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Numero do processo: 10166.730408/2017-27
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 26 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Dec 30 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2012, 2013, 2014 DECADÊNCIA. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. AUSÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. Tratando-se de tributos sujeitos a lançamento por homologação, com declaração e recolhimento parciais, e ausente prova de fraude, dolo ou simulação, deve ser aplicada a contagem do prazo decadencial do art. 150, § 4º, do Código Tributário Nacional. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2012, 2013, 2014 ILEGITIMIDADE PASSIVA. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. Exigência de ganho de capital na alienação de participação societária feita por Fundo de Investimento em Participações (FIP). Infração imputada a pessoa jurídica que não praticou o fato gerador. Ausência de legitimidade passiva.
Numero da decisão: 1301-007.959
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, na parte admitida dos Embargos, em dar-lhe provimento, com efeitos infringentes, para que: (i) por maioria de votos, seja declarada a ilegitimidade passiva da Embargante MCL Empreendimentos, vencidos os Conselheiros Iágaro Jung Martins e Luis Angelo Carneiro Baptista, que rejeitavam a preliminar; e (ii) por unanimidade de votos, sejam canceladas as exigências de IRPJ e CSLL apurados no regime do lucro presumido, relativas ao segundo e ao terceiro trimestres do ano-calendário de 2012, em função da decadência. Assinado Digitalmente Eduardo Monteiro Cardoso – Relator Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Iagaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduarda Lacerda Kanieski, Eduardo Monteiro Cardoso, Rafael Taranto Malheiros (Presidente).
Nome do relator: EDUARDO MONTEIRO CARDOSO

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TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. AUSÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. Tratando-se de tributos sujeitos a lançamento por homologação, com declaração e recolhimento parciais, e ausente prova de fraude, dolo ou simulação, deve ser aplicada a contagem do prazo decadencial do art. 150, § 4º, do Código Tributário Nacional. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2012, 2013, 2014 ILEGITIMIDADE PASSIVA. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. Exigência de ganho de capital na alienação de participação societária feita por Fundo de Investimento em Participações (FIP). Infração imputada a pessoa jurídica que não praticou o fato gerador. Ausência de legitimidade passiva. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, na parte admitida dos Embargos, em dar-lhe provimento, com efeitos infringentes, para que: (i) por maioria de votos, seja declarada a ilegitimidade passiva da Embargante MCL Empreendimentos, vencidos os Conselheiros Iágaro Jung Martins e Luis Angelo Carneiro Baptista, que rejeitavam a preliminar; e (ii) por unanimidade de votos, sejam canceladas as exigências de IRPJ e CSLL apurados no regime do lucro presumido, relativas ao segundo e ao terceiro trimestres do ano-calendário de 2012, em função da decadência. Fl. 4177DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 2 Assinado Digitalmente Eduardo Monteiro Cardoso – Relator Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Iagaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduarda Lacerda Kanieski, Eduardo Monteiro Cardoso, Rafael Taranto Malheiros (Presidente). RELATÓRIO 1. Trata-se de Embargos de Declaração opostos por MCL EMPREENDIMENTOS E NEGÓCIOS LTDA. (fls. 3.752/3.780) e MARIO CELSO LOPES (fls. 3.783/3.785) em face do Acórdão nº 1301-006.295 (fls. 3.579/3.634), que julgou parcialmente procedentes os Recursos Voluntários interpostos, nos seguintes termos: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, rejeitar a preliminar de erro na sujeição passiva, vencidos os conselheiros Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic e Eduardo Monteiro Cardoso. No mérito, 1) por maioria, negar provimento ao recurso quanto à tributação do ganho de capital na alienação, vencidos o relator (José Eduardo Dornelas Souza) e o conselheiro Marcelo José Luz de Macedo; 2) por maioria, afastar a incidência da multa qualificada, vencido o conselheiro Lizandro Rodrigues de Souza Rodrigues de Souza; 3) por voto de qualidade, manter a multa isolada, vencidos o Relator e os conselheiros Marcelo José Luz de Macedo, Maria Carolina Maldonado Mendonça Kraljevic e Eduardo Monteiro Cardoso; 4) em relação à sujeição passiva, por maioria, excluir a Sra. Juçara Eliane Storti Correa Lopes, vencido o conselheiro Lizandro Rodrigues de Souza Rodrigues de Souza; 5) por maioria, manter o Sr. Mário Celso Lopes, vencido o relator; 6) em relação às demais empresas, por maioria, excluí-las do polo passivo, vencidos os conselheiros Iágaro Jung Martins, Lizandro Rodrigues de Souza Rodrigues de Souza e Rafael Taranto Malheiros. Designada para redigir o voto vencedor Giovana Paiva. 2. Referido acórdão embargado foi ementado da seguinte forma: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2012, 2013, 2014 Fl. 4178DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 3 PRELIMINAR. ILEGITIMIDADE PASSIVA. INEXISTÊNCIA. SUJEITO PASSIVO. OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA PRINCIPAL. MARCO NORMATIVO. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo e diz-se contribuinte quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador. A definição legal de sujeito passivo contribuinte é o marco normativo que orienta o trabalho de auditoria fiscal para a correta identificação no caso concreto da pessoa que deva ser submetida à imputação por meio do lançamento. Inexiste fundamento jurídico na argumentação que pretende invalidar a eleição do sujeito passivo estampada no lançamento valendo-se exclusivamente de critério temporal. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ADMINISTRADORES. VIOLAÇÃO À LEI. FRAUDE. SOLIDARIEDADE. Configura hipótese de responsabilidade tributária solidária a comprovação de prática de ato em violação à lei, mediante fraude, pelas pessoas físicas administradoras de grupo econômico de fato. IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA – IRPJ. GANHOS DE CAPITAL. FALTA DE APURAÇÃO. OMISSÃO DE RECEITA NÃO OPERACIONAL. Fundo de Investimento em Participações utilizado indevidamente por grupo econômico de fato como instrumento de alienação de participações societárias com propósito exclusivo de impedir a ocorrência do fato gerador de obrigação tributária principal. Ganho de Capital decorrente da alienação pertence ao real alienante. Resultado reconhecido nos termos do acordo de vontades que promoveu a transferência da participação societária. MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA MENSAL. APLICAÇÃO APÓS O ENCERRAMENTO DO ANO-CALENDÁRIO. POSSIBILIDADE. A multa isolada pune o contribuinte que não observa a obrigação legal de antecipar o tributo sobre a base estimada ou levantar o balanço de suspensão, logo, conduta diferente daquela punível com a multa de ofício proporcional, a qual é devida pela ofensa ao direito subjetivo de crédito da Fazenda Nacional. Nesse contexto, é possível a cobrança da multa isolada ainda que o lançamento ocorra após o encerramento do ano-calendário. MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA MENSAL. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFÍCIO DE 75%. POSSIBILIDADE. A multa isolada pune o contribuinte que não observa a obrigação legal de antecipar o tributo sobre a base estimada ou levantar o balanço de suspensão, logo, conduta diferente daquela punível com a multa de ofício proporcional, a qual é devida pela ofensa ao direito subjetivo de crédito da Fazenda Nacional. MULTA DE OFÍCIO. CIRCUNSTÂNCIA QUALIFICATIVA. FRAUDE. NÃO COMPROVADA Não comprovada a fraude, impõe-se a redução do da multa de ofício para o percentual de 75%. Fl. 4179DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 4 Autos de Infração Decorrentes CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO - CSLL. IRPJ. MATÉRIA FÁTICA IDÊNTICA. RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO. Em se tratando de matéria fática idêntica àquela que serviu de base para o lançamento do Imposto sobre a Renda Pessoa Jurídica, devem ser estendidas as conclusões advindas da apreciação daquele lançamento ao relativo à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, em razão da relação de causa e efeito advindas dos mesmos fatos geradores e elementos probantes. 3. Os recursos foram objeto de Despachos de Admissibilidade pela Ilma. Presidência desta Turma Ordinária. Com relação aos Embargos de Declaração da contribuinte MCL EMPREENDIMENTOS, decidiu-se por sua admissão parcial (fls. 4.150/4.165), para submeter a este colegiado as “alegações de omissão de que tratam os itens (i), (ii), (iii) e (iv) do recurso”, os quais foram sintetizados nas razões recursais da seguinte forma: (i) há clara contradição entre ementa e voto vencedor; enquanto a ementa afirma que inexistiria fundamento jurídico na argumentação do recurso voluntário que pretendia invalidar a eleição do sujeito passivo nos lançamentos de IRPJ, CSLL e multas isoladas, supostamente valendo-se exclusivamente de critério temporal; de outro lado, o voto vencedor, de forma contraditória, não realiza qualquer análise sobre a fundamentação jurídica do recurso voluntário acerca da ilegitimidade passiva, sequer mencionando que supostamente a Embargante teria se valido exclusivamente de critério temporal (que tampouco foi examinado), mas aponta, de forma superficial, que a conclusão pela rejeição da preliminar de ilegitimidade se basearia em constatação que teria partido “dos fatos narrados” (às fls. 3579); (ii) há obscuridade no v. acórdão ora embargado, especificamente na ementa, quando esta afirma que inexistiria fundamento jurídico na argumentação do recurso voluntário que pretendia invalidar a eleição do sujeito passivo nos lançamentos de IRPJ, CSLL e multas isoladas, valendo-se exclusivamente de critério temporal. Com efeito, a ora Embargante não se valeu, de forma exclusiva, de critério temporal, diferentemente do que consta da ementa. Pelo contrário, a partir das fls. 2753 até às fls. 2785, a ora Embargante demonstra, em seu recurso voluntário, diversos fundamentos que resultam na conclusão pela sua ilegitimidade para figurar como sujeito passivo das autuações. São eles: (ii.a) validade jurídica e propósito negocial da cisão parcial da MCL (i.e., segregação das atividades imobiliárias e de celulose e reflorestamento, inclusive em razão de expectativa de financiamento de construção de planta de celulose pelo BNDES, indicada pela carta desta instituição às fls. 2327), cujo acervo líquido foi absorvido pela MJ, ambas – ora Embargante e MJ – detidas pelo Sr. Mário Celso e Sra. Juçara. Em outras palavras, o Sr. Mário Celso e Sra. Juçara constituíram a MJ, que recebeu acervo líquido da Fl. 4180DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 5 Embargante/MCL em cisão parcial, não tendo a MJ, por um segundo sequer, sido detida pela Embargante/MCL; (ii.b) o fato de que a própria MJ, para levantar recursos para investir na construção da planta da Eldorado, vendeu, em dezembro de 2010, ações da Eldorado (fls. 2313 e seguintes) e as tributou, tendo personalidade jurídica própria, com sócios, que não poderia ser afastada; (ii.c) impossibilidade jurídica de a Embargante/MCL alienar a MJ, eis que a Embargante/MCL jamais foi proprietária ou titular da participação societária da MJ. Os Srs. Mário Celso e Juçara constituíram a MJ, em julho de 2010 (fls. 93 e seguintes), para absorver o acervo líquido cindido da ora Embargante. O voto vencido prolatado pelo Conselheiro Dornelas Souza, que corretamente reconheceu a ilegitimidade da Embargante, bem afirmou, às fls. 3612, “Embora a MJ tenha sido constituída pelos mesmos sócios da empresa Recorrente/MCL, é pessoa jurídica distinta desta última, com obrigações igualmente distintas, inclusive tributárias. É bem verdade que a MJ, em sua constituição, recebeu acervo líquido destacado do patrimônio da Recorrente/MCL em cisão parcial, porém, apenas seus sócios, o Sr. Celso e a Sra. Juçara, possuíam o direito de propriedade sobre as ações da MJ, em consequência da extinção de participação correspondente na Recorrente/MCL. Ou seja, sob o ponto de vista formal, a MCL nunca foi proprietária ou detentora de qualquer direito sobre as ações da MJ e, por isso, não poderia dispor das mesmas, nem aliená-las”. Apesar disso tudo, a ementa do v. acórdão afirma que a argumentação de ilegitimidade teria se valido de forma exclusiva do critério temporal, sendo clara a obscuridade incorrida; (ii.d) a ora Embargante/MCL não foi quem deliberou pela cisão parcial, sendo, na realidade, seu objeto. Ou seja, a Embargante foi objeto da cisão parcial (elemento passivo), tendo seus sócios Mário Celso e Juçara, esses sim, atuado e deliberado pela aprovação de tal cisão parcial. Em outras palavras, a Embargante/MCL não teve qualquer atuação que permitisse conclusão jurídica de que ela seria contribuinte do IRPJ e CSLL na venda da MJ em discussão, questão essa tampouco enfrentada pela ementa (nem pelo voto vencedor); (ii.e) não há nada nos autos do presente processo administrativo, nenhuma prova, indício ou elemento que possa ser considerado um início de prova no sentido de que a venda da MJ para o comprador J&F em julho de 2012 teria sido acordada pela Embargante/MCL em julho de 2010, quando da cisão parcial (ou seja, dois anos antes da venda, da qual decorre o ganho de capital objeto das autuações) (argumento às fls. 2784). Como exposto no voluntário, o ônus da prova era da fiscalização, que não se desincumbiu do mesmo; Fl. 4181DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 6 (ii.f) toda fundamentação acima constou do tópico “IV – Ilegitimidade Passiva da Recorrente/MCL” (fls. 2753 e seguintes), e de seus subtópicos “IV.A. Justificações da Cisão Parcial” (fls. 2756), “IV.B Impossibilidade Jurídica de Alienação da MJ pela Recorrente. Impossibilidade de Atribuição à Recorrente de Ganhos de Capital na venda da MJ. Erro na Eleição do Sujeito Passivo) (fls. 2768); “IV.C Sujeitos Ativos (Agentes) da Cisão Parcial: Sócios Sr. Mário Celso e Sra. Juçara. Objeto da Cisão Parcial: Recorrente/MCL” (fls. 2774); “IV.D Técnica de Desconsideração (ou Interpretação) Inconsistente. Dois Pesos para Critério Temporal” (fls. 2780); (iii) há omissão no Voto Vencedor do v. acórdão de fls. ora embargado, que deixou de considerar que a C. Turma também divergiu em relação à ilegitimidade passiva e, consequentemente, não realiza qualquer análise sobre a fundamentação jurídica do recurso voluntário acerca de tal tema, bem como dos fundamentos do voto vencido que acolhiam a ilegitimidade passiva, deixando de enfrentar os argumentos do recurso voluntário sobre a questão da ilegitimidade objeto dos itens (ii.a) a (ii.e) acima, cujo tópico e subtópicos respectivos no recurso foram identificados acima no item (ii.f); (iv) tendo em vista o afastamento da multa qualificada em virtude do reconhecimento de inexistência de fraude, o v. acórdão incorre em omissão por deixar de analisar e aplicar a decadência aos lançamentos fiscais, que, por ser matéria de ordem pública e passível de ser suscitada até mesmo de ofício pelo relator, deixou de ser enfrentada. A decadência decorre da aplicação do art. 150, §4º do CTN, uma vez que entre a data (i) dos fatos geradores de IRPJ e CSLL do 2º e 3º trimestres do ano de 2012, ocorridos em 30.06.2012 e 30.09.2012 respectivamente (vide fls. 2139, 2140 e 2142; e 2168, 2170 e 2171) nos quais a Embargante/MCL apurou e recolheu os tributos pelo regime do lucro presumido; e (ii) de ciência dos autos de infração em 01.11.2017 (fls. 2183), passaram-se mais do que cinco anos; 4. Veja-se que os pontos mencionados dizem respeito, fundamentalmente, à ilegitimidade passiva da contribuinte e à alegação de decadência. No caso da ilegitimidade passiva, o Despacho de Admissibilidade consignou o seguinte: Em análise ao inteiro teor do Acórdão recorrido, entendo que assiste razão à Embargante em relação à existência do apontado vício. A bem da verdade, há uma omissão no voto vencedor, que deixou de se manifestar sobre a preliminar de ilegitimidade passiva expressamente acolhida no voto vencido. Em síntese, o que ocorreu foi o seguinte. A 5ª Turma da DRJ/Salvador rejeitou a preliminar de ilegitimidade passiva aduzida na Impugnação ao lançamento, e sintetizou na ementa da decisão de primeira instância o entendimento que prevaleceu naquela oportunidade e que acabou sendo reproduzido na ementa do Acórdão embargado. Essa circunstância se revela, na decisão ora embargada, da seguinte forma: [...] Fl. 4182DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 7 Como se nota no excerto acima reproduzido, a parte específica da ementa do Acórdão de primeira instância referente à preliminar de ilegitimidade passiva foi reproduzida ipsis litteris no Acórdão embargado. Todavia, no voto vencedor do Acórdão embargado a preliminar de ilegitimidade passiva não foi apreciada, a despeito de ter sido expressamente acolhida no voto vencido, conforme resta claro nos excertos abaixo reproduzidos, deixando de lado todo o detalhamento dos argumentos e focando apenas na evidenciação do vício ora apontado pela Embargante: [...] Conforme resta claro nas transcrições acima, o i. Relator foi vencido na parte de seu voto em que acolheu a preliminar de ilegitimidade passiva, mas a matéria não foi objeto de apreciação no voto vencedor. Dessa forma, muito embora a reprodução de ementa do Acórdão da DRJ tenha levado a Embargante a concluir que se trata de uma contradição e/ou obscuridade, em verdade, tudo decorre da omissão constatada na decisão embargada. Para que não reste dúvida em relação ao fato de que a preliminar de ilegitimidade passiva não foi objeto de apreciação no voto vencedor, cumpre destacar que, na parte dispositiva da decisão embargada, todas as matérias apreciadas no voto vencedor encontram-se integralmente contidas na proclamação do resultado quanto ao mérito do litígio: [...] Por fim, cumpre ainda destacar que, na parte da proclamação do resultado referente à preliminar de ilegitimidade passiva, o i. Relator José Eduardo Dornelas Souza não se encontra relacionado entre os conselheiros que restaram vencidos. Ante o exposto, admito os presentes Embargos de Declaração, no ponto, para que seja sanado o vício acima identificado. 5. A respeito da decadência, o Despacho destacou que “[...] no Acórdão embargado somente consta a informação que a matéria contou com um capítulo específico na Impugnação ao lançamento, e que foi apreciada pelo órgão julgador de primeira instância, restando a conclusão gravada na ementa da decisão da DRJ nos seguintes termos: [...]”. Porém, com o afastamento da exasperação da multa de ofício, “[...] o tema da decadência deveria ter sido recuperado”, razão pela qual os Embargos de Declaração também foram admitidos neste ponto. 6. Com razões semelhantes, tais pontos – ilegitimidade passiva da contribuinte e decadência – também levaram à admissão parcial (fls. 4.166/4.175) dos Embargos de Declaração do responsável MARIO CELSO LOPES. 7. Os demais pontos levantados pelos Embargantes foram rejeitados em caráter definitivo pelos Despachos proferidos, razão pela qual não podem ser conhecidos, por aplicação do art. 116, § 3º, do RICARF. Cabe a esta Turma Ordinária, portanto, manifestar-se a respeito dos vícios apontados e admitidos pela Ilma. Presidência. 8. É o relatório. Fl. 4183DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 8 VOTO Conselheiro Eduardo Monteiro Cardoso, Relator. 9. Os pressupostos de admissibilidade dos Embargos de Declaração já foram devidamente analisados nos Despachos de Admissibilidade proferidos pela Presidência desta Turma Ordinária (fls. 4.150/4.175), oportunidade em que houve o reconhecimento da sua tempestividade e da presença dos vícios apontados pelos Embargantes. Assim, conheço dos recursos. 10. Como relatado, os Embargos de Declaração foram admitidos parcialmente, tão somente a respeito de dois pontos levantados pelos Embargantes: ilegitimidade passiva da contribuinte e decadência. Passo a analisar, a seguir, a configuração dos vícios apontados. I. Ilegitimidade passiva da contribuinte MCL EMPREENDIMENTOS I.1. SÍNTESE DA OPERAÇÃO IDENTIFICADA PELA FISCALIZAÇÃO 11. Como bem consignado nos Despachos de Admissibilidade, não houve manifestação no voto vencedor a respeito da preliminar de ilegitimidade passiva da contribuinte MCL EMPREENDIMENTOS. Tendo em vista que o acolhimento ou não dessa preliminar está vinculada aos fatos identificados pela Fiscalização e que deram suporte ao lançamento de ofício, passo a sintetizar os principais elementos envolvidos. 12. Basicamente, a Fiscalização voltou-se à alienação da participação Eldorado Brasil Celulose S/A (“Eldorado”) para a J&F Investimentos S/A (“J&F”), por meio do MCL Fundo de Investimento em Participações (“MCLFIP”). O TVF faz considerações a respeito das transações ocorridas envolvidas na operação, destacando as seguintes etapas: (i) Antes de agosto/2009, a composição acionária referente ao controle da Florestal Brasil S/A e da Eldorado era a seguinte: (ii) Em agosto/2009, a MCL e a J&F integralizaram cotas no Fundo de Investimento em Cotas de Fundos de Investimento em Participações (“JMFFIP”) com ações da FlorestalSA: Fl. 4184DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 9 (iii) Em setembro/2009, o JMFFIP integralizou cotas no Florestal Fundo de Investimento em Participações (“FlorestalFIP”) com as ações da Florestal: (iv) Em setembro/2009 e outubro/2009, a Funcef e a Petros integralizaram parcela do investimento acordado de R$ 544.500.000,00 para a FlorestalSA via FlorestalFIP, tornando-se indiretamente sócios da primeira: (v) Em abril/2010, Mário Celso Lopes transferiu a sua participação na Eldorado para a MCL por meio de integralização de capital: Fl. 4185DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 10 (vi) Em 30/06/2010, a MCL realizou cisão do seu patrimônio, vertendo para a MJ a participação societária na Eldorado e quotas do JMFFIP, o qual detinha indiretamente participação na FlorestalSA via FlorestalFIP: (vii) Em 26/08/2010, dois dias após aporte financeiro de R$ 368.500,00 efetuados pelos fundos de pensão no FlorestalFIP, foi constituído o MCLFIP, oportunidade em que houve a integralização com as ações da MJ, resultando na seguinte organização societária: (viii) Neste momento, a Fiscalização consignou que “[...] desde a sua constituição até a alienação da MJ (25% da Eldorado) para a J&F, a única participação acionária contida na carteira de investimentos do MCLFIP foram as ações da MJ. Somente após a citada alienação é que o MCLFIP passou a ter na carteira duas participações acionárias de empresas do grupo MCL: MCLSA e CRPE, as quais foram utilizadas Fl. 4186DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 11 para repassar o dinheiro obtido na referida alienação para a MCL e outras empresas do grupo MCL”; (ix) Em agosto/2011, dois anos após a aprovação do investimento dos fundos de pensão na FlorestalSA, foi aprovada a incorporação desta última pela Eldorado, que se deu em 30/11/2011: 13. A Fiscalização citou a sincronia entre as operações e a venda da MJ (25% da Eldorado) pelo MCLFIP logo após a incorporação da Florestal pela Eldorado, em maio/2012. Destacou que a “[...] aquisição do total das ações da MJ pela J&F e, consequentemente, direta e indiretamente 25% da Eldorado, ocorreu por meio das seguintes transações”:  Transação de 05/07/2012 - MCLFIP aliena 20% da MJ para Mário Celso Lopes  Transação de 06/07/2012 - Mário Celso Lopes vende 20% da MJ para J&F  Transação de 07/07/2012 - MCLFIP vende 80% da MJ para J&F 14. Ao final, o TVF conclui que o MCLFIP “[...] funcionou como uma espécie de ‘Fundo- Veículo’ utilizado pelo verdadeiro vendedor, a MCL, para alienar as ações da MJ (proprietária de 25% da Eldorado) aos compradores, J&F com propósito de impedir a ocorrência do fato gerador do IRPJ e da CSLL, uma vez que a venda direta das ações da MJ pela MCL, uma sociedade empresária, ensejaria apuração de ganho de capital nesta última.” Deste modo, os resultados auferidos pela alienação da MJ pertenceriam à MCL, que seria a “verdadeira alienante”. 15. É importante destacar que a Fiscalização fez considerações no TVF para tentar justificar a caracterização da MCL como alienante das ações da MJ, nos seguintes termos: 67. Portanto, dessa confusão contratual imperante nessa relação negocial complexa e vultosa de R$ 300.000.000,00, constata-se que a MCL foi a alienante das ações da MJ, pois: - A MCL anuiu, consentiu, deu permissão para a venda da MJ para J&F; - A MCL detinha os ativos, as participações na Eldorado, os quais, por meio de sua cisão, ocorrida apenas formalmente, foram utilizados na constituição da MJ e que foram vendidos para a J&F; Fl. 4187DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 12 - A MJ era patrimonial e financeiramente controlada pela MCL, pois na escrituração contábil da MCL havia contas de Débitos de Sócios, Empréstimos a Coligadas e Controladas e Empréstimos Mútuos especificadas para a MJ; - Uma venda de R$ 300.000.000,00 tecida por um simples acordo verbal com antecipação de R$ 60.000.000,00 depositados não na conta do vendedor formal, mas na conta do interveniente e anuente, o verdadeiro alienante, a MCL; - A MCL recebeu da J&F em 16/05 e 14/06 de 2012, 50.000.000,00 (cinquenta milhões de reais) e R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais), respectivamente, antes da autorização dos cotista, por meio de assembléia ocorrida em 27/06/2012, para a alienação das ações da MJ; - Nessa alienação, a MCL se obrigou a vender parte de seu patrimônio e caso não o vendesse deveria encerrar as atividades referentes às que estavam sendo alienadas, sob pena de responsabilidade por perdas, danos e lucros cessantes; - A MCL ficou impedida de fazer concorrência com o adquirente, durante 10 anos. Um prazo além do preconizado no código civil; - A MCL, em 2012, recebeu R$ 100.000.000,00, por intermédio de integralizações com a MCLSA, os quais foram originados da alienação da MJ e integralizados pelo MCLFIP na MCLSA, conforme será detalhado no tópico 3.3 Do pós-venda; - A MCL também recebeu recursos oriundos da alienação da MJ, por meio de empréstimos e de AFAC da MCLSA, conforme será detalhado no tópico 3.3 Do pós-venda. 16. Feitos esses esclarecimentos iniciais a respeito da operação sob análise, passo a tratar da presença dos vícios apontados pelos Embargantes. I.2. OMISSÃO A RESPEITO DA ILEGITIMIDADE PASSIVA NO VOTO VENCEDOR 17. A preliminar de ilegitimidade passiva foi citada na ementa do acórdão embargado, nos mesmos termos em que constou no acórdão proferido pela DRJ (fls. 2.631/2.734): PRELIMINAR. ILEGITIMIDADE PASSIVA. INEXISTÊNCIA. SUJEITO PASSIVO. OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA PRINCIPAL. MARCO NORMATIVO. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo e diz-se contribuinte quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador. A definição legal de sujeito passivo contribuinte é o marco normativo que orienta o trabalho de auditoria fiscal para a correta identificação no caso concreto da pessoa que deva ser submetida à imputação por meio do lançamento. Inexiste fundamento jurídico na argumentação que pretende invalidar a eleição do sujeito passivo estampada no lançamento valendo-se exclusivamente de critério temporal. Fl. 4188DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 13 18. Com efeito, tal preliminar foi expressamente analisada pelo voto vencido (fls. 3.610/3.613), mas não houve manifestação expressa a respeito pelo voto vencedor, que se limitou a fazer alusão ao fato de que a MCL teria sido a “verdadeira alienante da MJ”, sem tecer considerações específicas a respeito dos argumentos apresentados pelos Embargantes que descaracterizariam essa condição. Diante desse cenário, restou verificada a omissão no acórdão recorrido a respeito da apreciação da preliminar, vício este que originou também a contradição e a obscuridade mencionada pelos Embargantes, em função da reprodução da ementa consignada pela DRJ. Passo, então, a analisar tal preliminar, a fim de suprir o vício identificado. 19. A Embargante MCL EMPREENDIMENTOS suscitou, em suas razões recursais (fls. 2.753), a sua ilegitimidade passiva. No julgamento que resultou no acórdão embargado, concordei integralmente com as razões apresentadas pelo Ilmo. Relator para o acolhimento da preliminar, que analisou a questão da seguinte forma: Da Preliminar: Ilegitimidade Passiva da Empresa Autuada O primeiro ponto indicado pelo Contribuinte Recorrente diz respeito à ilegitimidade passiva da MCL Empreendimentos para figurar como sujeito passivo do IRPJ e CSLL exigidos por meio das autuações questionadas, pois segundo a fiscalização, a MCL Empreendimentos, conjuntamente como o Grupo MCL, perpetrou uma sequência de operações societárias visando: 1. Transferir a participação direta e indireta na Eldorado, via MJ Participações, para a MCL Fundo de Investimento em Participações; 2. Vender essa participação a J&F Investimento, por intermédio da MCLFIP, pois o ganho de capital apurado na venda desses atrivos pelo MCLFIP não são tributados; 3. Aplicar os recursos obtidos na citada venda nas empresas do Grupo MCL, por meio de aquisições, integralizações, mútuos e adiantamentos para futuro aumento de capital (AFAC). O acórdão recorrido ratifica a apontada identificação do sujeito passivo, aduzindo que constatações firmadas em planejamento tributário abusivo, como ocorre no caso ora analisado, não se reduz ao exercício de retroceder à exaustão na titularidade das ações, mas identificar exatamente qual (ou quais) dos agentes, que atuaram nos diversos negócios realizados, efetivamente executaram no plano material (fato imponível) as ações hipoteticamente previstas e, no caso, dentro dessa ótica, entendeu restar caracterizado que a MCL Empreendimentos participou, quase à exaustão, nos negócios objeto da tributação questionada, destacando, dentre eles, o relato da Autoridade Tributária que demonstrou a existência de relação negocial completa e vultosa (trezentos milhões), indicativa da correta imputação de sujeito passivo na figura do real alienante das ações da MJ participações, a saber: - A MCL anuiu, consentiu, deu permissão para a venda da MJ para J&F; - A MCL detinha os ativos, as participações na Eldorado, os quais, por meio de sua cisão, ocorrida apenas formalmente, foram utilizados na constituição da MJ e que foram vendidos para a J&F; Fl. 4189DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 14 - A MJ era patrimonial e financeiramente controlada pela MCL, pois na escrituração contábil da MCL havia contas de Débitos de Sócios, Empréstimos a Coligadas e Controladas e empréstimos Mútuos especificadas para a MJ; - Uma venda de R$ 300.000.000,00 (trezentos milhões de reais) tecida por um simples acordo verbal com antecipação de R$ 60.000.000,00 (sessenta milhões de reais) depositados não na conta do vendedor formal, mas na conta do interveniente e anuente, o verdadeiro alienante, a MCL; - A MCL recebeu da J&F em 16/05 e 14/06 de 2012, 50.000.000,00 (cinquenta milhões de reais) e R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais), respectivamente, antes da autorização dos cotistas, por meio de assembleia ocorrida em 27/06/2012, para a alienação das ações da MJ; - Nessa alienação, a MCL se obrigou a vender parte de seu patrimônio e caso não o vendesse deveria encerrar as atividades referentes às que estavam sendo alienadas, - A MCL ficou impedida de fazer concorrência com o adquirente, durante 10 anos. Um prazo além do preconizado no Código Civil; - A MCL, em, 2012, recebeu R$ 100.000.000,00 (cem milhões), por intermédio de integralizações com a MCLSA, os quais foram originados da alienação da MJ e integralizados pelo MCLFIP na MCLSA, conforme será detalhado no tópico 3.3 Do pós-venda; - A MCL também recebeu recursos oriundos da alienação da MJ, por meio de empréstimos e de AFAC da MCLSA, conforme será detalhado no tópico 3.3 Do pós-venda. Assim, conclui, ao contrário do que sustenta a recorrente, de que a autuação amolda-se ao conceito de sujeito passivo contribuinte à luz da hipótese de incidência invocada. Pois bem. Conforme já dito, a acusação (principal) é de que a Recorrente/MCL seria a real alienante das ações da MJ Participações na operação de venda aos compradores J&F, vindo a utilizar a empresa MCLFIP como um “fundo-veículo” para omitir receita não operacional decorrente do ganho de capital resultante da operação, incorrendo, assim, da prática de simulação. Em decorrência, foi lhe imputada os tributos incidentes sobre o suposto ganho de capital obtido da operação. Por sua vez, sinteticamente, a Recorrente reclama que a autoridade lançadora incorreu em erro na eleição da sujeição passiva, pois jamais foi titular, proprietária, possuidora ou detentora de qualquer direito da MJ vendido à J&F. Explica que a MJ foi constituída, em julho de 2010, pelos sócios Srs. Mário Celso e Juçara, para absorver o acervo líquido cindido da MCL, mas nunca foi ativo da MCL, havendo, inclusive, um lapso temporal significativo de dois anos entre a cisão parcial da Recorrente/MCL com a constituição da MJ, e a venda da MJ para a J&F. Ou seja, enquanto a cisão foi implementada em julho de 2010 pelos sócios Fl. 4190DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 15 da Recorrente/MCL, a venda da MJ apenas foi realizada para a J&F em julho de 2012. Ao final, pugna pelo provimento do seu recurso para que seja decretada a nulidade dos autos de infração em questão, por erro de eleição do sujeito passivo. Entendo que lhe assiste razão neste ponto. Embora a MJ tenha sido constituída pelos mesmos sócios da empresa Recorrente/MCL, é pessoa jurídica distinta dessa última, com obrigações igualmente distintas, inclusive tributárias. É bem verdade que a MJ, em sua constituição, recebeu acervo líquido destacado do patrimônio da Recorrente/MCL em cisão parcial, porém, apenas seus sócios, o Sr. Celso e a Sra. Juçara, possuíam o direito de propriedade sobre as ações da MJ, em consequência da extinção de participação correspondente na Recorrente/MCL. Ou seja, sob o ponto de vista formal, a MCL nunca foi proprietária ou detentora de qualquer direito sobre as ações da MJ e, por isso, não poderia dispor das mesmas, e nem aliená-las. Mas, a autoridade lançadora foi em outra direção, e não se apegou aos aspectos formais e sim, aos aspectos materiais, portanto, necessários analisá-los e, de um certo modo, ingressar no exame do mérito. Alega a autoridade que a MJ era patrimonial e financeiramente controlada pela MCL, pois na escrituração contábil da MCL havia contas de Débitos de Sócios, Empréstimos a Coligadas e Controladas e empréstimos Mútuos especificadas para a MJ. De fato, esses empréstimos encontravam-se registrados na contabilidade da MCL e a Recorrente/MCL não negou sua existência, porém, é de se ver que tais valores são irrisórios se comparados com o capital social de ambas as empresas e o preço de venda MJ,1 cabendo salientar que em 2014, como sugere o razão contábil da Recorrente/MCL, a MJ quitou todos os empréstimos consignados. Com referência à organização do MCL FIP e sua atuação, compulsando os autos, compreendo que de fato o MCL FIP era um fundo de investimentos em participações que foi constituído pelo Srs. Mário Celso e Juçara e registrado em 26 de agosto de 2010 na CVM, sendo pertinente e razoável os esclarecimentos da Recorrente que tal fundo foi constituído para permitir melhor gestão dos negócios e para fins sucessórios. De fato, a participação de agentes profissionais independentes em um fundo de participações, como o administrador e gestor do fundo, bem como auditores, permite um melhor acompanhamento do investimento e, muitas vezes, um melhor retorno econômico. Da perspectiva sucessória, a presença de um fundo desta natureza permite que os herdeiros possam gozar dos rendimentos do fundo, mas não necessariamente participarem ativamente da operação das sociedades investidas, protegendo essas últimas, inclusive, de eventuais disputas familiares. 1 Como se pode verificar de trechos das demonstrações financeiras/contábeis da Recorrente MCL e da MJ no período que interessa, ou seja, 2010 a 2012, os empréstimos existentes entre as mencionadas empresas variaram de R$ 26.000,00 até R$ 598.000,00, valores estes praticamente inexpressivos se comparados com o capital social das empresas que, em 2010, eram de R$ 29.028.833,00 da Recorrente/MCL (fls.91), e de R$ 49.091.000,00 para a MJ (fls. 94). Ou seja, os empréstimos da Recorrente/MCL para a MJ não superaram 1,3% do capital social desta última. Fl. 4191DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 16 Como já mencionado, o Sr. Mário Celso e a Sra. Juçara transferiram para a MCL FIP, em agosto de 2010, todas as ações que detinham na MJ. Como reconhecido pela autoridade fiscal ao comentar o contexto pós-venda da MJ. (fls. 2116 e 2117), o MCL FIP possuia investimentos diretamente em duas empresas distintas, CRPE e MCL S/A, que, por sua vez, possuiam investimentos em empresas de seguimentos variados, tais como confinamento de gado, investimentos imobiliários, etc. Em outras palavras, o MCL FIP foi constituído regularmente, e não foi desconstituído após a venda da MJ, o que é corroborado pela declaração de conformidade anexa, de julho de 2019, emitida pelo seu gestor. Ainda sobre a MCL FIP, ao consultar o website da CVM (http://sistemas.cvm.gov.br), é possível constatar a regularidade das demonstrações financeiras do MCL FIP no fim dos exercícios de 2010, 2011 e 2012, período esse que foi contemporâneo ao alegado. A atividade do MCL FIP, pelo que se percebe, cumpriu seu papel, investindo em outras sociedades, não tendo ele sido abandonado ou esvaziado. E, com referências às ressalvas apontadas nas demonstrações financeiras do MCL FIP de 2014 e 2015, penso que apenas comprovam a efetiva existência válida desse fundo em anos posteriores ao fiscalizado, que não pode ser ignorada, não sendo suficiente para lastrear a alegação dos fisco de que ele deveria ser desconsiderado. Nestes termos, a meu ver, há claro erro da sujeição passiva, pois a MCL Empreendimentos não deveria figurar no polo passivo da relação tributária, na qualidade de contribuinte. Portanto, acolho a preliminar de erro na sujeição passiva, cancelando a exigência consubstanciada nestes autos. 20. Continuo concordando com as razões expostas pelo voto vencido, acolhendo-as como razão de decidir. De fato, analisando as etapas da operação mencionadas anteriormente, verifico que a MJ foi constituída em 26/07/2010, em decorrência de cisão parcial da MCL EMPREENDIMENTOS, oportunidade em que aquela pessoa jurídica recebeu participação societária na Eldorado e quotas do JMFFIP, o qual detinha indiretamente participação na FlorestalSA via FlorestalFIP. Como bem apontou o relator do acórdão embargado, tal constituição se deu dois anos antes da operação de alienação da MJ para a J&F. Ainda que o MCLFIP fosse desconsiderado, não haveria como ser imputada à MCL EMPREENDIMENTOS a operação de alienação, pois esta não detinha qualquer participação na MJ, conforme organograma feito pela Fiscalização: Fl. 4192DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 17 21. Ou seja, sequer seria possível à Embargante MCL EMPREENDIMENTOS realizar a alienação da MJ, vez que não detinha participação societária nesta última. 22. Como se sabe, o tratamento individualizado de cada pessoa jurídica é princípio básico, tanto do ponto de vista contábil (princípio da entidade) quanto do ponto de vista jurídico (autonomia da pessoa jurídica, conforme art. 49-A do Código Civil). A desconsideração dessa regra geral somente pode ocorrer em casos excepcionais, quando há prova de que a própria segregação ou interposição das pessoas jurídicas é simulada, como se dá, por exemplo, nos casos de criação de pessoas jurídicas inexistentes de fato que exercem a mesma atividade, com a função manifesta de tão somente permitir a manutenção no regime do Simples Nacional ou no lucro presumido (Cf. Acórdão nº 1302-006.297, Rel. Cons. Paulo Henrique Silva Figueiredo, Sessão de 16/11/2022). Deste modo, a legitimidade da MCL EMPREENDIMENTOS dependeria da prova inequívoca de que a cisão ocorrida que resultou na criação da MJ teria sido simulada. 23. Porém, analisando a autuação, não verifico a referida prova. Como destacou a Embargante, a MJ vendeu por conta própria ações da Eldorado em dezembro/2010 (fls. 2.313), não havendo demonstração cabal de sua existência meramente formal. Também não se demonstrou que a venda foi acordada pela MCL EMPREENDIMENTOS antes da ocorrência da cisão parcial e constituição da MJ. O fato de haver empréstimos entre as pessoas jurídicas e de a MCL EMPREENDIMENTOS ter figurado como anuente nos contratos não leva à conclusão de que a constituição da MJ seria simulada, sendo justificada pelo fato de estarem submetidas a controle comum, razão pela qual tais elementos são insuficientes para desconsiderar a personalidade jurídica desta última. 24. Diante desses elementos, acolho os Embargos de Declaração com efeitos infringentes, para reconhecer a ilegitimidade passiva da MCL EMPREENDIMENTOS e, com isso, cancelar a exigência. II. Decadência decorrente do cancelamento da qualificação da multa de ofício 25. Os Despachos de Admissibilidade consignaram que “[...] no Acórdão embargado, com o afastamento da exasperação da multa de ofício sustentado na conclusão de ‘não ter ocorrido simulação, dolo ou fraude no caso’, o tema da decadência deveria ter sido recuperado”. Fl. 4193DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 18 De fato, prevaleceu naquele julgamento o posicionamento do Ilmo. Relator, pelo cancelamento da multa qualificada, vencido somente o Cons. Lizandro Rodrigues de Souza. Veja-se a fundamentação adotada a respeito no acórdão embargado: Multa Qualificada A fiscalização aplicou a multa qualificada de 150%, sob a alegação de que o todo por ela realizado ao longo de dois anos seria um planejamento tributário abusivo, sem nenhum preceito econômico, de forma artificial, a fim de eliminar o fato gerador do IRPJ e da CSLL. Frise-se os argumentos acima mencionados neste voto, onde restou claro, pelo menos aos olhos deste Relator, não ter ocorrido simulação, dolo ou fraude no caso, não havendo, portanto, o planejamento tributário abusivo alegado pelo fisco. Além das razões já consignadas, há mais dois elementos que devem ser evidenciados, aptos a afastar a multa qualificada. O Primeiro deles diz respeito ao fato de o MCL FIP ter indicado em sua contabilidade o IR de 15% sobre os ganhos de capital decorrentes da venda da MJ. Tal fato demonstra que não houve intenção de reduzir o IR no caso. O diferimento verificado é inerente à própria natureza do MCL FIP e, enquanto não houver alteração na legislação, é possível a fundos desta natureza ter este diferimento. A legislação atual induz investidores qualificados a se utilizarem desta figura. O segundo refere-se ao lapso temporal entre o início e fim do suposto planejamento tributário abusivo: dois anos. A cisão parcial da Recorrente/MCL ocorreu em julho de 2010, e a venda da MJ foi efetivada em julho de 2012. A meu ver, é difícil crer em uma suposta intenção da Recorrente/MCL de fraudar o fisco, quando não foi ela que deliberou sua cisão parcial em julho de 2010, reorganização esta devidamente justificada; ela jamais teve a propriedade da MJ; ela não foi um dos investidores que constituíram o MCL FIP; ela não participou da venda da MJ em um contexto societário conturbado, e suas obrigações de não-concorrência e de vender a Eucalipto não resultam na sua caracterização como vendedora da MJ; e os empréstimos por ela estendidos à MJ foram devidamente quitados pela última. Desta forma, voto por reduzir a multa para o percentual de 75%. 26. Ou seja, esta Turma Ordinária reconheceu que não houve simulação, dolo ou fraude neste caso, cancelando a multa qualificada aplicada. Porém, não analisou a repercussão deste fato na contagem do prazo decadencial, devendo ser suprida a omissão. 27. Com efeito, parte da cobrança diz respeito a fatos geradores de IRPJ e CSLL trimestrais de 30/06/2012 e 30/09/2012. Tratando-se de tributos sujeito a lançamento por homologação, a regra geral é a contagem a partir da ocorrência do fato gerador, segundo o art. 150, § 4º, do CTN, desde que (i) não haja prova da ocorrência de dolo, fraude ou simulação e (ii) o Fl. 4194DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 19 tributo seja declarado e recolhido, ainda que parcialmente. A falta cumulativa desses requisitos faz com que a contagem seja feita de acordo com o art. 173, I, do CTN, tendo como termo inicial o início do exercício seguinte ao da ocorrência do fato gerador, conforme entendimento vinculante do E. STJ: “1. O prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) conta-se do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005).” (REsp 973.733, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 12/08/2009, na sistemática do art. 543-C do CPC/73) 28. De acordo com a DIPJ do ano-calendário de 2012 (fls. 937), a Embargante MCL EMPREENDIMENTOS declarou IRPJ e CSLL a recolher no regime do lucro presumido para o segundo e o terceiro trimestres daquele período de apuração, com a menção desses valores na apuração realizada nos autos de infração (fls. 2.142), a indicar o seu recolhimento. Havendo declaração e antecipação parcial, bem como considerada a inexistência de dolo, fraude ou simulação – conforme entendimento manifestado expressamente no acórdão embargado – a contagem do prazo decadencial deve ser feita com base no art. 150, § 4º, do CTN, utilizando como termo inicial a data de ocorrência dos fatos geradores (30/06/2012 e 30/09/2012). Assim, uma vez que a ciência da autuação se deu em 01/11/2017 (fls. 2.182), tais exigências já haviam sido atingidas pela decadência, devendo ser canceladas. 29. Diante do exposto, os Embargos de Declaração devem ser acolhidos com efeitos infringentes, para cancelar as exigências de IRPJ e CSLL apurados no regime do lucro presumido, relativas ao segundo e ao terceiro trimestres do ano-calendário de 2012, em função da decadência. III. Dispositivo 30. Diante do exposto, conheço dos Embargos de Declaração, nos termos dos despachos de admissibilidade proferidos, bem como lhes dou provimento, na parte admitida, com efeitos infringentes, para que: (i) seja declarada a ilegitimidade passiva da Embargante MCL Empreendimentos e (ii) sejam canceladas as exigências de IRPJ e CSLL apurados no regime do lucro presumido, relativas ao segundo e ao terceiro trimestres do ano-calendário de 2012, em função da decadência. Assinado Digitalmente Fl. 4195DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.959 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10166.730408/2017-27 20 Eduardo Monteiro Cardoso Fl. 4196DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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11174725 #
Numero do processo: 10950.000452/95-41
Turma: Terceira Câmara
Seção: Segundo Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Wed Jun 03 00:00:00 UTC 1998
Numero da decisão: 203-00.689
Decisão: RESOLVEM os Membros da Terceira Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do Relator.
Nome do relator: MAURO WASILEWSKI

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11173805 #
Numero do processo: 10283.726643/2017-68
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 25 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2013 INOVAÇÃO QUANTO AO LANÇAMENTO NO ATO DECISÓRIO DA DELEGACIA DA RECEITA FEDERAL DE JULGAMENTO - IMPOSSIBILIDADE O dever poder de decidir conferido ao Delegado da Receita Federal de Julgamento está adstrito aos termos do lançamento efetuado pela autoridade fiscal, não cabendo-lhe aperfeiçoá-lo ou transformá-lo de qualquer forma, sob pena de transposição de sua competência legal. NULIDADE DO ATO DECLARATÓRIO. FALTA DE MOTIVAÇÃO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. A garantia constitucional de ampla defesa, no processo administrativo fiscal, está assegurada pelo direito de o contribuinte ter vista dos autos, apresentar impugnação, interpor recursos administrativos, apresentar todas as provas admitidas em direito e solicitar diligência ou perícia. RECEITA BRUTA. IPI. EXCLUSÃO. Os impostos não cumulativos cobrados, destacadamente, do comprador ou contratante, dos quais o vendedor dos bens ou o prestador dos serviços seja mero depositário, dentre os quais o Imposto sobre Produtos Industrializados, não se incluem na receita bruta das vendas de produtos industrializados. REALIZAÇÃO DA RECEITA. CRITÉRIO TEMPORAL DE RECONHECIMENTO. A receita da venda de mercadorias a pronta entrega deve ser reconhecida na entrega do bem ao comprador, quando o vendedor for o responsável pelo transporte, na entrega do bem ao transportador, quando o comprador for o responsável pelo transporte. BENEFÍCIO FISCAL. REDUÇÃO DO IMPOSTO. REDUÇÃO POR INVESTIMENTO. CUMULATIVIDADE. Os incentivos fiscais de redução de 75% e de redução por reinvestimento do imposto de renda devido, calculados sobre o lucro da exploração, previstos, respectivamente, nos arts. 1º e 3º da MP nº 2.199-14, de 2001, podem ser usufruídos concomitantemente pelo mesmo empreendimento considerado prioritário para o desenvolvimento regional na área da extinta Sudam, desde que obedecidas todas as condições estabelecidas na legislação em vigor.
Numero da decisão: 1101-001.948
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício; em dar provimento parcial ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator, para excluir da receita bruta apurada no ano-calendário de 2013, a receita das NFe emitidas no ano-calendário 2012, entregues em 2013, no valor de R$ 386.455.747,85; areclassificaçãodeimpostos(Conta41016969)novalordeR$ 1.945.275,91; e os demais ajustes credores a título de receita de venda de serviços (Conta 41011101), receita de garantia estendida (Conta 41011103) e diferença V.C. exportação (Conta 41210101). Assinado Digitalmente Jeferson Teodorovicz – Relator Assinado Digitalmente Efigênio de Freitas Júnior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Edmilson Borges Gomes, Jeferson Teodorovicz, Ailton Neves da Silva Ailton Neves da Silva (substituto[a] integral), Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira e Efigênio de Freitas Júnior (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Roney Sandro Freire Correa, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Ailton Neves da Silva.
Nome do relator: JEFERSON TEODOROVICZ

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NULIDADE DO ATO DECLARATÓRIO. FALTA DE MOTIVAÇÃO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. A garantia constitucional de ampla defesa, no processo administrativo fiscal, está assegurada pelo direito de o contribuinte ter vista dos autos, apresentar impugnação, interpor recursos administrativos, apresentar todas as provas admitidas em direito e solicitar diligência ou perícia. RECEITA BRUTA. IPI. EXCLUSÃO. Os impostos não cumulativos cobrados, destacadamente, do comprador ou contratante, dos quais o vendedor dos bens ou o prestador dos serviços seja mero depositário, dentre os quais o Imposto sobre Produtos Industrializados, não se incluem na receita bruta das vendas de produtos industrializados. REALIZAÇÃO DA RECEITA. CRITÉRIO TEMPORAL DE RECONHECIMENTO. A receita da venda de mercadorias a pronta entrega deve ser reconhecida na entrega do bem ao comprador, quando o vendedor for o responsável pelo transporte, na entrega do bem ao transportador, quando o comprador for o responsável pelo transporte. Fl. 748DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 2 BENEFÍCIO FISCAL. REDUÇÃO DO IMPOSTO. REDUÇÃO POR INVESTIMENTO. CUMULATIVIDADE. Os incentivos fiscais de redução de 75% e de redução por reinvestimento do imposto de renda devido, calculados sobre o lucro da exploração, previstos, respectivamente, nos arts. 1º e 3º da MP nº 2.199-14, de 2001, podem ser usufruídos concomitantemente pelo mesmo empreendimento considerado prioritário para o desenvolvimento regional na área da extinta Sudam, desde que obedecidas todas as condições estabelecidas na legislação em vigor. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício; em dar provimento parcial ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator, para excluir da receita bruta apurada no ano-calendário de 2013, a receita das NFe emitidas no ano-calendário 2012, entregues em 2013, no valor de R$ 386.455.747,85; a reclassificação de impostos (Conta 41016969) no valor de R$ 1.945.275,91; e os demais ajustes credores a título de receita de venda de serviços (Conta 41011101), receita de garantia estendida (Conta 41011103) e diferença V.C. exportação (Conta 41210101). Assinado Digitalmente Jeferson Teodorovicz – Relator Assinado Digitalmente Efigênio de Freitas Júnior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Edmilson Borges Gomes, Jeferson Teodorovicz, Ailton Neves da Silva Ailton Neves da Silva (substituto[a] integral), Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira e Efigênio de Freitas Júnior (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Roney Sandro Freire Correa, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Ailton Neves da Silva. RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário (efls. 708/735) interposto pelo contribuinte contra acórdão da DRJ, efls. 646/697, que julgou parcialmente procedente impugnação administrativa Fl. 749DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 3 apresentadas pelo contribuinte (efl. 114/166), referente à autuação (efls.63/79), que constituiu créditos tributários de IRPJ e CSLL, referentes ao ano calendário de 2013. Para síntese dos fatos, reproduzo o relatório do acórdão recorrido: Versa o presente processo sobre o(s) Auto(s) de Infração de fls. 63-79, relativo(s) ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica-IRPJ e Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido-CSLL, ano(s)-calendário 2013, com crédito total apurado no valor de R$ 820.283.151,75, incluindo o principal, a multa de ofício e os juros de mora, atualizados até 12/2017. De acordo com os fatos narrados pela autoridade lançadora, o sujeito passivo incorreu na(s) seguinte(s) infração(ões):  Omissão de receitas de venda e serviços;  Redução por reinvestimentos não comprovada Sobre a exigência principal foi aplicada a multa de ofício de 75 %. Para justificar a exação a Autoridade Lançadora assevera: OMISSÃO DE RECEITAS DE VENDA E SERVIÇOS INFRAÇÃO: OMISSÃO DE RECEITAS [...] contribuinte informou na DIPJ/2014, ano calendário de 2013, nas linhas 01, 03 e 04, das fichas 06A e 07A, o valor total de R$ 18.495.607.992,50, entretanto, a somatória dos valores das notas fiscais eletrônicas (nf-e) relativos à receita bruta tributável no período, abrangendo os CFOPs exclusivamente de vendas, indica o valor de R$ 19.555.515.767,02, configurando assim uma diferença de R$ 1.059.907.774,50, caracterizada material e legalmente como omissão de receita. [...] o contribuinte apresentou comunicação em 18/08/2017, onde, em linhas gerais, confessa haver a divergência apontada pelo fisco, e que a mesma se deve ao fato da empresa reconhecer suas receitas como realizadas apenas quando da entrega dos bens vendidos aos seus clientes (tradição). [...] a desoneração tributária unilateral de parte da receita bruta, praticada pelo contribuinte, não foi aceita pelo fisco [...] [...] deveria o mesmo ter apresentado listagem com todas as notas fiscais eletrônicas que não foram devidamente oferecidas à tributação, no anocalendário de 2013, e que só teriam integrado a base de cálculo do IRPJ e da CSLL, no período de apuração subsequente [...] [...] deveria o sujeito passivo ter apresentado os contratos de compra e venda dos bens e mercadorias vendidos, que não integraram a receita tributável no período, para que se comprovasse as condições de vendas [...] [...] deveria o contribuinte ter apresentado demonstrativo analítico do CPV — Custo do Produto Vendido no período, estando ali expresso o custo dos produtos vendidos concernente aos produtos vendidos integrantes das notas fiscais de vendas (receita bruta) e também outro demonstrativo com o CPV - Custo dos Produtos Vendidos, relativo apenas às vendas consideradas realizadas pela pessoa jurídica em função do seu critério de reconhecimento da receita envolvendo a tradição. [...] deveria o contribuinte ter apresentado demonstrativo com o estoque final de seus produtos acabados para que se comprovasse não estar os produtos referentes as vendas não realizadas, conforme seu entendimento, integrando o custo dos produtos vendidos no período. Fl. 750DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 4 [...] o estoque final apresentado pela pessoa jurídica em sua EFD — Escrituração Fiscal Digital, não apresenta a discriminação acima aludida. [...] examinou-se todo o período seguinte (2014), para que se localizasse em que mês teria sido considerada como realizada a receitas das vendas relativas a 2013, mas um exame procedido na EFD da empresa possibilitou constatar não haver notas fiscais de períodos anteriores lançadas na escrita fiscal do contribuinte [...] As medidas acima listadas deveriam ter sido adotadas pelo sujeito passivo para que não restasse dúvida sobre a não ocorrência da omissão de receita. [...] EMPRESAS INSTALADAS NA ÁREA DA SUDAM/ADA INFRAÇÃO: REINVESTIMENTOS - INOBSERVÂNCIA DOS REQUISITOS LEGAIS O contribuinte foi intimado [...] a esclarecer sobre o fato de ter informado valores na linha 77, ficha 10, da DIPJ/2014, e não ter indicado valores na linha 16, da ficha 08, da aludida DIPJ, visto existir um liame intrínseco entre as duas informações. [...] a pessoa jurídica alega [...] não existir para ela, nenhum tipo de vínculo entre as informações, por isso nada informou na linha 16, da ficha 08, da DIPJ/2014, e não apresentou, apesar de instado para tal, fundamento legal para a adoção da medida. [...] o valor informado pela empresa na linha 77, ficha 10, da DIPJ/2014, refere-se à redução por reinvestimento correspondente a 30% do valor do imposto devido, calculado sobre o lucro da exploração, decorrente do resultado dos empreendimentos industriais na área da SUDAM, e a pessoa jurídica também detinha no período, direito ao benefício fiscal de redução do IRPJ (75%). Como toda atividade incentivada que tem como base de cálculo do benefício fiscal, o lucro da exploração, a pessoa jurídica deve discriminar os resultados relativos as diversas atividades sujeitas ao incentivo fiscal, pois pode ocorrer de ela ter atividades sujeitas a isenção ou redução do imposto e outras não, [...] [...] A legislação inclusive permite que, caso a pessoa jurídica não possua sistema de contabilidade que ofereça condições para apuração do lucro da exploração por atividade, que este possa ser calculado com base na relação entre as receitas líquidas das atividades e a receita líquida total. [...] a pessoa jurídica informou a redução por reinvestimento mas não informou a receita líquida dessa atividade com redução por reinvestimento, o que leva a inferir não ter direito a ela a esta redução visto não existir a receita da receita incentivada correspondente. [...] as instruções de preenchimentos da DIPJ/2104, estabelecia que não poderia ser informado na linha 16, da ficha 08, os valores das receitas líquidas relativas as outras atividades da empresa. [...] os dois benefícios fiscais (Redução por Reinvestimento e Redução de 75%), nada obstante apresentarem como base de cálculo, o lucro da exploração, para a aquisição do direito de usufruí-los deve a pessoa jurídica apresentar diferentes projetos econômico-financeiros junto à SUDAM, posto que o fundamento de cada um são distintos. [...]a fiscalização em nenhum momento contestou o direito do contribuinte de usufruir dos dois benefícios fiscais (redução por reinvestimento redução de 75%), o que se cobra aqui [...] é o valor do imposto não recolhido ao tesouro nacional, decorrente da redução por reinvestimento inexistente, por não ter sido devidamente comprovada a correspondente receita líquida da atividade com redução por reinvestimento. Fl. 751DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 5 O sujeito passivo tomou ciência do lançamento em 27/12/2017 (fls. 85). Entretanto, os documentos de suporte dos Autos de Infração só foram disponibilizados em Acórdão n.º 01-37.382 DRJ/BEL Fls. 5 5 03/01/2018, razão pela qual a unidade de origem estendeu o início do prazo recursal para 04/01/2018 (fls. 91-106). O sujeito passivo apresentou sua impugnação em 01/02/2018 (fls. 112- 163), na qual alegou em síntese que: [...] 2.1.2. DA NULIDADE POR CERCEAMENTO DE DEFESA [...] foi intimada a justificar e explicar por escrito a divergência existente entre o valor das notas fiscais eletrônicas de vendas[...] [...] na ocasião, a d. autoridade fiscal indicou que o valor das notas fiscais de venda constantes da EFD era de R$ 19.557.815.826,50, sem oferecer sua composição, ao passo que agora, quando dos lançamentos, indica o valor de R$ 19.555.515.797,02. [...] [...] a Impugnante apresentou petição (fls. 38 a 41) esclarecendo que reconhece a receita de suas atividades, em atendimento ao princípio da competência, quando da efetiva tradição das mercadorias vendidas [...] [...] a d. autoridade fiscal não apresentou qualquer outro questionamento sobre a matéria, surpreendendo a empresa com os Autos de Infração combatidos em que alega que caberia ao sujeito passivo a apresentação de listagem das notas fiscais que foram oferecidas à tributação no período subsequente, bem como dos contratos de compra e venda referentes a tais notas fiscais[...] [...]a fiscalização alega ainda que a Impugnante deveria apresentar também demonstrativo analítico do custo do produto vendido– CPV no período e demonstrativo com estoque final dos produtos acabados [...] Nesse contexto, resta clara a nulidade do procedimento adotado pela fiscalização, uma vez que em nenhum momento a Impugnante foi intimada a apresentar citada documentação [...] [...] tendo em vista que a d. autoridade fiscal, na intimação de 08/08/2017, nem mesmo ofereceu à Impugnante a composição do valor indicado como sendo o somatório das quantias das notas fiscais relativas às vendas do período, não seria nem mesmo possível que a empresa fizesse a comprovação citada nos lançamentos como ausente. [...] o número indicado pela fiscalização como correspondente ao somatório das notas fiscais de vendas, quando da intimação de 08/08/2017, diverge do número apresentado nos lançamentos, donde se verifica sua insustentabilidade e, consequentemente, a inviabilidade de a Impugnante realizar a comprovação questionada. [...] no que tange à alegação da fiscalização de que a análise da EFD do anocalendário 2014, em que não se localizou notas fiscais emitidas em 2013, ao contrário do quanto faz crer a d. autoridade fiscal, não serve a fragilizar a explicação dada pela Impugnante em 18/08/2017. [...] se a diferença questionada diz respeito a documentos fiscais emitidos em 2013 e constantes da EFD desse período, jamais seria possível localiza-los na EFD de 2014. [...] Dessa forma, resta evidente a ofensa aos direitos à ampla defesa e ao contraditório [...] 3. DO MÉRITO 3.1. DA RECEITA LÍQUIDA DAS ATIVIDADES Fl. 752DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 6 [...] a quantia declarada nas linhas 01, 03 e 04 das Fichas 06A e 07A foi composta pelas seguintes contas contábeis, conforme atesta a documentação contábil anexa (Doc. 06): [...] a Fiscalização deveria descontar do valor de R$ 19.555.515.767,02, os montantes referentes a IPI, a NFes relativas a mercadorias que não foram entregues aos clientes em razão de recusa destes (sit return), a NFes cujas mercadorias foram entregues apenas em 2014, implicando que a receita fosse reconhecida apenas neste período, bem como outros ajustes tais como reclassificações e abatimentos. [...] cabia à d. autoridade fiscal computar ao número encontrado partindo das NFes emitidas em 2013 outros montantes que se referem a receita deste período, tais como a receita de NFes emitidas em 2012, cujas mercadorias foram entregues apenas em 2013, e a receita de serviços e de garantia estendida. [...] fossem considerados os aspectos acima citados, teria a Fiscalização constatado que inexiste diferença de receita tributada a menor, e sim receita declarada e tributada a maior, conforme quadro abaixo: Fl. 753DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 7 [...] 3.2.1. DAS NOTAS FISCAIS EMITIDAS EM 2012 [...] a fiscalização erroneamente computou notas fiscais emitidas em 2012, no total de R$ 1.957.834,27, que não impactaram a receita do ano-calendário 2013 (Doc. 07). Para além da listagem [...], apresenta-se a título exemplificativo duas notas fiscais em mencionada situação (Doc. 08). [...] 3.2.2. DA EXCLUSÃO DO IPI [...] a Fiscalização, no levantamento que fez das notas fiscais junto ao SPED, considerou o valor total desses documentos, sem realizar a devida exclusão da parcela do IPI. [...] a título exemplificativo, as notas fiscais nos 34292 e 36784 (Doc.09), as quais na planilha da fiscalização constante às fls. 83 foram consideradas nos valores de R$ 1.132.293,60 e R$ 409.200,00, respectivamente [...] [...] cabia à d. autoridade fiscal descontar as parcelas relativa ao IPI, nos totais de R$ 188.715,60 e R$ 68.200,00, devidamente destacado nas notas fiscais (Doc. 09). [...] o próprio manual de preenchimento da DIPJ 2014/2013 é claro no sentido de que os valores correspondentes a ICMS-ST e IPI, uma vez não se tratando de receita do contribuinte, não devem ser informados na linha 03 das Fichas 06A: [...] a Impugnante informa que acabou por não os descontar da quantia declarada na linha 03, eis que os informou na linha 11 de ICMS. [...] conforme se depreende da composição da receita declarada nas linhas 01, 03 e 04 das Fichas 06A e 07A, as parcelas relativas ao IPI no total de R$ 233.853.350,50 (Doc. 06 – Conta 41019507) foram desconsideradas quando do preenchimento da linha 03. [...] 3.2.3. DO SIT RETURN DJ [...] para que possam ser comparáveis a receita declarada pela Impugnante nas linhas 01, 03 e 04 das Fichas 06A e 07A da DIPJ 2014/2013, e o valor de receita obtido pelo Fisco a partir das notas fiscais emitidas pela empresa em 2013, há de ser descontado deste último o montante de R$ 296.691.123,43, referente ao retorno de mercadorias não entregues ao destinatário (Doc. 10). [...] no caso de sit return, como o retorno da mercadoria se dá após o prazo legal de 24 horas para cancelamento, são emitidas notas fiscais de entrada de forma a anular as notas fiscais de saída emitidas anteriormente. No relatório de documentos fiscais referentes a mercadorias objeto de retorno sem entrega ao cliente anexo ao presente, no total de R$ 296.691.123,43, há a vinculação do documento de saída com a correspondente nota fiscal de entrada, comprovando-se o retorno do produto (Doc. 10), sendo que a Impugnante apresenta ainda amostragem de jogos de notas fiscais de saída e suas correspondentes notas fiscais de entrada, quando do sit return (Doc. 11). [...] 3.2.4. DO MOMENTO DE RECONHECIMENTO DA RECEITA [...] A Impugnante anexa ao presente a listagem de documentos fiscais emitidos em 2013, cujas entregas de mercadorias deram-se em 2014, no total de R$ 692.119.111,59 (Doc. 12), e a listagem de documentos fiscais emitidos em 2012, cujas entregas de mercadorias deram-se em 2013, no total de R$ 386.483.846,78 (Doc. 13), e que devem, respectivamente, ser excluído e adicionado ao valor obtido pelo Fisco a partir de levantamento das NFes constantes do SPED. No que tange às notas fiscais emitidas em 2013, com entrega no ano-calendário seguinte, a Impugnante anexa à presente amostragem de canhotos de entrega que comprovam que esta somente se deu em 2014 (Doc. 14). [...] O art. 43 da Lei nº 5.172/66 (Código Tributário Nacional – “CTN”) define o fato gerador do IRPJ como os acréscimos patrimoniais decorrentes do capital, do trabalho ou de quaisquer outras fontes de produção das pessoas jurídicas. [...] Fl. 754DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 8 somente há acréscimo patrimonial se houver incorporação de riqueza nova ao patrimônio já existente do contribuinte. Por essa razão, a matéria tributável pelo IRPJ, e consequentemente pela CSLL, pressupõe o embate das receitas auferidas com os custos e despesas necessários à manutenção da fonte produtora, pois somente assim é possível mensurar o aumento patrimonial do contribuinte. Esse aumento/acréscimo patrimonial auferido pelas pessoas jurídicas é denominado “lucro”. [...] art. 37, §1º, da Lei nº 8.981/1995, que estabelece que a determinação do lucro real será precedida da apuração do lucro líquido com observância das disposições das leis comerciais: [...] Também corrobora a assertiva de que as normas atinentes ao lucro real estão ligadas às normas comerciais, o disposto nos artigos 7º e 67, XI, do Decreto-Lei nº 1.598/77: [...] [...] é vedado à legislação tributária alterar a definição, o conteúdo e o alcance das normas de direito privado. [...] A Estrutura Conceitual para Elaboração e Divulgação de Relatório Contábil/Financeiro CPC 00 (R1), tratou do momento em que se consideram realizadas as receitas e, principalmente, do regime de competência: OB17. O regime de competência retrata com propriedade os efeitos de transações e outros eventos e circunstâncias sobre os recursos econômicos e reivindicações da entidade que reporta a informação nos períodos em que ditos efeitos são produzidos, ainda que os recebimentos e pagamentos em caixa derivados ocorram em períodos distintos. Isso é importante em função de a informação sobre os recursos econômicos e reivindicações da entidade que reporta a informação, e sobre as mudanças nesses recursos econômicos e reivindicações ao longo de um período, fornecer melhor base de avaliação da performance passada e futura da entidade do que a informação puramente baseada em recebimentos e pagamentos em caixa ao longo desse mesmo período. [...] Assim, no contrato de compra e venda, independentemente da data de emissão do documento fiscal, a receita deve ser reconhecida quando da efetiva entrega da mercadoria, vez que até citado momento a venda não está perfeitamente aperfeiçoada. [...] Ao celebrar o contrato de compra e venda, o vendedor não transfere a propriedade da coisa, mas se obriga a transferi-la, por meio da tradição [...] [...] vale nos socorrer do CPC 30 – Comitê de Pronunciamento Técnico, que dispõe sobre o reconhecimento de receitas na contabilidade da entidade: “A receita é definida no Pronunciamento Conceitual Básico Estrutura Conceitual para Elaboração e Divulgação de Relatório Contábil-Financeiro como aumento nos benefícios econômicos durante o período contábil sob a forma de entrada de recursos ou aumento de ativos ou diminuição de passivos que resultam em aumentos do patrimônio líquido da entidade e que não sejam provenientes de aporte de recursos dos proprietários da entidade.(...) (...) A questão primordial na contabilização da receita é determinar quando reconhecê-la. A receita deve ser reconhecida quando for provável que benefícios econômicos futuros fluam para a entidade e esses benefícios possam ser confiavelmente mensurados”." Nesse caminho, o reconhecimento das receitas na venda de produtos, está definido pelo item 14 do CPC 30 da seguinte forma: “Venda de bens 14. A receita proveniente da venda de bens deve ser reconhecida quando forem satisfeitas todas as seguintes condições: Fl. 755DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 9 (a) a entidade tenha transferido para o comprador os riscos e benefícios mais significativos inerentes à propriedade dos bens; (b) a entidade não mantenha envolvimento continuado na gestão dos bens vendidos em grau normalmente associado à propriedade e tampouco efetivo controle sobre tais bens; (c) o valor da receita possa ser mensurado com confiabilidade; (d) for provável que os benefícios econômicos associados à transação fluirão para a entidade; e (e) as despesas incorridas ou a serem incorridas, referentes à transação, possam ser mensuradas com confiabilidade”. Para arrematar, ainda vale transcrever o exemplo ilustrativo trazido pelo CPC 30 a respeito de venda de produto para entrega no pagamento final: “Apêndice A – Exemplos ilustrativos 3. Vendas para entrega no pagamento final (lay away sales), segundo as quais as mercadorias são entregues somente quando o comprador fizer o pagamento final de uma série de prestações. A receita de tais vendas deve ser reconhecida quando da entrega da mercadoria correspondente. No entanto, quando a experiência indicar que a maior parte dessa modalidade de venda é concretizada, a receita pode ser reconhecida a partir do momento em que uma parcela significativa do valor total do objeto da compra tenha sido recebida pelo vendedor, desde que as mercadorias estejam disponíveis nos estoques, devidamente identificadas e prontas para entrega ao comprador”. Sobre o momento do reconhecimento de receita, a outra conclusão não chegaram os professores Eliseu Martins, Ernesto Rubens Gelbke, Ariovaldo dos Santos e Sérgio de Iudícibus, no festejado livro Manual de Contabilidade Societária, da FIPECAF – Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras FEA/USP: “Como já mencionado anteriormente (Capítulo 4, item 4.2.2, letra b), o momento do reconhecimento da receita de vendas deve atender todas as condições expostas no item 14 do CPC 30 – Receitas, devendo ser o da transferência dos riscos e benefícios mais significativos da propriedade de tais bens pelo comprador, que geralmente coincide com a transferência da titularidade legal ou transferência da posse do ativo para o comprador. Em muitas empresas industriais e empresas comerciais, a contabilização de vendas pode ser feita pelas notas fiscais de vendas, já que o momento da entrega dos produtos é praticamente simultâneo ao da emissão das notas fiscais. Ocorre comumente, todavia, uma pequena defasagem entra a data da emissão da nota fiscal e a da entrega dos produtos, quando a condição de venda é a entrega no estabelecimento do comprador. Nesse caso, devem ser registradas como receitas somente na entrega dos produtos, quando da passagem da posse do ativo para o comprador. Essa defasagem, na verdade, só gera algum problema na data do Balanço, relativamente às vendas já faturadas, mas ainda não entregues (...)” [...] nos contratos de compra e venda os riscos correm por conta do vendedor até a data da entrega da mercadoria ao comprador, consoante expressa previsão do artigo 492 do CC [...] [...] Não é de outra forma que vem se manifestação a própria Receita Federal, como se depreende da Solução COSIT n. 114/2014, da qual destaco o seguinte trecho: Fl. 756DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 10 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP PRESTAÇÃO DE SERVIÇO. REGIME DE COMPETÊNCIA. CANCELAMENTO DE NOTAS FISCAIS. NÃO REALIZAÇÃO DE RECEITAS. NÃO AUFERIMENTO DE RECEITA. VENDAS CANCELADAS. O fato gerador da Contribuição para o PIS/Pasep no regime de apuração não cumulativa é o auferimento de receitas pelas pessoas jurídicas, o que ocorre quando as receitas são consideradas realizadas. A receita é considerada realizada e, portanto, passível de registro pela Contabilidade, quando produtos ou serviços produzidos ou prestados pela entidade são transferidos para outra entidade ou pessoa física com a anuência destas e mediante pagamento ou compromisso de pagamento especificado perante a entidade produtora. No que diz respeito à prestação de serviços, no regime de competência, a receita é considerada realizada e, portanto, auferida quando um serviço é prestado com a anuência do tomador e com o compromisso contratual deste de pagar o preço acertado, sendo irrelevante, nesse caso, a ocorrência de sua efetiva quitação. [...] Oportuno mencionar que a Impugnante, para fins de apuração da Contribuição ao PIS e da COFINS, optou por recolher as contribuições exclusivamente com base na emissão do documento fiscal, ainda que não tivesse ocorrido o reconhecimento contábil da receita em razão da não concretização da tradição e da venda. Contudo, a decisão da empresa de o fazê-lo deu-se, exclusivamente, em razão de as contribuições serem apuradas a partir da EFD, que parte justamente da base de notas fiscais emitidas, sem que possa ser feito um ajuste para exclusão dos documentos fiscais relativos a mercadorias não entregues, bem como do fato desse procedimento não causar qualquer prejuízo ao Erário público (ao revés, beneficia-o, pois implica em adiantamento de tributos). [...] 3.2.4.1. Do Confronto das Despesas e Receitas Na remota hipótese de ser rechaçado o entendimento [...], cumpre atentar para o equívoco no lançamento, eis que deixou a d. autoridade fiscal de imputar ao ano- calendário 2013 os custos vinculados a tais receitas. [...] Nesse ponto, cumpre mencionar ser uma completa inversão do ônus da prova a alegação da fiscalização de que caberia à Impugnante comprovar que o custo dos produtos que foram objeto de notas fiscais emitidas em 2013, mas entregues somente em 2014, não constaria do custo deduzido em 2013. 3.2.4.2. Do Efeito da Postergação da Tributação Novamente, na remota hipótese de ser rechaçado o entendimento [...] cabe destacar que o lançamento fiscal correto seria apenas cobrar os juros e a multa de mora pela postergação da tributação. [...] a Impugnante reconheceu e tributou no ano-base de 2014 o lucro relativo às notas fiscais emitidas em 2013 cujas entregas de mercadorias ocorreram no ano de 2014, conforme atesta a ECF de 2014 (Doc. 15), [...] Nesse caso, a d. autoridade fiscal deveria ter observado que se operou apenas o efeito da postergação da tributação. [...] 3.2.5. DEMAIS AJUSTES Por fim, vale observar que também são necessários outros ajustes ao valor obtido pela d. autoridade fiscal a partir das NFes de venda constantes do SPED (Docs. 06 e 16), para verificação da receita do período, quais sejam: Fl. 757DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 11 [...] 3.3. DO PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS DA REDUÇÃO POR REINVESTIMENTO [...] o direito ao benefício à redução por reinvestimento encontra-se vinculado ao atendimento dos seguintes requisitos: (i) Titularidade de empreendimento industrial ou agroindustrial em operação na área de atuação da SUDAM ou da SUDENE; (ii) Enquadramento do empreendimento em um dos setores da economia considerados em ato do Poder Executivo prioritários para o desenvolvimento regional; (iii) Depósito no Banco da Amazônia ou no Banco do Norte, conforme o caso, para reinvestimento, de 30% do valor do imposto devido, exceto adicional, pelo referido empreendimento, calculado sobre o lucro da exploração, acrescido de 50% de recursos próprios; e (iv) Aprovação da SUDAM ou SUDENE, conforme o caso, do projeto técnico-econômico de modernização ou complementação de equipamento, envolvendo a aplicação dos recursos em máquinas e equipamentos, incluídos os custos de montagem e instalações. [...] [...] a empresa é titular de empreendimento industrial localizado na área da SUDAM, que se enquadra em um dos setores considerados prioritários para o desenvolvimento regional. Ao longo de 2013, a Impugnante adquiriu máquinas e equipamentos, no total de R$ 19.138.149,65 (vide listagem das páginas 24 a 26 do Projeto de Reinvestimento apresentado à SUDAM – Doc. X), com o objetivo de promover a ampliação de seu parque fabril, bem como a modernização de seu processo de produção. Assim, em 27 de março de 2014, buscando se beneficiar do incentivo fiscal da redução por reinvestimento, a Impugnante efetuou o depósito de R$ 19.123.586,47 no Banco da Amazônia, sendo R$ 12.749.057,47 referentes à redução do IRPJ, e R$ 6.374.528,82 relativos a recursos próprios, conforme atesta o extrato bancário anexo (Doc. 17). Passo seguinte, em 16 de julho de 2014, a Impugnante protocolou perante a SUDAM seu projeto técnico-econômico de reinvestimento de 30% do IRPJ, pleiteando então o direito à redução por reinvestimento (Doc. 18), o qual foi concedido pela Resolução nº 30, de 12 de setembro de 2014, publicada no Diário Oficial de 18 de setembro de 2014 (Doc. 19) e abaixo reproduzida: [...] Dessa feita, não resta dúvida de que a Impugnante tinha direito ao benefício de redução do IRPJ por reinvestimento de 30% do tributo devido pelo empreendimento que detém na área da SUDAM, nos termos do cálculo abaixo: Fl. 758DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 12 [...] esse mesmo empreendimento/parque fabril da Impugnante possuía diversos outros projetos técnico-econômicos de implantação, diversificação e ampliação (vide listagem de projetos na página 09 do Projeto de Reinvestimento), vinculados à industrialização de produtos comercializados pela Impugnante, que lhe asseguravam o benefício da redução de 75% do IRPJ, nos termos do artigo 1º da Medida Provisória nº 2.119-14/2001: [...] [...] as máquinas e equipamentos adquiridos no contexto do Projeto de Reinvestimento, buscando ampliar e modernizar o parque fabril da Impugnante localizado na área da SUDAM geraram receitas que estão vinculadas aos projetos de implantação, diversificação e ampliação relacionados à industrialização de produtos beneficiados com a redução de 75% do IRPJ. Portanto, tem-se que, no caso da Impugnante, a mesma receita líquida da atividade com redução de 75% corresponde também à receita da atividade com redução por reinvestimento. [...] a receita líquida da atividade com redução por reinvestimento, no caso da Impugnante, confunde-se com a receita líquida da atividade com redução de 75%, razão pela qual foi informada exclusivamente na linha 10, da Ficha 08, da DIPJ, relativa a “receita líquida da atividade com redução de 75%”, sob pena de distorcer o total da receita líquida do período e o cálculo do lucro da exploração. E nem se alegue que a receita da atividade com redução por reinvestimento deveria ser necessariamente distinta das outras receitas incentivadas, pois o próprio Manual de Preenchimento da DIPJ 2014/2013 reconhece tal possibilidade quando observa que na linha 16 (receita líquida da atividade com redução por reinvestimento) não podem ser informados valores já informados nas linhas 01 a 15, da mesma Ficha 08 referentes a incentivos outros (Doc. 20). [...] em obediência ao princípio da verdade material, mesmo que a Impugnante, ao não declarar qualquer montante na linha 16, da Ficha 08, da DIPJ 2014/2013, tivesse se equivocado no preenchimento dessa obrigação acessória, o que se admite apenas por amor à argumentação, uma vez comprovado o atendimento de todos os requisitos do incentivo à redução por reinvestimento, não prosperaria a glosa da redução do IRPJ. [...] 3.4. DA POSTERIOR JUNTADA DE DOCUMENTOS [...] é lícito à parte apresentar todos os argumentos e provas que lhe aproveitem, ainda quando já apresentada a Impugnação no prazo estabelecido para tanto. [...] Ademais, enquanto não houver decisão de mérito prolatada, a submissão de novas provas a seu juízo não Fl. 759DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 13 traz quaisquer prejuízos, pelo contrário, sua análise é obrigação da autoridade julgadora. [...] Para comprovar o alegado o contribuinte juntou à impugnação os documentos de folhas 164-429, e ainda os arquivos digitais: doc_comprobatorios01.rar; doc_comprobatorios02.rar, doc_comprobatorios03.rar, doc_comprobatorios04.rar,: doc_comprobatorios05.rar, doc_comprobatorios06.rar, doc_comprobatorios07.rar, doc_comprobatorios08.rar e doc_comprobatorios09.rar (fls. 430-470) O processo retornou em diligência à unidade de origem para que essa adotasse as seguintes providências (fl. 479-780), ipsis literis: 1. Verificar se a relação de NFe de mercadorias entregues em 2014, trazida pelo sujeito passivo, contempla efetivamente as notas fiscais de vendas emitidas em 2013 cujas mercadorias foram entregues no ano subsequente; 2. Na hipótese aventada acima, identificar junto à ECD o momento da realização da receita e do reconhecimento do CMV; 3. Juntar ao processo a ECD e ECF, referente ao ano-calendário 2013; 4. Informar se a receita bruta tributável, extraída das notas fiscais de vendas, objeto do lançamento, inclui o destaque de IPI cobrado separadamente do comprador. Em caso positivo, apurar a receita bruta com a exclusão do IPI, segregando (i) as notas fiscais emitidas no ano-calendário 2012 incluídas no lançamento e (ii) as notas fiscais emitidas em 2013, cuja entrega da mercadoria se comprove entregue no ano seguinte; 5. Intimar o contribuinte a justificar e comprovar, mediante documentação hábil e idônea, a redução da receita bruta das NFe de venda, a título de Nfes de mercadorias c/ recusa (sit return), considerando para tanto a existência de campo próprio para informação das vendas cancelamentos, devoluções e descontos incondicionais, na apuração da Receita Liquida das Atividades na DIPJ; 6. Intimar o contribuinte a justificar e comprovar, mediante documentação hábil e idônea, a reduções da receita bruta das NFe de venda, a título de Abatimento (Conta 41018101), Reclassificação-Devolução (Conta 41016969) e Reclassificação- Outros (Conta 41016969), considerando para tanto a existência de campo próprio para informação das vendas cancelamentos, devoluções e descontos incondicionais, na apuração da Receita Liquida das Atividades na DIPJ; 7. Em relação aos dois itens anteriores, verificar a pertinência das alegações do sujeito passivo, sob a ótica da ECD e uso do saldo das contas dessa escrituração na apuração do resultado tributável; 8. Manifestar-se, com base nova documentação apresentada, ou outra que entender necessária, sobre a efetividade da concorrência entre a Receita da Atividade com Redução de 75% da DIPJ (Linha 08/10) e a Receita da Atividade com Redução por Reinvestimento. Para dar cabo a diligência a unidade de origem intimou o contribuinte a (fl. 499): 1.1 – Apresentar relação da NFe de vendas emitidas em 2013 e entregues a seus adquirentes em 2014, e informar à luz da EFD – Escrituração Fiscal Digital em que meses foram registradas as respectivas notas fiscais; 1.2 – Apresentar indicação do momento, no caso acima, em que foi considerada realizada a receita e reconhecido o CPV/CMV, conforme registrado na ECD – Escrituração Contábil Digital do respectivo período; 1.3 – Apresentar documentação hábil e idônea, que Fl. 760DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 14 justifique e comprove a redução da receita bruta expressa das NFe de venda, a título de Nfes de mercadorias c/ recusa (sit return), informando ainda as contas contábeis onde estão lançados os valores da retro aludida redução; 1.4 Apresentar documentação hábil e idônea, que justifique e comprove a redução da receita bruta das NFe de venda, a título de Abatimento – Conta: 41018101, Reclassificação-Devolução – Conta: 41016969, e Reclassificação-Outros – Conta: 410166969. Em resposta, o contribuinte assim se pronunciou: [...] para além do atendimento aos itens do Termo de Intimação, a Requerente reapresenta os documentos não pagináveis acostados à Impugnação (Doc. 02). [...] 1.1 [...] [...] a Requerente anexa planilha com a relação de NFe de vendas emitidas em 2013 e entregues aos adquirentes em 2014, com a devida indicação dos meses em que os documentos foram registrados na EFD, que correspondem aos meses de emissão das notas fiscais (Doc. 03). 1.2 [...] [...] a Requerente indica, no próprio documento apresentado para atendimento ao item 1.1 (Doc. 03), os meses de 2014 em que, na ECD – Escrituração Contábil Digital, realizada a correspondente receita e reconhecido respectivo CPV/CMV. [...] existem situações em que ocorre a saída da mercadoria, mas ela retorna à fábrica, sem que tenha havido a tradição do bem, em razão de diversos fatores, [...] 1.3 [...] Em referidos casos, muitas empresas, por reconhecerem a receita de venda de bens no momento da emissão da nota fiscal, utilizam-se de um ajuste contábil costumeiramente denominado “cut off”, pelo qual excluem da receita bruta já reconhecida a parcela da venda cujos riscos e benefícios da propriedade não foram concluídos até o encerramento do exercício. Ocorre que o sistema contábil da Requerente foi desenvolvido de forma a só reconhecer a receita quando da efetiva tradição da mercadoria vendida [...]. Por conseguinte, nas hipóteses em há “operação de retorno de mercadoria não entregue” (“sit return”), a receita que seria oriunda daquela operação nem mesmo chega a ser reconhecida contabilmente pela Requerente, ainda que não seja possível o cancelamento da nota fiscal de saída por ter o retorno da mercadoria se dado após o prazo legal de 24 horas, sendo necessária a emissão de uma nota fiscal de entrada para anulação do efeito fiscal do documento fiscal emitido anteriormente. Assim, vislumbra-se que não há registro contábil que corresponda a uma suposta redução de receita bruta considerando os valores de sit return, eis que, reiterase, a receita é contabilizada quando se dá a efetiva tradição, inexistindo registro de receita de vendas que são objeto de sit return justamente por não existir a entregada da mercadoria ao destinatário do documento fiscal de saída. [...] as operações de sit return não se confundem com uma devolução de mercadorias que, compondo a receita do período, são devidamente deduzidas em linhas específicas da DIPJ. [...] constam às fls. 215 a 270 dos autos relatório de documentos fiscais referentes a mercadorias objeto de retorno sem entrega ao cliente no total de R$ 296.691.123,43, com a devida vinculação do documento de saída com a correspondente nota fiscal de entrada, comprovando-se o retorno do produto. Já às fls. 271 a 293 foi acostada amostragem de jogos de notas fiscais de saída e suas correspondentes notas fiscais de entrada, quando do sit return. Fl. 761DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 15 1.4 [...] No que tange aos valores de redução da receita bruta das NFe de venda relativos a Abatimento – Conta 41018101, a Requerente esclarece que possui uma política de oferecer abatimentos de preço a clientes específicos, quando atendidas determinadas condições e em certos períodos. Essas situações são registradas na Conta 41018101 (Abatimentos) e totalizaram, em 2013, o valor de R$ 30.641.242,23. [...] apresenta planilha denominada “Clientes e Condições” indicando quais foram os clientes beneficiados em 2013 com abatimentos, as datas de início e fim das condições a serem atendidas, e os valores de abatimentos concedidos (Doc. 04). Quanto aos valores relativos a redução da receita bruta das NFe de venda a título de Reclassificação-Devolução – Conta: 41016969, bem como a título de Reclassificação-Outros – Conta: 410166969, cumpre inicialmente esclarecer que a Conta 41016969 é utilizada para registro dos tributos incidentes sobre a receita de venda, e.g., ICMS, IPI, etc. Entretanto, em determinadas situações, seja por cancelamento das vendas com devolução das mercadorias, seja em razão da concessão de benefícios fiscais, há o estorno de valores originalmente contabilizados na Conta 41016969. Sãos os casos de Reclassificação-Devolução e Reclassificação-Outros. Nessa toada, os montantes referentes a Reclassificação-Devolução, que em 2013 totalizaram R$ 191.634.738,71, conforme relação anexa (Doc. 05), referem-se a estorno de impostos incidentes sobre vendas que acabaram sendo objeto de devolução. Vale dizer que os montantes referentes à receita líquida de operações canceladas são contabilizados em outra conta contábil e, na DIPJ 2014/2013, foram informados em linha específica destinada a tanto. De forma a deixar a salvo de dúvidas que os valores indicados como Reclassificação-Devolução dizem respeito a impostos incidentes sobre vendas que acabam sendo canceladas, a Requerente junta, por amostragem, notas fiscais de entrada cujos valores de ICMS e IPI (Doc. 06) podem ser identificados dentre aqueles que compõem a listagem Reclassificação-Outros (Conta 41016969) (Doc. 05): [...] Quanto aos montantes referentes a Reclassificação-Outros, listados no documento anexo (Doc. 07) sob o título FMPES, FTI e UEA, no total de R$ 148.356.497,35, tratam-se de valores referentes a contribuições financeiras feitas pela Requerente em favor do Fundo de Fomento às Micro e Pequenas Empresas – FMPES, da Universidade do Estado do Amazonas – UEA, e do Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura, Serviços e Interiorização do Desenvolvimento do Amazonas – do FTI. Consulte a página de autenticação no final deste documento. Processo 10283.726643/2017-68 Acórdão n.º 01-37.382 DRJ/BEL Fls. 18 18 [...] é beneficiaria de crédito de estimulo de ICMS concedido pelo Estado do Amazonas, mas, para fazer jus a tal benefício fiscal, sujeita-se a efetuar contribuições financeiras ao FMPES, à UEA e ao FTI, que uma vez apuradas com base em um percentual do crédito de estímulo de ICMS acabam sendo registradas como redutoras da conta contábil utilizada para lançamento dos tributos incidentes sobre a receita de venda. Para comprovar que os valores em comento de fato referem-se a contribuições financeiras efetuadas ao FMPES, à UEA e ao FTU, a Requerente acosta à presente exemplos de cálculo (Doc. 08) das contribuições ao FMPES, à UEA e ao FTU abaixo, que podem ser identificadas dentre aquelas da listagem Reclassificação- Outros (Conta 41016969) (Doc. 07): [...] Por fim, a Requerente junta documentos que comprovam os demais valores registrados a Fl. 762DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 16 título de Reclassificação-Outros (Conta 4106969), no total de R$ 10.760,04 (Doc. 09). Em resposta a unidade de origem, através da INFORMAÇÃO FISCAL de 27/05/2019, pronunciou-se no sentido que: 1. Após ser intimada a apresentar elementos que permitissem atender ao solicitado no despacho, a pessoa jurídica disponibilizou relação das notas fiscais emitidas no ano de 2013 e realizadas 2014, com as datas de registro e reconhecimento; 2. Não se localizou na ECD uma segregação entre a receita mais o respectivo custo, relativa as notas fiscais emitidas em 2013 e realizadas em 2014, o que impossibilitou a identificação do momento da realização da receita e o reconhecimento do CPV na ECD; 3. No tocante ao item 1.3, da intimação fiscal, a empresa não indicou os lançamentos contábeis e nem os respectivos documentos arrimadores daqueles. Apresentou argumentos embasados, de um modo geral, nos aspectos técnicos de sistema de informática por ela utilizado, que segundo informação sua, não estaria parametrizado para registrar as vendas que não foram realizadas, em razão disso, deixou de atender os quesitos pertinentes constantes da intimação fiscal; 4. A contribuinte também apresentou, em resposta ao item 1.4 da intimação fiscal, demonstrativos em planilhas que segundo ela dariam respaldo ao procedimento por ela adotado. Contudo, para efeito de apuração da receita bruta auferida, considera-se os documentos fiscais de vendas emitidos no período, excluindo tão somente os valores referentes às notas fiscais canceladas, o IPI e o ICMS Substituição Tributária incidentes nas operações de vendas. Os valores relativos a descontos concedidos, abatimentos etc, nada interferem na edificação da receita bruta pois eles só serão considerados numa etapa posterior, quando da apuração da receita líquida. Idêntico raciocínio também se aplica também ao caso das contribuições financeiras para FMPES, UEA e FTU, devidas ao Estado do Amazonas, que só serão consideradas quando da apuração da receita líquida, ou seja, numa fase seguinte a configuração da receita bruta; 5. Deixou-se de juntar a ECF em virtude da entrega ser obrigatória só a partir do ano calendário de 2014; 6. Juntou-se aos autos a ECD, no formato txt, que poderá ser restaurada via CONTÁGIL; 7. Na apuração da receita tributável considerada no lançamento de ofício, ocorreu algum tipo de problema técnico quando da transferência do CONTÁGIL - programa de auditoria fiscal utilizado pela fiscalização em suas análises - para o Excel, da planilha com a relação das notas fiscais de vendas pois nela consta o total de cada nota fiscal, estando, portanto, incluso no valor da receita o IPI e o ICMS-ST, porém sem as notas fiscais canceladas. À vista disso procedeu-se nova apuração. Após a retificação com a desconsideração dos valores referentes ao IPI e ao ICMS-ST, a diferença (omissão de receita) passou a ser de R$ 532.506.616,50 (19.028.114.609,01 – 18.495.607.992,50); 8. Conforme asseverado pela contribuinte, não houve a contabilização das operações "sit return"; 9. Não se localizou na ECD, ano calendário de 2013, a conta 41018101 - Abatimentos, mas sim a conta 41018101 - Vendas Domésticas – Provisão Produto Fl. 763DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 17 Acabado, cujo saldo final atingiu R$ 30.671.245,23, diferente do indicado pela empresa (R$ 30.641.242,23); 10. Não se localizou na ECD, ano calendário de 2013, a conta 41016969 – Reclassificação-Devolução, mas sim a conta 41016969 - Vendas Domésticas – Outras, conta de receita corroborada pelo histórico dos lançamentos e saldo credor, não podendo servir de arrimo para as alegações da contribuinte para justificar a redução da receita bruta; 11. A conta 410166969 – Reclassificação-Outros não foi localizada na ECD do período; 12. Anexa-se aos autos cópias do Razão das duas contas contábeis 41018101 – Vendas Domésticas – Provisão Produto Acabado e 41016969 – Vendas Doméstica – Outras, que foram as encontradas pela fiscalização na ECD da pessoa jurídica do ano calendário de 2013; 13. Quanto a receita da atividade com redução de 75% do IRPJ e a receita da atividade com redução por reinvestimento, mantém o mesmo entendimento expresso no lançamento, inobstante os elementos novos trazidos aos autos pela contribuinte em sua impugnação. Tendo tomado ciência da Informação Fiscal, o contribuinte assim se pronunciou: 2.2 Notas Fiscais emitidas em 2013 com receitas reconhecidas em 2014 [...]a d. autoridade fiscal achou por bem desconsiderar as informações apresentadas na planilha e reforçou seu entendimento de que as receitas deveriam ter sido reconhecidas em 2013, baseado nas únicas 3 (três) Notas Fiscais emitidas em fevereiro, abril e setembro de 2013 e que tiveram suas receitas reconhecidas apenas em fevereiro de 2014 [...] [,,,] admite que existe um considerável lapso temporal entre a emissão de tais Notas Fiscais e o reconhecimento de suas receitas. Realmente, existem fortes indícios de que houve um equívoco no reconhecimento dessas receitas, o que pode ter ocasionado a postergação da tributação dos respectivos lucros dessa operação. [...] o que não se pode admitir é que a d. autoridade fiscal tome como exemplo apenas três operações de venda, em um universo de 6.640 operações (ou seja, 0,045% do total de operações cobertas pelas Notas Fiscais)[...] [...] a escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte e que cabe à autoridade administrativa a prova da inveracidade dos fatos registrados na contabilidade do contribuinte [...] Nesse sentido, a Impugnante considerou suficiente as informações extraídas de sua contabilidade e refletidas na ECD para comprovar o reconhecimento das receitas no ano-calendário de 2014. A respeito da apresentação de Conhecimento de Transporte e Notas Fiscais que comprovem a entrega das mercadorias somente em 2014, se a d. autoridade fiscal reputava tais documentos relevantes, deveria ter, no mínimo, intimado a empresa novamente para que complementasse os documentos comprobatórios. [...] 2.3 Reconhecimento do CPV e das respectivas receitas em 2014 [...] apresentou ainda uma planilha complementar com as mesmas 6.640 operações de vendas, cujas as Notas Fiscais foram emitidas em 2013 e as respectivas receitas foram reconhecidas apenas em 2014, indicando a data exata em que houve o reconhecimento da receita e do respectivo Custo dos Produtos Vendidos - CPV. Referida planilha possui 11 colunas com informações precisas de forma a permitir a fácil referência e compreensão por parte da d. autoridade fiscal, são elas: A. Estabelecimento Emissor B. Número do documento (C100/08) C. Chave do Fl. 764DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 18 documento fiscal (C100/09) D. Data / NF/ EFD E. Mês EFD F. CFOP (C190/03) G. Descrição do CFOP H. Valor Total do Documento Fiscal (C100/12) I. Valor da Receita J. Custo K. Data da realização da receita e apropriação do custo [...] as informações prestadas eram suficientemente completas para que fosse possível à d. autoridade fiscal conciliá-las com a ECD do ano-calendário 2014. [...] quanto ao argumento de que não há segregação na contabilidade nas situações em que a Nota Fiscal é emitida em um ano e a receita/custo reconhecido no seguinte, entende a Impugnante se tratar de um argumento impertinente, já que a própria empresa apresentou a informação detalhada das Notas Fiscais relativas a esse cenário. [...] tivesse a d. autoridade fiscal intimado a Impugnante para fornecer o código e o número da conta do ECD do ano-calendário de 2014 em que foram registradas as receitas e custos em questão, essa informação teria sido prontamente disponibilizada. 2.4 Notas Fiscais com recusa (Sit Return) [...] São classificadas pela Impugnante como caso de Sit return, as operações nas quais o retorno da mercadoria se dá após o prazo legal de 24 horas para cancelamento das Notas Fiscais de venda. [...] [...] Nessa operação, a mercadoria não chega a entrar fisicamente e contabilmente no estabelecimento do cliente. Considerando que o retorno da mercadoria implica na não concretização da venda, as operações de sit return não tem reflexos contábeis para a Impugnante, ou seja, não implicam em reconhecimento de receita, vez que esta venda não se materializou. [...] juntou ao presente processo um relatório detalhado das Notas Fiscais de saída (venda) referentes as mercadorias objeto de retorno sem entrega ao cliente, com a devida vinculação da correspondente Nota Fiscal de entrada, comprovando-se o retorno do produto (vide fls. 215 a 270 dos autos). Adicionalmente, às fls. 271 a 293, foi acostada amostragem de jogos de Notas Fiscais de saída e suas correspondentes notas fiscais de entrada, quando do sit return. [...] chama a atenção ao item 3.3. Devolução de venda – “Sit Return” do Relatório de Constatação elaborado pela empresa de auditoria independente PwC (DOC 03). Há nesse tópico uma análise completa desse instituto com a apuração detalhada dos valores e a precisa distinção das devoluções ordinárias das vendas. 2.5 Abatimentos, Reclassificação – Devolução e Reclassificação- Outros [...] o formulário de preenchimento da DIPJ de 2013 (2014) possuía um número limitado e pré-determinado de contas contábeis para que o contribuinte lançasse/refletisse inteiramente suas contas de resultado (receitas, custos e despesas) e suas contas patrimoniais [...] [...] a Impugnante precisava lançar suas centenas de contas contábeis em apenas algumas dezenas de contas pré-determinadas pelo programa da DIPJ de 2013 (2014). [...] a Impugnante chama a atenção ao fato de que a quantia declarada nas linhas 01, 03 e 04 das Fichas 06A e 07A foi composta pelas seguintes contas contábeis: Fl. 765DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 19 [...] o objeto da questão é conciliar/demonstrar como os números/valores que as linhas 01, 03 e 04, das fichas 06A e 07A guardam correspondência com as Notas Fiscais de venda de produtos emitidas em 2013. [...] se tais valores estão computados nas linhas 01, 03 e 04, das fichas 06A e 07A da DIPJ e o intuito é isolar apenas os valores que seriam objeto de faturamento de mercadorias vendidas, por óbvio, tais valores devem ser desconsiderados/ajustados para o fim da comparação pretendida. [...] Abatimento – Conta 41018101: De fato, a descrição da conta na ECD está como “Vendas Domésticas – Provisão Produtos Acabados”, mas corresponde ao valor dos abatimentos (Conta 41018101). O saldo da correto da conta é R$ 30.671.245,23 (o valor anteriormente menciona de R$ 30.641.242,23 foi fruto de erro de digitação). Para confirmar essa informação, a Impugnante apresenta a tela da ECD com o valor correto –R$ 30.671.245,23 (DOC 04). [...] Reclassificação – Devolução – Conta 41016969: A conta contábil existe na ECD e está com a denominação de “Vendas Domésticas – Outras”. O saldo realmente é credor e não irá coincidir com o valor apresentado no Razão da conta contábil apresentado, pois neste foram selecionados apenas os tributos sobre as devoluções de produtos. Para confirmar essa informação, a Impugnante apresenta a tela da ECD e uma conciliação dos valores que demonstra que o valor total da conta confere com a ECD, bem como com a composição de cada saldo de conta (DOC 05). A conta contábil existe na ECD e está com a denominação de “Vendas Domésticas – Outras”. O saldo realmente é credor e não irá coincidir com o valor apresentado no Razão da conta contábil apresentado, pois neste foram selecionados apenas os tributos sobre as devoluções de produtos. Para confirmar essa informação, a Impugnante apresenta a tela da ECD e uma conciliação dos valores que demonstra que o valor total da conta confere com a ECD, bem como com a composição de cada saldo de conta (DOC 06). 3. Relatório de Constatação elaborado pela PwC [...] para evidenciar os referidos ajustes e facilitar a visualização/revisão por parte da d. autoridade fiscal, a Fl. 766DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 20 Impugnante contratou a PricewaterhouseCoopers Contadores Públicos Ltda. (“PwC”), uma empresa independente, para elaborar um relatório de constatação (Doc. 03), contendo suas considerações quanto (i) às Notas Fiscais de venda de produtos emitidas no ano-calendário de 2013, cuja receita de venda estaria reconhecida no citado exercício; (ii) as Notas Fiscais de 2012, que foram contabilizadas como receita de venda do ano de 2013 e (iii) as Notas Fiscais de 2013 contabilizadas em 2014, em razão da tradição dos produtos ter se materializado no ano subsequente ao ano da emissão da nota. O referido relatório traz ainda as considerações da PwC sobre as Notas Fiscais emitidas pela filial de Pernambuco, bem como as considerações sobre as operações de sit return. [...] Como se pode extrair do relatório de constatação elaborado pela PwC, todas as Notas Fiscais válidas emitidas no ano-calendário de 2013 tiveram suas respectivas receitas reconhecidas pela Impugnante, sem qualquer omissão de receita como contrariamente apontou a d. autoridade fiscal. A esmagadora maioria das Notas Fiscais tiveram suas receitas reconhecidas no próprio ano de 2013 (R$ 18.572.233.669,94), enquanto uma menor parte das Notas Fiscais (R$ 692.119.111,59) tiveram suas receitas reconhecidas em 2014 por força do regime de reconhecimento da receita apenas na tradição das mercadorias. Além disso, referido relatório atesta que foi reconhecida uma receita de R$ 386.483.846,78 de Notas Fiscais emitidas em 2012, cuja a tradição se deu apenas em 2013. [...] chama a atenção ao item 3.3. Devolução de venda – “Sit Return” do referido relatório. Há nesse tópico uma análise completa desse instituto com a apuração detalhada dos valores e a precisa distinção das devoluções ordinárias das vendas. [...] 4.1 Da Nulidade por Cerceamento de Defesa e por Inversão do ônus da Prova [...] ao não intimar reiteradamente a Impugnante, tanto na fase de fiscalização antes da lavratura do presente auto de infração, quanto nessa oportunidade em que foi determinada a diligência, a apresentar documentos e informações necessárias aos esclarecimentos dos fatos e dos valores envolvidos, a d. autoridade fiscal desconsiderou o fato de que esse procedimento não é mera faculdade do agente fiscal para lavratura dos Autos de Infração, e sim, exigência legal sem a qual fica viciado o ato administrativo, que é vinculado ao princípio da legalidade. [...] não há como transferir a obrigação de fiscalizar e apurar irregularidades e eventuais débitos perante o fisco – que é da Administração – ao próprio contribuinte, por meio da inversão do ônus da prova. [...] os Autos de Infração não estão de acordo com a legislação que regula o processo administrativo federal, nem tampouco com os princípios que norteiam o tema, não permitindo assim, o amplo direito de defesa. [...] não há outra alternativa que não a caracterização da nulidade dos Autos de Infração, seja pelo descumprimento de formalidades legais, seja por violação aos princípios que norteiam o processo administrativo, tais como os do contraditório, da ampla defesa, da legalidade, e da verdade material. 4.2 Do Efeito da Postergação da Tributação [...] na remota hipótese de ser rechaçado o entendimento de que o reconhecimento das receitas de Notas Fiscais emitidas em 2013, mas cujas entregas de mercadorias ocorreram apenas em 2014, o que se admite apenas ad argumentandum, cabe destacar que o lançamento fiscal correto seria apenas cobrar os juros e a multa de mora pela postergação da tributação. Fl. 767DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 21 [...] O processo retornou novamente a unidade de origem para Junção da ECD, 1º trim 2014, e ainda solicitação, ao contribuinte, de: (i) planilha digital, relativa às notas ficais emitidas em 2013, realizadas em 2014, com informações detalhadas de sua contabilização, e (ii) planilha digital, relativa às notas fiscais de mercadorias não entregues ao destinatário e retornadas após o prazo legal de cancelamento de 24horas (sit return), com informação das chaves de identificação de saída e entrada. É o relatório. Nada obstante, o acórdão recorrido julgou parcialmente procedente a pretensão impugnatória, conforme ementa abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2013 NORMAS PROCESSUAIS. NULIDADE. Comprovado que o procedimento fiscal foi feito regularmente, não se apresentando, nos autos, as causas apontadas no art. 59 do Decreto nº 70.235/1972, não há que se cogitar em nulidade processual, nem em nulidade do lançamento enquanto ato administrativo. RECEITA BRUTA. IPI. EXCLUSÃO. Os impostos não cumulativos cobrados, destacadamente, do comprador ou contratante, dos quais o vendedor dos bens ou o prestador dos serviços seja mero depositário, dentre os quais o Imposto sobre Produtos Industrializados, não se incluem na receita bruta das vendas de produtos industrializados. REALIZAÇÃO DA RECEITA. CRITÉRIO TEMPORAL DE RECONHECIMENTO. A receita da venda de mercadorias a pronta entrega deve ser reconhecida na entrega do bem ao comprador, quando o vendedor for o responsável pelo transporte, na entrega do bem ao transportador, quando o comprador for o responsável pelo transporte. BENEFÍCIO FISCAL. REDUÇÃO DO IMPOSTO. REDUÇÃO POR INVESTIMENTO. CUMULATIVIDADE. Os incentivos fiscais de redução de 75% e de redução por reinvestimento do imposto de renda devido, calculados sobre o lucro da exploração, previstos, respectivamente, nos arts. 1º e 3º da MP nº 2.199-14, de 2001, podem ser usufruídos concomitantemente pelo mesmo empreendimento considerado prioritário para o desenvolvimento regional na área da extinta Sudam, desde que obedecidas todas as condições estabelecidas na legislação em vigor. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Nesse aspecto, assim dispôs o dispositivo do Acórdão: Acordam os membros da 1ª Turma de Julgamento, por maioria de votos, julgar procedente em parte a impugnação, nos termos do voto condutor. Vencidos os julgadores Erwin Romel Liberato Tavares e Paulo Afonso da Costa Vasconcelos, nos termos da Declaração de Voto. Intime-se para pagamento do crédito mantido no prazo de 30 dias da ciência, salvo interposição de recurso voluntário ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, em igual prazo, conforme facultado pelo art. 33 do Decreto n.º 70.235, de Fl. 768DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 22 6 de março de 1972, alterado pelo art. 1º da Lei n.º 8.748, de 9 de dezembro de 1993, e pelo art. 32 da Lei 10.522, de 19 de julho de 2002. Submeta-se à apreciação do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, de acordo com o art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e alterações introduzidas pela Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997, e Portaria MF nº 63, de 09 de fevereiro de 2017, por força de recurso necessário. A exoneração do crédito procedida por este acórdão só será definitiva após o julgamento em segunda instância. Após, devidamente cientificado em 17.12.2019 (efls.705), interpôs seu recurso voluntário em 15.01.2020 (efls.707) às efls.708/735, repisando e renovando os argumentos já expostos em sede impugnatória. Não houve protocolo de razões ou contrarrazões ao acórdão combatido por parte da Fazenda Nacional. Após, os autos foram encaminhados ao CARF, para apreciação e julgamento. É o Relatório. VOTO Conselheiro Jeferson Teodorovicz, Relator Os recursos voluntários são tempestivos e deles conheço. Da mesma forma, a remessa de ofício cumpre os requisitos para reapreciação recursal, nos termos legais e regimentais. Conforme relatado, trata-se de auto de infração lavrados para exigência de IRPJ e CSLL, acrescidos de multa de ofício e juros de mora, referentes ao ano-calendário 2013, em razão de suposta omissão de receitas e inobservância dos requisitos legais do benefício da redução por reinvestimento: Da decisão recorrida, verifica-se que a DRJ acolheu parte dos argumentos da Recorrente em relação a algumas exclusões da receita (IPI, sit return e valores relativos a mercadorias entregues em 2014), bem como afastar a glosa do incentivo fiscal de redução por reinvestimento. Fl. 769DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 23 Assim, resta controvérsia sobre os valores denominados de “outros ajustes”: os ajustes de abatimento, reclassificação-devolução e reclassificação-outros. Segundo a recorrente, o lançamento em questão foi fundamentado em suposta omissão de receitas, a partir do cotejo impertinente realizado entre NFes e receita declarada em DIPJ e é nesse contexto em que as contas contábeis em questão devem ser analisadas, sendo que a análise detalhada da natureza das contas ou da dedutibilidade dos valores lá registrados é estranha ao objeto do lançamento e representa clara inovação que não pode ser admitida nessa fase do processo administrativo. Contudo, discordo dessa premissa. Embora não possa haver inovação no âmbito do lançamento no meio do contencioso administrativo, verificada omissão de receitas, cabe ao contribuinte demonstrar que essa não ocorreu. Em minha visão, é papel do julgador analisar precisamente os fundamentos e as provas aduzidas e a depender do caso afastar ou manter a autuação. Passamos à análise dos valores Dos valores de redução da receita bruta das NFEs de venda No que tange aos valores de redução da receita bruta das NFes de venda relativos a Abatimento – Conta 41018101, esclareceu-se que a Recorrente possui uma política de oferecer abatimentos de preço a clientes específicos, quando atendidas determinadas condições e em certos períodos. Essas situações são registradas na Conta 41018101 (Abatimentos) e totalizaram, em 2013, o valor de R$ 30.671.245,23. Para comprovar o exposto, a Recorrente acostou aos autos o razão da Conta 41018101, ora reapresentado (Abatimentos – Doc. 0 1 ), no total de R$ 30.671.245,23, bem como a planilha denominada “Clientes e Condições” (fls. 621) indicando quais foram os clientes beneficiados em 2013 com abatimentos, as datas de início e fim das condições a serem atendidas, e os valores de abatimentos concedidos. Alega que sobre o fato de a conta 41018101 estar entre outras contas de provisão, tem-se que em nada altera a natureza dos lançamentos lá constantes, eis que evidenciado o verdadeiro motivo para a realização destes. Com efeito, não poderia a DRJ entender que os lançamentos seriam relativos a provisão exclusivamente com base no título dessa conta, quando devidamente demonstrada, pela planilha “Clientes e Condições” (fls. 621), a natureza de abatimentos dos lançamentos em questão. Sobre o segundo argumento, de que a Recorrente já teria deduzido na Linha 10 da Ficha 06A da DIPJ montante superior, i.e., R$ 934.448.670,09, àquele correspondente ao total das contas do grupo 3.01.01.01.03 referente a Vendas Canceladas, Devoluções e Descontos, i.e., R$ 877.071.181,48, decorre de cotejo impertinente de contas contábeis e montantes declarados na DIPJ. Isso porque, a quantia deduzida na linha 10 da Ficha 06A da DIPJ não foi composta exclusivamente pelas contas do grupo 3.01.01.01.03 e que totalizam R$ 877.071.181,48 (vide Figura 4 do Acórdão recorrido – fls. 682), e tampouco todas as contas de mencionado grupo foram deduzidas nessa linha: Fl. 770DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 24 Defende que o saldo da conta 41018101 não foi deduzido na linha 10 da Ficha 06A, da DIPJ, que foi composta pelos saldos das contas acima, que se comprovam pela documentação anexa (Doc. 02), sendo, ao revés, considerado para composição do montante declarado na linha 03 da Ficha 06A da DIPJ. Nesse ponto, embora em teoria a Recorrente tenha razão quanto à possibilidade de se deduzir os descontos concedidos, no caso entendi que os documentos apresentados nos autos não corroboram tal afirmação. A Recorrente apresenta uma planilha em que constariam os clientes e condições (fls. 621). Contudo, trata-se de planilha produzida pela própria recorrente e sem amparo em documentos negociais (e.g. Contratos). Assim, entendo que não restou devidamente demonstrada a natureza jurídica dessa conta contábil, devendo ser mantido o lançamento nesse aspecto. Dos valores relacionados à dedução da receita bruta das Notas fiscais eletrônicas de venda a título de Reclassificação-Devolução e Reclassificação-Outros. Quanto aos valores relativos à redução da receita bruta das NFes de venda a título de Reclassificação-Devolução – Conta: 41016969, bem como a título de Reclassificação-Outros – Conta: 41016969, a Recorrente sustenta que a Conta 41016969 é utilizada para registro dos tributos incidentes sobre a receita de venda, e.g., ICMS, IPI etc. Fl. 771DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 25 Em determinadas situações, seja por cancelamento das vendas com devolução das mercadorias, seja em razão da concessão de benefícios fiscais, há a dedução de valores contabilizados na Conta 41016969. Seria o caso das contas e Reclassificação-Devolução e Reclassificação-Outros, a seguir analisados. O saldo da conta 41016969 (i. e R$ 3.758.134.622,50) compreende os impostos sobre as vendas, líquidos dos impostos decorrentes de devoluções e contribuições devidas para manutenção de benefício fiscal de ICMS. O saldo desta conta é o resultado da seguinte operação matemática: É justamente este saldo que consta no registro I150 da ECD: Defende que, a despeito da natureza credora da conta, esta não interfere no efeito que os valores dos impostos incidentes em operações de vendas canceladas e das contribuições devidas para manutenção de benefício fiscal possuem sobre o saldo da conta. A fim de deixar a salvo de dúvidas a natureza desses valores, a Recorrente juntou, por amostragem, notas fiscais de entrada cujos valores de ICMS e IPI (fls. 506 a 509) que podem ser identificados dentre aqueles que compõem a listagem Reclassificação-Outros (Conta 41016969) (fls. 621): Neste ponto, mais uma vez, embora em teoria a Recorrente tenha razão: o nomen juris da conta não deveria determinar seus efeitos contábeis, mais uma vez os documentos apresentados não são suficientes para corroborar a tese defendida, qual seja de que a referida conta credora em verdade teria sido utilizada para registro dos valores decorrentes de tributos incidentes sobre a venda. Fl. 772DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 26 A amostragem acima realizada não é suficiente para comprovar a natureza de tais valores, vez que não há o efetivo cruzamento com a ECF, e tampouco indica os saldos das contas. Não se podendo, a partir de quatro notas aleatórias, concluir a natureza jurídica de toda a referida conta e seus lançamentos. Quanto aos montantes referentes a Reclassificação-Outros, sob o título FMPES, FTI e UEA, no total de R$ 148.356.497,35 (fls. 621), a Recorrente defende que se tratam de valores referentes a contribuições financeiras feitas em favor do Fundo de Fomento às Micro e Pequenas Empresas – FMPES, da Universidade do Estado do Amazonas – UEA, e do Fundo de Fomento ao Turismo, Infraestrutura, Serviços e Interiorização do Desenvolvimento do Amazonas – do FTI. Sustenta que é beneficiaria de crédito de estímulo de ICMS concedido pelo Estado do Amazonas, mas, para fazer jus a tal benefício fiscal, sujeita-se a efetuar contribuições financeiras ao FMPES, à UEA e ao FTI, que uma vez apuradas com base em um percentual do crédito de estímulo de ICMS acabam sendo registradas como redutoras da conta contábil utilizada para lançamento dos tributos incidentes sobre a receita de venda. Para comprovar que os valores em comento de fato referem-se a contribuições financeiras efetuadas ao FMPES, à UEA e ao FTU, a Recorrente acostou à presente exemplos de cálculo, ora reapresentados (Doc. 03) das contribuições ao FMPES, à UEA e ao FTU abaixo, que podem ser identificadas dentre aquelas da listagem Reclassificação-Outros (Conta 41016969) (fls. 621): Mais uma vez, entendo que as provas produzidas pela Recorrente não são suficientes para demonstrar de forma definitiva a natureza jurídica dos valores contabilizados na referida conta. Razão pela qual entendo deve ser negado provimento ao recurso nessa parte. Da impossibilidade de inclusão dos valores abaixo mencionados na base de cálculo do IRPJ e da CSLL sob pena de alteração de critério jurídico. A recorrente alega ainda a impossibilidade de a DRJ ter incluído valores na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Isto porque a DRJ considerou valores tributáveis em seu cálculo que não tinham sido considerados pela Autoridade Fiscal quando do lançamento. Fl. 773DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 27 Nesse ponto, pode-se citar especialmente as NFes de 2013 com mercadoria entregue em 2013 (R$ 386.455.747,85), receita da venda de serviços (R$ 6.197.314,33), etc. Nesse ponto com razão à Recorrente. Inclusive esse ponto foi muito bem pontuado pelo Julgador Erwin Romel Liberato Tavares em sua Declaração de Voto: Na presente declaração de voto, pede-se vênia para discordar do voto do ilustre relator quanto ao seu entendimento de adicionar à receita bruta apurada pelo Fisco no ano- calendário de 2013, que abrangeu exclusivamente CFOPs de vendas desse período, as seguintes rubricas: a receita das NFe emitidas no ano-calendário 2012, entregues em 2013, no valor de R$ 386.455.747,85; a reclassificação de impostos (Conta 41016969) no valor de R$ 1.945.275,91; e os demais ajustes credores a título de receita de venda de serviços (Conta 41011101), receita de garantia estendida (Conta 41011103) e diferença V.C. exportação (Conta 41210101). 2. A tabela abaixo, integrante do voto proferido, detalham todos os ajustes (acréscimos e deduções) efetuados na receita bruta levantada pela fiscalização: (...) 4. E não poderia ser diferente, pois como as parcelas que foram adicionadas no julgamento não compõem a receita bruta original de R$ 19.555.515.767,02 (a partir da qual se calculou o IRPJ e a CSLL lançados), o relator não estava autorizado a computá-las na receita tributável da empresa, agravando a exigência inicial, em razão do disposto no § 3º do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, verbis: “Art. 18. (...) § 3º Quando, em exames posteriores, diligências ou perícias, realizados no curso do processo, forem verificadas incorreções, omissões ou inexatidões de que resultem agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, será lavrado auto de infração ou emitida notificação de lançamento complementar, devolvendo-se, ao sujeito passivo, prazo para impugnação no concernente à matéria modificada. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993)” 5. O Decreto nº 7.574, de 29 de setembro de 2011, que regulamentou o processo de determinação e de exigência de créditos tributários da União, sobre matérias administradas pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), tratou exaustivamente do tema em seu art. 41, abaixo reproduzido: “Art. 41. Quando, em exames posteriores, diligências ou perícias realizados no curso do processo, forem verificadas incorreções, omissões ou inexatidões, de que resultem agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, será efetuado lançamento complementar por meio da lavratura de auto de infração complementar ou de emissão de notificação de lançamento complementar, específicos em relação à matéria modificada (Decreto nº 70.235, de 1972, art. 18, § 3º, com a redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993, art. 1º ). § 1º O lançamento complementar será formalizado nos casos: I - em que seja aferível, a partir da descrição dos fatos e dos demais documentos produzidos na ação fiscal, que o autuante, no momento da formalização da exigência: apurou incorretamente a base de cálculo do crédito tributário; ou não incluiu na determinação do crédito tributário matéria devidamente identificada; ou Fl. 774DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 28 II - em que forem constatados fatos novos, subtraídos ao conhecimento da autoridade lançadora quando da ação fiscal e relacionados aos fatos geradores objeto da autuação, que impliquem agravamento da exigência inicial. § 2º O auto de infração ou a notificação de lançamento de que trata o caput terá o objetivo de: I - complementar o lançamento original; ou II - substituir, total ou parcialmente, o lançamento original nos casos em que a apuração do quantum devido, em face da legislação tributária aplicável, não puder ser efetuada sem a inclusão da matéria anteriormente lançada. § 3º Será concedido prazo de trinta dias, contados da data da ciência da intimação da exigência complementar, para a apresentação de impugnação apenas no concernente à matéria modificada. § 4º O auto de infração ou a notificação de lançamento de que trata o caput devem ser objeto do mesmo processo em que for tratado o auto de infração ou a notificação de lançamento complementados. § 5º O julgamento dos litígios instaurados no âmbito do processo referido no § 4º será objeto de um único acórdão.” (Negritou-se.) 6. De acordo com a inteligência desses dispositivos, o agravamento da exigência fiscal somente pode ser realizado pela autoridade lançadora, mediante a lavratura de Auto de Infração complementar, não detendo as Delegacias de Julgamento competência para agravar ou aperfeiçoar o lançamento, conforme procedido no presente caso, cabendo- lhes apenas manter ou exonerar, no todo ou em parte, o crédito tributário originalmente constituído. 7. Corroborando esse entendimento, vejam-se os comentários ao § 3º do art. 18 do Decreto n.º 70.235, de 1972, procedido por Marcos Vinicius Neder e Maria Teresa Martínez López (Processo Administrativo Fiscal Federal Comentado, 3ª ed., Dialética, São Paulo, 2010, p. 355): “(...) Só quem pode constituir o crédito tributário por meio do lançamento é quem possui a competência para, em exames posteriores, realizados no curso do processo, verificadas incorreções, omissões ou inexatidões, proceder ao agravamento da exigência fiscal. Esta autorização funda-se na regra geral de revisão de ofício do lançamento prevista pelo art. 149 do CTN que adotou, no regime do Decreto nº 70.235/72, a denominação de agravamento. (...) Assim, constatadas pela autoridade julgadora inexatidões na verificação do fato gerador, relacionadas com o mesmo ilícito descrito no lançamento original, o saneamento do processo fiscal será promovido pela feitura de auto de infração complementar. Esta peça, sob pena de nulidade, deverá descrever os motivos que fundamentam a alteração do lançamento original, indicando o fato ou circunstância que ele pretende aditar ou retificar, demonstrando o crédito tributário unificado, de modo a permitir ao contribuinte o pleno conhecimento da alteração.” 8. Da mesma forma entende o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). Nesse sentido, confiram-se as seguintes ementas de decisões prolatadas por esse órgão colegiado: “I.R.P.J. - INOVAÇÃO QUANTO AO LANÇAMENTO NO ATO DECISÓRIO DA DELEGACIA DA RECEITA FEDERAL DE JULGAMENTO - IMPOSSIBILIDADE - O dever poder de decidir conferido ao Delegado da Receita Federal de Julgamento está adstrito aos termos do lançamento efetuado pela autoridade fiscal, não Fl. 775DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 29 cabendo-lhe aperfeiçoá-lo ou transformá-lo de qualquer forma, sob pena de transposição de sua competência legal. C.S.S.L - ERRO NA APURAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO - IMPOSSIBILIDADE DE APERFEIÇOAMENTO POR ESTE ÓRGÃO JULGADOR - Não tendo a autoridade lançadora obedecido aos preceitos legais para a fixação da base de cálculo da contribuição, não cabe a este órgão aperfeiçoar o lançamento, mas apenas afastar a exigência, diante do erro ocorrido. (...) Recurso conhecido e provido em parte.” (Acórdão nº 103-20.754, sessão de 17/10/2001, DOU de 12/12/2001.) “AGRAVAMENTO DA EXIGÊNCIA FISCAL - O agravamento da exigência fiscal só pode ser feita mediante a lavratura de auto de infração ou a emissão de Notificação de Lançamento complementar, devolvendo ao sujeito passivo prazo para aditar a impugnação inicial (§ 3º, do art. 18, do Decreto nº, 70.235 de 1972). Preliminar acolhida.” (Acórdão nº 104-19.820, sessão de 18/02/2004, DOU de 20/07/2004.) 9. No tocante às parcelas deduzidas pela autoridade relatora, que ensejou a redução dos créditos tributários lançados, em razão da inclusão indevida desses valores pelo autor do feito na receita bruta do ano-calendário de 2013, não merecem quaisquer reparos o procedimento adotado no julgamento. Não bastassem os fundamentos acima transcritos, a alteração do lançamento nessa fase recursal caracteriza evidente alteração de critério jurídico o que não pode ser admitido, nos termos do art. 146 do CTN: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. Ainda, a jurisprudência do STJ já teve oportunidade de se manifestar, expressamente, na sistemática de julgamento de recursos repetitivos, por meio do julgamento do REsp nº. 1.130.545, de relatoria do Min. Luiz Fux, sobre a distinção entre “erro de fato” e “erro de direito” para fins de determinação do âmbito de aplicação do art. 146 do CTN, como se vê: “PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543- C, DO CPC. TRIBUTÁRIO E PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. IPTU. RETIFICAÇÃO DOS DADOS CADASTRAIS DO IMÓVEL. FATO NÃO CONHECIDO POR OCASIÃO DO LANÇAMENTO ANTERIOR (DIFERENÇA DA METRAGEM DO IMÓVEL CONSTANTE DO CADASTRO). RECADASTRAMENTO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. REVISÃO DO LANÇAMENTO. POSSIBILIDADE. ERRO DE FATO. CARACTERIZAÇÃO. (...) 5. Assim é que a revisão do lançamento tributário por erro de fato (artigo 149, inciso VIII, do CTN) reclama o desconhecimento de sua existência ou a impossibilidade de sua comprovação à época da constituição do crédito tributário. 6. Ao revés, nas hipóteses de erro de direito (equívoco na valoração jurídica dos fatos), o ato administrativo de lançamento tributário revela-se imodificável, máxime em virtude do princípio da proteção à confiança, encartado no artigo 146, do CTN, segundo o qual "a modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução". Fl. 776DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 30 7. Nesse segmento, é que a Súmula 227⁄TFR consolidou o entendimento de que "a mudança de critério jurídico adotado pelo Fisco não autoriza a revisão de lançamento". 8. A distinção entre o "erro de fato" (que autoriza a revisão do lançamento) e o "erro de direito" (hipótese que inviabiliza a revisão) é enfrentada pela doutrina, verbis: "Enquanto o 'erro de fato' é um problema intranormativo, um desajuste interno na estrutura do enunciado, o 'erro de direito' é vício de feição internormativa, um descompasso entre a norma geral e abstrata e a individual e concreta. Assim constitui 'erro de fato', por exemplo, a contingência de o evento ter ocorrido no território do Município 'X', mas estar consignado como tendo acontecido no Município 'Y' (erro de fato localizado no critério espacial), ou, ainda, quando a base de cálculo registrada para efeito do IPTU foi o valor do imóvel vizinho (erro de fato verificado no elemento quantitativo). 'Erro de direito', por sua vez, está configurado, exemplificativamente, quando a autoridade administrativa, em vez de exigir o ITR do proprietário do imóvel rural, entende que o sujeito passivo pode ser o arrendatário, ou quando, ao lavrar o lançamento relativo à contribuição social incidente sobre o lucro, mal interpreta a lei, elaborando seus cálculos com base no faturamento da empresa, ou, ainda, quando a base de cálculo de certo imposto é o valor da operação, acrescido do frete, mas o agente, ao lavrar o ato de lançamento, registra apenas o valor da operação, por assim entender a previsão legal. A distinção entre ambos é sutil, mas incisiva." (Paulo de Barros Carvalho, in "Direito Tributário - Linguagem e Método", 2ª Ed., Ed. Noeses, São Paulo, 2008, págs. 445⁄446) "O erro de fato ou erro sobre o fato dar-se-ia no plano dos acontecimentos: dar por ocorrido o que não ocorreu. Valorar fato diverso daquele implicado na controvérsia ou no tema sob inspeção. O erro de direito seria, à sua vez, decorrente da escolha equivocada de um módulo normativo inservível ou não mais aplicável à regência da questão que estivesse sendo juridicamente considerada. Entre nós, os critérios jurídicos (art. 146, do CTN) reiteradamente aplicados pela Administração na feitura de lançamentos têm conteúdo de precedente obrigatório. Significa que tais critérios podem ser alterados em razão de decisão judicial ou administrativa, mas a aplicação dos novos critérios somente pode dar-se em relação aos fatos geradores posteriores à alteração." (Sacha Calmon Navarro Coêlho, in "Curso de Direito Tributário Brasileiro", 10ª Ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2009, pág. 708) "O comando dispõe sobre a apreciação de fato não conhecido ou não provado à época do lançamento anterior. Diz-se que este lançamento teria sido perpetrado com erro de fato, ou seja, defeito que não depende de interpretação normativa para sua verificação. Frise-se que não se trata de qualquer 'fato', mas aquele que não foi considerado por puro desconhecimento de sua existência. Não é, portanto, aquele fato, já de conhecimento do Fisco, em sua inteireza, e, por reputá-lo despido de relevância, tenha-o deixado de lado, no momento do lançamento. Se o Fisco passa, em momento ulterior, a dar a um fato conhecido uma 'relevância jurídica', a qual não lhe havia dado, em momento pretérito, não será caso de apreciação de fato novo, mas de pura modificação do critério jurídico adotado no lançamento anterior, com fulcro no artigo 146, do CTN, (...). Neste art. 146, do CTN, prevê-se um 'erro' de valoração jurídica do fato (o tal 'erro de direito'), que impõe a modificação quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua ocorrência. Não perca de vista, aliás, que inexiste previsão de erro de direito, entre as hipóteses do art. 149, como causa permissiva de revisão de lançamento anterior." (Eduardo Sabbag, in "Manual de Direito Tributário", 1ª ed., Ed. Saraiva, pág. 707) (...) Fl. 777DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 31 10. Recurso especial provido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543-C, do CPC, e da Resolução STJ 08⁄2008. (REsp 1130545/RJ, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Seção, DJe 22-02-2011). No caso, verifica-se que a situação fática era amplamente conhecida, portanto, não podendo ser admitida a alteração de direito efetuada pela DRJ, razão pela qual entendo deve ser dado provimento ao recurso nessa matéria. Consequentemente, é importante observar que o acatamento da alegação de inovação de critério jurídico, com a exclusão dos valores "adicionados" pela DRJ, (a receita das NFe emitidas no ano-calendário 2012, entregues em 2013, no valor de R$ 386.455.747,85; a reclassificação de impostos (Conta 41016969) no valor de R$ 1.945.275,91; e os demais ajustes credores a título de receita de venda de serviços (Conta 41011101), receita de garantia estendida (Conta 41011103) e diferença V.C. exportação (Conta 41210101), implica, na verdade, na inexistência de qualquer saldo de crédito tributário, na medida em que o saldo de receita bruta omitida, apurado após o julgamento da DRJ, foi de 234.366.088,63, conforme tabela "APURAÇÃO DOS CRÉDITOS DEVIDOS NO PROCESSO" na e-fl. 692, constante do voto da DRJ. Assim, por decorrência lógica, o reconhecimento do valores referentes acima (em decorrência da impossibilidade da alteração do critério jurídico) elimina os demais valores decorrentes da base de cálculo, para fins de liquidação (inclusive no que se refere aos valores já analisados de redução da receita bruta das NFEs de venda e aos valores também já analisados e relacionados à dedução da receita bruta das Notas fiscais eletrônicas de venda a título de Reclassificação-Devolução e Reclassificação-Outros). Da suposta violação ao contraditório e à ampla defesa Por fim, a Recorrente alega a nulidade dos autos de infração por não observância dos princípios do contraditório e ampla defesa. Segundo ela: Nesse sentido, a Recorrente foi intimada a justificar e explicar por escrito a divergência existente entre o valor das notas fiscais eletrônicas de vendas emitidas no ano-calendário 2013 e o montante declarado nas linhas 01, 03 e 04 das Fichas 06A e 07A da DIPJ 2014/2013. Em resposta à intimação, a Recorrente esclareceu que reconhece a receita de suas atividades, em atendimento ao princípio da competência, quando da efetiva tradição das mercadorias vendidas, o que por vezes ocorre em período de apuração seguinte à emissão do documento fiscal; por conseguinte, sempre há uma diferença entre o valor das notas fiscais eletrônicas emitidas em dado ano-calendário e o total das receitas auferidas e oferecidas à tributação. Após referido esclarecimento pela ora Recorrente, a d. Autoridade Fiscal não apresentou qualquer outro questionamento sobre a matéria, surpreendendo a empresa com os Autos de Infração em que alega que caberia ao sujeito passivo a apresentação de listagem das notas fiscais que foram oferecidas à tributação no período subsequente, bem como dos contratos de compra e venda referentes a tais notas fiscais, a fim de atestar se as vendas foram efetivadas juridicamente apenas quando da tradição. Contudo, sem razão à recorrente. No Decreto nº 70.235/1972 estão previstas apenas mais duas hipóteses de nulidade dos atos processuais, entre os quais se incluem os despachos decisórios, quais sejam, a dos incisos Fl. 778DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 32 I e II, do artigo 59 do Decreto n.º 70.235/72, com as alterações introduzidas pela Lei nº 8.748/93, in verbis: “Art. 59 - São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. (...).” O princípio da ampla defesa e do contraditório está elencado no artigo 5º, letra LV da Constituição Federal, que assim dispõe: “Aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”. A simples leitura do dispositivo constitucional demonstra, de pronto, que não ocorreu qualquer violação ao princípio do contraditório e da ampla defesa nele esculpidos, posto que, no caso vertente, a recorrente teve ciência do ato declaratório, sendo-lhe concedido o prazo de trinta dias para a apresentação de manifestação de inconformidade. A instauração do contraditório está demonstrada, de modo inequívoco, tendo sido assegurado à contribuinte o direito de apresentar as razões de fato e de direito que militam a seu favor e produzir todas as provas admitidas no direito, para corroborar suas alegações, requerendo, inclusive, a realização de diligências e perícias. Assim, entendo deve ser afastada a referida alegação. Recurso de Ofício O recurso de ofício preenche os recursos de admissibilidade, dele tomo conhecimento. Da leitura dos autos, verifica-se que a DRJ deu parcial provimento à Impugnação acolher os argumentos da Recorrente em relação a algumas exclusões da receita (IPI, sit return e valores relativos a mercadorias entregues em 2014), bem como afastar a glosa do incentivo fiscal de redução por reinvestimento: 2.1.1 Das NFe emitidas em 2012 consideradas no lançamento A recorrente alega que fiscalização computou notas fiscais emitidas em 2012, listadas às folhas 190-192, em um total de R$ 1.957.834,27, que não impactaram a receita do ano-calendário 2013. De fato, a planilha VENDAS TRIBUTÁVEIS 2013 SAMSUNG, apresentada pela fiscalização para compor a base do lançamento, contempla notas fiscais emitidas no ano-calendário 2012 (posições 3 e 4 da chave da NFe), cujo valor total perfaz o montante de R$ 1.957.834,27. Ocorre que, embora não citada expressamente pela fiscalização, a receita das NFe emitidas no ano-calendário 2012 foi excluída do lançamento. Isto porque, o valor desta receita - NFe emitidas em 2012 contempladas na planilha VENDAS TRIBUTÁVEIS 2013 SAMSUNG - corresponde à diferença entre a omissão de receita apurada na descrição dos fatos do Auto de Infração e aquela utilizada na base de cálculo do lançamento, citada em tópico anterior. Fl. 779DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 33 2.1.2 Da exclusão do IPI A recorrente argumenta que o lançamento da receita omitida incluiu em sua base de cálculo o valor de IPI destacado nas notas fiscais. Cita a título de exemplo as notas fiscais nº 34292 e 36784 (fls. 205-214). A respeito do assunto, tem-se que o parágrafo único do art. 279 do RIR/99 determina que na receita bruta não se incluem os impostos não cumulativos cobrados destacadamente do comprador ou contratante e adicionados ao preço do bem ou serviço, e do qual o vendedor dos bens ou o prestador dos serviços seja mero depositário, a exemplo do IPI e do ICMS ST. Os exemplos trazidos pelo recorrente apontam que o valor da nota fiscal, utilizado no lançamento, inclui o IPI cobrado destacadamente. Mediante procedimento de diligência, a fiscalização reconheceu que incluiu, indevidamente, na base de cálculo do lançamento o IPI, bom como o ICMS-ST, para tanto apurou uma diferença de R$ 532.506.616,50, incluído o valor do ICMS- ST, que sugeriu ser deduzida da base de cálculo do lançamento: Passa-se a responder ao item 4, do despacho do colegiado de 1ª Instância Administrativa, aproveitando para assinalar que na resposta estão inclusos os argumentos sobre o motivo de ter-se considerado, na edificação do auto de infração, o valor total da nota fiscal, excluindo as canceladas, mas incluindo o IPI e o ICMS-ST. [...] À vista disso procedeu-se nova apuração, onde continuou-se a desconsiderar as notas de vendas canceladas, como no primeiro levantamento, e adotou-se apenas o valor dos produtos, ou seja, sem a inclusão do IPI e do ICMS-ST, e desta vez elegeu-se os valores das notas fiscais de vendas emitidas e lançadas na EFD da empresa, para que não houvesse nenhum tipo de contestação a documentos não considerados pela contribuinte, visto que sobre a efetivação dos registros da escrita fiscal da própria pessoa jurídica, no caso, não pairam dúvidas. [...] Em assim sendo a receita bruta que de acordo com a relação inicial, arrimada nas NFs de vendas e constante do lançamento de ofício original, era no ano-calendário de 2013 no valor de R$ 19.555.515.767,02, passou para R$ 19.028.114.609,01, reiterando que este último valor foi extraído da EFD da empresa. A receita bruta declarada na DIPJ/2014 foi de R$ 18.495.607.992,50, configurando assim uma diferença inicial de R$ 1.059.907.774,50 (19.555.515.767,02 – 18.495.607.992,50). Após a retificação com a desconsideração dos valores referentes ao IPI e ao ICMS-ST, a diferença (omissão de receita) passou a ser de R$ 532.506.616,50 (19.028.114.609,01 – 18.495.607.992,50). Acontece que o litígio contra à constituição de ofício de crédito tributário encontra seu limite nas matérias expressamente contestadas pelo sujeito. No caso, o contribuinte se debate apenas contra a inclusão do IPI na base do lançamento, não arguiu a necessidade de exclusão do ICMS-ST. O que não podia ser diferente, afinal a própria recorrente informa que sua Receita de Venda de Produtos de Fabricação Própria no Mercado Interno (linha 03, fichas 06A e 7A, DIPJ) estava indevidamente composta pelo ICMS-ST (linha 03), mas que foi Fl. 780DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 34 posteriormente excluído na dedução do ICMS (linha 11, fichas 06A e 7A, DIPJ) quando da apuração da Receita Líquida da Atividade. A recorrente afirma que a parcela do IPI que deixou de ser considerada na apuração da receita de vendas corresponde à R$ 233.853.350,50, exato valor que pôde ser verificado na ECD juntada aos autos durante o procedimento de diligência. Do exposto, assiste razão ao contribuinte em se deduzir da base do lançamento o valor de R$ 233.853.350,50, referente ao IPI incidente nas vendas. 2.1.3 Do Sit Return A recorrente solicita ainda que seja excluído da receita bruta do lançamento o valor das notas fiscais das mercadorias não entregues ao destinatário retornadas após o prazo legal de cancelamento de 24 horas (sit return), no montante de R$ 296.691.123,43, relacionadas às folhas 216-270, com identificação das Notas Fiscais de Entrada (devolução). Foi solicitado ao contribuinte indicar as contas contábeis onde estariam lançados os valores da redução, bem como apresentar documentação de suporte das operações de sit return. O sujeito passivo informou que não há registro contábil das operações de sit return, eis que sua a receita somente é contabilizada quando se dá a efetiva tradição, e que essas operações não se confundem com uma devolução de mercadorias que, compondo a receita do período, são devidamente deduzidas em linhas específicas da DIPJ. Para corroborar suas alegações o sujeito passivo juntou aos autos Relatório de Constatação elaborado pela empresa de auditoria independente PwC (fls. 603- 619), onde o assunto é abordado (3.3. Devolução de venda – “Sit Return”), bem como planilha contendo as chaves de identificação nas NFe de saída e as correspondentes chaves de identificação das NFs de entrada das operações de sit return. As Nfe enumeradas pelo sujeito passivo, que totalizam um receita de R$ 293.900.609,24, compõem a base de cálculo do lançamento. Pesquisas por amostragem ao sistema NFe revelam a consistência entre as NFe de saída (vendas) e as NFe de entrada (devoluções). A receita dessas mercadorias devolvidas poderia estar inserida em campo próprio de devoluções da DIPJ. Todavia, a recorrente alega que apura sua receita segundo o critério da tradição de mercadoria, o que, como será visto abaixo, não está equivocado. Se se segue essa metodologia de realização das receitas, de fato não haveria como se inserir, na apuração do resultado, a devolução das mercadorias que não foram entregues aos seus destinatários (sit return). Cumpriria então a auditoria fiscal apurar as contas patrimoniais do contribuinte em busca da efetividade das operações alegadas, ou mesmo certificar-se que essas devoluções não foram novamente deduzidas na apuração do resultado. O que não foi feito em momento oportuno. Desta feita, na ausência de indícios que revelem a inveracidade da alegação do sujeito passivo, acolhe-se seu pleito no sentido de deduzir da receita de vendas apuradas das NFe o valor de R$ 293.900.609,24 a título de sit return. Fl. 781DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 35 2.1.4 Do momento de realização da receita Outro pondo de discórdia da receita apurada no lançamento diz respeito ao momento de sua realização. A fiscalização considerou realizada a receita no momento da emissão da Nota Fiscal Eletrônica - NFe. O sujeito passivo, por sua vez, alega que adotou o critério da tradição, ou seja, o momento da entrega da mercadoria. O fato ganha relevo quando a mercadoria é entregue em período diverso da emissão da NFe. A respeito do assunto, tem-se que o art. 247 e §1º do Decreto nº 3.000/991 (Regulamento do Imposto de Renda - RIR 99) estabelece que o Lucro real é o lucro líquido do período de apuração ajustado pelas adições, exclusões ou compensações autorizadas por aquele Decreto. E mais, que a determinação do lucro real será precedida pela apuração do lucro líquido com observância das disposições das leis comerciais. Semelhante disposição é novamente trazida no RIR/99, que ao tratar das Demonstrações Financeiras, assim prega: Art. 274. Ao fim de cada período de incidência do imposto, o contribuinte deverá apurar o lucro líquido mediante a elaboração, com observância das disposições da lei comercial, do balanço patrimonial, da demonstração do resultado do período de apuração e da demonstração de lucros ou prejuízos acumulados (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 7º, § 4º, e Lei nº 7.450, de 1985, art. 18 ). § 1º O lucro líquido do período deverá ser apurado com observância das disposições da Lei nº 6.404, de 1976 (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 67, inciso XI, Lei nº 7.450, de 1985, art. 18, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 5º ). § 2º O balanço ou balancete deverá ser transcrito no Diário ou no LALUR (Lei nº 8.383, de 1991, art. 51, e Lei nº 9.430, de 1996, arts. 1º e 2º, [negritou-se] O art. 177 da Lei nº 6.404, de 1976, por sua vez, prescreve que: Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. [negritou-se] Ao teor dos excertos normativos, tem-se que o resultado das empresas, utilizado como base de cálculo do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica - IRPJ, deve ser apurado segundo o regime de competência, nos termos da legislação comercial, salvo disposição em sentido diverso. Nesse sentido, o Parecer Normativo CST nº 20 de 1987 concluiu que: [...] a apuração do lucro líquido, no encerramento de cada período-base, semestral ou anual, deve ser efetuada de conformidade com os procedimentos usuais da contabilidade, inclusive com o encerramento das contas de resultado. Não trata o dispositivo legal em análise de impor qualquer norma contábil, que é de livre escolha da pessoa jurídica, apenas quer que o lucro líquido, base a partir da qual se determina o lucro real, seja apurado segundo as técnicas da contabilidade. Fl. 782DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 36 [negritou-se] A questão a saber é o exato momento de realização da receita de vendas, segundo o regime de competência. Sobre o assunto, o então vigente Parecer Normativo CST nº 73, de 1973, esclarecia: [...] 5. Não há maiores dificuldades em se determinar o momento em que é apropriável a receita relativa às vendas a vista, pois a execução desses contratos, por parte do vendedor é imediata. 6. Já as empresas que vendem a crédito - entrega da mercadoria antecipada em relação ao pagamento do preço - devem apropriar o produto da venda à conta de receita do ano por ocasião da transferência da propriedade do bem, eis que, então, se configura direito incondicional do vendedor para exigência do preço. 7. Igualmente, em se verificando venda a termo, a receita auferida deve ser apropriada à mesma conta, também quando da transferência da propriedade da mercadoria, eis que somente nessa oportunidade se consolida a propriedade do adquirente. O Supremo Tribunal Federal – STF também se pronunciou sobre essa matéria, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 586.482/RS: [...] O Sistema Tributário Nacional fixou o regime de competência como regra geral para a apuração dos resultados da empresa, e não o regime de caixa. Pelo primeiro, há o reconhecimento simultâneo das receitas realizadas e das despesas incorridas, como consequência natural do princípio da competência do exercício, considerando-se realizadas as receitas e incorridas as despesas no momento da transferência dos bens e da fruição dos serviços prestados, independentemente do recebimento do valor correspondente. [negritou-se] [...] A luz do exposto, é a transferência de propriedade do bem móvel o fato jurídico que impõe a realização da receita auferida pelo bem vendido. No caso das vendas a varejo, fica claro que a tradição do bem vendido enseja a realização da receita em mesma data, momento em que, via de regra, ocorre o faturamento e a emissão da nota fiscal. De modo diverso, na venda de bens para entrega futura, a transferência da propriedade do bem ocorre desde o momento da celebração do contrato, ficando o vendedor com a posse provisória do bem, até que a condição de entrega, acordada entre as parte, se resolva. Nesta hipótese, a receita se realiza na data de celebração do contrato, quando a propriedade se transfere à compradora e a vendedora passa a ser mera depositária. A situação que põe aqui é a venda de bens nas hipóteses em que há um lapso temporal entre a data da celebração do contrato (faturamento) e data da efetiva entrega da mercadoria. Sobre o assunto, o PRONUNCIAMENTO TÉCNICO CPC 30 (R1), aprovado em 19/10/2012, dispõe: Fl. 783DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 37 [...] Venda de bens 14. A receita proveniente da venda de bens deve ser reconhecida quando forem satisfeitas todas as seguintes condições: (a) a entidade tenha transferido para o comprador os riscos e benefícios mais significativos inerentes à propriedade dos bens; (b) a entidade não mantenha envolvimento continuado na gestão dos bens vendidos em grau normalmente associado à propriedade e tampouco efetivo controle sobre tais bens; (c) o valor da receita possa ser mensurado com confiabilidade; (d) for provável que os benefícios econômicos associados à transação fluirão para a entidade; e (e) as despesas incorridas ou a serem incorridas, referentes à transação, possam ser mensuradas com confiabilidade. 15. A avaliação do momento em que a entidade transfere os riscos e os benefícios significativos da propriedade para o comprador exige o exame das circunstâncias da transação. Na maior parte dos casos, a transferência dos riscos e dos benefícios inerentes à propriedade coincide com a transferência da titularidade legal ou da transferência da posse do ativo para o comprador. Tais casos são típicos das vendas a varejo. Em outros casos, porém, a transferência dos riscos e benefícios da propriedade ocorre em momento diferente da transferência da titularidade legal ou da transferência da posse do ativo. 16. Se a entidade retiver riscos significativos da propriedade, a transação não é uma venda e a receita não pode ser reconhecida. A retenção de risco significativo inerente à propriedade pode ocorrer de várias formas. Exemplos de situações em que a entidade pode reter riscos e os benefícios significativos da propriedade são: (a) quando a entidade vendedora retém uma obrigação em decorrência de desempenho insatisfatório que não esteja coberto por cláusulas normais de garantia; (b) nos casos em que o recebimento da receita de uma venda em particular é contingente, pois depende da venda dos bens pelo comprador (genuína consignação); (c) quando os bens expedidos estão sujeitos à instalação, sendo esta uma parte significativa do contrato e ainda não tenha sido completada pela entidade;e (d) quando o comprador tem o direito de rescindir a compra por uma razão especificada no contrato de venda e a entidade vendedora não está certa da probabilidade de devolução. 17. Se a entidade retiver somente um risco insignificante inerente à propriedade, a transação é uma venda e a receita deve ser reconhecida. Por exemplo, um vendedor pode reter a titularidade legal sobre os bens unicamente para garantir o recebimento do valor devido. Em tal caso, se a entidade tiver transferido os riscos e benefícios significativos inerentes à propriedade, a transação é uma venda e a receita deve ser reconhecida. Outro exemplo de entidade retendo tão-só um insignificante risco de propriedade diz respeito às vendas a varejo em que o valor Fl. 784DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 38 da compra pode ser reembolsado se o cliente não ficar satisfeito. A receita em tais casos deve ser reconhecida no momento da venda, desde que o vendedor possa estimar com confiabilidade as devoluções futuras. O passivo correspondente a tais devoluções deve ser mensurado tomando por base experiências anteriores e outros fatores relevantes. 18. A receita só deve ser reconhecida quando for provável que os benefícios econômicos associados à transação fluirão para a entidade. Em alguns casos específicos isso só pode ser determinado quando do recebimento ou quando a incerteza for removida. Por exemplo, pode ser incerto que uma autoridade governamental estrangeira conceda permissão para que a entidade compradora remeta o pagamento da venda efetuada a um país estrangeiro. Quando a permissão for concedida, a incerteza desaparece e a receita deve ser reconhecida. Entretanto, quando surgir incerteza relativa à realização de valor já reconhecido na receita, o valor incobrável ou a parcela do valor cuja recuperação é improvável deve ser reconhecido como despesa e não como redução do montante da receita originalmente reconhecida. 19. A receita e as despesas relacionadas à mesma transação ou a outro evento devem ser reconhecidas simultaneamente; esse processo está vinculado ao princípio da confrontação das despesas com as receitas (regime de competência). As despesas, incluindo garantias e outros custos a serem incorridos após o despacho dos bens, podem ser mensuradas com confiabilidade, quando as outras condições para o reconhecimento da receita tenham sido satisfeitas. Contudo, quando as despesas não puderem ser mensuradas com confiabilidade, a receita não pode ser reconhecida. Em tais circunstâncias, quaisquer contraprestações já recebidas pela venda dos bens devem ser reconhecidas como passivo. [...] luz do Comitê de Pronunciamentos Contábeis a receita deve ser reconhecida quando os riscos inerentes à propriedade também forem transferidos. Aplicando- se semelhante raciocínio às vendas com transporte, pode-se inferir que quando o vendedor é o responsável pelo transporte os riscos inerentes à propriedade dos bens permanecem consigo até a entrega ao comprador. De modo diverso, sendo o comprador o responsável pelo transporte, os riscos inerentes à propriedade dos bens cessam na sua entrega à transportadora. Dito isto, pode-se concluir que à luz da contabilidade, a receita da venda de mercadorias a pronta entrega deve ser reconhecida: Na entrega do bem ao comprador, quando o vendedor for o responsável pelo transporte; Na entrega do bem ao transportador, quando o comprador for o responsável pelo transporte, o que, via de regra, coincide com o faturamento. Nesse sentido, o Manual de Contabilidade Societária da FIPECAFI2, aduz: [...] Como já mencionado anteriormente (Capítulo 4, item 4.2.2, letra b), o momento do reconhecimento da receita de vendas deve atender todas as condições expostas no item 14 do CPC 30 - Receitas, devendo ser o da transferência dos riscos e benefícios mais significativos da propriedade de tais bens ao comprador, Fl. 785DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 39 que geralmente coincide com a transferência da titularidade legal ou transferência da posse do ativo para o comprador. Em muitas empresas industriais e empresas comerciais, a contabilização das vendas pode ser feita pelas notas fiscais de vendas, já que o momento da entrega dos produtos é praticamente simultâneo ao da emissão das notas fiscais. Ocorre, comumente, todavia, uma pequena defasagem entre a data da emissão da nota fiscal e a da entrega dos produtos, quando a condição da venda é a entrega no estabelecimento do comprador. Nesse caso, devem ser registradas como receitas somente na entrega dos produtos, ou seja, quando da passagem da posse do ativo para o comprador. Essa defasagem, na verdade, só gera algum problema na data do Balanço, relativamente às vendas já faturadas, mas ainda não entregues. Esse problema deve ser coordenado com o levantamento físico dos estoques, devendo-se tomar cuidado para não registrar como receitas as notas emitidas, mas não entregues e, nesse caso, os produtos devem ser computados como produtos acabados nos estoques na data do Balanço. Se, todavia, a empresa considerar tais notas como vendas do período, por não serem significativas, os produtos correspondentes devem ser segregados fisicamente e não computados como estoques na data do Balanço. [...] [grifou-se] Embora, sob ponto de vista contábil, seja a tradição o momento de realização da receita, muitas empresas, optam por reconhecer a receita já na emissão da nota fiscal, ajustando seu estoque, tal como acontece no varejo, evitando esse descompasso entre a data de emissão da nota fiscal e reconhecimento da receita. Partindo da premissa que os contratos de compra e venda em tela teriam por condição a entrega dos bens/mercadorias no estabelecimento do comprador, assiste razão à recorrente quando alega que sua receita poderia ser reconhecida no momento da entrega. Dito isto, passa-se a apreciar os fatos concretos. 2.1.5 Das NFes com mercadorias entregues no ano subsequente à emissão A recorrente alega possuir uma receita de R$ 692.119.111,59 de venda de mercadorias, entregues em 2014, cujas Nfe foram emitidas em 2013. E que por essa razão essa receita deveria ser excluída do resultado de 2013. Para comprovar o alegado, juntou listagem da NFe, através de arquivo digital, e cópia, por amostragem, dos canhotos de entrega das mercadorias (fls. 297-354). De semelhante forma, a recorrente aduz que R$ 386.483.846,78 de receita de venda de mercadorias entregues em 2013 tiveram sua NFe emitida no ano- calendário de 2012. devendo essa receita ser incluída no PA 2013. Comprovariam o fato, a listagem da NFe, constante de arquivo digital e cópia, por amostragem, dos canhotos de entrega das mercadorias (fls. 297-354). No curso da ação fiscal, foi apresentado pelo sujeito passivo a relação das notas fiscais emitidas no ano 2013 e realizadas em 2014, com a data do registro (Planilha Doc02DocsImpugnacaoDoc12NFes2013comEntregaem2014.xlsx), assim como a relação das notas fiscais emitidas em 2012 e realizadas em 2013 (Doc02DocsImpugnacaoDoc13NFes2012comEntregaem2013.xlsx). Em meio ao procedimento de diligência, foi apresentada pelo sujeito a planilha eletrônica Notas_Fiscais_Emitidas_em_2013_e_realizadas_em_2014.xlxs, com Fl. 786DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 40 informações de: chave de identificação da NFe; data de emissão; data de realização da receita; número do documento de registro da receita na contabilidade e código da conta de registro. Apresentou-se ainda a ECD referente ao ano-calendário 2014. Por meio do cruzamento das informações constantes na planilha Notas_Fiscais_Emitidas_em_2013_e_realizadas_em_2014.xlxs com a ECD 2014, verificou-se que, de fato, houve a inclusão da receita daquelas NFe na apuração do resultado de 2014. Por oportuno, cumpre salientar que não restou comprovada pela autoridade lançadora eventual divergência entre as datas de realização da receita e da despesa, que pudesse ser oponível ao critério adotado pelo contribuinte para realização de sua receita. Desta feita, considerando ser possível a realização da receita no momento da tradição da mercadoria, e não havendo prova de divergência entre a data de realização da receita e da despesa, deve ser excluída do resultado da apuração a receita das NFe emitidas em 2013 e entregues em 2014, no valor total de R$ 692.119.111,59. (...) 2.2 DA REDUÇÃO POR REINVESTIMENTO A recorrente informou em sua DIPJ dois benefícios fiscais de IRPJ, a títulos de (i) redução de 75% do imposto sobre a atividade incentivada e (ii) redução do imposto por reinvestimento. A autoridade fiscal, entretanto, glosou a redução do imposto por reinvestimento, no valor de R$ 12.749.057,47, em razão de o sujeito passivo não ter comprovado a receita líquida correspondente à atividade com redução por reinvestimento. Para fundamentar sua conclusão, aduz: [...] a pessoa jurídica informou a redução por reinvestimento mas não informou a receita líquida dessa atividade com redução por reinvestimento, o que leva a inferir não ter direito a ela a esta redução visto não existir a receita da receita incentivada correspondente. [...] os dois benefícios fiscais (Redução por Reinvestimento e Redução de 75%), nada obstante apresentarem como base de cálculo, o lucro da exploração, para a aquisição do direito de usufruí-los deve a pessoa jurídica apresentar diferentes projetos econômico-financeiros junto à SUDAM, posto que o fundamento de cada um são distintos. (...) O benefício fiscal de redução do IRPJ por Depósito para Reinvestimento está previsto no art. 612 do RIR/99, nos seguintes termos: Deduções do Imposto Art. 612. As empresas que tenham empreendimentos industriais e agro- industriais, inclusive os de construção civil, em operação nas áreas de atuação da SUDENE e da SUDAM, poderão depositar no Banco do Nordeste do Brasil S/A e no Banco da Amazônia S/A, respectivamente, para reinvestimento, os percentuais a seguir indicados, do imposto devido pelos referidos empreendimentos, calculados sobre o lucro da exploração (art. 544), acrescidos Fl. 787DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 41 de cinqüenta por cento de recursos próprios, ficando, porém, a liberação desses recursos condicionada à aprovação, pelas Agências do Desenvolvimento Regional, dos respectivos projetos técnicos econômicos de modernização ou complementação de equipamento (Lei nº 8.167, de 1991, arts. 1º, inciso II, 19 e 23, Lei nº 8.191, de 1991, art. 4º, e Lei nº 9.532, de 1997, art. 2º ): I- trinta por cento, relativamente aos períodos de apuração encerrados a partir de 1º de janeiro de 1998 até 31 de dezembro de 2003; II- vinte por cento, relativamente aos períodos de apuração encerrados a partir de 1º de janeiro de 2004 até 31 de dezembro de 2008; III- dez por cento, relativamente aos períodos de apuração encerrados a partir de 1º de janeiro de 2009 até 31 de dezembro de 2013. § 1ºO depósito referido neste artigo deverá ser efetuado no mesmo prazo fixado para pagamento do imposto. § 2ºAs parcelas não depositadas até o último dia útil do ano-calendário subseqüente ao de apuração do lucro real correspondente serão recolhidas como imposto. § 3ºEm qualquer caso, a inobservância do prazo importará recolhimento dos encargos legais como receita da União. § 4ºNa hipótese de o projeto não ser aprovado, caberá ao banco operador devolver à empresa depositante a parcela de recursos próprios e recolher à União o valor depositado como incentivo (Lei nº 8.167, de 1991, art. 19, § 3º ). § 5ºO incentivo deste artigo não pode ser usufruído cumulativamente com outro idêntico, salvo quando expressamente autorizado em lei (Lei nº 8.191, de 1991, art. 5º ). § 6ºFica extinto, relativamente ao períodos de apuração encerrados a partir de 1º de janeiro de 2014, o benefício fiscal de que trata este artigo (Lei nº 9.532, de 1997, art. 2º, § 2º ). O art. 3º da Medida Provisória nº 2.199-14, de 2001, manteve o incentivo fiscal no percentual de 30% para aqueles empreendimentos de setores da economia que venham a ser considerados, em ato do Poder Executivo, prioritários para o desenvolvimento regional. Tal benefício foi estendido novamente, até o ano 2018, através do art. 69 da Lei º 12.715 de 20123. Ainda sob a vigência da Medida Provisória nº 2.199-14, de 2001, a SRF emitiu a IN SRF nº 267, de 2002, que assim regulamentou a matéria: Art. 115. Até o ano-calendário de 2013, as pessoas jurídicas que tenham empreendimentos enquadrados em setores da economia considerados, em ato do Poder Executivo, prioritários para o desenvolvimento regional, nas áreas de atuação da extinta Sudene e da extinta Sudam, poderão depositar no Banco do Nordeste do Brasil S/A e no Banco da Amazônia S/A, respectivamente, para reinvestimento, o percentual de até trinta por cento do imposto devido pelos referidos empreendimentos, calculados sobre o lucro da exploração (art. 57), acrescidos de cinqüenta por cento de recursos próprios, ficando, porém, a liberação desses recursos condicionada à aprovação do órgão competente do MI, dos respectivos projetos técnicos econômicos de modernização ou complementação de equipamento. Fl. 788DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 42 § 1º O depósito deverá ser efetuado nos seguintes prazos: I - apuração trimestral: a) se quota única: até o último dia útil do mês subseqüente ao do encerramento do período de apuração; b) se pagamento em quotas: até o último dia útil do mês a que corresponder. II - apuração anual: até o último dia útil do mês de março de cada ano. § 2º O incentivo não poderá ser utilizado para reduzir o valor do recolhimento mensal do imposto determinado sobre base de cálculo estimada apurada com base na receita bruta. § 3º As parcelas não depositadas até o último dia útil do ano-calendário subseqüente ao de apuração do lucro real correspondente serão recolhidas como imposto. § 4º Em qualquer caso, a inobservância do prazo importará recolhimento dos encargos legais (juros e multa de mora) como receita da União. § 5º Na hipótese de o projeto não ser aprovado, caberá ao banco operador devolver à empresa depositante a parcela de recursos próprios e recolher à União o valor depositado como incentivo. § 6º O incentivo não poderá ser usufruído cumulativamente com outro idêntico, salvo quando expressamente autorizado em lei. § 7º O valor que servir de base para determinação do incentivo não integrará a base de cálculo dos incentivos previstos no art. 105. § 8º O valor correspondente ao adicional do imposto de renda não será computado na determinação da base de cálculo do incentivo. [grifou-se] A luz do dispositivo, tem-se que, a partir da vigência da Medida Provisória nº 2.199-14, de 2001, o benefício fiscal da redução por investimento se determina pela aplicação do percentual de 30% sobre o resultado do IRPJ principal devido sobre o lucro da exploração, deduzido dos demais incentivos de isenção e redução. Observa-se, por oportuno, que a limitação trazida pelo § 6º do art. 115 da IN SRF nº 267, de 2002, diz respeito à não acumulação da redução do IRPJ por reinvestimento com outro incentivo (isenção ou redução) calculado sobre a mesma receita incentivada. Por esse motivo, apenas o imposto excedente ao benefício de redução, apurado sobre a atividade incentiva, é que deve compor a base de cálculo sujeita ao percentual de 30%, que determina o valor máximo da redução por reinvestimento. De efeito, esse limitador não obsta que a atividade incentiva contenha dois benefícios, a exceção, por óbvio, da que contenha isenção do imposto, por ausência de imposto excedente. Ou seja, não há óbice para que a atividade incentivada da pessoa jurídica contenha cumulativamente os benefícios de Redução por Reinvestimento e Redução de 75%, o que se veda é que o somatório desses benefícios supere o imposto principal apurado para a atividade. Nesse sentido, a Solução de Consulta nº 67 - SRRF/6ª RF/Disit, 5 de junho de 2007, concluiu que: Fl. 789DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 43 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Os incentivos fiscais de redução de 75% e de redução por reinvestimento do imposto de renda devido, calculados sobre o lucro da exploração, previstos, respectivamente, nos arts. 1º e 3º da MP nº 2.199-14, de 2001, podem ser usufruídos concomitantemente pelo mesmo empreendimento considerado prioritário para o desenvolvimento regional na área da extinta Sudene, desde que obedecidas todas as condições estabelecidas na legislação em vigor, especialmente no Decreto nº 4.213, de 2002, e na IN SRF nº 267, de 2002. Fundamentos Legais: MP nº 2.199-14/2001, arts. 1º e 3º; Decreto nº 4.213/2002; IN SRF nº 267/2002 e IN RFB nº 738/2007. O entendimento se planificou de vez com expedição da Solução de Consulta nº 28 – Cosit, de 26 de fevereiro de 2015, cuja ementa foi assim redigida: “INCENTIVOS FISCAIS. SUDAM - SUDENE. REDUÇÃO DO IRPJ. REINVESTIMENTO - FORMA DE CÁLCULO. A redução de 75% do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) para as pessoas jurídicas que tenham projeto para instalação, ampliação, modernização ou diversificação enquadrado em setores da economia considerados, em ato do Poder Executivo, prioritários para o desenvolvimento regional, nas áreas de atuação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), protocolizado e aprovado até 31 de dezembro de 2018, alcança o adicional do referido Imposto. É facultado às pessoas jurídicas beneficiadas com o incentivo de redução de 75% do IRPJ reinvestirem 30% do valor do IRPJ devido, exceto o adicional, em projetos de modernização ou complementação de equipamento até o ano de 2018. O IRPJ reduzido (redução de 75%) com base no lucro da exploração de projeto para instalação, ampliação, modernização ou diversificação de atividade não pode ser usado para compor o IRPJ que servirá de base de cálculo do reinvestimento (30% do IRPJ) em projetos de modernização ou complementação de equipamento. Dispositivos Legais: Medida Provisória (MP) nº 2.199-14, de 2001, art. 1º e 3º; Lei nº 8.167, de 1991, art. 19, Lei nº 9.532, de 1997, art. 2º e incisos.” O próprio manual de preenchimento da DIPJ 2014 prevê essa possibilidade quando da um exemplo de cálculo de redução por reinvestimento. Ver Quadros abaixo. Fl. 790DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 44 O fato justificaria a omissão da Receita Líquida da Atividade com Redução por Reinvestimento (Linha 08/16) na DIPJ 2014, pois o manual de preenchimento da declaração, cujo trecho se reproduz abaixo, instrui o contribuinte a não informar, nesta linha, o valor da receita líquida já informado nas Linhas 08/01 a 08/15, dentre as quais se destaca a Receita Líquida da Atividade com Redução de 75% (Linha 08/10). Linha 08/16 - Receita Líquida da Atividade com Redução por Reinvestimento Os incentivos de redução do imposto por reinvestimento podem ser utilizados somente em relação aos empreendimentos dos setores da economia considerados, em ato do Poder Executivo, prioritários para o desenvolvimento regional. Atenção: A pessoa jurídica que se utilizar indevidamente do benefício estará sujeita ao pagamento do imposto em relação a cada período de apuração, acrescido de juros e multa, sem prejuízo das sanções penais cabíveis. Deve ser indicado, nesta linha, o valor da receita líquida correspondente a empreendimentos industriais e agroindustriais, inclusive de construção civil, em operação nas áreas de atuação da Sudam e da Sudene que pleiteiam redução de até 30% do valor do imposto sobre a renda (Decreto nº 3.000, de 1999, art. 612, I, e MP nº 2.058, de 2000, art. 4º). Atenção: Não informar, nesta linha, o valor da receita líquida informado nas Linhas 08/01 a 08/15. Outras informações no subitem 15.7.11.2. [negritou-se] De volta ao caso concreto, a recorrente afirma que a Receita Líquida da Atividade com Redução por Reinvestimento se confunde com a Receita Líquida da Atividade com Redução de 75%, motivo do não preenchimento da Linha 12A/15, vez que a receita já fora informado na Linha 08/10. O fato foi trazido pela recorrente à fiscalização através da resposta ao Termo de Intimação Fiscal de 08/08/2017, nos seguintes termos: Fl. 791DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 45 O valor referente a Redução Por Reinvestimento, que foi informado na linha 77 da Ficha 10 -Cálculo da Isenção e Redução do Imposto Sobre o Lucro Real - PJ em Geral, está suportado pela linha 10 da Ficha 08 - Demonstração do Lucro da Exploração, relativa a "Receita Líquida da Atividade com Redução de 75%". Nesse contexto, destaca a Requerente que inexiste vedação de aproveitamento em conjunto dos incentivos fiscais de depósito para reinvestimento e da redução de 75% do IRPJ calculado sobre o lucro da exploração. Com efeito, de acordo com os artigos 4º e 5º da Lei 8.191, o incentivo fiscal vinculado a depósito para reinvestimento não pode ser cumulativo com outro idêntico, salvo quando expressamente autorizado em lei: Art. 4° O depósito para reinvestimento de parcela do Imposto de Rend'a devido pelas empresas em operação na área da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) ou da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) continua a ser aplicável aos empreendimentos industriais, inclusive aos de construção civil e agroindustriais, de conformidade com o disposto no art. 19 da Lei nQ 8.167, de 16 de janeiro de 1991. Art. 5o Os incentivos fiscais instituídos por esta lei não podem ser usufruídos cumulativamente com outros idênticos, salvo quando expressamente autorizados em lei. Destaca-se que a norma é clara de que a vedação de fruição cumulativa de benefícios, embora seja regra, pode ser excepciona por lei. Pois bem, a redução de 75% do IRPJ prevista no artigo l9 da Medida Provisória n9 2.199-14/2001 enquadra-se justamente nas hipóteses de autorização de fruição cumulativa: Art. Ia Sem prejuízo das demais normas em vigor aplicáveis à matéria, a partir do ano-calendário de 2000, as pessoas jurídicas que tenham projeto protocolizado e aprovado até 31 de dezembro de 2018 para instalação, ampliação, modernização ou diversificação enquadrado em setores da economia considerados, em ato do Poder Executivo, prioritários para o desenvolvimento regional, nas áreas de atuação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE e da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia - SUDAM, terão direito à redução de 75% (setenta e cinco por cento) do imposto sobre a renda e adicionais calculados com base no lucro da exploração. (Redação dada pela Lei n£ 12.715, de 2012) Como se vê, a Medida Provisória n9 2.199-14/2001, que tem força de lei, nos termos do art. 2? da Emenda Constitucional n9 32/20011, é clara no sentido de que o incentivo da redução do IRPJ com base no lucro da exploração aplica-se sem prejuízo das demais normas em vigor aplicáveis à matéria, logo, sem prejuízo do direito ao benefício fiscal da redução do imposto por reinvestimento. Do exposto, o contribuinte argumentou perante a fiscalização a possibilidade de utilização concomitante dos benefícios fiscais. Todavia, não buscou demonstrar que a mesma receita serviu de base a ambos os incentivos fiscais. Fazendo-o somente neste contencioso. Chamada a se manifestar sobre a nova documentação apresentada, a autoridade lançadora aduziu que, não obstante os novos elementos trazidos pela recorrente, mantinha o entendimento expresso no lançamento. Fl. 792DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 46 A glosa da redução por investimento foi assentada em dois pilares: 1. A omissão da Receita Líquida da Atividade com Redução por Reinvestimento na linha 16/08 da DIPJ; 2. A falta da comprovação da correspondente Receita Líquida da Atividade com Redução por Reinvestimento. Já se verificou acima a possibilidade de omissão da receita líquida da Atividade com Redução por Reinvestimento na linha 16/08 quando esta receita já está informada nas Linhas 08/01 a 08/15, dentre as quais a Linha 08/10 que trata da Receita Líquida da Atividade com Redução de 75%, hipótese em que a receita da atividade incentivada contém cumulativamente os benefícios de Redução por Reinvestimento e Redução de 75%. Fato alegado pelo sujeito passivo. Quanto à comprovação da receita líquida da atividade com redução por reinvestimento, a recorrente trouxe, em sede de recurso, os seguintes documentos, que no seu entender comprovariam a receita da atividade incentivada: 1. Extrato do Banco da Amazônia, atestando o depósito de R$ 19.123.586,47, em 27 de março de 2014, sendo R$ 12.749.057,47 referentes à redução do IRPJ, e R$ 6.374.528,82 relativos a recursos próprios (fl 361-362); 2. Cópia do Projeto Técnico-Econômico de Reinvestimento de 30% do IRPJ, de 11/07/2014, pleiteando o direito à redução por reinvestimento (fls. 364-417); 3. Cópia do Diário Oficial da União, de 18 de setembro de 2014, em que foi publicado Resolução nº 30, de 12 de setembro de 2014, que, por sua vez, aprovou o projeto de Reinvestimento do IRPJ, referente à complementação e modernização de equipamentos, apresentado pela recorrente, reconhecendo-lhe o direito ao incentivo do Reinvestimento, referente ao ano-calendário 2013, no valor de R$ 19.123.586,21 (fl. 419). A autoridade fiscal de origem, em que pese assentir em manter o entendimento manifestado no lançamento, quando solicitado não apresentou qualquer juízo de valor quanto à documentação de suporte apresentada pela recorrente, menos ainda óbice motivado que justificasse a inabilidade da documentação apresentada. Desta feita, na ausência de motivos fundamentados para se declarar a inabilidade da documentação de suporte do incentivo de Redução por Reinvestimento, e ainda, da possibilidade de cumulatividade entre os benefícios de Redução por Reinvestimento e Redução de 75%, acolhe-se o pleito da recorrente no sentido de cancelar a glosa da Redução por Reinvestimento. Assim, por concordar com os fundamentos e as conclusões adotadas pela decisão recorrida, adoto-as como razão de decidir, nos termos do inc. I do § 12 do art; 114 do RICARF: Art. 114. As decisões dos colegiados, em forma de acórdão ou resolução, serão assinadas pelo presidente, pelo relator, pelo redator designado ou por conselheiro que fizer declaração de voto, devendo constar, ainda, o nome dos conselheiros presentes, ausentes e impedidos ou sob suspeição, especificando-se, se houver, os conselheiros vencidos, a matéria em que o relator restou vencido e o voto vencedor. (...) Fl. 793DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.948 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10283.726643/2017-68 47 §12. A fundamentação da decisão pode ser atendida mediante: I - declaração de concordância com os fundamentos da decisão recorrida; e II – referência a súmula do CARF, devendo identificar seu número e os fundamentos determinantes e demonstrar que o caso sob julgamento a eles se ajusta. Ante o exposto, conheço do recurso de ofício para negar-lhe provimento e conheço do presente recurso voluntário para, no mérito, dar-lhe parcial provimento, para excluir da receita bruta apurada pelo Fisco no ano- calendário de 2013, a receita das NFe emitidas no ano- calendário 2012, entregues em 2013, no valor de R$ 386.455.747,85; a reclassificação de impostos (Conta 41016969) no valor de R$ 1.945.275,91; e os demais ajustes credores a título de receita de venda de serviços (Conta 41011101), receita de garantia estendida (Conta 41011103) e diferença V.C. exportação (Conta 41210101). É como voto. Assinado Digitalmente Jeferson Teodorovicz Fl. 794DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 10480.721247/2010-41
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 09 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Jan 02 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 RECURSO VOLUNTÁRIO. INOVAÇÃO RECURSAL. IMPOSSIBILIDADE. PRECLUSÃO. A impugnação instaura a fase litigiosa do procedimento fiscal e é o momento no qual o contribuinte deve aduzir todas as suas razões de defesa, não se admitindo a apresentação em sede recursal de argumentos não debatidos na origem, salvo nas hipóteses de fato superveniente ou questões de ordem pública. PREVIDENCIÁRIO. NORMAS PROCESSUAIS. IMPUGNAÇÃO NÃO CONHECIDA. PRECLUSÃO ADMINISTRATIVA. DISCUSSÃO MATÉRIA EM SEGUNDA INSTÂNCIA. EXCLUSIVAMENTE PREJUDICIAL DE CONHECIMENTO. A impugnação não conhecida enseja a preclusão administrativa relativamente às questões meritórias suscitadas na defesa inaugural, cabendo recurso voluntário a este Egrégio Conselho tão somente quanto à prejudicial de conhecimento da peça impugnatória. Restando incontroversa a preclusão processual é defeso ao CARF conhecer do recurso voluntário para se pronunciar a respeito das razões meritórias, as quais não foram contempladas na decisão recorrida, em face da preclusão, sob pena, inclusive, de supressão de instância.
Numero da decisão: 2002-009.968
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Voluntário em virtude da preclusão Assinado Digitalmente Marcelo Freitas de Souza Costa – Relator Assinado Digitalmente Marcelo de Souza Sateles – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Barros de Moura, Fernando Gomes Favacho, Luciana Costa Loureiro Solar, Marcelo Freitas de Souza Costa, Rafael de Aguiar Hirano, Marcelo de Souza Sateles (Presidente).
Nome do relator: MARCELO FREITAS DE SOUZA COSTA

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INOVAÇÃO RECURSAL. IMPOSSIBILIDADE. PRECLUSÃO. A impugnação instaura a fase litigiosa do procedimento fiscal e é o momento no qual o contribuinte deve aduzir todas as suas razões de defesa, não se admitindo a apresentação em sede recursal de argumentos não debatidos na origem, salvo nas hipóteses de fato superveniente ou questões de ordem pública. PREVIDENCIÁRIO. NORMAS PROCESSUAIS. IMPUGNAÇÃO NÃO CONHECIDA. PRECLUSÃO ADMINISTRATIVA. DISCUSSÃO MATÉRIA EM SEGUNDA INSTÂNCIA. EXCLUSIVAMENTE PREJUDICIAL DE CONHECIMENTO. A impugnação não conhecida enseja a preclusão administrativa relativamente às questões meritórias suscitadas na defesa inaugural, cabendo recurso voluntário a este Egrégio Conselho tão somente quanto à prejudicial de conhecimento da peça impugnatória. Restando incontroversa a preclusão processual é defeso ao CARF conhecer do recurso voluntário para se pronunciar a respeito das razões meritórias, as quais não foram contempladas na decisão recorrida, em face da preclusão, sob pena, inclusive, de supressão de instância. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Voluntário em virtude da preclusão Fl. 294DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.968 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10480.721247/2010-41 2 Assinado Digitalmente Marcelo Freitas de Souza Costa – Relator Assinado Digitalmente Marcelo de Souza Sateles – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Barros de Moura, Fernando Gomes Favacho, Luciana Costa Loureiro Solar, Marcelo Freitas de Souza Costa, Rafael de Aguiar Hirano, Marcelo de Souza Sateles (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Auto de Infração lavrado contra o contribuinte acima identificado, por descumprimento da obrigação acessória prevista no art. 32, II (CFL 34) da Lei nº 8.212/1991, combinado com art. 225, II e §§ 13 a 17 e 9º , do Regulamento da Previdência Social - RPS, aprovado pelo Decreto n° 3.048/1999, por deixar de lançar mensalmente em títulos próprios de sua contabilidade, de forma discriminada, os fatos geradores de todas as contribuições previdenciárias, os montantes das contribuições descontadas dos segurados e das contribuições da empresa. Em sua impugnação a autuada assim se manifestou: - Aderiu ao parcelamento instituído pela Lei 11.941/2009, consoante Recibo da Declaração de Inclusão da Totalidade dos Débitos no Parcelamento da Lei n° 11.941/2009, que abrange - inclusive - os débitos que embasam o presente Auto de Infração; - De acordo com a legislação aplicável ao referido parcelamento, considerando que a ação fiscal teve início em 28/04/2010, e que tem por objeto o período de janeiro/2007 a dezembro/2007, não resta dúvida de que o referido débito objeto do presente Auto de Infração, será incluído no parcelamento da Lei n° 11.941/2009, independentemente de serem informados em GFIP; - Requer que sejam informados os débitos objeto do presente Auto de Infração para fins de consolidação no parcelamento especial previsto na Lei n° 11.941/2009, cuja indicação será realizada na época própria conforme previsto no art. 15 da Portaria Conjunta PGFN/RFB n° 6/2009. Fl. 295DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.968 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10480.721247/2010-41 3 A - 9ª Turma da DRJ/POR, não conheceu da impugnação sob a fundamentação de que a impugnação apresentada claramente não contém qualquer ponto de discordância em relação ao lançamento. Inconformada, a autuada presentou recurso onde alega em síntese: Defende a ausência de preclusão argumentando que há vícios de ilegalidade, ocasionando lesão ao ordenamento, contrariando interesse público e lesão ao contribuinte. Que o CARF deve rever o ato administrativo independente das circunstâncias procedimentais, citando a Súmula 473 do STF e precedentes deste conselho; Sustenta o princípio da instrumentalidade das formas para que seja efetuada a correção do lançamento, e que seja dada melhor interpretação ao instituto da Preclusão; Afirma ter erro material na tipificação da multa ocasionando assim a nulidade da autuação; Pede a conexão com os processos da mesma autuação conforme Regimento Interno do CARF em seus arts. 5º a 8º, especialmente o art. 6º parágrafo 1º, I o qual transcreve. Ao fim requer: O conhecimento do recurso e a vinculação dos processos administrativos lançados na mesma fiscalização e que no mérito a anulação do presente auto por vício material. É o relatório. VOTO Conselheiro Marcelo Freitas de Souza Costa, Relator Inicialmente cabe esclarecer que os processos vinculados citados no recurso estão sendo julgados nesta mesma Sessão. Já quanto ao conhecimento, ao contrário do que entendo o recorrente, seus argumentos não merecem prosperar. Não obstante as substanciosas razões de fato e de direito ofertadas pela contribuinte, vislumbra-se que sua peça recursal não atende aos pressupostos de admissibilidade, como passaremos a demonstrar. A autoridade julgadora de primeira instância entendeu por bem não conhecer da defesa inaugural, inobstante a sua tempestividade, tendo em vista que a argumentação da contribuinte não guardava relação de causa e efeito com a matéria objeto da autuação, consoante se positiva do Acórdão recorrido, com a seguinte ementa: Fl. 296DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.968 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10480.721247/2010-41 4 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 Debcad: 37.287.585-8 AUTO DE INFRAÇÃO. IMPUGNAÇÃO. A impugnação apresentada contra auto de infração lavrado por autoridade fiscal deverá mencionar os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que a impugnante possuir. Impugnação Não Conhecida Crédito Tributário Mantido No presente caso constata-se, que o contribuinte traz matéria inteiramente nova, não apresentada quando de sua impugnação, restando assim preclusa. De fato, o Decreto nº 70.235/72 prescreve que: Art. 14. A impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento (...) Art. 16. A impugnação mencionará: (...) III - os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir;(Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) (...) Art. 17. Considerar-se-á não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. Como se vê, é a Impugnação que delimita a matéria em discussão no Processo Administrativo Fiscal-PAF após instaurar a fase litigiosa do procedimento de determinação e exigência do crédito tributário. E decorre daí que a matéria que não foi objeto da Impugnação não pode ser trazida como inovação no Recurso à segunda instância administrativa, entendimento esse já sedimentado neste Conselho, de que são exemplos os Acórdãos abaixo: MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. PRECLUSÃO. Não deve ser conhecida a matéria inovada em recurso voluntário que não havia sido objeto de impugnação, tendo sido consumada a preclusão. Ac. 2202-004.915, de 17/01/2019 PRECLUSÃO. NÃO CONHECIMENTO DO RECURSO QUANTO À INOVAÇÃO DA CAUSA DE PEDIR. Fl. 297DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.968 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10480.721247/2010-41 5 É vedado à parte inovar no pedido ou na causa de pedir em sede de julgamento de segundo grau, salvo nas circunstâncias excepcionais referidas nas normas que regem o processo administrativo tributário federal. Ac. 2202-005.311, de 10/07/2019 INOVAÇÃO EM SEDE DE RECURSO VOLUNTÁRIO. IMPOSSIBILIDADE. PRECLUSÃO. Os argumentos de defesa trazidos apenas em grau de recurso voluntário, em relação aos quais não teve oportunidade de se manifestar a autoridade julgadora de primeira instância, impedem a sua apreciação em segunda instância, por preclusão processual. Ac. 2402-007.507, de 07/08/2019 No presente caso o contribuinte traz em seu recurso argumentos novos, não constantes em sua impugnação. Dessa forma, muito embora o recurso voluntário observe o pressuposto da tempestividade, não se encontra revestido de qualquer utilidade processual, além de estar maculado pelo instituto da preclusão. Também não se vislumbra tratar-se de matéria de Ordem Pública ou de qualquer outra hipótese que ensejasse seu conhecimento. Ademais é defeso a esta segunda instância julgadora adentrar as questões meritórias aventadas no recurso voluntário, as quais não foram objeto de impugnação, em face da preclusão em relação a tais matérias, sob pena, inclusive, de supressão de instância. CONCLUSÃO Ante ao exposto, voto no sentido de Não Conhecer do Recurso Voluntário em virtude da Preclusão. Assinado Digitalmente Marcelo Freitas de Souza Costa Fl. 298DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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11174017 #
Numero do processo: 17095.720351/2023-26
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 25 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2018, 2019 PAGAMENTO SEM CAUSA. BENEFICIÁRIO IDENTIFICADO. INCIDÊNCIA DO IRRF. Ainda que se identifique o beneficiário do pagamento realizado, incide o IRRF, à alíquota de 35%, quando não for comprovada a causa do pagamento. ONUS DA PROVA. CAUSA DO PAGAMENTO. É ônus da fonte pagadora identificar e comprovar a causa do pagamento efetuado, a fim de permitir ao Fisco que verifique a regular tributação do rendimento auferido pelo beneficiário dos recursos. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. A multa de ofício deve ser qualificada quando a conduta do agente se der mediante sonegação, fraude ou conluio. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. REDUÇÃO. NOVA LEGISLAÇÃO. RETROATIVIDADE BENIGNA. Cabível a redução da multa qualificada de 150% para 100%, nos termos da legislação mais benéfica, quando a empresa não for considerada reincidente. MULTA DE OFÍCIO. NÃO CONFISCO. CAPACIDADE CONTRIBUTIVA. PROPORCIONALIDADE. A multa de ofício constitui penalidade por descumprimento da obrigação tributária principal, cuja aplicação decorre de expressa previsão legal, carecendo competência à autoridade julgadora administrativa para a análise de aspectos constitucionais atinentes ao confisco, à capacidade contributiva e à proporcionalidade das sanções tributárias previstas em Lei RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. ART. 135 DO CTN. SÓCIO-ADMINISTRADOR. EXCESSO DE PODERES, INFRAÇÃO DE LEI, CONTRATO SOCIAL OU ESTATUTO. DISSOLUÇÃO IRREGULAR DA SOCIEDADE. Presume-se dissolvida irregularmente a empresa que deixar de funcionar no seu domicílio fiscal sem comunicação aos órgãos competentes, em clara infração à lei civil, legitimando a responsabilização pessoal dos sócios-administradores pelo crédito tributário, de acordo com a Súmula 435 do STJ.
Numero da decisão: 1301-007.871
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento aos Recursos Voluntário e de Ofício, nos termos do voto do Relator. Assinado Digitalmente JOSE EDUARDO DORNELAS SOUZA – Relator Assinado Digitalmente RAFAEL TARANTO MALHEIROS – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Iagaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto[a] integral), Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski, Rafael Taranto Malheiros (Presidente).
Nome do relator: JOSE EDUARDO DORNELAS SOUZA

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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2018, 2019 PAGAMENTO SEM CAUSA. BENEFICIÁRIO IDENTIFICADO. INCIDÊNCIA DO IRRF. Ainda que se identifique o beneficiário do pagamento realizado, incide o IRRF, à alíquota de 35%, quando não for comprovada a causa do pagamento. ONUS DA PROVA. CAUSA DO PAGAMENTO. É ônus da fonte pagadora identificar e comprovar a causa do pagamento efetuado, a fim de permitir ao Fisco que verifique a regular tributação do rendimento auferido pelo beneficiário dos recursos. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. A multa de ofício deve ser qualificada quando a conduta do agente se der mediante sonegação, fraude ou conluio. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. REDUÇÃO. NOVA LEGISLAÇÃO. RETROATIVIDADE BENIGNA. Cabível a redução da multa qualificada de 150% para 100%, nos termos da legislação mais benéfica, quando a empresa não for considerada reincidente. MULTA DE OFÍCIO. NÃO CONFISCO. CAPACIDADE CONTRIBUTIVA. PROPORCIONALIDADE. A multa de ofício constitui penalidade por descumprimento da obrigação tributária principal, cuja aplicação decorre de expressa previsão legal, carecendo competência à autoridade julgadora administrativa para a análise de aspectos constitucionais atinentes ao confisco, à capacidade contributiva e à proporcionalidade das sanções tributárias previstas em Lei RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. ART. 135 DO CTN. SÓCIO-ADMINISTRADOR. EXCESSO DE PODERES, INFRAÇÃO DE LEI, CONTRATO SOCIAL OU ESTATUTO. DISSOLUÇÃO IRREGULAR DA SOCIEDADE. Presume-se dissolvida irregularmente a empresa que deixar de funcionar no seu domicílio fiscal sem comunicação aos órgãos competentes, em clara infração à lei civil, legitimando a responsabilização pessoal dos sócios-administradores pelo crédito tributário, de acordo com a Súmula 435 do STJ.

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BENEFICIÁRIO IDENTIFICADO. INCIDÊNCIA DO IRRF. Ainda que se identifique o beneficiário do pagamento realizado, incide o IRRF, à alíquota de 35%, quando não for comprovada a causa do pagamento. ONUS DA PROVA. CAUSA DO PAGAMENTO. É ônus da fonte pagadora identificar e comprovar a causa do pagamento efetuado, a fim de permitir ao Fisco que verifique a regular tributação do rendimento auferido pelo beneficiário dos recursos. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. A multa de ofício deve ser qualificada quando a conduta do agente se der mediante sonegação, fraude ou conluio. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. REDUÇÃO. NOVA LEGISLAÇÃO. RETROATIVIDADE BENIGNA. Cabível a redução da multa qualificada de 150% para 100%, nos termos da legislação mais benéfica, quando a empresa não for considerada reincidente. MULTA DE OFÍCIO. NÃO CONFISCO. CAPACIDADE CONTRIBUTIVA. PROPORCIONALIDADE. A multa de ofício constitui penalidade por descumprimento da obrigação tributária principal, cuja aplicação decorre de expressa previsão legal, carecendo competência à autoridade julgadora administrativa para a análise de aspectos constitucionais atinentes ao confisco, à capacidade contributiva e à proporcionalidade das sanções tributárias previstas em Lei Fl. 9818DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 2 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. ART. 135 DO CTN. SÓCIO- ADMINISTRADOR. EXCESSO DE PODERES, INFRAÇÃO DE LEI, CONTRATO SOCIAL OU ESTATUTO. DISSOLUÇÃO IRREGULAR DA SOCIEDADE. Presume-se dissolvida irregularmente a empresa que deixar de funcionar no seu domicílio fiscal sem comunicação aos órgãos competentes, em clara infração à lei civil, legitimando a responsabilização pessoal dos sócios- administradores pelo crédito tributário, de acordo com a Súmula 435 do STJ. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento aos Recursos Voluntário e de Ofício, nos termos do voto do Relator. Assinado Digitalmente JOSE EDUARDO DORNELAS SOUZA – Relator Assinado Digitalmente RAFAEL TARANTO MALHEIROS – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Iagaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto[a] integral), Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski, Rafael Taranto Malheiros (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário e Recurso de ofício interpostos em face do Acórdão nº 108-043.877, proferido pela 4ª Turma da DRJ/08, que julgou parcialmente procedente a impugnação apresentada, com redução da multa de ofício de 150% para 100%, com manutenção do crédito tributário remanescente e, por fim, com manutenção da responsabilidade passiva solidária de André Camperlingo. Por bem descrever o ocorrido, valho-me do relatório elaborado por ocasião do julgamento de primeira instância, a seguir transcrito: Fl. 9819DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 3 RELATÓRIO O presente processo trata de lançamento fiscal de Imposto de Renda incidente exclusivamente na fonte sobre pagamentos sem causa ou sem identificação do beneficiário, além dos acréscimos legais, à alíquota de 35%, nos termos do art. 61, da Lei 8.981/1995, efetuado em face de ARX MINERAIS E METAIS DO BRASIL LTDA (doravante ARX), conforme tela a seguir: DA AÇÃO FISCAL A autoridade fiscal fundamentou a lavratura do auto de infração nos fatos e atos abaixo expostos: 1. Em análise ao Sintegra de São Paulo, constatou que a ARX está baixada desde 15/07/2020 e que tem registrado como atividade principal o “fornecimento e gestão de recursos humanos para terceiro”, ou seja, bem longe de aquisições de metais/sucatas. Esta incoerência se repete junto à Receita Federal do Brasil, onde o contribuinte se cadastrou com um CNAE genérico (8299-7-99) “Outras atividades de serviços prestados principalmente às empresas não especificadas anteriormente”. 2. A empresa teve sua inscrição no Cadastro de Contribuintes de ICMS – Cadesp considerado inapto em 15/07/2020, sobre a ocorrência fiscal: “Cassada por prática de ato ilícito que tenha repercussão no âmbito tributário”. 3. A ARX também foi considerada pela Receita Federal do Brasil inexistente de fato, em 09/11/2021, conforme processo 17095.725.883/2021-98. 4. A ARX foi intimada a apresentar extratos bancários, conforme Termo de Início do Procedimento Fiscal, contudo, diante da impossibilidade de obter os extratos bancários com o contribuinte, o qual não foi encontrado em seu domicílio tributário, a autoridade fiscal obteve os extratos mediante Requisição de Informações sobre Movimentação Financeira (RMF), conforme o narrado nos itens 9 a 12 do relatório fiscal, fls. 38 e 39. 5. De acordo com o Relatório Fiscal, no período de 2018 e 2019, a ARX teria efetuado transferências bancárias paras pessoas jurídicas inexistentes de fato, a saber: 1) Fundibra Fundição Brasileira Ltda (Fundibra), CNPJ 14.286.186/0001-00; 2) Select Cable Condutores Elétricos Ltda (Select Cable), CNPJ 20.968.933/0001- 84; 3) Globbal Metais Ltda(Globbal Metais), CNPJ 23.300.517/0007-97 e 4) Metalnor Metais Ltda (Metalnor), CNPJ 24.970.458/0002-12, conforme Anexo I ao Termo de Intimação Fiscal nº 7 e tela abaixo: 6. Em 21/03/2023 a ARX foi intimada (Termo de Intimação Fiscal nº 7), a fim de comprovar a causa das transferências bancárias listadas no anexo a este Termo. Como a correspondência retornou, foram lavrados editais tanto para o CPF do Fl. 9820DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 4 responsável pela empresa, como para a própria empresa, apesar da suspensão do CNPJ. 7. Em 02/05/2023, como resposta ao Termo de Intimação Fiscal nº 7, a empresa apresentou uma relação de notas fiscais eletrônicas, algumas cópias de e-mails e documentos de pesagem de produtos. 8. Da análise a resposta ao Termo de Intimação Fiscal nº 7, constatou a autoridade fiscal que a imensa maioria das notas fiscais apresentadas, com identificação ou causa do pagamento, tem como transportadora a pessoa jurídica CGMS Comércio e Serviços EIRELI CNPJ 17.259.173/0001-21 (CGMS). Referida transportadora também foi baixada de ofício por inexistência de fato, conforme processo 17095.722.133/2021-64, ADE nº 011405129, com data de efeito a partir de 01/01/2018, não houve apresentação de recurso ao procedimento. 9. Ainda em relação à CGMS, em pesquisa realizada no endereço eletrônico do Sintegra do Estado de Mato Grosso do Sul, constata-se que a empresa estava registrada com atividade de Obras de Alvenaria e Reboco, ou seja, bem longe da atividade de transporte e teve seu registro cancelado em 08/11/2019. 10. Diante das situações narradas acima, concluiu a autoridade fiscal que não houve causa lícita para os pagamentos listados no Anexo I do Termo de Intimação Fiscal nº 7, nem comprovação da entrega das mercadorias, tendo em vista da situação fiscal da empresa CGMS. 11. Aduz que os documentos emitidos por pessoa jurídica inexistente de fato, apesar de constituída formalmente, consideram-se inidôneos, não se prestam para comprovar a efetiva realização dos serviços neles discriminado, nem produzem quaisquer efeitos tributários em favor de terceiros. 12. Considerando que o contribuinte não logrou comprovar o motivo das transferências efetuadas às empresas de fachada, nem mesmo a entrega efetiva das mercadorias, estes pagamentos foram considerados desprovidos de causa, sujeitos à incidência do imposto, exclusivamente na fonte, à alíquota de trinta e cinco por cento, a teor do art. 61, da Lei 8.981/1995. 13. No Anexo I ao relatório fiscal (fl. 55) foram detalhadas todas as transferências sem causa objeto do auto de infração. No Anexo II a este Termo foi realizado o reajuste das transferências bancárias para atendimento ao §3º do art. 61 da Lei 8.981/1995, bem como o cálculo do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) não recolhido, consolidado pelo dia de ocorrência, para atender o §2º do Art. 61 da mesma lei. 14. Tendo em vista a dissolução irregular da sociedade, evidenciada pelo seu desaparecimento, a autoridade fiscal, com base no art. 135 do CTN, responsabilizou solidariamente o sócio que administrava o negócio na época dos fatos, o Sr. ANDRÉ CAMPERLINGO, CPF 330.090.658-09. DA IMPUGNAÇÃO DA ARX Fl. 9821DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 5 Irresignada com o auto de infração, a ARX apresentou impugnação, com base nos fundamentos expostos a seguir: 15. O auto de infração é nulo por vício do ato administrativo, em razão de ausência de motivação, nos termos do art. 142 do CTN. A Fiscalização se limitou a desconsiderar, de forma genérica, toda a documentação apresentada pela Impugnante. 16. Não é admissível que a suposta inexistência de fato da empresa que efetuou o transporte das mercadorias seja o único fundamento que determine a imprestabilidade da farta documentação disponibilizada pela impugnante. Entende a impugnante que não há embasamento legal e fático apto a desconsiderar as operações pactuadas e, portanto, para declarar a inidoneidade dos respectivos custos contabilizados. 17. Não há prova de existência de dolo, fraude ou simulação, nos termos do art. 82, p.u. da Lei nº 9.430/1996 e Súmula 509/STJ. A impugnante forneceu à Fiscalização a documentação necessária para demonstrar a efetividade das operações (doc. nº 02), bem como os fundamentos que corroboram a boa-fé da Autuada. 18. Não há prova do ilícito, fato que contraria o art. 9º do Decreto nº 70.235/72. No caso, o único motivo que sustenta a inidoneidade das operações é a baixa, por inexistência de fato, do CNPJ das empresas fornecedoras da impugnante. Nada obstante, não há menção – ainda que parcial – aos fundamentos que ensejaram a formulação e, posteriormente, o deferimento dos pedidos de baixa das empresas. 19. A impugnante agiu de boa-fé nas operações comerciais realizadas com as empresas fornecedoras, conforme documentos e comprovantes que corroboram a efetividade das operações. Neste sentido, para todas as notas fiscais relacionadas pela autoridade fiscal foram feitas as conciliações das escriturações contábeis e fiscais, faturamentos, pagamentos e respectivos comprovantes. Portanto, há a efetiva correspondência entre as notas fiscais, escrituração nos documentos fiscais e contábeis, comprovantes de pagamento e os tickets de pesagem, o que demonstra cabalmente a ocorrência das operações efetuadas pela impugnante. 20. Assim sendo, tendo em vista a comprovação das operações realizadas de boa- fé pela impugnante, há que se reconhecer sua validade e, por conseguinte, o beneficiário e a causa dos pagamentos. 21. Aduz a impugnante que é insubsistente a cobrança relativa ao “pagamento sem causa ou de operação não comprovada”, pois, ainda que não se considere provada a operação ou a sua causa, o beneficiário do pagamento é identificado, tendo a autoridade fiscal condições de apurar eventual omissão de receitas por este e efetuar os lançamentos, se for o caso. Fl. 9822DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 6 22. Ao tempo dos fatos, não se poderia exigir que a impugnante soubesse da suposta inidoneidade das empresas fornecedoras, visto que não havia sequer publicação de ato administrativo declarando a baixa das aludidas empresas. Por essa razão, os atos executivos declaratórios não podem retroagir ao período dos fatos geradores, circunstância que impõe o reconhecimento da boa-fé da impugnante e da ocorrência das operações, como fartamente comprovado. 23. Aduz que os efeitos do ato declaratório referentes à Globbal Metais Ltda são posteriores às operações pactuadas com a impugnante, isso porque o ato declaratório executivo que determinou a baixa da situação cadastral da empresa produziu efeitos apenas a partir de 14.05.2020, após a ocorrência das operações cujos custos foram glosados. 24. De modo diverso do que faz crer a autoridade fiscal, ao tempo dos fatos impugnados, a situação cadastral da impugnante era válida, ainda que fosse, posteriormente, declarada inapta. Relembra-se que os supostos fatos geradores ocorreram entre os anos de 2018 e 2019, anteriormente aos efeitos produzidos pela declaração de inaptidão. 25. Pugna pela inexistência de fraude e conduta dolosa tendente a sonegar tributos devidos, devendo ser desqualificada a multa de ofício aplicada no percentual de 150%. No caso concreto, não houve nenhuma motivação para essa multa qualificada – não há dolo em nenhuma conduta e tampouco tributo evitado, de forma que a manutenção dessa exigência expressaria uma coerção ao pagamento de tributos. 26. Especificamente no que tange ao IRRF, a constatação de pagamentos escriturados, ainda que não provada a causa ou o beneficiário, per se, não autoriza a qualificação da multa. 27. Por fim, entende que a multa aplicada tem caráter confiscatório, haja vista a cabal afronta aos princípios do não-confisco, da capacidade contributiva, da razoabilidade e da proporcionalidade. Sendo assim, caso se entenda pela manutenção dos autos de infração (ainda que em parte), é essencial que as multas sejam revistas e reduzidas ao percentual de, no máximo, 20%. DA IMPUGNAÇÃO DO RESPONSÁVEL SOLIDÁRIO O Sr. ANDRÉ CAMPERLINGO, CPF 330.090.658-09, doravante ANDRÉ, pugna pela sua exclusão do polo passivo da obrigação tributária, com base nos seguintes fundamentos: 28. O lançamento tributário exige provas robustas das acusações fiscais, não se satisfazendo com mínimos indícios evocados pela autoridade fiscal. No caso, a fiscalização afirma que a Autuada faria parte de um grupo econômico que emitiria notas fiscais inidôneas, sem, no entanto, fornecer indícios mínimos da existência do suposto esquema. Fl. 9823DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 7 29. Nesse sentido, não há quaisquer elementos aptos a demonstrar a suposta dissolução irregular da sociedade e, assim, atrair a responsabilidade solidária do impugnante. Percebe-se que são raros os trechos em que há menção direta aos indícios que imputariam ao impugnante a condição de sujeito passivo da obrigação tributária, sendo que a única evidência apresentada é o fato de ter sido sócio da Autuada, circunstância insuficiente para fundamentar eventual responsabilidade solidária. 30. Isso posto, constata-se que a fiscalização se olvidou de apresentar os elementos probatórios que motivaram o direcionamento do impugnante ao polo passivo da obrigação tributária, infringindo o rigor formalístico processual e as premissas legais. Imperiosa a decretação de nulidade do lançamento tributário, em virtude do vício de motivação. 31. Ainda que se lograsse comprovar a infração a lei, não haveria indícios da conduta dolosa do impugnante. Isso porque não há quaisquer elementos que demonstrem seu vínculo com o suposto grupo econômico de emissão de notas fiscais inidôneas. 32. Ainda que se cogite uma responsabilização, consoante o entendimento do STJ, ela deve recair ao sócio "na data em que configurada ou presumida a dissolução irregular”. 33. Ainda que se considere a inexistência de fato da Autuada em 09.11.2021, conforme consta no item 23 do Termo de Verificação Fiscal, é certo que o impugnante não compõe o quadro societário da Autuada desde 04.02.2021, conforme já reconhecido pela própria fiscalização e, portanto, não poderia ser enquadrado em nenhuma das hipóteses taxativamente previstas no art. 1359 do CTN. É o relatório. Naquela oportunidade, a r. turma julgadora entendeu pela parcial procedência da Impugnação apresentada, conforme sintetizado pela seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2018, 2019 PAGAMENTO SEM CAUSA. BENEFICIÁRIO IDENTIFICADO. INCIDÊNCIA DO IRRF. Ainda que se identifique o beneficiário do pagamento realizado, incide o IRRF, à alíquota de 35%, quando não for comprovada a causa do pagamento. ONUS DA PROVA. CAUSA DO PAGAMENTO. É ônus da fonte pagadora identificar e comprovar a causa do pagamento efetuado, a fim de permitir ao Fisco que verifique a regular tributação do rendimento auferido pelo beneficiário dos recursos. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Fl. 9824DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 8 Ano-calendário: 2018, 2019 MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. A multa de ofício deve ser qualificada quando a conduta do agente se der mediante sonegação, fraude ou conluio. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. REDUÇÃO. NOVA LEGISLAÇÃO. RETROATIVIDADE BENIGNA. Cabível a redução da multa qualificada de 150% para 100%, nos termos da legislação mais benéfica, quando a empresa não for considerada reincidente. MULTA DE OFÍCIO. NÃO CONFISCO. CAPACIDADE CONTRIBUTIVA. PROPORCIONALIDADE. A multa de ofício constitui penalidade por descumprimento da obrigação tributária principal, cuja aplicação decorre de expressa previsão legal, carecendo competência à autoridade julgadora administrativa para a análise de aspectos constitucionais atinentes ao confisco, à capacidade contributiva e à proporcionalidade das sanções tributárias previstas em Lei RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. ART. 135 DO CTN. SÓCIOADMINISTRADOR. EXCESSO DE PODERES, INFRAÇÃO DE LEI, CONTRATO SOCIAL OU ESTATUTO. DISSOLUÇÃO IRREGULAR DA SOCIEDADE. Presume-se dissolvida irregularmente a empresa que deixar de funcionar no seu domicílio fiscal sem comunicação aos órgãos competentes, em clara infração à lei civil, legitimando a responsabilização pessoal dos sóciosadministradores pelo crédito tributário, de acordo com a Súmula 435 do STJ. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte A interessada teve ciência da decisão por edital na data de 29/07/2024 e apresentou recurso voluntário em 28/08/2024. O solidário teve ciência da decisão pela via postal, em 24/07/2024 e apresentou recurso voluntário em 20/08/2024. Ambos, tempestivos. É o relatório. VOTO Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza, Relator. ADMISSIBILIDADE DOS RECURSOS Fl. 9825DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 9 Os recursos voluntários apresentados são tempestivos, razão pela qual deles tomo conhecimento. Também o recurso de ofício atende a condição para ser admitido, porquanto o acórdão da DRJ exonerou crédito tributário em montante superior ao limite de alçada fixado pela Portaria ME nº 2, de 17 de janeiro de 2023, o que torna obrigatório o reexame da decisão. SÍNTESE DOS FATOS De acordo com o TVF, a fiscalização identificou um esquema de fraude envolvendo a ARX Minerais e Metais do Brasil Eireli, seu sócio André Camperlingo e uma rede de empresas de fachada. Apontou-se que a ARX, seus supostos fornecedores (Fundibra, Select Cable, Globbal Metais, Metalnor) e a transportadora (CGMS) foram declarados inexistentes de fato, muitos com efeitos retroativos aos anos fiscalizados (2018/2019). A ARX operava com CNPJ e Inscrição Estadual irregulares, domicílio fiscal incompatível com o vultoso volume de operações (mais de R$ 200 milhões) e falta de estrutura operacional e eletrônica. A fiscalização constatou que a ARX efetuou vultosas transferências para essas empresas de fachada. A documentação apresentada para justificar as operações (notas fiscais, pedidos, tickets de pesagem) foi considerada inidônea e insuficiente, configurando pagamentos sem causa ou operação comprovada, sujeitos a IRRF de 35% nos termos do art. 61 da Lei nº 8.981/1995. Em face destas contatações, aplicou-se multa qualificada, e responsabilizou-se o Sr. André Camperlingo, sócio-administrador à época dos fatos geradores (2018/2019), sendo considerado responsável solidário pela infração à lei e pelos atos ilícitos fiscais, dada a sua participação no esquema fraudulento. Irresignados, foram apresentadas as devidas Impugnações. A defesa do contribuinte concentrou-se em contestar as bases da autuação, alegando (i) que lançamento seria baseado em presunções e não em provas concretas de fraude, sendo a motivação fiscal insuficiente; (ii) A ARX teria apresentado farta prova documental (contratos, comprovantes, EFDs, ECDs) da efetividade de suas operações e agido de boa-fé, com beneficiários identificados, o que afastaria o IRRF e a glosa de créditos. A inaptidão das empresas seria posterior e não poderia retroagir; (iii) As declarações de inaptidão da ARX e de seus fornecedores ocorreram após os fatos geradores, não podendo invalidar operações realizadas quando a situação cadastral era regular; (iv) que a multa qualificada exigiria prova de dolo, sonegação ou fraude, que não teriam sido demonstrados, e que a penalidade seria confiscatória e desproporcional; que o sócio André não teria dado causa à dissolução irregular, não se enquadrando nas hipóteses de responsabilidade solidária do art. 135, III, do CTN. Sobreveio a decisão da DRJ, no sentido de julgar parcialmente procedente a impugnação, mantendo a essência do lançamento, mas com uma alteração na penalidade (reduziu de 150% para 100% a multa aplicada – retroatividade benigna). Uma vez mais irresignados, tanto o sujeito passivo principal como o solidário, apresentam seus respectivos recursos voluntários, repisando os argumentos iniciais de defesa e Fl. 9826DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 10 pugnando pelo cancelamento integral do auto de infração, além da exclusão do Sr. André Camperlingo do polo passivo do lançamento tributário. DO RECURSO VOLUNTÁRIO: ARX MINERAIS E METAIS DO BRASIL LTDA. DA ALEGAÇÃO DE VÍCIO DE MOTIVAÇÃO O Recorrente argui a nulidade do lançamento tributário, sustentando a ausência de provas robustas por parte da fiscalização e a insuficiência de motivação no Auto de Infração. Alega que as conclusões fiscais se baseiam em meras presunções e que os documentos por ele apresentados, demonstrando a efetividade das operações e a existência da empresa, foram desconsiderados. Analisando a alegação da defesa e confrontando-a com as manifestações da fiscalização e a decisão da DRJ e provas dos autos, não se concorda com a alegação. Conforme o Acórdão recorrido (itens 35 e 36), a autoridade fiscal explicitou de forma clara e suficiente os motivos que ensejaram o lançamento, que se revelam plenamente adequados para a subsunção dos fatos à norma tributária. Tais motivos foram: a) a inexistência de fato da sociedade (ARX) e sua consequente dissolução irregular. b) a aquisição de mercadorias de fornecedores inidôneos, igualmente inexistentes de fato. Este ponto demonstra a cadeia de inidoneidade que a ARX supostamente integrou. c) a utilização de empresa de transporte inidônea e inexistente de fato. Complementando o cenário de operações simuladas. d) a falta de comprovação do efetivo recebimento das mercadorias. Indício crucial da não ocorrência material das operações. e) a não comprovação da causa dos pagamentos efetuados pela ARX a seus fornecedores, nos termos do art. 61 da Lei nº 8.981/1995. Aliás, este é o fundamento normativo direto para a exigência do IRRF. A autoridade fiscal não se limitou a uma alegação genérica, mas delineou com precisão os fatos constatados (inexistência da ARX e de seus parceiros, utilização de transportadora inidônea, falta de comprovação do recebimento de mercadorias e pagamento) e a norma legal infringida (art. 61 da Lei nº 8.981/1995, relativo aos pagamentos sem causa comprovada). Logo, rejeita-se a preliminar de nulidade do lançamento suscitada. MÉRITO Quanto ao mérito, a Recorrente tenta desvincular a "constatação da inexistência de fato da ARX" da infração principal referente aos pagamentos sem causa ou de operação não Fl. 9827DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 11 comprovada, conforme o art. 61 da Lei nº 8.981/1995. Em sua argumentação, reporta-se a trecho do Acórdão da DRJ para concluir pela insubsistência da infração, pois, no período autuado, sua situação cadastral era regular, ou seja, considerando que o período autuado não foi atingido pela sua declaração de inaptidão, não haveria respaldo para aplicação retroativa da declaração de inaptidão, o que cairia por terra "fundamento principal" da infração. Contudo, ao analisar o Termo de Verificação Fiscal (TVF) e as razões que motivaram o lançamento, fica evidente que o TVF não se limita a declarar a inexistência da ARX isoladamente. Ele revela que a ARX transferiu valores expressivos para empresas que também foram baixadas de ofício por inexistência de fato, com efeitos retroativos aos anos fiscalizados. Além disso, a transportadora utilizada para essas "aquisições" também foi baixada de ofício por inexistência de fato e possuía CNAE incompatível com a atividade de transporte. Este cenário em cadeia — ARX, fornecedores, transportadora — todos inexistentes de fato ou inidôneos, é a prova cabal de que as operações eram simuladas. De fato, a fiscalização evidenciou que a própria ARX carecia de estrutura para realizar as vultosas operações de mais de R$ 200 milhões. A incompatibilidade do domicílio fiscal (um galpão antigo e fechado), a falta de endereço eletrônico, o número reduzido de funcionários e os CNAEs inconsistentes são elementos que, juntos, demonstram que a ARX não possuía capacidade operacional para realizar as "aquisições" declaradas. Como uma empresa inexistente de fato poderia adquirir e receber mercadorias, conferindo causa a pagamentos? O TVF conclui que a ARX faz parte de um "grupo econômico montado para a emissão de notas fiscais inidôneas". Essa conclusão deriva diretamente da inexistência de fato da ARX e de seus parceiros. A inidoneidade documental e a falta de comprovação da causa dos pagamentos são consequências diretas desse esquema fraudulento. Portanto, a inexistência de fato da ARX e de seus supostos parceiros comerciais e logísticos não é um argumento secundário. Pelo contrário, é a prova material irrefutável de que as "operações" alegadas para justificar os pagamentos jamais ocorreram no plano da realidade. Não havendo a existência real das partes envolvidas na transação de compra e venda, não há como conferir legitimidade e causa aos pagamentos supostamente a elas destinados. O art. 61, § 1º, da Lei nº 8.981/1995 incide precisamente porque a inexistência de fato do pagador e dos beneficiários descaracteriza qualquer "operação" ou "causa" legítima para as transferências financeiras. Na sequência, a Recorrente sustenta a efetividade de suas operações comerciais e sua boa-fé, apresentando farta documentação fiscal e contábil, pedidos de compra e tickets de pesagem. Em abono à sua tese, invoca a Súmula 509 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que dispõe: "É lícito ao comerciante de boa-fé aproveitar créditos de ICMS decorrentes de nota fiscal posteriormente declarada inidônea, quando demonstrada a efetiva realização da compra e venda.” Esta linha argumentativa não prospera, e a Súmula 509/STJ é inaplicável, explico. Fl. 9828DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 12 Com efeito, a Súmula 509/STJ foi concebida para proteger o adquirente de boa-fé que realiza operações com um fornecedor formalmente existente e regular à época dos fatos, mas que, posteriormente, tem sua inidoneidade declarada. Nesses casos, a comprovação da efetiva entrada da mercadoria e do pagamento é crucial para preservar o direito ao crédito fiscal. A lógica é que o adquirente não pode ser penalizado por um vício na cadeia que ele desconhecia e não tinha como prever. No caso, conforme demonstrado no Termo de Verificação Fiscal (TVF), não se enquadra na premissa da Súmula 509/STJ. Aqui, não se trata apenas de "nota fiscal posteriormente declarada inidônea" de um fornecedor que existia de fato e se tornou problemático. A fiscalização provou a inexistência de fato da própria ARX, de seus supostos fornecedores (Fundibra, Select Cable, Globbal Metais, Metalnor) e da transportadora (CGMS) à época dos fatos geradores ou com efeitos retroativos a este período. Não há um "comerciante de boa-fé" quando a própria ARX foi constatada como uma empresa sem existência de fato e com estrutura física incompatível com suas declarações. Não há como demonstrar a "efetiva realização da compra e venda" quando as partes envolvidas na transação (comprador, vendedores e transportador) são, elas mesmas, entidades simuladas ou inexistentes no plano da realidade material. A defesa fundamenta a "efetividade" das operações em "prova documental", citando notas fiscais, pedidos de compra e tickets de pesagem. No entanto, o cerne da acusação fiscal é que esses próprios documentos são inidôneos, pois representam operações que nunca ocorreram entre entidades que, em sua maioria, não existiam de fato. A DRJ, no item 44 do Acórdão, foi categórica ao afirmar que "não pode a impugnante comprovar sua regularidade com a apresentação das mesmas notas fiscais, e demais documentos, sobre os quais paira a acusação de inidoneidade." Confira-se: 44. Destarte, a impugnação padece de grave vício, pois pretende comprovar a regularidade das operações da ARX antes mesmo de comprovar sua existência de fato. Note-se que recai sobre a ARX a acusação de ter emitido notas inidôneas, que não comprovam a causa das transferências efetuadas a terceiros; neste cenário, não pode a impugnante comprovar sua regularidade com a apresentação das mesmas notas fiscais, e demais documentos, sobre os quais paira a acusação de inidoneidade. A boa-fé não pode ser presumida ou alegada quando há um robusto conjunto probatório, como o presente, que aponta para a existência de um esquema fraudulento orquestrado. A inaptidão da Recorrente, a incongruência dos CNAEs, o endereço físico incompatível,, e a inexistência de toda a cadeia de "parceiros comerciais" são elementos que afastam veementemente a presunção de boa-fé. Não é um caso de erro ou falha de conhecimento, mas de simulação consciente para obtenção de vantagem indevida. Fl. 9829DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 13 Em seguida, a Recorrente contesta a cobrança de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) sobre os pagamentos efetuados às empresas Fundibra, Select Cable, Globbal Metais e Metalnor, alegando que houve comprovação da causa, da operação e dos beneficiários, nos termos do art. 61 da Lei nº 8.981/1995. Cita doutrina e precedentes do CARF para sustentar que o IRRF de 35% só seria cabível na absoluta impossibilidade de identificação do beneficiário, e apresenta uma planilha de conciliação de documentos para demonstrar a efetividade das operações. Não obstante os argumentos e as transcrições apresentadas, entendo que a alegação do Recorrente não prospera, e a cobrança do IRRF é devida. O cerne da argumentação da Recorrente reside na identificação dos beneficiários dos pagamentos. Contudo, o art. 61, § 1º, da Lei nº 8.981/1995 é claro ao estabelecer que a incidência do IRRF de 35% se aplica também quando, mesmo que o beneficiário seja identificado, não for comprovada a operação ou a sua causa. No presente caso, a "identificação" dos beneficiários (Fundibra, Select Cable, Globbal Metais, Metalnor) é puramente formal e documental. Como exaustivamente demonstrado no TVF e corroborado pela DRJ, essas empresas eram, em sua maioria, inexistentes de fato à época das operações ou foram baixadas de ofício com efeitos retroativos. Não basta que haja um CNPJ "identificável" se por trás dele não existe uma entidade real e uma operação verdadeira. A identificação formal perde seu sentido quando a materialidade da operação e a própria existência do beneficiário são fraudulentas. A Recorrente insiste na validade de sua documentação (notas fiscais, tickets de pesagem, etc) e apresenta uma planilha de conciliação para demonstrar a correspondência entre esses documentos e as escriturações contábeis e fiscais. Penso que a fiscalização não questiona a existência formal desses documentos ou sua conciliação interna nos registros da ARX. O que se questiona é a materialidade e a veracidade das operações que esses documentos pretendem representar. Em um contexto onde a Recorrente, seus fornecedores e a transportadora são inexistentes de fato, os tickets de pesagem e as notas fiscais são meros papéis que não correspondem a uma realidade material. A conciliação de um conjunto de documentos fraudulentos não confere validade à fraude. A "causa" e a "operação" exigidas pelo art. 61 da Lei nº 8.981/1995 demandam a existência e a materialidade da transação comercial, o que não foi comprovado nos autos. Desse modo, mantem-se o crédito tributário constituído pela autoridade fiscal, em face da não comprovação dos pagamentos efetuados às pessoas jurídicas: 1) Fundibra Fundição Brasileira Ltda, CNPJ 14.286.186/0001-00; 2) Select Cable Condutores Elétricos Ltda, CNPJ 20.968.933/0001-84; 3) Globbal Metais Ltda, CNPJ 23.300.517/0007-97 e 4) Metalnor Metais Ltda, CNPJ 24.970.458/0002-12, conforme Anexos I e II ao Termo de Intimação Fiscal nº 7. Fl. 9830DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 14 DA QUALIFICAÇÃO DA MULTA APLICADA E CARÁTER CONFISCATÓRIO O Recorrente impugna a aplicação da multa qualificada. Alega que é excepcional, exigindo a comprovação específica da conduta dolosa (sonegação, fraude ou conluio), com individualização e efetiva prova, não bastando meras menções genéricas aos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964. Cita precedentes da CSRF para sustentar a necessidade de detalhamento da conduta e que a mera constatação de pagamentos escriturados sem prova de causa/beneficiário não autoriza a qualificação da multa, especialmente em casos de IRRF. Por fim, argumenta que a multa, mesmo reduzida, possui caráter confiscatório, violando o art. 150, IV, da CF/88, e os princípios da razoabilidade e proporcionalidade, solicitando sua redução para, no máximo, 20%. Os argumentos do Recorrente não prosperam. Ao contrário do que alega a Recorrente, a aplicação da multa qualificada não se baseia em meras presunções ou menções genéricas. Conforme detalhado no TVF e reiterado pela DRJ, a conduta da ARX se enquadra perfeitamente nos conceitos de sonegação e fraude: Isso porque, ao realizar pagamentos vultosos para empresas inexistentes de fato e não comprovar a causa ou operação dessas transferências, a ARX impediu o conhecimento do fato gerador do tributo, configurando sonegação (art. 71, Lei nº 4.502/1964). A utilização de uma cadeia de empresas de fachada (ARX, fornecedores, transportadora), todas inexistentes de fato, para simular operações comerciais e dar uma falsa causa aos pagamentos, constitui uma modificação deliberada e enganosa das características essenciais dos fatos geradores, com o intuito de suprimir ou reduzir tributos. Isso caracteriza fraude (art. 72, Lei nº 4.502/1964). A materialidade do dolo e da fraude é inferida não de um único indício, mas da análise conjunta de um vasto conjunto de evidências, tais como: A própria inexistência de fato da ARX, atestada por diversas frentes (Cadesp inapto por "prática de ato ilícito", domicílio fiscal e-financeira do sócio irrisórios, endereço físico sem estrutura, tentativas de intimação infrutíferas, CNPJ suspenso por inexistência de fato). A inexistência de fato e inidoneidade da quase totalidade dos fornecedores e da transportadora, muitos com efeitos retroativos, configurando um esquema sistêmico. A incompatibilidade dos CNAEs da ARX e da transportadora com as atividades declaradas. A alteração societária para "laranja" (Gustavo Taffuri) e a saída do administrador (André Camperlingo) após o início das fiscalizações, apontando para uma tentativa de ocultação. A natureza simulada das operações, onde a documentação formal não possui lastro material. Este conjunto probatório vai muito além da mera "constatação de pagamentos escriturados, ainda que não provada a causa ou o beneficiário", que, conforme a jurisprudência citada pela Recorrente, poderia não justificar a qualificação da multa. Aqui, o caso é de inexistência das partes e simulação das operações, o que demonstra a intenção deliberada de Fl. 9831DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 15 impedir ou retardar a incidência tributária e de fraudar o Fisco. A fiscalização não se baseou em ilações, mas em um cenário fático amplamente demonstrado. Em relação ao argumento de que a multa possui caráter confiscatório, violando o art. 150, IV, da CF/88, também não prospera os argumentos de defesa. Conforme entendimento consolidado, inclusive na Súmula Vinculante nº 2 do CARF e no art. 26-A do Decreto nº 70.235/1972, a autoridade administrativa é incompetente para se pronunciar sobre a constitucionalidade da lei tributária e, por extensão, sobre o caráter confiscatório de multas por ela previstas. Tal análise é prerrogativa exclusiva do Poder Judiciário. Logo, não cabe a este órgão administrativo, no exercício de sua competência legal, adentrar na análise de mérito constitucional da penalidade aplicada pela lei. Assim, rejeita-se os argumentos do Recorrente quanto à inaplicabilidade da multa qualificada e ao seu suposto caráter confiscatório. RECURSO VOLUNTÁRIO: ANDRÉ CAMPERLINGO DA RESPONSABIIDADE PASSIVA SOLIDÁRIA O Recurso interposto por André Camperlingo reitera a tese de nulidade do lançamento por ausência de provas suficientes para sua responsabilização solidária, conforme o art. 135, III, do CTN. Fundamenta-se na necessidade de comprovação de conduta dolosa, nexo causal e individualização de atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei, não bastando a mera condição de administrador. Cita precedentes do CARF e do STJ (Tema 962) para argumentar que a dissolução irregular da empresa ocorreu após sua saída, e que não há prova de sua participação no suposto esquema fraudulento nem de que tenha dado causa à dissolução. Alega, ainda, ausência de fundamentação clara e específica no auto de infração para sua inclusão no polo passivo. Esses argumentos, contudo, não merecem acolhimento. Com efeito, ao contrário do que alega o Recorrente, a responsabilização de André Camperlingo não se baseia na "mera ocupação do cargo de administrador". A fiscalização demonstrou um esquema fraudulento complexo e orquestrado que ocorreu, inclusive, durante a sua gestão (2018/2019). O conjunto probatório detalhado no TVF aponta para uma série de "atos com infração à lei" praticados nesse período: a inexistência de fato da própria ARX e de seus "parceiros comerciais" (fornecedores e transportadora), o domicílio fiscal sem estrutura, a falta de capacidade operacional para as vultosas operações, a emissão de notas fiscais inidôneas e a realização de pagamentos sem causa comprovada. O dolo, nesse contexto, é inferido do próprio modus operandi da empresa, que não tinha existência material ou capacidade para as operações que simulava. Não se trata de um erro Fl. 9832DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 16 ou de um mero inadimplemento, mas de uma estrutura montada para fraudar. A prova do dolo não exige um "e-mail com ordem de compra fictícia" isolado, mas sim a demonstração de um cenário onde a fraude é sistêmica e inerente à operação da empresa. A alegação de falta de individualização da conduta também não se sustenta. Em esquemas fraudulentos complexos, a "individualização" não se limita a um ato isolado, mas à participação ativa na gestão da empresa que executa a fraude. André Camperlingo, na qualidade de sócio-administrador na época em que a fraude foi perpetrada, detinha os poderes de gestão e decisão sobre as operações fraudulentas. A ele incumbia a responsabilidade pela condução dos negócios de forma lícita. A "conduta individualizada" é a própria gestão da empresa que atuava de forma fraudulenta. Na sequência, sustenta a recorrente que a dissolução irregular ocorreu após sua saída, invocando o Tema 962 do STJ. A DRJ enfrentou esse argumento, cujos fundamentos são aqui aderidos. Foram estes seus termos: 76. Ressalto ainda que o sócio ANDRÉ se retirou da sociedade em 04/03/2021, tendo sido admitido em seu lugar o Sr. GUSTAVO APARECIDO TAFFURI (doravante GUSTAVO). Contudo, tal alteração não passa de uma fraude, conforme demonstrado no relatório fiscal (fls. 41 a 46). Neste sentido, note-se que o sócio GUSTAVO foi incluído no quadro societário da ARX após o início da fiscalização sobre a Fundibra Fundição Brasileira Ltda, sociedade que faz parte de um grupo econômico montado para a emissão de notas fiscais inidôneas, tendo sido baixada de ofício, conforme processo 17095.722.051/2021-10. 77. Ainda, em consulta à Declaração de Imposto de Renda Pessoa Física de GUSTAVO, constata-se que o mesmo nunca efetuou a declaração. Vale mencionar que consta na Ficha Cadastral Completa da ARX, disponível na Jucesp, a informação de que ele reside na Rua Vinte e Sete de Março (ou RUA Vicente e Sete de Março como constou), 4180, Centro, Bento de Abreu/SP. Contudo, em consulta ao Google Maps, verifiquei que a rua existe, mas não chega ao número 4.180. Além disso, o local é bem simples, um bairro quase rural, de uma pequena cidade do interior de São Paulo. Vejamos: Trecho da Ficha Cadastral Completa da ARX Suposto endereço do sócio GUSTAVO Fl. 9833DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 17 78. Dessa forma, pode-se concluir que, apesar de a dissolução irregular da sociedade ter sido constatada quando o sócio era o Sr. GUSTAVO, ele não passa de interposta pessoa, um laranja, cuja função é acobertar o esquema fraudulento executado pelo sócio ANDRÉ, repiso, o sócio na época dos fatos, que se retirou da ARX quando o esquema fraudulento foi descoberto, após o início da ação fiscal na Fundibra. De fato, a saída de André da sociedade não foi "regular", como pressupõe o Tema 962 do STJ. Ao contrário, ela se insere no próprio contexto da fraude, visando a eximir o administrador de responsabilidade após a descoberta do esquema ilícito. Nesse cenário, a Recorrente não se enquadra na proteção do Tema 962, pois praticou infração à lei na época dos fatos geradores e sua retirada da empresa foi considerada fraudulenta, sendo responsável pelos atos que levaram à insolvência fiscal da empresa. Logo, deve-se manter a responsabilização passiva solidária atribuída ao Sr. André Camperlingo. RECURSO DE OFÍCIO DA REDUÇÃO DA MULTA QUALIFICADA PARA O PERCENTUAL DE 100% Conforme consta nos autos, a fiscalização aplicou multa de ofício qualificada em 150% em razão da constatação de fraude e sonegação. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DRJ), ao analisar o recurso voluntário, manteve a qualificação da multa, mas, em aplicação do princípio da retroatividade benigna, reduziu seu percentual de 150% para 100%. Esta redução foi promovida com base na nova redação do art. 44, § 1º, inciso VI, da Lei nº 9.430, de 1996, dada pelo art. 8º da Lei nº 14.689, de 2023, e fundamentada no art. 106, II, "c", do Código Tributário Nacional (CTN). Esta Turma tem decidido reiteradamente, por unanimidade de votos, que, em casos de aplicação de multa qualificada, e em respeito ao princípio da retroatividade da lei mais benéfica, o percentual da multa deve ser ajustado para 100%, conforme a legislação vigente à época do julgamento administrativo. Fl. 9834DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1301-007.871 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17095.720351/2023-26 18 A decisão da DRJ está em perfeita consonância com este entendimento, ao aplicar o percentual de 100% previsto na Lei nº 14.689, de 2023, que se tornou a norma mais favorável ao contribuinte em relação ao percentual original de 150%. Não havendo, portanto, elementos que justifiquem a reforma da decisão da DRJ nesse particular, e estando ela alinhada com a jurisprudência desta Turma e com a legislação aplicável, impõe-se a manutenção do percentual da multa de ofício em 100%. Pelo exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso de Ofício. CONCLUSÃO Assinado Digitalmente JOSE EDUARDO DORNELAS SOUZA Fl. 9835DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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11173171 #
Numero do processo: 10880.942998/2021-40
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Dec 01 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Sun Dec 28 00:00:00 UTC 2025
Numero da decisão: 1001-000.874
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso voluntário em diligência, nos termos do voto do relator. Assinado Digitalmente Gustavo de Oliveira Machado – Relator Assinado Digitalmente Carmen Ferreira Saraiva – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Ana Claudia Borges de Oliveira, Gustavo de Oliveira Machado, Paulo Elias da Silva Filho, Carmen Ferreira Saraiva (Presidente).
Nome do relator: GUSTAVO DE OLIVEIRA MACHADO

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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso voluntário em diligência, nos termos do voto do relator. Assinado Digitalmente Gustavo de Oliveira Machado – Relator Assinado Digitalmente Carmen Ferreira Saraiva – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Ana Claudia Borges de Oliveira, Gustavo de Oliveira Machado, Paulo Elias da Silva Filho, Carmen Ferreira Saraiva (Presidente). RELATÓRIO Trata o presente de recurso voluntário interposto em face do Acórdão nº 102- 003.832, proferido pela 5ª Turma da Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil 02 que julgou improcedente a manifestação de inconformidade, não reconhecendo o direito creditório. Fl. 433DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1001-000.874 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10880.942998/2021-40 2 A Contribuinte pretendia através do PER/DCOMP de nº. 20784.47455.301020.1.7.0768, compensar os débitos informados com suposto crédito de saldo negativo de IRPJ do ano calendário 2016 no valor de R$ 1.566.993,83. A DERAT São Paulo- SP emitiu Despacho Decisório n°. 30987364 no dia 05/Julho/2021, cujo teor segue abaixo (e-fls. 3/7): “3-FUNDAMENTAÇÃO, DECISÃO E ENQUADRAMENTO LEGAL Analisadas as informações prestadas no documento acima identificado e considerando que a soma das parcelas de composição do crédito informadas no PER/DCOMP deve ser suficiente para comprovar a quitação do imposto devido e a apuração do saldo negativo, verificou-se: PARCELAS DE COMPOSIÇÃO DO CRÉDITO INFORMADAS NO PER/DCOMP (...) Valor original saldo negativo informado no PER/DCOMP com demonstrativo de crédito: R$ 1.566.993,83 Valor ECF: R$ 1.566.993,83 Somatório das parcelas de composição do crédito na ECF: R$ 24.023.819,71 IRPJ devido: R$ 22.456.825,88 Valor do saldo negativo disponível = (Parcelas confirmadas limitado ao somatório das parcelas na ECF) – (IRPJ devido) limitado ao menor valor entre saldo negativo ECF e PER/DCOMP, observado que quando este cálculo resultar negativo, o valor será zero. Valor do saldo negativo disponível: R$ 864.641,95 Concluída a análise do direito creditório, chegou-se à seguinte decisão: O crédito reconhecido foi insuficiente para compensar integralmente os débitos informados pelo sujeito passivo, razão pela qual: HOMOLOGO PARCIALMENTE a compensação declarada no PER/DCOMP 20784.47455.301020.1.7.020768. NÃO HOMOLOGO a compensação declarada no(s) seguinte(s) PER/DCOMP: 40956.90853.280917.1.3.1860 Valor devedor consolidado, correspondente aos débitos indevidamente compensados, até 30/07/2021. PRINCIPAL MULTA JUROS 751.418,68 150.283,73 147.867,38 Além do exposto acima, informações complementares sobre a análise de crédito, detalhamento da compensação efetuada, identificação dos PER/DCOMP objeto da análise e relação de valores devedores compõem o despacho decisório. Para contribuintes optantes pelo Domicílio Tributário Eletrônico (DTE) essas informações são apresentadas na sequência. Para contribuintes não optantes pelo Fl. 434DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1001-000.874 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10880.942998/2021-40 3 DTE, consultar o despacho completo no e- CAC, no endereço www.gov.br/receitafederal, assunto "Restituição e Compensação", item "Consulta Despacho Decisório PER/DCOMP”, mesmo endereço onde poderão ser emitidos por todos os contribuintes os DARF para pagamento dos valores devedores. Base legal: Art. 168 da Lei nº 5.172, de 1966 (CTN). Arts. 1 º a 3º; art. 6 º, § 1º e arts. 28 e 30 da Lei 9.430, de 1996. Art. 14 da IN RFB n° 1.717, de 2017. Art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996. Art. 70 da IN RFB nº 1.717, de 2017”. Em 11/maio/2021, a Equipe Regional de Reconhecimento de Direito Creditório IRPJ/CSLL - Derat/SPO emitiu o Parecer n°. 210/2021 – EQ2DATIRPJCSLL, cujo teor segue abaixo (e- fls. 9/10): “Equipe Regional de Reconhecimento de Direito Creditório IRPJ/CSLL - Derat/SPO Parecer Nº 210/2021 – EQ2DATIRPJCSLL, de 11 de maio de 2021 (...) Relatório 1- A retenção na fonte somente poderá ser deduzida do imposto devido se os rendimentos correspondentes forem oferecidos à tributação. 2- Na DCOMP nº 20784.47455.301020.1.7.02-0768, o contribuinte solicita a dedução de Imposto retido na fonte recolhido no código 5557, receitas de ganhos em operações em Bolsas e assemelhados. Consta na DIRF do contribuinte como receitas tributáveis (fls. 245) para a Instituição financeira Banco Citibank, o valor total de R$17.778.791,43 e para a instituição financeira Banco do Brasil, um total de R$583.595,99. 3- O contribuinte foi intimado a apresentar os documentos da contabilidade onde foram oferecidos à tributação esses valores de receitas, ou seja, a conta razão de resultados (receitas), porém apresentou somente alguns lançamentos em contas patrimoniais do ativo, ou seja, não demonstrou o detalhamento da conta referencial de resultado (receitas), destacando os valores das receitas financeiras das quais foram retidas o imposto de renda, portanto sem demonstrar onde essas receitas foram oferecidas à tributação. Por consequência, as deduções de Imposto de renda não poderão ser consideradas. 4- Com relação ao imposto retido no exterior sobre prestação de serviços, conforme o art. 26 da lei 9.249 de 1995, “A pessoa jurídica poderá compensar o imposto de renda incidente no exterior, sobre os lucros, rendimentos e ganhos de capital e receitas decorrentes da prestação de serviços, computados no lucro real, até o limite do imposto de renda incidente, no Brasil, sobre os referidos lucros, rendimentos e receitas de prestação de serviços”, portanto, o contribuinte poderá deduzir o imposto pago no exterior do imposto devido no Brasil, no ano calendário em que os correspondentes lucros ou rendimentos foram oferecidos à tributação, até o limite do imposto de renda incidente sobre esses rendimentos. Fl. 435DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1001-000.874 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10880.942998/2021-40 4 5- Conforme informação do contribuinte às fls. 236, o contribuinte prestou serviços no exterior nos anos de 2012 a 2015. No contrato de prestação de serviços (fls. 174 e 181), “A Givaudan Argentina será obrigada a pagar as faturas recebidas do fornecedor no prazo de 30 dias na conta bancária da Prestadora de serviços. Qualquer atraso no pagamento deverá ocorrer em juros no valor da taxa padrão acordada do grupo de forma independente”. O contribuinte apresentou documentação de várias faturas, 11 faturas em 2012 (total de US$30.250,00), uma fatura em 2013 (US$204.623,52), duas faturas em 2014 (total de US$225.882,49) e três faturas em 2015 (total de US$94,759,90), portanto é improvável que o contratante dos serviços, tivesse pago somente quatro anos após a apresentação da primeira fatura, conforme alega o contribuinte que o total foi pago somente em 28/01/2016. Inclusive os valores informados nas três remessas efetuadas pelo contratante, no mesmo dia 28/01/2016, não correspondem, quando convertidos em dólares, aos valores informados por ano das faturas, e nem no total das faturas (ainda sem considerar multa e juros de mora, previsto no contrato). 6- O contribuinte apresenta também às fls. 236 uma tabela com os valores das faturas e as datas dos pagamentos dos impostos retidos com a conversão para o Real, demonstrando que o imposto foi retido na fonte nas datas das faturas de 24/02/2012 a 01/10/2015. 7- O contribuinte apurou imposto devido em todos os anos de 2012 a 2015 (fls. 238), portanto conforme legislação, poderia deduzir o imposto pago no exterior do imposto devido, conforme regime de competência, em cada ano em que a receita correspondente foi computado na base de cálculo do lucro real, para inclusive, calcular os limites de dedução em cada ano calendário, quando se calcula o imposto devido com e sem as receitas correspondentes do imposto pago no exterior para se apurar a diferença de imposto devido que seria o limite máximo de dedução neste ano de imposto de renda, podendo se ainda houver retenção maior, deduzir da CSLL devida no ano. 8- Concluindo, não se pode considerar o imposto pago no exterior nos anos de 2012 a 2015, deduzindo do imposto devido no ano calendário de 2016. (...)”. DA MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE Afirmou a Contribuinte que pela leitura dos arts. 25 e 26 da Lei nº 9.249/95 e pelo art. 465 do RIR é possível verificar que há permissão legal para o aproveitamento do imposto de renda pago no exterior, de modo que se mostra totalmente infundada a alegação de suposta “ausência de previsão legal” disposta no despacho decisório. Fl. 436DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1001-000.874 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10880.942998/2021-40 5 Aduziu que conforme dispõe o artigo 30, parágrafo 14, da Instrução Normativa nº 1.520/14, o imposto pago no exterior poderá ser compensado em anos subsequentes e, para tanto, o contribuinte deve controlar o montante do imposto de renda do exterior na Parte B do Livro de Apuração do Lucro Real (Lalur). Pontuou que a legislação não estabeleceu qualquer limite ou prazo prescricional para a compensação futura dos valores de imposto pago no exterior. Ressaltou que em resposta à intimação fiscal, foi esclarecido que todos os documentos que comprovam o pagamento do imposto no exterior foram devidamente reconhecidos pela autoridade fiscal Argentina, conforme procedimento de apostilamento. Asseverou que os valores foram regularmente registrados e oferecidos à tributação segundo o regime de competência, nos diferentes exercícios (2012/2013/2014/2015), conforme disposto no artigo 177 da Lei nº 6.404/76. Frisou que as três remessas efetuadas no ano de 2016 correspondem ao pagamento da totalidade dos serviços prestados entre 2012 e 2015, como registrados do SPED Contábil da Fiscalizada e que não houve qualquer violação ao regime da competência, vez que os registros, retenções, recebimento e aproveitamento foram feitos todos corretamente. Ponderou que a fiscalização não analisou a vasta documentação constante nos autos, limitando-se a não homologar a compensação de plano, sem se atentar a esse singelo e até óbvio fato de que o valor remetido estava líquido do imposto pago na Argentina. Alegou que os documentos apresentados, fornecidos diretamente pelas instituições financeiras – ou diretamente à Manifestante ou à Receita Federal do Brasil são mais que suficientes para evidenciar que o direito creditório utilizado nas compensações é procedente, tornando ainda mais evidente o equívoco da RFB ao não homologar as compensações realizadas pela empresa. Defendeu que procedeu exatamente em conformidade com as regras aplicáveis, uma vez que efetuou adequadamente o registro das receitas financeiras, tal como informado no SPED do ano-calendário de 2016. Pleiteou que seja declarada a insubsistência do despacho decisório, que seja reconhecido integralmente o direito creditório decorrente do saldo negativo de IRPJ apurado ao final em 2016, de maneira que a DCOMP controlada no presente processo administrativo seja integralmente homologada. DO ACÓRDÃO PROLATADO Nº. 102-003.832/DRJ/02 A DRJ analisou a manifestação de inconformidade julgando-a improcedente, não reconhecendo o direito creditório pleiteado (e-fls. 319/330). Fl. 437DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1001-000.874 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10880.942998/2021-40 6 Inconformada com a decisão da DRJ, a Contribuinte apresentou Recurso Voluntário, destacando, em síntese, que (e-fls. 344/424): “(...) 4.1.3. DA RECOMPOSIÇÃO DOS VALORES QUE ORIGINARAM O CRÉDITO PLEITEADO Conforme já informado, a Recorrente celebrou contratos de prestação de serviços com empresa na Argentina, tais como comprovam os documentos acostados nos autos (fls. 195 a 209), que foram faturados (fls. 210 a 261), e devidamente pagos posteriormente. A prova do pagamento do imposto no exterior é realizada por meio de documentos hábeis a comprovar os recolhimentos, reconhecido pelas autoridades competentes. No que tange a esse ponto, a Recorrente, visando comprovar a retenção na fonte dos valores pleiteados na compensação, preparou a Composição do IRRF, apresentando a Memória de Cálculo de todos os valores recebidos pela Givaudan em 2016, referente as prestações de serviços entre os anos de 2012 e 2015, os quais ensejaram o pagamento de tributos na Argentina. Conforme planilha juntada pela Recorrente em sua Manifestação de Inconformidade (fls. 262 a 265), o valor devido pela Givaudan Argentina foi segregado em 17 faturas, as quais foram pagas a Recorrente em 2016: (...) Os documentos denominados “Composição IRRF – Base A” (DOC_04), “Composição IRRF – Base B” (DOC_05) e “Composição IRRF – Base C” (DOC_06) apresentam de forma organizada e com as devidas taxas de câmbio toda a documentação já apresentada em sede de fiscalização e na Manifestação de Inconformidade. Os documentos apresentam as seguintes informações: (...) Vale ressaltar que todas as faturas apresentadas, que acompanham os documentos supra mencionados, estão relacionadas com a respectiva tradução juramentada constantes das fls. 210 a 262 dos autos, bem como com o recolhimento do imposto de renda pago no exterior devidamente comprovado por meio de documentos reconhecidos pela autoridade fiscal Argentina (DOC_03), conforme procedimento de apostilamento, nos termos da Convenção de Haia, e reconhecimento pelos órgãos competentes da Argentina, em plena observância da legislação aplicável. Com base na documentação mencionada acima, é possível notar que o somatório das faturas perfaz o montante de USI) 555.515,91. O referido valor foi submetido Fl. 438DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1001-000.874 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10880.942998/2021-40 7 ao recolhimento de imposto na Argentina, resultando no imposto pago de USI) 174.987,51. Não obstante a ampla documentação produzida em suas defesas, a Recorrente, para além de apresentar as Memórias de Cálculo (DOCS. 04-06) em atendimento aos questionamentos da DRJ, sintetiza abaixo as seguintes informações: a cobrança dos invoices em dólares, a conversão de tais valores para pesos argentinos e a posterior conversão para reais. (...) Toda a memória de cálculo dos valores acima representados e a documentação que comprova os montantes em discussão, bem como as taxas de câmbio utilizadas, constam dos documentos denominados “Composição IRRF – Base A”, “Composição IRRF – Base B” e “Composição IRRF – Base C”. Nesse sentido, diante de toda a documentação apresentada, resta clara e incontroversa a liquidez e certeza do direito creditório pleiteado pela Recorrente, de modo que a decisão proferida pela C. 05ª Turma da DRJ/02 deve ser integralmente reformada para o reconhecimento da totalidade dos valores retidos no exterior que compõem o Saldo Negativo utilizado para a compensação aqui discutida. 4.2. DO IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE NO BRASIL Conforme brevemente demonstrado no relato dos fatos, o fundamento da glosa do saldo negativo de IRPJ apurado pela Recorrente, no que tange ao Imposto de Renda Retido na Fonte, no valor de R$ 334.568,60, ocorreu em razão da “ausência de detalhamento da conta referencial de resultado (receitas), destacando os valores das receitas financeiras das quais foram retidas o imposto de renda”. Contudo, tem-se que a Recorrente, em sede de fiscalização e na Manifestação de Inconformidade, apresentou ao Ilmo. Sr. Auditor Fiscal todos os documentos solicitados, tais como: (i) informes de rendimento do Banco CitiBank (CNPJ n£' 33.479.023/0001-80) - um para cada trimestre (fls. 266 a 270); (ii) comprovante de retenção do Banco do Brasil (CNPJ n£': 00.000.000/0001-91) retirado do site da Receita Federal do Brasil, tendo em vista que a Recorrente não conseguiu localizar o informe de rendimento do Banco do Brasil (fls. 271 a 272); (iii) SPED do ano calendário de 2016, comprovando o registro das receitas e com detalhamento da conta referencial onde foram declaradas essas receitas de ganhos líquidos em operações em Bolsas e assemelhados (fls. 273 a 294) e; (iv) planilha resumo para auxiliar a fiscalização na identificação dos lançamentos (fl. 296). No entanto, aparentemente, a documentação apresentada não foi suficiente para comprovar as retenções, dado que o critério utilizado pela d. fiscalização para Fl. 439DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1001-000.874 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10880.942998/2021-40 8 analisar a pertinência das retenções foi simplesmente buscar a comprovação do tributo nas contas de referência, sem levar em consideração os documentos juntados. A douta DRJ manteve o critério utilizado pela d. fiscalização ao não reconhecer as retenções na fonte informadas na DCOMP, visto que, em consulta à Escrituração Contábil Fiscal do ano-calendário de 2016, considerou que a ora Recorrente não teria oferecido os rendimentos sobre os quais incidiu o IRRF (Ganhos Líquidos em Operações em Bolsa e Assemelhados) à tributação, vez que o referido campo estava zerado na ECF da Recorrente, conforme se verifica no Registro abaixo. (...) Ocorre que a Recorrente, após ser intimada do referido acórdão, verificou ter informado erroneamente o Código de Receita 5557 em sua DCOMP, referente a operações de renda variável, ao invés do código 3426, referente a operações de renda fixa, como se verifica no próprio Informe de Rendimento (DOC_07) a seguir reproduzido: (...) Logo, não há receita declarada no campo indicado pela douta DRJ, vez que nesse período a Recorrente não auferiu quaisquer valores a esse título. Isso porque, a Receita que originou os valores retidos na fonte aqui em discussão foram devidamente informadas no Registro K355, conforme se verifica no print abaixo. (...) Reitere-se que, data maxima venia, o critério adotado pela autoridade fiscal para a apuração do direito creditório foi incorreto, na medida em que a retenção de fonte foi devidamente recolhida, assim como as respectivas receitas oferecidas à tributação, conforme comprovam os documentos acima mencionados. Assim, no entender da Recorrente, os documentos ora apresentados, fornecidos diretamente pelas instituições financeiras – ou diretamente à Recorrente ou à Receita Federal do Brasil - são mais que suficientes para evidenciar que o direito creditório utilizado nas compensações é procedente. Assim, tem-se que, no presente caso, a Recorrente procedeu exatamente em conformidade com as regras aplicáveis, uma vez que efetuou adequadamente o registro das receitas financeiras, tal como informado no SPED do ano-calendário de 2016 (DOC_08), e o mero equívoco cometido pela Recorrente no momento de preenchimento da DCOMP, não pode obstar a homologação das compensações realizadas pela Recorrente à luz do princípio da verdade material. 5. DO PEDIDO Em face de todo o exposto, a Recorrente pugna, respeitosamente, pelo provimento do presente Recurso Voluntário, com a consequente reforma do v. Acórdão recorrido, de modo que seja reconhecido integralmente o direito creditório decorrente do saldo negativo de IRPJ apurado ao final em 2016, de Fl. 440DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1001-000.874 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10880.942998/2021-40 9 maneira que a DCOMP controlada no presente processo administrativo seja integralmente homologada. (...)”. É o relatório. VOTO Conselheiro Gustavo de Oliveira Machado, Relator. O recurso voluntário apresentado pela Recorrente atende aos requisitos de admissibilidade previstos nas normas de regência, em especial no Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972. Assim, dele tomo conhecimento, inclusive para os efeitos do inciso III do art. 151 do Código Tributário Nacional (CTN). Conforme se depreende dos elementos que instruem o processo, pretende a recorrente a reforma do Acórdão atacado nos tópicos que não confirmaram o IR- Exterior e Retenções na Fonte. Do IR- Exterior Em suas razões recursais, a Contribuinte requereu a reforma da decisão no ponto de que trata do aproveitamento do imposto pago no exterior. Cabe destacar, que o acórdão recorrido indeferiu o pleito da empresa de compensação de imposto de renda pago no exterior, sob o fundamento de que “além da ausência de suporte legal para a compensação dos tributos retidos no exterior em ano-calendário diverso do reconhecimento das receitas, constatou-se vícios na documentação comprobatória apresentada pela recorrente; que os documentos anexados às fls. 88 a 90, estão em língua estrangeira e não foram apresentadas as traduções juramentadas, o que implica que este não podem ser admitidos como comprovantes da retenção; que os documentos às fls. 91 a 95, os quais poder-se-ia supor seriam os citados reconhecimentos/apostilamentos, não podem ser admitidos como documentação comprobatórias, posto que emitidos em língua estrangeira, desacompanhados de tradução juramentada e que não foram apresentadas as memórias de cálculo, por retenção, da conversão dos valores expressos naqueles documentos (os quais, em tese, corresponderiam a pesos argentinos) para reais”. No entanto, verifico que a Contribuinte dialogou com o acórdão recorrido, colacionando ao recurso voluntário sob exame, a tradução juramentada dos comprovantes do Fl. 441DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1001-000.874 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10880.942998/2021-40 10 imposto retido na fonte pela Givaudan Argentina sobre os pagamentos efetuados à Givaudan Brasil (e-fls. 365/379), as memórias de cálculo e as taxas de câmbio utilizadas (e-fls. 380/424). Deve se esclarecer que sobre a apresentação da prova documental em momento processual posterior, deve ser possível desde que fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior, refira-se a fato ou a direito superveniente ou se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Isso em obediência à verdade material que deve pautar os processos administrativos e da formalidade moderada e na permissão concedida pelo art. 38 da Lei 9.784/99, a contribuinte tem a possibilidade de juntar documentos indispensáveis para sua defesa mesmo após a manifestação de inconformidade. Assim, o julgador orientando-se pelo princípio da verdade material na apreciação da prova, deve formar livremente sua convicção mediante a persuasão racional decidindo com base nos elementos existentes no processo e nos meios de prova em direito admitidos ainda que apresentados em sede recursal. Desta feita, em análise dos documentos colacionados em sede recursal, vislumbro que há elementos concretos que indicam o pagamento do tributo relativo a imposto de renda no exterior, viabilizando o exame quanto a certeza e a liquidez do direito creditório pleiteado pela Recorrente. Outrossim, como a Contribuinte cumpriu com a obrigatoriedade formal de apresentação de documentos com tradução juramentada, deve ser analisado o direito creditório pleiteado. Neste sentido dispõe a Solução de Consulta Interna COSIT nº 21 de 20 de Julho de 2004, cujo teor segue abaixo: “SOLUÇÃO DE CONSULTA INTERNA COSIT Nº 21, DE 20 DE JULHO DE 2004 ASSUNTO: Obrigatoriedade de tradução juramentada de documentos obtidos no exterior, escritos em idioma estrangeiro, na instrução de processo administrativo fiscal. EMENTA: Para ter validade no processo administrativo fiscal, a prova obtida no exterior, em idioma estrangeiro, deve ser traduzida para o português por tradutor juramentado, seja ela produzido pelo sujeito passivo ou por agente da administração tributária. DISPOSITIVO LEGAIS: art. 157 da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973; art. 224 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, art. 18 do Decreto nº 13.609, de 21 de outubro de 1943.” Das Retenções na Fonte Fl. 442DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1001-000.874 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10880.942998/2021-40 11 A DRJ indeferiu a parcela Retenções Fonte sob o fundamento de que “as receitas correspondentes ao Imposto de Renda Retido na Fonte/IRRF informado no PER/DCOMP não foram oferecidas à tributação e que as retenções na fonte informada foram efetuadas sob código de receita 5557, que correspondem a IRRF- Ganhos Líquidos em Operações em Bolsas e Assemelhados e que em consulta à Escrituração Contábil Fiscal/ECF, ano calendário 2016 foi constatado que as receitas correspondentes não foram declaradas”. Em sede recursal, a Contribuinte sustentou que “verificou ter informado erroneamente o Código de Receita 5557 em sua DCOMP, referente a operações de renda variável, ao invés do código 3426, referente a operações de renda fixa, como se verifica no próprio Informe de Rendimento (DOC_07)”. Asseverou ainda, que “não há receita declarada no campo indicado pela douta DRJ, vez que nesse período a Recorrente não auferiu quaisquer valores a esse título. Isso porque, a Receita que originou os valores retidos na fonte aqui em discussão foram devidamente informadas no Registro K355”. Assim, como a Contribuinte, desde o pedido inaugural, vem sustentando possuir créditos de valores retidos na fonte, no entanto, não teria logrado êxito na comprovação destes créditos, uma vez que a documentação acostada aos autos nas instâncias pretéritas, não teria comprovado que os créditos declarados teriam sido submetidos a tributação. Por sua vez, com o fito de comprovar os créditos pretendidos, a contribuinte juntou ao recurso voluntário a comprovação de que os valores retidos na fonte foram informados no Registro K355. Inobstante a contribuinte somente ter trazido à colação referida documentação após a interposição do recurso voluntário, mister se faz analisá-la e acolhê-la, se for o caso, com fulcro nos princípios da instrumentalidade processual e da verdade material, uma vez corroborar alegação suscitada desde a defesa inaugural. Dessa forma, impõe-se determinar o conhecimento de aludida documentação acostada aos autos junto ao recurso voluntário. Entrementes, para melhor analisar a demanda, com a segurança que o caso exige, mister converter o julgamento em diligência para que a autoridade fazendária de origem se manifeste sobre o documento, de e-fl. 424, confrontando-os com os sistemas fazendários, de maneira a informar se comprovam a totalidade dos créditos pretendidos pela contribuinte. Isto posto, em observância ao disposto no art. 18 do Decreto nº 70.235/72, voto em converter o julgamento na realização de diligência a fim de que: 1) a Unidade de Origem, analise os documentos colacionados em sede recursal (e- fls. 365/424), a fim de verificar se o crédito objeto das razões recursais da Contribuinte é líquido e certo; Fl. 443DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1001-000.874 – 1ª SEÇÃO/1ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10880.942998/2021-40 12 2) havendo a constatação da existência, suficiência e disponibilidade do direito creditório pleiteado que seja proferido parecer circunstanciado e realizada a compensação, se possível, em relação ao PER/DCOMP discutido nos autos. Por fim, destaco que, em razão do princípio da ampla defesa, que seja a contribuinte intimada do resultado da diligência para, querendo, manifestar-se sobre os resultados alcançados. Após que os autos retornem ao CARF para a continuidade de julgamento. Assinado Digitalmente Gustavo de Oliveira Machado – Relator Fl. 444DF CARF MF Original Resolução Relatório Voto

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Numero do processo: 10830.729074/2017-69
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Nov 27 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Dec 30 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2014 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DA DIVERGÊNCIA. DIFERENÇAS FÁTICAS. NÃO CONHECIMENTO. Para conhecimento do recurso especial, é necessário que o recorrente comprove divergência jurisprudencial, mediante a apresentação de Acórdão paradigma em que, discutindo-se a mesma matéria posta na decisão recorrida, o Colegiado tenha aplicado a legislação tributária de forma diversa. Hipótese em que as situações enfrentadas no paradigma e no recorrido apresentam, em parte, diferenças fáticas substanciais. Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2014 SIMULAÇÃO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. O lançamento é efetuado de ofício pela autoridade administrativa quando se comprove que o sujeito passivo agiu com simulação (art. 149, VII, do CTN), a exemplo da realização de negócios fictícios entre empresas que, de fato, são uma só, com a existência de absoluta confusão patrimonial. DECADÊNCIA. SIMULAÇÃO. SÚMULA CARF 72. Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. MULTA QUALIFICADA. DE 150%. MULTA MAJORADA DE 100%. RETROATIVIDADE BENIGNA (ART. 106, II, c, CTN). APLICAÇÃO. Restando comprovadas as hipóteses normativas previstas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1964, faz-se aplicável a multa qualificada imposta sob tais fundamentos. A modificação inserta no inciso VI do §1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96, pela Lei nº 14.689/23, ao reduzir a multa de 150% para 100% atrai a aplicação do art. 106, II, “c”, do CTN, porquanto lei nova aplica-se a ato ou fato pretérito, no caso de ato não definitivamente julgado, quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente à época da prática da infração.
Numero da decisão: 9303-017.051
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer em parte do recurso, apenas no que se refere ao critério legal de valoração para que se caracterize simulação, e as consequentes qualificação da penalidade e contagem de prazo decadencial, tendo a Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário acompanhado o conhecimento pelas conclusões no que se refere ao primeiro item (referente a simulação). No mérito, por maioria de votos, deu-se provimento ao recurso, vencida a Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário, que votou pelo afastamento da qualificação da multa. Acordam ainda os membros do colegiado, de ofício, por unanimidade de votos, aplicar a retroatividade benigna da Lei 14.689/2023, para reduzir o patamar da multa qualificada a 100%, tendo, nesse tópico, os Conselheiros Semíramis de Oliveira Duro, Tatiana Josefovicz Belisário e Alexandre Freitas Costa, acompanhado o relator pelas conclusões, por entenderem que a multa de 150% a que se refere o inciso VII da Lei 9.430/1996, na redação dada pela Lei 14.689/2023, aplica-se apenas a fatos geradores futuros à Lei 14.689/2023. A Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário indicou a intenção de apresentar declaração de voto. (documento assinado digitalmente) Régis Xavier Holanda – Presidente (documento assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rosaldo Trevisan, Semíramis de Oliveira Duro, Vinícius Guimarães, Tatiana Josefovicz Belisário, Dionísio Carvallhedo Barbosa, Alexandre Freitas Costa, Denise Madalena Green, e Régis Xavier Holanda (Presidente).
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN

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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2014 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DA DIVERGÊNCIA. DIFERENÇAS FÁTICAS. NÃO CONHECIMENTO. Para conhecimento do recurso especial, é necessário que o recorrente comprove divergência jurisprudencial, mediante a apresentação de Acórdão paradigma em que, discutindo-se a mesma matéria posta na decisão recorrida, o Colegiado tenha aplicado a legislação tributária de forma diversa. Hipótese em que as situações enfrentadas no paradigma e no recorrido apresentam, em parte, diferenças fáticas substanciais. Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2014 SIMULAÇÃO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. O lançamento é efetuado de ofício pela autoridade administrativa quando se comprove que o sujeito passivo agiu com simulação (art. 149, VII, do CTN), a exemplo da realização de negócios fictícios entre empresas que, de fato, são uma só, com a existência de absoluta confusão patrimonial. DECADÊNCIA. SIMULAÇÃO. SÚMULA CARF 72. Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. MULTA QUALIFICADA. DE 150%. MULTA MAJORADA DE 100%. RETROATIVIDADE BENIGNA (ART. 106, II, c, CTN). APLICAÇÃO. Restando comprovadas as hipóteses normativas previstas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1964, faz-se aplicável a multa qualificada imposta sob tais fundamentos. A modificação inserta no inciso VI do §1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96, pela Lei nº 14.689/23, ao reduzir a multa de 150% para 100% atrai a aplicação do art. 106, II, “c”, do CTN, porquanto lei nova aplica-se a ato ou fato pretérito, no caso de ato não definitivamente julgado, quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente à época da prática da infração.

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer em parte do recurso, apenas no que se refere ao critério legal de valoração para que se caracterize simulação, e as consequentes qualificação da penalidade e contagem de prazo decadencial, tendo a Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário acompanhado o conhecimento pelas conclusões no que se refere ao primeiro item (referente a simulação). No mérito, por maioria de votos, deu-se provimento ao recurso, vencida a Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário, que votou pelo afastamento da qualificação da multa. Acordam ainda os membros do colegiado, de ofício, por unanimidade de votos, aplicar a retroatividade benigna da Lei 14.689/2023, para reduzir o patamar da multa qualificada a 100%, tendo, nesse tópico, os Conselheiros Semíramis de Oliveira Duro, Tatiana Josefovicz Belisário e Alexandre Freitas Costa, acompanhado o relator pelas conclusões, por entenderem que a multa de 150% a que se refere o inciso VII da Lei 9.430/1996, na redação dada pela Lei 14.689/2023, aplica-se apenas a fatos geradores futuros à Lei 14.689/2023. A Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário indicou a intenção de apresentar declaração de voto. (documento assinado digitalmente) Régis Xavier Holanda – Presidente (documento assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rosaldo Trevisan, Semíramis de Oliveira Duro, Vinícius Guimarães, Tatiana Josefovicz Belisário, Dionísio Carvallhedo Barbosa, Alexandre Freitas Costa, Denise Madalena Green, e Régis Xavier Holanda (Presidente).

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RECURSO ESPECIAL. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DA DIVERGÊNCIA. DIFERENÇAS FÁTICAS. NÃO CONHECIMENTO. Para conhecimento do recurso especial, é necessário que o recorrente comprove divergência jurisprudencial, mediante a apresentação de Acórdão paradigma em que, discutindo-se a mesma matéria posta na decisão recorrida, o Colegiado tenha aplicado a legislação tributária de forma diversa. Hipótese em que as situações enfrentadas no paradigma e no recorrido apresentam, em parte, diferenças fáticas substanciais. Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2014 SIMULAÇÃO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. O lançamento é efetuado de ofício pela autoridade administrativa quando se comprove que o sujeito passivo agiu com simulação (art. 149, VII, do CTN), a exemplo da realização de negócios fictícios entre empresas que, de fato, são uma só, com a existência de absoluta confusão patrimonial. DECADÊNCIA. SIMULAÇÃO. SÚMULA CARF 72. Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. MULTA QUALIFICADA. DE 150%. MULTA MAJORADA DE 100%. RETROATIVIDADE BENIGNA (ART. 106, II, c, CTN). APLICAÇÃO. Restando comprovadas as hipóteses normativas previstas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1964, faz-se aplicável a multa qualificada imposta sob Fl. 90829DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 2 tais fundamentos. A modificação inserta no inciso VI do §1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96, pela Lei nº 14.689/23, ao reduzir a multa de 150% para 100% atrai a aplicação do art. 106, II, “c”, do CTN, porquanto lei nova aplica-se a ato ou fato pretérito, no caso de ato não definitivamente julgado, quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente à época da prática da infração. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, conhecer em parte do recurso, apenas no que se refere ao critério legal de valoração para que se caracterize simulação, e as consequentes qualificação da penalidade e contagem de prazo decadencial, tendo a Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário acompanhado o conhecimento pelas conclusões no que se refere ao primeiro item (referente a simulação). No mérito, por maioria de votos, deu-se provimento ao recurso, vencida a Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário, que votou pelo afastamento da qualificação da multa. Acordam ainda os membros do colegiado, de ofício, por unanimidade de votos, aplicar a retroatividade benigna da Lei 14.689/2023, para reduzir o patamar da multa qualificada a 100%, tendo, nesse tópico, os Conselheiros Semíramis de Oliveira Duro, Tatiana Josefovicz Belisário e Alexandre Freitas Costa, acompanhado o relator pelas conclusões, por entenderem que a multa de 150% a que se refere o inciso VII da Lei 9.430/1996, na redação dada pela Lei 14.689/2023, aplica-se apenas a fatos geradores futuros à Lei 14.689/2023. A Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário indicou a intenção de apresentar declaração de voto. (documento assinado digitalmente) Régis Xavier Holanda – Presidente (documento assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Rosaldo Trevisan, Semíramis de Oliveira Duro, Vinícius Guimarães, Tatiana Josefovicz Belisário, Dionísio Carvallhedo Barbosa, Alexandre Freitas Costa, Denise Madalena Green, e Régis Xavier Holanda (Presidente). Fl. 90830DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 3 RELATÓRIO Trata-se de Recurso Especial de divergência interposto pela Fazenda Nacional contra a decisão consubstanciada no Acórdão no 3301-007.721, de 18/02/2020 (fls. 89819 a 89876)1, que, por maioria de votos, afastou a simulação nas operações das recorrentes e cancelou o IPI devido pela UBI, calculado com base no preço de venda da UB para seus clientes, aplicou decadência para os fatos geradores ocorridos até 27/12/2012 e afastou a qualificação da multa de 150%, mantendo-a no patamar de 75%, vencidos os Conselheiros Liziane Angelotti Meira, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira, que votaram por negar provimento ao recurso voluntário nestas matérias, tendo ainda sido mantido o lançamento referente à classificação fiscal do produto vasenol e referente às devoluções de venda, e cobrança dos juros sobre a multa de ofício, por unanimidade de votos. Breve síntese do processo O processo versa sobre Auto de Infração para exigência de IPI referente aos períodos de apuração dos anos de 2012 a 2014, acrescida de multa proporcional, multa isolada e juros de mora, no valor total original de R$ 2.962.434.196,63, por: (a) falta de lançamento do imposto nas saídas de produtos tributados, por não haver o estabelecimento considerado na base de cálculo o valor real praticado nas operações; e (b) utilização indevida de créditos relativos a devoluções não comprovadas. No Termo de Verificação Fiscal de fls. 85177 a 85526, narra a fiscalização que: (a) a Unilever Brasil Industrial (UBI) pertence ao grupo Unilever, sendo seus dirigentes nos períodos fiscalizados os mesmos da empresa mãe do grupo no País, Unilever Brasil Ltda (UBr); (b) a denominação social da pessoa jurídica fiscalizada era, desde 2007, Unilever Brasil Higiene Pessoal e Limpeza Ltda, assim permanecendo até sua incorporação pela UBI, em 1o de julho de 2010, quando se transformou numa filial desta última; (c) no período fiscalizado, o estabelecimento industrializou diversas marcas de xampus, cremes e sprays para cabelo, condicionadores, pastas de dentes e desodorantes, e, em menores quantidades, outros produtos de higiene; (d) a partir de julho/2010, com a incorporação pela UBI, o estabelecimento também industrializou amaciantes de roupas, detergentes líquidos para lavagem de roupa e para limpeza doméstica, água sanitária, desinfetantes e, em menores quantidades, preparações para máquina de lavar louças, saponáceos e esponjas; (e) o contribuinte também efetuou importações de desodorantes, em sua maior parte da Unilever de Argentina S.A.; (f) o estabelecimento importou, ainda, purificadores de água e suas partes e pequeno volume de outros produtos, nestes casos procedentes de outras empresas estrangeiras; (g) em ações fiscais anteriores ficou demonstrado que os produtos não ingressaram efetivamente no estabelecimento importador, mas, sempre, seguiram diretamente da repartição aduaneira que promoveu o desembaraço aduaneiro (liberação da mercadoria) até o 1 Todos os números de folhas indicados nesta decisão são baseados na numeração eletrônica da versão digital do processo (e-processos). Fl. 90831DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 4 estabelecimento da UBr de CNPJ 61.068.276/0308-80, em Louveira (SP); (h) a maior parte das saídas foi destinada ao território nacional, para estabelecimentos da UBr, e praticamente toda a produção ou importação realizada pelo estabelecimento industrial de Vinhedo é destinada ao CD de Louveira (localizados em municípios limítrofes), havendo a partir deste último transferências das mercadorias para Centros de Distribuição localizados em outros pontos do território nacional, por meio de notas fiscais em que constam CFOP correspondentes à revenda de mercadorias, sem o destaque do IPI, uma vez que o estabelecimento interdependente não se equiparou a industrial nestas operações; (i) a fiscalização apurou, em relação à base de cálculo utilizada nas saídas, tanto em relação aos produtos remetidos para a filial em Louveira, como em relação aos demais estabelecimentos dessa pessoa jurídica, que “...os valores unitários indicados nas notas fiscais de saída emitidas pelo estabelecimento industrial/importador, com destaque do IPI, representavam, em média, apenas um terço dos valores unitários de produtos idênticos nas notas fiscais referentes às saídas promovidas pelo estabelecimento da firma interdependente para terceiros, emitidas sem o destaque do IPI”; (j) depois de diversas intimações contendo questionamentos acerca da formação dos preços de venda, a fiscalização apurou que a empresa desconsiderou na composição da base de cálculo do IPI, os custos financeiros, de venda, administração e publicidade e a margem de lucro normal e, no caso das importações, não especificou o custo de aquisição e informou o valor dos impostos equivalentes a percentuais de 23% a 32% sobre o que chama de preço total, mas que nas importações de desodorantes efetuadas pelo estabelecimento, os tributos pagos por ocasião do desembaraço aduaneiro, considerados apenas os que compõem o valor total dos produtos, representaram 45% do valor aduaneiro; (k) ainda com relação aos importados, foi observado que, na maior parte das operações, o valor unitário constante na nota fiscal de saída é inferior ao valor de importação acrescido dos tributos, frete nacional e despesas acessórias e, em muitos casos, ao valor unitário indicado no documento fiscal relativo à entrada, sem quaisquer acréscimos (em consequência, se somados ao valor dos produtos importados, o ICMS e as contribuições sociais pagos por ocasião do desembaraço aduaneiro, as despesas acessórias e o frete nacional, resta que o valor unitário de saída representa apenas 60% do valor da unidade importada), sendo que em 64% desses itens o valor unitário de saída esteve abaixo do valor de importação com os acréscimos devidos e em 70%, foi menor ou, no máximo, igual; (l) verificou-se que os bens importados pela UBI de Vinhedo não ingressam no estabelecimento, sendo levados diretamente para Louveira, tendo sido declarado por funcionários que nunca houve área para estocagem de itens importados; (m) com menção a depoimento de dirigente da empresa, indica haver ficado “...claramente evidenciado que os dirigentes da pessoa jurídica têm consciência de que estavam desobedecendo à determinação legal de utilizar o valor mínimo tributável nas saídas para estabelecimentos de firma interdependente, conforme previsto na legislação do IPI. Aliás, cabe reiterar, os dirigentes das pessoas jurídicas, remetente e destinatária dos produtos, são os mesmos”; (n) concretamente, a UBI (antiga Unilever Brasil Higiene Pessoal e Limpeza) e UBr atuam como unidade econômica e simulam operações comerciais entre si, e, pelas informações apresentadas pela empresa fiscalizada, esta não obtém, nem pretende obter, qualquer lucro nas operações de industrialização ou importação, não sendo os preços praticados entre as pessoas Fl. 90832DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 5 jurídicas dessa unidade econômica os praticados com terceiros; (o) sobre os contratos de fornecimento firmados entre a UBI e a UBr, foram identificadas diversas inconsistências (ademais de os signatários que representam ambas as partes serem os mesmos, alguns deles sequer constavam com poderes de representação, ou como contratados; (p) em relação aos contratos de empréstimo e gestão de pagamentos e recebimentos formalizados entre as mesmas partes, e o sistema de compensações e o caixa único do grupo, demonstra-se que a empresa-mãe do grupo Unilever é a financiadora das atividades operacionais da unidade industrial, e que a fiscalizada, na prática, não possui autonomia financeira, e opera com recursos da Unilever Brasil, tendo especial relevância a circunstância de não haver pagamento em dinheiro pelos produtos enviados da unidade industrial para a Unilever Brasil; (q) há inexistência de negociação de preços nas saídas para as firmas interdependentes, afirmando-se que inexistem as relatadas “vendas” da UBI à UBr; (r) em visita à filial de UBr em Louveira, foi constatado que se trata de um local para armazenagem de produtos, operado pela DHL LOGISTICS BRAZIL LTDA, que é responsável pela execução das atividades e administração do próprio estabelecimento; (s) verificou-se a existência formal no mesmo endereço de outros estabelecimentos da UBr e da UBI, além da DHL, inexistindo entrada própria, paredes, cercas ou qualquer outra forma de isolamento que permita configurar estabelecimentos diversos, entendendo-se que “...a confusão provocada por estabelecimentos num único prédio, superpostos no mesmo espaço, visa mascarar a natureza de depósito fechado do CD de Louveira e, como veremos adiante, dos demais Centros de Distribuição espalhados pelo País”; (t) há contrato de locação onde são locatárias do mesmo imóvel a UBr e a UBI, restando configurada a confusão patrimonial, principalmente ao não ser explicitada no contrato a distribuição do ônus entre a locatárias; (u) toda a área do imóvel que constitui o centro de distribuição da UBr em Louveira é destinada à armazenagem e movimentação de produtos executadas pela DHL (incorporadora da Exel do Brasil), por meio dos seus próprios funcionários e equipamentos (inclusive emissão de notas fiscais), em que pese o contrato de cessão de áreas feito pelas locatárias UBr e UBI com a DHL prever apenas parte; (v) a presença da Exel do Brasil desde o início das atividades do estabelecimento, por si só, já indica a natureza das atividades que seriam ali desenvolvidas, típicas de um depósito, mas a UBr informou ao Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, em relação à filial 0307, a natureza de estabelecimento comercial atacadista; (w) a Unilever apresentou Guias de recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), por meio das quais, informou a existência de várias centenas de funcionários na filial de Louveira, para simular a natureza do estabelecimento de CNPJ 61.068.276/0307-80 e fazer parecer que ali existia um comercial atacadista; (x) a legislação do IPI define ‘depósito fechado’ como ‘aquele em que não se realizam vendas, mas apenas entregas por ordem do depositante dos produtos’, sendo justamente o caso do estabelecimento de Louveira, situado à Avenida José Luiz Mazzali, 450; e (y) a exemplo do CD de Louveira, os demais Centros de Distribuição da Unilever também exercem atividades típicas de depósito, que são executadas por um operador logístico especialmente contratado. Em síntese, conclui a fiscalização que não é possível caracterizar as saídas promovidas pela unidade industrial aos Centros de Distribuição, como operações de vendas, pois não há pagamento em dinheiro; os preços são fixados Fl. 90833DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 6 unilateralmente pela suposta ‘compradora’, a empresa­mãe do grupo econômico ­ que, não por acaso, suporta todos os custos das atividades da unidade industrial; os instrumentos que deveriam definir as condições de compra e venda entre as duas empresas (‘Acordos de Fornecimento’) foram forjados; e, principalmente, não há propósito negocial em supostas ‘vendas’ que se realizariam por, apenas, um terço do valor de mercado, situação absolutamente inviável pelas regras de mercado, em que não estivessem em cada um dos polos da transação empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico, restando ainda demonstrado que o principal Centro de Distribuição da Unilever, localizado em Louveira, é tão somente um enorme depósito, operado por uma empresa de logística, onde não se realizam atividades de comercialização de mercadorias, mas, simplesmente armazenagem compartilhada de produtos de higiene pessoal e limpeza, bem como alimentícios, havendo estruturas semelhantes, em menor proporção, nos demais Centros de Distribuição localizados fora do Estado de São Paulo. O esquema evasivo detectado pela fiscalização foi o seguinte: (a) no plano meramente formal, foram emitidas notas fiscais correspondentes a vendas aos estabelecimentos da UBr, supostamente comerciais atacadistas, mas, no plano material, houve simples remessa dos produtos para depósitos fechados da própria indústria; (b) na saída para estabelecimentos de terceiros não interdependentes, funcionários do operador logístico do respectivo depósito emitem notas fiscais em nome da UBr com o valor real da operação de comercialização; (c) portanto, o mecanismo utilizado para a redução da base de cálculo do imposto foi a simulação de uma operação de comercialização entre o estabelecimento industrial e os supostos comerciais atacadistas da empresa-mãe; (d) a etapa de comercialização entre a indústria e uma comercial atacadista não existe no plano real, mas é sob esta ficção que os valores dos produtos triplicam (como não existiram operações de comercialização entre o estabelecimento industrial e comerciais atacadistas da UBr, foram considerados, para fins de tributação do IPI, as quantidades e valores dos produtos saídos dos Centros de Distribuição da Unilever - cuja natureza é de depósito fechado - aos terceiros não interdependentes); e (e) foram ainda detectadas outras infrações, relativas a falta de recolhimento do IPI, em virtude da utilização indevida de créditos por devoluções não comprovadas pelo contribuinte. Em impugnação conjunta, apresentada em 24/01/2018 (fls. 85597 a 85691), as empresas UBI e UBr (cientes do lançamento em 28/12/2017 - fls. 85573 e 85578), alegam, em síntese, que: (a) dezenas de páginas do relatório fiscal poderiam ser excluídas, por tratarem de operações ocorridas em outros períodos, não analisados no lançamento; (b) não há responsabilidade solidária da Unilever do Brasil Ltda, por inexistir interesse comum da UBR nas vendas realizadas pela Requerente (tratando-se de pessoas jurídicas distintas), e não existe regra legal que responsabilize a UBR por eventuais débitos fiscais da UBI pelo simples fato de a UBR deter quotas representativas do capital social da UBI; (b) a autuação é nula por falta de descrição clara e precisa dos fatos, por erro na identificação e na capitulação legal das infrações imputadas, por cerceamento do direito de defesa, por adoção de presunção como fundamento, e por adoção de premissa incorreta; (c) não houve simulação, fraude ou confusão patrimonial nas operações entre UBI e UBR; (d) existe substância econômica e propósito negocial na segregação de atividades Fl. 90834DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 7 industrial e comercial, visando adequar as operações no Território Nacional à política global do Grupo Unilever; (e) a segregação das atividades industriais e comerciais em pessoas jurídicas distintas foi adotada inclusive naqueles Países em que tal medida implicou aumento dos custos tributários locais, como é possível verificar nos casos das operações do Grupo Unilever na Colômbia, Costa Rica, e El Salvador; (f) o CARF já reconheceu, em duas oportunidades distintas, que o modelo operacional utilizado pelo Grupo Unilever é lícito e legítimo (Acórdãos 3403- 002.519, e 3402-001.908); (g) há inconsistência/irrelevância das alegações do TVF para justificar a suposta simulação/fraude; (h) a coincidência de dirigentes é prática usualmente adotada em grupos econômicos; (i) o sistema de pagamento e eventuais compensações obedece a contrato de gestão de pagamentos e recebimentos; (j) no contrato de fornecimento de produtos pela UBI à UBr, a vigência retroativa não representa qualquer irregularidade, e, “...em alguma medida, a UBr sempre irá “controlar” o fornecimento dos produtos acabados produzidos pela UBI, pois a UBI é a única fornecedora da UBr e a UBr é a única cliente da UBI.; (k) a transferência de funcionários do estabelecimento de Louveira à matriz da UBr em São Paulo decorre de decisão negocial, que foi tomada muito antes da diligência realizada pela fiscalização; (l) e-mails também evidenciam que havia de fato atividades comerciais no CD de Louveira, na medida em que mencionam a transferência de determinados “equipamentos IT que hoje estão no escritório”, além de funcionários; (m) a utilização de CDs por empresas comerciais atacadistas é prática corrente no mercado brasileiro, sendo inúmeras as vantagens na adoção desta estrutura, especialmente de negociação de preço com fornecedores e distribuição aos clientes; (n) a fiscalização faz parecer que as empresas não emitem suas próprias notas fiscais pelo simples fato de delegarem os aspectos operacionais dessa tarefa aos profissionais de uma empresa terceirizada (operador logístico), mas referido operador não emite notas fiscais em nome próprio, mas, sim, é contratado para operar o sistema informatizado das empresas do Grupo Unilever para emitir notas fiscais da UBI e da UBr justamente por conta e ordem dessas pessoas jurídicas, com relação às operações realizadas por essas empresas, e que são registradas nos livros contábeis e documentos fiscais dessas empresas; (o) a existência de mais de um CNPJ no mesmo endereço em Louveira não configura irregularidade, e “...o único estabelecimento a operar como depósito fechado no endereço sob análise é o estabelecimento da UBI”; (p) o uso compartilhado de espaço físico também não denota irregularidade, sendo conforme o Parecer Normativo CST no 123/1974; (q) o TVF interpreta equivocadamente a planilha elaborada pela UBI ao mencionar que esta empresa teria informado margem de lucro de 50%, quando, na verdade, indicou margem de lucro de 1,5%, e, baseada nesta premissa equivocada de que a UBI não teria feito seu trabalho e, mais ainda, utilizando indevidamente a informação de que os valores unitários da UBr (empresa comercial) seriam 332% (ou 3x) maiores do que os valores unitários da UBI, o TVF conclui que a UBI não teria observado o VTM; (r) a partir das fls. 38 em diante do TVF, trata-se de fiscalizações anteriores, que se referem a outro período, com conclusões não extensíveis ao presente processo; (s) para que fosse possível fazer qualquer afirmação referente ao VTM, a fiscalização deveria ter analisado os registros contábeis e outros controles, e registro de custos e despesas nos sistemas informatizados de contabilidade adotados pela UBI; (t) a despeito da precariedade do trabalho realizado pela Fl. 90835DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 8 fiscalização, a empresa solicitará estudo similar para amparar a presente autuação, razão pela qual requer a conversão do julgamento em diligência; (u) ao longo do período fiscalizado, a UBI registrou lucro bruto da ordem de R$ 1.474.927.779,79 em 2012, R$ 1.266.769.331,28 em 2013 e R$ 1.463.496.234,61 milhões em 2014, conforme se verifica nas DIPJ do período; (v) é equivocada a percepção de as operações serem supostamente deficitárias, o que pode até ser verdade com relação a um produto ou outro, por razões comerciais (introdução de novas marcas no mercado, estratégia para popularização de um determinado produto, encerramento de uma linha específica, etc.), mas, certamente, não representa a realidade das operações da UBI; (w) no que se refere a operações envolvendo produtos importados (que representam menos de 8% das operações autuadas), não há nos autos qualquer prova de que a UBI não seria a real importadora e adquirente dos produtos importados e também não há prova de que os produtos tenham seguido diretamente para a UBr, e as inconsistências apontadas pela fiscalização já são objeto de outros processos (nº 11829-720.033/2016-28 e 11829-720.034/2016-72); (x) a exigência de IPI sobre os produtos importados, não objeto de industrialização, é inconstitucional e ilegal, por ofensa aos princípios da isonomia e seletividade; (y) ocorreu decadência, no caso em análise, pela necessidade de aplicação do artigo 150, §4º do CTN; e (z) a UBI observou os critérios do VTM para o cálculo e recolhimento do IPI devido nas operações de venda objeto da presente autuação, que seria custo mais margem de lucro, nos termos do artigo 196, parágrafo único, inciso I, do RIPI, uma vez que não há preço corrente no mercado atacadista, à luz do conceito de “praça” previsto na legislação. No mais, a defesa, rechaça a alegação de erros de classificação, a incidência de juros sobre a multa de ofício, e a qualificação da multa de ofício, por inexistência de fraude ou simulação, invocando precedentes do CARF, defendendo ainda a impossibilidade de aplicação concomitante das multas de ofício e isolada sobre os mesmos fatos geradores. Em 21/08/2018, a DRJ/BEL converteu o julgamento em diligência (fls. 87363 a 87369), para que a unidade preparadora da RFB: (a) separasse, por período de apuração, a parcela lançada referente à reclassificação dos cremes para pentear e de tratamento capilar acima citados, mantidos os demais critérios adotados no lançamento, inclusive quanto à recomposição da base de cálculo feita na ação fiscal; e (b) apresentasse quaisquer outras informações e anexasse outros documentos que considerasse úteis ou necessários ao julgamento do presente feito, com ciência ao contribuinte dos atos resultantes da diligência, concedendo-lhe trinta dias para manifestar-se. Após o relatório de diligência de fls. 87403 a 87431, e a ciência dos sujeitos passivos (fls. 9283/9284), p processo retorna à DRJ/BEL, que profere, em 12/03/2019, o Acórdão 01- 36.338, julgando a impugnação procedente em parte, por unanimidade de votos, devendo ser cancelado o montante lançado a título de IPI de R$ 149.850.997,60 (valor principal, a ser acrescido de multa e juros), correspondente à classificação fiscal dos cremes para pentear e máscaras de tratamento capilar, o que ensejou a interposição de recurso de ofício. Em recurso voluntário conjunto, apresentado em 17/04/2019 (fls. 89359 a 89472), as empresas UBI e UBr (cientes do lançamento em 19/03/2019 - fls. 89354 e 89355), sustentam, Fl. 90836DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 9 basicamente, que: (a) a decisão da DRJ é nula, por negar a aplicação ao caso concreto das regras do RIPI e inovar em sua fundamentação, e por cercear o direito de defesa ao indeferir a conversão do julgamento em diligência com relação ao cálculo do VTM, a apuração de lucro nas operações de venda objeto desta autuação fiscal e a suposta classificação incorreta de produtos na TIPI (sabão e VASENOL; (b) caso assim não se entenda, que o lançamento seja declarado improcedente, pelas seguintes razões: utilização indevida de presunção para a afirmação de suposta inobservância do VTM; consideração de prova emprestada e impertinente ao presente processo administrativo; inexistência de responsabilidade solidária da UBr, uma vez que não possui interesse comum; adoção de premissa incorreta para constituição do crédito tributário, que decorre da glosa do saldo credor transportado para o período de 2012, em razão do Processo Administrativo nº 10830.727214/2013-31; e precariedade da fiscalização na suposta classificação incorreta dos produtos sabão e VASENOL; e (c) caso assim não se entenda, que se reconheça que o caso em análise não envolve dolo, fraude ou simulação, uma vez que: a estrutura implementada pelo Grupo Unilever (segregação de atividades comerciais e industriais) possui propósito negocial e é legítima (como já reconheceu inclusive o CARF), e estudo da E&Y; todos os fatos utilizados pela fiscalização para suportar a acusação de simulação são insuficientes, irrelevantes, não demonstram declaração falsa e se justificam em razão do modelo de negócio adotado pelo Grupo Unilever, sendo que há comprovação de pagamento e margem de lucro, registro contábeis/fiscais da operação de venda e evidências de autonomia das empresas; em sendo afastada a simulação/fraude, o crédito tributário relativo aos fatos geradores anteriores a 28/12/2012 seriam atingidos pela decadência tributária, nos termos do artigo 150, § 4º, do CTN; em sendo afastada a simulação/fraude, deve ser desconsiderada a multa qualificada de 150%; e, por fim, em sendo afastada a simulação/fraude, demonstrou-se que a UBI observou as regras do VTM nas operações de venda de produtos acabados e importados à UBr, a saber, custo mais margem de lucro, nos termos do artigo 196, parágrafo único do RIPI, sendo que o conceito de praça corresponde ao de Município, sob pena de insegurança jurídica e utilização equivocada de conceitos de direito privado (artigo 109 e 110 do CTN), e, ainda que assim não fosse, deveria ser apurada a média ponderada considerando as vendas da UBI e da UBr nos termos do RIPI; os créditos aproveitados em decorrência de operações de devolução não deveriam ter sido glosados; a UBI produzia e vendia produtos VASENOL classificados como de bronzeamento e autobronzeamento e, além disso, não produzia sabões medicinais, o que justifica que determinados produtos fossem classificados em OUTROS do Código 3304 e 3401; e as multas aplicadas não devem subsistir, bem como a aplicação de duas multas (ofício e isolada) sobre os mesmos fatos geradores e a incidência de juros sobre multas. A Fazenda Nacional, em contrarrazões ao recurso voluntário (fls. 89761 a 89816), alega que: (a) várias provas presentes nos autos corroboram a acusação fiscal de que os estabelecimentos da UBI e da UBr envolvidos na autuação atuam como unidade econômica e simulam operações comerciais entre si; (b) não há comprovantes de pagamento dos negócios celebrados entre as empresas, sob a justificativa de que o adimplemento se dá por intermédio de um sistema de compensação entre elas, e tampouco se evidenciou haver efetiva negociação de Fl. 90837DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 10 preços entre as partes; (c) os funcionários informaram que a unidade funciona como um centro de distribuição e logística, não existindo empregados relacionados às funções de venda, função desempenhada pelo escritório da Unilever, em São Paulo; (d) fotografias e planta do local demonstram que toda a área de galpão constituía um grande e único depósito para armazenagem de produtos, sem isolamento ou separação física que permitia delimitar cada um dos estabelecimentos informados pelo grupo Unilever; (e) o motivo principal do lançamento do imposto foi a constatação da ocorrência de simulação nas vendas realizadas entre empresas do mesmo grupo econômico, o que descaracterizou a base de cálculo do tributo, ou seja, seu valor tributável, conforme designação adotada pela legislação do IPI, e, em momento algum, ao contrário do que argumentam as recorrentes, o Termo de Verificação Fiscal imputa ao contribuinte o descumprimento das regras do VTM, incluindo o conceito de “praça”; (f) uma vez que, no plano meramente formal, foram registradas vendas a estabelecimento de firma interdependente, as recorrentes tentam atrair o debate para as regras do VTM, mas como demonstrado, este não é o cerne do lançamento; (g) não há incompatibilidade alguma entre a motivação do lançamento e a adotada na decisão de primeira instância, nem afronta ao direito de defesa; (h) tampouco caracteriza o vício arguido a não realização de diligência para exame da classificação fiscal dos sabões e do produto VASENOL; (i) o fato de terem sido aproveitados documentos de fiscalizações anteriores não traz como consequência a nulidade apontada, mormente porque eles servem para ratificar os elementos probatórios colhidos na presente ação fiscal; (j) as nulidades no Processo Administrativo Fiscal estão previstas no art. 59 do Decreto no 70.235/1972 e nenhuma das hipóteses foram demonstradas neste caso; (k) o motivo da responsabilização solidária, ao contrário do que pretendem fazer crer as recorrentes, não é o simples fato de as empresas integrarem o mesmo grupo econômico, tendo a fiscalização demonstrado que na realidade, as pessoas jurídicas incluídas no polo passivo no lançamento agiram em conluio, pois simularam contratos de compra e venda: a unidade industrial/importadora (UBI) agia em função das determinações da UBr, a qual possuía autonomia decisória, gerencial e financeira sobre as atividades daquela, havendo, portanto, unidade de ação e coincidência de interesses entre elas, a revelar o interesse comum de que trata o art. 124, I, do CTN; (l) os fatos ocorridos no período em debate já foram apreciados pelo CARF no Acórdão no 3401-005.285, em que se reconheceu a existência de simulação nos contratos de compra e venda entre UBI e UBr, e no Acórdão no 3301-003.169, no qual se entendeu que “...a autoridade fiscal demonstrou que os estabelecimentos considerados atacadistas da UB, em especial o de Louveira, são de fato apenas depósitos com o fito de reduzir o IPI a ser pago, por intermédio de vendas fictícias de produtos da UBI para a UB”; (m) a fiscalização demonstrou que toda atividade de comercialização era conduzida da sede da UBr, em São Paulo, uma vez que o estabelecimento de Louveira funcionava como simples depósito operado por empresa do ramo de logística, estando correta a sujeição passiva imputada; (n) o lançamento não se encontra motivado no descumprimento das regras de apuração do VTM, mas, sim, na constatação de que houve simulação de operações entre estabelecimentos de firmas interdependentes; (o) na presente ação fiscal, ao responder a uma das intimações, o próprio contribuinte ratificou a manutenção do Fl. 90838DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 11 contexto fático elucidado em investigações anteriores (fls. 89784/89785); (p) a rigor, os fatos identificados nesta fiscalização são incontroversos, e as recorrentes não os contestam, mas apenas se insurgem contra sua valoração jurídica, sob o argumento de que a segregação de atividades realizada pelo grupo Unilever se afigura lícita e legítima; (q) a hipótese é de simulação absoluta, na qual se verifica um ato aparente, por intermédio do qual as partes envolvidas buscam criar uma ilusão externa, mas, na verdade, nada de concreto acontece, limitando-se o negócio a uma forma vazia destinada a enganar terceiros; (r) formalmente existiam operações entre a UBI e a UBr, mas, materialmente, não passavam de mero simulacro de compra e venda, e as provas apuradas ao longo do presente processo administrativo fiscal são robustas nesse sentido; (s) de fato, é certo que uma empresa com determinado objeto social pode segregar a atividade entre diversos estabelecimentos, mas, no caso dos autos, não se segregou a atividade comercial atacadista entre vários estabelecimentos, mas sim se tentou simular a existência de um, no intuito de criar uma etapa na circulação das mercadorias e anular a tributação do IPI, não tendo a conclusão da fiscalização decorrido de um único indício, mas sim de conjunto probatório que demonstra claramente essa situação; (t) a técnica utilizada pela auditoria não se confunde com o instituto da desconsideração da personalidade jurídica; (u) é legítima a glosa de créditos decorrentes de devoluções; (v) em função da existência de dolo/simulação, caracterizada está a qualificação da multa e a adoção dá regra decadencial do art. 173, I, do CTN; e (w) é legítima a aplicação concomitante das multas de ofício e isolada, e a imposição de juros de mora sobre a multa de ofício (Conforme consignado na Súmula CARF no 108). Em adição, embora se sustente não tratar o presente processo do tema, as contrarrazões debatem ainda o conceito de “praça” e a questão do mercado atacadista formado por único vendedor. Como relatado ao início, o Acórdão no 3301-007.721, de 18/02/2020, por maioria de votos, afastou a simulação nas operações das recorrentes e cancelou o IPI devido pela UBI, calculado com base no preço de venda da UBr para seus clientes, aplicou decadência para os fatos geradores ocorridos até 27/12/2012 e afastou a qualificação da multa de 150%, mantendo-a no patamar de 75%, vencidos os Conselheiros Liziane Angelotti Meira, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira, que votaram por negar provimento ao recurso voluntário nestas matérias, tendo ainda sido mantido o lançamento referente à classificação fiscal do produto vasenol e referente às devoluções de venda, e cobrança dos juros sobre a multa de ofício, por unanimidade de votos. Participaram da sessão de julgamento ainda os conselheiros: Marcelo Costa Marques d'Oliveira (relator), Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior, Marco Antonio Marinho Nunes, e Semíramis de Oliveira Duro. No voto proferido em tal acórdão, destacou o relator que a mesma turma havia analisado matéria idêntica e para o mesmo contribuinte, quando do julgamento do processo administrativo no 10830.727214/2013-31, em que foi negado provimento ao recurso voluntário, tendo sido interposto recurso especial, que aguardava julgamento. No que se refere ao recurso de ofício, o relator adotou as razões de decidir da DRJ. Em relação ao recurso voluntário, o relator, inicialmente, afirma que não há nulidade na decisão recorrida e tampouco no auto de infração, para, no mérito, decidir que “...o auto de infração não foi lavrado, por inobservância do VTM”; que Fl. 90839DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 12 “...o conjunto probatório reunido não me levou à conclusão da fiscalização”, que “...não há provas de que houve simulação e fraude, com o objetivo de reduzir a carga tributária”., e que “...a desconsideração da personalidade jurídica de uma entidade requer prova de que não era uma unidade de negócios autônoma, o que, a meu ver, não foi juntado aos autos”, retirando do polo passivo a empresa UBr. Afastada a simulação, adotou-se a regra decadencial do § 4º do art. 150 do CTN (implicando decadência dos fatos geradores anteriores a 28/12/2012), e reduziu-se a multa de ofício a 75%, mantendo, contudo, a aplicação conjunta da multa de ofício e da multa isolada, e a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, com base na Súmula CARF no 108. Da matéria submetida à CSRF Cientificada do Acórdão no 3301-007.721, a Fazenda Nacional interpôs, em 02/07/2020, Recurso Especial (fls. 89878 a 89935), apontando divergência jurisprudencial com relação às seguintes matérias: (a) “quanto ao critério legal de valoração para que se caracterize simulação”, indicando como paradigma o Acórdão no 9303-010.257; (b) “quanto à qualificação da penalidade pela presença da circunstância qualificativa da infração simulação”, indicando o mesmo Acórdão no 9303-010.257; (c) “quanto à regra de contagem do prazo decadencial”, indicando como paradigma o Acórdão no 3402-005.585; e (d) “quanto à responsabilização solidária”, indicando os Acórdãos no 3402-005.585 e no 3401-005.285. Cotejando os arestos confrontados, chegou-se, no exame de admissibilidade monocrático, à conclusão de que haveria, entre eles, a similitude fática mínima para que se pudesse estabelecer uma base de comparação para fins de dedução da divergência arguida, dando-se seguimento ao recurso, com base nos seguintes fundamentos: (a) em relação ao critério legal de valoração para que se caracterize simulação, percebe-se total identidade fática entre os casos concretos analisados, já que ambos debruçaram-se sobre a organização empresarial estruturada pela UBr, e, enquanto o acórdão recorrido, diante de negócio jurídico entre pessoas jurídicas formalmente constituídas, entendeu lícita a operação, porquanto não haveria vedação legal à impedi-la, bem como por entender que os mesmos resultados poderiam ser obtidos de outra forma; o acórdão paradigma entendeu que, diante de fatos que denunciavam uma simulação com finalidade de redução de tributo entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico, o negócio jurídico deveria ser desconsiderado, devendo prevalecer a substância do ato, e não tão somente a forma; (b) em relação à qualificação da penalidade, a partir de circunstâncias fáticas absolutamente idênticas, os arestos confrontados chegaram a conclusões opostas, sendo o reconhecimento do dissídio corolário do reconhecimento da divergência jurisprudencial anterior; Fl. 90840DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 13 (c) no que se refere ao prazo decadencial, a exemplo da divergência anterior, o reconhecimento do dissídio é corolário do reconhecimento da divergência jurisprudencial quanto à ocorrência de simulação; e (d) sobre a responsabilização solidária, a comprovação da divergência é efetuada apenas a partir do cotejo da decisão recorrida com o Acórdão nº 3402-005.585, pois, diante da prova da atuação negocial conjunta entre as pessoas jurídicas, a decisão manteve a sujeição passiva solidária, ao contrário da decisão recorrida, que a rechaçou. Assim, com as considerações tecidas no Despacho de Admissibilidade de Recurso Especial - 3ª Seção de Julgamento / 3ª Câmara, de 03/08/2020, às fls. 89939 a 89948, o Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do CARF deu seguimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. Em 10/07/2020, as empresas as empresas UBI e UBr interpuseram interpôs embargos de declaração (fls. 89951 a 89954), alegando omissão (ausência de análise de mérito) no que se refere a classificação de sabão e loção hidratante VASENOL, e, em 08/07/2020, peticionaram requerendo a intempestividade do recurso especial da PGFN (fl. 90037). Ambos os documentos foram reiterados em 09/10/2020 (fl. 90131). Os embargos foram rejeitados monocraticamente no despacho de fls. 90339 a 90343. Em 22/10/2020, as empresas UBI e UBr apresentaram contrarrazões (fls. 90214 a 90251) ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, suscitando a intempestividade da peça recursal fazendária, a vedação ao reexame de provas em sede de Recurso Especial; e a ausência de comprovação de dissídio jurisprudencial, citando excertos do manual de admissibilidade de recursos especiais e precedentes da CSRF. Cientificadas a respeito da rejeição dos embargos (em 18/11/2020 - fls. 90352 e 90353), as empresas UBI e UBr apresentaram recurso especial (fls. 90357 a 90385), apontando divergência jurisprudencial com relação às seguintes matérias: (i) “quanto à nulidade do acórdão recorrido por cerceamento do direito de defesa em decorrência do indeferimento do pedido de realização de diligência para que fossem devidamente identificados os produtos que teriam sido equivocadamente classificados na TIPI”, indicando como paradigma o Acórdão no 3402-007.152; (ii) “quanto à nulidade da decisão recorrida por cerceamento do direito de defesa decorrente da falta de pronunciamento sobre o mérito da classificação fiscal dos produtos na TIPI”, indicando o Acórdão no 2202-007.431; e (iii) “quanto à necessidade de cumprimento dos requisitos previstos no art. 231 do RIPI/2010 para creditamento na entrada de produtos recebidos em devolução”, indicando como paradigma o Acórdão no 3402-007.314. Com as considerações tecidas no Despacho de Admissibilidade de Recurso Especial - 3ª Seção de Julgamento / 3ª Câmara, de 01/02/2021, às fls. 90510 a 90518, o Presidente da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do CARF negou seguimento ao Recurso Especial interposto Fl. 90841DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 14 pelas empresas, diante de ausência de prequestionamento das matérias (i) e (ii), e da ausência de comprovação da divergência (iii). Em sede de agravo, o despacho de fls. 90610 a 90616 determinou o retorno dos autos a novo exame de admissibilidade, para : (a) (re)ratificar a motivação para negativa de seguimento quanto às matérias (i) e (ii) especialmente quanto à possibilidade de apresentação de agravo a propósito delas; e (b) identificar qual é a matéria mencionada na “Conclusão” como não passível de agravo. No despacho de reexame de admissibilidade de recurso especial, de fls. 90618 a 90621, atende-se à solicitação do despacho de agravo. Em segundo despacho de agravo, às fls. 90648 a 90660, mantém -se a decisão pela negativa de seguimento do recurso. Em 27/11/2024, as empresas peticionam demandando o desmembramento do presente Processo Administrativo, a fim de que a parcela que restou mantida (INFRAÇÃO 02 - utilização de créditos de IPI decorrentes de devoluções que não teriam sido comprovadas a justificar a glosa dos créditos - e parte da INFRAÇÃO 03 - classificação fiscal incorreta de determinados produtos na “TIPI”, o que teria ocasionado a utilização de alíquota incorreta e recolhimento a menor de IPI) seja objeto de cobrança, e que, por sua vez, a parcela da discussão ainda pendente de julgamento pela CSRF (INFRAÇÃO 01 - débito de IPI, período de janeiro de 2012 a dezembro de 2014, pela suposta ocorrência de simulação na segregação de atividades em industrial e comercial pela UBI e UBr), permaneça suspensa nos termos do artigo 151, inciso II, CTN. Em 23/01/2025, o processo foi distribuído a este Conselheiro, mediante sorteio, para relatoria e submissão ao Colegiado da análise do Recurso Especial da Fazenda Nacional. Em 15/04/2025, as empresas novamente peticionam, requerendo a juntada de pareceres (efetivamente juntados às fls. 90714 a 90798). Ainda em 15/04/2025, são juntados os memoriais de fls. 90801 a 90805. É o relatório. VOTO Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator. Do Conhecimento Há que se analisar, de início, a acusação de intempestividade do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. Em seu recurso especial, a Fazenda Nacional expressamente informa, ao tratar da tempestividade (fl. 89882): Fl. 90842DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 15 “A União foi intimada do despacho de e-fls. em 27/03/2020. Contudo, por motivo de força maior decorrente da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN), declarada na Portaria nº 188/GM/MS, de 4 de fevereiro de 2020, por conta da infecção humana pelo novo coronavírus (Covid- 19), os prazos processuais ficaram suspensos até 29/05/2020, inclusive para fins de intimação ficta do Procurador da Fazenda Nacional, nos termos da Portaria Nº 10199, DE 20 DE ABRIL DE 2020, que estendeu a suspensão antes prevista na Portaria CARF nº 8.112, de 20 de março de 2020. Assim, a intimação presumida da PGFN ocorreu em 30/05/2020. Já o prazo de 15 (quinze) para interposição de recurso especial tem como termo inicial o dia 01/07/2020 e final o dia 15/07/2020. Desse modo, é manifesta a tempestividade deste recurso especial anexado ao e-processo em 2/7/20”. (grifo nosso) As empresas, em suas contrarrazões, alegam intempestividade do apelo fazendário, suscitando que (fls. 90220/90221): “12. Apesar do que constou no r. despacho de admissibilidade do Recurso Especial, as Recorridas entendem que a tempestividade do recurso fazendário deve ser revista. Isso porque, de acordo com o Recurso Especial, “A União foi intimada do despacho de e-fls. em 27/03/2020”. Considerando que (i) a própria União Federal expressamente registra que sua ciência ocorreu em 27.3.2020; e (ii) os prazos estavam suspensos desde 23.3.2020 e retornaram em 1º.6.2020, o prazo de 15 dias para interposição do Recurso Especial iniciou-se em 1º.6.2020 e se encerraria em 16.6.2020, tendo o Recurso Especial sido protocolado apenas em 2.7.2020. Caso a intempestividade se confirme, o não conhecimento do Recurso Especial é medida que se impõe”. (grifo nosso) O despacho monocrático de admissibilidade de recurso especial (fl. 89941) bem esclareceu a questão: “Os autos digitais foram encaminhados à PGFN para ciência do Despacho CSRF - 3ª Turma, de 24 de setembro de 2019, em 27/03/2020 (fls. 89.877). Assim sendo, considerando-se o prazo estabelecido no § 3º do art. 7º da Portaria MF nº 527, de 9 de novembro de 2010, o recurso, apresentado em 02/07/2020 (fls. 89.936), é tempestivo, considerando ainda que a Portaria CARF nº 8.112, de 20 de março de 2020, acrescida da Portaria nº 10.199, de 20 de abril de 2020, suspendeu os prazos para a prática de atos processuais até 29 de maio de 2020”. (grifo nosso) Perceba-se que a Portaria CARF no 8.112/2020, suspendeu, por motivo de força maior, os prazos para a prática de atos processuais no âmbito do CARF, até 30/04/2020, e que a Portaria CARF no 10.199/2020 prorrogou tal suspensão até , por motivo de força maior, até 29/05/2020. Por fim, a Portaria MF no 527/2010, em seu art. 7º, § 3º, dispõe que “...Os Procuradores da Fazenda Nacional serão considerados intimados pessoalmente das decisões do CARF, com o término do prazo de 30 (trinta) dias contados da data em que os respectivos autos forem entregues à PGFN na forma deste artigo”. Fl. 90843DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 16 Assim, correta a contagem de prazos efetuada na peça recursal da PGFN, que não se inicia em 01/06/2020, como pretendem as contra-arrazoantes, mas em 01/07/2020. Tempestivo, portanto, o recurso especial fazendário. Afirmam ainda as contra-arrazoantes que o recurso especial não deveria ter seguimento, por debater aspectos probatórios, o que seria vedado nesta etapa processual. Iniciamos a análise pelo primeiro item do apelo fazendário, que trata de “critério legal de valoração para que se caracterize simulação”, à luz do Acórdão paradigma no 9303- 010.257. O referido Acórdão paradigma no 9303-010.257 se refere ao processo administrativo no 10830.727214/2013-31, e manteve a decisão tomada no Acórdão no 3301- 003.169, que também trata de imputação fiscal de simulação em caso envolvendo as mesmas UNILEVER BRASIL INDUSTRIAL LTDA (UBr) e UNILEVER BRASIL LTDA (UBI), mas no período de janeiro/2009 a dezembro/2010. No presente caso, a similitude em relação aos cenários fáticos com o paradigma é ainda mais flagrante, tendo em conta que no próprio acórdão recorrido o relator, ao início de seu voto (fl. 89847), textualmente afirma: “Antes de iniciar o exame dos recursos, faz-se mister consignar que esta turma analisou matéria idêntica e para o mesmo contribuinte, quando do julgamento do processo administrativo (PA) no 10830.727214/2013-31, em que foi negado provimento ao recurso voluntário. Foi interposto recurso especial, que aguarda julgamento”. (grifo nosso) Ou seja, o processo no 10830.727214/2013-31, que aguardava julgamento do recurso especial, reconhecido como idêntico pelo próprio relator do acórdão recorrido, é exatamente o analisado no paradigma colacionado. Não se trata, portanto, de análise probatória, mas de saber se as distintas turmas deste CARF devem adotar a mesma solução diante de idêntico contexto básico (fático e jurídico), para caso envolvendo as mesmas empresas, e com acusações fiscais relevantes idênticas (sendo distintos apenas os períodos de apuração e questões secundárias, que não afetariam o resultado do julgamento). São raras, de fato, as situações em que uma divergência jurisprudencial é caracterizada pelas distintas leituras que cada colegiado dá ao que seriam os elementos necessários para qualificação de multa de ofício, ou configuração de simulação. E são frequentes, nesta câmara uniformizadora de jurisprudência, os casos em que os paradigmas apresentados tratam de situações distintas, ou até de casos envolvendo as mesmas empresas, mas com cenário jurídico substancialmente distinto, a ponto de não se poder afirmar que existe uma divergência. No presente processo, no entanto, está-se certo de que o relator, que, apesar de reconhecer a identidade entre o processo que julgava e o de no 10830.727214/2013-31 Fl. 90844DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 17 (paradigma), concluiu em sentido distinto, no que se refere à caracterização de simulação, avaliando basicamente os mesmos elementos fáticos e jurídicos, e chagando a conclusão distinta. É o que podemos designar como “divergência autêntica”. Em endosso, adicionamos que a questão não é nova neste colegiado, tendo sido analisada em caso referente às mesmas empresas, com os mesmos debates jurídicos no Acórdão no 9303-015.655, de relatoria da Cons. Denise Madalena Green, votado em 14/08/2024, com composição do colegiado majoritariamente coincidente com a atual (Rosaldo Trevisan, Semíramis de Oliveira Duro, Vinicius Guimaraes, Tatiana Josefovicz Belisario, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Alexandre Freitas Costa, Denise Madalena Green, Regis Xavier Holanda). Naquela ocasião, o Acórdão no 9303-015.655 analisou recurso interposto no processo administrativo no 10830.726910/2014-19 (em revisão ao Acórdão nº 3201-003.930, de 20/06/2018, complementado pelo Acórdão de Embargos nº 3201-005.684, de 25/09/2019), que também tratou de imputação fiscal e simulação, em Autos de Infração com multa de ofício qualificada, referente ao período janeiro/2009 a dezembro/2010, em face de UNILEVER BRASIL INDUSTRIAL LTDA (UBr) e UNILEVER BRASIL LTDA (UBI), com situação substancialmente coincidente com a do presente processo. E o paradigma lá colacionado foi o Acórdão no 3301-003.169, proferido no processo administrativo no 10830.727214/2013-31, que tratava de auto de infração envolvendo as mesmas empresas UBr e UBI, em idêntico contexto fático/jurídico (confirmado exatamente no Acórdão no 9303-010.257). Pelo exposto, entende-se caracterizada a primeira divergência. A segunda e a terceira divergências são meramente acessórias à primeira. Caracterizada a simulação, a multa de ofício deve ser aplicada no patamar de 150% (cabendo apenas eventual análise de tal patamar à luz de novel legislação - Lei no 14.689/2023), e se aplica a regra decadencial do art. 173, I do CTN. Ausente a simulação, a multa deve ser aplicada no montante de 75%, e a regra decadencial aplicável passa a ser a do art. 150, § 4º do CTN. Entendo, assim, como no exame de admissibilidade, que essas divergências decorrem diretamente da primeira. Aliás, o próprio acórdão recorrido esclarece que desqualificou a multa e aplicou a regra decadencial do art. 150, § 4º do CTN por não ter identificado fraude, sonegação ou conluio. As divergências na qualificação da multa e na aplicação da regra decadencial são decorrência lógica da primeira divergência, de puro direito, portanto, cabendo o seguimento do recurso também em relação a tais temas. Por fim, cabe analisar a divergência referente à responsabilização solidária, que, após o exame monocrático de admissibilidade, é remetida a este colegiado apenas com base no Acórdão no 3402-005.585. O acórdão recorrido, em tópico intitulado “(C) Inexistência de responsabilidade solidária da UBR” / “(D) Erro de identificação do estabelecimento sede da UBR como responsável solidário” (fls. 89854/89855) consigna: “Os temas epigrafados requerem desta turma duas deliberações distintas: i) como preliminares de nulidade do ato administrativo; e ii) como questão de mérito. Fl. 90845DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 18 A recorrente apresenta a discussão sobre atribuição de responsabilidade tributária solidária à Unilever Brasil Ltda. (UB) e, especificamente, ao estabelecimento sede da UB como subtópicos das “Preliminares e Nulidades do Auto de Infração”. À luz do Decreto nº 70.235/72 e da Lei nº 9.784/99, o eventual erro na eleição do responsável solidário não torna nulo o lançamento de ofício, pelo que nego provimento aos argumentos. Por outro lado, cumpre desde já consignar que, se esta turma ratificar o trabalho da fiscalização, confirmando o entendimento de que a UB e UBI, para fins de IPI, de fato, constituíam uma só unidade econômica, não haverá alternativa que não a de igualmente confirmar a atribuição à UBR de responsabilidade tributária solidária, pois restaria clara a existência do interesse comum, nos termos do inciso I do art. 124 do CTN. Caso contrário, deve ser rechaçada”. (grifo nosso) Assim, o próprio relator do acórdão recorrido destaca que entende pela ausência de responsabilidade solidária porque afasta a imputação de unidade econômica. E que o colegiado chegaria a conclusão contrária no que se refere à mesma responsabilidade, se mantivesse a imputação relativa à citada “unidade econômica”. No entanto, avaliando o paradigma remanescente, Acórdão no 3402-005.585, que trata de empresa distinta, em cenário diverso, debatendo responsabilidade de pessoas físicas e jurídicas, em caso de emissão de notas fiscais fictícias por empresas "Noteiras", o que implicava a indevida geração de créditos de PIS e COFINS, percebe-se que não se trata, em tal precedente, efetivamente de “unidade econômica” ou relação de interdependência, como no presente processo, mas de mera atuação conjunta de forma distinta, em contexto diverso. Assim, por escolha inadequada, por parte da Fazenda, de paradigmas que efetivamente comprovem a divergência, em situações fáticas semelhantes, entendo que não deve ter seguimento o recurso fazendário nesse item. Pelo exposto, voto pelo conhecimento parcial do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, apenas no que se refere ao critério legal de valoração para que se caracterize simulação, e as consequentes qualificação da penalidade e contagem de prazo decadencial. Do mérito No mérito, há basicamente um tema a analisar: o critério legal de valoração para que se caracterize simulação, tendo em conta que os demais temas (qualificação da multa e contagem de prazo decadencial) são diretamente decorrentes do resultado do primeiro, como exposto. Cabe informar, preliminarmente, que o presente processo se insere em um contexto não inédito neste tribunal administrativo, e que vem sendo analisado, com leves diferenças, há algum tempo, mais precisamente desde 2017. Fl. 90846DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 19 Em busca à base de julgados do CARF, que já é composta por mais de meio milhão de precedentes, percebo que, em busca pelos termos “Unilever”, “UBI” e “simulação”, são encontrados 40 resultados. Afunilando ainda mais a pesquisa, de modo a visualizar o posicionamento recente das turmas, apenas aos anos de 2023 e 2025, são 19 resultados. Expurgando desse universo os resultados que tratam de infrações em importações, com capitulação legal distinta (Acórdãos no 3401-013.675 e no 3401-013.675, ambos de 28/11/2024, Acórdão no 3402-012.431, de 11/02/2025, e Acórdão no 3301-013.818, de 28/02/2024), e os que se referem a IRPJ (Acórdão no 1101-001.384, de 10/09/2024, Acórdão no 9101-007.073, de 06/08/2024, e Acórdão no 9101-006.845, de 05/03/2024) ou a outros contribuintes (Acórdão no 9303-014.734, de 12/03/2024), restam 11 precedentes, que podemos agrupar em 5 categorias: - Acórdão no 3301-014.025, de 17/04/2024 (Relatoria do Cons. Rodrigo Lorenzon Yunan Gassibe, destacando-se que em tal processo, que trata de PIS/COFINS, referente a 2017/2018, trata-se, entre outras questões da relação de interdependência entre estabelecimentos, com formação de “grupo econômico”, e de sua relação com a qualificação da multa e o cômputo decadencial); - Acórdão no 3401-012.915, de 18/04/2024 (Relatoria da Cons. Sabrina Coutinho Barbosa, destacando-se que em tal processo, que trata de IPI, ano-calendário 2013, ademais da discussão sobre interdependência entre estabelecimentos, há também relevante debate inexistente no presente processo, sobre o conceito de praça e a aplicação do valor tributável mínimo); - Acórdão no 9303-015.655, de 14/08/2024 (Relatoria da Cons. Denise Madalena Green, recordando-se que tal precedente reforma o Acórdão no 3201-003.930, de 20/06/2018, integrado pelo Acórdão de Embargos no 3201-005.684, de 25/09/2019, que tratam de PIS/COFINS, referente a 2009/2010, e igualmente analisam interdependência entre estabelecimentos, com formação de “grupo econômico”, e de sua relação com a qualificação da multa e o cômputo decadencial, tratando ainda de retroatividade benigna da Lei no 14.689/2023); e - Acórdãos no 3202-001.962 a 969, todos de 21/08/2024 (8 processos de Relatoria da Cons. Onízia de Miranda Aguiar Pignataro, destacando-se que em tais processos, tratando o primeiro de auto de infração e os demais de PER de saldo credor de IPI, referentes a 2017/2018, analisados em conjunto, discute-se igualmente a existência de “grupo econômico”, com interdependência entre estabelecimentos, e sua relação com a qualificação da multa e o cômputo decadencial). Verificando tais precedentes, não visualizo debate jurídico muito distinto do encontrado no presente processo, nem alteração substancial de cenário. Apesar dos aspectos pontuais identificados como distintivos pelo recurso voluntário apresentado (fls. 89359 a 89472), percebe-se que no acórdão recorrido, após o rechaço de nulidades suscitadas pela defesa, inclusive a de que o auto de infração seria nulo porque a fiscalização teria formado o seu juízo a partir de elementos apurados em ações fiscais cujos fatos geradores ocorreram em anos Fl. 90847DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 20 anteriores (fls. 89849 a 89856), o relator transcreve o tópico do relatório fiscal referente à qualificação da multa (fls. 89857 a 89759) e tópicos da defesa do Contribuinte, remetendo a estudo de consultoria privada (fl. 89860) e a precedentes do CARF que teriam acatado a estrutura negocial (Acórdãos no 3402-001.908, de 26/09/2012, e 3403-002.519, de 22/10/2013), assim como justificativas para fatos apontados pela fiscalização (fls. 89861 a 89866), passando a examinar efetivamente a estrutura negocial (em tópico intitulado “RELATOR - EXAME DA ESTRUTURA DO GRUPO UNILEVER” – fls. 89866 a 89870), cerne da questão aqui tratada, assim como as questões reflexas (decadência - fls. 89870/89871; e qualificação da multa - fls. 89872 a 89875, remetendo a “voto condutor do Acórdão no 3201-003.930, da lavra da Cons. Tatiana Josefovicz Belisário”). Nesse aspecto, o primeiro item da parte do mérito do voto do relator que não é mera reprodução de argumentos de defesa e de acusação, denominado “RELATOR - EXAME DA ESTRUTURA DO GRUPO UNILEVER”, já parte de premissa a nosso ver equivocada (fl. 89866): “A desconsideração das personalidades jurídicas da UBI e UB, sociedades empresárias de fabricação e distribuição de produtos, respectivamente, constituídas nos termos dos artigos 966, 967, 981, 982 e 1.052 a 1.054 do CC e cujo escopo é apuração de lucro, deve ser precedida da apresentação de provas que as desqualifiquem como unidades autônomas de negócios.” (grifo nosso) Não há, na autuação, desconsideração da personalidade jurídica de empresa, mas apenas a não admissão de que sejam oponíveis ao fisco atos simulados, em que a aparência não condiz com a realidade. Isso fica claro no Termo de Verificação Fiscal. Em nenhuma das 10 aparições do radical “desconsi...” há menção à personalidade jurídica. A quase totalidade das menções se refere à desconsideração de negócios e atos, em precedentes jurisprudenciais, e não à desconsideração da própria personalidade jurídica da empresa. Mas, para que não reste dúvidas em relação ao objeto da autuação, que não se confunde com desconsideração de personalidade jurídica, cite-se excerto da imputação no relatório fiscal (fl. 85521): “A prática dos atos simulados visando à substancial redução do pagamento do PIS e da COFINS e da neutralização da incidência do IPI não foi decidida apenas no âmbito da pessoa jurídica que exerce a atividade industrial. Foi decidida e autorizada pela direção das duas empresas envolvidas no planejamento fiscal evasivo. Não importa se os dirigentes das duas empresas são ou não as mesmas pessoas físicas. Também não importa se a empresa não goza de autonomia decisória, financeira e administrativa. Ainda que pertençam ao mesmo grupo econômico, Unilever Brasil Industrial (e suas sucedidas) e Unilever Brasil constituem duas pessoas jurídicas distintas e assim foram consideradas por esta fiscalização.“ (grifo nosso) Ou seja, não se trata, definitivamente, no presente processo, de desconsideração de personalidade jurídica. Fl. 90848DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 21 Nessa primeira premissa equivocada adotada pelo relator do acórdão recorrido já reside um problema detectado no julgamento, que é exatamente de compreensão do que está em debate no processo, o que afeta sobremaneira a valoração dos elementos apresentados pela fiscalização. Cabe, ainda de início, destacar que nenhum precedente do CARF tem o poder de “acatar” ou “legitimar” a estrutura negocial adotada. Caso desejasse tal legitimação, a empresa poderia apresentar ao fisco o caso, em sede de processo de consulta, atendidos os requisitos da norma que disciplina o procedimento. Já houve, ainda, no Brasil, por curto período, ao amparo da Medida Provisória no 685/2015, a permissão de que a empresa apresentasse aquilo que ela entendesse como “planejamento tributário legítimo”, desejando reconhecimento da legitimidade por parte do fisco, em linha com a ação 12 do BEPS (Mandatory Disclosure Rules). Adicione-se, ainda no propósito de fixar as premissas a serem adotadas neste voto, que caso em análise, o fisco, pelo que se percebe inequivocamente do Termo de Verificação Fiscal, não trata o caso como elisivo, mas como evasão fiscal (fl. 85468): “O grupo Unilever admitiu praticar planejamento tributário, não obstante alegue que suas práticas são classificadas como “elisão fiscal”. Os fatos apurados, contudo, demonstram o contrário: apontam para negócios jurídicos simulados, práticas ilícitas e caráter evasivo”. (grifo nosso) A menção ao Acórdão no 3403-002.519, de 22/10/2013, pela defesa, como um acatamento da estrutura negocial, também merece reflexão, em especial, porque, pelo fato de ter participado daquele julgamento, posso certificar que a decisão foi centrada nas particularidades daquele processo, levantadas pelo relator na votação, que envolviam argumentação de cunho político econômico atrelada à monofasia, e alteração de fundamento e de critério jurídico pela DRJ, situações não encontradas no presente processo. Recorde-se que, no presente processo, o relator do acórdão recorrido, logo ao início de seu voto (fl. 89847), como aqui já se mencionou, destacou que: “Antes de iniciar o exame dos recursos, faz-se mister consignar que esta turma analisou matéria idêntica e para o mesmo contribuinte, quando do julgamento do processo administrativo (PA) no 10830.727214/2013-31, em que foi negado provimento ao recurso voluntário. Foi interposto recurso especial, que aguarda julgamento”. (grifo nosso) Cabe verificar como foram analisados esses casos apontados como idênticos pelo relator, no CARF, tarefa que empreendemos a seguir. No processo no 10830.727214/2013-31, como exposto, foi proferido o Acórdão no 3301-003.169, de 26/01/2017, relatado pelo Cons. Valcir Gassen, com o seguinte resultado (nas matérias que aqui estão em análise): “Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2010 Fl. 90849DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 22 (...) ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. (...) ELISÃO. EVASÃO. SIMULAÇÃO. Quando há a transposição da linha divisória que separa a elisão da evasão o lançamento ou revisão de ofício ocorre com base art. 149, VII, e não pelo art. 116, parágrafo único, do CTN, haja vista a nulidade do negócio jurídico simulado de acordo com o art. 167, II, do Código Civil. DECADÊNCIA. Na definição do termo inicial do prazo de decadência nos lançamentos por homologação, há de se considerar o cumprimento pelo sujeito passivo do dever de antecipar-se à atuação da autoridade administrativa para constituição do crédito tributário, interpretando a legislação aplicável para apurar o montante e efetuar o pagamento ou o recolhimento do tributo ou contribuição correspondente. Na inexistência de antecipações ou na ocorrência das infrações previstas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1964, aplica-se a regra geral do art. 173, I, do CTN. MULTA QUALIFICADA. Restando comprovadas as hipóteses normativas previstas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1964, faz-se aplicável a multa qualificada imposta sob tais fundamentos.” Decisão: “Acordam os membros do colegiado, por unanimidade votos, negar provimento ao recurso voluntário, quanto à preliminar de nulidade por cerceamento do direito de defesa.(...) Por maioria de votos, negou-se provimento ao recurso voluntário, mantendo-se a multa agravada, nos termos do voto do relator. Vencidos os Conselheiros Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Semíramis de Oliveira Duro. (...).” (participaram do julgamento os Cons. Luiz Augusto do Couto Chagas, José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen) (grifo nosso) O referido Acórdão no 3301-003.169 foi objeto de embargos de declaração, por parte do Contribuinte, tendo sido os embargos rejeitados, por unanimidade de votos, no Acórdão no 3301005.083, de 30/08/2018. Na sequência de tal caso, o Contribuinte apresentou recurso especial, que teve seguimento em relação às seguintes matérias: (a) “Inexistência de simulação, fraude, confusão patrimonial, ou hipótese de desconsideração de negócios jurídicos nas operações entre a Recorrente e a UBR”; e (b) “Agravamento da penalidade na inexistência de fraude ou simulação", tendo ainda sido dado seguimento, em sede de agravo, ao seguinte tema: (c) Fl. 90850DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 23 "Impossibilidade de imputação das operações da UBR ao estabelecimento industrial sem desconsideração da personalidade jurídica". O referido recurso especial foi analisado e conhecido por esta CSRF, por meio do Acórdão no 9303-010.257, de 11/03/2020, relatado pelo Cons. Rodrigo da Costa Pôssas, com o seguinte resultado (nas matérias que aqui estão em análise): “ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2010 SIMULAÇÃO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. O lançamento é efetuado de ofício pela autoridade administrativa quando se comprove que o sujeito passivo agiu com simulação (art. 149, VII, do CTN), a exemplo da realização de negócios fictícios entre empresas que, de fato, são uma só, com a existência de absoluta confusão patrimonial. FRAUDE. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. A multa de ofício, de 75 %, será duplicada no caso de fraude, suficientemente comprovada pela caracterização de uma simulação com a tendência(consciente) de reduzir o montante do imposto devido, na criação artificial de uma etapa na qual teria ocorrido o fato gerador do tributo (calculado sobre uma base muito inferior à que seria a legalmente prevista), quando, na realidade, se deu em uma posterior, levada a efeito, aí sim, pelo valor de mercado (art. 44, inciso I, e § 1º da Lei nº 9.430/96, c/c art. 72 da Lei nº 4.502/64). DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. AFETAÇÃO DO PATRIMÔNIO DOS SÓCIOS OU ADMINISTRADORES. Interpretando-se o disposto no art. 50 do Código Civil, a necessidade de desconsideração da personalidade jurídica só se faz necessária para que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios.” Decisão: “(...) Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento” (participaram do julgamento os Cons. Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Valcir Gassen, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas) (grifo nosso) Neste precedente da CSRF, que trata do caso interpretado pelo relator do acórdão recorrido como idêntico, o Cons. Rodrigo da Costa Pôssas, no Acórdão no 9303-010.257, assim sintetizou o quadro fático a ser valorado (diga-se, compatível com o relatado no presente processo): “a) A pessoa jurídica fiscalizada, Unilever Brasil Industrial Ltda. (UBI), fabrica produtos de higiene pessoal e limpeza doméstica - HPC ; Fl. 90851DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 24 b) A UBI pertence ao grupo econômico Unilever, sendo seus dirigentes nos períodos fiscalizados os mesmos da empresa-mãe do grupo no país, Unilever Brasil Ltda. (UBR). Trata-se de empresas do mesmo grupo econômico; c) No período fiscalizado, a UBI industrializou diversos produtos, além de importar outros. A saída dos produtos acabados, industrializados ou importados, a título de vendas internas, ocorreu integralmente a estabelecimentos da UBR, que, supostamente, atuava como comercial atacadista; d) Posteriormente, os produtos recebidos pela UBR eram remetidos para estabelecimentos comerciais de terceiros, por meio de notas fiscais em que constavam CFOP correspondentes à revenda de mercadorias, sem o destaque de IPI, uma vez que o estabelecimento interdependente não se equiparou a industrial nessas operações; e) Quanto às saídas interestaduais, os produtos eram primeiramente remetidos a depósitos fechados da UBI e de lá seguiam para os Centros de Distribuição da UBR localizados fora do estado de São Paulo; f) Quanto às saídas para dentro do estado de São Paulo, o único destinatário era o estabelecimento da UBR em Louveira (destinatário direto de 89% do volume de produtos; 83% do valor total das saídas nacionais entre janeiro de 2008 e dezembro de 2010); g) O estabelecimento da UBR em Louveira era operado pela DHL Logistics Brasil Ltda., sem que nele trabalhassem quaisquer empregados do grupo econômico Unilever, fosse da UBI ou da UBR; h) No mesmo endereço de Louveira situavam-se outros estabelecimentos da UBR, além da UBI e da DHL, inexistindo qualquer forma de segregação patrimonial que permitisse delimitar os estabelecimentos diversos; i) No mesmo espaço físico em Louveira encontravam-se depositados produtos pertencentes a mais de uma pessoa jurídica, impossibilitando a auditoria do estoque pela Fiscalização; j) No contrato de locação do imóvel em Louveira, em que figuram como locatárias tanto a UBI quanto a UBR, não há cláusula de distribuição do ônus entre as pessoas jurídicas; k) A exemplo do CD de Louveira, os demais centros de distribuição da UBR também exercem atividades típicas de depósito, que são executadas por um operador logístico especialmente contratado, excepcionando-se os CD de produtos HPC, localizados no Rio de Janeiro e em Ipojuca (PE) (destinatários de, apenas, 1,6% e 2,1%, respectivamente, das saídas de produtos HPC), em que há quadros funcionais que também exercem funções de vendas. l) Os produtos recebidos pela UBR em Louveira eram remetidos para estabelecimentos comerciais de terceiros, por meio de operações documentadas com CFOP correspondente à revenda de mercadorias e sem o destaque do IPI, Fl. 90852DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 25 porque o estabelecimento interdependente não se equiparou a industrial nessas operações. O mesmo procedimento foi adotado pelos estabelecimentos da UBR localizados em outros Estados com relação aos produtos recebidos da UBI; m) Os valores unitários indicados nas notas fiscais de saída emitidas pelo estabelecimento industrial/importador (UBI), com destaque do IPI, representavam, em média, apenas um terço dos valores unitários dos mesmos produtos nas notas fiscais referentes às saídas promovidas pela suposta comercial atacadista (UBR) para terceiros, sem o destaque do IPI; n) Nas saídas dos mesmos produtos dos centros de distribuição da UBR, localizados nos municípios de Camaçari (BA), Canoas (RS), Contagem (MG), Goiânia (GO), Ipojuca (PE), Louveira (SP), Pinhais(PR) e Rio de Janeiro (RJ), para estabelecimentos de terceiros não interdependentes, os valores unitários eram triplicados; o) Na composição da base de cálculo, a UBI não computou os custos financeiros, de venda, administração e publicidade e a margem de lucro normal. No caso de produtos importados, o valor unitário constante nas notas fiscais de saída era inferior ao valor de importação acrescido dos tributos incidentes, do custo do frete nacional e das despesas acessórias. Em consequência, se somados o frete, as despesas acessórias e os tributos devidos na importação, exceto o IPI, em 64% dos itens importados o valor unitário de saída esteve abaixo do valor de importação com os acréscimos devidos, e em 70% foi menor ou, no máximo, igual, em inobservância do VTM; p) As mercadorias importadas não ingressavam no estabelecimento importador, sendo sistematicamente encaminhadas da repartição aduaneira até estabelecimento da UBR; q) Nos contratos de fornecimento celebrados entre UBI e UBR não há identificação dos signatários; r) Os signatários de contratos de fornecimento celebrados entre UBI e UBR eram os mesmos para ambas as partes e foram identificados pela Fiscalização como sendo Antônio Fernando Conde, Diretor Financeiro Supply Chain, e Milton Luís Nascimento Brandt, Diretor Financeiro; s) Os senhores Antônio Fernando Conde, Diretor Financeiro Supply Chain, e Milton Luís Nascimento Brandt, Diretor Financeiro, não constam como diretores estatutários em nenhum dos Contratos Sociais das pessoas jurídicas contratantes; t) O senhor Milton Luís Nascimento Brandt, Diretor Financeiro, signatário dos contratos de fornecimento na qualidade de Diretor Financeiro, não era empregado da UBR por ocasião da celebração de dois acordos de fornecimento, atestando tratar-se de documentos pré-datados ; u) Os contratos de empréstimo e de gestão de pagamentos e recebimentos, celebrados entre UBI e UBR, atribuía a esta toda a gestão os recebimentos e dos Fl. 90853DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 26 pagamentos daquela, mediante sistemática de caixa único administrado pela UBR, sem fluxo de recursos em espécie entre as duas pessoas jurídicas (a UBR bancava todos os custos da UBI, pagava todas as suas despesas, inclusive as aquisições de matéria-prima, quitava a folha de pessoal. A UBI, por sua vez, 'compensava' o pagamento destes itens com a remessa de produtos acabados). v) Inexistiu qualquer negociação de preços entre UBI e UBR; e w) Quando, eventualmente, a UBI necessitasse efetuar pagamentos que passassem pelo seu próprio caixa (e.g., no caso de importações), empregava recursos advindos dos contratos de empréstimos celebrados com a UBR. A respeito desse cenário fático, assim concluiu esta Câmara Superior, no Acórdão no 9303-010.257: “O art. 167, § 1°, III, do Código Civil é claro: há simulação nos negócios jurídicos quando “os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós-datados”. Não bastasse a dicção da Lei, o quadro fático acima reproduzido leva à inarredável conclusão de que as vendas da UBI para a UBR foram operações simuladas. Com efeito, a organização empresarial estruturada pela UBR permitiu, mediante a interposição na cadeia de estabelecimentos pretensamente comerciais atacadistas, mas que, em realidade, revelavam-se meros depósitos da UBR, a redução de 2/3 (dois terços) da base de cálculo do IPI em relação àquela apurada nas operações normais com terceiros, em flagrante violação do valor tributável mínimo. (...) Tendo em conta que a UBI não tem autonomia patrimonial, operacional e gerencial em relação aos interesses da UBR, que a administra e controla, participando do seu capital social com 99,9999993%; que a UBI destina sua produção com exclusividade para a UBR, com preços que não são os de mercado, conclui-se que o substrato das transferências de atividades industriais para a UBI não corresponde a uma verdadeira vivência dos riscos do negócio praticado. O que aconteceu foi uma declaração deliberadamente divergente da real intenção. A UBR jamais pretendeu tornar-se mera distribuidora de produtos de higiene e beleza, segregando as atividades industriais para a UBI. A UBR permaneceu a gestora do negócio de industrialização e comercialização, apesar de declarar que tencionava deixar de ser industrial. Ao contrário, manteve-se no comando da produção, continuou comportando-se frente à UBI como mero estabelecimento seu, que de fato é. A matéria da divergência também diz respeito à inocorrência de fraude. A Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, art. 68, § 2°, com a redação dada pelo Decreto-Lei nº 64, de 18 de novembro de 1966. Art. 2°, inclui a fraude como circunstância qualificativa da infração, entre a sonegação e o conluio. Na definição do art. 72 da mesma Lei, fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a Fl. 90854DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 27 impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. A finalidade de enganar, que animou a UBR na prática da simulação e contaminou o planejamento tributário engendrado, é bastante clara: escapar da tributação, reduzindo a base de cálculo na saída da fábrica a 1/3 do valor real. Ainda quanto à matéria da primeira divergência, entendo estar perfeitamente caracterizada a confusão patrimonial, pois se tratava, na realidade, de uma só empresa, como demonstram os fatos de a UBR ser titular de 99,99 % das cotas da UBI até julho de 2010, tendo como presidente a mesma pessoa; a inexistência de qualquer negociação de preços nos contratos de fornecimento, executados em valores que não contemplaram qualquer margem de lucro e sem que houvesse pagamentos propriamente ditos; a locação de imóveis pela UBI, com ônus suportado exclusivamente pela UBR; o financiamento de custos e despesas das atividades da UBI, até mesmo com funcionários, pela UBR etc. (...) Em momento algum, cogitou-se da extensão dos efeitos de qualquer relação obrigacional “ ...aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica”, seja da UBI ou da UBR, que, aliás, são os mesmos. Portanto, é desnecessária a desconsideração da personalidade jurídica da UBI apregoada pelos recorrentes.” (grifo nosso) No presente processo, basicamente com as mesmas razões trazidas no Termo de Verificação Fiscal, como aqui já descrito no relatório, o relator do Acórdão recorrido, analisando o mesmo cenário, na sequência ao raciocínio em que interpretou (a nosso ver, equivocadamente) que o auto de infração tratava de desconsideração da personalidade jurídica, assim concluiu em relação a alguns dos temas narrados no relatório fiscal: “O sistema de conta corrente (empréstimos, contrato de gestão de pagamentos e recebimentos e “caixa único”) é adotado pelos grandes grupos empresariais e tem como objetivos, entre outros, os de obter melhores taxas de juros em aplicações financeiras e empréstimos, bem como evitar que uma empresa do grupo tenha de captar recursos no mercado, quando uma outra está com excedente e pode emprestá-lo com baixo ou nenhum custo financeiro. O rateio de despesas administrativas também é muito comum. Proporciona, por exemplo, melhor aproveitamento do tempo de trabalho das equipes e ocupação mais eficiente dos espaços. O próprio Fisco já se manifestou no sentido de que admite a dedutibilidade para fins de IRPJ de despesas compartilhadas, desde que o critério de rateio seja razoável (Solução de Consulta nº 94 – Cosit – 25/03/19). Definitivamente, não são indícios de dependência econômica, porém de política de gestão de recursos financeiros e humanos. Fl. 90855DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 28 Em relação às vendas, não há exigência legal de que haja contrato formal. Seriam simuladas ou fraudadas, se a fiscalização tivesse investigado, porém não encontrado evidência da saída e tradição da mercadoria e/ou de sua liquidação financeira. Quanto ao pagamento pelas vendas, além da crítica, a meu ver, infundada, aos sistemas de compensações entre débitos e créditos, contas correntes e empréstimos, consta nos autos que a fiscalizada não teria logrado demonstrar a liquidação de operações, por meio de comprovantes e registros contábeis. Entretanto, compulsando os autos, encontrei, por exemplo, nas fls. 84.189 a 84.192, resposta à intimação, em que indica a nota fiscal que foi liquidada por compensação e as que foram efetivamente pagas. Apresenta comprovantes bancários e planilha com os valores das vendas individualizados e relacionados ao lançamento contábil. De fato, em razão do volume de transações, não é tarefa fácil relacionar vendas, comprovante bancário e lançamento contábil. Contudo, se o autuante estava encontrando dificuldades, cabia então apontar os problemas, de forma detalhada, e requerer informações adicionais, o que parece-me que não ocorreu. Ademais, a documentação que se encontra nos autos também não condiz com a figura de uma empresa desorganizada ou mesmo que entregou documentos de forma ininteligível para encobrir falhas ou ilicitudes. Reitero que dependência financeira seria demonstrada, caso restasse comprovado que o negócio da UBI não era lucrativo. Contudo, nas 89.818 páginas que constituem o processo, não vi sequer um balancete, apontando resultados negativos. Ou ainda uma demonstração de fluxo de caixa, indicando que os recursos gerados pelas vendas eram insuficientes para cobrir os custos da operação e gerar lucros, necessitando, por exemplo, de empréstimos dos sócios, os quais jamais eram liquidados. “Confusão patrimonial” Há páginas condenando o compartilhamento de espaço de armazenagem e a existência de mais de uma empresa do grupo no mesmo endereço, titulando-os indícios de “confusão patrimonial”. Consta que, no Município de Louveira (SP), havia, no mesmo endereço, um depósito fechado da UBI e um CD da UB. (...) E, em diversas passagens, afirma que os CD da UB formavam, na verdade, um mero depósito, posto que a operação logística era efetuada por terceiros e não havia atividade comercial local, pois a força de vendas era lotada na matriz da UB, em São Paulo (SP). Fl. 90856DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 29 É incontroversa a licitude da coexistência de pessoas jurídicas distintas no mesmo endereço. O próprio TVF informa que o Grupo Unilever adotava procedimentos de controle. Todavia, o autuante entende que o correto seria, por exemplo, instalar muros, cercas ou paredes. A discussão sobre a adequação ou não dos controles de estoque, bem como do recurso adotado para separação física das pessoas jurídicas é irrelevante. Para que os fatos constituíssem “indícios de confusão patrimonial”, teria de constar nos autos exemplos que comprovassem a ineficácia dos controles, tais como, uma mercadoria que tivesse sido adquirida por uma empresa, porém encontrada fora da área que a ela fora destinada ou mesmo revendida por outra empresa. Ademais, é cediço que os grandes grupos empresariais que industrializam e distribuem adotam tal política para otimizar os gastos com estocagem e logística. Também considero irrelevante para a conclusão a que chegou a fiscalização o fato de o pessoal de vendas estar localizado na matriz e não no CD. Com efeito, ainda que fosse importante para o contexto da autuação, não poderia ser admitido por esta turma, pois a fiscalização não apresentou uma única explicação técnica que justificasse a necessidade de um pessoal de vendas lotado no CD. Disparidade entre os preços da UBI e UB Da leitura do TVF, destaca-se de todo o processo de fiscalização a constatação de que os preços que a UB cobrava de seus clientes eram até três vezes maiores do que os que pagava à UBI. Tal fato foi agravado pelo resultado de uma comparação efetuada entre os valores das entradas de determinados produtos importados e os das saídas: o último representava 81% do primeiro. A disparidade de preços somente contribuiria para a construção da tese de que UBI e UB constituíam apenas um negócio, caso restasse concomitantemente provado que a atividade da UBI era deficitária, enquanto que a outra era lucrativa. Tratava-se de dois negócios - indústria e comércio – com estruturas de custo e margens de lucro absolutamente distintas, que deveriam ter sido perscrutados de forma aprofundada, à luz das práticas usuais dos mercados. A comparação de preços de entrada e saída de importados também em nada auxilia. Primeiro, porque foi superficial – deveria ter comparado, por exemplo, os preços dos produtos importados já acabados com o de revenda. E, segundo, porque representava apenas 8% do negócio, o que até poderia justificar margens negativas em determinado período, em razão de lançamento de novos produtos ou mesmo para preservação de market share. Fl. 90857DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 30 Além disto, há de fazer a pergunta central: por que a fiscalização não calculou o VTM, para provar que estavam abaixo do estipulado pelos artigos 195 e 196 do RIPI/10? Repito: a desconsideração da personalidade jurídica de uma entidade requer prova de que não era uma unidade de negócios autônoma, o que, a meu ver, não foi juntado aos autos. Conclusão Concluo que a fiscalização não reuniu provas de que a UBI e a UB constituíam uma única unidade de negócios e, por conseguinte, que justificasse a cobrança do IPI devido pela UBI com base no preço de venda da UB para o seus clientes.” (grifo nosso) A decisão do acórdão recorrido foi assim detalhada e ementada: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS(IPI) Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2014 SIMULAÇÃO E FRAUDE. AUSÊNCIA DE PROVAS As acusações de simulação e fraude somente devem prosperar se acompanhadas de provas cabais. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. AUSÊNCIA DE PROVAS A autuante deve apresentar provas de que a fiscalizada não constituía uma unidade autônoma de negócios. Que não tinha conhecimento técnico e recursos financeiros e humanos para desenvolver a atividade. Que era deficitária e carecia de aportes regulares de recursos de outras empresas do grupo. Dada a falta de provas desta natureza, deve ser cancelado do auto de infração, que cobrava o IPI como se controlada e controladora fossem uma única pessoa jurídica. (...)” Decisão: “Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, (...) afastar as preliminares. Por maioria de votos, afastar a simulação nas operações das recorrentes e cancelar o IPI devido pela UBI, calculado com base no preço de venda da UB para seus clientes, aplicar decadência para os fatos geradores ocorridos até 27/12/2012 e afastar a qualificação da multa de 150%, mantendo no patamar de 75%. Vencidos os Conselheiros Liziane Angelotti Meira, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira, que votaram por negar provimento ao recurso voluntário nestas matérias. (...)” (participaram do julgamento os Cons. Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Ari Vendramini, Salvador Cândido Brandão Junior, Marco Antonio Marinho Nunes, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira) (grifo nosso) De fato, lendo as duas decisões em processos entendidos como idênticos pelo próprio relator do acórdão recorrido parece-me que pode ter havido o que se chama de “erro de paralaxe”. Reforce-se que as diferenças pontuais indicadas pela defesa entre um processo e outro Fl. 90858DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 31 não tiveram o condão de alterar o cenário fático-jurídico evidenciado e suficiente para o deslinde do contencioso, a ponto de este colegiado unanimemente entender pelo conhecimento do recurso, ainda na sessão de setembro de 2025. Quando dois observadores olham um instrumento de medição analógico (por exemplo, um multímetro), e estão lateralmente inclinados em relação ao ponteiro de medição, o resultado que encontrarão será distinto. É o chamado “erro de paralaxe”. No Direito, o “erro de paralaxe” ocorre quando já enxergamos o objeto de forma enviesada. No caso, o relator do acórdão recorrido entendeu que estava julgando um caso de “desconsideração de personalidade jurídica”, e entendeu pouco relevantes ou irrelevantes, nesse escopo, o que chamou de “rateio de despesas” (e o autuante de “a empresa-mãe do grupo Unilever é a financiadora das atividades operacionais da unidade industrial, e que a fiscalizada, na prática, não possui autonomia financeira, e opera com recursos da Unilever Brasil, tendo especial relevância a circunstância de não haver pagamento em dinheiro pelos produtos enviados da unidade industrial para a Unilever Brasil”), entendendo ainda como irrelevante o relator do acórdão recorrido a realização de vendas sem contrato formal, a coexistência de várias empresas no mesmo endereço, com estoques sem separação física, e a existência de funcionários de uma alocados na outra, considerando que “em razão do volume de transações, não é tarefa fácil relacionar vendas, comprovante bancário e lançamento contábil”, e que a fiscalização, diante de dificuldades, deveria ter intimado o contribuinte esclarecê-las (cabendo destacar que o relatório fiscal trata de sucessivas intimações não atendidas à fl. 85263 e de respostas evasivas às fls. 85265/85266). Por fim, interpretou o relator que eram ainda irrelevantes que os preços que a UB cobrava de seus clientes eram até três vezes maiores do que os que pagava à UBI, e que os valores das entradas de determinados produtos importados e os das saídas diferiam em 81%, entendendo que a unidade negocial seria caracterizada somente se provado que a atividade (total) da UBI era deficitária. Ademais, entendeu ainda, por fim, que “a discussão sobre a adequação ou não dos controles de estoque, bem como do recurso adotado para separação física das pessoas jurídicas é irrelevante”. Nesse cenário, para o referido relator, “a comparação de preços de entrada e saída de importados também em nada auxilia”. Confesso que a mim é muito difícil acompanhar vários desses raciocínios do relator do acórdão recorrido, mas, ainda que pudesse acolher alguns (poucos), eles não subsistiriam em sua somatória, ou considerados em seu conjunto. Como em um diagnóstico médico, vários dos sintomas (cansaço, febre, coriza, tosse, catarro ...), isoladamente, podem ser pouco eficazes e determinantes, mas quando se identifica um conjunto consistente de sintomas, a ciência permite que se diagnostique com maior precisão. E, como em um diagnóstico médico, a vida pretérita interessa na configuração dos riscos do paciente. Daí ter sido acolhida, inclusive pelo acórdão recorrido, a menção a circunstâncias detectadas em procedimentos anteriores de fiscalização. Assim, até poderíamos concordar que Fl. 90859DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 32 afirmar que a febre, por si, é irrelevante (ainda que a reconheçamos no paciente), ou que o cansaço, por si, é comum (ainda que o visualizemos, no paciente), ou que a coriza pode se dever a inúmeros fatores (ainda que a percebamos no paciente), ou que a tosse é tolerada em determinada proporção (ainda que a identifiquemos no paciente), mas o que importa ao cientista da medicina são as circunstâncias reunidas, a indicar qual a moléstia associada. Da mesma forma, importa ao julgador identificar cada um dos sintomas (elementos fáticos e jurídicos) do caso em análise para tecnicamente diagnosticar se existe alguma patologia jurídica. O Termo de Verificação Fiscal, a nosso ver, permite o diagnóstico da “doença” jurídica da simulação, em tópico em que trata de suas duas faces - “aparência” e “realidade” (fls. 85481 a 85488): APARÊNCIA REALIDADE Todos os produtos acabados, fabricados ou importados pelo estabelecimento industrial, seriam “vendidos” aos estabelecimentos da Unilever Brasil. O estabelecimento industrial da UBI, localizado em Vinhedo, emite notas fiscais de saída com a indicação de Códigos Fiscais da Operação (CFOP) correspondentes à venda de toda a sua produção de xampus, condicionadores, pastas de dentes e outros aos estabelecimentos da UB. Os produtos importados também seriam “vendidos”, em sua totalidade, à UB Inexistem operações comerciais entre a UBI e a UB. Não há, de fato, pagamento em dinheiro – ou a este redutível, tais como o cheque, duplicata, letra de câmbio, nota promissória – nas saídas dos produtos do estabelecimento industrial aos estabelecimentos da UB, condição essencial para caracterizar o contrato Pagamentos e Recebimentos” firmados entre as empresas do grupo, a própria Unilever não qualifica as operações como “venda”, mas, como “fornecimentos”. A indústria produz, dá saída dos produtos, mas não recebe pagamento por isto. (...) A unidade industrial de Vinhedo funciona como se fosse uma filial da UB, pois tem praticamente todas as suas despesas e custos bancados pela empresa mãe. A UB possui a quase totalidade da participação societária direta ou indireta (após julho/2010) na empresa industrial. Quem arca com a folha de salários do estabelecimento industrial, contas de telefone e energia elétrica, além do pagamento de fornecedores de matérias-primas e de muitos outros itens necessários à manutenção das atividades operacionais da indústria é a UB. A corporação Unilever chama isto de “sistema de compensações”, trata-se de um “caixa único”. Quando a unidade industrial necessita contrair despesas em seu próprio nome, como nas importações ou pagamentos de tributos, Fl. 90860DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 33 utiliza recursos de “empréstimos” obtidos junto a UB. Estaríamos diante de operações comerciais praticadas entre as duas empresas do grupo econômico, mas que, segundo as Declarações de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ), “não” seriam interdependentes. Os produtos do estabelecimento industrial teriam sido vendidos a um valor unitário de “x”. Os preços teriam sido “negociados entre as Partes”, livremente. A UBI e a UB são firmas interdependentes por todos os critérios previstos na legislação do Regulamento do IPI. E, no mesmo sentido exposto no item anterior, a fiscalizada não comprovou qualquer negociação de preço entre as partes. A afirmação da fiscalizada - de que o preço é “sempre resultante da aplicação do custo, acrescido dos valores de frete, despesas acessórias e impostos” – somente confirma que não há negociação. (...). As ditas “partes”, no caso, estão submetidas às decisões da direção do mesmo grupo econômico, composta pelos mesmos diretores executivos. Foi esta direção quem fixou os valores de saída dos produtos da indústria em cumprimento de seu planejamento fiscal evasivo, sem atribuir qualquer margem de lucro à empresa industrial. As alegações mais recentes de que a UB pratica preços muito mais elevados do que os praticados pela UBI, por conta dos riscos que assume também não encontra respaldo na legislação tributária. Segundo informado a esta Fiscalização “... as operações mercantis entre o grupo são regidas conforme Acordos de Fornecimento já apresentados ...” (fls. 833/838). Os instrumentos denominados “Acordo de Fornecimento”, apresentados quando a Fiscalização solicitou os contratos de venda, foram forjados e são antedatados. Cabe aqui observação de que posteriormente esses acordos foram substituídos, pelo que informa a defesa, por mecanismos de compensação, sem alteração substancial de cenário, a nosso ver, na configuração da dependência. Conforme as notas fiscais, ao estabelecimento de CNPJ 61.068.276/0307-80, situado em Louveira, no estado de São Paulo, as unidades industriais de Vinhedo, Valinhos e Ipojuca teriam “vendido” diretamente mais de 80% de sua produção. Praticamente todo o restante teria sido vendido aos demais estabelecimentos da UB, situados em outros estados da federação. (...) não existiram vendas aos estabelecimentos da UB. Em todos os casos, houve simples remessa para depósito, inclusive quando os destinatários situavam-se nos outros estados. O estabelecimento correspondente à inscrição O estabelecimento situado no endereço Fl. 90861DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 34 n° 61.068.276/0307-80, situado à Avenida José Luiz Mazzali, 450, em Louveira (SP), conforme informado ao Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, seria um comercial atacadista, onde existiria uma numerosa equipe de vendas, segundo o informado nas GFIP. referido é um mero depósito, um “Centro de Distribuição” de produtos, operado por uma empresa terceirizada, especializada em armazenagem, a DHL / Excel, com atividade própria de “armazenagem e distribuição de produtos”. Essa empresa de logística foi a primeira a se instalar no imóvel, a primeira a se habilitar para o funcionamento e, na condição de titular do estabelecimento efetuou pedidos ao Fisco estadual. O papel dos funcionários da Unilever, em Louveira, é apenas o de “fazer a gestão e supervisionar o operador logístico”. E, ainda: não há quadro de pessoal de vendas no local. As vendas são coordenadas e centralizadas na sede do grupo Unilever, em São Paulo. As informações nas GFIP, relacionadas à inscrição no CNPJ de n° 61.068.276/0307-80, sobre a lotação de centenas de funcionários relacionados às funções de venda (execução, supervisão ou direção), são absolutamente falsas, servindo apenas como uma das tentativas de atribuir veracidade à suposta natureza comercial do estabelecimento. Os valores constantes nas notas fiscais, nas saídas de produtos a terceiros não interdependentes são, em média, duas vezes e meia ou o triplo daqueles indicados nas notas fiscais de saída das unidades industriais para o estabelecimento da Unilever, a depender do universo de produtos considerados. Nesse suposto estabelecimento comercial, os produtos recebidos das unidades industriais seriam vendidos a terceiros, não interdependentes, no mercado consumidor, pelo valor de “2,5x”, “3x” ou “3,3x”, como verificado nos anos de 2012 a 2014. As vendas dos produtos Unilever são centralizadas na matriz da Unilever Brasil, em São Paulo. Em Louveira, há apenas a distribuição dos produtos. Os pedidos dos clientes são registrados em sistema eletrônico (Siebel) e recebidos “pelos funcionários que ocupam o cargo de Analistas, responsáveis pela carteira de pedidos. Estes funcionários verificam a correção das informações constantes do pedido e iniciam o processamento dos pedidos, que consiste na verificação da disponibilidade de estoque e prazo de faturamento, estabelecido de acordo com a prioridade atribuída ao cliente. Em Fl. 90862DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 35 seguida, o pedido passa pelo setor de crédito, sempre eletronicamente, para verificação de limites de cada cliente. Sendo aprovado, segue para distribuição. A distribuição consiste basicamente em alocação e distribuição das cargas por veículo. A partir de então, o processo passa a ser supervisionado pelos Centros de Distribuição localizados pelo País”. A impressão das notas fiscais de produtos é realizada pelos funcionários da DHL / Exel “através do sistema Unilever”. Os valores indicados nas notas fiscais de saída são multiplicados em relação aos constantes nas notas fiscais dos estabelecimentos industriais. Em Louveira, à Avenida José Luiz Mazzali, 450, existiriam vários estabelecimentos, de quatro pessoas jurídicas distintas, três pertencentes ao grupo Unilever, além de um estabelecimento da Excel / DHL. Coexistiriam estabelecimentos de diferentes naturezas, comerciais atacadistas da UB com depósito fechado da empresa industrial, separados por “Partes”. No prédio situado no endereço citado existe apenas um estabelecimento, segundo o conceito definido pelo Regulamento do IPI246. Não há muros, cercas ou qualquer outra forma de isolamento de forma a caracterizar distintos estabelecimentos. Não há entrada ou portaria independente para o que seria cada um dos estabelecimentos. As alegadas “Partes” são fictícias. Apesar disto, a Unilever informou ao CNPJ diversas inscrições, para três empresas do grupo. Desde o início, o imóvel esteve sempre destinado à execução de atividades de operação logística pela empresa Exel, posteriormente, incorporada pela DHL, como demonstram os contratos obtidos. A Exel foi a primeira empresa a conseguir autorização de funcionamento no imóvel. A primeira locação do imóvel foi assumida pela Unilever, a pedido da Exel. Há confusão patrimonial, pois o contrato de locação foi firmado em nome de duas empresas do grupo Unilever na condição de “locatária”. A natureza desse único estabelecimento é a de depósito fechado. Uma das inscrições no CNPJ foi atribuída a um depósito fechado do estabelecimento industrial fiscalizado. Todas as saídas a título de exportação e a quase totalidade das saídas do estabelecimento industrial para os Centros de Distribuição da Unilever localizados em outros Estados se utilizam da inscrição desse depósito fechado. Fl. 90863DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 36 Os valores dos produtos saídos do estabelecimento industrial se multiplicariam por conta da passagem pelo estabelecimento comercial atacadista. Em Louveira, existe apenas um grande depósito da DHL / Exel. A suposta existência de um estabelecimento comercial atacadista da Unilever serve apenas para fazer parecer que existe uma etapa intermediária no processo de comercialização entre as saídas da indústria e o mercado consumidor. Na passagem por esse intermediário inexistente, os preços até triplicariam. Os demais estabelecimentos da Unilever Brasil, destinatários dos produtos do estabelecimento industrial, também seriam comerciais atacadistas. E também revenderiam os produtos recebidos da UBHPL / UBI por um valor em muito superior. Os demais Centros de Distribuição estão formatados à semelhança do de Louveira. Todos os Centros de Distribuição estão instalados no mesmo endereço de um depósito fechado da indústria. Foram solicitadas, indevidamente, inscrições correspondentes a vários estabelecimentos de naturezas supostamente distintas no mesmo prédio. As atividades dos Centros de Distribuição, sem exceção, são executadas por empresas de armazenagem, revelando sua verdadeira natureza de depósito ou armazém geral. Algumas das empresas titulares dos estabelecimentos nomeados pela Unilever como Centros de Distribuição de seus produtos prestam serviços de armazenagem a várias empresas, e declararam ao CNPJ a atividade de armazém-geral. É o caso da STOCK TECH S/A ARMAZENS GERAIS (Pinhais - PR) e da McLane do Brasil Ltda, que operou em Canoas (RS). Os contratos entre as empresas de logística e as pessoas jurídicas do grupo Unilever seguem um padrão, contendo, no geral, as mesmas cláusulas, orientadas pela concepção de armazenagem compartilhada” de produtos HPC e Foods, tendo como base o projeto BERLIM89. Em nenhum dos contratos, há previsão de isolamento físico por cercas, muros ou paredes entre produtos de natureza distinta, nem mesmo para os aerossóis, em virtude do qual, não é possível caracterizar legalmente a existência de vários estabelecimentos. Nos contratos, é explicitamente destacada a responsabilidade do operador logístico (3PL) pela emissão das notas fiscais de venda. A contratação de Fl. 90864DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 37 pessoal fica por conta das empresas de operação logística, assim como os equipamentos de movimentação e as estruturas de armazenagem e, ainda, o pagamento dos tributos relativos ao imóvel e todas as licenças e alvarás de funcionamento da atividade do local. Em sete, dois oito, Centros de Distribuição da Unilever - responsáveis por mais de 90% das saídas ao mercado consumidor nacional – não há quadro de pessoal de vendas. As atividades de vendas são coordenadas e centralizadas na matriz da Unilever, em São Paulo, havendo alguns escritórios de representação espalhados pelo País. O estabelecimento industrial de Vinhedo teria, ainda, revendido à Unilever Brasil todos os desodorantes importados da Unilever de Argentina. Os desodorantes recebidos da UBI, também teriam sido revendidos pelo estabelecimento da UB, em Louveira, a terceiros do mercado consumidor por um valor unitário bem superior, o mesmo ocorrendo em relação às demais “comerciais atacadistas”. A importação de produtos por meio da indústria contraria alegação da própria Unilever de que “a empresa dita comercial se concentra exclusivamente na promoção, venda e distribuição dos produtos deixando o respectivo fabrico em mãos de empresa industrial dedicada.” Se a opção do grupo econômico Unilever foi atuar dessa forma, como explicar que a empresa industrial, que, segundo o concepção explicitada, deveria ser “dedicada” à fabricação, seja a responsável pela importação da totalidade dos produtos acabados? Em verdade, os desodorantes importados não ingressam no estabelecimento industrial. Toda a importação dos desodorantes pelo estabelecimento industrial da UBHPL / UBI segue, diretamente, para o Centro de Distribuição de Louveira. Algumas despesas de importação são pagas diretamente pela Unilever Brasil. Na maioria das operações de saída para a UB, os valores unitários estão abaixo do custo de importação. Como ocorre com os demais produtos, nas saídas de desodorantes não se concretiza o pagamento. A fiscalização aduaneira constatou que há ocultação do real importador, a UB. A importação dos desodorantes é efetuada em nome da indústria, visando à subsequente e imediata transferência formal dos produtos à UB por base de cálculo manipulada para baixo. Fl. 90865DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 38 Ao declarar o estabelecimento industrial como importador, o resultado pretendido e obtido pela Unilever é a máxima neutralização possível dos efeitos da incidência do PIS, da COFINS e do IPI, tributos que incidem, monofasicamente, nas saídas da indústria. Idêntica percepção teve esta Cãmara Superior, recentemente, ao apreciar o mesmo tipo de negócio, com as mesmas empresas envolvidas, e modus operandi de forma geral semelhante, no Acórdão no 9303-015.655, de 14/08/2024, relatado pela Cons. Denise Madalena Green, com o seguinte resultado (nas matérias que aqui estão em análise): “Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010 SIMULAÇÃO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. O lançamento é efetuado de ofício pela autoridade administrativa quando se comprove que o sujeito passivo agiu com simulação (art. 149, VII, do CTN), a exemplo da realização de negócios fictícios entre empresas que, de fato, são uma só, com a existência de absoluta confusão patrimonial. MULTA QUALIFICADA. DE 150%. MULTA MAJORADA DE 100%. RETROATIVIDADE BENIGNA (ART. 106, II, c, CTN). APLICAÇÃO. Restando comprovadas as hipóteses normativas previstas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1964, faz-se aplicável a multa qualificada imposta sob tais fundamentos. A modificação inserta no inciso VI do §1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96, pela Lei nº 14.689/23, ao reduzir a multa de 150% para 100% atrai a aplicação do art. 106, II, “c”, do CTN, porquanto lei nova aplica-se a ato ou fato pretérito, no caso de ato não definitivamente julgado, quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente à época da prática da infração. Trata-se de retroatividade benigna. DECADÊNCIA DO DIREITO DE LANÇAR. CONTAGEM DE PRAZO. O prazo de decadência dos tributos sujeitos a lançamento por homologação, quando presente dolo, fraude ou simulação, em virtude do que dispõe a parte final do § 4º do art. 150 do CNT, rege-se pelas regras do art. 173, I, do CTN, com o termo inicial coincidindo com o primeiro dia do exercício seguinte ao da ocorrência dos fatos geradores.” Decisão: “Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencida a Conselheira Tatiana Josefovicz Belisario, que votou pela negativa de provimento. O colegiado apreciou, ainda, de ofício, a aplicação retroativa da Lei nº 14.689/2023, entendendo, por unanimidade de votos, que, mesmo mantida a qualificação da multa de ofício, seu patamar deve ser reduzido de 150% a 100%, percentual presente na redação Fl. 90866DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 39 dada ao inciso VI do§ 1º do art. 44 da Lei no 9.430/1996. Acordaram ainda os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial oposto pelo Contribuinte.” (participaram do julgamento os Cons. Rosaldo Trevisan, Semiramis de Oliveira Duro, Vinicius Guimaraes, Tatiana Josefovicz Belisario, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Alexandre Freitas Costa, Denise Madalena Green, Regis Xavier Holanda) (grifo nosso) Entendo que tal precedente, que revela o posicionamento sobre o tema desta Câmara uniformizadora de jurisprudência, aplica-se totalmente ao caso em análise, no que se refere ao tema-mestre em debate: a simulação, e a um dos temas reflexos, a decadência, pelo que transcrevo-o (em excertos), adotando seu teor como fundamento, inclusive em nome da segurança jurídica: “A acusação fiscal reside, claramente, no instituto da simulação, conforme se depreende de todas as constatações ilustradas no TVF. Eis os fatos que embasaram essa conclusão: a) análise da reorganização societária e dos negócios do grupo Unilever: (i) a empresa Elida Pond’s Industrial Ltda. foi constituída pela Unilever em 01/03/1999, mas inicialmente não exerceu nenhuma atividade, ficando toda essa concentrada na UB; (ii)posteriormente a Elida Pond’s alterou sua denominação para IGL; (iii) a UB, em 01/09/2001, fez uma cisão parcial, destacando bens de seu patrimônio para utilização pela empresa IGL; (iv) a IGL até então não havia exercido nenhuma atividade industrial, continuando até esse momento concentrada a atividade na UB (aguardando a alteração da legislação); (v) a IGL, após outras mudanças de denominação, passou, em 21/05/2007, a se chamar exatamente Unilever Brasil Higiene Pessoal e Limpeza Ltda.(UBHPL); (vi) em 01/07/2010 a UBHPL foi incorporada pela UBI; b) antes de receber o aporte de bens e direitos realizado pela Unilever, a IGL cuidava-se de uma empresa que, apesar de ter sido constituída em março de 1999, até a publicação da Lei nº 10.147, de 21 de dezembro de 2000, que instituiu a incidência monofásica na tributação de PIS e Cofins, não exercia qualquer atividade industrial, nem possuía faturamento, ou seja, tinha existência apenas jurídica; c) a fiscalização apontou que as Declarações de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ) da IGL (antiga ELIDA) referentes aos anos- calendário 1999, 2000 e 2001 demonstram que não houve movimento até agosto de 2001. d) apenas nove meses após o advento da Lei nº 10.147, de 2000, a recorrente realizou aumento de capital na IGL, “transferindo-lhe" a atividade de industrialização de produtos de higiene e beleza, então submetidos à incidência monofásica do PIS e da Cofins; Fl. 90867DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 40 e) o capital social da IGL, após a alteração do contrato, ficou concentrado na titularidade da Unilever (149.679.104 cotas, 99,99% do capital), pertencendo à outra sócia apenas uma cota no valor nominal de R$ 1,00; f) o faturamento da indústria após efetivada a reorganização da produção (o início da fabricação pela IGL) decresceu cerca de 40% (R$ 306.322.180,82 x R$ 509.333.017,91)em relação ao período em que a industrialização era realizada pela UBR, e assim se manteve nos anos posteriores. De outra banda, a receita com revenda a terceiros efetuados exclusivamente pela UBR cresceram cerca de 23% (R$ 628.621.010,57 x R$ 509.333.017,91) no mesmo período; g) negociação: contrato de compra-venda e pagamento: a política de definição de preço, imposta pela controladora, compõe apenas de seus elementos primários (custo, frete, despesa acessória e impostos) sequer com a previsão de margem de lucro, deixando ainda ausente outros componentes da definição do preço final. Essa conduta evidencia a inexistência de liberalidade da UBI em ditar seu preço de venda, fato que revela elemento essencial no contrato de compra e venda - o preço determinado pelo vendedor; h) formação do preço e Pagamento: comprovou-se que o "Contrato de Fornecimento" foi artificialmente elaborado, assinado por duas pessoas físicas na condição simultânea de comprador e vendedor, sem poderes estatutários/contratuais firmar compromissos e representar ambas as empresas - UBR e UBI-, tendo uma delas declarado não compor o quadro de diretoria ou funcional do Grupo no Brasil e que estava ausente do País na data de sua assinatura (retornou meses após). Além disso, não há a estipulação de preço das mercadorias pelo vendedor, pois se compõe de somatória de custos e despesas de fabricação; inexistente também a comprovação de pagamento no prazo de 15 dias conforme estipulado, eis que liquidado por lotes, mediante compensação de débitos e créditos recíprocos das empresas do Grupo, gerido pela UBR, como se verá adiante; i) contrato de empréstimos: a UBR é a financiadora das atividades operacionais da unidade industrial (UBI), que não detém autonomia financeira, pois seus dispêndios são suportados por aquela, inclusive fornecedores, matéria-prima e sua folha de pagamento do pessoal da indústria; j) os registros contábeis relativos ao sistema de compensações do grupo: o exame dos contratos relacionados à empréstimos e conta corrente e dos registros contábeis das operações com produtos industrializados confirmam que a UBI não recebe qualquer pagamento em dinheiro ou forma assemelhada, mas lança em sua contabilidade um “direito” que será compensado com as obrigações contraídas com a controladora do grupo econômico; Fl. 90868DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 41 k) autonomia da UBI em relação ao grupo: ausente elemento essencial para caracterizar e validar um contrato comercial - a bilateralidade: se não houve a legitimidade do “consentimento”, pela UBHPL / UBI, na formação do preço de saída para a UBR, é de se concluir que ausente qualquer autonomia por parte da empresa industrial e inexistente o contrato de compra e venda; l) as saídas da UBI: transferência para depósito fechado: a constatação fiscal de inexistência de funcionários no CDL da pessoa jurídica atacadista, na atividade de comercialização de mercadorias "comprada" da UBI, o fato vem corroborar outra observação do Fisco, de que os estabelecimentos da Unilever Brasil Ltda de CNPJ n° 61.068.276/0307-80 e 61.068.276/0028-16, que pretensamente exercem atividades de comércio atacadista (de produtos de higiene pessoal e alimentação, respectivamente), não comercializam mercadorias - funcionam apenas como um depósito de produtos para distribuição; m) produtos importados pela UBHPL/UBI e "revendidos" para a UB: na maior parte das operações praticadas, o valor unitário constante na nota fiscal de saída é inferior ao valor de importação acrescido dos tributos, frete nacional e despesas acessórias e, em muitos casos, ao valor unitário indicado no documento fiscal relativo à entrada, sem quaisquer acréscimos; n) comparação entre modalidade de negócios - mercado interno e exportação: aas saídas para o exterior (exportação), as vendas são faturadas pelo estabelecimento industrial bem como é de sua emissão as respectivas notas fiscais, contrariando toda o planejamento tributário e reorganização societária no modelo de negócio “UBI­depósito fechado-UBR", inobstante a informação de que a UBI não dispõe de funcionários de vendas para exportação (fls. 44.553/44.557). Diferentemente das vendas internas de produtos da Unilever sujeitas à tributação monofásica na pessoa jurídica industrial, nas vendas para exportação não há a incidência das Contribuições para o PIS (art. 5º da Lei 10.637/02) e para a Cofins (art. 6º da Lei nº 10.833/03), o que explica e justifica a venda efetuada diretamente pela UBI sem se utilizar da atacadista, eis que desnecessário o artifício de preço reduzido no fabricante e triplicado nº atacadista; o) o depósito fechado da UBI - compartilhamento de espaço físico com CD da UBR: concluiu a fiscalização que, "as diversas inscrições no CNPJ não encontram correspondência na realidade fática. A alegada divisão em 'partes' não se materializa na prática. Ainda que existisse, não bastaria para configurar diversos estabelecimentos, porque o RIPI não deixa dúvidas sobre a necessidade de muros, cercas ou outra forma de isolamento efetivo. Ao informar ao Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica várias inscrições, como se, no local, houvesse distintos estabelecimentos, além de Fl. 90869DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 42 buscar fugir ao controle do Fisco, as pessoas jurídicas do grupo Unilever incorrem em falsidade." Demonstra-se que não são executadas atividades de comercialização nº estabelecimento. A atividade desenvolvida pela UBR, no local, é, apenas e tão somente, de supervisão dos serviços logísticos executados pela DHL / Exel.; p) cisão, desmembramento de empresa, reorganização societária e de negócios -simulação: entre as folhas 18.9786 e 18.9794 a autoridade fiscal desenvolveu tópico específico no qual relata a aparência formal dos atos praticados pela UBR/UBI e a sua realidade material; arremata que: "Pelos fatos expostos acima, conclui-se que a UBHPL/UBI e a UBR incorreram em todas as hipóteses de simulação nos negócios jurídicos previstas no artigo 167 do Código Civil (lei 10.406/02). São muitas as comprovações de que estes aparentaram conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente foram conferidos ou transmitidos, de que contém declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira, além do que, os instrumentos particulares foram antedatados"; q) a base de cálculo utilizada pela fiscalização: 1. a fiscalização desconsiderou a venda realizada entre a UBPHL/UBI e UBR, tomando por verdadeira apenas como remessa/transferência da indústria para depósito fechado/CD, e que de fato, a venda continuava a ser realizada pela UBR para os clientes do grupo; 2. desconsiderou-se, também, os preços consignados nas NFs de remessa da UBPHL/UBI para seu depósito fechado (simulado como venda para a UBR), pois exsurgiu como verdadeiro negócio da indústria a venda da UBR para aos clientes, com os preços informados nessas operações.. Pertinente, a reprodução, extremamente valiosa, do Conselheiro Paulo Roberto Duarte Moreira, na Declaração de Voto apresentada no Acórdão recorrido, a qual incorporo ao meu voto e passo a reproduzir: Declaração de Voto Conselheiro Paulo Roberto Duarte Moreira Tem por finalidade esta declaração de voto explicitar os fundamentos para sustentar a autuação fiscal e a decisão recorrida. Cumpre mencionar primeiramente as empresas que compõem o grupo Unilever e a forma em que participaram da reorganização societária e dos negócios do Grupo. ELIDA POND'S INDUSTRIAL LTDA (ELIDA) - não realizou atividades IGL INDUSTRIAL LTDA (IGL) - sucessora da ELIDA - iniciou atividade industrial em setembro/2001 UNILEVER BRASIL PRODUTOS DE TOUCADOR LTDA (UBT) - sucessora da IGL UNILEVER BRASIL HIGIENE PESSOAL E LIMPEZA LTDA. (UBHPL) - sucessora da UBT - - atividade industrial UNILEVER BRASIL INDUSTRIAL LTDA (UBI) -sucessora da UBHPL UNILEVER BRASIL LTDA (UBR) - sócia majoritária e administradora das PJ anteriores atividade comercial a Fl. 90870DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 43 partir de setembro/2001 - exerceu atividade industrial até agosto/2001 Elemento fundamentar para entender a atuação fiscal é o modelo de negócio praticado antes e após o advento da Lei nº 10.147/2000, com a produção de efeitos a partir de 01/05/2001. Modelo de negócio até agosto/2001: UBR industrializava e vendia produtos aos clientes Modelo de negócio a partir de setembro/2001: UBI sucedeu a PJ do grupo Unilever, com capital de R$ 1.000 e sem operação até agosto de 2001, que teve aumento de capital de R$ 149 milhões, principalmente em ativos imobilizados, efetuado pela UBR (sócia majoritária e administradora), e passou a industrializar. O produto industrializado era remetido para depósito fechado, mas as NF consignavam "venda" para UBR, que os "revendia" a seus clientes" Legislação: Até abril/2001 todas as receitas com vendas de produto industrializados e revendidos pelo grupo eram tributados pelo PIS e Cofins, em todas as fases da operação (Lei 9718/98). A partir de maio/2001 - as receitas com vendas da pessoa jurídica industrial ou importadora de alguns produtos de perfumaria, toucador e higiene pessoal passaram a sofrer incidência de PIS e Cofins concentrada nesta etapa (industrialização e importação). As demais operações - REVENDA - tiveram alíquotas reduzidas a zero. Início a análise. A Unilever aduz que a empresa industrial vende toda a sua produção à empresa comercial do Grupo e que os preços “são negociados entre as Partes”. O pagamento é realizado mediante compensações mútuas entre as pessoas jurídicas do grupo centrado em um conta corrente única dedicada ao encontro de débitos e créditos recíprocos. O Fisco afirma que constatou que as operações de saída de produtos industrializados da UBI são remessas para depósito fechado que compartilha mesmas instalações de estabelecimento da UBR e não há pagamento pelos produtos transferidos. Assim, entende que a venda entre a UBI e UBR é simulada. Entendo que a solução da lide deve superar a contemplação da verdade formal representada pela (i) constatação da constituição e existência de estabelecimentos e pessoas jurídicas do grupo Unilever, envolvidas na venda de produtos industrializados pela UBI para outra empresa do Grupo (e não diretamente ao cliente), (ii) verificação de que há notas fiscais mencionando venda e correspondente escrituração das saídas e da liquidação do pagamento mediante lançamento contábil. A matéria exige análise minuciosa à vista de se tratar de grupo econômico em que o produto industrializado submetido ao regime de tributação monofásica - no qual apenas a saída da indústria sofre a incidência do PIS/Cofins, desonerando-se as demais operações - é "vendido" Fl. 90871DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 44 exclusivamente para empresa do Grupo, operação está em que não há pagamento em qualquer forma convencional, mas a compensação de débitos e créditos mediante registros contábeis em conta corrente centralizado e sua entrega é em depósito fechado (para fins de armazenagem) que compartilha do mesmo espaço físico da empresa do grupo que realiza a venda para terceiros não interdependentes, por preço cerca de 03 (três) vezes superior ao consignado na nota fiscal de saída do estabelecimento industrial. De pronto não se pode acusar a Unilever de planejamento tributário abusivo ou impor-lhe forma de negócio diversa daquela implementada. Seria preconceituoso apenas com a descrição do parágrafo anterior deduzir a prática da simulação. De outra banda, cabe analisar as acusações fiscais que alega desnudar a verdadeira natureza da saída dos produtos da UBI para UBR de modo que foi eivada de artificialidade pois consubstanciada em uma transferência para depósito fechado e deste diretamente para cliente. O novo e atual modus operandi está amparado em documentos emitidos e escrituração contábil-fiscal formalmente regulares. Certamente revela uma estrutura de negócios que fora meticulosamente reorganizada para se alcançar objetivos de planejamento tributário e eficiência empresarial, que podem - ou não - coincidir com a realidade fática das operações sujeitas à incidência de PIS e Cofins. Analisa-se pois a forma de negócio empreendido, pesquisando os fundamentos que motivaram a alteração, a regularidade das operações frente à legislação tributária, a compatibilidade entre o negócio declarado e aquele revelado no procedimento fiscal para ao final concluir pela licitude ou ilicitude do planejamento tributário empreendido pela contribuinte. 1. A reorganização societária e dos negócios e as atividades das empresas do grupo Unilever A estrutura de negócios (reorganização societária e dos negócios e o planejamento tributário) deve ser apreciada investigando as datas e atividades desenvolvidas pelas pessoas jurídicas que compõem o grupo Unilever tendo por comparação a data de publicação da Lei nº 10.147/2000, de 21/12/2000, mas com efeitos somente aos fatos geradores a partir de 01/05/2001 , que instituiu a incidência monofásica na tributação de PIS e Cofins para a pessoa jurídica que industrializa ou importa produtos de perfumaria, de toucador ou de higiene pessoal (classificados nas posições 33.03 a 33.07 e nos códigos 3401.11.90, 3401.20.10 e 96.03.21.00 da TIPI), com alíquotas substancialmente superiores (2,02% para o PIS, e 10,3% para a Cofins) à tributação normal do regime não-cumulativo. Para essa gama de produtos, determinou a Lei que a incidência sobre a receita bruta da pessoa jurídica industrial/importadora é única (concentrada), e expressamente reduziu a zero as alíquotas de PIS e Cofins Fl. 90872DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 45 nas receitas com a revenda efetuadas pelas pessoas jurídicas adquirentes do fabricante/importador: Art. 2º São reduzidas a zero as alíquotas da contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins incidentes sobre a receita bruta decorrente da venda dos produtos tributados na forma do inciso I do art. 1º, pelas pessoas jurídicas não enquadradas na condição de industrial ou de importador. Em síntese, até 30/04/2001 o PIS e Cofins sobre a receita bruta na venda ou revenda de produtos de perfumaria, de toucador ou de higiene pessoal alcançavam todas as pessoas jurídicas. A partir de 01/05/2001, essas contribuições passaram a incidir apenas sobre a receita bruta da pessoa jurídica fabricante/importadora de produtos de perfumaria, de toucador ou de higiene pessoal. Como se verá a reorganização dos negócios da Unilever são posteriores à indigitada alteração legislativa. A autuação fiscal recaiu sobre a incorporadora (UBI) da autuada (UBHPL), cuja denominação era IGL, nome este decorrente de alteração da pessoa jurídica ELIDA. Assim a análise da reorganização societária e dos negócios do grupo Unilever inicia-se a partir da constituição da Elida. A ELIDA, foi constituída em 01/03/1999, com capital social de apenas R$ 1.000,00, tendo como sócia majoritária (99,9% das cotas) e administradora a UBR, e sede na Av. das Indústrias, 315, Parte – Vinhedo - SP. A razão social da ELIDA foi alterada em abril/2001 para IGL. Após, em 01/09/2001, a cotista gerente, a UBR optou por separar seus negócios de conformidade com seus respectivos ramos e especialidades. Para tanto, realizou-se o aumento de capital da IGL, no valor de R$ 149.678.105,00, integralizado pela UB por meio de bens, direitos e obrigações, que passou a ter como objeto a fabricação e comercialização de produtos mencionados no item “2" da Consolidação do Contrato Social. A administração da sociedade manteve-se a cargo da UB, que passou a possuir 149.678.104 das cotas, ou seja, 99,9999993%. Em 24/08/2006, a IGL teve o nome empresarial alterado para UBT, que retornou, em 01/03/2007, para IGL. Finalmente, em 21/05/2007, houve nova alteração da denominação social, desta vez, para UBHPL, permanecendo até a incorporação pela UBI, em 01/07/2010, quando o estabelecimento até então inscrito no CNPJ sob n° 03.085.759/0001-02 transformou-se numa filial desta empresa e seu número de inscrição no CNPJ passou a ser 01.615.814/0064-87. (fls. 52.656/52.667). A fiscalização apontou que as Declarações de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ) da IGL (antiga ELIDA) referentes aos anos-calendário 1999, 2000 e 2001 demonstram que não houve movimento até agosto de 2001 (fls. 80.822/80.825). Fl. 90873DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 46 Impende verificar as vendas desses mesmos produtos tributados pela sistemática monofásica do PIS e Cofins, antes e após a reorganização dos negócios do grupo Unilever. A demonstração encontra-se à folha 189.746 do TVF, reproduzida, com a inclusão dos somatórios de valores: Nota-se que a industrialização e distribuição/venda dos produtos monofásicos era realizada pela UBR até o início da industrialização pela IGL (posteriormente IGHPL/UBI). Após a alteração, a IGL encarregou-se da industrialização e a UBR da comercialização com pessoas jurídicas não interdependentes (clientes - redes do varejo). Salta aos olhos uma constatação de extrema relevância: o faturamento da indústria após efetivada a reorganização da produção (o início da fabricação pela IGL) decresceu cerca de 40% (R$ 306.322.180,82 x R$ 509.333.017,91) em relação ao período em que a industrialização era realizada pela UBR, e assim se manteve nos anos posteriores. De outra banda, a receita com revenda a terceiros efetuados exclusivamente pela UBR cresceram cerca de 23% (R$ 628.621.010,57 x R$ 509.333.017,91) no mesmo período. Ora, somente duas explicações seriam possíveis: a primeira, sem qualquer base de sustentação na reorganização societária e dos negócios do Grupo ou explicação de ordem micro ou macroeconômica, o nível de atividade industrial caíra 40% a partir de setembro/2001; ou a segunda, plausível com as acusações fiscais de operações simuladas, o grupo transferiu a receita com clientes da indústria tributada pela Lei 10.147/2000, com efeitos práticos a partir de 01/05/2001, para o comércio, objetivando a redução de PIS e Cofins, e diga-se, plenamente alcançado à vista do aumento da receita de vendas do grupo com a contrapartida da redução da Cofins no período. Atenta-se que a receita com vendas para clientes no período analisado aumentou cerca de 23%, (fato que por si só aniquila a tese da redução do nível industrial em 40%), porém, contrariando a lógica matemática e tributárias, a Cofins devida reduziu-se de 40% (R$ 31.551.184,62 x R$ 52.461.300,85), plenamente explicada pelo planejamento tributário e a reorganização societária e dos negócios. Pode-se empreender outra análise que admitida como verdadeira derruiria toda a vantagem preconizada da reorganização societária e dos negócios: a de que os custos e despesas com o acréscimo da etapa de armazenagem e a "venda" da IGL para a UBR e posterior revenda efetuada por esta (UBR) foram repassados para seus clientes na ordem de 23%, representado por aumento de preços, sem o correspondente acréscimo de lucro. Confrontada essa realidade de alteração nos negócios e assentada nas premissas alhures, entendo que exsurge como conclusão verdadeira a realidade de que (i) não houve declínio na atividade industrial, (ii) a redução Fl. 90874DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 47 da receita na venda da empresa industrial é fruto de planejamento tributário que visou a redução de tributos, mediante (iii) o acréscimo de uma pessoa jurídica dedicada à atividade industrial e outra, adquirente do mesmo grupo, exclusivamente revendedora para seus clientes. Receio que seja prematura afirmar que somente a análise deste primeiro elemento da acusação fiscal seja prova de um planejamento tributário artificial que visou a redução de PIS e Cofins mediante a simulação na cadeia de negociação de uma pessoa jurídica exclusivamente revendedora de produtos sem a tributação dessas Contribuições. Ressalta-se que a análise é um retrato limitado ao período em que houve o início dos efeitos da vigência da tributação concentrada na indústria e desoneração na revenda, de alguns produtos da Unilever. Afinal, o período fiscalizado é posterior - 01/01/2009 a 31/12/2010. Entendo que as constatações a seguir sintetizadas não se tratam de mera coincidência: (i) a transformação da Elida em IGL (ativada operacionalmente somente após setembro/2001) com aumento de capital de R$ 1.000,00 para R$ 149.678.105,00, integralizado pela UB por meio de bens, direitos e obrigações, cujo objeto (da IGL) é a fabricação e comercialização de produtos industrializados, com venda exclusiva à controladora UBR, que passou a se dedicar exclusivamente à revenda a seus cliente; (ii) os efeitos da vigência da Lei nº 10.147/2000; e (iii) a redução dos preços dos produtos na transferência da IGL para UBR. Portanto, por ora, assenta-se que esta realidade é forte indício de uma simulação nas operações de venda da industrial coma redução artificial dos preços dos produtos industrializados. Os fatos narrados não foram presumidos, são constatações. Não se trata de invencionice da autoridade fiscal, estão todos suportados por documentos coligidos nestes autos ou transladados de outros. A análise isolada da reorganização societária e dos negócios após o início da tributação concentrada na indústria/importação de produtos de toucador e outros pode não levar às conclusões de arranjo simulado com fins meramente de economia de tributos, contudo, é de se contestar a reorganização sob um único enfoque: ainda que se pareça conclusão simplista e ausente de rigor técnico, não concebo motivo para não se realizar venda diretamente do industrial/importador para o cliente; ao passo que ao criar um "intermediário" dentro do próprio grupo econômico inevitavelmente custos e despesas com pessoal, administração, logística e imobilizados serão acrescentados. A explicação pode-se ater à expressiva economia tributária na introdução na cadeia de venda uma pessoa jurídica que detém o comando do grupo e participa duplamente como fabricante-vendedor e comprador-cliente, Fl. 90875DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 48 interdependentes, o que desnaturaria completamente a operação de compra-venda, conferindo-lhe tão somente a natureza de mera transferência de produtos fabricados, transvertido de um venda que não teria ocorrida. A continuidade desta análise haverá de melhor perquirir os fatos presentes na autuação fiscal e elucidar asa dúvidas suscitadas neste tópico para fins de confirmação, ou não, dos indícios apontados. 2 A negociação: contrato de compra-venda e pagamento A inexistência de uma verdadeiro contrato de compra e venda Suscita a fiscalização que o contribuinte intimado e reestimado não comprovou haver negociação: "O “Acordo de Fornecimento”, apresentado quando solicitados os contratos de venda, foi forjado e apresentado à fiscalização. A afirmação da fiscalizada - de que o preço é “sempre resultante da aplicação do custo, acrescido dos valores de frete, despesas acessórias e impostos” – somente confirma que não há negociação". A política de definição de preço, imposta pela controladora, compõe apenas de seus elementos primários (custo, frete, despesa acessória e impostos) sequer com a previsão de margem de lucro, deixando ainda ausente outros componentes da definição do preço final. Essa conduta evidencia a inexistência de liberalidade da UBI em ditar seu preço de venda, fato que revela elemento essencial no contrato de compra e venda - o preço determinado pelo vendedor. A definição do valor a constar na nota fiscal de transferência (venda, no entender da contribuinte) não é arbítrio da UBI, mas sim da própria UBR - cotista majoritária e controladora das empresas do grupo Unilever -, situação que o Código civil impõe a nulidade do contrato de compra e venda: “Art. 489. Nulo é o contrato de compra e venda, quando se deixa ao arbítrio exclusivo de uma das partes a fixação do preço.” Falta também liberdade à UBI para efetuar venda direta aos clientes, que se realizada no mesmo nível de preço praticado com a interdependente traria imediata economia de custos e despesas incorridos na UBR, e indubitavelmente, teria um preço inferior, certamente muito mais competitivo e com maior lucro bruto. Não é crível que a inserção de uma comercial atacadista entre a industrial e o cliente (grandes redes de supermercados, magazines e drogarias) tenha resultado maior lucratividade ao Grupo. Sob a ótica financeira da Unilever, o negócio é extremamente lucrativo não pela redução de custos de "intermediação" da UBR, mas sim pela majoração do preço do produto em relação à etapa UBI-UBR na revenda efetuada por esta a seus clientes. Desnecessária maior expertise em negócio e finanças para concluir que a venda direta da UBI para seu cliente final reduziria os custos e despesas Fl. 90876DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 49 incorridos na etapa de transferência para UBR e desta para o cliente. São custos e despesas com pessoal, instalações, ativos, logística e outras mais. Contudo, é exatamente a inclusão dessa etapa, a meu ver irrelevante, que permite a venda majorada em cerca de 3 vezes em relação aos custos de produção. Eis aí o despropósito da remessa da UBI para UBR. O exame do acordo de fornecimento que implica a inexistência de um contrato regular de compra e venda e as conclusões obtidas acrescem-se aos indícios das “coincidências" entre os efeitos da vigência da Lei nº 10.147/2000 e a reorganização societária e dos negócios da Unilever, doravante apontando para uma simulação nas operações entre UBI e UBR. Formação do preço e Pagamento A determinação do PIS/Cofins tem como base de cálculo a receita da pessoa jurídica industrial, que primordialmente compõe-se do preço de venda de seus produtos fabricados e estes consignados nas respectivas notas fiscais de saída. Desponta do procedimento fiscal que a reorganização societária e dos negócios do Grupo implicou a alteração na forma negocial, antes diretamente da pessoa jurídica industrial-comercial (UBR) para seus clientes (redes varejistas), e após a indigitada alteração da legislação do PIS/Cofins, esta mesma empresa (UBR) passou a ser a exclusiva adquirente dos produtos da industrial IGL/UBHPL/UBI e revendedora para seus cliente (os mesmos que adquiria da UBR quando exercia a dupla atividade de fabricante e comercial vendedora). Este fato, a princípio contrário à lógica da eficiência financeira-econômica, permitiu no seu início (a partir de setembro/2001) aumento na receita da empresa comercial, redução dos tributos a pagar e a redução de cerca de 40% na receita da industrial, que passou a sofrer a incidência concentrada de alguns produtos fabricados. Esta redução da receita bruta da pessoa jurídica industrial após a "majoração" na tributação de suas vendas pelo PIS/Cofins, implicou vários procedimentos fiscais nas empresas sujeitas à essa sistemática tributária, pois remanesce dúvidas quanto à realidade dos fatos: a queda das receitas com vendas foram acompanhadas da interposição de um "revendedor" na cadeia, com a peculiaridade de pertencer ao mesmo grupo econômico do industrial e "exercer" a atividade de atacadista, permitindo a venda da indústria-atacadista a preços extremamente inferiores em relação "revendas" atacadista-cliente final. O fato é que, além da própria reorganização societária e dos negócios serem alvos de fiscalizações, o preço declarado na nota fiscal de venda da indústria para o atacadista do mesmo grupo, a efetiva transferência da propriedade, a entrega e o pagamento tornaram-se alvos de esmiuçada análise fiscal para verificação da realidade fática ou mera simulação. Fl. 90877DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 50 Pois bem. A fiscalização solicitou da contribuinte (UBI) a apresentação de contrato de compra, a demonstração da realidade do preço de venda declarado e a comprovação dos pagamento pela UBR dos produtos saídos da UBHPL/UBI, em especial, os acordos de fornecimento, planilhas de formação de preços, contratos ou ajustes que tratam especificamente dos preços e suas condições de negociação entre as partes. Após as respostas da intimada, constatou a fiscalização o que se segue sintetizado: - A UBI afirma que, na formação do valor unitário dos produtos nacionais, considera apenas os custos dos insumos químicos e das embalagens (custo de fabricação), somados ao frete, às despesas acessórias e aos impostos. - Condições de pagamento: 15 dias para produtos fabricados pela UBHPL - Os pagamentos referentes às vendas de produtos acabados, de sua industrialização ou importação são feitos através das compensações entre as empresas, em contas correntes, conforme demonstrado pelos documentos anexos. Tais movimentações podem ser feitas através de lotes que contém várias notas fiscais numa mesma movimentação. - Nos Acordos de Fornecimento consta que os preços serão negociados entre as Partes - Não foram fornecidos os comprovantes de pagamento dos produtos "adquiridos" pois são inexistentes em razão do sistema de compensação de débitos e créditos recíprocos entre as empresas do Grupo; apenas as notas fiscais foram apresentadas - O Acordo de Fornecimento é assinado pelas mesmas pessoas na condição simultânea de vendedor e comprador, sem a identificação dos seus signatários (fls. 1.131 e 1.134). - A identificação dos signatários foi posterior no curso do procedimento fiscal, tendo a fiscalização constatado que um deles - Os fornecedores estrangeiros dos desodorantes formalmente importados pela indústria são pagos pela empresa-mãe. - Os signatários, Antônio Fernando Conde e Milton Luís Nascimento Brandt, não constavam como diretores estatutários em nenhum dos Contratos Sociais das pessoas jurídicas contratantes e a aposição de suas assinaturas contrariavam o art. 10º do Contrato Social da UBR. “ARTIGO 10° A Sociedade não estará obrigada em quaisquer contratos senão com as assinaturas de dois Diretores Estatutários ou de um Diretor Estatutário e de um procurador ou, ainda de dois procuradores, estes nomeados nos termos do Parágrafo Quarto abaixo.” ­ O signatário Milton Luís Nascimento Brandt não constava no quadro de funcionário da UBR, conforme observado nas Guias de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP, à época da celebração/assinatura do contrato. - Por meio de oitiva pessoal, o sr. Milton Luís Nascimento Brandt informou que na data de celebração e assinatura do instrumento (01/02/2008 e Fl. 90878DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 51 03/03/2008) encontrava-se ausente do País (retornou somente em julho/2008) e que não mantinha vínculos funcionais ou empregatícios com as empresas do grupo Unilever no Brasil nas datas constantes dos instrumentos - Quanto ao sr. Antonio Fernando Conde, igualmente não era investido no cargo de diretor com poderes para assinar os instrumentos. Acrescenta-se ao indício de reorganização societária e dos negócios com objetivos unicamente de redução de tributos mediante a simulação nas operações de venda da industrial coma redução artificial dos preços dos produtos industrializados as conclusões deste tópico de que inexiste na substância um contrato de compra e venda celebrado entre partes distintas, com a livre determinação do preço pelo vendedor. Comprovou-se que o "Contrato de Fornecimento" foi artificialmente elaborado, assinado por duas pessoas físicas na condição simultânea de comprador e vendedor, sem poderes estatutários/contratuais firmar compromissos e representar ambas as empresas - UBR e UBI-, tendo uma delas declarado não compor o quadro de diretoria ou funcional do Grupo no Brasil e que estava ausente do País na data de sua assinatura (retornou meses após). Além disso, não há a estipulação de preço das mercadorias pelo vendedor, pois se compõe de somatória de custos e despesas de fabricação; inexistente também a comprovação de pagamento no prazo de 15 dias conforme estipulado, eis que liquidado por lotes, mediante compensação de débitos e créditos recíprocos das empresas do Grupo, gerido pela UBR, como se verá adiante. Contrato de empréstimos A contribuinte insiste em afirmar que as aquisições pela UBR de produtos industrializados pela UBI não são pagos em dinheiro, mas sim através de contratos de empréstimos e, especialmente, por conta corrente gerido pela própria UBR no qual os débitos e créditos recíprocos das pessoas jurídicas pertencentes ao grupo são compensados entre si. Informa que as operações registradas na conta contábil n° 13633104 (CONTA CORRENTE UBR TOUCADOR X UBR) referem-se aos contratos de Gestão de Pagamentos e Recebimentos firmados com a empresa UBR. A fiscalização informa que na referida conta contábil a UBI registra os valores relativos a: Venda dos Produtos acabados entre coligadas; Transferência de despesas de serviço da área de Serviço Compartilhado e Corporativo Unilever; Compartilhamento das despesas administrativas entre sites (ex: Restaurante em Valinhos, Vinhedo, venda de vapor maquinário, etc); Contrato Leasing operacional dos ativos fixos; Folha de Pagamento; Pagamento via caixa da Unilever aos Fornecedores de Matéria- prima e diversos. Fl. 90879DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 52 Diante das declarações da UBR e UBI é inafastável a conclusão da Fiscalização de que a UBR é a financiadora das atividades operacionais da unidade industrial (UBI), que não detém autonomia financeira, pois seus dispêndios são suportados por aquela, inclusive fornecedores, matéria- prima e sua folha de pagamento do pessoal da indústria. A situação revela a verdadeira natureza das empresas: a UBR, funciona como uma matriz que exerce o comando operacional, administrativo e financeiro; a UBI, é tal como uma filial, na qual é suprida financeiramente pela UBR (ou melhor, tem seus dispêndios pagos pela UBR) que arca com seus custos e despesas industriais (da UBI) para prover a "matriz” com o fornecimento de produto conforme o "Acordo de Fornecimento". Veja-se que as expressões utilizadas pelas empresas interdependentes são "fornecimento" (e não venda), “acordo" (e não contrato de compra e venda) e "compensação" (e não o binômio preço pagamento). Os registros contábeis relativos ao sistema de compensações do grupo O exame dos contratos relacionados à empréstimos e conta corrente e dos registros contábeis das operações com produtos industrializados confirmam que a UBI não recebe qualquer pagamento em dinheiro ou forma assemelhada, mas lança em sua contabilidade um “direito” que será compensado com as obrigações contraídas com a controladora do grupo econômico. Os compromissos financeiros da UBI são contabilizados pela UBR, que credita contas bancárias de sua titularidade, ao mesmo tempo em que diminuiu suas obrigações para com aquela. Observou a fiscalização que a UBR efetua o pagamento dos dispêndios da UBI e das demais empresas do grupo econômico; e, em todos os casos, abate este valor na conta corrente respectiva que mantém com cada uma das pessoas jurídicas. Resumindo, a gestão de pagamentos "significa que a UBR paga os compromissos contraídos das demais empresas do grupo perante terceiros. Assim, o pagamento de uma fatura da UBI é registrado como crédito do UBR e débito da UBI na conta corrente que controla os pagamentos e recebimentos." O arranjo do conta corrente único, centralizado e gerido pela UBR, os lançamentos contábeis que representam e substituem os pagamentos dos produtos fornecidos à UBR pela UBI, acrescidos dos pagamentos (pela UBR) dos custos e despesas da UBI aos seus credores denotam um sistema complexo que impossibilitou a correlação das notas fiscais de saídas em remessas com os respectivos pagamentos, vez que implementado via sistemática de compensação (controlada e efetuada no conta corrente gerido pela UBR). Esse fato é comprovado em resposta da UBI ao informar que as compensações são efetuadas por lotes de notas fiscais, deixando de apresentar tal comprovação (fls. 189.579) . Fl. 90880DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 53 Autonomia da UBI em relação ao grupo A realidade da administração de um caixa único e conta-corrente para registros contábeis de débitos e créditos recíprocos, nos quais se realizam o pagamento de folha de salários, de fornecedores, de matéria-prima e outras despesas da UBI sustentam a acusação fiscal de ausência de autonomia da UBI em relação à UBR. Está ausente elemento essencial para caracterizar e validar um contrato comercial - a bilateralidade. Se não houver a legitimidade do “consentimento”, pela UBHPL / UBI, na formação do preço de saída para a UBR, é de se concluir que ausente qualquer autonomia por parte da empresa industrial e inexistente o contrato de compra e venda. Aos indícios da reorganização societária e dos negócios para a redução artificial da receita bruta na indústria por meio da simulação com fins à redução de tributos e da existência meramente formal do contrato de fornecimento de produtos, inválido pois assinado por pessoas sem poderes e ausente requisitos de liberalidade do pretenso "vendedor" e bilateralidade das partes, soma-se a inexistência de autonomia operacional e financeira da UBI para pagar custos e despesas do processo industrial e falta de comprovação da liquidação das "compras" efetuadas para a sócia majoritária (UBR). 3. As saídas da UBI: transferência para depósito fechado Por mais que possa causar estranheza à recorrente a constatação fiscal de inexistência de funcionários no CDL da pessoa jurídica atacadista, na atividade de comercialização de mercadorias "comprada" da UBI, o fato vem corroborar outra observação do Fisco, de que os estabelecimentos da Unilever Brasil Ltda de CNPJ n° 61.068.276/0307-80 e 61.068.276/0028-16, que pretensamente exercem atividades de comércio atacadista (de produtos de higiene pessoal e alimentação, respectivamente), não comercializam mercadorias - funcionam apenas como um depósito de produtos para distribuição. Diante do modelo de negócio do Grupo Unilever a fiscalização procedeu à análise dos pedidos de fornecimento de produtos de UBR à sua principal unidade industrial - UBI. O escopo inicial era os pedidos relativos ao período fiscalização; inviabilizado em razão da resposta de que os pedidos são armazenados por um período de apenas de 30 dias (fls. 189.616/189.617). Efetuou-se a análise no período da ação fiscal (novembro/2012). Constatou a fiscalização que o faturamento indica endereço e número do CNPJ do estabelecimento do CD da UBR que compartilha o mesmo local físico do depósito fechado da UBI em Louveira/SP. Constam também do pedido que o endereço de cobrança não é o do fabricante UBI, mas o da matriz da UB na capital paulista. Fl. 90881DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 54 No pedido não há qualquer referência ou informação quanto às condições de pagamento. Esta análise conduz à conclusão de que o fornecimento de produtos da UBI é integralmente controlado pela UBR, chegando ao extremo de constar como local de faturamento e de pagamento os seus estabelecimentos (CDL/Louveira e matriz/São Paulo, respectivamente). Nesse modelo a UBI apenas industrializa os produtos determinados pela UBR dando-lhe destinação de transferência para depósito fechado/CDL - denominada “fornecimento" pelo Grupo ­ para o qual o "pagamento", realizado por compensação contábil é centralizado na UBR. Neste tópico surge mais um elemento determinante da ausência de autonomia da UBI e a comprovação de que a venda de produto industrializado é meramente formal, sem o compromisso de pagamento ou transmissão de propriedade, uma vez que a saída do estabelecimento fabricante tem por destino seu depósito fechado ao passo que os documentos de controle efetivo indicam pagamento à UBR, e não à pessoa jurídica industrial. 4. Produtos importados pela UBHPL/UBI e "revendidos" para a UB Em relação aos produtos importados pelo estabelecimento é relevante apontar que, na maior parte das operações praticadas, o valor unitário constante na nota fiscal de saída é inferior ao valor de importação acrescido dos tributos, frete nacional e despesas acessórias e, em muitos casos, ao valor unitário indicado no documento fiscal relativo à entrada, sem quaisquer acréscimos. A fiscalização apresentou como exemplo o produto na importação documentada pela nota fiscal de entrada n° 7349 (fls. 2.069/2.130): Há ainda uma circunstância agravante. Os produtos não ingressam no estabelecimento da UBHPL / UBI de Vinhedo, que consta como importador nas Declarações de Importação e nas notas fiscais de entrada. Nos documentos fiscais de entrada é indicado o CFOP 3102 (correspondente a entrada de mercadorias provenientes de outro país) e, em seu corpo, aposto um carimbo com a indicação de entrega no endereço correspondente ao CNPJ 61.068.276/0307-80, da UBR, contrariando o endereço consignado no Conhecimento de Carga do transporte rodoviário (fl. 189.559)Constatou a fiscalização que "Os funcionários que realizam procedimentos relativos à importação dos desodorantes são do quadro de pessoal da UBR. Na diligência consumada na sede do grupo Unilever, verificou-se, em resumo, que a tomada de decisões sobre a importação de desodorantes, assim como o planejamento dos processos de importação, sua coordenação e supervisão, a execução dos pedidos de importação, a contratação e supervisão da comissária de despachos aduaneiros responsável pelas tarefas de importação, a supervisão da logística de importação e o contato com as empresas de transporte e, inclusive, o Fl. 90882DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 55 controle da conta corrente bancária utilizada para pagamento dos tributos aduaneiros, se dão pela UBR, em suas instalações e por seus funcionários, sejam eles administrativos, gerentes ou diretores." Percebe-se que o modelo de "venda" simulada aplica-se às operações de importações, em razão da Lei nº 10.147/2000 determinar a incidência de PIS e Cofins concentrada ao importador de mercadoria sujeito às mesmas regras na venda de produção nacional. 5. Comparação entre modalidade de negócios: mercado interno e exportação Nas saídas para o exterior (exportação), as vendas são faturadas pelo estabelecimento industrial bem como é de sua emissão as respectivas notas fiscais, contrariando toda o planejamento tributário e reorganização societária no modelo de negócio “UBI­depósito fechado­UBR", inobstante a informação de que a UBI não dispõe de funcionários de vendas para exportação (fls. 44.553/44.557). Diferentemente das vendas internas de produtos da Unilever sujeitas à tributação monofásica na pessoa jurídica industrial, nas vendas para exportação não há a incidência das Contribuições para o PIS (art. 5º da Lei 10.637/02) e para a Cofins (art. 6º da Lei nº 10.833/03), o que explica e justifica a venda efetuada diretamente pela UBI sem se utilizar da atacadista, eis que desnecessário o artifício de preço reduzido no fabricante e triplicado no atacadista. Assim observou a fiscalização que "Das saídas de produtos acabados do estabelecimento de Vinhedo, aproximadamente uma décima parte foi destinada ao exterior e, nestes casos, os destinatários foram, sempre e somente, as empresas do grupo Unilever." (fl.189.535). Tal fato somente vem corroborar o que vem sendo plenamente demonstrado neste voto, apresentado inicialmente como "forte indício”, mas que a cada tópico ou novo elemento de análise confirmam as acusações fiscais. No presente tópico, conquanto as exportações se revelem inexpressivas em relação ao volume quantitativo e financeiro de vendas no mercado interno, mostrou-se despiciendo o modelo engendrado para simular as revendas pela UBR, sendo que em verdade trata-se de venda da UBI para os clientes do Grupo. Aqui não há tributo a ser "economizado”, portanto, dispensada a simulação. 6. O depósito fechado da UBI: compartilhamento de espaço físico com CD da UBR Os produtos monofásicos industrializados pela UBHPL/UBI (Vinhedo/SP) é toda remetida para armazenamento em depósito fechado da indústria ou Centro de Distribuição CD, da UBR. Nas saídas para o Estado de São Paulo, os produtos são remetidos para armazenagem em depósito fechado da UBI, localizado em espaço físico compartilhado por filial (CD) da UBR na cidade de Louveira/SP, do qual os produtos dão saída para vendas a clientes. Fl. 90883DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 56 Louveira e Vinhedo são municípios limítrofes, e o estabelecimento industrial da UBI (Louveira) está a uma distância de cerca de 6,2 km do depósito fechado/CD-UBR (Vinhedo). No caso de saída dos produtos industrializados para outras Unidades da Federação a armazenagem é primeiramente no depósito fechado e após, a destinação é sempre um CD da UBR. Após diligências efetuadas no curso da ação fiscal, atestou as autoridades fiscais a impossibilidade de distinguir o depósito fechado da UBI do estabelecimento “comercial atacadista" ­ CD ­ da UBR, eis que compartilham o mesmo espaço físico situado em Louveira/SP. Vejam os fatos demonstrados pela Fiscalização: - O local destina-se à armazenagem de produtos operado pela empresa DHL, responsável pela execução das atividades e administração do estabelecimento; ­ A unidade funciona como unidade de armazenagem e centro de distribuição logística, conforme informação do gerente de operações da DHL, do gerente de distribuição e do Coordenador de distribuição, ambos da Unilever. Os funcionários da UBR (35, relacionados a função de logística; nenhum à de comercialização) supervisionam o trabalho de cerca de 750 funcionários da DHL; ­ Na unidade inexistem funcionários responsáveis pela comercialização de produtos pela UBR, tampouco da UBI; ­ O estabelecimento constitui-se de 2 galpões interligados entre si por 9 passagens (trânsito de pessoas e veículos/equipamentos) ; ­ Não há segregação entre depósito fechado e CD-UBR, ambos ocupam os mesmos galpões, isto é, os galpões funcionam como um único depósito de produtos; situação confirmada com a apresentação das plantas (fl. 189.636) ; ­ Inexistem divisórias ou placas indicativas da segregação entre depósito fechado e CD. Os lotes de produtos não se separam por qualquer tipo de barreira física, apenas por espaços vazios para circulação de pessoas e empilhadeiras; ­ No contrato de prestação de serviços celebrado entre UBR e DHL para as atividades de armazenamento e logística de distribuição de produtos não se prevê qualquer distinção entre produtos remetidos para depósito fechado e aquele destinados ao CD-UBR que compartilham o mesmo endereço/espaço físico. A única segregação prevista é quanto à natureza do produto alimentos, inflamáveis e outros; ­ A Exel do Brasil (que antecedeu a DHL) requereu à SEFA/SP regime especial der armazenagem de mercadorias de terceiros, expressamente a IGL (sucedida pela UBHPL/UBI). Significa que o depósito fechado da UBI está localizado em estabelecimento ocupado também pela EXEL/DHL - Nos dados do CNPJ encontram-se 07 (sete) pessoas jurídicas instaladas no mesmo endereço: Av. José Luiz Mazzalli nº 450, 06 (seis) identificadas com o complemento "PARTE", de "A" a “F", sendo o de "PARTE C" e "PARTE F" depósitos fechados da UBI. Quanto ao estabelecimento "F", de CNPJ nº 01.615.814/0090-79, consta em seu Fl. 90884DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 57 contrato social a atividade de produção, em clara divergência entre o que consta no cadastro da Receita Federal e o que se verificou na realidade; A narrativa dos fatos acima permite asseverar a descaracterização do que a legislação denomina depósito fechado no qual é vedada a realização de vendas, pois destina-se à armazenagem de produtos entregues por ordem do depositante (art. 518, VII do RIPI/02). A coexistência no mesmo espaço físico de dois ou mais estabelecimentos, um depósito fechado de pessoa jurídica industrial e outro(s) de comercial é inadmissível em face da legislação. Conforme relato fiscal, não há isolamento físico (nos termos definidos no RIPI) que delimite o estabelecimento de CNPJ 03.085.759/0015-08 (01.615.814/0090-79, após a incorporação pela UBI) – que serve de depósito fechado aos produtos de higiene pessoal remetidos pela unidade industrial – daquele que, segundo o informado pela pessoa jurídica, destinar-se-ia ao comércio atacadista dos mesmos produtos (CNPJ 61.068.276/0307-80). O Parecer Normativo CST n° 78/73, em seu item 2, prescreve a necessidade de isolamento perfeito para se manter um depósito fechado: “(...) Não se incluem, ainda, no conceito de depósito fechado, os depósitos situados dentro do estabelecimento industrial, neste caso simples seções. Pode ocorrer, entretanto, que empresa com mais de um estabelecimento pretenda transformar parte de um deles em depósito fechado. Nada obstará a este procedimento, desde que dele resulte o perfeito isolamento do depósito em relação ao estabelecimento de que foi desmembrado. Desse isolamento deve resultar entrada própria para o depósito, ausência de qualquer comunicação direta com o estabelecimento industrial, e a configuração do depósito como estabelecimento autônomo, com inscrição própria no CGC. (...)” De fato, a UBR não mantém entrada própria para o depósito fechado do estabelecimento industrial, nos termos do citado Parecer. Concluiu a fiscalização que, "as diversas inscrições no CNPJ não encontram correspondência na realidade fática. A alegada divisão em 'partes' não se materializa na prática. Ainda que existisse, não bastaria para configurar diversos estabelecimentos, porque o RIPI não deixa dúvidas sobre a necessidade de muros, cercas ou outra forma de isolamento efetivo. Ao informar ao Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica várias inscrições, como se, no local, houvesse distintos estabelecimentos, além de buscar fugir ao controle do Fisco, as pessoas jurídicas do grupo Unilever incorrem em falsidade." Assim, demonstra-se que não são executadas atividades de comercialização no estabelecimento. A atividade desenvolvida pela UBR, no local, é, apenas e tão somente, de supervisão dos serviços logísticos executados pela DHL / Exel. Fl. 90885DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 58 7. Cisão, desmembramento de empresa, reorganização societária e de negócios: simulação É indiscutível a liberalidade de empresas realizarem cisões de negócio com fins ao desmembramento de atividades econômicas, pois respaldada em princípios constitucionais, como o da livre iniciativa. Todavia, a legislação pátria não ampara negócios realizados artificialmente mediante fraude, simulação e sonegação fiscal. Plácido e Silva conceitua simulação como “o artifício ou o fingimento na prática ou na execução de um ato, ou contrato, com a intenção de enganar ou de mostrar o irreal como verdadeiro, ou lhe dando aparência que não possui (...) No sentido jurídico, sem fugir ao sentido normal, é o ato jurídico aparentado enganosamente ou com fingimento, para esconder a real intenção ou para subversão da verdade. Na simulação, pois, visam sempre os simuladores a fins ocultos para engano e prejuízo de terceiros” (Silva, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. Ed. Forense, 1990). Luciano Amaro complementa que “a simulação seria reconhecida pela falta de correspondência entre o negócio que as partes realmente estão praticando e aquele que elas formalizam.” (Amaro, Luciano. Direito Tributário Brasileiro. 13ª Ed. Ed Saraiva, 2007, p. 231)Simulação corresponde, portanto, a realização de atos ou negócios jurídicos através de forma prescrita ou não defesa em lei, mas de modo que a vontade formalmente declarada no instrumento oculte deliberadamente a vontade real dos sujeitos da relação jurídica. O ato existe apenas aparentemente; é um ato fictício, uma declaração enganosa da vontade, visando produzir efeito diverso do ostensivamente indicado. Em geral, devido a sua própria natureza, a simulação é de difícil comprovação documental. Há a presença de dois atos, o ato simulado, do qual há documento ostensivo, e o ato dissimulado que é o que se intenta esconder. Assim, visto que sua ação é dissimulada sob forma diversa, fica muito difícil que se encontre a chamada prova cabal da sua ocorrência, pois esconder o ato dissimulado é da própria natureza da simulação, sendo assim se faz necessário perquirir-se a real intenção dos agentes no momento da prática do ato. Para sua demonstração, deve-se lançar mão de provas indiciárias e presuntivas. No discorrer de seu relatório, fiscalização trilhou este caminho ao descrever os indícios que apontavam para formas de operação e rearranjo societário que no somatório e conjunção das provas coligidas permitiram afirmar que se tratava de atos e negócios que conferiam certa aparência que, entretanto, não correspondiam à realidade. Entre as folhas 18.9786 e 18.9794 a autoridade fiscal desenvolveu tópico específico no qual relata a aparência formal dos atos praticados pela UBR/UBI e a sua realidade material; arremata que "Pelos fatos expostos acima, conclui-se que a UBHPL/UBI e a UBR incorreram em todas as Fl. 90886DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 59 hipóteses de simulação nos negócios jurídicos previstas no artigo 167 do Código Civil (lei 10.406/02) . São muitas as comprovações de que estes aparentaram conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente foram conferidos ou transmitidos, de que contém declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira, além do que, os instrumentos particulares foram antedatados." A título de síntese, cumpre repisar as constatações que passam a fundamentar o presente voto para sustentar o planejamento tributário ilícito executado mediante simulação com os fins de sonegação fiscal. A economia tributária por intermédio de transações simuladas revelou-se a motivação da cisão de uma única atividade de industrialização e venda de produtos (UBIcliente) para outro formato de negócio, com a inserção de uma etapa de revenda (UBI-UBRcliente) que inevitavelmente haveria de acrescentar custos e despesas relevantes ao Grupo; contudo, mediante a redução artificiosa dos preços na etapa de venda do produto industrializado, realizada entre empresas interdependentes, proporcionou a redução dos tributos incidentes sobre produtos destacados pela Lei para sofrer incidência concentrada, unicamente na venda pelo estabelecimento industrial e redução a zero nas etapas de comercialização posteriores. Daí a ilicitude de tal planejamento tributário, pois respaldado em vendas não comprovada pela ausência de elementos e requisitos a ela inerentes, quais sejam, partes distintas (comprador e vendedor), liberalidade do vendedor para decidir o que produzir e determinar o seu preço, bem como a elaboração de contratos irreais e sistema de compensação para liquidação do negócio fictício. Restando ao final não comprovado o pagamento do produto mediante ausência de específica correlação de notas fiscais e respectiva liquidações, pois efetuada em forma de compensação em contas contábeis de conta corrente gerido pela pessoa jurídica controladora e financiadora dos custos e despesas da pessoa jurídica industrial. Ao final do TVF (fls. 189.754/189.762) a autoridade fiscal enumerou e narrou os fatos de forma cronológica para a demonstração da correlação das alterações legislativas em relação às Contribuições para o PIS/Cofins iniciada em 27/11/1998 e correspondente à reorganização da sociedade e dos negócios, a partir de 01/03/1999. A narrativa compõe-se de 32 (trinta e dois) eventos/constatações que redundaram na comprovação de que se tratou de um planejamento tributário artificioso com a prática de atos que visavam simulação, fraude e sonegação de tributos. Verificou-se uma coincidência que se descortinou premeditada. Somente após a produção de efeitos (maio/2001) da Lei que criou a sistemática de cobrança do PIS e Cofins nas vendas de determinados produtos pela pessoa jurídica industrial/importadora é que foi criada a empresa ELIDA/IGL, Fl. 90887DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 60 antecessoras da UBHPL/UBI - com capital social inexpressivo e mantida operacionalmente inoperante até agosto/2001 - que após receber expressivo aumento do capital social, representado principalmente por bens de produção, iniciou a fabricação e importação dos produtos sujeitos à tributação concentrada quanto às Contribuições e cujas "vendas" tributadas não mais se realizaram diretamente aos clientes (grandes grupos de redes de varejistas), mas sim, por empresas do Grupo, dedicadas ao comércio atacadista, após armazenagem em depósitos fechados da pessoa jurídica ou centro logísticos de distribuição -CD´s. Na realidade, a UBR simulou, entre outros, a existência de um estabelecimento comercial atacadista de produtos de higiene pessoal e limpeza em Louveira (CNPJ sob os n°s 61.068.276/0307-80) e, também, a existência de vendas da empresa industrial para o suposto comercial atacadista. Em suma, a UBR simulou uma etapa do processo de circulação das mercadorias, para que pudesse criar dois valores de saída distinta – o da indústria muito inferior ao da suposta comercial atacadista – e, assim, neutralizar a incidência de tributos indiretos não cumulativos. Houve falsidade na prestação das informações nas Guias de recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP) com o objetivo evidente de simulação da real natureza do estabelecimento de Louveira (CD-UBR). Trata-se de iniciativa articulada com a simulação das operações de venda, de modo a fazer parecer que há uma etapa – que não existe – em que uma suposta comercial atacadista adquire produtos da indústria e, supostamente, os revende por um preço até três vezes superior. O preço pago pelos terceiros, consumidores, é o mesmo, porém, o Fisco não recebe a parte que é devida ao Estado brasileiro. Na “invenção” de uma etapa que não existe, o grupo econômico neutraliza 80% da carga de incidência da Contribuição ao PIS e da COFINS e, ainda proporção maior, da carga do IPI, pois, reduzindo a base de cálculo na saída da fábrica a, pelo menos, 40% do valor real, os créditos pela entrada anulam os débitos decorrentes da incidência concentrada na fase industrial. Finalizando, a operação é simulada sobretudo porque a unidade industrial (UBI) não detém autonomia operacional e financeira e quase a totalidade de seus custos e despesas são bancados pela UBR, sua controladora; que arca com a folha de salários da unidade industrial, contas de energia elétrica e telefone, pagamento de fornecedores de matérias-primas, despesas de importação e de outros itens necessários à manutenção das atividades operacionais, conforme demonstram a documentação colhida e a contabilidade das empresas. 8. A base de cálculo utilizada pela fiscalização Desnecessário delongar-se nos motivos que conduziram a fiscalização a rechaçar o preço de "venda" declarado nas notas fiscais de venda da UBI para a UBR e a própria Fl. 90888DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 61 operação. Basta rever brevemente as constatações e fatos que desnudaram o planejamento tributário ilícito e a reorganização societária e dos negócios sem que houvesse um real propósito negocial a justificar sua eficiência econômica e financeira, mediante a prática de simulação e sonegação fiscal. Entendo que fora evidenciado não a desconsideração da personalidade jurídica de alguma das empresas do grupo Unilever, mas tão-só a desconsideração da operação simulada, qual seja, a da venda de produtos sujeitos à sistemática de tributação concentrada do PIS e Cofins da UBI para a UBR, pois constatado uma mera transferência de produtos do estabelecimento industrial da UBI para seu depósito fechado, que coexistia e compartilhava o mesmo espaço físico da CD_UBR a qual pretensamente "revendia" a seus clientes. Sintetizando os fundamentos para a desconsideração dos negócios entre a UBI e UBR: - Até maio de 2001, a UBR industrializava e comercializava os produtos da marca Unilever com seus clientes ­ grandes redes de varejos; ­ A partir de maio de 2001 passou a surtir efeitos a tributação de PIS e Cofins introduzida pela Lei nº 10.147/2000, na qual, para determinados produtos fabricados pela Unilever, a tributação concentrou-se na pessoa jurídica industrial e desonerou as demais operações de revenda; ­ Em setembro de 2001, empresa do grupo (ELIDA/IGP) que teve seu capital aumentado de R$ 1.000,00 para R$ 149.678.105,00, integralizado pela UBR por meio de bens, direitos e obrigações, que passou a ter como objeto a fabricação e comercialização de produtos, e permaneceu sob o controle da UBR, substitui a UBR na industrialização de produtos, não mais vendendo-os diretamente aos clientes do Grupo, mas exclusivamente à própria UBR, que os revendia. - O novo modelo de negócio implicou o acréscimo de uma etapa de comercialização entre a indústria e o cliente final, antes inexistente, que certamente acarretaria acréscimos de custo e despesas ao Grupo; ­ Os resultados da reorganização societária e dos negócios revelaram-se inusitadas: diminui a receita bruta da venda de produto industrializado em cerca de 40%, ao mesmo tempo em que aumento a receita com a comercialização dos produtos em operação de revenda da UBR comercial atacadista para os clientes na ordem de 23% e, as Contribuições para o PIS/Cofins apuradas e recolhidas reduziram em 40%, exatamente na mesma proporção da redução da receita com vendas na indústria; ­ A unidade industrial (UBPHL/UBI) foi submetida a procedimentos de fiscalização, no qual se constataram: (i) inexistência de contrato de compra e venda entre UBPHL/UBI e UBR; (ii) os preços dos produtos eram definidos pela UBR na condição de controladora do Grupo e não pela pessoa jurídica fabricante; (iii) ausência de pagamento pelo fornecimento dos produtos pela Fl. 90889DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 62 UBPHL/UBI à UBR, pois liquidados apenas por intermédio de compensação na contabilidade, em conta corrente gerida pela UBR e não comprovados pelas empresas do grupo Unilever; (iv) negociação baseada em "acordo de fornecimento" assinado por pessoas físicas, que simultaneamente representavam vendedor (UBPHL/UBI) e comprador (UBR), mas sem poderes regulares para firmarem compromissos em nome das partes; (v) todas as despesas e custos da unidade fabril eram suportados financeiramente pela UBR que a controlava integramente, inclusive na determinação dos produtos a serem produzidos; (vi) os produtos fabricados eram remetidos para deposito fechado da UBPHL/UBI administrado por empresa de logística e que ocupava mesmo espaço físico do CD da UBR. Diante de todos esses fatos desnudados, a fiscalização desconsiderou a venda realizada entre a UBPHL/UBI e UBR, tomando por verdadeira apenas como remessa/transferência da indústria para depósito fechado/CD, e que de fato, a venda continuava a ser realizada pela UBR para os clientes do grupo. Desse modo, desconsiderou-se, também, os preços consignados nas NFs de remessa da UBPHL/UBI para seu depósito fechado (simulado como venda para a UBR), tomando como verdadeiro negócio da indústria a venda da UBR para aos clientes e o preço informado nesta operação. Desconsiderou-se, também, os preços consignados nas NFs de remessa da UBPHL/UBI para seu depósito fechado (simulado como venda para a UBR), pois exsurgiu como verdadeiro negócio da indústria a venda da UBR para aos clientes, com os preços informados nessas operações. À vista do relatado, tem-se que não se tratou os autos de desconsideração de personalidade jurídica da UBPHL/UBI ou de qualquer estabelecimento da UBR (em especial, de seu CD), mas, repisa-se, desconsiderou-se a pretensa venda da UBPHL/UBI para a UBR, pois fictícia e simulada. Assim, inexistindo a realidade da venda da UBPHL/UBI para a UBR, prevalece a venda efetuada da UBR para seus cliente, e por conseguinte, o preço dos produtos, do qual se apura a receita bruta a ser considerada base de cálculo das contribuições para o PIS e Cofins, é o consignado nas NFs de venda UBR-clientes. Destarte, é de se concluir a inexistência de um arbitramento de preço como entendimento exarado pela contribuinte e admitido no voto da Relatora. Arbitramento é procedimento extremo quando não é conhecido ou não se tem em exatidão os valores de determinada base de cálculo a ser oferecida à tributação, o que não é o caso dos autos, pois aos valores da verdadeira operação de venda - UBR-cliente - é plenamente conhecido e corresponde exatamente àquele consignado nas NFs que respaldam tais operações. Fl. 90890DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 63 Incabível, pois, a acusação de arbitramento sem respaldo na Lei ou efetuado em inobservância dos dispostos no art. 148 do CTN ou do art. 91 do Decreto nº 4.524/2002, que regulamentou as Contribuições para o PIS e Cofins, instituídas pelas Leis Complementares nºs. 07/1970 (PIS) e 70/1991 (Cofins). Concluo pela regularidade da apuração da base de cálculo do PIS e Cofins uma vez que obtida do valor efetivo da verdadeira operação de venda a ser tributada - aquela entre a UBR e seus clientes. São essas minhas considerações para manter a autuação fiscal, com a qualificação da multa no patamar de 150%. Paulo Roberto Duarte Moreira Por tudo que consta dos autos, bem como a análise minuciosa acima transcrita, verifica-se que resta comprovada a realização de fraude em diversos atos praticados pelas recorridas, incluindo simulações de negócios jurídicos com a finalidade de diminuir a incidência das contribuições. Nesse sentido, trago à colação o Acórdão no 9303-010.257, de 11 de março de 2020 (...)”. (acórdão com ementa aqui já transcrita, anteriormente) Interrompa-se, aqui, a transcrição, para recordar que o Acórdão no 9303-010.257 foi exatamente o acórdão que reformou o Acórdão no 3301-003.169, no processo (no 10830.727214/2013-31) tido pelo relator do acórdão recorrido como idêntico ao presente processo. Presente a simulação, naquele e neste casos, usada dolosamente como instrumento à sonegação fiscal, com prática de fraude e conluio, destacados pela fiscalização, cabível a restauração do lançamento, nesse tópico, mediante o provimento do apelo fazendário. Nesse cenário, não há maiores dificuldades para aplicação da regra decadencial adequada, estando o tema pacificado na Súmula CARF no 72 (Vinculante): “Súmula CARF nº 72 Aprovada pelo Pleno em 10/12/2012 Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018).” Assim, cabe o provimento do recurso especial também nesse aspecto. Por fim, cabe, também por decorrência, a qualificação da multa de ofício, nos termos dos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502/1964, com elevação ao patamar de 150%. Fl. 90891DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 64 Por ocasião do julgamento do Acórdão no 9303-015.655, de 14/08/2024, foi aplicada de ofício a redução a 100% da referida multa, em função de retroatividade benigna da Lei no 14.689/2023, que deu nova redação ao § 1º do art. 44 da Lei no 9.430/1996, acrescentando ainda um § 1º-A: “§ 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será majorado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis, e passará a ser de: ......................................................................................................... VI – 100% (cem por cento) sobre a totalidade ou a diferença de imposto ou de contribuição objeto do lançamento de ofício; VII – 150% (cento e cinquenta por cento) sobre a totalidade ou a diferença de imposto ou de contribuição objeto do lançamento de ofício, nos casos em que verificada a reincidência do sujeito passivo. § 1º-A. Verifica-se a reincidência prevista no inciso VII do § 1º deste artigo quando, no prazo de 2 (dois) anos, contado do ato de lançamento em que tiver sido imputada a ação ou omissão tipificada nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, ficar comprovado que o sujeito passivo incorreu novamente em qualquer uma dessas ações ou omissões.” (grifo nosso) No presente processo, chama a atenção a informação aposta à fl. 85522, no Termo de Verificação Fiscal: “As práticas evasivas relatadas neste Termo de Verificação Fiscal são reiteradas. Conforme se viu, iniciam-se no início da década passada e persistem, pelo menos, até o final de dezembro de 2014, último período verificado. Os autos de infração do IPI lavrados anteriormente, referentes aos períodos 2006/2007 e 2008 a 2010, bem como aqueles relativos ao PIS e à COFINS, lavrados em 2004 e em 2014, todos mencionados neste relato, trazem provas cabais das práticas simulatórias reiteradas ao longo de todo estes anos”. (grifo nosso) A nosso ver, a nova redação dada pela Lei no 14.689/2023 ao § 1º do art. 44 da Lei no 9.430/1996, apresenta duas possibilidades de leitura: (a) o legislador atenuou o patamar da multa qualificada anteriormente existente (de 150% para 100%) e criou nova penalidade, no patamar de 150%, para o caso de reincidência; ou (b) o legislador atenuou o patamar da multa majorada anteriormente existente (de 150% para 100%), apenas na hipótese de não haver reincidência, mantendo-a no mesmo patamar de 150% caso houvesse. No presente caso, entendo que sequer precisamos ingressar na análise dessas duas linhas hermenêuticas, buscando identificar a correta/adequada. Fl. 90892DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 65 O autuante não usou o conceito de reincidência previsto na nova lei (dois anos do lançamento anterior), e não noticia lavratura de autuação nos dois anos que antecedem o presente processo. Ao que parece, o autuante adotou a acepção vernacular de reincidência, ou a presente no art. 70 da Lei no 4.502/1964: “Art. . 70. Considera-se reincidência a nova infração da legislação do Impôsto do Consumo, cometida pela mesma pessoa natural ou jurídica ou pelos sucessores referidos nos incisos III e IV do artigo 36, dentro de cinco anos da data em que passar em julgado, administrativamente, a decisão condenatória referente à infração anterior. (...)” (grifo nosso) Assim, não se tem elementos para afirmar que, no presente caso, tenha ocorrido a reincidência a que se refere o § 1º-A do art. 44 da Lei no 9.430/1996, acrescentado pela Lei no 14.689/2023. E isso é suficiente para a redução da multa ao patamar de 100%. Pelo exposto, ainda que entenda pelo provimento do apelo fazendário em relação à qualificação da multa de ofício (e suas consequências, inclusive penais), voto pela redução da referida multa ao patamar de 100%, de ofício, em função da retroatividade benigna da Lei no 14.689/2023, chegando ao mesmo resultado do Acórdão no 9303-015.655, de 14/08/2024. Conclusão Pelo exposto, voto por conhecer em parte do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, apenas no que se refere ao critério legal de valoração para que se caracterize simulação, e as consequentes qualificação da penalidade e contagem de prazo decadencial, para, no mérito, dar-lhe provimento. Voto ainda por aplicar de forma retroativa, benignamente, a Lei nº 14.689/2023, que reduz o patamar da multa de ofício qualificada a 100%. (documento assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário A presente Declaração tem por objeto externar a razão pela qual entendo não ter restado comprovada, por parte da Fiscalização, a ocorrência de simulação por parte dos sujeitos passivos autuados. Pois bem. A questão relativa ao chamando planejamento tributário é assaz debatida no direito tributário. O que se pode afirmar, já de início, é que tal tema não pode merecer a interpretação preconceituosa que a Fiscalização aplicou. A conduta de planejar as operações a Fl. 90893DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 66 serem realizadas por uma determinada pessoa jurídica, é inerente - e até mesmo essencial - à boa condução empresarial. Com efeito, pode-se afirmar que existe uma linha tênue entre as práticas que visam à economia tributária como boa prática empresarial, e aqueles que tem por intuito, lesionar, causar danos ao erário. É a diferença que comumente se faz entre elisão (lícita) e evasão (ilícita). Inicialmente, observa-se que a fundamentação central da autuação para afirmar ter ocorrido fraude e simulação é o fato de as empresas industrial e comercial serem integrantes de um mesmo grupo econômico. Quanto à existência de Grupo econômico entre as empresas autuadas, isso é evidente e não se questiona. Todavia, a simples existência de grupo econômico não pode ser utilizada como comprovação cabal de fraude ou má-fé, de exercício de ações coordenadas com o fim exclusivo de economia de tributo e fraude à administração tributária. A Fiscalização parte do pressuposto de que, sendo as empresas ligadas, não seria justificável a sua separação, podendo, ou melhor, devendo todas elas funcionarem sob uma única composição societária. Ora, tal compreensão não é consentânea com a realidade social, econômica e jurídica hoje vigente, não apenas em âmbito nacional, como internacional, com o cenário da economia globalizada e profissionalização empresarial. Os grandes grupos econômicos, com abrangência internacional, como é o caso da Recorrente, são hoje realidade. São grupos de empresas dedicadas a uma ou mais atividades e que, por esta razão, criam e mantêm empresas especializadas por setor de atuação ou de produção. Essa formação é pública, notória, documentada, registrada e absolutamente legal. Não há qualquer ilegalidade (ou mesmo imoralidade) na existência de tais grupos. Nesse sentido, destaco o acórdão recorrido: A desconsideração das personalidades jurídicas da UBI e UB, sociedades empresárias de fabricação e distribuição de produtos, respectivamente, constituídas nos termos dos artigos 966, 967, 981, 982 e 1.052 a 1.054 do CC e cujo escopo é apuração de lucro, deve ser precedida da apresentação de provas que as desqualifiquem como unidades autônomas de negócios. Que demonstrassem que não dispunham dos recursos financeiros necessários para o financiamento e assunção dos riscos das operações. Que não dispunha de conhecimento sobre fabricação, armazenagem e logística de distribuição, bens móveis e imóveis (armazém e equipamentos) e pessoal administrativo e técnico para cumprir com seus objetivos sociais. E, por fim, que os empreendimentos, individualmente considerados, eram incapazes de gerar rendas para fazer frente a seus gastos e ainda cumprir com a meta de distribuir lucros aos sócios. Fl. 90894DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 67 Contudo, o conjunto probatório reunido não me levou à conclusão da fiscalização. Não há provas de que houve simulação e fraude, com o objetivo de reduzir a carga tributária. (...) Conclusão Concluo que a fiscalização não reuniu provas de que a UBI e a UB constituíam uma única unidade de negócios e, por conseguinte, que justificasse a cobrança do IPI devido pela UBI com base no preço de venda da UB para o seus clientes. Assim, a comprovada existência de grupo econômico, com o compartilhamento de diretores, unificação e centralização de procedimentos e de fornecedores, por exemplo, não é fato apto a ensejar qualquer indício de fraude ou simulação, como pretendeu a Fiscalização ao listar, exaustivamente, os dados societários e os representantes comuns das empresas como prova incontestável de conluio. Ainda que concorde, em absoluto, com o D. Relator quando afirma que a existência de fraude ou simulação não deve ser examinada sob a ótica individual de cada um dos elementos / indícios apontados pela Fiscalização, mas, sim, pelo seu conjunto, entendo que nem mesmo dessa forma “macro” restou caracterizada a alegada simulação nas operações de compra e venda. Em que pese a diversidade de argumentos da Fiscalização no sentido de defender a ocorrência de abuso por parte das Contribuintes e também a substância dos diversos argumentos de defesa, tenho que os ora expostos são suficientes para dirimir a questão, permitindo-me, assim, não mais me alongar em cada um dos filigranas existentes, aderindo, nesse aspecto, às razões expostas no próprio acórdão recorrido. Feita tal colocação, entendo que para a solução da lide, se faz necessário fixar algumas premissas: (i) Os elementos constantes dos autos demonstram que o valor de venda praticado pela unidade industrial era bastante irrisório em face do valor do bem no momento da sua colocação no mercado. A prática de preços reduzidos, contudo, não foi feita de forma escusa. As operações eram legitimamente realizadas e declaradas à Fiscalização. Obviamente que, em se tratando de empresas interligadas, a ausência de lucro pela industrial na venda de produtos para a comercial é negocialmente justificável. Contudo, considerando que o baixo custo de venda reduz significativamente a base de cálculo do IPI, tal prática merece censura. (ii) A Fiscalização agiu de forma legítima ao fiscalizar o preço de venda das mercadorias, o que significa, na hipótese dos autos, verificar a composição da base de cálculo do IPI. Fl. 90895DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 68 (iii) A Fiscalização afirma que para as operações de compra e venda em exame, realizadas entra as empresas industrial e comercial, estas agiram não como empresas independentes, mas como "matriz ou filial", que, nas hipóteses específicas, o estabelecimento comercial figurou como mero armazém das mercadorias. Contudo, não efetuou a desconsideração da personalidade jurídica do estabelecimento comercial. O que houve foi a desconsideração do negócio jurídico de compra e venda de produtos, em face da demonstração de que os valores foram artificialmente fixados. (iv) Fixado que as Contribuintes incorreram em redução indevida da base de cálculo do IPI ao dar saída a produtos em valores irrisórios, a Fiscalização se tornou autorizada a rever a base de cálculo adotada. Assim, com base nas premissas obtidas pelo exame dos autos, tenho que a legalidade do lançamento deve ser analisada em face do procedimento utilizado pela Fiscalização ao estabelecer a base de cálculo tributável. Não há dúvida de que a base de cálculo adotada pela Fiscalização é o valor final das vendas realizadas pela empresa comercial com a venda dos produtos industrializados. Veja-se que a Fiscalização considerou ilegítima a não inclusão, na base de cálculo do IPI recolhido pela empresa industrial, os custos financeiros, de venda, administração e publicidade, que são despesas inerentes à atividade comercial, ainda que a Legislação do IPI não exija que tais custos devam compor a base de cálculo tributável Então o questionamento que se faz é: poderia a Fiscalização eleger essa base de cálculo? Com efeito, nos termos do art. 190 do RIPI/2010: Art. 190. Salvo disposição em contrário deste Regulamento, constitui valor tributável: I - dos produtos de procedência estrangeira: a) o valor que servir ou que serviria de base para o cálculo dos tributos aduaneiros, por ocasião do despacho de importação, acrescido do montante desses tributos e dos encargos cambiais efetivamente pagos pelo importador ou dele exigíveis (Lei nº 4.502, de 1964, art. 14, inciso I, alínea “b”); e b) o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento equiparado a industrial (Lei nº 4.502, de 1964, art. 18); ou II - dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial (Lei nº 4.502, de 1964, art. 14, inciso II, e Lei nº 7.798, de 1989, art. 15 ). § 1 o O valor da operação referido na alínea “b” do inciso I e no inciso II compreende o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou Fl. 90896DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 69 destinatário (Lei nº 4.502, de 1964, art. 14, § 1º, Decreto-Lei n o 1.593, de 1977, art. 27 , e Lei n o 7.798, de 1989, art. 15 ). § 2 o Será também considerado como cobrado ou debitado pelo contribuinte, ao comprador ou destinatário, para efeitos do disposto no § 1 o , o valor do frete, quando o transporte for realizado ou cobrado por firma controladora ou controlada - Lei n o 6.404, de 15 de dezembro de 1976, art. 243 , coligadas - Lei n o 10.406, de 10 de janeiro de 2002, art. 1.099 , e Lei n o 11.941, de 27 de maio de 2009, art. 46, parágrafo único , ou interligada - Decreto-Lei n o 1.950, de 1982, art. 10, § 2 o - do estabelecimento contribuinte ou por firma com a qual este tenha relação de interdependência, mesmo quando o frete seja subcontratado (Lei nº 4.502, de 1964, art. 14, § 3º , e Lei nº 7.798, de 1989, art. 15 ). § 3 o Não podem ser deduzidos do valor da operação os descontos, diferenças ou abatimentos, concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente ( Lei nº 4.502, de 1964, art. 14, § 2º , Decreto-Lei nº 1.593, de 1977, art. 27 , e Lei nº 7.798, de 1989, art. 15 ). § 4 o Nas saídas de produtos a título de consignação mercantil, o valor da operação referido na alínea “b” do inciso I e no inciso II do caput , será o preço de venda do consignatário, estabelecido pelo consignante. § 5 o Poderão ser excluídos da base de cálculo do imposto os valores recebidos pelo fabricante ou importador nas vendas diretas ao consumidor final dos veículos classificados nas Posições 87.03 e 87.04 da TIPI, por conta e ordem dos concessionários de que trata a Lei n o 6.729, de 28 de novembro de 1979 , a estes devidos pela intermediação ou entrega dos veículos, nos termos estabelecidos nos respectivos contratos de concessão (Lei n o 10.485, de 2002, art. 2 o ). § 6 o Os valores referidos no § 5 o não poderão exceder a nove por cento do valor total da operação (Lei nº 10.485, de 2002, art. 2º, § 2º, inciso I). Ou seja, o IPI devido pelo estabelecimento industrial ou importador tem sua base de cálculo expressamente definida pelo legislador, não sendo imperativa a inclusão de quaisquer outros custos não diretamente relacionados. O que ocorreu é que a Fiscalização afirma que o valor de venda das mercadoras era irreal, maquiado, artificialmente reduzido (ou seja como se queira definir). Ao concluir desse modo, competiria, evidentemente, apontar o correto valor da base de cálculo, mas sem perder de vista que esta receita é do estabelecimento industrial. Assim, poderia e deveria a Fiscalização, como já realizado em diversas outras autuações fiscais inclusive desse mesmo Contribuinte, já enfrentadas por esta Turma Julgadora, ter se valido dos instrumentos previstos na própria legislação, como o Valor Tributável Mínimo, disposta nos art. 195/196: Valor Tributável Mínimo Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: Fl. 90897DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 70 I - ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência (Lei nº 4.502, de 1964, art. 15, inciso I, e Decreto-Lei n o 34, de 1966, art. 2 o , alteração 5 a ); II - a noventa por cento do preço de venda aos consumidores, não inferior ao previsto no inciso I, quando o produto for remetido a outro estabelecimento da mesma empresa, desde que o destinatário opere exclusivamente na venda a varejo (Lei nº 4.502, de 1964, art. 15, inciso II, e Lei n o 9.532, de 1997, art. 37, inciso III ); III - ao custo de fabricação do produto, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem como do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, no caso de produtos saídos do estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, com destino a comerciante autônomo, ambulante ou não, para venda direta a consumidor (Lei nº 4.502, de 1964, art. 15, inciso III, e Decreto-Lei n o 1.593, de 1977, art. 28 ); e IV - a setenta por cento do preço da venda a consumidor no estabelecimento moageiro, nas remessas de café torrado a estabelecimento comercial varejista que possua atividade acessória de moagem (Decreto-Lei nº 400, de 1968, art. 8º). § 1 o No caso do inciso II, sempre que o estabelecimento comercial varejista vender o produto por preço superior ao que haja servido à determinação do valor tributável, será este reajustado com base no preço real de venda, o qual, acompanhado da respectiva demonstração, será comunicado ao remetente, até o último dia do período de apuração subsequente ao da ocorrência do fato, para efeito de lançamento e recolhimento do imposto sobre a diferença verificada. § 2 o No caso do inciso III, o preço de revenda do produto pelo comerciante autônomo, ambulante ou não, indicado pelo estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, não poderá ser superior ao preço de aquisição acrescido dos tributos incidentes por ocasião da aquisição e da revenda do produto, e da margem de lucro normal nas operações de revenda. Art. 196. Para efeito de aplicação do disposto nos incisos I e II do art. 195 , será considerada a média ponderada dos preços de cada produto, em vigor no mês precedente ao da saída do estabelecimento remetente, ou, na sua falta, a correspondente ao mês imediatamente anterior àquele. Parágrafo único. Inexistindo o preço corrente no mercado atacadista, para aplicação do disposto neste artigo, tomar-se-á por base de cálculo: I - no caso de produto importado, o valor que serviu de base ao Imposto de Importação, acrescido desse tributo e demais elementos componentes do custo do produto, inclusive a margem de lucro normal; e Fl. 90898DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.051 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 10830.729074/2017-69 71 II - no caso de produto nacional, o custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem como do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação, ainda que os produtos hajam sido recebidos de outro estabelecimento da mesma firma que os tenha industrializado. Assim, nos termos da legislação pertinente, caso a base de cálculo declarada não mereça fé - que é, a meu ver, justamente a conclusão fiscal - deveria ter sido realizado o regular procedimento de verificação de composição da base de cálculo. Ocorre que não foi esse o fundamento no qual se centrou a Fiscalização ao efetuar o lançamento. Optou o Agente Fiscal por "desconsiderar" o negócio jurídico da compra e venda, ainda que este tenha ocorrido dentro da legalidade, e simplesmente aplicar o valor de venda do comercial, subvertendo a definição legal de contribuinte (industrial) e base de cálculo (venda pelo industrial). Ao proceder desse modo, a meu ver, a Fiscalização acabou por alcançar uma base de cálculo "superfaturada". Ou seja, sai do extremo do "subfaturamento" alegado para o extremo oposto do "superfaturamento". Digo que há superfaturamento porque o preço praticado pelo comercial considera, na sua composição, custos exclusivos da atividade comercial, como, por exemplo, a publicidade e a distribuição, sendo que, como dito, pela interpretação do texto legal, a base de cálculo deve compreender apenas os custos da industrialização. Não há dúvida de que a base de cálculo utilizada pela Fiscalização engloba custos além da industrialização de modo injustificado. Pelas razões expostas, percebe-se que, ainda que censurável os preços praticados pelo estabelecimento industrial e, conseqüentemente, da base do IPI, falhou a Fiscalização ao efetuar o lançamento mediante simples desconsideração da operação de compra e venda, deixando de se valer dos instrumentos legalmente dispensados para a correta fixação da base de cálculo tributável. Por esta razão, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, mantendo o acórdão recorrido. Assinado Digitalmente Tatiana Josefovicz Belisário Fl. 90899DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Declaração de Voto

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Numero do processo: 10983.909690/2021-34
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 19 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 AUTO DE INFRAÇÃO. DESCRIÇÃO PRECISA DOS FATOS E NORMAS APLICÁVEIS. AUSÊNCIA DE NULIDADE. Inexiste nulidade em auto de infração lavrado pela autoridade fiscal competente com a descrição clara do fato objeto da autuação e com o apontamento da legislação aplicável ao caso. NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. INOCORRÊNCIA. A legislação estabelece que são nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Não restando configurada nenhuma dessas hipóteses, não cabe a decretação de nulidade da decisão recorrida. DIREITO DE CRÉDITO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE É do contribuinte o ônus de demonstrar e comprovar ao Fisco a existência do crédito utilizado por meio de desconto, restituição ou ressarcimento e compensação. PEDIDO DE DILIGÊNCIA OU PERÍCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, indefere-se, por prescindível, o pedido de diligência ou perícia. AJUSTES PARA APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. MULTA REGULAMENTAR. ART. 12, II, LEI 8.218/91. INAPLICABILIDADE. AUSÊNCIA DE ILICITUDE. Não houve omissão ou prestação de informação incorreta na apresentação dos arquivos digitais pelo contribuinte. A negativa de direito sobre o aproveitamento de créditos extemporâneos resulta na sua glosa e não em multa por omissão ou informação incorreta, deste modo, não há requisitos autorizadores para manutenção da multa regulamentar prevista no art. 12, II, da Lei 8.218/91. CRÉDITO. INSUMO. CONCEITO. NÃO CUMULATIVIDADE. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O conceito de insumo, para fins de reconhecimento de créditos da Cofins, na não-cumulatividade, deve ser considerado conforme estabelecido, de forma vinculante, pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp 1.221.170/PR, ou seja, atrelado à essencialidade e relevância do bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica da empresa. Por serem essenciais ou relevantes no processo produtivo de uma empresa agroindustrial, que atua notadamente na exploração de alimentos (carne bovina, suína e de aves), se caracterizam como insumos, havendo direito de apropriação de créditos da Cofins, as locações de uniformes para os trabalhadores manipuladores de alimentos e a contratação de serviço movimentação cross docking. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessas contribuições, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITO PRESUMIDO. HIPÓTESES DE VEDAÇÃO. A autoridade fiscal deve glosar crédito presumido da Cofins quando verificada a ocorrência de fato previsto na legislação tributária como suficiente para vedar o direito ao crédito. CRÉDITO SOBRE FRETES. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS PARA REVENDA. Os custos com fretes referentes à aquisição de produtos adquiridos para revenda, contratados de pessoa jurídica domiciliada no Brasil, geram direito a crédito da Cofins não cumulativa. CRÉDITO SOBRE FRETES. AQUISIÇÃO DE INSUMOS TRIBUTADOS À ALÍQUOTA ZERO OU COM CRÉDITO PRESUMIDO. Os custos com fretes sobre a aquisição de insumos tributados à alíquota zero ou com crédito presumido geram direito a crédito da Cofins não cumulativa, desde que estejam de acordo com o disposto na Súmula Carf 188. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. REGIME DA COMPETÊNCIA. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÕES E DEMONSTRATIVOS DO PERÍODO DO FATO GERADOR DO CRÉDITO. O creditamento extemporâneo das contribuições deve seguir o regime da competência contábil, ou seja, deve ser realizado nos períodos de apuração relativos aos fatos geradores que lhes deram causa, e exige a retificação de declarações e demonstrativos, desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que o crédito será utilizado ou requerido em pedido de ressarcimento. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 ALUGUEL DE EMPILHADEIRA, CAMINHÃO MUNCK E TRANSPALETEIRA UTILIZADOS NAS ATIVIDADES DA EMPRESA. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Geram créditos da Cofins, o aluguel de empilhadeira, caminhão Munck e transpaleteira utilizados para movimentação de insumos e outros produtos, conforme disposto no art. 3º, IV, da Lei 10.833/2003. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 DEPÓSITOS JUDICIAIS OU EXTRAJUDICIAIS CÍVEIS E TRABALHISTAS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS. RECEITAS FINANCEIRAS. REGIME DE COMPETÊNCIA. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS. No âmbito da apuração da Cofins, pelo regime não cumulativo, as variações monetárias ativas decorrentes de atualização de depósitos judiciais ou extrajudiciais devem ser reconhecidas, em regra, de acordo com o regime de competência. Excetuam-se as hipóteses em que houver determinação legal expressa que condicione, necessariamente, a atualização dos valores depositados a eventual sucesso na lide pelo depositante. No caso dos depósitos judiciais ou extrajudiciais cíveis e trabalhistas, inexiste previsão legal de ocorrência de acréscimos ao montante depositado judicial ou administrativamente tão somente quando da solução favorável da lide ao depositante. Assim, a respectiva receita financeira deve ser incluída na base de cálculo da Cofins não cumulativa, observando-se o regime de competência. Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. CARNES E MIUDEZAS COMESTÍVEIS. A classificação fiscal dos produtos carnes e miudezas comestíveis enquadram-se no Capítulo 2 quando se apresentam nas formas frescas, refrigeradas, congeladas e salgadas, mesmo que tenham sido submetidas a um ligeiro tratamento térmico pela água quente ou pelo vapor (por exemplo, escaldadas ou descoradas), mas não cozidas. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. KIT OU CONJUNTO FORMADO POR “CHESTER” MAIS BOLSA TÉRMICA. O “KIT FELICIDADE (CHESTER) PERDIGÃO” descreve um conjunto de materiais que não se enquadram na condição de sortido para venda a retalho e sim em um conjunto de produtos que devem ter classificação fiscal individual, porque o item “BOLSA TERM TIRACOLO 430X320X120MM PERD” se refere a sacola térmica que não se constitui, nos termos da RGI/SH nº 5, a uma embalagem do tipo normalmente utilizado com as mercadorias que ora acondiciona. Trata-se de um artigo reutilizável e que, no conjunto, se destina à estocagem temporária dos produtos, tendo capacidade, segundo as dimensões fornecidas, para mais de 16 litros. Desta forma, deve seguir regime próprio, cabendo classificá-la na posição 42.02 que compreende, entre outros, as bolsas, sacos, sacolas e artigos semelhantes, confeccionadas de folhas de plástico. Assim, “CHESTER INTEIRO ELAB (CHT)”, com os temperos que fazem parte deste produto, classifica-se na posição 1602.32.00, e a sacola térmica, na posição 4202.92.00.
Numero da decisão: 3402-012.737
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade do Auto de Infração e do Acórdão recorrido, e no mérito, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário nos seguintes termos: (I) por unanimidade de votos, para, observados os requisitos legais para o aproveitamento dos créditos das contribuições não cumulativas, reverter as glosas relativas às despesas com: (i) serviços de locação de empilhadeiras, guindastes e Munck; (ii) serviços de administração de vestiário; (iii) serviços portuários na importação; (iv) fretes contratados após da liberação (desembaraço) da mercadoria; (II) por unanimidade de votos, para: (i) reconhecer a possibilidade de aproveitamento dos créditos extemporâneos, independentemente de retificação de DACON, desde que os créditos não tenham sido utilizados em duplicidade, com a observação do Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que condicionava o reconhecimento dos créditos, ainda, à apuração conforme os percentuais de rateio do período de origem; (ii) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 34 da Lei nº 12.058, de 2009, e do art. 1º, inciso XIX, alínea a, da Lei nº 10.925, de 2004, quando os produtos vendidos no mercado interno resultarem em NCM diversa dos produtos adquiridos; (iii) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 56 da Lei nº 12.350, de 2010, quando os produtos forem vendidos para exportação; (iv) afastar o lançamento da Contribuição para o PIS e da COFINS relativo à omissão de receitas decorrentes de variação monetária de depósitos judiciais; (v) afastar o lançamento da Contribuição para o PIS e da COFINS e da multa regulamentar imposta, relativa a infrações relacionadas à EFD-Contribuições; (III) por maioria de votos, para, observados os requisitos legais para o aproveitamento dos créditos das contribuições não cumulativas, reverter as glosas relativas às despesas com: (i) cross docking e repaletização, vencidos, neste ponto, os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que não revertiam essas glosas; (ii) locação de uniformes, vencido, neste ponto, o conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que não revertia essa glosa; (IV) por maioria de votos, para: (i) afastar o lançamento relativo às carnes, cuja classificação deve ser mantida na posição adotada pela Recorrente (0207), vencido, neste ponto, o conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que entendia que a classificação adotada pela Fiscalização estava correta; (ii) afastar o lançamento relativo aos “kit felicidade”, vencidos, neste ponto, os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que entendiam que as classificações adotadas pela Fiscalização estavam corretas; e (iii) manter a glosa sobre a emissão do certificado Halal, vencidas, neste ponto, as conselheiras Mariel Orsi Gameiro e Cynthia Elena de Campos, que revertiam essa glosa. Assinado Digitalmente Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta – Relatora Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Participaram do presente julgamento os Conselheiros Leonardo Honorio dos Santos, Anna Dolores Barros de Oliveira Sa Malta, Anselmo Messias Ferraz Alves, Mariel Orsi Gameiro, Cynthia Elena de Campos, Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente).
Nome do relator: ANNA DOLORES BARROS DE OLIVEIRA SA MALTA

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade do Auto de Infração e do Acórdão recorrido, e no mérito, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário nos seguintes termos: (I) por unanimidade de votos, para, observados os requisitos legais para o aproveitamento dos créditos das contribuições não cumulativas, reverter as glosas relativas às despesas com: (i) serviços de locação de empilhadeiras, guindastes e Munck; (ii) serviços de administração de vestiário; (iii) serviços portuários na importação; (iv) fretes contratados após da liberação (desembaraço) da mercadoria; (II) por unanimidade de votos, para: (i) reconhecer a possibilidade de aproveitamento dos créditos extemporâneos, independentemente de retificação de DACON, desde que os créditos não tenham sido utilizados em duplicidade, com a observação do Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que condicionava o reconhecimento dos créditos, ainda, à apuração conforme os percentuais de rateio do período de origem; (ii) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 34 da Lei nº 12.058, de 2009, e do art. 1º, inciso XIX, alínea a, da Lei nº 10.925, de 2004, quando os produtos vendidos no mercado interno resultarem em NCM diversa dos produtos adquiridos; (iii) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 56 da Lei nº 12.350, de 2010, quando os produtos forem vendidos para exportação; (iv) afastar o lançamento da Contribuição para o PIS e da COFINS relativo à omissão de receitas decorrentes de variação monetária de depósitos judiciais; (v) afastar o lançamento da Contribuição para o PIS e da COFINS e da multa regulamentar imposta, relativa a infrações relacionadas à EFD-Contribuições; (III) por maioria de votos, para, observados os requisitos legais para o aproveitamento dos créditos das contribuições não cumulativas, reverter as glosas relativas às despesas com: (i) cross docking e repaletização, vencidos, neste ponto, os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que não revertiam essas glosas; (ii) locação de uniformes, vencido, neste ponto, o conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que não revertia essa glosa; (IV) por maioria de votos, para: (i) afastar o lançamento relativo às carnes, cuja classificação deve ser mantida na posição adotada pela Recorrente (0207), vencido, neste ponto, o conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que entendia que a classificação adotada pela Fiscalização estava correta; (ii) afastar o lançamento relativo aos “kit felicidade”, vencidos, neste ponto, os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que entendiam que as classificações adotadas pela Fiscalização estavam corretas; e (iii) manter a glosa sobre a emissão do certificado Halal, vencidas, neste ponto, as conselheiras Mariel Orsi Gameiro e Cynthia Elena de Campos, que revertiam essa glosa. Assinado Digitalmente Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta – Relatora Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Participaram do presente julgamento os Conselheiros Leonardo Honorio dos Santos, Anna Dolores Barros de Oliveira Sa Malta, Anselmo Messias Ferraz Alves, Mariel Orsi Gameiro, Cynthia Elena de Campos, Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente).

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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 AUTO DE INFRAÇÃO. DESCRIÇÃO PRECISA DOS FATOS E NORMAS APLICÁVEIS. AUSÊNCIA DE NULIDADE. Inexiste nulidade em auto de infração lavrado pela autoridade fiscal competente com a descrição clara do fato objeto da autuação e com o apontamento da legislação aplicável ao caso. NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. INOCORRÊNCIA. A legislação estabelece que são nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Não restando configurada nenhuma dessas hipóteses, não cabe a decretação de nulidade da decisão recorrida. DIREITO DE CRÉDITO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE É do contribuinte o ônus de demonstrar e comprovar ao Fisco a existência do crédito utilizado por meio de desconto, restituição ou ressarcimento e compensação. PEDIDO DE DILIGÊNCIA OU PERÍCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, indefere-se, por prescindível, o pedido de diligência ou perícia. AJUSTES PARA APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. MULTA REGULAMENTAR. ART. 12, II, LEI 8.218/91. INAPLICABILIDADE. AUSÊNCIA DE ILICITUDE. Não houve omissão ou prestação de informação incorreta na apresentação dos arquivos digitais pelo contribuinte. A negativa de direito sobre o aproveitamento de créditos extemporâneos resulta na sua glosa e não em multa por omissão ou informação incorreta, deste modo, não há requisitos autorizadores para manutenção da multa regulamentar prevista no art. 12, II, da Lei 8.218/91. CRÉDITO. INSUMO. CONCEITO. NÃO CUMULATIVIDADE. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O conceito de insumo, para fins de reconhecimento de créditos da Cofins, na não-cumulatividade, deve ser considerado conforme estabelecido, de forma vinculante, pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp 1.221.170/PR, ou seja, atrelado à essencialidade e relevância do bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica da empresa. Por serem essenciais ou relevantes no processo produtivo de uma empresa agroindustrial, que atua notadamente na exploração de alimentos (carne bovina, suína e de aves), se caracterizam como insumos, havendo direito de apropriação de créditos da Cofins, as locações de uniformes para os trabalhadores manipuladores de alimentos e a contratação de serviço movimentação cross docking. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessas contribuições, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITO PRESUMIDO. HIPÓTESES DE VEDAÇÃO. A autoridade fiscal deve glosar crédito presumido da Cofins quando verificada a ocorrência de fato previsto na legislação tributária como suficiente para vedar o direito ao crédito. CRÉDITO SOBRE FRETES. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS PARA REVENDA. Os custos com fretes referentes à aquisição de produtos adquiridos para revenda, contratados de pessoa jurídica domiciliada no Brasil, geram direito a crédito da Cofins não cumulativa. CRÉDITO SOBRE FRETES. AQUISIÇÃO DE INSUMOS TRIBUTADOS À ALÍQUOTA ZERO OU COM CRÉDITO PRESUMIDO. Os custos com fretes sobre a aquisição de insumos tributados à alíquota zero ou com crédito presumido geram direito a crédito da Cofins não cumulativa, desde que estejam de acordo com o disposto na Súmula Carf 188. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. REGIME DA COMPETÊNCIA. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÕES E DEMONSTRATIVOS DO PERÍODO DO FATO GERADOR DO CRÉDITO. O creditamento extemporâneo das contribuições deve seguir o regime da competência contábil, ou seja, deve ser realizado nos períodos de apuração relativos aos fatos geradores que lhes deram causa, e exige a retificação de declarações e demonstrativos, desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que o crédito será utilizado ou requerido em pedido de ressarcimento. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 ALUGUEL DE EMPILHADEIRA, CAMINHÃO MUNCK E TRANSPALETEIRA UTILIZADOS NAS ATIVIDADES DA EMPRESA. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Geram créditos da Cofins, o aluguel de empilhadeira, caminhão Munck e transpaleteira utilizados para movimentação de insumos e outros produtos, conforme disposto no art. 3º, IV, da Lei 10.833/2003. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 DEPÓSITOS JUDICIAIS OU EXTRAJUDICIAIS CÍVEIS E TRABALHISTAS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS. RECEITAS FINANCEIRAS. REGIME DE COMPETÊNCIA. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS. No âmbito da apuração da Cofins, pelo regime não cumulativo, as variações monetárias ativas decorrentes de atualização de depósitos judiciais ou extrajudiciais devem ser reconhecidas, em regra, de acordo com o regime de competência. Excetuam-se as hipóteses em que houver determinação legal expressa que condicione, necessariamente, a atualização dos valores depositados a eventual sucesso na lide pelo depositante. No caso dos depósitos judiciais ou extrajudiciais cíveis e trabalhistas, inexiste previsão legal de ocorrência de acréscimos ao montante depositado judicial ou administrativamente tão somente quando da solução favorável da lide ao depositante. Assim, a respectiva receita financeira deve ser incluída na base de cálculo da Cofins não cumulativa, observando-se o regime de competência. Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. CARNES E MIUDEZAS COMESTÍVEIS. A classificação fiscal dos produtos carnes e miudezas comestíveis enquadram-se no Capítulo 2 quando se apresentam nas formas frescas, refrigeradas, congeladas e salgadas, mesmo que tenham sido submetidas a um ligeiro tratamento térmico pela água quente ou pelo vapor (por exemplo, escaldadas ou descoradas), mas não cozidas. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. KIT OU CONJUNTO FORMADO POR “CHESTER” MAIS BOLSA TÉRMICA. O “KIT FELICIDADE (CHESTER) PERDIGÃO” descreve um conjunto de materiais que não se enquadram na condição de sortido para venda a retalho e sim em um conjunto de produtos que devem ter classificação fiscal individual, porque o item “BOLSA TERM TIRACOLO 430X320X120MM PERD” se refere a sacola térmica que não se constitui, nos termos da RGI/SH nº 5, a uma embalagem do tipo normalmente utilizado com as mercadorias que ora acondiciona. Trata-se de um artigo reutilizável e que, no conjunto, se destina à estocagem temporária dos produtos, tendo capacidade, segundo as dimensões fornecidas, para mais de 16 litros. Desta forma, deve seguir regime próprio, cabendo classificá-la na posição 42.02 que compreende, entre outros, as bolsas, sacos, sacolas e artigos semelhantes, confeccionadas de folhas de plástico. Assim, “CHESTER INTEIRO ELAB (CHT)”, com os temperos que fazem parte deste produto, classifica-se na posição 1602.32.00, e a sacola térmica, na posição 4202.92.00.

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DESCRIÇÃO PRECISA DOS FATOS E NORMAS APLICÁVEIS. AUSÊNCIA DE NULIDADE. Inexiste nulidade em auto de infração lavrado pela autoridade fiscal competente com a descrição clara do fato objeto da autuação e com o apontamento da legislação aplicável ao caso. NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. INOCORRÊNCIA. A legislação estabelece que são nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Não restando configurada nenhuma dessas hipóteses, não cabe a decretação de nulidade da decisão recorrida. DIREITO DE CRÉDITO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE É do contribuinte o ônus de demonstrar e comprovar ao Fisco a existência do crédito utilizado por meio de desconto, restituição ou ressarcimento e compensação. PEDIDO DE DILIGÊNCIA OU PERÍCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, indefere-se, por prescindível, o pedido de diligência ou perícia. AJUSTES PARA APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. MULTA REGULAMENTAR. ART. 12, II, LEI 8.218/91. INAPLICABILIDADE. AUSÊNCIA DE ILICITUDE. Não houve omissão ou prestação de informação incorreta na apresentação dos arquivos digitais pelo contribuinte. A negativa de direito sobre o Fl. 5237DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 2 aproveitamento de créditos extemporâneos resulta na sua glosa e não em multa por omissão ou informação incorreta, deste modo, não há requisitos autorizadores para manutenção da multa regulamentar prevista no art. 12, II, da Lei 8.218/91. CRÉDITO. INSUMO. CONCEITO. NÃO CUMULATIVIDADE. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O conceito de insumo, para fins de reconhecimento de créditos da Cofins, na não-cumulatividade, deve ser considerado conforme estabelecido, de forma vinculante, pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp 1.221.170/PR, ou seja, atrelado à essencialidade e relevância do bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica da empresa. Por serem essenciais ou relevantes no processo produtivo de uma empresa agroindustrial, que atua notadamente na exploração de alimentos (carne bovina, suína e de aves), se caracterizam como insumos, havendo direito de apropriação de créditos da Cofins, as locações de uniformes para os trabalhadores manipuladores de alimentos e a contratação de serviço movimentação cross docking. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessas contribuições, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITO PRESUMIDO. HIPÓTESES DE VEDAÇÃO. A autoridade fiscal deve glosar crédito presumido da Cofins quando verificada a ocorrência de fato previsto na legislação tributária como suficiente para vedar o direito ao crédito. CRÉDITO SOBRE FRETES. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS PARA REVENDA. Os custos com fretes referentes à aquisição de produtos adquiridos para revenda, contratados de pessoa jurídica domiciliada no Brasil, geram direito a crédito da Cofins não cumulativa. CRÉDITO SOBRE FRETES. AQUISIÇÃO DE INSUMOS TRIBUTADOS À ALÍQUOTA ZERO OU COM CRÉDITO PRESUMIDO. Fl. 5238DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 3 Os custos com fretes sobre a aquisição de insumos tributados à alíquota zero ou com crédito presumido geram direito a crédito da Cofins não cumulativa, desde que estejam de acordo com o disposto na Súmula Carf 188. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. REGIME DA COMPETÊNCIA. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÕES E DEMONSTRATIVOS DO PERÍODO DO FATO GERADOR DO CRÉDITO. O creditamento extemporâneo das contribuições deve seguir o regime da competência contábil, ou seja, deve ser realizado nos períodos de apuração relativos aos fatos geradores que lhes deram causa, e exige a retificação de declarações e demonstrativos, desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que o crédito será utilizado ou requerido em pedido de ressarcimento. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 ALUGUEL DE EMPILHADEIRA, CAMINHÃO MUNCK E TRANSPALETEIRA UTILIZADOS NAS ATIVIDADES DA EMPRESA. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Geram créditos da Cofins, o aluguel de empilhadeira, caminhão Munck e transpaleteira utilizados para movimentação de insumos e outros produtos, conforme disposto no art. 3º, IV, da Lei 10.833/2003. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 DEPÓSITOS JUDICIAIS OU EXTRAJUDICIAIS CÍVEIS E TRABALHISTAS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS. RECEITAS FINANCEIRAS. REGIME DE COMPETÊNCIA. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS. No âmbito da apuração da Cofins, pelo regime não cumulativo, as variações monetárias ativas decorrentes de atualização de depósitos judiciais ou extrajudiciais devem ser reconhecidas, em regra, de acordo com o regime de competência. Excetuam-se as hipóteses em que houver determinação legal expressa que condicione, necessariamente, a Fl. 5239DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 4 atualização dos valores depositados a eventual sucesso na lide pelo depositante. No caso dos depósitos judiciais ou extrajudiciais cíveis e trabalhistas, inexiste previsão legal de ocorrência de acréscimos ao montante depositado judicial ou administrativamente tão somente quando da solução favorável da lide ao depositante. Assim, a respectiva receita financeira deve ser incluída na base de cálculo da Cofins não cumulativa, observando-se o regime de competência. Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. CARNES E MIUDEZAS COMESTÍVEIS. A classificação fiscal dos produtos carnes e miudezas comestíveis enquadram-se no Capítulo 2 quando se apresentam nas formas frescas, refrigeradas, congeladas e salgadas, mesmo que tenham sido submetidas a um ligeiro tratamento térmico pela água quente ou pelo vapor (por exemplo, escaldadas ou descoradas), mas não cozidas. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. KIT OU CONJUNTO FORMADO POR “CHESTER” MAIS BOLSA TÉRMICA. O “KIT FELICIDADE (CHESTER) PERDIGÃO” descreve um conjunto de materiais que não se enquadram na condição de sortido para venda a retalho e sim em um conjunto de produtos que devem ter classificação fiscal individual, porque o item “BOLSA TERM TIRACOLO 430X320X120MM PERD” se refere a sacola térmica que não se constitui, nos termos da RGI/SH nº 5, a uma embalagem do tipo normalmente utilizado com as mercadorias que ora acondiciona. Trata-se de um artigo reutilizável e que, no conjunto, se destina à estocagem temporária dos produtos, tendo capacidade, segundo as dimensões fornecidas, para mais de 16 litros. Desta forma, deve seguir regime próprio, cabendo classificá-la na posição 42.02 que compreende, entre outros, as bolsas, sacos, sacolas e artigos semelhantes, confeccionadas de folhas de plástico. Assim, “CHESTER INTEIRO ELAB (CHT)”, com os temperos que fazem parte deste produto, classifica-se na posição 1602.32.00, e a sacola térmica, na posição 4202.92.00. ACÓRDÃO Fl. 5240DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 5 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade do Auto de Infração e do Acórdão recorrido, e no mérito, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário nos seguintes termos: (I) por unanimidade de votos, para, observados os requisitos legais para o aproveitamento dos créditos das contribuições não cumulativas, reverter as glosas relativas às despesas com: (i) serviços de locação de empilhadeiras, guindastes e Munck; (ii) serviços de administração de vestiário; (iii) serviços portuários na importação; (iv) fretes contratados após da liberação (desembaraço) da mercadoria; (II) por unanimidade de votos, para: (i) reconhecer a possibilidade de aproveitamento dos créditos extemporâneos, independentemente de retificação de DACON, desde que os créditos não tenham sido utilizados em duplicidade, com a observação do Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que condicionava o reconhecimento dos créditos, ainda, à apuração conforme os percentuais de rateio do período de origem; (ii) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 34 da Lei nº 12.058, de 2009, e do art. 1º, inciso XIX, alínea a, da Lei nº 10.925, de 2004, quando os produtos vendidos no mercado interno resultarem em NCM diversa dos produtos adquiridos; (iii) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 56 da Lei nº 12.350, de 2010, quando os produtos forem vendidos para exportação; (iv) afastar o lançamento da Contribuição para o PIS e da COFINS relativo à omissão de receitas decorrentes de variação monetária de depósitos judiciais; (v) afastar o lançamento da Contribuição para o PIS e da COFINS e da multa regulamentar imposta, relativa a infrações relacionadas à EFD-Contribuições; (III) por maioria de votos, para, observados os requisitos legais para o aproveitamento dos créditos das contribuições não cumulativas, reverter as glosas relativas às despesas com: (i) cross docking e repaletização, vencidos, neste ponto, os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que não revertiam essas glosas; (ii) locação de uniformes, vencido, neste ponto, o conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que não revertia essa glosa; (IV) por maioria de votos, para: (i) afastar o lançamento relativo às carnes, cuja classificação deve ser mantida na posição adotada pela Recorrente (0207), vencido, neste ponto, o conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que entendia que a classificação adotada pela Fiscalização estava correta; (ii) afastar o lançamento relativo aos “kit felicidade”, vencidos, neste ponto, os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que entendiam que as classificações adotadas pela Fiscalização estavam corretas; e (iii) manter a glosa sobre a emissão do certificado Halal, vencidas, neste ponto, as conselheiras Mariel Orsi Gameiro e Cynthia Elena de Campos, que revertiam essa glosa. Assinado Digitalmente Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta – Relatora Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Fl. 5241DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 6 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Leonardo Honorio dos Santos, Anna Dolores Barros de Oliveira Sa Malta, Anselmo Messias Ferraz Alves, Mariel Orsi Gameiro, Cynthia Elena de Campos, Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra o Acórdão nº 105-010.051, proferido pela 4ª Turma da DRJ05 que, por unanimidade de votos, julgou procedente em parte a impugnação, mantendo parcialmente os débitos da Contribuição para o PIS/Pasep e COFINS, e mantendo integralmente o valor lançado pela aplicação da multa regulamentar em virtude da apresentação de EFD-Contribuições com informações inexatas, incompletas ou omitidas. O v. Acórdão recorrido foi proferido com a seguinte ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 DIREITO CREDITÓRIO.COMPROVAÇÃO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. É do contribuinte o ônus de demonstrar e comprovar ao Fisco a existência do crédito utilizado por meio de desconto, restituição ou ressarcimento e compensação. DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE INDEFERIMENTO. Indefere-se o pedido de diligência quando a sua realização revela-se prescindível para a formação da convicção da Autoridade julgadora. Assunto: Normas de Administração Tributária Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 MULTA REGULAMENTAR. OMISSÃO, INCORREÇÃO OU INEXATIDÃO NO PREENCHIMENTO DA EFD-CONTRIBUIÇÕES. O sujeito passivo que apresentar a EFD-Contribuições com inexatidões, incorreções ou omissões sujeita-se, a partir da vigência da Lei nº 13.670, de 30 de maio de 2018, às multas previstas no art. 12 da Lei nº 8.218, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 13.670, de 2018. MULTA POR DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. INFRAÇÃO OBJETIVA. Constatado que os fatos, comprovadamente ocorridos, subsomem-se ao dispositivo legal que prevê a infração tributária, impõe-se a aplicação da multa correspondente, independentemente da intenção do agente. MULTA POR DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. MULTA DE OFÍCIO. PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO. INAPLICABILIDADE. Distintos os fatos, a base de cálculo e os próprios bens jurídicos tutelados por cada uma das normas penais, é inaplicável o princípio da consunção. INSTRUÇÃO NORMATIVA. NORMA COMPLEMENTAR DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. Fl. 5242DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 7 As orientações e definições contidas em atos normativos, por constituírem normas complementares da legislação tributária, devem ser seguidas pelas Autoridades Fiscais. Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 NOMENCLATURA COMUM DO MERCOSUL. REGRAS GERAIS. NOTAS EXPLICATIVAS. As Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Codificação e Classificação de Mercadorias - NESH estabelecem o alcance e o conteúdo da Nomenclatura abrangida pelo SH, pelo que devem ser obrigatoriamente observadas para que se realize a correta classificação da mercadoria. CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. REGRAS GERAIS. NOTAS EXPLICATIVAS. ORDEM DE APLICAÇÃO. A primeira das Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado - RGI-SH prevê que a classificação de produtos na NCM é determinada de acordo com os textos das posições e das Notas de Seção ou de Capítulo, e quando for o caso, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas, de acordo com as disposições das Regras 2, 3, 4 e 5. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. REGIME DA COMPETÊNCIA. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DACON E DCTF DO PERÍODO DO FATO GERADOR DO CRÉDITO. O creditamento extemporâneo das contribuições deve seguir o regime da competência contábil, ou seja, deve ser realizado nos períodos de apuração relativos aos fatos geradores que lhes deram causa, e exige a retificação de declarações e demonstrativos (DCTF, Dacon ou EFD-Contribuições, conforme aplicável), desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que o mesmo será utilizado ou requerido em pedido de ressarcimento. DEPÓSITOS JUDICIAIS OU EXTRAJUDICIAIS CÍVEIS E TRABALHISTAS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS. RECEITAS FINANCEIRAS. REGIME DE COMPETÊNCIA. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS. INSTRUÇÃO NORMATIVA. NORMA COMPLEMENTAR DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. As orientações e definições contidas em atos normativos, por constituírem normas complementares da legislação tributária, devem ser seguidas pelas Autoridades Fiscais. Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 NOMENCLATURA COMUM DO MERCOSUL. REGRAS GERAIS. NOTAS EXPLICATIVAS. Fl. 5243DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 8 As Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Codificação e Classificação de Mercadorias - NESH estabelecem o alcance e o conteúdo da Nomenclatura abrangida pelo SH, pelo que devem ser obrigatoriamente observadas para que se realize a correta classificação da mercadoria. CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. REGRAS GERAIS. NOTAS EXPLICATIVAS. ORDEM DE APLICAÇÃO. A primeira das Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado - RGI-SH prevê que a classificação de produtos na NCM é determinada de acordo com os textos das posições e das Notas de Seção ou de Capítulo, e quando for o caso, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas, de acordo com as disposições das Regras 2, 3, 4 e 5. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. REGIME DA COMPETÊNCIA. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DACON E DCTF DO PERÍODO DO FATO GERADOR DO CRÉDITO. O creditamento extemporâneo das contribuições deve seguir o regime da competência contábil, ou seja, deve ser realizado nos períodos de apuração relativos aos fatos geradores que lhes deram causa, e exige a retificação de declarações e demonstrativos (DCTF, Dacon ou EFD-Contribuições, conforme aplicável), desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que o mesmo será utilizado ou requerido em pedido de ressarcimento. DEPÓSITOS JUDICIAIS OU EXTRAJUDICIAIS CÍVEIS E TRABALHISTAS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS. RECEITAS FINANCEIRAS. REGIME DE COMPETÊNCIA. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS. No âmbito da apuração da Cofins pelo regime não cumulativo, as variações monetárias ativas decorrentes de atualização de depósitos judiciais ou extrajudiciais devem ser reconhecidas, em regra, de acordo com o regime de competência. Excetuam-se as hipóteses em que houver determinação legal expressa que condicione, necessariamente, a atualização dos valores depositados a eventual sucesso na lide pelo depositante. No caso dos depósitos judiciais ou extrajudiciais cíveis e trabalhistas, inexiste previsão legal de ocorrência de acréscimos ao montante depositado judicial ou administrativamente tão somente quando da solução favorável da lide ao depositante. Assim, a respectiva receita financeira deve ser incluída na base de cálculo da Cofins não cumulativa observando-se o regime de competência, sendo irrelevante, no caso desta contribuição, a efetiva disponibilidade de tal valor. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CONCEITO DE INSUMOS. No regime da não cumulatividade, o termo “insumo” não pode ser interpretado como todo e qualquer bem ou serviço que gera despesa necessária para a Fl. 5244DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 9 atividade da empresa, mas, sim, tão somente aqueles, adquiridos de pessoa jurídica, que efetivamente sejam essenciais ou relevantes para a produção de bens destinados à venda ou na prestação do serviço da atividade. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. FRETE NA AQUISIÇÃO DE BEM NO MERCADO INTERNO. DIREITO DE CRÉDITO DETERMINADO EM FUNÇÃO DO BEM ADQUIRIDO. Ante a ausência de previsão legal específica para a apuração de créditos da não cumulatividade da Cofins em relação aos dispêndios com serviço de transporte (frete) ocorrido na aquisição de bens no mercado interno, o crédito apurado, no caso, decorre da técnica contábil e fiscal que integra tais despesas ao custo de aquisição do bem. Tratando-se de valor que integra o custo de aquisição, a possibilidade de apropriação de crédito calculado sobre o gasto com frete deve ser determinada em função da possibilidade ou não de apropriação de crédito em relação aos bens transportados. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITO PRESUMIDO. HIPÓTESES DE VEDAÇÃO. A Autoridade Fiscal deve glosar o crédito da Cofins informado pelo contribuinte quando verificada a ocorrência de fato previsto na legislação tributária como suficiente para vedar o direito ao crédito. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. ALUGUEL DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS. EMPILHADEIRAS. CRÉDITO. INEXISTENTE. Não há direito a crédito da não cumulatividade da Cofins sobre os valores pagos a pessoa jurídica a título de aluguel de empilhadeiras, pois o aluguel de veículos não é abrangido pela hipótese de creditamento do inciso IV do art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003. INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. CRÉDITOS. IMPORTAÇÃO. GASTOS COM DESEMBARAÇO ADUANEIRO. Gastos com a movimentação portuária (capatazia e estiva) na importação das mercadorias não geram direito a crédito da não cumulatividade da Cofins, por não estarem incluídos no cálculo do imposto de importação e não se caracterizarem como insumo na atividade produtiva da pessoa jurídica. INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. CRÉDITOS. ALUGUEL DE TERRENO. POSSIBILIDADE. Fl. 5245DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 10 A legislação, ao tratar da possibilidade de apuração de crédito da Cofins em relação aos dispêndios com aluguéis de prédios, não fez qualquer restrição a que o prédio fosse edificado ou não, de modo que se pode concluir que o conceito de prédio abordado no inciso IV do art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, abrange tanto o prédio construído como uma área ou terreno sem quaisquer edificações CRÉDITO PRESUMIDO. AGROINDÚSTRIA. INSUMOS. A apuração do crédito presumido do artigo 56 da Lei nº 12.350, de 2010, é vedada pelo seu § 1º quanto às aquisições realizadas por pessoa jurídica que industrialize produtos classificados nas posições 01.03 e 01.05 da NCM. Por bem reproduzir os fatos, transcrevo o relatório da decisão de primeira instância: Trata o presente processo de Autos de Infração lavrados contra a Contribuinte acima identificada que pretendem a cobrança da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep relativas ao período de janeiro a março de 2017 (1º trimestre de 2017). Segundo consta da Informação Fiscal nº 139/2021 EQAUD3/DRFBLU/SRRF09/RFB às folhas 1461/1747, o procedimento fiscal abrangeu a verificação dos créditos e dos débitos do PIS/Pasep e da Cofins apurados no referido período, tendo sido detectados fatos que constituem infrações à legislação tributária e que acarretaram a glosa de créditos a descontar informados na EFD-Contribuições. Assim, ao final dos trabalhos foram apurados saldos devedores em todos os meses do trimestre. Nos Autos de Infração às folhas 1437/1455 relativo à Cofins e à Contribuição para o PIS/Pasep, as infrações apuradas foram assim descritas: “Insuficiência de Recolhimento”, “Omissão de Receita” e “Crédito de Aquisição no Mercado Interno Constituído Indevidamente”. Foi, ainda, lavrado Auto de Infração, às folhas 1456/1459, exigindo multa regulamentar em virtude da apresentação de EFD-Contribuições com informações inexatas, incompletas ou omitidas. Quanto às glosas dos créditos do PIS e da Cofins apurados no regime da não cumulatividade, os Autuantes inicialmente ressaltam que na definição do conceito de insumo foram adotadas as disposições da Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF, publicada nos termos do §4º do art. 19 da Lei nº 10.522/2002, e do Parecer Normativo Cosit nº 05, de 17/12/2018, vinculante no âmbito da RFB, onde são apresentadas as repercussões do julgamento do Recurso Especial nº 1.221.170 - PR (2010/0209115-0) pelo Superior Tribunal de Justiça. Passam, então, a discriminar as glosas efetuadas, indicadas a seguir conforme itens do Relatório Fiscal. Fl. 5246DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 11 4.3.1.1 Crédito Presumido das Atividades Agroindustriais As Autoridades Fiscais relatam que no item 23 da Intimação Fiscal nº 75-2021/EQAUD3/DRF BLU/SRRF09/RFB (fls. 02/11) pediram esclarecimentos à Fiscalizada acerca da origem de quaisquer valores informados nos registros de ajustes de crédito da EFD-Contribuições (M110 e M510), informando todos os dados necessários. Solicitou-se, também, informações sobre as aquisições enquadradas nas Instruções Normativas da Receita Federal do Brasil - RFB nº 977, de 14 de dezembro de 2009, e nº 1.157, de 16 de maio de 2011, devendo-se considerar as novas disposições dadas pela IN RFB nº 1.911, de 11 de outubro de 2019, de mesma inteligência. Com base nas informações obtidas, tratam as glosas como segue. 4.3.1.1.1 Créditos Presumidos da Lei nº 10.925/2004 e IN RFB nº 660/2006 (IN RFB nº 1.911/2019)Consta da Informação Fiscal que: A despeito das alterações na legislação que criaram microrregimes próprios associados às cadeias de produção de bovinos, de suínos e de aves, verificam-se ainda vigentes, créditos presumidos sob o pálio do artigo 8º da Lei nº 10.925/2004, que contemplam aquisições de insumos utilizados na fabricação de produtos destinados à alimentação humana ou animal. Nesse vértice, destacam- se no caso concreto os produtos processados do capítulo 16 da NCM. (...)Compulsando as EFD-Contribuições, verifica-se que a Interessada apropriou créditos a título de aquisição para revenda, à alíquota de 0,99% para a Contribuição para o PIS/Pasaep e 4,56% para a Cofins. Tais aquisições estão detalhadas na aba “4.3.1.1.1” do arquivo não-paginável denominado “Detalhamento das Glosas” (fls. 1.435) e demonstram que foram computados nas escriturações créditos relativos à revenda de ovo comercial, lenha de eucalipto por peso, maravalha seca pinus para integrados e maravalha seca pinus p/integ enfardada. Com fulcro na legislação supratranscrita, em especial o artigo 8º da Lei nº 10.925/2004, tem-se clara a impossibilidade de créditos presumidos ora requeridos ao amparo de aquisições para revenda. Ainda em relação ao ovo comercial, constatou-se ajustes de redução informados nas abas “RESUMO BLOCO M JAN-2017”, “Ajuste Bloco M - Fev-2017” e “Ajuste Bloco M - 03-2017” dos arquivos não pagináveis denominados “ITEM 23 01 2017 Registro M110 e M510.xlsx”, ITEM 23 02 2017 Registro M110.xlsx” e “M510 ITEM 23 03 2017 Registro M110 e M510.xlsx” (fls. 639). Tais ajustes estão detalhados respectivamente nas abas “04”, “04” e “03” dos referidos arquivos não- pagináveis. Visando cotejar as operações de revenda informadas nas EFD-Contribuições com os estornos para evitar a glosa indevida, buscou-se no arquivo de notas fiscais eletrônicas emitidas pela Interessada tais operações, obtendo-se a planilha identificada na aba “4.3.1.1.1” do arquivo não-paginável denominado “Planilhas Auxiliares” (fls. 1.434). No arquivo em questão há informações detalhadas das notas fiscais eletrônicas emitidas pela empresa, em especial o número da nota Fl. 5247DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 12 que foi indicado nas abas “04”, “04” e “03” dos arquivos não pagináveis denominados “ITEM 23 01 2017 Registro M110 e M510.xlsx”, ITEM 23 02 2017 Registro M110.xlsx” e “M510 ITEM 23 03 2017 Registro M110 e M510.xlsx, que detalham as devoluções de ovos. Assim, foi possível constatar que nenhuma das notas fiscais de revenda de ovo comercial informadas nas EFD-Contribuições foi estornada, motivo pelo qual todas as aquisições para revenda cujo crédito presumido foi computado deve ser objeto das glosas a seguir sintetizadas: (...)IV.III.1.1.2 Créditos Presumidos da Lei n° 12.058/2009 e IN RFB n° 977/2009 (IN 1.911/2019)Os Auditores Fiscais da RFB informam que no trimestre fiscalizado: – a Contribuinte adquiriu carnes bovinas das posições 02.01 e 02.02 e as industrializou, sendo enquadrada no disposto no art. 34, §1º, da Lei nº 12.058, de 2009, que vedava a apuração de crédito presumido para essa situação. Também o art. 37 da Lei nº 12.058, de 2009, excluía as carnes em tela da aplicação dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004. – foram adquiridas carnes tributadas à alíquota zero, que se enquadram na Lei nº 10.925, de 2004, art. 1º, inciso XIX, alínea “a”, não sendo também possível haver créditos básicos à alíquota de 1,65% para PIS/Pasep ou de 7,6% para a Cofins. – em relação ao crédito presumido do art. 5º da IN RFB nº 977 (art. 513 da IN RFB nº 1.911, de 2019), a Contribuinte não adquiriu bovinos vivos e não exportou qualquer dos produtos listados no caput do art. 33 da Lei nº 12.058, de 2009. – em relação ao crédito presumido do art. 6º da IN RFB nº 977 (art. 520 da IN RFB nº 1.911, de 2019), os valores presentes na EFD-Contribuições relativos a créditos decorrentes da aquisição de carnes devem ser glosados porque esse crédito era vedado na situação da Contribuinte. A Interessada, quando intimada a esclarecer como se operava o controle diferenciado de estoques e de registro dos créditos – previsto no art. 14 e art. 15 da IN 977, de 2009 –, respondeu que “quanto ao controle diferenciado de estoques, não há como segregar as aquisições dos bois vivos ...”. As Autoridades Fiscais acrescentam que a Interessada também não apresentou qualquer consulta ou medida judicial que pudesse justificar seu procedimento diante de tal obrigação imposta pela legislação. Concluem que, tendo em vista a obrigação de interpretação literal da legislação, e uma vez não cumprida a obrigação acessória, o crédito presumido não é passível de apropriação. Os Autuantes transcrevem a ementa da Solução de Consulta nº 46 - Cosit, de 17/01/2017, segundo a qual, para apuração do crédito presumido do art. 34 da Lei nº 12.058, exige-se que “a pessoa jurídica que pretende apurar o crédito presumido não utilize como matéria prima em seus processos industriais qualquer dos produtos classificados nas posições 01.02, 01.04, 02.01, 02.02 e 02.04 da NCM”, o que exclui, de pronto, a pretensão da Contribuinte. Fl. 5248DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 13 4.3.1.1.3 Créditos Presumidos da Lei n° 12.350/2010 e IN RFB n° 1.157/2011 (IN RFB 1.911/2019)Em relação ao crédito presumido do art. 5º da IN RFB nº 1.157, de 2011, a Contribuinte incorreu na vedação destacada no parágrafo único do mesmo artigo (vedação mantida no Inciso I do § 2º do art. 523 da IN RFB 1.911, de 2019), qual seja: realizou operação de venda de bens da posição 01.03, 01.05, 10.05 e 2309.90, bens estes listados nos incisos I a III do caput do art. 2º. Em relação ao crédito presumido do art. 6º da IN RFB nº 1.157, de 2011 (art. 526 da IN RFB nº 1.911, de 2019), a Contribuinte incorreu na vedação destacada no parágrafo único do mesmo artigo, pois é notório que a Contribuinte está enquadrada como pessoa jurídica “que industrialize bens e produtos classificados nas posições 01.03 e 01.05 da NCM”, conforme preconizado no inciso III do caput do art. 3º e no §1º do art. 56 da Lei 12.350, de 2010. Essa constatação é confirmada inclusive pela resposta ao item nº 2 da Intimação Fiscal nº 75- 2021/EQAUD3/DRF BLU/SRRF09/RFB. As Autoridades Fiscais informam que a Interessada, quando intimada a esclarecer como se operava o controle diferenciado de estoques estabelecido como obrigação acessória pela IN RFB nº 1.157, de 2011, art. 13 (IN RFB nº 1.911, de 2019, §§ 8º e 9º do art. 501), respondeu que “quanto ao controle diferenciado de estoques, não há como segregar as aquisições previstas na IN 1.157/2011 ...”. Acrescentam que a Interessada também não apresentou qualquer consulta ou medida judicial que pudesse justificar seu procedimento diante de tal obrigação imposta pela legislação. Concluem que, tendo em vista a obrigação de interpretação literal da legislação, e uma vez não cumprida a obrigação acessória, não há crédito presumido algum no trimestre em tela, relativo à IN RFB nº 1.157/2011 (IN RFB nº 1.911/2019, artigos correspondentes). 4.3.1.2.1 Créditos Extemporâneos Presentes nos Ajustes A fiscalizada, em resposta à Intimação Fiscal nº 75-2021/EQAUD3/DRF BLU/SRRF09/RFB, item 6, forneceu uma série de arquivos (fl.637) contendo dados sobre créditos extemporâneos sobre as mais diversas alegações. Também, em resposta ao item 23 da referida Intimação Fiscal sobre os ajustes dos registros M110 e M510, apresentou o arquivo não paginável denominado “ITEM 23 03 2017 Registro M110 e M510.xlsx”, anexada na folha 639. A partir da análise das planilhas que compõem o referido arquivo não paginável, os Auditores Fiscais constataram que se trata de créditos relativos a itens que compuseram a construção de imobilizado da BRF S.A., e que passaram a integrar o ativo da empresa no período 2002 a 2016; e créditos de itens que compuseram a construção de imobilizado da incorporada “SHB Comércio e Indústria de Alimentos S.A.”, e que passaram a integrar o ativo da empresa no período 2003 a 2016. Segundo os Auditores, não é possível a apuração de créditos extemporâneos sem a retificação dos Dacon ou EFD-Contribuições correspondentes, e, se for o caso, das DCTF dos períodos em que se originaram. Esse é o “entendimento cristalino” Fl. 5249DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 14 da RFB, disposto na Solução de Consulta nº 355 – Cosit, de 13 de julho de 2017, que tem efeito vinculante no âmbito da RFB, nos termos do art. 9º da IN RFB nº 1.396, de 2013. Aduzem que “o caso tratado neste processo é mais uma demonstração da necessidade de tratamento dos créditos extemporâneos na EFD-Contribuições do período correto. Os períodos afetados pelos supostos créditos extemporâneos já foram objeto de fiscalização. Se corretamente realizada a retificação, teriam sido analisados naquela ocasião caso as alterações tivessem ocorrido antes do início da fiscalização. Se ocorridas após, as retificações não seriam admissíveis, salvo se tivessem ocorrido em atendimento a intimação fiscal, conforme definido no art. 11 da IN RFB 1.252/2012”. De toda forma, os períodos afetados já foram objeto de exame em procedimento de fiscalização e de reconhecimento de direito creditório de valores objeto de Pedido de Ressarcimento ou de Declaração de Compensação nos processos citados no Relatório Fiscal, sendo vedada a retificação da EFD-Contribuições tendente a aumentar o crédito, conforme estabelece a IN RFB nº 1.252, de 2012, art. 11, §2º, inciso III. 4.3.1.2.2 Das Demais Alterações necessárias nos ajustes de acréscimo Assim consta da Informação Fiscal: Compulsando as diversas planilhas que compõem os arquivos “ITEM 23 01 2017 Registro M110 e M510.xlsx”, “ITEM 23 02 2017 Registro M110 e M510.xlsx” e “ITEM 23 03 2017 Registro M110 e M510.xlsx”, que detalham os créditos de ajustes de acréscimo, verifica-se em diversos casos a ausência de informações relativas às chaves das notas fiscais eletrônicas ou dos conhecimentos de transporte eletrônicos. Tais informações revestem-se de extrema importância para a auditoria do crédito, na medida em que se pode “autenticar” a operação a partir do cotejo entre a informação trazida aos autos pela Interessada e a informação produzida por terceiros. Por essa razão, no item 23 da Intimação Fiscal nº 75-2021/EQAUD3/DRF BLU/SRRF09/RFB solicitou-se todos os dados necessários para esclarecer a origem de quaisquer valores informados nos registros de ajustes de crédito. Saliente-se que nos casos em que as chaves dos documentos foram informadas, foi possível confrontar a informação prestada pela Interessada com a informação gerada por terceiros, e especificamente nos casos em que não foi informada a chave da nota fiscal eletrônica ou do conhecimento de transporte eletrônico, os créditos oriundos de ajustes foram glosados, (...). Dentre os demais ajustes, tem-se aqueles descritos como serviço de armazenagem/serviços portuários/monitoramento. Em se tratando de produtos acabados não há que se cogitar em considerá-los insumos, que são contextualizados pela lei em processos produtivos ou em prestações de serviços. Ainda que se desejasse apurar eventuais créditos decorrentes de serviços de armazenagem, não há detalhamento das operações nas planilhas referenciadas Fl. 5250DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 15 que descrevem apenas “EMBARQUE:XXXXXXX|1”, sem qualquer informação quanto à chave do documento fiscal correspondente ou mesmo do serviço efetivamente prestado. Em relação ao crédito sobre produtos importados, destaca-se que nos termos do § 3º do artigo 15 da Lei nº 10.865, de 2004, é apurado mediante aplicação das alíquotas previstas no art. 8º da referida Lei, sobre o valor que serviu de base de cálculo das contribuições, na forma do art. 7º, acrescido do valor do IPI vinculado à importação, quando integrante do custo de aquisição. Quanto aos créditos referentes às aquisições de produtos da posição 0209 da NCM visando à apuração de créditos do artigo 56 da Lei nº 12.350, de 2010, observou-se no item que tratou desse crédito que a empresa incidiu em hipótese de vedação, aplicando-se a mesma fundamentação para o caso em tela. No que diz respeito aos créditos presumidos previstos no artigo 31 da Lei nº 12.865, de 2014, constata-se o cômputo amparado pela venda de margarina classificada no Código 1517.10.00 da Tipi, e após o estorno relativo às aquisições de óleo de soja resultaram os seguintes valores: (...)Verificam-se, porém, algumas inconsistências na apuração, tais como: inclusão de fretes na base de cálculo das vendas para o mercado externo, inclusão de operações com CFOP 5124 – industrialização efetuada para outra empresa, de produtos classificados no código 15179090 da NCM e valores de vendas com cupom fiscal inferiores aos apurados nas EFD-Contribuições. Ante tais inconsistências, buscou-se nas notas fiscais eletrônicas emitidas pela Interessada os valores relativos às vendas de margarina classificada no Código 1517.10.00, detalhadas nas planilhas (...). (...)A diferença entre o crédito apurado pela Interessada e o crédito apurado pelo fisco é apresentada a seguir, representando glosa parcial dos créditos apropriados a título de ajustes de acréscimo do crédito básico à alíquota de 9,25%. (...)Tem-se também créditos de aluguéis de imóveis no mês de fevereiro, cuja planilha, aba “36” do arquivo “ITEM 23 02 2017 Registro M110 e M510.xlsx” demonstra que foram computadas despesas de aluguéis de imóveis, despesas de estacionamento e taxas de condomínio. Quanto às despesas de aluguéis de imóveis, de fato há previsão legal para o crédito no inciso IV do artigo 3º da Lei nº 10.637, de 2002 e no inciso IV do artigo 3º da Lei nº 10.833, de 2003 que independe da utilização a ser empregada para o imóvel. Porém o mesmo não se pode dizer em relação às despesas de estacionamento e taxas de condomínio que não possuem previsão legal para o crédito. Ainda, no mês de fevereiro há aquisições de anti salmonela sujeitos à alíquota zero da posição NCM 3808, estabelecida pela Lei nº 10.925/2005, art. 1º, inc. II informadas na planilha “46” do arquivo não paginável denominado: “ITEM 23 02 2017 Registro M110 e M510.xlsx”. Todas as notas em tela, tem CST 6 - Operação Tributável (alíquota zero) de PIS e COFINS conforme apurou-se nas notas fiscais Fl. 5251DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 16 emitidas pelos fornecedores. Consequentemente, a Interessada não faz jus ao crédito por força do disposto no inciso II, do § 2º do artigo 3º da Lei nº 10.637, de 2002 e de forma homóloga tem-se o disposto no inciso II, do § 2º do artigo 3º da Lei nº 10.833, de 2003. (...)(...) Em razão das glosas, os ajustes foram recalculados e considerando-se que os ajustes positivos analisados neste tópico e no anterior se referem apenas a créditos básicos sujeitos às alíquotas de 7,6% e 1,65%, tem-se a consolidação a seguir: (...)4.3.1.3 Análise conforme a Natureza da Base de Cálculo do Crédito 4.3.1.3.1 Natureza da Base de Cálculo do Crédito 01 - Aquisição de bens para revenda 4.3.1.3.1.1 Aquisições com Alíquota Zero das Contribuições Sociais Não- cumulativas e Sujeitos à Incidência Monofásica – aquisições de bens sujeitos à alíquota zero e à tributação monofásica das contribuições, discriminados na aba “4.3.1.3.1.1” do arquivo não-paginável denominado “Detalhamento das Glosas”. Foram considerados insubsistentes os créditos pleiteados, ante a vedação verificada no inciso II do § 2º do 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e no inciso II do § 2º do 3º da Lei nº 10.833, de 2003, que obsta o direito ao crédito na aquisição de bens e serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições; e aquela verificada na alínea “b” do inciso I do artigo 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e na alínea “b” do inciso I do artigo 3º da Lei nº 10.833, de 2003, que impede o cômputo de créditos apurados sobre a aquisição de produtos sujeitos à incidência monofásica. – no referido arquivo há registros de aquisições da mercadoria descrita “MIUDOS CONG FGO (MOELA) BDJ 1KG SADIA”, tendo sido informado o código NCM 05040090. Porém, em se tratando de moela de frango congelada, a correta classificação está inserida na posição 02.07 da NCM, e por conta disso não está sujeita à incidência das contribuições sociais, ante previsão de tributação à alíquota zero prevista no item “b”, do inciso XIX, do artigo 1º da Lei nº 10.925, de 2004. 4.3.1.3.2 Natureza da Base de Cálculo do Crédito 02 - Aquisição de Bens Utilizados como Insumo 4.3.1.3.2.1 Aquisições com Alíquota Zero das Contribuições Sociais Não-cumulativas – aquisições de bens sujeitos à alíquota zero, listados na aba “4.3.1.3.2.1” do arquivo não-paginável denominado “Detalhamento das Glosas”, com a indicação do dispositivo legal que reduziu a zero as alíquotas das contribuições sociais (no caso de aquisição de açúcar, o bem é classificado no código 1701.99.00 da NCM, conforme notas fiscais eletrônicas emitidas pelos fornecedores, tributado à alíquota zero, a despeito de na escrituração da Contribuinte constar o código NCM 1701.13.00, não sujeito à alíquota zero). 4.3.1.3.2.2 Aquisições com Suspensão das Contribuições Sociais Não-cumulativas – aquisições de bens classificados no código 2309.90.90 da NCM, que de acordo com o inciso II do artigo 54 da Lei nº 12.350, de 2010, devem ser vendidos com suspensão das contribuições. Fl. 5252DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 17 4.3.1.3.2.3 Aquisições não Caracterizadas como Insumos – foram glosados créditos sobre as aquisições de bens que não se enquadram no conceito de insumo, conforme Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF, parágrafos 64 e 68. Com fundamento no parágrafo 95 do Parecer Normativo Cosit nº 05, de 2018, foram glosados os créditos apurados sobre os gastos com “ferramentas, instrumentos de medição (assemelhados a ferramentas), suas partes e peças; e créditos sobre as aquisições de mudas de ipê amarelo, mudas de ipê roxo, chicletes plets tutti frutti loja BRF e rações para cães, que não demandam maiores comentários. 4.3.1.3.3 Natureza da Base de Cálculo do Crédito 03 - Aquisição de serviços utilizados como insumo 4.3.1.3.3.1 Diferença Entre o Valor do Crédito Apurado nos Registros M 105/505 da EFD Contribuições e o Valor do Crédito Apurado nos Blocos A, C, D e F Em relação a janeiro e a março de 2017, houve glosa do crédito motivada pela ausência de comprovação, uma vez que foi constatada uma diferença nas bases de cálculo informadas nos Registros M 105/505 da EFD- Contribuições no valor de R$10.609,95 e R$4.853,31, respectivamente, em confronto com os valores das bases informadas nos blocos A, C, D e F. 4.3.1.3.3.2 Aquisições de Serviços não Considerados Insumos Foram glosados os créditos calculados sobre diversos serviços, listados às folhas 105/106 da Informação Fiscal, que não se enquadram no conceito de insumo à luz do Parecer Normativo Cosit nº 05, de 2018, e do artigo 172 da Instrução Normativa RFB nº 1.911, de 2019. São serviços que, segundo os Auditores Fiscais, denotam utilização em atividades comerciais, atividades administrativas ou trata-se de despesas operacionais e não operacionais dissociadas de processos produtivos ou de prestações de serviços, requisito básico para a subsunção de qualquer item ao conceito de insumo. Em especial, teceram comentários a respeito de serviços (i) de movimentação cross docking, que ocorre entre o centro de distribuição e o cliente, em ponto sem estocagem, e que “compreende basicamente o transbordo da carga (a retirada da mercadoria da carreta de centro de distribuição e transferência para os carros menores que fazem a entrega dos produtos nos clientes”; (ii) de repaletização, considerando-se que há exigência de normas sanitárias quanto à utilização de paletes, mas não quanto à troca de paletes; (iii) com despesas portuárias que além de não se referirem a despesas de armazenagem em operações de venda, cujo crédito é previsto na legislação, também não estão contextualizadas no processo produtivo, requisito fundamental para que o serviço seja considerado um insumo. Também foram glosadas as locações de uniformes, por não haver base legal que permita o creditamento, tendo em vista que o creditamento sobre aluguéis somente é permitido em relação a “aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa”, conforme inciso IV do art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Fl. 5253DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 18 Foram ainda glosadas as locações de veículos, em especial de empilhadeiras, nos termos da Solução de Consulta – Cosit nº 355, de 13 de julho de 2017, publicada no DOU de 18/07/2017. 4.3.1.3.3.3 Fretes relativos às NBC 1 e 2 Trata-se dos fretes relativos aos itens glosados ou que tiveram admitido o crédito presumido, pois, conforme parágrafo 158 e seguintes do Parecer Normativo Cosit nº 5, de 2018, o valor do frete está incluído no custo de aquisição dos bens e deve receber o tratamento que for dado ao bem transportado. Se este teve direito a creditamento, então o frete deve ser somado ao preço e terá direito a crédito na mesma alíquota do bem adquirido. Caso contrário, se o bem não for admitido, o frete também não o será. Quanto ao frete de entrada das importações oriundas do ponto alfandegado de desembaraço aduaneiro até os estabelecimentos da empresa, não há base legal para o creditamento. Por sua vez, os fretes dos bens que fazem jus ao crédito presumido deverão ter reconhecido apenas o crédito presumido; se o bem teve seu crédito glosado, o frete também deverá ser glosado. 4.3.1.3.3.4 Diferença Entre o Valor do Crédito Informado nos Registros de Origem D101/D105 e o Valor do Frete Informado pelos Transportadores Segundo os Auditores Fiscais, constatou-se que alguns CTE relativos às operações geradoras de crédito foram computados em duplicidade, conforme se depreende da análise dos valores dos serviços prestados informados na aba “4.3.1.3.3.4” da planilha que compõe o arquivo não-paginável denominado “Planilhas Auxiliares” que contém informações relativas aos CTE disponibilizadas pelo transportadores. 4.3.1.3.4 Natureza da Base de Cálculo do Crédito 07 – Armazenagem de Mercadoria e Frete na Operação de Venda 4.3.1.3.4.1 Diferença Entre o Valor do Crédito Apurado nos Registros M 105/505 da EFD Contribuições e o Valor do Crédito Apurado nos Blocos A, C, D e F Em relação a janeiro de 2017, houve glosa do crédito do PIS/Cofins motivada pela ausência de comprovação, uma vez que foi constada uma diferença de R$325.991,35 entre o valor da base de cálculo (R$87.144.678,13) vinculada à armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda informada nos Registros M 105/505 da EFD-Contribuições e o valor da base de cálculo informada nos blocos A, C, D e F (R$ 86.818.686,78). 4.3.1.3.4.2 Diferença Entre o Valor do Crédito Informado nos Registros de Origem D101/D105 e o Valor do Frete Informado pelos Transportadores Quanto aos registros de origem D101 associados à “Natureza de Base de Cálculo 07 – Armazenagem de Mercadoria e Frete na Operação de Venda” informados nas EFD-Contribuições, constatou-se que alguns CTE relativos às operações geradoras de crédito foram computados com valores superiores aos informados pelo transportadores ou mesmo foram utilizados em duplicidade, conforme se depreende da análise dos valores dos serviços prestados informados na aba “4.3.1.3.4.2” da planilha que compõe o arquivo não-paginável denominado “Planilhas Auxiliares”, que contém informações relativas aos CTE disponibilizadas pelo transportadores 4.3.1.3.5 Natureza da Base de Cálculo do Crédito 12 - Fl. 5254DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 19 Devolução de Vendas Sujeitas à Incidência Não-Cumulativa 4.3.1.3.5.1 Da Inexistência de Créditos Ressarcíveis a Título de Devolução de Vendas Segundo os Autuantes, “trata-se aqui da devolução de vendas sujeitas à incidência não cumulativa. O direito ao crédito corresponde ao valor das contribuições apuradas por ocasião da saída da mercadoria. Caso a saída tenha sido beneficiada com alíquota zero, suspensão, isenção ou não incidência, nada haverá a ser creditado. Assim, só geram direito a creditamento, de fato, as devoluções de vendas tributadas no mercado interno. Caso existam devoluções de vendas não tributadas no mercado interno ou de exportações não há direito a creditamento algum porque não houve tributação quando da venda”. Assim, foram reclassificadas para o “CST 50 - Operação com Direito a Crédito - Vinculada Exclusivamente a Receita Tributada no Mercado Interno” as devoluções de vendas sujeitas à incidência não cumulativa das contribuições, que foram informadas pela Contribuinte com o “CST 56 - Operação com Direito a Crédito - Vinculada a Receitas Tributadas e Não-tributadas no Mercado Interno, e de Exportação”. 4.4 Da Apuração dos Créditos Após Glosas Nesse item, as Autoridades Fiscais trazem demonstrativos com a consolidação dos ajustes, considerando as incorreções nos ajustes de acréscimos apontados e os valores a estornar dos créditos. 5 Apuração dos Saldos Finais dos Créditos Neste item foram apurados os saldos finais dos créditos e o resumo da sua utilização para desconto das contribuições devidas, restando o saldo devedor objeto de lançamento de ofício. 6 DAS CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS - DOS FATOS APURADOS Neste item da Informação Fiscal os Autuantes tratam da apuração de omissão de receitas decorrente de incorreção da classificação fiscal adotada pela Contribuinte em relação a alguns produtos que industrializa, cujas constatações do Fisco estão sintetizadas nos parágrafos a seguir. 6.1.1.2 Da Classificação Fiscal das Carnes Temperadas Foram totalizadas as notas fiscais eletrônicas (NFE) cujas classificações fiscais estão incorretas na EFD-Contribuições, excluindo-se o ICMS destacado das NFE dessas vendas após 15/03/2017. Os produtos foram informados com o código NCM 02, quando deveriam estar classificados no capítulo 16. Tendo em conta a NCM, alterada pela Resolução Camex n° 94, de 08/12/2011, e o texto das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias - NESH, aprovado pela IN RFB n° 807, de 2008, com as alterações da IN RFB n° 1.260, de 2012, vigentes à época dos fatos, a Fiscalização concluiu que toda a carne temperada (exceto se apenas com sal) deve ser classificada no Capítulo 16, pelo que a classificação fiscal das mercadorias listadas não é nas posições do capítulo 02 (já que temperadas com outros diversos produtos, e não só com sal). Logo, não podiam ser comercializadas com Fl. 5255DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 20 suspensão e não estavam incluídas no rol das mercadorias tributadas à alíquota zero. O entendimento dos Autuantes fundamenta-se, em especial, pela citação expressa nas Notas Explicativas do Sistema Harmonizado, no item relativo à “Distinção entre as carnes e miudezas deste Capítulo e os produtos do Capítulo 16”, que se encontra nas Considerações Gerais do Capítulo 02. São citadas, ainda, diversas Soluções de Consulta da 6ª Região Fiscal da RFB confirmando esse entendimento. Consta do Relatório Fiscal listagem com os diversos produtos que foram considerados com a classificação fiscal incorreta, acompanhados da lista de ingredientes fornecida pela Contribuinte, dentre os quais verifica-se a presença de pimenta ou antioxidante para temperados bovinos, ou realçador de sabor (glutamato monossódico), ou aromatizantes ou condimentos ou temperos diversos, como alho, cebola, salsa, proteína de soja, limão, óleo de soja, óleo de aipo, condimento embutido de carne de galinha, algumas vezes vinho, conservantes como nitrato e nitrito de sódio, corantes, estabilizantes e diversos produtos, diferentes de sal ou açúcar. 6.1.1.3 Dos Itens Identificados como KITS Relatam as Autoridades Fiscais que alguns itens da listagem relativa ao Capítulo 02 da NCM são identificados como kits, formados por itens diversos, além das carnes temperadas, como, por exemplo, bolsas térmicas e diversos outros produtos. Pontuam que, para os fins do Relatório Fiscal, o único interesse é demonstrar que os kits e as carnes temperadas que os compõem não se classificam no capítulo 02, e sim no capítulo 16, o que já foi demonstrado no subitem anterior, e que os demais itens dos kits que não se trata de carnes, por evidente, não se classificam no capítulo 02. Em relação aos kits que contém o item bolsa térmica, afirmam que a classificação fiscal segue cada uma das partes, não se constituindo num sortido para venda a retalho, porque este item tem características próprias, é reutilizável e não é uma embalagem. Desta forma, deve seguir regime próprio, cabendo classificá-la na posição 42.02, se confeccionada de plástico, que compreende, entre outros, as bolsas, sacos, sacolas e artigos semelhantes, confeccionadas de folhas de plástico. Mencionam a Solução de Consulta n° 138 -SRRF/9ª RF/Diana, de 5 de junho de 2008. 6.1.1.4 Dos Produtos informados com a Posição 19.02 da NCM Nesse item, os Autuantes trazem uma listagem de produtos (tortas salgadas) que foram informados na EFD-Contribuições como sendo classificados na posição 19.02 da NCM, que estava incluída no rol dos produtos tributados à alíquota zero. Trata-se de pães de queijo crus, fabricados com amido ou fécula de mandioca, queijo e outros ingredientes, que não se assemelham às massas da posição 19.02 da NCM, posição que se destina às “massas alimentícias, mesmo cozidas ou recheadas (de carne ou de outras substâncias) ou preparadas de outro modo, tais como espaguete, macarrão, aletria, lasanha, nhoque, ravioli e canelone; cuscuz, Fl. 5256DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 21 mesmo preparado.” As tortas salgadas, por sua vez, caracterizam-se como produtos de pastelaria, e também não se assemelham às massas da posição 19.02. Com base na Resolução CAMEX n° 94/2011, seção 1, página 20, e nas Notas Explicativas do Sistema Harmonizado, os Autuantes concluem que os referidos itens efetivamente não se classificam na posição 19.02 e seus desdobramentos, pois se trata de produtos de pastelaria/padaria, e não de massas alimentícias utilizadas em refeições principais. Portanto, deveriam ter sido tributados normalmente, já que não estão amparados por qualquer comando legal que afaste a tributação. São mencionadas, ainda, diversas Soluções de Consulta que confirmam o entendimento da Fiscalização, e reiterada a exclusão do valor do ICMS da base de cálculo das contribuições lançadas de ofício, em face da sentença proferida nos autos do Mandado de Segurança de nº 5014051-95.2014.4.04.7208. No item “6.1.2 – Da Consolidação das Incorreções de Classificação Fiscal” da Informação Fiscal consta a consolidação das incorreções das classificações fiscais, onde estão demonstradas as bases de cálculo das contribuições omitidas dos meses do trimestre em questão. 6.2 Das Receitas Financeiras e Consequente Omissão de Receita Segundo os Autuantes, foi constatado que algumas receitas financeiras que deveriam ter sido tributadas não constam como base de cálculo do PIS e da Cofins no 1º trimestre de 2017. Na apuração dos valores omitidos, consideraram como tributáveis com alíquota positiva as atualizações a que se referem as contas de provisão de juros sobre depósitos judiciais cíveis ou trabalhistas. Afirmam que somente as provisões relativas a juros sobre depósitos judiciais tributários devem ser tributadas apenas quando da solução favorável do litígio ou do levantamento antecipado com acréscimos do depósito. Os depósitos judiciais cíveis e trabalhistas, por sua vez, devem ter as variações monetárias consideradas na base de cálculo do PIS e da Cofins conforme o regime de competência, independentemente da disponibilidade financeira, de acordo com a Solução de Consulta nº 166 – Cosit, de 09 de março de 2017. 6.3 Da Multa por Apresentação de EFD-Contribuições com Informações Inexatas, Incompletas ou Omitidas Este item foi assim descrito na Informação Fiscal, in verbis: Intimada no item 23 da Intimação Fiscal nº 75-2021/EQAUD3/DRF BLU/SRRF09/RFB a esclarecer a origem de quaisquer valores informados nos registros de ajustes de crédito da EFD-Contribuições (M110 e M510), a Interessada a Interessada apresentou as planilhas denominadas: “ITEM 23 01 2017 Registro M110 M510.xlsx”, “ITEM 23 02 2017” Registro M110 e M510.xlsx” e “ITEM 23 03 2017 Registro M110 e M510.xlsx”. Fl. 5257DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 22 Da análise das referidas planilhas, verifica-se que houve o cômputo de créditos a título de ajustes de acréscimo, a seguir demonstrados com os respectivos valores, que deveriam ser informados em registros próprios dos blocos A, C, D e F. (...)Cientificada do lançamento, a Autuada apresenta IMPUGNAÇÃO, ilustrada com farta doutrina e jurisprudência administrativa e judicial, cujas razões de defesa estão sintetizadas nos parágrafos abaixo, seguindo-se a ordem dos itens por ela apresentados. III. DAS PRELIMINARES MERITÓRIAS DAS RAZÕES DE ANULAÇÃO III.1 Da Ausência de Busca da Verdade Material e da Indevida Inversão do Ônus da Prova. Em se tratando de lançamento tributário de ofício, formalizado através de Auto de Infração, o ônus da prova incumbe a quem alega o descumprimento da obrigação tributária pelo contribuinte. Mas no presente caso o próprio Autuante é quem declara que o lançamento por ele formalizado fundamenta-se na inexistência de prova da Impugnante acerca da regularidade e cumprimento de obrigações tributárias, pelo que denota, desde logo, que a motivação da autuação padecerá de vício formal intransponível. Não se está a tratar de pedidos de ressarcimento, cujos créditos a Impugnante deve fazer prova, mas de lançamento de ofício de créditos tributários, pelo que se caracteriza a nulidade por erro de motivação da presente autuação, o que desde logo se requer. III.2 Da Ofensa ao Artigo 142 do CTN e da Ausência de Fundamentação Amparada por Laudo Técnico. Não houve por parte da Fiscalização qualquer esforço em verificar a ocorrência do fato gerador e em determinar a matéria tributável, nos termos do artigo 142 do Código Tributário Nacional – CTN. Muito pelo contrário, em relação à suposta omissão de receitas, apenas desconsiderou a classificação realizada pela Impugnante com base em meras presunções, sem apresentar qualquer motivação ou laudo técnico para tanto. A Fiscalização, na execução dos seus trabalhos, não se pautou por laudo ou definições técnicas para embasar as supostas incorreções das classificações das NCM adotadas pela Impugnante, embora seja uma tarefa árdua e que exige vasto conhecimento técnico sobre a mercadoria objeto de classificação. Além disso, as classificações apontadas pelo Fisco foram contrárias à opinião de laudos técnicos apresentados no curso da fiscalização, e que sequer foram mencionados no Relatório Fiscal, tendo sido apenas informada a sua juntada às fls. 369 a 614 dos autos (fls. 1485). Considerando o pleno desconhecimento fiscal sobre a natureza dos produtos autuados, a Fiscalização incluiu dentre os produtos autuados os hamburgueres do Mc Donald’s, que consistem em produtos constituídos de um único ingrediente – Fl. 5258DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 23 carne crua bovina. Ou seja, não são produtos submetidos a qualquer tempero, como as demais carnes cruas autuadas. Os posicionamentos técnicos exarados pelo INT jamais poderiam ter sido ignorados, pois devem ser considerados em suas competências técnicas, nos termos do artigo 106 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, replicado pelo artigo 30 do Decreto n° 70.235, de 06 de março de 1972. Não fosse tal fato o suficiente, é importante ressaltar que a Fiscalização deixou de aplicar a correta metodologia para a classificação fiscal dos produtos na NCM, pois não indicou no seu Relatório Fiscal qual seria a Regra Geral de Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI) que teria amparado o seu posicionamento, tendo se limitado a indicar os textos da NESH que, supostamente, dariam guarida à desclassificação realizada. Contudo, em matéria de classificação fiscal, a NESH é uma literatura subsidiária a ser aplicada para auxiliar a aplicação das RGIs, sempre que necessário, conforme dispõe o parágrafo único do artigo 94 do Regulamento Aduaneiro. Portanto, o procedimento adotado pela Fiscalização para a lavratura do presente lançamento é nulo, ante (i) ao inequívoco desrespeito ao artigo 142 do CTN, (ii) à falta de embasamento em laudo técnico e aplicação da correta metodologia para a classificação fiscal de produtos, (iii) indevida inversão do ônus da prova, e (iv) por ferir o princípio da verdade material ao deixar de avaliar as provas apresentadas pela Requerente. Este fato leva, ainda, à necessidade de aplicação do artigo 112 do CTN, que estabelece o princípio de que, na dúvida sobre aspectos factuais da situação, a fiscalização deveria interpretar de forma favorável ao contribuinte. III.3 Da Indevida modificação do critério jurídico – Hamburguer Mc Donald´s Há algum tempo a Impugnante vem sofrendo questionamentos sobre a correção da classificação fiscal das carnes cruas temperadas, inclusive com a lavratura de Autos de Infração para cobrança de valores a título de PIS/Cofins. Todavia, para a surpresa da Impugnante, ao lavrar o presente Auto de Infração, a Fiscalização incluiu no rol de produtos que estariam sujeitos à reclassificação fiscal o “HAMBURGUER QUARTEIRÃO MC DONALDS FS” e o “HAMBURGUER BOVINO MC DONALDS”, que não são produtos adicionados de outros ingredientes diferentes das carnes cruas. Esses hamburgueres são classificados pela Impugnante no código NCM 0202.30.00 e foram analisados anteriormente pela Fiscalização, sem que a classificação fiscal tenha sido objeto de questionamentos, tanto que estes produtos não constam de nenhuma das autuações fiscais anteriormente lavradas contra a Impugnante. Naquelas autuações, ao realizarem o lançamento de ofício de valores supostamente devidos a título de PIS/Cofins sobre os produtos carnes cruas temperadas, a Fiscalização indicou expressamente que não estava incluindo os Fl. 5259DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 24 hambúrgueres constituídos apenas de carne crua bovina, por concordar com a NCM adotada pela Impugnante na comercialização de tais produtos. Esse fato demonstra, de forma cabal, que a RFB fixou um critério jurídico quanto à correção da NCM 0202.30.00 adotada para os produtos hamburgueres destinados à rede de fast food Mc Donald’s. A partir da análise do artigo 146 do Código Tributário Nacional (“CTN”), tem-se que as Autoridades Administrativas somente podem alterar os critérios jurídicos utilizados no lançamento de ofício, em relação ao mesmo sujeito passivo, quanto a fatos geradores posteriores à introdução desta modificação de critérios. Essa regra reverbera o princípio constitucional de proteção à segurança jurídica, evitando-se bruscas alterações das normas e entendimentos aplicáveis aos fatos tributários, evitando-se a frustração de legítima expectativa do particular. Resta evidenciado, assim, que o Auto de Infração em epígrafe denota uma flagrante tentativa de mudança de critério jurídico já adotado pelas Autoridades Fiscais para o produto hamburguer Mc Donald ‘s, e apenas nas hipóteses de cabimento do artigo 149 do CTN é que se poderia cogitar em alterações de lançamentos anteriores, o que, sabidamente, não é o caso dos autos. Portanto, no que se refere à cobrança de PIS/Cofins sobre os hamburgueres destinados ao Mc Donald’s, o Auto de Infração sob combate deverá ser declarado nulo. Minimamente, caso, por amor à argumentação, esta DRJ venha a ter entendimento distinto do acima exposto, é mister que se declare a improcedência da cobrança dos juros e da multa impostos contra a Impugnante, pela aplicação do parágrafo único do artigo 100 do CTN, que estabelece que a observância de normas complementares pelos contribuintes afasta a imposição de penalidades, juros de mora e atualização monetária. III.4 Da Ofensa à coisa julgada administrativa, em face da essencialidade - Regime de Recursos Repetitivos REsp 1221170/PR Por fim, ainda no que diz com as preliminares de mérito, a lavratura do Auto de Infração foi ofensivo à norma individual e concreta administrativa à qual deve subsumir-se a Fiscalização, vez que várias das glosas havidas já restaram definitivamente afastadas pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), que reconheceu, em decisão final, o direito creditório correspondente, em atenção ao critério da essencialidade, nos termos em que já assentadas as premissas em sede do Regime de Recursos Repetitivos, nos termos do REsp 1221170/PR 22. Várias já são as decisões favoráveis à Manifestante em diversos outros processos contenciosos igualmente levados à apreciação do CARF, sendo certo, contudo, para além dos fortes procedentes, que interessa ao caso aquele cujo trânsito em julgado já se concretizou, impondo-se, com isso, sua observação a todos os órgãos da administração, sob pena de prolação de decisões conflitantes para o mesmo contribuinte, o que não se concebe pelo sistema processual tributário. E este é o Fl. 5260DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 25 caso de julgamento do processo nº 10925.905142/2010-77, conforme facilmente se comprova (Anexo 01), e que já foi saneado. Importante destacar que, não obstante o despacho ora impugnado ter como objeto de análises operações realizadas pela então empresa atualmente incorporada, a natureza das operações é de idêntico conteúdo daquela prolatada em face das de outa empresa incorporada ao grupo, a SADIA S/A, o que facilmente poderá ser identificado através das análises do fluxo das operações por todas as empresas sucedidas, as quais hoje são realizadas pela Impugnante, que passou a sucedê-las contratualmente, sem contudo, alterar a natureza de suas atividades fim. IV. DA DEFESA DIRETA MERITÓRIA – RAZÕES DE CANCELAMENTO IV. 1. PREMISSAS DE DEFESA Anteriormente ao enfrentamento tópico das motivações da autuação, segundo a Impugnante impende-se, ainda que brevemente, o estabelecimento das premissas e princípios que norteiam as normas de incidência desse particular tipo de apuração, quer de natureza de estrutura, que prescrevem os arquétipos constitucionais, quer as de conduta, que prescrevem as regra- matrizes tributárias, e sua correlação com a atividade social da Impugnante. Assim, discorre sobre a apuração da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep no regime da não cumulatividade. A Impugnante tece algumas considerações sobre o conceito de insumo adotado pela legislação do PIS/Pasep e da Cofins, com especial enfoque na recente pacificação do tema pelo STJ, à luz dos critérios da essencialidade ou relevância. Assim, conclui que todas as despesas e custos necessários à consecução do objetivo social garantem o direito ao desconto dos créditos das aludidas contribuições, e tendo em vista que a base imponível do PIS e da Cofins é composta pela totalidade das receitas da pessoa jurídica, todas as despesas necessárias para a geração desta grandeza econômica devem ser consideradas para fins de aproveitamento creditício. Dada a complexidade, e para fins de otimização da impugnação, e ainda, no exercício do princípio da economia processual, a Contribuinte se reportará às informações devidamente já prestadas nos respectivos atendimentos das Intimações formuladas no decorrer de todo o Procedimento Fiscal. IV.II DAS INFRAÇÕES AUTUADAS IV.II.1 INFRAÇÕES RELACIONADAS ÀS BASES DE CÁLCULO IV.II.1.1 Omissões sobre Receitas Financeiras A Impugnante afirma que, amparados apenas numa interpretação parcial da Solução de Consulta Cosit nº 166/2017, os Autuantes exigiram créditos de PIS e Cofins incidentes sobre supostas receitas financeiras de variações monetárias ativas de depósitos judiciais de origem trabalhista e cível, sob o argumento de que tais provisões de juros deveriam ser incluídas na base de cálculo das contribuições. Contudo, alega que os juros incidentes sobre depósitos judiciais de qualquer natureza não constituem receita nova, nos termos definidos pela atual jurisprudência do Supremo Tribunal Federal – STF, não se configurando a Fl. 5261DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 26 materialidade da tributação do PIS e da Cofins. Nem todo aferimento de valores se constitui como receita tributável, à medida em que o arquétipo constitucional destas contribuições exige que “o ingresso financeiro deva se integrar no patrimônio na condição de elemento novo e positivo, ainda que temporariamente”. Os montantes de juros e a correção monetária visam apenas reconstituir o poder da moeda, de maneira que o capital não sofra decréscimo monetário pelo transcurso do tempo. Logo, não se configuram como acréscimo, pelo que não se pode cogitar de receita nova a ensejar tributação Além disso, apenas por ocasião da efetiva solução de continuidade dos processos correlatos, decididos em favor do litigante e efetivamente a ele disponibilizados, é que se cogitaria da tributação, vez que a partir de então o crédito seria líquido e certo. Em se tratando, no presente caso, de créditos ilíquidos e incertos, a Impugnante conclui que não se pode cogitar de receitas, mas tão somente de expectativa de sua realização. IV.II.1.1.A A Ausência de Materialidade por Inexistência de Receita Tributável O escólio da suposta tributação viria da regra geral de ciência contábil, que titula como receita qualquer efeito credor lançado em conta de resultado. Contudo, nem tudo o que é receita para fins contábeis é receita tributável para fins de PIS e Cofins. Embora as Leis n° 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, tenham expandido a base de cálculo do “faturamento/receita bruta” para o “total de receitas”, não expandiu a abrangência do conteúdo e alcance do que se constitui como receita tributável, entendimento ratificado pelo STF, por ocasião do julgamento do RE 606.107/RS, proferido em sede de repercussão geral, no sentido de que o conceito de renda tem matriz constitucional, não se confundindo com demais normas, notadamente de caráter contábil. Em que pese o objeto daquele julgamento vinculante ser distinto do presente caso, estabelece critérios claros e incontestáveis, não somente na conceituação da receita tributável, como também, diretamente concernente ao presente caso, no sentido de que receitas advindas de reversão de custos ou despesas possuem os exatos efeitos da correção monetária, vale dizer, são meramente recompositoras de condição monetária (e patrimonial) anterior. IV.II.1.1.B Ausência de Materialidade por Expectativa de Receita Também se configuraria a ilegalidade do lançamento em razão de se verificar a inocorrência da incidência no que diz com seu critério temporal, à medida em que a disponibilidade jurídica sobre a respectiva receita somente ocorre no momento em que se torna líquida e certa. Há duas, e somente duas, formas de reconhecimento de resultado de operações contábeis: regime de caixa e regime de competência; e nenhuma das modalidades revela a expectativa de um direito. Em ambas, a receita decorre ou de um direito efetivamente realizado (regime de caixa), ou de um direito a ser realizado (regime Fl. 5262DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 27 de competência), mas em ambos os casos a pré-constituição do direito é um requisito para reconhecimento do resultado. No caso de depósitos judiciais cujas demandas correlatas ainda se encontram em andamento, não há um direito, mas a expectativa de um direito ao qual corresponde uma expectativa de receita. Noutras palavras, inexiste a materialidade da regra-matriz de incidência, não sendo, por isso, tributável. IV.II.1.2 Omissões de Classificação Fiscal IV.II.1.2.1 Breve Resumo da Discussão – Carnes Segundo a Impugnante, a Fiscalização entende que, apenas por serem adicionadas de temperos, por meio de salmoura, as carnes cruas não podem ser classificadas do Capítulo 02 (“carnes e miudezas comestíveis), devendo ser classificadas no Capítulo 16 (“preparações de carne”), não sendo relevante a quantidade de temperos ou como eles interagem na carne. Assim, uma única gota de salmoura levaria ao desenquadramento das carnes do Capítulo 02 para enquadrá-las no Capítulo 16. Porém, a Impugnante afirma que o Capítulo 02 se aplica às carnes cruas em geral, enquanto o Capítulo 16 é apenas destinado às “preparações de carne”, no qual são classificados os produtos diversos que, após tratamentos industriais mais complexos, transformam-se em alimentos preparados para consumo. Aduz que seu posicionamento está fundamentadamente embasado (i) na natureza de seus produtos, demonstrada por meio de laudos do Instituto Nacional de Tecnologia (“INT”) e de outros institutos; (ii) nas Regras de Interpretação do Sistema Harmonizado de Designação e Codificação das Mercadorias (“RGIs/SH”); (iii) nas Notas Explicativas do Sistema Harmonizado (“NESH”); (iv) nos Pareceres da Organização Mundial das Aduanas (“OMA”); e (v) em práticas internacionais, exemplificadas por meio do posicionamento do México sobre o tema. Afirma que os posicionamentos nos laudos exarados pelo INT devem ser considerados em suas competências técnicas, nos termos do artigo 106 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, replicado pelo artigo 30 do Decreto n° 70.235, de 06 de março de 1972; e que os técnicos do INT concluíram, de modo inafastável, que a mera adição de temperos às carnes cruas, por meio da salmoura, não as transforma em outros produtos e não as torna aptas ao consumo. Considerações gerais sobre a aplicação da alíquota zero de PIS e COFINS para produtos da cesta básica A Impugnante alega que a aplicação da alíquota zero do PIS e da Cofins, ora discutida, foi concedida no âmbito do incentivo aos produtos da cesta básica, essenciais à alimentação humana, por força da Medida Provisória nº 609, de 8 de março de 2013, convertida na Lei nº 12.839, de 9 de julho de 2013, que acresceu o inciso XIX ao artigo 1º da Lei 10.925, de 23 de julho e 2004. Por essa razão, independentemente da efetiva classificação fiscal que seja dada à carne crua temperada, a norma buscou desonerar as carnes cruas do PIS e da Cofins de modo indistinto, e, como consequência direta e imediata, a inserção de Fl. 5263DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 28 temperos nas carnes não faz com que elas deixem de ser produtos de primeira necessidade que compõem a cesta básica, pois continuam consistindo em carnes destinadas à alimentação humana. Neste sentido, cita parecer sobre o tema, que corroboraria os seus argumentos. Conclui ser aplicável, portanto, a adoção da alíquota zero na comercialização das carnes ora analisadas. Classificação Fiscal de Mercadorias A classificação fiscal deve nortear-se, em primeiro lugar, pelas RGIs, RGCs e Notas Complementares constante da TEC, conforme previsto no artigo 15 e seguintes do Regulamento do IPI, aprovado pelo Decreto nº 7212/2010. Para que se realize a correta classificação fiscal dos produtos na NCM, as regras da NESH são adotadas como um balizador, sempre que houver uma lacuna a ser preenchida, porém, de forma subsidiária. Em hipótese alguma a NESH deve ser usada como primeira e principal fonte de classificação fiscal. IV.II.1.2.2 Carnes “Temperadas” Visando facilitar a diferenciação entre ambos os produtos, a Impugnante apresenta fotos de produtos que fabrica e os classifica na posição 16 da NCM; e a título exemplificativo, fotos de produtos classificados no Capítulo 02, nas posições 02.03 e 02.07 da NCM, com informações sobre os seus ingredientes antes de serem submetidos ao processo de conservação por congelamento, mas já submetidos à salmoura. Apresenta, também, as informações técnicas principais dos produtos comercializados, as quais serão adotadas como parâmetro para a classificação fiscal de todas as carnes constantes da autuação, independente de eventuais diferenças que elas possam ter de ingredientes, pois todos os produtos consistem em carnes in natura (cruas = não cozidas). Assim, está convicta de que o fato de serem adicionados temperos às carnes por ela comercializadas não as transforma em outro produto e não é fator determinante para a sua reclassificação fiscal, já que se trata de produtos cárneos, inteiros, cortados ou desossados, não cozidos, congelados e submetidos à salmoura, que não altera a natureza da carne e a mantém crua. Entende que o seu posicionamento resta esclarecido por laudos técnicos e periciais que traz em anexo, inclusive laudos técnicos atualizados sobre a natureza dos seus produtos e dos respectivos processos produtivos, obtidos pela Impugnante diante das recentes autuações fiscais sofridas. Em especial, cita relatórios do Instituto Nacional de Tecnologia (“INT”) que em 2020 elaborou minuciosa análise sobre 5 (cinco) produtos crus fabricados pela Autuada, a serem adotados pela Administração Pública nos termos de suas competências técnicas (art. 106 da Lei nº 4.502, de 1964, e art. 30 do Decreto nº 70.235, de 1972): (i) Relatório Técnico nº 286/20, referente ao Peru Temperado Congelado; Fl. 5264DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 29 (ii) Relatório Técnico nº 287/20, referente ao Chester Temperado Congelado; (iii) Relatório Técnico nº 288/20, referente ao Frango Inteiro Congelado; (iv) Relatório Técnico nº 289/20, referente às Coxinhas das Asas de Frango Temperadas Congeladas; e(v) Relatório Técnico nº 290/20, referente ao Lombo Temperado Congelado. E para realçar a distinção entre os produtos temperados crus e outros produtos efetivamente preparados/transformados pela manifestante, apresenta, ainda, o Relatório Técnico nº 291/20, referente à Mortadela de Frango. Conclui que, nos 5 (cinco) laudos técnicos sobre os produtos temperados e crus, restou inequívoco que tais produtos (i) não passaram por etapas de produção que transformaram a sua natureza e seu estado cru; (ii) não são conservados por outro método, a não ser pelo congelamento; (iii) tiveram alguns ingredientes aplicados por meio de salmoura, os quais, considerados em sua base seca, representam percentuais ínfimos do produto comercializado; e, finalmente, (v) não podem ser consumidos na forma como apresentados para comercialização. Alega que segundo o Anexo I da Instrução Normativa nº 60, de 23 de dezembro de 2019, editada pela ANVISA, que trata dos Padrões Microbiológicos de Alimentos, com exceção dos alimentos comercialmente estéreis, fica evidenciado que a ANVISA concede o mesmo tratamento às carnes cruas, temperadas ou não, refrigeradas ou congeladas, distinguindo-as dos produtos cárneos (submetidos a processos adicionais), temperados ou não. IV.II.1.2.3 Hambúrgueres Mcdonald ´s Quanto aos produtos “HAMBURGUER QUARTEIRÃO MC DONALDS FS” e “HAMBURGUER BOVINO MC DONALDS”, classificados pela Impugnante no Capítulo 02, e para os quais a Fiscalização também entende ser correta a classificação no Capítulo 16, a Impugnante afirma que são compostos 100% por carne bovina, sem adição de qualquer ingrediente adicional, sujeito apenas ao processo de moagem, modelagem, porcionamento e congelamento. A adição de eventuais outros ingredientes, caso haja, será feita pelo McDonald’s em seus estabelecimentos, seguindo a receita específica para cada um de seus sanduíches, conforme fichas técnicas dos produtos que apresenta (Anexo 11 e 12). Logo, diferentemente dos demais produtos discutidos na impugnação, que consistem em carnes cruas temperadas, os hamburgueres vendidos ao Mc Donald`s não possuem nem ao menos sal em sua composição, restando demonstrados os equívocos da classificação fiscal cometidos pela Fiscalização. Classificação fiscal de mercadorias – análise jurídica Segundo a Impugnante, a correta classificação fiscal das mercadorias na NCM depende, conjuntamente, de dois fatores, quais sejam: (i) a precisa avaliação das características técnicas dos Fl. 5265DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 30 produtos, no caso, a constatação de que se trata de carnes cruas (in natura), submetidas à salmoura e conservadas por congelamento; e, somente a partir dessa premissa fundamental, (ii) a escorreita aplicação das regras de classificação fiscal previstas na legislação. Logo, afirma que o Auto de Infração recorrido falhou ao não considerar aspecto fundamental para a compreensão técnica dos produtos que se pretende reclassificar, pois não teceu qualquer comentário sobre o tratamento de salmoura dos produtos, corte/desossa e congelamento, e não deu atenção ao fato de que a “salmoura”, corte/desossa e congelamento são processos expressamente previstos para tratamento das carnes cruas, classificadas no Capítulo 02, seja pela aplicação das RGIs, seja pela NESH. Diz que: (i) os textos do Capítulo 02 descrevem, literal e nominalmente, os produtos por ela comercializados; (ii) não há nenhuma Nota que invalide a classificação fiscal adotada para seus produtos, carnes bovinas, suínas, carnes e miudezas de aves, no Capítulo 02; e (iii) como decorrência da aplicação da RGI 1, em especial pelos textos das posições (02.03 e 02.07), dúvidas não restam quanto à correta classificação fiscal dos citados produtos nas posições onde se encontram originalmente classificados, não havendo que se cogitar da aplicação do Capítulo 16, como pretende a fiscalização. O equívoco cometido pela Fiscalização decorreu da análise descontextualizada do trecho das Considerações Gerais que dispõe que as carnes e miudezas incluem-se no Capítulo 16 “quando se apresentem cozidas de qualquer maneira (cozidas na água, grelhadas, fritas ou assadas), ou preparadas de outro modo, ou conservadas por qualquer processo não mencionado neste Capítulo”. A interpretação correta seria que, caso as carnes sejam conservadas ou preparadas por qualquer processo não mencionado no Capítulo 02, elas se enquadram no Capítulo 16. Uma vez que todos “os produtos comercializados pela Impugnante são congelados (modo de conservação), inteiros, cortados ou desossados (modos de preparo), e passam por salmoura”, não haveria que se perquirir se eles também são temperados de outra forma ou não, dado que irrelevante; e que não há uma previsão expressa no sentido de que as carnes temperadas não possam se enquadrar em referido Capítulo. Aduz que a Nesh não é capaz de infirmar a correção das NCMs adotadas pela Impugnante na comercialização de seus produtos, devendo ser mantidas as NCMs adotadas pela Impugnante, sendo legítima, portanto, a aplicação da alíquota zero de PIS/Cofins na sua comercialização. Para corroborar toda a análise realizada, a Impugnante também buscou uma assessoria em matéria de merceologia, a qual elaborou pareceres para os produtos: (i) Peru Temperado Congelado (Anexo 13); (ii) Chester Temperado Congelado (Anexo 14); (iii) Frango Inteiro Congelado (Anexo 15); (iv) Coxinhas das Asas de Frango Temperadas Congeladas (Anexo 16); e (v) Lombo Temperado Congelado (Anexo 17), todos amparados nos mencionados laudos técnicos do INT. Fl. 5266DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 31 Comentários adicionais quanto à classificação fiscal dos hambúrgueres A Impugnante repete a alegação anteriormente apresentada, de que, quanto aos hambúrgueres fornecidos ao McDonald’s, por serem constituídos de 100% de carne bovina, não há qualquer dúvida quanto à correção do Capítulo 02, destacando que a Receita Federal, inclusive, já se manifestou a respeito, por meio das Soluções de Consultas Cosit nº 98.035/2018 e nº 98.310/2019 com efeito vinculante no âmbito da RFB. Portanto, conclui que o Auto de Infração deve ser cancelado neste quesito. IV.II.1.2.4 Kits A Impugnante se insurge contra o entendimento fiscal de que as carnes não poderiam estar enquadradas no Capítulo 02 e que a bolsa térmica deveria estar classificada na posição 42.02. Defende a adequação de sua classificação alegando que esta deve ser feita com base na RGI 3, conforme evidenciado pela RGI 2 b), e que assim sendo os artigos compostos devem ser classificados segundo a matéria que lhes confira a característica essencial, posto tratar o presente caso de “produtos acondicionados para venda a retalho”. Desta feita, defende que os kits de produtos alimentícios possuem, entre outros produtos, as carnes temperadas que são o produto mais importante dos kits, dando-lhes a característica essencial. Por essa razão, conclui que a classificação no Capítulo 02 é a adequada. Ainda que assim não se entenda, e se decida pela classificação individual de cada produto constante do kit, fato é que ao menos as carnes neles constantes deveriam receber o tratamento de PIS/Cofins com base nas posições 02.03 e 02.07, ou seja, as receitas decorrentes de suas vendas não estariam sujeitas a essas contribuições, conforme fartamente demonstrado acima. Posição 19.02 A Impugnante afirma que as classificações fiscais das mercadorias por ela praticadas, no Capítulo 19, são legítimas e estão de acordo com a correta interpretação do Sistema Harmonizado. Correta Classificação das Tortas Segundo a Impugnante, classificou as tortas recheadas de carne que comercializa na posição 19.02 (“Massas alimentícias, mesmo cozidas ou recheadas (de carne ou de outras substâncias) ou preparadas de outro modo, tais como espaguete, macarrão, aletria, lasanha, nhoque, ravioli e canelone; cuscuz, mesmo preparado”). Entretanto, a Fiscalização discordou entendendo que as tortas recheadas deveriam ser classificadas na posição 19.05 do Capítulo 19, referente a “Produtos de padaria, pastelaria ou da indústria de bolachas e biscoitos, mesmo adicionados de cacau; hóstias, cápsulas vazias para medicamentos, obreias, pastas secas de farinha, amido ou fécula, em folhas, e produtos semelhantes”; ou, subsidiariamente, na posição 16.02 do Capítulo 16, referente às “Preparações de carne, de peixes ou de crustáceos, de moluscos ou de outros invertebrados aquáticos”. Fl. 5267DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 32 A Impugnante alega que a Fiscalização não se desincumbiu de sua função de comprovar o alegado, utilizando argumentos genéricos e assumidamente sem fundamento para a questão aqui tratada. Mas considerando que no texto das posições não há indicação literal dos produtos “torta recheada”, remete-se às notas do capítulo 19 e da seção IV (seguindo a RGI 1) para afirmar que “a presença de carnes na composição das tortas não invalida a classificação na NCM 19.02”. Assim, afirma que, com base na RGI 2 b), correto seria a manutenção dos produtos no Capítulo 19, “uma vez que a massa em si é a matéria mais relevante, “sendo o recheio de carne apenas um acessório que lhe é agregado”. Por existir uma dúvida razoável, para tais casos, a RGI 2 evidencia a necessidade da leitura da RGI 3; e a RGI 3 b), por sua vez, esclarece que, quando a mercadoria for composta por produtos misturados, a classificação se dará pela matéria que lhe configura a característica mais essencial. IV.II.2. Infrações Relacionadas ao Crédito IV.II.2.1 Créditos Presumidos Atividades Agro IV.II.2.1.1 Créditos Presumidos - Lei 10.925/04 Segundo a Impugnante, a Autoridade Fiscal glosou os créditos presumidos da atividade agroindustrial calculados com base na Lei nº 10.925, de 2004, tais como ovo comercial, lenha de eucalipto por peso, maravalha seca pinus para integrados e enfardada, com a justificativa de que não são insumos utilizados no processo produtivo e que parte seria para comercialização, não reconhecendo o direito de crédito da Autuada. Porém, é empresa do setor alimentício, por conta disso possui uma vasta variedade de produtos industrializados e comercializados, de origem animal e vegetal, e de acordo com o art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004, pode efetuar o aproveitamento do crédito de PIS e da Cofins. Por fim, no que tange aos créditos originários da aquisição do ovo comercial, destaca que realizou o estorno do crédito no momento da realização da venda. A forma do estorno é realizada pelo custo da aquisição, sendo que este valor é informando nos Blocos M 110 e M510. A composição do estorno já consta nos autos, nos arquivos planilháveis denominados ITEM 23 01 2017 Registro M110 e M510, ITEM 23 02 2017 Registro M110 e M510 e ITEM 23 03 2017 Registro M110 e M510, que contém o detalhamento do estorno do item ovo vendido na sheet 04. IV.II.2.1.2 Créditos Presumidos - Lei 12.058/09 Segundo a Impugnante, os créditos por ela apropriados não foram admitidos pelo Fisco porque as Autoridades Fiscais entenderem que os parágrafos únicos dos artigos 5º e 6º da Instrução Normativa RFB nº 977/2009 vedariam a tomada de créditos, uma vez que a empresa vende e industrializa produtos classificados nas posições 02.01 e 02.02 da NCM, bem como não teria exportado bens classificados nos códigos 02.01, 02.02, 0206.10.00, 0206.20, 0206.21, 0206.29, 0210.20.00, 0506.90.00, 0510.00.10 e 1502.00.1 da NCM no período. Fl. 5268DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 33 Ademais, os Autuantes também alegaram que a aquisição de bens com suspensão da incidência das contribuições vedaria a tomada dos créditos presumidos, e que não haveria controle de estoque específico para a destinação dos produtos. Quanto à tomada de crédito presumido sobre bens adquiridos com suspensão de pagamento das contribuições, a Impugnante alega que os artigos 7º e 8º da então vigente IN RFB nº 977/2009 autorizavam expressamente o creditamento. O legislador claramente se refere aos insumos adquiridos por empresa industrial, permitindo que mesmo os produtos adquiridos com tributação diferenciada, neste caso por suspensão, sejam passíveis de creditamento por seu adquirente. Quanto à alegação do Fisco de que a Autuada negociou produtos classificados nos códigos NCM 02.01, 02.02 e 15.02, a Impugnante defende que a vedação expressa no parágrafo único do artigo 6º da IN RFB nº 977/2009 diz respeito a produtos específicos, cuja industrialização resulta em produto cuja receita seja suspensa, e a BRF, neste caso, possui “enfoque do adquirente” destas mercadorias, e possui uma vasta gama de produtos adquiridos como insumos que não se encontram nas hipóteses de vedação previstas na legislação. No que tange à afirmação da Autoridade Fiscal de que a Impugnante não poderia ter se aproveitado dos créditos presumidos em decorrência da existência de alíquota zero dessas contribuições, a Impugnante declara que fez os ajustes e estornos necessários. No mais, alega que as Autoridades Fiscais também apresentaram um óbice inexistente: a falta de segregação das aquisições de gado vivo. No curso da fiscalização explicou que tal controle é “impraticável”, na medida em que partes de um mesmo animal são destinadas tanto para a exportação como para o mercado interno. Diante da impossibilidade prática de segregação de qual parte do animal é destinada a qual mercado, “compete à Autoridade fiscal fiar-se no elemento de prova mais óbvio e confiável: o percentual da receita auferido no mercado interno e aquele auferido em operações de exportação”. IV.II.2.1.3 Créditos Presumidos - Lei 12.350/10 Segundo a Impugnante, os créditos presumidos do PIS e da Cofins previstos na Lei nº 12.350/2010 e nos artigos 5º e 6º da IN RFB nº 1.157/2011, que regulamentou a referida lei, foram glosados porque a Autoridade Fiscal entendeu que tais créditos não poderiam ser aproveitados em razão das vedações contidas nos parágrafos únicos dos próprios artigos 5º e 6º. Contudo, a Autoridade Fiscal se equivocou, pois as vedações em questão alcançam apenas alguns produtos adquiridos ou industrializados pela empresa, e não toda gama de produtos. Em relação ao supracitado artigo 5º, a Impugnante afirma que tal vedação afeta tão somente as operações praticadas no mercado interno. O crédito presumido pode ser calculado sobre as aquisições vinculadas às exportações que a empresa realiza periodicamente e que não necessariamente Fl. 5269DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 34 são realizadas na mesma competência dos créditos, até porque a legislação não impõe este requisito. Com relação ao crédito presumido previsto no artigo 6º da IN RFB nº 1.157/2011, ao fazer remissão ao artigo 2º, IV, o dispositivo em questão vedaria o cálculo de crédito presumido apenas sobre operações praticadas no mercado interno decorrentes da venda de produtos classificados nos NCM 02.03, 0206.30.00, 0206.4, 02.07 e 0210.1. Mas, novamente, a Autoridade Administrativa incorre em erro, pois a Impugnante aplicou as normas retro mencionadas que determinam as hipóteses de suspensão e incidências de PIS/Cofins em relação as operações de venda. Neste contexto, a Impugnante possui condição de adquirente dessas mercadorias para industrialização, as quais resultam produtos diversos, tributados ou não pelo PIS e Cofins. Uma vez mais, cumpre informar que os ajustes de estorno devidos, apurados pela empresa, foram realizados na sua apuração de crédito e declarados em EFD- Contribuições sob forma de estornos e ajustes. No mais, reitera o inexistente óbice criado pelas Autoridades Fiscais, e já mencionado no item anterior: a segregação das aquisições dos animais. A Impugnante balizou todo o seu procedimento para tomada e controle de créditos no Parecer realizado por empresa independente especializada, cuja cópia compõe o Anexo 09. IV.II.2.2 Créditos de Aquisições para Revenda, e de Insumos com alíquota zero e suspensão Por serem tributadas à alíquota zero, foram glosados os créditos apurados sobre as aquisições de itens para revenda, discriminados na aba “4.3.1.3.1.1” do arquivo não-paginável denominado “Detalhamento das Glosas”. Também foram glosados créditos apurados sobre as aquisições de bens utilizados como insumo tributados à alíquota zero. Segundo a Impugnante, por definição legal, a tributação com alíquota zero não significa não incidência ou isenção das contribuições. Em outras palavras, os produtos foram tributados. Independentemente da destinação destas mercadorias adquiridas e tributadas à alíquota zero, sem ônus financeiro, pelo princípio da regra matriz de incidência tributária tais aquisições sofreram a incidência das contribuições e, desta forma, geram direito ao creditamento nas operações. Destarte, solicita o cancelamento das glosas, uma vez que não ocorreu averiguação do movimento de registro de saídas dos produtos mencionados, a fim de comprovar que houve tributação nas saídas, bem como também os insumos foram “tributados” na entrada, mesmo que por alíquota igual a zero. Com relação ao creditamento do insumo “açúcar”, afirma que se trata de insumo que faz parte do seu processo produtivo, compondo um produto com saída Fl. 5270DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 35 tributada pelo PIS/Cofins, restando o direito ao seu creditamento para que não gere um descompasso tributário. Em seguida, defende-se da acusação de que teria classificado o açúcar incorretamente no código NCM 1701.13.00 (açúcar de cana mencionado na Nota 2 de subposição), passível de creditamento, quando o procedimento correto seria manter o NCM informado nas notas fiscais, NCMs 1701.14.00 (outros açúcares de cana) ou 1701.99.00 (outros açúcares de cana ou de beterraba e sacarose quimicamente pura, no estado sólido), os quais impossibilitam o creditamento do PIS e da Cofins. A Impugnante alega que a reclassificação do açúcar para o NCM 1701.13.00 teve como pressuposto a característica e a especificidade do item mencionado nas notas fiscais do fornecedor, pois nelas é apresentado um código NCM genérico (1701.14.00 e 1701.99.00), tratado como “outros açúcares”, sem que haja um descritivo claro e definitivo para o açúcar refinado. Como fundamento para a glosa das aquisições relativas a MIUDOS CONG FGO (MOELA) BDJ 1KG SADIA NCM – 0504.00.90, o Auditor Fiscal apontou o inciso XIX do artigo 1° da Lei 10.925, e inciso II do §2º do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, que trata de carnes sujeitas à alíquota zero. Porém, tais aquisições de miúdos são classificadas no código 0504.00.90 da NCM, e, portanto, não se enquadram nos códigos da TIPI citados nos dispositivos mencionados pelo autuante. Em relação à glosa de crédito correspondente à aquisição do item “queijo processado”, o fornecedor realizou o destaque do valor vinculado ao PIS e à Cofins, conforme Anexo 20 com a relação de notas fiscais emitidas. Assim sendo, seguindo a regra da não cumulatividade, a Autuada realizou o aproveitamento do crédito PIS e COFINS. No que tange às aquisições de vacinas e medicamentos, tais itens são insumos essenciais e obrigatórios na fabricação dos produtos, integrando o processo produtivo da BRF. O regime de tributação monofásico gera direito ao crédito, quando os bens são utilizados como insumo do processo produtivo, conforme parecer de auditoria independente que corrobora o seu entendimento (Anexo 21). Mesmo que a operação anterior esteja enquadrada no regime monofásico, não seria coerente e nem razoável a BRF adquirir o produto para uso próprio, que não tem fins de revenda, sem poder tomar o devido crédito, já que será integrado ao custo do produto. Quanto às glosas dos créditos calculados sobre aquisição de ferramentas e instrumentos de medição, listados na aba “Não atende conc insumo” da planilha “GLOSAS 01 trimestre 2017”, a Impugnante destaca especificamente os produtos “MEDIDOR PH BOLSO 1A15” e “TESOURA AMR 8POL 5560/08MUN 25923/058TRA” e a sua aplicação. Afirma que as justificativas de glosa não devem prosperar, pois não houve uma análise minuciosa dos itens da lista de ferramentas, tendo sido negado o direito ao crédito simplesmente por uma verificação superficial e pela nomenclatura dos itens. Fl. 5271DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 36 Esses bens são utilizados em seu processo produtivo, possuem a permanente necessidade para a produção e qualidade do produto final, tornando-se essencial à atividade da empresa, não tendo o Agente fiscal observado os princípios do Recurso Especial nº 1.221.170/PR, dos quais dependem os critérios de essencialidade e relevância. IV.II.2.3 Créditos Não Permitidos de Serviços Os serviços utilizados pela Contribuinte, descritos no Relatório Fiscal às fls. 1564 a 1575 do Auto de Infração, são essenciais e relevantes para a atividade da empresa em todas as fases da produção. Como se vê, o Auto de Infração contraria o entendimento assentado em sede do regime de recursos repetitivos do STJ, na medida em que prescreve entendimento restritivo ao conceito de insumo, que se revela ilegal. Em especial, a Impugnante destaca os serviços de movimentação de cross docking, serviços portuários, serviços de vigilância, repalitização (refoma de pallets), locação de uniformes, administração de vestiários, locação de veículos e equipamentos e emissão de certificação Halal, analisados em itens específicos da impugnação. IV.II.2.3.1 Serviços Cross Docking Esse serviço é imprescindível, essencial e relevante para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pela Impugnante, e compreende o transbordo da carga de grandes caminhões para caminhões menores que fazem a entrega dos produtos, mantendo a refrigeração e a qualidade. IV.II.2.3.2 Reforma de Pallets São serviços intrinsicamente ligados ao processo produtivo da BRF, já que os pallets são destinados a suportar grandes e diárias movimentações de carga. A BRF também solicitou um relatório elaborado por auditoria independente para que fosse realizado o estudo e viabilidade, dentro das normas, do direito ao crédito (Anexo 23). IV.II.2.3.3 Locação de Uniformes Esses serviços foram glosados no Relatório Fiscal sob a alegação de que inexiste base legal para permitir o creditamento. Mais uma vez o cerne da questão é o conceito de insumos e o entendimento restritivo utilizado pela fiscalização. A Contribuinte atua no ramo alimentício, e assim os uniformes e demais materiais utilizados pelos funcionários são inequivocamente essenciais, relevantes e imprescindíveis no seu processo produtivo. É fato que a higiene e limpeza na indústria alimentícia é essencial para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pela Contribuinte. Aplicando-se o teste de subtração, é fácil identificar que a eliminação do serviço implica na impossibilidade da realização de sua atividade empresarial ou, pelo menos, causa perda de qualidade substancial que torne o serviço ou produto inútil, restando comprovada a imprescindibilidade e a essencialidade do serviço. Fl. 5272DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 37 IV.II.2.3.4 Locação de Veículos e Equipamentos Ao defender-se da glosa dos créditos apurados sobre o serviço de locação de veículos, especialmente de empilhadeiras, a Impugnante alega que os Autuantes adotaram o simples, ultrapassado e restritivo argumento de que tal serviço não atende ao conceito de insumo. IV.II.2.3.5 Administração de Vestiários Os créditos deste item foram glosados em face do entendimento restritivo utilizado pela Fiscalização quanto ao conceito de insumos. Porém, nos termos do contrato de prestação de serviços, entende-se por administração de vestiários a locação de uniformes profissionais, contratação de serviços de lavanderia, administração e limpeza de vestiários. A Contribuinte é pessoa jurídica que atua no ramo alimentício, de modo que, inequivocadamente, os uniformes e vestiários utilizados pelos funcionários são itens essenciais, relevantes e imprescindíveis no seu processo produtivo. É fato que a higiene e limpeza na indústria alimentícia é essencial para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pela Contribuinte. Por fim, também aplicando o teste de subtração, é de fácil identificação que sua eliminação implica na impossibilidade da realização de sua atividade empresarial, ou, pelo menos, causa perda de qualidade substancial que torna o serviço ou produto inútil. IV.II.2.3.6 Emissão de certificação Halal A Impugnante afirma que a certificação Halal é obrigatória para o consumo dos produtos por clientes islâmicos, estando vinculada ao processo produtivo desde o início, até o produto acabado e o seu armazenamento. Desta forma, o serviço de certificação torna-se essencial para a empresa, assegurando o cumprimento de exigências desse mercado consumidor tão importante. Para complementar a análise e necessidade desta certificação, apresenta parecer técnico elaborado por empresa de consultoria (Anexo 24). IV.II.2.3.7 Serviços Portuários De acordo com o Relatório Fiscal, a glosa do crédito de serviços portuários está vinculada ao mesmo critério adotado em relação aos certificados, ou seja, são serviços realizados após a produção. Os procedimentos de handling in e out consistem na transferência do container do caminhão para o pátio do armazém para carregamento, e de sua realocação para o veículo, respectivamente. Por tratar-se de transferência do caminhão para um armazém, esse custo está incluso no processo de armazenamento dos produtos a serem exportados, e portanto a apuração do crédito prevista no art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003. Conclui a Impugnante que são serviços essenciais e vinculados diretamente à receita tributável pelo PIS e pela Cofins, e também foram objeto de relatório elaborado por empresa de consultoria (Anexo 25). Fl. 5273DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 38 IV.II.2.3.8 Serviços de Vigilância Pelo simples e ultrapassado argumento de que, supostamente, não atenderiam ao conceito de insumo, foram glosados os serviços de vigilância, assim identificados: sistema segurança/vigilância nr12, serviço de vigilante 24 hs desarmado, vigilância ronda 24 hs armado, serviço de vigilância Ronda 12 hs armado noite, serviço vigilância portaria 24 hs, serviço de vigilância locação moto ronda, serviço de vigilante 12 hs dia armado, serviço de vigilante 12 hs noite desarmado e serviço de vigilância portaria 12 hs noite. A Impugnante possui inúmeras unidades produtivas, sendo grande parte fazendas e grandes plantas industriais. Assim, concentra grande dispêndio financeiro com a finalidade de exercer preventivamente a proteção do patrimônio e das pessoas que se encontram nos limites da localidade a ser vigiada. Deste modo, os serviços são indiretamente ligados à produção dos bens, sendo indispensáveis e infelizmente necessários para a regular condução das atividades empresariais pela recorrente. Destarte, tais despesas se tornam indispensáveis à produção e são decorrentes de serviços utilizados diretamente neste, podendo ser consideradas insumos e gerar créditos de PIS e Cofins. Para tanto, anexa os contratos celebrados com seus prestadores de serviços. IV.II.2.3.9 Serviço de Aluguel de Imóvel Administrativo Segundo a Impugnante, conforme legislação de regência, é permitido o aproveitamento dos créditos em relação a aluguéis de prédios pagos à pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa. Assim, para fins de comprovação da origem destas locações, anexa os respectivos contratos, pelo que poderá ser comprovada a adequação com o permissivo legal de creditamento (Anexo 26). IV.II.2.3.10 Serviço de Arrendamento de Área de Terras para Plantio de Floresta (eucalipto) A Impugnante afirma que as despesas com o arrendamento agrícola se equiparam às despesas com aluguéis de prédios utilizados na atividade da empresa, tal como prevê o art. 3º, inciso IV, das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, de modo que anexa cópia do contrato de arrendamento de propriedade rural para plantio de eucalipto, para fins de comprovação da origem do creditamento (Anexo 27). IV.II.2.4 Créditos Extemporâneos IV.II.2.4.1 Crédito Extemporâneo de Ativo Imobilizado Segundo a Impugnante, o creditamento extemporâneo é muito comum quando se trata de empresa de grande porte e com complexo e variado processo produtivo, pois é praticamente impossível determinar, na entrada das mercadorias, se elas serão utilizadas ou não no processo produtivo. Vários itens podem ter uma aplicação mista, ou seja, ser ou não aplicado no processo produtivo. Essa característica exige que de tempos em tempos a empresa contrate consultorias especializadas que fazem todo o levantamento, considerando não só a aplicação do material mas, e principalmente, a classificação contábil do custo. Fl. 5274DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 39 Em relação aos serviços, dúvidas ou lapsos podem fazer com que o creditamento não seja aplicado em sua entrada, fazendo com que a análise mais apurada e um maior detalhamento da sua aplicação e essencialidade seja feita, do mesmo modo, por uma consultoria especializada, surgindo daí a necessidade e o direito ao crédito extemporâneo, nos moldes adotados pela Impugnante. Desta forma, identificou “aquisições e serviços que dão direito ao crédito extemporâneo, correspondente aos períodos de 2011 a 2016”, e aproveitou tais valores, declarando-os na EFD-Contribuições do 1º trimestre de 2017. Tal procedimento, se algum prejuízo causa, é para o próprio Contribuinte e não ao Fisco, até mesmo porque o crédito extemporâneo é realizado sem qualquer atualização. Afirma que atendeu a todas as intimações, detalhando e discriminando todos os seus procedimentos de apuração, apresentando inúmeras planilhas com todos as informações solicitadas, como listagem dos produtos e notas fiscais relacionadas aos créditos extemporâneos. Destaca a forma como atendeu às intimações formuladas durante o procedimento fiscalizatório, isso porque o Auditor Fiscal solicitou que a BRF apresentasse informações sobre todos os ativos de forma discriminada por nota fiscal. Embora a Autuada tenha atendido aos pedidos, essas informações podem mais confundir do que explicar, posto que a obrigação acessória relacionada – EFD-Contribuições – não exige a abertura dos créditos sobre os itens do Ativo Imobilizado por nota fiscal. Quanto à impossibilidade de alteração do critério para apuração dos créditos de PIS e Cofins, discorda da interpretação do Auditor Fiscal de que uma vez que o contribuinte efetue os cálculos com base num dos critérios, essa opção é irretratável. Cita o parágrafo 2º do artigo 2º da Instrução Normativa SRF nº 457, de 2004; mas no entender da Impugnante essa não é a correta interpretação do dispositivo regulamentador, citando o § 2º do artigo 2º da Instrução Normativa SRF nº 457, de 2004. Assevera que o disposto no artigo 7º determinou que, uma vez que a empresa tenha optado pelo cálculo com base nos prazos menores (1/48 ou 1/24), essa opção é irretratável, e não mais poderia voltar a calcular o crédito com base nas taxas de depreciação. Mas não há na legislação qualquer vedação para que a empresa a faça de forma retroativa. A regra geral não é uma opção, razão pela qual poderá fazê-la a qualquer tempo. Aduz que a RFB já se manifestou sobre essa questão em inúmeros processos de consulta, citando decisão proferida pela Superintendência Regional da Receita Federal - SRRF/6a. Região, além de apresentar relatório elaborado por empresa especializada que corroboraria os seus argumentos (Anexo 28). Alega que o Autuante “não nega tratar-se de aproveitamento de Crédito PISCOFINS sobre novas classe de produtos.xlsx” como parte do Ativo Imobilizado da BRF”. Mas a Impugnante tomava os créditos das contribuições com base nas taxas de depreciação aplicáveis, enquanto a legislação permitia a tomada desses Fl. 5275DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 40 créditos em menor prazo. Houve, igualmente, um recálculo das apropriações com base no valor residual dos bens, o que resultou no registro extemporâneo, em março de 2017, dos créditos remanescentes sobre essa classe de produtos. A falta de pedido de esclarecimentos adicionais, contudo, fez com que o Auditor Fiscal concluísse que haveria registros cuja possibilidade de créditos estaria prescrita, o que não condiz com os fatos e os procedimentos adotados pela Impugnante, que observou, não só o período em que o registro poderia ser feito, como calculou o montante do crédito sobre a depreciação determinada pelas taxas permitidas pela legislação de regência, desprezando todos os meses que porventura já tivessem sido atingidos pelo instituto da decadência. A Impugnante entende que o deslinde em relação ao presente item somente será possível com a realização de diligências, que fatalmente concluirão pela correção dos procedimentos e cálculos efetuados pela Autuada. IV.II.2.4.2 Creditamento Extemporâneo sem retificação de DACON e EFD- Contribuições Ainda sobre o direito ao creditamento extemporâneo, a Impugnante rechaça a motivação apresentada pelas Autoridades Fiscais para não reconhecimento dos créditos, amparada na determinação de necessidade de retificação dos Dacon e EFD dos respectivos períodos de apuração, pois inexiste norma legal que imponha essa retificação para inclusão de créditos fora dos períodos de apuração a que se refiram. Afirma que, desde que a operação anterior esteja contemplada legalmente com possibilidade de crédito e seja tempestivo o registro, o direito ao crédito deve ser assegurado, independentemente de qualquer retificação de obrigações acessórias dos períodos relacionados com o crédito extemporâneo. IV.II.2.5. Créditos de Frete A Impugnante alega que, mesmo para os produtos transportados sujeitos à alíquota zero ou suspensão das contribuições, tem direito à tomada de créditos, pois não há uma vinculação entre os créditos admissíveis referentes aos fretes e aqueles que tratam dos produtos transportados. Mesmo os produtos que possuem tributação diferenciada, os fretes relativos a essas aquisições possuem incidência de PIS e Cofins e, portanto, permitem o direito ao crédito das contribuições. Conclui que os fretes contratados e os produtos transportados não guardam nenhum vínculo para fins de possibilidade de créditos, e não há qualquer menção desse fato nas leis que permeiam os tributos. A Impugnante também contesta a glosa de fretes contratados após o desembaraço aduaneiro, para transporte de bens importados até os seus estabelecimentos, alegando que são efetuados a pessoas jurídicas domiciliadas no país, e qualquer vinculação da contratação dos fretes, utilizados como insumos, com seus produtos transportados, ou ainda, vinculação com legislação específica Fl. 5276DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 41 aplicáveis aos produtos importados, resulta em grave equívoco e falha na interpretação das bases legais. IV.II.2.5.1 Diferença Registro D101/D105 e M105/505 O Fisco identificou divergências de valores sobre aquisições informados na obrigação acessória EFD- Contribuição com relação aos documentos emitidos pelas transportadoras. Consequentemente, glosou 9 (nove) registros, identificados na impugnação. A Impugnante informa que, em procedimento interno, diante da análise das obrigações, realizou nos blocos de Ajuste apuração dos meses de maio e agosto de 2017 e fevereiro de 2018 o estorno de crédito de 4 registros, que relaciona, de modo que a glosa improcede. IV.II.2.6 Demais materiais utilizados como insumos Segundo a Impugnante, o Auditor Fiscal glosou créditos de PIS e Cofins calculados sobre a aquisição de diversos bens também utilizados para fins de execução de seus objetivos sociais, tais como ferramentas e peças, discriminados em planilha indicativa (Anexo 29), desatendendo o critério da essencialidade. As justificativas de glosa para tais itens não decorrem de análise minuciosa das operações, mas por uma verificação superficial, calcada exclusivamente em nomenclatura dos itens. Não obstante, acaso exercido o princípio da busca da verdade material, a essencialidade na obtenção da receita da Impugnante seria evidenciada, decorrendo o seu consequente direito ao creditamento. Para tanto, pugna pela realização de diligência, para o fim de que sejam submetidos ao denominado “teste da subtração”, conforme quesitos formulados ao final da impugnação. IV.II.3 DAS INFRAÇÕES RELACIONADAS À EFD-CONTRIBUIÇÕES No que tange à multa regulamentar lavrada, a Impugnante afirma que no presente caso não se verificam os pressupostos da materialidade de aplicação da multa, vez que a maneira como formalizado o creditamento extemporâneo não caracterizou o tipo apto à subsunção de incidência da penalidade. Em verdade, os créditos aproveitados extemporaneamente decorreram de revisão de apurações anteriormente formalizadas, pelo que, não há sequer que se falar em equívoco de lançamento, mas sim, da própria interpretação das normas de prescrição da tributação adotada pela Impugnante. que a Autoridade Fiscal se fundamentou em equivocada interpretação do Parecer Normativo RFB nº 03/2013, pois é conclusão da própria RFB de que, quer o artigo 57 da Medida Provisória nº 2.158-35/2001, quer os artigos 11 e 12 da Lei nº 8.212/1991, possuem como materialidade somente nos casos em que o contribuinte deixar de apresentar declaração, demonstrativo ou escrituração digital. Não sendo este o caso verificado nos presentes autos, impõe-se que seja cancelado o lançamento da multa regulamentar. IV.II.3.1 Multa Isolada e Multa de Ofício. Ilegalidade de Aplicação Concomitante Em havendo lançamento de obrigações principais com as respectivas autuações Fl. 5277DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 42 de multas de ofício, haverá excesso na aplicação da norma sancionatória se também lançada a multa isolada relativa à obrigação acessória correlata, posto que sobre o mesmo fato jurídico tributário recaem, arbitrariamente, duas modalidades punitivas. Assim, a Impugnante requer o cancelamento da multa regulamentar, também em caráter subsidiário, vez que lançadas as multas de ofícios relativas ao inadimplemento de obrigação principal, configurando a duplicidade de penalidade. IV.II.4 Das Demais Considerações Deve-se considerar os saldos credores acumulados de períodos anteriores para composição da apuração do 1º trimestre de 2017, tendo em vista o julgamento a ser procedente dos processos vinculados aos trimestres de 2015 e 2016. Por fim, ressalta que não há motivos para a glosa dos créditos de devolução de venda, de modo que a base utilizada pela Impugnante está correta. Caberia a Fiscalização refazer a recomposição das classificações. V. Das Diligências Na eventualidade de serem considerados insuficientes os diversos elementos de provas colacionados, a Impugnante requer que seja determinada a realização de diligências para a comprovação de suas alegações, nos termos do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972, formulando quesitos para fins de realização de diligência. VI. Dos Pedidos Ao final, requer a anulação dos lançamentos de PIS e Cofins e da Multa Isolada, ante as vicissitudes que maculam a autuação, consubstanciadas na ausência de observância do princípio da verdade material, em especial relativamente à (i) indevida inversão do ônus da prova, (ii) ausência de laudos técnicos para desqualificação das classificações fiscais adotadas pela Impugnante, culminando com a afronta ao art. 142 do CTN, (iii) indevida modificação de critério jurídico, bem como (iv) ofensa à coisa julgada administrativa material, relativamente ao direito creditório reconhecido, em caráter de trânsito em julgado, junto ao Processo nº 10925.905142/2010-77. Em não sendo acolhidas as defesas de caráter preliminar, requer, então, o cancelamento da integralidade do lançamento. Subsidiariamente, acaso não cancelados os lançamentos em seu mérito, seja cancelada a multa isolada lançada em face das supostas irregularidade na EFC- Contribuições, quer pela inexistência de materialidade, quer pela ilegalidade de duplicidade de aplicação concomitante à multa de ofício. Por fim, em homenagem ao princípio da verdade material, requer a posterior juntada dos documentos que se fizerem necessários para a comprovação do quanto alegado. Intimado da decisão de 1º grau em 11/12/2023, apresentou recurso voluntário em 27/12/2023 o que fez com pedido para que esse processo administrativo seja julgado em conjunto Fl. 5278DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 43 com os demais PAFs de número 10983.909690/2021-34 e 10983.909689/2021-18, bem como, no mérito, que todo o auto de infração seja integralmente cancelado. É o relatório. VOTO Conselheira Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta, Relatora. O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual deve ser conhecido. Inicialmente, observa-se que a recorrente solicitou que este processo seja julgado em conjunto com os processos administrativos 10983.909690/2021-34 e 10983.909689/2021-18. Isso porque a Fiscalização, após o mencionado procedimento fiscal, lavrou autos de infração referentes à contribuição ao PIS e à Cofins (processo principal), em razão de glosas de créditos escriturados pela recorrente no 1º trimestre de 2017, bem como lançado valores da Cofins e da contribuição ao PIS em razão da omissão de receitas e aplicado multa em razão da prestação de informações inexatas na EFD-Contribuições. De fato, tratam-se, conforme já assinalado, de processos vinculados que devem ser julgados conjuntamente. Assim sendo, considerando que o julgamento realizado para este recurso voluntário referente deve ter a mesma fundamentação do acórdão para os processos de n° 10983.909690/2021-34 e 10983.909689/2021-18, aplicando-se, portanto, à matéria sob julgamento, a mesma decisão. 1. PRELIMINARES 1.1- DA AUSÊNCIA DE BUSCA DA VERDADE MATERIAL, DA INDEVIDA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA E DO CERCEAMENTO DE DEFESA POR INDEFERIMENTO DE DILIGÊNCIAS e DA AUTUAÇÃO NÃO AMPARADA POR LAUDO TÉCNICO. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO PARA A DESCLASSIFICAÇÃO FISCAL REALIZADA. Entendo que ambos os tópicos dizem respeito a temas similares, por isso, abordo no mesmo tópico. A Recorrente pede pela nulidade das glosas realizadas por falta de análise da atividade empresarial para verificação de cada item, gerando provas, em decorrência do princípio da verdade material, além de laudo pericial. Sem razão à defesa. Com relação ao ônus da prova, é importante frisar que não obstante se tratar de lançamento de ofício, é do Contribuinte o encargo de comprovar os requisitos sobre o direito Fl. 5279DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 44 invocado para manutenção dos créditos glosados, na forma prevista pelo artigo 373, I do Código de Processo Civil. Com relação às omissões de receitas, entendo que não há o enquadramento nos casos previstos nos artigos 10 e 59 do Decreto nº 70.235/72, que assim estabelecem: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I - a qualificação do autuado; II - o local, a data e a hora da lavratura; III - a descrição do fato; IV - a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V - a determinação da exigência e a intimação para cumpri-la ou impugná-la no prazo de trinta dias; VI - a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta. Por tais razões, afasto a preliminar invocada em defesa e passo à análise da controvérsia apresentada em relação ao mérito. 1.2. DA OFENSA À COISA JULGADA ADMINISTRATIVA Alega a recorrente que, em atenção ao critério da essencialidade, nos termos em que já assentadas, as premissas em sede do Regime de Recursos Repetitivos, nos termos do REsp 1221170/PR, o julgamento ofendeu a coisa julgada. Contudo, essa matéria se confunde com o próprio mérito da questão, postergo sua análise neste voto. Fl. 5280DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 45 Antes de adentrar ao mérito, ressalto que o presente caso se trata de demanda similar ao caso julgado no acordão de n° 3402-012.121, prolatado em 21 de agosto de 2024, nesta mesma turma, com diferente composição, da relatoria da Conselheira Cynthia Elena de Campos, cujo voto, na oportunidade, acompanhei integralmente. Logo, passo a adotar partes das mesmas razões de decidir neste voto, no que tange à fundamentação de mérito do recurso voluntário. 2. Mérito 2.1 Da análise dos critérios de relevância e essencialidade sobre os insumos indicados pela Contribuinte 2.1.1. Do conceito de insumo Versa o presente litígio de Autos de Infração por meio dos quais são constituídos os créditos tributários da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, não cumulativas. Igualmente foi lavrado “Auto de Infração OUTRAS MULTAS ADMINISTRADAS PELA RFB LAVRATURA”, lavrado pela “Apresentação de EFD-Contribuições com Informações Inexatas, Incompletas ou Omitidas”. A Recorrente tem como objeto social a atividade no mercado interno e externo de industrialização, comercialização varejista e atacadista, exploração de alimentos em geral, principalmente os derivados de proteína animal e produtos alimentícios que utilizem a cadeia de frio como suporte de distribuição; industrialização de rações, nutrimentos e suplementos alimentares para animais, de óleos vegetais, gorduras e laticínios; bem como, a exploração, conservação, armazenamento, ensilagem e comercialização de grãos; a prestação de serviços de alimentação em geral; a prestação de serviços de transporte, logística e distribuição de cargas e alimentos em geral, entre outros. Segundo a defesa, desenvolve suas atividades em maior escala com industrialização de produtos de origem animal, passando pela criação, abate, produção, até o transporte ao seu consumidor final (ou até o porto para a posterior exportação das mercadorias). A controvérsia posta neste litígio trata sobre a necessária análise sobre os insumos que deram origem ao direito creditório pleiteado, considerando o julgamento do Recurso Especial nº 1.221.170/PR, processado em sede de recurso representativo de controvérsia, pelo qual o Egrégio Superior Tribunal de Justiça concluiu que, para efeito de tomada de crédito das contribuições na forma do artigo 3º, inciso II das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, conforme a imprescindibilidade ou a importância de determinado item (bem ou serviço) para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. Em síntese, a partir da decisão definitiva do STJ, restou pacificado que, no regime não cumulativo das contribuições ao PIS e à COFINS, o crédito deve ser calculado sobre os custos e despesas sobre bens e serviços intrínseco à atividade econômica da empresa. Fl. 5281DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 46 A Procuradoria Geral da Fazenda Nacional publicou a Nota Explicativa SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFNMF, acatando o conceito de insumos para crédito de PIS e Cofins fixado pelo Superior Tribunal de Justiça, conforme Ementa abaixo: Documento público. Ausência de sigilo. Recurso Especial nº 1.221.170/PR Recurso representativo de controvérsia. Ilegalidade da disciplina de creditamento prevista nas IN SRF nº 247/2002 e 404/2004. Aferição do conceito de insumo à luz dos critérios de essencialidade ou relevância. Tese definida em sentido desfavorável à Fazenda Nacional. Autorização para dispensa de contestar e recorrer com fulcro no art. 19, IV, da Lei n° 10.522, de 2002, e art. 2º, V, da Portaria PGFN n° 502, de 2016. Nota Explicativa do art. 3º da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 01/2014. Transcrevo os itens 14 a 17 da SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFNMF: "14. Consoante se depreende do Acórdão publicado, os Ministros do STJ adotara uma interpretação intermediária, considerando que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância. Dessa forma, tal aferição deve se dar considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item para o desenvolvimento da atividade produtiva, consistente na produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços. 15. Deve-se, pois, levar em conta as particularidades de cada processo produtivo, na medida em que determinado bem pode fazer parte de vários processos produtivos, porém, com diferentes níveis de importância, sendo certo que o raciocínio hipotético levado a efeito por meio do “teste de subtração” serviria como um dos mecanismos aptos a revelar a imprescindibilidade e a importância para o processo produtivo. 16. Nesse diapasão, poder-se-ia caracterizar como insumo aquele item – bem ou serviço utilizado direta ou indiretamente cuja subtração implique a impossibilidade da realização da atividade empresarial ou, pelo menos, cause perda de qualidade substancial que torne o serviço ou produto inútil. 17. Observa-se que o ponto fulcral da decisão do STJ é a definição de insumos como sendo aqueles bens ou serviços que, uma vez retirados do processo produtivo, comprometem a consecução da atividade-fim da empresa, estejam eles empregados direta ou indiretamente em tal processo. É o raciocínio que decorre do mencionado “teste de subtração” a que se refere o voto do Ministro Mauro Campbell Marques." (sem destaques no texto original) Destaco, ainda, o Parecer Normativo Cosit nº 5, de17 de dezembro de 2018, proferido com a seguinte Ementa: Assunto. Apresenta as principais repercussões no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil decorrentes da definição do conceito de insumos na legislação Fl. 5282DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 47 da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins estabelecida pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Recurso Especial 1.221.170/PR. Ementa. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP. COFINS. CRÉDITOS DA NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. DEFINIÇÃO ESTABELECIDA NO RESP 1.221.170/PR. ANÁLISE E APLICAÇÕES. Conforme estabelecido pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial 1.221.170/PR, o conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para a produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços pela pessoa jurídica. Consoante a tese acordada na decisão judicial em comento: a) o “critério da essencialidade diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço”: a.1) “constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço”; a.2) “ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência”; b) já o critério da relevância “é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja”: b.1) “pelas singularidades de cada cadeia produtiva”; b.2) “por imposição legal”. Dispositivos Legais. Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, inciso II; Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, inciso II. Por tais razões, para efeitos do art. 3º, II, da Lei 10.637/2002 e art. 3º, II, da Lei 10.833/2003, o conceito de insumos passou a abranger todos os bens e serviços que possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da mesma prestação do serviço ou da produção. Ou seja, itens cuja subtração ou impeça a atividade da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes. Delimitado o alcance do conceito de insumo que deverá ser considerado em julgamento ao presente caso, passo à análise do direito creditório pleiteado pela Recorrente, o que faço adotando a premissa de que se trata de uma empresa que tem por atividade econômica a produção de alimentos para consumo humano e, portanto, que exige atenção especial às regras sanitárias específicas, sem as quais, por questões óbvias, resta impedida a efetividade de suas operações. Em razões recursais a Recorrente descreveu seu processo produtivo com relação aos insumos pleiteados. Fl. 5283DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 48 Delimitado o alcance do conceito de insumo que deverá ser considerado em julgamento ao presente caso, passo à análise do direito creditório pleiteado pela Recorrente, o que faço adotando a premissa de que se trata de uma empresa que tem por atividade econômica a produção de alimentos para consumo humano e, portanto, que exige atenção especial às regras sanitárias específicas, sem as quais, por questões óbvias, resta impedida a efetividade de suas operações. 2.1.2. Operações de movimentação, Serviços de Carga e Descarga – Cross Docking e Repaletização Após a diligência realizada pela Autoridade Fiscal da DRF, parte das glosas sobre as operações de movimentação, serviços de carga, descarga e operador logístico foi revertida. No entanto, as glosas referentes aos serviços de cross docking e repaletização foram mantidas. Em relação ao serviço de repaletização, relata a autoridade fiscal que intimada para tanto, a interessada informou: que o serviço ocorre no armazém destinatário das mercadorias e que é uma troca de paletes “com o objetivo de maximizar a ocupação das carretas frigoríficas e containers, carregando o máximo possível em cada veículo, às vezes não é utilizado o mesmo padrão de altura de pallets que os armazéns de destino utilizam ...”; que os produtos estão prontos, acabados, embalados com embalagem de apresentação e de transporte, mesmo há vários dias, e que os serviços são realizados no armazém destinatário. Menciona, ainda, que intimada a informar a “legislação que exija a utilização dos serviços”, a fiscalizada citou genericamente normas sanitárias. Conclui que, que muito embora haja exigência de normas sanitárias quanto a paletes, não há exigência legal de troca de paletes para casos como o informado pela interessada. Argumentou a defesa que o serviço de repaletização é indissociável das despesas com pallets que, por sua vez, são insumos entendidos como custos necessários para a atividade da empresa, o que lhe garante o direito aos créditos da contribuição. Argumentou, ainda, que os custos e despesas com a movimentação das mercadorias, serviços de carga e descarga e operador logístico, são inerentes ao serviço de armazenagem. Com relação ao cross docking, concluiu a Fiscalização que não há exigência legal tal movimentação, mas de manutenção do frio, o que pode ser obtido utilizando-se veículos refrigerados, pelo que conclui que a contribuinte utiliza o serviço de movimentação cross docking de forma discricionária, não sendo obrigada por lei a utilizar tal serviço. Por sua vez, sustenta a defesa que os serviços de cross docking são essenciais às atividades da Recorrente, uma vez que sua contratação é necessária para atender às obrigações sanitárias. Por industrializar produtos de origem animal destinados ao consumo humano, a Fl. 5284DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 49 Recorrente deve transportá-los e acondicioná-los em temperaturas adequadas, sob risco de sofrer sanções administrativas das autoridades de fiscalização sanitária. Explicou a defesa que o cross docking é um sistema em que os bens entram e saem de um centro de distribuição de maneira célere, de maneira a otimizar a execução das atividades da empresa, em razão da desnecessidade de armazenar os produtos no centro de distribuição, de modo a permitir uma rápida passagem das mercadorias que chegam para a expedição destas para os clientes. Para melhor compreensão. Justificou que, além de acelerar a distribuição dos produtos – o que diminui a perda por perecimento –, o cross docking permite a expansão das atividades, tendo em vista o maior número de clientes (revendedores) e consumidores que poderão ser atendidos. Por outro lado, o ilustre Julgador a quo entendeu que tais bens e serviços são utilizados fora do processo de produção do bem destinado à venda e, portanto, não podem ser considerados como insumos. Assiste razão à defesa. Reitero o r. voto da Eminente Ministra Regina Helena Costa, que considerou os seguintes conceitos de essencialidade ou relevância da despesa, que deve ser seguido por este Conselho: Essencialidade – considera-se o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço, constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço, ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência; Relevância - considerada como critério definidor de insumo, é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva (v.g., o papel da água na fabricação de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria), seja por imposição legal (v.g., equipamento de proteção individual EPI), distanciando-se, nessa medida, da acepção de pertinência, caracterizada, nos termos propostos, pelo emprego da aquisição na produção ou na execução do serviço. E, como já mencionado neste voto, reitero que os Itens 16 e 17 da NOTA SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFNMF, o qual direciona o conceito de insumos adotado pelo STJ, devendo ser observado o “teste de subtração” a que se refere o voto do Eminente Ministro Mauro Campbell Marques, sendo que a “definição de insumos como sendo aqueles bens ou serviços que, uma vez retirados do processo produtivo, comprometem a consecução da atividade-fim da empresa, estejam eles empregados direta ou indiretamente em tal processo”. Considerando os fundamentos já demonstrados neste voto com relação às despesas com fretes e, diante da singularidade da cadeia produtiva da Recorrente, demonstrada nas explicações trazidas em razões recursais, é de flagrante constatação que os itens sob análise de Fl. 5285DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 50 fato são utilizados para conservação dos produtos até a destinação para consumo humano, motivo pelo qual se enquadra nos critérios de essencialidade e essencialidade, cuja subtração resulta em perda da qualidade, além de infringir disposições legais sanitárias. Considerando a singularidade da cadeia produtiva da Recorrente, demonstrada nas explicações trazidas em razões recursais, bem como das exigências traçadas pelas normas sanitárias, é de flagrante constatação que os itens sob análise de fato são utilizados para proteção dos produtos até a destinação para consumo humano, motivo pelo qual se enquadra nos critérios de essencialidade e essencialidade, cuja subtração resulta em perda da qualidade, além de infringir disposições legais da ANVISA e MAPA. Outrossim, o reconhecimento do direito creditório sobre tais itens igualmente já foi reconhecido por este CARF através dos seguintes precedentes: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/07/2006 a 30/09/2006 CREDITAMENTO A TÍTULO DE INSUMO (ART. 3° II, DA LEI 10.637/2002). EMBALAGENS PARA TRANSPORTE DE FRUTAS IN NATURA. POSSIBILIDADE. As despesas incorridas com pallets, cantoneiras e demais produtos utilizados como embalagem de transporte são insumos, conforme o art. 3°, II, da Lei n° 10.637/2002, por serem essenciais e relevantes na atividade de produção das frutas in natura e a consequente venda no mercado interno e exportação. Os pallets, cantoneiras e demais produtos utilizados como embalagem de transporte garantem a qualidade das frutas in natura, mantendo a integridade delas, em virtude de sua fragilidade. (Acórdão nº 3301-009.760 – Relatora: Conselheira Semíramis de Oliveira Duro) ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Ano-calendário: 2008 EMBALAGENS PARA TRANSPORTE. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Os custos/despesas incorridos com embalagens para proteção do produto durante o transporte, como plástico, papelão e espumas, enquadram-se na definição de insumos dada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. Assim, embalagens utilizadas para o manuseio e transporte dos produtos acabados, por preenchidos os requisitos da essencialidade ou relevância para o processo produtivo, enseja o direito à tomada do crédito das contribuições. (Acórdão nº 3301-009.488 – Relator: Conselheiro Salvador Cândido Brandão Junior) ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 31/10/2009 a 31/12/2009 Fl. 5286DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 51 RECURSO ESPECIAL. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DE DIVERGÊNCIA PARA CADA TEMA SUSCITADO. CONHECIMENTO PARCIAL. Para que o recurso especial seja conhecido em sua totalidade, é necessário que o recorrente comprove divergência jurisprudencial, mediante a apresentação de acórdão paradigma que, enfrentando questão fática semelhante, aplique de forma diversa a legislação apontada. No caso, o recurso especial interposto pelo Contribuinte não comprova o dissenso jurisprudencial em relação a “gastos com aquisições de partes e peças de reposição, combustíveis e lubrificantes e de serviços de montagem e manutenção” e “direito à correção do valor do ressarcimento pela aplicação da Taxa Selic”. E o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional utiliza, no que se refere ao “conceito de insumos”, paradigma em sentido contrário à decisão vinculante do STJ, proferida na sistemática dos recursos repetitivos (Recurso Especial no 1.221.170/PR). ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 31/10/2009 a 31/12/2009 CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP. CONCEITO DE INSUMO. CRÉDITOS DA NÃO- CUMULATIVIDADE. OBSERVÂNCIA DOS CRITÉRIOS DE ESSENCIALIDADE OU RELEVÂNCIA. Conforme decidido pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Recurso Especial no 1.221.170/PR, integrado pelo Parecer Normativo Cosit/RFB no 5/2018, o conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não-cumulatividade deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte. CRÉDITOS. GASTOS COM PALLETS, PARA PROTEÇÃO E TRANSPORTE DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. POSSIBILIDADE. Os custos/despesas incorridos com pallets para proteção e transporte dos produtos alimentícios, quando necessários à manutenção da integridade e natureza desses produtos, enquadram-se na definição de insumos dada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp no 1.221.170/PR, em sede de recurso repetitivo, aplicado no âmbito do CARF por força do disposto no § 2o do art. 62 do Anexo II do seu Regimento Interno. CRÉDITOS. DESPESAS COM LOCAÇÃO DE VEÍCULOS DE CARGA. IMPOSSIBILIDADE. FALTA DE PREVISÃO LEGAL. Somente são admitidas para fins de tomada de crédito da Contribuição para o PIS/PASEP as despesas com aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa, não estando contempladas na legislação (inciso IV do art. 3º da Lei no 10.637/2002) aquelas Fl. 5287DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 52 com locação de veículos de carga, o que se endossa na Solução de Consulta Cosit no 1/2014. CRÉDITOS. INSUMOS. DESPESAS COM GÁS GLP CILINDRO P-20. São admitidas para fins de tomada de crédito da Contribuição para o PIS/PASEP as despesas com gás GLP-cilindro P-20, utilizado em empilhadeiras alugadas, necessárias às operações no processo produtivo. (Acórdão nº 9303-014.369 - Relator: Conselheiro Rosaldo Trevisan) No v. Acórdão nº 9303-014.369, ao analisar o enquadramento no conceito de insumos sobre aquisição de pallets destinados tanto à proteção de mercadorias/produtos quanto ao seu transporte, o ilustre Conselheiro Relator Rosaldo Trevisan esclareceu que a 3ª Turma da Câmara Superior deste CARF vem reconhecendo a possibilidade de tomada de créditos, o que fez citando o v. Acórdão nº 9303-011.407, no seguinte excerto: “...conforme razões bem delineadas no acórdão ora recorrido, integrado pelos acórdãos de embargos, há de ser mantido o reconhecimento do direito ao crédito com relação aos itens listados no parágrafo anterior: ...(b) compras de pallets: utilizados em diversas etapas do processo produtivo, para a movimentação das matérias-primas, produtos intermediários e produtos acabados, evitando o contato com o solo e diminuindo o risco de contaminação, preservando-se a integridade e qualidade dos produtos. Também são utilizados como embalagem para produtos acabados. Diante da essencialidade e relevância, também deve ser concedido o crédito”. (Acórdão nº 9303-011.407, Rel. Cons. Vanessa Marini Cecconello, unânime em relação ao tema dos pallets, sessão de 15/04/2021) (grifo nosso) Portanto, deve ser revertida a glosa sobre tais itens. 2.1.3. Da locação de uniformes, serviços de Locação de Veículos e Equipamentos, Serviços de Administração de Vestiários. Após diligência realizada em primeira instância, foram mantidas as glosas sobre instrumentos utilizados pela Recorrente em seu processo produtivo, tais como: uniformes do funcionários, administração da limpeza dos vestiários, além de empilhadeiras, guindastes e Munck, que fazem parte do processo produtivo. Entendo que, de fato, para a indústria de alimentos é necessário vestiários apropriados, bem como limpezas específicas, até para que seja mantida o cumprimento às normas de vigilância sanitária. Já no que tange ao uso de empilhadeiras, guindastes e Munck, também não visualizo como organizar o processo produtivo industrial sem o uso desses equipamentos, claramente essenciais. Sendo assim, reverto essas glosas. Fl. 5288DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 53 2.1.4. Da emissão do certificado Halal. Explica a recorrente que a emissão deste certificado é um documento fiel de garantia, emitido por uma instituição certificadora Halal, reconhecida por países islâmicos, para atestar que a empresa, processo e produtos seguem os requisitos legais e critérios determinados pela jurisprudência islâmica (Sharia). De fato, a Certificação Halal atesta que determinado produto respeitou estas regras em todas as suas etapas de produção e industrialização. Deste modo, quando um consumidor islâmico adquire um produto com a certificação Halal, saberá que ele foi produzido respeitando as regras estabelecidas por sua religião, mas isso para países islâmicos em nada sendo obrigatório para seu processo produtivo no Brasil. Em verdade, a dita certificação concede um “plus” comercial à indústria, em nada sendo necessária em seu processo produtivo. Sendo assim, mantenho essa glosa. 2.1.5. Serviços Portuários Explica a recorrente que as operações de Handling, consistem em procedimentos de handling in e out, que são transferências do container do caminhão para o pátio do armazém para carregamento e de sua realocação para o veículo, respectivamente, para que sejam evitados acidentes e para aumentar a possibilidade de que a carga chegue em segurança ao complexo portuário. De fato, para as empresas que utilizam insumos importados, os serviços portuários vinculados diretamente aos insumos importados são imprescindíveis para as atividades da Recorrente, onde ocorrerá efetivamente o processo produtivo de seu interesse. Inclusive, a subtração dos serviços de movimentação portuária privaria o processo produtivo da Recorrente do próprio insumo importado. Portanto, reverto essa glosa. 2.1.6. Serviços de vigilância A recorrente explica que foram glosados os créditos oriundos de serviços de: sistema segurança/vigilância nr12, serviço de vigilante 24 hs desarmado, vigilância ronda 24 hs armado, serviço de vigilância Ronda 12 hs armado noite, serviço vigilância portaria 24 hs, serviço de vigilância locação moto ronda, serviço de vigilante 12 hs dia armado, serviço de vigilante 12 hs noite desarmado e serviço de vigilância portaria 12 hs noite, ressaltando que os serviços são indiretamente ligados a produção dos bens, sendo indispensáveis e infelizmente necessárias para a regular condução das atividades empresariais pela Recorrente. Entendo que em um país com frágil segurança pública como o Brasil, é de extrema importância a atividade de vigilância em empresas de porte como a BRF. Contudo, em nada isso se Fl. 5289DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 54 associa ao produtivo. Com ou sem vigilância, a indústria estaria apta a funcionar e produzir seus alimentos. Portanto, mantenho a glosa. 2.1.7. Créditos extemporâneos – do ativo imobilizado e sem a retificação dos DACONS e EFD-CONTRIBUIÇÕES. As autoridades fiscais aduziram que foram encontrados valores significativos de créditos extemporâneos incluídos nos ajustes positivos de crédito na EFD-Contribuições, classificados como Ajuste Oriundo de Outras Situações e Ajuste ref. créditos extemporâneos. Quanto aos créditos extemporâneos referentes à depreciação sobre novas classes de produtos, a Fiscalização aduz que a recorrente pretende aproveitar crédito sobre a depreciação de bens que devem ser incorporados ao ativo imobilizado, como tijolo, cimento, argamassa, materiais de construção e serviço de azulejo, no entanto, assevera que não há prova de que as notas fiscais em tela não tenham sido incorporadas ao ativo imobilizado e detalha, no Relatório Fiscal, que a recorrente não evidenciou a legitimidade e liquidez do crédito extemporâneo pretendido. A recorrente repisa os argumentos apresentados na impugnação, argumenta que houve um recálculo das apropriações com base no valor residual dos bens, o que resultou no registro extemporâneo dos créditos remanescentes, e que o deslinde em relação ao presente item somente será possível com a realização de diligências, que fatalmente concluirão pela correção dos procedimentos e cálculos efetuados pela autuada. Sem razão a recorrente. Quanto à alegação da recorrente sobre os valores dos créditos erroneamente informados no Relatório Fiscal, trata-se somente de equívoco no demonstrativo à folha 51, que nenhum prejuízo trouxe à defesa, conforme já assinalado. No mais, conforme consignado pela Fiscalização no Relatório Fiscal, e confirmado pelo acórdão recorrido, a recorrente não evidenciou o suposto crédito extemporâneo em questão, com a apresentação de documentos e de informações mínimas necessárias para a análise da legitimidade e liquidez do crédito e, em se tratando de crédito, cabe à recorrente comprovar a legitimidade e liquidez, não cabendo, conforme já destacado neste voto, a conversão do julgamento em diligência para produzir prova a seu cargo. Em relação aos créditos extemporâneos referentes à depreciação sobre novas classes de produtos, merece reforma a decisão recorrida. Conforme excelente voto proferido pelo Conselheiro Pedro Souza Bispo, Acórdão 3402-011.430. “Trata-se de matéria um tanto quanto pacificada nesta Egrégia Corte no sentido de se reconhecer que, além da forma indicada pela Receita Federal, no sentido da correção de erros na apuração da contribuição, por meio da realização de retificação do DACON, com a conseqüente apuração de contribuição paga a maior, se houver, ou alteração do saldo do trimestre a ser Fl. 5290DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 55 repassado para o trimestre seguinte, existe outra possibilidade aceita, sem a necessidade de retificação desses demonstrativos, desde que a empresa comprove, por meio de documentação hábil, a existência do crédito e o não aproveitamento anterior do mesmo (entre o mês da aquisição do bem ou serviço e o mês de aproveitamento extemporâneo), assegurando-se, dessa forma, a não ocorrência do duplo aproveitamento de créditos pelo contribuinte”. Neste voto ainda são citados importantes precedentes, tais como: Processo nº 10380.733020/201158 Acórdão n° 3403002.717 4ª Câmara / 3ª Turma Ordinária Sessão de 29 de janeiro de 2014 Relator: Rosaldo Trevisan (...) Cabe destacar de início, que, por óbvio, a ausência de retificação a que se refere o fisco, é referente aos períodos anteriores, pois o que se busca é evitar o aproveitamento indevido, ou até em duplicidade. As retificações, como destaca o fisco, trazem uma série de consequências tributárias, no sentido de regularizar o aproveitamento e torna-lo inequívoco. Quanto à afirmação de que a recorrente cumpriu em demonstrar a ausência de utilização anterior dos referidos créditos, indicando genericamente todos os documentos entregues à fiscalização e/ou acostados na impugnação, não logra instaurar apresentar elementos concretos que ao menos instaurem dúvida no julgador, demandando diligência ou perícia. Aliás, a perícia solicitada ao final do recurso voluntário considera-se não formulada pela ausência dos requisitos do art. 16, IV do Decreto no 70.235/1972, na forma do § 1o do mesmo artigo. No mais, acorda-se com o julgador de piso sobre a necessidade de que reste documentado o aproveitamento dos créditos, mediante as retificações das declarações correspondentes, de modo a não dar ensejo a duplo aproveitamento, ou a irregularidades decorrentes. E, ainda que se relevasse a formalidade de retificação das declarações, não restou no presente processo demonstrada conclusivamente, como exposto, ausência de utilização anterior dos referidos créditos. Sobre a afirmação de que a autuação "funda seu entendimento tão somente em uma solução de consulta, formulada por outro contribuinte", é de se reiterar de que forma o fisco utilizou soluções de consulta na autuação (fl. 35 do Termo de Verificação Fiscal): O segundo requisito diz respeito à necessária retificação, em todos os períodos pertinentes, de todas as declarações (DACONs, DCTFs e DIPJs) cujos valores são alterados pelo recálculo e refazimento da apropriação de créditos de PIS e COFINS. Isto porque este procedimento implica também o recálculo de todos os tributos devidos em cada período de apuração, especialmente o Imposto de Renda e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. É que na sistemática da não cumulatividade, qualquer apropriação de créditos de PIS e de COFINS, resulta, necessariamente na redução, em cada período de apuração, de custos ou despesas incorridas e, por consequência, na elevação das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Há diversas soluções de consulta no âmbito da RFB, que exprimem o entendimento acima, dentre elas citaremos a Solução de Consulta no 14 SRRF/6aRF/DISIT, de 17/02/2011, a Solução de Consulta no 335 SRRF/9aRF/DISIT, de 28/11/2008, e a Solução de Consulta no 40 SRRF/9aRF/DISIT, de 13/02/2009. Assim, patente que as soluções de consulta não são (e sequer constam no campo correspondente) a fundamentação da autuação. (...)Em adição ao que a DRJ estabelece, agregamos somente a possibilidade de, na ausência das retificações, haver comprovação Fl. 5291DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 56 inequívoca do alegado por outros meios, o que não se visualiza no caso dos presentes autos. É de se reconhecer, contudo, que extremamente mais simples é a retificação das declarações. Portanto, merece reforma a r. decisão. 2.1.8. Fretes Observa-se que foram glosados itens de fretes. Os argumentos trazidos pela contribuinte são basicamente:  Fretes de aquisição de produtos glosados: traz argumentos completos acerca do fato da Autoridade Fiscal, equivocadamente ter efetuado a glosa dos créditos calculados sobre fretes contratados após o desembaraço aduaneiro para transporte de bens importados até os estabelecimentos da empresa.  Da diferença Registro D101/D105 e M105/505: argumenta que o Fisco identificou divergências de valores sobre aquisições informados na obrigação acessória EFD-Contribuição com em relação aos documentos emitidos pelas transportadoras. Diante destas diferenças apontadas, os valores dos créditos utilizados geraram impacto nos blocos M105/M505, que referem-se ao Detalhamento da Base de Cálculo do Crédito Apurado no Período – PISPasep e COFINS; e no procedimento interno, realizou análises das obrigações entregues correspondente os meses de janeiro, fevereiro e março de 2017. Diante destas análises a CIA realizou o estorno de crédito de alguns registros. No que tange aos fretes contratados após o desembaraço aduaneiro reverto a glosa, adotando o mesmo raciocínio utilizado para reverter as glosas dos serviços portuários. 2.1.9. Dos créditos sobre demais materiais utilizados como insumos Restringe-se a recorrente a alegar que nesse ponto: “Referidos insumos encontram- se discriminados em planilha indicativa, conforme Anexo 29 da Impugnação, cumprindo-se destacar, desde logo, que inobstante o presente Recurso Voluntário não descrever item específico para cada um dos insumos, dada a sua enorme quantidade, ratifica sua integral inconformidade, vez que, em todas estas glosas, foram desatendidos os critérios da essencialidade para fins do exercócio de seu contrato social. Como se pode observar, as justificativas de glosa para tais itens não decorreram de análise minusiosa das operações. Não obstante, acaso exercído o princípio da busca da verdade material, a essencialidade na obtenção da receita da Recorrente seria evidenciada, decorrendo o seu consequente direito ao creditamento.” Fl. 5292DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 57 Sem trazer qualquer explicação detalhada sobre o processo produtivo que corrobe sua tese, não há possibilidade desta Conselheira analisar os insumos à luz do critério da essencialidade e relevância, por isso mantenho a glosa. 2.2. Créditos de aquisições para revenda, e insumos alíquota zero e com suspensão. A recorrente aduz que independente da destinação das mercadorias adquiridas e tributadas a alíquota zero, pelo princípio da regra matriz de incidência tributária, tais aquisições sofreram a incidência e logo geram direito ao creditamento nas operações. Assevera que o produto queijo prato teve a saída para revenda tributada e, por isso mesmo, tem direito ao crédito referente à aquisição desse produto. Quanto à aquisição de açúcar, assinala que “é um insumo que faz parte do seu processo produtivo, e, dessa forma, considerando que, “no processo produtivo final estará compondo um produto com saída tributada pelo PIS e COFINS, resta o direito ao seu creditamento, para que não gere um descompasso tributário”. Quanto à aquisição de leite cru fornecido por pessoa física, a recorrente afirma que o argumento utilizado pela Fiscalização “está relacionado a Lei 10.925, art. 8º, §3º, inc. V e o valores glosados foram informados na planilha GLOSAS 04-trim 2015”, mas para fins de direito ao creditamento, o enquadramento correto está previsto no art. 8' da lei 10.925 de julho de 2004, relacionado ao crédito presumido. Aduz ainda a recorrente que as vacinas e os medicamentos integram o seu processo produtivo, e, dessa forma, são insumos essenciais e obrigatórios, bem como que em razão de estarem sob regime de tributação monofásico, gerariam o direito ao creditamento. Sem razão a recorrente. O § 2º do art. 3º da Lei 10.833/03 e da Lei 10.637/02 vedam expressamente a tomada de crédito referente à aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição. Assim sendo, não cabe a tomada de crédito de bens adquiridos e sujeitos à alíquota zero das contribuições em apreço. No que diz respeito à alegação no sentido de que o produto queijo prato teve a saída para revenda tributada, cumpre assinalar que a eventual revenda tributada, de forma equivocada, de produto adquirido, sujeito à alíquota zero, não permite a tomada de crédito na sua aquisição. As vacinas veterinárias, classificadas na subposição 3002.30 da NCM, estão sujeitas à incidência das contribuições à alíquota zero e, dessa forma, é vedada a apuração de créditos do regime não cumulativo calculados sobre os valores das aquisições. Com efeito, não se enquadram Fl. 5293DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 58 na Lei 10.147/2000, não sendo submetidas à tributação monofásica, e sim à alíquota zero em toda a cadeia produtiva, sendo tratadas na Lei 10.925/2004, art. 1º, inciso VII. Quanto aos demais produtos, cujos créditos foram glosados porque, segundo a Fiscalização, sujeitos à alíquota zero, constatamos que as glosas estão corretas, conforme disposto no Relatório Fiscal e discriminado na planilha denominada “GLOSAS 01-trim 2016”, aba “Alíq Zero”, juntada à fl. 1446. Com efeito, a Fiscalização glosou créditos de produtos químicos sujeitos à alíquota zero, classificados no capítulo 29 da NCM, relacionados no Anexo I do Decreto 6.426/2008, com base no art. 1º, inciso I, do aludido decreto, bem como de produtos sujeitos à alíquota zero por força do disposto no art. 2º da Lei 10.147/2000. Quanto à aquisição de leite cru de pessoa física, correta a fundamentação e o procedimento levado a efeito pelas autoridades fiscais, conforme consignado no Relatório Fiscal: Ainda, em relação ao leite cru adquirido de pessoa física, a contribuinte apurou créditos de 0,99% de PIS e 4,56% de Cofins. Ocorre que neste trimestre entraram em vigor as alterações introduzidas pela Lei nº 13.137, de 19/06/2015, na Lei nº 10.925/2004 (alterações transcritas abaixo), excepcionando o leite in natura do inciso I do § 3º e criando o inciso V do mesmo parágrafo para tratar o caso. Informa-se que a BRF SA não era habilitada no programa instituído pelo art. 9º -A da mesma lei, fazendo jus apenas a 20% da alíquota do caput art. 2º das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, sendo glosada a diferença. Por tais razões, mantenho o lançamento de ofício neste ponto. 2.3. Do Crédito Presumido Com relação ao crédito presumido, a Autoridade Fiscal informa que todos os valores creditados relativos aos bens tratados na Lei 12.058/2009 e IN RFB 977/2009 devem ser estornados porque ou havia suspensão na sua aquisição (obrigatória), conforme art. 4º da citada instrução normativa, acima transcrito, e todas as condições para a suspensão estavam presentes, ou tratava-se de bem sujeito a alíquota zero por força das alterações introduzidas na Lei nº 10.925/2004 pela MP 609/2013 ou pela Lei 12.839/2013. Por outro lado, o crédito presumido não era permitido porque a contribuinte estava enquadrada nas vedações à apropriação ao crédito previstas no art. 34, §1º, da Lei nº 12.058/2009, artigo 5º e 6º da IN RFB nº 977/2009, art. 5º e 6º da IN RFB nº 1.157/2011. De acordo com os arts. 34, § 1º, da Lei nº 12.058/2009, e 56, § 1º, da Lei nº 12.350/2010, é vedada a apuração de crédito presumido nas aquisições realizadas por pessoas jurídicas que revendam ou industrializem animais vivos das espécies bovina, suína e aves, classificados nas posições específicas da NCM. Essa vedação é justificada pelo fato de que tanto as receitas provenientes da revenda quanto da industrialização desses animais estão sujeitas ao regime de suspensão das contribuições, conforme disposto nos arts. 32, incisos I e II, da Lei nº 12.058/2009, e 54, incisos III e IV, da Lei nº 12.350/2010. Fl. 5294DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 59 Assim, aplica-se a regra do art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, que impede o crédito sobre bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição. A Recorrente sustenta que seria possível apurar o crédito presumido sobre aquisições com suspensão das contribuições, desde que as saídas não estejam beneficiadas pelo mesmo regime. Contudo, esse argumento não procede, uma vez que o motivo das glosas não está relacionado à forma de apuração ou ao tratamento das saídas, mas sim à ocorrência de hipótese legal de vedação ao crédito, claramente estabelecida nos dispositivos citados. Portanto, a decisão da DRJ foi correta ao concluir que não há direito à apuração do crédito presumido, devendo-se manter as glosas efetuadas. 2.4 Das Omissões de Receitas decorrentes de depósitos judiciais O pleito do contribuinte deve ser provido, reformando-se a r. decisão recorrida, uma vez que estes valores, enquanto não disponíveis em benefício do recorrente, não integram o seu respectivo patrimônio. Com efeito, esta Egrégia Corte assim já se manifestou em inúmeros julgados, a saber: ACÓRDÃO: 3401003.072– VARIAÇÃO MONETÁRIA DE DEPÓSITOS JUDICIAIS. INCIDÊNCIA. O PIS e a COFINS não incidem sobre as variações monetárias de depósitos judiciais que não foram liberados pela autoridade do Poder Judiciário em favor da contribuinte, pois elas ainda não podem ser consideradas receitas auferidas para integrar de pleno direito o patrimônio do depositante e possa delas dispor como lhe aprouver. Isto posto, dou provimento neste ponto a fim de afastar a acusação de omissão de receitas sobre a variação monetária dos depósitos judiciais. 2.5. Da Classificação Fiscal 2.5.1. Carne in natura Considerou o ilustre Auditor Fiscal que as carnes devem ser classificadas no capítulo 16 do Sistema Harmonizado, com enquadramento na posição da NCM 16.02. A autuação foi justificada pela conclusão de que “a correta classificação fiscal das mercadorias segundo a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), constante na Tarifa Externa Comum (TEC), aprovada pela Resolução Camex nº 94, de 08 de dezembro de 2011, não depende apenas da mercadoria ser ou não “in natura”, sendo necessário levar-se em conta todas as regras de classificação previstas na legislação”. Por sua vez, a Recorrente defende que a classificação fiscal dos produtos “carnes” se enquadra no Capítulo 2, sujeitas à alíquota zero, uma vez que são temperados com sal, condimentos e especiarias para conservação, sem adição de substâncias que alterariam a sua natureza química, mantendo seu estado “in natura". Fl. 5295DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 60 Reclama a defesa que não foi apresentado pela Fiscalização qualquer embasamento técnico para a reclassificação fiscal, bem como não foi indicada a Regra Geral de Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI/SH) adotada na reclassificação, além de não ter sido considerados fundamentos jurídicos relacionados ao tratamento diferenciado conferido aos produtos cárneos. Observo que a Requerente apresentou com o Recurso Voluntário um Laudo Técnico sobre as operações relativas às Linhas de Produção de sua atividade, especificando o ciclo de produção sobre os frangos, industrializados, bem como com relação ao leite e derivados, margarinas, perus, pratos prontos, rações, sobremesas, suínos, tortas salgadas, e normas sanitárias e demais exigências do Serviço de Inspeção Federal. Cumpre destacar que a classificação fiscal de mercadorias fundamenta-se nas Regras Gerais para a Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI) da Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, nas Regras Gerais Complementares da Nomenclatura Comum do Mercosul (RGC/NCM), na Regra Geral Complementar da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados (RGC/TIPI), nos pareceres de classificação do Comitê do Sistema Harmonizado da Organização Mundial das Aduanas (OMA), nos ditames do Mercado Comum do Sul (Mercosul) e, subsidiariamente, nas Notas Explicativas do Sistema Harmonizado (Nesh)1. Por sua vez, as Notas Explicativas do Sistema Harmonizado (NESH) representam a interpretação oficial do SH oriunda da Organização Mundial das Alfândegas. Pelo § único do art. 1º do Decreto nº 435/1992, “constituem elemento subsidiário de caráter fundamental para a correta interpretação do conteúdo das posições e subposições, bem como das Notas de Seção, Capítulo, posições e subposições da Nomenclatura do Sistema Harmonizado, anexas à Convenção Internacional de mesmo nome”. De acordo com as Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, da Organização Mundial das Aduanas, a RGI 1 deve ser analisada nos seguintes moldes: REGRA 1 Os títulos das Seções, Capítulos e Subcapítulos têm apenas valor indicativo. Para os efeitos legais, a classificação é determinada pelos textos das posições e das Notas de Seção e de Capítulo e, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas, pelas Regras seguintes: NOTA EXPLICATIVA I) A Nomenclatura apresenta, sob uma forma sistemática, as mercadorias que são objeto de comércio internacional. Essas mercadorias são agrupadas em Seções, Capítulos e Subcapítulos que receberam títulos os mais concisos possíveis, indicando a categoria ou o tipo dos produtos que se encontram ali classificados. Em muitos casos, porém, foi materialmente impossível, em virtude da diversidade 1 Art. 2º - In RFB nº 2057/2021 Fl. 5296DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 61 e da quantidade de mercadorias, englobá-las ou enumerá-las completamente nos títulos daqueles agrupamentos. II) A Regra 1 começa, portanto, por determinar que os títulos “têm apenas valor indicativo”. Desse fato não resulta nenhuma conseqüência jurídica quanto à classificação. III) A segunda parte da Regra prevê que se determina a classificação: a) de acordo com os textos das posições e das Notas de Seção ou de Capítulo, e b) quando for o caso, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas, de acordo com as disposições das Regras 2, 3, 4 e 5. IV) A disposição III) a) é suficientemente clara, e numerosas mercadorias podem classificar-se na Nomenclatura sem que seja necessário recorrer às outras Regras Gerais Interpretativas (por exemplo, os cavalos vivos (posição 01.01), as preparações e artigos farmacêuticos especificados pela Nota 4 do Capítulo 30 (posição 30.06)). V) Na disposição III) b) a frase “desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas”, destina-se a precisar, sem deixar dúvidas, que os dizeres das posições e das Notas de Seção ou de Capítulo prevalecem, para a determinação da classificação, sobre qualquer outra consideração. Por exemplo, no Capítulo 31, as Notas estabelecem que certas posições só englobam determinadas mercadorias. Conseqüentemente, o alcance dessas posições não pode ser ampliado para englobar mercadorias que, de outra forma, aí se incluiriam por aplicação da Regra 2 b). (sem destaques no texto original) Como já mencionado, o ilustre Auditor Fiscal entendeu que as carnes devem ser classificadas no capítulo 16 do Sistema Harmonizado, com enquadramento na posição da NCM 16.02. Ocorre que o Capítulo 16 pertence à Seção IV, que trata de PRODUTOS DAS INDÚSTRIAS ALIMENTARES; BEBIDAS, LÍQUIDOS ALCOÓLICOS E VINAGRES; TABACO E SEUS SUCEDÂNEOS MANUFATURADOS. As Considerações Gerais do Capítulo 16 estão descritas da seguinte forma: O presente Capítulo compreende as preparações comestíveis de carne, miudezas (por exemplo: pés, peles, corações, línguas, fígados, tripas, estômagos) ou de sangue, bem como as de peixes (incluídas as peles), crustáceos, moluscos ou outros invertebrados aquáticos. O Capítulo 16 abrange os produtos desta espécie que tenham sido submetidos a uma elaboração de natureza diferente daquelas previstas nos Capítulos 2, 3 ou na posição 05.04 e que se apresentem: 1) Transformados em enchidos de qualquer espécie. 2) Cozidos por quaisquer processos: a água ou ao vapor, grelhados, fritos ou assados, com exceção, porém, dos peixes defumados, que podem ter sido cozidos Fl. 5297DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 62 antes ou durante a defumação (posição 03.05), dos crustáceos simplesmente cozidos em água ou vapor, mas que conservem ainda a casca (posição 03.06) e das farinhas, pós e pellets, obtidos a partir de peixes, crustáceos, moluscos ou de outros invertebrados aquáticos, cozidos (posições 03.05, 03.06 e 03.07, respectivamente). 3) Preparados ou conservados, na forma de extratos, sucos ou em vinha- d'alhos, preparados a partir de ovos de peixe tais como o caviar e seus sucedâneos, simplesmente revestidos de pasta ou de pão ralado (panados), trufados, temperados (por exemplo, com sal e pimenta), etc. 4) Finamente homogeneizados, apenas com produtos do presente Capítulo (carne, miudezas, sangue, peixe ou crustáceos, moluscos ou outros invertebrados aquáticos, preparados ou conservados). Estas preparações homogeneizadas podem conter uma pequena quantidade de fragmentos visíveis de carne, peixe etc., bem como uma pequena quantidade de ingredientes para tempero, conservação ou outros fins. A homogeneização propriamente dita não é suficiente para tornar um produto uma preparação do Capítulo 16. (sem destaques no texto original) A posição 16.02 está definida com o seguinte texto: “Outras preparações e conservas de carne, miudezas ou de sangue”, ou seja, produtos que se enquadram em preparações alimentícias, do tipo “refeições prontas”, o que não representa o estado “in natura”, refrigerada ou congelada. Por sua vez, a Recorrente defende que a classificação fiscal dos produtos “carnes” enquadram-se no Capítulo 2, sujeitas à alíquota zero, uma vez que são temperadas com sal, condimentos e especiarias para conservação, sem adição de substâncias que alterariam a sua natureza química, mantendo seu estado “in natura". A classificação fiscal adotada pela Recorrente compreende as posições da NCM nº 0202.3000, 0203.2900, 0207.1200, 0207.1400, 0207.2500 e 0207.2700, com os seguintes desdobramentos: NCM DESCRIÇÃO 0202-30-00 Seção I - Animais vivos e produtos do reino animal Capítulo 02 - Carnes e miudezas, comestíveis Posição 0202 - Carnes de animais da espécie bovina, congeladas 2 Subposição 0202.30.00 - Desossadas 2 Posição 0202 - Compreende as carnes congeladas dos animais da espécie bovina, domésticos ou selvagens, incluídos na posição 01.02. Fl. 5298DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 63 0203-29-00 Seção I - Animais vivos e produtos do reino animal Capítulo 02 - Carnes e miudezas, comestíveis Posição 0203 - Carnes de animais da espécie suína, frescas, refrigeradas ou congeladas. Subposição 0203.29.00 – Congeladas; Outras. 0207.1200 Seção I - Animais vivos e produtos do reino animal Capítulo 02 - Carnes e miudezas, comestíveis Posição 0207 - Carnes e miudezas, comestíveis, frescas, refrigeradas ou congeladas, das aves da posição 01.05. Subposição 0207.1200 - Não cortadas em pedaços, congeladas. 0207.1400 Seção I - Animais vivos e produtos do reino animal Capítulo 02 - Carnes e miudezas, comestíveis Posição 0207 - Carnes e miudezas, comestíveis, frescas, refrigeradas ou congeladas, das aves da posição 01.05. Subposição 0207.1400 - Pedaços e miudezas, congelados. 0207.2500 Seção I - Animais vivos e produtos do reino animal Capítulo 02 - Carnes e miudezas, comestíveis Posição 0207 - Carnes e miudezas, comestíveis, frescas, refrigeradas ou congeladas, das aves da posição 01.05. Subposição 0207.2500 - Não cortadas em pedaços, congeladas 0207.2700 Seção I - Animais vivos e produtos do reino animal Capítulo 02 - Carnes e miudezas, comestíveis Posição 0207 - Carnes e miudezas, comestíveis, frescas, refrigeradas ou congeladas, das aves da posição 01.05. Subposição 0207.2700 - Pedaços e miudezas, congelados. Fl. 5299DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 64 Constam nas Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias – NESH, aprovado pela IN RFB nº 807/2008, com as alterações da IN RFB nº 1.260/2012, vigente à época dos fatos, os seguintes esclarecimentos: Capítulo 2 Carnes e miudezas, comestíveis Nota. 1.- O presente Capítulo não compreende: a) no que diz respeito às posições 02.01 a 02.08 e 02.10, os produtos impróprios para a alimentação humana; b) as tripas, bexigas e estômagos, de animais (posição 05.04), nem o sangue animal (posições 05.11 ou 30.02); c) as gorduras animais, exceto os produtos da posição 02.09 (Capítulo 15). CONSIDERAÇÕES GERAIS O presente Capítulo compreende as carnes em carcaças (isto é, o corpo do animal com ou sem cabeça), em meias-carcaças (uma carcaça cortada em duas no sentido do comprimento), em quartos, em peças, etc., as miudezas e as farinhas e pós de carne ou de miudezas de quaisquer animais (exceto peixes, crustáceos, moluscos e outros invertebrados aquáticos do Capítulo 3), próprios para a alimentação humana. A carne e as miudezas, impróprias para a alimentação humana, estão excluídas (posição 05.11). As farinhas, pós e pellets, de carne ou de miudezas, impróprios para a alimentação humana, estão igualmente excluídos (posição 23.01). (...) Distinção entre as carnes e miudezas deste Capítulo e os produtos do Capítulo 16. Apenas se compreendem neste Capítulo as carnes e miudezas que se apresentem nas seguintes formas, mesmo que tenham sido submetidas a um ligeiro tratamento térmico pela água quente ou pelo vapor (por exemplo, escaldadas ou descoradas), mas não cozidas: 1) Frescas (isto é, no estado natural), mesmo salpicadas de sal com o fim de lhes assegurar a conservação durante o transporte. 2) Refrigeradas, isto é, resfriadas geralmente até cerca de 0°C, sem atingir o congelamento. 3) Congeladas, isto é, refrigeradas abaixo do seu ponto de congelamento, até o congelamento completo. 4) Salgadas ou em salmoura, ou ainda secas ou defumadas. Fl. 5300DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 65 As carnes e miudezas levemente polvilhadas com açúcar ou salpicadas com água açucarada incluem-se também neste Capítulo. As carnes e miudezas apresentadas sob as formas descritas nos números 1) a 4) acima incluem-se neste Capítulo, mesmo que tenham sido tratadas com enzimas proteolíticas (por exemplo, a papaína), no intuito de as tornar tenras, e mesmo que se apresentem desmanchadas, cortadas em fatias ou picadas . Por outro lado, as misturas ou combinações de produtos que se classificam em diferentes posições do Capítulo (as aves da posição 02.07 guarnecidas de toucinho da posição 02.09, por exemplo) continuam incluídas no presente Capítulo. As carnes e miudezas, pelo contrário, incluem-se no Capítulo 16, quando se apresentem: a) Em enchidos e produtos semelhantes, cozidos ou não, da posição 16.01. b) Cozidas de qualquer maneira (cozidas na água, grelhadas, fritas ou assadas), ou preparadas de outro modo, ou conservadas por qualquer processo não mencionado neste Capítulo, compreendendo as simplesmente revestidas de pasta ou de farinha de pão (panados), as trufadas ou temperadas (por exemplo, com sal e pimenta), incluindo a pasta de fígado (posição 16.02). (...) 02.02 - Carnes de animais da espécie bovina, congeladas. 0202.10 - Carcaças e meias-carcaças 0202.20 - Outras peças não desossadas 0202.30 - Desossadas Esta posição abrange as carnes congeladas dos animais da espécie bovina, domésticos ou selvagens, incluídos na posição 01.02. 02.03 - Carnes de animais da espécie suína, frescas, refrigeradas ou congeladas. 0203.1 - Frescas ou refrigeradas: 0203.11 - - Carcaças e meias-carcaças 0203.12 - - Pernas, pás e respectivos pedaços, não desossados 0203.19 - - Outras 0203.2 - Congeladas: 0203.21 - - Carcaças e meias-carcaças 0203.22 - - Pernas, pás e respectivos pedaços, não desossados 0203.29 - - Outras Esta posição abrange as carnes, frescas, refrigeradas ou congeladas, dos porcos das espécies domésticas ou selvagens (javalis, por exemplo). Inclui também o toucinho entremeado (isto é, o que apresenta ‘camadas de carne) e o toucinho com uma camada de carne aderente. (...) 02.07 - Carnes e miudezas, comestíveis, frescas, refrigeradas ou congeladas, das aves da posição 0207.1 - De galos ou de galinhas: 0207.11 - - Não cortadas em pedaços, frescas ou refrigeradas 0207.12 - - Não cortadas em pedaços, congeladas 0207.13 - - Pedaços e miudezas, frescos ou refrigerados 0207.14 - - Pedaços e miudezas, congelados Fl. 5301DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 66 0207.2 - De peruas ou de perus: 0207.24 - - Não cortadas em pedaços, frescas ou refrigeradas 0207.25 - - Não cortadas em pedaços, congeladas 0207.26 - - Pedaços e miudezas, frescos ou refrigeradosLu200619@ 0207.27 - - Pedaços e miudezas, congelados 0207.3 - De patos, de gansos ou de galinhas-d'angola (pintadas*): 0207.32 - - Não cortadas em pedaços, frescas ou refrigeradas 0207.33 - - Não cortadas em pedaços, congeladas 0207.34 - - Fígados gordos (“foies gras”), frescos ou refrigerados 0207.35 - - Outras, frescas ou refrigeradas 0207.36 - - Outras, congeladas A Recorrente trouxe aos autos Relatórios Técnicos emitidos pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT), relacionados a produtos crus fabricados pela Requerente. Tomando como exemplo o Relatório Técnico nº 000.286/20, relativo ao produto frango inteiro temperado congelado (sem miúdos), destaco as seguintes conclusões: Da mesma forma, consta no Relatório Técnico nº 000.290/20, relativo ao produto Carne Temperada Congelada de Suíno (Lombo), a seguinte conclusão: Fl. 5302DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 67 Igualmente consta nos autos RELATÓRIO EXPLICATIVO DAS OPERAÇÕES RELATIVAS ÀS LINHAS DE PRODUÇÃO DA BRF S.A., emitido pela Tyno Consultoria, no qual é possível verificar o processo industrial ocorrido sobre os frangos após a sangria (ITEM 1.2.4 do Relatório Tyno Consultoria). Vejamos: (...) (...) Fl. 5303DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 68 (...) (...) Fl. 5304DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 69 (...) (...) (...) (...) (...) Fl. 5305DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 70 (...) Ou seja, tanto o INT quanto a Tyno Consultoria demonstraram que o produto analisado não passou por processo de cozimento, na forma indicada para a Posição 16.02, o que afasta o Capítulo 16 sobre os itens em análise. Outrossim, cumpre observar que o NCM 1602.50.00 pertence à PREPARAÇÃO E CONSERVA DE CARNE DA ESPÉCIE BOVINA. A título de exemplos de produtos incluídos na Posição 16.02, vejamos as seguinte Soluções de Consultas referentes ao mesmo Código NCM:  SOLUÇÃO DE CONSULTA DIANA/SRRF10 Nº 9, DE 30 DE JANEIRO DE 2014: ASSUNTO: Classificação de Mercadorias EMENTA: Código TIPI: 1602.50.00 Mercadoria: Carne bovina cozida em vapor, desidratada, cortada em cubos, própria para consumo humano, do tipo utilizada na preparação de alimentos DISPOSITIVOS LEGAIS: RGI 1 (texto da posição 16.02) e 6 (texto da subposição 1602.50) da Tipi aprovada pelo Decreto nº 7.660, de 2011. (sem destaque no texto original)  SOLUÇÃO DE CONSULTA DIANA/SRRF10 Nº 10, DE 30 DE JANEIRO DE 2014: ASSUNTO: Classificação de Mercadorias EMENTA: Código TIPI: 1602.50.00 Mercadoria: Carne bovina cozida em vapor (76%), desidratada, cortada em cubos, contendo proteína texturizada de soja, fécula de batata e aditivos, própria para consumo humano, do tipo utilizada na preparação de alimentos. DISPOSITIVOS LEGAIS: RGI 1 (texto da posição 16.02) e 6 (texto da subposição 1602.50) da Tipi aprovada pelo Decreto nº7.660, de 2011. (sem destaque no texto original)  SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 98170, DE 31 DE AGOSTO DE 2022: Assunto: Classificação de Mercadorias Código NCM: 1602.50.00 Fl. 5306DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 71 Mercadoria: Preparação destinada à alimentação humana, constituída pela mistura e cozimento de trigo, água, leite, margarina e sal, com posterior sova e modelagem na forma de semicírculo, com recheio de carne (mais de 20%) e requeijão cremoso. O semicírculo assim obtido, denominado “risole de carne”, é mergulhado em água, empanado com farinha de rosca, congelado e apresentado em embalagens personalizadas de 1 kg. Dispositivos Legais: RGI 1 c/c Nota 1, ”a”, do Capítulo 19 e RGI 6, da NCM constante da TEC, aprovada pela Res. Gecex nº 272, de 2021, e da Tipi, aprovada pelo Dec. nº 11.158, de 2022, e subsídios extraídos das Nesh, aprovadas pelo Dec. nº 435, de 1992, e consolidadas pela IN RFB nº 1.788, de 2018, com atualizações posteriores. (sem destaque no texto original)  SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 98304, DE 08 DE DEZEMBRO DE 2022: Assunto: Classificação de Mercadorias Código NCM: 1602.50.00 Mercadoria: Empanada (pastel de forno) congelada, para consumo humano após cozimento, composta de farinha de trigo, gordura vegetal, água, sal e açúcar, ovo pasteurizado, corante amarelo gema, farinha de rosca e flocos de milho, recheada com carne moída bovina (38%, em peso) cozida ao molho de tomate, apresentada em pacote com dez unidades de 130 g cada, denominada "empanada bolonhesa". Dispositivos Legais: RGI 1 (Nota 1, 'a', do Capítulo 19 e Nota 2 do Capítulo 16) e RGI 6, da NCM constante da TEC, aprovada pela Res. Gecex nº 272, de 2021, e da Tipi, aprovada pelo Dec. nº 11.158, de 2022. (sem destaque no texto original) Por sua vez, o NCM 1602.41.00 pertence à PERNAS E RESPECTIVOS PEDAÇOS. Vejamos as seguinte Soluções de Consultas referentes ao mesmo Código NCM:  SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 98.093, DE 18 DE ABRIL DE 2018: ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Código NCM: 1602.49.00 Mercadoria: Pele de suíno cortada em pequenas tiras, salgada e frita, apresentada pronta ao consumo humano em embalagem plástica contendo 60 g, comercialmente denominada “torresmo suíno”. Dispositivos Legais: RGI/SH 1 (texto da posição 16.02) e RGI/SH 6 (textos das subposições 1602.4 e 1602.49), da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), constante da TEC, aprovada pela Resolução Camex nº 125, de 2016, e da Tipi, aprovada pelo Decreto nº 8.950, de 2016, e subsídios extraídos das Nesh, aprovadas pelo Decreto nº 435, de 1992, e atualizadas pela IN RFB nº 807, de 2008, e alterações posteriores. (sem destaque no texto original) Fl. 5307DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 72 Destaco as seguintes considerações que sustentam os fundamentos da Solução de Consulta em referência: 8. A Nota 1 do Capítulo 16 dispõe que este Capítulo não compreende as carnes e miudezas preparados ou conservados pelos processos descritos no Capítulo 2: Nota 1 do Capítulo 16. 1.- O presente Capítulo não compreende as carnes, miudezas, peixes, crustáceos, moluscos e outros invertebrados aquáticos, preparados ou conservados pelos processos enumerados nos Capítulos 2, 3 ou na posição 05.04. 9. Por sua vez, as Considerações Gerais das NESH do Capítulo 2 dispõem que as carnes e miudezas (que é o caso das peles comestíveis) não se incluem neste Capítulo, mas, no Capítulo 16, quando se apresentem cozidas de qualquer maneira – cozidas na água, grelhadas, fritas ou assadas (posição 16.02). “As carnes e miudezas, pelo contrário, incluem-se no Capítulo 16, quando se apresentem: a) Em enchidos e produtos semelhantes, cozidos ou não, da posição 16.01. b) Cozidas de qualquer maneira (cozidas na água, grelhadas, fritas ou assadas), ou preparadas de outro modo, ou conservadas por qualquer processo não mencionado neste Capítulo, compreendendo as simplesmente revestidas de massa ou de pão ralado (panados), as trufadas ou temperadas (por exemplo, com sal e pimenta), incluindo a pasta de fígado (posição 16.02).” (grifou-se) 10. Desta forma, a pele de suíno salgada e frita objeto da presente consulta se classifica, por aplicação da RGI/SH 1, na posição 16.02 cujo texto é: Outras preparações e conservas de carne, de miudezas ou de sangue. E esta posição apresenta os seguintes desdobramentos em nível de subposições. 16.02 Outras preparações e conservas de carne, de miudezas ou de sangue. 1602.10.00 - Preparações homogeneizadas 1602.20.00 - De fígados de quaisquer animais 1602.3 - De aves da posição 01.05: 1602.31.00 -- De peruas e de perus 1602.32 -- De aves da espécie Gallus domesticus 1602.39.00 -- Outras 1602.4 - Da espécie suína: 1602.41.00 -- Pernas e respectivos pedaços 1602.42.00 -- Pás e respectivos pedaços 1602.49.00 -- Outras, incluindo as misturas 1602.50.00 - Da espécie bovina 1602.90.00 - Outras, incluindo as preparações de sangue de quaisquer animais 11. Como se trata de uma preparação de miudeza (pele) da espécie suína, se enquadra na subposição de primeiro nível 1602.4 e, nesta, na residual 1602.49 – Fl. 5308DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 73 Outras, incluindo as misturas. Não estando tal subposição subdividida em itens ou subitens, a classificação do produto se encerra no código NCM 1602.49.00. Portanto, resta claro que a Posição 16.02, adotada pela douta Fiscalização, versa sobre preparações e conservas, abrangendo produtos como carne bovina cozida a vapor, rissoles de carne, empanada, torresmo, dentre outros, como demonstram as Soluções de Consulta acima citadas. Por tais razões, deve ser acatada a classificação fiscal adotada pela Contribuinte e, neste ponto, dar provimento ao recurso para manter a classificação das carnes no Capítulo 02 do Sistema Harmonizado. 2.5.2. Do Kit Felicidade (CHESTER) Perdigão Com relação à classificação fiscal do Kit Felicidade (CHESTER) Perdigão e Pão de queijo e Coxinha de Frango, peço vênia para reproduzir os fundamentos do r. voto condutor do v. Acórdão nº 3402-009.900, de relatoria do ilustre Conselheiro Lázaro Antônio Souza Soares, proferido em julgamento ao PAF nº 11516.722531/2017-10, da mesma Contribuinte, cujas razões foram acompanhadas por esta relatora: V.2 DO KIT FELICIDADE (CHESTER) PERDIGÃO E OUTROS Alega o Recorrente que a classificação fiscal por ele adotada diz respeito ao produto principal que compõe o kit, com alguns complementos para manutenção do produto até o seu consumidor final (sal extra fino, água, glicose milho, tripolifostato sódico, glutamato monossódico, etc.), das embalagens e acessórios que lhe dão sustentação, (como o filme strech, ribbon, grampo alumínio, adesivo, injetável alça) e para o transporte (contoneira papel), de modo que não faz sentido o entendimento de que cada componente do produto tenha uma classificação fiscal diferente. Sustenta ainda que estes kits nada mais são do que os produtos in natura com uma embalagem de apresentação diferenciada para datas especiais, como o Natal, por exemplo, tanto que a produção destes kits concentra-se no final do ano (no caso em análise, no 3º trimestre/2012) para comercialização nas datas festivas de fim de ano. As bolsas térmicas compõe os referidos kits e servem como embalagem do produto, não devendo ter classificação específica (NCM 4202.92.00) como sustenta a Fiscalização. Os auditores-fiscais, por outro lado, fundamentaram a imputação nos seguintes termos: Verifica-se que KIT FELICIDADE (CHESTER) PERDIGAO descreve um conjunto de materiais que não se enquadram na condição de sortido para venda a retalho e sim em um conjunto de produtos que devem ter classificação fiscal individual, porque o item 158367, BOLSA TERM TIRACOLO 430X320X120MM PERD, trata-se de sacola térmica que não se constitui, nos termos da RGI/SH nº 5, uma embalagem do tipo normalmente utilizado com as mercadorias que ora acondiciona. Trata-se de um Fl. 5309DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 74 artigo reutilizável e que, no conjunto, se destina à estocagem temporária dos produtos, tendo capacidade, segundo as dimensões fornecidas, para mais de 16 litros. Desta forma, deve seguir regime próprio, cabendo classificá-la na posição 42.02 que compreende, entre outros, as bolsas, sacos, sacolas e artigos semelhantes, confeccionadas de folhas de plástico. (...) Assim, CHESTER INTEIRO ELAB (CHT), com os temperos que fazem parte DESTE produto, classifica-se na posição 1602.32.00 e a sacola térmica, na posição 4202.92.00. Os demais kits não foram informados na planilha Excel. A respeito de kits contendo aves, carnes e sacolas térmicas leia-se a Solução de Consulta nº 138 - SRRF/9ª RF/Diana, de 5 de junho de 2008, cuja ementa foi transcrita adiante, que trata de situação similar. Sem razão o Recorrente. Vejamos o que consta da RGI 5 e de suas respectivas notas explicativas: REGRA 5 Além das disposições precedentes, as mercadorias abaixo mencionadas estão sujeitas às Regras seguintes: a) Os estojos para câmeras fotográficas, instrumentos musicais, armas, instrumentos de desenho, joias e artigos semelhantes, especialmente fabricados para conterem um artigo determinado ou um sortido, e suscetíveis de um uso prolongado, quando apresentados com os artigos a que se destinam, classificam- se com estes últimos, desde que sejam do tipo normalmente vendido com tais artigos. Esta Regra, todavia, não diz respeito aos artigos que confiram ao conjunto a sua característica essencial. b) Sem prejuízo do disposto na Regra 5 a), as embalagens que contenham mercadorias classificam-se com estas últimas quando sejam do tipo normalmente utilizado para o seu acondicionamento. Todavia, esta disposição não é obrigatória quando as embalagens sejam claramente suscetíveis de utilização repetida. NOTA EXPLICATIVA REGRA 5 a) (Estojos e artigos semelhantes) I) A presente Regra deve ser interpretada como de aplicação exclusiva aos recipientes (receptáculos) que, simultaneamente: 1) Sejam especialmente fabricados para receber um determinado artigo ou sortido, isto é, sejam preparados de tal forma que o artigo contido se acomoda exatamente no seu lugar, podendo alguns recipientes (receptáculos), além disso, ter a forma do artigo que devam conter; 2) Sejam suscetíveis de um uso prolongado, isto é, sejam concebidos, especificamente, no que se refere à resistência ou ao acabamento, para ter uma duração de utilização comparável a do conteúdo. Estes recipientes (receptáculos) servem, frequentemente, para proteger o artigo a que se referem fora dos momentos de utilização (por exemplo, transporte, armazenamento, etc.). Estas características permitem diferenciá-los das simples embalagens; Fl. 5310DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 75 3) Sejam apresentados com os artigos aos quais se referem, quer estes estejam ou não acondicionados separadamente, para facilitar o transporte. Os recipientes (receptáculos) apresentados isoladamente seguem o seu próprio regime; 4) Sejam do tipo normalmente vendido com os mencionados artigos; 5) Não confiram ao conjunto a sua característica essencial. II) Como exemplos de recipientes (receptáculos) apresentados com os artigos aos quais se destinam e cuja classificação é determinada por aplicação da presente Regra, citam-se: 1) Os estojos para joias (guarda-joias) (posição 71.13); 2) Os estojos para aparelhos ou máquinas de barbear elétricos (posição 85.10); 3) Os estojos para binóculos, estojos para miras telescópicas (posição 90.05); 4) As caixas e estojos para instrumentos musicais (posição 92.02, por exemplo); 5) Os estojos para espingardas (posição 93.03, por exemplo). III) Pelo contrário, como exemplos de recipientes (receptáculos) que não entram no campo de aplicação desta Regra, citam-se as caixas de chá, de prata, que contenham chá ou as tigelas decorativas de cerâmica, que contenham doces. REGRA 5 b) (Embalagens) IV) A presente Regra estabelece a classificação das embalagens do tipo normalmente utilizado para as mercadorias que contêm. Contudo, esta disposição não é obrigatória quando tais embalagens são claramente suscetíveis de utilização repetida, por exemplo, certos tambores metálicos ou recipientes de ferro ou de aço para gases comprimidos ou liquefeitos. V) Dado que a presente Regra está subordinada à aplicação das disposições da Regra 5 a), a classificação dos estojos e recipientes (receptáculos) semelhantes, do tipo mencionado na Regra 5 a), rege-se pelas disposições desta última Regra. O próprio contribuinte reconhece que a sacola termina não é um recipiente/receptáculo do tipo normalmente vendido com alimentos como o Chester. Tanto que em seu recurso afirma literalmente que esta sacola é uma “embalagem de apresentação diferenciada para datas especiais, como o Natal, por exemplo, tanto que a produção destes kits concentra-se no final do ano”. As autoridades fiscais também fundamentaram suas conclusões na Solução de Consulta nº 138/2008, com Ementa a seguir transcrita: “Solução de Consulta nº 138 - SRRF/9ª RF/Diana, de 5 de junho de 2008 ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Código TIPI - Mercadoria 1601.00.00 Lingüiça de carne suína, apresentada embalada a vácuo em pacotes de 240g, componente de conjunto não caracterizado como "sortido" denominado "Kit Ave Maria". Fl. 5311DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 76 1602.32.00 Frango temperado e congelado, peso aproximado de 2,9 a 3,1 kg, componente de conjunto não caracterizado como "sortido" denominado "Kit Ave Maria". 4202.92.00 Sacola térmica para acondicionamento de produtos alimentícios, com superfície exterior de PVC (policloreto de vinila) laminado, com alças, capacidade para 13 litros, componente de conjunto não caracterizado como "sortido" denominado "Kit Ave Maria". Dispositivos Legais: RGI/SH 1 (textos das posições 16.01, 16.02 e 42.02) e 6 (textos das subposições 1602.3, 1602.32, 4202.9 e 4202.92) da Tabela de Incidência do IPI/TIPI, aprovada pelo Dec. nº 6.006/2006, subsídios NESH, aprovadas pelo Dec. nº 435/92 e atualizadas pela IN/RFB nº 807/2008.” Pelo exposto, voto por negar provimento ao pedido. Não obstante a classificação fiscal acima adotada e, considerando que o Relatório Fiscal que motivou o auto de infração teve por conclusão o enquadramento na RGI/SH 1 (textos das posições 16.01, 16.02 e 42.02) e 6 (textos das subposições 1602.3, 1602.32, 4202.9 e 4202.92), quando deveria ter adotado a RGI5, cabe ser afastado o lançamento de ofício neste ponto. 2.5.3. Da classificação das tortas. A DRJ manteve a exigência do PIS e da COFINS sobre alguns produtos que, no ponto de vista da Autoridade Fiscal, concluindo que foram incorretamente classificados na posição 1902 da NCM, sujeitos à alíquota zero, nos termos do art. 1º, XVIII, da Lei nº 10.925/0418: Igualmente com relação a tais itens, peço vênia para reproduzir os fundamentos do r. voto condutor do v. Acórdão nº 3402-009.900, acima citado: Vejamos as classificações propostas pelo contribuinte (NCM 1902.11.00) e pela Receita Federal (NCM 1901.20.00): Em relação às tortas, por tudo quanto já exposto no tópico antecedente, resta bastante óbvio que não se enquadram na classificação NCM 1902.20.00, cujo texto da posição 19.02 é “Massas alimentícias, mesmo cozidas ou recheadas (de carne ou de outras substâncias) ou preparadas de outro modo, tais como espaguete, macarrão, aletria, lasanha, nhoque, ravioli e canelone; cuscuz, mesmo preparado”. Ora, uma torta de iogurte com palmito e catupiry não é uma massa alimentícia “tal como espaguete, macarrão, aletria, lasanha, nhoque, ravioli e Fl. 5312DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 77 canelone ou cuscuz”. Logo, não há como ser classificada no código NCM 1902.20.00 - Massas alimentícias recheadas (mesmo cozidas ou preparadas de outro modo). A classificação fiscal correta é justamente aquela proposta pelas autoridades fiscais, na posição 19.05, cujo texto é “Produtos de padaria, pastelaria ou da indústria de bolachas e biscoitos, mesmo adicionados de cacau; hóstias, cápsulas vazias para medicamentos, obreias, pastas secas de farinha, amido ou fécula, em folhas, e produtos semelhantes”. Isso porque, ao contrário do que afirma o Recorrente, as tortas são produtos de pastelaria. Vejamos a definição do termo “pastelaria” em links de dicionários acessíveis na internet: i) https://www.meudicionario.org/pastelaria substantivo feminino 1. ofício de pasteleiro 2. conjunto de iguaria feitos com massa de farinha recheada 3. estabelecimento onde se confeccionam e/ou vendem e consomem a mercadoria feita pelo pasteleiro (pastéis, empadas, tortas, etc) ii) https://edukavita.blogspot.com/2013/02/pastelaria.html 2. Definição de pastelaria Pastelaria refere-se ao estabelecimento onde são produzidos ou comercializados diferentes tipos de alimentos doces, como bolos, tortas, bolos, faturas e outros. iii) https://oquee.space/dicionario/pastelaria/ 1. Conjunto de bolos, doces ou outras iguarias doces ou salgadas feitas com massa de farinha (ex.: pastelaria doce; pastelaria salgada; a pastelaria exposta incluía bolos e salgados). 2. Arte, actividade ou ofício de confeccionar bolos, doces e outras iguarias feitas com massa de farinha (ex.: curso de pastelaria). 3. Estabelecimento de pasteleiro ou de quem faz bolos, doces e outras iguarias feitas com massa de farinha. iv) https://www.lexico.pt/pastelaria/ subst. f. 1. estabelecimento onde se fazem e/ou vendem bolos: comprar bolos na pastelaria. v) https://michaelis.uol.com.br/palavra/ne2n1/pastelaria/ 1 Conjunto de doces e salgados preparados com massa variada, prontos para o consumo. 2 Estabelecimento onde se fazem e/ou vendem esses produtos; pasteleiro, pâtisserie. vi) https://www.dicio.com.br/pastelaria/ substantivo feminino Fl. 5313DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 78 Pasta ou massa trabalhada, ornamentada de formas diversas e assada. [Por Extensão] Pastéis, tortas, empadas, massas cozidas em geral. Loja, mercadoria do pasteleiro. vii) https://dicionario.priberam.org/pastelaria substantivo feminino 1. Conjunto de bolos, doces ou outras iguarias doces ou salgadas feitas com massa de farinha (ex.: pastelaria doce; pastelaria salgada; a pastelaria exposta incluía bolos e salgados). 2. Arte, atividade ou ofício de confeccionar bolos, doces e outras iguarias feitas com massa de farinha (ex.: curso de pastelaria). 3. Estabelecimento de pasteleiro ou de quem faz bolos, doces e outras iguarias feitas com massa de farinha. 4. Local onde se pode tomar uma refeição ligeira. A NESH corrobora esse entendimento em diversas passagens, como por exemplo: i) Considerações gerais sobre o Capítulo 20 Estão excluídos deste Capítulo: (...) b) Os produtos de pastelaria (por exemplo, as tortas de fruta) que estão incluídos na posição 19.05. ii) NESH da posição 82.15 - Colheres, garfos, conchas, escumadeiras, pás para tortas, facas especiais para peixe ou para manteiga, pinças para açúcar e artigos semelhantes. A presente posição compreende especialmente: (...) 4) As pás para peixe, as pás para pastelaria (para tortas, etc.), para morangos, aspargos, sorvetes, etc. iii) NESH da posição 84.38, item I.- MÁQUINAS E APARELHOS PARA AS INDÚSTRIAS DE PANIFICAÇÃO, PASTELARIA, BOLACHAS E BISCOITOS 7) Os aparelhos de pastelaria para dosar massas ou ingredientes nas formas, para fabricação de tortas, bolos, doces, etc. Além disso, o item 10 da NESH da posição 19.05 especifica como se compõem os chamados “produtos de pastelaria”: A) Produtos de padaria, pastelaria ou da indústria de bolachas e biscoitos, mesmo adicionados de cacau. (...) Encontram-se compreendidos na presente posição: (...) Fl. 5314DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 79 10) Os produtos de pastelaria, em cuja composição entram substâncias muito variadas: farinhas, féculas, manteiga ou outras gorduras, açúcar, leite, creme-de- leite (nata*), ovos, cacau, chocolate, café, mel, fruta, licores, aguardente, albumina, queijo, carne, peixe, aromatizantes, leveduras ou outros fermentos, etc. Considerando as mesmas razões detidamente demonstradas no r. voto acima, mantenho as glosas com relação às tortas. 3. Das infrações relacionadas à EFD-Contribuições Sendo assim, com base na Lei nº 13.670/2018, imputou à Recorrente a multa do art. 12, inciso II, da Lei 8.218, de 1991, para o caso da escrituração com informações inexatas, omitidas ou incompletas”, por entender a fiscalização que não se tratava de ajustes. Por sua vez, a recorrente defende-se ao alegar que não se verificou os pressupostos da materialidade de aplicação da multa, pois a maneira como foi formalizado o creditamento extemporâneo não caracterizou o tipo apto à subsunção de incidência da penalidade. Prevê o artigo 57 da Medida Provisória nº 2.158-35/2001, regulamentado pelos artigos 11 e 12 da Lei nº 8.212/1991, a imputação de multa regulamentar pelo cumprimento das obrigações acessórias com incorreções ou omissões. Veja-se que, a imputação da multa regulamentar se dá pela apresentação declaração, demonstrativo ou escrituração digital com incorreções ou omissões. Todavia, a Recorrente prestou informações EFD-Contribuições créditos extemporâneos, como Ajuste Oriundo de Outras Situações, Ajuste referente Crédito Extemporâneo de medicamentos e vacinas, o que no meu entender, demonstra a espontaneidade da Recorrente para prestação a informação. Sendo assim, não vislumbro nos autos pressupostos de materialidade para imputação da referida penalidade, pois os créditos extemporâneos aproveitados pela Recorrente decorreram da revisão de apurações anteriormente formalizadas por ela perante à RFB. Trata-se de uma questão de direito, a Recorrente entende que faz jus aos créditos extemporâneos; à autoridade fiscal cabia o instituto da glosa, que é materialização da ausência do direito pleiteado, não cabendo, portanto, a glosa e a aplicação da multa concomitantemente. Nesse sentido, não há requisitos autorizadores para manutenção da multa regulamentar imputada prevista no art. 12, II, da Lei 8.218/91. Por isso, voto por dar provimento ao presente tópico recursal. 4. Do pedido de Diligência A recorrente assinala que, por meio de prova pericial, será possível a demonstração da natureza de todos os insumos por ela utilizados, e notadamente, a essencialidade destes relativamente à consecução de seu processo produtivo, pleiteia a realização de diligência para a comprovação de suas alegações, e, por fim, formula quesitos. Fl. 5315DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 80 Nos termos do art. 18 do Decreto 70.235/72, “A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendê-las necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis”, já o art. 29 do mesmo diploma legal dispõe que “na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias”. Assim sendo, a diligência pode ser deferida ou determinada pela autoridade julgadora se houver dúvida acerca de questão controversa, ao passo que a perícia se presta para dirimir questão para a qual se exige conhecimento técnico especializado. No caso sob análise, entendo desnecessária a diligência ou perícia, na medida em que há elementos suficientes para análise e julgamento do pleito, bem como porque cabe à recorrente comprovar que determinados bens adquiridos ou serviços contratados caracterizam insumos, mediante a juntada de informações e, até a apresentação da impugnação, de documentos comprobatórios, de modo que não cabe diligência para produção de provas a cargo da recorrente. 5. Dispositivo Ante o exposto, rejeito as preliminares arguidas e, no mérito, dou provimento parcial ao Recurso Voluntário, para: a) Observados os requisitos legais para o aproveitamento dos créditos das contribuições não cumulativas, reverter as glosas relativas às despesas com: serviços de locação de empilhadeiras, guindastes e Munck; serviços de administração de vestiário; serviços portuários na importação; fretes contratados após da liberação (desembaraço) da mercadoria; cross docking, repaletização e locação de uniformes; b) reconhecer a possibilidade de aproveitamento dos créditos extemporâneos, independentemente de retificação de DACON, desde que os créditos não tenham sido utilizados em duplicidade; c) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 34 da Lei nº 12.058, de 2009, e do art. 1º, inciso XIX, alínea a, da Lei nº 10.925, de 2004, quando os produtos vendidos no mercado interno resultarem em NCM diversa dos produtos adquiridos; d) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 56 da Lei nº 12.350, de 2010, quando os produtos forem vendidos para exportação; e) afastar o lançamento da Contribuição para o PIS e da COFINS relativo à omissão de receitas decorrentes de variação monetária de depósitos judiciais; f) Manter a classificação das carnes adotada pelo contribuinte; Fl. 5316DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.737 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10983.909690/2021-34 81 g) Afastar o lançamento sobre as glosas relativas ao “kit felicidade”; h) Afastar do lançamento de ofício a multa regulamentar imposta. É como voto. Assinado digitalmente Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta Fl. 5317DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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Numero do processo: 16004.720133/2015-91
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 09 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Sun Dec 28 00:00:00 UTC 2025
Numero da decisão: 1301-001.339
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator. Assinado Digitalmente Iágaro Jung Martins – Relator Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Iágaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski, Rafael Taranto Malheiros (Presidente).
Nome do relator: IAGARO JUNG MARTINS

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conteudo_txt : Metadados => date: 2025-12-28T15:46:12Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2025-12-28T15:46:12Z; Last-Modified: 2025-12-28T15:46:12Z; dcterms:modified: 2025-12-28T15:46:12Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2025-12-28T15:46:12Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2025-12-28T15:46:12Z; meta:save-date: 2025-12-28T15:46:12Z; pdf:encrypted: false; modified: 2025-12-28T15:46:12Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2025-12-28T15:46:12Z; created: 2025-12-28T15:46:12Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 11; Creation-Date: 2025-12-28T15:46:12Z; pdf:charsPerPage: 939; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2025-12-28T15:46:12Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 16004.720133/2015-91 RESOLUÇÃO 1301-001.339 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 9 de dezembro de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE NESIMA - INDUSTRIA DE ELEMENTOS METALICOS LTDA INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Conversão do Julgamento em Diligência RESOLUÇÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator. Assinado Digitalmente Iágaro Jung Martins – Relator Assinado Digitalmente Rafael Taranto Malheiros – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Iágaro Jung Martins, Jose Eduardo Dornelas Souza, Luis Angelo Carneiro Baptista, Eduardo Monteiro Cardoso, Eduarda Lacerda Kanieski, Rafael Taranto Malheiros (Presidente). RELATÓRIO Fl. 715DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1301-001.339 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16004.720133/2015-91 2 1. Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra decisão da DRJ/São Paulo, que, em sessão de 08.04.2016, julgou improcedente a impugnação contra lançamento de ofício do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), valor principal de R$ 95.585,11, período de apuração 2011, com imputação de multa de 75%. 2. A exigência do IRRF decorre de diferenças entre os valores informados como retidos em Declaração do Imposto sobre a Renda Retido na Fonte (DIRF) e aqueles efetivamente pagos via DARF, códigos 0561 e 0588, conforme Auto de Infração (fls. 043/050). 3. Em impugnação (fls. 057/066), o sujeito passivo alegou nulidade do lançamento, que teria se baseado no art. 70, I, “d”, da Lei nº 11.196, de 2005, que trata de empregado doméstico, sendo que a empresa não os possui; que a fiscalização não reconheceu os valores declarados e recolhidos a maior; sobre o mérito, que houve conflito entre os regimes de caixa e de competência, pois na DCTF foram apurados pelo regime de competência e na DIRF pelo regime de caixa e que essa discrepância de regimes beneficiou o Fisco em razão da antecipação de tributos. 4. A DRJ negou provimento à impugnação (fls. 650/657). Afastou o requerimento de sustentação oral e diligência, bem como a arguição de nulidade, pois o Auto de Infração e os relatórios que o acompanham demonstram adequadamente os fatos e fundamentos legais previsto no art. 142 do Código Tributário Nacional (CTN); que a citada Lei nº 11.196, de 2005 não consta no Auto de Infração; que os alegados valores recolhidos a maior não são causa de nulidade, mas situação passível de ajuste do lançamento, se comprovada; ainda sobre o mérito, que a impugnante fez negativa genérica, sem apresentar provas das suas alegações; que não basta a simples juntada de documentos, mas é necessário estabelecer a relação de implicação entre o documento juntado e o fato que se pretende provar. A decisão restou materializada com o seguinte Acórdão: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE - IRRF Ano-calendário: 2011 PRODUÇÃO DE DEFESA ORAL DURANTE A SESSÃO DE JULGAMENTO EM PRIMEIRA INSTÂNCIA. VEDAÇÃO LEGAL. O inciso I do art. 25 do Decreto 70.235/72, ao determinar que a Delegacia da Receita Federal de Julgamento é órgão de deliberação interna, vedou a Fl. 716DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1301-001.339 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16004.720133/2015-91 3 participação da parte e/ou de seu advogado durante a sessão de julgamento, pois do contrário teríamos uma sessão aberta e não uma sessão de deliberação interna. NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. Incabível a arguição de nulidade do lançamento de ofício quando este atender as formalidades legais e for efetuado por servidor competente. Quando presentes a completa descrição dos fatos e o enquadramento legal, mesmo que sucintos, de modo a atender integralmente ao que determina o art. 10 do Decreto nº 70.235/72, não há que se falar em cerceamento do direito de defesa. DILIGÊNCIA. INDEFERIMENTO POR SER PRESCINDÍVEL. A diligência e a perícia requeridas são indeferidas, com fundamento no art. 18 do Decreto nº 70.235/1972, com as alterações da Lei nº 8.748/1993, por se tratar de medida absolutamente prescindível, já que constam dos autos todos os elementos necessários ao julgamento. ERROS NA DIRF E NA DCTF. REGIME DE CAIXA VERSUS COMPETÊNCIA. O eventual erro do contribuinte em considerar na DIRF e/ou na DCTF o regime de competência quanto ao Imposto sobre a Renda Retido na Fonte (IRRF) e não o regime de caixa precisa ser demonstrado com elementos trazidos de sua escrituração, bem como com documentos que a corroborem. Ausente um conjunto probatório que demonstre o erro, é de ser mantido o lançamento. 5. Em Recurso Voluntário (fls. 663/673), o sujeito passivo repisam os argumentos aduzidos em impugnação; em preliminar que o Auto de Infração é nulo ao fazer menção ao art. 70, I, “d”, da Lei nº 11.196, de 2005; que há nulidade quanto à realidade dos fatos, pois a autoridade lançadora omitiu ou deixou de reconhecer períodos de competência para os quais os impostos foram recolhidos a maior; sobre o mérito, que a r. decisão não aprofundou sobre as alegações e documentos trazidos e que nesse momento processual apresenta novos documentos para complementação; que junta escrituração contábil buscando demonstrar a validade das retificações em DIRF e em DCTF e que o Auto de Infração se baseou em divergências que decorrem de regimes de apuração diversos, cuja causa se deu pela substituição dos programas de controle e gerenciamento de tributos; que a Recorrente efetuou os recolhimentos a partir do regime de competência, quando o correto seria o regime de caixa e que isso gerou antecipação de receitas ao Fisco; alega que a simples leitura do Auto de Infração (fls. 44) permite constatar um lançamento a maior de R$ 23.745,99; que a multa atenta aos princípios do Fl. 717DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1301-001.339 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16004.720133/2015-91 4 não-confisco, da razoabilidade, da proporcionalidade e da capacidade contributiva, impondo-se reconhecer a sua nulidade e improcedência. Requer a reforma da decisão de primeira instância e o cancelamento do lançamento. 6. É o relatório. VOTO Conselheiro Iágaro Jung Martins, Relator. Conhecimento 7. O sujeito passivo principal foi cientificado da decisão de primeira instância em 27.04.2016, conforme Aviso de Recebimento (fls. 661), dessa forma, o Recurso Voluntário protocolizado em 27.05.2016, conforme Termo de Análise de Solicitação de Juntada (fls. 705), é tempestivo e, por preencher os demais pressupostos processuais, deve ser conhecido. Preliminar de nulidade do Auto de Infração 8. A Recorrente alega existir dois fatos que implicam declarar nulo o Auto de Infração. O primeiro diz respeito à citação ao art. 70, I, “d”, da Lei nº 11.196, de 2005, que se refere a retenção do imposto de renda relativo a pagamento de rendimentos provenientes do trabalho assalariado a empregado doméstico. A segunda nulidade decorre da omissão, por parte da autoridade lançadora de períodos em que houve pagamento a maior do imposto. 9. Com relação ao primeiro ponto, citação do art. 70, I, “d”, da Lei nº 11.196, de 2005, no Demonstrativo de Multa e Juros de Mora do IRRF do Auto de Infração em nada nulifica o ato de lançamento. 10. O art. 70 da Lei nº 11.196, de 2005, na parte que trata do IRRF, relativa ao inciso I, tem e teve as seguintes redações: Fl. 718DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1301-001.339 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16004.720133/2015-91 5 Art. 70. Em relação aos fatos geradores ocorridos a partir de 1º de janeiro de 2006, os recolhimentos do Imposto de Renda Retido na Fonte - IRRF e do Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro, ou Relativas a Títulos ou Valores Mobiliários - IOF serão efetuados nos seguintes prazos: I - IRRF: a) na data da ocorrência do fato gerador, no caso de: 1. rendimentos atribuídos a residentes ou domiciliados no exterior; 2. pagamentos a beneficiários não identificados; b) até o 3º (terceiro) dia útil subsequente ao decêndio de ocorrência dos fatos geradores, no caso de: 1. juros sobre o capital próprio e aplicações financeiras, inclusive os atribuídos a residentes ou domiciliados no exterior, e títulos de capitalização; 2. prêmios, inclusive os distribuídos sob a forma de bens e serviços, obtidos em concursos e sorteios de qualquer espécie e lucros decorrentes desses prêmios; e 3. multa ou qualquer vantagem, de que trata o art. 70 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996; c) até o último dia útil do mês subsequente ao encerramento do período de apuração, no caso de rendimentos e ganhos de capital distribuídos pelos fundos de investimento imobiliário; e d) até o último dia útil do 1º (primeiro) decêndio do mês subsequente ao mês de ocorrência dos fatos geradores, nos demais casos; d) até o último dia útil do segundo decêndio do mês subseqüente ao mês de ocorrência dos fatos geradores, nos demais casos; (Redação dada pela Medida Provisória nº 447, de 2008) (Produção de efeitos) d) até o último dia útil do 2º (segundo) decêndio do mês subsequente ao mês de ocorrência dos fatos geradores, nos demais casos; (Redação dada pela Lei nº 11.933, de 2009). (Produção de efeitos). d) até o dia 7 do mês subsequente ao mês de ocorrência dos fatos geradores, no caso de pagamento de rendimentos provenientes do trabalho assalariado a empregado doméstico; e (Redação dada pela Lei Complementar nº 150, de 2015) Fl. 719DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9430.htm#art70 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9430.htm#art70 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Mpv/447.htm#art5 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Mpv/447.htm#art5 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Mpv/447.htm#art8 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Lei/L11933.htm#art5 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Lei/L11933.htm#art5 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Lei/L11933.htm#art11 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LCP/Lcp150.htm#art38 D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1301-001.339 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16004.720133/2015-91 6 d) até o vigésimo dia do mês subsequente ao mês de ocorrência dos fatos geradores, no caso de pagamento de rendimentos provenientes do trabalho assalariado a empregado doméstico; e (Redação dada pela Medida Provisória nº 1,107, de 2022) (Produção de efeitos) d) até o vigésimo dia do mês subsequente ao mês de ocorrência dos fatos geradores, no caso de pagamento de rendimentos provenientes do trabalho assalariado a empregado doméstico; e (Redação dada pela Medida Provisória nº 1.110, de 2022) Produção de efeitos Vigência encerrada d) até o vigésimo dia do mês subsequente ao mês de ocorrência dos fatos geradores, no caso de pagamento de rendimentos provenientes do trabalho assalariado a empregado doméstico; e (Redação dada pela Medida Provisória nº 1,107, de 2022) (Produção de efeitos) d) até o vigésimo dia do mês subsequente ao mês de ocorrência dos fatos geradores, no caso de pagamento de rendimentos provenientes do trabalho assalariado a empregado doméstico; e (Redação dada pela Lei nº 14.438, de 2022) e) até o último dia útil do segundo decêndio do mês subsequente ao mês de ocorrência dos fatos geradores, nos demais casos; (Incluído pela Lei Complementar nº 150, de 2015) 11. Note-se que o prazo específico para pagamento do IRRF relativo a rendimentos percebidos por empregados domésticos surgiu com a Lei Complementar nº 150, de 2015, que introduziu, com o acréscimo da alínea “d”, prazo específico para essas retenções, que passou a ser no dia sete do mês seguinte. Atualmente, por força da Lei nº 14.438, de 2022, esse prazo passou a ser o vigésimo dia, que se equivale aos demais casos, previstos na alínea “e” do inciso I da Lei nº 11.196, de 2005. 12. Os lançamentos do IRRF se referem ao ano-calendário de 2011, isto é, quando sequer existia a previsão de pagamento específica para empregados domésticos, ou seja, vigia a redação que previa como prazo de pagamento o último dia do segundo decêndio do mês subsequente ao mês de ocorrência dos fatos geradores (redação da então alínea “d”). Fl. 720DF CARF MF Original https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Mpv/mpv1107.htm#art12 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Mpv/mpv1107.htm#art12 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Mpv/mpv1107.htm#art18 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Mpv/mpv1110.htm#art4 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Mpv/mpv1110.htm#art4 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Mpv/mpv1110.htm#art7 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Congresso/adc-65-mpv1.110.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Mpv/mpv1107.htm#art12 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Mpv/mpv1107.htm#art12 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Mpv/mpv1107.htm#art18 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Lei/L14438.htm#art12 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2022/Lei/L14438.htm#art12 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LCP/Lcp150.htm#art38 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/LCP/Lcp150.htm#art38 D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1301-001.339 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16004.720133/2015-91 7 13. Tal redação vigeu até a alteração promovida pela Lei Complementar nº 150, de 2015, que criou prazo específico para o pagamento do IRRF sobre os rendimentos dos empregados domésticos (atual alínea “d”) e alterou para alínea “e” o prazo de pagamento dos demais casos. 14. Logo, absolutamente correta a menção a então alínea “d” do inciso I do art. 70 da Lei nº 11.196, de 2005, pois esse era o dispositivo que regulava o prazo de pagamento do IRRF aplicável aos demais casos, isto é, aqueles que não se enquadravam nas hipóteses previstas nas alíneas “a” a “c”. 15. Sobre a segunda nulidade, de que a autoridade lançadora teria omitido os períodos em que houve pagamento a maior do IRRF, ressalte-se que não se trata de nulidade. 16. O procedimento de lançamento tem como escopo verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido (art. 142 do CTN). O IRRF tem como base de cálculo os pagamentos efetuados mensalmente a trabalhadores com vínculo empregatício (código 0561) e sem vínculo (0588). 17 Situações de erro na quantificação do montante do tributo devido não são caso de nulidade, mas passíveis de correção no âmbito do contencioso administrativo, aliás essa é uma de suas finalidades precípuas, qual seja, de servir de instrumento para correção de eventuais erros no ato de lançamento. 18. Por outro lado, eventuais pagamentos a maior em outros períodos que não dizem respeito ao lançamento devem ser objeto de pedido de repetição, nos termos no art. 165 do CTN. 19. Por fim, registre-se que os casos de nulidade são restritos aqueles atos praticados com cerceamento de defesa, que produzem prejuízo ao contribuinte no seu direito constitucional ao devido processo legal e a ampla defesa, ou praticados por agente incapaz (art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972). 20 Diante do exposto, afastam-se as nulidades arguidas. Mérito Fl. 721DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1301-001.339 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16004.720133/2015-91 8 21. Sobre o mérito, alega a Recorrente que a r. decisão não aprofundou sobre as alegações e documentos trazidos e que nesse momento processual apresenta novos documentos para complementação. Aduz que a escrituração contábil demonstra a validade das retificações da DIRF e da DCTF. Informa que o Auto de Infração se baseou em divergências que decorrem de regimes de apuração diversos, cuja causa se deu pela substituição dos programas de controle e gerenciamento de tributos e que divergência decorre dos momentos de verificação da obrigação tributária e pagamentos, pois os recolhimentos a partir do regime de competência, quando o correto seria o regime de caixa e que isso gerou antecipação de receitas ao Fisco. 22. Alega, ainda, que a simples leitura do Auto de Infração (fls. 44) permite constatar um lançamento a maior de R$ 23.745,99. 23. Embora tenha juntado diversos documentos em anexo à impugnação (fls. 67/632), a análise não foi aprofundada pela autoridade julgadora de primeira instância, em especial em razão de que tais documentos não estarem referenciados e acompanhados da respectiva escrituração contábil. 24. Entendeu, em resumo, a autoridade julgadora ora recorrida, tratar-se de negativa genérica. Destaca-se esse ponto específico da r. decisão: Negativa genérica. Ônus da prova. A alegação de que houve simples erro de regime de apuração (caixa versus competência), com antecipação de valores que deveriam ser pagos não foi provada pela interessada, tornando oportuna a lembrança do brocardo jurídico allegatio et non probatio, quasi non allegatio , ou seja, alegar sem provar equivale a não alegar. Entre os documentos juntados com a impugnação estão: DIRF retificadora apresentada em 14/08/2015 (fls. 67/375), DCTF retificadora de 2011 (fls. 376/539) apresentada em 14/08/2015, Parecer IBP14065 (fls. 540/599), folheto do IBP (fls. 600/606), extrato da folha analítica de 2011 emitido em 28/07/2015 (fls. 607/632). A DIRF e a DCTF retificadoras foram alteradas após o início do trabalho fiscal, por isso não se revelam prova hábil e idônea caso não possam ser corroboradas pela escrituração contábil e documentos que a amparam. Apesar de ter juntado a Fl. 722DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1301-001.339 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16004.720133/2015-91 9 folha analítica, a interessada não juntou a escrituração e os recibos de pagamento que pudessem atestar o conteúdo do extrato denominado "folha analítica". Portanto, não há elementos que possam corroborar o conteúdo do referido documento apresentado. O Parecer do Instituto Brasileiro de Peritos não diz respeito à impugnante e não serve de prova a seu favor. Assim sendo, resta evidenciado que a impugnante faz negativa genérica dos motivos que levaram à autuação, sem apresentar prova de suas alegações. Porém, o ônus da prova incumbe ao contribuinte que, em sua defesa, alegar fato impeditivo, modificativo ou extintivo da pretensão tributária, afastando desse modo, a infração e sua consequente penalidade conforme art. 16, II, do Decreto n. 70.235/72, c/c o art. 333, II do CPC. Nesse sentido, é apropriada a conclusão de Fabiana Del Padre Tomé (A prova no Direito Tributário, 2008, p. 234): “Em processo tributário,(...) se o Fisco afirma que houve determinado fato jurídico, apresentando documento comprobatório, ao contribuinte cabe provar a inocorrência do alegado fato, apresentando outro documento, pois a negativa se resolve em uma ou mais afirmativas”. E não basta apenas juntar um documento ou um conjunto de documento, ainda que volumoso. É preciso estabelecer uma relação entre os documentos e o fato que se pretende provar. Mais uma vez nos valemos das lições de Fabiana Del Padre Tomé (A prova no Direito Tributário, 2008, p. 179): “Isso não significa, contudo, que para provar algo basta simplesmente juntar um documento aos autos. È preciso estabelecer relação de implicação entre esse documento e o fato que se pretende provar. A prova decorre exatamente do vínculo entre o documento e o fato probando.” Assim, provar por meio de documentos não se encerra na apresentação destes, mas exige que estes sejam apresentados juntamente com uma argumentação que estabeleça uma relação de implicação entre os documentos e o fato que se pretende provar. A simples juntada de documentos não produz prova, ou seja, não resulta no reconhecimento do fato que se pretende provar. Sem que a impugnante tenha se desincumbido do ônus de provar os fatos modificativos ou extintivos que alega, não há como acatar seus argumentos. (g.n.) Fl. 723DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1301-001.339 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16004.720133/2015-91 10 25. De fato, não há discordância com as conclusões da autoridade julgadora de primeira instância, sobretudo quando ao ônus probatório. Como bem assentado, provar não é simplesmente juntar documentos ao processo, mas estabelecer relação de implicação entre os documentos e o fato que se quer provar. Há de se demonstrar o fato alegado, referenciando analiticamente as provas, isso evidentemente não há nos autos. 26. Após ter ciência da r. decisão, a Recorrente junta cópia da conta razão 2.01.04.002.0002 – 0561 – IRRF S/ TRABALHO ASSALARIADO (fls.674/704) em que consta os seguintes valores a débito vinculados a períodos do ano-calendário 2011: Data Histórico Valor 23/02/2011 IRRF S/ FOPAG 01/2011 R$ 67.954,79 (1) 23/03/2011 PAGAMENTO IRRF MÊS 02 2011 FOLHA DE PGTO R$ 62.130,33 (2) 20/04/2011 PAGAMENTO IRRF – 032011 R$ 57.296,07 (1) 20/06/2011 PAGAMENTO IRRF – 052011 R$ 77.433,93 (1) 20/07/2011 PAGAMENTO IRRF – 062011 R$ 57.727,40 (1) 19/08/2011 PAGAMENTO IRRF S/FOLHA – 072011 R$ 57.570,71 (2) 07/10/2011 IRRF S/ FOPAG 08 2011 EM ATRASO COM ENCARGOS R$ 55.663,60 (1) (1) Valores pagos e considerados por ocasião do lançamento do IRRF, conforme demonstrativo de apuração (fls. 41). (2) Valores se referem a períodos de apuração que não foram objeto do lançamento de ofício. 27. Desses dados, verifica-se que os valores pagos a título de IRRF, nos meses em que a Autoridade Fiscal identificou insuficiência de pagamento, foram considerados pelos exatos valores em que constam na escrituração contábil. 28. Contudo, restam dúvidas sobre os valores a crédito constantes no registro do Livro Razão e se os mesmos foram corretamente reportados na DIRF. Sabe-se que a Fiscalização se valeu da DIRF original, sobre a qual a Recorrente alega existência de erro de preenchimento em razão de ter utilizado o regime de competência, quando o correto é o regime de caixa, quando se dá o pagamento ou crédito da remuneração. Fl. 724DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O RESOLUÇÃO 1301-001.339 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16004.720133/2015-91 11 29. Como o lançamento deve ser pautar pela verdade material, isto é, tem por finalidade, no caso, não legitimar exação que se paute em erro, ainda que praticado pelo sujeito passivo, o presente julgamento deve ser convertido em diligência para que a unidade preparadora da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil se manifeste acerca dos documentos juntados aos autos (fls. 67/632 e 674/704) para que de forma conclusiva informe: a) Com base na escrituração contábil, em especial o Livro Razão, verificar se as informações constantes na DIRF retificadora estão corretas. b) Se corretas as informações constantes na DIRF retificadora, refazer demonstrativo de apuração do IRRF não recolhido com base nessas informações e deduzir os pagamentos efetuados mediante DARF. c) Elaborar novo demonstrativo, vis a vis os Demonstrativos de Apuração dos Valores em Aberto do IRRF com vínculo (fls. 41) e sem vínculo (fls. 42). d) Ao final, dê ciência ao sujeito passivo sobre o resultado do procedimento de diligência, facultando-lhe a oportunidade de se manifestar nos autos sobre suas conclusões, no prazo de trinta dias (art. 35 do Decreto 7.574, de 2011). e) Após, com ou sem manifestação do sujeito passivo, o processo deverá retornar ao CARF para prosseguimento do julgamento. (documento assinado digitalmente) Iágaro Jung Martins Fl. 725DF CARF MF Original Resolução Relatório Voto

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Numero do processo: 10314.722847/2016-34
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Jan 02 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2011 LANÇAMENTO. NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. CONTRADITÓRIO. AMPLA DEFESA. INOCORRÊNCIA. Tendo o fiscal autuante demonstrado de forma clara e precisa os fatos que suportaram o lançamento, oportunizando ao contribuinte o direito de defesa e do contraditório, bem como em observância aos pressupostos formais e materiais do ato administrativo, nos termos da legislação de regência, especialmente artigo 142 do CTN, não há que se falar em nulidade do lançamento. IRPF. DECADÊNCIA. CONTAGEM DO PRAZO. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. FATO GERADOR EM 31 DE DEZEMBRO. COMPLEXIVO. SÚMULA CARF N° 38. O fato gerador do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, relativo à omissão de rendimentos, é complexivo e ocorre no dia 31 de dezembro do ano-calendário. IRPF. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. PRESUNÇÃO LEGAL. A variação patrimonial não justificada através de provas inequívocas da existência de rendimentos (tributados, não tributáveis, ou tributados exclusivamente na fonte), à disposição do contribuinte dentro do período mensal de apuração está sujeita à tributação. Por força de presunção legal, cabe ao contribuinte o ônus de provar as origens dos recursos que justifiquem o acréscimo patrimonial.
Numero da decisão: 2002-009.978
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar e, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Marcelo Freitas de Souza Costa – Relator Assinado Digitalmente Marcelo de Souza Sateles – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Barros de Moura, Fernando Gomes Favacho, Luciana Costa Loureiro Solar, Marcelo Freitas de Souza Costa, Rafael de Aguiar Hirano, Marcelo de Souza Sateles (Presidente).
Nome do relator: MARCELO FREITAS DE SOUZA COSTA

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NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. CONTRADITÓRIO. AMPLA DEFESA. INOCORRÊNCIA. Tendo o fiscal autuante demonstrado de forma clara e precisa os fatos que suportaram o lançamento, oportunizando ao contribuinte o direito de defesa e do contraditório, bem como em observância aos pressupostos formais e materiais do ato administrativo, nos termos da legislação de regência, especialmente artigo 142 do CTN, não há que se falar em nulidade do lançamento. IRPF. DECADÊNCIA. CONTAGEM DO PRAZO. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. FATO GERADOR EM 31 DE DEZEMBRO. COMPLEXIVO. SÚMULA CARF N° 38. O fato gerador do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, relativo à omissão de rendimentos, é complexivo e ocorre no dia 31 de dezembro do ano-calendário. IRPF. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. PRESUNÇÃO LEGAL. A variação patrimonial não justificada através de provas inequívocas da existência de rendimentos (tributados, não tributáveis, ou tributados exclusivamente na fonte), à disposição do contribuinte dentro do período mensal de apuração está sujeita à tributação. Por força de presunção legal, cabe ao contribuinte o ônus de provar as origens dos recursos que justifiquem o acréscimo patrimonial. ACÓRDÃO Fl. 710DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.978 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10314.722847/2016-34 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar e, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Marcelo Freitas de Souza Costa – Relator Assinado Digitalmente Marcelo de Souza Sateles – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Barros de Moura, Fernando Gomes Favacho, Luciana Costa Loureiro Solar, Marcelo Freitas de Souza Costa, Rafael de Aguiar Hirano, Marcelo de Souza Sateles (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Auto de Infração lavrado contra o contribuinte acima identificado, relativo ao Imposto de Renda da Pessoa Física, decorrente da constatação de acréscimo patrimonial a descoberto e omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica, referente ao exercício 2012. De acordo com o Termo de Verificação Fiscal (e-fls. 198/209), extrai-se que o Sr. Hélio Ferraz de Almeida Camargo Júnior se beneficiou dos procedimentos adotados por seu irmão Júlio que intermediou a aproximação de empresas (Camargo Correa, Toyo JP, Setal, Samsung, etc), interessadas em se qualificar na execução de obras, envolvendo a construção de unidades e fornecimento de equipamentos ligados às atividades petroquímicas. As intermediações patrocinadas por Júlio Camargo ou em conjunto com outros interlocutores influentes junto às diretorias da Petrobrás, quando resultavam em sucesso para empresa interessada, envolvia na maioria dos casos, o pagamento de vantagens indevidas, exigidas por um seleto grupo de funcionários da estatal. O pagamento das vantagens indevidas tinha como operador Júlio Camargo, que disponibilizava os valores aos interessados no Brasil ou através de depósitos em contas correntes, indicadas pelos beneficiários em bancos no exterior. As informações relativas aos contatos do operador constam dos Termos de Colaboração firmados por ele, indicando inclusive como eram operacionalizados os pagamentos de vantagens indevidas (propinas) aos beneficiários. Para isto Fl. 711DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.978 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10314.722847/2016-34 3 Júlio Camargo utilizava-se de suas empresas (Treviso, Piemonte e Auguri), que por muitas vezes atuavam em conjunto com as empresas de fachada de Alberto Youssef, propiciando assim a lavagem de capitais. Deste modo, foi apurada a infração de variação patrimonial a descoberto de acordo com o item VIII do TVF e anexo de fls. 210 a 218 que representa o Demonstrativo de Variação Patrimonial – Fluxo Financeiro Mensal – Ano-Calendário 2011. No procedimento fiscal constatou-se também que na Declaração de Ajuste do ano- calendário 2011 não foram inseridos os rendimentos recebidos do Instituto Nacional do Seguro Social – INSS pela dependente Sandra Azzi de Almeida Camargo no valor de R$15.742,47 e Imposto Retido na Fonte de R$150,82, o que ocasionou o lançamento da infração de omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica por dependente. Após apresentação de impugnação por parte do contribuinte, foi proferido Acórdão n° 02-77.691 - 9ª TURMA da DRJ em Belo Horizonte/MG de e-fls. 406/423, a qual julgou procedente o lançamento. Inconformado com referida decisão, o contribuinte apresentou recurso (e-fls. 433/453), repisando as alegações da impugnação, motivo pelo qual adoto o relatório da DRJ: 1. As nulidades do auto de infração conduzem à preterição do direito de defesa, ofensa ao artigo 59, II do Decreto 70.235/72. A primeira delas seria o fato de não haver no auto de infração o dispositivo que autorize o fisco simplesmente ignorar os rendimentos declarados do contribuinte. Os dispositivos normativos citados no auto de infração demonstram que a fiscalização não pode, neste tipo de lançamento, deixar de considerar os rendimentos declarados e comprovados do contribuinte; 1.1. Argumenta que a maior nulidade dos autos é a acusação de que teria havido lavagem de capitais que no mérito deu ensejo a um verdadeiro arbitramento, sem amparo na lei, ao arrepio da renda já declarada e oferecida à tributação; 2. Destaca que no Termo de Colaboração nº 1 Júlio Camargo, a propósito da obra da Refinaria REVAP, explicitou que as empresas integrantes do Consórcio ECOVAP não tinham conhecimento dos pagamentos indevidos exigidos pelos funcionários da Petrobrás, o mesmo tendo ocorrido no tocante à obra da Refinaria REPAR; 2.1. Diferentemente do que concluiu a fiscalização, a defesa informa que Júlio Camargo não recebia comissões através das empresas das quais Hélio Ferraz era sócio com o propósito exclusivo de repassar integralmente tais valores a agentes públicos e funcionários da estatal a título de vantagens indevidas. Os clientes das empresas do impugnante nem sempre sabiam do pagamento das vantagens indevidas; 2.2. Remete ao Termo de Verificação Fiscal para demonstrar que no caso da REVAP, a empresa Treviso recebeu comissão de R$40 milhões e desse total efetuou pagamento de vantagens indevidas da ordem de R$12 milhões, apenas Fl. 712DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.978 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10314.722847/2016-34 4 30% da comissão total recebida. Assevera que nem sempre os clientes das empresas do contribuinte sabiam de tais pagamentos e quando eram pagas não representavam parcela relevante das comissões; (...) 2.4. Pondera a defesa que a origem de recursos é sempre lícita (comissões contratadas com as empresas do impugnante), com os recursos inteiramente oferecidos à tributação por cada pessoa jurídica beneficiária. Não seriam os recursos provenientes de pagamento de propina, embora parte deles tenha sido utilizada, em operação subsequente para o oferecimento de vantagens indevidas; 2.5. A peça impugnatória prossegue com o argumento segundo o qual não há base legal para se desconsiderar a renda declarada do contribuinte na hipótese de acréscimo patrimonial a descoberto; 2.6. A fiscalização teria ignorado que as empresas das quais Hélio Ferraz era sócio tinham atividades próprias, partindo do pressuposto de que serviam somente com o rito de passagem de toda a verba destinada aos pagamentos indevidos; 2.7. Reclama que os comandos normativos indicados pela fiscalização são insuficientes para justificar a autuação na forma com foi proposta, visto que a exigência aqui discutida não se resume a uma identificação regular de acréscimo patrimonial a descoberto. A fiscalização teria arbitrado os valores apontados como dispêndios, atribuindo-os ao impugnante e ignorou a maior parte dos rendimentos declarados sem sequer indicar o fundamento legal para tal procedimento; 2.8. Socorre-se do inciso XIII do artigo 55 do Regulamento do Imposto de Renda para advertir que dentre os rendimentos tributáveis são consideradas as quantias correspondentes ao acréscimo patrimonial da pessoa física, apurado mensalmente, quando o acréscimo não for justificado pelos rendimentos tributáveis, não tributáveis, tributáveis exclusivamente na fonte ou objeto de tributação definitiva; (...) 2.12. Argumenta que a fiscalização deveria ter sido estendida às pessoas jurídicas das quais o contribuinte é sócio de forma a analisar livros e documentos daquelas empresas para demonstrar a viabilidade da acusação de desvio de finalidade; 2.13. Adentra no estudo da decadência quinquenal para asseverar que como previsto no § 4º do artigo 150 do Código Tributário Nacional os fatos geradores ocorridos no ano-calendário 2011 já não mais poderiam ser objeto de lançamento, sobretudo porque a regra do artigo 173, I somente poderia ter sido aplicada no caso da presença de dolo, fraude ou simulação; 2.14. O Sr. Hélio Ferraz declarou no ano-calendário 2011 rendimentos tributáveis de R$17.335,00, bem como rendimentos isentos de R$4.616.810,24 e rendimentos sujeitos à tributação exclusiva de R$2.423.609,76, perfazendo uma Fl. 713DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.978 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10314.722847/2016-34 5 renda total de R$131.310,47. O fisco desprezou os rendimentos isentos, montante suficiente para justificar todo o acréscimo patrimonial apurado; 2.15. Como vem decidindo o CARF, devem ser considerados como origens de recursos na análise da evolução patrimonial os rendimentos isentos e não tributáveis relativos à distribuição de lucros pagos por pessoas jurídicas. A fiscalização ignorou os informes de rendimentos apresentados pelo contribuinte e não apontou qualquer comando legal que autorizasse esse procedimento; 2.16. A fiscalização jamais questionou aspectos formais dos informes de rendimentos e tampouco examinou a escrita contábil e fiscal das fontes pagadoras. A recusa fazendária teve amparo exclusivamente na tese de que os valores percebidos pelas fontes pagadoras e repassados sob a forma de lucros ao impugnante teriam sido objeto de lavagem de capitais. As empresas das quais o contribuinte recebeu os lucros sequer foram examinadas no procedimento fiscal, tendo em vista que sua escrituração contábil não foi desclassificada; Ao fim requer que seja julgado totalmente improcedente o presente Auto de Infração, com o cancelamento da integralidade do crédito tributário. Em 23/07/2019, protocola petição (e-fl. 630/634) pugnando pelo reconhecimento/abatimento do imposto pago pela pessoa jurídica. É o relatório. VOTO Conselheiro Marcelo Freitas de Souza Costa, Relator O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto dele conheço. DEMILIMITAÇÃO DA LIDE Petição Extemporânea – Preclusão Conforme relatado, o Recorrente protocolou petição em 23 de julho de 2019 pugnando pelo reconhecimento e abatimento do imposto pago pela jurídica. No entanto, convém frisar que a petição foi protocolada muito além do prazo para apresentação do Recurso, devendo, portanto, ser considerada intempestiva. Ademais, mesmo que tempestiva, tal alegação não foi apresentada em sede de impugnação. Assim sendo, nos termos da legislação processual tributária, esses argumentos se encontram fulminados pela preclusão, uma vez que não foram suscitados por ocasião da apresentação da impugnação, conforme preceitua o artigo 17 do Decreto n. 70.235/72, senão vejamos: Fl. 714DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.978 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10314.722847/2016-34 6 Art. 17. Considerar-se-á não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. Nessa toada, não merece análise a matéria suscitada em sede de petição extemporânea. PRELIMINAR Da Nulidade – Ausência de Fundamentação – Cerceamento do Direito de Defesa O contribuinte alega que não houve a devida motivação do lançamento, caracterizando o cerceamento do direito de defesa. Em que pesem as substanciosas razões ofertadas pelo contribuinte, seu inconformismo, contudo, não tem o condão de prosperar. Do exame dos elementos que instruem o processo, conclui-se que o lançamento, corroborado pela decisão recorrida, apresenta-se formalmente incensurável, devendo ser mantido em sua plenitude. Resta evidenciada a legitimidade da ação fiscal que deu ensejo ao presente lançamento, cabendo ressaltar que se trata de procedimento de natureza indeclinável para o Agente Fiscalizador, dado o caráter de que se reveste a atividade administrativa do lançamento, que é vinculada e obrigatória, nos termos do art. 142, parágrafo único do Código Tributário Nacional, que assim dispõe: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante devido, identificar o sujeito passivo e, sendo o caso, propor a aplicação de penalidade cabível. De fato, o ato administrativo deve ser fundamentado, indicando a autoridade competente, de forma explícita e clara, os fatos e dispositivos legais que lhe deram suporte, de maneira a oportunizar ao contribuinte o pleno exercício do seu consagrado direito de defesa e contraditório, sob pena de nulidade. E foi precisamente o que aconteceu com o presente lançamento. A simples leitura do Auto de Infração, bem como do Termo de Verificação Fiscal, anexos e demais informações fiscais, não deixa margem de dúvida recomendando a manutenção do lançamento. Consoante se positiva dos anexos encimados, a fiscalização ao promover o lançamento demonstrou de forma clara e precisa os fatos que lhes suportaram, ou melhor, os fatos geradores do crédito tributário, não se cogitando na nulidade dos procedimentos. Mais a mais, a exemplo da defesa inaugural, o contribuinte não trouxe qualquer elemento de prova capaz de comprovar que os lançamentos encontram-se maculados por vício em sua formalidade, escorando seu pleito em simples arrazoado desprovido de demonstração do sustentado. Fl. 715DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.978 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10314.722847/2016-34 7 Destarte, é direito do contribuinte discordar com a imputação fiscal que lhe está sendo atribuída, sobretudo em seu mérito, mas não podemos concluir, por conta desse fato, isoladamente, que o lançamento não fora devidamente fundamentado na legislação de regência. O argumento de eventual erro do fato gerador, na eleição da base de cálculo e demais, se confundem com o mérito que iremos tratar posteriormente, como já dito, não ensejando em nulidade. Concebe-se que o auto de infração foi lavrado de acordo com as normas reguladoras do processo administrativo fiscal, dispostas nos artigos 9° e 10° do Decreto n° 70.235/72 (com redação dada pelo artigo 1° da Lei n° 8.748/93), não se vislumbrando nenhum vício de forma que pudesse ensejar nulidade do lançamento. Ademais, especificamente quanto ao argumento que a autoridade fiscal apenas colacionou os termos de intimações e suas respostas, a meu ver, ao contrário que afirma o contribuinte, o Sr. Fiscal foi por demais didático, confrontando todos os argumentos e documentos apresentados, bem como suas justificativas e conclusões. No âmbito do Processo Administrativo Fiscal, as hipóteses de nulidade são as previstas no art. 59 do Decreto n° 70.235, de 1972, nos seguintes termos: Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões preferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Logo, em face do exposto, rejeito a preliminar suscitada. PREJUDICIAL DE MÉRITO Da Decadência O Recorrente pugna que seja reconhecida a decadência do lançamento fiscal com base no artigo 150, §4° do CTN. No caso em análise, o Recorrente alega que o fato gerador ocorre no mês do recebimento, no que, parece-me, está confundindo diferentes obrigações e diferentes regras. No regime atual de tributação do IRPF, a regra aplicável à maioria dos rendimentos é a antecipação mensal de que trata o art. 2º da Lei nº 8.134, de 1990, sem prejuízo da apuração anual, disciplinada pelo art. 7º da Lei nº 9.250 de 1995: Art. 7º A pessoa física deverá apurar o saldo em Reais do imposto a pagar ou o valor a ser restituído, relativamente aos rendimentos percebidos no ano- calendário, e apresentar anualmente, até o último dia útil do mês de abril do ano- calendário subsequente, declaração de rendimentos em modelo aprovado pela Secretaria da Receita Federal. (...) Fl. 716DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.978 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10314.722847/2016-34 8 Assim, mensalmente surge para o contribuinte o dever de realizar antecipações de pagamento, caso tenha recebido rendimentos sujeitos a esse regime. E se chama "antecipação" porque não é definitiva. E não é definitiva porque a verificação da existência ou não do dever de pagar tributo só surgirá no encerramento do período de apuração, ou seja, no fim do ano- calendário. Por isso, o fato gerador do imposto devido no ano-calendário ocorre apenas em 31 de dezembro, mesmo nas hipóteses em que a base de cálculo deva ser apurada em bases mensais. Um exemplo disto, diz respeito a depósitos bancários, esta é, inclusive, uma matéria sumulada por este Conselho. Vejamos o teor da Súmula CARF nº 38: Súmula CARF nº 38: O fato gerador do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, relativo à omissão de rendimentos apurada a partir de depósitos bancários de origem não comprovada, ocorre no dia 31 de dezembro do ano-calendário. Assim, a previsão legal de que o rendimento se considera recebido no mês do crédito não tem o condão de deslocar a data da ocorrência do fato gerador, que se aperfeiçoa em 31 de dezembro, alcançando todos os rendimentos apurados desde o início do seu período de apuração. Não há, portanto, nenhuma dúvida de que o imposto lançado foi calculado levando- se em consideração, corretamente, que o fato gerador do imposto é anual (concretizando-se em 31 de dezembro de cada ano). Portanto, segundo os dispositivos legais mencionados pelo Recorrente, o direito do Fisco constituir o crédito tributário somente extingue-se após cinco anos, contados do primeiro dia após o fato gerador (31/12/2011), ou seja, a contagem se iniciaria em 01/01/2012, e teria como termo final 31/12/2016. Portanto, tendo sido dada ciência do lançamento durante o ano de 2016 (19/12/2016 – e-fl. 228), constata-se que não ocorreu a decadência do Fisco em constituir o crédito tributário em questão. MÉRITO Do Acréscimo Patrimonial a Descoberto De conformidade com a peça vestibular do feito, a lavratura do presente auto de infração se deu em virtude da omissão de rendimentos tendo em vista realização de gastos não respaldados por rendimentos declarados/comprovados, ou seja, acréscimo patrimonial a descoberto. Antes mesmo de se adentrar ao mérito da questão, cumpre trazer à baila os dispositivos legais que regulamentam a matéria. A Lei nº 7.713, de 22/12/1988, que estabeleceu a tributação pelo regime de caixa, em seus artigos 1°, 2° e 3°, “caput”, e §§ 1° e 4°, dispõe que: Fl. 717DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.978 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10314.722847/2016-34 9 Art. 1° Os rendimentos e ganhos de capital percebidos a partir de 1° de janeiro de 1989, por pessoas físicas residentes ou domiciliados no Brasil, serão tributados pelo imposto de renda na forma da legislação vigente, com as modificações introduzidas por esta Lei. Art. 2 ° O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos. Art. 3 °- O imposto incidirá sobre o rendimento bruto, sem qualquer dedução, ressalvado o disposto nos arts. 9° e 14 desta Lei. § 1°- Constituem rendimento bruto todo o produto do Capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, e ainda os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados. (...) §`4°- A tributação independe da denominação dos rendimentos, títulos ou direitos, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem dos bens produtores da renda, e da forma de percepção das rendas ou proventos, bastando para incidência do imposto. o beneficio do contribuinte por qualquer forma e a qualquer título. (grifamos) Ao tratar sobre o Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza e de sua base de cálculo, os arts. 43 e 44, do Código Tributário Nacional rezam que: Art 43 - O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: ,. I - de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II- de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. Art. 44 - A base de cálculo do imposto é o montante, real arbitrado ou presumido da renda ou dos proventos tributáveis (grifo nosso) Vale reproduzir, outrossim, o inciso XIII, do art. 55, do Regulamento do Imposto de Renda consubstanciado no Decreto n° 3.000, de 26/03/1999 (vigente a época dos fatos geradores): Art. 55. São também tributáveis (Lei in” 4.506, de 1964, art. 26, Lei .n° 7. 713, de 1988, art. 3”, § 42 e Lei n° 9.430, de 1996, arts 24, § 22 inciso IV, e 70, § 3°, inciso I): Fl. 718DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.978 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10314.722847/2016-34 10 (...) XIII - as quantias correspondentes ao acréscimo patrimonial da pessoa fisica, apurado mensalmente, quando esse acréscimo não for justificado pelos rendimentos tributáveis, não tributáveis, tributados exclusivamente na fonte ou objeto de tributação definitiva; Pela análise dos supracitados dispositivos legais, conclui-se que o pressuposto para a ocorrência do fato gerador é o benefício do contribuinte, por qualquer forma e a qualquer título, consubstanciado na aquisição de disponibilidade jurídica de renda ou de proventos de qualquer natureza, sendo que a apuração de acréscimo patrimonial a descoberto, que enseja a caracterização de omissão de rendimentos, concretiza o fato gerador do imposto de renda. Neste tipo de autuação, é feita uma análise do fluxo financeiro do sujeito passivo, no qual se busca conhecer todas as origens dos recursos (e sua natureza jurídico-tributária) que suportaram a aplicação deles nos gastos. Em outras palavras, o acréscimo patrimonial é uma das formas colocadas à disposição do Fisco para detectar omissão de rendimentos, edificando-se aí, uma presunção legal do tipo condicional ou relativa (juris tantum), que, embora estabelecida em lei, não tem caráter absoluto de verdade, mas impõe aos contribuintes a comprovação da origem dos rendimentos determinantes do descompasso patrimonial. À Fazenda Pública cabe tornar evidente o fato constitutivo do seu direito. Dessa forma, a autoridade administrativa, em procedimento fiscal, utiliza-se de planilhas de cálculo com o fito de apurar se houve ou não a ocorrência de inconformidades entre a renda declarada e os dispêndios e aplicações realizados pelo contribuinte. Ocorrendo diferenças negativas, quando são verificadas despesas e/ou aplicações sem cobertura dos rendimentos declarados, cabe ao contribuinte provar os fatos modificativos ou extintivos desse direito, ou seja, justificá-los com rendimentos tributáveis, não tributáveis ou tributáveis exclusivamente na fonte. No caso sob exame, o “acréscimo patrimonial a descoberto” foi apurado mediante a desconsideração, como RECURSOS/APLICAÇÕES, dos lucros e dividendos das empresas utilizadas no esquema fraudulento de lavagem de dinheiro e repasse de propinas. A presunção contida nos dispositivos legais citados não é absoluta, reitere-se, mas relativa – juris tantum – na medida em que admite prova em contrário. Trata-se de prova que deve ser feita pela própria contribuinte, uma vez que a legislação define o acréscimo patrimonial não justificado como fato gerador do imposto de renda, sem impor outras condições ao sujeito ativo, além da demonstração do referido desequilíbrio financeiro/patrimonial do sujeito passivo. Primeiramente, cabe esclarecer que, de acordo com os termos da defesa não houve qualquer argumentação contrária ao Demonstrativo de Variação Patrimonial na parte que toca aos dispêndios/aplicações de recursos e em sede de verificação da legalidade do lançamento também não se vislumbra qualquer erro cometido em relação aos gastos incluídos naquela planilha. Fl. 719DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.978 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10314.722847/2016-34 11 O Recorrente insurgiu-se apenas contra a não inclusão dos valores declarados como rendimentos isentos e não tributáveis sob a forma de lucros auferidos das empresas Treviso, Piemonte e Auguri. Neste ponto, tendo em vista que o recorrente transcreve, em seu recurso, ipsis litteris, a sua impugnação, enxertando apenas alguns comentários sobre a decisão recorrida, opto por reproduzir no presente voto, as razões de decidir da decisão de primeira instância, com as quais concordo e mantenho em sua integralidade. É de se ver: Antes de tudo é curioso observar que a defesa a exemplo do que já fizera em processo que envolve Júlio Camargo disse que ele não recebia comissões com o propósito exclusivo de repassar vantagens indevidas aos agentes públicos, exemplificou que em um contrato firmado com empresas do Consórcio ECOVAP relativamente à da obra da Refinaria REPAR a sua empresa, TREVISO, recebeu R$40.000.000,00, sendo que apenas 30% desse valor foram repassados aos funcionários da Petrobrás. Logo de início já é possível identificar a pouca significação que a defesa dá aos vultosos valores envolvidos no pagamento de vantagens indevidas, a ponto de afirmar que quantias pagas a título de propina não representavam parcela relevante das “comissões”. Existem outros casos, mas somente neste, para a defesa R$12.000.000,00 ou 30% do valor pactuado com o Consórcio não significam quantia razoável. A alegação de que as “comissões” eram sempre recebidas de forma lícita merece ser examinada detidamente, pois não têm sido raros os julgamentos de impugnações apresentados por pessoas envolvidas na chamada “Operação Lava Jato”. Por diversas vezes os argumentos são sempre os mesmos: (i) as empresas dos envolvidos prestam serviços lícitos de consultoria ou de intermediação a outras empresas interessadas em contratar com a Petrobrás; (ii) as empresas de consultoria são pagas, contabilizam os valores dos serviços prestados, recolhem os tributos devidos e do montante recebido remuneram seus titulares sob a forma de lucros distribuídos; (iii) diversos desses consultores operam em favor das empresas como distribuidores da propina paga a funcionários da Petrobrás. Do que nos interessa nos presentes autos é importante o registro sobre o pagamento das propinas. Insiste a defesa que as empresas dos irmãos Hélio Ferraz e Júlio Camargo recebiam “comissões” para realizar a ponte entre as pessoas jurídicas interessadas em contratar com a Petrobrás e, do valor recebido era destacada uma parte para saciar a sede dos funcionários da estatal, bem como de outros intermediários como é o caso de Fernando Soares, outro conhecido operador no esquema apurado pela operação policial. Tudo isto, segundo argumenta a defesa, numa relação entre Júlio Camargo e as pessoas envolvidas no recebimento de vantagens indevidas, sem o conhecimento das empresas que contratavam seus serviços. Fl. 720DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.978 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10314.722847/2016-34 12 Do destaque dado pela fiscalização é preciso reforçar que de fato não convence o argumento da defesa segundo o qual as empresas contratantes não sabiam do pagamento de propinas. Justamente por que o próprio Júlio Camargo declarou em Termo de Colaboração que em função de o pagamento de propina consistir em uma regra do jogo é que os contratos eram viabilizados. Os contratos de consultoria firmados entre as empresas do contribuinte e aquelas interessadas em ingressar na prestação de serviços à Petrobrás não constam dos autos, mas o modus operandi de Júlio Camargo é praticamente o mesmo das empresas de consultoria de outros sujeitos passivos, já analisadas em julgamentos recentes por esta Delegacia de Julgamento. Ainda que não haja provas da participação de Hélio Ferraz nas tratativas para obtenção das vantagens indevidas, o recebimento sobre a forma de lucros e beneficiou o “de cujus”. Os valores recebidos a título de “consultoria” ingressam nas empresas e saem como lucros distribuídos. A partir desse ponto são devidamente declarados ao Fisco tanto pelas empresas como pelos sócios e servem para saldar compromissos com os agentes públicos, por meio do pagamento de vantagens indevidas. Normalmente os tais serviços de consultoria nunca são comprovados por meio de relatórios, demonstrativos ou provas técnicas adequadas. Vez ou outra o sujeito passivo apresenta contratos, tudo está devidamente contabilizado, mas a prova efetiva que de fato prestou os serviços por meio das empresas de sua propriedade dificilmente é apresentada. Especificamente sobre a desconsideração dos lucros declarados como recebidos das três empresas das quais Hélio Ferraz era sócio, a fiscalização não acatou tais valores na composição das origens de recursos no fluxo de variação patrimonial porque os objetivos sociais das empresas foram desvirtuados para dar ares de legalidade às vantagens indevidas recebidas por ele. De qualquer forma, acertou a fiscalização em não considerar os lucros pelo seu montante declarado porque conforme já mencionado os procedimentos adotados pelos sócios para dar aspecto de legalidade aos valores recebidos por suas empresas foram devidamente demonstrados. Aliado a este fato o que se nota também é que para os valores declarados como rendimentos isentos e não tributáveis recebidos sob a forma de lucros das três empresas mencionadas acima não houve sequer a comprovação do recebimento das quantias de R$1.000.000,00, R$1.800.000,00 e R$1.700.000,00, respectivamente. As alegações segundo as quais a fiscalização teria ignorado os informes de rendimentos que tratam dos lucros distribuídos são bastante frágeis se levado em consideração o não reconhecimento dos valores como isentos de tributação. Importante ressaltar que no procedimento fiscal verificou-se que os dados constantes dos informes de rendimentos, da contabilidade das empresas, das DIPJ e as próprias certidões negativas não se sobrepõem à realidade exposta nos autos. Os valores recebidos pelo “de cujus” são considerados vantagens indevidas Fl. 721DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.978 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10314.722847/2016-34 13 recebidas num rito de passagem por intermédio das empresas das quais participava como sócio com a utilização do artifício da distribuição de lucros para assim denotar legalidade no recebimento dos rendimentos tidos por isentos. Outro argumento que não possui profundidade é aquele segundo o qual a fiscalização deveria ter sido estendida às pessoas jurídicas. Não há essa necessidade tendo em vista que a construção fiscal para expurgar os lucros distribuídos como origem de recursos foi adequadamente tratada na fiscalização da pessoa física responsável praticamente por toda a movimentação daquelas empresas. Desta forma, considerando que houve DISPÊNDIOS/APLICAÇÕES em montante superior aos RENDIMENTOS/ORIGENS, resta classificado o acréscimo patrimonial a descoberto. Para além do exposto, convêm frisar que o CARF já analisou o processo do irmão (Sr. Júlio Camargo), análogo aos fatos aqui demonstrados e se manifestou no mesmo sentido, conforme depreende-se do Acórdão n. 2201-004.778, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Ano-calendário: 2011 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. LAVRATURA ANTES DE FINDAR O PRAZO PARA APRESENTAÇÃO DE INFORMAÇÕES. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO PARA A PARTE. INEXISTÊNCIA DE CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. Não importa em nulidade o fato da fiscalização lavrar o auto de infração quando em curso prazo para apresentação de documentos pelo contribuinte, sobretudo e especialmente porque a autoridade fiscal aponta que não houve nenhum prejuízo ao contribuinte já que não foram incluídos na autuação quaisquer valores ou fatos relacionados aos documentos cujo prazo para apresentação ainda estava em aberto. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. DEMONSTRAÇÃO DA PRÁTICA DE SONEGAÇÃO, FRAUDE OU CONLUIO. APLICABILIDADE. Ao verificar qualquer uma das ocorrências dos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64, é dever da autoridade lançadora aplicar a multa qualificada de 150%, devendo ser demonstrada, de forma inequívoca, a intenção dolosa do contribuinte na prática dos atos de sonegação, fraude ou conluio, tudo no intuito de impedir o conhecimento do fato gerador pela autoridade fazendária. IRRF. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. ESQUEMA DE LAVAGEM DE DINHEIRO. DESCONSIDERAÇÃO DE VALORES COMO RECURSOS. POSSIBILIDADE. Na verificação do acréscimo patrimonial a descoberto, é possível a não consideração, como origem na planilha de fluxo mensal, dos lucros/dividendos advindos de empresas utilizadas em esquema fraudulento de lavagem de dinheiro e repasse de propinas. Fl. 722DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-009.978 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10314.722847/2016-34 14 Havendo a desvirtuação do propósito da empresa, as quais foram utilizadas com a finalidade de dar ares de legalidade às vantagens indevidas recebidas, os rendimentos por elas auferidos deixam de ser fruto do exercício de seus objetos sociais, mas sim fruto das atividades ilícitas praticadas por seu sócio. Se não há exploração de atividade econômica da empresa, nem tampouco exploração do seu patrimônio, não há como os rendimentos distribuídos serem materialmente considerados distribuição de lucros e dividendos. Não se pode classificar como lucros e dividendos, ainda que formalmente declarados a este título, os rendimentos obtidos através da prática criminosa. Ademais, os lucros/dividendos das empresas utilizadas no esquema eram, confessadamente, utilizados para efetuar o pagamento de propinas a terceiros. Ou seja, são, em verdade, recursos de terceiros que apenas transitam pelas contas das empresas como forma de dar aparência de legalidade ao esquema criminoso. Assim, o montante não pertence ao contribuinte e, também em razão disso, não pode compor o seu fluxo financeiro como origem/rendimentos na apuração do acréscimo patrimonial. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. DEMONSTRAÇÃO DE INTERESSE COMUM NA SITUAÇÃO QUE CONSTITUA O FATO GERADOR DA OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. POSSIBILIDADE. Deve ser incluída como responsável solidária empresa que tenha interesse comum na prática do ato que implicou na constituição do fato gerador da obrigação tributária. Fica caracterizado o interesse comum o fato de empresa adquirir bens e/ou direitos com recursos oriundos da participação do contribuinte principal e suas empresas de fachada em fatos que culminaram no lançamento da obrigação principal, o qual envolve a operacionalização e o pagamento de vantagens indevidas. Ao adquirir os bens em nome da empresa apontada como responsável solidária, esta funciona como receptora dos bens do contribuinte principal, acumulando o seu patrimônio, o que revela o seu interesse comum, visto que foi ela quem efetivamente se beneficiou economicamente dos rendimentos que ensejaram o acréscimo patrimonial a descoberto. Portanto, mantem-se incólume a decisão de piso. Conclusão Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário para rejeitar a preliminar, afastar a prejudicial de decadência e, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Marcelo Freitas de Souza Costa Fl. 723DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto

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