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Numero do processo: 16004.720287/2017-44
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 04 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Dec 31 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2013
PRELIMINAR. NULIDADE LANÇAMENTO. INOCORRÊNCIA.
NULIDADE. INOCORRÊNCIA
Não há que se cogitar de nulidade do lançamento quando observados os requisitos previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal.
PAGAMENTO SEM CAUSA OU SEM OPERAÇÃO COMPROVADA
Sujeita-se à incidência do imposto, exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%, o pagamento efetuado pelas pessoas jurídicas quando não for comprovada a sua causa ou a operação a que se refere.
TAXA SELIC. SUMULA CARF Nº 108.
Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício.
Numero da decisão: 1002-004.087
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada, e, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário.
Assinado Digitalmente
Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri – Relatora
Assinado Digitalmente
Aílton Neves da Silva – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Ricardo Pezzuto Rufino, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto[a] integral), Maria Angelica Echer Ferreira Feijo, Andrea Viana Arrais Egypto, Ailton Neves da Silva (Presidente).
Nome do relator: RITA ELIZA REIS DA COSTA BACCHIERI
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2013 PRELIMINAR. NULIDADE LANÇAMENTO. INOCORRÊNCIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA Não há que se cogitar de nulidade do lançamento quando observados os requisitos previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal. PAGAMENTO SEM CAUSA OU SEM OPERAÇÃO COMPROVADA Sujeita-se à incidência do imposto, exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%, o pagamento efetuado pelas pessoas jurídicas quando não for comprovada a sua causa ou a operação a que se refere. TAXA SELIC. SUMULA CARF Nº 108. Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício.
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NULIDADE LANÇAMENTO. INOCORRÊNCIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA Não há que se cogitar de nulidade do lançamento quando observados os requisitos previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal. PAGAMENTO SEM CAUSA OU SEM OPERAÇÃO COMPROVADA Sujeita-se à incidência do imposto, exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%, o pagamento efetuado pelas pessoas jurídicas quando não for comprovada a sua causa ou a operação a que se refere. TAXA SELIC. SUMULA CARF Nº 108. Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada, e, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri – Relatora Assinado Digitalmente Fl. 1248DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.087 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16004.720287/2017-44 2 Aílton Neves da Silva – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Ricardo Pezzuto Rufino, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto[a] integral), Maria Angelica Echer Ferreira Feijo, Andrea Viana Arrais Egypto, Ailton Neves da Silva (Presidente). RELATÓRIO Adotando o Relatório do acórdão recorrido, esclareço que trata o presente de Auto de Infração de fls. 2 a 24, lavrado contra a pessoa jurídica GWP FORT, por meio do qual é exigida a importância de R$ 781.231,91 a título de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), acrescido de multa de ofício de 150% e dos juros de mora legais, incidente sobre fatos ocorridos ao longo do ano-calendário de 2013. No Relatório Fiscal de fls. 266 a 288, a Autoridade autuante esclarece que, no curso do procedimento de fiscalização, depois de regularmente intimada, a Contribuinte apresentou Livro Caixa, extratos bancários, folhas de pagamento e notas de prestação de serviços. Não consta que tenha apresentado livros contábeis. Esclarece também que, após detalhada análise dos extratos bancários, "restaram diversos pagamentos e transferências para as quais não foi possível precisar a real motivação ou justificativa", razão pela qual intimou a Contribuinte a apresentar "documentos comprobatórios das transferências bancárias efetuadas a diversos beneficiários, a saber, alguns funcionários da própria empresa e das outras coligadas, além de pessoas cuja relação comercial e jurídica com a empresa não se configurou". A referência a "outras coligadas" foi esclarecida em item específico do Relatório Fiscal (item C), em que a Autoridade autuante descreve as relações societárias e operacionais mantidas entre a Contribuinte autuada (GWP FORT) e as empresas GWT FORCE SERVIÇOS ESPECIALIZADOS LTDA. ME (CNPJ nº 09.942.398/0001- 50), GUARDIA SERVIÇOS ESPECIALIZADOS EM ZELADORIA LTDA. (CNPJ nº 10.894.502/0001-67) e G4 SERVIÇOS ESPECIALIZADOS LTDA. EPP (CNPJ nº 24.355.391/0001-25). Segundo a Autoridade Fiscal, em atendimento à intimação, a Contribuinte "apresentou alguns comprovantes de lançamentos bancários, os quais, entretanto, limitaram-se a comprovar valores relativos aos recolhimentos de FGTS da empresa". Em razão do que acima foi exposto, a Autoridade Fiscal concluiu que, "como não houve a apresentação de justificativa tampouco a identificação da motivação que teria culminado com esses lançamentos bancários, não nos restou outra alternativa que não o lançamento dos citados valores a título de pagamentos sem causa". Por consequência, foi exigido o IRRF com base no que dispõe o § 1º do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. Fl. 1249DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.087 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16004.720287/2017-44 3 Os pagamentos que sofreram a incidência do IRRF ora exigido encontram- se discriminados no Anexo I do Relatório Fiscal (fls. 289 a 299). O valor principal foi acrescido de multa qualificada haja vista caracterização de grupo econômico de fato. Foram incluídos no polo passivo na condição de solidários seguintes pessoas: GWT Force Serviços Especializados Ltda. ME; Guardia Serviços Especializados Em Zeladoria Ltda.; G4 Serviços Especializados Ltda. EPP; Elmo Gabriel Gomes; Luciana Verzaro Dos Santos Gomes; Gustavo Glockshuber; Hedwiges Rocha Tochetto; Ângela De Oliveira Faria E Wagner Glockshuber. Contra o auto de infração as partes apresentaram suas respectivas peças de impugnação. Por meio do Acórdão 07-42.495 (fls. 1056) a 6ª Turma da DRJ/FNS julgou parcialmente procedente a impugnação da Contribuinte para exonerar o montante de R$ 157.199,54 a título de valor principal do IRRF e cancelar a qualificação da multa de ofício, restabelecendo a penalidade pecuniária a seu patamar ordinário de 75%. Julgou ainda procedente as impugnações dos responsáveis solidários, excluindo-os do polo passivo. O acórdão recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE - IRRF Ano-calendário: 2013 IRRF. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA CAUSA DE PAGAMENTOS. EXIGÊNCIA MANTIDA. Sendo incontroverso o fato de que o contribuinte realizou pagamentos, se em sede de impugnação sua causa permanece sem comprovação, há que ser mantida a incidência do IRRF previsto no §1º do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. IRRF. COMPROVAÇÃO DA CAUSA DE PAGAMENTOS EM SEDE DE IMPUGNAÇÃO. EXIGÊNCIA EXONERADA. Uma vez comprovada a causa dos pagamentos relacionados pela Autoridade Fiscal, há que ser afastada a incidência do IRRF previsto no §1º do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2013 QUALIFICAÇÃO DA MULTA. FALTA DE DEMONSTRAÇÃO DA CONDUTA DOLOSA. EXONERAÇÃO. A falta de comprovação da causa de pagamentos não pode servir como único fundamento para qualificação da multa de ofício. Pensar o contrário equivale a ter como correta a exasperação da penalidade em todo e qualquer caso de aplicação do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. SOLIDARIEDADE PASSIVA FUNDAMENTADA NO INTERESSE COMUM. DEMONSTRAÇÃO DO VÍNCULO COM O FATO GERADOR. Fl. 1250DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.087 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16004.720287/2017-44 4 O inciso I do art. 124 do CTN não estabelece hipótese de atribuição de sujeição passiva. Referido dispositivo cuida, sim, da graduação do vínculo de responsabilidade de sujeitos que já se encontram no polo passivo por terem praticado o fato gerador da obrigação principal. Desse modo, sua utilização para fins de atribuição de solidariedade demanda a demonstração da forma pela qual terceiros arrolados participaram da realização das situações que constituíram o fato gerador das obrigações tributárias exigidas. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA FUNDADA NO ART. 135 DO CTN. FALTA DE DEMONSTRAÇÃO DA INFRAÇÃO PRATICADA COM DOLO. A responsabilidade tributária prevista no art. 135 do CTN não pode prevalecer na hipótese em que não restar demonstrada pela Autoridade Fiscal conduta suficiente para validamente atrair a aplicação do referido dispositivo do Código. Todas as partes foram intimadas do resultado do julgamento da DRJ. O Contribuinte foi intimado do acórdão em 17.09.2018 (fls. 1116) e apresentou em 03.10.2018 (fls. 1149) seu recurso voluntário (fls. 1150/1158) alegando em síntese: Em sua Impugnação a Recorrente efetivamente demonstrou a inocorrência de pagamentos sem causa e/ou a beneficiários não identificados que pudessem ensejar a cobrança de IRRF, juntando documentos, por amostragem, que comprovaram diversos equívocos no levantamento realizado pela d. Fiscalização. Inclusive a r. decisão de 1ª Instância reconheceu a ocorrência de tais equívocos. Acaso os autos fossem baixados em diligência, certamente restaria comprovada a verdade material e, consequentemente, a nulidade da presente autuação. O lançamento foi realizado sem qualquer motivação, tendo sido fundado, apenas, em meras presunções - o que o torna nulo. Não restam dúvidas de que se todos os documentos apresentados no decorrer da fiscalização tivessem sido devidamente apreciados e corretamente compreendidos, a conclusão da d. Autoridade Fiscal certamente seria outra e não teria presumido a ocorrência de pagamentos sem causa e/ou a beneficiários não identificados. Na remota hipótese de o Auto de Infração não ser considerado nulo (o que se admite, apenas, a título argumentativo), no mérito deverá ser julgado totalmente improcedente. Conforme demonstrado na Impugnação, a redação do art. 675 do RIR/99 é inequívoca, estabelecendo ser devido o imposto de renda na fonte, à alíquota de 35% sobre o rendimento bruto reajustado, nos casos em que a pessoa jurídica (i) realizar pagamentos a beneficiários não identificados ou (ii) efetuar pagamentos a terceiros ou a sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não Fl. 1251DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.087 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16004.720287/2017-44 5 comprovadas as respectivas operações ou as suas causas. Como visto, os documentos acostados aos autos permitem a identificação dos beneficiários dos pagamentos efetuados pela Recorrente, bem como comprovam a sua causa. A infração denominada pagamento sem causa e/ou beneficiário não identificado se caracteriza em situações nas quais o sujeito passivo não comprova as razões que o levaram a efetuar os pagamentos questionados pela fiscalização ou a identificar o beneficiário – o que, definitivamente, não se aplica ao presente caso. Caso o auto de infração venha a ser mantido, o que se admite somente para fins de argumentação, deve ser reformado o v. acórdão para fins de cancelar a cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício, que tem início no primeiro dia seguinte ao decurso do prazo de 30 (trinta) dias, contado da intimação do lançamento tributário. Não foram juntados novos documentos com o Recurso. É o relatório. VOTO Conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri – Relatora Da Admissibilidade: O recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele conheço. Da Preliminar Como exposto, o julgamento de primeira instância manteve a incidência de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) à alíquota de 35% sobre pagamentos considerados "sem causa". A imputação teve a seguinte fundamentação: Tendo em vista que a DIMOF da empresa, no exercício de 2013, apresentou créditos no valor de R$.10.050,741,85 e débitos no valor de R$.10.348.314,33 e que, o livro Caixa apresentado não contempla movimentação financeira e bancária, houvemos por bem solicitar a apresentação dos extratos bancários respectivos; os quais foram, de fato, apresentados, e de cuja análise observamos a existência de lançamentos a débito, constituindo-se em cheques, pagamentos, TED, transferências bancárias, cuja fato gerador não se identificava. Fl. 1252DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.087 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16004.720287/2017-44 6 A despeito das diversas intimações fiscais solicitando a apresentação de documentação comprobatória dos fatos geradores dessas transferências financeiras ( vide II), a empresa absteve-se, especificamente, quanto aos fatos ora em pauta, tendo apresentado, em resposta, apenas documentação relativa aos recolhimentos do FGTS devido sobre a folha de pagamento. Em seu recurso o contribuinte defende a nulidade do lançamento sob o argumento de terem sido comprovados o beneficiário e causa dos pagamentos, arguiu que o lançamento se baseia em presunções conflitando com o princípio da verdade material. E acrescenta: a presunção somente pode ser utilizada na hipótese de o contribuinte não fazer provas da operação e, no caso concreto, isso não se aplica, pois com base nos documentos apresentados mera diligência seria suficiente para afastar a infração. Ora, sabe-se que o lançamento é um procedimento administrativo privativo das autoridades fiscais que devem proceder nos termos da lei para sua formalização. Proceder nos termos da lei, na hipótese de lançamento tributário e nos termos do artigo 142 do Código Tributário Nacional, é se pautar nos seguintes passos: i) verificar a ocorrência do fato gerador; ii) determinar o crédito tributário; iii) calcular o imposto devido; iv) identificar o sujeito passivo; e v) identificar a penalidade (propor a penalidade a ser aplicada de acordo com a norma legal própria). Nos presentes autos, verifica-se que todos estes passos foram seguidos não tendo ocorrido, no juízo desta Relatora impropriedades por parte do Fisco. Lembramos que é admissível o uso de presunções, como meios indiretos de prova quando há fortes indícios, vestígios e indicações claras da ocorrência do fato gerador sem o devido pagamento do tributo. A presunção é uma ilação que se tira de um fato conhecido para se provar, no campo do Direito Tributário, a ocorrência da situação que se caracteriza como fato gerador do tributo. Note-se que a utilização de presunção não fere o Princípio da Estrita Legalidade ou da Tipicidade Cerrada pois não há alargamento da hipótese de incidência do tributo, tão pouco aumento da base de cálculo. De todo forma é importante destacar que a utilização da presunção pelo Fisco não inibe a apresentação de provas por parte do Contribuinte em sentido contrário ao fato presumido. Antes pelo contrário, faz crescer a necessidade de apresentação de tal prova a fim de refutar a presunção do Fisco. Sobre a questão a Doutora Lídia Maria Lopes Rodrigues Ribas, em seu livro “Processo Administrativo Tributário”, assim se manifesta: “Quando a lei estabelece a presunção para abranger pela tributação certas realidades econômicas, o contribuinte deve provar que o ato que praticou se encontra fora da previsão legal. Nesses casos é a lei que dispensa a Administração Fiscal da prova direta de certos fatos – o que permite concluir que os julgadores, então, não podem deixar de aplicar tais normas, até prova em contrário do contribuinte.” Fl. 1253DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.087 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16004.720287/2017-44 7 No caso concreto, a fiscalização partiu das informações bancárias disponibilizadas pelo próprio contribuinte, entretanto entendendo que as divergência apuradas a partir dos registros contábeis não foram devidamente comprovada houve por bem em realizar o lançamento. O Prof. Sandro Marino Duarte ao discorrer acerca do tema ensina: “A denominada presunção juris tantum permite a utilização de prova em contrário para ilidi-la. Portanto, se a legislação admite presunção de veracidade em relação a determinados efeitos provenientes de relação jurídica, também determinada, a despeito do ordenamento positivo, pode-se produzir prova em contrário, realizando-se o intento de fazer que a lei não incida sobre aquele determinado caso concreto e provando-se que a relação jurídica não existiu, ou seus efeitos não foram aqueles que a legislação teve por presumivelmente apuráveis”. Assim, as presunções legais juris tantum têm o condão de transferir o ônus da prova da Fiscalização para o Sujeito Passivo da relação jurídico-tributária, cabendo a este comprovar a não ocorrência da infração presumida. Tal inversão não invalidade o lançamento realizado nos estritos contornos da lei. No mais, nos termos do art. 59 do Decreto nº 70.235/72 somente há nulidade de despachos e decisões quando esses forem proferidos por autoridade incompetente ou quando caracterizada a preterição do direito de defesa. Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta. Nenhuma das situações está presente no presente processo. Neste cenário, deixo de acolher da preliminar de nulidade suscitada. Do mérito: Fl. 1254DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.087 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16004.720287/2017-44 8 No mérito, o contribuinte não traz argumentos ou provas capazes de afastar o entendimento do acórdão recorrido. O recurso se limita a afirmar – sem provas adicionais – que “os documentos acostados aos autos permitem a identificação dos beneficiários dos pagamentos efetuados pela Recorrente, bem como comprovam a sua causa”. Neste cenário, e por entender que a decisão recorrida analisou cuidadosamente as provas juntadas aos autos, tanto que cancelou parte do crédito tributário, mantenho o acórdão por seus próprios fundamentos: Dos elementos de prova trazidos na Impugnação Cumpre agora analisar os argumentos trazidos pela Impugnante entre os itens III.1.a e III.1.g de sua Impugnação com o objetivo de comprovar a causa de alguns pagamentos que realizou. III.1.a. Pagamentos de pensão alimentícia Em sua Impugnação, a Contribuinte identifica no Anexo do Relatório Fiscal dois pagamentos que teriam sido realizados a título de pensão alimentícia. São eles: ... De fato, os holerites trazidos pela Impugnante comprovam a causa desses pagamentos, de modo que, nesses dois casos, resta afastada a incidência do IRRF previsto no § 1º do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. Quanto aos demais pagamentos que teriam sido realizados a esse mesmo título, a Contribuinte apenas mencionou que juntou à sua Impugnação elementos que comprovariam tal alegação. No entanto, como não identificou os pagamentos que estariam nessa situação, não cabe a este Órgão Julgador suprir o ônus da prova que incumbe à Impugnante. Em outras palavras, para bem cumprir seu onus probandi, cumpre à Contribuinte vincular os registros de pagamentos a documentos que os respaldem, e não simplesmente juntar uma massa de documentos ao processo, sem indicação individualizada dos registros a que se referem. Ante o exposto, voto no sentido de excluir da matéria tributável do presente lançamento os pagamentos abaixo identificados: Data Valor (R$) 07/01/2013 281,96 06/02/2013 412,58 III.1.b. Pagamento de rescisão de funcionário Em sua Impugnação, a Contribuinte identifica no Anexo do Relatório Fiscal o seguinte pagamento, que teria sido realizado a título de rescisão de funcionário: ... Fl. 1255DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.087 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16004.720287/2017-44 9 De fato, o termo de rescisão trazido pela Impugnante comprova a causa desse pagamento, de modo que, também nesse caso, resta afastada a incidência do IRRF previsto no § 1º do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. Quanto aos demais pagamentos que teriam sido realizados a esse mesmo título, a Contribuinte apenas mencionou que juntou à sua Impugnação elementos que comprovariam tal alegação. No entanto, cabe mais uma vez ressaltar que, como não identificou os pagamentos que estariam nessa situação, não cabe a este Órgão Julgador suprir o ônus da prova que incumbe à Impugnante. Ante o exposto, voto no sentido de excluir da matéria tributável do presente lançamento o pagamento abaixo identificado: Data Valor (R$) 29/01/2013 973,88 III.1.c. Pagamento de vale-transporte Em sua Impugnação, a Contribuinte identifica no Anexo do Relatório Fiscal o seguinte pagamento, que teria sido realizado a título de contraprestação pelo fornecimento de vale-transporte: ... Nesse caso, muito embora no Relatório Fiscal a beneficiária do pagamento seja MONICA TOCHETTO, a Impugnante destaca que, no histórico do extrato bancário que serviu de base para apuração fiscal (fl. 228), consta o seguinte: Além disso, à fl. 572 encontra-se acostada cópia de nota fiscal juntada aos autos pela Impugnante, emitida por VB Serviços Comércio e Administração Ltda., comprovando a causa do pagamento, notadamente por conta da coincidência do valor e da data defasada em apenas um dia. Desse modo, entendo que encontra-se comprovada a causa desse pagamento, razão pela qual também nesse caso resta afastada a incidência do IRRF previsto no § 1º do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. Ante o exposto, voto no sentido de excluir da matéria tributável do presente lançamento o pagamento abaixo identificado: Data Valor (R$) 25/09/2013 41.151,47 Fl. 1256DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.087 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16004.720287/2017-44 10 III.1.d. Pagamentos pela manutenção de computadores Em sua Impugnação, a Contribuinte identifica no Anexo do Relatório Fiscal quatro pagamentos que teriam sido realizados a título de contraprestação pela manutenção de computadores. São eles: ... Quanto aos pagamentos realizados a CLEBER LUIZI PISSSITI, o beneficiário e os valores coincidem com o ajustado em contrato cuja cópia encontra-se acostada às fls. 580 e 581. Desse modo, entendo que encontra-se comprovada a causa desses pagamentos, razão pela qual também nesses casos resta afastada a incidência do IRRF previsto no § 1º do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. Quanto aos demais pagamentos, o contrato juntado às fls. 578 e 579 não contém elementos suficientes para comprovar a alegação da Contribuinte, não só porque os valores não coincidem, mas, principalmente, porque nele não há nenhum elemento capaz vincular o nome da contratante (ACF Informática ME) com o beneficiário dos pagamentos (Arlindo Cajueiro). Ante o exposto, voto no sentido de excluir da matéria tributável do presente lançamento os pagamentos abaixo identificados: Data Valor (R$) 23/09/2013 678,00 16/10/2013 678,00 III.1.e. Pagamentos por serviços de advocacia Em sua Impugnação, a Contribuinte identifica no Anexo do Relatório Fiscal quinze pagamentos que teriam sido realizados a título de remuneração de serviços de advocacia. São eles: ... Para fins de comprovação da causa dos pagamentos acima discriminados, a Contribuinte juntou às fls. 583 a 594 cópias de instrumentos particulares que evidenciam a contratação de serviços de advocacia prestados pelas beneficiárias dos pagamentos. Desse modo, entendo que encontra-se comprovada a causa desses pagamentos, razão pela qual também nesses casos resta afastada a incidência do IRRF previsto no § 1º do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. Ante o exposto, voto no sentido de excluir da matéria tributável do presente lançamento os pagamentos abaixo identificados: Fl. 1257DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.087 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16004.720287/2017-44 11 Data Valor (R$) 01/04/2013 4.000,00 06/05/2013 4.000,00 04/06/2013 4.000,00 05/06/2013 2.194,84 03/07/2013 4.000,00 05/08/2013 4.000,00 03/09/2013 4.000,00 01/10/2013 4.000,00 04/10/2013 500,00 19/11/2013 2.000,00 27/11/2013 1.510,00 02/12/2013 2.000,00 06/12/2013 2.000,00 18/12/2013 2.000,00 23/12/2013 755,00 III.1.f. Pagamento de aluguel Em sua Impugnação, a Contribuinte identifica no Anexo do Relatório Fiscal o seguinte pagamento, que teria sido realizado para remunerar aluguel de imóvel: ... Para fins de comprovação da causa dos pagamentos acima discriminados, a Contribuinte juntou às fls. 596 a 602 cópia de Contrato de Locação de imóvel de propriedade de Maria Cristina de Sousa Rodrigues e Luciano Rodrigues, intermediada por Condessa Empreendimentos Imobiliários, bem assim cópias que comprovantes anuais de rendimentos em nome dos proprietários (fls. 604 e 605), com valores compatíveis ao do pagamento acima discriminado. Desse modo, entendo que se encontra comprovada a causa desse pagamento, razão pela qual também nesse caso resta afastada a incidência do IRRF previsto no § 1º do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. Quanto aos demais pagamentos que teriam sido realizados a esse mesmo título, cabe mais uma vez ressaltar que, como a Contribuinte não identificou os pagamentos que estariam nessa situação, não cabe a este Órgão Julgador suprir o ônus da prova que incumbe à Impugnante. Fl. 1258DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.087 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16004.720287/2017-44 12 Ante o exposto, voto no sentido de excluir da matéria tributável do presente lançamento o pagamento abaixo identificado: Data Valor (R$) 03/09/2013 6.806,27 III.1.g. Transferência estornada Em sua Impugnação, a Contribuinte identifica no Anexo do Relatório Fiscal a seguinte transferência, que teria sido estornada: ... De fato, o extrato bancário juntado pela própria Autoridade Fiscal à fl. 229 evidencia que o valor dessa transferência foi estornado no mesmo dia, de modo que o pagamento não se concretizou, afastando a incidência do IRRF previsto no § 1º do art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. Ante o exposto, voto no sentido de excluir da matéria tributável do presente lançamento o pagamento abaixo identificado: Data Valor (R$) 01/10/2013 200.000,00 Assim, pelas provas juntadas aos autos e pelos fatos narrados temos a correta caracterização da hipótese de incidência do art. 61, §1º da Lei nº 8.981/95, haja vista a realização de pagamentos a terceiros sem a devida comprovação da sua causa.~ Por fim, quanto ao argumento de inaplicabilidade da Taxa Selic sobre a multa de ofício, o mérito se resolve a partir da aplicação da Súmula CARF nº 108, com o seguinte teor: Súmula CARF nº 108 Aprovada pelo Pleno em 03/09/2018 Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 129 de 01/04/2019, DOU de 02/04/2019). Conclusão: Diante do exposto, conheço do recurso para, afastando a preliminar, no mérito negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Fl. 1259DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1002-004.087 – 1ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 16004.720287/2017-44 13 Fl. 1260DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 15746.727186/2022-15
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 14 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico - CIDE
Ano-calendário: 2018
AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
O atendimento aos preceitos estabelecidos no artigo 142 do CTN, a presença dos requisitos do artigo 10 do Decreto n° 70.235/1972 e a observância do contraditório e da amplo direito de defesa afastam a hipótese de nulidade do auto de infração.
CIDE-REMESSAS. INCIDÊNCIA. ROYALTIES, A QUALQUER TÍTULO. ABRANGÊNCIA.
Para efeito de incidência da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE), a expressão “royalties, a qualquer título” abrange “rendimentos de qualquer espécie decorrentes do uso, fruição, exploração de direitos”, em observância ao artigos 22 e 23 da Lei n° 4.506/1964, aos §§ 2° e 3° do artigo 2° da Lei n° 10.168/2000 e ao artigo 10 do Decreto n° 4.195/2002.
CIDE. REMESSA DE ROYALTIES PARA RESIDENTE OU DOMICILIADO NO EXTERIOR. NÃO INCIDÊNCIA.
O pagamento, o creditamento, a entrega, o emprego ou a remessa de Royalties, a qualquer título, a residentes ou domiciliados no exterior são hipóteses de incidência da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico criada pela Lei n° 10.168/2000. Para que a contribuição seja devida, basta que qualquer dessas hipóteses seja concretizada no mundo fenomênico. O pagamento de Royalties a residentes ou domiciliados no exterior, a título de contraprestação exigida em decorrência de obrigação contratual, seja qual for o objeto do contrato, faz surgir a obrigação tributária referente a essa CIDE.
CIDE. BASE DE CÁLCULO. REAJUSTAMENTO. IRRF. INCLUSÃO. SÚMULA CARF N° 158.
Nos termos da Súmula CARF n° 158, compõe a base de cálculo da CIDE-Remessas o Imposto de Renda Retido na Fonte incidente sobre valores pagos, creditados, entregues, empregados ou remetidos, a cada mês, a residentes ou domiciliados no exterior, ainda que a fonte pagadora assuma o ônus financeiro do imposto retido.
CIDE-ROYALTIES. BASE DE CÁLCULO. REAJUSTAMENTO. ISS. IMPOSSIBILIDADE.
A base de cálculo da CIDE é o valor da remuneração do fornecedor domiciliado no exterior estipulada em contrato. A adição do ISS a sua base de cálculo não possui amparo legal.
Numero da decisão: 3101-004.179
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em afastar a diligência suscitada pela conselheira Sabrina Coutinho Barbosa. Por unanimidade de votos, em afastar a preliminar de nulidade. No mérito, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário para excluir o ISS da base de cálculo da CIDE. Vencida a Conselheira Sabrina Coutinho Barbosa que deu provimento integral ao recurso voluntário. A Conselheira Sabrina Coutinho Barbosa manifestou intenção de apresentar declaração de voto.
Assinado Digitalmente
Renan Gomes Rego – Relator
Assinado Digitalmente
Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente
Participaram do presente julgamento os conselheiros Renan Gomes Rego, Laura Baptista Borges, Ramon Silva Cunha, Luciana Ferreira Braga, Sabrina Coutinho Barbosa, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente).
Nome do relator: RENAN GOMES REGO
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico - CIDE Ano-calendário: 2018 AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. O atendimento aos preceitos estabelecidos no artigo 142 do CTN, a presença dos requisitos do artigo 10 do Decreto n° 70.235/1972 e a observância do contraditório e da amplo direito de defesa afastam a hipótese de nulidade do auto de infração. CIDE-REMESSAS. INCIDÊNCIA. ROYALTIES, A QUALQUER TÍTULO. ABRANGÊNCIA. Para efeito de incidência da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE), a expressão “royalties, a qualquer título” abrange “rendimentos de qualquer espécie decorrentes do uso, fruição, exploração de direitos”, em observância ao artigos 22 e 23 da Lei n° 4.506/1964, aos §§ 2° e 3° do artigo 2° da Lei n° 10.168/2000 e ao artigo 10 do Decreto n° 4.195/2002. CIDE. REMESSA DE ROYALTIES PARA RESIDENTE OU DOMICILIADO NO EXTERIOR. NÃO INCIDÊNCIA. O pagamento, o creditamento, a entrega, o emprego ou a remessa de Royalties, a qualquer título, a residentes ou domiciliados no exterior são hipóteses de incidência da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico criada pela Lei n° 10.168/2000. Para que a contribuição seja devida, basta que qualquer dessas hipóteses seja concretizada no mundo fenomênico. O pagamento de Royalties a residentes ou domiciliados no exterior, a título de contraprestação exigida em decorrência de obrigação contratual, seja qual for o objeto do contrato, faz surgir a obrigação tributária referente a essa CIDE. Fl. 8570DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 2 CIDE. BASE DE CÁLCULO. REAJUSTAMENTO. IRRF. INCLUSÃO. SÚMULA CARF N° 158. Nos termos da Súmula CARF n° 158, compõe a base de cálculo da CIDE- Remessas o Imposto de Renda Retido na Fonte incidente sobre valores pagos, creditados, entregues, empregados ou remetidos, a cada mês, a residentes ou domiciliados no exterior, ainda que a fonte pagadora assuma o ônus financeiro do imposto retido. CIDE-ROYALTIES. BASE DE CÁLCULO. REAJUSTAMENTO. ISS. IMPOSSIBILIDADE. A base de cálculo da CIDE é o valor da remuneração do fornecedor domiciliado no exterior estipulada em contrato. A adição do ISS a sua base de cálculo não possui amparo legal. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em afastar a diligência suscitada pela conselheira Sabrina Coutinho Barbosa. Por unanimidade de votos, em afastar a preliminar de nulidade. No mérito, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário para excluir o ISS da base de cálculo da CIDE. Vencida a Conselheira Sabrina Coutinho Barbosa que deu provimento integral ao recurso voluntário. A Conselheira Sabrina Coutinho Barbosa manifestou intenção de apresentar declaração de voto. Assinado Digitalmente Renan Gomes Rego – Relator Assinado Digitalmente Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Participaram do presente julgamento os conselheiros Renan Gomes Rego, Laura Baptista Borges, Ramon Silva Cunha, Luciana Ferreira Braga, Sabrina Coutinho Barbosa, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente). Fl. 8571DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 3 RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra o Acórdão n° 109-019.406, proferido pela 1ª Turma da DRJ09 na sessão de 21 de agosto de 2023, que julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido. O presente processo versa sobre auto de infração relativo à Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE), cujo crédito constituído tem como fundamento o fato de que a Recorrente teria remetido à sua sócia controladora no exterior (Google LLC) valores a título de royalties por remunerar o direito de exploração comercial de espaços publicitários virtuais, bem como outros direitos de propriedade intelectual para a ferramentas tecnológicas, como o Google Ads (anteriormente denominada AdWords). A autoridade fiscal argumenta que a Recorrente impetrou uma demanda judicial (ação judicial n° 1045899-54.2014.8.26.0053) para afastar a obrigação do recolhimento do ISS sobre os pagamentos realizados à Google LLC, defendendo que tais valores decorriam de outorga de autorização ou cessão do direito de exploração comercial dos espaços publicitários ora em discussão. Portanto, os valores, segundo a autoridade fiscal, estariam sujeitos à Cide, com base no parágrafo 2° do artigo 2° da Lei n° 10.168/2000. Cabe registrar que no Processo Administrativo Fiscal (PAF) n° 15746.727185/2022- 71, que também está tramitando no CARF, foi lançado o IRPJ sobre as remessas de royalties no mesmo período. Cientificada acerca do auto de infração, a Recorrente apresentou sua Impugnação (folhas 7385 a 7456), a qual foi julgada improcedente pelo julgador a quo, nos termos do Acórdão n° 109-019.406 de folhas 7648 a 7741. Irresignada, interpôs Recurso Voluntário (folhas 7749 a 7840), alegando as seguintes razões: i. Em preliminar, a nulidade do auto de infração por se basear em meras presunções com relação as atividades desenvolvidas pela Recorrente no Brasil e sua consequente relação com sua controlada sediada nos Estados Unidos da América (Google LLC), explicando que os valores remetidos à Google LLC não correspondem à remuneração da exploração de direitos sujeitos a royalties, pois a Recorrente não explora economicamente os ativos da Google LLC, não possui o domínio sobre eles, mas na verdade apenas realiza a intermediação da contratação entre os anunciantes brasileiros e a Google LLC, nos termos dos contratos intercompany firmados; ii. No mérito, defende que a autoridade lançadora e o julgador a quo não enfrentaram devidamente o tema central da discussão, isto é, a Fl. 8572DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 4 caracterização ou não de royalties no caso concreto, segundo a legislação brasileira; que a Recorrente é intermediária e não prestadora de serviços de veiculação de publicidade on-line e possui relações claras junto à sua controladora no exterior (Google LLC); iii. Explica que a Google LLC não cede o direito de exploração dos espaços publicitários/propriedade intelectual à Recorrente e, portanto, esta não exploraria no País em nome próprio/por sua conta e ordem as ferramentas oferecidas e de titularidade de sua sócia no exterior; Que a Recorrente não interferiu no processo de aquisição dos espaços publicitários, de modo que não prestou serviços de veiculação de publicidade on-line e não revendeu, efetivamente, o direito de uso de espaços de propriedade da Google LLC; iv. Que a mera autorização para oferecer comercialmente os espaços publicitários pela Recorrente não reúne as características necessárias para configurar a mencionada cessão de direitos de propriedade intelectual; v. Que os espaços publicitários virtuais e a inteligência da ferramenta em si permanecem sob a titularidade/execução da Google LLC e, dessa forma, não podem ser explorados, usados ou fruídos na forma como legalmente prevê o artigo 22 da Lei n° 4.506/1964, porquanto não existe além da ferramenta Google Ads, de propriedade e responsabilidade exclusiva de Google LLC; vi. Assim, conclui que a relação de Recorrente com a Google LLC foi de intermediação entre a detentora das ferramentas/ativos intangíveis (Google LLC) e os anunciantes brasileiros, atuando como uma ponte facilitadora dessas contratações; vii. Além disso, argumenta que, no tocante à ação judicial n° 1045899- 54.2014.8.26.0053, apresentou exatamente os mesmos esclarecimentos prestados durante o procedimento fiscalizatório que originou a presente autuação, ou seja, a outorga de cessão do direito de exploração comercial não corresponde a uma cessão de direitos relacionados à propriedade intelectual detida pela Google LLC; viii. Que não tem gerência sobre o valor cobrado dos anunciantes. Que não dita os preços praticados. Que a Recorrente retém apenas o valor relativo à contraprestação por sua atuação no papel de intermediadora (20% sobre o preço). Que não possui autorização ou licença para exercer outro papel que não o de intermediário/facilitadora entre Google LLC e os anunciantes brasileiros; ix. Que outro fato que corrobora com o papel de intermediadora é que as atividades realizadas pela Recorrente, descritas nos Google AdWords Reseller Agreement, foram praticadas em caráter de não exclusividade, isto Fl. 8573DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 5 é, os anunciantes brasileiros puderam contratar a veiculação de sua publicidade nos espaços virtuais diretamente à Google LLC, sem qualquer participação da Recorrente; x. Que os espaços publicitários virtuais, controlados e disponibilizados pela Google LLC sequer correspondem propriamente a direitos passíveis de uso, fruição ou exploração por terceiros, uma vez que existem tão somente no contexto das ferramentas e produtos ofertados pela Google LLC; xi. Que caso a Google LLC deixe de exercer as atividades necessárias ao funcionamento da ferramenta Google Ads, o chamado espaço publicitário virtual deixa de existir, pois não se trata de um direito da pessoa jurídica Google LLC, e sim de parte indissociável de um programa por ela detido; com isso, conclui que o produto ofertado pela LLC não pode se confundir com eventuais direitos de uso e exploração dos quais esta venha a ser titular; xii. Que os espaços publicitários virtuais não caracterizam direitos protegidos por propriedade intelectual e, portanto, não podem ter rendimentos auferidos pela cessão de determinados direitos que recebam proteção legal, nos termos do art. 22 da Lei n° 4.506/1964; xiii. Que houve erro na composição da base de cálculo ao considerar todo o montante autuado como royalties; xiv. Defende a exclusão do IRRF e do ISS da base de cálculo da Cide; xv. Propõe a necessidade de sobrestamento do presente processo administrativo em razão do julgamento do Recurso Extraordinário n° 928.943 pelo STF (Tema 914); xvi. Por fim, argumenta a inaplicabilidade de multa de ofício em caso de dúvida. Consta, às folhas 7946 a 7995, Contrarrazões ao Recurso Voluntário, defendendo os seguintes pontos: i. Quanto à preliminar suscitada, diz que não houve vícios no procedimento da Fiscalização, pois foi assegurado o pleno exercício do direito de defesa, bem como o auto de infração contém todos os elementos necessários para sua validação; ii. No mérito, que a Recorrente, ao vender o espaço publicitário virtual para inserção de textos, desenhos e outros materiais de propaganda e publicidade, atua por conta própria, em relação decorrente de contrato de concessão comercial, utilizando denominações comerciais, marcas registradas, marcas de serviço, logotipo, nomes de domínio e outras características distintivas da marca Google, fornecidas por GOOGLE LLC Fl. 8574DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 6 mediante remuneração por outorga de autorização, onerosa, desse direito de exploração comercial dos espaços publicitários, segundo percentual do valor bruto faturado; iii. Que a GOOGLE BRASIL remeteu ao exterior, no ano-calendário 2018, valores que constam de invoices e contratos de câmbio realizados junto a instituições financeiras. A conta contábil na qual esses valores foram escriturados, que possui um resultado de R$ 5.181.681.476,51, faz referência a “serviços prestados”. iv. Que a própria GOOGLE BRASIL, em ação judicial movida em face do Município de São Paulo na qual busca se eximir do pagamento de ISS, afirma que não se trata de prestação de serviços; v. Que objeto social constante do contrato social da GOOGLE BRASIL inclui: “(a) revenda de espaço publicitário em páginas eletrônicas na Internet; (b) prestação de serviços de assessoria e consultoria de qualquer natureza;”; vi. Que o contrato deixa claro que o objeto da relação é a venda de espaço publicitário por meio de licenciamento da marca (fl. 7.259); que no item 5 do contrato é possível constatar que a GOOGLE BRASIL recebe o direito de uso da marca GOOGLE (fl. 7.265); que no item 4 do contrato de marketing assim explicita, fazendo clara referência ao licenciamento dos direitos de propriedade intelectual necessários à utilização do espaço publicitário (fl. 7.270); vii. Que nos contratos analisados verificou-se que a GOOGLE BRASIL, em contraprestação, paga à GOOGLE LLC quantia igual ao Preço Líquido Ajustado recebido em virtude de licenciamento de marca e da venda do espaço publicitário. Ela não serve de mero intermediário. Pelo contrário, deve receber dos anunciantes locais, retirar sua margem de lucro e as despesas com tributos e demais encargos, e depois repassar o valor líquido pelo licenciamento de marca e demais royalties à empresa norte-americana; viii. Que o contrato firmado com a controladora indireta, em Delaware/US, traz previsões que não são compatíveis com a versão da RECORRENTE, de mera captadora de clientes, como bem constatou a DRJ. Em diversos trechos fica claro que a GOOGLE BRASIL atua por conta própria e em próprio nome: (fl. 7718); ix. Que os contratos de publicidade assinados pelos anunciantes brasileiros têm como contraparte a GOOGLE BRASIL, e não a GOOGLE LLC; x. Que foram realizadas diligências junto aos maiores anunciantes da GOOGLE BRASIL (com valores superiores a R$ 30 mi por anunciante) para determinar Fl. 8575DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 7 a operação da fiscalizada. Foram feitas diversas perguntas e solicitados documentos para verificar como se dava a relação contratual. Após analisar todos os documentos, verificou-se que a GOOGLE BRASIL atuou por conta própria, explorando o Programa de Publicidade Google (Google Adwords, Doubleclick, Google Ads e Google Marketing Platform); xi. Não foi identificado qualquer pagamento direto à GOOGLE LLC, salvo quando contratavam serviços que não eram oferecidos pela GOOGLE BRASIL, mas sim diretamente pela empresa americana, como Google Cloud; xii. Que a Lei que regula a chamada CIDE-Royalties determina que ela é devida pelas pessoas jurídicas que pagarem, creditarem, entregarem, empregarem ou remeterem royalties, a qualquer título, a beneficiários residentes ou domiciliados no exterior; xiii. Que essas remessas não podem ter outra natureza, em especial considerando-se se tratar de contraprestação pela licença de marca e outros direitos de propriedade intelectual, como o domínio de internet, independente da discussão civilista da sua caracterização como marca ou direito empresarial; xiv. Que na ação judicial que busca se eximir do pagamento de ISS, dizendo que sua relação com a GOOGLE americana se dá com base na cessão de direitos de exploração comercial, deixa claro que a remessa de valores à GOOGLE LLC não diz respeito a NENHUMA prestação de serviços, mas sim à cessão de direitos de exploração: (fl. 7.305). É o relatório. VOTO Conselheiro Renan Gomes Rego, Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade, de modo que admito seu conhecimento. Da preliminar De nulidade do auto de infração Em preliminar, alega-se a nulidade do auto de infração por se basear em meras presunções com relação as atividades desenvolvidas pela Recorrente no Brasil e sua consequente relação com sua controlada sediada nos Estados Unidos da América (Google LLC). No entanto, trata-se de questão meritória com extenso lastro probatório formalizado em Termo de Verificação Fiscal (TVF) de 145 (cento e quarenta e cinco) páginas, Fl. 8576DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 8 ocasião em que o Fisco pretende demonstrar a existência de remessas de royalties para a Google LLC, através das explicações, da contabilidade, dos contratos, das notas fiscais e dos invoices fornecidos pela própria Recorrente após as intimações fiscais. In casu, percebe-se que a autoridade fiscal demonstrou de forma clara e precisa os fatos que suportaram o procedimento fiscal em questão, oportunizando ao contribuinte o direito de defesa e do contraditório, bem como em observância aos pressupostos formais e materiais do ato administrativo, nos termos da legislação de regência, especialmente dos artigos 142 do CTN e 10 do Decreto n° 70.235/1972, não há que se falar em nulidade do lançamento. Por fim, destaca-se que a Recorrente revela conhecer plenamente a acusação que lhe foi imputada, rebatendo-a mediante substanciosa defesa, abrangendo não somente preliminar, mas também razões de mérito, o que descaracteriza cerceamento do direito de defesa ou qualquer outro prejuízo ao contribuinte. Ante o exposto, não vislumbro nulidade nos autos, seja do lançamento tributário ou mesmo no Acórdão recorrido, não tendo sido constatadas violações ao devido processo legal e à ampla defesa. Do mérito A lide abrange os seguintes temas: (i) o conceito de royalties, para efeitos de aplicação da lei que rege a CIDE-Remessas; (ii) a possibilidade de incidência da CIDE-Remessas sobre os valores remetidos pela Recorrente à Google LLC; (iii) erro na composição da base de cálculo da CIDE-Remessas; (iv) inclusão (ou não) do IRRF e do ISS na base de cálculo da CIDE- Remessas; (v) da necessidade de sobrestamento do presente processo administrativo em razão do julgamento do Recurso Extraordinário n° 928.943 pelo STF (Tema 914); e (vi) da aplicabilidade da multa de ofício em caso de dúvida. Do conceito de royalties para efeitos de aplicação da lei que rege a CIDE A contribuição de intervenção de domínio econômico destinada a financiar o Programa de Estímulo à Interação Universidade-Empresa para o Apoio à Inovação foi instituída pela Lei n° 10.168/2000, que, com a redação dada pela Lei n° 10.332/2001, passou a prever a incidência da CIDE sobre remessas ao exterior de royalties, a qualquer título: Art. 2 o Para fins de atendimento ao Programa de que trata o artigo anterior, fica instituída contribuição de intervenção no domínio econômico, devida pela pessoa jurídica detentora de licença de uso ou adquirente de conhecimentos tecnológicos, bem como aquela signatária de contratos que impliquem transferência de tecnologia, firmados com residentes ou domiciliados no exterior. § 1 o Consideram-se, para fins desta Lei, contratos de transferência de tecnologia os relativos à exploração de patentes ou de uso de marcas e os de fornecimento de tecnologia e prestação de assistência técnica. § 1 o -A. A contribuição de que trata este artigo não incide sobre a remuneração pela licença de uso ou de direitos de comercialização ou distribuição de programa de Fl. 8577DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 9 computador, salvo quando envolverem a transferência da correspondente tecnologia. § 2 ° A partir de 1 o de janeiro de 2002, a contribuição de que trata o caput deste artigo passa a ser devida também pelas pessoas jurídicas signatárias de contratos que tenham por objeto serviços técnicos e de assistência administrativa e semelhantes a serem prestados por residentes ou domiciliados no exterior, bem assim pelas pessoas jurídicas que pagarem, creditarem, entregarem, empregarem ou remeterem royalties, a qualquer título, a beneficiários residentes ou domiciliados no exterior. § 3° A contribuição incidirá sobre os valores pagos, creditados, entregues, empregados ou remetidos, a cada mês, a residentes ou domiciliados no exterior, a título de remuneração decorrente das obrigações indicadas no caput e no § 2o deste artigo. Em verdade, o escopo da CIDE instituída pela Lei n° 10.168/2000 era de fomentar a produção tecnológica brasileira, sendo devida sobre os pagamentos de royalties referentes aos contratos de propriedade industrial. E tentando reforçar ainda mais esse objetivo, o legislador posteriormente ampliou a hipótese de incidência da exação para os valores decorrentes de contratos de prestação de serviços técnicos e assemelhados, além de incluir na sua incidência os royalties de qualquer natureza, através da Lei n° 10.332/2001. No entanto, o enunciado legal acima transcrito gera uma certa insegurança jurídica ao não definir, para fins tributários, o que seria contemplado na expressão royalties, a qualquer título. Nessa linha relacional, o Decreto n° 4.195/2002, editado para regulamentar a Lei n° 10.168/2000 e a Lei n° 10.332/2001, elucidando o alcance pretendido pela Lei, dispôs, no seu artigo 10, a incidência da CIDE a título de royalties previstos nos contratos: Art. 10. A contribuição de que trata o art. 2° da Lei no 10.168, de 2000, incidirá sobre as importâncias pagas, creditadas, entregues, empregadas ou remetidas, a cada mês, a residentes ou domiciliados no exterior, a título de royalties ou remuneração, previstos nos respectivos contratos, que tenham por objeto: I - Fornecimento de tecnologia; II - Prestação de assistência técnica: a) serviços de assistência técnica; b) serviços técnicos especializados; III - serviços técnicos e de assistência administrativa e semelhantes; IV - Cessão e licença de uso de marcas; e V - Cessão e licença de exploração de patentes. Nessa perspectiva, ainda temos o que a Lei n° 4.506/1964 define como rendimento classificado como royalties, a saber: Art. 22. Serão classificados como "royalties" os rendimentos de qualquer espécie decorrentes do uso, fruição, exploração de direitos, tais como: (Vide Decreto-Lei nº 1.642, de 1978) (Vide Decreto-Lei nº 2.287, de 1986) Fl. 8578DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 10 a) direito de colher ou extrair recursos vegetais, inclusive florestais; b) direito de pesquisar e extrair recursos minerais; c) uso ou exploração de invenções, processos e fórmulas de fabricação e de marcas de indústria e comércio; d) exploração de direitos autorais, salvo quando percebidos pelo autor ou criador do bem ou obra. Parágrafo único. Os juros de mora e quaisquer outras compensações pelo atraso no pagamento dos "royalties" acompanharão a classificação destes. Art. 23. Serão classificados como aluguéis ou "royalties" tôdas as espécies de rendimentos percebidos pela ocupação, uso, fruição ou exploração dos bens e direitos referidos nos artigos 21 e 22, tais como: (Vide Decreto-Lei nº 1.642, de 1978) (Vide Decreto-Lei nº 2.287, de 1986) I - As importâncias recebidas periòdicamente ou não, fixas ou variáveis, e as percentagens, paticipações ou interêsses; II - Os pagamentos de juros, comissões, corretagens, impostos, taxas e remuneração do trabalho assalariado, autônomo ou profissional, feitos a terceiros por conta do locador do bem ou do cedente dos direitos; III - As luvas, os prêmios, gratificações ou quaisquer outras importâncias pagas ao locador, ou cedente do direito, pelo contrato celebrado; IV - As benfeitorias e quaisquer melhoramentos realizados no bem locado, e as despesas para preservação dos direitos cedidos, se de acôrdo com o contrato fizeram parte da compensação pelo uso do bem ou direito; V - A indenização pela rescisão ou término antecipado do contrato; VI - o valor locativo do prédio urbano construído, quando cedido seu uso gratuitamente. Da leitura acima, depreende-se, portanto, que royalties são rendimentos vinculados ao uso, fruição e exploração de direito de propriedade (intelectual ou não), mediante autorização por parte do detentor do direito no período do tempo determinado pelo contrato. Da possibilidade de incidência da CIDE sobre os valores remetidos pela Recorrente à Google LLC As principais argumentações da Recorrente são (i) que não detém o direito de exploração dos espaços publicitários virtuais; (ii) que os espaços publicitários, controlados e disponibilizados pela Google LLC, sequer correspondem a direitos passíveis de ‘uso, fruição ou exploração” por terceiros e (iii) os royalties são rendimentos vinculados ao efetivo uso, fruição ou exploração de determinados direitos protegidos por lei (a qual deve garantir a exclusividade/titularidade a uma pessoa específica). No contrato firmado entre Google LLC (detentora dos programas Google Ads; Double Click; Marketing Plataform; Ad Manager) com a Google Brasil (Recorrente), nota-se comercialização de espaços virtuais de publicidade através de ferramenta tecnológica (Google Fl. 8579DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 11 Ads) e de serviços de marketing e publicidade através de outras ferramentas tecnológicas (Google Double Click, Marketing Plataform e Ad Manager). Leia-se o item 2.1. do contrato: De início, no tocante ao programa Google Ads, constata-se que a Google LLC se compromete a fornecer o espaço publicitário à Recorrente, e não as clientes brasileiros, conforme item 3.1: Consta ainda que a Recorrente se torna uma revendedora autorizada a disponibilizar o espaço publicitário da Google por meio do programa, assim como, quaisquer outros produtos e serviços da marca Google. Importante registar ainda que, contratualmente, é a Recorrente que deverá conduzir seus negócios por conta própria em seu nome, e não como representante comercial ou empregado da Google LLC. Isso parece mais evidente quando é a Recorrente que se compromete a comercializar, oferecer e vender o espaço publicitário aos clientes brasileiros, também fornecendo a infraestrutura de atendimento ao cliente e suporte técnico (item 2.2. e item 2.6.) Fl. 8580DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 12 A meu juízo, a Recorrente não é mera intermediária entre a Google LLC e os clientes brasileiros, mas, em verdade, parte contratante dos espaços publicitários, na qual a Google LLC concede o direito de exploração comercial dos espaços através do fornecimento de tecnologia. No item 4.1 do contrato, observa-se que a Google LLC ainda licencia à Recorrente os direitos de propriedade intelectual necessários para que esta preste efetivamente os serviços aos clientes. Senão, vejamos: Nesse sentido, o contrato detalha quais seriam os direitos de propriedade intelectual cedidos à Recorrente, a saber: patentes, direitos autorais, projetos, desenhos, marcas dos produtos, incluindo o próprio programa: “Direitos de Propriedade Intelectual” incluem todas as patentes, direitos autorais, projetos, desenhos, marcas de produto e de serviço, nome empresarial, know-how e outras propriedades tangíveis e intangíveis, incluindo, entre outros, softwares, sites da internet, listas de clientes e outros direitos de propriedade exclusiva, bem como os respectivos registros e pedidos de registro, que sejam relacionados aos Serviços. Todos os Direitos de Propriedade Intelectual disponibilizados à Prestadora pela Sociedade ou sob sua orientação, ou desenvolvidos durante a vigência deste Contrato, serão e permanecerão de propriedade da Sociedade, a ela devendo ser devolvidos quando da extinção do Contrato. (...) Fl. 8581DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 13 Outro ponto, é que se cuida de um contrato de uso, fruição, exploração de direitos intelectuais da Google LLC, já que fica consignado que a Google Brasil deve aderir às diretrizes de uso da marca Google, ademais todo uso pela Recorrente das características da marca da Google (inclusive qualquer conceito a ela relacionado) aproveitará em benefício da própria Google LLC (item 5.). Ou seja, a Recorrente, primeiro, contrata a licença da propriedade intelectual da Google LLC (com exploração de marcas e patentes), além do fornecimento da tecnologia dos programas de publicidade e marketing e só depois explora oss espaços publicitários virtuais disponibilizados pelos programas no Brasil, remunerando a Google LLC pelo direito de exploração comercial dos intangíveis. Vale dizer, somente após a contratação do direito de uso, fruição, exploração desses ativos fornecidos pela Google LLC, é que a Recorrente comercializa os espaços para os usuários (que são os clientes anunciantes). Diante do que já foi exposto, fico convencido que a Recorrente não é mera intermediária da Google LLC para os clientes brasileiros, mas parte contratante do direito de usar e explorar os espaços publicitários de titularidade da Google LLC no País, por sua própria conta e em seu nome, remunerando pelo uso e exploração de direitos de propriedade intelectual e pelo fornecimento de tecnologia da Google LLC, de acordo com o estabelecido no artigo 2° da Lei n° 10.168/2000 c/c artigo 22 e 23 da Lei n° 4.506/1964. Trago ainda outras constatações da Fiscalização: i) A Recorrente obtém substancialmente todas as suas receitas com a venda de publicidade on-line contratada junto à Google LLC; ii) A Recorrente é responsável pela condução de testes, sendo que a parte estrangeira concede os direitos sobre os anúncios, destinos e opções de segmentação necessários para operação do programa de publicidade; iii) A Recorrente fornece suporte técnico para os anunciantes, assim como, é responsável pelas atividades de marketing, para firmar contratos de descontos e conceder créditos sobre os valores devidos pelos anunciantes. Fl. 8582DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 14 A autoridade fiscal teve o cuidado de realizar diligências junto aos maiores clientes da Recorrente, ocasião em que nelas não se constatou o recolhimento das contribuições sociais incidentes sobre importação de serviço (PIS/PASEP-Importação e COFINS-Importação), nem pelos usuários brasileiros nem pela própria Recorrente, o que reforça que não houve registro de prestação de serviço executado no País por pessoa jurídica residente ou domiciliada no exterior. Em intimação fiscal, também ficou registrado que os clientes brasileiros firmavam o contrato com a Recorrente e não reconheciam a Google LLC como detentora dos espaços publicitários e pelos serviços prestados. Menciona-se ainda que as Invoices emitidas pela Google LLC, relacionadas às remessas para as quais não se operou o recolhimento de CIDE, documentam uma relação comercial unicamente entre Google LLC e Google Brasil, sem qualquer menção aos clientes brasileiros. Veja-se que, no tocante ao programa Google Double Click, contratualmente é a Google Brasil que fornece o serviço aos clientes (item 3): De igual modo, para o programa Google Marketing Plataform, quem será responsável pela contratação e prestação do serviço aos usuários brasileiros é a Google Brasil. Para clientes localizado na América Latina, exceto Brasil, Argentina e México, a exploração dar-se- á diretamente por Google LLC: Ao que parece, a Recorrente relativiza os fatos e o conceito da natureza dos valores que remete ao exterior a título de royalties. Para tentar se eximir da incidência do ISS, no tocante sua relação entre a Recorrente e a Google LLC e a respectiva remessa dos pagamentos, afirma que sua relação com a Google americana se dá com base na cessão de direitos de exploração comercial. Defende que as remessas de pagamentos não se prestam a remunerar nenhuma espécie de serviço prestado pela Google estrangeira (fl. 7.303 e 7.305). Fl. 8583DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 15 É importante fazer a leitura da petição inicial: Fl. 8584DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 16 Em contrarrazões, a PFN salienta que a Justiça Estadual acolheu o pedido da Google Brasil, o que foi confirmado em grau de apelação pelo TJ/SP, que entendeu “tais pagamentos não se prestam a remunerar qualquer serviço, mas estão relacionados a atos de mera cessão de direito de ofertar espaços publicitários de titularidade das entidades estrangeiras. Nesse sentido, com razão a sentença, porque não há relação de obrigação de fazer, mas de obrigação de dar, logo não há incidência de recolhimento do ISSQN, porque não se está diante de uma efetiva prestação de serviço, conforme art. 156, III, da CF/88” (APELAÇÃO CÍVEL nº 1045899-54.2014.8.26.0053TJ/SP). Por outro lado, a Recorrente defende que o fato de que a outorga de cessão do direito de exploração comercial não corresponde a uma cessão de direitos relacionados à propriedade intelectual pela Google LLC., tratando-se, na realidade, de uma simples autorização para que a Recorrente possa cumprir o contrato de intermediação firmado junto à Google LLC, e possa ofertar a ferramenta Google Ads, de titularidade da Google LLC, para os anunciantes brasileiros. Como expliquei logo acima, pela leitura do contrato, entendo que não é Google LLC que oferta o programa para os clientes brasileiros, mas sim a Google Brasil. Entendo que isso foi declarado pela própria Recorrente, em resposta ao item 17 da Intimação Fiscal n° 05, conforme consignou a autoridade fiscal em TVF, indo ao encontro de sua tese desenvolvida ao juízo estadual: A GOOGLE LLC não presta serviços em prol da GOOGLE BRASIL no contexto da ferramenta Google Ads. No contexto do Programa Google Ads, a GOOGLE LLC outorga à GOOGLE BRASIL autorização para exploração comercial dos espaços publicitários de sua propriedade, mediante pagamento de determinado valor, o qual é calculado sobre a receita bruta decorrente das receitas auferidas por meio da cessão desses espaços virtuais a anunciantes brasileiros. Isto é, a relação jurídica existente entre a GOOGLE LLC e a GOOGLE BRASIL no bojo do Programa Google Ads se caracteriza com cessão de direito de exploração comercial dos espaços publicitários de titularidade do Google LLC. Confirma-se pelo esquema produzido pela Recorrente na referida ação judicial dirigida à Justiça Estadual, quando explica ao juízo que: i) a Google estrangeira é a detentora dos espaços de publicidade (vale dizer, detentora do programa); ii) a Google estrangeira firma um contrato e cede o direito de exploração do programa (combinado com o direito de explorar a marca e a patente) e, em contrapartida, é remunerada por essa cessão de direito; iii) a Google Brasil explora comercialmente o uso do programa e da propriedade intelectual da Google estrangeira, firmando novo contrato, agora com os clientes brasileiros, e, em contrapartida, os clientes brasileiros pagam à Google Brasil pelo serviço contratado; iv) não há qualquer contato, seja comercial seja remuneratório, entre a Google estrangeira (Google LLC) e os anunciantes. Observa-se o esquema: Fl. 8585DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 17 A Recorrente, sem dúvida, não possui o domínio ou a disponibilidade da ferramenta Google Ads, pois se trata do uso do programa sem a transferência da tecnologia, porém ela explora o ativo intangível com gerência sobre diversas condições contratuais, como descontos, além de prestar suporto técnico. Mister destacar que a incidência da CIDE sobre as remessas efetuadas pela Recorrente está perfeitamente alinhada com o recente posicionamento do Supremo Tribunal Federal, no RE 928.943 (Tema 914), que decidiu que a contribuição incide também sobre os pagamentos enviados ao exterior em razão de contratos que envolvam o uso de tecnologia estrangeira, além de serviços técnicos, de assistência administrativa e direitos autorais, com ou sem transferência de tecnologia. Em memorias apresentados após a leitura do meu voto, na sessão de julgamento de 19 de agosto de 2025, a Recorrente sustenta pela ausência de planejamento tributário abusivo, pois explica que a Recorrente recolheu IRRF de 25% (vinte e cinco por cento) sobre as remessas feitas para a Google LLC em 2018 em relação ao Google Ads. E de fato, às folhas 123 e às folhas 661 a 697, a Recorrente comprova a apuração com recolhimento de 25% de IRRF para os pagamentos feitos a Google LLC, ou seja, recolheu para a União o mesmo montante que teria recolhido caso houvesse procedido ao pagamento de 10% (dez por cento) de CIDE-Royalties e de 15% (quinze por cento) de IRRF, o que sustenta que não houve qualquer tentativa de estruturar suas operações com vistas a reduzir a carga tributária aplicável. No entanto, para fins de Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), quando a despesa é tratada como custo, ela pode ser dedutível do resultado. E quando é tratada como royalties pagos a sócio e controlador do sujeito passivo, é indedutível. Assim, como a Recorrente registrou, contabilmente, a remessa como pagamento de serviço (custo) e não enquadrou como royalty, gerou a retenção de 25% de IRRF para a remessa à Fl. 8586DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 18 Google LLC, mas, a seu favor, a possibilidade de deduzir esse custo do lucro real, reduzindo, portanto, a sua apuração do IRPJ. Caso tivesse registrado como royalty, deveria ter retido apenas 15% de IRRF para a remessa à Google LLC, mas, contra a seu favor, deveria pagar 10% de CIDE-royalties e a impossibilidade de reduzir tais remessas do lucro real, aumentando, portanto, a sua apuração do IRPJ. Dessa forma, em que pese compreender que não houve fraude e dolo nas apurações da Recorrente, percebe-se que existiu vantagem tributária ao não declarar as remessas como royalties na apuração do IRPJ. Ademais, a Recorrente alega que os valores remetidos correspondem a 80% do faturamento líquido (já reduzido dos tributos incidentes), um percentual que considera alto para a remuneração do uso de propriedade intelectual, sendo compatível com a remuneração do serviço prestado pela Google LLC. Em memorias, apresenta um interessante detalhamento sobre contratos de licença de uso de marca averbados pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), que demonstra que os patamares de royalties pagos por uso de marca (doc. 05), como prova de que os patamares dos royalties remetidos ao exterior são muito inferiores às remessas de 80% (oitenta por cento) praticadas pela Recorrente em prol da Google LLC para remunerar os serviços prestados por esta última aos anunciantes brasileiros. Fl. 8587DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 19 Entretando, destaco que o caso em questão não trata apenas da licença da marca (o que talvez justificasse o patamar entre 1 e 5% de royalties), mas engloba primordialmente a disponibilidade de ferramentas tecnológicas, que certamente eleva o patamar remuneratório a título de royalties. O fornecimento de tecnologia faz parte do escopo do conceito de royalties, conforme o Decreto n° 4.195/2002, editado para regulamentar a Lei n° 10.168/2000 e a Lei n° 10.332/2001: Art. 10. A contribuição de que trata o art. 2° da Lei no 10.168, de 2000, incidirá sobre as importâncias pagas, creditadas, entregues, empregadas ou remetidas, a cada mês, a residentes ou domiciliados no exterior, a título de royalties ou remuneração, previstos nos respectivos contratos, que tenham por objeto: I - Fornecimento de tecnologia; II - Prestação de assistência técnica: a) serviços de assistência técnica; b) serviços técnicos especializados; III - serviços técnicos e de assistência administrativa e semelhantes; IV - Cessão e licença de uso de marcas; e V - Cessão e licença de exploração de patentes. Desse modo, julgo que a Recorrente realizou pagamento a residente ou domiciliado no exterior a título de royalties pelo uso, fruição ou exploração de direito dos espaços publicitários da Google por meio do fornecimento de tecnologia estrangeira (artigo 2° da Lei n° 10.168/2000 c/c artigos 22 e 23 da Lei n° 4.506/1964). Do erro na composição da base de cálculo da CIDE-Remessas Aduz a impugnante, em caráter subsidiário, que ainda que se admita a existência de pagamentos de royalties, há que se notar a impossibilidade prática de todo o montante remunerar unicamente os referidos royalties, pois seria impraticável do ponto de vista das condições de mercado. Diante disso, pede a conversão do julgamento em diligência para que seja novamente apurada a base de cálculo. Entretanto, em sua defesa, não existe qualquer referência concreta que indique qual valor remetido não deve compor a base de cálculo da CIDE, ou ao menos qual tipo de remessa deve ser segregada da base de cálculo. Não acolho assim as razões da Recorrente sobre a necessidade de diligência e nem quanto ao erro na composição da base de cálculo da autuação. Da inclusão do IRRF e do ISS na base de cálculo da CIDE-Remessas A Recorrente pede a exclusão do IRRF e do ISS da base de cálculo da CIDE. Fl. 8588DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 20 No tocante ao IRRF, sem mais delongas, em que pese não concordar com a inclusão do IRRF na base de cálculo da CIDE, já que meu entendimento é de que a contribuição incidirá sobre os valores pagos, creditados, entregues, empregados ou remetidos somente a título de remuneração, e não sobre a remuneração mais os tributos incidentes, respeito e adoto a posição sumulada no CARF, tendo caráter vinculante, segundo Portaria ME nº 410, de 16/12/2020: Súmula 158: O Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) incidente sobre valores pagos, creditados, entregues, empregados ou remetidos, a cada mês, a residentes ou domiciliados no exterior, a título de remuneração pelas obrigações contraídas, compõe a base de cálculo da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) de que trata a Lei 10.168/2000, ainda que a fonte pagadora assuma o ônus financeiro do imposto retido. Assim, nada a reparar na decisão recorrida. Todavia, no que concerne ao reajustamento da base de cálculo da CIDE pelo ISS, razão socorre à Recorrente. Quando a lei previu a inclusão do ISS para o PIS/Pasep-Importação e Cofins- Importação, o legislador estabeleceu de forma expressa que na base de cálculo dessas contribuições dever-se-ia incluir o ISS e o valor remetido bruto do IRF. Eis a redação: Art. 7º A base de cálculo será: [...] II – o valor pago, creditado, entregue, empregado ou remetido para o exterior, antes da retenção do imposto de renda, acrescido do Imposto sobre Serviços de qualquer Natureza – ISS e do valor das próprias contribuições, na hipótese do inciso II do caput do art. 3º desta Lei. No caso da CIDE, repito, não há qualquer determinação legal que preveja a inclusão do ISS na sua base de cálculo. Ante o exposto, voto por afastar a inclusão do ISS da base de cálculo da CIDE. Da aplicabilidade da multa de ofício em caso de dúvida A Recorrente requer que seja excluída a multa de ofício por conta da existência de dúvida, o que atrairia a aplicação do art. 112 do CTN. Nos autos não há qualquer dúvida no lançamento, que consigna em um TVF bastante robusto os fatos e fundamentos que deram base ao auto de infração. A multa de ofício tem como base legal o art. 44, inciso I, da Lei 9.430/96, segundo o qual, nos casos de lançamento de ofício, será aplicada a multa de75% sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição. Fl. 8589DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 21 Enquanto vigentes, os dispositivos legais devem ser cumpridos, principalmente em se tratando da administração pública, cuja atividade está atrelada ao princípio da estrita legalidade. Nada a prover nesse particular. Do dispositivo Ante o todo exposto, voto por dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, para excluir o ISS da base de cálculo da CIDE. É como voto. Assinado Digitalmente Renan Gomes Rego DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheira Sabrina Coutinho Barbosa. Embora sejam consistentes e bem fundamentadas as razões expendidas pelo i. Relator, ouso dele divergir, para acolher os argumentos deduzidos pela empresa recorrente e, por conseguinte, dar provimento ao recurso voluntário, com o cancelamento do lançamento efetuado pela fiscalização para exigência da CIDE, pelas razões que passo a expor. As razões de decidir do voto condutor circunscrevem-se a dois pilares fundamentais. O primeiro repousa na adoção de uma interpretação ampla e sistemática do conceito de royalties, para fins de incidência da CIDE, extraída do art. 2º da Lei nº 10.168/2000, com a redação conferida pela Lei nº 10.332/2001, do Decreto nº 4.195/2002 e dos arts. 22 e 23 da Lei nº 4.506/1964. A partir desse conjunto normativo, entendeu-se que os royalties abrangeriam rendimentos decorrentes do uso, fruição ou exploração de direitos, inclusive intangíveis, alcançando a cessão ou licença de marcas, patentes e o fornecimento de tecnologia, ainda que sem transferência definitiva desta, de modo que o fornecimento de tecnologia estrangeira e a exploração de ativos intelectuais estariam sujeitos à incidência da contribuição. O segundo fundamento reside no entendimento de que a Recorrente não atuaria como mera intermediária entre a Google LLC e os anunciantes brasileiros. Da leitura do contrato, concluiu-se que a Recorrente adquiriria da Google LLC o direito de uso, fruição e exploração econômica de programas, marcas, patentes e demais ativos de propriedade intelectual, indispensáveis à comercialização dos espaços publicitários no Brasil, razão pela qual os valores Fl. 8590DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 22 remetidos ao exterior remunerariam a licença e exploração desses direitos e o fornecimento de tecnologia, e não simples prestação de serviços. Feitas essas considerações, passo as razões da minha divergência. A divergência ora apresentada tem início na delimitação do alcance do conceito de royalties para fins de incidência da CIDE, o qual, embora deva ser interpretado de forma sistemática, não pode prescindir da análise da natureza jurídica da relação contratual efetivamente estabelecida. A interpretação ampliativa do conceito de royalties não autoriza, por si só, a subsunção automática de toda remessa ao exterior relacionada a ativos intangíveis à hipótese de incidência da contribuição, sob pena de violação ao princípio da legalidade estrita em matéria tributária. Como ensina Paulo de Barros Carvalho, na estrutura da regra-matriz de incidência tributária, a ausência do núcleo do critério material — isto é, do fato juridicamente descrito pela norma — impede a constituição válida da obrigação tributária. Assim, inexistindo o fato típico previsto na hipótese legal, não se pode produzir o consequente normativo, ainda que presente finalidade extrafiscal. No caso da CIDE instituída pela Lei nº 10.168/2000, é inequívoco que o elemento nuclear da hipótese de incidência é a tecnologia, seja sob a forma de transferência, fornecimento, exploração de patentes, uso de marcas, assistência técnica ou serviços técnicos. Trata-se de contribuição de intervenção no domínio econômico, de caráter excepcional e finalidade vinculada, voltada ao estímulo do desenvolvimento tecnológico nacional, conforme reiteradamente reconhecido pelo Superior Tribunal de Justiça (REsp nº 1.186.160/SP e REsp nº 1.642.249/SP). No caso concreto, a análise dos contratos e documentos acostados aos autos demonstra que não há cessão ou licença autônoma de direitos de propriedade intelectual à Recorrente. O que se verifica é a revenda de espaço publicitário dentro de parâmetros contratuais rigidamente definidos pela Google LLC, com utilização de plataforma tecnológica padronizada, cujo domínio, controle, governança e gestão PERMANECEM INTEGRALMENTE com a titular estrangeira. A RECORRENTE NÃO ADQUIRE EXCLUSIVIDADE, NÃO DETÉM PODER DE DISPOSIÇÃO, NÃO PODE MODIFICAR, SUBLICENCIAR OU EXPLORAR OS PROGRAMAS, MARCAS OU PATENTES DE FORMA INDEPENDENTE. A Google LLC permanece como única detentora dos direitos sobre a plataforma, sobre os espaços publicitários e sobre todos os ativos intelectuais a eles vinculados, inexistindo qualquer transferência, cessão ou licença jurídica que permita à Recorrente explorar tais direitos como bem econômico próprio. A autorização contratual conferida à Recorrente possui natureza estritamente instrumental, limitada à execução de sua atividade comercial de intermediação e revenda de espaço publicitário, não se confundindo com exploração econômica de direito de propriedade Fl. 8591DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 23 intelectual — elemento essencial à caracterização dos royalties, nos termos da legislação de regência. A atividade desenvolvida pela Recorrente perante os anunciantes brasileiros é juridicamente autônoma, realizada por sua conta e risco, consistindo na oferta de serviços de publicidade digital, gestão de campanhas, suporte técnico e relacionamento comercial. A utilização das ferramentas tecnológicas da Google LLC configura mero insumo operacional, indispensável à execução dessa atividade, mas não caracteriza uso, fruição ou exploração jurídica de direitos de propriedade intelectual. A própria fiscalização reconheceu a inexistência de prestação de serviços técnicos ou de assistência administrativa pela Google LLC diretamente aos anunciantes brasileiros, afastando a incidência do PIS/PASEP-Importação e da COFINS-Importação. Tal constatação reforça que a remessa ao exterior não remunera obrigação de fazer, nem se converte automaticamente em remuneração por exploração de direito. As Soluções de Consulta Cosit nºs 146/2019, 149/2021 e 177/2024 consolidam entendimento administrativo no sentido de que não incide CIDE quando inexistente fornecimento ou transferência de tecnologia, bem como nos casos de licenciamento de software sem transferência de código-fonte ou contratos que não impliquem conteúdo tecnológico. Quanto à Súmula CARF nº 127, impõe-se o necessário distinguishing. O enunciado refere-se exclusivamente à contratação de serviços técnicos prestados por residente ou domiciliado no exterior, hipótese diversa da dos autos, em que a prestação ocorre pela própria Recorrente em território nacional. Não há, portanto, afronta ao dever regimental de observância das súmulas. De igual modo, o Tema 914 do Supremo Tribunal Federal limitou-se a reconhecer a constitucionalidade abstrata da CIDE, sem avançar na definição do conteúdo infraconstitucional do fato gerador nem proceder ao enquadramento de operações concretas. Não se extrai, portanto, do referido julgamento, autorização para concluir que toda e qualquer remessa ao exterior configure fato gerador da contribuição. Assim, o Tema 914 não autoriza a presunção de incidência automática da CIDE sobre remessas internacionais. A existência ou não da obrigação tributária depende do enquadramento jurídico do contrato nos elementos expressamente previstos no art. 2º da Lei nº 10.168/2000, matéria de natureza essencialmente infraconstitucional. Diante de todo o exposto, entendo que os valores remetidos ao exterior pela Recorrente não se qualificam como royalties, ante a ausência dos critérios legais caracterizadores, notadamente a inexistência de cessão ou licença de direitos passíveis de uso, fruição ou exploração econômica. Inexiste, portanto, o fato gerador previsto na Lei nº 10.168/2000, razão pela qual o lançamento fiscal não se sustenta, impondo-se o provimento do recurso voluntário, com o cancelamento integral da exigência da CIDE Fl. 8592DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.179 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15746.727186/2022-15 24 Assinado Digitalmente Sabrina Coutinho Barbosa. Fl. 8593DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Declaração de Voto
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Numero do processo: 10880.961625/2022-59
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/10/2018 a 31/12/2018
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. ACOLHIMENTO.
Acolhem-se os Embargos de Declaração para sanar vício de omissão ocorrido no acórdão que julgou o recurso voluntário, sem efeitos infringentes.
Numero da decisão: 3102-003.014
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em acolher os Embargos de declaração exclusivamente em relação à omissão quanto ao art. 111 do CTN, para sanar a referida omissão nos termos do texto do voto, sem efeitos infringentes.
Assinado Digitalmente
Joana Maria de Oliveira Guimarães – Relatora
Assinado Digitalmente
Pedro Sousa Bispo – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Jorge Luis Cabral, Joana Maria de Oliveira Guimarães, Fábio Kirzner Ejchel, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antônio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente),
Nome do relator: JOANA MARIA DE OLIVEIRA GUIMARAES
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Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/10/2018 a 31/12/2018 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. ACOLHIMENTO. Acolhem-se os Embargos de Declaração para sanar vício de omissão ocorrido no acórdão que julgou o recurso voluntário, sem efeitos infringentes. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em acolher os Embargos de declaração exclusivamente em relação à omissão quanto ao art. 111 do CTN, para sanar a referida omissão nos termos do texto do voto, sem efeitos infringentes. Assinado Digitalmente Joana Maria de Oliveira Guimarães – Relatora Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Jorge Luis Cabral, Joana Maria de Oliveira Guimarães, Fábio Kirzner Ejchel, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antônio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente), Fl. 9749DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.014 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.961625/2022-59 2 RELATÓRIO Trata-se de Embargos de Declaração opostos pela Fazenda Nacional contra o acórdão de recurso voluntário nº 3102-002.713, apontando vício de omissão, sob o fundamento de que o colegiado, ao interpretar extensivamente o rol taxativo do art. 3º, III, da Lei nº 10.833/2003 (art. 3º, IX da Lei nº 10.637/2002), em relação aos valores pagos a título de taxa de uso do sistema de distribuição – TUSD, taxa de uso do sistema de transmissão – TUST e encargos de serviço do sistema – ESS, não teria justificado o afastamento do art. 150, § 6º da Constituição Federal e do art. 111 do Código Tributário Nacional. A Embargante ressalta que não pretende, por meio dos Embargos de Declaração, alterar o entendimento do acórdão embargado, mas a manifestação do colegiado sobre esse “inafastável ponto”, a fim de prequestionar a matéria e sanar a omissão. Os Embargos de Declaração foram parcialmente admitidos, determinando a apreciação, pelo colegiado, da omissão apenas quanto ao art. 111 do CTN, a partir do entendimento de que, no contexto da análise do direito de crédito sobre energia elétrica, a decisão de primeira instância usou o art. 111 do CTN como fundamento para a manutenção da glosa, conforme trecho abaixo do Despacho de Admissibilidade: Com efeito, no contexto da análise do direito de crédito sobre energia elétrica, a decisão de primeira instância administrativa usou o art. 111 do CTN como fundamento para manutenção da glosa: Fl. 9.169: Com efeito, em que pese o protesto da manifestante, tratando-se a espécie de benefício fiscal (no sentido lato, posto que o crédito impacta a arrecadação dos tributos), a interpretação que se impõe é mesmo a literal, ex vi do disposto no art. 111, do Código Tributário Nacional. Conclui-se, assim, que igualmente não merece reparos a decisão recorrida quanto ao ponto em análise. Desse modo, a matéria estava em lide e o acórdão embargado não a apreciou, ensejando, em tese, omissão a ser saneada. Todavia, não se verifica que o art. 150, §6º da Constituição Federal tenha sido matéria de fundamentação do Fisco ou da DRJ, o que restringe a admissão dos Embargos ao artigo 111 do CTN. É o relatório. VOTO Fl. 9750DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.014 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.961625/2022-59 3 Conselheira Joana Maria de Oliveira Guimarães, Relatora Os Embargos de Declaração são tempestivos e, como em relação ao art. 111 do CTN realmente não houve a sua apreciação expressa no acórdão do recurso voluntário, resta configurada omissão em relação a este dispositivo legal, em que pese o julgador não esteja obrigado a responder a todas as questões, quando tenha encontrado motivo suficiente para proferir a decisão. Na decisão de primeira instância, a DRJ firmou o entendimento de que o direito aos créditos apurados sobre as despesas de energia elétrica previsto nas Leis nºs 10.833/2003 e 10.637/2002 consiste em “benefício fiscal (no sentido lato, posto que o crédito impacta a arrecadação dos tributos)” e, por força do art. 111 do Código Tributário Nacional, teria que ser aplicada uma interpretação literal. A Embargante defende que como a utilização de crédito resulta em redução da contribuição devida, há que se observar o princípio da interpretação literal, não se podendo estender o conceito conferido pela Lei para acrescer o volume de crédito apurado. É o que passo a apreciar. Entendo que se afigura equivocada a compreensão de que o direito creditório decorrente da não cumulatividade consiste em benefício fiscal. A não cumulatividade das contribuições para o PIS e COFINS trata-se de regime de apuração das referidas contribuições e não benefício fiscal, não estando elencada nas hipóteses previstas no art. 111 do CTN, que assim estabelece: Art. 111. Interpreta-se literalmente a legislação tributária que disponha sobre: I - suspensão ou exclusão do crédito tributário; II – outorga de isenção; III – dispensa do cumprimento de obrigações tributárias acessórias. Como o regime de apuração da não cumulatividade do PIS e da COFINS - do qual decorrem as hipóteses de creditamento - não se enquadra nas hipóteses indicadas no artigo 111 do CTN, a regra de interpretação literal não se aplica a ela. A legislação que trata das contribuições para o PIS e COFINS não cumulativas pode e deve ser interpretada de forma mais ampla, utilizando os métodos de interpretação tradicionais, como o teleológico (finalidade da norma) e o sistêmico (sua relação com outras normas). Cumpre destacar que no conhecido julgamento do REsp nº 1.221.170/PR, o Ministro Relator Napoleão Nunes Maia Filho afastou expressamente a aplicação do artigo 111 do Código Tributário Nacional ao creditamento decorrente da não cumulatividade das contribuições para o PIS e COFINS, conforme se depreende do trecho abaixo reproduzido: 24. As exações a que o dispositivo se refere, são o PIS e a COFINS, cuja não- cumulatividade veio a ser implementada pela Lei 10.865/2004, alteradora da Lei Fl. 9751DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.014 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10880.961625/2022-59 4 10.637/2002 (PIS) e da Lei 10.833/2003 (COFINS), como todos estamos recordados. 25. Deve-se sublinhar que, autorizada por norma constitucional e prevista em lei ordinária, a não-cumulatividade, no âmbito do PIS e da COFINS, veio ao ordenamento jurídico brasileiro com o propósito de racionalizar a tributação – embora não a tenha reduzido, dado que as alíquotas não-cumulativas sofreram grave elevação – mas guardando peculiaridades em relação à não-cumulatividade que já tinha guarida na CF/88, na redação anterior. (...) 37. Contudo, a reflexão nos mostra que o conceito estreito de insumo, para além de inviabilizar a tributação exclusiva do valor agregado do bem ou do serviço, como determina a lógica do comando legal, decorre de apreensão equivocada, com a devida vênia, do art. 111 do CTN em que, aliás, insiste, persiste e não desiste a Fazenda Pública, como se trabalhasse algo aleatório ou incerto, num ambiente em que se prima pelas certezas, qual seja, o ambiente da tributação. 38. Como bem apontado no parecer do eminente Professor HUGO DE BRITO MACHADO (fls. 604), o creditamento não consiste em benefício fiscal, tampouco é causa de suspensão ou exclusão do crédito tributário, e menos ainda representa dispensa do cumprimento de obrigações acessórias, de modo que não há de ser interpretado necessariamente de forma literal ou restritiva, como está naquele dispositivo do CTN; essa assertiva do mestre cearense calha como uma luva na compreensão do tema que se discute. (g.n.) Portanto, não tem aplicação a regra estabelecida no art. 111 do CTN, que determina a adoção de interpretação literal, à questão em debate. Conclusão Pelo exposto, voto por acolher os Embargos de Declaração exclusivamente em relação à omissão quanto ao art. 111 do CTN, para sanar a referida omissão nos termos do texto deste voto, sem efeitos infringentes. É como voto. Assinado Digitalmente Joana Maria de Oliveira Guimarães Fl. 9752DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 11516.722941/2013-37
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Oct 23 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ERRO MATERIAL.
Constatada a existência de erro material verificado no dispositivo do acórdão, os embargos de declaração devem ser acolhidos para a correção da falha.
Numero da decisão: 9303-017.002
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, acolher os Embargos de Declaração, sem efeitos infringentes, para sanar o erro material no dispositivo do Acórdão no 9303-014.684, que passa a consignar o seguinte resultado: “Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer em parte do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, apenas no que se refere a armazenagem na importação, e em conhecer em parte do Recurso Especial oposto pela Fazenda Nacional, por unanimidade de votos, apenas no que se refere a uniformes, vestuários, equipamentos de proteção, materiais de uso pessoal; materiais de limpeza, desinfecção e higienização; pallets; fretes de produtos acabados entre estabelecimentos; e créditos extemporâneos. No mérito, deu-se parcial provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional no que se refere a fretes de produtos acabados entre estabelecimentos, por maioria de votos, vencidas as Conselheiras Tatiana Josefovicz Belisário e Cynthia Elena de Campos, que negavam provimento em relação a esse tema, e no que se refere a créditos extemporâneos, por voto de qualidade, vencidos os Conselheiros Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Tatiana Josefovicz Belisário, Alexandre Freitas Costa, e Cynthia Elena de Campos, que davam parcial provimento em relação ao tema para conceder o crédito extemporâneo de PIS/COFINS, sem correções e no limite do rateio proporcional do período em que o crédito foi originariamente apurado. Ainda no mérito, deu-se parcial provimento ao Recurso Especial do Contribuinte, por unanimidade de votos, no que se refere a despesas referentes ao primeiro período de armazenagem de importação. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Gilson Macedo Rosenburg Filho”.
Assinado Digitalmente
Semíramis de Oliveira Duro – Relatora
Assinado Digitalmente
Regis Xavier Holanda – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Semíramis de Oliveira Duro, Vinicius Guimaraes, Alexandre Freitas Costa, Dionisio Carvallhedo Barbosa, Denise Madalena Green, Cynthia Elena de Campos (substituta integral) e Regis Xavier Holanda (Presidente). Ausente a Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário, substituída pela Conselheira Cynthia Elena de Campos.
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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ERRO MATERIAL. Constatada a existência de erro material verificado no dispositivo do acórdão, os embargos de declaração devem ser acolhidos para a correção da falha. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, acolher os Embargos de Declaração, sem efeitos infringentes, para sanar o erro material no dispositivo do Acórdão no 9303-014.684, que passa a consignar o seguinte resultado: “Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer em parte do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, apenas no que se refere a armazenagem na importação, e em conhecer em parte do Recurso Especial oposto pela Fazenda Nacional, por unanimidade de votos, apenas no que se refere a uniformes, vestuários, equipamentos de proteção, materiais de uso pessoal; materiais de limpeza, desinfecção e higienização; pallets; fretes de produtos acabados entre estabelecimentos; e créditos extemporâneos. No mérito, deu-se parcial provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional no que se refere a fretes de produtos acabados entre estabelecimentos, por maioria de votos, vencidas as Conselheiras Tatiana Josefovicz Belisário e Cynthia Elena de Campos, que negavam provimento em relação a esse tema, e no que se refere a créditos extemporâneos, por voto de qualidade, vencidos os Conselheiros Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Tatiana Josefovicz Belisário, Alexandre Freitas Costa, e Cynthia Elena de Campos, que davam parcial provimento em relação ao tema para conceder o crédito extemporâneo de PIS/COFINS, sem correções e no limite do rateio proporcional do período em que o crédito foi originariamente apurado. Ainda no mérito, deu-se parcial provimento ao Recurso Especial do Contribuinte, por unanimidade de votos, no que se refere a despesas referentes ao primeiro período de Fl. 11413DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.002 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 11516.722941/2013-37 2 armazenagem de importação. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Gilson Macedo Rosenburg Filho”. Assinado Digitalmente Semíramis de Oliveira Duro – Relatora Assinado Digitalmente Regis Xavier Holanda – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rosaldo Trevisan, Semíramis de Oliveira Duro, Vinicius Guimaraes, Alexandre Freitas Costa, Dionisio Carvallhedo Barbosa, Denise Madalena Green, Cynthia Elena de Campos (substituta integral) e Regis Xavier Holanda (Presidente). Ausente a Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário, substituída pela Conselheira Cynthia Elena de Campos. RELATÓRIO Trata-se de Embargos de Declaração do Conselheiro, com fundamento no art. 116, do RICARF, julgado em 22/02/2024, contra o acórdão n° 9303-014.684, assim ementado: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 INSUMOS. CONCEITO. Insumos são os bens e serviços essenciais ou relevantes ao processo produtivo. Processo produtivo é o conjunto de ações exercidas pela empresa para a entrega do produto final. O que se encontra dentro do processo produtivo na condição de essencial a este e é insumo. O que se encontra dentro ou fora do processo produtivo mas que melhora a qualidade ou a segurança do processo produtivo ou do produto final é relevante a este e é insumo. INSUMO. ARMAZENAGEM DE IMPORTAÇÃO. PRIMEIRO PERÍODO. POSSIBILIDADE. Por obrigação legal de armazenagem (IN SRF 680/06 e art. 35, Parágrafo Único da IN RFB 800/2007), é possível conceder créditos para o pagamento das despesas com o primeiro período de armazenagem das mercadorias importadas como relevante ao processo produtivo. INSUMOS. OBRIGAÇÃO LEGAL. Por expressa disposição do Precedente Vinculante, são insumos das contribuições não cumulativas todas as despesas impostas por obrigação legal ao contribuinte. INSUMO. FRETE DE VENDA. CONDIÇÕES. Fl. 11414DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.002 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 11516.722941/2013-37 3 Somente é possível a concessão de crédito ao frete de produto acabado se este se mostrar relevante ao processo produtivo ou ao produto, isto é, caso a subtração deste frete resulte em perda de qualidade do produto ou do processo. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. DACON NÃO RETIFICADO. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. O aproveitamento de créditos extemporâneos está condicionado à apresentação dos Demonstrativos de Apuração (DACON) retificadores dos respectivos trimestres, demonstrando os créditos e os saldos credores trimestrais. Constou do dispositivo: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer em parte do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, apenas no que se refere a armazenagem na importação, e em conhecer em parte do Recurso Especial oposto pela Fazenda Nacional, por unanimidade de votos, apenas no que se refere a uniformes, vestuários, equipamentos de proteção, materiais de uso pessoal; materiais de limpeza, desinfecção e higienização; pallets; fretes de produtos acabados entre estabelecimentos; e créditos extemporâneos. No mérito, deu-se parcial provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional no que se refere a fretes de produtos acabados entre estabelecimentos, por maioria de votos, vencidas as Conselheiras Tatiana Josefovicz Belisário e Cynthia Elena de Campos, que negavam provimento em relação a esse tema, e no que se refere a créditos extemporâneos, por voto de qualidade, vencidos os Conselheiros Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Tatiana Josefovicz Belisário, Alexandre Freitas Costa, e Cynthia Elena de Campos, que negavam provimento em relação ao tema. Ainda no mérito, deu-se parcial provimento ao Recurso Especial do Contribuinte, por unanimidade de votos, no que se refere a despesas referentes ao primeiro período de armazenagem de importação. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Gilson Macedo Rosenburg Filho. As razões do Conselheiro relator foram as seguintes: (...) constou como resultado do voto vencido a negativa de provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional no tema possibilidade de concessão de crédito extemporâneo de PIS e COFINS. Todavia, nos termos dos fundamentos de meu voto foi dado parcial provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional: 2.4.2. Anote-se, ainda, que a Contribuinte está pleiteando crédito escritural extemporâneo e não compensação/restituição de crédito registrado em períodos anteriores, isto é, ela não registrou o crédito em sua escrita fiscal no período correto de apuração, porém, ao observá-lo apurou-o para compensar créditos das contribuições em sua escrita, o que é plenamente possível, desde que o crédito não tenha sido fulminado pela decadência e sem incidência de correções, como determina o artigo 13 da Lei 10.833/03: (...) 2.4.4.2. Desta forma, retificar período a período os documentos fiscais apurando crédito e pleiteando-os em cada um destes períodos (como quer a fiscalização) ou apurá-los de uma vez (como fez a Contribuinte) resulta exatamente no mesmo Fl. 11415DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.002 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 11516.722941/2013-37 4 valor, desde que, por óbvio, respeitado o rateio proporcional do período de apuração originário. (...) 3. Melhor explicando, na Turma Ordinária o crédito extemporâneo foi concedido integralmente para a contribuinte sem quaisquer limites, fato este que levou à interposição do Recurso Especial da Fazenda Nacional pleiteando a glosa dos créditos extemporâneos. Sem prejuízo de não referendar a tese da Fazenda Nacional, o voto vencido de minha lavra coloca limites ao crédito extemporâneo, limites estes que não se encontravam no Acórdão recorrido, a saber, exclusão da correção e respeito ao rateio proporcional do período de apuração. 3.1. Destarte, o resultado correto do voto vencido de minha lavra - lido em sessão de julgamento e acompanhado pelo Conselheiro Alexandre Freitas Costa e Conselheiras Cynthia Elena de Campos e Tatiana Josefovicz Belisário – é o parcial provimento ao recurso da Fazenda Nacional e não a negativa de provimento, tal qual constou em ata. 4. Assim, submeto o aclaratório à Turma para que aprecie a contradição/erro material entre o fundamento do julgado vencido, que dá parcial provimento ao recurso da Fazenda Nacional, e o dispositivo/voto que nega provimento ao REsp fazendário. O Despacho de e-fls. 11409/11410 deu seguimento aos embargos. É o relatório. VOTO Conselheira Semíramis de Oliveira Duro, Relatora O Conselheiro embargante alega existência de erro material no dispositivo do acórdão, porquanto o registro do resultado do julgamento não reflete com exatidão os votos proferidos para a matéria “créditos extemporâneos”, objeto de recurso especial da Fazenda Nacional. O erro material deve ser corrigido, pois configura uma contradição entre o teor da decisão e a anotação do resultado. Sobre a matéria dos créditos extemporâneos, constou no dispositivo: “(...)No mérito, deu-se parcial provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional no que se refere a fretes de produtos acabados entre estabelecimentos, por maioria de votos, vencidas as Conselheiras Tatiana Josefovicz Belisário e Cynthia Elena de Campos, que negavam provimento em relação a esse tema, e no que se refere a créditos extemporâneos, por voto de qualidade, vencidos os Conselheiros Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Tatiana Josefovicz Belisário, Alexandre Freitas Costa, e Cynthia Elena de Campos, que negavam provimento em relação ao tema. (...)” (destacado) Fl. 11416DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.002 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 11516.722941/2013-37 5 Todavia, ao verificar o voto do Conselheiro embargante, constata-se que seu voto foi de provimento parcial ao Recurso Especial da Fazenda Nacional na matéria do crédito extemporâneo: “2.4.7. Pelo exposto, tendo em mente que o crédito extemporâneo foi concedido sem quaisquer barreiras pela Turma Ordinária, deve ser dado parcial provimento ao recurso da Fazenda Nacional para conceder o crédito extemporâneo de PIS/COFINS, sem correções e no limite do rateio proporcional do período em que o crédito foi originariamente apurado. (...) 3.1. Também, admito, porquanto tempestivo, e conheço em parte do Recurso Especial da Fazenda Nacional e a ele dou parcial provimento para manter a glosa nos fretes de produtos acabados e conceder o crédito extemporâneo de PIS/COFINS, sem correções e no limite do rateio proporcional do período em que o crédito foi originariamente apurado.” Já o voto vencedor “crédito extemporâneo” deu provimento integral ao recurso fazendário nessa matéria: Conselheiro Gilson Macedo Rosenburg Filho, Redator designado. Em que pese o alentado e bem fundamentado voto da i. conselheiro relator, peço vênia para dela divergir com relação a desnecessidade de retificação do DACON para fins de aproveitamento de créditos extemporâneos. Essa matéria foi enfrentada com maestria pelo Acórdão nº 9303-010.080, de 23 de janeiro de 2020, e reflete, mutatis mutandis, o posicionamento vencedor do Colegiado, de forma que trago à baila sua ratio decidendi para fundamentar e decisão, verbis: (...) Ressalto, apenas, que no julgamento só se discutiu a obrigatoriedade de retificação do DACON e não da DCTF. Forte nestes argumentos, dou provimento ao recurso da Fazenda Nacional. O resultado geral do julgamento do recurso da Fazenda Nacional é pelo provimento parcial, uma vez que lhe foi negado provimento em relação a: uniformes, vestuários, equipamentos de proteção, materiais de uso pessoal; materiais de limpeza, desinfecção e higienização e pallets. Assim, para que o registro do resultado espelhe o voto proferido por cada Conselheiro integrante da turma julgadora, acolho os embargos para alterar o dispositivo da decisão para o seguinte: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer em parte do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, apenas no que se refere a armazenagem na importação, e em conhecer em parte do Recurso Especial oposto pela Fazenda Nacional, por unanimidade de votos, apenas no que se Fl. 11417DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 9303-017.002 – CSRF/3ª TURMA PROCESSO 11516.722941/2013-37 6 refere a uniformes, vestuários, equipamentos de proteção, materiais de uso pessoal; materiais de limpeza, desinfecção e higienização; pallets; frete s de produtos acabados entre estabelecimentos; e créditos extemporâneos. No mérito, deu-se parcial provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional no que se refere a fretes de produtos acabados entre estabelecimentos, por maioria de votos, vencidas as Conselheiras Tatiana Josefovicz Belisário e Cynthia Elena de Campos, que negavam provimento em relação a esse tema, e no que se refere a créditos extemporâneos, por voto de qualidade, vencidos os Conselheiros Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Tatiana Josefovicz Belisário, Alexandre Freitas Costa, e Cynthia Elena de Campos, que davam parcial provimento em relação ao tema para conceder o crédito extemporâneo de PIS/COFINS, sem correções e no limite do rateio proporcional do período em que o crédito foi originariamente apurado. Ainda no mérito, deu-se parcial provimento ao Recurso Especial do Contribuinte, por unanimidade de votos, no que se refere a despesas referentes ao primeiro período de armazenagem de importação. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Gilson Macedo Rosenburg Filho. Conclusão Do exposto, voto por acolher os Embargos de Declaração, sem efeitos infringentes, para sanar o erro material no dispositivo do Acórdão no 9303-014.684, que passa a consignar o seguinte resultado: “Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer em parte do Recurso Especial interposto pelo Contribuinte, apenas no que se refere a armazenagem na importação, e em conhecer em parte do Recurso Especial oposto pela Fazenda Nacional, por unanimidade de votos, apenas no que se refere a uniformes, vestuários, equipamentos de proteção, materiais de uso pessoal; materiais de limpeza, desinfecção e higienização; pallets; fretes de produtos acabados entre estabelecimentos; e créditos extemporâneos. No mérito, deu-se parcial provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional no que se refere a fretes de produtos acabados entre estabelecimentos, por maioria de votos, vencidas as Conselheiras Tatiana Josefovicz Belisário e Cynthia Elena de Campos, que negavam provimento em relação a esse tema, e no que se refere a créditos extemporâneos, por voto de qualidade, vencidos os Conselheiros Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Tatiana Josefovicz Belisário, Alexandre Freitas Costa, e Cynthia Elena de Campos, que davam parcial provimento em relação ao tema para conceder o crédito extemporâneo de PIS/COFINS, sem correções e no limite do rateio proporcional do período em que o crédito foi originariamente apurado. Ainda no mérito, deu-se parcial provimento ao Recurso Especial do Contribuinte, por unanimidade de votos, no que se refere a despesas referentes ao primeiro período de armazenagem de importação. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Gilson Macedo Rosenburg Filho”. Assinado Digitalmente Semíramis de Oliveira Duro Fl. 11418DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 17830.728519/2021-19
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 19 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017
AUTO DE INFRAÇÃO. DESCRIÇÃO PRECISA DOS FATOS E NORMAS APLICÁVEIS. AUSÊNCIA DE NULIDADE.
Inexiste nulidade em auto de infração lavrado pela autoridade fiscal competente com a descrição clara do fato objeto da autuação e com o apontamento da legislação aplicável ao caso.
NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. INOCORRÊNCIA.
A legislação estabelece que são nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Não restando configurada nenhuma dessas hipóteses, não cabe a decretação de nulidade da decisão recorrida.
DIREITO DE CRÉDITO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE
É do contribuinte o ônus de demonstrar e comprovar ao Fisco a existência do crédito utilizado por meio de desconto, restituição ou ressarcimento e compensação.
PEDIDO DE DILIGÊNCIA OU PERÍCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO.
Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, indefere-se, por prescindível, o pedido de diligência ou perícia.
AJUSTES PARA APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. MULTA REGULAMENTAR. ART. 12, II, LEI 8.218/91. INAPLICABILIDADE. AUSÊNCIA DE ILICITUDE.
Não houve omissão ou prestação de informação incorreta na apresentação dos arquivos digitais pelo contribuinte. A negativa de direito sobre o aproveitamento de créditos extemporâneos resulta na sua glosa e não em multa por omissão ou informação incorreta, deste modo, não há requisitos autorizadores para manutenção da multa regulamentar prevista no art. 12, II, da Lei 8.218/91.
CRÉDITO. INSUMO. CONCEITO. NÃO CUMULATIVIDADE. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA.
O conceito de insumo, para fins de reconhecimento de créditos da Cofins, na não-cumulatividade, deve ser considerado conforme estabelecido, de forma vinculante, pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp 1.221.170/PR, ou seja, atrelado à essencialidade e relevância do bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica da empresa.
Por serem essenciais ou relevantes no processo produtivo de uma empresa agroindustrial, que atua notadamente na exploração de alimentos (carne bovina, suína e de aves), se caracterizam como insumos, havendo direito de apropriação de créditos da Cofins, as locações de uniformes para os trabalhadores manipuladores de alimentos e a contratação de serviço movimentação cross docking.
ALUGUEL DE EMPILHADEIRA, CAMINHÃO MUNCK E TRANSPALETEIRA UTILIZADOS NAS ATIVIDADES DA EMPRESA. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE.
Geram créditos da Cofins, o aluguel de empilhadeira, caminhão Munck e transpaleteira utilizados para movimentação de insumos e outros produtos, conforme disposto no art. 3º, IV, da Lei 10.833/2003.
INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO.
É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência
com alíquota zero ou com suspensão dessas contribuições, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos.
INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITO PRESUMIDO. HIPÓTESES DE VEDAÇÃO.
A autoridade fiscal deve glosar crédito presumido da Cofins quando verificada a ocorrência de fato previsto na legislação tributária como suficiente para vedar o direito ao crédito.
CRÉDITO SOBRE FRETES. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS PARA REVENDA.
Os custos com fretes referentes à aquisição de produtos adquiridos para revenda, contratados de pessoa jurídica domiciliada no Brasil, geram direito a crédito da Cofins não cumulativa.
CRÉDITO SOBRE FRETES. AQUISIÇÃO DE INSUMOS TRIBUTADOS À ALÍQUOTA ZERO OU COM CRÉDITO PRESUMIDO.
Os custos com fretes sobre a aquisição de insumos tributados à alíquota zero ou com crédito presumido geram direito a crédito da Cofins não cumulativa, desde que estejam de acordo com o disposto na Súmula Carf 188.
NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. REGIME DA COMPETÊNCIA. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÕES E DEMONSTRATIVOS DO PERÍODO DO FATO GERADOR DO CRÉDITO.
O creditamento extemporâneo das contribuições deve seguir o regime da competência contábil, ou seja, deve ser realizado nos períodos de apuração relativos aos fatos geradores que lhes deram causa, e exige a retificação de declarações e demonstrativos, desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que o crédito será utilizado ou requerido em pedido de ressarcimento.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017
CRÉDITO. INSUMO. CONCEITO. NÃO CUMULATIVIDADE. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA.
O conceito de insumo, para fins de reconhecimento de créditos da Cofins, na não-cumulatividade, deve ser considerado conforme estabelecido, de forma vinculante, pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp 1.221.170/PR, ou seja, atrelado à essencialidade e relevância do bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica da empresa.
Por serem essenciais ou relevantes no processo produtivo de uma empresa agroindustrial, que atua notadamente na exploração de alimentos (carne bovina, suína e de aves), se caracterizam como insumos, havendo direito de apropriação de créditos da Cofins, as locações de uniformes para os trabalhadores manipuladores de alimentos e a contratação de serviço movimentação cross docking.
Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017
DEPÓSITOS JUDICIAIS OU EXTRAJUDICIAIS CÍVEIS E TRABALHISTAS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS. RECEITAS FINANCEIRAS. REGIME DE COMPETÊNCIA. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS.
No âmbito da apuração da Cofins, pelo regime não cumulativo, as variações monetárias ativas decorrentes de atualização de depósitos judiciais ou extrajudiciais devem ser reconhecidas, em regra, de acordo com o regime de competência. Excetuam-se as hipóteses em que houver determinação legal expressa que condicione, necessariamente, a atualização dos valores depositados a eventual sucesso na lide pelo depositante.
No caso dos depósitos judiciais ou extrajudiciais cíveis e trabalhistas, inexiste previsão legal de ocorrência de acréscimos ao montante depositado judicial ou administrativamente tão somente quando da solução favorável da lide ao depositante. Assim, a respectiva receita financeira deve ser incluída na base de cálculo da Cofins não cumulativa, observando-se o regime de competência.
Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. CARNES E MIUDEZAS COMESTÍVEIS.
A classificação fiscal dos produtos carnes e miudezas comestíveis enquadram-se no Capítulo 2 quando se apresentam nas formas frescas, refrigeradas, congeladas e salgadas, mesmo que tenham sido submetidas a um ligeiro tratamento térmico pela água quente ou pelo vapor (por exemplo, escaldadas ou descoradas), mas não cozidas.
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. KIT OU CONJUNTO FORMADO POR “CHESTER” MAIS BOLSA TÉRMICA.
O “KIT FELICIDADE (CHESTER) PERDIGÃO” descreve um conjunto de materiais que não se enquadram na condição de sortido para venda a retalho e sim em um conjunto de produtos que devem ter classificação fiscal individual, porque o item “BOLSA TERM TIRACOLO 430X320X120MM PERD” se refere a sacola térmica que não se constitui, nos termos da RGI/SH nº 5, a uma embalagem do tipo normalmente utilizado com as mercadorias que ora acondiciona. Trata-se de um artigo reutilizável e que, no conjunto, se destina à estocagem temporária dos produtos, tendo capacidade, segundo as dimensões fornecidas, para mais de 16 litros. Desta forma, deve seguir regime próprio, cabendo classificá-la na posição 42.02 que compreende, entre outros, as bolsas, sacos, sacolas e artigos semelhantes, confeccionadas de folhas de plástico. Assim, “CHESTER INTEIRO ELAB (CHT)”, com os temperos que fazem parte deste produto, classifica-se na posição 1602.32.00, e a sacola térmica, na posição 4202.92.00.
Numero da decisão: 3402-012.736
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade do Auto de Infração e do Acórdão recorrido, e no mérito, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário nos seguintes termos: (I) por unanimidade de votos, para, observados os requisitos legais para o aproveitamento dos créditos das contribuições não cumulativas, reverter as glosas relativas às despesas com: (i) serviços de locação de empilhadeiras, guindastes e Munck; (ii) serviços de administração de vestiário; (iii) serviços portuários na importação; (iv) fretes contratados após da liberação (desembaraço) da mercadoria; (II) por unanimidade de votos, para: (i) reconhecer a possibilidade de aproveitamento dos créditos extemporâneos, independentemente de retificação de DACON, desde que os créditos não tenham sido utilizados em duplicidade, com a observação do Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que condicionava o reconhecimento dos créditos, ainda, à apuração conforme os percentuais de rateio do período de origem; (ii) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 34 da Lei nº 12.058, de 2009, e do art. 1º, inciso XIX, alínea a, da Lei nº 10.925, de 2004, quando os produtos vendidos no mercado interno resultarem em NCM diversa dos produtos adquiridos; (iii) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 56 da Lei nº 12.350, de 2010, quando os produtos forem vendidos para exportação; (iv) afastar o lançamento da Contribuição para o PIS e da COFINS relativo à omissão de receitas decorrentes de variação monetária de depósitos judiciais; (v) afastar o lançamento da Contribuição para o PIS e da COFINS e da multa regulamentar imposta, relativa a infrações relacionadas à EFD-Contribuições; (III) por maioria de votos, para, observados os requisitos legais para o aproveitamento dos créditos das contribuições não cumulativas, reverter as glosas relativas às despesas com: (i) cross docking e repaletização, vencidos, neste ponto, os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que não revertiam essas glosas; (ii) locação de uniformes, vencido, neste ponto, o conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que não revertia essa glosa; (IV) por maioria de votos, para: (i) afastar o lançamento relativo às carnes, cuja classificação deve ser mantida na posição adotada pela Recorrente (0207), vencido, neste ponto, o conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que entendia que a classificação adotada pela Fiscalização estava correta; (ii) afastar o lançamento relativo aos “kit felicidade”, vencidos, neste ponto, os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que entendiam que as classificações adotadas pela Fiscalização estavam corretas; e (iii) manter a glosa sobre a emissão do certificado Halal, vencidas, neste ponto, as conselheiras Mariel Orsi Gameiro e Cynthia Elena de Campos, que revertiam essa glosa.
Assinado Digitalmente
Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta – Relatora
Assinado Digitalmente
Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Leonardo Honorio dos Santos, Anna Dolores Barros de Oliveira Sa Malta, Anselmo Messias Ferraz Alves, Mariel Orsi Gameiro, Cynthia Elena de Campos, Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente).
Nome do relator: ANNA DOLORES BARROS DE OLIVEIRA SA MALTA
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Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, indefere-se, por prescindível, o pedido de diligência ou perícia. AJUSTES PARA APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. MULTA REGULAMENTAR. ART. 12, II, LEI 8.218/91. INAPLICABILIDADE. AUSÊNCIA DE ILICITUDE. Não houve omissão ou prestação de informação incorreta na apresentação dos arquivos digitais pelo contribuinte. A negativa de direito sobre o aproveitamento de créditos extemporâneos resulta na sua glosa e não em multa por omissão ou informação incorreta, deste modo, não há requisitos autorizadores para manutenção da multa regulamentar prevista no art. 12, II, da Lei 8.218/91. CRÉDITO. INSUMO. CONCEITO. NÃO CUMULATIVIDADE. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O conceito de insumo, para fins de reconhecimento de créditos da Cofins, na não-cumulatividade, deve ser considerado conforme estabelecido, de forma vinculante, pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp 1.221.170/PR, ou seja, atrelado à essencialidade e relevância do bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica da empresa. Por serem essenciais ou relevantes no processo produtivo de uma empresa agroindustrial, que atua notadamente na exploração de alimentos (carne bovina, suína e de aves), se caracterizam como insumos, havendo direito de apropriação de créditos da Cofins, as locações de uniformes para os trabalhadores manipuladores de alimentos e a contratação de serviço movimentação cross docking. ALUGUEL DE EMPILHADEIRA, CAMINHÃO MUNCK E TRANSPALETEIRA UTILIZADOS NAS ATIVIDADES DA EMPRESA. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Geram créditos da Cofins, o aluguel de empilhadeira, caminhão Munck e transpaleteira utilizados para movimentação de insumos e outros produtos, conforme disposto no art. 3º, IV, da Lei 10.833/2003. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessas contribuições, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITO PRESUMIDO. HIPÓTESES DE VEDAÇÃO. A autoridade fiscal deve glosar crédito presumido da Cofins quando verificada a ocorrência de fato previsto na legislação tributária como suficiente para vedar o direito ao crédito. CRÉDITO SOBRE FRETES. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS PARA REVENDA. Os custos com fretes referentes à aquisição de produtos adquiridos para revenda, contratados de pessoa jurídica domiciliada no Brasil, geram direito a crédito da Cofins não cumulativa. CRÉDITO SOBRE FRETES. AQUISIÇÃO DE INSUMOS TRIBUTADOS À ALÍQUOTA ZERO OU COM CRÉDITO PRESUMIDO. Os custos com fretes sobre a aquisição de insumos tributados à alíquota zero ou com crédito presumido geram direito a crédito da Cofins não cumulativa, desde que estejam de acordo com o disposto na Súmula Carf 188. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. REGIME DA COMPETÊNCIA. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÕES E DEMONSTRATIVOS DO PERÍODO DO FATO GERADOR DO CRÉDITO. O creditamento extemporâneo das contribuições deve seguir o regime da competência contábil, ou seja, deve ser realizado nos períodos de apuração relativos aos fatos geradores que lhes deram causa, e exige a retificação de declarações e demonstrativos, desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que o crédito será utilizado ou requerido em pedido de ressarcimento. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 CRÉDITO. INSUMO. CONCEITO. NÃO CUMULATIVIDADE. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O conceito de insumo, para fins de reconhecimento de créditos da Cofins, na não-cumulatividade, deve ser considerado conforme estabelecido, de forma vinculante, pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp 1.221.170/PR, ou seja, atrelado à essencialidade e relevância do bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica da empresa. Por serem essenciais ou relevantes no processo produtivo de uma empresa agroindustrial, que atua notadamente na exploração de alimentos (carne bovina, suína e de aves), se caracterizam como insumos, havendo direito de apropriação de créditos da Cofins, as locações de uniformes para os trabalhadores manipuladores de alimentos e a contratação de serviço movimentação cross docking. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 DEPÓSITOS JUDICIAIS OU EXTRAJUDICIAIS CÍVEIS E TRABALHISTAS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS. RECEITAS FINANCEIRAS. REGIME DE COMPETÊNCIA. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS. No âmbito da apuração da Cofins, pelo regime não cumulativo, as variações monetárias ativas decorrentes de atualização de depósitos judiciais ou extrajudiciais devem ser reconhecidas, em regra, de acordo com o regime de competência. Excetuam-se as hipóteses em que houver determinação legal expressa que condicione, necessariamente, a atualização dos valores depositados a eventual sucesso na lide pelo depositante. No caso dos depósitos judiciais ou extrajudiciais cíveis e trabalhistas, inexiste previsão legal de ocorrência de acréscimos ao montante depositado judicial ou administrativamente tão somente quando da solução favorável da lide ao depositante. Assim, a respectiva receita financeira deve ser incluída na base de cálculo da Cofins não cumulativa, observando-se o regime de competência. Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. CARNES E MIUDEZAS COMESTÍVEIS. A classificação fiscal dos produtos carnes e miudezas comestíveis enquadram-se no Capítulo 2 quando se apresentam nas formas frescas, refrigeradas, congeladas e salgadas, mesmo que tenham sido submetidas a um ligeiro tratamento térmico pela água quente ou pelo vapor (por exemplo, escaldadas ou descoradas), mas não cozidas. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. KIT OU CONJUNTO FORMADO POR “CHESTER” MAIS BOLSA TÉRMICA. O “KIT FELICIDADE (CHESTER) PERDIGÃO” descreve um conjunto de materiais que não se enquadram na condição de sortido para venda a retalho e sim em um conjunto de produtos que devem ter classificação fiscal individual, porque o item “BOLSA TERM TIRACOLO 430X320X120MM PERD” se refere a sacola térmica que não se constitui, nos termos da RGI/SH nº 5, a uma embalagem do tipo normalmente utilizado com as mercadorias que ora acondiciona. Trata-se de um artigo reutilizável e que, no conjunto, se destina à estocagem temporária dos produtos, tendo capacidade, segundo as dimensões fornecidas, para mais de 16 litros. Desta forma, deve seguir regime próprio, cabendo classificá-la na posição 42.02 que compreende, entre outros, as bolsas, sacos, sacolas e artigos semelhantes, confeccionadas de folhas de plástico. Assim, “CHESTER INTEIRO ELAB (CHT)”, com os temperos que fazem parte deste produto, classifica-se na posição 1602.32.00, e a sacola térmica, na posição 4202.92.00.
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conteudo_txt : Metadados => date: 2025-11-22T02:45:36Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2025-11-22T02:45:36Z; Last-Modified: 2025-11-22T02:45:36Z; dcterms:modified: 2025-11-22T02:45:36Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2025-11-22T02:45:36Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2025-11-22T02:45:36Z; meta:save-date: 2025-11-22T02:45:36Z; pdf:encrypted: false; modified: 2025-11-22T02:45:36Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2025-11-22T02:45:36Z; created: 2025-11-22T02:45:36Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 82; Creation-Date: 2025-11-22T02:45:36Z; pdf:charsPerPage: 1748; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2025-11-22T02:45:36Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 17830.728519/2021-19 ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 19 de agosto de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE BRF S.A INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 AUTO DE INFRAÇÃO. DESCRIÇÃO PRECISA DOS FATOS E NORMAS APLICÁVEIS. AUSÊNCIA DE NULIDADE. Inexiste nulidade em auto de infração lavrado pela autoridade fiscal competente com a descrição clara do fato objeto da autuação e com o apontamento da legislação aplicável ao caso. NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. INOCORRÊNCIA. A legislação estabelece que são nulos os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Não restando configurada nenhuma dessas hipóteses, não cabe a decretação de nulidade da decisão recorrida. DIREITO DE CRÉDITO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE É do contribuinte o ônus de demonstrar e comprovar ao Fisco a existência do crédito utilizado por meio de desconto, restituição ou ressarcimento e compensação. PEDIDO DE DILIGÊNCIA OU PERÍCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, indefere-se, por prescindível, o pedido de diligência ou perícia. AJUSTES PARA APROVEITAMENTO DE CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. MULTA REGULAMENTAR. ART. 12, II, LEI 8.218/91. INAPLICABILIDADE. AUSÊNCIA DE ILICITUDE. Não houve omissão ou prestação de informação incorreta na apresentação dos arquivos digitais pelo contribuinte. A negativa de direito sobre o Fl. 4724DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 2 aproveitamento de créditos extemporâneos resulta na sua glosa e não em multa por omissão ou informação incorreta, deste modo, não há requisitos autorizadores para manutenção da multa regulamentar prevista no art. 12, II, da Lei 8.218/91. CRÉDITO. INSUMO. CONCEITO. NÃO CUMULATIVIDADE. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O conceito de insumo, para fins de reconhecimento de créditos da Cofins, na não-cumulatividade, deve ser considerado conforme estabelecido, de forma vinculante, pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp 1.221.170/PR, ou seja, atrelado à essencialidade e relevância do bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica da empresa. Por serem essenciais ou relevantes no processo produtivo de uma empresa agroindustrial, que atua notadamente na exploração de alimentos (carne bovina, suína e de aves), se caracterizam como insumos, havendo direito de apropriação de créditos da Cofins, as locações de uniformes para os trabalhadores manipuladores de alimentos e a contratação de serviço movimentação cross docking. ALUGUEL DE EMPILHADEIRA, CAMINHÃO MUNCK E TRANSPALETEIRA UTILIZADOS NAS ATIVIDADES DA EMPRESA. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Geram créditos da Cofins, o aluguel de empilhadeira, caminhão Munck e transpaleteira utilizados para movimentação de insumos e outros produtos, conforme disposto no art. 3º, IV, da Lei 10.833/2003. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessas contribuições, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITO PRESUMIDO. HIPÓTESES DE VEDAÇÃO. A autoridade fiscal deve glosar crédito presumido da Cofins quando verificada a ocorrência de fato previsto na legislação tributária como suficiente para vedar o direito ao crédito. CRÉDITO SOBRE FRETES. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS PARA REVENDA. Fl. 4725DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 3 Os custos com fretes referentes à aquisição de produtos adquiridos para revenda, contratados de pessoa jurídica domiciliada no Brasil, geram direito a crédito da Cofins não cumulativa. CRÉDITO SOBRE FRETES. AQUISIÇÃO DE INSUMOS TRIBUTADOS À ALÍQUOTA ZERO OU COM CRÉDITO PRESUMIDO. Os custos com fretes sobre a aquisição de insumos tributados à alíquota zero ou com crédito presumido geram direito a crédito da Cofins não cumulativa, desde que estejam de acordo com o disposto na Súmula Carf 188. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. REGIME DA COMPETÊNCIA. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÕES E DEMONSTRATIVOS DO PERÍODO DO FATO GERADOR DO CRÉDITO. O creditamento extemporâneo das contribuições deve seguir o regime da competência contábil, ou seja, deve ser realizado nos períodos de apuração relativos aos fatos geradores que lhes deram causa, e exige a retificação de declarações e demonstrativos, desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que o crédito será utilizado ou requerido em pedido de ressarcimento. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 CRÉDITO. INSUMO. CONCEITO. NÃO CUMULATIVIDADE. ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. O conceito de insumo, para fins de reconhecimento de créditos da Cofins, na não-cumulatividade, deve ser considerado conforme estabelecido, de forma vinculante, pelo Superior Tribunal de Justiça no REsp 1.221.170/PR, ou seja, atrelado à essencialidade e relevância do bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica da empresa. Por serem essenciais ou relevantes no processo produtivo de uma empresa agroindustrial, que atua notadamente na exploração de alimentos (carne bovina, suína e de aves), se caracterizam como insumos, havendo direito de apropriação de créditos da Cofins, as locações de uniformes para os trabalhadores manipuladores de alimentos e a contratação de serviço movimentação cross docking. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Fl. 4726DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 4 Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 DEPÓSITOS JUDICIAIS OU EXTRAJUDICIAIS CÍVEIS E TRABALHISTAS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS. RECEITAS FINANCEIRAS. REGIME DE COMPETÊNCIA. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS. No âmbito da apuração da Cofins, pelo regime não cumulativo, as variações monetárias ativas decorrentes de atualização de depósitos judiciais ou extrajudiciais devem ser reconhecidas, em regra, de acordo com o regime de competência. Excetuam-se as hipóteses em que houver determinação legal expressa que condicione, necessariamente, a atualização dos valores depositados a eventual sucesso na lide pelo depositante. No caso dos depósitos judiciais ou extrajudiciais cíveis e trabalhistas, inexiste previsão legal de ocorrência de acréscimos ao montante depositado judicial ou administrativamente tão somente quando da solução favorável da lide ao depositante. Assim, a respectiva receita financeira deve ser incluída na base de cálculo da Cofins não cumulativa, observando-se o regime de competência. Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. CARNES E MIUDEZAS COMESTÍVEIS. A classificação fiscal dos produtos carnes e miudezas comestíveis enquadram-se no Capítulo 2 quando se apresentam nas formas frescas, refrigeradas, congeladas e salgadas, mesmo que tenham sido submetidas a um ligeiro tratamento térmico pela água quente ou pelo vapor (por exemplo, escaldadas ou descoradas), mas não cozidas. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. KIT OU CONJUNTO FORMADO POR “CHESTER” MAIS BOLSA TÉRMICA. O “KIT FELICIDADE (CHESTER) PERDIGÃO” descreve um conjunto de materiais que não se enquadram na condição de sortido para venda a retalho e sim em um conjunto de produtos que devem ter classificação fiscal individual, porque o item “BOLSA TERM TIRACOLO 430X320X120MM PERD” se refere a sacola térmica que não se constitui, nos termos da RGI/SH nº 5, a uma embalagem do tipo normalmente utilizado com as mercadorias que ora acondiciona. Trata-se de um artigo reutilizável e que, no conjunto, se destina à estocagem temporária dos produtos, tendo capacidade, segundo as dimensões fornecidas, para mais de 16 litros. Desta forma, deve seguir regime próprio, cabendo classificá-la na posição Fl. 4727DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 5 42.02 que compreende, entre outros, as bolsas, sacos, sacolas e artigos semelhantes, confeccionadas de folhas de plástico. Assim, “CHESTER INTEIRO ELAB (CHT)”, com os temperos que fazem parte deste produto, classifica-se na posição 1602.32.00, e a sacola térmica, na posição 4202.92.00. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade do Auto de Infração e do Acórdão recorrido, e no mérito, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário nos seguintes termos: (I) por unanimidade de votos, para, observados os requisitos legais para o aproveitamento dos créditos das contribuições não cumulativas, reverter as glosas relativas às despesas com: (i) serviços de locação de empilhadeiras, guindastes e Munck; (ii) serviços de administração de vestiário; (iii) serviços portuários na importação; (iv) fretes contratados após da liberação (desembaraço) da mercadoria; (II) por unanimidade de votos, para: (i) reconhecer a possibilidade de aproveitamento dos créditos extemporâneos, independentemente de retificação de DACON, desde que os créditos não tenham sido utilizados em duplicidade, com a observação do Conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que condicionava o reconhecimento dos créditos, ainda, à apuração conforme os percentuais de rateio do período de origem; (ii) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 34 da Lei nº 12.058, de 2009, e do art. 1º, inciso XIX, alínea a, da Lei nº 10.925, de 2004, quando os produtos vendidos no mercado interno resultarem em NCM diversa dos produtos adquiridos; (iii) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 56 da Lei nº 12.350, de 2010, quando os produtos forem vendidos para exportação; (iv) afastar o lançamento da Contribuição para o PIS e da COFINS relativo à omissão de receitas decorrentes de variação monetária de depósitos judiciais; (v) afastar o lançamento da Contribuição para o PIS e da COFINS e da multa regulamentar imposta, relativa a infrações relacionadas à EFD-Contribuições; (III) por maioria de votos, para, observados os requisitos legais para o aproveitamento dos créditos das contribuições não cumulativas, reverter as glosas relativas às despesas com: (i) cross docking e repaletização, vencidos, neste ponto, os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que não revertiam essas glosas; (ii) locação de uniformes, vencido, neste ponto, o conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que não revertia essa glosa; (IV) por maioria de votos, para: (i) afastar o lançamento relativo às carnes, cuja classificação deve ser mantida na posição adotada pela Recorrente (0207), vencido, neste ponto, o conselheiro Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que entendia que a classificação adotada pela Fiscalização estava correta; (ii) afastar o lançamento relativo aos “kit felicidade”, vencidos, neste ponto, os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles, que entendiam que as Fl. 4728DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 6 classificações adotadas pela Fiscalização estavam corretas; e (iii) manter a glosa sobre a emissão do certificado Halal, vencidas, neste ponto, as conselheiras Mariel Orsi Gameiro e Cynthia Elena de Campos, que revertiam essa glosa. Assinado Digitalmente Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta – Relatora Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Participaram do presente julgamento os Conselheiros Leonardo Honorio dos Santos, Anna Dolores Barros de Oliveira Sa Malta, Anselmo Messias Ferraz Alves, Mariel Orsi Gameiro, Cynthia Elena de Campos, Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra o Acórdão nº 105-010.053, proferido pela 4ª Turma da DRJ05 que, por unanimidade de votos, julgou procedente em parte a impugnação, mantendo parcialmente os débitos da Contribuição para o PIS/Pasep e COFINS, e mantendo integralmente o valor lançado pela aplicação da multa regulamentar em virtude da apresentação de EFD-Contribuições com informações inexatas, incompletas ou omitidas. O v. Acórdão recorrido foi proferido com a seguinte ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 DIREITO CREDITÓRIO.COMPROVAÇÃO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. É do contribuinte o ônus de demonstrar e comprovar ao Fisco a existência do crédito utilizado por meio de desconto, restituição ou ressarcimento e compensação. DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE INDEFERIMENTO. Indefere-se o pedido de diligência quando a sua realização revela-se prescindível para a formação da convicção da Autoridade julgadora. Assunto: Normas de Administração Tributária Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 MULTA REGULAMENTAR. OMISSÃO, INCORREÇÃO OU INEXATIDÃO NO PREENCHIMENTO DA EFD-CONTRIBUIÇÕES. O sujeito passivo que apresentar a EFD-Contribuições com inexatidões, incorreções ou omissões sujeita-se, a partir da vigência da Lei nº 13.670, de 30 de maio de 2018, às multas previstas no art. 12 da Lei nº 8.218, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 13.670, de 2018. MULTA POR DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. INFRAÇÃO OBJETIVA. Fl. 4729DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 7 Constatado que os fatos, comprovadamente ocorridos, subsomem-se ao dispositivo legal que prevê a infração tributária, impõe-se a aplicação da multa correspondente, independentemente da intenção do agente. MULTA POR DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. MULTA DE OFÍCIO. PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO. INAPLICABILIDADE. Distintos os fatos, a base de cálculo e os próprios bens jurídicos tutelados por cada uma das normas penais, é inaplicável o princípio da consunção. INSTRUÇÃO NORMATIVA. NORMA COMPLEMENTAR DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. As orientações e definições contidas em atos normativos, por constituírem normas complementares da legislação tributária, devem ser seguidas pelas Autoridades Fiscais. Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 NOMENCLATURA COMUM DO MERCOSUL. REGRAS GERAIS. NOTAS EXPLICATIVAS. As Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Codificação e Classificação de Mercadorias - NESH estabelecem o alcance e o conteúdo da Nomenclatura abrangida pelo SH, pelo que devem ser obrigatoriamente observadas para que se realize a correta classificação da mercadoria. CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. REGRAS GERAIS. NOTAS EXPLICATIVAS. ORDEM DE APLICAÇÃO. A primeira das Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado - RGI-SH prevê que a classificação de produtos na NCM é determinada de acordo com os textos das posições e das Notas de Seção ou de Capítulo, e quando for o caso, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas, de acordo com as disposições das Regras 2, 3, 4 e 5. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. REGIME DA COMPETÊNCIA. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DACON E DCTF DO PERÍODO DO FATO GERADOR DO CRÉDITO. O creditamento extemporâneo das contribuições deve seguir o regime da competência contábil, ou seja, deve ser realizado nos períodos de apuração relativos aos fatos geradores que lhes deram causa, e exige a retificação de declarações e demonstrativos (DCTF, Dacon ou EFD-Contribuições, conforme aplicável), desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que o mesmo será utilizado ou requerido em pedido de ressarcimento. DEPÓSITOS JUDICIAIS OU EXTRAJUDICIAIS CÍVEIS E TRABALHISTAS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS. RECEITAS FINANCEIRAS. REGIME DE COMPETÊNCIA. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS. Fl. 4730DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 8 INSTRUÇÃO NORMATIVA. NORMA COMPLEMENTAR DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. As orientações e definições contidas em atos normativos, por constituírem normas complementares da legislação tributária, devem ser seguidas pelas Autoridades Fiscais. Assunto: Classificação de Mercadorias Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 NOMENCLATURA COMUM DO MERCOSUL. REGRAS GERAIS. NOTAS EXPLICATIVAS. As Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Codificação e Classificação de Mercadorias - NESH estabelecem o alcance e o conteúdo da Nomenclatura abrangida pelo SH, pelo que devem ser obrigatoriamente observadas para que se realize a correta classificação da mercadoria. CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. REGRAS GERAIS. NOTAS EXPLICATIVAS. ORDEM DE APLICAÇÃO. A primeira das Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado - RGI-SH prevê que a classificação de produtos na NCM é determinada de acordo com os textos das posições e das Notas de Seção ou de Capítulo, e quando for o caso, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas, de acordo com as disposições das Regras 2, 3, 4 e 5. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 31/01/2017 a 31/03/2017 NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. REGIME DA COMPETÊNCIA. NECESSIDADE DE RETIFICAÇÃO DE DACON E DCTF DO PERÍODO DO FATO GERADOR DO CRÉDITO. O creditamento extemporâneo das contribuições deve seguir o regime da competência contábil, ou seja, deve ser realizado nos períodos de apuração relativos aos fatos geradores que lhes deram causa, e exige a retificação de declarações e demonstrativos (DCTF, Dacon ou EFD-Contribuições, conforme aplicável), desde o período de apuração em que o crédito foi originado até o período de apuração em que o mesmo será utilizado ou requerido em pedido de ressarcimento. DEPÓSITOS JUDICIAIS OU EXTRAJUDICIAIS CÍVEIS E TRABALHISTAS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS. RECEITAS FINANCEIRAS. REGIME DE COMPETÊNCIA. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DA COFINS. No âmbito da apuração da Cofins pelo regime não cumulativo, as variações monetárias ativas decorrentes de atualização de depósitos judiciais ou extrajudiciais devem ser reconhecidas, em regra, de acordo com o regime de competência. Excetuam-se as hipóteses em que houver determinação legal expressa que condicione, necessariamente, a atualização dos valores depositados a eventual sucesso na lide pelo depositante. Fl. 4731DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 9 No caso dos depósitos judiciais ou extrajudiciais cíveis e trabalhistas, inexiste previsão legal de ocorrência de acréscimos ao montante depositado judicial ou administrativamente tão somente quando da solução favorável da lide ao depositante. Assim, a respectiva receita financeira deve ser incluída na base de cálculo da Cofins não cumulativa observando-se o regime de competência, sendo irrelevante, no caso desta contribuição, a efetiva disponibilidade de tal valor. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CONCEITO DE INSUMOS. No regime da não cumulatividade, o termo “insumo” não pode ser interpretado como todo e qualquer bem ou serviço que gera despesa necessária para a atividade da empresa, mas, sim, tão somente aqueles, adquiridos de pessoa jurídica, que efetivamente sejam essenciais ou relevantes para a produção de bens destinados à venda ou na prestação do serviço da atividade. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. FRETE NA AQUISIÇÃO DE BEM NO MERCADO INTERNO. DIREITO DE CRÉDITO DETERMINADO EM FUNÇÃO DO BEM ADQUIRIDO. Ante a ausência de previsão legal específica para a apuração de créditos da não cumulatividade da Cofins em relação aos dispêndios com serviço de transporte (frete) ocorrido na aquisição de bens no mercado interno, o crédito apurado, no caso, decorre da técnica contábil e fiscal que integra tais despesas ao custo de aquisição do bem. Tratando-se de valor que integra o custo de aquisição, a possibilidade de apropriação de crédito calculado sobre o gasto com frete deve ser determinada em função da possibilidade ou não de apropriação de crédito em relação aos bens transportados. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITOS. AQUISIÇÃO DE BENS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DA CONTRIBUIÇÃO. VEDAÇÕES DE CREDITAMENTO. É vedada a apropriação de créditos da Cofins em relação a bens e serviços adquiridos em operações não sujeitas à incidência ou sujeitas à incidência com alíquota zero ou com suspensão dessa contribuição, independentemente da destinação dada aos bens ou serviços adquiridos. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITO PRESUMIDO. HIPÓTESES DE VEDAÇÃO. A Autoridade Fiscal deve glosar o crédito da Cofins informado pelo contribuinte quando verificada a ocorrência de fato previsto na legislação tributária como suficiente para vedar o direito ao crédito. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. ALUGUEL DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS. EMPILHADEIRAS. CRÉDITO. INEXISTENTE. Não há direito a crédito da não cumulatividade da Cofins sobre os valores pagos a pessoa jurídica a título de aluguel de empilhadeiras, pois o aluguel de veículos não é abrangido pela hipótese de creditamento do inciso IV do art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003. Fl. 4732DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 10 INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. CRÉDITOS. IMPORTAÇÃO. GASTOS COM DESEMBARAÇO ADUANEIRO. Gastos com a movimentação portuária (capatazia e estiva) na importação das mercadorias não geram direito a crédito da não cumulatividade da Cofins, por não estarem incluídos no cálculo do imposto de importação e não se caracterizarem como insumo na atividade produtiva da pessoa jurídica. INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. CRÉDITOS. ALUGUEL DE TERRENO. POSSIBILIDADE. A legislação, ao tratar da possibilidade de apuração de crédito da Cofins em relação aos dispêndios com aluguéis de prédios, não fez qualquer restrição a que o prédio fosse edificado ou não, de modo que se pode concluir que o conceito de prédio abordado no inciso IV do art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, abrange tanto o prédio construído como uma área ou terreno sem quaisquer edificações CRÉDITO PRESUMIDO. AGROINDÚSTRIA. INSUMOS. A apuração do crédito presumido do artigo 56 da Lei nº 12.350, de 2010, é vedada pelo seu § 1º quanto às aquisições realizadas por pessoa jurídica que industrialize produtos classificados nas posições 01.03 e 01.05 da NCM. Por bem reproduzir os fatos, transcrevo o relatório da decisão de primeira instância: Trata o presente processo de Autos de Infração lavrados contra a Contribuinte acima identificada que pretendem a cobrança da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep relativas ao período de janeiro a março de 2017 (1º trimestre de 2017). Segundo consta da Informação Fiscal nº 139/2021 EQAUD3/DRFBLU/SRRF09/RFB às folhas 1461/1747, o procedimento fiscal abrangeu a verificação dos créditos e dos débitos do PIS/Pasep e da Cofins apurados no referido período, tendo sido detectados fatos que constituem infrações à legislação tributária e que acarretaram a glosa de créditos a descontar informados na EFD-Contribuições. Assim, ao final dos trabalhos foram apurados saldos devedores em todos os meses do trimestre. Nos Autos de Infração às folhas 1437/1455 relativo à Cofins e à Contribuição para o PIS/Pasep, as infrações apuradas foram assim descritas: “Insuficiência de Recolhimento”, “Omissão de Receita” e “Crédito de Aquisição no Mercado Interno Constituído Indevidamente”. Foi, ainda, lavrado Auto de Infração, às folhas 1456/1459, exigindo multa regulamentar em virtude da apresentação de EFD-Contribuições com informações inexatas, incompletas ou omitidas. Quanto às glosas dos créditos do PIS e da Cofins apurados no regime da não cumulatividade, os Autuantes inicialmente ressaltam que na definição do conceito Fl. 4733DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 11 de insumo foram adotadas as disposições da Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF, publicada nos termos do §4º do art. 19 da Lei nº 10.522/2002, e do Parecer Normativo Cosit nº 05, de 17/12/2018, vinculante no âmbito da RFB, onde são apresentadas as repercussões do julgamento do Recurso Especial nº 1.221.170 - PR (2010/0209115-0) pelo Superior Tribunal de Justiça. Passam, então, a discriminar as glosas efetuadas, indicadas a seguir conforme itens do Relatório Fiscal. 4.3.1.1 Crédito Presumido das Atividades Agroindustriais As Autoridades Fiscais relatam que no item 23 da Intimação Fiscal nº 75-2021/EQAUD3/DRF BLU/SRRF09/RFB (fls. 02/11) pediram esclarecimentos à Fiscalizada acerca da origem de quaisquer valores informados nos registros de ajustes de crédito da EFD-Contribuições (M110 e M510), informando todos os dados necessários. Solicitou-se, também, informações sobre as aquisições enquadradas nas Instruções Normativas da Receita Federal do Brasil - RFB nº 977, de 14 de dezembro de 2009, e nº 1.157, de 16 de maio de 2011, devendo-se considerar as novas disposições dadas pela IN RFB nº 1.911, de 11 de outubro de 2019, de mesma inteligência. Com base nas informações obtidas, tratam as glosas como segue. 4.3.1.1.1 Créditos Presumidos da Lei nº 10.925/2004 e IN RFB nº 660/2006 (IN RFB nº 1.911/2019)Consta da Informação Fiscal que: A despeito das alterações na legislação que criaram microrregimes próprios associados às cadeias de produção de bovinos, de suínos e de aves, verificam-se ainda vigentes, créditos presumidos sob o pálio do artigo 8º da Lei nº 10.925/2004, que contemplam aquisições de insumos utilizados na fabricação de produtos destinados à alimentação humana ou animal. Nesse vértice, destacam- se no caso concreto os produtos processados do capítulo 16 da NCM. (...)Compulsando as EFD-Contribuições, verifica-se que a Interessada apropriou créditos a título de aquisição para revenda, à alíquota de 0,99% para a Contribuição para o PIS/Pasaep e 4,56% para a Cofins. Tais aquisições estão detalhadas na aba “4.3.1.1.1” do arquivo não-paginável denominado “Detalhamento das Glosas” (fls. 1.435) e demonstram que foram computados nas escriturações créditos relativos à revenda de ovo comercial, lenha de eucalipto por peso, maravalha seca pinus para integrados e maravalha seca pinus p/integ enfardada. Com fulcro na legislação supratranscrita, em especial o artigo 8º da Lei nº 10.925/2004, tem-se clara a impossibilidade de créditos presumidos ora requeridos ao amparo de aquisições para revenda. Ainda em relação ao ovo comercial, constatou-se ajustes de redução informados nas abas “RESUMO BLOCO M JAN-2017”, “Ajuste Bloco M - Fev-2017” e “Ajuste Bloco M - 03-2017” dos arquivos não pagináveis denominados “ITEM 23 01 2017 Registro M110 e M510.xlsx”, ITEM 23 02 2017 Registro M110.xlsx” e “M510 ITEM 23 03 2017 Registro M110 e M510.xlsx” (fls. 639). Tais ajustes estão detalhados Fl. 4734DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 12 respectivamente nas abas “04”, “04” e “03” dos referidos arquivos não- pagináveis. Visando cotejar as operações de revenda informadas nas EFD-Contribuições com os estornos para evitar a glosa indevida, buscou-se no arquivo de notas fiscais eletrônicas emitidas pela Interessada tais operações, obtendo-se a planilha identificada na aba “4.3.1.1.1” do arquivo não-paginável denominado “Planilhas Auxiliares” (fls. 1.434). No arquivo em questão há informações detalhadas das notas fiscais eletrônicas emitidas pela empresa, em especial o número da nota que foi indicado nas abas “04”, “04” e “03” dos arquivos não pagináveis denominados “ITEM 23 01 2017 Registro M110 e M510.xlsx”, ITEM 23 02 2017 Registro M110.xlsx” e “M510 ITEM 23 03 2017 Registro M110 e M510.xlsx, que detalham as devoluções de ovos. Assim, foi possível constatar que nenhuma das notas fiscais de revenda de ovo comercial informadas nas EFD-Contribuições foi estornada, motivo pelo qual todas as aquisições para revenda cujo crédito presumido foi computado deve ser objeto das glosas a seguir sintetizadas: (...)IV.III.1.1.2 Créditos Presumidos da Lei n° 12.058/2009 e IN RFB n° 977/2009 (IN 1.911/2019)Os Auditores Fiscais da RFB informam que no trimestre fiscalizado: – a Contribuinte adquiriu carnes bovinas das posições 02.01 e 02.02 e as industrializou, sendo enquadrada no disposto no art. 34, §1º, da Lei nº 12.058, de 2009, que vedava a apuração de crédito presumido para essa situação. Também o art. 37 da Lei nº 12.058, de 2009, excluía as carnes em tela da aplicação dos arts. 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004. – foram adquiridas carnes tributadas à alíquota zero, que se enquadram na Lei nº 10.925, de 2004, art. 1º, inciso XIX, alínea “a”, não sendo também possível haver créditos básicos à alíquota de 1,65% para PIS/Pasep ou de 7,6% para a Cofins. – em relação ao crédito presumido do art. 5º da IN RFB nº 977 (art. 513 da IN RFB nº 1.911, de 2019), a Contribuinte não adquiriu bovinos vivos e não exportou qualquer dos produtos listados no caput do art. 33 da Lei nº 12.058, de 2009. – em relação ao crédito presumido do art. 6º da IN RFB nº 977 (art. 520 da IN RFB nº 1.911, de 2019), os valores presentes na EFD-Contribuições relativos a créditos decorrentes da aquisição de carnes devem ser glosados porque esse crédito era vedado na situação da Contribuinte. A Interessada, quando intimada a esclarecer como se operava o controle diferenciado de estoques e de registro dos créditos – previsto no art. 14 e art. 15 da IN 977, de 2009 –, respondeu que “quanto ao controle diferenciado de estoques, não há como segregar as aquisições dos bois vivos ...”. As Autoridades Fiscais acrescentam que a Interessada também não apresentou qualquer consulta ou medida judicial que pudesse justificar seu procedimento diante de tal obrigação imposta pela legislação. Concluem que, tendo em vista a obrigação de Fl. 4735DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 13 interpretação literal da legislação, e uma vez não cumprida a obrigação acessória, o crédito presumido não é passível de apropriação. Os Autuantes transcrevem a ementa da Solução de Consulta nº 46 - Cosit, de 17/01/2017, segundo a qual, para apuração do crédito presumido do art. 34 da Lei nº 12.058, exige-se que “a pessoa jurídica que pretende apurar o crédito presumido não utilize como matéria prima em seus processos industriais qualquer dos produtos classificados nas posições 01.02, 01.04, 02.01, 02.02 e 02.04 da NCM”, o que exclui, de pronto, a pretensão da Contribuinte. 4.3.1.1.3 Créditos Presumidos da Lei n° 12.350/2010 e IN RFB n° 1.157/2011 (IN RFB 1.911/2019)Em relação ao crédito presumido do art. 5º da IN RFB nº 1.157, de 2011, a Contribuinte incorreu na vedação destacada no parágrafo único do mesmo artigo (vedação mantida no Inciso I do § 2º do art. 523 da IN RFB 1.911, de 2019), qual seja: realizou operação de venda de bens da posição 01.03, 01.05, 10.05 e 2309.90, bens estes listados nos incisos I a III do caput do art. 2º. Em relação ao crédito presumido do art. 6º da IN RFB nº 1.157, de 2011 (art. 526 da IN RFB nº 1.911, de 2019), a Contribuinte incorreu na vedação destacada no parágrafo único do mesmo artigo, pois é notório que a Contribuinte está enquadrada como pessoa jurídica “que industrialize bens e produtos classificados nas posições 01.03 e 01.05 da NCM”, conforme preconizado no inciso III do caput do art. 3º e no §1º do art. 56 da Lei 12.350, de 2010. Essa constatação é confirmada inclusive pela resposta ao item nº 2 da Intimação Fiscal nº 75- 2021/EQAUD3/DRF BLU/SRRF09/RFB. As Autoridades Fiscais informam que a Interessada, quando intimada a esclarecer como se operava o controle diferenciado de estoques estabelecido como obrigação acessória pela IN RFB nº 1.157, de 2011, art. 13 (IN RFB nº 1.911, de 2019, §§ 8º e 9º do art. 501), respondeu que “quanto ao controle diferenciado de estoques, não há como segregar as aquisições previstas na IN 1.157/2011 ...”. Acrescentam que a Interessada também não apresentou qualquer consulta ou medida judicial que pudesse justificar seu procedimento diante de tal obrigação imposta pela legislação. Concluem que, tendo em vista a obrigação de interpretação literal da legislação, e uma vez não cumprida a obrigação acessória, não há crédito presumido algum no trimestre em tela, relativo à IN RFB nº 1.157/2011 (IN RFB nº 1.911/2019, artigos correspondentes). 4.3.1.2.1 Créditos Extemporâneos Presentes nos Ajustes A fiscalizada, em resposta à Intimação Fiscal nº 75-2021/EQAUD3/DRF BLU/SRRF09/RFB, item 6, forneceu uma série de arquivos (fl.637) contendo dados sobre créditos extemporâneos sobre as mais diversas alegações. Também, em resposta ao item 23 da referida Intimação Fiscal sobre os ajustes dos registros M110 e M510, apresentou o arquivo não paginável denominado “ITEM 23 03 2017 Registro M110 e M510.xlsx”, anexada na folha 639. A partir da análise das planilhas que compõem o referido arquivo não paginável, os Auditores Fiscais Fl. 4736DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 14 constataram que se trata de créditos relativos a itens que compuseram a construção de imobilizado da BRF S.A., e que passaram a integrar o ativo da empresa no período 2002 a 2016; e créditos de itens que compuseram a construção de imobilizado da incorporada “SHB Comércio e Indústria de Alimentos S.A.”, e que passaram a integrar o ativo da empresa no período 2003 a 2016. Segundo os Auditores, não é possível a apuração de créditos extemporâneos sem a retificação dos Dacon ou EFD-Contribuições correspondentes, e, se for o caso, das DCTF dos períodos em que se originaram. Esse é o “entendimento cristalino” da RFB, disposto na Solução de Consulta nº 355 – Cosit, de 13 de julho de 2017, que tem efeito vinculante no âmbito da RFB, nos termos do art. 9º da IN RFB nº 1.396, de 2013. Aduzem que “o caso tratado neste processo é mais uma demonstração da necessidade de tratamento dos créditos extemporâneos na EFD-Contribuições do período correto. Os períodos afetados pelos supostos créditos extemporâneos já foram objeto de fiscalização. Se corretamente realizada a retificação, teriam sido analisados naquela ocasião caso as alterações tivessem ocorrido antes do início da fiscalização. Se ocorridas após, as retificações não seriam admissíveis, salvo se tivessem ocorrido em atendimento a intimação fiscal, conforme definido no art. 11 da IN RFB 1.252/2012”. De toda forma, os períodos afetados já foram objeto de exame em procedimento de fiscalização e de reconhecimento de direito creditório de valores objeto de Pedido de Ressarcimento ou de Declaração de Compensação nos processos citados no Relatório Fiscal, sendo vedada a retificação da EFD-Contribuições tendente a aumentar o crédito, conforme estabelece a IN RFB nº 1.252, de 2012, art. 11, §2º, inciso III. 4.3.1.2.2 Das Demais Alterações necessárias nos ajustes de acréscimo Assim consta da Informação Fiscal: Compulsando as diversas planilhas que compõem os arquivos “ITEM 23 01 2017 Registro M110 e M510.xlsx”, “ITEM 23 02 2017 Registro M110 e M510.xlsx” e “ITEM 23 03 2017 Registro M110 e M510.xlsx”, que detalham os créditos de ajustes de acréscimo, verifica-se em diversos casos a ausência de informações relativas às chaves das notas fiscais eletrônicas ou dos conhecimentos de transporte eletrônicos. Tais informações revestem-se de extrema importância para a auditoria do crédito, na medida em que se pode “autenticar” a operação a partir do cotejo entre a informação trazida aos autos pela Interessada e a informação produzida por terceiros. Por essa razão, no item 23 da Intimação Fiscal nº 75-2021/EQAUD3/DRF BLU/SRRF09/RFB solicitou-se todos os dados necessários para esclarecer a origem de quaisquer valores informados nos registros de ajustes de crédito. Saliente-se que nos casos em que as chaves dos documentos foram informadas, foi possível confrontar a informação prestada pela Interessada com a informação Fl. 4737DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 15 gerada por terceiros, e especificamente nos casos em que não foi informada a chave da nota fiscal eletrônica ou do conhecimento de transporte eletrônico, os créditos oriundos de ajustes foram glosados, (...). Dentre os demais ajustes, tem-se aqueles descritos como serviço de armazenagem/serviços portuários/monitoramento. Em se tratando de produtos acabados não há que se cogitar em considerá-los insumos, que são contextualizados pela lei em processos produtivos ou em prestações de serviços. Ainda que se desejasse apurar eventuais créditos decorrentes de serviços de armazenagem, não há detalhamento das operações nas planilhas referenciadas que descrevem apenas “EMBARQUE:XXXXXXX|1”, sem qualquer informação quanto à chave do documento fiscal correspondente ou mesmo do serviço efetivamente prestado. Em relação ao crédito sobre produtos importados, destaca-se que nos termos do § 3º do artigo 15 da Lei nº 10.865, de 2004, é apurado mediante aplicação das alíquotas previstas no art. 8º da referida Lei, sobre o valor que serviu de base de cálculo das contribuições, na forma do art. 7º, acrescido do valor do IPI vinculado à importação, quando integrante do custo de aquisição. Quanto aos créditos referentes às aquisições de produtos da posição 0209 da NCM visando à apuração de créditos do artigo 56 da Lei nº 12.350, de 2010, observou-se no item que tratou desse crédito que a empresa incidiu em hipótese de vedação, aplicando-se a mesma fundamentação para o caso em tela. No que diz respeito aos créditos presumidos previstos no artigo 31 da Lei nº 12.865, de 2014, constata-se o cômputo amparado pela venda de margarina classificada no Código 1517.10.00 da Tipi, e após o estorno relativo às aquisições de óleo de soja resultaram os seguintes valores: (...)Verificam-se, porém, algumas inconsistências na apuração, tais como: inclusão de fretes na base de cálculo das vendas para o mercado externo, inclusão de operações com CFOP 5124 – industrialização efetuada para outra empresa, de produtos classificados no código 15179090 da NCM e valores de vendas com cupom fiscal inferiores aos apurados nas EFD-Contribuições. Ante tais inconsistências, buscou-se nas notas fiscais eletrônicas emitidas pela Interessada os valores relativos às vendas de margarina classificada no Código 1517.10.00, detalhadas nas planilhas (...). (...)A diferença entre o crédito apurado pela Interessada e o crédito apurado pelo fisco é apresentada a seguir, representando glosa parcial dos créditos apropriados a título de ajustes de acréscimo do crédito básico à alíquota de 9,25%. (...)Tem-se também créditos de aluguéis de imóveis no mês de fevereiro, cuja planilha, aba “36” do arquivo “ITEM 23 02 2017 Registro M110 e M510.xlsx” demonstra que foram computadas despesas de aluguéis de imóveis, despesas de estacionamento e taxas de condomínio. Quanto às despesas de aluguéis de imóveis, de fato há previsão legal para o crédito no inciso IV do artigo 3º da Lei nº Fl. 4738DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 16 10.637, de 2002 e no inciso IV do artigo 3º da Lei nº 10.833, de 2003 que independe da utilização a ser empregada para o imóvel. Porém o mesmo não se pode dizer em relação às despesas de estacionamento e taxas de condomínio que não possuem previsão legal para o crédito. Ainda, no mês de fevereiro há aquisições de anti salmonela sujeitos à alíquota zero da posição NCM 3808, estabelecida pela Lei nº 10.925/2005, art. 1º, inc. II informadas na planilha “46” do arquivo não paginável denominado: “ITEM 23 02 2017 Registro M110 e M510.xlsx”. Todas as notas em tela, tem CST 6 - Operação Tributável (alíquota zero) de PIS e COFINS conforme apurou-se nas notas fiscais emitidas pelos fornecedores. Consequentemente, a Interessada não faz jus ao crédito por força do disposto no inciso II, do § 2º do artigo 3º da Lei nº 10.637, de 2002 e de forma homóloga tem-se o disposto no inciso II, do § 2º do artigo 3º da Lei nº 10.833, de 2003. (...)(...) Em razão das glosas, os ajustes foram recalculados e considerando-se que os ajustes positivos analisados neste tópico e no anterior se referem apenas a créditos básicos sujeitos às alíquotas de 7,6% e 1,65%, tem-se a consolidação a seguir: (...)4.3.1.3 Análise conforme a Natureza da Base de Cálculo do Crédito 4.3.1.3.1 Natureza da Base de Cálculo do Crédito 01 - Aquisição de bens para revenda 4.3.1.3.1.1 Aquisições com Alíquota Zero das Contribuições Sociais Não- cumulativas e Sujeitos à Incidência Monofásica – aquisições de bens sujeitos à alíquota zero e à tributação monofásica das contribuições, discriminados na aba “4.3.1.3.1.1” do arquivo não-paginável denominado “Detalhamento das Glosas”. Foram considerados insubsistentes os créditos pleiteados, ante a vedação verificada no inciso II do § 2º do 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e no inciso II do § 2º do 3º da Lei nº 10.833, de 2003, que obsta o direito ao crédito na aquisição de bens e serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições; e aquela verificada na alínea “b” do inciso I do artigo 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e na alínea “b” do inciso I do artigo 3º da Lei nº 10.833, de 2003, que impede o cômputo de créditos apurados sobre a aquisição de produtos sujeitos à incidência monofásica. – no referido arquivo há registros de aquisições da mercadoria descrita “MIUDOS CONG FGO (MOELA) BDJ 1KG SADIA”, tendo sido informado o código NCM 05040090. Porém, em se tratando de moela de frango congelada, a correta classificação está inserida na posição 02.07 da NCM, e por conta disso não está sujeita à incidência das contribuições sociais, ante previsão de tributação à alíquota zero prevista no item “b”, do inciso XIX, do artigo 1º da Lei nº 10.925, de 2004. 4.3.1.3.2 Natureza da Base de Cálculo do Crédito 02 - Aquisição de Bens Utilizados como Insumo 4.3.1.3.2.1 Aquisições com Alíquota Zero das Contribuições Sociais Não-cumulativas – aquisições de bens sujeitos à alíquota zero, listados na aba “4.3.1.3.2.1” do arquivo não-paginável denominado “Detalhamento das Glosas”, com a indicação do dispositivo legal que reduziu a zero as alíquotas das Fl. 4739DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 17 contribuições sociais (no caso de aquisição de açúcar, o bem é classificado no código 1701.99.00 da NCM, conforme notas fiscais eletrônicas emitidas pelos fornecedores, tributado à alíquota zero, a despeito de na escrituração da Contribuinte constar o código NCM 1701.13.00, não sujeito à alíquota zero). 4.3.1.3.2.2 Aquisições com Suspensão das Contribuições Sociais Não-cumulativas – aquisições de bens classificados no código 2309.90.90 da NCM, que de acordo com o inciso II do artigo 54 da Lei nº 12.350, de 2010, devem ser vendidos com suspensão das contribuições. 4.3.1.3.2.3 Aquisições não Caracterizadas como Insumos – foram glosados créditos sobre as aquisições de bens que não se enquadram no conceito de insumo, conforme Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF, parágrafos 64 e 68. Com fundamento no parágrafo 95 do Parecer Normativo Cosit nº 05, de 2018, foram glosados os créditos apurados sobre os gastos com “ferramentas, instrumentos de medição (assemelhados a ferramentas), suas partes e peças; e créditos sobre as aquisições de mudas de ipê amarelo, mudas de ipê roxo, chicletes plets tutti frutti loja BRF e rações para cães, que não demandam maiores comentários. 4.3.1.3.3 Natureza da Base de Cálculo do Crédito 03 - Aquisição de serviços utilizados como insumo 4.3.1.3.3.1 Diferença Entre o Valor do Crédito Apurado nos Registros M 105/505 da EFD Contribuições e o Valor do Crédito Apurado nos Blocos A, C, D e F Em relação a janeiro e a março de 2017, houve glosa do crédito motivada pela ausência de comprovação, uma vez que foi constatada uma diferença nas bases de cálculo informadas nos Registros M 105/505 da EFD- Contribuições no valor de R$10.609,95 e R$4.853,31, respectivamente, em confronto com os valores das bases informadas nos blocos A, C, D e F. 4.3.1.3.3.2 Aquisições de Serviços não Considerados Insumos Foram glosados os créditos calculados sobre diversos serviços, listados às folhas 105/106 da Informação Fiscal, que não se enquadram no conceito de insumo à luz do Parecer Normativo Cosit nº 05, de 2018, e do artigo 172 da Instrução Normativa RFB nº 1.911, de 2019. São serviços que, segundo os Auditores Fiscais, denotam utilização em atividades comerciais, atividades administrativas ou trata-se de despesas operacionais e não operacionais dissociadas de processos produtivos ou de prestações de serviços, requisito básico para a subsunção de qualquer item ao conceito de insumo. Em especial, teceram comentários a respeito de serviços (i) de movimentação cross docking, que ocorre entre o centro de distribuição e o cliente, em ponto sem estocagem, e que “compreende basicamente o transbordo da carga (a retirada da mercadoria da carreta de centro de distribuição e transferência para os carros menores que fazem a entrega dos produtos nos clientes”; (ii) de repaletização, considerando-se que há exigência de normas sanitárias quanto à utilização de paletes, mas não quanto à troca de paletes; (iii) com despesas portuárias que além de não se referirem a despesas de armazenagem em operações de venda, Fl. 4740DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 18 cujo crédito é previsto na legislação, também não estão contextualizadas no processo produtivo, requisito fundamental para que o serviço seja considerado um insumo. Também foram glosadas as locações de uniformes, por não haver base legal que permita o creditamento, tendo em vista que o creditamento sobre aluguéis somente é permitido em relação a “aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa”, conforme inciso IV do art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Foram ainda glosadas as locações de veículos, em especial de empilhadeiras, nos termos da Solução de Consulta – Cosit nº 355, de 13 de julho de 2017, publicada no DOU de 18/07/2017. 4.3.1.3.3.3 Fretes relativos às NBC 1 e 2 Trata-se dos fretes relativos aos itens glosados ou que tiveram admitido o crédito presumido, pois, conforme parágrafo 158 e seguintes do Parecer Normativo Cosit nº 5, de 2018, o valor do frete está incluído no custo de aquisição dos bens e deve receber o tratamento que for dado ao bem transportado. Se este teve direito a creditamento, então o frete deve ser somado ao preço e terá direito a crédito na mesma alíquota do bem adquirido. Caso contrário, se o bem não for admitido, o frete também não o será. Quanto ao frete de entrada das importações oriundas do ponto alfandegado de desembaraço aduaneiro até os estabelecimentos da empresa, não há base legal para o creditamento. Por sua vez, os fretes dos bens que fazem jus ao crédito presumido deverão ter reconhecido apenas o crédito presumido; se o bem teve seu crédito glosado, o frete também deverá ser glosado. 4.3.1.3.3.4 Diferença Entre o Valor do Crédito Informado nos Registros de Origem D101/D105 e o Valor do Frete Informado pelos Transportadores Segundo os Auditores Fiscais, constatou-se que alguns CTE relativos às operações geradoras de crédito foram computados em duplicidade, conforme se depreende da análise dos valores dos serviços prestados informados na aba “4.3.1.3.3.4” da planilha que compõe o arquivo não-paginável denominado “Planilhas Auxiliares” que contém informações relativas aos CTE disponibilizadas pelo transportadores. 4.3.1.3.4 Natureza da Base de Cálculo do Crédito 07 – Armazenagem de Mercadoria e Frete na Operação de Venda 4.3.1.3.4.1 Diferença Entre o Valor do Crédito Apurado nos Registros M 105/505 da EFD Contribuições e o Valor do Crédito Apurado nos Blocos A, C, D e F Em relação a janeiro de 2017, houve glosa do crédito do PIS/Cofins motivada pela ausência de comprovação, uma vez que foi constada uma diferença de R$325.991,35 entre o valor da base de cálculo (R$87.144.678,13) vinculada à armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda informada nos Registros M 105/505 da EFD-Contribuições e o valor da base de cálculo informada nos blocos A, C, D e F (R$ 86.818.686,78). 4.3.1.3.4.2 Diferença Entre o Valor do Crédito Informado nos Registros de Origem D101/D105 e o Valor do Frete Informado pelos Transportadores Quanto aos Fl. 4741DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 19 registros de origem D101 associados à “Natureza de Base de Cálculo 07 – Armazenagem de Mercadoria e Frete na Operação de Venda” informados nas EFD-Contribuições, constatou-se que alguns CTE relativos às operações geradoras de crédito foram computados com valores superiores aos informados pelo transportadores ou mesmo foram utilizados em duplicidade, conforme se depreende da análise dos valores dos serviços prestados informados na aba “4.3.1.3.4.2” da planilha que compõe o arquivo não-paginável denominado “Planilhas Auxiliares”, que contém informações relativas aos CTE disponibilizadas pelo transportadores 4.3.1.3.5 Natureza da Base de Cálculo do Crédito 12 - Devolução de Vendas Sujeitas à Incidência Não-Cumulativa 4.3.1.3.5.1 Da Inexistência de Créditos Ressarcíveis a Título de Devolução de Vendas Segundo os Autuantes, “trata-se aqui da devolução de vendas sujeitas à incidência não cumulativa. O direito ao crédito corresponde ao valor das contribuições apuradas por ocasião da saída da mercadoria. Caso a saída tenha sido beneficiada com alíquota zero, suspensão, isenção ou não incidência, nada haverá a ser creditado. Assim, só geram direito a creditamento, de fato, as devoluções de vendas tributadas no mercado interno. Caso existam devoluções de vendas não tributadas no mercado interno ou de exportações não há direito a creditamento algum porque não houve tributação quando da venda”. Assim, foram reclassificadas para o “CST 50 - Operação com Direito a Crédito - Vinculada Exclusivamente a Receita Tributada no Mercado Interno” as devoluções de vendas sujeitas à incidência não cumulativa das contribuições, que foram informadas pela Contribuinte com o “CST 56 - Operação com Direito a Crédito - Vinculada a Receitas Tributadas e Não-tributadas no Mercado Interno, e de Exportação”. 4.4 Da Apuração dos Créditos Após Glosas Nesse item, as Autoridades Fiscais trazem demonstrativos com a consolidação dos ajustes, considerando as incorreções nos ajustes de acréscimos apontados e os valores a estornar dos créditos. 5 Apuração dos Saldos Finais dos Créditos Neste item foram apurados os saldos finais dos créditos e o resumo da sua utilização para desconto das contribuições devidas, restando o saldo devedor objeto de lançamento de ofício. 6 DAS CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS - DOS FATOS APURADOS Neste item da Informação Fiscal os Autuantes tratam da apuração de omissão de receitas decorrente de incorreção da classificação fiscal adotada pela Contribuinte em relação a alguns produtos que industrializa, cujas constatações do Fisco estão sintetizadas nos parágrafos a seguir. 6.1.1.2 Da Classificação Fiscal das Carnes Temperadas Foram totalizadas as notas fiscais eletrônicas (NFE) cujas classificações fiscais estão incorretas na EFD-Contribuições, excluindo-se o ICMS destacado das NFE dessas vendas após 15/03/2017. Os produtos foram informados com o código NCM 02, quando deveriam estar classificados no capítulo 16. Fl. 4742DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 20 Tendo em conta a NCM, alterada pela Resolução Camex n° 94, de 08/12/2011, e o texto das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias - NESH, aprovado pela IN RFB n° 807, de 2008, com as alterações da IN RFB n° 1.260, de 2012, vigentes à época dos fatos, a Fiscalização concluiu que toda a carne temperada (exceto se apenas com sal) deve ser classificada no Capítulo 16, pelo que a classificação fiscal das mercadorias listadas não é nas posições do capítulo 02 (já que temperadas com outros diversos produtos, e não só com sal). Logo, não podiam ser comercializadas com suspensão e não estavam incluídas no rol das mercadorias tributadas à alíquota zero. O entendimento dos Autuantes fundamenta-se, em especial, pela citação expressa nas Notas Explicativas do Sistema Harmonizado, no item relativo à “Distinção entre as carnes e miudezas deste Capítulo e os produtos do Capítulo 16”, que se encontra nas Considerações Gerais do Capítulo 02. São citadas, ainda, diversas Soluções de Consulta da 6ª Região Fiscal da RFB confirmando esse entendimento. Consta do Relatório Fiscal listagem com os diversos produtos que foram considerados com a classificação fiscal incorreta, acompanhados da lista de ingredientes fornecida pela Contribuinte, dentre os quais verifica-se a presença de pimenta ou antioxidante para temperados bovinos, ou realçador de sabor (glutamato monossódico), ou aromatizantes ou condimentos ou temperos diversos, como alho, cebola, salsa, proteína de soja, limão, óleo de soja, óleo de aipo, condimento embutido de carne de galinha, algumas vezes vinho, conservantes como nitrato e nitrito de sódio, corantes, estabilizantes e diversos produtos, diferentes de sal ou açúcar. 6.1.1.3 Dos Itens Identificados como KITS Relatam as Autoridades Fiscais que alguns itens da listagem relativa ao Capítulo 02 da NCM são identificados como kits, formados por itens diversos, além das carnes temperadas, como, por exemplo, bolsas térmicas e diversos outros produtos. Pontuam que, para os fins do Relatório Fiscal, o único interesse é demonstrar que os kits e as carnes temperadas que os compõem não se classificam no capítulo 02, e sim no capítulo 16, o que já foi demonstrado no subitem anterior, e que os demais itens dos kits que não se trata de carnes, por evidente, não se classificam no capítulo 02. Em relação aos kits que contém o item bolsa térmica, afirmam que a classificação fiscal segue cada uma das partes, não se constituindo num sortido para venda a retalho, porque este item tem características próprias, é reutilizável e não é uma embalagem. Desta forma, deve seguir regime próprio, cabendo classificá-la na posição 42.02, se confeccionada de plástico, que compreende, entre outros, as bolsas, sacos, sacolas e artigos semelhantes, confeccionadas de folhas de plástico. Mencionam a Solução de Consulta n° 138 -SRRF/9ª RF/Diana, de 5 de junho de 2008. Fl. 4743DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 21 6.1.1.4 Dos Produtos informados com a Posição 19.02 da NCM Nesse item, os Autuantes trazem uma listagem de produtos (tortas salgadas) que foram informados na EFD-Contribuições como sendo classificados na posição 19.02 da NCM, que estava incluída no rol dos produtos tributados à alíquota zero. Trata-se de pães de queijo crus, fabricados com amido ou fécula de mandioca, queijo e outros ingredientes, que não se assemelham às massas da posição 19.02 da NCM, posição que se destina às “massas alimentícias, mesmo cozidas ou recheadas (de carne ou de outras substâncias) ou preparadas de outro modo, tais como espaguete, macarrão, aletria, lasanha, nhoque, ravioli e canelone; cuscuz, mesmo preparado.” As tortas salgadas, por sua vez, caracterizam-se como produtos de pastelaria, e também não se assemelham às massas da posição 19.02. Com base na Resolução CAMEX n° 94/2011, seção 1, página 20, e nas Notas Explicativas do Sistema Harmonizado, os Autuantes concluem que os referidos itens efetivamente não se classificam na posição 19.02 e seus desdobramentos, pois se trata de produtos de pastelaria/padaria, e não de massas alimentícias utilizadas em refeições principais. Portanto, deveriam ter sido tributados normalmente, já que não estão amparados por qualquer comando legal que afaste a tributação. São mencionadas, ainda, diversas Soluções de Consulta que confirmam o entendimento da Fiscalização, e reiterada a exclusão do valor do ICMS da base de cálculo das contribuições lançadas de ofício, em face da sentença proferida nos autos do Mandado de Segurança de nº 5014051-95.2014.4.04.7208. No item “6.1.2 – Da Consolidação das Incorreções de Classificação Fiscal” da Informação Fiscal consta a consolidação das incorreções das classificações fiscais, onde estão demonstradas as bases de cálculo das contribuições omitidas dos meses do trimestre em questão. 6.2 Das Receitas Financeiras e Consequente Omissão de Receita Segundo os Autuantes, foi constatado que algumas receitas financeiras que deveriam ter sido tributadas não constam como base de cálculo do PIS e da Cofins no 1º trimestre de 2017. Na apuração dos valores omitidos, consideraram como tributáveis com alíquota positiva as atualizações a que se referem as contas de provisão de juros sobre depósitos judiciais cíveis ou trabalhistas. Afirmam que somente as provisões relativas a juros sobre depósitos judiciais tributários devem ser tributadas apenas quando da solução favorável do litígio ou do levantamento antecipado com acréscimos do depósito. Os depósitos judiciais cíveis e trabalhistas, por sua vez, devem ter as variações monetárias consideradas na base de cálculo do PIS e da Cofins conforme o regime de competência, independentemente da disponibilidade financeira, de acordo com a Solução de Consulta nº 166 – Cosit, de 09 de março de 2017. Fl. 4744DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 22 6.3 Da Multa por Apresentação de EFD-Contribuições com Informações Inexatas, Incompletas ou Omitidas Este item foi assim descrito na Informação Fiscal, in verbis: Intimada no item 23 da Intimação Fiscal nº 75-2021/EQAUD3/DRF BLU/SRRF09/RFB a esclarecer a origem de quaisquer valores informados nos registros de ajustes de crédito da EFD-Contribuições (M110 e M510), a Interessada a Interessada apresentou as planilhas denominadas: “ITEM 23 01 2017 Registro M110 M510.xlsx”, “ITEM 23 02 2017” Registro M110 e M510.xlsx” e “ITEM 23 03 2017 Registro M110 e M510.xlsx”. Da análise das referidas planilhas, verifica-se que houve o cômputo de créditos a título de ajustes de acréscimo, a seguir demonstrados com os respectivos valores, que deveriam ser informados em registros próprios dos blocos A, C, D e F. (...)Cientificada do lançamento, a Autuada apresenta IMPUGNAÇÃO, ilustrada com farta doutrina e jurisprudência administrativa e judicial, cujas razões de defesa estão sintetizadas nos parágrafos abaixo, seguindo-se a ordem dos itens por ela apresentados. III. DAS PRELIMINARES MERITÓRIAS DAS RAZÕES DE ANULAÇÃO III.1 Da Ausência de Busca da Verdade Material e da Indevida Inversão do Ônus da Prova. Em se tratando de lançamento tributário de ofício, formalizado através de Auto de Infração, o ônus da prova incumbe a quem alega o descumprimento da obrigação tributária pelo contribuinte. Mas no presente caso o próprio Autuante é quem declara que o lançamento por ele formalizado fundamenta-se na inexistência de prova da Impugnante acerca da regularidade e cumprimento de obrigações tributárias, pelo que denota, desde logo, que a motivação da autuação padecerá de vício formal intransponível. Não se está a tratar de pedidos de ressarcimento, cujos créditos a Impugnante deve fazer prova, mas de lançamento de ofício de créditos tributários, pelo que se caracteriza a nulidade por erro de motivação da presente autuação, o que desde logo se requer. III.2 Da Ofensa ao Artigo 142 do CTN e da Ausência de Fundamentação Amparada por Laudo Técnico. Não houve por parte da Fiscalização qualquer esforço em verificar a ocorrência do fato gerador e em determinar a matéria tributável, nos termos do artigo 142 do Código Tributário Nacional – CTN. Muito pelo contrário, em relação à suposta omissão de receitas, apenas desconsiderou a classificação realizada pela Impugnante com base em meras presunções, sem apresentar qualquer motivação ou laudo técnico para tanto. A Fiscalização, na execução dos seus trabalhos, não se pautou por laudo ou definições técnicas para embasar as supostas incorreções das classificações das Fl. 4745DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 23 NCM adotadas pela Impugnante, embora seja uma tarefa árdua e que exige vasto conhecimento técnico sobre a mercadoria objeto de classificação. Além disso, as classificações apontadas pelo Fisco foram contrárias à opinião de laudos técnicos apresentados no curso da fiscalização, e que sequer foram mencionados no Relatório Fiscal, tendo sido apenas informada a sua juntada às fls. 369 a 614 dos autos (fls. 1485). Considerando o pleno desconhecimento fiscal sobre a natureza dos produtos autuados, a Fiscalização incluiu dentre os produtos autuados os hamburgueres do Mc Donald’s, que consistem em produtos constituídos de um único ingrediente – carne crua bovina. Ou seja, não são produtos submetidos a qualquer tempero, como as demais carnes cruas autuadas. Os posicionamentos técnicos exarados pelo INT jamais poderiam ter sido ignorados, pois devem ser considerados em suas competências técnicas, nos termos do artigo 106 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, replicado pelo artigo 30 do Decreto n° 70.235, de 06 de março de 1972. Não fosse tal fato o suficiente, é importante ressaltar que a Fiscalização deixou de aplicar a correta metodologia para a classificação fiscal dos produtos na NCM, pois não indicou no seu Relatório Fiscal qual seria a Regra Geral de Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI) que teria amparado o seu posicionamento, tendo se limitado a indicar os textos da NESH que, supostamente, dariam guarida à desclassificação realizada. Contudo, em matéria de classificação fiscal, a NESH é uma literatura subsidiária a ser aplicada para auxiliar a aplicação das RGIs, sempre que necessário, conforme dispõe o parágrafo único do artigo 94 do Regulamento Aduaneiro. Portanto, o procedimento adotado pela Fiscalização para a lavratura do presente lançamento é nulo, ante (i) ao inequívoco desrespeito ao artigo 142 do CTN, (ii) à falta de embasamento em laudo técnico e aplicação da correta metodologia para a classificação fiscal de produtos, (iii) indevida inversão do ônus da prova, e (iv) por ferir o princípio da verdade material ao deixar de avaliar as provas apresentadas pela Requerente. Este fato leva, ainda, à necessidade de aplicação do artigo 112 do CTN, que estabelece o princípio de que, na dúvida sobre aspectos factuais da situação, a fiscalização deveria interpretar de forma favorável ao contribuinte. III.3 Da Indevida modificação do critério jurídico – Hamburguer Mc Donald´s Há algum tempo a Impugnante vem sofrendo questionamentos sobre a correção da classificação fiscal das carnes cruas temperadas, inclusive com a lavratura de Autos de Infração para cobrança de valores a título de PIS/Cofins. Todavia, para a surpresa da Impugnante, ao lavrar o presente Auto de Infração, a Fiscalização incluiu no rol de produtos que estariam sujeitos à reclassificação fiscal o “HAMBURGUER QUARTEIRÃO MC DONALDS FS” e o “HAMBURGUER BOVINO Fl. 4746DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 24 MC DONALDS”, que não são produtos adicionados de outros ingredientes diferentes das carnes cruas. Esses hamburgueres são classificados pela Impugnante no código NCM 0202.30.00 e foram analisados anteriormente pela Fiscalização, sem que a classificação fiscal tenha sido objeto de questionamentos, tanto que estes produtos não constam de nenhuma das autuações fiscais anteriormente lavradas contra a Impugnante. Naquelas autuações, ao realizarem o lançamento de ofício de valores supostamente devidos a título de PIS/Cofins sobre os produtos carnes cruas temperadas, a Fiscalização indicou expressamente que não estava incluindo os hambúrgueres constituídos apenas de carne crua bovina, por concordar com a NCM adotada pela Impugnante na comercialização de tais produtos. Esse fato demonstra, de forma cabal, que a RFB fixou um critério jurídico quanto à correção da NCM 0202.30.00 adotada para os produtos hamburgueres destinados à rede de fast food Mc Donald’s. A partir da análise do artigo 146 do Código Tributário Nacional (“CTN”), tem-se que as Autoridades Administrativas somente podem alterar os critérios jurídicos utilizados no lançamento de ofício, em relação ao mesmo sujeito passivo, quanto a fatos geradores posteriores à introdução desta modificação de critérios. Essa regra reverbera o princípio constitucional de proteção à segurança jurídica, evitando-se bruscas alterações das normas e entendimentos aplicáveis aos fatos tributários, evitando-se a frustração de legítima expectativa do particular. Resta evidenciado, assim, que o Auto de Infração em epígrafe denota uma flagrante tentativa de mudança de critério jurídico já adotado pelas Autoridades Fiscais para o produto hamburguer Mc Donald ‘s, e apenas nas hipóteses de cabimento do artigo 149 do CTN é que se poderia cogitar em alterações de lançamentos anteriores, o que, sabidamente, não é o caso dos autos. Portanto, no que se refere à cobrança de PIS/Cofins sobre os hamburgueres destinados ao Mc Donald’s, o Auto de Infração sob combate deverá ser declarado nulo. Minimamente, caso, por amor à argumentação, esta DRJ venha a ter entendimento distinto do acima exposto, é mister que se declare a improcedência da cobrança dos juros e da multa impostos contra a Impugnante, pela aplicação do parágrafo único do artigo 100 do CTN, que estabelece que a observância de normas complementares pelos contribuintes afasta a imposição de penalidades, juros de mora e atualização monetária. III.4 Da Ofensa à coisa julgada administrativa, em face da essencialidade - Regime de Recursos Repetitivos REsp 1221170/PR Por fim, ainda no que diz com as preliminares de mérito, a lavratura do Auto de Infração foi ofensivo à norma individual e concreta administrativa à qual deve subsumir-se a Fiscalização, vez que várias das glosas havidas já restaram definitivamente afastadas pelo Conselho Fl. 4747DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 25 Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), que reconheceu, em decisão final, o direito creditório correspondente, em atenção ao critério da essencialidade, nos termos em que já assentadas as premissas em sede do Regime de Recursos Repetitivos, nos termos do REsp 1221170/PR 22. Várias já são as decisões favoráveis à Manifestante em diversos outros processos contenciosos igualmente levados à apreciação do CARF, sendo certo, contudo, para além dos fortes procedentes, que interessa ao caso aquele cujo trânsito em julgado já se concretizou, impondo-se, com isso, sua observação a todos os órgãos da administração, sob pena de prolação de decisões conflitantes para o mesmo contribuinte, o que não se concebe pelo sistema processual tributário. E este é o caso de julgamento do processo nº 10925.905142/2010-77, conforme facilmente se comprova (Anexo 01), e que já foi saneado. Importante destacar que, não obstante o despacho ora impugnado ter como objeto de análises operações realizadas pela então empresa atualmente incorporada, a natureza das operações é de idêntico conteúdo daquela prolatada em face das de outa empresa incorporada ao grupo, a SADIA S/A, o que facilmente poderá ser identificado através das análises do fluxo das operações por todas as empresas sucedidas, as quais hoje são realizadas pela Impugnante, que passou a sucedê-las contratualmente, sem contudo, alterar a natureza de suas atividades fim. IV. DA DEFESA DIRETA MERITÓRIA – RAZÕES DE CANCELAMENTO IV. 1. PREMISSAS DE DEFESA Anteriormente ao enfrentamento tópico das motivações da autuação, segundo a Impugnante impende-se, ainda que brevemente, o estabelecimento das premissas e princípios que norteiam as normas de incidência desse particular tipo de apuração, quer de natureza de estrutura, que prescrevem os arquétipos constitucionais, quer as de conduta, que prescrevem as regra- matrizes tributárias, e sua correlação com a atividade social da Impugnante. Assim, discorre sobre a apuração da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep no regime da não cumulatividade. A Impugnante tece algumas considerações sobre o conceito de insumo adotado pela legislação do PIS/Pasep e da Cofins, com especial enfoque na recente pacificação do tema pelo STJ, à luz dos critérios da essencialidade ou relevância. Assim, conclui que todas as despesas e custos necessários à consecução do objetivo social garantem o direito ao desconto dos créditos das aludidas contribuições, e tendo em vista que a base imponível do PIS e da Cofins é composta pela totalidade das receitas da pessoa jurídica, todas as despesas necessárias para a geração desta grandeza econômica devem ser consideradas para fins de aproveitamento creditício. Dada a complexidade, e para fins de otimização da impugnação, e ainda, no exercício do princípio da economia processual, a Contribuinte se reportará às informações devidamente já prestadas nos respectivos atendimentos das Intimações formuladas no decorrer de todo o Procedimento Fiscal. Fl. 4748DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 26 IV.II DAS INFRAÇÕES AUTUADAS IV.II.1 INFRAÇÕES RELACIONADAS ÀS BASES DE CÁLCULO IV.II.1.1 Omissões sobre Receitas Financeiras A Impugnante afirma que, amparados apenas numa interpretação parcial da Solução de Consulta Cosit nº 166/2017, os Autuantes exigiram créditos de PIS e Cofins incidentes sobre supostas receitas financeiras de variações monetárias ativas de depósitos judiciais de origem trabalhista e cível, sob o argumento de que tais provisões de juros deveriam ser incluídas na base de cálculo das contribuições. Contudo, alega que os juros incidentes sobre depósitos judiciais de qualquer natureza não constituem receita nova, nos termos definidos pela atual jurisprudência do Supremo Tribunal Federal – STF, não se configurando a materialidade da tributação do PIS e da Cofins. Nem todo aferimento de valores se constitui como receita tributável, à medida em que o arquétipo constitucional destas contribuições exige que “o ingresso financeiro deva se integrar no patrimônio na condição de elemento novo e positivo, ainda que temporariamente”. Os montantes de juros e a correção monetária visam apenas reconstituir o poder da moeda, de maneira que o capital não sofra decréscimo monetário pelo transcurso do tempo. Logo, não se configuram como acréscimo, pelo que não se pode cogitar de receita nova a ensejar tributação Além disso, apenas por ocasião da efetiva solução de continuidade dos processos correlatos, decididos em favor do litigante e efetivamente a ele disponibilizados, é que se cogitaria da tributação, vez que a partir de então o crédito seria líquido e certo. Em se tratando, no presente caso, de créditos ilíquidos e incertos, a Impugnante conclui que não se pode cogitar de receitas, mas tão somente de expectativa de sua realização. IV.II.1.1.A A Ausência de Materialidade por Inexistência de Receita Tributável O escólio da suposta tributação viria da regra geral de ciência contábil, que titula como receita qualquer efeito credor lançado em conta de resultado. Contudo, nem tudo o que é receita para fins contábeis é receita tributável para fins de PIS e Cofins. Embora as Leis n° 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, tenham expandido a base de cálculo do “faturamento/receita bruta” para o “total de receitas”, não expandiu a abrangência do conteúdo e alcance do que se constitui como receita tributável, entendimento ratificado pelo STF, por ocasião do julgamento do RE 606.107/RS, proferido em sede de repercussão geral, no sentido de que o conceito de renda tem matriz constitucional, não se confundindo com demais normas, notadamente de caráter contábil. Em que pese o objeto daquele julgamento vinculante ser distinto do presente caso, estabelece critérios claros e incontestáveis, não somente na conceituação da receita tributável, como também, diretamente concernente ao presente caso, no sentido de que receitas advindas de reversão de custos ou despesas possuem os exatos efeitos da correção monetária, vale dizer, são meramente recompositoras de condição monetária (e patrimonial) anterior. Fl. 4749DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 27 IV.II.1.1.B Ausência de Materialidade por Expectativa de Receita Também se configuraria a ilegalidade do lançamento em razão de se verificar a inocorrência da incidência no que diz com seu critério temporal, à medida em que a disponibilidade jurídica sobre a respectiva receita somente ocorre no momento em que se torna líquida e certa. Há duas, e somente duas, formas de reconhecimento de resultado de operações contábeis: regime de caixa e regime de competência; e nenhuma das modalidades revela a expectativa de um direito. Em ambas, a receita decorre ou de um direito efetivamente realizado (regime de caixa), ou de um direito a ser realizado (regime de competência), mas em ambos os casos a pré-constituição do direito é um requisito para reconhecimento do resultado. No caso de depósitos judiciais cujas demandas correlatas ainda se encontram em andamento, não há um direito, mas a expectativa de um direito ao qual corresponde uma expectativa de receita. Noutras palavras, inexiste a materialidade da regra-matriz de incidência, não sendo, por isso, tributável. IV.II.1.2 Omissões de Classificação Fiscal IV.II.1.2.1 Breve Resumo da Discussão – Carnes Segundo a Impugnante, a Fiscalização entende que, apenas por serem adicionadas de temperos, por meio de salmoura, as carnes cruas não podem ser classificadas do Capítulo 02 (“carnes e miudezas comestíveis), devendo ser classificadas no Capítulo 16 (“preparações de carne”), não sendo relevante a quantidade de temperos ou como eles interagem na carne. Assim, uma única gota de salmoura levaria ao desenquadramento das carnes do Capítulo 02 para enquadrá-las no Capítulo 16. Porém, a Impugnante afirma que o Capítulo 02 se aplica às carnes cruas em geral, enquanto o Capítulo 16 é apenas destinado às “preparações de carne”, no qual são classificados os produtos diversos que, após tratamentos industriais mais complexos, transformam-se em alimentos preparados para consumo. Aduz que seu posicionamento está fundamentadamente embasado (i) na natureza de seus produtos, demonstrada por meio de laudos do Instituto Nacional de Tecnologia (“INT”) e de outros institutos; (ii) nas Regras de Interpretação do Sistema Harmonizado de Designação e Codificação das Mercadorias (“RGIs/SH”); (iii) nas Notas Explicativas do Sistema Harmonizado (“NESH”); (iv) nos Pareceres da Organização Mundial das Aduanas (“OMA”); e (v) em práticas internacionais, exemplificadas por meio do posicionamento do México sobre o tema. Afirma que os posicionamentos nos laudos exarados pelo INT devem ser considerados em suas competências técnicas, nos termos do artigo 106 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, replicado pelo artigo 30 do Decreto n° 70.235, de 06 de março de 1972; e que os técnicos do INT concluíram, de modo inafastável, que a mera adição de temperos às carnes cruas, por meio da salmoura, não as transforma em outros produtos e não as torna aptas ao consumo. Fl. 4750DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 28 Considerações gerais sobre a aplicação da alíquota zero de PIS e COFINS para produtos da cesta básica A Impugnante alega que a aplicação da alíquota zero do PIS e da Cofins, ora discutida, foi concedida no âmbito do incentivo aos produtos da cesta básica, essenciais à alimentação humana, por força da Medida Provisória nº 609, de 8 de março de 2013, convertida na Lei nº 12.839, de 9 de julho de 2013, que acresceu o inciso XIX ao artigo 1º da Lei 10.925, de 23 de julho e 2004. Por essa razão, independentemente da efetiva classificação fiscal que seja dada à carne crua temperada, a norma buscou desonerar as carnes cruas do PIS e da Cofins de modo indistinto, e, como consequência direta e imediata, a inserção de temperos nas carnes não faz com que elas deixem de ser produtos de primeira necessidade que compõem a cesta básica, pois continuam consistindo em carnes destinadas à alimentação humana. Neste sentido, cita parecer sobre o tema, que corroboraria os seus argumentos. Conclui ser aplicável, portanto, a adoção da alíquota zero na comercialização das carnes ora analisadas. Classificação Fiscal de Mercadorias A classificação fiscal deve nortear-se, em primeiro lugar, pelas RGIs, RGCs e Notas Complementares constante da TEC, conforme previsto no artigo 15 e seguintes do Regulamento do IPI, aprovado pelo Decreto nº 7212/2010. Para que se realize a correta classificação fiscal dos produtos na NCM, as regras da NESH são adotadas como um balizador, sempre que houver uma lacuna a ser preenchida, porém, de forma subsidiária. Em hipótese alguma a NESH deve ser usada como primeira e principal fonte de classificação fiscal. IV.II.1.2.2 Carnes “Temperadas” Visando facilitar a diferenciação entre ambos os produtos, a Impugnante apresenta fotos de produtos que fabrica e os classifica na posição 16 da NCM; e a título exemplificativo, fotos de produtos classificados no Capítulo 02, nas posições 02.03 e 02.07 da NCM, com informações sobre os seus ingredientes antes de serem submetidos ao processo de conservação por congelamento, mas já submetidos à salmoura. Apresenta, também, as informações técnicas principais dos produtos comercializados, as quais serão adotadas como parâmetro para a classificação fiscal de todas as carnes constantes da autuação, independente de eventuais diferenças que elas possam ter de ingredientes, pois todos os produtos consistem em carnes in natura (cruas = não cozidas). Assim, está convicta de que o fato de serem adicionados temperos às carnes por ela comercializadas não as transforma em outro produto e não é fator determinante para a sua reclassificação fiscal, já que se trata de produtos cárneos, inteiros, cortados ou desossados, não cozidos, congelados e submetidos à salmoura, que não altera a natureza da carne e a mantém crua. Entende que o seu posicionamento resta esclarecido por laudos técnicos e periciais que traz em anexo, inclusive laudos técnicos atualizados sobre a natureza Fl. 4751DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 29 dos seus produtos e dos respectivos processos produtivos, obtidos pela Impugnante diante das recentes autuações fiscais sofridas. Em especial, cita relatórios do Instituto Nacional de Tecnologia (“INT”) que em 2020 elaborou minuciosa análise sobre 5 (cinco) produtos crus fabricados pela Autuada, a serem adotados pela Administração Pública nos termos de suas competências técnicas (art. 106 da Lei nº 4.502, de 1964, e art. 30 do Decreto nº 70.235, de 1972): (i) Relatório Técnico nº 286/20, referente ao Peru Temperado Congelado; (ii) Relatório Técnico nº 287/20, referente ao Chester Temperado Congelado; (iii) Relatório Técnico nº 288/20, referente ao Frango Inteiro Congelado; (iv) Relatório Técnico nº 289/20, referente às Coxinhas das Asas de Frango Temperadas Congeladas; e(v) Relatório Técnico nº 290/20, referente ao Lombo Temperado Congelado. E para realçar a distinção entre os produtos temperados crus e outros produtos efetivamente preparados/transformados pela manifestante, apresenta, ainda, o Relatório Técnico nº 291/20, referente à Mortadela de Frango. Conclui que, nos 5 (cinco) laudos técnicos sobre os produtos temperados e crus, restou inequívoco que tais produtos (i) não passaram por etapas de produção que transformaram a sua natureza e seu estado cru; (ii) não são conservados por outro método, a não ser pelo congelamento; (iii) tiveram alguns ingredientes aplicados por meio de salmoura, os quais, considerados em sua base seca, representam percentuais ínfimos do produto comercializado; e, finalmente, (v) não podem ser consumidos na forma como apresentados para comercialização. Alega que segundo o Anexo I da Instrução Normativa nº 60, de 23 de dezembro de 2019, editada pela ANVISA, que trata dos Padrões Microbiológicos de Alimentos, com exceção dos alimentos comercialmente estéreis, fica evidenciado que a ANVISA concede o mesmo tratamento às carnes cruas, temperadas ou não, refrigeradas ou congeladas, distinguindo-as dos produtos cárneos (submetidos a processos adicionais), temperados ou não. IV.II.1.2.3 Hambúrgueres Mcdonald ´s Quanto aos produtos “HAMBURGUER QUARTEIRÃO MC DONALDS FS” e “HAMBURGUER BOVINO MC DONALDS”, classificados pela Impugnante no Capítulo 02, e para os quais a Fiscalização também entende ser correta a classificação no Capítulo 16, a Impugnante afirma que são compostos 100% por carne bovina, sem adição de qualquer ingrediente adicional, sujeito apenas ao processo de moagem, modelagem, porcionamento e congelamento. A adição de eventuais outros ingredientes, caso haja, será feita pelo McDonald’s em seus estabelecimentos, seguindo a receita específica para cada um de seus Fl. 4752DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 30 sanduíches, conforme fichas técnicas dos produtos que apresenta (Anexo 11 e 12). Logo, diferentemente dos demais produtos discutidos na impugnação, que consistem em carnes cruas temperadas, os hamburgueres vendidos ao Mc Donald`s não possuem nem ao menos sal em sua composição, restando demonstrados os equívocos da classificação fiscal cometidos pela Fiscalização. Classificação fiscal de mercadorias – análise jurídica Segundo a Impugnante, a correta classificação fiscal das mercadorias na NCM depende, conjuntamente, de dois fatores, quais sejam: (i) a precisa avaliação das características técnicas dos produtos, no caso, a constatação de que se trata de carnes cruas (in natura), submetidas à salmoura e conservadas por congelamento; e, somente a partir dessa premissa fundamental, (ii) a escorreita aplicação das regras de classificação fiscal previstas na legislação. Logo, afirma que o Auto de Infração recorrido falhou ao não considerar aspecto fundamental para a compreensão técnica dos produtos que se pretende reclassificar, pois não teceu qualquer comentário sobre o tratamento de salmoura dos produtos, corte/desossa e congelamento, e não deu atenção ao fato de que a “salmoura”, corte/desossa e congelamento são processos expressamente previstos para tratamento das carnes cruas, classificadas no Capítulo 02, seja pela aplicação das RGIs, seja pela NESH. Diz que: (i) os textos do Capítulo 02 descrevem, literal e nominalmente, os produtos por ela comercializados; (ii) não há nenhuma Nota que invalide a classificação fiscal adotada para seus produtos, carnes bovinas, suínas, carnes e miudezas de aves, no Capítulo 02; e (iii) como decorrência da aplicação da RGI 1, em especial pelos textos das posições (02.03 e 02.07), dúvidas não restam quanto à correta classificação fiscal dos citados produtos nas posições onde se encontram originalmente classificados, não havendo que se cogitar da aplicação do Capítulo 16, como pretende a fiscalização. O equívoco cometido pela Fiscalização decorreu da análise descontextualizada do trecho das Considerações Gerais que dispõe que as carnes e miudezas incluem-se no Capítulo 16 “quando se apresentem cozidas de qualquer maneira (cozidas na água, grelhadas, fritas ou assadas), ou preparadas de outro modo, ou conservadas por qualquer processo não mencionado neste Capítulo”. A interpretação correta seria que, caso as carnes sejam conservadas ou preparadas por qualquer processo não mencionado no Capítulo 02, elas se enquadram no Capítulo 16. Uma vez que todos “os produtos comercializados pela Impugnante são congelados (modo de conservação), inteiros, cortados ou desossados (modos de preparo), e passam por salmoura”, não haveria que se perquirir se eles também são temperados de outra forma ou não, dado que irrelevante; e que não há uma previsão expressa no sentido de que as carnes temperadas não possam se enquadrar em referido Capítulo. Fl. 4753DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 31 Aduz que a Nesh não é capaz de infirmar a correção das NCMs adotadas pela Impugnante na comercialização de seus produtos, devendo ser mantidas as NCMs adotadas pela Impugnante, sendo legítima, portanto, a aplicação da alíquota zero de PIS/Cofins na sua comercialização. Para corroborar toda a análise realizada, a Impugnante também buscou uma assessoria em matéria de merceologia, a qual elaborou pareceres para os produtos: (i) Peru Temperado Congelado (Anexo 13); (ii) Chester Temperado Congelado (Anexo 14); (iii) Frango Inteiro Congelado (Anexo 15); (iv) Coxinhas das Asas de Frango Temperadas Congeladas (Anexo 16); e (v) Lombo Temperado Congelado (Anexo 17), todos amparados nos mencionados laudos técnicos do INT. Comentários adicionais quanto à classificação fiscal dos hambúrgueres A Impugnante repete a alegação anteriormente apresentada, de que, quanto aos hambúrgueres fornecidos ao McDonald’s, por serem constituídos de 100% de carne bovina, não há qualquer dúvida quanto à correção do Capítulo 02, destacando que a Receita Federal, inclusive, já se manifestou a respeito, por meio das Soluções de Consultas Cosit nº 98.035/2018 e nº 98.310/2019 com efeito vinculante no âmbito da RFB. Portanto, conclui que o Auto de Infração deve ser cancelado neste quesito. IV.II.1.2.4 Kits A Impugnante se insurge contra o entendimento fiscal de que as carnes não poderiam estar enquadradas no Capítulo 02 e que a bolsa térmica deveria estar classificada na posição 42.02. Defende a adequação de sua classificação alegando que esta deve ser feita com base na RGI 3, conforme evidenciado pela RGI 2 b), e que assim sendo os artigos compostos devem ser classificados segundo a matéria que lhes confira a característica essencial, posto tratar o presente caso de “produtos acondicionados para venda a retalho”. Desta feita, defende que os kits de produtos alimentícios possuem, entre outros produtos, as carnes temperadas que são o produto mais importante dos kits, dando-lhes a característica essencial. Por essa razão, conclui que a classificação no Capítulo 02 é a adequada. Ainda que assim não se entenda, e se decida pela classificação individual de cada produto constante do kit, fato é que ao menos as carnes neles constantes deveriam receber o tratamento de PIS/Cofins com base nas posições 02.03 e 02.07, ou seja, as receitas decorrentes de suas vendas não estariam sujeitas a essas contribuições, conforme fartamente demonstrado acima. Posição 19.02 A Impugnante afirma que as classificações fiscais das mercadorias por ela praticadas, no Capítulo 19, são legítimas e estão de acordo com a correta interpretação do Sistema Harmonizado. Correta Classificação das Tortas Segundo a Impugnante, classificou as tortas recheadas de carne que comercializa na posição 19.02 (“Massas alimentícias, mesmo cozidas ou recheadas (de carne ou de outras substâncias) ou preparadas Fl. 4754DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 32 de outro modo, tais como espaguete, macarrão, aletria, lasanha, nhoque, ravioli e canelone; cuscuz, mesmo preparado”). Entretanto, a Fiscalização discordou entendendo que as tortas recheadas deveriam ser classificadas na posição 19.05 do Capítulo 19, referente a “Produtos de padaria, pastelaria ou da indústria de bolachas e biscoitos, mesmo adicionados de cacau; hóstias, cápsulas vazias para medicamentos, obreias, pastas secas de farinha, amido ou fécula, em folhas, e produtos semelhantes”; ou, subsidiariamente, na posição 16.02 do Capítulo 16, referente às “Preparações de carne, de peixes ou de crustáceos, de moluscos ou de outros invertebrados aquáticos”. A Impugnante alega que a Fiscalização não se desincumbiu de sua função de comprovar o alegado, utilizando argumentos genéricos e assumidamente sem fundamento para a questão aqui tratada. Mas considerando que no texto das posições não há indicação literal dos produtos “torta recheada”, remete-se às notas do capítulo 19 e da seção IV (seguindo a RGI 1) para afirmar que “a presença de carnes na composição das tortas não invalida a classificação na NCM 19.02”. Assim, afirma que, com base na RGI 2 b), correto seria a manutenção dos produtos no Capítulo 19, “uma vez que a massa em si é a matéria mais relevante, “sendo o recheio de carne apenas um acessório que lhe é agregado”. Por existir uma dúvida razoável, para tais casos, a RGI 2 evidencia a necessidade da leitura da RGI 3; e a RGI 3 b), por sua vez, esclarece que, quando a mercadoria for composta por produtos misturados, a classificação se dará pela matéria que lhe configura a característica mais essencial. IV.II.2. Infrações Relacionadas ao Crédito IV.II.2.1 Créditos Presumidos Atividades Agro IV.II.2.1.1 Créditos Presumidos - Lei 10.925/04 Segundo a Impugnante, a Autoridade Fiscal glosou os créditos presumidos da atividade agroindustrial calculados com base na Lei nº 10.925, de 2004, tais como ovo comercial, lenha de eucalipto por peso, maravalha seca pinus para integrados e enfardada, com a justificativa de que não são insumos utilizados no processo produtivo e que parte seria para comercialização, não reconhecendo o direito de crédito da Autuada. Porém, é empresa do setor alimentício, por conta disso possui uma vasta variedade de produtos industrializados e comercializados, de origem animal e vegetal, e de acordo com o art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004, pode efetuar o aproveitamento do crédito de PIS e da Cofins. Por fim, no que tange aos créditos originários da aquisição do ovo comercial, destaca que realizou o estorno do crédito no momento da realização da venda. A forma do estorno é realizada pelo custo da aquisição, sendo que este valor é informando nos Blocos M 110 e M510. A composição do estorno já consta nos autos, nos arquivos planilháveis denominados ITEM 23 01 2017 Registro M110 e M510, ITEM 23 02 2017 Registro Fl. 4755DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 33 M110 e M510 e ITEM 23 03 2017 Registro M110 e M510, que contém o detalhamento do estorno do item ovo vendido na sheet 04. IV.II.2.1.2 Créditos Presumidos - Lei 12.058/09 Segundo a Impugnante, os créditos por ela apropriados não foram admitidos pelo Fisco porque as Autoridades Fiscais entenderem que os parágrafos únicos dos artigos 5º e 6º da Instrução Normativa RFB nº 977/2009 vedariam a tomada de créditos, uma vez que a empresa vende e industrializa produtos classificados nas posições 02.01 e 02.02 da NCM, bem como não teria exportado bens classificados nos códigos 02.01, 02.02, 0206.10.00, 0206.20, 0206.21, 0206.29, 0210.20.00, 0506.90.00, 0510.00.10 e 1502.00.1 da NCM no período. Ademais, os Autuantes também alegaram que a aquisição de bens com suspensão da incidência das contribuições vedaria a tomada dos créditos presumidos, e que não haveria controle de estoque específico para a destinação dos produtos. Quanto à tomada de crédito presumido sobre bens adquiridos com suspensão de pagamento das contribuições, a Impugnante alega que os artigos 7º e 8º da então vigente IN RFB nº 977/2009 autorizavam expressamente o creditamento. O legislador claramente se refere aos insumos adquiridos por empresa industrial, permitindo que mesmo os produtos adquiridos com tributação diferenciada, neste caso por suspensão, sejam passíveis de creditamento por seu adquirente. Quanto à alegação do Fisco de que a Autuada negociou produtos classificados nos códigos NCM 02.01, 02.02 e 15.02, a Impugnante defende que a vedação expressa no parágrafo único do artigo 6º da IN RFB nº 977/2009 diz respeito a produtos específicos, cuja industrialização resulta em produto cuja receita seja suspensa, e a BRF, neste caso, possui “enfoque do adquirente” destas mercadorias, e possui uma vasta gama de produtos adquiridos como insumos que não se encontram nas hipóteses de vedação previstas na legislação. No que tange à afirmação da Autoridade Fiscal de que a Impugnante não poderia ter se aproveitado dos créditos presumidos em decorrência da existência de alíquota zero dessas contribuições, a Impugnante declara que fez os ajustes e estornos necessários. No mais, alega que as Autoridades Fiscais também apresentaram um óbice inexistente: a falta de segregação das aquisições de gado vivo. No curso da fiscalização explicou que tal controle é “impraticável”, na medida em que partes de um mesmo animal são destinadas tanto para a exportação como para o mercado interno. Diante da impossibilidade prática de segregação de qual parte do animal é destinada a qual mercado, “compete à Autoridade fiscal fiar-se no elemento de prova mais óbvio e confiável: o percentual da receita auferido no mercado interno e aquele auferido em operações de exportação”. IV.II.2.1.3 Créditos Presumidos - Lei 12.350/10 Segundo a Impugnante, os créditos presumidos do PIS e da Cofins previstos na Lei nº 12.350/2010 e nos artigos 5º e Fl. 4756DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 34 6º da IN RFB nº 1.157/2011, que regulamentou a referida lei, foram glosados porque a Autoridade Fiscal entendeu que tais créditos não poderiam ser aproveitados em razão das vedações contidas nos parágrafos únicos dos próprios artigos 5º e 6º. Contudo, a Autoridade Fiscal se equivocou, pois as vedações em questão alcançam apenas alguns produtos adquiridos ou industrializados pela empresa, e não toda gama de produtos. Em relação ao supracitado artigo 5º, a Impugnante afirma que tal vedação afeta tão somente as operações praticadas no mercado interno. O crédito presumido pode ser calculado sobre as aquisições vinculadas às exportações que a empresa realiza periodicamente e que não necessariamente são realizadas na mesma competência dos créditos, até porque a legislação não impõe este requisito. Com relação ao crédito presumido previsto no artigo 6º da IN RFB nº 1.157/2011, ao fazer remissão ao artigo 2º, IV, o dispositivo em questão vedaria o cálculo de crédito presumido apenas sobre operações praticadas no mercado interno decorrentes da venda de produtos classificados nos NCM 02.03, 0206.30.00, 0206.4, 02.07 e 0210.1. Mas, novamente, a Autoridade Administrativa incorre em erro, pois a Impugnante aplicou as normas retro mencionadas que determinam as hipóteses de suspensão e incidências de PIS/Cofins em relação as operações de venda. Neste contexto, a Impugnante possui condição de adquirente dessas mercadorias para industrialização, as quais resultam produtos diversos, tributados ou não pelo PIS e Cofins. Uma vez mais, cumpre informar que os ajustes de estorno devidos, apurados pela empresa, foram realizados na sua apuração de crédito e declarados em EFD- Contribuições sob forma de estornos e ajustes. No mais, reitera o inexistente óbice criado pelas Autoridades Fiscais, e já mencionado no item anterior: a segregação das aquisições dos animais. A Impugnante balizou todo o seu procedimento para tomada e controle de créditos no Parecer realizado por empresa independente especializada, cuja cópia compõe o Anexo 09. IV.II.2.2 Créditos de Aquisições para Revenda, e de Insumos com alíquota zero e suspensão Por serem tributadas à alíquota zero, foram glosados os créditos apurados sobre as aquisições de itens para revenda, discriminados na aba “4.3.1.3.1.1” do arquivo não-paginável denominado “Detalhamento das Glosas”. Também foram glosados créditos apurados sobre as aquisições de bens utilizados como insumo tributados à alíquota zero. Segundo a Impugnante, por definição legal, a tributação com alíquota zero não significa não incidência ou isenção das contribuições. Em outras palavras, os produtos foram tributados. Independentemente da destinação destas mercadorias adquiridas e tributadas à alíquota zero, sem ônus financeiro, pelo Fl. 4757DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 35 princípio da regra matriz de incidência tributária tais aquisições sofreram a incidência das contribuições e, desta forma, geram direito ao creditamento nas operações. Destarte, solicita o cancelamento das glosas, uma vez que não ocorreu averiguação do movimento de registro de saídas dos produtos mencionados, a fim de comprovar que houve tributação nas saídas, bem como também os insumos foram “tributados” na entrada, mesmo que por alíquota igual a zero. Com relação ao creditamento do insumo “açúcar”, afirma que se trata de insumo que faz parte do seu processo produtivo, compondo um produto com saída tributada pelo PIS/Cofins, restando o direito ao seu creditamento para que não gere um descompasso tributário. Em seguida, defende-se da acusação de que teria classificado o açúcar incorretamente no código NCM 1701.13.00 (açúcar de cana mencionado na Nota 2 de subposição), passível de creditamento, quando o procedimento correto seria manter o NCM informado nas notas fiscais, NCMs 1701.14.00 (outros açúcares de cana) ou 1701.99.00 (outros açúcares de cana ou de beterraba e sacarose quimicamente pura, no estado sólido), os quais impossibilitam o creditamento do PIS e da Cofins. A Impugnante alega que a reclassificação do açúcar para o NCM 1701.13.00 teve como pressuposto a característica e a especificidade do item mencionado nas notas fiscais do fornecedor, pois nelas é apresentado um código NCM genérico (1701.14.00 e 1701.99.00), tratado como “outros açúcares”, sem que haja um descritivo claro e definitivo para o açúcar refinado. Como fundamento para a glosa das aquisições relativas a MIUDOS CONG FGO (MOELA) BDJ 1KG SADIA NCM – 0504.00.90, o Auditor Fiscal apontou o inciso XIX do artigo 1° da Lei 10.925, e inciso II do §2º do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, que trata de carnes sujeitas à alíquota zero. Porém, tais aquisições de miúdos são classificadas no código 0504.00.90 da NCM, e, portanto, não se enquadram nos códigos da TIPI citados nos dispositivos mencionados pelo autuante. Em relação à glosa de crédito correspondente à aquisição do item “queijo processado”, o fornecedor realizou o destaque do valor vinculado ao PIS e à Cofins, conforme Anexo 20 com a relação de notas fiscais emitidas. Assim sendo, seguindo a regra da não cumulatividade, a Autuada realizou o aproveitamento do crédito PIS e COFINS. No que tange às aquisições de vacinas e medicamentos, tais itens são insumos essenciais e obrigatórios na fabricação dos produtos, integrando o processo produtivo da BRF. O regime de tributação monofásico gera direito ao crédito, quando os bens são utilizados como insumo do processo produtivo, conforme parecer de auditoria independente que corrobora o seu entendimento (Anexo 21). Mesmo que a operação anterior esteja enquadrada no regime monofásico, não seria coerente e nem razoável a BRF adquirir o produto para uso próprio, que Fl. 4758DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 36 não tem fins de revenda, sem poder tomar o devido crédito, já que será integrado ao custo do produto. Quanto às glosas dos créditos calculados sobre aquisição de ferramentas e instrumentos de medição, listados na aba “Não atende conc insumo” da planilha “GLOSAS 01 trimestre 2017”, a Impugnante destaca especificamente os produtos “MEDIDOR PH BOLSO 1A15” e “TESOURA AMR 8POL 5560/08MUN 25923/058TRA” e a sua aplicação. Afirma que as justificativas de glosa não devem prosperar, pois não houve uma análise minuciosa dos itens da lista de ferramentas, tendo sido negado o direito ao crédito simplesmente por uma verificação superficial e pela nomenclatura dos itens. Esses bens são utilizados em seu processo produtivo, possuem a permanente necessidade para a produção e qualidade do produto final, tornando-se essencial à atividade da empresa, não tendo o Agente fiscal observado os princípios do Recurso Especial nº 1.221.170/PR, dos quais dependem os critérios de essencialidade e relevância. IV.II.2.3 Créditos Não Permitidos de Serviços Os serviços utilizados pela Contribuinte, descritos no Relatório Fiscal às fls. 1564 a 1575 do Auto de Infração, são essenciais e relevantes para a atividade da empresa em todas as fases da produção. Como se vê, o Auto de Infração contraria o entendimento assentado em sede do regime de recursos repetitivos do STJ, na medida em que prescreve entendimento restritivo ao conceito de insumo, que se revela ilegal. Em especial, a Impugnante destaca os serviços de movimentação de cross docking, serviços portuários, serviços de vigilância, repalitização (refoma de pallets), locação de uniformes, administração de vestiários, locação de veículos e equipamentos e emissão de certificação Halal, analisados em itens específicos da impugnação. IV.II.2.3.1 Serviços Cross Docking Esse serviço é imprescindível, essencial e relevante para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pela Impugnante, e compreende o transbordo da carga de grandes caminhões para caminhões menores que fazem a entrega dos produtos, mantendo a refrigeração e a qualidade. IV.II.2.3.2 Reforma de Pallets São serviços intrinsicamente ligados ao processo produtivo da BRF, já que os pallets são destinados a suportar grandes e diárias movimentações de carga. A BRF também solicitou um relatório elaborado por auditoria independente para que fosse realizado o estudo e viabilidade, dentro das normas, do direito ao crédito (Anexo 23). IV.II.2.3.3 Locação de Uniformes Esses serviços foram glosados no Relatório Fiscal sob a alegação de que inexiste base legal para permitir o creditamento. Mais uma vez o cerne da questão é o conceito de insumos e o entendimento restritivo utilizado pela fiscalização. Fl. 4759DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 37 A Contribuinte atua no ramo alimentício, e assim os uniformes e demais materiais utilizados pelos funcionários são inequivocamente essenciais, relevantes e imprescindíveis no seu processo produtivo. É fato que a higiene e limpeza na indústria alimentícia é essencial para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pela Contribuinte. Aplicando-se o teste de subtração, é fácil identificar que a eliminação do serviço implica na impossibilidade da realização de sua atividade empresarial ou, pelo menos, causa perda de qualidade substancial que torne o serviço ou produto inútil, restando comprovada a imprescindibilidade e a essencialidade do serviço. IV.II.2.3.4 Locação de Veículos e Equipamentos Ao defender-se da glosa dos créditos apurados sobre o serviço de locação de veículos, especialmente de empilhadeiras, a Impugnante alega que os Autuantes adotaram o simples, ultrapassado e restritivo argumento de que tal serviço não atende ao conceito de insumo. IV.II.2.3.5 Administração de Vestiários Os créditos deste item foram glosados em face do entendimento restritivo utilizado pela Fiscalização quanto ao conceito de insumos. Porém, nos termos do contrato de prestação de serviços, entende-se por administração de vestiários a locação de uniformes profissionais, contratação de serviços de lavanderia, administração e limpeza de vestiários. A Contribuinte é pessoa jurídica que atua no ramo alimentício, de modo que, inequivocadamente, os uniformes e vestiários utilizados pelos funcionários são itens essenciais, relevantes e imprescindíveis no seu processo produtivo. É fato que a higiene e limpeza na indústria alimentícia é essencial para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pela Contribuinte. Por fim, também aplicando o teste de subtração, é de fácil identificação que sua eliminação implica na impossibilidade da realização de sua atividade empresarial, ou, pelo menos, causa perda de qualidade substancial que torna o serviço ou produto inútil. IV.II.2.3.6 Emissão de certificação Halal A Impugnante afirma que a certificação Halal é obrigatória para o consumo dos produtos por clientes islâmicos, estando vinculada ao processo produtivo desde o início, até o produto acabado e o seu armazenamento. Desta forma, o serviço de certificação torna-se essencial para a empresa, assegurando o cumprimento de exigências desse mercado consumidor tão importante. Para complementar a análise e necessidade desta certificação, apresenta parecer técnico elaborado por empresa de consultoria (Anexo 24). IV.II.2.3.7 Serviços Portuários De acordo com o Relatório Fiscal, a glosa do crédito de serviços portuários está vinculada ao mesmo critério adotado em relação aos certificados, ou seja, são serviços realizados após a produção. Fl. 4760DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 38 Os procedimentos de handling in e out consistem na transferência do container do caminhão para o pátio do armazém para carregamento, e de sua realocação para o veículo, respectivamente. Por tratar-se de transferência do caminhão para um armazém, esse custo está incluso no processo de armazenamento dos produtos a serem exportados, e portanto a apuração do crédito prevista no art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003. Conclui a Impugnante que são serviços essenciais e vinculados diretamente à receita tributável pelo PIS e pela Cofins, e também foram objeto de relatório elaborado por empresa de consultoria (Anexo 25). IV.II.2.3.8 Serviços de Vigilância Pelo simples e ultrapassado argumento de que, supostamente, não atenderiam ao conceito de insumo, foram glosados os serviços de vigilância, assim identificados: sistema segurança/vigilância nr12, serviço de vigilante 24 hs desarmado, vigilância ronda 24 hs armado, serviço de vigilância Ronda 12 hs armado noite, serviço vigilância portaria 24 hs, serviço de vigilância locação moto ronda, serviço de vigilante 12 hs dia armado, serviço de vigilante 12 hs noite desarmado e serviço de vigilância portaria 12 hs noite. A Impugnante possui inúmeras unidades produtivas, sendo grande parte fazendas e grandes plantas industriais. Assim, concentra grande dispêndio financeiro com a finalidade de exercer preventivamente a proteção do patrimônio e das pessoas que se encontram nos limites da localidade a ser vigiada. Deste modo, os serviços são indiretamente ligados à produção dos bens, sendo indispensáveis e infelizmente necessários para a regular condução das atividades empresariais pela recorrente. Destarte, tais despesas se tornam indispensáveis à produção e são decorrentes de serviços utilizados diretamente neste, podendo ser consideradas insumos e gerar créditos de PIS e Cofins. Para tanto, anexa os contratos celebrados com seus prestadores de serviços. IV.II.2.3.9 Serviço de Aluguel de Imóvel Administrativo Segundo a Impugnante, conforme legislação de regência, é permitido o aproveitamento dos créditos em relação a aluguéis de prédios pagos à pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa. Assim, para fins de comprovação da origem destas locações, anexa os respectivos contratos, pelo que poderá ser comprovada a adequação com o permissivo legal de creditamento (Anexo 26). IV.II.2.3.10 Serviço de Arrendamento de Área de Terras para Plantio de Floresta (eucalipto) A Impugnante afirma que as despesas com o arrendamento agrícola se equiparam às despesas com aluguéis de prédios utilizados na atividade da empresa, tal como prevê o art. 3º, inciso IV, das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, de modo que anexa cópia do contrato de arrendamento de propriedade rural para plantio de eucalipto, para fins de comprovação da origem do creditamento (Anexo 27). Fl. 4761DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 39 IV.II.2.4 Créditos Extemporâneos IV.II.2.4.1 Crédito Extemporâneo de Ativo Imobilizado Segundo a Impugnante, o creditamento extemporâneo é muito comum quando se trata de empresa de grande porte e com complexo e variado processo produtivo, pois é praticamente impossível determinar, na entrada das mercadorias, se elas serão utilizadas ou não no processo produtivo. Vários itens podem ter uma aplicação mista, ou seja, ser ou não aplicado no processo produtivo. Essa característica exige que de tempos em tempos a empresa contrate consultorias especializadas que fazem todo o levantamento, considerando não só a aplicação do material mas, e principalmente, a classificação contábil do custo. Em relação aos serviços, dúvidas ou lapsos podem fazer com que o creditamento não seja aplicado em sua entrada, fazendo com que a análise mais apurada e um maior detalhamento da sua aplicação e essencialidade seja feita, do mesmo modo, por uma consultoria especializada, surgindo daí a necessidade e o direito ao crédito extemporâneo, nos moldes adotados pela Impugnante. Desta forma, identificou “aquisições e serviços que dão direito ao crédito extemporâneo, correspondente aos períodos de 2011 a 2016”, e aproveitou tais valores, declarando-os na EFD-Contribuições do 1º trimestre de 2017. Tal procedimento, se algum prejuízo causa, é para o próprio Contribuinte e não ao Fisco, até mesmo porque o crédito extemporâneo é realizado sem qualquer atualização. Afirma que atendeu a todas as intimações, detalhando e discriminando todos os seus procedimentos de apuração, apresentando inúmeras planilhas com todos as informações solicitadas, como listagem dos produtos e notas fiscais relacionadas aos créditos extemporâneos. Destaca a forma como atendeu às intimações formuladas durante o procedimento fiscalizatório, isso porque o Auditor Fiscal solicitou que a BRF apresentasse informações sobre todos os ativos de forma discriminada por nota fiscal. Embora a Autuada tenha atendido aos pedidos, essas informações podem mais confundir do que explicar, posto que a obrigação acessória relacionada – EFD-Contribuições – não exige a abertura dos créditos sobre os itens do Ativo Imobilizado por nota fiscal. Quanto à impossibilidade de alteração do critério para apuração dos créditos de PIS e Cofins, discorda da interpretação do Auditor Fiscal de que uma vez que o contribuinte efetue os cálculos com base num dos critérios, essa opção é irretratável. Cita o parágrafo 2º do artigo 2º da Instrução Normativa SRF nº 457, de 2004; mas no entender da Impugnante essa não é a correta interpretação do dispositivo regulamentador, citando o § 2º do artigo 2º da Instrução Normativa SRF nº 457, de 2004. Assevera que o disposto no artigo 7º determinou que, uma vez que a empresa tenha optado pelo cálculo com base nos prazos menores (1/48 ou 1/24), essa opção é irretratável, e não mais poderia voltar a calcular o crédito com base nas Fl. 4762DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 40 taxas de depreciação. Mas não há na legislação qualquer vedação para que a empresa a faça de forma retroativa. A regra geral não é uma opção, razão pela qual poderá fazê-la a qualquer tempo. Aduz que a RFB já se manifestou sobre essa questão em inúmeros processos de consulta, citando decisão proferida pela Superintendência Regional da Receita Federal - SRRF/6a. Região, além de apresentar relatório elaborado por empresa especializada que corroboraria os seus argumentos (Anexo 28). Alega que o Autuante “não nega tratar-se de aproveitamento de Crédito PISCOFINS sobre novas classe de produtos.xlsx” como parte do Ativo Imobilizado da BRF”. Mas a Impugnante tomava os créditos das contribuições com base nas taxas de depreciação aplicáveis, enquanto a legislação permitia a tomada desses créditos em menor prazo. Houve, igualmente, um recálculo das apropriações com base no valor residual dos bens, o que resultou no registro extemporâneo, em março de 2017, dos créditos remanescentes sobre essa classe de produtos. A falta de pedido de esclarecimentos adicionais, contudo, fez com que o Auditor Fiscal concluísse que haveria registros cuja possibilidade de créditos estaria prescrita, o que não condiz com os fatos e os procedimentos adotados pela Impugnante, que observou, não só o período em que o registro poderia ser feito, como calculou o montante do crédito sobre a depreciação determinada pelas taxas permitidas pela legislação de regência, desprezando todos os meses que porventura já tivessem sido atingidos pelo instituto da decadência. A Impugnante entende que o deslinde em relação ao presente item somente será possível com a realização de diligências, que fatalmente concluirão pela correção dos procedimentos e cálculos efetuados pela Autuada. IV.II.2.4.2 Creditamento Extemporâneo sem retificação de DACON e EFD- Contribuições Ainda sobre o direito ao creditamento extemporâneo, a Impugnante rechaça a motivação apresentada pelas Autoridades Fiscais para não reconhecimento dos créditos, amparada na determinação de necessidade de retificação dos Dacon e EFD dos respectivos períodos de apuração, pois inexiste norma legal que imponha essa retificação para inclusão de créditos fora dos períodos de apuração a que se refiram. Afirma que, desde que a operação anterior esteja contemplada legalmente com possibilidade de crédito e seja tempestivo o registro, o direito ao crédito deve ser assegurado, independentemente de qualquer retificação de obrigações acessórias dos períodos relacionados com o crédito extemporâneo. IV.II.2.5. Créditos de Frete A Impugnante alega que, mesmo para os produtos transportados sujeitos à alíquota zero ou suspensão das contribuições, tem direito à tomada de créditos, pois não há uma vinculação entre os créditos admissíveis referentes aos fretes e aqueles que tratam dos produtos transportados. Fl. 4763DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 41 Mesmo os produtos que possuem tributação diferenciada, os fretes relativos a essas aquisições possuem incidência de PIS e Cofins e, portanto, permitem o direito ao crédito das contribuições. Conclui que os fretes contratados e os produtos transportados não guardam nenhum vínculo para fins de possibilidade de créditos, e não há qualquer menção desse fato nas leis que permeiam os tributos. A Impugnante também contesta a glosa de fretes contratados após o desembaraço aduaneiro, para transporte de bens importados até os seus estabelecimentos, alegando que são efetuados a pessoas jurídicas domiciliadas no país, e qualquer vinculação da contratação dos fretes, utilizados como insumos, com seus produtos transportados, ou ainda, vinculação com legislação específica aplicáveis aos produtos importados, resulta em grave equívoco e falha na interpretação das bases legais. IV.II.2.5.1 Diferença Registro D101/D105 e M105/505 O Fisco identificou divergências de valores sobre aquisições informados na obrigação acessória EFD- Contribuição com relação aos documentos emitidos pelas transportadoras. Consequentemente, glosou 9 (nove) registros, identificados na impugnação. A Impugnante informa que, em procedimento interno, diante da análise das obrigações, realizou nos blocos de Ajuste apuração dos meses de maio e agosto de 2017 e fevereiro de 2018 o estorno de crédito de 4 registros, que relaciona, de modo que a glosa improcede. IV.II.2.6 Demais materiais utilizados como insumos Segundo a Impugnante, o Auditor Fiscal glosou créditos de PIS e Cofins calculados sobre a aquisição de diversos bens também utilizados para fins de execução de seus objetivos sociais, tais como ferramentas e peças, discriminados em planilha indicativa (Anexo 29), desatendendo o critério da essencialidade. As justificativas de glosa para tais itens não decorrem de análise minuciosa das operações, mas por uma verificação superficial, calcada exclusivamente em nomenclatura dos itens. Não obstante, acaso exercido o princípio da busca da verdade material, a essencialidade na obtenção da receita da Impugnante seria evidenciada, decorrendo o seu consequente direito ao creditamento. Para tanto, pugna pela realização de diligência, para o fim de que sejam submetidos ao denominado “teste da subtração”, conforme quesitos formulados ao final da impugnação. IV.II.3 DAS INFRAÇÕES RELACIONADAS À EFD-CONTRIBUIÇÕES No que tange à multa regulamentar lavrada, a Impugnante afirma que no presente caso não se verificam os pressupostos da materialidade de aplicação da multa, vez que a maneira como formalizado o creditamento extemporâneo não caracterizou o tipo apto à subsunção de incidência da penalidade. Em verdade, os créditos aproveitados extemporaneamente decorreram de revisão de apurações anteriormente formalizadas, pelo que, não há sequer que se falar em equívoco de Fl. 4764DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 42 lançamento, mas sim, da própria interpretação das normas de prescrição da tributação adotada pela Impugnante. que a Autoridade Fiscal se fundamentou em equivocada interpretação do Parecer Normativo RFB nº 03/2013, pois é conclusão da própria RFB de que, quer o artigo 57 da Medida Provisória nº 2.158-35/2001, quer os artigos 11 e 12 da Lei nº 8.212/1991, possuem como materialidade somente nos casos em que o contribuinte deixar de apresentar declaração, demonstrativo ou escrituração digital. Não sendo este o caso verificado nos presentes autos, impõe-se que seja cancelado o lançamento da multa regulamentar. IV.II.3.1 Multa Isolada e Multa de Ofício. Ilegalidade de Aplicação Concomitante Em havendo lançamento de obrigações principais com as respectivas autuações de multas de ofício, haverá excesso na aplicação da norma sancionatória se também lançada a multa isolada relativa à obrigação acessória correlata, posto que sobre o mesmo fato jurídico tributário recaem, arbitrariamente, duas modalidades punitivas. Assim, a Impugnante requer o cancelamento da multa regulamentar, também em caráter subsidiário, vez que lançadas as multas de ofícios relativas ao inadimplemento de obrigação principal, configurando a duplicidade de penalidade. IV.II.4 Das Demais Considerações Deve-se considerar os saldos credores acumulados de períodos anteriores para composição da apuração do 1º trimestre de 2017, tendo em vista o julgamento a ser procedente dos processos vinculados aos trimestres de 2015 e 2016. Por fim, ressalta que não há motivos para a glosa dos créditos de devolução de venda, de modo que a base utilizada pela Impugnante está correta. Caberia a Fiscalização refazer a recomposição das classificações. V. Das Diligências Na eventualidade de serem considerados insuficientes os diversos elementos de provas colacionados, a Impugnante requer que seja determinada a realização de diligências para a comprovação de suas alegações, nos termos do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972, formulando quesitos para fins de realização de diligência. VI. Dos Pedidos Ao final, requer a anulação dos lançamentos de PIS e Cofins e da Multa Isolada, ante as vicissitudes que maculam a autuação, consubstanciadas na ausência de observância do princípio da verdade material, em especial relativamente à (i) indevida inversão do ônus da prova, (ii) ausência de laudos técnicos para desqualificação das classificações fiscais adotadas pela Impugnante, culminando com a afronta ao art. 142 do CTN, (iii) indevida modificação de critério jurídico, bem como (iv) ofensa à coisa julgada administrativa material, relativamente ao direito creditório reconhecido, em caráter de trânsito em julgado, junto ao Processo nº 10925.905142/2010-77. Fl. 4765DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 43 Em não sendo acolhidas as defesas de caráter preliminar, requer, então, o cancelamento da integralidade do lançamento. Subsidiariamente, acaso não cancelados os lançamentos em seu mérito, seja cancelada a multa isolada lançada em face das supostas irregularidade na EFC- Contribuições, quer pela inexistência de materialidade, quer pela ilegalidade de duplicidade de aplicação concomitante à multa de ofício. Por fim, em homenagem ao princípio da verdade material, requer a posterior juntada dos documentos que se fizerem necessários para a comprovação do quanto alegado. Intimado da decisão de 1º grau em 11/12/2023, apresentou recurso voluntário em 27/12/2023 o que fez com pedido para que esse processo administrativo seja julgado em conjunto com os demais PAFs de número 10983.909690/2021-34 e 10983.909689/2021-18, bem como, no mérito, que todo o auto de infração seja integralmente cancelado. É o relatório. VOTO Conselheira Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta, Relatora. O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual deve ser conhecido. Inicialmente, observa-se que a recorrente solicitou que este processo seja julgado em conjunto com os processos administrativos 10983.909690/2021-34 e 10983.909689/2021-18. Isso porque a Fiscalização, após o mencionado procedimento fiscal, lavrou autos de infração referentes à contribuição ao PIS e à Cofins (processo principal), em razão de glosas de créditos escriturados pela recorrente no 1º trimestre de 2017, bem como lançado valores da Cofins e da contribuição ao PIS em razão da omissão de receitas e aplicado multa em razão da prestação de informações inexatas na EFD-Contribuições. De fato, tratam-se, conforme já assinalado, de processos vinculados que devem ser julgados conjuntamente. Assim sendo, considerando que o julgamento realizado para este recurso voluntário referente deve ter a mesma fundamentação do acórdão para os processos de n° 10983.909690/2021-34 e 10983.909689/2021-18, aplicando-se, portanto, à matéria sob julgamento, a mesma decisão. 1. PRELIMINARES 1.1- DA AUSÊNCIA DE BUSCA DA VERDADE MATERIAL, DA INDEVIDA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA E DO CERCEAMENTO DE DEFESA POR INDEFERIMENTO DE DILIGÊNCIAS e Fl. 4766DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 44 DA AUTUAÇÃO NÃO AMPARADA POR LAUDO TÉCNICO. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO PARA A DESCLASSIFICAÇÃO FISCAL REALIZADA. Entendo que ambos os tópicos dizem respeito a temas similares, por isso, abordo no mesmo tópico. A Recorrente pede pela nulidade das glosas realizadas por falta de análise da atividade empresarial para verificação de cada item, gerando provas, em decorrência do princípio da verdade material, além de laudo pericial. Sem razão à defesa. Com relação ao ônus da prova, é importante frisar que não obstante se tratar de lançamento de ofício, é do Contribuinte o encargo de comprovar os requisitos sobre o direito invocado para manutenção dos créditos glosados, na forma prevista pelo artigo 373, I do Código de Processo Civil. Com relação às omissões de receitas, entendo que não há o enquadramento nos casos previstos nos artigos 10 e 59 do Decreto nº 70.235/72, que assim estabelecem: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I - a qualificação do autuado; II - o local, a data e a hora da lavratura; III - a descrição do fato; IV - a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V - a determinação da exigência e a intimação para cumpri-la ou impugná-la no prazo de trinta dias; VI - a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta. Fl. 4767DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 45 Por tais razões, afasto a preliminar invocada em defesa e passo à análise da controvérsia apresentada em relação ao mérito. 1.2. DA OFENSA À COISA JULGADA ADMINISTRATIVA Alega a recorrente que, em atenção ao critério da essencialidade, nos termos em que já assentadas, as premissas em sede do Regime de Recursos Repetitivos, nos termos do REsp 1221170/PR, o julgamento ofendeu a coisa julgada. Contudo, essa matéria se confunde com o próprio mérito da questão, postergo sua análise neste voto. Antes de adentrar ao mérito, ressalto que o presente caso se trata de demanda similar ao caso julgado no acordão de n° 3402-012.121, prolatado em 21 de agosto de 2024, nesta mesma turma, com diferente composição, da relatoria da Conselheira Cynthia Elena de Campos, cujo voto, na oportunidade, acompanhei integralmente. Logo, passo a adotar partes das mesmas razões de decidir neste voto, no que tange à fundamentação de mérito do recurso voluntário. 2. Mérito 2.1 Da análise dos critérios de relevância e essencialidade sobre os insumos indicados pela Contribuinte 2.1.1. Do conceito de insumo Versa o presente litígio de Autos de Infração por meio dos quais são constituídos os créditos tributários da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, não cumulativas. Igualmente foi lavrado “Auto de Infração OUTRAS MULTAS ADMINISTRADAS PELA RFB LAVRATURA”, lavrado pela “Apresentação de EFD-Contribuições com Informações Inexatas, Incompletas ou Omitidas”. A Recorrente tem como objeto social a atividade no mercado interno e externo de industrialização, comercialização varejista e atacadista, exploração de alimentos em geral, principalmente os derivados de proteína animal e produtos alimentícios que utilizem a cadeia de frio como suporte de distribuição; industrialização de rações, nutrimentos e suplementos alimentares para animais, de óleos vegetais, gorduras e laticínios; bem como, a exploração, conservação, armazenamento, ensilagem e comercialização de grãos; a prestação de serviços de alimentação em geral; a prestação de serviços de transporte, logística e distribuição de cargas e alimentos em geral, entre outros. Segundo a defesa, desenvolve suas atividades em maior escala com industrialização de produtos de origem animal, passando pela criação, abate, produção, até o transporte ao seu consumidor final (ou até o porto para a posterior exportação das mercadorias). A controvérsia posta neste litígio trata sobre a necessária análise sobre os insumos que deram origem ao direito creditório pleiteado, considerando o julgamento do Recurso Especial Fl. 4768DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 46 nº 1.221.170/PR, processado em sede de recurso representativo de controvérsia, pelo qual o Egrégio Superior Tribunal de Justiça concluiu que, para efeito de tomada de crédito das contribuições na forma do artigo 3º, inciso II das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, conforme a imprescindibilidade ou a importância de determinado item (bem ou serviço) para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. Em síntese, a partir da decisão definitiva do STJ, restou pacificado que, no regime não cumulativo das contribuições ao PIS e à COFINS, o crédito deve ser calculado sobre os custos e despesas sobre bens e serviços intrínseco à atividade econômica da empresa. A Procuradoria Geral da Fazenda Nacional publicou a Nota Explicativa SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFNMF, acatando o conceito de insumos para crédito de PIS e Cofins fixado pelo Superior Tribunal de Justiça, conforme Ementa abaixo: Documento público. Ausência de sigilo. Recurso Especial nº 1.221.170/PR Recurso representativo de controvérsia. Ilegalidade da disciplina de creditamento prevista nas IN SRF nº 247/2002 e 404/2004. Aferição do conceito de insumo à luz dos critérios de essencialidade ou relevância. Tese definida em sentido desfavorável à Fazenda Nacional. Autorização para dispensa de contestar e recorrer com fulcro no art. 19, IV, da Lei n° 10.522, de 2002, e art. 2º, V, da Portaria PGFN n° 502, de 2016. Nota Explicativa do art. 3º da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 01/2014. Transcrevo os itens 14 a 17 da SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFNMF: "14. Consoante se depreende do Acórdão publicado, os Ministros do STJ adotara uma interpretação intermediária, considerando que o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância. Dessa forma, tal aferição deve se dar considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item para o desenvolvimento da atividade produtiva, consistente na produção de bens destinados à venda ou de prestação de serviços. 15. Deve-se, pois, levar em conta as particularidades de cada processo produtivo, na medida em que determinado bem pode fazer parte de vários processos produtivos, porém, com diferentes níveis de importância, sendo certo que o raciocínio hipotético levado a efeito por meio do “teste de subtração” serviria como um dos mecanismos aptos a revelar a imprescindibilidade e a importância para o processo produtivo. 16. Nesse diapasão, poder-se-ia caracterizar como insumo aquele item – bem ou serviço utilizado direta ou indiretamente cuja subtração implique a impossibilidade da realização da atividade empresarial ou, pelo menos, cause perda de qualidade substancial que torne o serviço ou produto inútil. Fl. 4769DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 47 17. Observa-se que o ponto fulcral da decisão do STJ é a definição de insumos como sendo aqueles bens ou serviços que, uma vez retirados do processo produtivo, comprometem a consecução da atividade-fim da empresa, estejam eles empregados direta ou indiretamente em tal processo. É o raciocínio que decorre do mencionado “teste de subtração” a que se refere o voto do Ministro Mauro Campbell Marques." (sem destaques no texto original) Destaco, ainda, o Parecer Normativo Cosit nº 5, de17 de dezembro de 2018, proferido com a seguinte Ementa: Assunto. Apresenta as principais repercussões no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil decorrentes da definição do conceito de insumos na legislação da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins estabelecida pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Recurso Especial 1.221.170/PR. Ementa. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP. COFINS. CRÉDITOS DA NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. DEFINIÇÃO ESTABELECIDA NO RESP 1.221.170/PR. ANÁLISE E APLICAÇÕES. Conforme estabelecido pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial 1.221.170/PR, o conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância do bem ou serviço para a produção de bens destinados à venda ou para a prestação de serviços pela pessoa jurídica. Consoante a tese acordada na decisão judicial em comento: a) o “critério da essencialidade diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço”: a.1) “constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço”; a.2) “ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência”; b) já o critério da relevância “é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja”: b.1) “pelas singularidades de cada cadeia produtiva”; b.2) “por imposição legal”. Dispositivos Legais. Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, inciso II; Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, inciso II. Por tais razões, para efeitos do art. 3º, II, da Lei 10.637/2002 e art. 3º, II, da Lei 10.833/2003, o conceito de insumos passou a abranger todos os bens e serviços que possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da Fl. 4770DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 48 mesma prestação do serviço ou da produção. Ou seja, itens cuja subtração ou impeça a atividade da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes. Delimitado o alcance do conceito de insumo que deverá ser considerado em julgamento ao presente caso, passo à análise do direito creditório pleiteado pela Recorrente, o que faço adotando a premissa de que se trata de uma empresa que tem por atividade econômica a produção de alimentos para consumo humano e, portanto, que exige atenção especial às regras sanitárias específicas, sem as quais, por questões óbvias, resta impedida a efetividade de suas operações. Em razões recursais a Recorrente descreveu seu processo produtivo com relação aos insumos pleiteados. Delimitado o alcance do conceito de insumo que deverá ser considerado em julgamento ao presente caso, passo à análise do direito creditório pleiteado pela Recorrente, o que faço adotando a premissa de que se trata de uma empresa que tem por atividade econômica a produção de alimentos para consumo humano e, portanto, que exige atenção especial às regras sanitárias específicas, sem as quais, por questões óbvias, resta impedida a efetividade de suas operações. 2.1.2. Operações de movimentação, Serviços de Carga e Descarga – Cross Docking e Repaletização Após a diligência realizada pela Autoridade Fiscal da DRF, parte das glosas sobre as operações de movimentação, serviços de carga, descarga e operador logístico foi revertida. No entanto, as glosas referentes aos serviços de cross docking e repaletização foram mantidas. Em relação ao serviço de repaletização, relata a autoridade fiscal que intimada para tanto, a interessada informou: que o serviço ocorre no armazém destinatário das mercadorias e que é uma troca de paletes “com o objetivo de maximizar a ocupação das carretas frigoríficas e containers, carregando o máximo possível em cada veículo, às vezes não é utilizado o mesmo padrão de altura de pallets que os armazéns de destino utilizam ...”; que os produtos estão prontos, acabados, embalados com embalagem de apresentação e de transporte, mesmo há vários dias, e que os serviços são realizados no armazém destinatário. Menciona, ainda, que intimada a informar a “legislação que exija a utilização dos serviços”, a fiscalizada citou genericamente normas sanitárias. Conclui que, que muito embora haja exigência de normas sanitárias quanto a paletes, não há exigência legal de troca de paletes para casos como o informado pela interessada. Argumentou a defesa que o serviço de repaletização é indissociável das despesas com pallets que, por sua vez, são insumos entendidos como custos necessários para a atividade da empresa, o que lhe garante o direito aos créditos da contribuição. Fl. 4771DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 49 Argumentou, ainda, que os custos e despesas com a movimentação das mercadorias, serviços de carga e descarga e operador logístico, são inerentes ao serviço de armazenagem. Com relação ao cross docking, concluiu a Fiscalização que não há exigência legal tal movimentação, mas de manutenção do frio, o que pode ser obtido utilizando-se veículos refrigerados, pelo que conclui que a contribuinte utiliza o serviço de movimentação cross docking de forma discricionária, não sendo obrigada por lei a utilizar tal serviço. Por sua vez, sustenta a defesa que os serviços de cross docking são essenciais às atividades da Recorrente, uma vez que sua contratação é necessária para atender às obrigações sanitárias. Por industrializar produtos de origem animal destinados ao consumo humano, a Recorrente deve transportá-los e acondicioná-los em temperaturas adequadas, sob risco de sofrer sanções administrativas das autoridades de fiscalização sanitária. Explicou a defesa que o cross docking é um sistema em que os bens entram e saem de um centro de distribuição de maneira célere, de maneira a otimizar a execução das atividades da empresa, em razão da desnecessidade de armazenar os produtos no centro de distribuição, de modo a permitir uma rápida passagem das mercadorias que chegam para a expedição destas para os clientes. Para melhor compreensão. Justificou que, além de acelerar a distribuição dos produtos – o que diminui a perda por perecimento –, o cross docking permite a expansão das atividades, tendo em vista o maior número de clientes (revendedores) e consumidores que poderão ser atendidos. Por outro lado, o ilustre Julgador a quo entendeu que tais bens e serviços são utilizados fora do processo de produção do bem destinado à venda e, portanto, não podem ser considerados como insumos. Assiste razão à defesa. Reitero o r. voto da Eminente Ministra Regina Helena Costa, que considerou os seguintes conceitos de essencialidade ou relevância da despesa, que deve ser seguido por este Conselho: Essencialidade – considera-se o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço, constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço, ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência; Relevância - considerada como critério definidor de insumo, é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva (v.g., o papel da água na fabricação de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria), seja por imposição legal (v.g., equipamento de proteção individual EPI), distanciando-se, Fl. 4772DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 50 nessa medida, da acepção de pertinência, caracterizada, nos termos propostos, pelo emprego da aquisição na produção ou na execução do serviço. E, como já mencionado neste voto, reitero que os Itens 16 e 17 da NOTA SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFNMF, o qual direciona o conceito de insumos adotado pelo STJ, devendo ser observado o “teste de subtração” a que se refere o voto do Eminente Ministro Mauro Campbell Marques, sendo que a “definição de insumos como sendo aqueles bens ou serviços que, uma vez retirados do processo produtivo, comprometem a consecução da atividade-fim da empresa, estejam eles empregados direta ou indiretamente em tal processo”. Considerando os fundamentos já demonstrados neste voto com relação às despesas com fretes e, diante da singularidade da cadeia produtiva da Recorrente, demonstrada nas explicações trazidas em razões recursais, é de flagrante constatação que os itens sob análise de fato são utilizados para conservação dos produtos até a destinação para consumo humano, motivo pelo qual se enquadra nos critérios de essencialidade e essencialidade, cuja subtração resulta em perda da qualidade, além de infringir disposições legais sanitárias. Considerando a singularidade da cadeia produtiva da Recorrente, demonstrada nas explicações trazidas em razões recursais, bem como das exigências traçadas pelas normas sanitárias, é de flagrante constatação que os itens sob análise de fato são utilizados para proteção dos produtos até a destinação para consumo humano, motivo pelo qual se enquadra nos critérios de essencialidade e essencialidade, cuja subtração resulta em perda da qualidade, além de infringir disposições legais da ANVISA e MAPA. Outrossim, o reconhecimento do direito creditório sobre tais itens igualmente já foi reconhecido por este CARF através dos seguintes precedentes: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/07/2006 a 30/09/2006 CREDITAMENTO A TÍTULO DE INSUMO (ART. 3° II, DA LEI 10.637/2002). EMBALAGENS PARA TRANSPORTE DE FRUTAS IN NATURA. POSSIBILIDADE. As despesas incorridas com pallets, cantoneiras e demais produtos utilizados como embalagem de transporte são insumos, conforme o art. 3°, II, da Lei n° 10.637/2002, por serem essenciais e relevantes na atividade de produção das frutas in natura e a consequente venda no mercado interno e exportação. Os pallets, cantoneiras e demais produtos utilizados como embalagem de transporte garantem a qualidade das frutas in natura, mantendo a integridade delas, em virtude de sua fragilidade. (Acórdão nº 3301-009.760 – Relatora: Conselheira Semíramis de Oliveira Duro) ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Ano-calendário: 2008 EMBALAGENS PARA TRANSPORTE. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Fl. 4773DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 51 Os custos/despesas incorridos com embalagens para proteção do produto durante o transporte, como plástico, papelão e espumas, enquadram-se na definição de insumos dada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. Assim, embalagens utilizadas para o manuseio e transporte dos produtos acabados, por preenchidos os requisitos da essencialidade ou relevância para o processo produtivo, enseja o direito à tomada do crédito das contribuições. (Acórdão nº 3301-009.488 – Relator: Conselheiro Salvador Cândido Brandão Junior) ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 31/10/2009 a 31/12/2009 RECURSO ESPECIAL. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DE DIVERGÊNCIA PARA CADA TEMA SUSCITADO. CONHECIMENTO PARCIAL. Para que o recurso especial seja conhecido em sua totalidade, é necessário que o recorrente comprove divergência jurisprudencial, mediante a apresentação de acórdão paradigma que, enfrentando questão fática semelhante, aplique de forma diversa a legislação apontada. No caso, o recurso especial interposto pelo Contribuinte não comprova o dissenso jurisprudencial em relação a “gastos com aquisições de partes e peças de reposição, combustíveis e lubrificantes e de serviços de montagem e manutenção” e “direito à correção do valor do ressarcimento pela aplicação da Taxa Selic”. E o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional utiliza, no que se refere ao “conceito de insumos”, paradigma em sentido contrário à decisão vinculante do STJ, proferida na sistemática dos recursos repetitivos (Recurso Especial no 1.221.170/PR). ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 31/10/2009 a 31/12/2009 CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP. CONCEITO DE INSUMO. CRÉDITOS DA NÃO- CUMULATIVIDADE. OBSERVÂNCIA DOS CRITÉRIOS DE ESSENCIALIDADE OU RELEVÂNCIA. Conforme decidido pelo Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Recurso Especial no 1.221.170/PR, integrado pelo Parecer Normativo Cosit/RFB no 5/2018, o conceito de insumo para fins de apuração de créditos da não-cumulatividade deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou da relevância, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte. CRÉDITOS. GASTOS COM PALLETS, PARA PROTEÇÃO E TRANSPORTE DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. POSSIBILIDADE. Os custos/despesas incorridos com pallets para proteção e transporte dos produtos alimentícios, quando necessários à manutenção da integridade e Fl. 4774DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 52 natureza desses produtos, enquadram-se na definição de insumos dada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp no 1.221.170/PR, em sede de recurso repetitivo, aplicado no âmbito do CARF por força do disposto no § 2o do art. 62 do Anexo II do seu Regimento Interno. CRÉDITOS. DESPESAS COM LOCAÇÃO DE VEÍCULOS DE CARGA. IMPOSSIBILIDADE. FALTA DE PREVISÃO LEGAL. Somente são admitidas para fins de tomada de crédito da Contribuição para o PIS/PASEP as despesas com aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa, não estando contempladas na legislação (inciso IV do art. 3º da Lei no 10.637/2002) aquelas com locação de veículos de carga, o que se endossa na Solução de Consulta Cosit no 1/2014. CRÉDITOS. INSUMOS. DESPESAS COM GÁS GLP CILINDRO P-20. São admitidas para fins de tomada de crédito da Contribuição para o PIS/PASEP as despesas com gás GLP-cilindro P-20, utilizado em empilhadeiras alugadas, necessárias às operações no processo produtivo. (Acórdão nº 9303-014.369 - Relator: Conselheiro Rosaldo Trevisan) No v. Acórdão nº 9303-014.369, ao analisar o enquadramento no conceito de insumos sobre aquisição de pallets destinados tanto à proteção de mercadorias/produtos quanto ao seu transporte, o ilustre Conselheiro Relator Rosaldo Trevisan esclareceu que a 3ª Turma da Câmara Superior deste CARF vem reconhecendo a possibilidade de tomada de créditos, o que fez citando o v. Acórdão nº 9303-011.407, no seguinte excerto: “...conforme razões bem delineadas no acórdão ora recorrido, integrado pelos acórdãos de embargos, há de ser mantido o reconhecimento do direito ao crédito com relação aos itens listados no parágrafo anterior: ...(b) compras de pallets: utilizados em diversas etapas do processo produtivo, para a movimentação das matérias-primas, produtos intermediários e produtos acabados, evitando o contato com o solo e diminuindo o risco de contaminação, preservando-se a integridade e qualidade dos produtos. Também são utilizados como embalagem para produtos acabados. Diante da essencialidade e relevância, também deve ser concedido o crédito”. (Acórdão nº 9303-011.407, Rel. Cons. Vanessa Marini Cecconello, unânime em relação ao tema dos pallets, sessão de 15/04/2021) (grifo nosso) Portanto, deve ser revertida a glosa sobre tais itens. 2.1.3. Da locação de uniformes, serviços de Locação de Veículos e Equipamentos, Serviços de Administração de Vestiários. Após diligência realizada em primeira instância, foram mantidas as glosas sobre instrumentos utilizados pela Recorrente em seu processo produtivo, tais como: uniformes do Fl. 4775DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 53 funcionários, administração da limpeza dos vestiários, além de empilhadeiras, guindastes e Munck, que fazem parte do processo produtivo. Entendo que, de fato, para a indústria de alimentos é necessário vestiários apropriados, bem como limpezas específicas, até para que seja mantida o cumprimento às normas de vigilância sanitária. Já no que tange ao uso de empilhadeiras, guindastes e Munck, também não visualizo como organizar o processo produtivo industrial sem o uso desses equipamentos, claramente essenciais. Sendo assim, reverto essas glosas. 2.1.4. Da emissão do certificado Halal. Explica a recorrente que a emissão deste certificado é um documento fiel de garantia, emitido por uma instituição certificadora Halal, reconhecida por países islâmicos, para atestar que a empresa, processo e produtos seguem os requisitos legais e critérios determinados pela jurisprudência islâmica (Sharia). De fato, a Certificação Halal atesta que determinado produto respeitou estas regras em todas as suas etapas de produção e industrialização. Deste modo, quando um consumidor islâmico adquire um produto com a certificação Halal, saberá que ele foi produzido respeitando as regras estabelecidas por sua religião, mas isso para países islâmicos em nada sendo obrigatório para seu processo produtivo no Brasil. Em verdade, a dita certificação concede um “plus” comercial à indústria, em nada sendo necessária em seu processo produtivo. Sendo assim, mantenho essa glosa. 2.1.5. Serviços Portuários Explica a recorrente que as operações de Handling, consistem em procedimentos de handling in e out, que são transferências do container do caminhão para o pátio do armazém para carregamento e de sua realocação para o veículo, respectivamente, para que sejam evitados acidentes e para aumentar a possibilidade de que a carga chegue em segurança ao complexo portuário. De fato, para as empresas que utilizam insumos importados, os serviços portuários vinculados diretamente aos insumos importados são imprescindíveis para as atividades da Recorrente, onde ocorrerá efetivamente o processo produtivo de seu interesse. Inclusive, a subtração dos serviços de movimentação portuária privaria o processo produtivo da Recorrente do próprio insumo importado. Portanto, reverto essa glosa. 2.1.6. Serviços de vigilância Fl. 4776DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 54 A recorrente explica que foram glosados os créditos oriundos de serviços de: sistema segurança/vigilância nr12, serviço de vigilante 24 hs desarmado, vigilância ronda 24 hs armado, serviço de vigilância Ronda 12 hs armado noite, serviço vigilância portaria 24 hs, serviço de vigilância locação moto ronda, serviço de vigilante 12 hs dia armado, serviço de vigilante 12 hs noite desarmado e serviço de vigilância portaria 12 hs noite, ressaltando que os serviços são indiretamente ligados a produção dos bens, sendo indispensáveis e infelizmente necessárias para a regular condução das atividades empresariais pela Recorrente. Entendo que em um país com frágil segurança pública como o Brasil, é de extrema importância a atividade de vigilância em empresas de porte como a BRF. Contudo, em nada isso se associa ao produtivo. Com ou sem vigilância, a indústria estaria apta a funcionar e produzir seus alimentos. Portanto, mantenho a glosa. 2.1.7. Créditos extemporâneos – do ativo imobilizado e sem a retificação dos DACONS e EFD-CONTRIBUIÇÕES. As autoridades fiscais aduziram que foram encontrados valores significativos de créditos extemporâneos incluídos nos ajustes positivos de crédito na EFD-Contribuições, classificados como Ajuste Oriundo de Outras Situações e Ajuste ref. créditos extemporâneos. Quanto aos créditos extemporâneos referentes à depreciação sobre novas classes de produtos, a Fiscalização aduz que a recorrente pretende aproveitar crédito sobre a depreciação de bens que devem ser incorporados ao ativo imobilizado, como tijolo, cimento, argamassa, materiais de construção e serviço de azulejo, no entanto, assevera que não há prova de que as notas fiscais em tela não tenham sido incorporadas ao ativo imobilizado e detalha, no Relatório Fiscal, que a recorrente não evidenciou a legitimidade e liquidez do crédito extemporâneo pretendido. A recorrente repisa os argumentos apresentados na impugnação, argumenta que houve um recálculo das apropriações com base no valor residual dos bens, o que resultou no registro extemporâneo dos créditos remanescentes, e que o deslinde em relação ao presente item somente será possível com a realização de diligências, que fatalmente concluirão pela correção dos procedimentos e cálculos efetuados pela autuada. Sem razão a recorrente. Quanto à alegação da recorrente sobre os valores dos créditos erroneamente informados no Relatório Fiscal, trata-se somente de equívoco no demonstrativo à folha 51, que nenhum prejuízo trouxe à defesa, conforme já assinalado. No mais, conforme consignado pela Fiscalização no Relatório Fiscal, e confirmado pelo acórdão recorrido, a recorrente não evidenciou o suposto crédito extemporâneo em questão, com a apresentação de documentos e de informações mínimas necessárias para a análise da legitimidade e liquidez do crédito e, em se tratando de crédito, cabe à recorrente comprovar a Fl. 4777DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 55 legitimidade e liquidez, não cabendo, conforme já destacado neste voto, a conversão do julgamento em diligência para produzir prova a seu cargo. Em relação aos créditos extemporâneos referentes à depreciação sobre novas classes de produtos, merece reforma a decisão recorrida. Conforme excelente voto proferido pelo Conselheiro Pedro Souza Bispo, Acórdão 3402-011.430. “Trata-se de matéria um tanto quanto pacificada nesta Egrégia Corte no sentido de se reconhecer que, além da forma indicada pela Receita Federal, no sentido da correção de erros na apuração da contribuição, por meio da realização de retificação do DACON, com a conseqüente apuração de contribuição paga a maior, se houver, ou alteração do saldo do trimestre a ser repassado para o trimestre seguinte, existe outra possibilidade aceita, sem a necessidade de retificação desses demonstrativos, desde que a empresa comprove, por meio de documentação hábil, a existência do crédito e o não aproveitamento anterior do mesmo (entre o mês da aquisição do bem ou serviço e o mês de aproveitamento extemporâneo), assegurando-se, dessa forma, a não ocorrência do duplo aproveitamento de créditos pelo contribuinte”. Neste voto ainda são citados importantes precedentes, tais como: Processo nº 10380.733020/201158 Acórdão n° 3403002.717 4ª Câmara / 3ª Turma Ordinária Sessão de 29 de janeiro de 2014 Relator: Rosaldo Trevisan (...) Cabe destacar de início, que, por óbvio, a ausência de retificação a que se refere o fisco, é referente aos períodos anteriores, pois o que se busca é evitar o aproveitamento indevido, ou até em duplicidade. As retificações, como destaca o fisco, trazem uma série de consequências tributárias, no sentido de regularizar o aproveitamento e torna-lo inequívoco. Quanto à afirmação de que a recorrente cumpriu em demonstrar a ausência de utilização anterior dos referidos créditos, indicando genericamente todos os documentos entregues à fiscalização e/ou acostados na impugnação, não logra instaurar apresentar elementos concretos que ao menos instaurem dúvida no julgador, demandando diligência ou perícia. Aliás, a perícia solicitada ao final do recurso voluntário considera-se não formulada pela ausência dos requisitos do art. 16, IV do Decreto no 70.235/1972, na forma do § 1o do mesmo artigo. No mais, acorda-se com o julgador de piso sobre a necessidade de que reste documentado o aproveitamento dos créditos, mediante as retificações das declarações correspondentes, de modo a não dar ensejo a duplo aproveitamento, ou a irregularidades decorrentes. E, ainda que se relevasse a formalidade de retificação das declarações, não restou no presente processo demonstrada conclusivamente, como exposto, ausência de utilização anterior dos referidos créditos. Sobre a afirmação de que a autuação "funda seu entendimento tão somente em uma solução de consulta, formulada por outro contribuinte", é de se reiterar de que forma o fisco utilizou soluções de consulta na autuação (fl. 35 do Termo de Verificação Fiscal): O segundo requisito diz respeito à necessária retificação, em todos os períodos pertinentes, de todas as declarações (DACONs, DCTFs e DIPJs) cujos valores são alterados pelo recálculo e refazimento da apropriação de créditos de PIS e COFINS. Isto porque este procedimento implica também o recálculo de todos os tributos devidos em cada período de apuração, especialmente o Imposto de Renda e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. É que Fl. 4778DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 56 na sistemática da não cumulatividade, qualquer apropriação de créditos de PIS e de COFINS, resulta, necessariamente na redução, em cada período de apuração, de custos ou despesas incorridas e, por consequência, na elevação das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Há diversas soluções de consulta no âmbito da RFB, que exprimem o entendimento acima, dentre elas citaremos a Solução de Consulta no 14 SRRF/6aRF/DISIT, de 17/02/2011, a Solução de Consulta no 335 SRRF/9aRF/DISIT, de 28/11/2008, e a Solução de Consulta no 40 SRRF/9aRF/DISIT, de 13/02/2009. Assim, patente que as soluções de consulta não são (e sequer constam no campo correspondente) a fundamentação da autuação. (...)Em adição ao que a DRJ estabelece, agregamos somente a possibilidade de, na ausência das retificações, haver comprovação inequívoca do alegado por outros meios, o que não se visualiza no caso dos presentes autos. É de se reconhecer, contudo, que extremamente mais simples é a retificação das declarações. Portanto, merece reforma a r. decisão. 2.1.8. Fretes Observa-se que foram glosados itens de fretes. Os argumentos trazidos pela contribuinte são basicamente: Fretes de aquisição de produtos glosados: traz argumentos completos acerca do fato da Autoridade Fiscal, equivocadamente ter efetuado a glosa dos créditos calculados sobre fretes contratados após o desembaraço aduaneiro para transporte de bens importados até os estabelecimentos da empresa. Da diferença Registro D101/D105 e M105/505: argumenta que o Fisco identificou divergências de valores sobre aquisições informados na obrigação acessória EFD-Contribuição com em relação aos documentos emitidos pelas transportadoras. Diante destas diferenças apontadas, os valores dos créditos utilizados geraram impacto nos blocos M105/M505, que referem-se ao Detalhamento da Base de Cálculo do Crédito Apurado no Período – PISPasep e COFINS; e no procedimento interno, realizou análises das obrigações entregues correspondente os meses de janeiro, fevereiro e março de 2017. Diante destas análises a CIA realizou o estorno de crédito de alguns registros. No que tange aos fretes contratados após o desembaraço aduaneiro reverto a glosa, adotando o mesmo raciocínio utilizado para reverter as glosas dos serviços portuários. 2.1.9. Dos créditos sobre demais materiais utilizados como insumos Restringe-se a recorrente a alegar que nesse ponto: “Referidos insumos encontram- se discriminados em planilha indicativa, conforme Anexo 29 da Impugnação, cumprindo-se Fl. 4779DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 57 destacar, desde logo, que inobstante o presente Recurso Voluntário não descrever item específico para cada um dos insumos, dada a sua enorme quantidade, ratifica sua integral inconformidade, vez que, em todas estas glosas, foram desatendidos os critérios da essencialidade para fins do exercócio de seu contrato social. Como se pode observar, as justificativas de glosa para tais itens não decorreram de análise minusiosa das operações. Não obstante, acaso exercído o princípio da busca da verdade material, a essencialidade na obtenção da receita da Recorrente seria evidenciada, decorrendo o seu consequente direito ao creditamento.” Sem trazer qualquer explicação detalhada sobre o processo produtivo que corrobe sua tese, não há possibilidade desta Conselheira analisar os insumos à luz do critério da essencialidade e relevância, por isso mantenho a glosa. 2.2. Créditos de aquisições para revenda, e insumos alíquota zero e com suspensão. A recorrente aduz que independente da destinação das mercadorias adquiridas e tributadas a alíquota zero, pelo princípio da regra matriz de incidência tributária, tais aquisições sofreram a incidência e logo geram direito ao creditamento nas operações. Assevera que o produto queijo prato teve a saída para revenda tributada e, por isso mesmo, tem direito ao crédito referente à aquisição desse produto. Quanto à aquisição de açúcar, assinala que “é um insumo que faz parte do seu processo produtivo, e, dessa forma, considerando que, “no processo produtivo final estará compondo um produto com saída tributada pelo PIS e COFINS, resta o direito ao seu creditamento, para que não gere um descompasso tributário”. Quanto à aquisição de leite cru fornecido por pessoa física, a recorrente afirma que o argumento utilizado pela Fiscalização “está relacionado a Lei 10.925, art. 8º, §3º, inc. V e o valores glosados foram informados na planilha GLOSAS 04-trim 2015”, mas para fins de direito ao creditamento, o enquadramento correto está previsto no art. 8' da lei 10.925 de julho de 2004, relacionado ao crédito presumido. Aduz ainda a recorrente que as vacinas e os medicamentos integram o seu processo produtivo, e, dessa forma, são insumos essenciais e obrigatórios, bem como que em razão de estarem sob regime de tributação monofásico, gerariam o direito ao creditamento. Sem razão a recorrente. O § 2º do art. 3º da Lei 10.833/03 e da Lei 10.637/02 vedam expressamente a tomada de crédito referente à aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição. Assim sendo, não cabe a tomada de crédito de bens adquiridos e sujeitos à alíquota zero das contribuições em apreço. Fl. 4780DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 58 No que diz respeito à alegação no sentido de que o produto queijo prato teve a saída para revenda tributada, cumpre assinalar que a eventual revenda tributada, de forma equivocada, de produto adquirido, sujeito à alíquota zero, não permite a tomada de crédito na sua aquisição. As vacinas veterinárias, classificadas na subposição 3002.30 da NCM, estão sujeitas à incidência das contribuições à alíquota zero e, dessa forma, é vedada a apuração de créditos do regime não cumulativo calculados sobre os valores das aquisições. Com efeito, não se enquadram na Lei 10.147/2000, não sendo submetidas à tributação monofásica, e sim à alíquota zero em toda a cadeia produtiva, sendo tratadas na Lei 10.925/2004, art. 1º, inciso VII. Quanto aos demais produtos, cujos créditos foram glosados porque, segundo a Fiscalização, sujeitos à alíquota zero, constatamos que as glosas estão corretas, conforme disposto no Relatório Fiscal e discriminado na planilha denominada “GLOSAS 01-trim 2016”, aba “Alíq Zero”, juntada à fl. 1446. Com efeito, a Fiscalização glosou créditos de produtos químicos sujeitos à alíquota zero, classificados no capítulo 29 da NCM, relacionados no Anexo I do Decreto 6.426/2008, com base no art. 1º, inciso I, do aludido decreto, bem como de produtos sujeitos à alíquota zero por força do disposto no art. 2º da Lei 10.147/2000. Quanto à aquisição de leite cru de pessoa física, correta a fundamentação e o procedimento levado a efeito pelas autoridades fiscais, conforme consignado no Relatório Fiscal: Ainda, em relação ao leite cru adquirido de pessoa física, a contribuinte apurou créditos de 0,99% de PIS e 4,56% de Cofins. Ocorre que neste trimestre entraram em vigor as alterações introduzidas pela Lei nº 13.137, de 19/06/2015, na Lei nº 10.925/2004 (alterações transcritas abaixo), excepcionando o leite in natura do inciso I do § 3º e criando o inciso V do mesmo parágrafo para tratar o caso. Informa-se que a BRF SA não era habilitada no programa instituído pelo art. 9º -A da mesma lei, fazendo jus apenas a 20% da alíquota do caput art. 2º das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, sendo glosada a diferença. Por tais razões, mantenho o lançamento de ofício neste ponto. 2.3. Do Crédito Presumido Com relação ao crédito presumido, a Autoridade Fiscal informa que todos os valores creditados relativos aos bens tratados na Lei 12.058/2009 e IN RFB 977/2009 devem ser estornados porque ou havia suspensão na sua aquisição (obrigatória), conforme art. 4º da citada instrução normativa, acima transcrito, e todas as condições para a suspensão estavam presentes, ou tratava-se de bem sujeito a alíquota zero por força das alterações introduzidas na Lei nº 10.925/2004 pela MP 609/2013 ou pela Lei 12.839/2013. Por outro lado, o crédito presumido não era permitido porque a contribuinte estava enquadrada nas vedações à apropriação ao crédito previstas no art. 34, §1º, da Lei nº 12.058/2009, artigo 5º e 6º da IN RFB nº 977/2009, art. 5º e 6º da IN RFB nº 1.157/2011. Fl. 4781DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 59 De acordo com os arts. 34, § 1º, da Lei nº 12.058/2009, e 56, § 1º, da Lei nº 12.350/2010, é vedada a apuração de crédito presumido nas aquisições realizadas por pessoas jurídicas que revendam ou industrializem animais vivos das espécies bovina, suína e aves, classificados nas posições específicas da NCM. Essa vedação é justificada pelo fato de que tanto as receitas provenientes da revenda quanto da industrialização desses animais estão sujeitas ao regime de suspensão das contribuições, conforme disposto nos arts. 32, incisos I e II, da Lei nº 12.058/2009, e 54, incisos III e IV, da Lei nº 12.350/2010. Assim, aplica-se a regra do art. 3º, § 2º, inciso II, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, que impede o crédito sobre bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição. A Recorrente sustenta que seria possível apurar o crédito presumido sobre aquisições com suspensão das contribuições, desde que as saídas não estejam beneficiadas pelo mesmo regime. Contudo, esse argumento não procede, uma vez que o motivo das glosas não está relacionado à forma de apuração ou ao tratamento das saídas, mas sim à ocorrência de hipótese legal de vedação ao crédito, claramente estabelecida nos dispositivos citados. Portanto, a decisão da DRJ foi correta ao concluir que não há direito à apuração do crédito presumido, devendo-se manter as glosas efetuadas. 2.4 Das Omissões de Receitas decorrentes de depósitos judiciais O pleito do contribuinte deve ser provido, reformando-se a r. decisão recorrida, uma vez que estes valores, enquanto não disponíveis em benefício do recorrente, não integram o seu respectivo patrimônio. Com efeito, esta Egrégia Corte assim já se manifestou em inúmeros julgados, a saber: ACÓRDÃO: 3401003.072– VARIAÇÃO MONETÁRIA DE DEPÓSITOS JUDICIAIS. INCIDÊNCIA. O PIS e a COFINS não incidem sobre as variações monetárias de depósitos judiciais que não foram liberados pela autoridade do Poder Judiciário em favor da contribuinte, pois elas ainda não podem ser consideradas receitas auferidas para integrar de pleno direito o patrimônio do depositante e possa delas dispor como lhe aprouver. Isto posto, dou provimento neste ponto a fim de afastar a acusação de omissão de receitas sobre a variação monetária dos depósitos judiciais. 2.5. Da Classificação Fiscal 2.5.1. Carne in natura Considerou o ilustre Auditor Fiscal que as carnes devem ser classificadas no capítulo 16 do Sistema Harmonizado, com enquadramento na posição da NCM 16.02. A autuação foi Fl. 4782DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 60 justificada pela conclusão de que “a correta classificação fiscal das mercadorias segundo a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), constante na Tarifa Externa Comum (TEC), aprovada pela Resolução Camex nº 94, de 08 de dezembro de 2011, não depende apenas da mercadoria ser ou não “in natura”, sendo necessário levar-se em conta todas as regras de classificação previstas na legislação”. Por sua vez, a Recorrente defende que a classificação fiscal dos produtos “carnes” se enquadra no Capítulo 2, sujeitas à alíquota zero, uma vez que são temperados com sal, condimentos e especiarias para conservação, sem adição de substâncias que alterariam a sua natureza química, mantendo seu estado “in natura". Reclama a defesa que não foi apresentado pela Fiscalização qualquer embasamento técnico para a reclassificação fiscal, bem como não foi indicada a Regra Geral de Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI/SH) adotada na reclassificação, além de não ter sido considerados fundamentos jurídicos relacionados ao tratamento diferenciado conferido aos produtos cárneos. Observo que a Requerente apresentou com o Recurso Voluntário um Laudo Técnico sobre as operações relativas às Linhas de Produção de sua atividade, especificando o ciclo de produção sobre os frangos, industrializados, bem como com relação ao leite e derivados, margarinas, perus, pratos prontos, rações, sobremesas, suínos, tortas salgadas, e normas sanitárias e demais exigências do Serviço de Inspeção Federal. Cumpre destacar que a classificação fiscal de mercadorias fundamenta-se nas Regras Gerais para a Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI) da Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, nas Regras Gerais Complementares da Nomenclatura Comum do Mercosul (RGC/NCM), na Regra Geral Complementar da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados (RGC/TIPI), nos pareceres de classificação do Comitê do Sistema Harmonizado da Organização Mundial das Aduanas (OMA), nos ditames do Mercado Comum do Sul (Mercosul) e, subsidiariamente, nas Notas Explicativas do Sistema Harmonizado (Nesh)1. Por sua vez, as Notas Explicativas do Sistema Harmonizado (NESH) representam a interpretação oficial do SH oriunda da Organização Mundial das Alfândegas. Pelo § único do art. 1º do Decreto nº 435/1992, “constituem elemento subsidiário de caráter fundamental para a correta interpretação do conteúdo das posições e subposições, bem como das Notas de Seção, Capítulo, posições e subposições da Nomenclatura do Sistema Harmonizado, anexas à Convenção Internacional de mesmo nome”. De acordo com as Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, da Organização Mundial das Aduanas, a RGI 1 deve ser analisada nos seguintes moldes: REGRA 1 1 Art. 2º - In RFB nº 2057/2021 Fl. 4783DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 61 Os títulos das Seções, Capítulos e Subcapítulos têm apenas valor indicativo. Para os efeitos legais, a classificação é determinada pelos textos das posições e das Notas de Seção e de Capítulo e, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas, pelas Regras seguintes: NOTA EXPLICATIVA I) A Nomenclatura apresenta, sob uma forma sistemática, as mercadorias que são objeto de comércio internacional. Essas mercadorias são agrupadas em Seções, Capítulos e Subcapítulos que receberam títulos os mais concisos possíveis, indicando a categoria ou o tipo dos produtos que se encontram ali classificados. Em muitos casos, porém, foi materialmente impossível, em virtude da diversidade e da quantidade de mercadorias, englobá-las ou enumerá-las completamente nos títulos daqueles agrupamentos. II) A Regra 1 começa, portanto, por determinar que os títulos “têm apenas valor indicativo”. Desse fato não resulta nenhuma conseqüência jurídica quanto à classificação. III) A segunda parte da Regra prevê que se determina a classificação: a) de acordo com os textos das posições e das Notas de Seção ou de Capítulo, e b) quando for o caso, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas, de acordo com as disposições das Regras 2, 3, 4 e 5. IV) A disposição III) a) é suficientemente clara, e numerosas mercadorias podem classificar-se na Nomenclatura sem que seja necessário recorrer às outras Regras Gerais Interpretativas (por exemplo, os cavalos vivos (posição 01.01), as preparações e artigos farmacêuticos especificados pela Nota 4 do Capítulo 30 (posição 30.06)). V) Na disposição III) b) a frase “desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas”, destina-se a precisar, sem deixar dúvidas, que os dizeres das posições e das Notas de Seção ou de Capítulo prevalecem, para a determinação da classificação, sobre qualquer outra consideração. Por exemplo, no Capítulo 31, as Notas estabelecem que certas posições só englobam determinadas mercadorias. Conseqüentemente, o alcance dessas posições não pode ser ampliado para englobar mercadorias que, de outra forma, aí se incluiriam por aplicação da Regra 2 b). (sem destaques no texto original) Como já mencionado, o ilustre Auditor Fiscal entendeu que as carnes devem ser classificadas no capítulo 16 do Sistema Harmonizado, com enquadramento na posição da NCM 16.02. Ocorre que o Capítulo 16 pertence à Seção IV, que trata de PRODUTOS DAS INDÚSTRIAS ALIMENTARES; BEBIDAS, LÍQUIDOS ALCOÓLICOS E VINAGRES; TABACO E SEUS SUCEDÂNEOS MANUFATURADOS. Fl. 4784DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 62 As Considerações Gerais do Capítulo 16 estão descritas da seguinte forma: O presente Capítulo compreende as preparações comestíveis de carne, miudezas (por exemplo: pés, peles, corações, línguas, fígados, tripas, estômagos) ou de sangue, bem como as de peixes (incluídas as peles), crustáceos, moluscos ou outros invertebrados aquáticos. O Capítulo 16 abrange os produtos desta espécie que tenham sido submetidos a uma elaboração de natureza diferente daquelas previstas nos Capítulos 2, 3 ou na posição 05.04 e que se apresentem: 1) Transformados em enchidos de qualquer espécie. 2) Cozidos por quaisquer processos: a água ou ao vapor, grelhados, fritos ou assados, com exceção, porém, dos peixes defumados, que podem ter sido cozidos antes ou durante a defumação (posição 03.05), dos crustáceos simplesmente cozidos em água ou vapor, mas que conservem ainda a casca (posição 03.06) e das farinhas, pós e pellets, obtidos a partir de peixes, crustáceos, moluscos ou de outros invertebrados aquáticos, cozidos (posições 03.05, 03.06 e 03.07, respectivamente). 3) Preparados ou conservados, na forma de extratos, sucos ou em vinha- d'alhos, preparados a partir de ovos de peixe tais como o caviar e seus sucedâneos, simplesmente revestidos de pasta ou de pão ralado (panados), trufados, temperados (por exemplo, com sal e pimenta), etc. 4) Finamente homogeneizados, apenas com produtos do presente Capítulo (carne, miudezas, sangue, peixe ou crustáceos, moluscos ou outros invertebrados aquáticos, preparados ou conservados). Estas preparações homogeneizadas podem conter uma pequena quantidade de fragmentos visíveis de carne, peixe etc., bem como uma pequena quantidade de ingredientes para tempero, conservação ou outros fins. A homogeneização propriamente dita não é suficiente para tornar um produto uma preparação do Capítulo 16. (sem destaques no texto original) A posição 16.02 está definida com o seguinte texto: “Outras preparações e conservas de carne, miudezas ou de sangue”, ou seja, produtos que se enquadram em preparações alimentícias, do tipo “refeições prontas”, o que não representa o estado “in natura”, refrigerada ou congelada. Por sua vez, a Recorrente defende que a classificação fiscal dos produtos “carnes” enquadram-se no Capítulo 2, sujeitas à alíquota zero, uma vez que são temperadas com sal, condimentos e especiarias para conservação, sem adição de substâncias que alterariam a sua natureza química, mantendo seu estado “in natura". A classificação fiscal adotada pela Recorrente compreende as posições da NCM nº 0202.3000, 0203.2900, 0207.1200, 0207.1400, 0207.2500 e 0207.2700, com os seguintes desdobramentos: Fl. 4785DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 63 NCM DESCRIÇÃO 0202-30-00 Seção I - Animais vivos e produtos do reino animal Capítulo 02 - Carnes e miudezas, comestíveis Posição 0202 - Carnes de animais da espécie bovina, congeladas 2 Subposição 0202.30.00 - Desossadas 0203-29-00 Seção I - Animais vivos e produtos do reino animal Capítulo 02 - Carnes e miudezas, comestíveis Posição 0203 - Carnes de animais da espécie suína, frescas, refrigeradas ou congeladas. Subposição 0203.29.00 – Congeladas; Outras. 0207.1200 Seção I - Animais vivos e produtos do reino animal Capítulo 02 - Carnes e miudezas, comestíveis Posição 0207 - Carnes e miudezas, comestíveis, frescas, refrigeradas ou congeladas, das aves da posição 01.05. Subposição 0207.1200 - Não cortadas em pedaços, congeladas. 0207.1400 Seção I - Animais vivos e produtos do reino animal Capítulo 02 - Carnes e miudezas, comestíveis Posição 0207 - Carnes e miudezas, comestíveis, frescas, refrigeradas ou congeladas, das aves da posição 01.05. Subposição 0207.1400 - Pedaços e miudezas, congelados. 0207.2500 Seção I - Animais vivos e produtos do reino animal Capítulo 02 - Carnes e miudezas, comestíveis Posição 0207 - Carnes e miudezas, comestíveis, frescas, refrigeradas ou congeladas, das aves da posição 01.05. Subposição 0207.2500 - Não cortadas em pedaços, 2 Posição 0202 - Compreende as carnes congeladas dos animais da espécie bovina, domésticos ou selvagens, incluídos na posição 01.02. Fl. 4786DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 64 congeladas 0207.2700 Seção I - Animais vivos e produtos do reino animal Capítulo 02 - Carnes e miudezas, comestíveis Posição 0207 - Carnes e miudezas, comestíveis, frescas, refrigeradas ou congeladas, das aves da posição 01.05. Subposição 0207.2700 - Pedaços e miudezas, congelados. Constam nas Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias – NESH, aprovado pela IN RFB nº 807/2008, com as alterações da IN RFB nº 1.260/2012, vigente à época dos fatos, os seguintes esclarecimentos: Capítulo 2 Carnes e miudezas, comestíveis Nota. 1.- O presente Capítulo não compreende: a) no que diz respeito às posições 02.01 a 02.08 e 02.10, os produtos impróprios para a alimentação humana; b) as tripas, bexigas e estômagos, de animais (posição 05.04), nem o sangue animal (posições 05.11 ou 30.02); c) as gorduras animais, exceto os produtos da posição 02.09 (Capítulo 15). CONSIDERAÇÕES GERAIS O presente Capítulo compreende as carnes em carcaças (isto é, o corpo do animal com ou sem cabeça), em meias-carcaças (uma carcaça cortada em duas no sentido do comprimento), em quartos, em peças, etc., as miudezas e as farinhas e pós de carne ou de miudezas de quaisquer animais (exceto peixes, crustáceos, moluscos e outros invertebrados aquáticos do Capítulo 3), próprios para a alimentação humana. A carne e as miudezas, impróprias para a alimentação humana, estão excluídas (posição 05.11). As farinhas, pós e pellets, de carne ou de miudezas, impróprios para a alimentação humana, estão igualmente excluídos (posição 23.01). (...) Distinção entre as carnes e miudezas deste Capítulo e os produtos do Capítulo 16. Apenas se compreendem neste Capítulo as carnes e miudezas que se apresentem nas seguintes formas, mesmo que tenham sido submetidas a um Fl. 4787DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 65 ligeiro tratamento térmico pela água quente ou pelo vapor (por exemplo, escaldadas ou descoradas), mas não cozidas: 1) Frescas (isto é, no estado natural), mesmo salpicadas de sal com o fim de lhes assegurar a conservação durante o transporte. 2) Refrigeradas, isto é, resfriadas geralmente até cerca de 0°C, sem atingir o congelamento. 3) Congeladas, isto é, refrigeradas abaixo do seu ponto de congelamento, até o congelamento completo. 4) Salgadas ou em salmoura, ou ainda secas ou defumadas. As carnes e miudezas levemente polvilhadas com açúcar ou salpicadas com água açucarada incluem-se também neste Capítulo. As carnes e miudezas apresentadas sob as formas descritas nos números 1) a 4) acima incluem-se neste Capítulo, mesmo que tenham sido tratadas com enzimas proteolíticas (por exemplo, a papaína), no intuito de as tornar tenras, e mesmo que se apresentem desmanchadas, cortadas em fatias ou picadas . Por outro lado, as misturas ou combinações de produtos que se classificam em diferentes posições do Capítulo (as aves da posição 02.07 guarnecidas de toucinho da posição 02.09, por exemplo) continuam incluídas no presente Capítulo. As carnes e miudezas, pelo contrário, incluem-se no Capítulo 16, quando se apresentem: a) Em enchidos e produtos semelhantes, cozidos ou não, da posição 16.01. b) Cozidas de qualquer maneira (cozidas na água, grelhadas, fritas ou assadas), ou preparadas de outro modo, ou conservadas por qualquer processo não mencionado neste Capítulo, compreendendo as simplesmente revestidas de pasta ou de farinha de pão (panados), as trufadas ou temperadas (por exemplo, com sal e pimenta), incluindo a pasta de fígado (posição 16.02). (...) 02.02 - Carnes de animais da espécie bovina, congeladas. 0202.10 - Carcaças e meias-carcaças 0202.20 - Outras peças não desossadas 0202.30 - Desossadas Esta posição abrange as carnes congeladas dos animais da espécie bovina, domésticos ou selvagens, incluídos na posição 01.02. 02.03 - Carnes de animais da espécie suína, frescas, refrigeradas ou congeladas. 0203.1 - Frescas ou refrigeradas: 0203.11 - - Carcaças e meias-carcaças 0203.12 - - Pernas, pás e respectivos pedaços, não desossados 0203.19 - - Outras 0203.2 - Congeladas: 0203.21 - - Carcaças e meias-carcaças 0203.22 - - Pernas, pás e respectivos pedaços, não desossados 0203.29 - - Outras Fl. 4788DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 66 Esta posição abrange as carnes, frescas, refrigeradas ou congeladas, dos porcos das espécies domésticas ou selvagens (javalis, por exemplo). Inclui também o toucinho entremeado (isto é, o que apresenta ‘camadas de carne) e o toucinho com uma camada de carne aderente. (...) 02.07 - Carnes e miudezas, comestíveis, frescas, refrigeradas ou congeladas, das aves da posição 0207.1 - De galos ou de galinhas: 0207.11 - - Não cortadas em pedaços, frescas ou refrigeradas 0207.12 - - Não cortadas em pedaços, congeladas 0207.13 - - Pedaços e miudezas, frescos ou refrigerados 0207.14 - - Pedaços e miudezas, congelados 0207.2 - De peruas ou de perus: 0207.24 - - Não cortadas em pedaços, frescas ou refrigeradas 0207.25 - - Não cortadas em pedaços, congeladas 0207.26 - - Pedaços e miudezas, frescos ou refrigeradosLu200619@ 0207.27 - - Pedaços e miudezas, congelados 0207.3 - De patos, de gansos ou de galinhas-d'angola (pintadas*): 0207.32 - - Não cortadas em pedaços, frescas ou refrigeradas 0207.33 - - Não cortadas em pedaços, congeladas 0207.34 - - Fígados gordos (“foies gras”), frescos ou refrigerados 0207.35 - - Outras, frescas ou refrigeradas 0207.36 - - Outras, congeladas A Recorrente trouxe aos autos Relatórios Técnicos emitidos pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT), relacionados a produtos crus fabricados pela Requerente. Tomando como exemplo o Relatório Técnico nº 000.286/20, relativo ao produto frango inteiro temperado congelado (sem miúdos), destaco as seguintes conclusões: Fl. 4789DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 67 Da mesma forma, consta no Relatório Técnico nº 000.290/20, relativo ao produto Carne Temperada Congelada de Suíno (Lombo), a seguinte conclusão: Fl. 4790DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 68 Igualmente consta nos autos RELATÓRIO EXPLICATIVO DAS OPERAÇÕES RELATIVAS ÀS LINHAS DE PRODUÇÃO DA BRF S.A., emitido pela Tyno Consultoria, no qual é possível verificar o processo industrial ocorrido sobre os frangos após a sangria (ITEM 1.2.4 do Relatório Tyno Consultoria). Vejamos: (...) (...) (...) Fl. 4791DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 69 (...) (...) Fl. 4792DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 70 (...) (...) (...) (...) (...) Fl. 4793DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 71 Ou seja, tanto o INT quanto a Tyno Consultoria demonstraram que o produto analisado não passou por processo de cozimento, na forma indicada para a Posição 16.02, o que afasta o Capítulo 16 sobre os itens em análise. Outrossim, cumpre observar que o NCM 1602.50.00 pertence à PREPARAÇÃO E CONSERVA DE CARNE DA ESPÉCIE BOVINA. A título de exemplos de produtos incluídos na Posição 16.02, vejamos as seguinte Soluções de Consultas referentes ao mesmo Código NCM: SOLUÇÃO DE CONSULTA DIANA/SRRF10 Nº 9, DE 30 DE JANEIRO DE 2014: ASSUNTO: Classificação de Mercadorias EMENTA: Código TIPI: 1602.50.00 Mercadoria: Carne bovina cozida em vapor, desidratada, cortada em cubos, própria para consumo humano, do tipo utilizada na preparação de alimentos DISPOSITIVOS LEGAIS: RGI 1 (texto da posição 16.02) e 6 (texto da subposição 1602.50) da Tipi aprovada pelo Decreto nº 7.660, de 2011. (sem destaque no texto original) SOLUÇÃO DE CONSULTA DIANA/SRRF10 Nº 10, DE 30 DE JANEIRO DE 2014: ASSUNTO: Classificação de Mercadorias EMENTA: Código TIPI: 1602.50.00 Mercadoria: Carne bovina cozida em vapor (76%), desidratada, cortada em cubos, contendo proteína texturizada de soja, fécula de batata e aditivos, própria para consumo humano, do tipo utilizada na preparação de alimentos. DISPOSITIVOS LEGAIS: RGI 1 (texto da posição 16.02) e 6 (texto da subposição 1602.50) da Tipi aprovada pelo Decreto nº7.660, de 2011. (sem destaque no texto original) SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 98170, DE 31 DE AGOSTO DE 2022: Assunto: Classificação de Mercadorias Código NCM: 1602.50.00 Mercadoria: Preparação destinada à alimentação humana, constituída pela mistura e cozimento de trigo, água, leite, margarina e sal, com posterior sova e modelagem na forma de semicírculo, com recheio de carne (mais de 20%) e requeijão cremoso. O semicírculo assim obtido, denominado “risole de carne”, é mergulhado em água, empanado com farinha de rosca, congelado e apresentado em embalagens personalizadas de 1 kg. Dispositivos Legais: RGI 1 c/c Nota 1, ”a”, do Capítulo 19 e RGI 6, da NCM constante da TEC, aprovada pela Res. Gecex nº 272, de 2021, e da Tipi, Fl. 4794DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 72 aprovada pelo Dec. nº 11.158, de 2022, e subsídios extraídos das Nesh, aprovadas pelo Dec. nº 435, de 1992, e consolidadas pela IN RFB nº 1.788, de 2018, com atualizações posteriores. (sem destaque no texto original) SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 98304, DE 08 DE DEZEMBRO DE 2022: Assunto: Classificação de Mercadorias Código NCM: 1602.50.00 Mercadoria: Empanada (pastel de forno) congelada, para consumo humano após cozimento, composta de farinha de trigo, gordura vegetal, água, sal e açúcar, ovo pasteurizado, corante amarelo gema, farinha de rosca e flocos de milho, recheada com carne moída bovina (38%, em peso) cozida ao molho de tomate, apresentada em pacote com dez unidades de 130 g cada, denominada "empanada bolonhesa". Dispositivos Legais: RGI 1 (Nota 1, 'a', do Capítulo 19 e Nota 2 do Capítulo 16) e RGI 6, da NCM constante da TEC, aprovada pela Res. Gecex nº 272, de 2021, e da Tipi, aprovada pelo Dec. nº 11.158, de 2022. (sem destaque no texto original) Por sua vez, o NCM 1602.41.00 pertence à PERNAS E RESPECTIVOS PEDAÇOS. Vejamos as seguinte Soluções de Consultas referentes ao mesmo Código NCM: SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 98.093, DE 18 DE ABRIL DE 2018: ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Código NCM: 1602.49.00 Mercadoria: Pele de suíno cortada em pequenas tiras, salgada e frita, apresentada pronta ao consumo humano em embalagem plástica contendo 60 g, comercialmente denominada “torresmo suíno”. Dispositivos Legais: RGI/SH 1 (texto da posição 16.02) e RGI/SH 6 (textos das subposições 1602.4 e 1602.49), da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), constante da TEC, aprovada pela Resolução Camex nº 125, de 2016, e da Tipi, aprovada pelo Decreto nº 8.950, de 2016, e subsídios extraídos das Nesh, aprovadas pelo Decreto nº 435, de 1992, e atualizadas pela IN RFB nº 807, de 2008, e alterações posteriores. (sem destaque no texto original) Destaco as seguintes considerações que sustentam os fundamentos da Solução de Consulta em referência: 8. A Nota 1 do Capítulo 16 dispõe que este Capítulo não compreende as carnes e miudezas preparados ou conservados pelos processos descritos no Capítulo 2: Nota 1 do Capítulo 16. Fl. 4795DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 73 1.- O presente Capítulo não compreende as carnes, miudezas, peixes, crustáceos, moluscos e outros invertebrados aquáticos, preparados ou conservados pelos processos enumerados nos Capítulos 2, 3 ou na posição 05.04. 9. Por sua vez, as Considerações Gerais das NESH do Capítulo 2 dispõem que as carnes e miudezas (que é o caso das peles comestíveis) não se incluem neste Capítulo, mas, no Capítulo 16, quando se apresentem cozidas de qualquer maneira – cozidas na água, grelhadas, fritas ou assadas (posição 16.02). “As carnes e miudezas, pelo contrário, incluem-se no Capítulo 16, quando se apresentem: a) Em enchidos e produtos semelhantes, cozidos ou não, da posição 16.01. b) Cozidas de qualquer maneira (cozidas na água, grelhadas, fritas ou assadas), ou preparadas de outro modo, ou conservadas por qualquer processo não mencionado neste Capítulo, compreendendo as simplesmente revestidas de massa ou de pão ralado (panados), as trufadas ou temperadas (por exemplo, com sal e pimenta), incluindo a pasta de fígado (posição 16.02).” (grifou-se) 10. Desta forma, a pele de suíno salgada e frita objeto da presente consulta se classifica, por aplicação da RGI/SH 1, na posição 16.02 cujo texto é: Outras preparações e conservas de carne, de miudezas ou de sangue. E esta posição apresenta os seguintes desdobramentos em nível de subposições. 16.02 Outras preparações e conservas de carne, de miudezas ou de sangue. 1602.10.00 - Preparações homogeneizadas 1602.20.00 - De fígados de quaisquer animais 1602.3 - De aves da posição 01.05: 1602.31.00 -- De peruas e de perus 1602.32 -- De aves da espécie Gallus domesticus 1602.39.00 -- Outras 1602.4 - Da espécie suína: 1602.41.00 -- Pernas e respectivos pedaços 1602.42.00 -- Pás e respectivos pedaços 1602.49.00 -- Outras, incluindo as misturas 1602.50.00 - Da espécie bovina 1602.90.00 - Outras, incluindo as preparações de sangue de quaisquer animais 11. Como se trata de uma preparação de miudeza (pele) da espécie suína, se enquadra na subposição de primeiro nível 1602.4 e, nesta, na residual 1602.49 – Outras, incluindo as misturas. Não estando tal subposição subdividida em itens ou subitens, a classificação do produto se encerra no código NCM 1602.49.00. Portanto, resta claro que a Posição 16.02, adotada pela douta Fiscalização, versa sobre preparações e conservas, abrangendo produtos como carne bovina cozida a vapor, rissoles de carne, empanada, torresmo, dentre outros, como demonstram as Soluções de Consulta acima citadas. Fl. 4796DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 74 Por tais razões, deve ser acatada a classificação fiscal adotada pela Contribuinte e, neste ponto, dar provimento ao recurso para manter a classificação das carnes no Capítulo 02 do Sistema Harmonizado. 2.5.2. Do Kit Felicidade (CHESTER) Perdigão Com relação à classificação fiscal do Kit Felicidade (CHESTER) Perdigão e Pão de queijo e Coxinha de Frango, peço vênia para reproduzir os fundamentos do r. voto condutor do v. Acórdão nº 3402-009.900, de relatoria do ilustre Conselheiro Lázaro Antônio Souza Soares, proferido em julgamento ao PAF nº 11516.722531/2017-10, da mesma Contribuinte, cujas razões foram acompanhadas por esta relatora: V.2 DO KIT FELICIDADE (CHESTER) PERDIGÃO E OUTROS Alega o Recorrente que a classificação fiscal por ele adotada diz respeito ao produto principal que compõe o kit, com alguns complementos para manutenção do produto até o seu consumidor final (sal extra fino, água, glicose milho, tripolifostato sódico, glutamato monossódico, etc.), das embalagens e acessórios que lhe dão sustentação, (como o filme strech, ribbon, grampo alumínio, adesivo, injetável alça) e para o transporte (contoneira papel), de modo que não faz sentido o entendimento de que cada componente do produto tenha uma classificação fiscal diferente. Sustenta ainda que estes kits nada mais são do que os produtos in natura com uma embalagem de apresentação diferenciada para datas especiais, como o Natal, por exemplo, tanto que a produção destes kits concentra-se no final do ano (no caso em análise, no 3º trimestre/2012) para comercialização nas datas festivas de fim de ano. As bolsas térmicas compõe os referidos kits e servem como embalagem do produto, não devendo ter classificação específica (NCM 4202.92.00) como sustenta a Fiscalização. Os auditores-fiscais, por outro lado, fundamentaram a imputação nos seguintes termos: Verifica-se que KIT FELICIDADE (CHESTER) PERDIGAO descreve um conjunto de materiais que não se enquadram na condição de sortido para venda a retalho e sim em um conjunto de produtos que devem ter classificação fiscal individual, porque o item 158367, BOLSA TERM TIRACOLO 430X320X120MM PERD, trata-se de sacola térmica que não se constitui, nos termos da RGI/SH nº 5, uma embalagem do tipo normalmente utilizado com as mercadorias que ora acondiciona. Trata-se de um artigo reutilizável e que, no conjunto, se destina à estocagem temporária dos produtos, tendo capacidade, segundo as dimensões fornecidas, para mais de 16 litros. Desta forma, deve seguir regime próprio, cabendo classificá-la na posição 42.02 que compreende, entre outros, as bolsas, sacos, sacolas e artigos semelhantes, confeccionadas de folhas de plástico. (...) Fl. 4797DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 75 Assim, CHESTER INTEIRO ELAB (CHT), com os temperos que fazem parte DESTE produto, classifica-se na posição 1602.32.00 e a sacola térmica, na posição 4202.92.00. Os demais kits não foram informados na planilha Excel. A respeito de kits contendo aves, carnes e sacolas térmicas leia-se a Solução de Consulta nº 138 - SRRF/9ª RF/Diana, de 5 de junho de 2008, cuja ementa foi transcrita adiante, que trata de situação similar. Sem razão o Recorrente. Vejamos o que consta da RGI 5 e de suas respectivas notas explicativas: REGRA 5 Além das disposições precedentes, as mercadorias abaixo mencionadas estão sujeitas às Regras seguintes: a) Os estojos para câmeras fotográficas, instrumentos musicais, armas, instrumentos de desenho, joias e artigos semelhantes, especialmente fabricados para conterem um artigo determinado ou um sortido, e suscetíveis de um uso prolongado, quando apresentados com os artigos a que se destinam, classificam- se com estes últimos, desde que sejam do tipo normalmente vendido com tais artigos. Esta Regra, todavia, não diz respeito aos artigos que confiram ao conjunto a sua característica essencial. b) Sem prejuízo do disposto na Regra 5 a), as embalagens que contenham mercadorias classificam-se com estas últimas quando sejam do tipo normalmente utilizado para o seu acondicionamento. Todavia, esta disposição não é obrigatória quando as embalagens sejam claramente suscetíveis de utilização repetida. NOTA EXPLICATIVA REGRA 5 a) (Estojos e artigos semelhantes) I) A presente Regra deve ser interpretada como de aplicação exclusiva aos recipientes (receptáculos) que, simultaneamente: 1) Sejam especialmente fabricados para receber um determinado artigo ou sortido, isto é, sejam preparados de tal forma que o artigo contido se acomoda exatamente no seu lugar, podendo alguns recipientes (receptáculos), além disso, ter a forma do artigo que devam conter; 2) Sejam suscetíveis de um uso prolongado, isto é, sejam concebidos, especificamente, no que se refere à resistência ou ao acabamento, para ter uma duração de utilização comparável a do conteúdo. Estes recipientes (receptáculos) servem, frequentemente, para proteger o artigo a que se referem fora dos momentos de utilização (por exemplo, transporte, armazenamento, etc.). Estas características permitem diferenciá-los das simples embalagens; 3) Sejam apresentados com os artigos aos quais se referem, quer estes estejam ou não acondicionados separadamente, para facilitar o transporte. Os recipientes (receptáculos) apresentados isoladamente seguem o seu próprio regime; 4) Sejam do tipo normalmente vendido com os mencionados artigos; 5) Não confiram ao conjunto a sua característica essencial. Fl. 4798DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 76 II) Como exemplos de recipientes (receptáculos) apresentados com os artigos aos quais se destinam e cuja classificação é determinada por aplicação da presente Regra, citam-se: 1) Os estojos para joias (guarda-joias) (posição 71.13); 2) Os estojos para aparelhos ou máquinas de barbear elétricos (posição 85.10); 3) Os estojos para binóculos, estojos para miras telescópicas (posição 90.05); 4) As caixas e estojos para instrumentos musicais (posição 92.02, por exemplo); 5) Os estojos para espingardas (posição 93.03, por exemplo). III) Pelo contrário, como exemplos de recipientes (receptáculos) que não entram no campo de aplicação desta Regra, citam-se as caixas de chá, de prata, que contenham chá ou as tigelas decorativas de cerâmica, que contenham doces. REGRA 5 b) (Embalagens) IV) A presente Regra estabelece a classificação das embalagens do tipo normalmente utilizado para as mercadorias que contêm. Contudo, esta disposição não é obrigatória quando tais embalagens são claramente suscetíveis de utilização repetida, por exemplo, certos tambores metálicos ou recipientes de ferro ou de aço para gases comprimidos ou liquefeitos. V) Dado que a presente Regra está subordinada à aplicação das disposições da Regra 5 a), a classificação dos estojos e recipientes (receptáculos) semelhantes, do tipo mencionado na Regra 5 a), rege-se pelas disposições desta última Regra. O próprio contribuinte reconhece que a sacola termina não é um recipiente/receptáculo do tipo normalmente vendido com alimentos como o Chester. Tanto que em seu recurso afirma literalmente que esta sacola é uma “embalagem de apresentação diferenciada para datas especiais, como o Natal, por exemplo, tanto que a produção destes kits concentra-se no final do ano”. As autoridades fiscais também fundamentaram suas conclusões na Solução de Consulta nº 138/2008, com Ementa a seguir transcrita: “Solução de Consulta nº 138 - SRRF/9ª RF/Diana, de 5 de junho de 2008 ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Código TIPI - Mercadoria 1601.00.00 Lingüiça de carne suína, apresentada embalada a vácuo em pacotes de 240g, componente de conjunto não caracterizado como "sortido" denominado "Kit Ave Maria". 1602.32.00 Frango temperado e congelado, peso aproximado de 2,9 a 3,1 kg, componente de conjunto não caracterizado como "sortido" denominado "Kit Ave Maria". 4202.92.00 Sacola térmica para acondicionamento de produtos alimentícios, com superfície exterior de PVC (policloreto de vinila) laminado, com alças, capacidade Fl. 4799DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 77 para 13 litros, componente de conjunto não caracterizado como "sortido" denominado "Kit Ave Maria". Dispositivos Legais: RGI/SH 1 (textos das posições 16.01, 16.02 e 42.02) e 6 (textos das subposições 1602.3, 1602.32, 4202.9 e 4202.92) da Tabela de Incidência do IPI/TIPI, aprovada pelo Dec. nº 6.006/2006, subsídios NESH, aprovadas pelo Dec. nº 435/92 e atualizadas pela IN/RFB nº 807/2008.” Pelo exposto, voto por negar provimento ao pedido. Não obstante a classificação fiscal acima adotada e, considerando que o Relatório Fiscal que motivou o auto de infração teve por conclusão o enquadramento na RGI/SH 1 (textos das posições 16.01, 16.02 e 42.02) e 6 (textos das subposições 1602.3, 1602.32, 4202.9 e 4202.92), quando deveria ter adotado a RGI5, cabe ser afastado o lançamento de ofício neste ponto. 2.5.3. Da classificação das tortas. A DRJ manteve a exigência do PIS e da COFINS sobre alguns produtos que, no ponto de vista da Autoridade Fiscal, concluindo que foram incorretamente classificados na posição 1902 da NCM, sujeitos à alíquota zero, nos termos do art. 1º, XVIII, da Lei nº 10.925/0418: Igualmente com relação a tais itens, peço vênia para reproduzir os fundamentos do r. voto condutor do v. Acórdão nº 3402-009.900, acima citado: Vejamos as classificações propostas pelo contribuinte (NCM 1902.11.00) e pela Receita Federal (NCM 1901.20.00): Em relação às tortas, por tudo quanto já exposto no tópico antecedente, resta bastante óbvio que não se enquadram na classificação NCM 1902.20.00, cujo texto da posição 19.02 é “Massas alimentícias, mesmo cozidas ou recheadas (de carne ou de outras substâncias) ou preparadas de outro modo, tais como espaguete, macarrão, aletria, lasanha, nhoque, ravioli e canelone; cuscuz, mesmo preparado”. Ora, uma torta de iogurte com palmito e catupiry não é uma massa alimentícia “tal como espaguete, macarrão, aletria, lasanha, nhoque, ravioli e canelone ou cuscuz”. Logo, não há como ser classificada no código NCM 1902.20.00 - Massas alimentícias recheadas (mesmo cozidas ou preparadas de outro modo). A classificação fiscal correta é justamente aquela proposta pelas autoridades fiscais, na posição 19.05, cujo texto é “Produtos de padaria, pastelaria ou da indústria de bolachas e biscoitos, mesmo adicionados de cacau; hóstias, cápsulas vazias para medicamentos, obreias, pastas secas de farinha, amido ou fécula, em folhas, e Fl. 4800DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 78 produtos semelhantes”. Isso porque, ao contrário do que afirma o Recorrente, as tortas são produtos de pastelaria. Vejamos a definição do termo “pastelaria” em links de dicionários acessíveis na internet: i) https://www.meudicionario.org/pastelaria substantivo feminino 1. ofício de pasteleiro 2. conjunto de iguaria feitos com massa de farinha recheada 3. estabelecimento onde se confeccionam e/ou vendem e consomem a mercadoria feita pelo pasteleiro (pastéis, empadas, tortas, etc) ii) https://edukavita.blogspot.com/2013/02/pastelaria.html 2. Definição de pastelaria Pastelaria refere-se ao estabelecimento onde são produzidos ou comercializados diferentes tipos de alimentos doces, como bolos, tortas, bolos, faturas e outros. iii) https://oquee.space/dicionario/pastelaria/ 1. Conjunto de bolos, doces ou outras iguarias doces ou salgadas feitas com massa de farinha (ex.: pastelaria doce; pastelaria salgada; a pastelaria exposta incluía bolos e salgados). 2. Arte, actividade ou ofício de confeccionar bolos, doces e outras iguarias feitas com massa de farinha (ex.: curso de pastelaria). 3. Estabelecimento de pasteleiro ou de quem faz bolos, doces e outras iguarias feitas com massa de farinha. iv) https://www.lexico.pt/pastelaria/ subst. f. 1. estabelecimento onde se fazem e/ou vendem bolos: comprar bolos na pastelaria. v) https://michaelis.uol.com.br/palavra/ne2n1/pastelaria/ 1 Conjunto de doces e salgados preparados com massa variada, prontos para o consumo. 2 Estabelecimento onde se fazem e/ou vendem esses produtos; pasteleiro, pâtisserie. vi) https://www.dicio.com.br/pastelaria/ substantivo feminino Pasta ou massa trabalhada, ornamentada de formas diversas e assada. [Por Extensão] Pastéis, tortas, empadas, massas cozidas em geral. Loja, mercadoria do pasteleiro. vii) https://dicionario.priberam.org/pastelaria substantivo feminino Fl. 4801DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 79 1. Conjunto de bolos, doces ou outras iguarias doces ou salgadas feitas com massa de farinha (ex.: pastelaria doce; pastelaria salgada; a pastelaria exposta incluía bolos e salgados). 2. Arte, atividade ou ofício de confeccionar bolos, doces e outras iguarias feitas com massa de farinha (ex.: curso de pastelaria). 3. Estabelecimento de pasteleiro ou de quem faz bolos, doces e outras iguarias feitas com massa de farinha. 4. Local onde se pode tomar uma refeição ligeira. A NESH corrobora esse entendimento em diversas passagens, como por exemplo: i) Considerações gerais sobre o Capítulo 20 Estão excluídos deste Capítulo: (...) b) Os produtos de pastelaria (por exemplo, as tortas de fruta) que estão incluídos na posição 19.05. ii) NESH da posição 82.15 - Colheres, garfos, conchas, escumadeiras, pás para tortas, facas especiais para peixe ou para manteiga, pinças para açúcar e artigos semelhantes. A presente posição compreende especialmente: (...) 4) As pás para peixe, as pás para pastelaria (para tortas, etc.), para morangos, aspargos, sorvetes, etc. iii) NESH da posição 84.38, item I.- MÁQUINAS E APARELHOS PARA AS INDÚSTRIAS DE PANIFICAÇÃO, PASTELARIA, BOLACHAS E BISCOITOS 7) Os aparelhos de pastelaria para dosar massas ou ingredientes nas formas, para fabricação de tortas, bolos, doces, etc. Além disso, o item 10 da NESH da posição 19.05 especifica como se compõem os chamados “produtos de pastelaria”: A) Produtos de padaria, pastelaria ou da indústria de bolachas e biscoitos, mesmo adicionados de cacau. (...) Encontram-se compreendidos na presente posição: (...) 10) Os produtos de pastelaria, em cuja composição entram substâncias muito variadas: farinhas, féculas, manteiga ou outras gorduras, açúcar, leite, creme-de- leite (nata*), ovos, cacau, chocolate, café, mel, fruta, licores, aguardente, albumina, queijo, carne, peixe, aromatizantes, leveduras ou outros fermentos, etc. Considerando as mesmas razões detidamente demonstradas no r. voto acima, mantenho as glosas com relação às tortas. Fl. 4802DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 80 3. Das infrações relacionadas à EFD-Contribuições Sendo assim, com base na Lei nº 13.670/2018, imputou à Recorrente a multa do art. 12, inciso II, da Lei 8.218, de 1991, para o caso da escrituração com informações inexatas, omitidas ou incompletas”, por entender a fiscalização que não se tratava de ajustes. Por sua vez, a recorrente defende-se ao alegar que não se verificou os pressupostos da materialidade de aplicação da multa, pois a maneira como foi formalizado o creditamento extemporâneo não caracterizou o tipo apto à subsunção de incidência da penalidade. Prevê o artigo 57 da Medida Provisória nº 2.158-35/2001, regulamentado pelos artigos 11 e 12 da Lei nº 8.212/1991, a imputação de multa regulamentar pelo cumprimento das obrigações acessórias com incorreções ou omissões. Veja-se que, a imputação da multa regulamentar se dá pela apresentação declaração, demonstrativo ou escrituração digital com incorreções ou omissões. Todavia, a Recorrente prestou informações EFD-Contribuições créditos extemporâneos, como Ajuste Oriundo de Outras Situações, Ajuste referente Crédito Extemporâneo de medicamentos e vacinas, o que no meu entender, demonstra a espontaneidade da Recorrente para prestação a informação. Sendo assim, não vislumbro nos autos pressupostos de materialidade para imputação da referida penalidade, pois os créditos extemporâneos aproveitados pela Recorrente decorreram da revisão de apurações anteriormente formalizadas por ela perante à RFB. Trata-se de uma questão de direito, a Recorrente entende que faz jus aos créditos extemporâneos; à autoridade fiscal cabia o instituto da glosa, que é materialização da ausência do direito pleiteado, não cabendo, portanto, a glosa e a aplicação da multa concomitantemente. Nesse sentido, não há requisitos autorizadores para manutenção da multa regulamentar imputada prevista no art. 12, II, da Lei 8.218/91. Por isso, voto por dar provimento ao presente tópico recursal. 4. Do pedido de Diligência A recorrente assinala que, por meio de prova pericial, será possível a demonstração da natureza de todos os insumos por ela utilizados, e notadamente, a essencialidade destes relativamente à consecução de seu processo produtivo, pleiteia a realização de diligência para a comprovação de suas alegações, e, por fim, formula quesitos. Nos termos do art. 18 do Decreto 70.235/72, “A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendê-las necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis”, já o art. 29 do mesmo diploma legal dispõe que “na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias”. Fl. 4803DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 81 Assim sendo, a diligência pode ser deferida ou determinada pela autoridade julgadora se houver dúvida acerca de questão controversa, ao passo que a perícia se presta para dirimir questão para a qual se exige conhecimento técnico especializado. No caso sob análise, entendo desnecessária a diligência ou perícia, na medida em que há elementos suficientes para análise e julgamento do pleito, bem como porque cabe à recorrente comprovar que determinados bens adquiridos ou serviços contratados caracterizam insumos, mediante a juntada de informações e, até a apresentação da impugnação, de documentos comprobatórios, de modo que não cabe diligência para produção de provas a cargo da recorrente. 5. Dispositivo Ante o exposto, rejeito as preliminares arguidas e, no mérito, dou provimento parcial ao Recurso Voluntário, para: a) Observados os requisitos legais para o aproveitamento dos créditos das contribuições não cumulativas, reverter as glosas relativas às despesas com: serviços de locação de empilhadeiras, guindastes e Munck; serviços de administração de vestiário; serviços portuários na importação; fretes contratados após da liberação (desembaraço) da mercadoria; cross docking, repaletização e locação de uniformes; b) reconhecer a possibilidade de aproveitamento dos créditos extemporâneos, independentemente de retificação de DACON, desde que os créditos não tenham sido utilizados em duplicidade; c) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 34 da Lei nº 12.058, de 2009, e do art. 1º, inciso XIX, alínea a, da Lei nº 10.925, de 2004, quando os produtos vendidos no mercado interno resultarem em NCM diversa dos produtos adquiridos; d) permitir a apuração de crédito presumido, nos termos do art. 56 da Lei nº 12.350, de 2010, quando os produtos forem vendidos para exportação; e) afastar o lançamento da Contribuição para o PIS e da COFINS relativo à omissão de receitas decorrentes de variação monetária de depósitos judiciais; f) Manter a classificação das carnes adotada pelo contribuinte; g) Afastar o lançamento sobre as glosas relativas ao “kit felicidade”; h) Afastar do lançamento de ofício a multa regulamentar imposta. É como voto. Assinado digitalmente Fl. 4804DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.736 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 17830.728519/2021-19 82 Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta Fl. 4805DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 10320.724070/2018-25
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 21 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Dec 29 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2013, 2016
NULIDADE DO LANÇAMENTO. HIPÓTESES.
Os arts. 59, incisos I e II, e 60 do Decreto 70.235/72 estabelecem que só são nulos os atos lavrados por pessoa/autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa.
MATÉRIA NÃO IMPUGNADA.
Considera-se não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada.
JUROS ATIVOS. MENSURAÇÃO PELA TAXA EFETIVA DE JUROS.
A regra contábil segundo a qual os juros ativos são mensurados pela taxa efetiva de juros é anterior à Lei n° 11.638/2007, logo a neutralidade tribu-tária não autoriza o contribuinte a excluir a respectiva receita do lucro líquido na apuração do lucro real. BAIXA DE DÍVIDA MEDIANTE DÉBITO EM CONTA DE SÓCIO E CRÉDITO EM PREJUÍZOS ACUMULADOS. NATUREZA JURÍDICA.
A baixa de dívida na investida, mediante débito em conta de sócio e crédito em prejuízos acumulados, tem, assim como o aporte de capital, natureza jurídica de investimento.
RECEITA DE DESAGIO. REALIZAÇÃO. ABSORÇÃO DE PREJUÍZOS A CONTA DE SOCIO.
Materializa-se o ganho potencial verificado na aquisição de titulo com deságio quando a obrigação, na qual passaram a ser partes investidora e investida, é extinta mediante absorção de prejuízos conta de sócio, procedimento que assemelha-se, em seus efeitos, ao aporte de capital pelo investidor.
LANÇAMENTOS REFLEXOS DE CSLL, PIS E COFINS. MESMA RATIO DECIDENDI.
No caso de lançamentos reflexos, aplica-se aos demais tributos a mesma ratio decidendi adotada para o IRPJ.
Numero da decisão: 1202-002.145
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício, rejeitar as preliminares de nulidade. Por maioria de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário para afastar a acusação de omissão de receitas financeiras referente aos juros efetivos incidentes sobre créditos cedidos pelo BNDESPAR. Vencido o Conselheiro Fellipe Honório Rodrigues da Costa que votou por dar provimento em maior extensão para: i) afastar a acusação de omissão de receita financeira pela falta de apropriação dos “juros efetivos” referentes aos créditos cedidos pelos Bancos Privados, Créditos Bonds e pelos Credores Operacionais; e: ii) afastar a acusação de omissão de ganho decorrente da realização de ativo financeiro; acompanhado nessa última questão pelo Conselheiro André Luis Ulrich Pinto. Designado o Conselheiro Maurício Novaes Ferreira para redigir o voto vencedor.
Assinado Digitalmente
Fellipe Honório Rodrigues da Costa – Relator
Assinado Digitalmente
Leonardo de Andrade Couto – Presidente
Assinado Digitalmente
Maurício Novaes Ferreira – Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mauricio Novaes Ferreira, Andre Luis Ulrich Pinto, Jose Andre Wanderley Dantas de Oliveira, Fellipe Honorio Rodrigues da Costa, Liana Carine Fernandes de Queiroz, Leonardo de Andrade Couto (Presidente).
Nome do relator: FELLIPE HONORIO RODRIGUES DA COSTA
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HIPÓTESES. Os arts. 59, incisos I e II, e 60 do Decreto 70.235/72 estabelecem que só são nulos os atos lavrados por pessoa/autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Considera-se não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada. JUROS ATIVOS. MENSURAÇÃO PELA TAXA EFETIVA DE JUROS. A regra contábil segundo a qual os juros ativos são mensurados pela taxa efetiva de juros é anterior à Lei n° 11.638/2007, logo a neutralidade tribu- tária não autoriza o contribuinte a excluir a respectiva receita do lucro líquido na apuração do lucro real. BAIXA DE DÍVIDA MEDIANTE DÉBITO EM CONTA DE SÓCIO E CRÉDITO EM PREJUÍZOS ACUMULADOS. NATUREZA JURÍDICA. A baixa de dívida na investida, mediante débito em conta de sócio e crédito em prejuízos acumulados, tem, assim como o aporte de capital, natureza jurídica de investimento. RECEITA DE DESAGIO. REALIZAÇÃO. ABSORÇÃO DE PREJUÍZOS A CONTA DE SOCIO. Materializa-se o ganho potencial verificado na aquisição de titulo com deságio quando a obrigação, na qual passaram a ser partes investidora e investida, é extinta mediante absorção de prejuízos conta de sócio, procedimento que assemelha-se, em seus efeitos, ao aporte de capital pelo investidor. Fl. 1719DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 2 LANÇAMENTOS REFLEXOS DE CSLL, PIS E COFINS. MESMA RATIO DECIDENDI. No caso de lançamentos reflexos, aplica-se aos demais tributos a mesma ratio decidendi adotada para o IRPJ. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício, rejeitar as preliminares de nulidade. Por maioria de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário para afastar a acusação de omissão de receitas financeiras referente aos juros efetivos incidentes sobre créditos cedidos pelo BNDESPAR. Vencido o Conselheiro Fellipe Honório Rodrigues da Costa que votou por dar provimento em maior extensão para: i) afastar a acusação de omissão de receita financeira pela falta de apropriação dos “juros efetivos” referentes aos créditos cedidos pelos Bancos Privados, Créditos Bonds e pelos Credores Operacionais; e: ii) afastar a acusação de omissão de ganho decorrente da realização de ativo financeiro; acompanhado nessa última questão pelo Conselheiro André Luis Ulrich Pinto. Designado o Conselheiro Maurício Novaes Ferreira para redigir o voto vencedor. Assinado Digitalmente Fellipe Honório Rodrigues da Costa – Relator Assinado Digitalmente Leonardo de Andrade Couto – Presidente Assinado Digitalmente Maurício Novaes Ferreira – Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Mauricio Novaes Ferreira, Andre Luis Ulrich Pinto, Jose Andre Wanderley Dantas de Oliveira, Fellipe Honorio Rodrigues da Costa, Liana Carine Fernandes de Queiroz, Leonardo de Andrade Couto (Presidente). Fl. 1720DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 3 RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário contra acórdão de nº 12-110.850 - 8ª Turma da DRJ/RJO, Sessão de 26 de setembro de 2019, que julgou parcialmente procedente a manifestação de inconformidade da contribuinte. Por bem descrever os fatos e por economia processual, adoto o relatório da decisão da DRJ, nos termos abaixo: I - INTRODUÇÃO Trata-se dos autos de infração de fls. 2-72, por meio dos quais são exigidos, para fatos geradores ocorridos nos anos-calendário de 2013 a 2016, R$ 113.848.431,64 em Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), R$ 40.987.657,00 em Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), R$ 7.191.333,40 em Contribuição para o PIS/PASEP, e R$ 33.198.096,91 em Contribuição para o Financiamento de Seguridade Social (Cofins), todos acrescidos de juros de mora. As multas não- isoladas foram de 75 e 150%, conforme quadro abaixo. Na apuração de IRPJ e CSLL de 2013, houve compensação de ofício de bases de cálculo negativas de R$ 11.812.618,87 e R$ 16.964.248,01 respectivamente. 2 No auto de infração de IRPJ, a Fiscalização acusa a Interessada de ter cometido as seguintes infrações: 3 Houve ainda a constituição de multas isoladas de R$ 59.611.036,20 e R$ 22.510.574,57 pela falta de recolhimento de estimativas de IRPJ e CSLL, respectivamente. II - TERMO DE VERIFICAÇÃO FISCAL 4 Os lançamentos e as reduções das bases de cálculo negativas foram motivados no Termo de Verificação Fiscal (TVF), em síntese, conforme excertos abaixo: Fl. 1721DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 4 II.1 – INTRODUÇÃO(...) II.3 - GANHO LÍQUIDO DECORRENTE DA REALIZAÇÃO DE ATIVO FINANCEIRO (SEÇÃO 5.2 DO TVF) 5 As detentoras de créditos financeiros em dólares americanos contra a Celpa, decorrentes da emissão de bonds (Créditos Bonds), optaram pela liquidação segundo as condições previstas na cláusula 7.7 do PRJ, aprovado em 01/09/2012, que previa a cessão do crédito mediante o pagamento de 17,5% do valor de face, nos seguintes termos: 6 O PRJ também previa que o direito creditório adquirido seria pago pela Celpa à Interessada da seguinte forma: 7 Conforme ata da reunião de diretoria da Interessada, realizada em 27/09/2013, a Celpa foi autorizada a baixar a parcela da dívida relativa a 82,5% do valor de face dos bonds, equivalente a R$ 433.741.924,69, mediante lançamento a débito da conta de sócios e a crédito de prejuízos acumulados. 8 A Fiscalização menciona que, segundo o diretor Eduardo Haiama, o valor baixado deveria ser pago pela Celpa, sem correção monetária, em 10 parcelas anuais, a partir de 2034, possuindo um valor presente muito próximo de zero e que sequer havia sido contabilizado pela Equatorial. Fl. 1722DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 5 9 A Fiscalização afirma que a parcela de 82,5% não deixou de ser contabilizada porque possuía valor presente próximo a zero, mas em razão de o crédito ter sido inicialmente reconhecido pelo custo de aquisição, em obediência ao art. 183, inciso I, da LSA. Entretanto, tal parcela deveria ser incorporada ao valor do ativo adquirido, mediante contabilização dos juros efetivos, conforme descrito nos itens 4 e 5.1.2 do TVF. 10 A baixa de parte de dívida mediante débito na conta de sócios e crédito em prejuízos acumulados é tratada pela SC Disit10 n° 31/2012, segundo a qual: (i) a chamada conta de sócios é conta do passivo que registra direito creditório dos sócios perante a sociedade; (ii) a absorção de prejuízos contábeis mediante débito na conta de sócios diferenciase e tem implicações tributárias distintas do perdão de dívidas: (ii.1) em caso de perdão, o direito creditório simplesmente deixa de existir, auferindo a ex-devedora uma receita sujeita à incidência de IRPJ e CSLL; e (ii.2) já a absorção, na forma do art. 64, § 3°, do DL n° 1.598/77 (art. 509, § 2°, do RIR/ 1999), equivale a um aporte de capital, ficando afastada a incidência daqueles tributos. 11 A baixa total ou parcial de uma dívida pela entidade devedora tem como pressuposto lógico a liquidação de uma ativo correspondente na entidade credora. No caso sob análise, o ativo em questão eram os fluxos de caixa a que a Interessada tinha direito, relativos à parcela de 82,5% do valor de face dos bonds. 12 A Fiscalização compara a absorção de prejuízos com o aporte de capital, afirmando que têm o mesmo efeito financeiro nas entidades credora e devedora. Nesta, haverá aumento do patrimônio líquido, equivalente à dívida baixada, e naquela, a baixa do direito creditório que possuía contra a investida, em contrapartida a aumento no valor do investimento. Esse lançamento, a débito do investimento e crédito do ativo transferido, foi inclusive contabilizado pela Interessada, quando esta subscreveu capital na Celpa, aportando parte do crédito adquirido com o BNDESPAR. 13 A subscrição de capital nos termos descritos acima representa realização dos títulos de crédito, devendo a investidora apurar eventual ganho, correspondente à diferença entre a retribuição pela transferência (valor da subscrição de capital) e seu custo, avaliado pelo método do custo histórico amortizado. Trata-se, portanto, de uma transferência (alienação) dos créditos antes possuídos, devendo ser apurado o ganho obtido na operação, representado pela diferença entre o valor do aumento do investimento, correspondente ao valor da absorção de prejuízos, e o custo amortizado do crédito antes possuído. (fl. 116). 14 Transportando-se esses conceitos para o caso sob análise, a Fiscalização conclui que: (i) A autorização concedida pela Fiscalizada, para que a Celpa baixasse, a débito da conta de sócios e a crédito de prejuízos acumulados, parcela correspondente a 82,5% da dívida originalmente vinculada à emissão de Bonds, equivale a um Fl. 1723DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 6 aporte de capital de valor correspondente ao prejuízo absorvido por Celpa (R$ 433.741.924,69), efetuado mediante transferência para a Celpa do fluxo de caixa que a Fiscalizada teria direito a receber, relativo à parcela da dívida baixada, extinguindo-se, dessa forma, essa parcela da dívida, por confusão [...] (iii) O ganho obtido pela Fiscalizada [...] é o resultado da diferença entre o valor da retribuição pela transferência do ativo (equivalente ao “aporte da capital” de que trata o inciso (i) e o seu custo de aquisição (custo amortizado da parcela do ativo que está sendo “desreconhecida”). (fl. 116) 15 O custo da parcela a ser desreconhecida (baixada), representada pelos juros efetivos correspondentes a 82,5% do valor de face dos créditos, calculados até 30/09/2013, foi calculado na seção 5.1.2 do TVF e é de R$ 815.969,09. Portanto, a Interessada auferiu um ganho de: 432.925.955,60 = 433.741.924,69 - 815.969,09 16 Além do ganho, a Interessada auferiu receita de R$ 433.741.924,69. 17 A Fiscalização identificou na escrituração da Interessada os lançamentos contábeis abaixo, relacionados à baixa pela Celpa da parcela da dívida referente aos bonds: 18 Questionada pela Fiscalização, a Interessada esclareceu que: 1) Os R$ 4.560.783,17 correspondiam à diferença entre o valor dos prejuízos acumulados absorvidos pela Celpa (cerca de R$ 433 milhões), utilizando créditos referentes aos bonds, e o ajuste a valor justo previsto no relatório de alocação do preço pago (Purchase Price Allocation - PPA) relativo aos mesmo crédito (R$ 429 milhões), na proporção de sua participação societária na Celpa, ou seja: 4.560.783,17 = (433.741.924,69 - 429.000.000,00) * 96,18% Obs.: Reproduzimos abaixo o sumário de resultados do PPA, em que constam os valores da mais e menos-valia: Fl. 1724DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 7 2) Como o passivo registrado na Celpa possuía valor justo inferior ao contabilizado, reconheceu, em observância ao CPC 15, um passivo fiscal diferido, que foi calculado mediante aplicação da alíquota efetiva de IRPJ e CSLL durante a vigência de benefício da Sudam: 62,9 milhões = 15,25% * 96,18% * 429 milhões 19 A Fiscalização pondera que os registros do ajuste a valor justo (AVJ) e do passivo fiscal diferido (PFD) deveriam ser feitos na proporção da participação adquirida, que correspondia a 61,37%. Sendo assim, partir das informações contidas no sumário de resultado do PPA, a Fiscalização entende que a Interessada, em observância ao disposto no art. 20 do DL n° 1.598/77, deveria ter feito os seguintes registros (valores em milhares): Fl. 1725DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 8 20 A Fiscalização destaca que os lançamentos referentes à mais e menos-valia não deveriam ter sido feitos na mesma conta que espelha o valor de patrimônio líquido, mas em subconta própria. 21 A Fiscalização entende que a Interessada, em decorrência da absorção de prejuízos na Celpa, deveria ter realizados os seguintes lançamentos: 22 Na falta de subconta própria para registro de mais ou menos-valia, a Fiscalização entende que os lançamentos que seriam feitos nessa subconta deveriam ser feitos, maneira individualizada, na conta de equivalência patrimonial, ou seja, um lançamento para registro do aumento do investimento decorrente do aporte de capital (R$ 429.000 mil), e outro, pela amortização da mais-valia (R$ 62.922 mil), como demonstrado abaixo: Fl. 1726DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 9 23 Entretanto, os lançamentos contábeis foram os seguintes: 24 A Fiscalização destaca que: ao efetuar o lançamento no valor de R$ 4.561 mil de forma globalizada, a Fiscalizada deixou de registrar os efeitos da absorção de prejuízos por Celpa sobre as contas de resultado o exercício, quais sejam: receita auferida pela transferência do fluxo de caixa que tinha a receber de Celpa, no valor de R$ 433.742 mil; e a despesa de participação societária, no valor de R$ 429.000 mil, decorrente da amortização do valor da mais-valia do grupo do apassivo “Empréstimos e Financiamentos” (do valor principal, uma vez que a parcela correspondente ao passivo fiscal diferido foi amortizada em lançamento individualizado). (fl. 125). 25 E conclui que: o lançamento efetuado pelo contribuinte de forma globalizada, a débito da conta de investimento e a crédito de patrimônio líquido, resultou na omissão da escrituração do ganho obtido pela Fiscalizada, no valor de R$ 432.925.955,60, decorrente da realização do fluxo de caixa que tinha direito a receber, relativo à parcela de 82,5% da dívida dos Bonds, mediante sua transferência à Celpa, por valor correspondente ao aporte de capital realizado nessa última (absorção de prejuízos). (fl. 126). Fl. 1727DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 10 26 O terceiro lançamento identificado, no valor de R$ 2.452.053,21, é tratado na seção 5.3.2 do TVF. II.4 - CONTABILIZAÇÃO INDEVIDA DE JUROS PASSIVOS (SEÇÃO 5.3 DO TVF) (...) II.5 - COMPENSAÇÃO INDEVIDA DE PREJUÍZOS FISCAIS E DE BASES DE CÁLCULO NEGATIVAS DE CSLL (SEÇÃO 5.4 DO TVF) (...) II.6 - MULTA OU JUROS ISOLADOS - FALTA DE RECOLHIMENTO DO IRPJ/CSLL SOBRE BASE DE CÁLCULO ESTIMADA (SEÇÃO 5.5 DO TVF) II.7 - QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO (SEÇÃO 5.7 DO TVF) 27 A Fiscalização entende que a Interessada deveria ter feito os seguintes lançamentos em decorrência da baixa na Celpa de dívida correspondente a 82,5% dos Créditos Bonds contra prejuízos acumulados: (...) 28 Contudo, informa que os lançamentos contábeis efetivamente realizados foram os seguintes: (...) 29 Dessa forma, entende que: o contribuinte, de forma consciente e previamente planejada, deixou de contabilizar o ganho decorrente da realização do fluxo de caixa que tinha direito a receber de sua controlada Celpa, relativo a 82,5% da dívida dos Bonds (...). Tal procedimento enquadra-se no art. 71, inciso I, da Lei 4.502/64, em razão de a falta de contabilização do mencionado ganho e, em consequência, a falta de informação nas declarações apresentadas pela Fiscalizada, terem retardado o conhecimento, por parte da autoridade fazendária, da ocorrência do fato gerador acima mencionado. (fls. 142-143). 30 Destaca-se também que a Interessada, contrariando o disposto no art. 20 do Decreto-Lei n° 1.598/77, com redação dada pela Lei 12.973/2014, deixou de desdobrar o custo de aquisição em subcontas referentes ao valor de patrimônio líquido, mais e/ou menos-valia e goodwill. Fl. 1728DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 11 A ausência de segregação exigida pela lei (...) pode ser interpretada, no mínimo, como uma tentativa de dificultar o conhecimento, por parte da autoridade tributária, dos reais efeitos das operações realizadas (fl. 148). 31 Por haver apenas uma conta de investimento, que abrangia valor de patrimônio líquido, mais-valia e passivo fiscal diferido, a Fiscalização entende que a contabilização deveria ter sido feita como segue: 29 Dessa forma, entende que: o contribuinte, de forma consciente e previamente planejada, deixou de contabilizar o ganho decorrente da realização do fluxo de caixa que tinha direito a receber de sua controlada Celpa, relativo a 82,5% da dívida dos Bonds (...). Tal procedimento enquadra-se no art. 71, inciso I, da Lei 4.502/64, em razão de a falta de contabilização do mencionado ganho e, em consequência, a falta de informação nas declarações apresentadas pela Fiscalizada, terem retardado o conhecimento, por parte da autoridade fazendária, da ocorrência do fato gerador acima mencionado. (fls. 142-143). 30 Destaca-se também que a Interessada, contrariando o disposto no art. 20 do Decreto-Lei n° 1.598/77, com redação dada pela Lei 12.973/2014, deixou de desdobrar o custo de aquisição em subcontas referentes ao valor de patrimônio líquido, mais e/ou menos-valia e goodwill. A ausência de segregação exigida pela lei (...) pode ser interpretada, no mínimo, como uma tentativa de dificultar o conhecimento, por parte da autoridade tributária, dos reais efeitos das operações realizadas (fl. 148). 31 Por haver apenas uma conta de investimento, que abrangia valor de patrimônio líquido, mais-valia e passivo fiscal diferido, a Fiscalização entende que a contabilização deveria ter sido feita como segue: (...) 32 Entretanto, a operação foi contabilizada pela Interessada com os lançamentos indicados abaixo: (...) 33 O lançamento de R$ 4.561 mil representa tanto a variação de patrimônio líquido quanto a baixa da mais-valia, que, na proposta da Fiscalização, são representados pelos lançamentos (1) e (3). Veja-se: (433.741.924,69 - 429.000.000,00) * 96,18% = 4.560.783,17 34 Assim, o autuante destaca que a Interessada, além de não ter desdobrado o custo de aquisição em subcontas, efetuou lançamentos “de forma globalizada (sintética), quando deveria ter sido feita de forma individualizada (analítica)” (fl. 150). Destaca-se também que só a parcela de R$ 429 milhões foi incluída no Fl. 1729DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 12 registro globalizado, enquanto a amortização do PFD foi feita individualizadamente. 35 A Fiscalização conclui que: Conforme esclarecimentos anteriormente transcritos, ao justificar o lançamento no valor de R$ 4.561 mil, a Fiscalizada explicou que o ajuste a valor justo de R$ 429 milhões, constante do PPA, representava a expectativa de que as obrigações da Celpa referentes aos Bonds se realizariam por um valor R$ 429 milhões menor do que aquele registrado em sua contabilidade. Assim, considerando apenas esse passivo específico, argumentou que o PPA indicava patrimônio líquido da Celpa R$ 429 milhões maior do que aquele registrado, à época, em sua contabilidade, integrando o referido valor a mais-valia do investimento da Fiscalizada na Celpa, computado em subcontas controladas internamente pela empresa. Continuando com suas explicações, ressaltou que a baixa do passivo com redução de R$ 433 milhões implicou diferença de “bases” de cerca de R$ 4 milhões. Assim, como o valor esperado de “ganho” de R$ 429 milhões de equivalência patrimonial – pela redução do passivo – já estava refletido na conta de investimentos (dentro da subconta de “maisvalia”), concluiu que apenas a parcela excedente gerou reflexo em outras contas. Precisamente nesse ponto é que reside a falácia das explicações apresentadas pela Fiscalizada. Isso porque a diferença de “bases” de cerca de R$ 4 milhões alegada pelo contribuinte, representa a diferença entre a parcela da dívida dos Bonds baixada por Celpa e o valor estimado no PPA para a diferença entre o valor pelo qual os empréstimos e financiamentos estavam contabilizados em Celpa e o seu valor de mercado. Dessa forma, o lançamento preconizado pela Fiscalizada teria o efeito de corrigir o valor da mais-valia do grupo do passivo “Empréstimos e Financiamentos” estimado no PPA, ajustando-o ao valor efetivo pelo qual a parcela correspondente a 82,5% da dívida dos Bonds foi baixada por Celpa, obedecido o percentual da participação adquirida. Trata-se, na realidade, de um lançamento de ajuste (ou de complementação) da maisvalia, sem qualquer relação com os lançamentos decorrentes do aporte de capital em Celpa e da amortização da mais-valia, acima mencionados. Caso o contribuinte tivesse segregado a conta de investimentos, nos termos determinados no art. 20 do Decreto-Lei n° 1.598/77, essa conclusão ficaria bastante evidente, uma vez que o lançamento efetuado pela Fiscalizada deveria ser registrado, de maneira segregada, nas contas de mais-valia e de equivalência patrimonial. Fl. 1730DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 13 Observe-se, por importante que, para que o valor de R$ 4.561 mil fosse convergente com as justificativas apresentadas, o contribuinte efetuou a amortização da parcela da menos valia correspondente ao passivo fiscal diferido (R$ 62.922 mil) de forma individualizada, uma vez que se a tivesse incluído no lançamento globalizado, este passaria a ter o valor de R$ 67.664 mil, ficando evidenciada a desconformidade do seu procedimento. Finalmente, importa ressaltar que, em que pese a relevância da operação acima descrita, a Fiscalizada deixou de incluir qualquer observação a seu respeito nas Notas Explicativas às Demonstrações Financeiras relativas aos exercícios findos em 31 de dezembro de 2012 e 31 de dezembro de 2013. A partir de todo o exposto, verifica-se que o lançamento efetuado pelo contribuinte, de forma globalizada, a débito da conta de Investimentos e a crédito de conta de patrimônio líquido, teve o claro objetivo de omitir a escrituração do ganho obtido com a transferência para a controlada Celpa do fluxo de caixa a receber, relativo à parcela de 82,5% da dívida dos Bonds, no valor de R$ 432.925.955,60. É de se concluir, portanto, que a Fiscalizada incidiu na infração tipificada no art. 71, inciso I, da Lei n° 4.502/64, ao praticar uma série de atos com o claro propósito de retardar o conhecimento pela autoridade tributária do fato gerador acima mencionado. (fls. 150-151) III - IMPUGNAÇÃO 36 A Interessada foi intimada do lançamento em 03/12/2018 (fl. 1116) e, em 31/12/2018 (fl. 1117), impugnou os lançamentos e as reduções de bases de cálculo negativas, em síntese, conforme segue: III.1 - CONTEXTO FÁTICO (...) III.4 - CONSIDERAÇÕES SOBRE OS CRÉDITOS DE BANCOS PRIVADOS E CRÉDITOS BONDS Fl. 1731DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 14 Fl. 1732DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 15 Fl. 1733DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 16 Fl. 1734DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 17 Fl. 1735DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 18 Fl. 1736DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 19 Fl. 1737DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 20 III.5 - CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS SOBRE CREDORES OPERACIONAIS III.6 - CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS SOBRE OS CRÉDITOS BNDESPAR Fl. 1738DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 21 Fl. 1739DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 22 III.7 - SUPOSTO GANHO LÍQUIDO DECORRENTE DA ABSORÇÃO DE PREJUÍZOS PELA CELPA Fl. 1740DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 23 37 A Interessada alega que contabilizou pelo custo de aquisição os títulos adquiridos por 17,5% do valor de face, conforme determina o art. 183, inciso I, alínea “b”, da Lei n° 6.404/76 (LSA). Afirma que o lançamento foi feito a débito de “Títulos mantidos até o vencimento” e a crédito de “Caixa e equivalentes”. Por outro lado, na Celpa, a dívida foi mantida pelo valor atualizado à época, consoante o art. 184, inciso I, da LSA. Com a absorção de prejuízos contábeis à “conta de sócio”, a Celpa debitou a conta do passivo que registrava a dívida com a Interessada e creditou “Prejuízos acumulados”. 38 A Interessada destaca que, para a Celpa: (i) a baixa do passivo se deu sem “consumo de ativos” (crédito em conta do ativo); não houve alteração do capital social; e (iii) houve aumento do patrimônio líquido. Além disso, afirma que: 299. Embora o patrimônio líquido da Celpa tenha sido aumentado por conta da absorção dos prejuízos contábeis, a autoridade lançadora atribuiu referido ganho à Impugnante, alegando que houve realização do ativo financeiro correspondente aos 82,5% do valor de face dos créditos, cujos vencimento, como visto, ocorreria entre 2034 e 2043. (fl. 1193). 39 A Interessada questiona se de fato houve algum ganho e se “teria natureza de realização do ativo financeiro ou equivalência patrimonial” (fl. 1193). 40 A Interessada cita trecho do TVF em que a Fiscalização afirma: (i) que a parcela correspondente a 82,5% do crédito adquirido não deixou de ser contabilizada porque possuía valor presente próximo de zero (como afirmara um dos diretores da Interessada), mas porque o crédito adquirido devia ser reconhecido pelo custo de aquisição, conforme art. 183, I, b, da LSA; e (ii) que embora tal ativo não tenha sido contabilizado pela Interessada, possuía todos os pressupostos necessários ao seu reconhecimento. 41 A Interessada entende que a Fiscalização foi contraditória, pois inicialmente afirmou que a contabilização devia ser feita pelo custo de aquisição, mas em seguida diz que a parcela de 82,5% tinha todos os pressupostos para ser reconhecida. 42 A Interessada cita trecho do TVF em que a Fiscalização transcreve excerto da Solução de Consulta Disit10 n° 16/2012, segundo o qual: (i) a chamada conta de sócios é conta do passivo que registra direito creditório dos sócios perante a sociedade; (ii) a absorção de prejuízos mediante débito na conta de sócios representa o emprego de recursos dos sócios de modo a arcar com prejuízos que lhes cabem contratualmente suportar; e (iii) a utilização de créditos dos sócios na absorção de prejuízos contábeis, não tem natureza de perdão de dívida, mas de aporte de capital, ficando afastada, assim, a incidência de IRPJ e CSLL. 43 A Interessada pondera que, segundo o Parecer Normativo CST n° 4/81, citado na SC Disit10 n° 12/2012, o valor debitado não representa um ingresso efetivo. Fl. 1741DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 24 Entretanto a acusação fiscal sustentaria que, na absorção de prejuízos contábeis pela Celpa, teria havido transferência de fluxos de caixa pela Interessada. Mas se não houve ingresso efetivo na devedora, como pode ter havido saída da credora? 44 A Interessada considera que a referida SC não se aplica ao seu caso, pois: (i) é sociedade anônima, enquanto a consulente é sociedade de responsabilidade limitada; (ii) parte dos dispositivos citados na SC se aplicam apenas a sociedade de responsabilidade ilimitada; (iii) não tinha qualquer obrigação contratual de arcar com prejuízos, já que a Celpa não tem sequer contrato social, mas estatuto. 45 A Interessada menciona julgados do CARF e afirma que a jurisprudência administrativa rechaçou veementemente a tentativa feita pela RFB de equiparar para fins tributário a absorção de prejuízos contábeis à conta de sócios com o perdão de dívidas. A Fiscalização estaria ressuscitando o mesmo racional de outrora para atribuir à absorção de prejuízos à conta de sócios os efeitos tributários do aumento de capital. III.7.1 - EMPREGO INDEVIDO DE ANALOGIA 46 A Interessada cita o seguinte trecho do TVF para demonstrar que houve emprego indevido de analogia: Por outro lado, de acordo com o inciso 16.8, acima evidenciado, "a absorção de prejuízos pela devedora equivale a um aporte de capital pela credora". De fato, a absorção de prejuízos fiscais pela devedora mediante baixa de dívida em face dos sócios tem o mesmo efeito financeiro de um aporte de capital, tanto na entidade devedora como na entidade credora. Pelo lado da entidade devedora, haverá um aumento de seu patrimônio líquido, de valor correspondente à dívida baixada, de efeito similar ao que seria obtido com um aporte de capital; já pelo lado da entidade credora, haverá a baixa de um ativo, representado pelo crédito que possuía contra a sua investida, tendo como contrapartida um acréscimo no valor de seu investimento. (fl. 115). 47 Se uma operação equivale ou tem o mesmo efeito financeiro de outra, é porque não são iguais. Dessa forma, a Fiscalização estaria aplicando, por analogia, o regramento do aumento de capital à absorção de prejuízos. 48 Observa-se que, na absorção de prejuízos, ao contrário do que ocorre no aumento de capital, não há contrapartida para o credor, pois não recebe ações nem quotas. 49 Ao equiparar as operações, a Fiscalização pretendeu tratar a absorção de prejuízos como se fosse espécie do gênero alienação, ao qual pertence o aumento de capital. Parece sustentar que, ao abrir mão do crédito referente a 82,5% do valor de face, a Interessada recebeu contrapartida equivalente ao seu valor de face, tal como se tivesse recebido ações da Celpa. Fl. 1742DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 25 50 É indevida a comparação da operação em comento com o aumento de capital na Celpa com parte dos créditos adquiridos do BNDESPAR. Neste caso, a Interessada de fato realizou, alienou, transferiu os créditos à Celpa e recebeu ações em contrapartida. A contabilização ocorreu por débito na conta de equivalência patrimonial e crédito (baixa) na conta representativa do direito creditório. Por outro lado, no caso do direito relativo aos bonds, não houve a baixa porque a parcela de 82,5% não estava contabilizada. 51 Se houve alienação ou uma espécie de aumento de capital, qual foi a contrapartida em bens ou direitos recebida pela Interessada? Se não houve contrapartida, tampouco pode ter havido ganho tributável. III.7.2 - VIOLAÇÃO AO ART. 109 DO CTN 52 Consoante o art. 109 do CTN, o legislador – e não o intérprete – pode equiparar os efeitos tributários de institutos distintos. No caso concreto, entretanto, o legislador não poderia fazer uso livre do art. 109, tendo em vista o que dispõe o art. 110. Nessa hipótese improvável – tributação da perda de crédito como se acréscimo patrimonial fosse – estaríamos diante de exigência legal que violaria pressupostos constitucionais e infraconstitucionais da tributação sobre a renda. III.7.3 - AUSÊNCIA DE ACRÉSCIMO PATRIMONIAL 53 A Interessada não teve aumento patrimonial, pois abriu mão de crédito sem receber contrapartida, o que configuraria, quando muito um decréscimo patrimonial. No momento da absorção de prejuízos pela Celpa, nenhum bem ou direito se incorpora ao patrimônio da Interessada, em montante superior ao custo de aquisição do crédito baixado. 54 Mas a empreitada da Fiscalização também encontra obstáculo intransponível na seara contábil. O lucro líquido foi adequadamente apurado, pois: (i) as demonstrações financeiras foram auditadas por renomada empresa de auditoria independente (EY); (ii) passou pelo crivo da CVM, especialmente porque suas ações são negociadas em bolsa de valores; e (iii) o parecer técnico confirma a higidez e acerto dos procedimentos contábeis. III.7.4 - TRIBUTAÇÃO DO RESULTADO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL 55 No TVF (fl. 123), a Fiscalização propõe, como forma correta de contabilização, o lançamento (1), a débito da conta que registra o investimento na Celpa, avaliado por equivalência patrimonial, e a crédito de “Ganho líquido pela transferência do fluxo de caixa a receber”: Fl. 1743DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 26 56 A Interessada entende que, se o lançamento do suposto ganho devesse ser registrado a débito da conta “Aval. Eq. Patrimonial - Celpa”, a contrapartida é resultado de equivalência patrimonial, que é neutro para fins tributários. 57 A contabilização proposta viola o disposto no art. 248, inciso III, da LSA, segundo o qual, o ajuste de equivalência patrimonial só será registrado como resultado do exercício quando decorrer de mutações patrimoniais que tiverem afetado o resultado do exercício da investida. 58 A Interessada destaca excertos do parecer contábil, segundo os quais: (i) o lançamento (1) não faz sentido porque o valor presente do saldo de 82,5% era equivalente a zero na data de aquisição dos títulos da Celpa, e, além disso, o aumento do patrimônio líquido ocorreu na Celpa e não na Interessada; (ii) no lançamento (3), estorna-se um saldo de R$ 429 milhões contra o resultado, evidenciando a incoerência de se reconhecer a parcela de 82,5% baixada na Celpa, pois, uma vez mais, o valor presente de tal parcela era zero na data de aquisição; o (iii) de acordo com o TVF, haveria um ganho de R$ 433 milhões pela transferência do crédito, e a baixa uma mais valia de R$ 429 milhões, remanescendo um saldo de R$ 2 milhões. 59 A Interessada cita trecho do Manual Fipecafi, que se refere ao item 11 do CPC 18, para afirmar que a contrapartida do ajuste de equivalência patrimonial na Interessada deveria ser registrado em conta do patrimônio líquido (resultados abrangentes), pois a absorção de prejuízo na Celpa não afetou seu resultado, ou seja, a Fiscalização teria se equivocado ao afirmar que o crédito do lançamento (1) deveria ocorrer na conta de ganho líquido. Tal valor teria, na verdade, natureza de resultado de equivalência patrimonial, logo não deveria ser computado na determinação do lucro real (DL n° 1.598/77, art. 23). 60 A Fiscalização teria insinuado que a Interessada contabilizou de maneira inadequada ou que omitiu receitas, citando a Lei n° 12.973/2014, que é posterior à data de aquisição do investimento na Celpa e prevê o desdobramento do custo de aquisição em três subcontas, representativas: (i) do valor de patrimônio líquido; (ii) da mais ou menos valia; e (iii) do goodwill ou ganho por compra vantajosa. 61 O ajuste a valor justo de R$ 429 milhões representa a expectativa de que as obrigações da Celpa referentes aos bonds se realizariam por um valor R$ 429 milhões menor do que aquele registrado na sua contabilidade, e tal ganho é computado em subcontas controladas internamente pela Interessada, na aplicação do CPC 15. A baixa do passivo com redução de R$ 433 milhões implicou diferença de “bases” de R$ 4 milhões (diferença de valores contábeis na investida e respectivos valores justos no PPA). Como o valor esperado do ganho de R$ 429 milhões de equivalência patrimonial já estava refletido na conta de investimento da Interessada (dentro da conta de mais-valia), apenas a parcela excedente gerou reflexo em outras contas. Fl. 1744DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 27 III.7.5 - DEDUTIBILIDADE DA PERDA NO RECEBIMENTO DA PARCELA DE 82,5% DOS CRÉDITOS BONDS 62 Eventual apuração de ganho líquido deverá considerar não só a variação positiva do patrimônio líquido da Celpa (R$ 433 milhões), mas também a perda no recebimento da parcela de 82,5% dos Créditos Bonds (R$ 429 milhões). Trata-se de perda necessária, usual e normal para investidora de companhia que se encontra em recuperação judicial e com patrimônio líquido negativo. III.7.6 - QUESTÕES ESPECÍFICAS SOBRE OS LANÇAMENTOS DE PIS E COFINS Fl. 1745DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 28 III.8 - MULTA QUALIFICADA 63 A autoridade lançadora fundamenta a qualificação da multa no art. 71, inciso I, da Lei n° 4.502/64: ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal. 64 Entretanto, no tópico em que seria esperada a descrição da alegada conduta dolosa, a Fiscalização, no máximo, sugere que a falta de segregação do custo de aquisição em subcontas de VPL e mais-valia poderia representar tentativa de dificultar o conhecimento, por parte da autoridade tributária, dos reais efeitos das operações realizadas. Fl. 1746DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 29 65 As normas contábeis vigentes à época de aquisição do controle da Celpa não exigiam a referida segregação. A legislação mencionada pelo Fisco – Lei n° 12.973/2014 – é posterior aos fatos, bem como a MP n° 627/2013. 66 O Pronunciamento Técnico CPC n° 15 também não exige o desdobramento em subcontas. 67 A própria Fiscalização esclarece como entende que se deveria fazer a contabilização sem o uso de subcontas. Sendo assim, indaga-se: Havendo alternativa válida sem uso de subcontas, é possível cogitar de intuito doloso? 68 A contabilidade de Interessada, tanto em 2012 quanto em 2013, teria sido aprovada sem ressalva por auditores independentes. Além disso, a CVM não teria apresentado qualquer contrariedade à forma de contabilização. 69 Apesar de a LSA não exigir qualquer formalidade para absorção de prejuízos à conta de sócios, a operação teria sido levada a registro. III.9 - SUPOSTA CONTABILIZAÇÃO INDEVIDA DE JUROS PASSIVOS Fl. 1747DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 30 III.10 - PEDIDO 70 Pede que o lançamento seja julgado nulo ou, subsidiariamente, improcedente. A 8ª Turma da DRJ/RJO julgou parcialmente procedente a manifestação de inconformidade, ratificando a decisão da Delegacia de jurisdição da contribuinte, cuja ementa passo a reproduzir: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2013, 2014, 2015, 2016 NULIDADE DO LANÇAMENTO. HIPÓTESES. Os arts. 59, incisos I e II, e 60 do Decreto 70.235/72 estabelecem que só são nulos os atos lavrados por pessoa/autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Considera-se não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2013, 2014, 2015, 2016 Fl. 1748DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 31 REGIME TRIBUTÁRIO APLICÁVEL. Para fatos geradores ocorridos no ano-calendário de 2013, aplica-se o Regime Tributário de Transição - RTT (art. 16 da Lei n° 11.941/2009 c/c art. 72 da Lei n° 12.973/2014). Para o ano-calendário de 2014, aplica-se a regime tributário estabelecido pela Lei n° 12.973/2014, caso o contribuinte tenha feito essa opção na DCTF de agosto de 2014, ou, na falta de opção, o RTT. (arts. 75 e 96 da Lei n° 12.973/2014 c/c art. 2° da IN RFB n° 1469/2014). Para os anos-calendário de 2015 e 2016, aplica-se o regime tributário estabelecido pela Lei n° 12.793/2014 e alterações posteriores. AQUISIÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. ÁGIO VALOR DE MERCADO. AMORTIZAÇÃO. CÔMPUTO NA DETERMINAÇÃO DO LUCRO REAL. Consoante os métodos e critérios contábeis vigentes em 31/12/2007, o ágio decorrente da diferença entre o valor de mercado de bem do ativo da investida e o respectivo valor contábil deverá ser amortizado pela investidora na proporção em que esse ativo for realizado na investida, por depreciação, amortização, exaustão ou baixa em decorrência de alienação ou perecimento desse bem ou do investimento. (Instrução CVM n° 247/96, art. 14, § 1°). A contrapartida da amortização do ágio não será computada na determinação do lucro real. (art. 25 do Decreto-Lei n° 1.598/77, com redação dada pelo Decreto-Lei n° 1.730/79) O ágio, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial, comporá o valor contábil, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento. (art. 33, inciso II, do Decreto-Lei n° 1.598/77, com redação dada pelo Decreto-Lei n° 1.730/79) RECEITA FINANCEIRA. RECONHECIMENTO PRO RATA TEMPORIS. TAXA EFETIVA DE JUROS. MENSURAÇÃO. Os juros derivados de operações com vencimento posterior ao encerramento do período de apuração, podem ser rateados pelos períodos a que competirem. Os juros auferidos em cada período de apuração são mensurados pela taxa efetiva de juros, que não se confunde com a taxa prevista no contrato, pois é determinada impondo-se a igualdade entre o custo de aquisição e a soma dos valores presentes dos fluxos de caixa a receber. JUROS ATIVOS. MENSURAÇÃO PELA TAXA EFETIVA DE JUROS. A regra contábil segundo a qual os juros ativos são mensurados pela taxa efetiva de juros é anterior à Lei n° 11.638/2007, logo a neutralidade tributária não autoriza o contribuinte a excluir a respectiva receita do lucro líquido na apuração do lucro real. Fl. 1749DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 32 IMPOSTO PAGO A MAIOR. COMPENSAÇÃO DE OFÍCIO EM PERÍODO DE APURAÇÃO DIVERSO. IMPOSSIBILIDADE. Inexiste previsão legal para que o Fisco compense de ofício, na atividade de lançamento, o imposto pago a maior relativo a período de apuração diverso. BAIXA DE DÍVIDA MEDIANTE DÉBITO EM CONTA DE SÓCIO E CRÉDITO EM PREJUÍZOS ACUMULADOS. NATUREZA JURÍDICA. A baixa de dívida na investida, mediante débito em conta de sócio e crédito em prejuízos acumulados, tem, assim como o aporte de capital, natureza jurídica de investimento. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Ano-calendário: 2013, 2014, 2015, 2016 LANÇAMENTOS REFLEXOS DE CSLL, PIS E COFINS. MESMA RATIO DECIDENDI. No caso de lançamentos reflexos, aplica-se aos demais tributos a mesma ratio decidendi adotada para o IRPJ. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Ciente do Acórdão e com ele inconformado, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário argumentando em suma o que segue, in verbis: (...)VI. DO PEDIDO 535. Diante de tudo o que foi exposto, requer-se a esta E. Turma Julgadora o conhecimento e o provimento da presente Impugnação, de modo que: Com relação às acusações fiscais do item 5.1 do TVF Preliminarmente (i) Seja declarada a nulidade do lançamento fiscal em virtude de (i.1) cerceamento ao direito defesa e ao direito ao contraditório, verificado a partir da inexistência de apresentação dos cálculos da “taxa efetiva de juros” aplicada pela fiscalização, conforme tratado no tópico III.A.1. desta impugnação; e (i.2) violação ao artigo 142 do CTN, caracterizada a partir de erro na identificação da matéria tributável e da base de cálculo das obrigações tributárias, em decorrência de erros inerentes à “taxa efetiva” empregada pela autoridade lançadora, seja qual for o seu cálculo, em linha com o tópico III.A.2., acima; (ii) Sejam integralmente cancelados os lançamento fiscais de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS relativos aos “Créditos Bancos Privados”, na medida em que houve perdão da dívida correspondente a 82,5% desses créditos ainda em 2012, de forma que não é possível, mesmo pelo racional da autoridade lançadora, que Fl. 1750DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 33 tenha havido omissão de receitas quanto a tais créditos, conforme tratado no tópico III.B.1.; No mérito (iii) Sejam integralmente cancelados os lançamentos fiscais de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS relacionados aos “Créditos Bancos Privados” (somente na hipótese em que superado o pedido ii) e aos “Créditos Bonds”, em virtude de todos os argumentos expostos nos tópicos III.B.2., III.B.3., III.B.4., III.B.5. e III.B.6 desta peça impugnatória; (iv) Sejam integralmente cancelados os lançamentos fiscais de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS relacionados aos “Créditos Operacionais”, em virtude de todos os argumentos expostos no tópico III.C.; (v) Sejam integralmente cancelados os lançamentos fiscais de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS relacionados aos “Créditos BNDESPAR”, em virtude de todos os argumentos expostos no tópico III.D.1. e III.D.2. desta peça impugnatória; Subsidiariamente (vi) Sejam recalculadas as exigências de PIS e de COFINS referentes aos períodos de apuração compreendidos entre agosto de 2015 e dezembro de 2016, na medida em que houve erro no Anexo 18 do TVF quanto à apuração das receitas financeiras supostamente omitidas, conforme tratado no tópico III.B.7.; (vii) Ainda subsidiariamente, sejam recalculadas as exigências de PIS e de COFINS referentes a dezembro de 2016, considerando que a base de cálculo indicada no auto de infração diverge dos valores indicados no próprio Anexo 18 do TVF, em linha com os argumentos expostos no tópico III.B.8.; Com relação às acusações fiscais do item 5.2 do TVF Preliminarmente (viii) Seja declarada a extinção dos créditos tributários de PIS e COFINS relativos ao período de apuração de setembro de 2013 pela decadência, nos termos do artigo 156, inciso V, cumulado com o artigo 150, parágrafo 4º, ambos do CTN, conforme tratado no tópico IV.C.1. desta peça impugnatória; No mérito (ix) Sejam integralmente cancelados os lançamentos fiscais de IRPJ e CSLL, por força de todos os argumentos expostos nos tópicos IV.A., IV.B.1., IV.B.2., IV.B.3., IV.B.4. e IV.C.2. desta peça impugnatória, notadamente pelo fato de a renúncia da Impugnante a 82,5% dos “Créditos Bonds” no contexto da absorção de prejuízos fiscais na CELPA não implicou obtenção de qualquer “ganho líquido” para a Impugnante passível de tributação; Subsidiariamente (x) Na remota hipótese em que se considere ter havido para a Impugnante “ganho” passível de tributação em decorrência da absorção de prejuízos Fl. 1751DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 34 contábeis na CELPA, seja admitida a dedutibilidade da perda de 82,5% dos “Créditos Bonds”, de forma que seja recalculada a base de cálculo das exigências fiscais, em linha com os argumentos subsidiários do tópico IV.B.5.; (xi) Quanto à exigência de PIS e de COFINS, seja reconhecido que o susposto “ganho líquido pela realização de ativo financeiro” representa receita financeira, sujeitando-se, à época dos fatos, à alíquota zero dessas contribuições, tal como previsto no artigo 1º do Decreto nº 5.442/05, conforme tópico IV.C.3. desta impugnação; (xii) Na remota hipótese em que sejam mantidas as exigências fiscais, o que se considera apenas por argumentar, seja cancelada a aplicação de multa de ofício qualificada, de forma que a penalidade aplicada seja recalculada para o seu patamar ordinário de 75%, por força dos argumentos expostos no tópico IV.D. desta peça impugnatória; e Com relação às acusações fiscais do item 5.4 do TVF (xiii) Sejam integralmente canceladas as exigências fiscais, por força dos argumentos expostos no tópico V.A. desta impugnação administrativa. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheiro Fellipe Honório Rodrigues da Costa, Relator. ADMISSIBILIDADE Inicialmente, reconheço a plena competência deste Colegiado para apreciação do Recurso Voluntário e do Recurso de Ofício. Demais disso, observo que o Recurso Voluntário é tempestivo e atende os outros requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. No que diz respeito ao Recurso de Ofício este interposto contra acórdão da DRJ em face da impugnação que foi procedente em parte e exonerou os créditos tributários em relação a absorção de prejuízos contábeis da CELPA (2ª acusação fiscal), determinando o cancelamento parcial das exigências fiscais, especificamente com relação aos seguintes pontos: 1)Cancelamento parcial da exigência de IRPJ e CSLL em face do erro de cálculo da autoridade fiscal ao identificar o suposto ganho auferido pela Recorrente com a Fl. 1752DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 35 absorção de prejuízos contábeis da CELPA, tendo em vista a desconsideração do percentual da participação societária da Equatorial na CELPA (tópico XXIII do acórdão; fls. 1484/1485 do PAF); 2)Cancelamento integral da exigência de PIS e de COFINS referente a setembro de 2013 em face do artigo 150, parágrafo 4º do CTN, portanto, em razão da decadência a decisão de primeira instância findou por declarar a extinção do crédito tributário (tópico XIX.2 do acórdão; fl. 1478 do PAF); e 3)Cancelamento da multa de ofício qualificada em função da ausência de comprovação no auto de infração da existência de dolo, fraude ou simulação no presente caso, pelo que a decisão a quo findou por afastar a referida multa (tópico XX do acórdão; fls. 1479/1481 do PAF). Nesse contexto, a PORTARIA MF Nº 2, DE 17 DE JANEIRO DE 2023 da RFB regulamentou a admissibilidade do Recurso de Ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 15.000.000,00 (quinze milhões de reais). In verbis: O MINISTRO DE ESTADO DA FAZENDA, substituto, no uso da atribuição que lhe confere o inciso II do parágrafo único do art. 87 da Constituição, e tendo em vista o disposto no inciso I do art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, resolve: Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento de Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 15.000.000,00 (quinze milhões de reais). § 1º O valor da exoneração deverá ser verificado por processo. § 2º Aplica-se o disposto no caput quando a decisão excluir sujeito passivo da lide, ainda que mantida a totalidade da exigência do crédito tributário. Considerando que, nos termos do enunciado da Súmula CARF nº 103, aplica-se o limite de alçada vigente na data da apreciação do recurso de ofício em segunda instância, é certo que o exame de admissibilidade do recurso de ofício deve passar pelo exame do valor de alçada previsto no art. 1º da Portaria MF nº 2 de 2023. Portanto, considerando que o valor do crédito exonerado é superior ao valor de alçada fixado R$ 15.000.000,00 pela Portaria MF nº 2, de 17 de janeiro de 2023, o recurso de ofício deve ser conhecido. Fl. 1753DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 36 ANÁLISE DO RECURSO VOLUNTÁRIO DA ALEGAÇÃO DE NULIDADE DO ACÓRDÃO RECORRIDO EM VIRTUDE DA PRETERIÇÃO DO DIREITO DE DEFESA DA RECORRENTE A priori, a recorrente suscita preliminar de nulidade do acórdão alegando para tanto a preterição do direito de defesa, o que faz nos seguintes termos: (...)71. Como mencionado, apesar da sua extensão aparente, o conteúdo decisório do acórdão recorrido é singelo. A parcela mais significativa do acórdão diz respeito a transcrições e citações indiretas ao TVF ou à impugnação administrativa, sem que fosse dedicado esforço suficiente para rebater todos os argumentos apresentados pela Recorrente. 72. Com o perdão de tornar-se repetitivo, vale conferir, novamente, a comparação entre os argumentos apresentados na impugnação administrativa e as questões analisadas pelo acórdão. Em benefício da transparência, a tabela abaixo indica as fls. deste PAF em que os poucos argumentos de defesa foram efetivamente endereçados no voto condutor do acórdão: (...)73. A partir das informações acima, pode-se afirmar que a Recorrente endereçou 29 questões para refutar as inúmeras acusações fiscais e, assim, demonstrar a necessidade de cancelamento do lançamento tributário. Apesar de transcrever diversos trechos da impugnação administrativa, o acórdão recorrido deixou de analisar 15 dessas questões, ou seja, o acórdão é omissão com relação a mais da metade dos argumentos de defesa. 74. Para que não haja dúvida quanto à deficiência de fundamentação do acórdão, cabe recorrer a dois exemplos específicos. 75. No tópico III.B.3. da impugnação administrativa, a Recorrente tratou a primeira acusação fiscal (item 5.1. do TVF), no qual a autoridade lançadora sustenta haver omissão de receitas financeiras calculadas com base em “taxa de juros efetiva”. Considerando que a fiscalização cita o artigo 373 do RIR/99 como seu fundamento, a Recorrente apresentou, nesse tópico, argumento para justificar que esse dispositivo legal não seria aplicável. 76. De forma muito resumida, a Recorrente sustentou que a aplicação do artigo 373 do RIR/99 pressupõe a existência de ganho auferido pelo contribuinte, o que não seria verificado no presente caso por uma série de razões que serão oportunamente detalhadas. A bem da verdade, o próprio acórdão reconhece que a Recorrente apresentou tais considerações, conforme se observa no trecho abaixo: Fl. 1754DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 37 77. O acórdão não refuta esse argumento, isto é, o acórdão não procura confrontar as considerações trazidas na impugnação administrativa e não tenta esclarecer a razão pela qual o artigo 373 do RIR/99 seria aplicável ao caso. 78. Para a surpresa da Recorrente, na página seguinte do acórdão, o voto condutor apresenta referência ao mesmo artigo 373 do RIR/99 para fundamentar as suas conclusões sobre o acerto do lançamento tributário. Confira-se: 79. Note-se, na transcrição acima, que o voto condutor do acórdão não confronta os argumentos da Recorrente para afastar a aplicação do referido dispositivo legal – em síntese, a inexistência de ganho. Pressupõe-se a sua aplicação, ignorando qualquer objeção apresentada pela Recorrente. 80. Ora, se a Recorrente dedicou tópico especifico da sua impugnação para sustentar que o artigo 373 do RIR/99 não seria aplicável ao caso, é inadmissível que o acordão omita-se quanto à questão e, na sequência, cite esse mesmo dispositivo legal para justificar o lançamento tributário, sem maiores esclarecimentos. 81. Trata-se de um exemplo claro de omissão que implica reconhecer o acórdão recorrido como uma decisão que não foi adequadamente fundamentada. 82. Mas não é só. Outro exemplo pode ser identificado nos tópicos IV.B.2., IV.B.3. e IV.B.4. da impugnação administrativa, nos quais foi combatida a segunda acusação fiscal (item 5.2. do TVF), referente à tributação de suposto ganho auferido pela Recorrente com a absorção de prejuízos contábeis, pela CELPA, “à conta de sócio”. (...)85. O acórdão procurou “contornar”, em única frase, toda a profunda análise jurídica apresentada pela Recorrente sobre o artigo 108, a indicação de diversos trechos do TVF que revelavam o emprego de analogia e a indicação de diversos julgados deste E. CARF que tratavam de situações similares. O acórdão não esclarece o que seria uma tributação “segundo a sua natureza jurídica” e tampouco rebate, de forma minimamente específica, as inconsistências apontadas pela Recorrente sobre a acusação fiscal. 86. Apesar de o acórdão afirmar que não houve analogia, não justifica sua afirmação. Como resultado, o argumento principal da Recorrente em relação à segunda acusação fiscal não foi, de fato, analisado. 87. Como se não bastasse, não consta no voto condutor do acórdão qualquer referência ao artigo 109 do CTN ou qualquer tentativa de demonstrar que a Fl. 1755DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 38 absorção de prejuízos contábeis pela CELPA implicou, para a Recorrente, acréscimo patrimônio ou aquisição de disponibilidade de renda. A bem da verdade, no tópico do acórdão dedicado a analisar a segunda acusação fiscal, não há sequer indicação de que a Recorrente teria suscitado essas questões. 88. Com relação aos argumentos da Recorrente voltados a demonstrar o equívoco das premissas contábeis que guiaram o TVF, o expediente adotado no voto condutor do acórdão é ainda mais curioso: ignorando todas as considerações trazidas na impugnação administrativa e nos Pareceres Técnicos do Prof. ELISEU MARTINS e do Professor EDUARDO FLORES (nem sequer mencionados nesse tópico do acórdão), a autoridade julgadora simplesmente descreve os procedimentos contábeis que entende mais adequados, os quais, inclusive, são totalmente distintos daqueles apresentados pela fiscalização no TVF. 91. A fragilidade e ausência de fundamentação jurídica das razões adotadas pelo acórdão recorrido serão oportunamente demonstradas. Por ora, basta notar que o acórdão pretere o direito de defesa da Recorrente, na medida em que não enfrenta argumentos trazidos na peça impugnatória que poderiam, em tese, modificar as conclusões alcançadas. E, nos termos do artigo 59, inciso II, do Decreto nº 70.235/72, as decisões proferidas com preterição do direito de defesa – tal como o acórdão recorrido – são nulas. Observe-se: (...)97. Conforme será tratado a seguir, há sólidos argumentos para que seja reconhecida a improcedência integral das acusações fiscais veiculadas no TVF. Se esta C. Turma Julgadora entender desta maneira, a nulidade poderá ser afastada. 98. Caso contrário, deve ser determinado o retorno dos autos à primeira instância, para que sejam efetivamente analisados os argumentos apresentados pela Recorrente em sua impugnação administrativa. Ao contrário do que afirma o Recorrente, verifica-se que todos os pontos acima mencionados na preliminar de nulidade foram apreciados de forma implícita ou explícita no voto condutor do acórdão recorrido, conforme se explica a seguir. De início, esclareça-se que os fatos acima descritos configuram trechos referentes ao mérito do processo relacionados à situações ou circunstâncias que podem ser objetivamente verificadas na autuação fiscal, bem como examinadas com detalhamento na parte descritiva do relatório fiscal produzido pela autoridade autuante. Dada a enorme multiplicidade de questões decorrentes dos créditos adquiridos pela recorrente em face da aquisição da CELPA que fizeram parte da acusação fiscal e foi tratada na medida do entendimento do relator que julgou o processo em primeiro grau para cada questão pelo que o próprio TVF adotou nomenclatura própria que aqui se reproduz para melhor entendimento: Fl. 1756DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 39 Conforme mencionado no próprio Recurso Voluntário, os créditos analisados no TVF, destacam-se abaixo as condições do plano de recuperação judicial aplicáveis a cada situação: E de acordo as previsões do plano de recuperação judicial, a Recorrente adquiriu os créditos indicados acima nas seguintes condições: Nessa esteira, diante dos indícios de infrações tributárias apuradas no relatório fiscal, decerto o acórdão recorrido dedicou esforço mais acurado para a análise de pontos contestados no recurso essenciais à caracterização do reforço de sua tese, optando por rebater de forma concisa argumentos genéricos ou pontos considerados secundários, por meio da transcrição Fl. 1757DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 40 e corroboração de apontamentos do relatório fiscal que descreviam detalhadamente fatos e infrações apurados e indicavam registros e documentos que lhes serviam de lastro. Assim, o procedimento adotado pela Decisão Recorrida não viola o direito de defesa do Recorrente e tampouco configura nulidade da decisão de primeiro grau, uma vez que o julgador não está obrigado a se manifestar sobre todos os argumentos apresentados pela defesa desde que explicite as razões da sua decisão. Nesse sentido, embora a contribuinte alegue que o julgador de 1ª Instância teria ignorado o que para ele seria relevante e determinante para a confirmação de sua tese jurídica inserta na impugnação, tudo porque citou expressamente trechos do TVF ou não rebateu precisamente o tanto quanto alegado pela defesa, a técnica da fundamentação per relationem, na qual se utilizam fundamentos de decisão anterior como razões de decidir ou trechos que suficientemente corrobora a tese defendida pelo relator, não configura ofensa à exigência legal de motivar as decisões, nem desrespeito à ampla defesa e ao contraditório. Destaque-se decisão do deste Conselho Administrativo neste sentido: Número do processo: 10783.720197/2010-71 (...) FUNDAMENTAÇÃO DA DECISÃO. TRANSCRIÇÃO DE TRECHOS DA ACUSAÇÃO E/OU DA DEFESA. FUNDAMENTAÇÃO REFERENCIADA OU PER RELATIONEM. Utilizar-se das razões do TVF para fundamentar a decisão não é motivo para sua anulação. Sopesando os argumentos contrários, decidiu o julgador que a razão estaria com o Fisco, e identificou, no TVF, qual o argumento que sustenta sua decisão, transcrevendo-o no seu voto. Tivesse decidido que a razão estaria com a defesa, igualmente estaria correto em transcrever o trecho em seu voto, para que fique claro qual argumento foi acolhido. Tal técnica de decisão, a fundamentação per relationem, já foi considerada válida tanto pelo STF quanto pelo STJ, sendo amplamente utilizada em decisões judiciais. ANÁLISE DE TODOS OS ARGUMENTOS DE DEFESA. OMISSÃO. O julgador não está obrigado a responder todas as indagações levantadas pelas partes, quando já tenha encontrado motivo suficiente para embasar sua decisão. Inclusive, o e. STJ firmou entendimento, aplicável ao processo administrativo, no sentido de que "não viola o art. 535, do CPC, o acórdão que decide de forma suficientemente fundamentada, não estando obrigada a Corte de Origem a emitir juízo de valor expresso a respeito de todas as teses e dispositivos legais invocados pelas partes". (STJ. REsp nº 1.138.695 SC). Por fim, a validade da fundamentação per relationem é pacífica na jurisprudência do e. STF, como mostra a decisão proferida no Agravo Regimental no Recurso Ordinário em Habeas Corpus nº 130.542, da relatoria do Min. Roberto Barroso: A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal entende que “a técnica da fundamentação per relationem, na qual o magistrado se utiliza de trechos de decisão anterior ou de parecer ministerial como razão de decidir, não configura ofensa ao disposto no art. 93, IX, da CF” (RHC 116.166, Rel. Min. Gilmar Mendes). Fl. 1758DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 41 Portanto, rejeito a preliminar suscitada. DA ALEGAÇÃO DE NULIDADE DO LANÇAMENTO POR VÍCIO MATERIAL INSANÁVEL: VIOLAÇÃO À AMPLA DEFESA E AO CONTRADITÓRIO A recorrente, ao abordar as questões afeitas à primeira acusação fiscal de inexistência de omissão de receitas pela falta de apropriação contábil de “juros efetivos” incidentes sobre os créditos adquiridos suscita nulidade do lançamento por vício material insanável quanto a violação à ampla defesa e ao contraditório, pelo que fez nos seguintes termos: (...)100. No tópico III.A.1. da sua defesa administrativa, a Recorrente sustentou a nulidade do lançamento tributário relacionado à primeira acusação fiscal, uma vez que o TVF não permite compreender o critério “taxa efetiva de juros” empregado pela autoridade lançadora em substituição à taxa de juros contratualmente pactuada, nem exatamente qual o método de cálculo utilizado pela fiscalização para apuração da base de cálculo. 101. Em outras palavras, o TVF não esclarece qual a natureza de tal instituto, qual o seu fundamento legal e como a “taxa efetiva” foi calculada. Conforme será retomado, consta no TVF apenas a indicação obscura de que a “taxa efetiva” foi “calibrada manualmente no Excel”. Não consta neste processo qualquer demonstrativo relacionado a essa “calibração”. 102. Como a falta dessas informações não permite a compreensão exata da acusação fiscal, houve nítido cerceamento ao direito de defesa e ao contraditório da Recorrente, acarretando a nulidade dessa parcela do lançamento fiscal, nos termos do artigo 59, inciso II, do Decreto nº 70.235/7211. 103. Ao iniciar a análise desse argumento, o acórdão recorrido busca esclarecer quais foram os procedimentos adotados pela autoridade lançadora para apurar a “TEJ”, isto é, a “taxa de juros efetiva” utilizada para calcular as supostas receitas financeiras que não foram oferecidas à tributação pela Recorrente. (...)118. Em outras palavras, a Recorrente sustentou que, além de não ser possível compreender como a autoridade lançadora apurou a “taxa efetiva de juros”, não se pode sequer saber como essa “taxa efetiva” foi empregada pela fiscalização. A primeira vista, poderia parecer que o acórdão demonstrou que os cálculos da autoridade lançadora são hígidos e podem ser compreendidos. Duas constatações, todavia, infirmam o entendimento adotado no acórdão: (i) a coluna “Anos (Pi)” não havia sido divulgada pela autoridade lançadora, logo, corresponde a informação nova, trazida aos autos somente após a defesa da Recorrente; e (ii) os valores indicados na coluna “Anos (Pi)” estão equivocados. Fl. 1759DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 42 121. Vale analisar com maior atenção a constatação (ii): para alcançar o mesmo resultado apresentado no TVF, o acórdão aplica – por meio de fórmula cuja utilização jamais foi esclarecida pela autoridade lançadora – “taxa de juros efetiva” (aproximadamente 15,9%) a fluxos de caixa (indicados na coluna “Fi”), durante determinado período de tempo (coluna “Fi”). Esse período de tempo é indicado no acórdão em número de anos. 122. É nesse ponto que reside o equívoco: o período de tempo considerado no exemplo do acórdão não condiz com a realidade. 123. Por exemplo, entre 14 de dezembro de 2012 (data da aquisição dos créditos, conforme o próprio acórdão) e 29 de dezembro de 2016 (data do primeiro pagamento, novamente, conforme o acórdão), não transcorreram “4,04032258” anos, ou seja, aproximadamente 1.474 dias. O período correto entre essas duas datas é de “4,046575342” anos, ou, então, 1.477 dias. Esse erro pode ser verificado em relação a todos os períodos indicados na coluna “Fi”, conforme abaixo: (...)124. Considerando que os anexos do TVF nunca indicaram o valor dos períodos considerados pela fiscalização para aplicar a “taxa de juros efetiva”, quer parecer que o acórdão recorrido adotou expediente curioso: a partir do resultado apresentado pela fiscalização, procurou determinar as variáveis utilizadas pela autoridade lançadora. 125. Assim, na tentativa de demonstrar a correção do trabalho fiscal, o acórdão apenas confirmou que a fiscalização não forneceu as informações necessárias para compreender o cálculo da “taxa de juros efetiva” e a sua aplicação ao presente caso. O acórdão, no entanto, foi além: a partir da planilha apresentada para endossar o trabalho fiscal, demonstrou que houve claro equívoco na aplicação da “taxa de juros efetiva”, o que implica o imediato cancelamento da exigência fiscal ora combatida. 126. Em síntese, deve haver a reforma do acórdão recorrido, de forma que a ser reconhecida a nulidade do lançamento fiscal, com base no artigo 59, inciso II, do Decreto nº 70.235/72. Assim, ao analisar o excerto acima indicado, o que se verifica é uma insurgência do recorrente quanto ao mérito da autuação, e não efetivamente cerceamento do direito de defesa por eventual incompreensão da autuação, uma vez que o recorrente aos seus olhos compreendeu que a taxa efetiva de juros aplicada ao caso concreto seria incompatível com a taxa de juros previamente estabelecida no contrato, no entanto, realmente essa é uma questão a ser enfrentada no mérito e não seria passível da nulidade pretendida. Não se pode perder de vista, que o substrato fático/jurídico trazido pormenorizadamente pelo recorrente tanto na impugnação, quanto no Recurso Voluntário que contrapõe com substância e eloquência os motivos da autuação no que diz respeito a eleição do Fl. 1760DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 43 método para se aferir a Taxa Efetiva de Juros (impor a igualdade entre o custo de aquisição e a soma dos valores presentes dos fluxos de caixa a receber), inclusive apontando divergência no percentual da taxa indicada pela fiscalização, corrobora o pleno entendimentos dos fatos e a invariável incompatibilidade com a arguição da preliminar de nulidade por cerceamento de defesa, isso porque o próprios fundamentos insertos na preliminar já se coadunam com o pleno entendimento dos termos da autuação. Isso porque a trazer os elementos que entendem como corretos face as insubsistências apontadas, o contribuinte demonstra o conhecimento dos fatos e manifesta a plenitude do seu direito ao contraditório e ampla defesa. Portanto, entendo por rejeitar a nulidade suscitada por não corroborar as hipóteses de nulidade do Processo Administrativo Fiscal. DA ALEGAÇÃO DE NULIDADE DO LANÇAMENTO POR VÍCIO MATERIAL INSANÁVEL: ERRO NA IDENTIFICAÇÃO DA MATÉRIA TRIBUTÁVEL E DA BASE DE CÁLCULO A priori, a presente nulidade versa em duas oportunidades no Recurso Voluntário, a primeira no tópico III quando o recorrente trata da improcedência da acusação fiscal de omissão de receitas pela falta de apropriação contábil de “juros efetivos” incidentes sobre os créditos adquiridos (considerações aplicáveis a todos os créditos adquiridos). A segunda, no item V quando o recorrente trata das questões relacionadas à primeira acusação fiscal: inexistência de omissão de receitas pela falta de apropriação contábil de “juros efetivos” incidentes sobre os créditos adquiridos. Assim, ao que parece a essência do conteúdo do pedido de nulidade guarda semelhança porque ambas defendem a impossibilidade de apurar a “taxa efetiva de juros” a ser aplicada desde 2012 considerando acontecimentos ocorridos em 2016, além da insatisfação do contribuinte ao afirmar que o Acórdão se limitou a tratar de nulidade nos casos de incompetência ou preterição do direito de defesa, e teria ignorado a extensa argumentação apresentada pela Recorrente a respeito dos artigos 116, 117 e 142 do CTN, o que apenas confirmaria a nulidade do acórdão por falta de fundamentação, nos seguintes termo: Recurso Voluntário 127. No tópico III.A.2. da impugnação administrativa, foi apontada outra nulidade referente ao lançamento fiscal. Objetivamente, a Recorrente demonstrou que a autoridade lançadora, adotando uma visão retrospectiva, apurou a “taxa efetiva de juros” a ser aplicada desde 2012 considerando acontecimentos ocorridos em 2016, imprevisíveis – obviamente – à época. Fl. 1761DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 44 128. Ou seja, caso a Recorrente tivesse, nos períodos compreendidos pela autuação, pretendido apurar a “taxa efetiva de juros”, teria alcançado resultado distinto daquele apontado pela fiscalização. A menos que seja possível conduzir exercício de futurologia, os cálculos adotados pela autoridade lançadora – sejam quais forem – somente puderam ser realizados após a ocorrência dos fatos geradores das obrigações tributárias em discussão. 129. Sem analisar os argumentos da Recorrente, o acórdão recorrido limitou se a afirmar que só é possível tratar de nulidade nos casos de incompetência ou preterição do direito de defesa, o que não se verificaria no caso. 130. O acórdão, portanto, ignora a extensa argumentação apresentada pela Recorrente a respeito dos artigos 116, 117 e 142 do CTN, o que apenas confirma a nulidade do acórdão por falta de fundamentação. 131. Neste momento, cabe reiterar que a lógica aparentemente adotada pela fiscalização para apurar os “juros efetivos” revela, sim, nulidade do lançamento fiscal, em virtude da violação ao artigo 142 do CTN. 132. Apesar de o TVF não apresentar informação sobre o cálculo das “taxas efetivas de juros”, a autoridade lançadora sinaliza que a sua apuração está baseada em “fluxos de recebimento” dos créditos em questão. 133. Dessa forma, quer parecer que a “taxa efetiva de juros” toma como referência todas as parcelas dos créditos que seriam recebidos pela Recorrente somente no futuro. 134. Portanto, para calcular a “taxa efetiva de juros” a ser aplicada desde o momento da aquisição dos créditos, em 2012, a autoridade lançadora considerou pagamentos que foram efetivamente recebidos pela Recorrente em 2016. 135. Como forma de afastar qualquer dúvida quanto a essa questão, confira se a indicação dos “fluxos de recebimento” referentes a 2016 nos Anexos 2 e 6 do TVF (como visto, supostamente voltados ao “cálculo da taxa efetiva de juros”): . Ora, o valor de “fluxo de recebimentos” de 29 de dezembro de 2016 só foi determinado quando a CELPA efetivamente realizou pagamentos à Recorrente nesta data. 137. A fiscalização somente pôde considerar informações acerca de pagamentos de parcelas dos créditos que já ocorreram porque a sua análise em relação a operações ocorridas entre 2012 e 2016 é retrospectiva. Obviamente, à época dos fatos, a Recorrente não dispunha dessas mesmas informações. (...)139. Fato é que, caso a autoridade lançadora tivesse conduzido o procedimento de fiscalização durante o curso de 2013, consideraria na apuração da “taxa efetiva de juros” um suposto “fluxo de recebimento” que ocorreria em 31 de dezembro de 2013. Ainda que não se saiba exatamente qual o cálculo da “taxa efetiva de juros”, é intuitivo supor que a mudança quanto à data de determinado recebimento altera a “taxa efetiva” apurada. Fl. 1762DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 45 140. Além disso, segundo previsão do Plano de Recuperação Judicial da CELPA, parcela correspondente a 17,5% do valor de face dos créditos estava sujeita à incidência de juros contratuais, apurados com base na taxa CDI, acrescida de 1,5%. 141. Na medida em que os juros contratuais estão sujeitos à variação da taxa CDI, no ano-calendário de 2013, por exemplo, não seria possível determinar exatamente qual o valor a ser recebido pela Recorrente em 2016. É natural que fossem adotadas projeções acerca dos juros que viriam a ser apurados e estimar qual seria o “fluxo de recebimentos” de 2016. Ainda assim, essa estimativa de “fluxo de recebimentos” certamente apresentaria alguma divergência em relação aos juros efetivamente pagos pela CELPA em 2016. 142. Mais uma vez, na hipótese em que o lançamento fiscal ora combatido tivesse sido realizado durante o ano-calendário de 2013, o “fluxo de recebimentos” considerado para apurar a “taxa efetiva de juros” seria diferente daquele considerado no TVF. (...)144. De toda forma, é possível resumir à questão aos seguintes termos: a “taxa efetiva de juros”, seja qual for o seu cálculo, somente poderia ser apurada da forma como indicado no TVF com informações disponíveis em 2018. Se a Recorrente tivesse adotado o mesmo racional defendido pela fiscalização à época dos fatos (2013 a 2016) para apurar supostas receitas financeiras que deveriam ser oferecidas à tributação, teria apurado “taxas efetivas de juros” certamente distintas. 145. Basta essa constatação para reconhecer a nulidade do lançamento fiscal diante do equívoco quanto à determinação do fato gerador e à apuração da base de cálculo do tributo. Por certo, não se trata de mero erro de cálculo, representando verdadeiro equivoco quanto ao critério (que sequer possui fundamento jurídico) utilizado pela fiscalização para apurar a “taxa efetiva de juros” e, consequentemente, a base de cálculo do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS. (...)152. Isto é, o não cumprimento das formalidades essenciais (intrínsecas) ao lançamento (como a identificação da matéria tributável e a determinação da base de cálculo), torna-o ilíquido e incerto, o que enseja a decretação da sua nulidade, em linha com a pacífica e atual jurisprudência deste E. CARF e da E. Câmara Superior de Recursos Fiscais (“CSRF”)13. Portanto, o acórdão deve ser reformado quanto a mais este ponto. Após a análise dos fatos também entendo pela rejeição da presente arguição de nulidade, isso porque o ajuste e aprofundamento das razões decorrentes de suposto “erro na identificação da matéria tributável e da base de cálculo”, não configura alteração de motivação ou fundamentação do Auto de Infração a ponto de ensejar a sua nulidade, posto que ainda que haja discordância quanto as questões levantas pelo recorrente acima delineadas, não entendo que o artigo 142 do CTN tenha sido inobservado quanto a constituição do crédito tributário pelo Fl. 1763DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 46 lançamento, mediante a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinação da matéria tributável, calculo do montante do tributo devido, identificação do sujeito passivo, ainda que haja discordância do contribuinte quanto aos referidos requisitos que serão enfrentados no mérito. Afinal, não se pode perder de vista que é atribuição do contribuinte a comprovação da sua tese que indica eventual regularidade dos valores do IRPJ e da CSL em face da acusação de omissão de receitas pela falta de apropriação contábil de “juros efetivos” incidentes sobre os créditos adquiridos (considerações aplicáveis a todos os créditos adquiridos). Nesse contexto, a autoridade fiscal tem a prerrogativa de deles discordar, enquanto não decaído o direito de constituir o crédito tributário em análise, independente de qual período se necessite recorrer para comprovar tal situação, conforme dispõe o artigo 37 da Lei nº 9.430/1996: "Os comprovantes da escrituração da pessoa jurídica, relativos a fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, serão conservados até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios.” Sendo assim, não há qualquer mácula ao artigo 116 e 117 do CTN porque estes tratam da ocorrência do fato gerador e existência dos seus efeitos e os critérios para tanto, de modo que entendo que são questões que influenciam a análise de mérito com a manutenção ou o cancelamento da autuação por enfrentamento dos respectivos argumentos, mas não uma questão que possa ser acolhida em sede de preliminar de nulidade Assim, pelo exposto, rejeito a preliminar de nulidade de erro na identificação da matéria tributável e da base de cálculo. DO ESCOPO DA LIDE A penas para delimitar os contornos da lide, conforme resumido pelo contribuinte em seu recurso voluntário, a autoridade lançadora formulou quatro acusações fiscais: (i) tributação de receita financeira calculadas com “taxa efetiva de juros”: omissão de receita financeira caracterizada pela falta de apropriação contábil de “juros efetivos”, correspondentes à parcela de créditos detidos pela Recorrente contra a CELPA, adquiridos de terceiros com deságio no contexto da recuperação judicial desta sociedade, cujo vencimento ocorrerá somente entre 2034 e 2043 e Fl. 1764DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 47 será paga à Recorrente sem incidência de encargos financeiros (vide itens 2, 4 e 5.1 do TVF – fls. 978/981, 982/992 e 993/1.015 do PAF); (ii) tributação da absorção de prejuízos contábeis: omissão de receita (ganho) supostamente auferido pela Recorrente em setembro de 2013, quando a CELPA absorveu seus próprios prejuízos contábeis à conta de passivo financeiro representativo de créditos detidos pela Recorrente. A fiscalização trata esse evento – no qual o crédito é simplesmente “perdoado”, ou seja, sem contrapartida recebida pela Recorrente - como um “aumento de capital/subscrição de ações” da CELPA mediante “transferência” de “fluxo de caixa” que a Recorrente tinha a receber entre 2034 e 2043. Apenas os créditos tributários relacionados a essa acusação foram exigidos com acréscimo de multa de ofício qualificada (150%) (vide itens 5.1 e 5.2 do TVF – fls. 993/1.015 e 1.015/1.033 do PAF). (iii) tributação de estorno de juros: no momento em que a Recorrente abriu mão dos “Créditos Bonds” para permitir que houvesse absorção de prejuízos contábeis, pela CELPA, à conta de sócio, foi necessário realizar estorno de juros que foram apurados até aquele momento. A autoridade lançadora, no entanto, entendeu que esse expediente reduziu indevidamente o lucro real e a base de cálculo da CSLL; e (iv) glosa de juros passivos: para adquirir os “Créditos Banco Guanabara”, a Recorrente incorreu em despesas de juros passivos, além de realizar o pagamento do custo de aquisição propriamente dito. A autoridade lançadora glosou tais despesas por considera-las “perda” na aquisição dos “Créditos Banco Guanabara” que, a seu ver, deveriam ser apropriadas “pro rata tempore”, de acordo com o método da “taxa efetiva de juros”. Sendo assim, o acórdão entendeu pela manutenção das exigências fiscais referentes à primeira (tributação de receitas calculadas com “juros efetivos”), terceira (tributação do estorno de juros) e quarta (glosa de juros passivos) acusações. Em relação à segunda acusação fiscal (absorção de prejuízos contábeis da CELPA), o acórdão acatou parte dos argumentos apresentados pela Recorrente e determinou o cancelamento parcial das exigências fiscais, especificamente com relação aos seguintes pontos: * Cancelamento parcial da exigência de IRPJ e CSLL: o acórdão considerou que a autoridade lançadora incorreu em erro de cálculo ao determinar o suposto ganho auferido pela Recorrente com a absorção de prejuízos contábeis da CELPA, por não considerar o percentual da participação societária da Recorrente na CELPA (tópico XXIII do acórdão; fls. 1484/1485 do PAF); * Cancelamento integral da exigência de PIS e de COFINS referente a setembro de 2013: com base no artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, o acórdão reconheceu a Fl. 1765DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 48 extinção do crédito tributário pela decadência (tópico XIX.2 do acórdão; fl. 1478 do PAF); e * Cancelamento da multa de ofício qualificada: o acórdão concluiu que a autoridade lançadora não comprovou a existência de dolo, fraude ou simulação no presente caso (tópico XX do acórdão; fls. 1479/1481 do PAF). No que diz respeito ao Recurso de Ofício, a DR 8ª Turma da DRJ/RJO proferiu acórdão julgando a impugnação parcialmente procedente entendendo pela manutenção das exigências fiscais referentes à primeira (tributação de receitas calculadas com “juros efetivos”), terceira (tributação do estorno de juros) e quarta (glosa de juros passivos) acusações. Em relação à segunda acusação fiscal (absorção de prejuízos contábeis da CELPA), o acórdão acatou parte dos argumentos apresentados pela Recorrente e determinou o cancelamento parcial das exigências fiscais, especificamente com relação aos seguintes pontos: • Cancelamento parcial da exigência de IRPJ e CSLL: o acórdão considerou que a autoridade lançadora incorreu em erro de cálculo ao determinar o suposto ganho auferido pela Recorrente com a absorção de prejuízos contábeis da CELPA, por não considerar o percentual da participação societária da Recorrente na CELPA (tópico XXIII do acórdão; fls. 1484/1485 do PAF); • Cancelamento integral da exigência de PIS e de COFINS referente a setembro de 2013: com base no artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, o acórdão reconheceu a extinção do crédito tributário pela decadência (tópico XIX.2 do acórdão; fl. 1478 do PAF); e • Cancelamento da multa de ofício qualificada: o acórdão concluiu que a autoridade lançadora não comprovou a existência de dolo, fraude ou simulação no presente caso (tópico XX do acórdão; fls. 1479/1481 do PAF). Após o julgamento, houve a interposição de Recurso Voluntário que passa a ser analisado na sequência. MÉRITO DA PRIMEIRA ACUSAÇÃO FISCAL - tributação de receita financeira calculadas com “taxa efetiva de juros” No mérito, no que concerne a primeira acusação fiscal, conforme mencionado, diz respeito a omissão de receita financeira caracterizada pela falta de apropriação contábil de “juros efetivos”, correspondentes à parcela de créditos detidos pela Recorrente contra a CELPA, Fl. 1766DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 49 adquiridos de terceiros com deságio no contexto da recuperação judicial desta sociedade, cujo vencimento ocorrerá somente entre 2034 e 2043 e será paga à Recorrente sem incidência de encargos financeiros (vide itens 2, 4 e 5.1 do TVF – fls. 978/981, 982/992 e 993/1.015 do PAF). A recorrente defende que a aquisição de créditos pela Equatorial de terceiros contra a CELPA para que dela fosse credor sob condições expressas no contexto da Recuperação Judicial (17,5% de entrada e o restante dos 82,5% entre 2034 e 2043) findou por sinalizar a aquisição com o pagamento de 17,5%, no entanto, renunciar à parcela que seria paga após a carência previamente pactuada de 82,5% com intuito de imprimir melhoras nas condições financeiras da empresa adquirida e assim sustentou em seu Recurso Voluntário: (...)154. Se a fiscalização pretende tributar a parcela corresponde ao deságio, mediante emprego daquilo que chamou de “taxa efetiva de juros”, proporcionalmente aos períodos de apuração compreendidos entre 2013 e 2016, certamente a exigência fiscal deve ser prontamente cancelada. 155. Isso porque a Recorrente, já em 2012, perdoou a devedora (CELPA), de modo que não mais receberia nenhum valor correspondente aos 82,5% do deságio entre 2013 e 2016. Simples assim. 156. Na tentativa de manter o lançamento fiscal, o acórdão recorrido afirma que não foi apresentada prova acerca do perdão dessa parcela da dívida. Ou seja, o acórdão ignorou informação expressa nas demonstrações financeiras da CELPA, reproduzida abaixo: (...)157. De todo modo, para que não haja dúvida quanto ao perdão da parcela de 82,5% dos “Créditos Bancos Privados”, cabe verificar o livro razão da conta “2217167014 - PRINCIPAL LP - PLANO RJ: EQUATORIAL ENERGIA”, registrada pela CELPA em sua Escrituração Contábil Digital (“ECD”) (doc. 2). 158. Conforme se observa abaixo, os créditos originalmente detidos por bancos privados registrados no passivo de longo prazo (parcela de 82,5%) foram integralmente baixados em virtude do desconto / perdão concedido pela Recorrente: (...)159. Para que não haja dúvida de que o “desconto” de R$ 226.659.234,74 corresponde a perdão de dívida da parcela de 82,5% dos “Créditos Bancos Privados”, confira-se a memória de cálculo abaixo, em valores aproximados: (...)162. Assim, a extinção dessa parcela da dívida prejudica todo o racional desenvolvido pela autoridade lançadora com relação ao item 5.1. do TVF, já que partiu da premissa equivocada de que a Recorrente fazia jus à parcela de 82,5% do deságio em relação ao valor de face dos créditos adquiridos no âmbito da recuperação judicial. Por consequência, a exigência fiscal deve ser prontamente cancelada. Fl. 1767DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 50 Apenas no sentido de elucidar e delimitar os créditos de terceiros adquiridos pela Equatorial contra a Celpa, passa-se a reproduzir os quadros demonstrativos insertos no Recurso Voluntário que demonstram aquisições de Créditos de Bancos Privados, Créditos Bonds, Créditos BNDESPAR, Crédito Banco Guanabara e Créditos Operacionais, bem como as condições de pagamento com os devidos comentários: Como bem compilado e resumido pelo contribuinte em seu Recurso Voluntário e para melhor entendimento, reproduzo também tabela contando apenas os créditos analisados no TVF, destacam-se abaixo as condições do plano de recuperação judicial aplicáveis a cada situação: 24. Também de acordo as previsões do plano de recuperação judicial, a Recorrente adquiriu os créditos indicados acima nas seguintes condições: Fl. 1768DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 51 25. Cabe desde já destacar que, ainda em 2012, a Recorrente perdoou a dívida da CELPA correspondente a 82,5% dos “Créditos Bancos Privados” cujo vencimento ocorreria entre 2034 e 2043. Conforme será oportunamente retomado, esse fato foi ignorado tanto pela fiscalização como pelo acórdão recorrido. 26. Por ora, cabe notar que, ainda no contexto do saneamento financeiro da CELPA, a Recorrente também celebrou instrumentos de cessão de crédito com os credores originais da CELPA e adquiriu os “Créditos BNDESPAR”, “Créditos Banco Guanabara” e os “Créditos Operacionais”, nas seguintes condições: 27. Observando o disposto no artigo 183, inciso I, da Lei das S.A., conforme será retomado adiante, a Recorrente contabilizou todos os créditos adquiridos pelo seu custo de aquisição. 28. Ressalta-se que, após a aquisição dos créditos pela Recorrente, foram mantidas as mesmas condições de pagamento definidas no plano de recuperação judicial e descritas anteriormente. 29. Vale dizer, em relação aos “Créditos Bancos Privados” e aos “Créditos Bonds”, por exemplo, que a Recorrente somente receberia a parcela correspondente a 82,5% da dívida a partir de 2034, sem incidência de juros ou de atualização monetária, em dez prestações anuais. Vale ressaltar que para a primeira acusação aqui enfrentada, os créditos questionados pela autoridade fiscal referente a exigência fiscal de IRPJ e CSLL relativa aos “juros efetivos” aplicados se referem aos “Créditos Bancos Privados” e os “Créditos Bonds”, pontuando que a autoridade fiscal corroborada pelo entendimento da DRJ sustenta a ocorrência da infração porque a parcela correspondente a 82,5% do valor de face dos créditos – que seria recebida apenas a partir de 2034 e sem incidência de qualquer encargo – também deveria ser apropriada para fins contábeis e tributários como se correspondesse a “juros”, nos seguintes termos: VIII - PERDÃO DA DÍVIDA DA CELPA REFERENTE AOS CRÉDITOS DOS BANCOS PRIVADOS Fl. 1769DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 52 99 Alega-se que não teria havido omissão de receitas financeiras porque a Interessada, em 2012, perdoou a dívida da Celpa referente a todos os credores financeiros que escolheram as opções “A” a “F” no âmbito da recuperação judicial. Como a dívida foi perdoada em 2012, nenhuma receita financeira foi auferida entre 2013 e 2016. 100 Contudo, a Interessada não prova o alegado. Em vez disso, simplesmente apresenta (fl. 1148) a nota explicativa às demonstrações financeiras da Celpa reproduzida abaixo: IX - DETURPAÇÃO DO CONCEITO DE JUROS E NÃO AQUISIÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE RENDA 101 A Interessada relembra que adquiriu os Créditos dos Bancos Privados e os Créditos dos Bonds pagando 17,5% do valor de face. Em contrapartida, a Celpa deveria pagar (i) esse mesmo valor até 31/12/2013, acrescido de juros iguais à taxa do CDI mais 1,5%; e (ii) 82,5% do valor de face dividido em dez prestações anuais entre 2034 e 2043, sem correção monetária nem juros. Considerando que juros compensatórios são “o produto do capital de uma pessoa que foi entregue ou disponibilizado a outra” (fl. 1152), advoga que sua remuneração consistira apenas na variação do CDI mais 1,5%. Entende que, em relação à parcela de 82,5%, qualquer alteração patrimonial só seria percebida quando a Celpa realizasse os pagamentos previstos para o período entre 2034 e 2043. Antes disso não haveria disponibilidade de renda, pois a Interessada não poderia dispor dos valores que teria a receber. O art. 373 não seria apli cável ao caso porque pressupõe a existência de um ganho, que não ocorreu, haja vista que o custo de aquisição foi igual ao valor justo dos créditos, equivalente ao valor de mercado. 102 A Interessada equivoca-se quando afirma que só adquiriria disponibilidade de renda, relativamente à parcela de 82,5%, quando as respectivas parcelas fossem pagas, entre 2034 e 2043. Pessoas jurídicas tributadas pelo lucro real devem reconhecer suas receitas, inclu sive as financeiras, pelo regime de competência, ou seja, nos períodos em que foram auferidas, ainda que não recebidas. A afirmação da Interessada, de que só deveria oferecer os juros à tributação quando houvesse o pagamento das parcelas, só estaria correta se a tributação fosse feita pelo regime de caixa. Além disso, não se apura a receita com juros comparando- se o custo de aquisição com o valor de mercado do crédito, mas com o valor presente das parcelas a receber. Tanto é possível a disposição de valores a receber que os antigos credores da Celpa o fizeram, por meio da cessão de crédito. X - EQUÍVOCO QUANTO AO TRATAMENTO CONTÁBIL DA OPERAÇÃO 103 Baseada em parecer contábil, a Interessada afirma que “não é adequado o entendimento da fiscalização de que a Impugnante deveria reconhecer, da perspectiva contábil, receitas financeiras referentes aos 82,5% dos “Créditos Bancos Privados” e dos “Créditos Bonds” (fl. 1163). Fl. 1770DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 53 104 Entretanto, no trecho que a Interessada cita e destaca, o parecerista afirma que “o reconhecimento da parcela de 82,5% de deságio no resultado no momento da aquisição dos títulos seria um contrassenso contábil e uma falta de compreensão negocial” (fl. 1163), ou seja, não se nega a possibilidade de reconhecimento da receita com juros, mas de reconhecê-la no momento da aquisição, o que está correto, pois os juros não são auferidos no momento da aquisição, mas posteriormente. O procedimento da Fiscalização está de acordo com o entendi mento do parecerista, já que não se consideraram os juros auferidos no momento da aquisição, mas no período de apuração da aquisição e em períodos posteriores, pro rata temporis. XI - NEUTRALIZAÇÃO DOS EFEITOS TRIBUTÁRIOS PELO RTT 105 A Interessada entende que “o método da ‘taxa efetiva de juros’ foi introduzido no Brasil apenas com a edição da Lei n° 11.638/2007 e, portanto, os efeitos decorrentes de sua aplicação estarão sujeitos a ajustes do RTT” (fl. 1165). Fundamenta sua opinião em trecho de parecer contábil em que se cotejam as redações do art. 183 da Lei n° 6.404/76 anterior e posterior à Lei n° 11.638/2007. 107 Os autores sugerem, como melhor prática contábil, que os juros embutidos sejam apropriados como receita financeira pro rata temporis2 . 108 Essa metodologia é favorável ao contribuinte, pois, se as operações a prazo fossem contabilizadas como as operações à vista, toda a receita, financeira e não- financeira, seria imediatamente reconhecida e tributada. Portanto, não se trata de receita que passou a ser tributada após as alterações da Lei n° 11.638/2007, mas que já era tributada. 109 Também o art. 17 do Decreto-Lei n° 1.598/77 – base legal do art. 373 do RIR/99, citado pela Fiscalização (fl. 85) – autoriza o rateio dos juros pelos períodos a que competirem, quando derivados de operações ou títulos com vencimento posterior ao encerramento do período de apuração: (...)110 De acordo com a Solução de Consulta Disit09 n° 81, de 16/04/2012, a alternativa para o contribuinte, caso opte por não apropriar os juros segundo o regime de competência, é o reconhecimento na data da aplicação: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ RECEITA FINANCEIRA. APROPRIAÇÃO. REGIME DE COMPETÊNCIA. A apropriação de receitas financeiras decorrentes de operações ou títulos com vencimento posterior ao encerramento do período de apuração deverá ser efetuada na data da aplicação ou “pro rata tempore”. 111 Portanto, o critério de reconhecimento de receitas utilizado pela Fiscalização, pro rata temporis, não foi introduzido pela Lei n° 11.638/2007, inexistindo, dessa forma, ajuste a ser feito para atender à neutralidade tributária Fl. 1771DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 54 Nesse contexto, para a primeira acusação fiscal, em suma, cabe a esta turma de julgamento decidir se: (i) a exigência fiscal de IRPJ e CSLL relativa aos “juros efetivos” aplicados sobre os “Créditos Bancos Privados” e os “Créditos Bonds” seria (im)procedente dado ao fato de que haveria comprovado ou não a renúncia da parcela do crédito referente 82,5%, em 2012 no contexto da recuperação judicial, que seriam pagas entre 2034 e 2043 da CELPA para a recorrente, e, portanto, não haveria nenhum valor a receber; ou (ii) Se estaria correto o entendimento do Acórdão e da fiscalização que concluiu pela ausência de comprovação da referida renúncia do crédito acima mencionado, e, portanto, a tributação da parcela corresponde ao deságio, mediante emprego daquilo que chamou de “taxa efetiva de juros”, proporcionalmente aos períodos de apuração compreendidos entre 2013 e 2016 é medida que se impõe. Inicialmente, cabe analisar no contexto dos autos a comprovação da efetiva renúncia do crédito correspondentes à parcela de créditos detidos pela Recorrente contra a CELPA, adquiridos de terceiros com deságio no contexto da recuperação judicial desta sociedade, cujo vencimento ocorrerá somente entre 2034 e 2043 e será paga à Recorrente sem incidência de encargos financeiros. Assim, ao cotejar os documentos e analisar os fundamentos contidos nos autos, constata-se que além do documento desconsiderado pela fiscalização e pelo Acórdão recorrido intitulado DFP – Demonstração Financeira datada de 31.12.2012 em que consta o desconto de R$ 225.896.000,00, o recorrente também traz em sede de Recurso Voluntário a demonstração livro razão da conta “2217167014 - PRINCIPAL LP - PLANO RJ: EQUATORIAL ENERGIA”, registrada pela CELPA em sua Escrituração Contábil Digital (“ECD”) (doc. 2) dando conta do desconto da parcela de 82,5% dos “Créditos Bancos Privados”, cabe verificar o livro razão da conta “2217167014 - PRINCIPAL LP - PLANO RJ: EQUATORIAL ENERGIA”, registrada pela CELPA em sua Escrituração Contábil Digital (“ECD”): Fl. 1772DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 55 Sendo assim, os documentos acima mencionados denotam, conforme defendido pelo contribuinte, que de fato os créditos originalmente detidos por bancos privados registrados no passivo de longo prazo (parcela de 82,5%) foram integralmente baixados em virtude do desconto concedido pela Recorrente, ele ainda anexa ao seu recurso uma tabela demonstrando a identidade dos valores insertos no Livro Razão e a proporção de 82,5% do crédito original perante os denominados “Bancos Privados”, passa-se a reproduzir para melhor compreensão: Fl. 1773DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 56 Sendo assim, resta comprovado para este relator a alegação de que o recorrente renunciou os valores que se encontram com carência de pagamento para os anos de 2034 e 2043, sendo correto afirmar que a escrituração contábil da CELPA e da Recorrente elaborada e mantida com observância da legislação tributária faz prova a seu favor, nos termos artigo 9º, parágrafo 1º, do Decreto-Lei nº 1.598/77, nos seguintes termos: “Art 9º - A determinação do lucro real pelo contribuinte está sujeita a verificação pela autoridade tributária, com base no exame de livros e documentos da sua escrituração, na escrituração de outros contribuintes, em informação ou esclarecimentos do contribuinte ou de terceiros, ou em qualquer outro elemento de prova. § 1º - A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais.” Desta feita, diante da ausência de pagamento futuro, também não se afigura o acréscimo patrimonial referente à parcela de 82,5% diante da inexistência de disponibilidade econômica de renda nos termos do artigo 43 do CTN, e ressalta-se ainda, que acaso entendido que não houve o desconto da referida parcela, entende-se que a tributação deveria respeitar as previsões contratuais insertas no contexto da recuperação judicial, as quais por si só trazem elementos de complexidade adicional ao presente processo, de modo a considerar a necessidade da tributação apenas com a disponibilidade efetiva do pagamento correspondente à parcela de 82,5% que ocorrerão entre 2034 e 2043. Para tanto, reproduzo excerto do TVF que menciona o Contrato: Fl. 1774DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 57 Nesses termos, para este relator, não procede que a parcela futura deveria ser incorporada ao valor do ativo adquirido, mediante contabilização dos juros efetivos, conforme descrito nos itens 4 e 5.1.2 do TVF, uma vez que a parcela de 82,5% de fato não gera qualquer direito adicional para Recorrente e não acresce paulatinamente o seu patrimônio jurídico conforme o transcurso do tempo a ponto de ensejar a necessidade de calcular a taxa de juros efetiva pretendida pela fiscalização. Vale ressaltar ainda, que não se está a defender aqui invariavelmente que nas hipóteses de aquisição de crédito com pagamento futuro não gere a necessidade de contabilização dos valores efetivamente recebidos a ponto de calibrar a tributação com base no real valor a ser recebido pelo adquirente. No entanto, o que se tem nos autos, acaso se desconsidere o desconto, é uma disponibilidade financeira a ser recebida entre 2034 a 2043 cujo pacto entre as partes não previu a incidência de encargos financeiros dentro de um contexto amplo e complexo referente a viabilidade da aquisição de uma empresa que se encontrava em Recuperação Judicial, exercendo um plano de recuperação judicial e, a recorrente avaliou dentre os diversos elementos da aquisição os critérios financeiros e econômicos para tomar a decisão de aquisição, não cabendo a autoridade fiscal a prerrogativa de considerar a necessidade de aplicação da taxa de juros efetiva na parcela futura incorporando-a indevidamente ao valor do ativo adquirido. Vale destaque ainda, o fato do caso em apreço não se tratar da necessidade de aplicação do regime de caixa em detrimento do regime de competência, é que ao se considerar a carência estabelecida no contrato, a realização da receita apenas aconteceria nos anos que houvesse o efeito econômico (2034 a 2043), ainda que o efeito jurídico tenha ocorrido em 2012 com o estabelecimento do critério do pagamento via contrato, dentre eles o prazo. Portanto, como o período da autuação em análise dos presentes autos diz respeito aos anos de 2013 e 2016, tal período não se percebe a disponibilidade da renda alvo da aplicação da taxa de juros efetiva pretendida pela fiscalização, entretanto, tal argumento apenas tem relevância para a hipótese desta turma de julgamento desconsiderar o desconto de 82,5% que a recorrente concedeu a CELPA. Pelo exposto, dou provimento para afastar a acusação de omissão de receita financeira caracterizada pela falta de apropriação contábil de “juros efetivos” referente aos CRÉDITOS CEDIDOS PELOS BANCOS PRIVADOS, CRÉDITOS BONDS e PELOS CREDORES OPERACIONAIS, este último também havia previsão contratual para não cobrança de juros se subsumindo na mesma fundamentação abordada neste tópico. DOS CRÉDITOS CEDIDOS PELO BNDESPAR Fl. 1775DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 58 Ainda na análise da primeira infração de omissão de receita financeira caracterizada pela falta de apropriação contábil de “juros efetivos”, o Acórdão recorrido manteve a autuação nos seguintes termos: Acórdão XVII - CRÉDITOS CEDIDOS PELO BNDESPAR: TRIBUTAÇÃO DO DESÁGIO 135 Considerando que: 1) Segundo o contrato de cessão de crédito celebrado entre a Interessada e o BNDESPAR (fl. 413), o custo de aquisição acordado foi de R$ 234.757.353,41, calculado em 15/08/2012; 2) O crédito foi adquirido em 08/11/2012, data de assinatura do contrato (fl. 421); 3) A cláusula 7.10 do PRJ estabeleceu que a Celpa pagaria ao BNDESPAR juros de 8,5% ao ano, capitalizados a partir da data de homologação do Plano (01/09/2012); 136 A Fiscalização calcula (fl. 105) que, na data de aquisição do direito creditório pela Interessada (08/11/2012), a dívida da Celpa com o BNDESPAR valia R$ 238.348.856,49: 234.757.353,41 * (1+8,5%) ^ [(29/30+1+8/30)/12] = 238.348.856,49 137 Assim, a Fiscalização afirma que houve um deságio de R$ 3.591.503,08, “o qual (...) deverá ser incorporado paulatinamente ao valor do ativo (‘pro rata tempore’), mediante o reconhecimento dos juros efetivos da operação” (fl. 105): 238.348.856,49 - 234.757.353,41 = 3.591.503,08 138 Alega a Interessada que, se houve deságio, ele deveria ter sido oferecido à tributação “por ocasião da aquisição dos respectivos créditos” (fl. 1181), ou seja, em 08/11/2012, logo, eventual pretensão de tributar o suposto ganho teria decaído em 31/12/2017. Além disso, em 08/11/2012, as alíquotas de PIS e Cofins sobre receitas financeiras estavam reduzidas a zero. A tributação pro rata temporis teria deslocado artificialmente a data de ocorrência do fato gerador. 139 A Fiscalização não foi precisa ao afirmar que a deságio seria incorporado paulatinamente ao ativo da Interessada pro rata temporis, mediante reconhecimento dos juros efetivos. Embora haja uma correlação entre o valor do deságio e o dos juros efetivos, o que de fato se incorpora ao ativo do credor são os juros efetivos calculados igualando-se o custo de aquisição ao valor presente dos fluxos de caixa a receber. 140 Em outras palavras, a tributação do cessionário não recai sobre o deságio, ou seja, a diferença, do ponto de vista do cedente, entre o valor do seu direito creditório e o preço da transação. Essa diferença, em tese, não representa ganho para o cessionário, mas perda para o cedente. Para o cessionário, a tributação recai sobre as receitas financeiras, calculadas a partir da TEJ. Fl. 1776DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 59 141 Destaque-se que a imprecisão não viciou o lançamento, pois, efetivamente, os juros não foram calculados a partir do valor do deságio, mas conforme a metodologia apresentada pela Fiscalização, que considera custo de aquisição e fluxos de caixa a receber. XVIII - CRÉDITOS CEDIDOS PELO BNDESPAR: CARÊNCIA PARA O PAGAMENTO DE JUROS 142 A Interessada alega que o PRJ estabeleceu prazos de carência. Em relação aos juros, a carência perdurou até agosto de 2016, o que afastaria qualquer possibilidade de tributar receitas financeiras. 143 A Interessada confunde novamente as tributações pelos regimes de caixa e de competência. Apesar de o PRJ prever carência, para pagamento de juros, até agosto de 2016, na tributação pelo regime de competência, os juros são tributados conforme auferidos, e não de acordo com os recebimentos. O recurso voluntário, por sua vez, se insurge contra o fato de que o auto de infração afirmou que “no âmbito do contrato de cessão de crédito celebrado entre a contribuinte e o BNDESPAR houve um deságio que deveria ser incorporado paulatinamente ao valor do ativo (‘pro rata tempore’), mediante o reconhecimento dos juros efetivos da operação e, a contrário sensu, o Acórdão recorrido entende que não seria efetivamente o caso de tributar o deságio, o objeto a ser incorporado paulatinamente ao ativo da recorrente pro rata temporis mediante o reconhecimento de juros efetivos, isso porque o que de fato se incorpora ao ativo do credor são os juros efetivos calculados igualando-se o custo de aquisição ao valor presente dos fluxos de caixa a receber.” Assim, o recurso voluntário contesta o Acórdão recorrido em função da manutenção do Auto de Infração, alegando que a tributação do cessionário não recai sobre o deságio, ou seja, a diferença, do ponto de vista do cedente, entre o valor do seu direito creditório e o preço da transação, reconhecendo que essa diferença, em tese, não representa ganho para o cessionário, mas perda para o cedente e finaliza dizendo que a tributação recai sobre as receitas financeiras, calculadas a partir da Taxa Efetiva de Juros. No entanto, mesmo apontando essas diferenças o Acórdão entende que a imprecisão mencionada não viciou o lançamento, pois, efetivamente, os juros não foram calculados a partir do valor do deságio, mas conforme a metodologia apresentada pela Fiscalização, que considera custo de aquisição e fluxos de caixa a receber, nos seguintes termos: Recurso Voluntário V.D. CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS AOS CRÉDITOS CEDIDOS PELO BNDESPAR 251. Conforme tratado na impugnação administrativa, todas as considerações trazidas acima quanto à falta de fundamento jurídico para exigência de IRPJ, CSLL, Fl. 1777DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 60 PIS e COFINS incidentes sobre receitas financeiras calculadas mediante aplicação de “taxa efetiva de juros” são igualmente aplicáveis quanto aos “Créditos BNDESPAR”. 252. Sem prejuízo desses argumentos, a impugnação administrativa também explorou considerações específicas aos “Créditos BNDESPAR” em virtude de peculiaridades do plano de recuperação judicial quanto a essa operação e que, da mesma forma, demonstram o equívoco das acusações fiscais. V.D.1. Erro quanto à identificação do fato gerador do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS: aplicação equivocada de “taxa efetiva de juros” em detrimento da tributação do deságio quando da aquisição dos “Créditos BNDESPAR” 253. De acordo com o Instrumento Particular de Cessão de Crédito celebrado entre o BNDESPAR e a Recorrente, os “Créditos BNDESPAR” seriam adquiridos pela Recorrente por 100% do seu valor de face. Ou seja, diferentemente do que se observa quanto aos “Créditos Bancos Privados”, por exemplo, não houve diferença entre o valor de face dos créditos e o custo de aquisição. 254. Ainda assim, a autoridade lançadora procurou calcular “taxa efetiva de juros” em relação aos referidos créditos, novamente dissociada das condições estabelecidas no plano de recuperação judicial para o cálculo de juros contratuais. 255. Para justificar esse entendimento, o TVF aponta ter havido deságio em relação à aquisição dos “Créditos BNDESPAR”, o qual deveria ser considerado na apuração da “taxa efetiva” aplicável à operação. Confira-se: “Conclui-se, portanto, que ao adquirir o crédito acima mencionado, em 08/11/2012, pelo valor de R$234.757.353,41, houve um deságio (desconto) de R$3.591.503,08 (R$238.348.856,49 - R$234.757.353,41), o qual, acrescido dos juros previstos na cláusula 7.10 do Plano de Recuperação Judicial da CELPA, deverá ser incorporado paulatinamente ao valor do ativo (“pro rata tempore”), mediante o reconhecimento dos juros efetivos da operação, à semelhança do que foi descrito nos itens 4.4 e 5.1.1 a 5.1.3 do presente Termo de Verificação Fiscal.” (fl. 1.008 do PAF) (grifado). 256. O deságio apontado pela autoridade lançadora decorre do fato de o custo de aquisição ter sido definido 1º de setembro de 2012 (data de aprovação do plano de recuperação judicial), mas a aquisição efetiva dos créditos ter ocorrido em 8 de novembro de 2012. 257. Utilizando as taxas de juros previstas no plano de recuperação judicial, a fiscalização apurou o valor atualizado dos créditos na data da aquisição (R$238.348.856,49). A diferença entre esse valor e o custo de aquisição (R$234.757.353,41) foi tratada como deságio pela autoridade lançadora. 258. Ressalte-se que jamais caberia cogitar de “deságio” com relação aos demais créditos (“Créditos Bancos Privados”, “Créditos Bonds”, “Créditos Banco Fl. 1778DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 61 Guanabara” e “Créditos Operacionais”). Como tratado anteriormente, o deságio consiste na diferença entre o valor de mercado e o custo de aquisição. Todos os demais créditos foram adquiridos pela Recorrente exatamente pelo seu valor de mercado27 . 259. Especificamente no caso dos créditos adquiridos pelo BNDESPAR, existe pequena diferença entre o preço de aquisição definido no Instrumento Particular de Cessão de Crédito e o valor de mercado em virtude da apropriação de juros contratuais entre a data da aprovação do plano de recuperação judicial da CELPA e a data da aquisição pela Recorrente. 260. Apesar da existência desse deságio na aquisição dos “Créditos BNDESPAR”, a autoridade lançadora adotou a mesmo racional analisado até aqui: pretendeu apurar “taxa efetiva de juros” para definir o valor das receitas financeiras que entende deveriam ser reconhecidas contabilmente e tributadas pela Recorrente. 261. Ao adotar esse mesmo racional, a autoridade lançadora equivoca-se quanto à identificação da matéria tributável e à data da ocorrência de suposto fato gerador. 27 Por exemplo, no caso dos “Créditos Bancos Privados” e dos “Créditos Bonds”, o valor de mercado era representativo de 17,5% do seu valor de face. 262. Ora, se existe diferença entre o valor de mercado e o custo de aquisição dos “Créditos BNDESPAR”, é lógico supor que o deságio devesse ser oferecido à tributação por ocasião do recebimento do crédito ou, no limite, por ocasião da aquisição dos respectivos créditos. 263. Admita-se, apenas por argumentar, que fosse admissível a tributação imediata do deságio no momento da aquisição dos créditos. Nesse caso, é certo que eventual ganho obtido pela Recorrente na aquisição dos “Créditos BNDESPAR” teria sido auferido no ano-calendário de 2012, isto é, quando os créditos foram adquiridos. 264. Além de não ter sido esse o racional que orientou a lavratura do auto de infração, eventual pretensão de tributar suposto ganho decorrente de deságio verificado na data de aquisição dos “Créditos BNDESPAR” (8 de novembro de 2012) já teria sido atingida pela decadência em 31 de dezembro de 2017. 265. Como se não bastasse, em 2012, vigorava o Decreto nº 5.442, de 9 de maio de 2005, que havia reduzido para zero as alíquotas de PIS e de COFINS incidentes sobre receitas financeiras. Ou seja, caso a autoridade lançadora tivesse adotado critério jurídico que – não obstante questionável – apresentasse algum sentido lógico e pretendesse tributar o deságio na aquisição dos “Créditos BNDESPAR” em 2012, não haveria qualquer exigência de PIS e de COFINS. 266. Mesmo diante dessas questões, o acórdão recorrido optou por manter o lançamento fiscal, nos seguintes termos: Trecho do acórdão: Fl. 1779DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 62 “139 A Fiscalização não foi precisa ao afirmar que a deságio seria incorporado paulatinamente ao ativo da Interessada pro rata temporis, mediante reconhecimento dos juros efetivos. Embora haja uma correlação entre o valor do deságio e o dos juros efetivos, o que de fato se incorpora ao ativo do credor são os juros efetivos calculados igualando-se o custo de aquisição ao valor presente dos fluxos de caixa a receber. (...) 141 Destaque-se que a imprecisão não viciou o lançamento, pois, efetivamente, os juros não foram calculados a partir do valor do deságio, mas conforme a metodologia apresentada pela Fiscalização, que considera custo de aquisição e fluxos de caixa a receber.” (fls. 1468/1469) (grifado). 267. Verifica-se clara tentativa de “corrigir” as acusações fiscais e inovar o fundamento jurídico do lançamento fiscal, o que, por si só, implicaria o reconhecimento da nulidade do acórdão. 268. De toda forma, mesmo essa tentativa é infrutífera: como demonstrado nos tópicos anteriores, o cálculo com “taxa de juros efetiva” defendida pela autoridade lançadora é desprovido de fundamento legal, desvirtua o conceito jurídico de juros e pressupõe a aplicação incorreta de procedimentos contábeis que tiveram seus efeitos contábeis neutralizados pelo RTT. 269. Reitera-se, portanto, que as exigências fiscais relacionadas às receitas financeiras vinculadas aos “Créditos BNDESPAR” calculadas mediante emprego de “taxa efetiva de juros” devem ser integralmente canceladas. Após a análise dos excertos acima, tem-se que o próprio Acórdão recorrido já descarta a possibilidade de tributação do suposto deságio ocorrido já que para a Equatorial cessionária (compradora do crédito), a título de deságio importaria saber a diferença entre o valor pago e o valor recebido no vencimento do crédito, este sim seria considerado como receita financeira tributável sujeita a IRPJ, CSLL PIS, COFINS no âmbito do lucro real, portanto, conforme já mencionado, a receita entra na base de cálculo à medida que é realizada, tudo pelo regime de competência, no entanto, a decisão a quo rechaça a referida hipótese e complementa que o lançamento não estaria viciado porque os juros não foram calculados a partir do valor do deságio, mas conforme a metodologia apresentada pela Fiscalização, que considera custo de aquisição e fluxos de caixa a receber. No entanto, superada a questão da nulidade em razão dos argumentos já aventados nas preliminares, conforme prova dos autos na aquisição dos “Créditos BNDESPAR” adquiridos pela recorrente, de fato a contribuinte não pagou o valor com deságio, nem tampouco há diferença de custo de aquisição e fluxos de caixa a receber que implique acréscimo patrimonial relevante a tributação, apenas houve uma diferença de valores entre a data do fechamento do contrato e o efetivo pagamento, mas não houve diferença entre o valor de face dos créditos e o custo de aquisição. Fl. 1780DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 63 Conforme elucidado pela recorrente, o (...) deságio apontado pela autoridade lançadora decorre do fato de o custo de aquisição ter sido definido 1º de setembro de 2012 (data de aprovação do plano de recuperação judicial), mas a aquisição efetiva dos créditos ter ocorrido em 8 de novembro de 2012. (...)Utilizando as taxas de juros previstas no plano de recuperação judicial, a fiscalização apurou o valor atualizado dos créditos na data da aquisição (R$ 238.348.856,49). A diferença entre esse valor e o custo de aquisição (R$234.757.353,41) foi tratada como deságio pela autoridade lançadora. Por todo o exposto, também entendo por dar provimento para afastar a acusação de omissão de receita financeira caracterizada pela falta de apropriação contábil de “juros efetivos” referente ao CRÉDITOS CEDIDOS PELO BNDESPAR. DA SEGUNDA ACUSAÇÃO FISCAL - LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO REFERENTE A SUPOSTO GANHO LÍQUIDO DECORRENTE DA REALIZAÇÃO DE ATIVO FINANCEIRO PELA RECORRENTE No que diz respeito a 2ª infração, nos termos do Acórdão recorrido, esta foi identificada no auto de infração de IRPJ (fl. 5), descrita como “Omissão de ganho decorrente da realização de ativo financeiro”, no valor de R$ 432.925.955,60, em que foi aplicada multa qualificada de 150%. Corresponde à 1ª infração descrita no auto de infração de CSLL (fl. 33) e à 2ª infração tanto no auto de infração de PIS (fl. 61) quanto no de Cofins (fl. 68). A decisão a quo descreve que de acordo com as cláusulas 7.7.3 e 7.7.3.2 do Plano de Recuperação Judicial, a Interessada teria adquirido os denominados Créditos Bonds, pagando 17,5% do seu valor de face, pelos quais receberia da Celpa, até 31/12/2013, esses mesmos 17,5%, acrescidos de juros, além dos restantes 82,5%, sem juros, em dez parcelas vincendas entre 2034 e 2043. Narra ainda, que conforme ata da reunião de diretoria da Interessada realizada em 27/09/2013 (fls. 492-493), a Celpa foi: “autorizada a realizar um lançamento a débito na conta de sócios de crédito de longo prazo da Equatorial contra a Celpa, no valor de R$ 433.741.924,69. Dessa forma, a Celpa retomaria um patrimônio líquido positivo, o que facilitaria seu acesso a linhas de crédito novas e à renovação das existentes.” Portanto, a autoridade fiscal concluiu, por meio dessa operação, que a contribuinte teria realizado a parcela de 82,5% dos Créditos Bonds, apurando um ganho de R$ 432.925.955,60, igual à diferença entre o valor de realização, R$ 433.741.924,69, e o custo de aquisição amortizado, R$ 815.969,09. A recorrente, por sua vez, entende que a autoridade fiscal estaria tributando por analogia ao equiparar os efeitos tributários da absorção de prejuízos aos do aporte de capital. Destaca que na absorção a investidora não recebe qualquer contrapartida, na forma de ações ou quotas, e que, se não há contrapartida, não poderia haver ganho. Não teria havido acréscimo, mas Fl. 1781DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 64 decréscimo patrimonial, pois simplesmente havia renunciado ao direito de receber os fluxos de caixa. Para melhor entendimento do colegiado, segue trechos do acordão recorrido com os devidos destaques: Acórdão XIX - BAIXA DA DÍVIDA REFERENTE A 82,5% DOS CRÉDITOS BONDS 144 A presente seção trata da 2ª infração identificada no auto de infração de IRPJ (fl. 5), descrita como “Omissão de ganho decorrente da realização de ativo financeiro”, no valor de R$ 432.925.955,60, em que foi aplicada multa qualificada de 150%. Corresponde à 1ª infração descrita no auto de infração de CSLL (fl. 33) e à 2ª infração tanto no auto de infração de PIS (fl. 61) quanto no de Cofins (fl. 68). 145 De acordo com as cláusulas 7.7.3 e 7.7.3.2 do PRJ, a Interessada adquiriu os denominados Créditos Bonds, pagando 17,5% do seu valor de face, pelos quais receberia da Celpa, até 31/12/2013, esses mesmos 17,5%, acrescidos de juros, além dos restantes 82,5%, sem juros, em dez parcelas vincendas entre 2034 e 2043. 146 Contudo, conforme ata da reunião de diretoria da Interessada realizada em 27/09/2013 (fls. 492-493), a Celpa foi: autorizada a realizar um lançamento a débito na conta de sócios de crédito de longo prazo da Equatorial contra a Celpa, no valor de R$ 433.741.924,69. Dessa forma, a Celpa retomaria um patrimônio líquido positivo, o que facilitaria seu acesso a linhas de crédito novas e à renovação das existentes. 147 Entendeu a Fiscalização que, por meio dessa operação, a Interessada realizou a parcela de 82,5% dos Créditos Bonds, apurando um ganho de R$ 432.925.955,60, igual à diferença entre o valor de realização, R$ 433.741.924,69, e o custo de aquisição amortizado, R$ 815.969,09. 148 Considerando ainda uma mais-valia de R$ 429.000 mil para a conta “Em préstimos e financiamentos” e um passivo fiscal diferido de R$ 62.922 mil, a Fiscalização defende que a Interessada deveria ter realizado os seguintes lançamentos: (...)149 Os lançamentos (1) e (2) evidenciam a transferência do fluxo de caixa para a Celpa e a baixa do respectivo custo de aquisição, com apuração de ganho tributável de R$ 432.926 mil, enquanto os lançamentos (3) e (4) se referem à amortização do saldo da mais valia. 150 A Interessada acusa a Fiscalização de estar tributando por analogia, equi parando os efeitos tributários da absorção de prejuízos aos do aporte de capital. Destaca que na absorção a investidora não recebe qualquer contrapartida, na forma de ações ou quotas, e que, se não há contrapartida, não pode haver Fl. 1782DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 65 ganho. Não teria havido acréscimo, mas decréscimo patrimonial, pois simplesmente abriu mão do direito de receber os fluxos de caixa. 151 Quanto à proposta de contabilização apresentada no TVF, pondera que: 1) Variações no patrimônio líquido da investida são refletidos na investi dora por meio do MEP. As receitas e despesa de variação patrimonial são neutras para fins tributários; 2) Se o suposto ganho da Interessada tivesse que ser debitado na conta de equivalência patrimonial, conforme lançamento (1) da proposta de contabilização da Fiscalização, a contrapartida seria resultado de equivalência patrimonial. 3) O lançamento (1) viola o disposto no art. 248, inciso III, da LSA, segundo o qual o ajuste de equivalência patrimonial só afetará o resultado da investidora se tiver afetado o resultado da investida. Portanto, no caso sob análise, não haveria sequer resultado de equivalência patrimonial; 4) Subsidiariamente, eventual tributação do ganho líquido deverá considerar também a perda no recebimento da parcela de 82,5% do Créditos Bonds. (...)167 No caso sob análise, o ágio pago por 82,5% dos Créditos Bonds é composto de duas parcelas: AVJ (Ajuste a Valor Justo) e PFD (Passivo Fiscal Diferido). Ambos deverão ser integralmente baixados, acompanhando a baixa integral na investida do passivo que lhes deu causa. 168 Porém, consoante o art. 25 do Decreto-Lei n° 1.598/77, com redação dada pelo Decreto-Lei n° 1.730/79, a amortização do ágio não será computada na determinação do lucro real. 169 A Interessada, com base no PPA (PPA - Purchase Price Allocation - Alocação do Preço Pago), afirma que o AVJ (Ajuste a Valor Justo) de 82,5% dos Créditos Bonds é de R$ 429 milhões. Além disso, durante a fiscalização, informou que o PFD (passivo fiscal diferido) seria de R$ 62.922.436,54. 171 Registre-se que a investidora, posteriormente, aumentou sua participação para 96,18%. Não se sabe, porém, em que termos foi negociado o aumento, tampouco se houve pagamento de novo ágio. De qualquer forma, a análise atual se refere apenas à amortização do ágio referente à aquisição de 61,37% da Celpa. (...)174 Procede a aplicação do percentual de participação sobre o valor da dívida baixada, pois o produto representa a contrapartida pela transferência do fluxo de caixa. Por outro lado, não há razão para que se aplique o percentual sobre o AVJ (avaliação de valor justo). Se os 82,5% dos Créditos Bonds foram integralmente baixados na Celpa, a Interessada deveria baixar integralmente o respectivo AVJ, de R$ 429 milhões. 175 A Interessada questiona se teria apurado ganho com a baixa do passivo financeiro na Celpa e se eventual resultado seria decorrente da realização de um ativo ou de equivalência patrimonial. Como vimos, quando o investimento é Fl. 1783DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 66 feito em bens, a investidora deve apurar o resultado de realização desse bem, que é igual ao valor do investimento menos o valor contábil do bem baixado. Por outro lado, como a dívida foi baixada diretamente em contrapartida a prejuízos acumulados, não houve apuração de qualquer resultado na investida, logo não há resultado de equivalência patrimonial na investidora. 177 Segundo o Parecer Normativo CST n° 4/1981, “o valor debitado, cuja contrapartida, no caso, será um lançamento a crédito da conta de prejuízos acumulados (...) não representa um ingresso efetivo”. Sendo assim, a Interessada questiona como pode ter transferido algo – o fluxo de caixa – se não houve ingresso efetivo na investida. 178 Inicialmente, importa esclarecer que no citado parecer houve manifestação de entendimento quanto à idoneidade da baixa de dívida mediante débito em conta de sócio e crédito em prejuízos acumulados, considerando-se a repercussão sobre o resultado de correção monetária. Concluiu-se que a operação é legitima, desde que haja saldo credor suficiente na conta do sócio, pois, caso se creditasse na conta do sócio valor maior que o seu saldo, haveria majoração inidônea do patrimônio líquido, e, consequentemente, apuração inidônea da despesa de correção monetária. 179 Como a correção monetária das demonstrações financeiras foi revogada pelo art. 4° do Lei n° 9.249/95 e, no caso sob análise, o débito na conta de sócio não foi maior que seu saldo, o citado parecer não tem aplicação. 180 De qualquer forma, a afirmação de que “o valor debitado (...) não representa um ingresso efetivo” significa apenas que não houve, por exemplo, transferência de recursos para contas correntes bancárias da investida e tradição física de bens tangíveis. Contudo, houve investimento, posto que um ativo da Interessada foi consumido para incrementar o PL da Celpa. 181 Questiona-se a aplicabilidade da SC Disit10 n° 31/2012 ao caso, tendo em vista o seguinte trecho: 16.6 Ora, a absorção de prejuízos contábeis, mediante débito na conta de sócios e crédito na conta de prejuízos acumulados, representa o emprego de recursos dos sócios de modo a arcar com os prejuízos que lhes cabem contratualmente suportar, segundo tenha sido por eles previamente deliberado. 182 A Interessada argumenta que não tinha obrigação contratual de arcar com qualquer prejuízo da investida. 183 No entanto, é irrelevante se a Interessada baixou a dívida contra prejuízos acumulados porque tinha obrigação de absorvê-los. O que importa é que houve a baixa, e, com ela, o investimento, que impõe a apuração do ganho de realização do bem. Alega-se que o Fisco já teria tentado tributar a operação em Fl. 1784DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 67 tela atribuindo-lhe os efeitos do perdão de dívida, o que teria sido rechaçado pela jurisprudência administrativa. No caso sob análise, estar-se-ia tentado novamente realizar a tributação por analogia, dessa vez com o aporte de capital. 185 Não se trata de tributação por analogia, mas segundo a sua natureza jurídica. Concluiu a jurisprudência administrativa que a operação não tem natureza de perdão de dívida, mas de investimento, logo deve ser tributada dessa forma, ou seja, mediante apuração na investida de ganho na realização do bem. 186 A Interessada entende que, na apuração do ganho obtido com a realização de 82,5% dos Créditos Bonds, dever-se-ia considerar o AVJ de R$ 429 milhões apontado no PPA para a conta de Empréstimos e financiamentos, ou seja, dever-se-ia considerar uma despesa dedutível de R$ 429 milhões. 187 Como vimos, se houver a realização na investida de bem ou obrigação que tenha dado causa a pagamento de ágio, este deverá ser amortizado pela investidora na mesma proporção. No caso analisado, 82,5% dos Créditos Bonds foram integralmente realizados, de modo que a Interessada deveria amortizar integralmente o respectivo ágio. Contudo, não se pode fazê-lo em contrapartida à conta de apuração do ganho de realização, pois este é tributável, enquanto a amortização do ágio é tributariamente neutra. 188 Vale dizer, o ágio ou deságio não afeta o resultado tributável da investidora à medida que o bem ou a obrigação que lhe deu causa é realizado na investida, mas na alienação ou liquidação do investimento (arts. 25 e 33, inciso II, do Decreto-Lei n° 1.598/77, com redações dadas pelo Decreto-Lei n° 1.730/79). 189 A Interessada argui que o lançamento de PIS e Cofins referente a setembro de 2013 foi atingido pela decadência, pois: (i) a intimação do lançamento (03/12/2018) ocorreu mais de 5 anos depois do fato gerador (30/09/2013); (ii) PIS e Cofins são tributos sujeitos a lançamento por homologação; (iii) os débitos foram confessados em DCTF e extintos por compensação; e (vi) não houve dolo, fraude nem simulação. 190 Considerando que: (i) trata-se de fato gerador ocorrido em 30/09/2013 (AI fls. 61 e 68) e de intimação realizada em 03/12/2018 (AR fl. 1116); (ii) PIS e Cofins são tributos sujeitos a lançamento por homologação; (iii.a) a Interessada confessou os débitos em DCTF (fls. 1375-1377), informando tê-los extinto por compensação; (iii.b) a compensação foi homologada (fls. 1378-1379); e (vi) na apreciação das alegações contrárias à qualificação da multa de ofício – que se encontra mais adiante nesse voto – conclui-se que não foi provado o dolo da Interessada no cometimento da infração em foco. 191 Verifica-se que o lançamento de PIS e Cofins relativo a setembro de 2013 foi atingido pela decadência. XIX.3 - CONCLUSÃO Fl. 1785DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 68 192 Em decorrência da baixa de dívida na Celpa referente a 82,5% dos Créditos Bonds, a Interessada devia ter efetuado os seguintes lançamentos contábeis: (...)XX - MULTA QUALIFICADA 201 Embora a Interessada não tenha escriturado corretamente a operação, deve- se considerar que não se trata de contabilização corriqueira, tendo a própria Fiscalização se equivocado ao afirmar que as baixas do AVJ e do PFD referentes a 82,5% dos Créditos Bonds deveriam ser lançados em contrapartida a conta de receita de participação societária, apesar de a investida não ter apurado qualquer resultado com a operação. 202 Sendo assim, por não ter sido provado o dolo da Interessada, deve-se des qualificar a multa de ofício. Portanto, no que concerne à presente acusação fiscal de omissão de receita (ganho) auferida pela Recorrente em setembro de 2013, quando a CELPA teria absorvido seus próprios prejuízos contábeis à conta de passivo financeiro representativo de créditos detidos pela Recorrente, a autoridade fiscal entendeu, em suma, que crédito não foi simplesmente renunciado pela Equatorial, mas sim incorreu em um “aumento de capital/subscrição de ações” da CELPA mediante “transferência” de “fluxo de caixa” que a Recorrente tinha a receber entre 2034 e 2043. Inicialmente os créditos tributários relacionados a essa acusação foram exigidos com acréscimo de multa de ofício qualificada (150%) (vide itens 5.1 e 5.2 do TVF – fls. 993/1.015 e 1.015/1.033 do PAF). Nesse contexto, o acórdão acolheu uma parte dos argumentos apresentados pela Recorrente e determinou o cancelamento parcial das exigências fiscais, especificamente com relação ao (i) cancelamento parcial da exigência de IRPJ e CSLL: o acórdão considerou que a autoridade lançadora incorreu em erro de cálculo ao determinar o suposto ganho auferido pela Recorrente com a absorção de prejuízos contábeis da CELPA, por não considerar o percentual da participação societária da Recorrente na CELPA (tópico XXIII do acórdão; fls. 1484/1485 do PAF); (ii) cancelou integralmente a exigência de PIS e de COFINS referente a setembro de 2013: com base no artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, o acórdão reconheceu a extinção do crédito tributário pela decadência (tópico XIX.2 do acórdão; fl. 1478 do PAF); e (iii) Cancelamento da multa de ofício qualificada: o acórdão concluiu que a autoridade lançadora não comprovou a existência de dolo, fraude ou simulação no presente caso (tópico XX do acórdão; fls. 1479/1481 do PAF). Sendo assim, antes da analisar o mérito da referida acusação, a recorrente arguiu preliminar de nulidade que passa a ser enfrentada no tópico seguinte. DA ALEGAÇÃO DE PRELIMINARMENTE DE NULIDADE DO ACÓRDÃO RECORRIDO: TENTATIVA DE INOVAÇÃO DO CRITÉRIO JURÍDICO DO LANÇAMENTO Fl. 1786DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 69 A recorrente suscitou preliminar de nulidade do acórdão recorrido por tentativa de inovação do critério jurídico do lançamento alegando o seguinte: 291. Conforme antecipado, a autoridade lançadora, no item 5.2 do TVF, acusou a Recorrente de ter omitido receita na apuração do IRPJ e da CSLL, decorrente da “transferência (alienação) dos créditos antes possuídos” (fl. 1.018 do PAF) na absorção de prejuízos contábeis, pela CELPA, mediante baixa do passivo representado pelos créditos financeiros, ocorrida no dia 27 de setembro de 2013. 292. Em outras palavras, a CELPA eliminou o passivo referente aos “Créditos Bonds” via redução dos prejuízos à conta de sócios, sem que, com isso, tenha implicado transferência de ativos ao credor, a Recorrente. Naturalmente, a baixa do passivo sem consumo de ativos, como é o caso, implica, para a CELPA, aumento do patrimônio líquido. 293. No entanto, a autoridade lançadora atribuiu referido ganho à Recorrente, alegando que houve “realização” do ativo financeiro correspondente aos 82,5% do valor de face dos “Créditos Bonds”, cujo vencimento, como visto, ocorreria apenas entre 2034 e 2043. (...)295. Além de apresentar considerações sobre a absorção de prejuízos à conta de sócio, perdão de dívidas e aportes de capital, o voto condutor do acórdão surpreende por dedicar parte considerável da sua exposição à geração de ágio na aquisição de participações societárias e à sua amortização contábil. Ora, o presente caso não trata da amortização de ágio, até porque não foi gerado ágio na aquisição da CELPA. (...)311. Ora, se a fiscalização equivocou-se, mas, ainda assim, o lançamento tributário está sendo mantido, é evidente que a autoridade julgadora pretendeu “corrigir” os fundamentos da autuação. E a tentativa de desvirtuação do que fora a acusação fiscal se justifica pelo fato de que qualquer reflexo contábil ou jurídico que pudesse ter na Recorrente seria decorrente da mutação patrimonial do investimento, daí porque a autoridade lançadora se valeu da expressão “receita de participação societária”. Quer se dizer com isso que, em linha com o Parecer dos Professores Eliseu Martins e Eduardo Flores, seria reflexo de equivalência patrimonial, e, portanto, não tributável. 312. Ainda que essa “correção” não tenha o condão de tornar as exigências fiscais minimamente coerentes, conforme se verá nos tópicos subsequentes, a tentativa de inovar o critério jurídico do lançamento, por si só, demanda o reconhecimento da nulidade do acórdão recorrido em virtude de violação aos artigos 142 e 146 do CTN, conforme ampla jurisprudência deste E. CARF e da CSRF28 . 313. Como tratado anteriormente, a única possibilidade de superar a nulidade do acórdão recorrido será verificada caso este E. CARF entenda possível decidir o mérito favoravelmente à Recorrente, nos termos do artigo 59, inciso II, do Decreto nº 70.235/7229. Fl. 1787DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 70 314. Em razão disso, a Recorrente passa a demonstrar as razões para que, quanto ao mérito, o acórdão recorrido seja reformado e o lançamento tributário seja cancelado. Nos termos dos excertos acima transcritos, a recorrente entende que o acórdão recorrido seria nulo por tentativa de inovação do critério jurídico do lançamento porque não poderia a autoridade fiscal atribuir em favor da recorrente o aumento do patrimônio líquido quando o passivo quanto ao “Créditos Bonds” foi eliminado via redução de prejuízos dos sócios por parte da Celpa, sem que tenha ocorrido transferência de ativos a credora Equatorial, porquanto a baixa do passivo sem consumo de ativos implicaria para a CELPA, aumento do patrimônio líquido, daí a autoridade lançadora teria atribuído referido ganho à Recorrente, alegando que houve “realização” do ativo financeiro correspondente aos 82,5% do valor de face dos “Créditos Bonds”, cujo vencimento ocorreria apenas entre 2034 e 2043. Nessa esteira, a recorrente menciona que o Acórdão recorrido findou por tentar desvirtuar a essência da autuação posto que teria dedicado parte considerável da sua exposição à geração de ágio na aquisição de participações societárias e à sua amortização contábil, e, no presente caso não haveria a possibilidade de amortização de ágio porque não foi gerado ágio na aquisição da CELPA, razão pela qual entende que a acusação envolveria tão somente os efeitos da absorção de prejuízos contábeis da CELPA à conta de sócio e, portanto, a segunda acusação fiscal seria completamente descolada da realidade fática dos autos. Após a análise dos fatos também entendo pela rejeição da presente arguição de nulidade, isso porque o ajuste e aprofundamento das razões decorrentes de suposta “inovação do critério jurídico do lançamento” mediante a análise se haveria o Acórdão desvirtuado a origem do lançamento quando ao invés de se ater tão somente a questão central da acusação fiscal no que diz respeito a suposto ganho líquido decorrente da realização de ativo financeiro pela recorrente, findou por adentrar em matéria periférica abordando hipótese de suposta geração de ágio na aquisição de participações societárias e à sua amortização contábil, porém sem comprometer a discussão central que perdurou no curso do Acórdão, portanto, a análise das hipóteses mencionadas serão analisadas no mérito. Logo, ao que parece não configura alteração de motivação ou fundamentação do Auto de Infração a ponto de ensejar a sua nulidade por “inovação do critério jurídico do lançamento”, posto que ainda que haja discordância quanto as questões levantas pelo recorrente acima delineadas, não entendo que o artigo 142 e 146 do CTN tenham sido inobservados quanto a constituição do crédito tributário pelo lançamento, mediante a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo, ainda que haja discordância do contribuinte quanto aos referidos requisitos que serão enfrentados no mérito. Fl. 1788DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 71 Afinal, não se pode perder de vista que é atribuição do contribuinte a comprovação da sua tese que indica regularidade em relação aos efeitos tributários da absorção de prejuízos na investidora em não receber qualquer contrapartida, na forma de ações ou quotas, e que, se não haveria contrapartida, não poderia haver ganho, em oposição a tese fiscal que defende a ocorrência de omissão de ganho decorrente da realização de ativo financeiro entendendo que houve na verdade investimento da recorrente na Celpa. Nesse contexto, autoridade fiscal tem a prerrogativa deles discordar, enquanto não decaído o direito de constituir o crédito tributário em análise conforme dispõe o artigo 37 da Lei nº 9.430/1996: "Os comprovantes da escrituração da pessoa jurídica, relativos a fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, serão conservados até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios.” Assim, pelo exposto, rejeito a preliminar de nulidade de tentativa de inovação do critério jurídico do lançamento. DA ANÁLISE DE MÉRITO QUANTO A SEGUNDA ACUSAÇÃO FISCAL - LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO REFERENTE A SUPOSTO GANHO LÍQUIDO DECORRENTE DA REALIZAÇÃO DE ATIVO FINANCEIRO PELA RECORRENTE Conforme exaustivamente exposto, cabe a esta turma de julgamento avaliar se houve “Omissão de ganho decorrente da realização de ativo financeiro”, no valor de R$ 432.925.955,60, em função da decisão da diretoria da recorrente em 27/09/2013 (fls. 492-493), que autorizou a Celpa a (...) “realizar um lançamento a débito na conta de sócios de crédito de longo prazo da Equatorial contra a Celpa, no valor de R$ 433.741.924,69. Dessa forma, a Celpa retomaria um patrimônio líquido positivo, o que facilitaria seu acesso a linhas de crédito novas e à renovação das existentes.” Logo, a autoridade fiscal entendeu que a contribuinte teria realizado a parcela de 82,5% dos Créditos Bonds, apurando um ganho de R$ 432.925.955,60, igual à diferença entre o valor de realização, R$ 433.741.924,69, e o custo de aquisição amortizado, R$ 815.969,09. A recorrente, por sua vez, entende que a autoridade fiscal estaria tributando por analogia ao equiparar os efeitos tributários da absorção de prejuízos aos do aporte de capital. Destaca que na absorção a investidora não recebe qualquer contrapartida, na forma de ações ou quotas, e que, se não há contrapartida, não poderia haver ganho. Não teria havido acréscimo, mas decréscimo patrimonial, pois simplesmente havia renunciado ao direito de receber os fluxos de caixa. Fl. 1789DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 72 Entendo que assiste razão ao contribuinte posto que de fato não se pode equiparar os efeitos tributários da absorção de prejuízos aos do aporte de capital, tendo em vista não se tratar de lucro tributável, porquanto este montante não deveria compor o lucro líquido do período, vez que a absorção de prejuízos contábeis não corresponde a um investimento. Sendo assim, conforme defendido pelo recorrente, com a absorção de prejuízos contábeis à “conta de sócio” realizada na CELPA, o passivo foi baixado sem a consumação de ativos pela devedora, implicando aumento do seu patrimônio líquido. A legislação fiscal e comercial dá guarida ao procedimento contábil adotado pela Recorrente, nos termos do parágrafo 2º do artigo 509 do RIR 99: Art. 509. O prejuízo compensável é o apurado na demonstração do lucro real e registrado no LALUR (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 64, § 1º, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 6º, e parágrafo único). § 2º A absorção, mediante débito à conta de lucros acumulados, de reservas de lucros ou capital, ao capital social, ou à conta de sócios, matriz ou titular de empresa individual, de prejuízos apurados na escrituração comercial do contribuinte não prejudica seu direito à compensação nos termos deste artigo (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 64, § 3º). (grifei) O Parece Normativo n. 04/81 apesar de analisar a questão em relação à correção monetária de balanço, assim tratou: “4. Na hipótese em exame, o débito à conta dos sócios tem por função precípua a manutenção da integridade do capital social, que se encontra desfalcado pela ocorrência do prejuízo. Assim ao fazer-se a absorção deste, em valor igual ao crédito de que o sócio da conta debitada seja titular, ter-se-á como regular a amoldada à técnica contábil a eliminação da referida parcela redutora do patrimônio líquido, porque equivale a um aporte de capital. 5. O entendimento acima, entretanto, não poderá ser mantido se não houver a referida equivalência, como no caso em que inexista crédito de sócio. 5.1 Com efeito, o valor debitado, cuja contrapartida, no caso, será um lançamento a crédito da conta de prejuízos acumulados, 1) não transita por conta de resultados e 2) não representou um ingresso efetivo. Dessa forma, a hipótese se apresenta como dívida da Celpa para com o sócio, que foi devidamente cancelada em razão da decisão da diretoria da recorrente, portanto, conforme a normativa comercial, o débito à conta do sócio deve ter por função precípua a manutenção da integridade do capital social, que apresentava, então, prejuízo. Este aparenta ser o racional do Parecer Normativo CST nº 04/81 que dispõe que: “o valor debitado, desde que à conta do sócio, na Fl. 1790DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 73 medida em que a contrapartida é, ao final, um lançamento a crédito da conta de prejuízo acumulado, não deve transitar por conta de resultado, porquanto não representa ingresso efetivo.” Portanto, aos olhos deste relator não restou configurando “ganho” na pessoa jurídica, mas sim a absorção do prejuízo pelos sócios. Isso porque não há qualquer acréscimo patrimonial a ser tributado, mas apenas a baixa de um passivo da pessoa jurídica contra a redução de prejuízos acumulados, com impacto única e exclusivamente na conta representativa de direito dos sócios contra a sociedade e de patrimônio. Nesse sentido, o que houve foi o consumo de um prejuízo no exato montante da renúncia da dívida que não foi tributada, consoante determina o artigo 183, I alínea “b”, da Lei das S.A. 189 da Lei das S/A e o mencionado no artigo 509, § 2º do RIR: Art. 183. No balanço, os elementos do ativo serão avaliados segundo os seguintes critérios: I - as aplicações em instrumentos financeiros, inclusive derivativos, e em direitos e títulos de créditos, classificados no ativo circulante ou no realizável a longo prazo: b) pelo valor de custo de aquisição ou valor de emissão, atualizado conforme disposições legais ou contratuais, ajustado ao valor provável de realização, quando este for inferior, no caso das demais aplicações e os direitos e títulos de crédito; Art. 189. Do resultado do exercício serão deduzidos, antes de qualquer participação, os prejuízos acumulados e a provisão para o Imposto sobre a Renda. Parágrafo único. o prejuízo do exercício será obrigatoriamente absorvido pelos lucros acumulados, pelas reservas de lucros e pela reserva legal, nessa ordem. Ressalta-se ainda que nos termos defendidos pela recorrente ao absorver prejuízos à conta de sócio significa que a CELPA eliminou o passivo via redução dos prejuízos à conta de sócios, sem que, com isso, tenha transferido ativos ao credor, ou seja, sem que tenha havido contrapartida. Naturalmente, a baixa do passivo sem consumo de ativos, implica, para a CELPA, aumento do patrimônio líquido. Portanto, não há redução de ativos, a baixa do passivo se deu sem contrapartida na forma de consumo de ativos; a conta de capital social não se altera, dado a hipótese de que a operação não implica alteração na quantidade de quotas ou ações e/ou valores do capital social; e a redução de prejuízos contábeis com a renúncia da dívida (conta contábil devedora no patrimônio líquido) gera aumento do patrimônio líquido da entidade cujo passivo é baixado. Daí, em que pese o PL (patrimônio líquido) da CELPA aumentou em razão da absorção dos prejuízos contábeis, a autoridade fiscal ao que parece equivocadamente conferiu o Fl. 1791DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 74 ganho à Recorrente, sustentando que houve realização do ativo financeiro correspondente aos 82,5% do valor de face dos créditos via aumento de capital, ou seja, que teria havido uma subscrição de capital social com pagamento em créditos financeiros. Para corroborar o entendimento presente, vale transcrever as ementas deste CARF que indicam que o perdão da dívida em favor da empresa adquirida representa a absorção de prejuízo pelos sócios e não ganho ao contribuinte, nos seguintes termos: Acórdão nº 1301-006.860 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA(IRPJ) Ano-calendário: 2014, 2015, 2016, 2017 CONCESSÃO JUDICIAL DE REGIME DIFERENCIADO DE REGIME DE TRIBUTAÇÃO DO IRPJ E DA CSLL. IMPOSSIBILIDADE DE APURAR PREJUÍZO FISCAL E BASE DE CÁLCULO NEGATIVO DA CSLL NA VIGÊNCIA DE TAL REGIME. Submetendo-se o sujeito passivo a regime diferenciado de tributação do IRPJ e da CSLL, por conta de decisão judicial, é imperioso reconhecer-se que tal regime não se subsome aos regimes de tributação legalmente previstos para tais tributos. Logo, inviável a apuração de prejuízo fiscal e base de cálculo negativa de CSLL no curso de tal regime de tributação, vez que apenas as empresas que apuram o IRPJ e a CSLL na sistemática do lucro real é que dispõem de tal faculdade. ALIENAÇÃO DE CONTROLE SOCIETÁRIO. BAIXA DE SALDO DE PREJUÍZO FISCAL E BASE DE CÁLCULO NEGATIVA. INEXISTÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL Não cabe a baixa de saldo de PF e BCN no momento da alienação de controle societário, ainda que haja simulação na utilização desse saldo, por ausência de previsão legal. AUMENTO DE CAPITAL SOCIAL COM CONVERSÃO DE CRÉDITO DETIDO PELO ACIONISTA. INSTITUTO DIVERSO DO PERDÃO DE DÍVIDA. É possível aumento de capital social com conversão de dívida detida pelo acionista, não sendo tributável tal valor. Tal instituto difere do perdão de dívida. MULTA ISOLADA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFÍCIO INCIDENTE SOBRE O TRIBUTO APURADO COM BASE NO LUCRO REAL ANUAL. COMPATIBILIDADE. Tratando-se de infrações distintas, é perfeitamente possível a exigência concomitante da multa de ofício isolada sobre estimativa obrigatória não recolhida ou recolhida a menor com a multa de ofício incidente sobre o tributo apurado, ao final do ano-calendário, com base no lucro real anual. (...) Acórdão nº 1301-001.551 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Fl. 1792DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 75 Ano-calendário: 2005 OMISSÃO DE RECEITAS OPERACIONAIS “PERDÃO DAS DÍVIDAS” Não se pode confundir perdão de dívida, com a absorção de prejuízos apurados pelos sócios da empresa, sob pena de desvirtuar-se, por completo, a materialidade do tributo aqui tratada, de sorte que, está correta a recorrente ao defender não se tratar de lucro tributável, porquanto este montante não deveria compor o lucro líquido do período, já que se tratava, inegavelmente, de dívida dela recorrente para com o sócio, a qual foi cancelada. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS A operação de alienação dos imóveis da até então Bottizzo Transporte e Empreendimentos Ltda. para a Empresa Gazometro de Transportes S/A, em 19/08/2005, por R$ 625.370,00, segundo concluiu a Fiscalização e decisão recorrida, se deu por um valor bem inferior ao valor contábil (R$ 1.153.146,39), este resultante de uma anterior avaliação a preço de mercado, e, também, inferior ao valor da avaliação efetuada pela Secretaria Municipal da Fazenda de Porto Alegre (R$ 1.184.800,00), caracterizando distribuição disfarçada de lucro, pois da operação resultou a redução do lucro tributável do contribuinte em benefício da pessoa jurídica ligada. Acórdão nº 1402-001.210 ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2012 MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. REVISÃO INTERNA DE DECLARAÇÕES. DESNECESSIDADE. Não é exigido MPF na hipótese de procedimento de fiscalização relativo ao tratamento automático das declarações (malhas fiscais). ERRO NA IDENTIFICAÇÃO TEMPORAL DO FATO GERADOR - INOCORRÊNCIA. A errônea indicação da data ou período do fato gerador no corpo do auto de infração, por si só, não caracteriza o chamado “erro na identificação temporal” deste, mormente quando na descrição dos fatos está corretamente identificada a matéria tributada. No caso em questão o Fisco tributou o lucro apurado no balanço de encerramento de empresa incorporada, evento ocorrido em out/2005. Todavia grafou o fato gerador em dez/2005. Trata-se de simples erro formal, que não trouxe qualquer prejuízo à tributação muito menos à defesa do contribuinte. Logo, pode ser corrigido de ofício. RESULTADOS DECORRENTE DE PERDÃO DE JUROS PASSIVOS INCORRIDOS EM EMPRÉSTIMO DE SÓCIO. INEXISTÊNCIA DE ACRÉSCIMO PATRIMONIAL TRIBUTÁVEL. CONTABILIZAÇÃO A DÉBITO DE PREJUÍZOS ACUMULADOS. Fl. 1793DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 76 Nos termos da legislação comercial cabe aos sócios aportarem os recursos de que a empresa necessita. O Parecer Normativo CST Nº 04, de 1981, ratificando o entendimento de que o valor debitado à conta do sócio em contrapartida a um lançamento a crédito da conta de prejuízo acumulado, não deve transitar por conta de resultado, porquanto não representa ingresso efetivo. Inteligência do PN/CST nº 04/81 e artigo 509, § 2º, do Regulamento do Imposto de Renda de 1999. Preliminar Rejeitada. Recurso Voluntário Provido. Acórdão nº 1401-000.849 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2003 RECURSO DE OFÍCIO. ABSORÇÃO DE PREJUÍZOS À CONTA DE SÓCIO. EFEITOS TRIBUTÁRIOS. A absorção de prejuízos contábeis mediante débito da sociedade para com sócio equivale a uma injeção de capital, não implicando em perdão de dívidas e não gerando ganho financeiro tributável. (...) Pois bem, considerando não se tratar no caso de ganho efetivo no perdão de dívida, tendo em vista o débito à conta de sócio no exato montante do prejuízo acumulado, de se aplicar o disposto no PN CST 04/81, combinado com o artigo 509, §2º, do RIR/99 e a norma mencionada referida na Lei das S.A, não se tratando de lucro tributável à parcela decorrente da realização de ativo financeiro”, no valor de R$ 432.925.955,60, em função da decisão da diretoria da recorrente em 27/09/2013 (fls. 492-493) em renunciar o valor da CELPA. Portanto, dou provimento a este tópico para afastar a acusação de omissão de ganho decorrente da realização de ativo financeiro, bem como a respectiva multa aplicada. DA ANÁLISE DA QUARTA ACUSAÇÃO FISCAL - IMPROCEDÊNCIA DAS ACUSAÇÕES FISCAIS ACERCA DA CONTABILIZAÇÃO INDEVIDA DE JUROS PASSIVOS A recorrente também se insurge contra a acusação fiscal acerca do registro da contabilização indevida de juros passivos relacionados a aquisição de “Créditos Banco Guanabara” face a acusação fiscal que ela havia registrado equivocadamente em sua contabilidade em 20 de outubro de 2014, nos seguintes termos: Fl. 1794DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 77 510. De acordo com a autoridade lançadora, a Recorrente teria registrado equivocadamente em sua contabilidade juros passivos relacionados à aquisição dos “Créditos Banco Guanabara” em 20 de outubro de 2014. 511. Os créditos originalmente detidos pelo Banco Guanabara foram habilitados no plano de recuperação judicial da CELPA pelo valor de R$ 10.079.346,00. Na medida em que o Banco Guanabara não optou expressamente por qualquer opção prevista no plano de recuperação judicial, o recebimento desses créditos ficou sujeito às seguintes condições: 512. Sendo assim, foi aplicado desconto de 25% sobre os “Créditos Banco Guanabara”, que passaram a representar o valor de R$ 7.559.509,50. 513. Em 20 de outubro de 2014, a Recorrente e o Banco Guanabara celebraram Instrumento Particular de Cessão de Crédito (fls. 446/448 do PAF). Nessa data, o valor do crédito era de R$ 7.724.041,35, considerando a incidência de juros contratuais fixada pela cláusula 7.9.1 do plano de recuperação judicial. Observe-se a memória de cálculo abaixo: 514. No entanto, o Instrumento Particular de Cessão de Crédito adotou metodologia de cálculo distinta para apuração do valor atualizado dos “Créditos Banco Guanabara”. Tomou-se como ponto de partida o valor original dos créditos (R$ 10.000.000,00) e as condições originais para cálculo dos juros, conforme segue: Fl. 1795DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 78 515. Dessa forma, o valor de R$ 8.965.872,44, pago pela Recorrente ao Banco Guanabara, deve ser segregado em duas grandezas: (i) custo de aquisição dos créditos, no valor de R$ 7.724.041,35; e (ii) encargos da cessão, no valor de R$ 1.241.831,10. 516. Dessa forma, não existe qualquer óbice ao registro contábil e à dedutibilidade do valor correspondente a encargos de cessão (despesa financeira) incorridos pela Recorrente por ocasião da aquisição dos “Créditos Banco Guanabara”. Pelo contrário, o artigo 374 do RIR/99, vigente à época dos fatos, assegura a dedutibilidade de despesas de juros pagos ou incorridos pela Recorrente na operação com o Banco Guanabara53 . 517. Por todo o exposto, a glosa dos juros passivos pretendida pela autoridade lançadora é improcedente, devendo haver o cancelamento da exigência fiscal quanto a mais esse ponto. No caso, em tela, o valor de R$ 8.965.872,44, pago pela Recorrente ao Banco Guanabara não deve ser segregado pelo custo de aquisição dos créditos, no valor de R$ 7.724.041,35 e os supostos encargos da cessão, no valor de R$ 1.241.831,10, uma vez que havia a previsão do custo de aquisição no PRJ (plano de recuperação judicial) com o referido estabelecimento dos referidos encargos, porquanto a Interessada negociou com o banco Guanabara em instrumento próprio a aquisição de direito creditório em face de Celpa pelo valor de R$ 8.965.872,44, sendo este, portanto, o custo de aquisição do ativo, portanto, de fato não tem fundamento a pretensão da recorrente em querer se apropriar imediatamente, como despesa financeira, da diferença entre o custo de aquisição e a dívida da Celpa apurada de acordo com as condições do PRJ. Portanto, no presente tópico, entendo que deve ser mantida a acusação fiscal nos termos do Acórdão da DRJ acerca da contabilização indevida de juros passivos. DO RECURSO DE OFÍCIO Fl. 1796DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 79 No que diz respeito ao Recurso de Ofício, a DR 8ª Turma da DRJ/RJO proferiu acórdão julgando a impugnação parcialmente procedente entendendo pela manutenção das exigências fiscais referentes a tributação de receitas calculadas com “juros efetivos” (1ª infração), tributação do estorno de juros (3ª infração) e glosa de juros passivos (4ª infração). Em relação a absorção de prejuízos contábeis da CELPA (2ª acusação fiscal), a decisão de primeira instância reconheceu em parte os argumentos apresentados pela Recorrente e determinou o cancelamento parcial das exigências fiscais, especificamente com relação aos seguintes pontos: 1) Cancelamento parcial da exigência de IRPJ e CSLL em face do erro de cálculo da autoridade fiscal ao identificar o suposto ganho auferido pela Recorrente com a absorção de prejuízos contábeis da CELPA, tendo em vista a desconsideração do percentual da participação societária da Equatorial na CELPA (tópico XXIII do acórdão; fls. 1484/1485 do PAF); 2) Cancelamento integral da exigência de PIS e de COFINS referente a setembro de 2013 em face do artigo 150, parágrafo 4º do CTN, portanto, em razão da decadência a decisão de primeira instância findou por declarar a extinção do crédito tributário (tópico XIX.2 do acórdão; fl. 1478 do PAF); e 3) Cancelamento da multa de ofício qualificada em função da ausência de comprovação no auto de infração da existência de dolo, fraude ou simulação no presente caso, pelo que a decisão a quo findou por afastar a referida multa (tópico XX do acórdão; fls. 1479/1481 do PAF). Assim, nos termos do art. 114, § 12, I, do RICARF, a fundamentação da presente decisão pode ser atendida mediante a declaração da concordância com os fundamentos da decisão recorrida. Nesse sentido por concordar com os termos da decisão de primeira instância, adoto a fundamentação per relationem, no que diz respeito as matérias tratadas pela decisão recorrida, razão pela qual transcrevo os seguintes trechos que passam a fazer parte do presente julgado, in verbis: XXIII - LIQUIDAÇÃO DA PARCELA INCONTROVERSA E DOS TRIBUTOS MANTIDOS XXIII.1 - IRPJ 215 Para apuração de ganho auferido pela Interessada em decorrência da baixa de 82,5% dos Créditos Bonds, mediante lançamento a débito da conta de sócio e crédito de prejuízos acumulados, deve-se considerar, na apuração da contrapartida, o seu percentual de participação. Portanto, os valores do fluxo de caixa realizado e do ganho não foram de R$ 433.741.924,69 e R$ 432.925.955,60, mas de R$ 417.172.983,17 e R$ 416.357.014,08, como demonstrado abaixo: Fl. 1797DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 80 433.741.924,69 * 96,18% = 417.172.983,17 417.172.983,17 - 815.969,09 = 416.357.014,08 216 Dessa forma, o valor da Infração 3 no período de apuração encerrado em 31/12/2013 deve ser reduzido de R$ 432.925.955,60 para R$ 416.357.014,08. Abaixo apura-se o IRPJ mantido: (...)IRPJ exonerado total: R$ 4.142.235,37 = R$ 113.235.418,34 - R$ 109.093.182,97 218 Para apuração de ganho auferido pela Interessada em decorrência da baixa de 82,5% dos Créditos Bonds, mediante lançamento a débito da conta de sócio e crédito de prejuízos acumulados, deve-se considerar, na apuração da contrapartida, o seu percentual de participação. Portanto, os valores do fluxo de caixa realizado e do ganho não foram de R$ 433.741.924,69 e R$ 432.925.955,60, mas de R$ 417.172.983,17 e R$ 416.357.014,08, como demonstrado abaixo: 433.741.924,69 * 96,18% = 417.172.983,17 417.172.983,17 - 815.969,09 = 416.357.014,08 219 Dessa forma, o valor da Infração 3 no período de apuração encerrado em 31/12/2013 deve ser reduzido de R$ 432.925.955,60 para R$ 416.357.014,08. Abaixo apura-se a CSLL mantida: (...)CSLL exonerada total: R$ 1.491.204,74 = R$ 40.766.972,22 - R$ 39.275.767,48 XXIII.3 - PIS E COFINS 220 Inexiste parcela incontroversa para os lançamentos de PIS e Cofins, pois os juros ativos de R$ 2.452.053,21, FG 31/12/2013, não compuseram as bases de cálculos desses tributos. 221 Em razão de o lançamento de PIS e Cofins relativo a setembro de 2013 ter sido atingido pela decadência, foram mantidos os tributos abaixo: (...) Portanto, por todo exposto e por concordar com os termos do Acórdão de primeira instância em relação a exoneração dos créditos tributários acima delineados, entendo por negar provimento ao Recurso de Ofício. Conclusão Por todo o exposto, conheço do Recurso Voluntário, rejeito as preliminares de nulidade, e, no mérito, dou-lhe parcial provimento: Fl. 1798DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 81 (i) para afastar a acusação de omissão de receita financeira caracterizada pela falta de apropriação contábil de “juros efetivos” referente aos CRÉDITOS CEDIDOS PELOS BANCOS PRIVADOS, CRÉDITOS BONDS e PELOS CREDORES OPERACIONAIS, este último também havia previsão contratual para não cobrança de juros se subsumindo na mesma fundamentação abordada neste tópico; (ii) para afastar a acusação de omissão de receita financeira caracterizada pela falta de apropriação contábil de “juros efetivos” referente ao CRÉDITOS CEDIDOS PELO BNDESPAR; (iii) afastar a acusação de omissão de ganho decorrente da realização de ativo financeiro, bem como a respectiva multa aplicada. No que diz respeito ao Recurso de Ofício este deve ser conhecido e, no mérito, nego-lhe provimento. Assinado Digitalmente Fellipe Honório Rodrigues da Costa Conselheiro Relator VOTO VENCEDOR Conselheiro Maurício Novaes Ferreira, redator designado Inobstante o robusto voto proferido pelo ilustre Conselheiro Relator, o Colegiado, após os debates, houve por bem, por maioria de votos, dar provimento ao recurso voluntário em menor extensão do que o encaminhamento proposto no voto vencido, cabendo a mim a redação do voto vencedor. A Turma Julgadora decidiu por manter as autuações fiscais relativas às omissões de receitas decorrentes de créditos cedidos pelos bancos privados, bem como as decorrentes dos créditos bonds e as apuradas em relação aos credores operacionais, além de considerar procedente a autuação fiscal decorrente da realização de ativos financeiros. Os fatos processuais estão pormenorizadamente descritos no relatório integrante do presente acórdão, de modo que o presente voto se fundamentará no relatado. Apenas para contextualizar, o procedimento instaurou-se em face da Recorrente em função da sua atividade no processo de recuperação judicial das Centrais Elétricas do Estado Fl. 1799DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 82 do Pará (CELPA) que culminou com a assunção do controle acionário desta última pela Equatorial Energia (Recorrente). Tendo-se homologado a recuperação judicial da CELPA, a Recorrente promoveu o aporte de R$ 700.000.000,00 (setecentos milhões de reais) na empresa em recuperação e adquiriu, na condição de novo controlador, os títulos de créditos detidos por instituições financeiras e fornecedores frente à CELPA. Nos termos do plano de recuperação judicial, os títulos foram adquiridos por 17,5% do seu valor de face, de modo que o titular do crédito daria plena quitação à CELPA mediante o pagamento desta parcela do débito. A CELPA, por sua vez, ficaria na condição de devedora, em relação à Equatorial, do valor total da dívida, obrigando-se a pagar os 17,5% nos prazos contratuais e os demais 82,5% em 10 parcelas anuais, sem juros ou correção, após período de carência fixado até o dia 30/09/2034. Em relação às duas primeiras infrações abordadas neste voto, a questão a ser dirimida é a existência ou não de receita tributável em relação aos 82,5% das dívidas, dado o período de carência e a previsão contratual de inexistência de juros ou correção do valor devido. A Recorrente instaura sua irresignação em relação à exigência alegando que os saldos remanescentes das dívidas adquiridas (os 82,5%) por ela dos antigos credores da CELPA teriam sido perdoadas. O voto condutor do julgado considera comprovado o perdão da dívida nos seguintes termos: Inicialmente, cabe analisar no contexto dos autos a comprovação da efetiva renúncia do crédito correspondentes à parcela de créditos detidos pela Recorrente contra a CELPA, adquiridos de terceiros com deságio no contexto da recuperação judicial desta sociedade, cujo vencimento ocorrerá somente entre 2034 e 2043 e será paga à Recorrente sem incidência de encargos financeiros. Assim, ao cotejar os documentos e analisar os fundamentos contidos nos autos, constata-se que além do documento desconsiderado pela fiscalização e pelo Acórdão recorrido intitulado DFP – Demonstração Financeira datada de 31.12.2012 em que consta o desconto de R$ 225.896.000,00, o recorrente também traz em sede de Recurso Voluntário a demonstração livro razão da conta “2217167014 - PRINCIPAL LP - PLANO RJ: EQUATORIAL ENERGIA”, registrada pela CELPA em sua Escrituração Contábil Digital (“ECD”) (doc. 2) dando conta do desconto da parcela de 82,5% dos “Créditos Bancos Privados”, cabe verificar o livro razão da conta “2217167014 - PRINCIPAL LP - PLANO RJ: EQUATORIAL ENERGIA”, registrada pela CELPA em sua Escrituração Contábil Digital (“ECD”): Fl. 1800DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 83 Sendo assim, os documentos acima mencionados denotam, conforme defendido pelo contribuinte, que de fato os créditos originalmente detidos por bancos privados registrados no passivo de longo prazo (parcela de 82,5%) foram integralmente baixados em virtude do desconto concedido pela Recorrente, ele ainda anexa ao seu recurso uma tabela demonstrando a identidade dos valores insertos no Livro Razão e a proporção de 82,5% do crédito original perante os denominados “Bancos Privados”, passa-se a reproduzir para melhor compreensão: Sendo assim, resta comprovado para este relator a alegação de que o recorrente renunciou os valores que se encontram com carência de pagamento para os anos Fl. 1801DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 84 de 2034 e 2043, sendo correto afirmar que a escrituração contábil da CELPA e da Recorrente elaborada e mantida com observância da legislação tributária faz prova a seu favor, nos termos artigo 9º, parágrafo 1º, do Decreto-Lei nº 1.598/77, nos seguintes termos: [...] Não há como acolher a conclusão acima apresentada. Analisando-se os documentos copiados no voto, percebe-se, de plano, que os registros são relativos à contabilidade da CELPA, e não da Recorrente. Ademais, resta estampada na demonstração financeira que os descontos foram obtidos junto aos credores financeiros em relação à dívida de longo prazo. Evidentemente que a CELPA auferiu, concretamente, estes descontos no âmbito do processo de recuperação judicial, e isso sequer é contestado pelo fisco. De fato, os passivos registrados em relação às instituições financeiras que eram suas originárias credoras até a homologação da recuperação judicial deveriam ser integralmente baixados, parte por pagamento (17,5% das dívidas), parte por perdão (82,5% das dívidas). Ocorre, contudo, que nos termos dos contratos juntados aos autos, a CELPA passou a ser devedora da ora Recorrente (e não mais dos credores originários) pelo total das dívidas adquiridas pela Equatorial. Assim, se uma dívida A estava registrada tendo como credora a instituição 1, esta mesma dívida deveria ter sido baixada em relação a esta instituição e ter sido objeto de novo registro em relação à Recorrente. E não consta dos autos do processo um único documento que permita inferir que a Recorrente perdoou à CELPA o valor dos 82,5% das dívidas que esta assumira com aquela. Não resta comprovado, portanto, o alegado perdão da dívida. O Ilustre Relator do voto vencido prossegue em seus fundamentos para considerar improcedente a autuação fiscal, ainda que se considerasse que não houve perdão das dívidas por parte da Recorrente. Seus argumentos estão assim apresentados (com destaques acrescidos): Desta feita, diante da ausência de pagamento futuro, também não se afigura o acréscimo patrimonial referente à parcela de 82,5% diante da inexistência de disponibilidade econômica de renda nos termos do artigo 43 do CTN, e ressalta-se ainda, que acaso entendido que não houve o desconto da referida parcela, entende-se que a tributação deveria respeitar as previsões contratuais insertas no contexto da recuperação judicial, as quais por si só trazem elementos de complexidade adicional ao presente processo, de modo a considerar a necessidade da tributação apenas com a disponibilidade efetiva do pagamento correspondente à parcela de 82,5% que ocorrerão entre 2034 e 2043. Para tanto, reproduzo excerto do TVF que menciona o Contrato: Fl. 1802DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 85 Nesses termos, para este relator, não procede que a parcela futura deveria ser incorporada ao valor do ativo adquirido, mediante contabilização dos juros efetivos, conforme descrito nos itens 4 e 5.1.2 do TVF, uma vez que a parcela de 82,5% de fato não gera qualquer direito adicional para Recorrente e não acresce paulatinamente o seu patrimônio jurídico conforme o transcurso do tempo a ponto de ensejar a necessidade de calcular a taxa de juros efetiva pretendida pela fiscalização. Vale ressaltar ainda, que não se está a defender aqui invariavelmente que nas hipóteses de aquisição de crédito com pagamento futuro não gere a necessidade de contabilização dos valores efetivamente recebidos a ponto de calibrar a tributação com base no real valor a ser recebido pelo adquirente. No entanto, o que se tem nos autos, acaso se desconsidere o desconto, é uma disponibilidade financeira a ser recebida entre 2034 a 2043 cujo pacto entre as partes não previu a incidência de encargos financeiros dentro de um contexto amplo e complexo referente a viabilidade da aquisição de uma empresa que se encontrava em Recuperação Judicial, exercendo um plano de recuperação judicial e, a recorrente avaliou dentre os diversos elementos da aquisição os critérios financeiros e econômicos para tomar a decisão de aquisição, não cabendo a autoridade fiscal a prerrogativa de considerar a necessidade de aplicação da taxa de juros efetiva na parcela futura incorporando-a indevidamente ao valor do ativo adquirido. Vale destaque ainda, o fato do caso em apreço não se tratar da necessidade de aplicação do regime de caixa em detrimento do regime de competência, é que ao se considerar o a carência estabelecida no contrato a realização da receita apenas aconteceria nos anos que houvesse o efeito econômico (2034 a 2043), ainda que o efeito jurídico tenha ocorrido em 2012 com o estabelecimento do critério do pagamento via contrato, dentre eles o prazo. Portanto, como o período da autuação diz respeito aos anos de 2013 e 2016, tal período não se percebe a disponibilidade da renda alvo da aplicação da taxa de juros efetiva pretendida pela fiscalização, entretanto, tal argumento apenas tem relevância para a hipótese desta turma de julgamento desconsiderar o desconto de 82,5% que a recorrente concedeu a CELPA. Pelo exposto, dou provimento para afastar a acusação de omissão de receita financeira caracterizada pela falta de apropriação contábil de “juros efetivos” referente aos CRÉDITOS CEDIDOS PELOS BANCOS PRIVADOS, CRÉDITOS BONDS e PELOS CREDORES OPERACIONAIS, este último também havia previsão contratual para não cobrança de juros se subsumindo na mesma fundamentação abordada neste tópico. De acordo com o voto condutor do julgado, portanto, os 82,5% das dívidas que a Recorrente é credora frente à CELPA, sua controlada, não geram qualquer direito adicional à primeira e, portanto, não acresce paulatinamente o seu patrimônio jurídico com o transcurso do tempo. Fl. 1803DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 86 Não há como concordar com tal assertiva. Ainda que a CELPA estivesse em recuperação judicial (e já havia superado esta condição), para que se considerasse como inexistente um direito contratualmente previsto entre as partes, haveria que se fundamentar a conclusão com lastro em dispositivo legal, e nada foi ventilado. Ademais, a Lei nº 6.404/1976, com a redação conferida pela Lei nº 11.638/2007, é clara o suficiente ao determinar a atualização do valor de um bem ou direito de longo prazo (com destaques acrescidos): Art. 183. No balanço, os elementos do ativo serão avaliados segundo os seguintes critérios: I - as aplicações em instrumentos financeiros, inclusive derivativos, e em direitos e títulos de créditos, classificados no ativo circulante ou no realizável a longo prazo: (Redação dada pela Lei nº 11.638,de 2007) a) pelo seu valor justo, quando se tratar de aplicações destinadas à negociação ou disponíveis para venda; e (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) b) pelo valor de custo de aquisição ou valor de emissão, atualizado conforme disposições legais ou contratuais, ajustado ao valor provável de realização, quando este for inferior, no caso das demais aplicações e os direitos e títulos de crédito; (Incluída pela Lei nº 11.638,de 2007) [...] VIII – os elementos do ativo decorrentes de operações de longo prazo serão ajustados a valor presente, sendo os demais ajustados quando houver efeito relevante. (Incluído pela Lei nº 11.638,de 2007) (Vide Lei nº 12.973, de 2014) § 1º Para efeitos do disposto neste artigo, considera-se valor justo: (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) a) das matérias-primas e dos bens em almoxarifado, o preço pelo qual possam ser repostos, mediante compra no mercado; b) dos bens ou direitos destinados à venda, o preço líquido de realização mediante venda no mercado, deduzidos os impostos e demais despesas necessárias para a venda, e a margem de lucro; c) dos investimentos, o valor líquido pelo qual possam ser alienados a terceiros. d) dos instrumentos financeiros, o valor que pode se obter em um mercado ativo, decorrente de transação não compulsória realizada entre partes independentes; e, na ausência de um mercado ativo para um determinado instrumento financeiro: (Incluída pela Lei nº 11.638,de 2007) 1) o valor que se pode obter em um mercado ativo com a negociação de outro instrumento financeiro de natureza, prazo e risco similares; (Incluído pela Lei nº 11.638,de 2007) Fl. 1804DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 87 2) o valor presente líquido dos fluxos de caixa futuros para instrumentos financeiros de natureza, prazo e risco similares; ou (Incluído pela Lei nº 11.638,de 2007) 3) o valor obtido por meio de modelos matemático-estatísticos de precificação de instrumentos financeiros. (Incluído pela Lei nº 11.638,de 2007) [...] Portanto, de acordo com a Lei das SA, o valor do ativo de longo prazo deve ser ajustado a valor presente, sempre de acordo com o regime de competência, de modo que o acréscimo ao valor do custo de aquisição corresponde a receita do período, tributada segundo o regime de competência. Deste modo, mostra-se correta a autuação fiscal ao exigir os tributos e contribuições federais incidentes sobre a receita auferida proporcionalmente ao tempo decorrido entre o registro dos ativos, o período de apuração das exações e o prazo do vencimento dos títulos. Quanto às demais circunstâncias relacionadas aos lançamentos decorrentes dos créditos adquiridos de instituições financeiras e créditos bonds, adoto como fundamento para decidir as razões do acórdão recorrido: X - EQUÍVOCO QUANTO AO TRATAMENTO CONTÁBIL DA OPERAÇÃO 103 Baseada em parecer contábil, a Interessada afirma que “não é adequado o entendimento da fiscalização de que a Impugnante deveria reconhecer, da perspectiva contábil, receitas financeiras referentes aos 82,5% dos “Créditos Bancos Privados” e dos “Créditos Bonds” (fl. 1163). 104 Entretanto, no trecho que a Interessada cita e destaca, o parecerista afirma que “o reconhecimento da parcela de 82,5% de deságio no resultado no momento da aquisição dos títulos seria um contrassenso contábil e uma falta de compreensão negocial” (fl. 1163), ou seja, não se nega a possibilidade de reconhecimento da receita com juros, mas de reconhecê-la no momento da aquisição, o que está correto, pois os juros não são auferidos no momento da aquisição, mas posteriormente. O procedimento da Fiscalização está de acordo com o entendi-mento do parecerista, já que não se consideraram os juros auferidos no momento da aquisição, mas no período de apuração da aquisição e em períodos posteriores, pro rata temporis. XI - NEUTRALIZAÇÃO DOS EFEITOS TRIBUTÁRIOS PELO RTT 105 A Interessada entende que “o método da ‘taxa efetiva de juros’ foi introduzido no Brasil apenas com a edição da Lei n° 11.638/2007 e, portanto, os efeitos decorrentes de sua aplicação estarão sujeitos a ajustes do RTT” (fl. 1165). Fundamenta sua opinião em trecho de parecer contábil em que se cotejam as redações do art. 183 da Lei n° 6.404/76 anterior e posterior à Lei n° 11.638/2007. Fl. 1805DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 88 106 Iudícibus, Martins e Gelbcke1, em texto adaptado à legislação societária e fiscal até 31/12/2006, afirmam que: Um dos problemas de mais difícil solução pela contabilidade, na apuração dos resultados das empresas, tem sido o dos juros embutidos nos preços das transações a prazo, em relação aos correspondentes preços à vista. A contabilidade tradicional baseia-se nos documentos que suportam essas transações, registrando-as pelos valores constantes dessas notas fiscais e faturas. Esse problema, na verdade, existe na maioria dos países, mas nos de moeda forte, os valores são substancialmente menores. Nas transações comerciais a curto prazo (30 a 90 dias de prazo de vencimento), os juros embutidos tendem a não ser relevantes e, dessa forma, é aceita a prática de registro das vendas e contas a receber a prazo, como se fossem à vista, além do benefício da simplificação burocrática. Essa aceitação é pela sua não- relevância relativa e não porque seja uma prática contábil sadia e aceitável. Tanto que, nas transações a longo prazo com juros embutidos, a prática normal é de proceder na contabilidade a uma redução desses ativos ao seu valor atual ou presente, mediante a técnica do desconto, com base nas taxas de juros normais praticadas pelo mercado. A técnica de redução a valor presente de contas a receber no futuro, para fins contábeis, não é nova. Decorre dos conceitos da avaliação de ativos a valores de saída. De fato, Hendriksen, já na primeira edição do seu magistral livro Teoria da contabilidade (1974) discorre sobre o assunto [...]. 107 Os autores sugerem, como melhor prática contábil, que os juros embutidos sejam apropriados como receita financeira pro rata temporis2. 108 Essa metodologia é favorável ao contribuinte, pois, se as operações a prazo fossem contabilizadas como as operações à vista, toda a receita, financeira e não- financeira, seria imediatamente reconhecida e tributada. Portanto, não se trata de receita que passou a ser tributada após as alterações da Lei n° 11.638/2007, mas que já era tributada. 109 Também o art. 17 do Decreto-Lei n° 1.598/77 – base legal do art. 373 do RIR/99, citado pela Fiscalização (fl. 85) – autoriza o rateio dos juros pelos períodos a que competirem, quando derivados de operações ou títulos com vencimento posterior ao encerramento do período de apuração: Art. 17 - Os juros, o desconto, a correção monetária prefixada, o lucro na operação de reporte e o prêmio de resgate de títulos ou debêntures, ganhos pelo contribuinte, serão incluídos no lucro operacional e, quando derivados de operações ou títulos com vencimento posterior ao encerramento do exercício social, poderão ser rateados pelos períodos a que competirem. Fl. 1806DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 89 110 De acordo com a Solução de Consulta Disit09 n° 81, de 16/04/2012, a alternativa para o contribuinte, caso opte por não apropriar os juros segundo o regime de competência, é o reconhecimento na data da aplicação: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ RECEITA FINANCEIRA. APROPRIAÇÃO. REGIME DE COMPETÊNCIA. A apropriação de receitas financeiras decorrentes de operações ou títulos com vencimento posterior ao encerramento do período de apuração deverá ser efetuada na data da aplicação ou “pro rata tempore”. 111 Portanto, o critério de reconhecimento de receitas utilizado pela Fiscaliza- ção, pro rata temporis, não foi introduzido pela Lei n° 11.638/2007, inexistindo, dessa forma, ajuste a ser feito para atender à neutralidade tributária. 112 Destaca-se na Impugnação que: [...] as cláusulas 7.5.2.2.(b), 7.5.2.2.(b) [sic] e 7.7.3.2.(b) [do plano de recuperação judicial] previam que o valor de 82,5% da dívida seria pago em dez prestações anuais entre 2034 e 2043, sem qualquer tipo de correção monetária ou incidência de juros” (fl. 1150). 113 Logo, ao apurar a TEJ considerando essa parcela, a Fiscalização teria deturpado o conceito de juros. 114 Contudo, a TEJ não é igual à taxa de juros explicitamente prevista no PRJ, posto que apurada igualando-se o custo de aquisição com o valor presente dos fluxos a receber. Assim, se alguém contrai uma dívida de R$ 100,00, assumindo o compromisso de pagar 40% no prazo de 1 ano com juros de 10% e os outros 60% no prazo de 2 anos sem juros, estará pagando uma TEJ que torna verdadeira a igualdade abaixo: 100,00 = ((100,00*40%)*(1+10%))/(1+TEJ)+(100,00*60%)/(1+TEJ)^2 115 Utilizando a mesma técnica adotada pela Fiscalização (calibragem manual) é possível determinar que a TEJ para nosso exemplo é igual a 2,523288%. 116 Da mesma forma, se alguém paga R$ 100,00 para adquirir com deságio um direito creditório que valia R$ 1.000,00, de modo que a dívida deva ser extinta mediante o pagamento de 10% dos R$ 1.000,00, depois de 1 ano, com juros de 15%, e 90%, em 20 anos, sem juros, a TEJ praticada é a que torna verdadeira a igualdade: 100,00 = (1.000,00*10%)*(1+15%)/(1+TEJ)+(1.000,00*90%)/(1+TEJ)^20 117 Embora os juros previstos sejam de 15%, a TEJ é de 26,055669%. XII - PRONUNCIAMENTO TÉCNICO CPC N° 12 118 A Interessada defende que “o método da ‘taxa efetiva de juros’ nada mais é do que o emprego de ajuste a valor presente, disciplinado no Pronunciamento Técnico CPC n° 12” (fl. 1167) e que “o ajuste a valor presente é método contábil que somente foi introduzido na legislação brasileira após a Lei n° 11.638/2007” (fl. Fl. 1807DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 90 1168). Portanto, as receitas financeiras apuradas com a TEJ deveriam ser excluídas na apuração do lucro real, por respeito à neutralidade tributária. 119 Embora o CPC 12 trate do ajuste a valor presente, vimos que essa técnica não foi introduzida na legislação brasileira pela Lei n° 11.638/2007, pois o art. 17 do Decreto-Lei n° 1.598/77 já previa, para operações ou títulos com vencimento posterior ao encerramento do exercício social, o rateio dos juros pelos períodos a que competissem. Esse rateio é feito por meio da taxa efetiva de juros, que também é usada na apuração dos ajustes a valor presente. XIII - PIS E COFINS: INEXISTÊNCIA DE RECEITA DA PERSPECTIVA JURÍDICA 120 A Interessada baseia-se em decisão do STF no RE n° 606.107/RS, sobre a inclusão do ICMS na base de cálculo de PIS e Cofins, e em doutrina, para afirmar que receita representa (i) “espécie de entrada ou ingresso da perspectiva do contribuinte”; e (ii) “elemento novo e positivo que acresce o patrimônio do contribuinte” (fl. 1173). No momento em que houvesse o registro das receitas, a Interessada já seria proprietária da parcela correspondente a 82,5% dos Créditos de Bancos Privados e dos Créditos dos Bonds, logo o registro não repre-sentaria ingresso nem elemento novo. Somente a partir de 2034, com o recebimento efetivo de parcelas, haveria ingresso no patrimônio da Interessada, representativos de elementos novos e positivos. Apenas nesse momento seria possível cogitar de obtenção de receita jurídica passível de tributação por PIS e Cofins. 121 No RE mencionado pela Interessada, o STF decidiu que o ICMS não é receita do contribuinte e, portanto, não deve compor as bases de cálculo de PIS e Cofins, porque se trata de valor que deve ser repassado ao Estado. A decisão não se aplica ao caso sob análise porque aqui não se discute a inclusão do ICMS, mas das receitas financeiras, nas bases das contribuições. Além disso, os juros não são valores que a Interessada receberia para repassar a terceiros. 122 A Interessada alega incialmente que o ingresso da parcela de 82,5% no seu patrimônio ocorreu imediatamente, posto que anterior ao registro das receitas. Em seguida, defende que o ingresso só ocorreria com o pagamento das parcelas. Ambas as afirmações, além de contraditórias, estão equivocadas, pois, como vimos, segundo o regime de competência, as receitas são auferidas pro rata temporis. XIV - PIS E COFINS: COMPENSAÇÃO DE OFÍCIO DO EXCESSO DE CONTABILIZAÇÃO 123 Conforme consta na seção 5.1.7 do TVF, fls. 111-112, a Fiscalização determinou o montante de receitas financeiras omitidas, calculando a diferença entre receitas financeiras apuradas e receitas financeiras contabilizadas (Anexo 21, fl. 321). Ressalta-se que, ao contrário do que ocorre com IRPJ e CSLL apurados a partir de balancetes de suspensão, para o PIS e a Cofins, inexiste a possibilidade de compensar os excessos de contabilização apurados em meses anteriores, pois o período de apuração destes tributos é mensal. Destaca-se também que, para os Fl. 1808DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 91 meses em que foi apurado excesso de contabilização, a Interessada poderá “retificar as declarações correspondentes e solicitar a compensação dos valores indevidamente declarados e/ou recolhidos, nos termos da legislação aplicável” (fl. 112). 124 A Interessada observa que no Anexo 18 ao TVF (fl. 303), a Fiscalização indica um “Saldo do excesso de contabilização” de R$ 1.964.544,94 em agosto de 2016: 224. Ou seja, até esse período de apuração, a Impugnante havia registrado mais receitas financeiras e, como resultado, recolhido mais PIS e Cofins do que a autoridade lançadora considera devidos. [...] 225. Todavia, a autoridade lançadora aponta para a existência de omissão de receitas nos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro de 2016, sem considerar o “excesso de contabilização” de agosto de 2016. [...] 226. É evidente que as receitas financeiras submetidas ao recolhimento de PIS e da Cofins antecipadamente [...] devem ser compensadas com as “receitas omitidas” apuradas em períodos posteriores, sob pena de dupla tributação [...]. (fls. 1175-1176). 125 Conforme a Fiscalização salientou, inexiste norma jurídica que autorize a compensação de ofício do excesso de contabilização verificado em períodos anteriores. Nesses casos, se o contribuinte entender que possui algum direito creditório, poderá aproveitá-lo na forma da legislação de regência, notadamente a IN RFB n° 1717/2017. 126 Esse também é o entendimento manifestado na ementa da Solução de Consulta Interna Cosit n° 23/2006 in verbis: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Dedução do Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Na constituição de ofício do Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) devem ser considerados, para efeito de dedução do imposto ou da contribuição devida, os valores de IRPJ e de CSLL decorrentes de retenção na fonte ou de antecipação (estimativas) referentes às receitas compreendidas na apuração. A autoridade fiscal deve considerar os valores de IRPJ e CSLL referentes ao período de apuração fiscalizado, apurados pelo sujeito passivo, mediante adoção de forma de tributação diversa daquela aplicada pela autoridade fiscal no curso da fiscalização, lançando apenas a diferença de imposto ou contribuição apurado. Qualquer outro crédito somente poderá ser objeto de pedido de restituição ou compensação por iniciativa do contribuinte nos termos da legislação pertinente à matéria. Fl. 1809DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 92 127 Da fundamentação da referida SCI, destaca-se: 8. Primeiramente, é importante salientar que os créditos previstos no item anterior referem-se a valores de IRPJ e CSLL pertencentes ao período apuração objeto de lançamento de ofício, pois não há como a autoridade tributária reconhecer de ofício, na referida apuração, outros créditos a que porventura o contribuinte tenha direito, mesmo os referentes ao IRPJ e à CSLL de outros períodos, a exemplo dos saldos negativos de IRPJ ou CSLL de exercício anterior. Esses créditos devem ser objeto de pedido de restituição ou compensação por iniciativa do contribuinte nos termos da legislação pertinente à matéria, atualmente disciplinada pela Instrução Normativa SRF nº 600, de 28 de dezembro de 2005. 128 À época da publicação da SCI Cosit n° 23/2006, a IN SRF n° 600/2005 disciplinava a matéria que atualmente é regida pela já mencionada IN RFB n° 1717/2017. 129 Sendo assim, deve-se indeferir o pedido de compensação de ofício do excesso de contabilização de PIS e Cofins em períodos anteriores. XV - PIS E COFINS: ERRO DE TRANSPORTE DA BASE DE CÁLCULO DE DEZEMBRO DE 2016 130 Alega-se que a Fiscalização cometeu erro de transporte da base de cálculo de PIS e Cofins referente a dezembro de 2016, pois o valor apurado no Anexo 18, fl. 303, é R$ 722.436,11, enquanto o auto de infração registra R$ 2.686.981,05, fl. 60. 131 O referido erro inexistiu porque as bases de cálculo de PIS e Cofins não foram apuradas no Anexo 18, mas no Anexo 21, fl. 321, no qual se indica para dezembro de 2016, como receita financeira omitida, exatamente R$ 2.686.981,05. 132 No Anexo 18, apuraram-se as bases de cálculo de IRPJ e CSLL. Como esses tributos têm período de apuração anual, foi possível compensar em dezembro os excessos de contabilização verificados em meses anteriores, o que resultou em bases de cálculo menores. Por estes fundamentos, foram mantidas as autuações em relação aos créditos adquiridos de instituições privadas e dos créditos BONDs. Com relação aos créditos cedidos pelos credores operacionais, a autuação fiscal decorreu de divergências apuradas entre os valores das parcelas previstas nos contratos de cessão de créditos e os valores pagos pela CELPA. Ressalte-se que neste caso, os valores estavam sedo pagos pela CELPA à Recorrente, sem o período de carência previsto nos outros contratos. Segundo a fiscalizada, a diferença entre os valores decorreu da retenção das contribuições sociais (CSLL, PIS e COFINS) que teria sido efetuada pela CELPA quando dos pagamentos. Fl. 1810DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 93 Dado que não há previsão legal para a retenção das contribuições nos casos de pagamentos de direitos creditórios da controladora, o fisco, corretamente, calculou a omissão de receitas levando em conta o valor integral das parcelas devidas. Aplica-se a esta infração o mesmo racional apresentado em relação às duas primeiras infrações, acrescidas das seguintes considerações do acórdão recorrido: XVI - CRÉDITOS CEDIDOS PELOS CREDORES OPERACIONAIS 133 A Interessada afirma que reitera os argumentos anteriores, no sentido de que inexiste fundamento jurídico para exigência de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins sobre receitas financeiras calculadas pela TEJ e questiona como poderia auferir receitas financeiras se não havia previsão contratual para cobrança de juros. 134 Nenhuma das alegações reiteradas foi capaz de infirmar o lançamento. Quanto à questão levantada, ratifica-se que as receitas financeiras não são calculadas a partir dos juros explicitamente previstos no contrato, mas pela TEJ, que abrange não só aqueles, mas também os juros embutidos. Por estes fundamentos, o Colegiado decidiu por manter a autuação fiscal relacionada aos créditos operacionais. Por fim, o Colegiado decidiu por manter a autuação fiscal relativa ao ganho líquido decorrente da realização de ativo financeiro (item 5.2 do TVF). A infração foi caracterizada pela autoridade fiscal a partir da constatação que a Recorrente (Equatorial) autorizara a CELPA, sua controlada, a baixar parcialmente a dívida de R$ 433.741.924,69 mediante lançamento a débito na conta sócios (o valor era devido à Equatorial) em contrapartida a um lançamento a crédito na conta de prejuízos acumulados. Note-se que, diversamente do que longamente explanado no recurso voluntário, e também no voto vencido do presente julgado, não se está a deliberar se os lançamentos efetuados na controlada CELPA seriam ou não equivalentes ao perdão da dívida e, como tal, deveriam ter sido tributados na beneficiária. Os fatos devem ser analisados, como não poderia deixar de ser, sob a perspectiva da Recorrente, titular do direito ao recebimento da dívida baixada. A autoridade fiscal ressaltou, inclusive, que o ativo não havia sido contabilizado pela fiscalizada, já que a dívida que deu origem a ele (aquisição efetuada junto ao BNY Mellon) fora registrada pelo custo de aquisição, correspondente a 17,5% do seu valor de face, dado que a operação ocorreu no âmbito da recuperação judicial da CELPA. Portanto, os 433 milhões de reais não estavam registrados na contabilidade da Recorrente, e este fato não é controvertido. No entender da autoridade autuante, a absorção de prejuízos pela CELPA deveria ser suportada por recursos dos sócios. No caso em julgamento, esses recursos seriam representados pelo fluxo de recebimentos da dívida de 433 milhões de reais, que corresponderia Fl. 1811DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 94 ao “investimento” realizado na entidade controlada decorrente da baixa de um ativo (não registrado) da sua controladora. Da operação, ainda segundo o fisco, teria resultado um aumento do patrimônio líquido da investida no exato valor da dívida baixada e, como consequência, o investimento dos sócios (na contabilidade da investidora) teria aumentado na mesma proporção, aumento este decorrente não das operações da investida, mas sim dos recursos originados dos sócios. Da operação realizada, portanto, conclui-se que o ganho potencial pelo recebimento futuro dos 82,5% do valor da dívida foi efetivado no momento da absorção de prejuízos da investida. A Recorrente, em síntese, acusa que a tributação teria se dado por analogia, já que em diversas passagens do TVF a autoridade fiscal para caracterizar os fatos teria usado expressões como “equivale a aporte de capital”. Sustenta ainda que não teria havido ganho por parte da investidora, já que não recebera nada em contrapartida à baixa, na devedora, do valor remanescente da dívida. O ocorrido, em última análise, corresponderia a um decréscimo patrimonial, e não acréscimo. Ainda, prega que as variações no patrimônio líquido da investida são refletidos por meio da equivalência patrimonial, que não se sujeitaria à tributação pelo IRPJ e CSLL. Pois bem. Ainda que as razões de defesa sejam respeitáveis, o lançamento deve ser mantido. Como bem destacado pelo acórdão recorrido, não se está aqui tributando por analogia. As referências feitas pela fiscalização à equivalência do procedimento levado a efeito pela investida ao aporte de capital, e não ao perdão de dívida, servem para demarcar que a operação, do ponto de vista da investidora, não se traduz em perda, diversamente do que ocorreria com o perdão da dívida. E, no caso dos autos, a baixa da dívida na investida, em contrapartida aos prejuízos acumulados, teve o condão de efetivar, naquele momento, o valor que a investidora (Recorrente) tinha por receber, de modo que seu ganho foi imediato. E, ao contrário do que sustenta a Recorrente, o ganho não foi decorrente da atividade da investida e como tal sujeito ao tratamento fiscal aplicável ao investimento avaliado pelo MEP. O ganho foi decorrente de direito próprio da Recorrente, ainda que refletido no aumento do patrimônio líquido da investida. Como atestou a autoridade fiscal, o fluxo de caixas a receber foi integralmente realizado quando se operou a baixa da dívida pela devedora, em contrapartida aos prejuízos então registrados. Além destes fundamentos, adoto o racional abaixo transcrito do acórdão recorrido como razão para decidir: Fl. 1812DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 95 184 Alega-se que o Fisco já teria tentado tributar a operação em tela atribuindo- lhe os efeitos do perdão de dívida, o que teria sido rechaçado pela jurisprudência administrativa. No caso sob análise, estar-se-ia tentado novamente realizar a tributação por analogia, dessa vez com o aporte de capital. 185 Não se trata de tributação por analogia, mas segundo a sua natureza jurídica. Concluiu a jurisprudência administrativa que a operação não tem natureza de perdão de dívida, mas de investimento, logo deve ser tributada dessa forma, ou seja, mediante apuração na investida de ganho na realização do bem. 186 A Interessada entende que, na apuração do ganho obtido com a realização de 82,5% dos Créditos Bonds, dever-se-ia considerar o AVJ de R$ 429 milhões apontado no PPA para a conta de Empréstimos e financiamentos, ou seja, dever- se-ia considerar uma despesa dedutível de R$ 429 milhões. 187 Como vimos, se houver a realização na investida de bem ou obrigação que tenha dado causa a pagamento de ágio, este deverá ser amortizado pela investidora na mesma proporção. No caso analisado, 82,5% dos Créditos Bonds foram integralmente realizados, de modo que a Interessada deveria amortizar integralmente o respectivo ágio. Contudo, não se pode fazê-lo em contrapartida à conta de apuração do ganho de realização, pois este é tributável, enquanto a amortização do ágio é tributariamente neutra. 188 Vale dizer, o ágio ou deságio não afeta o resultado tributável da investidora à medida que o bem ou a obrigação que lhe deu causa é realizado na investida, mas na alienação ou liquidação do investimento (arts. 25 e 33, inciso II, do Decreto-Lei n° 1.598/77, com redações dadas pelo Decreto-Lei n° 1.730/79). [...] Em linha com o quanto aqui decidido, o acórdão nº 1101-00.766, de lavra da ilustre Conselheira Edeli Pereira Bessa, assim ementado no que diz respeito à matéria em análise: RECEITA DE DESAGIO. REALIZAÇÃO. ABSORÇÃO DE PREJUÍZOS A CONTA DE SOCIO. Materializa-se o ganho potencial verificado na aquisição de titulo com deságio quando a obrigação, na qual passaram a ser partes investidora e investida, é extinta mediante absorção de prejuízos conta de sócio, procedimento que assemelha-se, em seus efeitos, ao aporte de capital pelo investidor. Por estes fundamentos, o Colegiado houve por bem negar provimento ao recurso voluntário na matéria “GANHO LÍQUIDO DECORRENTE DA REALIZAÇÃO DE ATIVO FINANCEIRO”, e manter integralmente o quando decidido pelo acórdão recorrido. Quanto às multas isoladas, decididas por voto de qualidade, adoto o seguinte fundamento. Sobre a possibilidade de concomitância da multa isolada com a multa de ofício, adoto, como razão de decidir, o voto proferido pelo ilustre Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado no acórdão nº 9101-005.695, de 13/08/2021: Fl. 1813DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 96 Inexiste qualquer conflito legal para aplicação da multa de ofício pela falta de recolhimento do tributo em conjunto com a multa isolada pela falta de recolhimento de estimativas. Desde logo afasto a aplicação da súmula CARF nº 105, porquanto o lançamento da multa isolada, sobre os períodos abrangidos no recurso especial, foi fundamentado no Art. 44, inciso II, alínea b, da Lei n° 9.430/96, com a redação dada pelo art. 14 da Lei n° 11.488/2007. Com efeito, o alcance da referida súmula é limitado às exigências formalizadas anteriormente às alterações legislativas introduzidas pela Lei nº 11/488/2007. O enquadramento legal citado expressamente no texto da súmula (art.44, § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996) deixou de existir a partir de 22/01/2007. Na mesma data, foi publicada no DOU (edição extra) e entrou em vigor a Medida Provisória nº 351/2007, posteriormente convertida na Lei nº 11.488/2007. Foram alterados o percentual aplicável (de 75% para 50%) e também a base de incidência da multa (antes, a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição, após, o valor do pagamento mensal que deixar de ser efetuado). Assim, se, além das estimativas mensais que deixaram de ser recolhidas, a fiscalização constata que também o saldo de imposto anual devido em face da apuração do resultado do exercício não foi declarado/recolhido, ou o foi à menor, impõe-se a cobrança das diferenças de tributos devidas acrescidas da respectiva multa de ofício (75%), aplicada sobre o saldo de tributo devido. Ora, é princípio basilar de hermenêutica que "a lei não contém palavras inúteis". Ao estabelecer que é devida a multa isolada ainda que a pessoa jurídica tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa da contribuição social, o legislador deixou muito claro que a penalidade isolada não se confunde e não pode se fundir com a multa de ofício eventualmente devida pelo saldo de tributo devido no ano. Interpretação nesse sentido implica em negar validade ao citado dispositivo. A imposição da multa isolada visa prestigiar o contribuinte que cumpre com suas obrigações e observa um dos princípios essenciais da atividade econômica, previsto na Constituição Federal de 1988: o princípio da livre concorrência (vide Art. 170, inc IV, Art. 146-A e Art. 173, § 4°). Ao impor ao infrator a penalidade isolada a lei visa desestimular comportamentos que levem a condições desiguais, pois enquanto os contribuintes que honram com suas obrigações sacrificam parte de seus fluxos de caixa para contribuir com a coisa pública, muitas vezes tendo que recorrer ao pagamento de juros a terceiros, o infrator (que deixa de recolher o tributo estimado) preserva o seu "Caixa" e se coloca em situação vantajosa economicamente perante os seus concorrentes. Fl. 1814DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 97 É cediço os efeitos que a sonegação tem sobre o equilíbrio concorrencial. Portanto, ao se desonerar da multa isolada o contribuinte que deixa de efetuar o recolhimento por estimativa ferir-se-ia, além da legalidade, o princípio da isonomia. Rejeito, também, o argumento, que tem sido reiteradamente utilizado pelos que defendem a impossibilidade de coexistência das duas penalidades, quanto a possibilidade de estarmos diante da ocorrência de um "bis in idem": aplicação da multa isolada e da multa de ofício sobre um mesmo fato. Não vejo como se possa defender a existência de um mesmo fato a ensejar a aplicação das penalidades. A lei é cristalina ao estabelecer cada uma das hipóteses em que as penalidades são aplicáveis, sendo certo que as infrações ocorrem em momentos absolutamente distintos, embora possam ser detectadas num mesmo momento pela fiscalização. Enquanto a infração pelo não recolhimento dos tributos devidos com base na estimativa mensal ocorre durante o ano-calendário de sua apuração, a infração pelo não recolhimento do tributo anual devido só pode ocorrer depois de encerrado o período de apuração respectivo. São fatos diversos que ocorrem em momentos distintos e a existência de um deles não pressupõe necessariamente a existência do outro. O percentual da multa isolada que antes coincidia com o mesmo percentual da multa de ofício também era comumente utilizado para justificar o alegado "bis in idem!". Porém, também não existe mais essa coincidência, em face de sua redução para 50% pela Lei n° 11.488/2007, e que passou a ser aplicada aos casos pretéritos (inclusive neste) em face da retroatividade benigna prevista no art. 106, II, alínea "c" do CTN. Os prazos para cumprimento das obrigações em questão também são distintos em cada caso. A definição da infração, da base de cálculo e do percentual da multa aplicável é matéria exclusiva de lei, nos termos do art. 97, inc.V do CTN, não cabendo ao intérprete questionar se a penalidade aplicada em tal e qual caso é adequada ou se é excessiva, a não ser que adentre a seara da sua constitucionalidade, o que é vedado no âmbito deste colegiado. Por fim quanto à alegação da recorrida sobre a aplicação do princípio penal da consunção, valho-me da precisa fundamentação trazida pelo d. conselheiro Alberto Pinto Souza Junior no acórdão nº 1302-001.080, apontado como um dos paradigmas pela recorrente, para afastá-la, verbis: Da inviabilidade de aplicação do princípio da consunção Fl. 1815DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 98 O princípio da consunção é princípio específico do Direito Penal, aplicável para solução de conflitos aparentes de normas penais, ou seja, situações em que duas ou mais normas penais podem aparentemente incidir sobre um mesmo fato. Primeiramente, há que se ressaltar que a norma sancionatória tributária não é norma penal stricto sensu. Vale aqui a lembrança que o parágrafo único do art. 273 do anteprojeto do CTN (hoje, art. 112 do CTN), elaborado por Rubens Gomes de Sousa, previa que os princípios gerais do Direito Penal se aplicassem como métodos ou processos supletivos de interpretação da lei tributária, especialmente da lei tributária que definia infrações. Esse dispositivo foi rechaçado pela Comissão Especial de 1954 que elaborou o texto final do anteprojeto, sendo que tal dispositivo não retornou ao texto do CTN que veio a ser aprovado pelo Congresso Nacional. À época, a Comissão Especial do CTN acolheu os fundamentos de que o direito penal tributário não tem semelhança absoluta com o direito penal (sugestão 789, p. 513 dos Trabalhos da Comissão Especial do CTN) e que o direito penal tributário não é autônomo ao direito tributário, pois a pena fiscal mais se assemelha a pena cível do que a criminal (sugestão 787, p.512, idem). Não é difícil, assim, verificar que, na sua gênese, o CTN afastou a possibilidade de aplicação supletiva dos princípios do direito penal na interpretação da norma tributária, logicamente, salvo aqueles expressamente previstos no seu texto, como por exemplo, a retroatividade benigna do art. 106 ou o in dubio pro reo do art. 112. Em conclusão, se a lei não prevê a possibilidade de aplicação de uma penalidade em detrimento da outra não cabe ao intérprete afastá-la ou modular sua aplicação. Por estes fundamentos, não há como acolher a pretensão da Recorrente, impondo- se a manutenção da multa isolada aplicada pela autoridade fiscal. Quanto à multa isolada do mês de dezembro, adoto, com lastro no previsto no art. 114, § 12, inciso I do RICARF, por concordar com eles, os fundamentos da decisão recorrida sobre o tema: MULTA ISOLADA SOBRE AS ESTIMATIVAS DE DEZEMBRO 8. Como explicitado anteriormente, o julgador da DRJ é vinculado, não somente às leis vigentes, mas também ao entendimento da RFB expresso em atos normativos. Sabemos que o artigo 1º da Lei nº 9.430/1996 determina que o IRPJ seja apurado em período trimestral, permitindo o art. 2º da mesma Lei, que o contribuinte faça a apuração do IRPJ apenas no final do ano. O pagamento do tributo apurado no final do ano e o pagamento das estimativas mensais estão determinados pelo artigo 6º da mesma Lei nº 9.430/1996, sendo certo que o §3º do artigo 6º, dispõe sobre a diferença o imposto apurado no final do ano e a estimativa de dezembro, não existindo confusão. Fl. 1816DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1202-002.145 – 1ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.724070/2018-25 99 Já, se o disposto no artigo 35 da Lei nº 8.981/1995 é adotado pelo contribuinte, prevalece uma coincidência numérica entre a estimativa de dezembro e o imposto anual, contudo esta coincidência não autoriza o entendimento de que existiria uma identidade entre essas duas obrigações tributárias, a ponto de elidir o pagamento da estimativa de dezembro, quando quitado o tributo anual. Portanto, não merecem prosperar as alegações do impugnante. Por estes fundamentos, não há como acolher a pretensão da Recorrente. Assinado Digitalmente Maurício Novaes Ferreira Fl. 1817DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido Voto Vencedor
score : 1.0
Numero do processo: 11274.720282/2022-85
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Jan 02 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019
PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PÚBLICO. AUTARQUIA MUNICIPAL. PASEP.
As autarquias são contribuintes do PASEP, tendo como base de cálculo o valor mensal das receitas correntes arrecadadas, inclusive as que tenham sido arrecadadas, no todo ou em parte, por outra entidade de direito público interno, e das transferências correntes e de capital recebidas, deduzidas as transferências efetuadas a outras entidades públicas.
Numero da decisão: 3101-004.400
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
Assinado Digitalmente
Renan Gomes Rego – Relator
Assinado Digitalmente
Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente
Participaram do presente julgamento os conselheiros Renan Gomes Rego, Laura Baptista Borges, Ramon Silva Cunha, Luciana Ferreira Braga, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente).
Nome do relator: RENAN GOMES REGO
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2018 a 31/12/2019 PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PÚBLICO. AUTARQUIA MUNICIPAL. PASEP. As autarquias são contribuintes do PASEP, tendo como base de cálculo o valor mensal das receitas correntes arrecadadas, inclusive as que tenham sido arrecadadas, no todo ou em parte, por outra entidade de direito público interno, e das transferências correntes e de capital recebidas, deduzidas as transferências efetuadas a outras entidades públicas.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. Assinado Digitalmente Renan Gomes Rego – Relator Assinado Digitalmente Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Participaram do presente julgamento os conselheiros Renan Gomes Rego, Laura Baptista Borges, Ramon Silva Cunha, Luciana Ferreira Braga, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente).
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AUTARQUIA MUNICIPAL. PASEP. As autarquias são contribuintes do PASEP, tendo como base de cálculo o valor mensal das receitas correntes arrecadadas, inclusive as que tenham sido arrecadadas, no todo ou em parte, por outra entidade de direito público interno, e das transferências correntes e de capital recebidas, deduzidas as transferências efetuadas a outras entidades públicas. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. Assinado Digitalmente Renan Gomes Rego – Relator Assinado Digitalmente Gilson Macedo Rosenburg Filho – Presidente Participaram do presente julgamento os conselheiros Renan Gomes Rego, Laura Baptista Borges, Ramon Silva Cunha, Luciana Ferreira Braga, Matheus Schwertner Ziccarelli Rodrigues, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente). Fl. 841DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.400 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11274.720282/2022-85 2 RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra o Acórdão n° 101-025.338, proferido pela 13ª Turma da DRJ01 na sessão de 10 de agosto de 2023, que julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido. O presente processo versa sobre auto de infração para cobrança de PIS/Pasep, com acréscimo de multa de ofício de 75%, incidente sobre as receitas correntes arrecadadas, as receitas de transferências correntes recebidas e as receitas de transferências de capital recebidas. Segundo a autoridade fiscal, ficou comprovado que a Recorrente não declarou e nem recolheu a totalidade das receitas, em especial, as receitas de contribuição previdenciária patronal e dos servidores administrados pela autarquia. Consta Manifestação de Inconformidade de folhas 799 a 806. Sobreveio decisão de primeira instância, ratificando a autuação fiscal, nos termos do acórdão de folhas 812 a 819. Em Voluntário, a Recorrente que o julgador a quo não enfrentou os argumentos lançados na defesa, que todos os valores utilizados na base de cálculo são ingressados no RPPS e vinculados ao pagamento de benefícios previdenciários de aposentadorias e pensões, de modo que a autarquia não tem qualquer disponibilidade sobre eles. Cita decisão do STF na qual define que todos os ingressos que não integram no patrimônio na condição de elemento novo e positivo, sem ressalvas ou condições, não configuram efetiva receita. É o relatório. VOTO Conselheiro Renan Gomes Rego, Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade, de modo que admito seu conhecimento. A lide se concentra em saber se as contribuições patronais recebidas pelo Regime Próprio de Previdência - RPPS se enquadram no conceito de operação intraorçamentária, devendo compor a base de cálculo do PIS/PASEP. Segundo o Fisco, tais contribuições são transferências entre entes públicos distintos, sendo despesas intraorçamentárias para o ente municipal (pagador) e receitas intraorçamentárias para o regime próprio (recebedor), no caso a autarquia municipal. Por outro lado, a Recorrente defende que a autarquia municipal é mera administradora e gestora de tais recursos, e os ingressos ao regime próprio são vinculados ao Fl. 842DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.400 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11274.720282/2022-85 3 pagamento de benefícios previdenciários de aposentadorias e pensões, de modo que não tem qualquer disponibilidade sobre os valores. Melhor sorte não assiste à Recorrente. A questão posta para resolução encontra-se no âmbito da Lei nº 9.715/1998, que é a legislação aplicável à contribuição ao PIS/PASEP dos entes públicos: Art. 1° Esta Lei dispõe sobre as contribuições para os Programas de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público - PIS/PASEP, de que tratam o art. 239 da Constituição e as Leis Complementares no 7, de 7 de setembro de 1970, e no 8, de 3 de dezembro de 1970. Art. 2° A contribuição para o PIS/PASEP será apurada mensalmente: I - pelas pessoas jurídicas de direito privado e as que lhes são equiparadas pela legislação do imposto de renda, inclusive as empresas públicas e as sociedades de economia mista e suas subsidiárias, com base no faturamento do mês; III - pelas pessoas jurídicas de direito público interno, com base no valor mensal das receitas correntes arrecadadas e das transferências correntes e de capital recebidas. Verifica-se que a base de cálculo desta contribuição é dada pelo artigo 7º da referida Lei: Art. 7º Para os efeitos do inciso III do art. 2o, nas receitas correntes serão incluídas quaisquer receitas tributárias, ainda que arrecadadas, no todo ou em parte, por outra entidade da Administração Pública, e deduzidas as transferências efetuadas a outras entidades públicas. Referidos dispositivos legais vieram a ser regulamentados pelo Decreto nº 4.524/2002, também de observância obrigatória por parte deste Colegiado, merecendo destaque as seguintes prescrições: Art. 67. A União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios e suas autarquias são contribuintes do PIS/Pasep incidente sobre as receitas correntes arrecadadas e transferências correntes e de capital recebidas (Lei nº 9.715, de 1998, art. 2º, inciso III). Parágrafo único. A contribuição é obrigatória e independe de ato de adesão ao Programa de Integração Social e de Formação do Patrimônio de Servidor Público. Nos autos, resta incontroverso que a Recorrente é autarquia e gestora dos valores relativos às contribuições patronais do RPPS. Também é inquestionável que as cotas patronais são arrecadadas pelo município e transferidas para a autarquia, a título de operações intraorçamentárias. Vale dizer, tais transferências são receitas da autarquia, inseridas no contexto de transferências correntes e de capital recebidas. Nesse sentido, observa-se, pela leitura do artigo 7º da Lei em comento, que, para fins da apuração da base de cálculo do PASEP, nas receitas correntes serão incluídas quaisquer receitas tributárias, ainda que arrecadadas, no todo ou em parte, por outra entidade da Administração Pública. Fl. 843DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.400 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11274.720282/2022-85 4 Ou seja, a contribuição ao RPPS retida do servidor pelo município e transferida à autarquia não é receita corrente do município, pois é deduzida como transferência a outra entidade pública. Por outro lado, é receita da autarquia, pois se considera receita corrente ainda que arrecadada por outra entidade da administração pública. Dessa forma, transpondo tal entendimento ao caso dos autos, entendo que deve prevalecer o entendimento adotado pela DRJ, devendo os valores relativos às contribuições patronais do RPPS, efetivamente arrecadados e transferidos pelo ente municipal à autarquia gestora, serem incluídos na base de cálculo do PIS/PASEP desta entidade. Nesse sentido, jurisprudência assentada nesta Turma na sessão de 27 de novembro de 2024: ACÓRDÃO 3101-003.948: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2015, 2016, 2017, 2018 PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PÚBLICO. AUTARQUIA MUNICIPAL. PASEP. As autarquias são contribuintes do PASEP, tendo como base de cálculo o valor mensal das receitas correntes arrecadadas, inclusive as que tenham sido arrecadadas, no todo ou em parte, por outra entidade de direito público interno, e das transferências correntes e de capital recebidas, deduzidas as transferências efetuadas a outras entidades públicas. Destaco ainda outras decisões do Conselho Administrativo: 3302-009.245 – 3ª Seção de Julgamento / 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 31/01/2003 a 31/12/2007 BASE DE CÁLCULO DAS CONTRIBUIÇÕES. AUTARQUIAS. A base de cálculo da Contribuição ao PIS / PASEP das Autarquias abrange o valor mensal das receitas correntes arrecadadas, subtraindo-se apenas as receitas do tesouro nacional nos orçamentos fiscal e da seguridade social da União. Acórdão nº 3301-004.806 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/08/2005 a 31/12/2005 AUTARQUIA. BASE DE CÁLCULO. As autarquias devem recolher a Contribuição para o Pasep sobre o valor mensal das receitas correntes arrecadadas, inclusive as que tenham sido arrecadadas, no todo ou em parte, por outra entidade de direito público interno, e das transferências correntes e de capital recebidas, deduzidas as transferências efetuadas a outras entidades públicas. TRANSFERÊNCIAS CORRENTES E DE CAPITAL RECEBIDAS. TRIBUTAÇÃO. INCIDÊNCIA CUMULATIVA. NÃO CONFIGURAÇÃO. Fl. 844DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3101-004.400 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11274.720282/2022-85 5 Para que não incida a contribuição para o Pasep sobre as transferências correntes e de capital recebidas pela entidade autárquica, deve ficar configurada a existência da incidência cumulativa da contribuição, ou seja, o valor transferido já ter sido tributado anteriormente e não ter sido deduzido da base de cálculo da entidade que efetuou a transferência no mês em que esta foi efetuada. Diante do exposto, voto por negar provimento ao Recurso voluntário. É como voto. Assinado Digitalmente Renan Gomes Rego Fl. 845DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 16327.720273/2023-26
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 07 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Jan 02 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/05/2018 a 31/12/2018
PAF. MULTA DE OFÍCIO. ALEGAÇÃO DE OFENSA AO PRINCÍPIO DO NÃO-CONFISCO.
Conforme se encontra disposto na Súmula CARF n. 2, este Conselho não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária, em face do princípio do não-confisco ou de quaisquer outros princípios ou regras constitucionais.
NULIDADE DO LANÇAMENTO. INOCORRÊNCIA.
Demonstrado o atendimento aos preceitos estabelecidos no art. 142 do CTN, a presença dos requisitos do art. 10 e 59 do Decreto n. 70.235/72 e a observância do contraditório e ampla defesa do contribuinte, mediante o transcurso do PAF de forma hígida e escorreita, afasta-se a hipótese de nulidade do lançamento.
BÔNUS DE CONTRATAÇÃO. HIRING BONUS. NATUREZA REMUNERATÓRIA. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. INCIDÊNCIA.
Integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias o Bônus de Contratação, denominado de “Hiring Bonus”, pago por ocasião da contratação do segurado empregado ou contribuinte individual a fim de atrair e manter o trabalhador no quadro da empresa. Essa verba possui natureza remuneratória.
BÔNUS DE RETENÇÃO. NATUREZA REMUNERATÓRIA. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. INCIDÊNCIA
Integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias o Bônus de Retenção, pago com o fim de reter o empregado na empresa. Essa verba possui natureza remuneratória vinculada ao contrato de trabalho.
CONTRIBUIÇÕES DESTINADAS A OUTRAS ENTIDADES E FUNDOS. TERCEIROS. LIMITAÇÃO EM 20 SALÁRIOS MÍNIMOS. INAPLICABILIDADE. RECURSO REPETITIVO TEMA 1079 DO STJ.
Conforme decidido pelo STJ, na sistemática de recurso repetitivo, no Tema 1079, a partir da entrada em vigor do art. 1º, I, do Decreto-Lei 2.318/1986, as contribuições destinadas a terceiros não estão submetidas ao teto de vinte salários mínimos.
Numero da decisão: 2302-004.194
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo das alegações relativas à inconstitucionalidade da multa, em rejeitar o pedido de diligência e rejeitar a preliminar. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos a relatora, a conselheira Rosane Beatriz Jachimovski Danilevicz e o conselheiro Roberto Carvalho Veloso Filho que deram provimento parcial ao recurso. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Johnny Wilson Araújo Cavalcanti.
Assinado Digitalmente
Angélica Carolina Oliveira Duarte Toledo – Relatora
Assinado Digitalmente
Johnny Wilson Araujo Cavalcanti – Presidente e Redator
Participaram do presente julgamento os conselheiros Alfredo Jorge Madeira Rosa, Angelica Carolina Oliveira Duarte Toledo, Carmelina Calabrese, Rosane Beatriz Jachimovski Danilevicz, Roberto Carvalho Veloso Filho, Johnny Wilson Araujo Cavalcanti (Presidente).
Nome do relator: ANGELICA CAROLINA OLIVEIRA DUARTE TOLEDO
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/05/2018 a 31/12/2018 PAF. MULTA DE OFÍCIO. ALEGAÇÃO DE OFENSA AO PRINCÍPIO DO NÃO-CONFISCO. Conforme se encontra disposto na Súmula CARF n. 2, este Conselho não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária, em face do princípio do não-confisco ou de quaisquer outros princípios ou regras constitucionais. NULIDADE DO LANÇAMENTO. INOCORRÊNCIA. Demonstrado o atendimento aos preceitos estabelecidos no art. 142 do CTN, a presença dos requisitos do art. 10 e 59 do Decreto n. 70.235/72 e a observância do contraditório e ampla defesa do contribuinte, mediante o transcurso do PAF de forma hígida e escorreita, afasta-se a hipótese de nulidade do lançamento. BÔNUS DE CONTRATAÇÃO. HIRING BONUS. NATUREZA REMUNERATÓRIA. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. INCIDÊNCIA. Integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias o Bônus de Contratação, denominado de “Hiring Bonus”, pago por ocasião da contratação do segurado empregado ou contribuinte individual a fim de atrair e manter o trabalhador no quadro da empresa. Essa verba possui natureza remuneratória. BÔNUS DE RETENÇÃO. NATUREZA REMUNERATÓRIA. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. INCIDÊNCIA Integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias o Bônus de Retenção, pago com o fim de reter o empregado na empresa. Essa verba possui natureza remuneratória vinculada ao contrato de trabalho. CONTRIBUIÇÕES DESTINADAS A OUTRAS ENTIDADES E FUNDOS. TERCEIROS. LIMITAÇÃO EM 20 SALÁRIOS MÍNIMOS. INAPLICABILIDADE. RECURSO REPETITIVO TEMA 1079 DO STJ. Conforme decidido pelo STJ, na sistemática de recurso repetitivo, no Tema 1079, a partir da entrada em vigor do art. 1º, I, do Decreto-Lei 2.318/1986, as contribuições destinadas a terceiros não estão submetidas ao teto de vinte salários mínimos.
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conteudo_txt : Metadados => date: 2026-01-02T14:06:50Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-01-02T14:06:50Z; Last-Modified: 2026-01-02T14:06:50Z; dcterms:modified: 2026-01-02T14:06:50Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-01-02T14:06:50Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-01-02T14:06:50Z; meta:save-date: 2026-01-02T14:06:50Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-01-02T14:06:50Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-01-02T14:06:50Z; created: 2026-01-02T14:06:50Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 25; Creation-Date: 2026-01-02T14:06:50Z; pdf:charsPerPage: 1770; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-01-02T14:06:50Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 16327.720273/2023-26 ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 7 de outubro de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE BANCO ORIGINAL S/A INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/05/2018 a 31/12/2018 PAF. MULTA DE OFÍCIO. ALEGAÇÃO DE OFENSA AO PRINCÍPIO DO NÃO- CONFISCO. Conforme se encontra disposto na Súmula CARF n. 2, este Conselho não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária, em face do princípio do não-confisco ou de quaisquer outros princípios ou regras constitucionais. NULIDADE DO LANÇAMENTO. INOCORRÊNCIA. Demonstrado o atendimento aos preceitos estabelecidos no art. 142 do CTN, a presença dos requisitos do art. 10 e 59 do Decreto n. 70.235/72 e a observância do contraditório e ampla defesa do contribuinte, mediante o transcurso do PAF de forma hígida e escorreita, afasta-se a hipótese de nulidade do lançamento. BÔNUS DE CONTRATAÇÃO. HIRING BONUS. NATUREZA REMUNERATÓRIA. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. INCIDÊNCIA. Integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias o Bônus de Contratação, denominado de “Hiring Bonus”, pago por ocasião da contratação do segurado empregado ou contribuinte individual a fim de atrair e manter o trabalhador no quadro da empresa. Essa verba possui natureza remuneratória. BÔNUS DE RETENÇÃO. NATUREZA REMUNERATÓRIA. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. INCIDÊNCIA Integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias o Bônus de Retenção, pago com o fim de reter o empregado na empresa. Essa verba possui natureza remuneratória vinculada ao contrato de trabalho. Fl. 288DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 2 CONTRIBUIÇÕES DESTINADAS A OUTRAS ENTIDADES E FUNDOS. TERCEIROS. LIMITAÇÃO EM 20 SALÁRIOS MÍNIMOS. INAPLICABILIDADE. RECURSO REPETITIVO TEMA 1079 DO STJ. Conforme decidido pelo STJ, na sistemática de recurso repetitivo, no Tema 1079, a partir da entrada em vigor do art. 1º, I, do Decreto-Lei 2.318/1986, as contribuições destinadas a terceiros não estão submetidas ao teto de vinte salários mínimos. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo das alegações relativas à inconstitucionalidade da multa, em rejeitar o pedido de diligência e rejeitar a preliminar. No mérito, por voto de qualidade, acordam em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos a relatora, a conselheira Rosane Beatriz Jachimovski Danilevicz e o conselheiro Roberto Carvalho Veloso Filho que deram provimento parcial ao recurso. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Johnny Wilson Araújo Cavalcanti. Assinado Digitalmente Angélica Carolina Oliveira Duarte Toledo – Relatora Assinado Digitalmente Johnny Wilson Araujo Cavalcanti – Presidente e Redator Participaram do presente julgamento os conselheiros Alfredo Jorge Madeira Rosa, Angelica Carolina Oliveira Duarte Toledo, Carmelina Calabrese, Rosane Beatriz Jachimovski Danilevicz, Roberto Carvalho Veloso Filho, Johnny Wilson Araujo Cavalcanti (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Autos de Infração referentes às contribuições previdenciárias devidas pela empresa, inclusive alíquota GILRAT e contribuições destinadas a outras entidades e fundos – Terceiros (Salário Educação e INCRA), incidentes sobre a remuneração paga a segurados empregados e contribuintes individuais, acrescido de juros de mora e multa de ofício. Fl. 289DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 3 Conforme Relatório Fiscal (fls. 57/73), o contribuinte realizou pagamentos decorrentes de programa de retenção de funcionários (registrados como abono eventual, gratificação e gratificação não ajustada), e também de gratificação eventual a título de bônus de contratação (hiring bonus), os quais não foram oferecidos à tributação. A fiscalização compreendeu que as verbas teriam caráter contraprestacional, portanto, sujeitas à incidência das contribuições previdenciárias. É ver Relatório Fiscal (e-fl. 63): 4.15 Ocorre que, a verba paga aos segurados empregados ou contribuintes individuais, seja a título de bônus de contratação, seja a título de bônus de retenção, deve integrar o salário de contribuição devido ao seu caráter contraprestacional; pois a primeira corresponde, claramente, a um bônus antecipado, que visa remunerar o trabalhador recém-contratado pelos serviços que prestará ao longo do contrato de trabalho; enquanto que a segunda visa a manutenção de determinado profissional nos quadros do contribuinte, pela sua importância nos serviços já prestados ou nos projetos futuros. O lançamento foi impugnado e os autos foram encaminhados à DRJ. Os membros da 28a Turma da DRJ08, por unanimidade de votos, julgaram improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido. Cientificada do acórdão, o recorrente apresentou recurso voluntário tempestivo (e- fls. 233/263), alegando em breve síntese: a) Preliminarmente, a nulidade do lançamento por incompetência. “o poder-dever que a I. Fiscalização tem para “verificar se os valores pagos aos segurados se enquadram no disposto no artigo 22, incisos I a III da Lei 8.212/91”, não lhe dá o direito de questionar a natureza de verbas sem que, para tanto, haja decisão do órgão com competência constitucional para tratar do tema: a Justiça do Trabalho, a quem compete decidir conflitos de interesse qualificados por pretensão resistida (lides) em matéria de natureza salarial (ou não) de valores recebidos pelos colaboradores do Recorrente”; b) A nulidade do lançamento por erro na capitulação legal, violando os princípios do contraditório e ampla defesa. “Os dispositivos indicados pelo I. Fiscal apresentam redações semelhantes, todas inerentes aos prazos de recolhimento de tributos, sem qualquer relação com os fatos utilizados para embasar os lançamentos tributários em foco, impedindo que o contribuinte identifique, com precisão aquilo que lhe é cobrado”. Nesse sentido, “não há congruência entre os dispositivos legais citados e a descrição da infração apresentada pelo I. Fiscal”. Além disso, “não há uma descrição detalhada acerca da suposta infração cometida, haja vista a fundamentação legal genérica ali indicada, referindo-se apenas à obrigatoriedade de recolhimento do tributo (e respectivos prazos). O mesmo ocorre em relação ao Relatório Fiscal, que nada esclarece e que não comprova a efetiva ocorrência do fato gerador, em evidente violação ao art. 142 Fl. 290DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 4 do CTN”. Diante disso, “pelo erro na capitulação legal dos lançamentos tributários em tela, conclui-se que o Recorrente foi impedido de exercer o seu amplo direito de defesa, em especial, pela falta de arcabouço probatório que sustente as autuações em tela”; c) No mérito, defende que “os bônus de contratação e retenção não foram efetuados em contraprestação aos serviços prestados pelos empregados, visto que: (i) no caso do bônus de contratação, a verba é paga antes de qualquer serviço prestado (ou seja, nem poderia servir para remunerá-lo, por pura impossibilidade lógica); e (ii) no caso do bônus de retenção, a verba é paga apenas pela permanência do empregado na entidade, sem ter qualquer relação com a qualidade e/ou quantidade do serviço por ele prestado. Com base no entendimento reafirmado pelo E. STF no julgamento do tema 20 de repercussão geral (RE nº 565.160/SC), inexistindo a retributividade, não há a incidência de contribuições previdenciárias e de terceiros sobre os referidos bônus”. “Os pagamentos em foco não foram efetuados em contraprestação aos serviços prestados pelos empregados (hipótese de não incidência) e nem com habitualidade (hipótese de isenção).”; d) Ainda, os bônus “foram pagos pelo Recorrente a determinados indivíduos com a finalidade de: (i) atrair profissionais do mercado para desempenhar suas atividades em favor do Recorrente, ou, ainda, (ii) impedir que seus funcionários passassem a trabalhar em empresas concorrentes, indenizando-os exatamente pelos bônus de contratação que poderiam receber caso optassem pela mudança de emprego. É nesse sentido o entendimento deste E. CARF e do E. CSRF, conforme Acórdãos nº 2403-002.938, julgado em 06/04/2015, e 9202-010.457, julgado em 24/10/2022, respectivamente”; e) “Ainda que se entendesse que os pagamentos mencionados anteriormente (bônus de contratação e retenção) se caracterizam como remuneração, o que se admite apenas por dever argumentativo, ainda assim os Autos de Infração em foco seriam totalmente improcedentes, pois se trataria de pagamentos isentos. 100. Isso porque os pagamentos efetuados pelo Recorrente a título de bônus de contratação e retenção, também estão isentos da incidência de contribuição previdenciária e de terceiros, com base no art. 28, § 9º, “e”, item “7”, da Lei nº 8.212/91. 101. Como exposto acima, os bônus ora em discussão foram pagos de forma eventual, em pagamento único”. “Os pagamentos dos bônus de contratação e retenção são únicos e esporádicos, ou seja, não são habituais ou recorrentes. Conforme planilha de composição dos pagamentos apresentada pelo Recorrente (vide fl. 172), tais bônus foram pagos uma única vez para cada colaborador, o que evidencia a eventualidade dos pagamentos. Conforme previsão do art. 28, § 9º, “e”, item “7”, da Lei nº 8.212/1991, as importâncias Fl. 291DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 5 recebidas a título de ganhos eventuais não integram a o salário-de-contribuição (isenção de contribuições previdenciárias)”; f) “Se superados os demais fundamentos acima expostos, o que se admite apenas para fins argumentativos, ao menos os débitos em tela deverão ser parcialmente desconstituídos, considerando que a base de cálculo da contribuição de terceiros não pode superar o montante total, por mês, de 20 salários-mínimos, na forma do art. 4º da Lei nº 6.950/1981 (norma válida, vigente e eficaz)”. Pede, ainda, a suspensão do processo até que os REsps n. 1.898.532/CE e 1.905.870/PR (Tema 1079 do STJ), sejam julgados em definitivo; g) A multa de ofício de 75% possui caráter confiscatório, nos termos da jurisprudência do STF; h) Por fim, pede “a conversão do julgamento em diligência, para que a I. Fiscalização analise a documentação que embasa o presente processo, bem como todas as explicações fornecidas nesse recurso, podendo, ainda, requerer outros documentos que julgue conveniente”. É o relatório. VOTO VENCIDO Conselheira Angélica Carolina Oliveira Duarte Toledo, Relatora. O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade. CONHECIMENTO Não obstante, a alegação acerca do caráter confiscatório da multa de ofício lançada, no patamar de 75%, não merece ser conhecida. Como consignado pela decisão de piso, em obediência às normas que regem a administração pública, não cabe a este Conselho, a fim de afastar a aplicação de lei com fundamento de inconstitucionalidade, análise sobre a violação de princípios constitucionais, nos termos da Súmula CARF n. 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Pelo exposto, não conheço das alegações relativas à inconstitucionalidade da multa, tópico “III.3.3. PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO AO EFEITO CONFISCATÓRIO” do Recurso (e-fl. 261). Fl. 292DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 6 PEDIDO DE DILIGÊNCIA Acerca do pedido de diligência formulado no recurso, entendo prescindível para a solução da lide, vez que os documentos necessários encontram-se acostados aos autos e compreendidos na esfera de saber desta Julgadora. Assim sendo, indefiro o pedido de diligência. PRELIMINAR – NULIDADE DO LANÇAMENTO Em seu recurso, conforme relatado, o recorrente defende a nulidade do lançamento por ilegitimidade ativa Receita Federal para “questionar a natureza de verbas sem que, para tanto, haja decisão do órgão com competência constitucional para tratar do tema: a Justiça do Trabalho”. Ainda, defende que o lançamento é nulo por verificar-se erro na capitulação legal, vez que as autuações se encontram fundamentadas em dispositivos genéricos que tratam de prazos para recolhimento, os quais não possuem relação direta com os fatos que embasam o crédito tributário, “impedindo que o contribuinte identifique, com precisão aquilo que lhe é cobrado”. Pois bem. O artigo 59 do Decreto n. 70.235/72 enumera os casos que acarretam a nulidade do lançamento, quais sejam: “I – os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II – os despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa”. No caso em tela, a autoridade autuante está devidamente identificada e possuía competência legal para lavrar os Autos de Infração. Nesse particular, importa observar que a o poder/dever da fiscalização decorre de previsão legal expressa. Conforme estabelecido no art. 142 do CTN e art. 2º da Lei n. 11.457/07, cabe ao Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil, no exercício de sua competência privativa, constituir mediante lançamento o crédito tributário referente às contribuições previdenciárias previstas na Lei n. 8.212/91 e também das contribuições destinadas a outras entidades e fundos – terceiros. Assim, compete à fiscalização verificar se os valores pagos aos segurados se enquadram no disposto no artigo 22, incisos I a III da Lei n. 8.212/91, que corresponde à base de cálculo das contribuições devidas, como foi feito e exposto mediante fundamentação contida no Relatório Fiscal. Se a conclusão alcançada é a correta, trata-se de matéria a ser analisada no mérito. Fl. 293DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 7 Além disso, também não há que se falar em preterição do direito de defesa. A Súmula CARF n. 162 determina que “O direito ao contraditório e à ampla defesa somente se instaura com a apresentação de impugnação ao lançamento”. Os autos demonstram que o transcurso do PAF ocorreu de forma hígida, foi dada ao contribuinte oportunidade de defesa, a qual foi plenamente exercida, recorrendo agora do acórdão que analisou sua impugnação ao lançamento de ofício. Contrariamente à argumentação da parte recorrente, é evidente que o ato de lançamento administrativo e o procedimento adotado na autuação fiscal foi fundamentado pelas razões de fato e de direito que levaram à conclusão expressa. O raciocínio fiscal está claro, aplicando a legislação considerada pertinente ao caso em questão e realizando a apuração do tributo devido. No Autos de Infração, consta a fundamentação legal, conforme relatório “DESCRIÇÃO DOS FATOS E ENQUADRAMENTO LEGAL” (e-fls. 40/41/28/29), para cada Auto de Infração. Como pontuado pela DRJ, os dispositivos que reportam às contribuições previdenciárias em questão (artigo 22, incisos I a III da Lei 8.212/91) aparecem no rol de fundamentos legais elencados no respectivo auto. Observa-se o mesmo no AI referente às contribuições destinadas a outras entidades e fundos (terceiros). Além disso, o “DEMONSTRATIVO DE APURAÇÃO”(e-fls. 42/43/50), por sua vez, indica a base de cálculo e a alíquota aplicada. O “DEMONSTRATIVO DE MULTA E JUROS DE MORA” (e-fls. 44/51), demonstra com clareza o cálculo das penalidades. Como se vê, o lançamento discrimina os valores e a competência em que foram creditados os montantes que compõem os levantamentos, permitindo a perfeita identificação e apresentação de defesa pelo contribuinte A exposição detalhada do procedimento fiscal, a tipificação, a matéria tributável e demais elementos fundamentais a embasar o lançamento de ofício encontram-se no “Relatório Fiscal” (e-fls. 57/73), atendendo aos postulados da legalidade, ampla defesa e publicidade. A matéria tributável encontra-se ali descrita com clareza. Ademais, não prospera a nulidade do lançamento no presente caso, porquanto todos os requisitos previstos no art. 142 do CTN e do art. 10 do Decreto n. 70.235/72, que regula o processo administrativo fiscal, foram observados quando da lavratura do Auto de Infração. O lançamento contempla a qualificação do autuado, discriminação clara dos fatos geradores das contribuições, das bases de cálculo apuradas, das alíquotas aplicadas e contribuições devidas, dos períodos a que se referem os documentos analisados e que serviram de base para o levantamento, dos fundamentos legais que sustentam a ação fiscal desenvolvida, os procedimentos e/ou técnicas aplicadas, o prazo para recolhimento ou impugnação, a assinatura do fiscal autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. Fl. 294DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 8 Por todo o exposto, afasto a preliminar de nulidade. MÉRITO A decisão de piso compreendeu que as parcelas possuem caráter remuneratório, vez que encontram-se “umbilicalmente vinculadas aos serviços prestados pelo trabalhador”. No caso do hiring bonus, “o pagamento é vinculado ao contrato de trabalho que lhe sucede”, compreendendo que esse é um “benefício” oferecido pela empresa em retribuição ao trabalho. Já o bônus de retenção, “visa assegurar a manutenção do trabalhador” e “integra a remuneração do segurado empregado embora não sejam pagas diretamente em decorrência da prestação de serviços”. Afastou, ainda, o caráter indenizatório e eventual das verbas (art. 28, § 9º, alínea “e”, item 7, da Lei n. 8.212/91). O recorrente alega que os bônus de contratação e de retenção são destinados a atrair e manter funcionários importantes para seus quadros, não sendo pagos em retribuição aos serviços e nem com habitualidade. Também destaca a natureza indenizatória de tais verbas e o seu papel de ressarcir ao trabalhador contratado ganhos que deixam de ter nos empregos anteriores dos quais se desligam, bem como, aqueles porventura oferecidos por outras empresas, caso viessem deixar os quadros da autuada. Pois bem. A controvérsia posta nos autos consiste em verificar se os valores pagos aos segurados empregados e contribuintes individuais (administradores) a título de bônus de retenção e bônus de contratação (hiring bonus) possuem natureza remuneratória, atraindo a incidência das contribuições previdenciárias (patronal, RAT e terceiros). Conforme disciplinado na Constituição Federal (art. 195, inciso I, alínea “a”), a seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes, entre outras, das contribuições sociais: “I - do empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da lei, incidentes sobre: a) a folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados, a qualquer título, à pessoa física que lhe preste serviço, mesmo sem vínculo empregatício” (grifou-se). Buscando os limites constitucionais do poder de tributar, atinentes às contribuições previdenciárias, tem-se que como base imponível somente rendimentos do trabalho, de índole contraprestacional. Daí decorre que, tanto para o segurado empregado, quanto para o contribuinte individual, as contribuições previdenciárias incidem sobre verbas de natureza remuneratórias, a remuneração percebida pelo trabalho. Destaca-se, nesse ponto, que, determina a CLT, em ser art. 457, que integra a remuneração do trabalhador não só o salário, como também a remuneração variável e as utilidades pagas como contraprestação do serviço prestado. Isto é, o conceito de remuneração é mais amplo que a contraprestação laboral efetiva, incluiria as verbas variáveis, além do salário. Fl. 295DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 9 Valendo-se dos ditames dos arts. 109 e 110 do CTN, o conceito de remuneração do empregado é aquele constante na CLT. Porém, os efeitos tributários previdenciários das parcelas tidas como remuneratórias são os determinados na Lei n. 8.212/91. Cabendo, portanto, ao intérprete, analisar o salário de contribuição, instituto próprio previdenciário criado pelo legislador e as possíveis parcelas isentas ou fora do campo de incidência. Em linha com a base constitucional, a Lei n. 8.212/91, Lei de Custeio da Previdência Social, traz disposições sobre a base de cálculo da contribuição previdenciária do empregador, cota patronal, explicitando que a base de incidência são as remunerações pagas ou creditadas, destinada a retribuir o trabalho/serviço prestado: Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de: I - vinte por cento sobre o total das remunerações pagas, devidas ou creditadas a qualquer título, durante o mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos que lhe prestem serviços, destinadas a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços, nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa; III - vinte por cento sobre o total das remunerações pagas ou creditadas a qualquer título, no decorrer do mês, aos segurados contribuintes individuais que lhe prestem serviços; (...) Art. 28. Entende-se por salário-de-contribuição: I - para o empregado e trabalhador avulso: a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa; III - para o contribuinte individual: a remuneração auferida em uma ou mais empresas ou pelo exercício de sua atividade por conta própria, durante o mês, observado o limite máximo a que se refere o § 5o ; (grifou-se) Como se vê, no caso dos empregados, a base de incidência é a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir Fl. 296DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 10 o trabalho, não importando a forma e nem o nome que se dê à rubrica. A contribuição previdenciária deve incidir nas verbas pagas como decorrência do trabalho, isto é, percebidas “pelo” trabalho nos termos da legislação e do contrato laboral. É dizer: o elemento essencial para que uma verba paga pela empresa a seu empregado constitua hipótese de incidência de contribuições previdenciárias é a sua vinculação à atividade laboral desenvolvida. Isso exclui do campo de incidência as verbas, por exemplo, de natureza indenizatória. Mesmo se pagas com habitualidade, sequer ostentam natureza remuneratória, pois o motivo ensejador do pagamento não se deu em decorrência do trabalho prestado, visam, ao contrário, reparar ofensas ao patrimônio ou a direitos do empregado causados pelo empregador (por exemplo, diárias para viagens, reembolso quilometragem, “férias em dobro”). O mesmo ocorre com as verbas instrumentais, concedidas para permitir o aumento de produtividade ao funcionário (“para o trabalho”), bem como os benefícios ofertados em igual quantidade e qualidade para todos os funcionários de uma empresa. Por sua vez, as verbas pagas como obtenção de metas alcançadas, ou em decorrência de superação de desempenho ordinariamente esperado, em regra, tem nítido caráter remuneratório, pois decorrem da prestação de serviços por parte da pessoa física à empresa. O mesmo ocorre no caso dos contribuintes individuais. Para que haja incidência de contribuição previdenciárias da empresa sobre os valores pagos a contribuintes individuais, montante deve visar retribuir o serviço prestado diretamente ao tomador (empresa). Ainda, as importâncias pagas para retribuí-los não podem ostentar natureza de reembolso ou indenizatórias, mas sim remuneratórias. Isto é, só haverá a incidência de contribuições previdenciárias à cargo do empregador se houver o inequívoco caráter contraprestacional do pagamento: destinar-se a retribuir o trabalho realizado pelo colaborador. Não sendo este o caso, trata-se de uma hipótese de não incidência, vez que a situação não se amolda à matriz de incidência descrita pela norma. BÔNUS DE CONTRATAÇÃO – HIRING BONUS No caso dos autos, entendo que o pagamento do bônus de contratação não foi efetuado em contraprestação aos serviços prestados pelo (único) contribuinte individual, Diretor Executivo Estatutário – Administrador, constante do lançamento – e-fl. 35/36. Como se verifica dos autos, não há qualquer relação entre o bônus e o desempenho do administrador agraciado (Sr. Raul Francisco Moreira). Desse modo, reputo que a verba não é destinada a retribuir o trabalho. Inclusive, defender-se o caráter contraprestacional/remuneratório de pagamento mostra-se, inclusive, ilógico. O bônus de contratação, decorre de uma cláusula estipulada em contrato prévio e dissociado do contrato de trabalho. A verba é paga antes de qualquer serviço prestado e, por óbvio, não vincula-se, do mesmo modo, à qualquer desempenho ou produtividade no exercício do cargo. Fl. 297DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 11 O mercado de trabalho determinado pela alta performance e competitividade impõe que as empresas (inclusive fintechs e instituições financeiras) se utilizem de diversos mecanismos para atrair e reter talentos. Diversas práticas e formas de negociação foram criadas e adotadas para atrair candidatos qualificados a deixarem sua posição atual de trabalho para ingressarem em uma nova empresa e desempenhar funções específicas que lhes são peculiares e distintas no mercado. Um desses instrumentos é o denominado bônus de contratação/hiring bônus, o qual consiste, de maneira simplista, em pagar determinado valor para que o profissional se comprometa a, no futuro, assinar o contrato de trabalho. Isto é, trata-se de um acordo de vontades prévio à assinatura do contrato de trabalho. Nesse sentido, compulsando os autos, é fato incontroverso (item 4.14, “a”, do Relatório Fiscal e- fl. 63, “Carta Convite – Bônus de Contratação“ e- fls. 169/170 e acórdão de piso, que o valor é creditado na conta do recém-contratado antes de sua contratação, em momento anterior à assinatura do contrato de trabalho e, por conseguinte, ao primeiro dia de trabalho. Sendo assim, caso remuneração fosse, o Recorrente estaria retribuindo seu novo funcionário, num valor consideravelmente alto, por absolutamente nenhuma hora de trabalho ou tempo à disposição, o que, pelo próprio conceito legal de remuneração, como visto, não se pode admitir. Analisando o arcabouço legal acima transcrito, verifica-se que a base de incidência das contribuições alcança apenas as verbas de caráter retributivo, que estão ligadas ao labor, à produção do colaborador. Não se pode admitir a interpretação “além da lei”, que inclui parcela que não se amolda à hipótese de incidência legalmente prevista, alargando as bases de incidência do tributo. O conceito de remuneração encontra-se indissociavelmente ligado ao serviço prestado, ao aspecto produtivo da relação laboral. Mesmo que não diretamente, deve-se verificar, com clareza, que o pagamento tem aspecto contraprestacional e decorre do trabalho prestado pelo colaborador, o que não ocorreu no caso dos autos. Inclusive, destaca-se que, no caso dos autos (e-fls. 328/329) sequer havia a cláusula de permanência mínima sob pena de devolução dos valores percebidos, reforçando a ausência de caráter remuneratório do pagamento. Ademais, investigando a natureza jurídica do bônus de contratação nota-se que se trata de expediente muito utilizado no meio corporativo para atrair profissionais especializados e reconhecidos, por suas qualidades, no mercado de trabalho e sem dúvida, uma indenização ao segurado que rompe o seu contrato de trabalho anterior e não receberá as verbas a que teria direito, previstas no artigo 477 da CLT e outras constantes de “Programas de Incentivo”, tampouco eventual participação nos lucros ou resultados. De fato, a matéria em julgamento é complexa e com uma série de oscilações decisórias neste E. Conselho. Não obstante, vale ressaltar que este E. CARF já proferiu decisões reconhecendo que a não incidência de contribuições previdenciárias sobre os valores pagos a Fl. 298DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 12 título de bônus de contratação, quando não demonstrado o viés retributivo/remuneratórios. É ver: Acórdão n. 9202-010.629 BÔNUS DE CONTRATAÇÃO. NATUREZA SALARIAL. COMPROVAÇÃO. AUSÊNCIA Não integra o conceito de salário-de-contribuição os valores pagos à título de bônus de contratação (também denominado de "luvas" ou "hiring bonus") quando não são trazidos aos autos elementos de convicção acerca do vínculo do pagamento da verba com o contrato de trabalho. Acórdão n. 9202-010.361 BÔNUS DE CONTRATAÇÃO AUSÊNCIA DE CARÁTER REMUNERATÓRIO. NÃO INCIDÊNCIA. Não integra o salário de contribuição o pagamento único de bônus por força de avença anterior ao contrato de trabalho, que tenha por objetivo que esse venha a ser implementado, nos casos específicos de busca por profissionais singulares. Tais valores não ostentam natureza remuneratória, posto que não decorrem de prestação de serviços de pessoa física e sim de mera obrigação de fazer, promessa de contratar, não relacionada ao fato gerador das contribuições previdenciárias No caso, a análise foi feita com base, em especial, nas provisões contábeis do sujeito passivo, carecendo prova mais robusta acerca do pagamento dessa verba estar condicionada ao trabalho. Deste modo, entendo que não foram trazidos aos autos elementos de convicção acerca do vínculo do pagamento da verba com o contrato de “Gerenciamento Executivo” a ser prestado pelo administrador. Pelo exposto, deve ser afastada a exigência de contribuições previdenciárias (patronal e RAT) sobre a rubrica “GRATIFICACAO EVENTUAL”(e-fl. 37), paga a título de bônus de contratação ao segurado contribuinte individual (administrador). BÔNUS DE RETENÇÃO No que se refere ao bônus de retenção, por sua vez, entendo que o caráter remuneratório não pode ser admitido, no caso dos segurados empregados, por tratar-se de ganhos não habituais do profissional No que tange à habitualidade dos pagamentos, a Constituição Federal em seu art. 201, §11, determina que “os ganhos habituais do empregado, a qualquer título, serão incorporados ao salário para efeito de contribuição previdenciária e consequente repercussão em benefícios, nos casos e na forma da lei” (grifou-se). Interpretando tal dispositivo, sistematicamente, com o art. 195, inciso I, alínea “a”, da Constituição Federal, o Supremo Tribunal Federal, no RE 565.160/SC (Tema 20), afirmou que "a Fl. 299DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 13 contribuição social a cargo do empregador incide sobre ganhos habituais do empregado, quer anteriores ou posteriores à Emenda Constitucional nº 20/1998". Na oportunidade, prevaleceu o voto do Ministro Relator Marco Aurélio, segundo o qual: Então, cabe proceder à interpretação sistemática dos diversos preceitos da Constituição Federal. Se, de um lado, o artigo 195, inciso I, nela contido disciplinava, antes da Emenda nº 20/1998, o cálculo da contribuição devida pelos empregadores a partir da folha de salários, estes últimos vieram a ser revelados, quanto ao alcance, pelo citado § 4º – hoje § 11 – do artigo 201. Pelo disposto, remeteu-se à remuneração percebida pelo empregado, ou seja, às parcelas diversas satisfeitas pelo tomador dos serviços, exigindo-se, apenas, a habitualidade. (grifou-se) Assim, segue-se que os ganhos habituais do empregado integram o cálculo das contribuições previdenciárias, ao passo que os ganhos não habituais não o integram. E mais, o conceito de habitualidade trata-se de matéria infraconstitucional e a análise deve ser efetuada caso a caso. Nesse ponto, entendo, particularmente, que está sendo criada uma grande confusão ao tentarem comparar os conceitos de "habitualidade com o de não eventualidade" ou o "não habitualidade com o de eventualidade". Isso porque, o art. 28, §9º, alínea “e”, item 7, da Lei n. 8.212/91 prevê expressamente que as importâncias recebidas a título de ganhos eventuais são isentas de contribuições sociais previdenciárias. Em consulta aos Dicionários Michaelis, Houaiss e Vocabulário Jurídico de Plácido e Silva tem-se como habitual o que costuma ocorrer com frequência, costumeiro, sólito, que se consagrou, que se tornou usual em virtude da sucessividade, constância, e reiteração na prática ou no exercício de certos e determinados atos. Já eventual refere-se aquilo que depende de acontecimento incerto, casual, fortuito. A habitualidade, por sua vez, refere-se à reiteração do pagamento da verba, enquanto o ganho eventual é aquele incerto, sem previsibilidade, pactuação anterior ou expectativa. A previsibilidade, embora possa ser consequência da habitualidade no efetivo pagamento, não necessariamente decorre da reiteração e tem outro significado léxico e, inclusive, jurídico. Como dito, a análise deve ser realizada considerando as particularidades do caso concreto. A base de incidência das contribuições previdenciárias, portanto, inclui verbas salariais, em sua acepção mais pura – pagas quando a lei determina (casos de interrupção do contrato de trabalho), como contraprestação pelo serviço efetivamente prestado ou pelo tempo à disposição – , bem como as demais verbas pagas com habitualidade, passando a assumir natureza salarial. Ou seja, as verbas variáveis, se pagas com habitualidade, passam a integrar a remuneração, base de cálculo das contribuições sociais previdenciárias. Fl. 300DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 14 No caso dos autos, verifica-se que os pagamentos foram realizados, em sua maioria, uma única vez, em parcela única, para os empregados em comento, o que afasta a habitualidade. A “Carta Modelo” (exemplificativa – e-fl. 380) do Programa de Retenção da empresa juntada aos autos, refere-se apenas ao ano de 2018 (formulada em 2017, com previsão de pagamento em janeiro de 2018). Em análise a jurisprudência do CARF e ao Relatório Fiscal, não é possível concluir que os pagamentos são reiterados por diversos anos calendários, sucessivamente, a depender da permanência na empresa, ratificando tratar-se de prática costumeira da empresa. Não há menção no Relatório Fiscal e não foram localizadas autuações referentes à prática semelhante adotada em anos calendários diversos do presente. O Relatório Fiscal sequer traz considerações acerca da habitualidade/frequência dos pagamentos dessa espécie. Deste modo, ausente a comprovação da habitualidade dos pagamentos em tela, não há que se falar em incidência de contribuições previdenciárias. Com relação às contribuições previdenciárias destinadas a terceiros, como já entendeu o Superior Tribunal de Justiça (AgInt no REsp 1602619/SE), “em razão da identidade de base de cálculo com as contribuições previdenciárias”, devem seguir a mesma sistemática destas, não incidindo sobre as rubricas em comento. Assim, devem ser excluídos do lançamento (patronal, RAT e terceiros) as parcelas pagas aos segurados empregados a título de bônus de retenção (e-fl. 38 – Rubricas 102 e 109). Observa-se que a discussão acerca da existência ou não de habitualidade não é relevante para o os pagamentos vertidos aos segurados contribuintes individuais, vez que tal requisito para a incidência tributária somente se verifica em relação aos segurados empregados, nos termos do § 11 do art. 201 da Constituição Federal (acima transcrito e negritado). Isto é, os valores repassados a estes trabalhadores contribuintes individuais, independentemente de serem ou não habituais, constituem-se em salário de contribuição. No caso do bônus de retenção, alinho-me à DRJ no sentido de que não se pode falar que o pagamento era eventual, uma vez que a eventualidade é característica relacionada à situações decorrentes de acontecimentos inesperados (imprevisíveis). Conforme se verifica da “Carta Modelo” (exemplificativa – e-fl. 380) do Programa de Retenção da empresa, é inegável o prévio conhecimento, por parte dos funcionários da empresa, acerca da possibilidade de concessão do bônus decorrente da permanência na empresa, não procedendo a alegação de que se tratava de pagamentos eventuais, abarcados pela isenção prevista no art. 28, §9º, alínea “e”, item 7, da Lei n. 8.212/91. Além disso, como exposto no Relatório Fiscal, os contratos referentes ao programa de retenção impõem a vinculação do trabalhador à empresa pelo período de 12 (doze) meses, gerando então o direito à integralidade do abono (bônus de retenção). Caso peça demissão antes disso fará jus ao valor proporcional, havendo a obrigação de devolução da parcela indevida: Fl. 301DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 15 4.20 A exigência contratual de tempo mínimo de permanência na empresa, no caso 12 meses, interfere diretamente no quantum do abono a que faz jus o empregado. O funcionário só passa a ter direito à integralidade do abono se permanecer na empresa pelo período combinado. Caso peça demissão antes desse período, não terá direito a parte do valor a receber. Por sua vez, se o empregador demitir o segurado, antes do término do período, deverá pagar o valor integral do abono, uma vez que o trabalhador não terá descumprido a obrigação de continuar na empresa. Como se vê, há a necessidade da prestação de serviço para que o valor incorpore-se totalmente ao seu patrimônio, posto que, caso não cumpra o prazo de permanência mínima na empresa estabelecido contratualmente, terá que devolver total ou parcialmente o valor transferido. O ponto não foi contestado ou alvo de argumentação expressa pelo recorrente. Entendo que tal disposição, referente ao bônus de retenção, evidencia seu caráter retributivo, na medida em que o recebimento da verba está condicionado à sua permanência do colaborador na empresa prestando serviços, à sua disposição. Isso demonstra a ligação do montante com a remuneração mensal percebida pelos serviços prestados, considerando que deve ser devolvida proporcionalmente ao tempo que não laborar para a recorrente. Nesse particular, alinho-me à jurisprudência desde Eg. Conselho (e.g. Acórdãos n. 2201-005.314 e 9202-010.629), no sentido de que, tal pagamento se evidencia como contraprestação do trabalho pelo tempo que o contratado deve permanecer vinculado à empresa, diante do fato de haver previsão contratual de devolução dos valores em caso de pedido de demissão ou justa causa, antes do prazo estabelecido no momento da avença. Assim, entendo que, no caso dos contribuintes individuais (e-fl. 37 – Rubrica 109) deve ser mantido o lançamento. CONCLUSÃO Pelo exposto, voto por conhecer parcialmente do Recurso Voluntário, não conhecendo das alegações relativas à inconstitucionalidade da multa, rejeitar o pedido de diligência, rejeitar a preliminar e dar-lhe parcial provimento, mantendo apenas o lançamento referente à incidência das contribuições previdenciárias – patronal – sobre os valores pagos aos contribuintes individuais a título de bônus de retenção (e-fl. 37 – Rubrica 109), acrescido de juros de mora e multa de ofício.. Assinado Digitalmente Angélica Carolina Oliveira Duarte Toledo Fl. 302DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 16 VOTO VENCEDOR Conselheiro Johnny Wilson Araújo Cavalcanti, redator designado XXXX DELIMITAR A DIVERGÊNCIA Respeitosamente, divirjo da relatora em relação à incidência das contribuições previdenciárias sobre os valores pagos a título de Bônus de Contratação, também conhecido por Hiring Bonus, e Bônus de Retenção, que possuem natureza contraprestacional, pelas razões que passo a expor. Não é novidade o problema da carência de profissionais qualificados no mercado de trabalho brasileiro. Em particular, nas áreas de tecnologia da informação e de finanças, onde os profissionais qualificados são extremamente valorizados. Nesse contexto, as empresas se utilizam de diversas estratégias para atrair e reter talentos, a saber: planos de concessão de benefícios, concessão de seguros, remuneração variável, remuneração realizada por meio de “Stock Options”, Bônus de Contratação e Bônus de Retenção, dentre outros. As relações trabalhistas evoluíram e, da mesma forma, evoluíram as formas de remunerar os segurados empregados e contribuintes individuais. Contudo, essa evolução não implica na exclusão das novas formas de remuneração do campo de incidência das contribuições previdenciárias. Interessa ao presente caso o Bônus de Contratação, também chamado de “Hiring Bonus”, e o Bônus de Retenção, cuja prática pode ser descrita da seguinte forma. Para atrair e reter um profissional, a empresa oferece um bônus, que pode ser pago em parcela única ou em várias parcelas ao longo do tempo, firmando-se um contrato entre o profissional e a empresa, onde, em regra, são estipuladas cláusulas como prazo mínimo do vínculo, multas, previsão de devolução de valores em razão de rescisão precoce e até critérios de desempenho. Findo o período estabelecido no ato da contratação e permanecendo interesse pelo profissional, surge um novo artifício. O Bônus de Retenção, que é um novo pagamento, cujo objetivo é a retenção do talento profissional. Veja-se, que a empresa pode estabelecer penalidades que desestimulem o profissional a rescindir o contrato no curso de sua execução, situação normalmente existente nesses tipos de contratos. Cria-se, assim, uma remuneração extra paralela ao contrato de trabalho que pode ser mantida enquanto durar o contrato de trabalho, de forma cíclica. Ganha o profissional com remuneração extra e ganha a empresa que retém o talento. Tais ferramentas remuneratórias se mostram de grande utilidade na captação e manutenção de talentos em setores de elevada competividade. Todavia, são apenas novas formas de remunerar o trabalho prestado, alcançadas, da mesma forma, pelo campo de incidência das contribuições previdenciárias. A situação descrita acima é de difícil comprovação, tendo em vista que embora a auditoria fiscal intime as empresas a apresentar os contratos firmados com os empregados em razão do pagamento dos Bônus de Contratação ou de Retenção, tais documentos não são apresentados pelas empresas. Quando muito, são apresentadas descrições das políticas Fl. 303DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 17 remuneratórias das empresas. Nesses casos, a prova ocorre, em geral, por meio da análise dos registros contábeis ou do exame da movimentação financeira das empresas. Fundamentando-se no princípio da verdade material, embora as empresas não apresentem tais contratos, é irrazoável acreditar que grandes empresas, em especial do setor financeiro, realizem pagamentos sem garantias de que o profissional firmará o contrato de trabalho, no caso do Bônus de Contratação, ou mesmo que sejam efetuados pagamentos sem o estabelecimento de prazos mínimos de vínculo com a empresa, de requisitos mínimos de desempenho ou de cláusulas penais. Com efeito, o pagamento de Bônus de Contratação e de Bônus de Retenção possuem natureza remuneratória e estão vinculados ao contrato de trabalho. Em ambos se constata o caráter contraprestacional. No caso do Bônus de Contratação, mesmo que o pagamento ocorra antes de iniciado o contrato de trabalho, ele existe em razão dele e representa uma remuneração antecipada de uma contraprestação que se dará com o início do contrato de trabalho. Sem o estabelecimento da relação laboral inexiste a razão de ser do pagamento do bônus. Nesse sentido está o entendimento manifestado pelo relator do Acórdão 2102- 003.469 – 2ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA, Cleberson Alex Friess, em relação ao Bônus de Contratação, cujo excerto se apresenta a seguir: O valor pago a título de bônus de contratação não leva em conta apenas a importância financeira destinada a convencer o empregado a assinar o contrato de trabalho, mas inclui benefício decorrente da contraprestação dos serviços, numa retribuição antecipada do trabalho que virá a ser prestado para a empresa. Nessa segunda vertente, o bônus de contratação tem natureza de antecipação salarial, isto é, representa um pagamento antecipado – indiferente, se antes ou depois da assinatura do contrato de trabalho, em parcela única ou não - pela futura prestação de serviço com habitualidade, como atrativo econômico para o trabalhador firmar o vínculo laboral. A intenção da empresa é dispor do trabalho do profissional por um tempo e compromete-se a pagar uma quantia adicional em relação ao salário contratado, como incentivo, que será diluído ao longo do período que o trabalhador permanecer vinculado. É nítida a natureza contraprestacional da verba paga, mediante correlação com a prestação de serviços, cujo pagamento é destinado a retribuir o trabalho, assumindo feição remuneratória (art. 22, inciso I, da Lei nº 8.212, de 1991). O pagamento do bônus de contratação contém, em regra, duplo propósito de atrair e manter o trabalhador no quadro da empresa por um período mínimo previamente ajustado, apoiado na assinatura do contrato de trabalho. Mais evidente, ainda, é o caso do Bônus de Retenção, onde o contrato de trabalho está em curso e para reter o trabalhador se pactua um bônus. Ou seja, uma remuneração extra Fl. 304DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 18 que decorre da prestação de serviço, paga em função do trabalho. Inclusive relacionada ao desempenho alcançado pelo trabalhador. Afinal, a realidade fática nos mostra que uma empresa não ofertará uma remuneração extra para reter um profissional de baixo desempenho. Dessa forma, apresenta-se equivocado o entendimento de que sobre os valores pagos a título de Bônus de Contratação e de Bônus de Retenção não incidem contribuições previdenciárias a cargo do empregador. A legislação tributária, fundamentada na disposição constitucional, estabeleceu que a contribuição a cargo da empresa destinada à Seguridade Social incide sobre o total das remunerações pagas no mês, a qualquer título, qualquer que seja a sua forma, para aqueles que lhe prestem serviço e destinadas a retribuir o trabalho. Trata-se, portanto, de uma definição ampla de remuneração, tendo como único requisito, que ela seja destinada a retribuir o trabalho, quer o trabalhador seja segurado empregado, quer seja contribuinte individual. É o que se depreende do art. 22, I e III da Lei nº 8.212/1991, a seguir transcritos: Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de: I - vinte por cento sobre o total das remunerações pagas, devidas ou creditadas a qualquer título, durante o mês, aos segurados empregados e trabalhadores avulsos que lhe prestem serviços, destinadas a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços, nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa. (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). (Vide Lei nº 13.189, de 2015) Vigência ... III - vinte por cento sobre o total das remunerações pagas ou creditadas a qualquer título, no decorrer do mês, aos segurados contribuintes individuais que lhe prestem serviços; (Incluído pela Lei nº 9.876, de 1999). (grifo nosso) Ressalta-se que, no caso do segurado empregado, o legislador exigiu habitualidade, apenas, dos ganhos pagos na forma de utilidade. Para os demais pagamentos basta, somente, que eles tenham por fim retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma e não sejam alcançados pelas isenções previstas no §9º do art. 28 da Lei nº 9.212/1991. Com efeito, importa registrar que o legislador relacionou os casos de verbas isentas, que não integram o salário de contribuição, no §9º do art. 28 do mesmo diploma legal, que, por força do inciso II, do art. 111 do CTN deve ser interpretado de forma literal. Por conseguinte, não prosperam os argumentos de que o Bônus de Contratação e o Bônus de Retenção se enquadrariam na isenção prevista no item 7 da alínea “e” do §9º do art. 28 da Lei nº 9.212/1991. Veja-se que tais bônus são verbas pactuadas entre o empregador e o empregado, não se enquadrando, portanto, na categoria de ganhos eventuais. Fl. 305DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 19 Embora se trate de tema polêmico, a jurisprudência recente desse Tribunal Administrativo caminha no sentido de reconhecer a natureza remuneratória dos Bônus de Contratação, havendo, portanto, a incidência de contribuições previdenciárias sobre tais verbas. É ver: HIRING BONUS. GRATIFICAÇÃO ESPONTÂNEA. NATUREZA SALARIAL. COMPONENTE DO SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. A gratificação paga por ocasião da admissão pressupõe a contraprestação pelo trabalho, portanto a sua natureza é salarial, ausente a comprovação de que enquadrar-se-ia em uma das exceções legais. Essa verba não tem natureza de verba eventual, por não estar relacionada a caso fortuito e, ao contrário, sendo esperada desde a contratação, deve compor o salário de contribuição. (Acórdão nº 9202-011.036 – CSRF / 2ª Turma, julgado em 25/10/2023, redator Maurício Nogueira Righetti) HIRING BONUS. VERBA DECORRENTE DO CONTRATO DE TRABALHO. COMPONENTE DO SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. A verba paga a título de hiring bonus é decorrente do contrato de trabalho. Essa verba não tem natureza de verba eventual, por não estar relacionada a caso fortuito e, ao contrário, sendo esperada desde a contratação, deve compor o salário de contribuição. (ACÓRDÃO 9202-011.133 – CSRF/2ª TURMA, julgado em 27/02/2024, redator Regis Xavier Holanda) BÔNUS DE CONTRATAÇÃO. HIRING BONUS. NATUREZA REMUNERATÓRIA. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO. Integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias o bônus de contratação, denominado de “Hiring Bonus”, pago por ocasião da contratação do empregado a fim de atrair e manter o trabalhador no quadro da empresa por um período mínimo previamente ajustado. ( ACÓRDÃO 2102-003.469, julgado em 04/09/2024, relator Cleberson Alex Friess) Da mesma forma, apresenta-se a recente jurisprudência do CARF quanto à natureza remuneratória dos Bônus de Retenção. É ver: BÔNUS DE RETENÇÃO. AJUDA DE CUSTO. FIDELIZAÇÃO DO EMPREGADO. NATUREZA REMUNERATÓRIA. A parcela paga ao trabalhador para sua permanência na empresa integra a base de cálculo da contribuição previdenciária, haja vista que a sua natureza contraprestativa, decorrente do trabalho realizado pelo segurado empregado durante a vigência do vínculo laboral. Fl. 306DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 20 (Acórdão nº 2401-011.754, julgado em 07/05/2024, relatora Miriam Denise Xavier) BÔNUS DE RETENÇÃO. NATUREZA. INCIDÊNCIA O valor pago a título de bônus de retenção a segurado cobiçado pelo mercado de trabalho tem natureza remuneratória e sofre incidência de contribuições sociais previdenciárias. (ACÓRDÃO 2102-003.444, julgado em 07/08/2024, relator Carlos Marne Dias Alves) No caso em exame, o contribuinte foi intimado, por meio do Termo de Intimação Fiscal nº 01, de 15/06/2022, a se manifestar sobre os pagamentos da tabela item 3, fl. 59 do Relatório Fiscal, classificadas como abonos e gratificações, oportunidade em que atestou que tais pagamentos se referem a Bônus de Contratação e Bônus de Retenção, conforme excerto a seguir: Na mesma intimação, o contribuinte foi intimado a apresentar os contratos referentes aos pagamentos classificados abonos e gratificações, conforme consta no Relatório Fiscal fl. 59. Segundo o Relatório Fiscal, os contratos não foram apresentados. O contribuinte apresentou apenas uma carta modelo. Consta, ainda, do Relatório Fiscal, fl. 60, que o contribuinte foi intimado, por meio do Termo de Intimação Fiscal nº 03, de 05/10/2022, a apresentar as cartas convites e os contratos individuais dos beneficiários dos abonos e gratificação. Embora regularmente intimado, o contribuinte não apresentou os documentos requeridos pela fiscalização. Vide registro da autoridade fiscal, fl. 60: 3.2 Salienta-se que as cartas convites e contratos individuais não forem entregues à fiscalização. Embora a instituição financeira tenha sido intimada por duas vezes a apresentar os contratos que fundamentaram os pagamentos da citada tabela, a empresa não atendeu a fiscalização. A conduta de não apresentação dos contratos é esperada, haja vista que a partir do exame de tais instrumentos contratuais se evidenciaria a natureza retributiva do pagamento do bônus vinculada à prestação de serviço, mesmo que futuro, no caso do Bônus de Contratação. Fl. 307DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 21 Embora não tenham sido apresentados os contratos ou mesmo a carta convite individualizada, a carta modelo do Programa de Retenção evidencia a natureza contraprestacional ao estabelecer que o funcionário deve permanecer no mínimo por 12 meses na empresa. Vide excerto do Relatório Fiscal, fl. 64: 4.17 No caso do Programa de Retenção verifica-se através dos contratos firmados entre a empresa e os empregados a natureza de remuneração em troca do trabalho vinculado ao período de 12 meses conforme trecho do regulamento a seguir (Doc. “Carta-modelo”, fls.27): 4.18 Conforme a documentação de negociação entre empresa e beneficiário da verba em comento, depreende-se que o pagamento do Abono, oferecido ao profissional, dá-se no momento do atingimento da condição e está vinculado a permanência do empregado por 1 ano na empresa, ou seja, o funcionário deverá permanecer pelo período de 12 meses (jun/17 a jun/18) para ter direito ao recebimento do Abono. 4.19 Fica claro que o empregado só recebe os valores em contrapartida a prestação de trabalho e manutenção da relação de emprego. Portanto os valores pagos a título de Abono de Retenção integram a remuneração e devem compor a base de cálculo da contribuição previdenciária. 4.20 A exigência contratual de tempo mínimo de permanência na empresa, no caso 12 meses, interfere diretamente no quantum do abono a que faz jus o empregado. O funcionário só passa a ter direito à integralidade do abono se permanecer na empresa pelo período combinado. Caso peça demissão antes desse período, não terá direito a parte do valor a receber. Por sua vez, se o empregador demitir o segurado, antes do término do período, deverá pagar o valor integral do abono, uma vez que o trabalhador não terá descumprido a obrigação de continuar na empresa. O item 3 da Carta modelo, doc. fls. 27/28, estabelece vínculo entre a participação no programa e o contrato de trabalho. Vide excerto a seguir: 3- Caso preenchidas as condições acima, V.Sa. fará jus ao recebimento dos seguintes valores: Fl. 308DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 22 (i) Remuneração mensal vigente, de acordo com o seu contrato de trabalho no mínimo até 30/06/2018, Fl. 27 (ii) O equivalente a x(x) salários fixos brutos, que será pago em 30/06/2018. O valor do salário fixo bruto a ser utilizado para o cálculo será o valor do salário fixo na data base setembro de 2016, ou o valor vigente, caso tenha sofrido alteração e será corrigido pelo acordo coletivo de 2017 (iii) A remuneração variável a ser percebida por V.Sa. em janeiro de 2018 não será inferior a remuneração variável já recebida por V.Sa. em janeiro de 2017. Prossegue a autoridade fiscal no Relatório Fiscal, fl. 65: 4.24 O Banco Original procura estimular seus funcionários com uma remuneração, pagando em bônus anuais essa recompensa. Como mostrado no regulamento, o plano escolhido pelo banco foi o de abono de retenção, que também é um tipo de Plano de ILP (Incentivo de Longo Prazo) liquidado em dinheiro. Dessa forma, normalmente eles possuem uma condição de vesting temporal, ou seja, um prazo de carência, para incentivar a permanência do executivo na empresa durante um período. 4.25 Os planos de remuneração apresentados pelo Banco Original contêm características específicas do tipo descrito acima, como formas, regras e controles de pagamento. Pela leitura desses dispositivos vê-se claramente que a remuneração variável (Abono) paga pelo banco é de natureza salarial e retributiva, e uma complementação da remuneração fixa. Da mesma forma, o contribuinte não apresentou contrato referente ao Bônus de Contratação, que restou comprovado por meio do exame da escrituração contábil do contribuinte, conforme detalhado no Relatório Fiscal, fls. 66/67: 4.30 Já em relação à verba paga a título de bônus de contratação (hiring bonus) a sua escrituração contábil comprova a natureza de pagamento condicional. Em resposta à intimação fiscal, o contribuinte informou a seguinte escrituração em relação ao lançamento da despesa com Hiring Bônus: 4.3 1 A contabilização do pagamento em comento em conta contábil de despesas antecipadas evidencia o fato de que a verba devida em cada mês dos períodos acordados com o empregado foi quitada antecipadamente em relação as suas respectivas competências. Fl. 309DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 23 4.3 2 De acordo com o Manual COSIF, no Título “Plano Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional COSIF”, Capítulo “Normas Básicas 1”, Seção “Outros Valores e Bens 10”, item “5. Despesas Antecipadas ”, disponível em https://www3.bcb.gov.br/aplica/cosif/completo, in verbis : 1 Enquadram se como despesas antecipadas as aplicações de recursos cujos benefícios ou prestação de serviços à instituição far-se-ão em períodos seguintes. (Circ 1273) 4.3 3 Caso a fiscalizada almejasse apenas premiar os novos empregados por sua admissão, em razão de terem escolhido a empresa para trabalhar, ou da recusa em relação a outras propostas recebidas no mercado de trabalho, não poderia condicionar a retenção do s valores à permanência dos beneficiários no quadro de pessoal da empresa, por qualquer período que fosse. Trata-se, portanto, de antecipação de valores que seriam devidos ao novo contratado à medida em que houvesse a prestação de serviço, que, conforme registro contábil, foi pago de forma antecipada. Verifica-se, aqui, a verdade material, o Bônus de Contratação está umbilicalmente ligado à prestação de serviço a ser executada pelo novo contratado. Inexistindo a prestação de serviço não há razão de existir do Bônus de Contratação. Assim, tal verba integra o campo de incidência das contribuições previdenciárias devidas pela empresa. O exame do conteúdo da Carta-convite do Bônus de Contratação, fls. 17/18, é esclarecedor, comprovando o vínculo entre o pagamento do bônus e o contrato de trabalho. A carta tem início com a formalização da intenção de contratar os serviços do convidado para a função de administrador. Prossegue afirmando que o valor acordado será pago na data da nomeação para o cargo de Diretor Executivo do Banco Original, oportunidade na qual haverá a formalização do Contrato de Gerenciamento Executivo. E finaliza com uma cláusula do dever de restituir o valor pago, caso o órgão regulador indefira a nomeação e posse no cargo proposto. Em outras palavras, o Bônus de Contratação é pago no início do contrato de trabalho, com a formalização do Contrato de Gerenciamento Executivo e existe em função da contraprestação que será realizada do curso do contrato de trabalho. Inexistindo a prestação do serviço devido a indeferimento do órgão regulador, o novo contratado deverá restituir os valores para o banco. Veja-se que não se sustenta o argumento da natureza indenizatória. Afinal, caso se tratasse de indenização, o contratado não teria a obrigação de devolver o valor recebido. Respeitosamente, divirjo da relatora que afirmou em seu voto que o bônus teria sido pago em momento anterior ao contrato de trabalho. No caso do Sr. Raul Francisco Moreira, a Fl. 310DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 24 Carta-convite é clara ao consignar que o pagamento será realizado na data de nomeação para o cargo de Diretor Executivo, juntamente com a formalização do contrato de gerenciamento executivo. Portanto, no início do contrato de trabalho. Cabe o registro que, embora intimada, a recorrente não apresentou os contratos formalizados com seus prestadores de serviço. Inclusive, não apresentou o contrato citado na Carta-convite. A recorrente alega que os valores pagos a título de Bônus de Contratação e Bônus de Retenção tinham caráter indenizatório. O primeiro teria por fim indenizar os empregados para que eles deixassem seus empregos para trabalhar para a recorrente, enquanto o segundo tinha por fim evitar que seus funcionários optassem pela mudança de emprego. Não assiste razão à recorrente. Em ambos os casos a mudança de emprego para o trabalhar na empresa recorrente, caso do Bônus de Contratação, ou a opção por permanecer trabalhando para a recorrente são decisões que estão na esfera volitiva do trabalhador. Ressalta-se que os pagamentos decorrem de pactuação entre trabalhador e empresa. Não se verifica nenhum ato comissivo ou omissivo praticado pela recorrente que resultasse no dever de indenizar o empregado. Dessa forma, a empresa não deu causa a qualquer dano. Sem dano causado pela empresa, inexiste a natureza indenizatória. Aliás, essa argumentação é afastada pela autoridade responsável pelo lançamento. É ver, fl. 63: 4.1 6 Oportuno afastar qualquer argumentação no sentido de que as verbas em tela são verbas indenizatórias. As verbas indenizatórias, em sua essência, são devidas por quem tenha de alguma maneira lesado o patrimônio ou um bem jurídico de outrem, sendo o seu escopo justamente o de recomposição desse patrimônio. Na hipótese do bônus de contratação, data vênia, não há que se falar em indenização no seu estrito sentido jurídico, pois o novo empregador não cometeu nenhum ato ilícito que ensejasse o dever legal de recomposição do patrimônio do empregado. Embora a recorrente alegue que essa seria uma interpretação limitada, trata-se da interpretação jurídica. A empresa não estaria obrigada a indenizar um funcionário pelas perdas de benefícios causada por um decisão do empregado de rescindir contrato com uma empresa para trabalhar para a recorrente. Ou no caso do Bônus de Retenção, a recorrente não estaria obrigada a indenizar um empregado pelos benefícios que ele, porventura, teria perdido ao decidir permanecer trabalhando para a recorrente. Em verdade, tais bônus são incentivos financeiros com o objetivo de que o empregado decida trabalhar para a recorrente (Bônus de Contratação) ou que permaneça trabalhando para a recorrente (Bônus de Retenção), cuja retribuição do empregado é o serviço a ser prestado, ou seja, trata-se de um pagamento antecipado associado ao contrato de trabalho. Fl. 311DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.194 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16327.720273/2023-26 25 Portanto, não se sustenta o argumento de que tais verbas teriam natureza indenizatória. Prosseguindo com o exame do recurso, a recorrente alega que a base de cálculo das contribuições de terceiros estaria limitada à 20 salários-mínimos. Não assiste razão à recorrente. A matéria é pacífica nesse tribunal, em particular na presente turma de julgamento. A matéria foi tratada no STJ no Tema Repetitivo 1079, acórdão publicado em 02/05/2024, cuja tese firmada se reproduz a seguir: i) o art. 1° do Decreto-Lei 1.861/1981 (com a redação dada pelo DL 1.867/1981) definiu que as contribuições devidas ao Sesi, ao Senai, ao Sesc e ao Senac incidem até o limite máximo das contribuições previdenciárias; ii) especificando o limite máximo das contribuições previdenciárias, o art. 4°, parágrafo único, da superveniente Lei 6.950/1981, também especificou o teto das contribuições parafiscais em geral, devidas em favor de terceiros, estabelecendo- o em 20 vezes o maior salário mínimo vigente; e iii) o art. 1°, inciso I, do Decreto-Lei 2.318/1986, expressamente revogou a norma específica que estabelecia teto limite para as contribuições parafiscais devidas ao Sesi, ao Senai, ao Sesc e ao Senac, assim como o seu art. 3° expressamente revogou o teto limite para as contribuições previdenciárias; iv) portanto, a partir da entrada em vigor do art. 1°, 1, do Decreto-Lei 2.318/1986, as contribuições destinadas ao Sesi, ao Senai, ao Sesc e ao Senac não estão submetidas ao teto de vinte salários. (grifo nosso) Portanto, o STJ decidiu em sede de recurso repetitivo que as contribuições previdenciárias destinadas a terceiros não estão submetidas ao teto de vinte salários. Por força do art. 99 do RICARF as decisões proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos recursos repetitivos, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Por todo o exposto, no mérito, voto por NEGAR provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Johnny Wilson Araújo Cavalcanti Fl. 312DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Vencido CONHECIMENTO Pedido de diligência PRELIMINAR – NULIDADE DO LANÇAMENTO mérito bônus de contratação – hiring bonus BÔNUS DE RETENÇÃO Conclusão Voto Vencedor
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Numero do processo: 13888.005677/2010-28
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 28 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Sun Mar 22 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2008
DEPENDENTES. DEDUÇÃO NA DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL.
Apenas podem configurar como dependentes para fins de dedução na Declaração de Ajuste Anual aqueles que se enquadrarem nas hipóteses previstas na legislação de regência.
Numero da decisão: 2002-010.054
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para restabelecer dedução de dependentes (Nicole Gomes Camilo e Gabriel Gomes Camilo) de R$ 3.311,76.
Assinado Digitalmente
Marcelo de Sousa Sateles – Relator e Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Andre Barros de Moura, Fernando Gomes Favacho, Heitor de Souza Lima Junior (substituto[a] integral), Marcelo Freitas de Souza Costa, Rafael de Aguiar Hirano, Marcelo de Sousa Sateles (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Luciana Costa Loureiro Solar, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Heitor de Souza Lima Junior.
Nome do relator: MARCELO DE SOUSA SATELES
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DEDUÇÃO NA DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. Apenas podem configurar como dependentes para fins de dedução na Declaração de Ajuste Anual aqueles que se enquadrarem nas hipóteses previstas na legislação de regência. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário para restabelecer dedução de dependentes (Nicole Gomes Camilo e Gabriel Gomes Camilo) de R$ 3.311,76. Assinado Digitalmente Marcelo de Sousa Sateles – Relator e Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Andre Barros de Moura, Fernando Gomes Favacho, Heitor de Souza Lima Junior (substituto[a] integral), Marcelo Freitas de Souza Costa, Rafael de Aguiar Hirano, Marcelo de Sousa Sateles (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Luciana Costa Loureiro Solar, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Heitor de Souza Lima Junior. Fl. 131DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-010.054 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 13888.005677/2010-28 2 RELATÓRIO Por bem retratar os fatos ocorridos desde a constituição do crédito tributário por meio do lançamento até sua impugnação, adoto e reproduzo o relatório da decisão ora recorrida: Cuida-se de Notificação de Lançamento, fls. 72 a 76, relativa ao Imposto de Renda de Pessoa Física, exercício 2009, ano-calendário 2008 que formalizou a exigência do crédito tributário assim discriminado: Imposto de Renda Suplementar..............................R$734,94 Multa de Ofício.......................................................R$551,20 Juros de Mora (até 31/5/2010)................................R$105,90 Total........................................................................R$1.392,04 Em procedimento de revisão da Declaração de Ajuste Anual do contribuinte, procedeu-se ao lançamento de ofício do Imposto de Renda, originário das alterações promovidas conforme demonstrativo de fl. 75, momento em que foram glosadas as seguintes deduções: dependentes (R$6.623,52) e pensão alimentícia (R$2.880,00), esta por ultrapassar o montante de desconto contido no comprovante de rendimentos, aquela pelo fato de o contribuinte não deter a guarda judicial dos filhos. Cientificado do Lançamento, o contribuinte apresentou impugnação às fls. 3 a 8, acompanhada de documentos, cujas alegações são discriminadas abaixo, em apertada síntese: 1. O valor glosado de R$2.880,00 refere-se à pensão alimentícia que paga ao filho Nikolas Gomes Camilo que, de acordo com o documento de fls. 14 a 16 ficou sob a guarda dos avós; 2. Embora conste do termo de acordo judicial que o menor ficaria sob guarda da mãe e o pagamento de 30% do percentual do salário do autor destinava-se inclusive a Nikolas, desde 2003 ele já arcava com a pensão do filho que era entregue à avó; 3. Informa que o filho Nikolas já recebia pensão e foi um equívoco no termo de acordo de separação constar que ele também teria direito aos 30% pactuados; 4. Juntou o pedido de tutela antecipada de fls. 18 a 46 para comprovar que adotou as providências relativas ao esclarecimento quanto à destinação do percentual de 30% da pensão alimentícia em favor dos outros três filhos. Sobre o pedido consta o deferimento da redução dos alimentos para 15% dos rendimentos líquidos do contribuinte; 5. Informa que incluiu os filhos como dependentes porque além de pagar pensão alimentícia efetua outros pagamentos, como plano de saúde. Ao final requer o cancelamento da exigência fiscal. Fl. 132DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-010.054 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 13888.005677/2010-28 3 Cientificado da decisão de primeira instância em 10/02/2017, a qual julgou a impugnação procedente em parte, tendo sido restabelecida parcialmente a dedução de pensão alimentícia, no valor de R$ 1.440,00, uma vez que tanto o contribuinte quanto sua esposa à época arcariam com as despesas de seu filho Nikolas, na proporção de 50% do valor de R$ 2.880,00. O sujeito passivo interpôs, em 10/03/2017, Recurso Voluntário, alegando, em apertada síntese, que consta, nos autos judiciais, que o contribuinte era o real possuidor da guarda dos menores Nicole Gomes Camilo e Gabriel Gomes Camilo desde o ano 2008 É o relatório. VOTO Conselheiro Marcelo de Sousa Sateles, Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual dele conheço. O litígio recai apenas sobre a infração de dedução indevida de dependentes (Nikolas Gomes Camilo, Nicole Gomes Camilo, Gabriel Gomes Camilo e Gabrielle Gomes Camilo, no valor de R$6.623,52, por não ter o contribuinte demostrado deter a guarda judicial de seus filhos. A decisão de piso manteve a infração de dedução indevida de dependentes, no valor de R$ 6.623,52, pois o contribuinte não havia demostrado deter a guarda judicial de seus filhos, o que se faz necessário, para deduzi-los como seus dependentes, na situação de pais separados, nos termos do parágrafo terceiro, do art. 38, da Instrução Normativa SRF nº 15/2001, vigente à época dos fatos geradores. Contudo, em sede de recurso voluntário, por meio da sentença judicial, às fls. 105/108, o contribuinte demostrou que detinha a guarda judicial de seus filhos, Nicole Gomes Camilo e Gabriel Gomes Camilo, em 2008, logo devem ser restabelecidas a dedução desses dependentes. Conclusão Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, dou-lhe parcial provimento, para restabelecer dedução de dependentes (Nicole Gomes Camilo e Gabriel Gomes Camilo) de R$ 3.311,76. Assinado Digitalmente Marcelo de Sousa Sateles Fl. 133DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2002-010.054 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 13888.005677/2010-28 4 Fl. 134DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10580.731537/2010-75
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 28 00:00:00 UTC 2026
Data da publicação: Sun Mar 22 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2008
PAF. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA.
Considera-se como não contestada a parte do lançamento com a qual o contribuinte concorda ou não a contesta expressamente, portanto incontroversas, tem os créditos tributários a elas correspondentes definitivamente consolidados na esfera administrativa.
DEPENDENTES. DEDUÇÃO NA DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL.
Apenas podem configurar como dependentes para fins de dedução na Declaração de Ajuste Anual aqueles que se enquadrarem nas hipóteses previstas na legislação de regência.
DESPESAS MÉDICAS. REQUISITOS LEGAIS.
São admitidas as deduções de despesas médicas com a observância da legislação tributária e que estejam devidamente comprovadas nos autos.
OMISSÃO DE RENDIMENTOS.
Verificada omissão de rendimentos, a autoridade tributária lançará o imposto de renda, de ofício, com os acréscimos e as penalidades legais, considerando como base de cálculo o valor da renda omitida.
DESPESAS COM INSTRUÇÃO
Na Declaração de Ajuste Anual podem ser deduzidas os gastos com educação até o limite individual determinado pela legislação tributária.
LANÇAMENTO DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA DE MULTA.
A multa de ofício por infração à legislação tributária tem previsão em disposição expressa de lei, devendo ser observada pela autoridade administrativa e pelos órgãos julgadores administrativos, por estarem ela vinculados.
JUROS À TAXA SELIC
A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4).
Numero da decisão: 2002-010.052
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
Assinado Digitalmente
Marcelo de Sousa Sateles – Relator e Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Andre Barros de Moura, Fernando Gomes Favacho, Heitor de Souza Lima Junior (substituto[a] integral), Marcelo Freitas de Souza Costa, Rafael de Aguiar Hirano, Marcelo de Sousa Sateles (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Luciana Costa Loureiro Solar, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Heitor de Souza Lima Junior.
Nome do relator: MARCELO DE SOUSA SATELES
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2008 PAF. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Considera-se como não contestada a parte do lançamento com a qual o contribuinte concorda ou não a contesta expressamente, portanto incontroversas, tem os créditos tributários a elas correspondentes definitivamente consolidados na esfera administrativa. DEPENDENTES. DEDUÇÃO NA DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. Apenas podem configurar como dependentes para fins de dedução na Declaração de Ajuste Anual aqueles que se enquadrarem nas hipóteses previstas na legislação de regência. DESPESAS MÉDICAS. REQUISITOS LEGAIS. São admitidas as deduções de despesas médicas com a observância da legislação tributária e que estejam devidamente comprovadas nos autos. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Verificada omissão de rendimentos, a autoridade tributária lançará o imposto de renda, de ofício, com os acréscimos e as penalidades legais, considerando como base de cálculo o valor da renda omitida. DESPESAS COM INSTRUÇÃO Na Declaração de Ajuste Anual podem ser deduzidas os gastos com educação até o limite individual determinado pela legislação tributária. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA DE MULTA. A multa de ofício por infração à legislação tributária tem previsão em disposição expressa de lei, devendo ser observada pela autoridade administrativa e pelos órgãos julgadores administrativos, por estarem ela vinculados. JUROS À TAXA SELIC A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4).
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Marcelo de Sousa Sateles – Relator e Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Andre Barros de Moura, Fernando Gomes Favacho, Heitor de Souza Lima Junior (substituto[a] integral), Marcelo Freitas de Souza Costa, Rafael de Aguiar Hirano, Marcelo de Sousa Sateles (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Luciana Costa Loureiro Solar, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Heitor de Souza Lima Junior.
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MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Considera-se como não contestada a parte do lançamento com a qual o contribuinte concorda ou não a contesta expressamente, portanto incontroversas, tem os créditos tributários a elas correspondentes definitivamente consolidados na esfera administrativa. DEPENDENTES. DEDUÇÃO NA DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. Apenas podem configurar como dependentes para fins de dedução na Declaração de Ajuste Anual aqueles que se enquadrarem nas hipóteses previstas na legislação de regência. DESPESAS MÉDICAS. REQUISITOS LEGAIS. São admitidas as deduções de despesas médicas com a observância da legislação tributária e que estejam devidamente comprovadas nos autos. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Verificada omissão de rendimentos, a autoridade tributária lançará o imposto de renda, de ofício, com os acréscimos e as penalidades legais, considerando como base de cálculo o valor da renda omitida. DESPESAS COM INSTRUÇÃO Na Declaração de Ajuste Anual podem ser deduzidas os gastos com educação até o limite individual determinado pela legislação tributária. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA DE MULTA. A multa de ofício por infração à legislação tributária tem previsão em disposição expressa de lei, devendo ser observada pela autoridade Fl. 167DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 2002-010.052 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10580.731537/2010-75 2 administrativa e pelos órgãos julgadores administrativos, por estarem ela vinculados. JUROS À TAXA SELIC A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4). ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Marcelo de Sousa Sateles – Relator e Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Andre Barros de Moura, Fernando Gomes Favacho, Heitor de Souza Lima Junior (substituto[a] integral), Marcelo Freitas de Souza Costa, Rafael de Aguiar Hirano, Marcelo de Sousa Sateles (Presidente). Ausente(s) o conselheiro(a) Luciana Costa Loureiro Solar, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Heitor de Souza Lima Junior. RELATÓRIO Por bem retratar os fatos ocorridos desde a constituição do crédito tributário por meio do lançamento até sua impugnação, adoto e reproduzo o relatório da decisão ora recorrida: Trata-se de impugnação protocolizada pelo interessado, contra Lançamento de Ofício nº 2009/949939390818170 relativo ao Exercício de 2009 Ano Calendário 2008 que resultou em crédito tributário no montante de R$ 29.782,21 , sendo R$ 15.791,21 de Imposto de Renda Pessoa Física Suplementar (código de receita 2904), R$ 11.843,40 de Multa de Ofício e de R$ 2.147,601 de Juros de Mora, calculados até 29/10/2010, conforme Notificação de Lançamento fls. 51/60. Fl. 168DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 2002-010.052 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10580.731537/2010-75 3 A Descrição dos Fatos e o Enquadramento Legal encontram-se detalhados nos Demonstrativos de fls. 53/58, versando sobre as infrações de Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Jurídica, Dedução Indevida de Dependente, Dedução Indevida de Despesas Médicas, Dedução Indevida de Pensão Alimentícia Judicial e/ou por Escritura Pública, Dedução Indevida de Previdência Privada e Fapi e Dedução Indevida de Despesas com Instrução. O contribuinte tomou ciência da Notificação de Lançamento em 13/10/2010 de acordo com o Aviso de Recebimento de fl. 61, tendo protocolizado a impugnação de fls. 02/09 em 12/11/2010, onde o contribuinte contestou todas as infrações lançadas pela Fiscalização, afirmando ter anexado aos autos documentação comprobatória. O interessado anexou aos autos documentação constante das fls. 20/43. Em função do artigo 1º da Instrução Normativa nº 1061/2010 de 04/08/2010, bem como de acordo com o artigo 1º da Instrução Normativa RFB nº 958, de 15/07/2009 que passou a vigorar acrescida do artigo 6º A, o presente processo foi encaminhado à Sefis da DRF Salvador BA em 18/04/2012. (Despacho de fl. 70) Consta das fls. 71/74, Termo Circunstanciado e Despacho Decisório nº CM-991, de 23/04/2013 emitidos pela Sefis da DRF Salvador BA, que decidiu: “Com base nos arts. 302 e 303 do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal do Brasil, aprovado pela Portaria MF nº 203, de 14 de maio de 2012, e art. 6ºA da Instrução Normativa RFB nº 958, de 15 de julho de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.061, de 04 de agosto de 2010, e considerando o teor do Termo Circunstanciado e demais informações e documentos constantes deste processo, Decido:” Tendo sido alterado o valor original lançado de R$ 15.791,21 para R$ 7.131,12 a título de Imposto de Renda Pessoa Física Suplementar (código de receita 2904), acrescido de Multa de Ofício (75%) e Juros Legais de acordo com a legislação vigente. Foi dada ciência da Revisão de Lançamento em 07/12/2015 (fls. 79/80), tendo o interessado em síntese contestado o seguinte: “ (01) Pensão Alimentícia de Valéria de Fátima Ramos Florentino, filha do contribuinte, alegando-se a impossibilidade de acumular-se dedução por conta de Pensão já paga a sua mãe Vilma Maria Ramos da Silva. (02) Pensão Alimentícia de Josenice Lima Gomes, ex- conjuge do contribuinte, alegando-se não haver sentença ou homologação judicial que comprove a Pensão.” (fls. 82/83) Cientificado da decisão de primeira instância em 24/08/2016, o sujeito passivo interpôs, em 24/08/2016, Recurso Voluntário, alegando, em apertada síntese, que: a) a dedução de dependente está comprovada nos autos b) as despesas com instrução estão comprovadas nos autos c) as despesas médicas estão comprovadas nos autos Fl. 169DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 2002-010.052 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10580.731537/2010-75 4 d) os rendimentos tributáveis estão comprovados pelos documentos juntados aos autos; e) seja cancelada a multa de ofício e os juros de mora. É o relatório. VOTO Conselheiro Marcelo de Sousa Sateles, Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual dele conheço. Primeiramente, deve-se esclarecer que a fiscalização constatou as seguintes infrações: -dedução de pensão alimentícia de R$ 31.193,01; - omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica de R$ 3.051,87; - dedução indevida de dependentes no valor total de R$6.623,52; - dedução indevida de despesas médicas no valor total de R$ 13.302,95; - dedução indevida de previdência privada no valor de R$ 1.074,26; - dedução indevida de despesas com instrução no valor de R$ 2.592,29. A autoridade lançadora efetuou revisão do lançamento (Despacho Decisório de fls. 71 a 74), tendo restabelecido parcialmente dedução de pensão alimentícia de 20.793,01, restabelecido parcialmente dedução de dependentes de R$ 3.311,76 (Maria Thereza Uzeda Espinheira Florentino e Sostenes Florentino da Silva), restabelecido parcialmente dedução de despesas médicas de R$ 4.302,95 (plano de saúde), restabelecido parcialmente dedução de previdência privada de R$ 657,28 e restabelecido integralmente dedução de despesas com instrução de R$ 2.592,29. A decisão de piso manteve integralmente do Despacho Decisório. Em sede de recurso voluntário, o Recorrente contesta a manutenção parcial das infração dedução de indevida de dependente de R$ 3.311,76, manutenção parcial de dedução indevida de despesas médicas de R$ 9.000,00, manutenção integral da infração de omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica de R$ 3.051,87. Alega ainda que a dedução das despesas de instrução não deve ser limitada ao valor de R$ 2.592,29, devendo ser deduzido o valor total de R$ 8.196,00. Portanto, o Recorrente não contesta a manutenção parcial da infração de dedução indevida de pensão alimentícia de R$ 10.400,00 bem como a manutenção parcial da infração dedução indevida de previdência privada e Fapi de R$ 583,02, logo essas matérias tornaram-se Fl. 170DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 2002-010.052 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10580.731537/2010-75 5 incontroversas e definitivas administrativamente, nos termos dos arts. 17 e 21 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972. O litígio recai então sobre as infrações: 1) manutenção parcial de dedução de indevida de dependente de R$ 3.311,76, 2) manutenção parcial de dedução indevida de despesas médicas de R$ 9.000,00, 3) manutenção integral da infração de omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica de R$ 3.051,87 e 4) dedução das despesas de instrução não deve ser limitada ao valor de R$ 2.592,29, devendo ser deduzido o valor total de R$ 8.196,00. Especificamente quanto aos argumentos relativos as infrações dedução de indevida de dependente de R$ 3.311,76, dedução indevida de despesas médicas de R$ 9.000,00 e omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica de R$ 3.051,87, tendo em vista que a contribuinte simplesmente repisa às alegações da defesa inaugural, sem colacionar nenhum novo documento, peço vênia para transcrever excertos da decisão recorrida e adotá-los como razões de decidir, por muito bem analisar as alegações suscitadas pelo autuado, no essencial, in verbis: (...) Com relação a infração de Dedução Indevida de Dependente lançada pelo Fisco, mantida parcialmente em sede de Revisão de Ofício, pertinente aos dependentes declarados pelo contribuinte Valéria de Fátima Ramos Florentino sua filha e a Luis Vinicius Florentino Barbosa seu neto (fl. 46), cabem as seguintes considerações: De acordo com o art. 77 § 1º inciso V do Decreto nº 3.000, de 26/03/1999 transcrito abaixo: Dependentes Art.77.Na determinação da base de cálculo sujeita à incidência mensal do imposto, poderá ser deduzida do rendimento tributável a quantia equivalente a noventa reais por dependente (Lei nº 9.250, de 1995, art. 4º, inciso III). §1ºPoderão ser considerados como dependentes, observado o disposto nosarts. 4º, §3º, e5º, parágrafo único(Lei nº 9.250, de 1995, art. 35): ........................................................................................................................ V-o irmão, o neto ou o bisneto, sem arrimo dos pais, até vinte e um anos, desde que o contribuinte detenha a guarda judicial, ou de qualquer idade quando incapacitado física ou mentalmente para o trabalho; .................................................................................................................................. Bem como de acordo com o art. 78º § 1º do Decreto nº 3.000, de 26/03/1999, também transcrito abaixo: Pensão Alimentícia Art.78. Na determinação da base de cálculo sujeita à incidência mensal do imposto, poderá ser deduzida a importância paga a título de pensão alimentícia em face das normas do Direito de Família, quando em cumprimento de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente, inclusive a prestação de alimentos provisionais (Lei nº 9.250, de 1995, art. 4º, inciso II). Fl. 171DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 2002-010.052 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10580.731537/2010-75 6 §1ºA partir do mês em que se iniciar esse pagamento é vedada a dedução, relativa ao mesmo beneficiário, do valor correspondente a dependente. ....................................................................................................................... O contribuinte mesmo após a ciência do Termo Circunstanciado e Despacho Decisório nº CM-991, de 23/04/2013 emitidos pela Sefis da DRF Salvador (fls. 71/74), não anexou aos autos documentação alguma que comprovasse ser o mesmo possuidor de Termo de Guarda Judicial de seu neto Luis Vinicius Florentino Barbosa (certidão de nascimento à fl. 26), logo deve ser mantida a glosa por falta de previsão legal para a dedução pleiteada. De acordo com a Declaração de Ajuste Anual do interessado (fls. 45/50), a Sra. Vilma Maria Ramos CPF 218.005.104-20 mãe e representante legal de Valéria de Fátima Ramos Florentino, sua filha e do contribuinte (certidão de nascimento à fl. 30), é beneficiária de Pensão Alimentícia Judicial no valor de R$ 20.793,01 (fl. 48), valor este já acatado em sede de Revisão de Ofício: “pensão paga a Vilma Maria Ramos da Silva (filha - Valéria de Fátima Ramos Florentino) no valor de R$ 20.793,01 restou comprovada através do comprovante de rendimento e da DIRF constante dos sistemas informatizados da Receita Federal do Brasil que informa o total pago em face das normas do Direito de Família quando em cumprimento de decisão judicial, inclusive a prestação de alimentos provisionais, de acordo homologado judicialmente ou de escritura pública relativa à separação ou ao divórcio consensual; (fl. 72), logo deve ser mantida a glosa por falta de previsão legal para a dedução pleiteada. Face ao exposto, deve ser mantida a glosa no valor de R$ 3.311,76 a título de Dedução Indevida de Dependente. Com relação a infração de Dedução Indevida de Despesas Médicas lançada pelo Fisco, mantida parcialmente em sede de Revisão de Ofício, pertinente as despesas médicas declaradas pelo interessado junto ao prestador pessoa jurídica FBC – Fundação Baiana de Cardiologia CNPJ 16.475.154/0001-70 no valor de R$ 1.200,00 (fl. 49), deve ser destacado que mesmo após a ciência do Termo Circunstanciado e Despacho Decisório nº CM-991, de 23/04/2013 emitidos pela Sefis da DRF Salvador (fls. 71/74), o contribuinte não anexou documentação alguma comprovando a dedução pleiteada. Com relação a despesa odontológica declarada pelo interessado junto ao prestador pessoa física Davi Bulhões de Almeida CPF 007.417.555-64 no valor de R$ 7.800,00 (fl. 49), cópia de recibo à fl. 25, deve ser salientado o contido no Termo Circunstanciado à fl. 72: que a cópia de documento em questão não possuí o CPF e o endereço do profissional, sendo que o registro profissional do mesmo junto ao CRO/BA foi efetuado em janeiro de 2009, ano posterior ao da presente lide. Logo não pode ser acatado por falta de previsão legal para tanto. Face ao exposto, deve ser mantida a glosa no valor de R$ 9.000,00 a título de Dedução Indevida com Despesas Médicas por falta de comprovação por parte do interessado. Fl. 172DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 2002-010.052 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10580.731537/2010-75 7 (...) Finalmente, com relação a infração de Omissão de Rendimentos Recebidos da Pessoa Jurídica Instituto de Gestão das Águas e Clima – INGA CNPJ 00.535.623/0001-69 no valor de R$ 3.051,87 sem IRRF s/Omissão (fl. 53) mantida totalmente em sede de Revisão de Ofício, o contribuinte apesar de impugnar a infração em questão, não se manifestou em momento algum de sua impugnação, tendo apenas anexado aos autos à fl. 22, cópia de um extrato emitido pela pessoa jurídica em questão, em desacordo com a Instrução Normativa SRF nº 120, de 28/12/2000. Face ao exposto deve ser mantida a infração de Omissão de Rendimentos por falta de comprovação. (...) Nesse sentido, devem ser mantidas as infrações dedução de indevida de dependente de R$ 3.311,76, dedução indevida de despesas médicas de R$ 9.000,00 e omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica de R$ 3.051,87. No que diz respeito ao pedido do contribuinte de que a dedução das despesas de instrução não deve ser limitada ao valor de R$ 2.592,29, devendo ser deduzido o valor total de R$ 8.196,00, referente as despesas com instrução da dependente Maria Thereza Uzeda Espinheira Florentino, tal alegação não merece prosperar, pois as despesas com instrução tem um limite individual de dedução por dependente, conforme preceitua o art. 81, do Regulamento do IRPF, Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, vigente à época dos fato, in verbis: Art.81.Na declaração de rendimentos poderão ser deduzidos os pagamentos efetuados a estabelecimentos de ensino relativamente à educação pré-escolar, de 1º, 2º e 3º graus, cursos de especialização ou profissionalizantes do contribuinte e de seus dependentes, até o limite anual individual de um mil e setecentos reais (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea "b") (negritou-se) Conforme legislação acima citada, só são passiveis de dedução na declaração de ajuste anual as despesas de instrução próprias e de seus dependentes. O limite anual individual para o ano-calendário 2008 é de R$ 2.592,29. Sobre a aplicação da Taxa Selic, deixo de tecer maiores considerações tendo em vista o disposto na Súmula CARF n° 4, com efeito vinculante em relação à Administração Tributária Federal: Súmula CARF n° 4 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais. Fl. 173DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 2002-010.052 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA PROCESSO 10580.731537/2010-75 8 Por fim, relativamente à multa de ofício aplicada, deve-se esclarecer ao recorrente que, uma vez constatada a infração à legislação tributária em procedimento fiscal, o crédito deve ser apurado com os encargos do lançamento de ofício, nos termos do art. 44 da Lei 9.430/96. Vale lembrar que, de acordo com o art. 142 do Código Tributário Nacional, a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, não cabendo discussão sobre a aplicabilidade das determinações legais vigentes por parte das autoridades fiscais. Conclusão Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, nego-lhe provimento. Assinado Digitalmente Marcelo de Sousa Sateles Fl. 174DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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