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Numero do processo: 16561.720032/2016-85
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jan 29 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Data do fato gerador: 31/10/2012
SUJEITO PASSIVO. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO. NULIDADE.
Havendo erro na identificação do sujeito passivo, deve ser anulado o lançamento.
SOCIEDADE VEÍCULO. AUSÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL.
A utilização de sociedade veículo, de curta duração, colimando atingir posição legal privilegiada, quando ausente o propósito negocial, constitui prova da artificialidade daquela sociedade e das operações nas quais ela tomou parte. As operações levada a termo nesses moldes devem ser desqualificadas para fins tributários.
Recurso de Ofício Negado
Numero da decisão: 2202-004.866
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício.
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Presidente
(assinado digitalmente)
Martin da Silva Gesto - Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcelo de Sousa Sateles, Martin da Silva Gesto, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Andréa de Moraes Chieregatto, Wilderson Botto (Suplente convocado), Ricardo Chiavegatto de Lima, Rorildo Barbosa Correia e Ronnie Soares Anderson.
Nome do relator: MARTIN DA SILVA GESTO
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ERRO NA IDENTIFICAÇÃO. NULIDADE. Havendo erro na identificação do sujeito passivo, deve ser anulado o lançamento. SOCIEDADE VEÍCULO. AUSÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL. A utilização de sociedade veículo, de curta duração, colimando atingir posição legal privilegiada, quando ausente o propósito negocial, constitui prova da artificialidade daquela sociedade e das operações nas quais ela tomou parte. As operações levada a termo nesses moldes devem ser desqualificadas para fins tributários. Recurso de Ofício Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marcelo de Sousa Sateles, Martin da Silva Gesto, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Andréa de Moraes AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 00 32 /2 01 6- 85 Fl. 1784DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.785 2 Chieregatto, Wilderson Botto (Suplente convocado), Ricardo Chiavegatto de Lima, Rorildo Barbosa Correia e Ronnie Soares Anderson. Relatório Tratase de Recurso Ofício interposto nos autos do processo nº 16561.720032/201685, em face do acórdão nº 0134.166, julgado pela 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belém (DRJ/BEL), em sessão realizada em 04 de maio de 2017, no qual os membros daquele colegiado entenderam por julgar procedente a impugnação. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da DRJ de origem que assim os relatou: “Trata o presente processo de Auto de Infração de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) referente ao fato gerador ocorrido em 31/10/2012. A Fiscalização apurou, no curso do procedimento fiscal, a seguinte infração: a) Imposto de Renda na Fonte incidente sobre o ganho de capital auferido por residente ou domiciliado no exterior. Em decorrência da infração apurada, foi constituído o seguinte crédito tributário: Reproduzo, a seguir, a parte da descrição dos fatos contida no Termo de Verificação Fiscal: 2 GANHO DE CAPITAL APURADO NA VENDA DA COMGÁS 44. A Companhia de Gás de São Paulo Comgás, CNPJ 61.856.571/000117, era controlada pelos grupos BG e Shell desde abril de 1999 quando adquiriram o seu controle no processo de privatização do governo estadual de São Paulo, através de um consórcio composto por elas denominado Integral Fl. 1785DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.786 3 Holdings S/A, segundo consta do Relatório da Administração da Comgás referente ao ano de 1999 (doc. 84). 45. Na realidade, os fatos foram mais complexos. O capital social da Integral Holdings S/A era de RS 1.000,00 em abril de 1999, o que mostra claramente que era uma empresa sem recursos para adquirir a Comgás. Tais recursos vieram através de aumentos de capital. De acordo com a Ata da AGE da Integral Holdings S/A, realizada em 22/04/1999, às 10h00, a empresa Distribuição de Gás do Brasil Holdings Ltda. aumentou o capital social da Integral Holdings em R$1.571.080.000,00 (doc. 88) e, de acordo com a Ata da AGE da Integral Holdings S/A, realizada também em 22/04/1999, mas às 12h00, a empresa Pecten Congo Ltd. aumentou o capital social da Integral Holdings em R$77.526.987,01 (doc. 89). 46. Com isso, a Integral Holdings S/A tinha como sócias as empresas Distribuição de Gás do Brasil Holdings Ltda., sediada no Brasil, e Pecten Congo Ltd., empresa com sede em Bermuda (doc. 104), no momento da privatização, e o seu capital social passou a ser de RS 1.648.607.987,01, recursos utilizados na aquisição da fiscalizada. 47. A Integral Holdings era controlada pela Distribuição de Gás do Brasil Ltda. (DGB), com 95,7% do capital social, e Pecten Congo, com 4,3%. De acordo com a fiscalizada (doc. 71), a DGB por sua vez era controlada pela Integral Investments com 99,9%, e esta pela BG São Paulo Investments BV em 100%, estas duas últimas com sede na Holanda. 48. Em maio de 2000, a DGB sofreu redução de capital, com as ações da Integral Holdings passando para a Integral Investments, que ficou com os 95,7% daquela empresa. Na mesma época, a Pecten Congo permutou as suas ações da Integral Holdings por ações da Integral Investmcnts. Com isso, a Pecten Congo passou a deter 4,3% da Integral Investments, e esta passou a deter 100% da Integral Holdings (doc. 71). 49. Em junho de 2000, a Integral Holdings foi incorporada pela Comgás, e as suas ações passaram para a sua então Fl. 1786DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.787 4 controladora Integral Investments BV, conforme o Protocolo e Justificação da Incorporação (doc. 64). 50. De acordo com o Protocolo, na cláusula segunda, a incorporação se deu pelo valor apurado em Laudo de Avaliação com base em Balanço Patrimonial levantado na database de 30/05/2000. O Protocolo previa, também, que o acionista da incorporada receberia ações da incorporadora na mesma quantidade e mesma espécie das ações vertidas para a incorporadora na incorporação. 51. O Laudo de Avaliação (doc. 90) elaborado pela Acal Consultoria e Auditoria S/C, concluiu que o valor de mercado das ações da Comgás detidas pela Integral Holdings na data de 30/05/2000 era de R$709.482.638,78. 52. Após a incorporação, essa estrutura societária perdurou até 05/11/2012, quando se deu a venda do controle da Comgás para a Cosan, através da Provence: 53. O pagamento da compra do controle da Comgás foi efetuado através de dois contratos de câmbio (doc. 29), líquidos do Imposto de Renda incidente sobre o ganho de capital auferido pela vendedora dessa participação, a Integral Investments BV, nos seguintes valores (doc. 03): 54. O ganho de capital considerado foi de R$3.400.000.000,00 – R$1.490.180.579,10 = R$1.909.819.420,90, conforme a planilha apresentada pela fiscalizada (doc. 50):[...] 55. O valor do IRRF de R$286.472.913,13 foi calculado considerando como custo o valor do investimento direto estrangeiro declarado como utilizado na compra da Comgás pelo vendedor. Esse investimento direto, conforme o Registro Declaratório Eletrônico do sistema Sisbacen (doc. 50) teria o Fl. 1787DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.788 5 valor total de R$1.776.179.287,94, considerando a cotação do câmbio de 29/10/2012 de R$2,0296/US$ e de R$2,6194/euro, referente a aquisição de 71,91% da Comgás, que multiplicado pela participação de 83,5074% do vendedor no então consórcio controlador da Comgás, resultou no custo de R$1.490.180.579,10. 56. A forma de cálculo do IRRF sobre o ganho de capital já estava prevista no Contrato para Venda e Compra de Ações da Comgás (doc. 34). Na cláusula 2.4 trataram do IRRF sobre o ganho de capital da vendedora dispondo o seguinte: a) o valor total a ser retido do pagamento do preço será calculado pela BG em 15% do ganho de capital obtido pela Vendedora na alienação das ações, calculado tomando por referência o excedente do preço sobre o custo da aquisição referente às ações registrado no Banco Central; b) a BG notificará por escrito a Compradora do valor em reais calculado, que deverá ser retido do pagamento do preço; c) a Compradora reterá do pagamento do preço o valor notificado e pagará esse valor retido à Receita Federal do Brasil dentro do prazo previsto em lei; d) a Compradora apresentará comprovante, no prazo máximo de 20 dias, de que o valor notificado foi pago à Receita Federal do Brasil. 57. Notese que as informações declaradas no Registro Declaratório Eletrônico do sistema Sisbacen foram efetuadas sem haver contratos de câmbio que as sustentem, conforme informado pelo fiscalizado (doc. 57): "(...) esclarecemos que a Comgás passou a deter Investimento Externo Direto da Integral Investiments BV a partir de junho de 2000 (...). Tal participação direta se deu após incorporação da sua subsidiária Integral Holdings S/A pela Comgás. (...) Conforme exposto anteriormente, o investimento externo direto na Comgás pela Integral Investments BV se deu com a incorporação da Integral Holdings S/A pela fiscalizada, desta forma, inexiste os contratos de câmbio ora requeridos." (grifei) 58. O fiscalizado informou (doc. 57) que as partes vendedora e compradora consideraram como custo de aquisição para o cálculo do ganho de capital o custo do Investimento Externo Direto IED registrado no Banco Central, com fundamento no inciso I do §4o do art. 26 da IN SRF n° 208/2002: Art. 26. A alienação de bens e direitos situados no Brasil realizada por nãoresidente está sujeita à tributação definitiva sob a forma de ganho de capital, segundo as normas aplicáveis às pessoas físicas residentes no Brasil. (...) Fl. 1788DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.789 6 § 4o Na impossibilidade de comprovação, o custo de aquisição é: I apurado com base no capital registrado no Banco Central do Brasil, vinculado à compra do bem ou direito; 59. A respeito da utilização da taxa de câmbio de 29/10/2012, diz que está fundamentado no art. 18 da Lei 9.249/95, c/c §5o do art. 24 da MP 2.15835/2001, e arts. 4o e 5o da IN SRF n° 118/2000. 60. Analisando a legislação que serviu de base para o fiscalizado efetuar o cálculo do ganho de capital e o recolhimento do correspondente Imposto de Renda, verificase que essa base legal ou não é a correta ou está omitindo trechos importantes para o caso em análise. 61. O art. 18 da Lei 9.249/95 dispõe o seguinte: Art. 18. O ganho de capital auferido por residente ou domiciliado no exterior será apurado e tributado de acordo com as regras aplicáveis aos residentes no País. 62. Já o art. 26 da IN SRF 208/2002 trata dos ganhos de capital dos não residentes no Brasil, dispondo o seguinte: Art. 26. A alienação de bens e direitos situados no Brasil realizada por nãoresidente está sujeita à tributação definitiva sob a forma de ganho de capital, segundo as normas aplicáveis às pessoas físicas residentes no Brasil. §1o O ganho de capital é determinado pela diferença positiva entre o valor de alienação e o custo de aquisição do bem ou direito. §2o O custo de aquisição dos bens ou direitos adquiridos: I até 1995 pode ser atualizado com base nos índices constantes no Anexo I; II a partir de 1996 não está sujeito a atualização. § 3o O valor de aquisição do bem ou direito para fins do disposto neste artigo deve ser comprovado com documentação hábil e idônea. § 4o Na impossibilidade de comprovação, o custo de aquisição é: I apurado com base no capital registrado no Banco Central do Brasil, vinculado à compra do bem ou direito; II igual a zero, nos demais casos. § 5o Na apuração do ganho de capital de nãoresidente não se aplicam as isenções e reduções previstas para o residente no Brasil. Fl. 1789DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.790 7 63. Vêse que há condições que não foram seguidas no caso presente: o custo de aquisição dos bens ou direitos adquiridos a partir de 1996 não está sujeito a atualização; e, na impossibilidade de comprovação, o custo de aquisição é apurado com base no capital registrado no Banco Central do Brasil, vinculado à compra do bem ou direito. 64. No caso em análise, o custo de aquisição pode ser comprovado. Da mesma forma que uma pessoa física adquire uma participação societária em uma empresa, através de pagamento em espécie ou em bens, neste caso o pagamento foi em bens, as ações da Integral Holdings S/A. Logo, o custo em questão a ser considerado é o valor da Integral Holdings. Esse valor foi apurado em Laudo de Avaliação com base no Balanço Patrimonial levantado na data da incorporação, como consta no Protocolo e Justificação da Incorporação da Integral Holdings (doc. 90). Esse valor foi de R$709.482.638,78, conhecido e comprovado, e corresponde ao valor das ações da Comgás detidas pela Integral Holdings S/A quando da sua incorporação, ações essas que passaram a ser detidas pela Integral Investments BV. Assim, se a participação na Comgás foi obtida por incorporação de subsidiária da atual vendedora, o valor dessa participação sempre esteve em reais e não houve a entrada de moeda estrangeira para adquirir essa participação, mesmo porque o fiscalizado declarou não existir os contratos de câmbio que poderiam comprovar o investimento em moeda estrangeira. 65. Essa situação vem em benefício do sujeito passivo, posto que ao não comprovar o valor do investimento externo direto declarado no sistema Sisbacen, o art. 26, § 4o, inciso II, da IN 208/2002 determina que seja considerado o custo como igual a zero. 66. O fiscalizado cita o art. 24 da MP 2.15835/2001, com o seu §5o, para alegar o seguinte (doc. 57): "(...) tais dispositivos dispõe que, no caso de alienação de bens adquiridos em moeda estrangeira por pessoa residente no País, a base de cálculo do imposto de renda será a diferença positiva, em dólares, entre o valor de alienação e o custo de aquisição do bem ou direito, convertida para reais mediante a utilização da cotação do dólar da data de alienação. De acordo com esse dispositivo, juntamente com a regra geral do art. 18 da Lei 9.249/95 pela qual o ganho de capital de não residente deve ser apurado segundo as regras aplicáveis às pessoas residentes no País, entendemos como correto o tratamento dado pela fiscalizada, visto que o investimento foi realizado em moeda estrangeira". 67. O art. 24 da MP 2.15835/2001 está assim redigido: Art. 24. O ganho de capital decorrente da alienação de bens ou direitos e da liquidação ou resgate de aplicações financeiras, de propriedade de pessoa física, adquiridos, a qualquer título, em moeda estrangeira, será apurado de conformidade com o Fl. 1790DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.791 8 disposto neste artigo, mantidas as demais normas da legislação em vigor. § 5o Na hipótese de aquisição ou aplicação, por residente no País, com rendimentos auferidos originariamente em moeda estrangeira, a base de cálculo do imposto será a diferença positiva, em dólares dos Estados Unidos, entre o valor de alienação, liquidação ou resgate e o custo de aquisição do bem ou do direito, convertida para Reais mediante a utilização do valor do dólar para compra, divulgado pelo Banco Central do Brasil para a data da alienação, liquidação ou resgate, ou, no caso de operação a prazo ou a prestação, na data do recebimento de cada parcela. 68. Como se vê, o art. 24 da MP 2.15835/2001, e o seu §5o, fala em aquisição em moeda estrangeira, com rendimentos auferidos em moeda estrangeira e valor de alienação necessariamente em moeda estrangeira, se não, não seria possível uma "diferença positiva em dólares (...), convertida para Reais mediante a utilização do valor do dólar para compra, divulgado pelo Banco Central do Brasil para a data da alienação, liquidação ou resgate". Nessa hipótese, a base de cálculo do imposto será a diferença positiva, em dólares, entre o valor de alienação e o custo de aquisição do bem ou direito, que seria convertida para reais pelo valor do dólar para a data da alienação. 69. Ora, a hipótese prevista é a de aquisição de bem ou direito em dólar, com rendimentos auferidos originariamente em dólar, e alienação desse bem ou direito também em dólar. A aquisição se deu mediante a incorporação de subsidiária pela Comgás, sediada no país, logo a incorporação e as ações da Comgás obtidas estavam valoradas em reais. Os negócios da Comgás são efetuados no país, logo todos os rendimentos obtidos são obtidos originariamente em reais. A alienação da participação societária na Comgás foi efetuada em reais, de acordo com o Contrato de Compra e Venda. Nem haveria como ser feito um investimento em bens ou direitos, situados no Brasil, com valoração e circulação de recursos em moeda estrangeira de forma legal. Dessa forma, não é coerente alegar esses dispositivos para justificar a tributação adotada no ganho de capital. 70. O próprio fiscalizado ao apresentar o seu demonstrativo do ganho de capital (doc. 50 reproduzido anteriormente) mostra a incorreção de se utilizar desse dispositivo legal, já que a sua base de cálculo está calculada diretamente em reais, não demonstrando a existência de uma "diferença positiva, em dólares dos Estados Unidos, entre o valor de alienação, liquidação ou resgate e o custo de aquisição do bem ou do direito". 71. E até mesmo quando da compra da Comgás pela Integral Holdings S/A, no processo de privatização, a compra foi feita em reais pela Integral Holdings e paga ao ente estadual que Fl. 1791DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.792 9 privatizou a Comgás em reais, mesmo porque a Integral Holdings era uma empresa registrada e sediada no Brasil. 72. O fiscalizado cita ainda os arts. 4o e 5o da IN SRF n° 118/2000. Essa IN diz respeito ao ganho de capital decorrente da alienação de bens ou direitos e da liquidação ou resgate de aplicações financeiras, de propriedade de pessoa física, adquiridos, a qualquer título, em moeda estrangeira. Os arts. 4o e 5o tem basicamente o mesmo enfoque do art. 24 da MP 2.158 35/2001, também se referindo a bens e direitos adquiridos em moeda estrangeira e aplicações financeiras realizadas com rendimentos auferidos originariamente em moeda estrangeira. 73. Concluise, assim, que este caso concreto deve ser tratado conforme o art. 18 da Lei n° 9.249/95 e o art. 26 da IN SRF 208/2002, com o seu §3o, sendo a responsabilidade pela retenção e recolhimento do imposto de renda incidente sobre o ganho de capital da adquirente, pessoa jurídica residente ou domiciliada no Brasil, de acordo com o art. 26 da Lei n° 10.833/2003. Tal conclusão está, inclusive, em conformidade com a Solução de Divergência n° 16 da Cosit, de 30/08/2013, cuja ementa é a seguinte: [...] 75. Demonstrado que a apuração do ganho de capital auferido pela vendedora da participação societária na Comgás foi feita a menor, será lançada nesta fiscalização a diferença do IRRF sobre esse ganho de capital, calculado da seguinte forma, em que o "custo de aquisição proporcional" reflete a participação de 83,5074% do vendedor (BG Gas) no então consórcio controlador da Comgás (Integral Investmcnts BV): Inconformada com a autuação da qual tomou ciência em 07/04/2016 (fls. 1.466), o contribuinte apresentou impugnação em 06/05/2016 (fls. 1.468) alegando: a) Que seria necessária a busca pela verdade dos fatos, por meio da análise histórica e cronológica das operações que envolveram desde a desestatização da Comgás em 1999 até a alienação das ações ora em análise pela Integral Investments para a Provence em 2012; b) Que teriam ocorrido os seguintes eventos: Fl. 1792DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.793 10 b.1) Em 1999, com a publicação do Edital n° AS/F/805/99 o mercado foi informado pela Companhia Energética de São Paulo ("CESP") sobre a desestatização da Impugnante, até então detida pelo Estado de São Paulo, a British Gas (BG), pessoa jurídica de direito privado com sede na Inglaterra, que atua no ramo de produção de energia, e a Shell, pessoa jurídica de direito privado com sede na Holanda, que também atua no ramo de energia, entraram em tratativas e passaram por uma restruturação societária para participar do processo de privatização. b.2) Neste contexto, em 14 de abril de 1999, os Grupos BG e Shell, por meio de uma joint venture brasileira denominada Integral Holdings, arremataram o controle acionário da Impugnante em leilão, correspondente a 6.313.337.570 ações ordinárias, por R$1.648.227.251,66 (como atesta o laudo de avaliação acostado aos autos fls. 1.301 a 1337). b.3) Em 19 e 20 de abril de 1999, a BG UK Holdings Ltd. ("BG UK") sociedade pertencente ao grupo BG, contribuiu US$939.656.775,29 (valor aproximado, calculado a partir do aumento de capital no valor de R$1.571.200.000,00) ao capital social de uma sociedade brasileira recentemente adquirida pelo Grupo BG, denominada Distribuição de Gás do Brasil Ltda. (CNPJ 02.688.432/000162 "DGB"). Este valor de contribuição está suportado pelos contratos de câmbio de n° 99/001417, 99/001418, 99/001435 e 99/001436. b.4) A British Netherlands BV (" BN"), também pertencente ao Grupo BG, contribuiu US$597,45 ao capital social da DGB (valor aproximado, calculado a partir do aumento de capital no valor de R$999,00). (doc. 03) Fl. 1793DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.794 11 b.5) Em 22/04/1999, a DGB aumentou o capital social da Integral Holdings (doc. 05) b.6) Na mesma data, em 22/04/1999, a Pecten Congo Ltd. ("Pecten Congo"), pertencente ao Grupo Shell, remeteu divisas ao Brasil para aumentar o capital social da Integral Holdings em US$45.566.587,26 (valor aproximado, calculado a partir do aumento de capital no valor de R$77.526.987,00) (doc. 06 ): b.7) Mencionese, desde já, que a Integral Holdings teve um papel fundamental na aquisição do controle da Impugnante uma vez que, por meio dela, foi possível que os Grupos estrangeiros BG e Shell concentrassem seus recursos financeiros, para Fl. 1794DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.795 12 pagamento das ações adquiridas no leilão, ampliando seus negócios na América Latina. b.8) Após receber os recursos oriundos do investimento feito pelos investidores estrangeiros, a Integral Holdings realiza o pagamento pela aquisição das ações em leilão: b.9) Em 12, 18 e 19 de maio de 1999, a BG UK, por meio dos contratos de câmbio de n° 99/001756, 99/001853 e 99/001864, contribuiu mais US$85.331.912,24 ao capital social da DGB (valor aproximado, calculado a partir do aumento de capital no valor de R$141.770.439,38) (doc.03): b.10) Em 21 de maio de 1999, a Integral Holdings, em cumprimento ao disposto na cláusula 2.4.3 do Edital n° AS/F/805/99, adquiriu mais 833.222.708 ações ordinárias e 220.297.853 ações preferenciais da Impugnante, pelo montante de R$125.737.678,95, que foram ofertadas aos empregados, mas não foram por eles subscritas (doc. 07). b.11) Em 30 de agosto de 1999, em razão da restruturação do Grupo BG no exterior, a BG UK e a BN cederam a totalidade das suas quotas detidas na DGB para a British Gas São Paulo Holdings B.V., sociedade também pertencente ao Grupo BG Fl. 1795DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.796 13 ("BGSPH" conforme "4a Alteração do Contrato Social da DGB" doc. 08): b.12) A BGSPH teve a sua denominação alterada para Integral Investments (conforme Alteração do Contrato Social da DGB" doc. 09): b.13) Em maio de 2000, a Integral Holdings subscreveu mais 144.607.816 ações preferenciais da Impugnante, no valor de R$15.982.347,00, integralizadas em dinheiro, conforme laudo de avaliação anexado aos autos (fls. 1301 a 1337). Fl. 1796DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.797 14 b.14) Após a referida integralização, a Integral Holdings passou a deter um investimento na Impugnante correspondente a 7.146.560.278 ações ordinárias e 364.905.669 ações preferenciais, no montante de R$1.789.947.277,61, que tem sua origem (direta ou indireta) em capitalizações realizadas por sociedades estrangeiras. b.15) Ainda em maio de 2000, a Pecten Congo e a British Gas São Paulo Investments BV ("BGSPI"), pertencente ao Grupo BG, firmaram um contrato por meio do qual se estabeleceu que a Pecten Congo subscreveria ações da Integral Investments, que seriam integralizadas mediante a contribuição da integralidade das ações que a Pecten Congo detinha na Integral Holdings (doc. 10). b.16) Em 06 de Junho de 2000, a DGB reduziu seu capital social em R$1.712.771.990,00, correspondente à integralidade da participação societária que adquiriu na Integral Holdings com recursos oriundos da capitalização de acionista estrangeiro, mediante transferência das ações detidas nesta sociedade para sua controladora, a Integral Investments, com o conseqüente cancelamento das 1.712.771.990 ações detidas pela Integral Investments na DGB (doc. 09). b.17) Nesta mesma data, a Integral Investments vendeu a participação remanescente na DGB para a BGSPI. b.18) Após este conjunto de operações, a Integral Investments passou a ser a controladora integral da Integral Holdings. Fl. 1797DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.798 15 b.19) Assim, os registros perante o BACEN foram alterados, para refletir o investimento que a Integral Investments passou a deter na Integral Holdings, em montante correspondente, em moeda estrangeira: (i) ao investimento detido na DGB anteriormente à redução de capital e (ii) ao investimento realizado pela Pecten Congo na Integral Holdings transferido em operação de conferência de ações, nos termos, respectivamente, dos artigos 1o e 4o da CartaCircular do BACEN n° 2.313/92 (doc 11) . b.20) Em 26 junho de 2000, conforme relatado no TVF, a Impugnante incorporou a Integral Holdings, de modo que a Integral Investments passou a deter participação societária diretamente na Impugnante (fls. 1301 a 1337), mantendo o custo registrado perante o BACEN em moeda estrangeira, detido na sociedade incorporada, nos termos do artigo 2o da Carta Circular BACEN n° 2.313/92. b.21) Em 20 de abril de 2007, a Integral Investments adquiriu 1.105.495.949 ações ordinárias da Impugnante pertencentes à Shell Gas BV pelo valor de US$ 38.082.423,00 (valor aproximado), passando a deter um total de 8.616.961.896 de ações, (doc. 12). b.22) Em 26 de abril de 2007, a Assembléia Geral Extraordinária da Comgás deliberou e aprovou o aumento do seu capital social com reserva de lucros, sem emissão de novas ações, aumentando o custo do investimento detido pelos Fl. 1798DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.799 16 acionistas da Impugnante na proporção de sua participação acionária. No caso da Integral Investments, aproximadamente EUR 20.879.874,00 foram reinvestidos no país, (doc. 13) b.23) Em 04 de julho de 2007, a Integral Investments vendeu 5.000 ações ordinárias detidas na Impugnante pelo valor de US$667,30 (valor aproximado) para a BG Gas São Paulo Investments, pertencente ao grupo BG, passando a deter um total de 8.616.956.896 ações (doc. 14). b.24) Em agosto de 2007 houve o grupamento das ações da Impugnante na razão de 100/01, conforme aprovado em deliberação da Assembléia Geral Extraordinária, (doc. 15). b.25) Assim, em agosto de 2007, a Integral Investments passou a deter uma participação societária de 86.169.568 ações da Comgás, número este que permaneceu o mesmo até o momento da venda em 2012. b.26) Em 23 de abril de 2009, a Assembléia Geral Extraordinária da Comgás deliberou e aprovou o aumento do seu capital social com reserva de lucros e reserva legal, sem emissão de novas ações, aumentando o custo do investimento detido pelos acionistas da Impugnante na proporção de sua participação acionária. No caso da Integral Investments, aproximadamente EUR 76.914.345 foram reinvestidos no país. (doc. 16) b.27) Por fim, em outubro de 2012, a Integral Investments alienou 83,5074% de sua participação societária na Impugnante para a Provence. b.28) Em razão da alienação, a Integral Investments apurou ganho de capital correspondente à diferença entre o preço de venda e o custo do investimento registrado no BACEN (RDE IED), devidamente oferecido à tributação, como relatado no TVF e descrito na tabela a seguir: Fl. 1799DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.800 17 c) Que, conforme se poderia depreender da análise do histórico completo do investimento estrangeiro que compõe o custo de aquisição das ações da Impugnante pela Integral Investments, jamais poderia ter sido considerado o valor do patrimônio líquido da Integral Holdings (com base no Laudo de Avaliação) como valor de referência para cálculo do ganho de capital, posto que se trataria de evento isolado que não refletiria a realidade dos fatos; d) Que a Receita Federal, por meio do Parecer Normativo CST nº 39/81, teria consolidado o entendimento de que não haveria nova “subscrição ou aquisição” de participação societária em eventos como incorporação; e) Que, de acordo com o “Perguntão” referente à DIRPF/2016, a substituição de ações decorrente de incorporação não configuraria alienação para efeitos do imposto de renda, devendose atribuir às novas ações o custo de aquisição da participação societária originária; f) Que a orientação descrita no item anterior seria também seguida pelo BACEN, conforme poderia ser verificado na Carta Circular BACEN nº 2.313/92; g) Que, após um evento de incorporação de sociedade detida por investidor estrangeiro, o custo histórico do investidor se manteria o mesmo, servindo para comprovar seu custo os mesmos documentos que comprovavam o investimento detido na sociedade incorporada; h) Que não faria qualquer sentido pretender atribuir como custo de aquisição de uma sociedade (i.e., ações da Integral Holdings) o valor de seu patrimônio líquido considerado para fins de versão ao patrimônio da sociedade incorporadora (ora Impugnante), desconsiderandose os aportes de capital realizados em moeda estrangeira; i) Que, apesar de não haver “contrato de câmbio” em operação de incorporação de sociedade, a Fiscalização nunca poderia ter Fl. 1800DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.801 18 ignorado as normas fiscais e cambiais descritas anteriormente, no sentido de que o custo das ações incorporadas deveria ser atribuído com base no “somatório dos registros representativos dos investimentos e reinvestimentos” na empresa incorporada; j) Que o lançamento padeceria de vício insanável, uma vez que a base de cálculo apurada pela Fiscalização não encontraria respaldo na legislação vigente; k) Que o laudo de avaliação utilizado pela Fiscalização teria sido elaborado para fins societários (art. 227 da Lei das S/A) que não guardariam qualquer relação com a apuração do custo do investimento; l) Que o laudo de avaliação não teria o condão de alterar o custo do investimento detido pelos acionistas da sociedade incorporadora; m) Que, neste caso concreto, sequer teria havido alteração do capital social da incorporadora (ora Impugnante), uma vez que a Integral Investments teria recebido o mesmo número de ações e na mesma espécie das ações vertidas ao seu capital, conforme poderia ser verificado no Protocolo e Justificação de Incorporação acostado aos autos; n) Que não haveria dúvidas de que o laudo de avaliação jamais poderia ser considerado como documentação hábil e idônea para comprovar o custo do investimento detido pela Integral Investments; o) Que, conforme ensinaria Hiromi Higuchi, o laudo serviria “para distribuição das quotas ou ações da empresa incorporada ou resultante da fusão”, mas o custo da sociedade que teve sua participação societária incorporada deveria permanecer intacto; p) Que, ainda que se entendesse que a Integral Investments teria adquirido participação na Impugnante mediante pagamento em bens (i.e. ações das Integral Holdings), não haveria necessidade de se alterar o custo que a sociedade estrangeira detinha; q) Que o laudo de avaliação não possuiria qualquer pretensão de refletir o custo do investimento para a Integral Holdings; r) Que, para chegar ao custo de R$ 709.482.638,72, utilizado pela Fiscalização para apuração do suposto ganho de capital, a empresa de auditoria contratada teria utilizado o valor contábil do bem, que corresponde à diferença entre o valor do investimento apurado pelo método de equivalência patrimonial (R$ 183.143.288,34), adicionado do ágio pago (R$ 1.548.115.736,60), reduzido da provisão para manutenção da integralidade do patrimônio líquido (R$ 1.021.756.386,16) e do adiantamento para futuro aumento de capital (R$ 20.000,00); s) Que, ainda que se entendesse que o custo da participação acionária alienada pela Integral Investments devesse ser Fl. 1801DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.802 19 calculado com base no suposto valor de avaliação das ações da Impugnante, e que o laudo acostado aos autos seria o documento hábil a apurar tal valor, o auto de infração continuaria sendo nulo em decorrência da iliquidez e incerteza do crédito tributário; t) Que, mesmo se adotadas as premissas utilizadas pela Fiscalização, haveria equívoco no cálculo do custo do investimento detido pela Integral Investments, pois não teriam sido consideradas a aquisição de ações detidas pela Shell Gás BV em 20/04/2007 nem a alienação de ações para a BG Gás São Paulo Investments em 04/07/2007; u) Que os seguintes eventos demonstrariam a composição do custo, em moeda estrangeira, do investimento detido pela Integral Investments na Impugnante: u.1) Em 19 e 20 de abril de 1999, a BG UK Holdings Ltd. ("BG UK") contribuiu US$ 939.656.775,29 ao capital social da DGB (valor aproximado, calculado a partir do aumento de capital no valor de R$1.571.200.000,00). Este valor de contribuição está suportado pelos contratos de câmbio de n° 99/001417, 99/001418, 99/001435 e 99/001436. A British Netherlands BV CBN") contribuiu US$597,45 ao capital social da DGB (valor aproximado, calculado a partir do aumento de capital no valor de R$ 999,00). (doc. 03) (ATO 1 da Planilha de Memória de Cálculo Abaixo) u.2) Em 12, 18 e 19 de maio de 1999, a BG UK, por meio dos contratos de câmbio de n° 99/001756, 99/001853 e 99/001864, contribuiu mais US$85.331.912,24 ao capital social da DGB (valor aproximado, calculado a partir do aumento de capital no valor de R$141.770.439,38). (doc. 03) (ATO 2 da Planilha de Memória de Cálculo Abaixo) u.3) Em 30 de agosto de 1999, em razão da restruturação do Grupo BG no exterior, a BG UK e a BN cederam a totalidade das suas quotas detidas na DGB para a British Gas São Paulo Holdings B.V. f BGSPH" conforme "4a Alteração do Contrato Social da DGB"). (doc. 08). Posteriormente, a BGSPH teve a sua denominação alterada para Integral Investments (conforme "6a Alteração do Contrato Social da DGB") (doc. 09) (ATO 3 da Planilha de Memória de Cálculo Abaixo) u.4) Em 06 de Junho de 2000, a DGB reduziu seu capital social em R$1.712.771.990,00, correspondente à integralidade da participação societária que adquiriu na Integral Holdings com recursos oriundos da capitalização de acionista estrangeiro, mediante transferência das ações detidas nesta sociedade para sua controladora, a Integral Investments, com o conseqüente Fl. 1802DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.803 20 cancelamento das 1.712.771.990 ações detidas pela Integral Investments na DGB. (doc. 09) (ATO 4 da Planilha de Memória de Cálculo Abaixo) u.5) Em 22/04/1999, a Pecten Congo Ltd. ("Pecten Congo"), remeteu divisas ao Brasil para aumentar o capital social da Integral Holdings em US$45.566.587,26 (valor aproximado, calculado a partir do aumento de capital no valor de R$77.526.987,00). (doc. 06) (ATO 5 da Planilha de Memória de Cálculo Abaixo) u.6) Ainda em maio de 2000, a Pecten Congo e a British Gas São Paulo Investments BV ("BGSPI") firmaram um contrato por meio do qual se estabeleceu que a Pecten Congo subscreveria ações da Integral Investments, que seriam integralizadas mediante a contribuição da integralidade das ações que a Pecten Congo detinha na Integral Holdings, (doc. 10) (ATO 6 da Planilha de Memória de Cálculo Abaixo) u.7) Em 14/04/1999: Leilão da Comgás. Os Grupos BG e Shell, por meio da Integral Holdings, arremataram o controle acionário da Impugnante, correspondente a 6.313.337.570 ações ordinárias, por R$1.648.227.251,66 (fls. 1301 a 1337) Em 21/05/1999, a Integral Holdings, em cumprimento ao disposto na cláusula 2.3.4 do Edital n° AS/F/805/99, adquiriu mais 833.222.708 ações ordinárias e 220.297.853 ações preferenciais da Impugnante, pelo montante de R$125.737.678,95, que foram ofertadas aos empregados, mas não foram por eles subscritas, (doc. 03) Também em maio de 2000, a Integral Holdings subscreveu mais 144.607.816 ações preferenciais da Impugnante, no valor de R$15.982.347,00, integralizadas em dinheiro, conforme laudo de avaliação anexado aos autos. (fls. 1301 a 1337) (ATO 7 da Planilha de Memória de Cálculo Abaixo) u.8) Em 26 junho de 2000, conforme relatado no TVF, a Impugnante incorporou a Integral Holdings, de modo que a Integral Investments passou a deter participação societária diretamente na Impugnante (fls. 1301 a 1337), mantendo o custo registrado perante o BACEN em moeda estrangeira, detido na sociedade incorporada. (ATO 8 da Planilha de Memória de Cálculo Abaixo) u.9) Em 25 de abril de 2007, a Integral Investments adquiriu 1.105.495.949 de ações ordinárias da Impugnante pertencentes à Shell Gas BV pelo valor de US$38.082.423,00 (valor aproximado), passando a deter um total de 8.616.961.896 de ações. (doc. 12) (ATO 9 da Planilha de Memória de Cálculo Abaixo) Fl. 1803DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.804 21 u.10) Em 04 de julho de 2007, a Integral Investments vendeu 5.000 ações ordinárias detidas na Impugnante pelo valor de US$667,30 (valor aproximado), passando a deter um total de 8.616.956.896 ações. (doc. 14) (ATO 10 da Planilha de Memória de Cálculo Abaixo) u.11) Em agosto de 2007 houve o grupamento das ações da Impugnante na razão de 100/01, conforme aprovado em deliberação da Assembléia Geral Extraordinária, (doc. 15) (ATO 11 da Planilha de Memória de Cálculo Abaixo) u.12) Em 26 de abril de 2007, a Assembléia Geral Extraordinária da Comgás deliberou e aprovou o aumento do seu capital social com reserva de lucros, sem emissão de novas ações. No caso da Integral Investments, aproximadamente EUR 20.879.874,00 foram reinvestidos no país. (doc. 13) (ATO 12 da Planilha de Memória de Cálculo Abaixo) u.13) Em 23 de abril de 2009, a Assembléia Geral Extraordinária da Comgás deliberou e aprovou o aumento do seu capital social com reserva de lucros e reserva legal, sem emissão de novas ações. No caso da Integral Investments, aproximadamente EUR 76.914.345 foram reinvestidos no país. (doc. 16) (ATO 13 da Planilha de Memória de Cálculo Abaixo) u.14) Assim, em outubro de 2012, conforme se afere da tabela abaixo (na qual se utilizou taxa de câmbio aproximada dos respectivos contratos de câmbio), a Integral Investments possuía uma participação societária de 86.169.568 ações, no valor de, aproximadamente, USD 1.040.558.997,00 e EUR 97.794.209,00 (valor apurado conforme documentação hábil e idônea), (doc.18) v) Que, nos termos do artigo 27 da Circular BACEN nº 2.997/2000, a Impugnante não possuiria mais a obrigação de guardar os documentos comprobatórios das declarações Fl. 1804DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.805 22 prestadas ao Banco Central, prevalecendo as informações que constam do sistema eletrônico do BACEN (RDEIED); w) Que a Impugnante teria trazido aos autos os documentos que entende serem necessários para comprovar que o custo do investimento alienado por ela apurado é inclusive superior ao que foi utilizado pela Provence para apurar o ganho de capital e o IRRF devido; x) Que, ainda que se entenda que os documentos trazidos aos autos não comprovariam o custo do investimento alienado pela Integral Investments, valeria ressaltar que, nos termos do §4º do artigo 26 da Instrução Normativa nº 208/2002, deverseia considerar como custo de aquisição justamente o valor registrado no BACEN, como procedido pela Provence; y) Que a Provence, ao realizar a conversão do custo de aquisição, originalmente registrado em dólar e euro, para moeda brasileira, teria agido em estrita observância à legislação aplicável; z) Que teria havido erro na identificação do sujeito passivo; aa) Que a Fiscalização teria autuado a Impugnante como responsável tributária pela retenção do IRRF incidente sobre o ganho de capital auferido pela Integral Investments quando da venda de participação acionária detida na própria Impugnante para a Provence, sociedade pertencente ao Grupo Cosan; bb) Que, ainda que o IRRF tivesse sido recolhido a menor, a Impugnante deveria ter sido autuada como responsável por sucessão, nos termos do art. 132 do CTN; cc) Que, ao não lavrar o auto de infração em face da Impugnante como sucessora por incorporação, a Fiscalização teria fulminado o lançamento de nulidade, pelo fato de não demonstrar a devida fundamentação legal para a constituição da exigência contra ela, bem como sua correta qualificação; dd) Que, ainda que fosse possível a mera retificação do auto de infração para constar a Impugnante como sujeito passivo na condição de responsável tributário por sucessão, seria certo que a Impugnante não poderia ser responsabilizada pela multa de ofício imposta, pois o ato infracional teria sido praticado pela empresa sucedida; ee) Que, mesmo que fosse válida a exigência do IRRF no caso ora examinado, deveriam ser cancelados os valores referentes à multa de ofício e aos juros, nos termos do parágrafo único do artigo 100 do CTN; ff) Que, caso venhase a decidir pela manutenção do lançamento, e tal decisão ocorra pelo voto de qualidade, seria razoável considerar que há, no mínimo, dúvida quanto à ocorrência de infração, o que acarretaria a impossibilidade de Fl. 1805DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.806 23 se exigir a multa de ofício em decorrência do disposto no art. 112 do CTN; gg) Que os juros calculados com base na taxa Selic não poderiam ser exigidos sobre a multa de ofício lançada, por absoluta ausência de previsão legal; Reproduzo, a seguir, o pedido do contribuinte: III – Do Pedido Diante de tudo o que foi exposto, requerse a esta E. Turma Julgadora o conhecimento e o provimento da presente Impugnação, para que seja integralmente cancelado o auto de infração lavrado, seja em razão de sua nulidade devido (i) ao equivocado critério adotado pelo Sr. Agente Fiscal para apuração do custo da Integral Investments, (II) ao erro na identificação do sujeito passivo e (iii) à iliquidez e incerteza do crédito tributário; ou em razão de sua improcedência quanto ao mérito, uma vez que a Provence calculou e recolheu o IR/Fonte devido nos termos da legislação vigente, extinguindose a totalidade dos créditos tributários exigidos, remetendose os autos ao arquivo. Contudo, mesmo que não se entenda pela total improcedência do auto de infração lavrado, o que se admite a título argumentativo, esperase ao menos (i) seja recomposta a base de cálculo do IR/Fonte para se acrescer ao custo o valor das ações adquiridas em abril de 2007, bem como (II) sejam excluídos os juros e a multa de ofício, uma vez que, para apurar a base de cálculo do IR/Fonte, a Provence se valeu de ato normativo da Receita Federal e de sua prática reiterada. Subsidiariamente, em atenção ao disposto no art. 16, inc. VI, do Decreto Lei n. 70.235/72, caso se julgue necessário, a Impugnante requer a designação de diligência/perícia para que sejam analisados os documentos ora apresentados e, caso ainda restem dúvidas, que sejam solicitados quaisquer documentos e/ou informações adicionais julgados necessários para confirmar o custo do investimento detido pela Integral Investments na Impugnante quando da alienação da participação societária para a Provence. Ainda, deverseá pelo menos reconhecer (i) a impossibilidade de se lavrar multa de ofício contra responsável tributário por sucessão ou em razão da existência de dúvida, na remota hipótese do auto de infração ser mantido por voto de qualidade, mesmo diante de sua flagrante insubsistência; bem como (ii) a ilegalidade da incidência de juros sobre a multa.” A DRJ de origem entendeu pela procedência da impugnação, anulando o lançamento fisca por erro na identificação do sujeito passivo. Diante do valor exonerado, foi apresentado Recurso de Ofício. É o relatório. Fl. 1806DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.807 24 Voto Conselheiro Martin da Silva Gesto Relator O recurso de ofício preenche os requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. A DRJ de origem entendeu pela procedência da impugnação e anulação do lançamento por erro na identificação do sujeito passivo. Por oportuno, transcrevo o teor do acórdão recorrido quanto a este ponto: "IV – Do Erro na Identificação do Sujeito Passivo Em sua peça impugnatória, o contribuinte afirmou que a Fiscalização o teria autuado na condição de responsável tributário pela retenção do IRRF incidente sobre o ganho de capital auferido pela Integral Investments quando da venda de participação acionária detida na própria impugnante para a Provence, mas que tal procedimento seria incorreto. Segundo o contribuinte, a Fiscalização deveria têlo autuado na condição de responsável por sucessão, nos termos do art. 132 do CTN. Mas como não o fez, o lançamento seria nulo em razão de não constar do auto de infração a devida qualificação do autuado nem a disposição legal infringida. Entendo que não lhe assiste razão. O Termo de Verificação Fiscal deixa claro que o lançamento foi efetuado na Comgás por esta ser a sucessora por incorporação da Provence, conforme pode ser constatado especialmente pelo excerto a seguir: 6. Além desses, no presente processo, também está sendo lançado o imposto de renda sobre a diferença do ganho de capital obtido pela vendedora da participação societária, que deveria ter sido retido pela compradora, incorporada pela Comgás. Inexiste, pois, a nulidade apontada pelo contribuinte. No entanto, verificase que o lançamento não foi efetuado no sujeito passivo correto. Conforme amplamente demonstrado no item III deste Voto, em decorrência da inexistência de propósito negocial na utilização da Provence, as operações artificiais realizadas pelos envolvidos foram desqualificadas para fins tributários, e, posteriormente, requalificadas como uma operação de aquisição direta da participação na Comgás pela Cosan. A própria Fiscalização, por diversas vezes, afirmou que o real adquirente da participação na Comgás foi a Cosan. E esse foi o Fl. 1807DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.808 25 entendimento desta Turma de Julgamento ao apreciar o processo nº 16561.720031/201631. Ora, se restou entendido que a Cosan adquiriu diretamente da Integral Investments a participação na Comgás, a responsabilidade pela retenção do IRRF correspondente a esta operação caberia à Cosan, e não à Comgás (como sucessora da Provence). Não se pode adotar dois pesos e duas medidas. Em face do exposto, deve ser anulado o presente lançamento por erro na identificação do sujeito passivo. " Pois bem. Antes de se dar início à análise jurídica deste caso concreto, necessário apresentar sucintamente os fatos que acarretaram os lançamentos materializados no processo administrativo ora sob julgamento e no processo administrativo nº 16561.720031/201631. Os quadros a seguir, expostos no acórdão da DRJ ora recorrido, demonstram as estruturas societárias existentes imediatamente antes e depois das operações questionadas: Para se chegar ao resultado acima exposto, foram realizadas duas operações principais: Fl. 1808DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.809 26 a) Aquisição do controle da Comgás, com ágio, pela Provence (controlada da Cosan), por intermédio de um contrato de compra e venda realizado com a Integral Investments; b) Incorporação da Provence pela Comgás; Os quadros a seguir apresentam, de forma gráfica, essas operações: Ao analisar as operações acima mencionadas, a Fiscalização apurou as seguintes infrações: Fl. 1809DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.810 27 a) Despesas Financeiras Não Dedutíveis: pagamento de juros sobre o capital próprio em excesso (processo nº 16561.720031/201631); b) Exclusões Indevidas: valor excluído indevidamente do Lucro Líquido do período, relativo à amortização de ágio (processo nº 16561.720031/201631); c) Imposto de Renda na Fonte incidente sobre o ganho de capital auferido por residente ou domiciliado no exterior (processo ora sob análise). Por oportuno, transcrevo voto da DRJ quanto ao julgamento do processo nº 16561.720031/201631: "Estes processos, apesar de tratarem de infrações distintas, possuem um núcleo fático comum, razão pela qual devem ser apreciados por intermédio de um mesmo prisma. Não se pode produzir, pois, decisões conflitantes ou contraditórias que venham a valorar, de forma distinta, os mesmos fatos. Sendo assim, passo a analisar a decisão proferida no processo administrativo nº 16561.720031/201631. III – Do Julgamento do Processo nº16561.720031/201631 No processo administrativo nº 16561.720031/201631, a Fiscalização formalizou o lançamento referente às infrações de pagamentos de juros sobre capital próprio em excesso e de exclusão indevida relativa à amortização de ágio. Para fundamentar a autuação referente ao pagamento de juros sobre capital próprio, a Fiscalização afirmou que a Cosan teria utilizado uma empresa veículo (Provence), sem propósito negocial, para adquirir o controle da Comgás, e que, em razão disso, tal operação deveria ser desqualificada para fins tributários, devendo a operação ser entendida como uma aquisição direta pela Cosan. Fl. 1810DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.811 28 O fundamento acima também foi utilizado para justificar a glosa da amortização do ágio. No entanto, em relação a esta infração, a Fiscalização ainda utilizou o fundamento de que não haveria laudo apto a justificar a origem do ágio pago. Reproduzo, a seguir, trechos do Termo de Verificação Fiscal (processo nº 16561.720031/201631) que demonstram, de forma clara, que a Fiscalização desqualificou, para fins tributários, a utilização da Provence na operação de aquisição do controle da Comgás: 9. A aquisição do controle acionário da Comgás pela Cosan S/A Indústria e Comércio, CNPJ 50.746.577/000115, se deu com o uso de uma empresa veículo, a Provence Participações S/A, CNPJ 12.623.886/000109, que foi utilizada para adquirir 60,05% de participação societária na Comgás em 05/11/2012. [...] 63. Apesar do Contrato de Compra do controle da Comgás ter sido firmado pela Provence, a interposição desta empresa é totalmente sem propósito para o negócio, não constando sequer do organograma que a Comgás teria já sob controle da Cosan. O organograma a seguir, anunciado no fato relevante da Cosan de 28/05/2012 (doc. 77) em que se apresentou os termos e condições pelos quais a Provence se obrigou a adquirir da Integral Investments BV a participação de 60,05% do capital social da Comgás, representa o negócio real que está sendo feito, que é a aquisição do controle da Comgás pela Cosan, tanto que essa é a configuração que ficará ao final do planejamento tributário em análise: [...] 65. O fato de a Cosan submeter a operação de compra do controle societário da Comgás aos ditames do art. 256 da Lei n° 6.404/76 e ao Anexo 19 da Instrução CVM 481/2009 confirma que a interposição da Provence é totalmente artificial, desnecessária e sem propósito negocial. [...] 71. Fica claro o papel da Provence como veículo de passagem formal dos recursos, os quais ficaram em sua conta corrente por alguns instantes. 72. Entretanto, esse fato chega a ser secundário em vista do seu uso como veículo de passagem do ágio apurado com essa aquisição de participação acionária. Vejamos o que dizem os documentos da operação de incorporação da Provence pela Comgás. [...] 91. Empresa veículo, como a Provence, é definida "como uma entidade cuja finalidade é servir de veículo para transferir da controladora original para uma controlada intermediária a Fl. 1811DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.812 29 participação que possui em outra entidade. Muitas vezes a controladora direta de determinada entidade é constituída somente com esse propósito, mas todos os recursos e decisões necessários para viabilizar a aquisição são providos pela controladora original. Entidades veículo geralmente são temporárias, desprovidas de autonomia e planos de negócios, não mudam o negócio da empresa que a incorpora e não captam autonomamente recursos no mercado. Em lugar disso, os recursos são providos por um acionista controlador via caixa (aumento de capital) ou via garantias a instituições financeiras que fazem o empréstimo para a Entidade veículo" . [...] 94. Para buscar artificialmente o enquadramento no art. 386 do RIR/99, que permitiria a dedução da amortização de ágio na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, é que a Provence foi interposta pela Cosan para funcionar como empresa veículo. [...] 101. A real adquirente da Comgás, a empresa Cosan S/A Indústria e Comércio, demonstra na sua contabilidade a falta de confusão patrimonial. Conforme os razões das contas de investimento da Cosan (doc. 87), a Provence Participações (conta 1030102077) aparece contabilizada apenas no final de outubro de 2012 pelo valor de RS 3.412.000.000,00 devido aos aumentos de capital efetuados para a compra da Comgás, sendo baixada no final de dezembro de 2012 com o valor de R$ 3.420.215.235,27, devido à incorporação da Provence pela Comgás. [...] 106. O uso da empresa veículo Provence pela Cosan teve o objetivo único de permitir o aproveitamento fiscal do ágio apurado na compra do controle da Comgás, reduzindo o Imposto de Renda da Pessoa Jurídica e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido devidos e, consequentemente, gerando mais fluxo de caixa disponível para a distribuição de lucros, com o pretenso enquadramento nas condições dos arts. 385 e 386 do RIR/99. [...] 111. Embora a apuração do JCP pelo fiscalizado pareça estar de acordo com a legislação, verificase que os juros sobre o capital próprio relativo a 2013 e 2014 sofrem um aumento em relação a 2011 e 2012 em virtude da aquisição da Comgás ter passado por uma empresa veículo. 112. Como já demonstrado ao longo deste Termo, a operação de obtenção do controle acionário da Comgás pela Cosan sempre visou deixar a Comgás como controlada direta da Cosan. No entanto, a operação envolveu a utilização de uma empresa veículo que pudesse ser incorporada posteriormente pela Fl. 1812DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.813 30 adquirida e, assim, enquadrar forçosamente a operação nos requisitos determinados pelos arts. 385 e 386 do RIR/99, visando o aproveitamento da amortização do ágio apurado na aquisição da própria Comgás, reduzindo a sua carga tributária. [...] 114. Da mesma forma que se a operação tivesse ocorrido diretamente, sem o uso de empresa veículo, o ágio não poderia estar sendo amortizado pela Comgás, o seu Patrimônio Líquido também não teria sido aumentado em R$844.140.785,20. Ressaltese que esta Turma de Julgamento, quando da apreciação do processo nº 16561.720031/201631, entendeu que a Fiscalização logrou êxito em comprovar a ocorrência das infrações ali tratadas exatamente por considerar que inexistiu propósito negocial na participação da Provence nas operações analisadas, conforme é possível depreender do trecho da Ementa do Acórdão nº 34.016, de 30 de março de 2017: PROPÓSITO NEGOCIAL. ORDENAMENTO JURÍDICO PÁTRIO. APLICABILIDADE. O instituto do propósito negocial possui previsão no ordenamento jurídico pátrio, devendo ser aplicado quando da verificação da regularidade das operações realizadas. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. SOCIEDADE VEÍCULO. AUSÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL. A utilização de sociedade veículo, de curta duração, colimando atingir posição legal privilegiada, quando ausente o propósito negocial, constitui prova da artificialidade daquela sociedade e das operações nas quais ela tomou parte. As operações levada a termo nesses moldes devem ser desqualificadas para fins tributários. Sendo assim, entendo que, ao se proceder à análise do processo ora sob julgamento, não se pode perder de vista o que foi decidido no Acórdão referente ao processo nº 16561.720031/201631: III.2.3 – Do Propósito Negocial Conclusão Em face do exposto, concluise que inexiste propósito negocial na utilização da Provence nas operações ora sob análise, razão pela qual as operações artificiais realizadas pelos envolvidos devem ser desqualificadas para fins tributários, e, posteriormente, requalificadas como uma operação de aquisição direta da participação na Comgás pela Cosan, operação esta que, conforme amplamente demonstrado, corresponde à realidade." Fl. 1813DF CARF MF Processo nº 16561.720032/201685 Acórdão n.º 2202004.866 S2C2T2 Fl. 1.814 31 Portanto, concluiu a DRJ (Acórdão nº 34.016, de 30 de março de 2017) que inexiste propósito negocial na utilização da Provence nas operações, razão pela qual entendeu se que houve operações artificiais realizadas pelos envolvidos, compreendendose que devem ser desqualificadas para fins tributários, e, posteriormente, requalificadas como uma operação de aquisição direta da participação na Comgás pela Cosan. Compreendo que correta a decisão da DRJ proferida nestes autos, por considerar que se compreenderam os julgadores que a utilização de sociedade veículo, de curta duração, colimando atingir posição legal privilegiada, quando ausente o propósito negocial, constitui prova da artificialidade daquela sociedade e das operações nas quais ela tomou parte. Assim, as operações levadas a termo nesses moldes se desqualificadas para fins tributários, deveria a autuação fiscal ser procedida em relação ao sujeito passivo adequado a tal entendimento. Por tais razões, se verificado pela Fiscalização que a Cosan adquiriu diretamente da Integral Investments a participação na Comgás, a responsabilidade pela retenção do IRRF correspondente a esta operação caberia à Cosan, e não à Comgás (como sucessora da Provence). Correto, portanto, o acórdão da DRJ que entendeu pelo erro na identificação do sujeito passivo. Ante o exposto, voto por negar provimento ao recurso de ofício. (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator Fl. 1814DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 14751.000268/2007-48
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 31 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Feb 28 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2001
DECADÊNCIA.
A ausência de pagamento do imposto atrai a decadência prevista no artigo 173 do CTN.
ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO.
Apuração feita através de fluxo de caixa é meio adequado para apuração de acréscimo patrimonial a descoberto.
MULTA QUALIFICADA.
Provado o dolo, a multa de ofício deve ser de 150%.
Numero da decisão: 2002-000.752
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar preliminar de decadência e, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário. Votaram pelas conclusões os conselheiros Mônica Renata Mello Ferreira Stoll e Thiago Duca Amoni.
(assinado digitalmente)
Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente.
(assinado digitalmente)
Virgílio Cansino Gil - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil, Thiago Duca Amoni e Mônica Renata Mello Ferreira Stoll.
Nome do relator: VIRGILIO CANSINO GIL
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A ausência de pagamento do imposto atrai a decadência prevista no artigo 173 do CTN. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. Apuração feita através de fluxo de caixa é meio adequado para apuração de acréscimo patrimonial a descoberto. MULTA QUALIFICADA. Provado o dolo, a multa de ofício deve ser de 150%. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar preliminar de decadência e, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário. Votaram pelas conclusões os conselheiros Mônica Renata Mello Ferreira Stoll e Thiago Duca Amoni. (assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente. (assinado digitalmente) Virgílio Cansino Gil Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 14 75 1. 00 02 68 /2 00 7- 48 Fl. 587DF CARF MF Processo nº 14751.000268/200748 Acórdão n.º 2002000.752 S2C0T2 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil, Thiago Duca Amoni e Mônica Renata Mello Ferreira Stoll. Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fls. 550/582) contra decisão de primeira instância (fls. 510/544), que julgou procedente em parte a impugnação do sujeito passivo. Em razão da riqueza de detalhes, adoto o relatório da r. DRJ, que assim diz: Contra o contribuinte acima identificado foi lavrado o Auto de Infração de fls. 04 a 11, no qual é cobrado o Imposto sobre a Renda de Pessoa Física (IRPF), relativamente ao anocalendário de 2001, no valor total de R$ 7.853,23 (sete mil, oitocentos e cinqüenta e três reais e vinte e três centavos), acrescido de multa de lançamento de oficio e de juros de mora, calculados ate 31/05/2007, perfazendo um crédito tributário total de R$ 23.620,31 (vinte e três mil, seiscentos e vinte reais e trinta e um centavos). 2. Foi expedido o Termo de Inicio de Fiscalização de fls. 31 a 32, pelo qual foi solicitado ao contribuinte que apresentasse, em relação ao anocalendário de 2001, esclarecimentos acerca de remessas de divisas, através da subconta "Basiléia Financial Corp", do Banco Chase de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, bem como comprovação da origem dos recursos enviados, conforme anexo de fls. 34. 0 autuado foi também intimado a esclarecer se houve, no mesmo período, operações de câmbio por meio da empresa Pena Branca, ou dos Srs. Vitor Hugo Prestes Rocha, Adalberto Prestes Rocha Júnior e Luiz Felipe Prestes Rocha. Por fim, foi solicitada a apresentação do passaporte, dos extratos bancários, da aquisição de alienação de bens, além de informações sobre sua condição de residente no País. 3. Em atendimento, o contribuinte informou desconhecer as operações e as pessoas mencionadas no Termo fiscal, declarando não dispor de seu passaporte, nem de seus extratos bancários e, aditivamente, esclarecendo que não efetuou qualquer transação imobiliária, no ano calendário de 2001 (fls. 35). 4. Na seqüência, a fiscalização intimou novamente o contribuinte, por meio do Termo de fls. 36, a se pronunciar acerca da remessa de divisas para o exterior, juntando, em anexo, os demonstrativos de ordens de pagamento de fls. 29 e 37. 5. Em resposta, o fiscalizado reiterou as informações anteriormente prestadas, esclarecendo, ademais, desconhecer os endereços Fl. 588DF CARF MF Processo nº 14751.000268/200748 Acórdão n.º 2002000.752 S2C0T2 Fl. 4 3 mencionados nas mídias eletrônicas de fls. 29 – Rua Cabo Branco, n° 200 e Rua Santos Coelho, n° 200 conforme correspondência de fls. 39 a 41. 6. Em seqüência, foram emitidas as Requisições de Informações sobre Movimentação Financeira (RMF) e encaminhadas ao Banco Bradesco S/A (fls. 42), ao Banco do Brasil S/A (fls. 44) e à Caixa Econômica Federal (fls. 46). 7. Em razão das às RMF's emitidas pelo Fisco, as instituições financeiras forneceram a documentação de fls. 101 a 149. 8. A fiscalização, então, de posse da documentação coletada, procedeu elaboração de planilhas contendo os depósitos bancários efetuados nas contas correntes mantidas junto as instituições financeiras acima citadas (fls. 50 a 58), e as encaminhou ao contribuinte, mediante o Termo de Intimação de fls. 48 e 49, recebido em 08/12/2006 (aviso de recebimento de fls. 59). 9. Após obter prorrogação de prazo para prestar esclarecimentos, conforme fls. 62, o contribuinte solicitou a exclusão, do rol dos depósitos bancários, dos valores relativos a cheques devolvidos, conforme fls. 66 a 76. 10. Nova intimação foi encaminhada ao autuado, contendo relação dos depósitos, após efetuadas as exclusões solicitadas, referentes aos cheques devolvidos (fls. 77 a 90). 11. Em seguida, o contribuinte prestou novas informações, esclarecendo que: 11.1 — há cotitularidade, em relação à conta corrente de n° 58432, agência 16365, do Banco do Brasil S/A, com o Sr. Claudio Martinho Santos Henriques, CPF 028.137.11489, que assume a responsabilidade por toda a movimentação financeira nela ocorrida; 11.2 há cotitularidade, em relação à conta corrente de n° 60461, agência 16365, do Banco do Brasil S/A, com a Sra. Dalva Maria Henriques Saeger; 11.3 — os créditos efetuados na conta de n° 9472, mantida junto à Caixa Econômica Federal, sob o titulo DOC, referemse aos proventos recebidos do DETRAN/PB; Juntou, A. sua cartaresposta de fls. 92 a 94, a documentação de fls. 95 a 99 12. No curso da ação fiscal, o contribuinte apresentou a declaração de ajuste anual de fls. 151 a 153, transmitida em 04/01/2007. Para este exercício, o fiscalizado havia apresentado, espontaneamente, a declaração anual de isentos, como se verifica as fls. 150. 13. Tomando por base os dados constantes da declaração de ajuste relativa ao anocalendário de 2001 (fls. 151 a 153) — ressaltando se que os valores informados sob fiscalização foram objeto de lançamento de oficio bem assim, os documentos coletados no curso da ação fiscal, a autoridade administrativa elaborou o Demonstrativo de Variação Patrimonial a Descoberto de fls. 24, e as planilhas auxiliares de fls. 25 a 26. Fl. 589DF CARF MF Processo nº 14751.000268/200748 Acórdão n.º 2002000.752 S2C0T2 Fl. 5 4 14. A fiscalização, então, lavrou o Auto de Infração, em virtude de terem sido constatadas as seguintes infrações, conforme descrição dos fatos e enquadramentos legais de fls. 05 a 07 e Termo de Verificação Fiscal de fls. 12 a 23: 14.1 — omissão de rendimentos do trabalho, com vinculo empregatício, recebidos de pessoas jurídicas (omissão no valor de R$ 9.228,91, fato gerador em 31/12/2001); 14.2 — omissão de rendimentos do trabalho, sem vinculo empregatício, recebidos de pessoas físicas (omissão no valor de R$ 3.800,00, fato gerador em 31/12/2001); e 14.3 — omissão de rendimentos decorrente de acréscimo patrimonial a descoberto (omissão no valor de R$ 33.060,60). A multa de oficio foi lançada no percentual de 150% (multa de ofício qualificada), relativamente aos valores apurados decorrentes da variação patrimonial a descoberto. 15. Foi formalizada representação fiscal para fins penais (processo n° 14751.000269/200792, processo apenso). 16. Ciência do lançamento em 03/07/2007, conforme aviso de recebimento de fls. 193. 17. Não concordando com a exigência, o contribuinte apresentou, em 30/07/2007, a impugnação de fls. 202 a 241, juntamente com a documentação de fls. 243 a 251, alegando, em síntese: 17.1 — preliminarmente, que o lançamento, referente a fatos geradores ocorridos durante o anocalendário de 2001, encontrase decadente, nos termos do parágrafo único do art. 149 do CTN, combinado com o art. 150, e seu § 40, do mesmo Código, uma vez que a ciência da autuação ocorreu no dia 03/07/2007, conforme doc. 03 em anexo. Que houve pagamento de imposto, no valor de R$ 13,80, conforme declaração de fls. 151, caracterizandose, portanto, o enquadramento do lançamento por homologação. Que o imposto de renda é devido mensalmente, nos termos do § 2ºdo art 2° do RIR/1999, e ademais, como consta do auto de infração de fls. 5 a 7, foram consignadas datas de fatos geradores mensais. Logo, para fatos geradores ocorridos em janeiro de 2001, o prazo decadencial extinguiuse em janeiro de 2006, e assim por diante, até o mês de dezembro de 2001, decadente em dezembro de 2006. Concluise, portanto, que, para todos os fatos geradores, o direito da Fazenda Nacional foi exercido a destempo. Transcreve jurisprudência administrativa em favor de suas alegações; 17.2 — que a autoridade fiscal aplicou a multa qualificada de 150%, por entender que o contribuinte utilizouse de "canais não oficiais, inclusive com a participação de terceiros (doleiros), para a movimentação de recursos no exterior, elou ingressos dos mesmos no país" e "configurandose as hipóteses previstas nos arts. 71 a 73 da Lei n° 4.502/64". No entanto, o defendente afirmou, em resposta aos Termos lavrados pela AFRF, não serem de sua autoria as citadas transferências, pelos motivos e provas que constaram nas mencionadas cartasresposta, que pede sejam consideradas Fl. 590DF CARF MF Processo nº 14751.000268/200748 Acórdão n.º 2002000.752 S2C0T2 Fl. 6 5 na presente impugnação. Ressaltese a observação relativa aos endereços apresentados (letra "o", de fls. 19). Concluise que não há qualquer prova documental em que conste a assinatura do contribuinte, nem tampouco prova da existência de contas bancárias no exterior. Ademais, para que as ações de sonegação e fraude, previstas nos arts. 71 e 72 da Lei n° 4.502/64, restem configuradas, é necessária a ação, ou a omissão, dolosa. No entanto, face à falta de provas de que tenha havido, por parte do impugnante, o propósito deliberado, a vontade consciente e a ação material, que caracterizam o dolo, no sentido de ocultar ao Fisco, rendimentos tributáveis, deve ser excluída a multa qualificada questionada. Transcreve, em apoio a suas alegações, jurisprudência administrativa, inclusive o Enunciado n° 15 do 1° Conselho de Contribuintes; 17.3 — que os acréscimos patrimoniais a descoberto, apurados nos meses de abril, maio e junho de 2001, decorreram da inclusão, como aplicações, de remessas de recursos para o exterior, consideradas ilegais pela fiscalização, ocorridas apenas em agosto e setembro de 2001. Ainda assim, foi aplicada, equivocadamente, a multa qualificada de 150% sobre os valores apurados em abril, maio e junho de 2001; 17.4 — que foram considerados, a título de recursos, os saldos credores existentes no início do mês, e, como aplicações, saldos bancários credores existentes no último dia do mês. Que, quando os saldos no final do mês foram superiores àqueles registrados no início do mês, foi apurada variação patrimonial a descoberto. No entanto, tais saldos não representam riqueza do contribuinte e, ademais, não existe, na legislação, norma que determine tal apuração. Que foram computados, nos saldos bancários, recursos não disponíveis ao contribuinte, tais como cheques devolvidos por falta de provisão de fundos, conforme segue: (i) o saldo da conta n° 50547, do Banco do Brasil S/A, em 28/02/2001, no valor de R$ 1.298,43. No entanto, o cheque de R$ 1.650,00 foi devolvido, sem fundos, em 03/04/2001; (ii) o saldo da conta n° 50547, do Banco do Brasil S/A, em 30/04/2001, no valor de R$ 3.818,76. No entanto, os cheque de R$ 2.226,00 e de R$ 1.400,00, foram devolvidos, sem fundos, em 02/05/2001; (iii) o saldo da conta 50547, do Banco do Brasil S/A, em 31/05/2001, no valor de R$ 13.015,99. No entanto, os cheque de R$ 800,00 e de R$ 1.800,00, foram devolvidos, sem fundos, em 04 e em 05/06/2001; (iv) o saldo da conta n° 50547, do Banco do Brasil S/A, em 30/07/2001, no valor de R$ 11.233,70. No entanto, os cheque de R$ 600,00, de R$ 1.100,00, de R$ 303,00, de R$ 1.200,00 e de R$ 560,00, foram devolvidos, em 01/0512001; (v) o saldo da conta n° 50547, do Banco do Brasil S/A, em 31/08/2001, no valor de R$ 10.709,02. No entanto, os cheque de R$ 1.100,00 e de R$ 1.506,00, foram devolvidos, em 03/09/2001. Fl. 591DF CARF MF Processo nº 14751.000268/200748 Acórdão n.º 2002000.752 S2C0T2 Fl. 7 6 Requer, portanto, a retificação os demonstrativos de fls. 24 a 26; 17.5 — que não foi considerado, como recurso, o saldo existente na conta de fundo de investimento n° 00040457, ag. Praia de Tambaú, da Caixa Econômica Federal, em 31/12/2000, no valor de R$ 33.555,63,conforme doc. n° 50; 17.6 — que as transferências de recursos, entre contas do contribuinte, não foram consideradas como origens, conforme segue: (i) em 23/05/2001, houve resgate de aplicação financeira, no valor de R$ 34.718,46, tendo sido debitada, a mencionada conta bancária, do valor de R$ 34.700,00, neste dia. Que este valor foi depositado na conta de n° 5.0547, do Banco do Brasil S/A, neste mesmo dia (fls. 122). Por esta razão, pede que, do saldo bancário relativo ao Banco do Brasil, seja excluída a quantia de R$ 34.700,00, visto que proveniente da conta de aplicação financeira, mantida junto à Caixa Econômica Federal. (ii) valores de R$ 1.532,68 e R$ 2.000,00, debitados na conta de poupança e creditados na conta n° 5.0547, do Banco do Brasil S/A, em 02/05/2001 e em 25/04/2001, respectivamente, conforme fls. 119 e 120; (iii) valor de R$ 34.261,29, debitado conforme fls. 101, e creditado na conta n° 14.7489, do Banco Bradesco S/A, em 05/06/2001; 17.7 — que houve valores computados, em duplicidade, nas contas de nº 5.0547 e de n° 6.046 1, conforme segue: R$ 405,85, em 04/06/2001 (fls. 108 e 124), R$ 199,00, em 06/08/2001 (fls. 110 e 130) e R$ 199,00, em 05/09/2001 (fls. 111 e 133). Requer, assim, que tais valores sejam excluídos do demonstrativo de apuração do acréscimo patrimonial a descoberto; 17.8 — que a fiscalização deixou de computar, corno origem de recursos, os seguintes valores: (i) rendimentos líquidos, creditados na conta de conta de fundo de investimento n° 00040457, ag. Praia de Tambaú, da Caixa Econômica Federal, creditados rendimentos líquidos, nos valores de R$ 335,97, 246,53, 260,52, 296,77 e de 251,77, nos meses de janeiro a maio de 2001, que devem ser considerados como recursos; (ii) rendimentos de aplicações financeiras, obtidos na conta mantida junto ao Banco Bradesco SA, nos seguintes valores: R$ 17,15, R$ 8,80, R$ 12,91, R$ 0,31, R$ 13,77, em maio/2001 (fls. 101); R$ 4,98, R$ 14,42, R$ 0,29, e R$ 13,21, em junho/2001 (fls. 101); R$ 4,57 e R$ 225,70, em julho/2001 (fls. 102) ; R$ 168,78, em agosto/2001 (fls. 102) e R$ 87,79, em setembro/2001 (fls. 102); (iii) rendimentos de caderneta de poupança. (iv) rendimentos de ações, creditados na conta n° 5.0547, nos valores de R$ 4,74, em 28/02/2001 (fls. 114), R$ 5,11, em 28/02/2001 (fls. 114) e R$ 0,12, em 08/06/2001 (fls. 124); (v) rendimentos de ações e de PASEP, creditados na conta n° 5.4547, nos valores de R$ 0,25, em 29/06/2001 (fls. 126), R$ 0,31, em Fl. 592DF CARF MF Processo nº 14751.000268/200748 Acórdão n.º 2002000.752 S2C0T2 Fl. 8 7 29/06/2001 (fls. 126), R$ 2,49, em 03/09/2001 (fls. 133), R$ 2,68, em 03/09/2001 (fls. 133) e R$ 106,44, 26/09/2001 (fls. 135). 17.9 — que os resgates ocorridos nas contas bancárias também não foram considerados como recursos, como abaixo relacionados: (i) resgate de R$ 228,73, em março de 2001, da conta n° 50547, do Banco do Brasil S/A; (ii) resgate de aplicações financeiras, nos valores de R$ 10.000,00 e de R$ 1.687,60, em 04 e 05/04/2001, da conta n° 22521439 42004, do Fundo Pers. RF Max do Banco Sudameris (doc. 60). Que tais valores foram sacados, comprovandose a origem dos recursos; 17.10 — que a conta corrente de n° 6.046,1, do Banco do Brasil S/A, é de titularidade conjunta com a Sra. DaIva Maria Henriques Saeger, primeira titular e responsável por 100% dos valores movimentados. Ainda assim, a fiscalização inseriu os valores relativos a citada conta, indevidamente, nos demonstrativos de fls. 24 a 26; 17.11 — que as contribuições para a previdência privada, pagas à Brasilprev do Banco do Brasil S/A, no valor total de R$ 913,44, conforme débitos efetuados na conta n° 5.0541, não foram computadas, como dedução, na apuração do imposto de renda; O resumo da decisão revisanda está condensado na seguinte ementa do julgamento: OMISSÃO DE RENDIMENTOS. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. São tributáveis os valores relativos ao acréscimo patrimonial, quando não justificados pelos rendimentos tributáveis, isentos/não tributáveis, tributados exclusivamente na fonte ou objeto de tributação definitiva. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. ONUS DA PROVA. Se o ônus da prova, por presunção legal, é do contribuinte, cabe a ele a prova da origem dos recursos informados para acobertar seus dispêndios gerais e aquisições de bens e direitos. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. RECURSOS EXISTENTES NO EXTERIOR. Devem ser considerados como aplicações no demonstrativo de análise da evolução patrimonial do contribuinte os valores relativos As remessas de recursos para o exterior, que indicam a existência de patrimônio financeiro da pessoa física. Nestes casos, são inaplicáveis as disposições legais relativas à apuração de omissão de rendimentos tomando por base depósitos bancários de origem não comprovada. ILEGITIMIDADE PASSIVA NEGADA. REMESSAS DE RECURSOS EFETUADAS AO EXTERIOR. PROVAS Fl. 593DF CARF MF Processo nº 14751.000268/200748 Acórdão n.º 2002000.752 S2C0T2 Fl. 9 8 CONSTANTES DE ARQUIVOS MAGNÉTICOS ENVIADOS LEGALMENTE PARA 0 BRASIL. Os dados constantes de arquivos magnéticos e documentos, legalmente enviados ao Brasil pela Promotoria Distrital de Nova Iorque, Estados Unidos da América, periciados e objeto de laudo conclusivo pela Policia Federal e fielmente reproduzidos no processo, constituemse em elementos de prova incontestes de que o sujeito passivo efetuou remessas de recursos, ao exterior, por meio de uma subconta mantida ou administrada por uma instituição bancária ou financeira americana, condenada nos Estados Unidos através de ação movida pela Procuradoria Distrital de Manhattan por receber e transferir ilegalmente bilhões de dólares em transações de offschores mantidas por casas de cambio sulamericanas. IMPOSTO SOBRE A RENDA DA PESSOA FÍSICA. APURAÇÃO MENSAL. OBRIGATORIEDADE DE AJUSTE ANUAL A partir do anocalendário de 1989, o imposto de renda das pessoas físicas passou a ser exigido mensalmente, à medida em que os rendimentos forem sendo auferidos. O imposto assim apurado, contudo, desde a edição da Lei nº 8.134, de 1990, não é definitivo, sendo mera antecipação, tendo em vista a obrigatoriedade de ser procedido ao ajuste anual, pelo qual será determinado o imposto efetivamente devido pelo contribuinte no anocalendário, razão pela qual o fato gerador somente se perfaz em 31 de dezembro de cada ano calendário. CONTRIBUIÇÃO À PREVIDÊNCIA PRIVADA. Serão deduzidas as contribuições feitas a entidades de previdência privada domiciliadas no país, cujo ônus tenha sido do participante, destinadas a custear benefícios complementares assemelhados aos da previdência social, ate o limite de 12% do total dos rendimentos tributáveis, em favor do declarante ou de seus dependentes. OMISSÃO DE RENDEVIENTOS RECEBIDOS DE PESSOAS FÍSICAS. MATÉRIA NÃO CONTESTADA. Reputase não impugnada a matéria, quando o contribuinte não contesta a infração em sua peça defensória. OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA. MATÉRIA NÃO CONTESTADA. Reputase não impugnada a matéria, quando o contribuinte não contesta a infração em sua peça defensória. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DMEITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2001 MEIOS DE PROVA. A prova de infração fiscal pode realizarse por todos os meios admitidos em Direito, inclusive a presuntiva com base em indícios Fl. 594DF CARF MF Processo nº 14751.000268/200748 Acórdão n.º 2002000.752 S2C0T2 Fl. 10 9 veementes, sendo, outrossim, livre a convicção do julgador na apreciação das provas. IRPF. DECADÊNCIA DO DIREITO DE LANÇAR. A contagem do prazo decadencial, na hipótese de ocorrência de dolo, fraude ou simulação, regerseá pelo art. 173, I, do CTN. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. OCORRÊNCIA DE EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE. INCIDÊNCIA DE MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. LEGALIDADE. É cabível, por disposição literal de lei, a incidência da multa de oficio qualificada no percentual de 150% sobre o valor do imposto apurado em procedimento de oficio, que deverá ser exigida juntamente com o imposto não pago espontaneamente pelo contribuinte, quando restar comprovada a ocorrência de evidente intuito de fraude, conforme definido na lei. DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. APRESENTAÇÃO DURANTE O CURSO DO PROCEDIMENTO FISCAL. Iniciado o procedimento fiscal, ocorre a perda da espontaneidade, ficando excluída a possibilidade de o sujeito passivo sanar suas infrações sem sofrer a aplicação das penalidades aplicadas de oficio, inclusive de apresentar declarações retificadoras. Inconformado, o contribuinte apresentou Recurso Voluntário, reiterando as alegações da impugnação. É o relatório. Passo ao voto. Voto Conselheiro Virgílio Cansino Gil Relator Recurso Voluntário aviado a modo e tempo, portanto dele conheço. O contribuinte foi cientificado em 28/07//2008 (fl. 549); Recurso Voluntário protocolado em 19/08/2008 (fl. 550), assinado pelo próprio contribuinte. A preliminar de decadência é rechaçada. A presente ação fiscal trata do ano calendário 2001 e em razão de para este ano calendário o contribuinte ter apresentado declaração de isento, sem o pagamento, portanto, de qualquer imposto, é de rigor a aplicação do artigo 173 do CTN para computo do prazo decadencial, que no caso tem tela se encerraria em 31/12/2007. Assim, porque o lançamento e a notificação do contribuinte se deram anteriores ao prazo fatal, a alegada decadência é afastada. Quanto a infração de acréscimo patrimonial a descoberto, não carece de reforma a decisão de piso, primeiro em razão do saldo da conta corrente do Banco do Brasil nº 6.0461, de titularidade conjunta entre o contribuinte e a Sra. Dalva Maria Henriques Saeger, não poder ser despreza na apuração pelo método fluxo de caixa utilizado pela autoridade fiscal para a lavratura do auto de infração, isso porque o saldo existente, até que se prova o contrário, Fl. 595DF CARF MF Processo nº 14751.000268/200748 Acórdão n.º 2002000.752 S2C0T2 Fl. 11 10 pois presunção relativa, compõem o patrimônio financeiro do contribuinte, pois este poderia inclusive dispor do mesmo, mais que isso, podia e devia o contribuinte ter feito prova que o saldo não lhe pertencia, e não apenas que a movimentação bancária era feita por terceiro, o que não lhe socorre no particular. Segundo ponto de manutenção da decisão de origem, diz respeito aos cheques sem fundo, e inicialmente reforço que o método utilizado pela autoridade fiscal para a lavratura do auto de infração foi o de fluxo de caixa, e neste sentido dispondo o contribuinte de recurso no interregno de tempo utilizado na apuração do fluxo de caixa, o desconto dos valores referentes aos cheques sem fundo, no computo geral, foram levados em consideração, pois o valor final do patrimônio representa o total da renda auferida no período. Por fim, o terceiro ponto guerreado no recurso diz respeito a transferências financeiras não computadas, e quanto a este tópico a r. decisão recorrida baseiase novamente na lógica do método utilizado para apuração do acréscimo patrimonial a descoberto, que no caso em voga foi o fluxo de caixa, e para tanto pouco importa na apuração final do patrimônio se o recurso financeiro se encontra na conta X ou Y, pois o saldo credor final do patrimônio total não sofre diferença. Mantenho a acusação fiscal. A multa qualificada de 150% para a infração do acréscimo patrimonial a descoberto não merece censura, pois o dolo da sonegação restou sobejamente provado pelo fato do contribuinte ter apresentado declaração anual de isento, enquanto que restou provado pelos laudos e documentos provenientes da Justiça Federal do Paraná, no escândalo do “Banestado”, investigação esta sob a Vara do Juiz Moro, que o contribuinte havia efetuado ordens de pagamento por meios ilegais no exterior, e ao omitir a informação ao Fisco, tentou impedir e retardar o cálculo do quanto devido a título de imposto de renda. Dolo provado atrai multa qualificada. Por derradeiro, com relação a dedução decorrente da contribuição previdenciária privada, apesar da documentação juntada com o recurso voluntário comprovando a titularidade do beneficiário, a benesse não merece ser concedida por impedimento previsto no artigo 6º da Instrução Normativa SRF nº 588/2005, que condiciona as deduções ao recolhimento de contribuições para o regime geral de previdência social ou, quando for o caso, para regime próprio de previdência social dos servidores. No caso em tela, a fiscalização verificou a existência de recolhimento total à previdência oficial, no ano calendário de 2001, de apenas R$ 743,00 (fl.103). Nego provimento. Isto posto, e pelo que mais consta dos autos, conheço do Recurso Voluntário, afasto a preliminar de decadência, e no mérito negase provimento. É como voto. (assinado digitalmente) Virgílio Cansino Gil Fl. 596DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10907.721957/2016-17
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jan 15 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Período de apuração: 09/08/2012 a 28/12/2012
INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MULTA EQUIVALENTE AO VALOR ADUANEIRO.
Considera-se fraudulenta a ocultação intencional do real adquirente nas operações presumidas por conta e ordem, consistindo em dano ao Erário, de acordo com o art. 23 do Decreto- lei nº1.455/76. A pena de perdimento será convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida.
SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. PESSOA QUE CONCORRA OU SE BENEFICIE DA PRÁTICA DA INFRAÇÃO. INCLUSÃO NO POLO PASSIVO. POSSIBILIDADE.
A pessoa, física ou jurídica, que concorra, de alguma forma, para a prática de atos fraudulentos ou deles se beneficie responde solidariamente pelo crédito tributário decorrente, inclusive no que se refere a infrações.
RO Negado e RV Negado
Crédito Tributário Mantido.
Numero da decisão: 3402-005.851
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício e negar provimento aos Recursos Voluntários. Julgamento iniciado na sessão de 10/2018.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Pedro Sousa Bispo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (presidente da turma), Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Diego Diniz Ribeiro, Cynthia Elena de Campos, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado), Pedro Sousa Bispo e Rodrigo Mineiro Fernandes. Ausente, justificadamente, a Conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz.
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO
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DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MULTA EQUIVALENTE AO VALOR ADUANEIRO. Considerase fraudulenta a ocultação intencional do real adquirente nas operações presumidas por conta e ordem, consistindo em dano ao Erário, de acordo com o art. 23 do Decreto lei nº1.455/76. A pena de perdimento será convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. PESSOA QUE CONCORRA OU SE BENEFICIE DA PRÁTICA DA INFRAÇÃO. INCLUSÃO NO POLO PASSIVO. POSSIBILIDADE. A pessoa, física ou jurídica, que concorra, de alguma forma, para a prática de atos fraudulentos ou deles se beneficie responde solidariamente pelo crédito tributário decorrente, inclusive no que se refere a infrações. RO Negado e RV Negado Crédito Tributário Mantido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício e negar provimento aos Recursos Voluntários. Julgamento iniciado na sessão de 10/2018. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 90 7. 72 19 57 /2 01 6- 17 Fl. 18386DF CARF MF 2 Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (presidente da turma), Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Diego Diniz Ribeiro, Cynthia Elena de Campos, Renato Vieira de Ávila (suplente convocado), Pedro Sousa Bispo e Rodrigo Mineiro Fernandes. Ausente, justificadamente, a Conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz. Relatório Por bem relatar os fatos, adoto o relatório do acórdão recorrido com os devidos acréscimos: Trata o presente processo de auto de infração lavrado para exigência de crédito tributário no valor de R$ 51.681.648,66 referente a multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias importadas sujeitas à pena de perdimento por não terem sido localizadas, consumidas ou revendidas, nos termos da previsão contida no Art. 23, V, § 1º e 3º, do Decreto Lei n° 1.455/76, de 07/04/1976, e regulamentada atualmente pelo Art. 689, XXII, do Decreto n° 6.759/09, de 05/02/2009. Do Relatório Fiscal (fls. 14.28214.523), depreendese, resumidamente, que: A pessoa jurídica BARLEY MALTING IMPORTADORA LTDA., formalmente constituída em 28/09/2007, apresenta dois estabelecimentos atuantes no comércio exterior como importadores, sendo um deles o matriz, localizado cadastralmente na cidade de Arraial do Cabo, Estado do Rio de Janeiro, e o outro constando estar localizado na cidade de Paranaguá, Paraná. Além desses, o cadastro aponta ainda a existência de outro estabelecimento, na cidade de Sorocaba, São Paulo, que não realizou nenhuma operação de comércio exterior. A BARLEY, por meio de sua unidade localizada em Paranaguá, registrou as Declarações de Importação nºs 12/14603973 (09/08/2012), 12/15732467 (26/08/2012), 12/24261870 (28/12/2012), para amparar a importação de “malte de cevada, não torrado, inteiro e com grãos partidos”, transportado a granel. O exportador e o fabricante declarado em todas as DI(s) são, respectivamente, GRENNTAG INVESTMENT LLP (Reino Unido) e CARGILL S.A.C.I. (Argentina). Além da análise dos elementos objetivos contidos nas Declarações de Importação, a seleção das operações teve como fundamento pesquisas e coletas de informações, fundamentos de fato e de direito que, conforme a fiscalização, configuraram suspeita de irregularidade punível com a pena de perdimento. Havia, segundo os autuantes, suspeita quanto a autenticidade da documentação que amparou a importação, inclusive quanto ao preço pago ou a pagar, uma vez que pesquisas internas nos sistemas disponíveis na Receita Federal do Brasil apontaram suspeita sobre os documentos apresentados nas importações em análise, em especial no ponto relativo aos valores das operações contidos nas faturas comerciais que embasam as informações das respectivas Declarações de Importação. Fl. 18387DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.387 3 A suspeita, conforme os autuantes, foi motivada por elemento objetivo, consulta comparativa entre os valores declarados pelo produtor estrangeiro e o importador brasileiro e representou justo motivo para instauração de procedimento especial de controle aduaneiro. De acordo com a fiscalização, também havia suspeita quanto a ocultação do sujeito passivo e do real vendedor e da própria existência de fato do estabelecimento do exportador estrangeiro (GRENNTAG), situado no Reino Unido. Segundo a fiscalização, a análise das operações da GRENNTAG INVESTMENT LLP levantou suspeita de irregularidade quanto à sua própria existência de fato, quando levado em consideração o contexto das operações e distorções observadas entre os valores declarados pelo produtor argentino (CARGILL) e o importador brasileiro. A suspeita ficou, segundo os autuantes, ainda mais robusta na análise do quadro societário da importadora BARLEY MALTING, no qual constam um sócio e uma pessoa jurídica que possuem histórico de vinculação com a GRENNTAG INVESTMENT LLP. Para a caracterização das infrações, a fiscalização Procedeu à análise da estrutura empresarial da matriz da empresa, localizada em Arraial do Cabo, com base nas informações constantes do processo administrativo nº 10730.011994/2007 83, que se refere ao pedido de habilitação da empresa para operar no comércio exterior, e que foi anexado ao processo em debate. A fiscalização constatou que havia vinculações entre a BARLEY, a CERVEJARIA PETRÓPOLIS e a PRAIAMAR INDÚSTRIA, COMÉRCIO & DISTRIBUIÇÃO LTDA., (atualmente denominada F’NA ÉOURO GESTÃO DE FRANCHISING E NEGÓCIOS LTDA). Além disso, segundo os autuantes, ainda que tenha sido deferido o pedido de habilitação, havia irregularidades passíveis de serem reanalisadas à luz das operações efetivas que se realizariam posteriormente. Foi realizada análise da origem dos recursos empregados na integralização do capital social da BARLEY (fls. 14.34114.355). Como as filiais não existiam na época do pedido de habilitação, a fiscalização se utilizou de informações e documentos constantes dos processos 10730.003034/201126 e 10907.720350/201288, anexados ao processo em litígio. Em relação à filial de Paranaguá, verificouse que foram registradas, entre 07/2008 e 07/2016 67 declarações de importação que correspondem ao expressivo volume de 450.035 toneladas de malte de cevada, maior do que o importado pela matriz – 243.325 toneladas. Apesar do grande volume, de maneira similar à matriz, a estrutura física da empresa é bastante singela. Os documentos relacionados aos prestadores de serviços no terminal portuário (AGTL Armazéns Gerais Terminal Ltda e Centro Sul Serviços Marítimos Ltda) fazem concluir que a empresa Barley Malting apenas sucedeu a empresa PRAIAMAR nas importações de malte. Também foi verificado pela fiscalização que as empresas “Zuchetti International LLP”, sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, e sua sucessora “Grenntag Investment LLP” nunca exportaram mercadorias para outras empresas nacionais que não a Praiamar e a Barley Malting. Fl. 18388DF CARF MF 4 Os serviços prestados pela operadora portuária não podem, segundo os autuantes, ser considerados como de beneficiamento ou processo industrial, pois tratam de procedimentos como a simples movimentação e conservação sob determinadas condições, eventualmente envolvendo simples mistura, aeração, limpeza, controle de temperatura e umidade, ações que não caracterizam a industrialização e que não demandam o uso de mãodeobra e equipamentos extremamente específicos para sua realização. A alegação de que havia industrialização do malte através do processo de transilagem e beneficiamento foi, segundo os autuantes, considerado pelo julgador quando do julgamento do processo nº 10730.003034/201126. Documentos relativos à sede da BARLEY em Sorocaba demonstram, segundo a fiscalização, vínculos com pessoas ligadas à Praiamar Indústria, Comércio e Distribuição Ltda e com a Cervejaria Petrópolis S/A. Conclui a fiscalização que, já na fase de habilitação da empresa Barley Malting Importadora Ltda, sabiase que esta empresa, recém criada, estava visceralmente, ainda que de forma não declarada, ligada à Cervejaria Petrópolis S.A. e à Praiamar Indústria, Comércio e Distribuição Ltda. A não inclusão de aviso no sistema interno próprio sobre as ligações entre as empresas acabou, segundo os autuantes, por permitir a operação normal da interessada, cujo estabelecimento filial ora é objeto de autuação. A análise dos documentos e da situação fática da empresa permitiam concluir, segundo os autuantes, já na sua habilitação, que a empresa Barley Malting atuaria por conta e ordem da Cervejaria Petrópolis S.A., assim como certo também estava que a única razão de existir da Barley Malting era a importação de malte de cevada no interesse da própria Cervejaria Petrópolis S.A. Todavia a Barley Malting jamais se apresentou como importadora por conta e ordem de outrem nas declarações de importação que registrou, ao contrário, sempre defendeu que atuava independente e desvinculada de qualquer outra entidade. Caracterizouse assim, segundo os Auditores, uma conduta danosa ao erário de ocultação dos responsáveis pela operação, mediante simulações em diversos níveis. Há ainda, em tese, vários elementos da prática de crimes de falsidade ideológica, tanto para a obtenção da habilitação quanto na própria constituição da empresa. Análise do histórico de importações realizadas pela Barley Malting demonstra que quase a totalidade das importações por ela realizada teve como exportadora a empresa Zuchetti International LLP e sua sucessora Grenntag Investment LLP, sediadas na Inglaterra. Apesar dessa situação, a interessada informou que não dispunha de maiores informações sobre os fornecedores e sequer foi capaz de dizer o nome completo e designação das pessoas que conduziram as negociações. A fatura comercial que instruiu a DI nº 08/14693789, primeira DI registrada pela Barley Malting no Porto de Paranaguá, ao indicar Luiz Carlos Faccin, administrador e responsável legal formal da Barley Malting como responsável também de Zuchetti International LLP, sendo ele próprio o signatário dessa fatura comercial é prova, segundo os autuantes, da conduta de falsidade de informação perante a fiscalização aduaneira, fato que levanta ainda dúvidas sobre o valor aduaneiro declarado. Segundo a fiscalização, a dúvida sobre o valor aduaneiro não se baseou apenas nos elementos constantes das faturas comerciais e na falsidade das Fl. 18389DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.388 5 informações a respeito das negociações com o exportador Zuchetti/Grenntag, fatos que indicavam a inexistência de uma venda e/ou que existia uma vinculação entre o comprador e vendedor, o que afastaria a aplicação do 1º método de valoração aduaneira. Ela também se baseou no fato de que os preços declarados por outros importadores para o mesmo produto, originário do mesmo país, pelo mesmo meio de transporte e embalagem e do mesmo produtor, apresentaramse muito mais baixos que aqueles declarados quando Zuchetti/Grenntag eram os exportadores. O ”Gráfico D.1” à folha 14.398 demonstra, segundo os fiscais, a flagrante e improvável discrepância, ao longo dos anos, entre os níveis de preços praticados pelos exportadores Zuchetti/Grenntag e pela própria Cargill: as diferenças de preços (FOB/Tonleada) desta variaram de US$ 317,95 a US$ 534,09, enquanto de Zuchetti/Grenntag variaram de US$ 687,34 a US$ 839,78, sempre com preços praticados pela Zuchetti/Grenntag maiores que aqueles praticados pela Cargill. Esses fatos demonstram, segundo a fiscalização, a inveracidade das informações prestadas pela Barley Malting quando afirma que há tomada de preços e que a compra ocorre conforme melhor oferta. Houve casos em que operações de importação da Barley Malting foram realizadas com o registro de mais de uma DI para um mesmo navio, tratandose, portanto, de mercadorias iguais em tudo, carregadas inclusive nos mesmos porões, diferenciandose apenas pelo exportador declarado, nas quais se observa a mesma discrepância absurda de preços declarados. Confrontada com as informações sobre as discrepâncias de valores em relação aos diferentes exportadores a BARLEY nada esclareceu. A análise das empresas declaradas como exportadoras leva à constatação, segundo os autuantes, que se tratam de empresas sediadas em escritório virtual em Londres, considerado como domicílio fiscal de aluguel. A constituição da empresa Zuchetti International LLP foi realizada apenas para fins formais, com ligação direta com a Zuchetti International LTD, sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, que, por sua vez, foi constituída com recursos originários da empresa nacional Zuquete Empreendimentos e Participações Ltda e por Luiz Carlos Faccin. Essa era uma réplica de constituição da própria Barley Malting. Posteriormente a Zuchetti International LLP passou a ser denominada Grenntag Investment LLP. Conclui a fiscalização que os impressos apresentados como faturas comerciais emitidas pela Zuchetti/Grenntag não podem ser tomados como prova da ocorrência efetiva de uma venda entre os ali indicados como comprador e vendedor, sendo que o preço deles constante não representa o acerto livre de vontades entre partes independentes. Desse fato decorre a conclusão de que o valor aduaneiro correto das mercadorias declaradas nas operações de importação sob análise é outro, sendo necessário determinálo. Levantamento dos dados constantes do Sistema de Intercâmbio de Informações dos Registros Aduaneiros no Mercosul (INDIRA) relativos às exportações argentinas correspondentes às importações realizadas pela Barley Malting demonstram que o valor das mercadorias eram majoradas, sem nenhuma razão lícita, em percentuais que chegaram a ultrapassar 58%, ou seja, os valores declarados pela Barley Malting nas importações chegaram a ser maiores em mais de 58% em relação aos valores declarados nas exportações argentinas correspondentes (Tabela D.8 – fl. 14.435). Fl. 18390DF CARF MF 6 Com base nos valores efetivamente praticados na venda das mercadorias sob análise declaradas no país de origem, e ainda levandose em conta os acréscimos ao valor aduaneiro (frete, seguro e acréscimos), conforme os documentos apresentados, bem como as quantidades efetivamente desembarcadas no Porto de Paranaguá, por sua vez apuradas mediante Laudo Técnico quantitativo nos termos da legislação específica, a fiscalização chega ao valor aduaneiro considerado, conforme Tabela D.9 (fl. 14.435). Conforme se apurou, mais de um terço (34,44%) do valor enviado pelas vias oficiais de câmbio a título de pagamento das importações, em um total que ultrapassou os R$ 50.000.000,00, não encontra correspondência com os valores que foram, também formal e legalmente pagos aos produtor argentino (Cargill). Tal diferença não encontra, segundo os autuantes, amparo e justificativa nos fatos e documentos apresentados e apurados, reputandose como remessa irregular, tendo sido efetivada mediante o uso, também irregular, de operações para as quais se quis dar a aparência contrária. De acordo com a fiscalização, apesar de o valor declarado a maior ter causado, por consequência, um recolhimento também a maior em tributos federais, esse fato não descaracteriza ou legitima a conduta irregular verificada, considerandose todo o aparato legal anteriormente mencionado no relatório (tópico C.1) e que, dentre outros de igual importância para os mais variados objetivos, ao fim motivam as ações de fiscalização e controle aduaneiro em sentido amplo, essenciais aos interesses fazendários nacionais, nos termos da Constituição Federal. A análise das notas fiscais de entrada emitidas pela Barley Malting revelam que houve, segundo os autuantes, falsidade de informações a respeito ao prazo de pagamento de todas as importações realizadas do exportador Grenntag, ao não informarem que se realizavam mediante financiamento. As notas fiscais de entrada informam ainda que se tratavam de “compras para comercialização” situação que, segundo a fiscalização, não se amolda à alegação feita pela própria empresa (e acatada pelo julgador) em sua defesa administrativa ao Auto de Infração n° 10730.003034/201126, de que a mercadoria não seria vendida da mesma maneira que recebida. As notas fiscais de saída, segundo os Auditores, evidenciam que a mercadoria, desde sempre, tinha como destino final abastecer de matériaprima a estrutura produtiva do Grupo Petrópolis, pois as vendas a algumas outras empresas é ínfima em termos relativos. O nível de preços de venda médios praticados para empresas do Grupo Petrópolis demonstram, de acordo com a fiscalização, que houve a prática de transferências de recursos dessas empresas para a Barley Malting, simulada em operações de compra e venda de mercadorias, pois não há lógica comercial na situação em que os maiores e mais frequentes compradores paguem preços substancialmente maiores, de forma contínua, que aqueles praticados para compradores eventuais e de pequena representatividade. A própria interessada utiliza como exemplo na impugnação apresentada ao outro auto de infração (processo 10730.003034/201126) valor muito mais próximo aos níveis praticados nas poucas operações com terceiros do que daqueles verificados para as empresas totalmente ligadas ao dito vendedor. Conforme os autuantes, as operações da Barley Malting apresentam na sua quase totalidade a pessoa jurídica Faccin Logística Ltda como transportador. Referida empresa foi constituída por Luiz Carlos Faccin que foi sucedido por seus filhos. Luis Carlos Faccin apresentou trajetória profissional como empreendedor de forma que, em período de dois anos, passou de empresário da área de logística de cidade do interior do Paraná ao posto de um dos principais importadores de matéria Fl. 18391DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.389 7 prima para a indústria nacional. Segundo os autuantes, é difícil crer que se trata apenas de espírito empreendedor individual, desvinculado e independente de interesses não declarados, ainda que evidentes, de outras pessoas físicas e jurídicas que formalmente não foram apresentados da devida maneira. Os contratos da BARLEY com a Faccin Logística Ltda, de acordo com a fiscalização, somente foram apresentados quando de sua impugnação ao auto de infração referente ao processo nº 10730.003034/201126. Estranhamente, esse contrato foi assinado, em nome da BARLEY MALTING, por pessoa cuja identificação não é possível, todavia seguramente não tendo sido pelo seu administrador LUIZ CARLOS FACCIN; além disso, não apresenta reconhecimento de firma de tal pessoa, tampouco presença de duas testemunhas, que revestiriam seu cumprimento e execução de maiores garantias; finalmente, verificase lapso de tempo incomum entre a data em que teria sido assinado (01/06/2010) e o reconhecimento de firma (20/10/2010), único registro cronológico público da efetiva existência de tal instrumento particular. De acordo com os autuantes, conforme o dito contrato, a BARLEY MALTING, denominada contratante, enviaria semanalmente, via correio eletrônico, programação contendo a quantidade e os destinos das cargas a serem transportadas (destaque na tela D.144). Conforme a fiscalização “TAL INFORMAÇÃO FOI EXPRESSA E FORMALMENTE REQUERIDA NO CURSO DA PRESENTE AÇÃO FISCAL, através do TERMO DE INÍCIO DE FISCALIZAÇÃO(...)”.Verificase, segundo os fiscais, que a empresa informa ter apresentado os documentos em Ação Fiscal anterior. Em consulta aos documentos apresentados, constatouse que a mesma limitouse a discorrer de forma genérica sobre detalhes específicos de sua operação, evitando com isso a visualização dos reais participantes dos acertos logísticos. Além disso, segundo os autuantes, o período em que ocorreram as operações sob análise (2012) não corresponde ao da Ação Fiscal anterior (2008 a 2011). Sendo assim, especificamente em relação a tais documentos, verificase que não guardam relação com a presente Ação Fiscal. Em relação ao quadro de pessoal, a fiscalização informa que a própria constituição da BARLEY MALTING teve participação ativa de pessoal vinculado tanto ao grupo CERVEJARIA PETRÓPOLIS quanto a PRAIAMAR INDÚSTRIA, COMÉRCIO & DISTRIBUIÇÃO LTDA (atualmente denominada F’NA ÉOURO GESTÃO DE FRANCHISING E NEGÓCIOS). Tal fato, por si só, constituise em elemento irrefutável de interesse comum nos negócios entre as referidas empresas. Em seguida é apresentado pelos autuantes um breve resumo do que foi apurado pela Fiscalização Aduaneira em relação ao quadro de pessoal que esteve/está diretamente relacionado as suas atividades. Nesse resumo a fiscalização descreve os vínculos de DIRCEU BISPO, PERPÉTUA APARECIDA ALVES BONFIN, PAULO AUGUSTO STENGHEL (que foi empregado da BARLEY e da CERVEJARIA PETRÓPOLIS), tendo substituído, em 2009, LUIZ CARLOS FACCIN como diretor da GRENNTAG (exportadora localizada no Reino Unido), assinando as faturas das DI’s objetos de autuação (fls. 14.47314.475). Descreve ainda, a fiscalização, os vínculos de RICHER ALBERTO e de ALTAIR ROBERTO DE SOUZA TOLEDO. Este último, profissional responsável pelos registros contábeis da Barley Malting passou a também ocupar cargo de direção na Cervejaria Petrópolis S/A, fato, segundo a fiscalização, que se reveste de mais um elemento comprobatório da Fl. 18392DF CARF MF 8 efetiva existência e atuação, desde o princípio da Barley Malting, de uma estrutura no controle e condução nos negócios declarados como seus. No que se refere ao financiamento de suas operações, de acordo com os autuantes, as respostas da interessada à fiscalização informam que somente operaria com recursos próprios, não obstante o levantamento baseado nas informações contábeis da própria empresa prove o contrário. A falsidade de informações à fiscalização fica evidente quando se constata que as faturas comerciais e fichas de câmbio quando o exportador foi a Zuchetti/Grenntag informavam a existência de financiamento do fornecedor com prazo mínimo de 180 dias, inclusive com carta de crédito. Esse procedimento demonstra mais um elemento dentro do complexo e elaborado esquema de ocultação verificado. A fiscalização afirma, à fl. 14.495: “Não se deve, ainda, esquecer a constituição do dito fornecedor ZUCHETTI/GRENNTAG, objeto de detalhamento no tópico anterior do presente relatório, que foi formalizado em 21/11/2007 (vide tela D.91), apenas dois meses após a constituição da própria BARLEY MALTING, e apresentando OS MESMOS INTEGRANTES FORMAIS que esta empresa nacional, não sendo aceitável qualquer eventual alegação de desconhecimento da relação entre ambas. Também não se deve esquecer que a fonte primária dos recursos, tanto para capitalização da própria BARLEY MALTING quanto da ZUCHETTI INTERNACIONAL LLP. (inglesa, que passou a ser credora e financiadora formal da BARLEY MALTING) foi a ZUCHETTI INTERNATIONAL LTD. (sediada nas Ilhas Virgens Britânicas), que por sua vez é fruto declarado e ostensivo do investimento da Zuquete Empreendimentos e Participações Ltda., CNPJ 04.935.323/000128 (empresa nacional), controlada pelo controlador da CERVEJARIA PETRÓPOLIS. Tal cadeia empresarial formal, constituída de diferentes, em tese, empresas situadas em diferentes países, utilizada no caso sob análise com o fim último de afastar e dificultar a identificação da fonte originária de grande quantidade de recursos, obviamente não foi constituída por mero acaso. Dadas as características e as quantidades do produto importado, que por si só afastam as pueris alegações da inexistência de destinação certa anterior à sua chegada ao país, e das ligações, ainda que informais, entre os envolvidos citados ao longo do presente relato, é inevitável a conclusão de que se está diante de grandioso esquema arquitetado e operacionalizado para permitir, ao fim, o alcance dos seguintes objetivos, principais e mais aparentes: 1. Fornecer matériaprima importada essencial, de forma regular e em grande quantidade, para a produção da CERVEJARIA PETRÓPOLIS, mantendoa completamente oculta no processo de importação; e 2. Com o uso da mesma sistemática, permitir o envio ao exterior de grande quantidade de recursos, cuja origem e licitude deverão ser apuradas posteriormente por Autoridades diversas, que não encontram amparo e correspondência nas operações comerciais de fato verificadas, conforme já detalhado em tópico anterior.” Em relação à escrituração contábil, a Barley Malting se utiliza, segundo a fiscalização, de sistemática totalmente irregular para registrar boa parte de sua movimentação financeira, à luz das normas contábeis. Essa empresa, segundo os autuantes, se utilizava de uma conta contábil transitória anômala e irregular, identificada como “transferência de numerários”, classificada como conta de Ativo e que recebia lançamentos diários a débito e a crédito que, em sua maioria, compensavamse dentro do mesmo dia. No ano de 2012, circulou por essa conta a cifra de R$ 752.044.556,85. De acordo com os autuantes, o procedimento contábil adotado impedia a correlação unívoca dos lançamentos e seus respectivos registros, ou seja, não é Fl. 18393DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.390 9 possível se identificar, de imediato, o fornecedor ou beneficiário do recebimento, ou a qual nota fiscal se refere. Segundo a fiscalização, em tal conta, não por acaso, passaram os ingressos de recursos nas contascorrentes bancárias que teriam sido efetivados a título de pagamentos de vendas para as empresas do GRUPO PETRÓPOLIS. Todavia, a teor dos históricos dos lançamentos contábeis respectivos, “NÃO HÁ A MÍNIMA POSSIBILIDADE, SEJA POR LEITURA DIRETA, SEJA POR REFERÊNCIA A ALGUM CONTROLE AUXILIAR (CASO TIVESSE SIDO INDICADO), DE SE IDENTIFICAR A QUAL(IS) NOTA(S) FISCAl(IS) TAIS RECEBIMENTOS SE REFEREM”, sendo os registros totalmente imprestáveis para o fim básico ao qual a contabilidade se destina, que é o de informar os interessados no patrimônio da entidade, dentre eles, no caso, a Fiscalização Aduaneira. Agindo de tal forma, a empresa fica, segundo a fiscalização, de forma obviamente indevida, totalmente livre para identificar tais recursos da melhor maneira que lhe aprouver e de acordo com a conveniência de momento, como efetivamente fez em sua peça de defesa Auto de Infração (processo 10730.003034/201126), na qual, inclusive, afirmou de maneira totalmente infundada que não ela, mas a Fiscalização Aduaneira então autuante, teria elaborado uma "continha de chegada". Segundo os autuantes, é de se ressaltar que no TERMO DE CONSTATAÇÃO / TERMO DE INTIMAÇÃO SAFIA N° 214/2011 (folhas 2179 a 2186 do processo n° 10907.720350/201288), a Fiscalização Aduaneira havia requerido detalhamento que permitisse verificar a correspondência entre o que foi denominado como vendas e os seus respectivos recebimentos. Em resposta, a empresa nada disse, utilizandose do subterfúgio de alegar ausência de norma legal que a obrigasse a fazêlo. Na Ação Fiscal que originou o processo em debate, de acordo com os Auditores, requereuse novamente a mesma informação em relação às notas fiscais de venda relacionadas as operações sob análise, exigência que a empresa negouse a cumprir utilizandose do mesmo expediente. Conforme os autuantes, com tal argumento, a empresa objetivamente deixou a cargo da Fiscalização, com base apenas nas parciais informações disponíveis na documentação também parcialmente encaminhada, descobrir/desvendar/adivinhar as relações específicas do seu negócio que sua contabilidade, aí sim contra a legislação pertinente, não foi capaz de aclarar. Visando a dar nova oportunidade para que BARLEY MALTING pudesse esclarecer a situação acima posta, a fiscalização, através de TERMO DE CONSTATAÇÃO / TERMO DE INTIMAÇÃO / TERMO DE INFORMAÇÃO SAFIA, efetuou a seguinte exigência: “b. Tendo em vista que em análise a escrituração contábil verificouse que NÃO HÁ DETALHAMENTO das operações relacionadas ao recebimento de clientes, CONFORME DETERMINA A LEGISLAÇÃO COMERCIAL (art. 1.184 da Lei n° 10.406/2002), apresentar documentação HÁBIL e IDÔNEA que contenha a DISCRIMINAÇÃO das operações comerciais (notas fiscais de venda) que deram origem aos registros contábeis contidos na tabela a seguir: (...) A documentação deverá discriminar em relação a cada operação comercial (nota fiscal de venda), de maneira INEQUÍVOCA: Fl. 18394DF CARF MF 10 a) data de emissão, número e valor; b) desconto ou juros aplicados. c) valor líquido recebido. c. Ainda em relação aos registros contábeis contidos na tabela anterior, deverá ser informada, a exceção daqueles que já identificam, a operação financeira bancária correspondente a cada um dos valores recebidos de clientes, discriminando, de maneira INEQUÍVOCA: a) data; b) valor; c) contacorrente bancária em que ocorreu o respectivo crédito.” A BARLEY apresentou manifestação e planilha anexa, limitandose a reproduzir “AS MESMAS INFORMAÇÕES” que constavam no TERMO DE CONSTATAÇÃO / TERMO DE INTIMAÇÃO / TERMO DE INFORMAÇÃO SAFIA N° 083/2016, de 19/08/2016, sem fazer qualquer esclarecimento em relação as exigências formuladas; segundo a fiscalização, em mais uma clara demonstração da falta de interesse da BARLEY MALTING em colaborar como a Fiscalização Aduaneira. Houve, segundo os autuantes, nova tentativa de esclarecer os fatos verificados, efetuada através de outro TERMO DE CONSTATAÇÃO / TERMO DE INTIMAÇÃO / TERMO DE INFORMAÇÃO. Porém, esgotado o prazo concedido para o atendimento as exigências, “NENHUM DOCUMENTO OU ESCLARECIMENTO” foi apresentado. De acordo com os autuantes, tal conduta, além de caracterizar mais um ato de flagrante ausência de interesse na elucidação dos fatos, significou a perda da preciosa oportunidade que teria para esclarecer as irregularidades verificadas pela Fiscalização Aduaneira. De acordo com a fiscalização, conforme apontado, tratamse de divergências importantes e relacionadas a elementos essenciais das notas fiscais de venda das mercadorias. Tal atitude não tem outro propósito senão o de ocultar as reais condições em que deram as operações. Referido expediente já foi utilizado em autuações anteriores e levam a crer que quem de fato elaborou uma "conta de chegada", de modo a aparentar que os recebimentos seriam provenientes de vendas, foi a própria empresa, que inegavelmente o fez de modo intencional com finalidade que efetivamente foi alcançada àquele momento (julgamento favorável na primeira instância administrativa no processo nº 10730.003034/201126). Às fls. 14.52114.522, aduz a fiscalização: “Por todo o exposto no presente Relatório, concluise que a atuação da empresa BARLEY MALTING IMPORTADORA LTDA., elaborando e apresentando declarações, documentos contábeis e comerciais, bem como registrandoos junto aos diversos Órgãos envolvidos, foi toda ela direcionada para o fim único de simular existência de negócios que não existiram de fato, apenas no campo das aparências, em total incompatibilidade com seu fim declarado. Assim agindo, e no âmbito da presente autuação, buscou, e efetivamente conseguiu, como já discorrido anteriormente, alcançar, entre outros, o objetivo de fornecer matériaprima importada essencial, de forma constante e em grande Fl. 18395DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.391 11 quantidade, para a produção da CERVEJARIA PETRÓPOLIS S/A, mantendoa completa e indevidamente oculta no processo de importação, ação danosa ao controle das operações de comércio exterior em sentido amplo. Tal conduta é definida e tipificada como dano ao Erário e punida com a pena de perdimento, nos termos da previsão contida no Art. 23, V, do DecretoLei n° 1.455/76, de 07/04/1976, e regulamentada atualmente pelo Art. 689, XXII, do Decreto n° 6.759/09, de 05/02/2009. (...) Para a presente situação, em que a mercadoria não é mais passível de apreensão, tendo em vista sua não localização pela entrega antecipada, apresentase cabível a figura da conversão da referida penalidade em multa, nos termos previstos pela mesma norma legal acima citada. Acerca da possibilidade de tal conversão, administrativamente há diversas Decisões confirmandoa, inclusive para casos envolvendo operações de exportação.” Foram autuadas conjuntamente com a interessada “Barley Malting Importadora Ltda”, na condição de responsáveis solidárias, as empresas “Cervejaria Petrópolis S.A.” e “Praiamar Indústria, Comércio & Distribuição Ltda” (atualmente F’na ÉOuro Gestão de Franchising e Negócios Ltda.) Consta dos Termos de Ciência de Responsabilização Solidária por Infração (fls. 14.27814.279 e 14.28014.281) que: “ (...) constatouse a utilização da empresa BARLEY MALTING IMPORTADORA LTDA., CNPJ 09.193.169/000341, apresentada formal e documentalmente na figura de importadora e adquirente, como anteparo de modo a ocultar o real interessado nas operações, a empresa CERVEJARIA PETRÓPOLIS S/A, CNPJ 73.410.326/000160. Além disso, constatouse ainda a ocorrência de irregularidade na declaração do valor aduaneiro de grande parte das operações analisadas, conduta também sancionável nos termos da lei. Em ambas as situações também caracterizouse a participação ativa e intencional, tanto da CERVEJARIA PETRÓPOLIS S/A, já mencionada, quanto da empresa F’NA É’OURO GESTÃO DE FRANCHISING E NEGÓCIOS LTDA., CNPJ 00.851.567/0001 71, que ao fim conduziu e motivou a responsabilização solidária de ambas nos fatos apontados. O exposto ensejou o lançamento tributário consubstanciado no referido Auto, o qual se refere à multa correspondente ao valor aduaneiro efetivamente praticado nas operações, além da multa relativa à diferença entre o valor aduaneiro declarado e o efetivamente praticado (...) (...) ficou caracterizada a Responsabilidade de que trata o Art. 95 do Decretolei nº 37/66, de 18/11/1966(...)” Fl. 18396DF CARF MF 12 Cientificada das exigências fiscais, por abertura de mensagem, em 28/12/2016 (fl. 14.580) A Cervejaria Petrópolis SA, apresentou, em 26/12/2016 (fl. 14.674), impugnação na qual alega, em síntese, que: PRELIMINARES O auto de infração é nulo por ausência da ordem escrita referente ao segundo exame no mesmo exercício de 2012, uma vez que, no processo nº 10074.721487/201208, o período de apuração foi de 01/07/2008 a 01/06/2012. No presente processo a mesma situação que ensejou a nulidade do Processo Administrativo n°10074.721487/201208, pela DRJFlorianópolis, ocorreu, ou seja, reexaminouse o mesmo exercício (2012) sem qualquer autorização expressa da autoridade competente, como determina o art. 42, do Decreto n° 7.574/2011; O auto de infração padece de erro material, sendo de rigor sua declaração de nulidade. Há erro na base de cálculo da multa; Às fls. 14.382 e seguintes, no item denominado "D.3. Do fornecedor estrangeiro localizado no Reino Unido Do Valor Aduaneiro declarado", o agente fiscal faz extensa análise sobre o valor aduaneiro declarado nas importações, chegando à conclusão de que haveria superfaturamento dos valores declarações nas DI’s; O suposto superfaturamento nas DI’s foi até mesmo objeto de autuação fiscal, no Processo Administrativo n° 10907.721958/201653; Entretanto, curiosamente, ao lavrar o auto de infração, o agente fiscal, ao arrepio da lei e em completa falta de coerência, considerou como valor aduaneiro o valor supostamente superfaturado, e não o "real" valor aduaneiro, menor, citado por ele, autuando a impugnante em R$ 51.681.648,66; Há nulidade do auto de infração pela inclusão na base de cálculo da multa equivalente de malte vendido para terceiros; Tendo o agente fiscal conseguido individualizar as notas fiscais de venda do malte importado em cada DI, por óbvio que deveria excluir da base de cálculo o malte vendido para terceiros; A análise pelo CARF, em outros processos administrativos, dos fatos apontados na autuação fiscal, reconhecendo a validade das importações, vincula a Administração Pública, em virtude da soberania jurisdicional e decisional dos tribunais administrativos e do princípio da hierarquia na administração pública; As questões versadas pelo agente fiscal em seu relatório, especialmente com referência à interposição fraudulenta, já foram analisadas pelo CARF em 3 oportunidades, sempre com decisão reconhecendo a validade das importações e a não ocorrência de interposição fraudulenta; Com efeito, em outras decisões do CARF houve a análise detalhada das operações de importações realizadas pela empresa Barley e posteriores vendas à empresa Cervejaria Petrópolis, sempre se verificando a LEGALIDADE das operações; Observese que nos Autos de Infrações sempre foi analisado o modus operandi das operações, e não especificamente em relação a determinadas Declarações; Vale esclarecer que o agente fiscal utiliza como fundamento para sua autuação fiscal os fatos e documentos apurados no PAF n° 10730.003034/201126. Ocorre que o referido processo (PAF n° 10730.003034/201126) já foi objeto de Fl. 18397DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.392 13 decisão definitiva por parte do CARF, com o reconhecimento de inexistência de interposição fraudulenta e combate às alegações apontadas acima; O que se observa é que o agente fiscal, mais uma vez, quer a reapreciação de documentos e fatos já analisados e julgados favoravelmente ao contribuinte, violando assim a coisa julgada administrativa, devendo ser anulado o auto de infração; Não é possível a utilização das provas emprestadas dos processos administrativos nºs 10730.011994/200783 e 10730.003034/201126; Como se sabe, para ser válida, a prova emprestada, quando produzida entre as mesmas partes, deve preencher três requisitos: a) ter sido colhida em outro processo entre as mesmas partes; b) que na sua produção tenham sido observadas as formalidades estabelecidas em lei; c) e que o fato probando seja idêntico. Porém, a impugnante não participou dos PAFs n°s 10730.011994/200783, 10730.003034/201126 e 10730.722104/201220, já que em tais procedimentos apenas constou como parte a empresa Barley; Houve cerceamento de defesa e desrespeito ao devido processo legal, em virtude da falta de clareza e objetividade do auto de infração, existindo malícia no lançamento; Nos autos constam documentos de transações realizadas pela empresa Barley de todas as fiscalizações anteriores desde 2008, ou seja, 4 anos anteriores aos fatos objetos do presente lançamento. Este excesso de informações prejudica a compreensão de toda extensão dos fatos que se pretendeu demonstrar, além de ser evidente o intuito de tumultuar o processo; Não basta afirmar que foi concedido o contraditório à impugnante, para que, em 30 dias, pudesse se defender e analisar mais de 14 mil páginas de documentos de outra empresa em relatório extenso e confuso, pois, todos os outros princípios contidos no art. 2º da Lei nº 9.784/1999, que deveriam ser obedecidos, não o foram; Houve cerceamento do direito de defesa por utilização de documentação incompleta relacionada a terceiros sem disponibilização de documentos essenciais à impugnante. Nesse sentido foram transcritos no relatório fiscal apenas partes de documentos, sem que esses tenham sido disponibilizados na íntegra; O auto de infração traz em seu corpo informações documentais parcialmente reproduzidas que, depois, não são anexadas aos autos, o que impede a impugnante de conhecer todo o conteúdo entregue à fiscalização, prejudicando e cerceando o seu direito ao contraditório e à ampla defesa; A fiscalização produziu provas mediante utilização de trechos extraídos de site da internet em idioma estrangeiro, sendo que não se pode admitir provas em idioma estrangeiro sem tradução juramentada, conforme legislação em vigor; Não tendo sido observadas a forma e os requisitos legais para tornarem os documentos válidos no Brasil, e não se tendo demonstrado sequer o meio de obtenção destes, deverão tais documentos ser desentranhados dos autos, por serem imprestáveis ao processo e para que não exerçam qualquer influência sobre o órgão julgador; MÉRITO A importações da empresa BARLEY foram feitas de forma regular; Fl. 18398DF CARF MF 14 O malte de cevada é utilizado, no Brasil, principalmente para a fabricação de cervejas. Sendo um mercado restrito é comum a rotatividade de funcionários entre as poucas empresas do setor. Da mesma forma, como são poucas as possibilidades de fornecimento de matériaprima é comum a instrumentalização de um contrato para o fornecimento de malte, para se resguardar as partes envolvidas. Todavia, em nada se assemelha com uma encomenda, muito menos uma importação por conta e ordem. O pagamento das mercadorias sempre ocorreu depois do recebimento; Nada se contratou em relação às eventuais importações que a Barley efetuou, pouco importando para a impugnante se o malte é importado ou nacional. Muito menos com recursos da impugnante, o que, em tese, configuraria uma importação por conta e ordem; Mas, como se verifica nos documentos dos autos a impugnante efetuou os pagamentos somente após receber os produtos e nos prazos que o mercado normalmente utiliza, em típica operação de compra e venda; Vale esclarecer que a tese do Fisco de que houve pagamento do malte, por parte da impugnante, anteriormente à importação, o que desconfiguraria a importação por conta própria, já foi enfrentada e analisada pela DRJ e pelo CARF em diversas oportunidades, decidindose, SEMPRE, pela validade do procedimento adotado; Embora tenha se esforçado tanto no afã de demonstrar uma suposta irregularidade nas operações de importação, o que justificaria a aplicação das penas previstas, o autuante concentrouse em tentar comprovar, sem sucesso, que a empresa Barley serviria exclusivamente para realizar importações para atender a determinadas empresas mencionadas no processo, dentre elas a impugnante; Afirmou que através de empresa Zuchetti Internacional, que realizou integralização de capital na empresa Barley, estaria justificada a finalidade de intermediar importações em favor da impugnante, pois, segundo aponta o AGENTE FISCAL, tratarseia de financiamento das importações, através de terceiras empresas; Ocorre que em momento algum a AGENTE FISCAL apontou que a origem de todas as importações que julgou serem por conta e ordem de terceiros foram realizadas com recursos de terceiros, embora tivesse acesso integral a todos os extratos bancários da empresa Barley, conforme se verifica na cópia do auto de infração lavrado, processo n° 10730.003034/201126; Visando demonstrar a "suposta" utilização de recursos de terceiros nas operações de importação, o agente fiscal faz afirmação de que o fato de a importadora adquirir o malte com prazo de pagamento de 180 dias e o vendêlo no mercado interno com pagamento à vista ou para 30 dias implicaria em financiamento da operação; Ocorre que é prática comercial reiterada pela maioria das empresas ter prazos diferentes entre pagamento a fornecedores e vendas, assim, não há nenhuma relação entre obter prazos distintos entre o faturamento do fornecedor e a venda no mercado interno, pois tal fato tem mais a ver com o fluxo de caixa do que com financiamento; Outro ponto essencial a ser esclarecido é o fato de que, ao efetuar a venda dos produtos que importa, a fornecedora de malte passa a ter recursos próprios decorrentes de sua receita operacional, não se podendo falar em recursos de terceiros, haja vista que, se tem receita própria e estes são suficientes para arcar com os riscos, custos, despesas e encargos da sua atividade, demonstrada está sua capacidade para operar no comércio exterior; Fl. 18399DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.393 15 Importante destacar que a impugnante desconhece as informações eventualmente utilizadas pela empresa Barley para fins de obtenção de autorização junto ao sistema Radar (processo n° 10730.011994/200783), onde afirma que receberia adiantamentos pela compra do malte, de acordo com as fls. 14.328 do processo. Se isso ocorreu, não foi com a Impugnante; Para poder afirmar que houve financiamento por parte da Impugnante imprescindível seria a verificação de sua contabilidade para constatar lançamento contábil com essa finalidade. Se o agente fiscal não adotou esta providência, não pode afirmar por mera presunção subjetiva que a impugnante financiou operações da empresa Barley; Desta forma, desde já se impugna tal informação e se afasta a sua utilização para qualquer fim, pois, destituída de qualquer comprovação nos autos; Tal conduta reforça ainda mais a afirmação de que o AGENTE FISCAL pretendeu desconsiderar as operações de importação direta por mera presunção, sem qualquer comprovação fática e ou técnica que amparasse a lavratura do auto de infração, o que torna injurídica a sua manutenção; Vale ressaltar que a impugnante possui autorização para operar no comércio exterior, ao contrário do que afirma o agente fiscal no relatório fiscal, conforme demonstra com a juntada de diversas DI's de operações próprias e, sendo assim, não deve prosperar a afirmação de que a falta de autorização no Radar/Siscomex era a justificativa para a impugnante "supostamente" utilizar o nome da Praiamar ou Barley para realizar importações, o que já se demonstrou não ser verossímil; Desta forma, verificase não haver a suposta irregularidade trazida no relatório fiscal que acompanha a autuação; O agente fiscal não soube identificar qual das modalidades de importação ocorreu nas importações de malte pela empresa Barley; À fl. 14.449, o agente fiscal elabora quadro onde vincula as DIs do presente auto de infração (e outras) com os destinatários das mercadorias; Tomandose, por exemplo, a DI n° 12/15732467, podese ver que o agente fiscal, através da análise das notas fiscais de venda da empresa Barley, verificou que o malte importado através dessa DI foi vendido para três empresas distintas: a impugnante Cervejaria Petrópolis, Union Destillery e MCA Comercial; Ora, o simples fato do malte importado ter sido vendido a mais de uma empresa já desmonta toda a tese do Fisco, já que o ponto central das alegações é de que toda a importação de malte era realizada com recursos da impugnante e destinados a ela; Aliás, esse aspecto já foi abordado pelo CARF, quando dos julgamentos dos PAFs n°s 10730.722104/201220 e 10730.003034/201126; Destarte, sem adequada fundamentação legal para tanto, tornase insubsistente a presente autuação, pois, na forma em que lavrada se encontra em inadmissível afronta aos princípios do due process of Law (artigo 5°., LV, CF), da legalidade e da tipicidade tributária (artigo 97, V, CTN); Há impossibilidade de aplicação da pena de perdimento ante à falta de demonstração da inexistência dos bens importados; Fl. 18400DF CARF MF 16 Não restou apontado em momento algum nos autos que a impugnante "ocultou" tais sujeitos das operações com comércio exterior, haja vista que esta sequer realizou estes atos de comércio exterior, não lhe podendo ser imputada tal penalidade, por completa impossibilidade do objeto; De outro ponto, não se demonstrou no auto de infração a ocorrência de fraude, simulação ou interposição fraudulenta de terceiros, haja vista que tais acusações devem ser provadas, e não apenas objeto de presunção pessoal da agente fiscal, como se verifica no presente caso; Em relação à fraude ou simulação, também nada se mencionou, de forma que não restou tipificada qualquer uma das penalidades previstas na norma, razão pela qual deve ser afastada a pena de perdimento convertida em multa da responsabilidade da impugnante; Por outro lado, não há no referido dispositivo legal qualquer menção expressa de que a infração relativa à pena de perdimento deva recair sobre a adquirente das mercadorias importadas; Desta forma, deve ser afastada a multa referente à conversão da pena de perdimento da responsabilidade da impugnante, pois não praticou qualquer dos atos previstos no artigo 23 do Decretolei n° 1.455/1976, havendo, assim, falta de tipicidade na conduta da impugnante; Não há previsão legal para a responsabilização por solidariedade da pena prevista no Decretolei nº 1.455/1976. Portanto à impugnante não se pode estender a pena prevista no art. 23 do Decretolei nº 1455/1976 por completa falta de previsão legal. A impropriedade da responsabilização por solidariedade no presente caso, se dá por duas razões: a) Pela generalização das condutas das empresas autuadas; b) Pela falta de previsão legal específica para a atribuição de responsabilidade à impugnante pelas mercadorias importadas por terceiros; A autuação elenca diversos fatos e negócios entre inúmeras pessoas jurídicas e físicas e, mesmo não tendo qualquer relação específica entre todos os negócios realizados entre uma e outra empresa, já que estas importações culminaram na venda dos produtos para outros clientes, como comprovadamente demonstrou o agente fiscal às fls. 14.449, atribuise 100% de responsabilidade à impugnante, sem qualquer individualização das condutas e referidas infrações e o que é pior, atribuindo multa à impugnante, que sequer sabia destas importações, quando deveria, se encontrasse irregularidade, aplicar à destinatária; Analisandose a autuação, verificase que a autoridade administrativa elenca como fundamento legal para responsabilização da impugnante por solidariedade o disposto no artigo 95 do DecretoLei n° 37/1966; Ocorre que a responsabilidade solidária decorrente do artigo 95 do Decreto Lei n° 37/1966 aplicase apenas às infrações decorrentes de ação ou omissão de norma estabelecida no próprio DecretoLei, em seu regulamento ou em ato administrativo de caráter normativo destinado a completálos; Entretanto, o DecretoLei n° 1.455/1976 não pode ser considerado como regulamento do DecretoLei n° 37/1966 ou ato administrativo de caráter normativo destinado a complementálo; Além disso, o artigo 108, §1° do CTN dispõe que "O emprego da analogia não poderá resultar na exigência de tributo não previsto em lei". Tal dispositivo coadunase perfeitamente com aquele do artigo 112 do mesmo estatuto, que Fl. 18401DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.394 17 estabelece que "A lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades, interpretase da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvida quanto: (...) IV à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação"; Ainda que houvesse a hipótese de solidariedade em lei, o que se demonstrou não existir, não se apontou nestes autos qual seria a suposta vantagem e/ou benefício obtido pela impugnante com a alegada interposição fraudulenta, motivo que, por si só, também afastaria a responsabilidade desta; Desta forma, deverá ser afastada a responsabilidade solidária atribuída à impugnante, por completa falta de previsão legal aplicável ao caso, devendo a mesma ser excluída do processo; Conforme Constituição Federal, Art 5º, inciso XLV, a pena não pode passar para a impugnante; Como se verifica no texto constitucional supra, a pena não passará da pessoa do condenado, no caso, a empresa autuada (a empresa Barley), sendo que determina, ainda, que pode o perdimento de bens ser estendido aos “SUCESSORES”, e contra eles executado, “ATÉ O LIMITE DO VALOR TRANSFERIDO”; Desta forma, pela lógica, se até mesmo em relação aos sucessores, únicos que podem ser responsabilizados por pena de perdimento, nos termos do artigo 5°, XLV, da CF, existe limitação ao valor a estes transferidos, como pode a impugnante ser responsabilizada pela totalidade das importações da empresa Barley, inclusive com mercadorias que foram vendidas a terceiros? Inexistiu simulação, tendo sido utilizados fatos e fundamentos considerados como legais pela própria Administração Pública; A simulação, como apontado acima, estaria no superfaturamento do preço do malte, visando a lavagem de dinheiro, e o financiamento das operações de importação pela impugnante, figurando a empresa Barley unicamente como prestanome; Iniciase a análise da incongruência das argumentações do agente fiscal pelo suposto financiamento das operações de importação; O agente fiscal alega, mas não prova, que as operações de importação teriam sido financiadas pela impugnante, não apresentando qualquer demonstração contábil ou documental de que a impugnante tenha transferido numerário para a conta da empresa Barley para financiar a importação do malte das DI’s objetos do presente auto de infração; Nunca é demais repisar, as importações de 2007 a junho/2012 já foram analisadas pela DRJ e pelo CARF e consideradas válidas, nos julgamentos dos PAFs n°s 10074.001034/201091, 10907.720350/201288, 10074.001695/201017, 10730.003034/2011 26, 10730.722104/201220, e 10074.721487/201208; Aliás, na decisão do CARF do PAF n° 10730.003034/2011 26 (inclusive utilizado para fundamentar a presente autuação), expressamente se consignou que as importações não foram realizadas com recursos da impugnante, mas com recursos próprios da empresa Barley; Ora, se de 2007 a junho de 2012 a DRJ e o CARF já decidiram que não houve financiamento das importações por parte da impugnante e que elas ocorreram com recursos próprios da empresa Barley, não pode agora o agente fiscal querer Fl. 18402DF CARF MF 18 fundamentar esse "financiamento" em virtude de supostos adiantamentos no momento de habilitação da empresa Barley (aliás, adiantamentos que não ocorreram, como se demonstrará mais adiante); Mais do que isso, é de se observar que no processo administrativo de habilitação da empresa Barley a Administração Pública foi informada desse suposto adiantamento (que não ocorreu) e, mesmo assim, deferiu a habilitação da empresa Barley para atuação no comércio exterior, estando essa habilitada até o presente momento; Assim, não resta dúvida que a afirmação de financiamento das operações por parte da impugnante são inverídicas, não tendo sido provadas pelo agente fiscal. Pior, já tendo suas alegações sido objeto de análise e decisão pela DRJ e pelo CARF, que julgaram como lícitas as operações de importação, confirmando que estas ocorreram com numerário próprio da empresa Barley; Com relação à alegação de que houve superfaturamento com o objetivo de lavagem de dinheiro, a falta de lógica do agente fiscal beira o absurdo; Com efeito, ao que se supõe, de acordo com a lógica do agente fiscal, a impugnante, através de um intrincado esquema fraudulento, resolveu "lavar" dinheiro lícito, superfaturando importações e consequentemente pagando a mais imposto de importação, IPI, ICMS, PIS e COFINS, etc, além de manter um custo operacional de outra empresa; No presente caso, pelo raciocínio desenvolvido pelo agente fiscal, os valores supostamente remetidos para o exterior através do superfaturamento do malte possuíam origem lícita, qual seja, a venda de bebidas; portanto, não há como se sustentar que o fundamento para o intrincado esquema fraudulento criado pelo agente fiscal seria a lavagem de dinheiro; Com efeito, diante das ilegais autuações fiscais anteriores, a impugnante decidiu, a partir de 2012, realizar ela própria a importação de malte, deixando de adquirilo da empresa Barley; Entretanto, ao que parece, a referida empresa continua ativa e promovendo importações de malte e venda no mercado interno para outros clientes, como se observa da relação de notas fiscais citadas pelo agente fiscal às fls. 14.357/14.358 entre outras; Ora se continuou ativa, importando e vendendo malte no mercado interno, impossível se sustentar que sua criação decorreu unicamente da intenção da impugnante de remeter dinheiro lícito para o exterior ou de se ocultar; Assim, resta demonstrado que os fundamentos apresentados pelo agente fiscal para a suposta interposição fraudulenta não se sustentam, não tendo ocorrido a simulação apontada; Sustenta o agente fiscal no relatório a existência de grupo econômico entre todas as empresas citadas no processo, onde o objetivo final é o de fazer uma operação de lavagem de dinheiro, pois, segundo sua tese, nos negócios entre estas empresas existe sempre a presença de pessoas físicas coincidentes no controle destas empresas; Ocorre que os fatos e as pretensas provas utilizadas para sustentar a existência de um suposto grupo de empresas não demonstram esta condição de agrupamento societário; Outrossim, confunde o agente fiscal a pessoa física com pessoa jurídica, esquecendose que estas possuem autonomia, personalidade jurídica distintas e Fl. 18403DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.395 19 independentes, não podendo ser desconsideradas, haja vista que, somente por decisão judicial a personalidade jurídica poderia ser desconsiderada, nos termos do art. 50 do Código Civil; Para a caracterização de grupo econômico de fato, haveria o auto de infração demonstrar que, os caracteres fixados na lei estariam de fato, presentes nas relações das empresas tidas como integrantes de grupo econômico, isto é, estariam integradas por objetivos e atividades comuns, com uma coordenação e houvesse um mínimo de controle de uma sobre as outras; De acordo com textos legais, julgados, bem ainda dos conceitos emitidos pelos doutos, a caracterização de grupo econômico de fato não passa pela ilação aventada no auto de infração: eventual incapacidade econômica dos sócios, o que poderia caracterizar outra figura jurídica, nunca grupo econômico; Se nessas empresas os sócios realmente não ostentam essa capacidade, caracterizando uma fraude (não grupo econômico), deverá então, investigar e aplicar a lei cabível e não aventar figura jurídica impertinente; O agente fiscal, repitase, não apontou onde estaria a direção, o controle ou a administração das sociedades que compõem o grupo econômico de fato aventado, mas apenas alega (repitase, não prova) que os sócios não teriam capacidade financeira ou que haveria sócios em comum; Com efeito, é inegável que o auto de infração vêse respaldado apenas no instituto da presunção, pois apenas presume que pela ilação de eventual amizade ou suposta impossibilidade econômica de sócios de algumas empresas haveria grupo econômico de fato; Assim é que estão correlacionados e afirmados na Carta Política os princípios da Moralidade (art. 37) do Devido Processo Legal (art. 5°, LIV) e do contraditório em processo administrativo (art. 5°, LV), todos vulnerados, de alguma forma, pela presente ação fiscal e pelo critério presuntivo adotado na autuação; Há impossibilidade de a impugnante manifestarse sobre terceiros; O auto de infração para justificar a ocorrência de grupo econômico realizou uma série de informações sobre um sem número de pessoas jurídicas que não guardam qualquer vínculo jurídico com a impugnante; A defendente não pode enfrentar tais informações porquanto não dispõe do privilégio de "poder" devassar a vida fiscal de quem quer que seja; Outrossim, sequer apresentaramse como prova os contratos sociais das empresas citadas, que comprovariam as entradas e saídas de sócios naquelas sociedades na época dos fatos; Constam ainda, informações que não restaram provadas documentalmente no processo, o que impede de a impugnante se manifestar especificamente sobre estas, haja vista que não teve acesso à fonte das informações, o que cerceia o direito de defesa e acarreta em nulidade do auto de infração. Aqui reporta a Impugnante ao item que trata especificamente dos pretensos documentos estrangeiros utilizados pela agente fiscal, sem que ao menos tivesse se assegurado a confiabilidade da fonte ou tenha trazido a indispensável tradução juramentada e a consularização de tais papéis; Fl. 18404DF CARF MF 20 O relacionamento das pessoas físicas decorrente das negociações não pode nunca ser confundido com a ligação das pessoas jurídicas, visto ser este um aspecto societário cuja lei conceitua expressamente o que seja "pessoa ligada", não havendo nestes autos qualquer afirmação neste sentido, de que há qualquer ligação entre as empresas autuadas; Quanto às empresas situadas no exterior nenhuma prova válida foi produzida nos autos, apenas "print's" de internet em idioma estrangeiro que não foram traduzidos, não são documentos oficiais, não foram legalmente adquiridos e não passam qualquer credibilidade, tendo inclusive ressalvas de que tais endereços de internet não se responsabilizam pelo conteúdo do site, conforme se verifica na tradução juramentada anexa (doc. 12); Pelo exposto, verificase que todos os argumentos elencados pela agente fiscal para sustentar a sua tese de que existe um grupo de empresas ligadas à impugnante não passa de uma imaginativa e equivocada interpretação de fatos e informações lançadas no relatório fiscal de forma distorcida; Desta forma, não se sustenta a afirmação de que as empresas autuadas são empresas periféricas da impugnante, nem que existe um grupo econômico entre estas; Em relação à empresa Zuquete Empreendimentos e Participações S/A, a fiscalização menciona, às fls. 14.349 que esta empresa teria participações "no ano de 2005" em duas empresas estrangeiras: Cadnell Company S. A e Zuchetti International; Entretanto, tratase de parcial informação do lançamento extraído do livro Razão da Zuquete (às fls. 14.349). No entanto, “JUNTOU O DOCUMENTO PARCIALMENTE!”; Ocorre que, ao se verificar o documento completo, agora juntado pela impugnante (doc. 11), constatase que o valor referese a venda de quotas à empresa Cadnell, demonstrandose o registro do valor que ficou de ser recebido por aquela venda; A ausência do esclarecimento sobre este fato poderia levar ao equivocado entendimento de que a Zuquete fosse investidora na empresa Cadnell até aquele exercício de 2005, quando na verdade é credora da mesma; Não merece credibilidade por falta de fundamento, comprovação e lógica o quadro elaborado às fls. 14.422, que trata da circulação de recursos financeiros, devendo assim ser desconsiderado para qualquer fim nos presentes autos; Em relação aos colaboradores citados pela fiscalização, no que se refere a Dirceu Bispo, o fato de haver funcionário que tenha trabalhado em uma empresa ou outra do mesmo ramo não indica em nada a existência de um grupo de empresas e é tão comum no mercado de malte e cerveja como em outros mercados, devido ao tipo de especialização dos colaboradores; Não há como se negar que o Sr. Paulo Stenghel é profissional capacitado, tendo trabalhado para diversas indústrias do ramo cervejeiro, sendo essa a razão de sua contratação pela impugnante, quando decidiu passar a importar o próprio malte. Em relação a Richer Alberto, com relação aos pagamentos efetuados, é de se observar que os documentos juntados pelo agente fiscal apenas provam que as transações financeiras foram efetuadas com a utilização da senha e cadastro do Sr. Richer junto à instituição financeira, e não pessoalmente por ele; Fl. 18405DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.396 21 A impugnante junta aos autos declaração de próprio punho, com firma reconhecida, do Sr. Richer (doc. 21 ), onde informa que ao sair da empresa Barley, entregou sua senha pessoal aos representantes da empresa, que pediram autorização para utilizála por mais algum tempo, até a troca junto à instituição bancária, tendo em vista que a saída da empresa ocorreu de forma repentina; No que se refere a Altair Toledo, obviamente, não existe qualquer impedimento para que, participando do Conselho de Administração da impugnante, prestasse serviço de contabilidade para outras empresas, principalmente por se tratar de períodos distintos, haja vista que se retirou da sociedade contábil prestadora de serviços em 30 de maio de 2011; Inexistiu dano ao erário. A impugnante adquiriu produtos da empresa Barley e esta os forneceu nos termos de contrato firmado, que poderia ser tanto de malte nacional como importado, desde que atendesse a especificação técnica do produto. Logo, se o produto entregue era o importado ou o nacional não era da conta da impugnante; De consequência, o produto adquirido, se importado quando da compra e venda, já se encontrava internado, portanto, nacionalizado, tornando desprovida de qualquer sentido lógico jurídico a ilação de que encomendara tais produtos à importação. “Como encomendou se a obrigação contratual previa o fornecimento de produto nacional?”; Verificase também, que não restou demonstrado pela autoridade administrativa o dano ao erário em nenhum dos casos, “POSTO QUE NÃO HÁ ACUSAÇÃO OU LANÇAMENTO DE SEQUER UM CENTAVO DE IMPOSTO QUE NÃO TENHA SIDO RECOLHIDO”; Aliás, uma das acusações do auto de infração é de que teria ocorrido superfaturamento do preço do malte importado. “Ora, se ocorreu superfaturamento, qual o dano ao erário? O recolhimento de um imposto maior?”; Outro fato incontroverso nos autos é que a impugnante é industrial e já recolhe o IPI, não havendo qualquer prejuízo em relação a este ou qualquer outro tributo destinado à União, ou seja, não foi demonstrado, reafirmese uma vez mais, qualquer dano ao erário; Em relação ao art. 689 do Decreto nº 6.759/2009, é do texto legal a exigência de dano ao erário para caracterização da pena de perdimento; Este dispositivo se comunica com a figura da simulação que em seu conceito impõe a necessidade de ocorrência de dano à terceiro, isto é, o intuito de enganar terceiros; Se o auto de infração ao alegar simulação não demonstrou o dano a terceiro (ao erário com sonegação de tributo) e, ao mesmo tempo, não obedeceu ao comando legal demonstrando a sonegação de algum tributo, afigurase claro como a luz solar que nem o pressuposto do perdimento ocorreu e nem a simulação se verificou; Ou o fisco observa o conceito legal e seu requisito ou adentra à ilegalidade e ao subjetivismo, onde não impera a lei, mas a vontade pessoal do agente; Assim, inexistente o dano ao erário, entende o Superior Tribunal de Justiça, ser inaplicável a pena de perdimento; Fl. 18406DF CARF MF 22 Por sua vez, o STF também vem decidindo seus julgados no sentido de que apenas se aplica a pena de perdimento se houver prejuízo ao Fisco com pagamento a menor de tributo; Assim, necessária a comprovação de dano ao erário para aplicação da pena de perdimento, sem a qual, resta improcedente o lançamento fiscal que pretende constituir a multa decorrente da conversão desta pena; Aliás, outro elemento imprescindível para a caracterização da simulação é ocorrência do dolo (intenção de ocultar informação com objetivo de sonegar). É o que dispõem os artigos 71/73, da Lei 4.502/64 que disciplinam as figuras da sonegação, fraude e conluio; Constatase, facilmente, que o legislador visou coibir a vontade deliberada em fraudar o erário com vista à alguma vantagem econômica. “Ora, no presente caso, onde se encontra essa ação ou omissão dolosa?” O auto não traz qualquer informação, pressupondo de forma absoluta sua inexistência; Ademais, para que isso viesse a ocorrer, seria de rigor que o auto apontasse onde estaria a vantagem da impugnante e dano ao erário, para que essa intenção se manifestasse; A Cervejaria Petrópolis S.A. requer: a) o acolhimento das preliminares para fins de anulação do auto de infração; b) desconsideração e o desentranhamento de todos os documentos redigidos em idioma estrangeiro, bem como outros utilizados de forma irregular, conforme fundamentação supra; e c) a total improcedência do auto de infração. Cientificada das exigências fiscais, por abertura de mensagem, em 05/12/2016 (fl. 14.592) a F’Na ÉOuro Gestão de Franchising e Negócios Ltda, apresentou, em 03/01/2017 (fl. 17.084), impugnação na qual alega, em síntese, que: PRELIMINARMENTE Há nulidade do Termo de Sujeição Passiva por cerceamento de defesa em virtude da não disponibilização da integralidade do material probatório pela autoridade fiscal; O auditor fiscal utilizou amplamente das informações contidas no processo administrativo n° 10730.011994/200783 (requerimento de habilitação do RADAR da empresa importadora) o qual, todavia, não foi disponibilizado à Impugnante, conforme se observa do termo de ciência de responsabilização solidária por infração; Notese que o termo supracitado nada informou a respeito de quaisquer outros processos apensos ao auto de infração. Entretanto, o auditor fiscal, afirma ter apensado ao auto de infração o processo administrativo de habilitação da importadora de n° 10730.011994/2007 83, o qual não foi disponibilizado para a defendente, uma vez que somente foi remetida a cópia do auto de infração e seus documentos anexos, mas não de seus apensos; Há ilegalidade na utilização de prova emprestada dos processos administrativos nºs 10730.011994/200783 (RADAR), e 10730.003034/201126. Tais provas não possuem os três requisitos necessários a sua validade: a) ter sido colhida em outro processo entre as mesmas partes; b) que na sua produção tenham sido observadas as formalidades estabelecidas em lei; c) e que o fato probando seja idêntico nas duas situações. Portanto, não podem se utilizadas como prova a favor Fl. 18407DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.397 23 do Fisco para responsabilizar a impugnante por infrações supostamente cometidas pelo importador; O lançamento fiscal é nulo por utilizar de documentos em idioma estrangeiro sem tradução juramentada, notadamente os alegados instrumentos contratuais das empresas Zuchettti International LLP e Greentag Investment LLP , de folhas 14.404 a 14.415; referidos documentos devem ser desentranhados do presente processo por não possuírem validade legal. Os Auditores Fiscais da Receita Federal não possuem competência para inclusão de responsáveis solidários no auto de infração por falta de previsão legal. Decisões do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais amparam esse entendimento; Houve violação do devido processo legal por inobservância do §3º do art. 9º do Decreto nº 70.235/72 (prevenção de jurisdição), pois a própria fiscalização registra que já havia sido instaurado processo administrativo de fiscalização por outra unidade da Receita Federal (Niterói); Não houve autorização expressa para um segundo exame, fato que desatende o disposto no art. 906 do Regulamento do Imposto de Renda de 1999, e torna nulo o auto de infração; Houve violação ao princípio constitucional do devido processo legal decorrente da revisão de lançamento por mudança de critério jurídico, de que trata o art. 146 do CTN. A fiscalização em Paranaguá tenta realizar uma revisão de dois lançamentos antes formalizados pela unidade de Niterói, adotando um critério jurídico diverso daquele que foi aplicado uniformemente nas duas últimas autuações; Talvez por inconformismo com o julgamento da 1ª Turma da DRJ de Florianópolis/SC que acertadamente decidiu cancelar a penalidade aplicada no primeiro auto de infração a qual foi, inclusive, confirmada pelo ínclito Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, ou apenas por considerar equivocado o critério jurídico da DRF de Niterói/RJ assentado nas duas primeiras autuações, a Delegacia da Receita Federal de Paranaguá/PR, em ousadia ímpar, decidiu complementálas e refiscalizar o sujeito passivo. Digase, ademais, que este não poderia tampouco ser considerado lançamento complementar, uma vez que não atenderia sequer o disposto no §4° do art. 41 do Decreto n° 7.574/2011; Vejase acórdão n° 3403003049 da colenda Quarta Câmara de Julgamento do CARF no processo administrativo n° 10907. 720350/201288 (acórdão anexo), no sentido de declarar a nulidade,da autuação por ofensa ao art. 59, inciso I, do Decreto n° 70.235/72, em virtude da prevenção da DRF de Niterói/RJ, afastandose, por conseguinte, a competência da DRF de Paranaguá/PR para fiscalizar aqueles mesmos fatos geradores e a respeito dos mesmos sujeitos passivos, e do mesmo objeto do auto de infração em epígrafe; A propósito, vale dizer que o auto de infração em epígrafe representa clara violação da coisa julgada administrativa, uma vez que a nova autuação recaiu sobre fatos geradores idênticos aos que já foram julgados pelo CARF e que foram considerados nulos por incompetência da autoridade fiscal de Paranaguá/PR para fiscalizálos e autuálos; É de se ressaltar uma vez mais que, quando da lavratura do auto de infração ora impugnado, a BARLEY MALTING já havia sido autuada, e a ora Impugnante Fl. 18408DF CARF MF 24 responsabilizada na condição de terceiro, pela Delegacia da Receita Federal de Niterói/RJ, tanto pelas operações de importação que realizou no Porto do Forno em Arraial do Cabo, no Estado do Rio de Janeiro, localidade de sua matriz, quanto por suas operações de importação realizadas no Porto de Paranaguá, no Estado do Paraná, local de seu estabelecimento filial (cf. autos de infração n° 10730.003034/201126 e n° 10730.722104/201220), conforme informações fornecidas pelo próprio relatório fiscal; De realçar, ainda, que os supracitados autos de infração da DRF de Niterói/RJ, formalizados, respectivamente, em março de 2011 e fevereiro de 2012, aplicaram à BARLEY MALTING a penalidade de 10% incidente sobre o valor das importações, prevista no art. 33 da Lei n° 11.488/07, por entenderem que esta empresa teria incorrido na conduta de cessão de nome em importações realizadas no período de 18.09.2008 a 16.05.2011; Depreendese que a DRF de Niterói/RJ assim procedeu por entender que não seria passível a cumulação das duas penalidades sobre o mesmo sujeito passivo, o que não significava dizer que ela entendesse não ser permitida a aplicação respectiva das penas de cessão de nome, ao importador ostensivo, e de perdimento de bens ao suposto beneficiário da operação de importação; No auto de infração em debate, a Delegacia da Receita Federal de Paranaguá/PR, por discordar abertamente dos critérios jurídicos adotados nas duas autuações da DRF de Niterói/RJ, entendeu que seria de sua competência complementar aquelas autuações e simplesmente dar início a refiscalização do mesmo contribuinte e dos mesmos fatos geradores autuados anteriormente, e que foram declarados nulos pelo CARF; Dessa forma, é flagrantemente nula a autuação do sujeito passivo e responsabilização solidária da Impugnante sobre a qual agora também recai a multa substitutiva do perdimento, relativamente às mesmas declarações de importação e, portanto, aos mesmos fatos geradores já fiscalizados e autuados pela Delegacia da Receita Federal de Niterói/RJ, mediante a introdução de novos critérios jurídicos de lançamento fiscal; Dizse que a DRF de Paranaguá/PR introduziu novos critérios jurídicos nas autuações fiscais da DRF de Niterói/RJ porque, nas autuações formalizadas pela unidade da Receita Federal de Niterói/RJ, foi aplicada somente a penalidade de 10% do art. 33 da Lei n° 11.488, de 15.6.2007, imputandose ao sujeito passivo apenas a conduta de cessão de nome; enquanto a unidade da Receita Federal em Paranaguá/PR, no auto ora impugnado, aplicou ilegalmente a pena de 100% do art. 23, inciso V, do DecretoLei n° 1.455/76, por suposta interposição fraudulenta de terceiros no comércio exterior; Houve atipicidade da conduta da impugnante, não havendo, por isso, responsabilidade; O devido processo legal foi desatendido na determinação do valor aduaneiro arbitrado pelo auditor fiscal; As alegações da fiscalização de que participa ou forma um grupo informal em conjunto com as empresas fiscalizadas são improcedentes e as ilações a respeito de funcionários comuns, importações anteriores de malte, contratos de arrendamento e de compra e venda, participações societárias de outras empresas, são fantasiosas e não correspondem à realidade, conforme provas que apresenta e demonstra em sua impugnação; A F’NA ÉOURO requer sejam acolhidas as preliminares e, no mérito, julgado improcedente o auto de infração. Fl. 18409DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.398 25 Cientificada das exigências fiscais, por abertura de mensagem, em 08/12/2016 (fl. 14.628) a interessada, Barley Malting Importadora Ltda, apresentou, em 26/12/2016 (fl. 15.075), impugnação na qual, após discorrer sobre tempestividade e os fatos, alega, em síntese: Há nulidade absoluta em razão da quintuplicidade da fiscalização e penalização da impugnante; há litispendência; Mais uma vez compete à impugnante suscitar a nulidade absoluta do presente auto de infração em razão da “QUÍNTUPLA FISCALIZAÇÃO” e “TENTATIVA DE PENALIZAÇÃO” da empresa sob os mesmos argumentos e com base na mesma narrativa fundada em alegações incompletas e imprecisas, como ocorrera nas oportunidades passadas, caracterizando nítida afronta ao princípio da segurança jurídica, elementar no estado democrático de direito, ao atentar contra a coisa julgada administrativa, além de não respeitar a "litispendência" processual, confusão de competências, desrespeito às regras de hierarquia e de prevenção, o que, por óbvio, é vedado pela legislação pátria; A Barley Malting foi fiscalizada e autuada pela Receita Federal do Brasil em dois outros procedimentos fiscais da Delegacia da Receita Federal em Niterói, um outro da Superintendência Regional da Receita Federal no Rio de Janeiro, e outros três da Delegacia da Receita Federal de Paranaguá, além desta nova autuação da Secretaria da Receita Federal do Brasil Paranaguá, também referente a operações efetuadas em Paranaguá, desmembrada em três novos autos de infração; Administração Pública, por meio da decisão 1ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento de Florianópolis, no acórdão 07 26.752 / 0729.926 / 0731.165, e pelo CARFConselho Administrativo de Recursos Fiscais, no acórdão 3201001.254 da 2ª Câmara/ 1ª Turma Ordinária, já se pronunciou afirmando que as operações da Impugnante observam todos os requisitos legais para os atos de comércio praticados, e caracterizam importação por conta própria, decisão essa que deve imperar pelos princípios da hierarquia e definitividade (coisa julgada) das decisões administrativas; A questão fática sustentadora do presente processo já foi dirimida pelos Órgãos Julgadores (SRRF/Diana — 9ª Região Fiscal, DRJ/Florianópolis e CARF), sendo de rigor acolhêlo, seja como coisa julgada (preclusão), seja como mera questão reflexa; Parece óbvia a observação de que a Administração Pública não decide a mesma situação fática de forma conflituosa: a decisão do CARF e decisões da DRJ/SC sobre os mesmos fatos têm o status de manifestação do Estado e sobre a questão não mais se emite decisão, sob pena de conflito acerca do entendimento do próprio Estado; As decisões administrativas favoráveis aos contribuintes se esgotam na Administração Pública. Isto porque é a própria Administração revendo os seus atos (princípio da definitividade), como corolário do princípio da legalidade a que está sujeita; Houve cerceamento do direito de defesa da impugnante e ofensa ao princípio da legalidade, em razão da não juntada aos autos de documentos importantes mesmo tendo sido apresentados pela impugnante no curso do processo de fiscalização, tal como Acórdãos da DRJ Florianópolis e do CARF; O agente da Receita Federal suscita, ao longo de seu texto, processos administrativos arquivados, julgados insubsistentes ou declaradamente nulos, tendo Fl. 18410DF CARF MF 26 sido, inclusive, declarada a incompetência da autoridade fiscal de Paranaguá para análise dos fatos elencados, nos termos do Acórdão CARF 3403003.049; O agente fiscal não poderia proceder ao novo exame do mesmo exercício já fiscalizado, em relação aos mesmos fatos, já que não possui autorização e ordem escrita do Superintendente, Delegado ou Inspetor da Receita Federal, nos termos do artigo 42, do Decreto 7.574/2011; Há nulidade em virtude de incompetência absoluta do Auditor Fiscal autuante para revisão dos lançamentos anteriores. Há prevenção de competência da autoridade que primeiro conhecer da infração e lançar (artigos 18, §3º, e 38, § 4º, do Decreto nº 7.574/2011); O lançamento é nulo porque o agente fundamentou o lançamento tributário em documentos estrangeiros, sem a devida tradução juramentada, além do que foram obtidos ilegalmente em território estrangeiro (fora dos limites jurisdicionais do AFRFB), fazendo simples menção a sítio de busca estrangeiro, com desprezo total das formalidades legais; O auto de infração, além de todos os vícios já apontados, também padece de nulidade insanável por ausência de liquidez e certeza. Com efeito, está claro no relatório fiscal que o agente fiscal, ilegalmente, considerou, para efeito dos cálculos, valores apontados nas DI's como "ACRÉSCIMOS" (desestiva, descarga da mercadoria); Há caráter confiscatório nas diversas autuações lavradas contra a impugnante pelos mesmos fatos e operações; A Barley Malting é empresa regularmente constituída e, no exercício de seus objetivos sociais, exerceu a atividade empresarial de importação, cumprindo fielmente todos os requisitos e regras exigidos pela legislação brasileira para atuar no comércio exterior; A Impugnante, no curso de todas as ações fiscais, demonstrou sua idoneidade financeira, capacidade técnica e disponibilidade de recursos para efetivar, como o fez, as operações de importação própria, por sua conta e risco; A Barley Malting, no curso das 05 (cinco) fiscalizações, apresentou, por diversas e repetidas vezes, todas as informações de que dispunha, inclusive sobre seus fornecedores; A Impugnante adimpliu com as obrigações cambiais, tributárias aduaneiras inerentes às importações com recursos próprios; O auditor fiscal não demonstrou a alegada fraude nas operações de importação, lavrando o auto de infração com base apenas em suposições e conjecturas, sem previsão legal e, inclusive, contra os julgados definitivos dos autos dos processos administrativos fiscais de números 10730.003034/201126, cujo processo se encontra arquivado tendo o julgamento declarado "que não há que se falar em cessão do nome da pessoa jurídica para realização de operações de comércio exterior" (acórdão 0726.752 2ª Câmara/1ª Turma da DJR/FNS) e 10730.722104/201220, cujo julgamento tem o mesmo teor (acórdão 07¬29.916 1ª Turma da DJR/FNS), ambos autuados pela DRF/Niterói. Não há, por consequência, qualquer importação por conta e ordem de terceiros ou ocultação do real importador, como pretendem induzir forçosamente o agente fiscal; O agente fiscal agiu em afronta à legislação ao descaracterizar, sem qualquer motivação, atos e negócios privados da Barley Malting, celebrados em obediência à Lei Civil e às formas jurídicas estabelecidas; Fl. 18411DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.399 27 Não se verifica a ocorrência de interposição fraudulenta, dano ao erário, entrega de documento fraudado, simulação de compra e venda ou qualquer outra espécie de ilícito ligada ao comércio exterior, muito menos a infração tipificada no artigo 33 da Lei n° 11.488/2007, mesmo porque a finalidade da norma é coibir o empréstimo do nome, não regular atividade de empresa com dimensão de negócios como a da Impugnante; A Impugnante assumiu por sua conta e risco as importações de malte, principalmente porque: (a) mantém estoque regular do produto em grande quantidade; (b) verificouse perda e deterioração de produto em estoque, numa clara demonstração de que era a efetiva proprietária dos produtos; e (c) ocorre a transformação do produto importado em operação industrial que não foi considerada pelo Fisco; Esclareçase que a RFB traz clara construção de narrativa com informações passadas desencontradas acerca da constituição da sociedade empresária, mas, como exposto acima, já houve tentativa anterior de imputarlhe multa sobre o mesmo pretexto, cujos autos de infração foram anulados ou julgados insubsistentes, como será posteriormente explicado; A RFB se utiliza de fato continuado (a execução do objeto social da Impugnante), que obviamente se materializa de forma sucessiva e continuada, não devendo o auto de infração ser apartado das decisões anteriores, pois a autuação é sobre o exercício de atividades de comércio exterior e não sobre um evento isolado. O que se pode entender das diversas autuações frustradas dos agentes públicos é a tentativa de descaracterizar a unidade do caso lançando Declarações de Importação diversas para criar uma situação de análise isolada do fato gerador, o que é completamente descabido; e tanto é verdade que as narrativas de todos os processos aqui suscitados são idênticas, utilizandose todas das mesmas bases fáticas, legais e jurídicas; Não se aplica nenhuma das penalidades impostas à impugnante prevista nos artigos 675, IV e 689, § 1° do Decreto 6.759/09 combinados com o artigo 73 da Lei 10.833/03, pois não houve qualquer irregularidade na exploração de seu objeto social; Inexistiu superfaturamento. A alegação de superfaturamento e fraude, conluio, sonegação e remessa irregular de divisas partiu de pressupostos subjetivos, não observando a forma determinada em lei para essa apuração, tampouco o conceito legal dessas figuras ilícitas; Não se aplica nenhuma das penalidades impostas à impugnante prevista no artigo 711, III, do decreto 6.759/09, pois não há qualquer informação inexata ou omissão da impugnante nas operações de importação de malte; Tantas autuações, tantas multas, tantas objeções às mesmas operações comerciais configura nítido confisco combinado com excesso de exação e abuso de poder; Além das alegações inexatas e informações parciais e desencontradas, interessante apontar algumas das contradições do texto apresentado, como, por exemplo, o entendimento acerca da necessidade de se estabelecer comprador prévio em razão dos custos e riscos relacionados ao objeto social único e exclusivo de importação para, na sequência, explicar que o Brasil produz apenas 35% da demanda de cevada (matéria prima do malte). Ou seja, o mercado nacional possui um gap de cerca de 65%, o que evidencia o amplo mercado de atuação dos Fl. 18412DF CARF MF 28 importadores. Esclareçase, ainda, que quando há queda na produção do milho, os agropecuaristas utilizam a cevada como ração, reduzindo ainda mais a oferta do cereal para o mercado cervejeiro, aumentando a dependência das importações; A Barley Malting Importadora Ltda requer: “i) sejam riscadas dos autos as ofensas dirigidas contra a impugnante e as pessoas físicas representantes ou não das pessoas jurídicas; ii) seja declarado nulo o auto de infração; ou improcedente o lançamento tributário efetuado, reconhecendose o cabimento e pertinência da presente impugnação e, consequentemente, promover a extinção do crédito decorrente da autuação lavrada; iii) a juntada dos documentos que acompanham a presente impugnação, resguardados os direitos relativos à apresentação de documentos outros que se revelem essenciais ao convencimento, nos termos permitidos pela legislação pertinente, aplicandose ainda subsidiariamente o artigo 397 do Código de Processo Civil, bem como utilizarse de todos os meios de prova em direito admitidas.” Em 13/04/2017, conforme Termo de Solicitação de Juntada (fl. 17.349), a Barley solicitou, às fls. 17.35117.378, a anexação de documento superveniente (Acórdão do CARF relativo ao processo nº 10074.721487/201208) e pede, ainda, para que seja analisada a possibilidade de, por motivo de segurança jurídica, seja enviado o presente processo à DRJFlorianópolis, que julgou diversos outros processos semelhantes." Ato contínuo, a DRJFORTALEZA (CE) julgou a Impugnação do Contribuinte nos seguintes termos: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 09/08/2012 a 28/12/2012 PROTESTO GENÉRICO PELA POSTERIOR PRODUÇÃO DE PROVAS. INEFICÁCIA. O protesto genérico pela posterior apresentação de prova é inútil no processo administrativo tributário, em que a impugnação deve estar instruída com os documentos em que se fundamenta, precluindo o direito de apresentálos noutro momento, exceto nas hipóteses definidas na lei, as quais independem de prévio protesto. PROVA EMPRESTADA. CABIMENTO. Reputase válida a utilização de prova emprestada vez que inserida na contextualização do princípio da economia processual, pelo qual buscase a máxima efetividade do direito substancial com o mínimo uso de atividades processuais, mormente quando envolver fatos e partes comuns e a pessoa contra quem a prova está sendo utilizada tenha tomado conhecimento dos fatos e apresentado contestação, não havendo falar em violação do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal. ARGUIÇÃO DE OFENSA À AMPLA DEFESA E AO CONTRADITÓRIO. DESCABIMENTO. Fl. 18413DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.400 29 Estando o Auto de Infração devidamente motivado, contendo a descrição dos fatos e a fundamentação jurídica, referentes a todas as infrações, não há falar em ofensa aos princípios da ampla defesa e do contraditório. REEXAME DE MESMO EXERCÍCIO. COMÉRCIO EXTERIOR. MULTA. DESNECESSIDADE DE AUTORIZAÇÃO. Tratandose da aplicação de multa relacionada ao comércio exterior referente a operação que ainda não tenha submetida a revisão aduaneira, não se aplica a exigência de prévia autorização para o reexame do mesmo exercício, procedimento que é típico do Imposto de Renda. PREVENÇÃO. INEXISTÊNCIA. Não tendo as declarações de importação objeto da autuação sido alvo de revisão aduaneira ou fiscalização por outra unidade inexiste prevenção. JULGAMENTO ADMINISTRATIVO. REFERÊNCIAS À DOUTRINA OU À JURISPRUDÊNCIA. AUSÊNCIA DE VINCULAÇÃO. As referências a entendimento extraído de julgados administrativos ou judiciais que não tenham efeito vinculante, ou a manifestações da doutrina especializada, não obstam o livre convencimento do julgador no âmbito do contencioso administrativo. DOCUMENTO GRAFADO EM IDIOMA ESTRANGEIRO DESACOMPANHADO DE TRADUÇÃO JURAMENTADA. ADMISSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO. Em se tratando de documento grafado em idioma estrangeiro, cuja tradução não seja indispensável para a sua compreensão, não é razoável negarlhe validade e eficácia probatória, meramente pelo fato de encontrarse desacompanhado de tradução juramentada, mormente quando produzido pela própria parte que requer sua desconsideração. Regras instrumentais devem ser interpretadas sistematicamente, levando em consideração os princípios processuais, dentre eles, o de que nenhum ato deverá ser declarado nulo, se da nulidade não resultar prejuízo para a acusação ou para a defesa. MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. INEXISTÊNCIA. Não estando as declarações de importação objeto de autuação abrangidas em processo formalizado anteriormente, a sua análise posterior via revisão aduaneira, instituto amparado por expressa disposição legal, não implica mudança de critério jurídico. ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 09/08/2012 a 28/12/2012 Fl. 18414DF CARF MF 30 INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA NA IMPORTAÇÃO. OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE. MULTA. A ocultação do sujeito passivo, do real comprador ou do responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, consiste em infração punível com a multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria que não seja localizada ou tenha sido consumida. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 09/08/2012 a 28/12/2012 INFRAÇÃO À LEGISLAÇÃO ADUANEIRA. RESPONSABILIDADE. Responde pela infração à legislação aduaneira quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática ou dela se beneficie, inclusive o adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso de importação realizada por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora. ARGUIÇÃO DE EFEITO CONFISCATÓRIO. APRECIAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE NA INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA DE JULGAMENTO. DESCABIMENTO. A Administração Tributária deve se pautar pelo princípio da estrita legalidade, assim como pela presunção relativa de constitucionalidade das leis e atos normativos, não competindo à autoridade administrativa manifestarse quanto à inconstitucionalidade de lei ou ato normativo, incumbindo ao Poder Judiciário tal mister. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte O julgamento foi no sentido de excluir do pólo passivo a empresa F’NA É OURO GESTÃO DE FRANCHISING E NEGÓCIOS LTDA, exonerandoa da exigência sob exame; e exonerar parte do crédito lançado, no valor de R$ 17.912.332,17, mantendo o valor de R$ 33.769.316,49 relativamente aos sujeitos passivos BARLEY MALTING IMPORTADORA LTDA e a CERVEJARIA PETRÓPOLIS S/A. A DRJ então recorreu de ofício a este Conselho, tendo em vista a exclusão do responsável solidário e o limite financeiro previsto para apresentação de recurso de ofício, nos termos do art. 1º da Portaria MF 63/2017. Em seguida, devidamente notificadas, a Cervejaria Petrópolis S/A e a Barley Malting Ltda interpuseram o presente recurso voluntário pleiteando a reforma do acórdão. Nos Recursos Voluntários, as Empresas suscitaram as mesmas questões preliminares e de mérito, repetindo as argumentações apresentadas na impugnação. É o relatório. Fl. 18415DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.401 31 Voto Conselheiro Pedro Sousa Bispo Recurso de Ofício O recurso de ofício deve ser conhecido, visto que a decisão recorrida exonerou tributo, juros de mora e encargos de multa em valor superior a R$ 2.500.000,00, eis o teor do art. 1º da Portaria MF 63/2017: Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais). § 1º O valor da exoneração deverá ser verificado por processo. § 2º Aplicase o disposto no caput quando a decisão excluir sujeito passivo da lide, ainda que mantida a totalidade da exigência do crédito tributário. Ademais, excluise também a responsabilidade solidária pelo crédito tributário atribuída à empresa F’NA ÉOURO GESTÃO DE FRANCHISING E NEGÓCIOS LTDA. Conforme consignado no Relatório, a acusação fiscal do presente processo é de que a empresa Barley Malting Ltda teria efetuado importações de malte de cevada proveniente da Argentina com a ocultação do real importador Cervejaria Petrópolis S/A, fato que ensejou a exigência de crédito tributário no valor de R$ 51.681.648,66 referente a multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias importadas sujeitas à pena de perdimento por não terem sido localizadas, consumidas ou revendidas, nos termos da previsão contida no Art. 23, V, § 1º e 3º, do Decretolei n° 1.455/76, de 07/04/1976, e à época regulamentada pelo Art. 689, XXII, do Decreto n° 6.759/09, de 05/02/2009. Embora tenha sido mantida a acusação de interposição fraudulenta, o Julgador a quo exonerou parte do lançamento fiscal, no montante de R$ R$ 17.912.332,17, das empresas Barley Malting e Cervejaria Petrópolis sob o fundamento de que deveriam ser excluídas do lançamento fiscal de multa equivalente ao valor aduaneiro aquelas mercadorias importadas que tiveram como destinação outras empresas que não a Cervejaria Petrópolis. Além disso, entendeu o Julgador que a Autoridade Aduaneira se utilizou de base de cálculo incorreta para o cálculo da multa lançada, uma vez que fez incidir a multa sobre o maior valor, tido como superfaturado, quando deveria ter incidido a multa sobre o valor menor que entendeu como correto da mercadoria importada. Esse último item representou grande parte da exoneração efetuada. A Autoridade Tributária conseguiu individualizar as notas fiscais de venda do malte importado em cada DI, fato que ensejou a identificação do malte de cevada vendido para terceiros e consequentemente a possibilidade de se subtrair as quantidades respectivas no Fl. 18416DF CARF MF 32 cálculo da multa equivalente ao valor aduaneiro. No entanto, cabe ressaltar que as referidas vendas para terceiros no ano de 2012 constituemse em menos de 4% do total das vendas da empresa, sendo o restante (96%) destinado a Cervejaria Petrópolis. Tal percentual irrisório, segundo o Julgador a quo, não tem potencial para alterar o entendimento de que teria ocorrido interposição fraudulenta nas DIs objetos da autuação. Temse, portanto, que foi correta a exoneração do crédito efetuada pela DRJ no montante de R$ 67.694,46, pois as operações com terceiros não tiveram relação alguma com a acusação fiscal de interposição fraudulenta operada pela importadora Barley Malting visando acobertar a Cervejaria Petrópolis. Como já afirmado antes, a maior parte da exoneração do crédito tributário, no montante de R$ 17.847.637,71, deu porque a Autoridade Tributária teria se utilizado de base incorreta para apuração da multa em valor equivalente ao valor aduaneiro. Inicialmente, cabe esclarecer que, além da acusação de interposição fraudulenta, a Recorrente também foi autuada porque a Fiscalização identificou ligações entre a Barley e o exportador que, segundo seu entendimento, influenciou no valor aduaneiro indicado nas importações, não sendo os valores declarados nas DIs correspondentes aos efetivamente praticados. A Fiscalização entendeu no lançamento fiscal, operado por meio do processo nº10907.721958/201653, que os valores aduaneiros estariam bem majorados, sem razão lícita, na ordem de 58% ou mais, se comparados com aqueles valores de exportação informados à aduana argentina pelo produtor do malte (Cargill). As informações da aduana argentina foram obtidas por meio do sistema INDIRA (Sistema de Intercâmbio de Informações dos Registros Aduaneiros no Mercosul), o qual permite o acesso aos dados de importações e exportações declaradas nos países participantes, sistema, inclusive, que é base para se verificar o cumprimento e o tratamento de mercadorias para as quais se busquem os benefícios e requisitos do regime aduaneiro comum. Os valores apurados são demonstrados na Tabela D.8, constante nas fls.fl. 14.435. Nesse passo, não merecendo fé as faturas, pelos motivos acima expostos, entendeu o Julgador como correto o levantamento efetuado pela fiscalização por meio do citado sistema INDIRA, no qual identificou os valores reais das mercadorias informados nas declarações de exportação na Argentina, correspondentes às três DI’s brasileiras (Tabelas à fl. 14.435), observandose que esses preços foram bem menores que os declarados à aduana brasileira. No cálculo da multa em substituição a pena de perdimento o Auditor se utilizou dos valores entendidos como declarados a maior (superfaturado) pela Barley Malting, constante da tabela citada. Tendo em vista que o art. 23, inciso V, §§ 1º e 3º do Decretolei nº 1.455/1976, preceitua que a base da multa é o Valor Aduaneiro da Mercadoria, temse que deve ser utilizado aquele valor aduaneiro entendido como verdadeiro, correspondente a realidade, apurado pela fiscalização (menor) e não o valor incorreto maior (superfaturado), restando, portanto, incorreta a metodologia de cálculo da multa adotada pela Fiscalização. Em vista disso, nada a reparar no acórdão da primeira instância quanto a exoneração do montante de R$ 17.847.637,71. Quanto a responsabilidade solidária atribuída à empresa F’NA ÉOURO GESTÃO DE FRANCHISING E NEGÓCIOS LTDA não foram identificados nos autos quaisquer elementos de prova que pudessem levar a conclusão de que essa empresa concorreu para o cometimento da infração. Como bem disse o Julgador no acórdão recorrido, a F’NA É Fl. 18417DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.402 33 OURO, especificamente em relação às três DI’s objetos de autuação, não teve participação na ocultação, uma vez que, conforme a fiscalização aduz à fl. 14.365, esta deixou de importar desde 05/08/2008. Temse que todos os fatos listados pela fiscalização envolvendo a empresa F’NA ÉOURO se deram em anos bem anteriores aqueles em que ocorreram as importações objeto do lançamento ora analisado, tampouco a Fiscalização trouxe qualquer elemento de prova novo que comprovasse o envolvimento da F’NA ÉOURO. Correta, portanto, a exclusão da responsabilidade solidária da F’NA ÉOURO pois a Fiscalização não logrou êxito em provar o seu envolvimento na infração cometida. Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso de Ofício. Recurso Voluntário O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele se deve conhecer. A Barley Malting Ltda e a Cervejaria Petrópolis S/A, em separado, interpuseram Recurso Voluntário. Como o envolvimento de ambas na presente autuação foi decorrente dos mesmos fatos, os dois recursos serão analisados de forma conjunta no presente voto. Conforme consignado no Relatório, a acusação fiscal do presente processo é de que a empresa BARLEY MALTING LTDA teria efetuado importações de malte de cevada proveniente da Argentina com a ocultação do real importador CERVEJARIA PETRÓPOLIS S/A, fato que ensejou a exigência de crédito tributário no valor de R$ 51.681.648,66 referente a multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias importadas sujeitas à pena de perdimento por não terem sido localizadas, consumidas ou revendidas, nos termos da previsão contida no Art. 23, V, § 1º e 3º, do Decretolei n° 1.455/76, de 07/04/1976, e à época regulamentada pelo Art. 689, XXII, do Decreto n° 6.759/09, de 05/02/2009. Após os recursos de Impugnação das empresas, foi dado provimento em parte com a finalidade de excluir a responsabilidade solidária da empresa F’NA ÉOuro e exonerar parte do crédito lançado, no valor de R$17.912.332,17 mantendose o valor da multa no importe de R$ 33.769.316,49 e permanecendo no pólo passivo a destinatária das mercadorias CERVEJARIA PETRÓPOLIS e a Importadora BARLEY MALTING. Feitas essas considerações iniciais, passase a analisar as pretensões das Recorrentes em suas questões preliminares e de mérito. PRELIMINARES NULIDADE DO AUTO POR AUSÊNCIA DA ORDEM ESCRITA REFERENTE AO SEGUNDO EXAME NO MESMO EXERCÍCIO DE 2012 E OCORRÊNCIA DE PREVENÇÃO Argumenta a Recorrente que inexiste nos autos ordem escrita para reexame no mesmo exercício de 2012. Segundo o seu entendimento, deveria a Autoridade Aduaneira no presente processo ter submetido à ordem escrita da autoridade competente, nos termos do art. Fl. 18418DF CARF MF 34 42 do Decreto nº 7.574/2011 e art.99, §1º do DecretoLei nº 37/66, pois, não o fazendo descumpre regra de competência o que fulmina de nulidade o auto de infração aplicado. É entendimento predominante neste Colegiado que a exigência contida no art. 42 do Decreto nº 7.574/2011 não é aplicável aos procedimentos aduaneiros, aplicandose exclusivamente às situações para as quais o legislador previu, em relação aos procedimentos fiscalizatórios de tributos internos, mais especificamente ao imposto de renda, conforme infere se da base legal do citado art. 42 do Decreto no 7.574/2011, Regulamento do PAF, mesma base legal do art. 906, do Decreto nº3.000/1999 (Regulamento do Imposto de Renda RIR/99). DECRETO No 7.574, DE 29 DE SETEMBRO DE 2011. Regulamenta o processo de determinação e exigência de créditos tributários da União (...). TÍTULO II DO PROCESSO DE DETERMINAÇÃO E EXIGÊNCIA DE CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS CAPÍTULO I DO PROCEDIMENTO FISCAL Seção V Da Exigência Fiscal Subseção V Do Segundo Exame da Escrita Art. 42. Em relação ao mesmo exercício, só é possível um segundo exame, mediante ordem escrita do Superintendente, do Delegado ou do Inspetor da Receita Federal do Brasil (Lei nº 2.354, de 1954, art. 7º, § 2º; Lei n° 3.470, de 1958, art. 34). DECRETO Nº 3.000, DE 26 DE MARÇO DE 1999. Regulamenta a tributação, fiscalização, arrecadação e administração do Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza. LIVRO II TRIBUTAÇÃO DAS PESSOAS JURÍDICAS TÍTULO III CONTROLE DOS RENDIMENTOS CAPÍTULO I FISCALIZAÇÃO DO IMPOSTO Seção I Competência Reexame de Período já Fiscalizado Art. 906. Em relação ao mesmo exercício, só é possível um segundo exame, mediante ordem escrita do Superintendente, do Fl. 18419DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.403 35 Delegado ou do Inspetor da Receita Federal (Lei nº 2.354, de 1954, art. 7º, § 2º, e Lei nº 3.470, de 1958, art. 34). LEI Nº 2.354, DE 29 DE NOVEMBRO DE 1954. Altera a legislação do impôsto sôbre Renda, e dá outras providências. Art. 7º Suprimamse na Seção I, do Capítulo II, do Título II, os artigos 124, 136 [...VETADO...] do decreto nº 24.239, de 22 de dezembro de 1947, e acrescentemse os seguintes:.(...) "Art. Os agentes fiscais do impôsto de renda procederão ao exame dos livros e documentos de contabilidade dos contribuintes e realizarão as diligências e investigações necessárias para apurar a exatidão das declarações, balanços e documentos apresentados, e das informações prestadas e verificar o cumprimento das obrigações.” (...) ''§ 2º Em relação ao mesmo exercício só é possível um segundo exame da escrita mediante ordem escrita dos delegados seccional ou regional ou do diretor da Divisão do Impôsto de Renda.” LEI Nº 3.470, DE 28 DE NOVEMBRO DE 1958. Altera a legislação do impôsto de Renda e dá outras providências. Art 34. Os inspetores chefes das Inspetorias do Impôsto de Renda poderão: I designar os agentes fiscais do Impôsto de Renda para procederem ao exame dos livros e documentos de contabilidade dos contribuintes; II aplicar as multas previstas na legislação do impôsto de renda; e III determinar o lançamento "ex officio". (negritos nossos) Ao se falar em exercício na legislação transcrita, devese entender como exercício fiscal, ou seja, aquele ciclo de apuração de resultado sobre os rendimentos de pessoas físicas ou jurídicas, não tendo tal conceito aplicação no âmbito das operações aduaneiras. Ainda, aduz a Recorrente que no âmbito do processo nº10074.721487/2012 08 a questão referente a impossibilidade de reanálise do mesmo exercício de 2012, sem autorização pela autoridade competente, já teria sido julgada com provimento pela Autoridade Julgadora. Constatase que no referido processo, quanto a questão da impossibilidade de reanálise no mesmo exercício de 2012 sem autorização da autoridade competente, o acórdão da DRJ foi reformado neste ponto com provimento dado ao Recurso de Ofício, utilizandose o Fl. 18420DF CARF MF 36 Julgador dos mesmos fundamentos anteriormente indicados para negar a aplicação dos dispositivos citados às operações de comércio exterior. Também entendo não ser o caso de prevenção, pois as DI’s objetos de autuação não tinham sido alvo de revisão anterior, nem havia sido iniciada antes nenhuma fiscalização, por outra unidade, envolvendo as mesmas. DO ERRO MATERIAL – DO ERRO NA BASE DE CÁLCULO DA MULTA – DA NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO Aduz a Recorrente que o Julgador da DRJ reconheceu o erro cometido pelo Auditor Fiscal na escolha da base de cálculo da multa, porém compreendeu o Julgador que tal erro não ensejaria a nulidade do auto de infração, pois, de acordo com o mesmo, a Fiscalização cometeu erro de fato sanável. Entende a Recorrente que o Julgador extrapolou a sua competência, ao aceitar base de cálculo diversa daquela que originalmente tinha sido utilizada pelo Auditor Fiscal. Tal procedimento de alteração da base de cálculo caberia somente ao Auditor Fiscal, nos termos do artigo 31 do Decreto 7.574/11, in verbis: Art. 31. O lançamento de ofício compete ao AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil, podendo a exigência do crédito tributário ser formalizada em auto de infração ou em notificação de lançamento. Nesse aspecto, afirma que o erro no arbitramento tratase de erro que vicia o lançamento, o que demanda a decretação de sua nulidade e a realização de novo lançamento. Para entendimento da discussão trazida, reproduzse o conteúdo do art. 145 do CTN: Art. 145. O lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo só pode ser alterado em virtude de: I impugnação do sujeito passivo; II recurso de ofício; III iniciativa de ofício da autoridade administrativa, nos casos previstos no artigo 149. O dispositivo legal transcrito prevê expressamente a possibilidade de alteração do lançamento no âmbito do julgamento da impugnação. Ademais, a base de cálculo correta da multa utilizada foi obtida com elementos trazidos aos autos pela própria Fiscalização, não há que se falar, portanto, de inovação no lançamento já que este continuou fundamentado nos mesmos fatos e provas apurados pela Fiscalização, uma vez que foi efetuada apenas a alteração do lançamento, por meio de uma readequação da sua base de cálculo, conforme autorizado pelo art.145, I do CTN. Se os fundamentos do lançamento não foram alterados, não se identifica prejuízo a defesa da Recorrente, tanto que ela obteve provimento quanto a este ponto na sua impugnação. Assim, não havendo qualquer prejuízo â defesa da Recorrente, não deve ser considerado nulo o lançamento. DO ERRO MATERIAL – DA INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DE MALTE VENDIDO PARA TERCEIROS – DA NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO Fl. 18421DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.404 37 Embora tenha sido mantida a acusação de interposição fraudulenta, o Julgador a quo exonerou parte do lançamento fiscal sob o fundamento de que deveriam ser excluídas do lançamento fiscal de multa equivalente ao valor aduaneiro aquelas mercadorias importadas que tiveram como destinação outras empresas que não a Cervejaria Petrópolis. Noticiase nos autos que a Autoridade Aduaneira conseguiu individualizar as notas fiscais de venda do malte importado em cada DI, fato que ensejou a identificação do malte de cevada vendido para terceiros e consequentemente a possibilidade de se subtrair as quantidades respectivas no cálculo da multa equivalente ao valor aduaneiro. No entanto, cabe ressaltar que as referidas vendas para terceiros no ano de 2012 constituemse em menos de 4% do total das vendas da empresa, sendo o restante (96%) destinado a Cervejaria Petrópolis. Tal percentual irrisório não tem potencial para alterar o entendimento de que teria ocorrido interposição fraudulenta nas DIs objeto da autuação. Temse que foi correta a exoneração do crédito efetuada pela DRJ pois as operações com terceiros não tiveram relação alguma com a acusação fiscal de interposição fraudulenta operada pela importadora Barley Malting visando acobertar a Cervejaria Petrópolis. Nesse passo, a Recorrente alega que houve erro material no cálculo da multa em substituição a pena de perdimento com inclusão de mercadorias destinadas a terceiros, que não a Cervejaria Petrópolis, fato que ensejaria a nulidade de todo o lançamento fiscal. Entendo que tal incorreção no lançamento não vicia todo o auto, pois constituise em um erro sanável, conforme já afirmado. As poucas destinações dadas a terceiros foram devidamente excluídas da base de cálculo da multa em substituição a pena de perdimento pelo Julgador a quo à vista do art.145, I do CTN, não causando, da mesma forma como se deu no item anterior, qualquer prejuízo à defesa da Recorrente, haja vista que não houve inovação na fundamentação do lançamento, bem como ele permaneceu baseado nos mesmos fatos e provas já contidos nos autos. DA COISA JULGADA ADMINISTRATIVA ANÁLISE DOS FATOS APONTADOS NA AUTUAÇÃO FISCAL EM OUTROS PROCESSOS ADMINISTRATIVOS COM O RECONHECIMENTO DE VALIDADE DAS IMPORTAÇÕES DA VINCULAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA À DECISÃO EMITIDA PELO CARF – SOBERANIA JURISDICIONAL E DECISIONAL DOS TRIBUNAIS ADMINISTRATIVOS O PRINCÍPIO DA HIERARQUIA NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Em suma, alega a Recorrente que as afirmações constantes da acusação fiscal são repetições de "conclusões" alcançadas em vários outros procedimentos fiscais que já formam objeto de julgamento nas instâncias administrativas, inclusive com decisão definitiva deste Colegiado. Nesse passo, discrimina algumas matérias discutidas naqueles processos correlacionando com os temas trazidos no Relatório Fiscal do presente processo. Embora se reconheça que, em verdade, a Fiscalização trouxe fatos comuns de outros processos de autuação de períodos anteriores, julgados pela DRJ ou pelo CARF, tais Fl. 18422DF CARF MF 38 fatos, se relevantes, serão entendidos como indícios da presente acusação fiscal e serão oportunamente avaliados na discussão do mérito por este Conselheiro em conjunto com os novos elementos de provas trazidos pela Fiscalização referentes ao período de autuação a fim de se chegar a convicção para a melhor solução da lide. Ademais, apenas em dois processos houve o julgamento dos mérito envolvendo alguns fatos semelhantes aos discutidos no presente processo Nos demais os julgamentos foram favoráveis ao contribuinte, em sua maioria, por reconhecimento de existência de vício formal na lavratura do auto de infração. Também, mesmo naqueles em que o mérito foi apreciado, tal como os de nº 10730.003034/201126 e 10730.722104/201220, observase pela comparação entre os conteúdos dos Relatórios Fiscais deles e do processo ora analisado que a Fiscalização abordou no presente processo alguns temas que não foram objetos de discussão naqueles já julgados. Por ora, cabe afirmar apenas que tais decisões prolatadas naqueles processos não vinculam o julgamento aqui realizado, tendo em vista que podem ser processos com a mesma acusação, mas se houver qualquer diferença entre os seus conjuntos probatórios, como se dá no presente caso, é possível se chegar, ou não, a uma decisão de mérito diversa daquelas prolatadas nos processos já julgados. Além do que, as importações ora analisadas dizem respeito, evidentemente, a operações de comércio exterior ocorridas em períodos diversos daqueles anteriormente autuados e julgados nas instâncias administrativas. Assim, não se acolhe a preliminar suscitada. DA IMPOSSIBILIDADE DE UTILIZAÇÃO DAS PROVAS EMPRESTADAS DOS PAFs Nºs10730.011994/200783 E 10730.003034/201126 A empresa Cervejaria Petrópolis S/A alega em sua defesa que o Auditor Fiscal fundou o seu lançamento em fatos apurados em outros processos administrativos de PAFs nºs 10730.011994/200783 e 10730.003034/201126, nos quais a Recorrente não foi parte, não podendo tais fatos serem utilizados no presente processo administrativo, sob pena de nulidade. A questão aqui envolvida diz respeito a utilização de prova emprestada originada de outro processo, sendo necessária, dessa forma, a análise dos requisitos necessários para a sua aplicação no contencioso administrativo. Como se sabe, a jurisprudência do CARF é pacífica no sentido de aceitar a prova emprestada de outro processo, desde que ela sofra nova valoração e seja garantido o contraditório. Reproduzemse alguns julgados nessa direção: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano calendário:2006 PROVA EMPRESTADA. PROCESSUAL. VALIDADE É válido o emprego no processo administrativo tributário de prova carreada de outro processo administrativo cujo valor probante dependerá de nova valoração, sendo assegurado novo contraditório e ampla defesa. (Acórdão nº1302002.328, Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo, de 06 de outubro de 2017) ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Fl. 18423DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.405 39 Data do fato gerador: 10/06/2013 PROVA EMPRESTADA. EXISTÊNCIA DE CONTRADITÓRIO EAMPLA DEFESA. AUSÊNCIA DE NULIDADE. Instaurado o contencioso administrativo, por meio da impugnação protocolizada, o contribuinte obteve a possibilidade de apresentar argumentos e provas de fato e de direito capazes de afastar a exigência fiscal, em atendimento ao contraditório e à ampla defesa, não havendo que se falar em nulidade. (Acórdão nº3302003.368, Conselheiro Walker Araújo, de 27 de setembro de 2016) Prova emprestada é aquela que, não obstante ter sido produzida em outro processo, é deste transferida para gerar efeitos em processo distinto. Tratase, portanto, a prova emprestada na definição de Ada Pellegrini Grinover (apud Fabiana Del Padre Tomé, A Prova no Direito Tributário, 3ª ed, São Paulo, Noeses, 2011, p.137), como "aquela que é produzida num processo para nele gerar efeitos, sendo depois transportada documentalmente para outro, visando a gerar efeitos em processo distinto". Discordase das argumentações da Recorrente quanto a invalidade da utilização da prova emprestada, pois não foi identificada qualquer mácula na utilização da prova de outros processos que tratam de algumas matérias fáticas comuns a aqui discutida. Conforme se observa, os processos originário das provas dizem respeito a habilitação da Barley Malting e lançamento de multa por cessão de nome, nos quais são apresentados alguns fatos comuns ao processo ora analisado envolvendo as empresas Barley Malting e a Cervejaria Petrópolis. O fato do outro processo ter sido julgado de forma favorável à Recorrente, também não tem qualquer relevância para o presente caso, haja vista que a prova emprestada não produz nenhuma relação de decorrência ou prejudicialidade entre os dois processos. Além disso, as provas trazidas do outro processo sofrerão nova valoração e, conjuntamente com os novos elementos de provas trazidos pela Fiscalização, servirão para formar a convicção do julgador. Por fim, foi franqueado amplo acesso ao contribuinte aos documentos juntados, bem como lhe foi garantido o pleno contraditório com todas as faculdades, ônus e efeitos dai decorrentes, principalmente, a interposição de recurso cabíveis, como fez a empresa. Assim, afastase também essa preliminar suscitada. DO CERCEAMENTO DE DEFESA, DA FALTA DE CLAREZA E OBJETIVIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO E CONSEQUENTE DESRESPEITO A AMPLA DEFESA E AO DEVIDO PROCESSO LEGAL. A MALÍCIA EXISTENTE NO AUTO Não vislumbro assistir razão às alegações do recurso também quanto a estas matérias. O auto de infração teve origem em auditoria realizada pela Fiscalização da Receita Federal, fartamente detalhada em relatório fiscal, onde constam a motivação e fundamentação jurídica para o lançamento, bem como as provas que conduziram a Autoridade Aduaneira à lavratura do auto de infração. Se a prova é insuficiente, como aduz a Recorrente, não se não se deve seguir na direção da nulidade, mas da eventual insubsistência da autuação. Fl. 18424DF CARF MF 40 A Recorrente foi cientificada da exigência fiscal e apresentou impugnação que foi apreciada em julgamento realizado na primeira instância. Irresignada com o resultado do julgamento da autoridade a quo, foi interposto recurso voluntário, rebatendo as posições adotadas pela autoridade de primeira instância, combatendo as razões de decidir daquela autoridade, portanto, as motivações para o lançamento, bem como, as do julgamento na primeira instância foram claramente identificadas. Com todo este histórico de discussão administrativa, não se pode falar em cerceamento de direito de defesa ou quaisquer outros vícios no lançamento ou no julgamento da primeira instância, todo o procedimento previsto no Decreto 70.235/72 foi observado, tanto quanto ao lançamento tributário, bem como, o devido processo administrativo fiscal. Também argumenta a Recorrente que o Auditor Fiscal, ao deixar de trazer para o processo de autuação as cópias integrais do procedimento de autuação da empresa Barley Malting, as quais se reportou, selecionando apenas o que era de interesse para a acusação, cerceou o seu direito a defesa, uma vez que não foi parte desses processos. Entretanto, em sua peça recursal, a empresa não especifica exatamente a quais documentos dos processos se reporta como juntados parcialmente, tampouco demonstra o prejuízo que lhe trouxe a juntada parcial de alguma prova tida como parcial dos processos citados. Assim, alegações genéricas sem a indicação específica dos documentos e a demonstração do prejuízo causado a sua defesa não possuem potencial para se declarar a nulidade do lançamento ou desentranhamento dessas provas. DA IMPOSSIBILIDADE DE UTILIZAÇÃO DAS PROVAS EM IDIOMA ESTRANGEIRO SEM TRADUÇÃO JURAMENTADA Com relação à utilização de documentos escritos em língua estrangeira, é entendimento predominante neste Colegiado que no caso de operações de comércio exterior deve ser adotado o princípio do formalismo moderado do processo administrativo, que visa afastar exigências formais excessivas. À vista desse princípio, o caso concreto deve ser analisado pelo Julgador para verificar se a ausência de tradução juramentada trouxe algum prejuízo para as partes ou para a compreensão da causa pelo Julgador. Se inexistente tal prejuízo, temse que essa formalidade é perfeitamente dispensável. No presente caso, os documentos questionados pela Recorrente dizem respeito principalmente a dados de constituição de empresas relativos aos seus quadros sociais. Tais documentos extraídos de sites estrangeiros estão escritos no idioma inglês e são de fácil entendimento para aqueles que lidam com comércio exterior, já que esse é o idioma usualmente utilizado nas operações de comércio exterior no mundo e um dos oficiais do GATT. Ademais, o próprio Auditor em seu Relatório Fiscal, por vezes, colabora para a facilitação do entendimento dos termos estrangeiros contidos nos documentos juntados, conforme se pode conferir no trecho a seguir: Tal constituição mantevese até 11/2009, quando se alteraram os membros oficiais da parceria (partnership), bem como o nome da entidade, passando à denominação atual de GRENNTAG INVESTMENT LLP, conforme telas D.93 a D.97. (negrito nosso) Fl. 18425DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.406 41 No caso concreto, portanto, percebese que a ausência de tradução juramentada de alguns documentos juntados não trouxe nenhum prejuízo para as partes ou para a compreensão da causa, razão pela qual essa formalidade é perfeitamente dispensável. Não se acolhe essa preliminar. MÉRITO Conforme já consignado, a acusação fiscal é de ter ocorrido importação de mercadorias com ocultação do real adquirente na modalidade comprovada, mediante simulação ou fraude, restando caracterizada a infração de Dano ao Erário, na forma prevista no inciso V do artigo 23, do DecretoLei nº1.455/1976. Por oportuno, fazse breve exposição sobre as principais características das modalidades de importações envolvidas no caso a fim de se buscar a real identidade das importações em comento. A “importação por conta própria” é a mais tradicional modalidade de importação. Nessa caso, a empresa importadora atua diretamente, sem intermediários (e simultaneamente) como importadora, realiza as tratativas da compra, fecha o câmbio em nome próprio com recursos próprios, paga os tributos e utiliza a mercadoria ou a vende no mercado interno para diversos compradores. Ou seja, a empresa importadora assume nessa modalidade todos os riscos logísticos da importação. A operação de "importação por conta e ordem de terceiros" é aquela em que uma pessoa jurídica promove (o importador) em seu nome, o despacho aduaneiro de importação de mercadoria adquirida por outra (adquirente), em razão de contrato previamente firmado para terceirizar as atividades envolvidas na importação. Esta empresa atua como prestadora de serviços, já que a operação é realizada com recursos provenientes da adquirente, que é responsável, inclusive, pelo fechamento do câmbio. O regramento da importação por conta e ordem foi dado pelos arts. 86 e 87 da IN SRF nº247/2002 e ADI nº07/2002, os quais apresentam os seguintes procedimentos e requisitos para a sua caracterização: deve ser firmado contrato prévio entre a pessoa jurídica importadora e o adquirente,específico para a importação por conta e ordem; não pode haver aquisição da propriedade das mercadorias pela importadora, o que se caracterizaria pela ocorrência de uma das seguintes hipóteses: a) conste como adquirente no contrato de câmbio; b) conste como adquirente na fatura internacional (invoice); c) emita NF de entrada/saída a título de compra ou venda; ou d) contabilize em estoque a entrada/saída da mercadoria importada como compra ou venda; os registros contábeis e fiscais da importadora devem evidenciar que se trata de mercadoria de propriedade de terceiros; a NF de remessa da importadora deve ser emitida pelo mesmo valor constante da NF de entrada, acrescida dos tributos incidentes na importação; e Fl. 18426DF CARF MF 42 deve ser adiantado à importadora todo o numerário necessário para o pagamento dos tributos aduaneiros e das demais despesas. Aspecto comum as modalidades de importação é a obrigação do importador informar previamente ao exportador no exterior no sentido de este fazer constar na fatura comercial a indicação do nome do próprio exportador e da empresa que será a real adquirente da mercadoria importada (importação por conta própria ou importação por conta e ordem de terceiros ou importação por encomenda), conforme prevê os incisos I e II do artigo 557 do Decreto nº 6.759/2009. Quando os envolvidos na importação subvertem essa obrigação, fazendo inserir nas declarações importações informações falsas quanto aos reais adquirentes da mercadoria e a consequente burla aos controles aduaneiros, tal conduta faz surgir a figura delituosa de Dano ao Erário, tipificada pelo art.23, V, do Decreto nº1.455/76. Como se sabe, a legislação aduaneira, visando o combate à prática de interposição fraudulenta de terceiros, tipificou a conduta de dano ao erário punível com a aplicação da pena de perdimento de mercadorias decorrente da ocultação do real sujeito passivo em operações de importação ou exportação, por meio do artigo 23 do Decreto n. 1.455/76, abaixo transcrito: Art 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: (...) V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros.(Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) (...) § 1oO dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) § 2oPresumese interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a nãocomprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados.(Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) § 3o As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972. Depreendese, quanto à comprovação, que a legislação transcrita prevê dois tipos de interposição fraudulenta: presumida.e comprovada. A interposição fraudulenta presumida é aquela na qual se identifica que a empresa que está importando não o faz para ela própria, pois não consegue comprovar a origem, a disponibilidade e a transferência dos recursos empregados na operação. Destarte, com base em presunção legalmente estabelecida no § 2º do art.23 do Decretolei nº Fl. 18427DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.407 43 1.455/1976), configurase a interposição fraudulenta e aplicase o perdimento (ou a multa que a substitui). É do importador o ônus de comprovar a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação por ele declaradas, mediante documentação hábil e idônea, dentre elas contrato de câmbio, comprovante da liquidação cambial, extrato das movimentações financeiras correspondentes, etc. Assim, para a caracterização da interposição fraudulenta presumida basta que a empresa não consiga comprovar a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na operação de comércio exterior. A presunção legal em questão se caracteriza como relativa, ou juris tantum, admitindo prova em contrário. Após o lançamento, o ônus da prova de não ocorrência da interposição presumida recai sobre a empresa, devendo esta trazer ao contencioso administrativo documentação hábil para desconstruir as conclusões da presunção lançada. Na interposição comprovada, por sua vez, cabe à Fiscalização buscar elementos probatórios no sentido de demonstrar que a empresa fiscalizada está realizando a operação de importação acobertando um terceiro que se constitui no real beneficiário da operação. Quando resta demonstrado a interposição, aplicase a pena de perdimento (ou a multa que a substitui), com fundamento no inciso V do art.23, do Decretolei nº1.455/76 e em seu § 3º. O sujeito passivo que deve ser penalizado pela referida multa é o terceiro acobertado, enquanto o acobertante responde como responsável solidário, nos termos do art.95 do Decreto lei nº37/66, além da multa por acobertamento prevista no art.33 da Lei nº11.488/2007. Para a caracterização da interposição fraudulenta comprovada é necessário que as condutas realizadas pelas envolvidas se subsumam ao tipo previsto no inciso V do art.23, do Decreto Lei nº1.455/76. Os elementos do tipo previsto nesse dispositivo legal são a interposição ou ocultação do real comprador e a fraude ou simulação. Sem a comprovação de ambas elementares, não pode ser caracterizada a interposição fraudulenta. Ainda nos casos de acusação de interposição fraudulenta comprovada, a fim de caracterizar a conduta ilícita, a fiscalização deve carrear aos autos um conjunto de provas que demonstrem a ocorrência de fraude ou simulação com a intenção de incluir interposta pessoa entre o real adquirente e a Autoridade Aduaneira, sempre com o objetivo da primeira permanecer oculta nas operações de comércio exterior. Portanto, o ônus probatório da ocorrência de fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta, é do Fisco, que deve trazer aos autos um conjunto de elementos probatórios suficientes para atestar a ocorrência da conduta tal qual tipificada em lei. Após discorrer sobre a base teórica, passase a análise do caso concreto a fim de se concluir sobre a procedência, ou não, da multa aplicada. No presente caso, a Fiscalização apurou que, embora a empresa BARLEY MALTING tivesse se identificado nas DIs como importadora por "conta própria", na realidade, ela atuara como interposta pessoa, acobertando o real adquirente, que no caso foi a empresa CERVEJARIA PETRÓPOLIS. Entendeu, assim, a Fiscalização que as importações de malte de cevada em comento, na sua essência, se caracterizariam como "por conta e ordem" da CERVEJARIA PETRÓPOLIS, ao invés de importações por "conta própria" da importadora BARLEY MALTING, tal como foram declaradas no desembaraço. Fl. 18428DF CARF MF 44 A Fiscalização concluiu que o objetivo final das atuações detectadas das empresas era o de simular operação(ões) de compra e venda com empresa interposta entre o vendedor e o(s) real(is) responsável(is), mantendose este(s) oculto(s), bem como remeter recursos ao exterior, declarando o valor da(s) operação(ões) muito acima do efetivamente praticado. Com efeito, o caso ora analisado trata de acusação de interposição fraudulenta provada, uma vez que nas diligências efetuadas pela Fiscalização apuraramse diversos fatos e provas que levaram a conclusão de que as operações entre a BARLEY MALTING e a CERVEJARIA PETRÓPOLIS foram simuladas, com o objetivo de burlar os controles aduaneiros e remeter divisas para o exterior de forma irregular por meio de superfaturamento das importações. Abaixo são analisadas por tópicos os aspectos mais importantes apurados, relacionados às operações entre as empresas, que serviram para sustentar a acusação. Estrutura Operacional da Barley Inicialmente, demonstra a Fiscalização que a importadora Barley Malting S/A se apresentou com uma estrutura operacional incompatível com o montante elevado das importações realizadas no período. Nessa direção, restou comprovado que os estabelecimentos (matriz no Rio de Janeiro e filial de Paranaguá) da importadora se apresentaram com estruturas bastante acanhadas se comparadas as necessidades para fazer frente ao enorme movimento de importações de malte envolvidas nas importações em comento, no montante de aproximadamente R$ 504.000.000,00 em um período de oito anos. Na diligência realizada na matriz da empresa, por ocasião do pedido de habilitação, constatouse que a estrutura física da empresa, localizada na cidade carioca do Arraial do Cabo, mostrouse extremamente modesta em uma sala comercial alugada de 27 m², localizada em um edifício comercial no centro da cidade, que, provavelmente, mesmo não comportaria os poucos funcionários que a empresa possuía, no total de 8. Em outra diligência realizada no Porto de Fornos do Arraial do Cabo, onde a empresa pretendia alugar os silos que ainda estavam em construção, com o objetivo receber o malte importado, os Auditores foram recebidos pelo administrador da obra, Sr. Dirceu Bispo. A Fiscalização, posteriormente, apurou que ele foi empregado formal da CERVEJARIA PETRÓPOLIS durante certo tempo e, imediatamente ao seu desligamento da Cervejaria, ele passou a integrar o quadro oficial da BARLEY MALTING, mais precisamente a partir de 09/01/2008. Quanto aos silos alugados, que ainda se encontravam em construção na época, eram de propriedade da empresa Praiamar Ind e Com & Distribuição Ltda (atual FNA É Ouro Gestão de Franchising e Negócios). Essa empresa foi a grande responsável pelas importações do malte utilizado pela CERVEJARIA PETRÓPOLIS antes do início das operações da BARLEY MALTING. Após esse período, a PRAIMAR praticamente deixou de operar as importações, sendo sucedida nesse papel pela BARLEY MALTING. Observase que a última importação da PRAIAMAR ocorreu em 05/08/2008 e a primeira da BARLEY MALTING ocorreu em 18/09/2008, que daí para a frente manteve a mesma regularidade de operações da anterior, de aproximadamente um navio a cada mês. Já a PRAIAMAR, de forma totalmente atípica e inesperada, pela sua até então constante e volumosa frequência, praticamente deixou de operar. Tal fato leva a crer que a empresa BARLEY MALTING teve na sua criação como objetivo maior assumir o papel de responsável quase integralmente pelas Fl. 18429DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.408 45 importações da Cervejaria. Esse fato também confirma a existência de ligações estreitas entre as três empresas, já que não é comum, no concorrido mercado de produtos destinados a cervejaria, que uma empresa recém criada já obtenha, em curto espaço de tempo, desde o início da sua constituição, uma parcela significativa do mercado de malte no Brasil, sendo a principal e quase exclusiva fornecedora da segunda maior cervejaria do Brasil. A seguir reproduzse trecho do Relatório Fiscal que evidencia os motivos para a criação da Barley: Conforme reunião com o Sr. Carlos Faccin, em 07/03/2008, nesta EFA, concluise o seguinte: que o real adquirente, que é aa Cervejaria Petrópolis , não poderia importar diretamente, pois perderia incentivos fiscais estaduais; então a praiamar entrou na negociação como importadora e iniciou a compra e montagem dos silos no Porto do Forno. Porém, por exigência do Governo Estadual, a Praiamar, que não tinha sua sede no estado do Rio de Janeiro, não conseguiu os benefícios necessário para execução das operações de importação. Devido a este fato, decidiuse criar uma nova empresa Barley, com sede em Arraial do Cabo. Sendo assim, a construção dos silos ficou a cargo da Praiamar, que depois os arrendou à Barley. Com relação a estrutura física do estabelecimento filial da empresa, localizada em Paranaguá, de onde foram realizadas as operações de importações objetos da autuação, noticiase nos autos que desde o início das operações de importação da filial da empresa, esta foi responsável pelo registro de um total de 67 declarações de importação, correspondendo a um total de 450.035 toneladas de malte de cevada. Tal volume extremamente expressivo, muito superior inclusive ao que a matriz, cuja base é o já citado Porto do Forno e a instalação que teria sido arrendada à PRAIAMAR, registrou no mesmo período, 42 declarações de importação, perfazendo um total de 243.325 toneladas, conforme Tabelas constantes nos autos. Embora as importações por esse estabelecimento tenham se mostrado extremamente volumosas, da mesma forma que na matriz, a estrutura física encontrada foi bastante singela, não aparentando ter condições de servir de base para serviços mais elaborados, muito menos o desenvolvimento do objeto. Tais fatos foram abundantemente comprovados pela Fiscalização por fotos e contratos firmados com os operadores portuários e de armazenagem que especificam os serviços prestados por eles. Da documentação juntada pela Fiscalização, especialmente a proposta comercial apresentada pelo operador portuário, tornase evidente que em Paranaguá os produtos importados não sofreram qualquer processo que se assemelha à industrialização, limitandose tais serviços a operações meramente logísticas. O Contribuinte, embora tenha alegado que os seus produtos sofram processos de industrialização praticados pela própria importadora visando demonstrar a sua capacidade operacional física, não trouxe aos autos elementos capazes de infirmar as assertivas da Fiscalização quanto a falta de estrutura física e inexistência de industrialização nas operações de importações realizadas por meio do Porto de Paranaguá. Vinculações da Importadora Barley Malting com o Exportador Zuchetti Internacional LLP/Grenntag Investment LLP e a Cervejaria Petrópolis Fl. 18430DF CARF MF 46 A Fiscalização discorreu sobre a composição societária das empresas envolvidas no caso ao longo do tempo, bem como das sócias dessas empresas, visando identificar ligações entre a importadora (BARLEY MALTING), a exportadora (GRENNTAG INVESTMENT LLP) e a suposta real importadora (CERVEJARIA PETRÓPOLIS) que pudessem influenciar nas operações entre as empresas. Segundo consta no Relatório Fiscal, na constituição original da BARLEY MALTING, em 2007, constava no seu quadro social a empresa ZUCHETTI INTERNACIONAL LTD, uma offshore sediada nas ilhas virgens, e o cidadão brasileiro Luiz Carlos Faccin. A empresa exportadora, por sua vez, inicialmente denominada ZUCHETTI INTERNACIONAL LLP, sediada em Londres, também possuía inicialmente a mesma composição societária da BARLEY MALTING. Apurou a Fiscalização que a empresa ZUCHETTI INTERNATIONAL Ltd teria sido constituída com recursos originários de uma empresa nacional com denominação praticamente homofônica, ZUQUETE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA, fato comprovado pelo envio de recursos, na ordem de R$ 9.184.000,00, por meio de contrato de câmbio (fls. 2.035) dessa empresa para a sócia estrangeira da BARLEY MALTING (ZUCHETTI INTERNACIONAL LTD). Ocorre que a empresa nacional ZUQUETE tem como sócio administrador o Sr. Walter Faria, que também é presidente da CERVEJARIA PETRÓPOLIS. Assim, afirma a Fiscalização que a integralização de capital da BARLEY MALTING realizada pela sua sócia estrangeira ZUCHETTI INTERNACIONAL LTD ocorrida em 2007, no montante de R$ 3.938.000,00, teria como origem indireta a CERVEJARIA PETRÓPOLIS S/A. Tais fatos teriam sido apurados por ocasião do pedido de habilitação (processo nº 10730.011994/200783) da BARLEY MALTING em 2007 e estão amparados em documentos de constituição com tradução juramentada. Esse fato apurado pela Fiscalização demonstra de forma inequívoca que a CERVEJARIA PETRÓPOLIS participou ativamente na constituição da importadora BARLEY MALTING, inclusive com fornecimento de recursos de forma indireta para integralização de capital. Pelos fatos narrados, concluise que tanto a Importadora BARLEY MALTING, assim como a sua exportadora ZUCHETTI INTERNATIONAL LLP (posteriormente sucedida pela GRENNTAG INVESTMENT LLP), por certo, sofreram influência, ainda que de forma indireta, da CERVEJARIA PETRÓPOLIS, o que propiciou e facilitou a simulação das operações entre essas empresas com o fim de ocultar a última nas operações de importações. Frisese, ainda, que a ZUCHETTI/GRENNTAG somente exportaram para as empresas brasileiras PRIAMAR e BARLEY MALTING e essa última, por sua vez, destinou quase a totalidade das suas vendas no mercado interno do malte importado para a CERVEJARIA PETRÓPOLIS. A Recorrente, apesar dessas evidências, nega qualquer ligação com a sua importadora, admitindo apenas as de natureza comercial, e não traz elementos capazes de afastar esses fatos constatados comprovadores das ligações estreitas entre as empresas. Ainda, segundo a Fiscalização, essa constituição societária da exportadora Zuchetti Internacional LLP mantevese até 11/2009, quando se alteraram os membros oficiais da parceria (partnership), bem como o nome da entidade, passando a denominação atual de GRENNTAG INVESTMENT LLP. A empresa estrangeira que teria substituído a ZUCHETTI INTERNACIONAL LTD apresentouse como situada em Montevidéu, Uruguai, no local RINCON, 610, OFFICE 410, endereço coincidente com o escritório de empresa de incorporações ATLANTIC INVESTMENT FUND, escritório conhecido por hospedar Fl. 18431DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.409 47 empresas meramente escriturais. Já a pessoa física LUIZ CARLOS FACCIN foi substituída por PAULO AUGUSTO STENGHEL, que, conforme a base de dados do sistema CNIS (fl. 14.416), já foi admitido como funcionário da BARLEY MALTING no passado e na data da lavratura do Auto de Infração apresentava vínculo formal com a pessoa jurídica CERVEJARIA PETRÓPOLIS S/A. Outro fato que chama atenção é que nas faturas emitidas pela exportadora ZUCHETTI INTERNACIONAL LLP até 2008 consta como contato do exportador e signatário da fatura a pessoa do Sr. LUIZ CARLOS FACCIN e como contato do importador BARLEY MALTING a pessoa do Sr.PAULO AUGUSTO STENGHEL. Após a sucessão da exportadora ZUCHETTI INTERNACIONAL LLP pela GRENNTAG INVESTMENT LLP e mudança do quadro societário, a situação se inverte, agora apresentando nas faturas emitidas pela exportadora como contato e signatário o Sr.PAULO AUGUSTO STENGHEL e como contato do importador Barley Malting a pessoa do Sr. LUIZ CARLOS FACCIN. Frisese que o Sr. PAULO AUGUSTO STENGHEL no passado foi funcionário admitido pela BARLEY MALTING e na data da lavratura do auto de infração apresentava vínculo formal com a pessoa jurídica CERVEJARIA PETRÓPOLIS S/A. Verificase, assim, uma alteração figurativa nos papéis dos agentes envolvidos com as empresas, mas preservase a continuidade da vinculação entre as empresas, servindo tal fato, inclusive, para confirmála. Esse evento é esclarecedor quanto aos motivos que levaram a empresa BARLEY MALTING a se recusar a apresentar qualquer comprovante das negociações envolvidas nas importações, isso porque elas jamais existiram pois as relações entre essas empresas notadamente fogem as condições normais de mercado, sendo estabelecidas, por certo, sem qualquer negociação, mas sempre sob o controle da principal interessada, a CERVEJARIA PETRÓPOLIS S/A. Essa evidente inexistência de negociações, além de provar a falsidade das informações prestadas, levantou dúvida a respeito do valor aduaneiro declarado, o que redundou na acusação de superfaturamento, formalizada no processo nº10907.721958/201653, também da minha relatoria. Do Financiamento das Operações de Importações Noticiase nos autos que, desde o processo de habilitação da BARLEY MALTING, já se evidenciava que os produtos das suas importações já tinham destino certo, comprovado por contrato lavrado com a CERVEJARIA PETRÓPOLIS, no qual já previa adiantamentos dessa empresa para os primeiros meses de operação da BARLEY MALTING, bem como a garantia de compra do malte de cevada importado (fls.527 a 559). No referido contrato, previuse o fornecimento de 100.000 toneladas/ano, em lotes mensais, de acordo com o cronograma a ser estabelecido pela compradora. Os adiantamentos da Cervejaria Petrópolis foram devidamente identificados na contabilidade da Importadora pela Fiscalização e confirmados pelo próprio sócio Luiz Carlos Facchin da BARLEY MALTING como se tratando de adiantamentos recebidos destinados a compras de malte (fls.533). Compulsando os autos, observase no Relatório Fiscal que a Fiscalização buscou identificar a origem dos recursos das importações envolvidas na autuação referentes ao ano de 2012, conforme evidencia o trecho, a seguir transcrito: D.7.1 Do financiamento das operações Fl. 18432DF CARF MF 48 Entre as exigências formuladas no TERMO DE INÍCIO DE FISCALIZAÇÃO, de 27/06/2016 (folhas 18 a 23 do dossiê de atendimento 10120.006587/061601), constavam as seguintes: (3) Para efeito de cumprimento do disposto no item B) da Intimação, além das informações de movimentação bancária e dos elementos contábeis já exigidos, deverão ser apresentados: ... III – elementos de prova de financiamento de terceiros, por meio de instrumento de contrato de financiamento ou de empréstimo, contendo: a) identificação dos participantes da operação: devedor, fornecedor, financiador, garantidor e assemelhados; b) descrição das condições de financiamento: prazo de pagamento do principal, juros e encargos, margem adicional, valor de garantia, respectivos valoresbase para cálculo, e parcelas não financiadas; e c) forma de prestação e identificação dos bens oferecidos em garantia. IV Quando a origem dos recursos for justificada mediante a apresentação de instrumento de contrato de empréstimo firmado com pessoa física ou com pessoa jurídica que não tenha essa atividade como objeto societário, o provedor dos recursos também deverá justificar a sua origem, disponibilidade e, se for o caso, efetiva transferência; e V No caso de comprovação baseada em recursos provenientes do exterior, além dos elementos de prova citados anteriormente, deverá ser apresentada cópia do respectivo contrato de câmbio e, no caso do remetente dos recursos ser pessoa jurídica, deverão ser também identificados os integrantes de seus quadros societário e gerencial. Em resposta, a BARLEY MALTING apresentou manifestação no seguinte sentido (Tela D.181): Após os esclarecimentos da empresa Barley Malting, o Auditor concluiu sobre a origem dos recursos, tendo em vista com os fatos apurados: O teor das respostas é claro e não deixa margem à interpretação: a BARLEY MALTING afirmou que só operaria com recursos próprios. A falsidade das informações prestadas à Fiscalização Aduaneira fica evidente quando se analisa o que consta das Faturas Comerciais das operações sob análise, onde constatase que foi informado prazo de 180 dias para pagamento (Telas D.182 a 184). Fl. 18433DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.410 49 (...) O fato acima (prestação de informação falsa à Fiscalização Aduaneira e consequente não apresentação de elementos caracterizadores e comprobatórios dos termos e condições de financiamento das operações) caracteriza mais um elemento dentro do complexo e elaborado esquema de ocultação verificado, utilizado com o fim de tentar mostrar e dar aparência de regulares a operações que de fato não são. Na contabilidade disponível e especificamente nas contas de passivo (conceitualmente as contas das origens dos recursos de uma entidade), os registros abaixo retratam os financiamentos negados e explicam a origem dos recursos que permitiram as importações em níveis tão elevados (Tela D.185) Como se vê, praticamente todo o Passivo Circulante da empresa é representado pelos financiamentos do dito fornecedor GRENNTAG, financiamento este que a BARLEY MALTING, intencionalmente e com consequências previstas na legislação, não só negou como também não explicou. (negritos nossos) Conforme se percebe nos trechos reproduzidos, a Fiscalização atribui a origem dos recursos no ano de 2012, período que abrange a autuação, à própria exportadora GRENNTAG INVESTMENT LLP ao demonstrar que na contabilidade da BARLEY MALTING a empresa GRENNTAG se apresenta como responsável por grande parte do passivo da empresa, constituindose na sua maior credora, conforme se pode conferir no balancete acima reproduzido. Tal financiamento, segundo a Fiscalização, somente foi possível devido a concessão de prazo generoso de 180 dias para pagamento das exportações pela GRENNTAG. Fl. 18434DF CARF MF 50 Devese frisar, novamente, que na constituição da exportadora ZUCHETTI/GRENNTAG o seu quadro social se apresentou com os mesmos sócios que a importadora BARLEY MALTING. Também restou evidente no tópico anterior que a fonte primária dos recursos, tanto para capitalização da própria BARLEY MALTING quanto da ZUCHETTI INTERNACIONAL LLP. (inglesa, que passou a ser credora e financiadora formal da BARLEY MALTING) foi a ZUCHETTI INTERNATIONAL LTD. (sediada nas Ilhas Virgens Britânicas), que por sua vez é fruto declarado e ostensivo do investimento da Zuquete Empreendimentos e Participações Ltda., CNPJ 04.935.323/000128 (empresa nacional), controlada pelo sócio da empresa CERVEJARIA PETRÓPOLIS. A demonstração da dinâmica de fluxo financeiro do grupo denota que o suporte financeiro das importações, com concessão de prazos generosos de importação da exportadora vinculada, teve como origem primária dos recurso a CERVEJARIA PETRÓPOLIS, conforme fatos anteriormente expostos. Outro fato constatado, que vai na mesma direção de tentar esconder a forma real como as operações entre as empresas ocorreram, diz respeito a sistemática totalmente irregular que a BARLEY MALTING se utiliza para registrar boa parte da sua movimentação financeira. A Fiscalização aponta a irregularidade contábil constatada, nos seguintes termos: Da análise da escrituração contábil, constatase o uso de uma conta contábil transitória anômala e irregular, identificada como TRANSFERÊNCIA DE NUMERÁRIOS; tal conta, classificada como conta do Ativo e que, recebendo lançamentos diários a débito e a crédito que, no total, compensamse dentro do mesmo dia, registrou em 2012 a circulação da cifra de R$ 752.044.556,85 (setecentos e cinquenta e dois milhões, quarenta e quatro mil, quinhentos e cinquenta e seis reais e oitenta e cinco centavos). Com o uso de tal procedimento contábil irregular, a empresa executa espécie de câmara de compensação diária própria, dessa forma impedindo a correlação unívoca dos lançamentos e seus respectivos registros, exemplificando: com tal sistemática não é possível se responder de imediato, em relação aos pagamentos que passam por tal conta, qual(is) o(s) fornecedor(es) beneficiado(s) e, no caso de recebimentos, qual(is) venda(s)/nota(s) fiscal(is) está(ão) sendo paga(s). Em tal conta, não por acaso, passaram os ingressos de recursos nas contascorrentes bancárias que teriam sido efetivados a título de pagamentos de vendas para as empresas do GRUPO PETRÓPOLIS. Todavia, a teor dos históricos dos lançamentos contábeis respectivos, NÃO HÁ A MÍNIMA POSSIBILIDADE, SEJA POR LEITURA DIRETA, SEJA POR REFERÊNCIA A ALGUM CONTROLE AUXILIAR (CASO TIVESSE SIDO INDICADO), DE SE IDENTIFICAR A QUAL(IS) NOTA(S) FISCAl(IS) TAIS RECEBIMENTOS SE REFEREM, sendo os registros totalmente imprestáveis para o fim básico ao qual a contabilidade se destina, que é o de informar os interessados no patrimônio da entidade, dentre eles, no caso, a Fiscalização Aduaneira. Agindo de tal forma, a empresa fica, de forma obviamente indevida, totalmente livre para identificar tais recursos da melhor maneira que lhe aprouver e de acordo com a conveniência de momento, como efetivamente fez em sua peça de defesa Auto de Infração Fl. 18435DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.411 51 Constatase, assim, que a contabilidade da BARLEY MALTING está eivada de vícios, não se prestando para se apurar especificamente os lançamentos contábeis que deram origem aos recursos utilizados nas importações objeto da autuação, tampouco serve também como prova de que a origem dos recursos é a própria atividade operacional da empresa, conforme alegado no recurso pela empresa. Essas inconsistências se repetiram também nos recebimentos correspondentes as vendas dos produtos importados. Embora a Fiscalização tenha em inúmeras vezes intimado a empresa a apresentar um detalhamento das operações relacionadas ao recebimento de clientes, conforme determina a legislação comercial, a empresa sistematicamente se recusou a prestar as informações requeridas sempre sob o argumento de que inexistia norma legal que a obrigasse a fazêlo. Tais fatos apurados na contabilidade da Recorrente denotam que essa metodologia obscura de registro contábil da sua movimentação financeira não tem outro propósito senão o de ocultar as reais condições em que se deram as operações envolvidas nas importações. Também, o fato de eventualmente a empresa importadora ter recursos suficientes para realizar as operações, como afirma a empresa em sua defesa, não a exime da presente infração, vez que não se trata de situação de presunção legal de interposição fraudulenta na importação a que se refere o §2° do art. 23 do Decretolei nº 1.455/76, mas o seu inciso V. Assim, embora a falta de recursos próprios para realizar as importações possa conduzir à conclusão de que as operações foram realizadas no interesse de outrem, pode acontecer, em tese, de a importadora ter recursos próprios para efetuar as importações, mas as realize para outros, acobertandoos por qualquer motivo, situação que também caracterizaria o cometimento da infração prevista no inciso V do art. 23 do Decretolei nº 1.455/76. Dano ao Erário A Recorrente afirma em sua defesa que para a caracterização da infração objeto do processo ora analisado, necessário se faz demonstrar a ocorrência de efetivo dano ao erário. Nesse sentido, diz que não há acusação ou lançamento referente a sequer um centavo de tributo que não tenha sido recolhido. Ao contrário, afirma que a própria Fiscalização, em função de ocorrência de suposto superfaturamento nas importações, reconhece que ocorreu o pagamento de impostos a maior que aos supostamente devidos, em função do superfaturamento constatado. Também afirma que a CERVEJARIA PETRÓPOLIS recolhe IPI. Assim, conclui que não tendo havido comprovação de dano em concreto ao erário, imperioso é o reconhecimento da nulidade do procedimento fiscal. Não cabe razão à Recorrente, uma vez que a verificação da suficiência no recolhimentos dos tributos incidentes sobre a importação, seja a menos ou a mais, não consta no tipo infracional previsto no art. 23, do Decreto Lei nº1.455/1976 como determinante para estabelecer se houve dano ao erário. É posição predominante nas turmas colegiadas do CARF que o dano ao erário decorre da própria lei. Comprovadas as condutas que compõe o tipo, está caracterizada a ocorrência de dano ao erário, veiculada pelo art. 23, V do Decretolei nº 1.455/76. Nesse passo, a fraude a que se refere o dispositivo deve ser entendida no sentido amplo, e não na acepção restrita do art. 72 da Lei nº 4.502/64, associada ao não pagamento ou diferimento do tributo. Fl. 18436DF CARF MF 52 Assim, não há necessidade de se discutir a existência ou não de dano ao erário porque a própria lei define que existe dano ao erário se os elementos apurados se enquadram no tipo infracional. Abaixo, reproduzemse parcialmente as ementas de alguns julgados representativos desse entendimento: DANO AO ERÁRIO. PERDIMENTO. DISPOSIÇÃO LEGAL. Nos artigos 23 e 24 do DecretoLei no 1.455/1976 enumeramse as infrações que, por constituírem dano ao Erário, são punidas com a pena de perdimento das mercadorias (ou coa multa que o substitui, nas hipóteses legalmente previstas, no § 3o do referido artigo 23). É inócua, assim, a discussão sobre a existência de dano ao Erário nos dispositivos citados, visto que o dano ao Erário decorre do texto da própria lei. (Acórdão nº3401003.892, 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, RelatorRosaldo Trevisan, sessão de 26 de julho de 2017) DANO AO ERÁRIO. OCULTAÇÃO DO RESPONSÁVEL PELA OPERAÇÃO. DESNECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO EFETIVO PREJUÍZO AO ERÁRIO. O dano ao Erário é presumido quando se configura as infrações tipificadas no art. 23 do Decretolei nº 1.455/76, não havendo necessidade de se comprovar o efetivo prejuízo ao Erário. Tendo ocorrido o cometimento da infração de interposição fraudulenta em face da não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos aplicados nas importações, veiculada pelo art. 23, §2º do Decretolei nº 1.455/76, está caracterizado o dano ao Erário. (Acórdão nº3402003.314, 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária, RelatorMaria Aparecida Martins de Paula, sessão de 28 de setembro de 2016) Da alegação de confisco Quanto as questões constitucionais suscitadas pelo Contribuinte, a exemplo de vedação ao confisco e proporcionalidade, essas matérias estão na competência de julgamento do Poder Judiciário, consoante a Constituição Federal, arts. 97 e 102, I, "a", III e §§ 1º e 2º. Nesse sentido, o Regimento Interno do CARF também veda o afastamento de lei com fundamento na inconstitucionalidade nos julgamentos deste Colegiado, exceto nos casos previstos, conforme transcrito a seguir: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal; II que fundamente crédito tributário objeto de: Fl. 18437DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.412 53 a) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 103A da Constituição Federal; b) Decisão do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos do art. 543B ou 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), na forma disciplinada pela Administração Tributária; c) Dispensa legal de constituição ou Ato Declaratório da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda, nos termos dos arts. 18 e 19 da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002; d) Parecer do AdvogadoGeral da União aprovado pelo Presidente da República, nos termos dos arts. 40 e 41 da Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993; e e) Súmula da AdvocaciaGeral da União, nos termos do art. 43 da Lei Complementar nº 73, de 1973. § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (negrito nosso) Assim, não conheço do recurso quanto a essa matéria. Responsabilidade Solidária da Cervejaria Petrópolis Embora a Recorrente tente negar em toda a sua defesa quaisquer relações com a empresa BARLEY MALTING, admitindo apenas as de caráter comercial, os elementos trazidos aos autos pela Fiscalização demonstram claramente, em sentido contrário, que, por qualquer ângulo que se observe, temse uma participação ativa da Recorrente no esquema de importação irregular do malte de cevada, que possuía destinação previamente definida para a CERVEJARIA PETRÓPOLIS, bem como houve transferência indireta de recursos para a BARLEY MALTING com o fim de financiar as suas importações. Com efeito, os elementos indiciários trazidos, tomados em seu conjunto, levam a crer que a Autuada (BARLEY MALTING) se utilizou de recursos de terceiros para realizar as operações de importação em comento, atuando como interposta pessoa. a BARLEY MALTING efetivou a importação na modalidade "importação direta", sendo que, a partir da ação fiscal, constatouse que a mercadoria se destinava a um terceiro predeterminado, sem, contudo, terem sido observadas as normas atinentes à importação por conta e ordem de terceiros (art. 80 da Medida Provisória nº 2.15835/2001), nem à importação para revenda a encomendante predeterminado (art. 11 da Lei nº 11.281/20063). O interesse comum restou provado nos autos, uma vez que a CERVEJARIA PETRÓPOLIS foi a principal mentora e maior beneficiária da ocultação constatadas nas operações de importações pelas empresas envolvidas no caso. A realidade mostrada é que os diversos indícios apurados pela Fiscalização demonstram que as importações não eram por Fl. 18438DF CARF MF 54 conta própria; havia recursos de pessoas jurídicas (ZUQUETE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA) que tinha como sócio administrador o Presidente da CERVEJARIA PETRÓPOLIS (adquirente), tendo a ZUQUETE EMPREENDIMENTOS enviado recursos para a empresa estrangeira sócia da BARLEY (ZUCHETTI INTERNACIONAL LTD), que, por sua vez tinha como conselheiro único o próprio presidente da real adquirente. Isso, somado aos outros indícios já apontados anteriormente, levam à conclusão de que houve, no caso ora analisado, ocultação do real adquirente da mercadoria importada, que tudo o que a importadora fazia era, na verdade, comandado pela CERVEJARIA PETRÓPOLIS S/A. Assim, in casu, configurada a materialidade da infração aduaneira veiculada pelo art. 23, V, §§1º e 3º do Decretolei nº 1.455/76, não há como se afastar a aplicação da penalidade respectiva ao "responsável pela infração" (CERVEJARIA PETRÓPOLIS), nos termos do art. 95 do Decretolei nº 37/66, muito menos ao seu agente direto, qual seja, a importadora ostensiva (BARLEY MALTING). Conclusões No presente caso, observase que a autuação foi baseada em um conjunto abundante de provas e indícios que foram ricamente detalhados pelos Autores Fiscais em seu Relatório Fiscal, onde se demonstraram aspectos relevantes quanto a constituição da importadora, existência de fornecimento de recursos pela real adquirente, ou por pessoas a ela ligadas, para a BARLEY MALTING para possibilitar as importações, bem como a falta de capacidade operacional da empresa. Com efeito, o conjunto probatório trazido pela Fiscalização demonstra que, mediante simulação, as empresas agiram visando ocultar a realidade fática das importações do malte de cevada, o que nos leva inexoravelmente a concluir, por presunção simples, que de fato ocorreu a infração de dano ao erário no presente caso. A presunção simples é amplamente aceita neste Colegiado, desde que o quadro indiciário como um todo convirja para a comprovação do cometimento da infração que se quer provar. Embora a eventual existência de somente um só fato possa não ser suficiente para a configuração da infração, o que importa é que o conjunto probatório, considerado como um todo, aponte na direção do cometimento da infração, que no presente caso foi a prevista pelo art. 23, inciso V e §1º e 3º do Decretolei n° 1.455/76. Nessa condição, entendo estar caracterizado que, embora a BARLEY tenha se declarado como importadora por conta e risco próprios, a sua atuação se deu, em relação às DI’s objetos de autuação, como mera prestadora de serviço de importação por conta e ordem da CERVEJARIA PETRÓPOLIS S/A, real beneficiária e interessada nas importações. Por fim, comungo do mesmo entendimento do Julgador a quo que afirmou que a infração estando provada, pelos conjunto de indícios apresentados, isso independe da discussão acerca da existência ou não de grupo econômico. Essa conclusão, da mesma forma, independe da suposta irregularidade alegada pela CERVEJARIA PETRÓPOLIS S/A acerca da manifestação da fiscalização, de fl. 14.349, a respeito de participações da ZUQUETE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES S/A na empresa CADNELL. Também independe de aspectos relacionados a lavagem de dinheiro, citados pela Fiscalização. Tais questões, ao meu sentir, realmente não possuem potencial para interferir na formação da convicção sobre a matéria ora analisada. Dispositivo Fl. 18439DF CARF MF Processo nº 10907.721957/201617 Acórdão n.º 3402005.851 S3C4T2 Fl. 18.413 55 Portanto, diante dos fatos descritos, sustentado no conjunto probatório juntado aos autos, concluise pela existência de ocultação dos reais adquirentes em relação às DI’s objetos de autuação, infração punível com a pena de perdimento das mercadorias, devendo, no caso, ser substituída pela multa equivalente ao valor aduaneiro. Diante do exposto, voto no sentido de não conhecer da matéria constitucional alegada e negar provimento aos Recursos de Ofício e Recursos Voluntários. (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo Relator Fl. 18440DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13807.007716/2003-55
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jan 23 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Ano-calendário: 1999
INOVAÇÃO RECURSAL. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. IMPOSSIBILIDADE.
Não se conhece em fase Recursal matéria que não tenha sido objeto de impugnação em primeira instância.
Numero da decisão: 1001-001.002
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA - Presidente.
(assinado digitalmente)
EDUARDO MORGADO RODRIGUES - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente).
Nome do relator: EDUARDO MORGADO RODRIGUES
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Ano-calendário: 1999 INOVAÇÃO RECURSAL. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. IMPOSSIBILIDADE. Não se conhece em fase Recursal matéria que não tenha sido objeto de impugnação em primeira instância.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Anocalendário: 1999 INOVAÇÃO RECURSAL. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. IMPOSSIBILIDADE. Não se conhece em fase Recursal matéria que não tenha sido objeto de impugnação em primeira instância. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA Presidente. (assinado digitalmente) EDUARDO MORGADO RODRIGUES Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 80 7. 00 77 16 /2 00 3- 55 Fl. 40DF CARF MF Processo nº 13807.007716/200355 Acórdão n.º 1001001.002 S1C0T1 Fl. 3 2 Tratase de Recurso Voluntário (fls. 27 a 28) interposto contra o Acórdão nº 9.233, proferido 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo/SP (fls. 18 a 21), que, por unanimidade, julgou improcedente a Impugnação apresentada pela ora Recorrente, decisão esta consubstanciada na seguinte ementa: "Assunto: Obrigações Acessórias Anocalendário: 1999 Ementa: MULTA REGULAMENTAR. A entrega da DCTF é obrigação acessória autônoma e formal, não alcançada pelo instituto da denúncia espontânea previsto no artigo 138 do CTN. ARGÜIÇÕES DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. Não compete à autoridade administrativa a apreciação de constitucionalidade e legalidade das normas tributárias, cabendolhe observar a legislação em vigor. Lançamento Procedente" Por sua precisão na descrição dos fatos que desembocaram no presente processo, peço licença para adotar e reproduzir os termos do relatório da decisão da DRJ de origem: "Por meio do Auto de Infração de tl. 10, do qual o contribuinte foi cientificado em 28/07/2003 (fl. 12), exigiuse o recolhimento do crédito tributário no montante de RS 1.232,81, a título de multa por atraso na entrega da Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF, referente aos 1° e 2° trimestres de 1999. 2. Foram citados por enquadramento legal os artigos 1 13, § 3°, e 160 da Lei n° 5.172/1966 (CTN), 0 artigo ll do Decretolei n° 1.968/1982, com a redação dada pelo artigo 10 do Decretolei n° 2.065/1983, o artigo 30 da Lei n° 9.249/1995, o artigo 1° da Instrução Normativa SRF n° 18/2000, o artigo 7° da Lei n° 10.426/2002 e o artigo 5° da Instrução Normativa SRF n° 255/2002. 3. Inconformada, por meio de representante legal (fl. 08 e 09), a interessada apresentou em 22/08/2003, a impugnação de fl. 01 a 07. 3.1. Alega, em síntese, que a exigência com base na Instruçao Normativa n° 255/2002 afronta os princípios constitucionais da legalidade e da anterioridade. Afirma, ainda, ofensa ao princípio do não confisco. Cita jurisprudência judicial. 3.2. Reclama que o percentual das multas aplicadas aumenta gradativamente com o tempo, sem base constitucional. Diz que a Constituição Federal só admite proporcionalidade temporal para o IPTU (art. 156, § 1°). 3.3. Acrescenta que a denúncia espontânea excluiria a penalidade, uma vez que o próprio fisco reconhece que a entrega das DCTF deuse de forma voluntária. Reforça sua tese com a citação de jurisprudência judicial." Inconformada com a decisão de primeiro grau que indeferiu a sua Manifestação de Inconformidade, a ora Recorrente apresentou o recurso sob análise alegando Fl. 41DF CARF MF Processo nº 13807.007716/200355 Acórdão n.º 1001001.002 S1C0T1 Fl. 4 3 que como empresa pertencente ao SIMPLES não tinha a obrigação de entregar DCTF, logo a declaração entregue em atraso jamais deveria ter sequer sido entregue. É o relatório. Voto Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues Conforme se extraí de sua Impugnação (fls. 2 a 8) o Contribuinte apresenta farta defesa abrangendo diversos argumentos que justificariam o cancelamento da multa lavrada, tais como: ofensa ao princípio da legalidade, ofensa ao princípio da anterioridade, caráter confiscatório das multas (ofensa ao princípio do não confisco), proibição do aumento progressivo da multa e, por fim, invoca o instituto da denúncia espontânea. Todos estes argumentos já foram devidamente tratados e afastados pelo acórdão de piso. Em decorrência do indeferimento de seu pleito a Recorrente insurgese contra a decisão pelo recurso ora em análise. Contudo, nesta segunda instância a Recorrente muda diametralmente a sua linha de defesa, deixando de tratar de todos os argumentos supra elencados, prestandose a arguir que como empresa optante do SIMPLES à época dos fatos, não tinha a obrigação de apresentar DCTF, tendo a mesma sido apresentada a destempo por mero equívoco de seu funcionário. Independente da veracidade dos fatos narrados, devese pontuar que tal argumentação não se trata apenas de matérias de direito, mas sim verdadeiros fatos novos que são trazidos aos autos apenas nesta segunda instância. Ora, conforme os dispostos do Decreto 70.235/72, considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente atacada pelo sujeito passivo. Outrossim, é a impugnação que inicia e delimita a fase litigiosa, isto é, o presente processo administrativo. Segue os excertos: Art. 14. A impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento. (...) Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. " Desta forma, uma vez que em primeira instância a Recorrente não arguiu os fatos que traz apenas no bojo do seu Recurso Voluntário, tal matéria se encontra fora dos contornos da presente lide, não podendo ser inaugurada nesta fase processual. Fl. 42DF CARF MF Processo nº 13807.007716/200355 Acórdão n.º 1001001.002 S1C0T1 Fl. 5 4 Outrossim, salientase que a Contribuinte não tornou a tratar de nenhuma das alegações constantes em sua Impugnação inicial, logo, o presente Recurso não possui qualquer matéria passível de apreciação por este juízo. Assim, ainda que o presente Recurso Voluntário tenha sido apresentado tempestivamente, não pode ter seu conteúdo conhecido sob pena de supressão do necessário duplo grau de jurisdição. Desta forma, VOTO por NÃO CONHECER do Recurso Voluntário. É como voto. (assinado digitalmente) Eduardo Morgado Rodrigues Relator Fl. 43DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10925.002176/2010-16
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 22 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Feb 14 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2009 a 30/03/2009
INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. INSUMOS. BENS E SERVIÇOS.
O conceito de insumos, no contexto das contribuições não-cumulativas, deve ser interpretado à luz dos critérios da essencialidade e relevância do bem ou serviço para o processo produtivo ou prestação de serviços realizados pelo contribuinte.
MATERIAIS DE EMBALAGEM. TRANSPORTE. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Dentro do programa REPORTO As despesas com materiais de embalagens utilizados para transporte de produtos, bem como o próprio transporte do produto (frete) são essenciais a sua proteção e integridade, geram direito a créditos no regime das contribuições não-cumulativas desde que a operação seja realizada dentro do mercado interno.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2009 a 30/03/2009
PEDIDOS DE RESTITUIÇÃO, COMPENSAÇÃO OU RESSARCIMENTO. EXISTÊNCIA DO DIREITO CREDITÓRIO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS DA PROVA DA RECORRENTE.
No âmbito específico dos pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, é ônus da recorrente a comprovação precisa e minuciosa do direito alegado.
Numero da decisão: 3003-000.084
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para reconhecer o direito creditório sobre os materiais de embalagem utilizados pela recorrente na conservação, armazenagem e preservação da integridade de seus produtos.
(assinado digitalmente)
Marcos Antônio Borges - Presidente.
(assinado digitalmente)
Márcio Robson Costa - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Antônio Borges (presidente da turma), Márcio Robson Costa, Vinícius Guimarães e Müller Nonato Cavalcanti Silva.
Nome do relator: MARCIO ROBSON COSTA
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2009 a 30/03/2009 INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVA. INSUMOS. BENS E SERVIÇOS. O conceito de insumos, no contexto das contribuições não-cumulativas, deve ser interpretado à luz dos critérios da essencialidade e relevância do bem ou serviço para o processo produtivo ou prestação de serviços realizados pelo contribuinte. MATERIAIS DE EMBALAGEM. TRANSPORTE. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Dentro do programa REPORTO As despesas com materiais de embalagens utilizados para transporte de produtos, bem como o próprio transporte do produto (frete) são essenciais a sua proteção e integridade, geram direito a créditos no regime das contribuições não-cumulativas desde que a operação seja realizada dentro do mercado interno. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2009 a 30/03/2009 PEDIDOS DE RESTITUIÇÃO, COMPENSAÇÃO OU RESSARCIMENTO. EXISTÊNCIA DO DIREITO CREDITÓRIO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS DA PROVA DA RECORRENTE. No âmbito específico dos pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, é ônus da recorrente a comprovação precisa e minuciosa do direito alegado.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para reconhecer o direito creditório sobre os materiais de embalagem utilizados pela recorrente na conservação, armazenagem e preservação da integridade de seus produtos. (assinado digitalmente) Marcos Antônio Borges - Presidente. (assinado digitalmente) Márcio Robson Costa - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Antônio Borges (presidente da turma), Márcio Robson Costa, Vinícius Guimarães e Müller Nonato Cavalcanti Silva.
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E EXP. LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2009 a 30/03/2009 INCIDÊNCIA NÃOCUMULATIVA. INSUMOS. BENS E SERVIÇOS. O conceito de insumos, no contexto das contribuições nãocumulativas, deve ser interpretado à luz dos critérios da essencialidade e relevância do bem ou serviço para o processo produtivo ou prestação de serviços realizados pelo contribuinte. MATERIAIS DE EMBALAGEM. TRANSPORTE. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. Dentro do programa REPORTO As despesas com materiais de embalagens utilizados para transporte de produtos, bem como o próprio transporte do produto (frete) são essenciais a sua proteção e integridade, geram direito a créditos no regime das contribuições não cumulativas desde que a operação seja realizada dentro do mercado interno. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2009 a 30/03/2009 PEDIDOS DE RESTITUIÇÃO, COMPENSAÇÃO OU RESSARCIMENTO. EXISTÊNCIA DO DIREITO CREDITÓRIO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS DA PROVA DA RECORRENTE. No âmbito específico dos pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, é ônus da recorrente a comprovação precisa e minuciosa do direito alegado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para reconhecer o direito creditório sobre os AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 5. 00 21 76 /2 01 0- 16 Fl. 106DF CARF MF Processo nº 10925.002176/201016 Acórdão n.º 3003000.084 S3C0T3 Fl. 107 2 materiais de embalagem utilizados pela recorrente na conservação, armazenagem e preservação da integridade de seus produtos. (assinado digitalmente) Marcos Antônio Borges Presidente. (assinado digitalmente) Márcio Robson Costa Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Antônio Borges (presidente da turma), Márcio Robson Costa, Vinícius Guimarães e Müller Nonato Cavalcanti Silva. Relatório Tratase de pedido de ressarcimento, por meio de PER/DCOMP, de PIS/PASEP, apurado no regime nãocumulativo do mercado interno não tributado, Lei n.º 11.033, relativo ao 1º. trimestre de 2009, no valor de R$ 1.722,49. Em verificação fiscal do PER/DCOMP, foram realizadas as seguintes glosas: 1) Embalagens (caixa de papelão ondulado, etiquetas, cinta, cantoneira, selo, bandeja para maçã, rótulo, fundos e tampos de papelão ondulado), porque essas embalagens, embora essenciais à garantia da integridade de seu conteúdo, por não conterem rótulos dispensáveis ou indicações promocionais que tenham implicado em despesas mais elevadas em sua elaboração, não tinham o objetivo de, por si, motivar a compra do produto nelas acondicionado ou valorizálos em razão dos materiais e acabamentos nelas empregados, que é o que caracteriza uma embalagem de apresentação; 2) despesas com fretes nas operações de vendas dos produtos industrializados, vinculados às exportações, tendo em vista que este processo se refere aos créditos decorrentes das vendas no mercado interno. Nesse sentido foi reconhecido apenas parte do pedido de ressarcimento, nos seguintes termos do resumo do crédito: Antes desta auditoria fiscal, o contribuinte tinha apurado um crédito total, conforme Dacon, no valor de R$ 6.338,81, sendo R$ 1.722,49 a título de mercado interno nãotributado e R$ 4.616,32 a título de mercado externo, conforme os rateios realizados pelo contribuinte. Em virtude das glosas, o montante do crédito apurado pelo contribuinte reduziu para R$1.240,71, sendo R$ 108,65 a título de 'mercado interno não'tributado e R$ 1.132,06 a Fl. 107DF CARF MF Processo nº 10925.002176/201016 Acórdão n.º 3003000.084 S3C0T3 Fl. 108 3 título de mercado externo, conforme o devido rateio em relação às receitas de vendas. Em face de tais glosas, com o consequente não reconhecimento de parte do direito creditório pleiteado, a recorrente apresentou manifestação de inconformidade (sem acrescentar nenhuma prova), na qual alegou, em síntese, que há previsão legal para o creditamento das despesas com frete, acondicionamento e armazenagem, assim como das despesas com materiais de embalagem necessários para o acondicionamento de produtos e para a garantia de sua integridade até a entrega ao cliente. A 4ª Turma da DRJ em Florianópolis proferiu acórdão nº. 0731.948. cuja ementa segue transcrita: AssUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA 0 PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2009 a 31/03/2009 INCIDÊNCIA NÃOCUMULATIVA. INSUMOS. BENS E SERVIÇOS. Para efeito da nãocumulatividade das contribuições, há de se entender 0 conceito de insumo não de forma genérica, atrelando0 à necessidade na fabricação do' produto e na consecução de sua atividade fim (conceito econômico), mas adstrito ao que determina a legislação tributária (conceito jurídico), vinculando a caracterização do insumo a sua aplicação direta ao produto fabricado. REGIME ~ DA NÃO CUMULATIVIDADE. EMBALAGENS. CONDIÇOES DE CREDITAMENTO. As embalagens de apresentação geram direito a creditamento relativo às suas aquisições. São consideradas embalagens de apresentação, para fins de direito creditório da nãocumulatividade aquelas que: tem como finalidade a apresentação do produto ao consumidor final; contêm o produto em quantidades compatíveis com sua venda no varejo e apesar de conter quantidades maiores, contenham rótulos destinados exclusivamente ao propósito de promover ou valorizar o produto. Inconformada, a recorrente interpôs recurso voluntário (sem acrescentar nenhuma prova), sustentando o seguinte: 1. Glosa dos créditos atinentes a despesas com embalagens: sustenta a recorrente que as glosas foram realizadas em virtude da receita aplicar o conceito do IPI para definição de insumos e utilizar o mesmo conceito para aplicar na apuração dos créditos de PIS/PASEP, para fins da nãocumulatividade e por essa razão as embalagens terem sido consideradas embalagens de transporte. Argumenta, porém, que os gastos com materiais de embalagem são necessários para o acondicionamento e integridade do produto. Nesse caso, sustenta a recorrente, que os materiais de embalagem caixas de papelão, etiquetas, pallets, etc. não se destinam meramente ao fim de transporte, mas de materiais necessários para que o produto chegue em ótimas condições no ponto de venda. Aduz, por fim, que as referidas despesas devem ser consideradas como insumo, uma vez que necessárias para a preservação da integridade dos produtos comercializados (frutas); Fl. 108DF CARF MF Processo nº 10925.002176/201016 Acórdão n.º 3003000.084 S3C0T3 Fl. 109 4 2. Glosa dos créditos atinentes a despesas com fretes: a recorrente afirma que a glosa de parte das despesas com frete se deu pela ausência de sua comprovação. A recorrente sustenta, então, que possui sim direito a esses créditos, eis que as mercadorias foram adquiridas com a incidência de PIS/PASEP e, portanto, devem gerar créditos em sua saída em razão da nãocumulatividade e que todos os documentos foram apresentados tempestivamente pela Recorrente em atendimento à intimação anterior do Fisco. Por fim, a recorrente aduz que a decisão recorrida aplicou o conceito de insumos previsto na legislação do IPI, distanciandose, assim, do entendimento de diversas decisões, inclusive do CARF, que corroboram a sua tese. Voto Conselheiro Márcio Robson Costa, Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os pressupostos e requisitos de admissibilidade. O valor do crédito em litígio é inferior a sessenta salários mínimos, estando dentro da alçada de competência desta turma extraordinária. Sendo assim, passo à análise do mérito. I Do conceito de insumos Inicialmente, importa destacar que, a jurisprudência recente do CARF tem afastado a interpretação restritiva consolidada no âmbito do IPI e rejeitado a aplicação do amplo conceito de insumos consagrado na legislação do Imposto sobre a Renda, posto que o judiciário também tem entendido que cabe a relativização do conceito de insumos analisando caso a caso, conforme veremos. Nesse sentido o conceito de insumos, no âmbito do PIS/PASEP não cumulativos, pressupõe que os bens ou serviços sejam consumidos durante o processo produtivo (ou de prestação de serviços) e dentro de seu espaço, salvo expressas disposições legais, como é o caso das despesas com frete e armazenagem nas operações de comercialização, as quais se dão após o término do processo produtivo, mas geram direito a crédito de PIS/PASEP por inequívoca previsão normativa: art. 3º, inciso IX, e art. 15, inciso II, ambos da Lei 10.833/03. A jurisprudência majoritária do CARF se orienta, portanto, no sentido de vincular o conceito de insumos à relação de pertinência ou inerência da despesa incorrida com o limite espaçotemporal do processo produtivo (ou de prestação de serviços). Na esteira de tal entendimento, os excertos da ementa e do voto vencedor do Acórdão nº 9303002.659, Processo nº 13204.000070/200455, sessão de 14/11/2013, da Câmara Superior de Recursos Fiscais, transcritos abaixo, sublinham a necessidade de pertinência entre o gasto ao qual se busca aplicar o conceito de insumos e sua inerência ao processo produtivo (grifo meu): EMENTA Fl. 109DF CARF MF Processo nº 10925.002176/201016 Acórdão n.º 3003000.084 S3C0T3 Fl. 110 5 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/06/2004 a 30/06/2004 COFINS. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. INSUMOS. Este colegiado fixou o entendimento de que a legislação do IPI que define, no âmbito daquele imposto, o que são matérias primas, produtos intermediários e material de embalagem não se presta à definição de insumo no âmbito do PIS e da COFINS nãocumulativos, definição que tampouco deve ser buscada na legislação oriunda do imposto de renda. A corrente majoritária sustenta que insumos são todos os itens, inclusive serviços, consumidos durante o processo produtivo sem a necessidade de contato físico com o produto em elaboração. Mas apenas se enquadra como tal aquilo que se consuma durante a produção e em razão dessa produção. Assim, nada que se consuma antes de iniciado o processo ou depois que ele se tenha acabado é insumo, assim como também não são insumos bens e serviços que beneficiarão a empresa ao longo de vários ciclos produtivos, os quais devem ser depreciados ou amortizados; é a correspondente despesa de depreciação ou amortização, quando expressamente autorizada, que gera direito de crédito. Recurso Especial do Procurador Negado e Recurso Especial do Contribuinte Provido em Parte. VOTO CONDUTOR (...) Para uma primeira corrente, que se formou concomitantemente à que a Fazenda mais uma vez pretende seja aplicada, e em antítese a ela, a demarcação deviase buscar nas normas atinentes ao imposto sobre a renda, equiparandose, assim, a expressão a tudo que fosse despendido, de forma necessária, seja como custo ou despesa. Essa posição também já se encontra superada, entendendo a maioria que nem tudo que é despendido, ainda que contabilmente até possa ser registrado como custo ou despesa, é verdadeiramente consumido no processo. Essa posição majoritária, portanto, acentua a necessidade de que o consumo ocorra durante a produção, isto é, que o bem (ou serviço) seja consumido enquanto perdura o processo produtivo, entendido este, obviamente, em sentido amplo para englobar até mesmo a “produção” de serviços. Afastam se, em conseqüência, os gastos ocorridos antes ou depois de iniciado aquele processo por mais que possam ser necessários à produção. E por esse mesmo critério também têm de ser rejeitados aqueles dispêndios em bens e serviços que produzirão efeito ao longo de diversos ciclos produtivos. Tais desembolsos ocorrem, no mais das vezes, em obras ou bens permanentes, hipótese em que devem, pela própria contabilidade, ser ativados. Deles apenas as correspondentes despesas de depreciação ou amortização podem ser deduzidas como créditos, mas apenas nas restritivas condições demarcadas pela própria norma legal específica. (...) Vale, por fim, o registro de que a própria lei expressamente autorizou o direito de crédito com relação a algumas despesas que ocorrem após o fim do processo (frete do produto final, armazenagem) ou relativas a gastos que beneficiam mais de um ciclo produtivo (depreciações e amortizações). Sua inclusão explícita confirma que em tais casos de insumos propriamente não se trata, sendo imprescindível a expressa referência no texto legal. Fl. 110DF CARF MF Processo nº 10925.002176/201016 Acórdão n.º 3003000.084 S3C0T3 Fl. 111 6 Pela leitura dos excertos, podese observar que o conceito de insumos exige o consumo de bens ou serviços no contexto do processo produtivo, excluindose, de tal conceito, as despesas que não tenham pertinência com o processo produtivo salvo exceções legais explícitas. Não posso me furtar de sinalizar que tal matéria foi levada ao poder judiciário e, em decisão recente, o Superior Tribunal de Justiça, sob julgamento no rito do art. 543C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), vejamos a decisão: TRIBUTÁRIO. PIS E COFINS. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. NÃO CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. DEFINIÇÃO ADMINISTRATIVA PELAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS 247/2002 E 404/2004, DA SRF, QUE TRADUZ PROPÓSITO RESTRITIVO E DESVIRTUADOR DO SEU ALCANCE LEGAL. DESCABIMENTO. DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE INSUMOS À LUZ DOS CRITÉRIOS DA ESSENCIALIDADE OU RELEVÂNCIA. RECURSO ESPECIAL DA CONTRIBUINTE PARCIALMENTE CONHECIDO, E, NESTA EXTENSÃO, PARCIALMENTE PROVIDO, SOB O RITO DO ART. 543C DO CPC/1973 (ARTS. 1.036 E SEGUINTES DO CPC/2015). 1. Para efeito do creditamento relativo às contribuições denominadas PIS e COFINS, a definição restritiva da compreensão de insumo, proposta na IN 247/2002 e na IN 404/2004, ambas da SRF, efetivamente desrespeita o comando contido no art. 3o., II, da Lei 10.637/2002 e da Lei 10.833/2003, que contém rol exemplificativo. 2. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item – bem ou serviço – para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 3. Recurso Especial representativo da controvérsia parcialmente conhecido e, nesta extensão, parcialmente provido, para determinar o retorno dos autos à instância de origem, a fim de que se aprecie, em cotejo com o objeto social da empresa, a possibilidade de dedução dos créditos relativos a custo e despesas com: água, combustíveis e lubrificantes, materiais e exames laboratoriais, materiais de limpeza e equipamentos de proteção individualEPI. 4. Sob o rito do art. 543C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), assentamse as seguintes teses: (a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de não cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de terminado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte. (Resp n.º 1.221.170 PR (2010/02091150), Relator Ministro Napoleão Nunes Maia Filho). Fl. 111DF CARF MF Processo nº 10925.002176/201016 Acórdão n.º 3003000.084 S3C0T3 Fl. 112 7 Conforme se verifica, o STJ relativizou o conceito, atribuindo a análise do caso concreto a responsabilidade por decidir a essencialidade e a relevância, afastando, desse modo, aquele conceito restritivo de insumos enunciado pelas IN´s nº 247/2002 e 404/2004. Assim, o STJ assimilou uma concepção de insumos que é intermediária, distinta daquelas albergadas pela legislação do IPI e do Imposto de Renda. O conceito formulado pelo STJ, baseado na essencialidade e relevância é de grande abrangência e não esta vinculado a conceitos contábeis (custos, despesas, imobilizado, intangíveis e etc), de forma que a modalidade de creditamento sobre a aquisição de insumos deve ser vista como regra geral de apuração de créditos para as atividades de produção de bens e de prestação de serviços, sem prejuízo das demais hipóteses previstas em lei. Entendo que andou bem o STJ, em especial da leitura de seu voto condutor, que de forma clara determina a necessidade de aferição casuística da aplicação do conceito de insumos a determinado gasto, tendo sempre em vista a atividade desempenhada pelo contribuinte. Sendo de relevante importância a fase instrutória do processo administrativo. Nessa mesma linha, porém de forma mais material, se posicionou a Câmara Superior de Recursos Fiscais na votação do acórdão nº. 9303007.719– 3ª Turma assim ementado: CONCEITO DE INSUMOS. NÃO CUMULATIVIDADE Insumos seriam, portanto, os bens ou serviços que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços e que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da mesma prestação do serviço ou da produção, ou seja, itens cuja subtração ou obste a atividade da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes. DESPESAS. FRETES. PRODUTOS ACABADOS. TRANSFERÊNCIA/ TRANSPORTE. ESTABELECIMENTOS PRÓPRIOS, DEPÓSITO FECHADO, ARMAZÉM GERAL. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas com fretes para a transferência/transporte de produtos acabados entre estabelecimentos do contribuinte e/ ou para depósito fechado e armazém geral para venda posterior constituem despesas na operação de venda e geram créditos da contribuição, passíveis de desconto do valor apurado sobre o faturamento mensal. Feitas tais ponderações e esclarecido o posicionamento desta relatoria, passamos a analisar o caso concreto posto em julgamento. II Da glosa dos créditos referentes a despesas com embalagens No caso concreto, constatase que o colegiado a quo sustentou a glosa de despesas com material de embalagem, pois, segundo seu entendimento, construído a partir da Fl. 112DF CARF MF Processo nº 10925.002176/201016 Acórdão n.º 3003000.084 S3C0T3 Fl. 113 8 interpretação das IN´s nº 247/2002 e 404/2004, as embalagens para transporte não dão direito a créditos no regime nãocumulativo: a decisão recorrida adota a distinção entre embalagens de transporte e embalagens de representação. No tocante ao creditamento das despesas com embalagens, cabe lembrar que a 3ª. Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais decidiu sobre tal matéria recentemente, tendo assumido o conceito de insumos esposado na decisão do STJ acima exposta, exarando o Acórdão nº. 9303006.068, cujos excertos importantes para a presente análise, extraídos do voto condutor do Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, estão a seguir transcritos (grifamos algumas partes): A Contribuinte é pessoa jurídica que, nos termos do art. 2º do seu Estatuto Social (fls. 41 a 63), exerce atividade econômica na área de alimentos e tem por objetivos sociais: Art. 2º A Sociedade objetiva, com base na colaboração recíproca a que se obrigam seus associados, promover: I o estímulo, o desenvolvimento e a defesa de suas atividades econômicas de caráter comum; II A importação, a exportação, a industrialização e a comercialização em comum de sua produção agrícola, produção animal em geral, pecuária e de hortifrutigranjeiros, industrializada ou em espécie, tais como carnes, ovos, peixes, frutas, cereais, verduras, legumes, gorduras, condimentos em geral; café e ervas para infusão, laticínios, margarinas e derivados de soja, massas alimentícias, farinhas e fermentos em geral; doces, pós para fabricação de doces, açúcar e adoçantes em geral, bebidas alcoólicas e não alcoólicas, xaropes e sucos em geral; animais vivos e ovos para incubação; alimentos para animais; plantas e flores naturais, etc, nos mercados locais, nacionais ou internacionais; Em razão de sua atividade econômica, sujeitase a controles e exigências de diversos órgãos públicos, exemplificativamente: Agência Nacional de Vigilância Sanitária ANVISA, Ministério da Agricultura, Serviço de Inspeção Federal, Ministério da Saúde. Pela peculiaridade da atividade econômica que exerce, fica obrigada a atender rígidas normas de higiene e limpeza, sendo que eventual não atendimento das exigências de condições sanitárias das instalações levaria à impossibilidade da produção ou na perda significativa da qualidade do produto fabricado. No que concerne às embalagens utilizadas para transporte no processo produtivo da Contribuinte, uma vez essenciais, pertinentes e relevantes para obtenção do produto final, há de se considerarem as mesmas como insumos. As embalagens são realmente necessárias à armazenagem/conservação do produto nas diversas fases do processo produtivo. Considerandose a atividade própria da Contribuinte, temse que os “pallets” utilizados para armazenagem e movimentação das matériasprimas e produtos na etapa da industrialização e na sua destinação para venda, também devem ser considerados como insumos. Para atendimento das exigências sanitárias impostas pelos órgãos públicos responsáveis pelo controle e fiscalização, na movimentação e na armazenagem das matériasprimas e dos bens a serem utilizados na fabricação do produto final, e dos produtos finais em si, não pode haver Fl. 113DF CARF MF Processo nº 10925.002176/201016 Acórdão n.º 3003000.084 S3C0T3 Fl. 114 9 contato com o chão, justamente para se evitar a contaminação por microorganismos, constituindose em mais uma das razões pelas quais é imprescindível a utilização dos “pallets” na cadeia produtiva. Levandose em conta a significativa quantidade de matériasprimas e produtos que serão empregados no processo produtivo e que precisam ser armazenados e transportados no ambiente fabril, é indispensável à Contribuinte utilizarse de mecanismos e ferramentas que, além de garantirem a observância das normas de higiene e limpeza, impostas pela ANVISA, otimizem o seu processo produtivo. Há de ser destacada, nesse aspecto, a desnecessidade do consumo do produto em contato direto com o bem produzido, admitindose o emprego indireto no processo de produção para caracterizarse determinado bem como insumo. Assim, os pallets guardam nítida relação de pertinência, relevância e essencialidade com a atividade produtiva do Sujeito Passivo, constituindose em insumos do processo produtivo e da fase de comercialização passíveis de creditamento de PIS e COFINS nãocumulativos. (...)Há, ainda, de se examinar a caracterização dos materiais de acondicionamento e transporte plástico de coberto e filme plástico do tipo “stretch” – como insumos passíveis de gerar crédito de PIS/Pasep. Na linha relacional traçada no presente voto, considerandose que as mercadorias para serem devidamente armazenadas e transportadas após a produção, até chegarem ao consumidor final, exigem a utilização do plástico de coberto e do filme plástico do tipo “stretch”, é nítida a relação de pertinência, relevância e essencialidade com o processo produtivo, sendo imprescindível o seu reconhecimento como insumo. Por fim, cumpre consignar que os itens, analisados no presente recurso especial, são empregados na “palletização” dos produtos a serem estocados e transportados pela Contribuinte, procedimento indispensável à correta armazenagem dos produtos face ao tamanho reduzido das embalagens individuais e, mais ainda, ao atendimento de exigências das normas de controle sanitário da área de alimentos, consoante Portaria SVS/MS (Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde) nº 326/1997. Diante do exposto, negase provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional, mantendose o reconhecimento ao direito creditório da Contribuinte. " A fundamentação acima exposta esta em linha com a decisão do STJ (Resp n.º 1.221.170 PR), de maneira que descordo do entendimento assumido na decisão recorrida, já que ela esta apoiada em atos normativos já ultrapassados. Analisando o caso concreto, e tendo em mente a atividade desenvolvida pela recorrente produção e comercialização de frutas verificase que os materiais de embalagem utilizados pela recorrente são essenciais para a conservação e integridade de seus produtos. Nesse passo, o meu entendimento, que é filiado ao entendimento do STJ, é de reconhecer que os materiais de embalagem utilizados pela recorrente na conservação, armazenagem e preservação da integridade de seus produtos devem integrar o conceito de insumos, de maneira que deve ser afastada a glosa das respectivas despesas que foram devidamente comprovadas, aqui observo que, em concordância com a análise fiscal, o crédito deve considerar apenas as despesas devidamente comprovadas. III Da glosa dos créditos atinentes a despesas com fretes Fl. 114DF CARF MF Processo nº 10925.002176/201016 Acórdão n.º 3003000.084 S3C0T3 Fl. 115 10 Alega a recorrente que possui direito ao crédito relativo aos fretes das mercadorias adquiridas com a incidência de PIS e COFINS já que elas geram créditos em sua saída em razão da nãocumulatividade. O despacho decisório, ao tratar do assunto, afirmou que essas despesas de fretes nas operações de venda, na sua maioria, foram consideradas corretas, contudo, os valores de fretes vinculados às exportações foram glosados, vejamos: Em relação aos serviços, a memória de cálculo apresentou valores referentes a transporte nas vendas das frutas, tanto para o mercado interno quanto para o mercado externo. Essas despesas de fretes nas operações de venda, na sua maioria, foram consideradas corretas, apesar de terem sido lançadas em linha equivocada do Dacon (deveriam ter sido lançadas na linha 07 das fichas 06A e 16A). Todavia, alguns valores de fretes vinculados às exportações foram glosados. Como este processo se refere aos créditos decorrentes das vendas no mercado interno, não cabe aqui fazer um detalhamento desta glosa, mas apenas citáIa a título de informação complementar. De qualquer maneira, esta glosa está detalhada nos despachos decisórios dos processos vinculados à receita de exportação. Sobre esse ponto o acórdão da DRJ apenas mencionou que "Consta que as despesas de fretes nas operações de venda no mercado intemo e extemo, na sua maioria, foram consideradas corretas, sendo glosados alguns valores de fretes vinculados às exportações, apenas citadas neste processo a título de informação complementar, posto que está detalhada nos despachos decisórios dos processos vinculados à receita de exportação." Ocorre que a recorrente insiste no pedido de crédito dessas despesas em seu Recurso Voluntário, embora que de forma genérica, o que me leva a crer que seu pedido esta relacionado ao que não foi homologado no despacho decisório: valores de fretes vinculados às exportações. Observase que o despacho decisório deu parcial provimento, justamente por RECONHECER PARCIALMENTE o direito creditório postulado, a título de crédito do mercado interno não tributado, passível de ressarcimento/compensação. Assim, o entendimento ao qual me filio é de que cabe créditos das despesas com fretes, posto que o transporte do produto é essencial "para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte",contudo, apenas no que for comprovado que as referidas despesas tenham sido realizadas ao mercado interno, posto que o pedido inicial esta calcado na Lei n.º 11.033 de 2004, não sendo cabível, portanto o crédito com relação as despesas relacionadas a venda ao mercado externo conforme prevê o parágrafo 4º do Art. 6º da Lei 10.833. E no que se refere as provas, fazse necessário que as alegações da recorrente sejam embasadas em escrituração contábilfiscal e documentação hábil e idônea que a lastreie. Incumbe à recorrente o ônus de comprovar, por provas hábeis e idôneas, o crédito alegado. É o que estabelece o Código de Processo Civil, em seu art. 373: Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; Fl. 115DF CARF MF Processo nº 10925.002176/201016 Acórdão n.º 3003000.084 S3C0T3 Fl. 116 11 Tal é o entendimento da 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), em decisão consubstanciada no acórdão de nº 9303005.226, nos seguintes termos: "...o ônus de comprovar a certeza e liquidez do crédito pretendido compensar é do contribuinte. O papel do julgador é, verificando estar minimamente comprovado nos autos o pleito do Sujeito Passivo, solicitar documentos complementares que possam formar a sua convicção, mas isso, repitase, de forma subsidiária à atividade probatória já desempenhada pelo contribuinte. Não pode o julgador administrativo atuar na produção de provas no processo, quando o interessado, no caso, a Contribuinte não demonstra sequer indícios de prova documental, mas somente alegações." Assim, no caso concreto, o relato fiscal fundamentado com as planilhas alimentadas a partir das informação do DACON é a prova que contribui para o entendimento de que os valores referentes ao mercado interno devem ser utilizados para crédito e ressarcimento. Nesse lastro, observo que o recorrente não tratou dessa matéria em seu recurso, de modo que não impugnou o posicionamento fiscal, não trouxe provas que desconstituísse essas informações fazendo com que o fato seja incontroverso, acarretando inclusive na preclusão da matéria, em face do que dispõe o §4º do art. 16 do Decreto nº. 70.235/72: Art. 16. A impugnação mencionará: (...) III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) (...)§ 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) b) refirase a fato ou a direito superveniente; (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) Reconheço que os valores referentes a transportes nas vendas das frutas, conhecidos como despesas com frete, para o mercado interno, devem integrar o conceito de insumos, contudo, considero que o pedido de crédito desses despesas com venda ao mercado externo tem sua razão legal de ter sido glosada e por isso nego provimento a esse pedido. Diante do exposto, voto por dar parcial provimento ao Recurso Voluntário, reconhecendo o direito creditório nos seguintes termos: dar provimento sobre os materiais de embalagem utilizados pela recorrente na conservação, armazenagem e preservação da integridade de seus produtos, apenas no que foi devidamente comprovado e, negar provimento sobre as despesas com frete. Márcio Robson Costa Relator Fl. 116DF CARF MF Processo nº 10925.002176/201016 Acórdão n.º 3003000.084 S3C0T3 Fl. 117 12 Fl. 117DF CARF MF
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Numero do processo: 10680.901871/2012-36
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jan 30 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/04/2009 a 30/06/2009
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. ACOLHIMENTO
Ao se constatar a existência de omissão, os embargos devem ser acolhidos para saná-la.
PIS/COFINS NÃO-CUMULATIVO. ATIVIDADE DE MINERAÇÃO HIPÓTESES DE CRÉDITO. INSUMOS.
O conceito de insumo na legislação referente à Contribuição para o PIS/PASEP e à COFINS não guarda correspondência com o extraído da legislação do IPI (demasiadamente restritivo) ou do IR (excessivamente alargado). Em atendimento ao comando legal, o insumo deve ser necessário ao processo produtivo/fabril e "aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte." (RESP nº 1.221.170/PR)
NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. CRÉDITOS. CONCEITO. COMBUSTÍVEIS. ÓLEO DIESEL LUBRIFICANTES. GRAXAS
Os gastos com combustíveis, óleo diesel, lubrificantes e graxas geram créditos a serem utilizados na apuração do PIS e da COFINS, nos termos do inc. III, do § 1° do art. 3° das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003.
Numero da decisão: 3201-004.601
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em acolher os Embargos de Declaração, com efeitos infringentes, para afastar a glosa em relação aos (i) lubrificantes e graxas; (ii) óleos combustíveis e (iii) aos produtos elencados no Anexo citado pela Embargante (doc. 4 - Embargos de Declaração - planilhas da Fiscalização). Vencida a conselheira Larissa Nunes Girard (suplente convocada), que rejeitava os embargos.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Larissa Nunes Girard (suplente convocada em substituição ao conselheiro Leonardo Correia Lima Macedo), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Laercio Cruz Uliana Junior e Vinicius Guimarães (suplente convocado em substituição ao conselheiro Paulo Roberto Duarte Moreira ). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Leonardo Correia Lima Macedo e Paulo Roberto Duarte Moreira.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/04/2009 a 30/06/2009 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. ACOLHIMENTO Ao se constatar a existência de omissão, os embargos devem ser acolhidos para saná-la. PIS/COFINS NÃO-CUMULATIVO. ATIVIDADE DE MINERAÇÃO HIPÓTESES DE CRÉDITO. INSUMOS. O conceito de insumo na legislação referente à Contribuição para o PIS/PASEP e à COFINS não guarda correspondência com o extraído da legislação do IPI (demasiadamente restritivo) ou do IR (excessivamente alargado). Em atendimento ao comando legal, o insumo deve ser necessário ao processo produtivo/fabril e "aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerando-se a imprescindibilidade ou a importância de determinado item - bem ou serviço - para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte." (RESP nº 1.221.170/PR) NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. CRÉDITOS. CONCEITO. COMBUSTÍVEIS. ÓLEO DIESEL LUBRIFICANTES. GRAXAS Os gastos com combustíveis, óleo diesel, lubrificantes e graxas geram créditos a serem utilizados na apuração do PIS e da COFINS, nos termos do inc. III, do § 1° do art. 3° das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003.
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decisao_txt : Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em acolher os Embargos de Declaração, com efeitos infringentes, para afastar a glosa em relação aos (i) lubrificantes e graxas; (ii) óleos combustíveis e (iii) aos produtos elencados no Anexo citado pela Embargante (doc. 4 - Embargos de Declaração - planilhas da Fiscalização). Vencida a conselheira Larissa Nunes Girard (suplente convocada), que rejeitava os embargos. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Larissa Nunes Girard (suplente convocada em substituição ao conselheiro Leonardo Correia Lima Macedo), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Laercio Cruz Uliana Junior e Vinicius Guimarães (suplente convocado em substituição ao conselheiro Paulo Roberto Duarte Moreira ). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Leonardo Correia Lima Macedo e Paulo Roberto Duarte Moreira.
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OMISSÃO. Embargante SAMARCO MINERAÇÃO S.A. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/04/2009 a 30/06/2009 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO. ACOLHIMENTO Ao se constatar a existência de omissão, os embargos devem ser acolhidos para sanála. PIS/COFINS NÃOCUMULATIVO. ATIVIDADE DE MINERAÇÃO HIPÓTESES DE CRÉDITO. INSUMOS. O conceito de insumo na legislação referente à Contribuição para o PIS/PASEP e à COFINS não guarda correspondência com o extraído da legislação do IPI (demasiadamente restritivo) ou do IR (excessivamente alargado). Em atendimento ao comando legal, o insumo deve ser necessário ao processo produtivo/fabril e "aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte." (RESP nº 1.221.170/PR) NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. CRÉDITOS. CONCEITO. COMBUSTÍVEIS. ÓLEO DIESEL LUBRIFICANTES. GRAXAS Os gastos com combustíveis, óleo diesel, lubrificantes e graxas geram créditos a serem utilizados na apuração do PIS e da COFINS, nos termos do inc. III, do § 1° do art. 3° das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em acolher os Embargos de Declaração, com efeitos infringentes, para afastar a glosa em relação aos (i) lubrificantes e graxas; (ii) óleos combustíveis e (iii) aos produtos elencados no Anexo citado pela Embargante (doc. 4 Embargos de Declaração planilhas da Fiscalização). Vencida a conselheira Larissa Nunes Girard (suplente convocada), que rejeitava os embargos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 68 0. 90 18 71 /2 01 2- 36 Fl. 2472DF CARF MF Processo nº 10680.901871/201236 Acórdão n.º 3201004.601 S3C2T1 Fl. 3 2 (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Marcelo Giovani Vieira, Tatiana Josefovicz Belisário, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Larissa Nunes Girard (suplente convocada em substituição ao conselheiro Leonardo Correia Lima Macedo), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Laercio Cruz Uliana Junior e Vinicius Guimarães (suplente convocado em substituição ao conselheiro Paulo Roberto Duarte Moreira ). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Leonardo Correia Lima Macedo e Paulo Roberto Duarte Moreira. Relatório Tratamse de tempestivos Embargos de Declaração opostos por Samarco Mineração S/A, em face do Acórdão nº 3201003.327, da 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara, proferido em sessão de 31/01/2018, cuja Ementa abaixo se transcreve: "ASSUNTO: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/04/2009 a 30/06/2009 PRELIMINARES. NULIDADES. INOCORRÊNCIA. PRODUÇÃO DE PROVAS. DILIGÊNCIA REALIZADA. Não há que se falar em nulidade da autuação pelo ausência de diligência in loco. Os princípios do contraditório, devido processo legal foram respeitados durante o transcurso processual. PIS/COFINS NÃOCUMULATIVO. ATIVIDADE DE MINERAÇÃO HIPÓTESES DE CRÉDITO. INSUMOS. O conceito de insumo na legislação referente à Contribuição para o PIS/PASEP e à COFINS não guarda correspondência com o extraído da legislação do IPI (demasiadamente restritivo) ou do IR (excessivamente alargado). Em atendimento ao comando legal, o insumo deve ser necessário ao processo produtivo/fabril. Geram direito a crédito a ser descontado da contribuição para o PIS e da Cofins apuradas de forma nãocumulativa na atividade exercida pela recorrente os gastos incorridos com (i) serviços prestados no mineroduto; (ii) aluguel de veículos, de máquinas e equipamentos; (iii) locação de dragas, reboque, serviço de rebocador e portuários; (iv) serviços de limpeza, recolhimento e transporte de rejeitos; (v) serviços de topografia, operações de efluentes, serviços de drenagens, análises físicas e químicas; (vi) usinas manutenção e conservação; (vii) obras de construção civil e (viii) combustíveis. Aos créditos concedidos em relação (i) aos serviços prestados no mineroduto e (ii) a obras civis e outros serviços sobre máquinas Fl. 2473DF CARF MF Processo nº 10680.901871/201236 Acórdão n.º 3201004.601 S3C2T1 Fl. 4 3 e equipamentos concedese, respeitadas as regras de depreciação, conforme inc. III, do § 1° do art. 3° das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003." Alega a Embargante a ocorrência de omissão parcial pela não apreciação, em sua íntegra, quanto ao item da glosa "BENS UTILIZADOS COMO INSUMOS NÃO AÇÃO DIRETA SOBRE O PRODUTO", aduzindo ser necessária a análise dos demais produtos atingidos além dos combustíveis. A Embargante anexa aos autos as planilhas da fiscalização relativa a este tópico da glosa (doc. 04) onde está assinalada a listagem completa de produtos envolvidos na glosa fiscal, o que comprova que: a) além dos combustíveis, muitos outros produtos foram atingidos neste tópico e; b) o critério adotado pela fiscalização é, em todos os casos, exatamente o mesmo: produto sem contato direto, ainda que essencial ao processo produtivo, deve ter seu crédito inadmitido. Defende a Embargante que tais produtos são absolutamente essenciais ao seu processo produtivo e todo o item deve ser excluído. Um dos itens mais evidentes são os lubrificantes, pois seguem os mesmos fundamentos e, portanto, deve seguir o mesmo caminho dos combustíveis. Prossegue, afirmando que tal fato é admitido pela própria Fiscalização (relatório fiscal), mas de forma contraditória, negou o direito ao crédito dos lubrificantes que não entram em contato direto com o produto. Entende a Embargante que merece ser reestabelecido o crédito sobre todos os lubrificantes e graxas que atuam diretamente no processo produtivo, a fim de manter a coerência da decisão embargada. Continua a Embargante, asseverando que a fiscalização glosou óleos combustíveis (óleo diesel tipo B) utilizados nos “fora de estrada” na Unidade de Germano. De novo, no âmbito do ICMS já se reconhece tais créditos há muito, inclusive é o entendimento da Receita Federal do Brasil, consubstanciado por meio das Soluções de Consulta 85/12 e 91/12, emitida pela SRRF da 10ª Região, devendo a decisão embargada reconhecer expressamente o direito ao creditamento. Traz a Embargante, alguns exemplos da planilha anexa, para clamar que a decisão recorrida abarque todos os produtos encartados em referido documento. Que devidamente abordou e comprovou a existência de diversos outros produtos glosados sob o tópico “BENS UTILIZADOS COMO INSUMOS”, os quais infelizmente não podem ser destrinchados itemaitem no recurso, pois tratamse de milhares de produtos glosados. A premissa da fiscalização para o tópico indicado é uma só em quaisquer dos casos a serem analisados: glosar todos os produtos em que não verificado contato direto com o minério sob produção. Requer a Embargante o provimento dos Embargos de Declaração, para sanar a omissão apontada, atribuindo o efeito modificativo necessário, para esclarecer que o mesmo tratamento conferido aos Combustíveis e aos Serviços analisados no acórdão recorrido (afastamento do critério restritivo de IPI e adoção da essencialidade), deverá ser empregado aos Fl. 2474DF CARF MF Processo nº 10680.901871/201236 Acórdão n.º 3201004.601 S3C2T1 Fl. 5 4 demais bens glosados no tópico “BENS UTILIZADOS COMO INSUMOS – NÃO AÇÃO DIRETA SOBRE O PRODUTO”. Os embargos foram devidamente admitidos pelo Sr. Presidente da 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 3ª Seção do CARF, conforme a seguir: "A meu pensar, a omissão alegada reclama a apreciação da Turma Julgadora, a quem caberá decidir quanto à necessidade de saneamento. Apresentase possível a ocorrência de vício passível de saneamento pelo colegiado, lastreada em argumentação específica e suficiente para a admissibilidade dos Embargos. Convém notar que o presente despacho não determina se efetivamente ocorreram os vícios. Nesse sentido, o exame de admissibilidade não se confunde com a apreciação do mérito dos embargos, que é tarefa a ser empreendida subsequentemente pelo Colegiado. Diante do exposto, com base nas razões acima expostas e com fundamento no art. 65, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF no 343, de 2015, DOU SEGUIMENTO os Embargos de Declaração opostos pelo sujeito passivo." É o relatório. Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3201004.590, de 11/12/2018, proferido no julgamento do processo 10680.901861/201209, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201004.590): Assiste razão ao pleito da Embargante. Realmente, a decisão embargada deixou de apreciar a íntegra dos produtos constantes no tópico “BENS UTILIZADOS COMO INSUMOS – NÃO AÇÃO DIRETA SOBRE O PRODUTO”, tendo sido induzido ao lapso em razão do contido nas manifestações da Fiscalização e na decisão proferida em 1ª Instância. No caso, deve ser adotado, como defendido pela Embargante, o mesmo critério adotado na decisão embargada para os combustíveis. O anexo juntado pela Embargante, realmente, contém uma infinidade de produtos, sendo praticamente impossível sua análise individualizada. Fl. 2475DF CARF MF Processo nº 10680.901871/201236 Acórdão n.º 3201004.601 S3C2T1 Fl. 6 5 Ao caso chamo atenção aos produtos especificamente mencionados pela Embargante, quais sejam, (i) lubrificantes e graxas e (ii) óleos combustíveis (óleo diesel tipo B) utilizados nos “fora de estrada”. Em relação a tais itens, é pacífica a jurisprudência da CARF. Vejamos: "Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 01/01/2009 a 28/03/2009 VÍCIO NO ATO ADMINISTRATIVO. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO. A motivação e finalidade do ato administrativo são supridas quando da elaboração do relatório fiscal que detalham as conclusões do trabalho fiscal e as provas dos fatos constatados. As discordâncias quanto às conclusões do trabalho fiscal são matérias inerentes ao Processo Administrativo Fiscal e a existência de vícios no auto de infração deve apresentarse comprovada no processo. (...) COMBUSTÍVEIS E LUBRIFICANTES. Os gastos com combustíveis e lubrificantes geram créditos a serem utilizados na apuração do PIS e da COFINS, nos termos do art. 3º, II da Lei nº 10.833/2003. (...)" (Processo nº 11516.724153/201385; Acórdão nº 3301005.016; Relator Conselheiro Winderley Morais Pereira; sessão de 28/08/2018) "Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 01/04/2010 a 30/06/2010 CRÉDITOS DA NÃOCUMULATIVIDADE. INSUMOS. DEFINIÇÃO. A expressão "bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda" deve ser interpretada como bens e serviços aplicados ou consumidos na produção ou fabricação e na prestação de serviços, no sentido de que sejam bens ou serviços inerentes à produção ou fabricação ou à prestação de serviços, independentemente do contato direto com o produto em fabricação, a exemplo dos combustíveis e lubrificantes." (Processo nº 10768.004787/201041; Acórdão nº 3302 005.927; Relator Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède; sessão de 25/09/2018) "Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofin Período de apuração: 01/10/2011 a 31/12/2011 NÃO CUMULATIVIDADE. INSUMOS. CRÉDITOS. CONCEITO. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica Fl. 2476DF CARF MF Processo nº 10680.901871/201236 Acórdão n.º 3201004.601 S3C2T1 Fl. 7 6 desempenhada pelo contribuinte (STJ, do Recurso Especial nº 1.221.170/PR). (...) NÃO CUMULATIVIDADE. ÓLEO DIESEL, LUBRIFICANTES E GRAXAS UTILIZADOS EM VEÍCULOS E MÁQUINAS NA FASE AGRÍCOLA. PRODUÇÃO DA CANA. DIREITO AO CREDITAMENTO. Dá direito a crédito a aquisição de graxas, lubrificantes e óleo diesel utilizados em maquinários e veículos empregados na fase agrícola da produção do açúcar e álcool." (Processo nº 10880.953116/201361; Acórdão nº 3201004.161; Relator Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza; sessão de 28/08/2018) Com relação aos demais produtos elencados no Anexo (doc. 4 Embargos de Declaração) juntado pela Embargante, entendo que lhe assiste razão, devendo a glosa ser revertida. A Fiscalização para glosar os créditos de tais produtos, adotou o critério de que tais itens não possuem contato direto, ainda que essencial ao processo produtivo, ou seja, um conceito restritivo já afastado pela decisão embargada proferida por esse Colegiado. Imperioso esclarecer que por ocasião do recente julgamento do RESP nº 1.221.170/PR, em sede de recurso repetitivo a Corte Superior assim se posicionou sobre a matéria: "TRIBUTÁRIO. PIS E COFINS. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. NÃO CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. DEFINIÇÃO ADMINISTRATIVA PELAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS 247/2002 E 404/2004, DA SRF, QUE TRADUZ PROPÓSITO RESTRITIVO E DESVIRTUADOR DO SEU ALCANCE LEGAL. DESCABIMENTO. DEFINIÇÃO DO CONCEITO DE INSUMOS À LUZ DOS CRITÉRIOS DA ESSENCIALIDADE OU RELEVÂNCIA. RECURSO ESPECIAL DA CONTRIBUINTE PARCIALMENTE CONHECIDO, E, NESTA EXTENSÃO, PARCIALMENTE PROVIDO, SOB O RITO DO ART. 543C DO CPC/1973 (ARTS. 1.036 E SEGUINTES DO CPC/2015). 1. Para efeito do creditamento relativo às contribuições denominadas PIS e COFINS, a definição restritiva da compreensão de insumo, proposta na IN 247/2002 e na IN 404/2004, ambas da SRF, efetivamente desrespeita o comando contido no art. 3o., II, da Lei 10.637/2002 e da Lei 10.833/2003, que contém rol exemplificativo. 2. O conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios da essencialidade ou relevância, vale dizer, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de determinado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo contribuinte. 3. Recurso Especial representativo da controvérsia parcialmente conhecido e, nesta extensão, parcialmente provido, para determinar o retorno dos autos à instância de origem, a fim de que se aprecie, em cotejo com o objeto social da empresa, a possibilidade de dedução dos créditos realtivos a custo e despesas com: água, combustíveis e lubrificantes, materiais e exames laboratoriais, materiais de limpeza e equipamentos de proteção individualEPI. Fl. 2477DF CARF MF Processo nº 10680.901871/201236 Acórdão n.º 3201004.601 S3C2T1 Fl. 8 7 4. Sob o rito do art. 543C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), assentamse as seguintes teses: (a) é ilegal a disciplina de creditamento prevista nas Instruções Normativas da SRF ns. 247/2002 e 404/2004, porquanto compromete a eficácia do sistema de não cumulatividade da contribuição ao PIS e da COFINS, tal como definido nas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003; e (b) o conceito de insumo deve ser aferido à luz dos critérios de essencialidade ou relevância, ou seja, considerandose a imprescindibilidade ou a importância de terminado item bem ou serviço para o desenvolvimento da atividade econômica desempenhada pelo Contribuinte." (REsp 1221170/PR, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 22/02/2018, DJe 24/04/2018) No caso, tanto a Fiscalização quanto a decisão recorrida proferida pela DRJ foram, de certo modo, genéricas e não adentraram com minúcias ao caso concreto. Aqui importante trazer as ponderações proferidas pelo Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza no Acórdão nº 3201004.279, in verbis: "Não obstante ausente, nos autos, maiores detalhes sobre o que são as tais "ferramentas operacionais", a razão para o indeferimento, juntamente com o indeferimento dos materiais de manutenção, foi a de que não se enquadrariam no conceito de insumo. A Recorrente, porém, sustenta a sua utilização no processo produtivo, o que o só adjetivo que acompanha o termo "ferramentas" parece, com efeito, indicar. Assim, na falta de maiores detalhes, máxime por parte da fiscalização, entendemos que as ferramentas operacionais e os materiais de manutenção utilizados na mecanização industrial, no tratamento do caldo, na balança de canadeaçúcar e na destilaria de álcool devem ser considerados insumos para o efeito de creditamento do PIS/Cofins." (nosso destaque) Do aludido documento 4 (planilhas da fiscalização) anexado com os Embargos tem se inúmeros itens que, ao meu sentir, são insumos necessários e indispensáveis ao processo produtivo e se adequam ao decidido pelo Superior Tribunal de Justiça (essencialidade ou relevância). A título ilustrativo transcrevo: Fl. 2478DF CARF MF Processo nº 10680.901871/201236 Acórdão n.º 3201004.601 S3C2T1 Fl. 9 8 Dos embargos declaratórios, reproduzo os itens exemplificativos colacionados pela Embargante: Fl. 2479DF CARF MF Processo nº 10680.901871/201236 Acórdão n.º 3201004.601 S3C2T1 Fl. 10 9 Fl. 2480DF CARF MF Processo nº 10680.901871/201236 Acórdão n.º 3201004.601 S3C2T1 Fl. 11 10 Denotase, então, a plena aderência de tais insumos na complexa atividade produtiva desenvolvida pela Embargante. Diante do exposto, conheço dos Embargos de Declaração interpostos e voto por acolhêlos, com efeitos infringentes, para afastar a glosa em relação aos (i) lubrificantes e graxas; (ii) óleos combustíveis e (iii) aos produtos elencados no Anexo citado pela Embargante (doc. 4 Embargos de Declaração planilhas da Fiscalização). Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o colegiado conheceu e acolheu os Embargos de Declaração, com efeitos infringentes, para afastar a glosa em relação aos (i) lubrificantes e graxas; (ii) óleos combustíveis e (iii) aos produtos elencados no Anexo citado pela Embargante (doc. 4 Embargos de Declaração planilhas da Fiscalização). (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 2481DF CARF MF
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Numero do processo: 16349.000098/2008-60
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Feb 15 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 3401-001.425
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em sobrestar o julgamento do presente processo, aguardando a decisão administrativa definitiva no processo administrativo 10865.001551/00-57, que deverá ser anexada aos autos, para reinclusão em pauta.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente.
(assinado digitalmente)
Leonardo Ogassawara de Araújo Branco - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (Presidente), Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Lazaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (Vice-Presidente).
Relatório
Nome do relator: LEONARDO OGASSAWARA DE ARAUJO BRANCO
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RAMENZONI S/A Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em sobrestar o julgamento do presente processo, aguardando a decisão administrativa definitiva no processo administrativo 10865.001551/0057, que deverá ser anexada aos autos, para reinclusão em pauta. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente. (assinado digitalmente) Leonardo Ogassawara de Araújo Branco Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (Presidente), Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Lazaro Antonio Souza Soares, Cássio Schappo, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (VicePresidente). Relatório Transcrevese, abaixo, o relatório da decisão a quo: RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 63 49 .0 00 09 8/ 20 08 -6 0 Fl. 159DF CARF MF Processo nº 16349.000098/200860 Resolução nº 3401001.425 S3C4T1 Fl. 160 2 Trata o presente processo de declarações de compensação de débitos, sintetizadas na fl. 50, com utilização de créditos decorrentes de pedido de ressarcimento de crédito prêmio de IPI apreciado no processo nº 10865.001551/0057. A Autoridade Fiscal da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Administração Tributária em São Paulo, através do despacho decisório de fls. 67/69, decidiu por não homologar as declarações de compensação em razão da inexistência do alegado crédito, pois segundo Acórdão nº 7.833, de 20 de abril de 2005, proferido pela 2ª Turma da DRJ/RPO, referente ao processo administrativo nº 10865.001551/0057, anexado às fl. 51/63, ao qual estão vinculadas as declarações de compensação, o pedido de ressarcimento de crédito prêmio de IPI foi indeferido. Irresignada com a decisão administrativa, a contribuinte ofereceu a manifestação de inconformidade de fls. 72/77, alegando, em síntese, que o crédito indicado nos pedidos de compensação é o apurado no Pedido de Ressarcimento de IPI n° 10865.001551100 57, que, ao contrário do afirmado pela Secretaria da Receita Federal, encontrase em fase de Recurso Voluntário junto a Quarta Turma do Segundo Conselho de Contribuintes, o que, nos termos do inciso III do art 151 do CTN, assegura ao contribuinte a suspensão da exigibilidade do crédito tributário. Dando seqüência a manifestação, expõe que sobre a matéria discutida naqueles autos já há muito se pronunciou o Supremo Tribunal Federal. Ao final, requer seja conhecido e provido o recurso, para, na integra, dar acatamento ao pedido de compensação, reformando da decisão que não as homologou, dando seqüência ao processo de compensação deflagrado, ou caso não seja este o entendimento, seja suspenso o presente processo administrativo, até decisão final do processo n° 10865.001551/0057. Em 20/01/2015, a contribuinte apresentou recurso voluntário, situado às fls. 119 a 154, no qual reiterou as razões de sua impugnação. É o Relatório. Voto Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, Relator O recurso voluntário é tempestivo e preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. Fl. 160DF CARF MF Processo nº 16349.000098/200860 Resolução nº 3401001.425 S3C4T1 Fl. 161 3 A manifestação de inconformidade, tempestivamente apresentada, cumpre os pressupostos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e alterações posteriores. Portanto, dela tomo conhecimento. A origem do crédito indicado nas declarações de compensação vinculas ao presente processo está no pedido de ressarcimento de crédito prêmio de IPI formalizado no processo nº 10865.001551/0057. Assim, a homologação ou não da declaração de compensação está na total dependência do que for decidido naquele processo. Há que se observar que o direito creditório com base no qual a contribuinte efetuou as compensações é matéria estranha ao presentes autos, não cabendo aqui nenhuma manifestação a seu respeito, eis que se trata de matéria já apreciada e decidida no âmbito do processo nº 10865.001551/0057. Aqui, cabe apenas dar conseqüência ao decidido naqueles autos. O despacho decisório de fls. 67/69 já expôs que crédito analisado no processo nº 10865.001551/0057 foi indeferido. Assim, a pretensão da contribuinte, de ter homologadas as declarações de compensação deste processo, não foi acolhida. Em consulta ao processo nº 10865.001551/0057, verificase que a Quarta Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes, em 04 de novembro de 2008, prolatou o Acórdão nº 20403.525 negando provimento ao recurso voluntário apresentado contra o Acórdão nº 7.833, de 20 de abril de 2005, proferido pela 2ª Turma da DRJ/RPO. A contribuinte ainda apresentou Recurso Especial, mas o mesmo foi negado por ser intempestivo, nos termos do Despacho nº 340000.093 – 4ª Câmara, de 09 de julho de 2012. Por conseguinte, temse que o processo nº 10865.001551/0057 teve sua decisão definitiva na esfera administrativa. Desta forma, os valores constantes nas declarações de compensação deste processo reputamse débitos a descoberto, pois a extinção dos débitos é condicionada à homologação do procedimento compensatório pela autoridade administrativa, fato que não ocorrera no caso em análise. Assim estabelece a Lei nº 9430, de 1996: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. (Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) § 7o Não homologada a compensação, a autoridade administrativa deverá cientificar o sujeito passivo e intimálo a efetuar, no prazo de 30 (trinta) dias, Fl. 161DF CARF MF Processo nº 16349.000098/200860 Resolução nº 3401001.425 S3C4T1 Fl. 162 4 contado da ciência do ato que não a homologou, o pagamento dos débitos indevidamente compensados. (Incluído pela Lei nº 10.833, de 2003) § 8o Não efetuado o pagamento no prazo previsto no § 7o, o débito será encaminhado à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional para inscrição em Dívida Ativa da União, ressalvado o disposto no § 9o. (Incluído pela Lei nº 10.833, de 2003) § 9o É facultado ao sujeito passivo, no prazo referido no § 7o, apresentar manifestação de inconformidade contra a nãohomologação da compensação. (Incluído pela Lei nº 10.833, de 2003) § 10. Da decisão que julgar improcedente a manifestação de inconformidade caberá recurso ao Conselho de Contribuintes. (Incluído pela Lei nº 10.833, de 2003) Considerase então que, não havendo crédito a favor da interessada, não se pode homologar a compensação declarada, e sendo assim, os débitos que se pretendiam compensar não estão extintos. Quanto à suspensão da exigibilidade dos créditos tributários, isso já se deu pela apresentação da manifestação de inconformidade que instaurou a presente lide, de acordo com o § 11 do artigo 74 da Lei nº 9.430/96 e artigo 151III do CTN. Observase que o Processo Administrativo nº 10865.001551/0057 se encontra em trâmite neste Conselho, pendente de análise de Recurso Especial, havendo, in casu, prejudicialidade externa que demanda o seu sobrestamento: Fl. 162DF CARF MF Processo nº 16349.000098/200860 Resolução nº 3401001.425 S3C4T1 Fl. 163 5 Assim, voto pela conversão do presente processo em diligência para sobrestar o julgamento do presente processo com a finalidade de se aguardar a ulterior prolação da decisão administrativa definitiva no Processo Administrativo nº 10865.001551/0057, que deverá ser anexada aos presentes autos para posterior reinclusão em pauta e prosseguimento do julgamento. (assinado digitalmente) Leonardo Ogassawara de Araújo Branco Relator Fl. 163DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10120.729144/2015-23
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jan 09 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2011
DO ENCERRAMENTO PARCIAL DO TIAF.
O encerramento parcial da fiscalização, com a expedição do competente termo por parte do agente autuante, não provoca a nulidade do Auto de Infração, que constituiu crédito tributários relativos a ano-calendário específico, cuja fiscalização foi previamente autorizada por autoridade competente.
CONSTITUIÇÃO DE CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS DE DIVERSOS TRIBUTOS. MESMO PROCESSO ADMINISTRATIVO.
Nos termos autorizados pelo parágrafo 2º, do artigo 38 do Decreto nº 7.574/11, é possível a formalização de um único processo administrativo para a constituição de créditos tributários de tributos diversos, quando a comprovação dos ilícitos depender dos mesmos elementos de prova
RECEITAS OPERACIONAIS NÃO DECLARADAS. SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTOS. PROGRAMA FOMENTAR. LEI ESTADUAL Nº 9.489/84. LEI COMPLEMENTAR 160/17.
Nos termos da Lei Complementar 160/17, as subvenções relativas ao ICMS (inciso II do caput do art. 155 da Constituição Federal) serão consideradas como sendo de investimentos, desde que atendidos os requisitos previamente previstos no caput do artigo 30, da Lei nº 12.973/14.
Estando presentes esses requisitos, não deve prevalecer o entendimento da fiscalização que considerou como sendo subvenção para custeio os benefícios dados aos contribuintes pelo Estado de Goiás, através do programa denominado FOMENTAR, afastando-se, assim, a tributação do IRPJ e da CSLL incidente sobre os valores recebidos como incentivo fiscal.
COFINS. CONTRIBUIÇÃO AO PIS/PASEP. APURAÇÃO NÃO-CUMULATIVA. BASE DE CÁLCULO. SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTOS. INCLUSÃO.
Anteriormente à Lei nº 12.973, de 2014, as receitas de subvenções para investimentos integram a base de cálculo da Cofins e da Contribuição ao PIS/Pasep, no sistema não cumulativo de apuração, diante da ausência de previsão legal para a exclusão específica de ingressos dessa natureza.
EMPRESA EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL. CREDORES.PENDÊNCIA DE DECISÃO JUDICIAL HOMOLOGATÓRIA DO PLANO DE RECUPERAÇÃO. APROPRIAÇÃO DE DESPESAS COM JUROS PASSIVOS. IMPOSSIBILIDADE.
Os encargos contabilizados como custo ou despesa, a partir da citação inicial para o pagamento do débito, deverão ser adicionados para apuração do Lucro Real. Os valores adicionados poderão ser excluídos na apuração do Lucro Real, no período de apuração em que ocorrer a quitação do débito por qualquer forma.
PEDIDO DE PERÍCIA
O não atendimento, quando da apresentação da Impugnação Administrativa, dos requisito expressamente fixados no inciso IV, artigo 16 do Decreto nº 70.235/72 impõe o indeferimento do pedido de perícia formulado em sede de Recurso Voluntário.
Numero da decisão: 1302-003.230
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade suscitadas e em indeferir o pedido de perícia e, no mérito, por maioria de votos em dar provimento parcial ao recurso voluntário para cancelar a exigência de IRPJ e CSLL sobre as receitas de subvenção para investimentos (Programa Fomentar), vencidos os conselheiros Flávio Machado Vilhena Dias (relator), Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa e Gustavo Guimarães da Fonseca que cancelavam também a exigência de Pis e Cofins sobre esta parcela e, ainda, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso quanto à glosa de despesas financeiras. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente.
(assinado digitalmente)
Flávio Machado Vilhena Dias - Relator.
(assinado digitalmente)
Paulo Henrique Silva Figueiredo - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos César Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado.
Nome do relator: FLAVIO MACHADO VILHENA DIAS
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O encerramento parcial da fiscalização, com a expedição do competente termo por parte do agente autuante, não provoca a nulidade do Auto de Infração, que constituiu crédito tributários relativos a anocalendário específico, cuja fiscalização foi previamente autorizada por autoridade competente. CONSTITUIÇÃO DE CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS DE DIVERSOS TRIBUTOS. MESMO PROCESSO ADMINISTRATIVO. Nos termos autorizados pelo parágrafo 2º, do artigo 38 do Decreto nº 7.574/11, é possível a formalização de um único processo administrativo para a constituição de créditos tributários de tributos diversos, quando a comprovação dos ilícitos depender dos mesmos elementos de prova RECEITAS OPERACIONAIS NÃO DECLARADAS. SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTOS. PROGRAMA FOMENTAR. LEI ESTADUAL Nº 9.489/84. LEI COMPLEMENTAR 160/17. Nos termos da Lei Complementar 160/17, as subvenções relativas ao ICMS (inciso II do caput do art. 155 da Constituição Federal) serão consideradas como sendo de investimentos, desde que atendidos os requisitos previamente previstos no caput do artigo 30, da Lei nº 12.973/14. Estando presentes esses requisitos, não deve prevalecer o entendimento da fiscalização que considerou como sendo subvenção para custeio os benefícios dados aos contribuintes pelo Estado de Goiás, através do programa denominado FOMENTAR, afastandose, assim, a tributação do IRPJ e da CSLL incidente sobre os valores recebidos como incentivo fiscal. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 72 91 44 /2 01 5- 23 Fl. 2685DF CARF MF 2 COFINS. CONTRIBUIÇÃO AO PIS/PASEP. APURAÇÃO NÃO CUMULATIVA. BASE DE CÁLCULO. SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTOS. INCLUSÃO. Anteriormente à Lei nº 12.973, de 2014, as receitas de subvenções para investimentos integram a base de cálculo da Cofins e da Contribuição ao PIS/Pasep, no sistema não cumulativo de apuração, diante da ausência de previsão legal para a exclusão específica de ingressos dessa natureza. EMPRESA EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL. CREDORES.PENDÊNCIA DE DECISÃO JUDICIAL HOMOLOGATÓRIA DO PLANO DE RECUPERAÇÃO. APROPRIAÇÃO DE DESPESAS COM JUROS PASSIVOS. IMPOSSIBILIDADE. Os encargos contabilizados como custo ou despesa, a partir da citação inicial para o pagamento do débito, deverão ser adicionados para apuração do Lucro Real. Os valores adicionados poderão ser excluídos na apuração do Lucro Real, no período de apuração em que ocorrer a quitação do débito por qualquer forma. PEDIDO DE PERÍCIA O não atendimento, quando da apresentação da Impugnação Administrativa, dos requisito expressamente fixados no inciso IV, artigo 16 do Decreto nº 70.235/72 impõe o indeferimento do pedido de perícia formulado em sede de Recurso Voluntário. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade suscitadas e em indeferir o pedido de perícia e, no mérito, por maioria de votos em dar provimento parcial ao recurso voluntário para cancelar a exigência de IRPJ e CSLL sobre as receitas de subvenção para investimentos (Programa Fomentar), vencidos os conselheiros Flávio Machado Vilhena Dias (relator), Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa e Gustavo Guimarães da Fonseca que cancelavam também a exigência de Pis e Cofins sobre esta parcela e, ainda, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso quanto à glosa de despesas financeiras. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente. (assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias Relator. (assinado digitalmente) Paulo Henrique Silva Figueiredo Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos César Candal Moreira Filho, Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Maria Lúcia Miceli, Gustavo Guimarães da Fonseca, Flávio Machado Vilhena Dias e Luiz Tadeu Matosinho Machado. Fl. 2686DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.686 3 Relatório Tratase, o presente processo administrativo, de Autos de Infração lavrados em face do ora Recorrente, Denusa Destilaria Nova União S/A, através dos quais foram constituídos créditos tributários de IRPJ, CSLL, Cofins e contribuição para o PIS, relativos ao ano calendário de 2011. No Termo de Verificação Fiscal de fls. 33 a 51, o agente autuante, após discorrer sobre o processo de fiscalização, sobre as intimações enviadas ao contribuinte e acerca das respostas por este elaboradas, afirmou que houve omissão de receitas operacionais, que teriam sido escrituradas e não declaradas, para fins de tributação do IRPJ, CSLL, COFINS e contribuição ao PIS. Estas receitas seriam decorrentes de benefícios de ICMS obtidos através do programa FOMENTAR, criado pelo Governo do Estado de Goiás, através da Lei Estadual nº 9.489/84. Ainda, de acordo com o agente autuante, o contribuinte se apropriou de despesas financeiras, que, no curso da fiscalização, não foram devidamente comprovadas, ensejando na glosa daquelas e, consequentemente, na reapuração dos valores devidos a título de IRPJ e CSLL. O acórdão proferido pela douta Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília (DF) resumiu de forma precisa a acusação fiscal e, por isso, pedese vênia para transcrevêlo: 1. Das receitas operacionais não declaradas Constatou a autoridade fiscal que o sujeito passivo não considerou como receita tributável os benefícios obtidos pela quitação antecipada de financiamento de ICMS do Estado de Goiás, no âmbito do Programa FOMENTAR, criado pela Lei Estadual nº 9.489/84. Informa que a cláusula primeira do contrato de empréstimo mediante abertura de crédito tem como finalidade o reforço de capital de giro da empresa em decorrência da expansão de sua unidade, tendo como fonte do referido recurso o Programa FOMENTAR do Estado de Goiás, aprovado pelo Decreto estadual nº 3.822/92, sendo estabelecido por meio do contrato firmado entre o Banco de Desenvolvimento do Estado de Goiás S/A e a contribuinte. Examina dispositivos da legislação do referido Programa e cita entendimento da Receita Federal sobre o conceito de subvenção para investimento esposado no Parecer Normativo CST nº 112, de 1978, bem assim na Decisão Cosit nº 04, de 1999, para concluir: “(...) 38. Analisando os recursos oriundos da liquidação antecipada, ainda que estejam com sua utilização condicionada, Fl. 2687DF CARF MF 4 verificase que não atendem aos requisitos necessários para serem considerados como subvenções para investimento. 39. Conforme demonstra com clareza o art. 1o do Programa Fomentar, a destinação para investimentos em implantação ou expansão do empreendimento econômico não é específica, posto que os recursos se destinam ao esquema financeiro necessário a reforçar o capital de giro da empresa, e apenas posteriormente seriam utilizados para a formação do ativo imobilizado, de fato em resposta ao Termo de Constatação e de Intimação Fiscal n° 2, o contribuinte ao ser instado a comprovar a utilização de tal crédito informa que possui vinte anos para a aplicação dos recursos, por sua vez a Lei estadual 13.436/98 em seu inciso IV do Art. 1o, claramente dá a mesma destinação previsto no Regulamento do Fomentar. 40. Observase que resta prejudicada a sincronia necessária da intenção do subvencionador com a ação do subvencionado, tendo em vista que os recursos obtidos poderão ser utilizados, a princípio, para o capital de giro, podendo ser destinados para financiar o ciclo operacional da empresa, antes de serem destinados para os investimentos em implantação ou expansão da capacidade produtiva.(...)” Nesse cenário, o agente fiscal promoveu o lançamento de crédito tributário a título de IRPJ, CSLL, Cofins e contribuição para o PIS, uma vez que a contribuinte deixou de transitar por conta de resultado ou mesmo adicionar ao Lucro Real o benefício obtido com a quitação antecipada do referido programa, no valor de R$ 22.282.121,53 em 19/12/2011. 2. Das despesas financeiras não comprovadas Constatou também a autoridade fiscal que o sujeito passivo escriturou, a título de despesas financeiras, o valor total de R$ 35.807.298,57, que não se amoldariam à definição de despesas para fins tributários. Informa o agente fiscal que a contribuinte se encontra em recuperação judicial e que o pedido foi protocolado em 31/11/2010, sob o número 201004240516, em curso na Comarca de Jandaia/GO. Destaca que, conforme o Anexo I do Termo de Verificação Fiscal de fls. 33/48, a contribuinte vem registrando e apropriando juros passivos em relação aos credores (1) Vision Brasil Gestão de Investimentos, (2) Madri Fundo de Investimentos no Exterior Multimercado, (3) Banco Indusval e (4) Banco Cruzeiro do Sul, que se encontram listados na Relação de Credores que fora homologada pelo juízo da Comarca de Jandaia/GO. Ressalta que, em resposta ao Termo de Intimação Fiscal n° 3, o contribuinte respondeu que os juros passivos foram escriturados em obediência ao princípio da competência e que não houve pagamento de juros, mas uma "transferência de direito creditório". Aduz que lavrou diversos outros Termos de Intimação Fiscal em face do sujeito passivo, a fim de bem compreender os negócios jurídicos realizados. Fl. 2688DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.687 5 Igualmente lavrou termos de diligência em face dos mencionados credores. Ao final, considerando as respostas da contribuinte, bem assim o pronunciamento dos referidos credores, o autor do procedimento fiscal concluiu: “(...) Portanto, como o contribuinte não possui condições de determinar os valores que serão efetivamente quitados, não pode reconhecer como juros passivos os valores listados no Anexo I a este Termo, pois pelo Princípio Contábil da Prudência, o mesmo deve ser registrado como uma conta contábil passiva ou no mínimo controlado na parte B do Livro de Apuração do Lucro Real (Lalur) e somente reconhecer a despesa quando a mesma se efetivar, caso se efetive. (...)” Devidamente intimado, o contribuinte apresentou Impugnação administrativa, cujos argumentos lançados no apelo foram assim sintetizados por aquela DRJ: 1.1. Da impossibilidade de encerramento parcial do procedimento fiscal Alega a impugnante que os autos de infração foram lavrados no encerramento da fiscalização, porém o Auditor não emitiu Termo de Encerramento de Fiscalização (TEF), o que teria contrariado o Decreto nº 70.235/72 e demais normas vigentes. Segundo a contribuinte, foi expressamente afirmado no Termo de Ciência do Lançamento que o encerramento era parcial, o que não estaria de acordo com a legislação tributária vigente. Sustenta a impugnante que, como o Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) se encerra com a conclusão do procedimento fiscal, não se pode admitir que um mesmo MPF seja prorrogado quando há o lançamento, já que não se poderia prorrogar um MPF que já deu origem a um lançamento. Para cada MPF um lançamento. Para cada MPF um TEF, sob pena de nulidade face a violação legal. 1.2. Da vedação legal de efetuar várias autuações no mesmo lançamento Nesse tema, requer a suplicante que seja declarado nulo o lançamento, por trazer dois fundamentos distintos que dependeriam de elementos de prova distintos entre si, que não se aproveitariam aos demais tributos descritos, o que feriria frontalmente a legislação vigente. Assevera a impugnante: “(...) Isso porque a intenção do legislador NÃO É LAVRATURA DE UM ÚNICO LANÇAMENTO, MAS SIM A REUNIÃO DE VÁRIOS LANÇAMENTOS E UM ÚNICO PROCESSO ADMINISTRATIVO, DESDE QUE TENHAM MESMOS ELEMENTOS DE PROVA APURADOS NO PROCESSO ADMINISTRATIVO DE FISCALIZAÇÃO, tudo isso visando a Fl. 2689DF CARF MF 6 aplicação da tributação reflexa, onde o resultado do tributo principal terá reflexos nos tributos dele decorrentes. E a norma admite a hipótese de um ÚNICO PROCESSO apenas para os casos em que a matéria discutida tenha o mesmo fundamento. Na hipótese dos autos, são dois fundamentos e quatro tributos distintos entre si e que constam de uma ÚNICA autuação, ofendendo, assim a previsão legal e a aplicação do princípio da tributação reflexa. (...)” 1.3. Da falta de motivação jurídica. Da violação do art. 10, IV, do Decreto nº 70.235, de 1972 Alega a suplicante que em nenhum dos autos de infração lavrados há a indicação precisa de quais, especificamente, foram os dispositivos legais violados, onde a contribuinte deixou de observar a norma, sendo que, em todos os casos, teriam sido citados apenas dispositivos conceituais ou gerais, não identificando em nenhum deles que a situação estampada pela autuação constitui expressa violação legal, carecendo de motivação jurídica o lançamento, pois não identificaria o que efetivamente foi violado ou afrontado. Ressalta, ainda, em relação à acusação de falta de reconhecimento de receitas operacionais, que os autos de infração relatam que os fatos geradores teriam ocorrido entre 01.12.2011 e 31.12.2011, no entanto, o fato gerador teria ocorrido, na realidade, em 19.12.2011, o que evidenciaria insegurança jurídica diante da informação incorreta e da ausência de motivação jurídica para apuração dos fatos geradores. No que tange aos autos de infração de exigência de IRPJ e de CSLL, assevera também que o agente fiscal, na apuração do valor tributável, somou receitas e despesas, o que tornariam nulos os lançamentos, uma vez que os fundamentos jurídicos são distintos. 2. DO MÉRITO 2.1. Das receitas operacionais não declaradas Afirma a impugnante que é beneficiária do Programa FOMENTAR, enquadrandose em uma das hipóteses legais, tendo firmado o contrato de adesão após cumpridas todas as formalidades legais, sendo responsável por um franco desenvolvimento na região a partir do momento em que instalou seu parque industrial, não tendo em nenhum momento da sua história sofrido qualquer autuação tendo como fundamento o FOMENTAR. Informa que para ser detentora do benefício fiscal teve que apresentar um projeto de investimento ao Estado de Goiás, cuja concretização foi fiscalizada pelo próprio Estado e liberado somente após o Estado de Goiás ter a certeza de que o seu projeto traria desenvolvimento da região em que se instalou, ficando clara a sua contrapartida para investir. Aduz que o Estado de Goiás realizou diversas auditorias, que são provas cabais de que a destinação do incentivo é para Fl. 2690DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.688 7 investimento, afastando a alegação da autuação de que o programa é destinado para incrementar o capital de giro da indústria. Alega que sempre atingiu as metas estabelecidas no projeto, inclusive quanto à geração e manutenção dos empregos e dos investimentos e esteve e está sendo constantemente monitorada pelo Estado de Goiás, em especial pela sua Secretaria da Fazenda SEFAZGO, mensalmente, mormente ser a maior interessada no cumprimento do FOMENTAR, diante do impacto na arrecadação do Estado. Sustenta que os benefícios auferidos com o FOMENTAR constituem subvenção para investimento, estando portanto fora do alcance dos tributos federais. Cita julgados do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) que teriam encampado esse entendimento. 2.2. Das despesas financeiras não comprovadas Alega a impugnante que os direitos creditórios utilizados para pagamento dos credores são oriundos de ação judicial transitada em julgado, e que estariam no aguardo apenas de homologação dos cálculos apurados na execução do acórdão e que, portanto, não se trata de condição suspensiva, posto que o direito creditório já existe e é fato, tanto é que os credores somente aceitaram o recebimento em razão da certeza do título executivo e do pronto recebimento diante do pagamento único a ser realizado pela UNIÃO. Portanto, não se trataria de negócio incerto, muito menos "dação" de valor "ilíquido e incerto", pois foram transferidos os valores negociados de acordo com a dívida que foi informada e listada na Recuperação Judicial. Assevera que o valor da cessão de crédito está determinado e foi regularmente apresentado no Plano de Recuperação Judicial e que os juros são perfeitamente apurados de acordo com a legislação vigente, de modo que não poderia existir dúvida quanto ao percentual de juros aplicáveis aos processos judiciais, sendo que todos os pagamentos, inclusive os sujeitos à Recuperação Judicial, sofrem incidência de juros, e que as ações judiciais não só atualizam os débitos, como determinam a incidência dos juros legais (1% ao mês). Informa a impugnante que, com relação ao credor PRA Porto Real Agrobusiness e Eventos LTDA ME, no momento em que pediu a Recuperação Judicial e apresentou sua Lista de Credores, recalculou seu crédito, desde o início das transações e aplicou juros de 1% a.m., valor este que veio a ser alterado pelo próprio administrador judicial (nomeado pelo Juízo Falimentar), que encontrou um montante muito superior ao que constava da Lista e que foi homologado judicialmente, impondo à recuperanda fazer o ajuste contábil. Fl. 2691DF CARF MF 8 Ressalta que todos os contratos assinados em 2008, encontram se em anexo à impugnação, assim como os razões das contas da PRA, onde constam os valores destes contratos contabilizados no anocalendário de 2008, de modo que não procederia a afirmativa do AuditorFiscal de que a diferença encontrada pelo contribuinte, no valor de R$ 24.400.355,87, referirseia a obrigação não escriturada no anocalendário de 2008. Requer, ao final, a produção da mais ampla prova em direito permitida, inclusive a juntada posterior de documentos, e a realização de diligências, se necessárias. Em análise aos argumentos apresentados pelo contribuinte em Impugnação administrativa, a DRJ de Brasília (DF), contudo, entendeu por bem negar provimento ao apelo do Recorrente, tendo o acórdão proferido recebido a seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2011 PEDIDO DE REALIZAÇÃO DE DILIGÊNCIA. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. Indeferese pedido de realização de diligência, por prescindível, quando o caso retrata situações em que a prova documental, passível de ser produzida pelo próprio contribuinte, é suficiente para formação da convicção do julgador. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011 SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTOS. DESCARACTERIZAÇÃO. INCENTIVOS FISCAIS. PROGRAMA FOMENTAR. INEXISTÊNCIA DE VINCULAÇÃO. DESCARACTERIZAÇÃO. Os valores contabilizados a título de descontos na quitação de dívidas contraídas no âmbito do Programa FOMENTAR que não possuam vinculação com a aplicação específica dos recursos em bens ou direitos referentes à implantação ou expansão de empreendimento econômico não se caracterizam como subvenção para investimentos, devendo ser computados na determinação do lucro real. Os recursos fornecidos às pessoas jurídicas pela Administração Pública, quando não atrelados ao investimento na implantação ou expansão do empreendimento projetado, constituem estímulo fiscal que se reveste das características próprias das subvenções para custeio, não se confundindo com as subvenções para investimento, e devem ser computados no lucro operacional das pessoas jurídicas, sujeitandose, portanto, à incidência não só do imposto sobre a renda e da CSLL, como da Cofins e da contribuição para o PIS. Fl. 2692DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.689 9 EMPRESA EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL. CREDORES. PENDÊNCIA DE DECISÃO JUDICIAL HOMOLOGATÓRIA DO PLANO DE RECUPERAÇÃO. APROPRIAÇÃO DE DESPESAS COM JUROS PASSIVOS. IMPOSSIBILIDADE. Os encargos contabilizados como custo ou despesa, a partir da citação inicial para o pagamento do débito, deverão ser adicionados para apuração do Lucro Real. Os valores adicionados poderão ser excluídos na apuração do Lucro Real, no período de apuração em que ocorrer a quitação do débito por qualquer forma. LANÇAMENTO DECORRENTE. Por se tratar de exigência reflexa realizada com base nos mesmos fatos, a decisão de mérito prolatada quanto ao lançamento do IRPJ constitui prejulgado na decisão do lançamento decorrente relativo à CSLL. Ao ser intimado do acórdão, o Recorrente apresentou extenso Recurso Voluntário, no qual repisa, na literalidade, os argumentos lançados em sua Impugnação. Este é o relatório. Voto Vencido Conselheiro Flávio Machado Vilhena Dias DA TEMPESTIVIDADE Como se denota dos autos, o Recorrente foi intimado do teor do acórdão recorrido, via intimação eletrônica, em 27/02/2017 (fl. 2595), apresentando o Recurso Voluntário ora analisado no dia 22/03/2017 (comprovante de fl. 2597), ou seja, dentro do prazo de 30 dias, nos termos do que determina o artigo 33 do Decreto nº 70.235/72. Portanto, sem maiores delongas, uma vez que cumpre os demais requisitos de admissibilidade, o Recurso Voluntário deve ser analisado por este colegiado. DAS PRELIMINARES DO ENCERRAMENTO PARCIAL DO TIAF. Em sede preliminar, o Recorrente alega que, "acabando o procedimento de fiscalização, o fiscal fica obrigado a emitir o TERMO DE ENCERRAMENTO DE FISCALIZAÇÃO, tendo ou não efetuado o lançamento." Afirma que, no presente caso, a fiscalização encerrou parcialmente a fiscalização, sem amparo legal para tanto. Com essa afirmação, o Recorrente, após longo arrazoado, aduz que o procedimento de fiscalização estaria viciado, e, por isso, deve ser Fl. 2693DF CARF MF 10 declarada a "nulidade absoluta" da autuação, com o consequente cancelamento dos créditos tributários constituídos em seu desfavor. Não assiste razão ao Recorrente. É que, para embasar a suposta nulidade do Auto de Infração, o contribuinte alega que não foi seguido o rito determinado no artigo 7º do Decreto nº 70.235/72, que tem a seguinte redação: Art. 7º O procedimento fiscal tem início com: I o primeiro ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, cientificado o sujeito passivo da obrigação tributária ou seu preposto; II a apreensão de mercadorias, documentos ou livros; III o começo de despacho aduaneiro de mercadoria importada. § 1° O início do procedimento exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação aos atos anteriores e, independentemente de intimação a dos demais envolvidos nas infrações verificadas. § 2° Para os efeitos do disposto no § 1º, os atos referidos nos incisos I e II valerão pelo prazo de sessenta dias, prorrogável, sucessivamente, por igual período, com qualquer outro ato escrito que indique o prosseguimento dos trabalhos. Contudo, ao contrário do que alegado pelo Recorrente, não se verifica, da leitura do dispositivo legal acima transcrito, que a fiscalização está impedida de encerrar parcialmente o procedimento ou que seja obrigatória a lavratura do Termo de Encerramento de Fiscalização. Não há nada neste sentido. Poderseia, se fosse o caso em que pese não ser esta a discussão dos autos , invocar a nulidade em outra autuação que não tivesse o suporte de MPF válido e vigente. No presente caso, entretanto, a fiscalização concluiu, via Termo de Verificação Fiscal (fls. 33 a 51), que houve o cometimento de ilícitos por parte do contribuinte e, por isso, com as motivações lançadas naquele Termo, foram constituídos créditos tributários em desfavor do Recorrente, que são ora contestados. Não se vislumbra, todavia, qualquer nulidade no procedimento fiscal, a ensejar o cancelamento das autuações, como requer o Recorrente em seu apelo. Por outro lado, não se pode deixar de mencionar que as hipóteses de nulidade no ato de constituição do crédito tributário estão elencadas, de forma expressa, no artigo 59 daquele decreto, que tem a seguinte redação: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. Fl. 2694DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.690 11 § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta E no Recurso Voluntário apresentado, data venia, não há indicação, por parte do Recorrente, de qualquer um dos pontos expressamente previstos no Decreto nº 70.235/72, a ensejar a nulidade do procedimento. Por outro lado, é preciso o apontamento feito no acórdão recorrido, no sentido de que o "encerramento parcial de fiscalização, não raro, é medida que se impõe quando a autoridade fiscal se depara com fatos que repercutem em outros exercícios." E, ainda, que "embora o agente fiscal não tenha consignado expressamente, ambas as infrações (receitas operacionais não declaradas e despesas financeiras não comprovadas), apuradas no anocalendário de 2011, podem/devem ter ocorrido também em anos seguintes." Assim, não poderia a fiscalização, de fato, encerrar o procedimento fiscal, uma vez que os fatos apurados podem ter reflexo em outros períodos de apuração, sendo necessária a constituição do crédito tributário, muitas vezes, por conta do prazo decadencial, que fulminaria de morte a possibilidade de constituição daquele crédito pela autoridade fazendária. Portanto, REJEITASE a preliminar de nulidade dos lançamentos, por não ter sido lavrado o Termo de Encerramento de Fiscalização, como arguido pelo Recorrente. DA SUPOSTA VEDAÇÃO LEGAL DE EFETUAR VÁRIAS AUTUAÇÕES NO MESMO LANÇAMENTO Em outra preliminar do Recurso Voluntário ora em análise, o Recorrente aduz que "foi lavrado apenas um Auto de Infração abordando para quatro períodos distintos e períodos de apuração diferentes". Alega que, nos termos do artigo 9º do Decreto nº 70.235/72, esse procedimento estaria equivocado, uma vez que deveria ter sido lavrado um auto de infração para cada tributo. Em suas argumentações, o Recorrente afirma que houve dois fundamentos jurídicos distintos na constituição dos créditos tributários, que dependem de elementos de provas distintos. Requer, assim, com este entendimento, o reconhecimento da nulidade e o cancelamento da autuação por esse colegiado. Mais uma vez, não assiste razão ao Recorrente. Como se observa dos autos, em especial dos Autos de Infração acostados às fls. 02 a 32, foi lavrado um Auto de Infração para cada tributo, estando todos englobados no mesmo processo administrativo, como é autorizado expressamente pelo artigo 38 do Decreto nº 7.574/11, que o regulamenta, dentre outras medidas, "o processo de determinação e de Fl. 2695DF CARF MF 12 exigência de créditos tributários da União (...)". Para se não se ter dúvidas quanto ao que o dispositivo legal impõe, pedese venia para transcrevêlo: Art. 38. A exigência do crédito tributário e a aplicação de penalidade isolada serão formalizados em autos de infração ou notificações de lançamento, distintos para cada tributo ou penalidade (Decreto no 70.235, de 1972, art. 9o, com a redação dada pela Lei no 11.941, de 2009, art. 25). § 1o Os autos de infração ou as notificações de lançamento, em observância ao disposto no art. 25, deverão ser instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do fato motivador da exigência. § 2o Os autos de infração e as notificações de lançamento de que trata o caput, formalizados em relação ao mesmo sujeito passivo, podem ser objeto de um único processo, quando a comprovação dos ilícitos depender dos mesmos elementos de prova. (destacouse) Vejase que não há nenhum impedimento para que, em um mesmo processo administrativo, sejam englobados diferentes Autos de Infração. A única exigência é de que seja lavrado um Auto para cada tributo, como procedeu a fiscalização. Assim, não há que se falar em nulidade no procedimento, a ensejar o cancelamento da autuação, como pretende o Recorrente. Portanto, REJEITASE a preliminar de nulidade, por suposto vício no procedimento realizado pela fiscalização. DO VÍCIO DE MOTIVAÇÃO DO AUTO DE INFRAÇÃO. Em outras preliminar arguida pelo Recorrente em seu Recurso Voluntário, alegase, basicamente, suposto vício na motivação do Auto de Infração, que, aos olhos do contribuinte, ensejaria a nulidade do lançamento. Em sua longa argumentação neste ponto, a Recorrente, após invocar o disposto no inciso IV do artigo 10 e discorrer sobre a motivação da autuação para cada um dos tributos, afirma que "não houve indicação precisa de quais, especificamente, foram os dispositivos legais violados, onde a Recorrente deixou de violar a norma, sendo que, em todos os casos, o que se observa é que foram citados apenas dispositivos conceituais ou gerais, não identificando em nenhum deles que a situação estampada pela autuação constitui expressa violação legal." Assim, afirma que "carece motivação jurídica o lançamento, pois não identifica efetivamente foi (sic) violado ou afrontado". Contudo, entendese que também não assiste razão ao Recorrente, quanto ao que foi argumentado nesta preliminar. Explicase. Nos termos dos artigos 142 e 149 do Código Tributário Nacional, é de competência da autoridade administrativa a constituição do crédito tributário, podendo revisar, de ofício, as declarações prestadas pelo contribuinte ou terceiro. Não está, a fiscalização, vinculada ao que o contribuinte declara como sendo o fato imponível do tributo. Fl. 2696DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.691 13 No presente caso, a fiscalização, identificando operações s pelo contribuinte (procedimento que será analisado em seguida), fez o lançamento de ofício do crédito tributário que entendeu devido, de acordo com a bem construída fundamentação constante no Termo de Verificação Fiscal. Não há vícios de fundamentação e/ou de motivação no Auto de Infração a ensejar a sua nulidade, como pretende o Recorrente. Neste sentido, são precisas as colocações do acórdão Recorrido. Vejase: Nesse item, alegou a suplicante que em nenhum dos autos de infração lavrados haveria a indicação precisa de quais, especificamente, foram os dispositivos legais violados, o que implicaria a nulidade dos lançamentos. Não procede tal alegação. Não nega a impugnante que consta dos autos de infração a capitulação legal das exigências, mas insiste em afirmar que nenhum dispositivo legal citado define que a situação estampada pela autuação constitui expressa violação legal. Ora, é sabido, a legislação tributária não é casuística. Cabe ao aplicador da lei interpretála e aplicála ao caso concreto. Ademais, a jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) é pacífica no sentido de que se a descrição do fato estiver adequada e suficiente para permitir a ampla defesa do contribuinte, eventual falha no enquadramento legal não macula de nulidade o lançamento. No caso sob exame a contribuinte se defendeu de todas as imputações que lhe foram feitas. Ainda nesse item, a impugnante alegou que, em relação à acusação de falta de reconhecimento de receitas operacionais, os autos de infração relatam que os fatos geradores teriam ocorrido entre 01/12/2011 e 31/12/2011, no entanto, o fato gerador teria ocorrido, na realidade, em 19/12/2011. Também não procede tal alegação. O contribuinte é optante da tributação anual dos seus resultados, portanto, embora a receita que deixou de ser reconhecida devesse ser escriturada como tal em 19/12/2011, o fato gerador do IRPJ e da CSLL considerase ocorrido em 31/12/2011 (apuração anual do resultado). Por fim, também carece de qualquer fundamento a alegação de que seriam nulos os lançamentos do IRPJ e da CSLL, pois na apuração do valor tributável, o agente fiscal teria somado receitas e despesas. Ora, na apuração do resultado da empresa, tanto a falta de reconhecimento de determinada receita como a apropriação indevida de certa despesa produz o mesmo efeito, qual seja a Fl. 2697DF CARF MF 14 redução indevida do lucro líquido, base de cálculo do lucro real e da contribuição social sobre o lucro. Portanto, na apuração da matéria tributável, para fins de IRPJ e de CSLL, deve a autoridade fiscal adicionar essas duas grandezas ao resultado apurado pelo contribuinte, observada a existência de prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL. Há de se ressaltar, ainda, que tanto no TVF, como no Auto de Infração, o agente fiscal indicou de forma precisa os dispositivos legais supostamente infringidos e os motivos que levaram à conclusão de que houve cometimento de ilícito por parte do contribuinte. E foi inclusive com base nestes dispositivos e fundamentos, na tentativa de desconstruir as ilações da fiscalização, que o Recorrente elaborou toda a sua tese defesa. Não houve qualquer prejuízo aos princípios do contraditório e da ampla defesa, princípios estes que norteiam todo o processo administrativo. Portanto, REJEITASE a preliminar de nulidade do lançamento, por suposto vício de motivação da autuação ora em análise DO MÉRITO DAS RECEITAS OPERACIONAIS NÃO DECLARADAS. DA SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTOS. PROGRAMA FOMENTAR. ESTADO DE GOIÁS. A questão da subvenção para investimentos, em especial o seu impacto na tributação federal não é nova e este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais tem inúmeros julgados que tratam do tema. E a grande discussão enfrentada nos julgados do CARF sempre foi a diferenciação entre a subvenção para custeio e a subvenção para investimento, já que a primeira (para o custeio) seria tributável e a segunda (subvenção para investimento) não o seria. Neste passo, subvenção para custeio está prevista na Lei nº 4.320/64. E esta lei, como restou consignando no acórdão nº 9101002.566, publicado em 10/05/2017, proferido pela Câmara Superior de Recursos Ficais do CARF, que teve como relator o conselheiro André Mendes de Mora, “estatuiu normas gerais de direito financeiro, para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, Estados, Municípios e Distrito Federal, estabelecendo diretrizes gerais para a contabilidade pública. Sob a ótica do ente federativo, são consideradas as subvenções sociais e econômicas como despesas correntes, da espécie transferências correntes, destinadas a cobrir despesas de custeio das entidades beneficiadas. Observase que não havia nenhuma discriminação quanto à destinação que o ente subvencionado daria às receitas recebidas”. Portanto, na subvenção para custeio não há discriminação ou exigência quanto à destinação que o ente subvencionado vai dar às receitas recebidas. Não se exige nenhuma contrapartida e muito menos uma destinação específica dos valores. Um exemplo de uma subvenção para custeio seria aqueles valores repassados às empresas de transporte urbano, para cobrir os ajustes nas tarifas realizado abaixo do que foi acordado no contrato de concessão. Pode acontecer de o Município não querer aumentar a tarifa no percentual fixado no contrato de concessão e, por isso, se faz necessário o complemento dos valores. Fl. 2698DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.692 15 Já as subvenções para investimento são aquelas que tem destinação própria e são concedidas como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos de interesse do ente, seja ele a União, os Estados e o Distrito Federal ou os Municípios. Esta modalidade de subvenção, podese dizer assim, é considerada como reserva de capital social, nos termos do artigo 182 da Lei nº 6.404/76, devendo ser registrada em conta contábil específica. A jurisprudência que prevaleceu em diversos julgados do CARF, em especial na Câmara Superior, se baseia, para caracterizar a subvenção como sendo de investimento, no Parecer Normativo CST nº 112/1978 e posteriormente na Instrução Normativa da Receita Federal do Brasil nº 1.700/2017. Nos julgados proferidos, podese identificar alguns requisitos para a caracterização da subvenção como sendo de investimentos, quais sejam: 1) Transferência de recursos para uma pessoa jurídica, com a finalidade de auxiliála, não em suas despesas, mas sim, na aplicação em bens ou direitos para implantar ou expandir empreendimentos econômicos. 2) Sincronia da intenção do subvencionador com a ação do subvencionado. 3) Aplicação efetiva da subvenção nos investimentos previstos. 4) E mais, mero registro contábil em conta própria de reserva de capital não é suficiente, por si só, para caracterizar a transferência como subvenção para investimentos. Assim, em especial, duas etapas são necessárias para se verificar/atestar se os recursos podem ser reconhecidos como subvenção para investimentos: a) Se a legislação estabelece critérios objetivos e efetua o devido controle para acompanhar a efetividade da aplicação dos recursos. b) se os requisitos de ordem formal (contabilização) e material (efetiva aplicação dos recursos) foram atendidos. Os exemplos de subvenção para investimentos são inúmeros. As mais comuns são aquelas subvenções que são dadas na forma de isenção ou redução de impostos, que, muitas vezes, estão atrelados à chamada guerra fiscal travada entres os entes federados que, para conseguir atrair ou manter investimentos em seus territórios, concedem subvenções aos contribuintes, exigindo uma série de contrapartidas, como a geração de um número mínimo de empregos, investimentos e/ou ampliação dos parques industriais, dentre outros. Assim, até a promulgação da Lei Complementar 160, de 07 de Agosto de 2017, a diferenciação, entre custeio e investimento, das subvenções dadas pelos Estados membros aos contribuintes, que envolvessem algum benefício no que se refere ao ICMS, era essencial, uma vez que só com esta diferenciação poderseia identificar a tributação ou não dos valores relativos às subvenções. Contudo, aquela Lei Complementar trouxe novas luzes sobre toda essa problemática, uma vez que, expressamente, acrescentou dois parágrafos (4º e 5º) no artigo 30 da Lei 12.973/14, que passou a ter a seguinte redação: Fl. 2699DF CARF MF 16 Art. 30. As subvenções para investimento, inclusive mediante isenção ou redução de impostos, concedidas como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos e as doações feitas pelo poder público não serão computadas na determinação do lucro real, desde que seja registrada em reserva de lucros a que se refere o art. 195A da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976, que somente poderá ser utilizada para: I absorção de prejuízos, desde que anteriormente já tenham sido totalmente absorvidas as demais Reservas de Lucros, com exceção da Reserva Legal; ou II aumento do capital social. § 1o Na hipótese do inciso I do caput, a pessoa jurídica deverá recompor a reserva à medida que forem apurados lucros nos períodos subsequentes. § 2o As doações e subvenções de que trata o caput serão tributadas caso não seja observado o disposto no § 1o ou seja dada destinação diversa da que está prevista no caput, inclusive nas hipóteses de: I capitalização do valor e posterior restituição de capital aos sócios ou ao titular, mediante redução do capital social, hipótese em que a base para a incidência será o valor restituído, limitado ao valor total das exclusões decorrentes de doações ou subvenções governamentais para investimentos; II restituição de capital aos sócios ou ao titular, mediante redução do capital social, nos 5 (cinco) anos anteriores à data da doação ou da subvenção, com posterior capitalização do valor da doação ou da subvenção, hipótese em que a base para a incidência será o valor restituído, limitada ao valor total das exclusões decorrentes de doações ou de subvenções governamentais para investimentos; ou III integração à base de cálculo dos dividendos obrigatórios. § 3o Se, no período de apuração, a pessoa jurídica apurar prejuízo contábil ou lucro líquido contábil inferior à parcela decorrente de doações e de subvenções governamentais e, nesse caso, não puder ser constituída como parcela de lucros nos termos do caput, esta deverá ocorrer à medida que forem apurados lucros nos períodos subsequentes. § 4o Os incentivos e os benefícios fiscais ou financeirofiscais relativos ao imposto previsto no inciso II do caput do art. 155 da Constituição Federal, concedidos pelos Estados e pelo Distrito Federal, são considerados subvenções para investimento, vedada a exigência de outros requisitos ou condições não previstos neste artigo § 5o O disposto no § 4o deste artigo aplicase inclusive aos processos administrativos e judiciais ainda não definitivamente julgados. (destacouse) Por outro lado, tendo em vista os inúmeros benefícios concedidos pelos Estadosmembros de forma irregular e sem amparo no ordenamento jurídico pátrio, que Fl. 2700DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.693 17 acabaram sendo declarados como inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal, a mesma Lei Complementar 160/17 deu a oportunidade àqueles Estados de convalidarem os benefícios concedidos de forma irregular, evitandose, assim, um prejuízo imensurável aos contribuintes, que poderiam ser obrigados a devolver os valores relativos aos benefícios (recebidos em total boafé, não se pode deixar de ressaltar), gerando incontáveis perdas econômicas. E a Lei Complementar nº 160/17 estipulou, que, mediante convênio do CONFAZ, os Estados e o Distrito Federal publicassem, em suas respectivas legislações, os benefícios concedidos e válidos. A referida Lei Complementar ainda determinou que a documentação comprobatória dos benefícios seja arquivada junto ao CONFAZ, além de ter fixado prazos para que estas medidas sejam tomadas pelos entes da federação. O convênio exigido pela Lei Complementar nº 160/17 foi publicado em 18/12/2017, recebendo o número de 190/17, sendo o FOMENTAR (Leis Estaduais nº's 9.489/84, 13.436/98 e 15.518/06) devidamente convalidado através do Decreto Estadual n° 9.193, de 20 de março de 2018. Ademais, o necessário depósito junto ao CONFAZ do Decreto que convalidou os benefícios dados por aquele Estado, se deu através do Despacho nº 39/18, como se depreende do "Certificado de Registro e Depósito SE/CONFAZ nº 3/2018" (disponível em https://www.confaz.fazenda.gov.br/legislacao/certificadoregistrodepositocvicms19017 1/goias/2018/sei_mf0649343certificadoderegistroedeposito0318.pdf). Pois bem. No que tange à discussão do presente caso, o agente autuante, no Relatório Fiscal, após fazer um longo arrazoado sobre o programa do Estado de Goiás, denominado FOMENTAR, que foi criado, inicialmente, pela Lei Estadual nº 9.489/84, entendeu que "analisando os recursos oriundos da liquidação antecipada, ainda que estejam com a sua utilização condicionada, verificase que não atendem aos requisitos necessários para serem considerados como subvenção para investimento." Assim, concluiu que os valores recebidos pelo Recorrente deveriam ser considerados como receita, uma vez que, aos seus olhos, "vêse claramente que o valor de R$22.182.121,53 deixou de ser tributado, tendo em vista que este valor não se enquadra como subvenção, mas sim como receita pela obtenção de um abatimento de uma dívida e como tal tributável". A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília, ao analisar a Impugnação Administrativa, concluiu que "os recursos fornecidos às pessoas jurídicas pela Administração Pública (no caso, o não desembolso), quando não atrelados ao investimento na implantação ou expansão do empreendimento projetado, constituem estímulo fiscal que se reveste das características próprias das subvenções para custeio, não se confundindo com as subvenções para investimento, e devem ser computados no lucro operacional das pessoas jurídicas." Contudo, devese atentar, neste ponto, que, inicialmente, a vantagem oferecida pelo programa FOMENTAR limitavase a conceder, com recursos do governo estadual, empréstimos de longo e médio prazo em montante igual a até 70% do ICMS devido pelos contribuintes, que, por sua vez, deveriam apresentar e executar projetos de ampliação de suas instalações industriais. Só os projetos previamente aprovados poderiam receber o aludido Fl. 2701DF CARF MF 18 benefício, que era formalizado mediante contrato firmado com agente financeiro do governo estadual. Com a edição da Lei Estadual de Goiás nº 13.436/98 (regulamentada pelo Decreto Estadual nº 5.036/99), os contratos de financiamento com recursos do FOMENTAR passaram a ser objeto de oferta pública, com vistas à sua liquidação antecipada. Assim, seriam concedidos descontos de até 89% do saldo devedor do ICMS, a serem aplicados na ampliação e/ou modernização do parque industrial do contribuinte, dentro do prazo máximo de 20 anos da data da oferta pública. Posteriormente, sobreveio a publicação da Lei Estadual do Estado de Goiás nº 15.518/06, que admitiu a desnecessidade de ampliação e/ou modernização do parque industrial do contribuinte beneficiário do leilão, porque, do montante a ser aplicado na ampliação/modernização do parque industrial, poderseia serem deduzidos os valores aplicados como investimentos, desde a implementação do projeto aprovado pelo FOMENTAR. Esta mesma lei (Lei Estadual nº 15.518/06) determinou que a incorporação, dentre outros requisitos, desobrigaria a empresa de qualquer outra comprovação perante aquele Estado. Como se observa do relatório fiscal, que embasa a autuação, a fiscalização, presumindo, a par do que previa a legislação estadual (que considera a subvenção como sendo de investimentos), de que todos os recursos obtidos foram destinados ao custeio da operação/atividade do Recorrente, entendeu que os valores deveriam ser levados à tributação. E esta presunção, se deu pelo fato de o Estado ter deixado de exigir a comprovação da aplicação dos recursos na implementação do projeto aprovado pelo FOMENTAR. Entretanto, como exposto alhures, por opção legislativa (LC 160/17), os benefícios fiscais relativos ao ICMS concedidos por parte dos Estadosmembros aos contribuintes devem, necessariamente, ser considerados como subvenção para investimentos, devendo este entendimento ser aplicado, inclusive, "aos processos administrativos e judiciais ainda não definitivamente julgados". Assim, a única exigência que se faz, nos termos do caput do artigo 30 da Lei 12.973/14, é que as subvenções "concedidas como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos e as doações feitas pelo poder público", sejam registradas "em reserva de lucros a que se refere o art. 195A da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976". Aqueles requisitos acima citados, no que tange aos benefícios de ICMS, exigidos para o reconhecimento da subvenção como sendo de investimentos e que foram convalidados pela jurisprudência dominante deste conselho acabaram perdendo a eficácia, tendo em vista o comando introduzido no artigo 30 da Lei 12.973/14, pela Lei Complementar 160/17. Contudo, como a fiscalização fixou a premissa de que, no caso dos recursos obtidos pelo contribuinte através do programa FOMENTAR, não estavam atendidos "os requisitos necessários para serem considerados como subvenção para investimento" (a análise feita foi da legislação), sendo caracterizada a subvenção como de custeio, entendeu, a fiscalização, que haveria a necessidade de tributação (IRPJ, CSLL, contribuição ao PIS e COFINS) dos valores relativos àquela subvenção recebida. Assim, por todo o exposto, entendese que não deve prevalecer a atuação relativa ao IRPJ e à CSLL, por se tratar os incentivos relativos ao programa FOMENTAR como subvenção para investimentos, como fixado pela Lei Complementar 160/17, devendo esta nova legislação ser aplicada ao presente caso. Fl. 2702DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.694 19 No que se refere à contribuição ao PIS e à COFINS, entendese que, ao contrário das decisões que tem prevalecido no âmbito desta turma de julgamento, os valores relativos às subvenções de ICMS, recebidos pelas entidades, não se enquadram no conceito de receita e, por isso, não há que se falar em incidência daquelas contribuições. Para a lei tributária, o que vale, para fins de se considerar um determinada rubrica como receita passível de tributação pela contribuição ao PIS e pela COFINS, é a potencialidade da receita em aumentar, de alguma forma, os ativos da entidade. O que não acontece no caso da subvenção dada em relação ao ICMS, em que o contribuinte, em última análise, deixa de pagar ou paga apenas parcialmente o tributo ao sujeito passivo (Estados ou Distrito Federal). Há de se ressaltar, neste ponto, que o próprio Supremo Tribunal Federal, no polêmico julgamento do RE nº 574.706, entendeu, em julgado submetido à sistemática da Repercussão Geral (apesar de ainda não finalizado até a presente data), que o "ICMS não compõe a base de cálculo para incidência do PIS e da COFINS", justamente porque o tributo estadual não pode ser considerado como uma receita da entidade, sendo um valor pertencente ao Estadomembro ou ao Distrito Federal. Por sua vez, o Superior Tribunal de Justiça já proferiu entendimento de que, no caso de crédito presumido de ICMS, estes valores (dos créditos presumidos) não podem ser considerados como receita da empresa e, por isso, não devem compor a base de cálculo daquelas contribuições. Vejase a ementa das decisões proferidas pelo Tribunal: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. PIS E COFINS. BASE DE CÁLCULO. CRÉDITO PRESUMIDO DE ICMS. NÃO INCLUSÃO. INCENTIVO FISCAL. NATUREZA JURÍDICA DIVERSA DE RECEITA OU FATURAMENTO. 1. Segundo a jurisprudência desta Corte os valores provenientes do crédito presumido do ICMS não ostentam natureza de receita ou faturamento, mas de recuperação de custos na forma de incentivo fiscal concedido pelo governo para desoneração das operações, razão pela qual não integra a base de cálculo da contribuição ao PIS e da COFINS. Precedentes: AgRg no AREsp 626.124/PB, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe 6/4/2015; AgRg no REsp 1.494.388/ES, Rel. Ministra Marga Tessler (Juíza Federal convocada do TRF 4ª Região), Primeira Turma, DJe 24/3/2015; AgRg no AREsp 596.212/PR, Rel. Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJe 19/12/2014; AgRg no REsp 1.329.781/RS, Rel. Ministro Arnaldo Esteves Lima, Primeira Turma, DJe 3/12/2012. 2. Agravo regimental não provido. (AgRg no REsp 1247255/RS, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, julgado em 17/11/2015, DJe 26/11/2015) (destacouse) PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO AO 535/CPC. NÃO OCORRÊNCIA. INCLUSÃO DO CRÉDITO PRESUMIDO DE ICMS NA BASE DE Fl. 2703DF CARF MF 20 CÁLCULO DO PIS/COFINS. IMPOSSIBILIDADE. ENTENDIMENTO PACÍFICO DO STJ. CLÁUSULA DE RESERVA DE PLENÁRIO. NÃO VIOLAÇÃO. 1. Não houve ofensa ao art. 535 do CPC, na medida em que o Tribunal de origem dirimiu, fundamentadamente, as questões que lhe foram submetidas, apreciando integralmente a controvérsia posta nos presentes autos. 2. A jurisprudência desta Corte Superior é no sentido de que o crédito presumido referente ao ICMS não tem natureza de receita ou faturamento, razão pela qual não pode ser incluído na base de cálculo do PIS e da COFINS. Precedentes: AgRg no REsp 1319102/RS, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 05/03/2013, DJe 12/03/2013, AgRg no REsp 1274900/SC, Rel. Ministra DIVA MALERBI (DESEMBARGADORA CONVOCADA TRF 3ª REGIÃO), SEGUNDA TURMA, julgado em 26/02/2013, DJe 11/03/2013, AgRg no REsp 1329781/RS, Rel. Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 27/11/2012, DJe 03/12/2012. (...) 4. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgRg no AREsp 6.343/RS, Rel. Ministro SÉRGIO KUKINA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 27/08/2013, DJe 06/09/2013) Assim, também não deve prevalecer a tributação no que tange à contribuição ao PIS e à COFINS, por não se encaixar no conceito de receita os valores recebidos pela entidade a título de subvenção. Por todo o exposto, DÁSE PROVIMENTO, neste ponto, ao Recurso Voluntário, afastando a tributação de IRPJ, CSSL, Contribuição ao PIS e COFINS, no que se refere às supostas "receitas operacionais não declaradas". DAS DESPESAS FINANCEIRAS DAS DESPESAS DEDUTÍVEIS Antes de adentrar no mérito da glosa realizada pela fiscalização, no que tange às despesas financeiras deduzidas pelo Recorrente no anocalendário autuado, cumpre, neste momento, discorrer de forma breve acerca das despesas dedutíveis na apuração do lucro real. Neste contexto, devese esclarecer que o dispêndio feito pela entidade ou toda obrigação incorrida para aquisição de bens, serviços ou utilidades, deve ser considerado dedutível se for feito com o propósito de manter em funcionamento a fonte produtora de rendimentos. Nessa linha, confirase os ensinamentos de Hiromi Higuchi em sua obra “Imposto de Renda das Empresa: Interpretação e Prática”: As despesas efetuadas pelas pessoas jurídicas podem ser dedutíveis ou indedutíveis na apuração do lucro real. Importante é também o momento em que a despesa operacional é dedutível na determinação do lucro real. A despesa é dedutível pelo regime de competência, ou seja, no momento em que a despesa é considerada incorrida. Fl. 2704DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.695 21 As despesas operacionais dedutíveis na determinação do lucro real são aquelas que se encaixam nas condições fixadas no art. 299 do RIR/99, isto é, despesas necessárias à atividade da empresa e à respectiva fonte produtora de receitas. As despesas necessárias, ainda de acordo com a legislação fiscal, são as despesas pagas ou incorridas e que sejam usuais e normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (HIGUCHI, Hiromi, Imposto de Renda das empresas: interpretação e prática: atualizado até 10012015 – 40º ed. – São Paulo: IR Publicações, 215, p.279) (detacouse). Os conceitos de despesas necessárias, usuais ou normais estão contidos no artigo 299, do RIR/99. Verificase: Art.299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). §1ºSão necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, §1º). §2ºAs despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, §2º). Por sua vez, o Parecer Normativo CST nº 32/1981, previu que “o gasto é necessário quando essencial a qualquer transação ou operação exigida pela exploração das atividades, principais ou acessórias, que estejam vinculadas com as fontes produtoras de rendimentos”. Os Tribunais pátrios não destoam deste entendimento, como se observa do julgado, cuja ementa segue transcrita abaixo, proferido pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCROCSLL. IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICAIRPJ. DEDUÇÃO DE DESPESAS TIDAS COMO OPERACIONAIS. IMPOSSIBILIDADE. CONDENAÇÃO EM VERBA HONORÁRIA QUE SE MANTÉM 1 Quanto ao agravo retido, é remansoso o entendimento de que a realização de perícia se revela como o meio de prova oneroso e causador da delonga procedimental, cabendo quando devem ser esclarecidas questões que não possam ser verificadas sem o conhecimento técnico. A não realização de perícia contábil não caracteriza cerceamento de defesa, vez que a matéria tratada na inicial era de direito, possibilitando assim o julgamento da lide. Com efeito, o CPC/2015 permite o julgamento, dispensando a produção de provas, quando a questão for unicamente de direito e os documentos acostados aos autos forem suficientes ao exame do pedido. Também, o art. 370 do CPC/2015 permite ao juiz a possibilidade de indeferir diligências inúteis ou meramente protelatórias, assim como determinar a realização das provas que entenda necessárias à instrução do processo, mesmo sem requerimento da parte.Na hipótese, o que se discute é a Fl. 2705DF CARF MF 22 possibilidade de descontos concedidos a clientes como despesas operacionais e despesas de viagem e estadia de médicos e cirurgiões cardiologistas e técnicos, dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, sendo totalmente desnecessária a realização de prova pericial, pelo que rejeito o agravo retido interposto. 2. Despesas operacionais são as pagas ou incorridas para vender produtos ou serviços e administrar a empresa. A legislação de regência prescreve restrições quanto à dedução de despesas efetivamente incorridas e regularmente escrituradas. 3. O Parecer Normativo CST nº 32/81 declara que gasto necessário é o essencial a qualquer transação ou operação exigida pela exploração das atividades, principais ou acessórias, que estejam vinculadas com as fontes produtoras de rendimentos. 4. Na determinação da base de cálculo do IRPJ, a legislação considera dedutíveis as despesas operacionais, aquelas necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. 5. Na hipótese, no tocante a dedução dos prejuízos operacionais como despesa, não foram cumpridos os requisitos legais, de forma que não se pode simplesmente acolher o argumento genérico de que estão presentes as condições do artigo 299, do RIR/1999. 6. A autoridade fiscal efetuou a glosa dos valores referentes às despesas efetuadas com pessoas não vinculadas a empresa, como viagens, transporte, estadia de médicos para participação em congressos, exposições e conferências, bem como descontos concedidos a clientes. 7. As notas acostadas aos autos, por si só, não demonstram a finalidade, o relacionamento com a atividade desenvolvida pela autora. As viagens ao exterior deveriam estar devidamente escrituradas e de encontro com a atividade da empresa. 8. Embora útil ou vantajoso o emprego do valor, caracterizase um incremento, mas não uma despesa necessária ou operacional. 9. Quanto à verba honorária, esta deve ser mantida, conforme fixada na r. sentença. 10. Agravo retido rejeitado. Apelação não provida. (AC 00089632520114036100, DESEMBARGADOR FEDERAL NERY JUNIOR, TRF3 TERCEIRA TURMA, eDJF3 Judicial 1 DATA:18/01/2017 ..FONTE_REPUBLICACAO:.) Devese ressaltar, ainda, que, tendo em vista o regime de competência, mesmo aquelas despesas ainda não efetivamente pagas, mas já reconhecidas na contabilidade (incorridas), podem ser deduzidas da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, como, inclusive, já decidiu o Superior Tribunal de Justiça. Vejase: DIREITO TRIBUTÁRIO. IRPJ. LUCRO REAL. DESPESA OPERACIONAL. FÉRIAS. EMPREGADOS. REGIME DE COMPETÊNCIA. AQUISIÇÃO DO DIREITO. CONCEITO DE DESPESA INCORRIDA. 1. Cuidase, na origem, de Ação Declaratória proposta com a finalidade de obter provimento jurisdicional que reconheça o direito à dedutibilidade de despesas incorridas pela aquisição do direito às férias dos empregados, na apuração do IRPJ do ano base de 1978 (fl. 12). 2. A controvérsia posta, desde a inicial, diz respeito ao período em que essa dedução é possível, e não propriamente à existência desse direito, o que se tornou inquestionável. Fl. 2706DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.696 23 3. Uma vez adquirido o direito às férias, a despesa em questão corresponde a uma obrigação líquida e certa contraída pelo empregador, embora não realizada imediatamente. Dispõe o art. 134 da CLT que "As férias serão concedidas por ato do empregador, em um só período, nos 12 (doze) meses subsequentes à data em que o empregado tiver adquirido o direito". 4. De acordo com o § 1° do art. 47 da Lei 4.506/1964, são necessárias as despesas pagas ou incorridas para realizar as transações ou operações exigidas pela atividade da empresa. Tais despesas são consideradas operacionais e a legislação autoriza seu abatimento na apuração do lucro operacional (art. 43 da Lei 4.506/1964). 5. Se a lei permite a dedução das despesas pagas e das incorridas, não só as que já foram efetivamente adimplidas são dedutíveis. Despesa incorrida é aquela que existe juridicamente e possui os atributos de liquidez e certeza. 6. Na legislação tributária, prevalece a regra do regime de competência, de modo que as despesas devem ser deduzidas no lucro real do períodobase competente, ou seja, quando jurídica ou economicamente se tornarem devidas. 7. Com a aquisição do direito às férias pelo empregado, a obrigação de concedêlas juntamente com o pagamento das verbas remuneratórias correspondentes passa a existir juridicamente para o empregador. Nesse momento, a pessoa jurídica incorre numa despesa passível de dedução na apuração do lucro real do anocalendário em que se aperfeiçoou o direito adquirido do empregado. 8. Recurso Especial não provido. (REsp 1313879/SP, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 07/02/2013, DJe 08/03/2013) (destacouse) Dessa forma, são requisitos básicos para os gastos com despesas serem dedutíveis da base de cálculo do IRPJ e da CSLL: (i) a comprovação do pagamento ou, na ausência deste, a despesa deve ser ao menos incorrida/reconhecida (regime de competência); (ii) os gastos devem ser úteis ou necessários para a manutenção da empresa e relacionados ao seu objeto social. Esses são os requisitos básicos para a dedutibilidade das despesas pelo contribuinte e é com essa premissa que se analisará as ilações da fiscalização e os argumentos apresentados pelo Recorrente. DO ÔNUS DA PROVA. Antes, contudo, em se tratando de Auto de Infração, em que a administração constituiu créditos tributários de ofício, quando identificou incorreções e/ou omissões nos Fl. 2707DF CARF MF 24 lançamentos contábeis e fiscais previamente realizados pelo contribuinte, há que se entender de quem é o ônus probatório: do fisco ou do contribuinte? No presente contexto, afastase, de pronto, os casos de presunção relativa, como, por exemplo, o de omissão de receitas por depósitos bancários (artigo 42, da Lei 9.430/96). Nestes casos, em que pese a sua discutível constitucionalidade, o legislador entendeu que o ônus probatório é do contribuinte. Assim, sendo devidamente intimado acerca das informações levantadas pela fiscalização e caso não haja comprovação em contrário por parte do fiscalizado, a ele será presumida determinada conduta. Mesmo nestes casos, entretanto, não pode a fiscalização, de forma unilateral, afirmar a existência de renda omitida, por exemplo, sem que seja dada a oportunidade ao contribuinte de fazer prova em contrário. Fabiana Del Padre Tomé, refutando de forma veemente a possibilidade de existência, no ordenamento, das chamadas presunções absolutas ou mistas, assim se pronuncia sobre as chamadas presunções relativas: Apesar de caracterizarem importante instrumento de que dispõe a Administração, auxiliandoa nas tarefas fiscalizatória e arrecadatória, as presunções têm seu emprego delimitado por normas constitucionais que traçam os contornos da competência tributária, além das que asseguram direitos dos contribuintes. Por tal razão, não encontram guarida em nosso ordenamento as presunções absolutas nem as chamadas presunções mistas. As primeiras são obstadas pela rígida repartição constitucional das competências para instruir tributos, bem como pelos princípios da estrita legalidade tributária, da tipicidade e da capacidade contributiva. Quanto às presunções mistas, violam não apenas os primados da tipicidade e capacidade contributiva, mas também o direito à ampla defesa, já que restringem as provas possíveis de serem utilizadas para ilidir o fato presumido. As presunções susceptíveis de serem empregadas pelo Fisco são apenas as relativas, por possibilitarem ao contribuinte a livre produção probatória em sentido contrário. (TOMÉ, Fabiana Del Padre. A prova no Direito Tributário. São Paulo: Noeses, 2008. Págs. 301 e 302) Contudo, excetuado os casos de presunção relativa (as únicas presunções que se pode admitir em direito tributário, digase), o dever de provar é da fiscalização. Há que se entender que, nos termos do artigo 142, do Código Tributário Nacional, a competência para apurar, constituir e calcular o crédito tributário, dentre outras, é da autoridade administrativa, de forma privativa, em especial quando é promovida a constituição de ofício do crédito tributário, quando presentes umas das hipóteses listadas no artigo 149 do mesmo Código. Assim, salvo naqueles casos em que há uma presunção relativa de determinadas condutas, reiterese, é dever da administração tributária comprovar as suas alegações. Mais uma vez, se vale dos ensinamentos de Fabiana Del Padre Tomé que, após discorrer sobre as diferenças entre ônus, dever e faculdade na produção das provas, assim se manifesta: "(...) A existência do ônus pressupõe um direito subjetivo disponível, que pode ou não ser exercido, situação que não se verifica na esfera tributária, tendo em vista que os atos de lançamento e de aplicação de penalidades pelo descumprimento Fl. 2708DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.697 25 de obrigações tributárias e deveres instrumentais competem ao Poder Público, de modo privativo e obrigatório, tendo de fazêlo com base nos elementos comprobatórios do fato jurídico e do ilícito tributário. Daí por que não tem a autoridade administrativa mero ônus de provar o fato jurídico ou o ilícito tributário que dá suporte aos seus atos, mas verdadeiro dever, (...)"(TOMÉ, Fabiana Del Padre. A prova no Direito Tributário. São Paulo: Noeses, 2008. Págs. 236 e 237) (destacouse) E arremata a festejada professora: "Caso o ato de lançamento não se fundamente em provas, estará irremediavelmente maculado, devendo ser retirado do ordenamento. Na hipótese de o contribuinte deixar de apresentar os documentos comprobatórios do fato enunciado no antecedente da norma individual e concreta por ele emitida, sujeitarseá ao ato de lançamento a ser realizado pela autoridade administrativa e à aplicação das penalidades cabíveis, como adverte Geraldo Ataliba: 'o sistema de legislação vigente, quanto ao assunto, é claro: omissão do contribuinte, a sua falta de colaboração ou a colaboração maliciosa ou danosa, além de serem criminalmente reprimidos, não inibem o fisco no lançamento'. Opostamente, se o contribuinte fornecer os documentos que se referem ao objeto fiscalizado, as informações nele contidas farão prova a seu favor. Devidamente provado o fato enunciado pelo Fisco ou pelo contribuinte, as alegações que pretendam desconstituílo devem, igualmente, estar fundadas em elementos probatórios. Tudo, na esteira da regra segundo a qual o ônus/dever da prova cabe a quem alega, não se admitindo, na esfera tributária, convenções que alterem essa forma de distribuição. "(...) A existência do ônus pressupõe um direito subjetivo disponível, que pode ou não ser exercido, situação que não se verifica na esfera tributária, tendo em vista que os atos de lançamento e de aplicação de penalidades pelo descumprimento de obrigações tributárias e deveres instrumentais competem ao Poder Público, de modo privativo e obrigatório, tendo de fazêlo com base nos elementos comprobatórios do fato jurídico e do ilícito tributário. Daí por que não tem a autoridade administrativa mero ônus de provar o fato jurídico ou o ilícito tributário que dá suporte aos seus atos, mas verdadeiro dever, (...)"(TOMÉ, Fabiana Del Padre. A prova no Direito Tributário. São Paulo: Noeses, 2008. Págs. 239 e 240) Este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais já se posicionou quanto a impossibilidade de se inverter o ônus probatório, quando a fiscalização tinha o dever de provar as ilações lançadas em Auto de Infração. Vejase julgado neste sentido: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Ano calendário: 2000 USUFRUTO DE AÇÕES. RECEITAS AUFERIDAS EM RAZÃO DA CESSÃO DOS DIREITOS DE FRUIÇÃO DOS ATIVOS. RECEITAS QUE NÃO SE CONFUNDEM COM A PERCEPÇÃO Fl. 2709DF CARF MF 26 DE LUCROS E DIVIDENDOS. TRIBUTAÇÃO. APROPRIAÇÃO PRO RATA DA RECEITA. A celebração de contrato oneroso de usufruto de ações importa na transferência, ao usufrutuário, do direito, inerente à posição acionária, de percepção de juros e dividendos. A remuneração estabelecida em decorrência da cessão do direito de fruição das ações não se confunde com a percepção de juros e dividendos, constituindo receita do cedente obrigatoriamente submetida à tributação pelo Imposto sobre a Renda. Nessas condições, a receita deve ser apropriada pro rata, durante o período do contrato. RATEIO DE CUSTOS GLOSA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA IMPROCEDÊNCIA DO LANÇAMENTO. Provado, pelos elementos constantes da escrituração mercantil, que a recorrente contabilizara despesas recebidas em rateio de sua controladora, pratica usual em se tratando de grupos financeiros, caberia à fiscalização provar a inexistência ou a não dedutibilidade das despesas que assumira, não simplesmente ter promovido a sua glosa, mediante ilegal inversão do ônus da prova. PERDAS DE CRÉDITO. DEDUÇÃO INDEVIDA. A dedução de perdas no recebimento de créditos está condicionada ao atendimento aos requisitos legais para a sua dedutibilidade, além da comprovação documental inequívoca da sua ocorrência. Assunto: Outros Tributos ou Contribuições Anocalendário: 2000 DECADÊNCIA. CONTRIBUIÇÕES PARA A SEGURIDADE SOCIAL Consoante Súmula Vinculante do STF é de cinco anos o prazo de decadência para o Fisco efetuar o lançamento das contribuições para custear a Seguridade Social (art. 45 da Lei nº 8.212/1991). PIS, CSLL E COFINS LANÇAMENTOS DECORRENTES Aplicamse aos lançamentos decorrentes o decidido em relação ao principal. Mantida parcialmente as exigências de CSLL e exoneradas integralmente as exigências de PIS/Pasep e COFINS MULTAS ISOLADAS DECADÊNCIA E PROVIMENTO NO MÉRITO DA MATÉRIA PRINCIPAL As multas isoladas por falta ou insuficiência de estimativas mensais sujeitamse ao prazo decadencial previsto no art. 150, § 4º do CTN. Dado provimento, no mérito, ao recurso na parte relativa ao IRPJ que motivou a aplicação de multa isolada, cancelase a exigência remanescente da decadência. (Número do Processo 19740.000004/200656 Acórdão 10709.588 Data da sessão: 17/12/2008) Por outro lado, como se verifica da ementa acima, inclusive, não se pode desprezar o "peso" da prova dos lançamentos contábeis do contribuinte. Desde que lastreados por documentação hábil e idônea que comprove eventual lançamento, a contabilidade feita nos ditames da legislação tem o condão de provar a ocorrência do evento escriturado. Não é por outro motivo que o Decreto 3.000/99 é categórico ao afirmar que os lançamentos contábeis fazem prova em favor do contribuinte, sendo dever da autoridade administrativa comprovar eventuais inveracidades. Neste sentido é a redação dos artigos 923, 924 e 925 do RIR/99. Vejase: Art.923.A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 9º, §1º). Fl. 2710DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.698 27 Art.924.Cabe à autoridade administrativa a prova da inveracidade dos fatos registrados com observância do disposto no artigo anterior (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 9º, §2º). Art.925.O disposto no artigo anterior não se aplica aos casos em que a lei, por disposição especial, atribua ao contribuinte o ônus da prova de fatos registrados na sua escrituração Portanto, o dever de comprovar despesa inexistente, indedutível ou a falsidade de documento que suportou o lançamento contábil é da fiscalização. Não se pode admitir a transferência desse ônus ao contribuinte, quando a legislação assim não autoriza. Sendo apresentada documentação que comprove e sustente os lançamentos na contabilidade, a fiscalização deve empreender as diligências necessárias para comprovar suas alegações. Feitas estas considerações iniciais, passase a analisar a glosa das despesas efetuadas pela fiscalização, para se verificar se estas poderiam, de fato, serem deduzidas da base cálculo do IRPJ e da CSSL devidos pelo Recorrente. DA ANÁLISE DAS DESPESAS GLOSADAS PELA FISCALIZAÇÃO No presente caso, as despesas glosadas pela fiscalização são relativas a juros supostamente devidos a credores listados no plano de recuperação judicial apresentado junto ao juízo da Comarca de Jandaia/GO. No Relatório Fiscal, o agente autuante demonstrou, inclusive através de diligências realizadas junto aos credores, que o contribuinte, em 2011, não tinha condições de "determinar os valores que serão efetivamente quitados" e, por isso, não poderia "não poderia reconhecer como juros passivos" para fins de dedução das despesas. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília analisou os argumentos de defesa apresentados pelo contribuinte e, em que pese todo esforço argumentativo do Recorrente em seu Recurso Voluntário, não há reparos a se fazer no que restou ali decidido. Assim, invocando, como razões de decidir, o § 3, do artigo 57 do RICARF, adoto os fundamentos constantes daquele acórdão, que são abaixo transcritos, in verbis 2.2. Das despesas financeiras não comprovadas Preambularmente, releva destacar que os fatos objeto de investigação no procedimento fiscal, e que implicaram o lançamento tributário de glosa de despesas financeiras, dizem respeito ao ano de 2011. Nesse contexto, também importa ressaltar que o Princípio da Competência determina que os efeitos das transações e outros eventos sejam reconhecidos nos períodos a que se referem, independentemente do recebimento ou pagamento. Com efeito, a simultaneidade da confrontação de receitas e de despesas correlatas é pressuposto previsto no artigo 9º e parágrafo único da Resolução CFC nº 750, 1993. O art. 177 da Lei nº 6.404, de 1976, por sua vez, estabelece que a escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação Fl. 2711DF CARF MF 28 comercial e desta lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. Já os artigos 247 e seus parágrafos e 274 do Decreto nº 3.000, de 1999 (RIR/99) estabelecem vários critérios contábeis, exigindo, para fins de tributação, a observância do período de competência, para fins de apuração do lucro real. Concluise, então, que, em regra, a escrituração deve registrar as receitas e despesas pelo regime de competência. Releva destacar, todavia, que, no caso sob exame, a contribuinte se encontra em recuperação judicial e que o pedido foi protocolado em 31/11/2010, em curso na Comarca de Jandaia/GO. Sobre a recuperação judicial, sabese que é medida jurídica legal utilizada para tentar evitar a falência de uma empresa. Quando determinada companhia enfrenta dificuldades para pagar suas dívidas, esta pode recorrer ao pedido de recuperação judicial perante a Justiça, visando garantir a reestruturação dos negócios e redefinir um plano de resgate financeiro da instituição. Primeiramente, a empresa deve solicitar o pedido de recuperação judicial na Justiça. Após a solicitação, precisa preparar um processo sobre o caso e apresentar ao juiz responsável. Caso o processo seja aprovado pelo juiz, este autoriza o segundo passo: a elaboração de um plano de recuperação. A empresa tem um limite de 60 dias para apresentar o plano, caso contrário o juiz irá decretar a sua falência. Após a apresentação tempestiva do plano, o juiz deverá divulgá lo a todos os credores da empresa. Estes têm até 180 dias para se manifestar a favor ou contra o plano de recuperação apresentado. Se os credores não aprovarem o plano de recuperação, o juiz declarará a falência da empresa. O processo de negociação entre a empresa e os credores é mediado por um administrador apontado pela Justiça. Pois bem. No caso dos autos, entendeu a autoridade fiscal que o valor total de R$ 35.807.298,57, escriturado a título de despesas financeiras, não se amoldaria à definição de despesas para fins tributários. Isso porque, no entender do Fisco, como o contribuinte não possui condições de determinar os valores que serão efetivamente quitados pelos credores, não poderia reconhecer tais valores como juros passivos, pois, pelo Princípio Contábil da Prudência, o mesmo deveria ser registrado como uma conta contábil passiva ou no mínimo controlado na parte B do Livro de Apuração do Lucro Real (Lalur) e somente reconhecer a despesa quando a mesma se efetivar. Fl. 2712DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.699 29 A impugnante, por sua vez, sustentou, em síntese, que o valor da cessão de crédito está determinado e foi regularmente apresentado no Plano de Recuperação Judicial e que os juros são perfeitamente apurados de acordo com a legislação vigente. Não assiste razão à suplicante. Vejamos. É sabido, há um princípio básico em direito das obrigações: o "pacta sunt servanda", ou a "força obrigatória dos contratos". Em outras palavras, desde que o pactuado entre as partes contratantes não esteja vedado por lei e não haja defeitos no negócio jurídico, o contrato "faz lei entre as partes" e o cumprimento das obrigações assumidas é plenamente exigível entre os contratantes, salvo hipóteses de caso fortuito ou força maior. Nessa hipótese, em regra, para fins de apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, os juros avençados em contrato podem ser deduzidos como despesa pelo devedor e devem ser reconhecidos como receita pelo credor. Isso porque, de acordo com o art. 299 do RIR/99, são operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa. Basicamente, portanto, são três os requisitos que habilitam um determinado gasto a ser considerado como despesa operacional dedutível: (1) é necessário que o gasto seja incorrido, ou seja, é indispensável que a empresa já tenha usufruído dos bens e serviços adquiridos; (2) o gasto deve ser necessário para a manutenção da atividade da empresa e, além disso, deve ser normal e usual ou relacionado com a atividade explorada; e (3) o gasto deve ser adequadamente comprovado. Situação peculiar é a tratada nos presentes autos, em que, consoante ressaltado, a contribuinte, devedora, se encontra em recuperação judicial. Neste caso, conforme destacado, há um processo de negociação entre a empresa e os credores, mediado por um administrador apontado pela Justiça. Enquanto o juiz competente não homologar o plano de recuperação da empresa, não pode o devedor reconhecer como despesa operacional os encargos financeiros dos créditos vencidos, em face da ausência da já referida "força obrigatória dos contratos". Em verdade, para o devedor, o tratamento tributário dos encargos financeiros dos créditos vencidos deve ser o seguinte: os encargos contabilizados como custo ou despesa, a partir da citação inicial para o pagamento do débito, deverão ser adicionados para apuração do Lucro Real. Os Fl. 2713DF CARF MF 30 valores adicionados poderão ser excluídos na apuração do Lucro Real, no período de apuração em que ocorrer a quitação do débito por qualquer forma. No caso em tela, em que a quitação dos débitos se deu por meio de cessão de direitos creditórios, a dedução das aludidas despesas financeiras não pode ser efetuada no ano de 2011, pois a Escritura Publica de Cessão e Transferência de Direitos Creditórios foi lavrada somente em 2012. Vejase a manifestação da própria impugnante em sua peça de defesa: 6. 9 Por fim, deve se esclarecer que não se confunde a transferência do direito creditório com negócio com cláusula suspensiva, até porque no Instrumento Particular de Contrato de Cessão Fiduciaria de Direitos de Crédito em Garantia não faz referência a qualquer condição suspensiva para validar o negócio jurídico realizado, tanto que foi lavrada , em 18.09.2012, a respectiva Escritura Publica de Cessão e Transferência de Direitos Creditórios, registrada no 82 Tabelionato de Notas de São Paulo. (negritos do original) Nesse cenário, vale pinçar a seguinte manifestação do autor do procedimento, no Termo de Verificação Fiscal (fls. 33/49): 47. Ainda em resposta ao Termo de Intimação Fiscal n° 8, o contribuinte afirma que homologou o acordo de cessão de direito de precatório em 20/12/2011 com as empresas Vision Brasil Gestão de Investimentos, Madri Fundo de Investimentos no Exterior Multimercado, Banco Indusval e Banco Cruzeiro do Sul. 48. Neste ponto é importante anotar que a Juíza Federal Dra. Maria Cândido Carvalho Monteiro de Almeida da 17a Vara/DF negou a liberação do precatório, tendo em vista a incerteza dos valores dos mesmos, conforme o informado pelo próprio contribuinte em resposta ao Termo de Intimação Fiscal n° 9 e que até o presente momento ainda não houvera a liberação dos referidos precatórios. (negritei) Também merece registro o relato fiscal acerca das diligências efetuadas junto aos credores, às fls. 43/44 do mesmo Termo de Verificação Fiscal: 50. Para melhor compreender a situação fática das empresas Vision Brasil Gestão de Investimentos, Madri Fundo de Investimentos no Exterior Multimercado, Banco Indusval, Banco Cruzeiro do Sul e P.R.A Porto Real Agrobusiness e Eventos Ltda ME, foram lavrados diligências, que abaixo são narrados o resultado: 50.1. Em resposta ao Termo de Diligência n° 1, a Vision Brasil Gestão de Investimentos informou que a origem da dívida entre o contribuinte e a Vision são emissão de Certificados de Direito Creditório do Agronegócio(CDCA). 50.2. Informa, ainda, que após várias tentativas de acordo com a Denusa, em20/12/2011 tabulou um novo acordo e aceitou o Fl. 2714DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.700 31 oferecimento do PréPrecatório e que durante o anocalendário 2011 não houve pagamentos e nem registro de juros. 50.3. Já em resposta ao Termo de Diligência n° 6, a Vision informa que em 2009 citou judicialmente a Denusa em relação a dívida em questão. 50.4. Em resposta ao Termo de Diligência n° 2, a Madri Fundo de Investimentos no Exterior Multimercado afirma que a origem da Dívida seria Cédula de Produtor Rural do tipo financeira(CPRFs) emitidas entre 29/02/2008 e 21/09/2009 e que não houvera pagamento, inclusive durante o anocalendário 2011, e por este motivo ajuizou Ação de execução. Informa por último que por se tratar de CPRFs, não há que se falar em juros. 50.5 Em resposta ao Termo de Diligência 3, o Banco Indusval informa a origem da dívida junto a Denusa se origina por um mútuo/financiamento e que não registra quaisquer receita em relação a dívida junto a Denusa. 50.6. Em resposta ao Termo de Diligência n° 4, o Banco Cruzeiro do Sul informa que a origem da dívida entre a diligenciada e a Denusa seria Cédula de Crédito Bancário(CCB), que teria ocorrido em 28/09/2007. 50.7. Informa, ainda, que não ocorrera pagamento durante o anocalendário 2011 e que não fizera nenhum registro contábil em homenagem ao princípio da prudência, tendo em vista considerar incerto o pagamento. 50.8. Em resposta ao Termo de Diligência n° 10, a P.R.A Porto Real Agrobusiness e Eventos Ltda ME, informa que o valor de R$ 36.006.150,10 tem como origem contratos particulares de compra e venda de álcool. 51. Conforme podemos verificar, as empresas Vision Brasil Gestão de Investimentos, Madri Fundo de Investimentos no Exterior Multimercado, Banco Indusval, Banco Cruzeiro do Sul e P.R.A Porto Real Agrobusiness e Eventos Ltda ME, não registraram a incidência de juros durante o anocalendário 2011, tendo em vista a incerteza do recebimento de tais valores, bem como por obrigação legal (...)Com relação ao credor PRA Porto Real Agrobusiness e Eventos LTDA – ME, a contribuinte, efetivamente, logrou demonstrar, na fase de impugnação, que a obrigação foi escriturada no ano calendário de 2008, uma vez que anexou os contratos e os razões das contas da PRA, onde constam os valores desses contratos contabilizados no anocalendário de 2008. Ocorre que, como já ressaltado, no ano de 2011, o juiz competente não havia sequer homologado o plano de recuperação da empresa, razão pela qual não pode o devedor reconhecer como despesa operacional no ano de 2011 os encargos financeiros dos créditos vencidos. Rejeito, pois, as alegações da contribuinte nesse tema. Fl. 2715DF CARF MF 32 Por todo exposto, neste ponto, NEGASE PROVIMENTO ao Recurso Voluntário. DO PEDIDO DE PERÍCIA Em tópico específico, o contribuinte reitera o pedido de realização de prova pericial. Contudo, não há nada que se prover neste ponto, porque, como se observa da Impugnação apresentada (fls. 2.315 e seguintes), o Recorrente, quando fez este mesmo pedido, no início do contencioso administrativo fiscal, não cumpriu os requisitos elencados no inciso IV, do artigo 16 do Decreto nº 70.235/72. Desta feita, sem maiores delongas, por ausência de cumprimento dos requisitos legais, INDEFERESE o pedido de perícia formulado no Recurso Voluntário. CONCLUSÃO Por todo o que exposto no presente acórdão, entendese por: REJEITAR as preliminares de nulidade. DAR PROVIMENTO, ao Recurso Voluntário, afastando a tributação de IRPJ, CSSL, Contribuição ao PIS e COFINS, no que se refere às supostas "receitas operacionais não declaradas"; NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, quanto a glosa de "despesas financeiras não comprovadas". INDEFERIR o pedido de perícia formulado no Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias Relator Voto Vencedor Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo Redator Designado Concordo com o digno Relator em relação à maior parte das matérias tratadas no presente Acórdão. Contudo, entendo ser necessário divergir em relação à questão da inclusão das subvenções para investimento nas bases de cálculo da Contribuição ao Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), no que fui acompanhado pela maioria dos meus pares. É que, no tocante a tais contribuições, em nada aproveita à Recorrente o reconhecimento do caráter de subvenção para investimento do benefício fiscal de que tratam os presentes autos, uma vez que, somente com a edição da Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014, as subvenções para investimentos foram excluídas de suas bases de cálculo. Anteriormente a isso, como no caso dos autos, que se referem ao ano calendário de 2011, não é possível se entender que as subvenções, de que natureza sejam, Fl. 2716DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.701 33 podem ser excluídas da base de cálculo das citadas contribuições, quando estas forem apuradas no regime de cobrança nãocumulativa. Isso porque, com base nos Arts. 1º, caput e §1º, das Lei nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003 (na redação vigente à época dos fatos geradores), as citadas contribuições incidem sobre "o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil". Subvenção, como bem sintetizou o Parecer Normativo CST nº 112, de 1978, é um auxílio que não importa em qualquer exigibilidade para o seu recebedor, ou seja, o patrimônio da empresa beneficiária é enriquecido com recursos vindos de fora sem que isto importe na assunção de uma dívida ou obrigação. As subvenções, quando feitas pelo Poder Público, podem se traduzir através de redução ou isenção de impostos. Na mesma linha, o CPC 07, aprovado pela Resolução nº 1.305/10, na forma da NBC TG 07: “12. Uma subvenção governamental deve ser reconhecida como receita ao longo do período e confrontada com as despesas que pretende compensar, em base sistemática, desde que atendidas as condições deste Pronunciamento. A subvenção governamental não pode ser creditada diretamente no patrimônio líquido. (...) 15. O tratamento contábil da subvenção governamental como receita deriva dos seguintes principais argumentos: (a) uma vez que a subvenção governamental é recebida de uma fonte que não os acionistas e deriva de ato de gestão em benefício da entidade, não deve ser creditada diretamente no patrimônio líquido, mas, sim, reconhecida como receita nos períodos apropriados; (b) subvenção governamental raramente é gratuita. A entidade ganha efetivamente essa receita quando cumpre as regras das subvenções e cumpre determinadas obrigações. A subvenção, dessa forma, deve ser reconhecida como receita na demonstração do resultado nos períodos ao longo dos quais a entidade reconhece os custos relacionados à subvenção que são objeto de compensação; (c) assim como os tributos são despesas reconhecidas na demonstração do resultado, é lógico registrar a subvenção governamental que é, em essência, uma extensão da política fiscal, como receita na demonstração do resultado.” De acordo, ainda, com o Comitê de Pronunciamentos Contábeis, “Receita é o ingresso bruto de benefícios econômicos durante o período observado no curso das atividades ordinárias da entidade que resultam no aumento do seu patrimônio líquido, exceto os aumentos de patrimônio líquido relacionados às contribuições dos proprietários” (CPC 30, na redação conferida pela Resolução CFC nº 1412/12). Fl. 2717DF CARF MF 34 Como já concluído, o valor do benefício fiscal de que tratam os autos é subvenção recebida pela Recorrente, enquadrandose no conceito de receita, e estando incluída na base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, conforme os já citados arts. 1º, §1º, das Leis nº 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003. Na forma dos art. 150, §6º, da Constituição Federal, e art 97, da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional (CTN) , para a exclusão dos referidos valores da base de cálculo das citadas contribuições, necessário seria a edição de lei específica neste sentido. Nesta linha, recente julgado da 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais: "BASEDECÁLCULO.EXCLUSÕES.SUBVENÇÃO. As receitas de subvenções integram a base imponível da Contribuição para o PIS/Pasep no sistema não cumulativo de apuração, uma vez que o legislador não tenha previsto nenhuma exclusão específica para ingressos dessa natureza." (Acórdão nº 9303006.715, sessão de 15 de maio de 2018, Relator Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal) Essa Turma já teve oportunidade de se pronunciar sobre a matéria, decidindo também pela sujeição das subvenções à incidência da Cofins e da Contribuição ao PIS, nos anoscalendários anteriores à vigência da Lei nº 12.973, de 2014, conforme ementa a seguir relativa a Acórdão de minha relatoria: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Anocalendário:2012, 2013 COFINS. LANÇAMENTO REFLEXO. O decidido para o lançamento de IRPJ estendese ao lançamento que com ele compartilha o mesmo fundamento factual e para o qual não há nenhuma razão de ordem jurídica que lhe recomende tratamento diverso. COFINS. APURAÇÃO NÃOCUMULATIVA. BASE DE CÁLCULO. SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTOS. INCLUSÃO. Anteriormente à Lei nº 12.973, de 2014, as receitas de subvenções para investimentos integram a base de cálculo da Cofins, no sistema não cumulativo de apuração, diante da ausência de previsão legal para a exclusão específica de ingressos dessa natureza. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 2012, 2013 PIS/PASEP. LANÇAMENTO REFLEXO. O decidido para o lançamento de IRPJ estendese ao lançamento que com ele compartilha o mesmo fundamento factual e para o Fl. 2718DF CARF MF Processo nº 10120.729144/201523 Acórdão n.º 1302003.230 S1C3T2 Fl. 2.702 35 qual não há nenhuma razão de ordem jurídica que lhe recomende tratamento diverso. PIS/PASEP. APURAÇÃO NÃOCUMULATIVA.BASE DE CÁLCULO. SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTOS. INCLUSÃO. Anteriormente à Lei nº 12.973, de 2014, as receitas de subvenções para investimentos integram a base de cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep, no sistema não cumulativo de apuração, diante da ausência de previsão legal para a exclusão específica de ingressos dessa natureza." (Acórdão nº 1302.003 085, de 18 de setembro de 2018) Deste modo, devese NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário em relação à incidência da Cofins e da Contribuição ao PIS/PASEP sobre as receitas de subvenção para investimento auferidas pela Recorrente. (assinado digitalmente) Paulo Henrique Silva Figueiredo Fl. 2719DF CARF MF
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Numero do processo: 10912.720157/2017-82
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Nov 08 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Feb 07 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2015
NULIDADE. PRETERIÇÃO DO DIREITO DE DEFESA.
Nos termos do artigo 59, II, do Decreto-lei n. 70.235/72, são nulos os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa.
Numero da decisão: 2301-005.753
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário, ante a ausência de concomitância com a ação judicial.
(assinado digitalmente)
João Bellini Junior - Presidente
(assinado digitalmente)
Alexandre Evaristo Pinto - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Maurício Vital, Alexandre Evaristo Pinto, Antônio Sávio Nastureles, Wesley Rocha, Reginaldo Paixão Emos, Marcelo Freitas de Souza Costa, Virgilio Cansino Gil (suplente convocado para substituir a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato, ausente justificadamente) e João Bellini Junior (Presidente). Ausente, justificadamente, a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato.
Nome do relator: ALEXANDRE EVARISTO PINTO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2015 NULIDADE. PRETERIÇÃO DO DIREITO DE DEFESA. Nos termos do artigo 59, II, do Decreto-lei n. 70.235/72, são nulos os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário, ante a ausência de concomitância com a ação judicial. (assinado digitalmente) João Bellini Junior - Presidente (assinado digitalmente) Alexandre Evaristo Pinto - Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Maurício Vital, Alexandre Evaristo Pinto, Antônio Sávio Nastureles, Wesley Rocha, Reginaldo Paixão Emos, Marcelo Freitas de Souza Costa, Virgilio Cansino Gil (suplente convocado para substituir a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato, ausente justificadamente) e João Bellini Junior (Presidente). Ausente, justificadamente, a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato.
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PRETERIÇÃO DO DIREITO DE DEFESA. Nos termos do artigo 59, II, do Decretolei n. 70.235/72, são nulos os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário, ante a ausência de concomitância com a ação judicial. (assinado digitalmente) João Bellini Junior Presidente (assinado digitalmente) Alexandre Evaristo Pinto Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Maurício Vital, Alexandre Evaristo Pinto, Antônio Sávio Nastureles, Wesley Rocha, Reginaldo Paixão Emos, Marcelo Freitas de Souza Costa, Virgilio Cansino Gil (suplente convocado para substituir a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato, ausente justificadamente) e João Bellini Junior (Presidente). Ausente, justificadamente, a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 91 2. 72 01 57 /2 01 7- 82 Fl. 455DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Notificação de Lançamento (NL) para constituição do crédito tributário correspondente ao Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza da Pessoa Física (IRPF), relativo ao anocalendário de 2014, no valor de R$ 66.654,12, incluídos os acréscimos legais, calculados até 28/04/2017, uma vez que o sujeito passivo procedeu ao aproveitamento indevido do IRRF no valor de 45.653,51. Assim, houve a glosa do IRRF no valor de R$ 45.653,51, que teria sido retido pela empresa Alupar Investimento. Houve solicitação de apresentação do contrato de prestação de serviços, conforme solicitado no Termo de Intimação Fiscal nº 2015/703713819494666, no entanto, não houve a apresentação do mesmo. O sujeito passivo foi cientificado da NL, em 05/05/2017, e apresentou impugnação, em 25/05/2017, alegando, (i) a nulidade da notificação de lançamento em virtude da falta de subsunção dos fatos aos dispositivos legais apontados; (ii) a nulidade da notificação de lançamento em virtude da ilegitimidade passiva do Recorrente; (iii) da regularidade da quitação das retenções realizadas pela fonte pagadora; (iv) do direito à dedução e da inexistência de débito de imposto de renda; (v) do direito à dedução independentemente do recolhimento ou não, pela fonte pagadora, do valor retido; (vi) da impossibilidade de corresponsabilização do Impugnante; e (vii) da desnecessidade de apresentação de contrato de prestação de serviços. O Acórdão da DRJ (fls. 405 e ss) decidiu pelo não conhecimento da impugnação diante da existência de concomitância entre ação judicial (MS nº 0022515 81.2016.4.03.6100) e a lide administrativa, conforme ementa abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2015 AÇÃO JUDICIAL. CONCOMITÂNCIA. A propositura contra a Fazenda Pública, de ação judicial, por qualquer modalidade processual, antes ou posteriormente à autuação, que produza efeitos que obstem o conhecimento do mérito em sede de lide administrativa, implica não conhecimento da impugnação. Irresignado, o ora Recorrente interpôs Recurso Voluntário (fls. 413 e ss) alegando que inexiste concomitância, assim como assinala que os argumentos trazidos na impugnação não foram analisados no Acórdão da DRJ, de forma que tal Acórdão deve ser anulado. Nesse sentido, aponta o Recorrente que o Mandado de Segurança foi impetrado pela Alupar e não pelo Recorrente. Ademais o objeto do referido processo seria o reconhecimento da correção do procedimento utilizado pela fonte pagadora para quitar seus débitos próprios de IRRF. Em outras palavras, não haveria o impedimento para a lavratura de autos de infração ou notificações de lançamento. Diante de tais constatações, não haveria concomitância. Fl. 456DF CARF MF Processo nº 10912.720157/201782 Acórdão n.º 2301005.753 S2C3T1 Fl. 3 3 O Recorrente alega ainda (i) a nulidade da notificação de lançamento em virtude da falta de subsunção dos fatos aos dispositivos legais apontados; (ii) a nulidade da notificação de lançamento em virtude da ilegitimidade passiva do Recorrente; (iii) da regularidade da quitação das retenções realizadas pela fonte pagadora; (iv) do direito à dedução e da inexistência de débito de imposto de renda; (v) do direito à dedução independentemente do recolhimento ou não, pela fonte pagadora, do valor retido; (vi) da impossibilidade de corresponsabilização do Recorrente; e (vii) da desnecessidade de apresentação de contrato de prestação de serviços. Cumpre ressaltar ainda o teor da Informação Fiscal constante na fl. 408 do presente processo que resume muito bem a discussão: 1. Tratase de Notificação de Lançamento de Imposto de Renda Pessoa Física, com acórdão emitido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (BA) – DRJ/SDR, que não conheceu a impugnação apresentada em virtude da propositura de ação judicial com mesmo objeto. 2. O Mandado de Segurança nº 002251581.2016.4.03.6100/SP, em trâmite no Juízo Federal da 22ª Vara de São Paulo, foi impetrado por Alupar Investimento S.A., empresa da qual o contribuinte notificado é conselheiro. Na ação, requer a empresa o reconhecimento da regularidade de compensações efetuadas, mediante admissão da quitação dos débitos de IRFF declarados nos anos de 20111 a 2016, vinculandose as quitações aos valores declarados por ela em Dirf e vinculandose às pessoas físicas informadas na declaração (diretores, conselheiros e empregados da empresa) de forma a garantirlhes o direito à dedução do imposto retido. 3. Decisão em sede de medida cautelar deferiu liminar nos seguintes termos: Posto isso, DEFIRO A LIMINAR requerida, a fim de reconhecer a regularidade das quitações do Imposto de Renda Retido na Fonte por ela realizada, mediante o procedimento de compensação dos débitos de IRRF declarados nos anos de 2011 a 2016 e seguintes (enquanto mantida a legislação atual), através do formulário PER/DECOMP, bem como a DCTF, vinculando essa compensação às pessoas físicas informadas na DIRF. Concedo também a liminar para que a autoridade impetrada se abstenha de exigir da impetrante a apresentação da guia DARF do recolhimento do Imposto de Renda Retido na Fonte que foi compensado, não podendo esse procedimento prejudicar o processamento e a liberação da declaração anual de ajuste das pessoas físicas informadas na DIRF, nem exigir destas a guia DARF. 4. A União pleiteou a concessão de efeito suspensivo da decisão por meio de agravo de instrumento, indeferido pelo juízo do Tribunal Regional Federal da 3ª Região. 5. Desta maneira, em atendimento à decisão liminar que impede que seja exigido da empresa o recolhimento do imposto retido na fonte que foi Fl. 457DF CARF MF 4 compensado e impede que tal procedimento prejudique o processamento e liberação da declaração anual de ajuste das pessoas físicas informadas na Dirf e a exigência do recolhimento, o crédito tributário lançado na Notificação nº 2015/018254883473785 deve ter sua exigibilidade suspensa. É o relatório. Voto Conselheiro Alexandre Evaristo Pinto Relator O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade. Dele conheço. Tendo em vista que (i) o Mandado de Segurança nº 0022515 81.2016.4.03.6100/SP, em trâmite no Juízo Federal da 22ª Vara de São Paulo, foi impetrado por Alupar Investimento S.A., empresa da qual o contribuinte notificado é conselheiro; e (ii) na ação, requer a empresa o reconhecimento da regularidade de compensações efetuadas, mediante admissão da quitação dos débitos de IRFF declarados nos anos de 20111 a 2016, vinculandose as quitações aos valores declarados por ela em Dirf e vinculandose às pessoas físicas informadas na declaração (diretores, conselheiros e empregados da empresa) de forma a garantirlhes o direito à dedução do imposto retido, entendo que não há concomitância, pois não há identidade de partes e de objeto na ação judicial e no presente processo administrativo. Vale lembrar que a Súmula CARF nº 1 estabelece que “importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial”, de modo que não se trata do mesmo objeto. Considerando que não há concomitância e que os argumentos trazidos em sede de impugnação não foram analisados pelo Acórdão da DRJ, entendo que houve claramente uma preterição do direito de defesa do Recorrente, nos termos do artigo 59 do Decretolei n. 70.235/72, de modo que o Acórdão da DRJ deve ser declarado nulo. Com base no exposto, voto por conhecer o Recurso Voluntário, ante a ausência de concomitância com a ação judicial, e darlhe provimento para reconhecer a nulidade do Acórdão da DRJ. É como voto. (assinado digitalmente) Alexandre Evaristo Pinto Fl. 458DF CARF MF Processo nº 10912.720157/201782 Acórdão n.º 2301005.753 S2C3T1 Fl. 4 5 Fl. 459DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13896.722113/2017-21
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Nov 29 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jan 16 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2013
IRRF - PLANO DE PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR -OPÇÃO DO CONTRIBUINTE PELA FORMA DE TRIBUTAÇÃO
A Lei nº 11.053/04, que dispõe sobre os planos de previdência privada, prevê a faculdade aos participantes ingressos a partir de 2005 pela opção do regime de tributação sobre os valores pagos aos participantes.
Numero da decisão: 2002-000.582
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro Virgílio Cansino Gil (relator) que lhe deu provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Thiago Duca Amoni.
(assinado digitalmente)
Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente.
(assinado digitalmente)
Virgílio Cansino Gil - Relator.
(assinado digitalmente)
Thiago Duca Amoni - Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil, Thiago Duca Amoni e Mônica Renata Mello Ferreira Stoll.
Nome do relator: VIRGILIO CANSINO GIL
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2013 IRRF - PLANO DE PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR -OPÇÃO DO CONTRIBUINTE PELA FORMA DE TRIBUTAÇÃO A Lei nº 11.053/04, que dispõe sobre os planos de previdência privada, prevê a faculdade aos participantes ingressos a partir de 2005 pela opção do regime de tributação sobre os valores pagos aos participantes.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro Virgílio Cansino Gil (relator) que lhe deu provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Thiago Duca Amoni. (assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente. (assinado digitalmente) Virgílio Cansino Gil - Relator. (assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni - Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil, Thiago Duca Amoni e Mônica Renata Mello Ferreira Stoll.
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Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro Virgílio Cansino Gil (relator) que lhe deu provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Thiago Duca Amoni. (assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente. (assinado digitalmente) Virgílio Cansino Gil Relator. (assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni Redator Designado AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 89 6. 72 21 13 /2 01 7- 21 Fl. 113DF CARF MF Processo nº 13896.722113/201721 Acórdão n.º 2002000.582 S2C0T2 Fl. 114 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil, Thiago Duca Amoni e Mônica Renata Mello Ferreira Stoll. Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fls. 77/87) contra decisão de primeira instância (fls. 64/70), que julgou procedente em parte a impugnação do sujeito passivo. Em razão da riqueza de detalhes, adoto o relatório da r. DRJ, que assim diz: Para o(a) contribuinte, já qualificado(a) nos autos, foi emitida, pela DRF/Barueri/SP, a Notificação de Lançamento IRPF/2014, fls. 43/50, cujo resultado foi "Sem saldo de imposto", pois foi apurado o imposto a restituir no valor de R$1.150,61, que já havia sido restituído. Decorreu o citado lançamento da revisão efetuada na Declaração de Ajuste Anual – DAA – retificadora, entregue pelo(a) interessado(a), relativa ao exercício financeiro de 2014, cujo resultado foi de imposto a restituir no valor de R$34.327,88. De acordo com a Descrição dos Fatos fls. 45/48, foram constatadas: 1) deduções indevidas de: 1.1) dependentes, no valor de R$2.063,64 (...) 1.2) despesas médicas, no valor de R$38.969,65 (...) 2) compensação indevida de IRRF, no total de R$29.632,90 (...) Cientificado(a) da exigência, em 29/09/2017 fl. 51, o(a) interessado(a) apresentou a impugnação de fls. 4/5, instruída com os elementos de fls. 6/42. (...) Inconformado, o contribuinte apresentou Recurso Voluntário, requerendo o cancelamento da infração; a restituição do imposto de renda e, juntando documentos. É o relatório. Passo ao voto. Voto Vencido Conselheiro Virgílio Cansino Gil Relator Recurso Voluntário aviado a modo e tempo, portanto dele conheço. Fl. 114DF CARF MF Processo nº 13896.722113/201721 Acórdão n.º 2002000.582 S2C0T2 Fl. 115 3 O contribuinte foi cientificado em 14/03/2018 (fl. 110); Recurso Voluntário protocolado em 05/04/2018 (fl. 69), assinado por procurador legalmente constituído (fl. 82). O contribuinte responde nestes autos, pelas seguintes infrações: a) Dedução Indevida com Dependentes; b) Dedução Indevida de Despesas Médicas; c) Compensação Indevida de Imposto de Renda Retido na Fonte. A r. decisão revisanda, considerou a impugnação procedente em parte, mantendo a glosa do IRRF, no valor de R$ 29.632,90. Irresignado, o recorrente maneja recurso próprio se insurgindo, face a r. decisão primeira. O recorrente requer os benefícios da Lei nº 12.008/09, que ora é deferido, eis que se enquadra na respectiva lei. No mérito alega ter os benefícios da Lei nº 7.713/88, eis que o recorrente preenche os requisitos cumulativos por ser portador de moléstia grave e, que os rendimentos são oriundos de sua aposentadoria, por serem recebidos a título de complementação de aposentadoria. Verifico que, à fl. 48 dos autos, que é a “Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal”, o Sr. AFR ao relatar a infração, assim diz “Contribuinte não comprovou a retenção do imposto de renda na fonte. Fonte Pagadora: 49.729.544/000188 – PSS – SEGURIDADE SOCIAL, R$ 29.632,90. A r. decisão primeira, em seu voto assim diz: “A autoridade fiscal procedeu o lançamento sem questionar a situação da isenção declarada dos rendimentos vinculados àquele IRRF, glosando apenas aquele valor por falta de comprovação da efetividade da retenção”. Diz ainda mais: “De acordo com os documentos juntados aos autos pelo impugnante para comprovar a efetividade da retenção sofrida, especialmente a DIRF, mostra que a retenção ocorreu (grifo nosso) sob o Código de Receita 5565 – Benefício de Previdência Complementar – Optante pela Tributação Exclusiva, o que foi confirmado nas consultas aos Sistemas da RFB”. Entende este relator, que o recorrente fez prova suficiente quanto à documentação exigida na acusação, tanto é que foi reconhecida pela r. decisão revisanda, outros questionamentos não deixam de ser inovações, que não são possíveis, até mesmo legais, do ponto de vista processual. Demonstrado os requisitos necessários quanto ao direito pleiteado, o Recurso Voluntário é conhecido e provido. É como voto. (assinado digitalmente) Virgílio Cansino Gil Fl. 115DF CARF MF Processo nº 13896.722113/201721 Acórdão n.º 2002000.582 S2C0T2 Fl. 116 4 Voto Vencedor Thiago Duca Amoni Redator designado Peço vênia ao ilustre relator para discordar do entendimento proferido em seu voto. Sobre o Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), a Lei nº 9.250, de 1995, prevê em seu artigo 12: Art. 12. Do imposto apurado na forma do artigo anterior, poderão ser deduzidos: (...). V o imposto retido na fonte ou o pago, inclusive a título de recolhimento complementar, correspondente aos rendimentos incluídos na base de cálculo; Ainda, O Regulamento do Imposto de Renda (RIR/99), dispõe: Art. 87. Do imposto apurado na forma do artigo anterior, poderão ser deduzidos (Lei nº 9.250, de 1995, art. 12): (...) IV – o imposto retido na fonte ou o pago, inclusive a título de recolhimento complementar, correspondente aos rendimentos incluídos na base de cálculo; §2ºO imposto retido na fonte somente poderá ser deduzido na declaração de rendimentos se o contribuinte possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos, ressalvado o disposto nos arts. 7º, §§1º e 2º, e 8º, §1º (Lei nº 7.450, de 23 de dezembro de 1985, art. 55). O Novo Regulamento do Imposto de Renda, Decreto nº 9.580/18 manteve o mesmo entendimento: Art. 80. Do imposto sobre a renda apurado na forma estabelecida no art. 79, poderão ser deduzidos (Lei nº 9.250, de Fl. 116DF CARF MF Processo nº 13896.722113/201721 Acórdão n.º 2002000.582 S2C0T2 Fl. 117 5 1995, art. 12; Lei nº 11.438, de 29 de dezembro de 2006, art. 1º; e Lei nº 12.715, de 17 de setembro de 2012, art. 4º): (...) § 3º O imposto sobre a renda retido na fonte somente poderá ser deduzido na declaração de ajuste anual se o contribuinte possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos, ressalvado o disposto nos § 1º e § 2º do art. 6º e no § 1º do art. 7º (Lei nº 7.450, de 23 de dezembro de 1985, art. 55). Dessa feita, para compensar o IRRF, é necessário que o contribuinte faça prova da efetiva retenção do imposto de renda na fonte, bem como os rendimentos correspondentes tenham sido ofertados à tributação. Contudo, a Lei nº 11.053/04, que dispõe sobre os planos de previdência privada, prevê a faculdade aos participantes ingressos a partir de 2005 pela opção do regime de tributação sobre os valores pagos aos participantes, como bem apontou a decisão da DRJ: Portanto, tanto a Dirf quanto o comprovante de rendimentos dão notícia de serem os rendimentos sobre os quais incidiram o IRRF glosado, por opção do próprio interessado, sujeitos ao regime de tributação exclusiva na fonte, previsto nos artigos 1º e 2º da Lei nº 11.053, de 2004, acima transcritos. Assim, descabe a tributação dos rendimentos no ajuste anual do IRPF e, via de conseqüência, a compensação do IRRF vinculado. Dessa forma, deve ser mantida a glosa do IRRF, no valor de R$29.632,90. Caso o contribuinte entenda ter direito à restituição do IRRF discutido no presente, deverá proceder a pedido de restituição/compensação feito em processo apartado desse de impugnação, vez que tal procedimento segue rito próprio, devendo se orientar, para tanto, no Órgão da Secretaria da Receita Federal do Brasil da jurisdição de seu domicílio fiscal, cabendo lembrar apenas quanto ao prazo regulamentar para tal solicitação – cinco anos do pagamento indevido. Desta forma, mantenho a decisão de piso, negando provimento ao Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte. (assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni Fl. 117DF CARF MF Processo nº 13896.722113/201721 Acórdão n.º 2002000.582 S2C0T2 Fl. 118 6 Fl. 118DF CARF MF
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