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Numero do processo: 10803.720147/2012-70
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 18 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Jun 23 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2006
AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE PRESUNÇÃO. DECADÊNCIA. PAGAMENTO ANTECIPADO. INCIDÊNCIA DO ART. 150, § 4º, DO CTN.
A acusação fiscal de práticas dolosas, fraudulentas ou simuladas pelo contribuinte demanda demonstração clara e específica de sua ocorrência, bem como conjunto probatório correspondente, não podendo ser tais ilícitos presumidos.
Quando se trata de tributo sujeito a lançamento por homologação, se ausente a comprovação de ocorrência de dolo, fraude ou simulação e o contribuinte realiza o respectivo pagamento antecipado, a decadência do direito de constituir o crédito tributário é regida pelo artigo 150, § 4°, do CTN.
Numero da decisão: 1402-002.533
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Caio Cesar Nader Quintella - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (Presidente).
Nome do relator: CAIO CESAR NADER QUINTELLA
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A. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2006 AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE PRESUNÇÃO. DECADÊNCIA. PAGAMENTO ANTECIPADO. INCIDÊNCIA DO ART. 150, § 4º, DO CTN. A acusação fiscal de práticas dolosas, fraudulentas ou simuladas pelo contribuinte demanda demonstração clara e específica de sua ocorrência, bem como conjunto probatório correspondente, não podendo ser tais ilícitos presumidos. Quando se trata de tributo sujeito a lançamento por homologação, se ausente a comprovação de ocorrência de dolo, fraude ou simulação e o contribuinte realiza o respectivo pagamento antecipado, a decadência do direito de constituir o crédito tributário é regida pelo artigo 150, § 4°, do CTN. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 80 3. 72 01 47 /2 01 2- 70 Fl. 426DF CARF MF 2 Leonardo de Andrade Couto Presidente. (assinado digitalmente) Caio Cesar Nader Quintella Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (Presidente). Fl. 427DF CARF MF Processo nº 10803.720147/201270 Acórdão n.º 1402002.533 S1C4T2 Fl. 320 3 Relatório Tratase de Recurso Ofício expressamente interposto contra v. Acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento do Rio de Janeiro I/RJ (fls. 405 a 420) que deu provimento integral à Impugnação apresentada, cancelando as Autuações sofridas pela Recorrida (fls. 02 a 35), em face do reconhecimento da decadência dos débitos lá exprimidos. No presente processo são exigidos do Contribuinte créditos de IRPJ, CSLL e IRRF, com base na verificação de pagamentos sem causa para terceiros. Confirase os termos do TVF (fls. 30 a 33): 001 CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS PAGAMENTOS A BENEFICIÁRIOS NÃO IDENTIFICADOS – CAUSA NÃO COMPROVADA Valores pagos à empresa EXPERTISE COMUNICAÇÃO TOTAL S/C LTDA., apurados com base em Notas Fiscais, conforme Termo de Verificação Fiscal e seu Anexo I, contratualmente destinados à aquisição de cartões que deveriam ser utilizados para pagamentos de prêmios a beneficiários que deveriam ser indicados pelo contribuinte, sem comprovação da causa dos pagamentos e sem identificação dos beneficiários. (...) 002 CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS DESPESAS INDEDUDÍVEIS – FALTA DE COMPROVAÇÃO DA EFETIVA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS Valores pagos à empresa EXPERTISE COMUNICAÇÃO TOTAL S/C LTDA., sem comprovação da efetiva prestação dos serviços, apurados com base em Notas Fiscais de prestação de serviços, conforme Termo de Verificação Fiscal e seu Anexo I, que fazem parte integrante do presente Auto de Infração. (...) 001 – IMPOSTO DE RENDA NA FONTE – APURAÇÃO REFLEXA PAGAMENTOS A BENEFICIÁRIOS NÃO IDENTIFICADOS – PAGAMENTOS SEM CAUSA Valores pagos à empresa EXPERTISE COMUNICAÇÃO TOTAL S/C LTDA., apurados com base em Notas Fiscais, conforme Termo de Verificação Fiscal e seu Anexo I, contratualmente destinados à aquisição de cartões que deveriam ser utilizados para pagamentos de prêmios a beneficiários que deveriam ser Fl. 428DF CARF MF 4 indicados pelo contribuinte, sem comprovação da causa dos pagamentos e sem identificação dos beneficiários. A acusação fiscal que sustenta as Autuações se resume à alegação de que a após os trabalhos de fiscalização e emissão e respostas aos Termos de Intimação, deixando o contribuinte de apresentar livros e documentos solicitados, restam incomprovados (sic) a efetiva prestação de serviços que deveriam ter sido prestados pela EXPERTISE e a causa dos pagamentos a ela efetuados, bem como daqueles que devem ter sido realizados com os cartões que deveriam ter sido adquiridos com os valores indicados nas notas fiscais como “NÃO TRIBUTADOS”, elementos indispensáveis à caracterização da necessidade dos dispêndios à atividade da pessoa jurídica e à manutenção da fonte produtora. Pelo mesmo fato, não identificados os beneficiários dos pagamentos que teriam sido efetuados por meio dos referidos cartões. Do exposto, na forma do que dispõe os Artigos 299 e 674, caput, e §§, do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, impõe se a glosa do valor total das notas fiscais na apuração do lucro líquido e da base de cálculo da CSLL, e a incidência do Imposto sobre a Renda na Fonte sobre os valores discriminados nas notas fiscais como “NÃO TRIBUTADOS ISS”, devidamente reajustados nas importâncias relacionadas no demonstrativo denominado Anexo I. Com o procedimento adotado, o contribuinte fez ocultar a causa e os beneficiários destes pagamentos, caracterizando, assim, a hipótese de incidência da multa prevista no inciso II do Artigo 957 do Decreto nº 3.000/99 – RIR. Notificada dos lançamentos, a ora Recorrida ofereceu Impugnação (fls. 547 a 595), alegando, em suma, a ocorrência da decadência total das Autuações, nos termos do art. 150, § 4º, do CTN, vez que não teria sido demonstrada ocorrência de dolo, fraude ou simulação, bem como sendo certo o pagamento parcial do IRPJ e da CSLL devida. No mérito, alega que a constatação da infração baseouse apenas na impossibilidade da ora Recorrida apresentar documentos e registros daquelas operações, que justificou na oportunidade das Intimações ter decorrido o prazo de guarda de documentos. Em relação ao IRRF, alega a contrariedade da acusação, vez que efetivamente fora identificado o beneficiário dos pagamentos (empresa EXPERTISE) e também, uma vez encerrado o anocalendário em que deveria ter havido a retenção, seria cabível à Fonte Pagadora apenas a imposição de multa. Também alega a qualificação indevida da pena em 150%, não havendo prova de conduta fraudulenta ou dolosa, apontando para a sofrível fundamentação do lançamento. Fl. 429DF CARF MF Processo nº 10803.720147/201270 Acórdão n.º 1402002.533 S1C4T2 Fl. 321 5 Confirase a esquematização das alegações do Contribuinte, procedida pela D. Instância a quo (fls. 415 e 416): Decadência do direito de lançar Os tributos objeto da presente autuação estão sujeitos a lançamento por homologação. Nesta modalidade de lançamento, a autoridade fiscal tem 05 (cinco) anos para constituir o crédito tributário. Esgotado este prazo, sem que a Fazenda tenha se pronunciado, considerase tacitamente homologado o lançamento (art. 150, § 4º, do CTN). Considerando se que os fatos geradores aqui examinados ocorreram no anocalendário de 2006, é forçoso concluir que, em 21/12/2012, data da ciência do lançamento, a Fazenda já havia decaído do direito de constituir o crédito tributário. A aplicação do art. 173, inciso I, do CTN ao caso presente é descabida. Em primeiro lugar, porque não ficou demonstrada qualquer conduta fraudulenta por parte da Impugnante. E em segundo lugar, porque a eventual inexistência do pagamento antecipado não desvirtua a natureza homologatória do lançamento — o que se homologa, em verdade, é a atividade exercida pelo sujeito passivo, da qual pode resultar ou não tributo a pagar. Improcedência dos lançamentos relativos ao IRPJ e à CSLL O fato de a Impugnante não haver relacionado as pessoas que usufruíram do então chamado “cartão benefício” não justifica a glosa das despesas. Por se tratar de documentos referentes ao ano calendário de 2006, é preciso lembrar que, no momento da intimação fiscal, a empresa já não estava obrigada a conserválos em seu poder — vide art. 195, parágrafo único, do CTN; e art. 37 da Lei nº 9.430/1996. O art. 299, § 3º, do RIR/99, por outro lado, reconhece que as gratificações pagas aos empregados são despesas operacionais dedutíveis. A falta de identificação dos beneficiários dos pagamentos poderia acarretar, quando muito, a tributação exclusiva do imposto de renda na fonte, à alíquota de 35%, mas não a glosa das despesas correspondentes. Seja como for, considerandose que o fundamento da autuação foi, apenas e tão somente, a falta de identificação dos beneficiários dos pagamentos, e levandose em conta que tal comprovação só não foi feita no curso da ação fiscal por se tratar de documentos de difícil localização, a Impugnante protesta, desde já, pela juntada dos documentos comprobatórios a posteriori. Fl. 430DF CARF MF 6 Improcedência do lançamento relativo ao IRRF A Fiscalização entendeu por bem exigir da Impugnante imposto de renda retido na fonte sobre pagamentos realizados a beneficiários não identificados. A autoridade fiscal esqueceuse, porém, de que, encerrado o anocalendário, a obrigação de reter o imposto deixa de ser da fonte pagadora e passa a ser do contribuinte que auferiu o rendimento. Sendo assim, o máximo que se poderia exigir da Impugnante, no caso presente, seriam, em tese, a multa pela falta de retenção e os juros referentes ao período compreendido entre o vencimento da obrigação e o término do anocalendário. De qualquer modo, a premissa da autuação é contraditória em si mesma. Se a exigência fiscal baseouse em pagamentos efetuados à empresa EXPERTISE, resta totalmente comprovada a identificação do beneficiário. Diante de tais circunstâncias, afastase, de plano, a aplicação do art. 674 do RIR/99, que trata de retenção exclusiva na fonte à alíquota de 35%. Por se tratar de pagamentos realizados de pessoa jurídica para pessoa jurídica, não caberia exigir nenhum imposto na fonte, a menos que a Fiscalização identificasse serviços sujeitos à retenção de 1% ou 1,5%. E nem se alegue que a empresa EXPERTISE era uma espécie de “testadeferro” dos verdadeiros beneficiários dos pagamentos. Para começar, nenhuma fraude foi comprovada pela Fiscalização. Além do mais, se os pagamentos foram realizados em favor de terceiros, e se a Fiscalização teve acesso à relação dos beneficiários, então os rendimentos deveriam ter sido tributados nos próprios beneficiários, à alíquota de 27,5%. Improcedência da multa de ofício de 150% A aplicação da multa de ofício de 150%, no caso em questão, é desprovida de fundamentação jurídica. O art. 44, inciso II, da Lei nº 9.430/1996 — dispositivo citado na autuação — não prevê multa de 150%, mas sim de 50%, sobre o valor do tributo. Não bastasse o erro de capitulação legal, a multa de 150% deve ser cancelada também pelo seu caráter confiscatório. Na eventualidade de ser considerada válida a aplicação da referida multa, o percentual máximo admissível seria de 75%. A majoração para 150% só caberia em caso de dolo, fraude ou simulação. Ocorre que a Impugnante não esteve envolvida em qualquer investigação de fraude ou simulação, não havendo prova de que tenha participado de qualquer organização criminosa ou mesmo contribuído para a prática de qualquer ilícito penal. A simples conduta de deixar de recolher tributos (hipótese aqui figurada, para efeito de argumentação) não configura fraude. Fl. 431DF CARF MF Processo nº 10803.720147/201270 Acórdão n.º 1402002.533 S1C4T2 Fl. 322 7 Também não nenhuma prova que vincule a empresa EXPERTISE à organização criminosa investigada pela “Operação Aquarela” ou que demonstre qualquer ligação da Impugnante com esta organização. Afirma a autoridade fiscal que, a partir de uma investigação iniciada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios – MPDFT, foram identificados indícios de um suposto esquema fraudulento, que tinha por objetivo oferecer serviços voltados para a implementação de campanhas de incentivo, resultando em mecanismos de pagamentos de prêmios a pessoas indicadas por seus clientes, mediante distribuição de cartões com respectivos créditos, possibilitando ao usuário sacar em espécie o que lhe fora atribuído. Cumpre registrar, todavia, que a empresa EXPERTISE nunca figurou como investigada do referido esquema. Ainda assim, a Fiscalização lavrou o presente auto de infração, baseando se na presunção de existência de um esquema fraudulento de sonegação fiscal entre a Impugnante e a mencionada EXPERTISE. Tratase de presunção de presunção, indício de indício, algo que viola qualquer dispositivo legal vigente e admitido em direito. Com efeito: — ao aplicador do direito não é dado presumir ilícitos no caso concreto. Para fins de aplicação de sanções ao contribuinte, o direito tributário penal exige que o fato seja inequívoco Tal conclusão decorre da leitura conjunta dos incisos II e XXXIX do art. 5º da Constituição Federal. Processada sua Defesa, os autos foram encaminhados para a DRJ do Rio de Janeiro I, que entendeu pela determinação de Diligência, considerando a referência feita no Termo de Verificação ao procedimento fiscal que teria sido realizado junto à empresa EXPERTISE COMUNICAÇÃO TOTAL S/C LTDA, e levando em conta, ainda, a menção feita pela impugnante à existência de uma suposta “Operação Aquarela” (fls. 416). Assim, foi proferida a Resolução nº 12000.258 (fls. 392 a 397), determinado que o Auditor Fiscal autuante: a) esclarecesse se a ação fiscal levada a efeito contra a referida empresa EXPERTISE comprovou algum vínculo da Interessada com esquemas fraudulentos porventura investigados na mencionada “Operação Aquarela”; e b) fizesse juntar aos autos, segundo seu prudente juízo, os documentos comprobatórios de tal vinculação, caso existente. Em resposta à determinação da DRJ, foram feitos os seguintes esclarecimento em Relatório (fls. 401 e 402): Fl. 432DF CARF MF 8 Em conformidade com a Resolução n° 12000.258, de 21/08/2013, da 15ª Turma da DRJ/RJO – Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro – RJ, através do presente Termo informamos que: 1.1 Não há vinculação direta entre a Operação Aquarela e o autuado. 1.2 Tal operação foi desenvolvida junto a outro contribuinte vinculado à EXPERTISE COMUNICAÇÃO TOTAL S/C LTDA em razão dos titulares do seu capital social. 1.3 A empresa foco da Operação Aquarela não era a única empresa a prestar tais serviços. 1.4 A EXPERTISE prestava os mesmos serviços, com o mesmo modus operandi: oferecer serviços voltados à implementação de campanhas de incentivo, que resultavam em pagamento de prêmios a pessoas indicadas por seus clientes, através da distribuição de cartões carregados com os respectivos créditos, possibilitando a esses beneficiários sacar em espécie o montante que lhe fora atribuído. 1.5 A empresa foco da operação e a EXPERTISE possuíam clientes em comum. 1.6 Assim, tanto a EXPERTISE como a empresa foco da Operação Aquarela operavam de maneira fraudulenta, já que a fraude se deu nas operações propriamente ditas e não necessariamente no âmbito da Operação Aquarela. 1.7 Tais fatos aliados a acontecimentos internos na RFB, notadamente o envolvimento de auditor fiscal nas investigações da Operação Aquarela demandaram a instauração de procedimentos fiscais junto à EXPERTISE e seus clientes, dentre os quais o sujeito passivo em epígrafe, tomador dos serviços. 1.8 Assim, embora o autuado não esteja diretamente envolvido na Operação Aquarela, ele, juntamente com outros contribuintes, participava do amplo esquema fraudulento que causou enormes prejuízos ao erário público. Em razão da não constatação de fatos novos, e tendo em vista que os presentes esclarecimentos são do conhecimento do contribuinte, por constarem nos relatórios dos autos de infração, não é necessário darlhe ciência do presente termo. Após o retorno de diligência, a DRJ a quo proferiu o v. Acórdão, ora recorrido, dando provimento à preliminar arguida, entendendo ser improcedente o lançamento procedido diante da ocorrência da decadência, nos termos do art. 150, § 4º do CTN. Confirase a ementa daquele Julgado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Fl. 433DF CARF MF Processo nº 10803.720147/201270 Acórdão n.º 1402002.533 S1C4T2 Fl. 323 9 Anocalendário: 2006 DECADÊNCIA. A decadência do direito de constituir o crédito tributário é regida pelo artigo 150, § 4°, do CTN, quando se trata de tributo sujeito a lançamento por homologação e o contribuinte realiza o respectivo pagamento antecipado, sem que fique comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Houve a expressa interposição de Recurso de Ofício pela DRJ do Rio de Janeiro I, diante do valor do crédito exonerado. Não houve a apresentação de razões por parte da Fazenda Nacional. Na sequência, os autos foram encaminhados para o I. Conselheiro Paulo Roberto Cortez, que os devolveu em face da extinção de seu mandato (fls. 425). Corretamente efetuado novo sorteio no âmbito desse 2ª Turma Ordinária, os autos seguiram para este Conselheiro relatar e votar. É o relatório. Fl. 434DF CARF MF 10 Voto Conselheiro Caio Cesar Nader Quintella Relator O Recurso Ofício atente aos requisitos e hipóteses normativas de sua interposição. Os demais pressupostos de admissibilidade igualmente foram atendidos. A matéria em tela é exclusivamente de Direito, resumindose à verificação da incidência do art. 150, § 4º, do CTN para o cômputo da decadência do crédito tributário sob análise, diante da constatação de pagamento antecipado do Contribuinte e da ausência de demonstração e prova da ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Claramente, se observa do brevíssimo TVF de 4 folhas (fls. 30 a 33) que, efetivamente, não houve qualquer abordagem específica ou comprovação da ocorrência de postura dolosa, fraude ou simulação na conduta Recorrida em relação aos fatos que deram origem da presente exação. Inclusive, tal matéria é apenas abordada transversalmente no caso, quando da aplicação da multa qualificada. Contudo, até essa fundamentação para a penalidade é diminuta, superficial e objetiva. Confirase: No entanto, deixando o contribuinte de apresentar livros e documentos solicitados, restam incomprovados a efetiva prestação de serviços que deveriam ter sido prestados pela EXPERTISE e a causa dos pagamentos a ela efetuados, bem como daqueles que devem ter sido realizados com os cartões que deveriam ter sido adquiridos com os valores indicados nas notas fiscais como “NÃO TRIBUTADOS”, elementos indispensáveis à caracterização da necessidade dos dispêndios à atividade da pessoa jurídica e à manutenção da fonte produtora. Pelo mesmo fato, não identificados os beneficiários dos pagamentos que teriam sido efetuados por meio dos referidos cartões. Do exposto, na forma do que dispõe os Artigos 299 e 674, caput, e §§, do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, impõe se a glosa do Fl. 435DF CARF MF Processo nº 10803.720147/201270 Acórdão n.º 1402002.533 S1C4T2 Fl. 324 11 valor total das notas fiscais na apuração do lucro líquido e da base de cálculo da CSLL, e a incidência do Imposto sobre a Renda na Fonte sobre os valores discriminados nas notas fiscais como “NÃO TRIBUTADOS ISS”, devidamente reajustados nas importâncias relacionadas no demonstrativo denominado Anexo I. Com o procedimento adotado, o contribuinte fez ocultar a causa e os beneficiários destes pagamentos, caracterizando, assim, a hipótese de incidência da multa prevista no inciso II do Artigo 957 do Decreto nº 3.000/99 – RIR. Caracterizando o exposto, em tese, crime contra a ordem tributária, nos termos da Lei nº 8.137/90 e em cumprimento ao disposto no art. 1º, inciso I, do Decreto nº 2.730/98 e art. 1º da Portaria RFB nº 2.439, de 21 de dezembro de 2010, alterada pela Portaria RFB nº 3.182/2011, será formalizada Representação Fiscal para Fins Penais. (destacamos fls. 33). Como se observa, em meia lauda de argumentos no TVF, a D. Autoridade Fiscal fundamentou na ausência de apresentação de livros e documentos, não só a falta de comprovação da efetiva prestação de serviços e a identificação dos beneficiários de pagamentos, mas também a ocorrência de fraude e a caracterização de crime contra a ordem tributária. Primeiramente, a constatação de condutas dolosas, fraudulentas e simuladas do contribuinte, capazes de dar ensejo à aplicação de multa qualificada, ao cômputo do prazo decadência pelo art. 173, inciso I, do CTN e à caracterização de crimes, demandam a demonstração específica da sua efetiva ocorrência, bem como conjunto comprobatório correspondente. Não podem ser simplesmente presumidos tais ilícitos, exclusivamente em face da não entrega de documentos que até fora justificada. Ora, o Contribuinte, desde a resposta da intimação para a apresentação de tal documentação (vide fls. 73 a 99), trouxe justificativa plausível (o que, todavia, não confunde com procedente) para não ter localizado os itens solicitados, alegando que a obrigação da guarda de documentos está limitada ao prazo decadencial dos tributos, como se extrairia do art. 195 do CTN e do art. 37 da Lei nº 9.430/96, tendo sido estes requeridos pela Fiscalização após 5 anos da ocorrência dos fatos geradores lá exprimidos. Fl. 436DF CARF MF 12 Independente da procedência ou não de tal argumento, é fato que tal resposta foi apenas mencionada no relato factual do TVF, não sendo combatido ou expressamente afastado pela Fiscalização, que repitase valeuse da ausência de entrega deste para sustentar todo o lançamento e penalidades. Em acréscimo, quanto à adoção de presunções e ilações incabíveis para o lançamento, o Relatório de Diligência (fls. 401 e 402) ilustra que as acusações fiscais em face do Contribuinte se basearam no fato de que a sua companhia fornecedora (EXPERTISE), apesar de não envolvida na "Operação Aquarela", tinha clientes em comum com a empresa foco daquela Ação, o que aliado a acontecimentos internos na RFB, notadamente o envolvimento de auditor fiscal nas investigações da Operação Aquarela bastou para se afirmar que a empresa EXPERTISE operava de maneira fraudulenta e, por sua vez, a Recorrida participava de esquema fraudulento: 1.5 A empresa foco da operação e a EXPERTISE possuíam clientes em comum. 1.6 Assim, tanto a EXPERTISE como a empresa foco da Operação Aquarela operavam de maneira fraudulenta, já que a fraude se deu nas operações propriamente ditas e não necessariamente no âmbito da Operação Aquarela. 1.7 Tais fatos aliados a acontecimentos internos na RFB, notadamente o envolvimento de auditor fiscal nas investigações da Operação Aquarela demandaram a instauração de procedimentos fiscais junto à EXPERTISE e seus clientes, dentre os quais o sujeito passivo em epígrafe, tomador dos serviços. 1.8 Assim, embora o autuado não esteja diretamente envolvido na Operação Aquarela, ele, juntamente com outros contribuintes, participava do amplo esquema fraudulento que causou enormes prejuízos ao erário público. (fls. 402) Como se observa, é absolutamente temerária e improcedente a maneira como se atribuiu envolvimento à Recorrida e se presumiu a natureza das infrações cometidas. Ainda, a exemplo da infração de omissão de receitas, tratada na Súmula CARF nº 141, a mera verificação da falta de comprovação da efetiva ocorrência de despesas e de pagamentos, principalmente quando exclusivamente arrimada na falta de apresentação de documentos e livros justificada, per si, não constitui os ilícitos mencionados no art. 173 do CTN. 1 Súmula CARF nº 14: A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo. Fl. 437DF CARF MF Processo nº 10803.720147/201270 Acórdão n.º 1402002.533 S1C4T2 Fl. 325 13 Posto isso, assim como concluído no v. Acórdão, não há elementos nos autos que justifiquem a adoção do art. 173, inciso I, do CTN como método de contagem de prazo decadencial, tendo em vista também que é incontroverso que naquele anocalendário de 2006 houve recolhimentos dos tributos sob exigência, havendo prova disso nos autos (fls. 364 a 387), incidindo, então, a regra do art. 150, § 4º, do CTN. Tendo em vista que o lançamento apenas ocorreu em 21/12/2012 e a contagem do prazo decadencial iniciouse 31/12/2006, resta configurada a decadência da exigência tributária em tela. Especificamente em relação ao IRRF, não obstante ser reflexo dessa autuação manifestamente improcedente, os pagamento que ensejaram sua incidência ocorreram em 16/02/2006 e 11/09/2006, fato este que igualmente comprova a consumação da decadência deste outro crédito. No mais, reconhecese a incidência da previsão contida art. 62, alínea "b" e § 2º do RICARF/MF vigente, pela matéria ter sido objeto de julgamento no âmbito do E. STJ, pela sistemática tratada no art. 543C do Código de Processo Civil de 1973 e, também, para todos os fins e efeitos, adotase o art. 50, § 1º, da Lei nº 9.784/99, pela concordância meritória com o v. Acórdão recorrido, cujas razões de decidir são reproduzidas doravante: Conforme anteriormente relatado, a Interessada alega que o Fisco já teria decaído do direito de lançar qualquer tributo relativo aos fatos aqui examinados, em virtude do decurso do prazo previsto no art. 150, § 4º, do CTN: Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional) “Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. (...) § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação.” Muito bem. Como é de curial sabença, a regra do art. 150, § 4º, do CTN, aplicase, exclusivamente, aos lançamentos por homologação (aqueles em que o sujeito passivo antecipa o pagamento do tributo sem prévio exame da autoridade administrativa). Fl. 438DF CARF MF 14 Para que a contagem do prazo decadencial se faça de acordo com a referida norma, é preciso, portanto, que se verifiquem duas condições: — a) a existência de um pagamento antecipado (que é, afinal, a atividade que o contribuinte pretende ver homologada); e b) a inexistência de dolo, fraude ou simulação. Fora daí — vale dizer, nos casos em que não existe pagamento antecipado ou em que fica comprovado o dolo, a fraude ou a simulação —, o prazo decadencial deve ser contado de acordo com a regra geral do art. 173, inciso I, do CTN, começando a fluir no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado: Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional) “Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I – do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II – da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Parágrafo único. O direito a que se refere este artigo extinguese definitivamente com o decurso do prazo nele previsto, contado da data em que tenha sido iniciada a constituição do crédito tributário pela notificação, ao sujeito passivo, de qualquer medida preparatória indispensável ao lançamento.” Este, precisamente, o entendimento assentado no Superior Tribunal de Justiça, conforme se extrai do julgado abaixo ementado: “TRIBUTÁRIO. DECADÊNCIA. TERMO INICIAL. PAGAMENTO PARCIAL REALIZADO ANTES DE PRÉVIO EXAME DA AUTORIDADE FISCAL. ART. 150, § 4°, DO CTN. INEXISTÊNCIA DE DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO CONSTATADOS NO ACÓRDÃO RECORRIDO. 1. Discute se a ocorrência de decadência do direito de o Fisco realizar lançamento de ofício de créditos tributários cujos fatos geradores ocorreram entre janeiro a novembro de 2001. 2. O Tribunal a quo confirmou a sentença de improcedência, por entender que a decadência deve ser regida pelo art. 173, I, do CTN, em razão de o pagamento atribuído ao contribuinte ter ocorrido após o vencimento. 3. De acordo com a jurisprudência consolidada do STJ, a decadência do direito de constituir o crédito tributário é regida pelo art. 150, § 4°, do CTN, quando se trata de tributo sujeito a lançamento por homologação e o contribuinte realiza o respectivo pagamento parcial antecipado, sem que se constate a ocorrência de dolo, fraude ou simulação (REsp 973.733/SC, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Seção, DJe 18.9.2009, submetido ao art. 543C do CPC). Fl. 439DF CARF MF Processo nº 10803.720147/201270 Acórdão n.º 1402002.533 S1C4T2 Fl. 326 15 4. A referência ao pagamento antecipado diz respeito à previsão legal do dever de o sujeito passivo antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade fiscal, nos termos do caput do art. 150 do CTN, de modo que o simples fato de a apuração e o pagamento do crédito terem ocorrido após o vencimento do prazo previsto na legislação tributária não desloca o termo inicial da decadência para o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido realizado (art. 173, I, do CTN). 5. Vale ressaltar que, não tendo o acórdão recorrido consignado a existência de dolo, fraude ou simulação na conduta do contribuinte que efetuou o pagamento após o vencimento, inexiste, no presente caso, fundamento para afastar a incidência do art. 150, § 4°, do CTN. Em outras palavras, o termo inicial da decadência é o fato gerador. 6. Como os fatos geradores sob análise ocorreram no período de janeiro a novembro de 2001, e o lançamento de ofício foi realizado em dezembro de 2006, após o transcurso do prazo quinquenal, está caracterizada a decadência. 7. Recurso Especial provido.” (grifei) (Superior Tribunal de Justiça – Segunda Turma – Resp nº 1.344.130AL – Sessão de 18/10/2012 – Rel. Min. Herman Benjamin – DJe de 05/11/2012) Fixadas estas premissas, vejamos agora se o Fisco decaiu ou não do direito de constituir o crédito tributário aqui lançado. Comecemos pelos Autos de Infração de IRPJ e CSLL. Examinando as informações prestadas na Ficha 01 da DIPJ/2007 (fl. 169), verifico que a Interessada optou, no ano calendário de 2006, pelo regime do lucro real anual, ficando sujeita, em razão disso, ao recolhimento de estimativas mensais (art. 2º da Lei nº 9.430, de 27/12/1996). Muito bem. As pesquisas efetuadas junto às bases de dados da Receita Federal revelam que a Interessada recolheu estimativas de IRPJ e CSLL para todos os meses do anocalendário de 2006 – cfr. Darfs recolhidos com o códigos 2362 e 2484 (fls. 364/387). No que diz respeito, particularmente, ao IRPJ, as pesquisas apontam ainda que a empresa quitou o saldo a pagar apurado em 31/12/2006 – cfr. Darfs recolhidos com o código 2430 (fls. 388/389). Confirmada, deste modo, a existência dos pagamentos antecipados de IRPJ e CSLL, reconheço, desde já, a decadência do direito de lançar em relação à Infração 002 – DESPESAS INDEDUTÍVEIS – FALTA DE COMPROVAÇÃO DA EFETIVA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS (multa de 75%). Com efeito: — considerando se que, neste item, não houve caracterização de dolo, fraude ou simulação, é seguro afirmar, Fl. 440DF CARF MF 16 com base no art. 150, §, 4º, do CTN, que o prazo decadencial começou a fluir em 01/01/2007 e expirou em 31/12/2011. Isto posto, passemos a examinar a questão da decadência no que diz respeito à Infração 001 – CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS INDEDUTÍVEIS – PAGAMENTOS A BENEFICIÁRIOS NÃO IDENTIFICADOS – CAUSA NÃO COMPROVADA. Esta infração, como se sabe, ensejou a aplicação de multa de ofício agravada. A Fiscalização afirma, categoricamente, que a Interessada teria participado de um “amplo esquema fraudulento que causou enormes prejuízos ao erário público”. De acordo com os esclarecimentos prestados pelos Auditores Fiscais autuantes, o modus operandi da fraude consistia no seguinte: — a empresa EXPERTISE oferecia “serviços voltados à implementação de campanhas de incentivo, que resultavam em pagamento de prêmios a pessoas indicadas por seus clientes, através da distribuição de cartões carregados com os respectivos créditos, possibilitando a esses beneficiários sacar em espécie o montante que lhe fora atribuído”. Ora, em que pese a convicção demonstrada pelas autoridades fiscais lançadoras, não consegui vislumbrar, sinceramente, a partir dos documentos acostados aos autos, nenhuma prova da mencionada fraude. Onde estaria, afinal, a conduta fraudulenta? No pagamento por um serviço que não foi prestado? No desvio de recursos para beneficiários estranhos à contratante? Até onde pude perceber, o único fato concreto mencionado na peça acusatória para justificar o agravamento da multa foi a falta de apresentação de livros e documentos, por parte da empresa fiscalizada, conduta esta que teria impossibilitado a identificação da causa dos pagamentos e dos seus respectivos beneficiários. Ora, a fraude, a exemplo do dolo e da simulação, é um defeito do ato jurídico que pressupõe a vontade livre e consciente de praticar a ação ilícita. A falta de apresentação de livros e documentos, por si só, não autoriza ao Fisco presumir conduta dolosa ou fraudulenta, ou mesmo pacto simulatório. Na falta, pois, de elementos de prova robustos, capazes de caracterizar a fraude cometida pela impugnante, entendo que a contagem do prazo decadencial, no caso da Infração 001, deve seguir a regra do art. 150, §, 4º, do CTN. O que implica dizer que a Fazenda decaiu também do direito de lançar qualquer diferença de tributo relativamente a este item. Por fim, resta examinar se teria havido decadência no que diz respeito ao Auto de Infração de IRRF. Para analisar corretamente a questão, é preciso lembrar que o fato gerador do imposto retido na fonte, na hipótese em apreço, ocorre na data de cada pagamento efetuado a beneficiário não identificado ou sem comprovação de causa. Fl. 441DF CARF MF Processo nº 10803.720147/201270 Acórdão n.º 1402002.533 S1C4T2 Fl. 327 17 Ora bem, considerando se que os referidos pagamentos foram feitos entre os dias 16/02/2006 e 11/09/2006, e levandose em conta que a ciência do lançamento se deu em 21/12/2012, é inevitável concluir que a Fazenda decaiu do direito de lançar o IRRF, quer se aplique a regra do art. 150, § 4º, quer a do art. 173, inciso I, do CTN. À vista de todo o exposto, DOU PROVIMENTO à impugnação da Interessada, no sentido de ACOLHER a argüição de decadência por ela suscitada.decaiu também do direito de lançar qualquer diferença de tributo relativamente a este item. Pelo exposto, voto por conhecer e negar provimento ao Recurso de Ofício, mantendo integralmente o v. Acórdão recorrido. (assinado digitalmente) Caio Cesar Nader Quintella Fl. 442DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10909.005708/2008-42
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jul 10 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 02/09/2005 a 06/09/2005
RESTITUIÇÃO. IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. ARTIGO 166 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. INAPLICABILIDADE.
O Imposto de Importação não se constitui tributo que, por sua natureza, comporta transferência do respectivo encargo financeiro. O sujeito passivo do Imposto de Importação não necessita comprovar à Secretaria da Receita Federal que não repassou seu encargo financeiro a terceira pessoa para ter direito à restituição do imposto pago indevidamente ou em valor maior que o devido.
CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS-PASEP-IMPORTAÇÃO E COFINS-IMPORTAÇÃO. PERDIMENTO DA MERCADORIA IMPORTADA POR CONTA E ORDEM ANTES DO DESEMBARAÇO ADUANEIRO. RESTITUIÇÃO DO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES INDEVIDAS. LEGITIMIDADE ATIVA DO IMPORTADOR. POSSIBILIDADE.
Por não comportar a transferência do encargo financeiro, o importador tem legitimidade ativa para pleitear a restituição dos valores indevidos da Contribuição para o PIS-Pasep-Importação e da Cofins-Importação pagos no âmbito da operação de importação por conta e ordem simulada, em que as mercadorias importadas foram objeto de pena de perdimento antes do desembarco aduaneiro e da transferência ao real adquirente.
Embargos Rejeitados.
Direito Creditório Reconhecido.
Numero da decisão: 3302-004.439
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em rejeitar os embargos de declaração, vencido o Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, que o acolhia parcialmente. Designado o Conselheiro José Fernandes do Nascimento para redigir o voto vencedor.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède
Presidente e Relator
(assinado digitalmente)
José Fernandes do Nascimento
Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), José Fernandes do Nascimento, Walker Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Lenisa Rodrigues Prado, Charles Pereira Nunes, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e José Renato Pereira de Deus.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. ARTIGO 166 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. INAPLICABILIDADE. O Imposto de Importação não se constitui tributo que, por sua natureza, comporta transferência do respectivo encargo financeiro. O sujeito passivo do Imposto de Importação não necessita comprovar à Secretaria da Receita Federal que não repassou seu encargo financeiro a terceira pessoa para ter direito à restituição do imposto pago indevidamente ou em valor maior que o devido. CONTRIBUIÇÃO PARA O PISPASEPIMPORTAÇÃO E COFINS IMPORTAÇÃO. PERDIMENTO DA MERCADORIA IMPORTADA POR CONTA E ORDEM ANTES DO DESEMBARAÇO ADUANEIRO. RESTITUIÇÃO DO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES INDEVIDAS. LEGITIMIDADE ATIVA DO IMPORTADOR. POSSIBILIDADE. Por não comportar a transferência do encargo financeiro, o importador tem legitimidade ativa para pleitear a restituição dos valores indevidos da Contribuição para o PISPasepImportação e da CofinsImportação pagos no âmbito da operação de importação por conta e ordem simulada, em que as mercadorias importadas foram objeto de pena de perdimento antes do desembarco aduaneiro e da transferência ao real adquirente. Embargos Rejeitados. Direito Creditório Reconhecido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 90 9. 00 57 08 /2 00 8- 42 Fl. 306DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 302 2 Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em rejeitar os embargos de declaração, vencido o Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, que o acolhia parcialmente. Designado o Conselheiro José Fernandes do Nascimento para redigir o voto vencedor. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), José Fernandes do Nascimento, Walker Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Lenisa Rodrigues Prado, Charles Pereira Nunes, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e José Renato Pereira de Deus. Relatório Trata o presente de restituição de imposto de importação, PIS/Pasep Importação e CofinsImportação, recolhidos por ocasião do registro de Declarações de Importação, de acordo com o artigo 1º, §4º, inciso III do Decretolei nº 37/1966 e artigo 2º, inciso III, da Lei nº 10.865/2004, em razão de pena de perdimento aplicada às mercadorias importadas no processo 10909.003788/200559. A mercadoria foi apreendida e encaminhada para destruição, conforme efls. 86. A pena de perdimento foi aplicada em mercadorias importadas por conta e ordem de XR AUDIOVISUAL DISTRIBUIDORA LTDA e em razão da não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de comércio exterior. A Seção de Arrecadação e Cobrança da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Itajaí decidiu que a recorrente não se enquadra em nenhuma das hipóteses de não incidência de que tratam os incisos do artigo 71 do Decreto nº 6.759/2009 (RA/2009) e os incisos do artigo 2º da Lei nº 10.865/2004, entendendo que a não incidência sobre os bens estrangeiros objeto de pena de perdimento somente alcançariam os casos em que não ocorrido o fato imponível, por exemplo, a mercadoria descaminhada que seja apreendida, além de informar que a recorrente ingressara com Mandado de Segurança para liberação das mercadorias, ainda em fase de julgamento no Tribunal Regional Federal da 4º Região. Arrazoou, ainda, que o fato gerador ocorrera, de acordo com o artigo 73, inciso I do RA/2009 e artigo 4º da Lei nº 10.865/2009, e que não restou configurada qualquer das hipóteses de restituição previstas no artigo 110 do RA/2009, nem previstas no artigo 15 da IN SRF nº 900/2005. A recorrente, por sua vez, apresentou manifestação de inconformidade, alegando: 1. Ofensa ao princípio constitucional de isonomia aplicando tratamento mais gravoso que na hipótese de descaminho; Fl. 307DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 303 3 2. Inocorrência do fato gerador do imposto de importação, pois que somente ocorre quando a mercadoria é destinada ao consumo, de acordo com o artigo 23 do Decretolei nº 37/66; 3. Que o pagamento efetuado é indevido e que a hipótese de não incidência prevista configura exclusão do crédito tributário e deve ser interpretada literalmente, de acordo com o artigo 111 do CTN; 4. Que a restituição está prevista no inciso II do artigo 15 da IN SRF nº 900/2005, pois a decretação da pena de perdimento implica, implicitamente, a competência para cancelamento de ofício das declarações de importação; 5. Que a existência de ação judicial não configura óbice à restituição, pois na hipótese de devolução das mercadorias, mediante decisão judicial, a recorrente não terá mais interesse em internalizar as mercadorias, dada sua obsolescência, e que, se vier a internalizá las, seu desembaraço somente se verificaria à vista do novo recolhimento dos respectivos gravames; A Primeira Turma da DRJ em Florianópolis proferiu o Acórdão nº 0722.586, nos termos da ementa que abaixo transcrevese: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃOII Período de apuração: 02/09/2005 a 06/09/2005 IMPOSTO. FATO GERADOR. RECOLHIMENTO. RESTITUIÇÃO. Ocorrido o fato gerador e recolhido o imposto devido não há que se falar em restituição, pois não se caracteriza a repetição de indébito. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido A recorrente interpôs recurso voluntário, reprisando as alegações deduzidas na impugnação, sustentando, ainda, a existência de ilogicidade na decisão da DRJ, ao afirmar que a não incidência somente ocorreria se os tributos não tivessem sido pagos, e, se caso tivessem sido pagos, então teriam ocorrido os fatos geradores. Na sessão de 26 de março de 2014, a Terceira Turma Especial da Terceira Seção de Julgamento deu provimento ao recurso voluntário, com a seguinte ementa: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 02/09/2005 a 06/09/2005 PERDIMENTO DEFINITIVO. RESTITUIÇÃO DE TRIBUTOS PAGOS. O perdimento definitivo de mercadoria apreendida durante o despacho aduaneiro de importação afasta a incidência dos tributos sobre a importação, ao teor do inciso III do § 4º do art. 1º do Decretolei nº 37/66, porquanto a mercadoria foi Fl. 308DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 304 4 localizada, não foi consumida nem revendida. Corolário disso, os tributos pagos por ocasião do registro da declaração de importação devem ser restituídos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em dar provimento ao recurso voluntário, para reconhecer o direito creditório. A PGFN tomou ciência desta decisão, sem contudo interpor recurso à CSRF. Por seu turno, a Seção de Arrecadação e Cobrança Sarac da Alfândega da Receita Federal do Brasil em Itajaí opôs embargos de declaração, alegando que o acórdão deixou de se pronunciar sobre a questão da legitimidade para o pleito e/ou da necessidade de anuência do adquirente, elencando as seguintes omissões: 1. Se cabe, nesta quadra, exigir a comprovação de que o importador esteja expressamente autorizado a receber a restituição dos valores pleiteados no presente processo; 2. Em sendo afirmativa a resposta à questão acima, se é válida, nas circunstâncias postas, a concordância expressa da pessoa jurídica que figurou, nas DI’s, como adquirente das mercadorias; ou, 3. Se terá que restar comprovada a origem dos recursos investidos na importação que, por óbvio, comportam os tributos pagos. Na forma regimental, o processo foi distribuído a este relator. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède. Tratase embargos de declaração opostos pelo Inspetor da Alfândega do Porto de Itajaí, alegando que o acórdão deixou de se pronunciar sobre a questão da legitimidade para o pleito e/ou da necessidade de anuência do adquirente, elencando as seguintes omissões: 1. Se cabe, nesta quadra, exigir a comprovação de que o importador esteja expressamente autorizado a receber a restituição dos valores pleiteados no presente processo; 2. Em sendo afirmativa a resposta à questão acima, se é válida, nas circunstâncias postas, a concordância expressa da pessoa jurídica que figurou, nas DI’s, como adquirente das mercadorias; ou, Fl. 309DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 305 5 3. Se terá que restar comprovada a origem dos recursos investidos na importação que, por óbvio, comportam os tributos pagos. Antes de adentrar o mérito, destacase que o contribuinte peticionou às efls. 274 a 298, para que o processo seja devolvido à origem em razão da falta de previsão legal para o ato praticado pelo Inspetor da Alfândega do Porto de Itajaí. Ocorre que o ato praticado foi o protocolo de embargos de declaração por omissão sobre ponto que a turma deveria se pronunciar, nos termos do artigo 65 do Anexo II do RICARF. Frisese que, embora tal questionamento não tenha sido realizado em momento algum do processo, a questão envolve a legitimidade ativa para pleitear a restituição, sendo, pois, matéria de ordem pública, nos termos do §3º1 do artigo 267 do antigo CPC, Lei nº 5.869/1973, bem como no §5º do artigo 337 do atual CPC, Lei nº 13.105/2015. Salientase que a interessada teve oportunidade e se manifestou sobre os referidos embargos às efls. 274/298. O questionamento da Alfândega do Porto de Itajaí fundase na dicção do artigo 166 do CTN, abaixo transcrito: Art. 166. A restituição de tributos que comportem, por sua natureza, transferência do respectivo encargo financeiro somente será feita a quem prove haver assumido o referido encargo, ou, no caso de têlo transferido a terceiro, estar por este expressamente autorizado a recebêla. Tal dispositivo foi refletido na normatização da restituição, vigente à época dos fatos, no artigo 7º da IN SRF nº 460/2004, a seguir: Art. 7º A restituição de quantia recolhida a título de tributo ou contribuição administrados pela SRF que comporte, por sua natureza, transferência do respectivo encargo financeiro somente poderá ser efetuada a quem prove haver assumido referido encargo, ou, no caso de têlo transferido a terceiro, estar por este expressamente autorizado a recebêla. A transferência do encargo não se refere à mera repercussão econômica, inerente aos custos empresariais, dentre eles o de tributos, mas à repercussão jurídica, determinada pela lei, prevendo mecanismos de repasse do encargo, como ocorre nos casos do IPI e do ICMS. Sacha Calmon Navarro, citado por Leandro Paulsen2, lecionou que "Quando o Código Tributário Nacional se refere a tributos que, pela sua própria natureza, comportam 1 Art. 267. Extinguese o processo, sem resolução de mérito: [...] Vl quando não concorrer qualquer das condições da ação, como a possibilidade jurídica, a legitimidade das partes e o interesse processual; [...] § 3o O juiz conhecerá de ofício, em qualquer tempo e grau de jurisdição, enquanto não proferida a sentença de mérito, da matéria constante dos ns. IV, V e Vl; todavia, o réu que a não alegar, na primeira oportunidade em que Ihe caiba falar nos autos, responderá pelas custas de retardamento. 2 Direito Tributário, Constituição e Código Tributário à Luz da Doutrina e da Jurisprudência, 14º ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado: Editora Esmafe, 2012. Pág. 1117. Fl. 310DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 306 6 a transferência do respectivo encargo financeiro, está se referindo a tributos que, pela sua constituição jurídica, são feitos para obrigatoriamente repercutir, casos do IPI e do ICMS, entre nós, idealizados para serem transferidos ao consumidor final. A natureza a que se refere o artigo é jurídica. A transferência é juridicamente possibilitada. A abrangência do art. 166, portanto, é limitada, e não ampla. Sendo assim, é possível, pela análise dos documentos fiscais e pela escrita contábil das empresas, verificar a transferência formal do encargo financeiro do tributo. O Código Tributário Nacional está rigorosamente correto. Não seria ético, nem justo, devolver o tributo indevido a quem não o suportou. Seria enriquecimento sem causa. Por isso mesmo, exige a prova de nãorepercussão, ou então a autorização do contribuinte de fato, o que suportou o encargo, para operar a devolução ao contribuinte de jure, o sujeito passivo da relação jurídicotributária." A respeito, o STJ julgou a matéria sob a sistemática de recursos repetitivos, no REsp nº 903.394, em 24/03/2010, que, decidindo sobre a legitimidade ativa dos distribuidores de bebidas em relação ao IPI incidente sobre descontos incondicionais dados pelos fabricantes de bebidas (IPI devido pelos fabricantes), consignou a seguinte ementa: PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IPI. RESTITUIÇÃO DE INDÉBITO. DISTRIBUIDORAS DE BEBIDAS. CONTRIBUINTES DE FATO. ILEGITIMIDADE ATIVA AD CAUSAM . SUJEIÇÃO PASSIVA APENAS DOS FABRICANTES (CONTRIBUINTES DE DIREITO). RELEVÂNCIA DA REPERCUSSÃO ECONÔMICA DO TRIBUTO APENAS PARA FINS DE CONDICIONAMENTO DO EXERCÍCIO DO DIREITO SUBJETIVO DO CONTRIBUINTE DE JURE À RESTITUIÇÃO (ARTIGO 166, DO CTN). LITISPENDÊNCIA. PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA. SÚMULAS 282 E 356/STF. REEXAME DE MATÉRIA FÁTICO PROBATÓRIA. SÚMULA 7/STJ. APLICAÇÃO. 1. O "contribuinte de fato" (in casu, distribuidora de bebida) não detém legitimidade ativa ad causam para pleitear a restituição do indébito relativo ao IPI incidente sobre os descontos incondicionais, recolhido pelo "contribuinte de direito" (fabricante de bebida), por não integrar a relação jurídica tributária pertinente. 2. O Código Tributário Nacional, na seção atinente ao pagamento indevido, preceitua que: "Art. 165. O sujeito passivo tem direito , independentemente de prévio protesto, à restituição total ou parcial do tributo, seja qual for a modalidade do seu pagamento , ressalvado o disposto no § 4º do artigo 162, nos seguintes casos: I cobrança ou pagamento espontâneo de tributo indevido ou maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, ou da natureza ou circunstâncias materiais do fato gerador efetivamente ocorrido; II erro na edificação do sujeito passivo, na determinação da alíquota aplicável, no cálculo do montante do débito ou na Fl. 311DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 307 7 elaboração ou conferência de qualquer documento relativo ao pagamento; III reforma, anulação, revogação ou rescisão de decisão condenatória. Art. 166. A restituição de tributos que comportem, por sua natureza, transferência do respectivo encargo financeiro somente será feita a quem prove haver assumido o referido encargo, ou, no caso de têlo transferido a terceiro, estar por este expressamente autorizado a recebêla ." 3. Conseqüentemente, é certo que o recolhimento indevido de tributo implica na obrigação do Fisco de devolução do indébito ao contribuinte detentor do direito subjetivo de exigilo. 4. Em se tratando dos denominados "tributos indiretos" (aqueles que comportam, por sua natureza, transferência do respectivo encargo financeiro), a norma tributária (artigo 166, do CTN) impõe que a restituição do indébito somente se faça ao contribuinte que comprovar haver arcado com o referido encargo ou, caso contrário, que tenha sido autorizado expressamente pelo terceiro a quem o ônus foi transferido. 5. A exegese do referido dispositivo indica que: "...o art. 166, do CTN, embora contido no corpo de um típico veículo introdutório de norma tributária, veicula, nesta parte, norma específica de direito privado, que atribui ao terceiro o direito de retomar do contribuinte tributário, apenas nas hipóteses em que a transferência for autorizada normativamente, as parcelas correspondentes ao tributo indevidamente recolhido: Tratase de norma privada autônoma, que não se confunde com a norma construída da interpretação literal do art. 166, do CTN. É desnecessária qualquer autorização do contribuinte de fato ao de direito, ou deste àquele. Por sua própria conta, poderá o contribuinte de fato postular o indébito, desde que já recuperado pelo contribuinte de direito junto ao Fisco. No entanto, notese que o contribuinte de fato não poderá acionar diretamente o Estado, por não ter com este nenhuma relação jurídica. Em suma: o direito subjetivo à repetição do indébito pertence exclusivamente ao denominado contribuinte de direito. Porém, uma vez recuperado o indébito por este junto ao Fisco, pode o contribuinte de fato, com base em norma de direito privado, pleitear junto ao contribuinte tributário a restituição daqueles valores . A norma veiculada pelo art. 166 não pode ser aplicada de maneira isolada, há de ser confrontada com todas as regras do sistema, sobretudo com as veiculadas pelos arts. 165, 121 e 123, do CTN. Em nenhuma delas está consignado que o terceiro que arque com o encargo financeiro do tributo possa ser contribuinte. Portanto, só o contribuinte tributário tem direito à repetição do indébito . Fl. 312DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 308 8 Ademais, restou consignado alhures que o fundamento último da norma que estabelece o direito à repetição do indébito está na própria Constituição, mormente no primado da estrita legalidade. Com efeito a norma veiculada pelo art. 166 chocase com a própria Constituição Federal, colidindo frontalmente com o princípio da estrita legalidade, razão pela qual há de ser considerada como regra não recepcionada pela ordem tributária atual. E, mesmo perante a ordem jurídica anterior, era manifestamente incompatível frente ao Sistema Constitucional Tributário então vigente." (Marcelo Fortes de Cerqueira, in "Curso de Especialização em Direito Tributário Estudos Analíticos em Homenagem a Paulo de Barros Carvalho", Coordenação de Eurico Marcos Diniz de Santi, Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2007, págs. 390/393) 6. Deveras, o condicionamento do exercício do direito subjetivo do contribuinte que pagou tributo indevido (contribuinte de direito) à comprovação de que não procedera à repercussão econômica do tributo ou à apresentação de autorização do "contribuinte de fato" (pessoa que sofreu a incidência econômica do tributo), à luz do disposto no artigo 166, do CTN, não possui o condão de transformar sujeito alheio à relação jurídica tributária em parte legítima na ação de restituição de indébito. 7. À luz da própria interpretação histórica do artigo 166, do CTN, dessumese que somente o contribuinte de direito tem legitimidade para integrar o pólo ativo da ação judicial que objetiva a restituição do "tributo indireto" indevidamente recolhido (Gilberto Ulhôa Canto, "Repetição de Indébito", in Caderno de Pesquisas Tributárias, n° 8, p. 25, São Paulo, Resenha Tributária, 1983; e Marcelo Fortes de Cerqueira, in "Curso de Especialização em Direito Tributário Estudos Analíticos em Homenagem a Paulo de Barros Carvalho", Coordenação de Eurico Marcos Diniz de Santi, Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2007, págs. 390/393). 8. É que, na hipótese em que a repercussão econômica decorre da natureza da exação, "o terceiro que suporta com o ônus econômico do tributo não participa da relação jurídica tributária, razão suficiente para que se verifique a impossibilidade desse terceiro vir a integrar a relação consubstanciada na prerrogativa da repetição do indébito, não tendo, portanto, legitimidade processual " (Paulo de Barros Carvalho, in "Direito Tributário Linguagem e Método", 2ª ed., São Paulo, 2008, Ed. Noeses, pág. 583). 9. In casu, cuidase de mandado de segurança coletivo impetrado por substituto processual das empresas distribuidoras de bebidas, no qual se pretende o reconhecimento do alegado direito líquido e certo de não se submeterem à cobrança de IPI incidente sobre os descontos incondicionais (artigo 14, da Lei 4.502/65, com a redação dada pela Lei 7.798/89), bem como de compensarem os valores indevidamente recolhidos àquele título. Fl. 313DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 309 9 10. Como cediço, em se tratando de industrialização de produtos, a base de cálculo do IPI é o valor da operação de que decorrer a saída da mercadoria do estabelecimento industrial (artigo 47, II, "a", do CTN), ou, na falta daquele valor, o preço corrente da mercadoria ou sua similar no mercado atacadista da praça do remetente (artigo 47, II, "b", do CTN). 11. A Lei 7.798/89, entretanto, alterou o artigo 14, da Lei 4.502/65, que passou a vigorar com a seguinte redação: "Art. 14. Salvo disposição em contrário, constitui valor tributável : (...) II quanto aos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial . § 1º. O valor da operação compreende o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário. § 2º. Não podem ser deduzidos do valor da operação os descontos, diferenças ou abatimentos, concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente . (...)" 12. Malgrado as Turmas de Direito Público venham assentando incompatibilidade entre o disposto no artigo 14, § 2º, da Lei 4.502/65, e o artigo 47, II, "a", do CTN (indevida ampliação do conceito de valor da operação, base de cálculo do IPI, o que gera o direito à restituição do indébito), o estabelecimento industrial (in casu, o fabricante de bebidas) continua sendo o único sujeito passivo da relação jurídica tributária instaurada com a ocorrência do fato imponível consistente na operação de industrialização de produtos (artigos 46, II, e 51, II, do CTN), sendo certo que a presunção da repercussão econômica do IPI pode ser ilidida por prova em contrário ou, caso constatado o repasse, por autorização expressa do contribuinte de fato (distribuidora de bebidas), à luz do artigo 166, do CTN, o que, todavia, não importa na legitimação processual deste terceiro. 13. Mutatis mutandis , é certo que: "1. Os consumidores de energia elétrica, de serviços de telecomunicação não possuem legitimidade ativa para pleitear a repetição de eventual indébito tributário do ICMS incidente sobre essas operações. 2. A caracterização do chamado contribuinte de fato prestase unicamente para impor uma condição à repetição de indébito pleiteada pelo contribuinte de direito, que repassa o ônus financeiro do tributo cujo fato gerador tenha realizado (art. 166 do CTN), mas não concede legitimidade ad causam para os Fl. 314DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 310 10 consumidores ingressarem em juízo com vistas a discutir determinada relação jurídica da qual não façam parte. 3. Os contribuintes da exação são aqueles que colocam o produto em circulação ou prestam o serviço, concretizando, assim, a hipótese de incidência legalmente prevista. 4. Nos termos da Constituição e da LC 86/97, o consumo não é fato gerador do ICMS. 5. Declarada a ilegitimidade ativa dos consumidores para pleitear a repetição do ICMS." (RMS 24.532/AM, Rel. Ministro Castro Meira, Segunda Turma, julgado em 26.08.2008, DJe 25.09.2008) 14. Conseqüentemente, revelase escorreito o entendimento exarado pelo acórdão regional no sentido de que "as empresas distribuidoras de bebidas, que se apresentam como contribuintes de fato do IPI, não detém legitimidade ativa para postular em juízo o creditamento relativo ao IPI pago pelos fabricantes, haja vista que somente os produtores industriais, como contribuintes de direito do imposto, possuem legitimidade ativa" . 15. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. Destacase que o julgado considerou o contribuinte de direito como único legítimo a pleitear a restituição, embora o exercício deste direito subjetivo do contribuinte que recolheu aos cofres públicos o tributo indevido esteja condicionado à comprovação de que não procedera à repercussão econômica do tributo ou à apresentação de autorização de quem suportou o encargo. Este condicionamento para o exercício do direito subjetivo de pleitear a repetição foi confirmado pelo STJ em outros julgados submetidos a recursos repetitivos, como o REsp 1.110.550SP, julgado em 10/06/2009 e no REsp 1.131.476/RS, julgado em 09/12/2009, cujas ementas transcrevemse: REsp 1.110.550SP: TRIBUTÁRIO. EMBARGOS À EXECUÇÃO. COBRANÇA DE DIFERENÇAS DE ICMS DECLARADO EM GIA E RECOLHIDO FORA DE PRAZO. CTN, ART. 166. INCIDÊNCIA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INEXISTÊNCIA. AFASTAMENTO DA MULTA. SÚMULA 98/STJ. VERBA HONORÁRIA. ART. 21 DO CPC. SÚMULA 07/STJ. 1. A jurisprudência da 1ª Seção é no sentido de que o art. 166 do CTN tem como cenário natural de aplicação as hipóteses em que o contribuinte de direito demanda a repetição do indébito ou a compensação de tributo cujo valor foi suportado pelo contribuinte de fato (EREsp 727.003/SP, 1ª Seção, Min. Herman Benjamin, DJ de 24.09.07, AgRg nos EREsp 752.883/SP, 1ª Seção, Min. Castro Meira, DJ de 22.05.06 e EREsp 785.819/SP, 1ª Seção, Minª. Eliana Calmon, DJ de 19.06.06). No caso, a pretensão da recorrente, se acolhida, importaria a restituição, mediante compensação, de um valor suportado pelo contribuinte Fl. 315DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 311 11 de fato para abatêlo de uma obrigação própria da contribuinte de direito. Incide, portanto, o art. 166 do CTN. [...] 5. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, parcialmente provido. Acórdão sujeito ao regime do art. 543C do CPC. REsp 1.131.476RS: EMENTA TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ART. 543C, DO CPC. ISS. LOCAÇÃO DE BENS MÓVEIS. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. PROVA DA NÃO REPERCUSSÃO. EXIGIBILIDADE, IN CASU. ART. 166 DO CTN. 1. O ISS é espécie tributária que admite a sua dicotomização como tributo direto ou indireto, consoante o caso concreto. 2. A pretensão repetitória de valores indevidamente recolhidos a título de ISS incidente sobre a locação de bens móveis (cilindros, máquinas e equipamentos utilizados para acondicionamento dos gases vendidos), hipótese em que o tributo assume natureza indireta, reclama da parte autora a prova da não repercussão, ou, na hipótese de ter a mesma transferido o encargo a terceiro, de estar autorizada por este a recebêlos, o que não ocorreu in casu, consoante dessumese do seguinte excerto da sentença, in verbis: "Com efeito, embora pudesse o autor ter efetuado a prova necessária, que lhe foi facultada, deixou de demonstrar que absorveu o impacto financeiro decorrente do pagamento indevido do ISS sobre a operação de locação de móveis, ou que está autorizado a demandar em nome de quem o fez. Omitiu prova de que tenha deixado de repassar o encargo aos seus clientes ou que tenha autorização destes para buscar a repetição, conforme exigência expressa inscrita no art. 166 do CTN." 3. Precedentes: REsp 1009518/RS, Rel. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, julgado em 06/08/2009, DJe 21/08/2009; AgRg no AgRg no REsp 947.702/RJ, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 04/08/2009, DJe 17/08/2009; AgRg no REsp 1006862/SC, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 26/08/2008, DJe 18/09/2008; REsp 989.634/PR, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 19/06/2008, DJe 10/11/2008; AgRg no REsp n.º 968.582/SC, Rel. Min. FRANCISCO FALCÃO, DJU de 18/10/2007; AgRg no Ag n.º 692.583/RJ, Rel. Min. DENISE ARRUDA, DJU de 14/11/2005; REsp n.º 657.707/RJ, Rel. Min. JOSÉ DELGADO, DJU de 16/11/2004). Fl. 316DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 312 12 4. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ 08/2008. Este também é o posicionamento do STF consubstanciado na Súmula 546, abaixo transcrita, bem como no Ag Reg no RE 589.715SP e Ag. Reg no AI 688.410MG. Súmula 546: Cabe a restituição do tributo pago indevidamente, quando reconhecido por decisão, que o contribuinte "de jure" não recuperou do contribuinte "de facto" o "quantum" respectivo. Destarte, é necessária a análise da natureza dos tributos envolvidos para averiguar se comportam a transferência (jurídica) do encargo financeiro. Mas antes, pontuese que o importador, mesmo nas operações de importação por conta e ordem, é o contribuinte de direito legitimado a pleitear a restituição dos tributos incidentes nas importações, conforme exposto no Parecer PGFN/CAT nº 1.316/2001, cuja "19. Diante de todo o exposto é de se concluir: a) contribuinte do imposto de importação é aquele que promove a entrada de mercadoria estrangeira no território nacional, entendendose como tal, em conformidade com a legislação de regência, aquele cujo nome conste no conhecimento de carga, independentemente do verdadeiro adquirente das mercadorias. As empresas comerciais importadoras e exportadoras, registradas no FUNDAP, ou seja, as consignatárias, assumem essa condição no caso de agirem por conta e ordem de terceiros;" Retornando ao caso concreto, a recorrente MSX pleiteou restituição de Imposto de Importação II, PIS/PasepImportação e CofinsImportação, recolhidos por ocasião de registro de DI´s, informadas como operações por conta e ordem de XR AUDIOVISUAL DISTRIBUIDORA LTDA, em razão de que as mercadorias importadas foram punidas com a pena de perdimento (processo 10909.003788/200559), durante o despacho aduaneiro, devido à acusação de interposição fraudulenta da XR, que não comprovou a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. Assim, passase à análise da natureza dos tributos envolvidos. Quanto ao imposto de importação, descabem maiores considerações, pois a Receita Federal do Brasil emitiu o Parecer Cosit nº 47/2003, o qual concluiu que o imposto de importação é tributo direto que não comporta transferência do encargo, conforme ementa e excerto abaixo: Assunto: Imposto sobre a Importação II Ementa: IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. ART. 166 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. INAPLICABILIDADE. O Imposto de Importação não se constitui tributo que, por sua natureza, comporta transferência do respectivo encargo financeiro. O sujeito passivo do Imposto de Importação não necessita comprovar à Secretaria da Receita Federal que não repassou seu encargo financeiro a terceira pessoa para ter Fl. 317DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 313 13 direito à restituição do imposto pago indevidamente ou em valor maior que o devido. Reforma do Parecer CST/DAA no 1.965, de 18 de julho de 1980. Dispositivos Legais: Lei no 5.172, de 1966, art. 166 Excerto: "14. O Imposto de Importação não se caracteriza tributo cuja natureza jurídica comporta a transferência do respectivo encargo financeiro – inexistem, para o Imposto de Importação (inclusive nos casos de importação de determinado bem por conta e ordem de terceiros), as figuras do contribuinte de fato e do contribuinte de direito. 15. Nas hipóteses em que se pode cogitar a ocorrência da transferência do encargo financeiro do tributo, referida transferência dáse não em decorrência da natureza jurídica do tributo, mas sim da natureza jurídica do importador ou de sua atividade econômica, a qual pressupõe o auferimento de receita suficiente para cobrir seus custos e despesas (inclusive tributárias). 16. Muitas vezes, a aludida transferência do encargo financeiro do tributo sequer existe, como nas importações de mercadorias por pessoas físicas nãocomerciantes e que não prestam serviços utilizandose dos bens por ela importados, bem assim nas importações destinadas ao ativo permanente. 17. Assim, não sendo o Imposto de Importação um tributo que, por sua natureza, comporta transferência do respectivo encargo financeiro, o sujeito passivo do imposto não necessita comprovar à Secretaria da Receita Federal (SRF) que não repassou seu encargo financeiro a terceira pessoa para ter direito à restituição do imposto pago indevidamente ou em valor maior que o devido." No mesmo sentido, o Acórdão nº 0736.731, proferido pela 2º Turma da DRJ em Florianópolis: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO. RECONHECIMENTO DE DIREITO CREDITÓRIO. Retificação da declaração de importação após o desembaraço. Por sua natureza, o Imposto de Importação não constitui tributo que comporte transferência do respectivo encargo financeiro (Parecer COSIT nº 47/2003), não se sujeitando às disposições contidas no art. 166 do CTN, nos casos de repetição do indébito. Dessumese que os embargos de declaração não devem ser acolhidos em relação ao imposto de importação, pois que se trata de tributo direto, cuja natureza não comporta a repercussão financeira (jurídica) de seu encargo. Fl. 318DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 314 14 Concernente às contribuições para o PIS/PasepImportação e Cofins Importação, entendo que, em regra, estas contribuições sobre a importação não comportam a transferência a um terceiro contribuinte de fato, pois a pessoa responsável pelas obrigações de apurar e recolher o tributo (contribuinte de direito) é a mesma que sofre o encargo financeiro (contribuinte de fato), pois não há repasse deste tributo na cadeia. O repasse ocorre em relação ao PIS/Pasep e Cofins incidentes sobre as vendas posteriores, este sim, apurado e recolhido pelo contribuinte de direito, mas repassado mediante mecanismos de créditos ao adquirente, que suporta o encargo financeiro. Neste sentido, citamse o Parecer nº 6/2008 da Disit da 7º Região Fiscal e a Solução de Consulta Interna nº 12/2008, da Disit da 2º Região Fiscal, cujas ementas abaixo transcrevemse: Parecer Disit 7º RF nº 6/2008: Assunto: Normas de Administração Tributária RESTITUIÇÃO DE COFINS IMPORTAÇÃO INAPLICABILIDADE DO ARTIGO 166 DO CTN AFASTAMENTO DO CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA A Contribuição Social para o Financiamento da Seguridade Social devida pelo Importador de Bens Estrangeiros ou Serviços do Exterior Cofins Importação, não se constitui em tributo que, por sua natureza, comporta transferência do respectivo encargo financeiro. Fica, desta forma, desconfigurado, no caso concreto, o conflito negativo relativo à competência para realizar diligência para comprovação da nãorepercussão do ônus fiscal. Dispositivos Legais: Lei nº 5.172, de 1966, artigo 166; Parecer Cosit nº 47, de 2003. Solução de Consulta Interna Disit 2º RF nº 12/2008: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins COFINSIMPORTAÇÃO. ART. 166 DO CTN. INAPLICABILIDADE. A Cofinsimportação não se constitui tributo que, por sua natureza, comporta transferência do respectivo encargo financeiro. O sujeito passivo da referida contribuição não necessita comprovar à RFB que não repassou seu encargo financeiro a terceira pessoa para ter direito à restituição do tributo pago indevidamente ou em valor maior que o devido. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep PIS/PASEPIMPORTAÇÃO. ART. 166 DO CTN. INAPLICABILIDADE. O PIS/PasepImportação não se constitui tributo que, por sua natureza, comporta transferência do respectivo encargo Fl. 319DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 315 15 financeiro. O sujeito passivo da referida contribuição não necessita comprovar à RFB que não repassou seu encargo financeiro a terceira pessoa para ter direito à restituição do tributo pago indevidamente ou em valor maior que o devido. Porém, ainda que as figuras de contribuinte de direito e de fato se confundem, o importador, se sujeito à nãocumulatividade, pode descontar créditos de acordo com o artigo 15 da Lei nº 10.865/2004. Esta possibilidade afasta a pretensão de repetição, pois ao se creditar, o importador transfere o encargo à União, mediante a criação de um direito creditório que reduzirá a tributação devida na venda dos produtos, não havendo, portanto, assunção do encargo financeiro, impossibilitando a restituição. Permitir a restituição concomitante ao creditamento implicaria em evidente duplicidade de utilização do valor indevidamente recolhido, mas que fora utilizado pela recorrente para abater de débitos próprios ou até como ressarcimento. Por outro lado, na operação de importação por conta e ordem, o artigo 18 da Lei nº 10.865/2004 determina que os créditos sejam aproveitados pelo encomendante, conforme abaixo transcrito: Art. 18. No caso da importação por conta e ordem de terceiros, os créditos de que tratam os arts. 15 e 17 desta Lei serão aproveitados pelo encomendante. Neste caso, a legislação estipula a repercussão jurídica do encargo em terceiro, que arcará com o encargo financeiro do pagamento dos tributos, subsumindose, pois, ao comando do artigo 166 do CTN. Neste sentido, citase o acórdão do STJ noAg Rg no REsp 1.573.681SC, que embora não adentrando na aplicação do artigo 166 do CTN, assentou que a tomada de créditos da nãocumulatividade pelo encomendante inviabiliza o pedido de restituição feito pelo importador, sob pena de duplicidade de utilização do valor a ser repetido, nos termos da ementa abaixo transcrita: AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 1.573.681 SC (2015/03130146) EMENTA PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA Nº 211 DO STJ. RESTITUIÇÃO DE INDÉBITO PELO IMPORTADOR. PIS/COFINS IMPORTAÇÃO. OPERAÇÕES POR CONTA E ORDEM DE TERCEIROS. IMPOSSIBILIDADE. ART. 18 DA LEI Nº 10.865/04. LIMITES SUBJETIVOS DO PROVIMENTO MANDAMENTAL. REVOLVIMENTO DO TÍTULO EXECUTIVO. IMPOSSIBILIDADE. INCIDÊNCIA DA SÚMULA Nº 7 DO STJ. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS. CABIMENTO. EMBARGOS À EXECUÇÃO. AÇÃO AUTÔNOMA. REVISÃO DO QUANTUM . INCIDÊNCIA DA SÚMULA Nº 7 DO STJ. 1. Os arts. 244, 741, III, 474, 566 e 568 do CPC; 5º e 6º Lei nº 10.865/04; 119, 121, 123, 124, 127, 166 e 165 do CTN; e 6º da Lei nº 12.016/09, e as teses a eles relativas, não foram objeto de Fl. 320DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 316 16 juízo de valor pelo tribunal de origem, o que impossibilita o conhecimento do recurso especial em relação a eles por ausência de prequestionamento. Incide, no ponto, o teor da Súmula nº 211 do STJ. 2. O art. 18 da Lei nº 10.865/04 dispõe que os créditos de que tratam os arts. 15 e 17 da referida lei serão aproveitados pelo encomendante. Nesse sentido, não é possível ao importador que realizou a operação por conta e ordem do terceiro repetir o indébito do tributo pago a maior, até porque os créditos já podem ter sido utilizados pelo terceiro encomendante e, assim, não poderiam ser restituído ao importador sob pena de dupla repetição. O título judicial exeqüendo não poderia se referir às importações realizados por conta e ordem de terceiros, mas tão somente às operações realizadas pela própria empresa importadora. [...] 6. Agravo regimental não provido. Portanto, nas operações de importação por conta e ordem, é necessário que o importador possua a autorização para efetuar o pedido de restituição, pois que a transferência do encargo financeiro é estipulada por lei. No caso, não há provas nos autos da referida autorização exigida pelo artigo 166 do CTN, o que implica a ausência de legitimidade da recorrente para efetuar o pedido de restituição do PIS/PasepImportação e da CofinsImportação recolhidos nas referidas importações por conta e ordem. Diante do exposto, voto para acolher parcialmente os embargos de declaração, com efeitos infringentes, para negar provimento ao recurso voluntário quanto à restituição de PISImportação e CofinsImportação, afastandose, porém, a aplicação do artigo 166 do CTN à restituição do Imposto de Importação. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Voto Vencedor Conselheiro José Fernandes do Nascimento, Redator Designado. Nos presentes embargos, a autoridade da unidade da RFB alegou que o acórdão embargado não se pronunciara sobre a legitimidade ativa da importadora e autora para formular do pedido restituição em apreço e/ou a necessidade de anuência do adquirente das mercadorias. Ao analisar a alegada omissão, em relação ao Impostos sobre a Importação (II), o nobre Relator, acertadamente, concluiu que os embargos de declaração não deviam ser Fl. 321DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 317 17 acolhidos porque se tratava de tributo direto, cuja natureza não comportava a repercussão financeira (jurídica) de seu encargo. De outra parte, em relação à Contribuição para o PISPasepImportação e CofinsImportação, embora entendesse que, em regra, tais contribuições não comportassem a transferência do encargo financeiro, o repasse dos valores das referidas contribuições, apurados e recolhidos pelo contribuinte de direito, ocorria nas operações de venda posteriores, realizadas no mercado interno, por meio da apropriação de créditos pelo adquirente das mercadorias importadas, que era quem suportava o encargo financeiro dos encargos das citadas contribuições. Com base nesse entendimento, concluiu i. Relator, in verbis: Porém, ainda que as figuras de contribuinte de direito e de fato se confundem, o importador, se sujeito à nãocumulatividade, pode descontar créditos de acordo com o artigo 15 da Lei nº 10.865/2004. Esta possibilidade afasta a pretensão de repetição, pois ao se creditar, o importador transfere o encargo à União, mediante a criação de um direito creditório que reduzirá a tributação devida na venda dos produtos, não havendo, portanto, assunção do encargo financeiro, impossibilitando a restituição. Permitir a restituição concomitante ao creditamento implicaria em evidente duplicidade de utilização do valor indevidamente recolhido, mas que fora utilizado pela recorrente para abater de débitos próprios ou até como ressarcimento. Por outro lado, na operação de importação por conta e ordem, o artigo 18 da Lei nº 10.865/2004 determina que os créditos sejam aproveitados pelo real adquirente, conforme abaixo transcrito: Art. 18. No caso da importação por conta e ordem de terceiros, os créditos de que tratam os arts. 15 e 17 desta Lei serão aproveitados pelo encomendante. Neste caso, a legislação estipula a repercussão jurídica do encargo em terceiro, que arcará com o encargo financeiro do pagamento dos tributos, subsumindose, pois, ao comando do artigo 166 do CTN. Sem adentrar ao mérito da conclusão do nobre Relator, com a devida vênia, este Relator entende que a situação por ele vislumbrada não foi a que motivou o presente pedido de restituição. De fato, os elementos acostados aos nos autos (fls. 103/142), revelam que a operação de transferência das mercadorias para o adquirente (importador por conta e ordem) não ocorreu, haja vista que, ainda no curso despacho aduaneiro de importação e antes que do desembaraço aduaneiro ou liberação, foi aplicada às mercadorias importadas pena de perdimento. Assim, se houve a apreensão e a declaração da pena de perdimento das mercadorias importadas antes do desembaraço aduaneiro, inequivocamente, não houve a operação de transferência das mercadorias importadas no mercado interno, por conseguinte, não ocorreu apropriação como créditos, pela importadora por conta e ordem, dos valores das contribuições pagos na referida operação de importação, conforme assegurado no art. 18 da Lei 10.865/2004, que tem o seguinte teor: Fl. 322DF CARF MF Processo nº 10909.005708/200842 Acórdão n.º 3302004.439 S3C3T2 Fl. 318 18 Art. 18. No caso da importação por conta e ordem de terceiros, os créditos de que tratam os arts. 15 e 17 desta Lei serão aproveitados pelo encomendante. E com a aplicação da pena de perdimento, por força do art. 2°, III, da Lei 10.865/2004, não houve a incidência das referidas contribuições e, portanto, a não ocorrência dos fatos geradores das contribuições pagas no âmbito dos correspondentes despachos aduaneiros de importação. Além disso, como não houve transferência do encargo financeiro dos tributos a terceiros, por evidente impossibilidade material, nos termos do art. 165, I, do CTN, a recorrente detém legitimidade ativa para pedir a restituição dos valores indevidos das contribuições por ela pagos. Assim, uma vez demonstrada a existência do direito creditório pleiteado, não merece qualquer reparo a decisão proferida no acórdão embargado, que lhe reconheceu o direito reaver os valores dos tributos indevidos recolhidos no âmbito das correspondentes operações de importação. Dada essa característica, o reconhecimento do direito à restituição em apreço necessita apenas da comprovação dos pagamentos dos tributos indevidos, o que foi feito nos presentes autos. De outra parte, revelase de todo prescindível a comprovação da origem dos recursos utilizados nas correspondentes operações de importação por parte da peticionária. Essa comprovação é exigível para fins de demonstração da infração de interposição fraudulenta presumida, prevista no art. 23, § 2º, do Decretolei 1.455/1976, e de declaração inaptidão da pessoa jurídica perante o CNPJ, nos termos do art. 81, § 1º, da Lei 9.430/1996, situações que não se vislumbram no caso em tela. Por todo o exposto, tomase conhecimento, mas rejeitase os presentes embargos de declaração. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento Fl. 323DF CARF MF
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Numero do processo: 13830.901065/2013-76
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 18 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jul 31 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Exercício: 2007
ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DE NORMA TRIBUTÁRIA. INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR ADMINISTRATIVO.INTELIGÊNCIA SÚMULA CARF N.2.
É vedado ao julgador administrativo negar aplicação de lei sob alegação de inconstitucionalidade em sede de recurso administrativo. Essa análise foge à alçada das autoridades administrativas, que não dispõem de competência para examinar hipóteses de violações às normas legitimamente inseridas no ordenamento jurídico.
ALEGAÇÕES GENÉRICAS. APLICAÇÃO DO ART. 17, DO DEC. N.° 70.235/72. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA.
Em processo administrativo tributário, o poder instrutório da defesa compete, em princípio, ao sujeito passivo, o que lhe exige carrear aos autos provas capazes de amparar convenientemente seu direito, o que não ocorreu no presente caso.
Inexistindo a insurgência específica com relação à fundamentação da decisão recorrida ou à motivação do próprio lançamento tributário, aplicável o art. 17, do Dec. n.° 70.235/72.
Numero da decisão: 1302-002.219
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno (Relator), Rogério Aparecido Gil, Ester Marques Lins de Sousa e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente).
Nome do relator: LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO
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INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR ADMINISTRATIVO.INTELIGÊNCIA SÚMULA CARF N.2. É vedado ao julgador administrativo negar aplicação de lei sob alegação de inconstitucionalidade em sede de recurso administrativo. Essa análise foge à alçada das autoridades administrativas, que não dispõem de competência para examinar hipóteses de violações às normas legitimamente inseridas no ordenamento jurídico. ALEGAÇÕES GENÉRICAS. APLICAÇÃO DO ART. 17, DO DEC. N.° 70.235/72. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Em processo administrativo tributário, o poder instrutório da defesa compete, em princípio, ao sujeito passivo, o que lhe exige carrear aos autos provas capazes de amparar convenientemente seu direito, o que não ocorreu no presente caso. Inexistindo a insurgência específica com relação à fundamentação da decisão recorrida ou à motivação do próprio lançamento tributário, aplicável o art. 17, do Dec. n.° 70.235/72. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente e Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 0. 90 10 65 /2 01 3- 76 Fl. 74DF CARF MF Processo nº 13830.901065/201376 Acórdão n.º 1302002.219 S1C3T2 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno (Relator), Rogério Aparecido Gil, Ester Marques Lins de Sousa e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Relatório Tratam os autos de análise eletrônica de Pedido de Restituição, por intermédio do qual o contribuinte pretende a restituição de suposto crédito de pagamento indevido ou a maior de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Como resultado da análise foi proferido despacho decisório que decidiu pelo indeferimento do pedido de restituição, haja vista que o montante recolhido pelo Darf apontado como origem do crédito foi integralmente utilizado para liquidar débito confessado em Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF). Cientificado da decisão o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade onde argumenta, em síntese, que os créditos de PIS e Cofins nãocumulativos não devem afetar a determinação do lucro real, nem a base de cálculo da CSLL. A exigência de IRPJ e CSLL sobre tais créditos desrespeita o princípio constitucional da neutralidade tributária. A DRJ ao apreciar a matéria assim decidiu, litteris: ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DE NORMA TRIBUTÁRIA. INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR ADMINISTRATIVO. É o administrador um mero executor de leis não lhe cabendo questionar a legalidade ou constitucionalidade do comando legal. A análise de teses contra a legalidade ou a constitucionalidade de normas é privativa do Poder Judiciário, conforme competência conferida constitucionalmente. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Inconformado com o decisium, o recorrente interpôs Recurso Voluntário, alegando, em síntese, os mesmos argumentos da impugnação, acrescentando que a Administração não pode eximirse da competência sobre o controle de constitucionalidade das leis, decretos e portarias, bem como o fato de não ser razoável que a Administração Pública desconsidere as informações prestadas pelo Contribuinte na DCOMP, as quais apresentam presunção de legitimidade. É o relatório. Voto Fl. 75DF CARF MF Processo nº 13830.901065/201376 Acórdão n.º 1302002.219 S1C3T2 Fl. 4 3 Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1302002.134, de 18.05.2017, proferido no julgamento do processo nº 13830.900610/201226, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1302002.134): O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Conforme depreendese da leitura do Relatório acima, o Recorrente sustenta seus argumentos com base em supostas inconstitucionalidades perpetradas pela autoridade fiscal e ratificadas pela decisão recorrida. Contudo, é vedado ao julgador administrativo negar aplicação de lei sob alegação de inconstitucionalidade em sede de recurso administrativo. Essa análise foge à alçada das autoridades administrativas, que não dispõem de competência para examinar hipóteses de violações às normas legitimamente inseridas no ordenamento jurídico. As autoridades administrativas, enquanto responsáveis pela execução das determinações legais, devem sempre partir do pressuposto de que o legislador tenha editado leis compatíveis com a Constituição Federal e Código Tributário Nacional. Assim, não há que se cogitar de desobediência aos dispositivos legais elencados, no âmbito da Administração Tributária, quando esta, no exercício da sua atividade de fiscalização, logre efetuar o lançamento de crédito tributário, lastreado em fatos e atos atribuídos ao sujeito passivo, que ensejam a exigência de tributos e dos acréscimos legais pertinentes, desde que referido lançamento seja devidamente fundamentado em regular procedimento de ofício e de acordo com os dispositivos legais que regem a espécie. O tema é pacificado no âmbito deste Conselho Administrativo, nos termos da Súmula 02: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de Lei Tributária”. Afasto, portanto, o presente argumento, por não ser o CARF competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Noutra banda, verificase que o recorrente sem acostar documentos comprobatórios aos presentes autos, em seu recurso voluntário, faz referências genéricas aos fatos que motivaram a presente autuação, bem como em relação a decisão proferida em Fl. 76DF CARF MF Processo nº 13830.901065/201376 Acórdão n.º 1302002.219 S1C3T2 Fl. 5 4 primeira instância, sem com isto trazer objetivamente os fundamentos e provas com base nas quais pede para que seja homologado o seu pedido de compensação. Para esse Relator fica claro que o Recorrente se insurge contra decisão proferida pela DRJ de forma genérica, fazendo mera referência parte das razões apresentadas em sede da impugnação e a necessidade de observação das provas já juntadas aos autos, não merecendo prosperar e, por conseguinte, não surte o efeito pretendido em alterar a decisão do julgador a quo. Nesse sentido já decidiu esta Corte Administrativa, conforme se extrai do decidido nos autos do processo nº 10935.720364/2013 45 que teve como relator Amílcar Barca Teixeira Júnior, como segue: "(...) 1. O contribuinte, em seu recurso, no concernente à obrigação principal, limitas se a prestar informações genéricas e não ataca o mérito, situação que não o favorece, enquadrando se, assim, na disciplina do art. 17 do Decreto nº 70.235, de 1972 (Acórdão nº 2803003.497. Rel. Amílcar Barca Teixeira Júnior. Sessão de 12/08/2014)." Diante do exposto, NEGO provimento ao Recurso Voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (documento assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Fl. 77DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10768.020364/00-61
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu May 18 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Jun 30 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Outros Tributos ou Contribuições
Período de apuração: 01/01/1992 a 31/03/1992
FINSOCIAL. DECADÊNCIA
O Supremo Tribunal Federal, através da Súmula Vinculante n° 08, declarou inconstitucionais os artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212, de 24/07/91, de modo que devem ser aplicadas, sobre o prazo extintivo do direito do Fisco, as regras previstas no CTN.
Recurso Especial da Procuradoria negado
Numero da decisão: 9303-005.178
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Júlio César Alves Ramos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Júlio César Alves Ramos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran.
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DECADÊNCIA Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado PRIME S/A CORRETORA DE CAMBIO E VALORES ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Período de apuração: 01/01/1992 a 31/03/1992 FINSOCIAL. DECADÊNCIA O Supremo Tribunal Federal, através da Súmula Vinculante n° 08, declarou inconstitucionais os artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212, de 24/07/91, de modo que devem ser aplicadas, sobre o prazo extintivo do direito do Fisco, as regras previstas no CTN. Recurso Especial da Procuradoria negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Júlio César Alves Ramos, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 76 8. 02 03 64 /0 0- 61 Fl. 329DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Recursos Especial de Divergência interposto tempestivamente pela Procuradoria da Fazenda Nacional – PFN contra o Acórdão nº 30335.703, de 15/10/2008, proferido pela 3ª Câmara do então Terceiro Conselho de Contribuintes, assim ementado: ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Período de apuração: 01/01/1992 a 31/03/1992 FINSOCIAL PRAZO DECADENCIAL PARA COBRANÇA ARTS. 45 E 46 DA LEI N° 8.212/91 INCONSTITUCIONALIDADE RECONHECIDA PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. A teor de decisão proferida, por unanimidade, em sessão de 11.06.2008, pela Corte do Eg. Supremo Tribunal Federal, o prazo para cobrança das contribuições da seguridade social, é de 5 (cinco) anos. RECURSO VOLUNTÁRIO PROVIDO Contra a decisão, a Procuradoria interpôs embargos de declaração, os quais, todavia, foram rejeitados (fls. 240/243). Nos embargos, sustentou que a DRJ afastou a decadência com base em dois outros dispositivos legais, o art. 3º do DecretoLei nº 2.049/1983 e o art. 102 do Decreto nº 92.968/1986, os quais não teriam sido objeto de análise do Supremo Tribunal Federal – STF, tampouco da decisão embargada. No Recurso Especial, por meio do qual pleiteou, ao final, a reforma do decisum, a PFN suscita divergência quanto ao entendimento de que o prazo decadencial para constituir o crédito tributário relativo ao Finsocial é de 5 (cinco) anos. Alega divergência de entendimento em relação ao que decidido no Acórdão nº 20304.013. O exame de admissibilidade do Recurso Especial da PFN encontrase às fls. 257/258. Cientificada, a contribuinte apresentou contrarrazões ao recurso especial aviado pela PFN (fls. 267/268). É o Relatório. Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator. Presentes os demais requisitos de admissibilidade, entendemos que o recurso especial deve ser conhecido. Consoante se demonstrou no seu exame, o recurso comprovou o dissídio jurisprudencial, uma vez que, enquanto o acórdão recorrido entendeu que o prazo decadencial para constituir créditos de Finsocial é de cinco anos, o acórdão paradigma concluiu que o mesmo prazo é de 10 (dez) anos, na forma do art. 3º do Decretolei nº 2.049/83, c/c o art. 102 Fl. 330DF CARF MF Processo nº 10768.020364/0061 Acórdão n.º 9303005.178 CSRFT3 Fl. 330 3 do Decreto nº 92.698/86 – dispositivos legais cuja apreciação a douta PFN entendeu foi omitida no acórdão recorrido, daí os aclaratórios, que, embora rejeitados, tiveram o claro desiderato de prequestionar a matéria. A divergência, bem se vê, é manifesta. E deve ser dirimida em desfavor da tese encartada no recurso. Isso porque, é de conhecimento geral, o STF já pacificou o entendimento de que o prazo decadencial para constituir créditos tributários da Fazenda Pública deve obedecer às regras estabelecidas no Código Tributário Nacional – CTN, por força do art. 146 da Constituição Federal, tanto que, por meio da Súmula Vinculante nº 8, declarou inconstitucional o art. 45 da Lei n° 8.212, de 24/07/91, que o estabelecia em dez anos, para lançar créditos da Seguridade Social. Entre tais créditos, incluemse os que decorrem da Cofins, que, como se sabe, substituiu o Finsocial. Ante o exposto, e sem maiores delongas, conheço do recurso especial e, no mérito, negolhe provimento. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 331DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13971.902783/2009-79
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Apr 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Jun 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Ano-calendário: 2004
COMPENSAÇÃO. ERRO NO PREENCHIMENTO DA DECLARAÇÃO E/OU PEDIDO. VERDADE MATERIAL.
Uma vez demonstrado o erro no preenchimento da declaração e/ou pedido de compensação de créditos comprovadamente existentes, deve a verdade material prevalecer sobre a formal, com fundamento no Art. 170 do Código Tributário Nacional.
Numero da decisão: 3201-002.755
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinatura digital)
WINDERLEY MORAIS PEREIRA - Presidente Substituto.
(assinatura digital)
PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: WINDERLEY MORAIS PEREIRA (Presidente Substituto), PAULO ROBERTO DUARTE MOREIRA, JOSE LUIZ FEISTAUER DE OLIVEIRA, MERCIA HELENA TRAJANO DAMORIM, ANA CLARISSA MASUKO DOS SANTOS ARAUJO, PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA, TATIANA JOSEFOVICZ BELISARIO, LEONARDO VINICIUS TOLEDO DE ANDRADE.
Nome do relator: PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2004 COMPENSAÇÃO. ERRO NO PREENCHIMENTO DA DECLARAÇÃO E/OU PEDIDO. VERDADE MATERIAL. Uma vez demonstrado o erro no preenchimento da declaração e/ou pedido de compensação de créditos comprovadamente existentes, deve a verdade material prevalecer sobre a formal, com fundamento no Art. 170 do Código Tributário Nacional.
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ERRO NO PREENCHIMENTO DA DECLARAÇÃO E/OU PEDIDO. VERDADE MATERIAL. Uma vez demonstrado o erro no preenchimento da declaração e/ou pedido de compensação de créditos comprovadamente existentes, deve a verdade material prevalecer sobre a formal, com fundamento no Art. 170 do Código Tributário Nacional. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. (assinatura digital) WINDERLEY MORAIS PEREIRA Presidente Substituto. (assinatura digital) PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: WINDERLEY MORAIS PEREIRA (Presidente Substituto), PAULO ROBERTO DUARTE MOREIRA, JOSE LUIZ FEISTAUER DE OLIVEIRA, MERCIA HELENA TRAJANO DAMORIM, ANA CLARISSA MASUKO DOS SANTOS ARAUJO, PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 97 1. 90 27 83 /2 00 9- 79 Fl. 424DF CARF MF 2 LIMA, TATIANA JOSEFOVICZ BELISARIO, LEONARDO VINICIUS TOLEDO DE ANDRADE. Relatório Tratase de Recurso Voluntário de fls. 25 em face de decisão de primeira instância da DRJ/SC de fls. 19 que manteve integralmente a glosa dos créditos de Cofins não cumulativo. Como de costume desta Turma de julgamento, transcrevese o relatório publicado na decisão de primeira instância: "Trata o presente processo de Declaração de Compensação – DCOMP apresentada pela contribuinte acima qualificada. Em análise da compensação intentada, a Delegacia da Receita Federal do Brasil em Blumenau/SC entendeu de não homologá la, em razão de que o valor recolhido via DARF, indicado como fonte do crédito contra a Fazenda Nacional, já havia sido integralmente utilizado para o pagamento de débitos da própria contribuinte. Irresignada com a não homologação de sua compensação, encaminhou a contribuinte manifestação de inconformidade, na qual alega que a razão para a não homologação é a de que alocou incorretamente, em DCTF apresentada, recolhimentos anteriormente efetuados. Com a decisão da DRF/Blumenau/SC, tratou de retificar a DCTF para fins de corrigir o erro. Pede, assim, a homologação da compensação." O Acórdão de primeira instância dessa DRJ/SC de fls. 19 foi publicado com a seguinte Ementa: "ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2004 COMPENSAÇÃO. INDÉBITO ASSOCIADO A ERRO EM VALOR DECLARADO EM DCTF. REQUISITO PARA HOMOLOGAÇÃO. Nos casos em que a existência do indébito incluído em declaração de compensação está associada à alegação de que o valor declarado em DCTF e recolhido é maior do que o devido, só se pode homologar tal compensação, independentemente de eventuais outras verificações, nos casos em que o contribuinte, previamente à apresentação da DCOMP, retifica regularmente a DCTF. Manifestação de Inconformidade Improcedente. Direito Creditório Não Reconhecido." Fl. 425DF CARF MF Processo nº 13971.902783/200979 Acórdão n.º 3201002.755 S3C2T1 Fl. 425 3 Após protocolado o Recurso Voluntário que reforçou as argumentações da impugnação, este Conselho o conheceu e converteu o julgamento em diligência por meio da Resolução de fls 166, transcrita a seguir: "Superado, então, o entendimento de que a Recorrente não poderia juntar provas em fase recursal nem retificar a sua DCTF em momento posterior ao despacho decisório, proponho a conversão do presente julgamento em diligência para que a Delegacia da Receita Federal de Fiscalização de Blumenau/SC para que confirme, ou não, se as alegações da Recorrente estão lastreadas em sua escrita contábil e fiscal, considerando todo o suporte documental constante dos autos. Concluída a diligência, a Recorrente deverá ser intimada para, querendo, manifestarse acerca do termo de conclusão de diligência no prazo de 30 (trinta) dias. Em seguida, a Procuradoria da Fazenda Nacional deverá ser intimada para os mesmos fins no mesmo prazo. Após o decurso desses prazos, o processo deverá retornar para o CARF para que o julgamento seja retomado por este Conselheiro ou quem lhe fizer as vezes." Após determinada a diligência e cumprida pela autoridade fiscal, este foi o resultado trazido na Informação Fiscal de fls. 411: "No que diz respeito à Cofins Não Cumulativa, do cotejo das informações trazidas ao Dacon com o Livro Razão, concluise que a base de cálculo foi corretamente apurada e com base nas planilhas apresentadas verificase que o crédito utilizado no desconto da contribuição apurada era suficiente para zerar a Cofins Não Cumulativa do mês de dezembro de 2004. Com relação à Cofins Cumulativa, do Livro razão depreendese que houve faturamento de R$ 133.191,65, que representa um débito equivalente a R$ 3.995,75, que coincide com o valor confessado na DCTF atualmente ativa. Assim, considerandose que houve um pagamento a título de Cofins não cumulativa de R$ 6.420,96 e que a importância de R$ 2.195,34 já foi reconhecida na compensação ora em litígio, concluise que o saldo do pagamento equivalente a R$ 4.225,62, confessado inicialmente em DCTF a título da Cofins Não Cumulativa que posteriormente foi retificada para zero, pode ainda ser utilizado. Isto posto, encerrase a diligência." Após a juntada do cumprimento da diligência conforme Informação Fiscal de fls. 411, os autos foram distribuídos a este Conselheiro e pautados para julgamento em acordo com o regimento interno. Relatório proferido. Fl. 426DF CARF MF 4 Voto Conselheiro Relator Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Com fundamento no Direito Tributário, na legislação, nas provas, documentos e petições apresentados aos autos deste procedimento administrativo e, no exercício dos trabalhos e atribuições profissionais concedidas aos Conselheiros Titulares, conforme Portaria de Condução e Regimento Interno, apresentase este voto. Por conter matéria preventa desta 3.ª Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e presentes os requisitos de admissibilidade, o tempestivo Recurso Voluntário deve ser conhecido. Após a análise do autos, foi possível verificar que o ponto central da lide entre o contribuinte e a União está em verificar se as alegações da Recorrente estão lastreadas em sua escrita contábil e fiscal, considerando todo o suporte documental constante dos autos. Ainda que de forma pragmática, ao ser determinada uma Resolução, em muitas das vezes verificase que indícios de mérito favoráveis ao contribuinte foram o que motivaram e justificaram a continuidade da apreciação dos autos. No presente caso o Conselheiro relator anterior inclusive fez considerações a respeito do mérito. Exatamente por conta de haver harmonia do presente voto com o mérito trazido aos autos em Resolução, é importante a reprodução dos trechos em que o nobre Conselheiro Daniel Mariz Gudino tratou do mérito, conforme transcrito a seguir: “Conforme se depreende do relatório, o núcleo do presente contencioso cingese aos efeitos do procedimento adotado pela Recorrente no sentido de retificar a sua DCTF para legitimar o crédito informado em DCOMP pretérita. A instância a quo, sem entrar no mérito da existência do crédito, entendeu que a compensação é indevida, pois o crédito utilizado pela Recorrente somente passou a existir formalmente após a retificação da DCTF. Por outro lado, a Recorrente alega que o direito creditório sempre existiu, tendo havido apenas um erro formal na DCTF e no DACON originais, o que pode ser verificado pela fiscalização em seus registros contábeis. É certo que o contencioso administrativo fiscal deve ser guiado pelo princípio da verdade material, segundo o qual os formalismos exacerbados devem ser afastados para que prevaleça a realidade dos fatos. Os fatos relacionados ao caso concreto sucederamse da seguinte forma: o DARF que originou o crédito em discussão foi pago em 14/01/2005, a DCOMP foi transmitida em 16/06/2005, o despacho decisório foi proferido em 09/04/2009, a retificação da DCTF ocorreu em 21/04/2009, e a do DACON, em 05/05/2009. A partir da análise dos fatos, percebesse que, ao tempo em que a DCOMP foi transmitida, a informação de que a Receita Federal Fl. 427DF CARF MF Processo nº 13971.902783/200979 Acórdão n.º 3201002.755 S3C2T1 Fl. 426 5 dispunha era o pagamento do DARF para a quitação do débito de Cofins nãocumulativa referente à competência 12/2004, não havendo, até a emissão do despacho decisório, qualquer informação de que o referido débito não era devido. Por essa razão, o despacho decisório não mereceria reparos. A questão que se coloca aqui é outra. Tendo verificado o suposto erro na informação prestada em sua DCTF, quando da ciência do despacho decisório, a Recorrente procedeu à retificação imediata e apresentou manifestação de inconformidade reconhecendo o equívoco cometido. Contudo, não prestou informações sobre a origem do erro ou provas. Posteriormente, já em sede recursal, a Recorrente alegou que o motivo da retificação da DCTF do 4º trimestre de 2004 foi mudança do regime de apuração da Cofins para receitas de hotelaria, nos termos da Portaria Interministerial nº 33, de 2005. Segundo a nova sistemática, a Recorrente teria apurado um saldo credor no mês de outubro de 2004, razão pela qual o valor que já havia recolhido tornouse indevido. Para comprovar que a sua apuração era realizada parte com base no regime não cumulativo e parte com base no regime cumulativo, a Recorrente apresentou os livros contábeis (razão, diário e registro de serviços – efls. 74, 80 e 110, respectivamente), o demonstrativo de cálculo da Cofins no período (efl. 46) e o comprovante de recolhimento com o código de receita 5856 – Cofins não cumulativa (efls. 47). A jurisprudência deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF tem sido flexível acerca do assunto, admitindo a retificação extemporânea da DCTF, desde que o interessado prove o equívoco cometido, ou seja, a existência do crédito à época em que a DCOMP foi transmitida. Confirase: PER/DCOMP. RETIFICAÇÃO DA DCTF. DESPACHO DECISÓRIO. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO ERRO. ÔNUS DO SUJEITO PASSIVO. O contribuinte, a despeito da retificação extemporânea da Dctf, tem direito subjetivo à compensação, desde que apresente prova da liquidez e da certeza do direito de crédito. A simples retificação, desacompanhada de qualquer prova, não autoriza a homologação da compensação. (Acórdão nº 3802002.345, Rel. Cons. Solon Sehn, Sessão de 29/01/2014) ......................................................................................................... DCTF RETIFICADORA APRESENTADA APÓS CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. EFEITOS. A DCTF retificadora apresentada após a ciência da contribuinte do Despacho Decisório que indeferiu o pedido de compensação não é suficiente para a comprovação do crédito tributário pretendido, Fl. 428DF CARF MF 6 sendo indispensável à comprovação do erro em que se funde o que não ocorreu. NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. DIREITO DE CRÉDITO. LIQUIDEZ E CERTEZA. Não é líquido e certo crédito decorrente de pagamento informado como indevido ou a maior, se o pagamento consta nos sistemas informatizados da Secretaria da Receita Federal do Brasil como utilizado integralmente para quitar débito informado em DCTF e a contribuinte não prova com documentos e livros fiscais e contábeis erro na DCTF. (Acórdão nº 3801002.926, Rel. Cons. Paulo Antonio Caliendo Velloso da Silveira, Sessão de 25/02/2014). ......................................................................................................... DÉBITO INFORMADO EM DCTF. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO ERRO. A simples retificação de DCTF para alterar valores originalmente declarados, desacompanhada de documentação hábil e idônea, não pode ser admitida para modificar Despacho Decisório. COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Constatada a inexistência do direito creditório por meio de informações prestadas pelo interessado à época da transmissão da Declaração de Compensação, cabe a este o ônus de comprovar que o crédito pretendido já existia naquela ocasião. (Acórdão nº 3302002.124, Rel. Cons. Alexandre Gomes, Sessão de 22/05/2013). Considerando que, no caso concreto, a Recorrente teve que refazer a apuração da Cofins desde maio de 2004, por força da Portaria Interministerial nº 33, de 2005, e demonstrado que ela efetuou pagamento de Cofins nãocumulativa referente à competência de outubro de 2004, quando, segundo a nova sistemática de apuração, nada deveria recolher, verificasse que o direito creditório da Recorrente é líquido e certo. Embora a Recorrente somente tenha feito prova dos fatos narrados acima em sede recursal, em homenagem ao princípio da verdade material, as provas devem ser admitidas no julgamento deste CARF. Nesse particular, transcrevese a ementa de um interessante julgado, a saber: ERRO FORMAL PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL PREVALÊNCIA. Embora a DCTF seja o documento válido para constituir o crédito tributário, se o contribuinte demonstra que as informações nela constantes estão erradas, pois foram por ele prestadas equivocadamente, deve ser observado o princípio da verdade material, afastando quaisquer atos da autoridade fiscal que tenham se baseado em informações equivocadas. Fl. 429DF CARF MF Processo nº 13971.902783/200979 Acórdão n.º 3201002.755 S3C2T1 Fl. 427 7 DCTF COM INFORMAÇÕES ERRADAS TRIBUTO PAGO INDEVIDAMENTE CRÉDITO EXISTENTE HOMOLOGAÇÃO DA COMPENSAÇÃO. O PIS apurado e recolhido sob a sistemática cumulativa, quando o contribuinte submetiase a não cumulatividade, em competência cujo saldo de PIS a pagar, segundo esta sistemática, foi zero, consubstanciase em recolhimento indevido. Crédito apto a ser utilizado em compensação, cuja homologação deve ser reconhecida. (Acórdão nº 3302001.212, Rel. Cons. Fabíola Cassiano Keramidas, Sessão de 01/09/2011).” Após determinada a diligência e cumprida pela autoridade fiscal, este foi o resultado trazido na Informação Fiscal de fls. 411: "No que diz respeito à Cofins Não Cumulativa, do cotejo das informações trazidas ao Dacon com o Livro Razão, concluise que a base de cálculo foi corretamente apurada e com base nas planilhas apresentadas verificase que o crédito utilizado no desconto da contribuição apurada era suficiente para zerar a Cofins Não Cumulativa do mês de dezembro de 2004. Com relação à Cofins Cumulativa, do Livro razão depreendese que houve faturamento de R$ 133.191,65, que representa um débito equivalente a R$ 3.995,75, que coincide com o valor confessado na DCTF atualmente ativa. Assim, considerandose que houve um pagamento a título de Cofins não cumulativa de R$ 6.420,96 e que a importância de R$ 2.195,34 já foi reconhecida na compensação ora em litígio, concluise que o saldo do pagamento equivalente a R$ 4.225,62, confessado inicialmente em DCTF a título da Cofins Não Cumulativa que posteriormente foi retificada para zero, pode ainda ser utilizado. Isto posto, encerrase a diligência." Logo, se o ponto central para a solução da lide consiste em verificar se as alegações da Recorrente estão lastreadas em sua escrita contábil e fiscal, considerando todo o suporte documental constante dos autos, para acolher ou não a retificação da DCTF para constituição de indébito após o despacho decisório de não homologação de compensação de créditos existentes em DACON, o resultado da diligência apresentado acima soluciona a lide. Importante destacar que não se está questionando a qualidade do crédito envolvido, posto que a própria Fiscalização atestou sua qualidade em diligência solicitada por este Conselho (Resolução CARF fls. 166). A DRJ, em sua decisão, determinou a manutenção do despacho decisório em sua integralidade, uma vez que a DCTF é o instrumento previsto para o lançamento e a falta de retificação tempestiva impossibilita a constituição do crédito em favor do contribuinte. Fl. 430DF CARF MF 8 Menciona, ainda, que mesmo a convalidação da retificação após o despacho decisório acarretaria a constituição do indébito posteriormente, sendo devida a multa pelo atraso e os juros. A Procuradoria Geral da Fazenda Nacional se manifestou no sentido de que as hipóteses de apresentação de provas após a impugnação são restritas pelo Decreto 70.235/72, sendo, portanto, descabida a solicitação de retificação da DCTF sua apresentação após o início da verificação fiscal. No mérito, entretanto, tal glosa não pode prosperar, este Conselho de Recursos Fiscais já exarou decisões firmando o entendimento de que a busca da verdade material no Processo Administrativo Tributário deve prevalecer sobre o formalismo, portanto, se o crédito do contribuinte existia à época por conta da alteração normativa do regime não cumulativo para o cumulativo, a mera falta de retificação da DCTF não pode recolher o direito à compensação dos créditos previstos em DACON e devidamente formalizados via Declaração de Compensação. Créditos estes validados em verificação fiscal. Destacase que o entendimento apresentado no presente voto encontra respaldo em precedentes deste Conselho, conforme segue: “Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Anocalendário: 2002 COMPENSAÇÃO ERRO NO PREENCHIMENTO DA DECLARAÇÃO E/OU PEDIDO Uma vez demonstrado o erro no preenchimento da declaração e/ou pedido, deve a verdade material prevalecer sobre a formal. REPETIÇÃO DE INDÉBITO E COMPENSAÇÃO ORIGEM DO CRÉDITO PLEITEADO. Restando claro que a dúvida acerca da origem do crédito pleiteado pelo contribuinte foi dissipada pelos elementos carreados aos autos, a autoridade julgadora deve, em homenagem aos princípios da verdade material e do informalismo, proceder a análise do pedido formulado. SALDO NEGATIVO DE CSLL APURADO NA DECLARAÇÃO. Constitui crédito a compensar ou restituir o saldo negativo de CSLL apurado em declaração de rendimentos, desde que ainda não tenha sido compensado ou restituído, até o limite apurado nos anos calendário objeto do pedido. (Processo 11610.005921/200358, Data da Sessão 21/01/2016, Acórdão 1301001.918). (...) Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 1997 ERRO NO PREENCHIMENTO DA DCTF. Comprovado o mero erro material no preenchimento da DCTF, deve ser cancelado o lançamento de ofício efetuado em sede de Fl. 431DF CARF MF Processo nº 13971.902783/200979 Acórdão n.º 3201002.755 S3C2T1 Fl. 428 9 auditoria interna daquela declaração. Recurso de ofício negado (Processo 13706.000351/200295, Data da Sessão 08/12/2015, Acórdão 1201001.199).” Assim, deve ser convalidada a retificação da DCTF, ainda que posteriormente ao despacho decisório e homologada em sua integralidade a compensação realizada pelo contribuinte. Diante do exposto, votase para DAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário e determinar o prosseguimento do feito com fundamento nos Art. 170 do CTN. Voto proferido. (assinatura digital) Conselheiro Relator – Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Fl. 432DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13204.000039/2004-14
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Mar 22 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed May 17 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/02/2004 a 29/02/2004
INCIDÊNCIA NÃOCUMULATIVA. CRÉDITOS. INSUMOS. PIS/COFINS. CRÉDITOS DA NÃOCUMULATIVIDADE. CONCEITO DE INSUMOS.
Para fins de se definir insumo para efeito de constituição de crédito de PIS e de Cofins, deve-se observar se o bem e o serviço são considerados essenciais na prestação de serviço ou produção e se a produção ou prestação de serviço demonstram-se dependentes efetivamente da aquisição dos referidos bens e serviços.
Deve-se observar, também, se os mesmos são aplicados diretamente ou indiretamente no processo de produção e nos demais bens e serviços gerais utilizados indiretamente na produção ou fabricação, ainda que não sofram alterações em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, mas que guardem estreita relação com a atividade produtiva.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/02/2004 a 29/02/2004
INCIDÊNCIA NÃOCUMULATIVA. CRÉDITOS. INSUMOS. PIS/COFINS. CRÉDITOS DA NÃOCUMULATIVIDADE. CONCEITO DE INSUMOS.
Para fins de se definir insumo para efeito de constituição de crédito de PIS e de Cofins, deve-se observar se o bem e o serviço são considerados essenciais na prestação de serviço ou produção e se a produção ou prestação de serviço demonstram-se dependentes efetivamente da aquisição dos referidos bens e serviços.
Deve-se observar, também, se os mesmos são aplicados diretamente ou indiretamente no processo de produção e nos demais bens e serviços gerais utilizados indiretamente na produção ou fabricação, ainda que não sofram alterações em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, mas que guardem estreita relação com a atividade produtiva.
Numero da decisão: 9303-004.790
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte. No mérito, acordam, quanto ao serviço de alteamento, ao serviço de limpeza e passagem, ao serviço de decapeamento, ao serviço de lavra, ao serviço de melhoria das estradas e quanto a gasolina comum e óleo diesel, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Júlio César Alves Ramos, Andrada Márcio Canuto Natal e Rodrigo da Costa Possas, que lhe negaram provimento. Acordam, ainda, quanto ao serviço de locação, por voto de qualidade, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Érika Costa Camargos Autran (relatora), Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento; quanto ao fornecimento de jantar e quanto ao serviço de transporte, por maioria de votos, acordam, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento; e quanto ao serviço especializado de vigilância, por unanimidade de votos, em negar-lhe provimento. Designado para redigir o voto vencedor, em relação ao serviço de locação, o conselheiro Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado).
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Érika Costa Camargos Autran - Relatora
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza- Redator designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: ERIKA COSTA CAMARGOS AUTRAN
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/02/2004 a 29/02/2004 INCIDÊNCIA NÃOCUMULATIVA. CRÉDITOS. INSUMOS. PIS/COFINS. CRÉDITOS DA NÃOCUMULATIVIDADE. CONCEITO DE INSUMOS. Para fins de se definir “insumo” para efeito de constituição de crédito de PIS e de Cofins, devese observar se o bem e o serviço são considerados essenciais na prestação de serviço ou produção e se a produção ou prestação de serviço demonstramse dependentes efetivamente da aquisição dos referidos bens e serviços. Devese observar, também, se os mesmos são aplicados diretamente ou indiretamente no processo de produção e nos demais bens e serviços gerais utilizados indiretamente na produção ou fabricação, ainda que não sofram alterações em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, mas que guardem estreita relação com a atividade produtiva. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/02/2004 a 29/02/2004 INCIDÊNCIA NÃOCUMULATIVA. CRÉDITOS. INSUMOS. PIS/COFINS. CRÉDITOS DA NÃOCUMULATIVIDADE. CONCEITO DE INSUMOS. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 20 4. 00 00 39 /2 00 4- 14 Fl. 409DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 409 2 Para fins de se definir “insumo” para efeito de constituição de crédito de PIS e de Cofins, devese observar se o bem e o serviço são considerados essenciais na prestação de serviço ou produção e se a produção ou prestação de serviço demonstramse dependentes efetivamente da aquisição dos referidos bens e serviços. Devese observar, também, se os mesmos são aplicados diretamente ou indiretamente no processo de produção e nos demais bens e serviços gerais utilizados indiretamente na produção ou fabricação, ainda que não sofram alterações em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, mas que guardem estreita relação com a atividade produtiva. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte. No mérito, acordam, quanto ao serviço de alteamento, ao serviço de limpeza e passagem, ao serviço de decapeamento, ao serviço de lavra, ao serviço de melhoria das estradas e quanto a gasolina comum e óleo diesel, por maioria de votos, em dar lhe provimento, vencidos os conselheiros Júlio César Alves Ramos, Andrada Márcio Canuto Natal e Rodrigo da Costa Possas, que lhe negaram provimento. Acordam, ainda, quanto ao serviço de locação, por voto de qualidade, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Érika Costa Camargos Autran (relatora), Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento; quanto ao fornecimento de jantar e quanto ao serviço de transporte, por maioria de votos, acordam, em negarlhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento; e quanto ao serviço especializado de vigilância, por unanimidade de votos, em negarlhe provimento. Designado para redigir o voto vencedor, em relação ao serviço de locação, o conselheiro Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado). (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran Relatora Fl. 410DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 410 3 (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Redator designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência interposto pelo Contribuinte contra o acórdão n.º 3801002.038 (fls. 173 a 190) do processo eletrônico, proferido pela Primeira Turma Especial da Primeira Câmara da Terceira Seção de Julgamento deste CARF, em 21 de agosto de 2013, decisão que: I por unanimidade de votos, deu provimento parcial ao recurso no sentido de reconhecer o direito de descontar créditos em relação as aquisições do óleo combustível TPABPF; II Por maioria de votos, em negar provimento quanto às glosas decorrentes de fornecimento de alimentação para os funcionários e serviço especializado de vigilância e III pelo voto de qualidade, em negar provimento em relação as demais glosas (alteamento, limpeza e passagem, locação de equipamentos, decapeamento, lavra, transporte de funcionários, melhoria das estradas, gasolina comum e óleo diesel), conforme acórdão assim ementado: O Contribuinte interpôs Recurso Especial de Divergência – fls. 273 a 301 em face do acordão recorrido que deu provimento parcial ao Recurso Voluntário, suscitando divergência contra o entendimento adotado pela decisão recorrida, relativamente aos itens não considerados como insumos. Para comprovar o dissenso inicialmente foram colacionados, como paradigmas, os acórdãos 930101.741, 340301.500, 20181.139, e 320200.226 (fls. 310 a 370). Somente os dois primeiros citados no recurso foram analisados no exame de admissibilidade, por força do disposto no art. 67 do RICARF. O Recurso Especial do Contribuinte foi admitido, nos termos do despacho de fls. 374 a 377, argumentando que na decisão recorrida o colegiado, analisando o direito de créditos da Cofins não cumulativa, entendeu que “para se ter direito ao desconto dos créditos Fl. 411DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 411 4 é necessário que os serviços prestados pela pessoa jurídica sejam aplicados diretamente na fabricação do produto”. Por sua vez, os paradigmas citados firmam entendimento diverso, pois utiliza conceito mais amplo do que seriam os insumos dentro da sistemática não cumulativa do PIS e da COFINS. Engloba, outros conceitos, e rejeita a utilização do conceito empregado na legislação do IPI. Assim, entendeu que a divergência jurisprudencial foi comprovada. A Fazenda Nacional apresentou contrarrazões às fls. 479 a 402 postulando pelo não provimento do recurso especial do contribuinte, para manter a decisão v. Acórdão. É o relatório em síntese. Voto Vencido DO SERVIÇO DE LOCAÇÃO Conselheira Érika Costa Camargos Autran Relatora Para melhor elucidar meu entendimento, importante trazer o conceito de insumo, para fins de fruição do crédito de PIS e da COFINS não cumulativos. Nos autos do processo administrativo n.º 13984.001511/200587, em sede de julgamento de recurso especial pelo Colegiado da 3ª Turma da CSRF, a ilustre Conselheira Tatiana Midori Migiyama expôs brilhantemente o conceito de insumo, que passam a integrar a presente fundamentação: “Vêse que a Constituição Federal não outorgou poderes para a autoridade fazendária para se definir livremente o conteúdo da não cumulatividade. O que, por conseguinte, concluo que a devida observância da sistemática da não cumulatividade exige que se avalie a natureza das despesas incorridas Fl. 412DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 412 5 pelo contribuinte – considerando a legislação vigente, bem como a natureza da sistemática da não cumulatividade. Sempre que estas despesas/custos se mostrarem essenciais ao exercício de sua atividade, devem implicar, a rigor, no abatimento de tais despesas como créditos descontados junto à receita bruta auferida. Importante elucidar que no IPI se tem critérios objetivos (desgaste durante o processo produtivo em contato direto com o bem produzido ou composição ao produto final), enquanto, no PIS e na COFINS essa definição sofre contornos subjetivos. Tenho que, para se estabelecer o que é o insumo gerador do crédito do PIS e da COFINS, ao meu sentir, tornase necessário analisar a essencialidade do bem ao processo produtivo da recorrente, ainda que dele não participe diretamente. Continuando, frisese tal entendimento que vincula o bem e serviço para fins de instituição do crédito do PIS e da Cofins com a essencialidade no processo produtivo o Acórdão 3403002.765 – que, por sua vez, traz em sua ementa: "O conceito de insumo, que confere o direito de crédito de PIS/Cofins não cumulativo, não se restringe aos conceitos de matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, tal como traçados pela legislação do IPI. A configuração de insumo, para o efeito das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, depende da demonstração da aplicação do bem e serviço na atividade produtiva concretamente desenvolvida pelo contribuinte." Vêse que na sistemática não cumulativa do PIS e da COFINS o conteúdo semântico de insumo é mais amplo do que aquele da legislação do IPI, porém mais restrito do que aquele da legislação do imposto de renda, abrangendo os “bens” e serviços que integram o custo de produção. Ademais, vêse que, dentre todas as decisões do CARF e do STJ, é de se constatar que o entendimento predominante considera o princípio da essencialidade para fins de conceituação de insumo o que, por sua vez, foi confirmado pela pesquisa desenvolvida no âmbito do Núcleo de Estudos Fiscais da FGV Direito SO sob a coordenação dos estudiosos Breno Vasconcelos, Daniel Santiago, Eurico de Santi, Karem Dias e Suzy Hoffman. Fl. 413DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 413 6 Não obstante à jurisprudência dominante, importante discorrer sobre o tema desde a instituição da sistemática não cumulativa das r. contribuições. Em 30 de agosto de 2002, foi publicada a Medida Provisória 66/02, que dispôs sobre a sistemática não cumulativa do PIS, o que foi reproduzido pela Lei 10.637/02 (lei de conversão da MP 66/02) que, em seu art. 3º, inciso II, autorizou a apropriação de créditos calculados em relação a bens e serviços utilizados como insumos na fabricação de produtos destinados à venda. É a seguinte a redação do referido dispositivo:“Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI;” Em relação à COFINS, temse que, em 31 de outubro de 2003, foi publicada a MP 135/03, convertida na Lei 10.833/03, que dispôs sobre a sistemática não cumulatividade dessa contribuição, destacando o aproveitamento de créditos decorrentes da aquisição de insumos em seu art. 3º, inciso II, em redação idêntica àquela já existente para o PIS/Pasep, in verbis (Grifos meus): “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei nº10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004)”. Fl. 414DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 414 7 Posteriormente, em 31 de dezembro de 2003, foi publicada a Emenda Constitucional 42/2003, sendo inserida ao ordenamento jurídico o § 12 ao art. 195: “Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições: [...] §12 A lei definirá os setores de atividade econômica para os quais as contribuições incidentes na forma dos incisos I, b; e IV do caput, serão não cumulativas.” Com o advento desse dispositivo, restou claro que a regulamentação da sistemática da não cumulatividade aplicável ao PIS e à COFINS ficaria sob a competência do legislador ordinário. Vêse, portanto, em consonância com o dispositivo constitucional, que não há respaldo legal para que seja adotado conceito excessivamente restritivo de "utilização na produção" (terminologia legal), tomandoo por "aplicação ou consumo direto na produção" e para que seja feito uso, na sistemática do PIS/Pasep e Cofins não cumulativos, do mesmo conceito de "insumos" adotado pela legislação própria do IPI. Nessa lei, há previsão para que sejam utilizados apenas subsidiariamente os conceitos de produção, matéria prima, produtos intermediários e material de embalagem previstos na legislação do IPI. Ademais, a sistemática da não cumulatividade das contribuições é diversa daquela do IPI, visto que a previsão legal possibilita a dedução dos valores de determinados bens e serviços suportados pela pessoa jurídica dos valores a serem recolhidos a título dessas contribuições, calculados pela aplicação da alíquota correspondente sobre a totalidade das receitas por ela auferidas. Não menos importante, vêse que, para fins de creditamento do PIS e da COFINS, admite se também que a prestação de serviços seja considerada como insumo, o que já leva à conclusão de que as próprias Leis 10.637/2002 Fl. 415DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 415 8 e 10.833/2003 ampliaram a definição de "insumos", não se limitando apenas aos elementos físicos que compõem o produto. Nesse ponto, Marco Aurélio Grego (in "Conceito de insumo à luz da legislação de PIS/COFINS", Revista Fórum de Direito Tributário RFDT, ano1, n. 1, jan/fev.2003, Belo Horizonte: Fórum, 2003) diz que será efetivamente insumo ou serviço com direito ao crédito sempre que a atividade ou a utilidade forem necessárias à existência do processo ou do produto ou agregarem (ao processo ou ao produto) alguma qualidade que faça com que um dos dois adquira determinado padrão desejado. Sendo assim, seria insumo o serviço que contribua para o processo de produção – o que, podese concluir que o conceito de insumo efetivamente é amplo, alcançando as utilidades/necessidades disponibilizadas através de bens e serviços, desde que essencial para o processo ou para o produto finalizado, e não restritivo tal como traz a legislação do IPI. Frisese que o raciocínio de Marco Aurélio Greco traz, pra tanto, os conceitos de essencialidade e necessidade ao processo produtivo. O que seria inexorável se concluir também pelo entendimento da autoridade fazendária que, por sua vez, validam o creditamento apenas quando houver efetiva incorporação do insumo ao processo produtivo de fabricação e comercialização de bens ou prestação de serviços, adotando o conceito de insumos de forma restrita, em analogia à conceituação adotada pela legislação do IPI, ferindo os termos trazidos pelas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, que, por sua vez, não tratou, tampouco conceituou dessa forma. Resta, por conseguinte, indiscutível a ilegalidade das Instruções Normativas SRF 247/02 e 404/04 quando adotam a definição de insumos semelhante à da legislação do IPI. As Instruções Normativas da Secretaria da Receita Federal do Brasil que restringem o conceito de insumos, não podem prevalecer, pois partem da premissa equivocada de que os créditos de PIS e COFINS teriam semelhança com os créditos de IPI. Isso, ao dispor: · o art. 66, § 5º, inciso I, da IN SRF 247/02 o que segue (Grifos meus): Fl. 416DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 416 9 “Art. 66. A pessoa jurídica que apura o PIS/Pasep nãocumulativo com a alíquota prevista no art. 60 pode descontar créditos, determinados mediante a aplicação da mesma alíquota, sobre os valores: [...] § 5º Para os efeitos da alínea "b" do inciso I do caput, entendese como insumos: ( Incluído pela IN SRF 358, de 09/09/2003 ) I utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda: ( Incluído pela IN SRF 358, de 09/09/2003 ) a.matérias primas, os produtos intermediários, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado; ( Incluído pela IN SRF 358, de 09/09/2003 ) b.os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na prestação do serviço. ( Incluído pela IN SRF 358, de 09/09/2003 ) [...]” art. 8º, § 4ª, da IN SRF 404/04 (Grifos meus): “Art. 8 º Do valor apurado na forma do art. 7 º, a pessoa jurídica pode descontar créditos, determinados mediante a aplicação da mesma alíquota, sobre os valores: [...] § 4 º Para os efeitos da alínea "b" do inciso I do caput, entendese como insumos: utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda: a) a matériaprima, o produto intermediário, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado; b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na produção ou fabricação do produto; II utilizados na prestação de serviços: Fl. 417DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 417 10 a) os bens aplicados ou consumidos na prestação de serviços, desde que não estejam incluídos no ativo imobilizado; e b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no país, aplicados ou consumidos na prestação do serviço. [...]” Tais normas infraconstitucionais restringiram o conceito de insumo para fins de geração de crédito de PIS e COFINS, aplicandose os mesmos já trazidos pela legislação do IPI. O que entendo que a norma infraconstitucional não poderia extrapolar essa conceituação frente a intenção da instituição da sistemática da não cumulatividade das r. contribuições. Considerando que as Leis 10.637/02 e 10.833/03 trazem no conceito de insumo: a. Serviços utilizados na prestação de serviços; b. Serviços utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; c. Bens utilizados na prestação de serviços; d. Bens utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; e. Combustíveis e lubrificantes utilizados na prestação de serviços; f. Combustíveis e lubrificantes utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Vêse claro, portanto, que não poderseia considerar para fins de definição de insumo o trazido pela legislação do IPI, já que serviços não são efetivamente insumos, se considerássemos os termos dessa norma. Não obstante, depreendendose da análise da legislação e seu histórico, bem como intenção do legislador, entendo também não ser cabível adotar de forma ampla o conceito trazido pela legislação do IRPJ como arcabouço interpretativo, tendo em vista que nem todas as despesas operacionais consideradas para fins de dedução de IRPJ e CSLL são utilizadas no processo produtivo e simultaneamente tratados como essenciais à produção. Ora, o termo "insumo" não devem necessariamente estar contidos nos custos e despesas operacionais, isso porque a própria legislação previu que algumas despesas não operacionais fossem passíveis de creditamento, tais Fl. 418DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 418 11 como Despesas Financeiras, energia elétrica utilizada nos estabelecimentos da empresa, etc. O que entendo que os itens trazidos pelas Leis 10.637/02 e 10.833/03 que geram o creditamento, são taxativos, inclusive porque demonstram claramente as despesas, e não somente os custos que deveriam ser objeto na geração do crédito dessas contribuições. Eis que, se fossem exemplificativos, nem poderiam estender a conceituação de insumos as despesas operacionais que nem compõem o produto e serviços – o que até prejudicaria a inclusão de algumas despesas que não contribuem de forma essencial na produção. Com efeito, por conseguinte, podese concluir que a definição de “insumos” para efeito de geração de crédito das r. contribuições, deve observar o que segue: · Se o bem e o serviço são considerados essenciais na prestação de serviço ou produção; · Se a produção ou prestação de serviço são dependentes efetivamente da aquisição dos bens e serviços – ou seja, sejam considerados essenciais. Tanto é assim que, em julgado recente, no REsp 1.246.317, a Segunda Turma do STJ reconheceu o direito de uma empresa do setor de alimentos a compensar créditos de PIS e Cofins resultantes da compra de produtos de limpeza e de serviços de dedetização, com base no critério da essencialidade. Para melhor transparecer esse entendimento, trago a ementa do acórdão (Grifos meus): “PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. VIOLAÇÃO AO ART. 538, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 98/STJ. CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS NÃOCUMULATIVAS. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. ART. 3º, II, DA LEI N. 10.637/2002 E ART. 3º, II, DA LEI N. 10.833/2003. ILEGALIDADE DAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS SRF N. 247/2002 E 404/2004. 1. Não viola o art. 535, do CPC, o acórdão que decide de forma suficientemente fundamentada a lide, muito embora não faça considerações sobre todas as teses jurídicas e artigos de lei invocados pelas partes. Fl. 419DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 419 12 2. Agride o art. 538, parágrafo único, do CPC, o acórdão que aplica multa a embargos de declaração interpostos notadamente com o propósito de prequestionamento. Súmula n. 98/STJ: "Embargos de declaração manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório ". 3. São ilegais o art. 66, §5º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 247/2002 Pis/Pasep (alterada pela Instrução Normativa SRF n. 358/2003) e o art. 8º, §4º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 404/2004 Cofins, que restringiram indevidamente o conceito de "insumos" previsto no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e n. 10.833/2003, respectivamente, para efeitos de creditamento na sistemática de nãocumulatividade das ditas contribuições. 4. Conforme interpretação teleológica e sistemática do ordenamento jurídico em vigor, a conceituação de "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, não se identifica com a conceituação adotada na legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, posto que excessivamente restritiva. Do mesmo modo, não corresponde exatamente aos conceitos de "Custos e Despesas Operacionais" utilizados na legislação do Imposto de Renda IR, por que demasiadamente elastecidos. 5. São "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, todos aqueles bens e serviços pertinentes ao, ou que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços, que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração importa na impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a atividade da empresa, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço daí resultantes. 6. Hipótese em que a recorrente é empresa fabricante de gêneros alimentícios sujeita, portanto, a rígidas normas de higiene e limpeza. No ramo a que pertence, as exigências de condições sanitárias das instalações se não atendidas implicam na própria impossibilidade da produção e em substancial perda de qualidade do produto resultante. A assepsia é essencial e imprescindível ao desenvolvimento de suas atividades. Não houvessem os Fl. 420DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 420 13 efeitos desinfetantes, haveria a proliferação de microorganismos na maquinaria e no ambiente produtivo que agiriam sobre os alimentos, tornandoos impróprios para o consumo. Assim, impõese considerar a abrangência do termo "insumo" para contemplar, no creditamento, os materiais de limpeza e desinfecção, bem como os serviços de dedetização quando aplicados no ambiente produtivo de empresa fabricante de gêneros alimentícios. 7. Recurso especial provido.” Aquele colegiado entendeu que a assepsia do local, embora não esteja diretamente ligada ao processo produtivo, é medida imprescindível ao desenvolvimento das atividades em uma empresa do ramo alimentício. Em outro caso, o STJ reconheceu o direito aos créditos sobre embalagens utilizadas para a preservação das características dos produtos durante o transporte, condição essencial para a manutenção de sua qualidade (REsp 1.125.253). O que, peço vênia, para transcrever a ementa do acórdão: COFINS – NÃO CUMULATIVIDADE – INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA – POSSIBILIDADE – EMBALAGENS DE ACONDICIONAMENTO DESTINADAS A PRESERVAR AS CARACTERÍSTICAS DOS BENS DURANTE O TRANSPORTE, QUANDO O VENDEDOR ARCAR COM ESTE CUSTO – É INSUMO NOS TERMOS DO ART. 3º, II, DAS LEIS N. 10.637/2002 E 10.833/2003. 1. Hipótese de aplicação de interpretação extensiva de que resulta a simples inclusão de situação fática em hipótese legalmente prevista, que não ofende a legalidade estrita. Precedentes. 2. As embalagens de acondicionamento, utilizadas para a preservação das características dos bens durante o transporte, deverão ser consideradas como insumos nos termos definidos no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003 sempre que a operação de venda incluir o transporte das mercadorias e o vendedor arque com estes custos.” Tornase necessário se observar o princípio da essencialidade para a definição do conceito de insumos com a finalidade do reconhecimento do direito ao creditamento ao PIS/Cofins nãocumulativos." Fl. 421DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 421 14 Sendo assim, entendo não ser aplicável o entendimento de que o consumo de tais bens e serviços sejam utilizados DIRETAMENTE no processo produtivo, bastando somente serem considerados como essencial à produção ou atividade da empresa. Cumpre lembrar que em razão da natureza extrativista da atividade e o processo produtivo compreende não apenas e tão somente a modificação do mineral até que dele se extraía o caulim, mas sim todas as etapas necessárias/essenciais à obtenção do produto final. Quanto ao serviço de locação que consiste na locação de equipamentos para extração do minério. Por sua especificidade e alta exigência técnica a extração de minério não pode ser realizada a contento sem maquinário apropriado. Diante disto, esse serviço é prestado na área produtiva e influenciam diretamente a produção, e sem o qual não há produto final. Assim, como tal, deve ser admitido no cômputo do crédito requerido. Ante o exposto, voto por dar provimento ao Recurso Especial do Contribuinte para considerar como insumos os gastos afetos serviço de locação. É como voto. (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran VOTO VENCEDOR QUANTO AOS DEMAIS ITENS Como descrito acima, entendo não ser aplicável o entendimento de que o consumo de bens e serviços sejam utilizados DIRETAMENTE no processo produtivo, bastando somente serem considerados como essencial à produção ou atividade da empresa. Fl. 422DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 422 15 Cumpre lembrar que em razão da natureza extrativista da atividade e o processo produtivo compreende não apenas e tão somente a modificação do mineral até que dele se extraía o caulim, mas sim todas as etapas necessárias/essenciais à obtenção do produto final. No presente caso, o Recurso Especial, versa sobre o direito a créditos de PIS e COFINS os serviços e produtos utilizados como insumos em todas as etapas do processo produtivo do minério caulim , quais sejam: Ø 1SERVIÇO DE ALTEAMENTO: consiste no aumento da capacidade da bacia de rejeitos. Visa a correta disposição de rejeitos, constituindo em exigência primordial à atividade produtiva da recorrente, sob pena de ver suas atividades impedidas por falta de adequadas para executála. Ø 2SERVIÇO DE LIMPEZA E PASSAGEM: consiste na remoção de minério para permitir a passagem de veículos extratores de caulim. A atividade produtiva não se completa sem a desobstrução das vias que permitem o acesso do maquinário às fontes de caulim. Ø 3SERVIÇO DE DECAPEAMENTO: consiste na retirada de vegetação e solo para expor o minério. É primeiro passo necessário à atividade extrativa mineral. Ø 4SERVIÇO DE LAVRA: consiste na extração do minério da natureza.. Se o decapeamento prepara o terreno para extração do minério, a lavra compreende a real retirada do minério de seu depósito natural para posterior beneficiamento e extração do caulim. Ø 5SERVIÇO DE MELHORIA DAS ESTRADAS: consiste na manutenção de estradas privadas que conduzem às jazidas minerais. Mantem as vias de acesso às jazidas em condição para o transporte e produção do caulim. Ø 6GASOLINA COMUM e ÓLEO DIESEL: utilizada nos veículos da fábrica para transporte de materiais. E o Oleo utilizado nos caminhões para transporte de caulim, deslocamento de matériaprima, produtos intermediários, e produto final entre os diversos setores da produção, seja das áreas de extração para a produção, entre setores desta última, ou ainda da produção para a distribuição. Fl. 423DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 423 16 Ø 7FORNECIMENTO DE JANTAR: consiste no serviço de refeitório para os funcionários. Ø 8SERVIÇO DE TRANSPORTE: consiste no serviço de transporte de Funcionários. Ø 9SERVIÇO ESPECIALIZADO DE VIGILANCIA: consiste no serviço de segurança patrimonial. Cumpre lembrar que em razão da natureza extrativista da atividade e o processo produtivo compreende não apenas e tão somente a modificação do mineral até que dele se extraía o caulim, mas sim todas as etapas necessárias/essenciais à obtenção do produto final. Ademais, alguns desses serviços são prestados na área produtiva e influenciam diretamente a produção, e sem os quais não há produto final. Assim, como tal, devem ser admitidos no cômputo do crédito requerido.Dessa forma, para chegarse ao produto final comercializável foi essencial utilizar os vários insumos acima citados (itens 1 a 5) . Pois, sem a utilização destes, não haveria obter o produto final e destinálo ao mercado. No que tange aos combustíveis e lubrificantes (item 6) utilizados nos veículos da empresa no transporte de matéria prima, vêse que tal transporte é essencial para a atividade do sujeito passivo. Ora, estamos tratando, conforme denominação da empresa, de Indústria Extrativa– ou seja, para a extração do caulim – é necessário e essencial que a empresa promova o transporte das matérias primas e produtos industrializados. Frisese tal entendimento o decidido pelo STJ quando da apreciação do REsp 1.235.979 – RS – que restou consignada a seguinte ementa: “TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÕES AO PIS E COFINS NÃO CUMULATIVAS. CREDITAMENTO. COMBUSTÍVEIS, LUBRIFICANTES E PEÇAS UTILIZADOS COMO INSUMOS NA PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE ENTREGA DE MERCADORIAS VENDIDAS PELA PRÓPRIA EMPRESA. ARTS. 3º, II, DAS LEIS N. N. 10.637/2002 E 10.833/2003. Fl. 424DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 424 17 1. O creditamento pelos insumos previsto nos arts. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003 e da Lei n. 10.637/2002 abrange os custos com peças, combustíveis e lubrificantes utilizados por empresa que, conjugada com a venda de mercadorias, exerce também a atividade de prestação de serviços de transporte da própria mercadoria que revende. 2. Recurso especial provido.” Proveitoso, assim, trazer que o ministro Mauro Campbell Marques considerou que, no caso, estão presentes todos os pressupostos para o creditamento ao pronunciar: “Tratase de combustíveis, lubrificantes e peças utilizados na prestação de serviços de transportes, serviços, estes componentes do objeto social da empresa e cujo custo é transferido para o elo subsequente na cadeia econômica e cujo faturamento sofre a tributação pelas contribuições ao PIS e Cofins não cumulativas”. Por fim, considerando o meu entendimento acerca do conceito de insumos, deixo de reconhecer, como pretende o contribuinte, o serviço de transporte de funcionários, o de vigilância patrimonial e de fornecimento de jantar (itens 7 a 9), pois, entendo que seu impacto no processo produtivo, se verificado, é apenas indireto. Ante o exposto, voto por dar provimento parcial ao Recurso Especial do Contribuinte É como voto. (assinado digitalmente) Érika Costa Camargos Autran Voto Vencedor Fl. 425DF CARF MF Processo nº 13204.000039/200414 Acórdão n.º 9303004.790 CSRFT3 Fl. 425 18 DO SERVIÇO DE LOCAÇÃO Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza Redator Designado Discordamos da il. Relatora. Não há razão jurídica para considerar como insumos os gastos dispendidos com a locação de equipamentos (aliás, nem serviço é), ainda que estes sejam necessários à produção. Da necessidade de utilização do equipamento não decorre a necessidade da sua locação. Afinal, a produção pode ser alcançada com a utilização de equipamentos de propriedade da própria contribuinte, o que afasta a pretensão. Ante o exposto, nego, no ponto, provimento ao recurso especial. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 426DF CARF MF
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Numero do processo: 10120.720140/2011-56
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 29 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed May 17 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006
CRÉDITO DA NÃO-CUMULATIVIDADE. BENS PARA REVENDA ADQUIRIDOS POR COMERCIANTES ATACADISTAS E VAREJISTAS DE PRODUTOS SUJEITOS À TRIBUTAÇÃO CONCENTRADA DE QUE TRATAM OS §1º E 1º-A DO ARTIGO 2º DAS LEIS Nº 10.637/2002 E 10.833/2002. PEDIDO DE RESSARCIMENTO. IMPOSSIBILIDADE. INAPLICABILIDADE DO ARTIGO 17 DA LEI Nº 11.033/2004.
É vedado o creditamento na aquisição de bens para revenda dos produtos referidos nos §1º e §1-A do artigo 2º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, nos termos das alíneas "b" dos incisos I dos artigos 3º das referidas leis. Tal disposição não foi revogada pelo artigo 17 da Lei nº 11.033/2004, pois que não versa sobre hipóteses de creditamento, mas apenas sobre a manutenção de créditos, apurados conforme a legislação específica.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3302-003.771
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Ricardo Paulo Rosa - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Domingos de Sá Filho, José Fernandes do Nascimento, Lenisa Rodrigues Prado, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Walker Araújo e Ricardo Paulo Rosa.
Nome do relator: RICARDO PAULO ROSA
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DIREITO DE CRÉDITO. INCIDÊNCIA CONCENTRADA. Recorrente RENAUTO VEÍCULOS E PEÇAS LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006 CRÉDITO DA NÃOCUMULATIVIDADE. BENS PARA REVENDA ADQUIRIDOS POR COMERCIANTES ATACADISTAS E VAREJISTAS DE PRODUTOS SUJEITOS À TRIBUTAÇÃO CONCENTRADA DE QUE TRATAM OS §1º E 1ºA DO ARTIGO 2º DAS LEIS Nº 10.637/2002 E 10.833/2002. PEDIDO DE RESSARCIMENTO. IMPOSSIBILIDADE. INAPLICABILIDADE DO ARTIGO 17 DA LEI Nº 11.033/2004. É vedado o creditamento na aquisição de bens para revenda dos produtos referidos nos §1º e §1A do artigo 2º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, nos termos das alíneas "b" dos incisos I dos artigos 3º das referidas leis. Tal disposição não foi revogada pelo artigo 17 da Lei nº 11.033/2004, pois que não versa sobre hipóteses de creditamento, mas apenas sobre a manutenção de créditos, apurados conforme a legislação específica. Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Ricardo Paulo Rosa Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Domingos de Sá Filho, José Fernandes do Nascimento, Lenisa Rodrigues Prado, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 72 01 40 /2 01 1- 56 Fl. 132DF CARF MF Processo nº 10120.720140/201156 Acórdão n.º 3302003.771 S3C3T2 Fl. 3 2 Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Walker Araújo e Ricardo Paulo Rosa. Relatório Tratase de Pedido Eletrônico de Restituição e Ressarcimento – PER, formulado através do programa PER/Dcomp, pelo qual a Recorrente pleiteia o ressarcimento em espécie do saldo credor acumulado de COFINS incidência não cumulativa – mercado interno. O Pedido de Ressarcimento foi indeferido, por ausência de direito ao crédito pleiteado, devido a vedação legal de aproveitamento de créditos incidente nas operações de aquisição de produtos sujeitos a tributação monofásica/concentrada. A DRJ indeferiu a manifestação de inconformidade nos termos do Acórdão 06049.284. O fundamento adotado, em síntese, foi o de que o art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, não ampara o creditamento das contribuições ao PIS/Pasep e à COFINS, com base na sistemática da não cumulatividade, pelas revendedoras de veículos automotores, em decorrência de vedação legal expressa para o aproveitamento do crédito nas vendas submetidas à incidência monofásica. Inconformada, a recorrente interpôs recurso voluntário, reiterando as alegações deduzidas em manifestação de inconformidade, calcadas nas seguintes premissas: 1. Que a recorrente se sujeita à incidência nãocumulativa; 2. Que havia uma vedação ao creditamento conforme o disposto no artigo 3º, I, “b”, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003; 3. Que foi atribuída alíquota zero aos produtos da recorrente, portanto, não se trata de monofasia, o que ocorreria se houvesse apenas uma incidência na cadeia; 4. Que a nãocumulatividade foi aperfeiçoada com o artigo 17 da Lei nº 11.033/2004 e que esta é uma norma multitemática, ou seja, não restrita ao REPORTO; 5. Que o artigo 16 da Lei 11.116/2005 robusteceu o caráter abrangente do artigo 17 da Lei nº 11.033/2004; 6. Ambas as leis não ressalvaram quais os casos permaneceriam na regra antiga e que o direito ao creditamento é coerente à técnica da nãocumulatividade das contribuições (método subtrativo indireto); 7. O artigo 17 da Lei nº 11.033/2004 veio justamente para os casos em que havia vedação ao creditamento; 8. Que pretendeuse mitigar a aplicação do artigo 17 da Lei nº 11.033/2004 com a edição das MP nº 413/2008 e 451/2008, criando vedações ao creditamento, as quais não foram mantidas na conversão de ambas medidas provisórias; Fl. 133DF CARF MF Processo nº 10120.720140/201156 Acórdão n.º 3302003.771 S3C3T2 Fl. 4 3 9 Que a nãocumulatividade das contribuições não guarda relação com o arrecadado anteriormente ou posteriormente na cadeia produtiva. É o relatório. Voto Conselheiro Ricardo Paulo Rosa, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3302003.750, de 29 de março de 2017, proferido no julgamento do processo 10120.720142/201145, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3302003.750): "O recurso atende aos pressupostos de admissibilidade e dele tomo conhecimento. O pedido de ressarcimento foi efetuado com fulcro no artigo 16 da Lei nº 11.116/2005 combinado com o artigo 17 da Lei nº 11.033/2004, abaixo transcritos: Lei nº 11.116/2005: Art. 16. O saldo credor da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins apurado na forma do art. 3o das Leis nos 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, e do art. 15 da Lei no 10.865, de 30 de abril de 2004, acumulado ao final de cada trimestre do anocalendário em virtude do disposto no art. 17 da Lei no 11.033, de 21 de dezembro de 2004, poderá ser objeto de: I compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, observada a legislação específica aplicável à matéria; ou II pedido de ressarcimento em dinheiro, observada a legislação específica aplicável à matéria. Lei nº 11.033/2004: Art. 17. As vendas efetuadas com suspensão, isenção, alíquota 0 (zero) ou não incidência da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS não impedem a manutenção, pelo vendedor, dos créditos vinculados a essas operações. O fundamento da recorrente recai essencialmente na possibilidade de se tomar créditos da nãocumulatividade de Cofins em razão do disposto no artigo 17 da Lei nº 11.033/2004 e de se pedir o ressarcimento com fulcro no artigo 16 da Lei nº 11.116/2005. Fl. 134DF CARF MF Processo nº 10120.720140/201156 Acórdão n.º 3302003.771 S3C3T2 Fl. 5 4 A Lei nº 10.485/2002 estabeleceu a concentração de tributação no fabricante e importadores de determinados veículos e autopeças, dispondo no §2º que os comerciantes atacadistas e varejistas ficassem sujeitos à alíquota zero sobre suas receitas de revendas: § 2o Ficam reduzidas a 0% (zero por cento) as alíquotas da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, relativamente à receita bruta auferida por comerciante atacadista ou varejista, com a venda dos produtos de que trata: (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) I o caput deste artigo; e (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) II o caput do art. 1o desta Lei, exceto quando auferida pelas pessoas jurídicas a que se refere o art. 17, § 5o, da Medida Provisória no 2.18949, de 23 de agosto de 2001. (Redação dada pela Lei nº 10.925, de 2004) Com base, nesta receita sujeita à alíquota zero, é que a recorrente entende possível a aplicação do artigo 17 da Lei nº 11.033/2004, isto é, a tomada de créditos sobre a revenda de máquinas e veículos constantes das posições da TIPI constantes do artigo 1º da Lei nº 10.485/2002 e de autopeças constantes dos Anexos I e II da referida lei. Ocorre que, não obstante estar sujeita ao regime nãocumulativo das contribuições, as alíneas "b" dos incisos I dos artigos 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003 vedam expressamente a tomada de créditos sobre bens adquiridos para revenda pelas pessoas jurídicas que comercializam os produtos referidos nos artigos 1º e 3º da Lei nº 10.485/2002, como transcrevese a seguir: Art. 2o Para determinação do valor da COFINS aplicarseá, sobre a base de cálculo apurada conforme o disposto no art. 1o, a alíquota de 7,6% (sete inteiros e seis décimos por cento). (Produção de efeito) (Vide Medida Provisória nº 497, de 2010) § 1o Excetuase do disposto no caput deste artigo a receita bruta auferida pelos produtores ou importadores, que devem aplicar as alíquotas previstas: (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (Vide Medida Provisória nº 497, de 2010) [...] III no art. 1o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, e alterações posteriores, no caso de venda de máquinas e veículos classificados nos códigos 84.29, 8432.40.00, 84.32.80.00, 8433.20, 8433.30.00, 8433.40.00, 8433.5, 87.01, 87.02, 87.03, 87.04, 87.05 e 87.06, da TIPI; (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (Vide Lei nº 11.196, de 2005) IV no inciso II do art. 3o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, no caso de vendas, para comerciante atacadista ou varejista ou para consumidores, das autopeças relacionadas nos Anexos I e II da mesma Lei; (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (Vide Lei nº 11.196, de 2005) [...] Fl. 135DF CARF MF Processo nº 10120.720140/201156 Acórdão n.º 3302003.771 S3C3T2 Fl. 6 5 Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: Produção de efeito (Vide Lei nº 11.727, de 2008) (Produção de efeitos) (Vide Medida Provisória nº 497, de 2010) (Regulamento) I bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) a) no inciso III do § 3o do art. 1o desta Lei; e (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008). (Produção de efeitos) b) nos §§ 1o e 1oA do art. 2o desta Lei; (Redação dada pela Lei nº 11.787, de 2008) (Vide Lei nº 9.718, de 1998) Por sua vez, o artigo 17 dispôs genericamente que as vendas efetuadas com suspensão, isenção, alíquota 0 (zero) ou não incidência da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS não impedem a manutenção, pelo vendedor, dos créditos vinculados a essas operações. Ora, este artigo não traz nenhuma hipótese de creditamento, mas apenas esclarece que nas situações ali previstas, os créditos vinculados àquelas vendas são mantidos. E tais créditos são, justamente, as hipóteses que a legislação faculta ao contribuintes a sua tomada, como por exemplo, os artigos 3º das leis acima citadas, o artigo 15 da Lei nº 10.865/2004 e outros quaisquer artigos que veiculem hipóteses de creditamento. O item 191 da exposição de motivos da MP nº 206/2004, cuja conversão resultou na Lei nº 11.033/2004, confirma este entendimento na medida que dispôs que a redação do artigo 16, convertido no artigo 17 acima referido, visava "esclarecer dúvidas relativas à interpretação da legislação da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS." Não por outro motivo, que o artigo 16 da Lei nº 11.116/2005 dispôs sobre a possibilidade de ressarcimento e compensação do saldo credor vinculado às vendas mencionadas no artigo 17, vinculandoos à forma de apuração do artigo 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003 e do artigo 15 da Lei nº 10.865/2004, reconhecendo, por óbvio, que ali estavam listadas as hipóteses de creditamento e não que o artigo 17 inovara toda a legislação, revogando o artigo 3º e redefinindo as hipóteses de creditamento, o que seria a consequência inevitável da tese da recorrente. Ressaltase, porém, que o artigo 17 não proibiu a tomada de créditos vinculados às receitas sujeitas à alíquota zero decorrentes das revendas dos bens de que tratam este processo em relação às demais hipóteses previstas no artigo 3º, proibição esta que foi, conforme mencionado pela recorrente, objeto de duas tentativas propostas pelo Executivo Federal nas MPs nº 413/2008 e 451/2008. Ocorre que, como também já mencionado na peça recursal, tais dispositivos não foram contemplados na conversão das duas MPs, mantendose a possibilidade de creditamento em relação às demais hipóteses do artigo 3º, entendimento confirmado na Solução de Consulta nº 218/2014. Assim, referidas MP´s pretenderam impedir o creditamento das demais hipóteses legais previstas nos artigos 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, mas 1 19. As disposições do art. 16 visam esclarecer dúvidas relativas à interpretação da legislação da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS Fl. 136DF CARF MF Processo nº 10120.720140/201156 Acórdão n.º 3302003.771 S3C3T2 Fl. 7 6 foram irrelevantes em relação à vedação específica contida na alínea "b" do inciso I do artigo 3º, que se destina justamente à vedação do creditamento relativo aos bens adquiridos para revenda de que tratam os §§1º e 1ºA do artigo 2º das referidas leis. Neste diapasão, citase o Acórdão nº 340301.566: Ementa: COFINS – REGIME MONOFÁSICO – IMPOSSIBILIDADE DE MANUTENÇÃO DE CRÉDITOS O artigo 17 da Lei 11.033/2004, que garante a manutenção do crédito às vendas efetuadas com suspensão, isenção, alíquota 0 (zero) ou não incidência da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, só se aplica aos setores ou produtos sujeitos regime nãocumulativo, não se aplicando aos produtos sujeitos ao regime monofásico. Portanto, diante do exposto, voto para negar provimento ao recurso voluntário." Nos termos do entendimento exarado no paradigma, a impossibilidade de creditamento, no regime nãocumulativo, na aquisição de bens para revenda adquiridos por comerciantes atacadistas e varejistas de produtos sujeitos à tributação concentrada referidos nos §1º e §1A do artigo 2º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, nos termos das alíneas "b" dos incisos I dos artigos 3º das referidas leis, se aplica tanto à Contribuição para o PIS/Pasep quanto à COFINS. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Ricardo Paulo Rosa Fl. 137DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16643.720019/2011-10
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Jun 06 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 1302-000.457
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolveram os membros do colegiado, por maioria de votos, CONVERTER o julgamento em diligência, nos termos do voto vencedor. Vencida a Conselheira Talita Pimenta Félix que negava provimento ao recurso voluntário. Mantidos os votos já proferidos na sessão anterior, nos termos do art. 58, § 5º do Anexo II do Ricarf. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente e Redator Ad Hoc .
(assinado digitalmente)
Alberto Pinto Souza Junior - Redator Designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente), Julio Lima Souza Martins (Suplente Convocado) Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Rogério Aparecido Gil e Talita Pimenta Félix.
RELATÓRIO
Nome do relator: TALITA PIMENTA FELIX
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Resolveram os membros do colegiado, por maioria de votos, CONVERTER o julgamento em diligência, nos termos do voto vencedor. Vencida a Conselheira Talita Pimenta Félix que negava provimento ao recurso voluntário. Mantidos os votos já proferidos na sessão anterior, nos termos do art. 58, § 5º do Anexo II do Ricarf. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente e Redator Ad Hoc . (assinado digitalmente) Alberto Pinto Souza Junior Redator Designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente), Julio Lima Souza Martins (Suplente Convocado) Alberto Pinto Souza Júnior, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Rogério Aparecido Gil e Talita Pimenta Félix. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 66 43 .7 20 01 9/ 20 11 -1 0 Fl. 512DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 513 2 RELATÓRIO Designado como Redator Ad Hoc, para fins de formalização deste Acórdão, passo a transcrever a íntegra do relatório proferido pela Relatora, Conselheira Talita Pimenta Félix, na Sessão de Julgamento de 25 de janeiro de 2017, verbis: "Em decorrência de ação fiscal levada a efeito junto ao contribuinte acima identificado e, em razão de irregularidades apuradas, foram lavrados 2 (dois) Autos de Infração, em 29/09/2011, com ciência em 30/09/2011 (efls. 64/80). Os créditos tributários constituídos foram: (i) IRPJ R$32.398.160,36 e (ii) CSLL R$11.663.711,97. Totalizaram, portanto, tais lançamentos, a importância de R$44.061.872,33, aí incluídos os valores dos tributos, das multas de ofício e dos juros de mora (estes calculados até 31/08/2011). Os enquadramentos legais utilizados para fundamentar as autuações encontramse nos respectivos autos de infração. Os autos foram lavrados em decorrência de irregularidades apuradas com respeito ao não oferecimento à tributação dos lucros apurados no exterior por controladas. A fiscalização apresenta, por meio do “Termo de Verificação Fiscal” (efls. 81/114), resumidamente, o seguinte: (i) Faz um histórico desde da data da constituição da empresa em 1998, com suas alterações sociais, até 02/03/2006 quando a razão social passou a ser “JBS S.A.”. O ramo de atividade mercantil da sociedade, de acordo com a Ata de Reunião dos Sócios, datada de 02/03/2006, era, entre outros, os relacionados a bovinos como: compra; venda; recria; abate; importação; exportação, etc. (ii) Relaciona as controladas diretas e indiretas que a empresa possuía no exterior, em 2006: DIRETAS: JBS Global A/S (Dinamarca) 100% de participação da JBS S.A. (Brasil) Friboi Investments (Ilhas Virgens Britânicas) 100% de participação da JBS S.A. (Brasil) INDIRETAS: a) JBS GLOBAL BEEF COMPANY S/U LDA. (ILHA DA MADEIRA) JBS S.A. (Brasil) 100% de participação na JBS Global A/S (Dinamarca) 100% de participação na JBS GLOBAL BEEF COMPANY S/U LDA. (ILHA DA MADEIRA) Fl. 513DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 514 3 b) JBS GLOBAL (UK) LIMITED (REINO UNIDO) JBS S.A. (Brasil) 100% de participação na JBS Global A/S (Dinamarca) 100% de participação na JBS Global BeefCompany S/U LDA. (Ilha da Madeira) 100% de participação na JBS GLOBAL LIMITED (REINO UNIDO) c) ARAB FRIBOI E FRIBOI EGYPT (EGITO) JBS S.A. (Brasil) 100% de participação na JBS Global A/S (Dinamarca) 100% de participação na JBS Global BeefCompany S/U LDA. (Ilha da Madeira) 100% de participação na ARAB FRIBOI E FRIBOI EGYPT (EGITO) d) FRIBOI EGYPT COMPANY L.L.C (EGITO) JBS S.A. (Brasil) 100% de participação na JBS Global A/S (Dinamarca) 100% de participação na JBS Global BeefCompany S/U LDA. (Ilha da Madeira) 100% de participação na Arab Friboi e Friboi Egypt (Egito) 99% de participação na FRIBOI EGYPT COMPANY L.L.C (EGITO) (iii) A fiscalização informa que: Conforme documentos apresentados pela fiscalizada, os resultados obtidos pelas empresas em suas atividades operacionais, no anocalendário de 2006, proporcionalmente a sua participação, foram: JBS Global A/S (Dinamarca): Ano calendário 2006 Prejuízo de 49.271,29€ Friboi Investments (Ilhas Virgens Britânicas): Ano calendário 2006 US$ 3.491.906,12 Sendo: lucro de US$ 5.572.855,17 em 2006 e prejuízo de US$ 2.080.949,05 em 2005. Em 2004, ano de sua constituição, a empresa auferiu um lucro de US$ 444.846,67; JBS Global Beef Company S/U LDA. (Ilha da Madeira): Ano calendário 2006 Sendo: lucro de 15.734.721,47€; Fl. 514DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 515 4 JBS Global (UK) Limited: Ano calendário 2006 Sendo: lucro de 128.335,42€; Arab/Friboi/Egypt L.L.C.: Ano calendário 2006 2.067.610,66€ Sendo: lucro de 2.413.038,82€ e prejuízo acumulado de 345.428,16€. Portanto o resultado a ser adicionado ao Lucro Líquido da JBS S.A. é de: Apurado em Euro: 17.930.667,55€ que, ao câmbio de 29/12/2006, de 2,82024, perfaz um montante autuável de R$50.568.785,85; Apurado em Dólar: US$3.491.906,12 que, ao câmbio de 29/12/2006, de 2,13800, perfaz um montante autuável de R$7.465.695,28; Portanto, a base de cálculo do presente Auto de Infração é de R$ 58.034.481,13. (iv) A fiscalização destaca que: “A JBS Global A/S (Dinamarca) é uma holding, conforme se verifica em seus demonstrativos de resultados onde fica claro que a empresa não tem receitas a não ser aquelas advindas do reflexo do resultado de suas controladas. Tal assertiva é corroborada por um prejuízo de 49.271,29€ apresentado pela empresa em 2006”. (v) Os enquadramentos legais aplicáveis pela fiscalização, como já mencionado se encontram nos autos de infração, destacando entre outros os seguintes: artigo 25, da Lei nº 9.249/95; artigo 74, da Medida Provisória nº 2.15835/ 2001; Instrução Normativa SRF nº 213/2002 e § 6º, do artigo 395, do RIR/99. (vi) A fiscalização declara que: A legislação brasileira não restringe a tributação universal aos lucros auferidos via controladas diretas, mas alcança também os resultados apurados pelas controladas indiretas, conforme exposto abaixo. Os lucros conduzidos por intermédio da JBS Global A/S (Dinamarca) não foram tributados pela JBS S.A., sob o argumento de que estariam resguardados pelo Tratado BrasilDinamarca. O acordo internacional, todavia, não alcança os lucros gerados por pessoa jurídica que não reside em qualquer dos EstadosContratantes, ou seja, gerados pela JBS Global BeefCompany S/U LDA. (Ilha da Madeira), JBS Global (Reino Unido) Limited, Arab/Friboi e Friboi/Egy (Egito). A ligação societária indireta entre a JBS S.A (Brasil) e a JBS Global BeefCompany S/U LDA. (Ilha da Madeira), a JBS Global Limited Fl. 515DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 516 5 (Reino Unido), a Arab/Friboi e a Friboi/Egypt (Egito), mediante sociedade meramente condutora constituída na Dinamarca, a JBS Global A/S (Dinamarca), é interposição de sociedade por razões exclusivamente elisivas. Aliás, a Dinamarca não possui restrições legais ao recebimento de rendimentos de empresas sediadas em outros países por suas holdings e os dividendos pagos a residente no Brasil por residente na Dinamarca estão isentos de tributação também no Brasil por força do TDT. Diante do que foi explicado, fica claro que a criação da JBS Global A/S (Dinamarca) foi, sem dúvida nenhuma, a busca de uma elisão tributária abusiva destinada a subtrair os rendimentos da JBS Global BeefCompany S/U LDA. (Ilha da Madeira), a JBS Global Limited (Reino Unido), a Arab/Friboi e a Friboi/Egypt (Egito), da base tributária do imposto de renda e da contribuição social dos seus reais beneficiários no Brasil. Não podemos nos esquecer que nos demonstrativos da JBS Global A/S (Dinamarca), está bem claro que seu resultado é apenas um prejuízo de menos de 50.000€, sendo a parte positiva oriunda dos resultados de suas controladas. (vii) Diz, ainda, que: Como exaustivamente discorrido desde o início do presente Termo, os fatos em questão ocorreram em 2006, portanto, há 5 anos atrás e, segundo a DIPJ 2007, 2008 e 2009, não houve qualquer compensação de imposto pago no exterior. O Regulamento do Imposto de Renda (RIR/99), em seu art. 395, § 6º, dispõe que os créditos de imposto de renda pagos no exterior somente poderão ser compensados com o imposto devido no Brasil, se os referidos lucros forem computados na base de cálculo do imposto, no Brasil, até o final do segundo anocalendário subsequente ao de sua apuração. Por força do artigo 15 da Lei nº 9.779/99, é responsabilidade do contribuinte apresentar a DIPJ, cabendo ao fisco homologar expressa ou tacitamente as informações ali contidas. A declaração de lucro contida da DIPJ importa em confissão de dívida que, se não homologada, poderá ser diretamente encaminha à PGFN, caso o contribuinte, notificado da decisão denegatória, não pague ou apresente tempestivo recurso. Conforme pode ser verificado pelas fichas 34 e 35 da DIPJ/2007 o lucro que ensejou a lavratura da presente autuação foi devidamente declarado pela Impugnante ao fisco, sendo que o lucro das controladas “indiretas” estava inserto no lucro de sua controlada “direta” JBS Global A/S. “Assim, dúvida não há de que o débito questão não pode ser objeto de auto de infração, mas de imediata inscrição em dívida ativa, desde que não exista causa suspensiva da sua exigibilidade”. Nulidade da Autuação – Ausência de Compensação do Imposto Pago no Exterior Fl. 516DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 517 6 Ainda que fosse hipótese de lançamento de ofício, há insegurança na determinação da infração, pois não foi considerado o imposto pago no exterior naquele anocalendário, compensação prevista no artigo 26 da Lei nº 9.249/95. É equivocado o entendimento da fiscalização, de que a compensação não poderia ser realizada porque tais operações ocorreram há 5 anos. “A preclusão contida no § 4º do artigo 1º da Lei nº 9.532/97, aplicasse na hipótese de compensação do imposto em exercícios posteriores ao pagamento realizado no exterior, caso não seja utilizado para compensação no próprio período”. Os comprovantes trazidos demonstram os pagamentos realizados pelas empresas JBS Global BeefCompany S/U LDA (Ilha da Madeira), JBS Global Limited (Reino Unido) e Friboi Egypt LTD (Egito). A Impugnante promoverá a juntada de novos comprovantes no curso do presente processo devido à dificuldade de localização destes no exíguo prazo para a apresentação da defesa. Da Aplicação do Tratado Brasil x Dinamarca “A Autoridade Fiscal argumenta que não há propósito negocial ou comercial para a utilização da JBS Global A/S (Dinamarca), tratandose de manobra abusiva da Autuada para tirar proveito dos dispositivos do Tratado BrasilDinamarca, recorrendo ao conceito de "treaty shopping" para desqualificar o tratamento dispensado pelo Tratado BrasilDinamarca às relações entre a Autuada e a JBS Global A/S (Dinamarca), especificamente no que concerne aos resultados/lucros auferidos pelas sociedades nas quais a JBS Global A/S (Dinamarca) era titular de participação societária”. “Não procede, portanto, alegação da Autoridade Fiscal que a Autuada teria omitido, ou se esquivado de declarar em sua DIPJ os resultados/lucros de sociedades controladas por ela. O que ocorreu é que, em estrita observância ao art. 1o, §6°, da IN SRF 213/02, a JBS Global A/S (Dinamarca) consolidou os resultados/lucros de sociedades nas quais ela, JBS Global A/S (Dinamarca), era titular de participação direta ou indireta”. “Superada essa questão, podemos delimitar o verdadeiro escopo do presente Auto de Infração, que é a alegação da Autoridade Fiscal que a Autuada teria implementado uma estrutura via JBS Global A/S (Dinamarca) sem qualquer propósito negocial ou comercial, com o intuito exclusivo de, abusivamente, se beneficiar do tratamento fiscal previsto no Tratado Brasil Dinamarca. Em razão dessa alegação, a Autoridade Fiscal determinou a adição ao lucro real e da base de cálculo da CSL dos lucros/resultados apurados em 2006 pelas sociedades nas quais a JBS Global A/S (Dinamarca) era titular de participação societária”. Fl. 517DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 518 7 “A escolha da jurisdição da Dinamarca para concentrar parte dos investimentos da Autuada no exterior foi motivada por fatores fiscais, sem dúvida, mas principalmente por conta da segurança e facilidade de operar e transacionar em determinado ambiente jurídico e comercial. Se a Autuada operasse diretamente em cada uma das jurisdições em questão (Ilha da Madeira, Reino Unido e Egito, no caso da JBS Global A/S (Dinamarca)), isso significaria a manutenção de uma estrutura corporativa e decisória dependente dos órgãos diretivos da Autuada, ou seja, eleição de membros de diretoria, conselhos de administração, e uma série de exigências e condições que implicariam atrasos na realização de negócios e na condução de atividades operacionais”. “A Dinamarca, nesse contexto, é uma jurisdição que possui uma legislação específica para empresas de participação societária, que por ser membro da União Europeia segue todo um arcabouço jurídico/institucional que dá clareza e segurança na administração e gerência de empresas lá estabelecidas, e que permite o exercício do controle societário e administrativo de modo rápido e eficiente”. (.......) “Diante dessas fragilidades, e da total desvinculação da situação concreta com a legislação de regência, a Autuada requer a improcedência total do presente auto de infração, pelos motivos abaixo sumarizados”: Restou demonstrado e foi reconhecido pela Autoridade Fiscal que a JBS Global A/S (Dinamarca) consolidou os resultados/lucros auferidos pelas sociedades na quais ela, JBS Global A/S (Dinamarca), era titular de participação societária; A consolidação de resultados/lucros feita pela JBS Global A/S (Dinamarca) observou estritamente o disposto no art. 1º, § 6°, da IN SRF n° 213/02, e, por consequência, a Autuada tem direito a créditos de imposto de renda, na forma do art. 395, § 6°, do RIR/99, que não foram reconhecidos pela Autoridade Fiscal; Há motivo negocial e comercial para a criação e utilização da JBS Global A/S (Dinamarca), qual seja, a facilidade e segurança para a Autuada administrar e gerenciar suas operações na Ilha da Madeira, no Reino Unido e no Egito de modo rápido e eficiente, dado o ambiente normativo e institucional estável na Dinamarca, frisando que a Autoridade Fiscal não tem o direito de qualificar o propósito negocial ou comercial, mas apenas, e no limite, apurar se há ou não um propósito negocial ou comercial; O Tratado BrasilDinamarca não prevê norma ou medida anti abuso, de modo que não cabe à Autoridade Fiscal aplicar esses conceitos ao caso em tela, sob risco de violação ao art. 98 do Código Tributário Nacional, que determina a prevalência das normas dos tratados sobre a legislação ordinária, e ao §1° do art. 108 do Código Tributário Nacional, que veda a aplicação de analogia para aplicação ou exigência de tributos; O critério de "direção efetiva da empresa" utilizado pela Autoridade Fiscal não tem base legal e não pode ser utilizado no caso concreto, até porque a JBS Global A/S (Dinamarca) possui direção efetiva e Fl. 518DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 519 8 própria, assim como todas as subsidiárias da Autuada, não sendo um estabelecimento permanente da Autuada, tal como pretende a Autoridade Fiscal. Considerando que os lucros provenientes das controladas indiretas da Impugnante foram levados à tributação em sua controlada direta estabelecida na Dinamarca, deve ser observado e cumprido o tratado firmado entre Brasil e Dinamarca, aprovado pelo Decreto n° 75.106/74, especialmente o disposto em seu artigo 7, item "1", no sentido de que "os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado." Disponibilidade Econômica dos Lucros Auferidos por Empresa Controlada no Exterior De acordo com o artigo 1º da Lei nº 9.532/97, os lucros auferidos no exterior, por intermédio controladas ou coligadas, deveriam ser computadas na apuração do lucro real da controladora no Brasil, na data do pagamento ou do crédito em conta representativa de obrigação da empresa no exterior. O artigo 74, da MP nº 2.15835 alterou justamente o aspecto temporal da hipótese de incidência do imposto de renda, considerando os lucros como disponibilizados na data do balanço no qual tiverem sido apurados. “É bem verdade que o advento da Lei Complementar nº 104/2001, editou o artigo 43 do CTN, acrescentando o § 2º, permitindo à lei estabelecer o momento em que se dará a disponibilidade econômica. Todavia, a esfera de liberdade conferida ao legislador, não equivale a uma norma em branco, cujo conteúdo pode ser preenchido de forma discricionária”. O fato gerador do imposto de renda, previsto no artigo 153, III, da Constituição, é definido no artigo 43 do CTN como a aquisição econômica ou jurídica da renda. “Cabe mencionar que tramita no Supremo Tribunal Federal, Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI nº 2.588 que visa declarar a inconstitucionalidade do vergastado artigo 74 da MP nº 2.15835/ 01, estando pendente de julgamento por aquela Corte”. “Apenas ad argumentandum, avançando mais sobre o tema, ainda que não se aplique ao caso, é flagrante o desrespeito ao princípio constitucional da irretroatividade tributária (CF, art. 150, III, a), porquanto o parágrafo único do art. 74 tributa fatos geradores ocorridos antes do início da vigência da MP. É oportuno salientar que a Constituição, no dispositivo acima citado, quando se refere a "fato gerador", está evidenciando a situação de fato que gera a obrigação tributária”. “Assim, o que importa, no caso em tela, é que o legislador pretendeu alcançar situações de fato ocorridas antes da vigência da Lei, ao determinar que os lucros apurados pela controlada ou coligada no exterior até 31122001 serão considerados disponibilizados em 31122002. Fl. 519DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 520 9 A alteração imposta não afeta apenas o aspecto temporal da hipótese de incidência tributária, importando a cobrança de tributo com base em novo aspecto material, sobre fatos ocorridos antes da vigência da lei. Não poderia o legislador, ainda, atingir os lucros auferidos no exterior no mesmo exercício financeiro em que foi publicada a MP, incorrendo em ofensa ao princípio constitucional da anterioridade tributária (CF, art. 150, III, b”). “Por todo o exposto, requer que seja conhecida a presente impugnação e lhe seja dado provimento para cancelar integralmente a presente autuação, pela (i) nulidade do procedimento fiscal; (ii) inadequação do auto de infração; (iii) iliquidez da autuação em razão da desconsideração do imposto pago no exterior; (iv) inobservância do tratado firmado entre o Brasil e a Dinamarca; e (v) ausência de disponibilidade econômica dos lucros auferidos por suas controladas no exterior”. Foram os autos distribuídos para a relatoria ao digno Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil, Dr. Milton Bellintani Junior, na 4 ª Turma da DRJ/SP1. Após, vistos, relatados e discutidos os autos do processo em tela, proferiuse Acórdão (efls. 397/419), que por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido, intimando a autuada para pagamento do crédito mantido, no prazo de 30 dia da ciência, salvo interposição de recurso voluntário ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, em igual prazo, conforme facultado pelo art. 33 do Decreto n.º 70.235, de 6 de março de 1972, alterado pelo art. 1º da Lei n.º 8.748, de 9 de dezembro de 1993, e pelo art. 32 da Lei 10.522, de 19 de julho de 2002. Do referido Acórdão se extrai o seguinte aresto: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006 MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL MPF. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. O MPF constituise em elemento de controle da administração tributária, disciplinado por ato administrativo. A eventual inobservância da norma infralegal não pode gerar nulidades no âmbito do processo administrativo fiscal. Somente serão considerados nulos os atos em que presentes quaisquer das circunstâncias estabelecidas pelo art. 59 do Decreto nº 70.235/1972. Incomprovada a presença, não há que se falar em nulidade. De ser rejeitada a preliminar. COMPENSAÇÃO DO IMPOSTO PAGO NO EXTERIOR. O imposto recolhido no exterior somente será compensado com o imposto de renda devido no Brasil se os lucros auferidos no exterior forem computados na base de cálculo do imposto, no Brasil, até o final do segundo anocalendário subseqüente àquele em que apurados. TRATADO INTERNACIONAL. DINAMARCA. O tratado internacional para evitar a dupla tributação tem como um dos pressupostos para sua aplicação que a operação da empresa constituída na Dinamarca seja desenvolvida localmente e não em um terceiro país, como no presente caso. Fl. 520DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 521 10 ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADES E/OU ILEGALIDADES. A apreciação de alegações de inconstitucionalidades e/ou ilegalidades é de exclusiva competência do Poder Judiciário. Matérias que as questionam não são apreciadas na esfera administrativa. AUTO REFLEXO. CSLL. O decidido no mérito do IRPJ repercute na tributação reflexa. Impugnação Improcedente. Crédito Tributário Mantido” O Contribuinte tomou conhecimento do teor do Acórdão de Impugnação na data 06/08/2012, pela abertura dos arquivos correspondentes no link Processo Digital, no Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte (Portal eCAC) através da opção Consulta Comunicados/Intimações (TERMO DE ABERTURA DE DOCUMENTO, efls. 427). Da mesma forma, foi dada ciência, ao Contribuinte, dos documentos: Acórdão de Impugnação, Intimação de Resultado de Julgamento e Darf, por decurso de prazo de 15 dias a contar da disponibilização destes documentos através da Caixa Postal, Modulo eCAC do Site da Receita Federal, sendo disponibilizado na Caixa Postal em 06/08/2012, com ciência por decurso de prazo em 21/08/2012 (efls. 428). A autuada interpôs Recurso Voluntário, protocolizado em 11/09/2012(efls. 429/461), tempestivamente. Em apertada síntese, a Recorrente pontua: PRELIMINARMENTE (i) Necessidade de Suspensão do Processo até Decisão pelo STF da ADI 2.588 e RE 611.586 “Cabe esclarecer que o presente tema está para ser elucidado pelo Supremo Tribunal Federal. Em 2001, foi ajuizada a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 2.588. (...) O processo conta com os votos dos Ministros Marco Aurélio, Sepúlveda Pertence, Celso de Mello e Ricardo Lewandowski, no sentido da providencia do pedido formulado; os dos Ministros Nelson Jobim, Eros Grau, e Ayres Britto, julgandoo improcedente; e o da Ministra Ellen Gracie, pela providência parcial. Considerando a necessidade de maioria absoluta para o julgamento em questão e a existência de Ministros sucessores daqueles que já proferiram votos (Camen Lúcia, Rosa Werber, Dias Tofolli e Luiz Fux), o Plenário concluiu pela configuração da repercussão geral do tema, ao examinar o Recurso Ordinário nº 611.586. Nos moldes do Art. 62A, do Regimento Interno deste Colendo Conselho, ‘As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543 Fl. 521DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 522 11 B e 543C da Lei 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF.’ ORDINARIAMENTE Na sequência, o termos impugnados apenas repetiram, ipsis literis, o que foi relatado cuja síntese é a mesma já transcrita acima, ressalvando alguns poucos acréscimos na fundamentação; qual seja: (i) Nulidade do Mandado de Procedimento Fiscal Reiterou os mesmo termos apresentados na Impugnação, sem acréscimos. (ii) Inadequação do Auto de Infração Reiterou os mesmo termos apresentados na Impugnação, acrescentado julgado do STJ (AgRg no AResp 116057/DF – 2ª Turma, Relator Min. Herman Benjamin, j. 24/04/12), a fim de corroborar o entendimento de que a equiparação da DCTF com a DIPJ, para fins de instrumento de confissão de dívida, também é reconhecida pela própria Procuradoria Geral da Fazenda Nacional. (iii) Nulidade da Autuação – Ausência de Compensação do Imposto Pago no Exterior Reiterou os mesmo termos apresentados na Impugnação, acrescentando julgado do CARF (Acórdão 140200.494 – 1ª Seção/2ª Turma da 4ª Câmara, j. 31/03/2011), a fim de corroborar o entendimento de que como o lançamento se reporta à legislação tributária vigente à época dos fatos (art. 105 do CTN), a mesma regra se aplica para a apuração do valor do imposto devido. Assim: “na medida em que a Recorrente adotou o procedimento fiscal correto no seu entendimento, aplicando literalmente o art. 14, §6º, da IN/SFR nº 213/02, não poderia aplicar, ao mesmo tempo, o disposto no art. 1º, §4º, da Lei 9.532/97. Se assim o fizesse, estaria agindo de forma contraditória, pois de um lado estaria aplicando a sistemática da consolidação de créditos de imposto de renda pago no exterior (art. 14, §6º, da IN/SFR nº 213/02), que, no caso, implicou reconhecer que não houve imposto pago pela controlada direta (JBS Global S/A), e, ao mesmo tempo, o reconhecimento no Brasil de crédito de imposto de renda pago no exterior à luz do indigitado art. 1º, §4º, da Lei 9.532/97. Ou seja, aplicar a limitação temporal prevista no art. 1º, §4º, da Lei 9.532/97 ao caso em tela, onde a autoridade fiscal desconsiderou o procedimento adotado pelo Recorrente (procedimento este, repitase, fundamentado no art. 14, §6º, da IN/SFR nº 213/02), seria o mesmo que negar uma dedução fiscal sem recompor o lucro real e a base de cálculo da CSLL do exercício com base na realidade fiscal à época, ou seja, ignorando prejuízos fiscais existentes, por exemplo.” Fl. 522DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 523 12 (iv) Aplicação do Tratado Brasil x Dinamarca Reiterou os mesmo termos apresentados na Impugnação, acrescentado que: “a decisão recorrida quando afirma, em seu item 23, que a ‘fiscalização na verdade não está qualificando o propósito negocial ou comercial da controlada na Dinamarca, mas constatando um fato, ou seja, atividades realizadas em terceiros países’. Ora, basta ler o item 13.5 do Termo de Verificação Fiscal desses autos para verificar que há qualificação do propósito negocial da Recorrente em utilizar a Dinamarca como jurisdição para participar de outras empresas, tanto que a afirmação de que houve abuso. Isso não é verdade e demonstra, com efeito, que a autoridade fiscal, assim como a decisão recorrida, desconsidera os atos jurídicos praticados pela Recorrente sob argumento de abuso e de falta do propósito negocial, sem nunca ter entendido ou sequer indagado as motivações da Recorrente. Refutou a utilização do relatório dos autos n° 00293709.2003.4.02.5101, da Sétima Vara Federal do Rio de Janeiro (Apelação em Mandado de Segurança), alegando que os argumentos trazidos nada contribuem para a solução da controvérsia do caso em questão, tendo sido afastada a exigibilidade dos tributos naquela demanda, conforme decisão do Min. Marco Aurélio na Medida Cautelar (AC nº 3141/RJ). (v) Disponibilidade Econômica dos Lucros Auferidos por Empresa Controlada no Exterior Reiterou os mesmo termos apresentados na Impugnação, acrescentado que: “até a presente data, o ‘lucro’ em questão não foi efetivamente disponibilizada à Recorrente, reforçando o fato de que não foi alcançado o conceito jurídico de renda, ou seja, o acréscimo patrimonial. Concluise que o imposto de renda só pode ser exigido se ocorreu efetivamente o seu fato gerador, ou seja, se ocorreu a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou proventos de qualquer natureza. Ao final requereu: a) a suspensão do julgamento do presente recurso, haja vista o trâmite da ADI nº 2.588/2001, bem como o reconhecimento de repercussão geral do RE nº 611.586, por força do disposto no art. 62 A, do Regimento Interno do CARF. b) o conhecimento do Recurso e seu provimento para cancelar integralmente a presente autuação, pela: (i) Nulidade do procedimento fiscal, (ii) Inadequação do auto de infração (iii) Iliquidez da autuação em razão da desconsideração como crédito do imposto pago no exterior; (iv) Inobservância do tratado firmado entre o Brasil e a Dinamarca, em especial seu art. 23, item 5; e Fl. 523DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 524 13 (v) Ausência de disponibilidade econômica dos lucros auferidos por suas controladas no exterior. Posteriormente, a ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional apresentou suas contrarrazões ao Recurso Voluntário (efls. 466/490), alegando, sucintamente, que: (i) SOBRE A CONSTITUCIONALIDADE DO ART. 74 DA MP 2.15835/01 E SOBRESTAMENTO DO FEITO Em que pese a impossibilidade do CARF manifestarse sobre a constitucionalidade de normas – fato consolidado em sua jurisprudência – é oportuno destacar que o Supremo Tribunal Federal examina o tema na ADI 2.588. No caso, discutese a constitucionalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, sendo que cinco ministros do Supremo Tribunal Federal já se manifestaram pela validade da norma perante a Constituição Federal de 1988. Considerando que resta apenas o voto do Min. Joaquim Barbosa para a conclusão do julgamento, mesmo que este entenda haver inconstitucionalidade, não se formará a maioria absoluta para a declaração de inconstitucionalidade. Significa dizer que o STF pacificará seu entendimento no sentido da compatibilidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, com a Constituição Federal. Não obstante tais considerações, a falta de pronunciamento final da Suprema Corte sobre o tema, bem como a existência de repercussão geral reconhecida no RE 611586RG/PR, aliada à decisão de sobrestamento dos demais processos relacionados à matéria – como se observa de despacho monocrático proferido no RE 574975/PR, da lavra do ilustre Ministro Ricardo Lewandowski1 –, recomenda o sobrestamento do presente feito com fulcro no art. 62A do RICARF. (ii) DA NULIDADE POR IRREGULARIDADES NO MPF Sua irresignação não procede. Em primeiro lugar porque eventual falha na cientificação sobre cada prorrogação foi devidamente sanada pela autoridade fiscal ao final do procedimento, conforme permitido no art. 60 do Dec. 70.235/72 (oportunidade em que se entregou o Demonstrativo de Emissão e Prorrogação, constando todas as prorrogações). Segundo, nem sequer era necessário sanálo, porque os atos e termos do PAF só se anulam se proferidos por pessoa incompetente ou se resultarem em preterição do direito de defesa (art. 59). No caso, não há qualquer prejuízo à defesa, pois todas as informações relativas ao MPF (inclusive prorrogações) estiveram disponíveis ao interessado pela Internet durante todo o tempo. (iii) DA IMPOSSIBILIDADE DE LANÇAMENTO DE DÉBITO DECLARADO EM DIPJ Entende a Recorrente que a DIPJ, tal qual a DCTF, é instrumento de confissão de dívida, de modo que os valores nela Fl. 524DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 525 14 declarados não devem ser objeto de lançamento, mas de imediata inscrição em dívida. No que concerne à DCTF, não há discussões significativas acerca do caráter de confissão de dívida que sempre ostentou, desde sua criação, por meio da IN SRF n° 129, de 19 de novembro de 1986, mantendose assim até os dias atuais, art. 8°, § 1°, da IN RFB n° 1.110, de 24 de dezembro de 2010. Contudo, os débitos informados por meio de DIPJ não seguem a mesma sorte, dada a inexistência de previsão nesse sentido, tanto na IN SRF n° 127, de 1998, que a instituiu, quanto no normativo vigente, qual seja, a IN RFB n° 1.028, de 30 de abril de 2010. (...) Portanto, verificase que, mesmo trazendo informações detalhadas sobre os tributos que abrange, a DIPJ não é instrumento bastante para a cobrança do débito e não pode ser considerada confissão de dívida, uma vez que o cômputo do valor do tributo nela veiculado não leva em conta dados que possam influir no valor do tributo (pagamentos, compensações) ou na própria exigência do crédito (parcelamentos, suspensão da exigibilidade). Concluindo, assim, que é devido o lançamento dos tributos referentes aos fatos geradores apurados no anocalendário de 2006, ainda que estejam mencionados na DIPJ respectiva. (iv) AUSÊNCIA DE COMPENSAÇÃO COM O IMPOSTO PAGO NO EXTERIOR (...) não há qualquer mácula em face da não compensação do imposto supostamente pago no exterior, porque a Recorrente não demonstrou ser titular desse direito diante dos requisitos materiais e temporais impostos para seu exercício. Ainda que, por hipótese, se entendesse que a compensação era devida, isso não inquinaria o auto de nulidade, acarretando apenas a procedência parcial do recurso, com a glosa do valor correspondente no lançamento. (v) DA APLICAÇÃO DO TRATADO BRASIL X DINAMARCA (...)não procedem as alegações da recorrente, estando correta a tributação da controladora brasileira, pelos reflexos em seu patrimônio decorrentes dos resultados apurados individualmente por cada uma das controladas, não sendo aplicável o Tratado entre Brasil e Dinamarca em relação aos lucros apurados fora desse país, sob pena de total desvirtuamento do sentido e da finalidade tanto das normas brasileiras de tributação em bases universais quanto do próprio Tratado. Por fim, requereu o não provimento do recurso voluntário e a manutenção do acórdão proferido pela Delegacia de Julgamento. Em síntese, é como relato." Este foi o relatório apresentado pela Relatora Talita Pimenta Félix, na sessão de julgamento. Fl. 525DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 526 15 VOTO VENCIDO Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado Redator Ad Hoc para fins de formalização do acórdão. Designado como Redator Ad Hoc, com vistas à formalização deste Acórdão, passo a transcrever o voto proferido pela Relatora, Conselheira Talita Pimenta Félix, na Sessão de Julgamento de 25 de janeiro de 2017, verbis: "JBS S.A, empresa que desenvolve a atividade de comércio de produtos derivados de carne, recorre do acórdão nº. 1661.016 proferido pela 4ª Turma DRJ/SP, que por unanimidade de votos, julgou parcialmente procedente a(s) impugnação(ões) interposta(s) contra lançamento formalizado em 24/12/2013, exigindo crédito tributário no montante de R$ XXX. 1. PRELIMINARES 1. Da Nulidade Mandado de Procedimento Fiscal Elenca, o sujeito passivo, a existência de nulidade no Mandado de Procedimento Fiscal, haja vista a existência de reiteradas prorrogações, sem a devida comunicação ao fiscalizado. Para tanto, suporta tais alegações nos princípios da legalidade estrita e da atuação vinculada, os quais são de observância obrigatória da Administração Pública. Pois bem. Sabese que o MPF surgiu com o intuito de tornar público os atos administrativos relativos ao planejamento das atividades desenvolvidas pelo fisco em determinado período, bem como a delimitação da amplitude de tal fiscalização, a qual anteriormente era ato restrito (documento interno) da administração, e se substanciava na “desconhecida” Ficha Multifuncional. Deste modo, além de operacionalizar as atividades internas da administração, este reúne a tarefa de publicizar aos administrados o seu modus operandi. No presente caso é possível a verificação da existência do MPF, o qual segundo o art. 4°, § 4º da SRN nº. 1687/14 poderia ser conhecido pelo sujeito passivo mediante o sítio da Receita Federal do Brasil, o que, por si só, é uma porta aberta ao público para o acompanhamento do andamento fiscalizatório, independentemente de qualquer notificação do contribuinte, em se tratando de sua prorrogação. Eis o posicionamento da DRJ/SP, ao qual me filio, sobre o referido questionamento: 10. Para que se alcance a materialização do crédito tributário, via Auto de Infração, umas séries de práticas administrativas são encetadas, entre elas a expedição do chamado Mandado de Procedimento Fiscal MPF. Verificase que a prorrogação do prazo da ação fiscal se faz por intermédio de registro eletrônico, cuja informação está disponível na Internet, devendo ser entregue ao interessado, quando do primeiro ato de ofício praticado junto o mesmo, o Demonstrativo de Emissão e Fl. 526DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 527 16 Prorrogação (mero demonstrativo, como bem pode ser observado), espelhando as informações constantes na Internet. 11. Assim, não traz qualquer comprometimento ao trabalho da fiscalização o fato do interessado receber fisicamente – vale dizer, em papel – prova da prorrogação dos mesmos em data posterior ao prazo de validade inicial, já que eletronicamente tem acesso à informação sobre a ação fiscal, bastando para tanto acessar a Internet e utilizarse do código do procedimento fiscal. 12. A possibilidade do fiscalizado acessar as informações pertinentes ao procedimento fiscal instaurado, por meio da Internet, torna prescindível a cientificação formal da prorrogação da auditoriafiscal, não podendo a ausência de referida formalidade ("formalidade" que, aliás, nem sequer está prevista nas normas aplicáveis; a previsão existente é para a mera entrega do Demonstrativo) causar a invalidação do procedimento conduzido pela Autoridade fiscalizadora. Ressaltese ainda, o elencado por MINATEL1: O início do Procedimento Fiscal já pressupõe efetivo exercício da atividade inquisitória pelo agente competente, no exato sentido de ato de ofício praticado por servidor habilitado pelo MPF para dar partida ao procedimento de fiscalização, como se depreende das hipóteses listadas no art. 7º do Decreto nº. 79.235/72, característica que não está presente no ato administrativo que tem como primeira função legitimar os atos subseqüentes, desde que praticados pelo servidor ali designado e nos quadrantes que lhe foram impostos. Por coerência lógica, não se caracterizando como ato intrínseco de fiscalização, o esgotamento do prazo de validade do MPF, por si só, não proporciona automática reaquisição de espontaneidade por parte do seu jeito passivo, que será sempre aferida a partir dos atos concretos que denunciam o início ou o prosseguimento dos trabalhos da auditoria, nunca doto administrativo que dá credenciais ao agent do fisco perante o fiscalizado. Ex positis, voto pela não acolhimento da arguida nulidade. 1.2 Do Sobrestamento do Processo Até a Resolução da Demanda de Inconstitucionalidade n°. 2.588 e RE 611.586. Não há que se falar nesta esfera administrativa acerca do sobrestamento do feito por corrente Ação de Inconstitucionalidade ou Recurso Extraordinário, o qual possui repercussão gera, tendo em vista a independência entre as esferas administrativas e judiciais, e mesmo a ausência de previsão legal, para tanto, considerando que o presente conselho encontrase submetido estritamente ao princípio da legalidade. Neste sentido manifestome conforme posicionamento adotado pela DRJ/SP, que segue: 38. Em verdade, de acordo com o precitado parágrafo único do artigo 142, a autoridade administrativa deve aterse ao estrito cumprimento Fl. 527DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 528 17 da legislação tributária, estando impedida de ultrapassar tais limites para examinar questões outras, tais como as suscitadas na contestação em exame, uma vez que às autoridades julgadoras administrativas compete verificar a consentaneidade que sempre deve existir entre o lançamento efetuado pelo Fisco e a matéria fática que o suporta, considerados a legislação aplicável e os indispensáveis elementos de prova consubstanciados nos autos do respectivo processo. Deste modo nego provimento ao argumento trazido pela Recorrente. 1.3 Da Inadequação do Auto de Infração Dispõe a Recorrente que o crédito tributário fora devidamente constituído quando da entrega da Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ), a qual é instrumento hábil para a confissão de dívida dos tributos respectivos. Neste sentido elencou a DRJ/SPO: No presente caso a Impugnante somente informou na ficha correspondente da DIPJ as participações em empresas no exterior e os resultados apurados por elas, não sendo correto o meio (auto de infração) de constituir o crédito tributário em decorrência da infração apurada. Isto porque a DIPJ possui caráter meramente informativo, não tendo o condão de constituir o crédito tributário, em razão de que não representa qualquer reajuste, ao contrário da Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), cujo objetivo se traduz na referida formalização do crédito. Notese o entendimento do CARF sobre o assunto: DIPJ. DCTF. CONFISSÃO DE DÍVIDA. A DIPJ, desde a sua instituição, não constitui confissão de dívida, nem instrumento hábil e suficiente para a exigência de crédito tributário nela informado. É a DCTF quem possui esta função. Sua natureza de confissão de dívida está alicerçada no § 1º do artigo 5º do DecretoLei nº 2.124/84. COMPENSAÇÃO CONSIDERADA NÃO DECLARADA. CONFISSÃO DE DÍVIDA. A compensação considerada não declarada não configura confissão de dívida nem se caracteriza como instrumentos hábil e suficiente para a exigibilidade dos débitos nela informados. Há necessidade de lançamento de ofício para a constituição do crédito tributário correspondente aos referidos débitos. LANÇAMENTOS DE OFÍCIO. MULTA APLICÁVEL. É cabível multa de 75% (setenta e cinco por cento) em lançamentos de ofício sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e os de declaração inexata. Recurso Voluntário Negado Acórdão 1401001.477. Relator RICARDO MAROZZI GREGORIO Data da Sessão 19/01/2016.(Sem grifos no Original) Desta forma, rejeito o pedido da Recorrente. Fl. 528DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 529 18 2. DO MÉRITO As questões de mérito que chegam à esta turma julgadora para apreciação tratamse: (i) da fixação do critério temporal para fins de verificação da disponibilidade econômica dos lucros apurados no exterior; (ii) a inexistência de compensação do tributo pago no exterior no ano de 2008; e, (iii) a inexistência de abuso do Tratado de Tributação sobre o Lucro e Capital Brasil Dinamarca por basicamente outros três motivos: (iii.1) a licitude da forma empresarial adotada, qual seja, a holding; (iii.2) a impossibilidade de sobreposição do CTN em face do tratado internacional, com base na regra do art. 98 do CTN; (iii.3) a indevida interpretação da DRJ/SP acerca do item 5 do referido tratado, o qual dispõe sobre a o que vem a ser “estabelecimento permanente”. 2.1 Do Tratado BrasilDinamarca 2.1.1 Da substância da sociedade controlada como critério definidor à sua validação Primeiramente, antes de entrarmos em qualquer dos pontos elencados pela contribuinte, fazse mister compreender se a holding dinamarquesa realmente possui “substância”. Deste ponto partem os dois caminhos argumentativos, acima citados. Ou seja, ao se compreender necessária a análise da substância adotada pela controlada e, não demonstrando esta tal situação, à fiscalização seria permitido desconsiderar referida sociedade, afastando a aplicação do Tratado. Tal fato, imporia às controladas indiretas a condição de “controladas diretas”, cuja obrigação seria a consolidação de seus lucros e prejuízos, diretamente, na Recorrente, o que aumentaria muito o tributo devido a título de IRPJ, CSLL e reflexos. 4. Quanto ao primeiro ponto, aduziu o voto condutor do Acórdão embargado que, no caso de empresa controlada, dotada da Personalidade jurídica própria e distinta da controladora, nos termos dos Tratados Internacionais, os lucros por ela auferidos são lucros próprios e assim tributados somente no País do seu domicílio; a sistemática adotada pela legislação fiscal nacional de adicionálos ao lucro da empresa controladora brasileira termina por ferir os Pactos Internacionais Tributários e infringir o princípio da boafé nas relações exteriores, a que o Direito Internacional não confere abono. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, em 26.08.2014, Caso Vale do Rio Doce, EDcl no REsp n. 1.325.708/RJ, Primeira Turma do STJ Em oposição, partindose da premissa de que não há respaldo legal para que a fiscalização faça tal inferência, a consequência deve ser a observância do disposto no Tratado, validandose a existência jurídica da controlada, o que culminaria com o acolhimento da consolidação realizada na sociedade controlada, implicando a procedência do pleito da contribuinte. Respectiva divergência parte, necessariamente, da análise dos termos deste Tratado. Assim, temse que a “Convenção destinada a Evitar a Dupla Tributação e Prevenir a Evasão Fiscal em Matéria de Impostos sobre a Renda BrasilDinamarca”, Fl. 529DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 530 19 promulgada pelo Decreto nº 75.106/74, estabelece em seu art. 5o elementos indicativos à definição do conceito de “estabelecimento permanente”, conforme se depreende: ARTIGO 5 Estabelecimento permanente 1. Na presente Convenção, a expressão "estabelecimento permanente" designa uma instalação fixa de negócios em que a empresa exerça toda ou parte de sua atividade. 2. A expressão "estabelecimento permanente" abrange especialmente: a) uma sede de direção; b) uma sucursal; c) um escritório; d) uma fábrica; e) uma oficina; f) uma mina, uma pedreira ou qualquer outro local de extração de recursos naturais; g) um canteiro de construção ou de montagem cuja duração exceda seis meses. 3. A expressão "estabelecimento permanente" não compreende: a) a utilização de instalações unicamente para fins de armazenagem, exposição ou entrega de bens ou mercadorias pertencentes à empresa; b) a manutenção de um estoque de bens ou mercadorias pertencentes à empresa unicamente para fins de armazenagem, exposição ou entrega; c) a manutenção de um estoque de bens ou mercadorias pertencentes à empresa unicamente para fins de transformação por outra empresa; d) a manutenção de uma instalação fixa de negócios unicamente para fins de comprar bens ou mercadorias ou obter informações para a empresa; e) a manutenção de uma instalação fixa de negócios unicamente para fins de publicidade, fornecimento de informações, pesquisas científicas ou de atividades análogas que tenham um caráter preparatório ou auxiliar para a empresa. 4. Uma pessoa que atue num Estado Contratante por conta de uma empresa do outro Estado Contratante e desde que não seja um agente que goze de um "status" independente contemplado no parágrafo 6 – será considerada como estabelecimento permanente no primeiro Estado se tiver, e exercer habitualmente naquele Estado autoridade para concluir contratos em nome da empresa, a não ser que suas atividades sejam limitadas à compra de bens ou mercadorias para a empresa. 5. Uma sociedade de seguros de um Estado Contratante será considerada como tendo um estabelecimento permanente no outro Estado Contratante, desde que, através de um representante, receba prêmios ou segure riscos nesse outro Estado. 6. Uma empresa de um Estado Contratante não será considerada como tendo um estabelecimento permanente no outro Estado Contratante pelo simples fato de exercer a sua atividade nesse outro Estado por intermédio de um corretor, de um comissário geral ou de qualquer outro agente que goze de um "status" independente, desde que essas pessoas atuem no âmbito de suas atividades normais. Fl. 530DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 531 20 7. O fato de uma sociedade residente de um Estado Contratante controlar ou ser controlada por uma sociedade residente do outro Estado Contratante, ou que exerça sua atividade nesse outro Estado (quer seja através de um estabelecimento permanente, quer de outro modo) não será, por si só, bastante para fazer de qualquer dessas sociedades estabelecimento permanente da outra. (s.g.) Notase que, além de dizer quais indícios conferem à sociedade residente de um Estado Contratante a condição de ser compreendida como estabelecimento permanente, também identifica situações que não lhe conferem tal condição (como as citadas no item 3). A Recorrente refuta os termos da acusação, dizendo que não há respaldo legal para tanto e que tal interpretação demonstra “conclusão equivocada quanto aos verdadeiros propósitos da Autuada para utilizar de uma sociedade de participação sediada na Dinamarca”. Segue alegando que a decisão recorrida, “entende, basicamente, que o simples fato de a empresa brasileira ter constituído uma holding, não outra espécie de pessoa jurídica, seria suficiente para comprovar a falta de propósito negocial”. Bem como, que não há que se falar em ausência de propósito negocial quando este disser “respeito à condução dos negócios de uma sociedade por meio de posturas previsíveis e admissíveis”, considerandose seu objeto social e sua atividade econômica. E que portanto não haveria qualquer ilegalidade no fato de uma sociedade atuar, apenas, como detentora de participações em outras sociedades. Que tal escolha foi motivada, principalmente, pela segurança e facilidade de operar e transacionar em ambiente jurídico e comercial. Ou seja, defende que, a controlada atuou nos exatos limites de seu objeto social, enquanto holding. E que, “eventuais fatores fiscais não forma o motivo determinante para a organização das operações naquele país”. Revela, ainda, que “se operasse diretamente em cada uma das jurisdições em questão (...), isso significaria a manutenção de uma estrutura corporativa e decisória dependente dos órgãos diretivos da Recorrente, ou seja, eleição de membros de diretoria, conselhos de administração e uma série de exigências e condições que implicariam atrasos na realização de negócios e na condução de atividades operacionais”. Respectiva afirmação, realizada em negrito em sua peça defensória, leva à seguinte indagação: se a contribuinte, aponta como uma das causas da necessidade da existência de sua holding, a simplificação para a tomada de decisões de suas controladas indiretas, logo, nos conduz ao entendimento que tais decisões seriam realizadas por um órgão diretivo existente na empresa Dinamarquesa, correto? Porém, não é o que se infere das provas e argumentos colacionados aos autos, seja pela fiscalização, ou mesmo, pela contribuinte. Neste aspecto, esta comenta: O principio de presença substancial consiste no dever do sujeito de provar que é efetivamente um residente e que tem o direito de gozar dos benefícios do tratado. Este requisito no modelo Americano deve ser cumprido com documentação que faça acreditar na sua existência, com demonstração de atos do comércio, que realmente gerem uma atividade comercial e não seja meramente uma sociedade documental. [...] Concluise, portanto, que para as pessoa jurídicas, o critério é o lugar de sua sede de direção efetiva, que no caso da fiscalização em analise é o Brasil, pois entendemos que a JBS Fl. 531DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 532 21 Global, Dinamarca é mero conector para aproveitamento do beneficio tributário. Em face de toda a linha argumentativa defendida pela Recorrente, em diversos trechos de sua peça defensória, penso ser inviável validar a postura por esta. Explico. A própria contribuinte, visando corroborar sua tese, sustenta – fundamentalmente – que sua controlada possui atividade diretiva, de tomada de decisões, com o fito de desonerar a controladora brasileira, facilitando e desburocratizando as decisões e relações negociais travadas por suas controladas indiretas, bem como, valendose da tomada de empréstimos, porém, ao mesmo tempo, aduz que tal comprovação a si não cabe. Não parece razoável, posto que, se verdade fosse, facilmente apresentaria tais provas. Ainda, buscando respaldar sua controlada direta, diz que esta ali se instalou, também, pela facilidade de abertura de empresa (em oposição à burocracia nacional), pela possibilidade de obtenção de crédito, pelos níveis de corrupção e inflação, entre outros. Nestas linhas, registra que: (...) seria praticamente impossível para a Recorrente administrar suas operações e negócios mantendo participação direta em sociedades sediadas na Ilha da Madeira, no Reino Unido e no Egito. As exigências práticas de cada uma dessas jurisdições, para viabilizar o efetivo controle societário e administrativo, e a necessidade de assembleias de acionistas e reuniões do Conselho de Administração na Recorrente, que é companhia de capital aberto, com ações negociadas em bolsa, resultariam num travamento da pauta organizacional e administrativa da própria Recorrente, com enormes prejuízos pela perda de oportunidades comerciais. Isso porque todas as decisões teriam que fluir pela Recorrente, por seus órgãos decisórios, sendo que concentrar essas decisões num órgão deliberativo somente, no caso, da JBS Global A/S, permite uma administração mais eficiente dos negócios da Recorrente. Os fundamentos consignados pela contribuinte, além de serem contraditórios, reforçam a atuação de sua controlada direta como sociedade condutora de rendimentos. Contraditórios uma vez que, a contribuinte afirma ser inviável que as decisões partam de sua controladora, sendo, portanto, necessária uma empresa que concentre tais tomadas de decisão, viabilizando seu controle societário e administrativo. No entanto, esse papel não é exercido pela holding Dinamarquesa, mas sim, pela própria Recorrente. Ao se referir à possibilidade de tomada de créditos na Dinamarca, não apresenta qualquer prova que respalde tal facilidade, em oposição à possibilidade de tomada de crédito no Brasil. Em relação aos (baixos) níveis de inflação e corrupção, comparandose os países signatários do Tratado, nenhum comentário me é possível fazer. Porém, penso que o mesmo não seria válido se comparado, por exemplo, o Reino Unido e a Dinamarca, respectivamente, controlada indireta e direta. Quando defende que a “constituição de uma empresa de participação que concentra as demais participações é medida imprescindível para a realização de Fl. 532DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 533 22 negócios sempre que verificada, pela Recorrente, dificuldades ou obstáculos para a condução desses negócios via uma participação direta pela Recorrente”, não faz a contribuinte nenhuma menção a qualquer fato que poderia exemplificar os argumentos que traz. Pelo contrário, apenas reforça a tese de que todas as decisões, relevantes à realização dos negócios, eram realizadas pela controladora brasileira. Nesta tônica, a Recorrente alega ser indevida a cobrança de critério quanto à substância da controlada para fins de fruição dos benefícios do tratado, e o faz sob o fundamento de que o mesmo não prescreve normas antiabuso,e, que se houvesse interesse em obter vantagem, na linha do “treaty shopping”, todas as participações societárias da Recorrente estariam concentradas na Dinamarca. Assim, valendose deste Tratado, a contribuinte norteou todo o seu comportamento tributário, consolidando o resultado de suas controladas indiretas na controlada direta (a holding situada na Dinamarca), no anocalendário de 2008. E, por intermédio do Tratado BrasilDinamarca, adota a determinação prescrita no art. 1o, parágrafo 6o, da IN SRF 213/2002, consolidando os resultados das controladas indiretas na holding Dinamarquesa, posteriormente, declarandoos em sua DIPJ. Ocorre que, entendendose irrelevante a substância da sociedade controlada, mediante atividade própria, esvaziase o sentido deste tipo de Tratado, no que toca à tributação. Acaso seja desnecessário que a controlada gere lucro com atividades próprias, ou seja, que tenha efetiva atuação para fins de fruição dos benefícios do acordo firmado entre os países, em nada se distinguiria a presença de uma controlada em país com o qual o Brasil possua acordo para evitar a dupla tributação, e a presença de controlada em país com o qual não o exista. Porém, em termos de tributação, a distinção é abissal, como é o caso dos autos, basta verificar o montante de tributo devido, adotandose a sistemática sob o manto do Tratado (prejuízo registrado na controladora de menos de 50.000C) e, afastandoo e determinando a consolidação das indiretas na contribuinte. Quem efetua as transações comerciais espelhadas nos demonstrativos da JBS Global A/S – Dinamarca é a JBS Global BeefCompany S/U LDA. (Ilha da Madeira), a JBS Global (UK) Limited, a Arab/Friboi e a Friboi/Egypt e não a holding sediada na Dinamarca que, por sua vez, apenas detém quotas daquelas empresas sediadas no Reino Unido, Ilha da Madeira e Egito. Este abuso se materializa basicamente quando entre uma sociedade A e uma sociedade B, se interpõe uma sociedade C que atua como condutora entre A e B, de forma tal que a sociedade A seja beneficiada com acordo existente entre os Estados das sociedades A e C. Para nosso caso particular A é representada pela JBS S.A. brasileira, B as empresas JBS Global BeefCompany S/U LDA. (Ilha da Madeira), a JBS Global (UK) Limited, a Arab/Friboi e a Friboi/Egypt e C a JBS Global A/S Dinamarca, empresa chamada de condutora, sendo que "A" representa a beneficiária final mercê do acordo de evitar a bitributação. É evidente que o esquema resulta conveniente sempre que a tributação no Estado cujo tratado constitui a sociedade condutora, não seja elevada (no caso, a Dinamarca tributa apenas os resultados positivos obtidos dentro de seu território). Fl. 533DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 534 23 E tal situação se verifica uma vez que, por intermédio deste Tratado, somente os resultados obtidos dentro de seu território seriam tributados. E, segundo revela a fiscalização, a sociedade controlada auferia e pagava dividendos não por conta de transações comerciais próprias, mas sim de suas controladas indiretas, sediadas no Reino Unido, Ilha da Madeira e Egito. Vide trecho da decisão da DRJ/SPO: Concluise, portanto, que para as pessoa jurídicas, o critério é o lugar de sua sede de direção efetiva, que no caso da fiscalização em análise é o Brasil, pois entendemos que a JBS GlobalDinamarca é mero conector para aproveitamento do beneficio tributário. [...] Uma pessoa que atue em um dos Estados contratantes por conta de uma empresa do outro Estado Contratante, desde que não seja um agente independente, será considerado estabelecimento permanente se esta pessoa tiver e habitualmente exercer autoridade para concluir contratos em nome da empresa, excluídos os de compra de bens ou mercadorias para a empresa." Concluise, portanto, que o simples controle de uma sociedade residente em um Estado Contratante, por outra residente em outro Estado contratante, não é suficiente para a caracterização de estabelecimento permanente e que são estabelecimentos estáveis as instalações que adquirem ou realizam diretamente um lucro, tendo caráter imediatamente produtivo, o que não é o caso da JBS Global A/S. Porém, tal modelo comportamental, distintamente do que alega a contribuinte, fere a finalidade dos tratados tributários sobre a renda e o capital, uma vez que estes primam pelo afastamento da dupla tributação, e não, conforme mencionado no TVF, que se evite ou reduza a carga tributária a valores desproporcionais aos lucros auferidos pelas subsidiárias no exterior. O Tratado, firmado nos moldes das recomendações da OCDE e da ONU2, devem ser interpretadas de boa fé e à luz do respectivo objeto e fim, o que não foi observado pela Recorrente, uma vez que sua controlada não possuía caráter produtivo (não gerava lucro). Face à rica simplicidade do apontamento realizado pela PGFN, em suas contrarrazões (fls. 5.277), transcrevoo: Entretanto, é preciso deixar claro que a Fiscalização não questionou a possibilidade de ser constituída uma pessoa jurídica cuja natureza seja de “holding”. A contribuinte tinha pleno direito de instalar uma sociedade holding na Dinamarca, e quanto a isso não há nenhuma oposição por parte da Administração Tributária. O problema apontado pela autoridade fiscal, e corroborado pela DRJ/SPO, foi a utilização da JBS Global A/S apenas para o aproveitamento do Tratado firmado entre o Brasil e a Dinamarca para evitar a dupla tributação. Nesse ponto, importante ressaltar que a autoridade fiscal expressamente mencionou a interposição da controlada na Dinamarca, como método de planejamento tributário ilícito. Com efeito, basta examinar o Termo de Verificação Fiscal para perceber que a autoridade responsável pelo lançamento dedicou o tópico “18.6 – Convenção BrasilDinamarca para evitar a dupla tributação e da Fl. 534DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 535 24 interposição de sociedade com finalidade elisiva” do TVF exclusivamente para tratar da interposição de pessoas (fls. 4.77582). Ademais, vale salientar que a autoridade fiscal ressaltou a questão do uso abusivo e indevido dos tratados, pelos contribuintes, quando estes buscam elisão fiscal ilícita. Deste modo, afastada estaria a aplicação do Tratado, o que invalidaria a consolidação promovida na controlada, abrindose a obrigatoriedade de que o mesmo ocorra na controladora. Nesta tônica, a DEMAC/SPO, acompanhada pela 4a Turma da DRJ/SPO, entende que a contribuinte constituiu uma controlada na Dinamarca (país que possui tratado de tributação sobre a renda e capital com o Brasil), com o único objetivo de, valendose do Tratado, consolidar os lucros das controladas indiretas, antes de transportalos para a controladora brasileira, o que lhe permitiria reduzir sua carga tributária.Aduz o fato de a holding (Dinamarquesa),sociedade condutora de rendimentos,ter sido criada apenas para proteger os reais beneficiários do pagamento de tributos no Brasil, consoante relato no TVF: Diante do que foi explicado, fica claro que a criação da JBS Global A/S – Dinamarca foi, sem dúvida nenhuma, a busca de uma elisão tributária abusiva destinada a subtrair os rendimentos da JBS Global BeefCompany S/U LDA. (Ilha da Madeira), a JBS Global (UK) Limited, a Arab/Friboi e a Friboi/Egypt, da base tributária do imposto de renda e da contribuição social dos seus reais beneficiários no Brasil. Que, em razão de a controlada direta não ter sua sede de direção efetiva naquele país, apresentandose como uma sociedade sem substância, permitiuse a desconsideração da figura societária adotada, cuja consequência seria a consolidação doa resultados das indiretas na Recorrente. Fato que não encontra óbice na Lei das S/A, vez que não há qualquer dispositivo que exclua os resultados apurados por controladas indiretas, da tributação sobre bases universais. Ressalvo, a título de esclarecimento, que ainda que entenda inaplicável o Tratado à sociedade controlada direta, é imprescindível que se realize confronto da situação fática às suas normas, posto que, somente assim, tornase possível, uma tomada de decisão pela sua aplicação, ou não. Por fim, o tecnicismo não pode se sobrepor à uma análise sistemática das normas presentes no ordenamento. Assim, ao corroborar o comportamento da contribuinte, entendendo válida a existência da controlada direta (holding Dinamarquesa), sem que esta tenha provado uma existência mínima, pragmaticamente, atuando apenas como uma empresa condutora de rendimentos, de modo a reduzir, ou mesmo afastar a tributação dos lucros auferidos no exterior, subvertese toda a essência dos tratados internacionais que visam evitar a dupla tributação, mas não impedir a tributação. Nestes termos, acompanho a manifestação da DEMAC/SPO e da 4a Turma da DRJ/SPO, e voto pela IMPROCEDÊNCIA do Recurso Voluntário, considerando a controlada direta uma empresa condutora de recebimentos, o que não Fl. 535DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 536 25 lhe permite se valer do Tratado BrasilDinamarca, com fins a aplicar a IN SRF n. 213/2002. 2.1.2 Da fixação do critério temporal para fins de verificação da disponibilidade econômica dos lucros apurados no exterior e Da inexistência de compensação do tributo pago no exterior no ano de 2008. Haja vista todo o exposto no tópico anterior, entendo que não merecem análise os demais tópicos relativos à fixação do critério temporal para verificação da disponibilidade econômica, nem tampouco o referente à inexistência de compensação do tributo pago no exterior relativo ao exercício de 2008, tendo em vista que estes somente seriam cabíveis mediante a constatação da regularidade da holding instalada na Dinamarca; regularidade esta não apenas observada do ponto de vista do direito, e de sua constituição, mas também inerente aos aspectos fáticosprobatórios de sua existência, a qual não foi reconhecida por esta conselheira, pelo que rejeito tais alegações. 3. LANÇAMENTO REFLEXO (CSLL) Decorrendo o lançamento da CSLL dos mesmos elementos de prova constantes da exigência do IRPJ, a decisão proferida em relação aos fatos que levaram à manutenção deste impõese também à CSLL, naquilo que for cabível, em face do preceituado pelo art. 57 da Lei nº 8.981/1995, com a redação dada pela Lei nº 9.065/1965. 4. CONCLUSÃO Ante o exposto, voto por conhecer o recurso voluntário e negarlhe provimento." Esse foi o voto da Conselheira Talita Pimenta Félix. (assinado digitalmente) Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado. VOTO VENCEDOR Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior Redator Designado. Com a devida vênia da I. Relatora, ouso divergir do seu voto, pelas razões a seguir expostas. Fl. 536DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 537 26 Por que a Relatora e o Autuante discorreram sobre estabelecimento permanente? Inicialmente, entendo despicienda toda a abordagem sobre estabelecimento permanente levantada pelo Autuante e pela Relatora, pois estamos tratando da JBS Global A/S (Dinamarca), um ente dotado de personalidade jurídica, já que devidamente constituído sob a lei dinamarquesa holding que controlava empresas fora da Dinamarca. Ademais, qual o propósito de se discorrer sobre estabelecimento permanente? Tratase de fundamentação estéril que nada ajuda na solução da questão posta em julgamento. Ressalto que saber se a pessoa jurídica brasileira exerce alguma atividade diretamente no território dinamarquês por ela própria ou por meio de estabelecimento permanente é importante para o Fisco dinamarquês, ou seja, para que conclua se pode ou não tributar tais resultados na Dinamarca. Pela inteligência do TVF, se a JBS Global A/S apurar lucros tributáveis na Dinamarca, esses lucros não serão tributados na Dinamarca, porque o Autuante desconsidera a personalidade jurídica da JBS Global A/S e sustenta que ela não é um estabelecimento permanente da recorrente no Brasil. Seria de bom alvitre o Autuante acertar previamente tal entendimento com os dinamarqueses.Isso, por si só, já demonstra a equivocada abordagem feita pelo Autuante com relação às normas do DTA. Qual o fundamento da Relatora e do Autuante para desconsiderar a personalidade jurídica da JBS Global A/S (Dinamarca)? Tanto o Fisco como a Relatora sustentam a possibilidade de se desconsiderar a personalidade jurídica da JBS Global A/S (Dinamarca) por entenderem que ela foi constituída na Dinamarca apenas para se valer abusivamente do DTA BrasilDinamarca (Treaty Shopping). Norma antiabuso autoriza a desconsideração de personalidade jurídica? Inicialmente, ressalto que o DTA BrasilDinamarca não contempla norma antiabuso, o que fez com que o Autuante deduzisse uma norma antiabuso de lege ferenda. Vejamos um exemplo de norma antiabuso no art. 28 do DTA BrasilMéxico, in verbis: ARTIGO 28 Disposições Diversas 1. As autoridades competentes de ambos os Estados Contratantes poderão negar os benefícios desta Convenção, quando assim o acordarem nos termos do Artigo 25 da mesma, a qualquer pessoa ou em relação a qualquer operação, se, em sua opinião, a outorga dos benefícios da Convenção constitui um abuso desta Convenção considerando seu objeto e fim. (...) 3. As disposições da presente Convenção não impedirão que um Estado Contratante aplique as disposições de sua legislação nacional relativa a capitalização insuficiente ou para combater o diferimento, incluída a legislação de sociedades controladas estrangeiras (legislação CFC) ou outra legislação similar. 4. As disposições da presente Convenção não impedirão que um Estado Contratante aplique as disposições de sua legislação nacional relativa Fl. 537DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 538 27 ao combate da evasão e elisão fiscal ou abuso da Convenção, inclusive as aplicáveis aos créditos respaldados. 5. Não obstante, uma pessoa que não tenha direito aos benefícios da presente Convenção conforme as disposições dos parágrafos 1 e 3 poderá demonstrar às autoridades competentes do Estado de que provêm os rendimentos seu direito aos beneficios da Convenção. Para tal efeito, um dos fatores que as autoridade competentes tomarão em consideração será o fato de que o estabelecimento, constituição, aquisição e manutenção de referida pessoa e a realização de suas atividades não teve como um de seus principais propósitos o de obter algum benefício em conformidade com esta Convenção.” Ora, os efeitos de uma norma antiabuso é justamente o de negar os benefícios do DTA à pessoa abusadora. No caso em tela, se norma como essa existisse no DTA BrasilDinamarca, o máximo que poderia ser feito era negar a aplicação de algum das suas normas que pudessem beneficiar a JBS Global A/S (Dinamarca) ou o seu controlador no Brasil, mas jamais desconsiderar a sua personalidade jurídica. Por exemplo, por força do disposto em norma do DTA BrasilDinamarca, a participação da recorrente nos lucros da JBS Global A/S (Dinamarca) só são tributados no Brasil quando efetivamente distribuídos. Caso existisse uma norma antiabuso em tal DTA e fosse aplicada, poderia ser afastada tal limitação e tributada a participação da recorrente nos lucros da controlada na Dinamarca pelo regime de competência, como dispõe o art. 74 da MP 2.15835. Ademais, notese que uma norma antiabuso não pode ser aplicada unilateralmente, pois tratase de medida que deve ser antes acordada pelos Estados contratante. Assim, podemos sintetizar a resposta a tal questão nos seguintes pontos: a) não existe norma antiabuso no DTA BrasilDinamarca, razão pela qual o Autuante deduz uma norma de lege ferenda; b) os efeitos de uma norma antiabuso jamais seriam a desconsideração da personalidade jurídica da JBS Global A/S, mas, sim, afastar a aplicação de qualquer norma do DTA que beneficiasse a JBS Global A/S; c) o absurdo tornase ainda maior, quando verificamos que estaria o Brasil aplicando unilateralmente uma norma antiabuso de lege ferenda para desconsiderar a personalidade jurídica de uma holding constituída na Dinamarca. Qual a diferença entre afastar a aplicação do DTA e desconsiderar a personalidade jurídica? Como visto anteriormente, não havia autorização no ordenamento jurídico, para o Autuante desconsiderar a personalidade jurídica da JBS Global A/S. Todavia, há que se ressaltar os diferentes efeitos de se desconsiderar a personalidade jurídica da JBS Global A/S e o de simplesmente negarlhe os benefícios do DTA. Ao desconsiderar a personalidade jurídica da JBS Global A/S, o Autuante entendeu que os lucros das suas controladas seriam todos imediatamente tributáveis na sua controladora – a recorrente. Vale ressaltar que o Autuante chama, no item 10.1 do TVF, de prejuízo da JBS Global A/S o que é na verdade uma despesa administrativa, pois, ela apurou lucro em Fl. 538DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 539 28 2006, conforme demonstrativo a fls. 284, decorrente do reconhecimento da receita de participação nos lucros da JBS Global BeefCompany S/U LDA Ilha da Madeira. Assim, o Autuante, além de desconsiderar a personalidade jurídica da JBS Global A/S, glosou, sem qualquer autuação, as despesas administrativas no montante de 49.271,29 euros em 2006. Ora, se desconsiderou a personalidade jurídica da JBS Global A/S, as despesas administrativas deveriam ser dedutíveis das bases da recorrente. Ora, se ao invés de desconsiderar a personalidade jurídica da JBS Global A/S, o Autuante tivesse simplesmente afastado a aplicação do tratado, teria tributado o resultado da JBS Global A/S no montante de 15.688.495,71 euros, afastando assim a aplicação do item 5 do art. 23 do DTA BrasilDinamarca. Ocorre que sequer tal dispositivo foi citado no TVF, além disso, para tal afastamento haveria de existir norma antiabuso aplicável no caso. Qual a norma apontada pelo autuante como objeto do abuso? O Autuante fala em Treaty Shopping, mas sequer aponta com clareza qual a norma ou normas do DTA BrasilDinamarca que estava sendo usada de maneira abusiva pela recorrente por meio de sua controlada na Dinamarca. Vejamos o seguinte trecho do TVF em que o Autuante aborda sem qualquer clareza sobre o tema: “Não há falar na tributação dos dividendos pagos por uma sociedade residente da Dinamarca (JBS Global A/S – Dinamarca) a uma sociedade residente do Brasil (JBS S.A.), nos termos do item 3 do artigo 10 do Tratado, no presente caso, pela remissão da situação do artigo 7º. A holding dinamarquesa, mera sociedade condutora de rendimentos, foi constituída por razões de economia tributária, auferindo dividendos não por sua própria conta, mas para seus beneficiários efetivos no Brasil.” Este é o único trecho do TVF, no capítulo que trata de Treaty Shopping, em que o Autuante cita artigos do DTA. Digase de passagem que os dispositivos citados são totalmente desconectados, irrelevante e impertinentes à situação dos autos. O item 3 do art. 10 do DTA dispõe, por exemplo, que os lucros pagos por uma controlada dinamarquesa a um estabelecimento permanente na Dinamarca da controladora brasileira, seão tributados na Dinamarca, por força do art. 7º. O que isso se relaciona com o caso em tela? Não interessa em nada. Inadmissível falar em abuso do DTA, sem sequer apontar a norma ou normas que teriam sido objeto do abuso. Quais as razões expostas pela Relatora para considerar sem substância a JBS Global A/S (Dinamarca)? Inicialmente, vejamos o seguinte excerto do voto acima proferido: “Primeiramente, antes de entrarmos em qualquer dos pontos elencados pela contribuinte, fazse mister compreender se a holding dinamarquesa realmente possui “substância”. Deste ponto partem os dois caminhos argumentativos, acima citados. Ou seja, ao se compreender necessária a análise da substância adotada pela controlada e, não demonstrando esta tal situação, à fiscalização seria permitido desconsiderar referida sociedade, afastando a aplicação do Tratado. Tal fato, imporia às controladas indiretas a condição de Fl. 539DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 540 29 “controladas diretas”, cuja obrigação seria a consolidação de seus lucros e prejuízos, diretamente, na Recorrente, o que aumentaria muito o tributo devido a título de IRPJ, CSLL e reflexos.” Primeiro, a I. Relatora fala em substância, a qual creio que seja substância econômica. Ora, estamos tratando de uma holding pura, assim, a sua substância econômica é verificada pela sua participação em outra empresas, visando a participação no lucros dessas ou então, ganhos de capital na alienação de tais participações. Ressalto que consta, no sítio da RFB na Web, a Consulta Pública RFB nº 007/2016, de 30/05/2016, cujo assunto é justamente: “Definição de atividade econômica substantiva para fins de identificação de regimes fiscais privilegiados”. Anexa a referida Consulta, consta uma exposição de motivos de minuta de instrução normativa, a qual vale ser trazida à colação: “Em cumprimento ao dever institucional de atualização e melhoria dos atos normativos, identificouse a necessidade de estabelecer uma definiçaõ para o termo “atividade econômica substantiva” para fins de identificação de regimes fiscais privilegiados regimes fiscais, previstos no art. 2o da IN RFB no 1.037, de 4 de junho de 2010, que relaciona países ou dependen̂cias com tributação favorecida e regimes fiscais privilegiados. 2. Diferentemente da classificacã̧o europeia das atividades empresariais em econômicas (compra e venda de bens e serviços) e nãoeconômicas (as outras), o conceito de substância econômica é fundamental para a distinguir entre investimentos produtivos, que geram emprego e renda no país, e investimentos meramente especulativos, que visam apenas auferir ganhos sem contrapartida socioeconômica. Ao estabelecer critérios objetivos de recursos humanos e materiais compatíveis com as atividades realizadas, o conceito de substância econômica permite a extensão de incentivos fiscais a atividades essencialmente gerenciais, que não representam compra ou venda de bens ou serviços. 3. No am̂bito do Projeto BEPS (Base Erosion and Profit Shifting), criado pelo G20 em parceria com a OCDE, com objetivo de prevenir a erosão da base tributável de lucros de garantir que as atividades econômicas estivessem sendo tributadas onde estivessem gerando valor, o conceito de substância econômica foi amplamente discutido, especialmente na Ação 5, que trata do combate às práticas tributárias danosas. 4. Desde a edição do relatório da OCDE sobre regimes preferenciais prejudiciais de 1998, há um consenso acerca da necessidade de que os regimes dos países não incentivem os contribuintes a realizarem operações ou acordos que tenham puramente o objetivo de reduzir tributo. A fim de combater de forma eficaz o uso de tais regimes, a Acã̧o 5 condicionou a comprovacã̧o da atividade econômica substancial para que o regime não seja declarado prejudicial. No contexto do projeto BEPS, essa exigen̂cia contribui para assegurar que os lucros tributáveis em um país não sejam artificialmente deslocados para jurisdições de baixa tributacã̧o. Fl. 540DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 541 30 5. O Fórum de Práticas Danosas (FHTP Forum on Harmful Tax Practices) no âmbito da OCDE tambeḿ leva em consideracã̧o o critério da substância econômica para analisar se o regime fiscal privilegiado é prejudicial ou não. Dentre as abordagens utilizadas para se verificar se atividade desenvolvida pelo contribuinte é substantiva, temse a abordagem que requer que o contribuinte desenvolva atividades relacionadas a sua principal atividade (core business) e que sejam legalmente os proprietários dos ativos que dão origem ao benefício fiscal e, por fim, que os contribuintes suportem os riscos econômicos relacionados às atividades. 6. Assim, entendese que uma holding que desenvolve atividade econômica substantiva é aquela possui, na jurisdicã̧o de seu domicílio, capacidade operacional compatível para exercer a gestão do grupo econômico. Especialmente para tomar decisões relativas à administração de seus ativos e de suas participações societárias. Por fim, é importante destacar que a capacidade operacional é mensurada pela existência de instalações físicas e de número de empregados qualificados para exercer a administração do grupo de forma compatível com a complexidade das funções exercidas. 7. Essas são as razões que justificam a elaboração da instrução normativa que ora se submete a Consulta Pública.”. Vale ressaltar o disposto no parágrafo 6 da exposição de motivos acima transcrita, segundo o qual entendese que uma holding desenvolve atividade econômica substantiva quando: a) possui, na jurisdiçaõ de seu domicílio, capacidade operacional compatível para exercer a gestão do grupo econômico, especialmente para tomar decisões relativas à administração de seus ativos e de suas participacõ̧es societárias; e b) que a capacidade operacional é mensurada pela existência de instalações físicas e de número de empregados qualificados para exercer a administração do grupo de forma compatível com a complexidade das funções exercidas. A interpretação dada no parágrafo 6 da exposição de motivos foi seguida de uma proposta de instrução normativa nessa mesma linha, se não vejamos como dispõe seu art. 1º da minuta de IN: “Art. 1º Para fins de identificação de regimes fiscais privilegiados previstos no art. 2o da Instrucã̧o Normativa no 1.037, de 4 de junho de 2010, entendese que a pessoa jurídica legalmente constituída sob a forma de holding exerce atividade econômica substantiva quando possui, no seu país de domicílio, capacidade operacional e instalacõ̧es adequadas para o exercício da gestão e efetiva tomada de decisões relativas: I ao desenvolvimento das atividades com o fim de obter rendas derivadas dos ativos de que dispõe, exceto rendas decorrentes da distribuição de lucro e do ganho de capital; ou Fl. 541DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 542 31 II à administração de participacõ̧es societárias com o fim de obter rendas decorrentes da distribuição de lucro e do ganho de capital.” A interpretação acima é bem razoável, na medida em que não anulou o sentido da expressão “atividade econômica substantiva” e deu um conceito que reconhece a substância econômica de holdings puras, ou seja, de sociedades que se dedicam apenas a manter investimentos em outras empresas e, assim sendo, seu patrimônio é composto basicamente de participações em outras sociedades. Tomando a interpretação proposta pela RFB na referida minuta como razoável, cabe agora perquirir as razões pelas quais a Relatora entendeu que a recorrente não desenvolvia atividade econômica substantiva. No TVF a fls. 102, o Autuante sustenta que a JBS Global A/S não tem substância, porque é uma holding pura, se não vejamos o seguinte trecho: “Quem efetua as transações comerciais espelhadas nos demonstrativos da JBS Global A/S – Dinamarca é a JBS Global Beef Company S/U LDA (Ilha da Madeira), a JBS Global (UK) Limited, a Arab/Friboi e a Friboi/Egypt e não a holding sediada na Dinamarca que, por sua vez, apenas detém quotas daquelas empresas sediadas no Reino Unido, Ilha da Madeira e Egito.” Ora, por tudo antes tratado, tal argumento, por si só, não pode prosperar. Sustenta, ainda, o Autuante em amparo a sua tese que: “Neste ponto, fazemos uma pausa nos dizeres do autor para comentar que a empresa Dinamarquesa possui apenas prejuízo, dado que os lucros apontados são originados na JBS Global Beef Company S/U LDA (Ilha da Madeira), a JBS Global (UK) Limited, a Arab/Friboi e a Friboi/Egypt, transladados para a JBS Global Dinamrca, conforme demonstrativo consolidado apresentado.”. Tal argumento é um tanto ininteligível, pois é difícil crer que o Autuante esteja a defender que foi constituída uma empresa para dar prejuízo e, assim, absorver o lucro das controladas indiretas. Ora, qual o benefício que teria a recorrente em constituir empresa para dar prejuízo? Na verdade, faltou precisão terminológica ao Autuante, pois o que ele chama de prejuízo é, na verdade, as despesas administraivas da JBS Global A/S, conforme exposto no demonstrativo a fls. 284. Tal argumento vai de encontro com a tese de falta de substância econômica, pois, pelo menos, despesas estavam sendo incorridas pela JBS Global A/S (Dinamarca). A I. Relatora alega também em defesa da tese acusatória que; “Os fundamentos consignados pela contribuinte, além de serem contraditórios, reforçam a atuação de sua controlada direta como sociedade condutora de rendimentos. Contraditórios uma vez que, a contribuinte afirma ser inviável que as decisões partam de sua controladora, sendo, portanto, necessária uma empresa que concentre tais tomadas de decisão, viabilizando seu controle societário e administrativo. No entanto, esse papel não é exercido pela holding Dinamarquesa, mas sim, pela própria Recorrente. Ao se referir à possibilidade de tomada de créditos na Dinamarca, não apresenta qualquer prova que respalde tal facilidade, em oposição à possibilidade de tomada de crédito no Brasil. Em relação aos (baixos) níveis de inflação e corrupção, comparandose os países signatários do Tratado, nenhum comentário me é possível fazer. Porém, penso que o Fl. 542DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 543 32 mesmo não seria válido se comparado, por exemplo, o Reino Unido e a Dinamarca, respectivamente, controlada indireta e direta.”. Em nenhum momento do TVF ou do voto da I. Relatora, foi demonstrado de que não havia estrutura logística com funcionários na JBS Global A/S (Dinamarca). Por sua vez, o fato de decisões serem tomadas pela controladora no Brasil, não siginifica que a operacionalização de tais decisões não sejam de competência da estrutura existente na Dinamarca. Ora, falta de elementos nos autos para se concluir com segurança que a JBS Global A/S fosse uma pessoa jurídica existente unicamente “no papel”. Tanto é assim, que o Autuante não enquadrou a situação fática como simulação e a D. Procuradoria da Fazenda Nacional, no trecho colhido pela I. Relatora, não sustenta a falta de substância econômica da JBS Global A/S (Dinamarca), se não vejamos novamente o trecho: Entretanto, é preciso deixar claro que a Fiscalização não questionou a possibilidade de ser constituída uma pessoa jurídica cuja natureza seja de “holding”. A contribuinte tinha pleno direito de instalar uma sociedade holding na Dinamarca, e quanto a isso não há nenhuma oposição por parte da Administração Tributária. O problema apontado pela autoridade fiscal, e corroborado pela DRJ/SPO, foi a utilização da JBS Global A/S apenas para o aproveitamento do Tratado firmado entre o Brasil e a Dinamarca para evitar a dupla tributação. Assim, concluo que não restou demonstrado que a JBS Global A/S (Dinamarca) não tivesse substância econômica. Seria aplicável o art. 116, parágrafo único, do CTN ou o art. 187 do Código Civil em suporte à tese do abuso de direito? Do trecho das contrarrazões da PFN acima transcrito, vemos que, se por uma lado o Fisco admite o direito de a recorrente instalar uma sociedade holding pura na Dinamarca, por outro, o Fisco entende que isso não pode ter como único motivo uma causa tributária. Ora, como a norma antiabuso foi deduzida de lege ferenda pelo Autuante, há que se perquirir se tal norma poderia encontrar amparo no ordenamento jurídico pátrio, não obstante nem o art. 116, parágrafo único, do CTN nem o art. 187 do Código Civil constam do enquadramento legal da autuação. Antes mesmo da entrada em vigor do art. 187 da Lei 10.406/02, já se discutia o abuso de direito no campo tributário, quando da discussão da inserção do parágrafo único no art. 116 do CTN, pela Lei Complementar 104/01. Sobre isso, importante a transcrição do seguinte trecho de artigo publicado por Vitório Cassone ( no site: www.agu.gov.br/page/download/index/id/892382), in verbis: A “justificação” do anteprojeto que resultou na LC 104 (Ofício SRF/GAB n°1.594/99, de 08.09.1999), é versada nos seguintes termos: “5. A inclusão do parágrafo único ao art. 116 fazse necessária para estabelecer, no âmbito da legislação brasileira, norma que permita à autoridade tributária desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de elisão, constituindose, dessa forma, em instrumento eficaz para o combate aos procedimentos de Fl. 543DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 544 33 planejamento tributário adotados com abuso de forma ou de direito.” Dessa forma, não podemos nos esquecer que, mesmo antes da positivação do abuso de direito no Estatuto Civil, o legislador ordinário alterou o CTN, para introduzir no parágrafo único do art. 116 o instrumento para o combate ao abuso de direito no campo tributário, o qual assim dispõe: Art. 116. Omissis. Parágrafo único. A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária. Ora, se este era o instrumento de que podia se valer o Fisco para desconsiderar atos de abuso de direito no campo tributário, comprometida estará a autuação, por ser inaplicável tal parágrafo único enquanto não forem estabelecidos em lei ordinária os procedimentos para tal desconsideração dos atos abusivos. Cabe lembrar que os artigos 13 a 19 da Medida Provisória nº 66/2002, que tratavam dos procedimentos exigidos para a aplicação do parágrafo único do art. 116 do CTN, foram retirados do texto da lei de conversão (Lei 10.637/02) pelo Congresso Nacional. Ora, à míngua da regulamentação da norma específica no campo tributário para combater o abuso de direito (parágrafo único do art. 116 do CTN), pode ser aplicável o posterior art. 187 do Código Civil? Lógico que não, pois se o legislador complementar exigiu que a lei ordinária estipulasse procedimentos específicos como condição para a aplicação da norma tributária específica sobre abuso de direito (parágrafo único do art. 116 do CTN), não vejo como tal condição seja dispensável para a aplicação da norma de direito privado sobre o abuso do direito (art. 187 do CC) no campo tributário. Observese que é totalmente justificável a preocupação do legislador complementar ao exigir que a lei ordinária disciplinasse os procedimentos para que o Fisco pudesse desconsiderar atos abusivos, tendo em vista que, ao contrário do abuso direito no campo cível que ocorre em uma relação de coordenação entre particulares; no campo tributário, há sempre uma relação de subordinação, na qual, em razão do interesse público, é conferida uma superioridade ao Estado Fiscal sobre o particular. Por isso, é necessário que se estabeleça procedimentos, para garantir o mais amplo direito de defesa ao contribuinte, em razão do enorme poder que foi conferido ao Estado Fiscal por uma norma de caráter excessivamente aberto. Ademais, há que se ter em conta que a teoria do abuso de direito foi concebida dentro do direito privado, razão pela qual guarda certas incompatibilidades com o Direito Público, como observa Alberto Xavier (in Tipicidade da Tributação, Simulação e Norma Antielisiva, Ed. Dialética, p.107): “A transposição da doutrina civilista do abuso de direito para o Direito Público, em especial para o Direito Tributário, merece severas objeções. Fl. 544DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 545 34 A primeira é a de que ela conduz a um grau de subjetivismo na aplicação da lei tributária incompatível com a segurança jurídica, nas suas vertentes de proteção da confiança da lei fiscal e de previsibilidade da ação estatal, pois comete a órgãos do Poder Executivo, que têm a primeira palavra na aplicação das normas tributárias aos casos concretos, a perquirição dos motivos da conduta negocial dos particulares, bem como a definição autoritária dos parâmetros da ‘adequação’, da ‘normalidade’ e da ‘razoabilidade’ dos modelos negociais por eles adotados. Tal subjetivismo – ainda que nas mãos do mais competente, correto e leal funcionário – gelará de justo temor todos os que realizam negócios menos tributados que outros. Será que a opção adotada foi elisiva? Como pensará o agente fiscal a respeito da adequação, usualidade ou razoabilidade da forma jurídica escolhida? Como avaliará tal agente o grau de preponderância, exclusividade ou concorrência dos motivos que conduziram à escolha? A segunda observação é de que a doutrina do abuso de direito é cientificamente equivocada, pois transplanta para as relações de Direito Público entre o indivíduo e estado conceitos exclusivamente aplicáveis às relações entre particulares. A doutrina do abuso de direito pressupõe direitos e relações paritárias, situadas horizontalmente no mesmo plano, e tem por objeto vedar que o exercício de um direito subjetivo por um particular atinja, por colisão, o direito subjetivo de outro. Sucede, porém, que as relações entre indivíduo e Estado não são relações paritárias, situadas horizontalmente no mesmo plano, nem o Estado é titular de direitos subjetivos suscetíveis de serem lesados pelo exercício de direitos dos particulares. As relações entre indivíduo e estado são relações entre “administrados”e titulares de poderes de autoridade, sendo por conseguinte relações, não entre direitos subjetivos, mas entre liberdades e competências ou poderes funcionais. (...) A única explicação histórica para o ingresso, no teritório fiscal, daquela doutrina só pode encontrarse no espúrio conceito germânico de “abuso de formas” (Missbrauch von Formen) concebido por ideólogo nacional socialista como instrumento de cerceamento da liberdade individual, conceito esse que ademais nada tem a ver com o conceito civilístico de abuso de direito, raiz francesa, mas sim com as variações que a autonomia da vontade pode imprimir aos modelos ou tipos clássicos de negócio jurídico.”. Isso, por si só, já afastaria a imputação de abuso de direito com base unicamente no art. 187 do Código Civil em matéria tributária. Fl. 545DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 546 35 Ademais, para a aplicação do art. 187 do Código Civil, teríamos que primeiro indagar, in casu, qual o direito que foi abusado? Segundo, quais seriam os limites econômicos ou sociais a serem observados? Conforme já dito, não restou demonstrado que a JBS Global A/S não tivesse substância econômica nem que não houvesse qualquer finalidade em sua constituição. Sobre a inaplicabilidade do parágrafo único do art. 116 do CTN, vale trazer a opinião de Marco Aurélio Grecco, revelada em palestra proferida na Escola Fazendária (transcrita na íntegra nos Anais do Seminário Internacional sobre Elisão Fiscal, ano 2002), in verbis: “A meu ver, essa é uma norma de eficácia limitada. O que significa? Ela só adquire plena eficácia a partir do momento em que for publicada a sua lei ordinária integrativa.” Por último, vale salientar que, ainda que aplicável fosse o parágrafo art. 116 do CTN, ele só autorizaria o Fisco a desconsiderar atos, o que não se confunde com personalidade jurídica, ou seja, ainda que aplicável tal norma, não haveria competência legal para o Fisco desconsiderar a personalidade jurídica da JBS Global A/S constituída na Dinamarca. A legislação empresarial determina que o lucro de controladas indiretas das quais a controladora não tenha qualquer participação direta sejam nela reconhecidos diretamente sem consolidação na intermediária? À luz da legislação da legislação brasileira, a apuração de lucros em uma investida só impactará o patrimônio da sua investidora: quando distribuídos, no caso de investida avaliada pelo custo de aquisição (regime de caixa); ou quando apurado o lucro pela investida, no caso de investida avaliada pelo MEP (regime de competência). Ocorre que, no balanço individual da investidora só há registro das investidas nas quais a investidora tenha alguma participação direta. Assim, no balanço individual da recorrente, não há o registro de investimentos nas suas controladas indiretas nas quais não tenha qualquer participação direta. Por exemplo, embora a JBS Global BeefCompany S/U LDA seja controlada indiretamente pela recorrente, ela não consta do balanço individual da recorrente, já que a recorrente não tem qualquer participação direta nela. Assim, os lucros da JBS Global BeefCompany S/U LDA irão impactar o resultado da sua controladora direta, ou seja, da JBS Global A/S – Dinamarca, logicamente, no momento estabelecido pela legislação empresarial da Dinamarca. Isso se aplica a todas as investidas da JBS Global A/S, nas quais a recorrente não tinha qualquer participação direta. Ora, é o resultado da JBS Global A/S, no qual se inclui todas as suas receitas de participação nos resultados das suas investidas, que se constituirá em receita de participação da recorrente no resultado da JBS Global A/S. Assim, à luz da nossa legislação empresarial e tributária, não há respaldo para a conclusão do I. Autuante, sintetizada no seguinte parágrafo do TVF, in verbis: “13.4. TRIBUTAÇÃO DE RESULTADOS DE CONTROLADAS INDIRETAS Fl. 546DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 547 36 A legislação brasileira não restringe a tributação universal aos lucros auferidos via controladas diretas, mas alcança também os resultados apurados pelas controladas indiretas, conforme exposto abaixo. Os lucros conduzidos por intermédio da Global A/S Dinamarca não forma tributados pela JBS, sob o argumento de que estaria, resguardados pelo Tratado BrasilDinamarca. O acordo internacional, todavia, não alcança os lucros gerados por pessoa jurídica que não reside em qualquer dos EstadosContratantes, ou seja, gerados por JBS Global BeefCompany S/U LDA. (Ilha da Madeira), JBS Global (Reino Unido) Limited, Arab/Friboi e Friboi/Egy (Egito). Primeiro, é certo que o art. 74 da MP 2.15835, de 2001, alcança diretamente também os lucros das controladas indiretas, desde que, a controladora brasileira tenha um mínimo de participação direta. Por exemplo, uma controladora brasileira “A” detém 1% do capital da investida no exterior “C”, mas C é sua controlada indireta porque A detém 100% do capital de outra investida no exterior “B”, a qual detém 80% do capital de “C”. Nos casos das investidas da JBS Global A/S Dinamarca, a recorrente não tinha qualquer participação direta. Segundo, como a receita na participação nos lucros das controladas diretas da JBS Global A/S Dinamarca irão entrar no cálculo do seu resultado, é lógico que este resultado se sujeitará às normas do DTA BrasilDinamarca, já que não restou devidamente demonstrado, conforme antes tratado, o treaty shopping. Terceiro, o equívoco do autuante é tão gritante que somou nas bases tributáveis o lucro da JBS Global BeefCompany S/U LDA. (Ilha da Madeira), no valor de 15.734.721,47 de euros, com os lucros da sua controlada direta JBS Global (Reino Unido), no valor de 128.335,42 euros, como também com os lucros das contoladas diretas desta situadas no Egito, no valor de 2.067.610,66 euros, sem qualquer demonstração de que na apuração dos 15.734.721,47 de euros não tinham sido incluídos os 128.335,42 euros, como também, sem demonstrar que na apuração deste resultado (128.335,42 euros) não tinham sido computados os 2.067.610,66 euros. Por último, o equívoco exegético do autuante é claro, pois o art. 74 da MP 2.15835, de 2001, nada fala expressamente sobre equivalência patrimonial, mas, hoje, não há dúvida, mormente depois do julgamento no STF, que tal dispositivo só pode ser aplicado nos casos de investidas avaliadas pelo MEP, por quê? Porque somente os lucros das investidas avaliadas pelo MEP podem impactar o patrimônio da investidora antes de serem distribuídos. Ora, como pode querer o autuante que os lucros de uma pessoa jurídica na qual a recorrente não tem qualquer participação direta (a investida não é um ativo em seu balanço individual), possa impactar diretamente seu resultado (da recorrente)? Como seria esse lançamento contábil? Se fosse uma investida na qual a recorrente tivesse participação direta, o lançamento contábil seria simples, ou seja, a débito de investimento e a crédito de receita de MEP. Agora, se a investida não é um ativo da recorrente, como o Autuante proporia, pelo regime de competência, o registro contábil da receita na participação nos lucros dela pela recorrente? Isso mostra a improcedência do lançamento no que toca à receita de participação nos lucros das investidas nas quais a recorrente não tinha participação direta. Por todas essas razões, afasto das bases tributáveis os lucros apurados pelas JBS Global BeefCompany S/U LDA. (Ilha da Madeira), JBS Global (Reino Unido) e Arab/Friboi/Egypt LLC, no montante de R$ 50.568.785,85 (correspondente a 17.930.667,55 euros à taxa de câmbio utilizada pelo autuante, conforme itens 10 e 11 do TVF). DA NECESSIDADE DE DILIGÊNCIA Fl. 547DF CARF MF Processo nº 16643.720019/201110 Resolução nº 1302000.457 S1C3T2 Fl. 548 37 Por último, foi incluída também, nas bases tributáveis do lançamento em tela, os lucros da Friboi Investments (Ilhas Virgens Britânicas), o qual teria sido, em 2006, no montante de US$ 5.572.855,17, matéria que não se confunde com a anteriormente tratada, se não vejamos o que se segue. Primeiramente, a Friboi Investment é um controlada direta situada em paraíso fiscal, razão pela qual não há dúvida da aplicação do art. 74 da MP 2.15835, de 2001, aos lucros por ela apurados. Segundo, ocorre que o autuante não discorre sobre a situação fática específica da Friboi Investment, especialmente pelo fato de que, na DIPJ a fls. 348, a recorrente declarou os lucros da Friboi Investments (BVI) no valor de R$ 11.914.764,36, valor esse que convertido em reais pela taxa de câmbio utilizada pelo autuante (2,138), monta justamente US$ 5.572.855,14, lucro apurado em 2006 pela Friboi Investments. Vale salientar que o Autuante adicionou às bases tributáveis apenas R$ 7.465.695,28, ou seja, US$ 3.491.906,12, pois abateu do resultado de 2006 da Friboi Investments (US$ 5.572.855,14) o prejuízo apurado em 2005, no montante de US$ 2.080.949,05, conforme exposto nos items 10 e 11 do TVF (a fls. 84/85). Não obstante as folhas da DIPJ/AC 2006, juntada aos autos, revelem que a recorrente declarou os lucros da Friboi Investments (BVI) no valor de R$ 11.914.764,36. Todavia, a DIPJ incompleta e os demais documentos dos autos não permitem saber qual o IRPJ apurado e, além disso, não consta dos autos a DCTF do período nem qualquer informação sobre pagamentos feitos pela recorrente a título de IRPJ e CSLL referente ao lucro real e a base ajustada de 2006, informações que se tornam fundamentais para a solução da lide. Em face do exposto, proponho a conversão do processo em diligência, para que a Unidade de Origem, realizando as diligências que se fizerem necessárias, adote as seguintes providências: a) informar qual os valores a título de IRPJ e de CSLL referente ao lucro real e base ajustada de 2006 declarados pela recorrente, fazendo juntar a respectiva DCTF e cópia completa da DIPJ do referido ano calendário; b) informar se, nas bases tributáveis do IRPJ e CSLL do AC 2006, foi incluído o valor de R$ 11.914.764,36, referente a receita de participação nos lucros da Friboi Investments (BVI); c) informar os pagamentos realizados pela recorrente a título de IRPJ e CSLL do AC 2006; d) dar ciência à recorrente do relatório de diligência, concedendolhe prazo para se manifestar nos autos. (assinado digitalmente) Alberto Pinto Souza Junior. Fl. 548DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.727141/2010-23
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 11 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Jun 09 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2008
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MATÉRIA DECIDIDA PELO STJ NA SISTEMÁTICA DO ART. 543C DO CPC.
O art. 62A do RICARF obriga a utilização da regra do REsp nº 1.306.393/DF, julgado em 24/10/2012, decidido na sistemática do art. 543C do Código de Processo Civil.
IRPF. ISENÇÃO SOBRE OS RENDIMENTOS AUFERIDOS POR TÉCNICOS A SERVIÇO DAS NAÇÕES UNIDAS. PNUD. DEVER DE COERÊNCIA NA ATUAÇÃO ADMINISTRATIVA.
Consoante entendimento consignado no Recurso Especial n.º 1.306.393/DF, eleito como representativo da controvérsia e julgado sob o rito do art. 543C do CPC, o STJ ratificou o entendimento firmado pela 1º Seção, no REsp nº 1.159.379/DF (Relator Ministro Teori Zavascki), no sentido de que são isentos do imposto de renda os rendimentos do trabalho recebidos por técnicos a serviço das Nações Unidas, contratados no Brasil para atuar como consultores no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD. No referido julgamento, entendeu o relator que os "peritos" a que se refere o Acordo Básico de Assistência Técnica com a Organização das Nações Unidas, suas Agências Especializadas e a Agência Internacional de Energia Atômica, promulgado pelo Decreto 59.308/66, estão ao abrigo da norma isentiva do imposto de renda. Conforme decidido pela Primeira Seção, o Acordo Básico de Assistência Técnica atribuiu os benefícios fiscais decorrentes da Convenção sobre Privilégios e Imunidades das Nações Unidas, promulgada pelo Decreto 27.784/50, não só aos funcionários da ONU em sentido estrito, mas também aos que a ela prestam serviços na condição de "peritos de assistência técnica", no que se refere a essas atividades específicas. Caso em que a hipótese dos autos (consultor independente) se subsume à situação tratada no recurso repetitivo.
Numero da decisão: 2401-004.814
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso voluntário e, no mérito, dar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Lazarini - Presidente
(assinado digitalmente)
Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Rayd Santana Ferreira, Denny Medeiros da Silveira, Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez.
Nome do relator: LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA
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MATÉRIA DECIDIDA PELO STJ NA SISTEMÁTICA DO ART. 543C DO CPC. O art. 62A do RICARF obriga a utilização da regra do REsp nº 1.306.393/DF, julgado em 24/10/2012, decidido na sistemática do art. 543C do Código de Processo Civil. IRPF. ISENÇÃO SOBRE OS RENDIMENTOS AUFERIDOS POR TÉCNICOS A SERVIÇO DAS NAÇÕES UNIDAS. PNUD. DEVER DE COERÊNCIA NA ATUAÇÃO ADMINISTRATIVA. Consoante entendimento consignado no Recurso Especial n.º 1.306.393/DF, eleito como representativo da controvérsia e julgado sob o rito do art. 543C do CPC, o STJ ratificou o entendimento firmado pela 1º Seção, no REsp nº 1.159.379/DF (Relator Ministro Teori Zavascki), no sentido de que “são isentos do imposto de renda os rendimentos do trabalho recebidos por técnicos a serviço das Nações Unidas, contratados no Brasil para atuar como consultores no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD”. No referido julgamento, entendeu o relator que os "peritos" a que se refere o Acordo Básico de Assistência Técnica com a Organização das Nações Unidas, suas Agências Especializadas e a Agência Internacional de Energia Atômica, promulgado pelo Decreto 59.308/66, estão ao abrigo da norma isentiva do imposto de renda. Conforme decidido pela Primeira Seção, o Acordo Básico de Assistência Técnica atribuiu os benefícios fiscais decorrentes da Convenção sobre Privilégios e Imunidades das Nações Unidas, promulgada pelo Decreto 27.784/50, não só aos funcionários da ONU em sentido estrito, mas também aos que a ela prestam serviços na condição de "peritos de assistência técnica", no que se refere a AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 71 41 /2 01 0- 23 Fl. 171DF CARF MF 2 essas atividades específicas. Caso em que a hipótese dos autos (consultor independente) se subsume à situação tratada no recurso repetitivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso voluntário e, no mérito, darlhe provimento. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Lazarini Presidente (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Rayd Santana Ferreira, Denny Medeiros da Silveira, Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez. Fl. 172DF CARF MF Processo nº 10580.727141/201023 Acórdão n.º 2401004.814 S2C4T1 Fl. 3 3 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeiro grau que negou provimento à impugnação apresentada pelo contribuinte. Contra o contribuinte em epígrafe foi lavrada notificação de lançamento de Imposto sobre a Renda de Pessoa Física do exercício de 2008, no valor total de R$ 6.945,39, conforme descrição dos fatos e enquadramento legal de fls. 26 a 30. A autoridade fiscal efetuou o lançamento de ofício em face de omissão de rendimentos recebidos do exterior. O contribuinte apresentou sua impugnação alegando, em síntese, que não houve omissão de rendimentos, pois, informou esses rendimentos no campo “rendimentos isentos e tributáveis” da declaração; Prestou na época serviços à Organização das Nações Unidas, serviços estes, que tinham como viabilidade a reforma institucional do setor de saneamento brasileiro, que é relevante para a nação; Pela prestação dos seus serviços o contribuinte recebeu uma remuneração oriunda do Programa das Nações Unidas para o DesenvolvimentoPNUD, valor este que foi considerado omitido pela autoridade fiscal, mas, esses valores são considerados isentos do imposto sobre a renda, por se tratar de programa de cunho social global e fomentado pela ONU, fundamentandose no artigo 5º do decreto n° 1.041/93, que trata da isenção do imposto de renda para os servidores de organismos internacionais de que o Brasil faça parte; Indica ainda o decreto nº 59.308 e o decreto nº 27.784/1950, que tratam de imunidades e privilégios das Nações Unidas; Discorre sobre a inaplicabilidade da multa e os juros de mora, pois, estão fundamentados em fato inexistente, e mesmo que fossem aplicados deveriam estar em conformidade com o artigo 150, inciso IV, da Constituição Federal; Com essas considerações, requer a improcedência total do lançamento, ou, alternadamente, a exclusão da multa e a limitação dos juros ao patamar de 1% ao mês. Em virtude da Instrução Normativa RFB nº 958/2009, alterada pela Instrução Normativa nº 1.061/2010, o lançamento foi objeto de revisão de ofício pela unidade local de domicílio do contribuinte, que manteve integralmente o crédito tributário conforme termo circunstanciado e despacho decisório de fls. 85/87. Em face do despacho decisório mencionado, o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade fls. 92/102, alegando em síntese que o termo circunstanciado não abordou questões de direito inicialmente aventadas, quais sejam: Fl. 173DF CARF MF 4 (i) Que o impugnante não omitiu qualquer receita, mas, que, as receitas a que se refere o lançamento foram declaradas como rendimentos isentos e não tributáveis pelo fato de que são oriundos de remuneração do Programa das Nações Unidas – PNUD, isenta do imposto de renda, discorrendo longamente a respeito da importância social do projeto, que dá tratamento diferenciado garantido pela própria Federação, transcrevendo o artigo 5º do Decreto 1.041/93; (ii) Afirma ainda que o artigo não fala em empregado, mas, em servidor, citando ainda o artigo 5º do decreto 59.308 e o artigo V Seção 18 do decreto 27.784/50, que tratam de benefícios de funcionários da Organização das Nações Unidas, entendendo que na acepção ampla da palavra, gozam de isenção relativa ao IR em decorrência da serventia à ONU, independentemente de ser funcionário empregado da organização ou seu servidor temporário; Transcreve jurisprudência. A 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Campo Grande (MS) manteve o crédito tributário através do acórdão nº 0439.718 (fls. 142/145), com a seguinte consideração: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2008 RENDIMENTOS ISENTOS DE SERVIDORES E FUNCIONÁRIOS DE ORGANISMOS INTERNACIONAIS. Não se pode estender a isenção prevista para servidores e funcionários de organismos internacionais de que o Brasil faça parte, para prestadores de serviços temporários. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido” Posteriormente, dentro do lapso temporal legal, foi interposto Recurso Voluntário (fls. 151/167) reprisando os mesmos argumentos anteriormente apresentados, no sentido de que o contribuinte era servidor do PNUD e, como tal, teria direito à isenção do imposto cobrado, bem como afirma a insubsistência da multa aplicada (75%). É o relatório. Fl. 174DF CARF MF Processo nº 10580.727141/201023 Acórdão n.º 2401004.814 S2C4T1 Fl. 4 5 Voto Conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora 1. DOS PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE 1.1. DA TEMPESTIVIDADE O Recorrente foi cientificado da r. decisão em debate no dia 20/07/2015, conforme AR à fl. 149, e o presente Recurso Voluntário foi apresentado, TEMPESTIVAMENTE, no dia 29/07/2015, razão pela qual CONHEÇO DO RECURSO já que presentes os requisitos de admissibilidade. 2. DO MÉRITO A questão central nos presentes autos reside em saber se a remuneração recebida pelo contribuinte, oriunda do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD está isenta do imposto sobre a renda. Sobre o tema, o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do Recurso Especial nº 1.306.393/DF, de relatoria do Ministro Mauro Campbell Marques, com acordão submetido ao regime do artigo 543C do Código de Processo Civil/1973 (Recursos Repetitivos), assim decidiu: “TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA (ART. 543C DO CPC). ISENÇÃO DO IMPOSTO DE RENDA SOBRE OS RENDIMENTOS AUFERIDOS POR TÉCNICOS A SERVIÇO DAS NAÇÕES UNIDAS, CONTRATADOS NO BRASIL PARA ATUAR COMO CONSULTORES NO ÂMBITO DO PNUD/ONU. 1. A Primeira Seção do STJ, ao julgar o REsp 1.159.379/DF, sob a relatoria do Ministro Teori Albino Zavascki, firmou o posicionamento majoritário no sentido de que são isentos do imposto de renda os rendimentos do trabalho recebidos por técnicos a serviço das Nações Unidas, contratados no Brasil para atuar como consultores no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD. No referido julgamento, entendeu o relator que os "peritos" a que se refere o Acordo Básico de Assistência Técnica com a Organização das Nações Unidas, suas Agências Especializadas e a Agência Internacional de Energia Atômica, promulgado pelo Decreto 59.308/66, estão ao abrigo da norma isentiva do imposto de renda. Conforme decidido pela Primeira Seção, o Acordo Básico de Assistência Técnica atribuiu os benefícios fiscais decorrentes da Convenção sobre Privilégios e Imunidades das Nações Unidas, promulgada pelo Decreto 27.784/50, não só aos funcionários da ONU em sentido estrito, mas também aos que a ela prestam serviços na condição de "peritos de assistência Fl. 175DF CARF MF 6 técnica", no que se refere a essas atividades específicas. 2. Considerando a função precípua do STJ de uniformização da interpretação da legislação federal infraconstitucional , e com a ressalva do meu entendimento pessoal, deve ser aplicada ao caso a orientação firmada pela Primeira Seção. 3. Recurso especial provido. Acórdão submetido ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ n. 8/08”. (STJ, 1ª Seção, REsp 1306393/DF, rel. Ministro Mauro Campbell Marques, julgado em 24/10/2012, DJe 07/11/2012) Em seu voto, o Ministro relator assim dispõe: “[...] No entanto, na assentada do dia 8 de junho de 2011, ao julgar o REsp 1.159.379/DF, sob a relatoria do Ministro Teori Albino Zavascki, a Primeira Seção desta Corte, por maioria de quatro votos a três, firmou o entendimento no sentido de que são isentos do imposto de renda os rendimentos do trabalho recebidos por técnicos a serviço das Nações Unidas, contratados no Brasil para atuar como consultores no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD. No referido julgamento, entendeu o relator que os "peritos" a que se refere o Acordo Básico de Assistência Técnica com a Organização das Nações Unidas, suas Agências Especializadas e a Agência Internacional de Energia Atômica, promulgado pelo Decreto 59.308/66, estão ao abrigo da norma isentiva do imposto de renda. Transcrevo trechos de relevo do voto do Min. Teori Zavascki, in verbis: (...) Conforme decidido pela Primeira Seção, o Acordo Básico de Assistência Técnica atribuiu os benefícios fiscais decorrentes da Convenção sobre Privilégios e Imunidades das Nações Unidas, promulgada pelo Decreto 27.784/50, não só aos funcionários da ONU em sentido estrito, mas também aos que a ela prestam serviços na condição de "peritos de assistência técnica", no que se refere a essas atividades específicas. [...]” A partir daí, passou então o CARF a decidir segundo o posicionamento expresso pelo Superior Tribunal de Justiça. Recordese: “IRPF. ISENÇÃO SOBRE OS RENDIMENTOS AUFERIDOS POR TÉCNICOS A SERVIÇO DAS NAÇÕES UNIDAS. Consoante entendimento consignado no Recurso Especial n.º 1.306.393/DF, eleito como representativo da controvérsia e julgado sob o rito do art. 543C do CPC, o STJ ratificou o entendimento firmado pela 1ª Seção, no REsp n.º 1.159.379/DF (Relator Ministro Teori Zavascki), no sentido de que “são isentos do imposto de renda os rendimentos do trabalho recebidos por técnicos a serviço das Nações Unidas, contratados no Brasil para atuar como consultores no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD”. No referido julgamento, entendeu o relator que os "peritos" a que se refere o Acordo Básico de Assistência Técnica com a Organização das Nações Unidas, suas Agências Especializadas e a Agência Internacional de Energia Atômica, promulgado pelo Fl. 176DF CARF MF Processo nº 10580.727141/201023 Acórdão n.º 2401004.814 S2C4T1 Fl. 5 7 Decreto 59.308/66, estão ao abrigo da norma isentiva do imposto de renda. Conforme decidido pela Primeira Seção, o Acordo Básico de Assistência Técnica atribuiu os benefícios fiscais decorrentes da Convenção sobre Privilégios e Imunidades das Nações Unidas, promulgada pelo Decreto 27.784/50, não só aos funcionários da ONU em sentido estrito, mas também aos que a ela prestam serviços na condição de "peritos de assistência técnica", no que se refere a essas atividades específicas. Recurso Provido”. (CARF, 2ª Seção de Julgamento, 1ª Câmara / 2ª Turma Ordinária, relatora Conselheira Alice Grecchi, Acórdão nº 2102003.265, Sessão de 11 de fevereiro de 2015) “PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MATÉRIA DECIDIDA PELO STJ NA SISTEMÁTICA DO ART. 543C DO CPC. O art. 62A do RICARF obriga a utilização da regra do REsp nº 1.306.393/DF, julgado em 24/10/2012, decidido na sistemática do art. 543C do Código de Processo Civil. RENDIMENTOS AUFERIDOS POR TÉCNICOS A SERVIÇO DAS NAÇÕES UNIDAS, CONTRATADOS NO BRASIL PARA ATUAR COMO CONSULTORES NO ÂMBITO DO PNUD/ONU. ISENÇÃO. Consoante entendimento consignado no Recurso Especial n.º 1.306.393/DF, eleito como representativo da controvérsia e julgado sob o rito do art. 543C do CPC, o STJ ratificou o entendimento firmado pela 1º Seção, no REsp nº 1.159.379/DF (Relator Ministro Teori Zavascki), no sentido de que “são isentos do imposto de renda os rendimentos do trabalho recebidos por técnicos a serviço das Nações Unidas, contratados no Brasil para atuar como consultores no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD”. No referido julgamento, entendeu o relator que os "peritos" a que se refere o Acordo Básico de Assistência Técnica com a Organização das Nações Unidas, suas Agências Especializadas e a Agência Internacional de Energia Atômica, promulgado pelo Decreto 59.308/66, estão ao abrigo da norma isentiva do imposto de renda. Conforme decidido pela Primeira Seção, o Acordo Básico de Assistência Técnica atribuiu os benefícios fiscais decorrentes da Convenção sobre Privilégios e Imunidades das Nações Unidas, promulgada pelo Decreto 27.784/50, não só aos funcionários da ONU em sentido estrito, mas também aos que a ela prestam serviços na condição de "peritos de assistência técnica", no que se refere a essas atividades específicas. Caso em que a hipótese dos autos (consultor independente) se subsume à situação tratada no recurso repetitivo. Recurso Voluntário Provido”. (CARF, 2ª Seção de Julgamento, 1ª Câmara 2ª Turma Ordinária, relator Conselheiro Fl. 177DF CARF MF 8 Rubens Mauricio Carvalho, Acórdão nº 2102002.799, Sessão de 21 de janeiro de 2014) Esse entendimento foi repetido, à guisa de exemplo, nos Acórdãos CARF nº 2802003.249, 2102003.032 e 2801003.381, dentre vários outros. É de ser citada ainda a Solução de Consulta da Coordenação Geral de Tributação da Receita Federal – Consist, nº 64, de 07 de março de 2014, cuja ementa transcrevo a seguir: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF EMENTA: IRPF. ISENÇÃO. RENDIMENTOS RECEBIDOS POR TÉCNICOS A SERVIÇO DA ONU CONTRATADOS NO BRASIL PARA ATUAREM NO PNUD. RECURSO ESPECIAL Nº 1.306.393/DF. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), ao julgar o Recurso Especial nº 1.306.393/DF, no âmbito da sistemática do art. 543C do Código de Processo Civil (CPC), estabeleceu que estão isentos do imposto de renda os rendimentos recebidos por técnicos a serviço da Organização das Nações Unidas (ONU) contratados no Brasil para atuarem no Programa Nacional das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O STJ entendeu que a isenção se aplica tanto aos funcionários do PNUD quanto aos que a ela prestam serviço na condição de peritos de assistência técnica, categorias equiparadas em razão da aprovação, via decreto legislativo, do Acordo Básico de Assistência Técnica firmado entre o Brasil, a ONU e suas agências. A condição de perito, segundo se extrai da decisão no referido recurso especial, deriva de um contrato temporário com período préfixado ou por meio de empreitada a ser realizada (apresentação ou execução de projeto e/ou consultoria). Em razão do disposto no art. 19 da Lei nº 10.522, de 2002, na Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 1, de 2014, e na Nota PGFN/CRJ nº 1.549, a Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) encontrase vinculada ao referido entendimento. Dispositivos Legais: Lei nº 10.522, de 2002, art. 19; Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 1, de 2014; Nota PGFN/CRJ nº 1.549, de 2012”. Assim, havendo decisão do Superior Tribunal de Justiça sob a sistemática dos recursos repetitivos, esta deve ser obrigatoriamente aplicada por este Conselho, nos termos do § 2º, artigo 62 do RICARF: “[...] § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF”. Portanto, ante a imposição regimental da aplicação do precedente do STJ, deve o contribuinte beneficiarse da isenção do imposto de renda sobre os rendimentos do trabalho prestado para atuar como consultor no âmbito do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUD. Fl. 178DF CARF MF Processo nº 10580.727141/201023 Acórdão n.º 2401004.814 S2C4T1 Fl. 6 9 Pelo exposto, voto pelo provimento do Recurso Voluntário, para que seja cancelada a Omissão de Rendimentos no valor de R$ 19.200 (dezenove mil e duzentos reais) conforme apurado à fl. 29. 3. CONCLUSÃO: Pelos motivos expendidos, CONHEÇO do Recurso Voluntário para, no mérito, DAR PROVIMENTO, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. É como voto. (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa. Fl. 179DF CARF MF
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Numero do processo: 13502.000958/2005-12
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jul 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2000 a 31/12/2002
RECURSO DE OFÍCIO. VALOR DE ALÇADA INFERIOR AO ESTABELECIDO EM PORTARIA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA. NÃO CONHECIMENTO.
Não deve ser conhecido recurso de ofício cujo crédito lançado, incluindo-se valor do principal acrescido de multa, seja inferior ao estabelecido em portaria editada pelo Ministério da Fazenda. Valor de alçada previsto na Portaria MF nº 63, de 9 de fevereiro de 2017.
PIS. COFINS. BASE DE CÁLCULO. RECEITAS FINANCEIRAS. ART. 3º, § 1º, LEI Nº 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE.
As receitas que não se caracterizam como próprias da atividade da entidade, tal como estabelecido pelo estatuto ou contrato social, não compõem o seu faturamento, conforme decidido pelo Supremo Tribunal Federal, em repercussão geral, ao declarar a inconstitucionalidade da ampliação do conceito de receita bruta promovida pelo art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98. Recurso Voluntário provido.
COFINS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS E CAMBIAIS ATIVAS. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO. ART. 3º, § 1º DA LEI 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. RECONHECIMENTO. REPERCUSSÃO GERAL.
Em reafirmação de jurisprudência, em repercussão geral, o Supremo Tribunal Federal se manifestou pela inconstitucionalidade do conteúdo do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, que inovou o conceito de faturamento ampliando a base de cálculo do PIS/Pasep e da Cofins, conforme RE 585.235, o que, nos termos do art. 26-A, § 6º, I do Decreto nº 70.235/72, e art. 62 do RICARF/15, impõe a este Conselho Administrativo a aplicação desta exegese, de maneira que, no período de apuração lançado, as variações monetárias e cambiais, na qualidade de receitas financeiras, não sofrem a incidência das contribuições em comento.
COFINS. OUTRAS RECEITAS. EXCLUSÃO. IMPOSSIBILIDADE. CARÊNCIA PROBATÓRIA.
As alegações de erro na contabilização das receitas podem ser acolhidas desde que minimamente comprovadas.
Numero da decisão: 3401-003.829
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordaram os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício e dar parcial provimento ao recurso voluntário apresentado, para afastar o lançamento em relação às contas "variação monetária" e "variação cambial".
Rosaldo Trevisan - Presidente.
Leonardo Ogassawara De Araújo Branco - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Augusto Fiel Jorge DOliveira, Tiago Guerra Machado, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (Vice-Presidente), Marcos Roberto da Silva, Robson Jose Bayerl, André Henrique Lemos, Cleber Magalhães.
Nome do relator: LEONARDO OGASSAWARA DE ARAUJO BRANCO
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2000 a 31/12/2002 RECURSO DE OFÍCIO. VALOR DE ALÇADA INFERIOR AO ESTABELECIDO EM PORTARIA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA. NÃO CONHECIMENTO. Não deve ser conhecido recurso de ofício cujo crédito lançado, incluindo-se valor do principal acrescido de multa, seja inferior ao estabelecido em portaria editada pelo Ministério da Fazenda. Valor de alçada previsto na Portaria MF nº 63, de 9 de fevereiro de 2017. PIS. COFINS. BASE DE CÁLCULO. RECEITAS FINANCEIRAS. ART. 3º, § 1º, LEI Nº 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. As receitas que não se caracterizam como próprias da atividade da entidade, tal como estabelecido pelo estatuto ou contrato social, não compõem o seu faturamento, conforme decidido pelo Supremo Tribunal Federal, em repercussão geral, ao declarar a inconstitucionalidade da ampliação do conceito de receita bruta promovida pelo art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98. Recurso Voluntário provido. COFINS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS E CAMBIAIS ATIVAS. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO. ART. 3º, § 1º DA LEI 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. RECONHECIMENTO. REPERCUSSÃO GERAL. Em reafirmação de jurisprudência, em repercussão geral, o Supremo Tribunal Federal se manifestou pela inconstitucionalidade do conteúdo do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, que inovou o conceito de faturamento ampliando a base de cálculo do PIS/Pasep e da Cofins, conforme RE 585.235, o que, nos termos do art. 26-A, § 6º, I do Decreto nº 70.235/72, e art. 62 do RICARF/15, impõe a este Conselho Administrativo a aplicação desta exegese, de maneira que, no período de apuração lançado, as variações monetárias e cambiais, na qualidade de receitas financeiras, não sofrem a incidência das contribuições em comento. COFINS. OUTRAS RECEITAS. EXCLUSÃO. IMPOSSIBILIDADE. CARÊNCIA PROBATÓRIA. As alegações de erro na contabilização das receitas podem ser acolhidas desde que minimamente comprovadas.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 10; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2066; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C4T1 Fl. 619 1 618 S3C4T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 13502.000958/200512 Recurso nº De Ofício e Voluntário Acórdão nº 3401003.829 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 27 de junho de 2017 Matéria Cofins Recorrente DOW BRASIL NORDESTE LTDA Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2000 a 31/12/2002 RECURSO DE OFÍCIO. VALOR DE ALÇADA INFERIOR AO ESTABELECIDO EM PORTARIA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA. NÃO CONHECIMENTO. Não deve ser conhecido recurso de ofício cujo crédito lançado, incluindose valor do principal acrescido de multa, seja inferior ao estabelecido em portaria editada pelo Ministério da Fazenda. Valor de alçada previsto na Portaria MF nº 63, de 9 de fevereiro de 2017. PIS. COFINS. BASE DE CÁLCULO. RECEITAS FINANCEIRAS. ART. 3º, § 1º, LEI Nº 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. As receitas que não se caracterizam como próprias da atividade da entidade, tal como estabelecido pelo estatuto ou contrato social, não compõem o seu faturamento, conforme decidido pelo Supremo Tribunal Federal, em repercussão geral, ao declarar a inconstitucionalidade da ampliação do conceito de receita bruta promovida pelo art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98. Recurso Voluntário provido. COFINS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS E CAMBIAIS ATIVAS. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO. ART. 3º, § 1º DA LEI 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. RECONHECIMENTO. REPERCUSSÃO GERAL. Em reafirmação de jurisprudência, em repercussão geral, o Supremo Tribunal Federal se manifestou pela inconstitucionalidade do conteúdo do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, que inovou o conceito de faturamento ampliando a base de cálculo do PIS/Pasep e da Cofins, conforme RE 585.235, o que, nos termos do art. 26A, § 6º, I do Decreto nº 70.235/72, e art. 62 do RICARF/15, impõe a este Conselho Administrativo a aplicação desta exegese, de maneira AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 50 2. 00 09 58 /2 00 5- 12 Fl. 683DF CARF MF 2 que, no período de apuração lançado, as variações monetárias e cambiais, na qualidade de receitas financeiras, não sofrem a incidência das contribuições em comento. COFINS. OUTRAS RECEITAS. EXCLUSÃO. IMPOSSIBILIDADE. CARÊNCIA PROBATÓRIA. As alegações de erro na contabilização das receitas podem ser acolhidas desde que minimamente comprovadas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordaram os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício e dar parcial provimento ao recurso voluntário apresentado, para afastar o lançamento em relação às contas "variação monetária" e "variação cambial". ROSALDO TREVISAN Presidente. LEONARDO OGASSAWARA DE ARAÚJO BRANCO Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Augusto Fiel Jorge D’Oliveira, Tiago Guerra Machado, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (VicePresidente), Marcos Roberto da Silva, Robson Jose Bayerl, André Henrique Lemos, Cleber Magalhães. Relatório 1. Tratase de Auto de Infração, situado às fls. 07 a 25, lavrado em 12/12/2005, com a finalidade de formalizar a exigência de Cofins acrescido de juros de mora e das multas de ofício, apurados nos períodos de 2000, 2001 e 2002. 2. Com fundamento na Portaria SRF n° 6.129, de 02 de dezembro de 2005, foi lavrado também Auto de Infração, lavrado em 12/12/2005, situado às fls. 198 a 216, lavrado com a finalidade de formalizar a exigência de PIS acrescido de juros de mora e das multas de ofício, apurados nos períodos de 2000, 2001 e 2002. 3. Intimado do auto de infração pessoalmente em 15/12/2005, a contribuinte, irresignada, em 13/01/2006, apresentou impugnação, situada às fls. 377 a 389 (Cofins) e fls. 429 a 441 (PIS). 4. Em 22/02/2010, a 4ª Turma da Delegacia Regional do Brasil de Julgamento em Salvador (BA) proferiu o Acórdão DRJ nº 1518.632, situado às fls. 542 a Fl. 684DF CARF MF Processo nº 13502.000958/200512 Acórdão n.º 3401003.829 S3C4T1 Fl. 620 3 553, sob a relatoria do AuditorFiscal Klaus Stephan Schücking, em que se decidiu, por unanimidade de votos, afastar a arguição de nulidade, e considerar procedentes em parte os lançamentos, exonerando o valor do crédito tributário referente aos períodos de apuração de janeiro, março, maio, junho, julho e outubro de 2000, março de 2001, e maio e dezembro de 2002, mantendo o crédito tributário exigido relativo aos demais períodos, em conformidade com a ementa abaixo transcrita: Assunto: Contribuição Para o Financiamento da Seguridade Soc1al Cofins Período de apuração: 01/01/2000 a 31/01/2000, 01/03/2000 a 31/03/2000, 01/05/2000 a 31/07/2000, 01/10/2000 a 31/10/2000, 01/12/2000 a 31/01/2001, 01/03/2001 a 31/03/2001, 01/06/2001 a 31/07/2001, 01/09/2001 a 30/09/2001, 01/12/2001 a 31/12/2001, 01/05/2002 a 31/05/2002, 01/12/2002 a 31/12/2002 DECADÊNCIA. Afastada a aplicação do art. 45 da Lei n° 8.212, de 1991, pelo Supremo Tribunal Federal, em face da edição da Súmula Vinculante n° 08, de 2008, considerase que o prazo decadencial é de cinco anos, contados a partir do fato gerador, nos termos do an. 150, § 4°, do Código Tributário Nacional. VARIAÇÃO CAMBIAL. As variações cambiais ativas de direitos e obrigações em moeda estrangeira compõem a base de cálculo da Cofins, e, se tributadas pelo regime de competência, devem ser reconhecidas a cada mês, independentemente da efetiva liquidação das operações correspondentes. Assumo: Contribuição para o PIS Período de apuração: 01/01/2000 a 31/01/2000, 01/03/2000 a 31/03/2000, 01/05/2000 a 31/07/2000, 01/10/2000 a 31/10/2000, 01/12/2000 a 31/01/2001, 01/03/2001 a 31/03/2001, 01/06/2001 a 31/07/2001, 01/09/2001 a 30/09/2001, 01/12/2001 a 31/12/2001, 01/05/2002 a 31/05/2002 DECADÊNCIA. Afastada a aplicação do art. 45 da Lei n° 8.212, de 1991, pelo Supremo Tribunal Federal, em face da edição da Súmula Vinculante n° 08, de 2008, considerase que o prazo decadencial e' de cinco anos, contados a partir do fato gerador, nos termos do an. 150, § 4°, do Código Tributário Nacional. VARIAÇÃO CAMBIAL. As variações cambiais ativas de direitos e obrigações em moeda estrangeira compõem a base de cálculo da contribuição para o PIS, e, se tributadas pelo Fl. 685DF CARF MF 4 regime de competência, devem ser reconhecidas a cada mês, independentemente da efetiva liquidação das operações correspondentes. Assunto: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2000 a 31/12/2002 AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. Incabível a arguição de nulidade do Auto de Infração, quando se verifica que foi lavrado por pessoa competente para fazêlo e em consonância com a legislação vigente. INCONSTITUCIONALIDADE. A Secretaria da Receita Federal do Brasil, como órgão da administração direta da União, não é competente para decidir quanto à inconstitucionalidade de norma legal. IMPUGNAÇÃO. PROVAS. A impugnação apresentada deve mencionar os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir. ERRO DE FATO. CORREÇÃO. Constatada a existência de erro de fato, ocasionando lançamento de ofício superior ao apurado como devido, devese proceder à correção. Lançamento Procedente em Parte 5. A contribuinte, intimada em 07/08/2009, via aviso postal, em conformidade com o aviso de recebimento situado à fl. 570, interpôs, em 09/09/2009, recurso voluntário de fls. 578 a 582 na qual alegou, em síntese: (i) ter sido autuada sob a alegação de ter supostamente deixado de recolher a COFINS sobre receitas financeiras e outras receitas, que não as de venda, no período de janeiro de 2000 a dezembro de 2002; (ii) que o Supremo Tribunal Federal já declarou a inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo promovido pela Lei nº 9.718/1998; (iii) deixou de incluir na base de cálculo do PIS e da COFINS as variações monetárias ativas, decorrentes da flutuação da taxa do dólar para menor, das suas obrigações registradas no passivo, sendo que, no entendimento da contribuinte, somente são considerados tributáveis os ganhos relativos à variação cambial de direitos registrados em seu ativo; (iv) não devem ser considerados tributáveis para o período em discussão as reversões de provisões, recuperação de despesas, encargos e meros estornos de lançamentos incorretos; (v) não deve ser tributada, por fim, a variação das ações detidas pela recorrente de outras companhias, uma vez que a contabilização de sua valorização (pelo método de custo de aquisição, uma vez que inaplicável o método de equivalência patrimonial), Fl. 686DF CARF MF Processo nº 13502.000958/200512 Acórdão n.º 3401003.829 S3C4T1 Fl. 621 5 foi realizada como receita por um equívoco da empresa, e para fins de cunho meramente gerencial. É o relatório. Voto Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco 6. Verificase que o valor exonerado pela decisão recorrida, a título de tributos e encargos de multa, não ultrapassou o limite de alçada aplicável à espécie, fixado em R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais), nos termos da Portaria MF nº 63, de 09/02/2017, que dispôs nos seguintes termos: Portaria MF nº 63, de 09/02/2017 Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais). § 1º O valor da exoneração deverá ser verificado por processo. § 2º Aplicase o disposto no caput quando a decisão excluir sujeito passivo da lide, ainda que mantida a totalidade da exigência do crédito tributário. Art. 2º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação no Diário Oficial da União. Art. 3º Fica revogada a Portaria MF nº 3, de 3 de janeiro de 2008. 7. Assim, o recurso de ofício não preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele não conheço. 8. O recurso voluntário é tempestivo e preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. 9. Conforme decidido pelo Supremo Tribunal Federal, em repercussão geral, ao declarar a inconstitucionalidade da ampliação do conceito de receita bruta promovida Fl. 687DF CARF MF 6 pelo art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98, as receitas que não se caracterizam como próprias da atividade da entidade, tal como estabelecido pelo estatuto ou contrato social, não compõem o seu faturamento, devendo, portanto, procederse à sua exclusão da base de cálculo das contribuições em apreço. 10. Alega, ainda, a contribuinte, que apenas os ganhos relativos à variação cambial de direitos registrados no ativo seriam tributáveis, enquanto que os ganhos advindos de obrigações registradas no passivo não constituiriam receita tributável. 11. Em seu entendimento, o art. 9° da Lei n° 9.718, de 1998, ao equiparar, para fins de tributação, a variação monetária em função da taxa de câmbio a uma receita financeira, estaria extrapolando os limites impostos pela Constituição Federal, em clara violação ao princípio da legalidade insculpido no inciso I do art. 150 da Constituição de1988, sendo que o ganho ou a perda cambial somente poderiam ser apurados na data da liquidação da operação. 12. Asseverase, com relação às variações monetárias e cambiais, já decidiu esta turma, no Acórdão CARF nº 3401003.404, proferido em 20/02/2017, de relatoria do Conselheiro Robson José Bayerl, por decisão unânime quanto à matéria, que "ainda que registradas em contas passivas, pelo regime de competência, e sua qualificação como receitas financeiras, encontrase hodiernamente ultrapassada pela decisão do STF, em sede de repercussão geral, no RE 585.235, de relatoria do Min. Cezar Peluso, Dje 28/11/2008, que reconheceu a inconstitucionalidade do art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98”, em conformidade com a ementa abaixo transcrita. COFINS. VARIAÇÕES MONETÁRIAS E CAMBIAIS ATIVAS. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO. ART. 3º, § 1º DA LEI 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. RECONHECIMENTO. REPERCUSSÃO GERAL. Em reafirmação de jurisprudência, em repercussão geral, o Supremo Tribunal Federal se manifestou pela inconstitucionalidade do conteúdo do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, que inovou o conceito de faturamento ampliando a base de cálculo do PIS/Pasep e da Cofins, conforme RE 585.235, o que, nos termos do art. 26A, § 6º, I do Decreto nº 70.235/72, e art. 62 do RICARF/15, impõe a este Conselho Administrativo a aplicação desta exegese, de maneira que, no período de apuração lançado, as variações monetárias e cambiais, na qualidade de receitas financeiras, não sofrem a incidência das contribuições em comento. 13. Transcrevese, ainda, trecho do substancioso voto do Conselheiro Robson José Bayerl respeitante à matéria: “(...) o conceito ampliado de faturamento, correspondente à totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, restou prejudicado, retomando a sua Fl. 688DF CARF MF Processo nº 13502.000958/200512 Acórdão n.º 3401003.829 S3C4T1 Fl. 622 7 acepção original, compreendendo a venda de bens nas operações de conta própria, o preço dos serviços prestados e o resultado auferido nas operações de conta alheia, como dispunha o art. 2º, caput da LC 70/91 e o art. 3º, caput da Lei nº 9.718/98. Com o advento da Lei nº 12.973/14, que alterou o art. 3º, caput da Lei nº 9.718/98 e o art. 12 do DL 1.598/77, o faturamento continuou equivalendo à receita bruta, porém, entendendose como tal o produto da venda de bens nas operações de conta própria, o preço da prestação de serviços em geral, o resultado auferido nas operações de conta alheia e as receitas da atividade ou objeto principal da pessoa jurídica não compreendidas nos incisos I a III. Portanto, alijada do sistema jurídico a equiparação de faturamento à integralidade das receitas" – (seleção e grifos nossos). 14. Cuidandose, na espécie, de pessoa jurídica cujo objeto social consiste, em conformidade com a cláusula terceira de seu contrato social, situada à fl. 410 em “fabricação, processamento, comércio, venda, importação, exportação e condução de outras atividades relacionadas à produção e venda de Etilbenzeno, Tolueno, Monômero de estireno, Poliestireno, resinas e compostos afins”, entre outras, conforme recorte abaixo, “(...) as variações monetárias e cambiais lançadas, dada sua natureza de receita financeira, não se qualificam como decorrentes da venda de bens ou prestação de serviços”, uma vez que, no período lançado, não se sujeitam à incidência das contribuições ao PIS/Pasep e Cofins: Fl. 689DF CARF MF 8 15. Por fim, quanto à tributação, pelas contribuições sociais, das reversões de provisões, recuperação de despesas, encargos e meros estornos de lançamentos incorretos, bem como da contabilização da variação positiva das ações detidas pela recorrente de outras companhias, valemonos de trecho da decisão recorrida: “Queixase a impugnante de que o auditorfiscal não teria considerado o fato das contas “receitas diversas” e “receitas pela venda de sucatas” não registrarem receitas, mas apenas estornos de lançamentos indevidos ou reembolsos de despesas, não sendo tributáveis. Inicialmente digase que os supostos estornos e reembolsos foram registrados, pela própria contribuinte, como receitas. Tal fato pode ser verificado nas planilhas de cálculo do PIS e da Cofins devidos, elaboradas pela contribuinte (fls. 4l/46 e fls. 228/233). Peguese o exemplo do mês de dezembro de 2000: a conta 780081, receitas diversas, traz o valor de R$ 42.869,24 (ver fl. 94), sendo que este exato valor foi transferido para a planilha de cálculo do auditorfiscal (ver fl. 07). Assim, não houve engano ou falta de consideração por parte da fiscalização, uma vez que se lastreou na contabilidade da empresa. Peguese o exemplo do mês de dezembro de 2000: a conta 780081, receitas diversas, traz o valor de R$ 42.869,24 (ver fl. 94), sendo que este exato valor foi transferido para a planilha de cálculo do auditorfiscal (ver fl. 07). Assim, não houve engano ou falta de consideração por parte da fiscalização, uma vez que se lastreou na contabilidade da empresa. (...) A impugnante informa que mantinha investimentos não relevantes em ações de outras companhias, avaliados pelo método de custo de aquisição, eis que não aplicável o método da equivalência patrimonial. Todavia, por questões internas, teriam sido contabilizadas receitas correspondentes à valorização dessas ações no mercado. Assim, alega que essas supostas receitas teriam mero efeito de cunho gerencial e teriam sido contabilizadas como receita por equívoco. Novamente a impugnante faz alegações desacompanhadas de provas. Se acredita ter contabilizado receitas por equívoco, fazse necessário desfazer o equívoco amparandose em prova documental, nos termos do art. 16 do Decreto n° 70.235, de 1972. Considerando que a impugnação não apresenta qualquer prova a respeito dos investimentos em outras companhias (conta 780090 Carteira de Ações), não há como se desconsiderar, neste julgamento, os valores colhidos pela fiscalização na própria contabilidade da empresa” – (seleção e grifos nossos). 16. Em casos como o presente, de lavratura de autos de infração, em que se maneja uma acusação contra o particular, o ônus de se provar o quanto alegado é do Estado, que deve lastrear seus argumentos com suficiente repertório documental. Entendemos, todavia, que a autoridade fiscal se valeu da escrita contábil da própria contribuinte para constituir o crédito tributário. Evidentemente, diante do erro na contabilização das receitas, é plenamente Fl. 690DF CARF MF Processo nº 13502.000958/200512 Acórdão n.º 3401003.829 S3C4T1 Fl. 623 9 possível que tal registro seja superado para alcançar os acontecimentos que de fato ocorreram, o que a doutrina e a jurisprudência usaram chamar de verdade material, mas desde que tais fatos, materialmente ocorridos, sejam provados. Não se está, portanto, a defender um rigor formal intransponível, muito pelo contrário: a escrita contábil é superável desde que se comprove minimamente o acontecimento em contrário, mas é e deve ser um ponto de partida precioso para qualquer auditoria fiscal, como foi aquela que culminou com a lavratura do auto de infração. No presente caso o que se observa é que em nenhum momento a contribuinte envida esforços no sentido de provar minimamente, sequer de forma indiciária, as suas alegações, restringindose a afirmar que tais valores, escriturados em sua contabilidade como “receitas” não teriam a natureza de receita e, não obstante, sem desenvolver minimamente a sua argumentação a respeito da matéria de modo a comprovar que tais valores, lançados como receitas tributáveis, são, na verdade, provenientes de reversões de provisões, recuperação de despesas, encargos e meros estornos de lançamentos incorretos, ou de mera variação positiva das ações detidas pela recorrente de outras companhias. 17. Consignese, ainda, que, em suas sucintas razões recursais, não há desenvolvimento das alegações de maneira a corroborálas documentalmente, ou sequer pedido para que, diante da dificuldade de instrução, procedase a qualquer sorte de diligência para se lastrear o quanto defendido. Assim, não resta outra conclusão senão a impossibilidade de se reconhecer tais valores como algo que não receitas, devendo o recurso voluntário ser improvido neste particular em virtude de carência probatória. Assim, voto por não conhecer o recurso de ofício e por conhecer e, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário, para o fim de excluir da base de cálculo da Cofins os valores não pertencentes ao objeto social da empresa, inclusive aqueles registrados como variações monetárias e cambiais, tributados com base no alargamento promovido pelo § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, exceto os valores das contas “receitas diversas” e “receitas pela venda de sucatas”, que devem ser mantidos na base de cálculo. Leonardo Ogassawara de Araújo Branco Relator Fl. 691DF CARF MF 10 Fl. 692DF CARF MF
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