos termos do inciso VIII do artigo 29 da Lei Complementar n.º 123/2006; (c) que a Resolução CFC (Conselho Federal de Contabilidade) n.º 1330/2011 informa que a documentação contábil deve comprovar os fatos que originam lançamentos na escrituração da entidade; (d) que a empresa tinha a obrigação legal de efetuar a escrituração contábil de sua movimentação financeira e bancária e que estes registros deveriam ter suporte em documentos comprobatórios, que uma contabilidade que apenas apurasse os valores existentes na conta caixa e bancos ao final do exercício, procedimento que a empresa afirma ter adotado, não atenderia às previsões legais e normativas, e que o que a empresa fez foi elaborar uma contabilidade comercial, em que os saldos da conta caixa e bancos são apurados após cada movimentação patrimonial contabilizada, sendo as informações prestadas, portanto, desconectadas de qualquer tipo de fundamentação legal e fática; (e) que, em relação ao que o contribuinte informou serem apenas movimentações contábeis entre caixa e banco, se constata que o mesmo apresentaria apenas argumentação retórica desprovida de fundamentação, afirmando que Resolução CFC n.º 1330/2011 indicaria os registros que compõem meras movimentações contábeis, sendo que, no caso das movimentações contábeis entre caixa e banco, se constatariam registros de movimentações patrimoniais, ou seja, operações que impactam nos direitos e obrigações registrados na contabilidade; (f) que o contribuinte afirmou que todos os recebimentos de valores dos clientes teriam sido feitos através de transferências bancárias, mas não apresentou os documentos comprobatórios, solicitados através do TIPF; (g) que, em relação a uma suposta quebra de sigilo bancário sem autorização judicial, teria se equivocado o contribuinte, sendo que o que a fiscalização solicitou no TIPF foram os documentos que comprovam sua movimentação bancária que, por exigência legal, já deveriam estar devidamente registrados em sua contabilidade; * que a Frigoibi apresentou resposta ao TIF n.º 02, protocolada em 22/07/2014, na qual reiterou os esclarecimentos já prestados anteriormente, juntando apenas cópia do Contrato de Industrialização Frigorífica Bovina e do Contrato de Locação Não Residencial, já apresentados anteriormente. Fl. 1583DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 29 No item “5. Da Auditoria Contábil realizada no Frigorífico Dom Glutão Ltda” do Relatório Fiscal, então, são trazidas as informações a seguir: * que, no Sistema Público de Escrituração Digital – Nota Fiscal Eletrônica (SPED – NFe), constam as notas fiscais de envio, para a Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, dos materiais utilizados no processo de industrialização, sendo estas foram enviados materiais de embalagem e acondicionamento; * que não houve envio de qualquer produto, no período compreendido entre 10/2009 e 07/2010 e de 10/2010 a 01/2011; * que os registros contábeis da empresa foram analisados com base nos dados contidos no Sistema Público de Escrituração Digital (SPED), Escrituração Contábil Digital (ECD), para os anos calendário 2008 a 2011; * que o Dom Glutão, apesar de não possuir parte industrial, contratando todo o processo de industrialização, manteve os empregados discriminados na Tabela 4 do Anexo II trabalhando na área industrial, no estabelecimento da empresa contratada para efetuar o processo de industrialização; * que, na conta “31102001 – ALUGUEL”, constam os registros de despesas com aluguéis, sendo que as despesas estão registradas desde 05/2009, no valor de R$ 2.000,00, para os Srs. Ruy Schefer Corte e Felipe Schefer Corte e para a Sra. Nellyana Schefer Corte, cada um, totalizando R$ 6.000,00 por mês; * que, conforme se depreende da leitura do Contrato de Locação Não Residencial apresentado pela Frigoibi, os referidos locadores locaram a parte industrial da propriedade para a Frigoibi e o escritório administrativo para o Dom Glutão; * que se destacam duas circunstâncias: (a) só há lançamento de despesas com aluguel a partir de 05/2009, sendo estranho que o contrato de locação da Frigoibi tenha sido firmado na data de sua constituição, 26/12/2007, e informe sobre a locação da propriedade em partes, mas que não haja o registro do referido pagamento pelo Dom Glutão; (b) a evidente desproporção entre o valor pago pela Frigoibi, R$ 1.500,00, pelo complexo industrial, e o valor pago pelo Dom Glutão, R$ 6.000,00, pelo prédio onde se situa o escritório administrativo; * que não há registro contábil de despesas com energia elétrica nos meses de 01/2009 a 07/2009 e 04/2011 e 05/2011, nem da transferência de valores da Frigoibi para o Dom Glutão, para pagamento destas despesas; * que não há registro de despesas com vale transporte nos meses de 02/2009, 03/2009, 06/2009 e 09/2009 a 12/2009 e nos anos calendário 2010 e 2011; Fl. 1584DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 30 * que, de 01/01/2009 a 31/12/2011, o Dom Glutão registrou despesas que totalizam R$ 915.924,42, com combustíveis e lubrificantes, mas não constam veículos em seu ativo; * que a contabilidade registra um gasto mensal com dedetização entre R$ 500 e R$ 600, de 01/01/2009 a 31/12/2011, mas o Dom Glutão, formalmente, seria uma empresa composta por um escritório administrativo em que trabalham cerca de 10 a 15 pessoas, no qual não haveria, de forma estrita, tal necessidade, ao passo que, na Frigoibi, empresa industrial do ramo alimentício, na qual seria natural esta despesa, não há registro contábil de despesas com controle de pragas; * que os gastos mensais indicam uma necessidade permanente e incompatível de gastos com materiais de uso e consumo; * que foram observadas, portanto, situações opostas e complementares entre as duas contabilidades analisadas: enquanto que, na Frigoibi, não há o registro das despesas que seriam típicas de uma empresa industrial, do seu porte e ramo, no Dom Glutão, há o registro de despesas incompatíveis, quanto à natureza, quantidade e valores, com um escritório administrativo; * que tendo em vista a situação exposta, a fiscalização concentrou a investigação nas despesas e nos fornecedores do Dom Glutão, confrontando os registros contábeis com as notas fiscais obtidas através do SPED – Nfe; * que foi constatado o recebimento de equipamentos industriais contabilizado como se fosse despesa com manutenção, ou seja, lançamento contábil que não reflete a real natureza da movimentação patrimonial – Nota Fiscal n.º 239, emitida em 16/10/2009, pela Tecnape Tecnologia em Desidratação Ltda (CNPJ 03.312.888/0001-96); * que, no que tange a notas fiscais emitidas pela Newdrop Química Ltda (CNPJ 10.287.484/0001-55) e Basequimica Prod. Químicos Ltda (CNPJ 65.763.377/0001- 48), não foram localizados os lançamentos contábeis que registram as referidas operações, sendo movimentações patrimoniais não contabilizadas; * que, em relação às movimentações patrimoniais detectadas através das notas fiscais obtidas no SPED – Nfe e não localizadas na contabilidade, a fiscalização sempre intima o contribuinte a apresentar o registro contábil, por escrito, sendo que, caso o contribuinte não apresente a informação, a fiscalização conclui que se trata de operação não contabilizada, e, desta forma, permite ao contribuinte esclarecer o fato, se possível, e afasta a possibilidade de algum equívoco cometido pela fiscalização; Fl. 1585DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 31 * que foram constatados recebimentos de produtos químicos industriais contabilizados como se fossem despesas com manutenção de imóvel, ou seja, lançamento contábil que não reflete a real natureza da movimentação patrimonial; * que a constatação de que não há o registro contábil de todas as operações realizadas comprova, cabalmente, que a contabilidade apresentada não registra a real movimentação patrimonial do Dom Glutão – assim, os registros contábeis, desacompanhados de comprovação documental, ficam afastados como prova a favor do contribuinte; * que o registro de operações em contas de natureza diversa da do negócio jurídico ou operação realizada, com histórico contendo indicação também diversa, indicam que o contribuinte usa a forma de contabilização como meio de camuflar, ou esconder, a real natureza das mesmas, sendo que, como tal fato foi constatado de forma reiterada, afasta-se a possibilidade de mero erro de contabilização, restando tal possibilidade afastada, também, pelo objeto das notas fiscais que, claramente, divergem da classificação contábil e do histórico registrado; * que, no que diz respeito a notas fiscais emitidas pela Limsept do Brasil Indústria Química Ltda (CNPJ 09.421.182/0001-49), que se refeririam a envio, por contrato de comodato, de uma centrífuga para lavanderia e aquisição de produtos de limpeza e conservação; * que ficou comprovado que o Dom Glutão adquiriu e lançou como despesas a aquisição de produtos para higiene e limpeza incompatíveis, em volume e quantidade de itens, com a estrutura formal da empresa, uma vez que não possui necessidade de tal quantidade destes produtos, não dispõe de pessoal e instalações para recebê-los e utilizá-los; * que os dados contidos no SPED – NFe indicam que a empresa adquiriu de KCC Indústria e Comércio Ltda, de Soccorro EPIS e Descartáveis Ltda e de Kseg Comercial Ltda. uma grande quantidade de equipamentos de proteção individual; * que ficou comprovado que o Dom Glutão adquiriu e lançou como despesas a aquisição de equipamentos de proteção individual, uniformes e instrumentos de corte incompatíveis, em volume e quantidade de itens, com a estrutura formal da empresa, uma vez que não possui necessidade de tal quantidade destes produtos, não dispõe de pessoal e instalações para recebê-los e utilizá-los; * que os dados contidos no SPED – NFe e localizados na contabilidade da empresa indicam que o Dom Glutão adquiriu, da empresa Frigma Indústria e Comércio Ltda, uma grande quantidade de roldanas e pinos para carretilha; * que se verificou que o Dom Glutão adquiriu itens de reposição para equipamentos industriais que integram a propriedade locada à Frigoibi, constando, no Contrato de Fl. 1586DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 32 Locação Não Residencial, a sala para tratamento de carretilhas, na descrição do estabelecimento locado; * que a ficha cadastral completa do Dom Glutão, obtida no sítio da JUCESP na internet, revela que membros da família Corte revezaram-se no seu quadro social, desde sua constituição em 27/01/2004; * que documentos contidos no SPED – NFe, e localizados na contabilidade da empresa, indicam que a empresa adquiriu, de 12/2009 a 12/2011, da Indústria de Serras Dal Pino Ltda, máquinas para corte e serras; * que ficaram comprovados indícios de ocultação de patrimônio, uma vez que: o Dom Glutão adquiriu equipamentos que deveriam integrar seu ativo imobilizado, e não registrou as referidas operações em sua contabilidade, ou registrou a operação como sendo uma despesa de manutenção; formalmente, tais equipamentos pertencem aos Srs. Ruy Schefer Corte e Felipe Schefer Corte e à Sra. Nellyana Schefer Corte que efetuam sua locação para a Frigoibi; * que os documentos contidos no SPED – NFe, e localizados na contabilidade da empresa, indicam que ela adquiriu, de 05/2011 a 12/2011, do Auto Posto Paineiras Comércio de Combustíveis Ltda e da Cidacom Mercantil de Combustíveis Ltda, cerca de 100.000 litros de diesel comum; * que o Dom Glutão gastou R$ 915.924,42 com combustíveis e lubrificantes, de 01/2009 a 12/2011 e que, apenas entre 05/2011 e 12/2011, consumiu cerca de 100.000 litros de diesel, sendo que tal fato constitui mais um indício de que existe um patrimônio oculto, uma vez que não há veículos no ativo da Frigoibi e do Dom Glutão; * que consta, no SPED – NFe, nota fiscal emitida pela SZR Empresa Industrial Exportadora de Subprodutos Bovinos Ltda (CNPJ 03.508.278/0002-43), estando indicado, na descrição da mercadoria, mesa de desmanchar tripas, virador de tripas, escorredor de tripas, tanque de escorrer tripa e raspadeira de tripas, sendo que referida movimentação patrimonial foi contabilizada como compra de material de consumo em conta de despesas com manutenção e conservação de imóveis; * que se observa que o contribuinte reiteradamente utiliza a conta de despesas com manutenção para registrar a movimentação de ativo imobilizado, camuflando a real natureza da movimentação patrimonial; * que, em relação às operações realizadas, em 2009 e 2010, com a Lopesco Indústria de Subprodutos Animais Ltda (CNPJ 44.885.291/0028-38), se constatou que houve a contabilização das operações em contas de despesas com manutenção e conservação de instalações e imóveis, indicando, no entanto, os dados obtidos no Fl. 1587DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 33 SPED-NFe, que os referidos documentos fiscais teriam como objeto o recebimento dos mais diversos tipos de materiais; * que os mesmos fatos foram constatados no ano calendário 2011; * que os fatos constatados indicam que o Dom Glutão efetuou uma parceria num processo de industrialização, no qual recebeu materiais e equipamentos, efetuou a devolução parcial dos mesmos, e remeteu mercadorias industrializadas, sendo destacadas as seguintes circunstâncias: (a) o Dom Glutão não possui, formalmente, parte industrial, capacidade operacional e pessoal para receber os citados materiais e equipamentos; (b) registro contábil apenas parcial das operações; (c) não há emissão de documentos fiscais que comprovem o envio dos materiais e equipamentos recebidos pelo Dom Glutão para a Frigoibi, nem registro contábil destas operações, de modo que não pode afirmar que subcontratou o processo de industrialização com esta; * que o Dom Glutão se apresentou, em negócios jurídicos do qual participou, nos anos calendário 2009 a 2011, como uma empresa industrial, embora, formalmente, não possua aparato industrial; * que o Dom Glutão protocolou resposta, em 02/09/2014, referente aos Termos de Intimação Fiscal n.º 01, 02, 03, e 04, na qual apresenta afirmações colocadas em caráter geral, apresentando como único documento comprobatório o Contrato de Industrialização Frigorífica Bovina; * que, na resposta apresentada, constam as seguintes informações: (a) o Dom Glutão não apresentou qualquer documento relativo aos extratos bancários e movimentações financeiras, alegando estar protegido pelo sigilo; (b) contratou o processo de industrialização com a Frigoibi; (c) o Dom Glutão mantinha empregados no estabelecimento da contratada para acompanhar o processo produtivo e fiscalizar o cumprimento de normas técnicas e de qualidade; (d) os valores pagos à Frigoibi eram calculados por animal processado; (e) o Dom Glutão fornecia o material de embalagem à Frigoibi; (f) o Dom Glutão efetuava o pagamento de vale transporte aos empregados; (g) as faturas de energia elétrica continuaram em nome do Dom Glutão e os valores referentes ao processo de industrialização eram repassados pela Frigoibi; (h) todos os pagamentos realizados para a Frigoibi foram feitos por transações bancárias, e foram lançados pelo CAIXA por insuficiência de informações; * que, a respeito das afirmações feitas pelo contribuinte, a fiscalização apresenta os seguintes comentários: (i) que é preciso distinguir a comprovação dos registros contábeis através de documentos hábeis, das informações obtidas diretamente das instituições financeiras; (ii) que a possibilidade de exigência da apresentação dos documentos comprobatórios das movimentações patrimoniais contabilizadas tem Fl. 1588DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 34 como fundamentos vários dispositivos da legislação tributária, entre elas o artigo 32, III, da Lei n.° 8.212/1991, que determina a obrigação de a empresa prestar à Secretaria da Receita Federal do Brasil todas as informações cadastrais, financeiras e contábeis de seu interesse, bem como os esclarecimentos necessários à fiscalização, e o artigo 195 do Código Tributário Nacional, que determina que, para os efeitos da legislação tributária, não têm aplicação quaisquer disposições legais excludentes ou limitativas do direito de examinar livros, arquivos, documentos, papéis e efeitos comerciais ou fiscais dos contribuintes ou da obrigação destes de exibi-los; (iii) que o fato de o Dom Glutão acompanhar e fiscalizar diretamente o processo produtivo, “in loquo”, somente reforça os indícios de confusão operacional entre as duas empresas; (iv) que o contribuinte se silencia em relação aos segurados que exerciam as funções de mecânico de manutenção de máquinas industriais, operador de instalações de refrigeração e ar-condicionado e magarefes e afins; (v) que não foi apresentada a memória de cálculo dos valores pagos à Frigoibi; (vi) que o Dom Glutão também enviou partes para industrialização, sendo que os valores recebidos por cabeças abatidas mostram evidentes inconsistências, ficando evidente a ausência das características da exis tência de uma relação comercial de fato; (vii) que o contribuinte não informou se, no período compreendido entre 22/09/2009 e 30/08/2010, enviou ou não materiais de embalagens e outros insumos para a Frigoibi; (viii) que o contribuinte não apresentou os contratos de locação solicitados; (ix) que não há registro contábil da transferência de valores da Frigoibi para o Dom Glutão, para pagamento da energia elétrica do processo de industrialização, como afirmado pelo contribuinte; (x) que ficou comprovada a confusão entre as despesas com energia elétrica das duas empresas; (xi) que o Dom Glutão afirmou que forneceu vale transporte para seus empregados, embora não haja o registro contábil desta despesa em 2010 e 2011, se evidenciando, portanto, a possibilidade dos lançamentos destas despesas estarem apenas na contabilidade da Frigoibi, ou seja, esta pagava o vale transporte fornecido aos empregados daquela; (xii) que ficou comprovada a confusão entre as despesas com aquisição de vales transportes das duas empresas ; (xiii) que as contabilidades das duas empresas constituem prova de que as duas pessoas jurídicas, Dom Glutão e Frigoibi, constituíam, de fato, uma só empresa, no período de apuração; *que, tendo em vista a gravidade dos fatos expostos, a fiscalização realizou diligências junto a fornecedores do Dom Glutão, para confirmação das informações dos documentos fiscais obtidos no SPED – NFe, sendo levado em consideração, também, o fato das contabilidades apresentadas terem se mostrado comprovadamente inidôneas. No item “6. Das Diligências Fiscais” do Relatório Fiscal, se menciona: Fl. 1589DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 35 * que foi realizada diligência junto à Empresa Circular Cidade de Ibitinga Ltda – ME (CNPJ 66.994.450/0001-55), tendo se concluído que: (a) as notas fiscais 3508, 3540, 3556, 3580 e 3594, contabilizadas na contabilidade do Dom Glutão, constituem, na realidade, documentos fiscais da Frigoibi, ou seja, documentos relativos a despesas de uma empresa, no caso a Frigoibi, estão contabilizados na outra, o Dom Glutão; (b) os vales transportes fornecidos pelo Dom Glutão aos seus empregados foram adquiridos pela Frigoibi, até 09/2011; (c) o transporte oferecido aos empregados do Dom Glutão, a partir de 10/2011, foi pago pela Frigoibi; (d) as despesas das duas empresas se confundem, o que comprova, cabalmente, que houve unidade operacional e administrativa entre a Frigoibi e o Dom Glutão, no período de apuração, 2009 a 2011; * que foi realizada diligência junto à Vital Verde Controle de Pragas Ltda (CNPJ 09.157.188/0001-50), tendo se concluído que: (a) o Dom Glutão apresentou-se perante um prestador de serviços como sendo uma empresa industrial; (b) os estabelecimentos que compõem formalmente a Frigoibi e o Dom Glutão são tratados como se fossem um só estabelecimento e uma só empresa, o Dom Glutão; (c) o Dom Glutão contratou e pagou pelos serviços de controle de pragas executadas nas instalações em que funciona, formalmente, outra empresa, no caso, a Frigoibi; * que foi realizada diligência junto à Protecta Expurgo e Saneamento Ltda (CNPJ 10.885.008/0001-36), tendo ficado comprovado que a Frigoibi e o Dom Glutão constituem, de fato, uma única empresa; * que foi realizada diligência junto à Newdrop Química Ltda (CNPJ 10.287.484/0001- 55), tendo se concluído que: (a) o Dom Glutão contratou o recebimento de equipamentos e a aquisição de produtos para limpeza e higiene de instalações industriais; (b) a contabilidade do Dom Glutão é comprovadamente inidônea, uma vez que ficam comprovadas movimentações patrimoniais não contabilizadas; (c) o Dom Glutão, formalmente, não possui necessidade de tal quantidade de equipamentos e produtos para uso industrial, não dispõe de pessoal e instalações para recebê-los e utilizá-los e não prestou os esclarecimentos solicitados pela fiscalização; (d) não há registro, na contabilidade apresentada pela Frigoibi, da aquisição de produtos para limpeza e higienização das instalações industriais, e os esclarecimentos prestados por esta empresa foram evidentemente inverossímeis, sem comprovação e dissociados das informações contabilizadas; (e) o Dom Glutão contratou a utilização dos equipamentos e adquiriu os produtos de limpeza e higienização das máquinas e instalações industriais da Frigoibi; * que foram realizadas diligências junto à Basequímica Produtos Químicos Ltda (CNPJ 65.763.377/0001-48) e à Extrasul Extratos Vegetais e Animais Ltda (CNPJ 06.086.255/0001-03), tendo se concluído que: (a) o Dom Glutão adquiriu produto Fl. 1590DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 36 químico utilizado no processo de industrialização de carne, embora, formalmente, não possua área industrial; (b) a contabilidade do Dom Glutão é comprovadamente inidônea, uma vez que ficam comprovadas movimentações patrimoniais não contabilizadas; (c) o Dom Glutão, formalmente, não possui necessidade de tal quantidade deste produto químico de uso industrial, não dispõe de pessoal e instalações para recebê-lo e utilizá-lo e não prestou os esclarecimentos solicitados pela fiscalização; (d) não há registro, na contabilidade apresentada pela Frigoibi, da aquisição de produtos químicos industriais, e os esclarecimentos prestados por esta empresa foram evidentemente inverossímeis, sem comprovação e dissociados das informações contabilizadas; (e) o Dom Glutão comprou produto químico utilizado no processo de industrialização que ocorre, formalmente, em outra empresa, a Frigoibi; * que foi realizada diligência junto à Kseg Comercial Ltda (CNPJ 12.492.368/0001- 01), tendo se concluído que: (a) o Dom Glutão, em 2010 e 2011, adquiriu equipamentos de proteção individual e de corte incompatíveis, em quantidade e variedade de itens, com a sua atividade e com o número de empregados que trabalhavam na área industrial que, formalmente, constitui o estabelecimento da Frigoibi; (b) não há registro, na contabilidade apresentada pela Frigoibi, da aquisição dos referidos produtos, e os esclarecimentos prestados por esta empresa foram evidentemente inverossímeis, sem comprovação e dissociados das informações contabilizadas; (c) o Dom Glutão comprou equipamentos de proteção individual e instrumentos de corte utilizados no processo de industrialização que ocorre, formalmente, em outra empresa, a Frigoibi; * que foi realizada diligência junto à Frigma Indústria e Comércio Ltda (CNPJ 74.461.237/0001-06), tendo se concluído que: (a) o Dom Glutão adquiriu peças de reposição para equipamentos utilizados na industrialização de carne, embora, formalmente, não possua área industrial; (b) a contabilidade do Dom Glutão é comprovadamente inidônea, uma vez que ficam comprovadas movimentações patrimoniais não contabilizadas; (c) o Dom Glutão, formalmente, não possui necessidade de peças de reposição para equipamentos industriais e não prestou os esclarecimentos solicitados pela fiscalização; (d) não há registro, na contabilidade apresentada pela Frigoibi, da aquisição de peças de reposição para seus equipamentos industriais, e os esclarecimentos prestados por esta empresa foram evidentemente inverossímeis, sem comprovação e dissociados das informações contabilizadas; (e) o Dom Glutão comprou peças de reposição para equipamentos industriais utilizados no processo de industrialização que ocorre, formalmente, em outra empresa, a Frigoibi; * que foi realizada diligência junto à Indústria de Serras Dal Pino Ltda (CNPJ 58.328.204/0001-36), tendo se concluído que: (a) o Dom Glutão adquiriu peças de Fl. 1591DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 37 reposição para equipamentos utilizados na industrialização de carne e equipamentos industriais, embora, formalmente, não possua área industrial; (b) a contabilidade do Dom Glutão é comprovadamente inidônea, uma vez que ficam comprovadas movimentações patrimoniais não contabilizadas; (c) não há registro, na contabilidade apresentada pela Frigoibi, da aquisição de peças de reposição nem de equipamentos industriais, e os esclarecimentos prestados por esta empresa foram evidentemente inverossímeis, sem comprovação e dissociados das informações contabilizadas; (d) o Dom Glutão comprou peças de reposição e equipamentos industriais utilizados no processo de industrialização que ocorre, formalmente, em outra empresa, a Frigoibi; (e) há blindagem patrimonial, uma vez que equipamentos industriais foram adquiridos pelo Dom Glutão e não passaram a integrar o seu ativo imobilizado, ou seja, não é possível localizar e identificar o patrimônio da pessoa jurídica através de sua contabilidade; (f) como os bens adquiridos pelo Dom Glutão não constam do seu patrimônio contábil, ficam a salvo de eventuais credores desta pessoa jurídica, e podem ser livremente destinados pelos seus sócios, os Srs. Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira, se configurando, assim, confusão patrimonial entre o patri mônio da pessoa jurídica, no caso o Dom Glutão, e o das pessoas físicas e sócias; (g) formalmente, os equipamentos industriais instalados e localizados naquele estabelecimento são de propriedade dos familiares do Sr. Dirceu José Corte, os Srs. Ruy Schefer Corte, Felipe Schefer Corte e a Sra. Nellyana Schefer Corte, que locam os mesmos para a Frigoibi, se observando, portanto, a existência de negócio jurídico simulado e conluio, na ocultação de patrimônio, nos termos dos artigos 72 e 73 da Lei n.º 4.502/64. No item “7.” do Relatório Fiscal, se afirma, então, que os indícios e fatos constatados e comprovados nas ações fiscais constituiriam um sólido e convergente acervo probatório que demonstraria, de forma inequívoca, as situações expostas a seguir: * a Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda. (CNPJ 09.345.710/0001-28) e o Frigorífico Dom Glutão Ltda. (CNPJ 06.086.255/0001-03), constituíam, de fato, uma única empresa, no período de 26/12/2007 a 31/12/2011; * há ausência de autonomia e independência entre as atividades empresariais das duas pessoas jurídicas, uma vez que se configura a confusão patrimonial, administrativa e operacional entre elas; * por detrás da pessoa jurídica Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda., não há uma atividade empresarial distinta da atividade empreendida pelo Frigorífico Dom Glutão Ltda., uma vez que aquela é tão somente o setor industrial desta, travestido, formalmente, de outra empresa; Fl. 1592DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 38 * o Frigorífico Dom Glutão Ltda., empresa submetida ao regime do lucro real, operou de modo a iludir a tributação, colhendo os benefícios da tributação simplificada e menos onerosa do SIMPLES NACIONAL, mediante o artifício de transferir parte da sua mão-de-obra e produção para a Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda., integrante do regime simplificado e, nela, concentrou a maior parte dos empregados, com propósito de reduzir o peso das contribuições previdenciárias e suprimir o pagamento das contribuições destinadas aos terceiros; * os sócios administradores do Frigorífico Dom Glutão Ltda., os Srs. Dirceu José Corte (CPF 356.845.268-53) e Dedier Ribas Ferreira (CPF 022.587.578-00), utilizaram negócios jurídicos simulados e contabilidades forjadas, para mudar as características essenciais do fato gerador e reduzir o montante dos tributos devidos, constituindo os reais beneficiários; * a Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda. é uma empresa constituída através de interpostas pessoas, conhecidos como “laranjas”, uma vez que sua constituição é um negócio jurídico simulado, ou seja, uma operação com aparência de legalidade, moldada para esconder a realidade dos fatos; * os Srs. Claysson Flávio Correa (CPF 288.000.808-55), Edvaldo Ferreira de Souza (CPF 969.643.756-00), João Silveira Filho (CPF 959.337.358-68), José Carlos Ferreira (CPF 208.118.379-04) e Geraldo Ferreira (CPF 053.410.228-07) foram inseridos na referida sociedade como pseudo-sujeitos da relação jurídica, em prol de benefícios ilícitos dos titulares ocultos, os Srs. Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira; * os Srs. Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira utilizaram artifícios contábeis maliciosos, contabilidades fajutas e negócios jurídicos simulados, para camuflar a aquisição de bens e desviar o patrimônio da pessoa jurídica Frigorífico Dom Glutão Ltda. (...) No item “9.” do Relatório Fiscal, se registra que a Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda. (CNPJ 09.345.710/0001-28) foi excluída do SIMPLES NACIONAL através do Ato Declaratório Executivo (ADE) DRF/AQA n.º 03, de 30/10/2014, em decorrência do Processo Administrativo n.º 18088.720380/2014-59, tendo sido, desta forma, necessária a constituição dos créditos tributários referentes às contribuições previdenciárias incidentes sobre a remuneração dos segurados empregados e contribuintes individuais e às contribuições destinadas aos Terceiros, devidas pela empresa, que não foram recolhidas, nem declaradas em GFIP. Neste contexto, à luz dos fatos constatados e demonstrados pela autoridade administrativa fiscal – supra reproduzidos - considerando que as razões de defesa trazidas pelas Recorrentes em seus apelos recursais em nada diferem daquelas apresentadas em sede de impugnação, estando as conclusões alcançadas pelo órgão julgador de primeira instância em Fl. 1593DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 39 consonância com o entendimento perfilhado por este Relator – com exceção, apenas, da matéria referente ao aproveitamento dos valores recolhidos na sistemática do SIMPLES, a qual será apreciada em tópico específico no presente voto - em vista do disposto no inc. I, § 12, do art. 144, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 1.634/2023 – RICARF, não tendo sido apresentadas novas razões de defesa perante a segunda instância administrativa, adoto os fundamentos da decisão recorrida, in verbis: Das considerações iniciais: Cabe, aqui, observar que, conforme informado no Relatório Fiscal, de fls. 921 a 1.007, a empresa FRIGOIBI INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CARNES LTDA. (CNPJ 09.345.710/0001-28) foi excluída de ofício do SIMPLES NACIONAL através do Ato Declaratório Executivo (ADE) da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Araraquara (DRF/AQA) n.º 03, de 30/10/2014, em decorrência do Processo Administrativo n.º 18088.720380/2014-59. (...) Registre-se, também, que o processo n.º 18088.720380/2014-59 – em que consta a Representação Administrativa emitida com vistas à exclusão deste contribuinte do SIMPLES NACIONAL – foi julgado pela 12ª Turma de Julgamento da DRJ em São Paulo, em 28/03/2017, por meio do Acórdão n.º 16-76.848, que considerou improcedente a manifestação de inconformidade aí apresentada. (...) Da arguição de nulidade – cerceamento de defesa – devido processo legal administrativo: Não merece acolhida, aqui, a alegação da FRIGOIBI no sentido de nulidade dos lançamentos efetuados pela fiscalização. Cumpre informar que não se vislumbra, no caso, a ocorrência de violação aos princípios do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório, ao contrário do que entende a impugnante. Cabe registrar, inicialmente, que os Autos de Infração (AI’s) que integram o presente processo foram regularmente cientificados ao sujeito passivo FRIGOIBI, bem como aos sujeitos passivos solidários Frigorífico Dom Glutão Ltda., Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira, sendo-lhes concedido prazo para sua manifestação, conforme se pode verificar nas capas dos AI’s, no anexo “IPC – Instruções para o Contribuinte”, nos Termos de Sujeição Passiva Solidária, nos Avisos de Recebimento, que se encontram às fls. 03, 04, 06 a 14, 899, 911, 1.065, 1.067, 1.068 e 1.070. Ressalte-se, ainda, que o Relatório Fiscal e os Anexos dos AI’s oferecem as condições necessárias para que os sujeitos passivos conheçam o procedimento fiscal e apresentem as suas defesas aos lançamentos, estando discriminados, nestes, a situação fática constatada e os dispositivos legais que amparam as autuações. Fl. 1594DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 40 Houve, no caso, a identificação dos sujeitos passivos e a discriminação clara e precisa dos fatos geradores da obrigação, com a determinação da matéria tributável (remuneração de segurados empregados e contribuintes individuais), bem como da natureza das contribuições devidas (contribuições previdenciárias e de terceiros), do seu montante (valores das rubricas por competência) e do período a que se referem (01/2009 a 13/2011), conforme se pode verificar no Relatório Fiscal, e nos AI’s e seus anexos, possuindo estes lançamentos os elementos essenciais para se reputarem válidos. É de se destacar que os atos administrativos consubstanciados nos Autos de Infração que integram o presente processo possuem motivo legal, tendo sido praticados em conformidade ao legalmente estipulado, e estando os seus fundamentos legais discriminados no anexo “FLD – Fundamentos Legais do Débito”, no Relatório Fiscal, e na capa dos AI’s, bem como motivo de fato, tendo havido, pela fiscalização, a verificação concreta da situação fática para a qual a lei previu o cabimento do ato, e estando as contribuições e os fatos imponíveis discriminados no anexo “DD – Discriminativo do Débito”. Tais documentos, que foram entregues aos sujeitos passivos, ao indicarem as bases de cálculo apuradas, as alíquotas aplicadas e as contribuições exigidas por competência, com a especificação dos documentos em que tiveram origem, bem como os dispositivos legais aplicados, pela fiscalização, nos lançamentos em tela, propiciaram o pleno exercício do direito do contraditório e da ampla defesa constitucionalmente assegurado aos litigantes em processo administrativo. Cumpre mencionar, aqui, ademais, que todas as pessoas físicas e jurídicas retro citadas apresentaram impugnação, se defendendo das exigências em questão. Quanto ao fato suscitado pela empresa de que inexistiria, nos autos, a individualização dos funcionários abrangidos pelos lançamentos em tela, mediante a apresentação de uma planilha com a relação dos empregados, com a rubrica de todos os valores recebidos, cabe observar que isto não implicou em qualquer prejuízo à sua defesa, tendo em vista que a base de cálculo, considerada, pela fiscalização, para fins das autuações em questão, foi extraída das últimas GFIP’s entregues por ela, antes do início da ação fiscal, ou seja, de informações por ela própria declaradas. (...) Assim, tem-se que a fiscalização considerou como base de cálculo das contribuições lançadas, nos AI’s que integram o presente processo, os montantes declarados pela própria empresa FRIGOIBI como fatos geradores, tendo esta última reconhecido, portanto, o seu caráter remuneratório, e sendo de seu pleno conhecimento as verbas que os compõem e a relação dos segurados envolvidos, uma vez que ela mesma procedeu à declaração de referidas informações à Administração. Fl. 1595DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 41 Não há de prosperar, portanto, a afirmação da impugnante de que não estariam descritas claramente, no caso, as razões fáticas e jurídicas das exigências em tela, e de que os lançamentos estariam eivados de nulidade. Da questão da necessidade de lançamento tributário e do dever de obediência ao devido processo legal, suscitada pelos sujeitos passivos solidários: Não merece acolhida, aqui, a alegação dos sujeitos passivos solidários DEDIER RIBAS FERREIRA e DIRCEU JOSÉ CORTE no sentido de que o devido processo legal não teria sido observado e de que não teria havido qualquer lançamento tributário, para a inclusão dos mesmos como co-responsáveis. Cumpre registrar que não assiste razão aos impugnantes quando afirmam que não constariam como co-responsáveis, e que teria havido, no caso, simples citação destes no Relatório Fiscal. É de se destacar que houve, no caso, a constituição do crédito tributário, pelo Fisco, por meio dos Autos de Infração que integram o presente processo, em face de FRIGOIBI – INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CARNES LTDA. – ME E OUTROS, conforme se pode verificar na capa dos referidos AI’s, às fls. 899 e 911, restando indicado, pela expressão “E OUTROS”, que, além do contribuinte, existem terceiros que respondem pelo crédito lançado. Ressalte-se, ainda, que houve a identificação dos sujeitos passivos solidários – FRIGORÍFICO DOM GLUTÃO LTDA, DEDIER RIBAS FERREIRA e DIRCEU JOSÉ CORTE – no Relatório Fiscal, de fls. 921 a 1.007, bem como a emissão dos Termos de Sujeição Passiva Solidária de fls. 06 a 08, 09 a 11, e 12 a 14, relativos ao processo administrativo em questão, em que estas pessoas constam como sujeitos passivos solidários, aí estando explicitada a motivação fática e jurídica para tanto. Deste modo, ao contrário do que entendem os impugnantes, houve o lançamento tributário, por meio dos AI’s em tela, contra o sujeito passivo FRIGOIBI – INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CARNES LTDA. – ME e também contra os sujeitos passivos solidários FRIGORÍFICO DOM GLUTÃO LTDA, DEDIER RIBAS FERREIRA e DIRCEU JOSÉ CORTE. Não há que se falar, aqui, também, em desrespeito aos princípios do devido processo legal, ampla defesa e contraditório, cabendo lembrar, aqui, que os AI’s que integram o presente processo foram regularmente cientificados ao sujeito passivo FRIGOIBI, bem como aos sujeitos passivos solidários FRIGORÍFICO DOM GLUTÃO LTDA., DIRCEU JOSÉ CORTE e DEDIER RIBAS FERREIRA, sendo-lhes concedido prazo para sua manifestação, conforme se pode verificar nas capas dos AI’s, no anexo “IPC – Instruções para o Contribuinte”, nos Termos de Sujeição Passiva Solidária, nos Avisos de Recebimento, que se encontram às fls. 03, 04, 06 a 14, 899, 911, 1.065, 1.067, 1.068 e 1.070, e cumprindo observar, aqui, ainda, que todos eles apresentaram impugnação, no caso. Da alegação de decadência: Fl. 1596DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 42 Não merece acolhida, aqui, a alegação da FRIGOIBI de que se aplicaria ao caso, para fins de contagem do prazo decadencial, a regra contida no artigo 150, § 4º do Código Tributário Nacional (CTN), e de que teria ocorrido, nos Autos de Infração em tela, a decadência parcial, com relação às competências 01/2009 a 10/2009. É de se notar, inicialmente, que, nos AI’s DEBCAD n.º 51.050.700-0 e 51.050.701- 8, lavrados em 04/11/2014 e cientificados aos sujeitos passivos em 10/11/2014 e 11/11/2014 (fls. 899, 911, 1.065, 1.067, 1.068 e 1.070), foram lançadas contribuições destinadas à Seguridade Social e a outras entidades e fundos (terceiros) referentes a competências abrangidas no período de 01/2009 a 13/2011. Cumpre mencionar, em seguida, que, em sessão de 12/06/2008, o Supremo Tribunal Federal (STF) editou a Súmula Vinculante n.º 8, a seguir transcrita, cuja publicação se deu no Diário da Justiça (DJ) e no Diário Oficial da União (DOU) em 20/06/2008. (...) Assim, tendo sido declarado inconstitucional, por meio de Súmula Vinculante, pelo STF, o artigo 45 da Lei n.º 8.212/91, que previa o prazo decadencial de dez anos para a constituição do crédito relativo às contribuições previdenciárias, com o reconhecimento, pelos ministros do STF, de que apenas lei complementar pode dispor sobre normas gerais em matéria tributária – como a decadência, nos termos do artigo 146, inciso III, alínea “b” da Constituição Federal, deve ser observado, agora, pela Administração Pública, o prazo quinquenal previsto no Código Tributário Nacional (CTN) – Lei n.º 5.172, de 25/10/1966 – tanto para as contribuições previdenciárias como para as contribuições destinadas a terceiros, sendo ambas consideradas tributos. É de se observar que, em se tratando de tributos sujeitos ao lançamento por homologação, aplica-se o prazo decadencial dos artigos 150, parágrafo 4º ou 173, inciso I do CTN, a seguir transcritos, conforme tenha havido antecipação de pagamento parcial ou não, respectivamente. (...) Desta forma, tem-se que, ao contrário do que entende a impugnante, não se aplica ao presente caso o disposto no artigo 150, parágrafo 4º do CTN, mas sim o disposto no artigo 173, inciso I deste mesmo diploma legal. E, ao se aplicar o disposto no artigo 173, inciso I do CTN aos AI’s em tela, se constata que não há, nestes, qualquer competência fulminada pela decadência, uma vez que a competência mais antiga objeto de lançamento aqui é 01/2009, correspondendo o “primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado”, no caso, a 01/01/2010, sendo que a decadência para lançar esta competência somente ocorreria em 01/01/2015 e que a constituição do crédito se deu anteriormente a tal data, em 11/2014. Fl. 1597DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 43 Da situação especial vivenciada pela FRIGOIBI: Cabe lembrar, aqui, que, conforme descrito no Relatório Fiscal, a empresa FRIGOIBI foi excluída do SIMPLES NACIONAL, por meio do Ato Declaratório Executivo (ADE) DRF/AQA n.º 03, de 30/10/2014, em decorrência do processo administrativo n.º 18088.720380/2014-59. A impugnante insurge-se, aqui, contra motivos de sua exclusão do SIMPLES NACIONAL, fazendo afirmações no sentido de que se trataria de empresa completamente distinta do Frigorífico Dom Glutão Ltda., que procederia à contabilização de todas as receitas e despesas, o que, segundo ela, restaria evidenciado pelos contratos de industrialização frigorífica bovina e de locação não-residencial em anexo. (...) A impugnante menciona, ainda, a fim de corroborar a sua tese, que inexistiria exclusividade sua com qualquer outra empresa, que teria inúmeros clientes, que apenas alguns funcionários demitidos do Frigorífico Dom Glutão teriam sido posteriormente admitidos por ela, e que teriam sedes completamente distintas e separadas. (...) É de se observar, aqui, no entanto, que, embora a constituição dos créditos, por meio dos AI’s que integram o presente processo, seja decorrente da exclusão da FRIGOIBI do SIMPLES NACIONAL, a discussão a respeito desta exclusão deve ser levantada e analisada exclusivamente no âmbito do processo respectivo, qual seja o de n.º 18088.720380/2014-59. Tanto é assim que, no referido processo, foi assegurado ao contribuinte o direito de apresentar manifestação de inconformidade contra o citado ADE, no prazo de 30 (trinta) dias da ciência. Por sinal, cumpre salientar que a empresa apresentou manifestação de inconformidade, nos autos do processo n.º 18088.720380/2014-59, e que houve a sua apreciação, pela 12ª Turma de Julgamento da DRJ em São Paulo, em sessão de 28/03/2017, que a considerou improcedente, por meio do Acórdão n.º 16- 76.848. Por fim, é de se registrar que, ao ser excluída do SIMPLES NACIONAL, a empresa fica sujeita às normas de tributação aplicáveis às demais pessoas jurídicas, a teor do disposto no artigo 32 da Lei Complementar n.º 123/2006. Da questão do artigo 116 do CTN e a falta de regulamentação: Não merece prosperar, aqui, a alegação da empresa FRIGOIBI no sentido de que o Fisco não poderia realizar a desconsideração de negócios jurídicos, com base no parágrafo único do artigo 116 do Código Tributário Nacional (CTN). Fl. 1598DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 44 A empresa defende, em síntese, que este dispositivo careceria de regulamentação por lei ordinária, o que não teria ocorrido, e, também, que seria impossível a desconsideração sem intervenção do Poder Judiciário, fazendo menção ao art. 129 da Lei n.º 11.196/2005 e ao artigo 50 do Código Civil. (...) Note-se, também, que a possibilidade de o Auditor Fiscal proceder ao lançamento de ofício, desconstituindo atos e negócios jurídicos do contribuinte, nos casos em que constate dolo, fraude ou simulação não é novidade no ordenamento jurídico brasileiro. Isto porque, antes mesmo da edição da Lei Complementar n.º 104/2001, já havia, no CTN, a autorização para tal procedimento, conforme se depreende da leitura dos artigos 142, parágrafo único e 149, inciso VII, reproduzidos a seguir. (...) Cabe observar, ainda, ante a argumentação da defendente, que o parágrafo único do artigo 116 do CTN é reconhecido como sendo de eficácia contida, o que significa que tem validade, nos termos da legislação já existente, enquanto não editada uma regulamentação específica. Portanto, não há a necessidade de se aguardar a regulamentação do disposto no parágrafo único do artigo 116 do CTN, mesmo porque a lei ordinária que regulamentará a matéria deverá trazer apenas normas de aspecto procedimental à Administração Tributária, e não critérios para se reconhecer em quais situações o negócio jurídico, praticado com vistas à redução da carga tributária, seria permitido ou passível de desconsideração. É de se considerar, ademais, o princípio da primazia da realidade, segundo o qual, em caso de discordância entre o que ocorre na prática e o que emerge de documentos, deve-se dar preferência ao primeiro, isto é, ao que sucede efetivamente no terreno dos fatos. Verifica-se, assim, que a fiscalização possui total amparo legal para proceder à desconsideração de atos ou negócios jurídicos, praticados com simulação – como ocorreu no caso em tela, o que foi devidamente demonstrado no Relatório Fiscal – a fim de apurar o real fato gerador na situação fática com que se depara. (...) Cabe esclarecer, aqui, ainda, que não se trata, no caso, da aplicação da desconsideração da personalidade jurídica prevista no artigo 50 do Código Civil, citado pela empresa, em sua defesa, mas sim da aplicação de regras específicas que constituem a própria essência da atividade de fiscalização tributária, não havendo que se falar, assim, em falta de autorização judicial para o procedimento realizado pela fiscalização. É de se mencionar que, uma vez verificado que o sujeito passivo se util iza de simulação para esquivar-se do pagamento de tributo, o auditor fiscal tem o dever Fl. 1599DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 45 de aplicar a legislação tributária de acordo com os fatos por ele constatados em detrimento da verdade jurídica aparente (formal). Ressalte-se que o que se verifica nos autos não é a desconsideração da personalidade jurídica da empresa FRIGOIBI, a fim de alcançar os bens de seus sócios, mas sim a desconsideração de atos ou negócios jurídicos, praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou os elementos da obrigação tributária. Cumpre salientar que o lançamento apenas deu nova qualificação fiscal ao ato/negócio jurídico, retirando-lhe os efeitos próprios do ato aparente (separação da unidade negocial em dois CNPJ’s distintos), para atribuir-lhe os efeitos próprios do ato/negócio jurídico real (existência de um único empreendimento negocial). Note-se que o ato de lançamento opera efeitos no plano dos efeitos tributários, não atingindo a validade dos atos de constituição da empresa. Quanto ao artigo 129 da Lei n.º 11.196/2005, também citado pela defendente, cumpre registrar que maiores considerações são desnecessárias, posto não se tratar, aqui, de atividades intelectuais os serviços em questão, sendo que as duas empresas envolvidas – Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda. e Frigorífico Dom Glutão Ltda. – exercem atividades enquadradas no mesmo CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas), qual seja 101.120-1 – Frigorífico – Abate de Bovinos. Não há que se falar, dessa forma, em ilegalidade, no que tange ao procedimento adotado pela fiscalização referente à desconsideração dos atos jurídicos simulados. Da contribuição da empresa: É de se registrar, aqui, que foram lançadas, por meio do AI DEBCAD n.º 51.050.700-0, contribuições previdenciárias previstas no artigo 22, incisos I, II e III da Lei n.º 8.212/91, sobre remunerações pagas a segurados empregados e contribuintes individuais declaradas em GFIP pela empresa FRIGOIBI, referentes às competências 01/2009 a 13/2011, conforme se pode verificar nos anexos “DD – Discriminativo do Débito” e “FLD – Fundamentos Legais do Débito” deste AI, e no Relatório Fiscal. (...) Cabe mencionar, ainda, que, conforme explicitado no Relatório Fiscal, a Tabela 1 do seu Anexo V identifica as GFIP’s válidas, pelo código de controle, e a Tabela 2 deste mesmo Anexo V demonstra as bases de cálculo totais declaradas por competência, e o cálculo das contribuições devidas e não declaradas em GFIP. Cumpre salientar que não se mostra necessária, no caso, a apresentação especificada de todos os segurados abrangidos pelo lançamento, por parte da fiscalização, referenciando a cada um deles a respectiva parcela do débito, lembrando que tais informações são de pleno conhecimento da empresa, uma vez Fl. 1600DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 46 que ela mesma as forneceu à Administração, mediante a sua declaração em GFIP, não implicando a falta de individualização dos trabalhadores abrangidos pelos lançamentos qualquer prejuízo à sua defesa. É de se observar, ademais, que a discriminação dos valores lançados por segurado não alteraria o total das contribuições lançadas por competência, no Auto de Infração. Cabe reiterar, também, que as bases de cálculo das contribuições lançadas, por meio deste AI – que foram adotadas pela fiscalização – correspondem aos valores informados, pela própria empresa, nas GFIP’s das competências 01/2009 a 13/2011, como remunerações dos segurados empregados e contribuintes individuais, como base de cálculo da Previdência Social, e, portanto, como montantes sobre os quais deveria haver a incidência de contribuições previdenciárias. (...) É de se destacar que o ato administrativo consubstanciado no AI em tela possui motivo legal, tendo sido praticado em conformidade ao legalmente estipulado, e estando os seus fundamentos legais discriminados no anexo “FLD – Fundamentos Legais do Débito”, no Relatório Fiscal, e na capa do AI, bem como motivo de fato, tendo havido, pela fiscalização, a verificação concreta da situação fática para a qual a lei previu o cabimento do ato, e estando as contribuições e os fatos imponíveis discriminados no anexo “DD – Discriminativo do Débito”, bem como no Anexo V do Relatório Fiscal. E, assim, tem-se que o lançamento efetuado por meio do AI DEBCAD n.º 51.050.700-0 se encontra devidamente fundamentado. Da contribuição incidente sobre as remunerações pagas ou creditadas a autônomos e administradores: Cumpre esclarecer, aqui, inicialmente, que, ao contrário do que afirma a empresa FRIGOIBI, em sua defesa, a contribuição incidente sobre as remunerações dos contribuintes individuais, lançada, pela fiscalização, por meio do AI DEBCAD n.º 51.050.700-0, nas competências 01/2009 a 12/2009, 01/2010 a 12/2010, e 01/2011 a 12/2011, não tem seu fundamento na Lei Complementar n.º 84/96, mas sim no artigo 22, inciso III da Lei n.º 8.212/91, incluído pela Lei n.º 9.876/99, conforme se pode verificar em seu anexo “FLD – Fundamentos Legais do Débito”. Deste modo, se mostram impertinentes as suas alegações relativas à Lei Complementar n.º 84/96, sendo tais razões de defesa estranhas ao objeto dos autos – não tendo sido lançada, no caso, pela fiscalização, qualquer contribuição com base nesta lei – motivo pelo qual deixam de ser apreciadas. (...) Note-se, ademais, que alegações relativas à inconstitucionalidade de dispositivos normativos não são passíveis de apreciação por esta instância administrativa. Fl. 1601DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 47 Quanto à afirmação da impugnante no sentido de que o lançamento teria sido realizado com base em importâncias creditadas aos sócios a título de distribuição de lucros, e não sobre as remunerações de administradores, tem-se que não merece acolhida. Cabe observar, no caso: I) que os montantes considerados, pela fiscalização, como salário-de-contribuição dos contribuintes individuais, para fins de lançamento, por meio do AI em questão, correspondem aos valores informados, pela própria FRIGOIBI, nas GFIP’s das respectivas competências, como base de cálculo da Previdência Social, para essa categoria de segurados; e, II) que a empresa não trouxe aos autos, em sua defesa, quaisquer elementos comprobatórios desta sua afirmação. Não há que se falar, portanto, em insubsistência do trabalho fiscal no que tange ao lançamento das contribuições em tela. Da contribuição incidente sobre a folha salarial para efeito de complementação do financiamento do seguro de acidentes do trabalho – SAT/RAT: Sobre a contribuição para o financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho, tem-se que está expressamente prevista na legislação previdenciária, no artigo 22, inciso II da Lei n.º 8.212/91, transcrito a seguir. (...) Cumpre mencionar que esta contribuição retira seu fundamento da Constituição Federal, especialmente do seu art. 7°, inciso XXVIII, conjugado com o art. 195, inciso I, alínea “a”, a seguir reproduzidos. (...) Isto posto, tem-se que não merece prosperar, aqui, a afirmação da empresa FRIGOIBI no sentido de que a contribuição prevista no inciso II do artigo 22 Lei n.º 8.212/91 seria indevida, havendo sua manifesta inconstitucionalidade, porquanto, segundo ela: a) sua instituição não teria observado o disposto no artigo 154, inciso I da Constituição Federal, que, em seu entendimento, se aplicaria às contribuições de seguridade social, por expressa disposição do seu artigo 195, parágrafo 4º; b) as atividades econômicas e os respectivos graus de riscos de acidentes do trabalho não estariam previstos em lei; c) teria havido violação ao princípio da igualdade. Cabe destacar que a instância administrativa não é o fórum adequado a discussão a respeito da inconstitucionalidade da referida cobrança, cabendo ao agente público observar a norma instituidora da contribuição em tela, estando ela vigente, não tendo sido ela declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal e não havendo decisão judicial, proferida no caso concreto, afastando sua aplicação. É de se observar, aqui, o disposto no artigo 26-A do Decreto n.º 70.235/72: Fl. 1602DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 48 Art. 26-A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) (...) Cumpre mencionar, ainda, que a Lei n.º 8.212/91, em seu art. 22, inciso II, que instituiu a contribuição em questão, definiu seu fato gerador (remunerações a segurados empregados e trabalhadores avulsos) e o sujeito passivo (empresa), bem como fixou a alíquota (1%, 2% ou 3%, dependendo do grau de risco de acidente do trabalho, tendo-se em conta a atividade preponderante da empresa) e a base de cálculo (total das remunerações pagas ou creditadas, no decorrer do mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos), limitando-se o Regulamento, aprovado pelo Decreto n.º 3.048/99, a regulamentar a previsão legal, tornando-a mais clara e orientando a sua aplicação, não ultrapassando, todavia, os limites definidos pela lei, não havendo que se falar em ofensa aos princípios da legalidade e da tipicidade tributária. É de se registrar, também, que não se há que se falar, no caso, em violação ao princípio de igualdade, quando o que fez a legislação previdenciária foi tratar desigualmente os desiguais, com a utilização da atividade econômica como critério de diferenciação do risco de acidentes do trabalho. Ressalte-se, no caso, ainda, que o Supremo Tribunal Federal (STF), em 20/03/2003, nos autos do Recurso Extraordinário n.º 343.446/SC, já decidiu pela constitucionalidade desta exação, bem como pelo forma de sua regulamentação, conforme se pode verificar de sua ementa, transcrita a seguir. CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO: SEGURO DE ACIDENTE DO TRABALHO - SAT. Lei 7.787/89, arts. 3º e 4º; Lei 8.212/91, art. 22, II, redação da Lei 9.732/98. Decretos 612/92, 2.173/97 e 3.048/99. C.F., artigo 195, § 4º; art. 154, II; art. 5º, II; art. 150, I. I. - Contribuição para o custeio do Seguro de Acidente do Trabalho - SAT: Lei 7.787/89, art. 3º, II; Lei 8.212/91, art. 22, II: alegação no sentido de que são ofensivos ao art. 195, § 4º, c/c art. 154, I, da Constituição Federal: improcedência. Desnecessidade de observância da técnica da competência residual da União, C.F., art. 154, I. Desnecessidade de lei complementar para a instituição da contribuição para o SAT. II. - O art. 3º, II, da Lei 7.787/89, não é ofensivo ao princípio da igualdade, por isso que o art. 4º da mencionada Lei 7.787/89 cuidou de tratar desigualmente aos desiguais. III. - As Leis 7.787/89, art. 3º, II, e 8.212/91, art. 22, II, definem, satisfatoriamente, todos os elementos capazes de fazer nascer a obrigação tributária válida. O fato de a lei deixar para o regulamento a complementação dos conceitos de "atividade preponderante" e "grau de risco leve, médio e Fl. 1603DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 49 grave", não implica ofensa ao princípio da legalidade genérica, C.F., art. 5º, II, e da legalidade tributária, C.F., art. 150, I. IV. - Se o regulamento vai além do conteúdo da lei, a questão não é de inconstitucionalidade, mas de ilegalidade, matéria que não integra o contencioso constitucional. V. - Recurso extraordinário não conhecido. Das verbas trabalhistas indenizatórias e eventuais – da questão da não incidência da contribuição sobre a folha de salários: (...) Cabe mencionar, ainda, que a empresa FRIGOIBI alega, em sua defesa, que não incidiriam contribuições previdenciárias sobre verbas indenizatórias, não salariais ou encargos sociais, ou mesmo importes pagos sem habitualidade. Ressalte-se, contudo, que ela não trouxe aos autos quaisquer elementos comprobatórios no sentido de que teriam sido lançadas, pela fiscalização, por meio dos AI’s DEBCAD n.º 51.050.700-0 e 51.050.701-8, contribuições sobre verbas que não integram o salário-de-contribuição. É de se informar, aqui, então, que as alegações, apresentadas em impugnação, desacompanhadas de prova não produzem efeito em sede de processo administrativo fiscal, sendo insuficientes para elidir os lançamentos de ofício. Frise-se que a desconstituição do crédito tributário exige prova inequívoca a cargo do devedor, o que não ocorreu no caso. Cabe registrar, também, que a ausência de habitualidade, citada pela impugnante, não seria suficiente, por si só, para excluir os valores discutidos do campo de incidência das contribuições sociais, merecendo destaque o fato de que o item “7” da alínea “e” do § 9º do art. 28 da Lei n.º 8.212/91 dispõe que os ganhos eventuais e abonos somente não integram o salário de contribuição caso estejam expressamente desvinculados do salário, sendo que tal desvinculação deve ser feita através de lei, nos termos do art. 214, § 9º, inciso V, alínea “j” do Regulamento da Previdência Social (RPS), aprovado pelo Decreto n.º 3.048/99. Cumpre reproduzir, no caso, o comentário realizado por Fábio Zambitte Ibrahim, no livro “Curso de Direito Previdenciário”, Ed. Impetus, 10ª edição, 2007, pág. 280, a respeito do ganho eventual, pago sem habitualidade, mas em contraprestação do trabalho: Somente estarão excluídos do salário-de-contribuição valores não- remuneratórios e não-habituais. Caso o pagamento tenha sido feito uma única vez, sem habitualidade, mas se claramente decorrente do trabalho, ainda assim é remuneração. Os ganhos eventuais somente excluem-se da base se expressamente desvinculados do salário do trabalhador. Fl. 1604DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 50 É de se salientar, ademais, que os montantes considerados, pela fiscalização, como salário-de-contribuição dos empregados e contribuintes individuais, para fins de constituição de crédito, por meio dos referidos AI’s, correspondem aos valores informados, pela própria FRIGOIBI, nas GFIP’s das respectivas competências, como base de cálculo da Previdência Social, para estes segurados. Das contribuições devidas a terceiros: Cabe lembrar, aqui, que foram lançadas, por meio do AI DEBCAD n.º 51.050.701- 8, que integra este processo, contribuições devidas ao SESI, SENAI, SEBRAE, INCRA e SALÁRIO-EDUCAÇÃO. Não merece acolhida, no caso, a afirmação da empresa FRIGOIBI, feita, em sua defesa, no sentido de que não seria possível a insti tuição ou recepção de mais nenhuma contribuição sobre a folha salarial. É de se destacar que o art. 240 da Constituição Federal de 1988 ressalvou que, além das contribuições previstas no art. 195 deste mesmo diploma legal, é possível a cobrança de contribuições compulsórias dos empregadores sobre a folha de salários, que seriam destinadas a entidades privadas de serviço social e de formação profissional vinculadas ao sistema sindical. E, no que tange especificamente ao SALÁRIO-EDUCAÇÃO, cumpre mencionar que referida contribuição se encontra amparada pelo artigo 212, parágrafo 5º da Constituição Federal de 1988, segundo o qual “A educação básica pública terá como fonte adicional de financiamento a contribuição social do salário-educação, recolhida pelas empresas na forma da lei.”. No que diz respeito ao SALÁRIO-EDUCAÇÃO, merece registro, também, o fato de que ele já foi julgado constitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), inclusive em sede de Ação Declaratória de Constitucionalidade, com decisão com e feito vinculante, eficácia “erga omnes” e aplicação “ex tunc”, tendo sido pacificado o entendimento de que sua cobrança é constitucional, por meio da Súmula n.º 732 do STF, transcrita a seguir. Súmula 732 – STF: É CONSTITUCIONAL A COBRANÇA DA CONTRIBUIÇÃO DO SALÁRIO-EDUCAÇÃO, SEJA SOB A CARTA DE 1969, SEJA SOB A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988, E NO REGIME DA LEI 9424/1996. (Aprovação em Sessão Plenária de 26/11/2003; Publicação DJ de 09/12/2003, 10/12/2003 e 11/12/2003) Com relação à contribuição ao INCRA, por sua vez, é de se informar, ante a argumentação da defendente, que possui natureza de contribuição de intervenção no domínio econômico, tendo sido recepcionada pela Constituição Federal de 1988, a teor dos seus artigos 149 e 184, combinado com o artigo 34, parágrafo 5º do ADCT (Ato das Disposições Constitucionais Transitórias), não havendo necessidade, assim, de que o contribuinte tenha relação com o meio Fl. 1605DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 51 rural para ser obrigado a seu pagamento, nem que haja qualquer tipo de contraprestação, devendo ser paga pelas empresas em geral à vista do princípio da solidariedade social, tendo os Tribunais Pátrios se manifestado nesse sentido, como segue. (...) Ressalte-se, assim, que as legislações referentes às contribuições devidas a terceiros foram recepcionadas pela Constituição Federal de 1988, não havendo que se falar em violação às disposições constitucionais dos artigos 195, § 4º e 154, inciso I, no que tange à instituição das mesmas. (...) Cabe salientar, ademais, que a legislação que dá embasamento à cobrança das contribuições devidas ao SESI, SENAI, SEBRAE, INCRA e SALÁRIO-EDUCAÇÃO foi toda relacionada no anexo “FLD – Fundamentos Legais do Débito” deste AI, e, além da instituição dos referidos tributos, os dispositivos legais ali discriminados prevêem todos os elementos constitutivos das exações (hipótese tributária, base de cálculo, alíquotas, sujeitos passivo e ativo). Note-se, ainda, que a atividade da autoridade administrativa se encontra vinculada à legislação relacionada nos itens “Contribuição Devida a Terceiros – Salário Educação”, “Terceiros – Incra”, “Terceiros – Senai”, “Terceiros – Sesi” e “Terceiros – Sebrae” do anexo FLD do AI em tela, nos termos do artigo 116, inciso III da Lei n.º 8.112/90, a seguir transcrito, não podendo afastá-la com base em alegação de inconstitucionalidade, tendo em vista o artigo 26-A do Decreto n.º 70.235/72, também abaixo reproduzido. (...) Desta forma, devem ser mantidas, aqui, as contribuições lançadas por meio do AI DEBCAD n.º 51.050.701-8. (...) Dos juros: Com relação aos juros referentes aos AI’s em tela, é de se mencionar que eles possuem o devido respaldo legal, tendo sido aplicados, pela fiscalização, de acordo com a legislação constante no anexo “FLD – Fundamentos Legais do Débito”, no item “Acréscimos Legais – Juros”, não podendo ser afastados ou reduzidos nesta instância de julgamento, sendo a autoridade administrativa vinculada aos referidos dispositivos legais, a seguir transcritos. (...) Cabe observar, aqui, que não é a administrativa a esfera competente para a discussão acerca da natureza da taxa SELIC ou da constitucionalidade de sua previsão legal ou modo de cálculo, ficando o agente público, no exercício de suas funções, inteiramente preso ao enunciado de lei, em todas as suas especificações, Fl. 1606DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 52 sendo a declaração de inconstitucionalidade de lei ou atos normativos federais uma prerrogativa outorgada pela Constituição Federal ao Poder Judiciário. Cumpre esclarecer, ainda, que o artigo 161, § 1º do Código Tributário Nacional (CTN) dispõe que os juros de mora são calculados à taxa de 1% ao mês, se a lei não dispuser de modo diverso, e, no caso, os dispositivos legais retro mencionados, relacionados no item “Acréscimos Legais – Juros” do anexo FLD dos AI’s em tela, vigentes à época dos fatos geradores, dispunham de modo diverso, ao prever a aplicação da Taxa Selic para cálculo dos juros devidos sobre as contribuições não recolhidas em época própria. Não há que se falar, assim, em afastamento dos juros aplicados nos AI’s que integram este processo, tendo sido eles calculados, pela fiscalização, conforme legislação específica vigente à época, e se encontrando a atividade da autoridade administrativa vinculada, no caso, à referida legislação, não possuindo esta autoridade competência para declarar indevidos valores determinados pela legislação como aplicáveis às contribuições em tela. Da multa: Não merece acolhida, aqui, a alegação da empresa FRIGOIBI no sentido de que a multa imputada por meio dos AI’s em tela, no percentual de 225%, deveria ser reduzida para 75%. Inicialmente, cabe transcrever a legislação atinente à aplicação da multa qualificada e agravada, citada no Relatório Fiscal, e no item “Sonegação, fraude ou conluio. Acréscimo de 50%, por não atendimento de intimação” do anexo “FLD – Fundamentos Legais do Débito” dos Autos de Infração. (...) Cumpre informar, então, que, ao contrário do que afirma a empresa, em sua defesa, a fiscalização procedeu à descrição das condutas praticadas que evidenciaram, no caso, o intuito de fraude, bem como à sua tipificação nos artigos da Lei n.º 4.502/64, conforme se pode verificar dos trechos do Relatório Fiscal, a seguir reproduzidos. (...) 7.1. A Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, CNPJ n° 09.345.710/0001- 28, e o Frigorífico Dom Glutão Ltda, CNPJ n° 06.086.255/0001-03, constituíam, de fato, uma única empresa, no período de 26/12/2007 a 31/12/2011. 7.1.1. Há ausência de autonomia e independência entre as atividades empresariais das duas pessoas jurídicas, uma vez que se configura a confusão patrimonial, administrativa e operacional entre elas. 7.1.2. Por detrás da pessoa jurídica Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, não há uma atividade empresarial distinta da atividade empreendida pelo Frigorífico Dom Glutão Ltda, uma vez que aquela é tão somente o setor industrial desta, travestido, formalmente, de outra empresa. Fl. 1607DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 53 7.2. O Frigorífico Dom Glutão Ltda, empresa submetida ao regime do lucro real, operou de modo a iludir a tributação, colhendo os benefícios da tributação simplificada e menos onerosa do SIMPLES NACIONAL, mediante o artifício de transferir parte da sua mão-de-obra e produção para a Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, integrante do regime simplificado e, nela, concentrou a maior parte dos empregados, com propósito de reduzir o peso das contribuições previdenciárias e suprimir o pagamento das contribuições destinadas aos Terceiros. 7.2.1. Os sócios administradores do Frigorífico Dom Glutão Ltda, os Srs. Dirceu José Corte, CPF n° 356.845.268-53 e Dedier Ribas Ferreira, CPF n° 022.587.578- 00, utilizaram negócios jurídicos simulados e contabilidades forjadas, para mudar as características essenciais do fato gerador e reduzir o montante dos tributos devidos, constituindo os reais beneficiários. 7.3. A Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda é uma empresa constituída através de interpostas pessoas, conhecidos como “laranjas”, uma vez que sua constituição é um negócio jurídico simulado, ou seja, uma operação com aparência de legalidade, moldada para esconder a realidade dos fatos. 7.3.1. Os Srs. Claysson Flávio Correa (CPF n° 288.000.808-55), Edvaldo Ferreira de Souza (CPF n° 969.643.756-00), João Silveira Filho (CPF n° 959.337.358-68), José Carlos Ferreira (CPF n° 208.118.379-04) e Geraldo Ferreira (CPF n° 053.410.228-07) foram inseridos na referida sociedade como pseudo-sujeitos da relação jurídica, em prol de benefícios ilícitos dos titulares ocultos, os Srs. Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira. 7.4. Os Srs. Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira utilizaram artifícios contábeis maliciosos, contabilidades fajutas e negócios jurídicos simulados, para camuflar a aquisição de bens e desviar o patrimônio da pessoa jurídica Frigorífico Dom Glutão Ltda. (...) 12. Da Aplicação da Multa Qualificada: 12.1. Nos termos do artigo 44, I e §1º, da Lei nº 9.430/1996, nos lançamentos de ofício, aplica-se a multa de 150% calculada sobre a totalidade ou diferença de tributo, nos casos de evidente intuito de fraude, independente de outras penalidades administrativas e penais. 12.2. Evidente intuito de fraude é conceito amplo, no qual se inserem aquelas condutas dolosas definidas como sonegação, fraude e conluio, nos termos dos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964. 12.2.1. A utilização dos denominados sócios “laranjas”, conforme item 7.3, acima, basta para configurar o dolo e justificar a qualificação da multa de ofício, nos termos do artigo 44 da Lei nº 9.430/96, combinado com o art.71 da Lei nº 4.502/64. Fl. 1608DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 54 12.2.2. A conduta dolosa também buscou modificar as características essenciais do fato gerador, conforme itens 7.1 e 7.2, acima, razão pela qual a qualificação da multa também se fundamenta no artigo 72 da Lei nº 4.502/64. 12.2.3. Por fim, caracterizou-se o conluio, nos termos do artigo 73 do citado normativo, conforme itens 7.2.1 e 7.4, acima, uma vez que ficou configurado o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais e jurídicas. 12.3. Impõe-se, ante o exposto, a aplicação da multa qualificada. (...) (grifos originais) É de se registrar, também, que não merece prosperar a alegação da empresa no sentido de que sempre teria atendido a fiscalização, apresentando todos os documentos e esclarecimentos solicitados, dentro do prazo estabelecido, uma vez que não foram trazidos aos autos, por ela, quaisquer elementos comprobatórios desta sua afirmação, e que constam, no Relatório Fiscal, informações em sentido diverso, motivo pelo qual, inclusive, houve, no caso, o agravamento da multa, que foi devidamente motivado, conforme se pode verificar dos trechos a seguir transcritos. (...) Quanto à argumentação da impugnante no sentido de que a multa aplicada, no percentual de 225%, feriria os princípios da razoabilidade, da proporcionalidade e da vedação ao confisco, por sua vez, é de se notar que a instância administrativa não é fórum adequado a estas discussões, devendo a Administração cumprir a lei, sob pena de responsabilidade funcional. Cumpre esclarecer que tais princípios se dirigem ao Poder Legislativo, que deve tomar em consideração tais preceitos quando da elaboração das leis, não cabendo ao julgador administrativo a análise sobre esta matéria, estando sua atividade vinculada à legislação que dispõe sobre a aplicação das multas, na constituição dos créditos pela fiscalização. Note-se, ainda, que é vedado à autoridade julgadora, em sede de processo administrativo fiscal, afastar a aplicação, por inconstitucionalidade, de lei, decreto ou ato normativo em vigor, nos termos do artigo 26-A, caput do Decreto n.º 70.235/72. Tal impedimento se deve ao caráter vinculado da atuação das instâncias administrativas. Dessa forma, considerando a situação narrada no Relatório Fiscal, o amplo conjunto de elementos trazidos aos autos, pela fiscalização, bem como os dispositivos legais retro transcritos, justifica-se, no caso, a aplicação da multa de ofício qualificada e agravada, totalizando o percentual de 225%, incidente sobre as contribuições lançadas nos Autos de Infração que integram o presente processo, devendo haver, portanto, aqui, a sua manutenção. Dos juros sobre a multa: Fl. 1609DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 55 Cabe destacar, aqui, que, ao contrário do que entende a empresa FRIGOIBI, a legislação autoriza a cobrança de juros de mora sobre o valor da multa de ofício. (...) Cumpre reiterar, no caso, que o conceito de crédito tributário abrange a multa de ofício, de forma que, não efetuado o pagamento no prazo legal, o contribuinte caracteriza-se em débito para com a União, incidindo juros de mora sobre o principal e a multa de ofício. (...) Da responsabilidade tributária: Não merece prosperar, aqui, a alegação de DIRCEU JOSÉ CORTE, DEDIER RIBAS FERREIRA e FRIGORÍFICO DOM GLUTÃO LTDA. no sentido de que inexistiria, no caso, qualquer prova e justificativa capaz de dar suporte à imposição de responsabilidade tributária solidária a eles, com relação ao processo em tela. Inicialmente, cabe lembrar que o Termo de Sujeição Passiva Solidária de fls. 06 a 08, em que consta como sujeito passivo solidário Frigorífico Dom Glutão Ltda. (CNPJ 06.086.255/0001-03), foi emitido com base no artigo 124, inciso I do Código Tributário Nacional (CTN), enquanto que os Termos de Sujeição Passiva Solidária de fls. 09 a 11, e 12 a 14, em que constam como sujeitos passivos solidários, respectivamente, os Srs. Dirceu José Corte (CPF 356.845.268-53) e Dedier Ribas Ferreira (CPF 022.587.578-00), foram emitidos com base não só no artigo 124, inciso I, como também no artigo 135, inciso III do CTN. Cumpre destacar, no caso, que a responsabilidade tributária solidária das pessoas retro mencionadas foi devidamente caracterizada e fundamentada no Relatório Fiscal, de fls. 921 a 1.007, do qual se reproduzem alguns trechos a seguir. (...) 10. Do Termo de Sujeição de Passiva Solidária: 10.1. O Frigorífico Dom Glutão Ltda, CNPJ n° 06.086.255/0001-03, é responsável solidário nos termos do artigo 124, I, do CTN (Código Tributário Nacional), uma vez que esta empresa e a Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, CNPJ n° 09.345.710/0001-28, constituem, de fato, uma única empresa. 10.2. Os Srs. Dirceu José Corte, CPF n° 356.845.268-53 e Dedier Ribas Ferreira, CPF n° 022.587.578-00, são responsáveis solidários nos termos do artigo 124, I, do CTN, tendo em vista os fatos expostos nos itens 7.2.1, 7.3.1 e 7.4, acima, uma vez que constituem os destinatários das eventuais vantagens financeiras e patrimoniais decorrentes dos atos praticados, ou seja, toda a estrutura de negócios arquitetada e levada a pratica pelos referidos cidadãos visa à obtenção destas vantagens, em detrimento das pessoas jurídicas formalizadas. Fl. 1610DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 56 10.3. Os Srs. Dirceu José Corte, CPF n° 356.845.268-53 e Dedier Ribas Ferreira, CPF n° 022.587.578-00, são responsáveis solidários, também, nos termos do artigo 135, III, do CTN (Código Tributário Nacional), tendo em vista que constituem os representantes da pessoa jurídica de direito privado (Frigorífico Dom Glutão Ltda) e são pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes às obrigações tributárias resultantes de atos praticados com infração à lei. 10.3.1. A Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda e o Frigorífico Dom Glutão Ltda, constituem, de fato, uma única empresa, com faturamento superior aos limites permitidos para a opção pelo regime simplificado (itens 3.3 e 3.4, acima), o que constitui infração ao artigo 3°, II e §1° da LC n° 123/2006. 10.3.2. Os Srs. Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira, sócios do Dom Glutão, foram os reais sócios e proprietários da Frigoibi, no período em que esta empresa foi optante do regime simplificado, o que constitui infração ao artigo 3°, §4°, IV da LC n° 123/2006. 10.3.3. Na resposta apresentada pela Frigoibi em 08/05/2014, consta que o Contribuinte não efetuou a contabilização de sua movimentação financeira, inclusive bancária, o que constitui infração ao atrigo 26, §2º da Lei Complementar n° 123/2006. (...) (...) Cabe notar, no caso, que, de acordo com o Relatório Fiscal e os Termos de Sujeição Passiva Solidária referentes ao processo em tela: a) a Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda. e o Frigorífico Dom Glutão Ltda. constituíam, de fato, uma única empresa, no período de 26/12/2007 a 31/12/2011, havendo ausência de autonomia e independência entre as atividades empresariais das duas pessoas jurídicas, e se configurando a confusão patrimonial, administrativa e operacional entre elas, sendo que, por detrás da primeira pessoa jurídica, não haveria uma atividade empresarial distinta da empreendida pela segunda, uma vez que aquela era tão somente o setor industrial desta, travestido, formalmente, de outra empresa; b) as duas empresas exercem atividades enquadradas no mesmo CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas), qual seja 101.120-1 Frigorífico – Abate de Bovinos, e os seus estabelecimentos constituem um conjunto, ou seja, um é exatamente a continuação do outro ou, ainda, são imediatamente contíguos; c) comparação entre as receitas brutas declaradas pela Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda., com base nas Declarações Anuais do SIMPLES NACIONAL (DASN), e pelo Frigorífico Dom Glutão Ltda., nas Declarações de Informações Econômico-fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ), e as respectivas massas Fl. 1611DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 57 salariais (bases de cálculo das contribuições previdenciárias declaradas em GFIP), referentes aos anos de 2008 a 2011, conforme dados contidos nos sistemas de informação da RFB, demonstrados em tabelas, indicou os seguintes fatos: c.1) no caso da FRIGOIBI, a relação entre a massa salarial e receita era evidentemente incompatível, para uma empresa industrial, chegando a ter mais de 70% de sua receita comprometida com este tipo de despesa; c.2) no caso do DOM GLUTÃO, por sua vez, a massa salarial possuía valor ínfimo, se comparado à receita declarada, chamando a atenção, portanto, no sentido inverso; d) empregados do DOM GLUTÃO tiveram os registros dos contratos de trabalho rescindidos com esta empresa e firmados com a FRIGOIBI, de forma gradativa; e) a constituição da Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda. se trata de um negócio jurídico simulado, ou seja, uma operação com aparência de legalidade, moldada para esconder a realidade dos fatos; f) o Frigorífico Dom Glutão Ltda., empresa submetida ao regime do lucro real, operou de modo a iludir a tributação, colhendo os benefícios da tributação simplificada e menos onerosa do SIMPLES NACIONAL (regime simplificado instituído pela Lei Complementar n.º 123/2006), mediante o artifício de transferir parte da sua mão-de-obra e produção para a Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda, integrante do regime simplificado e, nela, concentrou a maior parte dos empregados, com o propósito de reduzir o peso das contribuições previdenciárias e suprimir o pagamento das contribuições destinadas aos Terceiros; g) os sócios administradores do Frigorífico Dom Glutão Ltda, os Srs. Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira, utilizaram negócios jurídicos simulados e contabilidades forjadas, para mudar as características essenciais do fato gerador e reduzir o montante dos tributos devidos, constituindo os reais beneficiários, destinatários das eventuais vantagens decorrentes dos atos praticados; h) a Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda. é uma empresa constituída através de interpostas pessoas, conhecidos como “laranjas”, tendo sido os Srs. Claysson Flávio Correa, Edvaldo Ferreira de Souza, João Silveira Filho, José Carlos Ferreira e Geraldo Ferreira – sendo os quatro primeiros ex-empregados do Frigorífico Dom Glutão Ltda. – inseridos na referida sociedade como pseudo- sujeitos da relação jurídica, em prol de benefícios ilícitos dos titulares ocultos, os Srs. Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira; i) embora os Srs. Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira tenham se tornado, formalmente, sócios administradores da Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda. em 15/12/2011, foram os reais sócios e proprietários da mesma, em todo o período em que esta empresa foi optante do regime simplificado; j) os Srs. Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira, constituindo os representantes do Frigorífico Dom Glutão Ltda, são pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes às obrigações tributárias resultantes de atos praticados com Fl. 1612DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 58 infração à lei: j.1) infração ao artigo 3º, inciso II e § 1º da Lei Complementar (LC) n.º 123/2006 – a Frigoibi Indústria e Comércio de Carnes Ltda e o Frigorífico Dom Glutão Ltda, constituem, de fato, uma única empresa, com faturamento superior aos limites permitidos para a opção pelo regime simplificado; j.2) infração ao artigo 3º, § 4º, inciso IV da LC n.º 123/2006 – os Srs. Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira, sócios do Dom Glutão, foram os reais sócios e proprietários da Frigoibi, no período em que esta empresa foi optante do regime simplificado; j.3) infração ao artigo 26, § 2º da LC n.º 123/2006 – na resposta apresentada pela Frigoibi, em 08/05/2014, consta que o contribuinte não efetuou a contabilização de sua movimentação financeira, inclusive bancária. Verifica-se, assim, que, ao contrário do que afirmam os impugnantes, foram descritas detalhadamente, pela fiscalização, as circunstâncias que ensejaram a sua responsabilidade solidária com relação ao crédito constituído por meio dos AI’s que integram este processo, havendo o enquadramento das situações constatadas nos artigos 124, inciso I e 135, inciso III do CTN, restando comprovado, no caso concreto, o interesse comum de todos eles na situação que constitui o fato gerador da obrigação principal, bem como a prática de atos com infração de lei, não havendo que se falar em arbitrariedade. Cumpre informar, ainda, que restou configurado, no caso, pela fiscalização, o evidente intuito de fraude, mediante a caracterização das condutas dolosas previstas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n.º 4.502/64, tendo havido, inclusive, por tal motivo, a qualificação da multa de ofício, nos Autos de Infração que integram este processo, conforme explicitado no item 12 do Relatório Fiscal, não se tratando, aqui, de mero inadimplemento de obrigação tributária, tendo sido constatada a prática de ato/negócio jurídico simulado, de forma a alterar as características essenciais do fato gerador e reduzir o montante dos tributos devidos, constituindo os Srs. Dirceu José Corte e Dedier Ribas Ferreira, os reais sócios da FRIGOIBI, os efetivos beneficiários das vantagens obtidas com tal prática. Deste modo, tem-se que não procede a alegação dos impugnantes no sentido de que não teriam sido apresentados, pela fiscalização, elementos que autorizassem a sua inclusão como co-responsáveis pelos AI’s em tela, devendo ser mantidos, aqui, os Termos de Sujeição Passiva Solidária relativos ao presente processo. Adicionalmente às razões de decidir supra reproduzidas, ora adotadas como fundamento do presente voto, cumpre destacar que, especificamente em relação à alegação recursal no sentido de que que não incide contribuições previdenciárias sobre verbas indenizatórias, conforme pontuado pelo órgão julgador de primeira instância, foram lançadas, por meio do AI DEBCAD n.º 51.050.700-0, contribuições previdenciárias previstas no artigo 22, incisos I, II e III da Lei n.º 8.212/91, sobre remunerações pagas a segurados empregados e contribuintes individuais declaradas em GFIP pela empresa FRIGOIBI, referentes às competências 01/2009 a 13/2011 (grifei e destaquei). Fl. 1613DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 59 Neste particular, tem-se que a Tabela 1 (p. 1.058) do Anexo V do Relatório Fiscal identifica as GFIP’s válidas, pelo código de controle, e a Tabela 2 (p. 1.059) deste mesmo Anexo V demonstra as bases de cálculo totais declaradas por competência, e o cálculo das contribuições devidas e não declaradas em GFIP. Neste particular, cumpre destacar que, comparando-se - em relação ao ano de 2009, por exemplo - o somatório, na ordem de R$ 1.090.195,00, da coluna “Remuneração Total de Empregados” da susodita Tabela 2 do Anexo V do relatório fiscal (p. 1.059), cujos valores, repita - se, foram obtidos a partir das GFIPs transmitidas pela Contribuinte, com o valor total referente às despesas com folha de pagamento no ano calendário de 2009, registrado na Tabela 2 do Anexo I (p. 1.009), verifica-se que não há uma identidade de valores entre as referidas bases (seja considerando o valor global constante na Tabela 2 do Anexo I ou apenas o(s) valore(s) de determinada(s) conta(s)). Neste espeque, caberia à Contribuinte, tal como destacado pela DRJ, demonstrar de forma clara e inequívoca a composição da base de cálculo utilizado pela autoridade administrativa fiscal - a qual, ressalte-se mais uma vez, foi obtida a partir das GFIPs transmitidas pela própria Autuada – evidenciando as rubricas que, no seu entendimento, seriam de natureza indenizatórias. Contudo, assim, não procedeu. O contribuinte deve fazer prova de suas alegações, sob pena de ensejar-se a aplicação do aforismo jurídico "allegatio et non probatio, quasi non allegatio". Alegar e não provar é o mesmo que não alegar. No processo administrativo, há norma expressa a respeito: Lei n° 9.784/99 Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei. Neste espeque, não tendo a Contribuinte se desincumbido do ônus de comprovar as suas alegações, impõe-se a manutenção da decisão de primeira instância neste particular pelos seus próprios fundamentos. Do Aproveitamento dos Valores Pagos pelo SIMPLES Em seu apelo recursal, a Contribuinte Devedora Principal defende que, como é de conhecimento, o Simples é um regime unificado de pagamento de tributos e contribuições, consistente numa alíquota única incidente sobre o faturamento. Pugna, assim, para que, nessas condições, esses valores, ao menos, deveriam ser abatidos da autuação. Sobre o tema, a DRJ destacou e concluiu que: Fl. 1614DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 60 Em relação à contestação da empresa FRIGOIBI quanto ao não aproveitamento, pela fiscalização, das contribuições recolhidas, por ela, no âmbito do SIMPLES NACIONAL, cumpre esclarecer que as Instruções Normativas (IN’s) da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) n.º 900, de 30/12/2008, e n.º 1.300, de 20/11/2012, vedam expressamente a compensação de contribuições sociais previdenciárias com valores recolhidos indevidamente para este regime tributário simplificado, (...) Verifica-se, portanto, que carece de razão a insurgência contra o não aproveitamento, pela fiscalização, das contribuições recolhidas pela empresa no âmbito do SIMPLES NACIONAL. Importa, ainda, observar que os recolhimentos que a empresa fez para o SIMPLES NACIONAL não contemplam contribuições destinadas a outras entidades e fundos, de modo que, no presente caso, nem se cogita a existência de recolhimentos indevidos de contribuições destinadas a outras entidades e fundos que pudessem ser compensadas com as contribuições lançadas pela fiscalização. Pois bem! Razão assiste à Recorrente neste particular. Apenas para rememorar, não se deve olvidar que, conforme noticiado pelo órgão julgador de primeira instância, a empresa FRIGOIBI INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CARNES LTDA. (CNPJ 09.345.710/0001-28) foi excluída de ofício do SIMPLES NACIONAL através do Ato Declaratório Executivo (ADE) da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Araraquara (DRF/AQA) n.º 03, de 30/10/2014, em decorrência do Processo Administrativo n.º 18088.720380/2014-59. Assim, no que tange ao pedido da Recorrente para que sejam aproveitados / deduzidos os pagamentos realizados na sistemática do regime simplificado, o Enunciado de Súmula CARF nº 76 estabelece que, na determinação dos valores a serem lançados de ofício para cada tributo, após a exclusão do Simples, devem ser deduzidos eventuais recolhimentos da mesma natureza efetuados nessa sistemática, observando-se os percentuais previstos em lei sobre o montante pago de forma unificada. Impõe-se, neste espeque, o provimento do recurso voluntário neste particular para que sejam aproveitados / deduzidos, na apuração das contribuições lançadas no presente processo administrativo, os valores recolhidos pela Contribuinte através do regime simplificado, observando-se, por certo, a natureza das contribuições e os percentuais previstos em lei. Da Multa de Ofício Qualificada Com relação à multa qualificada, consoante os escólios do Conselheiro Matheus Soares Leite, objeto do Acórdão nº 2401-012.070, cumpre destacar que, com a superveniência da Lei nº 14.689, de 2023, o § 1º do artigo 44 da Lei nº 9.430/1996 foi alterado pela Lei nº Fl. 1615DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.141 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720334/2014-50 61 14.689/2023, com acréscimo dos incisos VI, VII e §§ 1º-A e 1ºC, passando o dispositivo a ostentar a redação supratranscrita. Depreende-se, pois, que a superveniência da Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, que alterou tão somente o percentual da Multa Qualificada, prevista no art. 44, I, § 1º da Lei nº 9.430/1996, passando a ser de 100% (cem por cento) sobre a totalidade ou a diferença de imposto ou de contribuição objeto do lançamento de ofício. Ou seja, a nova lei, por meio da inclusão do inciso VI ao art. 44, I, § 1º da Lei nº 9.430/1996, nas hipóteses de ausência de reincidência, reduziu a multa de ofício qualificada de 150% para 100%. Por sua vez, no caso de reincidência, a multa de 150% será aplicada (dobrada). Em termos práticos, se o contribuinte não for reincidente a multa será de 100% e não mais de duas vezes 75%. No presente caso a fiscalização não esclareceu se seria o caso ou não de ocorrência de reincidência da conduta infracional. Consequentemente, conforme estatuído pelo inciso VII e § 1-A deve ser referida “multa qualificada” reduzida de 150% para 100%. Conclusão Ante o exposto, (i) em relação ao recurso voluntário interposto pela Contribuinte FRIGOIBI – Indústria e Comércio de Carnes LTDA, voto no sentido de rejeitar as preliminares de nulidade suscitada e, no mérito, dar-lhe parcial provimento, determinando-se (i.i) o aproveitamento, na apuração das contribuições lançadas no presente processo administrativo, dos valores recolhidos pela Contribuinte através do regime simplificado, observando-se a natureza das contribuições e os percentuais previstos em lei e (i.ii) a redução da multa qualificada de 150% para 100%, mantendo-se o seu agravamento; (ii) em relação aos recursos voluntários dos responsáveis solidário, voto no sentindo de negar provimento aos mesmos. Assinado Digitalmente Gregório Rechmann Junior Fl. 1616DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 16327.720939/2019-60
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Sep 10 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Thu Oct 16 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2014, 2015
DESPESAS FINANCEIRAS. OPERAÇÕES DE DEPÓSITOS INTERFINANCEIROS ENTRE EMPRESAS DO MESMO GRUPO. AUSÊNCIA DOS REQUISITOS DE DEDUTIBILIDADE.
Inexiste qualquer necessidade, usualidade ou normalidade nas despesas escrituradas em razão da interposição do sujeito passivo em operações engendradas por outra pessoa jurídica do grupo econômico para exercer o afirmado direito de consumir o ativo consistente em prejuízos fiscais e bases negativas detidos por pessoa jurídica adquirida. As despesas financeiras escrituradas e glosadas não representam encargos necessários para o exercício da atividade do sujeito passivo como holding, vez que não decorrem de uma captação com vistas a auferir resultados de sua aplicação em participações societárias, mas sim se prestam a carrear recursos financeiros à pessoa jurídica adquirida com vistas à sua restituição em captação onerosa pela pessoa jurídica do mesmo grupo, adquirente daquele investimento.
Numero da decisão: 9101-007.439
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial. Votou pelas conclusões a Conselheira Edeli Pereira Bessa. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negar provimento ao recurso, vencidos os Conselheiros Jandir José Dalle Lucca (relator), Luis Henrique Marotti Toselli, Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic e Heldo Jorge dos Santos Pereira Júnior que votaram por dar provimento. Designada para redigir o voto vencedor a Conselheira Edeli Pereira Bessa. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os Conselheiros Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli e Luiz Tadeu Matosinho Machado.
Assinado Digitalmente
Jandir José Dalle Lucca – Relator
Assinado Digitalmente
Edeli Pereira Bessa – Redatora designada
Assinado Digitalmente
Fernando Brasil de Oliveira Pinto – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Heldo dos Santos Pereira Júnior, Jandir José Dalle Lucca e Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente em exercício).
Nome do relator: JANDIR JOSE DALLE LUCCA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2014, 2015 DESPESAS FINANCEIRAS. OPERAÇÕES DE DEPÓSITOS INTERFINANCEIROS ENTRE EMPRESAS DO MESMO GRUPO. AUSÊNCIA DOS REQUISITOS DE DEDUTIBILIDADE. Inexiste qualquer necessidade, usualidade ou normalidade nas despesas escrituradas em razão da interposição do sujeito passivo em operações engendradas por outra pessoa jurídica do grupo econômico para exercer o afirmado direito de consumir o ativo consistente em prejuízos fiscais e bases negativas detidos por pessoa jurídica adquirida. As despesas financeiras escrituradas e glosadas não representam encargos necessários para o exercício da atividade do sujeito passivo como holding, vez que não decorrem de uma captação com vistas a auferir resultados de sua aplicação em participações societárias, mas sim se prestam a carrear recursos financeiros à pessoa jurídica adquirida com vistas à sua restituição em captação onerosa pela pessoa jurídica do mesmo grupo, adquirente daquele investimento.
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OPERAÇÕES DE DEPÓSITOS INTERFINANCEIROS ENTRE EMPRESAS DO MESMO GRUPO. AUSÊNCIA DOS REQUISITOS DE DEDUTIBILIDADE. Inexiste qualquer necessidade, usualidade ou normalidade nas despesas escrituradas em razão da interposição do sujeito passivo em operações engendradas por outra pessoa jurídica do grupo econômico para exercer o afirmado direito de consumir o ativo consistente em prejuízos fiscais e bases negativas detidos por pessoa jurídica adquirida. As despesas financeiras escrituradas e glosadas não representam encargos necessários para o exercício da atividade do sujeito passivo como holding, vez que não decorrem de uma captação com vistas a auferir resultados de sua aplicação em participações societárias, mas sim se prestam a carrear recursos financeiros à pessoa jurídica adquirida com vistas à sua restituição em captação onerosa pela pessoa jurídica do mesmo grupo, adquirente daquele investimento. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial. Votou pelas conclusões a Conselheira Edeli Pereira Bessa. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negar provimento ao recurso, vencidos os Conselheiros Jandir José Dalle Lucca (relator), Luis Henrique Marotti Toselli, Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic e Heldo Jorge dos Santos Pereira Júnior que votaram por dar provimento. Designada para redigir o voto vencedor a Conselheira Edeli Pereira Bessa. Manifestaram intenção de apresentar declaração Fl. 2411DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 2 de voto os Conselheiros Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli e Luiz Tadeu Matosinho Machado. Assinado Digitalmente Jandir José Dalle Lucca – Relator Assinado Digitalmente Edeli Pereira Bessa – Redatora designada Assinado Digitalmente Fernando Brasil de Oliveira Pinto – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Heldo dos Santos Pereira Júnior, Jandir José Dalle Lucca e Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente em exercício). RELATÓRIO 1.Trata-se de Recurso Especial (fls. 1979/2029) interposto por BANCO BRADESCO S/A, sucessor por incorporação de BANCO BRADESCO CARTÕES S/A, em face do Acórdão nº 1402- 006.398 (fls. 1919/1963), via do qual se decidiu, por voto de qualidade, negar provimento ao Recurso Voluntário. 2.Em síntese, o litígio versa sobre lançamentos de IRPJ e CSLL decorrentes da glosa de despesas financeiras nos anos-calendário de 2014 (R$ 1,84 bilhão) e 2015 (R$ 2,49 bilhões), relacionadas a Depósitos Interfinanceiros (DI) de R$ 15 bilhões captados pelo Banco Bradesco Cartões S/A junto ao Banco Bradesco S/A. Esses recursos foram utilizados pelo Bradesco Cartões para aumentar o capital do Banco do Estado do Rio de Janeiro (Berj). Paralelamente, o próprio Banco Bradesco aportou R$ 31 bilhões no capital do Berj e, na sequência, o Berj aplicou a totalidade dos recursos recebidos (R$ 46 bilhões) junto ao Banco Bradesco, também via DI. A partir dessas operações, o Berj passou a auferir significativas receitas financeiras, tanto com Depósitos Interfinanceiros quanto com títulos de renda fixa, que possibilitaram a compensação de seus prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL acumulados. Posteriormente, após o Berj ter compensado substancialmente seu prejuízo fiscal e base negativa da CSLL, o seu capital foi Fl. 2412DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 3 reduzido em R$ 49,2 bilhões e, na mesma data, o capital do Bradesco Cartões foi reduzido em R$ 37,2 bilhões. 3.A DRJ houve por bem, avaliando a existência de saldos negativos de IRPJ e CSLL relativos aos próprios anos-calendário objeto da autuação, dar provimento parcial à impugnação oportunamente apresentada pelo contribuinte apenas para apropriar o valor de R$ 246.613,56 no IRPJ constituído em relação ao ano-calendário de 2015, decisão que motivou a interposição do Recurso Voluntário de fls. 1776/1821, desprovido pelo colegiado a quo em aresto assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2014,2015 DESPESAS OPERACIONAIS. DEDUTIBILIDADE. A teor do artigo 299, do RIR/1999, as quantias apropriadas às contas de despesas operacionais, para efeito de determinação do Lucro Real, devem satisfazer às condições de necessidade, normalidade e usualidade. Restando comprovado que a captação de recursos realizada com a finalidade de viabilizar o aumento de capital em empresa do mesmo grupo econômico buscou artificialmente transferir resultados entre tais empresas, resta evidente o descabimento de se considerar possível a dedução de tal despesa de captação, vez que se intentou burlar a proibição da transferência de prejuízos fiscais entre empresas. O imediato retorno de capital aportado em instituição financeira, por meio de certificados de depósitos interbancários, demonstra a artificialidade de tal aporte e do retorno do capital aos acionistas. Restando tal retorno do capital sujeito à incidência de juros, induvidosa a desnecessidade de tal despesa, vez que os recursos originalmente já pertenciam aos acionistas. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. CONSEQUÊNCIAS. Na medida em que as exigências reflexas têm por base os mesmos fatos que ensejaram o lançamento do imposto de renda, a decisão de mérito prolatada naquele constitui prejulgado na decisão dos autos de infração decorrentes. 4.Cientificado, o sujeito passivo apresentou Recurso Especial em relação às matérias (I) “Dedutibilidade das despesas decorrentes dos depósitos interfinanceiros resultante da correta interpretação do artigo 299 do RIR/99”, em face dos paradigmas 1401-003.729 e 1302-003.803; (II) “Papel da arrecadação global na determinação da inexistência de prejuízo ao erário”, em face dos paradigmas 1302-003.803 e 1301-006.176; e (III) “Impossibilidade de desconsideração de atos praticados com base em mera alegação de falta de interesse negocial na operação realizada”, em face dos paradigmas 9101-006.364 e 1401-002.644, tendo o apelo sido parcialmente admitido apenas em relação à primeira, ex vi do despacho de fls. 2312/2325, decisão mantida pelo despacho de fls. 2363/2370, que rejeitou o agravo manejado pelo interessado. Para melhor compreensão, confiram-se os seguintes excertos do despacho de admissibilidade: 1ª Divergência: “Dedutibilidade das despesas decorrentes dos depósitos interfinanceiros resultante da correta interpretação do artigo 299 do RIR/99” (...) A similitude fática e jurídica entre os casos, assim como a divergência jurisprudencial entre eles, encontra-se suficientemente demonstrada pela recorrente. Fl. 2413DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 4 Trata-se, em todos os casos, dos mesmos fatos envolvendo a capitalização, pelo Bradesco, de forma direta ou indireta (via Bradesco Cartões), conforme se verifica no seguinte excerto do TVF de cada processo, reproduzido nos respectivos acórdãos, e também no recurso especial apresentado: No período compreendido entre os aportes de capital no Berj e as reduções de capital do Berj e do Bradesco Cartões, destaca-se como operação singular e de vulto realizada pelo Banco Bradesco, nos dias 8 a 11 de outubro de 2012, a captação de R$ 46 bilhões junto ao Berj, por meio da emissão de depósitos interfinanceiros (DI). Ou seja, os recursos financeiros utilizados pelo Banco Bradesco para aumentar o capital social do Berj, direta e indiretamente via Bradesco Cartões, a ele retornaram por meio de operações interfinanceiras em DI. E em todos os casos houve acusação fiscal de desnecessidade das despesas financeiras incorridas nas operações de depósito interfinanceiro (DI). O acórdão nº 1401- 003.729 trata do Banco Bradesco, e o acórdão nº 1302-003.803 trata da própria recorrente, mas em outros anos calendários, tendo ambos alcançado resultado diametralmente oposto ao do acórdão recorrido, com as respectivas despesas financeiras sendo consideradas necessárias. Assim, neste juízo de cognição sumária, conclui-se pela demonstração da divergência alegada, e, consequentemente, pelo seguimento do recurso com relação ao ponto. 2ª Divergência: “Papel da arrecadação global na determinação da inexistência de prejuízo ao erário” (...) A similitude fática e jurídica com relação ao primeiro paradigma (acórdão nº 1302-003.803) já foi aqui demonstrada, no que diz respeito à necessidade/desnecessidade das despesas financeiras incorridas. Contudo, a recorrente propõe uma “segunda” divergência, com relação a este mesmo paradigma, no que diz respeito à necessidade de se considerar a “arrecadação global” na determinação da existência ou inexistência de “prejuízo ao erário”. Para tanto, baseia-se na premissa de que teria sido demonstrado, no caso concreto, por meio de laudos elaborados por auditoria independente, que a “arrecadação global”, em valores nominais, teria sido maior do que aquela caso as operações não tivessem sido realizadas. Contudo, esta premissa não pode ser confirmada pela leitura do acórdão recorrido, seja porque (i) o voto vencedor, ao afirmar que não entraria no mérito desta valoração, porque estaria fora do objeto da discussão, deixou claro que não avaliou, portanto, a consistência da demonstração apresentada pela recorrente (não permitindo, assim, a confirmação da alegação recursal), seja porque (ii) o voto vencedor, ao reproduzir parte da decisão de primeira instância, acabou por referendar não apenas a afirmação de que um simples “aumento momentâneo” da arrecadação não configura, de fato, efetiva majoração da carga tributária, mas também a demonstração feita pela decisão de piso, no caso concreto, do efetivo prejuízo ao fisco advindo das operações praticadas. (...) Assim, afigura-se irrelevante, para os fins propostos pela recorrente, que o primeiro paradigma tenha concluído pela inexistência de prejuízo ao erário, ao passo que o acórdão recorrido tenha concluído pela existência de tal prejuízo, pois tais conclusões decorrem da análise de prova levada a efeito por cada colegiado, e a divergência jurisprudencial não se estabelece em matéria de prova. Ainda que as operações, na origem, possam ser as mesmas, não necessariamente as respectivas provas o são, e, menos ainda o são as análises conduzidas pelos respectivos colegiados acerca dos elementos de prova contidos aos autos. Assim, a simples existência Fl. 2414DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 5 de conclusões diversas que dessa(s) análise(s) resulte não autoriza, nos termos regimentais, a utilização do recurso especial de divergência à CSRF. O segundo paradigma (acórdão nº 1301-006.176), pelas mesmas razões, igualmente não se presta aos fins propostos. A avaliação quanto à existência (ou não) de “prejuízo ao erário”, a partir do que deva ser computado ou entendido como “arrecadação global”, em cada caso, são evidentemente, questões que envolvem análise de prova, ou seja, questões insuscetíveis de ensejar a admissibilidade do recurso especial. Conclui-se, portanto, que não restou demonstrada a divergência alegada, e, consequentemente, não deve ter seguimento o recurso com relação ao ponto. 3ª Divergência: “Impossibilidade de desconsideração de atos praticados com base em mera alegação de falta de interesse negocial na operação realizada” (...) No caso dos presentes autos, trata-se de glosa de despesas financeiras incorridas em operações de depósito interbancário (DI), sob o fundamento de se tratar de despesas desnecessárias à atividade, em contrariedade ao disposto no art. 299 do RIR/99. No caso do primeiro paradigma (acórdão nº 9101-006.364), por sua vez, a controvérsia gira em torno da glosa de amortização do ágio em operações de reorganização societária, em contrariedade ao disposto no art. 20 do Decreto-lei nº 1.598/77 e/ou nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/97, e legislação correlata, conforme evidenciado até mesmo pela ementa daquele julgado, acima reproduzida, sendo neste contexto fático e jurídico, sem nenhuma semelhança com o caso dos presentes autos, que foi feita a defesa da inaplicabilidade da teoria do propósito negocial. No caso do segundo paradigma (acórdão nº 1401-002.644), os fatos em debate também envolviam a geração de ágio em operações de reorganização societária, mas a autuação fiscal era dirigida especificamente ao ganho de capital na incorporação de ações que deixou de ser apurado pela pessoa jurídica. A legislação tributária lá em debate, portanto, igualmente não guarda nenhuma semelhança, em absoluto, com aquela debatida nos presentes autos. (...) Não há como, a partir de fatos tão dissimilares daqueles debatidos nos presentes autos, extrair-se a pretensa divergência alegada, sendo tal observação aplicável a ambos os paradigmas apresentados. Para agravar ainda mais a situação de inutilidade do segundo paradigma para os fins pretendidos pela recorrente, acrescente-se que nele houve o expresso reconhecimento da existência de propósito negocial válido a respaldar a operação, conforme se pode verificar na própria ementa daquele julgado, ao norte transcrita, bem assim no seguinte excerto do seu voto condutor: As razões apresentadas pela Recorrente para justificar a operação realizada são, a meu ver, absolutamente coerentes e guardam propósito negocial. Nada obstante a recorrente alegue no recurso que o reconhecimento da existência de propósito negocial seria argumento apenas “subsidiário”, e que a inaplicabilidade da teoria do propósito negocial seria o argumento principal e suficiente daquele acórdão, não há como sequer inferir que o resultado daquele julgamento seria o mesmo caso não tivesse havido a comprovação, no entender do colegiado, da existência de propósito negocial (não tributário) na operação, inclusive porque este fundamento constou não apenas do voto vencedor, mas também da própria ementa do julgado. Diante do exposto, conclui-se que não restou demonstrada a divergência alegada, e que, consequentemente, não deve ter seguimento o recurso com relação ao ponto. CONCLUSÃO Pelo exposto, proponho que, nos termos do art. 68 do Anexo II do RICARF/2015, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, seja DADO PARCIAL Fl. 2415DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 6 SEGUIMENTO ao recurso especial do sujeito passivo BANCO BRADESCO CARTÕES S/A, apenas com relação à matéria “Dedutibilidade das despesas decorrentes dos depósitos interfinanceiros resultante da correta interpretação do artigo 299 do RIR/99”. 5.A PGFN apresentou contrarrazões às fls. 2384/2408, combatendo exclusivamente o mérito recursal. 6.É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheiro Jandir José Dalle Lucca, Relator CONHECIMENTO 7.O Recurso Especial é tempestivo, conforme já atestado pelo despacho de admissibilidade, tendo sido admitido exclusivamente em relação à matéria “Dedutibilidade das despesas decorrentes dos depósitos interfinanceiros resultante da correta interpretação do artigo 299 do RIR/99”, em face dos paradigmas 1401-003.729 e 1302-003.803. 8.O litígio envolve a dedutibilidade de despesas financeiras incorridas pelo Banco Bradesco Cartões S/A nos anos-calendário de 2014 e 2015. O objeto central da disputa é a qualificação dessas despesas, que derivaram de operações de Depósitos Interfinanceiros (DI), no contexto de operação que visava a capitalização do Banco do Estado do Rio de Janeiro (Berj). A ação fiscal questionou a dedutibilidade, sob o argumento de que tais dispêndios não atendiam aos requisitos de necessidade, normalidade e usualidade para as atividades empresariais, conforme estabelecido no artigo 299 do RIR/99. 9.O voto vencedor do Acórdão recorrido, de lavra do Conselheiro Paulo Mateus Ciccone, divergiu da Conselheira Relatora Junia Roberta Gouveia Sampaio e manteve os lançamentos fiscais com base nos fundamentos assim resumidos: Conceito de Despesa e sua Dedutibilidade: Distinção entre o conceito contábil de despesa e sua dedutibilidade para fins fiscais: embora um gasto possa ser considerado uma despesa sob a ótica contábil, nem sempre ele será dedutível para fins de Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). o Despesa: define despesa como um decréscimo nos benefícios econômicos que reduz o patrimônio da empresa, citando o “Pronunciamento Técnico CPC 00 – Estrutura Conceitual para a Elaboração e Apresentação das Demonstrações Contábeis”. Também ressalta que as despesas devem ser comprovadas por documentos hábeis e idôneos. Fl. 2416DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 7 o Dedutibilidade: Para serem dedutíveis, as despesas devem atender aos requisitos de necessidade, usualidade e normalidade, conforme previsto no artigo 299 do RIR/99. Análise da Operação e sua Motivação: Enfatiza que a capitalização do Banco do Estado do Rio de Janeiro (BERJ) pelo Banco Bradesco e Bradesco Cartões teve como único propósito o aproveitamento dos prejuízos fiscais acumulados pelo BERJ. o Ausência de Propósito Negocial: A capitalização não visava o desenvolvimento das atividades operacionais do BERJ, mas sim a obtenção de um benefício fiscal, o que descaracterizaria a necessidade das despesas incorridas. o Despesas como Simples Deslocamento de Recursos: As despesas com os depósitos interfinanceiros não correspondiam a uma necessidade real da empresa, mas sim a um deslocamento artificial de recursos dentro do grupo Bradesco, para gerar deduções fiscais. Glosa das Despesas: Com base na análise da operação e de sua motivação, conclui que as despesas com depósitos interfinanceiros não atendiam ao requisito de necessidade estabelecido pelo artigo 299 do RIR/99, justificando a glosa efetuada pelo Fisco. Rejeição do Argumento da "Arrecadação Global": Rejeita o argumento de que a operação, como um todo, não teria causado prejuízo ao Fisco, pois a arrecadação total do grupo Bradesco teria sido maior. Sustenta que a análise deve se concentrar na dedutibilidade das despesas na empresa específica (Bradesco Cartões), e não no resultado consolidado do grupo. Conclusão: As despesas com DI efetuadas pelo Banco Bradesco Cartões para capitalizar o BERJ não se enquadram como despesas necessárias, por terem como objetivo principal o benefício fiscal e não a operação da empresa. 10.Já no paradigma 1401-003.729, infere-se do voto condutor proferido pelo Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues, que os lançamentos fiscais deveriam ser cancelados, em síntese, com lastro nos seguintes fundamentos: Necessidade das Despesas: As despesas financeiras decorrentes dos DI são inerentes às atividades de instituições financeiras e, portanto, usuais e normais. A aquisição do BERJ, embora planejada para aproveitar o prejuízo fiscal, também tinha motivações extrafiscais, como a administração da folha de pagamento do estado do Rio de Janeiro e a exploração de serviços de arrecadação de tributos estaduais. Fl. 2417DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 8 Ativos do BERJ: Aponta que o BERJ possuía dois ativos relevantes: o "estoque" de prejuízo fiscal e base negativa da CSLL, e o contrato de prestação de serviços de processamento de folha de pagamento e outras avenças com o Estado do Rio de Janeiro. A aquisição do BERJ não foi motivada apenas pelo benefício fiscal. Resolução BACEN: Destaca que a regulamentação do Banco Central do Brasil (BACEN) reconhece a utilização de créditos tributários como medida de boa gestão financeira para instituições financeiras. Finalidade das operações: Considera que as operações de aumento de capital e empréstimos visavam melhorar a saúde financeira do BERJ e não tinham como único propósito a economia tributária. Aduz que o Banco Bradesco tinha planos para o BERJ, incluindo a criação de uma carteira de arrendamento mercantil. A redução de capital do BERJ também foi justificada pela necessidade de levantar fundos para a aquisição do HSBC Bank Brasil. Rejeição da Glosa: Conclui que as despesas com DI eram operacionais e, portanto, dedutíveis da base tributária. Não há razão para afastar a regra do artigo 299 do RIR/99, exonerando o Banco Bradesco dos lançamentos de ofício do IRPJ e CSLL. 11.Em resumo, o paradigma 1401-003.729 concluiu que as despesas com DI foram necessárias, usuais e normais dentro do contexto da atividade de uma instituição financeira e das operações realizadas pelo Banco Bradesco, que não visavam apenas o benefício fiscal, mas também outros objetivos de negócio relacionados à aquisição do BERJ e seus ativos, tendo concluído que a fiscalização errou ao desconsiderar esses elementos e focar apenas no suposto objetivo de economia tributária. 12.A seu turno, o Acórdão 1302-003.803, conforme se verifica da leitura do voto vencedor do Conselheiro Ricardo Marozzi Gregorio, adotou a seguinte fundamentação: Planejamento Tributário e Inoponibilidade: Reconhece que é correto declarar a inoponibilidade de operações de planejamento tributário ao Fisco quando o propósito de economia tributária é claramente demonstrado. No entanto, adverte que é preciso ter cuidado para não banalizar essa desconsideração. Necessidade de Análise do "Conjunto da Obra": Enfatiza que a análise dos fatos deve considerar o "conjunto da obra", ou seja, todas as operações e seus efeitos, e não apenas partes isoladas. Cita Marco Aurélio Greco, ressaltando que a desconsideração de atos ou negócios jurídicos pelo Fisco deve ser consistente. Fl. 2418DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 9 Crítica à Atuação do Fisco: Critica a atuação do Fisco, que teria optado por desconsiderar os efeitos favoráveis ao erário, levando em conta apenas as consequências pontuais e desfavoráveis. O Fisco deve considerar a arrecadação global do tributo e a dedutibilidade de uma despesa deve ser aceita sempre que representar receita tributável na outra parte contratante. Consistência da Desconsideração: Afirma que o ato de desconsideração deve ser consistente tanto objetiva quanto subjetivamente. Isso significa que a desconsideração não pode ser feita de forma seletiva, alcançando apenas alguns atos, pessoas ou tributos, de acordo com a conveniência do Fisco. A desconsideração deve aplicar-se a todas as partes envolvidas e assegurar tanto as consequências favoráveis ao Fisco quanto as favoráveis ao contribuinte. Reconhecimento dos Créditos Decorrentes dos Tributos Pagos: Argumenta que, ao desconsiderar determinadas operações, o Fisco deve também reconhecer os créditos decorrentes dos tributos pagos em função dessas mesmas operações. Ele destaca que a caracterização do planejamento tributário depende da compreensão dos fatos numa perspectiva organizacional, e seus efeitos devem ser considerados em sua plenitude. Aumento da Arrecadação Tributária: Menciona que os cálculos apresentados pela Recorrente demonstram que a soma dos tributos (IRPJ e CSLL) devidos pelas três instituições financeiras envolvidas (Banco Bradesco, Bradesco Cartões e BERJ) superou a soma que seria apurada se as operações não tivessem sido realizadas. Este ponto reforça a crítica de que o Fisco não considerou o "conjunto da obra". Necessidade de Recomposição do Lucro Tributável: Aborda a questão da necessidade de recomposição do lucro tributável em função dos saldos negativos apurados no ano-base 2012. Argumenta que, em vez de exigir tributos diretamente sobre o montante das despesas glosadas, o Fisco deveria ter se limitado a reduzir os saldos negativos, conforme a jurisprudência administrativa. 13.Em síntese, o paradigma 1302-003.803 entendeu que a análise de um planejamento tributário deve ser feita de forma abrangente, considerando todos os seus aspectos e efeitos, tanto os favoráveis quanto os desfavoráveis ao Fisco. O relator criticou a postura do Fisco de selecionar apenas os aspectos negativos e de ignorar a arrecadação global, argumentando que a desconsideração de um ato ou negócio deve ser consistente e abranger todas as partes envolvidas, reconhecendo todos os efeitos tributários. 14.Pois bem, as partes e as operações que geraram as despesas financeiras glosadas nos acórdãos recorrido e paradigmas são essencialmente as mesmas. Todas as três decisões Fl. 2419DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 10 discutem as mesmas operações, que envolveram o Banco Bradesco, o Bradesco Cartões e o BERJ. Em todos os casos, a questão fulcral é a dedutibilidade das despesas financeiras decorrentes de operações de DI utilizadas para capitalizar o BERJ. 15.Há similaridade na forma como a fiscalização entendeu as operações, considerando-as artificiais e sem propósito negocial, visando apenas a economia tributária. As operações de DI entre as empresas do grupo Bradesco, a capitalização do BERJ e o uso dos prejuízos fiscais acumulados pelo BERJ são elementos comuns a todos os casos. 16.A semelhança do contexto jurídico analisado também é flagrante. A discussão sobre a interpretação do artigo 299 do RIR/99, que define as despesas operacionais como aquelas necessárias, usuais e normais, é central em todos os acórdãos. A controvérsia acerca do conceito de "necessidade" da despesa, se deve ser analisado objetiva ou subjetivamente, é um ponto comum. A discussão sobre a possibilidade de desconsiderar atos ou negócios jurídicos é presente nas três decisões. A aplicação de princípios contábeis também é debatida nos três casos. 17.Anote-se que, apesar de o voto vencedor do Acórdão recorrido não fazer menção ao contrato de prestação de serviços de processamento de folha de pagamento e outras avenças mantido pelo BERJ com o Estado do Rio de Janeiro, que foi considerado elemento relevante pelo paradigma 1401-003.729 como indicativo de que a aquisição não foi motivada apenas pelo benefício fiscal, tal aspecto foi tratado pelo voto vencido da Conselheira Junia Roberta Gouveia Sampaio, inclusive destacando o reconhecimento da PGFN a seu respeito. Confira-se o seguinte trecho: Por fim, a PGFN alega, em suas contra-razões, que dos dois ativos do BERJ que teriam despertado o interesse do Grupo Bradesco (estoque de prejuízos e contrato de prestação de serviço de processamento da folha de pagamentos firmado com o Estado do Rio de Janeiro) “ apenas o contrato de prestação de serviços poderia figurar como um elemento do ativo propício a gerar atividades operacionais, uma vez que o “ativo fiscal” consiste apenas em uma rubrica contábil com finalidade exclusivamente fiscal, pois serve apenas para reduzir o montante de IRPJ e CSLL a pagar” 18.Assim, dúvidas não há de que os Acórdãos paradigmas apresentam similitudes fáticas e jurídicas com o Acórdão recorrido. As operações são as mesmas, a questão principal é idêntica, e as bases legais usadas para decidir também são equivalentes. No entanto, a interpretação dessas operações e da legislação de regência é distinta, o que configura dissidência interpretativa apta a autorizar o trânsito do Recurso especial. 19.Tendo isso em vista e por concordar com o juízo prévio de admissibilidade, reconheço a divergência jurisprudencial nos moldes do despacho de fls. 3046/3053. CONCLUSÃO 20.Ante o exposto, conheço do Recurso Especial. MÉRITO Fl. 2420DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 11 21.O litígio teve origem em uma ação fiscal que questionou a dedutibilidade das despesas com DI, sob o argumento de que tais dispêndios não atendiam aos requisitos de necessidade, normalidade e usualidade para as atividades empresariais, conforme estabelecido no artigo 299 do Regulamento do Imposto de Renda de 1999. A fiscalização entendeu que a operação de DI realizada entre o Banco Bradesco e o Bradesco Cartões, que culminou na capitalização do BERJ, era artificial e sem propósito negocial genuíno, configurando uma manobra para reduzir a carga tributária. 22.A acusação fiscal entendeu que o Bradesco Cartões captava recursos do Banco Bradesco por meio de DI e os direcionava para o BERJ, retornando para o Bradesco Cartões via recebimento de juros sobre o capital emprestado, configurando um deslocamento artificial de resultados entre as empresas do grupo. A autoridade fiscal também concluiu que a operação não se enquadrava no conceito de despesa necessária, pois o Bradesco Cartões não necessitava efetivamente de recursos para o fechamento de seu caixa, e que a operação foi realizada apenas para fins de economia tributária. 23.O Recorrente debruça-se na interpretação do artigo 299 do RIR/99, que define as despesas operacionais dedutíveis para fins de apuração do Lucro Real, buscando demonstrar que as despesas com Depósitos Interfinanceiros (DIs) se enquadram nesse conceito, e, portanto, são dedutíveis. 24.Para o Recorrente, o conceito de necessidade não pode se basear em critérios subjetivos do Fisco, mas sim em critérios objetivos, relacionados com a incrementação operacional e econômica da empresa. Critica a interpretação do Acórdão recorrido, que entende como despesas necessárias apenas aquelas sem as quais a empresa não pode prosseguir. Essa interpretação subjetiva, segundo o Recorrente, gera insegurança jurídica, pois diferentes fiscais poderiam chegar a conclusões conflitantes. A necessidade deve ser analisada objetivamente, de acordo com os termos do artigo 299 do RIR/99. Nessa ordem de ideias, a despesa necessária está diretamente relacionada ao incremento operacional e econômico da empresa, e não necessariamente precisa ser usual ou normal. 25.Defende que os Depósitos Interfinanceiros (DIs) são instrumentos de captação de recursos entre instituições financeiras. Destaca que a Resolução nº 3.399 do Banco Central regulamenta a captação e realização de DIs por diversas instituições financeiras. Assim, são operações normais e usuais no mercado financeiro. Além disso, a participação no capital de outras sociedades, especialmente financeiras, é inerente aos objetivos sociais das instituições financeiras, conforme a Resolução BACEN nº 2.723/00. 26.Argumenta que os encargos financeiros decorrentes das operações de captação de recursos, como os DIs, são despesas necessárias e dedutíveis. Independentemente do motivo que justifique a operação (carência de recursos, política financeira, etc.), em geral, são despesas provenientes da atividade da empresa. Fl. 2421DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 12 27.Cita o Acórdão nº 101-91.286, que analisou a dedutibilidade de despesas financeiras em casos de empréstimos tomados para remessas de capital a empresas estrangeiras. A decisão reconheceu o direito à dedução, se não comprovado que os recursos não foram utilizados no interesse da sociedade. Da mesma forma, acórdãos como o 1401-00.344 e o 1401- 002.066 consideraram dedutíveis as despesas financeiras quando os recursos são destinados ao aumento de capital de controladas ou a adiantamento para futuro aumento de capital (AFAC). 28.Também menciona que holdings puras podem diferir a dedução das despesas de captação para o momento da realização do investimento. No entanto, como não se trata de holding pura, as despesas em questão são dedutíveis por regime de competência, sem o diferimento da dedução. 29.Em suma, o Recorrente busca demonstrar que as despesas com DIs são necessárias à atividade da empresa, usuais e normais no setor financeiro. O argumento é que a operação de captação de recursos via DI e a subsequente subscrição de ações do BERJ foram atos válidos dentro da atividade empresarial e as despesas financeiras daí decorrentes devem ser consideradas dedutíveis para fins de apuração do IRPJ e CSLL. Neste ponto, ressalta que a fiscalização não questionou a efetividade da captação de recursos nem a subscrição de capital no BERJ, mas tão somente a intenção por trás das operações. 30.De outro lado, as contrarrazões apresentadas pela PGFN buscam manter o Acórdão recorrido, defendendo a não dedutibilidade das despesas com Depósitos Interfinanceiros (DI) incorridas pelo Bradesco Cartões, nos anos-base de 2014 e 2015. A argumentação gira em torno do não cumprimento dos requisitos de necessidade, normalidade e usualidade dessas despesas, conforme o artigo 299 do RIR/99. 31.Os principais pontos defendidos pela Procuradoria são: Requisitos do Artigo 299 do RIR/99: As contrarrazões enfatizam que, para serem consideradas dedutíveis, as despesas operacionais devem ser necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, além de serem usuais e normais. A usualidade é interpretada como a habitualidade, ou seja, despesas corriqueiras ao tipo de negócio do contribuinte. A Procuradoria alega que os gastos com os depósitos interbancários do Bradesco Cartões não se enquadram nesses requisitos. Ausência de Propósito Negocial: A Procuradoria argumenta que a operação envolvendo os DIs teve como única finalidade reduzir a carga tributária das empresas participantes, e não um propósito negocial legítimo. Operação Artificial: O Fisco considera que a operação foi artificial, pois o Bradesco já possuía os recursos, e a movimentação financeira serviu apenas para o aproveitamento de prejuízo fiscal do BERJ. A Procuradoria destaca que o dinheiro retornou ao Banco Bradesco em poucos dias, restando Fl. 2422DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 13 apenas a utilização dos prejuízos fiscais e as despesas financeiras para abatimento do IRPJ e da CSLL. Desnecessidade da Despesa: As contrarrazões apontam que a despesa com os DIs não era necessária para o Bradesco Cartões, já que os recursos para a capitalização do BERJ já pertenciam ao controlador do grupo, o Banco Bradesco. A Procuradoria questiona qual a necessidade da despesa para o Bradesco Cartões, visto que os recursos utilizados já eram do grupo. Finalidade Exclusiva de Aproveitamento de Prejuízo Fiscal: A Procuradoria sustenta que o único objetivo da capitalização do BERJ foi o aproveitamento do seu estoque de prejuízo fiscal e base negativa de CSLL. Argumenta que a recorrente não apresentou nenhuma razão negocial plausível para o aumento de capital do BERJ. Inconsistências na Capitalização do BERJ: São apontadas inconsistências na operação de capitalização do BERJ, como a ausência de justificativa nas atas das assembleias gerais para o aporte de R$ 46 bilhões e a falta de demonstração de que o BERJ demandava recursos para suas atividades negociais. O Fisco questiona por que o Bradesco Cartões teve que participar da operação se o Banco Bradesco já detinha os recursos. Depósitos Interfinanceiros como Título de Renda Fixa: A Procuradoria ressalta que os DIs são títulos negociados entre instituições financeiras para fechamento de caixa. Questiona se a operação realizada entre as empresas do Grupo Bradesco atendeu à lógica negocial desses títulos. Discussão sobre a "Arrecadação Global do Tributo": A Procuradoria critica a tentativa do contribuinte de considerar o impacto das receitas financeiras do BERJ para fins de dedutibilidade das despesas do Bradesco Cartões. Afirma que a legislação tributária se volta para a base tributária das pessoas jurídicas que incorreram nas despesas, e não para avaliação de receitas. A Procuradoria considera problemática a discussão sobre a "arrecadação global do tributo", pois depende dos aspectos que cada parte selecionará para fundamentar seu ponto de vista. Inaplicabilidade do Parecer Normativo CST 50/76: A Procuradoria argumenta que o Parecer Normativo CST 50/76, mencionado pelo contribuinte, não é pertinente ao caso, pois trata de despesas em situações de risco, enquanto as operações de DI entre as empresas do grupo não envolviam risco. Ausência de Razão Negocial no BERJ: A Procuradoria também argumenta que não houve razão negocial para o aporte de capital no BERJ, pois o único ativo relevante da empresa era o contrato de prestação de serviço de Fl. 2423DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 14 processamento de folha de pagamento, e não o "ativo fiscal" (prejuízo fiscal e base negativa de CSLL). A Procuradoria alega que a capitalização do BERJ não tinha como objetivo o desenvolvimento de atividades operacionais, mas apenas o aproveitamento do prejuízo fiscal. Necessidade da Despesa sob a Perspectiva da Lei: A Procuradoria argumenta que a despesa deve ser analisada sob a perspectiva da legislação do IRPJ e da CSLL, ou seja, cabe ao contribuinte demonstrar que o endividamento era essencial para sua atividade produtiva. A mera alegação de que o Bradesco Cartões tem como atividade realizar investimentos em outras empresas não é suficiente para legitimar as operações. 32.Ou seja, a Procuradoria basicamente defende que as despesas com os DIs não foram necessárias, usuais ou normais para o Bradesco Cartões, e que a operação teve como objetivo principal o aproveitamento do prejuízo fiscal do BERJ. As contrarrazões enfatizam que a operação não reflete o que normalmente acontece em captações de recursos via DIs, e que as despesas não podem ser deduzidas da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. 33.Pois bem, o deslinde das questões controvertidas nos autos demanda o exame da dedutibilidade de despesas financeiras decorrentes de operações com depósitos interfinanceiros (DI) realizadas entre instituições financeiras do mesmo grupo econômico. 34.A legislação tributária, especialmente o art. 299 do RIR/99, estabelece que são dedutíveis as despesas operacionais necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, desde que usuais, normais e comprovadamente vinculadas à produção ou comercialização dos bens e serviços. Confira-se: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3º O disposto neste artigo aplica-se também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. 35.No caso ados autos, os dispêndios questionados referem-se a despesas financeiras incorridas em operações de depósito interfinanceiro diretamente relacionadas às atividades operacionais da instituição, especialmente porque os recursos captados foram efetivamente utilizados na subscrição de ações, operação prevista em seu objeto social. 36.De proêmio, cumpre reconhecer a impossibilidade de a autoridade administrativa desconsiderar atos ou negócios jurídicos com base em uma interpretação meramente econômica, conforme bem destacado pela Ministra Cármen Lúcia (Relatora), no conhecido voto proferido por ocasião do julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 2.446/DF, via da qual o Pretório Excelso reconheceu a constitucionalidade da inclusão do Fl. 2424DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 15 parágrafo único ao artigo 116 do Código Tributário Nacional, pela Lei Complementar nº 104, de 2001. 37.Vale dizer, o parágrafo único do art. 116 do CTN se destina a combater a evasão fiscal, isto é, a ocultação de fatos geradores já ocorridos, e não a elisão fiscal, que é a organização das atividades de forma a reduzir licitamente a carga tributária. A norma não proíbe o contribuinte de buscar, pelas vias legítimas e comportamentos coerentes com a ordem jurídica, economia fiscal. 38.A interpretação econômica, que tem por efeito a tributação com base no conteúdo econômico dos atos e não na forma jurídica, não tem respaldo no direito tributário brasileiro. A interpretação jurídica do fato é o único critério válido para a tributação. O direito tributário possui autonomia e constrói sua realidade, seu objeto e suas categorias, não dependendo de conceitos de outras disciplinas, como a economia e a própria contabilidade, que podem ou não ser incorporados, dependendo da vontade do legislador. Nesse sentido, a busca pela menor carga tributária por meio de atos lícitos não pode ser considerada como simulação ou dissimulação do fato gerador. 39.O fisco deve respeitar rigorosamente o disposto na legislação, não podendo desconsiderar as formas legais adotadas pelo contribuinte para fazer prevalecer outra, à sua escolha, que implique maior arrecadação. Além disso, a simulação do negócio jurídico só se configura em casos específicos, como a transmissão de direitos a pessoas diversas das que realmente se pretende, declaração não verdadeira ou documentos antedatados, nos termos do art. 167 do Código Civil. 40.Ademais, as despesas financeiras decorrentes das operações de DI eram necessárias à atividade da empresa, sendo usual e normal esse tipo de operação entre instituições financeiras. Foi demonstrado que os recursos captados foram efetivamente utilizados na subscrição das ações da empresa controlada, comprovando a correlação entre as despesas e a atividade empresarial. 41.A participação em outras empresas constitui atividade legítima das companhias, conforme previsto no §3º do artigo 2º da Lei nº 6.404, de 1976. No caso específico das instituições financeiras, a matéria encontrava-se disciplinada, à época dos fatos, pela Resolução CMN nº 2.723/2000, que regulamentava as condições e procedimentos para participação societária. 42.Assim, a captação de recursos junto a terceiros, com vistas à realização de um investimento em empresa ligada, configura operação usual no mercado financeiro, devendo ser admitida sua dedutibilidade quando não há qualquer questionamento acerca de sua aplicação no interesse da companhia. 43.Vale ressaltar que o prejuízo fiscal é um direito do contribuinte, não havendo obrigatoriedade legal quanto à sua compensação, que poderá ser exercida segundo a conveniência do contribuinte, conforme expressamente previsto no §2º do artigo 64 do Decreto- Lei nº 1.598/1977. Fl. 2425DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 16 44.Ademais, o item 13 do CPC 32 (reconhecimento de passivos e ativos fiscais correntes) estabelece expressamente que "o benefício referente a um prejuízo fiscal que pode ser compensado para recuperar o tributo corrente de um período anterior deve ser reconhecido como ativo". 45.Essas razões se encontram minudenciadas no voto vencido que proferi no Acórdão nº 1402-006.744, ocasião em examinei as mesmas operações aqui ventiladas, cujos fundamentos ora reitero, inclusive no que toca à adoção das razões de decidir constantes do voto vencedor proferido pelo Conselheiro Ricardo Marozzi Gregorio no Acórdão nº 1302-003.803, um dos paradigmas aqui admitidos, a saber: 15.As operações em espeque, que contaram com a participação do Recorrente e que ensejaram as despesas financeiras glosadas pela fiscalização, podem ser assim resumidas: em 20.05.2011, o Banco Bradesco S/A adquiriu em leilão público 96,23% do capital total do Banco Berj S/A (posteriormente denominado Banco Bradesco Berj S/A). A partir de então, o Berj passou a integrar o Grupo Bradesco, de modo que, suas operações passaram a ser conduzidas de forma integrada a um conjunto de empresas que atuam nos mercados financeiros e de capitais. embora não refletidos no balanço patrimonial, o Berj dispunha de dois ativos relevantes. Um, o direito de administrar a folha do funcionalismo do estado do Rio de Janeiro pelo prazo de três anos. Dois, o crédito tributário decorrente de prejuízo fiscal acumulado de R$ 2,7 bilhões e base negativa da CSLL acumulada de R$ 3,6 bilhões. em 22.05.2012, o Banco Bradesco S/A adquiriu, por meio de leilão realizado na BM&F Bovespa, o restante das ações de acionistas minoritários, de modo a deter a partir daí a totalidade do capital social do Berj. no total, o Bradesco pagou R$ 1,18 bilhões por um valor patrimonial de R$ 29,06 milhões. em AGE de 08.10.2012 o Banco Bradesco aprovou aumento do capital social do Berj, no valor de R$ 23 bilhões, subscreveu e integralizou em moeda corrente nacional R$ 15,50 bilhões e cedeu ao Recorrente (Bradesco Cartões) o direito de subscrição da diferença de R$ 7,50 bilhões, integralizado em moeda corrente nacional. em AGE de 10.10.2012, os acionistas Banco Bradesco e Bradesco Cartões aprovaram novo aumento do capital social do Berj, no valor de R$ 23,00 bilhões. O Banco Bradesco subscreveu e integralizou em moeda corrente nacional R$ 15,50 bilhões e o Bradesco Cartões subscreveu e integralizou em moeda corrente nacional R$ 7,50 bilhões. em decorrência das capitalizações, Banco Bradesco e Bradesco Cartões passaram a deter, respectivamente, 67,44% e 32,56% do capital total do Berj, que, em 31.12.2012, era de R$ 50,22 bilhões. para integralizar os aumentos de capital do Berj, o Bradesco Cartões captou R$ 15 bilhões em depósitos interfinanceiros (DI) junto ao Banco Bradesco, em operações realizadas entre 8 a 11 de outubro de 2012. em AGE de 26.02.2014, o Banco Bradesco aumentou o capital social da controlada Dueville Holdings S/A, CNPJ nº 14.469.641/0001-02, em Fl. 2426DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 17 R$ 35,62 bilhões e integralizou-o mediante conferência, dentre outros bens, com sua participação societária no Berj avaliada em R$ 33,43 bilhões. em 28.02.2014, a Dueville foi incorporada pelo Bradesco Cartões, de modo que o Banco Bradesco manteve a integral participação do Bradesco Cartões e este passou a deter a integral participação acionária do Berj. em suma, por meio dessas operações societárias, o Banco Bradesco transferiu sua participação societária no Berj para o Bradesco Cartões. em AGE de 17.11.2015, o acionista Bradesco Cartões aprovou a redução do capital social do Berj em R$ 49,20 bilhões, com a justificativa de ajustar o valor do capital próprio da sociedade por ser excessivo às suas efetivas necessidades. Do total da redução, R$ 45,78 bilhões seria concretizada em moeda corrente nacional e R$ 3,40 bilhões mediante transferência de títulos e valores mobiliários. Após essas alterações, o capital social do Berj passou a R$3,08 bilhões, suficiente, segundo foi deliberado, para alcançar os objetivos sociais da sociedade. em AGE de 17.11.2015, o único acionista Banco Bradesco aprovou redução do capital social do Bradesco Cartões em R$37,20 bilhões, com a justificativa de ajustar o valor do capital próprio da sociedade por ser excessivo às suas efetivas necessidades. Do total da redução, R$ 33,59 bilhões seria concretizada em moeda corrente nacional e R$ 3,40 bilhões mediante transferência de títulos e valores mobiliários. Após as alterações, o capital social do Bradesco Cartões foi reduzido à cifra de R$ 1,16 bilhões, que, segundo o acionista, era suficiente à realização dos objetivos sociais da sociedade. 16.Pois bem, recentemente o Supremo Tribunal Federal julgou improcedente a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 2.446/DF, via da qual reconheceu a constitucionalidade da inclusão do parágrafo único ao artigo 116 do Código Tributário Nacional, pela Lei Complementar nº 104, de 2001. O referido dispositivo se encontra assim enunciado: Art. 116. Omissis. (...) Parágrafo único. A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária. 17.Do voto da Ministra Cármen Lúcia (Relatora) se destacam os seguintes excertos sobre a injuridicidade da adoção de interpretação econômica como elemento configurador da dissimulação da ocorrência do fato gerador: 6. (...) Ressalte-se, de pronto, ter sido a norma impugnada incluída no dispositivo do Código Tributário que estabelece quando se tem por ocorrido o fato gerador com seus efeitos, qual seja, o art. 116. O parágrafo único acrescido ao art. 116 dispõe que “a autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária” Fl. 2427DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 18 O fato gerador ao qual se refere o parágrafo único do art. 116 do Código Tributário Nacional, incluído pela Lei Complementar n. 104/2001, é, dessa forma, aquele previsto em lei. Faz-se necessária, assim, a configuração de fato gerador que, por óbvio, além de estar devidamente previsto em lei, já tenha efetivamente se materializado, fazendo surgir a obrigação tributária. Assim, a desconsideração autorizada pelo dispositivo está limitada aos atos ou negócios jurídicos praticados com intenção de dissimulação ou ocultação desse fato gerador. O parágrafo único do art. 116 do Código não autoriza, ao contrário do que argumenta a autora, “a tributação com base na intenção do que poderia estar sendo supostamente encoberto por um forma jurídica, totalmente legal, mas que estaria ensejando pagamento de imposto menor, tributando mesmo que não haja lei para caracterizar tal fato gerador” (fl. 3, e-doc. 2, grifos nossos). Autoridade fiscal estará autorizada apenas a aplicar base de cálculo e alíquota a uma hipótese de incidência estabelecida em lei e que tenha se realizado. Tem-se, pois, que a norma impugnada visa conferir máxima efetividade não apenas ao princípio da legalidade tributária mas também ao princípio da lealdade tributária. Não se comprova também, como pretende a autora, retirar incentivo ou estabelecer proibição ao planejamento tributário das pessoas físicas ou jurídicas. A norma não proíbe o contribuinte de buscar, pelas vias legítimas e comportamentos coerentes com a ordem jurídica, economia fiscal, realizando suas atividades de forma menos onerosa, e, assim, deixando de pagar tributos quando não configurado fato gerador cuja ocorrência tenha sido licitamente evitada, (...) 8.A norma do parágrafo único do art. 116 não dispõe, ao contrário do pretendido pela autora, de espaço autorizado de interpretação econômica. Ali não se trata da interpretação da lei, o que se dá no Capítulo IV do Código Tributário Nacional intitulado “Interpretação e Integração da Legislação Tributária”. Tem-se no artigo 110: “A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias.” Esse dispositivo não foi alterado pela Lei Complementar n. 104/2001. 9.De se anotar que elisão fiscal difere da evasão fiscal. Enquanto na primeira há diminuição lícita dos valores tributários devidos pois o contribuinte evita relação jurídica que faria nascer obrigação tributária, na segunda, o contribuinte atua de forma a ocultar fato gerador materializado para omitir-se ao pagamento da obrigação tributária devida. A despeito dos alegados motivos que resultaram na inclusão do parágrafo único ao art. 116 do CTN, a denominação “norma antielisão” é de ser tida como inapropriada, cuidando o dispositivo de questão de norma de combate à evasão fiscal. (...) Fl. 2428DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 19 18.No mesmo sentido, confira-se a lição sempre segura de Paulo de Barros Carvalho 1 : (...) os fatos, assim como toda construção de linguagem, podem ser observados como jurídicos, econômicos, antropológicos, históricos, políticos, contábeis etc.; tudo dependendo do critério adotado pelo corte metodológico empreendido. Existe interpretação econômica do fato? Sim, para os economistas. Existirá interpretação contábil do fato? Certamente, para o contabilista. No entanto, uma vez assumido o caráter jurídico, o fato será, única e exclusivamente, fato jurídico; e claro, fato de natureza jurídica, não-econômica ou contábil, entre outras matérias. Como já anotado, o Direito não pede emprestado conceitos de fatos para outras disciplinas. Ele mesmo constrói sua realidade, seu objeto, suas categorias e unidades de significação. O paradoxo inevitável, e que causa perplexidade no trabalho hermenêutico, justifica a circunstância do disciplinar levar ao interdisciplinar e este último fazer retornar ao primeiro. Sem disciplinas, portanto, não teremos as interdisciplinas; mas o próprio saber disciplinar, em função do princípio da intertextualidade, avança na direção dos outros setores do conhecimento, buscando a indispensável complementariedade. Tanto o jurídico quanto o econômico fazem parte do domínio social e, por ter este referente comum, justifica-se que entre um e outro haja aspectos ou áreas que se entrecruzem, podendo ensejar uma tradução aproximada e, em parâmetros mais amplos, uma densa e profícua conversação. (...) 19.Ives Gandra da Silva Martins é categórico 2 : (...) Tenho para mim que o artigo 150 inciso I da Constituição Federal não é apenas repetitivo do art. 5º inc. II, mas explicitador de que ao Fisco cabe a espada da imposição, nos estritos limites do que a Constituição lhe permite, e, ao contribuinte, defender-se com o escudo da lei suprema para que não seja obrigado a submeter-se a exigências indevidas. Pretende, todavia, o Fisco suprir as omissões legislativas por interpretações econômicas, superativas da lei formal. Porém, em direito tributário, não cabe a interpretação econômica. Sendo o tributo uma norma de rejeição social (Teoria da Imposição Tributária, Ed. LTR, 2ª. ed., 1998), deve o Fisco respeitar, rigorosamente, o disposto na legislação para exigir os tributos constitucionalmente devidos, não podendo jamais desconsiderar, superar, eliminar as formas legais e legitimamente adotadas pelo contribuinte, para fazer prevalecer outra, à sua escolha, que implique maior arrecadação. (...) 20.Segundo ensina Ingrid Aragão Freitas Porto, “Na interpretação econômica o que importa na verificação da existência de relação jurídica tributária é o seu conteúdo econômico, e não a forma jurídica. O que importa não é o fato gerador, mas a capacidade contributiva. Assim, se um ato do contribuinte não estiver previsto legalmente como fato gerador, mas os seus efeitos econômicos forem similares aos de fatos geradores, então, pode esse ato ser tributado, a despeito de não estar tipificado” 3 . 21.Depreende-se, desse modo, que não é dado à autoridade administrativa “desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da Fl. 2429DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 20 obrigação tributária” (cfe. parágrafo único do art.116 do CTN), mediante uma interpretação meramente econômica. 22.Ressalte-se que a “economia lícita de tributos obtida através da organização das atividades do contribuinte, de sorte que sobre elas recaia o menor ônus possível” revela, para Hugo de Brito Machado, técnica de elisão fiscal 4 . Já evasão fiscal, nas palavras de Luis Flávio Neto, “se constitui a partir do momento que se verifica a utilização pelo contribuinte de práticas expressamente proibidas pelo ordenamento jurídico, com o objetivo de evitar, minorar ou retardar o pagamento de tributos” 5 . 23.Portanto, o simples fato de o contribuinte poder alcançar o mesmo resultado mediante a adoção de uma determinada forma jurídica, dentre tantas outras à sua disposição, desde que lícita, não basta para a desconsideração das operações praticadas, independentemente de se submeterem à menor carga tributária, visto que tal estratégia não configura evasão, mas sim elisão fiscal. 24.De outra parte, cabe retirar do oblívio o disposto no artigo 167 do Código Civil, que soa: Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. § 1º. Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I - aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; II - contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III - os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós-datados. § 2º. Ressalvam-se os direitos de terceiros de boa-fé em face dos contraentes do negócio jurídico simulado. 25.Assim, apenas será considerado simulado, e portanto nulo, o negócio jurídico que aparentar conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; contiver declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; ou se os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós- datados, situações que evidentemente não coincidem com as que estão retratadas nos autos. 26.A r. decisão recorrida encampou as considerações da autoridade lançadora quanto à falta de motivação razoável para o aporte de capital de R$ 46 bilhões realizado em 2012, destinado que foi a aplicações no então controlador Banco Bradesco, para então concluir pela inexistência de falta de propósito negocial. Confiram-se os trechos a seguir: (...) O fundamento principal utilizado pela autoridade autuante foi no sentido do não cumprimento dos requisitos exigidos pela legislação tributária para que uma despesa possa ser deduzida da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Para embasar essa conclusão, a fiscalização apontou, como um dos indícios, o fato que “tão logo o BERJ compensou o crédito tributário representado pelos saldos de prejuízo fiscal e base negativa de CSLL, seu único sócio promoveu a redução do capital em R$ 49,2 bilhões, encerrou as aplicações em DI no Banco Bradesco e manteve o capital social no nível de R$ 3,08 bilhões, suficiente para realizar os objetivos sociais do banco. Deflui daí que, do ponto de vista operacional, não havia justificativa razoável para um aporte de capital de R$ 46 bilhões em 2012 destinado que foi a aplicações no então controlador Banco Bradesco”. (...) Fl. 2430DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 21 A interessada limita-se a argumentar que os certificados de depósitos interfinanceiros (CDI) são instrumentos típicos de captação de recursos e são negociados entre instituições financeiras. E prossegue afirmando que esse tipo de operação acontece, inclusive entre empresas ligadas. Além disso, ressalta que foram aplicadas taxas de mercado nas CDI emitidas por ela e adquiridas pelo Banco Bradesco, o que evidenciaria a normalidade da operação. Entretanto, não remanesce esclarecido qual a necessidade das despesas, considerando que os recursos financeiros obtidos junto ao Banco Bradesco retornaram ao referido Banco mediante aplicação pelo BERJ em depósitos interfinanceiros, ou seja, não foi demonstrado que o endividamento era essencial para a sua atividade produtiva; do mesmo modo, não foi elucidado como uma operação nos moldes realizados seria normal e usual. (...) Contudo, verifica-se um descompasso entre a operação realizada e o que deve ser esperado de uma capitalização de uma empresa. O pressuposto para o aumento de capital é permitir que uma pessoa jurídica desempenhe a sua atividade operacional e não viabilizar o exercício de um pretenso direito a um benefício fiscal. Isso é o que se mostra consentâneo com as práticas e a lógica dos negócios. Longe de justificar o investimento no BERJ, as alegações da interessada apenas corroboram a falta de propósito negocial na capitalização: a finalidade era permitir a utilização de estoques de prejuízo fiscal e base de cálculo negativa da CSLL. (...) 27.Todavia, verifica-se no item 9 do Termo de Verificação Fiscal de fls. 2370/2385, que os recursos aportados pelo Bradesco Cartões no BERJ, a título de aumento de capital, não retornaram ao Recorrente (Bradesco Cartões), uma vez que os CDIs emitidos pelo BERJ foram adquiridos exclusivamente pelo Bradesco. Confira-se: (9-) No período compreendido entre os aportes de capital no Berj e as reduções de capital do próprio Berj e do Bradesco Cartões, ou seja, entre outubro de 2012 e novembro de 2015, destacam-se duas operações financeiras singulares e vultosas realizadas por essas empresas. A primeira foi a captação pelo Bradesco Cartões de R$ 15,00 bilhões em DI, junto ao Banco Bradesco, para integralizar os aumentos de capital do Berj. A segunda foi a captação pelo Banco Bradesco de R$ 46 bilhões, junto ao Berj, por meio da emissão de depósitos interfinanceiros (DI). Por meio dessas operações, realizadas entre os dias 8 a 11 de outubro de 2012, os recursos financeiros utilizados pelo Banco Bradesco para aumentar o capital social do Berj, direta e indiretamente via Bradesco Cartões, a ele retornaram, tendo produzido ao longo desses anos receitas ao Banco Bradesco e despesas financeiras ao Bradesco Cartões (primeira operação) e despesas financeiras ao Banco Bradesco e rendimentos financeiros ao Berj (segunda operação). 28.Nessa ordem de ideias, à míngua da demonstração da prática de simulação nos negócios jurídicos celebrados pelo Recorrente como fundamento dos lançamentos de ofício, o fato desta ter realizado as operações que constituem o cerne da acusação, quando os mesmos objetivos poderiam eventualmente ter sido alcançados pela utilização de forma mais simples e direta, mas com maior carga tributária, não é suficiente para que sejam desqualificadas. Vale dizer, a falta de motivação extratributária e a ausência de propósito negocial foram repelidas pelo Pretório Excelso como elementos aptos a Fl. 2431DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 22 desqualificar, sob o ponto de vista fiscal, operações legítimas praticadas pelos contribuintes. 29.Nesse contexto, mesmo que o aumento de capital social do BERJ tivesse sido realizado com o único propósito de aproveitar os prejuízos fiscais detidos pela instituição, uma vez que foram comprovadas a efetiva captação de recursos nas operações de Depósitos Financeiros e a utilização dos referidos recursos na subscrição das ações do BERJ (fatos incontroversos), não haveria que se falar em simulação. Desse modo, não há o que se cogitar sobre ausência de motivação extratributária como fundamento para desconsideração das despesas. 30.No que concerne à dedutibilidade das despesas, o tema era tratado, à época dos fatos, pelo artigo 299 do Decreto nº 3.000, de 1999 (RIR/99), litteris: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3º O disposto neste artigo aplica-se também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. 31.Os conceitos abertos de necessidade, usualidade e normalidade de que se valeu o indigitado dispositivo legal não podem ser submetidos à interpretação restritiva priorizada pelo lançamento e prestigiada pela decisão recorrida. Pelo contrário, dúvidas não há de que o legislador adotou como premissa para a dedutibilidade das despesas a sua correlação com a atividade da empresa, isto é, sua vinculação com a operação por ela desenvolvida, para a qual deverá ser necessária, exceto nas situações em que o desembolso decorra de ato de liberalidade. 32.No caso dos autos, trata-se de despesas financeiras incorridas pelo Recorrente em operações de depósito interfinanceiro diretamente relacionadas às suas atividades operacionais, especialmente porque os recursos por ele captados foram efetivamente utilizados na subscrição das ações do BERJ. Já a usualidade do dispêndio é reconhecida pelo próprio item 22 do Termo de Verificação Fiscal de fls. 2370/2385, in verbis: (22-) Na definição da Central de Custódia e Liquidação Financeira de Títulos Privados (CETIP) 3 , Depósito Interfinanceiro (DI) é instrumento financeiro destinado à transferência de recursos entre instituições financeiras. É título privado de Renda Fixa negociado exclusivamente entre instituições financeiras que auxilia no fechamento de caixa dos bancos, como instrumento de captação de recursos ou de aplicação de recursos excedentes. __________________________________________________________ 3 Vide www.cetip.com.br/Home. Sobre a CETIP: A CETIP S.A. - Mercados Organizados administra mercados de balcão organizados, ou seja, ambientes de negociação e registro de valores mobiliários, títulos públicos e privados de renda fixa e derivativos de balcão. É uma câmara de compensação e liquidação sistemicamente importante, nos termos definidos pela legislação do SPB - Sistema de Pagamentos Brasileiro (Lei nº 10.214), que efetua a custódia escritural de ativos e contratos, registra operações realizadas no mercado de balcão, processa a liquidação financeira e oferece ao mercado uma plataforma eletrônica para a realização de diversos tipos de operações online, tais como leilões e negociação de títulos públicos, privados e valores Fl. 2432DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 23 mobiliários de renda fixa. A Companhia é a maior depositária de títulos privados de renda fixa da América Latina e a maior câmara de ativos privados do mercado financeiro brasileiro. Sua atuação confere o suporte necessário a todo o ciclo de operações com títulos de renda fixa, valores mobiliários e derivativos de balcão. Fonte: Demonstrações Financeiras da CETIP S.A. de 2015. DOERJ de 09/03/2015. 33.De mais a mais, a participação em outras empresas constitui atividade legítima das empresas em geral, conforme estatuído pelo §3º do artigo 2º da Lei nº 6.404, de 1976 (Lei das S/A). Confira-se: Art. 2º Pode ser objeto da companhia qualquer empresa de fim lucrativo, não contrário à lei, à ordem pública e aos bons costumes. (...) § 3º A companhia pode ter por objeto participar de outras sociedades; ainda que não prevista no estatuto, a participação é facultada como meio de realizar o objeto social, ou para beneficiar-se de incentivos fiscais. 34.No caso específico das instituições financeiras, a matéria se encontrava disciplinada, à época dos fatos, pela Resolução CMN nº 2.723, de 2000, que regulamentava as condições e os procedimentos para participação societária, direta ou indireta, no país ou no exterior (matéria atualmente tratada pela Resolução CMN nº 5.043, de 2022). 35.Conclui-se, pois, que a captação de recursos junto a terceiros, com vistas à realização de um investimento (aumento de capital em empresa ligada), é operação usual, devendo ser admitida a respectiva dedutibilidade, sobretudo quando não há qualquer questionamento acerca de sua aplicação no interesse da companhia, nos termos previstos no artigo 299 do RIR/99. 36.Alerte-se, outrossim, que o prejuízo fiscal é um direito do contribuinte, tanto assim que a lei não obriga à compensação, que poderá ser exercida segundo a sua conveniência. Essa característica está expressamente prevista no §2º do artigo 64 do Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, segundo o qual “dentro do prazo previsto neste artigo a compensação poderá ser total ou parcial, em um ou mais períodos-base, à vontade do contribuinte”. Ademais, o item 13 do CPC 32 (reconhecimento de passivos e ativos fiscais correntes), é claro no sentido que “O benefício referente a um prejuízo fiscal que pode ser compensado para recuperar o tributo corrente de um período anterior deve ser reconhecido como ativo”. 37.Por fim, anote-se que a alegação do Recorrente de inexistência de prejuízo ao fisco, quando considerada a arrecadação global das três instituições financeiras envolvidas, foi objeto da diligência realizada em atendimento à Resolução nº 1402- 000.932, que teve por escopo a análise do Laudo de Constatação de fls. 3443/3461, considerando a capitalização do BERJ e as despesas e receitas dos Depósitos Interfinanceiros, e como seriam os efeitos tributários se tais operações não tivessem sido realizadas. 38.Em atendimento à medida proposta, foi produzido o Relatório Diligencial de fls. 3613/3625, cujas conclusões foram apresentadas diante da consideração de dois cenários distintos, que podem ser assim resumidos: Cenário 1: “Neste cenário, foram considerados os estornos de Receitas e Despesas de DI assim como dos pagamentos de juros sobre capital próprio (JCP) no recálculo do Lucro Real e da Base de Cálculo da CSLL das empresas envolvidas - BERJ, Banco Bradesco e Bradesco Cartões - tendo em vista as alegações do contribuinte abaixo reproduzidas”. Cenário 2: “Ampliando-se o escopo da análise para considerar a operação como um todo, teríamos que levar em conta também a própria aquisição do BERJ e sua “alienação” ao final do período, já que Fl. 2433DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 24 uma das premissas fundamentais para o exame dos fatos é que olhemos para o conjunto da obra”. Conclusões: “Neste sentido, para avaliarmos tais efeitos, apresentamos os Cenários 1 e 2. O Cenário 1 toma como base o cenário apresentado pelo Laudo da KPMG [sic] e desconsidera as aplicações em renda fixa realizadas pelo BERJ com os recursos provenientes da capitalização e das operações com DI. Neste caso, constatamos uma economia tributária da ordem de R$ 127.153.377,59”. 39.Manifestando-se às fls. 3641/3651, o Recorrente alegou, em apertada síntese, que “os resultados dos ‘Cenários 1 e 2’ apresentados pela fiscalização estão manifestamente equivocados, pois há um evidente erro de premissa no relatório da diligência fiscal, cuja correção explica a conclusão diametralmente oposta a que chegou”. Tais erros estariam relacionados à (i)“indevida realocação de receitas financeiras sem realocação também das respectivas despesas de captação”; e à (ii)“indevida desconsideração das amortizaçòes do ágio decorrente da capitalização da Dueville”, para assim concluir: Pelo exposto, resta demonstrado que a fiscalização claramente equivocou-se no “Relatório Diligencial Conclusivo” ao pressupor que as Rendas em Títulos de Renda Fixa corresponderiam exclusivamente aos recursos aportados pelo Bradesco e Bradesco Cartões no BERJ, quando em realidade as mesmas decorreram de outras fontes de recursos. Ademais, ainda que se entenda que aquelas Rendas teriam que ter sido “expurgadas” do resultado do BERJ e alocadas no Bradesco, o que se admite apenas para argumentar, então deveria a fiscalização por coerência adotar o mesmo procedimento quanto às despesas de captação, bem como as perdas em renda fixa. Tivesse sido esse o procedimento adotado pela fiscalização, a conclusão a que chegaria é no sentido de que as referidas instituições do Grupo Bradesco recolheram IRPJ e CSLL em montante muito superior, aproximadamente R$ 978 milhões, ao que seria devido se não houvesse ocorrido a capitalização do BERJ e as captações de recursos, mediante operações de DI. Quanto às amortizações do ágio decorrentes da capitalização da Dueville, além dessa operação não guardar relação com os fatos narrados pela fiscalização no TVF, a não ser pelo fato de as ações do BERJ terem sido conferidas ao capital daquela sociedade, mesmo que estivesse correto o raciocínio fiscal, o que novamente se admite apenas para fins de argumentação, ainda assim não se verificaria qualquer prejuízo ao erário, posto que nessa hipótese os montantes do IRPJ e CSLL efetivamente recolhidos pelo Bradesco, Bradesco Cartões e BERJ superam em aproximadamente R$ 654 milhões os valores que seriam devidos por essas mesmas instituições financeiras, caso não tivesse ocorrido a capitalização do BERJ e as captações de recursos, mediante operações de DI. Assim sendo, restando demonstrado os equívocos cometidos pela fiscalização, os quais maculam as conclusões do “Relatório Diligencial Conclusivo”, o Recorrente reitera os fundamentos de seu recurso voluntário, requerendo seja reconhecida a total insubsistência dos Autos de Infração em questão, na esteira dos precedentes firmados pelas duas outras Turmas deste E. Conselho que já apreciaram a matéria. Fl. 2434DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 25 40.Muito embora as contra-alegações defensivas possam sugerir a necessidade de nova conversão do julgamento em diligência para elucidação complementar dos pontos controvertidos, compreende-se que esta providência é absolutamente inócua e despicienda, uma vez que, diante dos demais aspectos até aqui já examinados, não se vislumbra a existência de suporte legal válido para a manutenção do lançamento, independemente de a arrecadação ter sido ou não equilavalente ao que seria caso as operações não tivessem sido realizadas. (...) 41.Parenteticamente, anote-se que as acusações fundadas nos mesmos elementos factuais aqui tratados foram objeto do PA nº 16327.721097/2017-00, relativo a autos de infração lavrados contra o Banco Bradesco S/A, cujo Recurso Voluntário foi provido pela C. 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF em sessão de 17.09.2019, por meio do Acórdão nº 1401-003729, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2013, 2014 DESPESAS FINANCEIRAS. NECESSIDADE. COMPROVAÇÃO. Estando comprovadas a necessidade das despesas financeiras deduzidas na apuração do lucro real, incabível a sua glosa. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO (CSLL) Ano-calendário: 2013, 2014 CSLL. LANÇAMENTO DECORRENTE. 42.Ressalte-se que esta decisão não foi objeto de recurso, tendo se tornado definitiva: [...] [...] Fl. 2435DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 26 43.Por derradeiro, não é acaciano registrar que, como o próprio item 38 do TVF denuncia, o presente processo consubstancia vinculação lógica com os lançamentos que foram realizados contra o próprio Recorrente no bojo do PA nº 16327.721122/2017-47, cujo Recurso Voluntário foi provido pela C. 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento deste Sodalício, para o fim de cancelar os autos de infração de IRPJ e de CSLL relativos ao ano-calendário de 2012, conforme voto vencedor proferido pelo Conselheiro Ricardo Marozzi Gregorio, nos seguintes termos: Como relatado, o caso trata de uma acusação de planejamento tributário inoponível ao Fisco. Segundo a autoridade autuante, ao adquirir o controle societário do BERJ, o Grupo Bradesco engendrou operações de aumento de capital e de empréstimos (mediante CDI), envolvendo os Bancos Bradesco e Bradesco Cartões, com o propósito exclusivo de se aproveitar dos saldos de prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas da CSLL existentes na sociedade adquirida. Nesse contexto, glosou as despesas financeiras decorrentes daqueles empréstimos que haviam sido deduzidas na apuração do IRPJ e da CSLL, tanto pelo Banco Bradesco (relativamente aos anos- calendário de 2012 e 2013, pelos autos de infração consubstanciados no processo nº 16327.721097/2017-00) quanto pelo Banco Bradesco Cartões (relativamente ao ano- calendário de 2012, pelos autos de infração consubstanciado no presente processo). Apesar de reconhecer que as referidas operações também ocasionaram receitas financeiras no Banco Bradesco, a fiscalização se ateve ao efeito das receitas financeiras produzidas no BERJ. Todo o planejamento teria o objetivo de provocar estas últimas receitas justamente para que o BERJ pudesse esgotar o seu estoque de prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas da CSLL acumuladas antes da sua aquisição pelo Grupo Bradesco. Já em sua peça impugnatória, dentre várias alegações, a recorrente sustentava que as operações não haviam causado prejuízo para o Erário do ponto de vista da arrecadação global observada nas três instituições financeiras. A fiscalização não havia verificado qual seria o resultado global se os efeitos fiscais da capitalização do BERJ e dos depósitos interfinanceiros fossem desconsiderados. Em outras palavras, caso a fiscalização tivesse analisado por completo os efeitos contrários e favoráveis aos interesses do Fisco, chegaria à conclusão de que a arrecadação tributária total foi maior do que seria se aquelas operações não houvessem sido realizadas. Para comprovar tal assertiva, juntou os demonstrativos e cópias de declarações anexados como "DOC. 05" da impugnação (fls. 3125 a 3250). Com efeito, segundo os cálculos contidos nessa documentação, a soma dos tributos (IRPJ e CSLL) devidos apurados pelas três instituições financeiras superou (em R$ 315.812.271,00) a soma correspondente que seria apurada se as referidas operações não tivessem sido realizadas (cf. fls. 3126). Nesses cálculos, é possível Fl. 2436DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 27 constatar que, nas três instituições, foram considerados tanto os efeitos das receitas e despesas financeiras quanto os efeitos das compensações dos prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas da CSLL. Diante de tal alegação, a decisão recorrida socorre-se dos princípios contábeis para concluir que estes consagram a autonomia patrimonial da sociedade em relação aos sócios e acionistas, bem como entre pessoas jurídicas distintas ainda que possuam idêntico quadro societário, e que cada entidade ou pessoa jurídica deve registrar individualmente (de forma segregada) as mutações do seu patrimônio, reconhecendo receitas e custos ou despesas que lhe são próprios. Ora, a questão aqui não tem a ver com o princípio da segregação contábil das entidades. Foi a própria acusação quem se utilizou do argumento de que a economia fiscal obtida noutra instituição do grupo econômico justificava a glosa das despesas financeiras no âmbito da recorrente. Nada obstante, enxergar a economia fiscal numa só ponta em detrimento do que acontece no todo me parece uma visão míope dos fatos. Já tive a oportunidade de deixar bem clara a minha posição contrária aos planejamentos marcados pelo propósito da economia tributária em vários julgamentos desta Casa. Considero correto declarar a inoponibilidade das operações concernentes ao Fisco quando a preponderância daquele propósito fica bem demonstrada. Todavia, há que se ter cuidado para não banalizar o fenômeno. Uma das premissas fundamentais para o exame dos fatos é a necessidade de que se olhe para o conjunto da obra. Sobre isso, vale a pena reproduzir o seguinte trecho da famosa obra de Marco Aurélio Greco que foi transcrito pela recorrente: XIX.21. Consistência: Objetiva, Eficacial e Subjetiva Outro importante aspecto ligado à decisão que vier a desconsiderar atos ou negócios jurídicos realizados diz respeito à consistência que tal deliberação deve manter. Essa consistência manifesta-se em três vertentes: a) consistência objetiva (em relação ao que configura o efetivo objeto de desconsideração); b) consistência eficacial (em relação aos demais tributos ou contribuições de competência da mesma entidade política que incidam sobre os atos ou negócios desconsiderados); e c) consistência subjetiva (em relação às pessoas que participem dos atos ou negócios). a) A consistência objetiva do ato de desconsiderar está ligada ao fato de não ser algo isolado do mundo, nem seu objeto poder ser circunscrito e assepticamente segmentado, a juízo e segundo a conveniência de qualquer das partes. Cumpre ter presente que, em muitas situações, não se está perante um único ato ou negócio jurídico, mas perante uma série ordenada de atos e negócios que, em seu conjunto, apresentam o efeito de dissimular a ocorrência do fato gerador. Cada um destes atos ou negócios esteve submetido ao regime tributário que o Fl. 2437DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 28 contribuinte e demais partícipes entenderam pertinente, à luz da qualificação jurídica que reputam adequada. Na medida em que há uma pluralidade de atos ou negócios que formam um conjunto orgânico que, no seu todo, acarreta o efeito previsto no artigo 116, parágrafo único do CTN, forçoso é concluir que o ato de desconsideração não terá por objeto cada ato isolado, mas o conjunto por ele formado. Portanto, o que deverá ser desconsiderado, para fins tributários, é o conjunto como um todo. Entendo incompatível com a norma contida no parágrafo único do artigo 116 do CTN pretender restringir a desconsideração a um ou alguns dos atos, como que fazendo um “recorte” que alcance apenas os atos e negócios que, da ótica do Fisco, possam ser de interesse mais direto para a arrecadação. OU SE DESCONSIDERA O CONJUNTO, OU NADA SE DESCONSIDERA. b) A consistência eficacial do ato de desconsideração está ligada à circunstância de o conjunto de atos poder gerar efeitos distintos em relação a tributos ou contribuições de competência da mesma entidade tributante. Assim, a título meramente figurativo, pode haver uma operação em que ocorreu menor pagamento de imposto sobre a renda, mas um maior recolhimento de PIS e Cofins. Na hipótese de ser desconsiderado o ato ou negócio para fins de imposto sobre a renda, cumpre rever o recolhimento de PIS e Cofins de modo a reconduzi-los ao fato gerador efetivo que se entendeu ter ocorrido. Repito: não cabe proceder a ‘recortes’, de modo à desconsideração alcançar apenas alguns atos, algumas pessoas e alguns tributos, segundo a conveniência da pessoa tributante. O ATO DE DESCONSIDERAÇÃO DEVE SER CONSISTENTE OBJETIVA E SUBJETIVAMENTE E DEVEM SER ASSEGURADAS TANTO AS CONSEQUÊNCIAS FAVORÁVEIS AO FISCO COMO AS QUE SEJAM FAVORÁVEIS AO CONTRIBUINTE QUE VIU SEUS ATOS OU NEGÓCIOS DESCONSIDERADOS. C) A CONSISTÊNCIA SUBJETIVA EXIGE QUE A DESCONSIDERAÇÃO SE APLIQUE A TODAS AS PARTES QUE PARTICIPARAM DE TAIS ATOS OU NEGÓCIOS, APURANDO-SE OS REFLEXOS E PROCEDENDO-SE AOS AJUSTES QUE FOREM NECESSÁRIOS PARA RECONDUZIR A TRIBUTAÇÃO AO FATO GERADOR EFETIVAMENTE OCORRIDO. Assim, por exemplo, um único negócio jurídico pode ter provocado um prejuízo para determinada pessoa jurídica, ao mesmo tempo em que gerou um lucro (eventualmente submetido a menor tributação) para outra pessoa jurídica que participou do negócio. Havendo desconsideração do negócio como um todo, o prejuízo deverá ser revisto, mas pela mesma razão, o lucro da outra pessoa jurídica também deverá ser Fl. 2438DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 29 reduzido, ainda que isto implique reconhecer ter havido um pagamento a maior, ensejador de restituição de eventual excesso de tributo pago por aquele sujeito passivo, em função do negócio que veio a ser desconsiderado.” (Planejamento Tributário. 2 ed. São Paulo; Dialética, 2008, pp. 496 a 498 – destaques da Recorrente) Independentemente da fidedignidade dos dados contidos na documentação que comprova a ausência de prejuízo ao Erário, o que importa é notar a fragilidade da acusação. Se a autoridade fiscal pretendia desqualificar o atributo da "necessidade" das despesas financeiras com a justificativa de que as operações engendradas visavam à economia tributária, deveria ter tomado o cuidado de se certificar que essa economia seria um resultado muito provavelmente alcançado com aquelas operações. Mas, aparentemente, nem isso seria possível. É que a economia tributária obtida no BERJ com a compensação dos prejuízos fiscais e bases de cálculo negativa da CSLL teria que ser limitada pela trava dos 30%. Portanto, de cada real acrescido às bases de cálculo pelas receitas financeiras, setenta centavos teriam que ser tributados. Nesse cenário, a economia só estaria assegurada se a despesa financeira correspondente gerasse uma redução na tributação das outras instituições financeiras (os Bancos Bradesco e Bradesco Cartões) superior aos tributos incidentes sobre os setenta centavos no BERJ. Mas, como garantir isso se não se poderia a priori saber se as outras instituições apurariam lucro real e base de cálculo positiva da CSLL suficientes para toda a redução exigida? Seria uma empreitada de futurologia difícil de ser alcançada. A verdade é que o Grupo Bradesco pode até ter objetivado a economia tributária com aquelas operações, mas o resultado dependia de variáveis não totalmente controladas. Por outro lado, a fiscalização também não poderia desconsiderar apenas os efeitos que lhe foram desfavoráveis. No caso concreto, haveria que reconhecer os créditos decorrentes dos tributos pagos por obra das mesmas operações. Como a caracterização do planejamento tributário depende da compreensão dos fatos numa perspectiva organizacional, os seus efeitos hão que ser também considerados na sua plenitude. Nesse cenário, apesar de ser possível, em tese, questionar a necessidade das despesas glosadas, não se pode concordar com o fundamento proposto pela fiscalização. Focando apenas na operação de CDI contraída com o Banco Bradesco, trata-se de transação corriqueira no seio das instituições financeiras. As correspondentes despesas são, em regra, dedutíveis porque associadas a alguma necessidade financeira do tomador do empréstimo. É difícil contestá- las sem um elemento concreto dissociado da realidade apresentada. Destarte, a meu ver, são irrelevantes as outras razões que pretendem confirmar ou infirmar a procedência da glosa das referidas despesas. Por decorrência lógica, é também desnecessário o enfrentamento das alegações atinentes ao erro na apuração da base tributável, ao aproveitamento dos saldos negativos apurados em 2012 e ao caráter excessivo das multas de ofício aplicadas. Diante do exposto, oriento meu voto no sentido de dar provimento ao recurso voluntário para cancelar os lançamentos efetuados. Fl. 2439DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 30 (Acórdão nº 1302-003.803) 44.Registre-se que o referido Acórdão foi objeto de embargos declaratórios, que foram acolhidos sem efeitos infringentes, apenas para sanear contradição no resultado do julgamento e confirmar que a Turma decidiu dar provimento integral ao Recurso Voluntário, sendo que as informações disponibilizadas nas páginas do Ministério da Fazenda e do CARF na internet dão conta que o processo já foi baixado do contencioso, sem que a decisão tenha sido reformada: [...] [...] 45.Como é cediço, no PAF, as modalidades de vinculação processual são aquelas estatuídas pelo §1º do artigo 47 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF n° 1.634, de 21.12.2023 6 , consistindo em processos conexos (inciso I), decorrentes (inciso II) ou reflexos (inciso III). 46.Sobre o exato espectro de abrangência desses institutos, o voto proferido pelo I. Conselheiro André Mendes de Moura por ocasião do julgamento do Recurso Especial fazendário no processo nº 10855.003044/2006-98 confere as seguintes lições: Fl. 2440DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 31 Faço a distinção, amparado no conceito empregado pelo RICARF, valendo-se de exemplos. Nos processos reflexos, há uma autuação fiscal principal, por exemplo, de IRPJ, acompanhada de reflexos de CSLL, PIS e Cofins, com base nos mesmos elementos de prova constituídos em um mesmo procedimento fiscal. No processo reflexo, a decisão do processo principal tem repercussão direta nos reflexos. A vinculação por decorrência ocorre quando há obrigatoriamente um processo principal e demais processos acessórios, que tiveram origem a partir do processo principal. Tanto que se o julgamento do processo principal afastar a autuação, automaticamente os processos acessórios perdem o objeto. Por exemplo: (1) processo principal trata de exclusão do SIMPLES, e o acessório de auto de infração lavrado em razão da exclusão da empresa do regime especial; (2) processo principal trata da suspensão ou perda de imunidade/isenção, e o acessório de auto de infração lavrado em razão da suspensão/perda do benefício; (3) processo principal trata de autuação fiscal que altera o ajuste anual do imposto, alterando a apuração de saldo negativo, e o acessório de declaração de compensação que se utilizou de saldo negativo que, em razão da autuação fiscal, teve seu valor diminuído ou extinto. Na decorrência, duas são as características principais: (1) não é prático (para não dizer que é impossível) fazer o julgamento do processo acessório antes do julgamento do processo principal e (2) o decidido no principal tem repercussão direta nos processos decorrentes. Qual a praticidade em julgar os autos de infração de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins se tais lançamentos tiveram origem em uma suspensão de imunidade ainda pendente de julgamento? Na realidade, a vinculação por reflexão e decorrência tem muitas semelhanças, principalmente por disporem de um processo principal precisamente definido, e de processo(s) acessório(s) cujo julgamento tem uma estreita dependência com o principal. Enfim, a conexão ocorre quando se tem um suporte fático X e um enquadramento legal Y que é idêntico, ou para vários sujeitos passivos (A, B, C, D, E ...), ou para o mesmo sujeito passivo em anos- calendário diferentes (AC1, AC2, AC3...). Naturalmente, são formalizados vários processos, mas as autuações fiscais (suporte fático e enquadramento legal) são as mesmas, diferenciando-se, em linhas gerais, o sujeito passivo e o ano-calendário. Como exemplo, pode ser um auto de infração de glosa de despesas, com o mesmo suporte fático, de uma mesma empresa, com os mesmos fatos e elementos de prova, formalizado em processos diferentes, cada qual para um ano-calendário (AC1, AC2, AC3 e AC4). Ou, o auto de infração de glosa de despesas, com o mesmo suporte fático, mas lavrado em face de empresas que desenvolvem a mesma atividade econômica e tiveram uma interpretação idêntica da legislação tributária, ou seja, processos com sujeitos passivos A, B, C, D e E. Ainda, processo de reconhecimento de direito creditório que se utilizou do crédito X para compensar débitos D1, D2, D3, D4 e D5, cada qual em um processo diferente. O que se observa nos processos por conexão é que não há um processo que pode ser classificado como o principal. O julgamento pode ser dar em qualquer um dos processos. Pode ser julgado o processo AC3, sem prejuízo nenhum para os demais. Ou o processo Fl. 2441DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 32 contra o sujeito passivo D, ou o processo tratando da compensação do débito D2. Na realidade, os processo por conexão são aqueles que podem ser reunidos para julgamento em lotes, ou na sistemática dos repetitivos. Pode-se escolher qualquer um dos processos para julgamento, e aplicar a decisão para os demais. Tal procedimento, obviamente, não pode ser adotado para os reflexos ou decorrentes, tendo em vista a existência de um processo principal. (CSRF, 1ª Turma, j. 04.04.2017, Acórdão nº 9101-002.755) 47.Por via de consequência, tendo em vista aqui se tratar de processo que veicula exigência de créditos tributários fundamentados em fatos idênticos aos que motivaram os lançamentos albergados pelo processo nº 16327.721122/2017-47, resta clara a relação de vinculação por conexão a ensejar que a decisão lá proferida seja replicada em prestígio ao princípio da coerência e integridade das decisões, adotando-se, em complemento, seus fundamentos como razão de decidir para o fim de serem cancelados os lançamentos. 48.Pelo exposto, não conheço do Recurso de Ofício por inferior ao limite estabelecido pela Portaria MF nº 2, de 2023, na inteligência da Súmula CARF nº 103; não conheço do Recurso Voluntário em relação aos argumentos relativos à matéria objeto de desistência firmada pela Recorrente nos autos e, na parte conhecida, dou-lhe provimento para o fim de cancelar os lançamentos. _____________________________________________________________ 1 “O absurdo da interpretação econômica do ‘Fato Gerador’ - Direito e sua autonomia – o paradoxo da interdisciplinariedade”, Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo v. 102, jan./dez. 2007, pp.455/456. 2 “A Interpretação Econômica no Direito Tributário”, Gazeta Mercantil, 06.07.2005, disponível para consulta em http://www.gandramartins.adv.br/project/ives- gandra/public/uploads/2012/10/23/65a6741a2005091_a_interpr_eco_no_dir_trib.pdf). 3 “A tipicidade aberta e a interpretação econômica no Direito Tributário”, II Jornada de Direito Tributário, Coleção Jornada de Estudos Esmaf, 13, Tribunal Regional Federal da 1ª Região, Escola de Magistratura Federal da 1ª Região, outubro/2012, p. 149. 4 “Breves Notas sobre o Planejamento Tributário”. In: Marcelo Magalhães Peixoto; José Maria Arruda de Andrade. (Org.). Planejamento Tributário. São Paulo: MP, 2007 p. 360 5 “Teorias do ‘Abuso’ no Planejamento Tributário”, 2011. Dissertação de Mestrado – Universidade de São Paulo, 201, p. 54. 6 RICARF: “Art. 47 Os processos vinculados poderão ser distribuídos e julgados observando-se o disposto neste artigo. § 1º Os processos podem ser vinculados por: I - conexão, constatada entre processos que tratam de exigência de crédito tributário ou pedido do contribuinte fundamentados em fatos idênticos, incluindo aqueles formalizados em face de diferentes sujeitos passivos; II - decorrência, constatada a partir de processos formalizados em razão de procedimento fiscal anterior ou de atos do sujeito passivo acerca de direito creditório ou de benefício fiscal, ainda que veiculem outras matérias autônomas; e III - reflexo, constatado entre processos formalizados em um mesmo procedimento fiscal, com base nos mesmos elementos de prova, mas referentes a tributos distintos.” 46.Anote-se que não cabe ao fisco questionar a qualidade da gestão empresarial, desde que a despesa seja necessária, usual e normal à atividade da empresa, ainda que, em tese, possa resultar de um gerenciamento inadequado ou ineficaz, isto é, o fisco não pode se substituir ao empresário nas decisões de gestão A liberdade de gestão empresarial é garantida constitucionalmente O risco do negócio, incluindo eventuais ineficiências, é inerente à atividade empresarial. A dedutibilidade está vinculada à necessidade, usualidade e normalidade do gasto, não à sua eficiência, que, ao fim e ao cabo, evidentemente interessa ao gestor e constitui um objetivo permanente a ser alcançado. Fl. 2442DF CARF MF Original http://www.gandramartins.adv.br/project/ives-gandra/public/uploads/2012/10/23/65a6741a2005091_a_interpr_eco_no_dir_trib.pdf http://www.gandramartins.adv.br/project/ives-gandra/public/uploads/2012/10/23/65a6741a2005091_a_interpr_eco_no_dir_trib.pdf D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 33 47.Em remate, não se olvide que são os próprios itens 30 e 36 do CPC 32 que reconhecem o direito ao aproveitamento de prejuízos fiscais no contexto de planejamentos tributários. Confira-se: 30. Oportunidades de planejamento tributário são ações que a entidade pode tomar a fim de criar ou aumentar o lucro tributável em período específico antes da expiração do prazo de utilização de prejuízo fiscal ou compensação de crédito fiscal. Por exemplo, em alguns países, o lucro tributável pode ser criado ou aumentado por: (a) opção de ter receita de juros tributada em regime de caixa ou competência; (b) diferimento da reivindicação para determinadas deduções do lucro tributável; (c) vender, e talvez arrendar de volta, ativos que foram avaliados, mas para os quais a base fiscal não foi ajustada para refletir tal avaliação; e (d) vender um ativo que gera lucro não tributável (como, em alguns países, título do governo) a fim de comprar outro investimento que gera lucro tributável. Quando as oportunidades de planejamento tributário anteciparem lucro tributável de um período posterior para um período anterior, a utilização de prejuízo fiscal ou a compensação de crédito fiscal ainda depende da existência de futuros lucros tributáveis de outras fontes que não diferenças temporárias de origem futura. (...) 36. A entidade deve considerar os seguintes critérios para avaliar a probabilidade de que haverá disponibilidade de lucro tributável, contra o qual os prejuízos fiscais ou créditos fiscais não utilizados possam ser utilizados: (a) se a entidade tem diferenças temporárias tributáveis suficientes relacionadas com a mesma autoridade tributária e a mesma entidade tributável que resultarão em valores tributáveis contra os quais os prejuízos fiscais ou créditos fiscais não utilizados podem ser utilizados antes que expirem; (b) se for provável que a entidade terá lucros tributáveis antes que os prejuízos fiscais ou créditos fiscais não utilizados expirem; (c) se os prejuízos fiscais não utilizados resultarem de causas identificáveis que são improváveis de ocorrer novamente; e (d) se estiverem disponíveis para a entidade oportunidades de planejamento tributário (ver item 30) que criarão lucro tributável no período em que prejuízos fiscais ou créditos fiscais não utilizados possam ser utilizados. Na medida em que não for provável que estará disponível lucro tributável contra o qual prejuízos fiscais ou créditos fiscais não utilizados sejam utilizados, o ativo fiscal diferido não deve ser reconhecido. 48.Desse modo, patenteia-se que as despesas financeiras em questão preenchem todos os requisitos enunciados pelo art. 299 do RIR/99, sendo, portanto, dedutíveis na apuração do IRPJ e da CSLL. CONCLUSÃO 49.Ante o exposto, dou provimento ao Recurso Especial. Assinado Digitalmente Jandir José Dalle Lucca Fl. 2443DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 34 VOTO VENCEDOR Conselheira Edeli Pereira Bessa, redatora designada O I. Relator restou vencido em seu entendimento favorável ao provimento do recurso especial da Contribuinte. A maioria qualificada do Colegiado compreende que o acórdão recorrido deveria ser mantido. Isto porque, quando se tem em conta que as despesas financeiras em questão afetaram o lucro tributável de BRADESCO CARTÕES, pessoa jurídica distinta de BANCO BRADESCO, adquirente de BERJ e em favor da qual foram erigidos os argumentos de propósito legal legítimo no aproveitamento de prejuízos fiscais e bases negativas que integravam o ativo arrematado do Governo do Estado do Rio de Janeiro, o debate ganha contornos próprios, inclusive com respeito à diretriz decisória adotada no paradigma nº 1302-003.803, que limita a abordagem à “arrecadação global do tributo” tratando as pessoas jurídicas beneficiadas com a despesa como um único grupo econômico, desconsiderando suas apurações individualizadas. A autoridade lançadora observou que: Se o Bradesco Cartões necessitasse efetivamente de recursos para o fechamento de seu caixa, então, não haveria nenhuma razão para tomar R$ 15 bilhões em DI junto ao Banco Bradesco e aportá-lo integralmente no Berj e pagar as respectivas despesas financeiras. O mesmo pode-se afirmar em relação ao Banco Bradesco ao destinar R$ 31 bilhões para aumento de capital da controlada e ato contínuo tomar em DI todo o valor recém destinado ao Berj e, a partir daí, pagar despesas financeiras. (destaque do original) A aquisição de BERJ ocorreu em 22/05/2012. O primeiro aumento de capital de BERJ, em 08/10/2012, é subscrito apenas por BANCO BRADESCO, que cede parte de seu direito a BRADESCO CARTÕES. O segundo aumento de capital de BERJ em 10/10/2012 já é subscrito por ambos, na mesma proporção anterior: duas parcelas de R$ 15,5 bilhões por BANCO BRADESCO e duas parcelas de R$ 7,5 bilhões por BRADESCO CARTÕES. Em 11/10/2012 se completa o aumento de capital total em BERJ de R$ 46 bilhões, sendo que a parcela que coube a BRADESCO CARTÕES foi integralizada com recursos captados por este em depósitos interfinanceiros junto ao BANCO BRADESCO nos mesmos dias de outubro/2012. No ano-calendário 2012 foram glosadas despesas de R$ 240.680.687,48 (processo administrativo nº 16327.721122/2017-47); em 2013 glosa de R$ 1.282.653.360,96 (processo administrativo nº 16327.720390/2018-22) e nestes autos, para 2014 e 2015, glosas de R$ 1.840.116.581,61 e R$ 2.486.237.785,96, respectivamente. A autoridade fiscal também relata que em 28/02/2014 são realizadas operações por meio das quais as ações detidas por BANCO BRADESCO em BERJ migram por Dueville Holdings S/A, incorporada por BRADESCO CARTÕES, de modo que o BANCO BRADESCO continuou a deter 100% do controle de BRADESCO CARTÕES, e este 100% do controle do BERJ. O fiscal autuante informa Fl. 2444DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 35 que tal operação se prestou a levar o Banco Bradesco a amortizar o ágio pago na aquisição do Berj. Registra, também, que em 17/11/2015 são deliberadas as reduções de capital de BERJ e de BRADESCO CARTÕES, com a devolução de R$ 45.748.400.856,57 a BRADESCO CARTÕES, seguida da redução de capital deste em favor de BANCO BRADESCO, no valor de R$ 37.203.878.997,49, sendo R$ 33.596.155.449,07 em moeda corrente nacional. No que importa aos valores glosados nestes autos, a autoridade lançadora conclui que: No período compreendido entre os aportes de capital no Berj e as reduções de capital do Berj e do Bradesco Cartões, destaca-se como operação singular e de vulto realizada pelo Banco Bradesco, nos dias 8 a 11 de outubro de 2012, a captação de R$ 46 bilhões junto ao Berj, por meio da emissão de depósitos interfinanceiros (DI). Ou seja, os recursos financeiros utilizados pelo Banco Bradesco para aumentar o capital social do Berj, direta e indiretamente via Bradesco Cartões, a ele retornaram por meio de operações interfinanceiras em DI. O Bradesco Cartões informou à fiscalização que incorreu em despesas financeiras (CDI), apropriadas mensalmente em decorrência da captação de R$ 15 bilhões junto ao Banco Bradesco, utilizados no aumento de capital do Berj, nos anos- calendários de 2014 e 2015 nos montantes de R$ 1.840.118.194,31 e R$ 2.498.580.133,23, respectivamente. Aqui cabe esclarecer que, distintamente do que compreendeu a autoridade julgadora de 1ª instância, a captação de recursos junto ao BERJ, que enseja as receitas reconhecidas para aproveitamento dos prejuízos fiscais e bases negativas acumulados, foi feita, apenas, por BANCO BRADESCO, na totalidade de R$ 46 bilhões. A parcela de R$ 15 bilhões emprestada por BANCO BRADESCO a BRADESCO CARTÕES foi aportada no capital de BERJ, e não retornou de BERJ para BRADESCO CARTÕES. As despesas aqui glosadas foram promovidas até a liquidação do empréstimo com BANCO BRADESCO, acerca da qual a autoridade fiscal assim informa: No caso do Bradesco Cartões, o empréstimo original de R$15 bilhões utilizado no aumento de capital do Berj foi liquidado numa sequência de empréstimos tomados em DI no próprio Banco Bradesco para liquidar a operação anterior, de tal modo que, nos anos de 2012, 2013, 2014 e 2015, esse participante do planejamento tributário apropriou despesas financeiras em DI que reduziram o seu lucro tributável. A autoridade julgadora de 1ª instância disse que a glosa promovida nestes autos teria recaído sobre: i) juros passivos decorrentes da captação de R$ 15 bilhões por meio de CDI adquirido pelo BANCO BRADESCO e ii) juros passivos decorrentes da captação de R$ 15 bilhões por meio de CDI adquirido pelo BERJ e assim ilustrou a operação realizada: Fl. 2445DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 36 Segundo o relato fiscal, porém, o fluxo da linha 3 teria como destino apenas BANCO BRADESCO, no valor total de R$ 46 bilhões. As despesas aqui glosadas decorreriam, apenas, do fluxo da linha 1. Daí porque a Contribuinte, desde a impugnação, afirma a dedutibilidade dessas despesas em face das receitas decorrentes da participação societária constituída junto ao BERJ, e demanda análise das repercussões tributárias em conjunto com as receitas financeiras recebidas por BANCO BRADESCO. De sua impugnação destaca-se: É importante ter em mente que a fiscalização se valeu basicamente dos mesmos argumentos utilizados para embasar os Autos de Infração lavrados contra o Banco Bradesco, mediante os quais foram glosadas as despesas correspondentes aos rendimentos das aplicações em Depósitos Interfinanceiros por ele pagos ao BERJ (processo administrativo nº 16327.720937/2019-71 – doc. 02), sem qualquer preocupação de verificar se tais argumentos fariam sentido no caso específico do Impugnante. [...] Pois bem. Como se depreende da leitura da passagem do TVF acima reproduzida, no tocante às despesas financeiras glosadas a fiscalização não questiona (i) a efetiva captação de recursos nas operações de Depósitos Financeiros; nem (ii) a efetiva utilização dos referidos recursos financeiros na subscrição das ações do BERJ, tratando-se, pois, de fatos incontroversos. Ou seja, no caso concreto não há dúvida de que o Impugnante efetivamente captou recursos no mercado financeiro e os empregou em suas atividades, uma vez que a participação no capital de outras sociedades é absolutamente normal e usual no ramo de atividade das instituições financeiras, tanto que expressamente regulamentada pela Resolução nº 2.723, de 31.05.2000, que estabelece normas, condições e procedimentos para a participação societária por Fl. 2446DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 37 parte das instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil (BACEN). [...] Além disso, a leitura atenta do TVF revela que a fiscalização não se preocupou em aprofundar as suas investigações, a fim de apurar se os investimentos feitos nº BERJ geraram receitas e rendimentos para o Impugnante, que impactaram positivamente o seu resultado contábil e/ou fiscal do período. Do mesmo modo, embora reconheça que as despesas financeiras glosadas correspondem a receitas financeiras do Bradesco, que foram oferecidas à tributação por essa instituição, o i. Fiscal autuante não se preocupou em verificar qual seria o resultado se todos os efeitos fiscais da capitalização do BERJ e das operações de Depósitos Interfinanceiros envolvendo o Bradesco e o Impugnante fossem desconsiderados, o que seria consistente com a sua premissa de que “tais operações não tem o condão de serem oponíveis ao Fisco” (fl. 635). [...] No caso dos autos, é inquestionável que as despesas financeiras incorridas pelo Impugnante em operações de Depósito Interfinanceiro estão relacionadas às suas atividades operacionais, ainda mais quando se considera que os recursos captados junto ao Bradesco foram efetivamente utilizados na subscrição de ações do BERJ. [...] Além disso, no caso dos autos não se questiona que os recursos financeiros captados pelo Impugnante foram aplicados em suas atividades, pois participar do capital de outras empresas é atividade inerente ao objetivo social de qualquer instituição financeira e demais entidades autorizadas a funcionar pelo BACEN. [...] Vale salientar que, em linha com os precedentes jurisprudenciais acima mencionados, a captação de recursos junto a terceiros com vistas à realização de um investimento (aumento de capital em empresa ligada) é operação absolutamente usual, tanto que inclusive regulada quanto aos seus efeitos fiscais, com faculdade de diferimento da dedução das despesas, em se tratando de holdings puras1. Portanto, essas mesmas operações podem ser realizadas por 1 A única diferença é que as holdings puras têm a faculdade de diferir a dedução das despesas de captação incorridas para aumento de capital das controladas, para o momento da realização do investimento (o que se justifica por apurarem até essa realização receitas de equivalência patrimonial, intributáveis). Ou seja, não se tratando de holdings puras, as despesas incorridas são dedutíveis por regime de competência, sem a faculdade do diferimento da dedução. Confira, “in verbis”, o art. 31 da Lei nº 11.727/2008: “Art. 31. A pessoa jurídica que tenha por objeto exclusivamente a gestão de participações societárias (holding) poderá diferir o reconhecimento das despesas com juros e encargos financeiros pagos ou incorridos relativos a empréstimos contraídos para financiamento de investimentos em sociedades controladas. § 1º A despesa de que trata o caput deste artigo constituirá adição ao lucro Fl. 2447DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 38 quem não seja holding pura, sem absolutamente qualquer restrição, com a diferença tributária de não haver a faculdade de diferimento das despesas de captação incorridas. [...] E, de fato, a participação detida no BERJ rendeu frutos ao Impugnante, visto que no período-base autuado e nos subsequentes o seu lucro contábil foi incrementado pelo resultado positivo de equivalência patrimonial e recebimento de dividendos, bem como pelo recebimento de juros sobre o capital próprio, nos anos-base 2013, 2015 e 2016, que inclusive afetaram positivamente os resultados tributáveis daqueles períodos (doc. 06). Ou seja, se por um lado o resultado do Impugnante foi reduzido pelas despesas financeiras decorrentes dos Depósitos Interfinanceiros, por outro esse mesmo resultado foi majorado pelas receitas de equivalência patrimonial, dividendos e juros de capital próprio recebidos, não se podendo afirmar em absoluto que do ponto de vista do Impugnante a capitalização do BERJ não teve motivação extratributária. [...] Assim, cai por terra a alegação fiscal de que as despesas em questão não seriam necessárias, na medida em que restou demonstrado e comprovado que o Impugnante se valeu dos recursos captados junto ao Bradesco na consecução de suas atividades sociais, mais especificamente participar no capital de outra sociedade, que lhe rendeu frutos, a exemplo dos juros sobre o capital próprio, dividendos e resultado positivo de equivalência patrimonial. (destaques do original) Mais à frente, inclusive, ao tratar da arrecadação global do imposto e a inexistência de prejuízo ao Erário, a Contribuinte defende em impugnação a correlação das despesas por ela deduzidas com receitas financeiras tributadas pelo Bradesco, e quando se reporta às receitas que incrementaram o resultado do BERJ, invoca o resultado global das três instituições financeiras. A argumentação em recurso voluntário também indica que a autoridade julgadora de 1ª instância errou ao apontar que a parcela de R$ 15 bilhões do aporte total de capital de R$ 46 bilhões havia retornado à BRADESCO CARTÕES: Ou seja, diferentemente do que se lê na r. decisão recorrida e do que consta na figura acima reproduzida, os recursos financeiros aportados ao capital do BERJ pelo Bradesco Cartões não retornaram a essa instituição financeira por meio de operações de DI. líquido para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido e será controlada em livro fiscal de apuração do lucro real. § 2º As despesas financeiras de que trata este artigo devem ser contabilizadas individualizadamente por controlada, de modo a permitir a identificação e verificação em separado dos valores diferidos por investimento. § 3º O valor registrado na forma do § 2º deste artigo integrará o custo do investimento para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento.” Fl. 2448DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 39 [...] Sendo assim, se no entender da r. decisão recorrida o que denotaria a alegada artificialidade das operações realizadas seria o suposto “imediato retorno de capital aportado em instituição financeira, por meio de certificados de depósitos interbancária”, a constatação do próprio i. Fiscal autuante de que o Bradesco Cartões não captou recursos junto ao BERJ é suficiente para demonstrar o desacerto daquela r. decisão, pois “data venia” está fundamentada em dado dissociado da realidade fática. (destaques do original) De toda a sorte, na parte em que as decisões desfavoráveis à Contribuinte coincidem com os apontamentos da acusação fiscal, o fundamento para a manutenção da glosa está validamente posto, nos termos do voto condutor do recorrido: os recursos financeiros utilizados na capitalização do BERJ já eram de titularidade do controlador do GRUPO, o BANCO BRADESCO, e as despesas financeiras assumidas pela recorrente junto ao BANCO BRADESCO se prestaram a permitir que o Bradesco, líder do grupo econômico, utilizasse o prejuízo fiscal que existia em estoque no BERJ (fato notório e reconhecido pela própria defesa), sendo que, COMPROVADAMENTE, em parcos três dias, o volume aportado pelo Banco a ele voltou na mesma proporção, restando apenas a utilização dos prejuízos fiscais e as despesas financeiras suportadas pela recorrente que as pretendeu utilizar no abatimento do IRPJ e da CSLL. O equívoco cometido pela autoridade julgadora de 1ª instância, ao consignar neste último ponto que parte dos recursos voltaram ao BANCO BRADESCO por intermédio da BRADESCO CARTÕES, não desqualifica a constatação de que os recursos efetivamente voltaram ao BANCO BRADESCO, apenas que por captação direta deste junto ao BERJ. Subsistem, assim, os questionamentos postos na sequência destas ponderações do voto condutor do acórdão recorrido: Em outras palavras, por que este empréstimo, a circulação pelo BRADESCO CARTÕES e depois a devolução do referido empréstimo? Por que toda esta engenharia e por que a necessidade desta despesa financeira suportada pelo BRADESCO CARTÕES, considerando que todos os recursos financeiros utilizados na capitalização do BERJ já eram de titularidade do controlador do GRUPO, o BANCO BRADESCO, antes da operação? (destaques do original) Apesar de poder haver outras ressalvas à interpretação de que BANCO BRADESCO, ao adquirir o BERJ, pagou por um ativo representado por prejuízos fiscais e bases negativas, constituindo propósito negocial válido para estruturar operacionalmente seus negócios de modo a se valer deste ativo, fato é que tal premissa não justifica o trâmite de parte destes recursos por BRADESCO CARTÕES, de modo a partilhar com esta outra empresa do grupo as despesas espelhadas com as receitas decorrentes do aporte de capital de BANCO BRADESCO em BERJ, que se prestaram a consumir os prejuízos fiscais e bases negativas de BERJ. Fl. 2449DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 40 Afirma-se que as despesas reconhecidas por BRADESCO CARTÕES espelharam receitas de BERJ porque BANCO BRADESCO não se limitou a captar junto a BERJ o valor por ele aportado (R$ 31 bilhões), mas sim todo o incremento de capital promovido após a aquisição do investimento, ou seja, R$ 46 bilhões. Assim, quando esta captação de R$ 46 bilhões enseja despesas para BANCO BRADESCO, as despesas correspondentes à parcela de R$ 15 bilhões acabam neutralizadas pelas receitas decorrentes do empréstimo feito a BRADESCO CARTÕES, subsistindo a correlação das despesas aqui glosadas com as receitas reconhecidas por BERJ, e confirmando a indevida transferência destes encargos desnecessários para a Contribuinte. Os aportes de capital do BANCO BRADESCO em BERJ percorrem, em parte, a estrutura de controle por meio de BRADESCO CARTÕES, de modo a carregar na apuração deste despesas financeiras, cujo reflexo em receitas para BANCO BRADESCO é neutralizado com as despesas financeiras decorrentes do retorno dos recursos por captação junto ao BERJ. Desnecessário discutir se era um interesse negocial legítimo BANCO BRADESCO aportar capital em BERJ e reaver estes valores mediante pagamento de juros a BERJ, para que este apurasse lucro e consumisse prejuízos fiscais e bases negativas acumulados. Ainda que fosse legítimo este interesse, nada há que justifique o desvio de R$ 15 bilhões para aporte de capital em BERJ por meio de BRADESCO CARTÕES, senão a constituição de despesas para redução do lucro tributável da Contribuinte. Note-se que no “Relatório de Avaliação Econômica e Financeira do Projeto BERJ”, que se prestou a determinar o fundamento econômico do ágio pago em aquisição de participações avaliadas por equivalência patrimonial, dirigido ao BANCO BRADESCO, uma das premissas de cálculo são os prejuízos fiscais, cujo aproveitamento é projetado em razão de um aporte pelo adquirente de R$ 45 bilhões a ser remunerado por 100% de CDI (e-fl. 564): Ou seja, o aproveitamento dos prejuízos fiscais e bases negativas do BERJ foi projetado desde a sua aquisição pelo BANCO BRADESCO, e nada há que justifique o desvio de parte destas vantagens para BRADESCO CARTÕES. Despiciendo, assim, debater porque BANCO BRADESCO não se limitou a incrementar o capital de BERJ para que este realizasse as operações Fl. 2450DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 41 que produziriam os lucros para consumo dos prejuízos fiscais e bases negativas acumulados, e promoveu mera circulação de capital dentro do grupo para que as receitas reconhecidas contabilmente por BERJ refletissem despesas equivalentes em outras empresas do grupo. Importa, apenas, BRADESCO CARTÕES não ter experimentado nenhum sacrifício na aquisição original do BERJ, e assim não ter como alegar qualquer interesse na realização dos prejuízos fiscais e bases negativas acumulados que afetaram o valor econômico daquele investimento adquirido por BANCO BRADESCO. Ademais, no voto vencedor do acórdão recorrido, o redator Conselheiro Paulo Mateus Ciccone bem expõe os requisitos para dedutibilidade de despesas na apuração do lucro tributável, fundamentos estes aqui adotados como razões de decidir: Principio pelo ponto fulcral em discussão, qual seja, a conceituação e aplicação, à legislação tributária, das “despesas” e sua dedutibilidade em relação ao IRPJ e à CSLL. Acerca de “glosa de despesas”, “despesas indedutíveis”, “despesas desnecessárias”, já tive oportunidade de me manifestar em inúmeros acórdãos de minha relatoria, dentre eles Ac. 1402-002.266, 1402-002.290, 1402-002.511, 1402-002.748, 1402-003.816, 1402-004.117, 1402-005.381, sempre e sempre no sentido de que, na essência, uma coisa é a despesa, gasto, consumo; outra sua dedutibilidade. Diga-se, se todo gasto, genericamente falando, é uma despesa, a recíproca nem sempre é a mesma, ou seja, nem todo gasto pode ser levado a débito do Estado, utilizando-se o contribuinte da possibilidade de deduzi-lo das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. A respeito, como definido pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (instituído pela Resolução CFC n.° 1.055/2005), através do “Pronunciamento Técnico CPC 00 – Estrutura Conceitual para a Elaboração e Apresentação das Demonstrações Contábeis, DESPESAS são “decréscimos nos benefícios econômicos durante o período contábil sob a forma de saída ou redução de ativos ou incrementos em passivos, que resultam em decréscimo do patrimônio líquido e que não sejam provenientes de distribuição de resultado ou de capital aos proprietários da entidade”. Esta definição pode ser também tomada levando-se em conta seu surgimento no curso das atividades ordinárias da entidade. Neste caso, ainda segundo o Pronunciamento Técnico acima referido, item 78, estas despesas seriam as que “surgem no curso das atividades ordinárias da entidade incluem, por exemplo, o custo das vendas, salários e depreciação. Geralmente, tomam a forma de um desembolso ou redução de ativos como caixa e equivalentes de caixa, estoques e ativo imobilizado”. Já a Resolução nº 1.374, de 08/12/2011, do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), em seu item 4.25, letra “b”, define: “despesas são decréscimos nos benefícios econômicos durante o período contábil, sob a forma da saída de recursos ou da redução de ativos ou assunção de passivos, que resultam em Fl. 2451DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 42 decréscimo do patrimônio líquido, e que não estejam relacionados com distribuições aos detentores dos instrumentos patrimoniais”. De outro lado, a doutrina é incisiva. Por exemplo, para Hendriksen e Breda, despesa é: “o uso ou consumo de mercadorias ou serviços no processo de obter receitas. Elas são as expirações dos fatores de serviços relacionados diretamente ou indiretamente na produção e vendas de produtos das empresas”.2 Confirmando esta concepção, Kam (1986) sustenta que “despesas são reduções no valor dos ativos ou aumento no valor das exigibilidades, devido à utilização de bens e serviços das operações principais ou centrais da entidade”.3 Em claras palavras, as despesas são a contrapartida das receitas, participando da concepção de lucro. Já o professor Sérgio de Iudícibus, com a cátedra que lhe é peculiar afirma que a despesa “representa a utilização ou o consumo de bens e serviços no processo de produzir receitas podendo referir-se a gastos efetuados no passado, no presente ou que serão realizados no futuro”.4 O mesmo Sérgio de Iudícibus, José Carlos Marion e Elias Pereira, in “Dicionário de Termos de Contabilidade”, Atlas – SP – 2ª Ed., conceituam que “despesa, em sentido restrito, representa a utilização ou consumo de bens e serviços no processo de produzir receitas. O que caracteriza a despesa é o fato de ela tratar de expirações de fatores de serviços, direta ou indiretamente relacionados com a produção ou a venda do produto (serviço) da entidade”. Em síntese, inexistem dúvidas de que a despesa é a concretização do esforço, em termos monetários, para a geração da receita, reduzindo o patrimônio da empresa, com a perspectiva, com uma promessa latente de geração futura ou imediata de receita que deve, por definição, suplantar as despesas e assim gerar a parcela do lucro. Paulo Viceconti e Silvério das Neves assumem que “despesas operacionais são gastos pagos ou incorridos pela pessoa jurídica para a realização das transações exigidas pela atividade da empresa” (Contabilidade Básica – 17ª Ed. Saraiva – SP – 2017 - pg. 323). Para Clóvis Luís Padovese5, “despesas são os gastos necessários para vender e enviar os produtos. De modo geral, são os gastos ligados às áreas administrativas e comerciais”. De outra linha, a legislação comercial das sociedades por ações (Lei nº 6.404/1976, com alterações), pontua: 2 HENDRIKSEN, Eldon S., BREDA, Michael F. Van. Teoria da Contabilidade. Tradução de Antônio Zoratto Sanvicente.- 5. ed. São Paulo: Atlas, 2007. 3 KAM, Vernon. Accounting theory. New York, John Wiley & Sons, 1986 4 IUDÍCIBUS, Sergio de. Teoria da Contabilidade. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2009. 5 Contabilidade Gerencial – Um enfoque em sistema de informação contábil – 7ª Ed. Atlas – SP – 2010 – pg. 320 Fl. 2452DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 43 Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. § 1º As demonstrações financeiras do exercício em que houver modificação de métodos ou critérios contábeis, de efeitos relevantes, deverão indicá-la em nota e ressaltar esses efeitos. § 2º A companhia observará exclusivamente em livros ou registros auxiliares, sem qualquer modificação da escrituração mercantil e das demonstrações reguladas nesta Lei, as disposições da lei tributária, ou de legislação especial sobre a atividade que constitui seu objeto, que prescrevam, conduzam ou incentivem a utilização de métodos ou critérios contábeis diferentes ou determinem registros, lançamentos ou ajustes ou a elaboração de outras demonstrações financeiras. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 3º As demonstrações financeiras das companhias abertas observarão, ainda, as normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários e serão obrigatoriamente submetidas a auditoria por auditores independentes nela registrados. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 4º As demonstrações financeiras serão assinadas pelos administradores e por contabilistas legalmente habilitados. § 5º As normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários a que se refere o § 3º deste artigo deverão ser elaboradas em consonância com os padrões internacionais de contabilidade adotados nos principais mercados de valores mobiliários. (Incluído pela Lei nº 11.638,de 2007) § 6º As companhias fechadas poderão optar por observar as normas sobre demonstrações financeiras expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários para as companhias abertas. (Incluído pela Lei nº 11.638,de 2007) E o Decreto-lei nº 1.598/1977: Art 7º - O lucro real será determinado com base na escrituração que o contribuinte deve manter, com observância das leis comerciais e fiscais. A conjugação destes dispositivos, das normas reguladoras da ciência contábil e da mais conceituada doutrina leva à conclusão de que, nos registros permanentes feitos na escrituração e nos levantamentos das Demonstrações Financeiras e Balanço Patrimonial, o resultado de um determinado período será sempre apurado levando-se em conta todos os fatos contábeis que afetam a azienda, observado o regime de competência. Neste patamar, indiscutível que qualquer despesa, tomado o termo nas concepções antes focadas, compõe o resultado da entidade, de forma negativa, reduzindo o patrimônio. Quanto a isso, inexistem dúvidas. Fl. 2453DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 44 A controvérsia instala-se a partir do momento em que determinada despesa, que despesa é sob os ângulos contábil, patrimonial, comercial, econômico e societário, extrapola os limites destas ciências e se põe ao alcance do raio de ação da legislação fiscal, especialmente a do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas. Neste momento, o que é incontroverso doutrinariamente passa a se submeter ao crivo de outra legislação, de outros conceitos, de outra estrutura. Dizendo de modo diverso, se determinados estipêndios são “despesas” sob quaisquer dos enfoques antes vistos e afetam o resultado comercial da entidade, tais gastos, ainda que despesas sejam, PODEM NÃO SER DEDUTÍVEIS das bases imponíveis de IRPJ (e da CSLL, quando for o caso), simplesmente porque o legislador tributário assim o determinou. Como escreve Nilton Latorraca6, “as despesas operacionais, assim como os custos, que não satisfizerem as condições de dedutibilidade deverão ser adicionadas ao lucro líquido do exercício para efeito de determinar o lucro real”. Registre-se, está-se diante de uma regra excepcional trazida pela lei que, mesmo tendo tomado a contabilidade como ponto de partida para determinação e apuração do IRPJ (CSLL), em determinado instante faz nela um “corte” e elimina (para fins exclusivamente fiscais), uma despesa que afetou o resultado apurado e a acresce a este mesmo resultado, encontrando uma base imponível diferente daquela que será definida para os propósitos comerciais e societários. É o parâmetro fixado pelo RIR/1999, artigo 247, § 1º: Art. 247. Lucro real é o lucro líquido do período de apuração ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou autorizadas por este Decreto (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 6º). § 1º A determinação do lucro real será precedida da apuração do lucro líquido de cada período de apuração com observância das disposições das leis comerciais (Lei nº 8.981, de 1995, art. 37, § 1º). Induvidoso, ainda, que tais dispêndios têm que estar suportados por documentos hábeis, idôneos e contemporâneos aos fatos, de forma a permitir que as despesas sejam alocadas em contrapartida à receita e componham o resultado final de uma sociedade, exigência que aparece não apenas na legislação fiscal7, mas do mesmo modo na regulação contábil imposta pelo Conselho Federal de Contabilidade mediante a RESOLUÇÃO CFC N.º 1.330/2011 (DOU de 22.03.2011), assim redigida no que interessa: Documentação contábil 6 Direito Tributário – Imposto de Renda das Empresas – 12ª Ed. Atlas – SP – 1990 – pg.162 7 Decreto-lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977 Art 9º - A determinação do lucro real pelo contribuinte está sujeita a verificação pela autoridade tributária, com base no exame de livros e documentos da sua escrituração, na escrituração de outros contribuintes, em informação ou esclarecimentos do contribuinte ou de terceiros, ou em qualquer outro elemento de prova. § 1º - A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. Fl. 2454DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 45 26. Documentação contábil é aquela que comprova os fatos que originam lançamentos na escrituração da entidade e compreende todos os documentos, livros, papéis, registros e outras peças, de origem interna ou externa, que apóiam ou componham a escrituração. 27. A documentação contábil é hábil quando revestida das características intrínsecas ou extrínsecas essenciais, definidas na legislação, na técnica-contábil ou aceitas pelos “usos e costumes”. 28. Os documentos em papel podem ser digitalizados e armazenados em meio magnético, desde que assinados pelo responsável pela entidade e pelo profissional da contabilidade regularmente habilitado, devendo ser submetidos ao registro público competente. No mesmo sentir, a jurisprudência: ASSUNTO: ESCRITURAÇÃO. FORÇA PROBANTE. A escrituração contábil mantida com observância das disposições legais somente faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados se forem comprovados por documentos hábeis e idôneos, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. (Acórdão CARF nº 1402-000.290 – 09/11/2010 – Relator Antonio José Praga de Souza) No exprimir de Edmar Oliveira de Andrade Filho (in Imposto de Renda das Empresas – 10ª Edição – Atlas – SP – 2013 – pg. 266/267) “do ponto de vista contábil e fiscal, despesa é uma espécie de mutação patrimonial diminutiva”. Que segue lecionando que a palavra despesa “é utilizada, de um modo geral, como sinônima de “gasto”, e, nesse sentido, representa o valor pago ou empenhado na aquisição de bens não vinculados ao processo de produção de mercadorias, produtos e serviços destinados à venda”. Para fixar e ressalvar: “Para fins tributários (...), as despesas são dedutíveis ou não, de acordo com critérios legais de caráter formal, material e temporal. Além da observância desses critérios, o que habilita um gasto a ser dedutível é a sua existência e certeza, que são fatores importantes para a correta aplicação do regime de competência”. (destacou-se). Hiromi Higuchi et alli8 tratam o tema discorrendo que “as despesas efetuadas pelas pessoas jurídicas podem ser dedutíveis ou indedutíveis na apuração do lucro real. Importante é também conhecer o momento em que a despesa operacional é dedutível na determinação do lucro real. A despesa é dedutível pelo regime de competência, ou seja, no momento em que a despesa é considerada incorrida. As despesas operacionais dedutíveis na determinação do lucro real são aquelas que se encaixam nas condições fixadas no art. 299 do RIR/99, isto é, despesas necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora de receitas. As despesas necessárias, ainda de acordo com a legislação fiscal, são as despesas pagas ou incorridas e que sejam usuais e normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa”. 8 Imposto de Renda das Empresas – Interpretação e Prática – 2017 – pg. 283 Fl. 2455DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 46 Então, compendiando, se a pessoa jurídica suportar “decréscimos nos benefícios econômicos durante o período contábil sob a forma de saída ou redução de ativos ou incrementos em passivos, que resultam em decréscimo do patrimônio líquido e que não sejam provenientes de distribuição de resultado ou de capital aos proprietários da entidade” certamente estará diante do conceito de DESPESAS (consoante o Comitê de Pronunciamentos Contábeis), porém sua contraposição perante terceiros e principalmente aos órgãos estatais responsáveis pela aferição de sua regularidade formal e material deverá estar revestida de todos os requisitos implícita ou explicitamente alinhavados pela lei, doutrina, jurisprudência e normas reguladoras da ciência contábil. Insatisfeitos tais parâmetros, especialmente na seara do IRPJ e da CSLL, a dedutibilidade pretendida pelo sujeito passivo fica comprometida. São as definições da lei fiscal (RIR/1999, então vigente): Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2 As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3 O disposto neste artigo aplica-se também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Art. 300. Aplicam-se aos custos e despesas operacionais as disposições sobre dedutibilidade de rendimentos pagos a terceiros (Lei nº 4.506, de 1964, art. 45, § 2º). Art. 923. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 9º, §1º). Em suma, para que uma despesa seja DEDUTÍVEL é necessário que atenda aos requisitos de necessidade, usualidade e normalidade. É nesse cenário, pois, que devem ser analisados os lançamentos aqui trazidos. [...] Iniciando, destaco que o TVF é claro ao afirmar inexistir motivação extra tributária para a vultosa capitalização do BERJ empreendida pelo BANCO BRADESCO e pelo BRADESCO CARTÕES (“o objetivo buscado com tal capitalização residiria em deslocar resultados financeiros de forma artificial para o BERJ e viabilizar o aproveitamento do saldo de prejuízo fiscal e base de cálculo negativa da CSLL detidos por tal instituição financeira”). Com isso, ainda de acordo com a acusação Fl. 2456DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 47 fiscal, em razão desta ausência de motivação extra tributária, foram consideradas indedutíveis as seguintes despesas registradas pelo BRADESCO CARTÕES: i) juros passivos decorrentes da captação de R$ 15 bilhões por meio de CDI adquirido pelo BANCO BRADESCO e ii) juros passivos decorrentes da captação de R$ 15 bilhões por meio de CDI adquirido pelo BERJ, operações e estipêndios considerados desnecessários, vez que em nada teriam colaborado para o exercício da atividade empresarial desenvolvida pelo BRADESCO CARTÕES. Pois bem, como pontuado pela decisão a quo (Ac. DRJ – fls. 1739), a verdadeira motivação da operação foi fazer com que o destino dado pelo BERJ aos aportes de capital tivessem retorno imediato e integral ao BANCO BRADESCO e ao BRADESCO CARTÕES. Como retratado na fotografia: [...] Em valores e na linha do tempo entre 08 a 11 de outubro de 2012: 1.• BANCO BRADESCO transfere para BRADESCO CARTÕES (R$ 15 bilhões) via depósitos interfinanceiros; 2.• BRADESCO CARTÕES transfere para o BERJ os R$ 15 bilhões captados perante o BANCO BRADESCO) para integralização de aumento de capital; 3.• BANCO BRADESCO para o BERJ (R$ 31 bilhões) visando integralização de aumento de capital; e 4.• BERJ devolve para o BANCO BRADESCO R$ 46 bilhões referente depósitos interfinanceiros; Assim, patente o deslocamento artificial de receitas financeiras para o BERJ, com a nítida finalidade de aproveitamento do saldo de prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas detidas por tal instituição financeira. Frise-se que tal finalidade resta completamente reforçada pela redução de capital do BERJ tão logo exaurido os saldos de prejuízo fiscal e bases de cálculo negativas detidos por tal instituição financeira, sendo pertinente relembrar o quanto exposto pela fiscalização no TVF em relação a esta redução de capital: Certamente não se discute que instituições financeiras podem se valer desse instrumento de captação de recursos. O ponto nevrálgico não é este! O aspecto nuclear que aqui se analisa é apurar (já que a recorrente não esclareceu a contento), os seguintes aspectos fáticos: a) no momento inicial, o BANCO BRADESCO dispõe de R$ 46 bilhões em caixa; b) em seguida, o BRADESCO CARTÕES decide contrair dívida perante o BRADESCO no valor de R$ 15 bilhões: c) sequencialmente BRADESCO CARTÕES aplica o valor deste empréstimo firmado com o BANCO BRADESCO no capital do BERJ; Fl. 2457DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 48 d) paralela e concomitantemente o BANCO BRADESCO decide aportar os restantes R$ 31 bilhões no capital do BERJ; e) ao final, o BANCO BRADESCO anuncia a emissão de depósitos interfinanceiros e o BERJ devolve os valores aportados pelo BRADESCO CARTÕES e pelo BANCO BRADESCO ao seu titular original, ou seja, o próprio BANCO BRADESCO. Abstraindo possíveis outros motivos, a pergunta que a Fiscalização fez e não foi respondida a contento é: como compatibilizar a necessidade de caixa – pressuposto para a utilização de depósitos interfinanceiros – quando se constata que o emitente (BANCO BRADESCO) já dispunha do capital? Em outras palavras, por que este empréstimo, a circulação pelo BRADESCO CARTÕES e depois a devolução do referido empréstimo? Por que toda esta engenharia e por que a necessidade desta despesa financeira suportada pelo BRADESCO CARTÕES, considerando que todos os recursos financeiros utilizados na capitalização do BERJ já eram de titularidade do controlador do GRUPO, o BANCO BRADESCO, antes da operação? Ainda que se rebele a recorrente contra a conclusão do Fisco e da decisão recorrida, penso que razão não lhe cabe, isso porque o que aqui se discute é a necessidade da despesa sob a perspectiva da legislação do IRPJ e da CSLL, ou seja, se o endividamento assumido pela contribuinte era essencial para a sua atividade produtiva, não bastando para atender tais requisitos alegar que uma das atividades previstas em seu objeto social seria realizar investimento em outras pessoas jurídicas. Isso é muito genérico e não mostra qual a necessidade da despesa. A verdade é que o BERJ tinha um “ativo” que interessava ao BANCO BRADESCO e que certamente foi uma das variáveis levadas em conta para a entrada no negócio e aquisição da participação societária levada a efeito: a existência de prejuízo fiscal! Isso está claro no próprio RV da recorrente (fls. 1782/1783): Levando-se em conta que os saldos de prejuízo fiscal e base negativa da CSLL representavam um ativo relevante do BERJ considerado inclusive na determinação do preço PELO VENDEDOR, embora não fosse essa a razão da aquisição tanto que o Banco Bradesco sequer havia feito qualquer oferta em leilão anterior, quando o BERJ não detinha ainda o ativo correspondente ao contrato de processamento de folha de pagamentos, não seria razoável supor que o arrematante abriria mão desse ativo, deixando de buscar meios para viabilizar a sua realização financeira, até mesmo porque, como demonstrado na Impugnação apresentada pelo Bradesco (doc. 03 da Impugnação), a utilização daqueles saldos é induzida pelas normas regulamentares do Conselho Monetário Nacional (CMN), do Banco Central do Brasil (BACEN) e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Fl. 2458DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 49 Por essa razão, após adquirir as ações do BERJ o Bradesco traçou estratégias de negócios para tornar aquela instituição financeira rentável, gerando resultados tributáveis capazes de absorver os saldos de prejuízo fiscal e base negativa da CSLL, gerados em períodos anteriores. Pois bem, induvidosamente, como bem assenta a PGFN em suas contrarrazões (fls. 1912), “o pressuposto para o aumento de capital é permitir que uma pessoa jurídica desempenhe a sua atividade operacional, e não para viabilizar o exercício de um pretenso direito a um benefício fiscal”. Todas estas narrativas já mostram o cenário das operações, restando apenas ver em que as despesas suportadas pela recorrente se revestiriam, como esta pretende, dos requisitos de normalidade, usualidade e necessidade, impostos pelo artigo 299, do RIR/1999, então vigente. Data vênia à bem articulada peça de defesa e digna de todos os encômios, penso que as despesas financeiras assumidas pela recorrente junto ao BANCO BRADESCO não atenderam aos ditames legislativos que regem a matéria, a uma porque em última análise visaram permitir que o Bradesco, líder do grupo econômico, utilizasse o prejuízo fiscal que existia em estoque no BERJ (fato notório e reconhecido pela própria defesa); a duas porque se está diante de uma situação sui generis: admitir que uma emissão de depósitos interfinanceiros seria normal e usual e não precisaria ter como finalidade a captação de recursos, mas apenas a tentativa de compensar prejuízos fiscais e base de cálculo negativa de uma empresa ligada; e, a três, que, COMPROVADAMENTE, em parcos três dias, o volume aportado pelo Banco a ele voltou na mesma proporção, restando apenas a utilização dos prejuízos fiscais e as despesas financeiras suportadas pela recorrente que e pretendeu utilizar no abatimento do IRPJ e da CSLL. Ora se o BANCO BRADESCO tinha os recursos para tal empreendimento, por que BRADESCO CARTÕES teve que dele participar, aparentemente sem recursos próprios, tanto que fez empréstimo, suportou juros e depois viu quem fez o empréstimo o receber de volta? Evidentemente, sob o ângulo societário, comercial, privado, a Fiscalização não tem o direito de se imiscuir em tais atos. Porém, como dito antes neste voto, quando os efeitos econômicos passam a afetar as bases imponíveis de tributos e afetar sua apuração, cabe, sim, ao Poder Tributante aferir a regularidade de tal procedimento e seu reflexo naquilo que cabe ao ente estatal. Exatamente como ocorreu nos autos. (destaques do original) A Contribuinte alega que estes depósitos interfinanceiros contratados com BANCO BRADESCO foram destinados a BERJ em aumento de capital e assim ensejaram rendimentos em participações societárias, consoante documento nº 6 juntado à impugnação, integrado às e-fls. 1463 e seguintes. Tais elementos refletem as deliberações societárias do BERJ para pagamento de dividendos de R$ 2.586.906.942,00 ao longo de 2015, e promessa de pagamento em 14/12/2015 Fl. 2459DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 50 de R$ 1.700.000.000,00 a título de juros sobre o capital próprio por conta do resultado do exercício de 2015, bem como proposta de pagamento de R$ 20.000.000,00, deliberados em 29/11/2016, estas duas últimas depois da redução de capital de BERJ promovida em 17/11/2015. Há, também: i) fichas da DIPJ do ano-calendário 2012 com destaque para resultados positivos em participações societárias de R$ 893.861.342,22, desacompanhado da possível exclusão desse valor na apuração do lucro tributável; ii) deliberação de pagamento de juros sobre o capital próprio de R$ 1.800.000.000,00 com base no exercício de 2013, seguido de ficha da DIPJ do ano-calendário 2013 com informação de receitas de juros sobre o capital próprio de R$ 586.006.697,92, bem como de resultados positivos em participações societárias de R$ 713.369.871,52, desacompanhado da possível exclusão desse valor na apuração do lucro tributável, e associado apenas à lista de participação permanente em várias controladas, dentre elas o BERJ; iii) extratos de ECF do ano- calendário 2014, informando resultado de equivalência patrimonial com BERJ no valor de R$ 3.475.238.670,93, seguindo da exclusão de R$ 2.675.759.417,64; iv) extratos de ECF do ano- calendário 2015, informando resultado de equivalência patrimonial com BERJ no valor de R$ 1.912.707.954,95, desacompanhado da possível exclusão desse valor na apuração do lucro tributável. Como indicado e confirmado para o ano-calendário 2014, os resultados de equivalência patrimonial com BERJ não representam, em princípio, acréscimos ao lucro tributável, porque passíveis de exclusão. Para os juros sobre o capital próprio, por sua vez, não foi demonstrado seu cômputo no lucro tributável de 2014 e 2015, períodos aqui autuados. Há, apenas, deliberações que poderiam corresponder aos resultados apurados pelo BERJ no ano- calendário 2015, e não se pode olvidar da possibilidade dos efeitos do repasse desses rendimentos em uma cadeia de controle por pessoas jurídicas tributadas pelo lucro real, com os benefícios do art. 9º, §6º da Lei nº 9.249/95, de modo que as receitas de juros sobre capital próprio ensejem despesas de juros sobre capital próprio em favor do controlador BANCO BRADESCO. Por todo o exposto, não se vislumbra qualquer necessidade, usualidade ou normalidade na interposição da Contribuinte nas operações engendradas pelo BANCO BRADESCO para aproveitar o ativo consistente nos prejuízos fiscais e bases negativas detidos pelo BERJ. Nada há que justifique a segregação, para BRADESCO CARTÕES, de parte do aporte de capital em BERJ promovido com recursos do BANCO BRADESCO, os quais, inclusive, lhe foram integralmente restituídos na captação feita junto ao BERJ para conferir a este as receitas que permitiram o aproveitamento de seus prejuízos fiscais e bases negativas acumulados. Esta circulação de valores impede que o empréstimo de R$ 15 milhões feito por BANCO BRADESCO a BRADESCO CARTÕES seja avaliado de forma dissociada das demais operações, e neste contexto amplo resta evidente que as despesas financeiras escrituradas por BRADESCO CARTÕES não representam encargos necessários para o exercício de sua atividade como holding, vez que não decorrem de uma captação com vistas a auferir resultados de sua aplicação em participações societárias, e sim se prestam a carrear recursos financeiros ao BERJ, com vistas à sua restituição em captação onerosa pelo BANCO BRADESCO. A confirmar esta única finalidade, quando BERJ esgota seus prejuízos fiscais e bases negativas, a participação societária de BRADESCO CARTÕES em BERJ é revertida no Fl. 2460DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 51 montante aplicado para a produção das receitas que ensejaram os lucros que consumiram aqueles ativos. Estas as razões que prevaleceram, portanto, para NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da Contribuinte. Assinado Digitalmente Edeli Pereira Bessa DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheira Edeli Pereira Bessa O lançamento formalizado nestes autos tem em conta glosa de despesas não necessárias nos anos-calendário 2014 e 2015. O recurso especial da Contribuinte teve seguimento apenas na matéria “Dedutibilidade das despesas decorrentes dos depósitos interfinanceiros resultante da correta interpretação do artigo 299 do RIR/99”, com base nos paradigmas nº 1401-003.729 e 1302- 003.803, o segundo exarado em face da própria Contribuinte (Banco Bradesco Cartões S/A – BRADESCO CARTÕES -, ano-calendário 2012, processo administrativo nº 16327.721122/2017-47) e o primeiro diante de lançamento formalizado nos autos do processo administrativo nº 16327.721097/2017-00, inclusive citado na acusação fiscal destes autos, mas contra o sujeito passivo Banco Bradesco S/A – BANCO BRADESCO - (anos-calendário 2013 e 2014). Em pesquisa de jurisprudência neste Conselho, constata-se que a operação envolvendo aportes de capital por BANCO BRADESCO e BRADESCO CARTÕES no Banco Berj S/A – BERJ - também foi examinada: i) no Acórdão nº 1402-006.744, objeto do processo administrativo nº 16327.720390/2018-22, formalizado em face de BRADESCO CARTÕES (ano-calendário 2013); ii) na Resolução nº 1401-000.998, objeto do processo administrativo nº 16327.720937/2019-71, formalizado em face de BANCO BRADESCO (ano-calendário 2015). A autoridade lançadora também invoca decisão proferida no processo administrativo nº 16327.721149/2015-78, formalizado em face de Itaú Unibanco S/A, cuja exigência foi mantida neste Conselho conforme Acórdão nº 1401-002.345, exarado em 10/04/2018. Tal operação já foi submetida a esta instância especial, em razão de recurso especial interposto pela PGFN nos autos do processo administrativo nº 16327.720945/2018-36, que confrontou o Acórdão nº 1301-006.176 com a decisão do paradigma nº 1401-002.345. A maioria9 deste Colegiado, porém, negou conhecimento ao recurso especial no Acórdão nº 9101-007.284. 9 Participaram do julgamento os conselheiros Edeli Pereira Bessa, Luis Henrique Marotti Toselli e Luiz Tadeu Matosinho Machado, Maria Carolina Maldonado Mendonca Kraljevic, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Heldo Fl. 2461DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 52 Neste último caso, este Colegiado compreendeu que a análise da mesma operação no acórdão lá recorrido (nº 1301-006.176) havia considerado fundamentos de defesa não deduzidos no paradigma lá admitido (nº 1401-002.345), especialmente com respeito a normas regulamentares bancárias não examinadas no paradigma. Concluiu-se, dessa forma, pela incomparabilidade dos acórdãos, do que resultou o não conhecimento do recurso especial fazendário. Aqui, para além destes aspectos, deve-se atentar que o paradigma nº 1401-003.729 foi editado em face de outro sujeito passivo (BANCO BRADESCO), o que demanda a aferição dos contornos de conduta que foram relevantes para decisão dos diferentes Colegiados do CARF. No voto declarado no Acórdão nº 9101-006.357, esta Conselheira assim expôs aspectos que, em sua concepção, afetam a caracterização de divergência jurisprudencial na decisão de casos com significativa similitude, como o presente: A pretensão fazendária, assim, é que se afirme a incompatibilidade dos valores glosados nestes autos com as regras de dedutibilidade de amortização de ágio fundamentado economicamente na aquisição de “fundo de comércio, bens intangíveis e outras razões econômicas”. Contudo, para que este Colegiado possa assim proceder, no exercício da sua competência de instância especial para solução de dissídios jurisprudenciais, é necessário que as diferentes soluções dadas aos casos comparados residam na interpretação da legislação tributária de regência da matéria questionada. A circunstância de os casos comparados tratarem da mesma operação realizada pelo mesmo sujeito passivo, com repercussão em vários anos calendários e, assim, objeto de lançamento em distintos autos, submetidos à apreciação de diferentes Colegiados do CARF, é um indicativo forte no sentido de as soluções distintas representarem diferentes interpretações da legislação de regência da matéria. Tal, porém, somente se confirmará se as decisões diferentes partirem de discussões sob premissas semelhantes. E múltiplos fatores podem conduzir os Colegiados a decidir de forma diferente acerca da procedência do lançamento. Sem pretender exaurir as possibilidades, pode-se cogitar que: i) os lançamentos: i.i) sejam aperfeiçoados com o acréscimo de argumentos de reforço nas lavraturas posteriores à primeira; i.ii) sejam depreciados com exposições resumidas ou adaptações incorretas da primeira formalização; ou i.iii) refiram legislação distinta em razão da sua alteração ao longo do período no qual os efeitos tributários se verificaram; ii) as defesas também sejam aperfeiçoadas ou depreciadas ao tempo em que produzidas; iii) distintas autoridades julgadoras de 1ª instância confrontem as defesas com argumentos específicos ou até reconheçam de vícios de ofício, que motivem recursos voluntários com diferentes construções argumentativas; e iv) Colegiado de 2ª instância ignore argumentos de defesa que outro Colegiado tome como Jorge dos Santos Pereira Júnior, Jandir José Dalle Lucca e Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente em exercício), divergiu a conselheira Edeli Pereira Bessa e votou pelas conclusões o conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado. Fl. 2462DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 53 determinante para a solução distinta aplicada ao caso. Esta última circunstância, em regra, demandará atuação da parte interessada para desfazer a dessemelhança entre os cenários mediante oposição de embargos de declaração, isso se distinção não estiver consolidada por insuficiência do recurso voluntário. Mas, uma vez alinhados os cenários submetidos aos diferentes Colegiados do CARF, as distintas manifestações a partir das mesmas premissas necessariamente evidenciará divergência jurisprudencial na interpretação da legislação tributária porque a produção do ato decisório, como ato administrativo, não contempla espaço de liberdade no qual possa se situar a justificativa para diferentes respostas da Administração Tributária aos interessados. A resposta deverá, necessariamente, resultar de interpretação da legislação tributária, e isso inclusive no exercício da livre convicção prevista no art. 29 do Decreto nº 70.235/7210, dado tal dispositivo apenas impedir a imposição ao julgador de uma fórmula de apreciação de provas, sem representar um salvo-conduto para edição de atos decisórios imotivados. No presente caso, as soluções adotadas pelos diferentes Colegiados do CARF são substancialmente distintas e claramente afetadas pela percepção dos fatos extraída da acusação fiscal confrontada pela defesa da Contribuinte. O Colegiado a quo entendeu que o custo dos direitos de crédito adquiridos seriam passíveis de amortização por fundamento legal distinto daquele adotado pela autoridade lançadora para glosa e, no paradigma, este fundamento foi considerado correto para anular as repercussões no lucro tributável frente a planejamento fiscal irregular que transformou a aquisição de uma carteira de clientes em uma empresa formalmente constituída para esse fim. Importante, assim, verificar se há alinhamento entre os litígios submetidos à decisão dos diferentes Colegiados do CARF. [...] Esta Conselheira concorda com a conclusão do I. Relator de que, como o Colegiado do paradigma não analisou a matéria à luz da mesma legislação tributária que foi invocada no acórdão recorrido como razões de decidir, prejudicada estaria a caracterização do dissídio jurisprudencial. Contudo, cabe observar que casos podem existir no qual esta circunstância ocorre e o dissídio jurisprudencial reside, justamente, na análise da matéria sob legislação distinta. Aqui, porém, como demonstrado, é possível afirmar que a distinção dos cenários jurídicos decorre da omissão do Colegiado paradigma acerca do art. 325 do RIR/99, que lá não foi alegado, ou se teve por não alegado, como razão de defesa. Nesta linha, é possível aplicar, aqui, a máxima que tem orientado, frequentemente, a decisão de conhecimento de recurso especial nesta Turma: não é possível afirmar que o Colegiado que editou o paradigma manteria o 10 Art. 29. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias. Fl. 2463DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 54 presente lançamento porque, embora apreciando a mesma operação e a mesma acusação fiscal, não há evidências de que tenha apreciado os mesmos argumentos de defesa da Contribuinte. Assim, ausente o enfrentamento, no paradigma, acerca da repercussão do art. 325 do RIR/99 nos efeitos fiscais da operação em debate, o dissídio jurisprudencial não se estabelece. Infere-se, de todo o exposto, que minimamente a defesa apresentada pela Contribuinte nestes autos foi distinta daquela apresentada no paradigma, e assim motivou dessemelhança no contexto fático e jurídico posto sob apreciação do Colegiado a quo, impedindo a caracterização do dissídio jurisprudencial. Constata-se no relatório dos acórdãos comparados que, embora a operação seja descrita com os mesmos contornos, quando a Fiscalização começa a concluir suas análises, há passagem na qual, na exigência contra BANCO BRADESCO, foi suprimida a conduta de BRADESCO CARTÕES: No recorrido: Se o Bradesco Cartões necessitasse efetivamente de recursos para o fechamento de seu caixa, então, não haveria nenhuma razão para tomar R$ 15 bilhões em DI junto ao Banco Bradesco e aportá-lo integralmente no Berj e pagar as respectivas despesas financeiras. O mesmo pode-se afirmar em relação ao Banco Bradesco ao destinar R$ 31 bilhões para aumento de capital da controlada e ato contínuo tomar em DI todo o valor recém destinado ao Berj e, a partir daí, pagar despesas financeiras. No paradigma nº 1401-003.729: Na outra ponta, se o Banco Bradesco necessitasse efetivamente de recursos para o fechamento de seu caixa, então, não haveria nenhuma razão para ter realizado um aporte de R$ 46 bilhões na controlada Berj e pagar as respectivas despesas; No paradigma nº 1302-003.803: Se o Bradesco Cartões necessitasse efetivamente de recursos para o fechamento de seu caixa, então, não haveria nenhuma razão para tomar R$ 15 bilhões em DI junto ao Banco Bradesco e aportá-lo integralmente no Berj e pagar as respectivas despesas financeiras. O mesmo pode-se afirmar em relação ao Banco Bradesco ao destinar R$ 31 bilhões para aumento de capital da controlada e ato contínuo tomar em DI todo o valor recém destinado ao Berj e, a partir daí, pagar despesas financeiras; Ao finalizar a descrição da conclusão fiscal, o relatório do paradigma também não contempla a passagem de parte dos recursos por BRADESCO CARTÕES: No recorrido: De fato, a execução do planejamento do presente caso equivale ao Banco Bradesco sacar dinheiro de um bolso e colocá-lo em outro, pois, os recursos saem do Banco Bradesco, passeiam pelo Bradesco Cartões Fl. 2464DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 55 (R$ 15 bilhões) e pelo Berj (R$ 46 bilhões) e retornam pela via de aplicações em depósitos interfinanceiros ao próprio Banco Bradesco. Ou seja, os recursos efetivamente retornaram de forma imediata à posse do seu controlador e fonte dos recursos, com objetivos relatados anteriormente. Assim, tais operações não tem o condão de serem oponíveis ao Fisco. No paradigma nº 1401-003.729: De fato, a execução do planejamento do presente caso equivale ao Banco Bradesco sacar dinheiro de um bolso e colocá-lo em outro, pois, não apenas pelo fato de o Berj ser um controlada, como também por este ter destinado os recursos recebidos em aplicações em depósitos interfinanceiros do próprio Banco Bradesco, ou seja, os recursos efetivamente retornaram de forma imediata à posse do seu controlador e fonte dos recursos, com objetivos relatados anteriormente. Assim, tais operações não tem o condão de serem oponíveis ao Fisco; No paradigma nº 1302-003.803: De fato, a execução do planejamento do presente caso equivale ao Banco Bradesco sacar dinheiro de um bolso e colocá-lo em outro, pois, os recursos saem do Banco Bradesco, passeiam pelo Bradesco Cartões (R$ 15 bilhões) e pelo Berj (R$ 46 bilhões) e retornam pela via de aplicações em depósitos interfinanceiros ao próprio Banco Bradesco. Ou seja, os recursos efetivamente retornaram de forma imediata à posse do seu controlador e fonte dos recursos, com objetivos relatados anteriormente. Assim, tais operações não tem o condão de serem oponíveis ao Fisco; No recorrido, vê-se no voto vencedor de lavra do Conselheiro Paulo Mateus Ciccone que os fundamentos para negar a dedutibilidade das despesas financeiras contabilizadas por BRADESCO CARTÕES têm em conta sua figuração em contexto que principia assim delineado: Iniciando, destaco que o TVF é claro ao afirmar inexistir motivação extra tributária para a vultosa capitalização do BERJ empreendida pelo BANCO BRADESCO e pelo BRADESCO CARTÕES (“o objetivo buscado com tal capitalização residiria em deslocar resultados financeiros de forma artificial para o BERJ e viabilizar o aproveitamento do saldo de prejuízo fiscal e base de cálculo negativa da CSLL detidos por tal instituição financeira”). Com isso, ainda de acordo com a acusação fiscal, em razão desta ausência de motivação extra tributária, foram consideradas indedutíveis as seguintes despesas registradas pelo BRADESCO CARTÕES: i) juros passivos decorrentes da captação de R$ 15 bilhões por meio de CDI adquirido pelo BANCO BRADESCO e ii) juros passivos decorrentes da captação de R$ 15 bilhões por meio de CDI adquirido pelo BERJ, operações e estipêndios considerados desnecessários, vez que em nada teriam colaborado para o exercício da atividade empresarial desenvolvida pelo BRADESCO CARTÕES. Pois bem, como pontuado pela decisão a quo (Ac. DRJ – fls. 1739), a verdadeira motivação da operação foi fazer com que o destino dado pelo BERJ aos aportes de Fl. 2465DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 56 capital tivessem retorno imediato e integral ao BANCO BRADESCO e ao BRADESCO CARTÕES. Como retratado na fotografia: [...] Em valores e na linha do tempo entre 08 a 11 de outubro de 2012: 1.• BANCO BRADESCO transfere para BRADESCO CARTÕES (R$ 15 bilhões) via depósitos interfinanceiros; 2.• BRADESCO CARTÕES transfere para o BERJ os R$ 15 bilhões captados perante o BANCO BRADESCO) para integralização de aumento de capital; 3.• BANCO BRADESCO para o BERJ (R$ 31 bilhões) visando integralização de aumento de capital; e 4.• BERJ devolve para o BANCO BRADESCO R$ 46 bilhões referente depósitos interfinanceiros; Assim, patente o deslocamento artificial de receitas financeiras para o BERJ, com a nítida finalidade de aproveitamento do saldo de prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas detidas por tal instituição financeira. Frise-se que tal finalidade resta completamente reforçada pela redução de capital do BERJ tão logo exaurido os saldos de prejuízo fiscal e bases de cálculo negativas detidos por tal instituição financeira, sendo pertinente relembrar o quanto exposto pela fiscalização no TVF em relação a esta redução de capital: Certamente não se discute que instituições financeiras podem se valer desse instrumento de captação de recursos. O ponto nevrálgico não é este! O aspecto nuclear que aqui se analisa é apurar (já que a recorrente não esclareceu a contento), os seguintes aspectos fáticos: a) no momento inicial, o BANCO BRADESCO dispõe de R$ 46 bilhões em caixa; b) em seguida, o BRADESCO CARTÕES decide contrair dívida perante o BRADESCO no valor de R$ 15 bilhões: c) sequencialmente BRADESCO CARTÕES aplica o valor deste empréstimo firmado com o BANCO BRADESCO no capital do BERJ; d) paralela e concomitantemente o BANCO BRADESCO decide aportar os restantes R$ 31 bilhões no capital do BERJ; e) ao final, o BANCO BRADESCO anuncia a emissão de depósitos interfinanceiros e o BERJ devolve os valores aportados pelo BRADESCO CARTÕES e pelo BANCO BRADESCO ao seu titular original, ou seja, o próprio BANCO BRADESCO. Abstraindo possíveis outros motivos, a pergunta que a Fiscalização fez e não foi respondida a contento é: como compatibilizar a necessidade de caixa – Fl. 2466DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 57 pressuposto para a utilização de depósitos interfinanceiros – quando se constata que o emitente (BANCO BRADESCO) já dispunha do capital? (destaques do original) Até aqui, a operação é tratada sem destaques relevantes acerca da conduta da Contribuinte. Mas, na sequência, a interposição de BRADESCO CARTÕES ganha importância em razão de o BANCO BRADESCO dispor de todos os recursos financeiros utilizados para capitalização do BERJ: Em outras palavras, por que este empréstimo, a circulação pelo BRADESCO CARTÕES e depois a devolução do referido empréstimo? Por que toda esta engenharia e por que a necessidade desta despesa financeira suportada pelo BRADESCO CARTÕES, considerando que todos os recursos financeiros utilizados na capitalização do BERJ já eram de titularidade do controlador do GRUPO, o BANCO BRADESCO, antes da operação? Ainda que se rebele a recorrente contra a conclusão do Fisco e da decisão recorrida, penso que razão não lhe cabe, isso porque o que aqui se discute é a necessidade da despesa sob a perspectiva da legislação do IRPJ e da CSLL, ou seja, se o endividamento assumido pela contribuinte era essencial para a sua atividade produtiva, não bastando para atender tais requisitos alegar que uma das atividades previstas em seu objeto social seria realizar investimento em outras pessoas jurídicas. Isso é muito genérico e não mostra qual a necessidade da despesa. A verdade é que o BERJ tinha um “ativo” que interessava ao BANCO BRADESCO e que certamente foi uma das variáveis levadas em conta para a entrada no negócio e aquisição da participação societária levada a efeito: a existência de prejuízo fiscal! Isso está claro no próprio RV da recorrente (fls. 1782/1783): [...] Pois bem, induvidosamente, como bem assenta a PGFN em suas contrarrazões (fls. 1912), “o pressuposto para o aumento de capital é permitir que uma pessoa jurídica desempenhe a sua atividade operacional, e não para viabilizar o exercício de um pretenso direito a um benefício fiscal”. Todas estas narrativas já mostram o cenário das operações, restando apenas ver em que as despesas suportadas pela recorrente se revestiriam, como esta pretende, dos requisitos de normalidade, usualidade e necessidade, impostos pelo artigo 299, do RIR/1999, então vigente. Data vênia à bem articulada peça de defesa e digna de todos os encômios, penso que as despesas financeiras assumidas pela recorrente junto ao BANCO BRADESCO não atenderam aos ditames legislativos que regem a matéria, a uma porque em última análise visaram permitir que o Bradesco, líder do grupo econômico, utilizasse o prejuízo fiscal que existia em estoque no BERJ (fato Fl. 2467DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 58 notório e reconhecido pela própria defesa); a duas porque se está diante de uma situação sui generis: admitir que uma emissão de depósitos interfinanceiros seria normal e usual e não precisaria ter como finalidade a captação de recursos, mas apenas a tentativa de compensar prejuízos fiscais e base de cálculo negativa de uma empresa ligada; e, a três, que, COMPROVADAMENTE, em parcos três dias, o volume aportado pelo Banco a ele voltou na mesma proporção, restando apenas a utilização dos prejuízos fiscais e as despesas financeiras suportadas pela recorrente que e pretendeu utilizar no abatimento do IRPJ e da CSLL. Ora se o BANCO BRADESCO tinha os recursos para tal empreendimento, por que BRADESCO CARTÕES teve que dele participar, aparentemente sem recursos próprios, tanto que fez empréstimo, suportou juros e depois viu quem fez o empréstimo o receber de volta? (destaques do original) Como se vê, o voto condutor do acórdão recorrido deixa de analisar a operação sob a ótica do interesse do BANCO BRADESCO, como líder do grupo econômico, de utilizar o prejuízo fiscal que existia em estoque no BERJ, e centra a objeção na participação da Contribuinte, sem recursos próprios, num contexto em que BANCO BRADESCO já dispunha dos recursos para aquela finalidade. Ao final, esta argumentação é assim arrematada: Contra esta realidade, impensável a tentativa de justificar a capitalização do BERJ sob o pretexto de que haveria razões negociais, no próprio BERJ, que demandariam recursos. Com efeito, restou demonstrado que o único propósito na capitalização do BERJ foi propiciar o aproveitamento do estoque de prejuízo fiscal e base negativa da CSLL. Partindo dessa premissa, forçoso concluir que o BRADESCO CARTÕES incorreu em despesas desnecessárias e que não podem ser tratadas como usuais e normais, isso porque não se mostra juridicamente válido afirmar que são dedutíveis – usuais, normais e necessárias – as despesas incorridas por uma pessoa jurídica (BRADESCO CARTÕES) para que outra pessoa jurídica pudesse aproveitar estoques de prejuízo fiscal e base negativa da CSLL. Importa avaliar, assim, se quando a operação é analisada no paradigma nº 1401- 003.729, o outro Colegiado do CARF aceita as justificativas, também, para a participação de BRADESCO CARTÕES. No voto condutor do paradigma nº 1401-003.729, o relator ex-Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues cita BRADESCO CARTÕES na sequência de fatos que compõem a operação e, depois de expor seu conceito de despesas dedutíveis, somente se refere a BRADESCO CARTÕES quanto diz não haver artificialidade na sequência de aquisição, capitalização e redução de capital, nos seguintes termos: Feita essas conceituações, no caso concreto, observa-se da cronologia dos eventos que a Recorrente adquiriu a totalidade das ações da BERJ em setembro de 2011. Tal aquisição foi feita por meio de leilões públicos realizados junto ao Estado do Rio de Janeiro, controlador majoritário, e oferta pública junto a BM&F para aquisição das ações dos minoritários. Fl. 2468DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 59 Apenas em Outubro de 2012 foram realizados os aportes a título de aumento de capital. Neste mesmo período ocorreram as operações de Depósito Interfinanceiro (DI) onde a Recorrente captou Recursos junto ao BERJ. Em fevereiro de 2014 foi feita a transferência da totalidade da BERJ para a Bradesco Cartões, subsidiária integral da Recorrente. E, finalmente, quase dois anos depois, em novembro de 2015, houve as reduções de capital da BERJ para a Bradesco Cartões e, sucessivamente, para a Recorrente. Insta dizer que o lapso temporal entre a aquisição e a capitalização, bem como desta para com a redução de capital, perfazem indícios de legitimidade das operações. Depois, o relator conclui não demonstrada artificialidade porque: i) após a redução de capital, o BERJ ainda permaneceu com patrimônio líquido de R$ 3,09 bilhões; ii) o BERJ exercia o direito de administrar a folha de pagamento de servidores e pensionistas do Estado do Rio de Janeiro; iii) o edital de venda do BERJ incluía o prejuízo fiscal e o saldo negativo como atrativos para a venda; iv) pretensão de o BERJ vir a operar em segmento de leasing; e v) pretensão do BANCO BRADESCO adquirir empresas junto à HSBC Latin America Holdins (UK) a justificar a redução de capital da BERJ. Com respeito aos depósitos interfinanceiros, o relator do paradigma pondera que: Quanto a necessidade de tais operações, conforme já dito, é necessário análise cautelosa para afastá-la. Entendo que, em um grupo de empresas, faz parte da atividade negocial buscar fomentar e desenvolver cada empresa que compõe o grupo. Em especial no caso da BERJ, que ficou demonstrado que exercia atividades próprias e vinha de situação econômica delicada, não está fora da normalidade que a Recorrente tenha preferido se utilizar de sua subsidiária para a captação de recursos via DI do que negociar com demais concorrentes. [...] Aliás, com base nos fundamentos da autuação, caso a Recorrente tivesse realizado a mesma operação (DI) com outra instituição financeira, teria direito a dedução das respectivas despesas sem maiores questionamentos. Igualmente se o BERJ tivesse realizado as mesmas aplicações junto a outro banco, teria obtido o mesmo resultado. Transparece, assim, que a operação entre as partes, ainda que relacionadas, se deu dentro da normalidade, não havendo qualquer prejuízo à fiscalização. Destarte, não vislumbro razão para afastamento da regra do art. 299 do RIR/99, devendo as despesas incorridas serem reputadas como despesas operacionais e, portanto, dedutíveis da base tributária. Como se vê, nada no paradigma nº 1401-003.729 se contrapõe à conclusão do recorrido de que a BRADESCO CARTÕES foi beneficiada com despesas sem aportar recursos Fl. 2469DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 60 próprios na operação, vez que o BANCO BRADESCO já dispunha dos recursos para aquela finalidade. Observe-se, ainda, que o paradigma nº 1401-003.729 conta com declaração de voto na qual o ex-Conselheiro Abel Nunes de Oliveira Neto esclarece o posicionamento divergente daquele adotado em relação a operação semelhante realizada pelo Banco Itaú, mormente porque: i) os prejuízos fiscais e bases negativas do BERJ eram ativo considerando na arrematação da instituição pelo BANCO BRADESCO; ii) a operação envolveu aporte de R$ 46 bilhões para utilização de prejuízos de R$ 2,7 bilhões; iii) o proceder guarda similitude com outros nos quais artifícios operacionais se prestam a obter benefícios fiscais permitidos pela legislação que não seriam fruídos de forma normal; e iv) os dirigentes da Companhia teriam a obrigação de realizar esforços para utilizar o ativo adquirido. Assim, não haveria ilegalidade flagrante e haveria interesse negocial específico, bem como obrigação da administração da Companhia em fazer uso do ativo, consignando ao final que: Neste caso específico os prejuízos fiscais foram claramente destacados no edital de leilão como parte dos ativos bons da empresa junto com a folha do funcionalismo. Assim ao formar o preço de oferta o recorrente calculou o valor destes prejuízos em sua formação. Neste sentido, entendo que seria excessivo exigir que o recorrente simplesmente deixasse perecer essa parte do ativo adquirido. Por isso, neste processo me posiciono de forma diferente à adotada no caso do processo relativa à operação entre os Bancos Itaú e Unibanco, em face de existirem elementos diversos, como a aquisição feita em leilão, que demonstram que os prejuízos fiscais eram um dos elementos essenciais na composição do patrimônio adquirido. Este voto declarado, portanto, também não traz considerações acerca da atuação específica da BRADESCO CARTÕES na operação. Note-se, por fim, que o paradigma nº 1401-003.729 foi citado voto vencido da ex- Conselheira Junia Roberta Gouveia Sampaio integrado ao acórdão recorrido, mas com acréscimos acerca da análise da conduta de BRADESCO CARTÕES: É importante registrar que a 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara reconheceu a legitimidade da dedução das despesas na autuação do Banco Bradesco, relativa à mesma operação objeto do presente processo, conforme se verifica pela ementa do Acórdão nº 1401-003.729 abaixo transcrita: [...] Além disso, como observa a Recorrente, a participação detida no BERJ rendeu frutos ao recorrente, uma vez que no período base autuado e nos subsequentes seu lucro contábil foi incrementado pelo resultado positivo de equivalência patrimonial e recebido dividendos, bem como pelo recebimento de juros sobre o capital próprio, nos anos-base 2013, 2015 e 2016 que inclusive afetaram Fl. 2470DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 61 positivamente os resultados tributáveis. Tal situação contradiz a afirmação constante da decisão recorrida no sentido de que “a captação obtida perante o BANCO BRADESCO, que permitiu a capitalização do BERJ não trouxe nenhuma vantagem para o BRADESCO CARTÕES. Conclui-se, do exposto, que o voto vencedor ampliou a análise da operação para além da usualidade da captação de recursos junto a terceiros com vistas a realização de um investimento (aumento de capital em empresa ligada), dando relevo ao fato de que BRADESCO CARTÕES não aportou recursos próprios na operação. Por tais razões, o paradigma nº 1401-003.729, editado em razão das operações de BANCO BRADESCO, não se presta a caracterizar divergência jurisprudencial em face do recorrido, que teve em conta a participação de BRADESCO CARTÕES na operação em questão. Já no paradigma nº 1302-003.803, o principal fundamento para cancelamento da exigência11 foi a visão parcial do Fisco acerca da apontada economia fiscal, tendo em conta alegação que contemplaria a arrecadação global observada nas três instituições financeiras: Já em sua peça impugnatória, dentre várias alegações, a recorrente sustentava que as operações não haviam causado prejuízo para o Erário do ponto de vista da arrecadação global observada nas três instituições financeiras. A fiscalização não havia verificado qual seria o resultado global se os efeitos fiscais da capitalização do BERJ e dos depósitos interfinanceiros fossem desconsiderados. Em outras palavras, caso a fiscalização tivesse analisado por completo os efeitos contrários e favoráveis aos interesses do Fisco, chegaria à conclusão de que a arrecadação tributária total foi maior do que seria se aquelas operações não houvessem sido realizadas. Para comprovar tal assertiva, juntou os demonstrativos e cópias de declarações anexados como "DOC. 05" da impugnação (fls. 3125 a 3250). Com efeito, segundo os cálculos contidos nessa documentação, a soma dos tributos (IRPJ e CSLL) devidos apurados pelas três instituições financeiras superou (em R$ 315.812.271,00) a soma correspondente que seria apurada se as referidas operações não tivessem sido realizadas (cf. fls. 3126). Nesses cálculos, é possível constatar que, nas três instituições, foram considerados tanto os efeitos das receitas e despesas financeiras quanto os efeitos das compensações dos prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas da CSLL. Diante de tal alegação, a decisão recorrida socorre-se dos princípios contábeis para concluir que estes consagram a autonomia patrimonial da sociedade em relação aos sócios e acionistas, bem como entre pessoas jurídicas distintas ainda que possuam idêntico quadro societário, e que cada entidade ou pessoa jurídica 11 O paradigma traz a decisão de que foi dado provimento parcial ao recurso voluntário, mas o voto condutor é pelo provimento total, e esta conclusão foi confirmada no Acórdão nº 1302-004.414, que recebeu como embargos inominados questionamento dirigido pela Unidade Preparadora, e os acolheu sem efeitos infringentes. Fl. 2471DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 62 deve registrar individualmente (de forma segregada) as mutações do seu patrimônio, reconhecendo receitas e custos ou despesas que lhe são próprios. Ora, a questão aqui não tem a ver com o princípio da segregação contábil das entidades. Foi a própria acusação quem se utilizou do argumento de que a economia fiscal obtida noutra instituição do grupo econômico justificava a glosa das despesas financeiras no âmbito da recorrente. Nada obstante, enxergar a economia fiscal numa só ponta em detrimento do que acontece no todo me parece uma visão míope dos fatos. Já tive a oportunidade de deixar bem clara a minha posição contrária aos planejamentos marcados pelo propósito da economia tributária em vários julgamentos desta Casa. Considero correto declarar a inoponibilidade das operações concernentes ao Fisco quando a preponderância daquele propósito fica bem demonstrada. Todavia, há que se ter cuidado para não banalizar o fenômeno. [...] Independentemente da fidedignidade dos dados contidos na documentação que comprova a ausência de prejuízo ao Erário, o que importa é notar a fragilidade da acusação. Se a autoridade fiscal pretendia desqualificar o atributo da "necessidade" das despesas financeiras com a justificativa de que as operações engendradas visavam à economia tributária, deveria ter tomado o cuidado de se certificar que essa economia seria um resultado muito provavelmente alcançado com aquelas operações. Mas, aparentemente, nem isso seria possível. É que a economia tributária obtida no BERJ com a compensação dos prejuízos fiscais e bases de cálculo negativa da CSLL teria que ser limitada pela trava dos 30%. Portanto, de cada real acrescido às bases de cálculo pelas receitas financeiras, setenta centavos teriam que ser tributados. Nesse cenário, a economia só estaria assegurada se a despesa financeira correspondente gerasse uma redução na tributação das outras instituições financeiras (os Bancos Bradesco e Bradesco Cartões) superior aos tributos incidentes sobre os setenta centavos no BERJ. Mas, como garantir isso se não se poderia a priori saber se as outras instituições apurariam lucro real e base de cálculo positiva da CSLL suficientes para toda a redução exigida? Seria uma empreitada de futurologia difícil de ser alcançada. A verdade é que o Grupo Bradesco pode até ter objetivado a economia tributária com aquelas operações, mas o resultado dependia de variáveis não totalmente controladas. Por outro lado, a fiscalização também não poderia desconsiderar apenas os efeitos que lhe foram desfavoráveis. No caso concreto, haveria que reconhecer os créditos decorrentes dos tributos pagos por obra das mesmas operações. Como a caracterização do planejamento tributário depende da compreensão dos fatos numa perspectiva organizacional, os seus efeitos hão que ser também considerados na sua plenitude. Fl. 2472DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 63 Nesse cenário, apesar de ser possível, em tese, questionar a necessidade das despesas glosadas, não se pode concordar com o fundamento proposto pela fiscalização. Focando apenas na operação de CDI contraída com o Banco Bradesco, trata-se de transação corriqueira no seio das instituições financeiras. As correspondentes despesas são, em regra, dedutíveis porque associadas a alguma necessidade financeira do tomador do empréstimo. É difícil contestá-las sem um elemento concreto dissociado da realidade apresentada. Destarte, a meu ver, são irrelevantes as outras razões que pretendem confirmar ou infirmar a procedência da glosa das referidas despesas. Por decorrência lógica, é também desnecessário o enfrentamento das alegações atinentes ao erro na apuração da base tributável, ao aproveitamento dos saldos negativos apurados em 2012 e ao caráter excessivo das multas de ofício aplicadas. O voto condutor do acórdão recorrido, por sua vez, se opondo à invocação pelo voto vencido, também, do paradigma nº 1302-003.803, é expresso no sentido de que o debate em torno da “arrecadação global do tributo” é inoportuno e foge àquilo que lá se analisava, qual seja, se as despesas suportadas pela recorrente, BRADESCO CARTÕES, revestem-se dos requisitos de dedutibilidade. De toda a sorte, transcreveu a abordagem do tema pela decisão de 1ª instância, que se calcou no fato de que o BANCO BRADESCO já apuraria prejuízos fiscais nos anos-calendário 2013 a 2015, mesmo sem as despesas de captação geradas com a operação sob exame, apontando ser momentânea a majoração de carga tributária com a incidência verificada no âmbito do BERJ, em razão do limite de 30% para compensação de prejuízos fiscais e bases negativas. Assim, o paradigma nº 1302-003.803 se presta a constituir o dissídio jurisprudencial suscitado pela Contribuinte, vez que, diversamente da percepção do voto condutor do acórdão recorrido, lá demandou-se que para negar a dedutibilidade das despesas financeiras seria necessário, como expresso em sua ementa, um elemento concreto dissociado da realidade apresentada. Por tais razões, esta Conselheira concorda com a conclusão do I. Relator, no sentido de CONHECER do recurso especial da Contribuinte, mas apenas com base no paradigma nº 1302- 003.803. Assinado Digitalmente Edeli Pereira Bessa Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli Optei por apresentar a presente declaração de voto para evidenciar os fundamentos que me levaram a acompanhar o voto do Relator. Fl. 2473DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 64 Restou demonstrado que o Bradesco Cartões (Recorrida) captou R$ 15 bilhões junto ao Banco Bradesco por meio de DI (Depósitos Interfinanceiros), com previsão de pagamento de juros, recursos estes que, após cerca de 1,5 anos, foram utilizados para aumentar o Capital Social do BERJ, instituição financeira que já havia sido adquirida pelo grupo junto a terceiros. Paralelamente, o Banco Bradesco aportou R$ 31 bilhões no Capital Social do BERJ e, na sequência, o BERJ emprestou a totalidade dos recursos recebidos (R$ 46 bilhões) junto ao próprio Banco Bradesco, também via DI. A partir dessas operações, o BERJ passou a auferir receitas financeiras oriundas dos DI’s, que lhe possibilitaram absorver prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL acumulados e, em contrapartida, o Bradesco Cartões (assim como o Banco Bradesco) passou a deduzir as despesas com os juros pactuados. Nesse contexto, a autoridade fiscal responsável pelos lançamentos exige IRPJ e CSLL do Bradesco Cartões, em razão da glosa dessas despesas financeiras, sob a alegação de que teria havido um planejamento tributário sem propósito negocial que resultaria na sua não necessidade. Pois bem. Quanto à tese de existência de planejamento fiscal sem propósito negocial, cumpre observar, de plano, que a fiscalização, ao desconsiderar o efeito global da tributação, não cumpriu seu ônus de apontar qual teria sido a exata economia tributária obtida, o que impede de se certificar da real existência de um prejuízo aos cofres públicos. A afirmativa genérica de que a geração de despesas financeiras “em uma ponta” como gatilho para aproveitar prejuízos fiscais e bases negativas “na outra” que passa a auferir receitas financeiras, também é no mínimo duvidosa diante da incerteza dos resultados futuros e da própria natureza do Ativo que se buscou realizar (prejuízo fiscal e base negativa), o qual muitas vezes é equiparado até como moeda pela própria legislação tributária, que inclusive autoriza, em determinadas hipóteses, que seja transferido para outras empresas relacionadas. Não se pode perder de vista, ademais, que a compra do BERJ pelo Bradesco, de acordo com o Edital de Venda de Ações Ordinárias e Prefenciais de Emissão do banco do estado do Rio de Janeiro S/A – em Liquidação Ordinária (fls. 1.091/1.207), teve como propósito não só o saldo de prejuízos fiscais e bases negativas já lá registrado como Ativo, mas também o Contrato de Prestação de Serviços de Processamento de Folha de Pagamento e Outras Avenças, firmado com o Estado do Rio de Janeiro, que até então era de titularidade do BERJ. Levando-se em conta que os saldos de prejuízo fiscal e base negativa da CSLL representavam um ativo relevante do BERJ, tendo sido inclusive considerado na determinação do preço de oferta, não me parece nada razoável supor que o grupo adquirente (Bradesco) deveria “abrir mão” desse ativo, deixando de buscar meios para viabilizar a sua realização financeira. A partir, então, do momento da aquisição do BERJ, revela-se natural a realocação de recursos do grupo Bradesco para concentração de receitas capazes de absorver os prejuízos Fl. 2474DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 65 fiscais e bases negativas no BERJ, que continuou em operação, lembrando aqui que a baixa desse Ativo sem a sua utilização traria implicações operacionais negativas frente aos Acordos de Basileia. A propósito, foi demonstrado quem o BERJ, durante o tempo em que as despesas de juros foram incorridas pelo Bradesco Cartões, auferiu receitas que superaram o saldo existente de prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL, tendo o seu PL (Patrimônio Líquido) significativamente aumentado durante este período (de R$27MM para R$3,7bilhões, cf. Doc. 04 da impugnação – fls. 1.208/1.210). Outro fato que chama atenção é o de que a fiscalização não alegou quaisquer vícios quanto à eficácia dos atos jurídicos praticados (DI e subscrição das ações do BERJ), não havendo na acusação fiscal nenhuma motivação que pudesse caracterizar a ocorrência de simulação quanto aos meios empregados na realocação de recursos entre as entidades do grupo. Pelo contrário, a fiscalização reconheceu as despesas financeiras (os juros do DI) como efetivamente incorridas e sem qualquer questionamento quanto às taxas aplicadas, o que eventualmente poderia levar à discussão para outros caminhos. Mais precisamente, o silogismo empregado pelo Fisco foi o seguinte: como o controlador do grupo, o Banco Bradesco, já detinha os recursos objeto do DI concedido à Recorrida e empregado na capitalização do BERJ, as despesas daí decorrentes seriam desnecessárias e, portanto, indedutíveis. Reduzindo, assim, a matéria controvertida a esses contornos, entendo que a dedutibilidade das despesas financeiras em questão deve ser assegurada. Primeiro porque, conforme bem expôs o Relator, o Direito Tributário não contempla a dita interpretação econômica, notadamente quando nenhum vício de simulação ou fraude é apontado em relação aos atos/negócios jurídicos praticados. Segundo porque o Legislador adotou o modelo de tributação individual da renda, não veiculando, na linha do que também apontou o Relator, nenhuma norma antielisiva que limite ou proíba a dedução de juros oriunda de captação de recursos seguida de aumento de capital entre sociedades do mesmo grupo sediadas no Brasil. Distintamente da contabilidade, as normas fiscais brasileiras exigem a elaboração de demonstrações contábeis individuais para fins de cálculo e apuração dos tributos devidos, o que significa dizer que o tratamento tributário das entidades brasileiras ocorre a partir de balanços individuais. Em outras palavras, para fins de apuração do Lucro Real e base de cálculo da CSLL, o Brasil sempre tomou (e continua tomando) cada sociedade como uma entidade própria, ainda que atuando sob controle comum de uma outra empresa. Nesse sentido, a Lei n° 6.404/76 ("Lei das S.A.") impõe o dever de partes relacionadas transacionarem sempre em bases comutativas, como se terceiros independentes Fl. 2475DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 66 fossem12, devendo apurar seus resultados individualmente à luz das efetivas operações por ela realizadas, seja com terceiros ou com partes vinculadas, como foi o caso. E terceiro porque o requisito da necessidade para fins de dedutibilidade de despesa deve ser aferido de forma objetiva, e não subjetiva, de modo que, para essa situação, deveria ter sido levado em conta não a relação societária entre Bradesco Cartões e o BERJ, mas sim a relação entre os atos praticados pelo Bradesco Cartões com suas atividades sociais, afinal, repita-se, não houve caracterização de simulação e nem acusação de aplicação de juros abusivos. E nesse ponto, salta aos olhos que as partes envolvidas nos negócios que deram origem aos juros (Bradesco Cartões e BERJ) são duas instituições financeiras pré-existentes, operacionais e com substância na época dos fatos geradores e, como tais, têm como insumo de suas atividades o próprio dinheiro, bem este cuja circularização dentro de um grupo desta natureza é amplamente utilizada. Nota-se, nesse ponto, que a Lei nº 4.595, de 31.12.1964, com a redação dada pelo Decreto-lei nº 2.290, de 21.11.1986, delegou ao Conselho Monetário Nacional a competência para regular “os depósitos a prazo de instituições financeiras e demais sociedades autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil, inclusive entre aquelas sujeitas ao mesmo controle acionário ou coligadas” (art. 4º, inciso XXXII), sem qualquer ressalva. E mediante a Resolução nº 3.399/2006, o Banco Central regulamentou a captação e realização de Depósitos Interfinanceiros pelos bancos múltiplos, bancos comerciais, caixas econômicas, bancos de investimento, bancos de desenvolvimento, sociedades de crédito, financiamento e investimento, sociedades de créditos imobiliário, companhias hipotecárias, associações de poupança e empréstimo, cooperativas de crédito e sociedades de arrendamento mercantil, atestando, assim, tratar-se de operações usualmente realizadas no mercado financeiro. Nesse caso concreto, a própria autoridade fiscal responsável pelos lançamentos reconhece que, de acordo com a definição da Central de Custódia e Liquidação Financeira de Títulos Privado (a CETIP), os “Depósitos Interfinanceiros” são instrumentos destinados à transferência de recursos entre instituições financeiras (fls. 2.378/2.379), podendo ser utilizados como instrumento de captação de recursos ou de aplicação de recursos excedentes. Também a realização de investimentos em outras sociedades é absolutamente normal e usual no ramo de atividade das instituições financeiras, tanto que expressamente regulamentada pela Resolução CMN nº 2.723/2000, que estabelece normas, condições e procedimentos para a participação societária por parte das instituições autorizadas a funcionar pelo BACEN. 12 Assim dispõe o artigo 245 da Lei das S.A.: “Art. 245. Os administradores não podem, em prejuízo da companhia, favorecer sociedade coligada, controladora ou controlada, cumpríndo-lhes zelar para que as operações entre as sociedades, se houver, observem condições estritamente comutativas, ou com pagamento compensatório adequado; e respondem perante a companhia pelas perdas e danos resultantes de atos praticados com infração ao disposto neste artigo." Fl. 2476DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 67 No caso da Recorrida, aliás, a participação em outras sociedades está expressamente incluída no seu objeto social. Feitas essas considerações, forçoso concluir que os juros incorridos pelo Bradesco Cartões na operação de Depósito Interfinanceiro estão relacionados às suas atividades operacionais, especialmente quando se considera que os recursos por ele captados junto ao Bradesco foram efetivamente utilizados na subscrição de ações do BERJ. Daí seu enquadramento enquanto despesas necessárias e, portanto, dedutíveis. Nas palavras de Ricardo Mariz de Oliveira13 que: O pagamento de juros só é necessário para a empresa pela carência de recursos próprios ou porque interessa à empresa, por razões de crédito ou de política financeira, contrair empréstimos. Mas, em qualquer dessas hipóteses, a despesa é sempre necessária porque decorre da atividade da empresa. O que precisa ficar claro, pois, é que, na ausência de norma própria antielisiva - como há nas figuras da subcapitalização e preços de transferências em operações de aumento de capital e empréstimo quando a parte vinculada esteja domiciliada no exterior - o fluxo financeiro dentro do grupo Bradesco, após a aquisição do BERJ, constitui circunstância que por si só não interfere no tratamento fiscal de despesas com juros intercompany amparadas em negócios jurídicos que se mostram válidos e eficazes. Não cabe, nesse particular, o Intérprete invadir o campo da liberdade das entidades negociarem entre si ou se colocar na posição de administrador ou gestor de caixa, questionando os efeitos fiscais de toda esta operação pela singela alegação de que o BERJ não precisava de recursos. Essas as razões, contudo, para dar provimento ao recurso especial da Contribuinte. Assinado Digitalmente Luis Henrique Marotti Toselli Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado Em que pese o bem fundamentado voto do d. relator, como de praxe, após as discussões havidas no colegiado, acompanhei o voto divergente da i. conselheira Edeli Pereira Bessa, reformulando meu entendimento manifestado no julgamento do recurso que originou o Acórdão Paradigma nº 1302-003.803, quando acompanhei o d. relator daquele acórdão, ex- conselheiro Ricardo Marozzi Gregório, nos termos bem sintetizados na ementa, verbis: 13 Fundamentos do imposto de Renda. São Paulo: Quartier Latin: 2008. P. 696. Fl. 2477DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 68 PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. CONJUNTO DA OBRA. É correto declarar a inoponibilidade das operações concernentes ao Fisco quando a preponderância do propósito da economia tributária fica bem demonstrada. Todavia, há que se ter cuidado para não banalizar o fenômeno. Uma das premissas fundamentais para o exame dos fatos é a necessidade de que se olhe para o conjunto da obra. No caso concreto, o grupo econômico pode até ter objetivado a economia tributária com as operações engendradas, mas o resultado dependia de variáveis não totalmente controladas. Por outro lado, a fiscalização também não poderia desconsiderar apenas os efeitos que lhe foram desfavoráveis. Haveria que se reconhecer os créditos decorrentes dos tributos pagos por obra das mesmas operações. Como a caracterização do planejamento tributário depende da compreensão dos fatos numa perspectiva organizacional, os seus efeitos hão que ser também considerados na sua plenitude. A premissa daquela decisão, portanto, foi a de que a fiscalização não poderia desconsiderar apenas os efeitos que lhe foram desfavoráveis, mas sim haveria que reconhecer os créditos decorrentes dos tributos pagos por obra das mesmas operações, para além do fato que o resultado global das operações dependia de variáveis não totalmente controladas. Não obstante a razoabilidade do silogismo adotado no acórdão paradigma, reanalisando a matéria, convenci-me de que não há como abstrair da análise a necessidade da despesa sob a ótica da recorrente, independentemente dos seus efeitos para as outras empresas do grupo econômico e das eventuais repercussões tributárias inter grupo. De fato, ainda que não tenham sido mensurados pela fiscalização os efeitos (tributários) cruzados das operações entre as empresas do mesmo grupo e a despeito de se reconhecer que as despesas com juros do CDI repercutiram em receitas financeiras, especialmente para o Banco BERJ, que cumpriu o objetivo de exaurir prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas de CSLL, o fator relevante quando se analisa a operação sob a ótica da recorrente é saber se as despesas tomadas eram de fato necessárias à sua atividade ou apenas para sua controladora (Banco Bradesco). Ainda que se reconhecesse como um propósito legítimo do Banco Bradesco exaurir os prejuízos fiscais e bases negativas de BERJ, o fato é que isto era do interesse de sua controladora (Banco Bradesco), que dispunha de todos os recursos necessários para fazer o aporte de capital diretamente, sem o desvio de percurso feito para Bradesco Cartões, ora recorrente com o que foram deslocadas despesas financeiras para esta última, sem que se vislumbre qualquer necessidade para suas atividades. Como bem aponta a d. conselheira Edeli Pereira Bessa em sua declaração de voto, verbis: [...] Fl. 2478DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 69 Apesar de esta Conselheira ter ressalvas à interpretação de que BANCO BRADESCO, ao adquirir o BERJ, pagou por um ativo representado por prejuízos fiscais e bases negativas, constituindo propósito negocial válido para estruturar operacionalmente seus negócios de modo a se valer deste ativo, fato é que tal premissa não justifica o trâmite de parte destes recursos por BRADESCO CARTÕES, de modo a partilhar com esta outra empresa do grupo as despesas espelhadas com as receitas decorrentes do aporte de capital de BANCO BRADESCO em BERJ, que se prestaram a consumir os prejuízos fiscais e bases negativas de BERJ. Afirma-se que as despesas reconhecidas por BRADESCO CARTÕES espelharam receitas de BERJ porque BANCO BRADESCO não se limitou a captar junto a BERJ o valor por ele aportado (R$ 31 bilhões), mas sim todo o incremento de capital promovido após a aquisição do investimento, ou seja, R$ 46 bilhões. Assim, quando esta captação de R$ 46 bilhões enseja despesas para BANCO BRADESCO, as despesas correspondentes à parcela de R$ 15 bilhões acabam neutralizadas pelas receitas decorrentes do empréstimo feito a BRADESCO CARTÕES, subsistindo a correlação das despesas aqui glosadas com as receitas reconhecidas por BERJ, e confirmando a indevida transferência destes encargos desnecessários para a Contribuinte. Os aportes de capital do BANCO BRADESCO em BERJ percorrem, em parte, a estrutura de controle por meio de BRADESCO CARTÕES, de modo a carregar na apuração deste despesas financeiras, cujo reflexo em receitas para BANCO BRADESCO é neutralizado com as despesas financeiras decorrentes do retorno dos recursos por captação junto ao BERJ. Desnecessário discutir se era um interesse negocial legítimo BANCO BRADESCO aportar capital em BERJ e reaver estes valores mediante pagamento de juros a BERJ, para que este apurasse lucro e consumisse prejuízos fiscais e bases negativas acumulados. Ainda que fosse legítimo este interesse, nada há que justifique o desvio de R$ 15 bilhões para aporte de capital em BERJ por meio de BRADESCO CARTÕES, senão a constituição de despesas para redução do lucro tributável da Contribuinte. [...] Em síntese, ainda que se reconhecesse um propósito negocial na operação de aporte de capital de BERJ pelo Banco Bradesco e o respectivo retorno dos recursos sob a forma de CDI tomados junto ao BERJ, a despesa financeira, se entendida como necessária, seria da controladora da recorrente e não desta última. Assim, por vias transversas, a controladora do grupo (Banco Bradesco) decidiu alocar na ora recorrente despesas financeiras que, eventualmente, poderiam ser excessivas para seus resultados tributáveis, em outras empresas do grupo, o que de modo algum satisfaz os requisitos de normalidade, usualidade e necessidade para sua dedução, como bem destacado no voto condutor do acórdão recorrido, verbis: [...] Fl. 2479DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 70 Principio pelo ponto fulcral em discussão, qual seja, a conceituação e aplicação, à legislação tributária, das “despesas” e sua dedutibilidade em relação ao IRPJ e à CSLL. Acerca de “glosa de despesas”, “despesas indedutíveis”, “despesas desnecessárias”, já tive oportunidade de me manifestar em inúmeros acórdãos de minha relatoria, dentre eles Ac. 1402-002.266, 1402-002.290, 1402-002.511, 1402-002.748, 1402-003.816, 1402-004.117, 1402-005.381, sempre e sempre no sentido de que, na essência, uma coisa é a despesa, gasto, consumo; outra sua dedutibilidade. Diga-se, se todo gasto, genericamente falando, é uma despesa, a recíproca nem sempre é a mesma, ou seja, nem todo gasto pode ser levado a débito do Estado, utilizando-se o contribuinte da possibilidade de deduzi-lo das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. A respeito, como definido pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (instituído pela Resolução CFC n.° 1.055/2005), através do “Pronunciamento Técnico CPC 00 – Estrutura Conceitual para a Elaboração e Apresentação das Demonstrações Contábeis, DESPESAS são “decréscimos nos benefícios econômicos durante o período contábil sob a forma de saída ou redução de ativos ou incrementos em passivos, que resultam em decréscimo do patrimônio líquido e que não sejam provenientes de distribuição de resultado ou de capital aos proprietários da entidade”. Esta definição pode ser também tomada levando-se em conta seu surgimento no curso das atividades ordinárias da entidade. Neste caso, ainda segundo o Pronunciamento Técnico acima referido, item 78, estas despesas seriam as que “surgem no curso das atividades ordinárias da entidade incluem, por exemplo, o custo das vendas, salários e depreciação. Geralmente, tomam a forma de um desembolso ou redução de ativos como caixa e equivalentes de caixa, estoques e ativo imobilizado”. Já a Resolução nº 1.374, de 08/12/2011, do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), em seu item 4.25, letra “b”, define: “despesas são decréscimos nos benefícios econômicos durante o período contábil, sob a forma da saída de recursos ou da redução de ativos ou assunção de passivos, que resultam em decréscimo do patrimônio líquido, e que não estejam relacionados com distribuições aos detentores dos instrumentos patrimoniais”. De outro lado, a doutrina é incisiva. Por exemplo, para Hendriksen e Breda, despesa é: “o uso ou consumo de mercadorias ou serviços no processo de obter receitas. Elas são as expirações dos fatores de serviços relacionados diretamente ou indiretamente na produção e vendas de produtos das empresas”.14 14 HENDRIKSEN, Eldon S., BREDA, Michael F. Van. Teoria da Contabilidade. Tradução de Antônio Zoratto Sanvicente.- 5. ed. São Paulo: Atlas, 2007. Fl. 2480DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 71 Confirmando esta concepção, Kam (1986) sustenta que “despesas são reduções no valor dos ativos ou aumento no valor das exigibilidades, devido à utilização de bens e serviços das operações principais ou centrais da entidade”.15 Em claras palavras, as despesas são a contrapartida das receitas, participando da concepção de lucro. Já o professor Sérgio de Iudícibus, com a cátedra que lhe é peculiar afirma que a despesa “representa a utilização ou o consumo de bens e serviços no processo de produzir receitas podendo referir-se a gastos efetuados no passado, no presente ou que serão realizados no futuro”.16 O mesmo Sérgio de Iudícibus, José Carlos Marion e Elias Pereira, in “Dicionário de Termos de Contabilidade”, Atlas – SP – 2ª Ed., conceituam que “despesa, em sentido restrito, representa a utilização ou consumo de bens e serviços no processo de produzir receitas. O que caracteriza a despesa é o fato de ela tratar de expirações de fatores de serviços, direta ou indiretamente relacionados com a produção ou a venda do produto (serviço) da entidade”. Em síntese, inexistem dúvidas de que a despesa é a concretização do esforço, em termos monetários, para a geração da receita, reduzindo o patrimônio da empresa, com a perspectiva, com uma promessa latente de geração futura ou imediata de receita que deve, por definição, suplantar as despesas e assim gerar a parcela do lucro. Paulo Viceconti e Silvério das Neves assumem que “despesas operacionais são gastos pagos ou incorridos pela pessoa jurídica para a realização das transações exigidas pela atividade da empresa” (Contabilidade Básica – 17ª Ed. Saraiva – SP – 2017 - pg. 323). Para Clóvis Luís Padovese17, “despesas são os gastos necessários para vender e enviar os produtos. De modo geral, são os gastos ligados às áreas administrativas e comerciais”. De outra linha, a legislação comercial das sociedades por ações (Lei nº 6.404/1976, com alterações), pontua: Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. § 1º As demonstrações financeiras do exercício em que houver modificação de métodos ou critérios contábeis, de efeitos relevantes, deverão indicá-la em nota e ressaltar esses efeitos. 15 KAM, Vernon. Accounting theory. New York, John Wiley & Sons, 1986 16 IUDÍCIBUS, Sergio de. Teoria da Contabilidade. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2009. 17 Contabilidade Gerencial – Um enfoque em sistema de informação contábil – 7ª Ed. Atlas – SP – 2010 – pg. 320 Fl. 2481DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 72 § 2º A companhia observará exclusivamente em livros ou registros auxiliares, sem qualquer modificação da escrituração mercantil e das demonstrações reguladas nesta Lei, as disposições da lei tributária, ou de legislação especial sobre a atividade que constitui seu objeto, que prescrevam, conduzam ou incentivem a utilização de métodos ou critérios contábeis diferentes ou determinem registros, lançamentos ou ajustes ou a elaboração de outras demonstrações financeiras. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 3º As demonstrações financeiras das companhias abertas observarão, ainda, as normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários e serão obrigatoriamente submetidas a auditoria por auditores independentes nela registrados. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 4º As demonstrações financeiras serão assinadas pelos administradores e por contabilistas legalmente habilitados. § 5º As normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários a que se refere o § 3º deste artigo deverão ser elaboradas em consonância com os padrões internacionais de contabilidade adotados nos principais mercados de valores mobiliários. (Incluído pela Lei nº 11.638,de 2007) § 6º As companhias fechadas poderão optar por observar as normas sobre demonstrações financeiras expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários para as companhias abertas. (Incluído pela Lei nº 11.638,de 2007) E o Decreto-lei nº 1.598/1977: Art 7º - O lucro real será determinado com base na escrituração que o contribuinte deve manter, com observância das leis comerciais e fiscais. A conjugação destes dispositivos, das normas reguladoras da ciência contábil e da mais conceituada doutrina leva à conclusão de que, nos registros permanentes feitos na escrituração e nos levantamentos das Demonstrações Financeiras e Balanço Patrimonial, o resultado de um determinado período será sempre apurado levando-se em conta todos os fatos contábeis que afetam a azienda, observado o regime de competência. Neste patamar, indiscutível que qualquer despesa, tomado o termo nas concepções antes focadas, compõe o resultado da entidade, de forma negativa, reduzindo o patrimônio. Quanto a isso, inexistem dúvidas. A controvérsia instala-se a partir do momento em que determinada despesa, que despesa é sob os ângulos contábil, patrimonial, comercial, econômico e societário, extrapola os limites destas ciências e se põe ao alcance do raio de ação da legislação fiscal, especialmente a do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas. Neste momento, o que é incontroverso doutrinariamente passa a se submeter ao crivo de outra legislação, de outros conceitos, de outra estrutura. Fl. 2482DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 73 Dizendo de modo diverso, se determinados estipêndios são “despesas” sob quaisquer dos enfoques antes vistos e afetam o resultado comercial da entidade, tais gastos, ainda que despesas sejam, PODEM NÃO SER DEDUTÍVEIS das bases imponíveis de IRPJ (e da CSLL, quando for o caso), simplesmente porque o legislador tributário assim o determinou. Como escreve Nilton Latorraca18, “as despesas operacionais, assim como os custos, que não satisfizerem as condições de dedutibilidade deverão ser adicionadas ao lucro líquido do exercício para efeito de determinar o lucro real”. Registre-se, está-se diante de uma regra excepcional trazida pela lei que, mesmo tendo tomado a contabilidade como ponto de partida para determinação e apuração do IRPJ (CSLL), em determinado instante faz nela um “corte” e elimina (para fins exclusivamente fiscais), uma despesa que afetou o resultado apurado e a acresce a este mesmo resultado, encontrando uma base imponível diferente daquela que será definida para os propósitos comerciais e societários. É o parâmetro fixado pelo RIR/1999, artigo 247, § 1º: Art. 247. Lucro real é o lucro líquido do período de apuração ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou autorizadas por este Decreto (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 6º). § 1º A determinação do lucro real será precedida da apuração do lucro líquido de cada período de apuração com observância das disposições das leis comerciais (Lei nº 8.981, de 1995, art. 37, § 1º). Induvidoso, ainda, que tais dispêndios têm que estar suportados por documentos hábeis, idôneos e contemporâneos aos fatos, de forma a permitir que as despesas sejam alocadas em contrapartida à receita e componham o resultado final de uma sociedade, exigência que aparece não apenas na legislação fiscal19, mas do mesmo modo na regulação contábil imposta pelo Conselho Federal de Contabilidade mediante a RESOLUÇÃO CFC N.º 1.330/2011 (DOU de 22.03.2011), assim redigida no que interessa: Documentação contábil 26. Documentação contábil é aquela que comprova os fatos que originam lançamentos na escrituração da entidade e compreende todos os documentos, livros, papéis, registros e outras peças, de origem interna ou externa, que apóiam ou componham a escrituração. 18 Direito Tributário – Imposto de Renda das Empresas – 12ª Ed. Atlas – SP – 1990 – pg.162 19 Decreto-lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977 Art 9º - A determinação do lucro real pelo contribuinte está sujeita a verificação pela autoridade tributária, com base no exame de livros e documentos da sua escrituração, na escrituração de outros contribuintes, em informação ou esclarecimentos do contribuinte ou de terceiros, ou em qualquer outro elemento de prova. § 1º - A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. Fl. 2483DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 74 27. A documentação contábil é hábil quando revestida das características intrínsecas ou extrínsecas essenciais, definidas na legislação, na técnica-contábil ou aceitas pelos “usos e costumes”. 28. Os documentos em papel podem ser digitalizados e armazenados em meio magnético, desde que assinados pelo responsável pela entidade e pelo profissional da contabilidade regularmente habilitado, devendo ser submetidos ao registro público competente. No mesmo sentir, a jurisprudência: ASSUNTO: ESCRITURAÇÃO. FORÇA PROBANTE. A escrituração contábil mantida com observância das disposições legais somente faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados se forem comprovados por documentos hábeis e idôneos, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. (Acórdão CARF nº 1402-000.290 – 09/11/2010 – Relator Antonio José Praga de Souza) No exprimir de Edmar Oliveira de Andrade Filho (in Imposto de Renda das Empresas – 10ª Edição – Atlas – SP – 2013 – pg. 266/267) “do ponto de vista contábil e fiscal, despesa é uma espécie de mutação patrimonial diminutiva”. Que segue lecionando que a palavra despesa “é utilizada, de um modo geral, como sinônima de “gasto”, e, nesse sentido, representa o valor pago ou empenhado na aquisição de bens não vinculados ao processo de produção de mercadorias, produtos e serviços destinados à venda”. Para fixar e ressalvar: “Para fins tributários (...), as despesas são dedutíveis ou não, de acordo com critérios legais de caráter formal, material e temporal. Além da observância desses critérios, o que habilita um gasto a ser dedutível é a sua existência e certeza, que são fatores importantes para a correta aplicação do regime de competência”. (destacou-se). Hiromi Higuchi et alli20 tratam o tema discorrendo que “as despesas efetuadas pelas pessoas jurídicas podem ser dedutíveis ou indedutíveis na apuração do lucro real. Importante é também conhecer o momento em que a despesa operacional é dedutível na determinação do lucro real. A despesa é dedutível pelo regime de competência, ou seja, no momento em que a despesa é considerada incorrida. As despesas operacionais dedutíveis na determinação do lucro real são aquelas que se encaixam nas condições fixadas no art. 299 do RIR/99, isto é, despesas necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora de receitas. As despesas necessárias, ainda de acordo com a legislação fiscal, são as despesas pagas ou incorridas e que sejam usuais e normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa”. Então, compendiando, se a pessoa jurídica suportar “decréscimos nos benefícios econômicos durante o período contábil sob a forma de saída ou redução de ativos 20 Imposto de Renda das Empresas – Interpretação e Prática – 2017 – pg. 283 Fl. 2484DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 75 ou incrementos em passivos, que resultam em decréscimo do patrimônio líquido e que não sejam provenientes de distribuição de resultado ou de capital aos proprietários da entidade” certamente estará diante do conceito de DESPESAS (consoante o Comitê de Pronunciamentos Contábeis), porém sua contraposição perante terceiros e principalmente aos órgãos estatais responsáveis pela aferição de sua regularidade formal e material deverá estar revestida de todos os requisitos implícita ou explicitamente alinhavados pela lei, doutrina, jurisprudência e normas reguladoras da ciência contábil. Insatisfeitos tais parâmetros, especialmente na seara do IRPJ e da CSLL, a dedutibilidade pretendida pelo sujeito passivo fica comprometida. São as definições da lei fiscal (RIR/1999, então vigente): Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2 As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3 O disposto neste artigo aplica-se também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Art. 300. Aplicam-se aos custos e despesas operacionais as disposições sobre dedutibilidade de rendimentos pagos a terceiros (Lei nº 4.506, de 1964, art. 45, § 2º). Art. 923. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 9º, §1º). Em suma, para que uma despesa seja DEDUTÍVEL é necessário que atenda aos requisitos de necessidade, usualidade e normalidade. É nesse cenário, pois, que devem ser analisados os lançamentos aqui trazidos. [...] Iniciando, destaco que o TVF é claro ao afirmar inexistir motivação extra tributária para a vultosa capitalização do BERJ empreendida pelo BANCO BRADESCO e pelo BRADESCO CARTÕES (“o objetivo buscado com tal capitalização residiria em deslocar resultados financeiros de forma artificial para o BERJ e viabilizar o aproveitamento do saldo de prejuízo fiscal e base de cálculo negativa da CSLL detidos por tal instituição financeira”). Com isso, ainda de acordo com a acusação fiscal, em razão desta ausência de motivação extra tributária, foram consideradas Fl. 2485DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 76 indedutíveis as seguintes despesas registradas pelo BRADESCO CARTÕES: i) juros passivos decorrentes da captação de R$ 15 bilhões por meio de CDI adquirido pelo BANCO BRADESCO e ii) juros passivos decorrentes da captação de R$ 15 bilhões por meio de CDI adquirido pelo BERJ, operações e estipêndios considerados desnecessários, vez que em nada teriam colaborado para o exercício da atividade empresarial desenvolvida pelo BRADESCO CARTÕES. Pois bem, como pontuado pela decisão a quo (Ac. DRJ – fls. 1739), a verdadeira motivação da operação foi fazer com que o destino dado pelo BERJ aos aportes de capital tivessem retorno imediato e integral ao BANCO BRADESCO e ao BRADESCO CARTÕES. Como retratado na fotografia: [...] Em valores e na linha do tempo entre 08 a 11 de outubro de 2012: 1.• BANCO BRADESCO transfere para BRADESCO CARTÕES (R$ 15 bilhões) via depósitos interfinanceiros; 2.• BRADESCO CARTÕES transfere para o BERJ os R$ 15 bilhões captados perante o BANCO BRADESCO) para integralização de aumento de capital; 3.• BANCO BRADESCO para o BERJ (R$ 31 bilhões) visando integralização de aumento de capital; e 4.• BERJ devolve para o BANCO BRADESCO R$ 46 bilhões referente depósitos interfinanceiros; Assim, patente o deslocamento artificial de receitas financeiras para o BERJ, com a nítida finalidade de aproveitamento do saldo de prejuízos fiscais e bases de cálculo negativas detidas por tal instituição financeira. Frise-se que tal finalidade resta completamente reforçada pela redução de capital do BERJ tão logo exaurido os saldos de prejuízo fiscal e bases de cálculo negativas detidos por tal instituição financeira, sendo pertinente relembrar o quanto exposto pela fiscalização no TVF em relação a esta redução de capital: Certamente não se discute que instituições financeiras podem se valer desse instrumento de captação de recursos. O ponto nevrálgico não é este! O aspecto nuclear que aqui se analisa é apurar (já que a recorrente não esclareceu a contento), os seguintes aspectos fáticos: a) no momento inicial, o BANCO BRADESCO dispõe de R$ 46 bilhões em caixa; b) em seguida, o BRADESCO CARTÕES decide contrair dívida perante o BRADESCO no valor de R$ 15 bilhões: c) sequencialmente BRADESCO CARTÕES aplica o valor deste empréstimo firmado com o BANCO BRADESCO no capital do BERJ; Fl. 2486DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 77 d) paralela e concomitantemente o BANCO BRADESCO decide aportar os restantes R$ 31 bilhões no capital do BERJ; e) ao final, o BANCO BRADESCO anuncia a emissão de depósitos interfinanceiros e o BERJ devolve os valores aportados pelo BRADESCO CARTÕES e pelo BANCO BRADESCO ao seu titular original, ou seja, o próprio BANCO BRADESCO. Abstraindo possíveis outros motivos, a pergunta que a Fiscalização fez e não foi respondida a contento é: como compatibilizar a necessidade de caixa – pressuposto para a utilização de depósitos interfinanceiros – quando se constata que o emitente (BANCO BRADESCO) já dispunha do capital? Em outras palavras, por que este empréstimo, a circulação pelo BRADESCO CARTÕES e depois a devolução do referido empréstimo? Por que toda esta engenharia e por que a necessidade desta despesa financeira suportada pelo BRADESCO CARTÕES, considerando que todos os recursos financeiros utilizados na capitalização do BERJ já eram de titularidade do controlador do GRUPO, o BANCO BRADESCO, antes da operação? Ainda que se rebele a recorrente contra a conclusão do Fisco e da decisão recorrida, penso que razão não lhe cabe, isso porque o que aqui se discute é a necessidade da despesa sob a perspectiva da legislação do IRPJ e da CSLL, ou seja, se o endividamento assumido pela contribuinte era essencial para a sua atividade produtiva, não bastando para atender tais requisitos alegar que uma das atividades previstas em seu objeto social seria realizar investimento em outras pessoas jurídicas. Isso é muito genérico e não mostra qual a necessidade da despesa. A verdade é que o BERJ tinha um “ativo” que interessava ao BANCO BRADESCO e que certamente foi uma das variáveis levadas em conta para a entrada no negócio e aquisição da participação societária levada a efeito: a existência de prejuízo fiscal! Isso está claro no próprio RV da recorrente (fls. 1782/1783): Levando-se em conta que os saldos de prejuízo fiscal e base negativa da CSLL representavam um ativo relevante do BERJ considerado inclusive na determinação do preço PELO VENDEDOR, embora não fosse essa a razão da aquisição tanto que o Banco Bradesco sequer havia feito qualquer oferta em leilão anterior, quando o BERJ não detinha ainda o ativo correspondente ao contrato de processamento de folha de pagamentos, não seria razoável supor que o arrematante abriria mão desse ativo, deixando de buscar meios para viabilizar a sua realização financeira, até mesmo porque, como demonstrado na Impugnação apresentada pelo Bradesco (doc. 03 da Impugnação), a utilização daqueles saldos é induzida pelas normas regulamentares do Conselho Monetário Nacional (CMN), do Banco Central do Brasil (BACEN) e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Fl. 2487DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 78 Por essa razão, após adquirir as ações do BERJ o Bradesco traçou estratégias de negócios para tornar aquela instituição financeira rentável, gerando resultados tributáveis capazes de absorver os saldos de prejuízo fiscal e base negativa da CSLL, gerados em períodos anteriores. Pois bem, induvidosamente, como bem assenta a PGFN em suas contrarrazões (fls. 1912), “o pressuposto para o aumento de capital é permitir que uma pessoa jurídica desempenhe a sua atividade operacional, e não para viabilizar o exercício de um pretenso direito a um benefício fiscal”. Todas estas narrativas já mostram o cenário das operações, restando apenas ver em que as despesas suportadas pela recorrente se revestiriam, como esta pretende, dos requisitos de normalidade, usualidade e necessidade, impostos pelo artigo 299, do RIR/1999, então vigente. Data vênia à bem articulada peça de defesa e digna de todos os encômios, penso que as despesas financeiras assumidas pela recorrente junto ao BANCO BRADESCO não atenderam aos ditames legislativos que regem a matéria, a uma porque em última análise visaram permitir que o Bradesco, líder do grupo econômico, utilizasse o prejuízo fiscal que existia em estoque no BERJ (fato notório e reconhecido pela própria defesa); a duas porque se está diante de uma situação sui generis: admitir que uma emissão de depósitos interfinanceiros seria normal e usual e não precisaria ter como finalidade a captação de recursos, mas apenas a tentativa de compensar prejuízos fiscais e base de cálculo negativa de uma empresa ligada; e, a três, que, COMPROVADAMENTE, em parcos três dias, o volume aportado pelo Banco a ele voltou na mesma proporção, restando apenas a utilização dos prejuízos fiscais e as despesas financeiras suportadas pela recorrente que e pretendeu utilizar no abatimento do IRPJ e da CSLL. Ora se o BANCO BRADESCO tinha os recursos para tal empreendimento, por que BRADESCO CARTÕES teve que dele participar, aparentemente sem recursos próprios, tanto que fez empréstimo, suportou juros e depois viu quem fez o empréstimo o receber de volta? Evidentemente, sob o ângulo societário, comercial, privado, a Fiscalização não tem o direito de se imiscuir em tais atos. Porém, como dito antes neste voto, quando os efeitos econômicos passam a afetar as bases imponíveis de tributos e afetar sua apuração, cabe, sim, ao Poder Tributante aferir a regularidade de tal procedimento e seu reflexo naquilo que cabe ao ente estatal. Exatamente como ocorreu nos autos. (destaques do original) [...] Por todo o exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso especial da contribuinte. Assinado Digitalmente Fl. 2488DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9101-007.439 – CSRF/1ª TURMA PROCESSO 16327.720939/2019-60 79 Luiz Tadeu Matosinho Machado Fl. 2489DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor Declaração de Voto
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Numero do processo: 10930.908042/2016-19
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 17 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Oct 14 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/01/2014 a 31/03/2014
INSUMO. CONCEITO. REGIME NÃO CUMULATIVO. STJ, RESP 1.221.170/PR).
O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte (STJ, do Recurso Especial no 1.221.170/PR).
EMBALAGENS PARA TRANSPORTE DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE
As despesas incorridas com embalagens para transporte de produtos alimentícios, desde que destinados à manutenção, preservação e qualidade do produto, enquadram-se na definição de insumos dada pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR
CRÉDITO SOBRE FRETES. TRANSPORTE DE INSUMOS DESONERADOS. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF 188.
É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições.
TRATAMENTO DE RESÍDUOS INDUSTRIAIS. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE
É legítima a tomada de crédito da contribuição não-cumulativa em relação ao custo de bens e serviços aplicados no tratamento de resíduos sólidos necessários à recuperação do meio ambiente dado que esses serviços são aplicados ou consumidos diretamente na produção de bens destinados à venda.
Numero da decisão: 3202-002.925
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer, em parte, do recurso voluntário para, na parte conhecida, no mérito, dar-lhe parcial provimento para reverter as glosas dos créditos sobre (1) dispêndios com embalagens para transporte, nos termos da Súmula CARF nº 235, (2) dispêndios com fretes na aquisição de insumos (leite cru) contratados pela recorrente de pessoa jurídica domiciliada no Brasil e relativos às aquisições de insumos não sujeitos à incidência das contribuições, desde que, em observância à Súmula CARF nº 188, tenham tais serviços (fretes) registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, (3) despesas com tratamento de resíduos industriais, e (4) despesas com serviços de análise laboratorial. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3202-002.924, de 17 de setembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 10930.908046/2016-05, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Aline Cardoso de Faria, Juciléia de Souza Lima (Relatora) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente).
Nome do relator: RODRIGO LORENZON YUNAN GASSIBE
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CONCEITO. REGIME NÃO CUMULATIVO. STJ, RESP 1.221.170/PR). O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte (STJ, do Recurso Especial no 1.221.170/PR). EMBALAGENS PARA TRANSPORTE DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE As despesas incorridas com embalagens para transporte de produtos alimentícios, desde que destinados à manutenção, preservação e qualidade do produto, enquadram-se na definição de insumos dada pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR CRÉDITO SOBRE FRETES. TRANSPORTE DE INSUMOS DESONERADOS. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. TRATAMENTO DE RESÍDUOS INDUSTRIAIS. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE É legítima a tomada de crédito da contribuição não-cumulativa em relação ao custo de bens e serviços aplicados no tratamento de resíduos sólidos necessários à recuperação do meio ambiente dado que esses serviços são aplicados ou consumidos diretamente na produção de bens destinados à venda. Fl. 464DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 2 ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer, em parte, do recurso voluntário para, na parte conhecida, no mérito, dar-lhe parcial provimento para reverter as glosas dos créditos sobre (1) dispêndios com embalagens para transporte, nos termos da Súmula CARF nº 235, (2) dispêndios com fretes na aquisição de insumos (leite cru) contratados pela recorrente de pessoa jurídica domiciliada no Brasil e relativos às aquisições de insumos não sujeitos à incidência das contribuições, desde que, em observância à Súmula CARF nº 188, tenham tais serviços (fretes) registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, (3) despesas com tratamento de resíduos industriais, e (4) despesas com serviços de análise laboratorial. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3202-002.924, de 17 de setembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 10930.908046/2016-05, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Onizia de Miranda Aguiar Pignataro, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Aline Cardoso de Faria, Juciléia de Souza Lima (Relatora) e Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 87, §§ 1º, 2º e 3º, do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente/procedente em parte Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que denegara/acolhera em parte o Pedido de Ressarcimento apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente a suposto crédito de PIS-PASEP/COFINS. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: 1. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. INSUMO. Fl. 465DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 3 Conforme estabelecido pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça nº Recurso Especial 1.221.170/PR, o conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para o processo de produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços pela pessoa jurídica, cujas despesas restem devidamente comprovadas. Nas hipóteses em que for possível que o mesmo bem ou serviço seja considerado insumo gerador de créditos para algumas atividades e não o seja para outras, é necessário que a pessoa jurídica realize rateio fundamentado em critérios racionais e devidamente demonstrado em sua contabilidade para determinar o montante de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins apurável em relação a cada bem, serviço ou ativo, discriminando os créditos em função da natureza, origem e vinculação, a teor de rateio já previsto na legislação antes mesmo da ampliação do conceito de insumos trazido pelo julgamento do STJ. 2. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. BENS E SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMO. Somente podem ser considerados insumos bens e serviços aplicados nº processo de produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços a terceiros. Havendo insumos em todo o processo de produção de bens destinados à venda e de prestação de serviços, permite-se a apuração de créditos das contribuições em relação a insumos necessários à produção de um bem- insumo utilizado na produção de bem destinado à venda ou na prestação de serviço a terceiros(insumo do insumo). 3. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. COMBUSTÍVEIS. Consideram-se insumos combustíveis e lubrificantes consumidos em máquinas, equipamentos ou veículos responsáveis por qualquer etapa do processo de produção ou fabricação de bens ou de prestação de serviços. 4. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. EMBALAGEM. Não são consideradas insumos as embalagens utilizadas no transporte de produtos acabados. 5. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. FRETE. MERCADORIAS E INSUMOS. É cabível a apropriação de crédito em relação às despesas de frete nas operações de venda, desde que se trate de bens para revenda ou de bens Fl. 466DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 4 produzidos ou fabricados pelo vendedor e que o ônus seja suportado pelo vendedor. Referida hipótese não abrange a transferência de mercadoria entre estabelecimentos da pessoa jurídica, pois se trata de etapa anterior à venda propriamente dita. É vedado o crédito a título de insumo com o frete relativo a transferência de produto acabado em ou entre estabelecimentos da pessoa jurídica. A parcela do frete sujeita ao pagamento das contribuições, que integra o custo de aquisição do insumo não tributado (suspensão, alíquota zero ou não incidência), inclusive, concede direito ao crédito com o respectivo transporte. Já o frete não sujeito ao pagamento das contribuições, que integra o custo de aquisição do insumo, não concede direito ao crédito com o respectivo transporte. A falta de comprovação da tributação do frete incorrido na aquisição de produto não tributado impede a admissão do creditamento. 6. DECISÕES JUDICIAIS E ADMINISTRATIVAS. EFEITOS. As decisões judiciais e administrativas relativas a terceiros não possuem eficácia normativa, uma vez que não integram a legislação tributária de que tratam os artigos 96 e 100 do Código Tributário Nacional. 7. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS. COMPETÊNCIA. A apreciação de questionamentos relacionados à validade, legalidade e constitucionalidade de dispositivos que integram a legislação tributária não se insere na competência da esfera administrativa, sendo exclusiva do Poder Judiciário. 8. INSTRUÇÕES NORMATIVAS SRF Nº 247/02 E Nº 404/04. LEGALIDADE. MATÉRIA JULGADA NO ÂMBITO DE RECURSO REPETITIVO PELO STJ. Declarada pelo Superior Tribunal de Justiça - STJ, em sede de recurso repetitivo, a ilegalidade das IN SRF nº 247/02 e nº 404/04, adotam-se as balizas constantes do correspondente julgado (REsp nº 1.221.170/PR), da Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF, de 26/09/2018, e do Parecer Normativo Cosit/RFB nº 05, de 17/12/2018, no que concerne ao conceito de insumo. 9. PROVA. A prova documental deve ser apresentada no momento da manifestação de inconformidade, a menos que demonstrado, justificadamente, o Fl. 467DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 5 preenchimento de um dos requisitos constantes do art. 16, § 4º, do Decreto nº 70.235, de 1972, o que não se logrou atender neste caso. 10. PERÍCIA. Indefere-se o pedido de perícia quando presentes nos autos elementos capazes de formar a convicção do julgador, bem como quando não preenchidos os requisitos legais previstos para sua formulação. 11. ÔNUS DA PROVA. CRÉDITO NA SISTEMÁTICA NÃO CUMULATIVA. É da contribuinte o ônus probatório da legitimidade dos créditos, eis que, ao descontá-los das contribuições devidas, reduz, em seu benefício, os valores das contribuições a pagar. E o momento oportuno de se fazer a prova necessária é na manifestação de inconformidade. Inconformada, a Recorrente apresenta Recurso Voluntário ao CARF, no qual pugna pela homologação integral do crédito pleiteado. Em suma, é o Relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: O Recurso é tempestivo, bem como, atende aos demais pressupostos para sua admissibilidade, portanto, dele conheço. Ante a inexistência da arguição de preliminares, passo a analisar o mérito. DO MÉRITO Do conceito de insumo e o RESP 1.221.170/PR Para interpretar o conceito de insumo, entendo por bem registrar que o conceito de insumo para fins de creditamento do PIS e da COFINS deve tomar como base a decisão proferida no RESP 1.221.170. É sabido que em fevereiro de 2018, a 1ª Seção do STJ ao apreciar o Resp 1.221.170 definiu, em sede de repetitivo, decidiu pela ilegalidade das instruções normativas 247 e 404, ambas de 2002, sendo firmada a seguinte tese: Fl. 468DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 6 “(a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de não-cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância ou seja, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte”. No resultado final do julgamento, o STJ adotou interpretação intermediária, considerando que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, pretendeu-se que seja considerado insumo o que for essencial ou relevante para o processo produtivo ou à atividade principal desenvolvida pela empresa. Vejamos excerto do voto da Ministra Assusete Magalhães: “Pela perspectiva da zona de certeza negativa, quanto ao que seguramente se deve excluir do conceito de ‘insumo’, para efeito de creditamento do PIS/COFINS, observa-se que as Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 trazem vedações e limitações ao desconto de créditos. Quanto às vedações, por exemplo, o art. 3º, §2º, de ambas as Leis impede o crédito em relação aos valores de mão de obra pagos a pessoa física e aos valores de aquisição de bens e serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições. Já como exemplos de limitações, o art. 3º, §3º, das referidas Leis estabelece que o desconto de créditos aplica-se, exclusivamente, em relação aos bens e serviços adquiridos de pessoas jurídicas domiciliadas no País e aos custos e despesas pagos ou creditados a pessoas jurídicas também domiciliadas no território nacional.” Restou pacificada no STJ a tese que: “o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte”. O conceito de insumo também foi consignado pela Fazenda Nacional, vez que, em setembro de 2018, publicou a NOTA SEI PGFN/MF 63/2018, in verbis: "Recurso Especial nº 1.221.170/PR Recurso representativo de controvérsia. Ilegalidade da disciplina de creditamento prevista nas IN SRF nº 247/2002 e 404/2004. Aferição do conceito de insumo à luz dos critérios de essencialidade ou relevância. Tese definida em sentido desfavorável à Fazenda Nacional. Autorização para dispensa de contestar e recorrer com fulcro no art. 19, IV, da Lei n° Fl. 469DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 7 10.522, de 2002, e art. 2º, V, da Portaria PGFN n° 502, de 2016. Nota Explicativa do art. 3º da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 01/2014." A Nota clarifica e orienta, internamente, a definição do conceito de insumos na “visão” da Fazenda Nacional: “41. Consoante se observa dos esclarecimentos do Ministro Mauro Campbell Marques, aludindo ao “teste de subtração” para compreensão do conceito de insumos, que se trata da “própria objetivação segura da tese aplicável a revelar a imprescindibilidade e a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte”. Conquanto tal método não esteja na tese firmada, é um dos instrumentos úteis para sua aplicação in concreto. 42. Insumos seriam, portanto, os bens ou serviços que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços e que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da mesma prestação do serviço ou da produção, ou seja, itens cuja subtração ou obste a atividade da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes. 43. O raciocínio proposto pelo “teste da subtração” a revelar a essencialidade ou relevância do item é como uma aferição de uma “conditio sine qua non” para a produção ou prestação do serviço. Busca-se uma eliminação hipotética, suprimindo-se mentalmente o item do contexto do processo produtivo atrelado à atividade empresarial desenvolvida. Ainda que se observem despesas importantes para a empresa, inclusive para o seu êxito no mercado, elas não são necessariamente essenciais ou relevantes, quando analisadas em cotejo com a atividade principal desenvolvida pelo contribuinte, sob um viés objetivo." Com tal nota, restou claro, assim, que insumos seriam todos os bens e serviços que possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou obste a atividade principal da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes. Tal ato ainda reflete que o “teste de subtração” deve ser utilizado para fins de se definir se determinado item seria ou não essencial à atividade do sujeito passivo. Eis o item 15 da Nota PGFN: “15. Deve-se, pois, levar em conta as particularidades de cada processo produtivo, na medida em que determinado bem pode fazer parte de vários processos produtivos, porém, com diferentes níveis de importância, sendo certo que o raciocínio hipotético levado a efeito por meio do “teste de subtração” serviria como um dos mecanismos aptos a revelar a imprescindibilidade e a importância para o processo produtivo. 16. Nesse diapasão, poder-se-ia caracterizar como insumo aquele item – bem ou serviço utilizado direta ou indiretamente cuja subtração implique a Fl. 470DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 8 impossibilidade da realização da atividade empresarial ou, pelo menos, cause perda de qualidade substancial que torne o serviço ou produto inútil. 17. Observa-se que o ponto fulcral da decisão do STJ é a definição de insumos como sendo aqueles bens ou serviços que, uma vez retirados do processo produtivo, comprometem a consecução da atividade-fim da empresa, estejam eles empregados direta ou indiretamente em tal processo. É o raciocínio que decorre do mencionado “teste de subtração” a que se refere o voto do Ministro Mauro Campbell Marques.” Nesse diapasão, poder-se-ia caracterizar como insumo aquele item – bem ou serviço utilizado direta ou indiretamente - cuja subtração implique a impossibilidade da realização da atividade empresarial ou, pelo menos, cause perda de qualidade substancial que torne o serviço ou produto inútil. Com efeito, o conceito de insumo a ser utilizado nesse voto será a sua relação direta com o processo produtivo. Feitos os devidos comentários, passemos à análise do presente do caso. DAS GLOSAS Segundo a fiscalização, com base na descrição da mercadoria adquirida, excluiu-se diversas aquisições da base de cálculo do crédito, por entender a Fiscalização que não correspondem ao conceito de insumo. Tratam-se das seguintes glosas: AQUISIÇÕES DE BENS NÃO ENQUADRADOS COMO INSUMOS: Combustíveis (álcool e gasolina) Entendeu a fiscalização, ratificado pelo julgador de piso, que as despesas com combustíveis e lubrificantes são consideradas insumos quando aplicados em veículos utilizados em qualquer etapa do processo produtivo, tal como o transporte dos insumos de produção entre estabelecimentos da empresa para o processo produtivo. No presente caso, a glosa se deu porque trata-se de despesas com combustíveis utilizados em veículos de vendedores da área comercial. A Recorrente opõe-se a tais glosas, afirmando que os bens desconsiderados pela fiscalização têm ligação com o processo produtivo. No presente tópico recursal, não há reforma a fazer, pois, a meu entender, dispêndios com combustíveis utilizados na área comercial não podem ser considerados insumos para fins de tomada de crédito das contribuições Fl. 471DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 9 por não serem elementos inseparáveis do processo produtivo, em outros termos, não integram o processo de produção da Recorrente, nem pela singularidade do processo produtivo nem por disposição legal, portanto, mantenho hígidas as respectivas glosas. Embalagens para transporte Foram glosados os créditos com caixas de Papelão, caixa shrink, cantoneira de papelão, chapa de papelão, filme strech, fita adesiva e película polietileno contrátil, porque utilizados para acondicionamento dos produtos que já estão em sua embalagem de apresentação, objetivando transporte, não gerando crédito a título de insumo. Em sua defesa, esclarece a contribuinte tratar-se de embalagem para transporte de produtos embalados individualmente, que devem necessariamente ser acondicionados em embalagens maiores, sob pena de ser tornar impossível - do ponto de vista físico - o transporte dos produtos. Por sua vez, alega a fiscalização, que por não se tratar de embalagem de apresentação, mas sim embalagem de transporte, não há como tomar crédito sobre tais dispêndios. Aqui entendo que não assiste razão o julgador de piso. Pois as embalagens são utilizadas no transporte das mercadorias, sendo que essas têm por fito a preservação e acondicionamento de alimentos, como é o presente caso, entendo que tais embalagens revestem-se da condição da essencialidade, um dos pressupostos do creditamento. Salienta-se que o processo de produção de bens, em regra, encerra-se com a finalização das etapas produtivas do bem e que o processo de prestação de serviços, geralmente, se encerra com a finalização da prestação ao cliente. Consequentemente, os bens e serviços empregados, mesmo que, posteriormente à finalização do processo de produção ou de prestação não são considerados insumos, salvo exceções justificadas, como ocorre com os itens exigidos para que o bem ou serviço produzidos possam ser comercializados. Por conseguinte, gize-se, só dão direito a crédito com gastos de embalagens quando indispensáveis as mesmas para a manutenção, preservação e qualidade do produto, como é o presente caso. Aqui merecem as glosas serem revertidas com base na Súmula CARF nº 235. Fl. 472DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 10 DOS FRETES Frete na aquisição de insumos (leite cru) não sujeitos ao pagamento das contribuições Como relatado, a cooperativa tem por atividade a fabricação de laticínios e aufere receita não tributada pela suspensão (leite in natura – art. 9º, II, da Lei nº 10.925/04) e pela alíquota zero (Leite pasteurizado ou industrializado, leite em pó, bebidas lácteas, queijos, soro de leite fluido, manteigas etc. – art. 1º, XI, XII, XIII e XXIV da Lei nº 10.925/04). No que cerne ao direito a tomar crédito sobre aquisições de insumos (leite cru) não sujeitos ao pagamento das contribuições, entendeu a fiscalização que não há crédito em relação a bens e serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições. A fiscalização argumentou a existência de previsão legal para apuração de créditos sobre fretes apenas e tão somente se relacionados com operações de venda e se suportados pelo vendedor, nos termos do art. 3º, IX, e art. 15, II, da Lei n. 10.833/2003. No entanto, sustentou a possibilidade de inclusão dos valores dispendidos com frete na aquisição de insumos, já que essa despesa comporá o custo de aquisição do produto. Para que isso seja possível a fiscalização aduz que o frete esteja submetido à tributação e, além disso, é necessário que o bem adquirido também dê direito à apuração de crédito. Assim, o frete é um acessório, não sendo possível a apuração de um crédito como uma despesa autônoma. Portanto, o frete, por ser custo de aquisição do insumo, assume a mesma natureza deste, não podendo ser admitido o crédito se o custo do bem adquirido não pode ser inserido na base de cálculo dos créditos. Com a devida vênia, divirjo do acórdão recorrido e da fiscalização, existe um equívoco de interpretação cometido pelo julgador de piso, pois as despesas comerciais com armazenagem e fretes na operação de venda têm disciplina própria prevista no art. 3º, inciso IX, da Lei 10.833/2003, não estando vinculadas a um outro direito de crédito, existem por si, melhor explicando, não são acessórios de nada, simplesmente, por conta de previsão legal expressa, independentemente, do tratamento tributário dado à mercadoria comercializada. É de se registrar que apesar do produto não ser sujeito a tributação de PIS e COFINS ou ser submetido ao crédito presumido, o frete é tributado, o Fl. 473DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 11 serviço de transporte prestado pela transportadora contratada pela contribuinte será tributado em PIS/COFINS devido por aquela, sobre o valor pago pela Recorrente. O valor aqui creditado será lá tributado, mantendo a lógica da não cumulatividade, no momento em que o creditamento aqui é negado e a tributação lá é mantida, quebra-se, sem fundamento legal, a não cumulatividade prevista na Lei nº 10.833/03. Por tais razões, reverto as glosas de créditos das contribuições em tela referentes aos serviços de frete contratados pela recorrente de pessoa jurídica domiciliada no Brasil e relativos às aquisições de insumos não sujeitos à incidência das contribuições, desde que, em observância à Súmula CARF nº 188, tenham tais serviços (fretes) registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. Despesas com Armazenagem e Fretes na operação de venda não comprovados (CST 51) e fretes internos (Frete de remessa e retorno para industrialização e de remessa e retorno para armazenagem) Aqui, neste tópico recursal, trata-se de matéria de provas. Ratificado pelo julgador de piso, a fiscalização glosou créditos decorrentes de despesas com fretes na operação de venda não comprovados (CST 51) e frete interno (remessa e retorno para industrialização e remessa e retorno para armazenagem). A fiscalização efetuou a glosa da diferença entre o valor informado na memória de cálculo e aquele constante da EFD-Contribuições a título de despesas de armazenagem e frete na operação de venda (CST 51), diante da falta de comprovação. Ainda, glosou o frete entre estabelecimentos da pessoa jurídica por entender que é autorizado o crédito, somente, com o frete nas operações de venda, quando o ônus tenha sido suportado pelo vendedor. Em sua defesa, alega a Recorrente que operações de venda nem sempre são diretas, havendo necessidade de que os produtos ou mercadorias sejam transferidos ou remetidos para filiais ou centros de distribuição. Acerca da parcela não comprovada, o acórdão recorrido enfatiza que nenhum documento probatório foi apresentado pela contribuinte em sua defesa, que se limitou a alegar inexistir diferenças entre os valores informados na EFD-Contribuições e aqueles contidos na memória de cálculo, mas apenas uma confrontação de valores de forma equivocada. Alega que a fiscalização não aceitou a destinação dos insumos e a utilização dos serviços prestados no processo produtivo relacionando documentos de Fl. 474DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 12 forma aleatória em planilha eletrônica, mas a contribuinte sequer aponta quais insumos e serviços que julga terem sido indevidamente desconsiderados pela fiscalização. Ademais, a rubrica em questão não trata de insumos, mas de despesas de armazenagem e frete na operação de venda, cuja previsão de apropriação de crédito é específica, constante do art. 3º, IX, c/c art. 15, II, da Lei nº 10.833/2003, distinta daquela prevista para bens e serviços utilizados como insumos (art. 3º, II, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003). Daí, reitera o julgador de piso que ônus da prova é da contribuinte, cabendo a ela comprovar o seu direito creditório e que a prova deve ser apresentada no momento da manifestação de inconformidade. Ratificando o acórdão recorrido, a glosa se deu por ausência de provas da efetividade das operações. Todavia, a demonstração da certeza e liquidez do crédito tributário é condição sine qua non para que a Autoridade Fiscal possa apurar o direito pleiteado. Daí, se ausentes os elementos probatórios que evidenciem o direito pleiteado pela Recorrente, não há outro caminho que não seja seu não reconhecimento, conforme inteligência do inciso VII, §3º do art. 74 da Lei 9.430/1996: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. § 3º- Além das hipóteses previstas nas leis específicas de cada tributo ou contribuição, não poderão ser objeto de compensação mediante entrega, pela sujeito passivo, da declaração referida no §1º: VII- o crédito objeto de pedido de restituição ou ressarcimento e o crédito informado em declaração de compensação cuja confirmação de liquidez e certeza esteja sob procedimento fiscal; Não há como afastar a regra contida nos art. 170 do CTN, impõe-se como imperioso a necessidade de comprovação da certeza e liquidez do crédito tributário para validação da compensação do crédito tributário. Por iguais razões acima exposta, ou seja, por ausência de comprovação de efetividade das operações, também mantenho hígidas tais glosas com despesas com armazenagem e fretes interno entre estabelecimentos (Remessa e retorno para industrialização e Remessa e Retorno para armazenagem). Fl. 475DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 13 Frete entre estabelecimentos de produtos acabados No que se refere as glosas com fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da cooperativa, tal questão não merece maiores digressões, merecendo aplicar ao tema a Súmula CARF nº 217: Os gastos com fretes relativos ao transporte de produtos acabados entre estabelecimentos da empresa não geram créditos de Contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins não cumulativas. Portanto, mantenho as glosas. SERVIÇOS NÃO ENQUADRADOS COMO INSUMOS: Serviços de análise laboratorial No que se refere ao serviço de análise laboratorial de matéria-prima e produto acabado, a contribuinte ali descreveu genericamente o serviço prestado, bem como a sua utilidade a título de insumo para a fabricação dos produtos (análise laboratorial de produto), por isso, a fiscalização procedeu a glosa do respectivo crédito. Entretanto, tais glosas merecem ser revertidas, sobretudo, considerando a atividade produtiva da recorrente, na qual se evidencia a relevância e essencialidade do insumo para o seu processo produtivo. Por isso, reverto tais glosas. Tratamento de resíduos industriais Segundo o entendimento da fiscalização, ratificado pelo julgador de piso, a glosa do tratamento de resíduos industriais ocorre posteriormente ao processo produtivo e sendo assim, não seria essencial ou relevante ao processo de produção. A meu sentir, tais glosas merecem ser revertidas dado que adequado tratamento e descarte de resíduos é exigível para o cumprimento de normas ambientais, bem como, necessários sob o ponto de vista de proteção ao meio ambiente. Reverto as glosas referente às despesas com tratamento de resíduos industriais. Carregamento de produtos acabados (serviços de carga e descarga) Fl. 476DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 14 Segundo o entendimento da fiscalização, ratificado pelo julgador de piso, a glosa com despesas com carregamento de produtos acabados (serviços de carga e descarga) ocorrem posteriormente ao processo produtivo e sendo assim, não seria essencial ou relevante ao processo de produção. Entretanto, compulsando-se os autos, no presente recurso, não há impugnação específica para presente glosa, portanto, não conheço do presente tópico recursal. Controle de Pragas na indústria No meu entender, dispêndios com controle de pragas não podem ser considerados insumos para fins de tomada de crédito das contribuições por não serem elementos inseparáveis do processo produtivo, em outros termos, não integram o processo de produção da Recorrente, nem pela singularidade do processo produtivo nem por disposição legal, portanto, mantenho hígidas as respectivas glosas. Do julgamento em conjunto Pleiteia o contribuinte o julgamento em conjunto dos Processos 10930.908045/2016-52; 10930.908041/2016-74; 10930.908042/2016-19; 10930.908046/2016-05; 10930.908047/2016-41; e 10930.908048/2016-96. Nesta Sessão de Julgamento, estão sendo julgados todos os processos que a mim foram distribuídos para relatar. Por fim, ante todo exposto, voto por conhecer, em parte, do recurso voluntário para, na parte conhecida, no mérito, dar-lhe parcial provimento para reverter as seguintes glosas: (1) dispêndios com embalagens para transporte, nos termos da Súmula CARF nº 235; (2) dispêndios com fretes na aquisição de insumos (leite cru) contratados pela recorrente de pessoa jurídica domiciliada no Brasil e relativos às aquisições de insumos não sujeitos à incidência das contribuições, desde que, em observância à Súmula CARF nº 188, tenham tais serviços (fretes) registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições; e (3) despesas com tratamento de resíduos industriais, e Fl. 477DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.925 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10930.908042/2016-19 15 (4) despesas com serviços de análise laboratorial. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de conhecer, em parte, do recurso voluntário para, na parte conhecida, no mérito, dar-lhe parcial provimento para reverter as glosas dos créditos sobre (1) dispêndios com embalagens para transporte, nos termos da Súmula CARF nº 235, (2) dispêndios com fretes na aquisição de insumos (leite cru) contratados pela recorrente de pessoa jurídica domiciliada no Brasil e relativos às aquisições de insumos não sujeitos à incidência das contribuições, desde que, em observância à Súmula CARF nº 188, tenham tais serviços (fretes) registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos e tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições, (3) despesas com tratamento de resíduos industriais, e (4) despesas com serviços de análise laboratorial. Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente Redator Fl. 478DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10134.722691/2019-52
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 16 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Oct 15 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/10/2015 a 31/12/2016
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. EXISTÊNCIA DE ERRO MATERIAL NA EMENTA.
ACOLHIMENTO PARCIAL.
Existindo obscuridade, omissão, contradição ou erro material no acórdão embargado, impõe-se seu acolhimento para sanar o vício contido na decisão. No caso, o erro material na ementa deve ser sanado. Embargo de Declaração acolhido parcialmente.
Numero da decisão: 3302-015.194
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher parcialmente os embargos de declaração apenas no que tange ao erro material na ementa, nos termos do voto da relatora. Decisão sem efeitos infringentes.
Sala de Sessões, em 16 de setembro de 2025.
Assinado Digitalmente
Francisca das Chagas Lemos – Relatora
Assinado Digitalmente
Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mário Sérgio Martinez Piccini, Marina Righi Rodrigues Lara, Dionisio Carvallhedo Barbosa (substituto[a]integral), Francisca das Chagas Lemos, José Renato Pereira de Deus e Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente).
Nome do relator: FRANCISCA DAS CHAGAS LEMOS
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher parcialmente os embargos de declaração apenas no que tange ao erro material na ementa, nos termos do voto da relatora. Decisão sem efeitos infringentes. Sala de Sessões, em 16 de setembro de 2025. Assinado Digitalmente Francisca das Chagas Lemos – Relatora Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mário Sérgio Martinez Piccini, Marina Righi Rodrigues Lara, Dionisio Carvallhedo Barbosa (substituto[a]integral), Francisca das Chagas Lemos, José Renato Pereira de Deus e Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente).
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EXISTÊNCIA DE ERRO MATERIAL NA EMENTA. ACOLHIMENTO PARCIAL. Existindo obscuridade, omissão, contradição ou erro material no acórdão embargado, impõe-se seu acolhimento para sanar o vício contido na decisão. No caso, o erro material na ementa deve ser sanado. Embargo de Declaração acolhido parcialmente. ACÓRDÃO Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher parcialmente os embargos de declaração apenas no que tange ao erro material na ementa, nos termos do voto da relatora. Decisão sem efeitos infringentes. Sala de Sessões, em 16 de setembro de 2025. Assinado Digitalmente Francisca das Chagas Lemos – Relatora Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mário Sérgio Martinez Piccini, Marina Righi Rodrigues Lara, Dionisio Carvallhedo Barbosa (substituto[a]integral), Francisca das Chagas Lemos, José Renato Pereira de Deus e Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente). Fl. 2154DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.194 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10134.722691/2019-52 2 RELATÓRIO Trata-se de Embargos de Declaração formalizados pela Fazenda Nacional ao amparo do art. 116 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF. Os Embargos foram opostos contra o Acórdão de Recurso Voluntário e de Recurso de Ofício no 3302- 014.818, de 19/09/2024, proferido pela 2ª Turma, 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento. Os argumentos aduzidos pela Embargante foram os seguintes: a) Existência de Contradição – Afirmou que o resultado do julgamento não reflete aquilo que foi decidido pelo Colegiado (glosas revertidas sobre fretes de produtos cujas saídas foram realizadas com suspensão das contribuições: a turma negou provimento, de modo que as glosas devem ser mantidas); a ementa apresenta inconsistências no tocante a crédito sobre encargos de depreciação de ativos imobilizados, não havendo no corpo do acórdão considerações sobre o tema, de forma que o julgado não reflete o que foi apreciado no colegiado; b) Erro Material na Ementa – Apontou a existência de erro material no item FRETES/ARMAZENAGEM, que indicou como “Possibilidade” de crédito, sendo que o julgado indica pela não “Impossibilidade” do creditamento. Por sua vez, a parte Embargada apresentou contraminuta aos Embargos de Declaração, em que sustentou que os Embargos não merecem integral provimento, pelos seguintes fundamentos. i) Quanto as glosas relativas ao frete de produtos, não haveria contradição, pois a proclamação do resultado traduz com fidelidade o entendimento adotado pelo colegiado. O ponto embargado não se trata de fretes, mas a outras operações não sujeitas às contribuições. Em despacho de admissibilidade de Embargos efetuado pelo Presidente desta 2ª TO, foi constatada a tempestividade do Recurso da Fazenda Nacional, sendo admitido em relação a contradição e erro material na ementa, ambos descritos acima. Acolhidos os Embargos, foram encaminhados para inclusão na pauta de julgamento, sob minha relatoria. É o relatório. Fl. 2155DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.194 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10134.722691/2019-52 3 VOTO Conselheira Francisca das Chagas Lemos, Relatora. Conheço dos Embargos, por serem tempestivos, tratarem de matéria de competência desta turma e cumprirem os demais requisitos ora exigidos. 1) Dos argumentos da embargante Disse a Embargante que a proclamação do resultado do julgamento (Acórdão 3302- 014.818, de 19/09/2024) não refletiu aquilo que foi decidido pelo Colegiado, além de a ementa apresentar inconsistências. Após transcrever a Ementa, a Embargante grifou os seguintes trechos: CRÉDITO. DEPRECIAÇÃO. BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. Geram direito a crédito na apuração da COFINS devida segundo a modalidade não cumulativa os encargos de depreciação sobre bens do ativo imobilizado adquiridos ou fabricados para locação a terceiros ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. (...) FRETES. ARMAZENAGEM. VENDA. POSSIBILIDADE. Frete referente ao transporte de produtos prontos para armazéns não dá direito a desconto de créditos na apuração da COFINS devida segundo a modalidade não cumulativa. (...) Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário da seguinte forma: (1) por unanimidade de votos, para reverter a glosa dos créditos referentes a (1.1) serviços de transporte de matéria-prima entre filiais, (1.2) aluguel de contêineres, coberturas, galpões e rádios; e (1.3) frete de produtos cujas saídas foram realizadas com suspensão das contribuições; (...) 1.1. Primeiro Argumento: A Embargante apontou que, na proclamação do resultado, constou a reversão das glosas referentes ao frete de produtos cujas saídas ocorreram com suspensão das contribuições. Contudo, ao analisar o ponto em que a eminente Relatora examinou esse custo, verifica-se que a Turma negou provimento ao Recurso Voluntário, razão pela qual as glosas foram mantidas. Fl. 2156DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.194 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10134.722691/2019-52 4 Ou seja, embora as glosas em questão tenham sido mantidas pelo acórdão embargado, na proclamação do resultado foram equivocadamente declaradas como revertidas, consubstanciando evidente contradição. Análise: Quanto a esse ponto, observo que a Embargante faz referência ao item do acórdão denominado “2. ITENS CONSIDERADOS NÃO UTILIZADOS NO PROCESSO PRODUTIVO”, analisado a partir das fls. 2.116, subdividido em: “Outras operações com direito a crédito (fls. 2.118) – créditos da CSN Mineração (CNPJ 08.902.291)”, composto por três itens “a”, “b” e “c”. No relatório, as fls. 2095, consta o seguinte resumo: (8) Outras operações com direito a crédito: créditos da CSN Mineração (CNPJ 08.902.291): a) aquisições de serviços de transporte de minério de ferro até o Porto de Itaguaí, para fins de escoamento da produção ao exterior; b) aquisições em que a CSN Mineração não figura como tomadora, remetente ou destinatária, mas sim a empresa CSN (CNPJ 33.042.730); c) aquisições cujos documentos fiscais registram “saídas com suspensão de PIS e COFINS”, e “transporte de mercadorias destinada ao exterior”. À fl. 2120, apontada pela Embargante, foram tratados os itens “b” e “c” dos créditos da CSN Mineração. Conforme transcrito acima, o item “b” analisou “aquisições em que a CSN Mineração não é tomadora, remetente ou destinatária, sendo a empresa CSN (CNPJ 33.042.730)” a parte envolvida. O item “c” abordou “aquisições cujo documentos fiscais consta “saídas com suspensão de PIS e COFINS” e “transporte de mercadorias destinadas ao exterior””. Ficou consignado que, nas hipóteses em que os insumos são adquiridos com suspensão, não incidência ou alíquota zero das contribuições, é vedada a apropriação de créditos das Contribuições para o PIS/Pasep e da COFINS, em relação ao frete desta aquisição Neste tópico, votei por dar provimento em parte e por negar provimento do Recurso Voluntário, especificando duas situações (fls. 2120-2121): 1) Não Provimento (saídas com suspensão): aquisições cujo documentos fiscais consignam ‘saída com suspensão’, fundamentadas no item 2.1.1., com referência às operações de Reporto; 2) Provimento (vendas destinadas ao exterior): relativamente ao transporte de mercadorias destinadas ao exterior, votei pela aplicação da Súmula CARF 188 (2024), segundo a qual: “É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Fl. 2157DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.194 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10134.722691/2019-52 5 Contribuição para o PIS/Pasep e pela COFINS não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições”. No resultado, constou: “Acordam os membros do Colegiado, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário da seguinte forma: (1) por unanimidade de votos, para reverter a glosa dos créditos referentes a (1.1) serviços de transporte de matéria-prima entre filiais, (1.2) aluguel de contêineres, coberturas, galpões e rádios; e (1.3) frete de produtos cujas saídas foram realizadas com suspensão das contribuições; (...) Observa-se que o resultado está em consonância com o voto descrito, item 2, relativo ao transporte de mercadorias destinadas ao exterior, ao qual foi dado provimento com fundamento na súmula CARF 188, destacando-se as operações de exportação. Entendo, assim, que não há reparo a ser efetuado quanto ao resultado proclamado. É neste sentido o meu voto. 1.2. Segundo Argumento: A Embargante apontou existir flagrante descasamento entre o que foi anunciado na ementa do acórdão e a respectiva fundamentação. Na ementa, constariam como pontos de enfrentamento aspectos relacionados à geração de direito a crédito de encargos de depreciação sobre bens do ativo imobilizado adquiridos ou fabricados para locação a terceiros ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Todavia, não haveria no corpo do acórdão quaisquer considerações, diretas ou indiretas, sobre esse tema, de modo que a ementa não refletiria o que efetivamente foi apreciado pelo colegiado, o que configuraria patente obscuridade. Análise: Obscuridade pela menção a crédito de encargos de depreciação: A Embargante sustentou a existência de obscuridade relativamente à geração de direito a crédito de encargos de depreciação sobre bens do ativo imobilizado adquiridos ou fabricados para locação a terceiros, ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Alegou que inexistiram no corpo do acórdão considerações, diretas ou indiretas, sobre esse tema, o que configura obscuridade. Fl. 2158DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.194 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10134.722691/2019-52 6 Ocorre que, o despacho de admissibilidade dos Embargos, proferido pelo Presidente da 2ª TO, o recurso foi admitido apenas quanto à contradição e ao erro material na ementa, ambos descritos, não sendo conhecidos no ponto relativo à obscuridade. Após o despacho de admissibilidade, cabe ao Colegiado apenas apreciar a parte admitida, seja para nego ou dar provimento. Em relação à parte não admitida, a decisão do Presidente da Turma é definitiva, não se sujeitando a revisão pelo Colegiado. De toda forma, ainda que superado esse óbice, não merece guarida a alegação de inexistência de considerações sobre ativo imobilizado. Isso porque, tanto no relatório, às fls. 2090, houve menção a máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, quanto no voto, às fls. 2097, em que se analisaram bens utilizados no processo produtivo (fls. 2115-2116) no contexto dos créditos decorrentes da aquisição de máquinas, equipamentos e demais bens incorporados ao ativo imobilizado. Assim, entendo que não há obscuridade, razão pela qual não há reparo a ser efetuado quanto ao resultado proferido. É neste sentido o meu voto. 1.3. Terceiro Argumento: A Embargante afirmou existir aparente erro material no item “FRETES. ARMAZENAGEM. VENDA. POSSIBILIDADE”. Isso porque a fundamentação do acordão indicou corretamente a IMPOSSIBILIDADE de creditamento, nos seguintes termos: “frete referente ao transporte de produtos prontos para armazéns não dá direito a desconto de créditos na apuração da COFINS devida segundo a modalidade não cumulativa”. Análise: Erro material na Ementa: Quanto as alegações de aparente erro material no item “FRETES. ARMAZENAGEM. VENDA. POSSIBILIDADE”, verifica-se que, de fato, trata-se de IMPOSSIBILIDADE de creditamento do transporte de produto acabado. Com razão a Embargante. O tópico relativo à armazenagem foi tratado no item 1.2 do Acórdão, sob a rubrica: “Dos créditos decorrentes da aquisição de serviços utilizados como insumo” (fls. 2100), ATIVIDADES DECORRENTES DOS SERVIÇOS DENOMINADOS “SERVIÇOS PORTUÁRIOS” (fls. 2101 a 2105). Naquela oportunidade, votei por dar provimento ao Recurso Voluntário, mas a decisão foi sendo resolvida pelo voto de qualidade, com a consequente negativa de provimento. O resultado consignou: “Acordam os membros do Colegiado, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário da seguinte forma: (...) 3) por voto de qualidade, para manter as glosas referentes a serviços portuários, embarques ferroviários, transportes dentro do porto, Fl. 2159DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.194 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10134.722691/2019-52 7 manutenção ferroviária e serviços de transporte de minério de ferro até o Porto de Itaguaí, vencidos os Conselheiros Marina Righi Rodrigues Lara, José Renato Pereira de Deus e Francisca das Chagas Lemos (relatora); (...) Constou na ementa: FRETES. ARMAZENAGEM. VENDA. POSSIBILIDADE. Frete referente ao transporte de produtos prontos para armazéns não dá direito a desconto de créditos na apuração da COFINS devida segundo a modalidade não cumulativa. Constata-se, portanto, erro material na ementa, que apresenta contradição entre o título e o conteúdo. Assim, devem ser acolhidos os embargos para afastar o erro, de modo que passe a constar: FRETES. ARMAZENAGEM. VENDA. IMPOSSIBILIDADE. Frete referente ao transporte de produtos prontos para armazéns não dá direito a desconto de créditos na apuração da COFINS devida segundo a modalidade não cumulativa. Diante do exposto, acolho parcialmente os embargos de declaração, apenas para sanar o vício apontado, sem efeitos infringentes. É assim que voto. 2) Dos argumentos da Contraminuta aos Embargos de Declaração Por sua vez, a parte Embargada apresentou CONTRAMINUTA AOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO, em que sustentou que os Embargos não merecem integral provimento, defendendo argumentos que seguem: RAZÕES DE IMPROCEDÊNCIA DO MÉRITO DOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO - a) Quanto as glosas relativas ao frete de produtos A Contraminuta aduziu que a argumentação da Embargante não refletiria a melhor interpretação do acórdão recorrido, uma vez que a proclamação do resultado do julgamento traduziu com fidelidade o entendimento adotado pelo Colegiado. Assim, inexistindo a contradição Fl. 2160DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.194 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10134.722691/2019-52 8 alegada, pois o trecho destacado pela Fazenda não tratava de frete, mas sim das aquisições cujos documentos fiscais indicavam “saídas com suspensão de PIS e COFINS”. Este ponto foi examinado no tópico anterior (Frete de produtos cujas saídas foram realizadas com suspensão das contribuições), no qual foram analisadas duas situações: - Não Provimento (saídas com suspensão): aquisições cujo documentos fiscais consignam ‘saída com suspensão’, com fundamento do item 2.1.1., referente às operações de Reporto; - Provimento (vendas destinadas ao exterior): relativamente ao transporte de mercadorias destinadas ao exterior, o voto foi pela aplicação da Súmula CARF 188 (2024), que autoriza o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela COFINS não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. Deste modo, entendo que restou esclarecido o argumento aduzido na Contraminuta da Embargada. 3) Dispositivo Em razão de todo o exposto, voto no sentido de CONHECER e ACOLHER PARCIALMENTE os Embargos de Declaração, apenas quanto ao erro material na ementa, sem lhes conferir efeitos infringentes. É como voto. Francisca das Chagas Lemos. Fl. 2161DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 16349.000197/2009-22
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 25 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Oct 17 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006
PRELIMINAR. NULIDADE. IMPROCEDÊNCIA.
Não há que se falar em nulidade do despacho decisório tendo em vista que foi proferido por autoridade competente bem como por ter respeitado o direito ao contraditório e à ampla defesa em contraposição aos termos do art. 59 do Decreto no 70.235/72.
PRELIMINAR. DECADÊNCIA. IMPROCEDÊNCIA.
As regras de decadência para a efetivação do lançamento tributário (Art. 150, § 4º e Art. 173, ambos do CTN) não se aplicam à análise administrativa que visa apurar a liquidez e certeza do crédito solicitado em pedido de ressarcimento/compensação do contribuinte.
Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006
REGIME NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA.
A sistemática da não-cumulatividade das Contribuições para o PIS e da COFINS impõe a apreciação de determinado bem ou serviço ponderando sua essencialidade e relevância ao processo produtivo. No presente julgado deve ser reproduzido o determinado na decisão preferida no Recurso Especial no 1.221.170/PR.
SERVIÇOS.VASSOURA RECOLHEDORA/OPERADOR. REMOÇÃO AJUDANTES. CARGA. DESCARGA. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE.
As despesas incorridas com serviços de remoção de resíduos, remoção – ajudantes, vassoura recolhedora/operador, bem como para carga e descarga de insumos (matérias-primas) enquadram-se na definição de insumos dada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR, e, portanto, dão direito ao desconto de créditos da contribuição para o PIS e Cofins.
INSUMOS. ALÍQUOTA ZERO. FRETES. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE.
Os custos/despesas com fretes no transporte de insumos (matérias-primas), ainda que estes sejam tributados à alíquota zero, pagos ou creditados a pessoas jurídicas domiciliadas no País geram créditos das contribuições.
Numero da decisão: 3202-002.447
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em afastar as preliminares de necessidade de julgamento em conjunto, de nulidade e de decadência da decisão recorrida para, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário, para reconhecer o direito de o contribuinte descontar créditos sobre os custos/despesas, cabendo à autoridade administrativa apurar os créditos e homologar as Dcomp até o limite apurado, da seguinte forma: (I) por unanimidade, em reverter as glosas sobre os “Serviços de Carga e Descarga” e “Fretes sobre Insumos Tributados à Alíquota Zero”. (II) Por maioria de votos, em reverter as glosas dos “Serviços de Limpeza” e “Serviços de Remoção de Materiais”. Vencida a Conselheira Juciléia de Souza Lima e o Conselheiro Rafael Luiz Bueno da Cunha, que revertiam as glosas dos serviços de remoção de materiais diretamente ligados à atividade industrial. Vencido o Conselheiro Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe, que negava provimento ao recurso no tema. (III) Por maioria de votos, em manter as glosas sobre “Fretes de Transferências”. Vencidas as Conselheiras Aline Cardoso de Faria (Relatora) e Onízia de Miranda Aguiar Pignataro, que davam provimento ao recurso para reverter a glosa dos fretes sobre as transferências de produtos inacabados. (IV) Por maioria de votos, em manter as glosas sobre “Serviços de Movimentação Portuária”. Vencida a Conselheira Aline Cardoso de Faria (Relatora), que dava provimento ao recurso na matéria. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe.
Assinado Digitalmente
Aline Cardoso de Faria – Relatora
Assinado Digitalmente
Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente e Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Jucileia de Souza Lima, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Onizia deMiranda Aguiar Pignataro, Aline Cardoso de Faria (relatora), Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe.
Nome do relator: ALINE CARDOSO DE FARIA
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NULIDADE. IMPROCEDÊNCIA. Não há que se falar em nulidade do despacho decisório tendo em vista que foi proferido por autoridade competente bem como por ter respeitado o direito ao contraditório e à ampla defesa em contraposição aos termos do art. 59 do Decreto no 70.235/72. PRELIMINAR. DECADÊNCIA. IMPROCEDÊNCIA. As regras de decadência para a efetivação do lançamento tributário (Art. 150, § 4º e Art. 173, ambos do CTN) não se aplicam à análise administrativa que visa apurar a liquidez e certeza do crédito solicitado em pedido de ressarcimento/compensação do contribuinte. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 REGIME NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. A sistemática da não-cumulatividade das Contribuições para o PIS e da COFINS impõe a apreciação de determinado bem ou serviço ponderando sua essencialidade e relevância ao processo produtivo. No presente julgado deve ser reproduzido o determinado na decisão preferida no Recurso Especial no 1.221.170/PR. SERVIÇOS.VASSOURA RECOLHEDORA/OPERADOR. REMOÇÃO AJUDANTES. CARGA. DESCARGA. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas incorridas com serviços de remoção de resíduos, remoção – ajudantes, vassoura recolhedora/operador, bem como para carga e descarga de insumos (matérias-primas) enquadram-se na definição de Fl. 552DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 2 insumos dada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR, e, portanto, dão direito ao desconto de créditos da contribuição para o PIS e Cofins. INSUMOS. ALÍQUOTA ZERO. FRETES. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Os custos/despesas com fretes no transporte de insumos (matérias- primas), ainda que estes sejam tributados à alíquota zero, pagos ou creditados a pessoas jurídicas domiciliadas no País geram créditos das contribuições. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em afastar as preliminares de necessidade de julgamento em conjunto, de nulidade e de decadência da decisão recorrida para, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário, para reconhecer o direito de o contribuinte descontar créditos sobre os custos/despesas, cabendo à autoridade administrativa apurar os créditos e homologar as Dcomp até o limite apurado, da seguinte forma: (I) por unanimidade, em reverter as glosas sobre os “Serviços de Carga e Descarga” e “Fretes sobre Insumos Tributados à Alíquota Zero”. (II) Por maioria de votos, em reverter as glosas dos “Serviços de Limpeza” e “Serviços de Remoção de Materiais”. Vencida a Conselheira Juciléia de Souza Lima e o Conselheiro Rafael Luiz Bueno da Cunha, que revertiam as glosas dos serviços de remoção de materiais diretamente ligados à atividade industrial. Vencido o Conselheiro Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe, que negava provimento ao recurso no tema. (III) Por maioria de votos, em manter as glosas sobre “Fretes de Transferências”. Vencidas as Conselheiras Aline Cardoso de Faria (Relatora) e Onízia de Miranda Aguiar Pignataro, que davam provimento ao recurso para reverter a glosa dos fretes sobre as transferências de produtos inacabados. (IV) Por maioria de votos, em manter as glosas sobre “Serviços de Movimentação Portuária”. Vencida a Conselheira Aline Cardoso de Faria (Relatora), que dava provimento ao recurso na matéria. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe. Assinado Digitalmente Aline Cardoso de Faria – Relatora Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe – Presidente e Redator designado Fl. 553DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 3 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Wagner Mota Momesso de Oliveira, Jucileia de Souza Lima, Rafael Luiz Bueno da Cunha, Onizia deMiranda Aguiar Pignataro, Aline Cardoso de Faria (relatora), Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe. RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra decisão da DRJ, que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade interposta contra despacho decisório que indeferiu o Pedido de Ressarcimento (PER) de relativo ao crédito de Cofins e não homologou a Declaração de Compensação (Dcomp), objeto deste processo administrativo, em que figura como Recorrente a empresa MOSAIC FERTILIZANTES DO BRASIL S/A. Por bem descrever os fatos, adota-se o relatório do Acórdão recorrido: Trata o presente processo do pedido eletrônico de ressarcimento relativo ao crédito de PIS/Pasep não cumulativo, vinculado às receitas de exportação, do 1º trimestre de 2006, no valor de R$ 18.774,49, formalizado através do PER nº 19811.64201.110406.1.1.08-0334, cumulado com a entrega da declaração de compensação eletrônica (Dcomp) nº 08800.55885.180406.1.3.08-9205, a qual utilizou-se integralmente do crédito pleiteado. A análise do direito creditório foi realizada pela Equipe Especial de Auditoria – EQAUD, da Delegacia Especial da Receita Federal do Brasil de Administração Tributária em São Paulo, que, em conclusão aos trabalhos realizados, emitiu o Despacho Decisório de fls. 197 a 223, de 06/04/2011, o qual reconheceu parcialmente o direito creditório pleiteado, no valor de R$ 16.171,49, e homologou as compensações declaradas até o limite do crédito reconhecido. Consoante a decisão administrativa mencionada, o procedimento fiscal envolveu as apurações: das receitas auferidas (Receitas de Exportação, do Mercado Interno Tributado, do Mercado Interno Não Tributado e outras Receitas); da proporcionalidade a ser aplicada aos créditos não cumulativos, uma vez que a contribuinte adota o rateio proporcional para a repartição dos créditos comuns (relativos às diversas receitas); da contribuição devida no período; da base de cálculo dos créditos não cumulativos; e dos créditos não cumulativos da contribuição, relativos ao mercado externo. Segundo a fiscalização, comparando-se os valores declarados (no Dacon) com os valores apurados no procedimento fiscal, foram encontradas divergências na apuração dos créditos não cumulativos (base de cálculo e, conseqüentemente, nos valores dos créditos) das seguintes rubricas: - serviços profissionais – por não se enquadrarem no conceito de insumo estampado na IN SRF nº 404, de 2004, conforme quadros colacionados na decisão administrativa; - fretes sobre insumos – constantes da conta contábil nº 3.061, pelo fato de as mercadorias transportadas não gerarem direito ao crédito, conforme disposto no art. 3º, § 2º, inciso II, da Lei nº 10.833, de 2003. Entende a autoridade fiscal que o direito ao crédito sobre as despesas de fretes na aquisição de insumos somente ocorre por conta da interpretação, baseada no art. 289, § 1º, do Regulamento do Imposto de Renda – RIR/99, de que eles integram o custo das mercadorias adquiridas. Assim, neste sentido, uma vez que as Fl. 554DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 4 mercadorias transportadas não geram o direito ao crédito os fretes a elas vinculados também não podem gerar tal direito. Além disso alguns lançamentos na mencionada conta dizem respeito a fretes de transferências de mercadorias entre estabelecimentos, remessas de/para depósitos ou de/para armazenagens, para os quais inexiste previsão legal de direito ao crédito. - serviços de movimentação portuária – por não haver previsão do direito ao crédito para este tipo de serviço e pelo fato dele não se caracterizar como insumo. Adicionalmente, a fiscalização ressalta que a despesa relativa aos serviços de descarga portuária fazem parte da base de cálculo do contribuição devida na importação, sendo os valores recolhidos (a título de contribuição) utilizados como créditos em outra linha do Dacon. - serviços de carga e descarga – por tratarem-se de serviços de locação de mão-de-obra para carga e descarga de produtos, os quais não podem ser considerados como aplicados ou consumidos diretamente na industrialização - despesas com armazenagem e fretes sobre vendas – quanto às despesas de armazenagem, por se tratarem de serviços de descargas de matérias-primas (descarga portuária) para as quais inexiste previsão legal expressa e que, também, não podem ser considerados como insumos. Observe-se que relativamente aos fretes sobre vendas não houve glosas. Segundo a fiscalização foi identificada compatibilidade entre as contas contábeis 116000 e 118000 em comparação com os valores declarados no Dacon; - devolução de vendas – neste caso a fiscalização reconhece que as devoluções de venda de mercadoria tributada originalmente pela saída concedem o direito ao creditamento, mas observa que no caso de eventual devolução este crédito deve ser tratado a parte, sem o concurso de rateio proporcional, dada a relação direta entre a contribuição devida em razão da venda e a possibilidade de creditamento, em mesmo montante e tipo de crédito. - ajustes negativos de créditos – exclusão do valor de R$ 71.155,80 relativa ao mês de março – Conforme relata a fiscalização, este ajuste negativo refere-se ao estorno dos créditos das rubricas “serviços profissionais” e “mão-de-obra temporária”, tomados pela contribuinte no período de junho/04 a junho de 2005. Ocorre que estas rubricas foram, sistematicamente (nos processos administrativos relativos aos mencionados períodos de apuração), glosadas. Nesse sentido, portanto, a fiscalização excluiu este ajuste negativo, pelo fato de as mencionadas rubricas já terem sido objeto de glosas anteriores. Observa-se, por fim, que, em razão dos ajustes acima (glosas), a autoridade a quo efetivou a reapuração de todos créditos não cumulativos do período analisado, utilizando-se dos indíces de rateio proporcional apurados no procedimento fiscal, de modo a determinar os créditos passíveis de ressarcimento que estão sendo tratados no presente processo (vinculados ao mercado externo). Ressalte-se, ainda, que os indíces de rateio proporcional apurados pela fiscalização divergem dos apurados/informados pela contribuinte no Dacon. A interessada foi cientificada do despacho decisório, em 07/04/2011, e apresentou, em 09/05/2011, manifestação de inconformidade, cujo conteúdo é resumido a seguir. Inicialmente, após um breve relato dos fatos, a interessada a alega que houve ilegalidade material no procedimento administrativo. Sustenta que as glosas foram realizadas em meses que já estão fulminados pela decadência e que o “lançamento tributário” foi realizado sem a observância do prazo decadencial. Diz, também, que o “Trabalho de fiscalização envolveu a auditoria de vários meses e os cálculos em cada mês foram tomados considerando as glosas e ajustes ocorridos nos meses anteriores. Com isso, as glosas são consideradas ou ‘carregadas’ para os meses posteriores de modo a fazer com que os créditos tributários relativos a períodos já alcançados pela decadência sejam considerados em meses posteriores, com a indireta alteração do prazo de decadência em evidente prejuízo da legalidade e dos direitos do contribuinte.” Na mérito a interessada contesta as glosas de créditos insurgindo-se contra o conceito de insumo adotado pela fiscalização. Diz que interpretação adotada pela autoridade fiscal está Fl. 555DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 5 em desacordo com a lei tributária e que a verificação da utilização de um insumo na prestação de serviços ou na produção de bens destinados à venda é dada em razão da essencialidade do mesmo para a obtenção do produto final. Argumenta que o deferimento do crédito, segundo a lei, requer tão somente que os insumos sejam utilizados na fabricação ou produção de produtos. Alega, com base em posições doutrinárias, que o conceito de insumo a ser adotado no caso da contribuição não cumulativa deve ser aquele que rege a apuração do imposto de renda e, também, que sua a acepção deve estar vinculada necessariamente ao contexto da exação exigida, com atrelamento ao aferimento de “receita”. Na sequencia a contribuinte prossegue com a contestação das seguintes glosas que foram efetivadas pela autoridade a quo: - serviços profissionais - argumenta que estes serviços estão intrinsicamente ligados à fabricação, pois visam obter insumos – materiais ou imateriais – que são utilizados direta ou indiretamente na fabricação. Alega que, de acordo com a lei, basta que os insumos sejam utilizados ou consumidos no processo fabril e, nesse sentido, contesta a solução de consulta mencionada pela fiscalização que exige que os insumos sejam consumidos/utilizados em contato direto com o produto fabricado. Destaca os serviços de transporte com ajudantes para remoção de materiais, alegando que tratam-se de serviços de movimentação interna de mercadorias, efetuado com pás-carregadeiras, e os serviços de vassoura recolhedora, argumentando que são serviços necessários à limpeza da fábrica. Diz, também, que a fiscalização não produziu qualquer prova que demonstre que os mencionados serviços não foram utilizados no processo de fabricação. - serviços de movimentação portuária (capatazia e estiva) - sustenta que estes serviços devem ser tratados como fretes e, nesta condição, devem gerar direito ao crédito quando prestados em conjunto com as aquisições de matérias-primas. Diz que os gastos com referidos serviços decorrem de pactos coligados ao contrato de compra e venda das mercadorias importadas, tratando-se, portanto, de serviços obrigatórios para a recepção das mesmas. Argumenta que a contratação deles é necessária e inerente à obtenção das próprias fontes de produção (matérias-primas) que serão utilizadas em sua produção. Sustenta, conforme as soluções de consulta que menciona, que a própria administração tributária tem permitido a escrituração dos créditos com os citados serviços. Defende, também, que o direito ao crédito sobre o pagamento da contribuição na importação, consoante o previsão constante do inciso II do art. 15 da Lei nº 10.865, de 2005, não afasta o direito ao crédito em razão da contratação dos serviços de movimentação, ou seja, pugna pela possibilidade de efetivar duplamente o creditamento da contribuição: relativamente aos serviços prestados; e relativamente à contribuição paga na importação. - serviço de carga e descarga (mão de obra temporária) – alega que os serviços tomados a título de mão-de-obra temporária visam suprir a necessidade de força de trabalho no processo fabril, contribuindo diretamente no processo produtivo mediante a colocação e retirada de matérias-primas nas máquinas misturadoras de fertilizantes. Argumenta, também, que não existe óbice para o creditamento, pois tais serviços são contratados, sob o regime da Lei 6.019/74, diretamente com pessoa jurídica, restando a vedação constante da lei, unicamente, para a escrituração de créditos decorrentes de aquisição de insumos de pessoas físicas. - fretes sobre aquisição de insumos adquiridos sob regime de alíquota zero - Defende que a posição adotada pela fiscalização não possui respaldo em lei, uma vez que a mercadoria e o serviço de transporte devem ser tratados de modo individualizados. Diz que o frete, em si, não está sujeito à alíquota zero, e que o raciocínio aplicado carece de congruência lógica. Argumenta que se prevalecer a interpretação adotada pela autoridade fiscal estaria consagrada a analogia como método de interpretação suscetível de gerar obrigação tributária, em aberta contrariedade ao disposto no parágrafo 1º do artigo 108 do CTN. Alega, também, que não existe na lei vigente dispositivo que vede a escrituração e utilização de crédito sobre o insumo "transporte" quando este é normalmente tributado. Fl. 556DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 6 - fretes sobre mercadorias transferidas para armazenagem ou depósito – argumenta que estas despesas constituem insumos utilizados na fabricação do produto a ser vendido, uma vez que os depósitos de guarda de mercadorias participam do processo industrial, representando uma extensão do estabelecimento industrial. Defende, também, que o empréstimos de mercadorias, muito comum no seu ramo de atuação, é uma maneira de aquisição de matérias-primas junto a empresas congêneres. Sustenta que ela, na condição de mutuária, ao efetivar o contrato de mútuo (empréstimo) e pagar pelo transporte da mercadoria, adquire mercadorias com base nos art. 586 e 587 do Código Civil de 2002 e obtém o direito ao registro do crédito relativamente às despesas de transporte. - gastos com armazenagem (frete venda e armazenagem) – Primeiramente, em relação aos fretes, alega que a glosa não possui amparo legal, uma vez que tratam-se de insumos necessários ao processo produtivo e à manutenção da empresa. Já em relação às despesas de armazenagem, alega: que o direito ao crédito é admitido em lei; que tratam-se de serviços indispensáveis ao processo produtivo, uma vez que os depósitos representam uma extensão do estabelecimento fabril; e que são despesas pagas após o desembaraço aduaneiro, que não constam da base de cálculo da contribuição paga na importação. Por fim, em razão do exposto, a interessada pede: que o procedimento seja declarado nulo, em razão da decadência do direito da fazenda; que os créditos glosados sejam reestabelecidos na sua integralidade; que, diante de qualquer dúvida, seja realizada diligência fiscal e perícia; e que o(s) PER/Dcomp sejam homologados totalmente. Protesta, ainda, pela juntada posterior de provas e, em especial, pela realização de perícia. É o relatório. Em decisão por unanimidade, a 3ª TURMA/DRJCTA votou para JULGAR IMPROCEDENTE A MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE, mantendo integralmente os termos do despacho decisório contestado, em acórdão assim ementado: ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 NULIDADE. PRESSUPOSTOS. Ensejam a nulidade apenas os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. PEDIDO DE RESSARCIMENTO/COMPENSAÇÃO. PRAZO DE DECADÊNCIA PARA LANÇAMENTO. INAPLICABILIDADE. As regras de decadência para a efetivação do lançamento tributário (Art. 150, § 4º e Art. 173, ambos do CTN) não se aplicam à análise administrativa que visa apurar a liquidez e certeza do crédito solicitado em pedido de ressarcimento/compensação do contribuinte. PEDIDO DE DILIGÊNCIA E PERÍCIA. REQUISITOS LEGAIS. Consideram-se não formulados os pedidos de diligência e perícia que não atendam aos requisitos legais. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 NÃO CUMULATIVIDADE. CONCEITO DE INSUMOS. No regime da não-cumulatividade, o termo “insumo” não pode ser interpretado como todo e qualquer bem ou serviço que gera despesa necessária para a atividade da empresa, mas, sim, tão somente aqueles, adquiridos de pessoa jurídica, que efetivamente sejam aplicados Fl. 557DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 7 ou consumidos na produção de bens destinados à venda ou na prestação do serviço da atividade. NÃO CUMULATIVIDADE. HIPÓTESES DE CREDITAMENTO. ESSENCIALIDADE. No âmbito do regime não cumulativo de apuração do PIS e da Cofins, somente geram créditos passíveis de utilização pela contribuinte aqueles custos, despesas e encargos expressamente previstos na legislação, não estando suas apropriações vinculadas à caracterização de sua essencialidade na atividade da empresa. NÃO CUMULATIVIDADE. FRETES SOBRE COMPRAS. PRODUTOS TRIBUTADOS COM ALÍQUOTA ZERO. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. As despesas de fretes relativas às compras de produtos tributados com alíquota zero das contribuições (PIS e Cofins) não geram direito ao crédito no regime não cumulativo, uma vez que não havendo a possibilidade de aproveitamento do crédito com a aquisição dos produtos transportados, assim, também não o haverá para o gasto com transporte. NÃO CUMULATIVIDADE. SERVIÇOS DE FRETES ENTRE ESTABELECIMENTOS. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Os despesas de fretes relativos às transferências de mercadorias entre os estabelecimentos da mesma pessoa jurídica não geram direito ao crédito no regime não cumulativo das contribuições (PIS e Cofins). NÃO CUMULATIVIDADE. ARMAZENAGEM NA OPERAÇÃO DE VENDA. CRÉDITOS. CONDIÇÕES. No regime da não cumulatividade da contribuição é possível apropriar-se de crédito sobre os serviços de armazenagem pagos a pessoas jurídicas, vinculados às operações de venda, quando o ônus for suportado pelo vendedor, mas não é possível, entretanto, posto que o direito ao crédito depende de previsão expressa, estender os efeitos da norma permissiva a outras despesas diversas. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Cientificada, a recorrente repisou os argumentos contidos na impugnação, requerendo que se reforme a decisão da Delegacia de Julgamento, em recurso voluntário, portado da seguinte estrutura: I – DOS FATOS II – PRELIMINARMENTE II.1 – Necessidade do Julgamento em Conjunto II.2 Da Superficialidade do Trabalho Fiscal / Ofensa ao Princípio da Verdade Material II.3 – Da Decadência Parcial do Direito do Fisco de Revisar a Apuração da Contribuição ao PIS e de Glosar os Créditos desse Tributo Relativamente ao 1º Trimestre do Ano- Calendário de 2006 III – DO MÉRITO III.1 – Breve Descritivo das Atividades da Recorrente Fl. 558DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 8 III.2 – Da Sistemática Não-Cumulativa do PIS e da Cofins / Da Legitimidade dos Créditos Apropriados pela Recorrente III.2.1 – Do Conceito de Insumo III.2.2 – Do Parecer Elaborado pelo Professor Marco Aurélio Greco III.2.3 – Serviços Profissionais Utilizados como Insumo III.2.4 – Serviços de Movimentação Portuária III.2.5 – Serviços de Carga e Descarga III.2.6 – Fretes sobre Insumos Tributados à Alíquota Zero e de Transferências IV – DO PEDIDO Por fim, pede o que se segue: 163. Diante de todo o exposto, pede e espera a Recorrente, respeitosamente, seja dado provimento ao presente Recurso Voluntário, a fim de que seja reformada a decisão da DRJ, reconhecendo-se a integralidade do crédito pleiteado, com a consequente total homologação da declaração de compensação. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheira Aline Cardoso de Faria, Relatora. O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os pressupostos legais de admissibilidade, dele, portanto, tomo conhecimento. I - Das preliminares a) Necessidade do Julgamento em Conjunto Quanto à solicitação para julgamento em conjunto deste processo com outros do mesmo contribuinte, infere-se que o presente julgamento está submetido à sistemática prevista no Fl. 559DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 9 art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, Anexo II, do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015. b) Da Superficialidade do Trabalho Fiscal / Ofensa ao Princípio da Verdade Material A Recorrente se insurge contra o trabalho fiscalizatório por entender que houve ofensa aos princípios da motivação, verdade material e legalidade. Em seu entendimento, a análise das operações que geraram o direito creditório pleiteado não foi realizada com o grau de profundidade necessário eis que ausente o conhecimento pormenorizado do processo produtivo da Requerente, no qual são gerados os créditos da não cumulatividade de PIS e Cofins, para fins de verificação da (in)existência do crédito e realização das respectivas glosas. Desde o início do procedimento fiscal diversos entendimentos jurisprudenciais e doutrinários foram sendo alterados no que concerne aos conceitos de insumos para fins de apuração de créditos da não-cumulatividade das contribuições para o PIS e da COFINS, inclusive com a decretação da ilegalidade das Instruções Normativas da SRF nos 247 e 404, as quais a autoridade fiscal tinha por obrigação funcional o seu cumprimento. Nada obstante, a autoridade fiscal cumpriu corretamente suas atribuições durante o procedimento fiscal, não havendo que se falar em nulidade do Despacho Decisório tendo em vista que a decisão nele insculpida foi proferida por autoridade competente bem como por ter respeitado o direito ao contraditório e à ampla defesa em estrito cumprimento dos termos do art. 59 do Decreto no 70.235/72. Pelo exposto, rejeitada a preliminar de nulidade do Despacho Decisório. c) Da Decadência Parcial do Direito do Fisco de Revisar a Apuração da Contribuição ao PIS e de Glosar os Créditos desse Tributo Relativamente ao 1º Trimestre do Ano-Calendário de 2005 Neste tópico, a Recorrente alega que as autoridades fiscais revisaram a apuração da Contribuição ao PIS quanto ao ano-calendário de 2005, de modo a não aceitar parte dos créditos decorrentes das despesas incorridas. Sustenta que o lançamento já se encontrava homologado tacitamente, tendo o fisco caducado em seu direito de revisar o procedimento da Recorrente para glosar créditos desse tributo ou exigir valores a pagar. Defende a ocorrência de homologação tácita em razão do esgotamento do prazo de 05 (cinco) anos a contar da ocorrência do fato gerador nos termos do art. 150 do Código Tributário Nacional. Reconhece que a ciência do Despacho Decisório de revisão ocorreu em momento posterior ao prazo de 05 (cinco) anos para a homologação da apuração do PIS/Cofins em discussão. Fl. 560DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 10 Conforme esclarecido às fls. 265, o procedimento em tela refere-se à análise de pedido de ressarcimento (cumulado com pedido de compensação), no qual a autoridade administrativa tem o poder/dever de examinar a liquidez e certeza do direito de crédito pleiteado, o que implica calcular/determinar créditos que, segundo a legislação, podem ser ressarcidos aos contribuintes. Ademais, não há previsão legal para que a homologação tácita se aplique à apuração de créditos sujeitos ao ressarcimento. Diante do exposto, rejeitada a preliminar de decadência. II - Do mérito A matéria controversa em sede de Recurso Voluntário se assenta sobre a homologação parcial de compensação solicitada por meio do PER nº 19811.64201.110406.1.1.08- 0334, cumulado com a entrega da DCOMP nº 08800.55885.180406.1.3.08-9205. O pedido eletrônico de ressarcimento é relativo ao crédito de Cofins não cumulativa, vinculado às receitas não tributadas do mercado interno, do 1 º trimestre de 2006. A Recorrente atua na importação, comercialização e distribuição de matérias-primas, e na produção de ingredientes para nutrição animal e fertilizantes para aplicação em culturas agrícolas, sendo certo, que importa grande parte dos materiais empregados em seu processo produtivo; revestida, portanto, da condição de contribuinte da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS, podendo, por conseguinte, descontar créditos em relação a custos, despesas e encargos incorridos para o desenvolvimento de sua atividade. Em síntese, descrever-se-á nos parágrafos seguintes o processo produtivo da Requerente com escopo de compreender sua atividade produtiva para fins de creditamento dos créditos de insumos objeto do presente processo administrativo. O processo produtivo de fertilizantes sintéticos (discriminado às fls. 298 e ss.), perfaz a atividade principal da Recorrente, e está resumido em uma série de reações químicas e misturas de materiais para obtenção do resultado final. Aludido processo tem como matéria-prima principal a extração da rocha fosfática em estado bruto que passa por um processo de moagem, que o tritura em partes menores. Em seguida, a rocha é colocada nos moinhos pelos chamados caminhões “Munck”, pás carregadeiras ou guindastes. Fl. 561DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 11 Por meio de uma reação química envolvendo a rocha fosfática triturada, água e ácidos, é formado um novo produto, chamado de “polpa”, matéria-prima para um dos fertilizantes sintéticos mais conhecidos do mercado, o chamado Super Simples (ou SSP). A “polpa” é armazenada em tanques e depois é transportada para um reator, local no qual passa por nova reação química, dessa vez sendo colocada em contato com ácido sulfúrico e ar. Essa reação resulta em dois componentes, a saber, o SSP e gás. O SSP é levado para armazenagem, podendo posteriormente (i) ser ensacado para venda direta ou (ii) passar por novo processo visando formar outro produto. Já o gás resultante da reação, por seu teor altamente nocivo, não pode ser liberado na atmosfera diretamente, necessitando antes passar por um processo de “lavagem”, por meio da sua mistura com água. O SSP então será submetido a uma operação chamada de granulação, que basicamente consiste na mistura de matérias-primas sólidas (SSP, sulfato de amônio ou sulfato de potássio, por exemplo) com matérias-primas líquidas (amônia ou ácido fosfórico, dentre outros). O resultado da granulação então passa por um secador, a fim de eliminar o excesso de umidade, peneirado e depois resfriado. O produto desse processo é um pó extremamente fino e Fl. 562DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 12 leve, que se perde facilmente em contato com o ar. Durante o transporte, por exemplo, o local de trânsito precisa ser constantemente varrido, a fim de recuperar o produto caído no chão. Assim, para diminuir as perdas, é adicionado óleo ao produto, em um processo de “despoeiramento”, sendo o produto depois armazenado, pesado e acondicionado em embalagens de 50 Kg ou maiores – os chamados “big bag”. A Recorrente registra que possuí instalações e logística adequadas para desenvolver e entregar misturas específicas rapidamente sobre a demanda, a fim de atender as necessidades de cada cliente a cada safra e garantir uma boa colheita. Nesse sentido, os locais onde as matérias- primas ficam depositadas, assim como o local de armazenagem, também precisam de constante serviço de remoção de resíduos, tanto para o aproveitamento na produção, quanto para revenda dos produtos acabados que são literalmente raspados das superfícies e vendidos por valores que variam de acordo com a qualidade do resíduo. Verifica-se, portanto, que é um processo relativamente simples, baseado em reações químicas e misturas, mas que depende de diversas etapas. Com escopo de corroborar seu entendimento sobre o conceito de insumos, a Recorrente junta aos autos Parecer elaborado pelo Professor Marco Aurélio Greco (doc. 04) 1 e argumenta que a interpretação do conceito de insumo é mais abrangente do que a construção elaborada pela fiscalização. Desta feita, uma vez colacionadas as provas produzidas pela autoridade administrativa, cumpre averiguar a essencialidade e relevância dos bens e serviços empregados no processo produtivo e classificados pela Recorrente como insumos à luz da legislação de regência. É consabido que no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR pelo rito dos recursos repetitivos, o STJ decidiu no sentido de que o conceito de insumo deveria ser aferido segundo os 1 A Associação Nacional para a Difusão de Adubos (“ANDA”), organização da qual a Recorrente é membra, solicitou a elaboração do aludido parecer ao Professor Marco Aurélio Greco e o documento foi integrado ao presente processo. Fl. 563DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 13 critérios de essencialidade ou da relevância para o processo produtivo da contribuinte, bem como de que há ilegalidade no conceito de insumo previsto nas Instruções Normativas SRF nº 247/2002 e nº 404/2004. Por sua vez, os critérios da essencialidade e relevância considerados são aqueles delimitados no Voto da Ministra Regina Helena Costa, conforme observação que constou na Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF: 35. O STJ, seguindo o voto da Ministra Regina Helena Costa adotou a posição intermediária quanto ao conceito de insumo, ao adotar os critérios de relevância e essencialidade – também adotadas no CARF – e afastando o conceito de insumo da legislação do IPI e IRPJ. De acordo com o voto da Ministra Regina Helena estabeleceu-se o critério de relevância – mais abrangente que o de pertinência adotado pelo Ministro Mauro Campbell Marques. Os Ministros Mauro Campbell Marques e Napoleão Nunes Maia Filho realinharam os seus votos para acompanhar Ministra Regina Helena Costa. (...) Observação 1. Observa-se que o STJ adotou a interpretação intermediária acerca da definição de insumo, considerando que seu conceito deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância. Deve-se, pois, levar em conta as particularidades de cada processo produtivo, na medida em que determinado bem pode fazer parte de vários processos produtivos, porém, com diferentes níveis de importância. Vale destacar que os critérios de essencialidade e relevância estão esclarecidos no voto da Ministra Regina Helena Costa, de maneira que se entende como critério da essencialidade aquele que “diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou serviço”, a)” constituindo elemento essencial e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço” ou “b) quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência”. Por outro lado, o critério de relevância “é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja: a) “pelas singularidades de cada cadeia produtiva” b) seja “por imposição legal.” Destarte, mediante a interpretação do conceito abstrato de insumo delineado pelo STJ, a Receita Federal do Brasil trouxe critérios mais específicos através do Parecer Normativo COSIT/RFB nº 05, de 17 de dezembro de 2018. No caso em comento, após a emissão dos atos decisórios prolatados no presente processo administrativo, sobreveio a Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF, da Procuradoria da Fazenda Nacional, com a aprovação da dispensa de contestação e recursos sobre o tema abordado no REsp nº 1.221.170/PR, com fulcro no art. 19, IV, da Lei nº 10.522, de 2002, c/c o art. 2º, V, da Portaria PGFN nº 502, de 2016, que vincula a Receita Federal nos atos de sua competência. Com efeito, o conceito de insumo delimitado no REsp nº 1.221.170/PR não diverge muito do entendimento que já vinha sendo adotado predominantemente neste CARF sobre a matéria, a qual reclamava há muito tempo uniformização na jurisprudência, razões pelas quais este Fl. 564DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 14 Colegiado tem se curvado a esse entendimento do STJ antes do seu trânsito em julgado conforme orienta a Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF. Feitas tais considerações, registre-se agora, que a fiscalização analisou a tomada de créditos da Contribuição para o PIS e da Cofins não cumulativas conforme a disciplina dos artigos 3º, das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, quando relacionam os bens, os serviços e as condições para desconto de créditos, bem como dos arts. 66 e 67 da Instrução Normativa SRF nº 247, de 21 de novembro de 2002, com a redação dada pela Instrução Normativa SRF nº 358, de 9 de setembro de 2003, e dos arts. 8º e 9º da Instrução Normativa SRF nº 404, de 12 de março de 2004. Destarte, a autoridade administrativa examinou os insumos utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda e excluiu quaisquer bens que não fossem matérias primas, produtos intermediários, material de embalagem ou que não sofreram alterações, tais como o desgaste, dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação. Em suma, foram excluídos a prestação de serviços envolvida na produção ou fabricação de bens não vinculados diretamente à produção conforme amparo legal anterior ao REsp nº 1.221.170/PR. Desta feita, a autoridade administrativa negou o creditamento em relação aos seguintes bens e serviços: A) Serviços Profissionais Utilizados como Insumo B) Serviços de Movimentação Portuária C) Serviços de Carga e Descarga D) Fretes sobre Insumos Tributados à Alíquota Zero e de Transferências Com efeito, o respeitável órgão julgador de primeira instância, por meio do r. decisum, adotou uma interpretação restritiva do conceito de insumo aplicado à contribuição em voga, atrelada ao emprego direto do bem ou serviço sobre o produto em fabricação, nos exatos moldes talhados pela IN n.° 404/2004. Ainda que à época da referida análise a adoção de uma interpretação restritiva do conceito de insumo já estava em franco declínio e em dissonância com o entendimento esposado pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais — CARF, notoriamente pela sua Câmara Superior de Recursos Fiscais — CSRF acerca do tema. (Vide Acórdão nº 9303- 01.035, sessão de 23/08/10). Os trabalhos de auditoria levados a efeito resultaram na rejeição dos seguintes valores (Despacho Decisório, fl. 203): Fl. 565DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 15 A seu turno, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário, requerendo a sua reforma para reconhecer seu direito ao ressarcimento pleiteado e, consequentemente, a homologação integral das Dcomp, alegando no mérito, que faz jus ao desconto dos créditos das contribuições sobre os custos/despesas com: a) serviços profissionais utilizados como insumos; b) serviços de movimentação portuária; c) serviços de carga e descarga; d) fretes sobre insumos tributados à alíquota zero. Isto posto, passa-se à análise da relevância e essencialidade dos bens e serviços entendidos como insumo no processo produtivo realizado pela Recorrente e da possibilidade de direito ao prolatado creditamento perquirido à luz da hermenêutica empreendida no REsp nº 1.221.170/PR. A) Serviços Profissionais Utilizados como Insumo Neste tópico, a fiscalização glosou os serviços profissionais utilizados como insumo (discriminados no item 8.4.2 do Despacho Decisório): No entendimento da fiscalização os serviços acima identificados foram motivo de indeferimento por não se enquadrarem no conceito de insumo de acordo com a IN SRF n° 404/2004, art. 8º, §4° e, portanto, não é passível de crédito. Fl. 566DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 16 Em sede recursal, a DRJ manteve integralmente os termos do Despacho Decisório supra: No caso dos serviços profissionais, conforme consta dos quadros colacionados na impugnação, tratam-se de serviços (de varredura e de remoção) prestados para a consecução das atividades gerais da empresa e não de serviços aplicados ou consumidos diretamente na produção ou fabricação de bens destinados à venda. Veja-se que as próprias denominações dos serviços não deixam dúvida quanto à aplicação dos serviços citados, bem como de que eles não são aplicados ou consumidos no processo produtivo da empresa. (Fl. 270). (Grifos nossos). Com efeito, conforme elucidado pela Recorrente às fls. 315, os serviços de “Remoção – Ajudantes” e “Vassoura Recolhedora/Operador” mostram-se necessários na medida em que o processo produtivo compreende a utilização de materiais químicos em pó que se espalham naturalmente e pela ação do vento. Nessa medida, constata-se a essencialidade dos serviços em questão, vez que os serviços de limpeza e remoção de materiais se prestam a recuperar o produto intermediário espalhado pelas instalações da Recorrente, evitando o desperdício de insumo no processo produtivo. Nessa esteira, o inciso II do art. 3º das Leis nos 10.637/02 e 10.833/04 permitem o aproveitamento de créditos das contribuições calculados em relação a bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Assim, os gastos relativos aos serviços de limpeza e serviço de remoção de materiais enquadram-se na definição de insumos dada pelo STJ no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR e, portanto, geram créditos das contribuições passíveis de desconto dos valores calculados sobre o faturamento mensal, nos termos dos incisos II e IV, c/c o § 3º, do art. 3º das Leis nº 10.837/2003 e nº 10.833/2003, citados e transcritos anteriormente. Nada obstante, os serviços de vigilância não estão diretamente relacionados com a atividade produtiva da empresa. Portanto, as despesas com tais serviços não são passíveis de creditamento das contribuições para o PIS e da COFINS na sistemática da não-cumulatividade. Pelo exposto, deve ser dado provimento integral a este item do recurso para reverter as glosas sobre as despesas relacionadas com os “Remoção – Ajudantes” e “Vassoura Recolhedora/Operador”. B) Serviços de Movimentação Portuária Segundo apurado pela fiscalização, no que tange aos serviços de movimentação portuária, não há previsão de crédito para este serviço no art. 3º da Lei n° 10.833/2003, e não se caracteriza como insumo, conforme reza o art. 8º, inciso I, alínea b, § 4º, I, da IN SRF n° 404/2004 e, portanto, efetuada a glosa. Fl. 567DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 17 Para a DRJ, por sua vez, “No caso dos serviços de movimentação portuária (serviços de desestiva e todos os demais encargos relativos ao desembarque de mercadoria ou insumo no porto), verifica-se que eles são realizados em etapa anterior à da fabricação de produtos e ao transporte propriamente dito do porto até a empresa, pois referem-se ao descarregamento da embarcação. (Fl. 270). A Requerente esclarece que o serviço de movimentação portuária, compreende os serviços de descarregamento de navio, retirando a mercadoria depositada em seu porão e transportando-a até o local de armazenagem (fl. 318). Afirma que a movimentação portuária realizada está em conformidade com os serviços descritos na Lei nº 8.630/93 e é indispensável dada a necessidade de importação de grande parte das matérias-primas utilizadas em seu processo produtivo. Cita em seu favor a Solução de Consulta adotada pela RFB no Processo de Consulta nº 93/06, DOU 20.06.2006. De forma suscinta “a movimentação portuária pode ser definida como os serviços de capatazia e estiva, prestados por pessoa jurídica no porto de desembarque”. (Fl. 318). Note-se que o movimento é anterior e intrínseco ao processo produtivo. Não se trata serviços realizados após a finalização do produto, mas na etapa inicial de aquisição de insumos para elaboração do produto final. Neste item, depreende-se que as despesas oneradas pelas contribuições para o PIS/COFINS e que sejam vinculadas ao custo de aquisição do insumo, nos termos estabelecidos no art. 302 do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto no 9.580/2018) que trata sobre custo de aquisição, podem gerar direito a créditos da não cumulatividade das citadas contribuições sociais objeto da presente análise. Nesta linha de intelecção, a 4ª Câmara da 1ª Turma da 3ª Seção de Julgamento, por unanimidade de votos, em julgamento datado de 24 de março de 2024, votou pela reversão da glosa sobre os serviços de movimentação portuária em processo administrativo em que a MOSAIC FERTILIZANTES figurava como Requerente (Processo nº 13811.002250/2002-02, Acórdão 3401- 012.762 de relatoria do Conselheiro Marcos Roberto da Silva). De igual modo, esse também foi o entendimento firmado pela 1ª Turma Ordinária, da 3ª Câmara, da 3ª Seção de Julgamento no Acórdão nº 3301-010.230 (Processo n° 10880.986301/2012-51). Desta feita, considerando que o processo produtivo da Requerente é composto por etapas distintas, que se subdividem em importação, comercialização e produção de ingredientes para fertilizantes para aplicação em culturas agrícolas, sendo certo, que importa grande parte dos materiais empregados em seu processo produtivo, os serviços de movimentação portuária devem ser entendidos como insumo, haja vista que a supressão desta etapa inviabiliza a manufatura do produto final. Com efeito, o reconhecimento do direito ao creditamento das despesas portuárias no caso em análise, está em perfeita consonância com entendimento firmado no REsp nº 1.221.170/PR, seja considerando a singularidade da cadeia produtiva da Requerente – as despesas portuárias se Fl. 568DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 18 amoldam ao critério da relevância, seja pela essencialidade – as despesas portuárias são elemento essencial e inseparável do processo produtivo dos fertilizantes produzidos pela Requerente. Diante do exposto, deve ser dado provimento integral neste tópico para reverter a glosa sobre serviços portuários. C) Serviços de Carga e Descarga Entendeu a fiscalização se tratar de serviço de mão-de-obra temporária (fl. 207). Portanto, de acordo com a Solução de Consulta n° 174 - SRRF/8°RF/Disit, item 15 e 17, de 22.05.2009, não pode ser considerado como aplicado ou consumido diretamente na industrialização de produtos, não sendo admitido a apuração de créditos referentes a essas despesas. Sobre este item – Serviços de Carga e Descarga, a DRJ entendeu que “em relação aos serviços desenvolvidos internamente em estabelecimento(s) da empresa, que envolvem a movimentação de materiais ou produtos (serviços de carga e descarga - mão-de-obra temporária), constata-se que eles são realizados em momento anterior, posterior ou paralelo à fabricação de produtos, não podendo serem considerados como aplicados ou consumidos no processo produtivo.” (Fl. 270). Em seu favor, a Recorrente cita a Solução de Divergência nº 15/07 e os Acórdãos nº 3301-004.059, de 27.09.2017 e nº 3403-001.940, de 19.03.2013 e alega que a glosa sobre os créditos decorrentes dos serviços de mão de obra temporária/carga e descarga estão em desacordo com a jurisprudência do CARF e da RFB. Sobre os serviços discriminados à folha 304 do Despacho Decisório descritos “Movimentação interna” e “Mão-de-obra temporária”, esclarecido pela Requerente se tratarem de serviços de carga e descarga, sendo, portanto, essenciais e relevantes ao desenvolvimento das atividades produtivas da empresa, conclui-se que estão abarcados no conceito de insumos em consonância com o julgado no REsp nº 1.221.170/PR. Portanto, deve ser dado provimento neste tópico para reverter a glosa dos serviços de carga e descarga, discriminados como “Movimentação interna” e “Mão-de-obra temporária”. D) Fretes sobre Insumos Tributados à Alíquota Zero e de Transferências De acordo com o trabalho fiscalizatório, o frete sobre insumo foi extraído da conta contábil 3061 - fretes sobre ingresso de insumos em que a Requerente considerou fretes sobre aquisições de insumos, tributados à alíquota zero, na apuração do crédito e, portanto, em desacordo com o art. 3º, § 2°, inciso II, da Lei n° 10.833/2003 (fl. 207). Para a DRJ, segundo o que dispõe a legislação, não é todo e qualquer produto ou serviço utilizado nas atividades da empresa que pode ser considerado como insumo. Nesse sentido, a DRJ esclarece o que se segue: Fl. 569DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 19 Conforme relatado, a autoridade a quo efetivou a glosa dos fretes constantes da conta contábil nº 3.061 em razão de duas situações distintas. Primeiramente a glosa foi realizada em relação aos fretes sobre aquisição de insumos tributados à alíquota zero, pelo fato de as mercadorias transportadas não gerarem direito ao crédito, conforme disposto no art. 3º, § 2º, inciso II, da Lei nº 10.833, de 2003. Entende a autoridade fiscal que os fretes, de acordo com o previsto art. 289, § 1º, do Regulamento do Imposto de Renda – RIR/99, integram os custos de transporte e que como as mercadoria transportadas não geram o direito ao crédito os fretes a elas vinculados também não podem gerar tal direito. Além disso alguns lançamentos na mencionada conta dizem respeito a fretes de transferências de mercadorias entre estabelecimentos, remessas de/para depósitos ou de/para armazenagens, para os quais inexiste previsão legal de direito ao crédito. (Fl. 271). Portanto, as glosas foram ensejadas por dois motivos: a) fretes sobre aquisição de insumos tributados à alíquota zero; b) fretes de transferências de mercadorias entre estabelecimentos. Sobre os fretes discriminados na alínea a supra, a DRJ corroborou o entendimento da fiscalização e manteve a glosa sob o argumento de que fretes sobre os insumos tributados à alíquota zero não podem ter direito ao crédito, posto que não estão relacionados com à aquisição de insumos ou mercadorias com direito ao crédito (fl. 271). Em sua defesa, a Recorrente arrazoa que a leitura da fiscalização no que tange aos fretes relacionados às aquisições de insumos tributados à alíquota zero está equivocada. Em seu entendimento, a legislação dispõe que não dará direito a crédito o valor das aquisições de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição. Entretanto, no caso da Recorrente, os insumos não foram tributados pela contribuição, mas os fretes. Desse modo, a Recorrente entende que quando da aquisição de bens e serviços isentos, poderá se creditar da contribuição se a venda do produto acabado for tributada pela contribuição. Portanto, se o frete sofre a incidência da contribuição, via de consequência, gera direito ao creditamento. Prossegue afirmando que a tributação do frete não se confunde com a tributação da mercadoria, sendo o frete um insumo por si próprio, independentemente do material transportado. Portanto, negar direito a crédito de um item que sofre tributação seria contrariar a própria legislação tributária. Com efeito, considerando a atividade industrial da empresa e a existência de diversos serviços de fretes necessários a conclusão do processo produtivo, verifica-se que na legislação vigente existe fundamento jurídico para a apropriação de créditos relacionados ao frete quando considerados como parte do custo de aquisição, do custo de produção ou da despesa de venda, conforme será demonstrado a seguir. O fundamento jurídico para apropriação dos créditos da Contribuição para PIS pode ser extraído do art. 289 do Decreto no 3.000/1999 (Regulamento do Imposto de Renda de 1999 RIR/1999), em relação ao valor dos gastos com serviços de transporte de bens para revenda, apesar de não haver expressa previsão nos art. 3°, I e § 1°, I, das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003. Nesse sentido, destaca-se trecho do voto do Conselheiro Marcos Roberto da Silva: Fl. 570DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 20 Tendo por base os referidos dispositivos legais, verifica-se que o valor do frete, relativo ao transporte de bens para revenda, integra o custo de aquisição dos referidos bens. Portanto, somente nesta condição (frete integrando o custo de aquisição) é que o frete pode compor a base cálculo dos créditos das mencionadas contribuições. Com isso, de forma análoga, o valor do frete no transporte dos bens somente poderá integrar a base de cálculo dos créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins não-cumulativas quando o custo de aquisição destes bens conferir direito a crédito. Este mesmo entendimento deve ser aplicado na atividade industrial, quando houver o valor do frete relativo ao transporte: a) de bens de produção (matérias-primas, produtos intermediários e material e embalagem) a serem utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; e b) de bens em fase de produção ou fabricação (produtos em fabricação) entre estabelecimentos fabris do contribuinte ou não. (...) No âmbito da atividade de produção ou fabricação, os insumos representam os meios materiais e imateriais (bens e serviços) utilizados em todas as etapas do ciclo de produção ou fabricação, que se inicia com o ingresso dos bens de produção (matérias-primas ou produtos intermediários) e termina com a conclusão do produto a ser comercializado. Se a pessoa jurídica tem algumas operações do processo produtivo realizadas em unidades produtoras ou industriais situadas em diferentes localidades, certamente, durante o ciclo de produção ou fabricação haverá necessidade de transferência dos produtos em produção ou fabricação para os outros estabelecimentos produtores ou fabris, que demandará a prestação de serviços de transporte. Portanto, em relação à atividade industrial ou de produção, a apropriação dos créditos calculados sobre o valor do frete, normalmente, dar-se-á de duas formas diferentes, a saber: a) sob forma de custo de aquisição, integrado ao custo de aquisição do bem de produção (matérias-primas, produtos intermediários ou material de embalagem); e b) sob a forma de custo de produção, correspondente ao valor do frete referente ao serviço do transporte dos produtos em fabricação nas operações de transferências entre estabelecimentos industriais. Encerrado o ciclo de produção ou industrialização, o art. 3º, IX, e § 1º, II, da Lei 10.833/2003 autoriza a apropriação de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins sobre o valor do frete no transporte dos produtos acabados na operação de venda, desde que o ônus deste frete seja suportado pelo vendedor: (Acórdão nº 3401-012.762, de 20.02.2024). Destarte, considerando as possibilidades de aproveitamento de créditos das contribuições para o PIS e da COFINS incidentes sobre operações relacionadas a fretes, no presente caso é possível o aproveitamento de crédito referente a contribuições incidentes sobre os dispêndios com frete para transporte de insumos sujeitos a alíquota zero (adubos e fertilizantes conforme previsão contida na Lei no 10.925/04), isto porque o mesmo integra o custo de aquisição do insumo e, apesar de o mesmo não ter sido onerado pela contribuição, o frete o foi e também compõe parte do custo de aquisição do insumo. Portanto, procede o argumento da Recorrente. Os custos/despesas com fretes no transporte de insumos (matérias-primas), ainda que estes sejam tributados à alíquota zero, integram o custo destes e, consequentemente o custo de produção industrial dos produtos fabricados e vendidos. Tal matéria encontra-se sumulada no âmbito deste Conselho, por meio da Súmula Carf nº 188: Fl. 571DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 21 É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. Diante do exposto, voto por dar provimento ao recurso neste particular para reverter a glosa sobre o aproveitamento de créditos relativos aos fretes sobre aquisição de insumos tributados à alíquota zero, obedecidos os requisitos da Súmula Carf nº 188. No que concerne aos fretes de transferências de mercadorias entre estabelecimentos da mesma empresa ou dentro da mesma unidade produtiva, a fiscalização constatou que não assiste razão à Recorrente, haja vista que: “o direito ao crédito sobre os serviços de frete (contratados de pessoa jurídica nacional e que tenham o ônus suportado pela contribuinte) somente é possível em duas situações: (i) em relação às operações de venda (consoante os artigos 3º, inciso IX, e 15, inciso II, ambos da Lei nº 10.833/2002); e em relação às operações de aquisições de produtos para revenda ou de insumos, desde que os bens adquiridos sejam também tributados no âmbito das contribuições não cumulativas (com apoio no art. 289, § 1º, do Regulamento do Imposto de Renda – RIR).” Por fim, a DRJ cita a Solução de Divergência nº 2, de 2011, da Cosit, a qual resume e consolida o entendimento da autoridade administrativa de que “Por não integrarem o conceito de insumo utilizado na produção de bens destinados à venda e nem se referirem à operação de venda de mercadorias, as despesas efetuadas com fretes contratados para o transporte de produtos acabados ou em elaboração entre estabelecimentos industriais e destes para os estabelecimentos comerciais da mesma pessoa jurídica, não geram direito à apuração de créditos a serem descontados da Contribuição para o PIS/Pasep”. Lado outro, a Recorrente sustenta que as transferências realizadas entre seus estabelecimentos são de extrema importância em sua operação, contribuindo indubitavelmente para a geração de receita. Vale apontar que conforme elucida a Recorrente (fl. 332) tais transferências referem-se a produtos inacabados, ou seja, ainda em elaboração. Nesse sentido, aplicado o “teste de subtração” proposto pelo REsp no 1.221.170/PR, é possível vislumbrar que a inexistência de remoção de um estabelecimento para outro de um produto que não se encontra ainda acabado afetaria a finalização deste produto. Destarte, a transferência de produtos inacabados integra o processo produtivo da Requerente. Por derradeiro, os fretes para a movimentação de insumos e produtos em elaboração entre estabelecimentos do contribuinte constituem custos de industrialização dos produtos vendidos e, portanto, geram créditos das contribuições, passiveis de descontos dos valores calculados sobre o faturamento mensal, nos termos do inciso II do artigo 3º, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, citados e transcritos anteriormente. Além disto, se enquadram na definição de insumos dada pelo STJ no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. Diante do exposto, deve ser dado provimento integral neste tópico para reverter a glosa dos fretes sobre as transferências de produtos inacabados. Fl. 572DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 22 CONCLUSÃO Pelo exposto, voto por superar as preliminares de nulidade e decadência da decisão recorrida para, no mérito, dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para reconhecer o direito de o contribuinte descontar créditos sobre os custos/despesas abaixo identificadas, cabendo à autoridade administrativa apurar os créditos e homologar as Dcomp até o limite apurado: a) Serviços de Limpeza e Serviços de Remoção de Materiais; b) Serviços portuários; c) Serviços de carga e descarga (compreendidos os serviços de “movimentação interna” e “mão-de-obra temporária”); d) Fretes sobre aquisição de insumos tributados à alíquota zero (incluindo os fretes sobre as transferências de produtos inacabados); É como voto. Assinado Digitalmente Aline Cardoso de Faria VOTO VENCEDOR Conselheiro Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe, redator designado Inicialmente, cabe salientar que o presente voto vencedor se restringe à manutenção das glosas sobre as despesas das rubricas “Fretes de Transferências”, que se referem a movimentação de produtos inacabados”, e “Movimentação Portuária”, que diz respeito a serviços de movimentação de carga nos portos. A recorrente trata a matéria como transferências de produtos em elaboração e produtos inacabados, contudo, conforme se observa do Despacho Decisório, a partir dos lançamentos na conta contábil 3061, os fretes efetivamente referem-se a: •Empréstimo de matéria prima de terceiros ZEMP •Transferência entre centros UB •Remessa Armazenagem ZARM •Remessa Armazenagem ZREA Fl. 573DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 23 •Remessa Consignação ZCON •Retorno Armazenagem ZRAM •Retorno Depósito ZRDP •Retorno Empréstimo ZREM •Retorno Armazenagem - Fert ZRAR •Remessa Depósito - Fert - ZDEP De acordo com as Leis nº 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003, que regem a incidência do PIS/PASEP e da COFINS não cumulativos, o serviço de frete que concede direito a desconto de crédito das contribuições se dá, somente, em duas hipóteses: 1. no art. 3º, II, das leis de regência, quando enquadrado como serviço adquirido como insumo na prestação de serviços ou na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; ou 2. no art. 3º, IX e art. 15, da Lei nº 10.833, de 2003, na operação de venda, quando o ônus for suportado pelo vendedor. Apesar da existência de duas regras legais que autorizem o crédito, não existe a possibilidade de utilização indiscriminada do serviço de frete. A lógica do regramento é a relação com o produto a ser vendido ou com o serviço a ser prestado. Nesse sentido, ou o frete liga-se, intimamente, às matérias-primas adquiridas, que serão transformadas no bem acabado, ou o frete vincula-se ao produto finalizado, precisamente na operação de venda. A legislação em comento, portanto, não prevê o creditamento para os casos dos fretes glosados pela fiscalização, entre eles: remessa para armazenagem, transferência entre centros, remessa para consignação, retorno de empréstimo, retorno de depósito, entre outros. Em relação aos serviços “Movimentação Portuária”, a glosa não merece ser revertida, visto que os valores dos serviços compõem o valor aduaneiro, que serve de base de cálculo para apuração do PIS/PASEP-importação e COFINS-importação. Assim, a concessão do crédito sobre tais serviços resultaria em duplicidade de crédito, o que é vedado pela legislação de regência das contribuições. Destaco excerto do Despacho Decisório sobre o tema: Movimentação Portuária: trata-se de serviços de descarga de insumos prestados pelo porto. Não há previsão de crédito para este serviço no art. 3º da Lei n° 10.833/2003, e não se caracteriza como insumo, conforme reza o art. 8º, inciso I, alínea b, § 4º, I, da IN SRF n° 404/2004 e, portanto, foi efetuada a glosa pela fiscalização. Ressaltamos que a despesa sobre serviço de descarga portuária faz parte da base de cálculo para apuração do COFINS-Importação, nas aquisições de insumos tributados, e os valores recolhidos no período, estão sendo utilizados como créditos na ficha 12, linha 22 do Dacon -Crédito sobre Compras Importadas. Art. 15 da Lei 10.865 de 2004 Fl. 574DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3202-002.447 – 3ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16349.000197/2009-22 24 (...) § 3º - O crédito de que trata o caput deste artigo será apurado mediante a aplicação das alíquotas previstas no caput do art. 2º das Leis n°s 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, sobre o valor que serviu de base de cálculo das contribuições, na forma do art. 7º - desta Lei, acrescido do valor do IPI vinculado à importação, quando integrante do custo de aquisição. Decreto 4.543 de 2002 (...) Art. 77. Integram o valor aduaneiro, independentemente do método de valoração utilizado (Acordo de Valoração Aduaneira, Artigo 8, parágrafos 1 e 2, aprovado pelo Decreto Legislativo n°- 30, de 1994, e promulgado pelo Decreto n°- 1.355, de 1994): (Redação dada pelo Decreto n°4.765, de 24.6.2003) I - o custo de transporte da mercadoria importada até o porto ou o aeroporto alfandegado de descarga ou o ponto de fronteira alfandegado onde devam ser cumpridas as formalidades de entrada no território aduaneiro; II - os gastos relativos à carga, à descarga e ao manuseio, associados ao transporte da mercadoria importada, até a chegada aos locais referidos no inciso I; e III -o custo do seguro da mercadoria durante as operações referidas nos incisos I e II. Deste modo, não há como acolher o pedido da recorrente, devendo-se manter as glosas efetuadas no Despacho Decisório e confirmadas pela decisão recorrida. Diante do exposto, o Colegiado divergiu da relatora e negou provimento ao recurso voluntário nas matérias intituladas “Fretes de Transferências” e “Movimentação Portuária”. Assinado Digitalmente Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe Fl. 575DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor
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Numero do processo: 10855.723523/2020-82
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Thu Oct 16 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2017
IMPOSTO DE RENDA. FATO GERADOR. RENDIMENTOS.
A aquisição de disponibilidade econômica de renda por parte da contribuinte configura fato gerado de imposto de renda, nos termos previstos no Código Tributário Nacional. O ônus de comprovar a alegação de que a natureza do rendimento recebido é de verba isenta de tributação é exclusivamente da contribuinte.
Numero da decisão: 2402-013.146
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer do recurso voluntário interposto e negar-lhe provimento.
Assinado Digitalmente
João Ricardo Fahrion Nüske – Relator
Assinado Digitalmente
Rodrigo Duarte Firmino – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Marcus Gaudenzi de Faria, Gregorio Rechmann Junior, Rafael de Aguiar Hirano (substituto[a] integral), Joao Ricardo Fahrion Nuske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Rodrigo Duarte Firmino (Presidente)
Nome do relator: JOAO RICARDO FAHRION NUSKE
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FATO GERADOR. RENDIMENTOS. A aquisição de disponibilidade econômica de renda por parte da contribuinte configura fato gerado de imposto de renda, nos termos previstos no Código Tributário Nacional. O ônus de comprovar a alegação de que a natureza do rendimento recebido é de verba isenta de tributação é exclusivamente da contribuinte. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer do recurso voluntário interposto e negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente João Ricardo Fahrion Nüske – Relator Assinado Digitalmente Rodrigo Duarte Firmino – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Marcus Gaudenzi de Faria, Gregorio Rechmann Junior, Rafael de Aguiar Hirano (substituto[a] integral), Joao Ricardo Fahrion Nuske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Rodrigo Duarte Firmino (Presidente) Fl. 483DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.146 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.723523/2020-82 2 RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto nos autos do processo nº 10855.723523/2020-82, em face do acórdão nº 107-006.475, na qual os membros daquele colegiado entenderam por julgar improcedente a impugnação. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da DRJ de origem que assim os relatou: De acordo com o Termo de Início de Fiscalização às fls. 16/18, a contribuinte foi intimada a apresentar cópia da documentação comprobatória completa relacionada à operação informada na DIRPF/2017 como dívida e ônus reais no montante de R$ 17.843.309,84. A intimada manifestou-se às fls. 25/28 e juntou documentos de fls. 29/246. Diante das irregularidades verificadas, a autoridade lançadora elaborou o Relatório Fiscal de fls. 379/388 e lavrou o auto de infração de fls. 389/397 com a descrição da infração de omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica, no montante de R$ 17.843.309,84, relativa ao ano-calendário de 2016. Em julgamento a DRJ firmou a seguinte posição: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Exercício: 2017 IMPOSTO DE RENDA. FATO GERADOR. RENDIMENTOS. A aquisição de disponibilidade econômica de renda por parte da contribuinte configura fato gerado de imposto de renda, nos termos previstos no Código Tributário Nacional. O ônus de comprovar a alegação de que a natureza do rendimento recebido é de verba isenta de tributação é exclusivamente da contribuinte. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Sobreveio Recurso Voluntário alegando, em síntese 1) inexistência de omissão de receitas; 2) inversão do ônus da prova É o relatório. VOTO Conselheiro João Ricardo Fahrion Nüske, Relator Fl. 484DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.146 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.723523/2020-82 3 Sendo tempestivo e preenchidos os demais requisitos, conheço do recurso voluntário. Considerando que a Recorrente não trouxe nenhum argumento e/ou justificativa capaz de demonstrar equívoco no Acórdão recorrido e, por concordar com os fundamentos utilizados, decido mantê-lo por seus próprios fundamentos, valendo-me do artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/995 c/c o artigo 114, §12, I, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (“RICARF”), o qual adoto como razão de decidir, in verbis: O presente lançamento trata de apuração da infração de omissão de rendimentos tributáveis recebidos da pessoa jurídica Jacob Klabin Lafer Administração e Participações S/A, nº montante de R$ 17.843.309,84, no exercício de 2017, ano- calendário 2016. A impugnante, por sua vez, sustenta que tais rendimentos seriam isentos de tributação por se referirem a dividendos distribuídos pela referida pessoa jurídica, da qual é sócia. De acordo com documentos contidos nos autos, ratificados pelas informações do Relatório Fiscal de fls. 379/388, constata-se que a contribuinte detinha 50% do capital social da pessoa jurídica em questão, que correspondia a 213.956.597 ações. A outra metade pertencia a seu irmão Miguel Lafer, então presidente da empresa (fls. 283/292). Em dezembro de 2015, o Sr. Miguel Lafer faleceu e deixou testamento, legando suas ações da referida pessoa jurídica para Marcos Montanaro e Jeferson Moura, na proporção de 50% para cada. A contribuinte apresentou a Escritura de Cessão de Direitos Hereditários de fls. 42/56, datada de 08/07/2016, na qual ambos os beneficiários do testamento cedem e transferem para ela os direitos hereditários referentes a 213.956.597 ações da mencionada pessoa jurídica. Em 08/07/2016, portanto, a contribuinte passou a deter 100% de ações da referida empresa e se tornou a nova presidente, conforme se verifica na ata da AGE de fls. 339/340. Em princípio, cabe esclarecer que a impugnante não contestou o recebimento, em 2016, dos rendimentos no montante de R$ 17.843.309,84, pagos pela pessoa jurídica Jacob Klabin Lafer Administração e Participações S/A. A lide gira em torno da alegação da interessada de que tais rendimentos seriam isentos de tributação por se referirem, num primeiro momento, a empréstimo recebido da pessoa jurídica e, posteriormente, compensado com dividendos devidos pela empresa nº mesmo valor, em razão de ser acionista. Ao definir o fato gerador do imposto de renda, o art. 43 do Código Tributário Nacional(Lei nº 5.172, de 1966) assim dispôs: "Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I - de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; Fl. 485DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.146 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.723523/2020-82 4 II - de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. § 1º A incidência do imposto independe da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção". (grifou-se)Em complemento, a Lei 7.713, de 1988, determina: Art. 3º O imposto incidirá sobre o rendimento bruto, sem qualquer dedução, ressalvado o disposto nos arts. 9º a 14 desta Lei. (Vide Lei 8.023, de 12.4.90)§ 1º Constituem rendimento bruto todo o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, e ainda os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados. .................................................................................................................................... .......... § 4º A tributação independe da denominação dos rendimentos, títulos ou direitos, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem dos bens produtores da renda, e da forma de percepção das rendas ou proventos, bastando, para a incidência do imposto, o benefício do contribuinte por qualquer forma e a qualquer título. Da leitura dos dispositivos legais transcritos, depreende-se que a incidência do imposto de renda abrange todo e qualquer rendimento que implique acréscimo do patrimônio dos contribuintes, bastando o benefício destes por qualquer forma e a qualquer título, sendo irrelevante a denominação dos rendimentos, títulos ou direitos. Portanto, não procede a alegação da impugnante de que o lançamento deveria “dizer e comprovar” a que título haviam sido pagos os R$ 17.843.309,84 no ano de 2016 à contribuinte, tampouco de que houve presunção de recebimento rendimentos tributáveis. É fato incontroverso que a contribuinte auferiu tal rendimento, todavia, argumenta ser isento de tributação por alegar decorrente, inicialmente, de empréstimo contraído junto à pessoa jurídica e que, posteriormente, havia sido liquidado pela mesma, por compensação, mediante distribuição de dividendos da empresa. O ônus da comprovação da natureza dos rendimentos como isentos, na modalidade alegada na impugnação, é exclusivamente da impugnante. Como bem afirmou a autoridade lançadora no Termo de Verificação Fiscal, a contribuinte não apresentou qualquer documento emitido pela pessoa jurídica em questão que vinculasse o pagamento feito à própria como empréstimo contraído junto à empresa, tampouco distribuição de dividendos em momento posterior. Os fatos alegados na impugnação de que a empresa auferiu lucro no ano de 2016 e de que havia previsão no Estatuto Social para distribuição de dividendos, por si sós, não representam elementos de prova hábeis e suficientes Fl. 486DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.146 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.723523/2020-82 5 para caracterizar a natureza dos rendimentos pagos à contribuinte como dividendos. Além disso, há de se destacar que o parágrafo único do art. 17 do Estatuto Social, invocado pela impugnante, dispõe no sentido de que a administração da Companhia pode declarar dividendos intermediários à conta de lucros acumulados ou de reservas de lucros existentes no último balanço. A impugnante alegou que os documentos apresentados às fls. 29 a 31, quais sejam, balanço patrimonial da pessoa jurídica, demonstrativo do resultado do período e demonstração das mutações do patrimônio líquido, evidenciam que a empresa apurou, em 2016, lucro de R$ 22.208.690,24. Todavia, tais documentos também demonstram que a reserva de lucros a realizar que, em 01/01/2016 era de R$ 40.365.292,49, passou a ter o saldo de R$ 62.573.982,73 em 31/12/2016, evidenciando que não houve distribuição no ano de 2016. Enfim, além de não haver documento emitido pela pessoa jurídica que se mostre hábil a sinalizar possível distribuição de dividendos à contribuinte, a escrituração contábil da empresa é totalmente contrária às alegações da impugnante, uma vez que não identifica qualquer lançamento a esse título, como muito bem pontuou a autoridade fiscal no Relatório de fls. 379/388. A seguir, transcrição de relevantes destaques identificados pela Fiscalização com relação ao tema: “Na ECF - Escrituração Contábil Fiscal do ano-calendário 2016 da Jacob Klabin Lafer Administração e Participações S/A, obtida no SPED - Sistema Público de Escrituração Digital, não consta informação de pagamentos de dividendos no registro Y600 -Identificação e Remuneração de Sócios, Titulares, Dirigentes e Conselheiros. Somente na ECF do ano-calendário 2017 é indicado pagamento de dividendos de 37.140.361,20 para a Sra. Vera. Na ECD - Escrituração Contábil Digital do ano-calendário 2016 desta pessoa jurídica, também obtida no SPED, não há igualmente quaisquer lançamentos de pagamento de dividendos. Todavia, a conta 24402 - Reserva de Lucro a Realizar tinha saldo credor de 40.365.292,49 em 31/12/15 e saldo credor de 62.573.982,73 em 31/12/16, pois em 31/12/16 foi lançado o resultado do exercício de 22.208.690,24. A conta 1120701 - VERA LAFER, dentro do grupo 11207 - Outras Contas a Receber (nº ativo circulante) iniciou o ano-calendário 2016 com o saldo zero, e em 31/12/16 tinha o saldo devedor de 17.843.309,84. Foi nesta conta portanto que ocorreram os lançamentos a débito dos pagamentos a Sra. Vera ao longo de 2016, no total de 17.843.309,84, efetuados entre as datas de 20/01/16 e 23/12/16, com contrapartidas a crédito em contas Caixa e Bancos. Fl. 487DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.146 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.723523/2020-82 6 Nos históricos destes lançamentos sempre constaram as seguintes informações : "N/ENTREGA P/DÉBITO EM CONTA CORRENTE CF. CH.(...)" ou "N/ENTREGA P/DÉBITO EM CONTA CORRENTE CF. CH. (...)". Na ECD do ano-calendário de 2017 não há lançamentos indicando no histórico contábil eventual quitação do valor que a Sra. Vera supostamente estaria devendo para a empresa (considerando afinal que a conta 1120701 pertence ao grupo de outras contas a receber). Assim, a Sra. Vera não devolveu o montante de 17.843.309,84 para a empresa. O saldo devedor na conta 1120701 continuou a crescer em 2017, tendo sido zerado apenas em 31/08/17. Nesta data ocorre o lançamento a crédito de 30.575.096,42 na conta 1120701 com o seguinte histórico : "S/ENTREGA P/CRÉDITO EM CONTA CORRENTE S/ DIVIDENDOS PAGOS A VERA LAFER - 08/2017". Portanto, pode-se observar que este valor de 30.575.096,42 é uma parte dos dividendos de 37.140.361,20 informados na ECF do ano calendário 2017. Aqui deve ser observado que o valor de 37.140.361,20 foi informado como rendimento isento na DIRPF do ano-calendário 2017 da Sra. Vera, a título de dividendos distribuídos. Esta DIRPF do ano-calendário 2017 da contribuinte, entregue em 26/04/18, nunca foi retificada. Se o valor de 17.843.309,84 tivesse sido de fato considerado, pela empresa e pela contribuinte, como dividendos, teria sido informado na DIRPF do ano-calendário 2017 o resultado da subtração : 37.140.361,20 - 17.843.309,84. Contudo, não foi isso que ocorreu. Este montante de 30.575.096,42 é proveniente de dois lançamentos neste mesmo valor em 31/08/17 : um na conta 2170103 - VERA LAFER (dentro do grupo 21701 -Dividendos a Pagar), e outro na conta 24402 - RESERVA DE LUCRO A REALIZAR. Assim, o uso de uma conta de direitos a receber, no ativo circulante em 2016, para o lançamento a débito de 17.843.309,84, não foi apropriado, pois a empresa deveria ter lançado este valor no ano-calendário 2016 como despesa.(...)” A Escrituração Contábil Fiscal - ECF é uma obrigação acessória das pessoas jurídicas desde o ano-calendário de 2014 e a sua apresentação com eventuais incorreções ou omissões acarreta, inclusive, a aplicação de multas ao infrator. A fonte pagadora do contribuinte apresentou a referida Declaração sem qualquer informação acerca de pagamentos de dividendos aos sócios. Da mesma forma, a Escrituração Contábil Digital ECD, elaborada pela fonte pagadora da contribuinte, também não incluiu lançamento de pagamento de dividendos no ano de 2016. Em perfeita consonância com essas informações da pessoa jurídica, a contribuinte Fl. 488DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.146 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.723523/2020-82 7 também não informou recebimento de dividendos em sua DIRPF/2017, ano- calendário 2016 (fls. 03/15). As contas da empresa mencionadas pela Fiscalização no Relatório Fiscal identificam, ainda, que o valor de R$ 17.843.309,84 foi efetivamente pago à contribuinte no ano de 2016, sem qualquer escrituração de distribuição de dividendos ou de empréstimos concedidos, com registro de débitos em conta de ativo circulante e crédito em bancos e caixa. Além disso, não há registro de devolução de tal quantia pela contribuinte à empresa, apesar de esta haver informado na DIRPF/2017 que se tratava de empréstimo contraído junto à pessoa jurídica. Se a contribuinte não comprovou, documentalmente, a natureza da percepção dos rendimentos ora lançados como dividendos distribuídos pela empresa, não há o que se falar em suposta compensação para justificar pagamento de alegado empréstimo, como tentou fazer na impugnação. Observe-se, ainda, que a contribuinte não apresentou qualquer documento que comprovasse a existência de suposto mútuo realizado entre ela e a pessoa jurídica, conforme informado na DIRPF/2017, na vultosa quantia de mais de dezessete milhões de reais. Acrescente-se que a informalidade dos negócios entre a contribuinte e a pessoa jurídica da qual é sócia não pode eximi-la de apresentar prova da efetividade de alegadas operações porventura realizadas. Tal informalidade diz respeito a garantias mútuas que deixam de ser exigidas em razão da confiança entre as partes, mas não se pode querer aplicar a mesma informalidade ou vínculo de confiança na relação do contribuinte com a Fazenda Pública. A relação entre Fisco e contribuinte é formal e vinculada à lei, sem exceção. Em outras palavras, a contribuinte informou na DIRPF/2017 que contraiu empréstimo junto à pessoa jurídica, mas não apresentou contrato de mútuo ou qualquer outro elemento de prova; nenhum dos documentos emitidos pela empresa ou pela própria contribuinte identificam a alegada distribuição de dividendos no ano de 2016 e, por consequência, não há comprovação da suposta liquidação de mútuo que, conforme alegou, ocorreria mediante o recebimento de dividendos. Enfim, trata- se de meras alegações sem suporte probatório suficiente. As alegações desprovidas de meios de prova que as justifiquem não podem prosperar, visto que é assente em Direito que alegar e não provar é o mesmo que não alegar. Acrescente-se que, conforme preceitua o art. 15 do Decreto nº 70.235, de 1972, a impugnação deve ser formalizada por escrito e instruída com os documentos que fundamentem os argumentos de defesa. Portanto, as alegações desacompanhadas de documentos comprobatórios, quando esse for o meio pelo qual sejam provados os fatos alegados, não são eficazes. (...) Fl. 489DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.146 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.723523/2020-82 8 Somente em agosto de 2017 a Fiscalização identificou, na Escrituração Contábil Fiscal da pessoa jurídica, pagamento de dividendos à contribuinte, no montante de R$ 37.140.361,20, informação está ratificada pela interessada na sua DIRPF/2018, ano-calendário 2017, conforme se verifica na fl. 249. Como bem observou a autoridade lançadora, caso realmente o valor de R$ 17.843.309,84, recebido pela contribuinte no ano de 2016, correspondesse a lucros/dividendos distribuídos, o valor informado tanto pela pessoa jurídica na ECF, como pela contribuinte na DIRPF/2018, deveria ter sido a diferença entre tais quantias, e não o montante integral. Registre-se que todas as informações relatadas encontram respaldo nas declarações emitidas para este Órgão pela pessoa jurídica, assim como na sua escrituração contábil, bem como nas declarações de rendimentos apresentadas pela própria impugnante para os exercícios pertinentes. Não se trata de “rigor formalístico”, como abordado pela impugnante, mas de informações claras emitidas por intermédio de obrigações acessórias apresentadas pela empresa e pela própria contribuinte. Não há como desfigurar todas essas informações, que não foram sequer retificadas perante este Órgão, quando a interessada não apresenta qualquer elemento de prova adicional que seja apto a justificar tal fato. A Fiscalização em momento algum “transmudou” a natureza dos dividendos, como afirmado na contestação, até porque essa natureza isenta de rendimento não foi sequer comprovada pela contribuinte, quando o ônus lhe cabia. A autoridade lançadora também não se apegou apenas a aspectos formais e muito menos se negou a admitir a verdade material. A verdade material comprovada nos autos é a de que a contribuinte recebeu efetivamente, no ano de 2016, o valor de R$ 17.843.309,84 da pessoa jurídica Jacob Klabin Lafer Administração e Participações S/A e que restou comprovado, tanto pela escrituração contábil da empresa como pelas declarações de rendimentos apresentadas pela própria contribuinte, que não houve distribuição de dividendos no ano de 2016 por aquela pessoa jurídica. Assim, restou caracterizado o fato gerador do imposto de renda sobre a receita auferida, fundamento jurídico do presente lançamento, haja vista a aquisição de disponibilidade econômica de renda pela contribuinte. Apesar de alegar que a verdade material seria outra, a interessada não trouxe aos autos elementos capazes de sustentar sua alegação. Assim, exatamente por atender ao disposto no art. 142 do CTN, mencionado na peça contestatória, a Fiscalização efetuou o presente lançamento, lastreado em documentos hábeis e idôneos, calculando, de forma correta, o montante do imposto devido. A contribuinte ainda alegou que o lançamento não poderia prosperar pelo fato de a fundamentação estar baseada em dispositivo normativo que não estava mais Fl. 490DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.146 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10855.723523/2020-82 9 vigente, uma vez que o Decreto nº 3.000, de 1999, encontrava-se revogado pelo Decreto nº 9.580, de 2018. Nesse aspecto, cabe esclarecer que tanto o Decreto nº 3.000, de 1999, como o Decreto nº 9.580, de 2018, tiveram por escopo a aprovação do Regulamento de Imposto de Renda, e a matéria sobre a qual fundamentou-se o presente lançamento não foi modificada de um ato normativo para o outro. Não obstante tal situação que não causou qualquer prejuízo à defesa da interessada, esclareça- se que o fato gerador sobre o qual incidiu o presente lançamento ocorreu no ano de 2016, quando o Decreto nº 3.000, de 1999, encontrava-se em pleno vigor, pois sua revogação se deu apenas em 2018, como afirmou a própria impugnante. Dessa forma, não caberia fundamentar materialmente o lançamento em ato normativo posterior à ocorrência do fato gerador. Desta forma, considerando que de fato o contribuinte não acostou nos autos contrato de mútuo que, em que pese o entendimento de que documentos particulares não podem ser opostos à fazenda nacional, os documentos particulares, em conjunto com demais instrumentos probatórios sim podem comprovar os fatos narrados. Todavia não foi este o caso, razão pela qual nego provimento ao recurso voluntário. Conclusão Ante o exposto voto por conhecer do recurso voluntário interposto e negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente João Ricardo Fahrion Nüske Fl. 491DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 16682.901982/2015-51
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Sep 22 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Oct 17 00:00:00 UTC 2025
Numero da decisão: 3001-000.688
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência à Unidade de Origem, a fim de que o presente processo seja reunido ao processo sob nº 10640-722.837/2016-05, bem como os demais que dele tiverem origem e, após reunião que todos os processos sejam distribuídos a esse relator, por ser prevento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3001-000.679, de 25 de setembro de 2025, prolatada no julgamento do processo 16682.901469/2015-61, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Luiz Carlos de Barros Pereira – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Daniel Moreno Castillo, Larissa Cassia Favaro Boldrin, Lazaro Antonio Souza Soares (substituto[a] integral), Sergio Roberto Pereira Araujo, Wilson Antonio de Souza Correa, Luiz Carlos de Barros Pereira (Presidente) Ausente(s) o conselheiro(a) Marco Unaian Neves de Miranda, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Lazaro Antonio Souza Soares.
Nome do relator: LUIZ CARLOS DE BARROS PEREIRA
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EM RECUPERACAO JUDICIAL INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Conversão do Julgamento em Diligência RESOLUÇÃO Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência à Unidade de Origem, a fim de que o presente processo seja reunido ao processo sob nº 10640-722.837/2016-05, bem como os demais que dele tiverem origem e, após reunião que todos os processos sejam distribuídos a esse relator, por ser prevento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3001-000.679, de 25 de setembro de 2025, prolatada no julgamento do processo 16682.901469/2015-61, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Luiz Carlos de Barros Pereira – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Daniel Moreno Castillo, Larissa Cassia Favaro Boldrin, Lazaro Antonio Souza Soares (substituto[a] integral), Sergio Roberto Pereira Araujo, Wilson Antonio de Souza Correa, Luiz Carlos de Barros Pereira (Presidente) Ausente(s) o conselheiro(a) Marco Unaian Neves de Miranda, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Lazaro Antonio Souza Soares. RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado na resolução paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Fl. 116DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3001-000.688 – 3ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16682.901982/2015-51 2 Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que DEFERIU PARCIALEMTNE o ressarcimento solicitado no PER nº 10317.26428.240215.1.5.01-5402 e não homologou parcialmente a compensação declarada na DCOMP nº 36247.70448.091214.1.3.01-0025, gerando a cobrança ora contestada de R$ 96.929,81 (valor original) em débitos da contribuinte. O crédito solicitado diz respeito ao saldo credor do 4º trimestre de 2014. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, estão sumariados os fundamentos da decisão: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/10/2014 a 31/12/2014 COMPENSAÇÃO. FALTA DE COMPROVAÇÃO DO CRÉDITO. Mantidos tanto a glosa de créditos como o lançamento a débito pelo auto de infração e não comprovado o saldo credor suficiente para a compensação pretendida, mantém-se a cobrança dos débitos não pagos pela nãohomologação da compensação. Por meio do Termo de Ciência por Abertura de Mensagem, a Recorrente teve ciência do Acórdão n. 108-030.837. Em seguida, aviou o presente remédio recursivo com suas alegações. É a síntese dos fatos. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado na resolução paradigma como razões de decidir: Da competência para julgamento do feito Em virtude da norma contida no artigo 65 do Anexo da Portaria MF nº 1634, de 21 de dezembro de 2023, a qual aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF, este colegiado é competente para apreciar este feito. Resolução Requer a Recorrente que o presente processo seja julgado conjuntamente com o de n° 10640-722.837/2016-05, eis que o ressarcimento solicitado no PER nº 04580.74875.230414.1.1.01-7453 e não homologou a compensação declarada na DCOMP nº 30457.01858.240414.1.3.01-3792, gerando a cobrança contestada, uma vez que a compensação só não foi homologada porque houve a glosa de créditos promovida no processo mencionado. Assim, prossegue, se no processo nº 10640-722.837/2016-05, excluída for a glosa, Fl. 117DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 3001-000.688 – 3ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16682.901982/2015-51 3 a compensação perseguida será concedida. Socorre-se ao RICARF. Assiste razão a Recorrente, eis que, para que não se julguem os processos isoladamente, com eventuais deciões conflitantes, entendo que os processos devem ser reunidos para julgamento em conjunto. Penso que todos os processos que tenham origem ao processo sob nº 10640- 722.837/2016-05, devem ser reunidos a ele e, considerando que ele e os demais, exceto esse, ainda não foram distribuídos a outro julgador, esse conselheiro é prevento, devendo recebê-los para relatoria, conforme dispõe os s §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF. Diante do exposto, face a situação fática e jurídica e, diante de dispositivo processual no RICARF acima apontado, necessário que se converta o julgamento em diligência a fim de o presente processo seja reunido ao processo sob nº 10640-722.837/2016-05, bem como os demais que dele tiverem origem e, após reunião que todos os processos sejam distribuídos a esse relator, por ser prevento. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido na resolução paradigma, no sentido de converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência à Unidade de Origem, a fim de que o presente processo seja reunido ao processo sob nº 10640-722.837/2016-05, bem como os demais que dele tiverem origem. Assinado Digitalmente Luiz Carlos de Barros Pereira – Presidente Redator Fl. 118DF CARF MF Original Resolução Relatório Voto
score : 1.0
