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Numero do processo: 10803.720049/2012-32
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Apr 10 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue May 15 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2006, 2007, 2008
DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS. PAGAMENTOS DE VERBAS SALARIAIS. GLOSA. IMPOSSIBILIDADE.Se tratando de despesas necessárias, usuais e normais segundo a atividade desenvolvida pela Pessoa Jurídica, efetivamente suportadas, devem ser consideradas dedutíveis para efeito de se determinar o lucro tributável.
Nos termos do artigo 28, inciso I, da Lei nº 8.212/91, c/c artigo 457, § 1º, da CLT, integra o salário de contribuição, a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título aos segurados empregados, objetivando retribuir o trabalho. A verba paga pela empresa aos segurados empregados por intermédio de programa de incentivo, administrado pela empresa Expertise, é fato gerador de contribuição previdenciária, não podendo, portanto, ser considerada como indedutível para fins de apuração do lucro real.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL.
Aplica-se aos lançamentos decorrentes ou reflexos o decidido sobre o lançamento que lhes deu origem, por terem suporte fático comum.
Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Ano-calendário: 2006, 2007, 2008
PAGAMENTO SEM CAUSA A BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO. FALTA DE RECOLHIMENTO DE IRRF. NÃO CONFIGURADO
Tendo sido comprovada a causa e/ou beneficiário da operação que deu origem aos pagamentos efetuados, incorreta a ação fiscal ao cobrar o Imposto de Renda Retido na Fonte sobre a base de cálculo ajustada.
Numero da decisão: 1301-002.926
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente
(assinado digitalmente)
José Eduardo Dornelas Souza - Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Ângelo Antunes Nunes (suplente convocado para manter paridade do colegiado), Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado em substituição à Conselheira Bianca Felícia Rothschild) e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Ausente justificadamente a Conselheira e Bianca Felícia Rothschild.
Nome do relator: JOSE EDUARDO DORNELAS SOUZA
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Recorrente ITA PEÇAS PARA VEÍCULOS COMÉRCIO E SERVIÇOS LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006, 2007, 2008 DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS. PAGAMENTOS DE VERBAS SALARIAIS. GLOSA. IMPOSSIBILIDADE.Se tratando de despesas necessárias, usuais e normais segundo a atividade desenvolvida pela Pessoa Jurídica, efetivamente suportadas, devem ser consideradas dedutíveis para efeito de se determinar o lucro tributável. Nos termos do artigo 28, inciso I, da Lei nº 8.212/91, c/c artigo 457, § 1º, da CLT, integra o salário de contribuição, a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título aos segurados empregados, objetivando retribuir o trabalho. A verba paga pela empresa aos segurados empregados por intermédio de programa de incentivo, administrado pela empresa Expertise, é fato gerador de contribuição previdenciária, não podendo, portanto, ser considerada como indedutível para fins de apuração do lucro real. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. Aplicase aos lançamentos decorrentes ou reflexos o decidido sobre o lançamento que lhes deu origem, por terem suporte fático comum. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Anocalendário: 2006, 2007, 2008 PAGAMENTO SEM CAUSA A BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO. FALTA DE RECOLHIMENTO DE IRRF. NÃO CONFIGURADO Tendo sido comprovada a causa e/ou beneficiário da operação que deu origem aos pagamentos efetuados, incorreta a ação fiscal ao cobrar o Imposto de Renda Retido na Fonte sobre a base de cálculo ajustada. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 80 3. 72 00 49 /2 01 2- 32 Fl. 28488DF CARF MF Processo nº 10803.720049/201232 Acórdão n.º 1301002.926 S1C3T1 Fl. 28.488 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Ângelo Antunes Nunes (suplente convocado para manter paridade do colegiado), Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Leonam Rocha de Medeiros (suplente convocado em substituição à Conselheira Bianca Felícia Rothschild) e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Ausente justificadamente a Conselheira e Bianca Felícia Rothschild. Relatório Tratase de Recurso Voluntário contra o acórdão nº 1648.125, proferido pela 2ª Turma da DRJ/SP1, que, por maioria de votos, julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido. Por bem descrever o ocorrido, valhome do relatório elaborado por ocasião do julgamento do processo em primeira instância, a seguir transcrito: Em ação fiscal direta, a empresa, acima qualificada, foi autuada em 29/08/2008, a recolher ou impugnar os créditos tributários no valor de R$ 8.568.897,54, a título de Imposto de Renda sobre a Pessoa Jurídica (IRPJ), R$ 18.910.134,37 de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) e R$ 54.277,39 de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), incluídos nesses totais multas e juros de mora calculados até 10/2012. O enquadramento legal para o Auto de Infração do IRPJ está contido nas fls.16, do IRRF, à fl. 46 e da CSLL, à fl.63. Em 21/05/2012, foi iniciado procedimento fiscal contra a Impugnante, objetivando verificar o registro contábil e a regularidade no cumprimento das obrigações tributárias relacionadas ao IRPJ, em virtude da emissão de notas fiscais de prestação de serviços por EXPERTISE COMUNICAÇÃO TOTAL LTDA., CNPJ 03.069.255/000107, nos anoscalendário de 2006 a 2008. Foram solicitados livros, informações e documentos, para a verificação das obrigações fiscais. Fl. 28489DF CARF MF Processo nº 10803.720049/201232 Acórdão n.º 1301002.926 S1C3T1 Fl. 28.489 3 Conforme descrição no Termo de Verificação (fls.68/71), a fiscalização constatou em levantamento documental, relativamente ao período entre 2006 e 2008, as seguintes infrações: • Incomprovada a efetiva prestação dos serviços ("Prestação de serviços de marketing de relacionamento, incentivo e fidelização e gerenciamento de premiação) pela CONTRATADA (EXPERTISE COMUNICAÇÃO TOTAL S/C LTDA., CNPJ 03.069.255/000107), a causa dos pagamentos e a identificação dos beneficiários dos pagamentos efetuados por meio dos cartões (cartão eletrônico denominado Exchange Card), elementos suficientes a demonstrar a necessidade dos dispêndios à atividade e à manutenção da respectiva fonte produtora da CONTRATANTE, nos termos do Artigo 299 e §§ do RIR/99 Decreto nº 3.000/99, impôsse a glosa destes valores na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL; • Não identificados, nos registros contábeis, os beneficiários e, documentalmente, a efetiva prestação dos serviços e a causa, ficam os valores dos pagamentos efetuados por meio de cartões, devidamente reajustados, sujeitos à incidência do Imposto sobre a Renda na Fonte na forma do Artigo 674 §§ do RIR/99Decreto nº 3000/99; • Com o procedimento contábil adotado, o contribuinte fez ocultar a causa e os beneficiários destes pagamentos, caracterizando, assim, a hipótese de incidência da multa prevista no inciso II do Artigo 957 do Decreto nº 3.000/99RIR. A Fiscalização entende que para efeitos da legislação do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas, a dedução de dispêndios a titulo de custos ou despesas operacionais está condicionada à comprovação da efetividade da prestação dos serviços. Não basta comprovar que a despesa foi assumida e que houve o desembolso; é indispensável, principalmente, comprovar que o dispêndio corresponde a contrapartida de algo recebido e que, por isso mesmo, torna o pagamento devido. Cientificada do feito em 04/10/2012 (fl.5.892), apresenta, em 31/10/2012, impugnação, de fls. 5.903/5.944, para todos os efeitos, argüindo, em síntese, o seguinte: • Estariam decaídos todos os fatos geradores de IRRF ocorridos antes do mês de outubro de 2007. Quanto aos fatos geradores do IRPJ e da CSLL, já estariam alcançados pela decadência aqueles ocorridos em 31/12/2006; • Devidamente identificados os beneficiários dos pagamentos, como empregados da Impugnante que atingiram as metas impostas para o recebimento de premiações, somente poderia ser exigido, em tese, sobre tais montantes, o Imposto sobre a Renda na Fonte incidente sobre rendimentos do trabalho Fl. 28490DF CARF MF Processo nº 10803.720049/201232 Acórdão n.º 1301002.926 S1C3T1 Fl. 28.490 4 assalariado, o qual incide como antecipação do devido na Declaração de Ajuste Anual dos beneficiários; • A cobrança de eventual IRRFantecipação que se pudesse considerar devido, em face da fonte pagadora (a Impugnante), não mais seria possível, em relação aos pagamentos realizados entre 2006 e 2008. Isso porque, de acordo com o Parecer Normativo Coordenador do Sistema de Tributação nº 01/2002, a responsabilidade da fonte pagadora quanto ao imposto devido, nesta modalidade, é limitada temporalmente; • Pagamentos de remuneração a empregados somente poderiam se sujeitar à incidência do IRRF retido e recolhido como antecipação do devido na declaração de ajuste anual; • Contudo, neste caso o principal do imposto teria que ser exigido da Impugnante no próprio anocalendário dos pagamentos ou até 30/04 do anocalendário subsequente, pois de acordo com o supracitado Parecer Normativo COSIT 01/2002, "a responsabilidade da fonte pagadora pela retenção e recolhimento do imposto extinguese, no caso de pessoa física, no prazo fixado para a entrega da declaração de ajuste anual"; • IMPOSSIBILIDADE DE CONCOMITÂNCIA DA GLOSA DAS DESPESAS COM A EXIGÊNCIA DO IRRF EXCLUSIVO NA FONTE À ALÍQUOTA DE 35%: a adequada interpretação do sistema conduz à conclusão de que se o mesmo fato dá ensejo à glosa de despesas da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, não pode haver cobrança concomitante do IRRF exclusivo à alíquota de 35%, e muito menos ainda a exigência de multa seja ela de ofício ou qualificada sobre os mesmos montantes; • A precisa e irrepreensível análise feita pelo CARF não deixa dúvida sobre o absoluto descabimento da exigência do IRRF, exclusivo na fonte, à alíquota de 35%, quando a mesma situação dá ensejo, como deu nos presentes autos, à glosa das respectivas despesas da base de cálculo do IRPJ e da CSLL e à exigência de multa de ofício ou qualificada; • Descabido é exigir multa de ofício qualificada sobre o IRRF exclusivo, que já tem natureza punitiva. Por esta razão, deve ser preliminarmente cancelada a exigência do IRRF exclusivo e da respectiva multa de 150%, pois o contexto fático dos autos deu ensejo, também, à glosa das mesmas despesas; • A contratação da EXPERTISE (isto é, causa dos pagamentos) foi devidamente comprovada nos autos, mediante apresentação do contrato entre as partes. O pagamento, em si, das notas fiscais emitidas por esta empresa, pela Impugnante, também foi realizado e reconhecido pelas autoridades fiscais (efetividade dos pagamentos); Fl. 28491DF CARF MF Processo nº 10803.720049/201232 Acórdão n.º 1301002.926 S1C3T1 Fl. 28.491 5 • E é também normal e usual que empresas comerciais premiem seus funcionários que alcançam os resultados esperados, inclusive mediante implementação de campanhas de marketing geridas por terceiros; • Cabe acrescentar ainda, que tanto os valores das premiações caracterizam despesas operacionais, que o §39 do art. 299 do RIR/99 estabelece, expressamente, que o disposto neste artigo (i.e., que são dedutíveis as despesas operacionais) "aplicase também às gratificações pagas aos empregados, seja qual fora a designação que tiverem"; • Através da documentação apresentada, demonstrase o mecanismo de premiação dos empregados com a utilização dos cartões Expertise; • A cada nota fiscal corresponde uma planilha, enviada pela Impugnante à EXPERTISE para informála sobre os pagamentos a serem efetuados. E em cada uma dessas planilhas consta (i) a quantidade de funcionários premiados, (ii) o total da premiação, (iii) a taxa (comissão) de 3,20% devida à EXPERTISE, (iv) a taxa de carregamento devida, e (v)o valor da fatura; • AUSÊNCIA DE FRAUDE E AFASTAMENTO DA MULTA DE 150%: impossibilitada a defesa da Impugnante, uma vez que não foram identificados os atos entendidos como dolosos que teriam sido praticados, para que pudesse vir a deles se defender ou justificar, tampouco tendo sido individualizado o tipo penal do qual foi acusada; • Se é que foi imputada à Impugnante a prática de sonegação fiscal, em momento algum foi feita demonstração, pelo agente fiscal, de que sua conduta teria caracterizado ação ou omissão dolosa que buscava impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; ou II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Portanto, se houve, efetivamente, máfé ou intenção dolosa por parte da Impugnante, como supõe o Fisco, o ônus de provála (e não de presumila) pertencelhe exclusivamente. Na seqüência, foi proferido o Acórdão recorrido, pela 2ª Turma da DRJ/SP1, com o seguinte ementário: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006, 2007, 2008 CUSTOS OU DESPESAS NÃO COMPROVADOS. Fl. 28492DF CARF MF Processo nº 10803.720049/201232 Acórdão n.º 1301002.926 S1C3T1 Fl. 28.492 6 A glosa de custos/despesas pela não comprovação só é elidida pela apresentação de prova documental. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. Aplicase aos lançamentos decorrentes ou reflexos o decidido sobre o lançamento que lhes deu origem, por terem suporte fático comum. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Anocalendário: 2006, 2007, 2008 PAGAMENTO SEM CAUSA A BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO. FALTA DE RECOLHIMENTO DE IRRF. Não tendo sido comprovada a causa e/ou beneficiário da operação que deu origem aos pagamentos efetuados, correta a ação fiscal ao cobrar o Imposto de Renda Retido na Fonte sobre a base de cálculo ajustada, conforme determinado pela legislação. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Após intimado (fls. 24035), a autuada apresenta, tempestivamente, seu Recurso Voluntário, pugnando por seu provimento, onde apresenta argumentos que serão a seguir analisados. Em uma primeira apreciação, a 2ª Turma Ordinária da 1ª Câmara desta Seção de Julgamento, resolveu converter o julgamento em diligência, para que a Unidade de Origem adotasse as providências especificadas na Resolução 1102000.298, de 04/02/2015, com intuito de coletar informações necessárias ao julgamento do recurso voluntário interposto. Em atendimento, a Delegacia da Receita Federal em São Paulo, São Paulo, carreou ao processo o documento de fls. 28.113/28.131. Cientificada do resultado da diligência realizada, a contribuinte aportou ao processo o documento de fls. 28.137/28.179, por meio do qual contesta a conclusão esposada no relatório da diligência fiscal. É o Relatório. Voto Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza, Relator. O recurso apresentado pela empresa autuada é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235/1972. Portanto, dele conheço. Fl. 28493DF CARF MF Processo nº 10803.720049/201232 Acórdão n.º 1301002.926 S1C3T1 Fl. 28.493 7 DA ANÁLISE DO RECURSO VOLUNTÁRIO Tratamse os presentes autos de lançamentos de exigência de IRPJ, CSLL em razão de glosa de despesas com "cartões de premiação", bem como exigência e IRFonte com alíquota de 35% por supostos pagamentos sem causa ou beneficiário não identificado. Em sua defesa, o contribuinte noticia que os mesmos fatos que deram causa aos referidos lançamentos, foram objeto de discussão no processo 10803.720037/201216, que exige contribuições previdenciárias, sob a acusação de que teria deixado de incluir em suas folhas de pagamento e respectivas GFIPs as remunerações pagas por conta dos valores creditados nos cartões emitidos, a seu pedido, pela empresa Expertise. Portanto, entendeu o fisco lançar contribuições previdenciárias porque constatou que a recorrente pagou remuneração a seus empregados por meio de cartão de incentivo e não considerou tais remunerações na base de cálculo daquela contribuição. Porém, em pese tal entendimento, de forma até contraditória, adiantase, o fisco entendeu que tais remunerações servem como base para contribuições previdenciárias, mas não são dedutíveis para o IRPJ e CSLL, e sob este entendimento, efetuou a glosa. Além do que, embora considerado pago aos empregados da recorrente, e por intermédio da empresa Expertise, o fisco ainda exige IRFonte por considerar como pagamento a beneficiário não identificado ou sem causa. Há aqui, sem dúvida, uma grande contradição, pois se de um lado entende que tudo era salário, não pode o mesmo fato ser considerado indedutível para o IRPJ e CSLL. E mais, se foi constatado o pagamento à empresa Expertise, com repasse aos funcionários via cartão de incentivo, também não há que se falar que houve pagamento a beneficiário não identificado ou sem causa. Exatamente por causa desta contradição, e ante a ausência de manifestação a respeito por parte do acórdão recorrido, o Colegiado anterior, ao apreciar o recurso voluntário, entendeu pela conversão do julgamento em diligência, para que fossem adotadas providências que especifica, determinando, entre outras, a juntada aos autos da cópia integral do processo administrativo fiscal que exige contribuições previdenciárias. Da análise do processo 10803.720037/201216, vêse que, de fato, a própria fiscalização declara que as gratificações pagas via cartão de incentivo deveriam ter sido incluídas em folha de pagamento e integradas à base de cálculo das contribuições previdenciárias, o que, só por esta constatação, no meu sentir, revelase totalmente descabida a glosa efetuada no presente processo. Mas não é só. A despeito de dispor de programas de incentivo, e efetuar gratificações a pessoas determinadas, em conformidade com o cumprimento de metas por si estipuladas e apuradas, a recorrente apresentou documentos contábeis exigidos pela fiscalização, dentre eles o próprio Livro Razão e todo o suporte fiscal do período, além de planilhas, o que são mais do que suficientes para comprovar o nexo causal entre as despesas realizadas e a atividade da empresa. De acordo com estes documentos, os valores entregues à Expertise em razão de fatura emitida, eram utilizados para a realização de pagamentos de prêmios a empregados, Fl. 28494DF CARF MF Processo nº 10803.720049/201232 Acórdão n.º 1301002.926 S1C3T1 Fl. 28.494 8 mediante estratégias de incentivo com o propósito de incrementar a venda, tanto de veículos, quanto de acessórios e serviços, gerando, sem dúvidas, receitas para formação da base de cálculo do IRPJ e CSLL. Tais despesas devem ser consideradas dedutíveis, vez que necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. A necessidade diz respeito a despesas pagas ou simplesmente incorridas, desde que concorram "para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa". Evidentemente, que tal definição afasta de plano qualquer gasto cuja realização não se vincule à própria empresa, pois mesmo que por ela assumidas não podem ser apropriadas como despesas operacionais, por não necessárias. No que toca à condição de usualidade ou normalidade, o que se apresenta como relevante é a natureza ou o tipo de atividade exercida pela pessoa jurídica, e não a freqüência com que tal gasto se apresenta dentro de certo período de tempo. Registrese, por relevante, que a fiscalização não colocou qualquer dúvida quanto à ocorrência das citadas despesas, sendo que a glosa resultou tão somente da efetividade dos pagamentos, atestada pelos comprovantes respectivos. Também entendo que, no caso, as despesas guardam relacionamento com o tipo de transações, operações ou atividades exploradas e com a manutenção da fonte produtora, isto é, tratase de despesa norma ou usual no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Ora, os documentos apresentados demonstram, de forma inequívoca, que todas as despesas incorridas são necessárias à atividade da recorrente e, portanto, dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, uma vez que plenamente alinhadas à definição de despesas necessárias do artigo 299 do RIR/99. No que diz respeito à tributação decorrente da Contribuição Social sobre Lucro Líquido, é de se dizer que, como se infere do relato, a exigência decorre do lançamento levado a efeito na área do Imposto de Renda Pessoa Jurídica. Em observação ao princípio da decorrência, e sendo certo a relação de causa e efeito existente entre o suporte fático em ambos os processos, o julgamento do apelo principal, ou seja, Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), deve, a princípio, refletirse aqui, em virtude da íntima correlação de causa e efeito. A respeito da dedutibilidade de tais valores das bases de cálculo de IRPJ e CSLL, valhome ainda das razões declinadas no voto do ilustre relator, Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, proferidas no acórdão nº 1402001.923, cuja ementa reproduzo parcialmente: DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS. PAGAMENTOS DE VERBAS SALARIAIS. GLOSA. IMPOSSIBILIDADE. (...) Nos termos do artigo 28, inciso I, da Lei nº 8.212/91, c/c artigo 457, § 1º, da CLT, integra o salário de contribuição, a totalidade Fl. 28495DF CARF MF Processo nº 10803.720049/201232 Acórdão n.º 1301002.926 S1C3T1 Fl. 28.495 9 dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título aos segurados empregados, objetivando retribuir o trabalho. A verba paga pela empresa aos segurados empregados por intermédio de programa de incentivo, administrado pela empresa Incentive House, é fato gerador de contribuição previdenciária, não podendo, portanto, ser considerada como indedutível para fins de apuração do lucro real. (G.N) No que diz respeito ao lançamento do Imposto de Renda Retido na Fonte, verificase que a decisão recorrida considerou que o contribuinte comprovou o pagamento do valor total das notas fiscais a Expertise, porém não identificou em sua contabilidade os beneficiários dos pagamentos efetuados por meio dos cartão denominados "Exchange Card". De acordo com a documentação anexa aos autos (doc. 5 a 377 do recurso), verificase também que não há que se falar em pagamento a beneficiário não identificado, pois resta claro que os pagamentos foram feitos à Expertise e os Cartões de Incentivo foram repassados aos empregados listados em documentação hábil e idônea. Da mesma toada, não há que se falar em pagamento sem causa, pois a razão de se pagar à Expertise era para que esta, através do fornecimento dos cartões de incentivo, repassasse os valores, excetuando a sua própria remuneração pela prestação de tal serviço, aos empregados da recorrente, devidamente identificados, conforme documentação acostada, que atingissem as metas impostas para o recebimento de premiações. Sendo assim, diante da insubsistência material da fundamentação do lançamento de ofício, restam prejudicadas as demais alegações e matérias, inclusive em relação a aplicação de multa qualificada de 150%. Por fim, a respeito das preliminares de nulidade e decadência argüidas pela recorrente e tendo em vista a decisão, no mérito, a ela favorável, nos termos do art. 59, § 3º, do Decreto nº 70.235/72, deixo de me pronunciar. Isso posto, voto por dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Fl. 28496DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10825.722769/2015-27
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Apr 10 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri May 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2011, 2012
NORMAS PROCESSUAIS. INTEMPESTIVIDADE.
Por intempestivo, não se conhece de recurso voluntário protocolizado após o prazo dos trinta dias seguintes à ciência da decisão de primeira instância, nos termos do artigo 33 do Decreto nº 70.235/72.
ARBITRAMENTO DO LUCRO.
O lucro da pessoa jurídica será arbitrado quando o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de apresentar à autoridade fiscal os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA.
É cabível a qualificação da multa de ofício, no percentual de 150%, quando restar comprovado nos autos que o sujeito passivo agiu, dolosamente, no sentido de impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais ou das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente.
MULTA. CARÁTER CONFISCATÓRIO.
Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA
IRPJ.LANÇAMENTO DE OFÍCIO. APURAÇÃO PROVA EMPRESTADA.
As informações sobre as vendas informadas para o Fisco Estadual podem ser aproveitadas no lançamento de tributos federais quando a contribuinte se recusa a apresentar seus livros e documentos contábeis.
CONTRADITÓRIO. INÍCIO.
Somente com a impugnação inicia-se o litígio, quando devem ser observados os princípios da ampla defesa e do contraditório.
SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA.
Não logrando os recorrentes infirmar a imputação de sujeição passiva solidária, não há como afastá-los do pólo passivo.
MULTA QUALIFICADA. SONEGAÇÃO.
Mantém-se a multa por infração qualificada quando reste inequivocamente comprovado o evidente intuito da sonegação.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. PIS. Cofins.
Aplica-se à tributação reflexa idêntica solução dada ao IRPJ em face da estreita relação de causa e efeito.
Numero da decisão: 1201-002.111
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos: 1) não conhecer dos recursos voluntários apresentados pela contribuinte (autuada) e, pelas responsáveis DOV-ÓLEOS VEGETAIS LTDA e SINA INDUSTRIA DE ALIMENTOS LTDA, por intempestivos; 2) afastar as nulidades suscitadas, e, 3) negar provimento aos recursos voluntários dos responsáveis tributários/recorrentes, Pessoas Físicas: João Shoiti Kaku, Andrea Abdul Massih, Maria de Fátima Abdul Massih, Nemr Abdul Massih e Simon Nemer Abdul Massih e Pessoas Jurídicas do Grupo FN (FN - Assessoria Empresarial Ltda, FAS - Empreendimentos e Incorporações Ltda , Faroleo Comércio de Produtos Alimentícios Ltda, Multioleos Óleos e Farelo Ltda, Sina Indústria de Óleos Vegetais Ltda e Sina Comércio e Exportação de Produtos Alimentícios Ltda).
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente e Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, José Carlos de Assis Guimarães, Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa, Luis Henrique Marotti Toselli e e Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente convocado para substituir o conselheiro Rafael Gasparello Lima). Ausente justificadamente o conselheiro Rafael Gasparello Lima.
Nome do relator: ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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INTEMPESTIVIDADE. Por intempestivo, não se conhece de recurso voluntário protocolizado após o prazo dos trinta dias seguintes à ciência da decisão de primeira instância, nos termos do artigo 33 do Decreto nº 70.235/72. ARBITRAMENTO DO LUCRO. O lucro da pessoa jurídica será arbitrado quando o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de apresentar à autoridade fiscal os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. É cabível a qualificação da multa de ofício, no percentual de 150%, quando restar comprovado nos autos que o sujeito passivo agiu, dolosamente, no sentido de impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais ou das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. MULTA. CARÁTER CONFISCATÓRIO. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA IRPJ.LANÇAMENTO DE OFÍCIO. APURAÇÃO PROVA EMPRESTADA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 82 5. 72 27 69 /2 01 5- 27 Fl. 9946DF CARF MF 2 As informações sobre as vendas informadas para o Fisco Estadual podem ser aproveitadas no lançamento de tributos federais quando a contribuinte se recusa a apresentar seus livros e documentos contábeis. CONTRADITÓRIO. INÍCIO. Somente com a impugnação iniciase o litígio, quando devem ser observados os princípios da ampla defesa e do contraditório. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. Não logrando os recorrentes infirmar a imputação de sujeição passiva solidária, não há como afastálos do pólo passivo. MULTA QUALIFICADA. SONEGAÇÃO. Mantémse a multa por infração qualificada quando reste inequivocamente comprovado o evidente intuito da sonegação. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. PIS. Cofins. Aplicase à tributação reflexa idêntica solução dada ao IRPJ em face da estreita relação de causa e efeito. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos: 1) não conhecer dos recursos voluntários apresentados pela contribuinte (autuada) e, pelas responsáveis DOVÓLEOS VEGETAIS LTDA e SINA INDUSTRIA DE ALIMENTOS LTDA, por intempestivos; 2) afastar as nulidades suscitadas, e, 3) negar provimento aos recursos voluntários dos responsáveis tributários/recorrentes, Pessoas Físicas: João Shoiti Kaku, Andrea Abdul Massih, Maria de Fátima Abdul Massih, Nemr Abdul Massih e Simon Nemer Abdul Massih e Pessoas Jurídicas do Grupo FN (FN Assessoria Empresarial Ltda, FAS Empreendimentos e Incorporações Ltda , Faroleo Comércio de Produtos Alimentícios Ltda, Multioleos Óleos e Farelo Ltda, Sina Indústria de Óleos Vegetais Ltda e Sina Comércio e Exportação de Produtos Alimentícios Ltda). (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente e Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, José Carlos de Assis Guimarães, Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa, Luis Henrique Marotti Toselli e e Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente convocado para substituir o conselheiro Rafael Gasparello Lima). Ausente justificadamente o conselheiro Rafael Gasparello Lima. Relatório Tratase de autos de infração de Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ), fls. 2/33, de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), fls. 34/61, de Contribuição para o PIS/Pasep, fls. 63/79, e de Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Fl. 9947DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 3 3 (Cofins), fls 80//96, referentes aos anoscalendário de 2011 e 2012. Lançados os tributos com juros de mora calculados até outubro/2015 e multa qualificada de 150%. Por economia processual e bem descrever os fatos, adoto parte do relatório da decisão recorrida (efls.9.169/9.192) que a seguir transcrevo: Dos Fatos No Termo de Verificação Fiscal (fls. 97/133) consta que pesquisa nos sistemas da Receita Federal do Brasil evidenciou movimentação nos anoscalendário 2011 e 2012, representada por receita bruta de venda da ordem de 80 e 50 milhões de reais, respectivamente. Constatado ainda que foram entregues à RFB, a DIPJ AC 2011, com receita bruta de cerca de 700 mil reais; DACON de março a dezembro de 2011 e de fevereiro a julho de 2012, com faturamentos declarados da ordem de 8,3 milhões e 350 mil reais, muito aquém dos valores das NFe, bem como entrega de DCTF de abril a julho de 2011 e de setembro de 2011 a julho de 2012, com valores confessados incompatíveis com as Nfe emitidas. Emitido então Termo de Início de Ação Fiscal, em abril de 2014, que retornou com a informação mudouse. Visita ao domicílio fiscal evidenciou que o imóvel estava desocupado e o recepcionista do prédio informou que a contribuinte retirouse, e que no endereço, encontravase outra empresa. Tais fatos motivaram a ciência do início do procedimento fiscal por meio de edital, ocorrida, formalmente, em 12/06/2014. Também formalizado o processo administrativo nº 10880.722074/2014 08, em 18/06/2014, para a Declaração de Inaptidão, origem do Ato Declaratório Executivo nº 161, de 18/07/2014, publicado no DOU de 24/07/2014, declarando a contribuinte inapta. Também notificados/intimados os sócios da contribuinte, Iraci da Silva Ferreira, em 21/10/2014, e Cecília Raimundo de Oliveira, cuja intimação retornou com a informação mudouse, e mesmo assim assinou a petição da contribuinte, em 06/11/2014 (fl. 154), requerendo prazo de 180 dias para apresentar a documentação solicitada. Posteriormente, em dezembro de 2015, foi intimada por edital (fl. 8896).Transcorridos o prazo de 180 dias, nenhum documento foi entregue. Em 21/11/2014, foram emitidos novos termos de intimação dirigidos às duas sócias, no período fiscalizado (2012) informandoas da declaração de inaptidão da Cromais e do início do procedimento fiscal, inclusive intimandoas a comparecerem pessoalmente à RFB (Estação Luz do Metrô). A sócia Iraci da Silva Ferreira tomou ciência, em 01/12/2014, mas não compareceu à audiência. A sócia Cecília Raimundo de Oliveira, mais uma vez não foi cientificada, por motivo de mudança de domicílio. Da Sujeição Passiva Fl. 9948DF CARF MF 4 Elementos coletados no curso da Operação Yellow executada pelo Estado de São Paulo (Secretaria da Fazenda e Ministério Público) combinados com os elementos obtidos no curso da fiscalização comprovam que a Cromais Distribuidora de Produtos Industrializados Ltda. pertence ao grupo econômico ora identificado como “Grupo FN” que se subdivide em dois segmentos denominados Segmento Soja e Segmento Ovos, estando a fiscalizada inserida no Segmento Soja. Este grupo é composto por diversas pessoas jurídicas, cada uma com atribuição precípua. Grupo FN – Segmento Soja Holding informal: FN Assessoria Empresarial Ltda. EPP (CNPJ 04.350.935/0001 59), com a função de exercer, através de procuração ou via uso de interpostas pessoas, a administração das pessoas jurídicas comerciais. PJs patrimoniais: FAS Empreendimentos e Incorporações Ltda. (CNPJ 03.752.053/000157) e Modena Agropecuária, Incorporações e Empreendimentos Imobiliários Ltda. (CNPJ 10.637.365/000185), detentoras do patrimônio do Grupo, parte locado às PJs industriais. PJs industriais e exportadoras: Sina Indústria de Óleos Vegetais Ltda. (CNPJ 06.348.804/000243); Sina Indústria de Alimentos Ltda. (CNPJ 10.156.658/000140) e Sina Comércio e Exportação de Produtos Alimentícios Ltda. (CNPJ 09.374.458/000185); prestandose as primeiras para industrializar, por conta e ordem das comerciais, oleaginosas (principalmente soja em grãos). PJs comerciais: Faroleo Comércio de Produtos Alimentícios Ltda. (CNPJ 05.055.406/000140); DOV Óleos Vegetais Ltda (CNPJ 05.262.304/000140); Multioleos Óleos e Farelo Ltda (CNPJ 06.247.827/000180); Dofar Distribuidora de Rações e Farelos Ltda – ME (CNPJ 06.247.822/000158); Cromais Distribuidora de Produtos Industrializados Ltda (CNPJ 11.326.673000152); W.A.S. Comércio de Alimentos Ltda (CNPJ 12.369.189/000173); Orted Óleos e Cereais Ltda (CNPJ 14.041.985/000108) e Petry Comércio, Importação & Exportação Ltda (CNPJ 14.465.186/000169); responsáveis pela comercialização, no mercado interno, dos produtos oriundos das industriais e responsáveis pela maior fatia de tributos gerados pelo Grupo. Este Grupo atuou, nos anoscalendário 2011 e 2012, como uma única grande empresa por segmentos e cometeu diversas infrações tributárias, resultando em elevados valores lançados de tributos (IRPJ, CSLL, PIS e COFINS) e sua estrutura e modo de agir faz com que haja obrigações tributárias solidárias pelos tributos lançados, nos termos do art. 124, I, do Código Tributário Nacional (CTN). Em paralelo, também foi detectado que a atuação do Grupo era dirigida por pessoas que ostentavam três qualidades de vínculos: a) Reais administradores (verdadeiros donos do negócio) Fl. 9949DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 4 5 Pessoas físicas que, utilizandose de interpostas pessoas (“testasdeferro”, "offshore", e/ou procuradores) administravam todo o conjunto empresarial de forma oculta. Eles organizavam toda a atividade do Grupo, decidiam, empreendiam, idealizavam, coordenavam e se beneficiavam das atividades desenvolvidas, enfim, todos praticavam atos de gestão. Estes administradores, no entanto, na maioria dos casos, não pertenciam aos quadros societários das pessoas jurídicas acima identificadas e, também, para não declarar e não pagar a totalização dos tributos devidos pelas pessoas jurídicas do Grupo (o que, em tese, se configura sonegação fiscal), bem como se afastarem da solidariedade/responsabilidade tributária em relação a tais tributos, se valeram de alguns expedientes, a exemplo de: Utilização de interpostas pessoas (físicas – “testasdeferro” ou jurídicas – “offshores”) nos quadros sociais de suas pessoas jurídicas, que responderiam pelas obrigações destas, no lugar deles; Esvaziamento patrimonial das pessoas jurídicas do Grupo (auditadas), pois o patrimônio ficava centralizado (“blindado”) junto às PJs patrimoniais FAS e Modena – para não serem alcançados por obrigações das demais; Dissolução irregular de sete das onze pessoas jurídicas auditadas, as quais deixaram de funcionar em seu domicílio fiscal, sem qualquer comunicação, conforme disciplina a Súmula 435 do STJ. “Presumese dissolvida irregularmente a empresa que deixar de funcionar no seu domicílio fiscal, sem comunicação aos órgãos competentes, legitimando o redirecionamento da execução fiscal para o sóciogerente.” b) Sócios formais São as pessoas cujos nomes compunham os quadros societários das pessoas jurídicas do Grupo. b.1) ora, pessoas físicas, sem estofo patrimonial, conhecidas por testasdeferro; pessoas sem conhecimento e capacidade econômica para empreender, que cediam seus nomes mantendo ocultos os reais administradores, aparecendo no contrato social como sócios ou sócios administradores. b.2) ora, pessoas jurídicas constituídas fora do Brasil "off shore" (SAFIs), desprovidas de finalidades societárias de fato, adquiridas pelos reais administradores, também com o intuito de se ocultarem, bem como ocultarem possíveis bens, vez que é “notória a dificuldade de acessar o patrimônio enviado para o exterior, com a utilização dessas empresas “estrangeiras”, situadas em “paraísos fiscais”(decisão judicial em Agravo de Instrumento 001588663.2013.4.03.0000/SP – TRF 3º região). c) Procuradores Fl. 9950DF CARF MF 6 Pessoas físicas que recebiam procurações para agirem, ostensivamente, em nome de algumas pessoas jurídicas do Grupo, mantendo ocultos os reais administradores. Nestas condições, verificouse que os reais administradores, associados aos sócios formais e aos procuradores, além de terem nítido interesse comum nas situações que constituem os fatos geradores dos tributos lançados, ainda cometeram diversas infrações a leis, restando evidente a existência de obrigações tributárias solidárias e responsabilizações pessoais nos termos dos artigos 124, I, e 135, II e III, do CTN. Entre as diversas infrações a dispositivos legais cometidas, que estão explicitadas no Relatório de Solidariedade Tributária das Pessoas Jurídicas do Grupo FN (fls. 431/511), destacamse: 1 Os reais administradores se associaram aos sócios formais (os quais cediam seus nomes para compor o quadro societário das pessoas jurídicas – sócios “testasdeferro”) e aos procuradores (que cediam seus nomes para assumirem os compromissos das pessoas jurídicas), para cometer, em conluio, as diversas infrações legais. Assim agindo, os reais administradores, em tese, também infringiram o art. 288 do Código Penal (DecretoLei nº 2.848, de 1940): quadrilha ou bando/associação criminosa Art. 288. Associaremse mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim específico de cometer crimes: (Redação dada pela Lei nº 12.850,de 2013). 2 – Os reais administradores, em acordo com os sócios formais e procuradores, ao integrarem ao quadro societário de suas pessoas jurídicas sócios “testasdeferro” e/ou “offshore”, modificaram, uma característica essencial dos fatos geradores: a sujeição passiva. Agindo assim, infringiram o artigo 299 do Código Penal (DecretoLei nº 2.848, de 1940), cometendo, em tese, falsidade ideológica. Art. 299 Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante (...) 3 – Os reais administradores não pagaram e não declararam/confessaram a totalidade devida pela contribuinte dos tributos fiscalizados, nos anoscalendário 2011 e 2012, reduzindoos na DCTF – Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (declaração que constitui confissão de dívida Decretolei 2.124/1984, artigo 5°, parágrafo 1°) Fl. 9951DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 5 7 Desta forma, não houve apenas o mero inadimplemento (falta de pagamento de tributo devido já confessado ao Fisco), mas, sim, reiterada omissão dolosa,sonegação, em tese, objetivando o não pagamento dos tributos devidos. Assim, os reais administradores infringiram os artigos 71, 72 e 73 do Código Penal (sonegação, fraude e conluio) e os art. 1º e 2º da Lei 8.137, de 1990 (crimes contra a ordem tributária). Detectouse, quanto à contribuinte, os responsáveis solidários pelos créditos tributários lançados indicados a seguir. Foram lavrados Termo de Sujeição Passiva Solidária para cada um deles (pessoas jurídicas do grupo, sócios administradores, reais administradores). Fl. 9952DF CARF MF 8 Observese que os elementos probatórios que evidenciam a atuação das pessoas físicas e offshores foram anexados aos respectivos Termos de Sujeição Passiva Solidária/Responsabilidade Tributária. Do Arbitramento do Lucro O art. 530, inciso III, do Regulamento do Imposto de Renda (RIR/99), Decreto 3.000, de 26/03/1999, disciplina o arbitramento do lucro. Art. 530. O imposto, devido trimestralmente, no decorrer do ano calendário, será determinado com base nos critérios do lucro arbitrado, quando (Lei nº 8.981, de 1995, art. 47, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 1º): (...) III o contribuinte deixar de apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, ou o Livro Caixa, na hipótese do parágrafo único do art. 527; A causa do arbitramento é, primordialmente, a omissão na entrega de livros contábeis e de livros fiscais. No caso concreto, corroborando com esta causa principal, encontramse as próprias declarações da empresa fiscalizada, com informações prestadas de qualidade duvidosa, uma vez que são incongruentes com as notas fiscais eletrônicas de vendas emitidas, conforme explicitado a seguir, no item “Da Qualificação da Multa”. O arbitramento não é uma penalidade, mas sim a única consequência possível a uma situação consumada, que é a não apresentação, para exame, dos necessários livros contábeis e fiscais. É simplesmente um critério adotado para o cálculo do lucro. Quando conhecida a receita, no presente caso obtida pela soma das notas fiscais eletrônicas de vendas emitidas (fls. 114/132), aplicamse percentuais determinados de acordo com a atividade exercida, inclusive, para respeitar os princípios da capacidade contributiva e de isonomia do sujeito passivo da obrigação tributária. Fl. 9953DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 6 9 Da Qualificação da Multa O art. 71 da Lei nº 4.502, de 1964, define a conduta dolosa “sonegação” e os artigos 1º e 2º, da Lei nº 8.137, de 1990, tipifica penalmente determinadas condutas. A caracterização de sonegação assim como do elemento volitivo na conduta do contribuinte ao declarar, reiteradamente, valores inverídicos ao Fisco, aquém do efetivamente devido, torna cabível a qualificação da multa, conforme dispõe o art. 44, §1º, da Lei nº 9.430, de 1996. Daí, a análise dos fatos, dos documentos disponíveis e das declarações ao longo da auditoria fiscal evidenciou a coexistência, em tese, de sonegação, fraude e conluio, com a conseqüente qualificação da multa para 150%. Da Base De Cálculo. A receita bruta para apuração dos tributos devidos foi apurada mensalmente, a partir das notas fiscais eletrônicas emitidas pela contribuinte. As que correspondem à receita bruta de vendas estão relacionadas no Anexo I (fls. 113/132). A partir do cálculo da receita bruta, para apuração do IRPJ e da CSLL, aplicaram se os percentuais legais para apuração do lucro, base de cálculo destes dois tributos. Da Intimação dos Atos Após a publicação do Ato Declaratório Executivo nº 161, de 18/07/2014, declarando a inaptidão da fiscalizada, a comunicação de todos os atos processuais relativos a ela foram realizados por edital, nos termos do art. 23, § 1º, do Decreto nº 70.235, de 1972: “... quando o sujeito passivo tiver sua inscrição declarada inapta perante o cadastro fiscal, a intimação poderá ser feita por edital ...”. Também emitido Termo de Ciência de Lançamentos e Encerramento Total do Procedimento Fiscal relativos à contribuinte e a todos os responsáveis (fls. 949/1011), devidamente notificados por via postal ou por edital (fls. 8480/8516, 8896 e 9096). Contestações A contribuinte Cromais não impugnou o lançamento. Apresentam impugnações as pessoas jurídicas e as pessoas físicas enquadradas na sujeição passiva (responsabilidade solidária) a seguir indicadas. Fl. 9954DF CARF MF 10 Iraci da Silva Ferreira, sócia da contribuinte Cromais, representada por procurador (fls. 8972), contesta sua notificação como responsável solidário (fls. 8970/8971) e alega que nada há no processo que embase a sua responsabilidade solidária pelos tributos eventualmente devidos pela Cromais porque sócio administrador, e por esta mesma razão, inaplicável a regra do art. 124, I, do CTN, destinada a terceiros sem vínculo direto com a contribuinte, e sob certas circunstâncias. Também inaplicável, a regra do art. 135, III do CTN porque não foram praticados atos com excesso de poderes ou infração a lei, contratos, estatutos. Reais administradores da Cromais João Shoiti Kaku, qualificado pela fiscalização como real administrador da Cromais, representado por procurador (fls. 8573/8574), em sua impugnação (fls. 8522/8571), alega que não existe qualquer tipo de vínculo entre ele e o fato gerador da obrigação tributária, portanto injustificável sua permanência no pólo passivo dos Autos de Infração. Ademais é impossível abordar matéria relativa ao crédito tributário constituído porque ausentes documentos indispensáveis para isto. A sua inclusão como responsável solidário fere o princípio da segurança jurídica, cerceia a sua defesa porque nem lhe foi solicitado qualquer esclarecimento a respeito da existência de vínculo com a Cromais, que repete inexistir, nem é possível atribuirlhe o rótulo de “verdadeiro dono do negócio”. Sequer tem informações sobre esta empresa. Inexiste no processo qualquer documento que lhe permita aferir a veracidade das informações constantes nos Autos de Infração, que ficam maculados por estas falhas. Atua como consultor financeiro para a FN Assessoria Empresarial Ltda. sem qualquer relação com os fatos apurados pela fiscalização. É dever da administração Fl. 9955DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 7 11 pública buscar a verdade material e atender aos princípios que a norteiam. Alega que inexistem provas da infração tributária, a exigirem sua nulidade, a exemplo da ausência das notas fiscais eletrônicas emitidas pela Cromais o que impede o exercício pleno de seu direito de defesa e do contraditório, também cerceado na fase investigatória. O lançamento agride ainda o princípio da motivação, descritor do motivo do ato. Indevida a sujeição passiva porque não é sócio nem administrador da empresa autuada, sendo inaplicável ao caso concreto o art. 135, III, do CTN, e alega que só à Procuradoria Geral da Fazenda Nacional compete redirecionar a responsabilidade para quem não seja o sujeito passivo. Nulo o Termo de Solidariedade Passiva porque lavrado por autoridade incompetente, o AFRFB. Não entende porque o seu conhecimento da estrutura societária de um grupo empresarial o torna responsável pessoal e solidário pelo pagamento do tributo devido por empresa que supostamente integra tal grupo. Aduz ainda que inexiste qualquer relação com o crédito tributário lançado porque não é empregado, dono do negócio nem tampouco diretor financeiro, apesar da fiscalização inferir isto porque mantinha “contato com diretores de bancos, para tratar de assuntos do Grupo”. Afirma inexistir qualquer elemento probatório que comprove ser ele gerente ou diretor financeiro da empresa autuada ou mesmo empregado e a relação de confiança com a família Abdul Massih, não é condição para a sua responsabilização solidária e pessoal pelas obrigações tributárias da empresa autuada. Insurgese contra as multas aplicadas porque exorbitantes, posto que não podem ser confiscatórias, e há julgado de STF que reputa como abusiva multa de 25% e, mesmo que estabelecidas na legislação, devem ser excluídas ou reduzidas. Solicita a nulidade do auto de infração, por causa de irregularidades do procedimento fiscal, a exemplo de ausência de ciência de instauração do procedimento fiscal e de documentos comprobatórios, e anulação do Termo de Sujeição Passiva e da responsabilização tributária, e o sobrestamento do feito até a conclusão definitiva da ação penal. Finaliza requerendo a suspensão do andamento do processo até decisão definitiva na ação penal na 1ª Vara Criminal da Comarca de Bauru. Andréa Ferreira Abdul Massih, qualificada como real administrador da contribuinte, impugna o lançamento (fls. 8590/8622) e alega, inicialmente, que as “provas” foram obtidas do relatório da Operação Yellow da SefazSP e de processo judicial tramitando na 7ª Vara Federal da Comarca de São Paulo. Há neste processo administrativo fiscal diversos documentos retirados do relatório Yellow, cujas provas foram obtidas por meio ilícito, sem observância da lei, porque, conforme entende o STJ, em sintonia com a Súmula Vinculante nº 24 do STF, “não se tipifica crime material contra a ordem Fl. 9956DF CARF MF 12 tributária, previsto no art. 1º, incisos I a IV, da Lei 8.137, de 1990, antes do lançamento definitivo do tributo.” Alega ser inaceitável a autorização de qualquer procedimento cautelar invasivo, a exemplo de interceptação telefônica, antes do lançamento definitivo do crédito tributário. Incabível a investigação criminal para fundamentar a ação fiscal. Também alega que a ação penal e o procedimento prévio investigatório pressupõem que haja decisão final sobre o crédito tributário, o que não há. A busca e apreensão feita pela SefazSP, bem como a quebra de sigilo de ligações telefônicas são ilegais se deferidas antes de configurada a condição objetiva de punibilidade de delito. Enfim, estas ações não foram lícitas. Observa que o próprio Relatório da Operação Yellow não é prova e, no mínimo, apenas, após ele ser declarado como prova no procedimento judicial instaurado pela parte, a responsabilização solidária poderia ser imputada aos impugnantes. Não há provas aptas que fundamentem o direito pleiteado pela RFB. Alega ainda que nos termos dos art. 124, I, e 137, ambos do CTN, a responsabilidade pela multa de ofício não pode ser repassada aos impugnantes, porque não é obrigação principal nem eles se enquadram como responsáveis pessoais (art. 137). O art. 124, I, deve ser analisado conjuntamente com o art. 135, III, portanto, é necessário que a pessoa física tenha participado de atos de gerência e de administração em relação à Petry, ou, de outro modo, tenha dado causa à atividade geradora do fato imponível, porque o interesse comum (art. 124, I) não se resume ao econômico, sendo necessário haver o interesse jurídico. Sequer houve a comprovação da alegada prática, assim como são insuficientes presunções, apontamentos infundados ou participação em empresas que se relacionam para configurar o enquadramento na sujeição passiva conforme artigos 124, I, e 135, III. Finaliza, requerendo a preliminar de nulidade do procedimento fiscal, a exclusão de sua responsabilidade sobre a multa e a anulação do Termo de Sujeição Passiva Solidária, por medida de justiça. Apresentam impugnações com o mesmo teor da contestação de Andréa Ferreira Abdul Massih, inclusive quanto aos pedidos – acolhimento da preliminar de nulidade do procedimento fiscal; exclusão de sua responsabilidade sobre a multa e anulação do Termo de Sujeição Passiva, Maria de Fátima Butara Ferreira Abdul Massih (fls. 8789/8821), Simon Nemer Ferreira Abdul Massih, (fls. 8899/8930); e Nemr Abdul Massih (fls. 8976/9007). Pessoas Jurídicas do Grupo FN Nas suas impugnações, as empresas FAS Empreendimentos e Incorporações Ltda. (fls. 8625/8664); Faroleo Comércio de Produtos Alimentícios Ltda. (fls. 8667/8710); Sina Indústria de Óleos Vegetais Ltda. (fls. 8713/8748); Sina Comércio e Exportação de Produtos Alimentícios Ltda. (fls. 8751/8785); Sina Indústria de Alimentos Ltda. (fls. 8857/8893); Multióleos Óleos e Farelo Ltda. (fls. 8933/8967); FN Assessoria Empresarial Ltda. EPP (fls. 9008/9055) e Dov Óleos Vegetais Fl. 9957DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 8 13 Ltda (fls. 9058/9093) apresentam impugnações bastante similares à de Andréa Ferreira Abdul Massih, real administrador da Cromais, relatada em parágrafos anteriores (fl. 9178/9179). Todas se opõem às infrações constantes dos autos de infração e ao termo de sujeição passiva. Aduzem que não possuem qualquer ligação, vínculo administrativo ou gerencial com a contribuinte Cromais Distribuidora de Produtos Industrializados Ltda e contestam a legalidade das provas utilizadas, porque ilícitas, sem observância da lei e em desobediência ao critério temporal, posto que obtidas antes do lançamento, contrariando a Súmula nº 24 do STF (Não se tipifica crime material contra a ordem tributária, previsto no art. 1º, incisos I a IV, da Lei 8.137/90, antes do lançamento do tributo). Sequer havia fiscalização. Incabível a realização de investigação criminal para fundamentar uma ação fiscal. Alegam que sem crédito constituído não há crime. Quanto ao item Do Termo de Sujeição Passiva Solidária as pessoas jurídicas argumentam que a única justificativa para a responsabilização solidária decorre do fato de cada empresa, supostamente, pertencer ao denominado Grupo FN porque inexiste qualquer elemento apto a imputarlhe esta responsabilidade. Não há qualquer causa para a alegada solidariedade tributária em decorrência de suposto esquema fraudulento alegado pela fiscalização, ou seja, não há clara indicação do motivo para as impugnantes sejam sujeitos passivos. Inexiste no processo administrativo qualquer prova de que as empresas tenham qualquer ligação, vínculo administrativo ou gerencial com a Cromais. Afirmam que a conduta fiscal beira o excesso de exação e que a multa aplicada tem efeito confiscatório. Finalizam, pedindo o sobrestamento do julgamento até o Poder Judiciário pronunciarse sobre a legalidade das provas, oriundas da Operação Yellow (ação penal); a nulidade da responsabilização tributária das impugnantes, ou ao menos do relatório da operação Yellow; reconhecimento da ilegitimidade das impugnantes para figurarem como responsáveis solidários; declaração de nulidade da imposição de solidariedade e exclusão da multa em razão de seu caráter confiscatório. A FAS Empreendimentos, adicionalmente, aduz que seu capital social provém exclusivamente da sócia fundadora, Maria de Fátima Butara Ferreira Abdul Massih e de empréstimos pagos pela própria FAS, portanto, este patrimônio não se comunica com as infrações tratadas neste processo contra a Cromais. Ademais, não obteve qualquer vantagem com o eventual ilícito tributário, fatos que não dão suporte à sua inclusão como responsável solidária. Modena Agropecuária Incorporação e Empreendimentos Imobiliários Ltda. (fls. 9111/9125) também apresenta impugnação para oporse às infrações constantes nos Autos de Fl. 9958DF CARF MF 14 Infração e ao Termo de Sujeição Passiva tributária lavrado contra ela. Inicialmente, alega a tempestividade de sua defesa com base no art. 3º da Lei 9.784, de 1999, porque tomou conhecimento da responsabilização através de terceiros, quando dirigiuse ao Posto da Receita Federal em Tupã, para obter cópia do processo. Referese às “transcrições duvidosas de interceptações telefônicas”, muitas incompletas, utilizadas como principal fundamento. Alega que órgãos administrativos, alheios ao processo penal, não têm competência para analisar a legalidade destas provas. Apenas a conclusão do processo penal ora em andamento na Comarca de BauruSP, concluirá pela legalidade ou não das provas. Tais fatos impõem o sobrestamento da ação fiscal. Observa também que a inexistência dos áudios destas interceptações é vício insanável que impõe a nulidade e o afastamento da solidariedade dos peticionários por absoluta ausência de provas. Nulo, portanto, o lançamento fiscal ou, no mínimo os elementos de convicção correspondentes ao relatório da operação Yellow. Aduz que as ações do peticionário, Marcel Rodrigues Ferraz, sócio da Modena, e que sequer foi indiciado criminalmente, não permitem atribuirlhe a denominação de testa de ferro nem a responsabilização tributária pretendida. Observa que inexiste qualquer relação jurídica ou efetiva entre a Modena e os fatos geradores apontados pela fiscalização. Há inaceitável menção genérica e sem suporte fático de suposta prática de blindagem patrimonial a impor a solidariedade. A suposta blindagem nada tem a ver com a atribuição da condição de prestadora de serviços da Modena e menos com os fatos geradores dos tributos. Sequer há causa de solidariedade nem há ato especificamente realizado para o seu enquadramento no art. 124, I (CTN). Afirma que a multa aplicada é confiscatória e afronta o princípio da capacidade contributiva. Requer o sobrestamento do processo administrativo fiscal até o julgamento da ação penal; a nulidade da responsabilização tributária da impugnante, por não haver provas materiais (transcrições); reconhecimento da ilegitimidade da impugnante para figurar como responsável solidário; declaração de nulidade da imposição de solidariedade e exclusão da multa em razão de seu caráter confiscatório. Assim como a contribuinte Cromais, não apresentaram impugnação, a sócia Cecília Raimundo Ferreira e as empresas Dofar Distribuidora de Rações e Farelos Ltda. ME, Petry Distribuidora de Produtos Industrializados Ltda., Orted Óleos e Cereais Ltda. e W.A.S. Comércio de Alimentos Ltda. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DRJ/Salvador/BA) julgou improcedente as impugnações dos responsáveis solidários em decisão proferida no venerando, Acórdão nº 1540.876, de 06 de setembro de 2016, do seguinte modo: Acordam os membros da 2ª Turma de Julgamento, por unanimidade, por não conhecer a impugnação da sócia e responsável solidária Iraci Silva Ferreira, por vício de representação, e da Modena Agropecuária, Incorporações e Empreendimentos Imobiliários Ltda., por intempestividade, conhecendo as impugnações dos demais responsáveis solidários e mantendo o crédito tributário exigido, inclusive a multa de Fl. 9959DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 9 15 ofício qualificada, no percentual de 150%, bem como a sujeição passiva das empresas do grupo e das pessoas físicas expressamente responsabilizadas na autuação, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Registrese que a contribuinte Cromais Distribuidora de Produtos Industrializados Ltda. e a sócia e administradora, Cecília Raimundo de Oliveira, devidamente intimadas por editais, não impugnaram o lançamento. O mencionado acórdão está assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011, 2012 ARBITRAMENTO DO LUCRO. ESCRITA NÃO APRESENTADA. A falta de apresentação da escrituração na forma das leis comerciais e fiscais ou então do Livro Caixa, no caso de empresa habilitada ao lucro presumido, autoriza o arbitramento do lucro da pessoa jurídica, com base, no caso concreto, nas receitas declaradas pelo próprio contribuinte ao Fisco Estadual. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. COFINS. PIS/PASEP. Aplicase às contribuições sociais Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido CSLL, COFINS, PIS/PASEP, no que couber, o que foi decidido para a obrigação matriz, imposto de renda, dada a íntima relação de causa e efeito que as une. IRREGULARIDADE NA REPRESENTAÇÃO PROCESSUAL. ILEGITIMIDADE DE PARTE. O não atendimento à intimação para sanar irregularidade de representação processual decorrente da não apresentação de documento de identidade do representante do contribuinte, ou do responsável solidário, configura a ilegitimidade de parte. A ausência das formalidades legais retira da peça apresentada a condição de impugnação válida, não se instaurando o contencioso. PAF. PROVA EMPRESTADA. VALIDADE. Há previsão de mútua assistência entre as entidades da Federação em matéria de fiscalização de tributos, autorizando a permuta de informações e, uma vez observada a forma estabelecida, em caráter geral ou específico, por lei ou convênio, não se pode negar valor probante à prova emprestada, coligida mediante a garantia do contraditório. Fl. 9960DF CARF MF 16 EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE. MULTA QUALIFICADA. Cabível a aplicação da multa qualificada de 150% (cento e cinqüenta por cento) quando caracterizado o evidente intuito de fraude pela ocorrência de ação dolosa tendente a impedir o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência das circunstâncias materiais do fato gerador da obrigação tributária principal de modo a evitar o seu pagamento. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM. São solidariamente obrigadas pelo crédito tributário as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, segundo prevê o art. 124, I, do CTN. MULTA QUALIFICADA. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. A cominação da penalidade qualificada baseada em conduta dolosa que denote sonegação, fraude ou conluio com repercussões, em tese, na esfera criminal, enseja a responsabilização dos mandatários, prepostos e empregados diretores, gerentes ou representantes da pessoa jurídica à época da ocorrência dos fatos geradores. Da decisão da DRJ, foram cientificados: 1) Pelo Edital ECOB nº 135/2016, (efls.9.268), afixado em 25/10/2016 e desafixado em 10/11/2016, por se encontrar na situação INAPTA, motivo LOCALIZAÇÃO DESCONHECIDA a contribuinte: CROMAIS DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS LTDA. Não apresentou impugnação. Apresentou recurso voluntário (Sedex efls. 9518/9.549); 2) Também pelo mesmo Edital ECOB nº 135/2016, (efls.9.268), afixado em 25/10/2016 e desafixado em 10/11/2016, por encontrarem se na situação INAPTA, motivo LOCALIZAÇÃO DESCONHECIDA as pessoas jurídicas responsáveis solidárias a seguir identificadas: W. A. S. COMERCIO DE ALIMENTOS LTDA, ORTED ÓLEOS E CEREAIS LTDA, PETRY COMERCIO IMPORTAÇÃO & EXPORTAÇÃO LTDA, DOFAR DISTRIBUIDORA DE RAÇÕES E FARELOS LTDA ME e DOVÓLEOS VEGETAIS LTDA. Não apresentaram recurso voluntário, exceto DOVÓLEOS VEGETAIS LTDA que apresentou recurso voluntário em 12/12/2016 (Sedex efl.9550/9595). 3) Pelo Edital n° 001978294, de 23/11/2016 (efl.9270) a responsável solidária, MODENA AGROPECUÁRIA, INCORPORAÇÕES E EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA, em face do AR devolvido (efl.9.269/9.270). Apresentou impugnação intempestiva, e, não apresentou recurso voluntário. 4) Pelos correios, em 11/11/2016: FAROLEO, (efl.9.272); FN ASSESSORIA (efl.9.284); SINA IND DE ÓLEOS VEGETAIS (efl.9285) e, FAS EMPREENDIMENTOS (efl.9.283), apresentaram recurso voluntário em 12/12/2016 (Sedex efls.9.596/9871). JOÃO SHOITI KAKU (efl.9274), apresentou recurso voluntário em 01/12/2016 (efls.9.294/9.352). Fl. 9961DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 10 17 5) Pelos correios, em 14/11/2016 (efls.9.273, 9275/9276): ANDREA ABDUL MASSIH, MARIA DE FATIMA ABDUL MASSIH e SIMON NEMER ABDUL MASSIH. Apresentaram recurso voluntário em 08/12/2016 (efls.9.355/9.434 e 9478/9517). 6) Pelo Domicilio Tributário Eletrônico (DTE): NEMR ABDUL MASSIH , em 23/11/2016 (efl.9.281), apresentou recurso voluntário em 08/12/2016 (efls.9.437/9.475). SINA COM. E EXPORTAÇÃO, em 21/11/2016 (efl.9.267), SINA INDUSTRIA DE ALIMENTOS, em 09/11/2016 (efl.9.266), e, MULTIOLEOS, em 23/11/2016 (efl.9.280). Apresentaram recurso voluntário em 12/12/2016 (Sedex efls.9.684/9.918). 7) Por Edital: CECILIA RAIMUNDO DE OLIVEIRA, em 08/12/2016, (e fls.9.278/9.279) em face de AR devolvido. Não apresentou impugnação e nem recurso voluntário. 8) Pelos Correios: IRACI DA SILVA FERREIRA, conforme AR de 17/11/2016 (efl.9.282). Não apresentou recurso voluntário. Enfim, apresentaram recurso voluntário: 1) CROMAIS DISTRIBUIDORA DE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS LTDA (autuada); 2) Responsáveis tributários: 2.1) Pessoas Físicas (05 "reais administradores") João Shoiti Kaku, Andrea Abdul Massih, Maria de Fátima Abdul Massih, Nemr Abdul Massih e Simon Nemer Abdul Massih; e, 2.2) Pessoas Jurídicas (08): FN Assessoria Empresarial Ltda , FAS Empreendimentos e Incorporações Ltda , Faroleo Comércio de Produtos Alimentícios Ltda, DOV Óleos Vegetais Ltda, Multioleos Óleos e Farelo Ltda, Sina Indústria de Óleos Vegetais Ltda, Sina Indústria de Alimentos Ltda e Sina Comércio e Exportação de Produtos Alimentícios Ltda. A autuada, no essencial, argumenta que: a fiscalização detinha documentos/dados suficientes para a realização de um trabalho correto; diversos fatos foram omitidos neste processo administrativo, acarretando em verdadeiro cerceamento de defesa; a multa aplicada, qualificada em 150%, é absurda e não pode prosperar; as “provas” foram obtidas do relatório da Operação Yellow da SefazSP e de processo judicial tramitando na 7ª Vara Federal da Comarca de São Paulo. Há neste processo administrativo fiscal diversos documentos retirados do relatório Yellow, cujas provas foram obtidas por meio ilícito, sem observância da lei, porque, conforme entende o STJ, em sintonia com a Súmula Vinculante nº 24 do STF, “não se tipifica crime material contra a ordem Fl. 9962DF CARF MF 18 tributária, previsto no art. 1º, incisos I a IV, da Lei 8.137, de 1990, antes do lançamento definitivo do tributo.” é incabível a realização de investigação para fundamentar uma ação fiscal; o arbitramento do lucro gerou à contribuinte um PREJUÍZO absurdo, o que não pode prosperar, pois, a não entrega no prazo legal de obrigações acessórias enseja a multa pelo atraso das mesmas, sendo APENAS esta a penalidade.(sic) Finalmente, requer a improcedência da ação fiscal em razão do arbitramento de lucro realizado, que acarretou em um lançamento completamente desproporcional. Os Recursos Voluntários dos responsáveis (pessoas físicas e jurídicas ) repisam, no essencial, os mesmos argumentos despendidos nas impugnações, portanto, desnecessário repetilos. É o relatório. Voto Conselheira Ester Marques Lins de Sousa Relatora 1. Do Recurso Voluntário da contribuinte. Conforme relatado, a autuada CROMAIS, e, alguns responsáveis tributários não apresentaram impugnação. Cientificados da decisão da DRJ, não apresentaram recurso voluntário. Apenas a autuada que, embora passe ao largo de sua revelia, em sede de primeira instância, insurgese contra os autos de infração em sede de recurso voluntário. Ocorre que, de acordo com o artigo 14 do Decreto nº 70.235/72, a impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento. De sorte que, não formalizada em sede de primeira instância, pela interessada, a impugnação no prazo de 30 (trinta) dias, contados da data em que feita a intimação dos autos de infração, nos termos do artigo 15 do aludido Decreto nº 70.235/72, inexiste lide constituída, não havendo pois, discussão a julgar, razão pela qual não se conhece do recurso voluntário ora interposto pela CROMAIS, por falta de objeto. 2. Dos Recursos Voluntários dos Responsáveis Da tempestividade O art.23 do Decreto nº 70.235 de 1972, dispõe sobre a forma de efetuar as intimações ao sujeito passivo das obrigações tributárias, e, o artigo 33 sobre o prazo de apresentar o recurso voluntário. Vejamos: Art. 23. Farseá a intimação: I pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar;(Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) Fl. 9963DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 11 19 II por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo;(Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) III por meio eletrônico, com prova de recebimento, mediante:(Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) a) envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou(Incluída pela Lei nº 11.196, de 2005) b) registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo.(Incluída pela Lei nº 11.196, de 2005) § 1o Quando resultar improfícuo um dos meios previstos no caput deste artigo ou quando o sujeito passivo tiver sua inscrição declarada inapta perante o cadastro fiscal, a intimação poderá ser feita por edital publicado:(Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) I no endereço da administração tributária na internet;(Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) II em dependência, franqueada ao público, do órgão encarregado da intimação; ou(Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) III uma única vez, em órgão da imprensa oficial local.(Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) § 2° Considerase feita a intimação: I na data da ciência do intimado ou da declaração de quem fizer a intimação, se pessoal; II no caso do inciso II do caput deste artigo, na data do recebimento ou, se omitida, quinze dias após a data da expedição da intimação;(Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) III se por meio eletrônico:(Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) a) 15 (quinze) dias contados da data registrada no comprovante de entrega no domicílio tributário do sujeito passivo;(Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) b) na data em que o sujeito passivo efetuar consulta no endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, se ocorrida antes do prazo previsto na alínea a; ou(Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) c) na data registrada no meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo;(Incluída pela Lei nº 12.844, de 2013) IV 15 (quinze) dias após a publicação do edital, se este for o meio utilizado.(Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) Fl. 9964DF CARF MF 20 § 3oOs meios de intimação previstos nos incisos do caput deste artigo não estão sujeitos a ordem de preferência.(Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) § 4oPara fins de intimação, considerase domicílio tributário do sujeito passivo:(Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) I o endereço postal por ele fornecido, para fins cadastrais, à administração tributária; e(Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) II o endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, desde que autorizado pelo sujeito passivo.(Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) § 5oO endereço eletrônico de que trata este artigo somente será implementado com expresso consentimento do sujeito passivo, e a administração tributária informarlheá as normas e condições de sua utilização e manutenção.(Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) (...) Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão. A responsável tributária, DOVÓLEOS VEGETAIS LTDA, declarada inapta, cientificada, da decisão da DRJ, pelo Edital ECOB nº 135/2016, (efls.9.268), afixado em 25/10/2016, apresentou recurso voluntário em 12/12/2016. Como se vê, publicado o Edital no dia 25/10/2016, os 15 (quinze) dias após a publicação do edital findaram em 09/11/2016, e no dia seguinte (10/11/2016 5ª feira) iniciou o prazo de trinta dias para a apresentar o recurso voluntário, cujo prazo fatal seria 09/12/2016 (6ª feira), nos termos do art.33 do Decreto nº 70.235/72. O recurso voluntário foi encaminhado por Sedex em 12/12/2016 (Sedex efl.9550/9595). Portanto, intempestivo. Também a responsável tributária,SINA INDUSTRIA DE ALIMENTOS LTDA, cientificada, da decisão da DRJ, conforme Termo de Abertura de Mensagem, no Domicílio Tributário Eletrônico (DTE) em 09/11/2016 (efl.9.266) , apresentou o recurso voluntário em 12/12/2016. Cientificada em 09/11/2016, no dia seguinte (10/11/2016 5ª feira) iniciou o prazo de trinta dias para a apresentar o recurso voluntário, cujo prazo fatal seria 09/12/2016 (6ª feira), nos termos do art.33 do Decreto nº 70.235/72. O recurso voluntário foi encaminhado por Sedex em 12/12/2016 (Sedex efl.9781/9828). Portanto, intempestivo. Assim, concluo que os recursos voluntários apresentados pelas responsáveis: DOVÓLEOS VEGETAIS LTDA e SINA INDUSTRIA DE ALIMENTOS LTDA, são intempestivos, não preenchem as condições de admissibilidade, nos termos do art.33 do Decreto nº 70.235/72, razão pela qual voto pelo não conhecimento dos mencionados recursos voluntários, por intempestivos. Quanto aos demais recursos voluntários dos outros responsáveis solidários, 05 Pessoas Físicas , "reais administradores", (João Shoiti Kaku, Andrea Abdul Massih, Maria de Fátima Abdul Massih, Nemr Abdul Massih e Simon Nemer Abdul Massih) e 06 Pessoas Jurídicas do Grupo FN Segmento de Soja (FN Assessoria Empresarial Ltda , FAS Empreendimentos e Incorporações Ltda , Faroleo Comércio de Produtos Alimentícios Ltda, Multioleos Óleos e Farelo Ltda, Sina Indústria de Óleos Vegetais Ltda e Sina Comércio e Fl. 9965DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 12 21 Exportação de Produtos Alimentícios Ltda, são tempestivos e preenchem os requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235/72. Deles conheço. 2.2 Nulidades Verifico que os recursos voluntários dos recorrentes, pessoas físicas: João, Andréa, Maria de Fátima , Simon, (efls.9.294/9.434 e 9478/9517) e Nemr (e fls.9.437/9.475); e, pessoas jurídicas: FN, FAS, Faroleo, Multioleos, Sina Indústria e Sina Comércio, enquadradas na sujeição passiva (responsabilidade solidária), possuem argumentação semelhante. Os mencionados recorrentes, argúem nulidade do auto de infração, por causa de irregularidades do procedimento fiscal, a exemplo de ausência de ciência de instauração do procedimento fiscal e de documentos comprobatórios, exclusão da responsabilidade sobre a multa, anulação do Termo de Sujeição Passiva e da responsabilização tributária, e o sobrestamento do feito até a conclusão definitiva da ação penal na 1ª Vara Criminal da Comarca de Bauru. No essencial, os argumentos desses recorrentes/coobrigados, (classificados como pessoas físicas "reais administradores" e/ou Pessoas Jurídicas do Grupo FN no "Relatório de Solidariedade Tributária das Pessoas Jurídicas do Grupo FN", fls.1013/1094) são iguais. Assim, passo a analisálos conjuntamente em face dos argumentos comuns. Diante das alegações de nulidade, cumpre notar que não se verifica nesses autos qualquer das hipóteses previstas no art. 59 do Decreto nº 70.235, de 1972, verbis: Art. 59. São nulos; I – os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II – os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Sendo os atos e termos lavrados por pessoa competente, dentro da estrita legalidade, e garantido o mais absoluto direito de defesa, não há que se cogitar de nulidade dos autos de infração. Ademais, prescreve o citado Decreto que: Art. 14. A impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento. Art. 15. A impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de 30 (trinta) dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. Numa leitura atenta dos dispositivos acima transcritos, verificase que a impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento administrativo. Antes disso, não há que se falar em litígio ou cerceamento de direito de defesa. Ademais, no presente caso, todas as intimações foram recebidas pelos recorrentes, a teor do art. 23 do Decreto nº 70.235, de 1972, que trata das intimações. De modo Fl. 9966DF CARF MF 22 que após a ciência do lançamento tributário, o contribuinte/responsável tem o prazo de trinta dias para ter vista do inteiro teor do processo no órgão preparador e apresentar impugnação escrita, instruída com os documentos em que se fundamentar, exercitando seu direito ao contraditório e à ampla defesa. Reiterese, no que diz respeito à alegada nulidade da responsabilização tributária dos recorrentes, ou ainda do relatório da operação Yellow, os termos de Sujeição Passiva não foram lavrados por pessoa incompetente, nem houve preterição do direito de defesa dos recorrentes, que puderam apresentar suas contestações nas instâncias recursais. O coobrigado, João Shoiti Kaku, alega que só à Procuradoria Geral da Fazenda Nacional compete redirecionar a responsabilidade para quem não seja o sujeito passivo (sic). Nulo o Termo de Solidariedade Passiva porque lavrado por autoridade incompetente, o AFRFB. Sobre a atuação da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional no tocante à responsabilização de codevedor, a Portaria PGFN nº 180, de 25/02/2010 e alterações posteriores assim dispõe: ... Art. 2º A inclusão do responsável solidário na Certidão de Dívida Ativa da União somente ocorrerá após a declaração fundamentada da autoridade competente da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) ou da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) acerca da ocorrência de ao menos uma das quatro situações a seguir: (Redação dada pela Portaria PGFN nº 904, de 3 de agosto de 2010) I excesso de poderes; II infração à lei; III infração ao contrato social ou estatuto; IV dissolução irregular da pessoa jurídica. Parágrafo único. Na hipótese de dissolução irregular da pessoa jurídica, os sóciosgerentes e os terceiros não sócios com poderes de gerência à época da dissolução, bem como do fato gerador, deverão ser considerados responsáveis solidários. ... Art. 4º Após a inscrição em dívida ativa e antes do ajuizamento da execução fiscal, caso o Procurador da Fazenda Nacional responsável constate a ocorrência de alguma das situações previstas no art. 2º, deverá juntar aos autos documentos comprobatórios e, após, de forma fundamentada, declarálas e inscrever o nome do responsável solidário no anexo II da Certidão de Dívida Ativa da União. Como se vê, a inclusão do responsável solidário na Certidão de Dívida Ativa da União é de competência da Procuradoria da Fazenda Nacional, órgão que executa a dívida, mas somente ocorrerá após a declaração fundamentada da autoridade competente da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB). Assim, é dever da autoridade fiscal apurar os fatos Fl. 9967DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 13 23 tributáveis e suas circunstâncias e descrever a ocorrência de situações previstas no art. 2º, acima, para que o Procurador da Fazenda Nacional responsável faça juntar aos autos documentos comprobatórios para a inscrição do nome do responsável solidário no anexo II da Certidão de Dívida Ativa da União, se for o caso. Portanto, a descrição dos fatos efetivada pela Fiscalização, na lavratura de autos de infração que apontam à responsabilidade solidária de sócios de fato, não é ato abusivo e ilegal, tampouco, lavrado por autoridade incompetente, o Auditor Fiscal da RFB. Das Provas No tocante aos documentos comprobatórios, alegam que as provas em que o Fisco se baseia são ilícitas e não se prestam a fundamentar a responsabilização solidária. Dizem, que as “provas” foram obtidas do relatório da Operação Yellow da SefazSP e de processo judicial tramitando na 7ª Vara Federal da Comarca de São Paulo, e que há neste processo administrativo fiscal diversos documentos retirados do relatório Yellow, cujas provas foram obtidas por meio ilícito, sem observância da lei, porque, conforme entende o STJ, em sintonia com a Súmula Vinculante nº 24 do STF, “não se tipifica crime material contra a ordem tributária, previsto no art. 1º, incisos I a IV, da Lei 8.137, de 1990, antes do lançamento definitivo do tributo.” Afirmam ser inaceitável a autorização de qualquer procedimento cautelar invasivo, a exemplo de interceptação telefônica, antes do lançamento definitivo do crédito tributário. Assim, incabível a investigação criminal para fundamentar a ação fiscal. Também alegam que a ação penal e o procedimento prévio investigatório pressupõem que haja decisão final sobre o crédito tributário, "o que não há". A busca e apreensão feita pela SefazSP, bem como a quebra de sigilo de ligações telefônicas são ilegais se deferidas antes de configurada a condição objetiva de punibilidade de delito. Enfim, estas ações não foram lícitas. Observam que o próprio Relatório da Operação Yellow não é prova e, no mínimo, apenas, após ele ser declarado como prova no procedimento judicial instaurado pela parte, a responsabilização solidária poderia ser imputada aos impugnantes. Não há provas aptas que fundamentem o direito pleiteado pela RFB. Verificase que os autuantes constituíram,de ofício, o crédito tributário com base nos valores mensais de receita bruta, extraídos dos arquivos de notas fiscais eletrônicas (NFe) emitidas pelo contribuinte (ANEXO I CROMAIS RELAÇÃO DE NOTAS FISCAIS UTILIZADAS NA APURAÇÃO DA RECEITA BRUTA), cujos dados informam a receita bruta total do ano de 2011 e 2012. E, o arbitramento do lucro no(s) período(s): 03/2011, 06/2011, 09/2011, 12/2011, 03/2012, 06/2012 e 09/2012 se fez tendo em vista que o contribuinte notificado a apresentar os livros e documentos da sua escrituração, conforme Termo de Início de Fiscalização e termo(s) de intimação em anexo, deixou de apresentálos. No Termo de Verificação Fiscal (TVF), fls. 97/133, consta que pesquisa nos sistemas da Receita Federal do Brasil evidenciou movimentação nos anoscalendário 2011 e 2012, representada por receita bruta de venda da ordem de 80 e 50 milhões de reais, respectivamente. Constatado ainda que foram entregues à RFB, a DIPJ AC 2011, com receita bruta de cerca de 700 mil reais; DACON de março a dezembro de 2011 e de fevereiro a julho de 2012, com faturamentos declarados da ordem de 8,3 milhões e 350 mil reais, muito aquém dos valores das NFe, bem como entrega de DCTF de abril a julho de 2011 e de setembro de 2011 a julho de 2012, com valores confessados incompatíveis com as Nfe emitidas. Fl. 9968DF CARF MF 24 De acordo com a Tabela 05 do TVF, consta que para o ano calendário de 2011, enquanto a Receita Bruta de Vendas (apurada a partir das notas fiscais eletrônicas emitidas) totaliza o montante R$ 82.124.046,55, foi declarada na DIPJ/2012, apenas o valor de R$ 700.382,49 82 (menos do que 0,9%). E, em relação ao ano calendário de 2012, apesar da Receita Bruta de Vendas no valor anual de R$ 51.396.660,21 consta na RFB na situação de "omissa". Eis a síntese: Receitas Brutas de Vendas (apuradas a partir das notas fiscais eletrônicas emitidas), para os anos de 2011 e 2012, da ordem de 80 e 50 milhões de Reais respectivamente. DIPJ2012 (anocalendário 2011) entregue com receita bruta declarada da ordem de 700 mil Reais; DACONs entregues referente aos meses de março a dezembro de 2011 e de fevereiro a julho de 2012, com faturamentos declarados da ordem de 8,3 milhões de Reais em 2011 e de 350 mil Reais em 2012, portanto, muito aquém dos valores obtidos via NFes; DCTFs entregues referentes aos meses abril a julho de 2011 e setembro de 2011 a julho de 2012, com valores confessados ínfimos frente ao faturamento apurado via notas fiscais eletrônicas; Opção pelo Lucro Presumido para os anos de 2011 e 2012, feitas através de valores confessados de IRPJ e CSLL, em DCTF; Diante de tais fatos, instaurouse o presente procedimento fiscal, junto à Delegacia da Receita Federal do Brasil em Bauru (DRF/Bauru), obedecendose à Portaria SRRF08/G nº 32, datada de 13/02/2014. A causa do arbitramento é, primordialmente, a omissão na entrega de livros contábeis e de livros fiscais. No caso concreto, corroborando com esta causa principal, encontramse as próprias declarações da empresa fiscalizada, com informações prestadas de qualidade duvidosa, uma vez que são incongruentes com as notas fiscais eletrônicas de vendas emitidas, conforme explicitado, no item “Da Qualificação da Multa”. Desse modo, as provas que respaldam os autos de infração têm como suporte elementos extraídos de pesquisa nos sistemas da Receita Federal do Brasil, no que diz respeito a apuração da omissão de receita, e, não, “provas” obtidas do relatório da Operação Yellow da SefazSP e de processo judicial tramitando na 7ª Vara Federal da Comarca de São Paulo. Ainda que no caso, tenham sido utilizadas as informações prestadas pela própria empresa ao fisco estadual, obtidas pelo fisco federal em face do Convênio celebrado entre a União(RFB) e a SefazSP, não tendo a autuada em nenhum momento, quer ao longo do procedimento fiscal, quer ao longo do processo, demonstrado a eventual incorreção daquelas informações, a utilização dessas informações (Notas Fiscais eletrônicas) como elemento de prova a subsidiar a ação fiscal é procedimento pacificamente aceito no âmbito do CARF, conforme o comprovam as ementas dos julgados abaixo transcritas, a título exemplificativo: Acórdão no 10196387, sessão de 18/10/2007: IRPJ – LANÇAMENTO DE OFÍCIO – APURAÇÃO DE OMISSÃO DE RECEITAS COM BASE EM INFORMAÇÕES Fl. 9969DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 14 25 PRESTADAS AO FISCO ESTADUAL – PROVA EMPRESTADA – É legítimo o lançamento levado a efeito pela fiscalização federal fundamentado em provas colhidas em informações prestadas ao Fisco Estadual. Acórdão no 10323588, sessão de 15/10/2008: PROVA EMPRESTADA. FASE OFICIOSA. ADMISSIBILIDADE. As provas obtidas do Fisco Estadual na fase de fiscalização são admissíveis no processo administrativo fiscal, por serem submetidas a novo contraditório e não prejudicarem o direito de defesa do contribuinte. Acórdão nº 3402001.007, de 03/03/2011 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 30/04/1988 a 31/08/1999 COFINS. OMISSÃO DE RECEITA. PROVA INFORMAÇÕES FORNECIDAS POR SECRETARIA DE ESTADO. A omissão de receita apurada com base em informações fornecidas por Secretaria de Estado, referentes a declarações prestadas pelo contribuinte ao Fisco Estadual, faz prova das operações comerciais e financeiras do contribuinte, mormente quando, na fase impugnatória o interessado não apresentar provas suficientes para descaracterizar a autuação, devendo ser manter a exigência tributária. Não se pode negar valor probante à prova emprestada, coligida mediante a garantia do contraditório. Precedentes. Acórdão no 10708467, sessão de 23/02/2006: IRPJ – LANÇAMENTO DE OFÍCIO – APURAÇÃO PROVA EMPRESTADA – As informações sobre as vendas informadas para o Fisco Estadual podem ser aproveitadas no lançamento de tributos federais quando a contribuinte se recusa a apresentar seus livros e documentos contábeis. Portanto, legítimo e correto o procedimento adotado pelo fisco. Sem qualquer procedência as alusões feitas à ausência de contraditório ou a violação de direitos constitucionais da contribuinte/responsável. O fisco constituiu a prova necessária, e submeteua ao contraditório, que está sendo exercido pelos recorrentes no âmbito do presente processo, exatamente nos termos do que prevê o Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, que regulamenta o Processo Administrativo Fiscal – PAF. Com efeito, o fisco pode se valer de prova emprestada, produzida em outro processo administrativo fiscal ou mesmo processo judicial, inclusive em processo criminal. Não há necessidade de que a prova do Processo Administrativo Fiscal seja produzida por AuditorFiscal da Receita Federal. Fl. 9970DF CARF MF 26 Por oportuno, convém registrar que a jurisprudência citada pelos recorrentes em sua defesa serve apenas como forma de ilustrar e reforçar sua argumentação, não vinculando a administração àquela interpretação, isto porque não têm eficácia normativa. Da mesma forma, quando utilizadas neste voto, as citações e transcrições jurisprudenciais, terão como objetivo ilustrar e reforçar o posicionamento desta julgadora. Enfim, foi devidamente autorizado à Secretaria da Receita Federal do Brasil o acesso a elementos de prova então sob a guarda do Juízo Criminal da 1ª Vara Criminal da Comarca de Bauru/SP e/ou da Secretaria de Fazenda Estadual do Estado de São Paulo. Nessa toada, observado que se tenha como de fato se teve o respeito ao contraditório (é o que se deduz das peças processuais cíveis e criminais juntadas aos correntes autos, no sentido de nelas se perceber a ciência e participação dos tantos envolvidos), é plenamente admissível o uso de prova emprestada, como regulado pelo art. 372 da Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015, Código de Processo Civil CPC ("Art. 372. O juiz poderá admitir a utilização de prova produzida em outro processo, atribuindolhe o valor que considerar adequado, observado o contraditório."), garantido que aqui, em sede processual administrativa, ficou assegurado do direito ao pleno contraditório. Argumentos rejeitados. Quanto ao alentado sobrestamento do julgamento até o Poder Judiciário pronunciarse sobre a legalidade das provas, oriundas da Operação Yellow (ação penal), cabe observar que não há qualquer norma legal, tampouco previsão regimental no âmbito desse Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF que ampare tal pretensão. Assim, não há porque se condicionar ao esgotamento da instância criminal o uso de prova lá colhida para trazêla ao âmbito cível/administrativo. Solicitação indeferida. Da Responsabilidade tributária. Alega o coobrigado João Shoiti Kaku que não foi comprovada a ocorrência de conduta dolosa ou culposa e nem que essa conduta tivesse sido praticada pelo recorrente com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. Aduz que me virtude da necessidade dos solidários possuírem algum poder de gerência ou participação na ocorrência do próprio fato jurídico tributário, requer o afastamento da sujeição passiva solidária pois não existe nos autos prova, à luz do art. 124, I do CTN, que possibilite a atribuição da responsabilidade pelos créditos constituídos em face das empresas do grupo. Ao contrário do alegado pelo recorrente, o Termo de Sujeição Passiva Solidária e os documentos a ele anexados, comprovam que o coobrigado era real administrador do grupo e, apesar da inexistência de vínculo formal com as empresas do grupo, aparece como diretor financeiro na planilha de colaboradores do grupo FN e com uma equipe de funcionários a ele vinculados. Em seguida, transcrevo alguns trechos do Termo de Sujeição Passiva Solidária, que comprovam o interesse comum, bem assim, a prática de infrações as leis mencionadas no referido termo, hábeis a ensejar a atribuição de solidariedade, nos termos dos arts. 124 I, c/c 135, III do CTN: "11 João Shoití Kaku pela posição que tinha dentro do Grupo FN, conhecia com profundidade a forma de organização do Grupo, o que fica explicitado na degravação de interceptação telefônica. (Doe. 02 Destacamos), na qual o senhor Kaku, falando pelo Grupo, conversa com uma representante do Banco Fibra... Fl. 9971DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 15 27 ... Em meio à conversa, o real administrador, senhor Kaku, informa que a holding (FN) está no topo e, ao lado dela, a PJ patrimonial (FAS), que é a dona de todos os imóveis ... "que compra todos os imóveis e que não tem nenhuma embaixo dela", e ainda esclareceu que, como todo o imobilizado está em nome da FAS, que "é a parte real", não será encontrado a depreciação (custo) junto a outras pessoas jurídicas: ... Abaixo da FN, salienta o real administrador, senhor Kaku, estão as PJs industriais, que, embora sendo as principais geradoras de riqueza do Grupo, são tratadas como prestadoras de serviços: ... Embaixo das PJs industriais, continua o real administrador, senhor Kaku, estão as PJs comerciais, citando algumas delas: ... Por fim, o senhor Kaku também informa a existência de uma gestão única do Grupo: “Perguntado sobre como é gerenciado o caixa robusto que aparece no balanço consolidado, KAKU diz que os caixas não se misturam, cada unidade, Multióleos, Faróleo sobrevive com caixa próprio, cada uma gerencia o seu caixa, que não há nada vinculado a operações, KAKU explica que existe uma gestão única, mas que é estimulada a concorrência entre as empresas.” (...) 12 João Shoití Kaku, na posição de Diretor Financeiro (de fato) do Grupo, tinha intenso contato com diretores de bancos, para tratar de assuntos do Grupo FN, conforme se comprova em mensagens eletrônicas em que são agendadas reuniões, através de colaboradores da pessoa jurídica FN. Mensagem do Banco HSBC, agendando um cafédamanhã com o senhor Nemr e senhor Kaku ("KAKO"), junto à diretoria do banco; verificase que o agendamento foi feito pela pessoa jurídica FN, através de um colaborador (Doe. 03. Destacamos): ... Mensagem do Banco Paulista, enviada à pessoa jurídica FN, revela a necessidade de envolver o senhor Kaku (Caco) no caso que estava sendo tratado, demonstrando sua influência junto a pessoas jurídicas do Grupo FN (citado na mensagem como Grupo Nemr Doe. 04. Destacamos): ... Mensagem do Banco Votorantim solicitando à colaborador da FN a confirmação de reunião marcada com o senhor Kaku (Doe. 05 Destacamos): Fl. 9972DF CARF MF 28 ... Colaborador da FN confirma reunião do senhor Kaku com representante do Banco Fibra na pessoa jurídica FN, atentando para o fato de identificar o local como sendo nosso escritório (Doe. 07 Destacamos): ... 13 João Shoiti Kaku, na prática de atos de gestão do Grupo FN, conforme demonstram os elementos probatórios, "supervisionava" a elaboração das demonstrações contábeis das pessoas jurídicas do Grupo, inclusive, pessoalmente, fazendo alterações nas mesmas, sobrepondo, ao que parece, o trabalho dos próprios contadores. O afirmado fica evidenciado na Degravação 05, de 15/03/2012, de interceptação telefônica, na qual o senhor Kaku conversa com o senhor WALTER, colaborador do Grupo FN, solicitando, aparentemente, que o mesmo calibre bem a contabilidade, ou seja, manda a contabilidade ser "maquiada"... senão a coisa vai ficar muito ruim..." (Doe. 09 Destacamos): ... Tal conduta, de alterar demonstrações contábeis, também fica evidenciada na mensagem, intitulada Balanço Faroleo (Alterado), que o colaborador da FN, Walter, direciona a uma das empresas de contabilidade que trabalha para o Grupo (Taltec) informando que seguia o balanço alterado pelo senhor Kaku, em 17/02/2011 (Doe. 10 Destacamos): Diante de todo o exposto, entendo que não merece reparos ao acórdão recorrido que julgou procedente a atribuição de responsabilidade pessoal ao coobrigado João Shioti Kaku e sua manutenção no polo passivo da obrigação tributária. A fiscalização fundamentou a responsabilidade solidária dos sócios, dos reais administradores e das empresas do Grupo FN, na prática de sonegação, enquadrando a sujeição passiva no art. 124, I, combinado com o art. 135, III, do CTN, no caso dos reais administradores, e, art. 124, I, no caso das pessoas jurídicas: Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; (...) Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: ... III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. As preditas recorrentes pessoas jurídicas utilizam em sua defesa os mesmos argumentos apresentados pelas recorrentes pessoas físicas ("reais administradores"), ou seja, alegam que não há qualquer ligação, vínculo administrativo ou gerencial com a contribuinte Fl. 9973DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 16 29 Cromais Distribuidora de Produtos Industrializados Ltda, portanto injustificável sua permanência no pólo passivo dos Autos de Infração. E que, seria incabível a sua responsabilização quanto à multa de ofício, assim como questiona o percentual, que a torna confiscatória. Conforme relatado, no Relatório de Solidariedade Tributária das Pessoas Jurídicas Integrantes do Grupo FN, fls.1013/1094, restou claramente demonstrada a existência de um grupo econômico de fato, atuando em dois grandes ramos, grãos e ovos, sendo que a fiscalizada e as coobrigadas integram o segmento de grãos: Grupo FN GERAL Holding informal: (FN) FN Assessoria Empresarial Ltda. EPP (CNPJ 04.350.935/000159) elementos juntados Anexo 01 (FAS) FASEmpreendimentos e Incorporações Ltda. (CNPJ 03.752.053/000157) elementos juntados Anexo 02; PJs patrimonias: (MODENA) Modena Agropecuária, Incorporações e Empreendimentos Imobiliários Ltda. (CNPJ 10.637.365/000185) elementos juntados Anexo 03; Grupo FN SEGMENTO GRÃOS (SINA INDÚSTRIA) Sina Indústria de Óleos Vegetais Ltda. (CNPJ 06.348.804/000243) elementos juntados Anexo 04; (SINA ALIMENTOS) Sina Indústria de Alimentos Ltda. (CNPJ 10.156.658/000140) elementos juntados Anexo 05; PJs industriais e exportadora (SINA EXPORTAÇÃO) Sina Comércio e Exportação de Produtos Alimentícios Ltda. (CNPJ 09.374.458/000185) elementos juntados Anexo 05A; (FAROLEO) Faroleo Comércio de Produtos Alimentícios Ltda. (CNPJ 05.055.406/000195) elementos juntados Anexo 06; (DOV) Dov Óleos Vegetais Ltda (CNPJ 05.262.304/000140) elementos juntados Anexo 07; (MULTIOLEO) Multioleos Óleos e Farelo Ltda (CNPJ 06.247.827/000180) elementos juntados Anexo 08; (DOFAR) Dofar Distribuidora de Rações e Farelos Ltda ME (CNPJ 06.247.822/000158) elementos juntados Anexo 09; (CROMAIS) Cromais Distribuidora de Produtos Industrializados Ltda (CNPJ 11.326.6730001 52) elementos juntados Anexo 10; (W.A.S.) W.A.S. Comércio de Alimentos Ltda (CNPJ 12.369.189/000173) elementos juntados Anexo 11; (ORTED) Orted Óleos e Cereais Ltda (CNPJ 14.041.985/000108) elementos juntados Anexo 12; PJs comerciais: (PETRY) Petry Comércio, Importação & Exportação Ltda (CNPJ 14.465.186/000169) elementos juntados Anexo 13; Grupo FN SEGMENTO OVOS PJ industrial (FAMA) Fama Ovos Ltda. (CNPJ 05.004.337/000190) elementos juntados Anexo 14; (DOVOS) Dovos Distribuidora de Ovos Ltda. (CNPJ 13.723.665/000175) elementos juntados Anexo 15; PJs comerciais (DMR) DMR Representação Comercial Ltda. (CNPJ 04.740.534/000105) elementos juntados Anexo 16; Como se vê, a estrutura do grupo era composta de diversas pessoas jurídicas, com funções próprias: Holding informal, responsável pela administração geral do grupo; Pessoas jurídicas patrimoniais, responsáveis pela gerência do patrimônio do grupo; Pessoas jurídicas industriais, responsáveis pela industrialização dos produtos comercializados pelo grupo; Pessoas jurídicas comerciais, responsáveis pela comercialização dos produtos industrializados pelo grupo. Fl. 9974DF CARF MF 30 Da leitura do relatório elaborado pela fiscalização e documentos comprobatórios a ele anexados, verificase que no período auditado, o GRUPO FN atuava como um única grande empresa, sob comando único, com objetivos e estruturas comuns e confusão patrimonial, valendose de uma estrutura jurídica composta por diversas pessoas jurídicas, formalmente independentes. Todos os elementos probatórios, relacionados às pessoas físicas e jurídicas, na formação dos fatos geradores sob atenção, seja do ponto de vista do interesse comum, seja, na qualidade de procurador ou sóciogerente, por excesso de poder, infração de lei, contrato social ou estatutos, tudo discorrido e a cada passo referenciado aos mencionados elementos de prova, constam do Relatório de Solidariedade Tributária das Pessoas Jurídicas do Grupo FN" (fls.1013/1094), e, respectivos Termos de Sujeição Passiva Solidária/ Responsabilidade Tributária, direcionados, individualmente, a cada um deles. Registrese que, quando do cometimento das citadas infrações legais e do surgimento das obrigações tributárias lançadas, os responsáveis tributários em comento foram identificados, integrando o Grupo, na qualidade de "reais administradores", exercendo gestão e/ou administração das pessoas jurídicas do Grupo, dentre elas o sujeito passivo em apreço Cromais Distribuidora de Produtos Industrializados Ltda, conforme demonstrado no Relatório de Solidariedade Tributária das Pessoas Jurídicas do Grupo FN (que acompanha o lançamento efetuado junto ao sujeito passivo), bem como, nos Demais Elementos Probatórios explicitados nos Termos de Sujeição Passiva dos coobrigados Importante consignar que o fato de não figurarem no quadro societário, é óbvio que em uma sociedade constituída por sócios “laranjas” como demonstrado no Termo de Verificação Fiscal e também declarado pelos sócios “de fachada”, a finalidade é exatamente os sócios apresentados no contrato “de direito”, registrado na Junta Comercial, assinarem todos os documentos e assumirem documentalmente riscos negociais sob o comando dos sócios de fato/ordenadores que se esquivam da exibição de provas materiais das responsabilidades porque assumidas por terceiros (sócios de fachada) sem o affectio societatis, ou seja, sem a materialização da vontade de se constituir uma sociedade. Conforme relatado a empresa autuada, Cromais Distribuidora De Produtos Industrializados Ltda, não foi constituída em nome dos verdadeiros proprietários, e sim, em nome de interpostas pessoas (testas de ferro) desprovidas de capacidade econômica ou financeira, a saber, Iraci da Silva Ferreira e outra Cecília Raimundo de Oliveira, "nitidamente sem a mínima capacidade econômica e conhecimentos suficientes para empreender neste complexo ramo de negócio, no qual trafega elevadas somas monetárias diariamente" e que, a manutenção do controle das atividades foi garantida pelos reais administradores (verdadeiros proprietários, verdadeiros donos do negócio) que organizavam toda a atividade do Grupo, decidiam, empreendiam, idealizavam, coordenavam e se beneficiavam das atividades desenvolvidas sem pertencerem aos quadros societários das pessoas jurídicas. Com efeito, não é a inadimplência tributária, pura e simples, causa que justifique a ampliação da responsabilidade pessoal do cotista de fato, de forma a atingir o seu patrimônio particular, mas, o art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional, frisa que "são pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração da lei, contrato social ou estatuto”. Todos os elementos probatórios, que demonstram a atuação desses "reais administradores", foram juntados nos respectivos Termos de Sujeição Passiva Fl. 9975DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 17 31 Solidária/Responsabilidade Tributária, direcionados, individualmente, a cada um deles, como parte integrante dos Autos de Infração. Sem dúvida restou caracterizada a fraude ao contrato social da pessoa jurídica constituída por interpostas pessoas. Evidenciado o vinculo de fato das pessoa físicas, "reais administradores", estranhas ao quadro societário e a empresa autuada, regular é a atribuição de responsabilidade solidária, por interesse comum nas situações que se constituíram em fatos geradores das obrigações infringidas. Os sócios de fato da interessada, "reais administradores", ao utilizarem interpostas pessoas sem capacidade econômica para figurarem como sócias da interessada, e, com a anuência destas infringiram a lei e o contrato social, evidenciando o intuito fraudulento, configurando o dolo necessário à caracterização da responsabilidade pessoal e solidária prevista no art. 135, inciso III, do CTN. Nessa ordem de idéia, não há como afastar a responsabilidade tributária dos coobrigados e envolvidos na trama contratual, João Shoiti Kaku, Andrea Abdul Massih, Maria de Fátima Abdul Massih, Nemr Abdul Massih e Simon Nemer Abdul Massih, como imputada no Termo de Sujeição Passiva, prevista no inciso III do artigo 135 do CTN. Quanto ao interesse comum configurado na responsabilidade solidária atribuída aos coobrigados (pessoas físicas e jurídicas), por concordar com a decisão recorrida a respeito da matéria, adotoa como razões de decidir as expressas nos seguintes excertos (fls.9187, 9.188/9.189 e 9.191): Cabe observar que norma de responsabilidade tributária tem o objetivo de garantir o crédito tributário e, por motivos de conveniência e necessidade, a lei elege um terceiro para ser o responsável pelo pagamento do tributo, em caráter pessoal, subsidiário ou solidário. O art. 124, do CTN, trata da responsabilidade solidária das pessoas expressamente designadas por lei e das que tiverem interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. O interesse comum do art. 124, I, do CTN, significa haver liame inequívoco entre as atividades desempenhadas pelos integrantes do grupo econômico, inclusive as pessoas físicas. Inexiste autonomia das unidades quando a atuação é complementar mesmo que a aparência seja de unidades autônomas. O interesse comum também pode ser demonstrado com a existência de confusão patrimonial ou vinculação gerencial ou coincidências de sócios e administradores, etc. Registrese que há decisões judiciais (fls. 1555/1566) reconhecendo a existência do grupo econômico formado por pessoas jurídicas do Grupo FN, entre as quais a Modena Agropecuária Empreendimentos Imobiliários Ltda, Multioleos Óleos e Farelo Ltda., FAS Empreendimentos e Incorporações Ltda., Sina Indústria de Óleos Vegetais Ltda., Sina Comércio e Exportação de Produtos Alimentícios Ltda., Sina Indústria de Fl. 9976DF CARF MF 32 Alimentos Ltda., Dov Óleos Vegetais Ltda. e Faroleo Comércio de Produtos Alimentícios Ltda. No caso concreto, as empresas, mesmo formalmente independentes, realizavam, de forma complementar, as situações configuradoras dos fatos geradores e também atuavam sob comando único, com objetivo e estruturas comuns e com intercomunicação patrimonial. No Relatório de Solidariedade (fls. 1013/1094), se demonstra que a direção centralizada do grupo se caracterizava pelo gerenciamento em nível de detalhes, das empresas, com instruções ou diretivas. O grupo mantinha, de fato, uma estrutura única “setorizada” em diversas pessoas jurídicas, cabendo à direção unitária decidir pela própria realização das operações e negócios das demais sociedades, bem como administrar os encargos deles decorrentes, como é a atividade consistente no pagamento de tributos e cumprimento de obrigações acessórias, caracterizando o interesse comum e justificando o enquadramento no art. 124, I, do CTN. ... Argumentações comuns a mais de um impugnante As impugnantes questionam a conclusão fiscal quanto ao interesse comum vinculando as pessoas jurídicas e pessoas físicas e reunindoas por circunstâncias externas formadoras de solidariedade, provenientes das necessidades que as interligam conforme prevê o CTN, porque alegam que não há nem interesse comum nem relação com o fato gerador. Daí, não ser possível incluílas como solidários com base no art. 124, I, do CTN, a impor a improcedência da solidariedade. Alegam a inexistência de qualquer relação jurídica ou efetiva entre elas, impugnantes, pessoas físicas e jurídicas, e os fatos geradores apontados pela fiscalização, entretanto, há no processo, diversos elementos, alguns inclusive referidos no Relatório de Solidariedade Tributária (fls. 1013/1094), mais especificamente, no item 4.3 “Modo de Agir” e seus subitens (fls. 1056/1070) que evidenciam que as empresas atuavam como grupo de fato e que as pessoas físicas agiam como mandatários e/ou as gerenciava/administrava, como evidenciam extratos CNPJ e fichas cadastrais das empresas (fls. 1095/1303); procurações e subestabelecimentos (fls. 1644/2014); contratos de mútuo (fls. 2060/2068); cópia do documento intitulado “Movimentação Bancária” (fls. 1580/1585); degravação de conversa telefônica entre real administrador e funcionário do banco Fibra (fls. 1567/1568); emails (fls. 2016/2022, 2037/2039 e 2080/2084) entre outros elementos de provas anexados aos respectivos termos de sujeição passiva. O “interesse comum”, estabelecido no art. 124, I, do CTN, como dito anteriormente, está demonstrado no Relatório de Solidariedade (fls. 211/292), e seus anexos, no qual se descreve a estrutura do Grupo FN. Este modo de agir deu causa a diversas infrações a dispositivos da legislação tributária. Detectadas ainda empresas offshores, sócias diretas de diversas empresas do grupo, assim como diversas pessoas físicas relacionadas às empresas, sócios e reais administradores, Fl. 9977DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 18 33 conforme comprovado na Operação Yellow da SefazSP e do MPESP. ... Quanto ao pedido de reconhecimento da ilegitimidade dos impugnantes para figurarem como responsáveis solidários nenhum dos impugnantes apresentou elementos comprobatórios para fundamentar este pleito. Registrese que o sujeito passivo da obrigação tributária é identificado como contribuinte ou responsável, conforme o art. 121 do CTN. É contribuinte a pessoa que tenha relação direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador, no caso concreto, a W.A.S.; e responsável aquele que, sem se revestir da condição de contribuinte, tem sua obrigação decorrente de lei. Daí, necessário identificar, no lançamento, não só o contribuinte, mas também o responsável, inclusive apontando os elementos necessários para caracterizar a responsabilidade solidária, a fim de trazer o responsável para dentro da relação jurídica tributária. ... Enfim, mantidas a responsabilização solidária dos cinco reais administradores trazidos ao processo. As empresas FAS Empreendimentos e Incorporações Ltda.; Faroleo Comércio de Produtos Alimentícios Ltda.; Sina Indústria de Óleos Vegetais Ltda.; Sina Comércio e Exportação de Produtos Alimentícios Ltda.; Sina Indústria de Alimentos Ltda.; Multioleos Óleos e Farelo Ltda.; FN Assessoria Empresarial Ltda. EPP e Dov Óleos Vegetais Ltda; utilizam em sua defesa os mesmos argumentos apresentados pelos quatro membros da família Abdul Massih, ou seja, alegam que não há qualquer ligação, vínculo administrativo ou gerencial com a contribuinte Cromais Distribuidora de Produtos Industrializados Ltda. e que as provas utilizadas são ilícitas. Entretanto, apesar das alegações, há na verdade, como já indicado, provas materiais de que as empresas integram um grupo econômico de fato (grupo FN) do qual faz parte a Cromais e que foram dirigidas pelas pessoas físicas também responsabilizadas, enfatizandose que existe decisões judiciais já referidas em parágrafo anterior reconhecendo a existência do grupo econômico formado pelas empresas FAS Empreendimentos e Incorporações Ltda., Sina Comércio e Exportação de Produtos Alimentícios Ltda., Sina Indústria de Óleos Vegetais Ltda., Multioleos Óleos e Farelo Ltda., Sina Indústria de Alimentos Ltda. e Modena Agropecuária, Incorporações e Empreendimentos Imobiliários Ltda. Nesse contexto, subsiste a sujeição passiva das empresas do grupo e das pessoas físicas expressamente responsabilizadas na autuação. Fl. 9978DF CARF MF 34 Registrese que, conforme relatado, a autuada CROMAIS foi declarada inapta (processo administrativo nº 10880.722074/201408, em 18/06/2014, para a Declaração de Inaptidão, origem do Ato Declaratório Executivo nº 161, de 18/07/2014, publicado no DOU de 24/07/2014), por localização desconhecida, e, nessa esteira, temse que a 1ª seção do STJ editou súmula pacificando entendimento sobre a dissolução de empresas que deixam de funcionar em seus domicílios fiscais e não comunicam essa mudança de modo oficial. Isso passa a ser considerado irregular, conforme a súmula 435 que tem a seguinte redação: "Presumese dissolvida irregularmente a empresa que deixar de funcionar no seu domicílio fiscal, sem comunicação aos órgãos competentes, legitimando o redirecionamento da execução fiscal para o sóciogerente". Multa Qualificada Conforme relatado, nos autos de infração fora aplicada a multa por infração qualificada de 150% sob o fundamento de que restou comprovado o evidente intuito de sonegação. Além das informações sobre a conduta do contribuinte, notadamente, pela entrega de declaração de conteúdo falso à RFB, reiterada e substancial omissão de receitas, omissão de entrega de declarações e o uso de interpostas pessoas nos atos constitutivos, bem como a ocultação de sua escrituração contábil e fiscal e livros, também consta do TVF: Entre as diversas infrações a dispositivos legais cometidas, que estão devidamente descritas no Relatório de Solidariedade, destacamse: 1 Os reais administradores se associaram aos sócios formais (os quais cediam seus nomes para compor o quadro societário das pessoas jurídicas sócios “testasdeferro”) e aos procuradores (que cediam seus nomes para assumirem os compromissos das pessoas jurídicas), para cometer, em conluio, as diversas infrações legais. Assim agindo, os reais administradores, em tese, também infringiram a lei 2.848/1940 (DecretoLei), Código Penal, artigo 288: “Quadrilha ou bando Art. 288 Associaremse mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim de cometer crimes: (Vide Lei nº 12.850, de 2.013) Associação Criminosa Art. 288. Associaremse 3 (três) ou mais pessoas, para o fim específico de cometer crimes (Redação dada pela Lei nº 12.850, de 2013)” 2 Também assim, os reais administradores, em conluio com os sócios formais e procuradores, ao integrarem ao quadro societário de suas pessoas jurídicas sócios “testasde ferro” e/ou “offshore”, modificaram, fraudulentamente, as características essências dos fatos geradores: a sujeição passiva. Agiram, desta forma, com infração à lei 2.848/1940 (DecretoLei), Código Penal, artigo 299, cometendo, em tese, falsidade ideológica: “Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de Fl. 9979DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 19 35 prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante” 3 Além disto, os reais administradores não pagaram e não declararam/confessaram a totalidade devida pela contribuinte dos tributos auditados, durante os períodos fiscalizados (2011 e 2012), suprimindo ou reduzindoos na DCTF Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (declaração que constitui confissão de dívida Decretolei 2.124/1984, artigo 5°, parágrafo Desta forma, não houve mero inadimplemento (falta de pagamento de tributo devido já confessado ao Fisco), mas, antes, reiterada omissão dolosa, sonegação (em tese),visando o não pagamento dos tributos devidos. ... Para melhor entendimento, transcrevese, a seguir, o art. 44, inciso I e §1º, da Lei nº 9.430/96, com a redação dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488/2007, vigente à época da ocorrência dos fatos geradores: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as /seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (...) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis.” [...] Conforme se observa, nos termos do parágrafo 1º do artigo 44 da Lei nº 9.430, de 1996, só é admitida a aplicação da multa no percentual de 150%, nos casos de evidente intuito de fraude, como previsto nos arts.71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964, que assim dispõem: Fl. 9980DF CARF MF 36 Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente; Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos artigos 71 e 72. Desse modo, a multa de 150% de que trata o parágrafo 1º do artigo 44 da Lei nº 9.430, de 1996, terá aplicação sempre que em procedimento fiscal constatarse a ocorrência de sonegação, fraude ou conluio. As multas de ofício aplicadas foram qualificadas, no percentual de 150%, com base no art. 44, inciso I e §1º da Lei nº 9.430, de 1996, porque a Fiscalização entendeu que a conduta do contribuinte, notadamente, pela entrega de declaração de conteúdo falso à RFB, robusta e reiterada omissão de receitas, omissão de entrega de declarações e o uso de interpostas pessoas nos atos constitutivos, bem como a ocultação de sua escrituração contábil e fiscal e livros, caracterizou a sonegação como definido na Lei nº 4.502, de 1964, arts. 71 e necessário à qualificação da multa. Com efeito, a sonegação se caracteriza em razão de uma ação ou omissão, de uma simulação ou ocultação, e pressupõe sempre a intenção de causar dano à fazenda pública, num propósito deliberado de se subtrair, no todo ou em parte, ou retardar uma obrigação tributária. Assim, ainda que o conceito de sonegação seja amplo, deve sempre estar caracterizada a presença do dolo, um comportamento intencional, específico, de causar dano à fazenda pública, onde, utilizandose de subterfúgios escamoteiase ocorrência do fato gerador ou retardase o seu conhecimento por parte da autoridade fazendária. Assim, constatada a sonegação e dolo, correto o lançamento da multa qualificada de 150%. No que tange ao aspecto confiscatório da multa, alegado por alguns Recorrentes e ofensa ao princípio da capacidade contributiva, a exigência decorre de expressa disposição legal, não cabendo a esse órgão do Poder Executivo deixar de aplicála, encontrando óbice, inclusive na Súmula nº 2 desse E.Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF, verbis: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária Como registrado acima, os recorrentes alegam ser incabível a responsabilização quanto à multa de ofício. Fl. 9981DF CARF MF Processo nº 10825.722769/201527 Acórdão n.º 1201002.111 S1C2T1 Fl. 20 37 Sobre a matéria, não merece reparo ao acórdão da DRJ cujos fundamentos acolho como razão de decidir, que a seguir transcrevo, A multa é devida pela falta de pagamento ou recolhimento, ou, em outras palavras, pelo descumprimento da obrigação principal, independentemente de quem seja o sujeito passivo ou de sua intenção. O aspecto subjetivo, qual seja, a intenção dolosa, é causa tão somente de qualificação da multa, o que também ocorreu no presente caso. Enfim, a exclusão da multa ou sua redução somente pode ocorrer com suporte na legislação tributária. Nesse passo, a solidariedade abrange todo o crédito tributário, é dizer, tanto os tributos quanto a multa de ofício e os juros moratórios. O Recorrente João Shoiti Kaku pede que quaisquer intimações e notificações sejam realizadas em nome do procurador do Recorrente MARCO AURÉLIO VERÍSSIMO, OAB/SP n° 279.144, com escritório na Rua Bento de Andrade, n° 421, Jardim Paulista, São Paulo. Sobre o assunto, a Súmula CARF nº 9, é suficiente para o indeferimento do pleito, vejamos: Súmula CARF nº 9: É válida a ciência da notificação por via postal realizada no domicílio fiscal eleito pelo contribuinte, confirmada com a assinatura do recebedor da correspondência, ainda que este não seja o representante legal do destinatário. O domicílio fiscal da pessoa física é o constante do Cadastro da Pessoa Física. Assim, razão não há para que as intimações sejam encaminhadas para outros endereços que não seja o domicílio fiscal eleito pelo contribuinte indicado no CPF. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. PIS. Cofins. Aplicase à tributação reflexa idêntica solução dada ao IRPJ em face da estreita relação de causa e efeito. Diante do exposto, voto no sentido de: 1) não conhecer dos recursos voluntários apresentados pela contribuinte (autuada) e, pelas responsáveis DOVÓLEOS VEGETAIS LTDA e SINA INDUSTRIA DE ALIMENTOS LTDA, por intempestivos, e, 2) afastar as nulidades suscitadas, e, NEGAR provimento aos recursos voluntários dos responsáveis tributários/recorrentes (João Shoiti Kaku, Andrea Abdul Massih, Maria de Fátima Abdul Massih, Nemr Abdul Massih e Simon Nemer Abdul Massih) e Pessoas Jurídicas do Grupo FN (FN Assessoria Empresarial Ltda , FAS Empreendimentos e Incorporações Ltda , Faroleo Comércio de Produtos Alimentícios Ltda, Multioleos Óleos e Farelo Ltda, Sina Indústria de Óleos Vegetais Ltda e Sina Comércio e Exportação de Produtos Alimentícios Ltda (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa. Fl. 9982DF CARF MF 38 Fl. 9983DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10850.901471/2013-11
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jul 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2012
RESTITUIÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO.
A simples retificação de declarações para alterar valores originalmente declarados, desacompanhada de documentação hábil e idônea, não pode ser admitida para modificar Despacho Decisório.
Numero da decisão: 1402-003.039
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edgar Bragança Bazhuni, Leonardo Luis Pagano Goncalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Paulo Mateus Ciccone (Presidente).
Nome do relator: PAULO MATEUS CICCONE
1.0 = *:*
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DIREITO CREDITÓRIO. A simples retificação de declarações para alterar valores originalmente declarados, desacompanhada de documentação hábil e idônea, não pode ser admitida para modificar Despacho Decisório. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edgar Bragança Bazhuni, Leonardo Luis Pagano Goncalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Paulo Mateus Ciccone (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 0. 90 14 71 /2 01 3- 11 Fl. 38DF CARF MF Processo nº 10850.901471/201311 Acórdão n.º 1402003.039 S1C4T2 Fl. 3 2 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo (SP) assim ementado: "ASSUNTO: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Anocalendário: 2012 RESTITUIÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. A simples retificação de declarações para alterar valores originalmente declarados, desacompanhada de documentação hábil e idônea, não pode ser admitida para modificar Despacho Decisório. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido" O caso foi assim relatado pela instância a quo, in verbis: "Trata o presente processo de Pedido de Restituição [...], transmitida em 27/12/2012, por meio da qual o contribuinte acima identificado solicita restituição de direito creditório decorrente de pagamento indevido ou a maior de CSLL (código 2372) do período de apuração 30/09/2012. Despacho Decisório (fl. 04) da Delegacia da Receita Federal em São José do Rio Preto indeferiu o Pedido de Restituição em virtude da inexistência de crédito, sob a seguinte fundamentação: "A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados pra quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para restituição. " Cientificado do Despacho Decisório por via postal em 14/05/2013, o contribuinte apresentou, em 07/06/2013, manifestação de inconformidade (fl. 03), alegando que teve indeferido seu pedido de restituição pelo fato de não ter retificado suas declarações (DCTF, DACON e DIPJ), porém pleiteia novamente o crédito afirmando ter corrigido todas as declarações." Inconformada com a decisão da Instância a quo, a recorrente interpôs recurso voluntário, no qual traz a seguinte explicação para retificar a DCTF, DACON e DIPJ: "Isto tudo foi feito quando constatado que a empresa LC ASSISTÊNCIA MÉDICA S/S LTDA, recolheu o IRPJ sendo 4,80% e a CSLL sendo 2,88% na Fl. 39DF CARF MF Processo nº 10850.901471/201311 Acórdão n.º 1402003.039 S1C4T2 Fl. 4 3 sua totalidade, e a empresa INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO ESTRATÉGICO E ASSISTÊNCIA INTEGRAL A SAÚDE, CNPJ N° 00.376.056/000145, também havia retido e recolhido o IRRF 1,5%, Código 1708 e o PIS/COFINS/CSLL 4,65% Código 5952." Em seu pedido, requer que se aceite as retificações das declarações, pleiteando o crédito novamente referente ao PER/DCOMP acima identificado. Fl. 40DF CARF MF Processo nº 10850.901471/201311 Acórdão n.º 1402003.039 S1C4T2 Fl. 5 4 Voto Conselheiro Paulo Mateus Ciccone, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1402003.078, de 11/04/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10850.901450/2013 97, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1402003.078): "O Recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos, portanto dele conheço. O recorrente teve seu pedido de restituição indeferido o fato de que, ainda que tenha sido localizado pagamento ao qual se amolda aquele apontado na PER/DCOMP como origem do crédito, o valor correspondente já teria sido utilizado para a extinção anterior de outro débito. Isso equivale a dizer que o valor do DARF foi integralmente consumido na extinção, por pagamento, de débito regularmente registrado nos arquivos da Receita Federal, motivo pelo qual não há saldo disponível para restituir. O recorrente alega que retificou as declarações DCTF, DACON e DIPJ para redução de tributos, pois recolheu o IRPJ e a CSLL na sua totalidade, contudo a empresa INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO ESTRATÉGICO E ASSISTÊNCIA INTEGRAL A SAÚDE, CNPJ N° 00.376.056/000145, também havia retido e recolhido o IRRF e o PIS/COFINS/CSLL. Uma vez que a administração tributária tenha iniciado procedimento fiscal para verificar as obrigações tributárias referentes a determinado período e tributo, não mais se pode falar em espontaneidade na entrega de declaração retificadora. Dessa forma, uma vez que a administração tributária emite decisão com base em declaração regularmente entregue, não é lícito que o recorrente retifique a informação que levou àquela decisão e pretenda que seja a nova informação aceita sem passar pelo crivo do Autoridade Fiscal. Sendo assim, deveria o recorrente ter apresentado sua manifestação de inconformidade acompanhada de elementos probatórios que permitissem à autoridade julgadora constatar a efetiva ocorrência dos alegados equívocos cometidos em suas declarações anteriores, nos termos do artigo 16, § 4º do Decreto nº 70.235/1972. Fl. 41DF CARF MF Processo nº 10850.901471/201311 Acórdão n.º 1402003.039 S1C4T2 Fl. 6 5 Contudo, apesar das alegações, o recorrente não traz quaisquer documentos (notas fiscais, recibos, comprovante de pagamento) que comprovem que houve a retenção dos referidos valores de IRRF, CSLL, PIS e COFINS. Além de não comprovar a retenção dos referido tributos, também não houve a demonstração de que os valores retidos seriam suficientes para quitar integralmente os tributos apurados a partir de seus livros comerciais e fiscais. Desse modo, sendo do recorrente o ônus de provar o crédito que alegava ter, nos termos do artigo 333, I, do Código de Processo Civil, e não tendo se desincumbido de referido ônus, cumpre indeferir seu pedido de restituição e de compensação, por falta de comprovação da existência do crédito. Conclusão Ante o exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Fl. 42DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10218.000345/2008-37
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Apr 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue May 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2004
DEPÓSITOS BANCÁRIOS SEM IDENTIFICAÇÃO DE ORIGEM. ATIVIDADE RURAL. ALTERAÇÃO DA BASE LEGAL DA AUTUAÇÃO.
Incabível a alteração, na fase de julgamento, da base legal da autuação, mormente com a pretensão de criar regra-matriz de incidência híbrida, absolutamente inexistente no ordenamento jurídico em vigor.
Numero da decisão: 9202-006.826
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em Exercício e Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Júnior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício).
Nome do relator: MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2004 DEPÓSITOS BANCÁRIOS SEM IDENTIFICAÇÃO DE ORIGEM. ATIVIDADE RURAL. ALTERAÇÃO DA BASE LEGAL DA AUTUAÇÃO. Incabível a alteração, na fase de julgamento, da base legal da autuação, mormente com a pretensão de criar regra-matriz de incidência híbrida, absolutamente inexistente no ordenamento jurídico em vigor.
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ATIVIDADE RURAL. ALTERAÇÃO DA BASE LEGAL DA AUTUAÇÃO. Incabível a alteração, na fase de julgamento, da base legal da autuação, mormente com a pretensão de criar regramatriz de incidência híbrida, absolutamente inexistente no ordenamento jurídico em vigor. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em Exercício e Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Júnior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 21 8. 00 03 45 /2 00 8- 37 Fl. 437DF CARF MF 2 Trata o presente processo, de exigência de Imposto de Renda Pessoa Física do exercício de 2004, tendo em vista a omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários sem comprovação de origem. Em sessão plenária de 03/12/2014, foi julgado o Recurso Voluntário, prolatandose o Acórdão nº 2801003.891 (efls. 400 a 406), assim ementado: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2004 OMISSÃO DE RENDIMENTOS. CONTRIBUINTE COM RENDIMENTOS EXCLUSIVOS DA ATIVIDADE RURAL. Constatado que as origens de recursos do Contribuinte são originárias exclusivamente da atividade rural e que todos os negócios desenvolvidos pelo Suplicante tem relação direta com a atividade rural, qualquer omissão dever ser tributada nos termos da Lei n.º 8.023, 1990, com apuração de forma anual. Recurso Voluntário Provido.” A decisão foi assim resumida: “Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso para cancelar a infração omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada, nos termos do voto do Relator. Vencidos os Conselheiros Marcelo Vasconcelos de Almeida e Marcio Henrique Sales Parada que negavam provimento ao recurso.” O processo foi encaminhado à PGFN em 02/02/2015 (Despacho de Encaminhamento de efls. 407) e, em 05/03/2015, foi interposto o Recurso Especial de efls. 408 a 416 (Despacho de Encaminhamento de efls. 417). O Recurso Especial está fundamentado nos arts. 64 e 67, do Anexo II, do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009, e visa rediscutir a aplicação da tributação favorecida decorrente da atividade rural no percentual de 20% para toda a base de cálculo remanescente e não o cancelamento do lançamento. Ao Recurso Especial foi dado seguimento, conforme despacho de 25/11/2015 (efls. 418 a 423). Em seu apelo, a Fazenda Nacional apresenta as seguintes alegações: não obstante a respeitável decisão da Turma, a Câmara Superior de Recursos Fiscais tem entendimento diverso para situações como a dos presentes autos; de acordo com a decisão recorrida, a instrução processual confirma que os rendimentos omitidos pelo contribuinte têm origem no exercício da atividade rural; pois bem, o artigo 42, da Lei nº 9.430, de 1996, encerra uma presunção de omissão de rendimentos que se aplica quando o contribuinte, devidamente intimado, não comprova mediante documentação hábil e idônea a origem dos valores creditados em conta de depósito ou de investimento de que seja titular; Fl. 438DF CARF MF Processo nº 10218.000345/200837 Acórdão n.º 9202006.826 CSRFT2 Fl. 438 3 no entanto, de acordo com o § 2°, do art. 42, da Lei nº 9.430, de 1996, “Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos.”; no caso, a autoridade lançadora entendeu que a origem de parte da movimentação bancária do contribuinte não restou comprovada, motivo pelo qual fez incidir sobre ela a presunção do artigo 42, da Lei nº 9.430, de 1996; por outro lado, a decisão recorrida concluiu, de forma unânime, pelas provas trazidas aos autos após o término da ação fiscal, que toda a movimentação bancária do interessado advém da atividade rural; tendo em vista a impossibilidade de se discutir a efetiva comprovação ou a não comprovação da origem dos depósitos bancários, por ausência de divergência jurisprudencial específica em relação a esse ponto, resta apenas atacar os efeitos jurídicos no lançamento atribuídos pela Egrégia Turma, ante o reconhecimento da origem dos recursos; para esta situação, a conclusão é reduzir para 20% a base de cálculo do lançamento efetuado com fundamento no artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996, e não cancelar o lançamento, pois aos rendimentos omitidos pelo contribuinte se aplica a regra do artigo 5º, da Lei nº 8.023, de 1990, em razão da previsão do § 2º, do artigo 42, da Lei nº 9.430, de 1996. Ao final, a Fazenda Nacional pede que seja conhecido e provido o Recurso Especial, reformandose o acórdão recorrido para restabelecer o lançamento, com a adoção da base de cálculo de 20%, prevista na Lei nº 8.023, de 1990. Cientificado, o Contribuinte quedouse silente (efls. 434). Voto Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Relatora O Recurso Especial da Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Não foram oferecidas Contrarrazões. Trata o presente processo, de exigência de Imposto de Renda Pessoa Física do exercício de 2004, tendo em vista a omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários sem comprovação de origem. A autuação foi levada a cabo com base no art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, que assim estabelece: Art.42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. (...) Fl. 439DF CARF MF 4 § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. Assim, tratase de presunção juris tantum, segundo a qual os depósitos bancários cuja origem não for comprovada pelo Contribuinte, constituem rendimento tributável pelo Imposto de Renda. Por outro lado, comprovada a origem do depósito, o respectivo rendimento, se for o caso, deve ser submetido a tributação específica, tornandose inaplicável a presunção do art. 42, da Lei nº 9.430, de 1996. No caso do acórdão recorrido, deuse provimento ao Recurso Voluntário, cancelandose o lançamento, considerandose que os depósitos bancários em questão seriam oriundos exclusivamente da Atividade Rural, portanto a presunção do art. 42, da Lei nº 9.430, de 1996, não seria aplicável. A Fazenda Nacional, por sua vez, argumenta que, ao invés do cancelamento da exigência, esta deveria ser mantida com a base de cálculo reduzida a 20%, mediante a aplicação do art. 5º, da Lei nº 8.023, de 1990. Ressaltese que não foi objeto do Recurso Especial da Fazenda Nacional a discussão acerca da comprovação da origem dos depósitos bancários. Com efeito, a divergência instaurada residiu unicamente nos efeitos jurídicos decorrentes da identificação dos recursos como oriundos da Atividade Rural, ou seja, a premissa de que parte o apelo é a de que os depósitos bancários efetivamente têm como origem a Atividade Rural. Confirase o respectivo trecho do recurso: "Tendo em vista a impossibilidade de se discutir a efetiva comprovação ou a não comprovação da origem dos depósitos bancários, por ausência de divergência jurisprudencial específica em relação a esse ponto, resta apenas atacar os efeitos jurídicos no lançamento atribuídos pela Egrégia Turma, ante o reconhecimento da origem dos recursos. Para esta situação, a conclusão é reduzir para 20% a base de cálculo do lançamento efetuado com fundamento no artigo 42 da Lei n° 9.430/96, e não cancelar o lançamento, pois aos rendimentos omitidos pelo contribuinte se aplica a regra do artigo 5° da Lei n° 8.023/90, em razão da previsão do § 2°, do artigo 42, da Lei n° 9.430/96." (grifei) Em face de tal pedido, ressalvo o meu posicionamento, no sentido de que não comungo com a conclusão esposada no acórdão recorrido, ou seja, no presente caso não atribuo à Atividade Rural a origem dos depósitos bancários que restaram sem comprovação que, aliás, representam quase a metade da totalidade dos depósitos. Com efeito, os depósitos totalizavam, de início, R$ 1.116.909,00, excluindose R$ 568.502,11 como oriundos da Atividade Rural (R$ 495.686,06 na fase de autuação e R$ 72.816,05 pela DRJ), restando como não comprovado o total de R$ 548. 406,89. Nessas circunstâncias, o fato de somente serem declarados rendimentos da Atividade Rural não leva esta Conselheira a firmar convicção no sentido de que todos os valores que transitaram pela contacorrente do Contribuinte seriam oriundos dessa atividade. Entretanto, repitase que a própria Recorrente parte da premissa de que os depósitos bancários teriam sua origem na Atividade Rural, e nessa esteira pede que a consequência jurídica seja a manutenção do lançamento com a base de cálculo reduzida a 20%. Fl. 440DF CARF MF Processo nº 10218.000345/200837 Acórdão n.º 9202006.826 CSRFT2 Fl. 439 5 O art. 42, da Lei nº 9.430, de 1996, é bem claro ao estabelecer a presunção de que depósitos bancários de origem não identificada caracterizam omissão de rendimentos, porém permitindo que os depósitos de origem identificada sejam tributados conforme a respectiva natureza dos valores depositados. Ora, se tanto o Relator do acórdão recorrido como a Recorrente partem da premissa de que a origem da totalidade de depósitos é a Atividade Rural, então efetivamente já não há que se falar em falta de comprovação da origem, portanto o art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, deveria efetivamente ser afastado, concluindose que haveria uma tributação específica (como Atividade Rural) e não genérica (como Depósitos Bancários). Constatase, assim, a contradição da tese preconizada no Recurso Especial, que mescla duas regrasmatrizes de incidência absolutamente diversas, cada qual com suas características e nuances, para ao final aplicar uma nova regramatriz, não prevista em lei, combinando dois regimes de tributação totalmente distintos. Com efeito, não há previsão legal para que depósitos bancários sejam tributados considerandose apenas 20% da base de cálculo, eis que o comando legal é no sentido de que sejam tributados mediante a aplicação da tabela progressiva ao valor total dos depósitos. E a aplicação de 20% à base de cálculo, por sua vez, faz parte de tributação favorecida da atividade rural, regulamentada pela Lei nº 8.023, de 1990, e legislação específica posterior, que pressupõe a identificação de receitas e despesas. Configurarseia, assim, situação inusitada, em que sobre depósitos bancários com origem identificada incidiria a presunção do art. 42, da Lei nº 9.430, de 1996, que foi a base legal do Auto de Infração, aplicandoselhes, em sede de julgamento em Instância Especial, a tributação favorecida, específica para rendimentos identificados oriundos de Atividade Rural, transmudandose a incidência originária em nova incidência, sem previsão legal. Ainda que se pudesse cogitar do atendimento ao pedido da Fazenda Nacional, transmutandose o lançamento com base em depósitos bancários sem identificação de origem em omissão de rendimentos da Atividade Rural o que se admite apenas para argumentar não haveria qualquer sentido na redução da respectiva base de cálculo a 20%, já que tratase de opção exercida pelo Contribuinte na Declaração de Ajuste Anual, o que não ocorreu no presente caso. Com efeito, compulsandose a Declaração de Ajuste Anual do exercício em tela, às fls. 09, verificase que o Contribuinte, ao invés de optar por 20% das receitas da Atividade Rural, optou pela base de cálculo convencional, ou seja, o resultado obtido da subtração entre receitas e despesas. Confirase o que consta da declaração: 4. APURAÇÃO DO RESULTADO TRIBUTÁVEL Receita bruta total ............................. 636.166,00 Despesas de custeio e investimento ... 525.593,05 Resultado I ..............................................................110.572,95 Prejuízo de exercício anterior .......................... 1.083.098,44 Fl. 441DF CARF MF 6 Resultado após a compensação de prejuízo........ 972.525,49 Opção pelo arbitramento sobre a receita bruta ... 127.233,20 Resultado tributável .......................................... 972.525,49 Como se pode constatar, o Contribuinte não optou pelo arbitramento da receita bruta, que corresponderia a um resultado de R$ 127.233,20 (20% de R$ 636.166,00), e sim optou pela apuração de prejuízo, que espraiouse inclusive para o exercício seguinte. Nesse passo, considerar o valor remanescente de depósitos bancários sem comprovação de origem R$ R$ 548.406,89 como rendimentos da Atividade Rural não conduziria à manutenção da exigência sobre 20% da base de cálculo dos depósitos bancários e sim conduziria, no máximo, a um prejuízo menor a ser compensado no exercício seguinte. Confirase: 4. APURAÇÃO DO RESULTADO TRIBUTÁVEL Receita bruta total .....1.184.572,89. (636.166,00 + 548.406,89) Despesas de custeio e investimento ........................ 525.593,05 Resultado I ..............................................................658.979,84 Prejuízo de exercício anterior .......................... 1.083.098,44 Resultado após a compensação de prejuízo........ 424.118,60 Opção pelo arbitramento sobre a receita bruta ... 236.914,57 Resultado tributável .......................................... 424.118,60 Assim, considerarse o valor remanescente dos depósitos bancários como se de Atividade Rural fosse e aplicarse o regime de tributação da Lei nº 8.023, de 1990, não conduziria ao resultado esperado pela Fazenda Nacional mas sim, na prática, ao mesmo resultado a que chegou o acórdão recorrido, qual seja, nada a ser cobrado, em face da apuração de prejuízo. No máximo, o "lançamento" resultaria em compensação de prejuízo levada ao exercício seguinte no valor de R$ 424.118,60 e não de R$ 972.525,49, como apurara o Contribuinte em sua Declaração de Ajuste Anual. Destarte, por qualquer ângulo que se analise, não há como sequer cogitar sobre o pleito objeto do apelo. Diante do exposto, conheço do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional e, no mérito, negolhe provimento. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 442DF CARF MF Processo nº 10218.000345/200837 Acórdão n.º 9202006.826 CSRFT2 Fl. 440 7 Fl. 443DF CARF MF
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Numero do processo: 10580.728117/2009-78
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 16 00:00:00 UTC 2012
Numero da decisão: 2202-000.233
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, por unanimidade de votos, decidir pelo sobrestamento do processo, nos termos do voto da Conselheira Relatora. Após a formalização da Resolução o processo será movimentado para a Secretaria da Câmara
que o manterá na atividade de sobrestado, conforme orientação contida no § 3º do art. 2º, da Portaria CARF nº 001, de 03 de janeiro de 2012. O processo será incluído novamente em pauta
após solucionada a questão da repercussão geral, em julgamento no Supremo Tribunal Federal.
Nome do relator: Maria Lúcia Moniz de Aragão Calomino Astorga
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Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, por unanimidade de votos, decidir pelo sobrestamento do processo, nos termos do voto da Conselheira Relatora. Após a formalização da Resolução o processo será movimentado para a Secretaria da Câmara que o manterá na atividade de sobrestado, conforme orientação contida no § 3º do art. 2º, da Portaria CARF nº 001, de 03 de janeiro de 2012. O processo será incluído novamente em pauta após solucionada a questão da repercussão geral, em julgamento no Supremo Tribunal Federal. (Assinado digitalmente) Nelson Mallmann – Presidente (Assinado digitalmente) Maria Lúcia Moniz de Aragão Calomino Astorga - Relatora Composição do colegiado: Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Lúcia Moniz de Aragão Calomino Astorga, Eivanice Canário da Silva, Antonio Lopo Martinez, Odmir Fernandes, Pedro Anan Júnior e Nelson Mallmann. Ausentes, justificadamente, os Conselheiros Rafael Pandolfo e Helenilson Cunha Pontes. Fl. 117DF CARF MF Processo nº 10580.728117/2009-78 Resolução n.º 2202-00.233 S2-C2T2 Fl. 2 2 Relatório Contra o contribuinte acima qualificado foi lavrado o Auto de Infração de fls. 3 a 7, integrado pelos demonstrativos de fls. 8 a 10, pelo qual se exige a importância de R$59.057,40, a título de Imposto de Renda Pessoa Física – IRPF, acrescida de multa de ofício de 75% e juros de mora, referente aos anos-calendário 2004, 2005 e 2006. DA AÇÃO FISCAL O procedimento fiscal encontra-se resumido na Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal de fls. 5 a 7, na qual o autuante esclarece que o contribuinte classificou indevidamente como Rendimentos Isentos e Não Tributáveis os rendimentos auferidos do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, a título diferenças de remuneração ocorridas quando da conversão de Cruzeiro Real para a Unidade Real de Valor - URV em 1994, reconhecidas e pagas em 36 parcelas iguais no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2006, com base na Lei do Estado da Bahia no 8.730, de 08 de setembro de 2003. DA IMPUGNAÇÃO Inconformado, o contribuinte apresentou a impugnação de fls. 32 a 66, cujo resumo se extraí da decisão recorrida (fls. 73 e 74): O contribuinte foi cientificado do lançamento fiscal e apresentou impugnação, alegando, em síntese, que: a) não classificou indevidamente os rendimentos recebidos a título de URV, pois o enquadramento de tais rendimentos como isentos de imposto de renda encontra-se em perfeita consonância com a legislação instituidora de tal verba indenizatória; b) o STF, através da Resolução n° 245, de 2002, reconheceu a natureza indenizatória das diferenças de URV recebidas pelos magistrados federais, e que por esse motivo estariam isentas da contribuição previdenciária e do imposto de renda. Este tratamento seria extensível aos valores a mesmo título recebidos pelos membro do magistrados estaduais; c) o Estado da Bahia abriu mão da arrecadação do IRRF que lhe caberia ao estabelecer no art. 5° da Lei Estadual da Bahia n° 8.730, de 2003, a natureza indenizatória da verba paga, sendo a União parte ilegítima para exigência de tal tributo. Além disso, se a fonte pagadora não fez a retenção que estaria obrigada, e levou o autuado a informar tal parcela como isenta em sua declaração de rendimentos, não tem este último qualquer responsabilidade pela infração; d) independentemente da controvérsia quanto à competência ou não do Estado da Bahia para regular matéria reservada à Lei Federal, o valor recebido a título de URV tem a natureza indenizatória. Neste sentido já se pronunciou o Supremo Tribunal Federal, o Presidente do Conselho da Justiça Federal, Primeiro Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, Poder Judiciário de Rondônia, Ministério Publico do Estado do Maranhão, bem como, ilustres doutrinadores; e) caso os rendimentos apontados como omitidos de fato fossem tributáveis, deveriam ter sido submetidos ao ajuste anual, e não tributados isoladamente como no lançamento fiscal; Fl. 118DF CARF MF Processo nº 10580.728117/2009-78 Resolução n.º 2202-00.233 S2-C2T2 Fl. 3 3 f) ainda que as diferenças de URV recebidas em atraso fossem consideradas como tributáveis, não caberia tributar os juros e correção monetária incidentes sobre elas, tendo em vista sua natureza indenizatória; g) mesmo que tal verba fosse tributável, não caberia a aplicação da multa de ofício e juros moratórios, pois o autuado teria agido com boa-fé, seguindo orientações da fonte pagadora, que por sua vez estava fundamentada na Lei Estadual da Bahia n° 8.730, de 2003, que dispunha acerca da natureza indenizatória das diferenças de URV; h) o Ministério da Fazenda, em resposta à Consulta Administrativa feita pela Presidente do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, também, teria manifestado-se pela inaplicabilidade da multa de ofício, em razão da flagrante boa-fé dos autuados, ratificando o entendimento já fixado pelo Advogado-Geral da União, através da Nota AGU/AV 12/2007. Na referida resposta, o Ministério da Fazenda reconhece o efeito vinculante do comando exarado pelo Advogado Geral da União perante à PGFN e a RFB. DO JULGAMENTO DE 1ª INSTÂNCIA Apreciando a impugnação apresentada, a 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento de Salvador (BA) manteve integralmente o lançamento, proferindo o Acórdão no 15-27.173 (fls. 72 a 77), de 18/05/2011, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Ano-calendário: 2004, 2005, 2006 DIFERENÇAS DE REMUNERAÇÃO. INCIDÊNCIA IRPF. As diferenças de remuneração recebidas pelos Magistrados do Estado da Bahia, em decorrência da Lei Estadual da Bahia n° 8.730, de 08 de setembro de 2003, estão sujeitas à incidência do imposto de renda. MULTA DE OFÍCIO. INTENÇÃO. A aplicação da multa de ofício no percentual de 75% sobre o tributo não recolhido independe da intenção do contribuinte. DO RECURSO VOLUNTÁRIO Notificado do Acórdão de primeira instância, em 26/07/2011 (vide AR de fl. 81), o contribuinte interpôs, em 04/08/2011, tempestivamente, o recurso de fls. 82 a 114, firmado por seu procurador (vide instrumento de mandato de fl. 69), expondo as razões de sua irresignação, que não serão aqui minudentemente relatadas em razão do que se prolatará no voto desta Resolução. DA DISTRIBUIÇÃO Processo que compôs o Lote no 16, distribuído para esta Conselheira na sessão pública da Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais de 28/11/2011, veio digitalizado até à fl. 1161. 1 Processo digital. Numeração do e-processo. Fl. 119DF CARF MF Processo nº 10580.728117/2009-78 Resolução n.º 2202-00.233 S2-C2T2 Fl. 4 4 Voto Conselheira Maria Lúcia Moniz de Aragão Calomino Astorga, Relatora. A apreciação do presente recurso encontra-se prejudicada por uma questão preliminar, suscitada de ofício por esta relatora com fulcro no art. 62-A, §1o, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (aprovado pela Portaria MF no 256, de 22 de junho de 2009, com as alterações introduzidas pela Portaria MF no 586, de 21 de dezembro de 2010). Com o advento da Portaria MF no 586, de 21 de dezembro de 2010, que alterou o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF (aprovado pela Portaria MF no 256, de 22 de junho de 2009), os julgados no âmbito deste Tribunal deverão observar o disposto nas decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543-B e 543-C do Código de Processo Civil, devido a inclusão do art. 62-A, in verbis: Art. 62-A. As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543-B e 543- C da Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. § 1o Ficarão sobrestados os julgamentos dos recursos sempre que o STF também sobrestar o julgamento dos recursos extraordinários da mesma matéria, até que seja proferida decisão nos termos do art. 543- B. §2o O sobrestamento de que trata o §1o será feito de ofício pelo relator ou por provocação das partes. Importa registrar que este Colegiado, em outros processos em que foi apreciada a mesma matéria de fato, decidiu pelo sobrestamento do julgamento. Trata-se de lançamento de rendimentos recebidos acumuladamente, por pessoa física, em virtude de decisão judicial, a título de diferenças salariais recebidas do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, relativo aos anos-calendário 2004, 2005 e 2006, conforme consignado na Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal de fls. 5 a 7. Sobre o assunto, importa trazer à colação o julgamento dos Recursos Especiais nos 614.232/RS e 614.406/RS, de 20/10/2010, em que o Superior Tribunal Federal - STF reconheceu a existência de repercussão geral, nos termos do art. 543-A do Código de Processo Civil, no que diz respeito à constitucionalidade do art. 12 da Lei no 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que trata dos rendimentos recebidos acumuladamente. O mérito da questão não foi ainda julgado e, portanto, os demais processos que versam sobre a mesma matéria encontram- se sobrestados até o pronunciamento definitivo daquele Tribunal, de acordo com o disposto no art. 543-B, §1o, do Código de Processo Civil. Fl. 120DF CARF MF Processo nº 10580.728117/2009-78 Resolução n.º 2202-00.233 S2-C2T2 Fl. 5 5 Conclui-se, assim, que parte da discussão no presente processo refere-se à matéria reconhecida como de repercussão geral pelo Supremo Tribunal Federal, pendente de decisão definitiva daquele tribunal. Diante de todo o exposto, voto no sentido de SOBRESTAR o julgamento do presente recurso, conforme previsto no art. 62, §1o e 2o, do RICARF. (Assinado digitalmente) Maria Lúcia Moniz de Aragão Calomino Astorga Fl. 121DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13888.916994/2011-52
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue May 15 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3201-001.276
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por maioria de votos, converter o julgamento em diligência. Vencidos os Conselheiros Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Paulo Roberto Duarte Moreira.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente em exercício e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Resolvem os membros do colegiado, por maioria de votos, converter o julgamento em diligência. Vencidos os Conselheiros Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Paulo Roberto Duarte Moreira. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente em exercício e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte supra identificado em face de decisão da DRJ Ribeirão Preto/SP que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade manejada para se contrapor ao Despacho Decisório que indeferira o Pedido de Restituição formulado sob o argumento de que o pagamento informado havia sido localizado mas utilizado na quitação de débitos do contribuinte. Na Manifestação de Inconformidade, o contribuinte requereu o deferimento de seu pedido de restituição, arguindo que o indébito decorrera da incidência da contribuição sobre receitas financeiras e outras receitas, incidência essa julgada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento do RE nº 346.084. Alegou, ainda, que o CARF já se pronunciara, em diversas oportunidades, pela extensão da decisão do STF a todos os contribuintes, transcrevendo ementas. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 38 88 .9 16 99 4/ 20 11 -5 2 Fl. 137DF CARF MF Processo nº 13888.916994/201152 Resolução nº 3201001.276 S3C2T1 Fl. 138 2 A decisão da Delegacia de Julgamento, denegatória do direito pleiteado, fundamentouse na ausência de efeitos erga omnes da decisão do STF que reconhecera a inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo das contribuições promovida pela Lei nº 9.718/1998, bem como na falta de comprovação da liquidez e certeza do indébito reclamado. Cientificado da decisão, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário, repisando os argumentos de defesa, afirmando existir nos autos documentação comprobatória do seu direito. É o relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido na Resolução nº 3201001.265, de 21/03/2018, proferido no julgamento do processo 13888.914725/201151, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução nº 3201001.265): Como relatado, discutese no presente feito a legitimidade de crédito postulado pela Recorrente por meio de PER/DCOMP, originado de pagamento indevido ou a maior Em despacho decisório eletrônico, foi indeferida a solicitação da contribuinte, em razão da inexistência de saldo do pagamento indicado no PER/DCOMP, o qual teria sido utilizado integralmente para quitar débito informado pela própria contribuinte em DCTF. Em sua Manifestação de Inconformidade, a Recorrente aduz que o crédito utilizado é legítimo, informando que o crédito decorre do recolhimento indevido da contribuição sobre parcelas que não integram o faturamento, nos termos da declaração de inconstitucionalidade, pelo STF, do art. 3º da Lei nº 9.718/98. Foi anexada à Impugnação documentação comprobatória da existência do crédito. A Delegacia da Receita Federal indeferiu a Manifestação apresentada ao argumento de que a "alegação deveria vir acompanhada da documentação comprobatória da existência do pagamento a maior, mesmo porque, nesse caso, o ônus da comprovação do direito creditório é da contribuinte, pois se trata de uma solicitação de seu exclusivo interesse", o que não teria logrado comprovar a Recorrente. Em sede de Recurso Voluntário, a Recorrente reafirma os argumentos de defesa e, diante dos fundamentos do acórdão recorrido, ressalta que foram anexados diversos documentos à Manifestação de Inconformidade e requer a juntada e exame das cópias dos DARFs, Pedido de Restituição e Livro Razão Geral. Além disso, apresenta planilha demonstrativa do crédito postulado. Fl. 138DF CARF MF Processo nº 13888.916994/201152 Resolução nº 3201001.276 S3C2T1 Fl. 139 3 Na hipótese dos autos, não houve inércia do contribuinte na apresentação de documentos. O que se verifica é que os documentos inicialmente apresentados em sede de Manifestação de Inconformidade se mostraram insuficientes para que a Autoridade Julgadora determinasse a revisão do crédito tributário. E, imediatamente após tal manifestação, em sede de Recurso Voluntário, foram apresentados novos documentos. Ademais, não se pode olvidar que se está diante de um despacho decisório eletrônico, ou seja, a primeira oportunidade concedida ao contribuinte para a apresentação de documentos comprobatórios do seu direito foi, exatamente, no momento da apresentação da sua Manifestação de Inconformidade. E, foi apenas em sede de acórdão, que tais documentos foram tidos por insuficientes. Sabese que em autuações fiscais realizadas de maneira ordinária, é, em regra, concedido ao contribuinte diversas oportunidades de apresentação de documentos e esclarecimentos, por meio dos Termos de Intimação emitidos durante o procedimento. Assim, limitar, na autuação eletrônica, a oportunidade de apresentação de documentos à manifestação de inconformidade, aplicando a preclusão relativamente ao Recurso Voluntário, não me parece razoável ou isonômico, além de atentatório aos princípios da ampla defesa e do devido processo legal. Desse modo, voto por CONVERTER O FEITO EM DILIGÊNCIA para que a Autoridade Preparadora efetue a análise do Pedido de Compensação com base nos documentos já acostados aos autos, tanto em sede de Manifestação de Inconformidade, como em Recurso Voluntário, podendo intimar o contribuinte para apresentar demais documentos ou informações que entenda necessários. Após a manifestação fiscal, concedase vista ao contribuinte pelo prazo de 30 (trinta dias) para se manifestar acerca das conclusões. Após, retornemse os autos para julgamento. Importa registrar que, nos presentes autos, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Portanto, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu converter o julgamento em diligência, para que a Autoridade Preparadora efetue a análise do Pedido de Compensação com base nos documentos já acostados aos autos, tanto em sede de Manifestação de Inconformidade, como em Recurso Voluntário, podendo intimar o contribuinte para apresentar demais documentos ou informações que entenda necessários. Após a realização da diligência, concedase vista ao contribuinte pelo prazo de 30 (trinta dias) para se manifestar acerca das conclusões. Após, retornemse os autos para julgamento. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 139DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.723835/2014-11
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 14 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri May 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2008, 2009
DECISÃO ADMINISTRATIVA TRANSITADA EM JULGADO. NOVO LANÇAMENTO. MESMO FATO.
Está correto o novo lançamento realizado corrigindo equívoco quanto à forma de anulação dos efeitos tributários de amortização de ágio inoponível ao Fisco, quando a decisão administrativa transitada em julgado não aborda o mérito do procedimento administrativo fiscal e o novo lançamento não contradiz a referida decisão em nenhum momento.
LANÇAMENTO. VINCULAÇÃO.
A constituição de crédito tributário, em especial oriundo de fraude, é obrigação inafastável da autoridade administrativa, insofismável por esforço doutrinário.
MODIFICAÇÃO DE CRITÉRIOS JURÍDICOS. INEXISTÊNCIA.
Não se aplica ao caso sub judice o princípio da não-surpresa e da confiança, forte no artigo 146 o CTN, pois a alteração de critério jurídico vincula-se à interpretações possíveis de uma mesma norma em relação aos mesmos fatos e ao mesmo contribuinte e não ao erro de direito ou a fatos envolvendo contribuintes diferentes.
DECADÊNCIA. FATOS PASSADOS QUE INFLUENCIAM RESULTADOS FUTUROS.
O instituto da decadência está diretamente relacionado à ocorrência do fato gerador, sendo incabível sua alegação em relação a fatos passados que influenciam resultados futuros, devendo estes ficar com toda a sua comprovação à disposição do Fisco enquanto durarem seus efeitos.
DECADÊNCIA. FRAUDE.
Aplica-se o prazo previsto no artigo 173 do CTN quando as circunstâncias ensejadores do fato gerador são fraudulentas.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA.
São solidariamente responsáveis os diretores que capitanearam todas as operações fraudulentas visando a modificação das característica essenciais do fato gerador no intuito de reduzir o tributo devido.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008, 2009
ÁGIO. OPERAÇÕES DENTRO DE GRUPO ECONÔMICO.
É inoponível ao Fisco o ágio criado dentro de um mesmo grupo econômico sem a observância do princípio do "arm's length".
ÁGIO. MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA.
A criação de ágio implica existência de dispêndio, investimento efetivo, pagamento, sendo imprestável tributariamente o criado dentro de um mesmo grupo econômico sem que haja nenhuma riqueza nova, apenas reavaliações internas fundadas em resultados futuros e riqueza "de papel".
MULTA QUALIFICADA.
É procedente a qualificação da multa de ofício quando verificada a existência de fraude nos fatos que ensejaram a ocorrência do fato gerador.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2008, 2009
APLICAÇÃO À BASE DE CÁLCULO DA CSLL.
Despesas de ágio artificialmente criadas devem ser afastadas no cálculo da base tributável da CSLL.
Numero da decisão: 1302-002.631
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício, nos termos do relatório e voto do relator e, quanto ao recurso voluntário, por maioria de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade quanto à impossibilidade de nova autuação, vencidos os conselheiros Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa e Flávio Machado Vilhena Dias e, votando pelas conclusões do relator os conselheiros Gustavo Guimarães da Fonseca e Luiz Tadeu Matosinho Machado; por unanimidade de votos em rejeitar a preliminar de decadência para o Fisco questionar a legalidade dos atos societários que originaram o ágio apurado; por maioria de votos, em rejeitar a preliminar de decadência em face da aplicação do art. 173 do CTN, e no mérito, em negar provimento aos recursos quanto à exigência principal e aplicação da multa qualificada e à manutenção da responsabilidade solidária dos sujeitos passivos arrolados, vencidos os conselheiros Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Gustavo Guimarães da Fonseca e Flávio Machado Vilhena Dias que davam provimento integral aos recursos. O conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado votou pela manutenção da responsabilidade solidária apenas em face do art. 135, III do CTN. Solicitaram a apresentação de declaração de voto os conselheiros Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa e Flávio Machado Vilhena Dias.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente
(assinado digitalmente)
Carlos Cesar Candal Moreira Filho - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente), Rogério Aparecido Gil, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente Convocado), Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Gustavo Guimarães da Fonseca, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Flávio Machado Vilhena Dias.
Nome do relator: CARLOS CESAR CANDAL MOREIRA FILHO
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2008, 2009 DECISÃO ADMINISTRATIVA TRANSITADA EM JULGADO. NOVO LANÇAMENTO. MESMO FATO. Está correto o novo lançamento realizado corrigindo equívoco quanto à forma de anulação dos efeitos tributários de amortização de ágio inoponível ao Fisco, quando a decisão administrativa transitada em julgado não aborda o mérito do procedimento administrativo fiscal e o novo lançamento não contradiz a referida decisão em nenhum momento. LANÇAMENTO. VINCULAÇÃO. A constituição de crédito tributário, em especial oriundo de fraude, é obrigação inafastável da autoridade administrativa, insofismável por esforço doutrinário. MODIFICAÇÃO DE CRITÉRIOS JURÍDICOS. INEXISTÊNCIA. Não se aplica ao caso sub judice o princípio da não-surpresa e da confiança, forte no artigo 146 o CTN, pois a alteração de critério jurídico vincula-se à interpretações possíveis de uma mesma norma em relação aos mesmos fatos e ao mesmo contribuinte e não ao erro de direito ou a fatos envolvendo contribuintes diferentes. DECADÊNCIA. FATOS PASSADOS QUE INFLUENCIAM RESULTADOS FUTUROS. O instituto da decadência está diretamente relacionado à ocorrência do fato gerador, sendo incabível sua alegação em relação a fatos passados que influenciam resultados futuros, devendo estes ficar com toda a sua comprovação à disposição do Fisco enquanto durarem seus efeitos. DECADÊNCIA. FRAUDE. Aplica-se o prazo previsto no artigo 173 do CTN quando as circunstâncias ensejadores do fato gerador são fraudulentas. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. São solidariamente responsáveis os diretores que capitanearam todas as operações fraudulentas visando a modificação das característica essenciais do fato gerador no intuito de reduzir o tributo devido. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2008, 2009 ÁGIO. OPERAÇÕES DENTRO DE GRUPO ECONÔMICO. É inoponível ao Fisco o ágio criado dentro de um mesmo grupo econômico sem a observância do princípio do "arm's length". ÁGIO. MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA. A criação de ágio implica existência de dispêndio, investimento efetivo, pagamento, sendo imprestável tributariamente o criado dentro de um mesmo grupo econômico sem que haja nenhuma riqueza nova, apenas reavaliações internas fundadas em resultados futuros e riqueza "de papel". MULTA QUALIFICADA. É procedente a qualificação da multa de ofício quando verificada a existência de fraude nos fatos que ensejaram a ocorrência do fato gerador. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2008, 2009 APLICAÇÃO À BASE DE CÁLCULO DA CSLL. Despesas de ágio artificialmente criadas devem ser afastadas no cálculo da base tributável da CSLL.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício, nos termos do relatório e voto do relator e, quanto ao recurso voluntário, por maioria de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade quanto à impossibilidade de nova autuação, vencidos os conselheiros Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa e Flávio Machado Vilhena Dias e, votando pelas conclusões do relator os conselheiros Gustavo Guimarães da Fonseca e Luiz Tadeu Matosinho Machado; por unanimidade de votos em rejeitar a preliminar de decadência para o Fisco questionar a legalidade dos atos societários que originaram o ágio apurado; por maioria de votos, em rejeitar a preliminar de decadência em face da aplicação do art. 173 do CTN, e no mérito, em negar provimento aos recursos quanto à exigência principal e aplicação da multa qualificada e à manutenção da responsabilidade solidária dos sujeitos passivos arrolados, vencidos os conselheiros Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Gustavo Guimarães da Fonseca e Flávio Machado Vilhena Dias que davam provimento integral aos recursos. O conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado votou pela manutenção da responsabilidade solidária apenas em face do art. 135, III do CTN. Solicitaram a apresentação de declaração de voto os conselheiros Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa e Flávio Machado Vilhena Dias. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente (assinado digitalmente) Carlos Cesar Candal Moreira Filho - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente), Rogério Aparecido Gil, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente Convocado), Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Gustavo Guimarães da Fonseca, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Flávio Machado Vilhena Dias.
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FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2008, 2009 DECISÃO ADMINISTRATIVA TRANSITADA EM JULGADO. NOVO LANÇAMENTO. MESMO FATO. Está correto o novo lançamento realizado corrigindo equívoco quanto à forma de anulação dos efeitos tributários de amortização de ágio inoponível ao Fisco, quando a decisão administrativa transitada em julgado não aborda o mérito do procedimento administrativo fiscal e o novo lançamento não contradiz a referida decisão em nenhum momento. LANÇAMENTO. VINCULAÇÃO. A constituição de crédito tributário, em especial oriundo de fraude, é obrigação inafastável da autoridade administrativa, insofismável por esforço doutrinário. MODIFICAÇÃO DE CRITÉRIOS JURÍDICOS. INEXISTÊNCIA. Não se aplica ao caso sub judice o princípio da nãosurpresa e da confiança, forte no artigo 146 o CTN, pois a alteração de critério jurídico vinculase à interpretações possíveis de uma mesma norma em relação aos mesmos fatos e ao mesmo contribuinte e não ao erro de direito ou a fatos envolvendo contribuintes diferentes. DECADÊNCIA. FATOS PASSADOS QUE INFLUENCIAM RESULTADOS FUTUROS. O instituto da decadência está diretamente relacionado à ocorrência do fato gerador, sendo incabível sua alegação em relação a fatos passados que influenciam resultados futuros, devendo estes ficar com toda a sua comprovação à disposição do Fisco enquanto durarem seus efeitos. DECADÊNCIA. FRAUDE. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 72 38 35 /2 01 4- 11 Fl. 3152DF CARF MF 2 Aplicase o prazo previsto no artigo 173 do CTN quando as circunstâncias ensejadores do fato gerador são fraudulentas. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. São solidariamente responsáveis os diretores que capitanearam todas as operações fraudulentas visando a modificação das característica essenciais do fato gerador no intuito de reduzir o tributo devido. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008, 2009 ÁGIO. OPERAÇÕES DENTRO DE GRUPO ECONÔMICO. É inoponível ao Fisco o ágio criado dentro de um mesmo grupo econômico sem a observância do princípio do "arm's length". ÁGIO. MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA. A criação de ágio implica existência de dispêndio, investimento efetivo, pagamento, sendo imprestável tributariamente o criado dentro de um mesmo grupo econômico sem que haja nenhuma riqueza nova, apenas reavaliações internas fundadas em resultados futuros e riqueza "de papel". MULTA QUALIFICADA. É procedente a qualificação da multa de ofício quando verificada a existência de fraude nos fatos que ensejaram a ocorrência do fato gerador. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2008, 2009 APLICAÇÃO À BASE DE CÁLCULO DA CSLL. Despesas de ágio artificialmente criadas devem ser afastadas no cálculo da base tributável da CSLL. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício, nos termos do relatório e voto do relator e, quanto ao recurso voluntário, por maioria de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade quanto à impossibilidade de nova autuação, vencidos os conselheiros Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa e Flávio Machado Vilhena Dias e, votando pelas conclusões do relator os conselheiros Gustavo Guimarães da Fonseca e Luiz Tadeu Matosinho Machado; por unanimidade de votos em rejeitar a preliminar de decadência para o Fisco questionar a legalidade dos atos societários que originaram o ágio apurado; por maioria de votos, em rejeitar a preliminar de decadência em face da aplicação do art. 173 do CTN, e no mérito, em negar provimento aos recursos quanto à exigência principal e aplicação da multa qualificada e à manutenção da responsabilidade solidária dos sujeitos passivos arrolados, vencidos os conselheiros Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Gustavo Guimarães da Fonseca e Flávio Machado Vilhena Dias que davam provimento integral aos recursos. O conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado votou pela manutenção da responsabilidade solidária apenas em face do art. 135, III do CTN. Solicitaram a apresentação de declaração de voto os conselheiros Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa e Flávio Machado Vilhena Dias. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente Fl. 3153DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.153 3 (assinado digitalmente) Carlos Cesar Candal Moreira Filho Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente), Rogério Aparecido Gil, Lizandro Rodrigues de Sousa (Suplente Convocado), Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Gustavo Guimarães da Fonseca, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Flávio Machado Vilhena Dias. Relatório Em julgamento Recurso de Ofício e Recurso Voluntário relativos aos autos de infração de Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) e de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) atinentes aos anoscalendário de 2008 e 2009, ambos cientificados em 19 de dezembro de 2014, cujas infrações foram assim relatadas no acórdão recorrido: Em decorrência de ação fiscal levada a efeito contra a contribuinte identificada (Mandado de Procedimento Fiscal Fiscalização nº 09.1.01.002014000049, às fls. 0305), foram lavrados os autos de infração de Imposto de Renda Pessoa Jurídica – IRPJ e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL. Autos de infração de IRPJ e CSLL O auto de infração de Imposto de Renda Pessoa Jurídica – IRPJ (fls. 13341345) exige o recolhimento de R$ 1.452.311,61 de imposto, R$ 2.178.467,42 a título de multa de lançamento de ofício de 150% e R$ 672.129,81 de juros de mora, além de R$ 2.657.257,24 de multa de ofício exigida isoladamente. 3. O lançamento fiscal, com base no lucro real anual, nos termos dos arts. 904 e 926 do Regulamento do Imposto de Renda de 1999 (Decreto nº 3000, de 26 de março de 1999), decorre das infrações a seguir elencadas, conforme descrito no Termo de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal (fls. 21212191): 3.1. glosa de despesa inexistente com amortização do ágio interno apurado pela empresa veículo G&K Holding S/A em 18/12/2006 sobre o patrimônio líquido da própria interessada, cujo valor foi recebido no acervo vertido na incorporação reversa ocorrida em 03/11/2008, com infração ao disposto no art. 3º da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e arts. 247, 248, 249, I, 251, 277, 278, 299 e 300 do RIR de 1999 e arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997: 30/11/2008...................................................R$ 2.013.529,27 31/12/2008...................................................R$ 2.013.529,27 3.2. ajuste indevido no RTT (FCONT) em decorrência da escrituração de despesa inexistente com amortização do ágio interno apurado pela empresa veículo G&K Holding Fl. 3154DF CARF MF 4 S/A em 18/12/2006 sobre o patrimônio líquido da própria interessada, cujo valor foi recebido no acervo vertido na incorporação reversa ocorrida em 03/11/2008, com infração ao disposto no art. 3º da Lei nº 9.249, de 1995, art. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, arts. 15, 16 e 17 da Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, art. 6º, § 5º, “b” do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, e arts. 247, 248, 249, I, 251, 277, 278, 299 e 300 do RIR de 1999: 31/12/2009.................................................R$ 24.162.351,19 3.3. multa de ofício isolada exigida em decorrência da falta ou insuficiência de pagamento do IRPJ devido por estimativa, com infração ao disposto nos arts. 222 e 843 do RIR de 1999 e art. 44, II, “b”, da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488, de 2007: jan/2009.......................................................R$ 2.657.257,24 4. O auto de infração de Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido (fls. 13461355) exige o recolhimento de R$ 1.126.837,10 de contribuição, R$ 1.690.255,65 a título de multa de lançamento de ofício de 150% e R$ 521.500,21 de juros de mora, além de R$ 986.712,25 de multa exigida isoladamente. 5. O lançamento decorre das mesmas infrações apuradas no lançamento de IRPJ, com infração ao disposto nos arts. 2º e §§, e 3º da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988 (com as alterações introduzidas pelo art. 2º da Lei nº 8.034, de 1990, e art. 17 da Lei nº 11.727, de 2008), art. 57 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995 (com as alterações introduzidas pelo art. 1º da Lei nº 9.065, de 1995), art. 2º da Lei nº 9.249, de 1995, art. 1º da Lei nº 9.316, de 22 de novembro de 1996, art. 28 da Lei nº 9.430, de 1996, arts. 15, 16 e 17 da Lei nº 11.941, de 2009, e art. 6º, § 5º, “b” do DecretoLei nº 1.598, de 1977. 6. Foi atribuída sujeição passiva solidária aos sócios Miguel Gellert Krigsner (CPF nº 051.622.11834) e Artur Noemio Grynbaum (CPF nº 722.349.54991) pelos débitos de IRPJ e CSLL em análise, porquanto restaram caracterizados interesse comum e infração de lei na situação que constitui o fato gerador da obrigação tributária, nos termos do disposto nos artigos 124, I, e 135, III, do CTN, conforme Termo de Declaração de Sujeição Passiva Solidária de fls. 14081409 e 14111412. Termo de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal 7. A apuração do ágio interno de R$ 206.482.363,56 amortizado pela interessada foi assim descrita no Termo de Verificação e Encerramento de Ação Fiscal (fls. 13571406): VI. Da origem do “ágio” nas quatro incorporações pela G&K 18. Antes de se analisar o tratamento dispensado pela BOTICA aos “ágios” a ela transferidos pela G&K, é imprescindível fazermos uma retrospectiva dos fatos ocorridos e procedimentos adotados pela holding desde o momento em que incorporou a BOTICA, a Cálamo, a Fl. 3155DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.154 5 Embralog e a OBF, até a sua cisão parcial, de modo que se tenha bem claro que: a) a incorporação integral das ações da Botica Comercial Farmacêutica S.A. pela G&K em 18/12/2006, ocorreu com um “ágio” de R$ 206.481.363,56; b) a base para a criação do “ágio” foi o laudo de avaliação elaborado pela KPMG, que estimou o valor de mercado da fiscalizada em R$ 344.499.000,00; c) os sócios da G&K (Miguel e Artur), detentores de todas as 149.192.800 ações da BOTICA, usaram as mesmas para a integralização do aumento do capital social da G&K resultante da dita incorporação; d) com base na tal avaliação e uma vez detentora de 100% da BOTICA, a G&K registrou em 18/12/2006 em seu Ativo Permanente na conta de Investimentos 180001 – Ágio s/ Investimentos o valor de R$ 138.154.004,44, relativamente à conversão das ações da controlada, e na conta do Diferido 192080 – Ágio s/ Investimentos o “ágio” de R$ 206.481.363,56, sem constituir qualquer provisão nas contas redutoras 180098 – () Provisão para Preservação de Dividendos Futuros (Investimentos) e 192081 – () Provisão p/ Realização de Ágio (Diferido); também não consignou nada nas contas de despesa (371006 – Ágio sobre Investimentos) e de receita (364003 – Reversão Provisão Ágio s/Incorporação); e) corroborando a informação anterior, a G&K fez constar na linha 27 Ágios em Investimentos da Ficha 36A Ativo, de sua DIPJ 2007 AC 2006, retificadora, entregue em 28/06/2007, o montante de R$ 1.776.161.561,96, referente às 4 companhias incorporadas, onde se encontram os R$ 206.481.363,56 correspondentes à BOTICA; f) em 31/12/2007 a G&K registrou uma despesa de R$ 5.682.417,69 na conta 371006 – Ágio sobre Investimentos, a título de amortização do “ágio” relativo à BOTICA, tendo como contrapartida a conta de Investimentos (Ativo Permanente) 180020 – Ágio s/ Investimentos, fazendo semelhantes lançamentos no tocante à Cálamo, à OBF e à Embralog; novamente não constituiu, durante todo o ano, qualquer provisão e, em consequência, também nenhuma reversão; g) a despesa supracitada reduziu o Lucro Líquido do AC 2007 da G&K, tendo sido lançada na linha 38 (Amortização de Ágio nas Aquisições de Investimentos Avaliados pelo PL) da Ficha 06A Demonstração do Resultado, da DIPJ 2008 (retificadora, entregue em 04/01/2010); entretanto, por se tratar de uma despesa indedutível, foi corretamente adicionada na linha 11 Amortização de Ágio nas Aquisições de Investimentos Avaliados pelo PL da Ficha 09A Demonstração doLucro Real, da mesma DIPJ, em Fl. 3156DF CARF MF 6 consonância com a adição registrada no Lalur 2007, com data de 31/12 e o histórico “Ágio s/ Investimentos Coligadas/Controladas”, cujo valor de R$ 20.094.111,31 tem a seguinte composição: h) em 2008, antes da sua cisão parcial ocorrida em 03/11, a G&K registrou nos meses de janeiro a outubro uma despesa mensal de R$ 554.762,31 (no total de R$ 5.547.623,10) na conta 371006 – Ágio sobre Investimentos, a título de amortização do “ágio” referente à BOTICA, tendo como contrapartida a conta de Investimentos (Ativo Permanente) 180020 – Ágio s/ Investimentos, fazendo semelhantes lançamentos relativamente à Cálamo, à OBF e à Embralog; como procedeu anteriormente, não constituiu para o período de janeiro a outubro, qualquer provisão e, em consequência, não fez nenhuma reversão; i) tal despesa reduziu o Lucro Líquido de 01/01 a 03/11/2008 da G&K, tendo sido lançada na linha 38 Amortização de Ágio nas Aquisições de Investimentos Avaliados pelo PL da Ficha 06A Demonstração do Resultado, da DIPJ 2008 Especial da Cisão (retificadora, entregue em 20/12/2008); entretanto, por se tratar de uma despesa indedutível, foi corretamente adicionada na linha 11 Amortização de Ágio nas Aquisições de Investimentos Avaliados pelo PL da Ficha 09A Demonstração do Lucro Real, da mesma DIPJ, em consonância com as adições registradas no Lalur 2008 de janeiro a outubro (levantou balanço/balancete de suspensão/redução em todos os meses) com o histórico “Ágio Investimentos Coligadas/Controladas”, que totalizaram R$ 25.850.240,10, com a seguinte composição: Fl. 3157DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.155 7 j) o mesmo tratamento de adição das despesas em questão foi corretamente dispensado pela G&K à base de cálculo da CSLL, tanto em 2007 quanto de janeiro a outubro de 2008; k) entretanto, em 03/11/2008 (portanto, menos de 2 anos após as incorporações), os acionistas da G&K decidiram promover a cisão parcial da mesma, aprovando o “Protocolo e Justificação de Cisão Parcial Seguida de Versão do Patrimônio Cindido a Sociedades já Existentes”, onde no item 4.2.1, transcrito em seguida, encontramos detalhes acerca dos ativos da G&K vertidos para a BOTICA, dentre os quais o “ágio sobre o investimento na Botica”: “4.2.1 Da incorporação na BOTICA A incorporação efetivarseá pela transferência de parte do Patrimônio Líquido da companhia G&K, no valor de R$ 238.000.160,00 (duzentos e trinta e oito milhões, cento e sessenta mil reais), acervo líquido este que será absorvido através de incorporação pela companhia BOTICA, na forma pactuada neste protocolo e observados os valores encontrados na avaliação procedida pela empresa ora indicada, como segue: BENS E DIREITOS R$ Aplicações Financeiras................................... 59.148.912,51 Impostos a recuperar ........................................ 3.315.087,49 Investimentos – Botica – Representado por 147.700.872 (cento e quarenta e sete milhões, setecentas mil, oitocentas e setenta e duas ações ordinárias nominativas, com valor nominal de R$ 1,00(um real) cada .................................................... 175.536.160,00 Fl. 3158DF CARF MF 8 Ágio investimento Botica ............................ 193.298.809,52 () Provisão Instrução CVM nº 319/349 – ágio investimento Botica.................................... (193.298.809,52) TOTAL DOS BENS E DIREITOS .......... 238.000.160,00” (...) Ainda em decorrência do presente evento de cisão parcial seguida de incorporação, o ágio apontado no acervo líquido acima discriminado, no montante de R$ 193.298.809,52 (cento e noventa e três milhões, duzentos e noventa e oito mil, oitocentos e nove reais e cinqüenta e dois centavos), apurado sobre o investimento detido pela G&K na BOTICA, por estar fundamentado na expectativa de resultados futuros da BOTICA, será registrado nas demonstrações contábeis da BOTICA em conta de ativo, estando sujeito à amortização nos termos da legislação fiscal aplicável à matéria. (...) l) precisamente em 03/11/2008, a G&K constituiu uma provisão de R$ 195.251.322,75 na conta 180098 – () Provisão para Preservação de Dividendos Futuros (Investimentos) tendo como contrapartida a conta 344010 – Provisão para Preservação de Dividendos Futuros (despesa); assim procedeu em relação a cada uma das investidas, sendo os respectivos valores provisionados iguais à diferença entre o “ágio” inicial e o montante amortizado pela G&K no período de janeiro de 2007 a outubro de 2008, conforme mostrado na tabela abaixo: m) em 04/11/2008, a G&K baixou da provisão acima (conta 180098) contra a conta 180020 – Ágio s/ Investimentos (Ativo Permanente), em 4 lançamentos distintos, a diferença entre o “ágio” ainda não amortizado (provisões acima mencionadas) relativo a cada uma delas e o valor correspondente a 1% da participação que continuou possuindo nas referidas empresas; tal procedimento pode ser melhor compreendido no quadro a seguir: Fl. 3159DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.156 9 n) a soma dos valores amortizados pela G&K em 2007 (R$ 5.682.417,69, abordado na alínea “g”) e em 2008 (R$ 5.547.623,10, abordado na alínea “i”), totalizou R$ 11.230.040,79 e, quando da cisão parcial da holding, foi transferida para a BOTICA via parte B do Lalur; doravante identificaremos este montante como “ágio” menor; o) quando da cisão parcial da G&K foi transferido à BOTICA o valor de R$ 193.298.809,52, ocorrendo o mesmo no tocante à Cálamo, à OBF e à Embralog, conforme abordado na alínea “m”, com os montantes lá apresentados; doravante o identificaremos como sendo o “ágio” maior; p) uma vez entendidos e quantificados tanto o “ágio” menor quanto o “ágio” maior, completamos esta etapa com a informação de que ambos passaram a ser amortizados pela BOTICA em 96 parcelas (8 anos) a partir de novembro de 2008, com os seguintes valores mensais: VII. Da decisão do CARF referente à autuação anterior 19. Antes de qualquer coisa, gostaríamos de reproduzir trechos do Acórdão n° 1402001.521 (fls. 964 a 996) da 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara do CARF, no processo n° 10980.722215/201294, relativo à apreciação do recurso voluntário da fiscalizada contra a autuação das exclusões no Lalur referentes à despesa com a amortização do “ágio” em questão. (...) 20. Reforçados pelo entendimento dos Conselheiros da 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara do CARF, em cujo acórdão se encontra claramente que a despesa com a amortização do “ágio” era indedutível e que, por isto, ela é que deveria ter sido glosada na autuação ao invés da exclusão no Lalur, Fl. 3160DF CARF MF 10 estamos fazendo por meio deste reexame a correção sugerida no que concerne ao “ágio” maior. 21. No tocante ao “ágio” menor, um novo lançamento teria a mesma descrição dos fatos e enquadramento legal do PAF anterior (exclusões indevidas), que teve o crédito tributário cancelado. Desta forma, o “ágio” menor não será objeto do presente auto de infração. VIII. Da insubsistência da argumentação do recurso voluntário ao CARFquanto à tributação em duplicidade (processo 10980.722215/201294) (...) 23. No que diz respeito aos procedimentos efetuados pela fiscalizada, encontramos à folha 38 do recurso voluntário ao CARF relativo ao processo nº 10980.722215/201294 (fl. 1835) menção quanto à “impossibilidade de tributação da receita da provisão uma vez que esta já teria sido adicionada quando de sua constituição na G&K em 18/12/06 e, portanto, não poderia mais ser tributada na Recorrente (tributação em duplicidade).” (grifo nosso) (...) 28. Primeiramente, convém não esquecermos que não houve despesa alguma paga ou incorrida, o que, de pronto, simplifica sobremodo qualquer análise. Em segundo lugar, por circunstâncias óbvias, alguma alegação teria que ser apresentada pela defesa. Todavia, é primordial que todos – e, em especial, os senhores julgadores – tenhamos o devido cuidado para que não seja desviado o foco do fato principal, que consiste na lógica de que sem ter existido a despesa, não pode haver amortização e, por conseguinte, não pode haver nenhuma dedução na apuração do Lucro Real e da Base de Cálculo da CSLL. Admitindose, única e exclusivamente por hipótese, que a despesa com o ágio tivesse sido paga ou incorrida, diante do argumento contido no recurso voluntário da BOTICA de que a G&K adicionou no Lalur em 2007 e em 2008 os valores mencionados no item anterior, devemos estar atentos a alguns detalhes fundamentais: 1º) a adição de R$ 20.094.111,31 efetuada pela G&K no Lalur 2007 e cuja composição é mostrada no quadro a seguir, simplesmente neutralizou corretamente o efeito da despesa lançada na sua contabilidade (conta 371006 – Ágio sobre Investimentos, cujo Razão também é mostrado abaixo) relativa ao “ágio” amortizado, uma vez que ela, mesmo que existente (repetimos que não é o caso), não seria dedutível; ou seja, diferentemente do afirmado no recurso voluntário, não haveria tributação em duplicidade na BOTICA porque não ocorreu nenhuma tributação anterior na G&K (a conta 364003 – Reversão Provisão Ágio s/ Incorporação está zerada): (...) Fl. 3161DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.157 11 2º) o valor de R$ 26.126.406,00 que os senhores causídicos insistem em dizer no recurso voluntário que já teria sido tributado na G&K por ter sido adicionado no seu Lalur 2008, novamente, tal como em 2007, apenas neutralizou corretamente o efeito da despesa lançada na sua contabilidade (conta 371006 – Ágio sobre Investimentos) relativa ao ágio “amortizado”, uma vez que ela, mesmo que existente, não seria dedutível.(...) (...) IX. Da inexistência do ágio (...) 36. Em síntese, se o próprio CPCComitê de Pronunciamentos Contábeis, formado pelas maiores autoridades contábeis do País – o CFCConselho Federal de Contabilidade, a FIPECAFIFundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras, o IBRACON Instituto dos Auditores Independentes do Brasil, a ABRASCAAssociação Brasileira das Companhias Abertas, a APIMECAssociação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais e a BM&F BOVESPA – além de ter como entidades convidadas a FEBRABANFederação Brasileira de Bancos e a CNI Confederação Nacional da Indústria, veda o reconhecimento do ágio intragrupo para fins contábeis, não há como defender, em sã consciência, que a despesa de sua amortização – que nada mais é que a diluição, ao longo do tempo, do custo de aquisição de um intangível – seja deduzida na apuração do Lucro Líquido. 39. Assim sendo, são inexistentes tanto essa despesa quanto o ativo do qual ela se origina. E, uma vez inexistente na apuração do Lucro Líquido, também deve ser inexistente para fins fiscais, já que é do Lucro Líquido, apurado segundo a legislação comercial (frisese, que veda o reconhecimento do ágio interno), que se parte para apuração do lucro tributável (Lucro Real) e da Base de Cálculo da CSLL. 40. E mais: a despesa de amortização de ágio interno evidentemente não se enquadra no conceito de despesa necessária. Primeiro porque essa despesa não foi paga pela fiscalizada. Ela não decorreu de consumo ou sacrifício de ativos (presente ou futuro), pois o ágio interno não foi pago com recursos exteriores ao grupo econômico nem o será; tratase de uma despesa fictícia criada para se reconhecer contabilmente a realização de um fluxo de rentabilidade futura cujo pagamento não foi realizado nem por terceiros independentes, nem pelo próprio grupo econômico. (...) Fl. 3162DF CARF MF 12 43. Vale destacar que não há ágio por expectativa de rentabilidade futura que não seja tributável. Isto porque, nos casos em que a legislação permite o diferimento e amortização deste tipo de ágio no adquirente, o alienante previamente já se sujeitou à apuração do ganho de capital. A amortização do ágio, quando permitida, visa impedir a dupla tributação de um mesmo fato gerador, no alienante e no adquirente. Aquilo que para o alienante é ganho ou renda, para o adquirente é custo ou despesa. Não é, porém, a situação da presente auditoria. 44. Tendo em vista os fatos ocorridos, fica claro que a G&K não arcou com nenhum ônus na incorporação das ações da BOTICA e nem esta suportou qualquer ônus ao retomar suas próprias ações, que estavam em poder da G&K. 45. Uma vez comprovado que não existiu de direito valor a ser amortizado a título de “ágio por incorporação”, as supostas despesas decorrentes da amortização, muito mais do que indedutíveis, são inexistentes. (...) 48. Outro contundente requisito para se admitir o ágio, aceito praticamente de forma unânime pelos mais renomados profissionais das áreas contábil e tributária, é que ele seja decorrente de transações envolvendo partes independentes, condição necessária à formação de um preço justo para os ativos envolvidos. Nos casos em que seu aparecimento acontece no bojo de transações entre entidades sob o mesmo controle, o ágio não tem consistência econômica ou contábil, configurando mera geração artificial de resultado, razão pela qual seu registro na contabilidade tornase novamente inadmissível. Afinal, é incontestável que se trata de uma “negociação” dos acionistas com eles próprios, o que significa dizer que está em suas mãos escolher os termos e valores que lhes sejam mais convenientes e vantajosos. Em suma, uma vez ausentes dois pressupostos básicos (efetivo pagamento e independência entre as partes), o ágio não é amortizável. (...) 53. Desta forma, para que a despesa de amortização do ágio seja considerada incorrida, é necessário que haja uma abdicação de ativos ou a contratação de passivos quando uma empresa adquire ações ou quotas de outra, sendo que o custo de aquisição corresponde ao sacrifício necessário à entrada, em seu ativo, de um investimento (patrimônio líquido da investida) e de um ágio (maisvalia paga por ele). A despesa de amortização do ágio representa a alocação do sobrepreço pago ao longo da vida útil do ágio, a diluição do custo ao longo do tempo e à medida em que as receitas correspondentes são reconhecidas, em obediência ao regime de competência, como dispõe o artigo 324 do RIR/99. Se não há custo de aquisição, não há que se falar em diluição do custo. Fl. 3163DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.158 13 (...) X. Das orientações da CVM contrárias ao ágio interno 57. A CVM tem atuado, ao longo dos anos, buscando aperfeiçoar e manter atualizado o seu arcabouço normativo contábil, sempre com a participação de segmentos interessados do mercado ou da profissão contábil. Cumpre destacar a importante colaboração recebida da Comissão Consultiva de Normas Contábeis da CVM, que conta com representantes da ABRASCA, APIMEC, CFC, IBRACON, FIPECAFI/USP e colaboradores especialmente nomeados pela CVM, além do Comitê de Pronunciamentos Contábeis CPC, do qual as referidas ntidades também fazem parte. (...) 60. Um destes documentos é o OfícioCircular CVM/SNC/SEP nº 01/2007, portador de orientações e conceitos totalmente identificados com o ágio interno encontrado na presente fiscalização, contra o qual frontalmente se posiciona. 61. Ele nos mostra que, para existir, o ágio ou deságio deve sempre ter como origem um propósito negocial (aquisição de um investimento) e, assim, um substrato econômico (transação comercial). Somente registros escriturais, por exemplo, não podem ensejar o nascimento dessa figura econômica e contábil. 62. Entendese por propósito negocial a lógica econômica que levou ao surgimento do ágio ou deságio, ou seja, a razão negocial que ensejou a aquisição de um investimento por valor superior ou inferior àquele que custou anteriormente ao alienante. Há esse propósito quando, por exemplo, uma empresa adquire participação societária de outra com ágio com o intuito de auferir os prováveis resultados positivos que esta última terá no futuro; ou quando uma empresa adquire participação societária de outra com deságio porque a alienante precisava aumentar emergencialmente a liquidez de seu ativo. (...) 65. A aquisição de um investimento, assim como de qualquer bem ou direito, deve sempre importar o dispêndio de um gasto (econômico ou patrimonial) pelo adquirente e ganho (também econômico ou patrimonial) pelo alienante. Sem essa troca de riquezas e da titularidade do investimento, não há que se falar em aquisição, e, como consequência, no surgimento de ágio ou deságio. (...) XI. Do laudo de avaliação da Botica em 2006 (...) Fl. 3164DF CARF MF 14 74. Como se observa, o instrumento fundamental em que se baseia todo o processo de origem do ágio é o laudo de avaliação, o qual, por sua vez, apresenta uma série de incertezas expressamente nele consignadas que, por consequência, o debilitam consideravelmente. Adicionalmente, ele se torna ainda mais vulnerável quando a KPMG afirma que sua elaboração fundamentouse “substancialmente em premissas e informações fornecidas pela Administração da BOTICA”. Obviamente que a empresa avaliadora, de pronto, se exime de qualquer responsabilidade pelas informações que recebeu de quem a contratou, assim como também não assume a responsabilidade pelos resultados alcançados, uma vez que estes serão influenciados tanto pelas premissas e informações que lhe foram previamente fornecidas pela Administração da BOTICA quanto pelas não poucas variáveis de mercado (vendas, crescimento da economia do País, exportações, decisões administrativas, etc.). (...) 76. Percebese na expressão (e, se não estivermos bem atentos, pode passar despercebido) o uso de parâmetros que sequer dizem respeito ao Brasil, como é o caso da taxa de retorno médio de longo prazo e da inflação de longo prazo, ambas relativas aos Estados Unidos. 77. Diante do exposto, chegase à inegável conclusão de que o valor da avaliação é de tamanha subjetividade (frise se que devidamente admitido no próprio documento), que se pode atingir qualquer resultado que se deseje, bastando para isto se partir dos dados (premissas e informações) “adequados” e as variáveis de mercado serem “estimadas” de forma conveniente. (...) XII. Da habitualidade na criação de ágios internos pelo Grupo Boticário (...) 85. No tocante à verificação em curso, não se tratando de partes independentes, livres de pressões ou outros interesses, não houve substância econômica na transação mas, sim, a mera criação de um valor artificial para a operação, cujo propósito não se vislumbra outro senão a economia de tributos. Aliás, esta tese tornase mais robusta quando se constata que tem sido uma prática rotineira na gestão das empresas do Grupo Boticário, na “eterna” busca de “uma melhor conformação das estruturas de capital e patrimonial das empresas envolvidas” e “uma melhora na rentabilidade das operações” por meio das constantes reorganizações societárias que trazem embutido, quase sempre, um “ágio”, omo atestam os fatos a seguir: – 01/05/2002 – a Aerofarma Perfumarias incorpora a Essência Natural do Nordeste também pertencente ao grupo, com “ágio” de R$ 619.093,90; Fl. 3165DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.159 15 – 01/08/2002 – novamente a Aerofarma Perfumarias incorpora a Floratta Perfumes, do mesmo grupo, com “ágio” de R$ 1.870.024,80; – 01/09/2003 – a Aerofarma Perfumarias incorpora a MCB Multicanal O Boticário com “ágio” de R$ 1.589.362,20; – 30/11/2003 – a EEEstação Empreendimentos e Participações aumentou o investimento no Shopping Estação com “ágio” de R$ 1.168.982,33; – 18/12/2003 – criada a BPBoticário Participações com quotas da Aerofarma Perfumarias avaliadas com “ágio” de R$ 5.017.185,03 e com ações da OBF avaliadas com “ágio” de R$ 25.168.634,90; – 01/11/2004 – cisão total da BPBoticário Participações com o retorno do “ágio” de R$ 5.017.185,03 para a Aerofarma Perfumarias e do “ágio” de R$ 25.168.634,90 para a OBF; – 21/08/2006 – redução do capital social da OBF no valor correspondente às quotas da Botica, da Cálamo e da Embralog, que foram distribuídas aos acionistas administradores destas, Miguel Gellert Krigsner e Artur NoemioGrynbaum – por sinal, também acionistas administradores da OBF –, saindo, portanto, as referidas empresas do controle da primeira; – 01/09/2006 – a Cálamo promove a incorporação total da EEEstação Empreendimentos e Participações (extinta), passando, em consequência, a controlar o Shopping Estação e o Estação Convention Center; nesta oportunidade, migrou para a Cálamo o “ágio” de R$ 1.168.982,33 que a EE tinha registrado em relação ao Shopping; – 18/09/2006 – constituída a G&K Holding S.A., com capital de R$ 1.000,00; – 01/11/2006 – a Cálamo faz a incorporação total do Estação Convention Center (extinto); – 18/12/2006 – a G&K incorpora as ações da Botica com “ágio” de R$ 206.481.363,56 (tal como vemos no presente trabalho), da Cálamo com “ágio” de R$ 1.011.690.937,33, da Embralog com “ágio” de R$ 6.247.393,50 e da OBF com “ágio” de R$ 551.741.868,57 (total dos “ágios” igual a R$ 1.776.161.561,96); – 02/05/2007 – a Cálamo incorpora totalmente o Shopping Estação (extinto); – 03/11/2008 – cisão parcial da G&K, permanecendo com apenas 1% das ações da Botica, Cálamo, Embralog e OBF e retornando a estas o restante das ações e os respectivos “ágios” não amortizados pela G&K, no montante de R$ Fl. 3166DF CARF MF 16 1.712.915.038,45, bem como os respectivos “ágios” amortizados pela cindida, porém por ela não deduzidos, no total de R$ 45.944.351,39, e que passaram a ser deduzidos nas 4 exsubsidiárias; – 01/12/2010 – a GKDS Assessoramento em Produtos de Beleza incorpora a Aerofarma Perfumarias mudando sua denominação para Interbelle Comércio de Produtos de Beleza; – 31/07/2012 – cisão parcial da Botica, tendo a parte cindida – representada pela Interbelle Comércio de Produtos de Beleza – migrado para o controle da Cálamo com “ágio” de R$ 91.122.881,75; – 31/10/2012 – cisão total da KRGR Administração e Participações Ltda em duas parcelas, uma delas incorporadas pela Cálamo, com “ágio” de R$ 30.318.949,47, e a outra pela OBF, com “ágio” de R$ 15.136.326,88 (total dos “ágios” igual a R$ 45.455.276,35). (...) 87. Digno de se ressaltar que, coincidentemente em todas as operações, o modus operandi não se altera: ao invés de circulação de riqueza, ocorre sempre a transferência escritural para a investida das ações registradas pela investidora em seu patrimônio, em diversas vezes, superavaliadas por ocasião do evento societário. XIII. Do “Ágio” maior amortizado pela Botica em 2008 88. Analisando o referido “ágio” maior (R$ 193.298.809,52), verificamos que assim que transferido da G&K, a BOTICA registrou em 03/11/2008 o valor em seu Ativo Não Circulante, subgrupo Investimentos, a débito da conta 180020 Ágio s/ Investimentos e, em seguida, baixou tal montante a crédito da conta 180098 () Provisão para Preservação de Dividendos Futuros (também do ANC/Investimentos), tendo como contrapartida em ambos os lançamentos a conta 232001 Incorporação (Passivo Circulante). Finalmente, lançou o saldo remanescente desta última (R$ 62.464.000,00) para a conta 260001 Capital Social e, nesta mesma data, passou o controle do ágio (R$ 193.298.809,52) para o Ativo Diferido na conta 192080 Ágio s/ Investimentos, constituindo uma provisão de igual monta na conta redutora 192081 () Provisão p/ Realização de Ágio. 89. Em 30/11 e 31/12/2008 “amortizou” as 2 primeiras parcelas (1/96 e 2/96) de R$ 2.013.529,27 cada, lançando a despesa na conta 371006 Ágio sobre Investimentos e fazendo a reversão da provisão na conta de receita 364003 Reversão Provisão Ágio s/ Incorporação, tendo como contrapartida, respectivamente, as contas do Diferido supracitadas (192080 e 192081). 90. Também no Lalur 2008, há registrado como exclusão, nos meses de novembro e dezembro, o mesmo valor Fl. 3167DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.160 17 amortizado e revertido (total de R$ 4.027.058,54), com o histórico “Provisão p/ Realização de Ágio Incorp G&K”, sendo, desta forma, apurado um Lucro Real indevidamente menor. Isto porque, por se tratar de uma despesa inexistente, nem poderia ter sido contabilizada. (...) XIV. Do “Ágio” maior amortizado pela Botica em 2009 95. Passandose agora para 2009, verificamos que a BOTICA, por ser optante pelo Regime Tributado de Transição RTT, transmitiu ao SPED em 29/06/2010 o FCont e, dentre os ajustes fiscais (extracontábeis) nele encontrados, há um débito de R$ 24.162.351,19, com data de 16/12/2009, na conta 371006 Ágio sobre Investimentos (despesa), tendo como contrapartida a conta 192080 Ágio s/ Investimentos (Ativo Diferido). Este total referese à amortização do “ágio” maior neste AC. Ainda no FCont, registrou em 31/01/2009 a reversão do mesmo montante da provisão (R$ 24.162.351,19) na conta de receita 364003 Reversão Provisão Ágio s/ Incorporação usando como contrapartida a conta 192081 Provisão p/ Realização de Ágio (Ativo Diferido). (...) 99. Pois a BOTICA protagonizou a relatada divergência ao realizar “um único lançamento englobando as parcelas mensais do exercício de 2009”, segundo as mesmas palavras de sua resposta ao TIF n° 4 já mencionada. A data do lançamento do ajuste negativo no FCont foi 16/01/2009, consolidando os pretensos “ajustes” do ano inteiro de 2009 no valor de R$ 24.162.351,19. 100. Diferentemente do FCont, no Lalur 2009 há registrado mensalmente como exclusão, de janeiro a dezembro, o valor de R$ 2.013.529,27, com o histórico “Provisão p/ Realização de Ágio Incorp G&K”, resultando no total de R$ 24.162.351,19 ao final do ano. 101. Todavia é altamente relevante levarmos em conta que, embora o Livro de Apuração do Lucro Real Lalur, criado pelo DecretoLei n° 1.598/77, seja um livro obrigatório pela legislação tributária, ele não é objeto de registro em órgão oficial e, se houver divergência entre os ajustes do RTT constantes no Lalur e os inseridos no FCont, prevalecerão os informados neste último. (...) 103. Não houve movimentação das contas da ECD AC 2009 e às fls. 1.127 a 1.130 mostramos o Razão das contas do FCont que dizem respeito ao “ágio”, bem como o Lalur 2009 (fls. 291 a 328), a fim de comprovar o que afirmamos nos itens precedentes.(...) (Grifouse) Fl. 3168DF CARF MF 18 Impugnação apresentada pela interessada 8. Regularmente intimada em 19/12/2014 (fls. 1335 e 1347), a interessada, por intermédio de seus representantes legais (mandatos às fls. 16811683), apresentou, em 19/01/2015, a tempestiva impugnação de fls. 15181653, instruída com os documentos de fls. 16542675. A impugnante inicia sua defesa abordando o lançamento fiscal anteriormente efetuado nos autos do processo nº 10980.722215/201294 e alega impossibilidade de nova autuação sobre os mesmos fatos por mudança do critério jurídico (art. 146 do CTN): Do critério utilizado para “justificar” a nova em autuação sobre os mesmos fatos. Da abrangência do acórdão exarado pelo CARF no processo administrativo nº 10980.722215/201294 relação à matéria objeto da presente autuação fiscal. Esclarecimentos necessários e prévios à demonstração da violação ao art. 146 do Código Tributário Nacional a) aduz que amortizou o ágio por meio de um lançamento a crédito no ativo (conta 190040), tendo como contrapartida um débito (despesa) no resultado (conta 371006); a provisão para a realização do ágio (natureza redutora do ativo), por sua vez, foi revertida por meio de um lançamento contábil a débito no ativo (conta 190041), tendo por contrapartida um crédito (receita) no resultado (conta 364003); posteriormente, com a advento da orientação do OCPC 02, de 2009, o ágio com rentabilidade futura teve a sua amortização contábil vedada, mas, como a impugnante era optante do RTT (art. 15 da Lei nº 11.941, de 2009), o ágio permaneceu amortizável fiscalmente, nos termos do art. 7º, III, da Lei 9.532, de 1997; b) no anocalendário de 2009 a amortização do ágio (despesa), bem como a reversão da provisão para realização do ágio (receita) foram refletidas no FCONT da Impugnante (fls. 160) por meio dos seguintes lançamentos: (i) débito na conta 371006 (Despesa Ágio s/ investimentos) e crédito na conta 192080 (Ágio s/ investimentos) e (ii) crédito na conta 364003 (Receita Reversão da Provisão Ágio s/Incorporação) e débito na conta 192081 (Provisão para realização de Ágio), ambos nos valores de R$ 24.162.351,19; é impossível afirmar que o acórdão que julgou o mérito do processo n° 10980.722215/201294 tratou apenas do “ágio menor”, uma vez que foi julgado o erro no enquadramento legal aplicável tanto para o “ágio maior” quanto para o “ágio menor”; Da impossibilidade de nova autuação fiscal para fatos geradores já fiscalizados e autuada por meio do processo administrativo nº 10980.722215/2012 94 – Cancelamento das autuações anteriores por existência de erro no enquadramento legal (“Erro de Direito”) – Nulidade do novo lançamento por afronta ao artigo 146 do CTN c) alega que o novo lançamento fiscal não passa de uma mera “revisão”, “reexame” ou simples “correção” do lançamento Fl. 3169DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.161 19 anterior, mas a modificação do critério jurídico em relação a um mesmo fato representa procedimento expressamente vedado pelo art. 146 do CTN; não há qualquer fato novo, apenas e tão somente uma simples mudança da fundamentação legal para se exigir crédito tributário relativo aos mesmos períodosbase, não mais por supostas exclusões indevidas no LALUR (art. 247 do RIR de 1999), mas por supostas irregularidades referentes à amortização de despesas com ágio supostamente inexistentes (art. 299 do RIR de 1999); d) se os fatos eram de pleno conhecimento das autoridades fiscais e se a situação requeria a glosa de despesas inexistentes, este fundamento legal deveria ter sido adotado de início no lançamento fiscal anterior; se a cognição jurídica das autoridades lançadoras ocorreu apenas após uma decisão de mérito do CARF, que cancelou integralmente o lançamento anterior por erro no enquadramento legal (erro de direito), tal fato não autoriza a lavratura de novo lançamento sobre esses mesmos fatos; e) no caso concreto, não houve nulidade/cancelamento do lançamento fiscal anterior por erro de fato (inexatidão de dados fáticos) ou erro/vício formal (omissão ou inobservância de norma que rege o procedimento da lavratura do auto de infração), mas com julgamento de mérito por erro de direito, que nada mais é do que o equívoco na valoração jurídica dos fatos; a fiscalização, a pretexto de fazer um mero “reexame” por força de erro no enquadramento legal anterior, não pode alterar o critério jurídico do lançamento fiscal anterior por violação ao art. 146 do CTN em casos de erro de direito; referido art. 146 reforça o princípio da imodificabilidade do lançamento, regularmente notificado ao sujeito passivo; tratase de dispositivo relacionado com a previsibilidade e a segurança jurídica, simples aplicação do princípio da irretroatividade do Direito aos atos e decisões da Administração Pública; f) considerando que o novo lançamento fiscal representa mero “reexame” do lançamento fiscal anterior e foi cancelado, por decisão de mérito, em face de erro no enquadramento legal (erro de direito), e que o novo lançamento foi realizado com base nos mesmos fatos já fiscalizados, mas com alteração na fundamentação legal, sendo que em casos de erro de direito não é autorizado um novo “reexame”, não há dúvida que deverá ser reconhecido, de plano, a nulidade do auto de infração objeto do presente processo administrativo, por expressa violação ao art. 146 do CTN. 10. A impugnante descreve, em longo arrazoado, as operações societárias realizadas pelo Grupo Boticário, que alega estarem baseadas em sólidas razões empresariais e que justificaram o surgimento do ágio por ela amortizado, e argui que já decaiu o direito de o Fisco questionar a legalidade de tais operações societárias e que a multa de ofício de 150% seria improcedente por nova violação ao artigo 146 do CTN: Fl. 3170DF CARF MF 20 Da operação de incorporação de ações: uma opção empresarial legitimada pelo ingresso de um novo acionista estratégico no Grupo Boticário a) como a função de holding do Grupo Boticário desviava a OBF de seu foco empresarial principal (negócios de franquia), decidiuse em 2006 pela criação de uma holding pura para as empresas operacionais do grupo (Botica, Cálamo e Embralog), para estabelecer as políticas de governança corporativa e gestão estratégica e ser a receptora do investimento do provável novo acionista; as participações societárias na Embralog, Botica e Cálamo foram retiradas do patrimônio da OBF e transferidas para as pessoas físicas dos acionistas; b) em 18/09/2006 foi constituída uma holding pura, a G&K Holding S/A (G&K), que incorporou, em 18/12/2006, a totalidade das ações das empresas operacionais, transformando as em subsidiárias integrais (art. 252 da Lei n° 6.404, de 1976); nessa mesma data, o IGPFundo de Investimento em Participações subscreveu e integralizou aumento de capital de R$ 50 milhões na G&K e foi firmado Acordo de Acionistas estabelecendo não só as regras gerais de relacionamento entre as partes, mas também e principalmente as melhores práticas de governança corporativa a serem observadas pela G&K enquanto holding controladora das empresas operacionais; Apuração do ágio: uma consequência do processo de incorporação de ações determinada em lei e plenamente aplicável ao caso concreto a ser julgado por esta I. Delegacia Regional de Julgamento DRJ c) assevera que o critério adotado na avaliação das ações apresenta sólida justificação empresarial e tratase de elemento inerente ao instituto jurídico da incorporação de ações; os aumentos de capital realizados em bens – no caso ações representativas de um acervo patrimonial – devem seguir o rito do art. 8º da Lei das S/A, tendo a fiscalizada sido avaliada pela efetiva capacidade econômica do seu negócio, dimensionada pela perspectiva de rentabilidade futura segundo o critério de fluxos de caixa descontado (valor econômicofinanceiro); d) concomitantemente à incorporação de ações ocorrida em 18/12/2006, o IGP subscreveu e integralizou 4.613.618 novas ações ordinárias nominativas da G&K ao preço total de R$ 50 milhões; a definição do percentual de participação de 2,41% do IGP no capital da G&K foi estabelecida com base no valor econômicofinanceiro das empresas operacionais do grupo apurado no laudo de avaliação elaborado pela KPMG Corporate Finance Ltda.; a relação de substituição das ações da Botica pelas da G&K foi definida com base no valor econômico financeiro de ambas as companhias, tendo o laudo de avaliação da KPMG estabelecido para cada ação da Botica o valor de R$ 2,31, perfazendo o montante de R$ 344.499 mil; e) como o valor econômico da impugnante resultou maior do que seu valor patrimonial contábil, a G&K apurou um ágio na primeira equivalência patrimonial realizada sobre o patrimônio líquido da impugnante; assim, o custo do investimento da G&K Fl. 3171DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.162 21 na impugnante foi desdobrado em valor do investimento e ágio de R$ 206.481.363,56; o ingresso do novo acionista estratégico no Grupo Boticário foi objeto de ampla divulgação nos veículos de comunicação nacional e local; Das razões empresariais que motivaram a cisão parcial e seletiva da G&K em 03/11/2008: a amortizaçãodo ágio como consequência expressa da lei tributária f) argumenta que o ingresso do novo sócio e a implementação da reestruturação implicou no incremento do desempenho empresarial alcançado por todas as empresas do Grupo Boticário nos anos de 2007 e 2008; em 09/10/2008 as quotas do Fundo IGP foram transferidas para a Votorantim Asset Management DTVM Ltda., passando o fundo a ser denominado de Votorantim G&K Fundo de Investimento em Participações; g) a cisão parcial seletiva desta holding foi motivada por divergências na condução da gestão estratégica das operações do grupo entre os acionistas controladores e o acionista minoritário estratégico; os acionistas controladores da G&K decidiram que o grupo deveria crescer não apenas de forma “orgânica” (via operações próprias), mas também através de aquisições de outras marcas e exploração de outros canais de venda, mas o Votorantim manifestou discordância, porquanto tais aquisições iriam comprometer a rentabilidade de curto prazo do investimento; em consequência, foi idealizada a cisão parcial seletiva e desproporcional do patrimônio da G&K em quatro parcelas, seguida de respectivas incorporações pelas empresas operacionais, como forma de propiciar a saída do Votorantim da estrutura societária no âmbito da G&K; foi acordado que, na relação de substituição das ações que detinha na G&K, caberia ao Votorantim a participação de 3,11% das ações representativas do capital da OBF e da Cálamo, enquanto a G&K manteve 1% de participação no capital de cada uma das empresas operacionais; h) coube às empresas operacionais o registro contábil dos ativos cindidos da G&K, representados pela parcela do investimento, respectivo ágio e provisão constituída com base na Instrução CVM nº 319, com as alterações da Instrução 349; as incorporações inversas ensejaram, como consequência expressamente prevista na legislação tributária, a possibilidade de amortização do ágio de forma dedutível pelas empresas operacionais e a reversão, contra o resultado do exercício, de correspondente montante da provisão do ágio; Da efetiva implementação do plano de expansão i) argui que a amortização do ágio na Impugnante decorre da cisão parcial e seletiva da G&K, que faz parte de um processo muito mais amplo de reestruturação societária e empresarial envolvendo os acionistas originais do grupo Boticário e outros acionistas totalmente independentes, não relacionados; as operações em questão não foram casuísticas, temporárias, Fl. 3172DF CARF MF 22 inconsistentes, contraditórias ou efetivadas com base em atos societários e contratuais sucessivos e cronologicamente próximos, de forma a desnaturar a efetiva vontade das partes envolvidas ou com uso abusivo de institutos jurídicos ou mediante fraude a alguma lei que proibisse as operações e seus efeitos decorrentes; j) é inquestionável que as operações que ensejaram reflexamente a apuração e amortização do ágio foram norteadas por um efetivo propósito negocial e com claro fundamento econômico, que culminou na concretização do plano de expansão almejado pelas empresas do Grupo Boticário, proporcionando nítido crescimento no ramo de atuação de seus respectivos negócios, conforme reconhecido pelo Prof. Eliseu Martins, em seu parecer que avaliou a validade do ágio e sua amortização fiscal no caso concreto; Das infundadas alegações das autoridades fiscais para glosar os encargos de amortização de ágio nas bases de cálculo do IRPJ e da CSL k) relata que as autoridades fiscais concluíram que a despesa com amortização do ágio seria inexistente, porquanto supostamente gerado intragrupo e, em consequência, por não constituir despesa necessária; o entendimento consignado pelas autoridades fiscais, extraído da interpretação de Orientação CPC e determinações da CVM, está também fundamentado nos seguintes aspectos adicionais: . ao contrário do que ocorreu para fins contábeis, no âmbito tributário nem todas despesas são dedutíveis; . se o CPC 04 veda o reconhecimento do ágio intragrupo para fins contábeis, não havia como defender que a despesa com sua amortização era dedutível do lucro líquido; . a despesa com a amortização do ágio não era necessária porque não foi paga pela impugnante e nem decorreu do consumo ou sacrifício de ativos, uma vez que não ocorreu pagamento com recursos exteriores ao Grupo econômico (despesa fictícia); . o ágio no caso concreto não seria amortizável, porque ausente dois supostos pressupostos básicos, quais sejam, efetivo pagamento e independência entre as partes; . para que a despesa de amortização do ágio fosse considerada incorrida seria necessário uma abdicação de ativos ou a contratação de passivos; a despesa com amortização do ágio representaria a diluição do custo ao longo do tempo, à medida em que receitas correspondentes são reconhecidas, em obediência ao regime de competência (art. 324 do RIR/99), mas se não há custo de aquisição, não há que se falar em diluição do custo; . o laudo de avaliação emitido pela KPMG, instrumento fundamental em que se baseia todo o processo de origem do ágio, teria apresentado uma série de incertezas a ponto de debilitálo de forma considerável; Fl. 3173DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.163 23 Da decadência do direito do Fisco questionar a legalidade dos atos societários que originaram o ágio apurado em 2006 (incorporação de ações) e sua respectiva dedução quando ocorrida em 2008 (cisão parcial e seletiva da G&K seguida de versão do patrimônio cindido) l) alega que, muito embora a dedução tenha sido feita a partir de 2008, o Fisco não pode mais questionála por meio do presente auto de infração, lavrado somente em 06/10/2015, tampouco por qualquer outro meio poderia ser questionada a legalidade e eficácia tributária da incorporação de ações no qual foi apurado o ágio em 18/12/2006, eis que transcorrido o prazo de decadência de cinco anos contados do fato “originário” do ágio; Da decadência relativa aos fatos geradores ocorridos em 2008 – ausência de comprovação pelas autoridades fiscais de dolo, fraude ou simulação que justifique a aplicação do artigo 173, I, do CTN m) argumenta que a multa de ofício somente foi qualificada para que o crédito tributário do anocalendário de 2008 fosse salvo da decadência, com deslocamento da contagem do prazo decadencial do art. 150, § 4º, do CTN para o art. 173, I; contudo, as patologias relativas ao dolo, fraude ou simulação devem restar cabalmente comprovadas, mas as autoridades fiscais apenas justificam a existência dessas patologias na suposta diminuição ou redução da carga tributária, decorrente da operação de incorporação de ações seguida de cisão parcial; n) em verdade, a caracterização do dolo foi “constatada” pelas autoridades fiscais em razão do valor do ágio apurado e do montante distribuído aos acionistas da impugnante a título de dividendos e juros sobre capital próprio recebidos; veja que não se fala em: (i) ocultação de informações; (ii) falta de vivência dos efeitos das operações praticadas; (iii) documentos inidôneos, adulterados ou falsificados; (iv) conduta ou atos contraditórios; (v) não apresentação de esclarecimentos durante o procedimento de fiscalização, enfim, estes ou quaisquer outros elementos clássicos aptos a caracterizar a vontade exclusiva de suprimir ou reduzir tributos de forma ilegal; o) o montante do ágio e o valor dos dividendos e juros sobre capital próprio recebido pelos acionistas não têm qualquer relação com a comprovação de eventual dolo na apuração dos tributos da pessoa jurídica, uma vez que representam o exercício de um direito previsto na legislação societária e tributária, o que não configura ato ilícito, nos termos do art. 188, I do Código Civil; em nenhum momento os Agentes Fiscais comprovaram que a Impugnante teria agido de forma ilícita, ardilosa e com intuito de lesar o Fisco ou sonegar tributos; p) não logrando êxito as autoridades fiscais em comprovarem efetivamente a existência de dolo e fraude no caso concreto, mas Fl. 3174DF CARF MF 24 apenas alegações de mero inconformismo acerca do procedimento adotado pela Impugnante, o qual não foi praticado à margem da legislação fiscal vigente à época dos fatos, não há de ser aplicado o prazo decadencial previsto no artigo 173, I, do CTN, mas sim, o prazo previsto no § 4o do art. 150, o que implica na decadência em relação ao direito de exigir os créditos tributários relacionados ao período de 2008; Da improcedência do lançamento referente à multa qualificada de 150% por violação ao art. 146 do CTNq) argumenta que além da Impugnante, outras empresas do grupo econômico foram também autuadas pelas mesmas razões e pelos mesmos Agentes Fiscais que lavraram o presente (segundo) auto de infração contra a ora Impugnante; ocorre que, tanto no primeiro auto de infração lavrado contra a Embralog, quanto no primeiro lançamento efetuado contra a Cálamo, não foi aplicada multa qualificada, não havendo qualquer menção ao art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430, de 1996, tampouco à ocorrência de dolo, fraude ou abuso de direito; essa modificação de entendimento não significa outra coisa senão uma nova interpretação dos fatos e da legislação, com vistas à subsunção desses mesmos fatos a normas distintas daquelas aplicadas nos lançamentos efetuados contra a Embralog e a Cálamo; r) no momento em que o Fisco determina qual o critério jurídico a ser utilizado no lançamento ele não pode ser modificado em relação aos mesmos eventos que foram objeto de fiscalização e que deram origem ao fato gerador autuado, em respeito ao disposto no art. 146 do CTN; a exigência fiscal pode até ser considerada injusta ou equivocada pelos órgãos de política fazendária, mas ela não poderá ser “complementada” ou até mesmo “revogada” por considerações de conveniência e oportunidade apuradas posteriormente, nem pela própria Autoridade Fiscal que a praticou (que no caso são as mesmas), nem tampouco pela autoridade julgadora; s) não há dúvidas que houve, com relação à aplicação da multa agravada, violação ao art. 146 do CTN, uma vez que, um critério jurídico já utilizado em lançamento anterior, que abrange a fiscalização de fatos idênticos, não pode ser posteriormente modificado, sem a presença de qualquer elemento novo, nos termos, inclusive, da jurisprudência do CARF (Acórdão nº 3403 000.428) e desta própria DRJ/Curitiba (Acórdão 0611.956, de 2006, e Decisão 944, de 2001) sobre o assunto. 11. No mérito, argumenta que a figura do ágio interno é incompatível com a essência empresarial e econômica da reorganização societária do Grupo Boticário, que à época da incorporação de ações a figura do ágio interno era totalmente desconhecida pela legislação contábil, que as informações contidas no laudo de avaliação são fidedignas, que não há que se exigir pagamento em dinheiro na operação de incorporação de ações, que a vedação à amortização do ágio interno somente foi imposta com a publicação da Lei nº 12.973, de 2014, e que é descabida a alegação de desnecessidade da despesa com amortização do ágio interno: Fl. 3175DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.164 25 Da ausência de “ágio interno” no caso concreto. A figura do ágio interno é incompatível com a essência empresarial e econômica da reorganização societária que envolveu a Impugnante: a operação de incorporação de ações decorreu de um legítimo movimento de estruturação, motivado por uma transação envolvendo terceiros independentes a) sustenta que o ágio apurado nas operações societárias do Grupo Boticário não pode ter a conotação de “ágio interno”, visto que realizadas em função de e no contexto do ingresso de uma parte independente não relacionada, qual seja, o acionista estratégico IGP; o OfícioCircular/CVM/SNC/SEP n° 01/2007 traz um conceito do ágio interno associado a uma operação realizada exclusivamente dentro de um mesmo grupo econômico, mas no presente caso as operações de incorporação de ações viabilizou o ingresso do IGP como acionista do Grupo Boticário; o critério de avaliação das ações da Impugnante resultou de um legítimo processo de negociação entre os acionistas da G&K e do IGP, sendo inegável a condição destes como uma “parte independente, conhecedor do negócio, livre de pressões ou outros interesses que não a essência da transação”; o Professor Eliseu Martins afirmou, categoricamente, que “ao analisarmos as informações prestadas pelas consulentes, bem como os Autos de Infração supramencionados, podemos concluir que as operações realizadas pelo grupo Boticário não ensejaram a apuração de ‘ágios internos’ ou geraram resultados fiscais artificiais”; b) todos os valores econômicofinanceiros das empresas operacionais do Grupo foram apurados com base no laudo elaborado pela KPMG, que considerou os preceitos da legislação societária e a melhor técnica de avaliação de empresas pelo critério de valor econômico com base em fluxos de caixa descontados; o ágio decorre da aquisição de participações societárias, ato que pode ocorrer pelas mais variadas formas previstas em lei, sendo que a compra e venda – única forma que pressupõe pagamento – é apenas uma delas; a aquisição ocorreu meio da incorporação de ações, forma legítima e prevista em lei, cujo custo de aquisição é o valor das ações conferidas aos titulares das ações incorporadas; por meio das Instruções CVM n°s 319/99 e 349/01, a CVM expressamente reconhece o efeito dos encargos de amortização do ágio sobre o lucro dos acionistas e regula procedimentos visando neutralizar tais efeitos; Inexistência da hipótese interpretativa do denominado “ágio interno”, para fins contábeis e fiscais, quando da incorporação de ações c) destaca que à época das reorganizações societárias envolvendo a Impugnante não havia qualquer norma em nosso ordenamento jurídico, seja no âmbito do Direito Contábil Societário, seja no âmbito do Direito Tributário, mencionando ou definindo o que viesse a ser “ágio interno”, tampouco suas Fl. 3176DF CARF MF 26 consequências para fins tributários; somente a partir de 2009, para vigência a partir de 2010, é que a CVM e o CFC aprovaram o Pronunciamento Técnico CPC 18, quando ficaram vedados os registros contábeis de resultados em operações entre entidades comum no Brasil; nem mesmo o OfícioCircular CVM/SNC/SEP n° 01/2007 pode ser considerado para rejeitar os efeitos fiscais do ágio apurado em 18/12/2006, pois não é uma norma coercitiva, não retroage (por ausência de amparo legal) e o “ágio interno” somente poderia ser entendido como aquele gerado dentro da mesma pessoa jurídica; no caso concreto, não há no TVE base legal que sustente essa suposta artificialidade, uma vez que suposto conceito de “ágio interno”, à época, simplesmente inexistia; d) não há como sustentar a artificialidade do ágio com base apenas em suposições equivocadas (ágio interno), em orientações advindas deCPCs e Ofícios Circulares que sequer haviam sido emitidos à época dos fatos e em normas contábeis que regulam matéria distinta, qual seja, o ágio gerado dentro da própria pessoa jurídica, não em transações entre empresas do mesmo grupo; a norma que, de fato, passou a dispor e a regular o ágio gerado internamente só veio a integrar o Direito Contábil Societário em 05/11/2010, quando da aprovação do CPC n° 04, porém sem efeitos tributários até o advento da Lei n 12.973, de 2014, que vedou a amortização fiscal do chamado “ágio interno”; o CPC 04 foi introduzida em nosso ordenamento na esteira das normas da Lei n° 11.638, de 2007, que buscaram compatibilizar as práticas contábeis brasileiras com as práticas contábeis internacionais porém, com total neutralidade tributária (art. 1° da Lei n° 11.638, de 2007, e art. 15, § 1º da Lei n° 11.941, de 2010); e) a necessidade de atendimento às normas impostas pela CVM não autoriza a inobservância da legislação tributária, como insistentemente fizeram as autoridades fiscais no caso concreto; não há como classificar de “artificial” um ágio que supostamente não tenha observado referidas normas contábeis, editadas a posteriori, uma vez que foi observada a legislação tributária vigente à época dos fatos (art. 386 do RIR de 1999); se a operação que decorreu no aproveitamento do ágio gerou uma redução da carga tributária, não há que ser ele classificado como inexistente ou artificial, como sustentam as autoridades fiscais; Da fidedignidade das informações contidas no laudo de avaliação da impugnante f) com relação à alegação das autoridades fiscais de que o laudo de avaliação emitido pela empresa KPMG apresentaria uma série de incertezas que acabariam por tornar subjetivo e frágil o valor da avaliação nele consignada, enfatiza que as autoridades fiscais examinaram apenas um extrato/resumo do laudo, mas não a sua integralidade, razão pela qual anexa a íntegra do laudo de avaliação econômicofinanceira emitido em 15/12/2006, com database de 31/08/2006; g) a taxa de desconto aplicada sobre os fluxos de caixa no tempo foi obtida a partir da determinação do custo de capital próprio Fl. 3177DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.165 27 com base na fórmula do CAPM (Capital Asset Prícing Model); tal laudo segue os métodos e critérios adotados pelo mercado, tendo a escolha de uma empresa especializada de reputação e renome mundiais apenas demonstrado o zelo da Impugnante; se assim não fosse, um terceiro independente teria se recusado a aportar R$ 50 milhões nesse negócio; é óbvio que as informações consignadas no laudo de avaliação no momento de sua elaboração podem ou não se materializar, mas as ressalvas nesse sentido nada mais representam do que salvaguardas comuns e necessárias nesse tipo de trabalho, as quais, por si só, não desnaturam a conclusão nele consignada; h) de qualquer forma, o art. 20, § 3º, do Decretolei n° 1.598, de 1977, não exige laudo de avaliação, mas apenas e tão somente de“demonstração” do fundamento econômico; é igualmente cristalino que algumas premissas e informações são também (e não exclusivamente) obtidas junto à própria administração da companhia, o que não significa dizer que essas informações não pudessem ser confirmadas nos documentos contábeis e fiscais analisados pela KPMG durante a elaboração do laudo de avaliação; o estudo foi realizado considerando diversos parâmetros, dotados de várias premissas para que o resultado pudesse ser o mais factível possível; o lucro líquido total alcançado pela Impugnante no período de 2007 a 2013 se confirmou com as projeções constante no laudo de avaliação feito pela KPMG (Anexo I.2); Da impossibilidade de se efetuar “pagamento em dinheiro” na operação de incorporação de ações i) assevera que o ágio decorreu do mero desdobramento do custo de aquisição de participação societária em decorrência de um negócio jurídico de incorporação de ações (art. 252 da Lei das S/A); enquanto na incorporação de sociedade a incorporada deixa de existir e é sucedida universalmente pela incorporadora, na incorporação de ações ocorre o aumento do capital da sociedade incorporadora, que passa a ter a outra sociedade como sua subsidiária integral; os acionistas da incorporada subscrevem aumento de capital da incorporadora com as ações de sua propriedade, tomandose acionistas da incorporadora; a natureza jurídica da incorporação de ações é similar à do aumento de capital social mediante a conferência das ações da sociedade incorporada, porém com ela não se confunde; j) na incorporação de ações, não há “pagamento”, que é uma contraprestação do negócio jurídico de venda e compra, pois se entrega as ações da incorporada e temse como contraprestação o recebimento de ações da incorporadora; o valor das ações incorporadas corresponde ao valor das ações da incorporadora que serão recebidas pelos titulares das ações incorporadas, desde que tal valor esteja suportado por laudo de avaliação (§§ 1º e 3º do art. 252 da Lei das S/A); o custo de aquisição é o valor do capital aumentado e entregue aos titulares das ações incorporadas, sendo este custo desmembrado em valor do investimento pelo MEP e ágio; sob a ótica fiscal, a legislação Fl. 3178DF CARF MF 28 tributária confere o mesmo tratamento ao ágio e ao deságio na aquisição de participação societárias que aquele previsto na legislação societária, conforme se verifica do art. 20 do DL n° 1.598, de 1977, antes das alterações introduzidas pela Lei n° 12.973, de 2014; k) o equívoco das autoridades fiscais ao afirmarem que haveria necessidade de “pagamento” por um ativo para que seu custo pudesse ser amortizado ou depreciado se deve ao fato de não ter sido analisada, no TVF, a efetiva natureza jurídica dos atos realizados; no presente caso, a aquisição reflete a troca econômica, a contrapartida pela aquisição de participação acionária, cujo o custo de aquisição é o valor das ações conferidas aos titulares das ações incorporadas; destaca que Prof. Eliseu Martins, em resposta ao quesito 1 do parecer formulado para a Impugnante, manifestouse no sentido de que “a circulação financeira (pagamento em dinheiro) nunca foi e não é conditio sine qua non para a apuração do ágio. O ágio pode ser apurado de forma plena, por exemplo, em uma operação de troca de ações. Não há diferença entre processos de mensuração de compra de uma participação societária versus o de qualquer outro ativo”; l) quanto às formas de aquisição da participação societária, o art. do DL n° 1.598, de 1977, não se refere a qualquer negócio jurídico específico para que se alcance tal objetivo; o direito privado traz diversas formas jurídicas possíveis de aquisição e qualquer uma delas será válida para fins do Direito Tributário; nesse sentido, Ricardo Mariz de Oliveira, em seu artigo intitulado de “Os motivos e os Fundamentos Econômicos dos ágios e Deságios na Aquisição de lnvestimentos, na Perspectiva da Legislação Tributária, mais uma vez abordou o tema, concluindo ser irrelevante o ato ou o negócio jurídico causador do ágio (ou deságio), assim como quanto ao meio de pagamento ou às respectivas contraprestações dele decorrentes; m) destaca que a Medida Provisória n° 627, de 2013, previa em seu art. 21 a impossibilidade da pessoa jurídica amortizar ágio por rentabilidade futura quando este fosse apurado em operação de substituição de ações ou quotas de participação societária (ou seja, sem “pagamento” em dinheiro), mas, quando de sua conversão na Lei n° 12.973, de 2014, tal vedação não foi mantida no art. 22 da referida lei; ora, se a vedação contida no inciso III do § 1º do art. 21 da MP n° 627, de 2013, não foi mantida é porque o legislador reconheceu a total desnecessidade de “pagamento em dinheiro” como requisito para a amortização fiscal do ágio; Do entendimento da E. Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF quanto à existência de uma aquisição geradora de custo (ágio) nas operações de incorporação de ações n) argui que o CARF já se manifestou no sentido de que o reflexo tributário destas operações corresponde à verificação de um ganho de capital para as pessoas físicas dos acionistas que têm as suas ações incorporadas (Acórdão nº 920200.662, de 2010); aquilo que para o alienante é ganho ou renda, para o adquirente Fl. 3179DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.166 29 é custo ou despesa; caso exista o auferimento de renda na operação sob análise, esta poderia, quando muito, vir a ser tributada a título de ganho de capital apenas nos acionistas pessoas físicas da Impugnante, sendo certa e inquestionável a apuração do ágio posteriormente amortizado pela Impugnante; Isonomia com tratamento fiscal do deságio: hipótese de deságio o) caso a aquisição da participação societária tivesse ocorrido por valor inferior ao valor de patrimônio líquido, a Impugnante teria reconhecido um deságio nos termos do art. 385, II, do RIR de 1999; este deságio, quando fundamentado na expectativa de rentabilidade futura (inciso II do § 2º do art. 386 do RIR de 1999) deveria ser amortizado e tributado durante 5 anos subsequentes à incorporação; a RFB manifestou entendimento de que este deságio deveria ser tributado ainda que decorresse de uma operação interna, matéria analisada pelo CC no Acórdão nº 10807.684; logo, as autoridades fiscais, partindo do falso pressuposto de que se trata de “ágio interno”, inadmitem a possibilidade da respectiva amortização, em evidente tratamento desigual em situações idênticas; Da possibilidade de amortização de ágio apurado em operações com “partes dependentes” (ágio interno – jurisprudência do CARF) – vedação imposta somente com a publicação da Lei n° 12.973/2014 p) alega que, ainda que se considere, apenas por hipótese, que o ágio apurado em questão tenha decorrido de operação entre “partes dependentes” (“ágio interno”), a amortização fiscal do ágio apurado entre empresas do mesmo grupo estava, à época, claramente autorizada pela legislação tributária, uma vez inexistente qualquer vedação nesse sentido; destaca que Humberto Ávila concluiu que “a legislação aplicável em nenhum momento exige que as operações societárias capazes de gerar ágio devam ser feitas somente entre empresas independentes e mediante pagamento em dinheiro, sendo ilegal essa exigência por parte das autoridades fiscais, como ocorreu no caso presente”; q) tal entendimento é sobremaneira reforçado pela recente introdução da Lei n° 12.973, de 2014, a qual, em seu art. 22, disciplinou a amortização do ágio por rentabilidade futura decorrente da aquisição de participação societária entre partes não dependentes; referido artigo possibilita, em operações de incorporação, fusão ou cisão, excluir para fins de apuração do lucro real dos períodos de apuração subsequentes, o saldo do ágio existente na contabilidade na data do evento, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração, quando o ágio for decorrente de participação societária entre partes não dependentes, assim definidas no art. 25 da Lei n° 12.973, de 2014; se a referida lei restringiu, expressamente, a possibilidade de amortização do ágio Fl. 3180DF CARF MF 30 decorrente apenas de operações entre partes não dependentes, isso significa que a amortização fiscal do ágio apurado entre empresas do mesmo grupo foi autorizada pela legislação tributária até a sua entrada em vigor no ordenamento jurídico brasileiro; Do equívoco cometido pelas autoridades fiscais quanto à capitulação legal – inaplicabilidade do art. 299 do RIR/99 r) relata que, para justificar a suposta indedutibilidade do ágio decorrente da incorporação das ações da Impugnante pela G&K, as autoridades fiscais alegaram, com base no art. 299 do RIR de 1999, que a referida despesa não seria necessária e tampouco foi incorrida; sendo o art. 299 do RIR de 1999 norma geral de dedutibilidade, este não pode, por óbvio, ser sobreposto à norma específica que trata sobre a dedutibilidade dos encargos de amortização do ágio, prevista no art. 386, inciso III, § 2° do RIR de 1999; s) caso aplicável fosse o art. 299 do RIR de 1999 ao caso concreto, as autoridades fiscais deveriam obrigatoriamente esclarecer o por quê, a razão da desnecessidade da despesa de amortização do ágio, mas ela limitouse a afirmar “a despesa de amortização de ágio interno evidentemente não se enquadra no conceito de despesa necessária”, seja porque não teria sido “paga” e nem tampouco “incorrida”; ora, a desnecessidade da despesa não se presume, se prova, ainda que por capitulação legal; por outro lado, ao capitular o lançamento no art. 299 do RIR de 1999, as autoridades fiscais admitem que o ágio seria plenamente dedutível, independentemente de se tratar de ágio interno ou externo, uma vez que a regra em questão não limita ou condiciona a dedutibilidade da despesa à existência de partes relacionadas na transação. 12. Também alega inexistência de abuso de direito, ausência de dolo e fraude, falta de base legal para tributação da CSLL, inaplicabilidade da multa de ofício qualificada e da multa de ofício isolada, erro no cálculo da multa isolada e ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício: Da inexistência de abuso de direito a) destaca que a acusação relacionada ao abuso de direito foi trazida à tona pelos Agentes Fiscais com o objetivo exclusivo de caracterizar a responsabilidade solidária dos acionistas da Impugnante pela suposta prática de atos contrários à lei, conforme previsto no art. 135, III do CTN; tal acusação partiu da equivocada premissa de que o conjunto de operações societárias efetuadas acabou por proporcionar uma suposta redução indevida de tributos, uma vez que essas operações careceriam de substância econômica e propósito negocial, entendimento este corroborado no art. 187 do Código Civil; b) os Agentes Fiscais não comprovam que os eventos societários tiveram objetivo diverso do declarado ou que os direitos previstos na Lei n° 6.404, de 1976, ou mesmo na Lei n° 9.532, de 1997, foram exercidos para além de seus limites e respectivas finalidades econômicas e sociais; o ingresso de capital e a Fl. 3181DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.167 31 lucratividade alcançada ao longo do tempo por uma empresa, favorecendo o seu crescimento econômico, não pode estar atrelada a qualquer ato ilícito de seus administradores supostamente decorrente do exercício ilegal ou fora dos limites impostos pelas finalidades econômica e social dessa empresa; o conceito de abuso de direito previsto no art. 187 do Código Civil não pode ser construído sem uma leitura conjugada com o art. 188, I, do mesmo diploma, segundo qual o exercício regular de um direito não constitui ato ilícito; c) todos os procedimentos adotado pela Impugnante não estavam vedados em qualquer legislação brasileira vigente à época dos fatos e, eventual discordância do Fisco com relação aos procedimentos por ela adotados não poderá ser interpretada como se abuso de direito ou fraude fossem; também não há excesso à boafé da pessoa, e não é enganada a boafé do Fisco, quando a contribuinte age às claras, sem nada esconder, expondo ao crivo da fiscalização tudo o que fez; a distribuição dividendos e JCP são atos lícitos, posto que amparados nas Leis n°s 6.404, de 1976, e 9.249, de 1995 e não podem ser qualificados como supostamente abusivos pelas autoridades fiscais; Da ausência de dolo e fraude no caso concreto d) alega que os Agentes Fiscais não comprovaram, por meio de documentos hábeis ou da demonstração de patologias nos documentos hábeis que se lhes foram apresentados (falsificações, adulterações, etc.), que as declarações de vontade constantes dos documentos societários não eram efetivas; a conclusão das autoridades fiscais no TVE não deixa dúvidas de que o suposto dolo no caso concreto estaria presente somente pelo eventual benefício dos acionistas da Impugnante, ao afirmar que “a flagrante ação dolosa dos administradores, mais do que para a empresa, visou levar os maiores benefícios possíveis dela advindos para si próprios, às custas do erário público.”; e) não se fala em: (i) ocultação de informações; (ii) falta de vivência dos efeitos das operações praticadas; (iii) documentos inidôneos, adulterados ou falsificados; (iv) conduta ou atos contraditórios; (v) não apresentação de esclarecimentos durante o procedimento de fiscalização, enfim, estes ou quaisquer outros elementos clássicos aptos a caracterizar a vontade exclusiva de suprimir ou reduzir tributos de forma ilegal; eventual erro de preenchimento de informações ou divergência de critério utilizado na declaração dessas informações na DIPJ, no FCont ou em qualquer outro documento fiscal/contábil não pode ser interpretado (presumido) pelas autoridades fiscais como prova de dolo ou fraude a justificar a aplicação de multa qualificada e responsabilidade solidária para os acionistas da Impugnante; f) o dolo e a fraude decorrem legalmente da prática de atos jurídicos dissonantes da realidade, com falsa licitude, situação esta que em nenhum momento restou comprovada nos autos; Fl. 3182DF CARF MF 32 indaga como se pode falar em operações que tiveram por objetivo exclusivo a redução de tributos na presença de um investidor externo, que ingressou como acionista estratégico do Grupo Boticário dois anos antes e que veio a discordar da forma de expansão dos seus negócios, dando ensejo a um processo de cisão parcial seletiva na holding da qual participava; Da inexistência de previsão legal para a adição, na base de cálculo da CSL da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível pela fiscalização g) assevera que os ajustes na base de cálculo da CSL sempre foram previstos expressamente em lei e que o regime jurídico de apuração da base de cálculo da CSL está dissociado daquele previsto para o IRPJ; se assim não fosse, não haveria qualquer necessidade de o legislador estipular expressamente quais os ajustes necessários à apuração da base de cálculo da CSLL; assim, inexistindo previsão legal para adição da amortização do ágio ao lucro líquido, não se pode exigir da Impugnante qualquer quantia a título de CSLL, por absoluta ausência de previsão legal, sob pena de violação ao princípio da estrita legalidade em matéria tributária, consagrado no art. 150, I da Constituição Federal e art. 97, I, do CTN; Do cancelamento da multa qualificada por aplicação do art. 112 do CTN h) argumenta que nos primeiros lançamentos efetuados contra a Embralog e Cálamo (empresas do Grupo Boticário), decorrente do mesmo evento e fatos objeto dos presentes autos, a multa aplicada, à época, foi a de 75%; naquela oportunidade, ao contrário do que ocorrido nestes autos, não foi feita qualquer referência à pratica de atos com intuito doloso ou fraudulentos e nem foi determinada a atribuição de responsabilidade solidária aos acionistas da Impugnante; no entanto, é fato que nessa autuação fiscal as autoridades fiscais, na tentativa de justificar a multa qualificada e a responsabilidade solidária dos acionistas da Impugnante, sustentaram que a “flagrante ação dolosa dos administradores, mais do que para a empresa, visou levar os maiores benefícios possíveis dela advindos para si próprios, às custas do erário público”; i) nesse contexto de dúvida sobre a existência ou não dessas condutas, é certo que não se pode, dentre várias alternativas de apuração da verdade, admitirse que aquela menos favorável ao contribuinte é a verdadeira, pois pelo princípio da benigna ampliada, consagrado no art. 112 do CTN, deve prevalecer a seguinte diretriz: em caso de dúvida, deverá ser a lei tributária interpretada da maneira mais favorável ao contribuinte; Da impossibilidade de aplicação da multa isolada concomitante com a multa de ofício – dupla penalidade sobre a mesma suposta infração – recente entendimento sumulado pelo CARF (AC 2009) j) aduz que a aplicação concomitante da multa de ofício e da multa isolada prevista no art. 44 da Lei 9.430, de 1996, para os Fl. 3183DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.168 33 períodos de 2008 e 2009, duplamente sobre uma mesma suposta infração, configura o denominado bis in idem, absolutamente inadmissível em nosso ordenamento jurídico; Da inaplicabilidade da multa isolada em razão do encerramento do anobase quando da lavratura dos autos de infração k) como os recolhimentos efetuados com base na estimativa mensal nada mais são do que uma antecipação do tributo que será devido no encerramento do períodobase, entende que não pode prosperar a manutenção da cobrança das multas isoladas exigidas relativamente aos anosbase de 2008 e 2009, pois estes períodos já estavam encerrados quando da lavratura dos autos de infração em comento, razão pela qual não poderia a Autoridade Fiscal apurar o IRPJ e a CSLL devidos por estimativa para aplicação dessa penalidade; Do erro de cálculo cometido pelas autoridades fiscais na apuração da multa isolada incidente sobre a base de cálculo estimada do IRPJ e CSLL do período de 2009 l) ao efetuarem o lançamento, as autoridades fiscais não procederam para com a correta recomposição da base de calculo do IRPJ e da CSLL mensais, fazendo incidir o efeito da amortização do ágio, que deveria ter sido feito ao longo do ano de 2009, somente no mês de janeiro/2009; na recomposição da base de cálculo do IRPJ e da CSLL deveria ter sido considerada a amortização mensal do ágio no valor de R$ 2.013.529,27, o que faria que, em alguns meses, inexistisse a obrigatoriedade do recolhimento da estimativa mensal; Da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício m) alega que o art. 13 da Lei nº 9.065, de 1995, prevê a cobrança dos juros de mora com base na taxa Selic, remete ao art. 84 da Lei nº 8.981, de 1995, o qual, por sua vez estabelece a cobrança de tais acréscimos apenas sobre tributos; como a multa tem natureza de sanção, que é aplicada em decorrência do descumprimento de uma obrigação (principal ou acessória), estando, portanto, expressamente excluída do conceito de tributo indicado no art. 3º do CTN, a cobrança de eventuais juros sobre a multa desrespeita o princípio constitucional da legalidade, expressamente previsto nos arts. 5º, II, e 37 da Constituição Federal. 13. Ao final, no pedido, requer sejam acolhidas as razões de fato e de direito anteriormente aduzidas, com o consequente cancelamento integral do auto de infração ou, caso assim não seja entendido, subsidiariamente, o acolhimento dos pedidos a seguir, de forma isolada ou cumulada entre si, conforme o caso e em benefício da maior redução possível do valor do auto de infração: . seja cancelado o auto de infração por afronta ao art. 146 do CTN, uma vez que a matéria objeto dos presentes autos fora Fl. 3184DF CARF MF 34 definitivamente julgada pelo CARF, cuja decisão cancelou integralmente os mesmos créditos tributários objeto da presente autuação fiscal por força de erro de enquadramento legal (erro de direito) cometido pelas autoridades lançadoras, fato que desautoriza a reabertura de nova fiscalização, a revisão ou o reexame da matéria por meio de nova autuação fiscal; . seja reconhecida a decadência/preclusão do direito do Fisco questionar a legalidade dos atos societários que deram origem ao ágio apurado em 2006 (incorporação de ações – G&K) e sua respectiva dedução quando ocorrida a partir de 2008 (cisão parcial e seletiva da G&K seguida de versão do patrimônio cindido), uma vez que transcorridos cinco anos entre o fato que ensejou a apuração do ágio e a lavratura do auto de infração; . seja reconhecida a decadência do direito do Fisco em exigir os créditos tributários de IRPJ e CSLL do anocalendário de 2008, pela ausência de comprovação de dolo ou fraude no caso concreto que justifique a contagem do referido prazo decadencial pelo art. 173, I, do CTN, ao invés do art. 150, § 4º, do CTN; o cancelamento da multa qualificada por afronta ao art. 146 do CTN, tendo restado configurada a modificação dos critérios jurídicos adotados no exercício do lançamento; . o cancelamento da multa qualificada por aplicação do art. 112 do CTN, uma vez que restaram configuradas todas as hipóteses previstas nos incisos do referido dispositivo; . o cancelamento do lançamento em relação à CSL, uma vez que inexiste previsão legal que determine que os encargos com amortização do ágio ou mesmo que as despesas indedutíveis para fins de apuração do lucro real (base de cálculo do IRPJ), devem ser adicionados à base de cálculo da CSLL; . o cancelamento da multa isolada aplicada concomitante à multa de ofício, por configurar dupla penalidade sobre a mesma suposta infração cometida pela Impugnante, conforme entendimento sumulado pelo CARF (Súmula n° 105); . a exclusão dos juros sobre a multa de ofício aplicada ao caso concreto, por ausência de previsão legal e de plena conformidade com a jurisprudência administrativa a respeito do tema. Impugnação apresentada pelos responsáveis solidários 14. Regularmente intimados em 19/12/2014 (fls. 14081409 e 14/111412), os responsáveis solidários Artur Noemio Grynbaum e Miguel Gellert Krigsner, por intermédio de seus representantes legais (mandatos às fls. 14621463 e 15131514), apresentaram, em 19/01/2015, as tempestivas impugnações de fls. 14161458 e 14671509, instruídas com os documentos de fls. 14591466e 15101517, nas quais reiteram as alegações relativas à impossibilidade de nova autuação para fatos geradores já fiscalizados e autuados por meio do processo nº 10980.722215/201294, inexistência de abuso de direito, ausência de dolo e fraude e ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício constantes da defesa apresentada pela interessada e acrescentam as alegações a seguir sintetizadas: Fl. 3185DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.169 35 Da nulidade do lançamento por nova violação ao art. 146 do CTN no que se refere à atribuição de sua responsabilidade solidária a) argumenta que além da Impugnante, outras empresas do grupo econômico foram também autuadas pelas mesmas razões e pelos mesmos Agentes Fiscais que lavraram o presente (segundo) auto de infração contra a ora Impugnante; ocorre que, tanto no primeiro auto de infração lavrado contra a Embralog, quanto no primeiro lançamento efetuado contra a Cálamo, não foi atribuída a responsabilidade solidária dos acionistas das empresas; se à época não houve atribuição de responsabilidade solidária dos acionistas, qualquer outra interpretação posterior desses mesmos fatos representa, sem dúvida alguma uma nova interpretação das autoridade fiscais, com violação ao art. 146 do CTN; Da total inaplicabilidade do art. 124, I do CTN ao caso concreto b) argumenta que o Impugnante foi responsabilizado solidariamente pelos créditos tributários supostamente devidos nos autos do presente processo administrativo com fundamento no art. 124, I, do CTN; contudo, discorda do raciocínio de que o simples fato de o Impugnante ser acionista da Botica e dela ter recebido dividendos e juros sobre o capital próprio seria suficiente para caracterizar o “interesse comum” a que se refere o art. 124, I, do CTN, pois caso a interessada apurasse prejuízo não mais haveria “interesse comum” a ensejar a responsabilidade solidária do Impugnante; c) a responsabilidade solidária prevista no art. 124, I, do CTN, não se atribui de forma “presumida”, simplesmente pelo suposto “interesse econômico” entre os acionistas pessoas físicas e a pessoa jurídica; o “interesse comum” a que se refere o dispositivo não pode ser confundido com “interesse econômico” dos acionistas na lucratividade da pessoa jurídica, pois está relacionado com o interesse jurídico na constituição do fato gerador; o interesse comum somente estará presente quando duas ou mais pessoas pratiquem conjuntamente um determinado fato gerador e sejam, todas elas, sujeitos passivos do mesmo tributo; nesse sentido, os acionistas não podem ser automaticamente considerados coobrigados solidários de sociedade das quais participem, posto que não são sujeitos passivos do IRPJ e CSLL e não têm a menor condição ou capacidade jurídica de praticar o fato gerador desses tributos; d) a solidariedade não é um tipo de sujeição passiva por responsabilidade indireta, nem tampouco é uma forma de inclusão de um terceiro no pólo passivo da obrigação tributária; os devedores solidários são aqueles que efetivamente realizam o fato gerador de forma conjugada e que sejam, ambos, sujeitos passivos do mesmo tributo, conforme decidiu o antigo Conselho de Contribuintes e o CARF (Acórdãos nºs 10421.662, 102 49.245 e 120100.217); Fl. 3186DF CARF MF 36 Da ausência de responsabilidade prevista no artigo 135, III, do CTN e) argui que para a imputação da responsabilidade os Agentes Fiscais afirmaram que o Impugnante teria agido, na qualidade de administrador da Botica, de forma dolosa com o objetivo de reduzir a carga tributária; contudo, não há a menor possibilidade de as operações em questão terem sido realizadas com tal propósito, uma vez que: (i) as operações ocorridas no caso concreto estavam inseridas em um contexto muito maior de reestruturação do Grupo Boticário; (ii) tais operações ostentaram propósito negocial específico, devidamente declarado e comprovado; (iii) houve plena vivência dos efeitos das operações e congruência em outros ambientes; f) a condição para a atribuição da responsabilidade é a prática de atos com infração de lei, mas isso não foi demonstrado pelos Agentes Fiscais, que se limitaram a invocar o dispositivo genérico do art. 187 do Código Civil, que trata do abuso de direito, combinado com o art. 142 do CTN, segundo o qual a atividade de lançamento é vinculada à lei; supondo que a lei tida por violada seja o art. 187 do Código Civil, ele não se presta a justificar a atribuição de responsabilidade com base no art. 135, III do CTN, pois as condutas nesta descritas são típicas do direito societário; g) com efeito, o art. 10 do Decreto n° 3.708, de 1919, responsabilizava ilimitadamente os sóciosgerentes por atos praticados com excesso de mandato e violação do contrato ou da lei; no âmbito das sociedades por ações, o art. 121, § 1º, do DL n° 2.627, de 1940, previa que os diretores não eram responsáveis pelas obrigações que contraíssem em nome da sociedade e em virtude de ato regular de gestão, respondendo, porém, civilmente, pelos prejuízos que causassem quando procedessem, dentro de suas atribuições ou poderes, com culpa ou dolo ou com violação da lei ou dos estatutos; h) o art. 135, III, do CTN, por sua vez, acabou reunindo elementos desses dois diplomas legais: colheu o termo excesso previsto no art. 10 do Decreto n° 3708, de 1919, suprimindo a palavra mandato, ligandoo à palavra poderes prevista no art. 121, § 1º, I, do DL n° 2627, de 1940, dai a responsabilidade tributária por excesso de poderes; a supressão da palavra mandato, devese ao fato de que, à época, a teoria contratualista ou do mandato, que procurava explicar a relação entre os administradores e a pessoa jurídica, já havia sido superada pela teoria organicista, segundo a qual os administradores agem como verdadeiros órgãos da pessoa jurídica; i) o mesmo ocorre com a expressão infração de lei, contrato social ou estatutos, pois o contrato social referese às sociedades por quotas de responsabilidade limitada (art. 10 do Decreto n° 3708, de 1919), o estatuto às sociedades por ações (art. 121, § 1º, II do DL n° 2.627, de 1940) e a infração de lei a ambos os diplomas; o art. 135, III, do CTN só não acolheu a culpa e o dolo previstos no art. 121, § 1º, I, do DL n° 2.627, de 1940, porque esses dois elementos foram utilizados nos artigos seguintes (arts. 136 e 137), em outra seção do código, para Fl. 3187DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.170 37 definir a responsabilidade por infrações; é neste contexto que se insere a aplicação do art. 135, III, do CTN, ou seja, a responsabilização de administradores somente tem cabimento quando estes pratiquem atos que impliquem infração de lei societária e não do Código Civil; j) ao justificar a aplicação do art. 135, III, do CTN com base em Parecer emitido pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (Parecer/PGFN/CRJ/CAT n° 55/2009), as autoridades fiscais disseram, de forma extremamente genérica e inexata, que a infração de lei estaria demonstrada “neste termo”, sem qualquer maior pormenorização; mais uma vez as autoridades fiscais se esquivaram de apontar, com precisão, qual dispositivo de lei societária teria sido violada pelo Impugnante; assim, também não há como prosperar a atribuição de responsabilidade solidária com base no art. 135, III do CTN ao caso concreto; Do pedido k) ao final requer seja julgada totalmente procedente a impugnação apresentada, com a consequente exclusão na qualidade de responsável solidário para os créditos tributários de IRPJ e CSL objeto dos autos de infração lavrados em face da Botica, uma vez que: . houve modificação do critério jurídico adotado em relação a autuação fiscal anterior, nos autos do processo administrativo nº 10980.7222215/201294, o qual já foi julgado de forma definitiva pelo CARF, com decisão de mérito que cancelou integralmente a autuação fiscal e a atribuição de responsabilidade solidária dos impugnantes; . houve modificação do critério jurídico adotado em dois lançamentos anteriores, nos quais não foi atribuída a responsabilidade solidária em relação ao Impugnante (primeiros autos de infração lavrados contra a Embralog e Cálamo); . não restaram comprovadas as hipóteses previstas nos art. 124, I, e 135, III, do CTN, especialmente porque não houve, no caso concreto, a efetiva demonstração de abuso de direito, dolo e fraude e, nem tampouco, qualquer infração à lei; . caso não seja esse o entendimento desta C. Turma Julgadora, requer, de forma subsidiária, a exclusão dos juros de mora incidentes sobre a multa de ofício. O acórdão recorrido apresenta as seguintes ementas que resumem a decisão prolatada: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2008, 2009 NULIDADE DO LANÇAMENTO FISCAL. Além de não se enquadrar nas causas enumeradas no artigo 59 do Decreto nº 70.235, de 1972, e não se tratar de caso de Fl. 3188DF CARF MF 38 inobservância dos pressupostos legais para lavratura do auto de infração, é incabível falar em nulidade do lançamento quando não houve transgressão alguma ao devido processo legal. NULIDADE. MODIFICAÇÃO DO CRITÉRIO JURÍDICO. NOVO LANÇAMENTO FISCAL. A alteração do critério jurídico adotado pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser aplicada, em relação a um mesmo sujeito passivo, para fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução; somente ocorre mudança do critério jurídico quando forem verificadas duas condições concomitantes: (i) que a Autoridade Fiscal tenha inicialmente aplicado a lei utilizandose de uma interpretação para efetuar o lançamento fiscal e, depois, de outra para realizar novo lançamento, no mesmo período de apuração, sem que se possa dizer que qualquer das duas interpretações seja incorreta; e (ii) que a exigência se refira a um mesmo fato gerador, pois se houver apuração de fatos novos não se pode pretender ter existido mudança de critério jurídico. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008, 2009 AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO INTERNO. FUNDAMENTO ECONÔMICO EM EXPECTATIVA DE RENTABILIDADE FUTURA. EMPRESA VEÍCULO. OPERAÇÕES SOCIETÁRIAS ESTRUTURADAS EM SEQUÊNCIA. TRANSAÇÃO DOS SÓCIOS COM ELES MESMOS. AUSÊNCIA DE SUBSTÂNCIA ECONÔMICA. É descabida a amortização pela interessada do ágio interno, com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, apurado pela empresa veículo sobre o próprio patrimônio líquido da interessada, mediante operações societárias estruturadas em sequência dentro do grupo econômico, pois não é possível reconhecer uma maisvalia de um investimento quando originado de transação dos sócios com eles mesmos, haja vista a ausência de substância econômica e de não resultar de um processo imparcial de valoração, num ambiente de livre mercado e de independência entre as duas companhias. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. RECUPERAÇÃO DO VALOR PAGO ANTECIPADAMENTE POR CONTA DA EXPECTATIVA DE RENTABILIDADE FUTURA. É condição indispensável para apuração do ágio que haja sempre um preço ou custo de aquisição, ou seja, um dispêndio para se obter algo de terceiros; o ágio por expectativa de rentabilidade futura deve ser amortizado dentro do período a que se referem os lucros futuros, observado o prazo mínimo de 60 meses, porquanto a realização dessa riqueza não configura um ganho para o investidor, pois este já pagou antecipadamente por ela, mas a recuperação do capital aplicado na aquisição da participação, fato que autoriza a sua amortização. Fl. 3189DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.171 39 ÁGIO INTERNO APURADO SOB JUSTIFICATIVA DE REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA. OPERAÇÕES SOCIETÁRIAS ESTRUTURADAS EM SEQUÊNCIA. CRIAÇÃO DE CONDIÇÕES ARTIFICIAIS PARA JUSTIFICAR A APURAÇÃO DO ÁGIO INTERNO PELA EMPRESA VEÍCULO. Independentemente das razões e dos propósitos almejados com a reorganização societária do grupo econômico, é inegável que as operações societárias estruturadas em sequência, com utilização de empresa veículo, ainda que no prazo de quase dois anos, criaram condições artificiais para justificar a apuração de ágio interno, com finalidade de gerar ganhos indevidos de natureza tributária; a liberdade de autoorganização não endossa a prática de atos sem motivação negocial, pois o ágio amortizável de que trata o art. 7º, III, da Lei nº 9.532, de 1997, é aquele em que houve um efetivo dispêndio ou ônus assumido por terceiro em um processo imparcial de valoração, num ambiente de livre mercado e de independência entre as partes. OPERAÇÕES INTRAGRUPO. INTEGRALIZAÇÃO DO AUMENTO DO CAPITAL DA EMPRESA VEÍCULO. PAGAMENTO EFETUADO POR NOVO SÓCIO. OPERAÇÃO DISTINTA DA QUE DEU CAUSA AO SURGIMENTO DO ÁGIO INTERNO. A integralização do capital social da empresa veículo realizada por novo sócio estratégico constitui operação distinta da que deu causa à geração do ágio interno e é insuficiente para descaracterizar como intragrupo as operações societárias analisadas nos presentes autos; além de o aporte de R$ 50.000.000,00 realizado pelo novo sócio ser irrisório e totalmente insignificante diante do valor de avaliação de R$ 2.026.298.966,40 pelo qual as ações das empresas operacionais do grupo econômico foram recebidas na integralização do aumento do capital da empresa veículo, com base em laudo de avaliação elaborado sobre a expectativa de rentabilidade futura, o pagamento realizado pelo novo investidor não deu causa ao surgimento do ágio de R$ 1.776.161.561,96 apurado pela referida empresa veículo. CONSTITUIÇÃO DA PROVISÃO IN CVM 319/1999 E 349/2001. DESPESA INDEDUTÍVEL ADICIONADA NA PARTE “A” DO LALUR DA EMPRESA VEÍCULO. CONTROLE INDEVIDO NA PARTE “B” DO LALUR PARA EXCLUSÃO EM PERÍODO FUTURO. Uma provisão é utilizada para registrar uma provável despesa futura, mas somente são dedutíveis as provisões com dedutibilidade expressamente autorizada pelos artigos 335 a 338 do RIR de 1999; a despesa com constituição de provisão não expressamente autorizada deve ser adicionada na parte “A” do Lalur para ser posteriormente excluída no período em que a despesa provisionada for efetivamente incorrida, porquanto tal despesa seria nesse momento dedutível, desde que devidamente comprovada e estejam atendidos os requisitos da necessidade, Fl. 3190DF CARF MF 40 usualidade e normalidade no tipo de transação, operação ou atividades desenvolvidas pela empresa; contudo, a despesa com constituição da Provisão Instrução CVM 319/1999 e 349/2001 é indedutível não só por se tratar de provisão com dedutibilidade não autorizada pelos artigos 335 a 338 do RIR de 1999, mas também por se referir a despesa inexistente de ágio interno gerado artificialmente; como essa indedutibilidade não se restringe apenas ao período em que a provisão foi constituída pela empresa veículo, mas atinge todo e qualquer período de apuração posterior, a despesa com constituição foi corretamente adicionada na parte “A” do Lalur, mas não podia jamais ser controlada na parte “B” desse livro para exclusão em período futuro. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM COM A SITUAÇÃO QUE CONSTITUI O FATO GERADOR. ATOS PRATICADOS COM INFRAÇÃO DE LEI OU EXCESSO DE PODERES. Os sócios controladores devem compor o rol dos responsáveis solidários pelo crédito tributário em face de terem interesse comum com a situação que constitui o fato gerador da obrigação principal, porquanto tiveram participação ativa na concepção e execução do planejamento tributário levado a efeito para criação e amortização indevida do ágio interno; também devem ser responsabilizados por atos praticados com infração de lei ou excesso de poderes, pois, na condição de acionistas administradores, criaram condições artificiais para justificar a amortização indevida pela interessada de ágio constituído sobre o seu próprio patrimônio líquido, mediante operações estruturadas em sequência e com aparência de negócios jurídicos legítimos e válidos, mas desprovidos de causa. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2008, 2009 BASE DE CÁLCULO. RESULTADO DO EXERCÍCIO AJUSTADO PELAS ADIÇÕES, EXCLUSÕES E COMPENSAÇÕES AUTORIZADAS PELA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. DESPESA INEXISTENTE COM AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO INTERNO. Considerando que a base de cálculo da CSLL é o valor do resultado do exercício, antes da provisão para o imposto de renda, ajustado pelas adições, exclusões e compensações autorizadas pela legislação tributária, e tendo em vista que na apuração desse resultado do exercício devem ser considerados apenas os custos, despesas, encargos e perdas correspondentes às receitas e rendimentos auferidos no período, não há como se acatar a dedução de uma despesa inexistente, com amortização do ágio interno, para fins de determinação do resultado do exercício e, em consequência, de apuração da base de cálculo dessa contribuição. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2008, 2009 Fl. 3191DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.172 41 POSSIBILIDADE DE FISCALIZAÇÃO DE FATOS OCORRIDOS EM PERÍODOS ANTERIORES. DECADÊNCIA. EFEITOS TRIBUTÁRIOS COM REPERCUSSÃO EM EXERCÍCIOS FUTUROS. Os contribuintes estão sujeitos à fiscalização de fatos ocorridos há mais de cinco anos, ainda que não seja mais possível efetuar exigência tributária, em face da decadência, quando houver repercussão de seus efeitos em exercícios futuros ainda não decaídos; assim, não há como se iniciar a contagem do prazo decadencial no momento da constituição do ágio interno, pois não havia ainda crédito tributário algum a ser constituído; apenas com o início da exclusão no Lalur dos encargos com amortização do ágio interno passou a haver redução indevida do resultado tributável, quando, então, foi iniciada a contagem do prazo decadencial do direito de a Fazenda Pública efetuar o pertinente lançamento de ofício, inclusive com a correspondente multa de ofício. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. Aplicável a multa qualificada de 150% quando caracterizado o intuito de fraude para possibilitar à contribuinte a amortização de ágio gerado artificialmente sobre o seu próprio patrimônio líquido, pois os sócios da contribuinte estavam perfeitamente conscientes da falta de propósito negocial do ágio gerado em operações realizadas intragrupo, em transações que não se revestem de substância econômica e da indispensável independência entre as partes. MULTA DE OFÍCIO ISOLADA. FALTA OU INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO DA CSLL MENSAL DEVIDA POR ESTIMATIVA. A falta ou insuficiência de recolhimento do imposto mensal devido por estimativa, por pessoa jurídica que optou pela tributação com base no lucro real anual, enseja a aplicação da multa de ofício isolada de 50%; no entanto, tendo ocorrido erro na determinação da multa de ofício isolada, porquanto foi incorretamente considerado no mês de janeiro/2009 o montante do encargo anual da amortização do ágio interno, quando deveria ter considerado o encargo mensal em cada um dos meses do anocalendário de 2009, é de se cancelar a exigência correspondente. JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. Considerando que entre os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Receita Federal do Brasil, se incluem a multa de lançamento de ofício, esta fica sujeita à incidência de juros moratórios se não for recolhida em seu termo, ou seja, depois de trinta dias da notificação do sujeito passivo do lançamento. E o decisum: Fl. 3192DF CARF MF 42 Acórdão Acordam os membros da 1ª Turma de Julgamento, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares de nulidade e de preclusão do direito de o Fisco questionar a legalidade dos atos que deram origem ao ágio amortizado; no mérito, decidem julgar procedente em parte o lançamento, mantendo R$ 1.452.311,61 de Imposto de Renda Pessoa Jurídica – IRPJ e R$ 1.126.837,10 de Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido – CSLL, acrescidos das respectivas multas de ofício de 150% e dos acréscimos legais, e cancelando as multas de ofício isoladas de IRPJ (R$ 2.657.257,24) e CSLL (R$ 986.712,25); foi mantida a atribuição de responsabilidade solidária em nome dos sócios Miguel Gellert Krigsner e Artur Noemio Grynbaum. Intimese para pagamento do crédito mantido no prazo de 30 dias da ciência, salvo interposição de recurso voluntário ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, em igual prazo, conforme facultado pelo art. 33 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, alterado pelo art. 1º da Lei nº 8.748, de 9 de dezembro de 1993, e pelo art. 32 da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002. Submetase à apreciação do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, de acordo com o art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e alterações introduzidas pela Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de1997, e Portaria MF nº 3, de 3 de janeiro de 2008, por força de recurso necessário. A exoneração do crédito procedida por este acórdão só será definitiva após o julgamento em segunda instância. Os três Recorrentes foram intimados do acórdão da 1ª Turma da DRJ de Curitiba em 2 de junho de 2016, conforme documentos de folhas 2786 a 2788, e apresentaram Recurso Voluntário a este Conselho em 1º de julho do mesmo ano. A Botica renova os argumentos apresentados na impugnação, atacando diretamente o acórdão em alguns momentos, motivo que remete o exame de suas razões diretamente para o voto, juntamente com os argumentos trazidos nos recursos dos dois sócios administradores. É o relatório. Voto Conselheiro Carlos Cesar Candal Moreira Filho Relator Os três recursos voluntários são tempestivos e preenchem os demais requisitos de admissibilidade, portanto, deles conheço. RECURSO DE OFÍCIO O acórdão recorrido afasta a multa isolada, tanto de IRPJ quanto de CSLL, uma vez que teria sido lançada de forma consolidada no mês de Janeiro de 2009, ao invés de mês a mês, como se vê nos documentos de folhas 1131 a 1134. Fl. 3193DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.173 43 Notase que o registro da despesa com amortização de ágio foi feito no FCont consolidando toda a despesa do ano no mês de janeiro de 2009 (fl. 1130) mas a registro no Lalur foi feito mensalmente, como se vê às folhas 293 a 327. A fiscalização entende que deve prevalecer o registro em FCont sobre os efetuados no Lalur, todavia entendo que o lançamento devia considerar o erro cometido pela Empresa no registro único e dar relevo ao trato mensal, como faz crer o registro no Lalur, conforme entendeu o acórdão atacado. Assim, nego provimento ao recurso de ofício. RECURSO DA BOTICA COMERCIAL FARMACÊUTICA LTDA. Primeiramente, devo manifestar minha discordância ante a alegação de que a Fiscalização teria subdividido o ágio em "maior" e "menor" no intuito de justificar que o primeiro acórdão que exonerou a Empresa dos créditos tributários por erro no lançamento (glosa de exclusão de provisão CVM ao invés de glosa de despesas com amortização de ágio), apenas teria apreciado os fatos que envolvem o "ágio menor". O objetivo claro das autoridades administrativas foi justificar, sim, o não lançamento do dito "ágio menor", pela vinculação e obrigatoriedade que tem de constituir o crédito tributário, uma vez que seria feito da mesma forma que o primeiro lançamento. Isto porque o "ágio menor" se refere à parcela já amortizada na G&K Holding, antes de sua cisão, e transferida para a Botica pela parte B do Lalur, não interando nenhum lançamento contábil. Assim, a exclusão era em função do próprio controle no Lalur, motivo pelo qual era a única forma de lançamento. PRELIMINARES: 1) IMPOSSIBILIDADE DE NOVA AUTUAÇÃO PARA FATOS GERADORES JÁ FISCALIZADOS E AUTUADOS Sustenta a Empresa que o erro de direito não autoriza uma nova autuação fiscal, e que esta posição encontraria respaldo na doutrina, jurisprudência e na legislação, em especial no artigo 146 do CTN. Cita vários doutrinadores de renome que defendem esta impossibilidade. Diz que, contrariamente ao que afirma o acórdão recorrido, não alega que o erro de direito seria o mesmo que mudança de critério jurídico, mas que, nos casos de erro de direito, o que de fato ocorreu neste caso, o ato administrativo de lançamento tributário temse imodificável, não podendo ser revisto por meio de uma nova autuação fiscal em respeito ao princípio da proteção á confiança e á segurança jurídica, encartado no artigo 146 do CTN (transcreve jurisprudência administrativa e judicial). Com a devida vênia, o entendimento da Recorrente está equivocado. Ela afirma em sua defesa: "Em outras palavras, se houve erro de direito (erro no enquadramento legal), o lançamento fiscal anterior não poderia ter sido revisto a favor do Fisco e em prejuízo da Recorrente. Se o lançamento fiscal anterior foi lavrado com algum desconhecimento da lei por parte das autoridades fiscais quanto ao entendimento e aplicação dos preceitos normativos aos fatos fiscalizados, não poderá ser reexaminado a Fl. 3194DF CARF MF 44 qualquer tempo e a qualquer pretexto para que a correta fundamentação legal possa ser aplicada". Destaco, inicialmente, que não estamos tratando da situação do artigo 145, III do CTN, que trata da iniciativa da autoridade administrativa de alterar o lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo, mas de decisão transitada em julgado administrativamente e objeto de nova ação fiscal, autorizada pelo Superintendente, e novo lançamento. Também não estamos tratando de lavratura de auto de infração por pessoa incompetente ou com preterição do direito de defesa, não havendo subsunção do caso ao artigo 59 do Decreto nº 70.235, de 1972, e o auto de infração contém todos os elementos caracterizadores de sua validade (art. 10 do Decreto nº 70235, de 1972). No caso presente, não houve decisão anterior efetiva quanto ao mérito do caso: a criação de um ágio sem substância econômica, por meio de uma empresa veículo, entre empresas de um mesmo grupo econômico, sem movimentação financeira, cujas decisões foram tomadas pelos mesmos dois sócios administradores em nome de todas as empresas envolvidas. O que houve foi a constatação de que a Fiscalização não poderia, para corrigir a fraude, operar a glosa de exclusão da provisão da Instrução CVM 119, mas deveria ter glosado a despesa com a amortização do ágio (decisão no processo nº 10980.722215/2012 94). E falo fraude porque entendo que o fato está plenamente enquadrado na situação prevista no artigo 72 da Lei nº 4.506, de 1964, in verbis: Art . 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. A criação do ágio se deu sob o comando dos dois sócios e intencionalmente, dolosamente, sendo alterada característica essencial do fato gerador, com uma despesa falsa e inexistente, diminuindo o valor do imposto. Isto ficará bem claro em tópico adiante. Voltando à tese da Recorrente de impossibilidade de novo lançamento, aqui temos, ao contrário do que defende, a obrigação funcional de realizar o novo lançamento, por obediência ao artigo 149 do CTN, ad litteram: Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: (...) VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; (...) E não podemos esquecer do parágrafo único do artigo 142 do mesmo código: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência Fl. 3195DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.174 45 do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Então estaríamos convivendo com uma obrigação legal expressa, direcionada à autoridade administrativa, e uma proibição criada pela doutrina, por aplicação, com a devida vênia, indevida do artigo 146 do CTN, que não trata de outra matéria se não os casos de modificação de critérios jurídicos, em respeito ao princípio da confiança e da não surpresa. Esta obrigatoriedade legal já é suficiente para o afastamento da tese da Recorrente, mas ainda quero manifestar meu entendimento contrário à doutrina invocada. A tese seria a de que não há previsão no artigo 149 de lançamento nos casos erro de direito, e que isto seria devido ao princípio da segurança jurídica, com suporte no artigo 146 do CTN. Acima já ficou demonstrado que há previsão no artigo 149 do CTN e que o lançamento é obrigação da autoridade administrativa, mas ainda que esta não existisse, a convalidação de uma fraude jamais pode representar segurança jurídica, mas estímulo à continuidade delituosa. E esta continuidade pode ser bem exemplificada no caso presente, pois o histórico do grupo Boticário demonstra que a criação artificial de ágio era uma rotina nas atividades do conglomerado. Se não, vejamos: 01/05/2002 – a Aerofarma Perfumarias incorpora a Essência Natural do Nordeste também pertencente ao grupo, com “ágio” de R$ 619.093,90; – 01/08/2002 – novamente a Aerofarma Perfumarias incorpora a Floratta Perfumes, do mesmo grupo, com “ágio” de R$ 1.870.024,80; – 01/09/2003 – a Aerofarma Perfumarias incorpora a MCB Multicanal O Boticário com “ágio” de R$ 1.589.362,20; – 30/11/2003 – a EEEstação Empreendimentos e Participações aumentou o investimento no Shopping Estação com “ágio” de R$ 1.168.982,33; – 18/12/2003 – criada a BPBoticário Participações com quotas da Aerofarma Perfumarias avaliadas com “ágio” de R$ 5.017.185,03 e com ações da OBF avaliadas com “ágio” de R$ 25.168.634,90; – 01/11/2004 – cisão total da BPBoticário Participações com o retorno do “ágio” de R$ 5.017.185,03 para a Aerofarma Perfumarias e do “ágio” de R$ 25.168.634,90 para a OBF; Fl. 3196DF CARF MF 46 – 21/08/2006 – redução do capital social da OBF no valor correspondente às quotas da Botica, da Cálamo e da Embralog, que foram distribuídas aos acionistas administradores destas, Miguel Gellert Krigsner e Artur Noemio Grynbaum – por sinal, também acionistas administradores da OBF –, saindo, portanto, as referidas empresas do controle da primeira; – 01/09/2006 – a Cálamo promove a incorporação total da EE Estação Empreendimentos e Participações (extinta), passando, em consequência, a controlar o Shopping Estação e o Estação Convention Center; nesta oportunidade, migrou para a Cálamo o “ágio” de R$ 1.168.982,33 que a EE tinha registrado em relação ao Shopping; – 18/09/2006 – constituída a G&K Holding S.A., com capital de R$ 1.000,00; – 01/11/2006 – a Cálamo faz a incorporação total do Estação Convention Center (extinto); – 18/12/2006 – a G&K incorpora as ações da Botica com “ágio” de R$ 206.481.363,56 (tal como vemos no presente trabalho), da Cálamo com “ágio” de R$ 1.011.690.937,33, da Embralog com “ágio” de R$ 6.247.393,50 e da OBF com “ágio” de R$ 551.741.868,57 (total dos “ágios” igual a R$ 1.776.161.561,96); – 02/05/2007 – a Cálamo incorpora totalmente o Shopping Estação (extinto); – 03/11/2008 – cisão parcial da G&K, permanecendo com apenas 1% das ações da Botica, Cálamo, Embralog e OBF e retornando a estas o restante das ações e os respectivos “ágios” não amortizados pela G&K, no montante de R$ 1.712.915.038,45, bem como os respectivos “ágios” amortizados pela cindida, porém por ela não deduzidos, no total de R$ 45.944.351,39, e que passaram a ser deduzidos nas 4 ex subsidiárias; – 01/12/2010 – a GKDS Assessoramento em Produtos de Beleza incorpora a Aerofarma Perfumarias mudando sua denominação para Interbelle Comércio de Produtos de Beleza; – 31/07/2012 – cisão parcial da Botica, tendo a parte cindida – representada pela Interbelle Comércio de Produtos de Beleza – migrado para o controle da Cálamo com “ágio” de R$ 91.122.881,75; – 31/10/2012 – cisão total da KRGR Administração e Participações Ltda em duas parcelas, uma delas incorporadas pela Cálamo, com “ágio” de R$ 30.318.949,47, e a outra pela OBF, com “ágio” de R$ 15.136.326,88 (total dos “ágios” igual a R$ 45.455.276,35). Como vemos, entre 2002 e 2012, com várias operações societárias dentro do conglomerado, o Grupo Boticário criou, sem nenhum pagamento ou movimentação financeira, um ágio de R$1.930.870.825,00 (um bilhão, novecentos e trinta milhões, oitocentos e setenta mil, oitocentos e vinte e cinco reais), valores estes que não interferiram na contabilidade, pois que estão proibidos de ser ativados, tampouco no resultado contábil, permitindo a distribuição Fl. 3197DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.175 47 de resultados como se não existissem, pela obrigatoriedade de constituição de provisão, conforme Instrução CVM nº 319, de 1999. O valor fictício de ágio serviu para uma finalidade: lesar o Fisco. É esta mesma instituição que afirma obedecer as melhores práticas de governança corporativa. Voltando à pretendida aplicação do artigo 146 do CTN como impeditivo de novo lançamento, vejamos o seu teor: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução.(grifei) Critério jurídico não tem nenhuma relação com erro de direito. Como bem assevera o voto condutor do acórdão recorrido, o professor Hugo de Brito Machado nos ensina a diferença entre erro de direito e modificação de critério jurídico (São Paulo: Revista dos Tribunais, 1993, págs. 111 e 112): Sem a pretensão de haver superado as dificuldades que o problema inegavelmente envolve, diremos que o “erro de direito” se caracteriza quando, ou não seja aplicada a lei, ou a má aplicação desta seja notória e indiscutível, i.e., quando não se possa afirmar que o lançamento foi elaborado nos termos das normas a ele efetivamente aplicáveis. Ou porque houve desconhecimento da norma, ou porque foi a norma interpretada de maneira inteiramente inaceitável. Já a mudança de critério jurídico se caracteriza pela simples utilização de critério jurídico diverso na interpretação, vale dizer, a substituição de uma interpretação por outra, sem que se possa dizer que qualquer das duas seja incorreta. Exemplo de mudança de critério jurídico é o que se deu com o art. 3º, § 3º, do Decretolei nº 406, de 31.12.1968. A expressão “valor do produto resultante de sua industrialização”, existente na parte final daquele dispositivo legal, foi inicialmente interpretada como “custo do produto”. Depois passou a ser entendida como “preço de venda” do produto. Ambas as interpretações constaram de atos normativos expedidos pelas autoridades “competentes”. E a conseqüência prática dessa mudança de interpretação é importante para os contribuintes do ICM que exportam produtos industrializados, não se podendo de nenhum modo afirmar que qualquer das interpretações esteja errada. Há, entretanto, outra situação em que se destaca a “mudança de critério jurídico”. É a que ocorre quando a lei admite que a autoridade administrativa adote, na efetivação do lançamento, uma entre várias alternativas que expressamente indica, como Fl. 3198DF CARF MF 48 acontece com o art. 149 do vigente Regulamento do IR. Segundo referido dispositivo, a falta de escrituração, na forma das leis comerciais e fiscais, dá ao fisco a faculdade de arbitrar o lucro à razão de 30% sobre a soma do ativo imobilizado, disponível e realizável a curto e longo prazos, ou de 15% a 50% do capital, ou da receita bruta da pessoa jurídica. A autoridade administrativa tem, então, três alternativas: a) 30% do ativo; b) 15% a 50% do capital; e, finalmente, c) 15% a 50% da receita bruta. Poderá, observada a natureza do negócio, adotar a alternativa que lhe parecer mais conveniente aos interesses do Fisco. Entretanto, se vem adotando um critério na escolha dessas alternativas relativamente a determinados contribuintes, não pode modificar esse critério em relação a fatos geradores já consumados, relativos a esses mesmos contribuintes. E se fez o lançamento adotando uma das alternativas, evidentemente não poderá alterar tal lançamento mediante a escolha de outra. Essa forma de “mudança de critério jurídico”, consistente na utilização de alternativa legal diversa daquela que vinha sendo adotada, é inconfundível com qualquer espécie de erro. E não enseja a menor dificuldade em sua constatação. Ocorre toda vez que a autoridade administrativa adote, no lançamento, uma das alternativas que a lei estipula expressamente, e depois pretenda alterála mediante a escolha de outra daquelas alternativas. Está evidente a diferença e, também, está claro que se trata de proteção à confiança e à nãosurpresa, pois se o que se espera é que a conduta do contribuinte se adapte ao entendimento do Fisco, este não pode alterar seu entendimento ao sabor do vento, devendo respeitar, para o mesmo contribuinte, os fatos geradores já constituídos. Por outro lado, o erro de direito é a interpretação equivocada, a errada subsunção do fato à norma, a "escolha de moldura incorreta (norma) para o quadro que se tem (fato)". Não é a escolha entre duas forma corretas: mas a escolha da forma incorreta. Assim, a aplicação do artigo 146 ao erro de direito não satisfaz ao mínimo sentido de lógica, pois está evidente que ele não trata de impedir novo lançamento por erro de direito, mas de impedir a utilização de outro critério possível e correto de interpretação normativa, ou, como ensinado por Hugo de Brito, a escolha de um critério entre outros colocados à discricionariedade do agente público. A segurança jurídica prevalece sobre a justiça quando da proibição de lançamento após a decadência quinquenal, pois entendeu o legislador tratarse do período suficiente à ação do Fisco, pois o contribuinte não pode ficar eternamente esperando que crédito tributário inadimplido seja constituído e cobrado, mas impedir o lançamento por construção doutrinária equivocada, invocandose um artigo em clara dissonância com sua possível interpretação não diz respeito à segurança jurídica, mas, neste caso específico, à estímulo a torpeza. A Recorrente afirma que a intenção é proteger o ato jurídico perfeito, onde ati jurídico perfeito não há. A fraude jamais será um ato jurídico perfeito. Estamos diante de uma situação que diz respeito à coisa julgada administrativa: nenhum lançamento poderá ser realizado contrariando a decisão administrativa adotada no processo anterior. Assim, se decisão anterior apontasse para a não sujeição passiva Fl. 3199DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.176 49 da Contribuinte ao fato gerador, ele não poderia mais ser alvo de lançamento; tampouco se decidisse que não houve fato gerador. Mas não é o caso. Temos que entender e diferenciar as várias situações possíveis. No caso presente temos um erro técnico contábil, que a autoridade utilizou como remédio à fraude cometida. Nada relativo à existência do crédito tributário, à imprestabilidade do ágio, ao ágio interno, à empresa veículo, à proibição contábil de ativar o ágio, à condenação da CVM ao aumento patrimonial das Companhias com ágios sem substância econômica, á ilegalidade do ágio criado, ao ilícito cometido, nada em relação a isso foi decidido. Apenas que o remédio não foi o correto para anular os efeitos dessa fraude. Então, permanecendo a essência, que não foi atacada na decisão, nada obsta realizarse novamente o lançamento, aplicandose, desta vez, o remédio correto. Agora sim, serão discutidos os elementos centrais do crédito tributário, a existência da relação jurídica e da infração. Ao contrário, se a decisão fosse no sentido de não existir a relação jurídico tributária ou de não haver crédito tributário a ser lançado, por estar correta a conduta da empresa, nesse caso sim, não caberia o lançamento repetido. Pelos motivos expostos, afasto a preliminar. 2) DA DECADÊNCIA DO DIREITO DO FISCO QUESTIONAR A LEGALIDADE DOS ATOS SOCIETÁRIOS QUE ORIGINARAM O ÁGIO APURADO EM 2006 (INCORPORAÇÃO DE AÇÕES) E SUA RESPECTIVA DEDUÇÃO QUANDO OCORRIDA EM 2008 (CISÃO PARCIAL SELETIVA DA G&K SEGUIDA DE VERSÃO DO PATRIMÔNIO CINDIDO) Faço uso de manifestação sobre o tema do Ilustre Conselheiro Gustavo Guimarães da Fonseca no processo 10980.726765/201100, em situação semelhante relativo à Boticário Franchising, por representar meu entendimento sobre o assunto: Esta alegação não é nova, em especial em autuações relativas à amortização de ágio e cujas operações, usualmente, são praticadas há mais tempo (considerando, inclusive, o prazo de 5 anos para que se promova a predita amortização). O fato, contudo, é que a decadência a que alude o art. 150, §4º, do CTN (e também a contemplada pelo art. 173, I) referese ao direito de lançar o tributo uma vez verificada a ocorrência de seu fato gerador. Isto é, o quinquênio tratado nestes preceitos tem o seu termo a quo a partir da constituição (na sua acepção técnica) da obrigação tributária que, na hipótese em testilha, se dá com a concretização do fato signo presuntivo descrito na norma de incidência do IRPJ e, também, da CSLL, qual seja, a disponibilidade de renda e a apuração do lucro líquido, respectivamente. A decadência, pois, não abarca os fatos pretéritos que contribuam para a formação do fato imponível; a extinção a que alude o art. 156, V, do CTN é do direito de lançar o tributo e não do direito de examinar as premissas que detenham repercussão na formação da obrigação. Fl. 3200DF CARF MF 50 Neste sentido, a jurisprudência deste Conselho é praticamente uníssona, como se extrai das ementas abaixo reproduzidas: DECADÊNCIA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. CONTAGEM A PARTIR DA DEDUÇÃO. É legítimo o exame de fatos ocorridos há mais de cinco anos do procedimento fiscal, para deles extrair a repercussão tributária em períodos ainda não atingidos pela caducidade. A restrição decadencial diz respeito à impossibilidade de lançamento de crédito tributário no período em que ocorreu o fato gerador (RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE. Acórdão nº 9101003.059, sessão de 12/09/2017). DECADÊNCIA. CONTAGEM DO PRAZO. REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA. AFASTAMENTO. O prazo decadencial só se inicia após a ocorrência do fato gerador, sendo irrelevante a data da contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura. Deste modo, o prazo decadencial será pautado ou pela disposição do artigo 173, inciso I, do CTN ou do artigo 150, § 4º do mesmo diploma, porém, nunca pelo momento da reorganização societária, que não representa reflexo fiscal algum, num primeiro momento (RECURSO VOLUNTÁRIO. Acórdão nº 1402002.489, sessão de 16/05/2017) DECADÊNCIA. FORMAÇÃO DE ÁGIO EM PERÍODOS ANTERIORES AO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA. Somente pode se falar em contagem do prazo decadencial após a data de ocorrência dos fatos geradores, não importando a data contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura. O art. 113, § 1º, do CTN aduz que “A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador” e o papel de Fisco de efetuar o lançamento, nos termos do art. 142 do Estatuto Processual, nada mais é do que o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente. Não é papel do Fisco auditar as demonstrações contábeis dos contribuintes a fim de averiguar sua correição à luz dos princípios e normas que norteiam as ciências contábeis. A preocupação do Fisco deve ser sempre o reflexo tributário de determinados fatos, os quais, em inúmeras ocasiões, advém dos registros contábeis. Ressaltese o § 4º do art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972, prevê que seja efetuado o lançamento “também nas hipóteses em que, constatada infração à legislação tributária, dela não resulte exigência de crédito tributário. O prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN (RECURSO Fl. 3201DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.177 51 VOLUNTÁRIO, acórdão nº 1301002.562, sessão de 15/08/2017). Assim, afasto a preliminar suscitada. 3) DA DECADÊNCIA RELATIVA AOS FATOS GERADORES OCORRIDOS EM 2008 – INAPLICABILIDADE DO ARTIGO 173, I, DO CTN Sustenta a Recorrente que, uma vez que não foi comprovado o dolo e a fraude, o prazo decadencial deve obedecer ao artigo 150, § 4º, do CTN e não ao 173, I do mesmo código. Assim, o lançamento relativo ao ano de 2008 estaria decaído, uma vez que a constituição do crédito só se deu em 19 de dezembro de 2014. A análise da Contribuinte parte da premissa de que o dolo e a fraude não estão comprovados. Entendo que houve dolo e fraude na presente ação fiscal, como ficará demonstrado adiante, neste voto, pelo que afasto a preliminar trazida. 4) DA IMPROCEDÊNCIA DO LANÇAMENTO REFERENTE À MULTA QUALIFICADA DE 150% POR VIOLAÇÃO AO ART. 146 DO CTN A Recorrente afirma que houve mudança de critério jurídico, uma vez que em lançamento semelhante realizado em relação a outras empresas do Grupo não foi qualificada a multa de ofício, tendo sido aplicada a multa de 75%. O artigo do CTN invocado pela Empresa não tem aplicação quando a autuação diz respeito a contribuintes distintos, ainda que pertencentes ao mesmo grupo econômico. Vejamos novamente a regra nele inserida: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução.(grifei) Notese que a norma protege o mesmo sujeito passivo da surpresa relativa à mudança de critério jurídico pela autoridade fiscal. Assim, sob este argumento, fica mantida a multa qualificada. MÉRITO O fato descrito no auto de infração é o mesmo que gerou o ágio em relação às outras empresas do grupo: Cálamo, O Boticário Franchising e Embralog. Embora o esforço hercúleo da Recorrente para tentar empreender um sentido negocial, empresarial para as operações que ensejaram a criação do ágio, seus argumentos não convencem. Temos a criação, em setembro de 2006, de empresa veículo (G&K Holding), com capital social inicial de R$1.000,00 e tendo como sócios Miguel Gellert Krigsner e Artur Noemio Grynbau. Três meses depois, em dezembro de 2006, o IGP Fundo de Investimento Fl. 3202DF CARF MF 52 em Participações integraliza ações no valor de R$50.000.000,00, sendo a única movimentação financeira envolvendo as operações societárias. No mesmo dia do ingresso da IGP na sociedade, 18/12/2006, a G&K incorpora as ações da OBF, da Embralog, da Botica e da Cálamo, que passam a ser suas subsidiárias integrais. As ações são incorporadas com ágio, sendo que as da Botica são avaliadas em R$344.499.000,00, gerando um ágio de R$206.481.363,56. O total do ágio contabilizado pela G&K, relativo às quatro empresas, monta R$1.776.161.561,96. A situação permanece durante o ano de 2007 até 3 de novembro de 2008, quando a G&K é parcialmente cindida, mantendo apenas 1% de participação nas outras sociedades. Neste período, até a cisão parcial, a G&K amortizou o ágio contabilmente, gerando despesa que foi adicionada no cálculo do lucro real, sem consequência fiscal, portanto. Todavia esta adição foi levada à parte B do Lalur, onde passou a ser controlada. Na mesma data, 3 de novembro de 2008, a G&K constitui a Provisão da Instrução CVM 319 no valor total de R$1.730.217.210,55, portanto somente sobre o valor do ágio descontadas as amortizações que realizou até sua cisão parcial (R$20.094.111,31, em 2007, e R$25.850.240,10, em 2008 tudo relativo às 4 empresas). Do ágio total (R$206.481.363,56) é transferido para o patrimônio da BOTICA o valor de R$ 193.298.809,52, conforme explicação acima, e também a provisão CVM, conta redutora. De tudo se observa que é uma operação de ágio interno, cuja única movimentação financeira se deveu à participação do IGP Fundo de Investimento com o aporte de R$50.000.000,00 que, de forma alguma justifica a criação do ágio de quase dois bilhões de reais, este sim, devido a operações societárias desprovidas de qualquer movimentação financeira e desenvolvidas dentro do mesmo grupo econômico, sob a decisão das mesmas pessoas. Ademais, o IGP Fundo de Investimento, este sim, poderá amortizar para fins fiscais o ágio de mais de 45 milhões efetivamente pagos quando de seu ingresso na G&K caso preencha as demais condições legais: Sobre o tipo de ágio que estamos tratando tenho me posicionado no sentido de não atribuirlhe eficácia tributária. Isto se deve, principalmente, à sua não aceitação e mesmo ao repúdio de sua utilização que a contabilidade tem demonstrado. Hoje, nem mesmo pode compor o ativo de qualquer empresa, em cumprimento ao CPC nº 4, que transcrevo: Ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente 48. O ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente não deve ser reconhecido como ativo. 49. Em alguns casos incorrese em gastos para gerar benefícios econômicos futuros, mas que não resultam na criação de ativo intangível que se enquadre nos critérios de reconhecimento estabelecidos no presente Pronunciamento. Esses gastos costumam ser descritos como contribuições para o ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente, o qual não é reconhecido como ativo porque não é um recurso identificável (ou seja, não é separável nem advém de Fl. 3203DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.178 53 direitos contratuais ou outros direitos legais) controlado pela entidade que pode ser mensurado com confiabilidade ao custo. A CVM por sua vez também se manifesta contrária a este tipo de ágio, como se vê do OFÍCIOCIRCULAR/CVM/SNC/SEP nº 01/2007: Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2007 Aos Senhores Diretores de Relações com Investidores e Auditores Independentes ASSUNTO: Orientação sobre Normas Contábeis pelas Companhias Abertas (...) 20.1.7 “Ágio” gerado em operações internas A CVM tem observado que determinadas operações de reestruturação societária de grupos econômicos (incorporação de empresas ou incorporação de ações) resultam na geração artificial de “ágio”. Uma das formas que essas operações vêm sendo realizadas, iniciase com a avaliação econômica dos investimentos em controladas ou coligadas e, ato contínuo, utilizarse do resultado constante do laudo oriundo desse processo como referência para subscrever o capital numa nova empresa. Essas operações podem, ainda, serem seguidas de uma incorporação. Outra forma observada de realizar tal operação é a incorporação de ações a valor de mercado de empresa pertencente ao mesmo grupo econômico. Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômicocontábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial, supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há o dispêndio para se obter algo de terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Não é concebível, econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou Fl. 3204DF CARF MF 54 outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como “arm’s length”. Portanto, é nosso entendimento que essas transações não se revestem de substância econômica e da indispensável independência entre as partes, para que seja passível de registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade. E desde 1999 a CVM pretende evitar que o patrimônio das companhias seja artificialmente aumentado com ágios fictícios e busca também proteger o sócio minoritário quanto à redução do lucro contábil pela escrituração de despesas artificiais, fazendo reconhecer somente o benefício fiscal esperado. Mas disso trataremos mais adiante. Como visto até agora, as autoridades contábeis, em defesa da correta informação da situação patrimonial das empresas, e a CVM, em defesa dos sócios minoritários e dos interesses do mercado, repudiam e rejeitam o ágio interno, criado em situações diferentes às de livre mercado, sem pagamentos efetivos e decisões livres. E quando a contabilidade rejeita, projeta essa rejeição para o campo legal, na medida em que é a lei que determina às sociedades que a ciência contábil deve ser obedecida. Vejamos o artigo 177 da Lei nº 6.404, de 1976: Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. E apresento somente este fundamento, pois é sabido por todos dessa obrigatoriedade. Ora, se a base de cálculo do imposto de renda, lucro real, parte do lucro líquido do exercício, o lucro contábil, a lei não poderia deixar este cálculo ao alvedrio de quem quer que fosse, sendo imperativa a obediência à ciência contábil. O que pretendem os Recorrentes é legitimar para fins fiscais o que é ilegítimo, falsamente criado apenas para diminuir substancialmente o pagamento de tributo devido. A leitura de excerto do laudo nos traz mais inseguranças e incertezas do que a garantia de um valor em que se possa acreditar, como bem destaca a Fiscalização em seu Termo de Verificação e Encerramento Parcial de Ação Fiscal (fls. 1385/1386), destacandose o seguinte, in verbis:: Fl. 3205DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.179 55 A avaliação, como reconhecido no documento, é realizada tendo como fonte principal a informação prestada pelos próprios interessados. Não é por outro motivo que a KPMG afirma que os investidores futuros devem realizar suas próprias análises e sujeitar aos seus consultores jurídicos, tributários e financeiros qualquer decisão. Ao mesmo tempo se isentam de qualquer responsabilidade pelos números apresentados. Basicamente, o que afirmam é que a avaliação que fizeram não tem nenhuma fidedignidade. A única certeza que se tem é de que o valor é certo e indiscutível para fins de economia fiscal, caso a situação passe despercebida pelas autoridades tributárias, mas a responsabilidade pelo laudo, pelas projeções, ao final de tudo, é dos dirigentes que forneceram as informações para os peritos avaliadores, os mesmos que serão beneficiados pela fraude. Feitas estas considerações acerca da constituição do ágio (G&K Holding) consideroo ineficaz ante o fisco, uma vez que foi criado artificialmente, por meio de operações societárias empreendidas dentro de um mesmo grupo econômico, sem nenhuma relação de livre mercado, mas marcados por relações viciadas por decisões tomadas sem nenhuma independência, pelas mesmas pessoas representando todas as partes do negócio e que, ao fim, seriam as beneficiárias da economia fiscal. É destaque também o fato de não ter havido nenhum dispêndio, nenhum pagamento, nenhuma movimentação financeira, fato que torna possível considerarse qualquer valor como ágio, desde que conste de um laudo elaborado por peritos externos. Fl. 3206DF CARF MF 56 Essa é a premissa: é ágio interno, falsamente criado por meio de empresa veículo apenas para a redução de tributos. Ágio imprestável para fins fiscais. Assim, correta está a fiscalização em considerar indedutíveis as despesas de amortização do ágio, uma vez que são sim despesas absolutamente desnecessárias, além de serem objeto de operações sem nenhuma substância econômica. A Recorrente, no entanto, afirma que a proibição de ágio entre partes relacionadas só veio com a publicação da Lei nº 12.973/2014. Não entendo assim. Neste aspecto adoto o entendimento do acórdão recorrido: 180. Como explicitado anteriormente a ilicitude da amortização de ágio decorre fundamentalmente da aplicação indevida dos artigos 7º, inciso III, e 8º, alínea “b”, da Lei nº 9.532, de 1997, ao ágio gerado na incorporação das ações da interessada pela G&K Holding S/A. 181. É certo que os novos dispositivos que regulam a dedutibilidade do ágio por rentabilidade futura (goodwill) são bem mais claros e não deixam qualquer margem a dúvidas, mas deste fato não decorre a conclusão aventada pela impugnante, qual seja, a da inexistência de vedação à dedução do ágio intragrupo anteriormente à publicação da Lei nº 12.973, de 2014. A ilicitude da amortização do ágio analisado nos presentes autos persistiria independentemente da nova regulamentação trazida pelo art. 22 da Lei nº 12.973, de 2014. 182. Conforme já analisado nos tópicos anteriores do presente voto, a ilicitude decorre fundamentalmente do fato de o ágio glosado não possuir uma das características essenciais para que possa ser entendido com tal, a falta de substância econômica e propósito negocial da operação de incorporação das ações da interessada pela G&K Holding em 18/12/2006. 183. Como os artigos 7º, inciso III, e 8º, alínea “b”, da Lei nº 9.532, de 1997, dizem respeito ao ágio verdadeiro, decorrente da aquisição de participação societária mediante efetivo dispêndio ou ônus assumido por terceiro em um processo imparcial de valoração, num ambiente de livre mercado e de independência entre as partes, tais dispositivos são inaplicáveis ao ágio tratado nos presentes autos, razão pela qual sua amortização não pode alterar o resultado tributável da interessada. INEXISTÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL PARA ADIÇÃO À BASE DE CÁLCULO DA CSLL Sobre a alegada falta de previsão legal, entendo que a conjugação dos artigos 6º da Lei nº 7.689, de 1988, e 57 da Lei nº 8.981, de 1995, abaixo transcritos, autoriza a referida alteração, impedindo que despesas fraudulentamente criadas alterem a base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido: Lei nº 7.689, de 1988 Fl. 3207DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.180 57 Art. 6º A administração e fiscalização da contribuição social de que trata esta lei compete à Secretaria da Receita Federal. Parágrafo único. Aplicamse à contribuição social, no que couber, as disposições da legislação do imposto de renda referente à administração, ao lançamento, à consulta, à cobrança, às penalidades, às garantias e ao processo administrativo. Lei nº 8.981, de 1995 Art. 57. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive no que se refere ao disposto no art. 38, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta Lei. (Redação dada pela Lei nº 9.065, de 1995) Não tenho dúvidas de que a criação de despesas inexistentes influencia, também, a obtenção da base de cálculo da CSLL. Assim, as despesas de ágio artificialmente criadas devem ser afastadas no cálculo da base tributável da referida contribuição. QUALIFICAÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO. ALEGAÇÃO DE INEXISTÊNCIA DE DOLO OU FRAUDE A Recorrente alega a inexistência de fraude, pois tudo foi feito às claras, sem documentos falsos e no "exercício regular de um direito reconhecido" (Artigo 188 do Código Civil). Não entendo assim. Tenho claro que havia consciência na criação de uma falso ágio, gerado sem absolutamente nenhuma independência, pois os acordos e operações societárias são decididos pelas mesmas pessoas que, ao final, são os beneficiários da sua amortização fiscal, sem movimentação financeira alguma e dentro do mesmo grupo econômico, tudo no intuito de reduzir o montante do imposto devido. A existência de fraude é evidente. Por outro lado pretende a Recorrente buscar salvaguarda no artigo 112 do CTN, interpretandoo no sentido de que, em caso de dúvida, a lei tributária deve ser interpretada de maneira mais favorável ao contribuinte. Busca na lição do Prof. Marco Aurélio Greco, eu sua obra Planejamento Tributário, a idéia de incerteza quando a legalidade ou não de casos que se acham no limite entre o correto e o incorreto. Não vejo este caso como limítrofe. Tenho com muita clareza que se trata de ação dolosa visando a redução do imposto devido, pelo que não vejo razão para invocar o referido artigo. Defende a Empresa a inexistência de abuso de direito no caso concreto. O abuso de direito é previsto no artigo 187 do Código Civil: Fl. 3208DF CARF MF 58 Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercêlo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boafé ou pelos bons costumes’ (destaques nossos). Diz que o artigo tem que ter a leitura conjugada com o artigo 188, que trata do exercício regular de um direito reconhecido. Tomandose cada um dos atos societários efetivados pela Contribuinte, poderíamos pensar que fora ato dentro da legalidade, todavia, quando observamos o todo e a intenção subjacente constatamos, sem dúvida, o abuso de direito. A criação de um ágio na forma como se deu, em transformações sucessivas, decisões internas do grupo e sem nenhum desembolso ou movimentação financeira, atitude condenada pela contabilidade e pela CVM, nos levam à conclusão de que os atos praticados excederam à boafé e a própria finalidade econômica e social do ágio, visto que constituído para lesar o Fisco. Assim, fica mantida a multa de ofício qualificada. INCIDÊNCIA DE JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO Sobre a questão esta Turma já manifestou entendimento sobre a procedência da incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Assim, reproduzo manifestação sobre o tema constante do processo 13896.721338/201336, da Relatoria da Conselheira Ester Marques Lins de Souza, que adoto como razão de decidir: Como cediço, os débitos de tributos e contribuições e de multas (penalidades) têm causas diversas. Enquanto os débitos de tributos e contribuições decorrem da prática dos respectivos fatos geradores, as multas decorrem de violações à norma legal, no caso, do suposto não pagamento dos tributos e contribuições nos prazos legais. O artigo 142 do CTN, descreve, na verdade, o fato de que, no mesmo auto de infração, pode ocorrer o lançamento tributário, em que se exige o tributo devido pelo contribuinte, e a aplicação da penalidade pelo fato de este contribuinte ter deixado de recolher o tributo. Portanto reunidos em um único lançamento, e, devidamente discriminados, a cobrança do tributo e a aplicação da multa pela infração, resta constituído o crédito tributário que deve ser exigido com os acréscimos legais (juros de mora). Portanto, efetuado o lançamento tributário, de ofício, ou seja, constituído o crédito tributário a sua substância é o pagamento do tributo e da penalidade pecuniária aplicada pelo descumprimento da norma legal, no presente caso, a denominada multa de ofício de que trata o inciso I do artigo 44 da Lei nº 9.430/96. Sobre os juros de mora, o próprio art. 161 do CTN menciona a incidência dos juros sobre o crédito não integralmente pago no vencimento, não podendo ser outro crédito senão àquele constituído nos termos do art.142 do CTN, ou seja, crédito tributário (objeto prestacional, representado em Fl. 3209DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.181 59 dinheiro) = tributo (não pago) + penalidade aplicada (não paga). Dizer que a penalidade aplicada não integra o montante do crédito tributário não passa de um flagrante equívoco. A exigência dos juros sequer depende de formalização, uma vez que serão devidos sempre que o principal ( tributo ou penalidade) estiver sendo recolhido após o prazo de vencimento, mesmo que não quantificados (os juros) quando da formalização do crédito tributário por meio do lançamento. Apesar disso, há quem argumente que, se do crédito a que se refere o caput do transcrito art. 161 do CTN constasse a multa de ofício, não haveria razão para mencionar nesse mesmo dispositivo “sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis”. Não é nenhuma novidade dizer que o CTN é recheado de repetições. A verdade é que, não haveria necessidade de novamente constar no mencionado artigo 161 tal comando, porque a partir do lançamento surge o crédito, no entanto com o intuito de afastar os juros de mora outros argumentos poderiam advir no sentido de que tendo sido aplicada a penalidade não seria cabível a aplicação dos juros de mora porque a “penalidade” seria em substituição de outros encargos etc.. Ora, a caracterização da mora dáse de direito, e, não depende sequer que o sujeito passivo seja interpelado com o auto de infração. Não sendo o valor devido integralmente pago até o vencimento, o crédito deve ser acrescido de juros de mora. Partilho do entendimento expresso no Parecer MF/SRF/Cosit/Coope/Senog nº 28, de 02 de abril de 1998, segundo o qual, considerando o disposto no art.161 do CTN, é possível concluir que mencionada norma legal autoriza a exigência de juros de mora sobre a multa em caráter geral, nada impedindo que a lei específica disponha de forma diferente, determinando que os juros de mora devam incidir apenas sobre os tributos e as contribuições. É certo que tivemos no passado dispositivos legais (art. 59 da Lei nº 8.383/91 e art.84 da Lei nº 8981/95) que deixaram dúvidas quanto a exigência dos juros de mora sobre a multa de ofício aplicada. A interpretação literal decorrente da mencionada legislação era no sentido de que pela redação das leis mencionadas os juros deveriam incidir apenas sobre os tributos e contribuições, não autorizando, pois, a exigência dos juros de mora sobre outros débitos sem a natureza jurídica de tributo. Fl. 3210DF CARF MF 60 No entanto, com a edição da Lei nº 9.430/96, é possível mudar de paradigma para concluir que, com apoio no artigo 61 e seu § 3º, restou explícito ser cabível a exigência dos juros de mora sobre a multa de ofício, a partir do vencimento da penalidade, cujos fatos geradores (descumprimento da norma legal) ocorrerem a partir de 01/01/1997, vejamos: Art.61.Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. ... §3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (Vide Lei nº 9.716, de 1998) (Grifei) Sobre o vencimento da multa de ofício lançada, depreendese dos autos de infração que a multa de ofício tem prazo para pagamento, qual seja, trinta dias após a ciência do lançamento pelo sujeito passivo. Ora, se os juros moratórios a que se refere o § 3º do art. 61, da Lei nº 9.430/96, somente se aplicam sobre débitos com prazo de vencimento, inferese que incidem sobre a multa de ofício não paga no prazo de trinta dias após a ciência do lançamento pelo autuado. O artigo 43 da lei nº 9.430/96 ao tratar do auto de infração sem tributo (crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente) prevê a incidência de juros de mora calculados à taxa Selic sobre o crédito tributário formalizado, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento, o que demonstra claramente a imbricação com o art.161 do CTN e com o artigo 61, § 3º da mesma Lei nº 9.430/96, desnecessário seria repetir que nos casos da multa de ofício de que trata o artigo 44 da mesma lei também deverão incidir os juros de mora. Feitas as considerações acima e no contexto de uma interpretação sistemática, é forçoso concluir que ao teor do art.161 do CTN, bem como dos artigos 43, parágrafo único, e 61, § 3°, da Lei n° 9.430/96, por se tratar de débitos para com a União, incidem tanto sobre os tributos quanto sobre a multa de oficio, os juros de mora com base na taxa Selic a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do seu pagamento. Sabendose que os juros de mora incidem a partir de vencimentos distintos em relação ao vencimento do tributo e ao vencimento da multa lançada de ofício (30 dias após a ciência Fl. 3211DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.182 61 do lançamento). Antes do lançamento não há falar em juros de mora sobre a multa de ofício. Os juros de mora incidentes sobre as multas pecuniárias proporcionais, aplicadas de ofício, terão como termo inicial de contagem o mês seguinte ao do vencimento do prazo fixado na intimação do auto de infração ou de notificação de lançamento, conforme fixado na Portaria MF nº 370 de 23 1288, verbis: I Os juros de mora incidentes sobre as multas pecuárias proporcionais, aplicadas de ofício, terão como termo inicial de contagem o mês seguinte ao do vencimento do prazo fixado na intimação do auto de infração ou da notificação de lançamento e serão calculados, à razão de 1% (um por cento) ao mês calendário ou fração, sobre o valor corrigido monetariamente. II. Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação. Nesse sentido trazse à lume excerto do voto do Desembargador Dirceu de Almeida Soares quando do julgamento, pela 2a. Turma do TRF4, da AC 2005.72.01.000031 1/SC, em 2006 (Leandro Paulsen, Direito Tributário, 9ª ed., Livraria do Advogado, pág. 1028), ipsis litteris: “...tanto a multa quanto ao tributo são aplicáveis os mesmos procedimentos e critérios de cobrança. E não poderia ser diferente, porquanto ambos compõe o crédito tributário e devem sofrer a incidência de juros no caso de pagamento após o vencimento. Não haveria porque o valor relativo à multa permanecer congelado no tempo. Tampouco há falar em violação da estrita legalidade ...O artigo 43 da Lei nº 9.430/96 traz previsão expressa da incidência de juros sobre a multa, que pode, inclusive, ser lançada isoladamente.” Com efeito, é legitima a exigência de juros de mora tanto sobre os débitos lançados como da respectiva multa de ofício, não pagos no vencimento, calculados pela taxa Selic a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao dos respectivos vencimentos dos prazos até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento, conforme determinação legal expressa. Para sedimentar as considerações feitas no presente voto, trazse à colação o entendimento expresso nos seguintes Acórdãos da Câmara Superior de Recursos Fiscal desse Egrégio Conselho Administrativo: ACÓRDÃO nº CSRF/0400.651, julgado em 18/09/2007: JUROS DE MORA – MULTA DE OFÍCIO – OBRIGAÇÃO PRINCIPAL – A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de ofício proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, Fl. 3212DF CARF MF 62 incluindo a multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. ACÓRDÃO nº 9101002.5011ª Turma, julgado em 12/12/2016 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 2002 JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Assim, considero correta a aplicação da taxa SELIC como juros de mora sobre a multa de ofício. RECURSO VOLUNTÁRIO DOS RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS Sobre a violação do artigo 146 do CTN, uma vez que em outros lançamentos relativos à mesma operação, tendo como sujeitos passivos as empresas Cálamo e Embralog os dirigentes não foram chamados à responsabilidade solidária. Repito o argumento de que o respeito aos critérios jurídicos adotados dizem respeito a um mesmo sujeito passivo, como já ficou evidenciado alhures, neste voto, e não par sujeito passivos diversos, como no caso presente. Quanto à decadência invocada, no que diz respeito aos fatos ocorridos em 2006 e à aplicação do art. 173, I do CTN aos fatos ocorridos em 2008, invoco o já decidido anteriormente neste voto no que se refere à alegação da Empresa. Sobre a inexistência de abuso de direito, de dolo e fraude, e afastamento da solidariedade e da multa qualificada pela aplicação do artigo 112 do CTN, os assuntos já foram tratados quando alegados pela Empresa. DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA Finalmente, sobre a responsabilidade solidária dos Dirigentes, defendem a inaplicabilidade do artigo 124, I do CTN, invocando a distinção do interesse econômico para o interesse jurídico na situação que constitua o fato gerador e do 135, III, por não ter sido indicados os atos praticados pelos diretores com excesso de poderes, infração à lei ou estatutos. Diz que não houve abuso de direito, mas exercício regular de um direito reconhecido, o primeiro ato ilícito e o segundo não, conforme o Código Civil (artigos 187 e 188). O CTN foi publicado em 1966 e realmente não foi redigido pensando na atuação de grupos econômicos. Naquela época o que existia era a empresa isolada, a Companhia, que englobava todas as atividades em volta de seu nome. Hoje temos grandes grupos econômicos e aquela empresa que comprava, transformava, vendia, investia, recebia pagamentos, contratava e pagava os empregados, foi "explodida" em várias que compõem o mesmo grupo e executam, cada uma delas, uma dessas atividades, retirando de cada uma dessas ações o máximo de lucratividade e eficácia. Fl. 3213DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.183 63 Um dos aspectos mais carentes do Código, nesse particular, diz respeito à responsabilidade. Assim, temos que extrair da hermenêutica jurídica o máximo da técnica interpretativa para não deixar instalada a injustiça. Por outro lado, não são poucas as vezes que, ante um ilícito, argumentase que não foi apresentada prova cabal, direta, como se o responsável pelo delito precisasse assinar documentos e praticamente confessar que ele é o responsável pelos fatos para poder ser responsabilizado. Por outro lado, e no caso específico de planejamento tributário calcado em operações societárias sequenciais, cada fração do todo tem aparente legalidade, todavia o resultado de todas as operações é ilícito. É o que Marco Aurélio Greco observa quando afirma que não se deve olhar a fotografia, mas o filme. No caso presente não entendo que estejamos presumindo a responsabilidade. Vejamos os fatos. As empresas do grupo Boticário, comandadas em todo o tempo pelos sócios administradores Artur e Miguel, detentores da quase totalidade das ações, empreenderam operações societárias, criando empresas veículo para adquirir outras empresas do grupo e gerar um ágio decorrente da avaliação da rentabilidade futura dessas empresas adquiridas, sem movimentação financeira alguma, sem nenhum pagamento ou participação de terceiro. Em pouco tempo, desfez essas empresas veículo (parcial ou totalmente) repassando o ágio falsamente gerado para cada uma das empresas adquiridas, passando a reduzir substancialmente o lucro real com o aproveitamento de despesas de amortização de ágio nas empresas adquiridas. Ou seja, o ágio amortizado diz respeito à rentabilidade futura dela mesma. Como já vimos neste voto, o laudo que atribui valor absurdamente alto às empresas adquiridas com base em rentabilidade futura é absolutamente inconsistente, fundado em informações prestadas pelos próprios administradores (que são os dois sócios já nomeados e beneficiários da fraude) e os avaliadores não assumem absolutamente nenhuma responsabilidade pelos números apresentados. A estes fatos somase a distribuição de valores altíssimos a título de juros sobre o capital próprio e lucros, sendo que pouco valor permaneceu nas empresas, sendo a maioria distribuído aos dois sócios. Ante tudo isso, os Recorrentes alegam que não podem ser responsabilizados pelo 124, I, cujo teor é o seguinte: Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; É claro que a aplicação do artigo não pode tornar inócuo o princípio contábil da entidade, haja vista que todos os sócios sempre terão interesse no fato gerador. Todavia, a sua não aplicação sem exceções pode representar a inimputabilidade do mal feitor, deixando sempre livre aquele que não tem apenas o interesse econômico, mas tem todos os interesses possíveis nas fraudes aplicadas. Fl. 3214DF CARF MF 64 Quanto ao 135, III do CTN, assim se apresenta in verbis: Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: (...) III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado Várias foram as teses apresentadas quanto ao artigo: umas dizendo que a pessoalidade afastava a responsabilidade da empresa; outras que seria responsabilidade subsidiária; e, por fim, a que defende que a aplicação é de solidariedade. Entendo que esta última já está consolidada tanto no Judiciário quanto nos julgados administrativos. Neste ponto, os Recorrentes pretendem que seja apontado qual o ato específico por eles praticados que pode ser enquadrado no artigo. Defendem que todos as atividades foram lícitas. Descordo enfaticamente. O conjunto das ações, como foi tratado anteriormente, caracterizou uma fraude de grandes proporções, resultando na redução irregular dos tributos devidos pela empresa. Estamos tratando de um ágio de 206 milhões de reais. Isso não é uma fraude pequena, e foi comandada, capitaneada pelos dois sócios. No meu entendimento, não é necessário, nesses casos, que se aponte um determinado ato, uma determinada ordem, uma determinada assinatura. Isso é reduzir os fatos, que se desencadearam em alguns anos, a um momento específico em que houve um ilícito. O ilícito aqui é o conjunto, a obra, arquitetada e capitaneada, como dito, pelos dois administradores. E não se trata de presunção. O fatos estão comprovados. A direção da Empresa não é discutida ou contraditada. Quem tomou as decisões foram os dois dirigentes. O que se quer então? Afirmar que os dois foram enganados e que as operações foram feitas à revelia, que não queriam engordar seus cofres pessoais em milhões e milhões de reais, mas foram surpreendidos ao verem suas contas correntes? Ainda que fosse essa a alegação, devo destacar que na jurisprudência tem prevalecido o entendimento de que, na aplicação do artigo 135, III, a responsabilidade decorre de dolo ou culpa por parte dos dirigentes. Vejamos: STJ AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL AgRg no REsp 952762 SP 2007/01112355 (STJ)Data de publicação: 05/10/2007 Ementa: TRIBUTÁRIO – PROCESSUAL CIVIL – EXECUÇÃO FISCAL – RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DO SÓCIO GERENTE AUSÊNCIA DE PROVA DE DOLO OU CULPA REDIRECIONAMENTO – IMPOSSIBILIDADE. 1. O posicionamento pacífico desta Corte é no sentido de que o sócio somente deve responder pelos débitos fiscais do período em que exerceu a administração da sociedade se ficar provado que agiu com dolo ou fraude e exista prova de que a sociedade, em razão de dificuldade econômica decorrente desse ato, não pôde cumprir o débito fiscal. 2. In casu, não restou caracterizada Fl. 3215DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.184 65 prova de que os sócios tenham agido com dolo ou culpa, ou ainda que tenha havido dissolução irregular da sociedade. Agravo regimental improvido. Houve ato ilícito sob a responsabilidade dos dois sócios administradores quando comandaram operação fraudulenta de criação de ágio no intuito de reduzir irregularmente o tributo devido, assim, ambos são solidariamente responsáveis pelo crédito tributário decorrente. Mantenho a sujeição passiva solidária dos dois sócios administradores. CONCLUSÃO Pelos motivos apresentados, afasto as preliminares e nego provimento ao Recurso de Ofício e nego provimento ao Recurso Voluntário, mantendo o decidido no acórdão recorrido. É como voto. (assinado digitalmente) Carlos Cesar Candal Moreira Filhos Relator Declaração de Voto Conselheiro Flávio Machado Vilhena Dias Em seu Recurso Voluntário, o Recorrente requer, em sede preliminar, o reconhecimento da nulidade do lançamento, uma vez que, em suas palavras, este lançamento seria "o resultado de um artifício criado pela Fiscalização para poder revisitar e corrigir o critério jurídico do lançamento julgado de forma definitiva e favorável para a Recorrente nos autos do Processo Administrativo nº 10980.722215/201294". Alega, ainda, que, em que pese na presente autuação a autoridade fiscal ter dividido o ágio apurado em "ágio menor" e "ágio maior", os "eventos objeto de fiscalização foram exatamente os mesmos, quais sejam, a incorporação de ações em 2006 e a cisão parcial da G&K em 2008". Assim, invocando o artigo 146 do Código Tributário Nacional e após citar doutrina e julgados administrativos e judiciais que embasam sua tese, argumenta que a Fl. 3216DF CARF MF 66 autoridade fiscal não poderia promover nova autuação, cujo objeto já foi analisado e declarado nulo no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. E, neste ponto, assiste razão ao Recorrente. Explicase. O erro de direito da anterior autuação, que foi consubstanciada nos autos do processo administrativo de nº 10980.722215/201294, é patente. Como se depreende dos autos, ao identificar vícios na operação realizada pelo contribuinte, a fiscalização entendeu por bem lavrar Auto de Infração, que teve como capitulação os artigos 247 e 250 do RIR/99. Contudo, por estar eivado de vícios, em especial na capitulação descrita como a infringida pelo Recorrente, aquele Auto de Infração (processo nº 10980.722215/201294) foi declarado nulo pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, tendo a decisão transitado em julgado em âmbito administrativo. Posteriormente, com base nos mesmos fatos (condutas e operações praticadas pelo Recorrente), mesmos argumentos (impossibilidade de aproveitamento do ágio nas operações realizadas), o mesmo agente promoveu nova autuação, desta vez capitulando o dispositivo legal supostamente infringido pelo contribuinte como sendo o artigo nº 299 do RIR/99. É nítido, assim, o objetivo daquele agente de "consertar" o erro anteriormente praticado, o que não se pode admitir. Primeiramente, não se pode olvidar que, como mencionado, o CARF entendeu por bem anular o lançamento anteriormente formalizado (processo nº 10980.722215/201294), tendo em vista a constatação de erro de direito, qual seja, o erro na capitação do Auto de Infração. Ressaltese: naquele AI, a fiscalização descreveu as operações realizadas pelo contribuinte e entendeu como infringidos determinados dispositivos legais (artigos 247 e 250 do RIR/99). A decisão do CARF em anular o Auto de Infração está de acordo com a mais balizada doutrina. Neste sentido, são os ensinamentos de Aliomar Baleeiro: “A modificação de um ato administrativo, na esfera administrativa, poderá ser feita por meio de revogação ou anulação. No entanto, a revogação supõe que a a Administração desfaça ou refaça o ato, por iniciativa própria, fundada em razões de conveniência e oportunidade. Não obstante, como o lançamento é ato administrativo plenamente vinculado (arts. 3º e 142, parágrafo único), não pode ser revogado, por motivo de conveniência ou oportunidade, inexistindo margem de discricionariedade administrativa. Portanto, a sua revisão não poderá ser levada a cabo por meio de revogação. Sendo o lançamento defeituoso, por desrespeito aos requisitos e pressupostos legais que ditam o critério de validade a ser observado, cabe à Administração apenas anulálo em decorrência da ilegitimidade, do vício.” (detacouse) (BALEEIRO, Aliomar. Direito Tributário Brasileiro. Atualizada por Misabel Abreu Machado Derzi. 12. ed. – Rio de Janeiro: Forense, 2013. pág. 1211) Entretanto, verificado o erro cometido, sendo este erro, inclusive, reconhecido pelo CARF, o mesmo agente entendeu por bem promover nova autuação, desta vez com base em dispositivos legais "corretos". Fl. 3217DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.185 67 Não se pode perder de vista, contudo, que a legislação, em especial o Código Tributário Nacional, autoriza a retificação do lançamento, inclusive para majorálo, somente naqueles casos em que há patente erro de fato. Erro de direito, como no presente caso, não autoriza a autoridade administrativa a promover a retificação do lançamento. Com precisão cirúrgica, Paulo de Barros Carvalho se posiciona neste norte. Confirase: “O erro da autoridade fiscal que justifica a alteração do ato de lançamento é apenas o ‘erro de fato’; nunca o ‘erro de direito’. Não obstante, ainda que nem sempre seja fácil distinguir esses dois tipos de erro, isso não nos impede de aplicar a discriminação nos pontos que enxergamos com clareza. Enquanto o ‘erro de fato’ é um problema intranormativo, um desajuste interno na estrutura do enunciado, o ‘erro de direito’ é vício de feição internormativa, um descompasso entre a norma geral e abstrata e a individual e concreta”. (CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário, linguagem e método. São Paulo: Noeses, 2008 – 2ª edição. págs. 445 e 446) No presente caso, o erro de direito cometido no Auto de Infração anteriormente lavrado é facilmente identificável, uma vez que, mesmo descrevendo corretamente a conduta praticada pelo Recorrente, o agente fiscal entendeu como violados determinados dispositivos legais, dispositivos estes que não se amoldavam na suposta infração cometida. Ou seja, houve um erro de direito, um “descompasso entre a norma geral e abstrata e a individual e concreta”, como muito bem pontuado por Paulo de Barros Carvalho. E o Código Tributário Nacional, no seu artigo 146, preceitua que a mudança do critério jurídico introduzida de ofício ou em consequência de decisão de autoridade administrativa e judicial só pode ser realizada para fatos geradores ocorridos após a alteração do entendimento. Vejase a redação do artigo: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em consequência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. A imutabilidade do lançamento é decorrente do princípio da segurança jurídica, que para alguns autores, dentre eles o próprio professor Paulo de Barros Carvalho, é um sobreprincípio que deve nortear todo o ordenamento jurídico. Pensar de forma diversa, ou seja, acreditar que o agente fiscal, que tem competência para efetuar o lançamento, poderá, sempre que quiser ou entender necessário, alterar o lançamento depois de sua autuação ter sido reconhecida como nula por um Tribunal administrativo, é tornar complemente inseguras as relações entre fisco e contribuinte, o que não se pode admitir. O Superior Tribunal de Justiça, em julgado submetido à sistemática dos recursos repetitivos, que vincula tanto os órgãos do poder judiciário quanto da administração, já se posicionou no sentido de que só se admite a lavratura de novo Auto de Infração, caso constatado erro de fato, nunca com relação aos erros de direito. Vejase: Fl. 3218DF CARF MF 68 PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO E PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. IPTU. RETIFICAÇÃO DOS DADOS CADASTRAIS DO IMÓVEL. FATO NÃO CONHECIDO POR OCASIÃO DO LANÇAMENTO ANTERIOR (DIFERENÇA DA METRAGEM DO IMÓVEL CONSTANTE DO CADASTRO). RECADASTRAMENTO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. REVISÃO DO LANÇAMENTO. POSSIBILIDADE. ERRO DE FATO. CARACTERIZAÇÃO. 1. A retificação de dados cadastrais do imóvel, após a constituição do crédito tributário, autoriza a revisão do lançamento pela autoridade administrativa (desde que não extinto o direito potestativo da Fazenda Pública pelo decurso do prazo decadencial), quando decorrer da apreciação de fato não conhecido por ocasião do lançamento anterior, ex vi do disposto no artigo 149, inciso VIII, do CTN. 2. O ato administrativo do lançamento tributário, devidamente notificado ao contribuinte, somente pode ser revisto nas hipóteses enumeradas no artigo 145, do CTN, verbis: "Art. 145. O lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo só pode ser alterado em virtude de: I impugnação do sujeito passivo; II recurso de ofício; III iniciativa de ofício da autoridade administrativa, nos casos previstos no artigo 149." 3. O artigo 149, do Codex Tributário, elenca os casos em que se revela possível a revisão de ofício do lançamento tributário, quais sejam: "Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: I quando a lei assim o determine; II quando a declaração não seja prestada, por quem de direito, no prazo e na forma da legislação tributária; III quando a pessoa legalmente obrigada, embora tenha prestado declaração nos termos do inciso anterior, deixe de atender, no prazo e na forma da legislação tributária, a pedido de esclarecimento formulado pela autoridade administrativa, recusese a prestálo ou não o preste satisfatoriamente, a juízo daquela autoridade; IV quando se comprove falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória; V quando se comprove omissão ou inexatidão, por parte da pessoa legalmente obrigada, no exercício da atividade a que se refere o artigo seguinte; VI quando se comprove ação ou omissão do sujeito passivo, ou de terceiro legalmente obrigado, que dê lugar à aplicação de penalidade pecuniária; VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; VIII quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior; IX quando se comprove que, no lançamento anterior, ocorreu fraude ou falta funcional da autoridade que o efetuou, ou omissão, pela mesma autoridade, de ato ou formalidade especial. Parágrafo único. A revisão do lançamento só pode ser iniciada enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública." 4. Destarte, a revisão do lançamento tributário, como consectário do poderdever de autotutela da Administração Tributária, somente pode ser exercido nas hipóteses do artigo Fl. 3219DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.186 69 149, do CTN, observado o prazo decadencial para a constituição do crédito tributário. 5. Assim é que a revisão do lançamento tributário por erro de fato (artigo 149, inciso VIII, do CTN) reclama o desconhecimento de sua existência ou a impossibilidade de sua comprovação à época da constituição do crédito tributário. 6. Ao revés, nas hipóteses de erro de direito (equívoco na valoração jurídica dos fatos), o ato administrativo de lançamento tributário revelase imodificável, máxime em virtude do princípio da proteção à confiança, encartado no artigo 146, do CTN, segundo o qual "a modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução". 7. Nesse segmento, é que a Súmula 227/TFR consolidou o entendimento de que "a mudança de critério jurídico adotado pelo Fisco não autoriza a revisão de lançamento". 8. A distinção entre o "erro de fato" (que autoriza a revisão do lançamento) e o "erro de direito" (hipótese que inviabiliza a revisão) é enfrentada pela doutrina, verbis: "Enquanto o 'erro de fato' é um problema intranormativo, um desajuste interno na estrutura do enunciado, o 'erro de direito' é vício de feição internormativa, um descompasso entre a norma geral e abstrata e a individual e concreta. Assim constitui 'erro de fato', por exemplo, a contingência de o evento ter ocorrido no território do Município 'X', mas estar consignado como tendo acontecido no Município 'Y' (erro de fato localizado no critério espacial), ou, ainda, quando a base de cálculo registrada para efeito do IPTU foi o valor do imóvel vizinho (erro de fato verificado no elemento quantitativo). 'Erro de direito', por sua vez, está configurado, exemplificativamente, quando a autoridade administrativa, em vez de exigir o ITR do proprietário do imóvel rural, entende que o sujeito passivo pode ser o arrendatário, ou quando, ao lavrar o lançamento relativo à contribuição social incidente sobre o lucro, mal interpreta a lei, elaborando seus cálculos com base no faturamento da empresa, ou, ainda, quando a base de cálculo de certo imposto é o valor da operação, acrescido do frete, mas o agente, ao lavrar o ato de lançamento, registra apenas o valor da operação, por assim entender a previsão legal. A distinção entre ambos é sutil, mas incisiva." (Paulo de Barros Carvalho, in "Direito Tributário Linguagem e Método", 2ª Ed., Ed. Noeses, São Paulo, 2008, págs. 445/446) "O erro de fato ou erro sobre o fato darseia no plano dos acontecimentos: dar por ocorrido o que não ocorreu. Valorar fato diverso daquele implicado na controvérsia ou no tema sob inspeção. O erro de direito seria, à sua vez, decorrente da escolha equivocada de um módulo normativo inservível ou não mais aplicável à regência da questão que estivesse sendo juridicamente considerada. Entre Fl. 3220DF CARF MF 70 nós, os critérios jurídicos (art. 146, do CTN) reiteradamente aplicados pela Administração na feitura de lançamentos têm conteúdo de precedente obrigatório. Significa que tais critérios podem ser alterados em razão de decisão judicial ou administrativa, mas a aplicação dos novos critérios somente pode darse em relação aos fatos geradores posteriores à alteração." (Sacha Calmon Navarro Coêlho, in "Curso de Direito Tributário Brasileiro", 10ª Ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2009, pág. 708) "O comando dispõe sobre a apreciação de fato não conhecido ou não provado à época do lançamento anterior. Dizse que este lançamento teria sido perpetrado com erro de fato, ou seja, defeito que não depende de interpretação normativa para sua verificação. Frisese que não se trata de qualquer 'fato', mas aquele que não foi considerado por puro desconhecimento de sua existência. Não é, portanto, aquele fato, já de conhecimento do Fisco, em sua inteireza, e, por reputálo despido de relevância, tenhao deixado de lado, no momento do lançamento. Se o Fisco passa, em momento ulterior, a dar a um fato conhecido uma 'relevância jurídica', a qual não lhe havia dado, em momento pretérito, não será caso de apreciação de fato novo, mas de pura modificação do critério jurídico adotado no lançamento anterior, com fulcro no artigo 146, do CTN, (...). Neste art. 146, do CTN, prevêse um 'erro' de valoração jurídica do fato (o tal 'erro de direito'), que impõe a modificação quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua ocorrência. Não perca de vista, aliás, que inexiste previsão de erro de direito, entre as hipóteses do art. 149, como causa permissiva de revisão de lançamento anterior." (Eduardo Sabbag, in "Manual de Direito Tributário", 1ª ed., Ed. Saraiva, pág. 707) 9. In casu, restou assente na origem que: "Com relação a declaração de inexigibilidade da cobrança de IPTU progressivo relativo ao exercício de 1998, em decorrência de recadastramento, o bom direito conspira a favor dos contribuintes por duas fortes razões. Primeira, a dívida de IPTU do exercício de 1998 para com o fisco municipal se encontra quitada, subsumindose na moldura de ato jurídico perfeito e acabado, desde 13.10.1998, situação não desconstituída, até o momento, por nenhuma decisão judicial. Segunda, afigurase impossível a revisão do lançamento no ano de 2003, ao argumento de que o imóvel em 1998 teve os dados cadastrais alterados em função do Projeto de Recadastramento Predial, depois de quitada a obrigação tributária no vencimento e dentro do exercício de 1998, pelo contribuinte, por ofensa ao disposto nos artigos 145 e 149, do Código Tribunal Nacional. Considerando que a revisão do lançamento não se deu por erro de fato, mas, por erro de direito, visto que o recadastramento no imóvel foi posterior ao primeiro lançamento no ano de 1998, tendo baseado em dados corretos constantes do cadastro de imóveis do Município, estando o contribuinte notificado e tendo quitado, tempestivamente, o tributo, não se verifica justa causa para a pretensa cobrança de diferença referente a esse exercício." 10. Consectariamente, verificase que o lançamento original reportouse à área menor do imóvel objeto da tributação, por desconhecimento de sua real metragem, o que ensejou a posterior retificação dos dados cadastrais (e não o recadastramento do imóvel), hipótese que se enquadra no Fl. 3221DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.187 71 disposto no inciso VIII, do artigo 149, do Codex Tributário, razão pela qual se impõe a reforma do acórdão regional, ante a higidez da revisão do lançamento tributário. 10. Recurso especial provido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 1130545/RJ, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 09/08/2010, DJe 22/02/2011) (destacouse) Assim, constatado de forma insofismável o erro de direito do lançamento anteriormente formalizado, a fiscalização só poderia promover nova autuação com relação a períodos posteriores ao do objeto do lançamento viciado, nunca com relação aos mesmos períodos. Por todo exposto, é patente a nulidade da autuação analisada, devendo ser considerada nula por esse colegiado. É como voto. (assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias Declaração de Voto Conselheiro Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa Com a devida vênia, mesmo diante do brilhantismo do voto do relator, divirjo do seu entendimento em relação ao não acolhimento da preliminar de nulidade em virtude da aplicação do art.146 do CTN ao caso sob análise. Segundo o Ilustre Relator, “a aplicação do artigo 146 ao erro de direito não satisfaz ao mínimo sentido de lógica, pois está evidente que ele não trata de impedir novo lançamento por erro de direito, mas de impedir a utilização de outro critério possível e correto de interpretação normativa, ou, como ensinado por Hugo de Brito, a escolha de um critério entre outros colocados à discricionariedade do agente público.” Com a devida vênia, como dito pela recorrente em suas razões de recurso voluntário “ocorrendo o erro de direito (erro no enquadramento legal), o lançamento fiscal anterior não poderia ter sido revisto a favor do Fisco e em prejuízo da Recorrente. Se o lançamento fiscal anterior foi lavrado com algum desconhecimento da lei por parte das autoridades fiscais quanto ao entendimento e aplicação dos preceitos normativos aos fatos fiscalizados, não poderá ser reexaminado a qualquer tempo e a qualquer pretexto para que a correta fundamentação legal possa ser aplicada". Quanto ao particular, assim consignou a decisão da DRJ: A alteração do critério jurídico adotado pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser aplicada, em relação a um mesmo sujeito passivo, para fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução; somente Fl. 3222DF CARF MF 72 ocorre mudança do critério jurídico quando forem verificadas duas condições concomitantes: (i) que a Autoridade Fiscal tenha inicialmente aplicado a lei utilizandose de uma interpretação para efetuar o lançamento fiscal e, depois, de outra para realizar novo lançamento, no mesmo período de apuração, sem que se possa dizer que qualquer das duas interpretações seja incorreta; e (ii) que a exigência se refira a um mesmo fato gerador, pois se houver apuração de fatos novos não se pode pretender ter existido mudança de critério jurídico. Tratase, no entanto, de hipótese que não poderia ser simplesmente remediada por meio da lavratura de um novo auto de infração. Houve, após a a decisão que cancelou a autuação anterior por erro no enquadramento legal, verdadeira revisão do lançamento tributário em sua substância, mediante modificação do fundamento que ensejou a autuação aqui debatida, alterandose o critério jurídico sobre o mesmo fato, hipótese expressamente vedada pelo art. 146 do CTN, abaixo reproduzido: Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução.”(grifei) A alteração do fundamento jurídico da autuação após o cancelamento da autuação original, não constitui mera correção procedimental, mas antes, insistase, clara alteração material do lançamento tributário. Integra os elementos essenciais do lançamento tributário, nos precisos termos do art. 142 do CTN: “Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. (negritei) Esse, aliás, o entendimento do Conselho de Contribuintes e da Egrégia Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF: “NORMAS PROCESSUAIS NULIDADEDO LANÇAMENTO É nula a exigência fiscal constituída através de lançamento que não atenda às normas previstas nos artigos 142 do CTN e 11 do Decreto nº 70.235/72.” 1º Conselho de Contribuintes /6a. Câmara / ACÓRDÃO 10611.055 de 11/11/1999. “VÍCIOS DE NULIDADES Após formalizado o lançamento e instaurada a fase litigiosa com a impugnação tempestivamente apresentada, é defeso a autoridade lançadora rever de ofício o lançamento.” 1º Conselho de Contribuintes / 1a. Câmara / ACÓRDÃO 10196.170 em 24.05.2007. Publicado no DOU em: 20.08.2007. “REQUISITOS DO LANÇAMENTO A ausência de enquadramento legal, associada à deficiente descrição dos fatos, Fl. 3223DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.188 73 autorizam a decretação da nulidade do auto de infração por inobservância dos requisitos básicos para a sua validade, estatuídos no artigo 10 do Decreto nº 70.235/72, propiciadores do exercício do amplo direito de defesa por parte do sujeito passivo e livre formação de convencimento por parte dos julgadores.” CSRF 1 ª Turma / ACÓRDÃO CSRF/0104.473 em 14.04.2003. Publicação DOU: 07.03.2005. (Grifei) Houve, destarte, alteração do fundamento jurídico do lançamento tributário aqui discutido a partir da no lançamento perpetrado após o seu cancelamento pelo CARF. Nessa vereda, o novo lançamento importou em inequívoca alteração do lançamento tributário, hipótese somente admitida nas expressas condições prescritas pelos artigos 145 e 149 do CTN. Em outras palavras, buscou a auditoria fiscal corrigir manifesto erro de direito, eis que, com base nos mesmíssimos fatos, provas e informações anteriormente disponíveis, alterou fundamento jurídico que gerou a glosa do ágio ora debatido, alterando seu entendimento pretérito (levado a efeito quando da lavratura do auto de infração original). A interpretação sistêmica dos artigos 145, 146 e 149 do CTN permite concluir que, na lição de Ricardo Lobo Torres (O Princípio da Proteção da Confiança do Contribuinte”. RFDT 06/09, dez/2003. Citado por Leandro Paulsen, in “Direito Tributário: Constituição e Código Tributário à Luz da Doutrina e da Jurisprudência. Livraria do Advogado, Porto Alegre: 2005, p. 146), o “art. 146 complementa a irreversibilidade por erro de direito regulada pelos artigos 145 e 149. Enquanto o art. 149 exclui o erro de direito dentre as causas que permitem a revisão do lançamento anterior feito contra o mesmo contribuinte, o art. 146 proíbe a alteração do critério jurídico geral da Administração aplicável ao mesmo sujeito passivo com eficácia para os fatos pretéritos.” Não há que se admitir como erro de fato a nova valoração e novo enquadramento legal dos mesmos fatos após a lavratura do auto de infração. Não se pode reputar como “fato não conhecido”, na acepção do art. 149, VIII, do CTN, aqueles que na verdade deveriam ter sido sopesados pela fiscalização no lançamento de ofício originário. “Também há mudança de critério jurídico quando a autoridade administrativa, tendo adotado uma entre várias alternativas expressamente admitidas pela lei, na feitura do lançamento, depois pretende alterar esse lançamento, mediante a escolha de outra das alternativas admitidas e que enseja a determinação de um crédito tributário em valor diverso, geralmente mais elevado.” (Hugo de Brito Machado, Curso de Direito Tributário. Malheiros, 12ª edição, 1997, p. 123) “Há um critério que vem sendo amplamente observado, no que concerne aos limites da atividade modificadora dos autos de Fl. 3224DF CARF MF 74 lançamento. A autoridade administrativa não está autorizada a majorar a pretensão tributária, com base em mudança de critério jurídico. Pode fazêlo, sim, provando haver erro de fato. Mas como o direito se presume conhecido por todos, a Fazenda não poderá alegar desconhecêlo, formulando uma exigência segundo determinado critério e, posteriormente, rever a orientação, para efeito de modificála. A prática tem demonstrado a frequência de tentativas da Administração, no sentido de alterar lançamentos, fundandose em novas interpretações de dispositivos jurídicotributários. A providência, entretanto, tem sido reiteradamente barrada nos tribunais judiciários, sobre o fundamento explícito no art. 146 do Código Tributário Nacional:...” (Paulo de Barros Carvalho, Curso de Direito Tributário, Editora Saraiva, 22ª edição, São Paulo: 2010, p. 493) No presente caso, a auditoria fiscal alterou o fundamento jurídico que gerou a primeira autuação, por meio de nova valoração jurídica dos mesmíssimos fatos conhecidos e sobre os quais foi embasado o presente auto de infração. É o caso, pois, de dar nova relevância jurídica a fatos não considerados no ato de lançamento originário, hipótese repudiada pela melhor doutrina: "Aquele fato que a Fazenda Pública conhecia, mas deixou de considerar no lançamento anterior, porque não via nele nenhuma relevância jurídica, não pode vir a ser tomado, depois, como um fato não conhecido, para o fim de justificar a revisão do lançamento, só porque a Fazenda Pública modificou, posteriormente, seu entendimento jurídico a respeito. Quando a Fazenda Pública passa a dar relevância jurídica a um fato conhecido, que ignorara juridicamente no lançamento anterior, não está apreciando um fato novo, ou um fato não conhecido, mas simplesmente alterando a percepção jurídica adotada no lançamento anterior, quando se sabe que esse critério não pode mais ser modificado em relação ao mesmo sujeito passivo, pois tanto veda o art. 146, prestigiando a estabilidade de uma situação jurídica consolidada por ato da própria administração." (Zuudi Skakihara, Código Tributário Nacional Comentado. Editora RT. p. 148/149) “A possibilidade de se rever o lançamento em que houve erro de fato ou vícios como a simulação, a fraude ou a falta funcional não oferece dificuldade. Proclamaa unanimemente a doutrina e admite explicitamente o CTN (art. 149). A única ressalva, aí, prendese à exigência de o erro de fato só vir a ser conhecido pela autoridade fiscal após o lançamento primitivo. Como diz o CTN (art. 149, VIII), ‘quando deve ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior’. Mas se a autoridade lançadora conhecia em toda a sua inteireza os fatos, o erro será de direito, ou de valoração jurídica do fato, e, portanto, imutável o lançamento.” (Ricardo Lobo Torres “O Princípio da Proteção da Confiança do Contribuinte”. Ob. Cit., p. 1059) Fl. 3225DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.189 75 Portanto, a revisão do lançamento para não encontra amparo na legislação de regência, consoante manifestação do Superior Tribunal de Justiça em hipóteses similares: “TRIBUTÁRIO – IMPORTAÇÃO – REVISÃO DE LANÇAMENTO POR ERRO DE DIREITO – SÚMULA 227/TFR. 1. Em havendo na declaração do contribuinte erro de direito não detectado pelo Fisco, que a aceita integralmente, a mudança de entendimento constituise em alteração de critério vedada pelo CTN. 2. Só a falsidade, o erro ou a omissão são capazes de provocar a revisão do lançamento com a conseqüente autuação do contribuinte. 3. Recurso especial improvido.” (STJ, 2a T., unânime, Resp 171.119/SP, rel. Min. Eliana Calmon, ago/2001) “TRIBUTÁRIO. IMPORTAÇÃO DE MERCADORIA. DESEMBARAÇO ADUANEIRO. AUTUAÇÃO POSTERIOR. REVISÃO DE AUTO FISCAL. QUESTÃO DE DIREITO. ‘A mudança de critério jurídico adotado pelo fisco não autoriza a revisão de lançamento(Súmula 227, TFR)’ (Resp. 65.858)” (STJ, RESP 264516/PR, 1ª Turma, Rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJ 20/02/2001) No mesmo sentido já se posicionou o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, litteris: Nº Recurso 157962 Número do Processo19515.001755/200319 Órgão Julgador Primeira Turma Especial/Primeira Câmara/Primeiro Conselho de Contribuintes Contribuinte IRUSA ROLAMENTOS LTDA Tipo do Recurso Recurso Voluntário Dar Provimento Por Unanimidade Data da Sessão 16/09/2008 Relator(a) Ana de Barros Fernandes Nº Acórdão 19100010 Tributo / Matéria IRPJ glosa de compensação de prejuízos fiscais Decisão Por unanimidade de votos, DAR provimento ao recurso. Ementa Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2000 Ementa: ALTERAÇÃO NA Fl. 3226DF CARF MF 76 FUNDAMENTAÇÃO LEGAL DA AUTUAÇÃO. VEICULADA EM ACÓRDÃO. IMPOSSIBILIDADE. Não se admite mudança na fundamentação que embasou o lançamento tributário promovida pela autoridade de julgamento, por consistir em novo lançamento que deve ser realizado por autoridade competente, seguida da devida reabertura de prazo para o contribuinte oferecer impugnação. Recurso Voluntário Provido. Nº Recurso 327361 Número do Processo 11128.007140/9858 Órgão Julgador Primeira Câmara/Terceiro Conselho de Contribuintes Contribuinte BAYER CROPSCIENCE LTDA Tipo do Recurso Recurso Voluntário Anulado A Partir Da Decisão De 1ª Instância Data da Sessão 05/11/2003 Relator(a) LUIZ SÉRGIO FONSECA SOARES Nº Acórdão 30130792 Tributo / Matéria Decisão Decisão: Por unanimidade de votos, anulouse a decisão de 1ª instância. O conselheiro Roosevelt Baldomir Sosa votou pela conclusão. Ementa PROCESSUAL. INOVAÇÃO QUANTO AO LANÇAMENTO NA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE. Quando de diligência resulte o agravamento da exigência inicial, consistente na alteração dos argumentos para sua manutenção ou de sua fundamentação legal, não compete à DRJ aperfeiçoar o lançamento, devendo ser lavrado Auto de Infração Complementar, devolvendose ao sujeito passivo o prazo para impugnar a parte modificada. ANULADA A DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. (Grifei) O ato de revisão de lançamento que ora se defende carece, então, de motivo, posto que não enunciou a autoridade fiscal autuante em nenhuma das razões colocadas no artigo 149 do CTN. Se, por absurdo, admitissese a legalidade do ato administrativo objurgado, abrirseia ensanchas para a sucessiva, reiterada e eterna reabertura de dissídio concernente à alteração do fundamento jurídico que gerou a cobrança do ágio aqui debatido, sendo agredido, de forma ingente, o princípio da segurança jurídica, um dos vetores máximos do sistema brasileiro. Assim, é nula a alteração do fundamento que ensejou a glosa do ágio, porquanto a alteração do critério jurídico ou mesmo o descortino de erro de direito em procedimento de revisão de lançamento de ofício não dá guarida legal para que se exija o crédito tributário ao recorrente – art. 146, c/c art. 149 do CTN. Fl. 3227DF CARF MF Processo nº 10980.723835/201411 Acórdão n.º 1302002.631 S1C3T2 Fl. 3.190 77 Diante do exposto, acolho a preliminar de nulidade e dou provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa Fl. 3228DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.720728/2012-51
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Mar 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jun 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009, 2010
TRANSFERÊNCIA DE ÁGIO. APROVEITAMENTO TRIBUTÁRIO. IMPOSSIBILIDADE.
A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da "confusão patrimonial" a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na "mais valia" do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição.
Ainda que o ágio tenha sido criado em operação envolvendo terceiros independentes, se houver a transferência do ágio registrado na investidora originária para outra empresa, pertencente ao mesmo grupo econômico, por meio de operações meramente contábeis e sem circulação de riqueza, não mais se torna possível o pretendido aproveitamento tributário do ágio.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2007, 2008
TRIBUTAÇÃO REFLEXA.
Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009, 2010
MATÉRIAS NÃO EXAMINADAS NA FASE DE RECURSO VOLUNTÁRIO. DEVOLUÇÃO À TURMA A QUO.
Uma vez restabelecidas as autuações fiscais relativas às glosas das despesas de amortização de ágio e às adições de valores indevidamente excluídos do lucro tributável, faz-se necessário o retorno dos autos à Turma a quo para análise dos pontos específicos suscitados no recurso voluntário que deixaram de ser apreciados no acórdão recorrido.
Numero da decisão: 9101-003.466
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra (relator), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro José Eduardo Dornelas Souza.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo - Presidente
(assinado digitalmente)
Gerson Macedo Guerra - Relator
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado para os impedimentos de conselheiros), Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo (Presidente).
Nome do relator: GERSON MACEDO GUERRA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2007, 2008, 2009, 2010 TRANSFERÊNCIA DE ÁGIO. APROVEITAMENTO TRIBUTÁRIO. IMPOSSIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da "confusão patrimonial" a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na "mais valia" do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição. Ainda que o ágio tenha sido criado em operação envolvendo terceiros independentes, se houver a transferência do ágio registrado na investidora originária para outra empresa, pertencente ao mesmo grupo econômico, por meio de operações meramente contábeis e sem circulação de riqueza, não mais se torna possível o pretendido aproveitamento tributário do ágio. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2007, 2008 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2007, 2008, 2009, 2010 MATÉRIAS NÃO EXAMINADAS NA FASE DE RECURSO VOLUNTÁRIO. DEVOLUÇÃO À TURMA A QUO. Uma vez restabelecidas as autuações fiscais relativas às glosas das despesas de amortização de ágio e às adições de valores indevidamente excluídos do lucro tributável, faz-se necessário o retorno dos autos à Turma a quo para análise dos pontos específicos suscitados no recurso voluntário que deixaram de ser apreciados no acórdão recorrido.
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008, 2009, 2010 TRANSFERÊNCIA DE ÁGIO. APROVEITAMENTO TRIBUTÁRIO. IMPOSSIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da "confusão patrimonial" a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na "mais valia" do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição. Ainda que o ágio tenha sido criado em operação envolvendo terceiros independentes, se houver a transferência do ágio registrado na investidora originária para outra empresa, pertencente ao mesmo grupo econômico, por meio de operações meramente contábeis e sem circulação de riqueza, não mais se torna possível o pretendido aproveitamento tributário do ágio. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2007, 2008 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplicase à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2007, 2008, 2009, 2010 MATÉRIAS NÃO EXAMINADAS NA FASE DE RECURSO VOLUNTÁRIO. DEVOLUÇÃO À TURMA A QUO. Uma vez restabelecidas as autuações fiscais relativas às glosas das despesas de amortização de ágio e às adições de valores indevidamente excluídos do lucro tributável, fazse necessário o retorno dos autos à Turma a quo para AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 07 28 /2 01 2- 51 Fl. 4191DF CARF MF 2 análise dos pontos específicos suscitados no recurso voluntário que deixaram de ser apreciados no acórdão recorrido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra (relator), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro José Eduardo Dornelas Souza. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente (assinado digitalmente) Gerson Macedo Guerra Relator (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado para os impedimentos de conselheiros), Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo (Presidente). Fl. 4192DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.192 3 Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência interposto pela Fazenda Nacional, contra o Acórdão nº 1301002.182, onde se decidiu que o ágio incorrido na aquisição de participação societária, uma vez transferido para empresa veículo pode ser objeto da amortização antecipada de que trata o art. 7º da Lei nº 9.532, de 1997. No procedimento fiscal que originou o presente lançamento foi analisada operação que constituiu uma etapa do processo de absorção do Bank Boston Banco Múltiplo S/A (BKB), pelo grupo Itaú. Ao presente caso, interessam os seguintes atos: 1. Aquisição das ações do Bank Boston Banco Múltiplo S/A (BKB) e da Libero Trading Internacional Ltd (LTI), pelo Banco Itaú Holding Financeira S/A (BIHF), holding do grupo Itaú, em 25/08/2006, pelo preço de R$ 4.581.120.000,00, com ágio no valor de R$ 2.597.837.360,40; 2. Incorporação das ações do BKB e da LTI pelo Banco Itaú S/A (subsidiária integral do BIHF) em 02/10/2006, pelo valor de R$ 4.625.335.493,26, com o objetivo de não reduzir o valor do ágio a ser futuramente amortizado pela empresas do grupo Itaú, mantendose inalterado o valor do ágio de R$ 2.597.837.360,40, entre a primeira e a segunda aquisição; 3. Cisão parcial do BKB (com versão do segmento Corporate para o Banco Itausaga, e do segmento de cartões para a Rudá Administração e Participações S/A), ambas em 02/10/2006; 4. Venda das ações do Itausaga para o ItaúBBA em 02/10/2006 (com laudo específico); 5. Incorporação do Itausaga pelo ItauBBA em 31/01/2007. Alegou a fiscalização que a motivação do contribuinte era destinar os seguimentos de varejo, de corporate e de cartões do Bank Boston às instituições financeiras do grupo Itaú que tivessem mais afinidade com cada um desses segmentos. Nesse contexto o seguimento corporate foi absorvido pelo Banco Itaí BBA S.A. Aduz a fiscalização, ainda, que, nesse processo, o planejamento tributário ficou oculto. Não se viu confessado que a forma utilizada no processo de absorção foi arquitetada com a única finalidade de transferir o ágio gerado para determinadas empresas do grupo Itaú (vide efls. 3246 e 3247). Para a fiscalização, em última instância ocorreram operações de alienação de carteiras de clientes do Bank Boston ao conglomerado Itaú. Foi aplicada multa isolada, pela insuficiência de recolhimento do IRPJ e CSLL sobre base estimada e multa de ofício não qualificada. Fl. 4193DF CARF MF 4 Impugnado o Auto de Infração, a DRJ decidiu pela improcedência dos argumentos de defesa. Assim, tempestivamente foi aviado Recurso Voluntário. A Turma a quo, ao analisar o Recurso Voluntário do Contribuinte entendeu, no que interessa ao presente julgamento, que: "(...) Assim sendo, o ágio resultante da aquisição, pelo Banco Itaú, das ações do BKB de propriedade do BIHF, é parte do ágio apurado na incorporação, pelo BIHF, das ações do BKB de propriedade do Bank of America. Se se considerar que o ágio é o mesmo, e vem desde a origem da operação, considerado sobre a aquisição da fatia "Corporate" do BKB, afastado fica o raciocínio de ágio interno, o qual, particularmente, não aceito. Não se trata, esclareçase, de ágio gerado internamente entre empresas de um mesmo grupo econômico e com os mesmos interesses em criar um ágio interno, sem fundamentação econômica, que possibilitasse sua posterior dedução fiscal em outra empresa do mesmo grupo." Vale a transcrição da ementa da referida decisão: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008, 2009, 2010 AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. TRANSFERÊNCIA. POSSIBILIDADE. O art. 7º da Lei nº 9.532, de 1997, permite a dedução do ágio devido a resultados de exercícios futuros somente quando a pessoa jurídica absorve patrimônio de outra em casos de cisão, fusão ou incorporação. No caso vertente, a operação societária foi legítima e revestida dos pressupostos legais no tocante a transferência do ágio. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, DAR provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros Flávio Franco Corrêa e Milene de Araújo Macedo, que negavam provimento. Designado redator ad hoc (Portaria CARF nº107/2016) o Conselheiro Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro." Regularmente intimada da decisão a Fazenda Nacional apresentou seu Recurso Especial objetivando discutir a dedutibilidade de ágio transferido. O Recurso regularmente admitido pelo Presidente da Câmara. Intimado do Recurso da Fazenda Nacional o Contribuinte apresenta contrarrazões É o relatório. Fl. 4194DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.193 5 Voto Vencido Conselheiro Gerson Macedo Guerra, Relator O conhecimento do Recurso da Fazenda Nacional não foi contestado pelo contribuinte. A par disso, entendo não haver reparos a serem feitos no despacho de admissibilidade. Portanto, Conheço do recurso Especial. MÉRITO A) POSSIBILIDADE DE TRANSFERÊNCIA DE ÁGIO O ponto que restou em discussão no presente julgamento diz respeito à possibilidade ou não de transferência de ágio apurado na aquisição de participações societárias de terceiros independentes, entre empresas do mesmo grupo, com posterior incorporação de sociedades e aproveitamento fiscal do ágio. Quanto a isso, concluiu a fiscalização que na busca para transportar o ágio original para empresas do grupo e amortizálo fiscalmente, o Grupo Itaú cometeu abuso de direito. Vale aqui a transcrição do seguinte trecho do TVF (efls. 3288): No julgamento do Recurso Voluntário, entretanto, não se viu abuso de direito na operação societária realizada, conforme trecho do voto abaixo transcrito: De acordo com a data das operações societárias, constatase que seis delas (itens 2 a 7 acima) foram realizados no mesmo dia 02/10/2003, em sequência, assim como evidenciase a utilização da Itausaga como empresa veículo cuja função foi apenas possibilitar a transferência de ágio. Sustenta a Recorrente que a participação da Itausaga no processo foi apenas uma alternativa entre tantas outras, a fim, não de evitar ou reduzir pagamento de tributo, mas para evitar alteração na composição acionária deste. Não entendo suficiente para a manutenção da infração o entendimento de que a operação de compra e venda poderia perfeitamente ser feita diretamente entre o BKB e o ItauBBA, se a impugnante quisesse realizar a operação sem intermediários, o que consequentemente geraria um ganho de capital para BKB. Fl. 4195DF CARF MF 6 Os fatos estão postos para serem examinados e, ao que parece, a operação foi realizada ao abrigo da lei tributária que contemplou a formação de ágio, quando da aquisição de participação societária valorizada sob o critério de rentabilidade futura. Considerarse que a Itausaga foi incluída no processo de reestruturação com o propósito certo de permitir a indevida transferência do ágio para o Itau BBA, o qual passou a deduzir a respectiva amortização de ágio, é, no meu entendimento, forçar por demais a realidade: para o Grupo Itáu, a utilização de empresas interpostas, para evitar alteração na composição societária de outras empresas pode ser negocialmente relevante. Podese entender até como estratégia de planejamento tributário objetivando à transferência de ágio gerado na compra do BKB de uma empresa para outra, sem que a lei, por tal motivo, seja violada. Também entendo que a operação estruturada em sequência, transportou ágio de parte da atividade do BKB para o ItaúBBA, empresa essa que acabou por ficar com a parcela "Corporate" do BKB que, lá na origem de toda a operação, foi adquirida de maneira valorizada com base na rentabilidade futura. Não se trata, pois, de ágio novo. Nos termos da Lei nº 9.537/97, em seu art. 7º, é permitida a dedução do ágio devido a resultados de exercícios futuros somente quando a pessoa jurídica absorve patrimônio de outra em casos de cisão, fusão ou incorporação, o que efetivamente ocorreu neste caso, mesmo que de forma encadeada. Assim sendo, o ágio resultante da aquisição, pelo Banco Itaú, das ações do BKB de propriedade do BIHF, é parte do ágio apurado na incorporação, pelo BIHF, das ações do BKB de propriedade do Bank of America. Se se considerar que o ágio é o mesmo, e vem desde a origem da operação, considerado sobre a aquisição da fatia "Corporate" do BKB, afastado fica o raciocínio de ágio interno, o qual, particularmente, não aceito. Não se trata, esclareçase, de ágio gerado internamente entre empresas de um mesmo grupo econômico e com os mesmos interesses em criar um ágio interno, sem fundamentação econômica, que possibilitasse sua posterior dedução fiscal em outra empresa do mesmo grupo. Penso que não assiste razão à fiscalização nessa interpretação dos fatos e das normas em análise e que a Turma a quo, de modo certeiro, compreendeu a questão. A possibilidade de amortização fiscal do ágio gerado por rentabilidade futura, após absorção de patrimônio de uma sociedade por outra, mediante incorporação, fusão ou cisão, inclusive da investidora (chamada operação reversa), surgiu em nosso ordenamento jurídico com o advento da Lei 9.532/97, artigos 7º e 8º, abaixo transcritos: Art. 7º A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de Fl. 4196DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.194 7 dezembro de 1977: (Vide Medida Provisória nº 135, de 30.10.2003) I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "c" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2° do art. 20 do Decretolei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998) IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados durante os cinco anoscalendários subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no mínimo, para cada mês do período de apuração. Art. 8º O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: a) o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. Pelas regras acima, a amortização do ágio pago com fundamento em previsão de rentabilidade futura, deve atender a três premissas básicas, quais sejam: 1) o efetivo pagamento do custo total de aquisição, inclusive o ágio; 2) seja demonstrada a lisura na avaliação da empresa adquirida, bem como a expectativa de rentabilidade futura. Nesse contexto, passemos à análise alguns pontos relevantes. Fl. 4197DF CARF MF 8 A.1) INTERPRETAÇÃO FINALÍSTICA DA LEI 9.532/97 EQUIVOCADA UTILIZAÇÃO DA TEORIA DO PROPÓSITO NEGOCIAL A fiscalização empregou interpretação literal à tais regras, para afirmar que apenas o investidor que efetivamente efetuou o pagamento pela aquisição possui o direito de amortizar o ágio nas hipóteses de incorporação, fusão ou cisão. Penso, pelo contrário, que não foi utilizada a melhor técnica para a interpretação das referidas normas pela fiscalização. As regras de amortização fiscal do ágio não se tratam benefício fiscal. E isso fica claro ao se verificar a exposição de motivos 644/MF, da MP 1.602/97, que em seu item 11 assim manifestava: A Lei 9.532/97 veio ao mundo jurídico num contexto histórico de privatizações ocorridas no país. Como amplamente divulgado na época em que publicada a norma, o objetivo da permissão contida em seu inciso III, de amortização do ágio gerado com base em rentabilidade futura, era o regulamentar a forma de aproveitamento fiscal do ágio gerado. Por trazer regras um pouco mais claras sobre a amortização fiscal do ágio, tal norma é tida como indutora de comportamentos dos contribuintes, na medida em que trouxe segurança jurídica às operações de aquisições de empresas, tanto por investidores não residentes, que se interessaram enormemente por um mercado em recente abertura, como por investidores residentes no Brasil. Diante das regras ali contidas é possível afirmar que, teleologicamente, a Lei visava dar segurança jurídica aos adquirentes de participações societárias, desde que a operação estivesse fundada em rentabilidade futura devidamente documentada e com o efetivo pagamento do preço, contexto que, sendo verificado, garantia a amortização fiscal, após a confusão patrimonial aos contribuintes. Ora, não se tratando de benefício fiscal, entendo que não é a interpretação literal aquela que melhor se adequa à interpretação da legislação que trata da amortização fiscal do ágio nas hipóteses de incorporação, fusão ou cisão. A meu ver, a interpretação finalística supre todas as lacunas da legislação. Nesse contexto, podese afirmar que houve uma equivocada aplicação da teoria do propósito negocial para se entender que as operações em questão são inoponíveis ao fisco. Para explicar tal afirmação, partimos da premissa de que, o propósito negocial na aquisição do Bank Boston no Brasil pelo conglomerado Itaú é indubitável, haja Fl. 4198DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.195 9 vista que houve efetiva aquisição de participação societária, fundada em laudo de avaliação da rentabilidade futura do negócio adquirido, e pagamento de preço a parte totalmente independente. Entendeu a fiscalização, equivocadamente, que a operação societária de cisão do Bank Boston e integração das parcelas cindidas em empresas do grupo, que posteriormente foram transferidas para as empresas operacionais do grupo Itaú que possuíam sinergia com as atividades segregadas, tiveram propósito exclusivamente de gerar ganho tributário. A meu ver, apenas se o ágio original na aquisição do Bank Boston fosse forjado essa afirmação seria plausível. Houvesse a aquisição do Bank Boston sido realizada pelas três empresas do grupo Itaú conjuntamente, dentre as quais o contribuinte em questão, com posterior cisão e incorporação das parcelas cindidas pelas empresas adquirente a amortização do ágio jamais seria questionada pela fiscalização. Ora, não pode a forma jurídica escolhida pelo contribuinte para organizar seus negócios no âmbito do grupo empresarial tolher direito garantido. Houve efetiva aquisição de participação com ágio, o preço foi pago a terceiro independente, logo, o ágio deve ter seus efeito fiscal garantido, que é a sua amortização. Penso que, finalisticamente, não era intenção da norma coibir esse tipo de operação. Como visto na exposição de motivos retro transcrita, sua intenção era de coibir operações com ágios forjados ou a amortização integral do ágio, em função da ausência de regulamentação da forma de aproveitamento nas hipótese de confusão patrimonial entre investidora e investida. A.2) INAPLICABILIDADE DA TEORIA DO PROPÓSITO NEGOCIAL NO DIREITO PÁTRIO Em minha posição, o entendimento de que o contribuinte pode se reorganizar desde que não seja exclusivamente para reduzir carga tributária é apenas uma doutrina muito mais propositiva do que analítica do Direito posto, a qual se aproxima muito da já rechaçada interpretação econômica do Direito Tributário. Ambas levam ao desmedido subjetivismo na valoração dos fatos tributáveis e, consequentemente, à insegurança jurídica. Além disso, a finalidade da sociedade empresária é maximizar seus lucros, pelo aumento do faturamento e/ou redução de custos inclusive tributário, o que é legítimo desde que suas condutas sejam lícitas. Para o principal doutrinador da tese da substância econômica, Marco Aurélio Greco, há dois tipos de ilícitos que acarretam a invalidade do planejamento tributário: os ilícitos típicos (sonegação, fraude e conluio, previstos nos artigos 71, 72 e 73, da Lei 4.502) e os ilícitos atípicos (tais como abuso de direito, fraude a lei e simulação, institutos do direito civil utilizados no âmbito do direito tributário). Discordo dessa posição. Em minha visão, dado o princípio da tipicidade cerrada e da segurança jurídica, apenas os ilícitos típicos acarretam a invalidade do planejamento tributário. Fl. 4199DF CARF MF 10 Concluo dessa forma, inclusive, avaliando o parágrafo único do artigo 116, do CTN que ao dizer que a autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, impôs que fossem observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária. Sendo válida em nosso ordenamento a teoria do Professor Marco Aurélio Greco, a letra da norma acima seria morta, na medida em que seria totalmente dispensável a Lei específica que estabelecesse os procedimentos a serem observados pelas autoridades administrativas para desconsiderar atos ou negócios jurídicos, já que a legislação civil cumpre tal papel. Quisesse o legislador ver aplicáveis no âmbito do direito tributário, pelas autoridades administrativas, as regras de direito civil, o faria expressamente, por meio da Lei prevista no parágrafo único do referido artigo 116. Se não o fez, a autoridade administrativa não possui poderes para desconsiderar atos e negócios jurídicos com base em institutos do direito civil. Não podemos nos esquecer que no âmbito civil impera a vontade, enquanto que em âmbito tributário impera a legalidade. Entendo que apenas na hipótese em que demonstrado pelas autoridades fiscais a sonegação, fraude ou conluio dos artigos 71, 72 e 73, da Lei 4.502, ela poderá desconsiderar os atos e negócios jurídicos praticados pelos contribuintes. Nesse contexto, em minha análise os critérios definidores de um planejamento tributário legítimo, oponível às autoridades fiscais, são: (i) os atos que impliquem a redução na carga tributária devem ocorrer cronologicamente antes do fato gerador; (ii) os atos praticados pelo contribuinte que resultaram na redução da carga tributária devem ser lícitos; dada a ausência de dolo ensejador da sonegação, fraude e conluio previstos nos artigos 71, 72 e 73, da Lei 4.502/64. Em minha concepção, então, a simples alegação de falta de propósito negocial, dissociada da comprovação de pelo menos um dos ilícitos previstos nos artigos 71, 72 e 73, da Lei 4.502/64 não é suficiente para respaldar a atitude da fiscalização de desconsiderar operações legalmente realizadas. Portanto, voto NEGAR provimento ao recurso da Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Gerson Macedo Guerra Fl. 4200DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.196 11 Voto Vencedor Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Redator designado Com a devida vênia, divirjo do entendimento exposto pelo ilustre Conselheiro Relator acerca do tema que foi objeto do recurso especial interposto pela Fazenda Nacional, qual seja a possibilidade de aproveitamento tributário de ágio regularmente registrado por uma empresa e posteriormente "transferido", por meio de operações de incorporação e de compra e venda, para outras pessoas jurídicas pertencentes ao mesmo grupo econômico. O ponto central do debate desenvolvido nos presentes autos diz respeito à regularidade do procedimento adotado pelo contribuinte BANCO ITAÚ BBA S.A. (doravante identificado apenas como "ITAU BBA") e condenado pela Fiscalização, de utilizar tributariamente, nos anoscalendário 2007 a 2010, ágio registrado originalmente na contabilidade do BANCO ITAÚ HOLDING FINANCEIRA S.A. ("BIHF"), holding do grupo ITAÚ. A aludida utilização tributária se deu por meio de deduções de despesas de amortização do ágio e de exclusões realizadas na apuração do lucro real do contribuinte, que reduziram os valores de IRPJ e de CSLL recolhidos no período considerado. A operação que originou o ágio ocorreu em 25/08/2006, quando o BIHF adquiriu o BANKBOSTON BANCO MÚLTIPLO S.A. ("BANKBOSTON") junto à pessoa jurídica estrangeira BANK OF AMERICA CORPORATION ("BANK OF AMERICA"). As ações do banco adquirido tiveram seu preço fixado em R$ 4.578.878.000,00, valor que foi "pago" com a emissão de ações preferenciais do adquirente BIHF. O preço adotado na aquisição foi determinado com base no valor de mercado das ações do BANKBOSTON em 30/04/2006, que era superior ao seu valor patrimonial (R$ 1.981.040.639,60). Assim, registrouse na contabilidade do BIHF ágio correspondente à diferença entre tais montantes, no valor de R$ 2.597.837.360,40. Ao contrário do BANKBOSTON, o grupo ITAÚ contava com pessoas jurídicas distintas para exploração dos negócios de banco de varejo, banco de atacado (segmento corporate) e operações de cartões de crédito. Assim, o grupo financeiro optou por segmentar as operações do banco recémadquirido relativas a cada um dos negócios mencionados, para posterior integração às empresas especializadas do grupo ITAÚ. A primeira etapa de operacionalização deste intento ocorreu em 02/10/2006, quando o BANCO ITAÚ S.A. ("BANCO ITAÚ"), empresa integralmente controlada pelo BIHF, incorporou 100% das ações do BANKBOSTON, pelo preço fixado de R$ 4.625.335.493,26. Nesta data, o valor patrimonial das ações do BANKBOSTON era de R$ 2.027.498.132,86, o que provocou a contabilização, no BANCO ITAÚ, de ágio no valor de R$ 2.597.837.360,40, exatamente igual ao previamente registrado no BIHF. Em contrapartida, o BIHF baixou o investimento que detinha diretamente no BANKBOSTON e registrou um aumento de R$ 4.625.335.493,26 no investimento que já possuía no BANCO ITAÚ. Fl. 4201DF CARF MF 12 Dando continuidade aos planos do grupo ITAÚ de segregar as operações do BANKBOSTON, o patrimônio deste banco foi parcialmente cindido, ainda em 02/10/2006, para que os ativos e passivos correspondentes ao segmento corporate pudessem ser vertidos a outra empresa do grupo, o BANCO ITAUSAGA S.A. ("ITAUSAGA"). Além das ações do BANKBOSTON relacionadas às operações corporate, também foi "transferida" ao ITAUSAGA a parcela do ágio que o grupo ITAÚ associou àquela parte do investimento. A quantificação do valor das operações transferidas (e do ágio a elas associado) foi realizada com base no valor de mercado, avaliado em 31/08/2006, dos principais segmentos de negócios do BANKBOSTON. O BANCO ITAÚ baixou, então, parte de seu investimento direto no BANKBOSTON, transferindo o valor equivalente para o investimento direto que passou a deter no ITAUSAGA (este já estava submetido ao controle do primeiro, mas de forma indireta). O valor patrimonial das operações corporate transferidas era de R$ 140.000.000,00 e o ágio associado, de R$ 760.904.992,00, perfazendo um total de R$ 900.904.992,00 incorporados pelo ITAUSAGA. Ainda na mesma data, 02/10/2006, o BANCO ITAÚ vendeu a totalidade das ações do ITAUSAGA ao contribuinte ITAÚ BBA. A venda se deu por R$ 920.900.000,00, sendo R$ 159.995.008,00 referentes ao valor do patrimônio líquido e R$ 760.904.992,00 de ágio associado ao investimento. Para captar os recursos necessários à compra do ITAUSAGA, o ITAÚ BBA emitiu um Certificado de Depósito Interbancário (CDI) exatamente no valor de R$ 920.900.000,00. O CDI foi comprado pelo próprio BANCO ITAÚ, vendedor das ações do ITAUSAGA, fato que levou a Fiscalização a inferir que a operação de compra e venda teria sido financiada pelo vendedor das ações. Já em 31/01/2007, o contribuinte ITAÚ BBA incorporou o ITAUSAGA, empresa então submetida ao seu controle integral (na realidade, de acordo com o próprio contribuinte, antes de dezembro de 2006 todas as operações do ITAUSAGA já haviam sido transferidas, por meio de instrumentos jurídicos adequados, ao ITAÚ BBA). Julgando ter reunido no mesmo patrimônio a fração do acervo antes pertencente ao BANKBOSTON, associada à atividade corporate, e o ágio que a ela foi atribuído por ocasião da aquisição do BANKBOSTON pelo BIHF, o contribuinte iniciou, no anocalendário 2007, o aproveitamento tributário de tal ágio, considerando que tal prática estaria amparada pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, também contempladas no Regulamento do Imposto de Renda (RIR/1999), nos arts. 385 e 386. Muito bem. A respeito da figura do ágio, há que se dizer que seu conceito tributário foi introduzido no ordenamento brasileiro pelo DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977. À época dos fatos discutidos nestes autos, dispunha o art. 20 do Decreto Lei, antes de ter sua redação alterada pela Lei nº 12.973, de 13/05/2014: Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. Fl. 4202DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.197 13 § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. O art. 385 do RIR/1999 é basicamente uma cópia do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977. Em ambos os dispositivos, encontrase a determinação de que contribuintes que avaliam investimentos em sociedade controlada ou coligada pelo valor do patrimônio líquido registrem o ágio apurado na aquisição de participação societária em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Além disso, os dispositivos prevêem que tal ágio deve ser fundamentado em pelo menos um dos três fatores: a) valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; b) expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros ou; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Quando o art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977 e o art. 385 do RIR/1999 afirmam que o destinatário das regras ali expostas é o contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido, estão se referindo ao método da equivalência patrimonial. Segundo tal método, as variações observadas nos patrimônios líquidos da sociedades coligadas ou controladas provocam reflexos nos valores dos investimentos registrados na investidora. Observese o que dispõem os arts. 387 a 389 do RIR/1999, a respeito do método de equivalência patrimonial: Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): : I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até dois meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda; Fl. 4203DF CARF MF 14 (...) Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) O art. 389 do RIR/1999 é explícito ao determinar que os resultados auferidos pelas empresas coligadas ou controladas não devem ser computados na determinação do resultado da investidora. Assim, lucros apurados em uma investida devem ser objeto de tributação somente no âmbito daquela empresa. Embora tenham o reflexo de majorar o valor do investimento registrado na investidora, os lucros da investida não devem integrar a base tributável da pessoa jurídica que nela detém participação societária, sob pena de configurarse hipótese de dupla tributação. Caso a investidora tenha registrado, em sua contabilidade, ágio decorrente da expectativa de rentabilidade futura da investida, concluise que a causa do pagamento a maior efetivamente se concretizou, mas foi tributada somente na coligada ou controlada. Sendo assim, não há que se cogitar de amortização do ágio na investidora, uma vez que não ocorre, nesta pessoa jurídica, tributação do resultado positivo da investida. Somente seria lógico falar em amortização daquele ágio caso a concretização do motivo que lhe deu causa, qual seja, a lucratividade futura da investida, tivesse reflexos tributários na pessoa jurídica que pagou a "mais valia". Dessa forma, o dispêndio a maior poderia ser gradativamente recuperado sob a forma de despesas dedutíveis, se os lucros que o motivaram provocassem um maior recolhimento de tributos nos períodos posteriores à aquisição do investimento. Como, por determinação legal, não é esta a hipótese que se verifica no método de equivalência patrimonial, podese concluir que a regra geral é a da impossibilidade de utilização fiscal do ágio registrado na investidora. É o que reza expressamente o art. 391 do RIR/1999: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). Fl. 4204DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.198 15 Existem, contudo, duas exceções a tal regra. A primeira delas é indicada pelo próprio art. 391, quando ressalva o disposto no art. 426 do mesmo RIR/1999: Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. A primeira exceção à regra da impossibilidade de aproveitamento tributário do ágio tratado pelo art. 385 do RIR/1999 diz respeito, portanto, à apuração de ganho ou perda de capital. Se o investimento que deu causa à "mais valia" for alienado ou liquidado, o ágio ou deságio registrados na contabilidade da controladora devem compor o custo de aquisição considerado no cálculo do resultado tributável da operação, sobre o qual incidirão IRPJ e CSLL. Já a segunda exceção, que interessa mais diretamente à discussão desenvolvida nos presentes autos, referese às transformações societárias envolvendo investidoras, investidas e o ágio associado aos investimentos. A respeito da evolução histórica das previsões legais que contemplaram a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio em hipóteses de transformações societárias, remetome ao irretocável apanhado feito pelo nobre Conselheiro André Mendes de Moura no Acórdão nº 9101002.301: "Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo Fl. 4205DF CARF MF 16 tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada períodobase a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale Fl. 4206DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.199 17 transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 19971, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI2 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. (...) Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses 1 Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 2 SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo : Dialética, 2012, p. 66 e segs. Fl. 4207DF CARF MF 18 em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista3 que trabalhou na edição da MP 1.609, de 19974: O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. (...) Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegou se a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.607, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização." Depreendese da retrospectiva transcrita que os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (produto da conversão da Medida Provisória nº 1.602/1997) foram erigidos pelo legislador com a específica finalidade de coibir a prática de planejamentos tributários abusivos em que empresas superavitárias adquiriam com ágio empresas deficitárias para serem em 3 Relatório da Comissão Mista publicada no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18494, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 4 Na realidade, o número da Medida Provisória abordada é 1.602. Fl. 4208DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.200 19 seguida incorporadas por elas. Tal incorporação reversa, também denominada de incorporação "às avessas", não tinha nenhum propósito negocial que não fosse a simples geração de ganhos de natureza tributária. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 foram integralmente incorporados ao RIR/1999 por meio de seu art. 386. Como este artigo faz referência expressa a dispositivos do art. 385 (cópia do já reproduzido art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977), transcrevemse ambos a seguir: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do §2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; Fl. 4209DF CARF MF 20 II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do §2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração. §1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §1º). §2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §2º): I o ágio em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; II o deságio em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. §3º O valor registrado na forma do inciso II (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §3º): I será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; II poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. §4º Na hipótese do inciso II do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos ou contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §4º). §5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §5º). Fl. 4210DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.201 21 §6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. §7º Sem prejuízo do disposto nos incisos III e IV, a pessoa jurídica sucessora poderá classificar, no patrimônio líquido, alternativamente ao disposto no §2º deste artigo, a conta que registrar o ágio ou deságio nele mencionado (Lei nº 9.718, de 1998, art. 11). Verificase que os arts. 385 e 386 do RIR/1999 guardam uma relação indissociável entre si, uma vez que requisitos à aplicação do segundo artigo são extraídos diretamente da redação do primeiro. O art. 385, conforme já mencionado, estabelece duas regras principais. A primeira determina que o ágio apurado em uma aquisição de participação societária em sociedade controlada ou coligada seja registrado em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Já a segunda fixa os possíveis fundamentos econômicos do ágio pago na aquisição da participação societária (valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros; fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas). Por fim, o artigo ainda prevê que o ágio fundamentado em valor de mercado dos bens do ativo da investida ou na expectativa de resultados futuros deve ser baseado em documentação comprobatória, devidamente arquivada. Já o art. 386 trata, entre outras coisas, da possibilidade de aproveitamento tributário do ágio decorrente do fundamento econômico previsto no inciso II do §2º do artigo anterior (valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros). O caput do art. 386 traz o primeiro requisito que deve ser cumprido para que seja possível o aproveitamento do ágio: uma pessoa jurídica deve absorver o patrimônio de uma segunda, em que detenha participação societária adquirida com ágio. A respeito deste primeiro requisito exigido pela norma, recorro novamente ao Acórdão nº 9101002.301, pela assertividade da análise ali desenvolvida: "Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 5. 5 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ª ed. São Paulo : Malheiros Editores, 2010, p. 51 e segs. Fl. 4211DF CARF MF 22 Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado "transferido" para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. Fl. 4212DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.202 23 São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoase o encontro de contas entre investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI6, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago 6 SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 4213DF CARF MF 24 pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Considerandose o regime de tributação adotado pelo sujeito passivo, aperfeiçoase o lançamento fiscal e o termo inicial para contagem do prazo decadencial." Concluise, portanto, que o art. 386 do RIR/1999, sob o aspecto pessoal, se dirige à investidora que vier a incorporar sua investida (ou por ela ser incorporada), após ter efetivamente acreditado na mais valia do investimento, feito os estudos de rentabilidade futura e desembolsado os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço, pago em momento anterior pela investidora em razão da confiança na rentabilidade futura da investida. Destaquese que a regra se aplica tanto à incorporação da investida pela investidora quanto, no sentido inverso, à hipótese em que a investidora é que é incorporada por sua investida. Em ambos os casos, a lei exige que a investidora envolvida na incorporação seja a "original" ou stricto sensu (no sentido de que a originalidade está indissociavelmente ligada à pessoa jurídica que paga o ágio e, por isso mesmo, tem confiança na rentabilidade futura, pois é quem assume o risco). A situação em que a investida incorpora sua investidora é denominada de incorporação reversa ou ainda de incorporação "às avessas". A previsão da possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio nesta hipótese é trazida pelo § 6º, inciso II, do art. 386 do RIR/1999. O dispositivo faz uso de uma técnica legislativa transitiva, indicando assim que o que vale para o caput do art. 386 do RIR/1999 vale também para o seu § 6º. As premissas de exegese da norma não são afetadas, sendo necessárias apenas as devidas adaptações para contemplar a situação prevista. De forma correlata ao que se analisou quanto ao aspecto pessoal, a confusão de patrimônios, principal item do aspecto material para fins de enquadramento no art. 386 do Fl. 4214DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.203 25 RIR/1999, consumase quando, na sociedade incorporadora, o lucro futuro e o investimento original com expectativa desse lucro (aquele que foi sobreavaliado) passam a se comunicar diretamente (os riscos se fundem: o risco do investimento assim entendidos os recursos aportados e o risco do empreendimento). Compartilhando o mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolidase cenário no qual a pessoa jurídica detentora da "mais valia" (ágio) do investimento baseado na expectativa de rentabilidade futura passa a ser responsável também por honrar tal rentabilidade. Assim, a legislação permite que o contribuinte considere perdido o capital que foi investido com o ágio e deduza a despesa relativa à "mais valia". Configuração semelhante ocorre na incorporação reversa, na medida em que a pessoa jurídica responsável por gerar a rentabilidade esperada para o futuro passa a ser a detentora do ágio baseado na expectativa de tal rentabilidade. Sendo assim, pressupõese que a "mais valia" porventura contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participam da "confusão patrimonial". Para fins de acesso à dedutibilidade estabelecida pelo art. 386 do RIR/1999, a pessoa jurídica que efetivamente suportou o ágio pago na aquisição de um investimento deve incorporar tal investimento (incorporação da investida pela investidora) ou ser incorporada pela empresa em que investiu (incorporação "às avessas"). Em síntese, a subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/1999, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material das hipóteses ali previstas. Na atual redação destes dispositivos, exclusivamente no caso em que houver o efetivo desembolso de valores (ou sacrifício de outros ativos) a título de investimento da investidora (futura incorporadora ou, no caso da incorporação reversa, incorporada) na investida (futura incorporada ou, no caso da incorporação reversa, incorporadora), é que haverá o atendimento aos aspectos pessoal e material. Se o ágio não foi de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da "confusão patrimonial", não há sentido em clamarse pela dedutibilidade das despesas decorrentes de amortização de ágio instituída pelo art. 386 do RIR/1999. No caso analisado nos presentes autos, é incontroverso que houve, em 25/08/2006, a celebração de um negócio entre o BIHF, holding do grupo ITAÚ, e um terceiro não relacionado ao seu grupo, o BANK OF AMERICA. O primeiro adquiriu do segundo a totalidade das ações do BANKBOSTON, pelo seu valor de mercado então avaliado em R$ 4.578.878.000,00. Como o valor patrimonial das ações alienadas era de R$ 1.981.040.639,60, houve o registro, na contabilidade do BIHF, de ágio de R$ 2.597.837.360,40. A contrapartida pela aquisição das ações não foi um pagamento em dinheiro, mas a emissão de novas ações do BIHF em favor do BANK OF AMERICA. Foram emitidas 68.518.094 novas ações preferenciais da holding do grupo ITAÚ, equivalentes a R$ 4.581.120.000,00, valor necessário para a compra do BANKBOSTON e da LIBERO TRADING INTERNATIONAL LTD. (outra empresa alienada ao BIHF pelo BANK OF AMERICA, por R$ 2.242.000,00). Desta forma, o BANK OF AMERICA passou a figurar entre os acionistas do BIHF, com uma participação acionária de 5,8%. Fl. 4215DF CARF MF 26 Embora a aquisição das ações do BANKBOSTON, por valor superior ao patrimonial, não tenha se dado por meio de desembolso de dinheiro por parte do BIHF, tal fato não representava óbice à contabilização de ágio pelo adquirente. Não se discute nos presentes autos que o valor da contrapartida oferecida pelo BIHF superou o valor patrimonial do investimento adquirido. A existência do ágio oriundo desta operação não foi alvo de questionamento pela Fiscalização ou pela própria PGFN em seu recurso especial. Quando se estabelece a necessidade de que o investidor tenha arcado com a aquisição do investimento com ágio, obviamente não se restringe tal operação a uma compra e venda com o desembolso de valores monetários. O caso sob análise ilustra à perfeição tal tese, já que o BIHF exerceu efetivamente o papel de real investidor ao oferecer as próprias ações em contrapartida à aquisição das ações do BANKBOSTON. Apesar de não se ter verificado um desembolso de dinheiro, houve efetivas variações patrimoniais para as duas partes envolvidas (BIHF e BANK OF AMERICA), em valores proporcionais ao negócio celebrado. O óbice às pretensões do contribuinte reside não em eventual vício no surgimento do ágio, mas sim no fato de que a pessoa jurídica que efetivamente realizou o sacrifício patrimonial que amparou o surgimento e o registro do ágio foi, como descrito acima, o BIHF, e não o BANCO ITAÚ, o ITAUSAGA ou o contribuinte ITAU BBA, pessoas jurídicas por cuja contabilidade o registro do ágio circulou por força das operações societárias promovidas pelo grupo ITAÚ. Tais operações, aliás, tiveram o assumido propósito de fazer chegar ao ITAÚ BBA o ágio originalmente registrado pelo BIHF. Interpretandose o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verificase que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. Sendo assim, agiu corretamente a Fiscalização ao considerar que o contribuinte recorrido ITAÚ BBA não tinha direito a aproveitar tributariamente parte do ágio oriundo da operação de aquisição das ações do BANKBOSTON pelo BIHF. Como não foi o ITAÚ BBA que fez o sacrifício patrimonial que deu origem ao ágio relacionado às operações corporate do BANKBOSTON, restou desatendido o aspecto pessoal da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999. A única empresa que se sacrificou para a aquisição das ações do banco adquirido foi o BIHF, que abriu mão de 5,8% de suas ações em contrapartida à compra do investimento no BANKBOSTON. Posteriormente à aquisição do BANKBOSTON pelo BIHF, junto ao terceiro não relacionado BANK OF AMERICA, foram promovidas operações que envolveram várias empresas do grupo ITAÚ, com o objetivo final de fazer chegar à contabilidade do contribuinte ITAÚ BBA o ágio de R$ 760.904.992,00 relacionado ao acervo patrimonial corporate oriundo do BANKBOSTON. Inicialmente as ações do BANKBOSTON foram incorporadas pelo BANCO ITAÚ, controlado pelo BIHF, o que provocou a baixa do investimento na contabilidade da holding e o registro das ações incorporadas no BANCO ITAÚ, pelo seu valor patrimonial (R$ 2.027.498.132,86) mais ágio (R$ 2.597.837.360,40). Em seguida, o BANKBOSTON sofreu cisão parcial e os ativos e passivos relacionados às suas operações corporate foram vertidos ao ITAUSAGA, empresa controlada pelo BANCO ITAÚ. A parcela cindida foi registrada no ITAUSAGA juntamente com o ágio a ela relacionado, no valor de R$ 760.904.992,00. Em contrapartida, o BANCO ITAÚ reduziu seu investimento no BANKBOSTON e aumentou seu investimento direto no ITAUSAGA. Fl. 4216DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.204 27 Por fim, o BANCO ITAÚ promoveu a venda do ITAUSAGA ao contribuinte ITAÚ BBA por R$ 920.900.000,00, valor que contemplou o ágio de R$ 760.904.922,00 associado às operações corporate do BANKBOSTON. Os recursos necessários para que o contribuinte efetuasse o pagamento desta aquisição foram captados mediante a expedição de uma CDI, comprada pelo próprio vendedor BANCO ITAÚ. Obviamente o vendedor "recebeu" o valor da compra e venda e adquiriu, em desfavor do comprador, um direito de crédito no mesmo valor. A engenharia societária se completou com a incorporação do ITAUSAGA pelo ITAÚ BBA, ocorrida no início de 2007. A partir deste momento, o contribuinte, julgando que estaria configurada a "confusão patrimonial" entre o ágio e o investimento que lhe deu causa, passou a aproveitar o ágio por meio de deduções relativas à sua amortização e de exclusões feitas diretamente na apuração do lucro real. Ocorre que tal "confusão patrimonial", principal manifestação do aspecto material necessário à efetiva incidência da norma tributária prevista no art. 386 do RIR/1999, deve obrigatoriamente se dar entre a investida e a investidora originária, real. Por investidora originária, entendese aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição da participação societária. Ou seja, no caso sob análise, o real investidor é o BIHF (e apenas ele). Nenhuma das operações realizadas após a aquisição do BANKBOSTON junto ao BANK OF AMERICA envolveu a participação de terceiros independentes ou a efetiva circulação de riquezas. O registro do ágio (e, posteriormente, de suas frações, associadas às operações corporate, de varejo e de operações com cartões de crédito) foi "transferido" entre as empresas do grupo ITAÚ por meio de operações societárias com efeitos meramente contábeis. Não se caracterizou qualquer sacrifício patrimonial por parte de qualquer empresa envolvida, uma vez que todas elas estavam submetidas a controle comum. Observase, pela conjugação dos indícios e das características das operações societárias que se sucederam, que a participação do ITAUSAGA foi antecipada e artificialmente concebida como forma de o grupo econômico ITAÚ poder posteriormente clamar pelo direito ao aproveitamento tributário do ágio previsto no art. 386 do RIR/1999. Às vésperas de receber parte das ações do BANKBOSTON, em 02/10/2006, o ITAUSAGA teve seu patrimônio praticamente esvaziado, ficando apenas com R$ 20.000.000,00 de patrimônio líquido por conta de exigência específica do Banco Central do Brasil. Assim, atuou como verdadeira "empresaveículo", pois participou de forma efêmera das operações societárias relacionadas à integração do BANKBOSTON ao grupo ITAÚ e deixou como único legado a possibilidade de utilização indevida de algum benefício fiscal. O grupo ITAÚ optou por adotar procedimentos de engenharia societária que permitissem, ao final, a reunião do ágio e do investimento que lhe deu causa em uma mesma pessoa jurídica (o contribuinte ITAÚ BBA), situação semelhante à requerida pela legislação para permitir o uso tributário do ágio, mas não o suficiente para emularlhe os efeitos. Sendo assim, a amortização operada pelo contribuinte recorrido não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária Fl. 4217DF CARF MF 28 (investimento) ou é por ela incorporada. No caso dos autos, o investidor real não participou de "confusão patrimonial" alguma. Ainda que se analise a situação debatida nos autos sob outro enfoque, a conclusão alcançada continua sendo pela impossibilidade de utilização tributária do ágio pelo contribuinte recorrido. O aproveitamento tributário do ágio discutido nos presentes autos consistiu, como já foi dito por diversas vezes, predominantemente na dedução de despesas decorrentes de sua amortização na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Fazse relevante, portanto, analisar o caso sob a perspectiva da teoria atinente às despesas que têm relevância fiscal. Uma vez mais, pedese vênia para transcreverse excerto extraído do Acórdão nº 9101002.301, por sua concisão e clareza: "Definido que o aproveitamento do ágio pode darse por meio de despesa de amortização, mostrase pertinente apreciar do que trata tal dispêndio. No RIR/99 (DecretoLei nº 3.000, de 26/03/1999), o conceito de amortização encontrase no Subtítulo II (Lucro Real), Capítulo V (Lucro Operacional), Seção III (Custos, Despesas Operacionais e Encargos). O artigo 299 do diploma em análise trata, no art. 299, na Subseção I, das Disposições Gerais sobre as despesas: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3º O disposto neste artigo aplicase também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Para serem dedutíveis, devem as despesas serem necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, e serem usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Por sua vez, logo após as Subseções II (Depreciação de Bens do Ativo Imobilizado) e III (Depreciação Acelerada Incentivada), encontra previsão legal a amortização, no art. 324, na Subseção IV do RIR/99. Percebese que a amortização constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99. Fl. 4218DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.205 29 Despesa Diante de Fatos Construídos Artificialmente No mundo real os fatos nascem e morrem, decorrentes de eventos naturais ou da vontade humana. O direito elege, para si, fatos com relevância para regular o convívio social. No que concerne ao direito tributário, são escolhidos fatos decorrentes da atividade econômica, financeira, operacional, que nascem espontaneamente, precisamente em razão de atividades normais, que são eleitos porque guardam repercussão com a renda ou o patrimônio. São condutas relevantes de pessoas físicas ou jurídicas, de ordem econômica ou social, ocorridas no mundo dos fatos, que são colhidas pelo legislador que lhes confere uma qualificação jurídica. Por exemplo, o fato de auferir lucro, mediante operações espontâneas, das atividades operacionais da pessoa jurídica, amoldase à hipótese de incidência prevista pela norma, razão pela qual nasce a obrigação do contribuinte recolher os tributos. Da mesma maneira, a pessoa jurídica, no contexto de suas atividades operacionais, incorre em dispêndios para a realização de suas tarefas. Contratase um prestador de serviços, comprase uma mercadoria, operações necessárias à consecução das atividades da empresa, que surgem naturalmente. Ocorre que, em relação aos casos tratados relativos á amortização do ágio, proliferaramse situações no qual se busca, especificamente, o enquadramento da norma permissiva de despesa. Tratamse de operações especificamente construídas, mediante inclusive utilização de empresas de papel, de curtíssima duração, sem funcionários ou quadro funcional incompatível, com capital social mínimo, além de outras características completamente atípicas no contexto empresarial, que recebem aportes de milhões e em questão de dias ou meses são objeto de operações de transformação societária. Tais eventos podem receber qualificação jurídica e surtir efeitos nos ramos empresarial, cível, contábil, dentre outros. Situação completamente diferente ocorre no ramo tributário. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Impossível estender atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas, independente sua espécie, derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. Admitindose uma construção artificial, consumarseia um tratamento desigual, desarrazoado e desproporcional, que Fl. 4219DF CARF MF 30 afronta o princípio da capacidade contributiva e da isonomia, vez que seria conferida a uma determinada categoria de despesa uma premissa completamente diferente, uma liberalidade não aplicável à grande maioria dos contribuintes." Concluise, assim, que as despesas de amortização de ágio criado em operações como as encontradas nos presentes autos, atípicas e integrantes de um processo de planejamento tributário que tem a finalidade específica de criar artificialmente hipótese próxima à requerida pelo art. 386 do RIR/1999, não se revestem das características de necessidade, usualidade e normalidade requeridas para sua dedutibilidade. Diante de todo o exposto, relativamente ao pedido de restabelecimento da glosa das despesas decorrentes da amortização do ágio, indevidamente deduzidas pelo contribuinte ITAÚ BBA entre os anos de 2007 e 2010, bem como da adição dos valores indevidamente excluídos da apuração do lucro tributável no mesmo período, voto por DAR PROVIMENTO ao recurso especial da PGFN. Por fim, registrese que, como bem apontado tanto pela recorrente quanto pelo contribuinte em suas contrarrazões, há duas matérias que constaram no recurso voluntário e que não foram apreciadas pela 1a Turma Ordinária da 3ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF no bojo do Acórdão nº 1301002.182, em virtude da desoneração das verbas principais, atinentes ao IRPJ e a CSLL. Tais matérias referemse à aplicação concomitante das multas isolada e de ofício e à incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Não cabe a esta Câmara Superior de Recursos Fiscais se pronunciar a respeito de qualquer assunto antes que o faça a Turma a quo, sob o risco de supressão de instância que pode vir a prejudicar alguma das partes. Assim, mesmo entendendo esta turma da CSRF pelo restabelecimento dos créditos tributários principais discutidos nos presentes autos, não poderá adentrar na análise de outros pontos da lide que pendam de análise pela turma que proferiu a decisão recorrida. Em julgado que tive sob minha relatoria prevaleceu por unanimidade o entendimento de que, em situação bastante semelhante à presente, no caso de restabelecimento da glosa cancelada no julgamento do recurso voluntário, a melhor prática consiste em devolver o processo à Turma recorrida (ou àquela que a houver substituído, caso já não exista) para novo julgamento acerca das matérias não apreciadas. Traz a emenda do Acórdão nº 9101 002.188, no trecho que interessa à discussão: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2006, 2007, 2008, 2009 MULTA QUALIFICADA. MATÉRIA NÃO EXAMINADA NA FASE DE RECURSO VOLUNTÁRIO. Uma vez restabelecidas as autuações fiscais, deverá haver julgamento quanto à multa qualificada, fazendose necessário o retorno à Turma a quo para análise dos pontos específicos suscitados em relação a essa matéria no recurso voluntário. Portanto, sendo restabelecidos por esta CSRF os créditos tributários de IRPJ e de CSLL então cancelados, fazse necessária a devolução dos presentes autos à Turma a quo para que sejam analisadas as matérias retrocitadas, abordadas no recurso voluntário: (i) Fl. 4220DF CARF MF Processo nº 16327.720728/201251 Acórdão n.º 9101003.466 CSRFT1 Fl. 4.206 31 aplicação concomitante das multas isolada e de ofício; e (ii) incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Desse modo, voto no sentido de: DAR provimento ao recurso especial da PGFN, para restabelecer a autuação fiscal relativa à glosa das despesas de amortização de ágio indevidamente deduzidas das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL referentes aos anoscalendário 2007 a 2010, bem como à adição dos valores indevidamente excluídos da apuração do lucro tributável no mesmo período; e DETERMINAR o retorno dos autos à Turma a quo, para prolação de nova decisão quanto aos temas abordados em sede de recurso voluntário que deixaram de ser apreciados no acórdão nº 1301002.182, após ser dada ciência às partes desta decisão. (Assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Fl. 4221DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.720268/2012-61
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Mar 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Apr 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Ano-calendário: 2008
RECEITA DE VENDA DE AÇÕES ADQUIRIDAS PARA REVENDA. TRIBUTAÇÃO.
Constitui receita própria da atividade da Recorrente a decorrente da venda de ação, adquiridas para esse fim, compondo seu resultado a base de cálculo da contribuição.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Ano-calendário: 2008
RECEITA DE VENDA DE AÇÕES ADQUIRIDAS PARA REVENDA. TRIBUTAÇÃO.
Constitui receita própria da atividade da Recorrente a decorrente da venda de ação, adquiridas para esse fim, compondo seu resultado a base de cálculo da contribuição.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2008
PROCESSO JUDICIAL E ADMINISTRATIVO. CONCOMITÂNCIA. SÚMULA CARF Nº 1.
Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial.
JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
Incidem juros de mora sobre a multa de ofício, por existência de fundamento legal expresso.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3401-004.414
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário no que se refere a matéria em relação à qual há concomitância de objeto entre processo administrativo e judicial, e, na matéria conhecida, em negar provimento ao recurso voluntário, da seguinte forma: (a) por voto de qualidade, para, no mérito, manter o lançamento, vencidos os Conselheiros André Henrique Lemos, Tiago Guerra Machado, Renato Vieira de Ávila e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, que indicou a intenção de apresentar declaração de voto; e (b) por maioria de votos, para manter a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, vencidos os Conselheiros André Henrique Lemos, Renato Vieira de Ávila e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
ROSALDO TREVISAN - Presidente.
FENELON MOSCOSO DE ALMEIDA - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson Jose Bayerl, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado, Marcos Roberto da Silva (Suplente), Renato Vieira de Ávila (Suplente) e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
Nome do relator: FENELON MOSCOSO DE ALMEIDA
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2008 RECEITA DE VENDA DE AÇÕES ADQUIRIDAS PARA REVENDA. TRIBUTAÇÃO. Constitui receita própria da atividade da Recorrente a decorrente da venda de ação, adquiridas para esse fim, compondo seu resultado a base de cálculo da contribuição. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ano-calendário: 2008 RECEITA DE VENDA DE AÇÕES ADQUIRIDAS PARA REVENDA. TRIBUTAÇÃO. Constitui receita própria da atividade da Recorrente a decorrente da venda de ação, adquiridas para esse fim, compondo seu resultado a base de cálculo da contribuição. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2008 PROCESSO JUDICIAL E ADMINISTRATIVO. CONCOMITÂNCIA. SÚMULA CARF Nº 1. Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. Incidem juros de mora sobre a multa de ofício, por existência de fundamento legal expresso. Recurso Voluntário Negado
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TRIBUTAÇÃO. Constitui receita própria da atividade da Recorrente a decorrente da venda de ação, adquiridas para esse fim, compondo seu resultado a base de cálculo da contribuição. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2008 RECEITA DE VENDA DE AÇÕES ADQUIRIDAS PARA REVENDA. TRIBUTAÇÃO. Constitui receita própria da atividade da Recorrente a decorrente da venda de ação, adquiridas para esse fim, compondo seu resultado a base de cálculo da contribuição. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2008 PROCESSO JUDICIAL E ADMINISTRATIVO. CONCOMITÂNCIA. SÚMULA CARF Nº 1. Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 02 68 /2 01 2- 61 Fl. 605DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 606 2 JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. Incidem juros de mora sobre a multa de ofício, por existência de fundamento legal expresso. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário no que se refere a matéria em relação à qual há concomitância de objeto entre processo administrativo e judicial, e, na matéria conhecida, em negar provimento ao recurso voluntário, da seguinte forma: (a) por voto de qualidade, para, no mérito, manter o lançamento, vencidos os Conselheiros André Henrique Lemos, Tiago Guerra Machado, Renato Vieira de Ávila e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, que indicou a intenção de apresentar declaração de voto; e (b) por maioria de votos, para manter a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, vencidos os Conselheiros André Henrique Lemos, Renato Vieira de Ávila e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. ROSALDO TREVISAN Presidente. FENELON MOSCOSO DE ALMEIDA Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson Jose Bayerl, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado, Marcos Roberto da Silva (Suplente), Renato Vieira de Ávila (Suplente) e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Relatório Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da decisão recorrida, o qual passo a transcrever: “Relatório Conforme o Termo de Verificação de Infração Fiscal (TVIF) de fls. 237 254, em ação fiscal empreendida junto à contribuinte supramencionada, a fiscalização apurou os fatos descritos a seguir: 1) Introdução A Merrill Lynch S/A Corretora de Títulos e Valores Mobiliários (Merrill), CNPJ 02.670.590/000195, tem como objeto social, dentre outros, operar em bolsa de valores na compra e venda de títulos e valores mobiliários, por conta própria e de terceiros. Para tanto, a contribuinte detinha títulos patrimoniais da Bolsa de Valores de São Paulo – Bovespa e da Bolsa Mercantil e Futuros – BM&F, fato que a levou a participar da desmutualização e da Oferta Pública de ações dessas duas bolsas. Fl. 606DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 607 3 As infrações apuradas referemse a: créditos referentes ao PIS e à Cofins incidentes sobre ganhos auferidos na venda de ações da Bovespa Holding S/A (Bovespa Holding) e da BM&F S/A; falta de declaração em DCTF de parcelas de PIS e de Cofins, do período 01/2008, apuradas em Dacon. 2) Da ação judicial impetrada pela contribuinte contra a Lei nº 9.718/98 A contribuinte é litisconsorte no Mandado de Segurança (MS) nº 2005.61.00.0110850, impetrado com o objetivo de afastar o art. 3º, caput, e §1º, da Lei nº 9.718/98, e recolher o PIS e a Cofins com base no faturamento, entendido como receita de venda de mercadorias, prestação de serviços ou combinação de ambas, tal como definido pela Lei Complementar (LC) nº 70/91. O pedido também abrangeu o afastamento do art. 3º da LC nº 118/2005 (fls.4559). A sentença julgou procedente o pedido e a União apelou da decisão. Em 09/09/2010 o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) decidiu que “Receita bruta é pois sinônimo de faturamento, traduzindose como a soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais”. As partes apresentaram embargos de declaração, sendo acolhidos apenas os da União, para declarar a inaplicabilidade do regime de não cumulatividade às instituições financeiras. 3) Da desmutualização das bolsas de valores A desmutualização foi o processo pelo qual as associações sem fins lucrativos Bovespa e BM&F transferiram seu patrimônio e atividades para as novas sociedades empresariais Bovespa Holding e BM&F S/A. Para ter acesso às operações organizadas pela Bovespa e BM&F, as corretoras deveriam possuir títulos patrimoniais dessas associações. A Merrill detinha, à época da desmutualização, 13 títulos patrimoniais da Bovespa, e 2 da BM&F, nas categorias de sócio efetivo e de corretora de mercadorias. Com a desmutualização da Bovespa (08/2007) e da BM&F (10/2007), esses títulos foram devolvidos aos associados sob a forma de ações das novas sociedades constituídas. Após a desmutualização, realizouse as operações de Oferta Pública de Distribuição Secundária de Ações (IPO) das novas companhias, nas quais os acionistas originários ofertaram parte de suas ações ao público em geral. 3.1) Bovespa Em Assembléia Geral Extraordinária (AGE) de 28/08/2007, foi deliberada a desmutualização da Bovespa. Houve a cisão parcial da Bovespa, pela qual reduziuse o patrimônio da associação, com versão de parte de patrimônio para a Bovespa Serviços e Participações S/A (Bovespa Serviços) e para a Bovespa Holding, emitindose ações dessas empresas para os detentores dos títulos patrimoniais daquela associação. Na mesma data houve a incorporação de ações, pela Bovespa Holding, da totalidade das ações da Bovespa Serviços da Companhia Brasileira de Fl. 607DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 608 4 Liquidação e Custódia (CBLC), recebendo os titulares das ações dessas duas empresas mais ações da Bovespa Holding. Ao final, cada título patrimonial da Bovespa rendeu 706.762 ações da Bovespa Holding, e cada lote de 25 ações da CBLC deu direito a 46.223 ações da nova companhia. Ainda no mesmo dia de 28/08/2007, houve a AGE da Bovespa Holding, na qual o Conselho de Administração dessa companhia foi autorizado a tomar todas as providências necessárias à realização da Oferta Pública. Portanto, a venda de ações da Bovespa Holding era formalmente prevista já na data da desmutualização, estando presente no planejamento da reestruturação da Bovespa. De fato, dois meses após a desmutualização, em 31/10/2007, ocorreu a Oferta Pública de parte das ações recebidas pelos detentores dos antigos títulos patrimoniais da Bovespa. No ano de 2008, meses depois da Oferta Pública, houve ainda duas outras oportunidades para negociação dessas ações, propiciando a vendas do restante das ações ao mercado. 3.2) BM&F Em 20/09/2007 foi aprovada em AGE a desmutualização da BM&F, pela qual as atividades dessa associação foram transferidas para a nova sociedade empresarial BM&F S/A. Os antigos associados receberam, a título de devolução de capital, ações da BM&F S/A, de acordo com a quantidade e o tipo de título patrimonial detido: Título patrimonial Valor patrimonial (R$) Ações BM&F S/A Sócio efetivo 10.000,00 10.000 Corretora de mercadorias 4.898.015,00 4.898.015 Membro de compensação 4.961.610,00 4.961.610 Operador especial 1.335.141,00 1.335.141 Total de ações 901.877.292 Em 17/09/2007 a BM&F expediu o Ofício Circular 071/2007PRES, o qual previa a realização da Oferta Pública de ações da BM&F S/A até 31/12/2007, bem como a possibilidade de um investidor estratégico adquirir 10% das ações (fls.98103). Posteriormente, foi expedido o Comunicado Externo 082/2007DG, de 19/09/2007, contendo esclarecimentos sobre a AGE que, no dia seguinte, deliberaria sobre a desmutualização, e fazendo referência à possibilidade de alienação das ações ao investidor estratégico antes de ocorrida Oferta Pública (fls.104106). De fato, em 16/11/2007, esse investidor estratégico adquiriu 10% do capital social da BM&F S/A pelo valor de um bilhão de reais. Por sua vez, na AGE de 20/09/2007, restou consignada a aprovação da Oferta Pública de ações da BM&F S/A (fls.107112). Portanto, a venda de ações da BM&F S/A ao mercado foi formalmente prevista na desmutualização, estando presente no planejamento da reestruturação. Fl. 608DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 609 5 No próprio projeto apresentado aos associados da BM&F havia a previsão de que a venda das ações da BM&F S/A darseia até o final do ano em curso, como de fato ocorreu em 30/11/2007 a Oferta Pública dessas ações, seguida da oferta de um lote suplementar em 07/12/2007. Seis meses depois da Oferta Pública foram liberadas as vendas das ações restantes detidas pelos titulares originais. 4) Dos procedimentos de contabilização utilizados pela Corretora Merrill Lynch na subscrição e na venda de ações recebidas na desmutualização das bolsas Na desmutualização, a contribuinte creditou o saldo das contas do grupo 2.1.4.00.00 – Investimentos/Títulos Patrimoniais, do ativo permanente, e debitou os mesmos valores em contas do grupo 2.1.5.00.00 – Investimentos/Ações e Cotas, também do ativo permanente. Considerando os títulos patrimoniais que detinha nas duas bolsas, a Merrill recebeu 9.187.906 ações da Bovespa Holding e 4.898.015 ações da BM&F S/A, nos valores respectivos de R$22.822.542,72 e R$4.898.015,00. Todas essas ações recebidas nas desmutualizações foram alienadas pela contribuinte entre o último trimestre de 2007 (quando houve as duas Ofertas Públicas de ações) e 10/2008. A renda líquida obtida com essas vendas foi contabilizada incorretamente como receitas não operacionais na conta 7.3.1.10.00.002 – Lucro na Alienação de Investimentos, sendo excluídas da base de cálculo do PIS e da Cofins. 5) Do cronograma de alienação da ações da Bovespa Holding e da BM&F S/A 5.1) Acordos de restrições à negociação de ações (lockup) A fim de garantir a estabilidade da valorização esperada, celebraramse acordos de restrição à negociação das ações (lockup), impondose limites temporais e quantitativos às alienações das ações restantes após a Oferta Pública. No caso da Bovespa, a contribuinte firmou, em 04/10/2007, 27 dias antes da Oferta Pública, o Acordo de Restrição à Negociação de Ações, comprometendose a não vender as ações em tela pelo prazo de 180 dias da publicação do anúncio de início da Oferta, e também a não vender mais de 40% das ações em igual período subseqüente ao primeiro (fls.95 96). Além disso, a quantidade de ações a serem vendidas na Oferta Pública de ações da Bovespa Holding, 4.593.953, já havia sido previamente estabelecida na procuração outorgada pela contribuinte à Bovespa Holding em 27/09/2007, sendo exatamente obedecida (fls.9294). Também no caso da BM&F S/A foi firmado um Acordo de Acionistas, reratificado em 05/11/2007 (25 dias antes da Oferta Pública), contendo cláusula de lockup (223224). A mesma restrição consta ainda do Instrumento Particular de Assunção de Obrigações celebrado entre a contribuinte e a BM&F em 17/08/2007 (fls.225235). 5.2) Vendas efetuadas pela Corretora Merrill Lynch Fl. 609DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 610 6 No caso da BM&F S/A, as vendas na Oferta Pública ocorreram em 11 e 12/2007, e após 6 meses de lockup, em 06/2008 a contribuinte alienou a totalidade das ações de sua propriedade que remanesceram da Oferta Pública. Quanto à Bovespa, a Oferta Pública de suas ações ocorreu em 10/2007, e, em 0405/2008, após o primeiro período de lockup, foram vendidas pela contribuinte 1.837.581 ações (40% do saldo restante após a Oferta Inicial). Em 10/2008, vencido o segundo prazo de lockup, a contribuinte alienou a totalidade das ações da Bovespa Holding (então denominada BovespaBMF, após a fusão das duas bolsas em 05/2008) que ainda detinha. Pelo exposto, no intervalo de 10 meses a contribuinte desfezse da totalidade das ações da BM&F S/A e da Bovespa Holding, conforme havia sido planejado. 6) Do Direito – tributação dos ganhos auferidos na venda das ações recebidas na desmutualização A contribuinte tem seu faturamento (receita bruta) tributado pelo PIS e pela Cofins nos termos da Lei nº 9.718/98, permitindose algumas exclusões da receita bruta, tais como a receita da venda de bens do ativo permanente (art.3º, § 2º, IV, da Lei nº 9.718/98). As ações recebidas em razão da devolução do capital das associações foram classificadas no Ativo Permanente, e o lucro das respectivas vendas foram escriturados na conta Cosif 7.3.1.10.00 – Lucros na Alienação de Investimentos, do grupo de Receitas Não Operacionais. Todavia, tais ações devem ser classificadas no Ativo Circulante, e os respectivos ganhos não podem ser excluídos da base de cálculo do PIS e da Cofins. 6.1) Classificação contábil das ações da Bovespa Holding e da BM&F S/A vendidas após a desmutualização Cabe registrar que as ações recebidas na desmutualização não se confundem com os títulos patrimoniais, eis que estes foram extintos. De acordo com o art.179, da Lei nº 6.404/76, as disponibilidades e os direitos realizáveis no curso do exercício social subseqüente devem ser classificados no Ativo Circulante. Nessa linha, o Parecer Normativo (PN) da Coordenação CST nº 108/78 esclarece que será presumida a intenção de permanência de um investimento sempre que o valor registrado não for alienado até o exercício seguinte àquele em que for adquirido. Na situação em tela, o cronograma de venda das ações das bolsas de valores seguiu exatamente os acordos previamente firmados entre as partes e constantes do planejamento das Ofertas Públicas. Cerca de dois meses após as AGE que deliberaram as desmutualizações, ainda no mesmo exercício social, houve a alienação das ações, por valores superiores aos que foram recebidas como devolução de patrimônio. As vendas nas Ofertas Públicas e aquelas ocorridas em 2008 não foram fruto de repentina decisão empresarial, mas sim resultado de um planejamento precisamente executado, significando que a Merrill tinha a intenção de Fl. 610DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 611 7 comercializar esses ativos no curso do exercício social subseqüente àquele em que os recebeu. Ressaltese que a alienação das ações pelos antigos associados era da natureza da operação societária realizada; o objetivo da desmutualização era transformar as antigas bolsas em companhias de capital aberto. Do exposto, as ações da BM&F S/A e da Bovespa Holding devem ser classificadas no Ativo Circulante da contribuinte. 6.2) O resultado da venda das ações recebidas na desmutualização compõe o resultado operacional da Corretora Merrill Lynch Conforme o art.11 do DecretoLei nº 1.598/77, o resultado das atividades que constituem o objeto da pessoa jurídica é classificado como lucro operacional. Por sua vez, a corretora Merrill possui como objeto social, dentre outros, a compra e venda de títulos e valores mobiliários, conforme o art. 3º de seu estatuto social (fls.6674). Portanto, a venda de ações compõe o resultado operacional da corretora, sendo tributada pelo PIS e Cofins. 7) Do cotejo entre os demonstrativos da base de cálculo do PIS e da Cofins e os valores declarados em Dacon e DCTF Comparandose os valores das contribuições informados no Demonstrativo de Apuração das Contribuições Sociais – Dacon, com os valores lançados na DCTF (Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais) constataram se as diferenças (R$) a seguir: 01/2008 Dacon DCTF Diferença PIS 116.071,56 114.492,06 1.579,50 COFINS 714.286,50 704.566,54 9.719,96 Intimada, a contribuinte reconheceu o erro no preenchimento da DCTF e solicitou autorização para retificála, o que não foi concedido por falta de previsão legal (fls.1415). 8) Do auto de infração Pelo exposto foram lançados o PIS e a Cofins relativos: aos ganhos líquidos auferidos na venda das ações da Bovespa Holding e da BM&F S/A, no anocalendário 2008; e à diferença apurada entre os valores informados no Dacon e os declarados em DCTF. Observese ainda que o PIS e a Cofins sobre as vendas de ações ocorridas nas Ofertas Públicas do anocalendário de 2007 constam do processo 16327.001329/200991. Os autos de infração constam às fls. 255269, e foram fundamentados nos seguintes dispositivos legais: (...) Da Impugnação Inconformada, a contribuinte apresentou a impugnação de fls. 297321, acompanhada dos documentos de fls.322405, alegando, em síntese: Fl. 611DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 612 8 1) Dos fatos Os títulos patrimoniais foram contabilizados em conta do ativo permanente, pois foram adquiridos para que a corretora atuasse nas bolsas de valores, sendo intenção da impugnante permanecer com esses ativos. Na desmutualização, os títulos patrimoniais foram transformados em ações das novas sociedades empresariais constituídas. Houve mera troca de nome dos bens, permanecendo as ações contabilizadas no ativo permanente. 2) Do Direito 2.1) Da inocorrência da extinção dos títulos e da não tributação das receitas decorrentes da venda de bens do ativo permanente A contabilização de um ativo em conta do permanente deve se basear na intenção da sociedade em permanecer com tal ativo no momento de sua aquisição. Os títulos patrimoniais eram essenciais para as corretoras operarem nas bolsas de valores, tendo natureza de permanente, sendo correta a classificação da contribuinte, a teor do art.179, IV, da Lei nº 6.404/76. Houve mera transformação dos títulos em ações, devendo ser mantida a mesma contabilização, eis que representam os mesmos ativos, de mesmo valor, apenas com denominação diferente. O fundamento utilizado pela fiscalização para justificar o registro das ações no ativo circulante foi a suposta extinção dos títulos patrimoniais, decorrente da devolução do patrimônio investido, e posterior subscrição das sociedades anônimas. Para a fiscalização, a desmutualização compreendeu a extinção das associações e a criação das sociedades anônimas. Porém, no processo de desmutualização não houve subscrição de ações, nem extinção das associações. Houve mera transformação dos ativos, em uma sucessão universal, sem alienação do ativo original, nem aquisição de novos ativos, eis que as corretoras não tinham alternativa que não fosse a substituição dos títulos pelas ações. A pessoa jurídica continuou com as mesmas atividades, apenas com alteração da forma para S/A, e recebeu ações de valores idênticos aos títulos, os quais eram contabilizados na conta “Títulos Patrimoniais”. Assim, a contabilização não deveria ser alterada, devendo ser mantido o mesmo tratamento tributário. Não tendo ocorrido a extinção das associações, também não ocorreu a extinção dos respectivos títulos, nem a devolução do patrimônio das associações. A transformação dos títulos em ações (desmutualização) não altera a classificação contábil, pois a intenção da impugnante ao comprar os títulos patrimoniais era de permanecer com tais ativos, para poder atuar como corretora. O entendimento da fiscalização de que as ações devem ser classificadas no ativo circulante é incompatível com os Pareceres Normativos (PN) CST nº 108/78 e 03/80, os quais confirmam o procedimento adotado pela impugnante. Fl. 612DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 613 9 Portanto, não há que se falar em reclassificação contábil de ativos, como entendeu a fiscalização. Sendo assim, a receita de venda das ações não integra a base de cálculo do PIS e da Cofins, conforme art.3º, § 2º, IV, da Lei nº 9.718/98 e decisão nº 3.427 da DRJ Ribeirão Preto, devendo ser cancelados os autos de infração. 2.2) Da não tributação das receitas que não compõem o faturamento Mesmo se as ações fossem classificadas no ativo circulante, não haveria incidência de PIS e de Cofins, pois tais receitas não compõem a base de cálculo dessas contribuições. O STF decidiu que o faturamento ou receita bruta compõese apenas das receitas da venda de bens e de prestação de serviços, sendo inconstitucional a tributação de todas as receitas da empresa, pretendida pela Lei nº 9.718/98. É irrelevante saber se as receitas são, ou não, operacionais; o que deve ser verificado é se elas se incluem no conceito de faturamento. A venda de ações não pode ser equiparada à venda de bens ou prestação de serviços. O conceito de faturamento distinto para diferentes setores da atividade econômica afronta o art. 150, II, da C/F/88. Ademais, o art. 195, § 4º, c/c o art.154, I, também da CF/88, determina que somente lei complementar pode dispor sobre bases de cálculo distintas que não encontram fundamento na CF. Além disso, a venda das ações das bolsas de valores não foi realizada no exercício do objeto social da impugnante, o que ocorreu foi uma venda de ativos próprios, que não haviam sido adquiridos para negociação. Frisese ainda que a impugnante impetrou o MS nº 2005.61.00.0110850, pleiteando o recolhimento do PIS e da Cofins nos termos da legislação anterior à Lei nº 9.718/98, afastando a tributação pretendida pelo art.3º, caput, e § 1º, ambos da Lei nº 9.718/98. A sentença proferida em 09/05/2007 julgou procedente o pedido, e a União apelou da decisão. Os autos seguiram para o TRF3, o qual deu parcial provimento ao recurso da União, decidindo que receita bruta é sinônimo de faturamento, e constitui a soma das receitas das atividades empresariais. Contudo, a base de cálculo das contribuições em tela é o faturamento representado pelas receitas de venda de mercadorias e prestação de serviços, e não as receitas da atividade empresarial, o que deverá ser reconhecido por essa DRJ, cancelandose os autos de infração combatidos. 2.3) Pagamento do item 02 dos autos de infração A impugnante efetuou o pagamento, com redução de 50% da multa, relativo ao PIS e à Cofins declarados no Dacon e não declarados na DCTF (fls.371 372). Sendo assim, requerse o reconhecimento da extinção dos créditos e o cancelamento dessa exigência pela DRJ. 2.4) Da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa Fl. 613DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 614 10 Caso se entenda correta a utilização da taxa Selic para cobrança dos juros de mora, estes não poderão ser exigidos sobre a multa de ofício por ausência de previsão legal. O art.13 da Lei nº 9.065/95 remete ao art.84 da Lei nº 8.981/95, o qual estabelece cobrança de juros apenas sobre tributos, e tributo não se confunde com multa, conforme os art.3º e 113, §1º, do CTN. Portanto, a cobrança de juros sobre multa afronta o princípio da legalidade. É o relatório. ” A decisão de primeira instância da DRJSão Paulo/SP julgou, às fls. 464/489, improcedente a impugnação, nos termos da ementa adiante transcrita: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Anocalendário: 2008 DESMUTUALIZAÇÃO DAS BOLSAS DE VALORES. EXTINÇÃO DOS TÍTULOS PATRIMONIAIS. AÇÕES RECEBIDAS COMO DEVOLUÇÃO DE PATRIMÔNIO DAS ENTIDADES ISENTAS. Na desmutualização das entidades isentas houve a devolução do patrimônio entregue pelos associados, sob a forma de ações das novas sociedades empresariais constituídas com finalidade lucrativa. CORRETORA DE TÍTULOS E VALORES MOBILIÁRIOS. VENDA DE AÇÕES. RECEITA OPERACIONAL. A venda das ações subscritas das novas sociedades constituídas com a desmutualização das bolsas de valores é receita operacional da contribuinte, pois decorre do exercício de atividade empresarial típica de sociedade corretora de títulos e valores mobiliários. VALORES MOBILIÁRIOS. REGISTRO. ATIVO CIRCULANTE. Devem ser classificados, no Ativo Circulante, as disponibilidades e os direitos realizáveis no curso do exercício social subsequente, como as ações das novas sociedades anônimas formadas após a desmutualização das Bolsas de Valores constituídas sob forma de associação sem fins lucrativos, subscritas pela interessada com manifesta intenção de venda, e cuja alienação efetivamente ocorreu até o curso do exercício subsequente ao recebimento das ações. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2008 DESMUTUALIZAÇÃO DAS BOLSAS DE VALORES. EXTINÇÃO DOS TÍTULOS PATRIMONIAIS. AÇÕES RECEBIDAS COMO DEVOLUÇÃO DE PATRIMÔNIO DAS ENTIDADES ISENTAS. Na desmutualização das entidades isentas houve a devolução do patrimônio entregue pelos associados, sob a forma de ações das novas sociedades empresariais constituídas com finalidade lucrativa. Fl. 614DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 615 11 CORRETORA DE TÍTULOS E VALORES MOBILIÁRIOS. VENDA DE AÇÕES. RECEITA OPERACIONAL. A venda das ações subscritas das novas sociedades constituídas com a desmutualização das bolsas de valores é receita operacional da contribuinte, pois decorre do exercício de atividade empresarial típica de sociedade corretora de títulos e valores mobiliários. VALORES MOBILIÁRIOS. REGISTRO. ATIVO CIRCULANTE. Devem ser classificados, no Ativo Circulante, as disponibilidades e os direitos realizáveis no curso do exercício social subsequente, como as ações das novas sociedades anônimas formadas após a desmutualização das Bolsas de Valores constituídas sob forma de associação sem fins lucrativos, subscritas pela interessada com manifesta intenção de venda, e cuja alienação efetivamente ocorreu até o curso do exercício subsequente ao recebimento das ações. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2008 AUTO DE INFRAÇÃO. VALIDADE. Satisfeitos os requisitos do art. 10 do Decreto 70.235/72 e não tendo ocorrido o disposto no art. 59 do mesmo decreto, válidos são os autos de infração. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2008 PROCESSO JUDICIAL E IMPUGNAÇÃO ADMINISTRATIVA. CONCOMITÂNCIA. A propositura pelo contribuinte de ação judicial contra a Fazenda, antes ou após a autuação, com o mesmo objeto, importa renúncia às instâncias administrativas, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao do vencimento. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Após ciência ao acórdão de primeira instância (AR à fl. 492), em 20/09/2013, irresignada, a contribuinte apresentou o recurso voluntário de fls. 494/527, em 21/10/2013, basicamente, reproduzindo os argumentos da impugnação anteriormente interposta. Fl. 615DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 616 12 Voto Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida O recurso apresentado preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele se toma conhecimento. A acusação fiscal considerou que a totalidade das vendas das ações da Bovespa Holding S/A e da BM&F S/A, em questão, estaria sujeita à incidência das contribuições sociais, levando em conta que a empresa tem como objeto social, dentre outros, a compra e venda de títulos e valores mobiliários, por conta própria e de terceiros, representando, o produto desta venda, faturamento e compondo o seu resultado operacional. Mérito Da inocorrência da extinção dos títulos e da não tributação das receitas decorrentes da venda de bens do ativo permanente Em relação à essa primeira questão, a recorrente alegou, em resumo, que teria havido apenas transformação do patrimônio de bens (títulos por ações) classificados no ativo permanente, e que, portanto, não estaria o resultado da venda sujeito à incidência das contribuições sociais. A Fiscalização considerou que, desde o início, as ações foram emitidas com a finalidade de venda em curto prazo e, assim, não poderiam ser registradas no permanente. Tal interpretação estaria de acordo com o art. 179, inc. I, da Lei das S/A, sendo aplicável ao caso o Parecer Normativo CST nº 108, de 1978; além do Ofício Circular nº 225DG, de 2007. A tributação das vendas das ações da Bovespa Holding S/A e da BM&F S/A, relativas ao processo de 'desmutualização' das bolsas de valores, é uma matéria recorrente no âmbito do contencioso administrativo fiscal. Ainda que a jurisprudência das Turmas Ordinárias1 e da CSRF2, em especial, quanto às 'Corretoras', tenha se solidificado no sentido da tributação, pelo PIS e pela Cofins, das vendas das ações no processo de 'desmutualização' das bolsas de valores, existem, ainda, decisões antagônicas3, no sentido de que houve uma cisão seguida de incorporação, e os antigos títulos patrimoniais teriam sido substituídos por ações das novas companhias, permanecendo no ativo permanente, não sendo suas vendas tributadas, por disposição expressa constante do inciso IV, do § 2º, do artigo 3º, da Lei nº 9.718/98. 1 3201001.480, de 23/10/13; 3201001.503, de 26/11/13; 3201002.517, de 21/02/17; 3202000.706, de 23/04/13; 3202000.711, de 23/04/13; 3202000.713, de 23/04/13; 3202001.178, de 24/04/14; 3301002.839, de 24/02/16; 3301003.001, de 21/06/16; 3302001.851, de 24/10/12; 3302002.713, de 16/09/14; 3302003.236, de 22/06/16. 2 9303003.468, de 24/02/16; 9303003.469, de 24/02/16; 9303003.472, de 24/02/16; 9303003.473, de 24/02/16; 9303003.540, de 17/03/16; 9303003.853, de 17/03/16; 9303004.132, de 08/06/16; 9303004.182, de 06/07/16; 9303004.185, de 06/07/16; 9303004.232, de 11/08/16; 9303004.558, de 07/12/16; 9303004.570, de 08/12/16. 3 3403001.757, de 25/09/12; 3403001.829, de 27/11/12; 3403002.518, de 22/10/13; 3402003.078, de 18/05/16; 3402003.187, de 21/07/16. Fl. 616DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 617 13 Mas não é o entendimento que prevalece, quanto às operações societárias ocorridas na operação de desmutualização, entendese não houve uma mera sucessão da associação sem fins lucrativos pelas sociedades anônimas de capital aberto, inclusive, por expressa vedação legal, do artigo 61, do Código Civil. Concluise que, com a desmutualização, as associações sem fins lucrativos Bovespa e BM&F foram parcialmente dissolvidas, sendo sues títulos patrimoniais devolvidos, aos respectivos patrimônios dos associados, nos termos do §1º, do artigo 61, do Código Civil, na forma de ações das novas sociedades anônimas, constituídas em decorrência do processo de desmutualização. Não aceitase a tese de que houve uma simples transformação dos títulos patrimoniais associativos, por ações das novas companhias, uma vez que se trata de direitos de naturezas jurídicas absolutamente distintas e até então inexistentes, emitidos por pessoas jurídicas constituídas sob formas distintas de sociedades. Tal entendimento, inclusive, já se encontra pacificado no âmbito dos TRFs da 2ª e 3ª Região, que analisaram a incidência de imposto de renda e da contribuição social sobre lucro líquido sobre valor correspondente a atualização de títulos patrimoniais da Bovespa e da BM&F que foram convertidos em ações; além da própria incidência das contribuições sociais ora em discussão. APELACAO CIVEL 2008.51.01.0065590 RELATOR :JUIZ FEDERAL CONVOCADO THEOPHILO MIGUEL ORIGEM :SEXTA VARA FEDERAL DO RIO DE JANEIRO E M E N T A TRIBUTÁRIO. IRPJ. CSSL. BOVESPA OPERAÇÃO DE DESMUTUALIZAÇÃO. TÍTULOS CONVERTIDOS EM AÇÕES DE S/A. LEI 9.532/97, ART. 17, INCIDÊNCIA. A Bovespa, em reestruturação societária datada de 28.08.2007, iniciou a “desmutualização”, deixando de ser uma sociedade civil e convertendose em sociedade anônima, a Bovespa Holding S/A. Nesse processo de transformação societária, os títulos patrimoniais da impetrante foram substituídos por ações da Bovespa e da BM&F. Tal processo de desmutualização trouxe, efetivamente, ganhos patrimoniais à impetrante que passou de simples associada da Bovespa à detentora de ações na nova holding, acrescendo ao seu patrimônio as novas ações adquiridas com os valores que havia dispendido para a formação da associação e que lhe fora devolvido devidamente corrigido, repisase em razão da desmutualização. O fato apto a desencadear a incidência dos tributos, nesse caso, é o ganho obtido pela impetrante com a devolução de valores, ou seja, com a própria operação de desmutualização, na forma como foi efetuada. [...] (TRF2 3ª TURMA ESPECIALIZADA Decisão: 09/10/2012) Fl. 617DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 618 14 AGRAVO DE INSTRUMENTO 2016.03.00.0199776 DESEMBARGADOR FEDERAL CARLOS MUTA ORIGEM :NONA VARA FEDERAL DE SÃO PAULO E M E N T A DIREITO PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AGRAVO DE INSTRUMENTO. MANDADO DE SEGURANÇA. BOVESPA E BM&F. DESMUTUALIZAÇÃO. AÇÕES. ALIENAÇÃO. PIS. COFINS. DESPROVIMENTO DO RECURSO.[...] 2. Encontrase consolidada a jurisprudência desta Corte, no sentido de que o processo de "desmutualização" da BOVESPA e da BM&F implicou efetiva dissolução das associações, com a respectiva devolução do patrimônio aos então associados que, então adquiriram as ações da Bovespa Holding S/A e BM&F S/A, não se cogitando, assim, de mera "sucessão patrimonial" ou "substituição de investimento", sobretudo para fins de garantir a manutenção da natureza e do tratamento contábil dos anteriores títulos patrimoniais de associada. 3. Nem se poderia mesmo classificar tais ações como ativo permanente, como fez a agravante, pois firmado, já no processo de "desmutualização" , o compromisso de alienar parte delas tão logo adquiridas, o que efetivamente ocorreu. Portanto, correta a tributação apurada, a incidir sobre receita decorrente de alienação de ativo circulante da agravante, nos termos do artigo 179 da Lei 6.404/1976, assim não se cogitando da isenção prevista no artigo 3º, § 2º, IV, da Lei 9.718/1998. 4. A agravante tem como objeto social a compra e venda de títulos e valores mobiliários, por conta própria ou de terceiros, de modo que a alienação das ações da Bovespa Holding S/A e BM&F S/A constitui atividade empresarial típica, cujas receitas sujeitamse à incidência do PIS e da COFINS, nos termos dos artigos 2º e 3º, caput, da Lei 9.718/1998. 5. Agravo de instrumento desprovido. (AI 590434 TRF3 3ª TURMA Decisão: 15/03/2017) Notar que os créditos constituídos nestes autos, relacionamse ao PIS e à COFINS sobre as alienações subseqüentes às vendas no “IPO”:PAF nº 16327.001329/200991 [Acórdão nº 3302001.851, de 24/10/12] (10/2007, 11/2007 e 12/2007), após os períodos de “lockup” 4, ocorridas em 04/2008, 05/2008, 06/2008 e 10/2008, em nada se relacionando com objeto do PAF nº 16327.001258/200927 [Acórdão nº 1301001.109, de 04/12/12] (28/08/2007 e 01/10/2007), sobre o IRPJ e a CSLL, devidos na ocasião da “desmutualização”. 4 Cláusula de "lock up": fixados prazos nos quais a interessada ficava impedida de vender as quantidades ali especificadas das ações da Bovespa Holding e da BM&F. Fl. 618DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 619 15 Prevalece, portanto, o entendimento de que a transformação de associação sem fins lucrativos para sociedade anônima ensejou na modificação da natureza jurídica dos direitos possuídos. Sendo novos os bens que ingressaram no patrimônio da recorrente e inexistindo a alegada continuidade em relação aos títulos patrimoniais, não devem, necessariamente, a escrituração das ações recebidas ser feita no ativo permanente, como eram escriturados os títulos patrimoniais, dado estes serem necessários para o exercício de sua atividade de operar nas Bolsas, distinguindose claramente da natureza das novas ações. Portanto, não assiste razão ao argumento de simples troca de ativos permanentes, devendose perquirir a intenção de permanência, no momento da classificação do novo ativo adquirido, para melhor caracterização da natureza da venda futura desses ativos, mostrandose fundamental a análise do aspecto volitivo destas aquisições e a intenção de permanência no momento em que efetuouse a escrituração das ações na contabilidade. Apontou a decisão recorrida diversos documentos que confirmariam a aludida intenção de venda subseqüente às aquisições: (i) Prospecto Definitivo de Oferta Pública Inicial de Distribuição Secundária de Ações Ordinárias de Emissão da Bovespa Holding S/A; (ii) Prospecto Definitivo de Oferta Pública de Distribuição Secundária de Ações Ordinárias de Emissão da BM&F S/A; (iii) Comunicado Externo BM&F nº 082/2007DG, de 19/07/2007; (iii) Procuração da impugnante (fls. 92/94), datada de 27/09/2007, outorgando poderes à Bovespa Holding S/A para venda das ações; (iv) Instrumento Particular de Assunção de Obrigações, celebrado entre a BM&F e os detentores de títulos patrimoniais dessa bolsa (“partes”) (fls. 225/235), datado de 17/08/2007; (v) Reratificação do Acordo de Acionistas da Bolsa de Mercadorias & FuturosBM&F S.A. (fls. 223/224), de 05/11/2007; inclusive, tratados no precedente do Acórdão nº 3302001.851, de 24/10/12, PAF nº 16327.001329/200991 (10/2007, 11/2007 e 12/2007). Reiterese que os créditos nestes autos, relacionamse ao PIS e à COFINS sobre as alienações subseqüentes às vendas no “IPO”, após os períodos de “lockup”, ocorridas em 04/2008, 05/2008, 06/2008 e 10/2008; e a intenção de vender as ações em tela também é comprovada pelo próprio estabelecimento da cláusula de "lock up", previamente ao recebimento das ações, pela qual eram fixados prazos nos quais a autuada ficava impedida de vender as quantidades ali especificadas das ações da Bovespa Holding e da BM&F, conforme a Procuração de fls. 92/93, o Acordo de Restrição à Negociação de Ações (fls. 95/96) e o Instrumento Particular de Assunção de Obrigações celebrado com a BM&F (fls. 225/235). Caso não houvesse intenção prévia de venda, desnecessário seria adotar tal cláusula, confirmandose, no presente caso, a intenção prévia de venda da totalidade das ações, no momento em que todas foram vendidas, imediatamente após os prazos de proibição de venda (lockup). Assim como a decisão recorrida, entendo, que a intenção da contribuinte, ao receber as ações das novas bolsas, era efetuar a venda dessas ações até porque não precisava mantêlas para operar nas bolsas, ao contrário dos títulos patrimoniais das antigas bolsas, não possuindo tais ações natureza de permanente da empresa, eis que não houve nenhuma intenção de permanecer com tais ativos. Fl. 619DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 620 16 No mesmo sentido, precedente recente desta Turma, por maioria de votos, no Acórdão nº 3401003.867, de 25/07/2017 (Relator: Cons. Leonardo Ogassawara de Araújo Branco) DESMUTUALIZAÇÃO. ASSOCIAÇÕES SEM FINS LUCRATIVOS. DEVOLUÇÃO DE PATRIMÔNIO. CARACTERIZAÇÃO. No processo denominado desmutualização, consistente na cisão de associação sem finalidade lucrativa com versão do patrimônio correspondente a sociedade empresária, criada sob forma de sociedade anônima, a entrega de ações desta nova companhia aos detentores de títulos patrimoniais daquelas associações caracteriza devolução de patrimônio e não substituição de títulos. DESMUTUALIZAÇÃO. AÇÕES. REGISTRO CONTÁBIL. ATIVO CIRCULANTE. As ações recebidas no processo de desmutualização devem ser registradas no Ativo Circulante quando for a intenção do subscritor a sua alienação, segundo inteligência do PN CST 108/78, o que se revela pelo prévio conhecimento de processo de oferta pública. Caso contrário, sendo o interesse pela sua permanência em carteira, diante da necessidade para o exercício de suas atividades, devem ser contabilizadas no Ativo Permanente, subgrupo Investimentos. Diante do exposto, concluise que a recorrente, ao fim do processo de desmutualização da Bovespa e da BM&F, obteve ações com a intenção de negociálas em curto período, tendo efetivado a venda desta ações ainda no mesmo exercício de sua aquisição, não caracterizada a intenção de permanência com o ativo, à permitir a exclusão da recita de sua venda, da base de cálculo do PIS e da Cofins, conforme art. 3º, § 2º, IV, da Lei nº 9.718/98, restando demonstrada a intenção prévia de venda da totalidade das ações, estampado o intuito negocial, no presente caso, no momento em que todas foram vendidas, imediatamente após os prazos de proibição de venda (lockup). Não se trata de reclassificação contábil dos ativos envolvidos. Independente da escrituração contábil correta destas aquisições, para efeitos tributários de caracterização do fato gerador, a luz do artigo 118, do CTN, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose a validade jurídica dos atos efetivamente praticados, verificandose a materialidade destes, independentemente da forma como foram escriturados pela recorrente em sua contabilidade. Da não tributação das receitas que não compõem o faturamento Ainda assim, quanto à incidência das contribuições sociais, restaria saber qual a natureza específica das receitas decorrentes da alienação das ações. Alega a contribuinte que o valor exigido por meio do auto de infração refere se às contribuições sociais incidentes sobre receitas que não correspondem ao sentido estrito de "faturamento" e que, portanto, não devem compor a base de cálculo daquelas contribuições. Afirma que possui, a seu favor, decisões judiciais, liminar e sentença, proferidas nos autos da mandado de segurança nº 2005.61.00.0110850/SP (fls. 45/59), as quais declararam a inconstitucionalidade do §1º, do art. 3º, da Lei nº. 9.718/98. Há que se analisar, portanto, os teores do pedido formulado na inicial e das decisões judiciais proferidas nos autos do mandado de segurança nº 2005.61.00.0110850/SP. Fl. 620DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 621 17 Vejamos a petição inicial (fls. 45/59), com pedido liminar, para que fosse reconhecido o direito, dentre outros : Em 09/09/2010, no julgamento da apelação à sentença que julgou procedente o pedido, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região decidiu (fls. 28/44): "Em relação ao mérito, é importante deixar consignado que as empresas impetrantes desejam compensar e discutir a legalidade da exigência não apenas da COFINS, mas igualmente do PIS, consoante se depreende da inicial e das guias acostadas às fls. dos autos, que indicam os códigos de receitas 45741 referente ao PIS e 798701 referente à COFINS. Inicialmente em relação ao PIS, razão assiste à apelante. (...) No que pertine ao PIS, não há pois que se falar ou imaginar qualquer inconstitucionalidade, matéria que, aliás, não foi objeto de análise pelo STF que se limitou a examinar o § 1º do art. 3º em relação à COFINS e não em relação ao PIS. Assim não poderia a r. sentença ter remetido as impetrantes ao recolhimento de PIS e COFINS nos moldes da LC 70/91. Vale em relação a essa exação o regramento da Lei nº 9.715/98 e atualmente Lei nº 10.637/02. Quanto à COFINS, permissa venia do e. Relator tenho posição divergente em relação às instituições financeiras. Primeiramente, quando da impetração da ação estavam já as impetrantes sob a égide da Lei nº 10. 833/03, em relação à COFINS, portanto a partir de sua vigência encontramse as impetrante sujeitas à incidência desse novo regramento legal. Quanto à base de cálculo da COFINS em relação às instituições financeiras penso que seja extremamente necessária a análise do art. 109, CTN, que vem assim estampado: "Art. 109 Os princípios gerais de direito privado utilizamse para pesquisa da definição, do conteúdo e do alcance de seus institutos, Fl. 621DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 622 18 conceitos e formas, mas não para a definição dos respectivos efeitos tributários." Significa dizer que os conceitos de direito privado não podem ditar o alcance dos institutos de direito tributário, até mesmo porque, a norma tributária é de tipicidade fechada; o que importa para o legislador em matéria tributária é o efeito econômico e não privado desses institutos. Nesse sentido invoco a lição do e. Min. Cezar Peluso no julgamento do RE 346.084/PR que assim se expressou: "Quanto ao 'caput' do art. 3º, julgoo constitucional, para lhe dar interpretação conforme à Constituição, nos termos do julgamento proferido no RE 150.755/PE, que tomou a locução receita bruta como sinônimo de faturamento ou seja, no significado de 'receita bruta de venda de mercadoria e de prestação de serviços', adotado pela legislação anterior, e que, a meu juízo, se traduz na soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais". E mais adiante explicitou S. Exa. o alcance de seu entendimento ao afirmar que nessa expressão "se inclui todo o incremento patrimonial resultante do exercício de atividades empresariais típicas". Se determinadas instituições prestam tipo de serviço cuja remuneração entre na classe das receitas chamadas financeiras, isso não desnatura a remuneração de atividade própria do campo empresarial, de modo que tal produto entra no conceito de "receita bruta igual a faturamento". E nem se diga que a matéria se encontra pacificada no Pleno do Colendo STF, pois a seguir o próprio Relator da matéria o e. Min. Marco Aurélio, afirma enfaticamente: "que seria interessante, em primeiro lugar esperar a chegada de um conflito de interesses, envolvendo uma dúvida quanto ao conceito que, por ora, não passa pela nossa cabeça". Assim sendo, "permissa vênia" do e. Relator, pelo meu voto dou parcial provimento ao recurso e à remessa para, explicitando o conteúdo de faturamento, fazer incidir as contribuições sobre todas as operações decorrentes do objetivo social das instituições financeiras." (grifei) Resumindo, em 13/06/2005, foi deferida a medida liminar, julgada procedente em sentença proferida, em 09/05/2007, declarando a inconstitucionalidade do §1º, do art. 3º, da Lei nº 9.718/98, de acordo com os precedentes do STF. A apelação da União foi julgada pelo TRF da 3ª Região, em 09/09/2010, tendo o tribunal dado provimento parcial à apelação e à remessa oficial. Desde a consulta ao extrato de fases do processo às fls. 458/463, o referido MS permanece com recursos suspensos/sobrestados, desde 02/07/2013 (Motivos de suspensão: STF RE 609.096/RS 5 Tema 372/STF Exigibilidade do PIS e da COFINS sobre as receitas financeiras das instituições financeiras Repercussão Geral). Notase que as decisões judiciais nessa matéria convergiram no sentido de reconhecer o afastamento da base de cálculo alargada das contribuições sociais em razão da 5 Leading Case, em que se discute, à luz do art. 195, I, da CF e do art. 72, V, do ADCT, a exigibilidade da contribuição ao PIS e da COFINS sobre as receitas financeiras das instituições financeiras. Fl. 622DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 623 19 inconstitucionalidade do §1º, do art. 3º, da Lei nº. 9.718/98, declarada pelo STF, determinando se que a base de cálculo daquela contribuição seja o faturamento da empresa, assim considerado como a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza, por aplicação do disposto na LC nº 70/91. Acontece, porém, que a decisão judicial proferida na apelação do mandado de segurança nº 2005.61.00.0110850/SP definiu o que deveria ser considerado como “vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviço de qualquer natureza”, quando se trata de uma instituição financeira, auferindo receitas típicas do exercício de suas atividades fim, as quais, ainda que denominadas de receitas financeiras, entendeu o TRF da 3ª Região que: "...isso não desnatura a remuneração de atividade própria do campo empresarial..." (...) "...para, explicitando o conteúdo de faturamento, fazer incidir as contribuições sobre todas as operações decorrentes do objetivo social das instituições financeiras." Assim, considerandose na presente imposição fiscal, cientificada em 09/03/2012, receitas auferidas pela recorrente no exercício das suas atividades empresariais e em razão da realização de seu objeto social, constituindose em receitas operacionais e enquadrandose no conceito de faturamento para fins de cálculo das contribuições sociais em comento, entendo, devase aplicar a Súmula CARF nº 1, sendo reconhecida concomitância parcial com o mandado de segurança nº 2005.61.00.0110850/SP, exclusivamente, quanto ao tema em razão do qual foi determinado sobrestamento judicial da causa, devendo o presente feito, ao final, guardar consonância com o que lá for decidido definitivamente. Súmula CARF nº 1: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Da multa de ofício Por entender, em relação às receitas de vendas de ações, ora em discussão, que nenhum comando do mandado de segurança nº 2005.61.00.0110850/SP foi violado pelo presente processo administrativo; seja porque o que tinha com a medida liminar e com a sentença, não lhe garantia a não incidência sobre o objeto da presente autuação; seja porque, com o acórdão em apelação, a pretensão lhe foi expressamente negada; não há de falarse em lavratura do auto de infração com exigibilidade suspensa, portanto, afastado o mandamento do art. 63, da Lei nº 9.430/96. Logo, deve ser mantida a multa proporcional lançada, visto que não restou comprovada nenhuma das causas de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, elencadas nos incisos IV e V, do art. 151, do CTN, na data do lançamento de ofício, cientificado em 09/03/2012. Da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa A recorrente também alega que não podem ser exigidos juros sobre a multa lançada, pois o art. 13 da Lei nº 9.065/95 remete ao art. 84 da Lei nº 8.981/95 que, por sua vez, estabelece cobrança de juros apenas sobre tributos. Sustenta que o art. 43 da Lei nº 9.430/96 autoriza apenas a cobrança de juros sobre a multa isolada, que não é a hipótese dos autos. Fl. 623DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 624 20 Argumenta que a cobrança de juros sobre a multa desrespeita o princípio da legalidade, previsto nos art. 5.º, II, e 37 da Constituição Federal. A incidência de juros de mora sobre o crédito tributário, composto pelo tributo e/ou penalidade pecuniária, guarda consonância com o CTN e leis ordinárias. Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. Além do CTN afirmar que o crédito tributário decorre da obrigação tributaria principal de pagamento de tributo, penalidade pecuniária ou ambos; e que, o crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora; a incidência de juros de mora sobre a multa de oficio, após o seu vencimento, está prevista pelos art.43 (multa isolada) e art.61, § 3º (débitos para com a União), da Lei nº 9.430/96. Art.61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (...) §3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Assim, tem plena previsão legal a incidência de juros moratórios sobre a multa aplicada, visto que se trata de débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal. Pelo conjunto das razões expostas, entendo, não deva ser conhecido a parcela do recurso voluntário concomitante ao mandado de segurança nº 2005.61.00.0110850/SP, exclusivamente, quanto ao tema em razão do qual foi determinado sobrestamento judicial da causa e, na parte conhecida, seja NEGADO PROVIMENTO. Fenelon Moscoso de Almeida Relator Fl. 624DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 625 21 Declaração de Voto Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco 1. Com as vênias de estilo, em que pese o como de costume bem fundado voto do Conselheiro Relator Fenelon Moscoso de Almeida a seguinte declaração de voto, ousando dele discordar. 2. De fato, ao se observar a operação, já bastante conhecida no âmbito deste Conselho, depreendese que não houve, durante a chamada desmutualização, o recebimento de valores, por parte das associadas, como devolução de valores referentes ao capital investido na associação, nem posterior subscrição de ações. Na verdade, no sentido de uma modernização do mercado brasileiro, não diferente daquilo que se observou em outros países da tradição ocidental, as bolsas de valores, antes constituídas na forma de associações sem fins lucrativos, com verdadeira conotação pública, passaram a se organizar na forma de entidades com fins lucrativos, estimuladas pela própria legislação da década de 1990, segundo a qual, a partir da edição da Lei nº 9.532/1997, a diferença entre o valor em dinheiro ou o valor dos bens e direitos recebidos de instituição isenta, por pessoa física, a título de devolução de patrimônio, e o valor em dinheiro ou o valor dos bens e direitos entregues originalmente deveriam ser oferecidos a uma tributação exclusiva e favorecida sobre a renda, a uma alíquota fixa de 15%, ou, no caso de a destinatária se tratar de pessoa jurídica, computada na determinação do lucro real. Neste contexto é que, em 28/08/2007 ocorreu a desmutualização da Bovespa e, em 20/09/2007, da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), que passariam a ser subsidiárias integrais da Nova Bolsa S/A Bovespa e BM&F. 3. Ocorre que, conforme se denota da leitura da ata da Assembleia Geral Extraordinária (AGE) realizada em 28/08/2007, os membros da Bovespa decidiram que suas atividades passariam a ser realizadas na forma de sociedade anônima, o que levou, como se sabe, à cisão parcial da Associação Bovespa, em conformidade com o art. 2.033 do Código Civil, do art. 227 da Lei nº 6.404/1976 e do art. 5º da Resolução do Conselho Monetário Nacional nº 2.690/2000. Assim: (i) uma parte do patrimônio cindido foi incorporada pela recémcriada Bovespa Serviços e Participações S/A (Bovespa Serviços), e (ii) o restante pela Bovespa Holding S/A que, por seu turno, incorporou as ações da BSB e da CBLC, nos termos do art. 1.116 do Código Civil. Observese que destino semelhante conheceu a BM&F, sujo patrimônio cindido seria absorvido pela Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F S/A): assim, tanto a Bovespa como a BM&F tiveram as suas designações sociais alteradas. 4. Como efeito desta reestruturação societária, observouse a substituição compulsória dos títulos patrimoniais da Bovespa por ações da Bovespa Holding S/A e os títulos da BM&F por ações da BM&F S/A, uma vez que, em 26/10/2007, ocorreria a oferta pública de ações da Bovespa Holding S/A e, em 30/11/2007, da BM&F S/A. 5. Antes da reestruturação societária descrita mais acima, os títulos detidos estavam contabilizados, evidentemente no ativo permanente das corretoras e, no entendimento da autoridade fiscal, ao convolálos em ações, deveriam tais ativos sofrer uma reclassificação para o realizável ou circulante. Há de se observar, todavia, quando se fala a respeito da "intenção" das corretoras de alienarem as ações uma vez que o IPO ocorreu logo depois da operação de desmutualização, que a oferta de ações não configura uma certeza de Fl. 625DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 626 22 venda ou sequer uma alta probabilidade de liquidez. O que, no caso da Bolsa em 2007, foi evento exitoso, que atingiu o esperado no “roadshow”, em outros contextos poderia não ser, não havendo, portanto, de se estabelecer uma relação mecânica de causalidade entre IPO e venda e, logo, é falacioso o argumento de que, como se sabia estar na iminência de uma oferta pública, os ativos foram recepcionados como estoque para logo mais serem vendidos. 6. Ademais, é correto afirmar que o processo de desmutualização não possibilitou às corretoras qualquer outra alternativa senão a substituição dos títulos pelas ações, não havendo, ademais, a prerrogativa de venda dos títulos ou de permuta por outro ativo, de forma que, a partir de uma perspectiva objetiva, não se observou, em nenhum momento, a reputada “intenção” das corretoras de se desfazerem de seus títulos (e, a posteriori, ações) registrados em seu ativo permanente. 7. Há de se recordar ainda que, do ponto de vista contábil, o mero ato de transformar títulos patrimoniais em ações, mesmo diante de uma expectativa provável de venda, não altera a pretensão do investidor e, logo, não gera efeitos sobre a classificação do ativo que, no início do exercício, foi indicado como permanente. Tratase de uma sucessão de eventos societários (cisão seguida de incorporação) infensa à intenção do investidor, que apenas assiste à transformação de seu título em ação. 8. Ademais, há de se estabelecer, de um lado, a inexistência de uma prova concreta de “intenção de venda” em contexto de mercado anterior à operação (e.g., um contrato assinado neste sentido). Na verdade, o que se observa é a realização de um investimento não com o objetivo de venda, mas de participação, de acesso ao ambiente bursátil. 9. De outro lado, a intenção de vender ativo permanente não o torna automaticamente circulante – raciocínio, digase, que não se justificaria sequer diante da postura mais liberal ou do ponto vista mais lasso de contabilidade. Esta, aliás, é a orientação expressa que se depreende da leitura do Parecer Normativo CST nº 3, de 04/02/1980, que negou a possibilidade da transferência de ativos ao circulante pela simples pretensão de serem destinados à venda: “(...) a simples pretensão da pessoa jurídica no sentido de alienar os bens destinados à utilização na exploração do objeto social ou na manutenção das atividades da empresa não autoriza, para os efeitos da legislação do imposto de renda, a exclusão dos elementos correspondentes registrados em contas do ativo permanente, devendo a cifra respectiva continuar integrando aquele agrupamento até a alienação, baixa ou liquidação do bem” – (seleção e grifos nossos). 10. A expectativa da contribuinte de, com determinado ativo, obter um benefício futuro, ademais, não é suficiente para deslocálo para uma classificação diversa, afinal, como preleciona Edison Carlos Fernandes, essa é justamente a característica de qualquer ativo, seja ele circulante ou não: "(...) a evidência econômica de uma operação ou de um evento somente será reconhecida em conta de ativo se for provável a respectiva geração de benefícios futuros; a contrario sensu, os gastos ou desembolsos que não representarem suficiente probabilidade de geração de benefícios futuros, deverão ser reconhecidos como Fl. 626DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 627 23 despesa".6 Tomase, assim, como necessária referência, ainda, o Pronunciamento Técnico CPC nº 27, que considera ativo imobilizado o item tangível que: (a) é mantido para uso na produção ou fornecimento de mercadorias ou serviços, para aluguel a outros, ou para fins administrativos; e (b) se espera utilizar por mais de um período. Neste sentido, “(...) correspondem aos direitos que tenham por objeto bens corpóreos destinados à manutenção das atividades da entidade ou exercidos com essa finalidade, inclusive os decorrentes de operações que transfiram a ela os benefícios, os riscos e o controle desses bens”. Não é, portanto, um evento posterior que classifica o ativo, de maneira retrospectiva. 11. Assim, inexiste justificativa plausível para que se proceda a uma reclassificação fiscal unicamente decorrente da consciência (posterior) de que, em um segundo momento, o IPO foi exitoso: como se disse mais acima, poderia não ter sido. Logo, há de se estabelecer um segundo desdobramento importante: não é a isolada expectativa de liquidez que serve de critério para a classificação contábil. A base da contabilização deve se dar não pelo destino efetivo de um ativo, mas pela “intenção” da sociedade (causa objetiva) no momento da aquisição. No caso presente, os títulos da Bovespa e as ações da CBLC se verificam como indispensáveis à realização do objeto social da contribuinte e, por isso, foram adquiridos com o desígnio de permanência. Assim, o circulante demanda o congraçamento da intenção (expectativa de venda) no ato do reconhecimento com o critério objetivo de se estar diante de um ativo de liquidez imediata destinado à venda no contexto e uma operação mercantil e, não por outro motivo, aplicase ao presente caso a exclusão prevista no inciso IV, § 2º do art. 3º da Lei nº 9.718/1998. 12. Tampouco a existência de cláusula de lockup, presente no caso em apreço, tem qualquer efeito sobre a conclusão acima, pois os acordos de restrições à negociações de ações, firmados com o objetivo de garantir estabilidade à valorização esperada, impõem unicamente limites (temporais e quantitativos) às alienações após o IPO. Após o prazo estabelecido pelo instrumento, pode ou não ocorrer a venda, tratandose de mero mecanismo estabilizador. 13. Na verdade, no caso da incorporação da CBLC pela Bovespa Holding resta ainda mais evidente o caráter de “troca de ações”, pois, como em qualquer operação societária de incorporação de ações, houve a entrega das ações da incorporada e recebimento de ações da incorporadora, continuando a CBLC a existir e operar, tendo como sua controladora integral a Bovespa Holding S/A. 14. Já escrevemos a respeito deste entendimento em outras oportunidades, como no Acórdão CARF nº 3401003.752, de relatoria do Conselheiro Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, proferido em sessão pública de 26/04/2017, com trecho da ementa abaixo transcrito: REESTRUTURAÇÃO SOCIETÁRIA. INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. BANCO MÚLTIPLO. ATIVIDADE EMPRESARIAL ATÍPICA. A operação de incorporação de ações da Bovespa Holding S.A. pela Nova Bolsa S.A. realizada em 08/05/2008 não se caracteriza como atividade empresarial típica das instituições financeiras acionistas da Bovespa 6 FERNANDES, Edison Carlos. Direito Contábil na prática da governança corporativa. São Paulo: All Print Editora, 2017, pp. 106107. Fl. 627DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 628 24 Holding, estando fora do campo de incidência das contribuições para o PIS/COFINS os valores relativos às ações incorporadas recebidas. REESTRUTURAÇÃO SOCIETÁRIA. RESGATE DE AÇÕES PREFERENCIAIS. BANCO MÚLTIPLO. ATIVIDADE EMPRESARIAL ATÍPICA. O resgate de ações preferenciais da Nova Bolsa realizado em 08/05/2008 não se caracteriza como atividade empresarial típica das instituições financeiras que receberam tais ações no processo de reestruturação societária das bolsas de valores, estando fora do campo de incidência das contribuições para o PIS/COFINS os valores recebidos a esse título. 15. Naquela oportunidade, externamos, em voto de nossa lavra, o posicionamento ora reafirmado no sentido de que se está diante de ativo imobilizado: “Tratase, em resumo, de cobrança de PIS e Cofins decorrente de operação de incorporação de ações da Bovespa Holding S/A pela Nova Bolsa S/A. Da leitura dos documentos trazidos à colação no presente feito, depreendese que a contribuinte recorrida celebrou em 24/08/2007 instrumento particular com objeto de cessão e transferência de títulos patrimoniais de corretora e emissão da BOVESPA, por meio do qual adquiriu 12 títulos patrimoniais da BOVESPA com a finalidade de viabilizar o funcionamento da Goldman Sachs Corretora de Valores Mobiliários LTDA no ambiente bursátil. Com a superveniência da desmutualização da Bolsa em 28/08/2007, os títulos detidos pela contribuinte foram substituídos por ações da Bovespa Holding S/A e, em momento posterior, 08/05/2008, a Nova Bolsa procedeu à incorporação das ações da Bovespa Holding S/A e da BM&F, que passaram, portanto, à condição de subsidiárias integrais. Em síntese, a autoridade fiscal entendeu que a incorporação de ações consubstanciaria alienação com reconhecimento de ganho que deveria ter sido oferecido à tributação na condição de ativo circulante, ainda que contabilizadas como não circulante (ANC, ou “ativo permanente”). Como receita bruta operacional, estariam tais valores sujeitos à incidência das contribuições em debate. A decisão recorrida exonerou integralmente o crédito tributário, pois entendeu que a incorporação de ações da Bovespa Holding pela Nova Bolsa não se caracterizou como atividade empresarial “típica” das instituições financeiras e, desta feita, o ganho de capital havido entre valor de mercado das ações incorporadas e valor histórico ou contábil passaria ao largo da incidência do PIS e da Cofins. É conhecido e consabido o debate em torno da tributação da incorporação de ações, entendida por parte da doutrina, em síntese, como mera substituição de ações em virtude de subrogação real,7 em que não se reconhece a existência de uma alienação, e, por outra parte, como aumento de capital mediante conferência de bens, o que implica alienação das ações incorporadas.8 Sobre se tratar de fenômeno de "substituição", o bem adveniente toma o lugar do bem substituído e, neste sentido, Alberto Xavier preconiza que se está diante de um "(...) 7 OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Incorporação de ações no direito tributário conferência de bens, permuta, dação em pagamento e outros negócios jurídicos. São Paulo: Editora Quartier Latin, 2014. 8 SCHOUERI, Luís Eduardo e ANDRADE JR., Luís Carlos de. Incorporação de ações: natureza societária e efeitos tributários. São Paulo: Editora Dialética, Revista Dialética de Direito Tributário nº 200, maio de 2012. Fl. 628DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 629 25 contrato entre duas sociedades",9 e não entre sócio e sociedade como ocorre na conferência de bens, tratandose, ainda, de evento societário que deve ser aprovado pela maioria, ainda que qualificada, e não pela unanimidade dos sócios. Neste sentido, "(...) o titular das ações a serem objeto de incorporação nada faz, nada transmite, nada permuta": "(...) limitase 'passivamente' a receber da sociedade incorporadora ações substitutivas das originariamente detidas e que ocupam, no seu patrimônio, lugar equivalente ao das ações substituídas por um fenômeno de subrogação real"10 (seleção e grifos nossos). No entanto, ao nos voltarmos ao estudo do presente caso e às suas peculiaridades, há de se constatar, em primeiro lugar, que a receita operacional, a fim de se evitarem as dificuldades das expressões “própria” ou “típica”, das instituições financeiras é, por evidente, aquela que exsurge da intermediação financeira, da gerência de recursos de terceiros, e não da venda e compra de ações, o que desnaturaria o seu curso social. Assim, tal receita, não decorrente da atividade operacional de tais instituições, não deve ser tributada pelas contribuições sociais em referência, o que antecede a questão sobre o seu registro contábil, sob pena de se extrapolar o âmbito da competência tributária delineada pelo constituinte, o que, de todo modo, foi objeto de longo e bem conhecido debate, que culminou com a declaração da inconstitucionalidade do § 1° do art. 3° da Lei n° 9.718/1998. Sob o escólio de Eliseu Martins, é possível se afirmar que, no caso das "(...) combinações de negócios, as exigências passaram a ser extremamente rígidas e detalhadas"11, não havendo de se olvidar que importante função do "(...) registro contábil é para fins informacionais". Problemático, entretanto, é, em nome da melhora da qualidade da informação contábil, desejarse "(...) estender os números contábeis aos efeitos da tributação",12 desconsiderando se a classificação dos investimentos mesmo diante da demonstração bastante verossímil de que a manutenção de tais títulos seria condição sine qua non para seu desempenho no mercado de ações. Todos os elementos comungam para a constatação de que se está diante de um ativo permanente. Há de se destacar, do presente processo, que a troca dos títulos por ações seguida por oferta pública de ações (IPO), que restou conhecida como “desmutualização”, caracteriza uma primeira fase não contemplada pelo caso em espécie, que se volta, a bem da verdade, a um segundo momento, que concerne às ações que remanesceram do IPO e que foram objeto de incorporação pela contribuinte recorrida. Tratase de situação com especificidade própria que não pode ser desconsiderada: um banco múltiplo estrangeiro que precisava, para operar na bolsa como corretora de títulos e participar do IPO, de um número mínimo de títulos patrimoniais. Não obstante, foi com tal objetivo específico que adquiriu títulos que sobejavam da Bruxelas Holding S/A do Grupo Bradesco por meio de contrato celebrado em 24/08/2007, ou seja, aproximadamente um mês antes da chamada desmutualização, que restringiu (i) o ganho da recorrida à remuneração do Certificado de Depósito Interbancário (CDI) e (ii) a possibilidade de revenda unicamente à empresa cedente ou ao próprio Bradesco. 9 XAVIER, Alberto. "Incorporação de ações: natureza jurídica e regime tributário". In: CASTRO, Rodrigo R. Monteiro de, e ARAGÃO, Leandro Santos de (coords.). Sociedade Anônima: 30 anos da Lei nº 6.404/1976. São Paulo: Editora Quartier Latin, 2007, pp. 121143. 10 Ibidem. 11 MARTINS, Eliseu. "PREFÁCIO". In: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Incorporação de ações no direito tributário conferência de bens, permuta, dação em pagamento e outros negócios jurídicos. São Paulo: Editora Quartier Latin, 2014, pp. 1617. 12 Ibidem. Fl. 629DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 630 26 Em outras palavras, qualquer excedente havido, caberia ao Grupo Bradesco, o que foi divulgado por meio do prospecto do IPO, tendo a recorrida figurado na condição de joint bookrunner. Não por outro motivo que a recorrida realizou a revenda da integralidade das ações da Bolsa ao Grupo Bradesco, não tendo auferido qualquer ganho acima da variação do CDI, valor este que ofereceu à tributação do PIS e da COFINS na condição de remuneração de operação conjugada de renda fixa. Assim, a convergência entre a forma utilizada para participar, e não alienar, transparece de maneira clara: tratase de banco sem carteira própria, cuja venda, ademais, é condicionada à existência do IPO, com trava da operação ao limite da remuneração do CDI. Tais elementos denotam “(...) algum objetivo, propósito ou utilidade de natureza material ou mercantil, e não puramente tributária”13, ou seja, um fazer apropriado e necessário à empresa.14 Todavia, ainda que se discuta com profusão a intenção, o que transparece das próprias peças de defesa, atentas à jurisprudência deste Conselho, “(...) o que assume proeminência na teoria causalista não é a vontade, mas a função que o negócio desempenha”.15 E, neste sentido, há de se buscar um interesse minimamente objetivo, que não pode ser atribuído à vontade. Em seu lugar, cabe se perscrutar sobre como “o exercício da autonomia privada (...) deve ser fiscalizado e controlado”.16 Neste sentido, a verificação do negócio jurídico exige o cotejo entre a causa abstrata ou causa típica do negócio, assim entendida como a “(...) função econômicosocial do tipo contratual a ser utilizado”,17 e a causa concreta, intenção concretamente buscada, assim entendida como os “(...) interesses concretos e comuns que as partes pretendem alcançar, revelados ou extraídos do ajuste contratual”.18 A divergência, desde que consciente, entre uma e outra poderá indicar a simulação no direito civil,19 e seu núcleo será o acordo ou pacto simulatório intentado pelas partes, assim entendido como a “(...) ressalva secreta, escrita ou verbal, que as partes fazem contra a produção dos efeitos [típicos] do negócio”.20 Cabe, em excursus, o seguinte registro: “Diferente será, ainda, a fraude, vez que o vício neste caso estará no fato de a finalidade, a causa concreta que move as partes, tratarse de uma ilegalidade.21 Assim, no caso da simulação, há o desejo de produzir uma aparência, e o negócio simulado é fictício e quer ludibriar. Já no caso da fraude, querse produzir uma realidade objetiva e concreta defesa pelo ordenamento, de modo a contornar a norma proibitiva: “(...) embora tanto o negócio simulado quanto o negócio em fraude à lei sejam nulos, é possível que o negócio dissimulado 13 DÓRIA, Antonio Roberto Sampaio. Elisão e evasão fiscal. São Paulo: Editora José Bushatsky, 1977, p. 76. 14 ROSEMBUJ, Tulio. El fraude de ley, la simulación y el abuso de las formas en el derecho tributario. Madrid: Marcial Pons, pp. 9497 e 260262: “(...) aun cuando sean verdaderas, no son apropiadas ni necesarias a la empresa, dirigidos como están a obtener una situación de ventaja tributaria”. 15 BOZZA, Fabio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo: Editora QuartierLatin/Instituto Brasileiro de Direito Tributário (IBDT), 2015, p. 134. 16 GOMES, Orlando. Introdução ao direito civil. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2010, pp. 337338. 17 BOZZA, Fabio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo: Editora QuartierLatin/Instituto Brasileiro de Direito Tributário (IBDT), 2015, p. 136. 18Ibidem. 19Idem, p. 161. 20Idem, pp. 166169. Também chamado de “contradeclaração”, por meio do qual se “(...) explica por que a inexistência dos efeitos é bem distinta da inexistência do negócio (ou seja, o negócio continua a existir, ainda que viciado (...). Embora a letra do CC/2002 não aluda a este elemento, ele resultaria da própria natureza das coisas”. 21Idem, p. 188: tratase da previsão do art. 166, inciso VI do Código Civil de 2002. Fl. 630DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 631 27 subsista”,22 desde que válido na forma e substância (...) a falta de propósito negocial é elemento indiciário da dissonância entre causa concreta e abstrata do negócio jurídico que, caso constatada, repercutiria na simulação. Observe se, contudo, que sequer o tratamento da prática simulatória foi uniforme ao longo do tempo no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, sendo possível se entender que os aplicadores se voltaram, em determinado momento, a um conceito amplo de simulação, para além das hipóteses previstas no art. 167 do Código Civil.23 Em um primeiro período, de (i) decisões proferidas até o ano 2000, a jurisprudência do CARF foi marcada pela concepção voluntarista da simulação entendida como vício de consentimento, “(...) estruturada na divergência entre a vontade interna e a vontade declarada”,24 e aplicada “(...) em seu sentido restrito, formalista”.25 Em seguida, (ii) decisões proferidas entre 2001 e 2005, quando passam a conviver decisões com entendimento restrito e com sentido amplo de simulação, estes mais próximos da corrente causalista. Nesta etapa, “(...) enxergase o fenômeno simulatório quando há ausência de propósito negocial, assim entendida a falta de causa econômica ou a existência de negócios considerados artificiais”.26 Por fim, o período das (iii) decisões proferidas entre 2006 e abril de 201527 que marca um conflito entre as duas noções de simulação, em sentido restrito de um lado, e em sentido amplo de outro: “(...) o resultado dessa tensão pode ser encontrado em acórdãos que chegam a conclusões diametralmente opostas”.28 (...). A disposição da presença de propósito negocial no elemento de refutação permite a sua consideração como um elemento protetivo que, uma vez comprovado, elide a hipótese de simulação ou abuso. Assim ocorreu, por exemplo, no caso do Acórdão nº 1302001.325,29 e do Acórdão nº 1301001302,30 ou, ainda, o Acórdão nº 1102001.182.31”32 – (seleção nossa). Não há espaço, portanto, no presente caso, para requalificação do fato gerador, ou sequer integração por analogia com o objetivo de se desconsiderar a natureza jurídicocontábil da operação, mas verdadeira demonstração ou afirmação de sua vera substância por parte da defesa da recorrida ao longo do processo, como elemento eficaz de refutação da acusação 22Idem, p. 189. Fábio Piovesan Bozza não deixa de esclarecer, ainda, que ambos os vícios poderão estar presentes no mesmo negócio, utilizandose a simulação para encobrir um negócio fraudulento, conforme Recurso Especial nº 260.462PR, sessão de 17/04/2001. 23 Lei nº 10.406/2002 – (Código Civil) – “Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. § 1o Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; II contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III os instrumentos particulares forem antedatados, ou pósdatados”. 24BOZZA, Fabio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo: Editora QuartierLatin/Instituto Brasileiro de Direito Tributário (IBDT), 2015, p. 214. 25Ibidem. 26Idem, pp. 223 e 224: “(...) é possível visualizar a tendência (...) desse segundo período de construir um conceito amplo de simulação, que considera as preferências pessoais dos julgadores. Exemplo disso é o conceito peculiar de simulação (...) que mescla elementos subjetivos e objetivos”. 27Idem, p. 224. A classificação de Fábio Piovesan Bozza se refere ao momento “(...) a partir de 2006”, mas nos parece possível realizar o recorte até abril de 2015, momento da paralisação das atividades do CARF. 28Ibidem. 29Acórdão CARF nº 1302001.325, sessão de 11/03/2014. 30 Acórdão CARF nº 1301001302, sessão de 09/10/2013. 31 Acórdão CARF nº 1102001.182, sessão de 27/08/2014. 32 BRANCO, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Argumentação tributária de lógica substancial. Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, 2016, pp. 3541 e 182. Fl. 631DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 632 28 fiscal que reclama a aplicação do racional do inciso IV do § 2° do art. 3°da Lei n° 9.718/1998, que expressamente determina que tais valores “excluemse da receita bruta” (sic) para a determinação da base de cálculo das contribuições, motivo pelo qual voto pelo conhecimento e não provimento do recurso de ofício” – (seleção e grifos nossos). 16. Assim, não se vislumbra, logo após a operação de desmutualização, a aquisição de um ativo novo, mas a sucessão de um mesmo ativo cuja contabilização permaneceu inalterada: não se vislumbra a dissolução da Associação Bovespa, mas a transformação em uma sociedade anônima, não devendo o art. 2.033 do Código Civil ser interpretado, como deseja a autoridade fiscal, à luz do art. 61 da LSA: tratouse, antes, de uma cisão seguida de incorporação. Neste contexto é que a contribuinte, de maneira correta, aplicou entendimento consoante com o Parecer Normativo CST nº 108, de 31/12/1978, que trata da classificação de contas para efeito da correção monetária de que trata o DecretoLei nº 1.598/1977, assinado pelo então Ministro Mário Henrique Simonsen: 17. Em segundo lugar, ainda que se considere a existência de uma alienação, não se está diante de uma receita operacional e, logo, não há que se falar em tributação de PIS e Cofins, pois tais valores não se amoldam ao conceito de faturamento, uma vez que não é derivada da venda de mercadorias e serviços, e sequer foi realizada no exercício do seu objeto social, caracterizandose a operação como venda de ativos próprios, em conformidade com o entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal no consabido julgamento conjunto dos Recursos Extraordinários nº 346.0846, 357.950, 358.273 e 390.840 em que se assentou que a norma do art. 110 do Código Tributário Nacional assevera a impossibilidade de a lei tributária alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos de direito privado, bem como a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3 da Lei 9.718/98, ao ampliar o conceito de receita bruta para envolver a totalidade das receitas auferidas por pessoas Fl. 632DF CARF MF Processo nº 16327.720268/201261 Acórdão n.º 3401004.414 S3C4T1 Fl. 633 29 jurídicas, independentemente da atividade por elas desenvolvida e da classificação contábil adotada. 18. Desta feita, há de se ter em conta a ponderação do Ministro Marco Aurélio Mello, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 390.840/MG, no sentido de que a Lei 9.718/98 ultrapassou o conceito de faturamento estabelecido no voto condutor do Ministro Moreira Alves na ADI nº 11/DF no sentido de que a Lei Complementar nº 70/1991, apesar de falar em “receita bruta”, não ultrapassou o conceito de faturamento, mesmo entendimento do voto do Ministro Ilmar Galvão no Recurso Extraordinário nº 150.755, oportunidade na qual, ademais, em dezembro de 1993, estabeleceuse, como fundamento de validade da Cofins o art. 195 da Constituição de 1988 e, do PIS, o art. 239, que fez menção expressa à Lei Complementar nº 7/1970. O amadurecimento institucional resultante da tensão entre os textos autênticos dos três poderes resultou em um conceito de faturamento insuscetível de transposição posterior por parte da autoridade fiscal, sob pena de verdadeira usurpação da competência constitucional. Pelo exposto, na parte conhecida, voto no sentido de dar integral provimento ao recurso voluntário. Leonardo Ogassawara de Araújo Branco Fl. 633DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10925.003016/2009-42
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jun 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/10/2007 a 31/12/2007
COFINS. NÃO-CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO.
Para fins de apuração de crédito do PIS/Pasep e da Cofins não-cumulativos, há de se observar o rol de deduções previstos no art. 3º das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, respectivamente, adotando-se, no que tange ao seu inciso II, a interpretação intermediária construída no CARF quanto ao conceito de insumo, tornando-se imperativa para o reconhecimento do direito ao crédito a análise acerca da sua essencialidade.
No caso concreto analisado, há de ser reconhecido o direito ao crédito relativo às despesas com embalagens, fretes das embalagens, e gás combustível para empilhadeira e mantida a glosa no que tange à despesa com condomínio.
Recurso Voluntário parcialmente provido.
Numero da decisão: 3301-004.511
Decisão: Acordam os membros do Colegiado em dar provimento parcial ao recurso voluntário, nos seguintes termos: por unanimidade de votos, em dar provimento para admitir o creditamento de embalagens e fretes das embalagens e, por maioria de votos, em negar provimento para manter a glosa relativa à despesa com condomínio, vencidos os Conselheiros Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões (Suplente convocada) e Semíramis de Oliveira Duro.
(assinado digitalmente)
José Henrique Mauri - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: José Henrique Mauri (Presidente Substituto), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões (Suplente convocada), Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: JOSE HENRIQUE MAURI
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Recorrente POMAGRI FRUTAS LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/10/2007 a 31/12/2007 COFINS. NÃOCUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. Para fins de apuração de crédito do PIS/Pasep e da Cofins nãocumulativos, há de se observar o rol de deduções previstos no art. 3º das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, respectivamente, adotandose, no que tange ao seu inciso II, a interpretação intermediária construída no CARF quanto ao conceito de insumo, tornandose imperativa para o reconhecimento do direito ao crédito a análise acerca da sua essencialidade. No caso concreto analisado, há de ser reconhecido o direito ao crédito relativo às despesas com embalagens, fretes das embalagens, e gás combustível para empilhadeira e mantida a glosa no que tange à despesa com condomínio. Recurso Voluntário parcialmente provido. Acordam os membros do Colegiado em dar provimento parcial ao recurso voluntário, nos seguintes termos: por unanimidade de votos, em dar provimento para admitir o creditamento de embalagens e fretes das embalagens e, por maioria de votos, em negar provimento para manter a glosa relativa à despesa com condomínio, vencidos os Conselheiros Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões (Suplente convocada) e Semíramis de Oliveira Duro. (assinado digitalmente) José Henrique Mauri Presidente e Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 5. 00 30 16 /2 00 9- 42 Fl. 179DF CARF MF Processo nº 10925.003016/200942 Acórdão n.º 3301004.511 S3C3T1 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: José Henrique Mauri (Presidente Substituto), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões (Suplente convocada), Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. Fl. 180DF CARF MF Processo nº 10925.003016/200942 Acórdão n.º 3301004.511 S3C3T1 Fl. 4 3 Relatório Tratase o presente processo de pedido de ressarcimento, cumulado com declarações de compensação, relativo a crédito da Cofins NãoCumulativa, vinculado a receitas de vendas submetidas à alíquota zero (produção e comercialização de maçãs), deferido parcialmente por Despacho Decisório exarado pela unidade de origem. Dessa forma, apenas parte das compensações declaradas foi homologada. Conforme Termo de Verificação e Encerramento da Análise Fiscal constante nos autos, o reconhecimento parcial do crédito decorreu de glosas efetuadas em itens diversos de custo e despesa que compunham o crédito demonstrado pelo contribuinte no Dacon. Cientificado do decisório, o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, na qual pede o reconhecimento integral do crédito de ressarcimento, com base nas seguintes razões: (i) Os materiais de embalagens (cantoneiras, bandejas, fitas adesivas, pallets, papelseda, plástico bolha, tampas, fundos, caixas de papelão etc) são indispensáveis ao acondicionamento do produto, não exclusivamente com o fim de transporte, porquanto utilizados para assegurar a integridade da fruta até o seu destino; (ii) O papelseda, fita, cantoneira e outros são insumos na produção da maçã, conforme item acima, de modo que gera creditamento a despesa com o serviço de transporte para adquirilos; (iii) A despesa com condomínio deve ser creditada da mesma forma que a despesa com aluguel, pois o acessório segue o principal; (iv) O GLP relacionado à glosa foi empregado nas empilhadeiras destinadas à movimentação das maçãs, de modo que o combustível está diretamente ligado ao processo produtivo; (v) Não existe lei formal determinando a aplicação do conceito de insumo do IPI à apuração das contribuições nãocumulativas; (vi) O critério de insumo utilizado na decisão recorrida não está em conformidade com Soluções de Consulta emanadas das Superintendências da Receita Federal do Brasil (Processo de Consulta nº 99/09 da SRRF6ªRF), com decisões do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Recurso Voluntário nº 146.778) e com a jurisprudência judicial (Acórdão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, de 26 de março de 2009; Agravo Regimental no REsp nº 1.125.253/SC, de 15 de abril de 2010). Ao analisar o caso, a DRJ entendeu por julgar improcedente a impugnação apresentada pelo contribuinte, nos termos do Acórdão nº 08033.941. O contribuinte foi intimado acerca desta decisão e, insatisfeito com o seu teor, interpôs Recurso Voluntário, através do qual requereu: (i) recebimento do recurso voluntário; ii) procedência do recurso para reformar o acórdão recorrido, com o reconhecimento do direito ao crédito de COFINS requerido no pedido de ressarcimento. É o breve relatório. Fl. 181DF CARF MF Processo nº 10925.003016/200942 Acórdão n.º 3301004.511 S3C3T1 Fl. 5 4 Voto Conselheiro José Henrique Mauri, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3301004.509, de 22 de março de 2018, proferido no julgamento do processo 10925.003017/200997, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3301004.509): "Voto Vencido O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. 1) Do direito ao creditamento de COFINS linhas gerais Consoante acima indicado, a presente demanda versa sobre o direito ao creditamento de COFINS em razão da análise do conceito de insumos disposto na legislação de regência. A DRJ seguiu a legislação do IPI, entendendo que, para que fosse concedido o crédito, seria essencial o desgaste físico no produto no processo produtivo da empresa. Esse entendimento, contudo, encontrase superado por este Conselho, que construiu uma corrente intermediária própria, fugindo tanto às normas atinentes ao IPI quanto às normas atinentes ao IRPJ. E é com base nesta corrente intermediária, com a qual me alinho, que serão analisados a seguir os itens que foram objeto de glosa por parte da fiscalização. Importante destacar que o embasamento da glosa realizada pela fiscalização foi a ausência de previsão legal para autorização do creditamento realizado, e não a falta de comprovação da sua origem. Logo, a questão deve ser apreciada sobre o aspecto de direito. Sobre o creditamento, o art. 3º da Lei nº 10.833/2003 assim dispõe: Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: a) no inciso III do § 3o do art. 1o desta Lei; e b) nos §§ 1o e 1oA do art. 2o desta Lei; II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto Fl. 182DF CARF MF Processo nº 10925.003016/200942 Acórdão n.º 3301004.511 S3C3T1 Fl. 6 5 em relação ao pagamento de que trata o art. 2o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) III energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica; IV aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; V valor das contraprestações de operações de arrendamento mercantil de pessoa jurídica, exceto de optante pelo Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte SIMPLES; VI máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos ou fabricados para locação a terceiros, ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços; (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) VII edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, utilizados nas atividades da empresa; VIII bens recebidos em devolução cuja receita de venda tenha integrado faturamento do mês ou de mês anterior, e tributada conforme o disposto nesta Lei; IX armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor. X valetransporte, valerefeição ou valealimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica que explore as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção. (Incluído pela Lei nº 11.898, de 2009) XI bens incorporados ao ativo intangível, adquiridos para utilização na produção de bens destinados a venda ou na prestação de serviços. No que tange à alínea II acima, embora ciente que alguns julgadores deste Conselho adotam interpretação restritiva do conceito de insumos para fins de admissão do crédito, inclusive acolhendo em alguns casos o conceito de insumos inserto na legislação do IPI, tem prevalecido nas decisões proferidas por este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais uma posição menos engessada, por meio da análise dos créditos aplicáveis em cada caso concreto, em razão da atividade desempenhada pela empresa. A análise do presente caso, portanto, em determinadas situações, perpassa pela definição do conceito de insumos para o PIS e a COFINS. Nos termos dos recentes julgados proferidos por este Conselho, o conceito de insumos para efeitos do art. 3º, inciso II, da Lei nº 10.637/2002 e do art. 3º, inciso II da Lei 10.833/2003, deve ser interpretado com critério próprio: o da Fl. 183DF CARF MF Processo nº 10925.003016/200942 Acórdão n.º 3301004.511 S3C3T1 Fl. 7 6 essencialidade. Referido critério traduz uma posição "intermediária" construída pelo CARF, na qual, para definir insumos, buscase a relação existente entre o bem ou serviço, utilizado como insumo e a atividade realizada pelo Contribuinte. Logo, para que determinado bem ou prestação de serviço seja considerado insumo gerador de crédito de PIS e COFINS, imprescindível a sua essencialidade à atividade desempenhada pela empresa, direta ou indiretamente. Esta, inclusive, também é a posição predominante no Superior Tribunal de Justiça, o qual reconhece, para a definição do conceito de insumo, critério amplo/próprio em função da receita, a partir da análise da pertinência, relevância e essencialidade ao processo produtivo ou à prestação do serviço. O entendimento daquela Corte pode ser visualizado no voto do Ministro Relator Mauro Campbell Marques, proferido nos autos do Recurso Especial nº 1.246.317MG: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. VIOLAÇÃO AO ART. 538, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 98/STJ. CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS NÃO CUMULATIVAS. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. ART. 3º, II, DA LEI N. 10.637/2002 E ART. 3º, II, DA LEI N. 10.833/2003. ILEGALIDADE DAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS SRF N. 247/2002 E 404/2004. 1. Não viola o art. 535, do CPC, o acórdão que decide de forma suficientemente fundamentada a lide, muito embora não faça considerações sobre todas as teses jurídicas e artigos de lei invocados pelas partes. 2. Agride o art. 538, parágrafo único, do CPC, o acórdão que aplica multa a embargos de declaração interpostos notadamente com o propósito de prequestionamento. Súmula n. 98/STJ: "Embargos de declaração manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório". 3. São ilegais o art. 66, §5º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 247/2002 Pis/Pasep (alterada pela Instrução Normativa SRF n. 358/2003) e o art. 8º, §4º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 404/2004 Cofins, que restringiram indevidamente o conceito de "insumos" previsto no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e n. 10.833/2003, respectivamente, para efeitos de creditamento na sistemática de nãocumulatividade das ditas contribuições. 4. Conforme interpretação teleológica e sistemática do ordenamento jurídico em vigor, a conceituação de "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, não se identifica com a conceituação adotada na legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, posto que excessivamente restritiva. Do mesmo modo, não corresponde exatamente aos conceitos de "Custos e Despesas Operacionais" utilizados na legislação do Imposto de Renda IR, por que demasiadamente elastecidos. Fl. 184DF CARF MF Processo nº 10925.003016/200942 Acórdão n.º 3301004.511 S3C3T1 Fl. 8 7 5. São "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, todos aqueles bens e serviços pertinentes ao, ou que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços, que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração importa na impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a atividade da empresa, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço daí resultantes. 6. Hipótese em que a recorrente é empresa fabricante de gêneros alimentícios sujeita, portanto, a rígidas normas de higiene e limpeza. No ramo a que pertence, as exigências de condições sanitárias das instalações se não atendidas implicam na própria impossibilidade da produção e em substancial perda de qualidade do produto resultante. A assepsia é essencial e imprescindível ao desenvolvimento de suas atividades. Não houvessem os efeitos desinfetantes, haveria a proliferação de microorganismos na maquinaria e no ambiente produtivo que agiriam sobre os alimentos, tornandoos impróprios para o consumo. Assim, impõese considerar a abrangência do termo "insumo" para contemplar, no creditamento, os materiais de limpeza e desinfecção, bem como os serviços de dedetização quando aplicados no ambiente produtivo de empresa fabricante de gêneros alimentícios. 7. Recurso especial provido. (REsp 1246317/MG, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 19/05/2015, DJe 29/06/2015) (grifouse) Quanto ao tema, filiome à corrente intermediária acima indicada, pelo que entendo merecer reforma a decisão recorrida quanto aos seus fundamentos, uma vez que, para a compreensão do direito à apuração de créditos de PIS e COFINS no sistema da nãocumulatividade, não deve ser adotado o conceito estrito de insumos constante da decisão recorrida. 2) Dos itens em que o direito ao creditamento restou afastado pela DRJ A empresa em questão planta, produz e comercializa frutas. O recorrente se insurge contra o entendimento da DRJ, argumentando que as despesas com aquisições de embalagens, frete das embalagens, gás combustível para empilhadeiras e condomínio devem gerar crédito de COFINS por serem todas diretamente necessárias à comercialização do produto. Afirma que tais despesas se relacionam diretamente com a preservação da integridade do produto, transporte de insumos e armazenamento. Com relação ao condomínio, afirma que este é acessório que deve seguir a sorte do principal, que é o aluguel, devendo todas essas despesas gerar créditos de COFINS. A decisão da primeira instância analisou a legislação que trata do conceito de insumo para fins de creditamento da COFINS, e concluiu que o caso dos presentes autos não se enquadra no conceito legal, visto que as embalagens utilizadas pelo contribuinte têm a finalidade única de servir ao transporte das frutas, não havendo comprovação de que acompanham o Fl. 185DF CARF MF Processo nº 10925.003016/200942 Acórdão n.º 3301004.511 S3C3T1 Fl. 9 8 produto em sua apresentação final ao consumidor, de modo a agregarlhe valor. Manteve a glosa do crédito referente ao frete das embalagens por terem sido desconsideradas como insumo. Quanto aos gastos com condomínio, rejeitou o argumento de que o acessório segue o principal em razão de não haver a alegada relação de acessoriedade, visto que o pagamento do condomínio independe da existência de relação locatícia, e que o acolhimento de um brocardo para alargar a hipótese de creditamento iria de encontro ao princípio da legalidade. Além disso, a utilidade decorrente do condomínio é deslocada espaçotemporalmente do processo produtivo da maçã. Por fim, manteve as glosas dos créditos sobre as despesas com gás combustível para as empilhadeiras, por não ter havido a desconstituição pelo contribuinte da constatação de que as empilhadeiras possuem uso geral para transporte de objetos, não estando sua utilidade adstrita à produção das maçãs. Entendo que assiste razão ao contribuinte em seus argumentos, consoante restará devidamente demonstrado nos tópicos a seguir. 2.1. Das embalagens As embalagens aqui analisadas são as seguintes: bandejas (utilizadas nas caixas de papelão para separar e acondicionar as maçãs), cantoneiras (utilizadas nas caixas de papelão, para proteger o produto, durante o transporte até o cliente, evitando o amassamento da caixa e das maçãs), fitas adesivas (para lacrar o fundo das caixas), pallets e seus acessórios (tais como pregos e etiquetas, utilizados no armazenamento e transporte das caixas de maçãs), papelseda (utilizado para embrulhar a maçã), plástico bolha (empregado para envolver a maçãs, evitando o atrito entre elas), caixa e fundos (usados no acondicionamento das frutas), tampas (utilizadas para proteger a fruta do contato com o ambiente externo), cola (utilizada para colar os rótulos nas caixas de madeira), filme PVC (usado para segurar as caixas nos pallets), termógrafo (usado para controlar a temperatura das caixas quando transportadas). Quanto às embalagens, entendo que a legislação admite o direito ao crédito no caso concreto ora analisado, ainda que as embalagens utilizadas. Isso porque, em razão da especificidade dos produtos produzidos pela Recorrente, é inconteste que as embalagens servem não apenas para o mero transporte, mas também para o seu acondicionamento, apresentandose essenciais à conservação da integridade e qualidade do produto. Conforme fundamentos constantes do tópico anterior, entendo desnecessário que as embalagens sejam incorporadas ao produto durante o processo de industrialização para que seja reconhecido o seu direito ao crédito. É imprescindível, na verdade, identificar se o insumo em questão é essencial à atividade produtiva desempenhada pela empresa, direta ou indiretamente, tendo concluído no caso dos presentes autos que sim. Até porque, ainda que se entendesse que as embalagens em questão seriam destinadas apenas ao transporte, o que não é o caso, a legislação Fl. 186DF CARF MF Processo nº 10925.003016/200942 Acórdão n.º 3301004.511 S3C3T1 Fl. 10 9 atinente à COFINS não acoberta a restrição realizada pela fiscalização para fins de tomada de crédito, a qual levou em consideração a legislação do IPI, cuja aplicável há de ser afastada. Estes custos com embalagens para acondicionamento e transporte, em razão da especificidade dos produtos que a Recorrente comercializa, são essenciais a que o produto produzido pela empresa seja colocado à venda, pelo que se insere no conceito de insumo que adoto, nos termos acima analisados. Entendo, ainda, que este item específico também se insere no inciso IX, que expressamente autoriza o creditamento relativo à armazenagem de mercadoria e frete na importação de vendas, quando o ônus for suportado pelo vendedor. Isso porque, verificase que a adoção da embalagem em questão é necessária tanto para a armazenagem quanto para o transporte dos produtos que a recorrente industrializa e comercializa, em razão das suas especificidades. Há de se destacar, inclusive, que a Câmara Superior de Recursos Fiscais, em caso análogo, já se manifestou pelo direito ao crédito em tal caso. É o que se infere da decisão a seguir transcrita: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 PIS/PASEP. REGIME NÃOCUMULATIVO. INSUMOS. CREDITAMENTO. Para se verificar se determinado bem ou serviço prestado pode ser caracterizado como insumo para fins de creditamento do PIS/PASEP, impende analisar se há: pertinência ao processo produtivo (aquisição do bem ou serviço especificamente para utilização na prestação do serviço ou na produção, ou, ao menos, para tornálo viável); essencialidade ao processo produtivo (produção ou prestação de serviço depende diretamente daquela aquisição) e possibilidade de emprego indireto no processo de produção (prescindível o consumo do bem ou a prestação de serviço em contato direto com o bem produzido) TAMBORES UTILIZADOS COMO EMBALAGEM PARA TRANSPORTE. GÁS EMPREGADO EM EMPILHADEIRAS. É legítima a apropriação do crédito da contribuição ao PIS/PASEP nãocumulativo em relação às aquisições de tambores empregados como embalagem de transporte e sobre o gás empregado em empilhadeiras, tendo em vista a relação de pertinência, relevância e essencialidade ao processo produtivo. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 COFINS. REGIME NÃOCUMULATIVO. INSUMOS. CREDITAMENTO. Fl. 187DF CARF MF Processo nº 10925.003016/200942 Acórdão n.º 3301004.511 S3C3T1 Fl. 11 10 Para se verificar se determinado bem ou serviço prestado pode ser caracterizado como insumo para fins de creditamento da COFINS, impende analisar se há: pertinência ao processo produtivo (aquisição do bem ou serviço especificamente para utilização na prestação do serviço ou na produção, ou, ao menos, para tornálo viável); essencialidade ao processo produtivo (produção ou prestação de serviço depende diretamente daquela aquisição) e possibilidade de emprego indireto no processo de produção (prescindível o consumo do bem ou a prestação de serviço em contato direto com o bem produzido) TAMBORES UTILIZADOS COMO EMBALAGEM PARA TRANSPORTE. GÁS EMPREGADO EM EMPILHADEIRAS. É legítima a apropriação do crédito da contribuição à COFINS nãocumulativa em relação às aquisições de tambores empregados como embalagem de transporte e sobre o gás empregado em empilhadeiras, tendo em vista a relação de pertinência, relevância e essencialidade ao processo produtivo. (Acórdão n. 9303004.192, de 04/08/2016). Logo, entendo que a decisão recorrida também deverá ser reformada neste ponto, para fins de admitir o direito ao crédito também no que concerne aos tambores utilizados para acondicionamento e transporte. Sendo assim, entendo que deverá ser reconhecido o direito ao crédito no que concerne às embalagens. 2.2. Dos fretes das embalagens A segunda glosa objeto da presente demanda incidiu sobre o serviço de transporte de material não considerado insumo na produção da maçã, tais como papelseda, fitas, filmes, cantoneira, cola, termógrafo etc. O contribuinte defende que, uma vez considerado insumo o material de embalagem utilizado, a despesa com frete na sua aquisição é capaz de gerar creditamento. No que tange aos fretes das embalagens, uma vez admitido o crédito no que concerne às embalagens, entendo que há de ser admitido o direito ao crédito também no que tange aos fretes das referidas embalagens. Até porque, penso que o gasto com frete pago ou creditado pelo comprador à pessoa jurídica domiciliada no País incorporase ao custo de aquisição do insumo, além de encontrar previsão de desconto de crédito no artigo 3º, inciso IV da Lei nº 10.833/2003, cumulado com o inciso II deste mesmo dispositivo legal. (...) 2.3. Do gás combustível para empilhadeira Por fim, no que tange ao gás combustível para empilhadeira, concordo com os fundamentos do Recorrente neste ponto. Isso porque, não resta dúvidas que este item é essencial ao próprio processo produtivo da recorrente, integrando o custo de produção dos produtos em tela. Fl. 188DF CARF MF Processo nº 10925.003016/200942 Acórdão n.º 3301004.511 S3C3T1 Fl. 12 11 Nesse mesmo sentido, inclusive, já se manifestou este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais ao julgar processo análogo ao presente (Proc. nº 18088.720677/201252, Acórdão n. 3403002.648): Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Anocalendário: 2008 REGIME NÃO CUMULATIVO. INSUMOS. CONCEITO. No regime não cumulativo das contribuições o conteúdo semântico de insumo” é mais amplo do que aquele da legislação do IPI e mais restrito do que aquele da legislação do imposto de renda, abrangendo os “bens” e serviços” que integram o custo de produção. EMBALAGEM PARA TRANSPORTE. GÁS EMPREGADO EM EMPILHADEIRAS. É legítima a apropriação do crédito das contribuições em relação às aquisições de tambores empregados como embalagem de transporte e sobre o gás empregado em empilhadeiras, por integrarem o custo de produção dos produtos. Afasto, portanto, a glosa realizada pela fiscalização quanto ao combustível para empilhadeiras. 3. Da conclusão Diante do acima exposto, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte no presente caso, para fins de reconhecer o direito ao crédito no que tange aos seguintes itens: (a) embalagens; (b) fretes das embalagens; (c) gás combustível para empilhadeiras e (d) condomínio. É como voto. (...) Voto Vencedor (...) Quanto às despesas com condomínio, é de se concluir que não assiste razão ao contribuinte em seu pleito, em razão da ausência de respaldo legal para o creditamento de tal despesa. Por concordar com os fundamentos constantes da decisão recorrida no que concerne a tal despesa, transcrevoo a seguir: 42. Em contraparte, o manifestante sustenta a possibilidade de creditamento com base nas despesas de condomínio, à semelhança do que sucede em relação às despesas de aluguel, invocado o velho brocardo de que o acessório segue o principal (accessorium seguitur principale). Fl. 189DF CARF MF Processo nº 10925.003016/200942 Acórdão n.º 3301004.511 S3C3T1 Fl. 13 12 43. De fato, o inciso IV do art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003, prevê a possibilidade de as despesas incorridas com aluguel gerarem crédito na apuração nãocumulativa das contribuições. Entretanto, a máxima não se aplica à espécie, por dois motivos básicos. 44. Em primeiro lugar, não há acessoriedade entre aluguel e encargo de condomínio, uma vez ausente vínculo de causalidade entre eles. Com efeito, pagase condomínio não porque o imóvel é alugado, mas porque se usufrui de utilidades compartilhadas pelos proprietários ou usuários de prédios. 45. Pelo contrato de locação, uma das partes se obriga a ceder o uso e gozo de coisa não fungível, mediante certa retribuição. As despesas de condomínio, por sua vez, são destinadas a gastos relativos ao imóvel respectivo como, por exemplo, salários de empregados, materiais de consumo, equipamentos, serviços prestados ao condomínio, podendo, até mesmo, haver sobra em um mês determinado. Dessa forma, percebese que despesas de condomínio não se relacionam com aluguel. 46. Em segundo lugar, a aplicação de um brocardo não pode resultar na ampliação, por analogia, de hipóteses de creditamento que interferem na determinação da base de cálculo da contribuição, sob pena de ofensa ao princípio da legalidade tributária. 47. Resta verificar se os gastos com condomínio podem ser considerados insumo. 48. Dado que deles resultam utilidades imateriais para o contribuinte, seriam insumos se assim caracterizados sob o aspecto funcional. Entretanto, os serviços de condomínio são completamente deslocados espaçotemporalmente do processo produtivo da maçã. 49. Por essa razão, correta está a glosa das despesas de condomínio. Nesse mesmo sentido, já se manifestou este Conselho, consoante se extrai do Acórdão nº 3302.001.491, a seguir colacionado: (...). COFINS NÃO CUMULATIVA. DIREITO DE CRÉDITO. INSUMO. CONCEITO. Os bens e serviços que geram direito a crédito da contribuição são aqueles conceituados como insumos, assim entendidos os que sejam diretamente utilizados ou consumidos na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Despesa de condomínio incorrida por indústria de beneficiamento de carnes não enquadra neste conceito. Nego, portanto, o direito creditório quanto a tal item." Fl. 190DF CARF MF Processo nº 10925.003016/200942 Acórdão n.º 3301004.511 S3C3T1 Fl. 14 13 Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado tanto à COFINS quanto à Contribuição para o PIS/Pasep. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu dar provimento parcial ao recurso voluntário, para admitir o creditamento de embalagens, fretes das embalagens e gás combustível para empilhadeira, e para manter a glosa relativa à despesa com condomínio. (assinado digitalmente) José Henrique Mauri Fl. 191DF CARF MF
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