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Numero do processo: 15586.720037/2016-67
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 18 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Oct 31 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2012
Incorporação de Ações. Permuta de Participações Societárias. Valor Recebido Superior ao Valor Entregue. Ganho de Capital Tributável.
A permuta de participações societárias decorrente de incorporação de ações dá ensejo à apuração de ganho de capital tributável se o valor das ações recebidas for superior ao valor das ações entregues.
Solidariedade Tributária. Pessoas Expressamente Designadas na Lei. Indicação do Fundamento Legal. Condição de Validade.
No caso de solidariedade tributária fundada no art. 124, inciso II, do CTN, é condição de validade do lançamento a indicação do dispositivo legal que abriga a hipótese de solidariedade, de modo a permitir o exercício do direito de defesa.
Juros Moratórios. Incidência Sobre Multa. Cabimento.
Os juros moratórios incidem sobre a totalidade da obrigação tributária principal, nela compreendida, além do próprio tributo, a multa.
CSLL e IRPJ. Identidade de Matéria Fática. Mesma Decisão.
Quando o lançamento de IRPJ e o de CSLL recaírem sobre a mesma base fática, há de ser dada a mesma decisão, ressalvados os aspectos específicos inerentes à legislação de cada tributo.
Numero da decisão: 1301-003.345
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, em: (i) por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício; (ii) por maioria de votos, em primeira votação, negar provimento ao recurso voluntário do contribuinte quanto à existência de matéria tributável na operação, vencida a Conselheira Amélia Wakako Morishita Yamamoto que votou por lhe dar provimento, tendo o Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto, neste ponto, acompanhado o voto do relator por suas conclusões; (iii) por unanimidade de votos, em segunda votação, negar provimento ao recurso do contribuinte no que diz respeito à base de cálculo do lançamento; e (iv) por unanimidade de votos, dar provimento aos recursos voluntários dos coobrigados para excluí-los do polo passivo da obrigação tributária. Apresentaram declaração de voto os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza e Carlos Augusto Daniel Neto.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente
(assinado digitalmente)
Roberto Silva Junior - Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Carlos Augusto Daniel Neto. Ausente, justificadamente, a Conselheira Bianca Felícia Rothschild.
Nome do relator: ROBERTO SILVA JUNIOR
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FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2012 INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. PERMUTA DE PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS. VALOR RECEBIDO SUPERIOR AO VALOR ENTREGUE. GANHO DE CAPITAL TRIBUTÁVEL. A permuta de participações societárias decorrente de incorporação de ações dá ensejo à apuração de ganho de capital tributável se o valor das ações recebidas for superior ao valor das ações entregues. SOLIDARIEDADE TRIBUTÁRIA. PESSOAS EXPRESSAMENTE DESIGNADAS NA LEI. INDICAÇÃO DO FUNDAMENTO LEGAL. CONDIÇÃO DE VALIDADE. No caso de solidariedade tributária fundada no art. 124, inciso II, do CTN, é condição de validade do lançamento a indicação do dispositivo legal que abriga a hipótese de solidariedade, de modo a permitir o exercício do direito de defesa. JUROS MORATÓRIOS. INCIDÊNCIA SOBRE MULTA. CABIMENTO. Os juros moratórios incidem sobre a totalidade da obrigação tributária principal, nela compreendida, além do próprio tributo, a multa. CSLL E IRPJ. IDENTIDADE DE MATÉRIA FÁTICA. MESMA DECISÃO. Quando o lançamento de IRPJ e o de CSLL recaírem sobre a mesma base fática, há de ser dada a mesma decisão, ressalvados os aspectos específicos inerentes à legislação de cada tributo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, em: (i) por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício; (ii) por maioria de votos, em primeira votação, negar provimento ao recurso voluntário do contribuinte quanto à existência de matéria tributável na AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 58 6. 72 00 37 /2 01 6- 67 Fl. 1465DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.466 2 operação, vencida a Conselheira Amélia Wakako Morishita Yamamoto que votou por lhe dar provimento, tendo o Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto, neste ponto, acompanhado o voto do relator por suas conclusões; (iii) por unanimidade de votos, em segunda votação, negar provimento ao recurso do contribuinte no que diz respeito à base de cálculo do lançamento; e (iv) por unanimidade de votos, dar provimento aos recursos voluntários dos coobrigados para excluílos do polo passivo da obrigação tributária. Apresentaram declaração de voto os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza e Carlos Augusto Daniel Neto. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente (assinado digitalmente) Roberto Silva Junior Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Roberto Silva Junior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Carlos Augusto Daniel Neto. Ausente, justificadamente, a Conselheira Bianca Felícia Rothschild. Fl. 1466DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.467 3 Relatório Tratase de recursos interpostos por TRIP INVESTIMENTOS LTDA., TRIP PARTICIPAÇÕES S/A e RIO NOVO LOCAÇÕES LTDA., pessoas jurídicas já qualificadas nos autos, contra o Acórdão nº 0271.077, da 10ª Turma da DRJ Belo Horizonte, que negou provimento ao recurso da primeira autuada e deu provimento aos recursos das outras duas, tão somente para excluir a responsabilidade quanto ao IRPJ, mantendo, no mais, a exigência do crédito tributário. A infração foi descrita no Termo de Verificação Fiscal TVF de fls. 1.108 a 1.130. Consta do TVF: Trip Linhas Aéreas Brasileiras S/A, era, até 2012, uma empresa de aviação com sede em BarueriSP, controlada por três empresas (Trip Participações S/A, Trip Investimentos Ltda e Rio Novo Locações Ltda), estas por sua vez eram controladas pelo Grupo Águia Branca (Águia Branca Participações S/A) e pela Caprioli Participações Ltda. Notase que se trata de empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico, as quais possuem controladores comuns, localizamse em endereços associados ao Grupo Águia Branca, inclusive é esta fiscalização atendida pelo mesmo representante que atende as demais empresas acima citadas. As empresas controladoras da Trip Linhas Aéreas estão localizadas em Cariacica ES. As participações societárias estavam assim distribuídas (fl. 1.109): Controladoras da TRIP Linhas Aéreas Participação Quantidade de ações Trip Participações S/A 72% 55.550.000 Tríp Investimentos Ltda. 20% 15.570.833 Rio Novo Locações Ltda. 8% 6.312.500 Disse a autoridade fiscal que, em 25 de maio de 2012, os acionistas do grupo Águia Branca firmaram acordo de combinação de negócios com os acionistas de Azul S/A, para que esta incorporasse a totalidade das ações de Trip Linhas Aéreas, passando a Azul S/A a controlar a Azul Linhas Aéreas e a Trip Linhas Aéreas. Em 30 de novembro de 2012, deuse a incorporação das ações. Todas as ações da Trip Linhas Aéreas foram transferidas para a Azul S/A e, em contrapartida, os antigos controladores da Trip Linhas Aéreas receberam 30,7% das ações da Azul S/A, avaliadas em R$ 474,526 milhões a valor justo. Também como contraprestação, a Azul S/A emitiu bônus de subscrição de ações para os antigos controladores da Trip Linhas Aéreas, assegurandolhes o direito de adquirir ações da Azul S/A em condições previamente definidas. Os antigos controladores da Trip Linhas Aéreas receberam, pelas ações dessa companhia, ações da Azul S/A e bônus de subscrição. Entendeu a autoridade fiscal que referida operação não poderia ser considerada como mera troca de ações, sem efeitos tributários, pois produziram variação patrimonial, evidenciada pela diferença de valores das ações de uma companhia em face do valor das ações da outra, acrescido do valor do bônus de subscrição. Desta forma, verificase a existência de ganho de capital, materializado no acréscimo patrimonial obtido pela Trip Investimentos Ltda., que detinha 20% do capital social da Trip Linhas Aéreas. Fl. 1467DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.468 4 Trip Investimentos Ltda. contabilizou o investimento e o ágio relativo à aquisição das ações da Azul S/A. A contrapartida foi registrada na conta 313203 Ganho de Participação Societária, porém, os valores, embora contabilizados como receita, foram excluídos da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. A contribuinte apurou e diferiu o IRPJ e a CSLL, nos valores de R$ 32.224.480,00 e R$ 11.840.214,59 respectivamente. Os débitos foram excluídos tanto do lucro real (DIPJ e Lalur), quanto na contabilidade. Disse a autoridade lançadora que "embora tenha sido intimado a explicar o dispositivo legal no qual está amparada sua apuração de tributos diferidos, o contribuinte não apresentou qualquer embasamento legal, limitandose a informar que não há fato gerador, ou seja, o contribuinte reconhece o ganho como tributável, porém, difere sua tributação. Depreendese da argumentação do contribuinte que esta tributação só ocorreria se este transacionasse a participação na Azul S/A futuramente." (fl. 1.128) A autoridade fiscal, ao contrário, entendeu que fora obtido, da incorporação de ações, um acréscimo patrimonial, ou seja, disponibilidade econômica, elemento necessário à caracterização do fato gerador do IRPJ e da CSLL. Ademais, a legislação não prevê diferimento da tributação nesses casos. O cálculo do ganho de capital é a diferença entre o valor contábil do investimento e o valor da contraprestação recebida quando da ocorrência da transação. Em resumo, a operação consistiu na alienação do investimento na Trip Linhas Aéreas e no recebimento como contrapartida de ações da Azul S/A acrescido de bônus de subscrição, como demonstrado no quadro abaixo: DEMONSTRATIVO DO GANHO DE CAPITAL Contraprestação recebida (valor justo Ações Azul S/A) 123.345.846,25 Contraprestação recebida ( bônus de subscrição) 30.224.480,00 Investimento Trip Linhas Aéreas (valor contábil) 84.894.600,00 Ganho de capital na transação 68.675.726,25 Constatado o ganho de capital, a Fiscalização procedeu ao lançamento do crédito tributário de IRPJ e de CSLL. Por fim, entendeu a Fiscalização que estava caracterizada a existência de grupo econômico, integrado por Trip Participações S/A, Trip Investimentos Ltda. e Rio Novo Locações Ltda. Na esteira desse entendimento, lançou o crédito tributário contra as três empresas. As três autuadas apresentaram impugnação, cujos fundamentos foram resumidos pela DRJ nos seguintes termos: 1. Os processos das sociedades empresárias Trip Participações S/A, Trip Investimentos Ltda. e Rio Novo Locações Ltda. devem ser reunidos e julgados em conjunto, por conectados pelo mesmo fato e fundamento e para não gerar risco de prolação de decisões conflitantes ou contraditórias; 2. Deve ser afastada a solidariedade entre as empresas, por capitulação incorreta da responsabilidade solidária, por ausência de motivação do ato administrativo e por não comprovação da existência do grupo econômico; Fl. 1468DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.469 5 3. Na operação de Incorporação de Ações não existiu a realização de apuração de ganho de capital, por não configurar qualquer espécie de acréscimo patrimonial que a obrigasse ao recolhimento do tributo lançado. A incorporação de ações não configuraria alienação, mas espécie de troca/permuta de ações entre as sociedades; 4. Na operação de Incorporação de Ações a avaliação não representa preço de alienação das ações, sendo, tão somente, exigência procedimental contida na legislação societária, sem realização para as sociedades empresárias acionistas; 5. Na vigência do regime tributário de transição RTT, a sociedade expurgou os efeitos da avaliação a valor justo no FCONT, anulando qualquer efeito tributário da operação; 6. Eventual ganho de capital na operação somente poderia ser calculado considerando o valor patrimonial das ações em sua composição, e não o valor de mercado; 7. Inexiste renda decorrente do recebimento dos bônus de subscrição a ensejar o ganho de capital tributado, na medida em que aqueles retratam uma expectativa de subscrição futura do capital social. 8. Inexiste previsão legal de serem aplicados Juros SELIC sobre a multa lançada de ofício. (fl. 1.268) A DRJ BHE deu às impugnações provimento parcial apenas para excluir a responsabilidade tributária de Trip Participações S/A. e Rio Novo Locações Ltda., quanto ao crédito relativo ao IRPJ. O acórdão recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2012 GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO. Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos. A alienação é gênero, do qual a transferência das ações, nos termos do art. 252 da Lei n° 6.404, de 1976, é espécie. INCORPORAÇÃO DE AÇÃO. Na incorporação de ações, há alienação pelos acionistas da incorporada de seus ativos, sendo a transmissão da propriedade dos ativos onerosa e avaliada em moeda corrente. Assim, havendo diferença positiva entre o valor da transmissão e o respectivo custo de aquisição, esta deve ser tributada como ganho de capital, independentemente da existência de fluxo financeiro. GANHO DE CAPITAL NA INCORPORAÇÃO DE AÇÕES. O acréscimo patrimonial na incorporação de ações configurase pelo confronto entre o valor recebido das ações da incorporadora a valor justo e o valor de patrimônio líquido somado a eventual ágio na aquisição do investimento das ações incorporadas, por expressão do princípio da capacidade contributiva e do direito positivo. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. O ganho de capital auferido em decorrência de operação incorporação de ações também sofre tributação da contribuição social. Por decorrência, o mesmo procedimento adotado em relação ao lançamento principal estendese à CSLL. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. Fl. 1469DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.470 6 A multa de ofício é débito para com a União, decorrente de tributos e contribuições administrados pela SRF, configurandose regular a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício a partir de seu vencimento. RESPONSABILIDADE TRIBUTARIA. GRUPO ECONÔMICO. PREVISÃO LEGAL. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. INEXISTÊNCIA PARA IRPJ. As empresas que integram grupo econômico de qualquer natureza respondem entre si, solidariamente, pelas obrigações devidas à Seguridade Social, não havendo previsão legal expressa desta responsabilidade quanto ao IRPJ para o Grupo Econômico. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido Contra o acórdão da DRJ as recorrentes se insurgiram. Trip Investimentos Ltda. solicitou preliminarmente a reunião dos processos 15586.720036/201612; 15586 720037/201667 e 15586720086/201608, lavrados contra as recorrentes, tendo em vista a conexão existente entre eles, caracterizada pela identidade da matéria fática e pelos mesmos fundamentos jurídicos. Quanto à responsabilidade tributária, alegou capitulação incorreta, ausência de motivação do ato administrativo, e não comprovação da existência de grupo econômico. Teria havido equívoco da autoridade fiscal ao citar o art. 141 do Código Tributário Nacional CTN como fundamento legal da responsabilidade solidária. A fundamentação legal foi dada pela DRJ, no acórdão recorrido, que tentou complementar o auto de infração. A referência ao art. 30 da Lei nº 8.212/1991 e ao art. 494 da Instrução Normativa RFB nº 971/2009 figura apenas no acórdão recorrido, não tendo sido mencionada no auto de infração, nem no TVF, os quais omitem o enquadramento legal para amparar a responsabilização solidária decorrente da existência de grupo econômico. Por outro lado, o princípio da motivação do ato administrativo decorre não apenas da doutrina e da jurisprudência, mas também da Lei n° 9.784/1999, que regula o processo administrativo, preceituando, nos artigos 2º e 50, que o agente público, ao motivar o ato, deve fazêlo com a devida indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos necessários de forma explícita, clara e congruente, o que não ocorreu no presente caso. Por isso, existiria nulidade decorrente de vício formal. Sustenta a recorrente a não ocorrência de ganho de capital. A operação de incorporação de ações não enseja ganho de capital, nem configura hipótese de incidência de IRPJ e de CSLL. Tratase de negócio que consiste na permuta de ações entre as sociedades envolvidas, não dando causa à incidência daqueles tributos. Não ocorreu acréscimo patrimonial, pois as ações da Azul S.A. foram recebidas em contrapartida à entrega das ações da Trip Linhas Aéreas. Diferentemente do quanto exposto no acórdão recorrido, que entende a incorporação de ações como alienação em sentido amplo, a operação se subsume ao instituto da permuta. Ao contrário do que afirmado pela DRJ, as ações da Azul S/A não foram emitidas para pagamento ou liquidação de contrato, mas sim em troca das ações incorporadas da Trip Linhas Aéreas, por imposição da própria legislação societária. Fl. 1470DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.471 7 Não obstante se apliquem de forma subsidiária determinadas regras inerentes ao contrato de compra e venda, é certo que a permuta tem suas características específicas, principalmente por representar uma troca de ativos, em que as partes recebem ativos em troca de outros ativos, no caso, ações em troca de ações. Foi o que aconteceu com a recorrente na operação de incorporação de ações da Trip Linhas Aéreas pela Azul S/A: a troca de ações detidas por uma sociedade por ações emitidas em contrapartida pela sociedade incorporadora. Por se tratar de operação equivalente a permuta, que não envolve transferência de recursos, não se cogita de ganho de capital ou de renda. Porém, mesmo que a operação não possa ser qualificada tipicamente como permuta de ações, é inequívoco que não foi auferida renda pela recorrente. Para fins de IRPJ, o fato gerador é o acréscimo patrimonial, que não ocorreu. Não se pode falar em ganho no ato da incorporação das ações. Ganho de capital efetivo somente seria apurado quando e se a recorrente dispusesse da renda oriunda da alienação das ações. A troca das ações não resultou em acréscimo patrimonial para a recorrente, na medida em que, para fins fiscais, a troca se deu a valor contábil. Além disso, as novas ações não resultaram em disponibilidade de renda, razão pela qual não há que se falar em ganho de capital tributável. Para fins tributários, o valor atribuído, no âmbito da contabilidade, à incorporação de ações é irrelevante. Tal fato é importante para a compreensão do problema, na medida em que a avaliação das ações decorre de exigência da legislação societária, e somente nesse plano tem implicações, notadamente para fins de substância econômica. Na permuta, o essencial, é a deliberação de aceitar a troca pura e simples das coisas. Assim, na incorporação de ações, a avaliação não representa preço de alienação das ações, sendo apenas exigência da legislação societária, sem realização para as sociedades empresárias acionistas. A recorrente aduziu que o registro contábil da incorporação de ações deveria observar a neutralidade fiscal. Dessa forma, por estar sujeita ao regime tributário de transição RTT, se obrigava ao Controle Fiscal Contábil de Transição FCONT, de forma a expurgar, para fins fiscais, os efeitos da aplicação de métodos e critérios contábeis introduzidos pela Lei n° 11.638/2007. Em obediência a essa regra, a recorrente, por meio do FCONT, expurgou, no plano fiscal, os efeitos do recebimento das ações da Azul S/A em contrapartida à entrega das ações da Trip Linhas Aéreas. O ganho de capital apontado pela Fiscalização é resultado da avaliação das ações da Azul S/A e do bônus de subscrição a valor justo, em obediência à legislação societária. Tal avaliação, entretanto, estando restrita ao plano contábil, não criou para a recorrente qualquer obrigação de reconhecer ganho de capital tributável. Quanto ao recebimento do bônus de subscrição, insistiu, pelas razões expostas, em que a avaliação, no âmbito tributário, não pode ser feita a valor justo. Ademais, a determinação do valor desse título mobiliário depende de diversos fatores presentes na data da efetiva subscrição. Fl. 1471DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.472 8 A aferição de valor desses títulos depende da volatilidade das ações da pessoa jurídica cujo capital é subscrito. Por outro lado, o lucro depende das condições de mercado. É notório, em face desses aspectos, que inexiste renda decorrente da titularidade de bônus de subscrição em determinada data. Em resumo, não há ganho de capital decorrente de renda não realizada, vez que se trata de expectativa de, em futuro incerto, subscrever o capital social da companhia. A par das questões já levantadas no recurso, a recorrente acusou o fato de que, na apuração do ganho de capital, não teria sido considerado como custo do investimento na Trip Linhas Aéreas o ágio pago quando de sua aquisição. Por último, alegou o não cabimento da incidência de juros sobre a multa. As pessoas jurídicas arroladas como responsáveis tributárias questionaram sua inclusão no polo passivo, alegando vício na capitulação legal da responsabilidade tributária, ausência de motivação do ato administrativo, e falta de comprovação da efetiva existência de grupo econômico. A Procuradoria da Fazenda Nacional PFN apresentou contrarrazões (fls. 1.387 a 1.447), pugnando ao final pelo não provimento do recurso voluntário. Por ter sido excluída a responsabilidade tributária, quanto ao crédito de IRPJ, de Trip Participações S/A e Rio Novo Locações Ltda., impõese o reexame de ofício da decisão na parte que excluiu a responsabilidade daqueles coobrigados. É o relatório. Fl. 1472DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.473 9 Voto Conselheiro Roberto Silva Junior, Relator Admissibilidade Os recursos são tempestivos e atendem aos demais requisitos de admissibilidade. Ganho de capital A controvérsia gira em torno do ganho na incorporação de ações. A recorrente sustenta que o referido negócio jurídico não configura hipótese de incidência do IRPJ e da CSLL, pois a operação se assemelha a uma troca de ações entre as sociedades envolvidas, não atraindo incidência tributária. Refutou a afirmação contida no acórdão recorrido de que a operação possa ser considerada alienação em sentido amplo, visto que ela se subsume ao instituto da permuta ou troca. Assim, conclui que as ações da AZUL não teriam sido emitidas como forma de pagamento ou de liquidação do contrato, mas sim em troca das ações incorporadas da TRIP, o que foi feito por imposição da legislação societária. Em resumo, teria ocorrido mera substituição de ações detidas originariamente pelos investidores, as quais são trocadas por novos papéis a eles atribuídos pela sociedade incorporadora. Por se tratar de operação equivalente a permuta, sem envolver transferência de recursos, não se poderia falar em apuração de ganho de capital ou renda. De plano, é preciso afastar a ideia de que na permuta não existe alienação. Alienar, segundo a definição encontrada no Vocabulário Jurídico De Plácido e Silva, significa a ação de passar para outrem o domínio de coisa ou o gozo de direito que é nosso. Está assim o vocábulo, na tecnologia jurídica, em acordo com o radical de que se formou, alius, palavra latina que significa outrem. Alienare é, assim, tornar de outrem a coisa que era nossa e que se lhe transferiu por título inter vivos, seja gratuito ou oneroso. Segundo o mesmo autor, alienação, também chamada de alheação e alheamento, é o termo jurídico, de caráter genérico, pelo qual se designa todo e qualquer ato que tem o efeito de transferir o domínio de uma coisa para outra pessoa, seja por venda, por troca ou por doação. Também indica o ato por que se cede ou transfere um direito pertencente ao cedente ou transferente. (g.n.) É pressuposto da permuta, e ao mesmo tempo um de seus efeitos, a alienação dos bens permutados. Acerca desse contrato, a professora Maria Helena Diniz, baseandose no civilista Clóvis Beviláqua, teceu o seguinte comentário: A troca ou permuta é, segundo Clóvis Beviláqua, o contrato pelo qual as partes e se obrigam a dar uma coisa por outra que não seja dinheiro. Apresenta os seguintes caracteres jurídicos: é contrato bilateral, oneroso, comutativo, translativo de propriedade no sentido de servir como titulus adquirendi, gerando, para cada contratante, a obrigação de transferir para o outro o domínio da coisa objeto de sua prestação, e, em regra, consensual, embora excepcionalmente possa ser solene. (Curso de Direito Civil Brasileiro, volume 3: teoria das obrigações contratuais e extracontratuais. 21 edição. São Paulo: Saraiva. p 225) (g.n.) Fl. 1473DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.474 10 É certo que a permuta implica alienação. Ademais, pelas características acima apontadas, ela se aproxima do contrato de compra e venda. Não é por acaso que o Código Civil determina que à permuta se apliquem as disposições referentes à compra e venda. (caput do art. 533). Admitese, ademais, permuta envolvendo coisas de valores díspares, como se vê do inciso II do art. 533 do Código Civil: Art. 533. Aplicamse à troca as disposições referentes à compra e venda, com as seguintes modificações: (...) II é anulável a troca de valores desiguais entre ascendentes e descendentes, sem consentimento dos outros descendentes e do cônjuge do alienante. O inciso II do art. 533 do Código Civil, ao afirmar ser anulável a permuta de valores desiguais entre ascendentes e descendentes, está a admitir, implicitamente, a validade da permuta que tenha por objeto coisas de valores discrepantes. A materialização dessa hipótese caracteriza um ganho para aquele que receber o bem mais valioso. O ganho, em tese, é tributável pelo Imposto de Renda. Notese que a lei, quando quis afastar a incidência tributária, nos casos de permuta, o fez de forma expressa, como na permuta de imóvel sem torna. A questão envolvendo ganho de capital nas operações de incorporação de ações já foi trazida diversas vezes ao CARF. Existe jurisprudência formada sobre a matéria, inclusive com decisões da Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF, de que é exemplo o Acórdão nº 9101002.172, que trata de quase todos os pontos suscitados pela recorrente. Do voto condutor da decisão, extraise o seguinte trecho: Assim, não se trata, apenas, de ser cabível, ou não, a apuração de ganho de capital tributável na hipótese de permuta de participações societárias, mas de ser cabível, ou não, essa apuração, quando ocorre recebimento de valor superior ao entregue o que evidentemente enseja a tributação pelo ganho de capital. Porém, mesmo se assim não fosse, há que se apurar ganho de capital quando há alienação na permuta pura e simples, se as condições próprias ocorrerem, pois a permuta é uma forma de alienação do bem permutado e quando o bem recebido em troca tem um valor a ser contabilizado maior que o valor registrado do bem permutado, há que ser reconhecido o ganho de capital e devidamente tributado, conforme se demonstra a seguir. O tratamento legal da matéria corresponde à incidência da legislação que impõe apuração de ganho de capital tributável na alienação de ativos, e a base do ganho é a diferença entre o valor da alienação (o quanto de fato representa o bem alienado que corresponde ao valor do bem recebido) e o seu custo de aquisição (há diversos dispositivos que tratam da forma como se apura a base de cálculo, não citados). Ou seja, a variação patrimonial na forma prevista no art. 43 do CTN deve ser quantificada e deve ser pago o correspondente imposto de renda. Não há dúvida que na permuta há alienação do bem que está na propriedade do permutante o que traz a incidência das normas de regência. Vejase que nesses casos a base da tributação é, grosso modo, a diferença entre o valor registrado do bem objeto de alienação e o custo de aquisição do investimento recebido. Para demonstrar que essa é a mens legis genérica da legislação do Imposto de Renda, transcrevese abaixo os dispositivos do RIR/1999 (que tem por fundamento diversos dispositivos legais) que Fl. 1474DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.475 11 tratam do tema, aplicáveis às alienações e ganho de capital de pessoas físicas ou jurídicas (...): Art. 117. Está sujeita ao pagamento do imposto de que trata este Título a pessoa física que auferir ganhos de capital na alienação de bens ou direitos de qualquer natureza (Lei n° 7.713, de 1988, arts. 2°e 3°,§ 2°, Lei n° 8.981, de 1995, art. 21). (...) § 4º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua aquisição, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins (Lei n° 7.713, de 1988, art 3º, § 3º). (...) Assim, da mera leitura e análise dos dispositivos legais acima reproduzidos transparece de forma cristalina que havendo alienação de ativo, e no caso presente houve, pois a empresa se desfez do ativo (via permuta), há que se apurar o ganho de capital correspondente à diferença entre o valor contábil do ativo que foi transferido e o valor do novo ativo que foi adquirido por permuta. (...) Temse que a operação de compra e venda corresponde à de permuta, dela se diferenciando apenas pelo fato de que se troca um bem por moeda (que não deixa de ser também um bem), e não por outro bem. Da mesma forma, a operação de permuta equivale a duas operações de compra e venda, nas quais a quantia em moeda, obtida na primeira operação, é convertida em bens na segunda, ambas com o mesmo contratante. (...) Não por outro motivo, a Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Novo Código Civil), em seu art. 533, ao tratar da "troca ou permuta", assim dispõe: Da Troca ou Permuta Art. 533. Aplicamse à troca as disposições referentes à compra e venda, com as seguintes modificações: I salvo disposição em contrário, cada um dos contratantes pagará por metade as despesas com o instrumento da troca; II é anulável a troca de valores desiguais entre ascendentes e descendentes, sem consentimento dos outros descendentes e do cônjuge do alienante. Por esse dispositivo legal fica clara a possibilidade de a "troca ou permuta'' ter por objeto bens de valores desiguais, o que, por si só, não a descaracteriza como tal. Vejase que, no caso de permuta de um bem por pessoa jurídica que recebe, em troca, outro bem do mesmo valor, não há diferença de valores a registrar: o novo bem ingressa no patrimônio da empresa com valor igual ao do bem substituído (o valor contábil do bem que transferido é exatamente igual ao valor do bem Fl. 1475DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.476 12 adquirido). Portanto, nessa situação, não ocorre, na permuta, nenhum ganho patrimonial a ser tributado. Mas este não é o caso dos autos. Assim, não é correto dizer como a recorrente que "não há qualquer alteração na situação patrimonial do contribuinte que troca um bem por outro" (efls. 3.115). Tal assertiva somente é verdadeira como bem afirmado pelo Acórdão nº 10808.358, de 2005, por ela mesma transcrito e destacado (efls. 3.114 e 3.115) quando houver "a mera troca de bens de valor equivalente" (o valor contábil do bem que transferido é exatamente igual ao valor do bem adquirido), o que não é o presente caso. (Relator Conselheiro Marco Aurélio Pereira Valadão) A par dessas razões, cumpre frisar que não procede a alegação de que a incidência do IRPJ só ocorre no momento da venda do bem recebido em permuta. O fato gerador do imposto não é o recebimento de dinheiro, mas o acréscimo patrimonial, aferido num determinado lapso de tempo. Portanto, havendo acréscimo, é irrelevante identificar a que elementos do patrimônio ele se deve, ou em quais elementos ele se exterioriza. Não é condição para a incidência do imposto que o acréscimo corresponda a uma disponibilidade de caixa. Nesse sentido, é cabível considerar na apuração do ganho de capital o valor do bônus de subscrição, não obstante a volatilidade apontada pela recorrente. Esse título mobiliário é passível de ser avaliado, tanto que a própria recorrente atribuiu a ele o valor de R$ 30.224.480,00, sendo irrelevante o fato de que tal avaliação se fez por imposição da lei societária. Ademais, se esses títulos podem ser negociados é porque são passíveis de avaliação em dinheiro. Por fim, importa dizer que a exigência de IRPJ e CSLL, no caso em tela, não pode ser atribuída à aplicação dos métodos e critérios contábeis introduzidos na legislação societária a partir do advento da Lei nº 11.638/2007. Em outras palavras, o lançamento não violou a regra da neutralidade tributária. O que efetivamente aconteceu é que a avaliação das ações da Azul S/A e do bônus de subscrição a valor justo evidenciou o ganho de capital. O acréscimo patrimonial tributável tem origem na diferença entre o valor da coisa entregue e o valor da coisa recebida. A avaliação a valor justo apenas mensurou essa diferença; não criou a realidade, apenas possibilitou sua constatação. Se a recorrente não estivesse obrigada pela legislação societária a fazer tal avaliação, ainda assim o ganho de capital teria ocorrido. A diferença é que ao Fisco caberia o ônus dessa avaliação e a prova do acréscimo patrimonial. Ressaltese que existe, no plano doutrinário, uma divergência quanto à natureza jurídica da incorporação de ações. Há quem veja nela um negócio cuja causa é o aumento de capital social mediante conferência de ações. Outros consideramna uma forma de reorganização societária, pela qual se cria uma subsidiária integral mediante a substituição de ações da companhia que se tornou controlada pelas ações da controladora. Essa controvérsia, a meu juízo, não interfere na tributação do IRPJ e da CSLL, que depende de que seja demonstrada a existência de dois fatos. Primeiro, a alienação das ações; depois, o acréscimo patrimonial, caracterizado pela diferença entre o valor das ações recebidas e o custo das ações entregues. O fato gerador do IRPJ e da CSLL, nesse caso, se considera ocorrido desde o momento em que se verifiquem as circunstâncias materiais necessárias a produzir os efeitos que normalmente lhe são próprios. Em outras palavras, quando houver disponibilidade econômica ou jurídica de renda. Fl. 1476DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.477 13 Por essas razões, o lançamento, nesse ponto, deve ser mantido. Ágio na aquisição das ações da Trip Linhas Aéreas S.A. A recorrente pede, na hipótese de ser mantido o lançamento, que se considere na apuração do ganho de capital o valor do ágio pago na aquisição das ações da Trip Linhas Aéreas S.A. O exame do TVF revela que a quantia paga a título de ágio foi efetivamente considerada. O que a Fiscalização rechaçou foi a pretensão de somar ao ágio o valor negativo do patrimônio líquido da empresa investida, quando da realização do investimento. Esse ponto, como frisou o acórdão recorrido, mesmo constando de forma expressa do TVF, não mereceu impugnação especificada da recorrente. O importante, porém, é deixar claro que o valor pago pelo investimento (R$ 84.894.600,00) foi efetivamente considerado na apuração do ganho de capital, como demonstra o quadro abaixo: EMPRESA RIO NOVO TRIP PARTICIPAÇÕES TRIP INVESTIMENTOS TOTAL VALOR PATRIMONIAL 6.785.773,23 55.886.083,57 22.012.386,32 84.684.243,12 ÁGIO 31.238.134,26 257.270.162,69 101.333.459,93 389.841.756,88 BÔNUS DE SUBSCRIÇÃO 9.299.840,00 76.723.680,00 30.224.480,00 116.248.000,00 BASE DE CÁCLULO 47.323.747,49 389.879.926,26 153.570.326,25 590.774.000,00 VALOR CONTÁBIL TRIP 0,00 0,00 0,00 ÁGIO INVEST NA TRIP 22.573.268,36 0,00 84.894.600,00 VALOR INVEST NA TRIP 22.573.268,36 0,00 84.894.600,00 CONTRAPRESTAÇÃO 47.323.747,49 389.879.926,26 153.570.326,25 GANHO DE CAPITAL 24.750.479,13 389.879.926,26 68.675.726,25 OBS. O valor contábil é zero porque o investimento (MEP) tinha valor negativo. Responsabilidade solidária recurso de ofício O lançamento, embora tenha colhido infração praticada por Trip Investimentos Ltda., incluiu no polo passivo Trip Participações S/A e Rio Novo Locações Ltda., entendendo existir grupo econômico, do qual faziam parte as três empresas. As recorrentes alegam que a autoridade lançadora omitiu o fundamento legal da solidariedade tributária, que só veio a ser apresentado no acórdão da DRJ, que, extrapolando sua competência, tentou complementar o auto de infração, invocando como suporte legal da solidariedade o art. 30 da Lei nº 8.212/1991 e o art. 494 da Instrução Normativa RFB nº 971/2009. O TVF, de fato, cita erroneamente o art. 141, inciso I, do CTN, que, além de não ter incisos, não cuida de responsabilidade tributária, de solidariedade e tampouco de grupo econômico. No corpo do auto de infração de IRPJ e de CSLL há referência apenas ao art. 124, inciso II, do CTN, acompanhado da seguinte descrição: Conforme relatório fiscal anexo ao auto de infração, tratamse de empresas que pertencem ao mesmo grupo econômico, tendo como sócios os Grupos Águia Branca e Caprioli Participações Ltda. Fl. 1477DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.478 14 É pacífico nesta 1ª Turma Ordinária o entendimento de que omissões e irregularidades no enquadramento legal da infração, por si sós, não acarretam nulidade do lançamento, se os fatos estiverem descritos com clareza e correção, de sorte a permitir o exercício do direito de defesa. Esse critério, entretanto, exige um cuidado maior na sua aplicação quando o tema envolve solidariedade tributária. É que o art. 124 do CTN prevê a existência de solidariedade em duas situações, a saber, i) quando houver interesse comum na situação que constitua fato gerador da obrigação principal; e ii) nos casos em que houver disposição expressa de lei prevendo a solidariedade. Eis o dispositivo legal: Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; II as pessoas expressamente designadas por lei. No primeiro caso, que cuida de interesse comum, ainda que o auto de infração seja omisso ou impreciso no enquadramento legal, não haverá nulidade se o quadro fático estiver descrito com clareza e precisão, pois é esse fato que traz à luz o interesse comum, que por sua vez deflagra a solidariedade tributária. O lançamento precisa descrever a ação conjugada ou coordenada de duas ou mais pessoas, visando a prática de ilícito tributário, do qual todos tinham conhecimento e ao qual aderiram de forma voluntária e consciente. Se a descrição fática lograr esse nível precisão e clareza, o lançamento subsistirá, a despeito de eventuais irregularidades de enquadramento legal. O mesmo, entretanto, não acontece no segundo caso. É que, de acordo com o inciso II, a solidariedade recai sobre pessoas expressamente designadas na lei, em situações também previstas de forma expressa na lei. Portanto, se a lei prevê situações específicas de solidariedade, a higidez do lançamento depende de que se indique o dispositivo legal que serve de base à solidariedade tributária. Não basta descrever a situação. Aqui é necessário citar o dispositivo legal, sob pena de inviabilizar o exercício do direito de defesa. No caso em exame, a autoridade lançadora fundamentou a solidariedade tributária na existência de grupo econômico. Porém não informou a base legal para tanto, nem esclareceu qual o conceito e o alcance da expressão grupo econômico. O CTN, quando trata da sujeição passiva, em especial dos casos de solidariedade, não cogita dessa figura. A DRJ supôs que o fundamento fosse o art. 30 da Lei nº 8.212/1991. Mas é uma conjectura. Esse dispositivo limita sua aplicação aos valores devidos à Seguridade Social. O IRPJ não se enquadra nesse perfil. Entretanto, a solidariedade foi estendida para alcançar o aludido imposto, abrindo caminho para a ilação de que a autoridade fiscal talvez tivesse em mente outro fundamento legal. Esse elemento necessário à validade do auto de infração não foi devidamente informado. Além disso, o próprio conceito de grupo econômico é impreciso, sobretudo na esfera tributária. Não há clareza quanto ao critério de reconhecimento da existência do grupo econômico. Perguntase: A relação entre as empresas do grupo deve ser vertical ou pode ser horizontal? Integram o grupo econômico empresas coligadas? Duas empresas não coligadas, mas submetidas a controle da mesma companhia, respondem solidariamente pelas dívidas tributárias uma da outra? Fl. 1478DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.479 15 As respostas a essas perguntas seriam dadas pelo enquadramento legal que, no caso, não foi feito. Enfim, o enquadramento legal da solidariedade tributária e o conceito de grupo econômico, que deram ensejo à inclusão de Trip Participações S/A e Rio Novo Locações Ltda. no polo passivo da autuação, tinham de ser expostos com clareza, mas não o foram. Portanto, não pode subsistir a responsabilidade tributária de nenhuma das duas recorrentes, nem da Trip Participações S/A, nem da Rio Novo Locações Ltda. Pelo exposto, afastase a responsabilidade solidária de Trip Participações S/A e de Rio Novo Locações Ltda. em relação à totalidade do crédito tributário lançado. Com isso, negase provimento ao recurso de ofício e, ao mesmo tempo, se dá provimento, nessa parte, aos recursos voluntários. Juros de mora sobre a multa No que concerne à aplicação de juros de mora sobre a multa imposta em lançamento de ofício, a matéria já foi diversas vezes trazida à apreciação desta Turma, que sistematicamente vem decidindo pela possibilidade dessa incidência. Para tanto, o fundamento legal estaria no art. 61 da Lei nº 9.430/1996, e nos artigos 161 e 139 ambos do CTN. Nessa linha de interpretação, emprestase um sentido amplo à expressão "débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições", constante do art. 61 da Lei nº 9.430, de forma a abarcar nessa categoria tanto o tributo propriamente dito, quanto a multa. Também esse é o entendimento que tem prevalecido na Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF, do qual é exemplo o Acórdão nº 9101003.369, cuja ementa, na parte relativa aos juros de mora, foi assim redigida: JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. As multas proporcionais aplicadas em lançamento de ofício, por descumprimento a mandamento legal que estabelece a determinação do valor de tributo administrado pela Receita Federal do Brasil a ser recolhido no prazo legal, estão inseridas na compreensão do § 3º do artigo 61 da Lei nº 9.430/1996, sendo, portanto, suscetíveis à incidência de juros de mora à taxa SELIC. Do voto condutor da decisão, destacamse os seguintes fundamentos: Assim, a expressão “os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal”, constante do caput do artigo 61 da Lei nº 9.430/1996, deve ser interpretada no sentido de compreender, para fins de incidência dos precitados juros moratórios, a diferença do tributo não recolhida até a data de seu vencimento, em razão de sua equivocada determinação, e a consequente multa aplicada mediante lançamento de ofício. Para tal empreitada exegética, é preciso considerar os artigos 113, § 1º; 139 e 161, caput e § 1º, do Código Tributário Nacional (CTN), verbis: (...) A teor dos artigos suprarreferidos: a) o crédito tributário é uma decorrência da obrigação tributária principal (CTN, artigo 139); Fl. 1479DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.480 16 b) essa obrigação tem por objeto o pagamento do tributo ou da penalidade pecuniária imposta como consequência do descumprimento do dever legal de entregar ao Estado credor, no prazo legal, o valor integral do tributo, apurado em consonância com as normas legais (CTN, § 1º do artigo 113); c) o crédito não integralmente pago no vencimento, de que trata o caput do artigo 161 do CTN, não se resume ao valor do tributo suprimido ao Erário, porquanto a infração consistente na supressão do tributo é fato gerador da multa proporcional a ser aplicada mediante lançamento de ofício. Portanto, o § 3º do artigo 161 do CTN abarca o valor do tributo suprimido e a multa a ser aplicada de ofício, em decorrência da supressão do tributo. (...) Do preceito acima invocado (art. 61 da Lei nº 9.430), destacase a incidência de juros de mora sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições. Facilmente se infere que as multas ora comentadas só nascem porque há tributo devido a ser exigido de ofício. Não houvesse tributo sonegado, não haveria multa proporcional a ser lançada de ofício. Essa deve ser a linha de raciocínio para o desvendamento do que se pode entender no âmbito da expressão “débitos decorrentes de tributos e contribuições.” (grifo do original) Pelas razões acima referidas, as multas proporcionais aplicadas em lançamento de ofício, por descumprimento a mandamento legal que estabelece a determinação do valor de tributo administrado pela Receita Federal do Brasil a ser recolhido no prazo legal, estão inseridas na compreensão do § 3º do artigo 61 da Lei nº 9.430/1996, sendo, portanto, suscetíveis à incidência de juros de mora à taxa Selic. Nessa linha de entendimento, o CARF editou a Súmula 108. Súmula CARF nº 108. Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. Em resumo e firmado nessas razões, indeferese a pretensão da recorrente de impedir a exigência de juros de mora calculados sobre a multa de ofício. CSLL Quando o lançamento da CSLL recair sobre a mesma base fática que motivou o lançamento do IRPJ, como ocorre no caso em exame, há de ser dada a mesma solução a ambos. Conclusão Pelo exposto, voto por conhecer dos recursos voluntários e de ofício para, no mérito: a) dar provimento aos recursos de Trip Participações S/A e de Rio Novo Locações Ltda., excluindoas do polo passivo da autuação; e Fl. 1480DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.481 17 b) negar provimento ao recurso de ofício e ao recurso interposto por Trip Investimentos Ltda. (assinado digitalmente) Roberto Silva Junior Declaração de Voto Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza Durante do julgamento do presente processo, manifestei minha intenção de apresentar declaração de voto, acompanhando o relator, para registrar, a partir desse julgamento, alteração de meu posicionamento acerca da matéria discutida no presente processo. A controvérsia gira em torno da possibilidade ou não de apurar ganho de capital na incorporações de ações. Antes, afastava a imposição fiscal, sob o entendimento de que a incorporação de ações seria uma operação com características próprias, distinta da alienação, e por conseqüência, não seria suscetível de gerar ganho de capital tributável. Porém, como já afirmado, refleti melhor sobre o assunto, cujas razões são adiante consignadas. Modesto Carvalhosa, ao tratar do assunto em questão, sustenta que, na incorporação de ações, ocorre uma alienação ficta de ações pelo acionista da incorporada e uma aquisição ficta pela incorporadora. Feito isso, continua o autor, ocorre em verdade um aumento de capital da incorporadora mediante a dação de bens pelos antigos acionistas da incorporada: as próprias ações. Tratase, assim, de uma aquisição na qual o pagamento se dá em bens, pelo que não se pode falar em mera substituição ou permuta. Nesse sentido: Tratase o negócio de incorporação de ações, ao mesmo tempo de uma incorporação e de uma alienação fictas. No primeiro caso, porque não se incorpora uma sociedade em outra, na medida em que a incorporada subsiste como pessoa jurídica, ou seja, como sociedade mercantil de direito privado, revestindo o tipo companhia. No segundo caso, porque o controlador da sociedade incorporada aliena não apenas suas ações à incorporadora, mas também as dos minoritários, num negócio sui generis, que lembra a expropriação do direito administrativo. [...] No mais, tratase de aumento de capital da incorporadora, mediante a conferência de todas as ações de emissão da incorporada.1 (grifos acrescidos) Fl. 1481DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.482 18 Assim , para esse autor, a justificativa para explorar o elemento "amento de capital" é que a incorporação de ações pressupõe que haverá aumento de capital na incorporadora, conforme previsão no art. 252 da Lei nº 6.404, de 1976. Nesse ponto, importante verificar que a presença do aumento de capital da incorporadora, nos permite perceber que haverá alienação de bens para que a incorporação de ações se concretize. Assim, não se trata de mera permuta de ativos, como outrora sustentei, que as ações incorporadas e as ações emitidas pela sociedade "incorporadora" são simplesmente trocadas, atribuindose às referidas ações o mesmo valor, e por conseguinte, sem ganho de capital a ser tributado. Tratase, em verdade, de inegável possibilidade de haver apuração de ganho de capital, no caso das ações a serem incorporadas serem transferidas por valor superior ao custo de aquisição. Com efeito, se verificada diferença positiva entre o custo de aquisição do bem permutado e o valor atribuído ao mesmo para concretizar a permuta – isto é, o valor da alienação –, a legislação tributária impõe a exigência de imposto sobre a renda. O CARF já apreciou operação de permuta de ações. Tratase do Acórdão nº 1202001.075, da relatoria do Conselheiro Valentim Neto, proferido pela 1ª Turma da 2ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento, onde se decidiu, por unanimidade de votos, que na operação de permuta deveria incidir a tributação sobre o ganho de capital auferido pela diferença de valor dos bens permutados no negócio. Confirase trecho do mencionado julgado: III. A permuta de ações como fato gerador do IRPJ e da CSLL quando verificado o ganho do capital. Alega a Recorrente que “ainda que ficasse configurada a permuta nada haveria para se exigir do contribuinte, pois não há preço estipulado em que um bem constituise o pagamento do outro”, bem como “a mera diferença entre o custo dos bens não configura acréscimo patrimonial, pois, conceitualmente, os bens são permutados porque as partes os entendem como sendo da mesma valia. Todavia, deve ser mantida a decisão recorrida, por força do artigo 117, § 4º, do RIR/99, segundo o qual a operação de permuta de ações é tida como uma alienação e, na hipótese de ser auferido ganho de capital, é devido o imposto: Art. 117. Está sujeita ao pagamento do imposto de que trata este Título a pessoa física que auferir ganhos de capital na alienação de bens ou direitos de qualquer natureza (Lei nº 7.713, de 1988, arts. 2º e 3º, § 2º, e Lei nº 8.981, de 1995, art. 21). [...] § 4º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua aquisição, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins (Lei nº 7.713, de 1988, art. 3º, § 3º). Colacionase, ainda, o Parecer Normativo CST nº 504, de 03/08/1971, também citado na decisão recorrida: “3 – Também a pessoa jurídica que permutar ações por outras ações de valor equivalente ao de aquisição das cedidas, por Fl. 1482DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.483 19 consequência, não alterando quantitativamente o patrimônio social, não estará sujeita à imposição de tributo. 4 – Todavia, se resultar lucro para a pessoa jurídica na alienação de ações, quer esta se faça sob a forma de venda, troca por bens de outra natureza ou permuta por outras ações, será ele necessariamente computado no resultado do exercício para fins de tributação. 5 Ressaltese, ainda, quanto à incidência na pessoa jurídica, não ser o valor nominal das ações negociadas a base de apuração do resultado na transação, e sim o valor da aquisição das por ela cedidas, em confronto com o atribuído às que receba na permuta, observandose em qualquer caso, as disposições das alíneas a e b do art. 251 e, na hipótese de prejuízo, as normas dos arts. 192 e 193 do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto nº 58.400, de 10/05/66).” (destaque não constam do original). Deste modo, para fins de apuração de ganho de capital, devem ser consideradas todas as operações que impliquem alienação a qualquer título, inclusive a permuta. Se a pessoa jurídica auferiu ganho ou lucro na alienação de ações, quer esta se opere mediante compra e venda, incorporação ou permuta por outras ações, será o ganho ou lucro submetido à tributação, sendo a base tributável, na hipótese dos autos, o resultado entre a diferença do valor de aquisição das ações da Selenium entregues e o valor das ações da Elba recebidas pela Recorrente. (grifos acrescidos) Igualmente, merece destaque decisão da Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF, proferida no Acórdão 9101002.172 (Caso Fibria), que envolvia a tributação de ganho de capital proveniente de operação de permuta. Eis a ementa do referido precedente: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007 PERMUTA DE PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS. RECEBIMENTO DE VALOR SUPERIOR AO ENTREGUE. APURAÇÃO DE GANHO DE CAPITAL TRIBUTÁVEL. CABIMENTO. Na hipótese de permuta de participações societárias, entre pessoas jurídicas, em que ocorre recebimento de valor superior ao entregue, é cabível a apuração de ganho de capital tributável, salvo nas hipóteses expressamente previstas em lei. Neste ponto, vale a pena transcrever trecho do voto do Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão (relator): O tratamento legal da matéria corresponde à incidência da legislação que impõe apuração de ganho de capital tributável na alienação de ativos, e a base do ganho é a diferença entre o valor da alienação (o quanto de fato representa o bem alienado que corresponde ao valor do bem recebido) e o seu custo de aquisição (há diversos dispositivos que tratam da forma como se apura a base de cálculo, não citados). Ou seja, a variação patrimonial na forma prevista no art. 43 do CTN deve ser quantificada e deve ser pago o correspondente imposto de renda. Não há dúvida que na permuta há alienação do bem que está na propriedade do permutante – o que traz a incidência das Fl. 1483DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.484 20 normas de regência. Vejase que nesses casos a base da tributação é, grosso modo, a diferença entre o valor registrado do bem objeto de alienação e o custo de aquisição do investimento recebido. Para demonstrar que essa é a mens legis genérica da legislação do Imposto de Renda, transcrevese abaixo os dispositivos do RIR/1999 (que tem por fundamento diversos dispositivos legais) que tratam do tema, aplicáveis às alienações e ganho de capital de pessoas físicas ou jurídicas (negritouse o dispositivo aplicável ao caso concreto em exame): (...) Assim, a regra geral é a tributação nos casos de permuta, espécie do gênero alienação. Porém há casos que não se tributa. E por que não tributa? Por que a legislação entendeu que se trata de não incidência, ou criou uma ficção jurídica que implica este efeito (além dos casos de isenção, onde há incidência mas não há tributação). Vejase que, conforme consolidado nos § 1º do art. 137 e os §§ 1º, 2º e 4º do art. 431 do RIR (aplicáveis às pessoas físicas e às jurídicas respectivamente, no âmbito do PND) – não se tributa porque há uma ficção jurídica no sentido de que os bens permutados (os dados e os recebidos), nos casos ali previstos, têm idêntico custo ou valor (ainda que contabilmente não os tenha) – o que, por óbvio, não gera ganho de capital. A Lei aqui criou uma exceção e não pode ser de forma alguma ser entendida como norma interpretativa, como alega a recorrente. Como reforço do argumento, as normas referentes às exceções à tributação na permuta sem torna, tidas como não incidência (não incluídas as isenções), seguem transcritas abaixo (incluem os casos de permuta em sede do PND e os casos de permuta de bens imóveis): [destaques não constam do original] Sendo assim, com esses fundamentos, acompanho o voto do relator que entendeu pela possibilidade de tributação do ganho de capital obtido na operação em exame. (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Com as habituais homenagens pela clareza e precisão do voto do Ilustre Relator, peço vênia para divergir apenas quanto a um ponto de seu raciocínio, frisando desde já que esta discordância não afetará a conclusão alcançada em seu voto. A questão fulcral diz respeito à natureza jurídica da operação de incorporação de ações, se alienação ou subrogação real, para fins de subsunção ou não à regra do art. 3º, § 3º da Lei nº 7.713/88. Fl. 1484DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.485 21 A incorporação de ações é prevista no art. 252 da Lei nº 6.404/76, e se trata da operação através da qual a sociedade incorporadora incorpora ações de outra empresa, que continua a existir, porém passando a ser subsidiária integral daquela. É o que determinam seus dispositivos de regência: Art. 252. A incorporação de todas as ações do capital social ao patrimônio de outra companhia brasileira, para convertêla em subsidiária integral, será submetida à deliberação da assembléiageral das duas companhias mediante protocolo e justificação, nos termos dos artigos 224 e 225. § 1º A assembléiageral da companhia incorporadora, se aprovar a operação, deverá autorizar o aumento do capital, a ser realizado com as ações a serem incorporadas e nomear os peritos que as avaliarão; os acionistas não terão direito de preferência para subscrever o aumento de capital, mas os dissidentes poderão retirarse da companhia, observado o disposto no art. 137, II, mediante o reembolso do valor de suas ações, nos termos do art. 230. (Redação dada pela Lei nº 9.457, de 1997) § 2º A assembléiageral da companhia cujas ações houverem de ser incorporadas somente poderá aprovar a operação pelo voto de metade, no mínimo, das ações com direito a voto, e se a aprovar, autorizará a diretoria a subscrever o aumento do capital da incorporadora, por conta dos seus acionistas; os dissidentes da deliberação terão direito de retirarse da companhia, observado o disposto no art. 137, II, mediante o reembolso do valor de suas ações, nos termos do art. 230. (Redação dada pela Lei nº 9.457, de 1997) § 3º Aprovado o laudo de avaliação pela assembléiageral da incorporadora, efetivarseá a incorporação e os titulares das ações incorporadas receberão diretamente da incorporadora as ações que lhes couberem. § 4º A Comissão de Valores Mobiliários estabelecerá normas especiais de avaliação e contabilização aplicáveis às operações de incorporação de ações que envolvam companhia aberta. É uma peculiaridade dessa operação que a incorporadora aumente seu próprio capital social e o integralize com as ações adquiridas da incorporada. Os acionistas desta (incorporada), então, caso aprovem a operação, receberão em troca ações da incorporadora decorrentes do aumento do capital social em questão. Os antigos acionistas ou titulares de cotas da incorporada, portanto, passam a ser acionistas da incorporadora. É famoso o debate doutrinário em torno da tributação da incorporação de ações. Por um lado, parte da doutrina entende a incorporação como mera substituição de ações em virtude de subrogação real, em que não ocorre uma alienação e, portanto, não há ganho de capital tributável (Cf. OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Incorporação de ações no direito tributário conferência de bens, permuta, dação em pagamento e outros negócios jurídicos. São Paulo: Editora Quartier Latin, 2014), e, por outro lado, parte da doutrina reconhece a operação como aumento de capital mediante conferência de bens, o que implica alienação das ações incorporadas (Cf. SCHOUERI, Luís Eduardo e ANDRADE JR., Luís Carlos de. Fl. 1485DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.486 22 Incorporação de ações: natureza societária e efeitos tributários. São Paulo: Editora Dialética, Revista Dialética de Direito Tributário nº 200, maio de 2012). Com a devida vênia às abalizadas posições em sentido contrário, entendo que a operação de incorporação de ações se qualifica juridicamente como um aumento de capital mediante conferência de bens. Parecenos que o art. 252 da Lei 6404/76 é de grande clareza ao evidenciar que a incorporação de ações envolve um aumento de capital na sociedade incorporadora, e a integralização desse capital mediante a transferência das ações incorporadas. Do lado da sociedade incorporada, há uma aquisição de ações da incorporadora através da transferência de ações próprias, que serão utilizadas para a composição do capital social aumentado da incorporadora. É dizer, o pagamento pelas ações da incorporadora, decorrentes do aumento de capital, se dá através das ações dos acionistas da sociedade incorporada, caracterizando este negócio como inconteste alienação das ações detidas pelos sócios da incorporada. A tese da ocorrência de subrogação real nos parece equivocada, pois este negócio jurídico exige a substituição do objeto da relação jurídica, com a manutenção dos demais aspectos da relação originária (EIZIRIK, Nelson. "Incorporação de ações. Natureza Jurídica e principais características", p. 96). No caso da incorporação de ações, o sócio da sociedade incorporada é titular de participação nela, ao passo que após a operação ele deixa de ser sócio daquela empresa, para ser sócio da incorporadora mudam não apenas as ações, mas também a sociedade com a qual ele se relaciona, afetando a relação pretérita para além, simplesmente, do seu objeto. Além disso, o fato da operação ser realizada por meio de decisão da assembleia geral da incorporada decorre de autorização legal, que franqueia à diretoria da companhia poderes para negociar, em nome próprio e por conta dos acionistas, resguardando o direito de retirada dos minoritários, nos termos do art. 252, § 3º da Lei 6.404/76, não se afasta da lógica do princípio majoritário, que orienta as deliberações sociais1. Nesta esteira, há que se questionar se, a despeito da alienação, há realização da renda para fins de incidência do IRPJ e CSLL. Nesse ponto, também entendo ocorrida a realização, pois as ações da incorporadora passam a fazer parte do patrimônio do acionista da incorporada, que as recebe, incluindo aí o ganho de capital decorrente da diferença em relação ao custo de aquisição das ações da incorporada, estando cumpridos todos os requisitos da troca, inclusive a avaliação das ações a valor de mercado, sendo essas valores dotados de mensurabilidade e liquidez (Cf. BULHÕES PEDREIRA, José Luiz. Imposto sobre a renda: pessoas jurídicas. Rio de Janeiro: Justec, 1979, p.279) Em síntese, entendo que a incorporação de ações consiste em uma operação de alienação, no qual ações da incorporadora são adquiridas pelos sócios mediante cessão das 1 Para uma apresentação extensiva e, a meu ver, conclusiva sobre as críticas à primeira corrente, remeto a "SCHOUERI, Luís Eduardo e ANDRADE JR., Luís Carlos de. Incorporação de ações: natureza societária e efeitos tributários. São Paulo: Editora Dialética, Revista Dialética de Direito Tributário nº 200, maio de 2012. Fl. 1486DF CARF MF Processo nº 15586.720037/201667 Acórdão n.º 1301003.345 S1C3T1 Fl. 1.487 23 ações da incorporada (aumento de capital mediante conferência de bens), que tem o condão de gerar ganho de capital, a depender do valor das ações adquiridas da incorporadora. Desse modo, voto por reconhecer a incidência do IRPJ e CSLL sobre o ganho de capital na incorporação de ações. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Fl. 1487DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15504.018036/2008-10
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 22 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2003 a 28/02/2007
AUSÊNCIA DE CONTESTAÇÃO SOBRE O FATO TRIBUTÁRIO QUE GEROU O LANÇAMENTO. PRECLUSÃO. ARTIGO 17 DO DECRETO Nº 70.235/1972.
Na hipótese em que não há impugnação no recurso voluntário quanto ao descumprimento da obrigação acessória que ensejou a imposição da penalidade, a matéria resta preclusa, não mais suscetível de apreciação nesta instância administrativa de julgamento.
CONTRATO DE LICENÇA DE USO DE MARCA. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. NÃO INCIDÊNCIA.
O que enseja a responsabilidade por sucessão é a aquisição de estabelecimento para a continuação da exploração da atividade comercial, industrial ou profissional, e não apenas o arrendamento ou locação de parte dele. Inteligência do art. 133 do CTN.
AQUISIÇÃO DE ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL POR ENTIDADE IMUNE - TRESPASSE. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA POR SUCESSÃO. ART. 133, II DO CTN. CONTRIBUIÇÃO DOS SEGURADOS.
Eventual imunidade a que faça jus o responsável tributário não alcança as operações realizadas pelo contribuinte, a quem efetivamente se referem os fatos jurídicos tributários.
EXCLUSÃO DOS REPRESENTANTES LEGAIS DA RELAÇÃO DE COOBRIGADOS.
Não há atribuição de responsabilidade às pessoas relacionadas nos relatórios Relatório de Representantes Legais - REPLEG e Vínculos - Relação de Vínculos, mas tão somente qualificação para fins cadastrais. Matéria que não comporta discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, a teor da Súmula CARF nº 88.
MULTA. EFEITO CONFISCATÓRIO. MATÉRIA CONSTITUCIONAL. SÚMULA CARF N° 02.
A análise de eventual caráter confiscatório da penalidade aplicada envolve a aferição de compatibilidade com a Constituição Federal da legislação tributária que fundamentou a autuação, o que é vedado a este tribunal, conforme Súmula CARF nº2.
JUROS MORATÓRIOS. CORREÇÃO PELA SELIC. SÚMULA CARF Nº 04.
É entendimento pacífico neste tribunal, constante da Súmula CARF nº 4, que os juros moratórios devidos sobre os débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal são corrigidos pela taxa SELIC.
Numero da decisão: 2402-006.549
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
Renata Toratti Cassini - Relatora
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho (presidente da turma), Denny Medeiros, Luis Henrique Dias Lima, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci (vice-presidente), Jamed Abdul Nasser Feitoza, Gregório Rechmann Junior e Renata Toratti Cassini.
Nome do relator: RENATA TORATTI CASSINI
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E OUTROS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2003 a 28/02/2007 AUSÊNCIA DE CONTESTAÇÃO SOBRE O FATO TRIBUTÁRIO QUE GEROU O LANÇAMENTO. PRECLUSÃO. ARTIGO 17 DO DECRETO Nº 70.235/1972. Na hipótese em que não há impugnação no recurso voluntário quanto ao descumprimento da obrigação acessória que ensejou a imposição da penalidade, a matéria resta preclusa, não mais suscetível de apreciação nesta instância administrativa de julgamento. CONTRATO DE LICENÇA DE USO DE MARCA. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. NÃO INCIDÊNCIA. O que enseja a responsabilidade por sucessão é a aquisição de estabelecimento para a continuação da exploração da atividade comercial, industrial ou profissional, e não apenas o arrendamento ou locação de parte dele. Inteligência do art. 133 do CTN. AQUISIÇÃO DE ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL POR ENTIDADE IMUNE TRESPASSE. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA POR SUCESSÃO. ART. 133, II DO CTN. CONTRIBUIÇÃO DOS SEGURADOS. Eventual imunidade a que faça jus o responsável tributário não alcança as operações realizadas pelo contribuinte, a quem efetivamente se referem os fatos jurídicos tributários. EXCLUSÃO DOS REPRESENTANTES LEGAIS DA RELAÇÃO DE COOBRIGADOS. Não há atribuição de responsabilidade às pessoas relacionadas nos relatórios “Relatório de Representantes Legais REPLEG” e “Vínculos Relação de Vínculos”, mas tão somente qualificação para fins cadastrais. Matéria que não comporta discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, a teor da Súmula CARF nº 88. MULTA. EFEITO CONFISCATÓRIO. MATÉRIA CONSTITUCIONAL. SÚMULA CARF N° 02. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 01 80 36 /2 00 8- 10 Fl. 1088DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.089 2 A análise de eventual caráter confiscatório da penalidade aplicada envolve a aferição de compatibilidade com a Constituição Federal da legislação tributária que fundamentou a autuação, o que é vedado a este tribunal, conforme Súmula CARF nº2. JUROS MORATÓRIOS. CORREÇÃO PELA SELIC. SÚMULA CARF Nº 04. É entendimento pacífico neste tribunal, constante da Súmula CARF nº 4, que os juros moratórios devidos sobre os débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal são corrigidos pela taxa SELIC. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente (assinado digitalmente) Renata Toratti Cassini Relatora Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho (presidente da turma), Denny Medeiros, Luis Henrique Dias Lima, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci (vicepresidente), Jamed Abdul Nasser Feitoza, Gregório Rechmann Junior e Renata Toratti Cassini. Fl. 1089DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.090 3 Relatório Cuidase de recurso voluntário interposto em face do Acórdão nº 0228.210, da 7ª Turma da DRJ de Belo Horizonte (fls. 900/918), que julgou improcedente as impugnações apresentadas contra o Auto de Infração DEBCAB nº 37.052.8280. De acordo com o relatório fiscal de fls. 18/28, tratase de multa aplicada a ofensa ao artigo 33, §§ 2° e 3, da Lei n° 8.212/91, combinado com o art. 232 e com parágrafo único do art. 233 do Regulamento da Previdência Social — RPS, aprovado pelo Decreto 3.048, de 06/05/99, por ter deixado a empresa de apresentar à fiscalização os livros “Diário” dos anos 2003 a 2007 (fls. 08 a 13). Foi aplicada a penalidade prevista nos artigos 92 e 102 da Lei 8.212 da Lei nº8.212/91, c.c. artigos 283, II, "j" e 373 do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99, no valor de R$ 12.548,77 (doze mil quinhentos e quarenta e oito reais e setenta e sete centavos). Não ficaram configuradas agravantes ou atenuantes previstas, respectivamente, nos artigos 290 e 291 do RPS. Ainda de acordo com a fiscalização, ficou constatado o interesse comum entre as empresas Educação Infantil e Ensino Fundamental Savassi Ltda., CNPJ 05.385.879/0000150; Educação Infantil e Ensino Fundamental Pampulha Ltda., CNPJ 05.401.768/000190; Pampulha Ensino Fundamental Ltda., CNPJ 06.001.557/000123; Educação Infantil e Ensino Fundamental Mangabeiras Ltda., CNPJ 05.401.766/000100; Educação Infantil e Ensino Fundamental Sete Lagoas Ltda., CNPJ 05.392.395/000139; Mangabeiras Ensino Fundamental Ltda., CNPJ 06.001.546/000143; Colégio Sete Lagoas Ensino Fundamental Ltda., CNPJ 04.901.337/000120; Centro Mineiro de Ensino Superior CEMES Ltda., CNPJ 02.636.995/000107; Promove Participações Ltda.., CNPJ 05.376.569/000170; Promove Serviços Educacionais Ltda., CNPJ 05.376.559/000134; Promove Cursos Livres e Mercantil, CNPJ 42.975.896/000174, Magle Edição Comércio e Distribuição de Livros Ltda., CNPJ 05.399.437/000163 e Sociedade Educacional Sistema Ltda., CNPJ 23.840.945/000117 e, estando configurada a sujeição passiva entre elas, foram emitidos os respectivos TERMOS DE SUJEIÇÃO PASSIVA. Informa, também, o auditor, que a SOEBRAS Associação Educativa do Brasil, CNPJ 22.669.915/000127, foi eleita responsável subsidiária, nos termos do art. 133 do CTN por ter adquirido do grupo PROMOVE o direito de uso da marca PROMOVE em 01/11/2006 por meio de contrato particular de "Licença de Uso da Marca", continuando a explorar a antiga atividade econômica da autuada. Para o exercício dessas atividades, a adquirente inscreveu novos estabelecimentos no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas e manteve o mesmo endereço e CNAE da cedente. Em segundo ato, a SOEBRAS, por meio de “Contrato Particular de Alienação de Estabelecimento Empresarial — TRESPASSE”, adquiriu das empresas do grupo PROMOVE todo o complexo de bens organizados para exercício da atividade desenvolvida, composto da titularidade do estabelecimento empresarial, “incluindo ativo e passivo, (inclusive para os termos do art. 133 do Código Tributário Nacional e Art. 11º e 448 da Consolidação das Fl. 1090DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.091 4 Leis do Trabalho), bem como a propriedade de todos os seus elementos corpóreos e incorpóreos, imóveis, móveis, e semoventes e afins (...)”. Em que pese a alienação, esclarece o auditor que a autuada PROMOVE SERVIÇOS EDUCACIONAIS LTDA. não procedeu às devidas anotações nos Órgãos Oficiais de Registro, não arquivando na JUCEMG nenhuma alteração contratual de dissolução ou liquidação. Registra, também, que a autuada não cumpriu com as obrigações junto à administração tributária, permanecendo ativa no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas. Após ciência do auto de infração, aos 12/11/2008, a autuada PROMOVE SERVIÇOS EDUCACIONAIS LTDA. apresentou defesa juntamente com as empresas Promove Participações Ltda., Sociedade Educacional Sistema Ltda., Centro Mineiro de Ensino Superior CEMES Ltda., Colégio Sete Lagoas Ensino Fundamental Ltda., Educação Infantil e Ensino Fundamental Savassi S/C Ltda., Educação Infantil e Ensino Fundamental Pampulha Ltda., Pampulha Ensino Fundamental Ltda., Educação Infantil e Ensino Fundamental Sete Lagoas Ltda., Educação Infantil e Ensino Fundamental Mangabeiras Ltda., Magle Edição Comércio e Distribuição de Livros Ltda., Promove Cursos Livres e Mercantil Ltda., Mangabeiras Ensino Fundamental Ltda. e, também, com os sócios Luiz Magno da Silva Saramago, Hélio Soares Bazzoni, João Bosco Fontoura, Paulo Estevam da Silva Bastos, José Alyrio Bicalho Mourdo e o contador Carlos Alberto Moreira, alegando, em síntese: a) ILEGITIMIDADE DOS CORRESPONSÁVEIS: a inclusão dos representantes legais como corresponsáveis não merece prosperar, uma vez que não foram provados os motivos justificadores da coobrigação. Não houve, no caso, a comprovação de que os representantes legais agiram com excesso de mandato; b) NORMAS LEGAIS INFRINGIDAS. IMPOSSIBILIDADE DE IMPUGNAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA: argumentam que o Poder Judiciário já reconheceu a inconstitucionalidade da cobrança de INSS sobre pagamento de alimentação, de multas e de impostos de forma arbitrária e ilegal. c) Que a manutenção do auto de infração configura cerceamento de defesa e ofensa ao artigo 5°, LV, CF/88. A autuação não atende aos princípios básicos inerentes à Administração Pública, previstos na Lei 9.789/99, pois quando da auditoria realizada, o auditor poderia ter alertado a empresa acerca dos eventuais problemas, a exemplo da apresentação de documentos/dados faltantes, conferindolhe a oportunidade de regularizar a situação antes de proceder à atuação. d) MULTA EXCESSIVA COM EFEITO CONFISCATÓRIO. AFRONTA AO ARTIGO 150 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL: a multa aplicada é excessiva, absurda, além de confiscatória; e) ERRÔNEA IMPOSIÇÃO DE MULTA E JUROS: em face da impossibilidade de se aferirem valores, a multa aplicada tem efeito de confisco, o que é vedado pela CF/88, razão pela qual ficam, desde já, expressamente, impugnados os lançamentos de multas e juros, mesmo porque, em sua maioria, já foram objeto de outros Autos de Infração; f) INOCORRÊNCIA DE INFRAÇÃO CRIMINAL: Como já informado anteriormente, não houve, em momento algum por parte da autuada, omissão de fatos, dados e documentos, pelo que impugna a eventual configuração de crime nos moldes do art. 337A do Código Penal Brasileiro; Fl. 1091DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.092 5 g) Requereram, por fim, a improcedência da autuação. A SOEBRAS Associação Educativa do Brasil, por sua vez, na condição de responsável subsidiária pelo crédito tributário, impugnou o lançamento, arguindo, em síntese (784/796)): a) Que arrendou, em 01/11/2006, a utilização da marca "Promove" em troca do pagamento de quantia em dinheiro para o Grupo "Promove". b) Que o Grupo Promove mantém suas atividades empresariais normais, tanto que possui as unidades Mangabeiras, Pampulha, Núcleo e Supletivo; c) Que a Promove e a SOEBRAS são empresas distintas, com sócios distintos, personalidades jurídicas próprias, independentes e atuam, cada qual, em seus objetivos sociais, não se podendo falar em sujeição passiva subsidiária; d) Contestou a cobrança da contribuição da empresa 1% SAT + 20% (FPN, PAT e RPA), contribuição de segurados (PAT e RPA), apropriação indébita contribuição descontada dos segurados (FPN), AI CFL 30 – deixar de incluir verbas salariais em FOPAG, AI CFL 35 deixar de apresentar dados em formato MANAD, AI CFL 38 – deixar de apresentar livro diário de 2003 a 2007, AI CFL 67 – deixar de informar fatos geradores em GFIP, AI CFL 68 – apresentar GFIP com dados não correspondentes aos fatos geradores, AI CFL 91 apresentar GFIP em desconformidade com o Manual; e) Que goza de isenção/imunidade tributária, por ser entidade beneficente de assistência social; f) Que pelo simples fato de ter arrendado a marca não pode ser responsabilizada pelas obrigações da empresa cedente; g) Que o arrendamento ocorreu no final de 2006 e a autuação compreendeu as competências a partir de 2003; h) Que as diversas alterações ocorridas no sistema de entrega de dados, como envio das GFIPs, causaram certa confusão e desconhecimento técnico, o que não pode ser considerado máfé. Entende que não pode ser punida sem ter concorrido para a prática de ato ilícito; i) Que apresentou pedidos de parcelamento de débitos protocolados aos 15/10/2007, pelo que requer seja transferido todo o passivo fiscal para o CNPJ 22.669.915/000127, permitindo a sua inclusão nos parcelamentos já solicitados; j) Requereu a insubsistência do Mandado de Procedimento Fiscal MPF, o não reconhecimento da sujeição passiva subsidiária, a anulação do procedimento e o reconhecimento da imunidade tributária da SOEBRAS; A DRJ julgou a impugnação improcedente, em julgado assim ementado: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 01/01/2003 a 28/02/2007 AUTO DE INFRAÇÃO. FALTA DE APRESENTAÇÃO DE DOCUMENTO. Fl. 1092DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.093 6 Constitui infração a legislação previdencidria, deixar o contribuinte de exibir h. fiscalização todos os documentos e livros relacionados com as contribuições sociais, quando solicitados. POLO PASSIVO. COOBRIGADOS. No polo passivo estão incluídas as pessoas jurídicas responsáveis pelo pagamento do crédito lançado, contribuinte e componentes do mesmo grupo econômico, por solidariedade. MULTA. ARGÜIÇÃO DE CONFISCO. INCONSTITUCIONALIDADE. A alegação de que a multa em face de seu elevado valor é confiscatória não pode ser discutida nesta esfera de julgamento, pois se trata de exigência fundada em legislação vigente, à qual este julgador está vinculado. REPRESENTAÇÃO FISCAL. Obrigação legal do Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil a formalização de Representação Fiscal para Fins Penais sempre que, no exercício de suas funções, constatar a ocorrência, em tese, de crime contra a Seguridade Social. JUNTADA DE DOCUMENTOS. PRAZOS. PRECLUSÃO TEMPORAL. A prova documental deve ser apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual. AQUISIÇÃO DE ESTABELECIMENTO. RESPONSABILIDADE TRIBUTARIA. A pessoa natural ou jurídica de direito privado que adquirir de outra, por qualquer titulo, fundo de comércio ou estabelecimento comercial, industrial ou profissional, e continuar a respectiva exploração, sob a mesma ou outra razão social ou sob firma ou nome individual, responde pelos tributos, relativos ao fundo ou estabelecimento adquirido, devidos até a data do ato. IMPUGNAÇÃO Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL MPF. Tendo a autoridade fiscal observado o cumprimento dos requisitos legais indispensáveis à validade do lançamento do crédito tributário, eventuais questionamentos acerca da emissão ou execução do MPF, por constituir essencialmente um instrumento de controle administrativo, não importam em nulidade do procedimento fiscal. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido O sujeito passivo PROMOVE SERVIÇOS EDUCACIONAIS LTDA. e os responsáveis solidários do grupo Promove, bem como a empresa SOEBRAS foram notificados do acórdão e, tempestivamente, aos 23.02.2011, apresentaram Recurso Voluntário único aduzindo, em breve síntese (fls. 1034/1074): a) ilegitimidade da SOEBRAS para figurar como devedora das dívidas tributárias do grupo "Promove" pela mera utilização da marca em decorrência do contrato de Fl. 1093DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.094 7 licença de uso celebrado, dado que não existe previsão legal de que o uso da marca acarreta responsabilidade por débitos tributários; b) exclusão dos representantes legais das empresas do grupo Promove da relação de coobrigados; c) redução dos juros e multas aplicados, em respeito ao mandamento inserto no art. 150, IV da CF/88, c/c art. 1º da Lei 9.784/99, por terem efeito confiscatório; d) a imunidade tributária da SOEBRÁS atinge o contrato de TRESPASSE realizado entre si a o grupo Promove. Não houve contrarrazões. Encaminhados os autos a este Conselho para julgamento do recurso, constatou a então relatora que havia notícia de que a empresa teria optado por aderir ao parcelamento de todos os débitos junto à PGFN e à Receita Federal, nos termos da Lei nº 11.941/09. O julgamento foi, então, convertido em diligência para que o Fisco informasse se os débitos em discussão foram objeto de parcelamento pelo contribuinte ou pelas demais responsáveis (solidárias ou subsidiárias) (fls. 1076), restando, por fim, esclarecido que “o débito controlado por meio do presente do processo não foi incluído em parcelamento, pois a opção do contribuinte pela modalidade da LEI 11.941RFBPREVART.1º encontrase cancelada devido à não apresentação de informações de consolidação, conforme §3º do art.15 da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 6/2009” (fls. 1105). É o relatório. Voto Conselheira Renata Toratti Cassini – Relatora. Na interposição do presente recurso, foram observados os pressupostos gerais de admissibilidade, pelo que dele conheço. Delimitação da matéria a ser julgada Como relatado, o lançamento tem por objeto a imposição de multa por infração ao artigo 33, §§ 2° e 3, da Lei n° 8.212/91, combinado com o art. 232 e com parágrafo único do art. 233 do Regulamento da Previdência Social — RPS, aprovado pelo Decreto 3.048/99, por ter a empresa deixado de apresentar à autoridade fiscal os livros “Diário” de 2003 a 2007. Fl. 1094DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.095 8 Inicialmente, convém pontuar que o descumprimento dessa obrigação acessória não foi objeto de impugnação sob nenhum aspecto no Recurso Voluntário. Sobre o assunto, dispõe o art. 17 do Decreto 70.235/72: “Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante.” O novo Código de Processo Civil, em seu art. 1002, disciplina o tema da seguinte maneira: “Art. 1002. A decisão pode ser impugnada no todo ou em parte.” Em comentário ao aludido dispositivo legal, ensina Nelson Nery Junior: “4. Recurso parcial. O recurso de apenas parte da decisão significa aquiescência da parte não impugnada. O recorrente concordou com parte da sentença, tanto assim que recorreu apenas da parte com a qual não se conformou (...).” (NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Comentários ao Código de Processo Civil. Novo CPC. Lei 13.105/2005. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. p. 2030, nota 4 ao artigo 1002.) Tratase, portanto, de matéria preclusa, não mais suscetível de apreciação nesta instância administrativa de julgamento. Nesse sentido, precedente da 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3ª Sessão de Julgamento deste Tribunal (acórdão nº 3401004.360): ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 31/01/2009 a 30/04/2010 CONTRIBUIÇÃO AO PIS/COFINS. OMISSÃO DE RECEITAS. AUSÊNCIA DE CONTESTAÇÃO SOBRE MATÉRIA. PRECLUSÃO. ARTIGO 17 DO DECRETO Nº 70.235/1972. Na hipótese em que não há impugnação no Recurso Voluntário quanto aos valores apontados pela Fiscalização como sujeitos à tributação pelas contribuições, operase a preclusão, tornandose definitiva a matéria, por força do artigo 17 do Decreto nº 70.235/1972. (...) Feita essa observação inicial, passase à analise da matéria impugnada pelos recorrentes no Recurso Voluntário: Ilegitimidade da SOEBRAS para figurar como devedora das dívidas contraídas pelo grupo "Promove" pela mera utilização da marca em contrato de licença de uso de marca Imunidade tributária da SOEBRÁS atinge o contrato de TRESPASSE realizado entre si a o grupo Promove Embora os itens (i) ilegitimidade da SOEBRAS para figurar como devedora das dívidas do grupo “Promove” pela mera utilização da marca em decorrência de contrato de licença de uso e (ii) imunidade tributária da SOEBRAS sobre o contrato de TRESPASSE celebrado com o grupo “Promove” tenham sido deduzidos em tópicos distintos, procederemos à sua análise de forma conjunta por se tratar de assuntos correlacionados. Fl. 1095DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.096 9 Alegam os recorrentes que a SOEBRAS, como entidade sem fins lucrativos, autonomia, e personalidade jurídica própria, arrendou o uso da marca “Promove”, mediante contraprestação de determinada quantia em dinheiro. Esclarecem que mencionado negócio jurídico, que nada mais é do que a utilização por terceiros, em troca de uma contraprestação, de um sinal visual que distingue um produto ou serviço dos demais concorrentes, é admitido pela Lei de Propriedade Industrial (Lei nº 9.279/96), e se trata da licença de uso de marca, prevista nos arts. 130, II e 139 daquela mesma Lei, nos seguintes termos: Art. 130. Ao titular da marca ou ao depositante é ainda assegurado o direito de: I ceder seu registro ou pedido de registro; II licenciar seu uso; III zelar pela sua integridade material ou reputação. Art. 139. O titular de registro ou o depositante de pedido de registro poderá celebrar contrato de licença para uso da marca, sem prejuízo de seu direito de exercer controle efetivo sobre as especificações, natureza e qualidade dos respectivos produtos ou serviços. Parágrafo único. O licenciado poderá ser investido pelo titular de todos os poderes para agir em defesa da marca, sem prejuízo dos seus próprios direitos. Pois bem. O Código Tributário Nacional, em seu art. 133, dispõe que: Art. 133. A pessoa natural ou jurídica de direito privado que adquirir de outra, por qualquer título, fundo de comércio ou estabelecimento comercial, industrial ou profissional, e continuar a respectiva exploração, sob a mesma ou outra razão social ou sob firma ou nome individual, responde pelos tributos, relativos ao fundo ou estabelecimento adquirido, devidos até à data do ato: I integralmente, se o alienante cessar a exploração do comércio, indústria ou atividade; II subsidiariamente com o alienante, se este prosseguir na exploração ou iniciar dentro de seis meses a contar da data da alienação, nova atividade no mesmo ou em outro ramo de comércio, indústria ou profissão. (...) Da leitura “a contrario sensu” do dispositivo legal em tela, extraise que o que gera a responsabilidade por sucessão é a aquisição de estabelecimento para a continuação da exploração da atividade comercial, industrial ou profissional, e não apenas o arrendamento ou locação de parte dele, como, por exemplo, o arrendamento apenas do uso da marca. A esse respeito, ensina a doutrina que: Ora, nitidamente, claramente, evidentemente, o art. 133 não disciplinou cessões temporárias de direitos. Disciplinou aquisições. Disciplinou contratos de compra e venda. Não disciplinou transferência temporária de direitos de uso, revistase da forma que se revestir (locação, arrendamento, “leasing”, usufruto temporário). Fl. 1096DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.097 10 É de se lembrar que, na cessão temporária de direitos de uso, a propriedade continua inteiramente do cedente; a “nua propriedade”, vale dizer, a substância do direito de propriedade, por titulação definitiva, não se transfere. O art. 133 do CTN, portanto, não se aplica à cessão temporária de direitos, por não caracterizar uma aquisição de bens e não ser possível utilizarse a integração analógica para alargar o campo de imposição tributária. (SILVA, Ives Gandra da. A SUCESSÃO TRIBUTÁRIA DO ARTIGO 133 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL NÃO ABRANGE CESSÃO TEMPORÁRIA DE DIREITO DE USO DE MARCA – INTELIGÊNCIA DO REFERIDO DISPOSITIVO – PARECER. Revista Dialética de Direito Tributário, n. 146, nov. 2007, p. 126136). Na linha do ensinamento acima e do disposto no art. 133 do CTN, entendo que têm razão os recorrentes quando argumentam que à SOEBRAS não pode ser imputada responsabilidade pelos débitos tributários do grupo “Promove” apenas em função do contrato de licença de uso de marca celebrado entre as partes para exploração pela SOEBRAS da marca “Promove”. Ocorre que, como os próprios recorrentes noticiam em seu recurso, confirmando o que já havia sido apontado pela autoridade fiscal no auto de infração, inicialmente a SOEBRAS obteve das empresas “Promove” o direito de uso da marca, conforme contrato particular de “Licença de Uso de Marca” datado de 01/11/2006 (fls. 22). Posteriormente, em segundo ato, a SOEBRAS, por “Contrato Particular de Alienação de Estabelecimento Empresarial – TRESPASSE” adquiriu das empresas do Grupo “Promove” todo o complexo de bens organizados para o exercício da atividade empresarial, compostos da titularidade do estabelecimento empresarial e de “todos os direitos, incluindo ativo e passivo (inclusive do art. 133 do Código Tributário Nacional e Art. 11º e 448 da Consolidação das Leis do Trabalho), bem como a propriedade de todos os seus elementos corpóreos e incorpóreos, imóveis, móveis e semoventes e afins (...)”. (fls. 24) Ora, houve, então, neste segundo momento, a “aquisição” necessária a ensejar a incidência da responsabilidade tributária por sucessão de empresas disciplinada no art. 133 do CTN. A mesma doutrina, já acima citada, esclarece que para fins de incidência do art. 133 do CTN, “O que importa considerar é o tipo de operação que gera a sucessão tributária, ou seja, a aquisição de fundo de comércio ou de estabelecimento profissional, comercial ou industrial”. (op. cit.) (grifos originais) Nessa linha, os próprios recorrentes estão de acordo com a sua responsabilidade quanto aos débitos tributários do Grupo “Promove” decorrente do contrato de TRESPASSE uma vez que afirmam que “Certo é que as dívidas contraídas pelo grupo “`Promove” foram sucedidas à SOEBRAS por ocasião do contrato realizado, assim como por disposições legais: art. 121 e 133 do CTN e Código Civil, art. 1146 (...)” (fls. 1048). No entanto, procuram elidir essa responsabilidade argumentando que gozam de imunidade tributária, nos termos do art. 150, VI, “c” da CF/88, segundo o qual: Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: (...) VI instituir impostos sobre: Fl. 1097DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.098 11 a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros; b) templos de qualquer culto; c) patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos, inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, atendidos os requisitos da lei; (...) Sem razão os recorrentes, no entanto, no que diz respeito a essa questão. Inicialmente, a regra de imunidade contida no dispositivo constitucional supratranscrito, como deixa claro a sua redação, aplicase exclusivamente a impostos. A norma constitucional que prevê imunidade para contribuições previdenciárias é aquela prevista no art. 195, §7º da CF/88, que, embora fale em isenção, trata, em verdade, de imunidade, e dispõe que: Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais. (...) § 7º São isentas de contribuição para a seguridade social as entidades beneficentes de assistência social que atendam às exigências estabelecidas em lei. (destacamos) (...) Seja como for, independentemente da norma constitucional de regência, ocorre que, a par, também, de discussões acerca do preenchimento dos requisitos legais pela SOEBRAS para que esteja no gozo legítimo de tal benefício constitucional, e ainda que se considere tratarse de entidade legitimamente imune à incidência de contribuições previdenciárias, temse que o sujeito passivo principal da obrigação tributária é a empresa Promove Serviços Educacionais Ltda. À SOEBRAS foi atribuída apenas responsabilidade subsidiária pelo débito tributário daquela primeira, nos termos do art. 133, II do CTN. E, com razão a decisão recorrida quando ressalta que não há previsão legal que autorize a extensão àquela dos benefícios desta, se provada, de fato, a condição de imunidade. Este, aliás, também é o entendimento do Supremo Tribunal Federal no RE 202.9874/SP (rel. Min. Joaquim Barbosa, 2ª Turma, v.u., j.30/06/09, DJe 24/09/09): CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. IMUNIDADE. ENTIDADE DE ASSISTÊNCIA SOCIAL E EDUCAÇÃO SEM FINS LUCRATIVOS. INAPLICABILIDADE ÀS HIPÓTESES DE RESPONSABILIDADE OU SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA. IMPOSTO SOBRE OPERAÇÃO DE CIRCULAÇÃO DE MERCARODIAS – ICM/ICMS. LANÇAMENTO FUNDADO NA RESPONSABILIDADE DO SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA – SESI PELO RECOLHIMENTO DE TRIBUTO INCIDENTE SOBRE A VENDA DE MERCADORIA ADQUIRIDA PELA ENTIDADE. PRODUTORVENDEDOR CONTRIBUINTE DO TRIBUTO. TRIBUTAÇÃO SUJEITA A DIFERIMENTO. Recurso extraordinário interposto de acórdão que considerou válida a responsabilidade tributária do Serviço Social da Indústria – SESI pelo recolhimento Fl. 1098DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.099 12 de ICMS devido em operação de circulação de mercadorias, sob o regime de diferimento. Alegada violação do art. 150, IV, c da Constituição, que dispõe sobre imunidade das entidades assistenciais sem fins lucrativos. A responsabilidade ou a substituição tributária não alteram as premissas centrais da tributação, cuja regramatriz continua a incidir sobre a operação realizada pelo contribuinte. Portanto, a imunidade tributária não afeta, tãosomente por si, a relação de responsabilidade tributária ou de substituição e não exonera o responsável tributário ou o substituto. Recurso tributário conhecido, mas ao qual se nega provimento. (destacamos) Entendemos que, realmente, eventual imunidade a que faça jus a responsável subsidiária SOEBRAS não alcança as operações realizadas pelo contribuinte, a quem efetivamente se referem os fatos jurídicos tributários. Exclusão dos representantes legais das empresas do grupo Promove da relação de coobrigados Requerem, ainda, os recorrentes, a exclusão da relação de coobrigados do auto de infração dos sócios Luiz Magno da Silva Saramago, Hélio Soares Bazzoni, João Bosco Fontoura, Paulo Estevam da Silva Bastos, José Alyrio Bicalho Mourdo, do contador Carlos Alberto Moreira e de Alexia Aparecida Andrade Freitas e de Carlos Alberto Moreira. Argumentam que conforme já decidido pelo Superior Tribunal de Justiça, “o mero inadimplemento da obrigação de pagar tributo não constitui infração legal capaz de ensejar a responsabilização dos sócios pelas dívidas tributárias da pessoa jurídica” (Resp 987.991/MG). Desse modo, o mero inadimplemento não legitima a cobrança do débito tributário das pessoas físicas dos sócios. Inicialmente, deixo de apreciar o pedido em questão em relação a Alexia Aparecia Andrade Freitas e Carlos Alberto Moreira uma vez que não integram o presente processo como parte, não sendo lícito aos recorrentes deduzirem pretensão em nome de terceiros. Com relação aos demais, entendo que a pretensão dos recorrentes não deve ser acolhida. Com efeito, o “Relatório de Representantes Legais – REPLEG”, parte integrante do auto de infração (fls. 10), contém esclarecimento expresso no sentido de que “Este relatório lista todas as pessoas físicas e jurídicas representantes legais do sujeito passivo, indicando sua qualificação e período de atuação”. O relatório “Vínculos – Relação de Vínculos”, por sua vez, também traz expressamente a finalidade à qual se destina, qual seja, listar “todas as pessoas físicas ou jurídicas de interesse da administração previdenciária em razão de seu vínculo com o sujeito passivo, representantes legais ou não, indicando o tipo de vínculo existente e o período correspondente” (fls. 12). Não há atribuição de responsabilidade às pessoas ali relacionadas, mas tão somente mera qualificação, para fins cadastrais. Essa questão, inclusive, já foi pacificada no âmbito deste tribunal, conforme Súmula CARF nº 88. Súmula CARF nº 88: A Relação de CoResponsáveis CORESP”, o “Relatório de Representantes Legais – RepLeg” e a “Relação de Vínculos – VÍNCULOS”, anexos a auto de infração previdenciário lavrado unicamente contra pessoa jurídica, não Fl. 1099DF CARF MF Processo nº 15504.018036/200810 Acórdão n.º 2402006.549 S2C4T2 Fl. 1.100 13 atribuem responsabilidade tributária às pessoas ali indicadas nem comportam discussão no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, tendo finalidade meramente informativa. Multa e juros aplicados efeito confiscatório Por fim, requerem os recorrentes a redução da multa e juros aplicados, ao argumento de que infringem o mandamento inserto no art. 150, IV da CF/88, c/c art. 1º da Lei 9.784/99, qual seja o princípio da vedação ao confisco. A análise de eventual caráter confiscatório da penalidade envolve a aferição de compatibilidade com a Constituição Federal da legislação tributária que fundamentou a autuação, o que é vedado a este tribunal, conforme Súmula CARF nº 2, segundo a qual “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária”. É dizer, a este colegiado não compete a apreciação de matéria constitucional. Sobre os juros moratórios, também é entendimento pacífico neste tribunal, constante da Súmula CARF nº 4, que os juros moratórios devidos sobre os débitos administrados pela Secretaria da Receita Federal são corrigidos pela taxa SELIC, tendo sido essa a taxa aplicada para a correção do débito aplicada pela autoridade fiscal. Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. CONCLUSÃO Por todo o exposto, voto no sentido de conhecer do recurso voluntário e, no mérito, negarlhe provimento. Renata Toratti Cassini Relatora Fl. 1100DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 23034.008164/99-42
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 01 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2005
RECURSO DE OFÍCIO. VALOR DE ALÇADA INFERIOR AO ESTABELECIDO EM PORTARIA DO MINISTRO DA FAZENDA. NÃO CONHECIMENTO.
Não se conhece de recurso de ofício cujo crédito exonerado, incluindo-se valor principal e de multa, é inferior ao estabelecido em ato editado pelo Ministro da Fazenda.
RECURSO DE OFÍCIO. LIMITE DE ALÇADA. VIGÊNCIA. DATA DE APRECIAÇÃO.
Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplica-se o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância.
Numero da decisão: 2402-006.424
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mario Pereira de Pinho Filho, Maurício Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silva, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Júnior.
Nome do relator: MARIO PEREIRA DE PINHO FILHO
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2005 RECURSO DE OFÍCIO. VALOR DE ALÇADA INFERIOR AO ESTABELECIDO EM PORTARIA DO MINISTRO DA FAZENDA. NÃO CONHECIMENTO. Não se conhece de recurso de ofício cujo crédito exonerado, incluindo-se valor principal e de multa, é inferior ao estabelecido em ato editado pelo Ministro da Fazenda. RECURSO DE OFÍCIO. LIMITE DE ALÇADA. VIGÊNCIA. DATA DE APRECIAÇÃO. Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplica-se o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância.
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VALOR DE ALÇADA INFERIOR AO ESTABELECIDO EM PORTARIA DO MINISTRO DA FAZENDA. NÃO CONHECIMENTO. Não se conhece de recurso de ofício cujo crédito exonerado, incluindose valor principal e de multa, é inferior ao estabelecido em ato editado pelo Ministro da Fazenda. RECURSO DE OFÍCIO. LIMITE DE ALÇADA. VIGÊNCIA. DATA DE APRECIAÇÃO. Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplicase o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mario Pereira de Pinho Filho, Maurício Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silva, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Júnior. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 23 03 4. 00 81 64 /9 9- 42 Fl. 81DF CARF MF Processo nº 23034.008164/9942 Acórdão n.º 2402006.424 S2C4T2 Fl. 3 2 Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 03 de julho de 2018, proferido no âmbito do processo n° 19515.722966/201271, paradigma deste julgamento. Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária "Tratase de Recurso de Oficio manejado, por força de reexame necessário, de acordo com o art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e alterações introduzidas pela Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997, tendo em vista que o crédito exonerado, principal e encargos de multa, relativos a contribuições previdenciárias de custeio, beneficio, terceiros e sanções pecuniárias, superava a época o valor de alçada estipulado no art. 1º da Portaria MF nº 03, de 03 de janeiro de 2008. O valor objeto de exoneração é inferior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais), vindo a julgamento apenas o Recurso de Oficio. É o relatório." Voto Conselheiro Mário Pereira de Pinho Filho Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 03 de julho de 2018, proferido no âmbito do processo n° 19515.722966/201271, paradigma ao qual o presente processo encontrase vinculado. Transcrevese, a seguir, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o inteiro teor do voto condutor proferido pelo Conselheiro Jamed Abdul Nasser Feitoza, digno relator da susodita decisão paradigma, reprisese, Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 03 de julho de 2018: Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária “Antes de adentrar a análise do caso concreto, importa observar que o presente julgamento terá efeitos sobre lote repetitivo, eis que o caso em foco foi eleito como paradigma e terá seu resultado aplicado ao lote a que esta relacionado, nos termos do art. 47 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015 – RICARF. Fl. 82DF CARF MF Processo nº 23034.008164/9942 Acórdão n.º 2402006.424 S2C4T2 Fl. 4 3 Admissibilidade. Tratase de Recurso de Oficio manejado, por força de reexame necessário, de acordo com o art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, tendo em vista que, à época em que foi proferida a decisão de primeira instância administrativa, o crédito exonerado superava o valor de alçada estipulado estabelecido em ato próprio. De acordo com o I do art. 34 do Decreto nº 70.235/1972: Art. 34. A autoridade de primeira instância recorrerá de ofício sempre que a decisão: I exonerar o sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa de valor total (lançamento principal e decorrentes) a ser fixado em ato do Ministro de Estado da Fazenda. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) II deixar de aplicar pena de perda de mercadorias ou outros bens cominada à infração denunciada na formalização da exigência. § 1º O recurso será interposto mediante declaração na própria decisão. § 2° Não sendo interposto o recurso, o servidor que verificar o fato representará à autoridade julgadora, por intermédio de seu chefe imediato, no sentido de que seja observada aquela formalidade. (Grifouse) O colegiado a quo proferiu decisão em que julgou parcialmente procedente a impugnação, exonerando créditos relativos ao principal e encargos de multas em valor inferior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil de reais) Cabe ao colegiado julgar a admissibilidade do Recurso de Oficio e, constatandose que o crédito exonerado é inferior àquele que levaria o caso a um reexame necessário na atualidade, não conhecer de referido recurso. O limite referido está posto na Portaria MF nº 63, de 9 de fevereiro de 2017, in verbis: Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais). § 1º O valor da exoneração deverá ser verificado por processo. Fl. 83DF CARF MF Processo nº 23034.008164/9942 Acórdão n.º 2402006.424 S2C4T2 Fl. 5 4 § 2º Aplicase o disposto no caput quando a decisão excluir sujeito passivo da lide, ainda que mantida a totalidade da exigência do crédito tributário. Art. 2º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação no Diário Oficial da União. Art. 3º Fica revogada a Portaria MF nº 3, de 3 de janeiro de 2008. Ainda que à época do julgamento de primeira instância tal valor permitisse a interposição do Recurso de Oficio ora julgado, ao caso deve ser aplicado o limite de dispensa atualmente vigente, conforme entendimento consolidado neste Conselho, nos termos da Súmula CARF 103: Súmula CARF nº 103: Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplicase o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância. Conclusão Ante ao exposto voto por não conhecer do Recurso de Oficio em razão de o crédito exonerado ser inferior ao limite estabelecido no art. 1º a Portaria MF nº 63, de 9 de fevereiro de 2017, aplicável ao caso conforme Súmula CARF 103. (assinado digitalmente) Jamed Abdul Nasser Feitoza” Conclusão Nesse contexto, pelas razões de fato e de Direito ora expendidas, voto por NÃO CONHECER do Recurso de Ofício (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Fl. 84DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 18470.727195/2011-29
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 04 00:00:00 UTC 2012
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ
Ano-calendário: 2008
RECURSO DE OFÍCIO
DESPESAS FINANCEIRAS. DEDUTIBILIDADE.
Tratando-se de despesa ordinariamente dedutível, e não estando o auto de infração instruído com as provas que demonstrem sua atipicidade ou artificialismo, não se sustenta a glosa. Caso a fiscalização não demonstre que os empréstimos contraídos foram efetivamente repassados a terceiros, não se configuram como desnecessárias as despesas financeiras apropriadas.
OMISSÃO DE RECEITA NÃO COMPROVADA.
Insubsiste a exigência, ante a falta de subsunção do fato concretamente ocorrido à hipótese de incidência descrita genérica e hipoteticamente na lei tributária.
Numero da decisão: 1302-001.022
Decisão: ACORDAM os membros do Colegiado, por maioria, em negar provimento
ao recurso de ofício, nos termos do relatório e voto proferidos pelo Relator. Vencidos os conselheiros Eduardo e Matosinho, que davam provimento parcial, para manter a glosa de despesas financeiras.
Nome do relator: Paulo Roberto Cortez
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ementa_s : IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano-calendário: 2008 RECURSO DE OFÍCIO DESPESAS FINANCEIRAS. DEDUTIBILIDADE. Tratando-se de despesa ordinariamente dedutível, e não estando o auto de infração instruído com as provas que demonstrem sua atipicidade ou artificialismo, não se sustenta a glosa. Caso a fiscalização não demonstre que os empréstimos contraídos foram efetivamente repassados a terceiros, não se configuram como desnecessárias as despesas financeiras apropriadas. OMISSÃO DE RECEITA NÃO COMPROVADA. Insubsiste a exigência, ante a falta de subsunção do fato concretamente ocorrido à hipótese de incidência descrita genérica e hipoteticamente na lei tributária.
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DEDUTIBILIDADE. Tratandose de despesa ordinariamente dedutível, e não estando o auto de infração instruído com as provas que demonstrem sua atipicidade ou artificialismo, não se sustenta a glosa. Caso a fiscalização não demonstre que os empréstimos contraídos foram efetivamente repassados a terceiros, não se configuram como desnecessárias as despesas financeiras apropriadas. OMISSÃO DE RECEITA NÃO COMPROVADA. Insubsiste a exigência, ante a falta de subsunção do fato concretamente ocorrido à hipótese de incidência descrita genérica e hipoteticamente na lei tributária. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por maioria, em negar provimento ao recurso de ofício, nos termos do relatório e voto proferidos pelo Relator. Vencidos os conselheiros Eduardo e Matosinho, que davam provimento parcial, para manter a glosa de despesas financeiras. (assinado digitalmente) Eduardo de Andrade – Presidente em Exercício (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 18 47 0. 72 71 95 /2 01 1- 29 Fl. 646DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 430 2 Paulo Roberto Cortez Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Eduardo de Andrade (Presidente em Exercício), Alberto Pinto Souza Junior, Paulo Roberto Cortez, Marcio Frizzo, Luiz Tadeu Matosinho Machado e Guilherme Pollastri Gomes da Silva. Fl. 647DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 431 3 Relatório Tratase de Recurso de Ofício interposto pela Segunda Turma de Julgamento da DRJ no Rio de Janeiro (RJI), contra a decisão proferida no Acórdão nº 1243.126, de 21 de dezembro de 2011, que deu provimento integral à impugnação apresentada pela empresa Pan Americana S/A Indústrias Químicas, já qualificada nos presentes autos. Consta dos autos que, em ação fiscal levada a efeito, foram lavrados autos de infração de IRPJ (fls. 516/528); PIS (fls. 529/533); COFINS (fls. 534/538); e CSLL (fls. 539/543), em decorrência da constatação das irregularidades fiscais constantes no Termo de Verificação Fiscal TVF (fls. 440/445), abaixo descritas: 2.1. DESPESA INDEDUTÍVEL. 2.2. Nos anoscalendário de 2007 e 2008, o interessado obteve diversos empréstimos junto às instituições financeiras, apropriando corretamente os juros passivos. No mesmo período, concedeu empréstimos às empresas ligadas. Como os contratos de mútuo não previam juros ativos, não apropriou as receitas decorrentes dos mesmos. 2.3. A fiscalização entendeu que embora a legislação somente estabelece a obrigação do reconhecimento de receita financeira no caso de mútuo com pessoa jurídica do exterior vinculada a mutuante domiciliada no país (art. 22, §1º, da Lei nº 9.430, de 1996), a falta de apropriação de juros ativos ou quando é feita em valores inferiores à apropriação de juros passivos, caracteriza repasse indireto de empréstimos bancários obtidos para as coligadas. 2.4. Os valores correspondentes às proporcionalidades dos empréstimos ativos/empréstimos passivos aplicados aos juros passivos incorridos foram considerados como apropriação indevida de juros passivos e desnecessários à atividade do interessado nos termos do art. 249, I, do RIR/1999. Os valores glosados foram determinados nas planilhas em anexo ao auto de infração. 2.5. SUPERVENIÊNCIA ATIVA. OMISSÃO DE RECEITA. 2.6. Em 09/05/2008, o interessado adquiriu a fração de 6.735.800 m2 da área do imóvel denominado Cachoeiras de Macaé de Cima, pelo valor de R$ 11.960.000,00, conforme contrato de compra e venda. O imóvel foi avaliado em R$ 26.000.000,00 por dois técnicos credenciados no IBAMA. 2.7. A diferença entre o valor de aquisição e de avaliação (R$ 14.040.000,00) foi contabilizada em 2008 como mais valia, ainda não realizada, como a seguir demonstrado: ATIVO PASSIVO Fl. 648DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 432 4 Conta Descrição Valor Conta Descrição Valor 132123100 Terras de Cachoeira 11.960.000,00 222195 Títulos a Pagar 11.960.000,00 Reserva de Reavaliação 11.040.000,00 Receitas Diversas 11.040.000,00 26.000.000,00 26.000.000,00 A escritura de compra e venda lavrada em 16/10/2008 dispõe que o preço certo e ajustado do imóvel foi de R$ 4.428.071,00, em consonância com o Registro Geral do Imóvel lavrado em 06/01/2009. 2.9. Ainda no mesmo dia, lavrouse a escritura de confissão de dívida em que o interessado confessa ser devedor da quantia de R$ 7.531.915,20, relativo a negócios realizados entre os contratantes, sem qualquer menção à compra da Fazenda Cachoeiras de Macaé de Cima. 2.10. A fiscalização concluiu que o interessado cometeu irregularidades fiscais ao realizar a escritura de compra e venda por valor inferior ao valor de aquisição apropriado na conta 132123100. A diferença de R$ 7.531.915,20 foi considerada omissão de receita, decorrente de superveniência ativa. Enquadramento legal: arts. 249, II, 251 e parágrafo único, 279, 281, II e 288, do RIR/1999. 2.11. A omissão de receita originou os lançamentos de PIS, COFINS e CSLL. Cientificada da exação fiscal em 25/08/2011, a interessada apresentou em 26/09/2011 a impugnação de fls. 575/580, acompanhada dos documentos de fls.581/592, alegando, em síntese, que: a) não houve cobrança de juros sobre empréstimos concedidos a sociedades ligadas devido ao fato de que tais empréstimos simplesmente não ocorreram; b) por serem essas empresas holdings, e não possuírem atividade operacional, a receita é proveniente das distribuições de lucros da interessada; c) como não vem auferindo lucros, restou somente a opção de suportar as despesas de manutenção dessas empresas por conta de lucros futuros que venham a ser auferidos; d) mesmo que os adiantamentos caracterizassem empréstimos, não há lei que obrigue a cobrança de juros, salvo se fosse mútuo contratado com pessoa jurídica não nacional, como já mencionado pelo autuante; e) também não procede a afirmação de que tais pagamentos, ou melhor, transferências de recursos intercompanhias, foram realizados com recursos estranhos à contabilidade; f) tratase de transferências bancárias da conta do interessado para as das beneficiárias, plenamente identificadas pelo autuante e contabilizadas no Fl. 649DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 433 5 ativo como créditos a compensar futuramente, não como despesas. Jamais poderiam ser consideradas como recursos estranhos à contabilidade e, por não serem empréstimos, gerar receita para o interessado; g) a capitulação legal citada não se aplica aos fatos imputados; h) em 08/08/2007, adquiriu parte dos direitos de propriedade do imóvel Fazenda São Pedro com o objetivo de promover quitação de tributos devidos ao Estado do Rio de Janeiro através de sua dação em pagamento. O negócio foi desfeito porque a Procuradoria da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro não aceitou a referida dação; i) adquiriu nova área com o mesmo objetivo ao preço ajustado de R$ 11.960.000,00, porém avaliação técnica definiu o valor real do imóvel em R$ 26.000.000,00; j) a diferença de R$ 14.040.000,00 foi contabilizada como reserva de reavaliação e oferecida como receita operacional mas excluída do LALUR por sua não realização; k) por força de cláusula contratual, interrompeu os pagamentos de sua dívida até que a dação em pagamento do imóvel junto ao Estado do Rio de Janeiro se concretize; l) devido ao grau de incerteza em que está a matéria, por conservadorismo, ajustou o patrimônio contábil revertendo o lançamento da reserva de reavaliação, consciente de que não causaria prejuízo ao fisco federal, até porque o valor transitado no LALUR não modificaria em nada o prejuízo acumulado; m) diferentemente do que se definiu no auto de infração, a capitulação (art. 2º e §§ da Lei nº 7.689, de 1988) está errada , uma vez que a legislação mencionada não mais se aplica ao caso, e sim o art. 4º da Lei nº 9.959, de 2000. Ao apreciar a peça impugnatória, a turma de julgamento de primeira instância decidiu pelo provimento integral ao pleito da contribuinte, nos termo do Acórdão nº 1243.126, de 21 de dezembro de 2011, cuja ementa tem a seguinte redação: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 GLOSA DE ENCARGOS FINANCEIROS. FALTA DE CARACTERIZAÇÃO DE REPASSE DE EMPRÉSTIMO Se a fiscalização não logra comprovar que os empréstimos contraídos foram de fato repassados a terceiros, não se configuram como desnecessárias as despesas financeiras incorridas. Fl. 650DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 434 6 OMISSÃO DE RECEITA. Insubsiste a exigência, ante a falta de subsunção do fato concretamente ocorrido à hipótese de incidência descrita genérica e hipoteticamente na lei tributária. Impugnação Procedente Crédito Tributário Exonerado Como visto acima, a Turma de Julgamento cancelou a exigência fiscal, tendo em vista que o lançamento ocorreu com base em simples presunção, baseado apenas em indícios, não tendo ficado caracterizada a determinação correta da matéria tributável, de acordo com o que preceitua o art. 142 do CTN. Diante dessa decisão, a turma julgadora recorreu de ofício. É o relatório. Fl. 651DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 435 7 Voto Conselheiro Paulo Roberto Cortez, Relator O presente recurso de ofício reúne os pressupostos de admissibilidade e dele conheço. Com relação a glosa levada a efeito pela fiscalização a título de despesa indedutível, a irregularidade possui a seguinte descrição no auto de infração: “ausência da adição ao lucro líquido do período, na determinação do lucro real, do valor correspondente aos juros a serem cobrados das coligadas sobre empréstimos cedidos”, cujo enquadramento legal se deu com base no art. 249, I do RIR/1999 abaixo transcrito: Art. 249. Na determinação do lucro real, serão adicionados ao lucro líquido do período de apuração (Decretolei nº 1.598, de 1977, art. 6º, § 2º): I os custos, despesas, encargos, perdas, provisões, participações e quaisquer outros valores deduzidos na apuração do lucro líquido que, de acordo com este Decreto, não sejam dedutíveis na determinação do lucro real; A infração se encontra detalhada no Termo de Verificação Fiscal, como sendo despesa não necessária à empresa, visto referirse a uma parcela das despesas financeiras incidentes sobre empréstimos obtidos nos anoscalendário de 2007 e 2008, os quais teriam sido repassados para empresas coligadas sem a cobrança dos respectivos encargos financeiros. Assim, a fiscalização considerou que os encargos apropriados com base na proporção dos empréstimos concedidos/obtidos tratarseiam de despesas não necessárias e, portanto, indedutíveis na apuração do lucro tributável. A turma julgadora de primeiro grau entendeu incabível a glosa realizada pelo fato de não existirem nos autos prova de repasse para as empresas controladas e, principalmente, pelo fato de a interessada ter efetuado mútuos com as suas empresas ligadas em percentual irrisório de 0,9% (zero vírgula nove por cento) se comparado com o montante dos empréstimos tomados. Por pertinente, reproduzo abaixo o voto condutor do acórdão recorrido que trata do assunto: De fato, despesas financeiras decorrentes de empréstimos integralmente repassados a terceiros, a custo zero, não se mostram necessárias à atividade operacional da empresa que fez a intermediação dos recursos, sendo, portanto, passíveis de glosa nos termos do artigo 299 do RIR/1999. Fl. 652DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 436 8 Nesse sentido existem diversos julgados do antigo Conselho de Contribuintes: DESPESAS FINANCEIRAS JUROS BANCÁRIOS GLOSA DO EXCEDENTE EM RELAÇÃO À TAXA DE REMUNERAÇÃO DE MÚTUO ATIVO REPASSE DO EMPRÉSTIMO CARACTERIZAÇÃO É admissível a glosa do excedente da taxa de empréstimo contraído com instituição financeira em relação à taxa de remuneração de mútuo com terceiros quando fica devidamente comprovado nos autos que há diferença entre o valor da captação e o repasse dos recursos, tendo como conseqüência a desnecessidade da despesa.(CSRF/0105.423 Sessão de 21/03/2006). GLOSA – DESPESAS FINANCEIRAS. O repasse de fundos para empresas ligadas, sem a incidência de juros de mercado, possibilita a glosa de parte das despesas financeiras incorridas ou pagas nos empréstimos obtidos. (Acórdão 10321850 – Sessão de 23/02/2005). DESPESAS FINANCEIRAS. O repasse de valores mutuados, sem a cobrança de juros, torna desnecessária, e, portanto, indedutível, as despesas financeiras relativas ao empréstimo contraído. (Acórdão 10808060 – Sessão de 10/11/2004). “... Revelamse desnecessários e, portanto, indedutíveis os encargos financeiros de captação externa junto à entidade financeira quando, simultaneamente, a pessoa jurídica transfere dinheiro à sua controlada a título de adiantamento para futuro aumento de capital, sem incidência de qualquer encargo” (Ac. 1º CC 1084.787/97 – DOU 09/04/98). “... Se a empresa toma empréstimos junto a bancos e repassa os recursos a empresas interligadas, assumindo, sozinha, os encargos financeiros, é óbvio que essas despesas, por ela suportadas, não são necessárias à manutenção da respectiva fonte produtora, inadmitindose sua dedutibilidade (Ac. 1º CC 1037.611/86 – DOU 24/05/1988). Registrese, ainda, o voto da Conselheira Sandra Maria Faroni, acórdão, sob nº 10196.242, de 05/07/2007, em que consignou: “Quanto à glosa dos encargos incidentes sobre empréstimos tomados, a jurisprudência deste Conselho é pacífica no sentido de que, se o valor mutuado é imediatamente repassado a outra pessoa jurídica, o empréstimo é desnecessário, sendo indedutíveis os encargos. Mas essa jurisprudência deve ser vista com razoabilidade. De fato, o repasse de empréstimo tomado no exterior pode estar embasado em legítimo propósito empresarial. Pode ser que a Recorrente tenha maiores condições de obter o empréstimo no exterior, e se ela o faz e repassa os valores obtidos a empresa ligada, em condições mais onerosas e tributando as receitas correspondentes, não há como considerar que as despesas são indedutíveis por desnecessárias. ...”. Fl. 653DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 437 9 No presente caso, independente da natureza jurídica dos valores mutuados (o interessado alega não se tratar de empréstimo), fato é que não restou comprovado que tais valores se originaram dos diversos empréstimos tomados pelo interessado nos anos de 2007 e 2008. Como o ônus da prova é de quem alega, conforme disposto no art. 924 do RIR/1999, caberia à fiscalização vincular cada recurso captado com o supostamente repassado, o que não foi feito. Senão vejamos: Às fls. 131/133, foram identificados os 106 (cento e seis) contratos de empréstimos vigentes nos anoscalendário de 2007 e 2008. Com base nos registros contábeis efetuados nas contas 2121, 2122 e 2131, a fiscalização elaborou as planilhas de fls. 446/457 (2007) e fls. 458/469 (2008), em que identifica a movimentação diária dos empréstimos/financiamentos passivos. Efetuandose a consolidação mensal dos empréstimos obtidos em 2007, assim considerados os valores contabilizados a crédito das referidas contas, apuramse os seguintes montantes: Total Mensal Total Trimestral Janeiro 2.513.463,32 fevereiro 3.477.207,34 Março 3.539.054,91 5.990.670,66 Abril 7.440.011,98 Maio 5.097.419,08 Junho 4.246.688,37 16.784.119,43 Julho 8.687.404,30 Agosto 5.197.025,69 Setembro 5.127.347,10 18.911.777,09 Outubro 4.479.847,44 Novembro 4.227.017,81 Dezembro 5.543.287,85 15.160.153,10 Total no ano 56.846.720,08 Nesse mesmo período, o interessado teria concedido empréstimo a suas coligadas no total de R$ 518.868,34 (fl.152) o que corresponde a 0,9% (nove décimos por cento) dos empréstimos obtidos. Os valores individualmente mutuados às coligadas encontramse registrados nas contas 1.1.3.1. e 1.2.1.4 (fls. 153/167). Tratase de valores diminutos, em sua maioria, identificados, alguns, como adiantamento por conta de despesas, sem qualquer correlação direta, em valor ou data, com os empréstimos passivos do interessado. No anocalendário de 2008, a consolidação mensal dos empréstimos obtidos monta a (fls. 458/469): Total Mensal Total Trimestral Janeiro 11.707.413,42 fevereiro 5.431.271,99 Fl. 654DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 438 10 Março 4.597.089,43 21.735.774,84 Abril 2.963.649,46 Maio 6.141.079,06 Junho 4.777.715,37 13.882.443,89 Julho 4.942.524,61 Agosto 8.242.535,43 Setembro 5.774.615,64 18.959.675,68 Outubro 5.392.079,97 Novembro 1.699.086,56 Dezembro 2.654.584,98 9.745.751,51 Total no ano 64.323.645,92 Os empréstimos concedidos no ano totalizaram R$ 14.170.372,71 (fl.134). A maior parte para a empresa LC Com. Prod. Químicos Ltda (90%), nos meses de setembro e outubro, conforme registrado no Livro Razão (fls. 141/145). Assim como ocorreu em relação ao anocalendário de 2007, na apuração da despesa de juros considerada não necessária, a fiscalização não identificou pontualmente os empréstimos supostamente repassados. Limitouse a calcular o percentual de repasse indireto a partir da divisão da média ponderada dos saldos dos empréstimos ativos pela média ponderada dos empréstimos passivos, conforme demonstrado no TVF (fl.442). Nos termos do art. 142 do Código Tributário Nacional, compete a autoridade administrativa determinar corretamente a matéria tributável e não presumila. Não há nos autos prova de que os recursos obtidos no mercado financeiro tiveram destinação vinculada à concessão de empréstimos a coligadas. Apenas indícios. Em sendo assim, há de se cancelar a exigência. No caso, concordo plenamente com a Turma Julgadora de primeira instância, pois a acusação fiscal deveria demonstrar claramente a desnecessidade das despesas objeto da glosa levada a efeito. De acordo com o artigo 9º do Decreto nº 70.235/72, o auto de infração deve estar instruído com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito. Incumbia à autoridade fiscal instruir o auto de infração com a prova de ocorrência do ilícito. O item relativo à omissão de receita no valor de R$ 7.531.915,20, caracterizada pela “não contabilização de pagamentos de despesas operacionais”, prevista no art. 281, II, do RIR/1999. No Termo de Verificação Fiscal (fls. 444), a autoridade autuante relata o seguinte: Fl. 655DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 439 11 Claro está que o contribuinte cometeu irregularidades fiscais ao realizar a escritura de compra e venda por R$ 4.428.071,00, valor bem inferior ao valor de aquisição apropriado (R$ 11.960.000,00) na conta 132123100 – Terras de Cachoeiras de Macaé de Cima no ativo imobilizado, sendo a diferença lançada na conta 222195000 – títulos a pagar no passivo. Em complemento ao valor da aquisição, realizou a escritura de confissão de dívida no valor de R$ 7.531.915,20 – por negócios realizados (sem qualquer especificação), não constando na contabilidade qualquer menção à confissão de dívida. Ressaltese que o contrato particular de 09/05/2008 estabelecia o valor da aquisição de R$ 11.960.000,00 (contabilizado) e não R$ 4.428.071,00 constante da escritura de 16/10/2008. Assim, a contrapartida na conta do ativo 132123100Terras de Cachoeiras de Macaé de Cima, não poderia ser utilizada para imobilização do valor total de R$ 11.960.000,00, uma vez que o custo de aquisição do bem escriturado e registrado no RGI foi de R$ 4.428.071,00, conforme documentos retro citados. Diante da constatação acima, que revela fatos tributáveis, resta à fiscalização aplicar o lançamento de ofício para o anocalendário de 2008, determinado pela seguinte base tributável, caracterizada por omissão em 09/05/2008 (2º trimestre), decorrente de superveniência ativa. Enquadramento Legal: Arts. 249, inciso II, 251 e parágrafo único, 279, 281, inciso II e 288, do RIR/99. A interessada, na qualidade de adquirente, celebrou em 09/05/2008 contrato de venda, compra e outras avenças para a aquisição de imóvel denominado Cachoeiras de Macaé de Cima, no Município de Nova Friburgo (fls.276/280), cujo preço acordado foi de R$ 11.960.000,00, conforme cláusulas 4.1 a 4.3 do contrato abaixo transcritas: Fl. 656DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 440 12 A empresa escriturou a operação, conforme os lançamentos contábeis abaixo: Fl. 657DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 441 13 Assim, diante do fato de que na escritura de compra e venda registrada no Cartório do 1º Ofício de Registro de Imóveis de Nova Friburgo, consta que o preço certo e ajustado do imóvel foi de R$ 4.428.071,00 e que, na mesma data, foi também lavrada a escritura de confissão de dívida entre a interessada (devedora) e os vendedores do imóvel (credores) no valor de R$ 7.531.915,20 a ser pago em 30 parcelas mensais, a fiscalização considerou esse valor como sendo omissão de receitas da empresa fiscalizada. O preço da transação do imóvel que consta na escritura (R$ 4.428.071,00) somado ao da confissão de divida (R$ 7.531.915,20) corresponde ao valor pactuado no contrato de venda, compra e outras avencas de R$ 11.960.000,00 e escriturado na contabilidade da empresa fiscalizada, considerando ainda uma pequena diferença de R$ 13,80. Reproduzo abaixo as considerações extraídas do voto condutor do aresto recorrido: A contabilização de ativo em valor superior ao custo de aquisição corresponde a uma irregularidade contábil. A lei tributária, entretanto, não prevê a figura do “ativo fictício” como presunção de omissão de receita. Ademais, inexiste nos autos prova de que o interessado tenha efetuado pagamento, total ou parcialmente, da dívida confessada no valor de R$ 7.531.915,20. Em sendo assim, por não haver subsunção do fato concretamente ocorrido à hipótese de incidência descrita genérica e hipoteticamente nas normas tributárias citadas, concluo pela improcedência da tributação com base no art. 281, II do RIR/1999. Constatase que, apesar de não constar na escritura registrada em cartório o valor correto da operação, mesmo assim, a autuada efetuou corretamente o registro contábil tendo registrado o imóvel pelo valor efetivamente transacionado. Se fosse o caso, deveria o Fisco diligenciar junto aos alienantes para confirmar o registro do valor da venda do citado bem. Efetivamente o fato imputado pelo autuante na empresa interessada não corresponde ao fato apurado descrito no Termo de Verificação Fiscal, inexistindo, portanto, qualquer possibilidade de manutenção do lançamento de ofício. Entendo que a decisão recorrida está devidamente motivada e os seus fundamentos de fato e de direito não merecem reparos. Nessas condições, voto no sentido de negar provimento ao recurso de ofício interposto. (assinado digitalmente) Paulo Roberto Cortez Fl. 658DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE Processo nº 18470.727195/201129 Acórdão n.º 1302001.022 S1C3T2 Fl. 442 14 Fl. 659DF CARF MF Impresso em 08/02/2013 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 05/12/2012 por PAULO ROBERTO CORTEZ, Assinado digitalmente em 07/02/2013 por EDUARDO DE ANDRADE
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Numero do processo: 16095.720023/2012-12
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Oct 30 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007
OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE.
Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiar-se dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para a COFINS.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007
OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE.
Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiar-se dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para o PIS.
Recurso Voluntário Negado
Crédito Tributário Mantido
Numero da decisão: 3402-005.581
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Renato Vieira de Avila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos que davam provimento. O Conselheiro Diego Diniz Ribeiro apresentou declaração de voto, lida em sessão. O Conselheiro Renato Vieira de Avila (suplente convocado) votou pelas conclusões da divergência.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Pedro Sousa Bispo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (presidente da turma), Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Diego Diniz Ribeiro, Cynthia Elena de Campos, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado), Pedro Sousa Bispo e Rodrigo Mineiro Fernandes.
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiar-se dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para a COFINS. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiar-se dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para o PIS. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiarse dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para a COFINS. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro/instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria pela adquirente, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiarse dos créditos por AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 09 5. 72 00 23 /2 01 2- 12 Fl. 1517DF CARF MF 2 ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição para o PIS. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Renato Vieira de Avila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos que davam provimento. O Conselheiro Diego Diniz Ribeiro apresentou declaração de voto, lida em sessão. O Conselheiro Renato Vieira de Avila (suplente convocado) votou pelas conclusões da divergência. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (presidente da turma), Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Diego Diniz Ribeiro, Cynthia Elena de Campos, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado), Pedro Sousa Bispo e Rodrigo Mineiro Fernandes. Relatório Por bem relatar os fatos, adoto o relatório do acórdão recorrido com os devidos acréscimos: Neste processo está se discutindo a glosa de créditos em todos os meses do ano 2007 das contribuições da Cofins e do PIS (fls. 616 a 619 e 765 a 768), que geram por consequência, após sua recomposição e apuração, débitos das citadas contribuições apenas nos meses de janeiro, abril, julho, setembro, outubro e dezembro de 2007 (fl. 769 a 770 e 771 a 772, 778 e 786), sendo necessária a lavratura de Autos de Infração para constituição de crédito tributário (Cofins fls. 773 a 780, e PIS fls. 781 a 787), conforme Termo de Verificação e Constatação de Irregularidades Fiscais (TCIF, fls. 744 a 764) e planilhas anexas (fls. 765 a 772, em formato PDF), cuja ciência ocorreu em 06/02/2012 (flS. 777 e 785). Glosas essas relacionadas apenas pela não consideração da aquisição do ouro ativo financeiro / instrumento cambial como gerador de créditos da não cumulatividade, adquirido de Sociedades Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs). Abaixo os valores envolvidos no lançamento, das respectivas contribuições, bem como descrição da infração: Fl. 1518DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.518 3 No TCIF a autoridade fiscal assim relatou, parcialmente, o presente lançamento (com destaques nossos): [...] 4DO CREDITAMENTO IRREGULAR NA COMPRA DE OURO Com relação à conferência dos valores utilizados para compor a base de cálculo dos créditos das contribuições, percebeuse que o Contribuinte utilizou em sua composição, na linha "Bens Utilizados como Insumos" de todos os meses do período verificado, valores correspondentes a aquisições de ouro adquirido de empresas distribuidoras de títulos e valores mobiliários (DTVMs). A inclusão deste tipo de operação na base de cálculo dos créditos mereceu uma análise mais detalhada. Por isto o Contribuinte foi intimado, como dito, em 29 de novembro de 2011 a apresentar os documentos que ampararam tais Fl. 1519DF CARF MF 4 transações, de forma a esclarecer o seu efetivo direito ao crédito. De acordo com os elementos apresentados em resposta à intimação, bem como em pesquisas efetuadas junto ao Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), pôdese concluir que o Contribuinte adquiriu, através das operações relacionadas em anexo,(DEMONSTRATIVO DAS GLOSAS DE CRÉDITOS DE PIS/COFINS AQUISIÇÃO DE OURO FINANCEIRO), ouro de instituições financeiras, mais especificamente, distribuidoras de títulos e valores mobiliários (DTVMs), que têm autorização do Banco Central do Brasil para praticar operações de compra e venda de no mercado físico de ouro, por conta própria ou de terceiro. Vale observar que o ouro pode ser classificado como ativo financeiro ou como mercadoria, dependendo de sua destinação. Considerase ativo financeiro quando destinado ao mercado financeiro, ou à execução da política cambial do Pais, em operações realizadas com a interveniência de instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional (art. 1º , Lei n° 7.766, de 11/05/89). Em relação ao caso em questão, não restam dúvidas de que as Sociedades Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM) são instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional, autorizadas pelo Banco Central a realizar operações financeiras. Nesse mesmo sentido, ou seja, que o ouro adquirido é ouro financeiro, observamos que sua aquisição sempre esteve acompanhada da Nota Fiscal de Remessa de Ouro, e de Nota fiscal de Nota Fiscal de Negociação do Ouro, documentos instituídos pela Instrução Normativa SRF N° 49/2001, e de emissão exclusiva em operações com o ouro, quando definido como ativo financeiro ou instrumento cambial: [...] Diante das características descritas, concluise que as operações de aquisição de ouro de DTVMs são tipicamente operações financeiras, não podendo ser confundidas com aquisições ordinárias de matériaprima, mesmo considerando que o comprador assim as classifique em seus registros contábeis e fiscais, e que as utilize de fato em seu processo produtivo. Mesmo que o propósito do comprador, no momento da realização da operação, seja a utilização do ouro como matéria prima, a operação em si, considerada as partes intervenientes, e principalmente as regras de controle do Sistema Financeiro Nacional, é tipicamente de natureza financeira. Vale dizer que diante do fato do fornecedor de ouro ser instituição financeira, e das características dos documentos fiscais emitidos na operação, o Contribuinte não pode deixar de admitir que tenha praticado uma operação tipificada financeira, independentemente do "animus" em relação à utilização do produto adquirido. A importância da caracterização das aquisições de ouro como financeira está ligada à análise da tributação nessas operações pelo PIS e pela COFINS (Contribuições). As operações envolvendo o ouro ativo financeiro não sofrem a incidência dessas Contribuições, uma vez que não são definidas como seu fato gerador, pela legislação. Fl. 1520DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.519 5 O ouro, quando definido pela lei como ativo financeiro, tem um tratamento muito específico, que se inicia com o disposto no § 5º, do artigo 153, da nossa Constituição: [...] A Lei 7. 766/89 define o conceito de ouro financeiro, logo em seu artigo 1º: [...] O dispositivo presente no artigo acima prevê a dimensão e a abrangência do conceito de ouro financeiro, e permite a criação de toda uma cadeia, desde a etapa da mineração até as mais sofisticadas negociações financeiras envolvendo o metal. Por força do também citado § 5º , do artigo 153, da Constituição Federal, esta cadeia fica totalmente franqueada da incidência de outros tributos que não sejam o IOF, sendo esta incidência prevista para uma única etapa da cadeia, a compra do ativo por qualquer instituição financeira autorizada pelo Banco Central do Brasil, o que também é corroborado pelos artigo 4º e 8º da Lei 7.766/89: [...] Destaquese que a operação praticada pelo Contribuinte, onde adquiriu ouro de Instituição Financeira, subsumese integralmente ao disposto no § 2º , do artigo 1º, da Lei 7.766/89, onde é definido que operações de compra do metal no mercado de balcão são operações financeiras. A tributação das atividades financeiras pela Contribuição para o PIS e pela COFINS incide sobre suas receitas, assim consideradas conforme a definição do Plano de Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional (COSIF). Uma característica da atividade financeira, que é refletida no COSIF, é a de reconhecer como receita o produto da intermediação financeira, que, na essência, é o objeto social dessas instituições. Assim, nos casos em que estas instituições transacionam com valores mobiliários, ou quaisquer outros ativos financeiros, é pacífico que o valor registrado a título de receita é o ganho ou a renda auferida na transação, seja ela de compra ou venda do ativo. O valor do ativo transacionado não compõe o conceito da receita das instituições financeiras, como ocorre na empresa comercial, ou industrial. Diante disto, quando os artigos 1º e 2º , da Lei 9.718/98, definem a incidência do COFINS sobre a Receita Bruta da Pessoa Jurídica, o intérprete deve entender, no caso de uma instituição financeira, que esta incidência se dá sobre o valor da receita auferida (fato gerador), tomando esta conforme as normas de contabilidade bancária assim a definem, e não sobre o valor da transação realizada. A propósito, esta transação, estritamente considerada, pode nem resultar em receita, uma vez que pode haver perda na alienação de qualquer ativo. Fl. 1521DF CARF MF 6 Dito isto, não pode ser aceita a argumentação no sentido de que a operação de venda de ouro financeiro por Instituição Financeira seria uma operação sujeita ao pagamento das Contribuições. E isto se opera pelo simples fato de que esta operação (a alienação de ativo financeiro) não é enquadrada no conceito de receita, pelo COSIF. Desta forma, considerando esta não incidência das Contribuições na operação de venda de ouro financeiro, as operações de aquisição do metal de DTVMs enquadramse nos dispositivos previstos pelo § 2º, inciso II, do artigo 3º, das Leis 10.637/2002, e 10.833/2003: [...] É oportuno lembrar que a forma de tributação pelo PIS e pela COFINS das Instituições Financeiras é disciplinada pelo artigo 95, da Instrução Normativa SRF N° 247/2002. Basicamente, este dispositivo prevê que a base de cálculo mensal das Contribuições das Instituições Financeiras seja apurada com o apoio da planilha prevista no anexo I da Instrução Normativa, onde as receitas das instituições financeiras, ao final de cada mês, seguindo a planificação contábil do Sistema Financeiro Nacional (COSIF), são enumeradas. Entre estas receitas, podemos encontrar a denominada "Rendas de Aplicações em Ouro",código 7.1.5.70.002 . Segundo as instruções do Banco Central do Brasil, a função desta conta é registrar os ajustes positivos nas aplicações temporárias em ouro, que constituam receita efetiva da instituição no período. A tributação dessa receita não se confunde de maneira nenhuma com a tributação da transmissão da propriedade do ativo financeiro. O fato de um eventual rendimento auferido na alienação do ouro financeiro (eventual porque pode ser que haja perdas neste tipo de operação, também) não significa que toda a operação de alienação do ativo tenha sido submetida à tributação. É fundamental perceber que o conceito técnico contábil de Receita não envolve o valor da movimentação do ativo financeiro. Prova disso é que não encontramos no Plano de Contas das Instituições do Sistema Financeiro, dentre as receitas operacionais, qualquer item que pudesse representar o valor total da alienação de um ativo, como "receita da venda de ouro", ou receita da "venda de ações", ou ainda "receita da venda de recebíveis". O próprio conceito de receita, nas Instituições Financeiras, restringese ao valor do rendimento na operação, o que não inclui o valor do ativo negociado. Por ocasião da resposta ao Termo de Intimação de 29 de novembro de 2011, o Contribuinte cita em socorro de sua tese (legitimidade da utilização das aquisições de ouro financeiro na base de cálculo de seus créditos das Contribuições) o artigo 22, da Instrução Normativa SRF N° 247/2002, extraindo dele que "as Instituições Financeiras estão sujeitas ao pagamento do PIS e COFINS por ocasião da alienação dos ativos financeiros". Na verdade, o que de fato está disposto neste artigo é que as receitas auferidas (receitas assim consideradas de acordo com o Fl. 1522DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.520 7 COSIF) pela Instituição Financeira, produzidas em decorrência de avaliações de seus títulos e valores mobiliários a preço de mercado, somente participarão da composição da base de cálculo a partir do momento da alienação do ativo. Ou seja, o dispositivo não se preocupa alterar a definição do fato gerador ou da base de cálculo, mas sim em definir o aspecto temporal da incidência. Também em sua defesa o Contribuinte comenta que no caso do PIS e COFINS, os contribuintes podem descontar créditos sobre os custos incorridos em valor superior ao pago na etapa anterior da cadeia, reforçandose com a citação de reposta de Consulta Tributária. Este comentário, porém, não atinge o centro da questão que aqui se discute. Não se trata de considerar que houve incidência na operação anterior, com um recolhimento inferior de Contribuições, como acontece, por exemplo, no caso de aquisições de mercadorias de empresa que apura as Contribuições no regime cumulativo. Tratase, sim, de considerar que não houve incidência na operação anterior, uma vez que, como já exaustivamente demonstrado, o valor da alienação de um ativo financeiro ou valor mobiliário não se confunde com a receita financeira eventualmente auferida. O conceito de base de cálculo é em regra elemento indissociável do conceito de fato gerador. A base de cálculo, salvo nos casos expressamente previstos em lei, é nada mais nada menos do que a expressão quantitativa do fato gerador. Se o fato gerador das Contribuições é auferir receita bruta, a base de cálculo é o valor da receita auferida! Assim, se o fato gerador, no caso de movimentação de ouro financeiro é o fato da instituição auferir receita financeira, a expressão econômica desta operação é o valor desta receita financeira, e não o valor desta receita somado ao valor do ativo financeiro. Diferentemente, numa operação comercial, o fato gerador é auferir a receita da venda das mercadorias. Assim a base de cálculo das Contribuições neste caso é a receita da venda das mercadorias, e não o lucro bruto apurado na operação. Pelo exposto, concluise que a empresa não poderia ter utilizado os valores provenientes da aquisição de ouro financeiro para compor a base de cálculo de seus créditos. E não haveria nenhum sentido que diferente fosse. Como visto, toda a cadeia do ouro financeiro é livre da incidência do PIS e da COFINS. Desde a saída de empresa mineradora, as Contribuições não incidem, ou por força da não incidência Constitucional (art. 153, § 5º), ou pela incidência da alíquota zero, prevista no artigo 1º , do Decreto 5.442/2005: Art. 1º Ficam reduzidas a zero as alíquotas da Contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS Fl. 1523DF CARF MF 8 incidentes sobre as receitas financeiras, inclusive decorrentes de operações realizadas para fins de hedge, auferidas pelas pessoas jurídicas sujeitas ao regime de incidência nãocumulativa das referidas contribuições. Notese que o assunto "ouro como ativo financeiro ou mercadoria" já foi amplamente abordado pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional em seu Parecer PGFN/CRJ n° 0957, de 22/07/1999 publicado no DOU de 10/08/1999, Seção I, p 1, cujo texto, em parte, está transcrito a seguir: "A Constituição pretérita estabelecia que o ouro estava sujeito ao imposto único sobre minerais IUM, nas operações realizadas com o ouro antes da industrialização. Com a industrialização, o ouro se submetia ao IPI e ao ICM: a operação de industrialização, ou a produção de mercancia, tendo por base o ouro industrializado, o ICM. A Constituição de 1988 inovou: não há imposto único sobre minerais. Em estado natural, ou industrializado, o ouro está sujeito, nas operações mercantis, ao ICMS. Todavia, se utilizado com ativo financeiro, estará o ouro sujeito ao IOF. (C.F., art. 153, § 5º; art. 155, § 2°, X, c) . Desaparecida essa condição utilização como ativo financeiro submeterseá ao ICMS, nas operações mercantis. (José Alfredo Borges, "As e o regime Jurídico Receita do ICMS ao Ver. Jurídica da da Fazenda Estadual operações com Ouro da Repartição da Município", in ProcuradoriaGeral Minas Geral", 13/9) Com propriedade, pois, escreveu o então Juiz Ari Pargendler, no voto que embasa o acórdão recorrido, que "a destinação do ouro o identifica como mercadoria ou como mercadoria ou como ativo financeiro. A entrada do ouro no mercado financeiro e sua permanência nele lhe assegura esse regime vantajoso: o de ser tributado uma só vez (monofasicamente) e de modo exclusivo (unicamente) pelo Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro Relativo a Títulos e Valores Mobiliários". Se não há incidência, em nenhuma dessas etapas foi recolhido qualquer valor a título de Contribuições. Sendo assim, não há qualquer valor de Contribuição acumulado na cadeia de comercialização que justifique crédito por parte de quem adquiriu este ouro financeiro e o desviou para a utilização como matéria prima em seu processo industrial. Mesmo que consideremos os valores recolhidos no fornecimento de insumo à pessoa jurídica mineradora de ouro, esses valores seriam passíveis de aproveitamento ou ressarcimento a essa empresa, por força do disposto no artigo 27, inciso II, da Instrução Normativa SRF N° 900/2008, ficando assim garantido o direito de que esta cadeia seja expurgada de qualquer incidência das contribuições. Fl. 1524DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.521 9 Assim, se admitido o crédito na aquisição de ouro financeiro, a adquirente ficaria em uma posição econômica imensamente favorecida em relação à empresa que trabalhasse com o ouro mercadoria, pois este produto certamente lhe custaria mais caro, uma vez que viria "carregado" pela incidência das Contribuições nas etapas precedentes do processo de produção. O princípio da nãocumulatividade tem por finalidade precípua a garantia de que o tributo pago nas etapas anteriores de uma cadeia de produção e/ou comercialização não incida em cascata nas operações subsequentes. O mecanismo do crédito é a forma pelo qual o princípio da nãocumulatividade se faz eficaz. Assim o direito ao crédito só se justifica quando há incidência de contribuição em etapas antecedentes de uma cadeia de produção/comercialização. Se esta incidência não existe, o crédito não faz o menor sentido. A não ser que haja um claro propósito do legislador no sentido de incentivar uma determinada atividade. Porém, mesmo neste último caso, o benefício deve ser expressamente previsto na lei. Se não bastasse o todo exposto, foi observado durante a auditoria fiscal que o Contribuinte destina vendas com o código fiscal de operação e prestação (CFOP) 6109, que se trata de venda de produção do estabelecimento destinada a Zona Franca de Manaus ou Áreas de Livre Comércio. Por se tratar de venda para a Zona Franca de Manaus, essas saídas são tributadas à alíquota zero de PIS/COFINS. Nesta operação, destacase como cliente a empresa COIMPA INDUSTRIAL LTDA, CNPJ 04.222.428/000130, a qual a empresa objeto da presente ação fiscal detém um percentual de 99,97% do capital (conforme consta da base de dados da RFB). Em alguns casos a venda realizada tratase de apenas, e somente, ouro em lingotes, ou seja, o mesmo ouro adquirido nas DTVM's. Estamos, assim, presenciando a seguinte situação. O Contribuinte adquire o ouro financeiro sem a tributação do PIS/COFINS. Revende o mesmo ouro para um empresa em que, claramente, detém o controle acionário, mas tributado à alíquota zero de PIS/COFINS. E, por fim, pleiteia o crédito que em nenhum momento foi recolhido ao Erário. Ao analisar situação semelhante àquela que nos é aqui apresentada, a Delegacia de Julgamento da Receita Federal em Porto Alegre decidiu em consonância com o raciocínio aqui desenvolvido, embora naquele caso, a empresa recorrente teria se utilizado de valores de aquisição de ouro financeiro na composição da base de cálculo do crédito presumido de IPI, que visaria justamente o ressarcimento de valores que teriam incididos a título de PIS e de COFINS na cadeia de produtiva de produtos exportados. [...] 6 DAS GLOSAS EFETUADAS E SUAS CONSEQUÊNCIAS Fl. 1525DF CARF MF 10 Diante de todo o exposto, consideramos que não cabe o crédito das Contribuições efetuadas na aquisição de ouro, quando adquirido de empresas Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários. Consequentemente procedemos às glosas dos referidos créditos e cujas planilhas "DEMONSTRATIVO DAS GLOSAS DE CRÉDITOS DE PIS/COFINS AQUISIÇÃO DE OURO FINANCEIRO", "DEMONSTRATIVO DE RECONSTITUIÇÃO DE CRÉDITOS DE PIS/COFINS"; fazem parte do presente Termo de Constatação e Verificação de Irregularidades Fiscais. Nos meses onde os créditos reconhecidos não foram suficientes para fazer frente aos débitos do mês, as diferenças entre esses valores foram constituídas através de Autos de Infração dos quais o presente Termo de Verificação e Constatação de Irregularidades Fiscais é parte integrante. As glosas de créditos de PIS/COFINS apropriados sobre aquisições de ouro financeiro estão relacionadas nas folhas 765 a 768, e os dois períodos que estas glosas geraram débitos constam dos demonstrativos de folhas 769 a 772, vide linhas "Glosa mês" ou que geraram débitos a lançar, conforme linha "lançamento". Por sua vez o contribuinte apresentou sua impugnação (fls. 792 a 825) em 05/03/2012, com extensos arrazoados nos seguintes tópicos: l. Dos fatos; 2. Do direito; 2.1. Da tempestividade; 2.2. Da tributação do ouro autorizada pela Constituição Federal; 2.3. Da classificação do ouro: relevância da destinação dada ao bem; 2.4. Do direito ao desconto de créditos de PIS e de COFINS nas aquisições de ouro ativo financeiro como insumo; 2.5. Da nãocumulatividade do PIS e da COFINS e da irrelevância do regime de tributação a que esteja submetido o fornecedor dos bens. 2.6 Das operações com a Zona Franca de Manaus. 3. Do pedido. A seguir parte dos argumentos trazidos: [...] A Impugnante é sociedade empresária que se dedica à industrialização comercialização, importação e exportação de produtos manufaturados e semimanufaturados, especialmente de metais preciosos e outros metais, prezando sempre pelo fiel cumprimento de suas obrigações. Por força de suas atividades operacionais, a Impugnante regularmente acumula créditos de PIS e COFINS decorrentes da sistemática nãocumulativa dessas contribuições, prevista nas Leis nºs 10.637/02 e 10.833/03. [...] Após análise de toda documentação contábil e fiscal da Impugnante, a Receita Federal do Brasil (RFB) houve por bem glosar parte do crédito pleiteado, especificamente no que tange aos valores oriundos de aquisições de ouro de Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários DTVMs. [...] Por consequência da glosa dessa parte do crédito, a RFB, nos meses em que houve saldo devedor (janeiro, abril, julho, setembro e outubro de 2007), procedeu à constituição de crédito tributário. [...] A glosa dos créditos de PIS e de COFINS, derivados da aquisição de ouro ativo financeiro, de acordo com o descrito no TVCIF pela D. Autoridade de Fiscalização, teria se verificado, em síntese, em face do seguinte: [...] Fl. 1526DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.522 11 Ocorre que, entretanto, que referido entendimento não pode prosperar, uma vez que o crédito glosado pleiteado pela impugnante é legítimo, eis que: 1. A alienação do ouro, ativo financeiro ou não, em todas as etapas de sua cadeia, sujeitase ao pagamento da contribuição ao PIS e da COFINS: 2. O ouro ativo financeiro, se e enquanto de propriedade de instituições financeiras, sujeitase à contribuição do PIS e à COFINS; 3. O ouro ativo financeiro, quando adquirido como insumo e desde que obedecidas as condições impostas pela legislação, permite o desconto de créditos das contribuições; 4. O ouro adquirido pela Impugnante é insumo de seu processo industrial, afirmação feita a partir da destinação dada pela adquirente ao bem; e 5. As operações realizadas com contribuintes localizados na Zona França de Manaus, nos termos da legislação vigente, de modo algum permite a acumulação de créditos inexistentes. [...] Dessa forma, considerando que a incidência da contribuição ao PIS e da COFINS é o faturamento, assim entendido a receita bruta auferida e não a operação com o bem ou serviço em si, podese notar que o ouro, seja ele ativo financeiro ou mercadoria, em todas as etapas de sua cadeia, indiscutivelmente sujeitase à incidência de tais contribuições. Essa é a única conclusão possível de se construir a partir da Constituição Federal. [...] Apesar de fincar orientação de que o elemento norteador da natureza jurídica da operação com o ouro é a sua destinação, a fiscalização, nos parágrafos seguintes, defende que o simples fato de uma instituição financeira participar da relação negocial envolvendo o ouro acarreta a conclusão de que o referido metal será sempre um ativo financeiro (e nunca mercadoria). Vejamos: [...] Da mera leitura do trecho acima, depreendemos que a fiscalização simplesmente abandonou a importância da destinação para valorar exclusivamente as pessoas envolvidas na operação. Nada mais equivocado e desprovido de fundamento legal. A Lei n. 7.766/89 define claramente que o ouro será considerado ativo financeiro quando destinado ao mercado financeiro (o que não é o caso), in ver bis: [...] E de forma ainda mais categórica, o artigo 4º de referida norma determina taxativamente a necessidade da destinação do ouro ao mercado financeiro, a fim de que este seja classificado como ativo financeiro. Vejamos: [...] Da exegese dos dois dispositivos supra transcritos, concluise que o elemento definidor da natureza jurídica do ouro é sua destinação. Esse entendimento, inclusive, foi brilhantemente observado pelo então Juiz Ari Pargendler, nos autos da arguição Fl. 1527DF CARF MF 12 de inconstitucionalidade n° 92.04.096250/RS do E. Tribunal Regional Federal da 4ª Região, quando decidiu que: A destinação do ouro o identifica como mercadoria ou como ativo financeiro. A entrada do ouro no mercado financeiro e sua permanência nele lhe assegura esse regime vantajoso: o de ser tributado uma só vez (monofasicamente) e de modo exclusivo (unicamente) pelo Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro Relativo a Títulos e Valores Mobiliários. E indiscutível que, mesmo com a interveniência de uma instituição financeira no negócio como vendedora, se o bem não for destinado ou não permanecer no Sistema Financeiro Nacional, ele não poderá ser classificado com ativo financeiro. No caso em apreço, a destinação do ouro adquirido pela Impugnante não foi o mercado financeiro, e tampouco nele ocorre sua permanência neste mercado, o que é expressamente reconhecido no auto de infração. O auditor fiscal menciona, por diversas vezes, que o ouro adquirido pela Umicore das DTVMs, desde sua aquisição, sempre esteve direcionado/destinado à industrialização, i.e. à utilização no processo produtivo da Impugnante, o que fica evidente na seguinte frase, abaixo reproduzida a título exemplificativo: Diante das características descritas, concluise que as operações de aquisição de ouro de DTVMs são tipicamente operações financeiras, não podendo ser confundidas com aquisições ordinárias de matéria prima, mesmo considerando que o comprador assim as classifique em seus registros contábeis e fiscais, e que as utilize de fato em seu processo produtivo. (destacamos) Esse fato é novamente reconhecido no decorrer do TVIF, quando a fiscalização tenta, de forma ardilosa, imputar irregularidade na prática negocial da impugnante. Observe que a fiscalização tenta dar ênfase a um suposto desvio de finalidade no uso do ouro, como se a Impugnante estivesse utilizandoo de forma irregular. Vejamos: Não há qualquer valor de contribuição acumulado na cadeia de comercialização que justifique crédito por parte de quem adquiriu este ouro financeiro e o desviou para a utilização como matériaprima em seu processo industrial (destacamos) Entretanto, não há nada de irregular na conduta da Impugnante, industrializadora de metais preciosos. Tal "desvio" demonstra, claramente, que a destinação do ouro no caso em questão não foi o mercado financeiro, mas sim a industrialização (atividade operacional da Impugnante). E, como tal, é inequívoco seu direito creditório. Ademais, diferentemente do que restou asseverado pela fiscalização, a utilização da documentação instituída pela IN 49/2001 não define a natureza da operação, mas sim a destinação dada ao ouro. Dito de outra forma: não é o conjunto Fl. 1528DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.523 13 de documentos fiscais que define a natureza jurídica do ouro, mas sim a destinação dada a referido bem na operação. [...] No âmbito de suas atividades, a Impugnante adquire o ouro em estado bruto de Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários DTVMs e, a seguir, para que possa ser utilizado como insumo em cadeias produtivas, faz o seu refino processo que tem por escopo eliminar as impurezas e contaminantes para que o ouro possa ser utilizado industrialmente produzindo lingotes com teor de pureza de 99,99%. A partir daí, os lingotes são vendidos a clientes produtores de jóias ou indústrias que utilizam o metal já refinado como insumo, dentre estes, a Coimpa Industrial Ltda. (Coimpa), subsidiária da Umicore, localizada na Zona Franca de Manaus. Destaquese que a Coimpa especificamente citada pela d. fiscalização, foi responsável pela aquisição de 65,3% do total das vendas realizadas em 01, 04, 07, 09 10 e 12/07 para a ZFM (doc. 10), sendo que os demais 34,70% referemse a clientes não relacionados à Impugnante. Isso demonstra, indiscutivelmente, que existe propósito negocial (e não meramente eventual economia fiscal) na aquisição do ouro bruto pela Impugnante e posterior venda à Coimpa. Mas não é só. Contrariamente ao exposto pela d. fiscalização, expliquemos melhor porque a Umicore não aliena o mesmo ouro adquirido das DTVMs à Coimpa e demais clientes não relacionados (vide fotos do laudo técnico doc. 6). O ouro passa por um efetivo processo de industrialização, onde é refinado e transformado em lingotes; só então é posto ao mercado na forma de ouro puro para utilização em processo industrial. E prova disso é a descrição das operações de compra de ouro bruto e venda de ouro refinado, com os respectivos documentos que o suportam: 1. A Impugnante adquire de Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs) ouro em bruto, ou seja, ouro extraído do garimpo e com teor aproximado de impureza de 15% a 5% (ou seja, entre 85% a 95% de ouro). 2. A nota fiscal emitida pela DTVM apresenta os pesos em bruto (peso do produto recebido) e líquido (peso do ouro estimado contido), conforme doc. 8. 3. Os documentos fiscais relativos à compra do ouro são: nota fiscal de negociação do ouro, nota fiscal de remessa de ouro e nota fiscal fatura de entrada. Os dois primeiros são emitidos pelas DTVMs e o último pela Umicore. 4. A Umicore recebe o bem e paga o fornecedor de acordo com o valor da nota fiscal. 5. O ouro é recebido em barras fundidas. Estas barras possuem dimensões, apresentações e pesos não padronizados, pois se tratam de produto resultante da fundição de pequenos lotes oriundos da atividade de mineração (fotos constantes do laudo Fl. 1529DF CARF MF 14 doc. 6). Pela mesma razão os teores de ouro contidos nas barras recebidas variam de barra para barra. 6. A Umicore funde o ouro em bruto, coleta uma amostra e analisa o teor do ouro contido (Ficha de Recuperação de Resíduos). 7. A Umicore refina o ouro bruto teores aproximados de 85% a 95%, produzindo ouro puro equivalente ao teor de 99,99%. 8. O ouro puro refinado é fundido em lingotes (foto constante do laudo doc. 6), sendo substancialmente diferente do ouro em bruto conforme demonstrado no laudo técnico (seja no grau de impurezas, seja na apresentação). 9. A Umicore possui a qualificação Good for deliver, emitida pela London Bullion Market Association LBMA. A Impugnante é uma das duas únicas empresas brasileiras portadoras de referida qualificação, conforme apresentado na lista anexa (doc. 5). 10. A Umicore vende os lingotes por ela industrializados, destinandoos ao mercado para utilização de diversos fins (docs. 10 e 11). 11. Especificamente a Coimpa utiliza o ouro principalmente para a produção de aurocianeto de PotássioPGC (Cianeto duplo de Ouro e Potássio). Para esta aplicação o ouro precisa ter pureza 99,99% e teor de prata, como impureza, extremamente baixo, uma vez que o produto final não pode conter teor de prata superior a 10 partes por milhão (ppm) (especificação do produto PGC). Ademais, temos que: a) No exercício de 2007, a Coimpa adquiriu 70,8% do ouro em lingotes vendidos pela Umicore, enquanto que empresas não relacionadas responderam por 29,2% das vendas (doc. 10). Já nos meses autuados (01, 04, 07, 09 e 10/2007, e mês 12/07 exclusivamente para Cofins), o percentual foi de 65,3% para a Coimpa e 34,7% para as demais (doc. 10). Concluise, portanto, que a aquisição dos lingotes de empresa relacionada é fato necessário ao desenvolvimento das atividades da Coimpa, não se tratando de exclusivo planejamento fiscal desprovido de propósito negocial. E a Umicore, por sua vez, fornece os bens tanto para a Coimpa quanto para diversos outros clientes; b) Conforme já elucidado, o ouro comercializado sujeitouse às contribuições do PIS e COFINS em todas as suas etapas. Logo, se por um lado a venda à ZFM sujeitase à alíquota zero, por outro, a empresa na ZFM não desconta créditos sobre tais aquisições, não se verificando qualquer dano ao erário público. Além disso, quando da alienação pela Coimpa, de parte de sua produção ao mercado nacional, a receita de venda se sujeita ao PIS e à COFINS. E, se é verdade que na exportação, em face da imunidade constitucional não há PIS e COFINS, também é verdade que as aquisições de ouro realizadas pela Coimpa não possibilitam o desconto de créditos do ouro adquirido da Impugnante, o que também infirma a conclusão alcançada pela D. autoridade de fiscalização. [...] Fl. 1530DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.524 15 Assim, não há razão para a fiscalização questionar as transações realizadas pela Impugnante com empresas situadas na ZFM, em especial com a Coimpa. haja vista que tais operações são reais, necessárias e não configuram prejuízo aos cofres fazendários. Pelo contrário, são operações que, embora sujeitas à alíquota zero do PIS e da COFINS, não permitem ao contribuinte localizado na ZFM o direito a crédito dessas contribuições, ao passo que possibilitam à Impugnante a manutenção dos créditos, visto que o insumo utilizado no processo, ouro ativo financeiro, sujeitouse em todas as etapas da sua cadeia, à incidência das contribuições. 3. DO PEDIDO Por todo o exposto, requer seja julgada procedente a presente impugnação, para os fins de anular integralmente os autos de infração e imposição de multa de PIS e de COFINS ora impugnados, com o consequente reconhecimento do direito de descontar créditos de PIS e de COFINS sobre aquisição de ouro oriundo de DTVMs, utilizados no processo produtivo da Impugnante. Protesta pela juntada adicional de quaisquer documentos comprobatórios de todas as alegações citadas ao longo do presente petitório. Ao final o contribuinte juntou os seguintes documentos a sua impugnação: Doc. 1 Procuração; Docs. 2 e 3 Documentos pessoais dos signatários; Doc. 4 Contrato social; Doc. 5 — Cópia da página da internet (www.lbma.org.uk) que prova que apenas duas empresas brasileiras são certificadas pela The London Bullion Market Association como Goodfor deliver para a industrialização de barras de ouro com 99,99% de pureza do metal; Doc. 6 Laudo técnico descrevendo o processo de industrialização do ouro realizado pela Umicore, acompanhado de algumas fotos; Docs. 7, 8 e 9 Três jogos de notas fiscais relativos à compra do ouro bruto com impurezas, compostos por (i) nota de negociação do ouro, (ii) nota fiscal de remessa de ouro e (iii) nota fiscal fatura de entrada; Doc. 10 Planilha relativa aos adquirentes dos lingotes fabricados pela Umicore, valores e percentuais; Doc. 11 Jogo de notas fiscais fatura de saída, que subsidiam a planilha indicada como doc. 10 e comprovam as informações lá constantes; e Doc. 12 Auto de infração e imposição de multa. O contribuinte ainda juntou de forma extemporânea e sem previsão legal (em 03/08/2012, fls. 1.008 a 1.010, e anexos fls. 1.011 a 1.018) uma manifestação, tratando de acórdão do CARF em relação a crédito presumido do IPI de uma indústria de jóias. Ato contínuo, a DRJRIBEIRÃO PRETO (SP) julgou a Impugnação do Contribuinte nos seguintes termos: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Fl. 1531DF CARF MF 16 Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro / instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo), pois a CF/1988 assim determinou que fosse ele considerado. A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro então mercadoria se beneficiar dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição da Cofins. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro / instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo), pois a CF/1988 assim determinou que fosse ele considerado. A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro então mercadoria se beneficiar dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição do PIS. Impugnação Improcedente. Crédito Tributário Mantido. Em seguida, devidamente notificada, a Recorrente interpôs o presente recurso voluntário pleiteando a reforma do acórdão. Em seu Recurso Voluntário, a Empresa suscitou apenas questões de mérito, apresentando as mesmas argumentações da sua impugnação. É o relatório. Voto Conselheiro Pedro Sousa Bispo Fl. 1532DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.525 17 O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele se deve conhecer. Conforme se depreende dos autos, a autuação em tela teve por base o procedimento de verificação das Perdcomps apresentadas referentes aos trimestres de 2007, nos quais foram parte dos créditos solicitados indeferidos nos pedidos de ressarcimentos pela Autoridade Fiscal e resultou na lavratura dos autos de infração de PIS/Pasep e COFINS, em alguns meses, para cobrança de diferenças apuradas dessas contribuições decorrentes de glosas de crédito na aquisição de insumos (ouro). As glosas operadas estão relacionadas essencialmente com a não consideração da aquisição do ouro ativo financeiro/instrumento cambial como gerador de créditos da não cumulatividade, adquirido de Sociedades Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs). A Recorrente é uma empresa que atua no refino e na reciclagem de metais, especialmente o ouro, atuando na sua purificação, normalmente obtendo o ouro a 58% de pureza e o transformando em ouro a 99,99%, ideal para a utilização na fabricação de jóias, quando ligados com outros metais que acrescentam cor e resistência ao metal. Além de processar ouro por conta própria, a empresa também presta o mesmo serviço de industrialização por encomenda para outras empresas do ramo. Abaixo os tipos de ouro encontrados no mercado, de acordo com o seu grau de pureza: A Fiscalização procedeu a glosa dos créditos na aquisição de ouro pela Umicore pois entendeu que em toda a cadeia envolvida no ouro adquirido no mercado de balcão de empresas DTVMs (ouro ativo financeiro), desde a etapa da mineração até as negociações no mercado financeiro envolvendo o metal, não houve a incidência das contribuições ao PIS e COFINS nas operações, uma vez que a tributação do ouro se dá em uma única etapa somente pelo IOF, conforme prevê a Constituição Federal no art.153, § 5º e a legislações infraconstitucionais relativas a Lei nº7.766/89 e Decreto nº5.442/2005. Dessa forma, o ouro adquirido no mercado financeiro (ouro ativo financeiro) não dá direito a crédito, situação esta prevista na legislação do PIS e da COFINS que, expressamente, veda o desconto de créditos nas aquisições de bens e serviços que não se sujeitaram à incidência das contribuições. O Contribuinte, por sua vez, alega que a alienação do ouro, ativo financeiro ou não, sujeitase ao pagamento das contribuições ao PIS e COFINS em todas as etapas da sua cadeia, inclusive sobre o valor da intermediação financeira ocorrida nas Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários. A destinação que o comprador dar ao ouro ativo financeiro adquirido é que define o seu direito ao crédito, uma vez que este é utilizado como insumo do seu processo industrial, comprovado nos autos pela documentação fiscal e contábil, especificamente pelas notas fiscais de entrada emitidas e pela contabilização do ouro como insumo (estoque) destinado a produção, como se vê pelo código fiscal de operação e prestação de serviço (CFOP) utilizado. Considerando que a base oponível à contribuição para o PIS e a Fl. 1533DF CARF MF 18 COFINS é o faturamento, assim entendida a receita bruta oponível, e não a operação com o bem ou serviço em si, podese notar que o ouro, seja ele ativo financeiro ou mercadoria, sujeitase, indiscutivelmente, a incidência de tais contribuições em todas as etapas de sua cadeia, conforme se depreende do conteúdo da Constituição Federal. Percebese que é fato provado nos autos que a empresa adquiriu ouro ativo financeiro de empresa DTVM, nos termos previstos no art.1º, § 2º da Lei nº7.766/89 e conforme documentos anexados de notas de negociação de ouro e nota fiscal de remessa de ouro emitida pela instituição financeira. Somente após aquisição do ouro ativo financeiro foi que a empresa deu a ele destinação diversa ao produto adquirido, transformandoo em mercadoria para aplicação como insumo no seu processo de produção do ouro purificado e, posteriormente, vendeu o produto resultante para empresas que o destina à produção de jóias. Depreendese que, em suma, a discussão a ser decidida por este Colegiado referese a controvérsia quanto a possibilidade ou não de se calcular crédito das contribuições ao PIS e a COFINS sobre a aquisição de ouro como ativo financeiro, posteriormente transformado em mercadoria para aplicação na produção de ouro purificado realizado pela Recorrente Umicore. Por oportuno, fazemse algumas considerações sobre o funcionamento do mercado do ouro no Brasil e a tributação envolvida. Identificase no país dois tipos de ouro circulando no Brasil, quanto ao seu uso, que são diferenciados não pela composição física, mas sim pelas características atribuídas por lei quanto a sua destinação: ouro mercadoria e ouro ativo financeiro. O primeiro (ouro mercadoria) é aquele extraído pelos garimpeiros/cooperativas ou por empresas mineradoras e destinado ao mercado de ouro como reserva de valor de empresas e particulares ou como insumo para a produção de artefatos para computadores, comunicações, naves espaciais, motores de reação na aviação e artigos de luxo, tal como, no presente caso, para a produção de jóias. Nesses casos, o ouro se caracteriza como mercadoria, sujeitandose às mesmas regras ordinárias das demais mercadorias quanto a emissão dos documentos fiscais e a tributação relativa ao ICMS, IPI, PIS e COFINS. O segundo tipo é aquele ouro que desde a sua origem na extração é destinado a se tornar ativo financeiro ou instrumento cambial. Nesse caso, é necessário que seja formalizado compromisso de destinálo ao Banco Central do Brasil ou à instituição por ele autorizada, nos termos estabelecidos na Lei nº7.766/89. Após ser adquirido pela instituição financeira, esse ouro como ativo financeiro/instrumento cambial poderá ser negociado em bolsas de valores, de mercadorias, de futuros ou assemelhados, ou no mercado de balcão, mas em qualquer dos casos ele sempre será considerado uma operação do mercado financeiro. Os requisitos para o ouro adquirir natureza de ativo financeiro são delineados pela Lei nº7.766/89, in verbis: “Art. 1º O ouro em qualquer estado de pureza, em bruto ou refinado, quando destinado ao mercado financeiro ou à execução da política cambial do País, em operações realizadas com a interveniência de instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional, na forma e condições autorizadas pelo Banco Central do Brasil, será desde a extração, inclusive, considerado ativo financeiro ou instrumento cambial. § 1º Enquadrase na definição deste artigo: I o ouro envolvido em operações de tratamento, refino, transporte, depósito ou custódia, desde que formalizado Fl. 1534DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.526 19 compromisso de destinálo ao Banco Central do Brasil ou à instituição por ele autorizada. II as operações praticadas nas regiões de garimpo onde o ouro é extraído, desde que o ouro na saída do Município tenha o mesmo destino a que se refere o inciso I deste parágrafo. § 2º As negociações com o ouro, ativo financeiro, de que trata este artigo, efetuada nos pregões das bolsas de valores, de mercadorias, de futuros ou assemelhadas, ou no mercado de balcão com a interveniência de instituição financeira autorizada, serão consideradas operações financeiras. (...) Art. 3º A destinação e as operações a que se referem os arts. 1º e 2º desta Lei serão comprovadas mediante notas fiscais ou documentos que identifiquem tais operações. Pela leitura do conteúdo da lei transcrita, observase que o compromisso de destinação ao ouro assume condição fundamental para a sua caracterização como ativo financeiro. Quando ele é destinado ao Banco Central, ou a instituições financeiras por ele autorizadas, o ouro será considerado como ativo financeiro, desde a sua origem na extração, nos termos do compromisso firmado disposto na lei em comento. A documentação de suporte necessária para acompanhar as operações com esse ativo financeiro foram estabelecidas pela IN SRF nº49/2001. No caso sob análise, constatase que de fato a Recorrente adquiriu o produto ouro ativo financeiro de uma instituição financeira DVTM (Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários), comprovado pela documentação emitida pela empresa vendedora do ativo financeiro. Ao adquirir o ouro ativo financeiro, a empresa teria a opção de mantêlo custodiado na instituição financeira autorizada pelo Banco Central indicada por ela ou retirar o ouro em barras/linguotes e leválo consigo. A opção da Recorrente foi por retirar o ativo financeiro do Sistema Financeiro e ficar com a posse do seu ouro visando aplicálo de modo diverso daquele que até então vinha sendo utilizado. Percebese que a Umicore adquiriu tal produto com o animus de dar destinação diversa daquela que até então possuía o ativo e transformálo em mercadoria para utilização como insumo em seu processo produtivo, fato materializado pelas notas fiscais de entrada emitidas pela Recorrente constantes dos autos, que consignam o CFOP utilizado de compras de insumos para industrialização –1.101. A legislação anteriormente transcrita, a Lei n. 7.766/89, define claramente que o ouro será considerado ativo financeiro quando destinado ao mercado financeiro. No presente caso, entretanto, restou comprovado que o Contribuinte adquiriu o ouro ativo financeiro com o animus de transformálo em mercadoria (insumo). O elemento definidor da natureza jurídica do ouro, portanto, é a sua destinação. Tal entendimento, inclusive, foi brilhantemente observado pelo então Juiz Ari Pargendler (ex Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal), nos autos da arguição de inconstitucionalidade nº 92.04.096250/RS, do E. Tribunal Regional Federal da 4ª Região, quando decidiu que: “A destinação do ouro o identifica como mercadoria ou como ativo financeiro. A entrada do ouro no mercado financeiro e sua permanência nele lhe Fl. 1535DF CARF MF 20 assegura esse regime vantajoso: o de ser tributado uma só vez (monofasicamente) e de modo exclusivo (unicamente) pelo Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro Relativo a Títulos e Valores Mobiliários”. Entendese, assim, que o ouro, ao sair do sistema financeiro, por vontade do investidor para utilização em função diversa que até então possuía, não mais poderá ser classificado como ativo financeiro, mas sim como mercadoria. No caso concreto, temse que a destinação dada ao ouro ativo financeiro foi aplicálo, após a compra, como insumo no processo produtivo de produção de ouro com maior grau de pureza pela Recorrente. Entendo que, se a definição da natureza do ouro se dá pela sua destinação, embora a documentação emitida na transferência do ouro da DTVM para a Recorrente seja de tradição de um ativo financeiro, isso não impede que a empresa, agora proprietária e de posse do seu bem materializado, dê destinação diversa a ele fora do mercado financeiro, tratandoo como mercadoria/insumo. Ressaltese que não há nenhuma vedação legal a esse procedimento adotado pela empresa. Admitese, assim, a possibilidade do ouro ser adquirido como ativo financeiro e ser posteriormente transformado em mercadoria com o fim de ser aplicado como insumo no processo produtivo da Recorrente. Admitida a possibilidade do ouro adquirido ser transformado em insumo após a sua aquisição como ativo financeiro, resta analisar a possibilidade da empresa se creditar do PIS/COFINS sobre a aquisição do referido ouro ativo financeiro de acordo com as regras de creditamento presentes na legislação que rege a matéria. Inicialmente, devese entender como ocorre a tributação do ouro ativo financeiro adquirido em toda a cadeia envolvida desde a extração até a instituição financeira. A Constituição Federal previu a incidência unicamente de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre as operações com ouro definido como ativo financeiro, assim como a incidência monofásica desse imposto na entrada na instituição financeira sobre o que seria devido na operação de origem: Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre: [...] V operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários; § 5° O ouro, quando definido em lei como ativo financeiro ou instrumento cambial, sujeitase exclusivamente à incidência do imposto de que trata o inciso V do "caput" deste artigo, devido na operação de origem; a alíquota mínima será de um por cento, assegurada a transferência do montante da arrecadação nos seguintes termos: (negritos nossos) Os entes tributários ficam impedidos, assim, de criar outros tributos ou prever a incidência dos já existentes sobre as operações com ouro ativo financeiro, descritas na forma da lei. A regulamentação do citado dispositivo constitucional veio por meio da Lei nº7.766/89, in verbis: (...) Fl. 1536DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.527 21 Art. 4º O ouro destinado ao mercado financeiro sujeitase, desde sua extração inclusive, exclusivamente à incidência do imposto sobre operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários. Parágrafo único. A alíquota desse imposto será de 1% (um por cento), assegurada a transferência do montante arrecadado, nos termos do art. 153, § 5º, incisos I e II, da Constituição Federal. (...) Art. 7º A pessoa jurídica adquirente fará constar, da nota fiscal de aquisição, o Estado, o Distrito Federal, ou o Território e o Município de origem do ouro. Art. 8º O fato gerador do imposto é a primeira aquisição do ouro, ativo financeiro, efetuada por instituição autorizada, integrante do Sistema Financeiro Nacional. (...) Art. 13. Os rendimentos e ganhos de capital decorrentes de operações com ouro, ativo financeiro, sujeitamse às mesmas normas de incidência do imposto de renda aplicáveis aos demais rendimentos e ganhos de capital resultantes de operações no mercado financeiro. Parágrafo único. O ganho de capital em operações com ouro não considerado ativo financeiro será determinado segundo o disposto no art. 3º, § 2º, da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988. Art. 14. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Art. 15 Revogamse as disposições em contrário.” (negritos nossos) Quanto à incidência do PIS e COFINS, entendese que as operações com ouro ativo financeiro praticadas por todos aqueles envolvidos (desde sua extração, operações de tratamento, refino, transporte, depósito ou custódia, conforme art. 1º da Lei nº 7.766/89) estão fora do campo de incidência dessas contribuições por expressa determinação constitucional, anteriormente transcrita. Esse é o mesmo entendimento do Professor Ricardo Alexandre que, explicando sobre a tributação do ouro ativo financeiro, afirma a impossibilidade de incidência de outros tributos, além do IOF, que incidam sobre mercadorias, conforme o trecho a seguir reproduzido: Quando o ouro é mercadoria, não há qualquer especificidade digna de nota, pois sobre ele incidirão os tributos que ordinariamente incidem sobre as mercadorias (ICMS, IP!, II, IE). Já nos casos em que o ouro é o próprio meio de pagamento, como se fora moeda, não há que se falar em cobrança de tributos que incidem sobre mercadorias, pois, a título de exemplo, se não incide ICMS sobre a circulação dos reais Fl. 1537DF CARF MF 22 usados para pagar determinado débito, também não pode incidir sobre o ouro' utilizado para quitar débito semelhante. 1 Nesse cenário, a afirmação da Recorrente, em sua defesa, de que o ouro ativo financeiro se sujeita normalmente a incidência do PIS e da COFINS em todas as operações envolvidas ao longo da sua cadeia não se mostra verdadeira, pois, conforme visto nos dispositivos legais anteriormente expostos, o ouro ativo financeiro tem uma carga tributária bastante reduzida se comparada como o do ouro mercadoria. Sobre as operações envolvendo o primeiro , os envolvidos na cadeia de produção do ouro ativo financeiro, desde a extração até chegar a instituição financeira, não pagam PIS e COFINS sobre essas operações, posto que são beneficiadas pela imunidade, excetuandose IOF. Tendo uma carga tributária menor, logicamente o ouro ativo financeiro/instrumento cambial tem um preço mais barato que o ouro mercadoria. As instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central a operarem com o ouro ativo financeiro, tais como as DTVMs, por sua vez, estão sujeitas ao regime cumulativo das Contribuições para o PIS e COFINS, incidindo essas contribuições sobre as receitas de serviços bancários (cobranças de tarifas) e as de intermediação financeira. Quanto a tributação das contribuições em comento nesse ramo de atividade, reproduzse o Parecer PGFN/CAT/Nº 2.773/2007, que trata da base de cálculo dessas contribuições devidas pelas instituições financeiras e seguradoras após o julgamento do RE 357.9509/RS, no qual fica claro que as instituições financeiras tem como receita apenas serviços para fins tributários, e destes a receita pelo serviço de intermediação financeira, não tendo receitas pela venda de mercadorias, in verbis: Segundo a Nota da Cosit, após a decisão do STF, diversos questionamentos foram levantados sobre a aplicação da referida decisão às instituições financeiras e às seguradoras, sob o argumento de que tais entidades não possuem “faturamento”, propriamente dito, pois argumentam as entidades que a palavra faturamento teria acepção própria, tecnicamente construída, e corresponderia, taxativamente, ao conjunto de receitas obtidas pela pessoa jurídica na venda de mercadorias e na prestação de serviços. Não se confundiria, nem se equipararia, com receitas outras, como as receitas financeiras das pessoas jurídicas que se dedicam à indústria, ao comércio ou à prestação de serviços. 3.Entretanto, continua mencionada Nota, resta equivocado o entendimento dado pelas instituições financeiras, com base no argumento referido, no sentido de que deverão recolher os tributos em pauta apenas sobre as tarifas de emissão de extratos ou de talões de cheque, entre outras assemelhadas, considerandoas unicamente como receitas de serviços. Sabese que a maior parte das receitas das instituições citadas decorre de atividades estritamente financeiras. As instituições alegam que não importa que essas receitas sejam consideradas operacionais, visto que o conceito de faturamento não é maleável a ponto de sofrer ampliações em função da natureza das atividades do contribuinte, conforme já decidido pelo STF. 4.O argumento utilizado pelas empresas de seguros não é diferente, neste caso tais empresas dizem que a receita de prêmios de seguros também não se enquadra no conceito de 1 Alexandre, Ricardo. Direito tributário I Ricardo Alexandre 11. ed. rev. atual. e amp1. Salvador Ed.JusPodivm, 2017. Fl. 1538DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.528 23 faturamento por não se tratar de venda de serviços, de mercadorias e de serviços e mercadorias. A Nota da Cosit prossegue afirmando: 8.Portanto, são frágeis os argumentos das instituições financeiras e seguradoras no que tange à não incidência dessas contribuições sobre suas receitas financeiras, sem que antes seja examinada a natureza jurídica dessas receitas em relação às suas atividades. 9.Com efeito, o enquadramento da atividade de bancos e de seguros no setor terciário da economia (serviços) é contemplado no Acordo Geral sobre Comércio de Serviços (GATS), firmado durante a rodada de negociações multilaterais promovidas no âmbito do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio 1994 (GATT 1994) – Rodada Uruguai, promulgada pelo Decreto nº 1.355, de 30 de dezembro de 1994. 9.1.O Acordo Geral sobre Comércio de Serviços (GATS) pode ser subdivido em dois grandes blocos. O primeiro é o próprio texto do Acordo contendo as regras e as obrigações aplicáveis a todos os Membros da OMC. O segundo é composto pelos anexos que tratam de problemas específicos de alguns setores. São eles: o anexo referente ao movimento de pessoas físicas fornecedoras de serviço, o anexo sobre os serviços de transportes aéreos e os de transportes marítimos, o anexo sobre serviços financeiros, e, finalmente, os anexos concernentes a telecomunicações. 9.2.O Anexo sobre Serviços Financeiros do GATS (em anexo), em seu item 5, efetua as seguintes determinações: 5. Definições: Para os fins do presente Anexo: Por serviço financeiro se entende todo serviço financeiro oferecido por um prestador de serviço de um Membro. Os serviços financeiros incluem os serviços de seguros e os relacionados com seguros e todos os serviços bancários e demais serviços financeiros (excluídos seguros). Os serviços financeiros incluem as seguintes atividades: Operações comerciais por conta própria ou para clientes, seja em bolsa, em mercado não cotado (overthemarket) ou, em outros casos, no que se segue: instrumentos do mercado monetário (inclusive cheques, letras de câmbio, certificados de depósito); divisas; produtos derivados, tais como, mas não exclusivamente, futuros e opções; instrumentos do mercado cambial e monetário, tais como “swaps” e acordos a prazo sobre juros; valores mobiliários negociáveis; outros instrumentos e ativos financeiros negociáveis, inclusive metal; [...] Fl. 1539DF CARF MF 24 10.Assim, entendese que, sendo essas atividades caracterizadas como serviços, as receitas delas provenientes são receitas de serviços, e, portanto, integrantes do faturamento.” [...] 33. Com efeito, o conceito de serviços não se limita àqueles assim caracterizados na legislação e na doutrina especificamente bancárias, na qual as atividades da instituições financeiras, em geral, discriminadas entre operações bancárias (em síntese, relacionadas à intermediação financeira) e serviços bancários (estes, em síntese, relacionados à prestação direta de serviços pelas instituições a seus usuários, clientes ou não, e normalmente remunerados sob a forma de tarifas). [...] h) serviços para as instituições financeiras abarcam as receitas advindas da cobrança de tarifas (serviços bancários) e das operações bancárias (intermediação financeira); [...] 66. Temse, então, que a natureza das receitas decorrentes das atividades do setor financeiro e de seguros pode ser classificada como serviços para fins tributários, estando sujeita à incidência das contribuições em causa, na forma dos arts. 2º, 3º, caput e nos §§ 5º e 6º do mesmo artigo, exceto no que diz respeito ao “plus” contido no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718, de 1998, considerado inconstitucional por meio do Recurso Extraordinário 357.9509/ RS e dos demais recursos que foram julgados na mesma assentada. A Fiscalização, ainda, discorreu de forma detalhada sobre as especificidades da sistemática de tributação do PIS e COFINS no ramo de atividade das instituições financeiras. Reproduzemse os trechos principais: A tributação das atividades financeiras pela Contribuição para o PIS e pela COFINS incide sobre suas receitas, assim consideradas conforme a definição do Plano de Contas Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional (COSIF). Uma característica da atividade financeira, que é refletida no COSIF, é a de reconhecer como receita o produto da intermediação financeira, que, na essência, é o objeto social dessas instituições. Assim, nos casos em que estas instituições transacionam com valores mobiliários, ou quaisquer outros ativos financeiros, é pacífico que o valor registrado a título de receita é o ganho ou a renda auferida na transação, seja ela de compra ou venda do ativo. O valor do ativo transacionado não compõe o conceito da receita das instituições financeira, como ocorre na empresa comercial ou industrial. Diante disto, quando os artigos 1º, 2º, da Lei nº9.718/98, definem a incidência do COFINS sobre a Receita Bruta da pessoa jurídica, o interprete deve entender, no caso de uma instituição financeira, que esta incidência se dá sobre o valor da receita auferida (fato gerador), tomando esta conforme as normas de contabilidade bancária assim a definem, e não sobre o valor da transação realizada, A propósito, esta transação, estritamente considerada pode nem resultar em receita, uma vez que pode haver perda na alienação de qualquer ativo. Fl. 1540DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.529 25 Dito isto, não pode ser aceita a argumentação no sentido de que a operação de venda de ouro financeiro por instituição financeira será uma operação sujeita ao pagamento das contribuições. E isto se opera pelo simples fato de que esta operação (a alienação de ativo financeiro) não é enquadrada no conceito de receita pelo COSIF. É oportuno lembrar que a forma de tributação pelo PIS e pela COFINS das instituições financeiras é disciplinada pelo art.95, da Instrução Normativa SRF nº247/2002. Basicamente, este dispositivo prevê que a base de cálculo mensal das contribuições das instituições financeiras seja apurada com o apoio da planilha prevista no anexo I da Instrução Normativa, onde as receitas das instituições financeiras, ao final de cada mês, seguindo a planificação contábil do Sistema Financeiro Nacional (COSIF), são enumeradas. Entre estas receitas, podemos encontrar a denominada "Rendas de Aplicações em Ouro", código 7.1.5.70.002. Segundo as instruções do Banco Central do Brasil, a função desta conta é registrar os ajustes positivos nas aplicações temporárias em ouro, que constituam receita efetiva da instituição no período. A tributação dessa receita não se confunde de maneira nenhuma com a tributação da transmissão de propriedade do ativo financeiro. O fato de um eventual rendimento auferido na alienação do ouro financeiro (eventual porque pode ser que haja perdas nesta tipo de operação, também) não significa que toda a operação de alienação do ativo tenha sido submetido à tributação. Destarte, concluise que na instituição financeira (DTVM) que recebe o ouro compromissado com natureza de ativo financeiro e o aliena a um investidor, a tributação do ouro não se dá sobre o valor do bem ouro alienado, mas tão somente sobre a receita de serviço de intermediação, incidindo sobre o ganho apurado entre a operação de compra e a de venda, se por ventura apurado, pois também se é possível apurar perda na operação. No caso ora analisado, tornase evidente que o produto (ouro) adquirido pela Recorrente, na sua origem, era, de fato, um ativo financeiro que possuía, pela Constituição e lei regulamentadora, características próprias bem distintas das do ouro mercadoria, mormente com relação as instituições autorizadas a operálo, documentação lastreadora das operações e sua forma de tributação privilegiada. Depreendese dos fatos até aqui narrados, que a Recorrente comprou um ativo financeiro e posteriormente, por vontade própria, transformouo em mercadoria, e consequentemente insumo, para aplicação no seu processo produtivo de purificação do ouro. Ressaltase que o produto adquirido foi um ativo financeiro da DTVM e não uma mercadoria, como faz crer a Recorrente. Em uma etapa posterior foi que o Contribuinte concretizou o seu animus de transformálo em mercadoria nova, quando então a utilizou como insumo. Entendo, assim, que a situação explicitada não gera direito a crédito porque a Recorrente, de forma originária, fez surgir a mercadoria que não existia nas operações anteriores, posto que o produto adquirido (ouro ativo financeiro) possuía características Fl. 1541DF CARF MF 26 próprias, distintas das mercadorias, não havendo que se falar em direito a crédito. Se a Recorrente optou pela transformação do ouro ativo financeiro em mercadoria isso deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro, então mercadoria, beneficiarse dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Ademais, ainda que se entenda que a empresa adquiriu um insumo, o que se admite apenas para efeito de argumentação, também este não faria jus ao crédito, por não ser possível aplicar a não cumulatividade nessa operação discutida por inexistência de crédito na operação anterior. Como se sabe, o princípio da não cumulatividade tem por finalidade limitar a incidência tributária nas cadeias de produção e circulação mais extensas, fazendo com que, a cada etapa da cadeia, o tributo somente incida sobre o valor adicionado nessa etapa. A não cumulatividade se materializa por meio da previsão de creditamento das aquisições antecedentes de uma cadeia de produção/comercialização. Se não há incidência na etapa antecedente, pela lógica da sistemática, não há direito a creditamento, a não ser que haja um claro propósito do legislador no sentido de incentivar uma determinada atividade. Porém, mesmo nesse último caso, o benefício deve ser expressamente previsto em lei. Nessa direção, há expressa vedação à apropriação de créditos das referidas contribuições, nos termos do art. 3º, § 2º, II, das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, a seguir reproduzido: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] § 2º Não dará direito a crédito o valor: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) [...] II da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição. (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (negritos nossos) No caso concreto, restou comprovado que o bem adquirido pela Recorrente (ouro ativo financeiro), além de não ser mercadoria no momento da aquisição, também não se sujeitou o bem, ouro ativo financeiro, a incidência das contribuições ao PIS e a COFINS ao longo da sua cadeia, desde a extração até a negociação do ativo financeiro pela DTVM, o que torna inviável a possibilidade de creditamento dessas contribuições na operação de aquisição do bem. A essa mesma conclusão chegou a Conselheira Relatora Liziane Angelotti Meira Nessa no acórdão nº 3301004.675, da 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, que, em julgamento dos mesmos elementos fáticojurídicos da própria Recorrente, mas de período de apuração diferente, concluiu pela impossibilidade de creditamento na operação de aquisição do ouro na forma aqui discutida, conforme sintetizado na ementa a seguir reproduzida: Fl. 1542DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.530 27 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012 OURO ATIVO FINANCEIRO / INSTRUMENTO CAMBIAL. CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Quando se adquire ouro na forma de ativo financeiro / instrumento cambial não se está adquirindo uma mercadoria (um insumo). A instituição financeira não deu destino diverso ao ouro ativo financeiro, nem poderia. A alteração dessa condição vantajosa, para que o ouro seja considerado uma mercadoria, deverá vir acompanhado das consequências tributárias que esse fato vier a gerar, com a regência das normas impositivas do ICMS, do IPI, do PIS e da Cofins, e só a partir da primeira venda como mercadoria poderá o adquirente do ouro então mercadoria se beneficiar dos créditos por ventura gerados, em conformidade com as leis de regência, antes não. Sobre o bem ouro ativo financeiro não houve incidência da contribuição do PIS. Por fim, cabe informar à Recorrente que as conclusões tomadas no acórdão nº3302001.492, de lavra do ilustre Conselheiro Gileno Gurjão, não tem relação com o caso ora analisado. pois lá foi discutido o direito a ressarcimento de crédito presumido de IPI na exportação previsto na Lei nº 9.363/96, no qual não é imprescindível a incidência das contribuições em comento sobre as aquisições de insumos para a requerente fazer jus ao ressarcimento (REsp nº 993.164 MG), enquanto no presente caso, em não havendo previsão legal de regra ou benefício especial de creditamento, o Contribuinte para ter direito a crédito deve adquirir o bem a ser utilizado como insumo necessariamente com incidência das referidas contribuições, nos termos estabelecidos nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003. Além do mais, conforme já anteriormente indicado no presente voto, o ouro adquirido nessa situação é ativo financeiro e não mercadoria (insumo), posição divergente, portanto, daquela do ilustre Relator no citado acórdão. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo Relator Declaração de Voto 1. Com a devida vênia, ouso divergir do bem fundamentado voto do I. Relator do caso, o que passo a fazer nos seguintes termos. Fl. 1543DF CARF MF 28 2. Antes, todavia, de apresentarmos nossas conclusões, mister se faz nesse instante elucidar dois pontos que são fundamentais para o deslinde da presente contenda. 3. Primeiramente, insta registrar que não há dúvida quanto ao tratamento contábil atribuído pelas DTVM´s, de quem a recorrente adquire o ouro aqui questionado, na presente operação; tais empresas tratam a operação com ouro como se ativo financeiro fosse, submetendo, pois, tal operação à incidência de IOF, bem como ao PIS e à COFINS no regime cumulativo. Tanto é verdade que a declaração prestada pelas DTVM's na sua Escrituração Fiscal Digital EFD contribuições é no sentido de tratar como "rendas com títulos e valores mobiliários e instrumentos e instrumentos financeiros" aquelas receitas decorrentes das aplicações com ouro. 4. Também não existem dúvidas quanto ao objeto social da recorrente2 nem quanto ao destino dado ao ouro por ela adquirido das DTVM's. É inconteste nos autos o seu emprego como insumo para fins de industrialização. Nesse sentido, inclusive, é o teor de parte do Termo de Relatório Fiscal (fls. 839 e s.s.): (...). (...). 5. Aliás, do trecho alhures transcrito, é possível perceber que a fiscalização não nega a possibilidade do ouro ser juridicamente tratado como mercadoria e não como ativo financeiro, nos exatos termos do art. 155, § 2º, inciso X, alínea "c" da Constituição Federal. Todavia, no presente caso em concreto, a fiscalização afasta esta possibilidade uma vez que aqui (i) o ouro foi adquirido de instituição financeira na qualidade de ativo financeiro, o que (ii) estaria devidamente comprovado nos documentos fiscais emitidos pelas DTVM's e que materializaram a operação em análise. Logo, o ulterior tratamento fiscal e contábil dado pela recorrente não seria hábil para desnaturar tal operação jurídica e, por conseguinte, transmutar a qualidade do ouro adquirido pela recorrente de ativo financeiro para mercadoria. 2 Industrialização de metais preciosos, inclusive ouro, conforme cláusula 5a do se contrato social (fls. 19 e s.s.). Fl. 1544DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.531 29 6. Assim, sob uma perspectiva estritamente formal, assiste razão à fiscalização, bem como ao bem fundamentado voto do d. Relator do caso. Acontece que, a depender de determinadas particularidades fáticas do caso em concreto, a forma deve ceder espaço à essência do ato jurídico praticado, sob pena de se prestigiar um indevido formalismo exacerbado. 7. Tratando de tal questão sob uma perspectiva contábil, o que se afirma aqui é que os registros contábeis não têm o condão de criar uma realidade jurídica, já que a contabilidade deve limitarse a registrar fatos e não criálos. Ao encontro de tal assertiva, é a mudança sofrida nos últimos anos no sentido de promover a convergência da contabilidade brasileira às regras internacionais. Aliás, a respeito do tema, assim se pronuncia a Comissão de Valores Mobiliários por intermédio do seu parecer de orientação n. 37/2011, in verbis: (...) Dois conceitos interrelacionados são essenciais para o entendimento dessa nova realidade contábil: (i) a representação verdadeira e apropriada; e (ii) a primazia da essência sobre a forma. A contabilidade somente cumprirá sua função essencial de fornecer informações úteis ao processo de tomada de decisão de seus usuários se refletir verdadeiramente a realidade econômica subjacente. Para que essa representação apropriada (true and fair view) possa ser alcançada, é importante observar a primazia da essência econômica sobre a forma jurídica dos eventos econômicos. Dessa forma, com a mudança iniciada com a edição da Lei 11.638, de 2007, resgatase a característica fundamental das demonstrações contábeis, que devem representar fidedignamente a realidade dos efeitos econômicos das transações, independentemente do seu tratamento jurídico. (...) (grifos nosso). 8. Logo, um eventual equívoco nos registros contábeis das DTVM's para fins de materialização da operação fiscalizada não pode ser capaz de desnaturála em sua substância. 9. Pois bem. Feitos tais esclarecimentos convém repisar que as DTVM's indevidamente registraram que as operações aqui fiscalizadas (de venda de ouro para a recorrente) geraram receitas que foram rubricadas como "rendas com títulos e valores mobiliários e instrumentos e instrumentos financeiros". Além disso, submeteram tal operação ao IOF e ao PIS e a COFINS não cumulativos, na medida em que deram saída de tais bens na qualidade de ativos financeiros. 10. Acontece que tais empresas erraram em seus registros contábeis, uma vez que deveriam ter apontado as operações aqui tratadas como realizadoras de receita bruta, nos termos do art. 12, inciso I do Decreto n. 1.598/77, já que decorrentes de venda de ouro como mercadoria, operação esta que foge do espectro das suas atividades empresariais ordinárias e que, portanto, não pode ser originária de receita operacional3. 3 Segundo o CPC 30, vigente à éopoca dos fatos, apenas as atividades ordinárias de uma empresa se enquadram no conceito de receitas operacionais, conforme se observa do citado pronunciamento abaixo transcrito: Fl. 1545DF CARF MF 30 11. Tal equívoco contábil, entretanto, não é suficiente para, a priori, desnaturar a operação realizada entre as DTVM's e a recorrente como uma operação de venda de ouro mercadoria e não de ouro como ativo financeiro. Todavia, para efetivamente precisar se no específico caso sob julgamento o ouro adquirido pela recorrente é de fato mercadoria, mister se faz destacar o parecer emitido pela Deloitte Brasil Auditores Ltda. (fls. 1.228/1.244). 12. Conforme se observa do sobredito parecer, a Auditoria independente analisou os seguintes documento fiscais e contábeis da recorrente para o período objeto da autuação: (i) escrituração contábil digital (ECD); (ii) escrituração fiscal digital do ICMS e do IPI (EFD Fiscal); (iii) escrituração fiscal digital contribuições (EFD Contribuições); (iv) demonstrativo de apuração de contribuições sociais (DACON); e, ainda (v) notas fiscais de entrada (por amostragem e aleatórias) do ouro adquirido pela recorrente junto as DTVM's. 13. Depois de analisar tal documentação, assim concluiu o citado parecer: (...). O ouro adquirido junto às DTVMs pela Umicore foi tratado contabilmente como estoque de matériaprima. Do ponto de vista fiscal, as transações foram apresentadas como entrada de mercadoria para insumo de produção; O ouro, mesmo que inicialmente tenha sido classificado pela DTVM como ativo financeiro, deve ser classificado como mercadoria pelo adquirente industrial, quando for destinado para produção como matériaprima, e, nesse sentido, sua classificação como insumo do processo industrial, sob os aspectos contábeis e fiscais, reflete aquela que melhor expressa sua natureza. Ou seja, havendo destinação diferente do mercado financeiro, o ouro adquirido passa a ser tratado como “ouro mercadoria”. Assim, no caso específico da Umicore, do ponto de vista contábil e fiscal, a classificação do ouro como insumo é aquele que melhor expressa sua natureza; Quando da entrada do ouro na Umicore, a mesma emite nota fiscal de entrada eletrônica de emissão própria registrandoa como compra de ouro para industrialização, haja vista que a Sociedade utilizará o ouro adquirido como matériaprima na produção de lingotes que serão revendidos futuramente. Este procedimento atende o disposto estabelecido no art. 136 da Regulamento do ICMS, o qual estabelece a necessidade do contribuinte emitir nota fiscal no momento em que entrar no estabelecimento, real ou simbolicamente, mercadoria ou bem. Assim, é possível afirmar que o procedimento adotado pela Umicore de emitir nota fiscal de entrada está em consonância "Receita é o ingresso bruto de benefícios econômicos durante o período observado no curso das atividades ordinárias da entidade que resultam no aumento do seu patrimônio líquido, exceto os aumentos de patrimônio líquido relacionados às contribuições dos proprietários." Fl. 1546DF CARF MF Processo nº 16095.720023/201212 Acórdão n.º 3402005.581 S3C4T2 Fl. 1.532 31 com aquilo disposto na legislação fiscal vigente. No que tange ao CFOP utilizado na nota fiscal de entrada, entendemos que o mesmo reflete a destinação pretendida da matéria prima pela Umicore e, portanto, o CFOP utilizado pela Sociedade está condizente com a natureza da transação realizada pela Sociedade; A Umicore, com base em seu relatório de produção, demonstra a entrada do ouro bruto como insumo e sua remessa para o processo de refino, bem como é possível identificar o ingresso no estoque de produto acabado; e As entradas de ouro entre outubro de 2006 e dezembro de 2012, em sua totalidade, foram destinadas ao processo industrial como insumo, não tendo sido dada qualquer outra destinação diversa, tal como ativo financeiro. (...) (g.n.). 14. Percebese, pois, que segundo o citado parecer contábil, a integralidade do ouro adquirido pela recorrente junto as DTVM's no período fiscalizado foi utilizado na qualidade de insumo para a sua produção, o que, conjugado com os equívocos quanto aos registros contábeis perpetrados pelas DTVM's, desvela a verdadeira natureza da operação empresarial aqui debatida: a aquisição de ouro mercadoria e não de ouro ativo financeiro. 15. Tais conclusões são reforçadas quando se observa as notas fiscais emitidas pelas DTVM's para a recorrente (fls. 684/806), tal como a exemplarmente colacionada abaixo: Fl. 1547DF CARF MF 32 16. Ao se analisar o campo "característica da operação" da nota fiscal alhures o que se observa é a transferência do ouro mercadoria, inclusive com a indicação da quantidade de gramas que está sendo transferida da DTVM para a recorrente. Se de fato a operação fosse de venda de ouro como ativo financeiro, o que seria transmitido da DTVM para a recorrente seria um direito, materializado em um título e lastreado em ouro, mas não o metal precioso propriamente dito. 17. Diante deste quadro e, em especial, levando em consideração as particulares circunstâncias fáticas que gravitam em torno do caso em julgamento, resta claro que a recorrente de fato adquiriu ouro mercadoria e, como tal, faz jus a manutenção dos créditos indevidamente glosados pela fiscalização. 18. Nesse sentido, ouso divergir do d. Relator do caso para dar integral provimento ao recurso voluntário interposto pelo contribuinte. 19. É como voto. (assinado digitalmente) Diego Diniz Ribeiro Fl. 1548DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11131.001017/2008-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Sep 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Ano-calendário: 2007
LICENCIAMENTO DE IMPORTAÇÃO. NECESSIDADE DE LICENCIAMENTO ESPECÍFICO.
A licença de importação que se exige, para fins de aplicação de multa por ausência do referido documento, deve acobertar exatamente o produto importado, permitindo que lhe seja dado o adequando tratamento alfandegário.
MULTA POR CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA. PENALIDADE OBJETIVA.
Aplica-se a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria classificada de maneira incorreta na Nomenclatura Comum do Mercosul, conforme estabelece o inciso I, do artigo 84, da MP 2.158-35/2001.
Numero da decisão: 3201-004.058
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente.
(assinado digitalmente)
Tatiana Josefovicz Belisário - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: TATIANA JOSEFOVICZ BELISARIO
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Anocalendário: 2007 LICENCIAMENTO DE IMPORTAÇÃO. NECESSIDADE DE LICENCIAMENTO ESPECÍFICO. A licença de importação que se exige, para fins de aplicação de multa por ausência do referido documento, deve acobertar exatamente o produto importado, permitindo que lhe seja dado o adequando tratamento alfandegário. MULTA POR CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA. PENALIDADE OBJETIVA. Aplicase a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria classificada de maneira incorreta na Nomenclatura Comum do Mercosul, conforme estabelece o inciso I, do artigo 84, da MP 2.15835/2001. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente. (assinado digitalmente) Tatiana Josefovicz Belisário Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 13 1. 00 10 17 /2 00 8- 71 Fl. 229DF CARF MF Processo nº 11131.001017/200871 Acórdão n.º 3201004.058 S3C2T1 Fl. 230 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza, Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laércio Cruz Uliana Junior. Relatório Tratase de Recurso Voluntário apresentado pelo Contribuinte em face do acórdão nº 1676.166, proferido pela 22ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento São Paulo II (SP), que assim relatou o feito: A empresa VULCABRAS DISTRIBUIDORA DE ARTIGOS ESPORTIVOS LTDA., CNPJ nº 08.193.994/000111, foi autuada através deste processo pela classificação fiscal das mercadorias em desconformidade com as regras do Sistema Harmonizado e ausência de Licença de Importação (LI), cujo montante totalizou R$ 20.637,36. A autuação teve como objeto mercadorias importadas da China através das seguintes Declarações de Importação (DI) / Adições: DI nº 07/00997835/001; DI nº 07/00997835/002 e DI nº 07/03531489/001. A fiscalização fundamentou a autuação nos fatos abaixo descritos. 1 – Multa por classificação incorreta de mercadorias importadas: As mercadorias foram classificadas pela importadora no código tarifário (NCM) 6211.33.00 (abrigos para esporte, de uso masculino), ocorre que os documentos instrutivos das DI, bem como os catálogos apresentados, revelam a importação de jaquetas de fibras sintéticas, de uso masculino; De acordo com o teor da Nota Explicativa do Sistema Harmonizado referente a posição 6211, letra ‘A’, os abrigos abarcados por essa posição, necessariamente, devem ser constituídos por duas peças, uma para cobrir a parte superior do corpo e a outra para cobrir a parte inferior. Já as jaquetas importadas são peças individuais para utilização sobre outra peça de cobertura da parte superior do corpo; De acordo com o teor da Nota Explicativa da posição 6101 combinado com o teor da Nota Explicativa da posição 6201, as jaquetas classificamse nessa última posição; As mercadorias deveriam ter sido classificadas no código (NCM) 6201.93.00, de acordo com a 1ª e 6ª RGI do Sistema Harmonizado (texto da posição 6201 e da subposição 6201.93) e RGC 1, além das notas explicativas das posições 6101 e 6201; Fl. 230DF CARF MF Processo nº 11131.001017/200871 Acórdão n.º 3201004.058 S3C2T1 Fl. 231 3 A classificação de mercadorias em código tarifário diverso ao que deveria ter sido adotado constitui infração administrativa ao controle das importações, que deve ser penalizada com a multa prevista no artigo 636, inciso I (1% VA), do Regulamento Aduaneiro de 2002, vigente à época dos fatos, com a redação dada pelo artigo 84 da Medida Provisória nº 2.15835/2001. 2 – Multa por ausência de Licença de Importação (LI): A partir de 03/04/2006, as importações de mercadorias classificadas no código tarifário (NCM) 6201.93.00 ficaram sujeitas a licenciamento não automático pela SECEX, em decorrência da inclusão de cota para importações originárias da China; As mercadorias classificadas no código (NCM) 6211.33.00 também estavam sujeitas a licenciamento não automático, todavia, tal licenciamento não tinha como fundamento a existência de cotas em razão da origem das mercadorias; Tendo em vista que as DI foram registradas após 03/04/2006, configurouse a falta de licenciamento para as importações realizadas, o que determinou a aplicação da multa prevista pelo artigo 633, inciso II, alínea ‘a’, do Regulamento Aduaneiro de 2002. A empresa VULCABRAS DISTRIBUIDORA DE ARTIGOS ESPORTIVOS LTDA. foi cientificada da autuação em 03/09/2008 (fls. 5 e 11), tendo apresentado impugnação e documentos em 20/09/2008 (fls. 162 a 193). A unidade preparadora considerou tempestiva a impugnação apresentada (fl. 194). A defesa alegou: 1. De início, descreveu as infrações apontadas pela fiscalização; 2. A tempestividade da impugnação; 3. As infrações autuadas têm origem numa única contestação, qual seja, a classificação incorreta das mercadorias na importação; 4. A empresa obteve Licenças de Importação previamente a operação de importação para as DI nº 07/00997835 e nº 07/03531489; 5. As multas pretendidas em razão da classificação fiscal equivocada não são razoáveis, ante ao que dispõe os Atos Declaratórios Normativos nº 10, de 16/01/1997, e nº 12, de 21/01/1997. Reproduziu a legislação citada. Entende presentes as condições previstas pelos referidos Atos Declaratórios Normativos para afastamento das multas a ela indevidamente aplicadas; 6. A impugnante incorreu em equivoco, porém, não houve dolo ou máfé, pois as reclassificações adotadas pela fiscalização não importaram em qualquer diferença tributária a pagar, tanto que nenhum imposto está sendo exigido. As reclassificações Fl. 231DF CARF MF Processo nº 11131.001017/200871 Acórdão n.º 3201004.058 S3C2T1 Fl. 232 4 determinadas pela fiscalização possuem as mesmas alíquotas de Imposto de Importação e Imposto sobre Produtos Industrializados; 7. Os produtos importados foram corretamente descritos, em conformidade com os respectivos catálogos, que inclusive foram fornecidos à fiscalização; 8. Há que se aplicar ao caso os preceitos contidos nos Atos Declaratórios Normativos nº 10 e 12, ambos de 1997. Os equívocos cometidos pela impugnante não se configuram como infrações puníveis com multas. Reproduziu acórdãos administrativos e acórdão exarado pelo Poder Judiciário; 9. Citou o princípio da razoabilidade e alegou que o erro, ainda que seja admitido, é completamente escusável; 10. Ao final, pugnou pelo acolhimento da impugnação, para que o auto de infração seja anulado, com o afastamento das multas impostas, que não se coadunam com os Atos Declaratórios Normativos COSIT nº 10 e 12, de 1997, tampouco com a razoabilidade que deve pautar os atos administrativos. Após exame da Impugnação apresentada pelo Contribuinte, a DRJ proferiu acórdão assim ementado: Assunto: Classificação de Mercadorias Anocalendário: 2007 MULTA POR CLASSIFICAÇÃO FISCAL INCORRETA Aplicase a multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria classificada de maneira incorreta na Nomenclatura Comum do Mercosul, conforme estabelece o inciso I, do artigo 84, da MP 2.15835/2001. LICENCIAMENTO DE IMPORTAÇÃO. Nos termos do Ato Declaratório Normativo COSIT nº 12/1997, somente é afastada a multa por falta de licença de importação nos casos em que a mercadoria é corretamente descrita, com todos os elementos necessários a sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Inconformado, o Contribuinte apresentou Recurso Voluntário reiterando os argumentos de defesa apresentados questionando a aplicação da multa por falta de licença de importação, por entender que as licenças foram apresentadas, ainda que sob classificação fiscal diversa da utilizada pelo Fisco, bem como a multa por classificação fiscal incorreta, por entender não ter ocorrido dolo ou máfé. Após os autos foram remetidos a este CARF e a mim distribuídos por sorteio. Fl. 232DF CARF MF Processo nº 11131.001017/200871 Acórdão n.º 3201004.058 S3C2T1 Fl. 233 5 É o relatório. Voto Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário Relatora O Recurso é próprio e tempestivo, portanto, dele tomo conhecimento. Conforme relatado, não está em litígio a classificação fiscal das mercadorias importadas. A reclassificação efetuada pela Fiscalização não foi questionada pelo contribuinte. O Recurso Voluntário apresentado tem dois únicos pedidos: (i) o afastamento da multa por ausência de Licença de Importação, uma vez que as mercadorias importadas teriam sido devidamente licenciadas, ainda que sob classificação fiscal diversa; bem como (ii) o afastamento da multa por classificação incorreta das mercadorias importadas (NCM), uma vez que inexistiu intenção fraudulenta por parte do importador e também não houve diferença de tributo lançado. Quanto à multa por falta de licença de importação, assim relatou a DRJ: 2 – Multa por ausência de Licença de Importação (LI): · A partir de 03/04/2006, as importações de mercadorias classificadas no código tarifário (NCM) 6201.93.00 ficaram sujeitas a licenciamento não automático pela SECEX, em decorrência da inclusão de cota para importações originárias da China; · As mercadorias classificadas no código (NCM) 6211.33.00 também estavam sujeitas a licenciamento não automático, todavia, tal licenciamento não tinha como fundamento a existência de cotas em razão da origem das mercadorias; · Tendo em vista que as DI foram registradas após 03/04/2006, configurouse a falta de licenciamento para as importações realizadas, o que determinou a aplicação da multa prevista pelo artigo 633, inciso II, alínea ‘a’, do Regulamento Aduaneiro de 2002. Ou seja, é incontroverso que tanto o NCM utilizado pelo Recorrente, quanto aquele reclassificado pela Fiscalização, estavam sujeitos ao licenciamento não automático. Pelo Termo de Verificação Fiscal, constatase que a Recorrente possuia licença de importação para produtos classificados na NCN 6211.93.00 (NCM utilizada), mas não possuia licença para o produto de NCM 6201.93.00 (NCN reclassificado: Conforme exposto no item 3.2, em razão da VULCABRAS DISTRIBUIDORA ter registrado importações depois de 03/04/2006 para as quais a licença não automática concedida Fl. 233DF CARF MF Processo nº 11131.001017/200871 Acórdão n.º 3201004.058 S3C2T1 Fl. 234 6 pelo Secex/Decexi foi com base em informação diversa a que deveria ter sido prestada, enquadramento no código tarifário da NCM 6211.93.00 e não no 6201.93.00 (fls. ), ainda mais porque a LI para o NCM correto é exigida em virtude de existência de quota para produto originário da China, configurase a realização de importação sem licença. (fl. 17 eprocesso) A DRJ negou o pleito de afastamento da multa por ausência de licenciamento por entender não ser aplicável à espécie o comando exonerativo previsto no Ato Declaratório Normativo COSIT nº 12/1997, já que as mercadorias importadas não estavam corretamente descritas. Estabelece o referido ato normativo: ADN COSIT nº 12/1997 “O COORDENADORGERAL DO SISTEMA DE TRIBUTAÇÃO (…) declara, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal, às Delegacias da Receita Federal de Julgamento e aos demais interessados, que não constitui infração administrativa ao controle das importações, nos termos do inciso II do art. 526 do Regulamento Aduaneiro, a declaração de importação de mercadoria objeto de licenciamento no Sistema Integrado de Comércio Exterior SISCOMEX, cuja classificação tarifária errônea ou indicação indevida de destaque "ex" exija novo licenciamento, automático ou não, desde que o produto esteja corretamente descrito, com todos os elementos necessários à sua identificação e ao enquadramento tarifário pleiteado, e que não se constate, em qualquer dos casos, intuito doloso ou má fé por parte do declarante.” Em seu Recurso Voluntário, a contribuinte não reitera o argumento de aplicação do ADN COSIT nº 12/97, embora tenha arguido em sede de Impugnação. O pleito recursal é no sentido de que os produtos importados estavam amparados por licença de importação, ainda que esta licença fosse aplicável apenas ao NCM informado e não ao NCM reclassificado. Pois bem. Não obstante ambas as classificações fiscais, tanto a utilizada pelo contribuinte, como a imposta pela Fiscalização, imponham o licenciamento não automático, não se pode afirmar que tais licenciamentos sejam equivalentes. Ou seja, as razões que impõem o licenciamento não automático de determinado produto são diversas daquelas previstas para produto distinto. Ainda que ambas estejam sujeitas ao mesmo procedimento de licenciamento, os aspectos a serem analisados em cada um deles são distintos. Desse modo, considerando que o bem jurídico tutelado pelas multas aduaneiras é, em primeira análise, a regulação das operações de importação, tenho que esta resta prejudicada na hipótese presente, pois houve embaraço ao procedimento de licenciamento. Fl. 234DF CARF MF Processo nº 11131.001017/200871 Acórdão n.º 3201004.058 S3C2T1 Fl. 235 7 Quanto à multa por classificação incorreta, não assiste razão à Recorrente. As penalidades aduaneiras prescindem de dolo ou máfé. São imputações objetivas e o mero descumprimento da exigência legal atrai a incidência da penalidade prevista. Logo, sendo incontroverso que o NCN utilizado estava incorreto, atraise a aplicação da multa respectiva. É nesse aspecto que também se faz despicienda a existência de dano ao erário. As regras aduaneiras têm como bem jurídico tutelado a regulação aduaneira, com vista à preservação e controle do mercado interno. O dano ao erário é meramente secundário e, quando existentes, são punidos com as penalidades tributárias (e não aduaneiras). Pelo exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário do Contribuinte. É como voto. Tatiana Josefovicz Belisário Fl. 235DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11080.721630/2010-75
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Sep 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2008
IMPOSTO DE RENDA. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. CUSTO DE AQUISIÇÃO.
Para fins de apuração de ganho de capital, nos casos de herança, o custo de aquisição será o valor pelo qual os foram transferidos.
IMPOSTO DE RENDA. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. BENFEITORIAS.
Somente entrarão no cômputo do custo de aquisição do imóvel rural, para fins de apuração do ganho de capital, os custos das benfeitorias (construções, instalações e melhoramentos) que não tiverem sido deduzidos como despesa de custeio, na apuração do resultado da atividade rural.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 2202-004.631
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Presidente
(assinado digitalmente)
Martin da Silva Gesto - Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Martin da Silva Gesto, Waltir de Carvalho, Rosy Adriane da Silva Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson.
Nome do relator: MARTIN DA SILVA GESTO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2008 IMPOSTO DE RENDA. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. Para fins de apuração de ganho de capital, nos casos de herança, o custo de aquisição será o valor pelo qual os foram transferidos. IMPOSTO DE RENDA. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. BENFEITORIAS. Somente entrarão no cômputo do custo de aquisição do imóvel rural, para fins de apuração do ganho de capital, os custos das benfeitorias (construções, instalações e melhoramentos) que não tiverem sido deduzidos como despesa de custeio, na apuração do resultado da atividade rural. Recurso Voluntário Negado
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson - Presidente (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto - Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Martin da Silva Gesto, Waltir de Carvalho, Rosy Adriane da Silva Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson.
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GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. CUSTO DE AQUISIÇÃO. Para fins de apuração de ganho de capital, nos casos de herança, o custo de aquisição será o valor pelo qual os foram transferidos. IMPOSTO DE RENDA. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. BENFEITORIAS. Somente entrarão no cômputo do custo de aquisição do imóvel rural, para fins de apuração do ganho de capital, os custos das benfeitorias (construções, instalações e melhoramentos) que não tiverem sido deduzidos como despesa de custeio, na apuração do resultado da atividade rural. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 72 16 30 /2 01 0- 75 Fl. 235DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 236 2 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Martin da Silva Gesto, Waltir de Carvalho, Rosy Adriane da Silva Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto nos autos do processo nº 11080.721630/201075, em face do acórdão nº 1042.284, julgado pela 4ª Turma da Delegacia Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre (DRJ/POA), em sessão realizada em 23 de janeiro de março de 2013, no qual os membros daquele colegiado entenderam por julgar procedente em parte a impugnação apresentada pelo contribuinte. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da DRJ de origem que assim os relatou: " Através do Auto de Infração está sendo exigido da contribuinte o imposto suplementar no valor de R$267.269,00 relativos aos exercícios de 2008 e 2009 em decorrência de omissão de ganho de capital na alienação de bens e direitos. A descrição dos fatos e a legislação infringida constam do referido Auto de Infração. O total do crédito tributário é de R$ 529.731,35. Na impugnação a contribuinte argumenta, em síntese, que: OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE BENS IMÓVEIS a fiscalização não considerou as benfeitorias realizadas nos imóveis rurais alienados, informadas destacadamente na declaração do ITR do exercício de 2007 (ano de alienação) e nas escrituração públicas de 10/06/2008 relativos aos imóveis alienados a empresa Aracruz Celulose S/A; as benfeitorias foram agregadas à terra nua ao longo de décadas, e consideradas como receita da atividade rural no ano calendário de 2008; tais benfeitorias se constituem em desembolsos das mais variadas naturezas ( moradias de empregados, galpões, mangueiras....) as quais normalmente foram realizadas com a mão de obra dos empregados e que nunca foram questionadas no passado; transcreve ementas de decisões administrativas para corroborar seu entendimento de que a prova das benfeitorias pode ser admitida nos valores que contam da Declaração do Imposto Territorial Rural, na escritura ou nas declarações de bens da atividade rural; conforme orientação extraída do sitio da RFB, nos casos em que o imóvel rural pertença ao espólio, o inventariante, enquanto não ultimada a partilha, a DITR deve ser apresentada pelo espólio, orientação essa seguida rigorosamente pela contribuinte, na consideração de inventariante; Fl. 236DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 237 3 na apuração do ganho de capital foram desconsiderados os valores informados na DIAT do ano de alienação (2007) não podendo ser exigido a DIAT do ano de aquisição tendo em vista que os imóveis foram transferidos aos herdeiros em 16/05/2007 (data do trânsito em julgado; a apresentação da DIAT foi regularmente feita em 2007, o que a própria autuante reconhece, sendo que o valor declarado deveria ser considerado para apuração do ganho de capital; a fiscalização adotou como ano de aquisição dos imóveis havidos por herança o ano de 2004, contrariando o própria orientação da RFB, uma vez que o adquirente, por herança só pode/deve declarar o imóvel após o encerramento do inventário, como poderia criar uma declaração com data de 2004 quando o espólio já havia apresentado sua declaração, pago tributos especialmente o ITR; a pergunta nº 587 do Perguntas e Respostas orienta no sentido de que estaria isento o produto que superasse o VTN declarado, o que resultaria em restituição do IR que foi indevidamente recolhido; o art. 136 do RIR corrobora a orientação da pergunta nº 587, uma vez que se o valor tributável da terra nua é o mesmo em 2007 e 2008, embora tenha recebido valor superior, esse cotejo deve ser pelos VTNs iguais, resultando zero de ganho de capital; com base no princípio da legalidade, cabe essa DRJ reconhecer a restituição do imposto pago indevidamente; discorda da aplicação da multa de ofício por sua natureza confiscatória e por ser inconstitucional.” A DRJ de origem entendeu pela procedência em parte da impugnação apresentada pelo contribuinte, assim, alterouse o imposto incidente sobre o ganho de capital para R$94.350,00 (agosto/2007), R$87.879,18(fevereiro/2008), R$62.311,54 (junho/2008), mantendo o valor de julho de 2008. A contribuinte, inconformada com o resultado do julgamento, apresentou recurso voluntário, às fls. 221/229, reiterando, em parte, as alegações expostas em impugnação quanto ao que foi vencida. É o relatório. Voto Conselheiro Martin da Silva Gesto Relator O recurso voluntário foi apresentado dentro do prazo legal, reunindo, ainda, os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, dele conheço. Omissão de Ganho de Capital Fl. 237DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 238 4 Em 31/08/2007, foram alienados pela impugnante e sua irmã Doris (vendedoras) para a empresa Aracruz Celulose S/A (compradora) áreas de terras localizada no município de São Gabriel/RS mediante dois contratos de promessa de compra e venda (fls.51/56 e 57/60). Nas escrituras de compra e venda constam: Na impugnação apresentada ao juízo de primeira instância a contribuinte insurgiase contra: 1º) a data de aquisição dos imóveis havidos por herança; 2°) as benfeitorias que não foram comutadas no custo de aquisição das áreas de terras alienadas; 3º) o valor do custo de aquisição dos imóveis alienados atribuídos pelo fisco, tendo em vista que o correto seria o valor do VTN mais benfeitorias informados na Diat do ano de alienação; Sobre a data de aquisição do imóvel Em relação data de aquisição do imóvel, a DRJ reconheceu que no caso dos imóveis havidos por herança de Lourdes Macedo Reverbel Silveira, cujo o óbito se deu em 2004, a data de aquisição a ser considerada para fins de apuração do ganho de capital é 19/04/2004. Sobre o Custo de aquisição Para a área de 163,00ha havidas por herança de Djalma Gomes da Silveira, pai da contribuinte, a fiscalização considerou corretamente a data de aquisição 12/12/1977 e como custo de aquisição o valor de R$90.943,20 conforme registrado na declaração de bens/2004 (fls.109). Como já bem referido pela DRJ de origem, não se pode aceitar como custo de aquisição do referido imóvel o valor de R$ 163.200,00 (fls. 93) informado na declaração de ajuste anual do exercício de 2008 (situação em 2006), tendo em vista que inexiste previsão legal para atualizar a correção dos bens. Fl. 238DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 239 5 Quanto a área de terras de 170ha da Fazenda Rincão havidos por doação de sua mãe, em 27/12/2002, o custo de aquisição é montante de R$ 200.000,00 constante da declaração ajuste anual do exercício de 2008 (fl.93). Para o restante das áreas foram herdadas de Lourdes Macedo Reverbel da Silveira, cujo o óbito ocorreu em 2004 , conforme Declaração Final de Espólio com trânsito em julgado da decisão judicial em 16/05/2007, o custo de aquisição deve ser apurado com base na Instrução Normativa SRF nº 84, de 11 de Outubro de 2001, em seu art. 20, que dispõe: Art. 20. Na transferência de propriedade de bens e direitos, por sucessão causa mortis, a herdeiros e legatários; por doação, inclusive em adiantamento da legítima, ao donatário; bem assim na atribuição de bens e direitos a cada excônjuge ou ex convivente, na hipótese de dissolução da sociedade conjugal ou união estável, os bens e direitos são avaliados a valor de mercado ou considerados pelo valor constante na Declaração de Ajuste Anual do de cujus, doador, excônjuge ou exconvivente declarante, antes da dissolução da sociedade conjugal ou união estável. § 1º Nos casos em que o de cujus, doador, excônjuge ou ex convivente não houver apresentado Declaração de Ajuste Anual, por não se enquadrar nas condições de obrigatoriedade estabelecidas pela legislação tributária, a avaliação deve ser realizada em função do custo de aquisição conforme o disposto nos arts. 5º a 8º. § 2º O valor relativo à opção por qualquer dos critérios de avaliação a que se refere este artigo, que independe da avaliação adotada para efeito da partilha ou do pagamento do imposto de transmissão, deve ser informado na declaração: I final de espólio e na declaração do herdeiro ou legatário, correspondente ao anocalendário da transmissão; II do doador e donatário, correspondente ao anocalendário do recebimento da doação; III do excônjuge ou exconvivente a quem foi atribuído o bem, correspondente ao anocalendário da dissolução da sociedade conjugal ou união estável. § 3º Se a transferência for efetuada por valor superior ao constante na Declaração de Ajuste Anual referida no caput, ou do custo de aquisição referido no § 1º, a diferença a maior constitui ganho de capital tributável. § 4º Na hipótese do § 3º, o inventariante, no caso de espólio, o doador ou o excônjuge ou exconvivente a quem for atribuído o bem ou direito deve preencher o Demonstrativo de Apuração do Ganho de Capital e anexálo à Declaração Final de Espólio ou à Declaração de Ajuste Anual do anocalendário da doação ou da dissolução da sociedade conjugal ou união estável, conforme o caso. Fl. 239DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 240 6 § 5º Na apuração de ganho de capital em virtude de posterior alienação dos bens e direitos de que trata este artigo, é considerado como custo de aquisição o valor a que se refere o § 2º. § 6º Para efeito do disposto no § 5º, a comprovação do custo, constante na Declaração de Ajuste Anual, é efetuada por meio de: I Declaração Final de Espólio, no caso de transmissão causa mortis”; No caso, a Declaração Final de Espólio retificadora (fls. 112/116) foi apresentada, espontaneamente, em 26/03/2009 informando situação em “data da partilha” e do “valor de transferência”conforme se verifica a fls. 115. Portanto, verificase que na declaração final de espólio houve a opção por manter os valores de transferências idêntico aos da data da partilha e não pelo valor de mercado. Dessa forma, conforme apreciado pela autoridade julgadora de primeira instância, para fins de apuração do ganho de capital, o custo de aquisição dos imóveis alienados é o valor de transferência indicado na Declaração Final de Espólio, conforme a seguir discriminado: Importa esclarecer que o valor da terra nua –VTN informado na DIAT/2007: Fazenda Rincão (R$ 4.177.800,00 fls. 146) e Fazenda Santa Lourdes (R$3.411.900,00 fl.153) superam em muito os valores de transferência constantes da Declaração Final de Espólio, não havendo qualquer registro na declaração de bens do de cujus (exercícios 2004 e 2005 fls. 175/180 e fls. 181/186) dos supostos valores. Benfeitorias Relativamente as benfeitorias, ainda que destacadas na DIAT/2007 e nas escrituras de compra e venda lavradas em 2008, não podem integrar o custo de aquisição por falta de comprovação mediante documentos hábeis e idôneos de que o custo das benfeitorias foram consideradas como despesas da atividade rural ou tenha sido consideradas como receita da atividade rural, conforme disposto no § 2º do art. 9º da Instrução Normativa SRF nº 84, de 11/10/2001 . Além do mais, não houve qualquer registro das benfeitorias na declaração de bens de 2004, 2005 e nem da Declaração Final de Espólio. Questionada se as benfeitorias executadas no imóvel rural alienado haviam sido contabilizadas como despesas da atividade rural, a contribuinte informou que foram consideradas como receita bruta da atividade rural. Consta do Relatório de Ação Fiscal, fls. 8: “Em prosseguimento à ação fiscal, foi emitida a Intimação Fiscal Sefis n° 223/2010 (ciência em 13/05/2010), por meio da qual foram solicitados esclarecimentos, corroborados por Fl. 240DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 241 7 documentos comprobatórios, referentes às benfeitorias alienadas na operação de venda de imóveis rurais à Aracruz Celulose em 31/08/2007, a saber: 1) imóveis a que pertencem; 2) custo de aquisição; 3) tratamento tributário dado quando da realização da despesa: incorporação ao valor do bem na declaração de ajuste anual ou contabilização como despesa da atividade rural; 4) alienação: valores e datas de recebimento. Em resposta a essa intimação, foram apresentados em 28/05/2010 esclarecimentos, relativos às benfeitorias em questão. Informa em sua resposta que “entre os imóveis vendidos à Aracruz Celulose por escritura pública de 28/02/2008 (...) constaram as benfeitorias que foram agregadas à terra nua ao longo de várias décadas (...). Tais benfeitorias foram registradas nas declarações de ITR, em valores estimados correspondentes a R$ 225.000,00 para a Fazenda Santa Lourdes e R$ 130.000,00 para a Fazenda Rincão (...). O tratamento tributário dispensado por ocasião da construção ou reformas (...) foi como investimento de atividade rural (...). O valor por elas obtido foi considerado como receita bruta da atividade rural (...).” Foram juntadas aos esclarecimentos, cópias parciais de declarações de Imposto Territorial Rural do imóvel n° 32854218 dos exercícios 2002 e 2007. Não foram, contudo, apresentados documentos que corroborassem as informações prestadas à Receita Federal, conforme solicitado na intimação fiscal. A DRJ bem referiu que "não há dúvidas de que as benfeitorias realizadas nos imóveis objeto da alienação foram realizadas anteriormente a transmissão dos imóveis havidos por herança. Tanto é verdade que a própria contribuinte, em resposta a intimação, afirmou que “entre os imóveis vendidos a Aracruz Celulose por escritura pública de 28/02/2008 constaram benfeitorias que foram agregadas à terra nua ao longo de várias décadas”. Além do que, a partilha se deu 16/05/2007 e a alienação em 31/08/2007" (grifos originais). Assim, haja vista que as benfeitorias realizadas nos imóveis objeto da alienação foram realizadas anteriormente a transmissão dos imóveis havidos por herança, correto está o lançamento ao não considerar as benfeitorias como custo dos imóveis alienados. Com base no acima exposto, o custo de aquisição dos imóveis alienados são os que constam da tabela produzida pelo relator do acórdão da DRJ de origem, que abaixo se reproduz: Conclusão Fl. 241DF CARF MF Processo nº 11080.721630/201075 Acórdão n.º 2202004.631 S2C2T2 Fl. 242 8 Ante o exposto, voto por negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator Fl. 242DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10469.731990/2012-20
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2010
DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO COM DOCUMENTOS DO ANO-CALÉDÁRIO EXAMINADO.
Recibos de despesas médicas têm força probante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física, quando apresentados. A glosa de valores deduzidos do imposto a pagar se justifica quando não há comprovação correspondente ao período a que se refere o Lançamento. A ausência nos autos de recibos que justifiquem as despesas médicas alegadas mantém a glosa apontada no Lançamento.
MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. RECONHECIMENTO DO DÉBITO.
Considera-se não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte.
Numero da decisão: 2001-000.626
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente
(assinado digitalmente)
Jose Alfredo Duarte Filho Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e Jose Ricardo Moreira.
Nome do relator: JOSE ALFREDO DUARTE FILHO
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2010 DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO COM DOCUMENTOS DO ANO-CALÉDÁRIO EXAMINADO. Recibos de despesas médicas têm força probante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física, quando apresentados. A glosa de valores deduzidos do imposto a pagar se justifica quando não há comprovação correspondente ao período a que se refere o Lançamento. A ausência nos autos de recibos que justifiquem as despesas médicas alegadas mantém a glosa apontada no Lançamento. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. RECONHECIMENTO DO DÉBITO. Considera-se não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes - Presidente (assinado digitalmente) Jose Alfredo Duarte Filho Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e Jose Ricardo Moreira.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 11; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1466; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C0T1 Fl. 66 1 65 S2C0T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10469.731990/201220 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2001000.626 – Turma Extraordinária / 1ª Turma Sessão de 28 de agosto de 2018 Matéria IRPF DEDUÇÃO DESPESAS MÉDICAS Recorrente FABIO MELO DOS SANTOS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2010 DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO COM DOCUMENTOS DO ANO CALÉDÁRIO EXAMINADO. Recibos de despesas médicas têm força probante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física, quando apresentados. A glosa de valores deduzidos do imposto a pagar se justifica quando não há comprovação correspondente ao período a que se refere o Lançamento. A ausência nos autos de recibos que justifiquem as despesas médicas alegadas mantém a glosa apontada no Lançamento. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. RECONHECIMENTO DO DÉBITO. Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente (assinado digitalmente) Jose Alfredo Duarte Filho – Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 46 9. 73 19 90 /2 01 2- 20 Fl. 66DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho, Fernanda Melo Leal e Jose Ricardo Moreira. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a impugnação do contribuinte, em razão da lavratura de Auto de Infração de Imposto sobre a Renda de Pessoa Física – IRPF, por glosa de Despesas Médicas e Omissão de Rendimentos. O lançamento da Fazenda Nacional exige do contribuinte a importância de R$ 10.376,10, a título de imposto de renda pessoa física suplementar, acrescida da multa de ofício de 75% e juros moratórios, referente ao anocalendário de 2010. O fundamento básico do lançamento, conforme consta da decisão de primeira instância, aponta como elemento da decisão da lavratura do lançamento, o fato de que o Recorrente não apresentou comprovação referente aos pagamentos de despesas médicas, de qualquer espécie referente ao período do Lançamento. A constituição do Acórdão recorrido segue na linha do procedimento adotado na feitura do lançamento, notadamente na falta de comprovação das despesas médicas que o Recorrente alega ter pago, como segue: Foi emitida, por Auditor Fiscal da DRF/Natal RN, a Notificação de Lançamento de fls. 11/16, referente ao imposto de renda pessoa física do exercício 2011. Foi apurado imposto suplementar de R$ 10.376,10, mais multa de ofício e juros de mora. A Notificação de Lançamento originouse da revisão da Declaração de Ajuste Anual – DAA nº 04/19.106.065. Os dados declarados foram alterados em decorrência das seguintes infrações: Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Jurídica e Dedução Indevida de Despesas Médicas, nos valores de R$ 1.945,24 e R$ 36.000,00, respectivamente. Registrese que não foi contestada a infração de Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Jurídica, por isso, conforme previsto no art. 17 do Decreto nº 70.235, de 1972, considerase matéria não impugnada. O crédito tributário decorrente foi transferido para os autos do processo nº 10469.720196/2013–31, fl. 23. Conforme disposto no artigo 8º da Lei 9.250, de 26/12/1995, a base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas de todos os rendimentos percebidos durante o ano calendário (exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva) e as deduções previstas na legislação, sujeitas à comprovação ou justificação. Fl. 67DF CARF MF Processo nº 10469.731990/201220 Acórdão n.º 2001000.626 S2C0T1 Fl. 67 3 Relativamente às deduções, no caso das Despesas Médicas, a regulamentação da norma legal foi editada por meio do Decreto nº 3000/1999 – Regulamento do Imposto de Renda (RIR/1999): (...) Documentação alguma foi apresentada pelo Interessado para afastar a motivação da glosa das despesas médicas de R$ 36.000,00, ou seja, a transferência dos recursos – o efetivo pagamento – aos profissionais prestadores dos serviços. Vários meios podem ser utilizados pelos contribuintes para comprovar o efetivo pagamento aos prestadores dos serviços, tais como cheques nominativos, transferências bancárias, fatura de cartões de crédito, extratos bancários com registros de saques em valores e datas compatíveis com os documentos comprobatórios. Nesse passo, encaminho o meu VOTO pela IMPROCEDÊNCIA da Impugnação, o que resulta em manutenção do crédito tributário impugnado. O imposto suplementar sobre a matéria não impugnada, com os acréscimos legais, foi transferido para os autos do processo nº 10469.720196/2013–31. Assim, conclui o acórdão vergastado pela improcedência da impugnação para manter a exigência do Lançamento na integralidade, como imposto suplementar. Por sua vez, com a decisão do Acórdão da DRJ, o Recorrente apresenta recurso voluntário com as considerações e argumentações que entende justificável ao seu procedimento, nos termos que segue: Inconformado, como ora faz, o Recorrente formalizou impugnação, que restou julgada improcedente pela Digna Terceira Turma de julgamento, que esteiou o seu acórdão no preceito do art. 73 do Decreto nº 3.000/99, que substancia o regulamento do imposto de renda. Na verdade, o citado preceito do art. 73 do Decreto nº 3.000/99 estabelece o comando de que todas as deduções estão sujeitas à comprovação ou justificação. Quanto a tal regra, não há o que increpar, visto constituirse direto inafastável da Administração Tributária certificar de que tais deduções estejam sendo feitas de forma correta, o que, em última análise implica na preservação e consolidação das atividades do Fisco, de arrecadar e controlar. No entanto, quando, não o legislador, mas tão somente o próprio Administrador, haja vista tratarse de um Decreto e não de uma Lei em sentido formal, provinda do Poder formalmente competente a legiferar, foi estabelecido que a justificativa ou comprovação emergirá a juízo da autoridade lançadora, aí, certamente, deparamo nos com intransponível ilegalidade, que, em extensão, maior resulta Fl. 68DF CARF MF 4 em inconstitucionalidade, haja vista que não se pode atribuir ao administrador pela via do juízo de valor subjetivo. (...) Na hipótese, o Recorrente firmou a sua declaração de rendimentos com recibos firmados por pessoas conhecidas e que são devidamente cadastradas junto à Receita Federal, eis que detentores de CPFs e endereços, não se justificando, portanto, o lançamento de ofício. Para que se justificasse o lançamento de ofício, não se faria bastante tão somente a desconsideração dos recibos acostados pelo Recorrente. Imprescindível que o Fisco estabelecesse de forma percuciente as razões, os motivos pelos quais tais recibos não poderiam ser aceitos, haja vista que não existe nenhum impedimento legal vedando que as deduções de despesas médicas estejam calcadas em recibos. Ora, não se pode negar que tem o Fisco, enquanto Administração Tributária todo o poder investigatório no sentido de aferir se houve ou não fraude fiscal, se os recibos apresentados são idôneos. Se formaliza a glosa, opondose aos documentos apresentados, evidente que atrai para si o ônus de produzir a prova em contrário. Os Recibos, apresentados como documentos, usufruem de presunção de verdade, presunção essa júris tantum, que pode se profligada por outros elementos de prova a desconstituíla. Mas isso é ônus, é obrigação de quem alega; não do contribuinte que apresentou o recibo ou outra forma de documento. (...) No momento em que a Receita Federal, em sua representação, a autoridade lançadora, manifestar a sua discordância entendendo como não comprovada ou justificada a despesa apresentada por via de recibos do contribuinte, terá atraído para si, ou seja para o Fisco, o inarredável ônus de prova a inidoneidade dos documentos do contribuinte, sob pena de, não o fazendo, ter o seu ato invalidade, visto que não poderá substanciálo validamente com respaldo único do seu juízo de valor, o que significa, por outras palavras afirmar que o juízo de valor da autoridade lançadora, mesmo que consignado na letra do Decreto, não terá nenhuma força a sobrepujar a idoneidade dos documentos apresentados pelo contribuinte, caso não se faça alicerçar em consistentes e vigorosos elementos de prova que posterguem a validade, a consistência dos recibos trazidos. (...) Portanto, manifesta vênia, por mais respeitável que seja a opinião, o pensamento, ou mesmo a autoridade de quem procede a fiscalização e realiza o lançamento, será inadmissível que impugne, que conteste, que considere inválido os recibos apresentados pelo Recorrente, sem o concurso de um demonstração validade, calcada em elementos aceitáveis, por mais que o Decreto que regulamenta o Imposto de Renda lhe confira tal atribuição. Assim, sob o lume de tais argumentos, concluise facilmente que a glosa realizada em relação à declaração do Recorrente poderia ter sido realizada, para fins de verificação, mas não o lançamento de ofício sem o respaldo de prova cabal da invalidade, inconsistência ou Fl. 69DF CARF MF Processo nº 10469.731990/201220 Acórdão n.º 2001000.626 S2C0T1 Fl. 68 5 mesmo falta de substância dos ditos recibos, que foram passados com a observância do preceito do art. 80 – Inciso III do Decreto nº 3.000/99. Diante de todo o exposto, prestase o presente para requerer que se digne essa Colenda Corte Administrativa de conhecer e dar provimento ao presente recurso, para fins de nulificar o lançamento de ofício relativo ao exercício de 2.12 – ano calendário 2.011 formalizado pela Receita Federal do Brasil, objeto da impugnação improcedente e do presente recurso. É o relatório. Voto Conselheiro Jose Alfredo Duarte Filho Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. O que se evidencia como fulcro da lide é a questão da prova material da prestação de dos serviços que teria originado as despesas médicas no montante de R$ 36.000,00 e o período a que se refere o levantamento fiscal que resultou no Lançamento Tributário. A abordagem do preceito contido no art. 73 do Decreto nº 3.000/99 apresentado na peça de defesa do Recorrente, embora também abordado no contexto deste voto passa ao lado do real motivo do lançamento e da decisão da DRJ, porque o motivo da constituição do crédito tributário foi a falta de apresentação de material probante e não sua consideração de inidoneidade. O texto base que define o direito da dedução do imposto e a correspondente comprovação para efeito da obtenção do benefício está contido no inciso II, alínea “a” e no § 2º, do art. 8º, da Lei nº 9.250/95, regulamentados nos parágrafos e incisos do art. 80 do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, em especial no que segue: Lei nº 9.250/95. Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames Fl. 70DF CARF MF 6 laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; (...) § 2º O disposto na alínea a do inciso II: I aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas – CPF ou no Cadastro Geral de Contribuintes CGC de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; IV não se aplica às despesas ressarcidas por entidade de qualquer espécie ou cobertas por contrato de seguro; V no caso de despesas com aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias, exigese a comprovação com receituário médico e nota fiscal em nome do beneficiário. Decreto nº 3.000/99 Art. 80. Na declaração de rendimentos poderão ser deduzidos os pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias. § 1º O disposto neste artigo (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, § 2º): (...) II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica CNPJ de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento; (grifei) A exigência da legislação especificada aponta para o comprovante de pagamento originário da operação, corriqueiro e usual, assim entendido como o recibo ou a nota fiscal de prestação de serviço, que deverá contar com as informações exigidas para identificação, de quem paga e de quem recebe o valor, sendo que, por óbvio, visa controlar se o recebedor oferecerá à tributação o referido valor como remuneração. A lógica da exigência Fl. 71DF CARF MF Processo nº 10469.731990/201220 Acórdão n.º 2001000.626 S2C0T1 Fl. 69 7 coloca em evidência a figura de quem fornece o comprovante identificado e assinado, colocandoo na condição de tributado na outra ponta da relação fiscal correspondente (deduçãotributação). Ou seja: para cada dedução haverá um oferecimento à tributação pelo fornecedor do comprovante. Quem recebe o valor tem a obrigação de oferecêlo à tributação e pagar o imposto correspondente e, quem paga os honorários tem o direito ao benefício fiscal do abatimento na apuração do imposto. Simples assim, por se tratar de uma ação de pagamento e recebimento de valor numa relação de prestação de serviço. Ocorre, neste caso, uma correspondência de resultados de obrigação e direito, gerados nessa relação, de modo que o contribuinte que tem o direito da dedução fica legalmente habilitado ao benefício fiscal porque de posse do documento comprobatório que lhe dá a oportunidade do desconto na apuração do tributo, confiante que a outra parte se quedará obrigada ao oferecimento à tributação do valor correspondente. Somese a isso a realidade de que o órgão fiscalizador tem plenas condições e pleno poder de fiscalização, na questão tributária, com absoluta facilidade de identificação, tão somente com a informação do CPF ou CNPJ, sobre a outra banda da relação pagadorrecebedor do valor da prestação de serviço. O dispositivo legal (inciso III, do § 1º, art. 80, Dec. 3.000/99) vai além no sentido de dar conforto ao pagador dos serviços prestados ao prever que no caso da falta da documentação, assim entendido como sendo o recibo ou nota fiscal de prestação de serviço, poderá a comprovação ser feita pela indicação de cheque nominativo pelo qual poderia ter sido efetuado o pagamento, seja por recusa da disponibilização do documento, seja por extravio, ou qualquer outro motivo, visto que pelas informações contidas no cheque pode o órgão fiscalizador confrontar o pagamento com o recebimento do valor correspondente. Além disso, é de conhecimento geral que o órgão tributante dispõe de meios e instrumentos para realizar o cruzamento de informações, controlar e fiscalizar o relacionamento financeiro entre contribuintes. O termo “podendo” do texto legal consiste numa facilitação de comprovação dada ao pagador e não uma obrigação de fazêlo daquela forma. Descabe, assim, o rigor na exigência para a apresentação de comprovação suplementar sobre o contribuinte possuidor da documentação originária do pagamento nas condições em que a lei estabelece, especialmente porque a autoridade fiscalizadora pode obter informação de confirmação da outra parte. Razão não há para a dissociação de ambos os polos na relação e estabelecer exigência rigorosa de um e nada de outro, porque a operação é conjunta e correspondente, com reflexos constatáveis nas informações dos dois contribuintes. No caso, há que se considerar a presunção de idoneidade da comprovação apresentada em obediência ao que dispõe a legislação. Mais ainda, em razão da ausência da apresentação, por parte do fisco, de indícios que coloquem em dúvida a idoneidade dos recibos apresentados pela Recorrente. Não basta a simples desconfiança do agente público incumbido da auditoria para que se obrigue o contribuinte a apresentar prova suplementar se não há elementos desabonadores da boa fé de quem usa a documentação especificada na lei para o exercício do direito à dedução na apuração do resultado tributário da pessoa física. O Código Civil, Lei nº 10.406/2002, em seu art. 219 diz que: “As declarações constantes de documentos assinados presumemse verdadeiros em relação aos signatários.” Neste sentido, os recibos em questão presumemse verdadeiros porque aceitos pelas partes contratantes identificadas no documento, de forma que não é razoável a decisão do Fisco de rejeitar os comprovantes como prova válida, sem a indicação de elementos que os desqualifiquem. Se os documentos são válidos para o prestador dos serviços oferecer os Fl. 72DF CARF MF 8 valores à tributação, os mesmos documentos deverão ser válidos também para a dedução legal de quem os recebe como comprovação de pagamentos. Por juízo subjetivo ou simples desconfiança, sem sequer a indicação de indícios de inidoneidade da documentação, não pode a autoridade lançadora fazer exigências fora dos limites da lei. O procedimento fiscal busca amparo no que dispõe o art. 73 e seu § 1º, do Decreto nº 3.000/99, para posicionar o ônus da prova unicamente no contribuinte, nos termos em que a seguir se descreve: Art. 73. Todas as deduções estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). (grifei) § 1º Se forem pleiteadas deduções exageradas em relação aos rendimentos declarados, ou se tais deduções não forem cabíveis, poderão ser glosadas sem a audiência do contribuinte (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 4º). (grifei) No ordenamento jurídico brasileiro o decreto regulamentador é uma norma expedida pelo poder executivo que tem como função pormenorizar os preceitos fixados na lei, dentro dos limites nela insertos, sendo considerados, por isso, atos secundários. Seu alcance cingese aos limites da lei não podendo criar situações que obrigue ou limite direitos além daqueles constantes na lei que regulamenta. Neste quesito específico das deduções de despesas médicas temos o que dispõe a Lei nº 9.250/95, em seu art. 8º, § 2º, incisos II e III, que foi objetivamente regulamentado no Decreto 3.000/99, no art. 80, § 1º, incisos II e III. Assim, a regulamentação deste item de despesa dedutível aqui se esgota porque o objeto tratado foi abordado de forma direta e específica, não permitindo outras exigências porque a lei não concede extensões de procedimento fiscalizatório nem limitação quantitativa de direitos. Neste sentido descabe a utilização do art. 73 e seu § 1º, conforme citado no Lançamento, por se tratar de dispositivo genérico que aparece no Decreto Regulamentador no capítulo das Disposições Gerais de Deduções, vinculado ao longínquo DecretoLei nº 5.844 de 1943, muito distante no tempo e do contexto jurídico atual. A rigidez dos termos do art. 73 e § 1º está mais para o período em que foi concebido do que para os dias atuais. A origem do conteúdo do texto vem do período do DecretoLei acima citado, mais precisamente do ano de 1943, anterior, portanto, às quatro últimas Constituições do Brasil (1946, 1967, 1969 e 1988) e, muito distante do conceito atual de Direito do Contribuinte e do Estado de Direito. Além disso, mesmo na vigência do referido DecretoLei a austeridade do instrumento não era plena, visto que o art. 79, § 1º, do mesmo diploma legal lhe impunha limitações, no seguinte dizer: “Art. 79. Farseá o lançamento ex officio: § 1º Os esclarecimentos prestados só poderão ser impugnados pelos lançadores, com elemento seguro de provo, ou indício veemente de sua falsidade ou inexatidão.”. A Constituição Federal de 1988, em seu art. 5º, inciso II, diz que “ninguém está obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”. Da mesma forma, o art. 150, inciso I, vai na mesma direção ao determinar que: “Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça;”. A verdade posta é que ao reduzir ou limitar deduções a Autoridade Lançadora estaria aumentando tributo sem lei que estabeleça. Estamos sob a égide da Constituição Federal de 1988 e, quando a Carta Magna menciona o termo “lei” ela se refere aquele instrumento jurídico emanado do Poder Legislativo, como órgão de representação do povo, nascido do devido processo constitucional. O decretolei, por sua vez, constituíase numa espécie de ato normativo com origem no Poder Fl. 73DF CARF MF Processo nº 10469.731990/201220 Acórdão n.º 2001000.626 S2C0T1 Fl. 70 9 Executivo em caso de urgência ou de interesse público relevante. Ou seja, um decreto que fazia às vezes de lei que vigorou até a Constituição Federal de 1988. A doutrina aceita que o decreto lei tenha valor vigorante enquanto não contrariar lei posterior. Contudo, o DecretoLei nº 5.844/1943, ao não constituirse em lei, contraria a Constituição vigente, nos dispositivos antes citados (inciso II, art. 5º e inciso I, art. 150 – CF/1988). Eventual desconfiança de que o profissional teria fornecido comprovação de serviço que não prestou caracterizaria conluio entre as partes contratantes, o que não foi apontado no histórico do Lançamento. Admitirse que os recibos não representam uma verdadeira prestação de serviço conduz à conclusão lógica de que teria ocorrido conluio entre profissional e paciente, ambos contribuintes do imposto, com o objetivo de lesar o fisco, e assim estariam enquadrados em multa qualificada, o que não foi o caso de apontamento no Lançamento. Em socorro ao posicionamento que busca resguardar o direito do contribuinte tomamse emprestados os termos da doutrina que trata da necessária clareza da motivação nos atos da administração pública, trazida pelo sempre bem citado Hely Lopes Meireles, quando descreve a necessidade da motivação do ato administrativo, que assim se posiciona: “Para se ter a certeza de que os agentes públicos exercem a sua função movidos apenas por motivos de interesse público da esfera de sua competência, leis e regulamentos recentes multiplicam os casos em que os funcionários, ao executarem um ato jurídico, devem expor expressamente os motivos que o determinaram. É a obrigação de motivar. O simples fato de não haver o agente público exposto os motivos de seu ato bastará para tornálo irregular; o ato não motivado, quando o devia ser, presumese não ter sido executado com toda a ponderação desejável, nem ter tido em vista um interesse público da esfera de sua competência funcional.” No mesmo sentido a Lei nº 9.784/99, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, no seu art. 50, diz que: “os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: neguem, limitem ou afetem direitos ou interesses; imponham ou agravem deveres, encargos ou sanções; decidam processos administrativos de concurso ou seleção público; decidam recursos administrativos...”. O Novo Código de Processo Civil, embora posterior aos fatos da ocorrência do lançamento, pode ser utilizado em apoio à interpretação aqui esposada, porque mais benéfico à Recorrente, contém dispositivos pertinentes que devem ser trazidos à colação, de vez que transitam na mesma linha de entendimento que aborda a observância do direito do contribuinte de forma moderna e em consideração ao Estado de Direito. O Código avança no sentido de estabelecer o equilíbrio de forças das partes no processo de julgamento, como se vê na orientação do art. 7º, como segue: “Art. 7º É assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditório”. (grifei) Traz reforço ainda o CPC para esse entendimento quando suaviza o posicionamento anterior que atribuía ao contribuinte, de forma quase que exclusiva, o ônus da Fl. 74DF CARF MF 10 prova, e inaugura a possibilidade das partes atuarem em prol de uma instrução colaborativa, a fim de oferecer ao julgador melhores subsídios para proferir a decisão, sem que se faça uso da regra do ônus da prova de forma unilateral. Este novo procedimento está explicitado no § 1º, do art. 373, da seguinte forma: § 1o Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído. De forma semelhante o art. 6º do CPC reforça este entendimento colaborativo ao dizer que “Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva”. CONCLUSÃO Legítima a dedução a título de despesas médicas do valor pago pelo contribuinte, comprovado mediante apresentação de nota fiscal de prestação de serviço ou recibo, este assinado por profissional habilitado, pois tais documentos guardam ao mesmo tempo reconhecimento da prestação de serviços assim como também confirma o seu pagamento. Desnecessária qualquer declaração posterior firmada pelo profissional prestador do serviço, embora apresentadas, porque aqueles comprovantes já cumprem a função legalmente exigida. De considerar plenamente admissível que os comprovantes revestidos das formalidades legais sustentam a condição de valor probante, até prova em contrário, de sua inidoneidade. A contestação da Autoridade Fiscal sobre a validade da documentação comprobatória deve ser apresentada com indícios consistentes e não somente por simples dúvida ou desconfiança. É de acolherse como verdadeira a prova apresentada pelo contribuinte que satisfaça os requisitos previstos na legislação pertinente e, para eventual convicção contrária da Autoridade Lançadora, esta deverá ser posta com fundamentos consistentes que a sustentem legalmente e não subjetivamente. Contudo, como se disse antes, o presente caso restringese a constatação da inexistência de documentação probante das despesas médicas no período a que se refere o Lançamento. A decisão da DRJ aponta como motivação da improcedência da impugnação o fato da absoluta falta de comprovação, nos termos seguinte: Documentação alguma foi apresentada pelo Interessado para afastar a motivação da glosa das despesas médicas de R$ 36.000,00, ou seja, a transferência dos recursos – o efetivo pagamento – aos profissionais prestadores dos serviços. Agora, por ocasião do Recurso Voluntário, o Recorrente apresentou um volume de recibos que somados não atingem o quantitativo de valor utilizado para dedução do imposto, ficando muito aquém do total informado de R$ 36.000,00, como deduzido na DAA. E mais, todos referentes ao ano de 2012, período distinto ao que se refere o Lançamento. Fl. 75DF CARF MF Processo nº 10469.731990/201220 Acórdão n.º 2001000.626 S2C0T1 Fl. 71 11 Somese a isso, que no final do Recurso, no pedido, o Recorrente se manifesta como se estivesse tratando do exercício de 2012, anocalendário de 2011, o que não corresponde ao período do lançamento assim como não corresponde ao período dos recibos juntados nesta fase de julgamento. Assim que, no exame da documentação acostada ao processo, verificase que o Recorrente não apresentou documentação comprobatória das despesas médicas realizada no período correspondente ao anocalendário de 2010, razão porque se faz necessária a manutenção da glosa das despesas médicas na sua totalidade. Por fim, inexiste controvérsia quanto à omissão de rendimentos apontada pela Autoridade Fiscal, porquanto absolutamente não contestada pelo Recorrente, fazendoo reconhecedor do crédito tributário lançado a este título, o que consiste em parte não litigiosa do Lançamento. Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário, e no mérito NEGAR PROVIMENTO, mantendose o crédito tributário lançado, na sua integralidade. (assinado digitalmente) Jose Alfredo Duarte Filho Fl. 76DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10675.721672/2013-04
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Oct 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2009
NULIDADE DA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. NÃO COMPROVADA A INCOMPETÊNCIA DO ÓRGÃO DE JULGAMENTO. IMPOSSIBILIDADE.
As Delegacias da Receita Federal de Julgamento julgam processos relativos aos contribuintes circunscritos às unidades da Secretaria da Receita Federal, observando-se a matéria em julgamento. Vale dizer, as DRJ possuem competência material e territorial, conforme disciplinado em ato próprio.
OMISSÃO DE RECEITAS. INFORMAÇÕES CONSTANTES DE DIRF.
Mantém-se o lançamento decorrente de omissão de receita quando o contribuinte não comprova, através de elementos hábeis, que as informações constantes de DIRF, nas quais consta como beneficiário, não representam auferimento de receita.
INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTOS
Cabe lançamento por insuficiência de recolhimentos quando comprovada omissão de receita e por conseqüência, a utilização de alíquotas inferiores a que deveriam ser utilizadas para o calculo dos tributos.
Numero da decisão: 1201-002.489
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Carlos de Assis Guimarães - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Fabiano Alves Penteado e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente).
Nome do relator: JOSE CARLOS DE ASSIS GUIMARAES
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NÃO COMPROVADA A INCOMPETÊNCIA DO ÓRGÃO DE JULGAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. As Delegacias da Receita Federal de Julgamento julgam processos relativos aos contribuintes circunscritos às unidades da Secretaria da Receita Federal, observandose a matéria em julgamento. Vale dizer, as DRJ possuem competência material e territorial, conforme disciplinado em ato próprio. OMISSÃO DE RECEITAS. INFORMAÇÕES CONSTANTES DE DIRF. Mantémse o lançamento decorrente de omissão de receita quando o contribuinte não comprova, através de elementos hábeis, que as informações constantes de DIRF, nas quais consta como beneficiário, não representam auferimento de receita. INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTOS Cabe lançamento por insuficiência de recolhimentos quando comprovada omissão de receita e por conseqüência, a utilização de alíquotas inferiores a que deveriam ser utilizadas para o calculo dos tributos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 67 5. 72 16 72 /2 01 3- 04 Fl. 351DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) José Carlos de Assis Guimarães Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Gisele Barra Bossa, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Fabiano Alves Penteado e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente). Relatório RR SERVIÇOS LTDA ME recorre a este Conselho com fulcro no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, objetivando a reforma do acórdão nº 1264.533, sessão de 07 de abril de 2014, da 8ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento no Rio de Janeiro (RJ) que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido. Por bem refletir o litígio até aquela fase, adoto o relatório da decisão de primeira instância, completandoo ao final: Tratase de Lançamento de Ofício pela Sistemática Simples Nacional, referente ao anocalendário de 2009, com a seguinte composição: 2. O Relatório Fiscal do Auto de Infração, fls. 98/104, em síntese, descreve: 2.1. O contribuinte, optante pelo Simples Nacional, apresentou Declaração Anual do Simples Nacional – DASN, anocalendário 2009, com informação relativa à base de cálculo e tributos devidos informando os valores referentes às diferenças entre as notas fiscais de saída e notas fiscais de entrada, e os valores referentes às notas fiscais de prestação de serviços. Por outro Fl. 352DF CARF MF Processo nº 10675.721672/201304 Acórdão n.º 1201002.489 S1C2T1 Fl. 3 3 lado, figurou na qualidade de beneficiária de rendimentos informados em Declaração de Imposto de Renda Retido na Fonte – DIRF de terceiros, o que motivou a instauração do procedimento fiscal. 2.2. Intimado, através de Termo de Início de Procedimento Fiscal – TIPF, com ciência postal em 10/04/2013, o contribuinte solicitou prorrogação do prazo para apresentar a documentação, o que foi concedido; sendo que em 15/05/2013 apresentou documentos. 2.3. Em 04/06/2013 foi encaminhado ao contribuinte o Termo de Intimação 01/2013, recebido em 06/06/2013, solicitando informações detalhadas sobre os valores declarados em DIRF onde constava a empresa como beneficiária. Em resposta, entregou em 13/06/2013, justificativa esclarecendo que foram realizadas operações de financiamento de veículos para terceiros, sendo os valores creditados pertencentes a clientes, e a estes repassados. 2.4. Diante de divergência entra a informação prestada pelo contribuinte e os dados informados em DIRF de Terceiros, em 01/07/2013 foram intimadas as seguintes empresas, a prestar esclarecimentos sobre os valores por elas informados na DIRF/2009: • BV FINANCEIRA S/A CRÉDITO E FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO CNPJ 01.149.953/000189; • BANCO BRADESCO FINANCIAMENTO S/A, CNPJ 17.192.451/000170; • BANCO ITAUCARD S/A CNPJ 01.149.953/000189; • BFB LEASING S/A ARRENDAMENTO MERCANTIL, CNPJ 43.425.008/000102; 2.5. Em atendimento às intimações, as empresas confirmaram as informações prestadas nas DIRF, esclarecendo que os pagamentos foram efetuados a título de comissão pela intermediação de financiamento de bens, anexando planilhas com os valores pagos. 2.6. Com base nas verificações realizadas, foram elaborados os seguintes anexos: Anexo 1 – Recebimentos da BV Financeira no ano de 2009 Anexo 2 – Recebimentos do BRADESCO no ano de 2009 Anexo 3 Recebimentos do ITAUCARD no ano de 2009 Anexo 4 Recebimentos da BFB LEASING no ano de 2009 Anexo 5 – Notas fiscais de prestação de serviços Anexo 6 Notas fiscais de entrada e saída Fl. 353DF CARF MF 4 Anexo 7 – Total de Receitas – Base de cálculo/DASN/a tributar; Anexo 8 – Segregação incorretas de receitas Anexo 9 – Contribuições sobre diferenças apuradas. 2.7. Os tributos lançados no SIMPLES NACIONAL, para este contribuinte, são de acordo com os anexos I e III da LC 123/2006, alterada pelo LC 128/2008 e detalhadas na Resolução CGSN 51, de 22/12/2008: Anexo I – IRPJ, CSLL, COFINS, PIS, CPP e ICMS Anexo III – IRPJ, CSLL, COFINS, PIS, CPP e ISS Base de Cálculo 2.8. Totalizados mensalmente, foi apurado um montante no ano de 2009 de R$ 604.782,58, conforme anexo 7 sendo: 2.9 Os valores a segregar e os valores a tributar, conforme informação constante no recibo de entrega em anexo, no campo “receita bruta auferida”, encontramse demonstrados no Anexo 7. Segregação Incorreta de Receitas 2.10. Constam do Anexo 8, as informações indevidamente declaradas na DASN, referentes aos meses de janeiro a abril com os tributos constantes do anexo V, em maio constantes nos anexos III e V, e em dezembro o valor referente a nota fiscal incluída no anexo III, todos os anexos da LC 123/2006. Com a mudança do anexo, ocorreu alteração no RTB12 gerando valores a pagar. Notas Fiscais Vendas – Diferenças de base de Cálculo 2.11 Constam do Anexo 9 os valores das notas fiscais de vendas emitidas no ano de 2009 registradas no livro “Boletim de Caixa”. O contribuinte declarou as diferenças entre os valores das notas fiscais de saída e os valores das notas fiscais de entrada. 2.12. De acordo com o Código Civil a venda de veículos em consignação pode ser por contrato de comissão ou contrato estimatório. O contrato de comissão consta do Código Civil nos artigos 693 a 709, estabelecendo que a receita bruta é a comissão. O contrato estimatório consta do Código Civil nos Fl. 354DF CARF MF Processo nº 10675.721672/201304 Acórdão n.º 1201002.489 S1C2T1 Fl. 4 5 artigos 534 a 537, recebendo o mesmo tratamento de compra e venda, estabelecendo que a receita bruta é o produto da venda dos bens recebidos. 2.13 A Solução de Divergência nº 1 Cosit de 05/02/2013 conclui que a venda de veículos em consignação não veda a opção pelo Simples Nacional, que no contrato de comissão a receita bruta (base de cálculo) é a comissão, e a tributação se dá por meio do Anexo III da Lei Complementar 123/2006, já no contrato estimatório recebendo o mesmo tratamento de compra e venda, a receita bruta (base de cálculo) é o produto da venda dos bens recebidos, e a tributação se dá por meio do Anexo I da Lei Complementar 123/2006, sendo inaplicável a equiparação do artigo 5º da Lei 9716/1998 para fins do Simples Nacional. 2.14. No caso em análise, de acordo com as informações registradas no livro “Boletim de Caixa” 2009, com os pagamentos das notas fiscais de entrada emitidas e emissão de notas fiscais de saída pelo valor da venda, tratase de contrato de comissão estimatório, sendo a base de cálculo o produto da venda dos bens recebidos, e a tributação por meio do Anexo I da Lei Complementar 123/2006. Notas Fiscais prestação de Serviços – Diferença de base de cálculo: 2.15. Constam do Anexo 9 os valores das notas fiscais de prestação de serviços conforme registro em livro próprio, sendo informado na DASN valores inferiores nos meses de abril e junho. Valores Informados em DIRF – Omissão de Receitas. 2.16. Constam do Anexo 9 os valores declarados em DIRF, não informados na DASN e nem escriturados pelo contribuinte no livro de Prestação de Serviços sendo considerados omissão de receitas. 2.17. As alíquotas utilizadas são aquelas constantes dos anexos I e III da LC 123/2006, alterada pela LC 128/2008 e detalhadas na Resolução CGSN 51, de 22 de dezembro de 2008. Multa de Ofício 2.18. O contribuinte apresentou documentos solicitados, efetuou se o lançamento com base nas receitas apuradas pelo Fisco no anocalendário de 2009, conforme disposto no artigo 44, §1º e 2º da Lei 9430/96. Fundamentação Legal 2.19. O lançamento tem por fundamento legal a Lei Complementar 123/2006, com alterações introduzidas pela Lei complementar 128 e posteriores, bem como os demais dispositivos legais mencionados nos respectivos autos de infração e Demonstrativo de Percentuais aplicáveis sobre a Receita do Simples Nacional. Fl. 355DF CARF MF 6 Da Impugnação 3. Inconformada, a Impugnante, que tomou ciência do lançamento através do Termo de ciência, fls. 277, em 09/09/2013, fls. 278, apresenta impugnação, em 09/10/2013, fls. 291/293, na qual, em síntese, argumenta: 3.1. O procedimento fiscalizatório peca em um único ponto interpretativo da legislação basilar do lançamento fiscal, qual seja, considerar omissão de receita valores recebidos de terceiros já tributados na escrituração das notas fiscais de entrada e de saída dos veículos, na forma da legislação do Simples Nacional. Ressaltase o explicitamente declarado às fls. 98 destes autos, segundo parágrafo, segunda parte, assim exarado: “... Por outro lado, figurou na qualidade de beneficiária de rendimentos informados em Declaração de Imposto de Renda Retido na Fonte – DIRF de terceiros, que motivou a instauração do presente procedimento fiscal, através do MPF 06109.00.2013.00122”. 3.2. As autoridades lançadoras tendo as DIRF de terceiros como única fonte motivadora da fiscalização, deixou claro o tratamento errôneo dado aos valores recebidos dos bancos e financeiras a título de retorno, reposição, pagamento de despesas e custos suportados pela impugnante para concretização da operação de venda de veículos financiados. 3.3. A fiscalização considerou como intermediação na compra e venda dos veículos, atividade vedada pelo Simples Nacional, o recebimento dos valores retornados, baseados única e tão somente nas informações prestadas pelas instituições bancárias, pois estas fizeram se acompanhar de contrato de prestação de serviços, realizado entre a impugnante e tais instituições financeiras. 3.4. Considerando que todas operações foram realizadas em nome da impugnante, ou seja, em nome próprio, conforme notas fiscais emitidas e escrituradas, impossível tributar e exigir escrituração em livro de prestação de serviços dos valores retornados à impugnante, levando em conta não se tratar de remuneração ou faturamento tais valores, tampouco poder integrar a base de cálculo da receita bruta, pois não integram o produto da venda dos veículos. 3.5 A situação fiscal da impugnante é regida por lei federal própria, que vincula a atividade fiscal, não podendo ser preterida apenas por informações prestadas por terceiros, cujas relações de mercado, muitas vezes desvirtuam a verdadeira relação jurídica entre as partes, como é o presente caso, em que uma instituição financeira resolve chamar sua relação de contrato com a impugnante de “prestação de serviços”, pois na realidade não passa de mera obrigação de repor custos suportados na operacionalização de venda financiada. 3.6. A Impugnante não presta serviços de intermediação de operações financeira para financiamento de veículos, simplesmente viabiliza com recursos próprios, para depois ser ressarcida pela instituição financeira, terceira na relação de compra e venda dos veículos financiados. Fl. 356DF CARF MF Processo nº 10675.721672/201304 Acórdão n.º 1201002.489 S1C2T1 Fl. 5 7 3.7. Evidenciado está o erro de interpretação da fiscalização federal em insistir na inclusão de meros retornos financeiros na base de cálculo da receita bruta da impugnante e absurdamente exigir que tais valores sejam escriturados em livro próprio de prestação de serviços. 3.8. Levando em conta a errônea interpretação e aplicação da Lei Complementar 123/2006, utilizada para constituição do lançamento fiscal em tela, demonstra não incidir a Impugnante nas formas legais de omissão de receita previstas na legislação tributária, e subsidia essa autoridade julgadora a desconstituir o lançamento fiscal impugnado, bem como, decretar a nulidade do auto de infração indigitado e seus lançamentos reflexos. 3.9. É o que requer e pede deferimento. 4. É o relatório. Cientificada da decisão de Primeira Instância e com ela não se conformando, a contribuinte RR SERVIÇOS LTDA ME interpôs recurso voluntário trazendo, em sede preliminar, as seguintes alegações, verbis: No mérito, reprisa as mesmas alegações de seu primeiro apelo. É o relatório. Voto Conselheiro José Carlos de Assis Guimarães, Relator. O presente recurso voluntário reúne os pressupostos de admissibilidade previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal e deve, portanto, ser conhecido por esta Turma de Julgamento. PRELIMINAR Argui a recorrente a incompetência da autoridade julgadora prolatora da decisão recorrida, tendo em vista seu domicílio fiscal. Fl. 357DF CARF MF 8 Nesse sentido, entende que a competência para julgamento do presente feito, em primeira instância, deveria ter ocorrido perante a DRJ/JUIZ DE FORA/MG, de acordo como o artigo 127, inciso II, do CTN. Por essa razão, a recorrente pugna pela nulidade do julgamento efetuado pela DRJ/RIO DE JANEIRO/RJ. No tocante à nulidade aventada, entendo que não assiste razão à recorrente. Cumpre destacar que as Delegacias da Receita Federal de Julgamento julgam processos relativos aos contribuintes circunscritos às unidades da Secretaria da Receita Federal, observandose a matéria em julgamento. Vale dizer, as DRJ possuem competência material e territorial, conforme disciplinado em ato próprio. Nesse sentido, a Portaria RFB 1.006/2013, vigente na data em que foi proferida a decisão recorrida, disciplinava a competência, territorial (circunscrição) e por matéria, das Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ), relacionando as matérias de julgamento por Turma. No Anexo I da referida Portaria há a indicação da “localização” das DRJ, da “circunscrição territorial” e das “matérias”. Consta do referido Anexo que tanto a DRJ de Juiz de Fora/MG quanto a DRJ do Rio de Janeiro/RJ possuem competência para o julgamento da matéria afeta ao SIMPLES NACIONAL, em suas respectivas circunscrições. Ademais, o artigo 127, II, do CTN, abaixo transcrito, citado pelo sujeito passivo em seu recurso voluntário, que não se aplica ao caso concreto, assim dispõe: Art. 127. Na falta de eleição, pelo contribuinte ou responsável, de domicílio tributário, na forma da legislação aplicável, considerase como tal: I omissis; II quanto às pessoas jurídicas de direito privado ou às firmas individuais, o lugar da sua sede, ou, em relação aos atos ou fatos que derem origem à obrigação, o de cada estabelecimento; Tratase de informação essencial para o desempenho da atividade fazendária de fiscalização e arrecadação tributária. A autoridade fiscal deve saber quem é o sujeito passivo e qual o local em que está domiciliado para tornar concreta a pretensão tributária, sobretudo e especialmente, na hipótese de inadimplência da obrigação, situação em que buscará, junto ao Poder Judiciário, satisfazer a sua pretensão e, para tanto, deverá indicar qual é o local em que o sujeito passivo pode ser encontrado a fim de que seja instado ao pagamento do tributo. Essa não é a situação dos autos. A atividade de julgamento, a meu ver, não obedece essa regra e a administração tributária pode determinar que o julgamento seja feito por qualquer DRJ que tenha competência para examinar a matéria objeto do litígio, independentemente do domicílio tributário eleito pela contribuinte. Com base nessas considerações, rejeito a preliminar de nulidade do julgamento efetuado pela 8ª Turma da DRJ do Rio de Janeiro (RJ). MÉRITO De acordo com o Anexo II, artigo 57, parágrafo terceiro, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343/2015, adoto e transcrevo a "decisão de primeira instância", concordando com seu inteiro teor, ressalvando que inexistiu novos argumentos ou provas, quando da interposição do recurso voluntário: Fl. 358DF CARF MF Processo nº 10675.721672/201304 Acórdão n.º 1201002.489 S1C2T1 Fl. 6 9 6. A Impugnante alega que “O procedimento fiscalizatório peca em um único ponto interpretativo da legislação basilar do lançamento fiscal, qual seja, considerar omissão de receita valores recebidos de terceiros já tributados na escrituração das notas fiscais de entrada e de saída dos veículos, na forma da legislação do Simples Nacional”. No entanto, não demonstrou correspondência entre os valores recebidos de terceiros e as notas fiscais de entrada e de saída. 7. Ao ser intimada pelo Auditor através de Termo de Intimação solicitando informações detalhadas sobre os valores declarados em DIRF´s nas quais constava como beneficiária (fls. 230/231), respondeu em 13/06/2013, fls. 235, apenas que “foram realizadas operações de financiamento de veículos para terceiros, sendo os valores creditados pertencentes a clientes, e a estes repassados”. No entanto, não juntou qualquer documento que detalhasse as operações realizadas. 8. Segue suas argumentações alegando que “a fiscalização considerou como intermediação na compra e venda dos veículos, atividade vedada pelo Simples Nacional, o recebimento dos valores retornados, baseados única e tão somente nas informações prestadas pelas instituições bancárias, pois estas fizeram se acompanhar de contrato de prestação de serviços, realizado entre a impugnante e tais instituições financeiras”. 8.1. Em primeiro lugar, cabe destacar que o Auditor esclareceu que a solução de divergência nº 1 COSIT, de 05/02/2013, concluiu que a venda de veículos em consignação não veda a opção pelo Simples Nacional, que no contrato de comissão a receita bruta (base de cálculo) é a comissão, e a tributação se dá por meio do Anexo III da Lei Complementar nº 123/2006; já no contrato estimatório, recebendo o mesmo tratamento de compra e venda, a receita bruta (base de cálculo) é o produto da venda dos bens recebidos , e a tributação se dá por meio do Anexo I da Lei Complementar nº 123/2006; sendo inaplicável a equiparação do art 5º da Lei 9716/1998 para fins do Simples Nacional. 8.2. Em segundo lugar, no anexo 7, elaborado pelo Auditor, fls.111, notase que os valores informados por terceiros: BV Financeira, Itaucard, Bradesco, BFB Leasing, são valores divergentes das Notas Fiscais de prestação de serviços; cujos valores foram detalhados no anexo 5 (fls. 109) e o somatório transferido para o anexo 7; assim como dos valores das notas fiscais de entrada e saída, detalhados no anexo 6 (fls. 110), cujo somatório também foi transferido para o anexo 7. A Impugnante, por sua vez, insurgiuse contra o lançamento, mas não provou, através de documentos, incorreção dos valores demonstrados pelo Auditor no anexo 7, assim como não comprovou, através de documentos hábeis, a operação que realizava com terceiros e ainda, não comprovou que tais valores foram oferecidos à tributação. (....) Fl. 359DF CARF MF 10 10. Isto posto, considerando que o interessado não demonstrou que não houve omissão de receita, MANTENHO o lançamento e declaro IMPROCEDENTE A IMPUGNAÇÃO APRESENTADA. 11. É o meu VOTO. Pelo exposto, VOTO por NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) José Carlos de Assis Guimarães Relator Fl. 360DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15586.001358/2009-30
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Mar 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Sep 10 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005
AUXÍLIO EDUCAÇÃO. CURSO SUPERIOR. DESCUMPRIMENTO DA EXIGÊNCIA EXTENSÍVEL A TODOS OS EMPREGADOS. INAPLICABILIDADE. MANUTENÇÃO DE BENEFÍCIO CONCEDIDO ANTES DE INCORPORAÇÃO SOCIETÁRIA.
O fato de dar continuidade ao plano de fornecimento de educação aos empregados de empresa incorporada não é capaz de determinar o descumprimento da exigência extensível a todos os empregados e dirigentes, tendo em vista que a exclusividade da concessão deu-se por força legal e contratual, a qual o autuado não poderia eximir-se, considerando os termos dos art. 10 e 448 do Decreto-Lei 5452/1943 que instituiu a CLT. Nos termos da legislação trabalhista não pode a empresa simplesmente cessar a concessão do benefício, para enquadrar-se na exclusão legal.
TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS. ADICIONAL DE 1/3 DE FÉRIAS. INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO PREVISTA NO ART. 214, §4º, DO DECRETO Nº 3.048/99.
A remuneração de férias e seu respectivo adicional de que trata o inciso XVII do art. 7º da Constituição Federal possuem natureza remuneratória e, nessa condição, integram o salário de contribuição, para fins de incidência de contribuições previdenciárias, nos termos expressos no §4º do art. 214 do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Dec. nº 3.048/99.
Embora exista decisão do STJ em sede de recurso repetitivo sobre a incidência de contribuição sobre a verba 1/3 de férias, o processo encontra-se em sede de repercussão geral, devendo aguardar o julgamento da matéria com transito em julgado para que se possa excluir a verba do conceito de salário de contribuição.
ASSISTÊNCIA MÉDICA AOS DEPENDENTES DO EMPREGADO. SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. EXCLUSÃO. AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL
Existindo legislação específica que trata da definição do conceito de salário de contribuição, não se pode utilizar a legislação trabalhista para fins de exclusão de verbas da base de cálculo de contribuições previdenciárias.
Não se enquadra na exclusão prevista na alínea q do § 9º do art. 28 da lei 8212/91 a concessão de assistência médica aos dependentes dos empregados.
Numero da decisão: 9202-006.653
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negar-lhe provimento. Votaram pelas conclusões os conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Heitor de Souza Lima Júnior, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado) e Maria Helena Cotta Cardozo. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por voto de qualidade, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora), Patrícia da Silva, Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Ana Paula Fernandes Relatora
(assinado digitalmente)
Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Redatora Designada
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo.
Nome do relator: ANA PAULA FERNANDES
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 AUXÍLIO EDUCAÇÃO. CURSO SUPERIOR. DESCUMPRIMENTO DA EXIGÊNCIA EXTENSÍVEL A TODOS OS EMPREGADOS. INAPLICABILIDADE. MANUTENÇÃO DE BENEFÍCIO CONCEDIDO ANTES DE INCORPORAÇÃO SOCIETÁRIA. O fato de dar continuidade ao plano de fornecimento de educação aos empregados de empresa incorporada não é capaz de determinar o descumprimento da exigência extensível a todos os empregados e dirigentes, tendo em vista que a exclusividade da concessão deu-se por força legal e contratual, a qual o autuado não poderia eximir-se, considerando os termos dos art. 10 e 448 do Decreto-Lei 5452/1943 que instituiu a CLT. Nos termos da legislação trabalhista não pode a empresa simplesmente cessar a concessão do benefício, para enquadrar-se na exclusão legal. TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS. ADICIONAL DE 1/3 DE FÉRIAS. INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO PREVISTA NO ART. 214, §4º, DO DECRETO Nº 3.048/99. A remuneração de férias e seu respectivo adicional de que trata o inciso XVII do art. 7º da Constituição Federal possuem natureza remuneratória e, nessa condição, integram o salário de contribuição, para fins de incidência de contribuições previdenciárias, nos termos expressos no §4º do art. 214 do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Dec. nº 3.048/99. Embora exista decisão do STJ em sede de recurso repetitivo sobre a incidência de contribuição sobre a verba 1/3 de férias, o processo encontra-se em sede de repercussão geral, devendo aguardar o julgamento da matéria com transito em julgado para que se possa excluir a verba do conceito de salário de contribuição. ASSISTÊNCIA MÉDICA AOS DEPENDENTES DO EMPREGADO. SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. EXCLUSÃO. AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL Existindo legislação específica que trata da definição do conceito de salário de contribuição, não se pode utilizar a legislação trabalhista para fins de exclusão de verbas da base de cálculo de contribuições previdenciárias. Não se enquadra na exclusão prevista na alínea q do § 9º do art. 28 da lei 8212/91 a concessão de assistência médica aos dependentes dos empregados.
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CURSO SUPERIOR. DESCUMPRIMENTO DA EXIGÊNCIA EXTENSÍVEL A TODOS OS EMPREGADOS. INAPLICABILIDADE. MANUTENÇÃO DE BENEFÍCIO CONCEDIDO ANTES DE INCORPORAÇÃO SOCIETÁRIA. O fato de dar continuidade ao plano de fornecimento de educação aos empregados de empresa incorporada não é capaz de determinar o descumprimento da exigência “extensível a todos os empregados e dirigentes”, tendo em vista que a exclusividade da concessão deuse por força legal e contratual, a qual o autuado não poderia eximirse, considerando os termos dos art. 10 e 448 do DecretoLei 5452/1943 que instituiu a CLT. Nos termos da legislação trabalhista não pode a empresa simplesmente cessar a concessão do benefício, para enquadrarse na exclusão legal. TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS. ADICIONAL DE 1/3 DE FÉRIAS. INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO PREVISTA NO ART. 214, §4º, DO DECRETO Nº 3.048/99. A remuneração de férias e seu respectivo adicional de que trata o inciso XVII do art. 7º da Constituição Federal possuem natureza remuneratória e, nessa condição, integram o salário de contribuição, para fins de incidência de contribuições previdenciárias, nos termos expressos no §4º do art. 214 do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Dec. nº 3.048/99. Embora exista decisão do STJ em sede de recurso repetitivo sobre a incidência de contribuição sobre a verba 1/3 de férias, o processo encontrase em sede de repercussão geral, devendo aguardar o julgamento da matéria com transito em julgado para que se possa excluir a verba do conceito de salário de contribuição. AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 58 6. 00 13 58 /2 00 9- 30 Fl. 1257DF CARF MF 2 ASSISTÊNCIA MÉDICA AOS DEPENDENTES DO EMPREGADO. SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. EXCLUSÃO. AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL Existindo legislação específica que trata da definição do conceito de salário de contribuição, não se pode utilizar a legislação trabalhista para fins de exclusão de verbas da base de cálculo de contribuições previdenciárias. Não se enquadra na exclusão prevista na alínea “q” do § 9º do art. 28 da lei 8212/91 a concessão de assistência médica aos dependentes dos empregados. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negarlhe provimento. Votaram pelas conclusões os conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Heitor de Souza Lima Júnior, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado) e Maria Helena Cotta Cardozo. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por voto de qualidade, em negarlhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora), Patrícia da Silva, Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo – Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes – Relatora (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira – Redatora Designada Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo. Relatório Os presentes Recursos Especiais tratam de pedido de análise de divergência motivados pela Fazenda Nacional e pelo Contribuinte face ao acórdão 2401003.641, proferido pela 1ª Turma Ordinária / 4ª Câmara / 2ª Seção de Julgamento. Tratase o presente Auto de Infração (DEBCAD n° 37.230.1690), no valor de R$ 216.444,25, acrescido de juros e multa, referente às contribuições devidas à Seguridade Fl. 1258DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 10 3 Social, correspondentes às contribuições devidas a outras entidades ou fundos (INCRA, SENAI, SESI e SEBRAE), no período compreendido entre 01/2005 a 12/2005, conforme Relatório Fiscal de fls. 109 a 125. O autuado apresentou impugnação às fls. 129/176. A DRJ, às fls. 420 e ss., negou provimento à defesa, mantendo o crédito tributário exigido. O Contribuinte interpôs recurso voluntário, às fls. 424/437. A 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento, às fls. 971/1003, DEU PARCIAL PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, para: I) excluir do lançamento o levantamento “seguro de vida em grupo”, levantamentos SG6 e SG7; II) excluir do lançamento o levantamento CS6 – Curso Superior. A ementa do acórdão recorrido assim dispôs: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 PREVIDENCIÁRIO CUSTEIO AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO PRINCIPAL SEGURADOS EMPREGADOS PAGAMENTOS INDIRETOS DESCUMPRIMENTO DA LEI INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO Uma vez estando no campo de incidência das contribuições previdenciárias, para não haver incidência é mister previsão legal nesse sentido, sob pena de afronta aos princípios da legalidade e da isonomia. DIFERENÇA DE FÉRIAS AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO EXPRESSA 1/3 DE FÉRIAS RECURSO REPETITIVO STJ Os valores foram apurados no próprio resumo de férias, sendo perfeitamente possível a empresa identificar as origens dos valores, demonstrando, face a legislação aplicável se realmente se tratavam de verbas com natureza indenizatória. A ausência de impugnação expressa, acaba por impossibilitar a esse colegiado a apreciação dos valores lançados por meio das contas G60 (férias normais) e 440 (complemento de férias acordo coletivo), razão pela qual correto o lançamento. A alegação de tratarse genericamente de verbas indenizatórias não pode ser acatado, quando não demonstra especificamente o recorrente que a verbas pagas caracterizamse, por exemplo como férias pagas na rescisão, essas sim, excluídas do conceito de salário de contribuição. 1/3 DE FÉRIAS INTERPOSIÇÃO DE RECURSO EXTRAORDINÁRIO Nos termos do art. 28, § 9º da lei 8212/90, não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: Fl. 1259DF CARF MF 4 d) as importâncias recebidas a título de férias indenizadas e respectivo adicional constitucional, inclusive o valor correspondente à dobra da remuneração de férias de que trata o art. 137 da Consolidação das Leis do Trabalho CLT; Embora a jurisprudência venha se encaminhando por desconstituir a natureza remuneratória da verba, a lei 12844/2013 que alterou a 10.522 nos casos do recursos repetitivos transitados em julgados, deve a receita observar a norma (adequando suas decisões), exceto no caso de existência de recurso extraordinário discutindo a mesma matéria, o que se observa no presente caso. Assim, não há como afastar a incidência da contribuição até a decisão final a respeito do tema. SEGURO DE VIDA EM GRUPO ATO DECLARATÓRIO 12/2011, DE 20/12/2011 Conforme previsto no Ato Declaratório 12/2011, de 20/12/2011, o seguro de vida em grupo contratado pelo empregador em favor do grupo de empregados, sem que haja a individualização do montante que beneficia a cada um deles não se inclui no conceito de salário, afastandose, assim a incidência da contribuição previdenciária sobre a referida verba. AUXÍLIO EDUCAÇÃO CURSO SUPERIOR MANUTENÇÃO DE BENEFÍCIO CONCEDIDO ANTES DE INCORPORAÇÃO Ao contrário do que entendeu o julgador, a legislação trabalhista é clara ao descrever nos seus art. 10 e 448 do DecretoLei 5452/1943 que instituiu a CLT, que alterações na estrutura jurídica (como é o caso da incorporação) ou mesmo alterações na propriedade não afetam os contratos de trabalhos. Ou seja, nos termos da legislação trabalhista não poderia a empresa simplesmente cessar a concessão do benefício, como entendeu o julgador para enquadrarse na exclusão legal. Vejamos dispositivos: O fato de dar continuidade ao plano de fornecimento de educação aos empregados de empresa incorporada não é capaz de determinar o descumprimento da exigência “extensível a todos os empregados e dirigentes”, tendo em vista que a exclusividade da concessão deuse por força legal e contratual, a qual o autuado não poderia eximirse, considerando até mesmo a possibilidade do empregado exigir a permanência do benefício face a justiça do trabalho. ASSISTÊNCIA MÉDICA DEPENDENTES Para que os benefícios concedidos aos empregados não constituam salário de contribuição devem constar do rol de exclusão do art. 28, § 9 da lei 8212/91, não podendo valerse da legislação trabalhista (art. 458, para definir o conceito de salário de contribuição de contribuições previdenciárias. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS DESCUMPRIMENTO DOS PRECEITOS LEGAIS ESTIPULAÇÃO EXISTÊNCIA DE ACORDO PARA O PAGAMENTO AOS DIRIGENTES Fl. 1260DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 11 5 Não demonstrou o recorrente que os acordos realizados com as comissões possuíam assinatura do respectivo sindicato, o que fere dispositivo da legislação que regula a matéria, atribuindo se natureza salarial a verba PLR. O programa Gerir Desempenho fl. 1201 (1181), não demonstra a existência de acordo com a participação do sindicato para sua elaboração, nem tampouco prova o recorrente que o mesmo faz parte de acordo coletivo. A fl. 606, em resposta ao termo de intimação n. 5, no item 2.2, a empresa informa que a remuneração variável encontrase consubstanciado em acordo coletivo (TODAVIA, O AUDITOR RESSALVA POR ESCRITO QUE OS REFERIDOS ACORDOS NÃO FORAM APRESENTADOS). Recurso Voluntário Provido em Parte. Às fls. 1040/1047, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial, alegando divergência jurisprudencial em relação à seguinte matéria: Incidência de contribuição previdenciária sobre bolsas de estudo de ensino superior. O acórdão recorrido entendeu que as contribuições previdenciárias não incidem sobre as bolsas de estudo de ensino superior concedidas. Contudo, discutindo casos com o mesmo perfil, os acórdãos paradigmas, analisando a mesma legislação de regência – Lei nº 8.212/91, em particular o art. 28, § 9º, alínea “t” – concluíram que a verba paga a título de bolsa de estudo em cursos de nível superior, possuem natureza remuneratória e como tal sujeitamse à incidência tributária. Concluíram, em breve suma, que deve ser incluído, como salário de contribuição, o benefício proveniente do curso de nível superior, por não consistir em educação básica, nem curso de qualificação profissional como prevê a lei. Assim, merece consideração o disposto no art. 111, inciso I, do CTN, no sentido de aplicar interpretação literal ao caso. Ao realizar o Exame de Admissibilidade do Recurso Especial da Fazenda Nacional, às fls. 1078/1083, a 4ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento, DEU SEGUIMENTO ao recurso em relação à divergência arguida. Intimado à fl. 1056, o Contribuinte apresentou Contrarrazões às fls. 1093/1099, alegando, preliminarmente, que a Recorrente não se desincumbiu de demonstrar a divergência entre as teses, alegando inexistir precedentes favoráveis que sustentem a tese contrária. No mérito, pediu para manter a decisão proferida no acórdão recorrido. Às fls. 1103/1136, o Contribuinte também interpôs Recurso Especial, alegando divergência jurisprudencial em relação às seguintes matérias: 1. Nulidade de autuação falta de descrição adequada dos fatos ou da indicação da regramatriz e exigência tributária se constitui em óbice ao direito de defesa do autuado. O acórdão recorrido considerou que a fiscalização não precisa separar em AI cada uma das rubricas apuradas durante o procedimento fiscal para que se tornasse claro e preciso o lançamento. A obrigação da autoridade fiscal é lavrar o AI na forma prevista na lei e atos normativos, deixando claro ao autuado os fatos geradores e períodos a que se refere. Já nos dois paradigmas restou evidente a interpretação dessa Corte em reconhecer a nulidade da autuação aos casos em que a descrição não é completa. 2. Não possui natureza salarial os valores pagos a título de férias, adicional de 1/3, assistência médica a dependente e PLR. Para contrapor o acórdão recorrido, o Contribuinte anexou jurisprudência no sentido de que tais verbas citadas, por não Fl. 1261DF CARF MF 6 possuírem natureza salarial, já que não correspondem à contraprestação pelo trabalho, não estão sujeitas à incidência das contribuições previdenciárias. Ao realizar o Exame de Admissibilidade do Recurso Especial da Fazenda Nacional, às fls. 1226/1237, a 4ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento, DEU PARCIAL SEGUIMENTO ao recurso em relação à divergência sobre as seguintes matérias: não incidência de contribuição previdenciária sobre: 1. 1/3 constitucional de férias; e 2. assistência médica a dependentes. O Contribuinte foi cientificado às fls. 1244. A Fazenda Nacional apresentou Contrarrazões às fls. 1246/1256, combatendo as alegações do Contribuinte e pedindo pela manutenção do acórdão em relação à matéria recorrida. Vieram os autos conclusos para julgamento. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Ana Paula Fernandes Relatora Os Recursos Especiais interpostos pela Fazenda Nacional e pelo Contribuinte são tempestivos e atendem aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, merecem ser conhecidos. Tratase o presente Auto de Infração (DEBCAD n° 37.230.1690), no valor de R$ 216.444,25, acrescido de juros e multa, referente às contribuições devidas à Seguridade Social, correspondentes às contribuições devidas a outras entidades ou fundos (INCRA, SENAI, SESI e SEBRAE), no período compreendido entre 01/2005 a 12/2005, conforme Relatório Fiscal de fls. 109 a 125. O Acórdão recorrido deu parcial provimento ao recurso voluntário. Já o Contribuinte trouxe para análise a divergência jurisprudencial em relação a não incidência de contribuição previdenciária sobre: 1. 1/3 constitucional de férias; e 2. Assistência médica a dependentes. O Recurso Especial apresentado pela Fazenda Nacional trouxe para análise a divergência jurisprudencial no tocante à incidência de contribuição previdenciária sobre bolsas de estudo de ensino superior. RECURSO DO CONTRIBUINTE I CONTRIBUIÇÃO PATRONAL SOBRE O TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS Fl. 1262DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 12 7 As Contribuições Previdenciárias possuem uma restrita linha de aplicação, conforme bem delimitado pela Constituição Federal e pela Lei de Custeio estas exações se referem exclusivamente a valores advindos do trabalho, portanto, verbas de natureza remuneratória. As verbas em discussão possuem indiscutível caráter indenizatório, o que excluí as mesmas da base de cálculo do salário de contribuição para fins da contribuição previdenciária devida aos cofres públicos. Nesse sentido aponta a doutrina pátria e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, ressaltando que se deve levar em conta o caráter finalístico da verba como fator preponderante para sua classificação em indenizatória ou remuneratória. Observese que a redação do artigo 28, I da lei 8212/91 ao disciplinar o conceito de salário de contribuição para o empregado e trabalhador avulso referese a totalidade de rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho. A finalidade do adicional de férias (1/3), não é o de remunerar o trabalhador, mas sim o de garantir um extra a ser usufruído no período de descanso, uma vez que seus gastos fixos habituais já comprometem a remuneração mensal. Do mesmo modo ocorre no período que a empresa paga os primeiros 15 dias de atestado médico, pelos mesmos fundamentos, pois surge novamente aqui a ausência de trabalho. Logo, não há que se falar em verba remuneratória, pois não há trabalho realizado, mas sim uma indenização recebida Dessa análise podese extrair que o terço constitucional sobre férias e os primeiros 15 dias que antecedem o auxiliodoença não se encontram denominados no conceito de salário de contribuição para fins previdenciários, motivo pelo qual não há que se falar em literalidade da lei, quanto menos em aplicação da estrita legalidade. Também não se trata aqui de afastar a constitucionalidade da norma, mas tão somente de interpretala em consonância com os próprios ditames constitucionais que expressamente definiram o trabalho como fato gerador da exação fiscal. Cumpre esclarecer que, a presente discussão teve início dentro do Regime Próprio de Previdência Social, conforme podemos verificar no voto do STJ em sede de uniformização de jurisprudência no qual determinou que a TNU adequasse seus julgados para não incidência: PETIÇÃO Nº 7.296 PE (2009/00961736) RELATORA : MINISTRA ELIANA CALMON REQUERENTE : FAZENDA NACIONAL PROCURADOR : ROBERTA CECÍLIA DE QUEIROZ RIOS E OUTRO(S) REQUERIDO : VIRGÍNIA MARIA LEITE DE ARAÚJO ADVOGADO : CLAUDIONOR BARROS LEITÃO DEFENSOR PÚBLICO EMENTA TRIBUTÁRIO E PREVIDENCIÁRIO INCIDENTE DE UNIFORMIZAÇÃO DE JURISPRUDÊNCIA DAS TURMAS RECURSAIS DOS JUIZADOS ESPECIAIS FEDERAIS CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS NATUREZA JURÍDICA NÃOINCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO ADEQUAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA DO STJ AO ENTENDIMENTO Fl. 1263DF CARF MF 8 FIRMADO NO PRETÓRIO EXCELSO. 1. A Turma Nacional de Uniformização de Jurisprudência dos Juizados Especiais Federais firmou entendimento, com base em precedentes do Pretório Excelso, de que não incide contribuição previdenciária sobre o terço constitucional de férias. 2. A Primeira Seção do STJ considera legítima a incidência da contribuição previdenciária sobre o terço constitucional de férias. 3. Realinhamento da jurisprudência do STJ à posição sedimentada no Pretório Excelso de que a contribuição previdenciária não incide sobre o terço constitucional de férias, verba que detém natureza indenizatória e que não se incorpora à remuneração do servidor para fins de aposentadoria. 4. Incidente de uniformização acolhido, para manter o entendimento da Turma Nacional de Uniformização de Jurisprudência dos Juizados Especiais Federais, nos termos acima explicitados. Com referência ao Regime Geral de Previdência – INSS, o STJ inicialmente teve entendimento diverso, de que se tratava de verba eminentemente remuneratória, pois seu direito era adquirido em decorrência do período de exercício de trabalho remunerado, sendo, portanto, devida a incidência da contribuição (RE 345.458, 2 Turma, Relatora Ellen Grace). Contudo, este entendimento foi revisto pelo STJ, que passou a acompanhar o entendimento manifestado pelo STF, no sentido de que as verbas que possuem natureza indenizatória/compensatória, assim o terço constitucional sobre férias e os primeiros 15 dias que antecedem o auxíliodoença não devem sofrer incidência da referida contribuição previdenciária: RECURSO ESPECIAL Nº 1.230.957 RS (2011/00096836) RELATOR : MINISTRO MAURO CAMPBELL MARQUES RECORRENTE : FAZENDA NACIONAL PROCURADOR : PROCURADORIAGERAL DA FAZENDA NACIONAL RECORRENTE : HIDRO JET EQUIPAMENTOS HIDRÁULICOS LTDA/ ADVOGADO : LUCAS BRAGA EICHENBERG E OUTRO(S) RECORRIDO : OS MESMOS INTERES. : ASSOCIACAO NACIONAL DE BANCOS ASBACE ADVOGADO : FÁBIO DA COSTA VILAR E OUTRO(S) INTERES. : ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MANTENEDORAS DE ENSINO SUPERIOR ABMES ADVOGADO : FÁBIO DA COSTA VILAR EMENTA PROCESSUAL CIVIL. RECURSOS ESPECIAIS. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA A CARGO DA EMPRESA. REGIME GERAL DA PREVIDÊNCIA SOCIAL. DISCUSSÃO A RESPEITO DA INCIDÊNCIA OU NÃO SOBRE AS SEGUINTES VERBAS: TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS; SALÁRIO MATERNIDADE; SALÁRIO PATERNIDADE; AVISO PRÉVIO INDENIZADO; IMPORTÂNCIA PAGA NOS QUINZE DIAS QUE ANTECEDEM O AUXÍLIODOENÇA. 1. Recurso especial de HIDRO JET EQUIPAMENTOS HIDRÁULICOS LTDA. 1.1 Prescrição. O Supremo Tribunal Federal ao apreciar o RE 566.621/RS, Tribunal Pleno, Rel. Min. Ellen Gracie, DJe de 11.10.2011), no regime dos arts. 543A e 543B do CPC (repercussão geral), pacificou entendimento no sentido de que, "reconhecida a inconstitucionalidade art. 4º, segunda parte, da LC 118/05, considerandose válida a aplicação do novo prazo de 5 anos tãosomente às ações ajuizadas após o decurso da vacatio Fl. 1264DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 13 9 legis de 120 dias, ou seja, a partir de 9 de junho de 2005" . No âmbito desta Corte, a questão em comento foi apreciada no REsp 1.269.570/MG (1ª Seção, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, DJe de 4.6.2012), submetido ao regime do art. 543C do CPC, ficando consignado que, "para as ações ajuizadas a partir de 9.6.2005, aplicase o art. 3º, da Lei Complementar n. 118/2005, contandose o prazo prescricional dos tributos sujeitos a lançamento por homologação em cinco anos a partir do pagamento antecipado de que trata o art. 150, § 1º, do CTN" . 1.2 Terço constitucional de férias. No que se refere ao adicional de férias relativo às férias indenizadas, a não incidência de contribuição previdenciária decorre de expressa previsão legal (art. 28, § 9º, "d", da Lei 8.212/91 redação dada pela Lei 9.528/97). Em relação ao adicional de férias concernente às férias gozadas, tal importância possui natureza indenizatória/compensatória, e não constitui ganho habitual do empregado, razão pela qual sobre ela não é possível a incidência de contribuição previdenciária (a cargo da empresa). A Primeira Seção/STJ, no julgamento do AgRg nos EREsp 957.719/SC (Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, DJe de 16.11.2010), ratificando entendimento das Turmas de Direito Público deste Tribunal, adotou a Documento: 34122204 EMENTA / ACORDÃO Site certificado DJe: 18/03/2014 Página 1 de 5 Superior Tribunal de Justiça seguinte orientação: "Jurisprudência das Turmas que compõem a Primeira Seção desta Corte consolidada no sentido de afastar a contribuição previdenciária do terço de férias também de empregados celetistas contratados por empresas privadas" . 1.3 Salário maternidade. O salário maternidade tem natureza salarial e a transferência do encargo à Previdência Social (pela Lei 6.136/74) não tem o condão de mudar sua natureza. Nos termos do art. 3º da Lei 8.212/91, "a Previdência Social tem por fim assegurar aos seus beneficiários meios indispensáveis de manutenção, por motivo de incapacidade, idade avançada, tempo de serviço, desemprego involuntário, encargos de família e reclusão ou morte daqueles de quem dependiam economicamente". O fato de não haver prestação de trabalho durante o período de afastamento da segurada empregada, associado à circunstância de a maternidade ser amparada por um benefício previdenciário, não autoriza conclusão no sentido de que o valor recebido tenha natureza indenizatória ou compensatória, ou seja, em razão de uma contingência (maternidade), pagase à segurada empregada benefício previdenciário correspondente ao seu salário, possuindo a verba evidente natureza salarial. Não é por outra razão que, atualmente, o art. 28, § 2º, da Lei 8.212/91 dispõe expressamente que o salário maternidade é considerado salário de contribuição. Nesse contexto, a incidência de contribuição previdenciária sobre o salário maternidade, no Regime Geral da Previdência Social, decorre de expressa previsão legal. Sem embargo das posições em sentido contrário, não há indício de incompatibilidade entre a incidência da contribuição previdenciária sobre o salário maternidade e a Constituição Federal. A Constituição Federal, em seus termos, assegura a Fl. 1265DF CARF MF 10 igualdade entre homens e mulheres em direitos e obrigações (art. 5º, I). O art. 7º, XX, da CF/88 assegura proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei. No que se refere ao salário maternidade, por opção do legislador infraconstitucional, a transferência do ônus referente ao pagamento dos salários, durante o período de afastamento, constitui incentivo suficiente para assegurar a proteção ao mercado de trabalho da mulher. Não é dado ao Poder Judiciário, a título de interpretação, atuar como legislador positivo, a fim estabelecer política protetiva mais ampla e, desse modo, desincumbir o empregador do ônus referente à contribuição previdenciária incidente sobre o salário maternidade, quando não foi esta a política legislativa. A incidência de contribuição previdenciária sobre salário maternidade encontra sólido amparo na jurisprudência deste Tribunal, sendo oportuna a citação dos seguintes precedentes: REsp 572.626/BA, 1ª Turma, Rel. Min. José Delgado, DJ de 20.9.2004; REsp 641.227/SC, 1ª Turma, Rel. Min. Luiz Fux, DJ de 29.11.2004; REsp 803.708/CE, 2ª Turma, Rel. Min. Eliana Calmon, DJ de 2.10.2007; REsp 886.954/RS, 1ª Turma, Rel. Min. Denise Arruda, DJ de 29.6.2007; AgRg no REsp 901.398/SC, 2ª Turma, Rel. Min. Herman Benjamin, DJe de 19.12.2008; REsp 891.602/PR, 1ª Turma, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJe de 21.8.2008; AgRg no REsp 1.115.172/RS, 2ª Turma, Rel. Min. Humberto Martins, DJe de 25.9.2009; AgRg no Ag 1.424.039/DF, 2ª Turma, Rel. Min. Castro Meira, DJe de 21.10.2011; AgRg nos EDcl no REsp 1.040.653/SC, 1ª Turma, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, DJe de 15.9.2011; AgRg no REsp 1.107.898/PR, 1ª Turma, Rel. Min. Benedito Gonçalves, DJe de 17.3.2010. Documento: 34122204 EMENTA / ACORDÃO Site certificado DJe: 18/03/2014 Página 2 de 5 Superior Tribunal de Justiça 1.4 Salário paternidade. O salário paternidade referese ao valor recebido pelo empregado durante os cinco dias de afastamento em razão do nascimento de filho (art. 7º, XIX, da CF/88, c/c o art. 473, III, da CLT e o art. 10, § 1º, do ADCT). Ao contrário do que ocorre com o salário maternidade, o salário paternidade constitui ônus da empresa, ou seja, não se trata de benefício previdenciário. Desse modo, em se tratando de verba de natureza salarial, é legítima a incidência de contribuição previdenciária sobre o salário paternidade. Ressaltese que "o saláriopaternidade deve ser tributado, por se tratar de licença remunerada prevista constitucionalmente, não se incluindo no rol dos benefícios previdenciários" (AgRg nos EDcl no REsp 1.098.218/SP, 2ª Turma, Rel. Min. Herman Benjamin, DJe de 9.11.2009). 2. Recurso especial da Fazenda Nacional. 2.1 Preliminar de ofensa ao art. 535 do CPC. Não havendo no acórdão recorrido omissão, obscuridade ou contradição, não fica caracterizada ofensa ao art. 535 do CPC. 2.2 Aviso prévio indenizado. A despeito da atual moldura legislativa (Lei 9.528/97 e Decreto 6.727/2009), as importâncias pagas a título de indenização, que não correspondam a serviços prestados nem a tempo à disposição do empregador, não ensejam a incidência de contribuição previdenciária. A CLT estabelece que, em se tratando de contrato de trabalho por prazo indeterminado, a parte que, sem justo motivo, quiser a sua rescisão, deverá comunicar a outra a sua intenção com a devida antecedência. Fl. 1266DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 14 11 Não concedido o aviso prévio pelo empregador, nasce para o empregado o direito aos salários correspondentes ao prazo do aviso, garantida sempre a integração desse período no seu tempo de serviço (art. 487, § 1º, da CLT). Desse modo, o pagamento decorrente da falta de aviso prévio, isto é, o aviso prévio indenizado, visa a reparar o dano causado ao trabalhador que não fora alertado sobre a futura rescisão contratual com a antecedência mínima estipulada na Constituição Federal (atualmente regulamentada pela Lei 12.506/2011). Dessarte, não há como se conferir à referida verba o caráter remuneratório pretendido pela Fazenda Nacional, por não retribuir o trabalho, mas sim reparar um dano. Ressaltese que, "se o aviso prévio é indenizado, no período que lhe corresponderia o empregado não presta trabalho algum, nem fica à disposição do empregador. Assim, por ser ela estranha à hipótese de incidência, é irrelevante a circunstância de não haver previsão legal de isenção em relação a tal verba" (REsp 1.221.665/PR, 1ª Turma, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJe de 23.2.2011). A corroborar a tese sobre a natureza indenizatória do aviso prévio indenizado, destacamse, na doutrina, as lições de Maurício Godinho Delgado e Amauri Mascaro Nascimento. Precedentes: REsp 1.198.964/PR, 2ª Turma, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, DJe de 4.10.2010; REsp 1.213.133/SC, 2ª Turma, Rel. Min. Castro Meira, DJe de 1º.12.2010; AgRg no REsp 1.205.593/PR, 2ª Turma, Rel. Min. Herman Benjamin, DJe de 4.2.2011; AgRg no REsp 1.218.883/SC, 1ª Turma, Rel. Min. Benedito Gonçalves, DJe de 22.2.2011; AgRg no REsp 1.220.119/RS, 2ª Turma, Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, DJe de 29.11.2011. 2.3 Importância paga nos quinze dias que antecedem o auxíliodoença. Documento: 34122204 EMENTA / ACORDÃO Site certificado DJe: 18/03/2014 Página 3 de 5 Superior Tribunal de Justiça No que se refere ao segurado empregado, durante os primeiros quinze dias consecutivos ao do afastamento da atividade por motivo de doença, incumbe ao empregador efetuar o pagamento do seu salário integral (art. 60, § 3º, da Lei 8.213/91 — com redação dada pela Lei 9.876/99). Não obstante nesse período haja o pagamento efetuado pelo empregador, a importância paga não é destinada a retribuir o trabalho, sobretudo porque no intervalo dos quinze dias consecutivos ocorre a interrupção do contrato de trabalho, ou seja, nenhum serviço é prestado pelo empregado. Nesse contexto, a orientação das Turmas que integram a Primeira Seção/STJ firmouse no sentido de que sobre a importância paga pelo empregador ao empregado durante os primeiros quinze dias de afastamento por motivo de doença não incide a contribuição previdenciária, por não se enquadrar na hipótese de incidência da exação, que exige verba de natureza remuneratória. Nesse sentido: AgRg no REsp 1.100.424/PR, 2ª Turma, Rel. Min. Herman Benjamin, DJe 18.3.2010; AgRg no REsp 1074103/SP, 2ª Turma, Rel. Min. Castro Meira, DJe 16.4.2009; AgRg no REsp 957.719/SC, 1ª Turma, Rel. Min. Luiz Fux, DJe 2.12.2009; REsp 836.531/SC, 1ª Turma, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 17.8.2006. 2.4 Terço constitucional de férias. O tema foi exaustivamente enfrentado no recurso Fl. 1267DF CARF MF 12 especial da empresa (contribuinte), levando em consideração os argumentos apresentados pela Fazenda Nacional em todas as suas manifestações. Por tal razão, no ponto, fica prejudicado o recurso especial da Fazenda Nacional. 3. Conclusão. Recurso especial de HIDRO JET EQUIPAMENTOS HIDRÁULICOS LTDA parcialmente provido, apenas para afastar a incidência de contribuição previdenciária sobre o adicional de férias (terço constitucional) concernente às férias gozadas. Recurso especial da Fazenda Nacional não provido. Acórdão sujeito ao regime previsto no art. 543C do CPC, c/c a Resolução 8/2008 Presidência/STJ. Observo que a discussão não é nova neste Tribunal Administrativo/CARF, pois inclusive já há entendimentos nesse sentido, conforme julgado abaixo: 2402003.564 Acórdão Número do Processo: 10783.722724/201162 Data de Publicação: 21/06/2013 Contribuinte: CHOCOLATES GAROTO SA Relator(a): RONALDO DE LIMA MACEDO Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/07/2009 a 31/12/2009 COMPENSAÇÃO. VALORES PAGOS SOBRE AS VERBAS TITULADAS DE TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS E DOS QUINZE PRIMEIROS DIAS DE AFASTAMENTO POR AUXÍLIODOENÇA OU ACIDENTE DO TRABALHO. AUXÍLIOCRECHE. NATUREZA INDENIZATÓRIA. SÚMULA Nº 310/STJ. PARECER PGFN Nº 2.118/2011. DIREITO DE CRÉDITO. VERBAS QUE NÃO OSTENTAM O CARÁTER REMUNERATÓRIO. POSSIBILIDADE. Não devem ser glosadas as compensações efetuadas com valores de contribuições devidas pela recorrente, quando se pleiteia o seu abatimento com valores pagos indevidamente ou a maior. No caso, devem ser considerados como direito de crédito a Recorrente os pagamentos de contribuições a maior incidentes sobre o terço/adicional constitucional de férias e os quinze primeiros dias de afastamento do trabalho em decorrência de auxílio doença e acidente do trabalho, bem como os pagamentos referentes ao auxíliocreche. Precedentes do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Conforme dispõe o Enunciado nº 310 de Súmula STJ, o auxíliocreche não integra o salário de contribuição. Em decorrência de entendimento pacífico da jurisprudência e orientação constante do Parecer da Procuradoria da Fazenda Nacional, PGFN/CRJ/Nº 2.118/2011, não incide contribuição previdenciária sobre os valores pagos a título de auxíliocreche VERBAS PAGAS A TÍTULO DE ABONO JORNADA E ABONO TURNO FIXO. AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. As parcelas pagas aos empregados a título de Abono Jornada e Abono Turno Fixo, em desacordo com a legislação previdenciária, integra o salário de contribuição. As importâncias recebidas à titulo de ganhos eventuais e abonos não integram o salário de contribuição somente quando expressamente desvinculados do salário por força de lei. VERBA PAGA A TÍTULO DE REEMBOLSO DE MATERIAL ESCOLAR. AUSÊNCIA DE Fl. 1268DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 15 13 PREVISÃO LEGAL. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. O reembolso de material escolar está inserido no conceito de salário de contribuição previsto no art. 28, inciso I, da Lei 8.212/1991, uma vez que se constitui em uma vantagem econômica para o trabalhador, auferida como retribuição ao trabalho prestado, caracterizando, assim, o recebimento de uma remuneração indireta. RECURSO DE OFÍCIO. NEGADO. Quando a decisão de primeira instância está devidamente consubstanciada no arcabouço jurídicotributário, o recurso de ofício será negado. Recursos de Ofício Negado e Voluntário Provido em Parte. Os doutrinadores têm ressaltado que a redação do texto legal, gera o questionamento de inúmeras situações. Não resta dúvidas de que a CF/88 em seu artigo 195 “elegeu o trabalho (atividade laboral remunerada) como fato gerador da incidência de contribuição social previdenciária, no que foi seguida pela Lei 8212/91 (artigo 28), contudo, a expressão “folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados” motiva a discussão acerca do enquadramento destas verbas na base de cálculo das contribuições sociais. MATÉRIA DISCUTIDA NOS TRIBUNAIS SUPERIORES VINCULAÇÃO AO CARF Embora se trate de matéria recepcionada pelo STF em repercussão geral é fato que no mundo jurídico a última interpretação sobre a questão é a do STJ, motivo pelo qual esta deve ser prestigiada até que o STF se manifeste. Isso por que no tocante as decisões exaradas pelos Tribunais Superiores a interposição de Recurso Extraordinário não possui efeito suspensivo, conforme se observa no disposto no art. 321, § 4º "O recurso extraordinário não tem efeito suspensivo". Deste modo, até que o STF aborde a matéria interpreto que a decisão do STJ goza de plena aplicabilidade, portanto, dotada de caráter vinculante devendo nos termos do Regimento CARF ter suas posição reproduzida por este Conselho, sob pena de infringir o disposto no art. 67 do RICARF. Para além disso defendo o posicionamento de que o Tribunal Administrativo deve ser útil à sociedade, motivo pelo qual deve se adequar a jurisprudência dominante do Poder Judiciário, a fim de evitar a repetitiva judicialização de demandas, mesmo que não esteja adstrita a aplicação dela por força do regimento, uma vez que a jurisprudência citada não procede de repetitivo de controvérsia (STJ), nem de repercussão geral (STF). Diante do exposto acredito que a melhor interpretação seja aquela dada pelo STJ na ementa que transcrevi acima, não devendo incidir Contribuição Previdenciária sobre as verbas decorrentes do terço constitucional sobre férias nem das verbas decorrentes dos primeiros quinze dias de afastamento que antecedem o auxíliodoença. II ASSISTÊNCIA MÉDICA AOS DEPENDENTES A Lei 8.212/91 que disciplina a forma de organização e custeio da Seguridade Social dispõe que o critério material das Contribuições Sociais Previdenciárias (cota patronal) incidirá sobre as verbas destinadas a retribuir o trabalho efetivamente prestado ou o tempo à disposição do empregado ao empregador. Fl. 1269DF CARF MF 14 O Auditor Fiscal em questão Ocorre que a Aracruz, ao conceder a assistência médica e odontológica aos empregados e dirigentes, contemplou também os seus dependentes. Arcou, portanto, a empresa, corn os custos médicos e odontológicos dos familiares dos empregados e dirigentes. E, o que prevê o art. 28, §9°, "q", da Lei n° 8.212, de 24107/1991, é que a cobertura .do plano deve abranger a totalidade dos empregados e dirigentes da empresa, restritivamente, não seus dependentes. 4.4.7. Ou seja, dos valores suportados peIA Aracruz relativos A assistência médica e odontológica, apenas os recursos destinados A cobertura da assistência médica, hospitalar e odontológica dos seus empregados e dirigentes, não integram o saláriodecontribuição. A própria lei se encarregou de estabelecer as hipóteses de isenção do tributo, impedindo a formação da relação jurídica tributária com o consequente vínculo dos sujeitos envolvidos. Nos termos da alínea “q” do § 9º do art. 28 da Lei nº 8.212, de 1991, não integra o salário de contribuição“o valor relativo à assistência prestada por serviço médico ou odontológico, próprio da empresa ou por ela conveniado, inclusive o reembolso de despesas com medicamentos, óculos, aparelhos ortopédicos, despesas médicohospitalares e outras similares, desde que a cobertura abranja a totalidade dos empregados e dirigentes da empresa”. Da dicção da norma se extrai que o valor relativo à assistência prestada por serviço médico ou odontológico, próprio da empresa ou por ela conveniado, não integrará o saláriodecontribuição, se a cobertura abranger a totalidade dos empregados e dirigentes da empresa. Desta forma, para que o valor não integre a base de cálculo da contribuição é necessário que a empresa disponibilize a todos os seus empregados e dirigentes um plano. Tal exigência constitui requisito necessário e suficiente para que essa parcela não integre o salário de contribuição, a teor do disposto na alínea “q” do § 9º do art. 28 da Lei nº 8.212, de 1991. A reclamação de outros requisitos, tais como, a exigência de planos de saúde iguais e da mesma categoria a todos os funcionários ultrapassa as condições impostas pela lei e viola o teor dos artigos 111, II e 176 do CTN, que determinam que as normas que disponham sobre outorga de isenção devem ser interpretadas literalmente e não comportam subjetivismos. Não é obrigatório à empresa disponibilizar a todos os seus funcionários planos de saúde da mesma categoria, pois a lei não faz essa exigência, a empresa deve sim fornecer planos de saúde a todos os funcionários e esta é a única exigência para se configurar a isenção da contribuição previdenciária. Esse posicionamento não inova no mundo jurídico, visto que a composição anterior da Segunda Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais julgava neste sentido entendendo que: “condição estabelecida no art. 28, § 9º, alínea ´q´ da Lei 8.212/91 para que não se incluam no salário de contribuição e não sejam objeto de incidência de contribuição previdenciária os valores relativos à assistência prestada por serviço médico ou odontológico, próprio da empresa ou por ela conveniado, Fl. 1270DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 16 15 inclusive o reembolso de despesas com medicamentos, óculos, aparelhos ortopédicos, despesas médicohospitalares e outras similares, é que exista cobertura abrangente a todos os empregados e dirigentes da empresa. Exigir que haja cobertura a todos os empregados e dirigentes da empresa é diferente de exigir que haja a mesma cobertura a todos estes funcionários. A condição imposta pelo legislador para a não incidência da contribuição previdenciária é, simplesmente, a existência de cobertura que abranja a todos os empregados e dirigentes, não cabendo ao intérprete estabelecer qualquer outro critério discriminativo”. (Processo 11070.002845/200715, Recurso Especial do Procurador, Data da Sessão 29/07/2014, Acórdão 9202003.256). No caso em tela a discussão vai mais longe trazendo para debate a possibilidade extensão do auxílio médico aos dependentes dos empregados sem ônus tributário para a empresa, uma vez que a lei é omissa quanto a maiores condições, sendo assim abrangida a situação pela norma imunizante. O caso já foi discutido no Colendo Superior Tribunal de Justiça – STJ, no caso REsp nº 1.430.043/PR, quando a Segunda turma entendeu de forma favorável aos contribuintes, afirmando que a assistência médica paga pela empresa não integra o salário de contribuição dos empregados, independentemente da sistemática de concessão do benefício, nesse sentido: Nesse contexto, não há falar em ampliação ou violação da norma isentiva, pois, como bem observado pelo Tribunal de origem, “embora não conste na folha de pagamento, tratase em verdade de forma de reembolso dos valores despendidos pelos empregados com medicamentos”, sendo que tal sistema “apenas evita etapas do moroso procedimento interno de reembolso via folha de pagamento, que, com certeza, seria mais prejudicial ao empregado (...). (Resp nº 1.430.043/PR, Relator: Min. Mauro Cambell Marques, Segunda Turma, julgado: 25.2.2014) O entendimento do STJ já é seguido por vários Tribunais Regionais Federais – TRFs, se manifestando que o plano de saúde concedido a empregados e dependentes não integra o conceito de salário de contribuição, tudo nos termos do art. 28, §9º, Q, da Lei 8.212/91 (Apelação/Reexame necessário nº 424703, TRF2ª, 4ª turma, Dje 15/04.2014; Apelação 2008.71.05.0033247/RS, 2ª Turma, TRF4ª, Dj. 30/06/2009). Mantendo meu posicionamento já exarado anteriormente de que o Tribunal Administrativo deve ser útil à sociedade, motivo pelo qual deve se adequar a jurisprudência dominante do Poder Judiciário, a fim de evitar a repetitiva judicialização de demandas, mesmo que não esteja adstrita a aplicação dela por força do regimento, uma vez que a jurisprudência citada não procede de repetitivo de controvérsia (STJ), nem de repercussão geral (STF). Diante do exposto acredito que a melhor interpretação seja aquela dada pelo STJ na ementa que transcrevi acima, não devendo incidir Contribuição Previdenciária sobre as verbas decorrentes do auxílio médico concedido aos empregados e dependentes. Fl. 1271DF CARF MF 16 RECURSO DA FAZENDA NACIONAL VALORES PAGOS A TÍTULO DE AUXÍLIOEDUCAÇÃO (BOLSA DE ESTUDO ENSINO SUPERIOR); A Autuação Fiscal em questão se deu em razão dos Cursos custeados pela ARACRUZ serem de ensino superior: O Auditor Fiscal assim aduziu: 4.3.5. De acordo com o dispositivo legal, Para que não haja incidência das • contribuições previdenciárias, os valores devem ser gastos apenas com educação básica e com cursos de capacitação e qualificação profissionais, vinculados As atividades desenvolvidas pela empresa, não englobando educação superior, de que trata os arts. 43 a 57 da Lei n° 9.394/96. 4.3.8. A empresa informou que o beneficio foi pago apenas para os funcionários da filial Guaiba, pois faz parte da política de benefícios adotada pela fábrica de Guaiba, • antes de sua aquisição pela Aracruz Celulose. 4.3.9. A empresa ao disponibilizar o beneficio apenas para os funcionários da • filial Guaiba, está impondo um óbice à extensão a todos os empregados e dirigentes da empresa, contrariando o disposto na alínea § 9°, artigo 28, da Lei n°. 8.212/91. 4.3.10. Diante do exposto, os recursos destinados pela empresa para fornecimento de Bolsa Auxilio Graduação e Pós Graduação para os empregados da filial Guaiba, integram o saláriodecontribuição, nos termos do artigo 28, inciso I, da Lei n° 8.212, de 24/07/1991. As Contribuições Previdenciárias possuem uma restrita linha de aplicação. Conforme bem delimitado pela Constituição Federal e pela Lei de Custeio estas exações se referem exclusivamente a valores advindos do trabalho, portanto, verbas de natureza remuneratória. O acórdão recorrido orienta a questão considerando que valores pagos relativos à educação superior (graduação e pósgraduação) se enquadram na hipótese de não incidência prevista na alínea “t”, § 9º, artigo 28, da lei 8.212/91 visto que a Lei 9394/96, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, no artigo 39, estabelece que a educação profissional se integra aos diferentes níveis e modalidades de educação e inclui graduação e pósgraduação. Independentemente desta argumentação a qual aproveita o contribuinte ter sido dada apenas na nova redação dada ao tema pela L. 11.741/2008 e que poderia ser considerada possível de aplicação para eventos passados em razão de ser norma mais favorável e razão de legiferar do legislador que representa a vontade do Estado, registro o mesmo encaminhamento com a inclusão de outros argumentos. Para dirimir esta questão me aproveito de alguns entendimentos veiculados no voto da Conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, nos termos que segue: Fl. 1272DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 17 17 Segundo afirma o jurista mineiro e Ministro do Tribunal Superior do Trabalho, Mauricio Godinho Delgado, na obra "Curso de Direito do Trabalho", 2ª ed., para caracterizar salário utilidade devem ser analisados três requisitos. O primeiro deles é o da "habitualidade do fornecimento", deve o fornecimento do bem ou serviço ser reiterado ao longo do contrato de trabalho, deve estar presente a idéia de ser uma prestação de repetição uniforme em certo contexto temporal. O segundo requisito é a presença do "caráter contraprestativo do fornecimento", defende que é necessário que a causa e objetivos envolvidos no fornecimento da utilidade sejam essencialmente contraprestativo, é preciso que a utilidade seja fornecida preponderantemente com o intuito retributivo, como um acréscimo de vantagens contraprestativas ofertadas ao empregado. Pela pertinência vale citar (p. 712): Nesse quadro, não terá caráter retributivo o fornecimento de bens ou serviços feito como instrumento para viabilização ou aperfeiçoamento da prestação laboral. É claro que não se trata, restritivamente, de essencialidade do fornecimento para que o serviço possa ocorrer; o que é importante, para ordem jurídica, é o aspecto funcional, prático, instrumental, da utilidade ofertada para o melhor funcionamento do serviço. A esse respeito, já existe clássica fórmula exposta pela doutrina com suporte no texto do velho art. 458, §2º da CLT: somente terá natureza salarial a utilidade fornecida pelo trabalho e não para o trabalho. E quanto ao fornecimento e provimento da educação referido Ministro ainda destaca que tratase de dever imposto à empresa pela própria Constituição Federal, e por tal razão o bem ou serviço ofertado não pode ser classificado como salário utilidade, vale citar (p. 715): O dever, como se sabe, é tutela de interesse de outrem imposta a alguém pela ordem jurídica. O dever não necessariamente favorece o sujeito passivo de uma relação jurídica direta (como a relação de emprego); neste sentido distinguese da simples obrigação contratual. Pode, assim, a conduta derivada da tutela de interesse de outrem reportarse a uma comunidade indiferenciadas de favorecidos. É o que se passa com as atividades educacionais, por exemplo. O empregador tem o dever de participar das atividades educacionais do país pelo menos o ensino fundamental (art. 205, 212, §5º, CF/88). Esse dever não se restringe a seus exclusivos empregados estendese aos filhos destes e até mesmo à comunidade, através da contribuição parafiscal chamada salárioeducação (art. 212, §5º, CF/88; DecretoLei n. 1.422/75). Há, pois, fixado em norma jurídica heterônoma do Estado (inclusive na Constituição) um dever jurídico das empresas com respeito ao ensino no país (pelo menos o ensino fundamental): ou esse dever concretizase em ações diretas perante sues próprios empregados e os filhos destes ou, na falta de tais ações diretas, ele se concretiza perante o conjunto societário, através do recolhimento do salário educação. Estáse, desse modo, perante um dever jurídico geral e não mera obrigação contratual. Quanto ao terceiro requisito "onerosidade unilateral", embora reconheça trata se de conduta técnicojuridico extremamente controvertida, o Ministro Delgado admite sua aplicação em casos específicos (p. 718): Fl. 1273DF CARF MF 18 É claro que ocorrem, na prática juslaborativa, algumas poucas situações em que fica nítido o interesse real do obreiro em ingressar em certos programas ou atividades subsidiados pela empresa. Tratase de atividades ou programas cuja fruição é indubitavelmente vantajosa ao trabalhador e sua família, e cujo custo econômico para o empregado é claramente favorável, em decorrência do subsídio empresarial existente. Nestas situações, que afastam de modo patente a idéia de mera simulação trabalhista, não há por que negarlhe relevância ao terceiro requisito ora examinado. Aliás, a quase singularidade de tais situações é que certamente conduz a jurisprudência a valorizar o presente requisito apenas em alguns poucos casos concretos efetivamente convincentes. Embora haja habitualidade na ofertada das bolsas à totalidade dos empregados, a utilização do benefício pelo obreiro é facultativa e onerosa, já que condicionada ao pagamento da parcela da mensalidade devida, e salvo na hipóteses de realização de cursos sucessivos, teremos uma prestação com duração delimitada no tempo (período letivo) não se estendendo por todo contrato de trabalho. Por força do art. Art. 110 do CTN a lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal e com base nessa premissa o art. 195, I, alínea a da Constituição Federal deve ser interpretado utilizandose os conceitos construídos pelo Direito do Trabalho o qual, no entender desta Relatora, seria o ramo do direito competente para se manifestar sobre as relações e reflexos dos contratos de trabalho. Dispões o art. 195 da CF/88: Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: I do empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da lei, incidentes sobre: a) a folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados, a qualquer título, à pessoa física que lhe preste serviço, mesmo sem vínculo empregatício; ... Em contrapartida o art. 458, §2º, inciso II da Consolidação das Leis do Trabalho assim define o salário: Art. 458 Além do pagamento em dinheiro, compreendese no salário, para todos os efeitos legais, a alimentação, habitação, vestuário ou outras prestações "in natura" que a empresa, por fôrça do contrato ou do costume, fornecer habitualmente ao empregado. Em caso algum será permitido o pagamento com bebidas alcoólicas ou drogas nocivas. ... § 2o Para os efeitos previstos neste artigo, não serão consideradas como salário as seguintes utilidades concedidas pelo empregador: Fl. 1274DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 18 19 ... II – educação, em estabelecimento de ensino próprio ou de terceiros, compreendendo os valores relativos a matrícula, mensalidade, anuidade, livros e material didático; ... Ora, se os benefícios ofertados aos empregados na forma de educação são considerados pela CLT como verbas não salariais, não pode a fiscalização interpretar a norma tributária no sentido de classificar tais vantagens como "salário utilidade" dandolhes caráter remuneratório. Embora o art. 28, §9º, alínea 't' da Lei nº 8.212/91, somente após 2011 e em situações restritas, tenha admitido a exclusão de bolsas de estudos do conceito de salário de contribuição, o Superior Tribunal de Justiça bem antes havia pacificado seu entendimento pela exclusão de tais verbas do conceito de saláriodecontribuição. Vale citar recente decisão monocrática proferida pela Ministra Regina Helena Costa no Recurso Especial 1.634.880/RS (publicada em 11/11/2016), que negou seguimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional entendo que a decisão recorrida seguia a jurisprudência da Corte: Acerca da contribuição previdenciária, esta Corte adota o posicionamento segundo o qual não incide essa contribuição sobre os valores pagos a título de auxílioeducação. Nessa linha: PROCESSUAL CIVIL. AUSÊNCIA DE OMISSÃO. ART. 535, II, DO CPC. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULA 211/STJ. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL NÃO COMPROVADA. SITUAÇÃO FÁTICA DIVERSA. POSSIBILIDADE. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA SOBRE VALETRANSPORTE PAGO EM PECÚNIA. (...) 5. O STJ tem pacífica jurisprudência no sentido de que o auxílio educação, embora contenha valor econômico, constitui investimento na qualificação de empregados, não podendo ser considerado como salário in natura, porquanto não retribui o trabalho efetivo, não integrando, desse modo, a remuneração do empregado. É verba utilizada para o trabalho, e não pelo trabalho. Portanto, existe interesse processual da empresa em obter a declaração do Poder Judiciário na hipótese de a Fazenda Nacional estar cobrando indevidamente tal tributo. 6. Recurso Especial da Fazenda Nacional parcialmente conhecido e, nessa parte não provido e Recurso Especial da empresa provido. (REsp 1586940/RS, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 10/05/2016, DJe 24/05/2016); PREVIDENCIÁRIO. RECURSO ESPECIAL. AUXÍLIO EDUCAÇÃO. BOLSA DE ESTUDO. VERBA DE CARÁTER INDENIZATÓRIO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. Fl. 1275DF CARF MF 20 INCIDÊNCIA SOBRE A BASE DE CÁLCULO DO SALÁRIO DE CONTRIBUIÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. 1. "O auxílioeducação, embora contenha valor econômico, constitui investimento na qualificação de empregados, não podendo ser considerado como salário in natura, porquanto não retribui o trabalho efetivo, não integrando, desse modo, a remuneração do empregado. É verba empregada para o trabalho, e não pelo trabalho." (RESP 324.178PR, Relatora Min. Denise Arruda, DJ de 17.12.2004). 2. In casu, a bolsa de estudos, é paga pela empresa e destinase a auxiliar o pagamento a título de mensalidades de nível superior e pósgraduação dos próprios empregados ou dependentes, de modo que a falta de comprovação do pagamento às instituições de ensino ou a repetição do ano letivo implica na exigência de devolução do auxílio. Precedentes:. (Resp. 784887/SC. Rel. Min. Teori Albino Zavascki. DJ. 05.12.2005 REsp 324178/PR, Rel. Min. Denise Arruda, DJ. 17.02.2004; AgRg no REsp 328602/RS, Rel. Min. Francisco Falcão, DJ.02.12.2002; REsp 365398/RS, Rel. Min. José Delgado, DJ.18.03.2002). 3. Agravo regimental desprovido. (AgRg no Ag 1330484/RS, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 18/11/2010, DJe 01/12/2010) In casu, tendo o acórdão recorrido adotado entendimento pacificado nesta Corte, o Recurso Especial não merece prosperar pela incidência da Súmula 83/STJ. Isto posto, com fundamento no art. 557, caput, do Código de Processo Civil, NEGO SEGUIMENTO ao Recurso Especial. Adotando como fonte de direito o jurisprudência dominante do Superior Tribunal de Justiça, a qual melhor interpreta a amplitude da base de cálculo da contribuição previdenciária, concluo que as bolsas de estudos fornecidas pela instituição aos empregados e seus respectivos dependentes não possuem natureza remuneratória, seja em nível básico, médio ou superior, não se sujeitando, portanto, à incidência do tributo lançado.” Quanto a alegação de que o benefício não foi estendido a todos os empregados, mas apenas a filial de Guaíba, uma vez que esta foi adquirida pela Contribuinte e os empregados já possuíam um conjunto de direito adquiridos entendo o argumento como válido, pois caso não mantivesse a bolsa de estudos seria demandado na esfera trabalhista. Por fim, defendo aqui meu posicionamento de que o Tribunal Administrativo deve ser útil à sociedade, motivo pelo qual deve se adequar a jurisprudência dominante do Poder Judiciário, a fim de evitar a repetitiva judicialização de demandas (tão nefasta ao orçamento público), mesmo que não esteja adstrita a aplicação dela por força do regimento, uma vez que a jurisprudência citada não procede de repetitivo de controvérsia (STJ), nem de repercussão geral (STF). Saliento aqui, que não desconheço a previsão legal que restringe os critérios para a concessão de bolsas de estudo, bem como suas alterações legais, mas considerando o princípio da juridicidade, abarcado no Art. 2º da Lei 9784/99, que preleciona que o julgador no Fl. 1276DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 19 21 âmbito do Tribunal Administrativo deve atuar conforme a lei o Direito, sendo a Jurisprudência do STJ uma das fontes do Direito, aplicoa como razão de decidir. Não se trata aqui de afastar a constitucionalidade da norma, mas sim de interpretar o ordenamento jurídico com base em uma das fontes do Direito previstas em Lei Específica do Processo Administrativo Federal, tomando a máxima de que “a Lei não prevê palavras inúteis”, a aplicação acima referida está permitida dentro do âmbito administrativo fiscal, vez que este está abarcado no Procedimento Administrativo Federal. E assim acredito que a melhor interpretação seja aquela dada pelo STJ na ementa que transcrita na citação acima, não devendo incidir Contribuição Previdenciária sobre as verbas decorrentes de bolsa de estudos concedidas aos empregados, mesmo em se tratando de ensino superior. Contudo, tendo sido acompanhada pelas conclusões (por qualidade) em relação a negativa de provimento do Recurso Especial da Fazenda Nacional, descrevo abaixo, os termos das conclusões ofertadas em declaração de voto pela conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira: " Embora tenha me filiado a tese da autoridade fiscal no passado, no sentido de que a educação superior não estaria abrangida no dispositivo acima transcrito, revisitando o texto da Lei de Diretrizes Básicas da Educação, Lei 9394/1996 e analisando o texto original do art. 28, § 9º da Lei n ° 8.212/1991, não vejo a impossibilidade de se interpretar a educação superior como uma forma de capacitação ou mesmo qualificação profissional. No caso, desde que a educação proporcionada seja vinculada às atividades desenvolvidas pela empresa, possível a sua exclusão do conceito de salário de contribuição, desde que cumpridos os demais requisitos legais, quais sejam: extensível a todos os empregados. Notese que não estou com isso afastando toda e qualquer fornecimento de auxílio educação de curso superior do conceito de salário de contribuição, mas tão somente, abrindo a possibilidade de interpretação de que essa modalidade de curso esteja amparada na exclusão prevista no art. 28, §º, "t" da lei 8212/90 desde que cumprido os requisitos ali expostos, mas precisamente: “e a cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa, desde que não seja utilizado em substituição de parcela salarial e que todos os empregados e dirigentes tenham acesso ao mesmo; No caso, poderia o auditor promover o lançamento sobre essa rubrica, mas teria a autoridade fiscal de identificar que o curso superior não possuía qualquer relação com as atividades desenvolvidas na empresa, ou tão somente, não era extensível a todos os dirigentes e empregados. Contudo, pela transcrição dos trechos do relatório fiscal, não é possível vislumbrar ter o auditor descrito a não vinculação do curso superior as atividades desenvolvidas pela empresa, razão pela qual não há Fl. 1277DF CARF MF 22 como dar guarida ao entendimento da Fazenda Nacional, devendo ser negado provimento ao seu recurso especial nessa parte. [...] Dessa forma, entendo que o fato de dar continuidade ao plano de fornecimento de educação aos empregados de empresa incorporada não é capaz de determinar o descumprimento da exigência “extensível a todos os empregados e dirigentes”, tendo em vista que a exclusividade da concessão deuse por força legal e contratual, a qual o autuado não poderia eximirse, considerando até mesmo a possibilidade do empregado exigir a permanência do benefício face a justiça do trabalho. Apenas para esclarecer não estou me valendo do disposto no art. 458, § 2 da CLT, para determinar a exclusão da base de cálculo (conforme argumentado pelo recorrente), posto que entendo que a legislação previdência, por ser norma específica, sobrepõem se a legislação trabalhista quando define os critérios de isenção. Contudo, não podendo o empregador (autuado) cumprir exigência legal por não ter sido ele instituidor do benefício, não cabe a fiscalização simplesmente penalizálo sem verificar se a empresa incorporada isoladamente (em período anterior), preenchia os requisitos legais. E sendo assim, voto pelo conhecimento do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional para no mérito negarlhe provimento. É o voto. (assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes. Fl. 1278DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 20 23 Voto Vencedor Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira – Redatora Designada. Recurso Especial do Contribuinte Peço licença a ilustre conselheira Ana Paula Fernandes, para divergir do seu entendimento quanto a exonerar o contribuinte da obrigação de recolhimento DE contribuições previdenciários em relação as verbas: 1/3 de férias e Assistência médica aos dependentes, por entender serem fatos geradores expressamente previstos na lei 8.112/90 e Decreto 3.048/99. Aliás, quanto as matérias, repriso aqui a argumentação por mim trazida no acórdão recorrido e vencedora nesta CSRF. 1/3 de férias Natureza Salarial Ausência de Decisão do STF com transito em Julgado. Primeiramente, antes de seguir com a apreciação da natureza da verba, entendo pertinente transcrever a legislação que define o conceito de salário de contribuição. De acordo com o previsto no art. 28 da Lei n ° 8.212/1991, para o segurado empregado, entendese por saláriodecontribuição a totalidade dos rendimentos destinados a retribuir o trabalho, incluindo nesse conceito os ganhos habituais sob a forma de utilidades, nestas palavras: Art.28. Entendese por saláriodecontribuição: I para o empregado e trabalhador avulso: a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa; (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 10/12/97) No caso do 1/3 pago à titulo de adicional de férias, embora o pagamento das verbas seja compulsório, dáse simplesmente consubstanciado na existência de vínculo laboral, o qual o pagamento não se coaduna com verba indenizatório, visto que o valor recebido, nada mais é do que um ganho, não uma despesas com destinação certa e provável. Esse ganho também não apenas será usufruído pelo empregado, como poderá fazer uso da maneira que achar conveniente. Conforme descrito anteriormente a alegado afastamento da incidência de contribuição sobre essa parcela com base no disposto na alínea “d” do § 9. do art. 28 da Lei n.º 8.212/1991 não se sustenta. Vejamos o que dispõe a norma: Art. 28. Entendese por saláriodecontribuição: Fl. 1279DF CARF MF 24 (...) § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (...) d) as importâncias recebidas a título de férias indenizadas e respectivo adicional constitucional, inclusive o valor correspondente à dobra da remuneração de férias de que trata o art. 137 da Consolidação das Leis do TrabalhoCLT; (...) Contudo referido tema tem sido alvo de grande discussão em face de decisão do STJ acerca do tema. Nos autos do processo nº35464.001960/200375 de interesse UNILEVER BRASIL LTDA assim me manifestei acerca do tema: Referido entendimento já está pacificado pelo Superior Tribunal de Justiça por meio da decisão proferida no Resp 1.230.957/RS, julgado sob a sistemática dos recursos repetitivos. Valendo citar parte do voto proferido pelo Relator, o Ministro Mauro Campbell: 1.2 Terço constitucional de férias. No que se refere ao adicional de férias relativo às férias indenizadas, a não incidência de contribuição previdenciária decorre de expressa previsão legal (art. 28, § 9º, "d", da Lei 8.212/91 redação dada pela Lei 9.528/97). Em relação ao adicional de férias concernente às férias gozadas, tal importância possui natureza indenizatória/compensatória, e não constitui ganho habitual do empregado, razão pela qual sobre ela não é possível a incidência de contribuição previdenciária (a cargo da empresa). A Primeira Seção/STJ, no julgamento do AgRg nos EREsp 957.719/SC (Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, DJe de 16.11.2010), ratificando entendimento das Turmas de Direito Público deste Tribunal, adotou a seguinte orientação: "Jurisprudência das Turmas que compõem a Primeira Seção desta Corte consolidada no sentido de afastar a contribuição previdenciária do terço de férias também de empregados celetistas contratados por empresas privadas" . ... Nos termos do art. 7º, XVII, da CF/88, os trabalhadores urbanos e rurais têm direito ao gozo de férias anuais remuneradas com, pelo menos, um terço a mais do que o salário normal. Com base nesse dispositivo constitucional, o Supremo Tribunal Federal firmou orientação no sentido de que o terço constitucional de férias tem por finalidade ampliar a capacidade financeira do trabalhador durante seu período de férias, possuindo, portanto, natureza "compensatória/indenizatória". Além disso, levando em consideração o disposto no art. 201, § 11, da CF/88 — "os ganhos habituais do empregado, a qualquer título, serão incorporados ao salário para efeito de contribuição previdenciária e consequente repercussão em benefícios, nos casos e na forma da lei" (parágrafo incluído pela EC 20/98) — Fl. 1280DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 21 25 pacificou entendimento no sentido de que "somente as parcelas incorporáveis ao salário do servidor sofrem a incidência da contribuição previdenciária" (AgR no AI 603.537/DF, 2ª Turma, Rel. Min. Eros Grau, DJ de 30.3.2007). No mesmo sentido: AgR no RE 587.941/SC, 2ª Turma, Rel. Min. Celso de Mello, DJe 21.11.2008; AgR no AI 710.361/MG, 1ª Turma, Rel. Min. Cármen Lúcia, DJe de 8.5.2009. Cumpre observar que os precedentes do Supremo Tribunal Federal referemse a casos em que os servidores são sujeitos a regime próprio de previdência. Sem embargo dessa observação, não se justifica a adoção de entendimento diverso em relação aos trabalhadores sujeitos ao Regime Geral da Previdência Social. Isso porque o entendimento do Supremo Tribunal Federal amparase, sobretudo, nos arts. 7º, XVII, e 201, § 11, da CF/88, sendo que este último preceito constitucional estabelece regra específica do Regime Geral da Previdência Social. Desse modo, é imperioso concluir que a importância paga a título de terço constitucional de férias possui natureza indenizatória/compensatória, e não constitui ganho habitual do empregado, razão pela qual sobre ela não é possível a incidência de contribuição previdenciária (a cargo da empresa). Sabemos que a decisão do STJ está sobrestada pelo Recurso Extraordinário nº 593.068/SC, cuja repercussão geral foi reconhecida ("Tema 163 Contribuição previdenciária sobre o terço constitucional de férias, os serviços extraordinários, o adicional noturno e o adicional de insalubridade") e portanto não vincula os julgadores deste Conselho Administrativo de Recurso Fiscais. De toda forma entendo que a mesma traz o entendimento mais apropriado ao caso concreto. Conforme acima transcrito, embora claro o posicionamento ali adotado, sabemos que a decisão do STJ está sobrestada pelo Recurso Extraordinário nº 593.068/SC, cuja repercussão geral foi reconhecida. Contudo, ao contrário da relatora, no meu entender, apenas após o transito em julgado da decisão, poderá este conselho excluir as verbas do adicional de férias da base de cálculo de contribuições previdenciárias, tendo em vista o art. 62 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria 343 de 09 de junho de 2015, senão vejamos: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal. Fl. 1281DF CARF MF 26 I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Redação dada pela Portar ia MF nº 39, de 2016) II que fundamente crédito tributário objeto de: [...] b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei n º 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administ ração Tributária; (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) [...] e) Súmula da AdvocaciaGeral da União, nos termos d o art. 43 da Lei Complementar nº 73, de 1993. (Redação dada pela Por taria MF nº 39, de 2016) § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou do s arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito d o CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Apenas esclareço que, em relação as manifestações transcritas nos autos dos processos judiciais sobre posições dos ministros do STF, entendo pertinente esclarecer que a incidência de contribuições previdenciárias sobre o abono de um terço de férias (adicional de 1/3 de férias) será incluído no salário de benefício do segurado empregado, tendo em vista que, todas as contribuições apuradas em nome do segurado poderão ser utilizadas para cálculo de seus benefícios. Esse fato, tem tratamento diferente em relação aos servidores públicos, basicamente pelo fato de que o cálculo do benefício dos servidores públicos leva em consideração a última remuneração percebida pelo segurado e não o montante de contribuições por ele recolhidas. Dessa forma, entendo que a manifestação dos ilustres ministros em relação aos servidores públicos não traduz necessariamente o posicionamento a ser adotado em relação aos empregados segurados da previdência social. Embora a lei nº 8212/91 não seja expressa em incluir o 1/3 de férias no conceito de salário de contribuição, o Decreto nº 3048/90 o fez, senão vejamos: Art.214. Entendese por saláriodecontribuição: Ipara o empregado e o trabalhador avulso: a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços, nos Fl. 1282DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 22 27 termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa; IIpara os segurados empregado, inclusive o doméstico, e trabalhador avulso, ao piso salarial legal ou normativo da categoria ou, inexistindo este, ao salário mínimo, tomado no seu valor mensal, diário ou horário, conforme o ajustado e o tempo de trabalho efetivo durante o mês. (Incluído pelo Decreto nº 3.265, de 1999) §4º A remuneração adicional de férias de que trata o inciso XVII do art. 7º da Constituição Federal integra o saláriode contribuição. Isto posto, inexistindo transito em julgado que determine a aplicação da decisão do STJ nos termos do art. 62 do RICARF, e considerando a expressa previsão no Decreto 3048/99 sobre a incidência de contribuições sobre a verba 1/3 de férias, voto por negar provimento ao Recurso Especial do Contribuinte. Assistência médica aos dependentes Em relação a assistência médica aos dependentes, da mesma forma como já encaminhado no acórdão recorrido, entendo que não existe fundamento para sua exclusão do conceito de salário de contribuição, ao analisarmos os termos da lei 8212/91. Vejamos os termos do relatório fiscal acerca do caso concreto: 4.4. ASSISTÊNCIA MÉDICA E ODONTOLÓGICA PARA OS DEPENDENTES DOS EMPREGADOS E DIRIGENTES 4.4.1. Na operacionalização de suas atividades, como política de recursos humanos, a empresa disponibiliza aos seus empregados e dirigentes, extensivos aos dependentes, plano de saúde, de assistência médica e odontológica, através de contrato firmado com a operadora de Plano de Saúde MEDISERVICE. Esse contrato é extensivo a toda a empresa com exceção da filial Guaiba cujo contrato foi realizado com a UNIMED Centro Sul e com a UNIODONTO Porto Alegre. 4.4.2. O contrato feito .com a Mediservice permite que os empregados, dirigentes e seus dependentes busquem .atendimento médico, hospitalar e odontológico, "unto rede de credenciados, formada por profissionais médicos, dentistas, hospitais, clinicas e laboratórios credenciados pela Mediservice. 4.4.3. O referido contrato também permite que os empregados, dirigentes e seus dependentes busquem atendimento médico, hospitalar e odontológico fora da rede credenciada. Neste caso, a Mediservice reembolsa os empregados e dirigentes pelas despesas realizadas, de acordo com uma tabela Prédefinida pela Aracruz. O valor reembolsado é cobrado diretamente da Aracruz. 4.4.4. O contrato firmado com a Unimed Centro Sul Sociedade Cooperativa de Trabalho Médico Ltda e com a Uniodonto Porto Fl. 1283DF CARF MF 28 Alegre Cooperativa Odontológica Ltda, permite que os empregados e seus dependentes busquem atendimento médico, hospitalar e odontológico, apenas com profissionais pertencentes à rede credenciada. 4.4.5. Dispõe o art. 28, §9°, "q", da Lei n° 8.212, de 24/07/1991, na redação dada pela MP n° 1.59614, de 10/11/1997, convertida na Lei n° 9.528, de 10/12/1997, que os valores relativos à assistência médica e odontológica próprios da empresa ou por ela conveniada, cuja cobertura abranja a totalidade dos ernpregados e dirigentes; não integram o salário decontribuição. 4.4.6. Ocorre que a Aracruz, ao conceder a assistência médica e odontológica aos empregados e dirigentes, contemplou também os seus dependentes. Arcou, portanto, a empresa, corn os custos médicos e odontológicos dos familiares dos empregados e dirigentes. E, o que prevê o art. 28, §9°, "q", da Lei n° 8.212, de 24107/1991, é que a cobertura .do plano deve abranger totalidade dos empregados e dirigentes da empresa, restritivamente, não seus dependentes. 4.4.7. Ou seja, dos valores suportados peIa Aracruz relativos A assistência médica e odontológica, apenas os recursos destinados A cobertura da assistência médica, hospitalar e odontológica dos seus empregados e dirigentes, não integram o saláriodecontribuição. 4.4.8. Os recursos destinados à cobertura da assistência médica, hospitalar e • odontológica, dos dependentes dos segurados empregados e dirigentes, por não estarem expressamente previstos no art. 28, § 9°, "q", integram o saláriode. contribuição, nos termos.. do art. 28, incisos I e III, ambos da Lei n° 8.212, de 24/07/1991. 4.4.9. Os dados relativos aos fatos geradores ocorridos, apurados no período de 01/2005 a 12/2005, baseiamse nas informações, prestadas pela própria empresa' dos valores mensais por ela suportados com os dependentes que usufruíram dos benefícios ofertados pelo Plano de Saúde (dentro e fora da rede credenciada). 4.4.10. Os valores mensais custeados pela empresa, referentes As despesas com assistência médica e odontológica dos dependentes, considerados como basede cálculo, encontramse discriminados por estabelecimento e competência, no DD — Discriminativo do Débito (anexo ao presente Al), nos levantamentos "PS6" e "PS7". Os valores discriminados por segurado encontramse no anexo I. 4.4.11. As despesas com o plano de saúde dos dependentes, custeadas pelos empregados e dirigentes, não foram objeto de levantamento. Fl. 1284DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 23 29 Não concordo com a argumentação do recorrente de que a legislação trabalhista não restringe a concessão apenas aos empregados, mas descreve que a assistência medica não é considerado salário in natura. Observase que a interpretação para exclusão de parcelas da base de cálculo é literal. A isenção é uma das modalidades de exclusão do crédito tributário, e desse modo, interpretase literalmente a legislação que disponha sobre esse benefício fiscal, conforme prevê o CTN em seu artigo 111, I, nestas palavras: Art. 111. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre: I suspensão ou exclusão do crédito tributário; Assim, onde o legislador não dispôs de forma expressa, não pode o aplicador da lei estender a interpretação, sob pena de violarse os princípios da reserva legal e da isonomia. Analisando os dispositivos legais, entendo que razão não assiste ao recorrente, sendo que a extensão do benefício aos seus dependentes não encontrase no rol de exclusão previsto na alínea “q” do § 9º do art. 28 da lei 8212/91: § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 10.12.97) q) o valor relativo à assistência prestada por serviço médico ou odontológico, próprio da empresa ou por ela conveniado, inclusive o reembolso de despesas com medicamentos, óculos, aparelhos ortopédicos, despesas médicohospitalares e outras similares, desde que a cobertura abranja a totalidade dos empregados e dirigentes da empresa; (Incluída pela Lei nº 9.528, de 10.12.97) Ao contrário do que entende o recorrente para que os benefícios concedidos aos empregados não constituam salário de contribuição devem constar do rol de exclusão do art. 28, § 9 da lei 8212/91, não podendo valerse da legislação trabalhista para definir o conceito de salário de contribuição de contribuições previdenciárias. Da mesma forma, o conceito de salário de contribuição abarca todos os pagamentos feitos aos empregados, conforme previsto no art. 28 da Lei n ° 8.212/1991. Para o segurado empregado entendese por saláriodecontribuição: Art.28. Entendese por saláriodecontribuição: I para o empregado e trabalhador avulso: a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa; (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 10/12/97) Fl. 1285DF CARF MF 30 (grifo nosso.) Segundo o ilustre professor Arnaldo Süssekind em seu livro Instituições de Direito do Trabalho, 21ª edição, volume 1, editora LTr, o significado do termo remuneração deve ser assim interpretado: No Brasil, a palavra remuneração é empregada, normalmente, com sentido lato, correspondendo ao gênero do qual são espécies principais os termos salários, vencimentos, ordenados, soldo e honorários. Como salientou com precisão Martins Catharino, “costumeiramente chamamos vencimentos a remuneração dos magistrados, professores e funcionários em geral; soldo, o que os militares recebem; honorários, o que os profissionais liberais ganham no exercício autônomo da profissão; ordenado, o que percebem os empregados em geral, isto é, os trabalhadores cujo esforço mental prepondera sobre o físico; e finalmente, salário, o que ganham os operários. Na própria linguagem do povo, o vocábulo salário é preferido quando há prestação de trabalho subordinado.” Assim, onde o legislador não dispôs de forma expressa, não pode o aplicador da lei estender a interpretação, sob pena de violarse os princípios da reserva legal e da isonomia. Conclusão Diante do exposto, voto por conhecer do Recurso Especial do Contribuinte, para no mérito NEGARLHE PROVIMENTO. É como voto. (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. Fl. 1286DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 24 31 Declaração de Voto Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. Recurso Especial da Fazenda Nacional A presente declaração tem por escopo apenas esclarecer a motivação do acompanhamento da ilustre relatora pelas conclusões, tendo em vista que a tese por ela defendida, quando da análise pontual das matérias em outros julgados, apresentase diferente da por mim defendida em relação a bolsa de estudos de nível superior. De acordo com o previsto no art. 28 da Lei n ° 8.212/1991, para o segurado empregado entendese por saláriodecontribuição a totalidade dos rendimentos destinados a retribuir o trabalho, incluindo nesse conceito os ganhos habituais sob a forma de utilidades, nestas palavras: Art.28. Entendese por saláriodecontribuição: I para o empregado e trabalhador avulso: a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa; (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 10/12/97) Existem parcelas que não sofrem incidência de contribuições previdenciárias, seja por sua natureza indenizatória ou assistencial, tais verbas estão arroladas no art. 28, § 9º da Lei n ° 8.212/1991, nestas palavras, especificamente em relação a bolsas de estudo: Art. 28 (...) § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 10/12/97) t) o valor relativo a plano educacional que vise à educação básica, nos termos do art. 21 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e a cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa, desde que não seja utilizado em substituição de parcela salarial e que todos os empregados e dirigentes tenham acesso ao mesmo; (Redação dada pela Lei nº 9.711, de 20/11/98) Fl. 1287DF CARF MF 32 No caso, quanto a verba BOLSA DE ESTUDOS, nos termos em que foi concedida não constituir salário de contribuição, entendo ser possível a interpretação adotada no acórdão recorrido. Isso porque, aproveitando toda a análise da legislação acima descrita, fazse necessário agora apreciar a procedência do lançamento em relação à concessão de auxílios de cursos superiores fornecidos pela empresa aos seus empregados. Primeiro, vejamos os fundamentos do lançamento quanto ao fato gerador ora sob análise: 4.3. BOLSA AUXILIO EDUCAÇÃO GRADUAÇÃO E PÓS GRADUAÇÃO (EDUCAÇÃO SUPERIOR) 4.3.1. Neste levantamento encontramse os pagamentos feitos aos empregados, referente A bolsa auxilio graduação e pós graduação (educação superior). 4.3.2. No exame da escrituração contábil, encontramos pagamentos feitos aos empregados, referentes A bolsa auxilio graduação e pósgraduação (educação superior). 4.3.3. 0 artigo 28, § 9°, "V', da Lei n°. 8.212/91, estabelece que não integra o saláriodecontribuição: "O valor relativo a plano educacional que vise à educação básica, nos termos do art. 21 da Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e a cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa, desde que não seja utilizado em substituição de parcela salarial e que todos os empregados e dirigentes tenham acesso ao mesmo; (Redação dada. pela Lei n°9.711, de 20.11.98)" (grifo nosso) 4.3.4. 0 artigo 21 da ,Lei n°. 9.394/96, divide: .a educação escolar em: básica (formada pela educação infantil, ensino fundamental e ensino médio) e educacão superior. 4.3.5. De acordo com o dispositivo legal, para que não haja incidência das contribuições previdenciárias, os valores devem ser gastos apenas com educação básica e com cursos de capacitação e qualificação profissionais, vinculados As atividades desenvolvidas pela empresa, não englobando educação superior, de que trata os arts. 43 a 57 da Lei n° 9.394/96. 4.3.6. Ou seja, ás despesas com educação superior. não estão alcançadas pela exclusão prevista na alínea "t", § 9°, art. 28 da terns:8.21 e enquadrando como valor pago, devido ou creditado a "qualquer titulo",.. conforme previsto no inciso I, art. 28 da Lei n° 8.212/91. 4.3.7. Analisando a cartilha de benefícios da empresa, verificamos também que não existe previsão para fornecimento desse beneficio aos empregados e dirigentes. 4.3.8. A empresa informou que o beneficio foi pago apenas para os funcionários da filial Guaiba, pois faz parte da política Fl. 1288DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 25 33 de benefícios adotada pela fábrica de Guaiba, • antes de sua aquisição pela Aracruz Celulose. 4.3.9. A empresa ao disponibilizar o beneficio apenas para os funcionários da filial Guaiba, está impondo um óbice à extensão a todos os empregados e dirigentes da empresa, contrariando o disposto na alínea § 9°, artigo 28, da Lei n°. 8.212/91. 4.3.10. Diante do exposto, os recursos destinados pela empresa para fornecimento de Bolsa Auxilio Graduação e Pós Graduação para os empregados da filial Guaiba, integram o saláriodecontribuição, nos termos do artigo 28, inciso I, da Lei n° 8.212, de 24/07/1991. • 4.3.11. Os dados relativos aos fatos geradores ocorridos no período de 01/2005 a 41, 12/2005, foram apurados com base na escrituração contábil, conta 321314 — Bolsa de Estudo. 4.3.12. Os valores mensais considerados como basedecálculo, encontramse discriminados por estabelecimento e competência, no DD — Discriminativo do Débito (anexo ao presente Al), no levantamento "CS6". Os valores discriminados por empregado encontramse no anexo I. Conforme podemos extrair dos pontos descritos no relatório fiscal, a base para o lançamento é a interpretação, primeiramente, da autoridade fiscal de que o ensino superior não estaria abrangido no programa de capacitação e qualificação profissional previsto no art. 28, §9º, "t" da lei 8212/90: t)o valor relativo a plano educacional que vise à educação básica, nos termos do art. 21 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e a cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa, desde que não seja utilizado em substituição de parcela salarial e que todos os empregados e dirigentes tenham acesso ao mesmo; (Redação dada pela Lei nº 9.711, de 1998). Embora tenha me filiado a tese da autoridade fiscal no passado, no sentido de que a educação superior não estaria abrangida no dispositivo acima transcrito, revisitando o texto da Lei de Diretrizes Básicas da Educação, Lei 9394/1996 e analisando o texto original do art. 28, § 9º da Lei n ° 8.212/1991, não vejo a impossibilidade de se interpretar a educação superior como uma forma de capacitação ou mesmo qualificação profissional. No caso, desde que a educação proporcionada seja vinculada às atividades desenvolvidas pela empresa, possível a sua exclusão do conceito de salário de contribuição, desde que cumpridos os demais requisitos legais, quais sejam: extensível a todos os empregados. Notese que não estou com isso afastando toda e qualquer fornecimento de auxílio educação de curso superior do conceito de salário de contribuição, mas tão somente, abrindo a possibilidade de interpretação de que essa modalidade de curso esteja amparada na exclusão prevista no art. 28, §º, "t" da lei 8212/90 desde que cumprido os requisitos ali expostos, mas precisamente: “e a cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa, desde que não seja utilizado em Fl. 1289DF CARF MF 34 substituição de parcela salarial e que todos os empregados e dirigentes tenham acesso ao mesmo; No caso, poderia o auditor promover o lançamento sobre essa rubrica, mas teria a autoridade fiscal de identificar que o curso superior não possuía qualquer relação com as atividades desenvolvidas na empresa, ou tão somente, não era extensível a todos os dirigentes e empregados. Contudo, pela transcrição dos trechos do relatório fiscal, não é possível vislumbrar ter o auditor descrito a não vinculação do curso superior as atividades desenvolvidas pela empresa, razão pela qual não há como dar guarida ao entendimento da Fazenda Nacional, devendo ser negado provimento ao seu recurso especial nessa parte. Alías, quanto a esse ponto, transcrevo trecho do voto apresentado quando do julgamento na Câmara a quo enquanto relatora: Assim, podemos destacar que dois são os fundamentos da autoridade fiscal, o primeiro por simplesmente tratarse de educação superior e o segundo por não ser extensível a todos os empregados. Quanto a questão da educação superior valhome de trecho da decisão de primeira instância para fundamentar minha decisão. Vejamos o trecho pertinente: 19. Sobre o argumento de que os cursos de capacitação e qualificação profissionais abrangem os cursos superiores, especialmente porque os mesmos possuem intima ligação com a capacitação e qualificação profissional de qualquer funcionário, o art. 39, abaixo transcrito, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei n° 9.394/96, seja em sua redação original, vigente à época dos fatos geradores, como na dada pela Lei n° 11.741/2008, vigente época da lavratura do Auto de Infração, de fato estabelece a possibilidade de os cursos superiores abrangerem os cursos profissionais: Art. 39. A educação profissional, integrada às diferentes formas de educação, ao trabalho, a ciência e à tecnologia, conduz ao permanente desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva.(redação original). Parágrafo único. 0 aluno matriculado ou egresso do ensino fundamental, médio e superior, bem como o trabalhador em geral, jovem ou adulto, contará com a possibilidade de acesso a educação profissional. (redação original) Art. 39. A educação profissional e tecnológica, no cumprimento dos objetivos da educação nacional, integrase aos diferentes níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia. (Redação dada pela Lei n° 11.741, de 2008) (..) § 29 A educação profissional e tecnológica abrangerá os seguintes cursos:(incluído pela Lei n° 11.741, de 2008) III — de educação profissional tecnológica de graduação e pós graduação.(incluído pela Lei n° 11.741, de 2008) Fl. 1290DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 26 35 20. Ocorre que a empresa não logrou êxito em comprovar que tais cursos eram, de fato, capacitações e qualificações PROFISSIONAIS, ligadas ás atividades desenvolvidas pelos empregados na empresa, ou se eram cursos do interesse pessoal de cada trabalhador. No mais, nunca é demais relembrar a previsão do CIN acerca de interpretação no que concerne à outorga de isenção: É nesse ponto que entendo assistir razão ao recorrente, o fundamento para não exclusão da verba como base de cálculo de contribuição é que o recorrente não comprovou a correlação entre o curso de graduação e pós graduação e a atividade desenvolvida por cada empregado. Porém não foi esse o fundamento para o lançamento, e sim o simples fato de tratar se de curso superior. Contudo, entendo que o órgão julgador só poderia utilizarse desse argumento se a imputação fiscal fosse a não comprovação por parte da empresa de que os cursos oferecidos possuíam relação com as atividades desenvolvidas. Não estou com isso afirmando que os cursos oferecidos enquadravam na exclusão prevista na alínea “t” do § 9. do art. 28 da Lei n.º 8.212/1991, que assim, descreve: “t)o valor relativo a plano educacional, ou bolsa de estudo, que vise à educação básica de empregados e seus dependentes e, desde que vinculada às atividades desenvolvidas pela empresa, à educação profissional e tecnológica de empregados, nos termos da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e:(Redação dada pela Lei nº 12.513, de 2011)”. O que entendo é que a imputação fiscal não se mostrou clara ao descrever esse fundamento como lançamento, e não acato a argumentação do julgador que competiria a empresa o ônus de provar que o seu benefício enquadravase na exigência legal. Porém, conforme transcrito anteriormente, o auditor descreveu sim, como imputação de descumprimento legal, o fato da empresa não ser extensível a todos os dirigentes e empregados, senão vejamos novamente: 4.3.6. Ou seja, ás despesas com educação superior. não estão alcançadas pela exclusão prevista na alínea "t", § 9°, art. 28 da terns:8.21 e enquadrando como valor pago, devido ou creditado a "qualquer titulo",.. conforme previsto no inciso I, art. 28 da Lei n° 8.212/91. 4.3.7. Analisando a cartilha de benefícios da empresa, verificamos também que não existe previsão para fornecimento desse beneficio aos empregados e dirigentes. 4.3.8. A empresa informou que o beneficio foi pago apenas para os funcionários da filial Guaiba, pois faz parte da política de benefícios adotada pela fábrica de Guaiba, • antes de sua aquisição pela Aracruz Celulose. 4.3.9. A empresa ao disponibilizar o beneficio apenas para os funcionários da filial Guaiba, está impondo um óbice à extensão a todos os empregados e dirigentes da empresa, Fl. 1291DF CARF MF 36 contrariando o disposto na alínea § 9°, artigo 28, da Lei n°. 8.212/91. Contudo, entendo que esse ponto, também foi devidamente enfrentado no acórdão recorrido, conforme passo a transcrever novamente meu voto, lá ofertado. O outro fundamento para o lançamento, é que não preenchido o requisito de extensão a todos os empregados, nos termos da antiga redação do “t” do § 9. do art. 28 da Lei n.º 8.212/1991: t)o valor relativo a plano educacional que vise à educação básica, nos termos do art. 21 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e a cursos de capacitação e qualificação profissionais vinculados às atividades desenvolvidas pela empresa, desde que não seja utilizado em substituição de parcela salarial e que todos os empregados e dirigentes tenham acesso ao mesmo; (Redação dada pela Lei nº 9.711, de 1998). Quanto a este ponto, devemos identificar os argumentos do recorrente para justificar a concessão do benefício a apenas parte de seus empregados: No que se refere ao fato de que tais benefícios seriam concedidos apenas a funcionários da filial de Guaíba da Recorrente, imp8ese registrar que tal estabelecimento foi incorporado pela mesma pouco antes do advento do exercício objeto de autuação (doc. 04 da Impugnação). 86. Tal informação se mostra essencial na medida em que todos os valores autuados se resumem a bolsas concedidas anteriormente a tal incorporação, e não a novas solicitaq8es posteriores a este evento societário, de modo que o acesso da integralidade dos funcionários e dirigentes da empresa incorporada a esses benefícios era fielmente observado, estando os valores respectivamente quitados a titulo de financiamento de cursos de graduação e pós graduação plenamente de acordo com o cogitado dispositivo previdenciário A época das correspondentes concessões. Significa dizer que, a despeito de não ter o costume de financiar tais cursos a seus funcionários e dirigentes, a ora Recorrente, ao incorporar estabelecimento que assim procedia (registrese, de forma plenamente regular com os requisitos legalmente tragados), optou por manter os benefícios que já haviam sido concedidos antes da incorporação. Novamente entendo que o argumento trazido pelo julgador não se mostra o mais acertado, para que a empresa pudesse usufruir do benefício: “22. Na situação ocorrida, a empresa tinha duas alternativas para tal importância não integrar o salário de contribuição, no que tange a este aspecto, totalidade de acesso: estender à outras filiais o que já era praxe em Guaiba ou encerrar tais pagamentos para os funcionários de tal unidade.”. Realmente, a época do lançamento (2009), o exclusão descrita na alínea “t” do § 9º do art. 28 da lei 8.212/91, determinava a extensão a todos os empregados e dirigentes da empresa, porém, entendo que os argumentos do recorrente são pertinentes a que se diga que nesse ponto também o lançamento não se aperfeiçoou para que se possa afirmar que o recorrente descumpriu os preceitos legais para usufruir do benefício de exclusão da base de cálculo. Nesse ponto, a primeira questão a ser respondida é: “A empresa Aracruz institui plano para fornecer o benefício de educação superior e pós graduação a apenas parte Fl. 1292DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 27 37 dos seus empregados? Entendo que não. A mesma descreveu que o fornecimento deuse face a incorporação de empresa da cidade de Guaíba (empresa essa que sim, possuía plano de educação extensível a todos os empregados). Ao contrário do que entendeu o julgador, a legislação trabalhista é clara ao descrever nos seus art. 10 e 448 do Decreto Lei 5452/1943 que instituiu a CLT, que alterações na estrutura jurídica (como é o caso da incorporação) ou mesmo alterações na propriedade não afetam os contratos de trabalhos. Ou seja, nos termos da legislação trabalhista não poderia a empresa simplesmente cessar a concessão do benefício, como entendeu o julgador para enquadrarse na exclusão legal. Vejamos dispositivos: Art. 10 Qualquer alteração na estrutura jurídica da empresa não afetará os direitos adquiridos por seus empregados. (...) Art. 448 A mudança na propriedade ou na estrutura jurídica da empresa não afetará os contratos de trabalho dos respectivos empregados. Dessa forma, entendo que o fato de dar continuidade ao plano de fornecimento de educação aos empregados de empresa incorporada não é capaz de determinar o descumprimento da exigência “extensível a todos os empregados e dirigentes”, tendo em vista que a exclusividade da concessão deuse por força legal e contratual, a qual o autuado não poderia eximirse, considerando até mesmo a possibilidade do empregado exigir a permanência do benefício face a justiça do trabalho. Apenas para esclarecer não estou me valendo do disposto no art. 458, § 2 da CLT, para determinar a exclusão da base de cálculo (conforme argumentado pelo recorrente), posto que entendo que a legislação previdência, por ser norma específica, sobrepõemse a legislação trabalhista quando define os critérios de isenção. Contudo, não podendo o empregador (autuado) cumprir exigência legal por não ter sido ele instituidor do benefício, não cabe a fiscalização simplesmente penalizálo sem verificar se a empresa incorporada isoladamente (em período anterior), preenchia os requisitos legais. Conclusão Face as considerações acima, acompanho a relatora pelas conclusões quanto a negar provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional em relação ao auxílio educação fornecido aos empregados para os cursos de educação superior. (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. Fl. 1293DF CARF MF 38 Declaração de Voto Conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz. Após o voto da Redatora, a quem rendo as minhas homenagens, ouso divergir, com a devida vênia, do posicionamento adotado, mormente quanto à aplicação do Recurso Especial n.º 1.230.957 RS, julgado sob a sistemática dos repetitivos, no qual consta a seguinte ementa: PROCESSUAL CIVIL. RECURSOS ESPECIAIS. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA A CARGO DA EMPRESA. REGIME GERAL DA PREVIDÊNCIA SOCIAL. DISCUSSÃO A RESPEITO DA INCIDÊNCIA OU NÃO SOBRE AS SEGUINTES VERBAS: TERÇO CONSTITUCIONAL DE FÉRIAS; SALÁRIO MATERNIDADE; SALÁRIO PATERNIDADE; AVISO PRÉVIO INDENIZADO; IMPORTÂNCIA PAGA NOS QUINZE DIAS QUE ANTECEDEM O AUXÍLIODOENÇA. (...) No que se refere ao adicional de férias relativo às férias indenizadas, a não incidência de contribuição previdenciária decorre de expressa previsão legal (art. 28, § 9º, "d", da Lei 8.212/91 redação dada pela Lei 9.528/97). Em relação ao adicional de férias concernente às férias gozadas, tal importância possui natureza indenizatória/compensatória, e não constitui ganho habitual do empregado, razão pela qual sobre ela não é possível a incidência de contribuição previdenciária (a cargo da empresa). A Primeira Seção/STJ, no julgamento do AgRg nos EREsp 957.719/SC (Rel. Min. Cesar Asfor Rocha, DJe de 16.11.2010), ratificando entendimento das Turmas de Direito Público deste Tribunal, adotou a seguinte orientação: "Jurisprudência das Turmas que compõem a Primeira Seção desta Corte consolidada no sentido de afastar a contribuição previdenciária do terço de férias também de empregados celetistas contratados por empresas privadas" . 1.3 Salário maternidade. O salário maternidade tem natureza salarial e a transferência do encargo à Previdência Social (pela Lei 6.136/74) não tem o condão de mudar sua natureza. (...). 1.4 Salário paternidade. O salário paternidade referese ao valor recebido pelo empregado durante os cinco dias de afastamento em razão do nascimento de filho (art. 7º, XIX, da CF/88, c/c o art. 473, III, da CLT e o art. 10, § 1º, do ADCT). Ao contrário do que ocorre com o salário maternidade, o salário paternidade constitui ônus da empresa, ou seja, não se trata de benefício previdenciário. Desse modo, em se tratando de verba de natureza salarial, é legítima a incidência de contribuição previdenciária sobre o salário paternidade. Ressaltese que "o saláriopaternidade deve ser tributado, por se tratar de licença remunerada prevista constitucionalmente, não se incluindo no rol dos benefícios previdenciários(...). 2.2 Aviso prévio indenizado. A despeito da atual moldura legislativa (Lei 9.528/97 e Decreto 6.727/2009), as importâncias pagas a título de indenização, que não correspondam a serviços prestados nem a tempo à disposição do empregador, não ensejam a incidência Fl. 1294DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 28 39 de contribuição previdenciária. A CLT estabelece que, em se tratando de contrato de trabalho por prazo indeterminado, a parte que, sem justo motivo, quiser a sua rescisão, deverá comunicar a outra a sua intenção com a devida antecedência. Não concedido o aviso prévio pelo empregador, nasce para o empregado o direito aos salários correspondentes ao prazo do aviso, garantida sempre a integração desse período no seu tempo de serviço (art. 487, § 1º, da CLT). Desse modo, o pagamento decorrente da falta de aviso prévio, isto é, o aviso prévio indenizado, visa a reparar o dano causado ao trabalhador que não fora alertado sobre a futura rescisão contratual com a antecedência mínima estipulada na Constituição Federal (atualmente regulamentada pela Lei 12.506/2011). Dessarte, não há como se conferir à referida verba o caráter remuneratório pretendido pela Fazenda Nacional, por não retribuir o trabalho, mas sim reparar um dano. Ressaltese que, "se o aviso prévio é indenizado, no período que lhe corresponderia o empregado não presta trabalho algum, nem fica à disposição do empregador. Assim, por ser ela estranha à hipótese de incidência, é irrelevante a circunstância de não haver previsão legal de isenção em relação a tal verba" (...) 2.3 Importância paga nos quinze dias que antecedem o auxíliodoença. No que se refere ao segurado empregado, durante os primeiros quinze dias consecutivos ao do afastamento da atividade por motivo de doença, incumbe ao empregador efetuar o pagamento do seu salário integral (art. 60, § 3º, da Lei 8.213/91 — com redação dada pela Lei 9.876/99). Não obstante nesse período haja o pagamento efetuado pelo empregador, a importância paga não é destinada a retribuir o trabalho, sobretudo porque no intervalo dos quinze dias consecutivos ocorre a interrupção do contrato de trabalho, ou seja, nenhum serviço é prestado pelo empregado. Nesse contexto, a orientação das Turmas que integram a Primeira Seção/STJ firmouse no sentido de que sobre a importância paga pelo empregador ao empregado durante os primeiros quinze dias de afastamento por motivo de doença não incide a contribuição previdenciária, por não se enquadrar na hipótese de incidência da exação, que exige verba de natureza remuneratória. (...). Do mencionado Acórdão podemos extrair o entendimento do Superior Tribunal de Justiça, inclusive, de modo reiterado, em razão do número de precedentes citados no inteiro teor da decisão, no sentido da não incidência das contribuições previdenciárias sobre as rubricas em análise, notadamente: o terço constitucional de férias, o aviso prévio indenizado e a importância paga nos 15 primeiros dias que antecedem o auxíliodoença. Convém destacar que foi recebido Recurso Extraordinário contra a decisão do REsp n.º 1230.957 RS, no Supremo Tribunal Federal, no qual a única matéria não recebida, por ausência de repercussão geral, foi o aviso prévio indenizado, pois segundo a Corte Suprema não se trata de tema de cunho constitucional. Fl. 1295DF CARF MF 40 Desse modo, houve a separação dos capítulos da sentença, de modo que uns capítulos estão pendentes de julgamentos e um capítulo transitou em julgado, qual seja o capítulo referente ao aviso prévio. Temos, pela Teoria dos capítulos da sentença, aceita doutrinariamente e prevista 523 do CPC, que, no dizer de Cândido Rangel Dinamarco, o capítulo da sentença é toda unidade decisória autônoma contida na parte dispositiva de uma decisão judicial. Complementa Freddie Didier Jr. que essa unidade autônoma tanto pode encerrar uma decisão sobre a pretensão ao julgamento de mérito (capítulos puramente processuais), como uma decisão sobre o próprio mérito (capítulos de mérito). Além da previsão geral contida no CPC, em meu entender, o Decreto n.º 70.235/72, norma regente do processo administrativo fiscal, aplica a teoria dos capítulos da sentença ao permitir a formação de autos apartados para a imediata cobrança do objeto não contestado, no caso de impugnação parcial, de acordo com o disposto no art. 21, § 1º, abaixo transcrito: Art. 21. Não sendo cumprida nem impugnada a exigência, a autoridade preparadora declarará a revelia, permanecendo o processo no órgão preparador, pelo prazo de trinta dias, para cobrança amigável. § 1º No caso de impugnação parcial, não cumprida a exigência relativa à parte não litigiosa do crédito, o órgão preparador, antes da remessa dos autos a julgamento, providenciará a formação de autos apartados para a imediata cobrança da parte não contestada, consignando essa circunstância no processo original. Como se percebe, o que faz a autoridade preparadora nada mais é do que cobrar o tributo correspondente ao capítulo da decisão transitada em julgado, enquanto as demais matérias continuam em julgamento, pois oportunamente impugnadas. Notase, assim, que a interpretação adotada tem como fundamento de validade tanto a norma específica quanto a norma geral processual, de aplicação supletiva e subsidiária ao processo administrativo, nos termos do art. 15 do Código de Processo Civil: Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente. Assim, estamos diante do seguinte panorama processual: quanto ao aviso prévio indenizado, capítulo integrante da decisão proferida em repetitivo, não lhe foi atribuída repercussão geral para fins de recebimento do RE interposto, portanto, não se encontra mais pendente de julgamento, tornandose imutável e indiscutível a decisão proferida pelo Superior Tribunal de Justiça, de modo definitivo, pois não cabe mais recurso (coisa julgada material); no que se referem às demais rubricas objeto do RE, que representam os outros capítulos do Acórdão, convém destacar que encontramse pendentes de apreciação pela Corte Suprema, restando suspensa a aplicação do repetitivo sobre tais temas, em razão da atribuição de repercussão geral das matérias. Desse modo, adoto a decisão definitiva sobre o aviso prévio indenizado, proferida dentro do microssistema de formação concentrada de precedentes obrigatórios, em Fl. 1296DF CARF MF Processo nº 15586.001358/200930 Acórdão n.º 9202006.653 CSRFT2 Fl. 29 41 razão do efeito vinculante, em obediência ao disposto no art. 62, § 2º, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais abaixo transcrito: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016). A respeito das demais rubricas (o terço de férias e os 15 primeiros dias que antecedem o auxílio doença), ainda que eu não considere o Recurso Especial mencionado como precedente obrigatório, nos termos do disposto no RICARF, tendo em vista a pendência de análise pelo STF, entendo como razoável adotar o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça sobre os temas, como expresso no REsp n.º 1230.957 RS, em razão da reiterada jurisprudência da Corte Superior que se consubstancia em entendimento dominante. Tal aplicação ocorre com base no que a doutrina denomina de precedente com eficácia persuasiva, na medida em que, segundo Fredie Didier, tal decisão constitui indício de uma solução racional e socialmente adequada, pois emanada do Poder Judiciário, inclusive, em reiteradas ocasiões. Portanto, entendo pela não incidência da contribuição previdenciária sobre as o terço de férias, em obediência à razoabilidade e à segurança jurídica. (assinado digitalmente) Ana Cecília Lustosa da Cruz. Fl. 1297DF CARF MF
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