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Numero do processo: 10865.720519/2015-86
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Oct 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Dec 06 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/07/2013 a 30/09/2013
EXCLUSÃO DO CONCEITO DE INDUSTRIALIZAÇÃO. RECAPAGEM, RESTAURAÇÃO OU RECONDICIONAMENTO DE PNEUS USADOS. INOCORRÊNCIA DO FATO GERADOR DO IPI.
Não caracteriza operação de industrialização para fins de incidência do IPI a recapagem ou atividade assemelhada de restauração ou recondicionamento realizada em pneus usados para atender encomenda de terceiro não comerciante do produto. Exclusão do conceito de industrialização por força do art. 5º, XI, do RIPI/2010.
Não há direito ao ressarcimento de que trata o art. 11 da Lei nº 9.779/99, tendo em vista tratar-se de pedidos formulados por pessoa jurídica não contribuinte desse imposto quanto à atividade de recapagem de pneus usados.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3201-003.231
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente Substituto e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/07/2013 a 30/09/2013 EXCLUSÃO DO CONCEITO DE INDUSTRIALIZAÇÃO. RECAPAGEM, RESTAURAÇÃO OU RECONDICIONAMENTO DE PNEUS USADOS. INOCORRÊNCIA DO FATO GERADOR DO IPI. Não caracteriza operação de industrialização para fins de incidência do IPI a recapagem ou atividade assemelhada de restauração ou recondicionamento realizada em pneus usados para atender encomenda de terceiro não comerciante do produto. Exclusão do conceito de industrialização por força do art. 5º, XI, do RIPI/2010. Não há direito ao ressarcimento de que trata o art. 11 da Lei nº 9.779/99, tendo em vista tratarse de pedidos formulados por pessoa jurídica não contribuinte desse imposto quanto à atividade de recapagem de pneus usados. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente Substituto e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 86 5. 72 05 19 /2 01 5- 86 Fl. 310DF CARF MF Processo nº 10865.720519/201586 Acórdão n.º 3201003.231 S3C2T1 Fl. 3 2 CONCAP RECUPERAÇÃO COMÉRCIO E INDÚSTRIA DE PNEUS CONCHAL LTDA. transmitiu PER/DCOMP alegando indébito do IPI. A repartição de origem emitiu Despacho Decisório, revisor de ofício do despacho anteriormente emitido, não reconhecendo o direito creditório pleiteado e, consequentemente, não homologando as compensações declaradas, pelo fato de ter sido constatado, em ação fiscal, que o estabelecimento não se caracterizava como industrial ou a ele equiparado. De acordo com a Fiscalização, pelo fato de as operações de restauração de pneus usados serem executadas por encomenda de terceiros não estabelecidos com o comércio de tais produtos, as operações do Recorrente enquadravamse nas exclusões do conceito de industrialização previstas no art. 5º, inciso XI, do RIPI/2010 (Lei nº 4.502/1964, art. 3º, parágrafo único, inciso I), conforme ilustrado pela Solução de Consulta nº 62/2009SRRF/6ª RF/DISIT, tendo em vista que o artigo 254, inciso I, alínea “e’, do Regulamento citado determina que deve ser estornado o crédito decorrente das aquisições tributadas pelo IPI que forem empregadas nas operações de conserto, restauração, recondicionamento ou reparo previstas no inciso XI. Em Manifestação de Inconformidade, o declarante requereu a homologação das compensações, a suspensão da exigibilidade/devolução do numerário e o direito de provar o alegado por todos meios de prova admitidos em direito, alegando o seguinte: a) preliminarmente, a existência de divergência entre a Solução de Consulta nº 62/2009SRRF/6ª RF/DISIT, utilizada pela Fiscalização, e as Soluções de Consulta nº 188/2008, 242/2007 e 245/2007, que consideram como industrializadas as operações encomendadas ao contribuinte, na medida que tais atividades não se realizam no âmbito da residência do preparador ou em oficina, conforme o art. 5º, inciso V, conjugado com o art. 7º, inciso II, alíneas “a” e “b”, todos do RIPI/2002; b) a Administração deveria ter apresentado consulta à Cosit para sanar a divergência de interpretação da norma, por se tratar de ato vinculado, sem o que não se tem por fundamentado o Despacho Decisório, uma vez que a Receita Federal reconhecera que o fato de o serviço em questão ser tributado pelo ISS é irrelevante para determinar a incidência do IPI; c) o Despacho Decisório Revisor fere os princípios constitucionais da segurança jurídica, da irretroatividade tributária e do direito adquirido, pois a primeira Declaração de Compensação apresentada havia sido devidamente fiscalizada e as compensações expressamente homologadas; d) a Fiscalização distorceu a aplicação da legislação, bem como das Soluções de Consulta, ao descaracterizar a industrialização exercida sobre produto usado, deteriorado ou inutilizado, a ser renovado ou restaurado, pois, somente se descaracterizaria a industrialização se o interessado estivesse consertando pneus que ainda possuíssem vida útil, como numa borracharia, pois há diferenças técnicas entre pneu recauchutado e, sobretudo, remoldado, conforme classificação na TIPI; d) a sua atividade é de indústria, sendo assim caracterizada na escrituração fiscal e reconhecida pelo Ibama, Cetesb, Coama, Receita Federal, Secretaria de Estado da Fl. 311DF CARF MF Processo nº 10865.720519/201586 Acórdão n.º 3201003.231 S3C2T1 Fl. 4 3 Fazenda e pelas diversas bandas de pneus, na medida em que a recapagem altera significativamente o uso do pneu, aperfeiçoandoo para consumo; e) quanto à exclusão do conceito de industrialização previsto no art. 5º, inciso V, conjugado com o art. 7º, inciso II, alíneas “a” e “b”, todos do RIPI/2002, afirma que não se enquadra na definição legal de oficina, tanto pela quantidade de empregados, como pelo alto consumo de energia elétrica, conforme documentos que junta. Nos termos do Acórdão nº 14058.694, a Manifestação de Inconformidade foi julgada improcedente, tendo a Delegacia de Julgamento fundamentado sua decisão no direito de a Administração revisar seus próprios atos, observado o prazo decadencial de cinco anos, e no fato de não se caracterizar como industrialização a atividade de recauchutagem ou regeneração de pneus efetuada exclusivamente para consumo final do destinatário encomendante, o que afasta o direito ao ressarcimento nos termos previstos no art. 11 da Lei nº 9.779/1999. Em seu recurso voluntário, o Recorrente repisa os mesmos argumentos da peça impugnatória exceto a legitimidade do procedimento de revisão de ofício do despacho decisório original , destacandose, ainda, o seguinte: 1. irrelevância do destinatário do produto para a incidência do IPI nos casos de recauchutagem; 2. a regramatriz de incidência tributária do imposto sobre produtos industrializados; 3. o reconhecimento da atividade industrial da recorrente por outros órgãos governamentais; 4. princípio da isonomia: as diferenças técnicas entre o pneu recauchutado e e o remoldado; 5. divergência entre as Soluções de Consulta da RFB: 38/2009, 22/2009, 188/2008. 242/2007 e 245/2007; 6. a industrialização por encomenda por usuário final. Consultas no âmbito da Fazenda Paulista: 562/2010 e 395/2009; 7. a atividade vinculada no âmbito da RFB e a necessidade de edição de Solução de Divergência; 8. o reconhecimento da RFB que recapagem é industrialização mesmo que encomendada por usuário final: Solução de Consulta Disit/SRRF 08 nº 14/2013; 9. o reconhecimento como indústria de recapagem independente de figurar na Lei Complementar n° 116: Parecer n° 18/2013; 10. homologação expressa do PER/DCOMPs n°s 21075.74956.231209.1.1.018760 e 25529.47001.290811.1.5.019293. É o relatório. Fl. 312DF CARF MF Processo nº 10865.720519/201586 Acórdão n.º 3201003.231 S3C2T1 Fl. 5 4 Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, aplicandoselhe, portanto, o decidido no Acórdão 3201003.217, de 26/10/2017, proferido no julgamento do processo nº 10865.720478/201528, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201003.217): O Recurso Voluntário atende aos requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento. Ressaltase que questão versada na manifestação de inconformidade e decidida no acórdão recorrido não fora repisada neste recurso recaindolhe, portanto, a preclusão, a saber: a legitimidade do procedimento de revisão de ofício que resultou no cancelamento da restituição indevida realizada no Pedido de Ressarcimento o Despacho Decisório do presente processo. De outra banda, matéria não questionada na manifestação de inconformidade e suscitada no recurso voluntário, à luz do que dispõe o art. 17 do Decreto nº 70.23572 (PAF), não será enfrentada, a saber, a irrelevância da natureza do encomendante da recapagem, se consumidor final ou usuário, para a incidência do IPI Em que pese a recorrente aduzir novas razões de defesa em sua peça recursal, a matéria cujo contraditório fora instaurado na manifestação de inconformidade cingese tãosomente decidir quanto à adequação ao conceito de industrialização, para fins de tributação de IPI, e o corresponde direito ao crédito de que trata o art. 11 da lei nº 9.779/99, a atividade de recapagem de pneus usados, encomendados por pessoas jurídicas não comerciantes do produto. O ponto de divergência entre Fisco e contribuinte reside na fundamentação legal e em soluções de consulta no âmbito da RFB para afirmar ou infirmar a subsunção da atividade de recapagem de pneus usados ao conceito de industrialização. A legislação em que recai a discórdia é a Lei nº 4.502/1964, regulamentada à época dos fatos pelo Decreto nº 7.212/2010 RIPI/2010: Art.5o Não se considera industrialização: (...) V o preparo de produto, por encomenda direta do consumidor ou usuário, na residência do preparador ou em oficina, desde que, em qualquer caso, seja preponderante o trabalho profissional; (...) Fl. 313DF CARF MF Processo nº 10865.720519/201586 Acórdão n.º 3201003.231 S3C2T1 Fl. 6 5 XI o conserto, a restauração e o recondicionamento de produtos usados, nos casos em que se destinem ao uso da própria empresa executora ou quando essas operações sejam executadas por encomenda de terceiros não estabelecidos com o comércio de tais produtos, bem como o preparo, pelo consertador, restaurador ou recondicionador, de partes ou peças empregadas exclusiva e especificamente naquelas operações(Lei nº 4.502, de 1964, art. 3º, parágrafo único, inciso I); (...) Art. 7º Para os efeitos do art. 5º: (...) II nos casos dos seus incisos IV e V: a) oficina é o estabelecimento que empregar, no máximo, cinco operários e, caso utilize força motriz, não dispuser de potência superior a cinco quilowatts; e b) trabalho preponderante é o que contribuir no preparo do produto, para formação de seu valor, a título de mãodeobra, no mínimo com sessenta por cento. O Fisco que não se fundamenta na Solução de Consulta nº 62 SRRF/6ª Região, pois afirma que os argumentos nela expostos apenas corroboram os seus entende que a atividade exercida pela contribuinte encontrase fora do alcance da incidência do IPI por expressa exclusão do conceito prescrita no art. 3º, parágrafo único, inciso I da Lei nº 4.502/1964, reproduzido no art. 5º, inciso XI do Decreto nº 7.212/2010 RIPI/2010. Importa salientar que a fiscalização não afirmou que a atividade não se trata de industrialização, somente que a legislação do IPI não a considera para efeitos de sua tributação. Transcrevo o excerto que dirige o raciocínio da autoridade fiscal: 5 Em tese, se a atividade descrita em “4” se amoldasse puramente ao conceito de industrialização, o contribuinte estaria apto ao pedido de ressarcimento. Ocorre que há exceções à regra, e o contribuinte se enquadra perfeitamente a essas exceções (excludentes do conceito de “industrialização”) existentes na legislação que regulamenta o IPI, como veremos a seguir. 6 A solução de consulta nº 62/2009, da DISIT SRRF/6ª RF, cuja ementa, a seguir copiamos, vem corroborar nosso entendimento (...) A recorrente assevera que sua atividade exercida sobre os pneus usados é uma industrialização assim considerada à luz de toda a legislação do IPI, com supedâneo na Constituição Federal, transitando pelo CTN e Regulamentos e, inclusive, nas Soluções de Consultas da Receita Federal que menciona. No tocante às exclusões previstas nos incisos do art. 5º do RIPI, aduz que a descrição das características da operação preconizada no inciso V a faz permanecer compulsoriamente no campo de incidência do Imposto, pois que somente se aplica se cumulativamente atender ao disposto nas alíneas "a" e "b" do inciso II do art. 7º do RIPI/2010, o que não é o seu caso. Fl. 314DF CARF MF Processo nº 10865.720519/201586 Acórdão n.º 3201003.231 S3C2T1 Fl. 7 6 Infrutífera toda a argumentação da recorrente no sentido de incluir sua operação no conceito de industrialização por entender que não atende aos requisitos de exclusão do conceito pertinente à situação descrita no inciso V do art. 5º do RIPI, exclusivamente em relação à segunda parte, que dispõe o local e quem realizará a atividade. A interpretação da recorrente é equivocada. Primeiro, porque parte da premissa errônea de que a recapagem de pneus usados, e as atividades assemelhadas de recuperação ou remoldagem, é operação de industrialização a ser tributada pelo IPI e, segundo, por conceber que é tributada em razão de não reunir duas das condições de exclusão do conceito de industrialização, quais sejam, seu trabalho não é preponderantemente profissional nem realizado em oficina, como entende requerer a literalidade do inciso II do art. 7º do RIPI/2010. A operação de recapagem para encomendante consumidor ou usuário não se enquadra na exclusão do inciso V e o motivo não se deve ao local de realização residência ou oficina nem à inexistência de preponderância de trabalho profissional. Em verdade, o motivo primeiro e suficiente à referida exclusão devese à atividade de recapagem não se constituir um "preparo de produto", expressão que se encontra fora da materialidade do fato gerador do IPI. Conforme o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa1, preparo é o mesmo que preparação, esta definida como "medida ou ação preliminar para a efetuação de qualquer coisa". Em síntese, a primeira parte do inciso V do art. 5º do RIPI "o preparo de produto, por encomenda direta do consumidor ou usuário ..." caracterizase uma atividade preliminar efetuada em qualquer produto constituindose uma etapa antecedente à outra, posterior, que será executada (esta possivelmente tributada pelo IPI). Optou o legislador pela não incidência do IPI nesta etapa antecedente (o preparo), servindose de um inciso/artigo isolado na legislação o V do 5º do RIPI para discipliná la. Não por coincidência, impende analisar a aparição do termo "preparo" na legislação do IPI, em especial no trato das hipóteses de incidência e nãoincidência. Constatase que "preparo" não é utilizado em qualquer das ações/operações consideradas industrialização no RIPI (art. 4º e incisos), mas que exsurge em 05 (cinco) ocorrências do termo no art. 5º que trata de atividades ou situações que estão fora do alcance da incidência, por exclusiva vontade do legislador: nos incisos I, II, III, V e XI (restrita a utilização em partes e peças) do art. 5º do RIPI. Firmado nesses fundamentos entendo que a recapagem de pneus usados encomendada por consumidor ou usuário final, à luz do art. 5º, incisos V do RIPI/2010, não se insere no campo de incidência do IPI. Contudo, e também corretamente aplicado pela fiscalização à situação dos autos, o dispositivo legal que retira a operação praticada pelo contribuinte da incidência do IPI é o inciso XI, do art. 5º do RIPI, em razão de sua especificidade e alcançar mais precisamente a atividade 1 HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 1ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 2.289. Fl. 315DF CARF MF Processo nº 10865.720519/201586 Acórdão n.º 3201003.231 S3C2T1 Fl. 8 7 (restauração e o recondicionamento), o produto (pneu usado), a aplicação (destinado ao uso) e o beneficiário da operação (encomendante é terceiro que não comercializa o pneu usado). Neste mesmo sentido tenho por consolidada a posição deste Conselho acerca a exclusão do conceito de industrialização das operações que visam a recuperação de pneus usados por encomenda de consumidor final, não comerciante do produto. Eis os acórdãos: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/07/2002 a 30/09/2002 OPERAÇÃO DE INDUSTRIALIZAÇÃO. RECONDICIONAMENTO OU RENOVAÇÃO DE PRODUTOS USADOS. INOCORRÊNCIA. Na caracteriza operação de industrialização para fins de incidência do IPI, o recondicionamento ou a renovação de produtos usados, quando não se destinem à revenda pelo encomendante. INCIDÊNCIA DO IPI. RECAUCHUTAGEM DE PNEUS USADOS SOB ENCOMENDA POR CONSUMIDOR FINAL. IMPOSSIBILIDADE. A atividade de recauchutagem ou recapagem de pneus usados quando efetuada por encomenda direta do proprietário, na condição de consumidor final, não se enquadra na definição de operação de industrialização, o que a exclui do conceito de operação de industrialização e do campo de incidência do IPI. DIREITO DE CRÉDITO. ESTABELECIMENTO NÃO CONTRIBUINTE DO IPI. IMPOSSIBILIDADE. O estabelecimento não contribuinte do IPI, por não realizar operação de industrialização, não faz jus a crédito do imposto pago na aquisição de insumo tributado aplicado na industrialização de produto isento ou tributado à alíquota zero. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO CRÉDITO. NÃO HOMOLOGAÇÃO DA COMPENSAÇÃO. CABIMENTO. A não comprovação da existência do crédito utilizado na compensação constitui motivo suficiente para não homologação do respectivo procedimento compensatório. Recurso Voluntário Negado. (Acórdão 3102002.240. Processo nº 13609.000614/200345. Sessão de 24/07/2014, decisão unânime. Rel. Cons. José Fernandes do Nascimento) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/10/2001 a 31/12/2001 Fl. 316DF CARF MF Processo nº 10865.720519/201586 Acórdão n.º 3201003.231 S3C2T1 Fl. 9 8 RECAUCHUTAGEM OU RECAPAGEM DE PNEUS PARA CONSUMO DE DESTINATÁRIO ENCOMENDANTE. EXCLUSÃO DO CONCEITO DE INDUSTRIALIZAÇÃO. IPI. Atividade de recauchutagem ou recapagem de pneus quando efetuada exclusivamente para consumo final do destinatário encomendante, temse como excludente do conceito de industrialização, inteligência do art. 5º, inciso XI, do RIPI/1998 ou do RIPI/2002. Logo, não há direito ao ressarcimento de que trata o art. 11 da Lei nº 9.779/99, tendo em vista tratarse de pedidos formulados por pessoa jurídica não contribuinte desse imposto. O regime da nãocumulatividade do IPI permite o creditamento referente ao tributo incidente sobre as aquisições de matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem que integram o produto ou sejam consumidos no processo de industrialização, o que não é o caso. Recurso Voluntário ao qual se nega. (Acórdão 3802002.878. Processo nº 13609.000536/200389. Sessão de 23/04/2014, decisão unânime. Rel. Cons. Mércia Helena Trajano D´Amorim) Consoante os argumentos ante expostos, percebese inócua a discussão sobre a prevalência de uma solução de consulta sobre outra, vez que as respostas aos consulentes têm fundamentos diferentes, umas com base no inciso V, outras no XI, ambos do art. 5º do RIPI/2010. Ainda em relação às soluções de consultas no âmbito da RFB nenhum efeito é produzido e conferido à recorrente pois não foi a consulente. As consultas no âmbito do fisco Estadual tratam do ICMS, matéria estranha à presente lide e, igualmente, não produz qualquer efeito na esfera dos tributos federais. As discussões atinentes à legislação do ISS que confrontam as materialidades do tributo municipal com as do IPI são periféricas e não resolvem a presente lide. Também despiciendos todos os demais argumentos de discussão para considerar tributadas pelo IPI a atividade realizada pela recorrente, pois assentada alhures os fundamentos para a sua exclusão do conceito de industrialização nos termos do art. 5º, inciso XI do RIPI/2010. Conclusão Por fim, se a recorrente não era contribuinte do IPI na operação, certamente, ela não podia se creditar do valor imposto pago na aquisição de insumos utilizados na atividade de recapagem de pneus usados com base no art. 11 da Lei 9.779/99, que se aplica apenas aos estabelecimento industriais ou equiparados que praticam fatos geradores do IPI, o que não era o seu caso. Por essas razões, acertada a decisão do Fisco em cancelar o ressarcimento do valor pago (...). Diante do exposto, voto para NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário. Fl. 317DF CARF MF Processo nº 10865.720519/201586 Acórdão n.º 3201003.231 S3C2T1 Fl. 10 9 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu por negar provimento ao recurso voluntário. É o voto. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 318DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10855.720486/2015-93
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Nov 13 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 1001-000.015
Decisão: .
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Roberto Adelino da Silva- Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa e Jose Roberto Adelino da Silva
Nome do relator: JOSE ROBERTO ADELINO DA SILVA
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ANOCALENDÁRIO: 2013 É devida a multa por atraso na entrega de obrigações acessórias, fora do prazo, ainda que o contribuinte o faça espontaneamente. A vedação ao confisco previsto na Constituição Federal é dirigida ao legislador, cabendo à autoridade administrativa apenas aplicar a lei nos moldes que o poder competente a instituiu. INCONSTITUCIONALIDADE DE NORMA ARGÜIÇÃO A autoridade administrativa é incompetente para apreciar argüição de inconstitucionalidade de norma legal. Vistos, relatados e discutidos os autos do presente processo, ACORDAM os membros da 1ª TE da 1ª Seção, por unanimidade de votos, afastadas as alegações de nulidade, julgar improcedente o recurso voluntário, mantendo o crédito tributário exigido, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. . (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) José Roberto Adelino da Silva Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa e Jose Roberto Adelino da Silva AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 5. 72 04 86 /2 01 5- 93 Fl. 37DF CARF MF 2 Relatório Versa o presente processo sobre o lançamento, no qual é exigido do contribuinte, acima identificado, o crédito tributário correspondente a multa por atraso na entrega de Declaração de Débitos e Créditos Tributários (DCTF), relativa ao mês de outubro do anocalendário de 2013. Ciente do lançamento, a contribuinte ingressou com impugnação (fl. 2) na qual solicitava o cancelamento da exigência tributária, sob alegação de denúncia espontânea na entrega da declaração e de multa confiscatória. A DRJ de Ribeirão Preto assim decidiu: ” A impugnação apresentada atende aos requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, que regula o processo administrativo fiscal (PAF). Dela conheço. Tratase de analisar lançamento referente à multa por atraso na entrega de DCTF relativa ao mês de outubro do anocalendário de 2013. A impugnante alega que teria ocorrido denúncia espontânea da infração, nos termos do CTN, art. 138, portanto a multa seria inaplicável, além do que, em sua opinião, ela estaria ferindo princípios constitucionais, entre eles, o do nãoconfisco. Esclareçase que o CTN, art. 113, dispõe que a obrigação tributária é principal ou acessória e que a obrigação principal tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Os §§ 2º e 3º do artigo retrocitado assim dispõem: § 2º – A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º – A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal, relativamente à penalidade pecuniária. O nãocumprimento de uma obrigação acessória convertea em principal relativamente à penalidade pecuniária., e a multa pelo atraso na entrega está contida na legislação tributária como sanção pelo inadimplemento tributário, aplicada pela inobservância dos deveres acessórios. Não se pode admitir a alegação de ter havido a denúncia espontânea, pois a entrega se deu fora do prazo legal, sendo a multa fixada em lei e indenizatória da impontualidade, ou seja, constitui uma sanção punitiva da negligência. Dessa forma, com fulcro no retrocitado art. 113, tornase aplicável a penalidade pelo nãocumprimento da obrigação acessória de apresentação de DCTF, lançada de acordo com o dispositivo legal descrito no auto de infração/notificação de lançamento. Fl. 38DF CARF MF Processo nº 10855.720486/201593 Acórdão n.º 1001000.015 S1C0T1 Fl. 3 3 Interpretandose sistematicamente os dispositivos do CTN, tem se que o art. 138 não se desfez da multa por atraso no cumprimento de obrigação acessória. A respeito do assunto, os esclarecimentos formulados no Projeto Integrado de Aperfeiçoamento da Cobrança do Crédito Tributário, por Aldemario Araújo Castro, Procurador da Fazenda Nacional, demonstram a inaplicabilidade do instituto da denúncia espontânea ao descumprimento de obrigação acessória, com se depreende a seguir: O descumprimento de obrigação tributária acessória, não contemplado explicitamente no artigo 138 do CTN, gera um débito com a seguinte estrutura: Principal – Multa (penalidade pecuniária) e Multa – Inexistente. Assim, não há como afastar a parte punitiva do crédito, simplesmente porque ela não existe. Em suma, a denúncia espontânea não afeta o Principal do débito, e este, na obrigação principal decorrente do descumprimento de obrigação acessória é justamente a multa. Esclareçase que o entendimento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) a respeito da matéria é o mesmo, já tendo sido, inclusive, objeto de Súmula, que transcrevo: Súmula CARF nº 49: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. Assim, não assiste razão à impugnante quando afirma que a legislação citada no auto de infração estaria ferindo o CTN. No tocante à alegação de caráter confiscatório da sanção pecuniária, ou de ofensa a princípios constitucionais, afastar multa prevista expressamente em diploma legal sob tal fundamento implicaria declarar a inconstitucionalidade de lei, o que não é da competência da autoridade julgadora administrativa e já foi, inclusive, objeto de súmula no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf): Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária .Dessa forma voto por julgar IMPROCEDENTE A IMPUGNAÇÃO, mantendo o crédito tributário exigido.". Voto Conselheiro Jose Roberto Adelino da Silva Relator Tratase de recurso voluntário, tempestivo, que apresenta os pressupostos de admissibilidade e, portanto, dele eu conheço. Fl. 39DF CARF MF 4 Inconformada com a decisão de primeira instância, como acima, o contribuinte apresentou recurso voluntário ao Egrégio Conselho Administrativo de , Recursos Fiscais, onde alega, basicamente: Preliminar e Mérito Alega que "o artigo 138, do Código Tributário Nacional, exclui a imposição de quaisquer penalidades. A exigência de multa por atraso, no respectivo caso, fere os princípios constitucionais de vedação de confisco, da capacidade contributiva, da razoabilidade e da proporcionalidade na aplicação de multas. Haja ocorrido a denúncia espontânea do descumprimento de obrigação acessória, nem mesmo a multa fiscal moratória poderia ser exigida do contribuinte." Com base nos argumentos acima, requer o cancelamento do débito fiscal reclamado. As alegações do contribuinte foram devidamente analisadas pela DRJ, cujo acórdão é irretocável em sua análise. No recurso voluntário o contribuinte não acrescento nenhum argumento novo mantendo as alegações utilizadas para a impugnação. As súmulas n°2 e n° 59, abaixo reproduzidas, solucionam as questões levantadas pelo contribuinte: Súmula CARF nº 49: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária Portanto, voto pela manutenção integral do lançamento, afastando os argumentos apresentados pelo contribuinte. É o meu voto. (assinado digitalmente) Jose Roberto Adelino da Silva Fl. 40DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13819.000234/2007-69
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 29 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Feb 06 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2004
DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS QUE JUSTIFIQUEM A INIDONEIDADE DOS COMPROVANTES.
Recibos de despesas médicas têm força probante como comprovante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física. A glosa por recusa da aceitação dos recibos de despesas médicas, pela autoridade fiscal, deve estar sustentada em indícios consistentes e elementos que indiquem a falta de idoneidade do documento. A ausência de elementos que indique a falsidade ou incorreção dos recibos os torna válidos para comprovar as despesas médicas incorridas.
Numero da decisão: 2001-000.113
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira, que lhe negou provimento.
(Assinado digitalmente)
JORGE HENRIQUE BACKES - Presidente.
(Assinado digitalmente)
JOSÉ ALFREDO DUARTE FILHO - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, José Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e José Ricardo Moreira.
Nome do relator: JOSE ALFREDO DUARTE FILHO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2004 DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS QUE JUSTIFIQUEM A INIDONEIDADE DOS COMPROVANTES. Recibos de despesas médicas têm força probante como comprovante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física. A glosa por recusa da aceitação dos recibos de despesas médicas, pela autoridade fiscal, deve estar sustentada em indícios consistentes e elementos que indiquem a falta de idoneidade do documento. A ausência de elementos que indique a falsidade ou incorreção dos recibos os torna válidos para comprovar as despesas médicas incorridas.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira, que lhe negou provimento. (Assinado digitalmente) JORGE HENRIQUE BACKES - Presidente. (Assinado digitalmente) JOSÉ ALFREDO DUARTE FILHO - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, José Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e José Ricardo Moreira.
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DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS QUE JUSTIFIQUEM A INIDONEIDADE DOS COMPROVANTES. Recibos de despesas médicas têm força probante como comprovante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física. A glosa por recusa da aceitação dos recibos de despesas médicas, pela autoridade fiscal, deve estar sustentada em indícios consistentes e elementos que indiquem a falta de idoneidade do documento. A ausência de elementos que indique a falsidade ou incorreção dos recibos os torna válidos para comprovar as despesas médicas incorridas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira, que lhe negou provimento. (Assinado digitalmente) JORGE HENRIQUE BACKES Presidente. (Assinado digitalmente) JOSÉ ALFREDO DUARTE FILHO Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 81 9. 00 02 34 /2 00 7- 69 Fl. 47DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, José Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e José Ricardo Moreira. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a impugnação do contribuinte, em razão da lavratura de Auto de Infração de Imposto sobre a Renda de Pessoa Física – IRPF, por glosa de Despesas Médicas. O lançamento da Fazenda Nacional exige do contribuinte a importância de R$ 6.996,64, a título de imposto de renda pessoa física, acrescida da multa de ofício de 75% e juros moratórios, referente ao anocalendário de 2004. O fundamento básico do lançamento, conforme consta da decisão de primeira instância, aponta como elemento de maior relevo e fulcro da decisão da lavratura do lançamento, o fato de que o Recorrente deveria ter apresentado comprovação dos pagamentos, de forma supletiva aos recibos apresentados, através de outros documentos, como se aqueles acostados não estivessem a representar a efetiva realização dos pagamentos efetuados aos profissionais prestadores dos serviços. A constituição do acórdão recorrido segue na linha do procedimento adotado na feitura do lançamento, notadamente no que se refere ao entendimento de que aos recibos não é conferido valor probante absoluto, necessitando para tal a complementação de provas, com a apresentação de documentação adicional a ser providenciada pelo Recorrente, como segue: No Acórdão vergastado estão apresentadas as razões da decisão, o embasamento legal apontado e a argumentação utilizada para nortear o decidido, como segue: 0 crédito tributário originouse da revisão fiscal da declaração de imposto de renda pessoa física DIRPF anocalendário 2004, em que foram glosados R$42.806,00 indevidamente deduzidos da base cálculo do IRPF, tendo em vista que no recibo apresentado à fiscalização constava que a prestação do serviço deuse em 2002 e não em 2004, como informado na declaração. Acrescentese que no demonstrativo de pagamentos da D1RPF o contribuinte declarou ter pagado o valor acima a Dra Mirelle Salomão, enquanto o recibo registra o nome de Michelle Salomão. Cientificado do lançamento do crédito tributário, o contribuinte apresentou a impugnação de fls 01, acompanhada de documentos, alegando, em síntese, que houve erro de digitação na emissão do recibo e, para sanálo, apresenta declaração da prestadora confirmando que o serviço foi de fato prestado no anocalendário de 2004 pela Dra. Mirelle Salomão. As regras para a dedução de despesas médicas estão previstas no artigo 8° da Lei n° 9.250, de 26 de dezembro de 1995, que em seu parágrafo 2° delimita a abrangência das despesas médicas dedutíveis, restringindoas àquelas comprovadas em documentos que contenham Fl. 48DF CARF MF Processo nº 13819.000234/200769 Acórdão n.º 2001000.113 S2C0T1 Fl. 48 3 um determinado número de informações indispensáveis discriminadas no inciso III do referido parágrafo. “Art 8°A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o ano calendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; (...) § 2° O disposto na alínea a do inciso II: I aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no Pais, destinados a cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Geral de Contribuintes CGC de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento;” Ao final, conclui o acórdão vergastado pela improcedência da impugnação para manter a exigência de imposto suplementar, referente à glosa do valor das despesas médicas. Irresignado com a decisão do Acórdão da DRJ, o Recorrente apresenta recurso voluntário com as considerações e argumentações que entende justificável ao seu procedimento, nos termos que segue: Consta no referido acordão que "Mantêmse a glosa quando não comprovada a efetiva ocorrência do fato que ensejou a dedução.", o que não representa a realidade. A ocorrência do fato foi totalmente comprovada, não só pela apresentação do recibo como também pela declaração de imposto de renda da Dra. Mirelle Salomão. No relatório que me foi enviado consta que eu declarei ter pagado o valor acima a Dra. Mirelle Salomão, enquanto o recibo consta o nome de Michelle Salomão. Isto também não representa a realidade (vide comprovante de Autuação de Processo, número de identificação é: 13819.000234/200769) e constatarão que os todos recibos constam o nome da Dra. Mirelle Salomão. (...) Fl. 49DF CARF MF 4 Seria de fácil constatação por parte de qualquer fiscal, que examinasse o caso, que na verdade a prestação dos serviços se deu em 2004 e não em 2002 como os fiscais afirmam, demonstrando desse modo, que realmente houve erro de digitação, conforme minha carta de 19 de março de 2007, entrego à SAP neste mesmo dia. Precisam somente verificar a DIMPF da Dra. Mirelle de 2004 e constatarseá a realidade, poupando tempo de ambas as partes. Quanto ao recibo demasiado genérico, visto que engloba em um único recibo os pagamentos feito durante todo ano, não traz o endereço da prestadora, informação indispensável e expressamente exigida pela lei n° 9.250/1995, conforme o citado relatório, é de fácil acerto, se desejam podem solicitar que troco o recibo racionalizado por recibos mensais, neste caso colocaremos o endereço da Dra. Mirelle. (...) Faço notar que na referida lei, no mesmo item que referese ao endereço, o qual os fiscais dizem ser muito importante para o caso, também consta que no lugar de um recibo serve a indicação de um Cheque nominal pelo qual foi feito o pagamento. (...) Cheque nominal emitido por mim não constará em hipótese alguma o endereço do recebedor, senão tão somente o seu nome. (...) Assim, à vista do exposto, entendendo demonstrada a insubsistência e improcedência da ação fiscal, segundo seu dizer, requer o recorrente seja decidido cancelar o lançamento. DOS FATOS PROCESSUAIS O Acórdão da DRJ tem como data de julgamento o dia 20 de outubro de 2009. Em 05.11.2009 foi emitido pela SRF o documento para ciência do Acórdão de julgamento considerando improcedente a impugnação, mantendo, portanto, o crédito tributário lançado, cuja cientificação aponta a data de 16.11.2009, pelo recebimento do AR pelo Contribuinte, aviso que foi juntado ao processo em 18.11.1009. Em 05.05.2010 foi emitido documento de cobrança pela SRF, e no Aviso de Recebimento AR consta que a ciência do Contribuinte se deu em 17.05.2010. No processo consta o Termo de Vistas Processuais realizada pelo próprio Contribuinte, o Sr. Airton Jose Salomão em data de 01.06.2010. Também consta no processo que em 09.06.2010, foi “PROTOCOLADO POR INSISTÊNCIA DO CONTRIUINTE”, documento acompanhado do Recurso Voluntário, referente ao processo nº 13819000.234/200769, firmado pelo Contribuinte, com data de 23.11.2009, fato que o torna tempestivo, para todos os efeitos de defesa. O mesmo documento foi também endereçado para a Ouvidoria do Ministério da Fazenda em Brasília. É o relatório. Fl. 50DF CARF MF Processo nº 13819.000234/200769 Acórdão n.º 2001000.113 S2C0T1 Fl. 49 5 Voto Conselheiro José Alfredo Duarte Filho Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. A questão aqui tratada é de natureza interpretativa da legislação tributária que rege o fulcro do objeto da lide. O que se evidencia com facilidade de visualização é que de um lado há o rigor no procedimento fiscalizador da autoridade tributante, especialmente aquele procedimento que busca amparo na extemporânea existência do art. 11, § 3º e 4º, do Decretolei nº 5.844, de 1943 (transportado para o art. 73 e § 1º do Decreto nº 3.000/99 RIR/99 atual), e de outro a busca do direito, pelo contribuinte, de ver reconhecido o atendimento da exigência fiscal no estrito dizer da lei, rejeitando a alegada prerrogativa do fisco de convencimento subjetivo quanto à idoneidade ou inidoneidade do documento comprobatório. O texto base da divergência interpretativa está contido no inciso II, alínea “a” e no § 2º, do art. 8º, da Lei nº 9.250/95, regulamentados nos parágrafos e incisos do art. 80 do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, em especial no que segue: Art. 80. Na declaração de rendimentos poderão ser deduzidos os pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias. § 1º O disposto neste artigo (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, § 2º): (...) II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica CNPJ de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; (sublinhei e grifei) É clara a disposição de que a exigência da legislação especificada aponta para o comprovante de pagamento originário da operação, corriqueiro e usual, assim entendido como o recibo ou a nota fiscal de prestação de serviço, que deverá contar com as informações exigidas para identificação, de quem paga e de quem recebe o valor, sendo que, por óbvio, visa controlar se o recebedor oferecerá à tributação o referido valor como remuneração. A lógica da exigência coloca em evidência a figura de quem fornece o comprovante identificado e assinado, colocandoo na condição de tributado na outra ponta da relação fiscal correspondente (deduçãotributação). Ou seja: para cada dedução haverá um oferecimento à tributação pelo fornecedor do comprovante. Quem recebe o valor tem a Fl. 51DF CARF MF 6 obrigação de oferecêlo à tributação e pagar o imposto correspondente e, quem paga os honorários tem o direito ao benefício fiscal do abatimento na apuração do imposto. Simples assim, por se tratar de uma ação de pagamento e recebimento de valor numa relação de prestação de serviço. Ocorre, neste caso, uma correspondência de resultados de obrigação e direito, gerados nessa relação, de modo que o contribuinte que tem o direito da dedução fica legalmente habilitado ao benefício fiscal porque de posse do documento comprobatório que lhe dá a oportunidade do desconto na apuração do tributo, confiante que a outra parte se quedará obrigada ao oferecimento à tributação do valor correspondente. Somese a isso a realidade de que o órgão fiscalizador tem plenas condições e pleno poder de fiscalização, na questão tributária, com absoluta facilidade de identificação, tão somente com a informação do CPF ou CNPJ, sobre a outra banda da relação pagadorrecebedor do valor da prestação de serviço. O dispositivo legal (inciso III, do § 1º, art. 80, Dec. 3.000/99) vai além no sentido de dar conforto ao pagador dos serviços prestados ao prever que no caso da falta da documentação, assim entendido como sendo o recibo ou nota fiscal de prestação de serviço, poderá a comprovação ser feita pela indicação de cheque nominativo pelo qual poderia ter sido efetuado o pagamento, seja por recusa da disponibilização do documento, seja por extravio, ou qualquer outro motivo, visto que pelas informações contidas no cheque pode o órgão fiscalizador confrontar o pagamento com o recebimento do valor correspondente. Além disso, é de conhecimento geral que o órgão tributante dispõe de meios e instrumentos para realizar o cruzamento de informações, controlar e fiscalizar o relacionamento financeiro entre contribuintes. O termo “podendo” do texto legal consiste numa facilitação de comprovação dada ao pagador e não uma obrigação de fazêlo daquela forma. Descabe, assim, o rigor na exigência para a apresentação de comprovação suplementar sobre o contribuinte possuidor da documentação originária do pagamento nas condições em que a lei estabelece, especialmente porque a autoridade fiscalizadora pode obter informação de confirmação da outra parte. Razão não há para a dissociação de ambos os polos na relação e estabelecer exigência rigorosa de um e nada de outro, porque a operação é conjunta e correspondente, com reflexos constatáveis nas informações dos dois contribuintes. Ademais, o dispositivo legal permite a comprovação por um ou outro meio, admitindo que na falta de um se faça através de outro. Não há no texto legal qualquer indicativo para a exigência das duas comprovações. Observese a clareza do texto quando diz (inciso III, do § 1º, art. 80, Dec. 3.000/99): “..., podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento;”. Acrescente se, por oportuno, que o meio de pagamento ‘dinheiro vivo’ dispõe de força legal denominada ‘curso forçado’, ao contrário do ‘cheque’, por isso a importância probante de relevância no documento que quita o pagamento, seja recibo ou nota fiscal de prestação de serviço. No caso, há que se considerar a presunção de idoneidade da comprovação apresentada em obediência ao que dispõe a legislação. Mais ainda, em razão da ausência da apresentação, por parte do fisco, de indícios que coloquem em dúvida a idoneidade dos recibos apresentados pela Recorrente. Não basta a simples desconfiança do agente público incumbido da auditoria para que se obrigue o contribuinte a apresentar prova suplementar se não há elementos desabonadores da boa fé de quem usa a documentação especificada em lei para o exercício do direito à dedução na apuração do resultado tributário da pessoa física. O Código Civil, Lei nº 10.406/2002, em seu art. 219 diz que: “As declarações constantes de documentos assinados presumemse verdadeiros em relação aos signatários.” Neste sentido, os recibos em questão presumemse verdadeiros porque aceitos Fl. 52DF CARF MF Processo nº 13819.000234/200769 Acórdão n.º 2001000.113 S2C0T1 Fl. 50 7 pelas partes contratantes identificadas no documento, de forma que não é razoável a decisão do Fisco de rejeitar os comprovantes como prova válida, sem a indicação de elementos que os desqualifiquem. Se os documentos são válidos para o prestador dos serviços oferecer os valores à tributação, os mesmos documentos deverão ser válidos também para a dedução legal de quem os recebe como comprovação de pagamentos. Por juízo subjetivo ou simples desconfiança, sem sequer a indicação de indícios de inidoneidade da documentação, não pode a autoridade lançadora fazer exigências fora dos limites da lei. O procedimento fiscal busca amparo no que dispõe o art. 73 e seu § 1º, do Decreto nº 3.000/99, para posicionar o ônus da prova unicamente no contribuinte, nos termos em que a seguir se descreve: Art. 73. Todas as deduções estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). (grifei) § 1º Se forem pleiteadas deduções exageradas em relação aos rendimentos declarados, ou se tais deduções não forem cabíveis, poderão ser glosadas sem a audiência do contribuinte (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 4º). (grifei) No ordenamento jurídico brasileiro o decreto regulamentador é uma norma expedida pelo poder executivo que tem como função pormenorizar os preceitos fixados na lei, dentro dos limites nela insertos, sendo considerados, por isso, atos secundários. Seu alcance cingese aos limites da lei não podendo criar situações que obrigue ou limite direitos além daqueles constantes na lei que regulamenta. Neste quesito específico das deduções de despesas médicas temos o que dispõe a Lei nº 9.250/95, em seu art. 8º, § 2º, incisos II e III, o que foi objetivamente regulamentado no Decreto 3.000/99, no art. 80, § 1º, incisos II e III. Assim, a regulamentação deste item de despesa dedutível aqui se esgota porque o objeto tratado foi abordado de forma direta e específica, não permitindo outras exigências porque a lei não concede extensões de procedimento fiscalizatório nem limitação quantitativa de direitos. Neste sentido descabe a utilização do art. 73 e seu § 1º, conforme citado no Lançamento, por se tratar de dispositivo genérico que aparece no Decreto Regulamentador no capítulo das Disposições Gerais de Deduções, vinculado ao longínquo DecretoLei nº 5.844 de 1943, muito distante no tempo e do contexto jurídico atual. A rigidez dos termos do art. 73 e § 1º está mais para o período em que foi concebido do que para os dias atuais. A origem do conteúdo do texto vem do período do DecretoLei acima citado (Estado Novo da era Vargas, de inspiração intervencionista do Estado na economia), mais precisamente do ano de 1943, anterior, portanto, às quatro últimas Constituições do Brasil (1946, 1967, 1969 e 1988) e, muito distante do conceito atual de Direito do Contribuinte e do Estado de Direito. Além disso, mesmo na vigência do referido DecretoLei a austeridade do instrumento não era plena, visto que o art. 79, § 1º, do mesmo diploma legal lhe impunha limitações, no seguinte dizer: “Art. 79. Farseá o lançamento ex officio: § 1º Os esclarecimentos prestados só poderão ser impugnados pelos lançadores, com elemento seguro de provo, ou indício veemente de sua falsidade ou inexatidão.”. A Constituição Federal de 1988, em seu art. 5º, inciso II, diz que “ninguém está obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. Da mesma forma, o art. 150, inciso I, vai na mesma direção ao determinar que: “Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça;”. A verdade é que ao Fl. 53DF CARF MF 8 reduzir ou limitar deduções a Autoridade Lançadora estaria aumentando tributo sem lei que estabeleça. Estamos sob a égide da Constituição Federal de 1988 e, quando a Carta Magna menciona o termo “lei” ela se refere aquele instrumento jurídico emanado do Poder Legislativo, como órgão de representação do povo, nascido do devido processo constitucional. O decretolei, por sua vez, constituíase numa espécie de ato normativo com origem no Poder Executivo em caso de urgência ou de interesse público relevante. Ou seja, um decreto que fazia às vezes de lei que vigorou até a Constituição Federal de 1988. A doutrina aceita que o decretolei tenha valor vigorante enquanto não contrariar lei posterior. Contudo, o DecretoLei nº 5.844/1943, ao não constituirse em lei, contraria a Constituição vigente, nos dispositivos antes citados (inciso II, art. 5º e inciso I, art. 150 – CF/1988). Assim que, o art. 73 do Decreto nº 3.000/99 não encontra sustentação quando busca apoio no DecretoLei nº 5.844/1943, porque lei não é. Portanto, o juízo da autoridade lançadora não pode ser estabelecido de forma subjetiva, tampouco por critérios de proporcionalidades não definidos quanto às deduções exageradas. Tudo para o resguardo do recomendável equilíbrio da relação fiscocontribuinte e do equilíbrio do direito entre as partes na lide, a luz do ordenamento jurídico atual. A Lei não dispõe dessa parametrização e nem define de quanto deve ser essa dedução exagerada, tampouco fixa uma percentagem entre gasto com saúde e renda do contribuinte. Qual seria a quantificação razoável dessa comparação? Além disso, incabível a desconfiança fiscal de colocar em dúvida a existência de moléstia ou da necessidade de cuidados médicos ou odontológicos do contribuinte porque o que a lei realmente exige é a comprovação do pagamento da prestação de serviço. Eventual desconfiança de que o profissional teria fornecido comprovação de serviço que não prestou caracterizaria conluio entre as partes contratantes, o que não foi apontado no histórico do Lançamento. Admitirse que os recibos não representam uma verdadeira prestação de serviço conduz à conclusão lógica de que teria ocorrido conluio entre médico e paciente, ambos contribuintes do imposto, com o objetivo de lesar o fisco, e assim estariam enquadrados em multa qualificada, o que não foi o caso apontado no Lançamento. É possível que uma família tenha gastos médicos de elevada monta em comparação com a renda de apenas um dos membros, principalmente quando há ocorrência de doença grave ou incurável em algum de seus membros. Exemplificase aqui na comparação com a renda de um só membro. Mas é comum na família dividir rendas e despesas. Seria razoável que uma família convencionasse que um dos membros ficasse responsável financeiramente pelas despesas de dependente ou própria, com alto custo continuado de despesas médicas, e outro membro ficasse responsável pela manutenção dos gastos gerais e/ou de alimentação, por exemplo. Isto seria perfeitamente legal, mesmo que um deles tivesse uma sobrecarga de deduções na sua DIRPF individual. O que não é razoável é alguém de fora, que não vivencia a situação fática, estipular quantitativos aleatórios limitativo do direito atribuído em lei. Esta ocorrência não é pouco comum. Certa vez perguntaram ao Dalai Lama: O que mais te surpreende na humanidade? Ele respondeu: “Os homens que perdem a saúde para juntar dinheiro e depois gastam o dinheiro para recuperar a saúde...”. Expressão também atribuída posteriormente a Jim Brown. É a constatação, alémfronteiras, de que os gastos com saúde podem ser bem elevados se comprados com os rendimentos pessoais. Em socorro ao posicionamento que busca resguardar o direito do contribuinte tomamse emprestados os termos da doutrina que trata da necessária clareza da Fl. 54DF CARF MF Processo nº 13819.000234/200769 Acórdão n.º 2001000.113 S2C0T1 Fl. 51 9 motivação nos atos da administração pública, trazida pelo sempre bem citado Hely Lopes Meireles, quando descreve a necessidade da motivação do ato administrativo, que assim se posiciona: “Para se ter a certeza de que os agentes públicos exercem a sua função movidos apenas por motivos de interesse público da esfera de sua competência, leis e regulamentos recentes multiplicam os casos em que os funcionários, ao executarem um ato jurídico, devem expor expressamente os motivos que o determinaram. É a obrigação de motivar. O simples fato de não haver o agente público exposto os motivos de seu ato bastará para tornálo irregular; o ato não motivado, quando o devia ser, presumese não ter sido executado com toda a ponderação desejável, nem ter tido em vista um interesse público da esfera de sua competência funcional.” No mesmo sentido a Lei nº 9.784/99, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, no seu art. 50, diz que: “os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: neguem, limitem ou afetem direitos ou interesses; imponham ou agravem deveres, encargos ou sanções; decidam processos administrativos de concurso ou seleção público; decidam recursos administrativos...”. O Novo Código de Processo Civil, embora posterior aos fatos da ocorrência do lançamento, pode ser utilizado em apoio à interpretação aqui esposada, porque mais benéfico à Recorrente, contém dispositivos pertinentes que devem ser trazidos à colação, de vez que transitam na mesma linha de entendimento que aborda a observância do direito do contribuinte de forma moderna e em consideração ao Estado de Direito. O Código avança no sentido de estabelecer o equilíbrio de forças das partes no processo de julgamento, como se vê na orientação do art. 7º, como segue: “Art. 7º É assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditório”. (grifei) Traz reforço ainda o CPC para esse entendimento quando suaviza o posicionamento anterior que atribuía ao contribuinte, de forma quase que exclusiva, o ônus da prova, e inaugura a possibilidade das partes atuarem em prol de uma instrução colaborativa, a fim de oferecer ao julgador melhores subsídios para proferir a decisão, sem que se faça uso da regra do ônus da prova de forma unilateral. Este novo procedimento está explicitado no § 1º, do art. 373, da seguinte forma: § 1o Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído. De forma semelhante o art. 6º do CPC reforça este entendimento colaborativo ao dizer que “Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva”. Fl. 55DF CARF MF 10 CONCLUSÃO Cabe ressaltar que a decisão de primeiro grau não veda a possibilidade da ocorrência de pagamento dos serviços em espécie porque a moeda brasileira é de curso forçado, obrigando a todos a aceitação em dinheiro para quitação de qualquer obrigação financeira, ao contrário de outros meios de pagamento. A decisão prolatada no Acórdão da DRJ não se fundamenta na falsidade documental, mas a falta de comprovação da necessidade da prestação do serviço médico, por documentação suplementar que indique a ocorrência de moléstia, como se a Autoridade Lançadora fosse ao mesmo tempo fiscal de rendas e dos serviços de saúde. Essa exigência da Autoridade Lançadora fazse inapropriada porque a legislação não requer comprovação da enfermidade, mas sim a comprovação dos pagamentos. No que se refere a limites, o legislador os fixa quando assim o quer. Faz isso, por exemplo, no caso do imposto sobre a renda, na dedução de despesas com instrução, em que limita os gastos com despesas escolares do contribuinte e de seus dependentes, independentemente do valor total que tenha dispendido com instrução no período. No caso de despesas médicas a lei não fixa limites, portanto, desarrazoado critério definidor de quantitativo, proporcionalidade sobre a renda ou qualquer outro parâmetro que “a juízo da autoridade lançadora” possa entender como “deduções exageradas” (art. 73 e §1º do Decreto nº 3.000/99, herdados do DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º e 4º), porque a lei em vigor assim não determina e, “ninguém está obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” (inciso II, art. 5º, CF). Logo, legítima a dedução a título de despesas médicas do valor pago pelo contribuinte, comprovado mediante apresentação de nota fiscal de prestação de serviço ou recibo, este assinado por profissional habilitado, pois tais documentos guardam ao mesmo tempo reconhecimento da prestação de serviços assim como também confirma o seu pagamento. Desnecessária qualquer declaração posterior firmada pelo profissional prestador do serviço porque aqueles comprovantes já cumprem a função legalmente exigida. Destarte, é de considerar plenamente admissível que os comprovantes revestidos das formalidades legais sustentam a condição de valor probante, até prova em contrário, de sua inidoneidade. A contestação da Autoridade Fiscal sobre a validade da documentação comprobatória deve ser apresentada com indícios consistentes e não somente por simples dúvida ou desconfiança. É de se acolher como verdadeira a prova apresentada pelo contribuinte que satisfaça os requisitos previstos na legislação pertinente e, para eventual convicção contrária da Autoridade Lançadora, esta deverá ser posta com fundamentos consistentes que a sustentem legalmente e não subjetivamente. Por fim, incabível a exigência que perpassa a relação fiscocontribuinte no intento de comprovar a necessidade do atendimento médico sobre informações que dizem respeito tão somente a relação médicopaciente, em resguardo a intimidade pessoal na questão de saúde da pessoa fiscalizada, de vez que situações absolutamente diferentes e sem pertinência simultânea. Quanto à comprovação documental considero que a juntada ao processo, ainda na fase de impugnação, a declaração da profissional veio esclarecer que se tratava realmente de prestação do serviço referente a 2004, como informado na D1RPF. Da mesma forma, considero esclarecido que se tratou de erro de digitação do nome da prestadora dos serviços, sendo que a confirmação na declaração firmada pela Dra. Mirelle Salomão elimina Fl. 56DF CARF MF Processo nº 13819.000234/200769 Acórdão n.º 2001000.113 S2C0T1 Fl. 52 11 eventual dúvida da autoria na prestação do serviço, até porque não se constata existir uma Dra. Michelle Salomão com o mesmo número de CPF. Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário e no mérito DAR PROVIMENTO, restabelecendose a dedução das despesas médicas, restando, por consequência, improcedente a íntegra do lançamento. (Assinado digitalmente) JOSÉ ALFREDO DUARTE FILHO Fl. 57DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13839.005308/2008-04
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 31 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Dec 20 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira - CPMF
Período de apuração: 03/09/2003 a 31/03/2005
Ementa:
ADESÃO AO PARCELAMENTO ESPECIAL INSTITUÍDO PELA MP N. 766/2017 E DESISTÊNCIA DO RECURSO VOLUNTÁRIO INTERPOSTO. EXTINÇÃO DO FEITO SEM ANÁLISE DE MÉRITO
A inclusão pelo Recorrente do débito em discussão no parcelamento especial instituído pela MP n. 766/2017, com a correlata desistência do recurso interposto, implica a extinção do feito sem análise de mérito.
Numero da decisão: 3402-004.387
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer o recurso voluntário interposto em razão da perda do seu objeto.
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente.
Diego Diniz Ribeiro- Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: Relator Diego Diniz Ribeiro
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EXTINÇÃO DO FEITO SEM ANÁLISE DE MÉRITO A inclusão pelo Recorrente do débito em discussão no parcelamento especial instituído pela MP n. 766/2017, com a correlata desistência do recurso interposto, implica a extinção do feito sem análise de mérito. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer o recurso voluntário interposto em razão da perda do seu objeto. Jorge Olmiro Lock Freire Presidente. Diego Diniz Ribeiro Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 9. 00 53 08 /2 00 8- 04 Fl. 783DF CARF MF 2 1. Por bem retratar o caso em questão, emprego parte do relatório desenvolvido pela DRJ Campinas (acórdão n. 0539.958 fls. 700/710, o que passo a fazer nos seguintes termos: Tratase de auto de infração relativo à Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira – CPMF, originalmente lavrado em 19/11/2008, relativo a fatos geradores ocorridos em 03/09/2003 a 31/03/2005, constituindo crédito tributário total no montante de R$ 1.144.852,51. No Termo de verificação de infração, a autoridade autuante assim expõe as razões do lançamento: (..). Em razão de inconsistência detectada no cadastramento dos débitos nos sistemas da Receita Federal, o referido auto foi cancelado em 09/12/2008, expedindose nova autuação e novo termo de verificação nessa mesma data, com fundamentado nas mesmas razões de lançamento acima explicitadas. A contribuinte foi cientificada em 25/11/2008 do primeiro lançamento, e em 11/12/2008 do segundo, tendo lhe sido encaminhada também a cópia do despacho que determinou o cancelamento da autuação original. Consta também intimação e respectiva ciência para procederse ao arrolamento de bens. Em 17/12/2008 a interessada apresentou sua impugnação ao auto de infração dos autos, alegando, em síntese e fundamentalmente: • Excesso na cobrança, como demonstra planilha que anexa, construída a partir dos dados da autuação e dos extratos bancários, também anexados aos autos; • Prescrição das importâncias que venceram até 30/11/2008 (setembro, outubro e novembro de 2003), tendo em vista que após a promulgação da Lei Complementar nº 118, de 2005, restou pacificado que o prazo prescricional de qualquer tributo é de cinco anos. • Ilegalidade da multa de ofício aplicada no percentual de 75% com fundamento no art. 44, I, da Lei nº 9.430, de 1996, tendo em vista que a ausência de recolhimento não decorreu de dolo, mas de amparo judicial para tanto. Argúi o caráter confiscatório da multa de ofício, transcrevendo doutrina e jurisprudência que amparam seu entendimento. Requer a substituição da multa aplicada pela prevista no art. 61, § 2º da mesma lei (20%). Diante da impugnação parcial, houve transferência do crédito tributário não contestado para o processo nº 15922.000421/200952. (...). Fl. 784DF CARF MF Processo nº 13839.005308/200804 Acórdão n.º 3402004.387 S3C4T2 Fl. 772 3 2. Uma vez processada, a impugnação sobredita foi julgada parcialmente procedente, conforme se observa da ementa abaixo transcrita: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PROVISÓRIA SOBRE MOVIMENTAÇÃO OU TRANSMISSÃO DE VALORES E DE CRÉDITOS E DIREITOS DE NATUREZA FINANCEIRA CPMF Período de apuração: 03/09/2003 a 31/03/2005 CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PRESCRIÇÃO. CONSTITUIÇÃO DEFINITIVA. IMPUGNAÇÃO. Não está definitivamente constituído o crédito tributário impugnado regularmente pelo sujeito passivo, até que se esgotem as possibilidades de continuação do litígio, portanto, não se pode falar em prescrição do direito de cobrança. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PRAZO DECADENCIAL. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. Afastado, por inconstitucional, o prazo de dez anos para o lançamento das contribuições destinadas à Seguridade Social, a contagem do prazo decadencial regese pelo disposto no Código Tributário. Na hipótese em que o recolhimento não ocorre ou ocorre em desconformidade com a legislação aplicável e, por conseguinte, procedese ao lançamento de ofício, o prazo decadencial de cinco anos tem início no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que esse lançamento de ofício poderia haver sido realizado. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. INFORMAÇÕES FORNECIDAS POR INSTITUIÇÃO BANCÁRIA. CONTESTAÇÃO PELO CONTRIBUINTE. Diante de lançamento de CPMF baseado unicamente em informações prestadas pelas instituições financeiras nas quais o contribuinte foi titular de conta corrente, é cabível a revisão do lançamento quando os documentos apresentados em sede de impugnação infirmam aquelas informações. MULTA DE OFÍCIO. PROCEDÊNCIA. Constatada falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração ou de declaração inexata, correto o lançamento da multa de ofício no percentual de 75%. MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. CONFISCO. O percentual da multa de ofício aplicada decorre de lei, não tendo a autoridade administrativa competência para afastálo sob a alegação de confisco. Impugnação Procedente em Parte. Crédito Tributário Mantido em Parte. Fl. 785DF CARF MF 4 3. Diante deste quadro, o contribuinte interpôs o recurso voluntário de fls. 736/750. Acontece que, em abril de 2017 o contribuinte peticionou nos autos (fl. 770) informando a adesão do débito em discussão no parcelamento especial instituído pela MP n. 766/2017, oportunidade em que renunciou a discussão posta, desistindo, por conseguinte, do correlato recurso. 4. É o relatório. Voto Conselheiro Relator Diego Diniz Ribeiro 5. Diante da situação fática aqui narrada, especialmente por conta da adesão do contribuinte ao parcelamento especial e consequente desistência da discussão até então travada, resta claro que o recurso voluntário interposto perdeu seu objeto, motivo pelo qual não merece ser conhecido. Dispositivo 6. Diante do exposto, voto por não conhecer o presente Recurso Voluntário, haja vista a adesão do débito em discussão no parcelamento especial instituído pela MP n. 766/2017 e consequente desistência do recurso interposto (fl. 770). 7. É como voto. Diego Diniz Ribeiro Relator. Fl. 786DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13433.001835/2008-02
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 03 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 28 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1999 a 30/04/2004
DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. RESPONSABILIDADE PESSOAL DO DIRIGENTE DE ÓRGÃO PÚBLICO. INAPLICABILIDADE. SÚMULA CARF Nº 65.
Inaplicável a responsabilidade pessoal do dirigente de órgão público pelo descumprimento de obrigações acessórias, no âmbito previdenciário, constatadas na pessoa jurídica de direito público que dirige (Súmula CARF nº 65).
Numero da decisão: 2202-004.239
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa - Presidente.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Waltir de Carvalho, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Virgílio Cansino Gil, Rosy Adriane da Silva Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Martin da Silva Gesto.
Nome do relator: MARCO AURELIO DE OLIVEIRA BARBOSA
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RESPONSABILIDADE PESSOAL DO DIRIGENTE DE ÓRGÃO PÚBLICO. INAPLICABILIDADE. SÚMULA CARF Nº 65. Inaplicável a responsabilidade pessoal do dirigente de órgão público pelo descumprimento de obrigações acessórias, no âmbito previdenciário, constatadas na pessoa jurídica de direito público que dirige (Súmula CARF nº 65). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Waltir de Carvalho, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Virgílio Cansino Gil, Rosy Adriane da Silva Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Martin da Silva Gesto. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 43 3. 00 18 35 /2 00 8- 02 Fl. 524DF CARF MF 2 Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 19515.001700/200813. "Tratase de recurso voluntário interposto contra o acórdão de Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, que manteve a cobrança do crédito tributário. O Auto de Infração foi lavrado por descumprimento de obrigação acessória verificada durante ação fiscal realizada em órgão público. A autuação ocorreu em nome do sujeito passivo, na condição de dirigente de órgão público, por força do disposto no art. 41 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, vigente à época dos fatos geradores. O recorrente tomou ciência do lançamento e apresentou defesa, entretanto, a primeira instância de julgamento manteve a autuação. Inconformado com a decisão, o sujeito passivo apresentou recurso voluntário ao CARF, onde alega a improcedência da autuação. É o relatório." Voto Conselheiro Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 2202004.158, de 03/10/2017, proferido no julgamento do processo 19515.001700/200813, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 2202004.158): "O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. O lançamento em questão foi efetuado contra o dirigente do órgão público com base no art. 41 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, que, à época dos fatos geradores, estabelecia: Art. 41. O dirigente de órgão ou entidade da administração federal, estadual, do Distrito Federal ou municipal, responde pessoalmente pela multa aplicada por infração de dispositivos desta Lei e do seu regulamento, sendo obrigatório o respectivo desconto em folha de pagamento, mediante requisição dos órgãos competentes e a partir do primeiro pagamento que se seguir à requisição. Fl. 525DF CARF MF Processo nº 13433.001835/200802 Acórdão n.º 2202004.239 S2C2T2 Fl. 3 3 Contudo, o dispositivo transcrito foi revogado pela Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008, convertida na Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, não mais se aplicando, contra dirigente de órgão público, a penalidade por descumprimento de obrigação acessória. Sobre a matéria, a Súmula CARF nº 65 dispõe o seguinte: Inaplicável a responsabilidade pessoal do dirigente de órgão público pelo descumprimento de obrigações acessórias, no âmbito previdenciário, constatadas na pessoa jurídica de direito público que dirige. Em função disso, aplicase ao caso, a retroatividade benigna de que trata a alínea “c” do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional CTN): Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: [...] II tratandose de ato não definitivamente julgado: [...] c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifei) Portanto, o lançamento em questão deve ser cancelado. Conclusão Pelo exposto, voto por CONHECER do recurso para, no mérito, DARLHE PROVIMENTO. (assinado digitalmente) Rosy Adriane da Silva Dias Relator" Pelo exposto, voto por CONHECER do recurso para, no mérito, DARLHE PROVIMENTO. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Fl. 526DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10925.000484/2005-31
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Jul 01 00:00:00 UTC 2011
Ementa: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte – Simples.
ATIVIDADES VEDADAS. SEXAGEM DE AVES. A prestação de serviços de sexagem de aves (identificação do sexo e separação das aves) não é atividade impeditiva à opção pelo Simples.
Numero da decisão: 1401-000.616
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso, nos termos do voto do Relator Maurício Pereira Faro.
Nome do relator: Maurício Pereira Faro
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ATIVIDADES VEDADAS. SEXAGEM DE AVES. A prestação de serviços de sexagem de aves (identificação do sexo e separação das aves) não é atividade impeditiva à opção pelo Simples. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso, nos termos do voto do Relator Maurício Pereira Faro. Assinado digitalmente Viviane Vidal Wagner Presidente Assinado digitalmente Maurício Pereira Faro Relator Participaram do julgamento os conselheiros Viviane Vidal Wagner, Sergio Luiz Bezerra Presta, Eduardo Martins Neiva Monteiro, Fernando Luiz Gomes de Mattos, Alexandre Antonio Alkmim Teixeira e Mauricio Pereira Faro. Relatório Fl. 125DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO, Assinado digitalmente em 06/02/201 2 por VIVIANE VIDAL WAGNER, Assinado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO Processo nº 10925.000484/200531 Acórdão n.º 140100.616 S1C4T1 Fl. 2 2 Tratase de recurso voluntário manejado pelo contribuinte, por bem retratar a situação ora analisada, adoto o relatório do órgão julgador a quo: Tratase de manifestação de inconformidade (fls. 48 a 55) contra exclusão do Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte — Simples, por motivo de exercício de atividade vedada (locação de mãodeobra), conforme Ato Declaratório Executivo DRFB/JOA n° 30, de 04 de novembro de 2005, embasado nos artigos 9° ao 24 da Lei n° da Lei n°9.317/1996. (fl. 38). Compulsando os autos, observase que a exclusão decorreu de representação administrativa emitida pela extinta Secretaria da Receita Previdenciária (fls. 02/03), comunicando que a Interessada presta serviços de sexagem de pênis mediante locação de mãodeobra. Em sua manifestação de inconformidade de fls. 48 a 55, a Interessada alegou, em síntese, o que se passa a expor. Afirmou que, conforme demonstrado nos atos constitutivos e contratos de prestação de serviços apresentados, "não loca mãodeobra, e sim presta serviços de identificação do sexo de aves". Aduziu que o fato de prestar serviços exclusivamente por meio de seus sócios, sem a utilização de empregados, comprova a não ocorrência de locação de mãodeobra. Disse que sua atividade não pode ser enquadrada no conceito de locação de mãodeobra tratado no Parecer COSIT no 69/1999. A um, porque não contrata funcionários e os cede As contratantes. A dois, porque os serviços não são prestados para suprir necessidade transitória de substituição de pessoal regular e permanente ou acréscimo extraordinário de tarefas. Ademais, alegou que as prestações de serviços ocorrem com completa autonomia e que a remuneração é paga com base na quantidade de aves sexadas. Asseverou que "como típicas empresas que locam mãodeobra enquadramse outras pessoas jurídicas, cuja atividade abrange a seleção de pessoas e encaminhamento As empresas que a contratam para desenvolvimento de atividades genéricas".Em apoio a suas teses, citou excertos de decisão judicial. Por fim, a Interessada solicita o cancelamento do Ato Declaratório Executivo DRFB/JOA n° 30, de 04 de Fl. 126DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO, Assinado digitalmente em 06/02/201 2 por VIVIANE VIDAL WAGNER, Assinado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO Processo nº 10925.000484/200531 Acórdão n.º 140100.616 S1C4T1 Fl. 3 3 novembro de 2005. Juntamente com a manifestação de inconformidade, a Interessada apresentou: procuração (fl. 57); cópia de atos constitutivos (fls. 58 a 64); cópia de carteira de identidade (fl. 65); cópias de documentos relacionados com a RAIS (fls. 66167); cópia de contrato de prestação de serviços de sexagem (fls. 68 a 77); e cópia de acórdão judicial (fls. 78 a 83). Analisando o caso entendeu o órgão julgador a quo, por maioria, julgar improcedente a manifestação do contribuinte. Irresignado, interpôs o contribuinte o recurso ora analisado, reiterando os argumentos apresentados. É o relatório. Voto Conselheiro Relator Maurício Pereira Faro A alínea "f", XII, art. 9°, da Lei n° 9.317/1996, veda expressamente a opção ao Simples das empresas que tenham como atividade a locação de mãodeobra. O Parecer Cosit n° 69/99, que subsidiou ADE DRF/JOA n° 30/2005 considera que na locação da mãodeobra deve estar envolvida a contratação de pessoal, como vemos: 6. Em se tratando de locação da mãodeobra, pressupõese que será utilizado trabalho alheio, ou seja, alguém cederá a outrem a atividade laborativa em virtude de necessidade transitória de substituição de pessoal regular e permanente ou do acréscimo extraordinário de tarefas. 7. A locação de mãodeobra pode também ser definida como o contrato pelo qual o locador se obriga afazer alguma coisa para uso ou proveito do locatário, não importando a natureza do trabalho ou do serviço. Os trabalhos são realizados sem a obrigação de executar a obra completa, ou seja, sem a produção de um resultado determinado. Na locação de mãodeobra, também definida como contrato de prestação de serviços, a locadora assume a obrigação de contratar empregados, trabalhadores avulsos ou autônomos sob sua exclusiva responsabilidade do ponto de vista jurídico. A locadora é responsável pelo vinculo empregaticio e pela prestação de serviços, sendo que os empregados ou contratados ficam .‘a disposição da tomadora dos serviços (locatária), que detém o comando das tarefas, fiscalizando a execução e o andamento dos serviços. Fl. 127DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO, Assinado digitalmente em 06/02/201 2 por VIVIANE VIDAL WAGNER, Assinado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO Processo nº 10925.000484/200531 Acórdão n.º 140100.616 S1C4T1 Fl. 4 4 Conforme informado pelo AuditorFiscal, As fls. 2, a empresa não possui empregados, sendo os sóciosgerentes os prestadores de serviços desde o inicio das atividades até a data da Representação Administrativa. Assim sendo, não há que se falar em locação de mãodeobra, uma vez que esta pressupõe a utilização de trabalho alheio. No que se refere a cessão de mãodeobra, o Parecer Cosit n° 69/99, ao analisar a conceituação introduzida na Lei n° 8.212/91 pela Lei n° 9.711, de 20 de novembro de 1998, observou a similaridade entre os conceitos de locação de mãodeobra e cessão de mãodeobra e concluiu que estão impedidas de optar pelo Simples as pessoas jurídicas que: a) tem como atividade a locação de mãodeobra; b) firmam contratos de prestação de serviços relativos A empreitada exclusivamente de mãodeobra; e c) contratam serviços mediante cessão de mãodeobra, estabelecem contratos de prestação de serviços relativos A empreitada e subempreitada de mãodeobra, aplicados à construção civil, independentemente do fornecimento de material (Lei n° 9.528/97, art. 4°). Para caracterizar a cessão de mãodeobra, nos moldes da Lei n° 8.212/91, fazse necessária a presença de três requisitos, quais sejam, colocação de funcionários disposição da contratante, em suas dependências, para a realização de serviços continuos. A Instrução Normativa RFB n° 971/2009 ao tratar da retenção decorrente da prestação de serviços com cessão de mão de obra das atividades mencionadas no §2° do art. 219 do Decreto n° 3.048/99, que aprovou o Regulamento da Previdência Social, admite a possibilidade da contratada não possuir empregados e os serviços serem prestados pessoalmente pelo titular ou sócio, conforme inciso II e III do art. 120, abaixo: Art. 120. A contratante fica dispensada de efetuar a retenção, e a contratada, de registrar o destaque da retenção na nota fiscal, na fatura ou no recibo, quando; a contratada não possuir empregados, o serviço for prestado pessoalmente pelo titular ou sócio e o seu faturamento do mês anterior for igual ou inferior a 2 (duas) vezes o limite máximo do saláriode contribuição, cumulativamente; III a contratação envolver somente serviços profissionais relativos ao exercício de profissão regulamentada por legislação federal, ou serviços de treinamento e ensino definidos no inciso X do art. 118, desde que prestados pessoalmente pelos sócios, sem o concurso de empregados ou de outros contribuintes individuais. § 12 Para comprovação dos requisitos previstos no inciso II do caput, a contratada apresentará à tomadora declaração assinada por seu representante legal, sob as penas da lei, de que não possui empregados e o seu faturamento no mês Fl. 128DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO, Assinado digitalmente em 06/02/201 2 por VIVIANE VIDAL WAGNER, Assinado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO Processo nº 10925.000484/200531 Acórdão n.º 140100.616 S1C4T1 Fl. 5 5 anterior foi igual ou inferior a 2 (duas) vezes o limite máximo do saláriodecontribuição. § 22 Para comprovação dos requisitos previstos no inciso III do caput, a contratada apresentará à tomadora declaração assinada por seu representante legal, sob as penas da lei, de que o serviço foi prestado por sócio da empresa, no exercício de profissão regulamentada, ou, se for o caso, por profissional da área de treinamento e ensino, e sem o concurso de empregados ou contribuintes individuais, ou consignará o fato na nota fiscal, na fatura ou no recibo de prestação de serviços. § 3º Para fins do disposto no inciso III do caput, são serviços profissionais regulamentados pela legislação federal, dentre outros, os prestados por administradores, advogados, aeronautas, aeroviários, agenciadores de propaganda, agrônomos, arquitetos, arquivistas, assistentes sociais, atuários, auxiliares de laboratório, bibliotecários, biólogos, biomédicos ,cirurgiões dentistas, contabilistas, economistas domésticos, economistas, enfermeiros, engenheiros, estatísticos, farmacêuticos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, geógrafos, geólogos, guias de turismo, jornalistas profissionais, leiloeiros rurais, leiloeiros, massagistas, médicos, meteorologistas, nutricionistas, psicólogos, publicitários, químicos, radialistas, secretárias, taquígrafos, técnicos de arquivos, técnicos em biblioteconomia, técnicos em radiologia e tecnólogos. Assim, não se trata de analisar o objeto social da empresa como locação de mãodeobra para terceiros, através da contratação de empregados para trabalharem no estabelecimento da contratante, sendo a contratada mera intermediadora desta mãodeobra. Porém, é o caso de se verificar se a prestadora, para atingir o seu objetivo social no presente caso é sexagem de aves a empresa presta serviços com a natureza de cessão de mão de obra. Como se verifica no Contrato de Prestação de Serviços de Sexagem, fls. 11 a 16, a contratada tem a obrigação de entregar ao contratante um produto final, o peru comercial de um dia sexado. O valor do contrato é estipulado em razão do número de perus sexados, sendo que a contratada indenizará a contratante no caso do erro de sexagem ultrapassar a 2%, conforme cláusulas 9 e 5.1, respectivamente. Os prestadores de serviços não ficam a disposição da contratante, pelo contrário, é esta que tem a obrigação de estabelecer os horários de incubação e eclosão, visando adequar os métodos de sexagem dentro dos padrões de qualidade internacional Tratase, portanto, da contratação de um produto acabado, o que caracteriza uma empreitada e, não, a cessão de mãodeobra. Fl. 129DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO, Assinado digitalmente em 06/02/201 2 por VIVIANE VIDAL WAGNER, Assinado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO Processo nº 10925.000484/200531 Acórdão n.º 140100.616 S1C4T1 Fl. 6 6 Destaco que em nenhum momento foi apontado qualquer indicio de que a contratante tenha assumido o comando das tarefas, fiscalizando a execução e o andamento dos serviços. A previsão de cumprimento do regulamento interno da empresa, bem como as normas reguladoras de medicina e segurança do trabalho e, especialmente as normas de biossegurança implantadas pela contratante na execução de serviços de sexagem de pênis, da Cláusula Onze não nos parece adequarse a esta definição. Naturalmente que as pessoas que adentram ao recinto da empresa devem observar as normas internas, bem como cabe a contratante determinar os níveis de segurança almejados na prestação dos serviços. Pelo exposto, entendo que não restou caracterizada a locação ou a cessão de mãodeobra, para efeito de exclusão do Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte – Simples, cabendo o deferimento da solicitação da interessada. 'Esse mesmo entendimento foi adotado em outros julgamentos que tratam da mesma atividade, conforme se colaciona abaixo: DRJ/FNS n°15.481/6° Turma, de 20 de março de 2009 Assunto: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte Simples Anocalendário: 2002 OPÇÃO. POSSIBILIDADE. A prestação de serviços de sexagem de aves (identificação do sexo e separação dos pintos) não é atividade impeditiva aos optantes pelo Simples Nacional. DRJ/RPO n°21.981/6° Turma, de 21 de janeiro de 2009 Assunto: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte Simples Anocalendário:2002 ATIVIDADES VEDADAS. SEXAGEM DE AVES. A prestação de serviços de sexagem de aves (identificação do sexo e separação das aves) não é atividade impeditiva à opção pelo Simples. ATIVIDADES VEDADAS. LOCAÇÃO DE MÃO DE OBRA Constatado que a pessoa jurídica não mantém vinculo empregaticio inexiste a vedação ao Simples por locação de mão de obra. Registro também que a sexagem de aves não é atividade impeditiva aos optantes pelo Simples Nacional, conforme Solução de Consulta n° 123, SRR_F/9a RF/Disit, de 16 de maio de 2008: Assunto: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte Simples SIMPLES NACIONAL. SEXAGEM DE AVES. Fl. 130DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO, Assinado digitalmente em 06/02/201 2 por VIVIANE VIDAL WAGNER, Assinado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO Processo nº 10925.000484/200531 Acórdão n.º 140100.616 S1C4T1 Fl. 7 7 A prestação de serviços de sexagem de aves (identificação do sexo e separação dos pintos) não é atividade impeditiva aos optantes pelo Simples Nacional. Dispositivos Legais: Resolução CGSN n° 6, de 2007 Ante o exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso voluntário do contribuinte. Assinado digitalmente Maurício Pereira Faro Relator Fl. 131DF CARF MF Impresso em 03/10/2012 por LUIZ TREZZI NETO - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO, Assinado digitalmente em 06/02/201 2 por VIVIANE VIDAL WAGNER, Assinado digitalmente em 18/01/2012 por MAURICIO PEREIRA FARO
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Numero do processo: 10880.034415/99-86
Turma: PLENO DA CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: Pleno
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Dec 11 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Jan 30 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 1989, 1990, 1991, 1992
RECURSO EXTRAORDINÁRIO. DIVERGÊNCIA. CONHECIMENTO.
O posicionamento específico, utilizado pelo relator do acórdão paradigma como razão de decidir, aplicado ao caso e acompanhado pelo colegiado, é que deve ser considerado para fins de identificação da divergência jurisprudencial, independentemente de haver na decisão referência obter dictum à existência de outros entendimentos que, naquele caso, teriam efeito equivalente.
RECURSO EXTRAORDINÁRIO. SÚMULA CARF 91. PRAZO PARA RESTITUIÇÃO DE INDÉBITO. 10 ANOS. SÚMULA CARF 91. CTN, ART. 16
Nos termos de decisão Plenária do STF e da Súmula CARF 91, o prazo para compensação é de 10 anos quanto aos pedidos de compensação apresentados antes de 9 de junho de 2005. Recurso extraordinário a que se nega provimento.
Numero da decisão: 9900-001.013
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Extraordinário, vencida a conselheira Cristiane Silva Costa (relatora), que não conheceu do recurso. No mérito, por unanimidade de votos, acordam em negar-lhe provimento, com retorno dos autos à Unidade de Origem. Designado para redigir o voto vencedor, em relação ao conhecimento, o conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente
(assinado digitalmente)
Cristiane Silva Costa - Relatora
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Correa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), Valcir Gassen (suplente convocado), Vanessa Marini Cecconello e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Ausentes, justificadamente, as conselheiras Adriana Gomes Rego e Érika Costa Camargos Autran.
Nome do relator: CRISTIANE SILVA COSTA
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ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 1989, 1990, 1991, 1992 RECURSO EXTRAORDINÁRIO. DIVERGÊNCIA. CONHECIMENTO. O posicionamento específico, utilizado pelo relator do acórdão paradigma como razão de decidir, aplicado ao caso e acompanhado pelo colegiado, é que deve ser considerado para fins de identificação da divergência jurisprudencial, independentemente de haver na decisão referência obter dictum à existência de outros entendimentos que, naquele caso, teriam efeito equivalente. RECURSO EXTRAORDINÁRIO. SÚMULA CARF 91. PRAZO PARA RESTITUIÇÃO DE INDÉBITO. 10 ANOS. SÚMULA CARF 91. CTN, ART. 16 Nos termos de decisão Plenária do STF e da Súmula CARF 91, o prazo para compensação é de 10 anos quanto aos pedidos de compensação apresentados antes de 9 de junho de 2005. Recurso extraordinário a que se nega provimento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Extraordinário, vencida a conselheira Cristiane Silva Costa (relatora), que não conheceu do recurso. No mérito, por unanimidade de votos, acordam em negarlhe provimento, com retorno dos autos à Unidade de Origem. Designado para redigir o voto vencedor, em relação ao conhecimento, o conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 03 44 15 /9 9- 86 Fl. 154DF CARF MF 2 Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Relatora (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Correa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), Valcir Gassen (suplente convocado), Vanessa Marini Cecconello e Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Ausentes, justificadamente, as conselheiras Adriana Gomes Rego e Érika Costa Camargos Autran. Relatório Tratase de processo originado pela apresentação de Pedido de Restituição em 10/12/1999 (fls. 2) e Pedido de Compensação apresentado em 21/12/1999 (fls. 46), 31/01/200 (fls. 50), identificandose pagamento indevido de FINSOCIAL quanto aos meses de dezembro de 1989 e fevereiro de 1992. A Delegacia da Receita Federal em São Paulo indeferiu a restituição, pelas seguintes razões (fls. 52): (...)Tendo em vista que o Ato Declaratório nº 96, de 26 de novembro de 1999, com base no Parecer PGFN/CAT nº 1538 de 1999 declara que Fl. 155DF CARF MF Processo nº 10880.034415/9986 Acórdão n.º 9900001.013 CSRFPL Fl. 3 3 “o prazo para que o contribuinte possa pleitear a restituição de tributo ou contribuição pago indevidamente ou em valor maior que o devido, inclusive na hipótese de o pagamento ter sido efetuado com base em lei posteriormente declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal em ação declaratória ou em recurso extraordinário, extinguese após o prazo de 5 (cinco) anos, contado da data da extinção do crédito tributário – arts. 165, I, 168, I, da Lei nº 5.172, de 25 d eoutubro de 1966 (Código Tributário Nacional).” INDEFIRO a restituição requerida. (...) Após a apresentação de manifestação de inconformidade (fls. 56/58), a Delegacia da Receita Federal de julgamento em Curitiba manteve a decisão da DRF (fls. 72/75). O acórdão restou assim ementado: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/12/1989 a 29/02/1992 Ementa: FINSOCIAL. RESTITUIÇÃO/ COMPENSAÇÃO. DECADÊNCIA O prazo para que o contribuinte possa pleitear a restituição de tributo ou contribuição pago indevidamente ou em valor maior que o devido, inclusive na hipótese de o pagamento ter sido efetuado com base em lei posteriormente declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal em ação declaratória ou em recurso extraordinário, extinguese após o transcurso do prazo de 5 (cinco) anos, contado da data da extinção do crédito tributário. Solicitação Indeferida RELATÓRIO O contribuinte apresentou recurso voluntário, que foi acolhido pela 2ª Câmara do extinto Terceiro Conselho de Contribuintes (fls. 84/99), em acórdão assim ementado: FINSOCIAL — ALIQUOTAS MAJORADAS — LEIS N°S 7.787/89, 7.894/ 89 e 8 .147/90 — INCONSTITUCIONALIDADE DECLARADA PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL — PEDIDO DE RESTITUIÇÃO DE VALORES PAGOS A MAIOR — PRAZO — DECADÊNCIA — DIES A QUO e DIES AD QUEM. O dies a quo para a contagem do prazo decadencial do direito de pedir restituição de valores pagos a maior é a data em que o contribuinte viu seu direito reconhecido pela administração tributária , no caso a da publicação da M.P. n° 1.110/95, que se deu em 31/0811995. Tal prazo, de cinco (05) anos, estendeuse até 31/08/2000 (dies ad quem). A Decadência só atingiu os pedidos formulados a partir do Fl. 156DF CARF MF 4 dia 01/09/2000, inclusive, o que não é o caso dos autos. RECURSO PROVIDO POR MAIORIA. Conforme voto condutor, a Câmara julgadora determinou o retorno dos autos para análise do crédito. Nesse contexto, a Procuradoria apresentou recurso especial (fls. 101/110), por contrariedade à lei. A Terceira Turma da CSRF negou provimento ao recurso especial (fls. 123/127), conforme acórdão do qual se colaciona ementa a seguir: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL FINSOCIAL. RECONHECIMENTO DE DIREITO CREDITÓRIO O direito de se pleitear o reconhecimento de crédito com o conseqüente pedido de restituição/compensação, perante a autoridade administrativa. de tributo pago em virtude de lei que tenha sido declarada inconstitucional, somente surge com a declaração de inconstitucionalidade pelo STF, em ação direta, ou com a suspensão pelo Senado Federal, da lei declarada inconstitucional, na via indireta. Por esta via, o termo a quo para o pedido de restituição começa a contar da data da publicação da MP n°. 1.110 em 31/08/1995, posto que foi o primeiro ato emanado do Poder Executivo a reconhecer o caráter indevido do recolhimento do Finsocial à alíquota superior a 0,5%. Precedentes: AC. CSRF/0304.227, 30131.406, 30131404 e 30131.321. O então relator explicitou que seria necessária a análise pela DRF de origem do crédito pleiteado. O processo foi movimentado para a Procuradoria em 26/09/2008, que interpôs recurso extraordinário em 29/09/2008 (fls. 130/142), com fundamento no artigo 9º e 43 do Regimento Interno da CSRF (Portaria MF 147/2007). Neste recurso alega divergência na interpretação da lei tributária com acórdão paradigma da Segunda Turma da CSRF (acórdão nº 0202.088). Assim, pede que – mesmo diante da decisão do STF e Resolução nº 49/1995 do Senado Federal – que seja reconhecido o transcurso do prazo para restituição do indébito. Sustenta, nesse sentido, que o prazo para restituição do indébito seria de 5 anos, contados da extinção do crédito tributário. Por fim, pede seja aplicada a Lei Complementar nº 118/2005. O recurso extraordinário foi admitido pela então Presidente da CSRF, conforme despacho de 08/10/2008, às fls. 145/147, do qual se extrai: O Acórdão recorrido entendeu que o prazo inicial do direito de repetir de tributo pago, em virtude de lei declarada inconstitucional, alicerçase no primeiro ato emanado do Poder Executivo a reconhecer o recolhimento indevido. No caso, a MP n° 1.110, em 31 de agosto de 1995. Já o Acórdão ofertado à lide, ao julgar valores recolhidos a título de PIS, pago a maior em face dos DecretosLeis n°s 2.445 e 2.449, ambos posteriormente considerados inconstitucionais, entendeu que mesmo nesse caso, aplicável o art. 168 do CTN, decidindo que na repetição de indébito, o termo inicial é a data de extinção do crédito tributário pelo pagamento antecipado e o Fl. 157DF CARF MF Processo nº 10880.034415/9986 Acórdão n.º 9900001.013 CSRFPL Fl. 4 5 terno final o dia em que se completar o qüinqüênio legal, a partir daquela data. Cristalino o dissídio jurisprudencial. Merece seguimento o recurso especial ao Pleno da Câmara Superior de Recursos Fiscais. Na forma do artigo 16, inciso 1, do Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria 147, de 25 de junho de 2007, encaminhemse os autos à DERAT em SÃO PAULO — SP, para ciência ao sujeito passivo, assegurandolhe o prazo de quinze dias para contrarazões. Após, o retorno dos autos ao Pleno da CSRF para julgamento da lide. O contribuinte foi intimado em 17/02/2010 (fls. 150) para apresentar contrarrazões ao recurso extraordinário, sem que tenha apresentado qualquer manifestação (fls. 153). É o relatório. Voto Vencido Conselheira Cristiane Silva Costa, Relatora Ao tempo da interposição do recurso extraordinário, vigia o Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais, veiculado pela Portaria MF nº 147, de 2007, que previa: Art. 1º A Câmara Superior de Recursos Fiscais, órgão colegiado judicante, integrante da estrutura do Ministério da Fazenda, tem por finalidade julgar recurso especial e voluntário contra decisão de Câmara de Conselho de Contribuintes e recurso extraordinário contra decisão de Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais. Parágrafo único. No exercício de sua competência, os membros da Câmara Superior de Recursos Fiscais deverão observar os tratados, acordos internacionais, leis e decretos. Art. 9º Compete ao Pleno julgar recurso extraordinário de decisão de Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais que der à lei tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra Turma ou o Pleno da Câmara Superior de Recursos Fiscais. Fl. 158DF CARF MF 6 Art. 43. O recurso extraordinário previsto no art. 9º deverá ser formalizado em petição dirigida ao Presidente da Turma que houver prolatado a decisão recorrida e deverá ser interposto por Procurador da Fazenda Nacional ou pelo sujeito passivo, no prazo de quinze dias contados da data da ciência da decisão. § 1º O recurso deverá demonstrar, fundamentadamente, a divergência argüida, indicando a decisão divergente e comprovandoa mediante a apresentação de cópia de seu inteiro teor ou de cópia da publicação em que tenha sido divulgada, ou mediante cópia de publicação de até duas ementas, cujos acórdãos serão examinados pelo Presidente. § 2º A cópia de publicação de ementa referida no § 2º, quando extraída da internet, deverá ser impressa diretamente da página dos Conselhos de Contribuintes ou da Imprensa Nacional. § 3º O recurso extraordinário deverá ser protocolizado na unidade da administração tributária de jurisdição do recorrente, quando por este interposto e na secretaria da Turma quando interposto pelo Procurador da Fazenda Nacional credenciado. § 4º Interposto o recurso extraordinário, compete ao Presidente, em despacho fundamentado, admitilo ou, caso não satisfeitos os pressupostos de sua admissibilidade, negarlhe seguimento. § 5º Se a decisão contiver matérias autônomas, a admissão do recurso extraordinário poderá ser parcial. § 6º É definitivo o despacho do Presidente que negar seguimento ao recurso extraordinário. O atual Regimento Interno do CARF (Portaria MF 343/2015) esclarece que é aplicável a Portaria MF 147 aos recursos extraordinários, como se verifica dos artigos 3º a 5º: Art. 3º Os recursos com base no inciso I do caput do art. 7º, no art. 8º e no art. 9º do Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), aprovado pela Portaria MF nº 147, de 25 de junho de 2007, interpostos contra os acórdãos proferidos nas sessões de julgamento ocorridas em data anterior à vigência do Anexo II da Portaria MF nº 256, de 22 de junho de 2009, serão processados de acordo com o rito previsto nos arts. 15 e 16, no art. 18 e nos arts. 43 e 44 daquele Regimento. O Regimento Interno anterior do CARF (Portaria MF 256/2009) no mesmo sentido, estabelecia a aplicabilidade da Portaria MF 147 para processamento de recursos extraordinários, verbis: Art. 4º Os recursos com base no inciso I do art. 7º, no art. 8º e no art. 9º do Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 147, de 25 de junho de 2007, interpostos contra os acórdãos proferidos nas sessões de julgamento ocorridas em data anterior à vigência do Anexo II desta Portaria, serão processados de acordo com o rito previsto nos artigos 15 e 16, no art. 18 e nos artigos 43 e 44 daquele Regimento. http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/anexoOutros.action? idArquivoBinario=0(Redação dada pelo(a) Portaria MF nº 446, de 27 de agosto de 2009) Fl. 159DF CARF MF Processo nº 10880.034415/9986 Acórdão n.º 9900001.013 CSRFPL Fl. 5 7 Nesse contexto, entendo que o recurso extraordinário é tempestivo, na forma do artigo 9º e 43, da Portaria nº 147/2007, combinado com o artigo 23, §7º, do Decreto nº 70.235/1972. Assim, analiso a seguir a alegada divergência na intepretação da lei tributária para fins de conhecimento do recurso. A Procuradoria indica como paradigma o acórdão nº CSRF 0202.088, proferido pela Segunda Turma da CSRF (processo administrativo nº 13886000684/0074, no qual se decidiu: A exegese deste artigo não deixa margem à dúvida de que a extinção do crédito tributário dáse no mesmo instante em que o pagamento é efetuado, pois a cláusula condicionante é resolutória, o que antecipa o início dos efeitos do ato para a data de sua realização. Em outras palavras, o efeito extintivo do pagamento dáse no exato instante de sua efetivação e assim permanece até a homologação do lançamento, quando a condição estará resolvida. Se a homologação não ocorrer quer expressa ou tacitamente, aí sim, o crédito é restabelecido por força da condição que não se implementou. Diante do exposto e com o devido respeito aos que defendem ponto de vista contrário, entendo não fazer o menor sentido a denominada tese dos 05 mais 05. Ademais, com a edição da Lei Complementar n° 118, de 09/02/2005, cujo artigo 3° deu interpretação autêntica ao artigo 168, inciso I do Código Tributário Nacional, estabelecendo que a extinção do crédito tributário ocorre, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, no momento do pagamento antecipado de que trata o art. 150, §1º da Lei 5.172/1966, o único entendimento possível é o trazido na novel Lei Complementar. (...) Por último, resta esclarecer que a jurisprudência dominante nos Conselhos de Contribuintes e, também, na Câmara Superior de Recursos Fiscais é no sentido de que o prazo para repetição de eventual indébito contase a partir da publicação do ato senatorial Especificamente, para a hipótese de restituição de pagamentos efetuados a maior por força dos inconstitucionais DecretosLeis 2.445/1988 e 2.449/1988, o marco inicial da contagem da prescrição seria 10 de outubro de 1995, data de publicação da Resolução 49 do Senado da República. Com isso, o termo final para repetição de indébito referente a aplicação dos indigitados decretosleis seria 10 de outubro de 2.000. Como o pedido só foi protocolado em 10 de novembro de 2000, o direito postulado fora extinto pela inércia de seu detentor. A Procuradoria alega que “o paradigma aplicou ipsi litteris o artigo 168, do CTN, enquanto o acórdão recorrido aplicou o artigo 168, do CTN com juntamente com o princípio da actio nata”. Ocorre que o acórdão paradigma não aplicou simplesmente o artigo 168, admitindo a repetição (dos indébitos diante da inconstitucionalidade dos DecretosLei nº 2.445/1988 e 2.449/88) a partir da Resolução 49 do Senado (trecho acima destacado). Fl. 160DF CARF MF 8 Na mesma linha, é o entendimento da 3ª Turma da CSRF, no acórdão recorrido, conforme trecho do acórdão a seguir colacionado: (...) Ressalvado meu entendimento pessoal manifestado em julgamentos anteriores, tendo em vista a reiterada jurisprudência desta turma da CSRF, adoto, como razões de decidir, os fundamentos da declaração de voto do Conselheiro e Presidente do Terceiro Conselho de Contribuinte, Otacílio Dantas Cartaxo, no Acórdão 30131943: “A matéria versa sobre o reconhecimento de direito creditório de contribuinte oriundo de indébito tributário, em decorrência da inconstitucionalidade da majoração da alíquota do FINSOCIAL declarada pelo Supremo Tribunal Federal através do RE n. 150.7641, em 02/04/93, bem como quanto ao marco inicial para a contagem do prazo prescricional para o ressarcimento do indébito. (...) Ao contrário do que expôs o juízo a quo, é importante registrar que para que se cogite um pleito da envergadura do ora analisado, fazse necessário que o direito do contribuinte possa ser exercitável em sua plenitude. Nesse sentido, até que fosse julgada a inconstitucionalidade das majorações da alíquota do FINSOCIAL pelo STF, os recolhimentos efetuados mêsamês pelo contribuinte, gozavam da presunção de legalidade. Logo, não haveria como se questionar a existência de indébito tributário, não haveria como se falar em prescrição, nem mesmo em marco inicial para contagem do prazo para restituição de valores, uma vez que o seu direito de ação ainda não podia ser exercido. Não havia, ainda, a liquidez e a certeza do direito ao crédito do sujeito passivo, pressuposto este autorizativo para a realização da compensação de seus créditos com débitos próprios junto à Fazenda Nacional (art. 179, CTN). (...) Quanto ao marco inicial para contagem do prazo prescricional matéria essa questionada pela ora recorrente, trazse à baila o Ac CSRF/0103.239 que sabidamente estabelece que em caso de conflito quanto à constitucionalidade da exação tributária, o termo inicial para contagem do prazo decadencial do direito de pleitear a restituição de tributo pago indevidamente iniciase a) da publicação do acórdão proferido pelo STF em ADIN; b) da Resolução do Senado que confere efeito erga omnes à decisão proferida inter partes em processo que reconhece a inconstitucionalidade de tributo; c) da publicação de ato administrativo que reconhece caráter indevido de exação tributário. A MP no. 1.110/95, art. III, DOU de 31/08/95 – p. 013397, por sua vez, foi o primeiro ato emanado do Poder Executivo a reconhecer o caráter indevido do recolhimento do Finsocial à alíquota superior a 0,5%, passando a ser utilizado como referencial para o marco inicial da contagem do prazo decadencial. (...) Diante do exposto, NEGO provimento ao recurso da Fazenda Nacional, ressaltando que o mérito encontrase pendente de análise pela DRF de origem para onde devem retornar os autos.” Fl. 161DF CARF MF Processo nº 10880.034415/9986 Acórdão n.º 9900001.013 CSRFPL Fl. 6 9 Portanto, considerando que os acórdãos convergem na interpretação do artigo 168, do CTN, voto por não conhecer o recurso extraordinário da Procuradoria. Caso vencida no conhecimento, passo à apreciação do mérito. A Procuradoria sustenta a divergência na interpretação do artigo artigo 168, I, (pdf. 130) do Código Tributário Nacional, que dispõe: Art. 168. O direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados: I nas hipótese dos incisos I e II do artigo 165, da data da extinção do crédito tributário; Para julgamento da matéria, sobreleva considerar a previsão dos artigos 3º e 4º, da Lei Complementar nº 118/2005, que prescrevem: Art. 3º Para efeito de interpretação do inciso I do art. 168 da Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional, a extinção do crédito tributário ocorre, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, no momento do pagamento antecipado de que trata o § 1o do art. 150 da referida Lei. Art. 4o Esta Lei entra em vigor 120 (cento e vinte) dias após sua publicação, observado, quanto ao art. 3o, o disposto no art. 106, inciso I, da Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional. Ao assim dispor, o citado artigo 4º tinha por finalidade atribuir eficácia retroativa à inovação veiculada pelo artigo 3º. Com efeito, o artigo 106, do Código Tributário Nacional é nos seguintes termos: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; O Supremo Tribunal Federal decidiu em sessão do Pleno, aplicando a sistemática do artigo 543B, do antigo Código de Processo Civil (Lei nº 5.869/1973), que: DIREITO TRIBUTÁRIO – LEI INTERPRETATIVA – APLICAÇÃO RETROATIVA DA LEI COMPLEMENTAR Nº 118/2005 – DESCABIMENTO – VIOLAÇÃO À SEGURANÇA JURÍDICA – NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DA VACACIO LEGIS – APLICAÇÃO DO PRAZO REDUZIDO PARA REPETIÇÃO OU COMPENSAÇÃO DE INDÉBITOS AOS PROCESSOS AJUIZADOS A PARTIR DE 9 DE JUNHO DE 2005. Quando do advento da LC 118/05, estava consolidada a orientação da Primeira Seção do STJ no sentido de que, para os Fl. 162DF CARF MF 10 tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo para repetição ou compensação de indébito era de 10 anos contados do seu fato gerador, tendo em conta a aplicação combinada dos arts. 150, § 4º, 156, VII, e 168, I, do CTN. A LC 118/05, embora tenha se autoproclamado interpretativa, implicou inovação normativa, tendo reduzido o prazo de 10 anos contados do fato gerador para 5 anos contados do pagamento indevido. Lei supostamente interpretativa que, em verdade, inova no mundo jurídico deve ser considerada como lei nova. Inocorrência de violação à autonomia e independência dos Poderes, porquanto a lei expressamente interpretativa também se submete, como qualquer outra, ao controle judicial quanto à sua natureza, validade e aplicação. A aplicação retroativa de novo e reduzido prazo para a repetição ou compensação de indébito tributário estipulado por lei nova, fulminando, de imediato, pretensões deduzidas tempestivamente à luz do prazo então aplicável, bem como a aplicação imediata às pretensões pendentes de ajuizamento quando da publicação da lei, sem resguardo de nenhuma regra de transição, implicam ofensa ao princípio da segurança jurídica em seus conteúdos de proteção da confiança e de garantia do acesso à Justiça. Afastandose as aplicações inconstitucionais e resguardandose, no mais, a eficácia da norma, permitese a aplicação do prazo reduzido relativamente às ações ajuizadas após a vacatio legis, conforme entendimento consolidado por esta Corte no enunciado 445 da Súmula do Tribunal. O prazo de vacatio legis de 120 dias permitiu aos contribuintes não apenas que tomassem ciência do novo prazo, mas também que ajuizassem as ações necessárias à tutela dos seus direitos. Inaplicabilidade do art. 2.028 do Código Civil, pois, não havendo lacuna na LC 118/08, que pretendeu a aplicação do novo prazo na maior extensão possível, descabida sua aplicação por analogia. Além disso, não se trata de lei geral, tampouco impede iniciativa legislativa em contrário. Reconhecida a inconstitucionalidade art. 4º, segunda parte, da LC 118/05, considerandose válida a aplicação do novo prazo de 5 anos tãosomente às ações ajuizadas após o decurso da vacatio legis de 120 dias, ou seja, a partir de 9 de junho de 2005. Aplicação do art. 543B, § 3º, do CPC aos recursos sobrestados. Recurso extraordinário desprovido. (Tribunal Pleno, Recurso Extraordinário nº 566.621, DJe 10/10/2011, Rel. Ministra Ellen Gracie) Os Conselheiros deste Conselho Administrativos de Recursos Fiscais devem reproduzir as decisões do Supremo Tribunal Federal, tomadas com fundamento no artigo 543 B, do antigo CPC/1973, na forma do artigo 62, §2º, do atual RICARF (Portaria MF nº 343/2015), verbis: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser Fl. 163DF CARF MF Processo nº 10880.034415/9986 Acórdão n.º 9900001.013 CSRFPL Fl. 7 11 reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Ressaltese, ainda, que a inconstitucionalidade da segunda parte do artigo 4º, da Lei Complementar nº 118/06 pode ser proclamada por este Colegiado em observância ao próprio RICARF (Portaria MF nº 343/2015), termos do artigo 62, §1º, I e II, alínea b: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; http://normas.receita.fazenda.gov.br/sijut2consulta/anexoOutros.action? idArquivoBinario=0II que fundamente crédito tributário objeto de: b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administração Tributária; O citado dispositivo regimental encontra fundamento no artigo 26A, do Decreto nº 70.235/1972: Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) (...) § 6o O disposto no caput deste artigo não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) I – que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) Pois bem. Diante disso, entendo necessário adotar o entendimento do STF no julgamento acima, que reconheceu: (i) que a LC 118/2005 não é interpretativa, tendo alterado o prazo para restituição de indébito de 10 anos (contados do fato gerador), para 5 anos (do pagamento indevido). (ii) a segunda parte do artigo 4º, da Lei Complementar nº 118/05, é inconstitucional; Fl. 164DF CARF MF 12 (iii) o novo prazo para restituição de indébito (5 anos) só seria aplicável às ações ajuizadas a partir de 9/06/2005. Cumpre destacar, ainda, que o CARF aprovou Enunciado de Súmula em sentido similar, dispondo que: Súmula CARF nº 91: Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. No caso destes autos, a Turma a quo deu provimento parcial ao recurso voluntário do contribuinte para assegurar o direito à compensação de FINSOCIAL quanto aos meses de dezembro de 1989 a fevereiro de 1992 quanto ao pedido de repetição apresentado em 10/12/1999 e Pedido de Compensação apresentado em 21/12/1999. O recurso extraordinário da Procuradoria não se coaduna com o entendimento do Pleno do Supremo Tribunal Federal, conforme acórdão acima colacionado, como tampouco com a Súmula 91 do CARF. Por tais razões, nego provimento ao recurso extraordinário da Procuradoria da Fazenda Nacional, mantendo o acórdão recorrido. O processo deve retornar à unidade de origem para verificar a procedência do direito creditório do contribuinte, conforme acórdão da Turma a quo. Conclusão: Diante das razões expostas, voto por não conhecer o recurso extraordinário. Caso vencida, voto por negarlhe provimento. Os autos devem retornar à unidade de origem, como determinado pelo Colegiado a quo. (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Fl. 165DF CARF MF Processo nº 10880.034415/9986 Acórdão n.º 9900001.013 CSRFPL Fl. 8 13 Voto Vencedor Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos Redator Designado. Em que pese a clareza dos argumento colocados pela Sra. Conselheira Relatora em seu voto, peço venia para discordar de seus fundamentos apenas quanto ao conhecimento do recurso extraordinário. Em meu entender, há divergência jurisprudencial comprovada no caso e, portanto, conheço do recurso, pelos fundamentos a seguir apresentados. No acórdão recorrido, como razão central de decidir, firmouse o entendimento de que o direito de pleitear a restituição de tributo indevidamente recolhido somente surgiria com a declaração de inconstitucionalidade da norma que exigia o tributo e, portanto, essa seria a data de início do prazo de 5 (cinco) anos para realização do pedido de restituição do indébito. A seguir, encontrase reproduzida a ementa do acórdão recorrido, na parte que interessa: FINSOCIAL. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO — O direito de se pleitear o reconhecimento de crédito com o conseqüente pedido de restituição/compensação, perante a autoridade administrativa, de tributo pago em virtude de lei que tenha sido declarada inconstitucional, somente surge com a declaração de inconstitucionalidade pelo STF, enr ação direta, ou com a suspensão, pelo Senado Federal, da lei declarada inconstitucional, na via indireta. Por esta via, o termo a quo para o pedido de restituição começa a contar da data da publicação da MP n° 1.110 em 31108195, posto que foi o primeiro ato emanado do Poder Executivo a reconhecer o caráter indevido do recolhimento do Finsocial à alíquota superior a 0,5%. Precedentes: AC. CSRF/0304.227, 301 31.406, 30131404 e 30131.321. Por sua vez, no acórdão recorrido, firmouse, como razão de decidir, o entendimento de que o prazo inicial para realização do pedido de restituição de indébito seria o da data da extinção do crédito tributário, pelo pagamento. A seguir, a ementa do acórdão paradigma: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL — REPETIÇÃO DE INDÉBITO — O dies a quo para contagem do prazo prescricional de repetição de indébito é o (Ia (lata de extinção do crédito tributário pelo pagamento antecipado e o termo ,final é o dia em que se completa o quinqüênio legal, contado a partir daquela data. Assim, revelase claramente a divergência de critérios jurídicos aplicáveis ao caso. Contudo, a Sra. Conselheira Relatora, entendeu que, no bojo do voto do relator, haveria a colocação de que o efetivo critério jurídico por ele defendido seria idêntico àquele utilizado pelo acórdão recorrido, inexistindo portanto divergência jurisprudencial. Para Fl. 166DF CARF MF 14 suportar seu entendimento, a Sra. Conselheira Relatora fez referência ao seguinte excerto do voto do acórdão paradigma: Por último, resta esclarecer que a jurisprudência dominante nos Conselhos de Contribuintes e, também, na Câmara Superior de Recursos Fiscais é no sentido de que o prazo para repetição de eventual indébito contase a partir da publicação do ato senatorial Especificamente, para a hipótese de restituição de pagamentos efetuados a maior por força dos inconstitucionais DecretosLeis 2.445/1988 e 2.449/1988, o marco inicial da contagem da prescrição seria 10 de outubro de 1995, data de publicação da Resolução 49 do Senado da República. Com isso, o termo final para repetição de indébito referente a aplicação dos indigitados decretosleis seria 10 de outubro de 2.000. Como o pedido só foi protocolado em 10 de novembro de 2000, o direito postulado fora extinto pela inércia de seu detentor. Com todas as venias, discordo da conclusão da Sra. Relatora. Com efeito, o que visualizo no voto do acórdão paradigma é um painel com a apresentação das diferentes teses teoricamente aplicáveis ao cálculo do prazo para repetição de indébito, a titulo de obter dictum, para contextualização da posição do relator, que foi acompanhado pelo colegiado. Nesse sentido, cabe referir a própria ementa do julgado, já anteriormente reproduzida, e o seguinte excerto do voto do acórdão paradigma: A repetição em análise enquadrase no primeiro caso em que o prazo inicial da contagem do prazo coincide com a extinção do crédito tributário pelo pagamento antecipado. Na hipótese de lançamento por homologação, uma questão se faz presente quando se considera extinto o crédito tributário, na data da antecipação do pagamento ou na da homologação O inciso I do artigo 156 do CTN elege o pagamento, puro e simples, como forma de extinção do crédito tributário, não fazendo qualquer alusão a sua homologação. Por seu turno, o § 1° do artigo 150 do Código é especifico quando se refere à extinção do crédito tributário pela antecipação de pagamento, nos lançamento por homologação. Pelo exposto, voto por conhecer do recurso. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 167DF CARF MF
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Numero do processo: 10865.001719/2007-26
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Oct 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Dec 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 10/10/2003 a 31/05/2006
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-006.089
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento parcial, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo nº: 10552.000174/2007-64, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Ana Cecília Lustosa da Cruz (Suplente convocada).
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 10/10/2003 a 31/05/2006 CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
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AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento parcial, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo nº: 10552.000174/200764, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 86 5. 00 17 19 /2 00 7- 26 Fl. 280DF CARF MF Processo nº 10865.001719/200726 Acórdão n.º 9202006.089 CSRFT2 Fl. 3 2 Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Ana Cecília Lustosa da Cruz (Suplente convocada). Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015, tendo por paradigma o processo n° 10552.000174/200764. Tratase de auto de infração, referente às contribuições devidas ao INSS, destinadas à Seguridade Social. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo apresentou contrarrazões onde pugna pela manutenção da decisão recorrida, que , em seu entendimento reflete a melhor interpretação jurídica quanto à aplicação do art. 106, II, "c" ao caso sob análise. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202006.065, de 25/10/2017, proferido no julgamento do processo 10552.000174/200764, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202006.065): Quanto ao conhecimento Pelo que consta no processo quanto a sua tempestividade, às devidas apresentação de paradigmas e indicação de divergência, o recurso atende aos requisitos de admissibilidade. Assim, conheço do recurso da Fazenda Nacional. Quanto ao mérito O presente tema, objeto do presente julgamento repetitivo de recursos, tem entendimento já pacificado no âmbito desta Turma da CSRF, o qual é brilhantemente delineado pela Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira no âmbito do Acórdão 920205.782, de 26 de setembro de 2017, e, assim, adotase Fl. 281DF CARF MF Processo nº 10865.001719/200726 Acórdão n.º 9202006.089 CSRFT2 Fl. 4 3 excerto do teor do voto condutor daquele Acórdão, a seguir transcrito, como razões de decidir, verbis: (...) Aplicação da multa retroatividade benigna Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “c” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 282DF CARF MF Processo nº 10865.001719/200726 Acórdão n.º 9202006.089 CSRFT2 Fl. 5 4 Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): "Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Fl. 283DF CARF MF Processo nº 10865.001719/200726 Acórdão n.º 9202006.089 CSRFT2 Fl. 6 5 Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: Fl. 284DF CARF MF Processo nº 10865.001719/200726 Acórdão n.º 9202006.089 CSRFT2 Fl. 7 6 “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: ∙ Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou ∙ Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada Fl. 285DF CARF MF Processo nº 10865.001719/200726 Acórdão n.º 9202006.089 CSRFT2 Fl. 8 7 competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor da multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente."(grifos não presentes no original) Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: (...) Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Por fim, destacase que, independente do lançamento fiscal analisado referirse a Auto de Infração de Obrigação Principal (AIOP) e Acessória (AIOA), este último consubstanciado na omissão de fatos geradores em GFIP, lançados em conjunto, ou seja formalizados em um mesmo processo, ou em processos separados, a aplicação da legislação não sofrerá qualquer alteração, posto que a Portaria PGFN/RFB nº 14/2009 contempla todas as possibilidades, já que a tese ali adotada tem por base a natureza das multas. (grifos não presentes no original). (...)" Fl. 286DF CARF MF Processo nº 10865.001719/200726 Acórdão n.º 9202006.089 CSRFT2 Fl. 9 8 Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento parcial ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 04 de dezembro de 2009. É como voto. Em face o exposto, voto por conhecer do Recurso Especial e, no mérito, dar lhe provimento parcial, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 287DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10850.908253/2011-37
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Dec 13 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2001 a 31/01/2001
RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ADMISSIBILIDADE.
A admissibilidade do recurso especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido.
Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria.
Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigma só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação.
Recurso Especial do Contribuinte não Conhecido.
Numero da decisão: 9303-006.185
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas, que conheceram do recurso.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), Valcir Gassen (suplente convocado), Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2001 a 31/01/2001 RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ADMISSIBILIDADE. A admissibilidade do recurso especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido. Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria. Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigma só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação. Recurso Especial do Contribuinte não Conhecido.
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PAGAMENTO INDEVIDO. COMPROVAÇÃO. Recorrente GREEN STAR PEÇAS E VEÍCULOS LTDA. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2001 a 31/01/2001 RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ADMISSIBILIDADE. A admissibilidade do recurso especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido. Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria. Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigma só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação. Recurso Especial do Contribuinte não Conhecido. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas, que conheceram do recurso. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), Valcir Gassen (suplente convocado), Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 0. 90 82 53 /2 01 1- 37 Fl. 231DF CARF MF Processo nº 10850.908253/201137 Acórdão n.º 9303006.185 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência interposto pela Contribuinte com fundamento nos artigos 64, inciso II, 67 e seguintes do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256/09, contra ao acórdão nº 3803006.739, que decidiu negar provimento ao Recurso Voluntário por ausência de prova efetiva da existência do direito creditório pleiteado. A decisão recorrida restou assim ementada: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2001 a 31/01/2001 RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. ÔNUS DA PROVA. O ônus da prova recai sobre a pessoa que alega o direito ou o fato que o modifica, extingue ou que lhe serve de impedimento, devendo prevalecer a decisão administrativa não infirmada com documentação hábil e idônea. Não conformada com tal decisão a Contribuinte interpôs o presente recurso. Visando comprovar o dissenso jurisprudencial apontou como paradigmas os Acórdãos nºs 3801004.317 e 3801004.318. Mediante despacho de admissibilidade do Presidente da Terceira Câmara da Terceira Seção de Julgamento do CARF foi dado seguimento ao recurso. Devidamente cientificada, a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões nas quais requer o nãoconhecimento do recurso especial interposto pela Contribuinte. Alternativamente, requer, no mérito, que seja negado provimento ao recurso, mantendose o acórdão proferido pela eg. Turma a quo por seus próprios fundamentos. É o relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303006.174, de 13/12/2017, proferido no julgamento do processo 10850.900064/201205, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303006.174): Fl. 232DF CARF MF Processo nº 10850.908253/201137 Acórdão n.º 9303006.185 CSRFT3 Fl. 4 3 "O Recurso foi apresentado com observância do prazo previsto, restando contudo investigar adequadamente o atendimento aos demais pressupostos de admissibilidade, prerrogativa, em última análise, da composição plenária da Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, a qual tem competência para não conhecer de recurso especiais nos quais não estejam presentes os pressupostos de admissibilidade respectivos. Primeiramente, se faz necessário relembrar e reiterar que a interposição de Recurso Especial junto à Câmara Superior de Recursos Fiscais, ao contrário do Recurso Voluntário, é de cognição restrita, limitada à demonstração de divergência jurisprudencial, além da necessidade de atendimento a diversos outros pressupostos, estabelecidos no artigo 67 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. Por isso mesmo, essa modalidade de apelo é chamada de Recurso Especial de Divergência e tem como objetivo a uniformização de eventual dissídio jurisprudencial, verificado entre as diversas Turmas do CARF. Neste passo, ao julgar o Recurso Especial de Divergência, a Câmara Superior de Recursos Fiscais não constitui uma Terceira Instância, mas sim a Instância Especial, responsável pela pacificação dos conflitos interpretativos e, conseqüentemente, pela garantia da segurança jurídica dos conflitos. Após essa breve introdução, passemos, então, ao exame de admissibilidade do Recurso Especial. A divergência suscitada pela Contribuinte diz respeito à comprovação de seu direito creditório, e trouxe os seguintes acórdãos paradigmas, 3801004317 e 3801004318, que tratam em tese da mesma matéria, diferindo a solução. Pelas ementas não se pode reconhecer a divergência, todavia, se examinar os votos dos paradigmas verseá a que não há identidade de (conjunto probatório) e diversidade das soluções. Verificase que o voto condutor da decisão recorrida, o recurso voluntário não mereceu provimento sob o fundamento de que: "Conforme se verifica do relatório supra, a DRJ Ribeirão Preto/SP não reconheceu o direito creditório por ausência de provas hábeis a demonstrar e comprovar o suposto recolhimento a maior, considerando que os documentos apresentados se referiam apenas às receitas financeiras, dados esses insuficientes à apuração da base de cálculo da contribuição, qual seja, o faturamento. O Recorrente alega que, junto às Manifestações de Inconformidade, havia trazido aos autos planilhas de cálculo, cópias do balancete e do livro Razão, documentos esses que, segundo ele, seriam bastantes para a comprovação do direito pleiteado. A par das decisões da DRJ Ribeirão Preto/SP, em que a questão da prova do indébito foi posta como condicionante ao reconhecimento do direito creditório, tendo sido ressaltada pelo julgador de piso a necessidade de se comprovar o faturamento do período para fins de apuração da contribuição efetivamente devida no período, o contribuinte nada acrescenta aos autos em grau de recurso para fins de demonstrar inequivocamente a base de cálculo da contribuição. Não se pode olvidar que, de acordo com o art. 16 do Decreto n° 70.235/1972, que regula o Processo Administrativo Fiscal (PAF), cabe ao impugnante o ônus da prova de suas alegações contrapostas à decisão de indeferimento do direito pleiteado, prova essa que deve ser apresentada no momento da manifestação de inconformidade. Conforme já dito, os elementos trazidos aos autos por cópias pelo contribuinte na primeira instância não eram aptos, por si sós, a comprovar o direito reclamado, dado que restritos às informações relativas às receitas financeiras e a outras receitas, situação em que não se tem por comprovada a base de cálculo da contribuição devida (faturamento), o que impede o confronto entre os valores recolhidos aos cofres públicos e aqueles efetivamente devidos. Fl. 233DF CARF MF Processo nº 10850.908253/201137 Acórdão n.º 9303006.185 CSRFT3 Fl. 5 4 Abrir a possibilidade de produção de novas provas, a meu ver, ainda que em consonância com o princípio da verdade material, configura afronta à obrigatoriedade de atuação da Administração em conformidade com a lei e o Direito e à adequação entre meios e fins (art. 2º, parágrafo único, da Lei nº 9.784, de 1999), assim como ao dever do administrado de apresentar os documentos comprobatórios do direito alegado antes das decisões administrativas e de prestar todas as informações necessárias ao esclarecimento dos fatos (art. 3º, III, e 4º, IV, da Lei nº 9.784, de 1999). Mesmo depois de ter sido alertado pelo julgador administrativo de primeira instância acerca da necessidade de apresentação de documentos comprobatórios da base de cálculo da contribuição (faturamento), com vistas a se apurar o alegado crédito pleiteado, o Recorrente não se predispôs a instruir o processo nesta segunda instância de forma efetiva, dado que nenhum documento contábilfiscal foi acrescentado aos autos". Como se observa, a decisão recorrida, acompanhou o fundamento esposado pela DRJ de origem, no sentido de que: “A planilha contendo as receitas financeiras e a cópia de parte do balancete contendo tais receitas não permitiriam apurar a base de cálculo com as exclusões pretendidas, para se chegar ao valor devido e comparálo com o valor recolhido, pois tais documentos permitem vislumbrar tão somente as receitas financeiras do período, mas não o faturamento da empresa. Assim, não haveria como se apurar o total da base de cálculo e a contribuição devida, para comparála com o recolhimento efetuado e concluirse pela eventual existência de recolhimento a maior, e em que montante”. Por outro lado, o acórdão paradigma nº 3801004.317, analisou tão somente a questão de mérito, dando provimento ao Recurso por entender que a Lei nº 9.718/98, conversão da Medida Provisória nº 1.724/98, estendeu o conceito de faturamento, base de cálculo das contribuições PIS e Cofins, definindoo no §1º do art. 3º como a receita bruta, assim entendida a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevante o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas. Sem embargo, o Colegiado decidiu o direito creditório da contribuinte com fundamento no artigo 62A do Regimento Interno do Conselho Administrativo Fiscais (CARF), aprovado pela Portaria nº256/2009 do Ministro da Fazenda, com alterações das Portarias 446/2009 e 586/2010, que dispõe que os Conselheiros têm que reproduzir as decisões do STF proferidas na sistemática da repercussão geral. Como se vê, o acórdão paradigma não trouxe outro fundamento com relação as provas, e não se verifica demonstrada semelhança fática e divergência jurisprudencial. Vejamos: "No mérito, entendo que assiste razão à recorrente, senão vejamos: A Lei nº 9.718/98, conversão da Medida Provisória nº 1.724/98, estendeu o conceito de faturamento, base de cálculo das contribuições PIS e Cofins, definindoo no §1º do art. 3º como a receita bruta, assim entendida a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevante o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas. Neste sentido, entendo estarmos diante da hipótese prevista no artigo 62A do Regimento Interno do Conselho Administrativo Fiscais (CARF), aprovado pela Portaria nº 256/2009 do Ministro da Fazenda, com alterações das Portarias 446/2009 e 586/2010, que dispõe que os Conselheiros têm que reproduzir as decisões do STF proferidas na sistemática da repercussão geral, conforme colacionado acima. Desta forma, deve ser reconhecido o direito creditório do Recorrente caso exista, em seu favor, crédito oriundo de recolhimentos efetuados a título de COFINS na forma da Lei nº 9.718/98, excluindose da sua base de cálculo as receitas não compreendidas no conceito de Fl. 234DF CARF MF Processo nº 10850.908253/201137 Acórdão n.º 9303006.185 CSRFT3 Fl. 6 5 faturamento nos moldes da Lei Complementar nº 70/91, nos termos dos conceitos já firmados pelo Supremo Tribunal Federal". No mesmo sentido, o acórdão paradigma nº 3801004.316, mesmo relator do acórdão, nº 3801004.317, deu provimento ao Recurso Voluntário,para reconhecer o direito à restituição dos pagamentos a maior da contribuição, com fundamento na declaração de inconstitucionalidade do § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/1998. Como se observa, o acórdão paradigma nada tratou sobre provas, e não se comprova semelhança fática e divergência jurisprudencial. Vejamos: "É importante consignar que compete a autoridade administrativa, com base na escrita fiscal e contábil, efetuar os cálculos e apurar o valor do direito creditório. Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário, para reconhecer o direito à restituição dos pagamentos a maior da contribuição, com fundamento na declaração de inconstitucionalidade do § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/1998". Como visto, contexto fático e jurisprudencial exposto nas decisões paradigmas e no acórdão recorrido, patente pela leitura das passagens acima transcritas, demanda do mesmo modo, que o recurso especial não seja conhecido em face da ausência de demonstração de que, discutindo casos similares, foi dada interpretação jurídica diversa. Neste sentido, O Manual de Exame de Admissibilidade de Recurso Especial (versão atualizada, pg.30) estabelece que: O RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015, assim estabeleceu, em seu art. 67, § 1º, do Anexo II: "§ 1º Não será conhecido o recurso que não demonstrar de forma objetiva qual a legislação que está sendo interpretada de forma divergente." Em 15 de fevereiro de 2016, foi publicada a Portaria MF nº 39, de 12 de fevereiro de 2016, com a seguinte redação: “§ 1º Não será conhecido o recurso que não demonstrar a legislação tributária interpretada de forma divergente.” Neste sentido, não tomo conhecimento do Recurso interposto pela Contribuinte, em razão de não ter sido comprovada divergência, e similitude fática, nos termos do § 1º da Portaria MF nº 39, de 12 de fevereiro de 2016." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial do contribuinte não foi conhecido. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 235DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16643.720041/2011-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 19 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2006, 2007
DECADÊNCIA. FORMAÇÃO DE ÁGIO EM PERÍODOS ANTERIORES AO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA.
Pode a fiscalização verificar documentos e analisar fatos ocorridos há mais de cinco anos para deles extrair a repercussão tributária de exercícios futuros. A vedação contida no Código Tributário Nacional impossibilita apenas o lançamento de crédito tributário relativo a período já fulminado pela decadência.
DECADÊNCIA. PAGAMENTO DE ESTIMATIVAS. INOCORRÊNCIA.
As antecipações feitas a título de estimativas não correspondem ao conceito de pagamento antecipado veiculado pelo CTN e, nesse sentido, não extinguem o crédito tributário, que sequer foi apurado, o que só ocorrerá ao final dos exercícios, pois os balanços ou balancetes de suspensão não caracterizam o momento de ocorrência do fato gerador dos tributos e, portanto, não representam o dies a quo para a contagem do prazo decadencial.
ÁGIO CONSTITUÍDO ENTRE PARTES RELACIONADAS, SEM FUNDAMENTO ECONÔMICO. GLOSA.
As operações entre partes relacionadas devem ser testadas sob o princípio do arm´s length, de tal sorte que os preços e as demais condições da aquisição sejam compatíveis com aqueles que seriam normalmente utilizados no mercado, a partir de princípios econômicos como a livre concorrência e a livre manifestação da vontade. A ausência de fundamento econômico na operação enseja a glosa dos valores artificialmente constituídos.
INCORPORAÇÃO DE EMPRESA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. NECESSIDADE DE PROPÓSITO NEGOCIAL. UTILIZAÇÃO DE EMPRESA VEÍCULO.
Não produz o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo a incorporação de pessoa jurídica, em cujo patrimônio constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, sem qualquer finalidade negocial ou societária. Nestes casos, resta caracterizada a utilização da incorporada como mera empresa veículo para transferência do ágio à incorporadora.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. DECORRÊNCIA.
Tratando-se de tributação reflexa decorrente de irregularidades apuradas no âmbito do Imposto sobre a Renda, constantes do mesmo processo, aplica-se à CSLL, por relação de causa e efeito, o mesmo fundamento do lançamento primário.
VARIAÇÃO CAMBIAL PASSIVA. DESPESA COM JUROS. OPERAÇÕES DESPROVIDAS DE PROPÓSITO NEGOCIAL. DESNECESSIDADE.
Mantém-se a glosa de Variação Cambial Passiva e Despesas com Juros decorrentes de empréstimos para compra de ações no país e de passivo relativo a compra de ações, emitidas por controlada brasileira, de empresa controladora estrangeira, quando caracterizado que não houve tais operações, posto que as ações foram compradas pela controladora estrangeira, tendo a empresa intermediária brasileira servido apenas para registrar estes dispêndios, para imediata transferência.
TRATADOS INTERNACIONAIS PARA EVITAR A BITRIBUTAÇÃO. APLICABILIDADE À CSLL.
Aplica-se à CSLL o disposto nos tratados para evitar a bitributação, sendo de rigor cancelar a autuação do tributo quando fundada exclusivamente na tese de inaplicabilidade, questão que foi resolvida com o advento da Lei n. 13.202/2015.
NEGÓCIO JURÍDICO. ABUSO DE DIREITO. INOPONIBILIDADE. QUALIFICAÇÃO DA MULTA. IMPOSSIBILIDADE POR NÃO CARACTERIZAÇÃO DE FRAUDE.
Negócio jurídico realizado mediante interpretação literal, sem a observância das regras tributárias, é abusivo e não pode ser oponível ao Fisco, sujeitando o infrator à multa de ofício de 75%. Descabe a qualificação da multa quando não caracterizado dolo específico ou fraude nos procedimentos.
Numero da decisão: 1201-001.872
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar as preliminares suscitadas e, no mérito, por qualidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, para afastar a autuação relativa à CSLL no caso de país com tratado. Vencidos os Conselheiros Luis Fabiano, Luis Toselli, Rafael Gasparello e Gisele Bossa, que davam parcial provimento ao Recurso Voluntário, em maior extensão, para também afastar as autuações relativas ao ágio da Arcelor e à glosa das variações e dos juros cambiais passivos, mantendo as demais autuações. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício. A Conselheira Gisele Bossa acompanhou o Relator, no que tange à CSLL, pelas conclusões.
(documento assinado digitalmente)
Roberto Caparroz de Almeida Relator e Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Rafael Gasparello Lima e Gisele Barra Bossa.
Nome do relator: ROBERTO CAPARROZ DE ALMEIDA
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2006, 2007 DECADÊNCIA. FORMAÇÃO DE ÁGIO EM PERÍODOS ANTERIORES AO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA. Pode a fiscalização verificar documentos e analisar fatos ocorridos há mais de cinco anos para deles extrair a repercussão tributária de exercícios futuros. A vedação contida no Código Tributário Nacional impossibilita apenas o lançamento de crédito tributário relativo a período já fulminado pela decadência. DECADÊNCIA. PAGAMENTO DE ESTIMATIVAS. INOCORRÊNCIA. As antecipações feitas a título de estimativas não correspondem ao conceito de pagamento antecipado veiculado pelo CTN e, nesse sentido, não extinguem o crédito tributário, que sequer foi apurado, o que só ocorrerá ao final dos exercícios, pois os balanços ou balancetes de suspensão não caracterizam o momento de ocorrência do fato gerador dos tributos e, portanto, não representam o dies a quo para a contagem do prazo decadencial. ÁGIO CONSTITUÍDO ENTRE PARTES RELACIONADAS, SEM FUNDAMENTO ECONÔMICO. GLOSA. As operações entre partes relacionadas devem ser testadas sob o princípio do arm´s length, de tal sorte que os preços e as demais condições da aquisição sejam compatíveis com aqueles que seriam normalmente utilizados no mercado, a partir de princípios econômicos como a livre concorrência e a livre manifestação da vontade. A ausência de fundamento econômico na operação enseja a glosa dos valores artificialmente constituídos. INCORPORAÇÃO DE EMPRESA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. NECESSIDADE DE PROPÓSITO NEGOCIAL. UTILIZAÇÃO DE EMPRESA VEÍCULO. Não produz o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo a incorporação de pessoa jurídica, em cujo patrimônio constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, sem qualquer finalidade negocial ou societária. Nestes casos, resta caracterizada a utilização da incorporada como mera empresa veículo para transferência do ágio à incorporadora. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. DECORRÊNCIA. Tratando-se de tributação reflexa decorrente de irregularidades apuradas no âmbito do Imposto sobre a Renda, constantes do mesmo processo, aplica-se à CSLL, por relação de causa e efeito, o mesmo fundamento do lançamento primário. VARIAÇÃO CAMBIAL PASSIVA. DESPESA COM JUROS. OPERAÇÕES DESPROVIDAS DE PROPÓSITO NEGOCIAL. DESNECESSIDADE. Mantém-se a glosa de Variação Cambial Passiva e Despesas com Juros decorrentes de empréstimos para compra de ações no país e de passivo relativo a compra de ações, emitidas por controlada brasileira, de empresa controladora estrangeira, quando caracterizado que não houve tais operações, posto que as ações foram compradas pela controladora estrangeira, tendo a empresa intermediária brasileira servido apenas para registrar estes dispêndios, para imediata transferência. TRATADOS INTERNACIONAIS PARA EVITAR A BITRIBUTAÇÃO. APLICABILIDADE À CSLL. Aplica-se à CSLL o disposto nos tratados para evitar a bitributação, sendo de rigor cancelar a autuação do tributo quando fundada exclusivamente na tese de inaplicabilidade, questão que foi resolvida com o advento da Lei n. 13.202/2015. NEGÓCIO JURÍDICO. ABUSO DE DIREITO. INOPONIBILIDADE. QUALIFICAÇÃO DA MULTA. IMPOSSIBILIDADE POR NÃO CARACTERIZAÇÃO DE FRAUDE. Negócio jurídico realizado mediante interpretação literal, sem a observância das regras tributárias, é abusivo e não pode ser oponível ao Fisco, sujeitando o infrator à multa de ofício de 75%. Descabe a qualificação da multa quando não caracterizado dolo específico ou fraude nos procedimentos.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 61; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2039; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S1C2T1 Fl. 2 1 1 S1C2T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS PRIMEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 16643.720041/201151 Recurso nº De Ofício e Voluntário Acórdão nº 1201001.872 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 19 de setembro de 2017 Matéria Auto de Infração Recorrentes ARCELORMITTAL BRASIL S.A. FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006, 2007 DECADÊNCIA. FORMAÇÃO DE ÁGIO EM PERÍODOS ANTERIORES AO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA. Pode a fiscalização verificar documentos e analisar fatos ocorridos há mais de cinco anos para deles extrair a repercussão tributária de exercícios futuros. A vedação contida no Código Tributário Nacional impossibilita apenas o lançamento de crédito tributário relativo a período já fulminado pela decadência. DECADÊNCIA. PAGAMENTO DE ESTIMATIVAS. INOCORRÊNCIA. As antecipações feitas a título de estimativas não correspondem ao conceito de pagamento antecipado veiculado pelo CTN e, nesse sentido, não extinguem o crédito tributário, que sequer foi apurado, o que só ocorrerá ao final dos exercícios, pois os balanços ou balancetes de suspensão não caracterizam o momento de ocorrência do fato gerador dos tributos e, portanto, não representam o dies a quo para a contagem do prazo decadencial. ÁGIO CONSTITUÍDO ENTRE PARTES RELACIONADAS, SEM FUNDAMENTO ECONÔMICO. GLOSA. As operações entre partes relacionadas devem ser testadas sob o princípio do arm´s length, de tal sorte que os preços e as demais condições da aquisição sejam compatíveis com aqueles que seriam normalmente utilizados no mercado, a partir de princípios econômicos como a livre concorrência e a livre manifestação da vontade. A ausência de fundamento econômico na operação enseja a glosa dos valores artificialmente constituídos. INCORPORAÇÃO DE EMPRESA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. NECESSIDADE DE PROPÓSITO NEGOCIAL. UTILIZAÇÃO DE EMPRESA VEÍCULO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 64 3. 72 00 41 /2 01 1- 51 Fl. 9976DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 3 2 Não produz o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo a incorporação de pessoa jurídica, em cujo patrimônio constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, sem qualquer finalidade negocial ou societária. Nestes casos, resta caracterizada a utilização da incorporada como mera empresa veículo para transferência do ágio à incorporadora. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. DECORRÊNCIA. Tratandose de tributação reflexa decorrente de irregularidades apuradas no âmbito do Imposto sobre a Renda, constantes do mesmo processo, aplicase à CSLL, por relação de causa e efeito, o mesmo fundamento do lançamento primário. VARIAÇÃO CAMBIAL PASSIVA. DESPESA COM JUROS. OPERAÇÕES DESPROVIDAS DE PROPÓSITO NEGOCIAL. DESNECESSIDADE. Mantémse a glosa de Variação Cambial Passiva e Despesas com Juros decorrentes de empréstimos para compra de ações no país e de passivo relativo a compra de ações, emitidas por controlada brasileira, de empresa controladora estrangeira, quando caracterizado que não houve tais operações, posto que as ações foram compradas pela controladora estrangeira, tendo a empresa intermediária brasileira servido apenas para registrar estes dispêndios, para imediata transferência. TRATADOS INTERNACIONAIS PARA EVITAR A BITRIBUTAÇÃO. APLICABILIDADE À CSLL. Aplicase à CSLL o disposto nos tratados para evitar a bitributação, sendo de rigor cancelar a autuação do tributo quando fundada exclusivamente na tese de inaplicabilidade, questão que foi resolvida com o advento da Lei n. 13.202/2015. NEGÓCIO JURÍDICO. ABUSO DE DIREITO. INOPONIBILIDADE. QUALIFICAÇÃO DA MULTA. IMPOSSIBILIDADE POR NÃO CARACTERIZAÇÃO DE FRAUDE. Negócio jurídico realizado mediante interpretação literal, sem a observância das regras tributárias, é abusivo e não pode ser oponível ao Fisco, sujeitando o infrator à multa de ofício de 75%. Descabe a qualificação da multa quando não caracterizado dolo específico ou fraude nos procedimentos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar as preliminares suscitadas e, no mérito, por qualidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, para afastar a autuação relativa à CSLL no caso de país com tratado. Vencidos os Conselheiros Luis Fabiano, Luis Toselli, Rafael Gasparello e Gisele Bossa, que davam parcial provimento ao Recurso Voluntário, em maior extensão, para também afastar as autuações relativas ao ágio da Arcelor e à glosa das variações e dos juros cambiais passivos, mantendo as demais autuações. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em negar Fl. 9977DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 4 3 provimento ao Recurso de Ofício. A Conselheira Gisele Bossa acompanhou o Relator, no que tange à CSLL, pelas conclusões. (documento assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida – Relator e Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Rafael Gasparello Lima e Gisele Barra Bossa. Relatório Tratase de Autos de Infração de IRPJ e CSLL lavrados contra a empresa em epígrafe, relativos a glosa com despesas de ágio e outras infrações, nos anoscalendário de 2006 e 2007, no total original de R$ 1.285.319.078,26. Como os fatos e a matéria jurídica foram bem relatados pela decisão de primeira instância, reproduzoa a seguir: Em decorrência de ação fiscal, a contribuinte acima identificada foi autuada em 10 de dezembro de 2011 (fl. 2.012), e intimada a recolher o crédito tributário constituído relativo ao IRPJ e à CSLL, multa proporcional qualificada (150%) e juros de mora, referentes a fatos geradores ocorridos nos dias 31 de dezembro dos anos 2006 e 2007. 2. Conforme descrito nos Autos de Infração e no Termo de Verificação de Verificação Fiscal (fls. 1.931 a 2.011), a contribuinte cometeu as seguintes infrações: 2.1. amortizou indevidamente ágios gerados, parte intragrupo e parte no exterior com interposição de empresa veículo; 2.2. deduziu indevidamente variação cambial e juros repassados por empresa veículo que foi incorporada; e 2.3. deixou de oferecer à tributação lucros auferidos por duas empresas controladas no exterior, uma na Costa Rica e outra na Argentina, sendo que os lucros auferidos por esta última foram apenas lançados de ofício na base de cálculo da CSLL. 3. Tendo em vista o apurado, foram lavrados, conforme preceitua o artigo 9º do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, os seguintes Autos de Infração: Fl. 9978DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 5 4 3.1. IRPJ (fls. 1.906 a 1.919) com base nos artigos 25, §§ 2º e 3º, da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, 16 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, 247, 249, 251, 299 e 394 do Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999 (Regulamento do Imposto de Renda – RIR/1999), 3º da Lei nº 9.959, de 27 de janeiro de 2000 e 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001, formalizando crédito tributário calculado até 30/11/2011 no montante de R$ 853.649.160,92; e 3.2. CSLL (fls. 1.924 a 1.928) com base nos artigos 2º da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, 1º da Lei nº 9.316, de 22 de novembro de 1996, 28 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996 e 37 da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, formalizando crédito tributário, calculado até 30/11/2011, no montante de R$ 431.669.917,34. 4. Sobre os lucros auferidos no exterior que deixaram de ser oferecidos à tributação foi aplicada multa de ofício de 75% com base no artigo 44, inciso I, da Lei 9.430/1996, com a redação dada pelo artigo 14 da Medida Provisória 351, de 22 de janeiro de 2007, convertida na Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007. Sobre as demais infrações foi aplicada a multa de ofício qualificada (150%) cuja base legal é o artigo 44, inciso II, da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996 (fatos geradores até 21/01/2007), e o mesmo artigo 44, inciso I e § 1º da mesma Lei 9.430/1996, com a redação dada pelo artigo 14 da Medida Provisória 351, de 22 de janeiro de 2007, convertida na Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007 (fatos geradores a partir de 22/01/2007). O enquadramento legal dos juros de mora equivalentes à taxa Selic são os artigos 6º, § 2º, e 28 da Lei nº 9.430/1996 (fls. 1.915, 1.922 e 1.923). 5. Irresignada com os lançamentos, em 09 de janeiro de 2012, a autuada apresentou, representada por mandatários (fls. 2.119 e 2.122 a 2.142), a impugnação de fls. 2.016 a 2.119, instruída com os documentos de fls. 2.120 a 2.799, na qual alega, em síntese, o seguinte: 5.1. a impugnação é tempestiva, pois, como foi cientificada dos lançamentos em 10 de dezembro de 2011 (sábado), o prazo legal de 30 dias (artigo 15 do Decreto nº 70.235/1972) para impugnar encerrouse em 10 de janeiro de 2012; 5.2. em 10 de dezembro de 2011, conforme regra de decadência dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação (artigo 150, § 4º, do CTN), como é o caso do IRPJ e da CSLL, e jurisprudência administrativa reproduzida, já estava decaído o direito de a Fazenda questionar o montante dos ágios decorrentes de aquisição e reestruturação da Mendes Júnior Siderurgia, atual impugnante, ocorridas entre 2003 e 2004; 5.3. na hipótese de não ser reconhecida a decadência, conforme exposto no subitem anterior, deve ser reconhecida, ainda nos termos do artigo 150, § 4º, do CTN, a decadência do direito à glosa das despesas de amortização incorridas entre janeiro e novembro de 2006, já que a impugnante, de acordo com a DIPJ Fl. 9979DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 6 5 referente a este anocalendário (fls. 2.147 a 2.158), optou pelo lucro real anual e pagou as estimativas com base em balanço de suspensão/redução (artigo 35 da Lei nº 8.981/1995), o que fez com que a apuração do IRPJ e da CSLL ocorresse mensalmente e não apenas em 31 de dezembro do anocalendário como acontece na apuração do lucro real anual com antecipações calculadas com base nas estimativas mensais, entendimento corroborado em julgados do antigo Primeiro Conselho de Contribuintes; 5.4. para a adequada compreensão dos fatos que ensejaram a lavratura da presente autuação, passa a expor as operações que deram ensejo ao registro dos ágios glosados, já que a narrativa da autoridade fiscal contém distorções e imprecisões, possivelmente decorrentes de análise parcial dos negócios jurídicos praticados e de juízos de valor inadequados; 5.5. no contexto de gravíssima crise financeira sofrida pelo Grupo Mendes Junior a partir da década de 1990, devido ao não recebimento dos pagamentos relativos à construção da Companhia Hidrelétrica de São Francisco e a obras de infraestrutura no Iraque, que provocou a decretação de sua falência por diversas vezes, conforme reportagem de fls. 2.160 a 2.162, surgiu em 1995, para salvar a empresa e impedir a extinção de milhares de empregos, a proposta de arrendamento da usina de Juiz de Fora, detida pela Mendes Junior Siderurgia S/A (MJS), atual impugnante, à Cia. Siderúrgica BelgoMineira (CSBM); 5.6. assim, foram assinados dois contratos em 28 de junho de 1995: o primeiro previa o arrendamento da planta da Usina Mendes Junior ao Grupo Belgo (fls. 2.164 a 2.270) e o segundo previa a possibilidade de exercício de opção de compra das ações da Usina Mendes Junior pelo Grupo Belgo, que, caso exercesse esta opção, se comprometeu a equacionar as dívidas da sociedade, nos termos do parágrafo único da cláusula terceira (fls. 2.272 a 2.321); 5.7. para arrendar e operar a usina de Juiz de Fora, a Belgo constituiu a Belgo Mineira Participação, Indústria e Comércio S/A (BMP), que adquiriu papel relevante nas atividades do Grupo Belgo: um terço da produção total de aços longos e a construção de 23 centros de distribuição e depósitos; 5.8. devido à importância estratégica da planta de Juiz de Fora e à obrigação contratual de saneamento das dívidas da MJS na hipótese de exercício da opção de compra de suas ações, o grupo Belgo adquiriu, a partir de 1995, mais de R$ 6 bilhões em créditos vencidos contra a MJS com o objetivo de proteger as atividades desta planta e viabilizar sua potencial e futura aquisição (documento de fl. 2.323); 5.9. neste contexto, a aquisição dos ativos do Grupo Mendes Junior pelo Grupo Belgo envolveu duas etapas: a primeira com a aquisição de 99,02% da MJS (que passou a se denominar BMP Siderurgia S/A – BMPS) pela BMP, em março de 2003, mediante Fl. 9980DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 7 6 subscrição de novas ações no montante de R$ 49.973.126,00 e aquisição de ações no mercado secundário por R$ 235.810,17, perfazendo o custo total de R$ 50.208.936,17, registrado totalmente como ágio, já que o patrimônio líquido da MJS estava negativo em aproximadamente R$ 5,6 bilhões em 01 de março de 2003; 5.10. a segunda etapa ocorreu com a reestruturação da dívida de R$ 6 bilhões da antiga MJS (agora BMPS), com a aquisição pela BMP contra a BMPS destes créditos, que em parte foram utilizados para saldar as dívidas da BMPS com o Grupo Mendes Junior, sendo o restante, exceto alguns créditos, baixado contra a conta de sócios pela BMPS, conforme ata de 01/06/2003; 5.11. devido à segunda etapa, o custo de aquisição dos créditos baixados à conta de sócios pela BMPS foi agregado ao custo do investimento na BMPS registrado pela BMP e, já que o patrimônio líquido da BMPS estava negativo em aproximadamente R$ 5,6 bilhões nessa data, a totalidade do custo dos créditos foi registrada como ágio em investimentos nas demonstrações da BMP; 5.12. dentre os créditos que remanesceram no ativo da BMP contra a BMPS, verificavase saldo de R$ 1,4 bilhão, composto inclusive por contas a receber do BNDES contra a MJS (depois BMPS), garantido por hipoteca do imóvel da planta de Juiz de Fora; 5.13. segundo o laudo de avaliação elaborado pela empresa APSIS – Consultoria Empresarial para determinação da expectativa de rentabilidade futura da MJS, o saneamento financeiro da empresa foi necessário à obtenção de retorno do investimento realizado pelos acionistas, conforme trecho transcrito à fl. 30 do Termo de Verificação; 5.14. apesar de a BMP ter deixado de ter relevância operacional e estratégica, já que a BMPS passou a concentrar a produção de produtos para construção civil do Grupo Belgo, a BMP não poderia ser totalmente incorporada pela BMPS, já que era detentora de crédito gravado com a hipoteca de 3º grau da planta de Juiz de Fora, o que impedia o Banco do Brasil, detentor de hipotecas de 4º e 5º graus (fls. 2326 a 2412), ter prioridade na execução de suas hipotecas; 5.15. diante da situação descrita no subitem anterior, foram transferidos os ativos ligados à produção industrial, inclusive centros de distribuição, no total de R$ 158,682 milhões, pela BMP à BMPS, sendo capitalizados o “contas a receber” registrado pela BMP contra a BMPS, bem como outros créditos detidos pela BMP contra a BMPS e um imóvel, conforme Assembléia da BMPS de 01/06/2003 (fl. 209), que aprovou o aumento total de capital no valor de R$ 368.878.286,00 integralmente registrado como ágio em conta de investimento nas demonstrações financeiras da BMP, já que o patrimônio líquido da BMPS em 01/06/2003 continuava negativo; Fl. 9981DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 8 7 5.16. após, em 30/06/2003, conforme Assembléia da BMPS (fls. 229 a 233), no processo de concentração na BMPS das atividades voltadas à construção civil, a CSBM transferiu à BMPS todas as usinas minimill, mediante aumento de capital, sendo que, no mesmo ato, são também capitalizados créditos perfazendo o total de R$ 1.109.578.884,00 (R$ 714.583.894,53 destinados a formação do capital social e R$ 394.994.989,47 destinados à conta de reserva de capital, a título de ágio na subscrição – fl. 246); 5.17. com o objetivo de concentrar na BMP a totalidade da participação societária detida na BMPS, a participação societária detida pela CSBM na BMPS foi alienada à BMP, que, diante do fato de o patrimônio líquido da BMPS ser R$ 175.800.886,17 neste momento, fez com que o preço de aquisição de R$ 1.109.578.875,00 ter sido desdobrado entre valor de patrimônio líquido (R$ 127.342.582,00) e ágio (R$ 1.054.099.939,80 – item 3 de fl. 2.034); 5.18. em 01/01/2004, houve cisão parcial da BMP com a avaliação do acervo líquido a valor contábil pela BMPS (fls. 259 a 298), tendo a BMP somente sido extinta após o final de 2005, ocasião em que foi solucionada a pendência relacionada à já citada hipoteca; 5.19. as operações descritas nos subitens anteriores foram apresentadas como “Fatos Relevantes” divulgados ao mercado em 30/05/2003 e 30/06/2003, transcritos às fls. 2034 a 2036 da impugnação; 5.20. paralelamente às operações descritas acima, ocorreu a estruturação do Grupo Arcelor no Brasil (constituído das empresas CSBM, Cia Siderúrgica Tubarão – CST, Acesita S.A e Vega do Sul S.A), que é resultado da fusão em 2002 no exterior de três grupos econômicos: Usinor (França), Arbed (Luxemburgo) e Aceralia (Espanha); 5.21. a partir de então, têm início diversos estudos com o objetivo de otimizar e alavancar sinergias administrativas e operacionais entre as empresas agora pertencentes ao Grupo Arcelor que resultaram na decisão de simplificar a estrutura operacional e administrativa do Grupo, conforme consta do Fato Relevante divulgado ao mercado em 28/07/2005 (documento de fl. 2413 a 2425); 5.22. neste contexto é que foram realizadas a alteração da razão social da BMPS para Belgo Siderurgia S.A, a transferência das participações societárias detidas pelo Grupo Arcelor na CST e na Vega do Sul para a Belgo Siderurgia S.A, alteração da razão social da CSBM para Arcelor Brasil S.A e alteração da razão social da Belgo Siderurgia S.A para ArcelorMittal Brasil S.A, ora impugnante, já no contexto de formação do Grupo ArcelorMittal; 5.23. é infundada a afirmação da autoridade fiscal de que apenas montantes “pagos” em operações de compra e venda Fl. 9982DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 9 8 poderiam gerar o registro de ágio, pois a expressão “aquisição” contida no Decretolei nº 1.598/1977, base legal do artigo 385 do RIR/1999, não restringe sua aplicação à compra e venda (que é apenas uma dentre várias espécies de atos jurídicos que permitem “aquisição” de investimento) e não há controvérsia na doutrina e na jurisprudência de que aquisição consiste em qualquer forma traslativa de propriedade e domínio, sendo integralização de capital uma forma de transferir a propriedade; 5.24. “a conferência de bens em integralização de capital é uma forma de aquisição, e há o respectivo pagamento de preço, consistente na entrega de ações da empresa cujo capital foi integralizado e subscrito com ativos, no caso a Impugnante”; 5.25. desta forma, a subscritora BMP não apenas poderia, mas tinha o dever legal de desdobrar o custo de aquisição na Impugnante entre valor patrimonial e ágio, como determina o artigo 385 do RIR/1999, e entendem decisões do CARF que expressamente reconhecem que a subscrição de capital é forma de aquisição, sujeita ao desdobramento de ágio ou deságio; 5.26. o argumento da fiscalização, em relação à parcela do ágio gerada em razão de subscrição de capital, de que “o conceito de ágio como preço de aquisição não se confunde com o ágio pago na subscrição de ações” foi afastado pela 5ª Câmara do antigo 1º Conselho de Contribuintes, conforme trecho do acórdão transcrito; 5.27. não só o primeiro aumento de capital, realizado quando a BMP não detinha qualquer participação acionária na MJS, mas também os ocorridos posteriormente, consistiram em aquisições aptas a gerar o registro de ágio, caso o custo de aquisição (valor do aumento de capital) supere o valor de patrimônio líquido da investida; 5.28. além disto, é inegável que a BMP despendeu recursos financeiros para adquirir e reestruturar a MJS e a decisão de adquirir a quase totalidade dos créditos contra a MJS teve razão negocial, pois possibilitou reverter a tentativa do Grupo Mendes Junior de rejeitar a proposta de aquisição da planta de Juiz de Fora; 5.29. conforme se verifica nos laudos de avaliação acostados aos documentos societários que dão suporte às operações relacionadas à aquisição e reestruturação da MJS, todos os bens conferidos ao capital social da MJS foram avaliados pelo mesmo valor que anteriormente adquiridos de terceiros (documentos de fl. 242), não tendo havido qualquer reavaliação ou transação realizada a valor de mercado, mas apenas registro como ágio da totalidade dos aportes de capital realizados devido ao patrimônio líquido da MJS ser negativo em mais de R$ 5,6 bilhões à época de sua aquisição pela BMP; 5.30. já que, exceto em hipóteses extremamente específicas, a responsabilidade dos sócios é limitada ao patrimônio da sociedade investida, os princípios contábeis vigentes à época Fl. 9983DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 10 9 determinavam que, na hipótese de a investida apresentar patrimônio líquido negativo, o valor de patrimônio líquido deveria ser registrado como zero, o que resulta em que o custo pago seja integralmente registrado como ágio, por força do artigo 385 do RIR/1999, que determina que o custo de aquisição seja desdobrado entre valor de patrimônio líquido e ágio ou deságio, conforme doutrina e jurisprudência administrativas reproduzidas; 5.31. desta forma, são inteiramente inaplicáveis os argumentos da autoridade fiscal no tocante à impossibilidade de registro de “ágio interno”, já que esta figura não existiu no presente caso, além do que há imprecisão técnica cometida pela fiscalização, pois, ainda que ágio interno houvesse, as Instruções CVM 319/99 e 349/01 teriam que ser observadas nas operações ora questionadas, já que não dizem respeito a tratamento de ágio, interno ou não interno, como entende o auditor fiscal, mas sim à ampla regulamentação de operações de incorporação, cisão e fusão envolvendo companhia aberta; 5.32. é indiscutível que subscrição de capital em bens é evento necessário e suficiente ao registro de ágio por configurar, seja juridicamente, seja economicamente, forma de aquisição de participação societária, conforme consolidado na jurisprudência administrativa; 5.33. o laudo de avaliação, considerado subjetivo pela fiscalização, foi elaborado em atendimento ao disposto no § 3º do artigo 385 do RIR/1999 e em observância ao disposto no anexo III, item III da Instrução CVM nº 361, não tendo havido nenhum acordo prévio entre a administração da BMP e a empresa de avaliação, e foi elaborado, tendo em vista que a legislação tributária não dispõe acerca do método que deverá ser adotado, com base no método de fluxo de caixa descontado, método largamente utilizado (mais de 90%) e considerado o mais apropriado para avaliar o valor de mercado de empresas, inclusive tendo sido aceito em decisão transcrita do CARF; 5.34. a afirmação fiscal de que “se conclui que com a reestruturação ou sem ela, a diferença seria nos encargos administrativos e de eficiência administrativa e nunca por força da mais valia do investimento” (fl. 1953) demonstra desconhecimento da matéria tratada, visto que não há como segregar “mais valia do investimento” dos ganhos decorrentes de “encargos administrativos e de eficiência financeira”; 5.35. é absurda a alegação da fiscalização de que as despesas de ágio não poderiam ter sido amortizadas por não atenderem ao disposto no artigo 299 do RIR/1999 e por estarem em desacordo com a sistemática de depreciação de bens do ativo permanente, pois o artigo 299 é regra geral aplicável tão somente às situações em que não haja regime jurídicotributário específico, que no caso existe (artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997), e a sistemática de depreciação se refere a bens do ativo permanente, Fl. 9984DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 11 10 não sendo aplicável a bens do ativo diferido ou intangível, que se sujeitam ao regime de amortização; 5.36. a autoridade fiscal se limita a mencionar, de forma aleatória e sem apontar os fatos, a suposta ausência de propósito negocial; 5.37. apesar de o Poder Legislativo ter optado por não converter em lei os artigos 13 a 19 da Medida Provisória 66/2002, que regulamentava o parágrafo único do artigo 116 do CTN (norma geral antielisão de eficácia limitada), sendo pacífica hoje a ineficácia do referido parágrafo único, as autoridades fiscais vem trabalhando para ver juridicizados princípios assemelhados aos contidos na citada Medida Provisória, o que cria decisões inconstantes e baseadas em teorias distintas sem uniformidade de fundamentos jurídicos utilizados e leva a um cenário de insegurança jurídica, como a exigência de propósito negocial e a idéia de inoponibilidade dos negócios jurídicos ao fiscal, ambas sem base legal; 5.38. todos os atos jurídicos praticados são lícitos e legais, obedeceram as formalidades legais e foram registrados perante os órgãos competentes, o que lhes conferiu publicidade, sendo impossível sua desconsideração para quaisquer fins; 5.39. houve propósito negocial nas transações questionadas que foram realizadas no contexto da já explicada proposta de reestruturação e saneamento financeiro da MJS, firmada entre o Grupo Belgo e o Grupo Mendes Junior, inclusive com interveniência do Governo de Minas Gerais preocupado com as conseqüências econômicosociais, na tentativa de evitar a falência da MJS em razão da gravíssima crise financeira do Grupo Mendes Junior, contexto negocial este comprovado por contratos, escrituras, notícias de jornal, fatos relevantes divulgados ao mercado e notas explicativas das demonstrações financeiras do Grupo Belgo; 5.40. os ativos conferidos à BMPS no curso da operação questionada remanescem em sua titularidade até os dias atuais e são parte fundamental de sua atividade operacional, o que torna ainda mais evidente o intuito negocial das transações realizadas; 5.41. igualmente as incorporações posteriores às transferências de ativos operacionais à BMPS e inseridas no contexto de formação do Grupo Arcelor objetivaram reduzir custos administrativos, enxugar estruturas duplicadas e maximizar sinergias para obter ganhos de escala; 5.42. a Oferta Pública de Ações (OPA), ocorrida em 2007, que deu origem ao outro ágio glosado pela fiscalização e que foi realizada pela Mittal Steel Brasil Participações S.A (Mittal BR) para aquisição das ações da Arcelor Brasil (antiga Belgo) tem sua origem na fusão entre o Grupo Arcelor e o Grupo Mittal no exterior, que formou o Grupo ArcelorMittal um dos maiores grupos de siderurgia do mundo, conforme documento de fls. 2437 a 2460; Fl. 9985DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 12 11 5.43. no início de 2006 e alguns meses depois, o Grupo Mittal, por meio de empresa sediada na Holanda, Mittal Steel Company N.V. (Mittal N.V.), realizou duas ofertas públicas hostis (efetuadas sem prévia consulta e aprovação da administração do Grupo Arcelor) de aquisição das ações de emissão da Arcelor S.A, que foram rejeitadas em 30/01/2006 e 12/06/2006, conforme divulgado pela imprensa mundial (notícias de fls. 2462 a 2471); 5.44. após intensas negociações e aumento do preço pelas ações da Arcelor S.A, em 25/06/2006 a oferta do Grupo Mittal foi recomendada pela administração do Grupo Arcelor aos acionistas, tendo sido firmado um Memorando de Entendimentos (MOU – documento de fls. 2473 a 2516) que previu a intenção de realizar fusão entre os dois grupos mediante aquisição das ações da Arcelor pela Mittal e incorporação da Mittal Steel pela Arcelor; 5.45. como o MOU previa uma fusão entre iguais, acreditavase que a transação não resultaria em alienação do controle da Arcelor Brasil, ensejadora de oferta pública de aquisição das ações com direito a voto de propriedade dos demais acionistas, prevista no artigo 245A da Lei das S.As (documentos de fls. 2518 a 2520), já que todos os acionistas da Arcelor S.A passariam a deter participação acionária na Mittal N.V., de modo que nenhum acionista passaria a deter mais de 50% de participação acionária na Arcelor S.A; 5.46. contudo, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), diante de previsão específica do Estatuto Social da Arcelor Brasil S.A e após discussão da questão com a Mittal N.V. que defendeu a desnecessidade de realização de OPA por não haver alteração no controle acionário, decidiu em 25/09/2006 (fls. 2530 a 2557) que deveria ser lançada uma OPA em relação às ações da Arcelor Brasil, tendo em vista que a formação do Grupo ArcelorMittal teria implicado alienação do respectivo controle indireto da Arcelor Brasil; 5.47. em 28/04/2007 foi publicado o Edital da OPA determinada pela CVM (documentos de fls. 2559 a 2569), que, em razão do desconforto e desgaste gerado por todo o processo de discussão com a CVM, seria cumulada com OPA para cancelamento do registro de companhia aberta da Arcelor Brasil, por decisão da administração da Mittal N.V.; 5.48. à exceção de que a Mittal N.V. seria extinta assim que possível conforme registrado no MOU, à época do protocolo dos documentos da OPA perante a CVM, o cronograma e a própria estrutura do processo de incorporação no exterior estavam indefinidos, o que somente se alterou em 02/05/2007 quando a diretoria da Mittal N.V. decidiu (documento de fls. 2571 a 2581) que a incorporação seria em duas etapas: a primeira com a incorporação da Mittal N.V por uma sociedade domiciliada em Luxemburgo denominada ArcelorMittal (o que ocorreu em 03/09/2007) e a segunda com a incorporação da ArcelorMittal pela Arcelor S.A, que foi concluída em 13/11/2007; Fl. 9986DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 13 12 5.49. devido à indefinição no exterior, especialmente no tocante à data em que a Mittal N.V. seria extinta por incorporação e para evitar novas discussões e explicações para a CVM e procedimentos burocráticos, custosos e complexos perante outros órgãos envolvidos (Bolsa de Valores e Banco Central do Brasil), além de evitar interferir nos eventos em andamento no solo europeu, no Brasil decidiuse limitar a opção pela remuneração mista (parte em dinheiro e parte em ações da Mittal N.V. nos mesmos moldes da oferta realizada no exterior), determinada pela CVM, até a data do leilão (04/06/2007), conforme item 5.4. do Edital da OPA, de modo que os acionistas que optassem por alienar suas ações no período de três meses após a data do leilão (05/06/2007 a 04/09/2007) apenas teriam a opção de receber o preço integralmente em dinheiro e que a OPA das ações da Arcelor Brasil seria realizada por subsidiária do Grupo Mittal constituída para tal finalidade: Mittal BR; 5.50. neste cenário, idealmente a OPA no Brasil deveria ser efetuada integralmente pela Mittal BR, o que somente não foi feito porque a participação recíproca entre Mittal BR e Mittal N.V. poderia não ser aceita pela legislação holandesa, sede da Mittal N.V., o que obrigou o Grupo Mittal a manter a participação da Mittal N.V. na OPA, que foi limitada somente à opção mista e até a data do leilão (04/06/2007); 5.51. os recursos da Mittal BR necessários para liquidação financeira da OPA foram em parte aportados ao seu capital pela Mittal N.V. e em parte emprestados pela Arcelor Investment S.A; 5.52. após a OPA, o Grupo ArcelorMittal decidiu extinguir a Mittal BR e, diante do sucesso da oferta e incorporação no exterior e visando a simplificação de sua estrutura societária e redução de seus custos administrativos, aprovou a incorporação da Arcelor Brasil (antiga holding do Grupo Arcelor) pela impugnante, então Belgo Siderurgia S.A, que teve sua razão social alterada para ArcelorMittal S.A, a incorporação da antiga Veja do Sul pela Companhia Siderúrgica de Tubarão – CST (junho de 2008), a cisão parcial desta com a incorporação de mais de 95% de seu acervo líquido pela impugnante (setembro de 2008), a incorporação da Belgopar Ltda., da Belgo Mineira Fomento Mercantil Ltda. e da Belgo Mineira Engenharia Ltda. pela impugnante (fevereiro de 2008) e a incorporação da já referida BMP pela impugnante (dezembro de 2008); 5.53. a autoridade fiscal sustenta que, não obstante a determinação da CVM, a OPA foi, de fato, lançada no exterior, o que faria com o direito de registro do ágio (legítimo no entender da fiscalização) fosse da Mittal N.V., tendo a empresa Mittal BR sido mera empresa veículo e que não teriam sido cumpridos os requisitos dos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, já que o ágio não poderia ter sido integralmente justificado com base em expectativa de rentabilidade futura da Arcelor Brasil e seria vedado o aproveitamento de ágio pela Arcelor Brasil gerado na aquisição de suas próprias ações; Fl. 9987DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 14 13 5.54. a fiscalização também afirma em relação à dedução de despesas de juros e variação cambial que se a Mittal N.V. tivesse adquirido diretamente as ações da Arcelor Brasil, o que não foi proibido, não existiria o empréstimo e nem haveria a necessidade de vender para a Mittal BR parte das ações adquiridas diretamente pela Mittal N.V.; 5.55. como a autoridade fiscal não coloca em dúvida a legalidade da OPA realizada no Brasil, reconhece a legitimidade do registro do ágio, questionando apenas sua amortização tributária, reconhece que a Mittal BR foi devidamente constituída (atos registrados e publicados), teve existência real (conforme documentos de fls. 2586 a 2595, teve diretoria eleita e participou da administração da Arcelor Brasil), movimentou os recursos financeiros destinados à OPA, foi parte adquirente das ações da Arcelor Brasil na OPA e foi regularmente extinta por incorporação, não há fundamento para qualificar os atos praticados como ilegais e desconsiderálos, ainda que apenas do ponto de vista tributário, conforme jurisprudência administrativa reproduzida; 5.56. na ausência de qualquer elemento que indique que as partes se furtaram aos efeitos jurídicos dos negócios praticados e que obedeceram todos os dispositivos legais aplicáveis, o lançamento da OPA pela Mittal BR não pode ser questionado, nem as autoridades fiscais podem supervenientemente modificar sua natureza para impor tributos; 5.57. no caso presente também não há descompasso entre a causa típica do negócio (elementos indispensáveis à inclusão do negócio em determinada categoria jurídica) e a respectiva causa objetiva (elementos que efetivamente pautaram a realização do negócio jurídico), nem houve a prática de atos posteriores que tenham infirmado a identidade entre as causas objetiva e típica, já que a causa objetiva da constituição da Mittal BR foi cumprir a decisão da CVM, reduzir a participação da Mittal N.V. ao mínimo possível tendo em vista a reorganização em andamento na Europa, assegurar o sucesso da OPA e o fechamento de capital da Arcelor Brasil (evento então incerto, já que muitos acionistas poderiam desejar alienar suas ações após a data do leilão, como de fato ocorreu), além de simplificar a operacionalização e realização da OPA, pois a realização desta diretamente do exterior tornaria o processo mais custoso, difícil e demorado (a remessa de recursos do exterior nem sempre é imediata) devido aos procedimentos de câmbio relacionados à internalização dos recursos para aquisição das ações, cujo preço somente é sabido na data do leilão, o que, por exemplo, poderia ofender o Manual de Procedimentos Operacionais da Bovespa, que prevê o prazo de três dias úteis da data do leilão para a liquidação financeira de operações realizadas em seu recinto e o próprio edital da OPA, que em seu item 4.2. prevê o prazo de três dias úteis para a opção de pagamento em dinheiro; 5.58. além disto, a entrada de recursos diretamente do exterior para aquisição de ações da OPA, seria feita inicialmente de Fl. 9988DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 15 14 acordo com o regime da Resolução do Banco Central número 2.689, que seria migrado posteriormente para o Regime de Investimento Externo Direto, procedimento burocrático e custoso, já que os bancos comerciais que efetuam esta migração cobram por este serviço; 5.59. o receio quanto a possíveis atrasos e óbices derivados das normas regulatórias foi inclusive retratado no item 4.5 do Edital (ressalva de que a liquidação de parte do preço mediante entrega de ações de emissão da Mittal N.V. poderia restar inviabilizada caso não se obtivesse os registros junto ao Banco Central do Brasil), o que, juntamente com os demais fatores descritos, faz com que não somente no caso presente, mas também em outros semelhantes, conforme Editais de Convocação de outras OPAs (fls. 2597 a 2685), se opta pelo lançamento de OPA via pessoa jurídica constituída no Brasil; 5.60. conforme trecho de palestra transcrita de importante conselheiro fazendário, o recurso a estruturas comumente utilizadas para realização de determinado negócio jurídico impede sua descaracterização pelas autoridades fiscais; 5.61. conforme jurisprudência administrativa e doutrina reproduzidas, a rubrica “propósito negocial” não serve para justificar a desconsideração de negócios jurídicos lícitos efetivamente praticados pelos contribuintes, sendo desnecessária a presença de motivação extratributária, sob pena de ofensa ao artigo 142 do CTN, que prevê fundamento legal claro e objetivo para o lançamento tributário, e prática de posturas arbitrárias e parciais por parte das autoridades fiscais que condenam todo e qualquer negócio jurídico que não implique a incidência da máxima carga tributária possível; 5.62. assim, existindo duas alternativas possíveis, a autoridade fiscal não pode dizer que a Mittal N.V. deveria obrigatoriamente escolher a que fosse mais onerosa do ponto de vista tributário no Brasil, além de implicar os transtornos operacionais e negociais já mencionados, sob o argumento de que a OPA, na verdade, teria ocorrido no exterior e que a constituição da Mittal BR apenas visou internalizar o ágio; 5.63. vantagens tributárias eventualmente advindas de determinado negócio não excluem automaticamente a existência de outras razões para a realização do negócio jurídico, nem o conceito de motivação extratributária não pode servir como escudo para a manipulação subjetivista para aumentar a arrecadação tributária, posturas que tem sido repudiadas pela jurisprudência administrativa, conforme votos reproduzidos; 5.64. a constituição da Mittal BR para realização da OPA no Brasil não teve apenas motivação tributária, mas também extratributária a saber: atender a exigência da CVM de maneira mais comum e usual no mercado e sem dificultar ou impedir a incorporação da Mittal N.V. pela Arcelor S.A, premissa negocial da formação do Grupo ArcelorMittal e compromisso assumido Fl. 9989DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 16 15 no MOU em 25/06/2006 perante todos os acionistas minoritários da Arcelor S.A ao redor do mundo; 5.65. de acordo com jurisprudência administrativa reproduzida, o simples fato de interposição de sociedade, a chamada “empresa veículo”, não é suficiente para descaracterizar as operações praticadas, sendo necessário analisar todo o contexto fático que ensejou o negócio jurídico questionado, sendo que no presente caso houve razões que justificam a constituição da sociedade para atendimento de um propósito específico: a realização da OPA imposta pela CVM mediante a adoção de forma que evitasse prejuízos ao grupo especialmente em relação ao possível atraso na incorporação da Mittal N.V. pela Arcelor S.A, definida no MOU de 25/06/2006; 5.66. conforme artigo 385, caput e § 2º do RIR/1999, não há critério legal para justificar o desdobramento e a justificativa do ágio, devendo o contribuinte tão somente eleger e indicar o fundamento econômico que motivou o registro do ágio, baseado em estudo que deverá ser arquivado, o que foi atendido pela Mittal BR que, ao adquirir as ações da Arcelor Brasil, se valeu de laudo de avaliação elaborado pela empresa de consultoria APSIS – Consultoria Empresarial (cópia às fls. 466 a 469), cujo conteúdo não foi questionado pela autoridade fiscal e que demonstra que o ágio em questão decorreu unicamente da expectativa de rentabilidade futura da Arcelor Brasil; 5.67. como a fiscalização não demonstrou que o estudo econômico que aponta a expectativa de rentabilidade futura como justificativa econômica para pagamento do ágio não pode prevalecer, suas alegações não merecem guarida; 5.68. o entendimento da autoridade fiscal no sentido de que a Arcelor Brasil e a impugnante, como sua sucessora, não poderia amortizar o ágio pago pela Mittal BR em sua aquisição é verdadeira interpretação contra legem, no caso o artigo 8º da Lei nº 9.532/1997, que prevê expressamente que a despesa de amortização de ágio seja reconhecida pela própria pessoa jurídica cuja aquisição deu razão ao registro do ágio nos livros da empresa adquirente; 5.69. as despesas de juros e variação cambial associadas ao financiamento tomado pela Mittal BR, sucedida pela Arcelor Brasil e pela impugnante, foram imprescindíveis para possibilitar o lançamento da OPA (imposta pela CVM) pela Mittal BR, operação que foi legal e necessária, conforme já explicado; 5.70. quanto aos requisitos impostos pela regra geral de dedutibilidade de despesas, contida no artigo 299 do RIR/1999, jurisprudência administrativa reproduzida é pacífica no sentido de que, se o empréstimo é efetivo, não existe impedimento à dedução dos respectivos juros, ainda que o empréstimo seja entre empresas vinculadas; Fl. 9990DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 17 16 5.71. no presente caso, não há qualquer questionamento sobre a existência do mútuo ou sobre ter sido pactuado em condições de mercado; 5.72. em razão da OPA, a Arcelor Brasil deixou de ter acionistas minoritários e de ter que pagar dividendo mínimo, fato que melhorou o fluxo de caixa da companhia, que posteriormente foi incorporada pela impugnante, o que acabou maximizando as sinergias do grupo ArcelorMittal no Brasil devido à redução do número de entidades operacionais e, conseqüentemente, dos custos administrativos; 5.73. a autoridade fiscal alega que o empréstimo teria sido firmado apenas para gerar despesas no Brasil com ágio, juros e variação cambial, deixando de mencionar que o empréstimo, por força de recuperação da moeda nacional frente ao dólar, gerou despesas de variação cambial somente até agosto de 2007 e, conforme a planilha de fls. 2687, gerou resultados positivos de variação cambial de mais de R$ 863 milhões em 2007; 5.74. em 2007, o resultado positivo líquido de variação cambial, já considerando a integral absorção das despesas glosadas na presente autuação, é de R$ 495 milhões, o que revela a improcedência da autuação já que a impugnante estava submetida ao regime de competência para tributação da variação cambial em 2007; 5.75. de acordo com os documentos de fls. 2689 a 2700, em 2007 a Mittal BR e a Arcelor Brasil S.A optaram pela tributação dos efeitos da variação cambial pelo regime de caixa, enquanto a então Belgo Siderurgia S.A optou pela tributação das variações cambiais com base no regime de competência; 5.76. como por ocasião da incorporação da Mittal BR pela Arcelor Brasil não houve alteração no regime de tributação das variações cambiais, o saldo diferido a excluir de R$ 359.501 mil, anteriormente adicionado pela Mittal BR foi transferido para a parte B do Lalur da Arcelor Brasil e, juntamente com o saldo a adicionar reconhecido pela Arcelor Brasil, foi realizado por ocasião da incorporação da Arcelor Brasil pela impugnante devido a alteração no regime de tributação das variações cambiais de caixa para competência; 5.77. o fato de a impugnante, como sucessora da Mittal BR, ter se submetido integralmente aos efeitos do empréstimo questionado, inclusive reconhecendo os resultados positivos da variação cambial por ele gerados, reforça e reitera sua usualidade e efetividade; 5.78. o Tratado para Evitar a Dupla Tributação firmado entre o Brasil e a Argentina é aplicável também à CSLL, pois este tributo foi instituído pela Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, mais de oito anos depois da data da assinatura do tratado, ocorrida em 17 de maio de 1980 (Decreto nº 74, de 1981), e seis anos após sua promulgação pelo Congresso Nacional (Decreto nº 87.976, de 22 de dezembro de 1982) e seu artigo 2º, § 2º, diz Fl. 9991DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 18 17 que a presente convenção se aplicará também a quaisquer impostos idênticos ou substancialmente semelhantes que forem posteriormente introduzidos, seja em adição aos existentes, seja em sua substituição, sendo indiscutível que a CSLL tem natureza material idêntica ao IRPJ (ambos incidem sobre o lucro tributável da pessoa jurídica), diferindo apenas quanto a sua espécie (contribuição e imposto, respectivamente) e, conseqüentemente, a destinação do produto de sua arrecadação; 5.79. em caso semelhante conforme ementa citada, o Primeiro Conselho de Contribuintes, ao analisar a tributação de lucros auferidos na Espanha através de controlada de pessoa jurídica domiciliada no Brasil, reconheceu que a CSLL está incluída no âmbito de aplicação dos tratados firmados antes de sua instituição; 5.80. há erro no auto de infração quanto aos lucros auferidos no exterior, pois apesar da impugnante deter em 31/12/2006 e 31/12/2007 respectivamente 65,84% e 65,21% de participação na Acindar (documentos de fls. 2702 a 2784), a autoridade fiscal, de acordo com a planilha da fl. 75 do Termo de Verificação Fiscal (TVF), simplesmente transpôs o total do lucro auferido no exterior para o auto de infração de CSLL, sem aplicar o percentual de participação no capital social, o que descumpre o disposto no § 4º do artigo 1º da Instrução Normativa nº 213/2002; 5.81. a autoridade fiscal, apesar de reconhecer expressamente na fl. 77 do TVF que é possível a compensação do imposto de renda pago no exterior com o imposto de renda devido no Brasil, nos termos do artigo 15 da Instrução Normativa nº 213/2002, deixou de considerar os recolhimentos do Impuesto a las Ganâncias (documento de fls. 2786 a 2791) efetuados em 31/12/2006 e 31/12/2007, cujos montantes, após a aplicação dos percentuais de participação então detidos, seriam suficientes para absorver toda a CSLL lançada; 5.82. em relação ao lucro auferido pela ArcelorMittal Costa Rica S/A, que não teria sido adicionado à base de cálculo do IRPJ e da CSLL no montante de R$ 2.615.530,64, a autoridade fiscal não observou que a impugnante também detém participação societária na Trefileria Colima S.A, igualmente domiciliada na Costa Rica, em relação à qual deveria ser oferecido à tributação no Brasil em 31/12/2007 o montante de R$ 6.971,53 (lucro tributável em 31/12/2007 de R$ 1.577.788,91 diminuído de prejuízos contábeis acumulados de R$ 1.563.846,00, conforme documento de fls. 2793 a 2794), que incorretamente foi adicionado no Brasil no valor de R$ 796.152,66, o que significou adição a maior de R$ 789.181,13, que deveria ser deduzido do montante lançado, por força do artigo 4º, § 5º, da Instrução Normativa SRF 213/2002, que prevê a consolidação dos resultados das subsidiárias domiciliadas no mesmo país; Fl. 9992DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 19 18 5.83. a impugnante ainda esclarece que em 05/01/2012 pagou o IRPJ e a CSLL incidentes sobre a base tributável de R$ 1.826.349,51 referente ao lucro auferido pela Arcelor Costa Rica S/A (R$ 2.615.530,64 lançada menos R$ 789.181,13 que deve ser deduzida), conforme DARF de fl. 2796 a 2799; 5.84. no presente caso não houve fraude ensejadora de qualificação da multa de ofício, entendendose fraude, de acordo com doutrina e jurisprudência reproduzidas, como conduta criminosa, instrumentalizada mediante adulteração das informações contidas nos livros e registros contábeis e fiscais, e não como simples fraude civil ou fraude à lei; 5.85. a qualificação da multa é descabida, pois os negócios jurídicos foram efetivamente praticados e produziram todos os respectivos efeitos jurídicos, tendo havido sintonia entre as causas típicas e objetivas, e os documentos que ampararam a sua realização obedeceram a todas as formalidades legais, tendo sido publicados em notas explicativas das demonstrações financeiras das sociedades envolvidas, em fatos relevantes divulgados ao mercado e registrados nos órgãos competentes; 5.86. a jurisprudência administrativa vem afastando a multa qualificada em diversas situações como, por exemplo, nos casos envolvendo negócios jurídicos simulados, contratados com o objetivo de tirar proveito de algum regime tributário mais benéfico pelo contribuinte; 5.87. no presente caso, não houve qualquer tentativa de esconder os atos praticados ou de alterar os documentos que comprovam sua realização, o que é demonstrado pelo fato de que a autoridade fiscal constrói toda sua argumentação com base nos documentos fornecidos pela própria impugnante, que haviam sido devidamente registrados e publicados; 5.88. não houve intenção de fraudar o Fisco, já que houve claro e inegável contexto negocial que ensejou os atos realizados; 5.89. como na época em que realizados os negócios sob discussão, era praticamente assente que a validade de uma operação e sua “oponibilidade” ao Fisco estavam condicionadas apenas ao uso das formas adequadas e da existência de objeto lícito, a alteração do critério jurídico adotado pelo Fisco não pode, conforme artigos 146 do CTN e 2º, inciso XIII, da Lei nº 9.784/1999, doutrina e jurisprudência reproduzidos, retroagir para atingir fatos geradores ocorridos anteriormente a sua introdução; 5.90. como a administração federal em diversas oportunidades indicou à impugnante qual foi o critério jurídico adotado, demonstrando sua concordância com os procedimentos realizados e o Conselho de Contribuintes, bem como a maior parte da doutrina, emitiu precedentes e entendimentos favoráveis, criouse a situação de conforto e segurança para que a impugnante realizasse a reestruturação societária discutida, que não pode, desta forma, somente agora, questionada e Fl. 9993DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 20 19 penalizada em razão de mudança de entendimento da fiscalização; 5.91. cabe afastar a multa punitiva e os acréscimos moratórios, em face do artigo 100 do CTN, já que até a época dos fatos ora discutidos a jurisprudência do extinto Conselho de Contribuintes se pautava pela corrente do negócio jurídico indireto na análise do rotulado “planejamento tributário”, o que levaria à manutenção da reestruturação societária; e 5.92. protesta pela juntada posterior de quaisquer documentos e que todas as intimações sejam encaminhadas ao endereço profissional de seu mandatário. Em sessão de 19 de dezembro de 2013 a 1a Turma da Delegacia de Julgamento de São Paulo, por maioria de votos, julgou parcialmente procedente a impugnação, para afastar a qualificação da multa, que foi reduzida para 75% em todos os lançamentos, assim como promoveu a redução parcial dos lucros auferidos na Argentina, em razão do percentual de participação da autuada na controlada Acindar. Os demais valores autuados foram mantidos. Da decisão foi apresentado Recurso de Ofício, por força do limite de alçada. Por seu turno, a interessada interpôs Recurso Voluntário, no qual repetiu, basicamente, os argumentos da impugnação. A Fazenda Nacional apresentou contrarrazões, às fls. 3.158 e seguintes. Posteriormente, em fevereiro de 2015, a empresa trouxe ao processo novos documentos, que incluem dois pareceres jurídicos, um laudo técnico da Price Waterhouse Coopers, que comprovaria o pagamento de imposto de renda por parte de sua controlada Acindar, na Argentina, nos anos de 2006 e 2007, acompanhado da respectiva tradução juramentada para a língua portuguesa e tradução juramentada das declarações do imposto de renda da controlada Acindar, também relativas aos anos de 2006 e 2007. Os autos foram encaminhados a este Conselho para apreciação e julgamento. É o relatório. Voto Conselheiro Roberto Caparroz de Almeida, Relator O recurso é tempestivo e atende aos pressupostos legais, razão pela qual dele conheço. Como a Recorrente apresentou diversos argumentos na peça recursal, faremos a análise tópica das matérias em litígio. Fl. 9994DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 21 20 1. Da preliminar de decadência para questionar o ágio MJS Entende a Recorrente que a fiscalização não poderia mais questionar a formação dos ágios registrados nas operações entre 2003 e 2004, pois, quando do lançamento, em 10 de dezembro de 2011, já teria transcorrido prazo superior a cinco anos: Como cediço, o termo inicial do prazo decadencial é contado a partir da ocorrência do fato que obrigou o contribuinte a interpretar a legislação tributária e a adotar os procedimentos necessários ao fornecimento de documentos contábeis e fiscais, de tal modo que o Fisco tenha o prazo de cinco anos, contado a partir daquela ocorrência, para que possa eventualmente constituir o crédito tributário, evitandose, assim, que o contribuinte fique eternamente sujeito à revisão do lançamento. Nesse sentido, como o Ágio MJS foi registrado em operações realizadas em 2003 e 2004, considerando que o IRPJ e a CSLL são tributos sujeitos ao lançamento por homologação e, portanto, ao prazo decadencial de cinco anos contados da ocorrência do fato gerador (artigo 150, §4° do CTN) , o termo final para a sua revisão se deu em 2008 e 2009. (grifado no original) Penso que não assiste razão à Recorrente. A matéria é bastante conhecida e tem posição firme neste Conselho, no sentido de que não se submete ao prazo decadencial ou a limitação objetiva a análise, pela fiscalização, de fatos ocorridos há mais de cinco anos quando deles se extrai a repercussão tributária de períodos ainda não fulminados pela caducidade. Como se sabe, a decadência impede apenas o lançamento do crédito tributário relativo a períodos fora do alcance legal, mas isso em nada se confunde com a possibilidade (em verdade, com o dever) de a fiscalização analisar fatos, livros e documentos cuja repercussão ainda possa ser objeto de autuação. Se não fosse assim, de nada serviria o comando previsto, por exemplo, no artigo 195 do Código Tributário Nacional: Art. 195. Para os efeitos da legislação tributária, não têm aplicação quaisquer disposições legais excludentes ou limitativas do direito de examinar mercadorias, livros, arquivos, documentos, papéis e efeitos comerciais ou fiscais, dos comerciantes industriais ou produtores, ou da obrigação destes de exibilos. Parágrafo único. Os livros obrigatórios de escrituração comercial e fiscal e os comprovantes dos lançamentos neles efetuados serão conservados até que ocorra a prescrição dos créditos tributários decorrentes das operações a que se refiram. (grifamos) Fl. 9995DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 22 21 O dever da fiscalização é o de apurar matéria tributável (dentro dos limites legais) e não o de verificar continuamente os registros do contribuinte. É evidente que o prazo previsto pelo CTN cuida de prescrição, sendo certo que, na hipótese dos autos, este prazo sequer se iniciou. Isso porque é forte o entendimento de que o prazo prescricional só pode ter início quando possível a cobrança do crédito, inclusive na esfera judicial. Com a interposição de recurso no âmbito administrativo, o prazo prescricional de cinco anos, nos termos do artigo 174 do CTN, só pode ter início com a constituição definitiva do crédito, que ocorre quando prolatada decisão administrativa irrecorrível e contrária ao sujeito passivo. Já o prazo decadencial tem como marco inicial a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado (nas hipóteses do art. 173, I, do mesmo diploma legal). No caso em análise o lançamento se deu em dezembro de 2011 e não se encontra prejudicado por qualquer fenômeno relativo à decadência, posto que os fatos tributados correspondem aos anoscalendário de 2006 e 2007. Também não se vislumbra, na hipótese, a existência de qualquer preclusão ou limitação do direito de a fiscalização analisar operações e negócios jurídicos anteriores, dado que a autuação recaiu sobre os efeitos da amortização indevida dos ágios, em períodos posteriores e não atingidos pela decadência. Ressaltese que o simples registro do ágio na contabilidade não implica redução do crédito tributário ou qualquer outra circunstância passível de autuação pela autoridade competente. Não se trata de fato gerador da obrigação tributária nem produz qualquer efeito sobre a apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Apenas as hipóteses que alteram a base de cálculo dos referidos tributos encontramse sujeitas a controle e auditoria pelas autoridades fiscais e o Estado tem a prerrogativa de analisar todo e qualquer documento ou registro contábil relacionado à redução dos montantes devidos em cada anocalendário. Como as glosas dizem respeito a deduções efetuadas a partir de 2006 e os lançamentos efetuados tiveram ciência do contribuinte em dezembro de 2011, inexiste qualquer vício ou mácula na atividade fiscal, assim como não havia, na espécie, transcorrido o prazo decadencial. É o que se depreende da determinação contida no artigo 37 da Lei n. 9.430/96: Os comprovantes da escrituração da pessoa jurídica, relativos a fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, serão conservados até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios. A lei não trata do prazo decadencial e nem poderia fazêlo , mas expressamente autoriza a possibilidade de auditoria de lançamentos que repercutirão em outros exercícios. Esse entendimento é pacífico no caso de operações ou fatos com repercussão em exercícios futuros, até porque não seria lógico ou razoável opor ao Fisco a ocorrência de Fl. 9996DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 23 22 qualquer preclusão cronológica que impossibilitasse a análise dos documentos e operações, pois o único limite temporal para a verificação da escrituração comercial e fiscal encontrase previsto no artigo 195, parágrafo único, ao norte reproduzido. Diversas decisões deste Conselho consagram a tese aqui defendida. Citamos, a título de exemplo, recente Acórdão da 2a Turma da 4a Câmara: Acórdão nº 1402002.152 – 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 06 de abril de 2016 Matéria AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO Recorrente BANCO CITICARD S/A Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2006, 2007, 2008 DECADÊNCIA. FORMAÇÃO DE ÁGIO EM PERÍODOS ANTERIORES AO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA. É legítimo o exame de fatos ocorridos há mais de cinco anos do procedimento fiscal, para deles extrair a repercussão tributária em períodos ainda não atingidos pela caducidade. A restrição decadencial, no caso, voltase apenas à impossibilidade de lançamento de crédito tributário no período em que se deu o fato. O prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN. FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO – Relator Afasto, portanto, a preliminar suscitada pela Recorrente. 2. Preliminar de decadência pela amortização mensal do ágio Neste tópico, entende a Recorrente que houve decadência quanto à glosa relativa aos meses de janeiro a novembro de 2006, pois optou pela sistemática de balancetes mensais de suspensão: Em outras palavras, no âmbito desse regime adotado pela Recorrente no anocalendário de 2006 (doc. 04 da Impugnação), a apuração do IRPJ e da CSLL ocorre mensalmente e não apenas em 31.12 de cada anocalendário como acontece na apuração do lucro real anual com antecipações calculadas com base nas estimativas mensais. Fl. 9997DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 24 23 Sendo assim, o fato gerador do IRPJ e da CSLL para os contribuintes que apurem o lucro real mensal com base nos balancetes de suspensão e redução ocorre a cada mês, visto que, ao final de cada período mensal, ocorre a efetiva apuração do lucro tributável. Por essa razão, a glosa das despesas de amortização de ágio registradas pela Recorrente mensalmente apenas poderia ter sido levada a efeito em até cinco anos contados de cada apuração mensal. Descabe a pretensão da Recorrente. Ao optar pela tributação para fins de IRPJ e CSLL com base no lucro real anual inexiste dúvida quanto ao fato de que o aperfeiçoamento do critério temporal da hipótese de incidência dos tributos em questão ocorre em 31 de dezembro de cada ano. É forte neste Conselho o entendimento de que as antecipações feitas a título de estimativas não preenchem a condição imposta pelo artigo 150 do Código Tributário Nacional, vale dizer, não caracterizam o fato gerador dos respectivos tributos. A hipótese dos autos não correspondem ao conceito de pagamento antecipado veiculado pelo CTN e, nesse sentido, não extinguem o crédito tributário, que sequer foi apurado, o que só ocorrerá ao final dos exercícios, pois os balanços ou balancetes de suspensão não caracterizam o momento de ocorrência do fato gerador dos tributos e, portanto, não representam o dies a quo para a contagem do prazo decadencial. Afasto, assim, a preliminar suscitada pela Recorrente. 3. Análise sobre a possibilidade de dedução fiscal do saldo do Ágio MJS Depois de discorrer sobre os fatos que ensejaram a apuração do ágio relativo à MJS, a Recorrente defende a sua dedutibilidade para fins tributários, sob os argumentos da impossibilidade de desconsideração, pelas autoridades fiscais, de negócios jurídicos validamente celebrados e também quanto a suposto equívoco na classificação do referido ágio, que teria como fundamento operação entre terceiros, que não poderia ser qualificada como ágio interno. O conjunto das operações levadas a cabo na apuração desse ágio envolve diversas etapas, que foram bem descritas pela decisão de piso, a seguir reproduzida (grifaremos): Os ágios glosados foram tratados pela fiscalização em dois itens distintos do Termo de Verificação Fiscal. No item A3.1 (fls. 1938 a 1977) intitulado “Ágio Mendes Júnior Siderurgia (Ágio Interno) foram glosadas as despesas com amortização de ágios contabilizados ao longo do ano de 2003 e que foram transferidos para a autuada em 01 de janeiro de 2004 por meio de incorporação de parte cindida de sua controladora. Fl. 9998DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 25 24 Até 09/02/2003, a autuada denominavase Mendes Júnior Siderurgia S/A (MJS), e era controlada pelas seguintes empresas e pessoas físicas: Companhia Mineira de Participações Industriais e Comerciais (CMPIC), CNPJ 17.164.708/000180, Edificadora S/A, CNPJ 17.164.716/000127, Sociedade Mineira de Participações Industriais e Comerciais Ltda. (SMPS), CNPJ 19.297.365/000158, Fernando Zenóbio Affonso de Carvalho, CPF 001.239.19720, José Luiz Ladeira Bueno, CPF 006.375.13649, Delson de Miranda Tolentino, CPF 077.403.44672, Saulo Pinto Moreira, CPF 003.737.10615, Ângelo Alves Mendes, CPF 257.398.24672, Jesus Murillo Valle Mendes, CPF 001.110.40663, Alberto Laborne Valle Mendes, CPF 001.101.32653, Sânzio Valle Mendes, CPF 001.101.08604, e Helvécia Guimarães Mendes, CPF 001.101.24634. O capital da autuada era dividido em 3.045.366 ações, sendo que 3.045.353 pertenciam às três pessoas jurídicas e 13 ações às nove pessoas físicas. Graficamente o controle da autuada àquela época pode ser assim representado: Em 09/02/2003, as três empresas até então controladoras da MJS, a autuada, celebram com Belgo Mineira Fomento Mercantil Ltda., CNPJ 26.169.581/000183 (Belgo Fomento), com a ciência da MJS, o contrato de Cessão de Direito de Preferência à Subscrição de Ações e Outras Avenças (fls. 195 a 197), por meio do qual cederam à Belgo Fomento o direito de preferência à subscrição de ações pelo preço global de R$ 1.500,00 (R$ 500,00 para cada empresa cedente). Nesta mesma data, conforme o Boletim de Subscrição de fl. 194, a Belgo Fomento subscreveu e integralizou em dinheiro (recibo à fl. 193) 182 ações da MJS ao preço de R$ 182,00. Também neste mesmo dia (09/02/2003), conforme o Contrato de Compra e Venda de Ações com Cessão de Direitos de Subscrição e Outras Avenças (fls. 198 a 203), as nove pessoas físicas identificadas no item 28 acima alienaram à Belgo Fomento, com ciência da MJS, as 13 ações da MJS que possuíam, bem como o direito de preferência à subscrição de ações ao preço global de R$ 13,00. À fl. 207 consta Recibo assinado pelas empresas CMPIC, Edificadora e SMPS em 14/03/2003 declarando que em 15/01/2003 haviam recebido da empresa BelgoMineira Participação, Indústria e Comércio S.A (BMP), o valor de R$ 234.115,17 referente à alienação das 3.045.353 ações da MJS que possuíam. Neste ponto cabe ressaltar que o preço que as empresas do grupo BelgoMineira (Belgo Fomento e BMP) fizeram às empresas e pessoas físicas do grupo Mendes Júnior para Fl. 9999DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 26 25 aquisição das ações da MJS e do direito à subscrição de novas ações montou R$ 235.628,17 (R$ 234.115,17 + R$ 13,00 + R$ 1.500,00). Conforme o Boletim de Subscrição de fl. 208 do mesmo dia 14/03/2003, a BMP subscreveu e integralizou, mediante TED e cheque administrativo, 49.973.126 ações da MJS ao preço total de R$ 49.973.126,00. Nesta mesma data (14/03/2003), de acordo com a Ata de fls. 204 a 206, a MJS realizou Assembléia Geral Extraordinária que deliberou pela mudança de sua denominação social para BMP Siderurgia S.A (BMPS) e eleição de novos membros do Conselho de Administração e tornou público o aumento de capital, agora representado por 53.542.830 ações, realizado por meio das subscrições e integralizações acima referidas. Portanto, em 14/03/2003, o processo de aquisição da contribuinte (antes denominada MJS, depois BMPS) pelo Grupo BelgoMineira (Grupo Arcelor) estava concluído. O então controle acionário da contribuinte está detalhado no demonstrativo de fl. 192 e pode ser assim representado: As siglas MGI e CSBM significam respectivamente Minas Gerais Participações S/A e Companhia Siderúrgica BelgoMineira, CNPJ 24.315.012/000173. De acordo com o quadro elaborado pela fiscalização à fl. 1942, confirmado pela conta do razão 1301073 “AMB. Ágio” da BMP (fls. 101 e 102), até este momento, a BMP, principal nova controladora da BMPS, antiga MJS, não havia registrado nada a título de ágio pela aquisição da contribuinte (BMPS), o que somente foi feito em 31/05/2003 com o histórico de carga de saldos iniciais no valor de R$ 50.208.936,17, que é o resultado não apenas da soma dos valores pagos pela aquisição das ações da contribuinte (R$ 235.628,17), mas também da subscrição de ações e integralizações de capital na contribuinte pelos novos controladores (R$ 49.973.308,00). Em 01/06/2003, a Assembléia Geral Extraordinária da BMPS (Ata às fls. 209 a 212), delibera reduzir o valor do patrimônio líquido negativo da contribuinte à época, mediante débito à conta da sócia BMP que registrava créditos contra a autuada, conforme demonstrativos de fls. 223 a 226, no valor de R$ 244.992.842,69, e aumentar o capital social mediante a emissão de 368.878.286 novas ações ao preço total de R$ Fl. 10000DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 27 26 368.878.286,00, das quais 319.937.116,25, ao preço de R$ 319.937.116,25, foram imediatamente integralizadas pela BMP em variadas formas (cheque, capitalização de créditos, ações e imóvel), tendo sido o restante (R$ 48.941.169,75) integralizado entre 05/06/2003 e 15/07/2003 (quadro de fl. 1942). Tanto a redução do patrimônio líquido negativo (R$ 244.992.842,69), como a integralização de capital (R$ 368.878.286,00) foram contabilizadas na controladora (BMP) como ágio (razão de fls. 101 e 102 e quadro de fl. 1942). Às fls. 213 a 221 encontrase cópia do Estatuto Social da BMPS atualizado com este aumento de capital e à fl. 228 está o Boletim de Subscrição relativo à subscrição ocorrida em 01 de junho de 2003. As empresas do Grupo BelgoMineira continuaram a realizar operações internas que resultaram em registros de ágios. Em 30/06/2003, a Assembléia Geral Extraordinária da BMPS (Ata às fls. 229 a 233) delibera aumentar seu capital social de R$ 817.416.105,47 para R$ 1.532.000.000,00, mediante a emissão de 1.109.578.884 ações ao valor global de R$ 1.109.578.884,00, dos quais R$ 714.583.894,53 foram destinados à formação do capital social e R$ 394.994.989,47 à conta reserva de capital, a título de ágio na subscrição. Esta subscrição e conseqüente integralização foram realizadas pela CSBM (controladora indireta, via BMP, da BMPS) em créditos detidos pela subscritora contra a controlada indireta, imóveis, debêntures emitidos pela BMP, estabelecimentos, contas a receber de clientes e moeda ou créditos. Às fls. 238 a 245 encontrase o protocolo de conferência de estabelecimentos da CSBM à BMPS, à fl. 246, o Boletim de Subscrição das ações da BMPS pela CSBM e às fls. 247 a 257, a descrição dos imóveis da CSBM conferidos à BMPS. Em 30/09/2003, a BMP realizou Assembléia Geral Extraordinária (Ata às fls. 234 e 235) para deliberar pelo aumento de seu capital social de R$ 267.542.973,48 para R$ 900.000.000,00 (aumento de R$ 632.457.026,52) mediante a emissão de 302.109.470 novas ações ao preço total de R$ 1.181.432.521,80 (R$ 3,91 por ação), sendo R$ 632.457.026,52 destinados à formação do capital social e R$ 548.975.495,28 destinados à conta reserva de capital a título de ágio na subscrição. A Lista de Presença dos acionistas nesta Assembléia encontrase à fl. 236 e o Boletim de Subscrição que informa que a integralização dos R$ 1.181.432.521,80 foi realizada mediante conferência à BMP de créditos que a CSBM detinha em conta corrente contra a BMP. Nesta mesma data (30/09/2003), a BMP registrou na conta de Ágio relativo ao investimento que detinha na BMPS o valor de R$ 1.054.099.939,80 com o histórico “compra de ações BMPS detidas pela Be...” (Razão às fls. 101 e 102 e Quadro da fiscalização às fls. 1943). A impugnante assim descreve a operação ocorrida nesta data (item 3 de fl. 2.034): 3. Capitalização da BMP com a participação detida pela Cia Siderúrgica BelgoMineira na BMPS: a fim de concentrar a totalidade da Fl. 10001DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 28 27 participação societária detida na BMPS na BMP, a Cia Siderúrgica BelgoMineira alienou à BMP a participação societária adquirida na BMPS na etapa anterior, a valor contábil. Tendo em vista que o patrimônio líquido da BMPS nesse momento era de R$ 175.800.886,17, o preço de aquisição de R$ 1.109.578.875,00 foi desdobrado entre valor de patrimônio líquido (R$ 127.342.582,00) e ágio (R$ 1.054.099.939,80) (fls. 246); Em 01/12/2004, a Assembléia Geral Extraordinária da BMPS (Ata à fl. 258) deliberou alterar sua denominação social para Belgo Siderurgia S/A . Em 01/01/2004, a BMP realizou Assembléia Geral Extraordinária (Ata à fl. 259) e deliberou cindirse e verter a parcela cindida para sua controlada a Belgo Siderurgia S/A (a contribuinte autuada, antes BMPS e mais anteriormente MJS), reduzindo seu capital social em R$ 897.838.795,43 (de R$ 900.000.000,00 para R$ 2.161.204,57). À fl. 260 encontrase a Lista de Presença de Acionistas relativa a esta Assembléia da BMP. Neste mesmo feriado de Ano Novo (01 de janeiro de 2004), a Belgo Siderurgia também realizou Assembléia Geral Extraordinária (Ata às fls. 261 e 262) na qual aprovou a Justificação (fls. 263 e 264) e o Protocolo de Cisão (fls. 265 a 269) referentes à incorporação da parcela cindida de sua controladora a BMP, que resultou no recebimento em tesouraria de 1.531.475.839 ações de sua própria emissão antes de propriedade da BMP, das quais 1.471.186.173 foram atribuídas à CSBM (controladora da BMP). Nesta operação de incorporação da parte cindida da BMP, a Belgo Siderurgia S/A recebeu o ágio fundado em si mesma no montante total de R$ 1.718.180.004,66, subdividido em duas parcelas: R$ 121.886.955,06, que já havia sido amortizado contabilmente em 2003 (razão à fl. 101) e adicionado na Lalur pela BMP (fls. 106 a 109) e R$ 1.596.293.049,80 ainda não amortizados. Estes valores passaram a ser amortizados pela Belgo Siderurgia S/A (a contribuinte autuada) a razão de 1/60 avos mensais. Os valores anuais desta despesa de amortização (1/5 do saldo inicial) correspondem respectivamente a R$ 24.377.391,00 e R$ 319.258.609,92. Como a contribuinte não deduziu em 2004 e 2005 os valores relativos à parcela do ágio que havia sido amortizada contabilmente pela BMP em 2003, em 2006 deduziu R$ 73.132.173,00 (R$ 24.377.391,00 vezes três), além do valor de R$ 319.258.609,92. Em 2007 amortizou os valores de R$ 24.377.391,00 e R$ 319.258.609,92. A fiscalização glosou estas despesas com o fundamento de que ágio criado em operações entre empresas pertencentes ao mesmo grupo não é passível de amortização para fins tributários (ágio interno). Reproduzse abaixo trecho do Termo de Verificação fiscal que trata desta infração atribuída à contribuinte (fls. 1952 a 1953): Fl. 10002DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 29 28 Os acionistas que representam a totalidade do capital social do grupo Belgo assinam todos os procedimentos por todas as empresas, logo, como num jogo de xadrez, escolheram as peças que mais lhes convieram prejudicando apenas um terceiro externo que é o Estado Brasileiro. Para tanto, desde o início, assessoraram da empresa por eles contratados para elaboração do laudo (APSYS), fazendose uma conta de chegar ao número desejado e com isso a aprovação do laudo era dada como certa, uma vez que detinham a totalidade do controle de todas as empresas envolvidas, ou seja, o ágio originado daquela avaliação foi, do ponto de vista econômico, um ágio gerado por meio de uma transação dos acionistas com eles próprios. Os ditos investimentos e ágios na SMJ (BMPS) eram tratados integralmente como capital posto pela BMP na BMPS. As saídas de caixa (pagamento pela aquisição da MJS) nessa operação foram irrelevantes quando comparado com o ágio registrado na BMPS, fruto de laudo, subjetivamente avaliado segundo algum tipo de potencial lucratividade futura. Os valores de ágio são efetivamente aumentos de capital. Ora, tais aumentos de capital foram, como regra geral com integralização por transferência de bens já possuídos pelo controlador, como imóveis, créditos por compra e venda de estabelecimentos, debêntures, ações de outras empresas, o que na realidade representa uma aglutinação de patrimônio em uma só empresa. Não obstante, é de se surpreender que pelo fato de aglutinar bens em uma só empresa possa gerar ágios e mais do que isso rentabilidade futura. Portanto, estamos falando de aumento de capital e não de ágio e foram colocados na BMPS pelo próprio grupo econômico, que contratou a avaliação onde a própria administração ofereceu subsídios para os avaliadores, ou seja a simples transferência do bolso esquerdo para o bolso direito gerou prejuízos aos cofres públicos via amortização destes valores. O ágio apurado é, de fato fruto de avaliação intragrupo, sem propósito, dandose o nome de reorganização. O surgimento da mais valia decorreu da incorporação de bens, em operação "não caixa" entre empresas do mesmo grupo (vide quadro 8 acima). O laudo de 10/03/2003, que embasou o referido ágio demonstra que o valor presente do fluxo de caixa livre acumulado descontado pelo CAPM da BMPS até o ano 6 (2008) e basicamente traz a produção das unidades de Piracicaba, Vitória e Juiz de Fora, plantas estas que já pertenciam ao Grupo Arcelor, assim como os demais itens de aumento de capital, donde se conclui que com a reestruturação ou sem ela, a diferença seria nos encargos administrativos e de eficiência financeira e nunca por força da mais valia do investimento. É importante citar que a APSYS informa que os fluxos de caixa foram projetados pela administração da empresa para o período, enfatizando a base em premissas da própria administração utilizandose taxas e descontos, assim como é importante citar a ênfase dada ao ganho fiscal pela amortização do ágio no Protocolo e na Justificação da incorporação. Pois bem. Fl. 10003DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 30 29 A matéria encontrase disciplinada nos artigos 7o e 8o da Lei n. 9.532/97, que dispõem sobre o registro e a amortização do ágio gerado em investimentos avaliados pelo patrimônio líquido: Art. 7º A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "c" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do §2° do art. 20 do Decretolei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998) IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados durante os cinco anoscalendários subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no mínimo, para cada mês do período de apuração. § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão. § 2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar: a) o ágio, em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; b) o deságio, em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. § 3º O valor registrado na forma do inciso II do caput: a) será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; Fl. 10004DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 31 30 b) poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. § 4º Na hipótese da alínea "b" do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos e contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente. § 5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito. Art. 8º O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: a) o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. Já a sistemática de apuração do ágio deve seguir o disposto no artigo 20 do DecretoLei n° 1.598, de 26 de dezembro de 1977: Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1° O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2° O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Fl. 10005DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 32 31 § 3° O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2° deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. À luz da legislação de regência, percebese que o ágio corresponde à diferença entre o custo de aquisição de um investimento e o seu valor patrimonial. Isso significa que a figura do ágio decorre do fato de uma das partes se comprometer a pagar à outra, pela aquisição do investimento, um valor superior àquele registrado no patrimônio líquido. A expressão “pagar” pode ser entendida em sentido amplo, contemplando diversas modalidades, desde que todas impliquem algum tipo de desembolso ou ônus para o adquirente. Existe grande discussão acerca da possibilidade de aproveitamento do chamado ágio entre partes relacionadas, comumente denominado ágio interno. Em tese, entendo ser possível a ocorrência de ágio nessas operações, entre partes relacionadas, pelo fato de que, até o advento da Lei n. 12.973/2014, inexistia no direito positivo brasileiro vedação expressa à sua configuração. Convém ressaltar que na esfera contábil o chamado ágio interno é normalmente rechaçado, a exemplo de pronunciamentos do CFC e da CVM, elaborados antes mesmo da nova disposição legal. Entretanto, pelo menos em termos hipotéticos, pareceme possível que uma empresa do mesmo grupo econômico venha a adquirir de outra algo por valor superior àquele contabilizado. No contexto da legislação anterior, seria possível, em tese, considerar a operação como legítima, desde que praticada sob condições normais de mercado. E, ainda assim, a hipótese que entendo possível seria de aquisição direta, quando, por exemplo, o braço automotivo de um grande grupo econômico adquire o controle de uma empresa de autopeças, com o objetivo de racionalizar a produção industrial. Notese que o ágio, nesse cenário, seria em razão da aquisição por valor acima do registro patrimonial, sem qualquer consideração, neste primeiro momento, sobre a sua dedutibilidade para fins fiscais. Portanto, todas as operações internas exigem, justamente em razão de sua peculiaridade, uma análise mais profunda, pois nem sempre as operações entre partes relacionadas refletem a realidade dos fatos. Daí porque se enquadram naquilo que Marco Aurélio Greco denominou operações preocupantes. Assim, deve o intérprete atentar para as circunstâncias fáticas e jurídicas da operação, que incluem, entre outras, o propósito negocial, o efetivo pagamento ou desembolso pela aquisição, a sequência cronológica das operações, a adequada avaliação da rentabilidade futura e, sobretudo, a análise entre as posições inicial e final de cada interveniente. Tudo isso implica dizer que as operações entre partes relacionadas devem ser testadas sob o princípio do arm´s length, de tal sorte que os preços e as demais condições da aquisição sejam compatíveis com aqueles que seriam normalmente utilizados no mercado, a partir de princípios econômicos como a livre concorrência e a livre manifestação da vontade. E, à luz desse cenário e a partir de seus principais requisitos, percebese que, no caso dos autos, as operações de reorganização societária levadas a cabo pela Recorrente e demais empresas do grupo não satisfazem as condições acima destacadas, como bem percebido pela decisão de piso: Fl. 10006DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 33 32 Desta maneira, se em consonância com o princípio contábil do registro pelo valor original, somente uma transação entre agentes independentes daria respaldo ao reconhecimento de um ágio, as integralizações de capital na contribuinte autuada em 2003, à época denominada MJS (depois BMPS, depois ainda Belgo Siderurgia S/A) pelas empresas BMP e CSBM, controladoras direta e indireta da autuada, não são capazes de justificar o registro de ágio pela falta de um ambiente de livre mercado, de independência entre as empresas envolvidas, de geração de riqueza nova para o grupo econômico. É tão claro nos autos que as parcelas de ágio registradas ao longo do ano de 2003 na BMP e na CSBM, tendo como justificativa a rentabilidade futura da contribuinte autuada, são ágio interno, que o Relatório que fundamenta este ágio “Projeções de resultados futuros da MJS”, com data de 10 de março de 2003, elaborado pela empresa Apsis Consultoria Empresarial (fls. 299 a 455), contém um item específico e explícito (item VII.2 – fls. 332 a 334) sobre as operações intragrupo que deveriam ser formalizadas para justificativa da contabilização do ágio e sua transferência à autuada: (grifamos) Fl. 10007DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 34 33 No caso dos autos percebese, ao contrário do alegado pela Recorrente, que estamos diante da figura conhecida como ágio interno, independente do argumento que discute a diferença entre este e o "ágio intragrupo", distinção irrelevante no entendimento deste Relator. O que realmente importa é que todo ágio deve ter um fundamento econômico, conforme exigência do artigo 20 do DecretoLei n. 1.598/77, conjugado com as hipóteses de dedutibilidade dos artigos 7o e 8o da Lei n. 9.532/97, já transcritos, com as respectivas reproduções no Regulamento do Imposto de Renda. Isso implica que a dedutibilidade do ágio, decorrente de expectativa de rentabilidade futura, exige a aquisição de participação societária e a confusão patrimonial entre investidora e investida. Portanto, a razão econômica do ágio é a aquisição de algo que não se possui, de uma riqueza que ainda não integrava o patrimônio da adquirente. Disso decorrem dois raciocínios: primeiro, não é possível adquirir algo que já me pertença e, depois, que a dedutibilidade do ágio, para fins tributários, baseiase na presunção de perda de rentabilidade adquirida de terceiros, vale dizer, é possível deduzir o ágio quando a pessoa que detém a rentabilidade incorpora sua adquirente ou é por ela incorporada, o que enseja a confusão patrimonial prevista em lei. Na hipótese dos autos, a decisão de piso já consignou que os fatos não preenchem esse requisito: Ressaltese que no momento em que a primeira parcela de ágio foi registrada (31/05/2003, quadro de fl. 1942) pela BMP, a contribuinte já pertencia à BMP desde, pelo menos 14 de março de 2003, data de emissão do recibo de quitação da alienação das ações da contribuinte que pertenciam ao grupo Mendes Júnior (fl. 207), cujo pagamento fora realizado em 15 de janeiro de 2003. O mesmo cenário foi apresentado pela Fazenda Nacional, em sede de contrarrazões, para defender a indedutibilidade do ágio (com destaques no original): Como já adiantado, no presente caso, uma parcela do ágio surgiu em virtude de capitalizações da BMPS – que tinham o propósito de reduzir o seu PL negativo. Nesse ponto, cumpre destacar que o ágio decorrente da subscrição de ações da BMPS e da correspondente integralização de aumento de seu capital social não poderia existir. Isso porque tais operações não levaram a BMP e a CSBM – responsáveis pela integralização dos aumentos de capital – a adquirir nenhum novo Fl. 10008DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 35 34 investimento, nenhuma parcela da BMPS que antes já não detinham. Com efeito, desde antes dessas operações, o GRUPO BELGO já possuía 100% das ações da BMPS – seja por meio de controle direto da BMP ou indireta da CSBM. Não houve, portanto, qualquer alteração no percentual de participação que o GRUPO BELGO detinha da BMPS. Portanto, em face da subscrição de ações, a BMP e a CSBM não adquiriram nenhuma rentabilidade que antes já não detivessem. Não obstante terem subscrito novas ações, como já detinham 100% das ações da BMPS, não adquiriram nenhum percentual de participação novo. Pelo contrário, acabou registrandose um ágio em face da aquisição de uma percentagem que já era de titularidade do GRUPO BELGO. Dessa forma, vêse que, por meio da subscrição realizada, a BMP e a CSBM não adquiriram uma parcela da rentabilidade da BMPS que antes era de outro acionista, mas sim diluíram em mais ações a mesma participação que sempre tiveram. Na realidade, a intenção do GRUPO BELGO com a subscrição de ações não foi proporcionar a aquisição de um investimento, mas sim o saneamento do patrimônio da BMPS por meio do perdão de uma dívida. Contudo, como essa operação não levaria ao aproveitamento de nenhum benefício fiscal, optouse por transformar tal perdão em uma subscrição de ações com ágio. A partir da análise dos fatos e da constatação de que não houve aquisição de participação nova, aliada à ausência de fundamento econômico para o desencadeamento das operações, que ocorreram na esfera de um mesmo grupo econômico, inclinome em direção ao posicionamento hoje consolidado neste Conselho, no sentido da indedutibilidade do ágio. As conclusões da autoridade fiscal indicaram que Ora, como vimos, os únicos pagamentos feitos pela aquisição de ações da SMJ foram R$ 13,00 e R$ 234.115,17 a pessoas físicas e jurídicas detentoras das ações da empresa bem como do direito de subscrição, logo dizer que tal montante tomado como ágio (mais de um bilhão e meio) seria oriundo de transação com terceiros é contrário a tudo que foi relacionado anteriormente. (...) As saídas de caixa (pagamento pela aquisição da MJS) nessa operação foram irrelevantes quando comparado com o ágio registrado na BMPS, fruto de laudo, subjetivamente avaliado segundo algum tipo de potencial lucratividade futura. Os valores de ágio são efetivamente aumentos de capital. Ora, tais aumentos de capital foram, como regra geral com integralização por transferência de bens já possuídos pelo controlador, como imóveis, créditos por compra e venda de estabelecimentos, debêntures, ações de outras empresas, o que na realidade representa uma aglutinação de patrimônio em uma só empresa. Não obstante, é de se surpreender que pelo fato de Fl. 10009DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 36 35 aglutinar bens em uma só empresa possa gerar ágios e mais do que isso rentabilidade futura. Portanto estamos falando de aumento de capital e não de ágio e foram colocados na BMPS pelo próprio grupo econômico, que contratou a avaliação onde a própria administração ofereceu subsídios para os avaliadores, ou seja a simples transferência do bolso esquerdo para o bolso direito gerou prejuízos aos cofres públicos via amortização destes valores. O ágio apurado é, de fato fruto de avaliação intragrupo, sem propósito, dando se o nome de reorganização. (grifamos) Restam prejudicados, portanto, os argumentos da Recorrente, relativos à classificação, pela fiscalização, como ágio interno, além da tese de que não poderiam ser desconsiderados negócios válidos, pois restou demonstrado que a sequência das operações entre empresas do mesmo grupo carecem de fundamento econômico, capaz de possibilitar a dedutibilidade do ágio, sem prejuízo de formalmente cuidarem de transações válidas. Os ativos empregados nas diversas etapas foram os mesmos, os pagamentos feitos foram irrelevantes e o que de fato houve foi apenas a circularização dentro do grupo. E o que se discute aqui é a oponibilidade dos efeitos da reorganização societária perante o fisco, e a "análise do filme" nos mostra, a partir da sequência cronológica dos fatos, que não houve alteração significativa entre as posições inicial e final, nem tampouco aquisição de percentual novo de participação na operação, razão pela qual deve ser mantida a glosa efetuada pela fiscalização. 4. Das operações que ensejaram a dedutibilidade do Ágio Arcelor Neste tópico, a Recorrente traça um longo panorama histórico acerca da formação e expansão do Grupo Arcelor no Brasil, bem como das reorganizações societárias empreendidas pelo Grupo ArcelorMittal no país, entre 2006 e 2012. Argumenta a interessada que em razão da complexidade das operações, que incluíram a tentativa de uma aquisição hostil entre as controladoras, além da incerteza quanto ao prazo para a incorporação no exterior ocorrer e a consequente extinção da Mittal Steel, a alternativa operacionalmente mais conveniente seria a criação de uma subsidiária brasileira: Diante desse complexo contexto, optouse por lançar a OPA das ações da Arcelor BR por uma subsidiária do Grupo Mittal no Brasil, já que se entendia que havia alta possibilidade de que a extinção da Mittal NV ocorresse anteriormente à finalização da OPA no Brasil. Se isso acontecesse, além de discussões ou explicações que teriam que ser eventualmente dadas à CVM, o procedimento burocrático da OPA se tornaria ainda mais custoso e complexo, visto que haveria a necessidade de alterar o ofertante perante todos os órgãos envolvidos (e. gr. CVM, bolsa de valores, Banco Central do Brasil), além de realizar outros procedimentos burocráticos, tal como a abertura de conta corrente etc. Fl. 10010DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 37 36 Nos termos acima expostos, resta clara a concomitância da ocorrência dos eventos na Europa e Brasil e o receio de que a incorporação da Mittal NV poderia ter efeito na OPA no Brasil e viceversa. Para comprovar esse receio, basta observar que a Mittal NV foi extinta em 03.09.2007 e que os acionistas da Arcelor BR poderiam ter alienado suas ações para a Mittal BR, no contexto da OPA brasileira, até o dia 04.09.2007. (...) Definida a necessidade de constituição da Mittal BR, a Mittal NV realizou o aporte de parte dos recursos que seriam necessários para a liquidação financeira da OPA ao capital da MittalBR. O restante dos recursos foi obtido pela própria Mittal BR através de contrato de empréstimo firmado com a Arcelor Investment S.A., o que foi indevidamente descaracterizado pela autoridade fiscal e, posteriormente, pelos Ilmos. Julgadores. Realizada a OPA, o Grupo ArcelorMittal optou por extinguir a Mittal BR, visto que havia sido constituída com o propósito de viabilizar o lançamento da Oferta em questão, bem como concentrar os investimentos na Arcelor BR. Após essa etapa e dando continuidade ao processo de reestruturação dos ativos do Grupo Arcelor no Brasil, agora denominado Grupo ArcelorMittal, tendo em vista o sucesso da Oferta no exterior e a incorporação da Mittal NV pela Arcelor S.A., visando à simplificação de sua estrutura societária, foi aprovada a incorporação da Arcelor BR antiga holding do Grupo Arcelor pela Recorrente, então Belgo Siderurgia, que teve sua razão social alterada para ArcelorMittal Brasil S.A. Em linha com os mesmos objetivos, foram deliberadas, ainda, diversas outras operações a fim de simplificar a estrutura operacional do Grupo ArcelorMittal, tais como a incorporação da antiga Vega do Sul CST; a cisão parcial da CST com a incorporação de mais de 95% de seu acervo líquido pela Recorrente; a incorporação da Belgo Siderurgia pela Recorrente etc., tal como citado anteriormente na descrição dos fatos. Esses fatos e fundamentos são apontados pela Recorrente como contraponto à acusação fiscal, que de forma completamente diversa concluiu que: Comentamos aqui que basicamente os investimentos na Arcelor Brasil somados ao respectivo ágio liquido de amortização totalizam R$ 10.803.862.438,07 e o passivo composto de empréstimos e capital social atingem R$ 10.858.486.381,15, indicando que: a) A Mittal Br foi um veículo utilizado para internalização do ágio no Brasil; b) Que a internalização do ágio era o único propósito negocial da Mittal BR; Fl. 10011DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 38 37 c) Que a Mittal NV poderia adquirir diretamente as ações e ficaria com o ágio no país de sua sede, mas preferiu utilizar a empresa veículo buscando, neste planejamento, auferir benefícios tributários; d) Que mais de 50% das ações adquiridas foram através de empréstimos, chamados de prépagamento em US$ (nos contratos de câmbio, constam como natureza = antecipação de exportação), empréstimos estes que com a incorporação passaram a ser obrigação da Arcelor, ou seja, a Arcelor vai pagar empréstimos para aquisição de suas próprias ações, com assunção de custos de juros inerentes. e) Assume a Arcelor prejuízos de variação cambial negativa, relatada adiante. E aqui temos o ponto central da discussão, pois o entendimento da fiscalização, corroborado pela decisão de piso, discrepa das alegações da interessada e constitui parte relevante dos montantes autuados. A despeito das longas considerações da Recorrente, reitero que não são aplicáveis à espécie os comentários relativos ao parágrafo único do artigo 116 do CTN , visto que este dispositivo sequer foi fundamento da autuação. Conquanto toda a discussão teórica acerca do tema me pareça um falso problema, descabe, no âmbito desta decisão, qualquer digressão ou análise mais aprofundada, pois o dispositivo não foi utilizado como pressuposto pela fiscalização. Os lançamentos foram efetuados a partir da análise dos fatos e circunstâncias que envolveram a reorganização societária, que são bastante extensos e constam do relatório deste voto. Contudo, apenas para demarcar o entendimento da fiscalização, reproduzimos a seguir as suas principais conclusões, que são o ponto central da controvérsia: Na situação posta, as operações societárias engendradas pelo grupo econômico tiveram como objetivo internalizar para o Brasil um ágio pago pela sociedade estrangeira domiciliada na Holanda (MITTAL STEEL NV) e gerado quando da aquisição de ações da pessoa jurídica brasileira (ARCELOR). E o ponto de partida para tal internalização deuse pela utilização da empresa veículo MITTAL BR, através de remessas do exterior que em ato contínuo, quase imediatamente estes recursos eram canalizados para compra de ações, além do que o aumento de capital da MITTAL BR com ações da Arcelor, (inclusive separando na MITTAL BR investimento do ágio pago pela sócia única holandesa), quando da aquisição de cerca de 75.767.982 ações, por R$ 3.950.614.712,60, redundando no ágio de R$ 2.378.140.393,21. Cumpre aqui tecer uma primeira observação acerca do valor capitalizado na MITTAL BR. A MITTAL NV adquiriu 75.767.982 ações com ágio, era natural e a boa contabilidade nos remete a isso, que o investimento na MITTAL BR fosse pelo total Fl. 10012DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 39 38 (investimento + ágio) e não separadamente pois quem afinal pagou o ágio foi a empresa do exterior. Ainda que todas as condições para a dedutibilidade dos encargos de amortização tivessem sido plenamente atendidas o que aqui se refuta peremptoriamente, como a seguir demonstrado, mas que se assume apenas para efeito de argumentação , para fim de apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, caberia adicionar ao lucro líquido os valores da diferença entre o ágio que fora supostamente internalizado e aquele efetivamente pago, nos momentos em que a legislação os considera realizados. Como tais valores tampouco foram espontaneamente adicionados, restaria justificado o procedimento de ofício de oferecêlos à tributação. Repisese que tal procedimento não foi aqui adotado, visto que nem mesmo os encargos de amortização do ágio pago pela sociedade holandesa eram passíveis de dedução para a apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, justificando a glosa integral dos encargos deduzidos. É patente a intenção do grupo econômico de utilizarse da MITTAL BR para carrear tal ágio para o Brasil. Tanto é assim que foi efêmera sua existência legal (foi constituída em 10/2006 e incorporada em 08/2007), sendo que no breve período em que era dotada de personalidade jurídica, suas declarações de rendimentos evidenciam como operação apenas o aumento de seu capital social (de R$ 500,00 para R$ 4.913.539.726,24) no período de junho a 20/08/07 (2 meses e meio). Ademais, utilizou empréstimos chamados de prépagamento em USD (R$ 5.294.450.949,90) e venda de cerca de 10 mil ações (R$ 563.453.373,86), que proporcionaram juros (R$ 81.670.48876), com a finalidade de fixar no Brasil os ágios pagos com a possibilidade de retorno de quase 50% do valor aqui aplicado. Realmente um negócio bastante interessante já que deixa no Brasil R$ 6.673.900.044,76 de ágio que vai reduzir tributos e ainda recebe de volta quando da liquidação do empréstimo/venda de ações. Tais declarações não revelam quaisquer outras operações por ela realizadas, a não ser o aumento de capital já aludido além dos empréstimos e divida por compra de ações e as conseqüências de sua participação na ARCELOR. A sociedade sequer possuía funcionários no período em que existiu, conforme dados das declarações de rendimentos. Mostrase com meridiana clareza a flagrante intenção do grupo econômico de constituir a MITTAL BR com o fim único de internalizar e transferir o ágio. Tratase de um caso típico de empresa veículo, criada com este único intuito. A subseqüente incorporação da MITTAL BR pela ARCELOR BRASIL, seguida da incorporação desta pela ARCELORMITTAL BRASIL S/A (a fiscalizada) também denota claramente o intuito ardiloso da operação, qual seja, Fl. 10013DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 40 39 desfrutar estritamente de um benefício fiscal derivado da amortização do ágio. A internalização do ágio pago pela MITTAL NV, via MITTAL BR constituiuse na "operaçãochave", a partir da qual o grupo econômico pretendeu aproveitarse do benefício fiscal concedido pela legislação pátria para diminuir as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Ora, o ágio foi efetivamente pago pela sociedade domiciliada na Holanda, e não por uma domiciliada no Brasil. (...) Ora, do ponto de vista econômico, a situação se apresenta sem qualquer substrato. E desprovida de significado econômico a dedução dos referidos encargos de amortização. Como explicar que uma pessoa jurídica passe a deduzir de seus próprios resultados a amortização de um ágio gerado na aquisição de suas próprias ações, notadamente se este tinha como fundamento uma rentabilidade futura destes mesmos resultados? Além de economicamente sem essência, a situação é rigorosamente ilógica. Do ponto de vista contábil, o "efeito líquido" das operações societárias consistiu basicamente em um artificial lançamento do ágio a débito no ativo Da MITTAL BR (depois ARCELOR e finalmente ARCELORMITTAL) e a crédito de seu passivo (exigível ou não exigível) e de capital, no valor de R$ 6.773.041.963,40. (grifamos) A descrição trazida pela fiscalização, cuja veracidade fática não é objeto de contestação, nos leva a concluir que realmente houve artificalismo na operação engendrada, mais especificamente notase a ocorrência da figura denominada como abuso de direito. Ressaltese que Marco Aurélio Greco, na já clássica obra Planejamento Tributário, 3a edição, fls. 210 e 211, cuida especificamente da figura do abuso de direito em relação às possibilidades de autoorganização: Nesse contexto é que vejo a inserção da temática do abuso do direito de autoorganização no âmbito tributário. Ou seja, a possibilidade de serem identificadas situações concretas em que os atos realizados pelos particulares, embora juridicamente válidos, não serão oponíveis ao Fisco quando forem fruto de um uso abusivo do direito de autoorganização que, por isso, compromete a eficácia do princípio da capacidade contributiva e da isonomia fiscal. Aqui reside um ponto importante. Independente da validade jurídica do ato e do direito de organização das sociedades, a questão diz respeito, essencialmente, à oponibilidade das condutas em relação ao Fisco, notadamente quando o seu objetivo único é o de obter vantagens tributárias. Fl. 10014DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 41 40 Recordamos que em relação ao ágio a regra geral é de indedutibilidade e que as situações em que a amortização como despesas é possível exigem perfeita subsunção dos fatos às normas tributárias. Aliás, o próprio Marco Aurélio reconhece, na sequência do parágrafo ao norte reproduzido, que depois do Código Civil de 2002 o abuso de direito não é apenas caso de inoponibilidade perante o Fisco, mas hipótese de ato ilícito que destrói um dos requisitos indispensáveis para que se tenha um efetivo planejamento tributário. Conquanto a Recorrente entenda que a fiscalização não poderia desqualificar atos jurídicos legítimos existe fundamento para tal postura, calcado no artigo 187 do Código Civil: Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercêlo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boafé ou pelos bons costumes. Ademais, o Professor Marco Aurélio Greco defende, na esteira do raciocínio desenvolvido neste voto, que cabe sim à autoridade fiscal requalificar negócios jurídicos que tenham como fim único a redução da carga tributária (obra citada, fls. 212 e 213): No entanto, os negócios jurídicos que não tiverem nenhuma causa real e predominante, a não ser conduzir a um menor imposto, terão sido realizados em desacordo com o perfil objetivo do negócio e, como tal, assumem um caráter abusivo; neste caso, o Fisco a eles pode se opor, desqualificandoos fiscalmente para requalificálos segundo a descrição normativo tributária pertinente à situação que foi encoberta pelo desnaturamento da função objetiva do ato. Ou seja, se o objetivo predominante for a redução da carga tributária, terseá um uso abusivo do direito. Entendo que o caso em tela se amolda à hipótese acima. A narrativa dos fatos nos leva a concluir, para além de qualquer dúvida, que a real adquirente das ações foi a empresa estrangeira, e que a utilização da chamada empresa veículo, a Mittal Steel Brasil Participações S/A, teve como único objetivo a internação do ágio, para seu posterior aproveitamento. Recordamos que a possibilidade de dedução do ágio está condicionada ao atendimento dos requisitos legais, conforme dispostos nos já citados e reproduzidos artigos 7o e 8o da Lei n. 9.532 e no artigo 20 do DecretoLei n. 1598/77. Ricardo Mariz de Oliveira apresenta a racionalidade e os requisitos das normas relativas ao ágio nas passagens seguintes, extraídas das páginas 763 e seguintes da obra “Fundamentos do Imposto de Renda”: A norma legal contida no artigo 7º e 8º foi promulgada com vistas a facilitar as privatizações levadas a cabo pelo Governo Federal, pois passou a permitir a dedução fiscal de certos ágios antes indedutíveis. Fl. 10015DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 42 41 Todavia a norma não se restringiu ao programa de privatização, tendo se estendido a toda e qualquer situação que se subsuma às suas hipóteses fáticas de incidência. (...) Uma primeira observação é no sentido de que os art. 7º e 8º não revogaram o disposto no art. 25 do Decretolei n. 1.598, que continua a vigir e a declarar indedutíveis as amortizações de quaisquer ágios, quaisquer que sejam seus fundamentos econômicos, assim como declara não tributáveis as amortizações de quaisquer deságios, enquanto o respectivo investimento permanecer no ativo permanente da pessoa jurídica adquirente do mesmo. Destarte, os efeitos fiscais dependem da realização das condições inseridas nos art. 7º e 8º da Lei nº 9.532, que são pressupostos para a dedução dos ágios, nos casos e circunstâncias em que admitida, assim como a tributação dos ágios. (...) Voltando ao primeiro e principal requisito para que a amortização seja dedutível , haver absorção de patrimônio por meio de incorporação, fusão ou cisão , devese ter presente que, a despeito da largueza de opções dadas pela Lei n. 9532 para a consecução do seu desiderato, tratase de condição a ser cumprida em sua substância, e não apenas formalmente, até tendo em vista a continuidade da vigência da norma de proibição de dedução da amortização se não houver um desses atos, prevista no art. 25 do Decretolei n. 1598. Com razão, a dedução fiscal da amortização é admitida a partir do momento em que “a pessoa jurídica [...] absorver patrimônio de outra”, segundo o “caput” do art. 7º, o que deve representar uma ocorrência efetiva. Outrossim, não se trata de absorção de patrimônio de qualquer pessoa jurídica, pois o mesmo dispositivo acrescenta que deve ser a pessoa jurídica “na qual detenha participação societária adquirida com ágio”. E, ademais, o dispositivo ainda restringe a forma de absorção, dizendo que ela deve ocorrer “em virtude de incorporação, fusão ou cisão”. Essa disposição legal evidencia acima de qualquer dúvida que a exigência é de reunião total (por incorporação ou fusão) ou parcial (por cisão) da pessoa jurídica investidora e da pessoa jurídica investida. O art. 8º, letra “b”, dá a alternativa de se inverter a ordem, ou seja, trata a absorção da investidora pela investida (a chamada “incorporação para baixo” ou “down stream merger”) do mesmo modo que a absorção da investida pela investidora (a “incorporação para cima” ou “up stream merger”), que está prevista no art. 7º. Fl. 10016DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 43 42 Seja como for, o relevante para a lei é a substância da reunião das duas (ou mais de duas pessoas jurídicas), por um dos atos jurídicos nos dois artigos. Esta exigência decorre não apenas da literalidade dos art. 7º e 8º, mas também, e principalmente, do espírito (a “mens legis” ou “ratio legis”) da norma por eles veiculada. Realmente, a racionalidade da norma está em que, por ter havido a reunião da pessoa jurídica a que se refira a expectativa da rentabilidade com a pessoa jurídica pagadora do ágio, este seja deduzido daqueles mesmos lucros esperados ou o mesmo se dê quando o ágio for referente ao valor de mercado dos bens do patrimônio da pessoa jurídica a que se refere a participação adquirida. O objetivo da norma legal é permitir que o ágio fundado em expectativa de rentabilidade, pago na aquisição de um negócio através da aquisição de participação societária na pessoa jurídica que explore esse negócio, seja lançado contra os lucros desse negócio, de modo a que os tributos devidos sobre tais lucros sejam calculados após a dedução da amortização do ágio. O espírito dessa norma é inequívoco, pois a lei permite a amortização do ágio quando ele tenha por fundamento econômico a expectativa de lucros futuros daquele negócio, o que bem justifica a consideração do ágio como dedutível na proporção da realização desses lucros, estabelecida na demonstração desse fundamento, e observado o limite máximo anual previsto na leis, embora, como dito, não haja absoluta e mandatória correlação entre as quotas de amortização de cada períodobase fiscal e o lucro nele apurado efetivamente (correlação de resto impossível de ser matematicamente determinada). Por isso mesmo, para que esse objetivo seja atingido, é necessário trazer o lucro para dentro da pessoa jurídica que tenha adquirido a participação societária com a expectativa de rentabilidade do mesmo (situação descrita no art. 7º) ou levar o ágio para dentro da pessoa jurídica produtora do lucro esperado (situação descrita no art. 8º), o que se faz por incorporação ou cisão de uma delas e absorção pela outra. Ou, ainda, o mesmo objetivo pode ser alcançado levandose o ágio e o lucro para dentro de uma nova pessoa jurídica, o que se faz por fusão das duas pessoas jurídicas. (...) Realmente, os art. 7º e 8º da Lei n. 9532 têm um objetivo – a concessão do benefício de uma dedução especial do ágio – um requisito para tanto, que é a absorção do patrimônio onde esteja o ágio, ou do patrimônio que vai gerar o lucro ao o ágio se refira. Isso inobstante, após a junção das pessoas jurídicas com os recursos financeiros relativos ao ágio participando do ativo da Fl. 10017DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 44 43 mesma pessoa jurídica (quando for o caso) poderem eles ser empregados para o pagamento de custo e despesas, o que não se confunde com a natureza do ágio mantido em ativo diferido e com a sua amortização, tanto quanto o capital social e os recursos derivados da sua integralização podem ser usados para pagar custos e despesas, mas não se transformam em custos e despesas. Portanto, essa norma de concessão do direito à dedução fiscal da amortização é uma norma excepcional, baseada em motivações extratributárias de (1)conveniência da política fiscal no sentido de favorecer as privatizações, à época da promulgação da Lei n. 9532, e também de (2) justiça econômica contida na amortização do ágio pago na aquisição do negócio, paulatinamente à geração dos lucros que tenham dado lastro a ele, eis que estes são sujeitos à tributação quando surgidos. Este último dado é que justifica a extensão da norma a quaisquer aquisições, mesmo às feitas fora do programa de privatizações que estava em andamento na data da Lei n. 9532. O segundo aspecto apresentase exatamente a partir do primeiro e da condição legal para a dedução fiscal da amortização (que é a absorção de patrimônio através da incorporação, fusão ou cisão), consistindo na exigência de que a amortização se processe contra os próprios lucros cuja expectativa tenha dado fundamento econômico ao ágio, exigência esta não expressa na lei, mas decorrente de um imperativo lógico que se pode dizer estar implícito na lei. Realmente, a exigência de incorporação, fusão ou cisão não é uma condição vazia de sentido, que possa ser cumprida apenas formalmente, como, por exemplo, deixar o ágio na investidora e incorporar a ela, por cisão parcial da cindida, uma atividade que não é a geradora de lucro cuja expectativa tenha gerado o lucro. (grifamos) Destarte, o escopo implícito na lei, ao estabelecer a condição de realização de incorporação, fusão ou cisão, é unir o ágio e os lucros a que ele se refira, numa mesma pessoa jurídica e, portanto, num mesmo lucro tributável. Representando isso o cerne racional da exigência condicional da dedução do ágio, manifestase através do requisito da absorção de um patrimônio pelo outro. Ocorre que no caso dos autos percebese a utilização da chamada "empresa veículo", expressão que normalmente é entendida de forma pejorativa, no intuito de desqualificar a operação realizada por seu intermédio. Já nos manifestamos, em outras ocasiões, pela possibilidade de utilização lícita (e, portanto, não abusiva) de uma empresa veículo, sempre que reste claramente demonstrada a sua razão de ser e finalidade ou, ainda, quando se comprove que os mesmos objetivos poderiam ser alcançados sem a sua interposição. Ocorre que, no caso dos autos, os argumentos da Recorrente não me convencem acerca da necessidade da empresa brasileira, ao menos da forma como foi utilizada. Pareceme que realmente o seu único propósito foi o de carrear para o sistema tributário Fl. 10018DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 45 44 econômico brasileiro valores que posteriormente seriam deduzidos a título de despesas com ágio. Confirmamno a sua criação específica e breve existência, a ausência de atividade econômica (conforme demonstrado pela autoridade fiscal), o recebimento integral de recursos oriundos do exterior e sua posterior extinção, numa sequência fática a cronológica que nos leva a concluir que, ao final do "filme", todo o arranjo teve por único objetivo a amortização do ágio. Nesse contexto, a Câmara Superior recentemente decidiu pela indedutibilidade do ágio: Acórdão 9101002.213 – 1ª Turma Sessão de 3 de fevereiro de 2016 Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado COLUMBIAN CHEMICALS BRASIL LTDA. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 ÁGIO. INVESTIDA. REAIS INVESTIDORAS. INEXISTÊNCIA DE CONFUSÃO PATRIMONIAL. INDEDUTIBILIDADE. IRPJ. CSLL. Nos termos da legislação fiscal, é indedutível o ágio deduzido pela investida, em inexistindo a necessária confusão patrimonial com as suas reais investidoras. MARCOS AURÉLIO PEREIRA VALADÃO Relator Do voto do i. Relator podemos extrair os seguintes excertos, que justificam a posição adotada: Não obstante tenha havido a efetiva transferência de recursos das sociedades CC HOLDCO S.A.R.L (LUXEMBOURG) e CC HOLDCO (LTD CAYMAN) HOLDCO para a sociedade CC ACQUISITION CO. (BRASIL) PARTICIPAÇÕES LTDA., na realidade essa última empresa apenas serviu de receptáculo de tais recursos que, no mesmo dia, foram transferidos, de imediato, para a sociedade COLUMBIAN INTERNATIONAL CHEMICALS CORPORATION (USA), visando à aquisição da empresa recorrente, COLUMBIAN CHEMICALS BRASIL LTDA. E tudo isso com o específico fim de permitir a criação de ágio no País, supostamente passível de amortização e, ainda, garantir a remessa, ao exterior, de valores decorrentes da integralização de aumento de capital e do mútuo efetuados com a CC ACQUISITION CO. (BRASIL) PARTICIPAÇÕES LTDA. Ou seja, em última análise, os recursos que permitiram a aquisição da recorrente foram oriundos exclusivamente do Fl. 10019DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 46 45 exterior e não do País , e foram pagos a outra empresa também fora do país, motivo pelo qual não se pode ter como válido, para fins de amortização, o ágio então formado. É que, para que se possa processar essa amortização, é pressuposto inarredável a existência de confusão patrimonial, consistente em haver, no mesmo patrimônio da empresa resultante da incorporação, ágio e rentabilidade, ou ágio e valorização patrimonial, conforme o caso. (...) Vejase que é exatamente isto que preconiza a legislação de regência, quando diz “poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2° do art. 20 do Decretolei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração”, a “pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977” (inciso III e caput do art. 7º da Lei 9.532/1997). Mas vejase que o permissivo legal não ocorre no caso, reitere se, pois a empresa adquirente CC HOLDCO (CC HOLDCO LTD CAYMAN + CC HOLDCO LUXEMBOURG), que adquiriu a COLUMBIAN CHEMICALS DO BRASIL, pagando no exterior (via remessa a partir do Brasil, de recursos para cá enviados poro ela com este fim) à COLUMBIAN INTERNATIONAL CHEMICALS CORPORATION (USA), não incorpora nem é incorporada pela adquirida (COLUMBIAN CHEMICALS DO BRASIL). (...) Cumpre deixar claro que, se se tratasse a CC ACQUISITION CO. (BRASIL) PARTICIPAÇÕES LTDA. de uma empresa preexistente no país, e que aqui exercesse atividade econômica, ainda se poderia admitir que recebesse, ela, recursos do exterior, visando à aquisição de outra empresa também existente no país, para uma futura incorporação, direta ou reversa, entre ambas. Neste caso poderseia argumentar que os efeitos fiscais teriam sido verificados unicamente no país. Não é o caso, porém, quando se constatou que aquela sociedade (CC ACQUISITION CO. (BRASIL) PARTICIPAÇÕES LTDA.) tratavase de uma empresa efêmera, fugaz, que, no seu próprio nome (ACQUISITION) e em seu objeto social (“tem por objeto social exclusivo a participação no capital social da COLUMBIAN CHEMICALS BRASIL LTDA.”), deixa claro ter sido projetada, apenas, para possibilitar a aquisição de outra empresa, com a sua consequente e inexorável extinção. Fl. 10020DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 47 46 Assim, como bem evidenciado pela Fazenda Nacional, em seu recurso especial, o ágio deduzido pela recorrente (investida) é indedutível, nos termos da legislação fiscal, pela inexistência da necessária confusão patrimonial com as suas reais investidoras CC HOLDCO (CC HOLDCO LTD CAYMAN + CC HOLDCO LUXEMBURGO). Conquanto o caso apreciado pela Câmara Superior não seja exatamente igual ao dos autos, posto que naquele processo a empresa veículo recebeu e transferiu recursos de e para o exterior, os argumentos acerca de sua efemeridade, ausência de substância econômica e falta de propósito negocial são aplicáveis ao caso sob análise. Cai por terra, nesse cenário, o argumento da Recorrente sobre a impropriedade de a controladora estrangeira ser entendida como real adquirente das ações no Brasil, posto que os recursos dela vieram e o resultado econômico da operação (o fechamento do capital e a titularidade posterior das ações) a ela aproveitaram. Como a real empresa investidora (a Mittal Steel Company N.V., domiciliada no exterior, com sede na Holanda) e a investida (Arcelor Brasil) continuaram a existir após as operações, a constituição da empresa veículo no país foi a única forma de internação do ágio, com o intuito de viabilizar sua dedutibilidade. Essa circunstância foi bem apontada pela decisão de piso, cujos argumentos reconheço e acolho: Como já relatado e referido, a impugnante afirma que o que motivou a participação da Mittal BR foi a necessidade de viabilizar rapidamente os pagamentos aos acionistas minoritários que venderam suas ações da Arcelor Brasil de forma a não ofender os regulamentos da Bolsa de Valores e do Bacen. Contudo, esta alegação não se sustenta, pois, como já observado pela fiscalização (primeiro parágrafo de fl. 1985) e conforme a Nota de Corretagem juntada pela fiscalização (fl. 803), a Mittal NV adquiriu ações diretamente na OPA, fato reconhecido pela própria fiscalizada em resposta a Termo de Intimação (letra “a” de fl. 60). Neste passo, cabe observar que os exemplos de outras OPAs que foram realizadas por meio de empresas brasileiras (documentos juntados às fls. 2597 a 2685) não socorrem a impugnante porque justamente os Editais destas outras Ofertas Públicas explicitam que os ofertantes são empresas brasileiras, isoladamente ou em conjunto com empresa estrangeira, o que não ocorreu no caso dos autos que, como já dito, tem a controladora estrangeira como única ofertante constante do Edital. A outra alegação da impugnante de que a indefinição quanto à forma em que se daria a fusão entre os grupos Arcelor e Mittal no exterior exigia que a compra de ações fosse feita pela empresa brasileira (Mittal BR) também não se sustenta, pois uma das opções de pagamento aos acionistas minoritários pela entrega das ações da Arcelor Brasil envolvia o recebimento do valor devido parte em ações da Mittal NV. Ora não é possível Fl. 10021DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 48 47 compreender que ações de uma empresa estrangeira sejam oferecidas (e aceitas) em OPA, empresa esta com situação indefinida no exterior segundo a impugnante, e esta mesma empresa seja incapaz de promover esta mesma OPA. De fato, como se vê, esta situação de indefinição no exterior, não impediu que a Mittal NV participasse diretamente da OPA (sem a intervenção da Mittal BR), OPA esta realizada por sua conta e ordem. Também não é possível desconsiderar a proximidade de valores e datas entre as integralizações de capital feitas na Mittal BR pela Mittal NV e as aquisições de ações da Arcelor Brasil pela Mittal BR, de acordo com os demonstrativos elaborados pela fiscalização às fls. 666 a 669, 1979, 1981 e 1982, o que reforça a constatação de que quem pagou o ágio de fato foi a Mittal NV. Finalmente, em 20/08/2007 com a incorporação da Mittal BR pela controlada Arcelor Brasil (Ata da Assembléia às fls. 492 a 494), as ações da Arcelor Brasil que estavam em poder da Mittal BR (206.681.012 ações) foram canceladas e substituídas por igual número de ações entregues à Mittal NV, que era única acionista da Mittal BR. Observese que parte das ações canceladas foi adquirida diretamente pela Mittal NV, entregue com ágio à Mittal BR a título de aumento de capital e compra e venda (75.767.982 ações – quadro de fls. 667, Ata da Assembléia da Mittal BR de fls. 462 a 464 e documentos e contrato de compra e venda de fls. 801 a 821) e depois substituída por igual número de ações entregues pela Arcelor Brasil à Mittal NV, tendo o ágio permanecido no Brasil. É mais gritante o abuso de direito desta parcela do ágio, cujas ações vieram do exterior e para lá voltaram e que o respectivo ágio ficou para ser amortizado no Brasil. Portanto, o que se conclui do exame dos documentos contidos nos autos é que a constituição e participação da empresa Mittal BR no processo de compra das ações da Arcelor Brasil em poder dos acionistas minoritários teve como único objetivo permitir que o ágio pago por empresa domiciliada no exterior fosse registrado por esta empresa veículo que foi incorporada em 20/08/2007 pela controlada (Arcelor Brasil) emissora das ações adquiridas, nove dias úteis após a última aquisição das referidas ações, que ocorreu em 07/08/2007, conforme demonstrativo de fl. 668. Desta forma, aqui também são aplicáveis as considerações feitas acima nos itens 74 a 87 no sentido de que nos termos do ordenamento jurídico vigente não podem ser aceitos os efeitos tributários de um planejamento fiscal, que, apesar de formalmente de acordo com a lei, visto de maneira global, no conjunto visou burlar os requisitos previstos para amortização do ágio. Enfim, não se trata, como alega a impugnante, de obrigála a escolher a forma de tributação mais gravosa, mas sim tributála conforme o que efetivamente ocorreu. Cabe destacar que não houve absorção de patrimônio entre a controladora estrangeira que pagou o ágio e a empresa brasileira cuja aquisição de participação foi ensejadora do ágio, Fl. 10022DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 49 48 um dos requisitos necessários para amortização do ágio de acordo com a legislação antes reproduzida. (grifamos) De se notar que as principais características apontadas por Luís Eduardo Schoueri (Ágio em Reorganizações Societárias Aspectos Tributários, Editora Dialética, p. 103) para a configuração da empresa veículo estão presentes no caso dos autos: i) criação pela própria adquirente com seu investimento na empresaalvo exclusivamente para a transferência do ágio; ii) criação sem qualquer outro propósito econômico; iii) transferência do ágio para a empresa veículo; iv) ser a controladora da empresa que restou após a incorporação; v) extinção por conta da incorporação e vi) possibilitar que a controlada possa amortizar o referido ágio. Diante dessas características, o autor pondera que (op. cit, p. 104): Dada a natureza claramente simulada de tais entidades, a jurisprudência tende a afastar os efeitos fiscais decorrentes de seu emprego. Percebese que ao final da operação, levada a cabo por meio da empresa veículo, a sociedade que efetivamente pagou o ágio, mediante transferência de recursos e capitalização, não foi extinta, assim como não o foi o próprio investimento. Isso nos leva a concluir que os procedimentos, embora formalmente regulares, não tinham qualquer propósito negocial ou racionalidade econômica que não fosse o efeito tributário desejado. Diante de todo o exposto entendo como corretos os lançamentos efetuados pela autoridade tributária em relação ao ágio. 5. Amortização do ágio e seus efeitos em relação à CSLL Em relação à CSLL entende a Recorrente que inexiste dispositivo legal que impeça a dedutibilidade do ágio, nos seguintes termos: Assim, não havendo qualquer disposição legal que impeça a dedutibilidade do ágio da base de cálculo da CSLL, tampouco qualquer norma que estenda a esta contribuição às disposições relativas ao IRPJ, resta concluir que não existe qualquer óbice ou limitação quanto à amortização do ágio para a dedutibilidade dos valores pagos a título de ágio quanto à contribuição em tela. Já me manifestei em diversas outras oportunidades no sentido de reconhecer a evidente aproximação e quase identidade entre o IRPJ e a CSLL, notadamente quanto à apuração das respectivas bases de cálculo. Dentro dos limites do que se discute neste processo, e sem a necessidade de maiores digressões, devemos nos ater aos fundamentos trazidos pela autoridade fiscal, que no Auto de Infração utilizou os artigos 2o e parágrafos da Lei n° 7.689/88 e 28 da Lei n° 9.430/96. Os dispositivos utilizados pela fiscalização possuem a seguinte redação: Artigo 2o da Lei n. 7.689/88: Fl. 10023DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 50 49 Art. 2º A base de cálculo da contribuição é o valor do resultado do exercício, antes da provisão para o imposto de renda. § 1º Para efeito do disposto neste artigo: a) será considerado o resultado do períodobase encerrado em 31 de dezembro de cada ano; b) no caso de incorporação, fusão, cisão ou encerramento de atividades, a base de cálculo é o resultado apurado no respectivo balanço; (...) e Art. 28 da Lei n° 9.430 de 1996 Art. 28. Aplicamse à apuração da base de cálculo e ao pagamento da contribuição social sobre o lucro líquido as normas da legislação vigente e as correspondentes aos arts. 1º a 3º, 5º a 14, 17 a 24, 26, 55 e 71, desta Lei. Para a compreensão da matéria, também não podemos olvidar do disposto no artigo 57 da Lei n. 8.981/95: Art. 57 da Lei n° 8.981/95 Art. 57. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive no que se refere ao disposto no art. 38, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta Lei. (Redação dada pela Lei nº 9.065, de 1995) (grifamos) A leitura dos dispositivos nos leva a concluir que a metodologia e as regras de apuração para o imposto de renda são aplicáveis ao cálculo da CSLL (o que se infere da dicção "mesmas normas de apuração") e que o preceptivo só perderia eficácia se houvesse norma específica, relativa à contribuição, em sentido diverso. Aliás, os demais parágrafos do artigo 57 corroboram a tese de semelhança entre as duas figuras: § 3º A pessoa jurídica que determinar o Imposto de Renda a ser pago em cada mês com base no lucro real (art. 35), deverá efetuar o pagamento da contribuição social sobre o lucro, calculandoa com base no lucro líquido ajustado apurado em cada mês. § 4º No caso de pessoa jurídica submetida ao regime de tributação com base no lucro real, a contribuição determinada na forma dos §§ 1º a 3º será deduzida da contribuição apurada no encerramento do período de apuração. Fl. 10024DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 51 50 Igual raciocínio se aplica, ainda, para fins de compensação, conforme dispõe o artigo 58 do mesmo diploma legal: Art. 58. Para efeito de determinação da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro, o lucro líquido ajustado poderá ser reduzido por compensação da base de cálculo negativa, apurada em períodosbase anteriores em, no máximo, trinta por cento. Além de fixar idêntica trava para a compensação das bases negativas (em relação ao IRPJ), o comando expressamente menciona que a base de cálculo será o lucro líquido ajustado, ou seja, o legislador estabelece para a CSLL o mesmo ponto de partida previsto para o cálculo do lucro real, afinal o lucro é "ajustado" pelas adições e exclusões previstas na legislação do Imposto de Renda (artigos 250 e 510 do Decreto n. 3.000/99). Não se trata, portanto, de integração por analogia, figura vedada pelo artigo 108 do CTN no que se refere à exigência de tributos. O que se tem, de fato, é a identidade, prevista em lei, quanto às sistemáticas de apuração da base de cálculo das duas figuras. Também não se cuida de omissão, pois a lei expressamente configura a base de cálculo do tributo e a aproxima, por equivalência, às regras do IRPJ. Ademais, no caso em tela, a constatação da artificialidade das despesas relativas ao ágio não nos permite aceitar, sob qualquer argumento, a sua dedutibilidade para fins de apuração da CSLL. Tratase de questão ontológica e, na esteira do raciocínio desenvolvido neste voto, tornase de rigor declarar que não assiste razão à Recorrente. 6. Excesso de exação em relação à multa qualificada Defende a Recorrente que inexiste justificativa para a qualificação da multa, nos seguintes termos: No caso da Recorrente, os negócios jurídicos foram efetivamente praticados e produziram todos os respectivos efeitos jurídicos, havendo perfeita sintonia entre as causas típicas e objetivas de cada uma dessas etapas. Ademais, os documentos que ampararam a sua realização obedeceram a todas as formalidades legais, tendo sido publicados em notas explicativas das demonstrações financeiras das sociedades envolvidas, bem como em fatos relevantes divulgados ao mercado, além de registrados nos órgãos competentes. Ora, a fraude "tributária", prevista no artigo 72, da Lei 4.502/64, sempre foi reconhecida como aquela instrumentalizada mediante adulteração das informações contidas nos livros e registros contábeis e fiscais do contribuinte, por exemplo. Fl. 10025DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 52 51 Acerca deste ponto, que foi afastado pela decisão de piso, nos manifestaremos quando da análise do Recurso de Ofício, deixando consignada, por enquanto, a posição da Recorrente pela manutenção do entendimento exarado em primeira instância. 7. Da glosa da variação patrimonial passiva e de juros Neste tópico, defende a Recorrente que não procede a glosa das variações patrimoniais passivas e de juros, sob o argumento da legitimidade das operações que originaram o ágio e, ainda, que a partir de agosto de 2007 a variação cambial teria sido positiva. A situação objeto da discórdia decorre dos seguintes fatos, narrados pela decisão de piso: A fiscalização glosou a variação cambial passiva (R$ 359.501.121,23) e a despesa com juros (R$ 141.557.901,14) gerados por empréstimo (R$ 5.294.450.949,90) que a Mittal BR tomou no exterior para aquisição das ações da Arcelor Brasil S/A no Brasil e de passivo gerado (R$ 563.453.373,86 equivalente a U$ 300.054.850,00) pela compra das ações da Arcelor Brasil S/A que se encontravam em poder da controladora no exterior Mittal NV. Estes valores se encontram no balanço da Mittal BR na data de sua incorporação (20/08/2007) e foram transferidos a sua sucessora (Arcelor Brasil S/A) e à sucessora de sua sucessora (ArcelorMittal, a autuada impugnante). Existe clara correlação entre os valores glosados e o entendimento acerca da legitimidade do ágio, pois a fiscalização, ao desqualificar, para fins tributários, as operações que ensejaram o ágio entendeu, por via de consequência, considerar desnecessárias as despesas com o empréstimo obtido, para esse fim, no exterior. De acordo com a narrativa fiscal, os argumentos para a glosa foram: A fiscalizada enviou, para fins de amparar os empréstimos mencionados, contrato de "export prepayment agreement" entre Mittal BR (tomador) e Arcelor Investments S/A (emprestador), sediado em Luxemburgo, datado de 04/07/2007 (período em que aconteceram as aquisições de ações da Arcelor). O contrato em questão manifesta a intenção de emprestar até US$ 5.000.000.000,00 a serem liquidados com futuros produtos a serem exportados, com juros estipulados em 10% ao ano. Consta ainda, mapa de cálculo dos valores emprestados, das amortizações do principal, dos juros e do total pago. Remeteram, também, contrato com os mesmos participantes do contrato anterior, datado de 04/12/2007, já constando a Arcelormittal como emprestador, por subrogação da Mittal BR. no valor de US$ 3.223.899.350,34. Citam que parte será emprestada pela empresa Aceralia Construccionies (sediada em Madrid). Fl. 10026DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 53 52 Portanto, vale para este capítulo, tudo aquilo que foi defendido exaustivamente no capítulo de ágio internalizado, pois se a Mittal NV tivesse adquirido diretamente as ações da Arcelor Brasil, e não havia nada proibindo este procedimento, não existiria o empréstimo e nem haveria a necessidade de vender para a Mittal BR parte das ações adquiridas diretamente pela Mittal NV. Os valores calculados pela autoridade fiscal, a partir das declarações da Recorrente, podem ser encontrados às fls. 71 a 73 do TVF e me parecem corretos. Como a Mittal BR não tinha capacidade econômica para adquirir as ações da Arcelor Brasil os recursos financeiros foram obtidos do seu próprio controlador no exterior, a Mittal N.V. Portanto, as despesas glosadas pela fiscalização decorreram da variação cambial passiva e dos juros relacionados aos empréstimos obtidos pela Mittal BR. Na exata medida em que se entenda, conforme já demonstrado neste voto, que tais despesas são fruto de artificialismo nas operações relativas à reorganização societária do grupo, que permitiu a formação do ágio, tornase de rigor considerálas como não enquadradas nos conceitos de usualidade e necessidade exigidos pelo artigo 299 do Regulamento do Imposto de renda: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. §1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa. §2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. O raciocínio é direto e deve guardar correspondência lógica com o entendimento acerca do ágio, vale dizer, se a real adquirente das ações foi a controladora no exterior, que apenas utilizou a empresa veículo no Brasil, sendo certo que não houve uma real operação de compra e venda, dada a circularização do negócio, quaisquer despesas a título de variação cambial e juros, relativas aos empréstimos contraídos, simplesmente não podem ser dedutíveis, pois a desconsideração dos efeitos tributários da operação que envolveu o ágio automaticamente afasta o reconhecimento de outras despesas a ele inerentes. Em relação ao argumento de que houve variação ativa no final de 2007 e que os cálculos realizados pela fiscalização estariam incorretos, pareceme que a análise dos documentos não corrobora a tese da defesa. Nesse contexto, reproduzo e acolho o entendimento formulado na decisão da DRJ, posto que inexistem provas efetivas em contrário: A impugnante ainda afirma, especificamente em relação à variação cambial, que a fiscalização deixou de considerar a variação cambial ativa, gerada pelo empréstimo, decorrente da valorização da moeda nacional ocorrida a partir de setembro de Fl. 10027DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 54 53 2007. Afirma ainda que a Mittal BR e a Arcelor Brasil optaram pela tributação da variação cambial pelo regime de caixa e que a ArcelorMittal (antes denominada Belgo Siderurgia) optou pela tributação pelo regime de competência. Para embasar estas afirmações apresenta planilha (fl. 2687) e cópia parcial das declarações de rendimentos destas empresas. Contudo, estes documentos não são hábeis para afastar a constatação, apontada pela fiscalização, de que foi excluído do lucro líquido para apuração do lucro real, a título de variação cambial passiva, ainda que tenha constado na declaração de rendimentos na linha “outras exclusões”, o valor total de R$ 359.501.121,23, conforme comprovam os documentos (Livro de Apuração do Lucro Real – Parte A) de fls. 909 e 915. Neste ponto, cabe esclarecer que a variação cambial passiva foi deduzida via Lalur, já que estava sendo controlada na Parte B da sucessora, pois a Mittal BR tinha adicionado o respectivo valor na apuração de seu lucro real de encerramento pela incorporação. Portanto, esta parcela do lançamento também deve ser mantida. 8. Dos lucros no exterior A fiscalização autuou, a título de CSLL, os lucros auferidos no exterior pela controlada Acindar, localizada na Argentina, pelos seguintes motivos: Em tese, os lucros apurados por tais controladas são passíveis de disponibilização para fim de apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL do fiscalizado. Observo que foram considerados, apenas para fins de CSLL os lucros auferidos pela ACINDAR ACEROS, localizada na Argentina, motivada pela não cobertura do CSLL pelos Acordos para evitar bi tributação entre o Brasil e a Argentina, pois tal contribuição tem natureza diversa do IRPJ. Entendemos que a convenção entre Brasil e Argentina não abrange a CSLL, porque à época da assinatura do acordo, já existia a CSLL e não há menção, no tratado, de que a contribuição seria abrangida, ora se já existia e não foi arrolada no TDT indica que esta fora do alcance desse mesmo Tratado. Ainda, considerese, que o parágrafo 3o do artigo 2o da convenção menciona que impostos que forem estabelecidos após a data de sua assinatura, ou seja, a CSLL foi constituída antes da oficialização do Tratado. Por seu turno, entende a Recorrente que o Tratado para evitar a bitributação, celebrado entre Brasil e Argentina, produz efeitos em relação à CSLL. Cumpre ressaltar, neste passo, que a decisão de primeira instância já havia afastado parte do valor exigido a título de CSLL, por erro na determinação da participação da autuada na controlada argentina: Fl. 10028DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 55 54 A autuada também afirma que a fiscalização errou ao considerar 100% do lucro auferido pela controlada Acindar como sujeito à tributação, já que sua participação nesta empresa foi de 65,84% e 65,21% em 31/12/2006 e 31/12/2007. Realmente a fiscalização considerou 100% dos lucros auferidos pela controlada estrangeira em 2006 e 2007, demonstrados no quadro 28 (fl. 2005) como sujeito à CSLL, sem em nenhum momento afirmar que a Acindar seria integralmente controlada pela fiscalizada. Pelo contrário, na única passagem em que cita percentual de participação, se refere a 66%, conforme documento datado de 07/05/2004 à equivalente argentina à nossa CVM (segundo parágrafo de fl. 2005). Além disto, na DIPJ relativa ao anocalendário 2007, a contribuinte já havia declarado que detinha participação equivalente a 65,21% na controlada Argentina (fl. 1501). Diante disto, e das demonstrações contábeis apresentadas pela impugnante e relativas aos exercícios findos em 31/12/2006 e 31/12/2007, que registram participação da interessada na Acindar Indústria Argentina de Aceros S/A nos percentuais respectivos de 65,84% (fl. 2719) e 65,21% (fl. 2756), cabe a redução do lançamento para que sejam tributadas pela CSLL somente a parcela dos lucros auferidas pela empresa estrangeira que sejam proporcionais à participação da empresa brasileira naquela. Contudo, apesar da correta adequação da base de cálculo ao lançamento da CSLL, efetuada pela DRJ, remanesce a questão jurídica sobre o aplicabilidade do tratado entre Brasil e Argentina para tal contribuição. Importante frisar que a autoridade fiscal fundamentou a autuação exclusivamente em razão da inaplicabilidade do tratado à CSLL. Inexiste, nos autos, qualquer outro fundamento que justifique a medida. Assim, entendo que, neste ponto, tem razão a Recorrente. De plano, convém ressaltar que não se discute, no entendimento deste Relator, a supremacia dos tratados internacionais em relação à legislação interna, notadamente na seara tributária, por força do artigo 98 do Código Tributário Nacional. Ocorre que aqui, ao contrário da discussão enfrentada no processo n. 10600.720035/201386, relativo à mesma contribuinte e semelhantes operações (lá cuidase dos anoscalendário de 2008 e 2009), o único fundamento da autuação foi a não abrangência Fl. 10029DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 56 55 da CSLL no acordo entre Brasil e Argentina, tanto assim que a fiscalização não lançou valores a título de IRPJ, diferente do que ocorreu naquele caso. Em termos conceituais, sempre defendi a extensão dos tratados celebrados pelo Brasil para evitar a bitributação também para a CSLL, por diversos argumentos, entre os quais a proximidade lógica e quase identidade entre os dois tributos, além dos princípios da boafé, da reciprocidade e da transparência, que devem nortear as relações internacionais. Também tenho defendido, há tempos, a compatibilidade entre a legislação nacional (notadamente o artigo 74 da MP n. 2.15835) e o disposto no tratados, na esteira, inclusive, do que já decidiu o Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento da ADIN 2.588: TRIBUTÁRIO. INTERNACIONAL. IMPOSTO DE RENDA E PROVENTOS DE QUALQUER NATUREZA. PARTICIPAÇÃO DE EMPRESA CONTROLADORA OU COLIGADA NACIONAL NOS LUCROS AUFERIDOS POR PESSOA JURÍDICA CONTROLADA OU COLIGADA SEDIADA NO EXTERIOR. LEGISLAÇÃO QUE CONSIDERA DISPONIBILIZADOS OS LUCROS NA DATA DO BALANÇO EM QUE TIVEREM SIDO APURADOS (“31 DE DEZEMBRO DE CADA ANO”). ALEGADA VIOLAÇÃO DO CONCEITO CONSTITUCIONAL DE RENDA (ART. 143, III DA CONSTITUIÇÃO). APLICAÇÃO DA NOVA METODOLOGIA DE APURAÇÃO DO TRIBUTO PARA A PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS APURADA EM 2001. VIOLAÇÃO DAS REGRAS DA IRRETROATIVIDADE E DA ANTERIORIDADE. MP 2.15835/2001, ART. 74. LEI 5.720/1966, ART. 43, § 2º (LC 104/2000). 1. Ao examinar a constitucionalidade do art. 43, § 2º do CTN e do art. 74 da MP 2.158/2001, o Plenário desta Suprema Corte se dividiu em quatro resultados: 1.1. Inconstitucionalidade incondicional, já que o dia 31 de dezembro de cada ano está dissociado de qualquer ato jurídico ou econômico necessário ao pagamento de participação nos lucros; 1.2. Constitucionalidade incondicional, seja em razão do caráter antielisivo (impedir “planejamento tributário”) ou antievasivo (impedir sonegação) da normatização, ou devido à submissão obrigatória das empresas nacionais investidoras ao Método de de Equivalência Patrimonial – MEP, previsto na Lei das Sociedades por Ações (Lei 6.404/1976, art. 248); 1.3. Inconstitucionalidade condicional, afastada a aplicabilidade dos textos impugnados apenas em relação às empresas coligadas, porquanto as empresas nacionais controladoras teriam plena disponibilidade jurídica e econômica dos lucros auferidos pela empresa estrangeira controlada; 1.4. Inconstitucionalidade condicional, afastada a aplicabilidade do texto impugnado para as empresas controladas ou coligadas sediadas em países de tributação normal, com o objetivo de preservar a função antievasiva da normatização. Fl. 10030DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 57 56 2. Orientada pelos pontos comuns às opiniões majoritárias, a composição do resultado reconhece: 2.1. A inaplicabilidade do art. 74 da MP 2.15835 às empresas nacionais coligadas a pessoas jurídicas sediadas em países sem tributação favorecida, ou que não sejam “paraísos fiscais”; 2.2. A aplicabilidade do art. 74 da MP 2.15835 às empresas nacionais controladoras de pessoas jurídicas sediadas em países de tributação favorecida, ou desprovidos de controles societários e fiscais adequados (“paraísos fiscais”, assim definidos em lei); 2.3. A inconstitucionalidade do art. 74 par. ún., da MP 2.158 35/2001, de modo que o texto impugnado não pode ser aplicado em relação aos lucros apurados até 31 de dezembro de 2001. Ação Direta de Inconstitucionalidade conhecida e julgada parcialmente procedente, para dar interpretação conforme ao art. 74 da MP 2.15835/2001, bem como para declarar a inconstitucionalidade da cláusula de retroatividade prevista no art. 74, par. ún., da MP 2.158/2001. (grifamos) Portanto, a regra geral do comando foi considerada conforme pelo STF, de sorte que os lucros auferidos por controlada no exterior devem ser computados na base de cálculo dos dois tributos. Contudo, não se pode olvidar que o artigo 11 da Lei n. 13.202/2015 resolveu, (corretamente, no entendimento deste Relator e de grande parte da doutrina) a antiga questão sobre a pertinência da CSLL nos tratados para evitar bitributação em que a contribuição não fora expressamente prevista: Art. 11. Para efeito de interpretação, os acordos e convenções internacionais celebrados pelo Governo da República Federativa do Brasil para evitar dupla tributação da renda abrangem a CSLL. Portanto, a controvérsia está resolvida, e os preceitos relativos aos tratados devem ser estendidos à CSLL. Assim, ao analisarmos o Termo de Verificação Fiscal constatamos que não houve autuação relativa ao IRPJ (ao contrário do lançamento efetuado em relação à controlada na Costa Rica, que não possui tratado com o Brasil), sob o argumento de que o imposto estaria albergado pelo tratado, entendimento que foi negado, pela fiscalização, em relação à CSLL. A posição da fiscalização baseouse apenas no entendimento teórico acerca da matéria, que hoje encontrase prejudicado pela interpretação autêntica veiculada pelo legislador, de sorte que na ausência de outros fundamentos para a autuação, como o efetivo oferecimento dos valores à tributação no Brasil ou os cálculos pertinentes à apuração do resultado no país, entendo que deve ser cancelado o lançamento relativo à CSLL decorrente do resultado no exterior da controlada argentina Acindar. Repitase: defendo ser possível a coexistência entre os preceitos do artigo 74 da MP 2.15835 e as regras para evitar a bitributação existentes nos tratados celebrados pelo Brasil, pois a lógica desses acordos enseja a tributação no país de residência de cada Estado Fl. 10031DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 58 57 contratante. Mas, como no caso dos autos, a fiscalização utilizou como único argumento o não enquadramento da CSLL nas disposições do tratado, circunstância afastada pela legislação, com óbvios efeitos retroativos, a autuação não se sustenta e deve ser cancelada. Tornase desnecessária, na esteira dessa conclusão, a análise sobre a existência de créditos compensáveis para a controlada Acindar, em razão de pagamentos já efetuados no exterior. No que tange à tributação do resultado obtido pela controlada ArcelorMittal Costa Rica, o argumento da defesa baseiase nas seguintes premissas: Em brevíssima exposição, a autoridade fiscal, na autuação que deu origem ao presente processo, acusa a Recorrente de ter deixado de adicionar ao lucro real e à base de cálculo do IRPJ e da CSLL o montante de R$ 2.615.530,64, auferidos por sua controlada domiciliada na Costa Rica, ArcelorMittal Costa Rica S/A ("AM Costa Rica"). A recorrente, por ocasião da Impugnação, reconheceu parte desse montante apurado sobre os lucros auferidos através da controlada AM Costa Rica, tendo inclusive efetuado o recolhimento do IRPJ e da CSLL apurados sobre a base de R$ 1.826.349,51. No entanto, a parcela restante da infração, no valor de R$ 789.181,13, não pode prevalecer, conforme já sustentado na Impugnação e reiterado a seguir. Pois bem. Em 2006 e 2007, a Recorrente detinha também participação societária na Trefilería Colima S.A. ("Colima"), igualmente domiciliada na Costa Rica. Em 31.12.2007, a Colima apurou um Lucro Fiscal após compensações no montante de R$ 13.943,07. Portanto, tendo em vista que a Recorrente possui um percentual de participação de 50%, o imposto de renda e a contribuição social, em correspondência a esta entidade, deveriam ter sido calculados sobre uma base de R$ 6.971,53. Acontece, porém, que a Recorrente erroneamente adicionou na base de cálculo do imposto de renda e da contribuição social o montante de R$ 796.152,66. Ou seja, adicionou em sua base de cálculo um montante a maior sobre os lucros auferidos pela Colima de R$ 789.181,13. De acordo com a Recorrente, houve apenas erro na transposição de resultados na DIPJ e que isso deveria ser considerado, em homenagem ao princípio da verdade material. O fundamento para essa possibilidade de consolidação do resultado no exterior de controladas localizadas no mesmo país seria o artigo 4o da IN 213/02: Art. 4º É vedada a compensação de prejuízos de filiais, sucursais, controladas ou coligadas, no exterior, com os lucros auferidos pela pessoa jurídica no Brasil. § 1º Os prejuízos a que se refere este artigo são aqueles apurados com base na escrituração contábil da filial, sucursal, Fl. 10032DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 59 58 controlada ou coligada, no exterior, efetuada segundo as normas legais do país de seu domicílio, correspondentes aos períodos iniciados a partir do anocalendário de 1996. § 2º Os prejuízos apurados por uma controlada ou coligada, no exterior, somente poderão ser compensados com lucros dessa mesma controlada ou coligada. § 3º Na compensação dos prejuízos a que se refere o § 2º não se aplica a restrição de que trata o art. 15 da Lei nº 9.065, de 1995. § 4º A pessoa jurídica brasileira que absorver patrimônio de filial, sucursal, controlada ou coligada, no exterior, de outra pessoa jurídica brasileira, e continuar a exploração das atividades no exterior, poderá compensar os prejuízos acumulados pela referida filial, sucursal, controlada ou coligada, correspondentes aos períodos iniciados a partir do anocalendário de 1996, observado o disposto neste artigo. § 5º Tratandose de filiais e sucursais, domiciliadas num mesmo país, quando a matriz no Brasil indicar uma dessas filiais ou sucursais como entidade líder, os resultados poderão ser consolidados por país e os prejuízos de uma poderão ser compensados com os lucros de outra. (grifamos) Contudo, notase que o artigo utilizado como fundamento pela Recorrente não lhe socorre, pois a regra geral trazida pelo dispositivo é justamente no sentido de não permitir a compensação de prejuízos de uma empresa no exterior com os lucros de outra. Mesmo a sistemática do § 5º, evocada pela interessada, não se aplica à hipótese, em primeiro lugar porque não se tem notícia da indicação da entidade líder na Costa Rica e, além disso, o artigo não se preza a corrigir eventuais erros de declaração, que possuem rito e exigências próprias para sua correção. Se a contribuinte cometeu algum erro deverá promover a retificação das declarações e buscar a compensação dos indébitos, posto que a supracitada norma da Receita Federal não autoriza a compensação do montante lançado de ofício com eventuais tributos indevidamente oferecidos à tributação. Deve ser mantido, portanto, o lançamento efetuado pela autoridade fiscal quanto a este tópico. 9. Da taxa SELIC sobre a multa Diz a Recorrente ser incabível a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, por ausência de dispositivo legal. Contudo, pareceme induvidoso que a multa de ofício integra o conceito de obrigação tributária esposado pelo artigo 113 do Código Tributário Nacional. Como é cediço, o conceito de crédito tributário no Brasil engloba tributo e multa, como expressamente estabelece o artigo 43 da Lei n. 9430/96: Fl. 10033DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 60 59 Art.43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (grifamos) Artigo 5o, § 3º, da Lei n. 9.430/96. As quotas do imposto serão acrescidas de juros equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, para títulos federais, acumulada mensalmente, calculados a partir do primeiro dia do segundo mês subseqüente ao do encerramento do período de apuração até o último dia do mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento. (grifamos) No mesmo sentido, impõe o Código Tributário Nacional que: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. (grifamos) Do exposto podemos concluir que há disposição expressa para a cobrança de juros sobre multas, porque incluídas no conceito de crédito tributário, e que a taxa aplicável à espécie é a referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia – SELIC. Esse também é o entendimento do STJ sobre o assunto, conforme se observa da ementa a seguir transcrita (AgRg no REsp 1335688/PR – DJe de 10/12/2012): PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: "É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário." (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. (grifamos) 10. Do Recurso de Ofício A Delegacia de Julgamento de São Paulo apresentou Recurso de Ofício em razão de a Turma ter afastado a qualificação da multa, reduzindoa de 150% para 75%, para todos os lançamentos efetuados. Fl. 10034DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 61 60 Entendeu a DRJ, por maioria, não ter sido comprovado dolo ou simulação na práticas dos atos que conduziram à reorganização societária, nos seguintes termos: A autoridade fiscal entendeu que a contribuinte tinha consciência da ilicitude da reorganização societária engendrada, o que demonstraria o dolo e a prática de uma conduta fraudulenta a justificar o agravamento da multa de ofício. Entendo que as operações e a estrutura societária criada pelo grupo empresarial não foram produto de simulação, de embuste, mas uma tentativa malsucedida de um planejamento tributário, fundado em uma visão estrita do conceito formal de legalidade. O direito de se autoorganizar e de usar todas as formas legais para buscar a menor tributação possível são argumentos candentes dos defensores da liberdade irrestrita dos contribuintes em planejar sua vida fiscal. Todavia, a autonomia privada encontra limites nos demais princípios que informam nossa matriz constitucional, valendo dizer que o negócio jurídico ou o planejamento tributário realizados devem encontrar fundamentação que não se restrinja à pretensão de fugir da tributação. (...) Por sua vez, a estrutura societária do grupo econômico e as operações engendradas pela contribuinte foram reveladas à autoridade fiscal a partir de documentos apresentados pela própria fiscalizada e que estavam disponíveis em órgãos públicos. Não há notícia de que a contribuinte tivesse dificultado o acesso da autoridade fiscal aos documentos ou que sua estrutura societária teria sido desvendada a partir de documentos que se encontravam ocultados e que, depois de descobertos pela fiscalização, revelaram a real substância do negócio. Entendo que a decisão de piso não merece reparos. Realmente, não constam dos autos provas capazes de comprovar o dolo específico do contribuinte, traduzido pela vontade consciente e deliberada de praticar atos em prejuízo do Estado. Conquanto possamos considerar que a escolha e os procedimentos de reorganização societária adotados não ensejam a dedutibilidade do ágio, como já demonstrado ao longo deste voto, isso não implica, necessariamente, que houve qualquer fraude ou simulação, pois os documentos, registros e informações foram apresentados à autoridade fiscal e também se basearam em informações de conhecimento público. A eleição de forma indevida para o aproveitamento de vantagens tributárias, por si só, não é condição suficiente para a qualificação da multa, embora constitua ilícito tributário, já penalizado com a multa de ofício. Fl. 10035DF CARF MF Processo nº 16643.720041/201151 Acórdão n.º 1201001.872 S1C2T1 Fl. 62 61 A partir dessas considerações acolho o entendimento esposado pela decisão de piso. Ante o exposto CONHEÇO do Recurso Voluntário para, no mérito, DAR LHE parcial provimento, para cancelar o lançamento da CSLL relativo à autuação da controlada Acindar, assim como voto para NEGAR provimento ao Recurso de Ofício. É como voto. (documento assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida Relator Fl. 10036DF CARF MF
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