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Numero do processo: 15889.000018/2007-15
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 11 00:00:00 UTC 2012
Data da publicação: Fri Feb 02 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1401-000.131
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em sobrestar o processo, nos termos do voto do Relator.
Assinado digitalmente
Jorge Celso Freire da Silva Presidente
Assinado digitalmente
Maurício Pereira Faro Relator
Participaram do julgamento os conselheiros Jorge Celso Freire da Silva, Alexandre Antonio Alkmim Teixeira, Antonio Bezerra Neto, Fernando Luiz Gomes de Mattos, Karem Jureidini Dias, e Mauricio Pereira Faro.
Nome do relator: Não se aplica
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decisao_txt : Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em sobrestar o processo, nos termos do voto do Relator. Assinado digitalmente Jorge Celso Freire da Silva Presidente Assinado digitalmente Maurício Pereira Faro Relator Participaram do julgamento os conselheiros Jorge Celso Freire da Silva, Alexandre Antonio Alkmim Teixeira, Antonio Bezerra Neto, Fernando Luiz Gomes de Mattos, Karem Jureidini Dias, e Mauricio Pereira Faro.
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Assinado digitalmente Jorge Celso Freire da Silva – Presidente Assinado digitalmente Maurício Pereira Faro – Relator Participaram do julgamento os conselheiros Jorge Celso Freire da Silva, Alexandre Antonio Alkmim Teixeira, Antonio Bezerra Neto, Fernando Luiz Gomes de Mattos, Karem Jureidini Dias, e Mauricio Pereira Faro. Dentre as questões discutidas no presente feito, está a inclusão do ICMS na base do PIS/COFINS. A constitucionalidade da mencionada sistemática está em julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nos autos do ADC Nº 18, sob regime de repercussão geral. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 58 89 .0 00 01 8/ 20 07 -1 5 Fl. 1202DF CARF MF Processo nº 15889.000018/200715 Resolução nº 1401000.131 S1C4T1 Fl. 3 2 Segundo o art. 62, § 1º Código de Processo Civil, “Ficarão sobrestados os julgamentos dos recursos sempre que o STF também sobrestar o julgamento dos recursos extraordinários da mesma matéria, até que seja proferida decisão nos termos do art. 543b, do CPC”. Ainda, nos termos do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, o reconhecimento da repercussão geral conduzirá |à aplicado no art. 543B do CPC. Senão, veja se: Art. 328. Protocolado ou distribuído recurso cuja questão for suscetível de reproduzirse em múltiplos feitos, o Presidente do Tribunal ou o Relator, de ofício ou a requerimento da parte interessada, comunicará o fato aos tribunais ou turmas de juizado especial, a fim de que observem o disposto no art. 543 B do Código de Processo Civil, podendo pedirlhes informações, que deverão ser prestadas em 5 (cinco) dias, e sobrestar todas as demais causas com questão idêntica. Parágrafo único. Quando se verificar subida ou distribuição de múltiplos recursos com fundamento em idêntica controvérsia, o Presidente do Tribunal ou o Relator selecionará um ou mais representativos da questão e determinará a devolução dos demais aos tribunais ou turmas de juizado especial de origem, para aplicação dos parágrafos do art. 543B do Código de Processo Civil. (sem grifos no original). Ainda, a Portaria nº 138, de 23 de julho de 2009, do Supremo Tribunal Federal, impõe que todo processo onde tiver havido repercussão geral deverá ser sobrestado, independentemente de determinação expressa nesse sentido. Leiase o dispositivo, in verbis: PORTARIA Nº 138, DE 23 DE JULHO DE 2009 O PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, no uso de suas atribuições legais e tendo em vista o disposto no art. 543B, § 5º, do Código de Processo Civil, com a redação da Lei nº 11.418/06, e no art. 328, parágrafo único, do Regimento Interno, com redação da Emenda Regimental nº 21/07, RESOLVE: Art. 1º Determinar à Secretaria Judiciária que devolva aos Tribunais, Turmas Recursais ou Turma Nacional de Uniformização dos Juizados Especiais os processos múltiplos ainda não distribuídos relativos a matérias submetidas à análise de repercussão geral pelo STF, os encaminhados em desacordo com o disposto no § 1º do art. 543B, do Código de Processo Civil, bem como aqueles em que os Ministros tenham determinado sobrestamento ou devolução. Pelo exposto, entendo deva o presente feito ficar sobrestado até ulterior análise da questão constitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Fl. 1203DF CARF MF Processo nº 15889.000018/200715 Resolução nº 1401000.131 S1C4T1 Fl. 4 3 Transitada em julgada a decisão do Excelso Pretório, retornem os autos para julgamento. (assinado digitalmente) Maurício Pereira Faro Relator De acordo: (assinado digitalmente) Jorge Celso Freire da Silva Presidente Fl. 1204DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10850.909104/2011-95
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Dec 13 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/09/2001 a 30/09/2001
RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ADMISSIBILIDADE.
A admissibilidade do recurso especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido.
Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria.
Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigma só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação.
Recurso Especial do Contribuinte não Conhecido.
Numero da decisão: 9303-006.193
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas, que conheceram do recurso.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), Valcir Gassen (suplente convocado), Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/09/2001 a 30/09/2001 RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ADMISSIBILIDADE. A admissibilidade do recurso especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido. Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria. Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigma só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação. Recurso Especial do Contribuinte não Conhecido.
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decisao_txt : Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas, que conheceram do recurso. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), Valcir Gassen (suplente convocado), Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 5; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2063; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT3 Fl. 2 1 1 CSRFT3 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 10850.909104/201195 Recurso nº 1 Especial do Contribuinte Acórdão nº 9303006.193 – 3ª Turma Sessão de 13 de dezembro de 2017 Matéria PER/DCOMP. PAGAMENTO INDEVIDO. COMPROVAÇÃO. Recorrente GREEN STAR PEÇAS E VEÍCULOS LTDA. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/09/2001 a 30/09/2001 RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. ADMISSIBILIDADE. A admissibilidade do recurso especial de divergência está condicionada à demonstração de que outro Colegiado do CARF ou dos extintos Conselhos de Contribuintes, julgando matéria similar, tenha interpretado a mesma legislação de maneira diversa da assentada no acórdão recorrido. Conseqüentemente, não há que se falar divergência jurisprudencial, quando estão em confronto situações diversas, que atraem incidências específicas, cada qual regida por legislação própria. Da mesma forma, se os acórdãos apontados como paradigma só demonstram divergência com relação a um dos fundamentos assentados no acórdão recorrido e o outro fundamento, por si só, é suficiente para a manutenção do decisum, não há como se considerar demonstrada a necessária divergência de interpretação. Recurso Especial do Contribuinte não Conhecido. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas, que conheceram do recurso. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), Valcir Gassen (suplente convocado), Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 0. 90 91 04 /2 01 1- 95 Fl. 228DF CARF MF Processo nº 10850.909104/201195 Acórdão n.º 9303006.193 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência interposto pela Contribuinte com fundamento nos artigos 64, inciso II, 67 e seguintes do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256/09, contra ao acórdão nº 3803006.743, que decidiu negar provimento ao Recurso Voluntário por ausência de prova efetiva da existência do direito creditório pleiteado. A decisão recorrida restou assim ementada: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/09/2001 a 30/09/2001 RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. ÔNUS DA PROVA. O ônus da prova recai sobre a pessoa que alega o direito ou o fato que o modifica, extingue ou que lhe serve de impedimento, devendo prevalecer a decisão administrativa não infirmada com documentação hábil e idônea. Não conformada com tal decisão a Contribuinte interpôs o presente recurso. Visando comprovar o dissenso jurisprudencial apontou como paradigmas os Acórdãos nºs 3801004.317 e 3801004.318. Mediante despacho de admissibilidade do Presidente da Terceira Câmara da Terceira Seção de Julgamento do CARF foi dado seguimento ao recurso. Devidamente cientificada, a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões nas quais requer o nãoconhecimento do recurso especial interposto pela Contribuinte. Alternativamente, requer, no mérito, que seja negado provimento ao recurso, mantendose o acórdão proferido pela eg. Turma a quo por seus próprios fundamentos. É o relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303006.174, de 13/12/2017, proferido no julgamento do processo 10850.900064/201205, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303006.174): Fl. 229DF CARF MF Processo nº 10850.909104/201195 Acórdão n.º 9303006.193 CSRFT3 Fl. 4 3 "O Recurso foi apresentado com observância do prazo previsto, restando contudo investigar adequadamente o atendimento aos demais pressupostos de admissibilidade, prerrogativa, em última análise, da composição plenária da Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, a qual tem competência para não conhecer de recurso especiais nos quais não estejam presentes os pressupostos de admissibilidade respectivos. Primeiramente, se faz necessário relembrar e reiterar que a interposição de Recurso Especial junto à Câmara Superior de Recursos Fiscais, ao contrário do Recurso Voluntário, é de cognição restrita, limitada à demonstração de divergência jurisprudencial, além da necessidade de atendimento a diversos outros pressupostos, estabelecidos no artigo 67 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. Por isso mesmo, essa modalidade de apelo é chamada de Recurso Especial de Divergência e tem como objetivo a uniformização de eventual dissídio jurisprudencial, verificado entre as diversas Turmas do CARF. Neste passo, ao julgar o Recurso Especial de Divergência, a Câmara Superior de Recursos Fiscais não constitui uma Terceira Instância, mas sim a Instância Especial, responsável pela pacificação dos conflitos interpretativos e, conseqüentemente, pela garantia da segurança jurídica dos conflitos. Após essa breve introdução, passemos, então, ao exame de admissibilidade do Recurso Especial. A divergência suscitada pela Contribuinte diz respeito à comprovação de seu direito creditório, e trouxe os seguintes acórdãos paradigmas, 3801004317 e 3801004318, que tratam em tese da mesma matéria, diferindo a solução. Pelas ementas não se pode reconhecer a divergência, todavia, se examinar os votos dos paradigmas verseá a que não há identidade de (conjunto probatório) e diversidade das soluções. Verificase que o voto condutor da decisão recorrida, o recurso voluntário não mereceu provimento sob o fundamento de que: "Conforme se verifica do relatório supra, a DRJ Ribeirão Preto/SP não reconheceu o direito creditório por ausência de provas hábeis a demonstrar e comprovar o suposto recolhimento a maior, considerando que os documentos apresentados se referiam apenas às receitas financeiras, dados esses insuficientes à apuração da base de cálculo da contribuição, qual seja, o faturamento. O Recorrente alega que, junto às Manifestações de Inconformidade, havia trazido aos autos planilhas de cálculo, cópias do balancete e do livro Razão, documentos esses que, segundo ele, seriam bastantes para a comprovação do direito pleiteado. A par das decisões da DRJ Ribeirão Preto/SP, em que a questão da prova do indébito foi posta como condicionante ao reconhecimento do direito creditório, tendo sido ressaltada pelo julgador de piso a necessidade de se comprovar o faturamento do período para fins de apuração da contribuição efetivamente devida no período, o contribuinte nada acrescenta aos autos em grau de recurso para fins de demonstrar inequivocamente a base de cálculo da contribuição. Não se pode olvidar que, de acordo com o art. 16 do Decreto n° 70.235/1972, que regula o Processo Administrativo Fiscal (PAF), cabe ao impugnante o ônus da prova de suas alegações contrapostas à decisão de indeferimento do direito pleiteado, prova essa que deve ser apresentada no momento da manifestação de inconformidade. Conforme já dito, os elementos trazidos aos autos por cópias pelo contribuinte na primeira instância não eram aptos, por si sós, a comprovar o direito reclamado, dado que restritos às informações relativas às receitas financeiras e a outras receitas, situação em que não se tem por comprovada a base de cálculo da contribuição devida (faturamento), o que impede o confronto entre os valores recolhidos aos cofres públicos e aqueles efetivamente devidos. Fl. 230DF CARF MF Processo nº 10850.909104/201195 Acórdão n.º 9303006.193 CSRFT3 Fl. 5 4 Abrir a possibilidade de produção de novas provas, a meu ver, ainda que em consonância com o princípio da verdade material, configura afronta à obrigatoriedade de atuação da Administração em conformidade com a lei e o Direito e à adequação entre meios e fins (art. 2º, parágrafo único, da Lei nº 9.784, de 1999), assim como ao dever do administrado de apresentar os documentos comprobatórios do direito alegado antes das decisões administrativas e de prestar todas as informações necessárias ao esclarecimento dos fatos (art. 3º, III, e 4º, IV, da Lei nº 9.784, de 1999). Mesmo depois de ter sido alertado pelo julgador administrativo de primeira instância acerca da necessidade de apresentação de documentos comprobatórios da base de cálculo da contribuição (faturamento), com vistas a se apurar o alegado crédito pleiteado, o Recorrente não se predispôs a instruir o processo nesta segunda instância de forma efetiva, dado que nenhum documento contábilfiscal foi acrescentado aos autos". Como se observa, a decisão recorrida, acompanhou o fundamento esposado pela DRJ de origem, no sentido de que: “A planilha contendo as receitas financeiras e a cópia de parte do balancete contendo tais receitas não permitiriam apurar a base de cálculo com as exclusões pretendidas, para se chegar ao valor devido e comparálo com o valor recolhido, pois tais documentos permitem vislumbrar tão somente as receitas financeiras do período, mas não o faturamento da empresa. Assim, não haveria como se apurar o total da base de cálculo e a contribuição devida, para comparála com o recolhimento efetuado e concluirse pela eventual existência de recolhimento a maior, e em que montante”. Por outro lado, o acórdão paradigma nº 3801004.317, analisou tão somente a questão de mérito, dando provimento ao Recurso por entender que a Lei nº 9.718/98, conversão da Medida Provisória nº 1.724/98, estendeu o conceito de faturamento, base de cálculo das contribuições PIS e Cofins, definindoo no §1º do art. 3º como a receita bruta, assim entendida a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevante o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas. Sem embargo, o Colegiado decidiu o direito creditório da contribuinte com fundamento no artigo 62A do Regimento Interno do Conselho Administrativo Fiscais (CARF), aprovado pela Portaria nº256/2009 do Ministro da Fazenda, com alterações das Portarias 446/2009 e 586/2010, que dispõe que os Conselheiros têm que reproduzir as decisões do STF proferidas na sistemática da repercussão geral. Como se vê, o acórdão paradigma não trouxe outro fundamento com relação as provas, e não se verifica demonstrada semelhança fática e divergência jurisprudencial. Vejamos: "No mérito, entendo que assiste razão à recorrente, senão vejamos: A Lei nº 9.718/98, conversão da Medida Provisória nº 1.724/98, estendeu o conceito de faturamento, base de cálculo das contribuições PIS e Cofins, definindoo no §1º do art. 3º como a receita bruta, assim entendida a totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica, sendo irrelevante o tipo de atividade por ela exercida e a classificação contábil adotada para as receitas. Neste sentido, entendo estarmos diante da hipótese prevista no artigo 62A do Regimento Interno do Conselho Administrativo Fiscais (CARF), aprovado pela Portaria nº 256/2009 do Ministro da Fazenda, com alterações das Portarias 446/2009 e 586/2010, que dispõe que os Conselheiros têm que reproduzir as decisões do STF proferidas na sistemática da repercussão geral, conforme colacionado acima. Desta forma, deve ser reconhecido o direito creditório do Recorrente caso exista, em seu favor, crédito oriundo de recolhimentos efetuados a título de COFINS na forma da Lei nº 9.718/98, excluindose da sua base de cálculo as receitas não compreendidas no conceito de Fl. 231DF CARF MF Processo nº 10850.909104/201195 Acórdão n.º 9303006.193 CSRFT3 Fl. 6 5 faturamento nos moldes da Lei Complementar nº 70/91, nos termos dos conceitos já firmados pelo Supremo Tribunal Federal". No mesmo sentido, o acórdão paradigma nº 3801004.316, mesmo relator do acórdão, nº 3801004.317, deu provimento ao Recurso Voluntário,para reconhecer o direito à restituição dos pagamentos a maior da contribuição, com fundamento na declaração de inconstitucionalidade do § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/1998. Como se observa, o acórdão paradigma nada tratou sobre provas, e não se comprova semelhança fática e divergência jurisprudencial. Vejamos: "É importante consignar que compete a autoridade administrativa, com base na escrita fiscal e contábil, efetuar os cálculos e apurar o valor do direito creditório. Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário, para reconhecer o direito à restituição dos pagamentos a maior da contribuição, com fundamento na declaração de inconstitucionalidade do § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/1998". Como visto, contexto fático e jurisprudencial exposto nas decisões paradigmas e no acórdão recorrido, patente pela leitura das passagens acima transcritas, demanda do mesmo modo, que o recurso especial não seja conhecido em face da ausência de demonstração de que, discutindo casos similares, foi dada interpretação jurídica diversa. Neste sentido, O Manual de Exame de Admissibilidade de Recurso Especial (versão atualizada, pg.30) estabelece que: O RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015, assim estabeleceu, em seu art. 67, § 1º, do Anexo II: "§ 1º Não será conhecido o recurso que não demonstrar de forma objetiva qual a legislação que está sendo interpretada de forma divergente." Em 15 de fevereiro de 2016, foi publicada a Portaria MF nº 39, de 12 de fevereiro de 2016, com a seguinte redação: “§ 1º Não será conhecido o recurso que não demonstrar a legislação tributária interpretada de forma divergente.” Neste sentido, não tomo conhecimento do Recurso interposto pela Contribuinte, em razão de não ter sido comprovada divergência, e similitude fática, nos termos do § 1º da Portaria MF nº 39, de 12 de fevereiro de 2016." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial do contribuinte não foi conhecido. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 232DF CARF MF
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Numero do processo: 13971.720020/2007-40
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 13 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Jan 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/07/2005 a 30/09/2005
NULIDADE. DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA.
Anula-se a decisão de 1ª instância se constatada a não apreciação de documentos apresentados na manifestação de inconformidade.
Recurso Voluntário provido.
Aguardando Nova Decisão.
Numero da decisão: 3402-004.817
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, por anular a decisão recorrida nos termos do voto da relatora.
(Assinado com certificado digital)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente substituto.
(Assinado com certificado digital)
Maysa de Sá Pittondo Deligne - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais De Laurentiis Galkowicz, Larissa Nunes Girard (Suplente), Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: MAYSA DE SA PITTONDO DELIGNE
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Recorrente DF MADEIRAS LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/07/2005 a 30/09/2005 NULIDADE. DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA. Anulase a decisão de 1ª instância se constatada a não apreciação de documentos apresentados na manifestação de inconformidade. Recurso Voluntário provido. Aguardando Nova Decisão. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, por anular a decisão recorrida nos termos do voto da relatora. (Assinado com certificado digital) Waldir Navarro Bezerra Presidente substituto. (Assinado com certificado digital) Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Pedro Sousa Bispo, Thais De AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 97 1. 72 00 20 /2 00 7- 40 Fl. 674DF CARF MF 2 Laurentiis Galkowicz, Larissa Nunes Girard (Suplente), Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório Tratase de pedido de ressarcimento de saldo credor do IPI relativo ao 3º trimestre de 2005, transmitido em 14/10/2005 (efls. 337), com pedidos de compensação vinculados para aproveitamento do crédito transmitidas em outubro e dezembro/2005 (efls. 3985). Por entender que os pedidos protocolados não teriam sido analisados no prazo adequado (juntamente com outros PER formulados entre 30/09/2003 e 28/04/2006), a empresa impetrou o Mandado de Segurança n° 2006.72.05.0051978/SC, cuja sentença determinou que o processo administrativo fosse instruído em 30 dias e decidido nos trinta dias seguintes (efl. 89/103). Intimado a apresentar, em vinte dias, a documentação necessária para comprovar a certeza e liquidez do direito creditório, o contribuinte nada apresentou e solicitou mais quinze dias de prorrogação. Por ultrapassar o prazo determinado pela ordem judicial, a prorrogação foi negada e o pleito indeferido pela falta de comprovação do crédito alegado. O despacho decisório foi ementado nos seguintes termos: "Assunto : Imposto sobre Produtos Industrializados. Pedido de Ressarcimento. Declaração de Compensação. Créditos Básicos. Art. 11 da Lei n° 9.779, de 19/01/99. Período : 3º trimestre/2005 Ementa : O saldo credor do IPI, acumulado em cada trimestrecalendário, decorrente de aquisição de matériaprima (MP), produto intermediário (PI) e material de embalagem (ME), aplicados na industrialização, inclusive de produto isento ou tributado A alíquota zero, que o contribuinte não puder compensar com o IP1 devido na saída de outros produtos, poderá ser utilizado de conformidade com o disposto nos art. 73 e 74 da Lei n° 9.430, de 27/12/1996, observadas as normas expedidas pela Secretaria da Receita Federal do Ministério da Fazenda. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado. SOLICITAÇÃO INDEFERIDA." (efl. 241 grifei) Inconformada, a empresa apresentou tempestiva Manifestação de Inconformidade alegando, em síntese, que nada impediria que a autoridade administrativa solicitasse ao Poder Judiciário a dilação do prazo determinado pela ordem judicial, mormente em razão do volume e complexidade dos documentos exigidos, que deveriam ser analisados com fulcro no principio da verdade material. Naquela oportunidade, informa que estaria anexando aos autos documentos que comprovariam a validade do crédito pleiteado (efls. 455/595) Em análise da manifestação, a DRJ de Ribeirão Preto proferiu julgamento entendendo que não caberia à DRJ analisar os documentos acostados junto à manifestação de inconformidade. O acórdão n.º 1420.735 foi ementado nos seguintes termos: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI PERÍODO DE APURAÇÃO: 01/07/2005 a 30/09/2005 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. ONUS DA PROVA. ônus processual da interessada fazer a prova dos fatos constitutivos de seu direito. Fl. 675DF CARF MF Processo nº 13971.720020/200740 Acórdão n.º 3402004.817 S3C4T2 Fl. 675 3 FALTA DE ATENDIMENTO A INTIMAÇÃO. Quando documentos solicitados ao interessado forem necessários à apreciação de pedido formulado, o não atendimento no prazo fixado pela Administração para a respectiva apresentação implicará arquivamento do processo. Solicitação Indeferida" (efl. 605) Intimada desta decisão em 29/10/2008 (efl. 617), a empresa apresentou Recurso Voluntário em 27/11/2008 (efl. 621), requerendo a reforma da decisão recorrida por afronta ao princípio da verdade material e cerceamento ao direito de defesa, vez que em nenhum momento nos presentes autos os documentos apresentados pela Recorrente foram analisados pelas autoridades fiscais. Requer que seja anulado todo o processo administrativo, desde o despacho decisório, para que seja confirmada a validade do crédito do contribuinte à luz dos documentos acostados aos autos. Em seguida, os autos foram direcionados a este Conselho. É o relatório. Voto Conselheira Relatora Maysa de Sá Pittondo Deligne. O Recurso Voluntário é tempestivo e dele tomo conhecimento. Atentandose para os presentes autos, vislumbrase que cabe razão ao Recorrente, devendo ser anulada a decisão recorrida para que seja proferida outra considerando os documentos acostados aos autos, inclusive com a aparentemente necessária conversão do processo em diligência para que a fiscalização possa avaliar a validade do crédito objeto deste processo. Com efeito, o simples relato do processo conseguiu evidenciar que em nenhum momento nos presentes autos, mesmo após a apresentação de documentos na manifestação de inconformidade, foi verificada pela fiscalização a validade do crédito tomado pelo contribuinte. Mesmo com a apresentação de documentos que aparentemente comprovam direito creditório na Manifestação de Inconformidade, a DRJ se negou a analisar a validade do crédito, afirmando genericamente: "De plano, com relação aos documentos só apresentados após a instauração do contencioso administrativo, concluo que o exame de seu mérito é prejudicado, pois, observo que não cabe as Delegacias de Julgamento suprir ou substituir a competência de outras unidades da SRF, conforme determina seu Regimento Interno, o Decreto n° 70.235/72 e pelo disposto nos artigo 41 a 49 da IN/SRF n° 600/2005. Caso contrário ocorreria, por parte da DRJ, a supressão de uma instância administrativa, e a ilegal avocação de competência para conceder direitos creditórios ou homologar as compensações pleiteadas." (efl. 607 grifei) Fl. 676DF CARF MF 4 Se olvida a DRJ que, em conformidade com o art. 74, § 11º da Lei n.º 9.430/961, a Manifestação de Inconformidade observa o rito do Decreto n.º 70.235/72. E, em conformidade com o art. 16, III e §4º do referido Decreto, esta defesa representa justamente a oportunidade para apresentar documentos e alegações que refutem as razões do despacho decisório: "Art. 16. A impugnação mencionará: (...) III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) IV as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) V se a matéria impugnada foi submetida à apreciação judicial, devendo ser juntada cópia da petição. (...) § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. § 5º A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior. § 6º Caso já tenha sido proferida a decisão, os documentos apresentados permanecerão nos autos para, se for interposto recurso, serem apreciados pela autoridade julgadora de segunda instância." Ora, entendendo o julgador da DRJ que o processo não se encontrava apto para julgamento, vez que necessário analisar a validade do direito creditório da empresa à luz da documentação apresentada, caberia a conversão do processo em diligência na forma facultada pelo art. 18 do Decreto n.º 70.235/722, mas não apenas ignorar a documentação tempestivamente acostada aos autos com a manifestação de inconformidade, em verdadeira preterição do direito de defesa. 1 "§ 11. A manifestação de inconformidade e o recurso de que tratam os §§ 9o e 10 obedecerão ao rito processual do Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972, e enquadramse no disposto no inciso III do art. 151 da Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional, relativamente ao débito objeto da compensação.(Redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003)" 2 "Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) § 1º Deferido o pedido de perícia, ou determinada de ofício, sua realização, a autoridade designará servidor para, como perito da União, a ela proceder e intimará o perito do sujeito passivo a realizar o exame requerido, cabendo a ambos apresentar os respectivos laudos em prazo que será fixado segundo o grau de complexidade dos trabalhos a serem executados.(Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) § 2º Os prazos para realização de diligência ou perícia poderão ser prorrogados, a juízo da autoridade. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) § 3º Quando, em exames posteriores, diligências ou perícias, realizados no curso do processo, forem verificadas incorreções, omissões ou inexatidões de que resultem agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, será lavrado auto de infração ou emitida notificação de lançamento complementar, devolvendose, ao sujeito passivo, prazo para impugnação no concernente à matéria modificada. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993)" Fl. 677DF CARF MF Processo nº 13971.720020/200740 Acórdão n.º 3402004.817 S3C4T2 Fl. 676 5 Sob esta perspectiva, mostrase nula a decisão na forma do art. 59, II, do Decreto n.º 70.235/72: "Art. 59. São nulos: (...) II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa." Ora, uma vez que os documentos não foram apreciados pela autoridade julgadora de 1ª instância, uma análise por este Conselho irá implicar verdadeira supressão de instância, o que não se pode admitir, sendo necessário o reconhecimento da nulidade da decisão recorrida. O cerceamento de defesa decorre da necessidade da análise de todos os elementos probatórios apresentados pelo contribuinte que aparentemente são relevantes para o devido deslinde do presente processo, em especial à luz do princípio da verdade material, elucidado com clareza pelo Conselheiro Diego Diniz Ribeiro em seus votos, como o abaixo transcrito do Acórdão n.º 3402003.306, de 23/08/2016: "12. Primeiramente, não é demais lembrar que em matéria de processo administrativo vige o princípio da verdade material, valor normativo esse que não é aqui empregado como uma ferramenta mágica, semelhante a uma "varinha de condão" dotada de aptidão para "validar" preclusões e atecnias e transformar tais defeitos em um processo administrativo "regular". Com a devida vênia, este tipo de interpretação a respeito do princípio da verdade material só se presta a apequenar e, até mesmo, achincalhar esta importante norma. 13. Assim, quando se fala em verdade material o que se quer aqui exprimir é a possibilidade de reconstruir fatos sociais no universo jurídico por intermédio de uma metodologia jurídica mais flexível, ou seja, menos apegada à forma, o que se dá, preponderantemente, em razão da relevância do valor jurídico extraído do fato que se pretende provar juridicamente. Em outros termos, "verdade material" é sinônimo de uma maior flexibilização probante em sede de processos administrativos, o que, se for usado com a devida prudência à luz do caso decidendo, só tem a contribuir para a qualidade da prestação jurisdicional atipicamente prestada em tais processos." (grifei) Diante do exposto, voto dar provimento ao Recurso Voluntário para anular a decisão recorrida por ter deixado de enfrentar as provas apresentadas nos autos quando da apresentação da manifestação de inconformidade. Desta forma, como exigido pelo §2º do art. 59 do Decreto n.º 70.235/723, para o devido prosseguimento deste processo, o processo deve retornar à Delegacia de Julgamento competente para proferir nova decisão que enfrente as provas juntadas aos autos, avaliando sua pertinência para a validade do crédito pleiteado pelo contribuinte nos presentes autos, inclusive com a conversão do processo em diligência caso entenda necessário. 3 "Art. 59 (...) § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo." Fl. 678DF CARF MF 6 É como voto. Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora Fl. 679DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11065.002315/2008-19
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Sep 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Nov 27 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-005.842
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
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AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 00 23 15 /2 00 8- 19 Fl. 367DF CARF MF Processo nº 11065.002315/200819 Acórdão n.º 9202005.842 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente em exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 15979.000274/200701. Tratase de auto de infração, referente às contribuições devidas ao INSS, destinadas à Seguridade Social. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Fl. 368DF CARF MF Processo nº 11065.002315/200819 Acórdão n.º 9202005.842 CSRFT2 Fl. 0 3 Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202005.782, de 26/09/2017, proferido no julgamento do processo 15979.000274/200701, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202005.782): Pressupostos De Admissibilidade O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Do mérito Aplicação da multa retroatividade benigna Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade Fl. 369DF CARF MF Processo nº 11065.002315/200819 Acórdão n.º 9202005.842 CSRFT2 Fl. 0 4 benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdãonº9202004.262 (Sessão de23dejunhode2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. Fl. 370DF CARF MF Processo nº 11065.002315/200819 Acórdão n.º 9202005.842 CSRFT2 Fl. 0 5 A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º doart. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pelaMP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas noart. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdãonº9202004.499 (Sessão de 29desetembrode2016): Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: Fl. 371DF CARF MF Processo nº 11065.002315/200819 Acórdão n.º 9202005.842 CSRFT2 Fl. 0 6 I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao Fl. 372DF CARF MF Processo nº 11065.002315/200819 Acórdão n.º 9202005.842 CSRFT2 Fl. 0 7 raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na Fl. 373DF CARF MF Processo nº 11065.002315/200819 Acórdão n.º 9202005.842 CSRFT2 Fl. 0 8 NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). Fl. 374DF CARF MF Processo nº 11065.002315/200819 Acórdão n.º 9202005.842 CSRFT2 Fl. 0 9 § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de Fl. 375DF CARF MF Processo nº 11065.002315/200819 Acórdão n.º 9202005.842 CSRFT2 Fl. 0 10 ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Por fim, destacase que, independente do lançamento fiscal analisado referirse a Auto de Infração de Obrigação Principal (AIOP) e Acessória (AIOA), este último consubstanciado na omissão de fatos geradores em GFIP, lançados em conjunto, ou seja formalizados em um mesmo processo, ou em processos separados, a aplicação da legislação não sofrerá qualquer alteração, posto que a Portaria PGFN/RFB nº 14/2009 contempla todas as possibilidades, já que a tese ali adotada tem por base a natureza das multas. Conclusão Face o exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL, para, no mérito, DAR LHE PROVIMENTO, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. É como voto. Face o exposto, voto por conhecer do Recurso Especial e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 376DF CARF MF Processo nº 11065.002315/200819 Acórdão n.º 9202005.842 CSRFT2 Fl. 0 11 Fl. 377DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19679.001177/2005-00
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jan 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/04/2004 a 30/06/2004
PEDIDO DE RESSARCIMENTO. ÔNUS PROBATÓRIO. APRESENTAÇÃO EXTEMPORÂNEA DOS DOCUMENTOS. FORÇA MAIOR.
Comprovado pelo contribuinte que não apresentou a documentação que comprova o seu direito ao crédito pleiteado em razão de motivo de força maior, apresentando-o posteriormente, é dever da autoridade administrativa analisar o mérito do seu pedido, à luz desta documentação.
Numero da decisão: 3402-004.775
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário para dar provimento parcial, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra (Presidente substituto).
(assinado digitalmente)
Carlos Augusto Daniel Neto - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (Presidente substituto), Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Larissa Nunes Girard (Suplente), Pedro Sousa Bispo.
Nome do relator: CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário para dar provimento parcial, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra (Presidente substituto). (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto - Relator. Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (Presidente substituto), Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Larissa Nunes Girard (Suplente), Pedro Sousa Bispo.
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ÔNUS PROBATÓRIO. APRESENTAÇÃO EXTEMPORÂNEA DOS DOCUMENTOS. FORÇA MAIOR. Comprovado pelo contribuinte que não apresentou a documentação que comprova o seu direito ao crédito pleiteado em razão de motivo de força maior, apresentandoo posteriormente, é dever da autoridade administrativa analisar o mérito do seu pedido, à luz desta documentação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso voluntário para dar provimento parcial, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra (Presidente substituto). (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Relator. Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (Presidente substituto), Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz, Larissa Nunes Girard (Suplente), Pedro Sousa Bispo. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 67 9. 00 11 77 /2 00 5- 00 Fl. 5011DF CARF MF 2 Relatório Tratase de processo administrativo decorrente de manifestação de inconformidade, apresentada pela empresa após o Despacho Decisório exarado por autoridade da Receita Federal do Brasil, que indeferiu pedido de ressarcimento e não homologou as compensações declaradas anexas aos presentes autos. O contribuinte pretendeu compensar o seu crédito tributário com créditos presumidos de IPI, referentes à Lei nº 9.363/96 e Portaria MF nº 38/97, referentes ao 2º trimestre de 2004, valor que seria aproveitado nas Dcomps anexas às fls. 324331. A Delegacia de origem, mediante despacho decisório, indeferiu o pedido de ressarcimento, sem análise do mérito, aduzindo que o contribuinte deixara de apresentar, embora intimado, os documentos solicitados para a comprovação da liquidez e certeza do direito creditório, não homologando as compensações relacionadas no processo. O contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, alegando: i) a ocorrência de caso fortuito e força maior a impedir a empresa de atender tempestivamente à intimação fiscal; ii) apresentou toda a documentação solicitada na intimação fiscal nº 211/2009; iii) ausência de máfé do contribuinte; iv) inaplicabilidade da IN nº 900/2008 ao caso; v) necessidade da autoridade administrativa buscar a verdade material. A DRJ julgou seu pleito improcedente, reiterando os fundamentos do despacho decisório. Inconformado, o contribuinte apresentou seu Recurso Voluntário, repisando as razões de sua manifestação de inconformidade. É o relatório, em síntese. Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido por este Colegiado. Como se depreende da precisa delimitação da lide feita no âmbito da decisão recorrida, tratase de uma discussão eminentemente procedimental, visto que o despacho denegatório do ressarcimento e da homologação se deu por não apresentação dos documentos solicitados. Através do termo de intimação fiscal nº 04/2010, o Recorrente foi intimado em 15/01/2010, a apresentar, no prazo de 10 dias: i) Livro RAIPI referente aos períodos dos pedidos de compensação (2003 e 2004); apresentação do RAIPI em que conste o estorno do crédito pleiteado; iii) relação dos produtos fabricados nos períodos em epígrafe e a sua classificação fiscal; iv) listagem completa das notas fiscais de venda emitidas nos períodos; v) listagem completa das notas fiscais de compra; vi) esclarecer se o crédito de IPI pleiteado foi Fl. 5012DF CARF MF Processo nº 19679.001177/200500 Acórdão n.º 3402004.775 S3C4T2 Fl. 3 3 gerado com fundamento no art. 11 da Lei nº 9779/99 ou com fundamento na Portaria MF nº 38/97. Em 28/01/2010, um dia após o término do prazo, o contribuinte apresentou manifestação solicitando dilação de prazo de trinta dias, pedido este que foi sumariamente negado. Na sua manifestação de inconformidade, o contribuinte afirma que em razão do pedido de compensação ter sido realizado há quase sete anos, acreditava que o mesmo fora homologado, razão pela qual a documentação foi encaminhada para o local físico da sede dela, para arquivamento. Todavia, em 2008 conforme provas constantes em fls. 396 e ss. as dependências físicas da sede foram atingidas por fortes chuvas, perdurando as obras de reforma até fevereiro de 2010, isto é, após a intimação fiscal. Em razão do sinistro, os arquivos da empresa foram abrigados em outros lugares, inclusive fora da sede da empresa e no escritório de contabilidade que lhe prestava serviço, razão esta que dificultou o atendimento da intimação no prazo de 10 dias. Prova do empenho da Recorrente em apresentar toda a documentação foi que na primeira oportunidade que teve, com a sua manifestação de inconformidade, juntou farta quantidade de documentos que atenderiam à intimação fiscal anterior ao despacho decisório. O art. 24 da Lei 9.784/99 dispõe expressamente que: "Inexistindo disposição específica, os atos do órgão ou autoridade responsável pelo processo e dos administrados que dele participem devem ser praticados no prazo de cinco dias, salvo motivo de força maior.". É dizer, diante das situações que se qualifiquem como força maior, há que se afastar a limitação temporal para que se realize determinado ato, adequandolhe ao período razoável à complexidade da situação concreta. Da mesma forma, no art. 16, §4º do Decreto 70.235/72, ao tratar da apresentação de provas na impugnação, aduz: § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; Dos dois dispositivos, podese abduzir claramente uma diretriz procedimental no âmbito administrativo que de resto subsiste no âmbito do processo civil e é assaz razoável dentro de um contexto de um contraditório e ampla defesa materiais, e não meramente formais de que os prazos para o atendimento a ônus probatórios devem ser flexibilizados diante de situações de força maior. No caso em tela, restou provado nos autos que o sinistro ocorrido obrigou a empresa a alocar seus documentos em outros locais, o que notoriamente dificulta a reunião de todos esses dados, mas tanto o despacho decisório quanto a decisão recorrida se apegaram formalmente ao fato do pedido de prorrogação de prazo ter sido realizado um dia após o término do prazo da intimação fiscal. Fl. 5013DF CARF MF 4 A autoridade de origem simplesmente recusou o pedido de prorrogação, ao indeferilo e proceder diretamente a negativa do crédito por ausência de provas. A DRJ sequer compulsou a documentação acostada aos autos, que decerto poderia demonstrar a procedência do pedido do contribuinte. Há que se memorar que é critério da atuação da administração no processo administrativo, nos termos do art. 2º, par. único, VI da Lei nº 9.784/99, a "adequação entre meios e fins, vedada a imposição de obrigações, restrições e sanções em medida superior àquelas estritamente necessárias ao atendimento do interesse público". Desse modo, em primeiro lugar, há que se verificar que o prazo se apresenta como irrazoavelmente exíguo diante das circunstâncias concretas e, além disso, a medida de se negar o crédito solicitado sem analisar a farta documentação juntada pelo Contribuinte se afigura desproporcional em relação à finalidade da distribuição do ônus probatório neste procedimento visto que este foi atendido pelo Recorrente, sob justificativa para a extemporaneidade da apresentação. Assim, voto por dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para reformar o Despacho Decisório, determinando que a autoridade de origem examine a farta documentação acostada pelo contribuinte nestes autos, para fim de verificação do mérito do pleito creditório. É como voto. Carlos Augusto Daniel Neto Relator Fl. 5014DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.726442/2011-11
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 17 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Nov 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Ano-calendário: 2007
CONTRATO DE PROMESSA DE COMPRA E VENDA. EFEITOS TRIBUTÁRIOS.
Demonstrado nos autos que os contratos formalizados pelo sujeito passivo com terceiros tem a natureza de promessa de compra e venda preliminar, aplicam-se a eles os efeitos tributários do contrato de compra e venda de imóveis.
ATIVIDADE IMOBILIÁRIA. VENDAS A PRAZO. APROPRIAÇÃO DA RECEITA.
A contribuição incidente na hipótese de contratos, com prazo de execução superior a 1 (um) ano, de construção por empreitada será calculada sobre a receita apurada de acordo com os critérios de reconhecimento adotados pela legislação do imposto de renda, previstos para a espécie de operação. Acatada a possibilidade de diferimento do lucro tributável de acordo com o percentual da receita efetivamente recebida, a base de cálculo da contribuição será essa mesma receita.
Numero da decisão: 1402-002.774
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício e dar provimento parcial ao recurso voluntário para reduzir a base tributável ao valor de R$ 60.000.000,00; para o fato gerador 08/02/2007, e R$ 7.629.856,39 para o fato gerador 13/06/2007.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Ailton Neves da Silva, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto. Ausente o Conselheiro Marco Rogério Borges.
Nome do relator: LEONARDO DE ANDRADE COUTO
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2007 CONTRATO DE PROMESSA DE COMPRA E VENDA. EFEITOS TRIBUTÁRIOS. Demonstrado nos autos que os contratos formalizados pelo sujeito passivo com terceiros tem a natureza de promessa de compra e venda preliminar, aplicam-se a eles os efeitos tributários do contrato de compra e venda de imóveis. ATIVIDADE IMOBILIÁRIA. VENDAS A PRAZO. APROPRIAÇÃO DA RECEITA. A contribuição incidente na hipótese de contratos, com prazo de execução superior a 1 (um) ano, de construção por empreitada será calculada sobre a receita apurada de acordo com os critérios de reconhecimento adotados pela legislação do imposto de renda, previstos para a espécie de operação. Acatada a possibilidade de diferimento do lucro tributável de acordo com o percentual da receita efetivamente recebida, a base de cálculo da contribuição será essa mesma receita.
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ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Anocalendário: 2007 CONTRATO DE PROMESSA DE COMPRA E VENDA. EFEITOS TRIBUTÁRIOS. Demonstrado nos autos que os contratos formalizados pelo sujeito passivo com terceiros tem a natureza de promessa de compra e venda preliminar, aplicamse a eles os efeitos tributários do contrato de compra e venda de imóveis. ATIVIDADE IMOBILIÁRIA. VENDAS A PRAZO. APROPRIAÇÃO DA RECEITA. A contribuição incidente na hipótese de contratos, com prazo de execução superior a 1 (um) ano, de construção por empreitada será calculada sobre a receita apurada de acordo com os critérios de reconhecimento adotados pela legislação do imposto de renda, previstos para a espécie de operação. Acatada a possibilidade de diferimento do lucro tributável de acordo com o percentual da receita efetivamente recebida, a base de cálculo da contribuição será essa mesma receita. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. 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Fl. 2560DF CARF MF Processo nº 10580.726442/201111 Acórdão n.º 1402002.774 S1C4T2 Fl. 2.560 3 Relatório Trata o presente de auto de infração para cobrança da Cofins referente a fatos geradores ocorridos no anocalendário de 2007 no montante de R$ 127.502.674,53; aí incluídos multa de ofício no percentual de 75% e juros de mora. A autuação é decorrente dos mesmos fatos tidos como infração do IRPJ e da CSLL e autuados no processo 10580.726441/201176. No que interessa a este processo, de acordo com o Termo de Verificação (TV), comum a todas as exigências, a interessada ao longo dos anos exerceu com habitualidade operações de compra e venda de imóveis. Sendo assim, a venda de ativos imobiliários não poderia ser tida como eventual e caberia o levantamento das vendas efetuadas para submetêlas `tributação do PIS e da Cofins. Ainda segundo o TV, a interessada formalizou Termos de Acordo e Compromisso (TACs) com diversa empresas pelo qual foram por ela disponibilizados lotes para construção de empreendimentos, operações essas que pelas suas características representaram autêntica compra e venda, cabendo a tributação dos valores envolvidos como receita de vendas. Em impugnação, a interessada apresenta vastos argumentos para defender a inexistência de operação de compra e venda. Aduz que alguns imóveis não lhe pertenceriam e portanto não poderia ser incluídos no procedimento. Sustenta que, mesmo na hipótese de serem operações de compra e venda, por se tratar de bens do ativo permanente vendidos a prazo, deveria ter sido utilizada a sistemática de apuração do art. 421, do RIR/99. Por fim, acrescenta que, mesmo que fossem tidos como bens do circulante, caberia o diferimento do lucro nos termos do art. 413, do RIR/99. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento prolatou o Acórdão 15031.006 acolhendo parcialmente o pleito no que se refere ao argumento de que alguns dos imóveis pertenceriam a terceiros, não cabendo à recorrente o ganho na alienação a eles referente. Cientificada, a interessada recorreu a esta Corte, ratificando em essência as razões expedidas na peça impugnatória. É o Relatório. Fl. 2561DF CARF MF 4 Voto Conselheiro Leonardo de Andrade Couto Relator O recurso é tempestivo e foi interposto por signatário devidamente legitimado, motivo pelo qual dele conheço. Essa autuação tem origem nos mesmos fatos tratados nos autos do processo 10580.726441/201176 referente ao IRPJ e à CSLL que teve deferimento parcial na análise da peça impugnatória pela DRJ e, julgado o recurso voluntário neste colegiado, foi prolatado o Acórdão 1402001.664 pelo qual foilhe negado provimento. O recurso voluntário aqui interposto segue a mesma linha do formalizado naqueles autos. Sendo assim, a decisão lá prolatada consubstanciada no Acórdão 1402001.664 aplicase aqui em sua quase integralidade. Em relação ao recurso de ofício, o relator assim se pronunciou: O Termo de Acordo e Compromisso de fls. 201 e seguintes foi firmado, de um lado, entre a Patrimonial Saraíba e a FB&A Empreendimentos Imobiliários, atual GOBI, denominadas de “SARAÍBA” e de outro a empresa TENELA, denominada de EMPREENDEDORA, estava relacionado a imóveis pertencentes à FB&A Empreendimentos Imobiliários e à Patrimonial Saraíba. A autoridade fiscal efetuou o lançamento considerando tais imóveis como pertencentes exclusivamente à Patrimonial Saraíba, sem se ater às demais previsões contidas no referido instrumento, dentre as quais a que se referia à destinação da receita estimada. No acórdão recorrido, à fl. 1200, a autoridade fiscal analisa a quem pertence cada uma das áreas que relaciona e, ao final, exclui da base de cálculo da tributação o valor correspondente às áreas que não pertenciam à recorrente. [...] Pelas razões acima expostas, em relação a este ponto, concluise que não merece provimento o recurso de ofício. Pela relação de causa e efeito que une as duas autuações, conduzo meu voto na mesma linha e nego provimento ao recurso de ofício. No que se refere ao recurso voluntário o colegiado entendeu que caberia manter a exigência em relação à parcela da autuação não exonerada pela instância de piso. O relator foi vencido nessa parte e o voto vencedor assim se manifestou: Presto meus respeitos ao Ilustre Relator pela proficiência com que conduziu seu entendimento no bem fundamentado voto. Entretanto, no que se refere à exigência mantida pela decisão recorrida , ouso divergir das conclusões por ele emanadas no que se refere aos itens 001 (omissão de receitas decorrentes da venda de imóveis: R$ 662.666.491,59) e 004 (diferimento indevido na tributação do ganho obtido na venda de imóvel: R$ 6.233.918,48) do Auto de Infração. Em primeiro lugar, cabe definir objetivamente a atividade exercida pela recorrente. Fl. 2562DF CARF MF Processo nº 10580.726442/201111 Acórdão n.º 1402002.774 S1C4T2 Fl. 2.561 5 Pela descrição dos fatos contida no Termo de Verificação, pareceme claro que a interessada exerce com habitualidade a atividade de compra e venda de imóveis. Tanto a planilha denominada “Mutações de Estoque de Imóveis” como o “Demonstrativo de Venda de Imóveis” indicam a realização de operações de compra em venda em valores significativos desde o anocalendário de 1996. Pelo exame desses indicadores constatase que a interessada, entre os anos calendário de 2000 e 2007, auferiu receita da ordem de dezenas de milhões de reais frente a uma receita de R$ 200.000,00; aproximadamente, com administração de imóveis. Ao contrário do alegado, e conforme Quadro indicativo no bojo do voto condutor do acórdão hostilizado, mostrase relevante o volume de operações com terceiros relativamente àquelas realizadas com coligadas e controladas. Assim, os valores recebidos em decorrência dessas operações constituemse em receita operacional de vendas e não estão sujeitos à apuração de ganhos de capital. Mostrase equivocado o procedimento do sujeito passivo em registrar no ativo permanente os imóveis em questão. O correto seria consideralos como integrantes do estoque, no ativo circulante. Definido que a compra e venda de imóveis é atividade principal da recorrente, não se justifica a aplicabilidade ao caso do diferimento estabelecido no art. 421 do RIR/99. Especificamente no que se refere à exclusão indevida do valor de R$ 6.233.918,48 ocorrida em 2007, a questão transcende o até aqui exposto, pois esse montante foi adicionado ao resultado no anocalendário seguinte. Tratarseia, em tese, de simples postergação do imposto devido. Entretanto, conforme informação trazida aos autos pela decisão recorrida, a cópia da DIPJ correspondente ao anocalendário de 2008 indica a apuração de prejuízo fiscal nesse período, não tendo ocorrido o pagamento posterior de imposto que caracterizaria a postergação. Por esse motivo, entendo que a autuação deve ser mantida quanto a esse item. No que se refere à omissão de receitas decorrente da venda de imóveis, o cerne da questão é a definição da natureza jurídica dos Termos de Acordo e Compromisso (TAC). Nesse ponto, a análise do tema foi muito bem conduzida pela decisão recorrida, motivo pelo qual adotarei aqui pontos de vista lá explanados. Preliminarmente, tendo como base o art. 117 do CTN, na existência de cláusulas condicionais suspensivas no contrato sob exame, o negócio jurídico a que ele se refere só se considera perfeito e acabado quando implementada tal condição. Além disso, a eficácia do contrato de compra e venda de imóveis não se vincula necessariamente à entrega do bem, bastando a formalização do compromisso numa promessa de compra e venda, desde que esse instrumento contenha os requisitos essenciais do contrato principal, nos termos do art. 462, do Código Civil de 2002, exceto por óbvio quanto à forma. Lembrando que para efeitos tributários a legislação não faz distinção entre a promessa de compra e venda e o contrato formal dessa natureza, a análise dos TACs indica a existência dos elementos essenciais de que trata o parágrafo anterior. Fl. 2563DF CARF MF 6 A recorrente manifesta interesse em alienar os imóveis e as incorporadoras em adquirilos. A interessada também admite receber o preço em moeda corrente nas condições lá estabelecidas. Por fim, os imóveis estão perfeitamente identificados. Assim, identificadas as partes capazes, o objeto e a forma de recebimento do preço. Em termos formais, o TAC se enquadraria no conceito de contrato preliminar de promessa de compra e venda de imóveis. Quanto ao conteúdo, um fato crucial é o dispositivo contido na Lei dos condomínios e incorporações (4.591/64) que ao tratar das obrigações do incorporador estabelece a necessidade de apresentação, nos Órgãos competentes, do título de propriedade do terreno ou promessa de compra e venda, para dar início aos procedimentos formais da incorporação. Como poderiam as denominadas empreendedoras adotar os procedimentos necessários à incorporação sem que fossem proprietárias dos imóveis? Tendo em vista que já houve a aprovação de alguns loteamentos pela Prefeitura, essa condição teria sido suprida. Não procede a argüição da necessidade de celebração dos compromissos de compra posteriores para o desenvolvimento do projeto. Conforme bem esclarecido pela decisão recorrida, o contrato preliminar não transfere propriedade, apenas acorda a sua transferência com a assinatura do contrato de compra e venda, no caso de promessa, ou seja, o acerto é para a assinatura do contrato principal. Ainda de acordo com o acórdão questionado, a interessada se compromete a assinar os contratos principais, uma vez elaborados os projetos e antes de apresentados para a aprovação da Prefeitura (cláusula 2.4), vinculando o recebimento do preço à venda das unidades autônomas. Assim, só não será assinado o contrato de compra e venda, caso se concretizem determinadas condições, de maneira geral pelo descumprimento do estabelecido no contrato preliminar. Tratase de condição resolutória, e não suspensiva. Prossegue o voto condutor salientando que a previsão da cláusula não altera em nada a característica do contrato. É mais seguro às partes que, antes de realizar a obra, seja assinado o contrato transferindo a propriedade, embora seja permitida a juntada, no memorial de incorporação, de promessa de compra e venda devidamente registrada no respectivo registro de imóveis. Para sustentar a impossibilidade dos TACs estabelecerem um compromisso de compra e venda, a recorrente afirma que teriam por objeto apenas disponibilizar acesso aos terrenos para que houvesse uma associação entre as empreendedoras e a recorrente com vistas ao aproveitamento dos imóveis. Nessa questão, o próprio contrato milita contra esse argumento ao prever que o instrumento não implicaria na constituição ou associação entre as partes, que agiriam de forma independente. Outro questionamento nessa linha dirigese à suposta inexistência de valores devidos pelas empreendedoras à recorrente até que fossem celebrados os compromissos de compra e venda com terceiros. Não concordo pois pareceme claro que o Anexo IV do TAC estabelece os valores a serem pagos. Lembrando que este voto sustenta tratarse de promessa de compra e venda, as cláusulas rescisórias tem natureza resolutória sem impacto na ocorrência do fato gerador, ou seja, efetivadas as condições celebrarseiam os contratos de compra e venda. Sob essa mesma ótica, também não procede o argumento de que o fluxo de repasses representaria uma mera estimativa. Conforme bem registrado pela decisão recorrida , embora não haja o compromisso de pagar o fluxo de repasses, há o compromisso de pagar pela compra do lote ou gleba em que for erguido o Fl. 2564DF CARF MF Processo nº 10580.726442/201111 Acórdão n.º 1402002.774 S1C4T2 Fl. 2.562 7 empreendimento Como as previsões contratuais de não execução de alguma incorporação são resolutórias, para efeitos de ocorrência do fato gerador todos os empreendimentos compõem a base de cálculo pelo valor previsto no Anexo IV, representando o preço efetivo atribuído a cada lote. Ainda que a recorrente sustente que os valores recebidos em adiantamento têm natureza de mútuo, meu entendimento consolidouse no sentido de que se referem a um percentual do denominado VGV, nos termos estabelecidos no Anexo IV do TAC. Em outras palavras, tratase de adiantamento do valor de venda o que pode ser corroborado pelo dispositivo contratual estabelecendo a devolução do adiantamento relativamente aos empreendimentos em relação aos quais os terrenos não puderem ser adquiridos pelas empreendedoras. Os demais argumentos de defesa envolvendo as cláusulas rescisórias não desqualificam o até aqui exposto, pois envolvem as circunstâncias naturais de um compromisso preliminar pelo qual as partes se comprometem a formalizar um contrato de compra e venda sob determinadas condições. Ratifico que tal situação não tem qualquer impacto sobre a ocorrência do fato gerador tributário eis que, cumpridas as condições, a assinatura do contrato de compra e venda é obrigatória, não deixando dúvida quanto à validade e aos efeitos da promessa de compra e venda desde quando pactuada. De todo o exposto, encaminho meu voto no sentido de negar provimento ao recurso. Da mesma forma que em relação ao recurso de ofício, pela relação de causa e efeito que une as duas autuações, voto por negar provimento ao recurso voluntário, exceto em relação às razões de defesa acatadas no julgamento dos embargos de declaração contra a decisão supra transcrita, o que será analisado a seguir. Antes disso, importa ressaltar a matéria que está sob exame neste estágio processual. Isso porque a natureza das operações que implicaram na autuação não está mais em litígio, sendo agora incontroverso que representam compra e venda de imóveis. O próprio voto vencedor prolatado na Resolução 1402000.357 deixa isso claro ao registrar (destaques acrescido): [...] Quando do julgamento do acórdão embargado, este colegiado firmou entendimento de que a operação de que tratava os TAC referiamse a operações de compra e venda, tendo sido, inclusive, recebido parcela do preço acordado. A esse respeito, destaco excerto da decisão embargada: Ainda que a recorrente sustente que os valores recebidos em adiantamento têm natureza de mútuo,meu entendimento consolidouse no sentido de que se referem a um percentual do denominado VGV, nos termos estabelecidos no Anexo IV do TAC. Em outras palavras, tratase de adiantamento do valor de venda o que pode ser corroborado pelo dispositivo contratual estabelecendo a devolução do adiantamento relativamente aos empreendimentos em relação aos quais os terrenos não puderem ser adquiridos pelas empreendedoras. [...] Fl. 2565DF CARF MF 8 Sendo assim, não cabe mais suscitar que os valores recebidos em adiantamento têm natureza de mútuo. São parcelas do preço recebido pela venda dos imóveis e como tal serão tratadas A interessada apresentou embargos de declaração contra o Acórdão 1402 001.664. O recurso foi admitido em relação a duas questões. A primeira delas referese à venda do apartamento localizado no Edifício Phileto Sobrinho. Nessa matéria, ainda que o julgamento tenha sido convertido em diligência, o voto vencido enfrentou a questão – de forma não contestada no voto vencedor – nos termos que ora ratifico: No que se refere ao apartamento, o registro da venda do bem (R$ 344.000,00) consta no Livro Razão da recorrente como pertencente a ela. A alegação de que houve um equívoco e que, na verdade, o imóvel seria de propriedade da empresa Haya Empreendimentos e Participações Ltda. (ligada à recorrente) veio acompanhada apenas de um instrumento particular de cessão de direitos aquisitivos de imóvel, pelo qual esses direitos são cedidos à Bahiamaq Locação de Máquinas e Equipamentos Ltda , sem qualquer registro em cartório. Também não foi apresentado qualquer documento que demonstrasse a suposta dívida da interessada com a adquirente do bem, dívida essa que teria sido quitada no momento da alienação. A partir do instante em que o sujeito passivo contesta o próprio registro contábil seria de se esperar uma preocupação maior em apresentar provas robustas de suas alegações. Não foi o que ocorreu. A decisão recorrida já havia deixado claro que o instrumento particular não seria suficiente nesse sentido e alertou para a necessidade de que fosse comprovada a propriedade do imóvel por instrumento hábil. Mesmo assim, a recorrente limitouse a ratificar que o documento em questão demonstraria o alegado. Negase provimento ao recurso nessa questão Os embargos de declaração também foram admitidos quanto à aplicabilidade do art. 413 do RIR/99 na apuração do valor tributável. Nessa matéria, diversamente da proposta do relator que manifestouse pela não aceitação do pleito por desobediência aos procedimentos estabelecidos no dispositivo em questão, prevaleceu no colegiado o entendimento de que não seria razoável exigir da interessada, convencida da inexistência da operação de venda de imóveis, que cumprisse tais requisitos. Sendo assim o julgamento foi convertido em diligência nos seguintes termos: [...] a) a autoridade fiscal incumbida da realização da diligência fiscal deverá intimar o contribuinte para que esse demonstre, nos termos do art. 413 do RIR/99, a parcela de lucro que poderia ser diferida nos anoscalendário referentes a presente exigência (2007 e 2008); b) considerandose que o contribuinte, por meio de seu patrono, alegou que “tendo em vista a evolução do negócio acertado, os imóveis sobre os quais foram exercidas as opções de compra foram transferidos a subsidiárias da Embargante, que a substituíram como parte do TAC e ofereceram à tributação os ganhos auferidos com a negociação dos imóveis”, deverá ainda o contribuinte demonstrar quais as receitas referentes a tais negócios foram reconhecidas e oferecidas à tributação nos anoscalendário de 2009, 2010 e 2011, ainda que por meio de suas subsidiárias. Fl. 2566DF CARF MF Processo nº 10580.726442/201111 Acórdão n.º 1402002.774 S1C4T2 Fl. 2.563 9 [...] Cumprida a solicitação, inclusive com manifestação da recorrente, retornaram os autos para julgamento. Nesse ponto foi prolatado o Acórdão 1402002.773 com reconhecimento da possibilidade de diferimento do lucro conforme estabelecido no art. 413, do RIR/99 e, por conseqüência, ajuste da base de cálculo. Cabe agora avaliar as implicações daquela decisão no lançamento sob exame. A Lei nº 10.833/2003 que regulamenta a cobrança não cumulativa da Cofins estabelece em seu art. 8º (destaque acrescido): [...] Art. 8o A contribuição incidente na hipótese de contratos, com prazo de execução superior a 1 (um) ano, de construção por empreitada ou de fornecimento, a preço predeterminado, de bens ou serviços a serem produzidos, será calculada sobre a receita apurada de acordo com os critérios de reconhecimento adotados pela legislação do imposto de renda, previstos para a espécie de operação. [...] Mostrase indubitável, portanto, que o critério de diferimento do lucro aplicável ao IRPJ, conforme decidido no Acórdão 1402002.773, também é aplicável na apuração da Cofins. Sendo assim, o cálculo da contribuição deve incidir sobre as receitas efetivamente recebidas. No anocalendário de 2007, a interessada recebeu pagamentos referentes ao TAC com a Agra (R$ 60.000.000,00) em 08/02/2007 e com a Tenela (R$ 7.629.856,39) em 13/06/2007; sendo esses os valores que devem ser mantidos na base tributável. No que tange à receita decorrente da venda dos imóveis situados no Parque Biribeira e Palm Springs, sustenta a recorrente que não deveria ser tributada pela Cofins, por serem bens do ativo permanente. Tal questão foi dirimida no bojo do Acórdão 1402001.664 onde se manifestou entendimento de que a empresa exercia atividade imobiliária com habitualidade e, portanto, a venda dos imóveis em questão seria receita operacional: [...] Em primeiro lugar, cabe definir objetivamente a atividade exercida pela recorrente. Pela descrição dos fatos contida no Termo de Verificação, pareceme claro que a interessada exerce com habitualidade a atividade de compra e venda de imóveis. Fl. 2567DF CARF MF 10 Tanto a planilha denominada “Mutações de Estoque de Imóveis” como o “Demonstrativo de Venda de Imóveis” indicam a realização de operações de compra em venda em valores significativos desde o anocalendário de 1996. Pelo exame desses indicadores constatase que a interessada, entre os anos calendário de 2000 e 2007, auferiu receita da ordem de dezenas de milhões de reais frente a uma receita de R$ 200.000,00; aproximadamente, com administração de imóveis. Ao contrário do alegado, e conforme Quadro indicativo no bojo do voto condutor do acórdão hostilizado, mostrase relevante o volume de operações com terceiros relativamente àquelas realizadas com coligadas e controladas. Assim, os valores recebidos em decorrência dessas operações constituemse em receita operacional de vendas e não estão sujeitos à apuração de ganhos de capital. Mostrase equivocado o procedimento do sujeito passivo em registrar no ativo permanente os imóveis em questão. O correto seria consideralos como integrantes do estoque, no ativo circulante. [...] Nesses termos, deve ser mantida a base tributável de R$ 9.269.000,00 em 31/12/2007. Importa ressaltar que, pela relação de causa e efeito que une este processo ao de nº 10580.726441/201176 tal questão mostrase superada, pois a matéria sob exame naqueles autos, já em sede de embargos de declaração, limitase à sistemática de aplicação do art. 413, do RIR/99, para efeito de diferimento do lucro tributável. De todo o exposto, em resumo, ratificando a manutenção da base tributável de R$ 9.269.000,00 em 31/12/2007;conduzo meu voto no sentido de dar provimento parcial ao recurso para reduzir a base tributável a R$ 60.000.000,00 para o fato gerador 08/02/2007 e R$ 7.629.856,39 para o fato gerador 13/06/2007. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Fl. 2568DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16643.720026/2012-94
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 19 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Oct 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009, 2010
ÁGIO. FUNDAMENTAÇÃO. AVALIAÇÃO A VALOR DE MERCADO OU RENTABILIDADE FUTURA. FORMA E ESSÊNCIA QUE INDICAM O PROPÓSITO DE AQUISIÇÃO DE INVESTIMENTO CUJO SOBREPREÇO ADVÉM DE AVALIAÇÃO DOS BENS ADQUIRIDOS A VALOR DE MERCADO.
Comprovado que o fundamento do pagamento do sobrepreço decorreu precipuamente da avaliação, a valor de mercado, dos bens da adquirida, correta a autuação de glosa de ágio amortizado em razão da rentabilidade futura, mormente em razão da primazia da essência em detrimento à forma adotada.
TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS. PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA EM CONTROLADA NO EXTERIOR. TRIBUTAÇÃO DO LUCRO AUFERIDO PELA EMPRESA NACIONAL. INAPLICABILIDADE DA CONVENÇÃO FIRMADA ENTRE O BRASIL E O REINO DOS PAÍSES BAIXOS PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO DA RENDA.
O lucro auferido no exterior decorrente de investimento em controlada é tributado na empresa brasileira em razão do acréscimo patrimonial ocorrido na empresa nacional. Assim, a convenção para evitar a dupla tributação da renda, firmada entre o Brasil e os Países Baixos (no caso, a Holanda) não se aplica ao caso concreto, pois não se está tributando a empresa sediada na Holanda, mas sim a empresa brasileira. Além disso, o art. 74 da MP nº 2.158-35/2001 definiu o marco temporal para determinação da base de incidência do imposto de renda na avaliação de ganho oriundo de lucro apurado por controlada estrangeira.
COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS DE CONTROLADA ESTRANGEIRA. COMPROVAÇÃO.
Se não há prova concreta de prejuízo acumulado na subsidiária estrangeira, impende afastar argumento demandado pela recorrente.
COMPENSAÇÃO DE IMPOSTO PAGO PELA CONTROLADA NO EXTERIOR. COMPROVAÇÃO. TRADUÇÃO PARA O VERNÁCULO, RECONHECIMENTO PELO ÓRGÃO ARRECADADOR E PELO CONSULADO DA EMBAIXADA BRASILEIRA NO PAÍS DE ORIGEM DO IMPOSTO PAGO.
Para que se reconheça e se considere valor de imposto pago no exterior, com fins de reduzir a tributação dos lucros apurados no exterior, o documento de arrecadação advindo do exterior deve ser traduzido para o vernáculo, reconhecido pelo órgão arrecadador e pelo Consulado da Embaixada Brasileira no país em que for devido o imposto. Condição que não foi preenchida.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009, 2010
CSLL. TRIBUTAÇÃO REFLEXA.
A CSLL incidente sobre lucros apurados no exterior tem a mesma base legal de incidência do IRPJ, conforme redação do art. 21 da MP nº 2.158-35/2001.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009, 2010
JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO.
De acordo com art. 161 do CTN, sobre o crédito tributário incidem juros de mora. Como a multa de ofício integra o crédito tributário, também sobre ela devem incidir juros de mora.
Numero da decisão: 1401-002.075
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário, nas questões atinentes à glosa de ágio e tributação de lucros no exterior. Vencidos os Conselheiros Livia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e José Roberto Adelino da Silva. Por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário no tocante aos juros de mora incidentes sobre a multa de ofício e a tributação reflexa da CSLL. Vencido o Conselheiro José Roberto Adelino da Silva.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente
(assinado digitalmente)
Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Livia De Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva e José Roberto Adelino da Silva.
Nome do relator: LUIZ RODRIGO DE OLIVEIRA BARBOSA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2007, 2008, 2009, 2010 ÁGIO. FUNDAMENTAÇÃO. AVALIAÇÃO A VALOR DE MERCADO OU RENTABILIDADE FUTURA. FORMA E ESSÊNCIA QUE INDICAM O PROPÓSITO DE AQUISIÇÃO DE INVESTIMENTO CUJO SOBREPREÇO ADVÉM DE AVALIAÇÃO DOS BENS ADQUIRIDOS A VALOR DE MERCADO. Comprovado que o fundamento do pagamento do sobrepreço decorreu precipuamente da avaliação, a valor de mercado, dos bens da adquirida, correta a autuação de glosa de ágio amortizado em razão da rentabilidade futura, mormente em razão da primazia da essência em detrimento à forma adotada. TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS. PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA EM CONTROLADA NO EXTERIOR. TRIBUTAÇÃO DO LUCRO AUFERIDO PELA EMPRESA NACIONAL. INAPLICABILIDADE DA CONVENÇÃO FIRMADA ENTRE O BRASIL E O REINO DOS PAÍSES BAIXOS PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO DA RENDA. O lucro auferido no exterior decorrente de investimento em controlada é tributado na empresa brasileira em razão do acréscimo patrimonial ocorrido na empresa nacional. Assim, a convenção para evitar a dupla tributação da renda, firmada entre o Brasil e os Países Baixos (no caso, a Holanda) não se aplica ao caso concreto, pois não se está tributando a empresa sediada na Holanda, mas sim a empresa brasileira. Além disso, o art. 74 da MP nº 2.158-35/2001 definiu o marco temporal para determinação da base de incidência do imposto de renda na avaliação de ganho oriundo de lucro apurado por controlada estrangeira. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS DE CONTROLADA ESTRANGEIRA. COMPROVAÇÃO. Se não há prova concreta de prejuízo acumulado na subsidiária estrangeira, impende afastar argumento demandado pela recorrente. COMPENSAÇÃO DE IMPOSTO PAGO PELA CONTROLADA NO EXTERIOR. COMPROVAÇÃO. TRADUÇÃO PARA O VERNÁCULO, RECONHECIMENTO PELO ÓRGÃO ARRECADADOR E PELO CONSULADO DA EMBAIXADA BRASILEIRA NO PAÍS DE ORIGEM DO IMPOSTO PAGO. Para que se reconheça e se considere valor de imposto pago no exterior, com fins de reduzir a tributação dos lucros apurados no exterior, o documento de arrecadação advindo do exterior deve ser traduzido para o vernáculo, reconhecido pelo órgão arrecadador e pelo Consulado da Embaixada Brasileira no país em que for devido o imposto. Condição que não foi preenchida. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2007, 2008, 2009, 2010 CSLL. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. A CSLL incidente sobre lucros apurados no exterior tem a mesma base legal de incidência do IRPJ, conforme redação do art. 21 da MP nº 2.158-35/2001. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2007, 2008, 2009, 2010 JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. De acordo com art. 161 do CTN, sobre o crédito tributário incidem juros de mora. Como a multa de ofício integra o crédito tributário, também sobre ela devem incidir juros de mora.
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FUNDAMENTAÇÃO. AVALIAÇÃO A VALOR DE MERCADO OU RENTABILIDADE FUTURA. FORMA E ESSÊNCIA QUE INDICAM O PROPÓSITO DE AQUISIÇÃO DE INVESTIMENTO CUJO SOBREPREÇO ADVÉM DE AVALIAÇÃO DOS BENS ADQUIRIDOS A VALOR DE MERCADO. Comprovado que o fundamento do pagamento do sobrepreço decorreu precipuamente da avaliação, a valor de mercado, dos bens da adquirida, correta a autuação de glosa de ágio amortizado em razão da rentabilidade futura, mormente em razão da primazia da essência em detrimento à forma adotada. TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS. PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA EM CONTROLADA NO EXTERIOR. TRIBUTAÇÃO DO LUCRO AUFERIDO PELA EMPRESA NACIONAL. INAPLICABILIDADE DA CONVENÇÃO FIRMADA ENTRE O BRASIL E O REINO DOS PAÍSES BAIXOS PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO DA RENDA. O lucro auferido no exterior decorrente de investimento em controlada é tributado na empresa brasileira em razão do acréscimo patrimonial ocorrido na empresa nacional. Assim, a convenção para evitar a dupla tributação da renda, firmada entre o Brasil e os Países Baixos (no caso, a Holanda) não se aplica ao caso concreto, pois não se está tributando a empresa sediada na Holanda, mas sim a empresa brasileira. Além disso, o art. 74 da MP nº 2.158 35/2001 definiu o marco temporal para determinação da base de incidência do imposto de renda na avaliação de ganho oriundo de lucro apurado por controlada estrangeira. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 64 3. 72 00 26 /2 01 2- 94 Fl. 1883DF CARF MF 2 COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS DE CONTROLADA ESTRANGEIRA. COMPROVAÇÃO. Se não há prova concreta de prejuízo acumulado na subsidiária estrangeira, impende afastar argumento demandado pela recorrente. COMPENSAÇÃO DE IMPOSTO PAGO PELA CONTROLADA NO EXTERIOR. COMPROVAÇÃO. TRADUÇÃO PARA O VERNÁCULO, RECONHECIMENTO PELO ÓRGÃO ARRECADADOR E PELO CONSULADO DA EMBAIXADA BRASILEIRA NO PAÍS DE ORIGEM DO IMPOSTO PAGO. Para que se reconheça e se considere valor de imposto pago no exterior, com fins de reduzir a tributação dos lucros apurados no exterior, o documento de arrecadação advindo do exterior deve ser traduzido para o vernáculo, reconhecido pelo órgão arrecadador e pelo Consulado da Embaixada Brasileira no país em que for devido o imposto. Condição que não foi preenchida. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2007, 2008, 2009, 2010 CSLL. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. A CSLL incidente sobre lucros apurados no exterior tem a mesma base legal de incidência do IRPJ, conforme redação do art. 21 da MP nº 2.15835/2001. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007, 2008, 2009, 2010 JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. De acordo com art. 161 do CTN, sobre o crédito tributário incidem juros de mora. Como a multa de ofício integra o crédito tributário, também sobre ela devem incidir juros de mora. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário, nas questões atinentes à glosa de ágio e tributação de lucros no exterior. Vencidos os Conselheiros Livia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva e José Roberto Adelino da Silva. Por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário no tocante aos juros de mora incidentes sobre a multa de ofício e a tributação reflexa da CSLL. Vencido o Conselheiro José Roberto Adelino da Silva. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente (assinado digitalmente) Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa Relator Fl. 1884DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.884 3 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Livia De Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva e José Roberto Adelino da Silva. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de decisão proferida pela 7ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo 1 (DRJ/SP1), que, por meio do Acórdão 1669.207, de 24 de junho de 2015, julgou improcedente a impugnação apresentada pela empresa, mantendo na íntegra o lançamento fiscal. Reproduzo, por bem delineado, o relatório constante no acórdão da DRJ/SP1: (início da transcrição do relatório do acórdão da DRJ) O processo versa acerca de autos de infração formulados em 06/11/2012, atinentes ao Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) apurados no encerramento dos anos calendário de 2007 a 2010, com o crédito tributário total de R$ 84.749.162,14 (oitenta e quatro milhões, setecentos e quarenta e nove mil, cento e sessenta e dois reais e quatorze centavos), composto de principal, multa de ofício de 75% e juros de mora vinculados: TRIBUTO Fls. dos autos do processo PRINCIPAL MULTA DE OFÍCIO JUROS DE MORA TOTAL IRPJ 1.503/1.511 28.273.078,02 21.204.808,50 12.836.735,73 62.314.622,25 CSLL 1.512/1.519 10.178.880,29 7.634.160,20 4.621.499,40 22.434.539,89 VALORES TOTAIS 84.749.162,14 Nota: Demonstrativo Consolidado do Crédito Tributário do Processo (fl. 1.494 e 1.523) e Termo de Constatação Fiscal (fls. 154/156). A infração tributária decorre de constatações identificadas no curso de procedimento de verificação do cumprimento das obrigações tributárias pelo sujeito passivo em epígrafe, consoante descrição dos fatos e enquadramentos legais impressos no corpo das autuações e do respectivo Termo de Constatação Fiscal, motivações estas determinantes para: Imposto de Renda Pessoa Jurídica IRPJ: (I) A glosa de valores de amortização de ágio vinculado à aquisição de decorrente de aquisição de empresa. Importâncias computadas indevidamente na determinação do Lucro Real defronte a adoção de fundamento econômico baseado em expectativa de resultados futuros quando a fundamentação pertinente amparouse em avaliação de bens pelo preço de reposição do ativo fixo; Fl. 1885DF CARF MF 4 (II) A falta de adição ao lucro líquido do período de importância relativa de lucro apurado no encerramento do anocalendário de 2007 por controlada sediada no exterior. Enquadramentos legais: (i) arts. 384, parágrafo 2º, inciso I; 386, inciso I, parágrafo 2º, inciso I; e 391 do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 29/03/1999; e (ii) art. 25, §§2º e 3º da Lei nº 9.249/95; art. 16 da Lei nº 9.430/96; arts. 249, inciso II, e 394 do RIR/99; art. 3º da Lei nº 9.959/00; e art. 74 da MP nº 215835/2001. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL: (I) A falta de adição ao lucro líquido do período de importância relativa de lucro apurado no encerramento do anocalendário de 2007 por controlada sediada no exterior; (II) A improcedência na aplicação de coeficiente de depreciação acelerada incentivada, montante resultante da soma da normal acrescida da acelerada, excedendo ao valor do custo de aquisição do ativo imobilizado, ensejando a respectiva glosa e adição na base imponível da contribuição social. Enquadramentos legais: art. 2º e seus §§ da Lei nº 7.689/88; art. 1º da Lei nº 9.316/96 4 art. 28 da Lei nº 9.430/96; e art. 37 da Lei nº 10.637/02/ art. 3º da Lei nº 7.689/88 com as alterações introduzidas pelo art. 17 da Lei nº 11.727/08. Quanto aos procedimentos instaurados pela fiscalização, observase que o Termo de Constatação Fiscal (TCF) noticia que os trabalhos foram conduzidos com respaldo no Mandado de Procedimento Fiscal – Fiscalização (MPFF) nº 08.1.85.00 2011003536. A instauração da ação fiscal promoveuse com a expedição do Termo de Intimação Inicial datado de 10/01/2012, cientificado por via postal em 19/01/2012, por meio do qual se requisitou a apresentação de dados preliminares e de acervo documental essencial à análise de informações de interesse fiscal relacionados à pessoa jurídica (fls. 3/5). Além disso, emitiu as Intimações de nºs: 1, de 09/04/2012; 2, de 18/06/2012 e 3, de 16/08/2012, recepcionadas pelo Correio em 13/04/2012, 29/06/2012 e 20/08/2012 (fls. 6/10, 11/18 e 19/23). I) DA MENSURAÇÃO E REALIZAÇÃO ECONÔMICA DO ÁGIO ADSTRITO À AQUISIÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. Da análise conclusiva da documentação trazida para apreciação da autoridade lançadora, em primeiro lugar, certificouse a constituição de um ativo intangível no valor de R$ 101.357.673,75 proveniente da aquisição com ágio da companhia INTERAGRO INTERNATIONAL LTD (INTERAGRO) operação esta firmada junto a CARGILL INC., entidade estrangeira sediada nos Estados Unidos. Suplementa que a INTERAGRO apresentou movimentação operacional tão somente relacionada ao controle societário na empresa ARCHAMPS PARTICIPAÇÕES LTDA, CNPJ nº 06.296.708/000168 (ARCHAMPS), domiciliada na cidade de São Paulo. Segundo a fiscalização, o Contrato de Compra e Venda assinado em 1º de julho de 2004, não fez alusão às empresas supracitadas (INTERAGRO e ARCHAMPS), mas apenas a indicação da alienação de subsidiárias com titularidade sobre instalações de cultivo, processamento, armazenamento e transportes ligadas ao Fl. 1886DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.885 5 ramo de suco de laranja. De acordo com os termos da relação contratual, a CARGILL AGRÍCOLA, CNPJ nº 60.498.706/000157 (CARGILL), situada na capital de São Paulo, ocuparia a posição de parte interveniente do negócio jurídico. Inferiuse pela leitura das principais cláusulas pactuadas entre as partes que a fiscalizada tinha a pretensão de expansão da produção e do mercado de exportação de suco de laranja, porquanto manifesto interesse na carteira de clientes da empresa alienante. Além disso, a avença incluiu a aquisição de patrimônio integrante do imobilizado, representado por seus terrenos, plantações, edifícios e outros ativos, a carteira de fornecedores, afora a utilização de direitos sobre contrato de fornecimento de cítricos e contrato de arredamento (celebrado com a CODESP). Noutra perspectiva, asseverouse que a fiscalizada enviou todo o acervo documental do pagamento efetuado em favor da alienante da participação societária, confirmandose, assim, a aquisição das quotas da INTERAGRO perante a CARGILL INC, acrescida de importância designativa do ágio apurado (Quadro nº 6 do TCF): PAGAMENTOS POR COMPRA DA INTERAGRO Discriminação Valores em USD Taxa de conversão em 13/07/2004 Valores em reais Aquisição – Remessa em Reais – Carta ao Banco – Data: 13/07/2004 18.867.437,20 3,0412 57.379.650,00 Pagamento por Contrato de Câmbio – Data: 13/10/2004 18.813.000,00 3,0412 57.214.095,60 Pagamento por Contrato de Câmbio – Data: 30/05/2005 3.120.000,00 3,0412 9.488.544,00 Pagamento por Contrato de Câmbio – Data: 30/05/2006 3.120.000,00 3,0412 9.488.544,00 Pagamento por Contrato de Câmbio – Data: 30/05/2007 3.120.000,00 3,0412 9.488.544,00 Pagamento por Contrato de Câmbio – Data: 30/05/2008 3.120.000,00 3,0412 9.488.544,00 Pagamento por Contrato de Câmbio – Data: 30/05/2009 3.120.000,00 3,0412 9.488.544,00 SOMA 53.280.437,20 3,0412 162.036.465,60 Valor do Patrimônio Líquido ARCHAMPS em 31/12/2004 (POR DIPJ) (57.519.008,38) Ágio calculado com os dados disponíveis 104.517.457,22 Ágio apurado pelo contribuinte 103.487.673,75 Correção do ágio pelo contribuinte por aquisição do Terminal de Saboó em Santos/SP (2.300.000,00) Ágio utilizado por amortização 101.357.673,75 Fl. 1887DF CARF MF 6 Outrossim, noticiouse que a execução dos trabalhos tiveram como baliza o exame do conteúdo de laudo de avaliação apresentado pela fiscalizada e que, a seu turno, serviram de parâmetro para a fundamentação manifesta com base nos arts. 384 a 386 do RIR/99. Registrase que o laudo de avaliação produzido pela Delloite Touche, com database de 30/06/2004 teve como propósito fornecer a ARCHAMPS os subsídios necessários ao processo de alocação de preço de compra na aquisição da própria entidade. Somado a isso, frisouse que seu objetivo avaliação era projetar os valores de reposição e mercado, bem como as vidas úteis remanescentes dos ativos de determinadas contas de ativo imobilizado da própria ARCHAMPS. Veiculase que o laudo de avaliação inferiu que os bens do ativo imobilizado de propriedade da ARCHAMPS (Máquinas e Equipamentos; Móveis e Utensílios; Equipamentos de Informática; Terrenos; Construções Civis e Benfeitorias; e Imóveis) foram avaliados conforme objetivo, premissas e ressalvas nele descritas. O conteúdo evidenciou um resultado de valor de reposição no montante de R$ 230.024.060,00. Por outro lado, o valor de mercado indicouse uma quantia de R$ 159.317.410,00 em 30/06/2004: Neste contexto, entendeuse demonstrado que a avaliação do ágio da transação societária originouse do processo de reavaliação de bens do ativo da ARCHAMPS. Acentua que isto se demonstra em respostas às primeiras notificações endereçadas ao domicílio da fiscalizada (Intimações nº 1 e 2) através das quais comunicou que o ágio derivou da avaliação dos respectivos bens integrantes do ativo imobilizado, consoante sintetizado no quadro abaixo: Fl. 1888DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.886 7 Segundo as informações trazidas pelo fiscalizado, efetuouse a escrituração contábil das amortizações de ágio no montante de R$ 11.482.309,00 (2005) e de R$ 12.675.592,00 (2006). No ano de 2007, computou em janeiro mais R$1.286.666,97 (totalizando R$ 25.444.322,55) e de fevereiro a dezembro, um somatório de R$ 13.917.447,72. Em janeiro/2007, houve a operação de incorporação concomitante da INTERAGRO e da ARCHAMPS e a transferência do controle do saldo de ágio na parte B do LALUR. Nestes termos, a realização tributária destas parcelas do ágio seria efetuada mediante comando de exclusão na parte A. Em resumo, as amortizações promovidas no interstício entre 2005 a janeiro/2007, totalizaram R$ 25.444.322,55. A contabilização da amortização da proporção do ágio foi neutralizada com adições na parte A no LALUR. A partir de fevereiro de 2007, passouse a mensurar os efeitos tributários da amortização do ágio à razão de 1/60 avos, baixandose sua fração na parte B e computandose a respectiva exclusão na parte A do LALUR. Noticiou ainda que a 6ª Alteração do Contrato Social da ARCHAMPS (à época denominada ARCHAMPS CÍTRICOS LTDA), datada de 13/07/2004, à época representada pela INTERAGRO (sucessora da CASA 20 LLC – sociedade organizada e existente consoante as leis das Ilhas Virgens Britânicas e representada por Bellini Tavares de Lima Neto, CPF nº 200.695.88872) e o Sr. José Luiz Cutrale, CPF nº 121.436.26800, deliberou que a INTERAGRO tornava sucessora de todos os direitos e obrigações detidos por CASA 20 LLC, entre as quais 57.973.470 quotas capital da ARCHAMPS. Em 15/07/2004, a CARGILL INCORPORATED, sediada em Minneapolis (EUA), transferiu 100 ações da INTERAGRO para o impugnante conforme formulário de transferência firmado entre as partes contratantes. Mais a frente, por intermédio de Ata de 1º/02/2007, aprovouse, na íntegra, o protocolo e justificação da incorporação do patrimônio líquido da INTERAGRO e da ARCHAMPS, bem assim dos termos do laudo de avaliação e a subsequente extinção das sociedades incorporadas: Fl. 1889DF CARF MF 8 Pormenorizando o teor do laudo de avaliação elaborado pela consultoria em nome da ARCHAMPS, traz a lume os seguintes excertos: “i referese, inicialmente a avaliação patrimonial de determinados bens de propriedade da Archamps na data base de 30/06/2004. Estas determinadas contas de ativo se referem a terrenos, construções civis e benfeitorias, equipamentos e instalações, veículos, móveis e utensílios, equipamentos de informática e cultura de cítricos localizados em Uchoa, Frutal, comendador Souza e Planura; ii contempla relação dos bens com seus respectivos valores de reposição, mercado e vidas úteis remanescentes, planilhas e cálculos além de documentação fotográfica; iii menção de que o entendimento da autora tinha o objetivo de fornecer subsídios necessários ao processo de alocação de preço de compra na aquisição da empresa, concluindo que ‘nenhum outro objetivo pode ser subtendido ou inferido, bem como, este documento é para uso restrito da finalidade descrita’; iv a avaliação dos bens foi feita por meio de critérios específicos conforme a natureza de cada tipo de grupo de bens e detalhado em capítulos subsequentes; v a metodologia abrangeu valor de reposição ou reprodução (investimento necessário à aquisição de bens novos, idênticos e com capacidade semelhante), valor de mercado (determinado a partir do valor de reposição deduzindose as parcelas resultantes da depreciação técnica, tais como deterioração física e obsolescência funcional e econômica), vida útil remanescente (período de tempo esperando em que um bem prestará de maneira satisfatória, tanto econômica quanto funcional, seu serviço designado).” Sob este contexto, não obstante indicação do objetivo deste laudo, a fiscalização depreendeu que ele serviu de referência para a aplicação de metodologia destinada à mensuração do ágio adstrito à negociação do investimento permanente. Muito embora sugira sua aplicação específica para avaliação dos bens integrantes do ativo imobilizado da ARCHAMPS, o procedimento de fiscalização concluiu que o impugnante efetuou inadequadamente a amortização do ágio com fundamento no método de expectativa de resultados futuros, medida que segue abordagem distinta se comparado com o método de avaliação patrimonial de ativos. Fl. 1890DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.887 9 A evidenciação da incongruência deste procedimento se revelaria pela observância da forma de apuração do ágio, seus elementos de composição e as normas que disciplinam a matéria. Aponta ainda que o laudo de avaliação econômicofinanceiro da ARCHAMPS, datado de 20/08/2004, igualmente emitido Deloitte Touche, consignou que a definição do “fair value” montante que o ativo poderia ser comprado (ou incorrido) ou vendido (ou liquidado) em uma transação corrente entre partes independentes e dispostas a negociar. Segundo a autuada, projetouse uma evolução dos resultados do negócio baseado no método de fluxo de caixa descontado, apurandose um valor justo de mercado no montante de 190 milhões de reais, circunstância que sugeriria a aferição do ágio com fundamento em rentabilidade de exercícios futuros. A despeito do enfoque diferenciado deste segundo laudo feito pela mesma empresa de consultoria, depreende que não há dúvidas de que a metodologia aplicada para determinação da aquisição com ágio de participação societária teve como baliza a avaliação de ativos da atual sucedida. Estrutura o enquadramento legal Contextualiza os preceitos contidos no art. 385, 386 e 392 do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 1999 (RIR/99) com o excerto da redação da Instrução Normativa SRF nº 11 na hipótese legal que versa sobre a aquisição de participação societária com ágio proveniente de fundamento econômico vinculado à avaliação de mercado de bens e direitos de ativo em valor superior ao custo registrado no patrimônio da pessoa jurídica adquirida. Nesse cenário, demandavase a inclusão da importância para efeito de apuração do ganho ou perda de capital e determinação das respectivas quotas de depreciação. Acrescenta também que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por intermédio do art. 14 da Instrução 247/96 e suas alterações posteriores, igualmente, contemplavam a metodologia normatizada pelo Regulamento de Imposto de Renda RIR/1999: “Art. 14 – O ágio ou deságio computado na ocasião da aquisição ou subscrição do investimento deverá ser contabilizado com indicação do fundamento econômico que o determinou. § 1º O ágio ou deságio decorrente da diferença entre o valor de mercado de parte ou de todos os bens do ativo da coligada ou controlada e o respectivo valor contábil, deverá ser amortizado na proporção em que o ativo for sendo realizado na coligada ou controlada, por depreciação, amortização, exaustão ou baixa em decorrência de alienação ou perecimento desses bens ou do investimento. § 2º O ágio ou o deságio decorrente da diferença entre o valor pago na aquisição do investimento e o valor de mercado dos ativos e passivos da coligada ou controlada, referido no parágrafo anterior, deverá ser amortizado da seguinte forma. Fl. 1891DF CARF MF 10 a) o ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultados futuro no prazo, extensão e proporção dos resultados projetados ou pela baixa por alienação ou perecimento do investimento, devendo os resultados projetados serem objeto de verificação anual, a fim de que sejam revisados os critérios de utilizados para amortização ou registrada a baixa integral do ágio; e. b)...” Do cotejo do enunciado pelo laudo de avaliação e os procedimentos efetuados pelo contribuinte, a autoridade lançadora concluiu que até a efetivação da incorporação havia uma restrição fiscal ao mecanismo de realização do ágio reconhecido contabilmente pela entidade, sobretudo porque o art. 391 do RIR/99 veda que as parcelas de amortização do ágio influenciem a determinação do lucro tributável do período. Ainda segundo suas inferências, a neutralidade fiscal não se adequa na hipótese da absorção do patrimônio de uma pessoa jurídica em face de outra, conferindo tratamento específico na ocorrência de incorporação, fusão ou cisão. Neste cenário, o processo de incorporação de empresas determina um tratamento fiscal próprio em relação ao ágio e em consonância com o fundamento econômico que determinou o pagamento negociado para a aquisição da participação acionária. No tocante ao ágio originado da variação entre o valor de mercado e o valor contábil dos bens do ativo da controlada, temse, do ponto de vista estritamente societário, que a amortização adequarseá com o método de realização do ativo imobilizado no patrimônio da controlada via depreciação, amortização, exaustão ou baixa em decorrência da alienação ou perecimento. No plano fiscal, seus efeitos apenas repercutirão na apuração da empresa investidora em face da liquidação do investimento, ou de forma excepcional, nos casos de incorporação, fusão ou cisão. A parcela do ágio amortizado na escrituração contábil deverá ser controlada na Parte “B” do LALUR. Após o evento, deverão ser acrescidas ao custo do respectivo ativo para determinação das quotas de depreciação, amortização ou exaustão valores estes que serão aferidos defronte o prazo de vida útil remanescente ou do valor residual avaliado na data de efetivação da transação societária. Destarte, efetuouse os cálculos dos valores aceitos para redução da base imponível do IRPJ e da CSLL por intermédio da amortização do ágio, mensurando se as quotas de depreciação dedutíveis na forma do art. 57 da Lei nº 4.506, de 30/11/1964, art. 13 da Lei nº 9.249, de 26/12/1995 e observância das orientações contidas na Instrução Normativa SRF nº 162, de 31/12/1998, com a redação dada pela Instrução Normativa SRF nº 130, de 10/11/1999, bem assim as seguintes circunstâncias pontuais: a) Edifício e construções: o laudo de avaliação registrou uma vida útil remanescente muito diferente em termos de anos; a grande maioria, individualmente, superiores aos 25 anos que é limite temporal legalmente admitido para realização da perda de valor do ativo. Por seu turno, o quadrodemonstrativo de movimentação do ativo imobilizado e alocação do ágio correspondente indica uma vida útil equivalente a 133 meses (11,12 anos). Diante disso, assumiuse esta última para efeito de apuração do ágio, porquanto não encontrado informações acerca da data da construção, do momento que entrou em operação para determinação do marco inicial para cálculo da depreciação, além de grande quantidade de itens constante do rol destes ativos; Fl. 1892DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.888 11 b) Máquinas e equipamentos: do acervo documental apresentado pelo contribuinte, constatouse que o período remanescente de vida útil equivaleria a 63 meses (5,29 anos), lapso temporal inferior aquele previsto na legislação tributária (10 anos); c) Plantações cítricas formadas: inferiuse pela determinação de uma vida útil remanescente de 6,75 anos, ou seja, 81 meses de um total de 180 meses previstos na norma de regência que disciplina a aferição das quotas de depreciação do ativo. Neste contexto, afirmouse que tais informações fundamentaram os cálculos apresentados e apontaram valores atribuíveis à amortização de ágios inferiores aos efetivamente registrados, influenciandose a determinação dos resultados tributáveis: Diante disso, promoveuse a tributação de ofício com base na glosa de parcela do ágio na aquisição de participação societária computado na apuração no Lucro Real em desconformidade com a legislação tributaria, quais sejam: AC 2007 – R$ 7.044.295,44; AC 2008 A 2010 – R$ 8.733.590,02. II) DA TRIBUTAÇÃO DE RESULTADO POSITIVO DECORRENTE DE LUCROS AUFERIDOS EM PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA EM CONTROLADA NO EXTERIOR. De acordo com o acervo documental, a fiscalizada possuía 100% do controle da Cutrale Europe Holdings, empresa sediada no Reino dos Países Baixos (Holanda), apresentando os seguintes resultados a partir do ano calendário de 2007: EM REAIS 2007 2008 31/07/2009 Fl. 1893DF CARF MF 12 Lucro antes Imposto de Renda – LAIR 91.212.521,40 45.861.559,09 22.778.765,19 Imposto de Renda (2.908.283,07) (655.493,45) (1.019.743,06) Lucro Líquido 88.304.238,33 (46.517.052,54) (23.798.508,25) EM DÓLARES 2007 2008 31/07/2009 Lucro antes Imposto de Renda – LAIR 51.503.400,00 (19.624.116,00) (12.164.245,00) Imposto de Renda (1.642.170,00) (280.485,00) (544.560,00) Lucro Líquido 49.861.230,00 (19.904.601,00) (12.708.805,00) Taxa 1,7710 2,3370 1,8726 No que tange ao anocalendário de 2007, observouse que a fiscalizada não promoveu a tributação do resultado positivo proveniente de lucros auferidos na participação societária. A justificativa apresentada pela entidade pautouse em conclusões firmadas em parecer elaborado por empresa de auditoria independente (Deloitte), segundo o qual “o lucro da Cutrale BV não deveria ser objeto de tributação no Brasil, sendo que não se opera o conceito de dividendo pago à simples apuração de lucro pela sociedade estrangeira”. Delineouse que os lucros apurados pela empresa controlada no exterior não se subordinariam à incidência do imposto de renda e da CSLL em razão de suposta vedação contida em convenção internacional firmada entre o Brasil e a Holanda. Sob esta ótica, asseverase que a redação do artigo VII do Tratado Brasil Holanda (DL nº 60/1990 e Decreto nº 355/91) orienta que os lucros de uma empresa pertencente a um dos Estados contratantes apenas poderiam submeterse à tributação neste Estado, a não ser que parte deste resultado obtevese noutro Estado contratante por meio de um estabelecimento permanente estável. Diante do fato de que os lucros da companhia controlada foram obtidos exclusivamente no território holandês, o parecer sustenta que tais valores poderiam ser tributados, em tese, apenas na Holanda. A autoridade lançadora assentou, contudo, que o lançamento não exige nenhum tributo da empresa holandesa, mas apenas da sociedade brasileira e na proporção do quinhão que lhe cabe por deter participação no capital de sua congênere holandesa. O tratado veda a tributação do lucro na origem, mas não impede a tributação quando forem distribuídos ou postos à disposição dos sócios ou acionistas, ainda que estes sejam residentes do outro estado contratante. O fato de uma sociedade residente de um estado contratante controlar ou ser controlada por uma sociedade residente do outro estado contratante ou que exerce a sua atividade nesse outro estado contratante quer seja através de um estabelecimento estável, quer de algum outro modo, não é, de per si, bastante para fazer de qualquer dessas sociedades estabelecimento estável de outra. Ou seja, não obstante o vínculo existente entre elas, sociedades controlada e controladora devem ser tratadas como entidades independentes. Diante disto, antecipase que a tributação do resultado positivo decorrente da participação societária não representa qualquer ofensa ao tratado internacional em questão. Fl. 1894DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.889 13 Neste panorama, desenvolve a fundamentação jurídica adstrita à tributação incidente sobre bases universais e da aplicação das convenções estipuladas nos tratados internacionais para evitar a dupla tributação sobre a renda. Reforça suas considerações reportando o teor de ementa de decisão proferida pela 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Sessão de Julgamento do CARF por intermédio do Acórdão nº 140200.391, de 27/01/2011. Esclarece ainda que a controlada sediada na Holanda não é o sujeito passivo da obrigação tributária e que o lucro por ela apurado não é propriamente o objeto do lançamento fiscal, mas sim a fiscalizada defronte a importância inerente a proporção de ganho auferido em decorrência da apuração de resultado positivo na respectiva participação societária no encerramento do períodobase. Encerra suas ponderações relacionadas à questão da necessidade de disponibilidade financeira e econômica da renda ou dos proventos de qualquer natureza para viabilização da tributação do imposto de renda, os aspectos legais para atribuição da tributação reflexa da CSLL e sobre as circunstâncias de admissibilidade de compensação de imposto de renda pago no exterior. Regularmente cientificado por via postal em 12/11/2012 (fl. 1541), o procurador regularmente constituído pela sociedade apresentou a impugnação em nome da empresa em 12/12/2012 (fls. 1.543 e 1.547/1.574), através da qual submete suas alegações de fato e de direito em contraposição à autuação em referência. DO ÁGIO NA AQUISIÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA Inaugura suas considerações asseverando que a entidade adquiriu com ágio a participação societária na Interagro Internacional Ltd., sediada nos EUA [sic], no anocalendário de 2004. Acrescenta que a sociedade adquirida detinha a totalidade das quotas da Archamps Cítricos Ltda (empresa operacional com ativos no Brasil). Noticia que efetuou o pagamento do ágio no montante de R$ 101.357.673,75, consoante demonstrado no curso do procedimento de fiscalização, evidenciando sua fundamentação e sistemática de reconhecimento das despesas computadas na determinação do resultado do exercício financeiro analisado. Argumenta que a autoridade lançadora não questionou a legitimidade do montante pago pela investidora, mas apenas a metodologia utilizada para amortização do ágio, motivo determinante para a caracterização da infração firmada na autuação. Defende que inexiste contradição entre o critério aplicado pela companhia e o conteúdo do laudo técnico apresentado como substrato da importância paga do ágio pactuado. Reforça que este esclarecimento inicial se faz necessário para distinguilas de eventuais outras razões que pudessem justificar a glosa de ágio na aquisição de participações societárias, bem assim para descortinar matizes de gravame totalmente dissociados da matéria contida nos autos. Passando a descrever suas ponderações que induziriam à demonstração da inexistência de contradição quanto a forma de aproveitamento do ágio, de plano, Fl. 1895DF CARF MF 14 assevera que inequívoco a pertinência do fundamento econômico baseada em expectativa de rentabilidade futura. Nesse sentido, enumera as folhas dos autos do processo onde se revelariam a pertinência de suas assertivas: · Fl. 398 – Relatório de Avaliação EconômicoFinanceira; · Fl. 42 – Contrato para a aquisição da participação societária na Interagro junto à Cargill; · Fl. 69 – Tabela de alocação de ágio; · Fl. 72 – Planilha demonstrativa da escrituração contábil adstrita ao pagamento e amortização do ágio desde a origem da transação; · Fl. 102 – Livros Razão e fichas; e · Fl. 229 – Relatório de Avaliação Patrimonial da Archamps. Neste contexto, faz menção ao teor das folhas 39 e 73 dos autos do processo que versam sobre respostas formalizadas em atendimento às intimações endereçadas para o domicílio da entidade. Enfatizando os ditames dos arts. 385, 386 e 391 do RIR/99, ressalta que a escrituração contábil revela que a empresa realizou a amortização do ágio na proporção de 1/60 avos a partir de fevereiro/2007 (evento: incorporação), consoante demonstrado nas folhas 72 e seguintes dos autos do processo. Acrescenta que tais eventos foram consignados no razão contábil da entidade e nas partes A e B do LALUR, bem assim nos balancetes mensais e nas fichas das respectivas DIPJ (fls. 77 a 196). Diante disto, entende que se noticiou regularmente o fundamento do ágio no curso do procedimento de fiscalização, demonstrando que sua contabilidade e a escrituração fiscal adotaram a metodologia de amortização apropriada ao caso. Na seqüência, expõe suas impressões acerca dos termos do Relatório de Avaliação EconômicoFinanceira firmado pela Deloitte Touche Tohmatsu Consultores Ltda. Sob este aspecto, dá ênfase ao teor de excertos do relatório que versam sobre o objetivo e metodologia da avaliação do investimento correlata à aquisição da participação societária com o intuito de confirmar a validade dos procedimentos contábeis e fiscais efetuados pela entidade. Acrescenta ainda que pouco mais de um ano após a elaboração do laudo técnico pela Consultoria, a ARCHAMPS contratou [sic] serviço junto ao mesmo escritório dedicado à avaliação do ativo imobilizado da empresa e mensuração das respectivas taxas de depreciação. No tocante a este estudo, enfatiza que o objetivo deste último era servir de amparo à INTERAGRO, até então, controladora da ARCHAMPS, sobretudo em relação ao cumprimento de obrigações perante as autoridades americanas, segundo os padrões da USGAAP. Sob esta perspectiva, propugna que este trabalho em nada se relacionou com a fundamentação do ágio aproveitado pela adquirente a partir da formalização da operação de incorporação. Fl. 1896DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.890 15 Reforça suas convicções, destacandose a redação contida na página 7 do aludido relatório (fl. 236) através do qual intenta evidenciar que o destinatário da consultoria não era o fisco brasileiro: Compreende que as inferências feitas pela autoridade lançadora foram equivocadas, porquanto embasadas em análise elaborada para a ARCHAMPS. Afirma que se trata de peça que não lastreou a deliberação da mensuração do ágio oportunamente amortizado pela entidade fiscalizada. Ao final, afirma que não há nenhuma razão que justifique ou determine a imputação do Relatório de Avaliação Patrimonial da ARCHAMPS em prejuízo daquele elaborado em nome da Sucocítrico Cutrale, firmado contemporaneamente à aquisição do investimento permanente, expressamente destinado à mensuração da maisvalia atrelada à rentabilidade futura. Ainda mais defronte a sistemática adotada para amortização na escrituração da companhia, visto que efetuado em plena coerência com o prescritivo normativo e com o fundamento econômico norteado no laudo de avaliação. Discorre também que a depreciação havida na ARCHAMPS não gerou efeitos fiscais para o impugnante. Certifica também que, a partir de fevereiro/2007, portanto, após a conclusão do processo de incorporação, a entidade fiscalizada segregou a importância correspondente ao saldo do ágio ainda intacto (não transitado contabilmente pela depreciação na ARCHAMPS) e aqueles que haviam sido contabilizados pela sucedida. Explica que a segregação não gerou nenhum efeito modificativo sobre os valores apropriados nas amortizações de 2007 a 2010, ou seja, em termos de resultado tributável não implicou nenhum efeito na determinação da base imponível defronte a aplicação da metodologia de amortização do ágio pago ao adquirente. Finaliza suas alusões inerentes à oposição da glosa de valores decorrentes da amortização do ágio, repisando que seus valores foram regularmente avaliados à época da transação societária, bem assim efetivamente pagos ao adquirente. Reforça que as informações precedentes tornam explicitas as causas e os objetivos dos relatórios, acentuando que foram elaborados para atendimento de objetivos distintos. Destacando o teor do relatório instruído às folhas 398, reitera que se destinou a conferir lastro ao pagamento e aproveitamento do ágio aferido na transação. Diante de todo o exposto, conclui inequívoco que toda a contabilidade e as respostas fornecidas no curso do procedimento de fiscalização mostraramse Fl. 1897DF CARF MF 16 uníssonas quanto ao fundamento do ágio pago na aquisição do investimento e sua respectiva metodologia de reconhecimento da despesa do exercício da entidade. DA TRIBUTAÇÃO DOS LUCROS NO EXTERIOR Começa o desenvolvimento de suas alusões propugnando a ineficácia da autuação promovida com base na apuração de resultado demonstrado por sua controlada sediada na Holanda (Reino dos Países Baixos), levantado no ano calendário de 2007. De plano, protesta que há um descompasso do art. 74 da MP nº 2.15835/2001 com a ordem jurídica internacional e que a tributação ficta inserida no sistema pátrio revelase incompatível com os propósitos das regras CFC e das normas aprovadas pela Convenção Modelo da OCDE. Reclama ainda que a situação fática não representa circunstância qualificável de planejamento abusivo de natureza tributária. Esclarece que o impugnante detinha 100% (cem por cento) das ações da Cutrale Europe Holdings B. V., companhia situada na Holanda. Acrescenta que a subsidiária no exterior mantinha em sua estrutura a operação de terminal próprio no Porto de Roterdã destinado ao trânsito de produtos oriundos do exterior – basicamente, suco de laranja, soja e seus derivados – bem como à negociação e contratação de entregas no continente europeu e adjacências. Ilustra a substância da concretude operacional da subsidiária trazendo os números de seus Balanços levantados em 2007 e 2008. No tocante ao ano de 2007, os ativos fixos tangíveis remontavam à casa dos U$$ 23 milhões (fls. 573), composto de imóveis, prédios, máquinas e equipamentos destinados ao funcionamento de escritórios e atividades operacionais. No ano seguinte, houve a expansão da estrutura operacional, passando os ativos fixos tangíveis ao montante de US$ 40 milhões. Agrega ao conteúdo de suas assertivas a descrição de conceitos e atributos relacionados aos tratados contra dupla tributação, estabelecimento permanente e da regra geral de cooperação entre os Estados para dirimir a incidência da bitributação. Neste contexto, diverge das inferências trazidas no Termo de Constatação Fiscal que depreende a admissibilidade de incidência da norma brasileira sobre lucro apurado na Holanda por companhia sediada naquele território. Acrescenta também que o Brasil e o Reino dos Países Baixos convencionaram norma específica com o advento de tratado ratificado pelo Decreto nº 355, de 1991. Sob este aspecto, entende que não há outra leitura razoável que afaste os efeitos da convenção bilateral e ampare o deslocamento dos fatos da aplicação da regra geral de tributação pelo Estado do domicílio da sede da empresa onde a atividade é efetivada. Na seqüência confronta os termos do art. 74 da MP 2.15835/2001 com a redação expressa no art. 7º do aludido tratado, desenvolvendo tese que defende a inadmissibilidade de tributação da disponibilidade presumida de lucro auferido no exterior, tampouco sobre a ficção legal definida pela norma interna. Fl. 1898DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.891 17 Não obstante isto, entende imprópria a aplicação do art. 74 da MP 2.158 35/2001, visto que o resultado econômico positivo obtido pela subsidiária no exterior destinou quase metade de sua importância para composição de outras reservas no ano de 2007. Igualmente, descabe a tributação deste reflexo no patrimônio da investidora em face da mensuração do método da equivalência patrimonial, porquanto integralmente mantido no patrimônio da subsidiária e inexistente a disponibilização de recursos em favor do impugnante. Além disso, apregoa que a incidência do art. 74 da MP 2.15835/2001 não observa o comando estabelecido no art. 98 do Código Tributário Nacional, visto que não atenta ao disposto no parágrafo 1º do art. 7º da Convenção Brasil – Reino dos Países Baixos. Somase ainda ampla ponderação de direito que visa evidenciar a desconformidade constitucional e legal da norma interna aplicada na autuação. Reforça suas alusões trazendo interpretações da doutrina tributária acerca da amplitude do conceito de aquisição de disponibilidade jurídica e financeira de renda e proventos de qualquer natureza, bem assim menciona que a validade da norma, à época da defesa, encontravase pendente de exame na Suprema Corte via ADin nº 2.588 e RE nº 611.586/PR. DA COMPENSAÇÃO DOS IMPOSTOS PAGOS NO EXTERIOR Acaso não sejam acolhidas as razões trazidas na sua defesa, requer que a compensação da tributação constituída sobre a controladora com crédito proveniente de valores pagos do imposto no exterior consoante disciplina o art. 26 da Lei nº 9.249, de dezembro de 1995, com a redação dada pelo art. 1º da Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997. Sob este aspecto, reclama que a autoridade lançadora não o teria feito por ocasião da determinação da matéria tributável e o cálculo do tributo devido. Acrescenta ainda que a compensação deve ser efetuada no prazo prescricional admitido pelo Codex Tributário. DA COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS APURADOS NO EXTERIOR Noutra perspectiva, em caráter supletivo, protesta a compensação de prejuízos apurados no exterior. Repisa que a tese para mensuração da base imponível do imposto originase de reflexo positivo do patrimônio da investidora em face do lucro auferido por sua subsidiária no exterior. Assim sendo, entende necessária consideração em seu cômputo de valores oriundos de prejuízos acumulados na subsidiária no exterior. Protesta que a equivalência patrimonial repercute na contabilidade da investidora, portanto, demandando um ajuste da construção da base de cálculo para incidência da tributação correspondente. Fl. 1899DF CARF MF 18 DO DESCABIMENTO DE JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO Encerra os termos da peça impugnatória, reclamando a improcedência da cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício derivada da autuação. Reforça suas inferências citando decisões proferidas no âmbito do antigo Conselho de Contribuintes. Diante todo o exposto, requer o acolhimento de suas pretensões e a decretação da improcedência da autuação fiscal. Ato contínuo, a autoridade preparadora encaminha os autos do processo à DRJ/SPO para julgamento da impugnação. (término da transcrição do relatório do acórdão da DRJ) Em julgamento, a DRJ/JFA, por meio do Acórdão 0946.225, de 05 de setembro de 2013, julgou improcedente a impugnação da recorrente, conforme a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2007, 2008, 2009, 2010 DA AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO PROVENIENTE DE AQUISIÇÃO DE EMPRESAS. INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADES. DEMONSTRAÇÃO DO FUNDAMENTO DO ÁGIO. AVALIAÇÃO PATRIMONIAL DE ATIVOS DA ENTIDADE ADQUIRIDA. ADEQUAÇÃO DA METODOLOGIA DE REALIZAÇÃO DO ÁGIO À EFETIVA MOTIVAÇÃO DETERMINANTE PARA CELEBRAÇÃO DO NEGÓCIO COM PAGAMENTO DO SOBREPREÇO. De acordo com os termos da legislação de regência, a dedutibilidade da amortização de ágio proveniente de aquisição de negócio empresarial mediante processo de incorporação de pessoa jurídica demanda a plena observância dos seguintes requisitos essenciais: (i) a realização da transação societária entre partes não relacionadas e independentes; (ii) o efetivo pagamento do custo aquisição celebrado entre as partes, incluindose o montante do ágio; (iii) demonstração do fundamento econômico do ágio entre aqueles prescritos na legislação tributária de regência. Compulsório que a prova da demonstração do fundamento do ágio designe a representação fidedigna da negociação empresarial e seja contemporânea às efetivas razões da tomada de decisão pelo adquirente para celebração da relação contratual pelo preço estabelecido. A fundamentação econômica do ágio com enfoque na avaliação patrimonial de bens do ativo de uma companhia adquirida evidenciase quando o processo de alocação do preço de aquisição do negócio empresarial orientou se pela mensuração individualizada desses elementos patrimoniais a critérios de mercado. Fl. 1900DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.892 19 Evidenciado que a metodologia de realização do ágio promoveuse com dissonância da motivação determinante da assunção do compromisso de aquisição de empresa com o sobrepreço pactuado, imperativo a manutenção dos efeitos da glosa levada a efeito a partir da reapuração da proporção de amortização mensurada com base na efetiva demonstração de seu fundamento econômico. TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS. MARCO TEMPORAL DE INCIDÊNCIA TRIBUTÁRIA. PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA EM CONTROLADA NO EXTERIOR. INCIDÊNCIA DA NORMA INTERNA NA HIPÓTESE DE GANHO ORIUNDO DE ACRÉSCIMO PATRIMONIAL NA CONTROLADORA DOMICILIADA NO BRASIL. INOCORRÊNCIA DE DUPLA TRIBUTAÇÃO JURÍDICA E LIMITAÇÃO DA APLICAÇÃO DE CONVENÇÃO INTERNACIONAL FIRMADA ENTRE O BRASIL E O REINO DOS PAÍSES BAIXOS. Os preceitos firmados no art. 25 da Lei nº 9.249/1995, no art. 1º da Lei nº 9.532/1997 e no art. 74 da MP nº 2.15835/2001 combinado com a regulação expressa na Instrução Normativa SRF nº 213/2002, constituemse na estrutura normativa do regime de tributação do imposto de renda em bases universais. A introdução do art. 74 da MP nº 2.15835/2001 definiu o marco temporal para determinação da base de incidência do imposto de renda na avaliação de ganho oriundo de lucro apurado por controlada estrangeira, fixandose a data de sua disponibilidade no patrimônio da controladora no Brasil a partir do balanço levantado pela subsidiária em 31 de dezembro de cada ano. A norma interna não estabelece incidência sobre os lucros da subsidiária estrangeira, mas apenas disciplina um critério de mensuração de ganho oriundo de acréscimo patrimonial proveniente da apuração de lucro em participação societária da controlada sediada no exterior, avaliado pelo método de equivalência patrimonial. Demonstrado que a tributação do imposto de renda deriva do reconhecimento da aquisição de acréscimo patrimonial de titularidade de pessoa jurídica residente no país, descabida a interpretação deduzida no sentido de que a incidência da ordem interna limita a aplicação de convenção internacional para evitar a dupla tributação firmada entre o Brasil e o Reino dos Países Baixos. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS DE SUBSIDIÁRIA ESTRANGEIRA. REQUISITOS E FORMALIDADES. INEXISTÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DE APURAÇÃO DE PREJUÍZOS ACUMULADOS EM PERÍODOS ANTERIORES NA SUBSIDIÁRIA ESTRANGEIRA. De acordo com a legislação tributária de regência, admitese a compensação de prejuízos acumulados apurados pela controlada no exterior para determinação do montante do ganho auferido em decorrência da participação societária de controladora domiciliada no país, limitado estritamente às importâncias vinculadas ao resultado positivo da própria subsidiária estrangeira. Fl. 1901DF CARF MF 20 Diante da inexistência de saldo de prejuízos acumulados no patrimônio da subsidiária estrangeira, inadmissível a pretensão demandada pelo impugnante. COMPENSAÇÃO DO IMPOSTO PAGO NO EXTERIOR. REQUISITOS, FORMALIDADES E LIMITES. MATERIAL PROBATÓRIO COMPETENTE NÃO APRESENTADO PELO CONTRIBUINTE. O documento de pagamento de imposto sobre a renda incidente no exterior que se constitui em prova inequívoca hábil e idônea para fins da habilitação da compensação autorizada pela norma de regência é aquele reconhecido pelo competente órgão arrecadador e pelo Consulado da Embaixada Brasileira no país em que for devido o imposto. Alternativamente, a dilação probatória pode ser orientada com a apresentação da legislação do país de origem do lucro, rendimento ou ganho de capital que prevê a incidência do imposto de renda que houver sido pago acompanhado do próprio documento de arrecadação e do pertinente controle na escrituração contábil e fiscal de referência. A falta de apresentação de prova de pagamento de imposto sobre a renda no exterior inviabiliza a análise da existência e validade do pretenso crédito e da mensuração do limite passível de compensação. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2007, 2008, 2009, 2010 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. VINCULAÇÃO AO LANÇAMENTO PRINCIPAL. Aplicamse aos lançamentos tidos como reflexos as mesmas razões de decidir do lançamento principal (Imposto de Renda da Pessoa Jurídica IRPJ), em razão de sua íntima relação de causa e efeito, na medida em que não há fatos jurídicos ou elementos probatórios a ensejar conclusões com atributos distintos. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007, 2008, 2009, 2010 INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. ADMISSIBILIDADE. A importância alusiva à multa de ofício representa um débito tributário para com a União decorrente de impostos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, configurandose pertinente a incidência de juros de mora sobre seu montante a partir do vencimento qualificado na competente autuação fiscal levada a efeito em face do sujeito passivo, porquanto regularmente amparado pela legislação tributária de regência. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Cientificada da decisão em 20/07/2015 ARECF (efl. 1.707) e insatisfeita com a decisão, a recorrente apresentou tempestivamente recurso voluntário (efls. 1.710 a Fl. 1902DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.893 21 1.729) em 17/08/2015, conforme solicitação de juntada de efl. 1.808, em que apresenta os mesmos argumentos da impugnação: Ágio i) a recorrente (Sucocítrico Cutrale) adquiriu em meados de 2004, por meio do contrato firmado com a Cargill Inc, participação na empresa Interagro International Ltd, sendo essa detentora das quotas sociais da Archamps Cítricos Ltda, realizando pagamento de ágio baseado em rentabilidade futura. ii) a reestruturação foi societária foi amplamente divulgada e teve propósito negocial. iii) a avaliação do ágio (por rentabilidade futura) encontrase respaldada em laudo efetuado para este fim, devendo ser desvencilhado, para o caso aqui em discussão, do Relatório de Avaliação Patrimonial. iv) a DRJ tentou qualificar a ocorrência de fraude ou simulação por parte da recorrente, o que justificaria a glosa do valor do ágio. Se fosse assim, a fiscalização deveria ter aplicado a multa de 150%, mas não o fez, porque não demonstrou a intenção dolosa por parte da recorrente. v) Subsidiariamente, pede que a depreciação havida na Derchamps não teve qualquer efeito fiscal na recorrente. Assim, o ágio se refere ao valor da participação societária que a Interagro possui na Derchamps, e não desta (segunda) empresa. Lucros no Exterior vi) entendeu que os lucros auferidos pela Cutrale Europe Holding BV somente poderiam ser tributados no país de seu domicílio, invocando para isso a aplicação do art. VII do Tratado firmado entre Brasil e Países Baixos, que adentram no ordenamento jurídico pátrio por força do art. 98 do CTN. vii) alega que a fiscalização intenta tributar, com base no art. 74 da MP 2.15835/2001, um lucro presumido, que nem se sabe se será disponibilizado à recorrente. afirma ainda que não se trata de tributar uma presunção, mas sim uma ficção, pois o que se buscou tributar é o "não lucro". alega violação ao art. 43 do CTN. viii) diz que parte dos valores decorrentes do acréscimo patrimonial da subsidiária foram destinados ao seu próprio ativo fixo intangível. ix) pede pela compensação de prejuízos acumulados e dos tributos pagos no exterior, pela subsidiária holandesa. CSLL aplicação reflexa x) repete basicamente os argumentos quanto ao IRPJ, no que se refere à tributação dos lucros no exterior. Fl. 1903DF CARF MF 22 Juros de mora sobre multa de ofício xi) sustenta que não há base legal para aplicação de juros de mora sobre a multa de ofício. A PGFN apresentou contrarrazões (efls. 1819 a 1862), pedindo pela manutenção integral da autuação fiscal. No CARF, coube a mim a relatoria do processo. É o Relatório. Voto Conselheiro Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa Relator O recurso é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade, portanto dele tomo conhecimento. MÉRITO ÁGIO Inicialmente, convém observar que a fiscalização efetuou o lançamento de glosa do ágio amortizado, pela empresa, com base em rentabilidade futura, mas considerou os efeitos da realização dos bens que foram avaliados a valor de mercado, quais sejam, depreciação, amortização e exaustão. Sendo assim, a autuação decorre da diferença, que é basicamente temporal, entre a amortização do ágio por rentabilidade futura e das despesas de depreciação, amortização e exaustão dos bens reavaliados. A fiscalização efetuou a autuação considerando que a fundamentação econômica do ágio levada a efeito pela recorrente rentabilidade futura foi por vez equivocada. Segundo o fisco, a recorrente deveria fundamentar o ágio com base na avaliação dos bens do ativo a valor de mercado, mensurados a partir de Relatório de Avaliação Patrimonial e anexos (efls. 229 a 397), endereçado à empresa incorporada (Archamps Participações Ltda), e efetuado, a pedido da empresa adquirente (ora recorrente), com data base de 30/06/2004, ou seja, em momento anterior à database do laudo baseado em expectativa de rentabilidade futura Relatório de Avaliação EconômicoFinanceira (efls. 398 a 514) , de 31/07/2004, que foi destinado à recorrente. Assim, o cerne da discussão a ser esclarecida é verificar se havia permissão, pela legislação fiscal, que consentisse à recorrente adotar como fundamento para o ágio a Fl. 1904DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.894 23 melhor forma que lhe aprouvesse, mesmo que, na essência, outro fundamento é quem foi efetivamente utilizado para a mensuração do preço a ser pago pelo investimento. Antes de adentrar na discussão deste processo, cabe trazer alguns comentários a respeito do instituto do ágio e seus efeitos contábeis e fiscais: O ágio, segundo Heleno Torres1, representa o preço adicional, quando participações societárias ou ativos de uma empresa são adquiridas por um custo de aquisição superior ao valor contábil registrado nas demonstrações financeiras. O preço do custo adicional é a sua causa jurídica. O ágio só surge porque houve disposição de pagar um maior preço, a título de custo de aquisição, superior ao valor contábil do empreendimento. Até a edição da Lei nº 9.532/1997 (popularmente conhecida como Lei das Privatizações), o tratamento fiscal do ágio tinha como fundamento o art. 20 do DecretoLei nº 1.598/77: Art. 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Como não havia previsão explícita sobre o tratamento do ágio na baixa da empresa adquirida, entendiase que, na hipótese de sua baixa ou realização (por alienação, por exemplo), o ágio surgido na operação era baixado integralmente. Assim, durante a vigência isolada do art. 20 supra, empresas lucrativas se aproveitaram de sua interpretação para desenvolver planejamentos tributários com o fito de 1 TORRES, Heleno Taveira. O ágio fundamentado por rentabilidade futura e suas repercussões tributárias. Fl. 1905DF CARF MF 24 adquirir empresas deficitárias, desembolsando valores exorbitantes como custo de aquisição e contabilizando, com isso, valor relevante de ágio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura. Assim, ao baixar o investimento adquirido com ágio, a empresa baixava integralmente o valor do ágio, reduzindo como isso a base de cálculo do IRPJ. Com a edição da Lei nº 9.532/1997, à figura do ágio com fundamento da rentabilidade futura despenderam tratamento distinto àquele permitido pelo art. 20 do Decreto lei supra, justamente com objetivo de obstaculizar os planejamentos abusivos acima destacados. Deste modo, a Lei nº 9.532/1997 postergou o prazo de amortização de tal ágio, permitindo sua amortização, no caso de evento de incorporação, fusão e cisão, no máximo, em 1/60 (um sessenta avos)2, quer dizer, no máximo em 20% ao ano do valor pago pelo ágio. Quanto ao ágio decorrente de valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ao custo contábil do bem, foi destacada a possibilidade de integração deste ágio ao custo do bem, tanto para fins de ganho ou perda de capital, quanto para efeito de depreciação, amortização e exaustão. Vejase a redação pertinente a este caso: Art. 7º A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: (Vide Medida Provisória nº 135, de 30.10.203) I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do §2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; (...) III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do §2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998) (...) § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão. (...) 2 Na redação original da Lei 9.532/1997, a empresa tinha um prazo máximo para início da amortização fiscal do ágio, que era de 10 (dez) anos do evento de incorporação, fusão ou cisão, sendo também estabelecido um prazo máximo de 20% ao ano de amortização fiscal. Após alteração promovida pela Lei 9.718/1998, restou estabelecido somente o piso máximo de 20% ao ano de amortização fiscal. Fl. 1906DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.895 25 Art. 8º O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: a) o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. Assim, no evento de incorporação do investimento, o ágio deve ter o seguinte tratamento, para fins fiscais: i) ágio fundamentado na avaliação do bem a valor de mercado maior que o valor contábil do bem amortização do ágio de acordo com a realização do bem que o gerou, por depreciação, amortização ou exaustão; ii) ágio fundamentado na expectativa de rentabilidade futura amortização do ágio à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração. Voltando ao caso concreto, entendo que as premissas para amortização do ágio tanto decorrente de valor de mercado, quanto da expectativa de rentabilidade futura foram preenchidas pela empresa adquirente do investimento: i) partes independentes; ii) laudo de avaliação do investimento; iii) pagamento de preço; iv) confusão patrimonial na incorporação do investimento. A discussão resumese em verificar se a fundamentação do ágio (rentabilidade futura) amortizado fiscalmente pela empresa recorrente estaria correta. Conforme visto, como data de referência de 30/06/2004, a empresa de auditoria Delloite Touche Tohmatsu Consultores Ltda preparou e encaminhou um laudo de reavaliação de ativos denominado Relatório de Avaliação Patrimonial da Archamps, com seus anexos, (efls. 229 a 397), cujo propósito era de fornecer subsídios necessários ao processo de alocação de preço de compra na aquisição da própria entidade. Vejase em trecho do Relatório (efl. 232): A empresa de auditoria efetuou a reavaliação com base em dois parâmetros: i) valor de reposição dos bens sujeitos à reavaliação (determinado a partir do investimento Fl. 1907DF CARF MF 26 necessário à aquisição de bens novos, idênticos e com capacidade semelhante); e ii) valor de mercado dos bens (determinado a partir do valor de reposição deduzindose as parcelas resultantes da depreciação técnica, tais como deterioração física e obsolescência funcional e econômica). Vejase no quadro abaixo os valores: Posteriormente à celebração do contrato de venda e compra das ações da Interagro International Ltda (data de 01/07/2004) efls. 43 a 54 , cujo objetivo era adquirir o controle societário na empresa Archamps Participações Ltda, contratouse a mesma empresa de consultoria, que elaborou em 20/08/2004 o Relatório de Avaliação EconômicoFinanceira (e fls. 398 a 514), em que foi consignado o resultado da avaliação (efl. 403), para a database de 31/07/2004: Na efl. 503, demonstrouse como foi apurado o valor econômico líquido: Com base no escopo de nossa revisão, pesquisas, análises, informações obtidas e conhecimento adquirido na execução de nossos trabalhos, estimamos que na database de 31 de julho de 2004, o valor da Archamps era de R$ 190.097 mil (cento e noventa milhões, noventa e sete mil reais), conforme demonstrado a seguir: Fluxo de Caixa Projetado a Valor Presente 105.938 (+) Perpetuidade 50.998 Fluxo de Caixa Operacional da Archamps a Valor Presente 156.936 (+) Fazenda Vale Verde 20.898 Fl. 1908DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.896 27 (+) Fazenda Portal de Minas 12.263 Valor Justo de Mercado 190.097 Pois bem. Como se vê, o ágio surgido na aquisição do investimento, pela recorrente, é resultado da seguinte expressão (efl. 1526): Total do preço pago pelo investimento 162.036.465,60 Valor do PL (31/12/2004) da Archamps (57.519.008,38) Ágio calculado pelo fisco 104.517.457,22 Ágio calculado pelo contribuinte 103.487.673,75 Correção do Ágio (aquisição Terminal Saboo Santos) (2.300.000,00) Ágio para Amortização 101.357.673,75 Em reposta (efl. 40) ao Termo de Intimação Fiscal nº 03, a empresa informa que a base legal para o ágio é o inciso III, do art. 386 do RIR/99, que tem como fundamento a rentabilidade futura. Vejase: Nº 3 Demonstrativo do ágio e da amortização do ágio a partir de 2007, vide ANEXO 2. A base legal para a amortização a partir da incorporação ocorrida em 2007 à razão de 1/60 avos ao mês, é o Inciso III, artigo 386 do RIR/99. Segue redação legal: Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (...) Art. 385. Fl. 1909DF CARF MF 28 § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, §2º): II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; Entretanto, no citado Anexo II (efl. 71) da resposta acima, a recorrente partiu do valor constante no laudo de avaliação dos bens dos ativos (Relatório de Avaliação Patrimonial da Archamps) para atingir o valor do ágio amortizado fiscalmente: Na coluna "Realocação com base no valor do ágio", a empresa servese do valor do ativo reavaliado (valor do laudo), diminuído do valor líquido contábil do bem (valor residual), e, como o resultado desta operação "coluna b coluna a" é superior ao preço pago pelo investimento "coluna d" , efetuouse a alocação do ágio na proporção dos valores dos bens a serem depreciados/amortizados/exauridos. Como se vê, o valor utilizado para a amortização do ágio tem como marco o valor (de mercado) dos bens do ativo da empresa operacional adquirida (Archamps). Outrossim, entendo pertinente observar que o ágio, no meu sentir, tanto pode ser fundamentado em uma das hipóteses quanto em mais de uma das hipóteses elencadas no §2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977: i) valor de mercado; ii) rentabilidade futura; e/ou iii) fundo de comércio, intangíveis ou outras razões econômicas, mesmo em período anterior à vigência da Lei nº 11.638/2007. Também este é o posicionamento de Eliseu Martins e Sérgio de Iudícibus, que foi bem apresentado por Luís Eduardo Schoueri, em sua obra "Ágio em Reorganizações Societárias (Aspectos Tributários)", págs. 17 e 18. Apesar de tratarem do aspecto contábil da geração e alocação do ágio, é de serventia para entendermos a possibilidade de se fundamentar o ágio em mais de um propósito, vejase: Com efeito, o exame do art. 20 do Decretolei nº 1.598/1977 denuncia o fato de que o legislador, conquanto inspirado em categorias preexistentes na Contabilidade, tomou a decisão de distanciarse desta, prevendo três fundamentos diversos para que o valor pago fosse distinto do valor patrimonial da participação societária. Esse distanciamento foi bem percebido por Eliseu Martins e Sérgio de Iudícibus. Em interessantíssimo estudo acerca dos intangíveis (goodwill), os autores ensinam que, na teoria contábil, não há qualquer sentido em valorizar o fundo de comércio, intangíveis ou outros; em síntese, terseá, apenas, o valor de mercado dos bens da coligada, sejam eles tangíveis ou intangíveis e, se o preço pago pelo investimento superar aquele valor, a diferença será o goodwill, i.e., a rentabilidade futura." (destaquei) Fl. 1910DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.897 29 Nessa linha dos Ilustres contabilistas, seguiuse a normatização advinda com a edição da Lei nº 11.638/2007 e os pronunciamentos editados pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), esclarecendose que, antes de se calcular do ágio por rentabilidade futura (hoje denominado goodwill), devese verificar o valor da maisvalia3 dos ativos e passivos adquiridos. O que percebo é que a lei fiscal permitiu às empresas uma faculdade de escolher o método que mais lhes conviesse, ao se distanciar das regulações determinadas pelas normas contábeis. Por outro lado, entendo que esse distanciamento não pode permitir que empresas se utilizem dessa fissura para driblar a essência dos fatos em favorecimento da forma mais conveniente. E é justamente este o caso dos autos! A empresa adquirente solicitou a elaboração de laudo de avaliação de ativos temporal à data de fechamento de contrato, a partir do qual efetuou o preço a ser estabelecido pelo negócio. Como se pode ver, o valor do ágio constante no ativo intangível da contabilidade da recorrente parte, exatamente, do valor resultante da avaliação dos bens do ativo, a valor de mercado, alterado pelo valor da realização de tais bens (depreciação, amortização, exaustão) e outros ajustes inerentes ao cálculo do preço de venda do investimento. O laudo de avaliação do ágio em rentabilidade futura foi elaborado posteriormente à data de celebração do contrato de compra e venda das ações da Interagro (01/07/2014) e do pagamento da primeira parcela, o que demonstra disparidade entre a exteriorização do vontade da parte adquirente, em relação ao laudo de rentabilidade futura, e o elemento subjetivo ativos a valor de mercado , que é o motivo determinante para a apuração do ágio. No contrato constam informações de que a adquirente tinha interesse em comprar a parte operacional das empresas adquiridas, qual seja, as atividades da empresa Archamps, uma vez que a holding Interagro era tão somente um veículo para se adquirir a empresa Archamps. Tal interesse se confirma pela 6ª Alteração do Contrato Social da Archamps (à época denominada Archamps Cítricos Ltda), datada de 13/07/2004, em que a holding Interagro, sucessora da Casa 20 LLC sociedade organizada e existente consoante as leis das Ilhas Virgens Britânicas e representada por Bellini Tavares de Lima Neto, CPF nº 200.695.88872 e o Sr. José Luiz Cutrale, CPF nº 121.436.26800, com a anuência deste, deliberaram que a Interagro tornava sucessora de todos os direitos e obrigações detidos por Casa 20 LLC na empresa Archamps, dentre os quais se destacam as 57.973.470 quotas do capital da própria Archamps. Assim, concluise que a Interagro somente foi criada para servir de instrumento para a aquisição da empresa operacional. Observese que, apesar da referida alteração contratual ter sido registrada na Junta Comercial do Estado de São Paulo tão somente em 05 de outubro de 2006, sob o nº 3 Segundo a Interpretação Técnica ICPC 09 (R2), do Comitê de Pronunciamentos Contábeis, a maisvalia é a diferença entre o valor justo dos bens e o seu valor contábil. Fl. 1911DF CARF MF 30 274.034/062, mostrase expressamente formalizada em 13 de julho de 2004 (fls. 515/518), demonstrando sua temporaneidade com a celebração do contrato de compra e venda das ações da Interagro. Desta forma, deve ser afastado qualquer argumento de que o objeto do contrato seria a aquisição da holding, e, com isso, intentar justificar como fundamento, para dito sobrepreço, a rentabilidade futura. Quanto à aplicação da essência em detrimento à forma, o tributarista Luís Eduardo Schoueri apresenta dissertação sobre a elaboração de laudo de avaliação do ágio e faz menção à necessidade de coerência entre o que traz o laudo de avaliação e o que efetivamente ocorreu na operação societária: “A exigência legal de uma fundamentação, quando da própria formação do ágio, impõe que se identifique um instrumento para a documentação daquela motivação. Não cuidou o legislador de disciplinar a forma como a fundamentação deveria ser comprovada. O texto do parágrafo 2º do art. 20 do Decretolei nº 1.598/1977 é singelo, determinando a indicação do fundamento do ágio por ocasião de sua contabilização. O parágrafo 3º complementao, ao deixar a cargo do contribuinte o ônus da prova (...) (...) O legislador impõe que se indique o fundamento por que houve o pagamento do preço, sendo rigoroso quanto ao seu aspecto temporal (no momento da aquisição, já se deve fazer o desdobramento, indicando o fundamento do ágio), mas silenciando quanto à forma. Também exige arquivo da “demonstração”. Mas não diz como devem ser feita. Ingressase no delicado tema da prova. Se é verdadeiro que o contribuinte pode valerse de qualquer meio de prova em direito admitido, não pode deixar de observar se está diante da prova de uma motivação, i.e., do motivo determinante da aquisição. (destaquei) (...) Daí que o laudo de avaliação, normalmente exigido pelas autoridades tributárias e examinado nos julgamentos administrativos, nada mais é que um dos elementos de que se pode valer o sujeito passivo comprovar o motivo determinante do pagamento do ágio. (...) É prática comum, em operações societárias de maior porte, que compradores e vendedores se façam valer da assessoria de especialistas, no mercado que se denomina mergers and acquisitions. Em circunstâncias normais, os assessores avaliarão a empresa a ser adquirida (target company), propondo ao comprador uma certa margem (range) para fixação do preço. Ocorrendo tais circunstâncias, a apresentação à fiscalização, pelo contribuinte, do relatório que levou à tomada de decisão parece ser elemento importantíssimo para a prova da fundamentação do ágio pago. A documentação assim apresentada não precisa, portanto, ter necessariamente a forma de um laudo. (...) A “demonstração” se faz com os documentos que de fato serviram para a tomada de decisão. (...) Fl. 1912DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.898 31 Não é incomum que, depois da conclusão do negócio, produzamse laudos de avaliação com finalidade exclusiva de atender a fiscalização. Não se pode condenar essa cautela e o laudo assim elaborado, desde que fiel às circunstâncias do negócio, pode complementar os elementos de prova, de modo a permitir que se alcance o elemento subjetivo – motivo determinante do pagamento do ágio. (destaquei) (...) Importa apenas saber se o laudo embasou a decisão do comprador, i.e., se o comprador, no momento do pagamento do ágio, considerou o laudo e suas conclusões. (...) Vale a seguinte regra: qualquer que seja o fato posterior ao pagamento do ágio, não há que ele ter influído na decisão do comprador, tomada anteriormente. (destaquei) (...)” (Schoueri, Luis Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo. Dialética, 2012, p. 33/40). Assim, não entendo que a empresa tem toda liberdade para alocar o ágio onde entender mais conveniente. Isto deve partir do que efetivamente ocorreu na operação. No caso concreto, resta muito claro que o Relatório (Laudo) de Avaliação dos ativos, elaborado por empresa de auditoria, tinha o propósito de alocar cada valor em relação aos itens do ativo, reavaliados a valor de mercado (valor justo). Não obstante haver laudo sobre a rentabilidade futura, é evidente que a recorrente intentou beneficiarse da permissão fiscal da amortização mais célere do ágio (em sua acepção mais ampla valor de mercado, rentabilidade, outras razões, intangível e fundo de comércio), devendo prevalecer a essência em detrimento da forma. Aliás, a forma também desfavorece a recorrente, pois há o laudo de avaliação de ativos. Um ponto que me intriga há tempos, mas que não tem pertinência ao caso aqui em discussão, é o fato da operação de aquisição de um investimento ter ocorrido após a vigência da Lei nº 11.638/2007 e os pronunciamentos contábeis do CPC, que trouxeram para a legislação pátria as disposições contidas nas normas IFRS International Financial Reporting Standards. Como as empresas, a partir das citadas normas legais, devem alocar o valor do sobrepreço seguindo a ordem estabelecida por elas (normas) 1º maisvalia de ativos; 2ª goodwill (antiga rentabilidade futura) me indago se a fiscalização poderia fazer valer tal regramento, se a empresa, para fins fiscais, alocar todo o sobrepreço como rentabilidade futura e amortizasse tal ágio com base no inciso III do art. 386 do RIR/99. Essa é uma discussão interessante, pois a Lei 11.941/2009 permitiu que as empresas optantes pelo RTT (Regime Tributário de Transição) efetuassem ajustes para apresentar seu balanço conforme as regras anteriores à vigência da Lei nº 11.638/2007, ou seja, anteriores a esta obrigação de alocação por preferência do valor pago a maior pelo investimento. Por outro lado, penso que essa segregação imposta pela Lei nº 11.638/2007 intenta representar a realidade dos fatos, e que, conforme entendimento de alguns com o qual compartilho de que esta alocação já se impunha desde a vigência do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977, assim pergunto: o que vale, a suposta permissão legal de alocação do ágio ao deleite das empresas ou a alocação de acordo com a realidade dos fatos, com efeito da aplicação da essência sobre a forma? Repito, é só uma reflexão, pois o surgimento do ágio aqui em comento é extemporâneo em relação à discussão por mim consignada. Fl. 1913DF CARF MF 32 Voltando ao caso concreto, percebo que o laudo denominado "Relatório de Avaliação EconômicoFinanceira" somente serviu para tentar fundamentar o ágio em rentabilidade futura. Mas, em aplicação da essência em detrimento à forma, princípio tão defendido pelos militantes da contabilidade e do direito, entendo que efetivamente a recorrente pagou o sobrepreço em relação ao valor de mercado de ativos. Outro argumento trazido pela recorrente é que a decisão recorrida tenta caracterizar, de certa forma, a ocorrência de fraude ou simulação por parte da recorrente, para desconsiderar o laudo da rentabilidade futura. Caso assim fosse, alega a recorrente, deveria a fiscalização aplicar a multa qualificada de 150%. Não entendo que haveria necessidade de aplicação da multa qualificada. Aliás, esta turma tem firmado entendimento de que a manutenção da multa qualificada por fraude e simulação deve estar respaldada por prova hábil da intenção dolosa, do contribuinte, em lesar o fisco. Também entendo que, nos casos de ágio, sua alocação quanto à fundamentação econômica é assunto que traz bastante controvérsia no âmbito administrativo. A discussão está centrada na possibilidade, ou não, da alocação do fundamento do ágio de acordo com o que interessa à empresa cujo direito ao aproveitamento do ágio lhe assiste. A legislação anterior à vigência da Lei 12.973/2014 (conversão da MP 627/2013), no que se refere ao tratamento do ágio, não trazia regras muito claras quanto à sua aplicação apesar de tudo que foi por mim exposto nesse voto principalmente quanto ao ágio decorrente de aquisição efetuada com pagamento de preço e exercida entre partes independentes. Na maioria dos casos de ágio, as empresas serviamse de brecha legal para poder reduzir a carga tributária do IRPJ, como é o caso aqui em comento. Esta premissa, por si só, já nos induz a aplicar o benefício da dúvida, afastando a aplicação da referida multa. A aplicação da multa qualificada pressupõe a prática da conduta ilícita e a intenção em lesar o fisco. É uma exceção às condutas praticadas pelos contribuintes. Não pode a exceção virar a regra. No caso concreto, não há nenhum fato indicador da intenção em fraudar o fisco. A empresa utilizouse de instrumentos legais de operação de reorganização societária com objetivo de reduzir a carga tributária. Não é porque o objetivo, como já visto alhures neste voto, era meramente fiscal, que se deve travestir como conduta fraudulenta. Assim, não seria necessária a aplicação da multa de ofício qualificada para que a autuação fiscal fosse mantida. Diante do exposto, é de concluir: se a empresa atribuiu a cada bem do ativo o seu devido valor de mercado, correta está a fiscalização ao concluir que o ágio decorre de avaliação de ativos. Desta forma, nego provimento quanto a este ponto. LUCROS NO EXTERIOR A fiscalização incluiu na base de cálculo do IRPJ e, por reflexo, na base de cálculo da CSLL, do anocalendário de 2007, o valor do lucro apurado por empresa subsidiária da recorrente, domiciliada na Holanda Cutrale Europe Holdings B.V. Fl. 1914DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.899 33 A recorrente, por sua vez, suplica pela aplicação do art. VII da Convenção para evitar a dupla tributação de rendas, ratificada no âmbito interno pelo Decreto nº 355, de 2 de dezembro de 1991, firmada entre o Brasil e o Reino dos Países Baixos, dentre os quais está situada a Holanda. Assim, em se aplicando o tratado, não haveria que tributar no Brasil rendimento que já foi tributado no país de domicílio da renda auferida. Subsidiriamente ao pedido, a recorrente alega que não foram aproveitados os prejuízos apurados na empresa subsidiária na Holanda, assim como também não foi considerado o valor do imposto pago no exterior. Pois bem. O histórico brasileiro da tributação, de pessoas jurídicas, em bases universais (TBU), que consiste na tributação dos rendimentos considerando os sujeitos que tenham relação pessoal com o país, independentemente de onde tenha sido realizado o rendimento, remonta idos de 1995, a partir da edição do art. 25 da Lei 9.249/1995. Vejase a redação inaugural: Art. 25. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano. Até a vigência da referida norma, o Brasil seguia o princípio da territorialidade, somente tributando os rendimentos que tivessem elementos de conexão com o território brasileiro tributação na fonte . O objetivo de norma baseada na universalidade era de se tributar os rendimentos auferidos pelas denominadas Controlled Foreign Corporations CFC . Segundo Heleno Torres4, os seguintes motivos foram sopesados para se aplicar a regra da universalidade da tributação das rendas: ... sobre a tributação dos lucros de controladas e coligadas, inicialmente a União pretendeu instituir uma regra antielisiva sobre “sociedades controladas estrangeiras”, para alcançar os dividendos e tributálos antes mesmo da disponibilização, evitando assim o seu diferimento (tax deferral). Tratase do Controlled Foreign Corporations (CFC – legislation), que significa imputar aos sócios ou acionistas residentes, por transparência, os lucros produzidos pela sociedade constituída e localizada em países com tributação favorecida, fazendo incidir o imposto aplicável aos lucros produzidos no exterior, pelas sociedades ali localizadas, e das quais aqueles sujeitos são acionistas, automaticamente, como se fossem produzidos internamente, mesmo se não distribuídos sob a forma de dividendos. Como se vê, isso se dá por recurso a uma fictio iuris, segundo a qual, para efeitos tributários, considerase que o sujeito interposto efetua uma automática e direta distribuição de lucros ao sujeito residente na data do balanço no qual os lucros são apurados. A Lei nº 9.249/1995 estabeleceu que o lucro era considerado disponibilizado na data do fechamento do balanço que o apurou, diferentemente da sua norma de regulamentação IN SRF 38/1996 que determinou que os lucros fossem disponibilizados 4 TORRES, Heleno. Pluritributação internacional sobre a renda das empresas. 2ª ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. 2001. p. 307/308 Fl. 1915DF CARF MF 34 somente no final do exercício em que fossem pagos à empresa coligada ou controlada situada no Brasil. Vejase: Art. 2º Os lucros auferidos no exterior, por intermédio de filiais, sucursais, controladas ou coligadas serão adicionados ao lucro líquido do períodobase, para efeito de determinação do lucro real correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro do anocalendário em que tiverem sido disponibilizados. §1º Consideramse disponibilizados os lucros pagos ou creditados à matriz, controladora ou coligada, no Brasil, pela filial, sucursal, controlada ou coligada no exterior. §2º Para efeito do disposto no parágrafo anterior, considerase: I creditado o lucro, quando ocorrer a transferência do registro de seu valor para qualquer conta representativa de passivo exigível da filial, sucursal, controlada ou coligada, domiciliada no exterior; II pago o lucro, quando ocorrer: a) o crédito do valor em conta bancária em favor da matriz, controladora ou coligada, domiciliada no Brasil; b) a entrega, a qualquer título, a representante da beneficiária; c) a remessa, em favor da beneficiária, para o Brasil ou para qualquer outra praça; d) o emprego do valor, em favor da beneficiária, em qualquer praça, inclusive no aumento de capital da filial, sucursal, controlada ou coligada, domiciliada no exterior. A fim de evitar controvérsias jurídicas quanto ao estabelecimento do momento da disponibilização do lucro, ora estabelecido por meio de uma Instrução Normativa, foi introduzido dispositivo na Lei nº 9.532/1997 idêntico, em parte, ao arranjado na referida IN SRF 38/1996, determinando a adição ao lucro real do lucro do exterior na data do fechamento do balanço do ano em que pago ou creditado tal valor à empresa brasileira. Vejase todo o histórico legislativo contido no art. 1º da Lei nº 9.532/1997: Art. 1º Os lucros auferidos no exterior, por intermédio de filiais, sucursais, controladas ou coligadas serão adicionados ao lucro líquido, para determinação do lucro real correspondente ao balanço levantado no dia 31 de dezembro do anocalendário em que tiverem sido disponibilizados para a pessoa jurídica domiciliada no Brasil. (Vide Medida Provisória nº 215835, de 2001) § 1º Para efeito do disposto neste artigo, os lucros serão considerados disponibilizados para a empresa no Brasil: a) no caso de filial ou sucursal, na data do balanço no qual tiverem sido apurados; b) no caso de controlada ou coligada, na data do pagamento ou do crédito em conta representativa de obrigação da empresa no exterior. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Fl. 1916DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.900 35 c) na hipótese de contratação de operações de mútuo, se a mutuante, coligada ou controlada, possuir lucros ou reservas de lucros; (Incluída pela Lei nº 9.959, de 2000) d) na hipótese de adiantamento de recursos, efetuado pela coligada ou controlada, por conta de venda futura, cuja liquidação, pela remessa do bem ou serviço vendido, ocorra em prazo superior ao ciclo de produção do bem ou serviço. (Incluída pela Lei nº 9.959, de 2000) § 2º Para efeito do disposto na alínea "b" do parágrafo anterior, considerase: (Vide Lei nº 12.973, de 2014) (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) creditado o lucro, quando ocorrer a transferência do registro de seu valor para qualquer conta representativa de passivo exigível da controlada ou coligada domiciliada no exterior; b) pago o lucro, quando ocorrer: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) 1. o crédito do valor em conta bancária, em favor da controladora ou coligada no Brasil; 2. a entrega, a qualquer título, a representante da beneficiária; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) 3. a remessa, em favor da beneficiária, para o Brasil ou para qualquer outra praça; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) 4. o emprego do valor, em favor da beneficiária, em qualquer praça, inclusive no aumento de capital da controlada ou coligada, domiciliada no exterior. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 3º Não serão dedutíveis na determinação do lucro real, os juros, pagos ou creditados a empresas controladas ou coligadas, domiciliadas no exterior, relativos a empréstimos contraídos, quando, no balanço da coligada ou controlada, constar a existência de lucros não disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 3º Não serão dedutíveis na determinação do lucro real e da base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido os juros, pagos ou creditados, incidentes sobre o valor equivalente aos lucros não disponibilizados por empresas: (Redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000) (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I coligadas ou controladas, domiciliadas no exterior, quando estas forem as beneficiárias do pagamento ou crédito; (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Fl. 1917DF CARF MF 36 II controladas, domiciliadas no exterior, independente do beneficiário. (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 3º Não serão dedutíveis na determinação do lucro real e da base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido os juros, relativos a empréstimos, pagos ou creditados a empresa controlada ou coligada, independente do local de seu domicílio, incidentes sobre valor equivalente aos lucros não disponibilizados por empresas controladas, domiciliadas no exterior. (Redação dada pela Medida Provisória nº 215835, de 2001) § 4º Os créditos de imposto de renda de que trata o art. 26 da Lei nº 9.249, de 1995, relativos a lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, somente serão compensados com o imposto de renda devido no Brasil se referidos lucros, rendimentos e ganhos de capital forem computados na base de cálculo do imposto, no Brasil, até o final do segundo ano calendário subseqüente ao de sua apuração. (Vide art 96 §3 e art 99 da Lei nº 12.973, de 2014) (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 5º Relativamente aos lucros apurados nos anos de 1996 e 1997, considerarseá vencido o prazo a que se refere o parágrafo anterior no dia 31 de dezembro de 1999. § 6º Nas hipóteses das alíneas "c" e "d" do § 1o o valor considerado disponibilizado será o mutuado ou adiantado, limitado ao montante dos lucros e reservas de lucros passíveis de distribuição, proporcional à participação societária da empresa no País na data da disponibilização. (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) § 7º Considerarseá disponibilizado o lucro: (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) a) na hipótese da alínea "c" do § 1o: (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) 1. na data da contratação da operação, relativamente a lucros já apurados pela controlada ou coligada; (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) 2. na data da apuração do lucro, na coligada ou controlada, relativamente a operações de mútuo anteriormente contratadas; (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) b) na hipótese da alínea "d" do § 1o, em 31 de dezembro do ano calendário em que tenha sido encerrado o ciclo de produção sem que haja ocorrido a liquidação. (Incluído pela Lei nº 9.959, de 2000) Não obstante o desígnio da regra antielisa preceito que tem como finalidade impedir que o contribuinte se sirva de planejamentos tributários abusivos, com objetivo de pagar menos tributo ainda assim empresas se utilizavam de expedientes que permitiam o diferimento do lucro no exterior, fazendo, por vezes, com que a disponibilidade do lucro no exterior nunca se efetivasse. Fl. 1918DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.901 37 Após isso, foi editada a Lei Complementar nº 104/2001, com fins de introduzir o § 2º no art. 43 do CTN, que assim dispôs: Art. 43. (...) § 2º Na hipótese de receita ou de rendimento oriundos do exterior, a lei estabelecerá as condições e o momento em que se dará sua disponibilidade, para fins de incidência do imposto referido neste artigo. Com a redação acima, estava consignada possibilidade de norma legal prever o momento da incidência do imposto de renda sobre lucros auferidos no exterior. Assim, foi publicada a redação contida na MP 2.15835/2001, que, além de replicar a possibilidade de aplicação das regras do IRPJ à CSLL (art. 21), estabeleceu o momento da disponibilização dos lucros do exterior (art. 74), vejase: Art. 21. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior sujeitamse à incidência da CSLL, observadas as normas de tributação universal de que tratam os arts. 25 a 27 da Lei nº 9.249, DE 1995, os arts. 15 A 17 da Lei nº 9.430. de 1996, e o art. 1º da Lei nº 9.532, de 1997. Parágrafo único. O saldo do imposto de renda pago no exterior, que exceder o valor compensável com o imposto de renda devido no Brasil, poderá ser compensado com a CSLL devida em virtude da adição, à sua base de cálculo, dos lucros oriundos do exterior, até o limite acrescido em decorrência dessa adição. (...) Art. 74. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Provisória, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento. (Vide Lei nº 9.532, de 1997) (Vide ADI nº 2588, 2001) (Vide Medida Provisória nº 627, de 2013) (Vigência) (Vide Medida Provisória nº 627, de 2013) (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Parágrafo único. Os lucros apurados por controlada ou coligada no exterior até 31 de dezembro de 2001 serão considerados disponibilizados em 31 de dezembro de 2002, salvo se ocorrida, antes desta data, qualquer das hipóteses de disponibilização previstas na legislação em vigor. (Vide ADI n} 2588, 2001) (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Com a redação acima, "fecharamse as portas" para os planejamentos abusivos em relação ao momento da tributação dos lucros do exterior; por outro lado, porém, permitiuse aos contribuintes travar lutas incessantes na busca da adequação da aplicação da norma supracitada com o propósito das regras CFC, mormente em relação ao tratamento Fl. 1919DF CARF MF 38 igualitário às empresas coligadas com aquele despendido às empresas controladas, no que tange ao momento da disponibilidade dos lucros, conforme redação do alusivo art. 74 da MP 2.15835/2001. Em razão disso, o STF foi acionado para se manifestar acerca da constitucionalidade do referido art. 74. Sem querer adentrar na discussão emergida com a referida ordem judicial, o STF definiu o caso conforme o que segue5: 2. Orientada pelos pontos comuns às opiniões majoritárias, a composição do resultado reconhece: 2.1. A inaplicabilidade do art. 74 da MP 2.15835 às empresas nacionais coligadas a pessoas jurídicas sediadas em países sem tributação favorecida, ou que não sejam “paraísos fiscais”; 2.2. A aplicabilidade do art. 74 da MP 2.15835 às empresas nacionais controladoras de pessoas jurídicas sediadas em países de tributação favorecida, ou desprovidos de controles societários e fiscais adequados (“paraísos fiscais”, assim definidos em lei); (...) Quanto às controladas sediadas em países sem tributação favorecida e as coligadas situadas em países com tributação favorecida, o STF não se manifestou na referida ADI 2.588, deixando uma lacuna no tratamento dispensado a estas empresas . No caso concreto, vêse que a empresa localizada no exterior é subsidiária da empresa brasileira, ou seja, empresa com controle de 100% de suas ações por parte de sua controladora. Porém, a empresa subsidiária está sediada em país sem tributação favorecida. Assim, tratase de evento situado no limbus da decisão da Corte Suprema, donde se conclui que não se aplica a decisão do STF ao caso aqui em discussão. Desta forma, com base na presunção de constitucionalidade das normas legais, impõese correto o fundamento legal do auto de infração, devendo tão somente ser verificado se o Tratado Brasil x Holanda se aplica ao caso em comento. Em relação ao pedido de aplicação do art. VII da Convenção Destinada a Evitar a Dupla Tributação, firmada entre o Brasil e os Reino dos Países Baixos, convém inicialmente trazer a referida previsão normativa: Lucros das Empresas 1 Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado; a não ser que a empresa exerça, sua atividade no outro Estado Contratante, por meio de um estabelecimento permanente ali situado. Se a empresa exerce suas atividades na forma indicada, seus lucros podem ser tributados no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem, atribuíveis àquele estabelecimento permanente. 2 Ressalvado o disposto no parágrafo 3, quando uma empresa de um Estado Contratante exercer sua atividade no outro Estado 5 extraído, no dia 11/09/2017, do seguinte endereço eletrônico: http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=630053 Fl. 1920DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.902 39 Contratante por meio de um estabelecimento permanente ali situado, serão atribuídos, a esse estabelecimento permanente, em cada Estado Contratante, os lucros que obteria se fosse uma empresa distinta e separada, exercendo atividades iguais ou similares, sob condições iguais ou similares e transacionando com absoluta independência com a empresa da qual é estabelecimento permanente. 3 Na determinação dos lucros de um estabelecimento permanente, é permitido deduzir as despesas incorridas para a consecução dos seus objetivos, inclusive as despesas de direção e os encargos gerais de administração assim realizados. 4 Nenhum lucro será atribuído a um estabelecimento permanente pelo simples fato de comprar bens ou mercadorias para a empresa. 5 Quando os lucros compreenderem elementos de rendimentos disciplinados separadamente em outros Artigos desta Convenção, o disposto em tais Artigos é prejudicado pelo que dispõe este Artigo. Em voto proferido por meio do Acórdão 1402002.321, da sessão de 04/10/2016, da 2ª Turma da 4ª Câmara da 1ª Seção do CARF, o Relator Fernando Brasil de Oliveira Pinto concluiu que o art. VII a casos como o aqui discutido, pois a tributação não recai sobre o lucro da empresa sediada no exterior, mas sim sobre o lucro da empresa brasileira: Ora, a parte desses dispositivos que diz que “os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado” não pode ser entendida de maneira desvinculada da parte seguinte: “a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado”. Tratase da forma que as ConvençõesModelo escolheram para dizer que o país da fonte só pode tributar o lucro do seu não residente se este exercer atividade neste país por intermédio de um estabelecimento permanente. Isso porque é possível que uma atividade seja exercida sem um grau de conexão tal com o país da fonte que seja capaz de qualificálo no escopo do conceito de estabelecimento permanente contido nos artigos 5º daquelas mesmas ConvençõesModelo. Ainda assim, existe a conexão e o país da fonte poderia querer exercer sua jurisdição no sentido de tributar os correspondentes lucros. A regra daqueles dispositivos impede, então, que o país da fonte exerça essa jurisdição. (...) A redação do artigo 7º das Convenções sobre Dupla Tributação foi elaborado para se impedir que sejam tributados na fonte receitas (“lucros” – profits) remetidas ao país de residência, sem que haja uma presença efetiva da empresa no outro país, a não ser que o rendimento seja abrangido nos outros itens específicos do tratado. Logo, se houver um estabelecimento permanente (no que se remete ao art. 5º da CDT, que define os critérios para este fim), ou houver uma subsidiária ou controlada, os lucros também podem ser tributados pelo país em que eles são gerados. Fl. 1921DF CARF MF 40 O acordo firmado entre o Brasil e o Reino dos Países Baixos, no caso, a Holanda, teve como propósito evitar a dupla tributação de uma mesma hipótese de incidência, quer dizer, intenta evitar que mais de um país tribute a mesma pessoa por um mesmo evento ocorrido em determinado aspecto temporal e referente a um mesmo tributo. Para se aplicar um tratado, entretanto, devese ter em mente a existência de elementos de conexão entre o país da renda e o país que tem direito à tributação. A conexão é avaliada de acordo com o critério de residência ou fonte do país de tributação ou de auferimento do rendimento. Caso não exista tal elemento de conexão, o tratado não pode ser aplicado. Desta forma, podese inferir que uma legislação não pode ter eficácia para tributar um ente residente em outro país, em razão da falta de conexão. Se fosse assim, estarseia ampliando seu poderdever de tributação. Como se pode verificar na redação do art. 74 da MP 2.15835/2001, o que se está tributando é a receita da empresa localizada no Brasil, e não uma empresa localizada no exterior. A lei interna objetiva tributar uma renda ficta da própria empresa brasileira tributação do residente , a partir de uma base estimada sobre o lucro apurado pela empresa residente no exterior. O professor Marco Aurélio Greco adota a seguinte linha, que é seguida por este relator: Para Marco Aurélio Greco, uma vez que o referido artigo 74 estabelece a tributação de uma variação positiva de patrimônio da empresa brasileira, não haveria base para se falar em bloqueio da tributação prevista neste dispositivo em função da aplicação do art. 7º das convenções internacionais assinadas pelo Brasil, já que, em nenhum momento, se estaria tributando lucros da empresa residente no outro país. Em sua visão, mesmo nos casos em que determinada convenção prevê a isenção dos dividendos pagos para residentes e domiciliados no Brasil, não estaria afastada a tributação do art. 74, uma vez que, como dito acima, seu entendimento é no sentido de que esta regra prevê a tributação de um acréscimo patrimonial ocorrido no Brasil e não do resultado ainda não distribuído pela empresa brasileira. 6 Se não fosse assim, a redação do art. 74 da MP 2.15835/2001 não teria sentido de existir, pois se trata de Lei editada posteriormente à celebração do Acordo Brasil x Holanda (no ano de 1991). Assim, seria um despautério entender que aquela norma representasse letra morta no ordenamento jurídico nacional. Outrossim, como as normas CFC advieram bem depois da celebração Acordo Brasil x Holanda, não cabe o argumento de que o art. 7º dos Tratados tinha como objetivo impedir a aplicação das regras CFC aos países signatários. E nem se pode argumentar que a tributação de uma renda ficta ou, conforme alega a recorrente, renda presumida, deve ser afastada por contrariar o primado do imposto aqui em referência, que é de tributar a renda efetiva, pois se sabe que existem situações em que a apuração do imposto de renda prescinde da necessidade, ou não, do acréscimo patrimonial para se tributar, ou não, a renda, como é o caso da depreciação acelerada incentivada e dos preços de transferência. Enfim, pelo que percebo na ideia da lei, é que se você exerce influência suficiente na empresa ligada, a ponto de poder solicitar a qualquer momento o lucro apurado pela empresa no exterior, é que tal lucro se torna disponível no momento da apuração do 6 GRECO, Marco Aurélio; ROCHA, Sergio Andre. Tributação Direta: Imposto sobre a Renda. In: UCKMAR, Victor et al. Manual de Direito Tributário Internacional. São Paulo: Dialética:2012, p. 407408 Fl. 1922DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.903 41 resultado da empresa sediada no exterior. Para ser bem mais claro, apesar do exemplo um pouco inusitado, se você pode efetuar um telefonema para a empresa no exterior e determinar que se distribua o lucro, é porque tal lucro está disponível. Desta forma, devese afastar tal argumento da recorrente. Quanto à alegação da recorrente de que parte dos valores decorrentes do acréscimo patrimonial da subsidiária foram destinados ao seu próprio ativo fixo intangível, e, por isso, o lucro não foi destinado à recorrente, entendo que não cabe razão à recorrente. Isto porque o artigo 74 da MP 2.15835/2001 não faz ressalva quanto à tributação do lucro se comprovado que parte ou a totalidade do lucro foi revertida para a empresa que o apurou. Aliás, o que se tributa é a disponibilidade jurídica. Vejase novamente a redação: Art. 74. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Provisória, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento. Cabe ainda fazer uma ressalva de que não necessariamente o lucro apurado se converte em caixa/dinheiro, a ponto de se confirmar que a origem do valor despendido para a aquisição dos ativos da subsidiária decorreram dos lucros apurados. Ou seja, não há uma necessária conexão entre o valor que ingressa no caixa de uma empresa e o lucro por ela apurado, e, do contrário, também não se pode afirmar que todo lucro apurado pela empresa necessariamente representará dinheiro em caixa. Interessante é que não se faz ressalva alguma quando o resultado positivo de equivalência patrimonial é apurado pela empresa brasileira e que serve de base de distribuição de dividendos aqui no Brasil. Desta forma, afasto também este argumento. Quanto a eventual conflito existente entre o tratado para evitar a dupla tributação e legislação hodierna nacional, com invocação do art. 98 do CTN, não entendo merecer razão o argumento da recorrente de que se deve aplicar o tratado por se tratar de norma superior à interna. Vejase na redação do dispositivo citado: Art. 98. Os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha. No caso, não se chega a aplicar o tratado, pois partese de premissa distinta da que a acredita a recorrente. Como visto nesse voto, o tratado não pode ser invocado para tentar afastar a tributação de uma empresa brasileira que está domiciliada no Brasil e que apura lucros advindos no exterior. Repito: não está se falando aqui de tributar uma empresa de fora, mas sim de uma empresa nacional. Assim, a regra de tributação é a mesma de rendimentos auferidos dentro do próprio país. Fl. 1923DF CARF MF 42 Este é o entendimento firmado pela Receita Federal, por meio da Solução de Consulta Interna COSIT nº 18, de 08/08/2013, cujos trechos da conclusão e a ementa reproduzo abaixo: Conclusão 34. Em face do exposto, concluise que a aplicação do disposto no art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001, não viola os tratados internacionais para evitar a dupla tributação pelas seguintes razões: 34.1. a norma interna incide sobre o contribuinte brasileiro, inexistindo qualquer conflito com os dispositivos do tratado que versam sobre a tributação de lucros; 34.2. o Brasil não está tributando os lucros da sociedade domiciliada no exterior, mas sim os lucros auferidos pelos próprios sócios brasileiros; e 34.3. a legislação brasileira permite à empresa investidora no Brasil o direito de compensar o imposto pago no exterior, ficando, assim, eliminada a dupla tributação, independentemente da existência de tratado. Ementa ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ LUCROS AUFERIDOS POR EMPRESAS COLIGADAS OU CONTROLADAS DOMICILIADAS NO EXTERIOR A aplicação do disposto no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, não viola os tratados internacionais para evitar a dupla tributação. Dispositivos Legais: art. 98 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, arts 25 e 26 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, arts. 21 e 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001, e Artigo 7 da Convenção Modelo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Quanto ao suposto direito à compensação de tributos pagos no exterior e de prejuízos apurados pela subsidiária na Holanda, a recorrente apresentou os seguintes argumentos (efls. 1.726 e 1.727): 3. Do direito à compensação Quanto aos pedidos subsidiários de compensação dos impostos pagos no exterior e dos prejuízos da subsidiária estrangeira formulados pela então Impugnante, a r. decisão recorrida limitouse a sustentar a ausência de prova do alegado, para negarlhes acolhida. A documentação necessária ao reconhecimento dos mencionados pedidos, ilustres Conselheiros, encontrase juntada aos autos. Dela é possível extrair o montante pago a título de tributos incidentes sobre os lucros auferidos na controlada, bem como os prejuízos acumulados no período. Em assim o sendo, a apropriação de créditos outorgados pela lei à contribuinte é medida que se impõe, caso seja mantida o que se admite apenas a título argumentativo a determinação de inclusão dos lucros de sua subsidiária estrangeira Fl. 1924DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.904 43 na base de cálculo do IRPJ/CSLL, em âmbito nacional, conforme determina o disposto nos artigos 26 § 1º da Lei 9249/95 e 1º § 4º da Lei 9532/97. Como se vê, a recorrente apresenta argumento vago, sem indicar especificamente quais são os documentos que fazem prova a seu favor. Esta conduta, por si só, já me faz mentalizar que a recorrente não tem razão em seu pedido. Não obstante isso, em respeito aos seus argumentos, enfrento as questões levantadas: Compensação de pagamentos efetuados no exterior Quanto ao pedido de aproveitamento de pagamentos de tributo sobre a renda efetuados no exterior, entendo que a recorrente não trouxe elementos convincentes de que se deve aproveitar os supostos pagamentos. Isto porque a legislação pátria estabelece que o imposto recolhido no exterior deve ser comprovado da seguinte forma: O novo Código de Processo Civil (CPC), publicado por meio da Lei nº 13.105/2015 aplicável subsidiariamente ao Decreto n° 70.235, de 1972 estabelece o seguinte: Art. 192. Em todos os atos e termos do processo é obrigatório o uso da língua portuguesa. Parágrafo único. O documento redigido em língua estrangeira somente poderá ser juntado aos autos quando acompanhado de versão para a língua portuguesa tramitada por via diplomática ou pela autoridade central, ou firmada por tradutor juramentado. No CPC publicado por meio da Lei nº 5.869/1973, também havia a previsão legal de tradução de documentos firmados em língua estrangeira. Art.156. Em todos os atos e termos do processo é obrigatório o uso do vernáculo. Quanto à tradução do documento estrangeiro, o Código Civil (Lei nº 10.406/2002) prevê o seguinte: Art. 224. Os documentos redigidos em língua estrangeira serão traduzidos para o português para ter efeitos legais no País. Conforme estabelecido pelo art. 26 da Lei nº 9.249/1995, a autoridade fiscal deve intimar a empresa a traduzir documento apresentado em língua estrangeira: Art. 26. A pessoa jurídica poderá compensar o imposto de renda incidente, no exterior, sobre os lucros, rendimentos e ganhos de capital computados no lucro real, até o limite do imposto de renda incidente, no Brasil, sobre os referidos lucros, rendimentos ou ganhos de capital. Fl. 1925DF CARF MF 44 § 1º Para efeito de determinação do limite fixado no caput, o imposto incidente, no Brasil, correspondente aos lucros, rendimentos ou ganhos de capital auferidos no exterior, será proporcional ao total do imposto e adicional devidos pela pessoa jurídica no Brasil. § 2º Para fins de compensação, o documento relativo ao imposto de renda incidente no exterior deverá ser reconhecido pelo respectivo órgão arrecadador e pelo Consulado da Embaixada Brasileira no país em que for devido o imposto. (negritei) § 3º O imposto de renda a ser compensado será convertido em quantidade de Reais, de acordo com a taxa de câmbio, para venda, na data em que o imposto foi pago; caso a moeda em que o imposto foi pago não tiver cotação no Brasil, será ela convertida em dólares norteamericanos e, em seguida, em Reais. Desta forma, está estabelecida a forma de aproveitamento de documento produzido em língua estrangeira: 1) Tradução para o vernáculo; e 2) Reconhecimento pelo órgão arrecadador e pelo Consulado da Embaixada Brasileira no país em que for devido o imposto. Como a empresa não apresentou os documentos necessários ao aproveitamento de eventual imposto pago no exterior, mister afastar o argumento da recorrente. Compensação de prejuízos acumulados A legislação referente à tributação dos lucros do exterior aplica o tratamento aos prejuízos apurados por controlada e coligada existente no exterior. Vejase a prescrição contida na Lei nº 9.249/1995: “Art. 25. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano. (...) § 5º Os prejuízos e perdas decorrentes das operações referidas neste artigo não serão compensados com lucros auferidos no Brasil. A IN SRF 213/2002, por sua vez, apresenta seus esclarecimentos sobre a possibilidade de aproveitamento de prejuízos da empresa subsidiária no exterior: “Tratamento do prejuízo apurado no exterior Art. 4º É vedada a compensação de prejuízos de filiais, sucursais, controladas ou coligadas, no exterior, com os lucros auferidos pela pessoa jurídica no Brasil. (destacouse) Fl. 1926DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.905 45 § 1º Os prejuízos a que se refere este artigo são aqueles apurados com base na escrituração contábil da filial, sucursal, controlada ou coligada, no exterior, efetuada segundo as normas legais do país de seu domicílio, correspondentes aos períodos iniciados a partir do anocalendário de 1996. § 2º Os prejuízos apurados por uma controlada ou coligada, no exterior, somente poderão ser compensados com lucros dessa mesma controlada ou coligada. (negritei) § 3º Na compensação dos prejuízos a que se refere o § 2º não se aplica a restrição de que trata o art. 15 da Lei nº 9.065, de 1995. (negritei) (...) Demonstrações financeiras Art. 6º As demonstrações financeiras das filiais, sucursais, controladas ou coligadas, no exterior, serão elaboradas segundo as normas da legislação comercial do país de seu domicílio. (...) § 6º As demonstrações financeiras em Reais das filiais, sucursais, controladas ou coligadas, no exterior, deverão ser transcritas ou copiadas no livro Diário da pessoa jurídica no Brasil. (negritei) § 7º Para efeito do disposto nesta Instrução Normativa, as participações em filiais, sucursais, controladas ou coligadas e as aplicações em títulos e valores mobiliários no exterior devem ser escrituradas separada e discriminadamente na contabilidade da pessoa jurídica no Brasil, de forma a permitir a correta identificação desses valores e as operações realizadas.” (negritei) Independentemente dos trechos normativos reproduzidos acima, no caso concreto, os documentos juntados ao processo não fazem prova de que a empresa subsidiária sediada na Holanda possuía efetivamente prejuízos acumulados que permitissem que fossem compensados com os lucros apurados por ela no período objeto da autuação. Pelo contrário, como bem observado pela decisão de piso, o prejuízo existente na subsidiária da recorrente na Holanda somente foi apurado em período superveniente ao ano correspondente ao fato gerador do lançamento aqui discutido. Desta forma, devese afastar o pedido da recorrente. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO A recorrente alega que, sendo a multa e os juros verbas acessórias, incorreta a incidência de um em outro, pelo que pede pelo afastamento da aplicação de juros de mora Fl. 1927DF CARF MF 46 sobre a multa de ofício. Aduz que nem mesmo o art. 61 da Lei nº 9.430/1996 permite a aplicação da exação. Pois bem. Não entendo possuir amparo a alegação da recorrente. O art. 161 do CTN determina que ao crédito vencido e não pago acrescemse juros de mora: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. Já a parte final da redação do supra dispositivo legal define que a incidência de juros de mora não prejudica a imposição de penalidades. O art. 142 do CTN, por sua vez, apresenta a definição de crédito tributário: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Conforme se extrai da cláusula legal, o crédito tributário é composto pelo montante do tributo devido e pela penalidade cabível. Da intersecção dos dois dispositivos acima, concluise que ao tributo e à multa de ofício (crédito tributário) incidem os juros de mora. Desta forma, aplicase o art. 30 da Lei 10.522/2002, que determina a incidência da Selic como taxa referencial para a atualização do crédito tributário. Art. 30. Em relação aos débitos referidos no art. 29, bem como aos inscritos em Dívida Ativa da União, passam a incidir, a partir de 1o de janeiro de 1997, juros de mora equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia – Selic para títulos federais, acumulada mensalmente, até o último dia do mês anterior ao do pagamento, e de 1% (um por cento) no mês de pagamento. Assim, nego o pedido quanto ao afastamento da incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. CSLL reflexo Pela íntima relação de causa e efeito, e em razão do disposto no art. 21 da MP nº 2.15835/2001, a manutenção da autuação do IRPJ quanto aos lucros do exterior aplicase também à CSLL, devendo ser mantida a tributação. Fl. 1928DF CARF MF Processo nº 16643.720026/201294 Acórdão n.º 1401002.075 S1C4T1 Fl. 1.906 47 Conclusão Diante do exposto, voto por NEGAR provimento ao recurso voluntário, pelas razões acima aduzidas. (assinado digitalmente) Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa Fl. 1929DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10768.007270/2005-46
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Sep 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Oct 18 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2000, 2001
OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. FASE PRELIMINAR COMPROBATÓRIA PLENAMENTE EXERCIDA PELO CONTRIBUINTE.
O Espólio possui capacidade para figurar no pólo passivo da obrigação tributária, o que não se confunde com a exigência, perante o Inventariante, de comprovação da origem de depósitos bancários de titularidade do de cujus. Se nessa fase preliminar, específica do art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, as intimações foram dirigidas ao Contribuinte e por ele atendidas, não há que se falar em ilegitimidade passiva do Espólio.
Numero da decisão: 9202-006.008
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões constantes do recurso voluntário, vencidas as conselheiras Patrícia da Silva, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe negaram provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Ana Paula Fernandes.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Júnior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
Nome do relator: MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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DEPÓSITOS BANCÁRIOS. FASE PRELIMINAR COMPROBATÓRIA PLENAMENTE EXERCIDA PELO CONTRIBUINTE. O Espólio possui capacidade para figurar no pólo passivo da obrigação tributária, o que não se confunde com a exigência, perante o Inventariante, de comprovação da origem de depósitos bancários de titularidade do de cujus. Se nessa fase preliminar, específica do art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, as intimações foram dirigidas ao Contribuinte e por ele atendidas, não há que se falar em ilegitimidade passiva do Espólio. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões constantes do recurso voluntário, vencidas as conselheiras Patrícia da Silva, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe negaram provimento. Votou pelas conclusões a conselheira Ana Paula Fernandes. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 76 8. 00 72 70 /2 00 5- 46 Fl. 2508DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Júnior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). Relatório Trata o presente processo, de exigência de Imposto de Renda Pessoa Física, nos exercícios de 2000 e 2001, tendo em vista a omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários sem comprovação de origem. Em sessão plenária de 19/08/2009, foi julgado o Recurso Voluntário nº 165.076, prolatandose o Acórdão nº 220100381 (fls. 909 a 920), assim ementado: “Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Exercício: 2000, 2001 Ementa: DEPÓSITO BANCÁRIO FALECIMENTO DO CONTRIBUINTE NO CURSO DO PROCESSO OBRIGAÇÃO PERSONALÍSSIMA. Considerando que a presunção estabelecida no artigo 42 da Lei 9.430 de 1.996 tem natureza personalíssima e admite prova em contrário, a obrigação decorrente recai exclusivamente sobre o titular dos depósitos bancários objeto da autuação. ' Na hipótese de falecimento do autuado no curso do processo administrativo, o auto de infração se torna nulo posto que o crédito tributário não estava definitivamente constituído e nesta situação não cabe atribuir a terceiros sucessores a obrigação de afastar a presunção de natureza personalíssima. Recurso Voluntário Provido.” A decisão foi assim resumida: “ACORDAM os membros da 2ª câmara / 1ª turma ordinária da segunda SEÇÃO DE JULGAMENTO, pelo voto de qualidade ACOLHER a preliminar de nulidade suscitada de ofício pela Conselheira Rayana Alves de Oliveira França. Vencido o Conselheiro Pedro Paulo Pereira Barbosa (Relator), Sérgio Galvão Ferreira Garcia (Suplente convocado) e Eduardo Tadeu Farah. Designada para redigir o Voto Vencedor a Conselheira Rayana Alves de Oliveira França.” O processo foi recebido na PGFN em 1º/03/2012 (Relação de Movimentação de fls. 922), e, em 30/03/2012 (Relação de Movimentação de fls. 923), foi interposto o Recurso Especial de fls. 924 a 934, com fundamento nos arts. 67 e 68, do Anexo II, do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009, visando rediscutir a possibilidade de autuação, com base na presunção do art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, em face de Espólio. Fl. 2509DF CARF MF Processo nº 10768.007270/200546 Acórdão n.º 9202006.008 CSRFT2 Fl. 2.509 3 Ao Recurso Especial foi dado seguimento, conforme o Despacho nº 2200 00.964, de 26/07/2012 (fls. 968/969). Em seu apelo, a Fazenda Nacional alega, em síntese: a responsabilidade tributária é o fenômeno segundo o qual um terceiro que não tenha relação direta e pessoal com o fato imponível gerador da obrigação principal, está obrigado, em caráter supletivo ou não, em sua totalidade ou parcialmente, ao pagamento ou cumprimento da obrigação; notese que, apesar de não ter relação íntima com a conduta descrita na norma tributária impositiva da obrigação principal, para ser responsável é necessária a existência de algum liame entre o sujeito responsável e o fato imponível, ou seja, a lei não pode eleger qualquer pessoa como responsável tributário, mas somente pessoa que, não tendo relação direta e pessoal, possua algum tipo de vínculo com a pessoa do contribuinte ou a situação descrita como fato gerador da obrigação; sobre a responsabilidade dos sucessores, o CTN assim disciplinou: “Art. 129. O disposto nesta Seção aplicase por igual aos créditos tributários definitivamente constituídos ou em curso de constituição à data dos atos nela referidos, e aos constituídos posteriormente aos mesmos atos, desde que relativos a obrigações tributárias surgidas até a referida data. Art. 130. Os créditos tributários relativos a impostos cujo fato gerador seja a propriedade, o domínio útil ou a posse de bens imóveis, e bem assim os relativos a taxas pela prestação de serviços referentes a tais bens, ou a contribuições de melhoria, subrogamse na pessoa dos respectivos adquirentes, salvo quando conste do título a prova de sua quitação. Parágrafo único. No caso de arrematação em hasta pública, a subrogação ocorre sobre o respectivo preço. Art. 131. São pessoalmente responsáveis: (...) II o sucessor a qualquer título e o cônjuge meeiro, pelos tributos devidos pelo de cujus até a data da partilha ou adjudicação, limitada esta responsabilidade ao montante do quinhão do legado ou da meação; III o espólio, pelos tributos devidos pelo de cujus até a data da abertura da sucessão.” a lei determina que é responsável tributário o sucessor, pelos tributos devidos pelo contribuinte até a data do respectivo ato que importe em sucessão; vale salientar que o art. 129 do CTN, inobstante a confusa redação, esclarece ser relevante para a sucessão a data da ocorrência do fato imponível que, ainda que haja lançamento posterior, deverá ter ocorrido antes do ato de sucessão; Fl. 2510DF CARF MF 4 no caso em tela, sabese que a contacorrente na qual foram realizados os depósitos de origem não comprovada pertencia a Francisco Fernandez Bernardez e, com a abertura da sucessão, a responsabilidade passou para o espólio, portanto a este pertence a contacorrente motivadora do Auto de Infração; o art. 42 da Lei nº 9.430, DE 1996, assim estabelece: “Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações.” quando a lei menciona "titular, pessoa física ou jurídica", quer contemplar todos aqueles que podem ocupar o pólo passivo da relação jurídicotributária e o espólio, como já evidenciado, pode ocupar essa posição passiva de titularidade, pois assim a lei determinou; portanto, sendo o inventariante o representante legal do espólio, cabelhe o ônus da comprovação da origem de depósitos efetuados na conta do de cujus, antes de seu falecimento; da análise dos autos, verificase que o inventariante foi intimado a comprovar a origem dos depósitos na contacorrente de titularidade do espólio e, no entanto, como não conseguiu comproválos, a presunção legal de omissão de rendimentos corretamente se concretizou; sendo a titularidade da contacorrente do espólio, representado nos autos pelo seu inventariante, a arguição de desconhecimento dos atos praticados pelo de cujus, não tem o condão de desvincular o espólio como sujeito passivo da obrigação principal do fato gerador, uma vez que as condições e os limites da norma instituidora da obrigação tributária foram observados; como muito bem salientado pelo acórdão paradigma, de fato é difícil para o espólio fazer certas provas quanto às operações do “de cujus”, mas a legislação tributária não excetuou a comprovação por parte do espólio, razão pela qual não cabe a este colegiado fazê lo; desse modo, demonstrada a responsabilidade tributária do espólio no que tange à obrigação de efetuar a comprovação da origem dos valores depositados, nos termos consignados no art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, deve ser mantida a autuação, merecendo reforma o acórdão recorrido. Ao final, a Fazenda Nacional requer seja conhecido e provido o Recurso Especial, reformandose o acórdão recorrido e restabelecendose a decisão de 1ª instância. Cientificada em 22/11/2012 (AR Aviso de Recebimento de fls. 974/975), a inventariante quedouse silente (despacho de fls. 976). Voto Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Relatora Fl. 2511DF CARF MF Processo nº 10768.007270/200546 Acórdão n.º 9202006.008 CSRFT2 Fl. 2.510 5 O Recurso Especial da Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Não foram oferecidas Contrarrazões. Trata o presente processo, de exigência de Imposto de Renda Pessoa Física dos exercícios de 2000 e 2001, tendo em vista a omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários sem comprovação de origem. O Auto de Infração foi cientificado à Inventariante em 09/12/2005 (fls. 805), como resultado de um procedimento de fiscalização iniciado em 15/10/2003 (fls. 117), em relação ao Contribuinte Antonio Carlos Chebabe, falecido em 27/11/2005 (Certidão de Óbito às fls. 828 Volume 5). No acórdão recorrido, deuse provimento ao Recurso Voluntário, ao argumento de que a presunção estabelecida no artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996, teria natureza personalíssima e assim somente poderia ser aplicada ao titular dos depósitos e não ao Espólio. A Fazenda Nacional, por sua vez, entende que o Espólio é sujeito capaz de arcar com a referida presunção. Primeiramente, há que se esclarecer que a jurisprudência do CARF, construída ao longo dos anos, de forma alguma é no sentido de que o Espólio não possa arcar com as obrigações tributárias do de cujus. No caso específico da presunção do art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, como está prevista uma fase prévia à autuação, em que o titular dos depósitos bancários é intimado a esclarecer a origem dos valores depositados em suas contas, não se admite que tais informações sejam requeridas em face do Inventariante. Confirase a ementa representativa desse posicionamento, de voto proferido pelo Ilustre Conselheiro Pedro Paulo Pereira Barbosa, no Acórdão nº 2201001.815, de 19/09/2012: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2006 IRPF. LANÇAMENTO COM BASE EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PROCEDIMENTO FISCAL INICIADO APÓS O FALECIMENTO DO TITULAR DA CONTA BANCÁRIA. INTIMAÇÃO AO ESPÓLIO. VALIDADE. A presunção de omissão de rendimentos de que trata o artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996 requer a prévia e regular intimação do titular da conta bancária para comprovar as origens dos depósitos bancários, não sendo válida, para este fim, no caso de falecimento do titular da conta bancária, a intimação dirigida ao espólio ou aos sucessores. Recurso provido" (grifei) Entretanto, não é esse o caso do presente processo, em que a fase preliminar de intimação para comprovação da origem dos depósitos bancários foi toda ela cumprida em face do titular das contas, que somente veio a falecer em 27/11/2005 (Certidão de Óbito às fls. 828 Volume 5), quando já esgotada essa fase. Com efeito, o Contribuinte foi cientificado do Termo de Início do procedimento fiscal em 23/10/2003 (AR de fls. 119), e a partir daí seguiu se um longo período de comprovações, pedidos de prorrogação de prazo, etc, que perdurou até 05/10/2005, rendendo cinco volumes de documentos. Confirase o Termo de Verificação Fiscal de fls. 790 em diante: Fl. 2512DF CARF MF 6 "Fiscalização iniciada em 23/10/2003, através do Termo de Início de Fiscalização, intimando o contribuinte a apresentar elementos, documentos e esclarecimentos relativos ao imposto de renda dos anos calendários de 1999 a 2001, fls. 117 a 119. O contribuinte, em 29/10/03, solicitou prorrogação pelo prazo de 20 dias para o atendimento da intimação, prazo este concedido, fls. 120. Em 17 de novembro de 2003, o contribuinte apresentou resposta à intimação acima referida, fls. 121 a 442. Foi remetido Termo de Intimação Fiscal em 05/05/05, intimando o contribuinte a prestar esclarecimentos sobre imposto de renda dos anos calendários de 1999 e 2000. Este termo foi recebido, em 11/05/05, pelo contribuinte, o qual solicitou, em 03/06/05, prorrogação de prazo para apresentação dos documentos. Em atendimento ao Termo de intimação mencionado no parágrafo anterior, o contribuinte apresentou material para apreciação em 12 de julho de 2005, fls 450 a 584. MOVIMENTAÇÃO BANCÁRIA NO EXTERIOR: Da análise da documentação obtida, a fiscalização apurou que o contribuinte mantém contas em instituições financeiras no exterior não informadas nas Declarações de Imposto de Renda Pessoa Física (DIRPF). Intimamos o contribuinte, através do Termo de Intimação de 08/06/2005, a prestar esclarecimentos e/ou apresentar os elementos a seguir especificados, fls.585 a 599: (...) Em 30 de julho de 2005, o contribuinte pediu prorrogação de prazo de pelo menos quarenta dias, para atender a intimação referida no parágrafo anterior, solicitação esta concedida através do Termo de Prorrogação de Prazo num.001. Expirado o prazo acima e não tendo sido atendido o termo de intimação, reintimamos o contribuinte, em 05/09/05, concedendo o prazo de 05 dias, para resposta. Da análise do apenso num. 224 do Departamento de Polícia Federal, DCORDiretoria de Combate ao Crime Organizado, Inquérito Policial num. 1026/2003, em anexo, foi identificada a existência da contacorrente mantida no exterior, do Banestado de Nova Iorque, de num. 0812. O contribuinte foi intimado, em 05/09/05, a apresentar documentação hábil e idônea comprovando a origem dos depósitos bancários na referida contacorrente e a justificativa por não ter declarado a existência da mesma em suas Declarações de Imposto de Renda Pessoa Física. O contribuinte, em 21/09/05, apresentou resposta para as intimações sobre as contas no exterior, fls.638. Na resposta mencionada no parágrafo anterior, o contribuinte não comprova com documentação hábil e idônea a origem dos Fl. 2513DF CARF MF Processo nº 10768.007270/200546 Acórdão n.º 9202006.008 CSRFT2 Fl. 2.511 7 recursos mantidos no exterior e não declarados ao Fisco Nacional. MOVIMENTAÇÃO BANCÁRIA NO BRASIL: Da análise de informações obtidas através da DCPMF enviadas pelas instituições financeiras à Receita Federal, apuramos que o contribuinte possui movimentação financeira incompatível com a renda tributável declarada, tendo movimentado R$1.032.402,49 no exercício de 1999 e R$2.153.848,99 em 2000, conforme pode ser verificado na planilha elaborada por esta fiscalização, às fls.751. A fiscalização intimou o contribuinte, através de Termo de Intimação Fiscal, datado de 15/08/05 e recebido pelo contribuinte em 19/08/05 a : (...) Em 05/10/2005, a fiscalização reintimou o contribuinte a, no prazo de 5 (cinco) dias improrrogáveis, prestar os esclarecimentos referidos no parágrafo e tabela anteriores. A resposta do contribuinte à intimação referida no parágrafo anterior, anexada às fls. 647 a 674, não comprova, com documentação hábil e idônea, os valores creditados em suas contas nos bancos CEF, Citibank, Itaú e Safra, não atendendo, portanto, à intimação. RESULTADO DA ANALISE DOCUMENTAL Omissão de rendimentos provenientes de créditos bancários de origem não comprovada. Após análise conjunta das declarações entregues pelo sujeito passivo(fls.71 a 116), das respostas aos Termos de Intimação, dos extratos bancários das contascorrentes existentes no território nacional nos bancos Citibank, Itaú, CEF e Safra , dos extratos das contascorrentes existentes no exterior nos bancos Safra National Bank of New York, conta número 6004938 e Banestado New York, conta número 0812, do material apreendido pelo departamento da Polícia Federal, IPL num. 1.291/2001, foram constatadas as seguintes infrações à legislação tributária vigente: (...)" Assim, no presente caso, verificase que o próprio titular das contas bancárias foi intimado por diversas vezes para prestar esclarecimentos e apresentar documentos que comprovassem a origem dos depósitos bancários, de sorte que a fase de intimação prévia, prevista no art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, não restou prejudicada, vez que a abertura do procedimento fiscal ocorreu dois anos antes do óbito do Contribuinte e a instrução probatória foi levada a cabo por ele próprio. Quanto ao argumento contido no voto vencedor do acórdão recorrido, no sentido de que, conforme o art. 14 do Decreto nº 70.235, de 1972, o litígio se instaura com a Fl. 2514DF CARF MF 8 Impugnação, isso em nada se choca com o procedimento adotado no presente processo, já que o Espólio é apto a figurar no pólo passivo da obrigação tributária, conforme o Código Tributário Nacional: Art. 131. São pessoalmente responsáveis: (...) III o espólio, pelos tributos devidos pelo de cujus até a data da abertura da sucessão. Art. 134. Nos casos de impossibilidade de exigência do cumprimento da obrigação principal pelo contribuinte, respondem solidariamente com este nos atos em que intervierem ou pelas omissões de que forem responsáveis: (...) IV o inventariante, pelos tributos devidos pelo espólio; (...)" (grifei) Nesse particular, o voto vencedor do acórdão recorrido ancorase em equívoco, confundindo a capacidade passiva do Espólio com a obrigação específica de comprovar a origem de depósitos bancários, na fase preliminar prevista no art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, o que no presente caso, repitase, foi plenamente exercido pelo titular das contas. Tanto é assim que essa questão do falecimento do titular das contas sequer foi arguida na Impugnação (fls. 807 a 826 Volume 5) ou no Recurso Voluntário (fls. 882 a 893 Volume 5). Com efeito, a questão foi levantada de ofício por Conselheira do Colegiado a quo. Nesse passo, releva notar que a representante do Espólio teve a oportunidade de exercer o direito à ampla defesa, apresentando diversos pleitos, preliminares e de mérito, não examinados no acórdão recorrido. Diante do exposto, conheço do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional e, no mérito, doulhe provimento, com retorno do processo ao Colegiado a quo, para apreciação das questões apresentadas no Recurso Voluntário (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 2515DF CARF MF
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Numero do processo: 10860.721922/2011-49
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Oct 18 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/07/2006 a 31/12/2006
DECADÊNCIA. PRAZO. COMPENSAÇÃO DE CRÉDITOS E DÉBITOS DE IPI NA ESCRITA FISCAL. EQUIVALE A PAGAMENTO. ARTIGOS 150, PARÁGRAFO 4º E ARTIGO 173, INCISO I, DO CTN. ARTIGO 124, INCISO III, DO DECRETO Nº 4.544/2002 (RIPI/2002).
Nos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, deve ser aplicado o prazo do artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, quando o contribuinte efetua algum pagamento, e o prazo previsto no artigo 173, inciso I, do CTN, na inexistência de pagamento ou na hipótese de dolo, fraude ou simulação.
Para fins de IPI, ganha destaque o artigo 124, inciso III, do RIPI/2002, pelo qual considera-se pagamento a dedução dos débitos, no período de apuração do imposto, dos créditos admitidos, sem resultar saldo a recolher, hipótese que atrai a aplicação do prazo decadencial previsto no artigo 150, parágrafo 4º, do CTN.
Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/07/2006 a 31/12/2006
IPI. OPERAÇÕES DE REMESSA COM SUSPENSÃO DE PRODUTOS PARA EXPOSIÇÃO EM FEIRAS DE AMOSTRAS E PROMOÇÕES SEMELHANTES. ARTIGO 11 DO DECRETO-LEI Nº 400/1968. ARTIGO 42 DO RIPI/2002. PARECER NORMATIVO Nº 242/1972. PARECER NORMATIVO CST Nº 78/1973. DISTINÇÃO ENTRE REMESSA PARA EXPOSIÇÃO E REMESSA PARA DEMONSTRAÇÃO. DESTINO DA REMESSA.
O industrial poderá remeter, com suspensão de IPI, produtos diretamente a exposição em feiras de amostras e promoções semelhantes, não podendo ser afastada a aplicação da suspensão do IPI (i) na hipótese de o destinatário não se dedicar exclusivamente ou for recinto especializado na atividade de exposição e (ii) quando o remetente indicar ele próprio como destinatário.
Para fins do IPI, as operações de remessa para exposição e remessa para demonstração têm tratamento distinto, sendo importante a verificação do estabelecimento destinatário do produto. Enquanto a remessa para exposição tem suspensão do IPI, a remessa para demonstração em estabelecimento comprador é normalmente tributada. Não há vedação à realização de demonstração do produto no local da exposição, nas feiras de amostra ou promoção semelhante, hipótese em que a remessa continuará a fruir da suspensão.
INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 82/2001. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO ("VTM") DE IPI. ARTIGO 142 DO CTN.
A incongruência entre os elementos e a motivação apresentados pela fiscalização, de um lado, e o fundamento legal indicado, de outro, ensejam o reconhecimento de carência de fundamentação e improcedência da autuação, por força no disposto no artigo 142, do CTN.
Numero da decisão: 3401-003.873
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado dar parcial provimento ao Recurso Voluntário apresentado, da seguinte forma: (a) por unanimidade de votos, para reconhecer a decadência em relação aos créditos tributários cujo fato gerador ocorreu antes de 30/09/2006, e para manter a multa de ofício em relação ao lançamento remanescente; (b) por maioria de votos, para: (b1) afastar o lançamento em relação a remessas para exposição em feiras de amostras e promoções semelhantes, à exceção dos referentes às notas fiscais de nº 164.581, 172.281, 168.009 e 176.766, vencidos os Conselheiros Robson José Bayerl e Fenelon Moscoso de Almeida, que negavam provimento integralmente nesse item; e (b2) excluir a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, vencidos os Conselheiros Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes e Fenelon Moscoso de Almeida; e (c) por voto de qualidade, afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente, por carência de fundamento da autuação em relação a este item, vencidos o relator e os Conselheiros Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes e Fenelon Moscoso de Almeida. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
ROSALDO TREVISAN (PRESIDENTE) - Presidente.
AUGUSTO FIEL JORGE D' OLIVEIRA - Relator.
LEONARDO OGASSAWARA DE ARAÚJO BRANCO - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
Nome do relator: AUGUSTO FIEL JORGE DOLIVEIRA
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PRAZO. COMPENSAÇÃO DE CRÉDITOS E DÉBITOS DE IPI NA ESCRITA FISCAL. EQUIVALE A PAGAMENTO. ARTIGOS 150, PARÁGRAFO 4º E ARTIGO 173, INCISO I, DO CTN. ARTIGO 124, INCISO III, DO DECRETO Nº 4.544/2002 (RIPI/2002). Nos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, deve ser aplicado o prazo do artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, quando o contribuinte efetua algum pagamento, e o prazo previsto no artigo 173, inciso I, do CTN, na inexistência de pagamento ou na hipótese de dolo, fraude ou simulação. Para fins de IPI, ganha destaque o artigo 124, inciso III, do RIPI/2002, pelo qual considerase pagamento a dedução dos débitos, no período de apuração do imposto, dos créditos admitidos, sem resultar saldo a recolher, hipótese que atrai a aplicação do prazo decadencial previsto no artigo 150, parágrafo 4º, do CTN. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/07/2006 a 31/12/2006 IPI. OPERAÇÕES DE REMESSA COM SUSPENSÃO DE PRODUTOS PARA EXPOSIÇÃO EM FEIRAS DE AMOSTRAS E PROMOÇÕES SEMELHANTES. ARTIGO 11 DO DECRETOLEI Nº 400/1968. ARTIGO 42 DO RIPI/2002. PARECER NORMATIVO Nº 242/1972. PARECER NORMATIVO CST Nº 78/1973. DISTINÇÃO ENTRE REMESSA PARA EXPOSIÇÃO E REMESSA PARA DEMONSTRAÇÃO. DESTINO DA REMESSA. O industrial poderá remeter, com suspensão de IPI, produtos diretamente a exposição em feiras de amostras e promoções semelhantes, não podendo ser afastada a aplicação da suspensão do IPI (i) na hipótese de o destinatário não AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 86 0. 72 19 22 /2 01 1- 49 Fl. 345DF CARF MF 2 se dedicar exclusivamente ou for recinto especializado na atividade de exposição e (ii) quando o remetente indicar ele próprio como destinatário. Para fins do IPI, as operações de remessa para exposição e remessa para demonstração têm tratamento distinto, sendo importante a verificação do estabelecimento destinatário do produto. Enquanto a remessa para exposição tem suspensão do IPI, a remessa para demonstração em estabelecimento comprador é normalmente tributada. Não há vedação à realização de demonstração do produto no local da exposição, nas feiras de amostra ou promoção semelhante, hipótese em que a remessa continuará a fruir da suspensão. INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 82/2001. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO ("VTM") DE IPI. ARTIGO 142 DO CTN. A incongruência entre os elementos e a motivação apresentados pela fiscalização, de um lado, e o fundamento legal indicado, de outro, ensejam o reconhecimento de carência de fundamentação e improcedência da autuação, por força no disposto no artigo 142, do CTN. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado dar parcial provimento ao Recurso Voluntário apresentado, da seguinte forma: (a) por unanimidade de votos, para reconhecer a decadência em relação aos créditos tributários cujo fato gerador ocorreu antes de 30/09/2006, e para manter a multa de ofício em relação ao lançamento remanescente; (b) por maioria de votos, para: (b1) afastar o lançamento em relação a remessas para exposição em feiras de amostras e promoções semelhantes, à exceção dos referentes às notas fiscais de nº 164.581, 172.281, 168.009 e 176.766, vencidos os Conselheiros Robson José Bayerl e Fenelon Moscoso de Almeida, que negavam provimento integralmente nesse item; e (b2) excluir a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, vencidos os Conselheiros Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes e Fenelon Moscoso de Almeida; e (c) por voto de qualidade, afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente, por carência de fundamento da autuação em relação a este item, vencidos o relator e os Conselheiros Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes e Fenelon Moscoso de Almeida. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. ROSALDO TREVISAN (PRESIDENTE) Presidente. AUGUSTO FIEL JORGE D' OLIVEIRA Relator. LEONARDO OGASSAWARA DE ARAÚJO BRANCO Redator designado. Fl. 346DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 346 3 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Relatório O processo administrativo ora em julgamento decorre da lavratura de Auto de Infração (fls. 0210), em 30/09/2011, do qual o contribuinte foi cientificado no mesmo dia (conforme fls. 10), para cobrança de crédito tributário no valor de R$384.960,57 (trezentos e oitenta e quatro mil, novecentos e sessenta reais e cinqüenta e sete centavos), a título de Multa de Imposto sobre Produtos Industrializados ("IPI") não lançado com cobertura de crédito, prevista no artigo 80, inciso I, da Lei nº 4.502/1964, com redação dada pelo artigo 45 da Lei nº 9.430/1996, referente a períodos de apuração entre 31/07/2006 e 31/12/2006. De acordo com o Auto de Infração e o Relatório Fiscal de fls. 14 e seguintes a ele anexado, na auditoria de pedidos de ressarcimento de saldo credor de IPI do contribuinte, a Fiscalização verificou a ocorrência de dois tipos de irregularidades: (i) nos períodos de apuração entre 31/07/2006 a 30/11/2006, "a empresa deu saída a produtos seus com indevida suspensão de IPI, visto tais produtos não terem sido destinados a recintos de feiras/exposições. Bem como deu saída, a título de brindes, de produtos seus sem destaque de IPI de produtos, pretendendo suspensão indevida". (fls. 04) (ii) nos períodos de apuração entre 30/09/2006 a 31/12/2006, "a empresa descumpriu norma administrativa relacionada a valor mínimo tributável nas saídas tributadas de monitores de 42", 46" e 55"". (fls. 05) A constatação de tais irregularidades deu origem somente à aplicação de multa e não ao lançamento de IPI, em razão da existência de saldo credor nos livros da contribuinte. Com relação à primeira irregularidade, saída sem destaque de IPI, nos CFOP´s 5.910 e 5.914, a Fiscalização apresenta os seguintes fundamentos no Relatório Fiscal: "(...) em se tratando de brindes e doações não existe permissivo legal que exima o contribuinte de destacar IPI em operações que tais. Necessário, portanto, suprir o destaque não realizado. No que se refere às remessas para exposição/feiras, o permissivo regulamentar estaria inserto no art. 42, inciso II RIPI/2002. (...) Contudo, a condição da suspensão seria que a mercadoria deveria ser destinada a recinto especializado em tal atividade. Não atingindo, o benefício, as saídas destinadas a outros estabelecimentos comerciais/industriais, mesmo em sendo o próprio estabelecimento caso das saídas em tela". (fls. 21) Fl. 347DF CARF MF 4 Já em relação à segunda irregularidade apontada, saídas de produtos manufaturados a partir de telas de cristal líquido importadas com insuficiência de destaque de IPI, a Fiscalização justifica o lançamento pelas seguintes razões: "A irregularidade dos valores oferecidos à tributação fica patente em comparativo abaixo, onde se constata que o valor da importação da tela LCD foi superior ao valor tributável do acabado/monitor. [tabela de fls. 23] Em se tratando dos dois casos positivos (...) há que se recordar que o valor do acabado/monitor deveria conter tanto o custo do LCD quanto os demais custos para sua confecção (outros insumos/mãodeobra/custos indiretos/etc.). E, que suas bases de cálculo deveriam "embutir" PIS/COFINS/ICMS. Um rápido vislumbre do que acima referimos é o valor R$/unidade do monitor da Nota Fiscal de saída, nº 181.829, fls. 45 custo R$/unitário adveio da planilha fornecida por LG, fls. 46. Ora, se, em cálculo ligeiro, retirarmos PIS/COFINS/ICMS do valor indicado na Nf, é perceptível que LG ofereceu à tributação do IPI o monitor por valor inferior ao custo de importação do LCD. De forma geral, um contrassenso lógico/tributário: a entrada do insumo ser de valor econômico superior ao acabado ao qual ele, insumo, foi incorporado. Além da ilogicidade de tal situação, uma evidente irregularidade tributária no âmbito do tributo industrial, visto ter sido deprimida, em valores mais que substanciais, a sua base de cálculo. Tal ilogicidade só não teve repercussão maior na apuração do tributo industrial pelo fato da alíquota da tela (5%) ser inferior em 1/3 da do monitor (15%). Caso fosse aquela um tanto superior a esta, LG teria tido "crédito" de IPI com industrializações destes grandes monitores! O que somente deixa claríssimo que os valores oferecidos à tributação eram, evidentemente, irregulares. E, a administração tributária, precisamente para coartar tais práticas, estabeleceu, desde 1989, através da Instrução Normativa nº 135, como deveria ser formada a base de cálculo do tributo em tela. Comando que foi reafirmado (...), através da Instrução Normativa nº 82, de outubro de 2001 (...)" Diante disso, a Fiscalização fez a recomposição da base de cálculo das saídas em questão, pela aplicação de uma fórmula que levou em conta como custo apenas o valor dos LCDs importados, pois não tinha como estabelecer os demais custos dos produtos, acrescentando o valor dos tributos incidentes na saída, PIS/COFINS/ICMS. A respeito do critério, afirma a Fiscalização que "semelhante critério é de toda a segurança e, além disso, favorável à LG, haja vista que, deste critério, excluímos todas as outras parcelas indicadas na IN 82/2001 e, que deveriam compor a base de cálculo do imposto "custos financeiros e dos de venda, administração, publicidade, além do lucro normalmente praticado pelo vendedor". (fls. 27) Fl. 348DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 347 5 Contra o lançamento, o contribuinte apresentou a Impugnação de fls. 59 e seguintes, julgada improcedente, em 26/02/2014, pela 12ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto ("DRJ/RPO"), em acórdão que possui a seguinte ementa: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/07/2006 a 31/12/2006 FALTA DE LANÇAMENTO. SAÍDAS DE PRODUTOS PARA FEIRAS/EXPOSIÇÕES. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA DESTINAÇÃO. UTILIZAÇÃO INDEVIDA DE SUSPENSÃO. É devido o imposto nas saídas de produtos não caracterizadas inequivocamente como destinadas diretamente a exposição em feiras de amostras. VALOR TRIBUTÁVEL. REGRA GERAL. Como regra geral, o valor tributável dos produtos nacionais e dos produtos de procedência estrangeira é o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial, vedada a dedução de descontos, diferenças ou abatimentos concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente. FALTA DE LANÇAMENTO EM NOTA FISCAL. MULTA. COBERTURA DE CRÉDITOS. A falta de lançamento do valor, total ou parcial, do IPI na respectiva nota fiscal, sujeita o contribuinte à multa de ofício de setenta e cinco por cento do valor do imposto que deixou de ser lançado, ainda que exista cobertura de créditos na escrita fiscal e não haja imposto a ser exigido. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/07/2006 a 31/12/2006 DECADÊNCIA. FALTA DE PAGAMENTO. REGRA GERAL. O prazo para a Fazenda Pública constituir o crédito tributário relativo ao IPI é de cinco anos e regese pelo disposto no Código Tributário Nacional. Assim, na hipótese em que há recolhimento parcial antecipado, o lustro decadencial tem início na data de ocorrência do fato gerador, na forma do artigo 150, § 4°, do Estatuto Tributário. De outro lado, não havendo qualquer pagamento, aplicase a regra do artigo 173, inciso I, do mesmo diploma, contandose o prazo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. JUROS DE MORA. DÉBITOS DECORRENTES DE TRIBUTOS. INCIDÊNCIA. Fl. 349DF CARF MF 6 Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Receita Federal do Brasil, quando não pagos no prazo, sofrerão a incidência de juros de mora calculados com base na taxa Selic. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/07/2006 a 31/12/2006 PAF. ATO NORMATIVO. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. PRESUNÇÃO DE LEGITIMIDADE. A autoridade administrativa não possui atribuição para apreciar a argüição de inconstitucionalidade ou de ilegalidade de dispositivos que integram a legislação tributária. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA A matéria não especificamente impugnada é incontroversa, sendo insuscetível de invocação posterior no âmbito de órgão de julgamento administrativo ad quem. IMPUGNAÇÃO. PROVAS ADICIONAIS. PRECLUSÃO TEMPORAL. Tendo em vista a superveniência da preclusão temporal, é rejeitado o pedido de apresentação de provas suplementares, pois o momento propício para a defesa cabal é o da oferta da peça impugnatória". Com relação à parte da matéria que foi objeto do lançamento, saídas com suspensão a título de brinde, o contribuinte, em sua Impugnação apresenta como matéria de defesa exclusivamente a ocorrência de decadência (conforme item 25 da Impugnação, às fls. 67 dos autos). Tal ponto foi observado pela DRJ em sua decisão, que afirmou: "não houve contestação acerca da exigência do imposto não lançado nas notas fiscais, mas apenas a invocação do lustro decadencial para os respectivos fatos geradores, matéria já arrostada acima". Dessa forma, adiantase neste relatório que, nos termos do artigo 17 do Decreto nº 70.235/1972, a discussão de outras matérias de defesa, além da decadência, em relação às saídas em referência, deve ser considerada não impugnada, encontrandose preclusa e definitivamente decidida em âmbito administrativo. O contribuinte, ora Recorrente, foi cientificado dessa decisão em 05/04/2014, conforme "Termo de Ciência por Decurso do Prazo" de fls. 235, apresentando tempestivo Recurso Voluntário de fls 239 e seguintes, em 17/04/2014 (fls. 236), no qual requer a reforma da decisão recorrida e o cancelamento do Auto de Infração, com base nos seguintes argumentos: (i) decadência dos lançamentos referentes ao IPI relativos aos fatos geradores ocorridos em julho, agosto e entre 1º e 29º dia de setembro de 2006, com fundamento no artigo 150, parágrafo 4º, do CTN; (ii) com relação às saídas com suspensão, de remessa de mercadorias a exposições em feiras de amostras e promoções semelhantes, a Recorrente defende que não há qualquer exigência legal que a suspensão seja aplicada somente na remessa de recintos especializados, mesmo que houvesse, a Recorrente teria remetido as mercadorias a locais que possuem estrutura para tanto, e as mercadorias efetivamente retornaram ao seu estabelecimento; (iii) com relação à segunda parte da autuação, a Recorrente afirma que não haveria embasamento legal para a aplicação da regra de valor tributável mínimo de IPI, não sendo conciliável a base de cálculo apresentada no artigo 131 do RIPI/2002 e a apresentada Fl. 350DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 348 7 pela IN SRF 82/2001, além disso, a Recorrente defende os preços praticados e afirma que o critério para recomposição da base de cálculo adotado pela Fiscalização só poderia ser aplicado quando inexistisse preço corrente no mercado atacadista; e (iv) seria inaplicável a multa de 75% (setenta e cinco por cento) em caso de existência de saldo credor. Em seguida, os autos foram remetidos ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais ("CARF") e distribuídos à minha relatoria. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Augusto Fiel Jorge d' Oliveira O recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos para a sua admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento, para que o Colegiado aprecie as 3 (três) matérias a seguir: (i) prazo de decadência em lançamentos de IPI; (ii) requisitos para suspensão em remessas de produtos para exposição em feiras de amostras e promoções semelhantes; e (iii) a exigência de um valor mínimo de base de cálculo nas saídas de produtos industrializados, também denominada, de um valor tributável mínimo em tais operações. Decadência em lançamentos de IPI O CTN estabelece como regra geral que o início da contagem do prazo é o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, segundo dispõe o artigo 173, inciso I1. Porém, no que se refere aos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, prevalece a regra especial esculpida no artigo 150, parágrafo 4º, do CTN2, nos quais o prazo para a contagem da decadência tem início com a ocorrência do fato gerador. A partir da leitura desses dispositivos, a jurisprudência firmada pelo Superior Tribunal de Justiça ("STJ") e seguida por esse Tribunal Administrativo é no sentido de que, nos tributos sujeitos ao lançamento por homologação deve ser aplicado o prazo do artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, quando o contribuinte efetua algum pagamento, e o prazo previsto no artigo 173, inciso I, na inexistência de pagamento ou na hipótese de dolo, fraude ou simulação. Nessa linha de entendimento, a Fiscalização entendeu aplicável o artigo 173, inciso I, do CTN, tendo em vista que, no caso concreto, o contribuinte possuía em seus livros saldo credor acumulado de IPI suficiente para compensar com os débitos de IPI, o que resultava na inexistência de qualquer valor a ser recolhido aos cofres da União. 1 Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; 2 Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. (...) § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Fl. 351DF CARF MF 8 Por sua vez, a Recorrente defende que o artigo 173, inciso I, do CTN, só seria aplicável às hipóteses de dolo, fraude ou simulação, e mesmo que não dependesse dessa hipótese, "o tributo devido para o período foi efetivamente satisfeito/quitado por meio da compensação com os créditos de IPI registrados no período", lembrando que o artigo 156 do CTN prevê a compensação como uma das forma de extinção do crédito tributário. A decisão encampou a tese da Fiscalização a respeito da decadência, ao afastar a sua ocorrência, no caso concreto, pelos seguintes motivos: "Com efeito, decorre da disposição constante do caput do artigo 150 que a homologação se opera em relação à atividade exercida pelo obrigado, vale dizer, em relação à antecipação do pagamento do tributo. Logo, somente se sujeitam às normas aplicáveis ao lançamento por homologação os créditos tributários que tenham sido submetidos a pagamento. No caso concreto, os valores de IPI exigidos no Auto de Infração decorrem exclusivamente da atividade de fiscalização, inexistindo qualquer recolhimento por parte da contribuinte. Ou seja, não se implementou a condição necessária (antecipação do pagamento) para que se perfizesse a hipótese de “lançamento por homologação”. Obviamente, a compensação (que aliás sequer se encontra presente no mero procedimento escritural de débito e crédito do IPI, ao contrário do que inadvertidamente expõe o sujeito passivo) não equivale a pagamento, por se tratar de institutos sabidamente diversos. Em assim sendo, fica afastada a regra especial constante do artigo 150, § 4º, do CTN, havendose de computar a decadência pela regra geral do artigo 173, inciso I, do referido diploma legal, segundo a qual o prazo respectivo é contado a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que os lançamentos, referentes a cada período de apuração, poderiam ter sido efetuados e cuja incidência no caso concreto não estaria a depender da comprovação de dolo, fraude ou simulação". Como se verifica, admitindose a necessidade de pagamento, para fins de aplicação da regra decadencial do artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, e, portanto, superando o argumento da Recorrente nesse ponto, a questão que se coloca é se a compensação na escrita fiscal do contribuinte de saldo credor acumulado de IPI com os débitos do período, em montante que não resulte em nenhum valor a pagar, portanto, saldo credor superior a totalidade de débitos do período, deve ser considerado ou, ao menos, equiparado, ao pagamento. Ou, na linha do entendimento da Fiscalização e da decisão recorrida, deve se ter uma leitura mais estrita de "pagamento", para fins de atração da regra decadencial do artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, considerando este realizado apenas com o recolhimento de uma guia, como o DARF, em uma instituição bancária, em favor da União. A resposta me parece que está positivada e foi dada pelo Poder Executivo ao editar o Regulamento do IPI (Decreto nº 4.544/2002), que em seu artigo 124 prevê: "Art. 124. Os atos de iniciativa do sujeito passivo, no lançamento por homologação, aperfeiçoamse com o pagamento do imposto ou com a compensação do mesmo, nos termos dos arts. 207 e 208 e efetuados antes de qualquer procedimento de ofício da autoridade administrativa (Lei nº 5.172, Fl. 352DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 349 9 de 1966, art. 150 e § 1º, Lei nº 9.430, de 1996, arts. 73 e 74, e Medida Provisória nº 66, de 2002, art. 49). Parágrafo único. Considerase pagamento: I o recolhimento do saldo devedor, após serem deduzidos os créditos admitidos dos débitos, no período de apuração do imposto; II o recolhimento do imposto não sujeito a apuração por períodos, haja ou não créditos a deduzir; ou III a dedução dos débitos, no período de apuração do imposto, dos créditos admitidos, sem resultar saldo a recolher". Portanto, na hipótese em que o contribuinte, ao realizar a apuração do IPI, possui saldo credor de IPI maior que os débitos do período, realiza a compensação entre créditos e débitos na escrita fiscal, pela sistemática da nãocumulatividade, resultando em valor a pagar de IPI igual a zero, essa atividade, de compensar créditos e débitos na escrita deve ser considerada pagamento e deve ser aplicado o artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, para fins de prazo decadencial, salvo a hipótese que o contribuinte nada paga porque está utilizando crédito que sabe ser manifestamente indevido, naqueles casos em que configurada a dolo, fraude ou simulação, o que atrairia a aplicação do artigo 173, inciso I, do CTN. Nesse sentido, já decidiu a 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, de forma não unânime, em Voto Vencedor do Conselheiro Júlio Cesar Alves Ramos que, com o seu profundo conhecimento e experiência em IPI, expôs as razões para uma leitura mais ampla dos casos equiparados a pagamento: Ementa: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI. Anocalendário: 1999,2000,2001,2002,2003 DECADÊNCIA LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. OPOSIÇÃO DOS CRÉDITOS AOS DÉBITOS APURADOS. EQUIPARAÇÃO A PAGAMENTO ANTECIPADO. Nos termos do art. 124, III do Decreto 4.544/2002, a dedução dos débitos, no período de apuração do imposto, dos créditos admitidos, sem resultar saldo a recolher considerase pagamento, para efeito de contagem de prazo decadencial para lançamento tributário". (Processo nº 19515.002386/200454; Acórdão nº 9303003.299; 3ª Turma; Sessão de 24/03/2015; Relator: Joel Miyazaki; Voto Vencedor: Júlio Cesar Alves Ramos) Trecho do Voto Vencedor: "Como se sabe, muito discutiu a doutrina acerca da necessidade de efetivo recolhimento para que a decadência se contasse na forma do art. 150. Os opositores a essa corrente sempre apontaram exatamente essa situação em que o sujeito passivo realiza todos os procedimentos que a Lei lhe exige, mas Fl. 353DF CARF MF 10 constata, ao final, nada ter a recolher. Isso não era bem resolvido nos tributos cumulativos, a exemplo do PIS e da COFINS, até porque a possibilidade de saldo zero era remota. No caso do IPI, porém, (e também do ICMS estadual) ela é bem real. Por isso, é que leio a equiparação a pagamento prevista no regulamento do IPI como sendo bastante ampla. Com efeito, pareceme que ela procura assegurar que uma vez escriturados os créditos a que o sujeito passivo entenda ter direito (ainda que erradamente) o prazo de que dispõe a Fazenda para revisar os procedimentos adotados é o do art. 150, salvo se em tais procedimentos comprovadamente tiver agido com dolo, fraude ou simulação. Essa leitura soame mais consentânea com a lógica daquele artigo, que transfere ao sujeito passivo responsabilidades que, a todo sentido, deveriam ser do sujeito ativo (porquanto de seu interesse) e apenas lhe traz como bônus a redução do prazo revisional. Assim, a menos que saiba ou deva saber não serem aproveitáveis (admitidos) os créditos que está a escriturar, hipótese em que essa escrituração seria dolosa, o sujeito passivo não pode apenas arcar com o ônus das disposições do art. 150, isto é, proceder a todos os controles e apurações ali previstos e ainda assim poder ter contra si lavrado auto de infração no prazo do art. 173, I. Essa interpretação, aliás, o colocaria na mesma situação de quem não adotasse qualquer daqueles procedimentos, desde que, também a este, não se pudesse imputar dolo". O presente caso, conforme fls. 11 dos autos, em tudo se enquadra na hipótese prevista no artigo 124, inciso III, do RIPI/2002, pois o saldo credor de IPI é superior aos débitos de IPI do período, resultando em saldo a recolher igual a zero, além de transferência de saldo para o período de apuração subseqüente. Desse modo, no lançamento por homologação do IPI, essa atividade de compensação de créditos com débitos na escrita do IPI deve ser considerada "pagamento", motivo pelo qual há de ser aplicado o artigo 150, parágrafo 4º, do CTN. Assim, considerando que o contribuinte tomou ciência do lançamento em 30/09/2011, devem ser cancelados todos os créditos tributários cujo fato gerador ocorreu antes de 30/09/2006. Remessas com suspensão de produtos para exposição em feiras de amostras e promoções semelhantes Segundo o artigo 11, do DecretoLei nº 400/1968: "Art 11. Em casos justificados, a critério do Ministro da Fazenda, poderão sair, com suspensão do impôsto, os produtos nacionais ou estrangeiros remetidos, por estabelecimentos industriais ou equiparados, diretamente a armazéns gerais, a depósitos fechados, próprios ou de terceiros, ou a exposição noutro local, obedecidas as normas regulamentares". (grifos nossos) Diante disso, o Regulamento do IPI vigente à época dos fatos geradores, RIPI/2002 (Decreto nº 4.544/2002), previa em seu artigo 42, inciso II, a suspensão do IPI nas remessas para exposição, nos seguintes termos: "Art. 42. Poderão sair com suspensão do imposto: (...) II os produtos remetidos pelo estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, diretamente a exposição em feiras de amostras e promoções semelhantes (Decreto lei nº 400, de 1968, art. 11)". Fl. 354DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 350 11 Nos termos do Parecer Normativo nº 242/1972, dois requisitos são necessários para que a remessa seja realizada com a suspensão do imposto: (i) o produto deve ser enviado exclusivamente para exposição ao público; e (ii) como a finalidade é apenas expor o produto e não celebrar uma compra e venda ou outro negócio jurídico que faça o produto avançar na cadeia indústriacomércio, o produto deve necessariamente retornar ao estabelecimento de origem3. Oportuno mencionar também o Parecer Normativo CST nº 78/1973, no qual se estudou a evolução da regulamentação a respeito da operação de remessa para exposição, chegandose às seguintes conclusões: (i) "com o advento do RIPI anexo ao Decreto nº 70.162/72, não mais é exigido que a remessa tenha por destino local situado na mesma Unidade da Federação"; (ii) o produto saído com suspensão para um feira pode ser transferido para outra feira ou promoção similar e, em caso de venda sem retorno ao remetente, não é exigível o IPI que havia sido suspenso na remessa à feira; (iii) com relação ao termo "exposição", "tem a mesma acepção de promoção semelhante a feira de amostra, não se enquadrando aí a mera exposição em vitrines etc."; e (iv) deverse fazer uma distinção entre remessa para exposição e remessa para demonstração; o segundo não se classifica no primeiro, assim, em princípio, enquanto a remessa para exposição tem suspensão do IPI, a remessa para demonstração deve ser normalmente tributada; porém, não se veda a possibilidade de realização de demonstração do produto no local da exposição, nas feiras de amostra ou promoção semelhante, hipótese em que a remessa continuará a fruir da suspensão; logo, o importante é o local onde será feita a demonstração, se no local de exposição, terá o tratamento de remessa para exposição, com suspensão, o mesmo não se pode falar de uma remessa de produto no estabelecimento eventualmente comprador, operação cuja saída é normalmente tributada. Quanto a esse último ponto examinado no referido Parecer Normativo CST nº 78/1973, observase que a operação de "remessa para demonstração em cliente da indústria" em que a demonstração não resulta em um negócio de compra e venda acaba tendo o mesmo efeito fiscal de uma operação de "remessa com suspensão". Isso porque, o valor do tributo destacado na saída será recuperado com o retorno nesse produto pelo mesmo preço, portanto, gerando um direito de crédito de IPI em um mesmo valor do anteriormente destacado. Essa matéria foi objeto de apreciação pelo então Segundo Conselho de Contribuintes, que reafirmou a conclusão de que a remessa para demonstração em outras pessoas físicas ou jurídicas não se equipara a remessa para exposição. Abaixo, cito ementa e trecho do julgado: Ementa: "REMESSA DE PRODUTOS PARA EXPOSIÇÃO EM FEIRAS DE AMOSTRAS E PROMOÇÕES SEMELHANTES. A suspensão do imposto de que trata o art. 36, inciso X, do RIPI182, não alcança a saída do produto para demonstração em estabelecimento industrial ou comercial" (Acórdão n°: 20302.170; Sessão de 23/05/1995) Trecho do Voto: 3 Parecer Normativo nº 242/1972: "(...) Alertese, entretanto, que para prevalecer o favor da suspensão do imposto, tornase necessário que o envio seja feito exclusivamente para exposição ao público, vinculado, portanto, ao retorno forçado ao estabelecimento de origem". Fl. 355DF CARF MF 12 O exame destas notas fiscais levamme à mesma conclusão a que chegou o julgador monocrático, isto é: "em sua maioria as notas acobertam operações de remessas de produtos a título de "DEMONSTRAÇÃO" para outras empresas ou mesmo pessoas fisicas;" "quando de tais operações decorrer saída de produtos de fabricação do remetente o imposto é devido, servindo de exemplos as de n°s 2120 e 2278 e 2776, nos quais o IPI não foi lançado"; "outras há na mesma situação que citam o artigo 36, X do RIPI, mas tal dispositivo só permite saída com suspensão de produtos destinados exclusivamente a feiras de amostras e promoções semelhantes, não abrangendo demonstrações no estabelecimento eventualmente comprador", "são exemplos as NF's 2050, 2105, 2116, 2148, 2151, 2160 e 2844, nas quais o IPI é devido"; No mesmo sentido, pela não equiparação entre a remessa para exposição em feiras de amostras e promoções semelhantes e remessas para demonstração em clientes, podemse citar os seguintes julgados: Ementa: "(...) SUSPENSÃO As saídas de veículos para demonstração e divulgação que não sejam para exposição em feiras de amostras e promoções semelhantes não se encontram amparadas pelo beneficio da suspensão. (...)" (Acórdão nº 20208.180; Sessão de 07/11/1995) Ementa: "(...) SAÍDAS PARA DEMONSTRAÇÃO. INCIDÊNCIA. É devido o IPI nas. saídas de produtos para demonstração em estabelecimento do adquirente, que não se confundem com as saídas diretas para exposições em feiras de amostras e promoções, nas quais há suspensão do imposto. Em contrapartida ao débito nas saídas para demonstração, no retomo, se houver, o contribuinte tem direito ao crédito respectivo.(...)"(Acórdão nº 20311399; Sessão de 19/10/2006) No presente caso, a Fiscalização entendeu que deveria haver o destaque de IPI nas saídas de produtos realizadas a título de exposição pela Recorrente, sob o entendimento de que "a condição da suspensão seria que a mercadoria deveria ser destinada a recinto especializado em tal atividade. Não atingindo, o benefício, as saídas destinadas a outros estabelecimentos comerciais/industriais, mesmo em sendo o próprio estabelecimento caso das saídas em tela". (fls. 21) Assim, considerando que a Recorrente inseriu nas notas fiscais que o destino das saídas de produtos para exposição, CFOP nº 5.914, era a própria Recorrente, LG Electronics de São Paulo Ltda., como pode ser verificado nas tabelas de fls. 32/33, a Fiscalização afastou a suspensão e lançou o IPI relativo a essas operações. A Fiscalização, inclusive, cita a primeira decisão aqui mencionada (Acórdão n°: 20302.170) para amparar o seu entendimento e realizar o lançamento nesse ponto. Fl. 356DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 351 13 Na decisão recorrida, o lançamento é mantido, porém, a meu ver, por outros fundamentos. Se a Fiscalização entendeu que o tributo era devido por ter como destinatário o próprio estabelecimento e não recinto especializado em tal atividade, a DRJ entendeu que não haveria comprovação cabal de que se trata de saídas diretamente para feiras/exposições, nos termos abaixo: " A documentação fiscal acostada pelo impugnante às fls. 128/168 revela, formalmente, como destinatário das notas fiscais o próprio estabelecimento fiscalizado (CNPJ 01.166.372/000155). Nas notas fiscais de “remessa para feiras e exposições” (cópias quase ilegíveis), no canto superior esquerdo, há dizeres sobre os supostos destinos dos produtos. As notas fiscais de retorno, mais legíveis, não comprovam as saídas para feiras/exposições, pois no caso de demonstração, experiência, teste, etc, também há retorno de produtos. Não há, portanto, comprovação cabal, na documentação aduzida pelo impugnante, que se trata de saídas diretamente para feiras/exposições". (grifos nossos) De início, pareceme que a Fiscalização partiu de premissas equivocadas quanto ao regramento aplicável às remessas com suspensão de produto destinado à exposição. Para fundamentar o seu entendimento, a Fiscalização cita o Acórdão n° 203 02.170, que é manifestamente inaplicável ao caso dos autos. Lá, foi feita a distinção comentada entre remessa para exposição e remessa para demonstração. Como são operações que não se confundem, não deve ser aplicada a suspensão quando o industrial remete produtos para pessoas jurídicas ou físicas a título de demonstração, em especial, quando tais destinatários são clientes ou clientes em potencial da indústria, até para facilitar a fiscalização e se evitar fraudes, tendo em conta que é maior probabilidade de ocorrer, além de demonstração, uma operação de compra e venda, em uma remessa para um cliente ou potencial cliente do que em uma remessa para uma exposição. Esse é o contexto da regra que diz que a suspensão do artigo 42, inciso II, do RIPI/2002, não se aplica às remessas para outro estabelecimento comercial/industrial. Porém, no presente caso, em que a Recorrente apôs nas notas fiscais que o destino era ela mesma, penso que tal regra não se aplica, pois o problema é a remessa para demonstração para terceiros, adquirentes dos produtos, diante da alta possibilidade de uma demonstração se converter em uma operação de compra e venda, o que manifestamente não ocorre aqui. Quando a Recorrente indica que o destino é o próprio estabelecimento da Recorrente, ela não esta realizando uma saída para ela mesma, seja para expor o produto, seja para demonstrar, seja em razão de uma compra e venda. A indicação é apenas uma ficção, decorrente de alguma dificuldade de ordem prática em indicar um destinatário para a remessa do produto, que pode ocorrer no caso de uma exposição em local que não seja uma pessoa jurídica. Logo, tal regra não se aplica às operações que foram objeto do lançamento. Além disso, o Poder Judiciário já reconheceu que a aplicação da suspensão quando o contribuinte, por alguma impossibilidade, indica ele próprio como o destino dos produtos. É o que se verifica pelo julgado abaixo, do e. Tribunal Regional Federal da 4ª Região: Fl. 357DF CARF MF 14 "IPI. VEÍCULO IMPORTADO. OPERAÇÃO DE SAÍDA DO ESTABELECIMENTO IMPORTADOR. (...) SAÍDA PARA EXPOSIÇÃO E PARA TESTES. SUSPENSÃO. (...)3. As notas fiscais de saída de veículos dirigida a feira de exposição são beneficiadas com a suspensão do imposto. As notas fiscais foram emitidas em nome da própria empresa em face da impossibilidade de emissão da nota em favor do local expositor (Parque Anhembi SP). (...)" (AC 200004011260373, Maria Lúcia Luz Leiria, TRF4 Primeira Turma, DJ 04/09/2002) Outra premissa equivocada da Fiscalização diz respeito ao destinatário das remessas. Como a Fiscalização entendeu que a suspensão não seria aplicável a remessas para outros estabelecimentos comerciais e industriais, concluiu que a suspensão, então, só seria aplicável se destinada a recintos especializados na atividade de exposição, feiras de amostras e promoções semelhantes. Porém, da impossibilidade de se remeter produtos para estabelecimento eventualmente comprador não se pode concluir que só é possível remeter para recintos especializados na atividade de exposição, pois entre um e outro existem uma série de locais e destinatários nos quais, acredito, a legislação não veda a remessa para exposição com a suspensão. Portanto, a fundamentação apontada pela Fiscalização, a meu ver, é improcedente, pois, não se pode afastar a suspensão nas remessas para exposição: (i) quando o destinatário não for recinto especializado na atividade de exposição; ou (ii) quando o remetente indicar ele próprio como destinatário. Diante da acusação de que teria aplicado o regime de suspensão nas remessas para exposição em contrariedade ao que dispõe a legislação, a Recorrente apresenta as notas fiscais de remessa e de retorno, defendendo que não há qualquer exigência legal que a suspensão seja aplicada somente na remessa de recintos especializados e, mesmo que houvesse, a Recorrente teria remetido as mercadorias a locais que possuem estrutura para tanto, e as mercadorias efetivamente retornaram ao seu estabelecimento. Pela análise das notas fiscais acostadas pela Recorrente, verifico que os locais de destino, como hotéis, resorts, clubes de golfe, casas de espetáculos ou a Festa do Peão de Barretos, embora não sejam “recintos especializados na atividade de exposição”, pois, em tais locais, essa é uma das atividades que podem ser realizadas, até mesmo em caráter secundário, não se qualificam como um estabelecimento industrial ou comercial adquirente do tipo de produtos remetidos, como seria o caso de uma remessa para uma grande loja de varejo e de hipermercado. Desse modo, tais remessas estão aptas à aplicação do tratamento fiscal de suspensão do IPI, apesar da indicação da própria Recorrente como destino, tendo em vista ainda a comprovação de tais produtos retornaram ao estabelecimento da Recorrente. Contudo, não há comprovação para a totalidade das remessas que foram objeto do lançamento. Das 16 (dezesseis) operações de remessa para exposição listadas nas tabelas de fls. 3233, não pude localizar a documentação comprobatória da natureza operação e a consequente fruição da saída com suspensão em relação às notas fiscais de nº 164.581, 172.281, 168.009 e 176.766. Diante disso, proponho ao Colegiado o cancelamento da autuação nessa parte em relação a todas as operações que possuem documentação comprobatória e a manutenção em relação a essas 4 (quatro) operações acima indicadas, carentes de prova. Fl. 358DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 352 15 Base de Cálculo do IPI – Valor Tributável Mínimo O CTN, em seu artigo 47, inciso II, alíneas “a” e “b”, prevê que a base de cálculo do IPI nas saídas de produtos industrializados será: “a) o valor da operação de que decorrer a saída da mercadoria; b) na falta do valor a que se refere a alínea anterior, o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente”. Como se verifica, o legislador complementar estabeleceu um parâmetro mínimo para a base de cálculo apenas na impossibilidade de se determinar o valor da operação, quando deveria se adotar o preço corrente no mercado atacadista. A Lei nº 4.502/1964 sofreu várias alterações ao longo dos anos e, atualmente, prevê regras para a fixação da base de cálculo que vão além dos contornos previstos no CTN. No artigo 14 existe a previsão do valor tributável para as operações de importação e para as saídas de produtos nacionais e no artigo 15 constam os parâmetros para o estabelecimento de um piso nas mais diversas situações, devendo as regras gerais do artigos 14 serem observadas em conjunto com as regras específicas do artigo 15. Assim, ficando restrito aos dispositivos relacionados ao lançamento ora analisado, quando o artigo 14, inciso II, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, quanto aos produtos nacionais, determina que constitui valor tributável “o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial” e que “§ 1º. O valor da operação compreende o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário”, tal dispositivo não pode ser lido de forma isolada, mas em conjunto com as regras do artigo 15 da Lei nº 4.502/1964. Com isso, caso esteja a se tratar de “produtos saídos do estabelecimento industrial, ou do que lhe seja equiparado, com destino a comerciante autônomo, ambulante ou não, para venda direta a consumidor”, há ainda que se observar o disposto no artigo 15, inciso III, da Lei nº 4.502/1964, que afirma que o valor tributável não poderá ser inferior “ao custo do produto, acrescido das margens de lucro normal da empresa fabricante e do revendedor e, ainda, das demais parcelas que deverão ser adicionadas ao preço da operação”. Logo, se a norma do artigo 14, inciso II, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, expressa que o valor da operação compreende o preço do produto mais frete e demais despesas e na situação específica prevista no artigo 15, inciso III, da Lei nº 4.502/1964, o valor tributável mínimo deve corresponder ao custo do produto mais margem de lucro mais frete e despesas, podese concluir que, quando o preço do produto for inferior ao seu custo, uma leitura conjunta das normas gerais e especiais levará à aplicação da norma especial, que determina um valor tributável mínimo, aplicando a norma geral para as demais operações nas quais o preço da operação não bate o piso estabelecido pela Lei. No Regulamento do IPI vigente à época dos fatos geradores, o valor tributável do IPI e o valor tributável mínimo estão tratados nos artigos 131 ao 138. Diante desse tecido normativo, considerando o disposto no artigo 146, inciso III, alínea “a”, da Constituição, que diz que cabe a Lei Complementar a definição da base de cálculo dos tributos, muitos defendem a inconstitucionalidade do valor tributável mínimo, nos termos colocados na legislação ordinária, por contrariar o que prevê o artigo 47, inciso II, do CTN. Fl. 359DF CARF MF 16 Conforme defende a doutrina, “o valor tributário fixado nas leis e decretos mencionados afronta basilares princípios de nosso ordenamento e garantias dos contribuintes, pois não atende ao disposto na Constituição, já que trata de forma incompatível com a base de cálculo indicada na lei complementar (parâmetro formal) e permite que o IPI incida sobre valores que não necessariamente refletem o conteúdo das operações jurídicas praticadas com produtos industrializados (única base de cálculo possível para este imposto). O único parâmetro existente para uma base de cálculo diferente do efetivo valor da operação com produto industrializado, como estabelece o CTN, é o preço corrente no mercado atacadista (só adotado na ausência do primeiro) e não poderia o legislador ordinário e menos ainda o poder executivo estabelecerem base presumida, seja de percentual do preço de varejo ou a que trata do custo de fabricação do produto, com outros acréscimos” 4. Com base nesse mesmo raciocínio, o Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade do artigo 14, inciso II, parágrafo 2º, da Lei nº 4.502/1964, que afirmava a inclusão na base de cálculo do IPI dos valores relativos aos descontos incondicionais, dispositivo que teve sua eficácia suspensa recentemente, pela Resolução do Senado Federal nº 01/2017. Vejam abaixo a ementa da decisão: “IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS – VALORES DE DESCONTOS INCONDICIONAIS – BASE DE CÁLCULO – INCLUSÃO – ARTIGO 15 DA LEI Nº 7.798/89 – INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL – LEI COMPLEMENTAR – EXIGIBILIDADE. Viola o artigo 146, inciso III, alínea “a”, da Carta Federal norma ordinária segundo a qual hão de ser incluídos, na base de cálculo do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, os valores relativos a descontos incondicionais concedidos quando das operações de saída de produtos, prevalecendo o disposto na alínea “a” do inciso II do artigo 47 do Código Tributário Nacional”. (RE 567935, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 04/09/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe216 DIVULG 03112014 PUBLIC 04112014) Porém, penso que não cabe a esse Colegiado adentrar nessa discussão, tendo em vista o que determina a Súmula CARF nº 02, nem sendo possível, a meu ver e de forma diversa do que foi decidido no Acórdão nº 3302003.361, da 2ª Turma Ordinária, da 3ª Câmara, em sessão de 27/09/2016, aplicar diretamente o que restou decidido no RE nº 567.935 no presente caso, pois, apesar de ambos tratarem da base de cálculo do IPI, a discussão aqui é diversa. Desse modo, nesse julgamento, os dispositivos da Lei Federal que tratam da matéria devem ser tidos como válidos e eficazes. No presente caso, o lançamento tem como fundamento a Instrução Normativa nº 82 de 2001, que remete § 1º do art. 118 do Decreto nº 2.637, de 25 de junho de 1998, que, por sua vez, regulamenta o artigo 14, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, aquele dispositivo acima mencionado que trata de valor tributável de produtos nacionais. Também aponta o artigo 15, inciso I, da Lei nº 4.502/1964, além de uma série de dispositivos do Regulamento do IPI. Assim, ao verificar que o valor da operação entre a Recorrente e seus clientes era muito inferior ao valor do custo do principal insumo utilizado na fabricação do produto, a Fiscalização obteve nova base de cálculo, a partir do custo desse insumo mais os tributos incidentes nas vendas pela Recorrente. 4 “IPI – Questões Fundamentais”. IPI. Base de Cálculo e Valor tributável mínimo. Renata Correia. MP Editora. São Paulo. 2008. p. 143 Fl. 360DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 353 17 Contra o lançamento, a Recorrente afirma que não haveria embasamento legal para a aplicação da regra de valor tributável mínimo de IPI, não sendo conciliável a base de cálculo apresentada no artigo 131 do RIPI/2002 e a apresentada pela IN SRF 82/2001. O raciocínio da Recorrente é, em parte, procedente. Enquanto o artigo 131 do RIPI/2002, que sucedeu e tem a mesma redação do § 1º do art. 118 do Decreto nº 2.637, de 25 de junho de 1998, trata o valor da operação como o preço do produto, a base de cálculo da IN SRF 82/2001, parte da grandeza custo de fabricação, ao determinar que “os preços do vendedor poderão ser diferenciados para um mesmo produto, a partir de um preço de venda básico, desde que estabelecidos em tabelas fixadas segundo práticas comerciais uniformemente consideradas, nunca inferiores ao custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, além do lucro normalmente praticado pelo vendedor”. Realmente, preço e custo não se confundem e, olhando apenas para o fundamento legal relacionado ao preâmbulo da IN, o artigo 14, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, parece que a Instrução Normativa teria extrapolado o seu poder regulamentar, ao estabelecer um valor tributável mínimo sem relação com o preço do produto, mas vinculado ao custo de fabricação. Porém, embora não indique expressamente, a Instrução Normativa tem amparo legal, pois regulamenta não apenas aquele dispositivo, mas os dispositivos da Lei nº 4.502/1964 que tratam da base de cálculo do IPI, incluindo o artigo 15, inciso III, da Lei nº 4.502/1964, que trata do valor tributável mínimo, a partir do custo de fabricação do produto. E, como já exposto, tais dispositivos não podem ser lidos de maneira isolada, mas em conjunto e harmonia, sendo certo que, em se tratando de operação com “produtos saídos do estabelecimento industrial, ou do que lhe seja equiparado, com destino a comerciante autônomo, ambulante ou não, para venda direta a consumidor”, a norma que determina que o valor tributável é constituído pelo preço do produto, deve ser lida como determinando que o valor tributável é constituído pelo preço do produto, salvo quando inferior ao custo do produto mais margens de lucro normal da empresa fabricante, hipótese em que se aplica esse último critério de determinação da base de cálculo. Outro argumento da Recorrente é pela legitimidade dos preços por ela praticados, defendendo que o sistema jurídico permitiria a flutuação dos preços, de acordo com as negociações realizadas, e que definição de preço é uma decisão gerencial, a partir de dados de mercado e do que os concorrentes estão fazendo. Com relação a esse argumento, não há como discordar da Recorrente. Ninguém melhor que a Recorrente, conhecedora de seu mercado de atuação, para fixar e determinar o preço nas operações de compra e venda com a sua clientela. Desde que o preço seja certo, justo e verdadeiro, está presente o preço, um dos elementos da compra e venda, que deve ser aceita como legítima. É de se reconhecer também que, em sua atuação no mercado, por vezes, por questões mercadológicas, a Recorrente possa vender seus produtos por preço bem inferior ao custo de aquisição do principal insumo. Mas o que se questiona no lançamento em julgamento não é o preço, livremente pactuado entre as partes e que deve ser tido como legítimo. O que se questiona é a base de cálculo adotada para as operações relacionadas no lançamento. A Fiscalização em nenhum momento questiona o preço estabelecido pela Recorrente e seus clientes. O que se questiona é a base de cálculo adotada. Portanto, embora se concorde com as considerações da Fl. 361DF CARF MF 18 Recorrente quanto à formação de seu preço, tais considerações não são capazes de afastar o lançamento realizado. Por último, a Recorrente defende que o critério para recomposição da base de cálculo adotado pela Fiscalização só poderia ser aplicado quando inexistisse preço corrente no mercado atacadista, afirmando existir uma ordem de aplicação para métodos de determinação da base de cálculo no artigo 137, parágrafo único, do Regulamento do IPI. Com efeito, para fins do artigo 137, parágrafo único, do Regulamento do IPI, os métodos previstos nos incisos I e II do artigo 137 devem ser aplicados se inexistir preço corrente no mercado atacadista. Contudo, tais normas se referem às hipóteses previstas no artigo 136, inciso I, referente a operação realizadas “quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência” e no artigo 136, inciso II, referente a operações realizadas “quando o produto for remetido a outro estabelecimento da mesma empresa, desde que o destinatário opere exclusivamente na venda a varejo”, situações que não guardam relação com o presente lançamento, tendo a Fiscalização, a meu ver, no presente caso, aplicado a regra prevista no artigo 136, inciso III. Pelo exposto, deve ser mantido o lançamento na parte que versa sobre saídas de produtos por valor abaixo do valor tributável mínimo. Multa de 75% (setenta e cinco por cento) prevista no artigo 80, inciso I, da Lei nº 4.502/1964 A Recorrente pede o afastamento da penalidade cominada, prevista no artigo 80, inciso I, da Lei nº 4.502/1964, sob a alegação de que seria inaplicável em razão da existência de saldo credor e, portanto, da ausência de valores devidos pela Recorrente à Fazenda Pública. Prevê o no artigo 80, inciso I, da Lei nº 4.502/1964: “Art. 80. A falta de lançamento do valor, total ou parcial, do imposto sobre produtos industrializados na respectiva nota fiscal, a falta de recolhimento do imposto lançado ou o recolhimento após vencido o prazo, sem o acréscimo de multa moratória, sujeitará o contribuinte às seguintes multas de ofício: I setenta e cinco por cento do valor do imposto que deixou de ser lançado ou recolhido ou que houver sido recolhido após o vencimento do prazo sem o acréscimo de multa moratória”. Com isso, percebese que a penalidade é devida em 3 (três) hipóteses: (i) falta de lançamento do IPI na nota fiscal; (ii) falta de recolhimento do IPI lançado na nota fiscal; e (iii) recolhimento do IPI após o prazo sem o acréscimo de multa moratória. Assim, embora em duas hipóteses se exija que o penalizado seja devedor da Fazenda Pública para aplicação da penalidade nas situações em que há falta de recolhimento ou recolhimento em atraso sem a multa moratória , há hipótese de sujeição à penalidade que independe dessa condição, quando o contribuinte apenas deixa de lançar o IPI devido, que é justamente o caso dos autos, em que entendeu a Fiscalização que as irregularidades implicariam o lançamento de IPI na nota fiscal, em montante superior ao efetivamente lançado, ainda que sem o recolhimento do IPI, em razão da existência de saldo credor. Nesse sentido, já decidiu essa Turma de Julgamento, na sua composição anterior, em acórdão de lavra do Conselheiro Odassi Guerzoni Filho que, na parte que trata dessa matéria, foi assim ementado: "MULTA DE OFÍCIO APLICADA PELA FALTA DE Fl. 362DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 354 19 LANÇAMENTO DO IPI. EXISTÊNCIA DE SALDO CREDOR. IRRELEVÂNCIA. A multa do art. 80, da Lei n° 4.502, de 1964, é aplicada nas situações em que o contribuinte, estando obrigado, deixa de destacar o IPI na saída de seus produtos, independentemente da existência de saldo credor capaz de acobertar o exsurgimento de débitos do imposto". (Acórdão n. 3401 01.014; Sessão de 30/09/2010). Portanto, enquadrandose a situação da Recorrente na hipótese prevista em abstrato na norma para a aplicação do lançamento, correta a manutenção da multa de 75% (setenta e cinco por cento), sobre o valor do IPI que deixou de ser recolhido. Ilegalidade da incidência da SELIC sobre a Multa de Ofício Por fim, pede a Recorrente o afastamento da taxa SELIC sobre a multa de ofício aplicada, em razão do disposto no artigo 61 da Lei no 9.430/1996, in verbis: “Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento”. A questão que se coloca é se a expressão “débitos” incluiria também a multa de ofício e, com isso, além do tributo lançado, aplicarseia a taxa SELIC para atualização da multa de ofício. A respeito do tema, destaco a seguir julgado proferido pela 3ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Terceira Seção do CARF, no qual o Relator, Conselheiro Rosaldo Trevisan, após fazer uma detida análise da legislação de regência, conclui pela inaplicabilidade da taxa SELIC sobre a multa de ofício, por ausência de previsão legal. É ler: “Segue se então, para o art. 161 do Código Tributário Nacional, que dispõe:(...) As multas são inequivocamente penalidades. Assim, restaria ilógica a leitura de que a expressão créditos ao início do caput abarca as penalidades. Tal exegese equivaleria a sustentar que: “os tributos e multas cabíveis não integralmente pagos no vencimento serão acrescidos de juros, sem prejuízos da aplicação das multas cabíveis”. A Lei nº 9.430/1996, por sua vez, dispõe, em seu art. 61, que: (...) Novamente ilógico interpretar que a expressão “débitos” ao início do caput abarca as multas de ofício. Se abarcasse, sobre elas deveria incidir a multa de Fl. 363DF CARF MF 20 mora, conforme o final do comando do caput. Mais recentemente tratouse do tema nos arts. 29 e 30 da Lei nº 10.522/2002: (...) Vejase que ainda não se aclara a questão, pois se trata da aplicação de juros sobre os “débitos” referidos no art. 29, e a expressão designada para a apuração posterior a 1997 é “créditos”. Bem parece que o legislador confundiu os termos, e quis empregar débito por crédito (e viceversa), mas tal raciocício, ancorado em uma entre duas leituras possíveis do dispositivo, revelase insuficiente para impor o ônus ao contribuinte. Não se tem dúvidas que o valor das multas também deveria ser atualizado, sob pena de a penalidade tornarse pouco efetiva ou até inócua ao fim do processo. Mas o legislador não estabeleceu expressamente isso. Pela carência de base legal, então, entendese pelo não cabimento da aplicação de juros de mora sobre a multa de ofício, na linha que já vem sendo adotada por esta Turma”. (Processo no 10580.725551/201111; Sessão de 27/07/2013; Relator: Rosaldo Trevisan) Além das razões expostas no julgado em questão, acrescento que a ausência de previsão legal de aplicação de juros de mora sobre multa de ofício decorre da própria natureza desses encargos. Enquanto a multa de ofício constitui uma sanção que tem por finalidade penalizar o devedor pelo inadimplemento da obrigação de pagar o tributo, os juros de mora têm por objetivo indenizar o credor pelo atraso no cumprimento da obrigação de pagar o tributo por devido dentro do prazo estabelecido por Lei. Dessa maneira, tendo os juros de mora e a multa de ofício naturezas distintas, não cabe aplicar juros de mora sobre a multa de ofício, sob pena de se atribuir à multa de ofício um caráter indenizatório que a mesma não possui. O valor da multa de ofício não serve para indenizar o Estadocredor pelo atraso na prestação do tributo, serve para penalizar o contribuinte que deixou de pagar tributo. Com isso, o valor da multa de ofício não pode ser majorado em função do tempo que perdurar a mora do contribuinte devedor, com juros compensatórios da mora, por ausência de previsão e em razão da sua própria natureza. Pelas razões expostas, entendo inaplicável a taxa SELIC sobre a multa de ofício, motivo pelo qual dou provimento ao recurso voluntário interposto quanto a essa matéria. Conclusão Pelo exposto, proponho ao Colegiado conhecer e dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para: (i) reconhecer a extinção pela decadência de todos os créditos tributários cujo fato gerador ocorreu antes de 30/09/2006; (ii) cancelar o lançamento relativo às operações de saída para exposição, com exceção das operações correspondentes às notas fiscais de nº 164.581, 172.281, 168.009 e 176.766; e (ii) afastar a aplicação da SELIC sobre a multa de ofício. Augusto Fiel Jorge d' Oliveira Relator Fl. 364DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 355 21 Voto Vencedor Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco 1. Com as vênias de estilo, em que pese o, como de costume, bem fundado voto do Conselheiro Relator Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, apresento voto divergente, no sentido de afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente, conforme se passa a expor. I. VALOR TRIBUTÁRIO MÍNIMO 2. Como se sabe, em conformidade com o art. 46 do Código Tributário Nacional,5 o imposto sobre produtos industrializados, previsto no inciso IV do art. 153 da Constituição de 1988, 6 tem, como fato gerador: (i) o seu desembaraço aduaneiro, quando de procedência estrangeira; (ii) a sua saída dos estabelecimentos a que se refere o parágrafo único do artigo 51 da norma;7 e (iii) a sua arrematação, quando apreendido ou abandonado e levado a leilão. O art. 51 do diploma em referência, por sua vez, determina que a contribuinte do imposto é o industrial (ou equiparado) e o comerciante de produtos sujeitos ao IPI que os forneça a industriais ou equiparados. Da simples leitura de tais dispositivos, é possível se concluir, e.g., que a venda de distribuidora para consumidor final não se convola como fato gerador do imposto. 3. Uma vez definida a sua materialidade, depreendese da leitura do art. 478 a base de cálculo do IPI correspondente em uma operação de saída do produto interno: (i) o valor da operação de que decorrer a saída da mercadoria, ou (ii) na falta dele, o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente. Nos termos do 5 Código Tributário Nacional Art. 46. O imposto, de competência da União, sobre produtos industrializados tem como fato gerador: I o seu desembaraço aduaneiro, quando de procedência estrangeira; II a sua saída dos estabelecimentos a que se refere o parágrafo único do artigo 51; III a sua arrematação, quando apreendido ou abandonado e levado a leilão. Parágrafo único. Para os efeitos deste imposto, considerase industrializado o produto que tenha sido submetido a qualquer operação que lhe modifique a natureza ou a finalidade, ou o aperfeiçoe para o consumo. 6 Constituição da República de 1988 Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre: (...) IV. Produtos industrializados. 7 Código Tributário Nacional Art. 51. Contribuinte do imposto é: I o importador ou quem a lei a ele equiparar; II o industrial ou quem a lei a ele equiparar; III o comerciante de produtos sujeitos ao imposto, que os forneça aos contribuintes definidos no inciso anterior; IV o arrematante de produtos apreendidos ou abandonados, levados a leilão. Parágrafo único. Para os efeitos deste imposto, considerase contribuinte autônomo qualquer estabelecimento de importador, industrial, comerciante ou arrematante. 8 Código Tributário Nacional Art. 47. A base de cálculo do imposto é: I no caso do inciso I do artigo anterior, o preço normal, como definido no inciso II do artigo 20, acrescido do montante: a) do imposto sobre a importação; b) das taxas exigidas para entrada do produto no País; c) dos encargos cambiais efetivamente pagos pelo importador ou dele exigíveis; II no caso do inciso II do artigo anterior: a) o valor da operação de que decorrer a saída da mercadoria; b) na falta do valor a que se refere a alínea anterior, o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente; III no caso do inciso III do artigo anterior, o preço da arrematação. Fl. 365DF CARF MF 22 quanto preceituado pelo art. 190 do Decreto nº 7212/2010 (Regulamento do IPI),9 constitui "valor tributável" dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial, assim entendido como o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário. 4. O art. 195 do RIPI/2010, por seu turno, de forma a ecoar o preceptivo normativo do alínea b do inciso II do art. 47 do Código Tributário Nacional, dispõe a respeito da necessidade de um valor mínimo tributável no caso de produto destinado a outro estabelecimento do próprio remetente: o preço corrente no mercado atacadista da praça do próprio remetente, cf. inciso I do art. 15 da Lei nº 4.502/1964 e art. 2º do DecretoLei no 34/1966, conforme abaixo se transcreve: Decreto nº 7212/2010 (Regulamento do IPI) Valor Tributável Mínimo Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência. 5. Para a caracterização da relação de interdependência, por sua vez, necessária a configuração de ao menos uma das hipóteses previstas no art. 612 do RIPI/2010: (i) participação, direta ou indireta, de mais de 15% no capital social; (ii) comungarem de ao menos um diretor ou sócio com funções de gerência; (iii) quando uma tiver vendido/consignado à outra no ano anterior mais de 20% de seus produtos com exclusividade territorial ou mais de 50% em qualquer hipótese; (iv) quando uma delas for a única adquirente de um ou mais produtos da outra; (v) quando uma vender à outra produto que tenha fabricado ou importado por meio de contrato de participação ou semelhante, conforme disposição a seguir trasladada: Decreto nº 7212/2010 (Regulamento do IPI) Firmas Interdependentes Art. 612. Considerarseão interdependentes duas firmas: I. quando uma delas tiver participação na outra de quinze por cento ou mais do capital social, por si, seus sócios ou acionistas, bem como por intermédio de parentes destes até o segundo grau e respectivos cônjuges, se a participação societária for de pessoa física; II. quando, de ambas, uma mesma pessoa fizer parte, na qualidade de diretor, ou sócio com funções de gerência, ainda que exercidas sob outra denominação; III. quando uma tiver vendido ou consignado à outra, no ano anterior, mais de vinte por cento no caso de distribuição com exclusividade em determinada área do território nacional, e mais de cinquenta por cento, nos demais casos, do volume das vendas dos produtos tributados, de sua fabricação ou importação; IV. quando uma delas, por qualquer forma ou título, for a única adquirente, de um ou de mais 9 Decreto nº 7212/2010 (Regulamento do IPI) Art. 190. Salvo disposição em contrário deste Regulamento, constitui valor tributável: (...) II dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial. § 1o O valor da operação referido na alínea “b” do inciso I e no inciso II compreende o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário. § 2o Será também considerado como cobrado ou debitado pelo contribuinte, ao comprador ou destinatário, para efeitos do disposto no § 1o, o valor do frete, quando o transporte for realizado ou cobrado por firma controladora ou controlada do estabelecimento contribuinte ou por firma com a qual este tenha relação de interdependência, mesmo quando o frete seja subcontratado. § 3o Não podem ser deduzidos do valor da operação os descontos, diferenças ou abatimentos, concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente. § 4o Nas saídas de produtos a título de consignação mercantil, o valor da operação referido na alínea “b” do inciso I e no inciso II do caput, será o preço de venda do consignatário, estabelecido pelo consignante Fl. 366DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 356 23 de um dos produtos industrializados ou importados pela outra, ainda quando a exclusividade se refira à padronagem, marca ou tipo do produto; ou V. quando uma vender à outra, mediante contrato de participação ou ajuste semelhante, produto tributado que tenha fabricado ou importado. Parágrafo único. Não caracteriza a interdependência referida nos incisos III e IV a venda de matériasprimas e produtos intermediários, destinados exclusivamente à industrialização de produtos do comprador. 6. Uma vez configurada a situação de interdependência, deve o aplicador se voltar, necessariamente, ao preço corrente da praça do remetente, por expresso desígnio da alínea b do inciso II do art. 47 do Código Tributário Nacional conjugada com o inciso I do art. 195 do RIPI/2010. Duas são as questões que merecem, a partir de então, maior reflexão: em primeiro lugar, o sentido de "preço corrente" e, em segundo lugar, o sentido de "praça". Diante da dúvida sobre se o preço corrente da localidade seria aquele praticado pelo remetente, considerado de maneira individual e apartado do restante da praça, ou se, para o cálculo, deveria a autoridade fiscal considerar todo o mercado local, a Coordenação do Sistema de Tributação editou o Parecer Normativo CST nº 44/1981, que entendeu pela necessidade de consideração do universo das vendas realizadas na localidade, de modo a utilizar, como sinônimo de "praça", a "cidade".10 Assim, para se encontrar o "preço corrente", necessário se levar em consideração a média ponderada do preço praticado pelos estabelecimentos da cidade do remetente: Parecer Normativo CST nº 44/1981 Imposto Sobre Produtos Industrializados 4.16.04.02 Valor Tributável Mínimo Remessas Para Interdependentes "1. Indagase, para encontro do limite mínimo do valor tributável do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), na hipótese prevista no artigo 46, inciso I, letra a , do Regulamento aprovado pelo Decreto nº 83.263, de 09 de março de 1979 (RIPI), qual a extensão do entendimento da expressão "preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente". (...). 3. A base da norma que se examina, originariamente, foi o disposto no inciso I do artigo 15 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, verbis: Artigo 15. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço normal de venda por atacado a outros compradores ou destinatários, ou, na sua falta, ao preço corrente no mercado atacadista do domicílio do remetente, quando o produto for remetido, para revenda, a estabelecimento de terceiro, com o qual o contribuinte tenha relações de interdependência (art. 42). 4. No texto transcrito observase que a regra de apuração do valor tributável destacava a hipótese de venda por atacado a outros compradores ou destinatários, podendo ser entendida como o preço praticado pelo próprio remetente. 10 Sentido utilizado também no Recurso Extraordinário nº 71.253/PR, proferido pela 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal em 21/05/1973, de relatoria do Ministro Xavier de Albuquerque. Ementa: "ICM. REMESSA PARA OUTRO ESTADO. INCIDÊNCIA SOBRE O VALOR DA MERCADORIA NA PRAÇA DO REMETENTE. DESNECESSIDADE, EM CERTOS CASOS, DE PROCESSO REGULAR PARA O ARBITRAMENTO DESSE PREÇO. RECURSO EXTRAORDINÁRIO NÃO CONHECIDO". Fl. 367DF CARF MF 24 4.1 A alteração 5ª do artigo 2º do DecretoLei nº 34, de 18 de novembro de 1966, deu nova redação ao inciso transcrito, e excluiu a possibilidade daquele entendimento, definindo que: Artigo 15. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, quando o produto for remetido a outro estabelecimento da mesma pessoa jurídica ou a estabelecimento de terceiro, incluído no artigo 42 e seu parágrafo único. 5. A norma superveniente determina, pois, ser "o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente..." a base mínima para o valor tributável nas hipóteses que menciona. 6. Registram os Dicionários da Língua Portuguesa que mercado, convencionalmente, significa a referência feita em relação à compra e venda de determinados produtos. 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada. 7. Por isso, os preços praticados por outros estabelecimentos da mesma praça que a do contribuinte interessado em encontrar o valor tributável do IPI através do preço corrente no mercado atacadista devem ser considerados para o cálculo da média ponderada de que trata o § 5º do artigo 46 do RIPI/79. 8. Quando não puder ser conhecido, por inexistente, o preço corrente no mercado atacadista relativo a qualquer produto, o comando legal a ser seguido encontrase no artigo 46, § 6º (parte final), combinado com o disposto no parágrafo único do artigo 44 do já mencionado Regulamento aprovado pelo Decreto nº 83.263, de 09 de março de 1979" (seleção e grifos nossos). 7. No ano seguinte à edição do Parecer Normativo CST nº 44/1981, com o objetivo de elucidar o vocábulo "produto" (item 6.1), bem como no sentido de esclarecer o cálculo da média ponderada, foi editado o Ato Declaratório Normativo CST nº 5/1982. Em perfeita consonância com o repertório normativo analisado até o presente momento, o ato dispôs que, para fins de determinação do valor tributável mínimo, devem ser consideradas "as vendas efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente, no atacado, na mesma localidade, excluídos os valores de frete e IPI". Assim, deve a autoridade autuante fazer com que participe do cálculo da média ponderada não apenas os valores praticados pelos remetentes da praça, como também pelos seus interdependentes (que estejam também na mesma praça e caso existam , evidentemente, sob pena de contradição com o texto do art. 195 do RIPI/2010 e do Parecer Normativo CST nº 44/1981), conforme abaixo se reproduz: Ato Declaratório Normativo CST nº 5, de 04/05/1982 O Coordenador do Sistema de Tributação, no uso das atribuições que lhe confere o item II da Fl. 368DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 357 25 Instrução Normativa SRF nº 34, de 18 de setembro de 1974, e tendo em vista o Parecer CST/DET nº 892/82: Declara, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal e demais interessados, que o termo produto, constante do subitem 6.1 do Parecer Normativo CST nº 44, de 23 de novembro de 1981, indica uma mercadoria perfeitamente caracterizada e individualizada por marca, tipo, modelo, espécie, qualidade e número, se houver, na forma indicada no inciso VIII do art. 205 do Regulamento aprovado pelo Decreto nº 83.263, de 9 de março de 1979 (RIPI). Declara, igualmente, que, do produto assim caracterizado, para efeito de cálculo da média ponderada de que trata o § 5º do art. 46 do RIPI/79, que determinará o valor tributável mínimo a que alude o art. 46, inciso I, do mesmo Regulamento, deverão ser consideradas as vendas efetuadas pelo remetentes e pelos interdependentes do remetente, no atacado, na mesma localidade, excluídos os valores de frete e IPI. 8. Aventouse, a partir de então, para fins de apuração do "preço corrente", hipótese em que, no mercado atacadista a que essa regra se refere, existir um único distribuidor, sendo este interdependente do estabelecimento industrial fabricante do produto cujo valor tributável mínimo se pretenda determinar. A Divisão de Tributação da Superintendência Regional da Receita Federal do Brasil da 10ª Região Fiscal (SRRF10/Disit), por meio da Consulta Interna nº 4, de 02/08/2011,11 solicitou à CoordenaçãoGeral de Tributação (Cosit) orientação relativa à possibilidade da aplicação da regra de fixação de valor tributável mínimo determinada pelo inciso I do art. 195 do RIPI/2010 neste caso específico, o que conduziu à edição da Solução de Consulta Interna Cosit nº 8, de 13/06/2012, no sentido de que, em tais casos, o preço corrente "(...) corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas por atacado do produto", em conformidade com o trecho abaixo transcrito: Solução de Consulta Interna Cosit nº 8, de 13/06/2012 "(...) 9. (...) existindo diversos estabelecimentos atuantes no mercado atacadista, não será válida a determinação do valor tributável mínimo tomando por base o preço praticado por apenas um estabelecimento, isoladamente considerado. Devese levar em conta “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”. 9.1. Agora, se “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”, possui um único vendedor, é inevitável que o valor tributável mínimo seja determinado a partir das vendas por este efetuadas. Nem por isso tais operações de compra e venda por atacado deixarão de caracterizar a existência de um “mercado atacadista”, possibilitando, portanto, a aplicação da regra estatuída no inciso I do art. 195 do RIPI/2010. 11 Consulta Interna nº 4, de 02/08/2011 realizada pela Divisão de Tributação da Superintendência Regional da Receita Federal do Brasil da 10ª Região Fiscal (SRRF10/Disit): "(...) quando uma distribuidora é a única vendedora no mercado atacadista do país ou da região do fabricante, os preços por ela praticados devem ser utilizados para determinação do valor tributável mínimo referido no artigo 195, inciso I, do RIPI/2010? Ou, em função do que consta no trecho acima transcrito do Parecer Normativo CST nº 44/81, deve se entender que a regra do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010 só pode ser aplicada nos casos em que o mercado atacadista seja composto por mais de um vendedor?". Fl. 369DF CARF MF 26 9.2. Assim, o valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial que o fabrique, e que tenha na sua praça um único distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas que efetue, por atacado, do citado produto. 10. Dessa forma, as operações realizadas por este estabelecimento corresponderão ao “universo das vendas” a que se refere o Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, e tais operações de compra e venda configurarão o “mercado atacadista” de que trata o inciso I do art. 195 do RIPI/2010. Conclusão 11. Diante do exposto, na hipótese de existir no mercado atacadista a que se refere o inciso I do art. 195 do RIPI/2010 um único distribuidor, interdependente de estabelecimento industrial fabricante de determinado produto (sem similar para efeito de comparação de preços), o valor tributável mínimo aplicável a esse estabelecimento industrial fabricante corresponderá aos próprios preços praticados pelo distribuidor único nas vendas por atacado do citado produto" (seleção e grifos nossos). 9. Assim, para fins de determinação do preço mínimo, deve a autoridade autuante: (i) verificar a existência de relação de interdependência entre os estabelecimentos da contribuinte fiscalizada, nos termos do art. 612 do RIPI/2010; (ii) caso configurada tal relação, deverá verificar se a contribuinte obedeceu, por sua vez, à regra do valor tributável mínimo, assim entendido como o "preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente", em conformidade com o art. 195 do RIPI/2010 obtido por meio da média ponderada dos preços das "vendas efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente, no atacado, na mesma localidade, excluídos os valores de frete e IPI".12 Para tal finalidade, deverá, ainda: (ii.a) considerar como "produto" aquela mercadoria perfeitamente caracterizada e individualizada por marca, tipo, modelo, espécie, qualidade e número, e (ii.b) considerar o termo "praça" como município, cidade, local ou freguesia do estabelecimento do remetente, preceptivos do Parecer Normativo CST nº 44/1981 e do Ato Declaratório Normativo CST nº 5/1982. Por fim, caso constate que (iii) a parte interdependente é o único fornecedor/distribuidor da praça do remetente ("mercado monopolista local"), o valor tributável mínimo aplicável será a média ponderada dos preços praticados por este distribuidor único para aquele produto. 10. Divergência passaria a existir, observese a latere, diante da completa ausência de mercado atacadista onde está localizado o estabelecimento remetente, situação enfrentada pelo Acórdão CARF nº 3403002.285, proferido em sessão de 26/06/2013, sob a relatoria do Conselheiro Antônio Carlos Atulim,13 no qual o colegiado entendeu, vencidos os Conselheiros Rosaldo Trevisan e Alexandre Kern, pela necessidade de se considerar, como valor mínimo tributável, apenas os custos de fabricação e demais despesas incorridas com os 12 Em outras palavras, o "mercado atacadista" da praça do remetente (art. 195 RIPI/2010) é composto pelas vendas do mesmo produto "efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente [estes, caso existam], no atacado, na mesma localidade" (Ato Declaratório Normativo CST nº 5/1982). 13 Acórdão CARF nº 3403002.285 Ementa: "VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. EMPRESAS INTERDEPENDENTES. Inexistindo mercado atacadista na cidade em que está localizado o estabelecimento remetente, o valor tributável mínimo do IPI a ser observado nas vendas para empresa interdependente deve ser apurado com base na regra do art. 196, parágrafo único, II, do RIPI/2010, considerandose apenas e tãosomente os custos de fabricação e demais despesas incorridas pelo remetente dos produtos". Fl. 370DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 358 27 produtos. Em sentido oposto, é possível se apontar a situação específica verificada no Acórdão CARF nº 3201001.204, proferido em sessão de 25/02/2013, de Relatoria do Conselheiro Luciano Lopes de Almeida Moraes, referenciado nas contrarrazões da Procuradoria da Fazenda Nacional, em que, diante da inexistência de outros atacadistas na praça do remetente, foram utilizados os preços das notas de saída das distribuidoras registrase, no entanto, que tal precedente, além de isolado, foi decidido, no mérito, por voto de qualidade e de maneira contrária à regra geral determinada pela legislação do IPI. 11. Cabe observar que, com o advento do Decreto nº 8.393, de 28/01/2015, que entrou em vigor na data da sua publicação, restou revogado o Decreto nº 1.217/1994,14 de modo a incluir, com supedâneo no art. 8º da Lei nº 7.798/1989, produtos correspondentes ao códigos TIPI 3303 a 3307 (3303.00.10, 3305.30.00, 3304.10.00, 3305.90.00, 3304.20, 3307.10.00, 3304.30.00, 3307.30.00, 3304.9, 3307.4, 3305.20.00, e 3307.90.00) no Anexo III da lei em referência, que dispõe da seguinte forma: Lei nº 7.798/1989 Art. 7º. Equiparamse a estabelecimento industrial os estabelecimentos atacadistas que adquirirem os produtos relacionados no Anexo III [entre os quais, cosméticos], de estabelecimentos industriais ou dos seguintes estabelecimentos equiparados a industrial: (...) III. estabelecimentos comerciais de produtos cuja industrialização haja sido realizada por outro estabelecimento da mesma firma ou de terceiros, mediante a remessa, por eles efetuadas, de matériasprimas, produtos intermediários, embalagens, recipientes, moldes, matrizes ou modelos. (...) § 1º. O disposto neste artigo aplicase nas hipóteses em que adquirente e remetente sejam empresas interdependentes, controladoras, controladas ou coligadas (Lei nº 6.404, art. 243, §§ 1º e 2º) ou interligadas. (...) Art. 8º. Para fins do disposto no artigo anterior, fica o Poder Executivo autorizado a excluir produto ou grupo de produtos cuja permanência se torne irrelevante para arrecadação do imposto, ou a incluir outros cuja alíquota seja igual ou superior a quinze por cento" (seleção, grifos e colchetes nossos). 12. Assim, ao se equiparar o atacadista a estabelecimento industrial (quando vier a adquirir, e.g., produtos cosméticos de indústria ou equiparado que fizer parte do mesmo grupo empresarial), na qualidade de novel contribuinte do IPI, promovese substanciosa alteração da lógica tributária da operação, no sentido de se criar regra específica antielisiva por meio de alteração na TIPI que tem como efeito a expansão do aspecto pessoal do imposto para pessoas que antes não se sujeitavam a tal materialidade. Aquela contribuinte que organizar os seus negócios de modo a dividilos entre industrial e atacadista, poderá continuar a fazêlo sem se sujeitar a uma tributação maior, pois o distribuidor passará a se creditar do valor de IPI sobre os produtos entrados em seu estabelecimento por meio de compensação em conta gráfica. 13. Em que pese a medida ser em tudo elogiável, portanto, do ponto de vista de buscar uma forma de equalização de mercado, cabe se registrar, em sede de excursus, 14 Decreto nº 1.217/1994 Art. 1º Ficam excluídos do Anexo III à Lei nº 7.798, de 10 de julho de 1989, os produtos classificados nos códigos 3301.90.03, 3303, 3304, 3305, 3306 e 3307, da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados, aprovada pelo Decreto nº 97.410, de 23 de dezembro de 1988. Fl. 371DF CARF MF 28 até mesmo em proveito da cronologia normativa que ora se estabelece, que a forma contramajoritária eleita para instituíla tem sido posta sob vergasta: (i) primeiro, porque, por meio de decreto presidencial, terseia criado tributo onde antes não havia para todo o setor de cosméticos. De fato, o art. 97 do Código Tributário Nacional explicita em minúcias o conteúdo e a expressão da legalidade: "(...) o consequente normativo, isto é o an e o quantum debeatur, representados pela definição do sujeito passivo, da base de cálculo e da alíquota, todos devem ser previstos na própria lei",15 ponto sobre o qual já escrevemos, e.g., no Acórdão CARF nº 3401003.216, de minha relatoria, proferido em sessão de 23/08/2016: a autorização franqueada pela lei, no caso, o art. 8º da Lei nº 7.798/1989, acima transcrito, para que determinados produtos sejam acrescentados à TIPI, tratase de permissivo de mitigação excessivamente pretensioso, pois encontra obstáculo na norma de estatura complementar. Possível seria a redução ou a dispensa do tributo por meio de norma executiva, como, aliás, fizera o Decreto nº 1.217/1994, mas jamais o aumento ou criação de tributo novo, uma vez que "(...) o princípio da legalidade não tolera um aumento de tributo sem lei que o estabeleça".16 Em (ii) segundo lugar, a iniciativa do Poder Executivo contrariou o texto expresso do art. 4º da Lei nº 7.798/1989, ao determinar que o IPI incidente sobre produtos nacionais, salvo no caso de industrialização por encomenda, deve ser recolhido uma única vez: ou (ii.a) na saída do estabelecimento industrial, ou (ii.b) na saída do estabelecimento a ele equiparado: Lei nº 7.798/1989 Art. 4º Os produtos sujeitos aos regimes de que trata esta Lei pagarão o imposto uma única vez (...) a) os nacionais, na saída do estabelecimento industrial ou do estabelecimento equiparado a industrial; b) os estrangeiros, por ocasião do desembaraço aduaneiro. 14. O art. 47 do Código Tributário Nacional é expresso ao se referir ao preço "o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente". Em igual sentido, de maneira igualmente expressa, o inciso I do art. 195 do Decreto nº 7212/2010 (RIPI), ao tratar do valor tributável mínimo, referese ao "ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente". Uníssonos e uniconcordes, como não poderiam deixar de ser, o Parecer Normativo CST nº 44/1981 e o Ato Declaratório Normativo CST nº 5/1982, cujo trecho a seguir se transcreve: "deverão ser consideradas as vendas efetuadas pelo remetente e pelos interdependentes do remetente". Harmoniosa com tal determinação legal também a Solução de Consulta Interna Cosit nº 8, de 13/06/2012: "o valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial que o fabrique, e que tenha na sua praça um único distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único". A fixação da "regra do remetente" encontrou ressonância, ainda, na jurisprudência deste Conselho.17 15. Em igual sentido, a posição deste Conselho, conforme se denota da leitura do Acórdão CARF nº 20218.215, proferido em 14/08/2007, de relatoria da Conselheira Maria Teresa Martinez López, que negou provimento a recurso de ofício por unanimidade de votos, redigido com a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI 15 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. São Paulo: Editora Saraiva, 7ª edição, 2017, p. 314. 16 Idem, p. 316: "Isso inclui a proibição de se restabelecer uma tributação, mesmo que a redução se tenha dado por ato do próprio Executivo, por delegação legal. Uma coisa é a lei autorizar o Executivo a reduzir a tributação. Não implicará, entretanto, a possibilidade de aumentar a carga tributária sem decisão específica do legislador". 17 Acórdão CARF nº 20216475, proferido em sessão de 09/08/2005, sob a relatoria da Conselheira Maria Cristina Roza da Costa. Ementa: "IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. INTERDEPENDÊNCIA. Aplicase o disposto no inciso I, letra “a”, c/c § 5º do art. 68 do RIPI/82, com a interpretação dada pelo ADN CST nº 5/82, quando ocorrer interdependência entre fabricante e adquirente nos termos do art. 394, inciso IV, do RIPI/82. Recurso provido". Fl. 372DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 359 29 Período de apuração: 10/02/1999 a 31/12/1999 Ementa: BASE DE CÁLCULO. FIRMAS INTERDEPENDENTES. Caracterizada a interdependência entre os estabelecimentos remetente e adquirente, o valor mínimo tributável é o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, conforme preceitua o art. 123, I, “a”, do RIPI/98, que equivale ao preço médio praticado na localidade, e não o praticado pelo adquirente. Recurso de ofício negado. 16. Transcrevese, ainda, por pertinente, trecho do voto do caso, em tudo semelhante ao presente: "O que se verifica dos autos é que, ignorando a determinação legal acima exposta, a fiscalização arbitrou a base de cálculo do IPI tomando o valor de revenda do adquirente interdependente. O art. 123 do RIP1/98 é claro ao estabelecer que quando ficar caracterizada a interdependência entre os estabelecimentos do remetente e do adquirente, o valor mínimo tributável é o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, que equivale ao preço médio praticado na localidade, não podendo ser considerado como o praticado pelo adquirente" (seleção e grifos nossos). 17. Necessária menção deve ser feita, ainda, ao Acórdão CARF nº 204 02706 (Processo Administrativo nº 16175.000298/200517), proferido em sessão de 15/08/2007, de relatoria da Conselheira Nayra Bastos Manatta, por unanimidade de votos, que tratou especificamente da determinação da base de cálculo mínima do IPI: "(...) limitouse, a fiscalização, a tomar como valor tributável mínimo o valor de revenda do adquirente interdependente como base de cálculo do remetente. Tal procedimento não encontra qualquer respaldo legal" (seleção e grifos nossos), tendo sido lavrada a seguinte ementa: IPI. REMESSAS PARA INTERDEPENDENTES. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. No caso de saídas para empresas interdependentes o valor tributável mínimo a ser considerado como base de cálculo do imposto é o preço corrente no mercado atacadista da praça comercial do remetente, ou, caso não seja possível assim se proceder por inexistir vendas do produto na mesma praça da remetente, o valor mínimo tributável deve ser calculado considerando o custo de fabricação do produto, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem assim do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação. As vendas realizadas pela empresa adquirente do produto, localizada em outra praça, não se prestam para cálculo do valor mínimo tributável, se consideradas isoladamente. Fl. 373DF CARF MF 30 18. Por fim, em igual sentido, o Acórdão CARF nº 340100.768, proferido em sessão de 25/05/2010, de relatoria do Conselheiro Dalton César Cordeiro de Miranda, proferido por unanimidade de votos: IPI. REMESSAS PARA INTERDEPENDENTES. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. No caso de saídas para empresas interdependentes o valor tributável mínimo a ser considerado como base de cálculo do imposto é o preço corrente no mercado atacadista da praça comercial do remetente, ou, caso não seja possível assim proceder, o valor mínimo tributável deve ser calculado considerando as especificidades e características (marca, tipo, modelo, espécie, volume, qualidade) dos produtos distintos empregados para sua formação de preços. 19. Por derradeiro, durante as pesquisas realizadas para a elaboração do presente voto, deparouse este Relator com a informação de que tramita, no Congresso Nacional, o Projeto de Lei nº 1.559/2015, com o seguinte teor: "Art. 1º Esta Lei tem por objetivo, para os fins previstos na Lei nº 502 de 30 de novembro de 1.964, definir “praça” como a cidade onde está situado o remetente das mercadorias. Art. 2º O artigo 15 da Lei nº 4.502 de 30 de novembro de 1.964, passa a vigorar acrescida do seguinte parágrafo único: “Art. 15.......................................................................................... Parágrafo único. O termo praça, tratado neste artigo, se refere à cidade onde está situada a remetente.” (NR) Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação" (seleção e grifos nossos). 20. Transcrevese, abaixo, trecho da justificativa do projeto de lei em comento: "A lei do IPI fala em preço tributável mínimo, quando da venda de produtos para empresas interdependentes. Ocorre que o Fisco Federal vem distorcendo o conceito da praça, vindo a expandilo de forma totalmente arbitrário e sem critério. Dessa forma, vários contribuintes são autuados sob a alegação de que não seguiram o preço mínimo tributável, pois, na visão fiscal, o preço de venda deveria considerar os preços praticados em outras cidades. Ou seja, os contribuintes estão vivendo um clima de total insegurança jurídica, já que o fisco federal não acolhe o conceito de praça hoje consagrado, o qual diz ser a cidade onde está o remetente. Dessa forma, e para evitar a insegurança jurídica trazida pela interpretação da lei fiscal, necessário deixar pacificado o entendimento corrente, que diz que praça corresponde à cidade onde está situado o remetente das mercadorias. Isto posto, acreditado estar aperfeiçoando o regime jurídico pátrio que trata da matéria, conto com o apoio dos pares na rápida aprovação da presente proposição. Fl. 374DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 360 31 Sala das Sessões, em 14 de maio de 2015" (seleção e grifos nossos). 21. O projeto de lei, com regime ordinário de tramitação, foi aprovado por unanimidade, em 11/11/2015, pela Comissão de Finanças e Tributação (CFT) da Câmara dos Deputados e aguarda, desde 29/12/2016, designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Casa Legislativa. Recortase, abaixo, trecho do relatório de aprovação do projeto pela Comissão de Finanças e Tributação: "A proposição em epígrafe (...) pretende modificar o art. 15 da Lei n.º 4.502, de 30 de novembro de 1964, que dispõe sobre o Imposto sobre Produtos Industrializados, no que se refere à fixação do menor valor tributário aceito pela administração fiscal, no caso de remessas a outro estabelecimento da empresa ou de terceiro (3º) ou ainda que opere exclusivamente em venda a varejo, para determinar que o termo “praça” seja definido como a cidade onde está situado o estabelecimento remetente. Alega o autor que o fisco federal tem expandido o conceito “praça”, de forma arbitrária e sem critério, promovendo insegurança jurídica e lavrando autuações indevidas, com base em preços praticados em outras cidades. Sujeita à apreciação conclusiva das Comissões em regime de tramitação ordinária, e ao exame de mérito, previstos no artigo 54, inciso II, e no artigo. 24, inciso II, do Regimento Interno desta Casa. O projeto de lei em tela não recebeu emendas no prazo regimental junto à Comissão de Finanças e Tributação. Quando a determinação do valor tributável para efeito de cálculo dos preços praticados no mercado atacadista da praça do remetente, será considerado o universo das vendas realizadas naquela localidade (...). Demais normas tributárias citadas como o ADN nº 5, de 1982, ao determinar o cálculo da média ponderada para a apuração do valor tributário mínimo, bem como o Parecer CST nº 3313, de 1982, também voltado para o cálculo da média ponderada, fixam que deverão ser consideradas as vendas do produto, efetuadas pelo remetente e pelos interdependentes do remetente, no atacado, sob determinadas condições, na mesma localidade. Não obstante a matéria já se achar plenamente esclarecida não está definida em lei de forma explícita. Isto posto, com vistas a permitir a correta adoção da lei, prevenindo excessos interpretativos, consideramos oportuna a inclusão do dispositivo proposto" (seleção e grifos nossos). 22. Em que pese se tratar de dispositivo de lege ferenda, o que inviabiliza em absoluto o seu uso como fonte formal, não há de se ignorar o trâmite da matéria como vetor argumentativo de interesse e, por outro lado, a medida, consentânea com a jurisprudência deste Conselho, como se demonstrou, de fato possibilitaria maior grau de segurança jurídica à atividade do lançamento, tendo como efeito a desejável redução da matéria contenciosa, a redução do estoque de processos judiciais e administrativos e, logo, a maior celeridade na prestação jurisdicional. Cabe destacar, ademais, que o Superior Tribunal de Justiça, no Recurso Fl. 375DF CARF MF 32 Especial nº 1.190.037/SP, de relatoria do Ministro Luis Felipe Salomão, ao tratar do prazo prescricional do cheque, definiu "praça" como "município"18. E não poderia ser de outra forma, pois a alínea 'a' do inciso I e 'b' do inciso II do art. 11 da Lei Complementar nº 95/1998, que trata da elaboração, a redação, a alteração e a consolidação das leis, determina que o legislador, com o objetivo de obter clareza, deve usar as palavras e expressões em seu sentido comum, e expressar as mesmas idéias de preferência sempre pelas mesmas palavras. Por este motivo é que o sentido de praça como algo distinto de "município" somente poderia ser alterado por meio de preceptivo normativo editado especificamente com esta finalidade. 23. Feitas tais considerações, observase que a opção da contribuinte pela "(...) criação da fábrica como uma empresa inscrita em CNPJ diferente",19 implica, como recordam Carlos Eduardo Toro, Fernando Aurelio Zilveti e Bianca Britto, a observância de "(...) um valor mínimo determinado pela legislação do IPI", mas desde que observados os requisitos de sua aferição. Recordese: ainda que a decisão empresarial da contribuinte constitua vera imoralidade ao aplicador, a eventual ausência de propósito negocial de uma determinada estrutura societária é indiferente ao direito na esfera federal, e não pode ser utilizada como fundamento para a desconsideração de negócios jurídicos20. Desta forma, fosse a acusação de subfaturamento, e.g., tocaria à autoridade fiscal a demonstração da prática dos preços diferenciados para, em seguida, proceder à aplicação do art. 148 do Código Tributário Nacional, de forma a arbitrar o valor ou preço dos bens. 24. Não se ignora, portanto, que muitas empresas, notadamente do ramo de cosméticos, mas não somente, adotem tal estrutura também devido a outros aspectos não pertinentes à legislação do IPI, seja por razões tributárias ou extratributárias, como, para permanecer apenas na análise da tributação federal, a arquitetura fiscal desenhada pelo próprio governo federal para a cobrança do PIS e da Cofins.21 A concentração da incidência traduzida pela cobrança monofásica sobre a saída do importador ou do industrial, conforme previsto, e.g., na Lei nº 10.147/2000, ao onerar o produtor com a carga de toda a cadeia de consumo, tem por 18 Recurso Especial nº 1.190.037/SP Trecho da ementa: "4. O cheque é ordem de pagamento à vista, sendo de 6 (seis) meses o lapso prescricional para a execução após o prazo de apresentação, que é de 30 (trinta) dias a contar da emissão, se da mesma praça, ou de 60 (sessenta) dias, também a contar da emissão, se consta no título como sacado em praça diversa, isto é, em município distinto daquele em que se situa a agência pagadora". 19 ZILVETI, Fernando Aurelio, TORO, Carlos Eduardo, e BRITTO, Bianca. "Operações do setor industrial aspectos tributários", In: SANTI, Eurico Marcos Diniz de. Curso de direito tributário e finanças públicas do fato à norma, da realidade ao conceito jurídico. São Paulo: Editora Saraiva Selo Direito GV, 2009, pp. 969 a 978. 20 BRANCO, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Argumentação tributária de lógica substancial. Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, 2016, p. 176: "A disposição da presença de propósito negocial no elemento de refutação permite a sua consideração como um elemento protetivo que, uma vez comprovado, elide a hipótese de simulação ou abuso (...) como tal instituto é indiferente ao direito positivo (...) não é capaz o intérprete autêntico, no campo do direito, de colocar a sua vontade sobre o ordenamento, sob o risco de malferir a legalidade e, consequentemente, a validade da decisão". 21 ANDRADE, José Maria Arruda de. "É fundamental repensar política econômica que se vale de tributos". In: Revista Consultor Jurídico (Conjur) Coluna "Estado da Economia", 17/04/2016, disponível em: <http://www.conjur.com.br/2016abr17/estadoeconomiapoliticaeconomicavaletributos repensada?imprimir=1>, último acesso em 04/06/2017. Em recente artigo sobre o tema, o autor se volta ao momento posterior à instituição do regime nãocumulativo do PIS e da Cofins: "(...) mais do que a não cumulatividade, o resultado foi arrecadatório, com a criação de categorias econômicas com distintas e variadas cargas (isso sem contar a concomitância com regimes distintos: o cumulativo e o concentrado e monofásico, por exemplo). A progressão de anos e governos só tornou mais agudo o afastamento aos ideais de uma praticabilidade nos termos expostos no início. Logo foram criados inúmeros regimes especiais para determinadas cadeias produtivas, isenções (gastos tributários indiretos) para determinados produtos, acúmulo (ou “empoçamento”) de créditos em algumas operações; regimes de monetização de créditos para alguns e até mesmo “fast track" para os setores que conseguiam convencer o governo de sua importância. Em pouco tempo, encontramos setores que não só não contribuem com essas duas contribuições sociais, como, de fato, acabam por receber recursos do governo para saldar outros tributos com aquilo que não pagaram diretamente" (seleção e grifos nossos). Fl. 376DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 361 33 efeito deslocar a agregação de valor ao momento seguinte, da distribuição, o que é plenamente aceitável, como restou sedimentado no Acórdão CARF nº 3403002519, proferido em sessão de 22/10/2013, sob a relatoria do Conselheiro Ivan Alegretti.22 Necessário se aceitar, nas palavras de Gerson Augusto da Silva, que "(...) a política fiscal constitui, pois, uma das políticas econômicas de tipo instrumental. Sua racionalidade se define no plano da eficácia operacional".23 Assim, não há de aceitar reprovação sobre opção de estrutura negocial do jurisdicionado que advém, em grande parte, como se percebe, das intervenções tributárias promovidas pelo próprio Estado na condução de sua política fiscal. II. ANÁLISE DA APLICAÇÃO DA IN Nº 82/2001 AO PRESENTE CASO 25. Considerou a autoridade fiscal que as saídas de produtos manufaturados a partir de telas de cristal líquido foram importadas com insuficiência de destaque de IPI, uma vez que a contribuinte teria se valido de base de cálculo abaixo do custo de aquisição ou de fabricação do produto, ou abaixo de sua soma com o valor devido a título de ICMS, PIS e Cofins, em ofensa ao art. 1º da Instrução Normativa SRF nº 82/2001, com fundamento no art. 131 do RIPI/2002, conforme se recorta do bem fundado voto do Conselheiro Relator Augusto Fiel Jorge D'Oliveira o seguinte trecho: "No presente caso, o lançamento tem como fundamento a Instrução Normativa nº 82 de 2001, que remete § 1º do art. 118 do Decreto nº 2.637, de 25 de junho de 1998, que, por sua vez, regulamenta o artigo 14, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, aquele dispositivo acima mencionado que trata de valor tributável de produtos nacionais. Também aponta o artigo 15, inciso I, da Lei nº 4.502/1964, além de uma série de dispositivos do Regulamento do IPI. Assim, ao verificar que o valor da operação entre a Recorrente e seus clientes era muito inferior ao valor do custo do principal insumo utilizado na fabricação do produto, a Fiscalização obteve nova base de cálculo, a partir do custo desse insumo mais os tributos incidentes nas vendas pela Recorrente. Contra o lançamento, a Recorrente afirma que não haveria embasamento legal para a aplicação da regra de valor tributável mínimo de IPI, não sendo conciliável a base de cálculo apresentada no artigo 131 do RIPI/2002 e a apresentada pela IN SRF 82/2001. O raciocínio da Recorrente é, em parte, procedente. Enquanto o artigo 131 do RIPI/2002, que sucedeu e tem a mesma redação do § 1º do art. 118 do Decreto nº 2.637, de 25 de junho de 1998, trata o valor da operação como o preço do produto, a base de cálculo da IN SRF 82/2001, parte da grande custo de fabricação, ao determinar que “os preços do vendedor poderão ser diferenciados para um mesmo produto, a partir de um preço de venda básico, desde que estabelecidos em tabelas fixadas segundo práticas comerciais uniformemente consideradas, nunca inferiores ao custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, além do lucro normalmente praticado pelo vendedor'" (seleção nossa, grifos do original). 22 Acórdão CARF nº 3403002.519, proferido em sessão de 22/10/2013, sob a relatoria do Conselheiro Ivan Alegretti, que assevera, com correção, que a criação da empresa industrial, separada da empresa distribuidora, foi "(...) induzida pelos efeitos econômicos da política fiscal, que, sobreonerando o setor produtivo, compeliu os produtores a atuarem também na atividade de revenda/distribuição". 23 SILVA, Gerson Augusto. Estudos de Política Fiscal. Brasília/DF: Ministério da Fazenda Escola de Administração Fazendária (ESAF), Coleção Gerson Augusto da Silva, 1983, p. 59. Fl. 377DF CARF MF 34 26. Assim, da leitura do relatório fiscal, denotase que se exigiu da contribuinte recorrente a aplicação de vero "valor tributável mínimo", diverso do valor de venda, com fundamento no art. 1º da Instrução Normativa SRF nº 82/2001, com a seguinte redação: Instrução Normativa SRF nº 82/2001 Art. 1º Os preços do vendedor poderão ser diferenciados para um mesmo produto, a partir de um preço de venda básico, desde que estabelecidos em tabelas fixadas segundo práticas comerciais uniformemente consideradas, nunca inferiores ao custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, além do lucro normalmente praticado pelo vendedor (g.n.). 27. A norma regulamentar expedida pela então Secretaria da Receita Federal determinou a aplicação de um "preço mínimo" consistente na soma dos seguintes montantes: (i) custo de fabricação; (ii) custo financeiro; (iii) custo de venda; (iv) custo de administração; (v) custo de publicidade; e (vi) lucro normalmente praticado pelo vendedor. De fato, ao se cotejar tal preceptivo com o art. 131 do RIPI/2002, não se encontra convergência entre os textos: Decreto nº 4.544, de 26/12/2002 (RIPI/2002) Art. 131. Salvo disposição em contrário deste Regulamento, constitui valor tributável: I. dos produtos de procedência estrangeira: a) o valor que servir ou que serviria de base para o cálculo dos tributos aduaneiros, por ocasião do despacho de importação, acrescido do montante desses tributos e dos encargos cambiais efetivamente pagos pelo importador ou dele exigíveis; b) o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento equiparado a industrial; e II. dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial. § 1º O valor da operação referido nos incisos I, alínea b e II, compreende o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário (g.n.). 28. Assim, o que se estatui no RIPI/2002 é o (i) preço do produto acrescido do (ii) valor do frete e (iii) das despesas acessórias, do que decorre a conclusão de que a Instrução Normativa em apreço extrapolou o conceito apontado pelo regulamento e, portanto, pelo próprio legislador. Isto porque, em primeiro lugar, o art. 131, ecoando o inciso III e § 1º do art. 14 da Lei nº 4.502/1964, aponta para a regra geral de composição da base de cálculo do imposto diante da inexistência de norma específica, tendo a contribuinte adotado, conforme se percebe a partir da análise dos documentos trazidos ao presente processo administrativo, justamente o preço constante das notas fiscais, acrescido de frete e despesas acessórias, para alcançar o IPI lançado em conta gráfica. Não poderia ser diferente, pois o preço nem sempre corresponderá à soma de custo e lucro normalmente praticado, e tampouco consta, na acusação fiscal, a alegação de subfaturamento, carecendo de competência a autoridade recursal para reestruturar os critérios jurídicos do lançamento, sob pena de violação não apenas do art. 146 do Código Tributário Nacional, mas do próprio primado de segurança jurídica que deve orientar a relação fiscocontribuinte. Assim, há de se estabelecer que nem sempre a realização de venda com "margens negativas" será vedada pelo ordenamento para fins de tributação pelo IPI, da mesma forma que a constatação de prejuízo fiscal não tem por implicação a fraude ao imposto de renda, sendo plausível e sobretudo verossímil a oscilação de Fl. 378DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 362 35 preços no segmento dos eletroeletrônicos, como ocorre no presente caso. Em todo caso, em nenhum momento a autoridade fiscal envida esforços no sentido de demonstrar a violação, por parte da contribuinte, da base de cálculo prevista no art. 131 do RIPI/2002: a recorrente, por outro lado, é hábil e oportuna ao demonstrar que manteve o preço de venda dos produtos acima do preço de aquisição dos insumos para a sua produção. 29. Em complemento, cumpre esclarecer que diversa é a norma insculpida no art. 15 da Lei nº 4.502/1964 ao estabelecer a regra aplicável para fins de apuração do valor tributável mínimo que, como se sabe, apenas será acionada caso atendidos os seus requisitos ou predicados mínimos, como, v.g., a demonstração da relação de interdependência entre os estabelecimentos da contribuinte fiscalizada, ou de transferência para estabelecimento do mesmo titular, ou saídas para comerciante autônomo para venda direta ao consumidor, o que, de todo modo, não foi feito durante o procedimento fiscal. Assim, por um lado, o art. 14 da lei de 1964, da mesma forma que o art. 131 pelo RIPI/2002, como se demonstrou mais acima, não se presta a fundamentar a Instrução Normativa. E, ainda que se busque auxílio no art. 15, igualmente será cancelado o auto de infração em virtude de carência probatória, pois não comprovados os requisitos autorizadores da aplicação do VTM. Na realidade, na medida em que o art. 131 do RIPI estabelece um "valor tributável" composto por preço, frete e despesas acessórias, a Instrução Normativa nº 82/2001, ao estabelecer que o preço "(...) não poderá ser inferior a (...)" acaba por criar um valor tributável mínimo não previsto pelo seriado normativo que deu conta da matéria, de forma a inovar o ordenamento e, ao fazêlo, incorrer em ilegalidade. Recordese, em segundo lugar, que, ao menos no caso brasileiro, a aplicação do direito deve ser feita de acordo com regras de competência em razão da matéria, o que não é novo ao âmbito da aplicação: tal raciocínio possibilitou ao Supremo Tribunal Federal descortinar a existência, e.g., de leis complementares "materialmente ordinárias", como se teve notícia, em 2008, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 377.4573/PR (“Cofins incidente sobre sociedades civil de profissões regulamentadas”). Assim, os regulamentos, tais como o Regulamento Aduaneiro (R.A.), o Regulamento do Imposto de Renda (RIR), o Regulamento do IPI (RIPI), o Regulamento do IOF (RIOF), o Regulamento do ITR (RITR), o Regulamento da contribuição para o PIS/PASEP e da Cofins, o Regulamento do Processo Administrativo Federal (RPAF) ou o Regulamento da CPMF têm, como fundamento de validade não o fundamento geral dos decretos executivos presidenciais, mas, na condição de reunião de leis federais (aprovadas pelo Congresso Nacional), o art. 13 da Lei Complementar nº 95/1998: Lei Complementar nº 95/1998 – Art. 13. As leis federais serão reunidas em codificações e consolidações, integradas por volumes contendo matérias conexas ou afins, constituindo em seu todo a Consolidação da Legislação Federal. § 1º A consolidação consistirá na integração de todas as leis pertinentes a determinada matéria num único diploma legal, revogandose formalmente as leis incorporadas à consolidação, sem modificação do alcance nem interrupção da força normativa dos dispositivos consolidados. 30. Assim, a redação de um decreto deve preservar o conteúdo normativo original dos dispositivos consolidados, tornandoos unicamente orgânicos e sistematizados. Não é diverso o objetivo do Decreto nº 4.544/2002 (RIPI) que, por seu turno, Fl. 379DF CARF MF 36 deve se valer das especificações da TIPI e das Instruções Normativas: especificações, esclareçase, que não podem evidentemente se chocar com aquelas do regulamento, que consolida posição majoritária, em detrimento, e.g., da TIPI, que veicula disposição executiva, regulamentar ou administrativa. Neste sentido, a tarefa dos Regulamentos encontra fundamento na própria ordem constitucional, cujo art. 59, que se volta a tratar do processo legislativo, determina, em seu parágrafo único, que a lei complementar deverá dispor sobre a consolidação das leis, tarefa que, como se viu, coube à Lei Complementar nº 95/1998. Logo, aquilo que inicialmente mereceria tratamento indistinto na forma de "decretos", nomen iuris generalizante, revela natureza jurídica diversa, pois, em que pese o idêntico rótulo, como se sabe desde a publicação da clássica obra de 1975 de autoria de José Souto Maior Borges24, devem tais instrumentos ser separados ratione materiae. O regulamento, portanto, ao expressar força de lei, sob os auspícios da disciplina integrativa veiculada pela norma complementar de fundamento constitucional, afasta as regras regulamentares naquilo em que forem contrárias às suas disposições. Desta feita, descabe à Administração fixar norma a seu talante ou alvedrio à revelia de disposição específica de norma consolidante (RIPI), o que derrui a Instrução Normativa SRF nº 82/2001 de fundamento ou lastro positivo e, conseqüentemente, de validade jurídica no ordenamento. Assim, voto por conhecer e, no mérito, dar provimento ao recurso voluntário interposto para a finalidade de afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente, por carência de fundamento da autuação em relação a este item. Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, Redator Designado 24 BORGES, José Souto Maior. Lei Complementar Tributária, São Paulo: Editora RT, 1975. Fl. 380DF CARF MF Processo nº 10860.721922/201149 Acórdão n.º 3401003.873 S3C4T1 Fl. 363 37 Declaração de Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, A necessidade de expressar, em declaração de voto, os fundamentos que utilizei para divergir do voto do relator, no que se refere ao chamado “valor tributável mínimo”, surgiu da leitura do voto vencedor, quando do recebimento da formalização. Daí a não indicação no resultado do julgamento de tal circunstância. No referido resultado, constou: “... por voto de qualidade, afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente, por carência de fundamento da autuação em relação a este item, vencidos o relator e os Conselheiros Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes e Fenelon Moscoso de Almeida.” (grifo nosso) Designado o Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco para redigir o voto vencedor em relação ao tema, percebo que, em tal voto, os fundamentos externados não coincidem com os que adotei na votação, apesar de estarem também abrangidos pela expressão “carência de fundamento da autuação”. E isso se deve, fundamentalmente, à ambiguidade de tal expressão. Enquanto o redator designado entendeu que a “carência de fundamento da autuação” se referia à ilegalidade da Instrução Normativa SRF no 82/2001, entendo que se refere à ausência de motivação para aplicação, ao caso, de um valor tributável mínimo, sem os requisitos apresentados no próprio voto do redator designado, à margem da discussão sobre a legalidade ou não da referida norma infralegal. Em síntese, ainda que entenda legal a referida Instrução Normativa, não verifico, no lançamento, justificativa para sua aplicação ao caso concreto, em face do contexto em que emitida a norma infralegal (em disciplina a outro comando infralegal, presente no art. 118, § 1o do RIPI/1998, que, por seu turno, encontra fundamento legal no artigo 14, § 1o da Lei no 4.502/1964, acrescentado pelo art. 27 do DecretoLei no 1.593/1977, na redação dada pelo art. 15 da Lei no 7.798/1989), nem para a aplicação do art. 15 da mesma Lei no 4.502/1964 (apenas citado no auto de infração), sem qualquer aprofundamento dos requisitos necessários a tal aplicação pela fiscalização. Registro aqui, assim, para que não reste ambígua ou obscura a decisão, que a conclusão à qual chego é idêntica à alcançada pelo redator designado: há carência de fundamento na autuação, que adota injustificadamente, no caso, a Instrução Normativa SRF no 82/2001. Mas, ao contrário do redator designado, não entendo tal IN como ilegal, mas, simplesmente, como não aplicável ao caso concreto, diante dos elementos e da motivação apresentados pela fiscalização. Fl. 381DF CARF MF 38 Não merece nenhuma apara, assim, o resultado do julgamento. No entanto, da ementa (que deve refletir o posicionamento majoritário do colegiado) deve ser expurgada qualquer menção a eventual ilegalidade da referida IN. Rosaldo Trevisan Fl. 382DF CARF MF
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Numero do processo: 13312.720988/2011-16
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Oct 23 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Nov 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do Fato Gerador: 20/03/2007
SISTEMÁTICA DE DEFLAÇÃO. NORMA DA ÉPOCA DOS FATOS.
Aplicável à época do fatos que deram origem ao crédito ora utilizado em compensação, para fins de atualização, norma da então vigente IN 21/1997: data da valoração é a data do crédito da compensação anterior. Necessária a sistemática de deflação.
Numero da decisão: 3301-004.087
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por uniniidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.
(ASSINADO DIGITALMENTE)
Luiz Augusto do Couto Chagas - Presidente.
(ASSINADO DIGITALMENTE)
Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto do Couto Chagas (Presidente), José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: ANTONIO CARLOS DA COSTA CAVALCANTI FILHO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por uniniidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. (ASSINADO DIGITALMENTE) Luiz Augusto do Couto Chagas - Presidente. (ASSINADO DIGITALMENTE) Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto do Couto Chagas (Presidente), José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
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NORMA DA ÉPOCA DOS FATOS. Aplicável à época do fatos que deram origem ao crédito ora utilizado em compensação, para fins de atualização, norma da então vigente IN 21/1997: data da valoração é a data do crédito da compensação anterior. Necessária a sistemática de deflação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por uniniidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. (ASSINADO DIGITALMENTE) Luiz Augusto do Couto Chagas Presidente. (ASSINADO DIGITALMENTE) Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto do Couto Chagas (Presidente), José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 31 2. 72 09 88 /2 01 1- 16 Fl. 967DF CARF MF 2 Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra o Acórdão nº 0362.495, proferido pela 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília, no qual a manifestação de inconformidade foi julgada improcedente. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório constante do acórdão recorrido, em parte: Tratam os autos de Declaração de Compensação (Dcomp) nº 31048.74368.150307.1.3.544000 (fls. 2/5), transmitida em 15/03/2007, onde se pretende compensar pretensos créditos de Cofins recolhidos a maior, com débito de PIS/Pasep (receita 6912) do período de apuração (PA) 02/2007, no mesmo valor do crédito. A existência do referido crédito decorre de pagamentos efetuados relativamente aos PA 02/1999 a 01/2004, em face de decisão judicial prolatada nos autos do processo judicial nº 2001.71.07.0000034, transitada em julgado em 22/05/2006. Referidos créditos foram habilitados por meio do processo administrativo nº 13312.000354/200686, cujas principais peças vão acostadas às folhas 6 a 75. O contribuinte foi intimado, em 14/11/2011 (fls. 324/326) e em 27/01/2012 (fls. 396/397), 397), para apresentar livros fiscais e demonstrativos pertinentes. Em atendimento, apresentou os documentos de folhas 327 a 395 e 463 a 529, além dos livros Razão, relativamente aos períodos considerados, e arquivos digitais na forma prescrita no Ato Declaratório Executivo Cofins nº 15, de 23 de outubro de 2003, relativos aos anos de 2001 a janeiro de 2004 (fls. 564/741). Da análise do pleito compensatório a Delegacia da Receita Federal em Sobral – CE se pronunciou através do Despacho Decisório (fls. 771) pela homologação parcial da compensação: Com base na Informação Fiscal supra, que aprovo e que passa a integrar o presente Despacho Decisório, e no uso da competência prevista no art. 295, inciso VI, do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal do Brasil, aprovado pela Portaria MF nº 587, de 21 de dezembro de 2010; nos arts. 57 e 63 da IN RFB nº 900, de 30 de dezembro de 2008; e no Recurso Extraordinário nº 450.9881/RS, prolatado nos autos do processo judicial nº 2001.71.07.0000034, transitado em julgado em 22/05/2006, DECIDO: 1. RECONHECER crédito a favor do contribuinte, no valor originário de R$ 77.529,38, decorrente de pagamentos de Pis/Pasep (sic) dos PA 02/1999 a 11/2002, relacionados no Anexo I desta Decisão; 2. HOMOLOGAR PARCIALMENTE a compensação declarada por meio da Dcomp nº 31048.74368.150307.1.3.544000 em relação ao valor de R$ 198.005,10 do débito; Fl. 968DF CARF MF Processo nº 13312.720988/201116 Acórdão n.º 3301004.087 S3C3T1 Fl. 950 3 3. NÃO HOMOLOGAR a compensação declarada por meio da mesma Dcomp referida no item anterior, em relação ao valor de R$ 50.590,54. Cientificada da decisão em 14/03/2012, o contribuinte apresentou sua manifestação de inconformidade, ao Despacho Decisório, em 11/04/2012 (fls. 748/771), alegando, em síntese (sic). Embora tenha aceitado as planilhas da Manifestante a Autoridade Fiscal, sem maiores explicações e em aparente contradição, decidiu que parte da compensação não poderia ser homologada deixando em aberto um valor equivalente a R$ 50.590,54, a ser acrescido de juros e multa. Permitiuse a respeitada Autoridade, quanto ao ponto, apenas mencionar que os tributos em discussão na ação judicial foram extintos não apenas por pagamentos, mas, também, por compensações, que teriam sido veiculadas no processo n° 11020.001011 /9746. Contudo, ao examinar as diversas compensações realizadas no processo administrativo mencionado e os anexos que acompanharam o referido despacho decisório, mostrouse indecifrável o mistério relativo à origem dos R$ 50.590,54 tidos pelo Fisco como saldo a pagar. Assim, resta demonstrada a total falta de fundamentação do v. despacho decisório aqui hostilizado, o que requer seja declarada sua nulidade. Não acatando a nulidade suscitada, espera, ao menos, seja remetido o feito à Delegacia da Receita Federal de origem, em diligência, para que sejam esclarecidas as razões da parcial homologação da compensação promovida pela Manifestante. DA DILIGÊNCIA A Informação Fiscal na qual está fundamentado o Despacho Decisório aceita as bases de cálculo oferecidas pela empresa às fls. 21/22, mas conclui pela existência de compensações indeferidas: Alguns débitos, objeto de compensação naquele processo, foram extintos por pagamentos, em face do indeferimento da compensação. Tais fatos estão evidenciados no Anexo I, desta Informação Fiscal. Assim sendo, os créditos apurados são corrigidos a partir dos pagamentos a maior que o devido ou das datas de valoração das compensações Entretanto, analisando o processo nº 11020.001011/9746, c ujo extrato encontrase anexado às folhas 530 a 560, não é possível verificar quais valores deixaram de ser compensados e quais valores foram efetivamente pagos, pois o saldo devedor remanescente encontrase zerado. Vejase que a planilha demonstrativa, de fls. 748/749, pouco esclarece em relação à coluna Saldo do Darf de Compensação que seria o valor do crédito reconhecido. Fl. 969DF CARF MF 4 A titulo de exemplo: no PA 02/1999, não é possível vislumbrar como a Autoridade Fiscal, a partir de um débito corrigido de R$ 1.006,07, um valor de compensação R$ 1.033,64, um valor do Darf Siafi ou do crédito da compensação SIEF de R$ 580,83, chegou a um saldo de R$ 15,49. Os valores simplesmente não fecham. Assim, é necessária a baixa do processo em diligência, para que se melhor esclareça como foi apurada a Coluna Saldo do Darf de Compensação, via de consequência, como foi apurado o direito creditório advindo de compensações. DO RESULTADO DA DILIGÊNCIA No relatório fiscal da diligencia realizada (fls. 862/863) restou consignado alguns esclareciementos (sic), transcritos para melhor compreensão: O Anexo I do Despacho Decisório, composto das planilhas de folhas 748/749, relaciona os débitos que foram compensados (primeira planilha) e os que foram pagos (segunda planilha). Vêse naquele demonstrativo que todas as compensações e alguns dos pagamentos, estes em relação aos PA 12/2001, 01/2002, e 03/2002 a 07/2002, ocorreram no processo nº 11020.001011/9746. No que tange às compensações, efetivadas no processo nº 11020.001011/97 46 (primeira planilha do Anexo I do Despacho Decisório), as mesmas foram processadas com as regras vigentes à época, então previstas na Instrução Normativa SRF nº 21, de 10 de março de 1997. Assim sendo, a data de valoração da compensação, naquele caso, era a data do crédito, por força do disposto no § 3º, inciso I, alínea 'a' do art. 13 daquela Norma. Uma vez que os créditos envolvidos naquela compensação decorreram de saldo negativo de IRPJ do exercício de 1996 (anocalendário 1995), a data de valoração era 02/01/1996. Assim sendo, os débitos foram deflacionados pela taxa Selic acumulada da data do crédito (data da valoração) até o mês anterior ao do vencimento, acrescida de 1% do mês do vencimento. A título de exemplo e permanecendo no débito do PA 02/1999 (primeira linha da primeira planilha do Anexo I do Despacho Decisório), foram feitos os seguintes cálculos quando da compensação: Fl. 970DF CARF MF Processo nº 13312.720988/201116 Acórdão n.º 3301004.087 S3C3T1 Fl. 951 5 Logo, fica explicado o porque de um crédito no valor de R$ 580,83 ter liquidado um débito de R$ 1.033,64 (vide, no extrato do processo nº 11020.001011/9746, o débito nº 45 – página 13 do extrato – e o correspondente crédito que o amortizou, na página 23 do mesmo extrato. Vide, também, demonstrativos de compensação que instruem o processo nº 11020.001011/9746, que anexei às folhas 837/861, e que retratam algumas das compensações efetuadas naquele processo). Pois bem, como resultado da decisão judicial referida, os débitos relativos aos períodos abrangidos, anteriormente pagos e/ou compensados, tiveram seus valores reduzidos ou deixaram de ser devidos. Nos casos em que deixaram de ser devidos, o crédito a favor do contribuinte é o valor integral que fora utilizado na compensação. Assim, no caso do segundo débito do PA 02/1999 (segunda linha da primeira planilha do Anexo I do Despacho Decisório), o crédito é o valor de R$ 760,52. Já no caso do primeiro débito, que teve o valor reduzido de R$ 1.033,64 para R$ 1.006,07, o crédito residual foi apurado aplicandose uma regra de três simples (poderseia chegar ao mesmo resultado refazendose os cálculos da compensação, segundo a norma da época, para o novo valor do débito). Logo, para a extinção do valor corrigido do débito, de R$ 1.006,07, foram utilizados créditos no valor de R$ 565,34, resultando daí o saldo de crédito de R$ 15,49 a favor do contribuinte (R$ 580,83 – R$ 565,34 = R$ 15,49). Devese mencionar que os créditos apurados conforme retratado acima foram atualizados pela Selic a partir do mês do pagamento, para aqueles considerados efetuados entre 1º/01/1996 e 31/12/1997, ou a partir do mês posterior ao do pagamento, para os efetuados após 31/12/1997, conforme dispunham as alíneas 'b' e 'c' do inciso III do § 1º do art. 72 da Instrução Normativa RFB nº 900, de 30 de dezembro de 2008. Restou, assim, demonstrado, pela autoridade fiscal, que em relação ao processo administrativo nº 11020.001011/9746 (compensações efetivadas e constantes primeira planilha do Anexo I do Despacho Decisório), os vlaores (sic) de compensação ali processados seguiram as regras vigentes à época, quais sejam, aquelas previstas na Instrução Normativa SRF nº 21, de 10 de março de 1997. Assim sendo, a data de valoração da compensação, naquele caso, era a data do crédito, por força do disposto no § 3º , inciso I, alínea 'a' do art. 13 daquela Norma, de modo que os débitos foram deflacionados pela taxa Selic acumulada da data do crédito (data da valoração) até o mês anterior ao do vencimento, acrescida de 1% do mês do vencimento. DA MANIFESTAÇÃO DA EMPRESA A partir do relatório de diligencia volta a empresa aos autos contestando a forma de apuração dos saldos passiveis de serem restituídos. A divergência entre os valores obtidos pelo Fisco e os calculados pela empresa advem da sistemática utilizada quando da elaboração do cálculo dos créditos. Fl. 971DF CARF MF 6 A empresa adota as diretrizes estampadas na IN SRF 600/05, mais precisamente o art. 52, § 1º, III. Cotejou o valor pago com o valor devido atualizando o indébito pela SELIC. Em relação ao crédito original habilitado não existem divergências entre empresa e Fisco. Assim, a divergência apontada reside na sistemática adotada para promover a deflação dos débitos e pagamentos efetuados até 02/01/1996. Pela sistemática adotada pela empresa, IN SRF 600/05 em vigor na época em que promovidas habilitação e compensações dos créditos, eram apuradas as diferenças entre o valor da contribuição (valor levantado judicialmente) e o valor efetivamente pago ou compensado pela empresa no mês do respectivo débito. O citado acórdão decidiu pelo improcedência da impugnação, assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do Fato Gerador: 20/03/2007 DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Inconformada com a improcedência da impugnação, a contribuinte interpôs recurso voluntário, basicamente repetindo os argumentos da impugnação. Alega, em síntese: preliminarmente: 1) a nulidade do despacho decisório, por falta de fundamentação; 2) nulidade do acórdão recorrido; 3) transcurso de prazo decadencial e homologação dos valores indicados no processo n° 11020.001011 /9746; e no mérito: 1) ser inaplicável a IN 21/1997 ao caso; 2) falta de previsão legal para a deflação; e 3) equívoco na sistemática de cálculo levada a cabo pelo Fisco. Ao final, pugna pelo provimento do recurso voluntário. Foime distribuído o presente processo para relatar e pautar. É o relatório. Fl. 972DF CARF MF Processo nº 13312.720988/201116 Acórdão n.º 3301004.087 S3C3T1 Fl. 952 7 Voto Conselheiro Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Relator. O recurso voluntário apresentado é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade. Preliminares Defende a recorrente ser nulo o despacho decisório, por falta de fundamentação, o que teria, no seu entender, acarretado preterição do direito de defesa. Traz em seu favor o art. 2°, caput, da Lei n° 9.784/99, quando determina que a Administração Pública obedecerá, dentre outros, ao princípio da motivação. Entendo que, se o relator do acórdão decidiu pela diligência, "para que se melhor esclareça como foi apurada a Coluna Saldo do Darf de Compensação", não quer dizer que faltou motivação ao despacho decisório quanto ao núcleo da questão lá examinada. Se assim fosse, qualquer decisão discutida a nível de embargos declaratórios, por obscuridade ou contradição, ou omissão, estaria maculada pela nulidade. O mesmo ocorreria, ante qualquer baixa em diligência para esclarecer algum ponto sobre o qual permaneceram dúvidas. O ponto em questão, certamente poderia ser esclarecido com o exame aprofundado do processo 11020.001011 /9746, expressamente referido na planilha (folhas 248249), reproduzida abaixo, sobre a qual questiona a diligência. O restante, fatos e o pertinente enquadramento legal, estão colocados na peça decisória. E Assim, entendo, além de não haver causa de nulidade, que não houve prejuízo à defesa da recorrente, não se verificando nenhuma das causas de nulidade previstas no art. 59 do Decreto n° 70.235/72. Também alega a recorrente, nulidade do acórdão recorrido, por não ter este examinado todos os pedidos e fundamentos, afrontando o direito constitucional à ampla defesa então apresentados: Fl. 973DF CARF MF 8 Não assiste razão à recorrente. Com relação à aplicabilidade ou não da IN 21/97 e da IN 600/2205, manifestase o acórdão recorrido: Vejase que a deflação foi corretamente aplicada à época do pleito compensatório do saldo negativo do IRPJ de 1996 e não à época do presente processo, assim, não se pode falar na aplicação da IN sugerida pela empresa. Já no seu relatório, o acórdão recorrido faz menção à previsão normativa, que entende aplicável, aos eventos da época, a qual determina a sistemática de cálculo, no seu entender correta: a valoração da compensação se daria na data do crédito, conforme previsto no § 3º, inciso I, alínea 'a' do art. 13 daquela norma. Ademais, ressaltese ser desnecessário responder todos as questões levantadas pelas partes, em já havendo motivo suficiente para decidir (Lei n° 13.105/15, art. 489, § 1o , IV. STJ. 1ª Seção. EDcl no MS 21.315DF, Rel. Min. Diva Malerbi, julgado em 8/6/2016). A recorrente também alega a ocorrência de decadência, na regra do art. 150, §4, do Código Tributário Nacional (CTN). Trata o dispositivo do lançamento por homologação, conforme disposto no seu caput, o que que não é tema do presente processo. Tratase aqui de homologação ou não de compensação, regida pelo art. 74, §2º, da Lei nº 9.430/96: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. [...] § 2o A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 2002). A homologação tácita ficou afastada com a revisão da compensação e a extinção ou não do crédito, tratada no processo presente, se dará pela via expressa ao cabo do trâmite deste, confirmandose ou não a condição resolutória. >>O que se fêz foi buscar no processo devido elementos necessários dar execução à determinação judicial, e sobre eles aplicar a legislação devida para conduzilos pelo eixo do tempo, em nada afetando o que fora decidido no processo 11020.001011 /9746. Assim, nessas questões, nego provimento ao recurso voluntário. Mérito Fl. 974DF CARF MF Processo nº 13312.720988/201116 Acórdão n.º 3301004.087 S3C3T1 Fl. 953 9 A recorrente, no início de sua peça recursal já define o núcleo da discussão de mérito: Quando expõe seus argumentos sobre o mérito, a recorrente aduz: 1) a inaplicabilidade da IN 21/1997; 2) a falta de previsão legal para a aplicação da deflação e 3) a equivocada sistemática de cálculo levada a cabo pelo Fisco . Oportuno trazer à colação a sistemática de cálculo adotada pela recorrente, no seu próprio dizer: Fl. 975DF CARF MF 10 Como já afirmado neste voto, o que fez o Fisco foi recuperar os valores tidos como pagos a maior, conforme decisão judicial, no processo 11020.001011 /9746, nas datas de suas efetivas ocorrências (pagamento ou compensação), entre 1999 e 2002. Para tanto, >>no entanto, deve aplicar as regras vigentes e incidentes sobre os fatos ocorridos à época: a IN 21/1997, em particular seu art. 13, § 3º. É a aplicação inescapável do princípio tempus regit actum. Aplicável portanto a IN 21/1997. Não há como aplicar os ditames da IN SRF 600/2005, quando, á época dos fatos vigorava a IN 21/1997. Tal norma determina que a data de valoração da compensação é a data do crédito, 02/01/1996, de forma que o valor do débito deveria ser levado de 1999 a 2002 para aquela data, deflacionandose portanto seu valor, confirmando a sistemática aplicada pela Delegacia de origem. Assim, antes de trazer o valor do crédito originado no pagamento dado como a maior para a data dos débitos a serem compensados no processo sob julgamento, deveria o Fisco, como o fez, leválos à data do crédito que embasou o processo 11020.001011 /9746. É portanto aplicável a IN referida, como também a deflação, por conseqüência da norma que estabelece a data da valoração da compensação, dando legalidade à sistemática adotada pelo Fisco. Descabe, portanto razão à recorrente. A leitura do já citado art. 74, §2º, da Lei nº 9.430/96, não demonstra dissonância da IN 21, como quer fazer crer a recorrente. Esta traz também jurisprudência do STJ a reconhecer como parâmetro para o encontro de contas a data em que protocolado cada pedido de compensação, quando forem múltiplos. É caso distinto e não afasta a atualização ou deflação dos valores sobre os quais se aplica. Cita ainda Solução de Consulta n 279 da COSIT, na qual se afirma que a compensação deve ser realizada de acordo com a legislação da época do pedido de compensação, o que também não afasta a deflação, posto que distinta da regra de compensação propriamente dita. Assim, nas questões meritórias, nego provimento ao recurso voluntário. Conclusão Por todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (ASSINADO DIGITALMENTE) Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho Relator Fl. 976DF CARF MF Processo nº 13312.720988/201116 Acórdão n.º 3301004.087 S3C3T1 Fl. 954 11 Fl. 977DF CARF MF
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