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Numero do processo: 13888.900368/2014-97
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Apr 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jun 19 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Data do fato gerador: 23/03/2012
PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. CRÉDITOS DE IPI PAGOS INDEVIDAMENTE OU A MAIOR COM DÉBITOS DA COFINS. AUSÊNCIA DE PROVAS DO CONTRIBUINTE. ÔNUS QUE LHE INCUMBE. RECURSO VOLUNTÁRIO NEGADO.
Contribuinte que pede compensação, instruindo seu pedido com a DCOMP; sobrevindo decisão dizendo que não há mais créditos a serem aproveitados tem o dever de provar a sua existência por outros meios, dentre outros, por intermédio de DARF, DCTF, Livro de Apuração e Registro do IPI, mas não o fez.
Numero da decisão: 3401-003.736
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário apresentado.
ROSALDO TREVISAN - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente da turma), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente), Robson José Bayerl, Eloy Eros da Silva Nogueira, Augusto Fiel Jorge O'Oliveira, Fenelon Moscoso de Almeida, André Henrique Lemos (relator) e Tiago Guerra Machado.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Data do fato gerador: 23/03/2012 PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. CRÉDITOS DE IPI PAGOS INDEVIDAMENTE OU A MAIOR COM DÉBITOS DA COFINS. AUSÊNCIA DE PROVAS DO CONTRIBUINTE. ÔNUS QUE LHE INCUMBE. RECURSO VOLUNTÁRIO NEGADO. Contribuinte que pede compensação, instruindo seu pedido com a DCOMP; sobrevindo decisão dizendo que não há mais créditos a serem aproveitados tem o dever de provar a sua existência por outros meios, dentre outros, por intermédio de DARF, DCTF, Livro de Apuração e Registro do IPI, mas não o fez.
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CRÉDITOS DE IPI PAGOS INDEVIDAMENTE OU A MAIOR COM DÉBITOS DA COFINS. AUSÊNCIA DE PROVAS DO CONTRIBUINTE. ÔNUS QUE LHE INCUMBE. RECURSO VOLUNTÁRIO NEGADO. Contribuinte que pede compensação, instruindo seu pedido com a DCOMP; sobrevindo decisão dizendo que não há mais créditos a serem aproveitados tem o dever de provar a sua existência por outros meios, dentre outros, por intermédio de DARF, DCTF, Livro de Apuração e Registro do IPI, mas não o fez. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário apresentado. ROSALDO TREVISAN Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente da turma), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente), Robson José Bayerl, Eloy Eros da Silva Nogueira, Augusto Fiel Jorge O'Oliveira, Fenelon Moscoso de Almeida, André Henrique Lemos (relator) e Tiago Guerra Machado. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 88 8. 90 03 68 /2 01 4- 97 Fl. 64DF CARF MF Processo nº 13888.900368/201497 Acórdão n.º 3401003.736 S3C4T1 Fl. 3 2 Versam os autos sobre PER/DCOMP cujo direito creditório alegado seria oriundo de recolhimento indevido do IPI, a ser compensado com débito de tributo administrado pela RFB. O despacho decisório não homologou a compensação em razão do recolhimento indevido já ter sido integralmente quitado com outros débitos do contribuinte. O contribuinte apresentou tempestivamente sua manifestação de inconformidade, arguindo várias nulidades, mormente que o aludido Despacho não teria fundamentação, teria se desviado de sua finalidade e lhe causado cerceamento de defesa. Sobreveio decisão da DRJ de Ribeirão Preto/SP, na qual, por unanimidade de votos, julgou improcedente a manifestação de inconformidade, cuja ementa possui o seguinte teor: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: 23/03/2012 NULIDADES. As causas de nulidade no âmbito do processo administrativo fiscal são somente aquelas elencadas na legislação de regência. O Despacho Decisório devidamente fundamentado é regularmente válido. RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. A homologação das compensações declaradas requer créditos líquidos e certos contra a Fazenda Nacional. Não caracterizado o pagamento indevido, não há créditos para compensar com os débitos do contribuinte. ÔNUS DA PROVA. Cabe à defesa o ônus da prova dos fatos modificativos, impeditivos ou extintivos da pretensão fazendária. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido A contribuinte interpôs tempestivamente o seu recurso voluntário, asseverando que a decisão não levou em consideração, nas razões de decidir a eficácia dos princípios constitucionais da motivação dos atos administrativos e da ampla defesa, impedindo que a Recorrente apresentasse defesa, bem como demonstrasse a existência do crédito, requerendo a nulidade da decisão, vez que não lhe foi oportunizado conhecer os motivos pelos quais sua compensação não foi homologada. É o relatório. Voto Fl. 65DF CARF MF Processo nº 13888.900368/201497 Acórdão n.º 3401003.736 S3C4T1 Fl. 4 3 Conselheiro Rosaldo Trevisan Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3401003.652, de 25 de abril de 2017, proferido no julgamento do processo 13888.900243/201467, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3401003.652): Como se viu do relatório, o presente recurso voluntário visa a nulidade da decisão da DRJ de Ribeirão Preto/SP, entendendo que esta não restou motivada, implicando seu cerceamento de defesa. Não merece prosperar as alegações da Recorrente. A uma, disse o Despacho Decisório: A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. A duas, mencionou expressamente a decisão de piso que a Recorrente não trouxe qualquer prova (DARF, DCTF, Livro de Apuração e Registro do IPI), indício ou justificativa que permitisse comprovar o alegado recolhimento indevido. A propósito, merece destaque parte do voto do e. relator: Inicialmente vale verificar o que consta no Despacho Decisório, devidamente assinado pela autoridade competente: A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Ou seja, o alegado pagamento indevido não foi restituído porque já tinha sido utilizado para quitar outros débitos. Com efeito, se há erro nos arquivos da Receita, bastaria o interessado juntar a idônea e hábil documentação contraditória (DARF, DCTF e Livro de Apuração e Registro do IPI), até em homenagem o princípio da verdade material tanto invocado, sendo que, se tratam de declarações e livros cuja boa guarda e apresentação imediata estão legalmente determinadas. A manifestação do interessado não traz qualquer prova, indício ou mesmo justificativa que permita comprovar o alegado Fl. 66DF CARF MF Processo nº 13888.900368/201497 Acórdão n.º 3401003.736 S3C4T1 Fl. 5 4 recolhimento indevido, limitandose, tão somente a colecionar julgados e doutrinas sobre nulidades. Considerando que nos sistemas da Secretaria da Receita Federal do Brasil, consta que os valores recolhidos no indigitado DARF já foram utilizados para quitar outros débitos e nada o contribuinte a isto contrapõe, não há o que reconsiderar ou anular, sendo que não se justifica a falta de apresentação de documentos que provassem seu direito creditório, na medida que a alegação de cerceamento da defesa não se sustenta. A três, vêse que a decisão fora motivada, embora cingiramse as assertivas da Recorrente apenas e tão somente na juntada da DCOMP, informando que detinha um crédito de IPI, oriundo de pagamento indevido, o qual seria compensado com débitos da COFINS. A quatro, temse que, sobrevindo a decisão da manifestação de inconformidade, deveria a Recorrente fazer prova deste suposto pagamento indevido ou a maior do IPI, conforme determinava o artigo 333 do CPC, vigente à época ademais, como ressalvada pela decisão da DRJ , porém, quedou silente a contribuinterecorrente. A quinto, o processo há de vir devidamente instruído para que o Colegiado possa apreciálo, de modo que, diante da ausência de qualquer prova, a conclusão que se chega é que a decisão de piso não merece reparos. Não maiores ilações a serem feitas e diante da ausência de provas, voto em negar provimento ao recurso voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (Assinado com certificado digital) Rosaldo Trevisan Fl. 67DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13656.000503/2001-10
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Jul 20 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/04/2001 a 30/06/2001
CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI (LEI N. 9.363/96). CONSÓRCIO. PREVISÃO DE PRAZO DE DURAÇÃO LONGO E POSSIBILIDADE DE PRORROGAÇÃO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE SOCIEDADE DE FATO. LEGITIMIDADE ATIVA PARA PEDIDO DE RESSARCIMENTO.
O Consórcio, constituído com observância dos artigos 278 e 279 da Lei nº 6.404/76, não possui personalidade jurídica e não perde essa condição pelo fato de seu prazo de duração ser longo e com possibilidade de prorrogação. Dessarte, é descabida a desconsideração do consórcio para qualificá-lo como sociedade de fato, devendo ser reconhecida a legitimidade ativa da participante do Consórcio para pleitear, em nome próprio, o ressarcimento, a restituição ou a compensação do crédito presumido de IPI previsto na Lei nº 9.363/96.
Recurso voluntário provido.
Numero da decisão: 3402-004.287
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso para reconhecer a legitimidade da recorrente para postular o crédito presumido de IPI, ficando a cargo da unidade local da RFB conferir a certeza e liquidez do crédito postulado. Sustentou pela recorrente, o Dr. Luiz Romano, OAB/DF 14.303
(Assinado com certificado digital)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente em exercício.
(Assinado com certificado digital)
Thais De Laurentiis Galkowicz - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: THAIS DE LAURENTIIS GALKOWICZ
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CONSÓRCIO. PREVISÃO DE PRAZO DE DURAÇÃO LONGO E POSSIBILIDADE DE PRORROGAÇÃO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE SOCIEDADE DE FATO. LEGITIMIDADE ATIVA PARA PEDIDO DE RESSARCIMENTO. O Consórcio, constituído com observância dos artigos 278 e 279 da Lei nº 6.404/76, não possui personalidade jurídica e não perde essa condição pelo fato de seu prazo de duração ser longo e com possibilidade de prorrogação. Dessarte, é descabida a desconsideração do consórcio para qualificálo como sociedade de fato, devendo ser reconhecida a legitimidade ativa da participante do Consórcio para pleitear, em nome próprio, o ressarcimento, a restituição ou a compensação do crédito presumido de IPI previsto na Lei nº 9.363/96. Recurso voluntário provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso para reconhecer a legitimidade da recorrente para postular o crédito presumido de IPI, ficando a cargo da unidade local da RFB conferir a certeza e liquidez do crédito postulado. Sustentou pela recorrente, o Dr. Luiz Romano, OAB/DF 14.303 (Assinado com certificado digital) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente em exercício. (Assinado com certificado digital) Thais De Laurentiis Galkowicz Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 65 6. 00 05 03 /2 00 1- 10 Fl. 1272DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Diego Diniz Ribeiro, Waldir Navarro Bezerra, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório O presente Processo Administrativo foi objeto da Resolução n. 20400.484 (fls 968 a 980) depois de sua chegada ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (“CARF”). Dessa forma, o caso já foi bem relatado pelo Conselheiro Júlio César Alves Ramos, antes de ser a mim redistribuído pelo fato de o Relator originário não mais integrar nenhuma das Turmas Ordinárias de julgamento da 3ª Seção. Desta feita, peço licença para tomar emprestadas as suas palavras sobre o histórico do processo Veiculam os autos pedido de ressarcimento do crédito presumido de IPI instituído pela Lei n° 9.363/96 cumulado com pedidos de compensação, formalizado pelo estabelecimento matriz da empresa. A postulante, cuja sede se encontra no município de Poços de Caldas MG, informa que realiza a atividade de refino de alumina "em parque próprio, produzindo em atividade consorciada em razão de sua participação no consórcio ALUMAR". Para tanto, adquire, em seu próprio nome, a matériaprima básica do processo industrial a bauxita , bem como soda caustica e demais produtos intermediários e material de embalagem necessários. A alumina obtida dessa operação industrial de refino, que é tributada a aliquota zero pelo IPI, é parcialmente exportada para o exterior. Entendese, desse modo, empresa produtora e exportadora com direito à fruição do beneficio fiscal pleiteado. A DRF em Poços de Caldas MG remeteu os autos à DRF em São Luis – MA para que esta promovesse as diligencias necessárias, uma vez que o estabelecimento onde se processam as operações industriais é por ela jurisdicionado. Após idas e vindas entre as duas unidades cada uma entendendo caber à outra a competência para exame do direito postulado, prevaleceu entendimento firmado pela DISIT 6a RF no sentido de que esta caberia à DRF jurisdicionante do estabelecimento matriz. Dai porque, embora "algumas" centenas de quilômetros distante do estabelecimento onde, de fato, se processavam as operações e, portanto, onde estariam os livros e documentos fiscais a elas relativos, as diligências necessárias ao deslinde do processo foram executadas pela Seção de Fiscalização da DRF em Poços de Caldas. Da descrição sucinta do processo de produção da Alumina elaborada pela empresa para atender a intimação especifica da fiscalização consta: Fl. 1273DF CARF MF Processo nº 13656.000503/200110 Acórdão n.º 3402004.287 S3C4T2 Fl. 334 3 “...o complexo industrial do Consórcio Alumar em São Luis MA é constituído hoje por duas unidades de produção integradas; (i) Refinaria e (ii) Redução. A empresa Abalco S.A. participa no consórcio Alumar especificamente no empreendimento de refino de Alumina... A área da Refinaria da Alumar compreende as áreas de (i) Porto; e (ii) Refinaria — área de produção da Alumina. Da produção da Refinaria do Consórcio Alumar, a empresa Abalco S.A. faz jus a 18,9%, percentual correspondente a sua participação no empreendimento... (grifei)” Portanto, a empresa participa da etapa produtiva que consiste na extração da Alumina do minério de bauxita que lhe é vendido pelas empresas mineradoras. Segundo o esquema, essa alumina ou é encaminhada a exportação ou remetida à etapa de redução da Alumina, do qual ela não participa. Quanto a sua participação no consórcio, a empresa prestou esclarecimentos adicionais em que consignou: "...a produção da empresa Abalco S.A. ocorre em estabelecimento fabril (fabrica de alumina) que pertence à Abalco S.A. e às demais sociedades consorciadas do Consórcio Alumar no especifico empreendimento de refinaria de alumina, do qual Abalco S.A. participa com 18,9%, sendo, portanto, esse o percentual da fração ideal de sua propriedade nesta fábrica". E continua: Importante complementar que Abalco S.A. é proprietária de 6,62% dos ativos das instalações de apoio, de 17,39% dos ativos das instalações portuárias e participa do custeio das áreas comuns do consórcio Alumar à razão de 5,37%. (.) Abalco S.A. compra diretamente parte dos insumos necessários a sua produção, tais como energia elétrica, bauxita, carvão, soda e óleo BPF (matériasprimas primárias). Todo o processo de controle de custos com depreciação, seguros e faturamento é controlado diretamente pela Abalco S.A. No que diz respeito à venda do produto acabado alumina, Abalco S.A. é a única responsável pela direta comercialização ou outra forma de disposição do percentual de alumina produzida no âmbito do Consórcio Alumar cuja propriedade lhe cabe por disposição contratual (18,9%). A administração do Consórcio Alumar é responsável pelas aquisições, contabilização e escrituração em livros auxiliares próprios e subseqüente rateio entre as sociedades consorciadas dos valores relativos a suprimentos, serviços, ativo fixo, folha de Fl. 1274DF CARF MF 4 pagamento dos empregados, materiais intermediários e similares. As vendas de sucatas e de ativo fixo são também efetuadas pela administração do Consórcio e seus respectivos valores contabilizados e escriturados em seus livros auxiliares e levados a rateio entre as sociedades consorciadas. Referido rateio no âmbito contábil se dá pelo total do movimento do mês de cada conta contábil e no âmbito fiscal, a cada emissão de documento fiscal, os sistemas informatizados do Consórcio Alumar enviam aos livros de cada sociedade consorciada o registro daquela emissão, na exata fração ideal de participação da consorciada. A empresa promoveu a juntada do instrumento de constituição do consórcio de cujas disposições destacamse o item 2.08, que define os ativos comuns, e 2.21 que define a gerente de operações. Segundo o primeiro, no empreendimento de refino os ativos comuns consistem nas máquinas e equipamentos, terrenos ou direitos sobre os mesmos em que as instalações de refino estejam situadas, bem como as instalações portuárias e o cais, equipamentos de controle do meio ambiente e instalações que foram adquiridas, montadas ou construídas como parte do empreendimento de refino, englobando, portanto, todas as instalações iniciais, adicionais e outros ativos utilizados nas atividades do Consórcio e nos quais as Consorciadas tenham participação, seja a título de propriedade, posse ou qualquer outro direito de uso, não incluindo, entretanto, nem a bauxita nem os produtos em processamento nem a alumina ou alumínio produzidos ou processados pelo Consórcio. O segundo item conceitua gerente de operações como a sociedade designada de acordo com o item 6.01 encarregada da administração operacional em nome das consorciadas, precipuamente em relação As atividades de produção do Consórcio, 0 item 6.01, por sua vez, designa como gerente de operações a Alcoa a quem competirá manter uma "estrutura organizacional identificável" e que tem direito ao uso e controle dos ativos comuns. Dessa caracterização, resulta que a postulante entrega bauxita comprada por ela mesma, em seu próprio nome, no estabelecimento para cuja constituição contribuiu e, sem tomar parte de nenhuma forma em sua operação, recebe o produto elaborado, sobre o qual tem pleno direito de livre disposição. Para tanto, assume os custos de operação segundo rateio que também leva em conta seu percentual de participação nos ativos comuns. Com base nessas informações prestadas e nos documentos que a subsidiaram entendeu a fiscalização da DRF em Poços de Caldas MG ser incabível o pleito da empresa, exprimindo suas conclusões no Relatório que integra o Termo de Constatação Fiscal de fls. 234 a 239. Com fulcro nesse relatório o Delegado da DRF em Poços de Caldas proferiu despacho (fls. 240/241) denegando o pleito formalizado. Nele aduziu: De acordo com os documentos acostados ao processo, acima referido, com base, especialmente, no relatório da fiscalização, Fl. 1275DF CARF MF Processo nº 13656.000503/200110 Acórdão n.º 3402004.287 S3C4T2 Fl. 335 5 constante do Termo de Constatação Fiscal, resta comprovado que o Consórcio ALUMAR, onde se deu a produção do contribuinte, não reúne as condições legais para ser enquadrado na modalidade de consórcio, sendo, na verdade, uma sociedade de fato, uma vez que foi constituído com prazo indefinido e com um empreendimento que não se amolda a concepção da lei. Por outro lado, como a produção do contribuinte ocorreu no âmbito do referido consórcio, uma vez que não possui parque industrial, não tem legitimidade para pleitear os referidos créditos. A empresa formalizou, então, manifestação de inconformidade endereçada à DRJ em Juiz de Fora MG em que buscou atacar a fundamentação utilizada para negar o seu pleito. Aí expressou que ambos os requisitos apontados pela autoridade anterior estavam perfeitamente cumpridos pelo consórcio, a saber, os empreendimentos eram específicos aquisição, montagem e construção de instalações para o Refino de Alumina e de instalações para a Redução de Alumínio e sua subseqüente operação, através da atividade de refino de alumina e sua redução eletrolitica em alumínio metálico; e o prazo de duração estava especificado. Cumpriamse desse modo, os requisitos formalizados nos arts. 278 e 279 da Lei n° 6.404/76. Enfatiza, em seguida, que o consórcio não possui personalidade jurídica, motivo pelo que todas as receitas auferidas são das consorciadas a quem compete também a aquisição das matérias primas necessárias ao processo industrial. No caso dos autos, os créditos presumidos pleiteados originamse de compras de insumos no mercado interno e de exportações dos produtos correspondentes. A DRJ em Juiz de Fora MG, entretanto, manteve o entendimento esposado pela DRF em Poços de Caldas MG, ao considerar que o consórcio se tratava, em verdade de uma sociedade de fato. Com isso, entendeu que o estabelecimento onde se dá a produção não seria da empresa postulante e em conseqüência este não teria legitimidade para o benefício, dado que não seria empresa produtora e exportadora. Como fundamentação básica aduziu que a Lei n° 6.404/76 ao regular a figura do consórcio, estabeleceu que: "... o seu objetivo não será permanente, e visará sempre a benefícios individuais para as sociedades consorciadas, mantendo estas, total autonomia quanto a administração de seus negócios e obrigandose nos estritos limites previstos no respectivo contrato social...". No caso em tela, afirma que a duração do empreendimento é indeterminada, o que resulta, no seu entender, do fato de que sua conclusão, embora prevista para o ano de 2050, pode ser prorrogada indefinidamente. Também que a abrangência do objeto empreendido pelo consórcio impede que o seu empreendimento possa ser considerado determinado. Segundo a decisão, ele "é determinado apenas quanto à natureza do empreendimento, mas não quanto ao contrato ou negócio Fl. 1276DF CARF MF 6 jurídico especificamente envolvido. O objeto do consórcio deve ser necessariamente identificado e limitado, sob o risco de configuração de uma sociedade de fato". Por fim, salienta que "...a requerente...não junta qualquer documento que comprove o seu direito de pleitear, anexando aos autos, por exemplo, as notas fiscais de aquisição de matéria prima do período em questão", e que o Regime Especial de escrituração de livros fiscais obtido pelo consórcio junto a Secretaria de Fazendo do Estado do Maranhão expressamente aponta em sua cláusula segunda que a bauxita e a energia elétrica são adquiridas pela Alcoa Alumínio S/A, BHP Billiton e Alcan Alumina Ltda., sem referência a aquisições pela Abalco. No recurso sob exame, a empresa volta a defender, sob os mesmos argumentos já apresentados à DRJ, a regular constituição do consórcio nos termos exigidos pelos arts. 278 e 279 da Lei n° 6.404/76 e que, não tendo ele personalidade jurídica, é dela a responsabilidade pelos pagamentos de todos os tributos que correspondem a sua participação. Contesta a afirmação da DRJ de que se trataria de uma sociedade de fato, porquanto desprovida de qualquer prova e baseada tãosomente em presunção e numa "conveniente" definição do que seja um empreendimento determinado, ao asseverar que na lei não existe a restrição que a decisão procura enunciar. Quanto à alegação de que não provara suas aquisições, defendese aduzindo estar juntando, com o recurso, notas fiscais de compra das matérias primas e de exportação da alumina. Caso, ainda assim, não se convença esta Camara reitera o seu pleito de diligências que comprovem o regular cumprimento das exigências da Lei n° 9.363/96. Em julgamento datado de 19 de setembro de 2007 (Resolução n. 204 00.484), a 4ª Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes determinou a conversão do julgamento em diligência para que a autoridade fiscal apresentasse parecer conclusivo sobre: i) os totais, mês a mês, de aquisições de bauxita, soda cáustica e "demais produtos intermediários integrantes de seu processo produtivo", realizadas por cada uma das empresas do consórcio e transferidas para o estabelecimento consorciado; ii) o total de alumina produzido mês a mês no estabelecimento consorciado; iii) o montante entregue a cada empresa integrante do consórcio (em toneladas de alumina); e iv) as receitas bruta e de exportação mensais de cada uma das empresas integrantes. O Relatório da Diligência requerida por este Conselho encontrase em fls 1208 a 1216, tecendo seu juízo a respeito da questão, no sentido de não reconhecer o direito ao crédito pleiteado. Isto porque, no seu sentir: “a ABALCO não possui legitimidade para pleitear os créditos presumidos de IPI, nesses períodos, pois não tem parque industrial e, portanto, não pode ser considerada como empresa produtora. O fato de participar, como "sócia" da sociedade de fato ALUMAR, que é quem na verdade produz, não lhe dá condições de atender o que está determinado na lei, sem que se faça uma interpretação ampliativa do dispositivo legal.” Já sobre o que foi efetivamente questionado na diligência solicitada, a Fiscalização se limitou a colocar que: Juntamos ao processo, fls.491525, a resposta da ABALCO, com as informações referentes às suas operações no consórcio. Em resposta a intimação efetuada pela fiscalização, as demais empresas integrantes do consórcio também apresentaram os Fl. 1277DF CARF MF Processo nº 13656.000503/200110 Acórdão n.º 3402004.287 S3C4T2 Fl. 336 7 dados de suas respectivas operações, que foram juntadas, conforme abaixo: 1. ALCOA ALUMÍNIO S/A, fls. 526560; 2. BHP BILLITON METAIS S/A, fls. 561579; 3. ALCAN ALUMINA LTDA, fls. 580594; O despacho do conselho não determina que a fiscalização elabore um parecer acerca dos dados juntados aos processos, no relatório da diligência. Por essa razão, apenas anexamos os dados que serão encaminhados para apreciação dos ilustres conselheiros. Por fim, a Recorrente, devidamente intimada, peticionou nos autos sua manifestação (fls 1220 a 1230) a respeito do Relatório de Diligência Fiscal, contestando a conduta do Agente Fiscal, que simplesmente desviou o foco da discussão e não atendeu a diligência requisitada. Outrossim, reitera os argumentos de seu recurso voluntário, corroborados pelos documentos constantes dos presentes autos, que no seu sentir são todos capazes de garantir o crédito pleiteado. É o relatório. Voto Conselheira Relatora Thais De Laurentiis Galkowicz Os requisitos de admissibilidade do processo já foram anteriormente analisados e acolhidos, de modo que passo ao mérito do caso. Cabe inicialmente consignar que a específica questão tratada nesse processo, vale dizer, o direito ao pleito (legitimidade ativa) do crédito presumido de IPI com base na Lei n. 9.363/96 pela Abalco S.A. é amplamente conhecida por este Tribunal Administrativo. Isto porque foram diversos os pedidos de ressarcimento elaborados pela Recorrente, os quais, portanto, deram origem a processos administrativos distintos. No próprio Relatório de Diligência Fiscal, citado no relato acima, a repartição de origem fez constar que (fls 1208): Fl. 1278DF CARF MF 8 Assim, em relação à dúvida sobre o enquadramento da Recorrente (Abalco S.A.) como “estabelecimento produtor e exportador” (ponto nevrálgico do presente caso, já que foi o motivo do indeferimento do pedido pelo Delegado da DRF, em Poços de Caldas pelo Despacho de fls. 240/241), exigido pela legislação de regência do ressarcimento (artigo 1º, da Lei n. 9.363/96), o CARF debruçouse em diversas oportunidades. Colaciono abaixo ementas de decisões proferidas justamente em processos análogos ao presente, todos tendo como Recorrente a companhia Abalco S.A.: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/07/2002 a 30/09/2002 CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI COMO RESSARCIMENTO DE PIS E COFINS (LEI N. 9.363/96). CONSÓRCIO CONSTITUÍDO PARA CRIAÇÃO DE PARQUE INDUSTRIAL. PREVISÃO DE PRAZO DE DURAÇÃO LONGO E POSSIBILIDADE DE PRORROGAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE DESCARACTERIZAÇÃO PARA SOCIEDADE DE FATO. LEGITIMIDADE ATIVA DA PARTICIPANTE RECONHECIDA. Não é dotado de personalidade jurídica o Consórcio constituído com observância dos artigos 278 e 279 da Lei nº 6.404/76, não perdendo essa condição pelo fato de seu prazo determinado ser longo e com possibilidade de prorrogação, não podendo, portanto, pleitear o ressarcimento, a restituição ou a compensação de crédito fiscal em seu nome. Por isso é descabida a desconsideração do Consórcio para qualificalo como sociedade de fato, devendo ser reconhecida a legitimidade ativa da participante do Consórcio para pleitear, em nome próprio, o ressarcimento, a restituição ou a compensação do crédito presumido de IPI previsto na Lei nº 9.363/96, eis que constatado que produz em estabelecimento próprio, embora comum, e após destina seus produtos ao exterior. (Processo 13656.000504/200156, Data da Sessão 01/06/2011, Relator Julio Cesar Alves Ramos, Acórdão 3402001.160) Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializado IPI Período de Apuração: 01.01.2000 a 31.12.2000 Ementa: CONSÓRCIO. SOCIEDADE DE FATO. Consórcio constituído com observância dos artigos 278 e 279 da Lei n. 6.404/76, não tem personalidade jurídica, e, não pode pleitear ressarcimento, restituição/compensação de crédito fiscal. O fato de ser instituído para execução de um determinado empreendimento com prazo determinado longo, não despersonaliza e tampouco autoriza entendimento de que trata de sociedade de fato. Recurso Provido. (Processo 13656.000086/200105, Data da Sessão 03/02/2011, Relator Domingos de Sá Filho, Acórdão 340300.818) Assunto: Processo Administrativo Fiscal Fl. 1279DF CARF MF Processo nº 13656.000503/200110 Acórdão n.º 3402004.287 S3C4T2 Fl. 337 9 Período de apuração: 01/10/2001 a 30/06/2002 Ementa: EMBARGOS. ERRO MANIFESTO NO REGISTRO DO RESULTADO DO JULGAMENTO. CORREÇÃO EM SEDE DE EMBARGOS. POSSIBILIDADE. Havendo flagrante erro no registro do resultado do julgamento no voto anexado pelo relator (pela conversão em diligência), e estando o corpo do voto e o resultado registrado em Ata, assim como as anotações do presidente de turma, no sentido do provimento do recurso, cabível a correção do resultado erroneamente transcrito no voto, em sede de embargos. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI COMO RESSARCIMENTO DE CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP E COFINS (LEI N. 9.363/96). CONSÓRCIO CONSTITUÍDO PARA CRIAÇÃO DE PARQUE INDUSTRIAL. PREVISÃO DE PRAZO DE DURAÇÃO LONGO E POSSIBILIDADE DE PRORROGAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE DESCARACTERIZAÇÃO PARA SOCIEDADE DE FATO. LEGITIMIDADE ATIVA DA PARTICIPANTE RECONHECIDA. Não é dotado de personalidade jurídica o Consórcio constituído com observância dos artigos 278 e 279 da Lei n. 6.404/76, não perdendo essa condição pelo fato de seu prazo determinado ser longo e com possibilidade de prorrogação, não podendo, portanto, pleitear o ressarcimento, a restituição ou a compensação de crédito fiscal em seu nome. Por isso é descabida a desconsideração do Consórcio para qualificálo como sociedade de fato, devendo ser reconhecida a legitimidade ativa da participante do Consórcio para pleitear, em nome próprio, o ressarcimento, a restituição ou a compensação do crédito presumido de IPI previsto na Lei n. 9.363/96, eis que constatado que produz em estabelecimento próprio, embora comum, e depois destina seus produtos ao exterior. (Processo 13656.000550/200236, Data da Sessão 21/02/2017, Relator ROSALDO TREVISAN, Acórdão 3401 003.413) Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/01/2001 a 31/03/2001 CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI COMO RESSARCIMENTO DE PIS E COFINS (LEI N. 9.363/96). CONSÓRCIO CONSTITUÍDO PARA CRIAÇÃO DE PARQUE INDUSTRIAL. PREVISÃO DE PRAZO DE DURAÇÃO LONGO E POSSIBILIDADE DE PRORROGAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE DE DESCARACTERIZAÇÃO PARA SOCIEDADE DE FATO. LEGITIMIDADE ATIVA DA PARTICIPANTE RECONHECIDA. Não é dotado de personalidade jurídica o Consórcio constituído com observância dos artigos 278 e 279 da Lei nº 6.404/76, não perdendo essa condição pelo fato de seu prazo determinado ser longo e com possibilidade de prorrogação, não podendo, portanto, pleitear o ressarcimento, a restituição ou a Fl. 1280DF CARF MF 10 compensação de crédito fiscal em seu nome. Por isso é descabida a desconsideração do Consórcio para qualificálo como sociedade de fato, devendo ser reconhecida a legitimidade ativa da participante do Consórcio para pleitear, em nome próprio, o ressarcimento, a restituição ou a compensação do crédito presumido de IPI previsto na Lei nº 9.363/96, eis que constatado que produz em estabelecimento próprio, embora comum, e após destina seus produtos ao exterior. Recurso Parcialmente Provido. (Número do Processo 13656.000495/200101, Relator(a) GILSON MACEDO ROSENBURG FILHO, Acórdão 3402002.218) Ainda é possível encontrar decisões proferidas no mesmo sentido, com relação a outras empresas que constavam do Consórcio de Alumínio do Maranhão Alumar (e.g. BHP BILLITON METAIS S.A., por meio dos Acórdãos 3101000.9031 e 3401002.9282), formado pelas empresas ABALCO (Recorrente), ALCOA, RIO TINTO/ALCAN e BHP BILLITON. Analisando esta jurisprudência, percebemos que os julgamentos amplamente autorizam o pleito da Recorrente, afastando o argumento da ilegitimidade ativa adotado pelos anteriores despachos decisórios e acórdãos da DRJ proferidos no bojo dos processos administrativos. Em apertada síntese, o CARF entende que o Consórcio Alumar, constituído com base nos artigos 278 e 279 da Lei das S.A.,3 não detém personalidade jurídica, razão pela 1 Ementa(s) Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/01/2001 a 31/03/2001 CONSÓRCIO DE SOCIEDADES EMPRESÁRIAS. EMPREENDIMENTO DETERMINADO. DURAÇÃO DO CONTRATO. A Lei 6.404, de 1976, prevê a possibilidade de as sociedades empresárias constituírem consórcio, mediante contrato, para execução de determinado empreendimento. Nesse contrato, são cláusulas inarredáveis apenas as que regulam os temas enumerados nos incisos do artigo 279 da mencionada lei: designação do consórcio, se houver; descrição do empreendimento que constitua o objeto do consórcio; duração, endereço e foro; definição das obrigações e responsabilidade de cada sociedade consorciada, e das prestações específicas; normas sobre recebimento de receitas e partilha de resultados; normas sobre administração do consórcio, contabilização, representação das sociedades consorciadas e taxa de administração, se houver; forma de deliberação sobre assuntos de interesse comum, com o número de votos que cabe a cada consorciado; e contribuição de cada consorciado para as despesas comuns, se houver. Inexiste impedimento legal para prazo de duração de consórcio demasiadamente longo e com possibilidade de sucessivas prorrogações. O ordenamento jurídico também não proíbe que o objeto do consórcio (empreendimento) seja a implantação e a exploração de determinado parque industrial. Do âmbito das relações entre particulares, perante a ausência de lei impondo conduta diversa, o princípio da autonomia da vontade é soberano na constituição do consórcio. (....) 2 � Ementa(s) Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/07/2003 a 30/09/2003 CONSÓRCIO DE EMPRESAS. REQUISITOS. EMPREENDIMENTO DETERMINADO. CARACTERIZAÇÃO. PRAZO. Empreendimento, identificado no ato constitutivo de consórcio operacional como a construção do parque industrial, o refino de bauxita e a redução de alumina para a obtenção do alumínio, tem grau de determinação suficiente para fim de respaldar a constituição de um consórcio de sociedades nos termos da legislação comercial. Não há falar em perpetuação de empreendimento que tem prazo determinado em 50 (cinqüenta) anos, ainda que renovável. 3 Consórcio Art. 278. As companhias e quaisquer outras sociedades, sob o mesmo controle ou não, podem constituir consórcio para executar determinado empreendimento, observado o disposto neste Capítulo. § 1º O consórcio não tem personalidade jurídica e as consorciadas somente se obrigam nas condições previstas no respectivo contrato, respondendo cada uma por suas obrigações, sem presunção de solidariedade. Fl. 1281DF CARF MF Processo nº 13656.000503/200110 Acórdão n.º 3402004.287 S3C4T2 Fl. 338 11 qual são as empresas consorciadas, entre as quais está a Recorrente, que possuem o direito ao gozo do crédito presumido do IPI, conforme o artigo 1º, da Lei n. 9.363/96, e não o consórcio em si. Vejamos o porquê dessa conclusão. Analisando a constituição societária do Consórcio Alumar (Alteração e Consolidação do Contrato do Consórcio ALUMAR , datada de 01/01/1995, e registrada na JUCEMA sob n° 271295, por meio da qual Alcoa Alumínio S.A. CNPJ 23.637.697/000101, Billiton Metais S.A. — CNPJ 42.105.890/000146, Alcan Alumínio do Brasil S.A. CNPJ 60.561.800/000103 e Abalco S.A. CNPJ 00.434.317/0001 36), podemos encontrar o seu objeto e seu prazo de duração: “a) Objeto Social: Artigo 1. Objeto e descrição do consórcio. Pelo presente contrato, a Alcoa, Billiton, Alcan e Abalco estabelecem um Consórcio, que tem por objeto a aquisição, montagem e construção de instalações para o Refino de Alumina, e de Instalações para a Redução de Alumínio, juntamente com instalações de apoio, nas vizinhanças de São Luís, Estado do Maranhão, República Federativa do Brasil, assim como a operação de tais instalações, com base em fornecimento proporcional de bauxita, a partilha de alumina produzida por Alcoa, Billiton, Alcan e Abalco, a partilha de alumínio produzido por Alcoa e Billiton e uma correspondente participação nos custos de produção da alumina e do alumínio (...). 3.02. Objeto. Fiscalização e Poderes do Consórcio. (a) Objeto. O Objeto do Consórcio e o objetivo das Consorciadas em constituílo são de dedicarse aos Empreendimentos descritos no artigo 1 deste instrumento, através de, entre outras atividades, processar bauxita, transformandoa em alumina no Empreendimento de Refino de Alumina e alumina em alumínio no Empreendimento de Redução § 2º A falência de uma consorciada não se estende às demais, subsistindo o consórcio com as outras contratantes; os créditos que porventura tiver a falida serão apurados e pagos na forma prevista no contrato de consórcio. Art. 279. O consórcio será constituído mediante contrato aprovado pelo órgão da sociedade competente para autorizar a alienação de bens do ativo não circulante, do qual constarão: I a designação do consórcio se houver; II o empreendimento que constitua o objeto do consórcio; III a duração, endereço e foro; IV a definição das obrigações e responsabilidade de cada sociedade consorciada, e das prestações específicas; V normas sobre recebimento de receitas e partilha de resultados; VI normas sobre administração do consórcio, contabilização, representação das sociedades consorciadas e taxa de administração, se houver; VII forma de deliberação sobre assuntos de interesse comum, com o número de votos que cabe a cada consorciado; VIII contribuição de cada consorciado para as despesas comuns, se houver. Parágrafo único. O contrato de consórcio e suas alterações serão arquivados no registro do comércio do lugar da sua sede, devendo a certidão do arquivamento ser publicada. Fl. 1282DF CARF MF 12 de Alumínio, utilizandose de instalações construídas e/ou possuídas pelas Consorciadas ou em seu nome, no Estado do Maranhão, Brasil, e assim, dando o direito a cada Consorciada de receber uma participação (se houver) da alumina e do alumínio produzidos, até o limite dos seus respectivos Direitos de Alumina e Direitos de Alumínio, com cada Consorciada responsabilizandose por sua respectiva participação nos custos e despesas determinados e alocados de acordo com os termos e condições do presente Contrato, incorridos com as referidas construção e propriedade, assim como com a produção da alumina e do alumínio (fls. ...)”;(...) "Prazo de Vigência. O presente Contrato permanecerá em vigor até 31 de março de 2050 e, a partir desta data, será renovado por períodos de um ano". (...) Sobre tal documentação, abaixo transcrevo o irretocável voto do Conselheiro João Cassuli Junior (Acórdão 340201.160) sobre o Consórcio Alumar, tomandoo como razão de decidir o presente caso como prevê o artigo 50, §1º da Lei n. 9.784/1999, uma vez que consolida o melhor entendimento sobre a natureza do empreendimento e suas consequências para fins tributários: “Resta assentar se o consórcio ALUMAR, na forma como constituído, pode ser entendido como uma “extensão” da empresa Recorrente, sendo imperioso relembrar que é este estabelecimento quem “produz” ou “industrializa” o produto final a ser exportado. (...) entendo que o fato de o consórcio possuir cunho operacional (estabelecimento produtivo) não lhe tira o amparo jurídico na qual tenha sido constituído, pois que o mesmo possui específico termo de duração, bem como foi estabelecido para o cumprimento de um empreendimento, o qual, sabese ter sido aquisição de ativos de alto custo, indispensáveis à atividade de produção das consorciadas. O “empreendimento” requerido pelo art. 278, da Lei 6.404/1976, efetivamente é um estabelecimento industrial, cuja empresa é a produção de Alumina, a partir do processamento da bauxita. Portanto, o consórcio é de produção e não de venda conjunta. Não identifico vedação para esse desiderato para o qual foi criado o referido consórcio. No caso em tela, o Consórcio ALUMAR revestese da união e empreendimento das empresas que lhe deram vida, pois que, apesar de todas atuarem no mesmo ramo – e, portanto, concorrerem entre si – possuíam interesses comuns na viabilização de seus negócios, que por sua vez demandavam grande investimento de capital e infraestrutura, possível somente com o esforço conjunto de todas elas. Desta feita, sob a condição jurídica de um consórcio, as empresas ABALCO (Recorrente), ALCOA, RIO TINTO/ALCAN e BHP BILLITON, angariaram os fundos necessários para dar vazão ao empreendimento almejando, sendo este “estabelecimento” (composto pelos ativos que isoladamente Fl. 1283DF CARF MF Processo nº 13656.000503/200110 Acórdão n.º 3402004.287 S3C4T2 Fl. 339 13 nenhuma possuía condições de adquirir), o industrializador do produto comercializado por cada uma delas. Vislumbro que o Consórcio é, na proporção definida de participação de cada consorciada, tipicamente um estabelecimento produtor de cada uma das participantes, e não uma “sociedade de fato”, como entenderam a decisão da DRJ e o Ilustre Conselheiro Relator. Cada participante usa o estabelecimento filial seu, regularmente constituído e registrado no Cadastro Geral de Pessoas Jurídicas como tal, e efetivamente empregado para a industrialização de produtos tributados a alíquota zero, preenchendo, com isso, o conceito de estabelecimento industrial previsto na legislação de regência do IPI (Lei nº 4.502, de 1964, art. 3º). Neste sentido, a diferenciação de um consórcio e de uma sociedade de fato, a qual se questiona se não é o caso da Recorrente, fica clara na lição de Fernando Facury Scaff e Daniel Coutinho Silveira, no Parecer: Tributação de Consórcio de Empresas. Incidência Fiscais Normais e Refis. Repercussões Fiscais. Normas Vigentes (in, Revista Dialética de Direito Tributário nº. 153, pg. 103. Jun¬2008) “Esses são os elementos principais da definição do consórcio: tratase da coordenação de atividades individuais para a execução de provimento comum entre os consorciados. Diverge, assim, da regulação própria da sociedade em que os sócios exercem conjuntamente atividade para repartição dos lucros. Logo, não se trata de um “tipo societário”, mas de uma forma de organização empresarial composta por sociedades autônomas para a realização de um objetivo específico.” Notase que, diferentemente de uma sociedade de fato, o objetivo do consórcio não é a divisão de lucros, e sim a união para a consecução comum de um empreendimento, exatamente como é o caso da Recorrente, que uniu forças com outras sociedades para a execução de um empreendimento específico, neste caso o refino e a redução de alumínio, sendo o resultado de tal beneficiamento, comercializado individualmente por cada empresa consorciada. (...) Resta assente, por toda a verificação de fatos que aqui se expôs, que o Consórcio ALUMAR, além de constituído de forma correta (embora não sendo comum que o seja voltado a produção comum), é a representação, ainda que proporcional, das instalações da própria Recorrente, que no intuito de viabilizar parte muito onerosa de seu processo produtivo, adquiriu bens do ativo em esforço conjunto com outras empresas, industrializando assim parte de sua produção no estabelecimento consorciado. É certo também que o estabelecimento gera gastos com insumos para a Recorrente, que trouxeram em si os custos das contribuições do Pis e da Cofins incidentes nas etapas do mercado interno, os quais, posteriormente, passaram a compor o custo dos produtos por ela fabricados e exportados, de modo Fl. 1284DF CARF MF 14 que, finalisticamente, se deve franquear o acesso ao benefício do crédito presumido de IPI como ressarcimento de Pis e Cofins, sob pena de se fazer letra morta do disposto na Lei nº 9.363/96, permitindo a “exportação de tributos” que se deseja evitar com a referida legislação. No que diz respeito ao fato de o prazo de duração do consórcio ser previsto para o longínquo de 2050, e com permissão de renovação do prazo quando chegado o termo final, igualmente não considero fundamento para a desconsideração do Consórcio. Inicialmente porque não se pode confundir a “longevidade” de uma pessoa natural, com a de uma “empresa” ou “empreendimento”, estes quais feitos e criados para durar mais do que apenas a geração de seus fundadores. Não cessa uma “empresa” pela morte de seu fundador, ao contrário do que se dá com as pessoas naturais, cuja existência legal encerrase com a morte. Além disso, por tratarse de investimentos que, de modo público e notório, montam quantias extraordinárias para os padrões nacionais, é crível interpretar que o prazo de “retorno do investimento” igualmente seja elastecido, pois que em caso contrário, poderia restar inviabilizado o interesse da constituição do Consórcio, e com ele de se levar a cabo o empreendimento, deixandose de gerar um empreendimento que gera e permite circular riquezas no local. Ademais disso, especificamente com relação a necessidade dos Consórcios terem prazo específico, nos moldes interpretados pela decisão recorrida, não é matéria pacífica na doutrina societária nacional. É dizer, embora tenha que prever um prazo, este não precisa ser uma data específica, mas pode ser um termo ou uma condição, e, ainda, não há nada que proíba a renovação do prazo de um consórcio. Ao contrário senso, igualmente a previsão de uma data certa e determinada para a existência do Consórcio, igualmente não garante que se o tome como uma sociedade de fato, se deturpados os demais objetivos do mesmo. (...) Nesta linha de entendimento, filiome à corrente que entende que o fato de o prazo de duração do Consórcio ser longo, ou mesmo de existir previsão para sua prorrogação, não o transmudaria, por si só, em sociedade de fato, de modo que no caso, entendo que o Consórcio não restou desconfigurado, e, portanto, tem ele, na condição de estabelecimento produtor (em condomínio com outras indústrias) e exportador, legitimidade para pleitear o benefício previsto na Lei n. 9.363/96. Efetivamente, o entendimento é acertado pois, como destacado no Parecer encomendado pela Recorrente à Modesto Carvalhosa, as sociedades de fato têm como característica "a promiscuidade nas negociações entre as partes e a ausência de arquivamento junto ao órgão registrário", situação diametralmente oposta àquela promovida pela Alumar. Fl. 1285DF CARF MF Processo nº 13656.000503/200110 Acórdão n.º 3402004.287 S3C4T2 Fl. 340 15 No Acórdão 380301.477, 4 de relatoria do Conselheiro Alexandre Kern, a conclusão foi a mesma, afastando os óbices colocados pela Delegacia da Receita Federal ao indeferir o pleito da Recorrente. Efetivamente, a reflexão do Conselheiro sobre a legitimidade da Recorrente para a tomada de crédito é precisa e esclarecedora, de modo que também merece nossa atenção: De um lado, mesmo amplo, não se pode afirmar que o empreendimento não tenha algum grau de determinação. Ainda que se admita como amplo um empreendimento que abarque toda a siderurgia do alumínio, a atuação do consórcio se limita a esse metal, não se cogitando do processamento de minério de ferro, por exemplo. Ou ainda, se o empreendimento atua na siderurgia, não avança sobre etapas subseqüentes de manufatura de bens compostos por esse metal. Vêse que há, efetivamente, algum grau de limitação no empreendimento. No que pertine ao prazo, a sua fixação em 50 (cinqüenta) anos, pode ser exorbitante, a depender do volume das reservas de bauxita comercialmente disponíveis. Ou poderá ser estreitíssimo, se se tratar de empreendimento cujo investimento demande soma de recurso financeiro substancial, que implica longo prazo de maturação. Enfim, parecee que os ditames da Lei nº 6.404, de 1976, não autorizam as subjetivizações praticadas pela ciosa repartição fiscal para chegar às suas conclusões. Julgo que atos de constituição do Consórcio Alumar satisfizeram os requisitos dos arts. 278 e 279 da Lei da S/A, não se tratando pois de uma sociedade de fato. Cumpre realçar necessidade de observância das decisões proferidas pelo CARF nos supra citados acórdãos, uma vez que o Novo Código de Processo Civil, cuja aplicação subsidiária ao Processo Administrativo Fiscal agora é expressa (artigo 15), 5 determina em seu artigo 926 que “os tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê la estável, íntegra e coerente.” É por essa razão inclusive que, como tem decidido este Conselho, entendo que este não é o local nem o momento para se averiguar o montante dos créditos pleiteados. Na realidade, uma vez superada a questão da ilegitimidade para o pleito dos créditos presumidos de IPI, única razão adotada pelo despacho decisório para indeferir o pleito de ressarcimento, seus valores devem ser avaliados pela autoridade fiscal certificadora. Dispositivo Ex positis, voto no sentido de dar provimento ao recurso voluntário, reconhecendo a legitimidade da Recorrente para o pleito dos créditos presumidos de IPI estabelecidos no artigo 1º da Lei n. 9.363/96 e determinando o retorno dos autos para a DRF, para que examine e profira decisão sobre os demais requisitos do pedido de ressarcimento que lhe foi formulado. 4 Ressalto que o citado julgamento trata da questão do direito a apropriação do crédito da Contribuição ao PIS e da COFINS, e não do crédito presumido IPI, porém ultrapassando o mesmo óbice da constituição de suposta sociedade de fato pelo consórcio, que não poderia dar o direito ao pleito dos créditos. 5 Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente. Fl. 1286DF CARF MF 16 Relatora Thais De Laurentiis Galkowicz Fl. 1287DF CARF MF
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Numero do processo: 10855.723412/2014-28
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue May 09 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed May 31 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 01/02/2012 a 30/06/2014
COMPENSAÇÃO. TRIBUTO OBJETO DE DISCUSSÃO JUDICIAL. VEDAÇÃO DO ART. 170-A DO CTN.
Em se tratando de compensação de crédito objeto de controvérsia judicial, é vedada a sua realização antes do trânsito em julgado da respectiva decisão judicial, conforme prevê o art. 170-A do CTN.
INCIDÊNCIA DAS CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. ADICIONAL DE HORA EXTRA. ADICIONAL DE TRABALHO NOTURNO. ADICIONAL DE INSALUBRIDADE. ADICIONAL DE PERICULOSIDADE. DECISÃO JUDICIAL. NORMA INDIVIDUAL E CONCRETA.
Acatando-se a ordem judicial, mantém-se a incidência das contribuições sobre as rubricas e, por conseqüência, afasta-se o direito à compensação.
INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. ADICIONAL POR TEMPO DE SERVIÇO. GRATIFICAÇÃO DE ANIVERSÁRIO. GRATIFICAÇÃO DA LEI N.º 1.436/2010. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DA PERIODICIDADE DOS PAGAMENTOS.
Não é possível, pelo constante dos autos, identificar se as parcelas em questão apresentam a característica de eventualidade para fins de não incidência das contribuições.
Numero da decisão: 2201-003.598
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
Assinado digitalmente.
CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA - Presidente.
Assinado digitalmente.
ANA CECÍLIA LUSTOSA DA CRUZ - Relatora.
EDITADO EM: 22/05/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ
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TRIBUTO OBJETO DE DISCUSSÃO JUDICIAL. VEDAÇÃO DO ART. 170A DO CTN. Em se tratando de compensação de crédito objeto de controvérsia judicial, é vedada a sua realização antes do trânsito em julgado da respectiva decisão judicial, conforme prevê o art. 170A do CTN. INCIDÊNCIA DAS CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. ADICIONAL DE HORA EXTRA. ADICIONAL DE TRABALHO NOTURNO. ADICIONAL DE INSALUBRIDADE. ADICIONAL DE PERICULOSIDADE. DECISÃO JUDICIAL. NORMA INDIVIDUAL E CONCRETA. Acatandose a ordem judicial, mantémse a incidência das contribuições sobre as rubricas e, por conseqüência, afastase o direito à compensação. INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. ADICIONAL POR TEMPO DE SERVIÇO. GRATIFICAÇÃO DE ANIVERSÁRIO. GRATIFICAÇÃO DA LEI N.º 1.436/2010. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DA PERIODICIDADE DOS PAGAMENTOS. Não é possível, pelo constante dos autos, identificar se as parcelas em questão apresentam a característica de eventualidade para fins de não incidência das contribuições. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Assinado digitalmente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 5. 72 34 12 /2 01 4- 28 Fl. 3000DF CARF MF 2 CARLOS HENRIQUE DE OLIVEIRA Presidente. Assinado digitalmente. ANA CECÍLIA LUSTOSA DA CRUZ Relatora. EDITADO EM: 22/05/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório Tratase de Recurso Voluntário contra decisão primeira instância que julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pelo sujeito passivo. Nesta oportunidade, utilizome do relatório produzido em assentada anterior, eis que aborda de maneira elucidativa os fatos objeto dos presentes autos, nos termos seguintes: Tratase de Manifestação de Inconformidade apresentada em face do Despacho Decisório DRF/SEORT/SOROCABA nº 404/2014, emitido em 01/09/2014, que não homologou as compensações declaradas pelo Município de Alumínio nas Guias de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP relativas às competências fevereiro de 2012 a junho de 2014. De acordo com o Despacho Decisório, o município declarou em GFIP compensações de contribuições previdenciárias devidas no período de 02/2012 a 06/2014 com créditos oriundos de recolhimentos de contribuições previdenciárias, realizados no período de 04/2010 a 01/2012, sobre 1/3 de férias, horas extras, insalubridade, adicional noturno, periculosidade, adicional tempo de serviço, gratificação aniversário e gratificação da Lei nº 1.436/2010. O Despacho afirma que o contribuinte não comprovou a existência de recolhimentos indevidos de contribuição previdenciária. As parcelas consideradas como indevidas pelo contribuinte não constam do rol exaustivo das parcelas que não integram o salário de contribuição, previsto no § 9º do art. 28 da Lei nº 8.212, de 1991. Além disso, o contribuinte também não comprovou possuir crédito reconhecido por decisão judicial transitada em julgado, como exige o art. 170A do Código Tributário Nacional – CTN. Por estas razões, foram restabelecidos como crédito tributário, os valores das compensações informadas nas GFIP de 02/2012 a 06/2014, no valor total de R$ 6.676.024,23. O município já havia sido fiscalizado anteriormente, em 06/03/2012, tendo sido lavrado o Processo nº Fl. 3001DF CARF MF Processo nº 10855.723412/201428 Acórdão n.º 2201003.598 S2C2T1 Fl. 3 3 10855.720770/201217 pela mesma razão, sob o mesmo fundamento. Tratase, portanto, de reincidência. Desta forma, concluiu a fiscalização que a conduta do município não pode ser considerada como um mero erro de preenchimento ou imputada ao desconhecimento. O município sabia que a sua atitude contrariava as normas vigentes e apresentou GFIP com informações sabidamente falsas. Por fim, o Despacho decisório informa que, em razão da ocorrência de fatos que, em tese, caracterizam crime contra a ordem tributária, foi lavrada a Representação Fiscal para Fins Penais – RFFP. O Município foi cientificado do Despacho Decisório em 09/10/2014 e apresentou Manifestação de Inconformidade (por ele denominada impugnação) postada em 29/10/2014. A impugnação apresentada foi dividida em sete partes. Na primeira parte, juntada às fls. 99 a 241, o impugnante alega, em síntese, o seguinte: O Município é pessoa jurídica de direito público sujeita ao pagamento das contribuições previdenciárias previstas no art. 22 da Lei nº 8.212, de 1991, as quais incidem sobre a remuneração. Pela tipicidade fechada, o fisco não pode estender a interpretação sobre a materialidade do fato gerador, a fim de abranger fatos além dos previstos na norma de incidência. De acordo com o inciso I do mencionado art. 22, a expressão “remuneração” nada mais é do que o próprio salário do trabalhador, juntamente com as parcelas que o integram, de modo que as parcelas de natureza indenizatórias recebidas pelo trabalhador, assim como os encargos sociais, não integram a base de cálculo das contribuições. Do mesmo modo, não incidem contribuições sobre os ganhos eventuais. Neste sentido, afirma que o STF e o STJ firmaram entendimento acerca da não incidência de contribuições sobre “férias gozadas, adicional de férias, horasextras, adicional noturno, insalubridade, saláriomaternidade, terço constitucional de férias e férias indenizadas, adicional de periculosidade, salário família, aviso prévio, salárioeducação, auxíliodoença, auxílio creche, vale transporte, abono assiduidade, gratificações eventuais e abono único”. Em seguida, apresenta diversas decisões das duas cortes acerca da não incidência de contribuições sobre as mencionadas parcelas. Argumenta que a Receita Federal do Brasil encontrase vinculada às decisões exaradas pelos tribunais superiores na sistemática dos art. 543B e 543C do Código de Processo Civil – CPC. Neste sentido, aduz que os recursos eventualmente interpostos pela União contra decisões judiciais que consideraram o terço de férias e as demais parcelas que não sejam incorporadas aos proventos para fins de cálculo da aposentadoria não terão qualquer eficácia prática, pois tem evidente intuito procrastinatório. Como as ações sobre a incidência de contribuição sobre o terço de férias estão Fl. 3002DF CARF MF 4 transitadas em julgado, o mesmo ocorrerá com as demais parcelas que detêm a mesma natureza jurídica e que não se incorporem aos proventos de aposentadoria do servidor, pois a fundamentação jurídica é a mesma. Na segunda parte da sua impugnação, juntada às fls. 242 a 288, o impugnante prossegue, afirmando que o município realizou recolhimentos indevidos (contribuições incidentes sobre o terço constitucional de férias, horasextras e demais verbas de natureza compensatória/indenizatória) e que a legislação previdenciária atualmente vigente permite a compensação destes recolhimentos indevidos. A negativa pura e simples de restituição de tributo pago indevidamente, ou aquela feita sob construções jurídicas abusivas, constituem medida confiscatória. No direito tributário, a regra é a possibilidade de compensação pelo sujeito passivo sem que seja exigida a anuência prévia da autoridade administrativa. A previsão da Constituição e do CTN neste sentido foi atendida pelo art. 66 da Lei nº 8.383, de 1991, que autorizou os contribuintes a compensarem os valores pagos a maior com os valores apurados em período subsequente, desde que pertencentes à mesma espécie tributária. No que toca às contribuições previdenciárias, a matéria encontrase disciplinada no art. 89 da Lei nº 8.212, de 1991. Cita diversas decisões judiciais e de órgãos administrativos que reconhecem o direito à compensação independente de prévia autorização administrativa. As compensações foram realizadas pelo município com base na autorização contida no art. 40 da Instrução Normativa RFB nº 900, de 2008. Não há ali a exigência de que o município somente realize a compensação após o trânsito em julgado, a teor do art. 170A do CTN. Isso porque, o art. 66 da Lei nº 8.383, de 1991, não limita o direito à compensação, de modo que a Instrução Normativa não poderia fazêlo, sob pena de ofensa aos princípios da legalidade e da igualdade. Exigir que as compensações somente fossem realizadas mediante decisão judicial transitada em julgado e após a homologação do crédito pela RFB contraria e afronta literalmente a jurisprudência do STF e STJ. A ação judicial movida pelo município não contempla, entre os seus pedidos, a autorização para compensação, posto que esta já se encontra prevista no art. 66 da Lei nº 8.383, de 1991. O município requer apenas a declaração de inexistência da relação jurídica tributária, a suspensão da exigibilidade das exações e a abstenção de punições por parte da RFB. Assim, uma vez suspensa a exigibilidade, resta claro o direito de se compensar dos valores pagos. Colaciona decisões do STJ no sentido da não aplicação da restrição contida no art. 170A do CTN, quando o direito requerido encontrase reconhecido na jurisprudência dominante dos tribunais superiores. Por esta razão, entende que deve ser reconhecido o direito à compensação dos valores anteriormente recolhidos, incidentes sobre férias, 1/3 de férias, variáveis de férias, horas extras, Fl. 3003DF CARF MF Processo nº 10855.723412/201428 Acórdão n.º 2201003.598 S2C2T1 Fl. 4 5 abono noturno, abono periculosidade, abono insalubridade, abono tempo de serviço e abono gratificação, uma vez que se trata de parcelas de natureza indenizatória/compensatória, conclusão esta que se encontra respaldada pela jurisprudência pacífica do STF e do STJ. Na terceira parte da sua impugnação, fls. 289 a 566, o município apresenta planilhas para demonstrar o cálculo dos valores indevidamente recolhidos. Na quarta parte da impugnação, fls. 567 a 809, o impugnante argúi a inaplicabilidade da multa isolada de 150%, nos seguintes termos: O § 10 do art. 89 da Lei nº 8.212, de 1991, na redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, exige a comprovação da falsidade da declaração. O dolo é elemento fundamental para a caracterização da falsidade. Ele não pode ser presumido e caberia à autoridade administrativa demonstrar a sua ocorrência. Não será falsa a declaração prestada pelo sujeito passivo onde ele considera não tributável uma parcela que o fisco entende como tributável, desde que se identifiquem corretamente tais valores quanto aos seus elementos fáticos. Ser tributável ou não tributável é uma questão que diz respeito ao significado jurídico tributário do fato remuneração, e a divergência em torno deste significado não configura falsidade. Menciona diversas decisões exaradas por Delegacias de Julgamento da RFB nas quais não se considera falsidade o exercício do direito de compensação em relação a verbas cuja incidência de contribuição sobre elas esteja sendo discutida no âmbito do judiciário. No caso, as compensações foram efetuadas tendo como paradigma a jurisprudência pacificada pelo judiciário, não se tratando de interpretação jurídica do próprio contribuinte. Todas as ações judiciais interpostas pelos municípios e autarquias estão transitando em julgado nos tribunais. Para a aplicação da multa de 150%, o fisco deveria comprovar a fraude, a sonegação ou o conluio, nos termos dos art. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964. Não há que se falar em sonegação, pois os fatos geradores não são objeto de discussão, mas apenas as declarações relativas à compensação. Também impossível a tipificação da fraude, pois não houve modificação ou alteração das características essenciais do tributo devido, bem como não redução do montante do tributo devido. Para a caracterização destas condutas, seria necessário que o fisco tivesse comprovado artifícios utilizados pelo contribuinte que tivessem o condão de ludibriar, enganar ou esconder, situações opostas à declaração em GFIP, na qual o contribuinte se apresenta ao fisco declarando e confessando a natureza e a quantidade do seu crédito. Não há artifício, engodo ou enganação no ato em que a pretensão do contribuinte é submetida à homologação da autoridade pública. Fl. 3004DF CARF MF 6 Não consta no Auto de Infração nenhuma comprovação de documento falso que possa corroborar a afirmação de que houve evidente intuito de fraude. Se o poder judiciário pacificou o entendimento de que não incide contribuição sobre as parcelas de natureza indenizatória/compensatória, não cabe à RFB interpretar a lei de modo diferente. Se há fundamento jurídico para a pretensão do impugnante, onde estaria a falsidade? O contribuinte agiu de boafé, pois entende que não incide contribuição sobre as referidas parcelas. Esta não é uma tese própria, mas sim um entendimento consagrado pelos tribunais superiores. Transcreve decisões do CARF nas quais houve a aplicação deste entendimento. Pelas razões acima, entende que deve ser anulada a multa isolada de 150% aplicada no Auto de Infração sob julgamento. Na quinta parte da sua impugnação, fls. 810 a 816, o contribuinte requer o cancelamento e o arquivamento da Representação Fiscal para Fins Penais, uma vez que, inexistindo indícios de fraude, não há que se falar em ilícito penal. Na sexta parte da impugnação, fls. 817 a 829, o contribuinte apresenta os documentos relativos aos Mandados de Segurança nº 000562025.2010.4.03.6100 e 000319928.2011.4.03.6110, nos quais o impugnante discute em juízo a incidência de contribuições sobre as horas extras, terço constitucional de férias e demais verbas de natureza indenizatória/compensatória que não integram o salário de contribuição do segurado. Na sétima parte da impugnação, fls. 930 a 1.555, o impugnante colaciona aos autos textos da legislação previdenciária e de decisões judiciais a respeito do tema. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (BA) julgou improcedente a manifestação de inconformidade, restando mantida a notificação de lançamento, conforme a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/02/2012 a 30/06/2014 PROPOSITURA DE AÇÃO JUDICIAL. RENÚNCIA À INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. Em respeito ao princípio da unicidade de jurisdição, previsto no inciso XXXV do art. 5º da Constituição Federal, a lei impede a discussão administrativa de matéria que já tenha sido levada ao conhecimento do judiciário. Tendo o contribuinte dado início a ações judiciais, resta caracterizada a renúncia à discussão administrativa. Por esta razão, não serão conhecidas nesta decisão as alegações do impugnante acerca da não incidência de contribuição previdenciária sobre as parcelas já discutidas em sede de Mandado de Segurança. COMPENSAÇÃO. TRIBUTO OBJETO DE DISCUSSÃO JUDICIAL. VEDAÇÃO DO ART. 170A DO CTN. Fl. 3005DF CARF MF Processo nº 10855.723412/201428 Acórdão n.º 2201003.598 S2C2T1 Fl. 5 7 Em se tratando de compensação de crédito objeto de controvérsia judicial, é vedada a sua realização "antes do trânsito em julgado da respectiva decisão judicial", conforme prevê o art. 170A do CTN. Enquanto não obtiver uma decisão judicial da qual não mais caibam recursos em processo do qual seja parte, ou enquanto não houver uma sentença judicial definitiva com efeito erga omnes reconhecendo a não incidência de contribuições sobre as referidas parcelas, o contribuinte não pode efetuar a compensação. Esta exigência amparase na presunção de legitimidade das leis e atos normativos em vigor, pressuposto inafastável do nosso ordenamento jurídico. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Posteriormente, dentro do lapso temporal legal, foi interposto recurso voluntário, no qual a contribuinte sustentou, em síntese, que: a) os créditos utilizados para a compensação são legítimos e provenientes de recolhimentos efetuados e recolhidos nas datas exigidas pela legislação, conforme informações constantes das GFIPs; b) os lançamentos das compensações efetuadas constantes das GFIPs informadas são fidedignos, não constituindo falsidade de declarações que induzam a fraude, sonegação e conluio com a tipificação do artigo 71, 72 e 73 da Lei 4.50264; c) a conduta dolosa apontada pela fiscalização não restou demonstrada de plano, não ensejando a aplicação da multa isolada de 150%; d) o CARF e as Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento tem se posicionado no sentido de anular os autos de infração referentes à multa isolada de 150% aplicada sem a efetiva comprovação da fraude, sonegação e conluio, tipificada pelos artigos 71, 72 e 73 da Lei 4.502/64, quando o contribuinte informar corretamente as compensações em GFIP; e) o STF, através do RE n.º 593.068 reconheceu a repercussão geral da matéria suscitada, sob fundamento de que a cobrança da multa isolada de 150% detém a natureza de confisco contribuindo para o enriquecimento ilícito da união; f) as compensações podem ser efetuadas administrativamente sem a anuência do judiciário ou da RFB, a teor do art. 66 da Lei 8383/91 art. 89 da Lei 8212/91 e art. 56 a 59 da Instrução Normativa RFB n.º 1300/12; g) de acordo com as decisões judiciais elencadas no recurso, comprovase que as compensações podem ser efetuadas administrativamente, sem a necessidade da aplicação do art. 170A do CTN, sem ter que aguardar o trânsito em julgado, no Fl. 3006DF CARF MF 8 caso da impetração de mandado de segurança ou quando inexistir ação judicial, a este não se aplica. h) nos Mandados de Segurança, não consta qualquer menção no pedido pleiteando o direito à compensação na esfera administrativa, pois a própria legislação já lhe outorga esse direito (art. 66 da Lei 8383/91; art. 89 da Lei 8212/91; arts. 247 a 253 do decreto 3.048/99 e art. 72 da IN RFB n.º 971/09); i) as verbas cujos os créditos foram utilizados para a compensação não incidem a contribuição previdenciária, conforme entendimento pacificado pelo STF, inclusive com Repercussão Geral RE n.º 593.068 e STJ com incidente de uniformização jurisprudencial. É o relatório. Voto Conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz Conheço do recurso, pois se encontra tempestivo e com condições de admissibilidade. Conforme narrado, o contribuinte insurgese contra a incidência de contribuições previdenciárias sobre as seguintes parcelas: adicional de 1/3 de férias, horas extras, insalubridade, adicional noturno, periculosidade, adicional tempo de serviço, gratificação aniversário e gratificação da Lei nº 1.436/2010. O município impetrou os Mandados de Segurança nº 0005620.25.2010.4.03.6110 e 0003199.28.2011.4.03.6110, perante a justiça federal (subseção judiciária de Sorocaba), nos quais questiona a incidência de contribuições sobre o adicional de 1/3 de férias, horasextras, adicionais noturno, de insalubridade e de periculosidade, sobre o abono único pago de maneira não habitual e sobre o abono assiduidade. Entendeu a DRJ que, no caso das matérias suscitadas em sede de Mandado de Segurança, houve renúncia à instância administrativa, considerando a existência de concomitância da via judicial e administrativa. Para melhor compreensão da discussão, fazse relevante esclarecer que as ações judiciais se encontram em andamento e não transitaram em julgado, até o momento. A Delegacia de Origem destacou o histórico das ações, conforme abaixo transcrito: a) a sentença proferida pelo juiz de primeira instância nos autos do processo n° 000562025.2010.4.03.6110 concedeu parcialmente a segurança pretendida, determinando que a autoridade coatora se abstenha de exigir a contribuição previdenciária incidente sobre o terço constitucional de férias desde junho de 2000. Acórdão proferido pelo tribunal de segunda instância reformou parcialmente a decisão, reconhecendo a aplicação do prazo prescricional qüinqüenal. O processo encontrase atualmente junto ao TRF da 3a Região Fl. 3007DF CARF MF Processo nº 10855.723412/201428 Acórdão n.º 2201003.598 S2C2T1 Fl. 6 9 aguardando decisão sobre admissibilidade dos recursos especial e extraordinário apresentados. b) No processo nº 0003199.28.2011.4.03.6110, a sentença proferida pelo juízo de primeira instância concedeu parcialmente a segurança pleiteada, determinando a suspensão da exigibilidade da contribuição incidente sobre os pagamentos efetuados aos seus empregados a título de aviso prévio indenizado, auxílio educação, férias convertidas em pecúnia, férias indenizadas, auxílio creche, auxílio doença ou auxílio doença acidentário referente aos 15 primeiros dias de afastamento do trabalhador, abono assiduidade e vale transporte. Entendeu, contudo, pela natureza salarial e, portanto, pela incidência de contribuição previdenciária sobre os adicionais de hora extra, trabalho noturno, insalubridade e periculosidade. Acórdão proferido pelo TRF da 3a região negou provimento ao reexame necessário e às apelações interpostas. O processo encontrase atualmente junto ao tribunal mencionado, aguardando julgamento dos embargos de declaração interpostos. Feitas as necessárias ponderações, cabe destacar que não se vislumbra a concomitância das ações judiciais com o processo administrativo, no presente caso, pois o objeto das referidas ações é "a incidência de contribuição previdenciária sobre as rubricas elencadas", o que não coincide com o objeto do processo administrativo fiscal, que trata de "compensação de contribuições previdenciárias". Mesmo não havendo identidade de objetos, a discussão judicial repercute na análise da compensação pleiteada pelo sujeito passivo, pois há norma individual e concreta extraída das decisões proferidas nos Mandados de Segurança determinando a não incidência da contribuição previdenciária sobre umas rubricas e a incidência sobre outras, rubricas estas que foram abarcadas pelo pedido de compensação do contribuinte. Assim, com relação ao terço constitucional de férias, ao aviso prévio indenizado e ao auxílio doença ou auxílio doença acidentário referente aos 15 primeiros dias de afastamento do trabalhador, itens que tiveram reconhecida a não incidência da contribuição previdenciária pelas ações judiciais, impõese a aplicação do disposto no art. 170 A do Código Tributário Nacional, que assim destaca: Art. 170A. É vedada a compensação mediante o aproveitamento de tributo, objeto de contestação judicial pelo sujeito passivo, antes do trânsito em julgado da respectiva decisão judicial. (Artigo incluído pela Lcp nº 104, de 2001) Portanto, o procedimento adotado pelo contribuinte, ao compensar contribuições sociais que ainda estão em discussão judicial, antes do trânsito em julgado, contraria a citada disposição legal, de modo que não assiste razão ao recorrente, em seus argumentos. No que se referem às parcelas as quais a decisão judicial considerou a incidência das contribuições previdenciárias (adicionais de hora extra, trabalho noturno, insalubridade e periculosidade), acatandose a ordem judicial, mantémse a incidência das contribuições sobre as rubricas e, por conseqüência, afastase o direito à compensação. Fl. 3008DF CARF MF 10 Passase a análise das demais parcelas que não se encontram sub judice (adicional por tempo de serviço, gratificação aniversário e gratificação da Lei nº 1.436/2010). O Despacho decisório negou o direito à compensação sob os seguintes argumentos: As verbas consideradas indevidas pelo contribuinte (1/3 de férias, horasextras, Adicional noturno, periculosidade, adicional tempo de serviço, insalubridade, gratificação aniversário, gratificação da Lei 1.436/2010), não constam do rol exaustivo das parcelas que não integram o salário de contribuição, previsto no artigo 28, § 9º, da Lei nº 8.212/91. Pelo contrário, nos termos do artigo 28, caput, da Lei nº 8.212/91, tais verbas integram o salário de contribuição. O contribuinte também não comprovou possuir crédito reconhecido por decisão judicial transitada em julgado. De acordo com a Lei nº 5.172/1966 (Código Tributário Nacional CTN), temos: Art. 170A. É vedada a compensação mediante o aproveitamento de tributo, objeto de contestação judicial pelo sujeito passivo, antes do trânsito em julgado da respectiva decisão judicial. (Artigo incluído pela LCP nº 104, de 10.1.2001) A DRJ, a respeito do tema, assim se manifestou: Como justificativa para a não incidência de contribuições sobre as três parcelas acima referidas, o impugnante afirma que elas não integrarão o salário do servidor na aposentadoria. Este argumento, entretanto, não subsiste. Como o município não possui regime próprio de previdência social, os seus servidores encontramse vinculados ao Regime Geral de Previdência Social – RGPS, como segurados empregados (Decreto nº 3.048, de 1999, art. 9º, I, j). O § 11 do art. 201 da Constituição afirma que os ganhos habituais do empregado, a qualquer título, serão incorporados ao salário para efeito de contribuição previdenciária e conseqüente repercussão em benefícios, nos casos e na forma da lei. De acordo com o art. 29 da Lei nº 8.213, de 1991, o salário de benefício consiste na média aritmética simples dos maiores salários de contribuição do segurado. Portanto, uma vez integrando a base de cálculo das contribuições, as referidas parcelas repercutirão no cálculo dos benefícios. Além disso, argumenta o impugnante que se trata de parcelas eventuais. Não há nos autos, entretanto, elementos que demonstrem a periodicidade com que estas parcelas são pagas ao segurados, bem como os requisitos que os servidores municipais precisam cumprir para fazer jus às referidas parcelas. Em outras palavras, o contribuinte não comprovou que as referidas parcelas (adicional por tempo de serviço, gratificação aniversário e gratificação da Lei nº 1.436/2010) não integram o salário de contribuição. Em seu recurso voluntário, fls. 2.776 a 2.782, aduziu o recorrente que, no RE n.º 593.068, reconheceuse a repercussão geral sobre as verbas de natureza indenizatória/compensatória que não integravam proventos de aposentadoria, quais sejam Fl. 3009DF CARF MF Processo nº 10855.723412/201428 Acórdão n.º 2201003.598 S2C2T1 Fl. 7 11 adicionais e gratificações temporárias; terço de férias; serviços extraordinários; adicional noturno e adicional de insalubridade. Notase que seria necessário perquirir sobre a subsunção das verbas em debate ao disposto no § 9º do art. 28 da Lei 8.212/1991, o qual prescreve as rubricas que não integram o salário de contribuição. Contudo, o contribuinte não logrou êxito ao tentar afastar a incidência da contribuição previdenciária sobre as verbas, pois, embora a DRJ tenha fundamentado a negativa da impugnação na ausência de provas da periodicidade das parcelas, bem como no fato de integrarem os proventos de aposentadoria, em razão da ausência de regime próprio dos servidores, dialeticamente, não foram desconstituídos tais fundamentos. Portanto, não é possível, pelo constante dos autos, identificar se as parcelas em questão apresentam a característica de eventualidade para fins de não incidência das contribuições. Diante do exposto, voto em conhecer do recurso voluntário e, no mérito, negarlhe provimento. Assinado digitalmente. Ana Cecília Lustosa da Cruz Relatora Fl. 3010DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 37311.002125/2007-55
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Apr 04 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue May 23 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 2301-000.646
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência para que seja dada ciência ao contribuinte, nos termos da Resolução anterior. Acompanhou o julgamento pela Recorrente, a Dra. Laís Barufi, OAB/DF 42.417.
Andrea Brose Adolfo - Presidente-Substituta
Julio Cesar Vieira Gomes - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: ANDREA BROSE ADOLFO, JULIO CESAR VIEIRA GOMES, FABIO PIOVESAN BOZZA, JORGE HENRIQUE BACKES, ALEXANDRE EVARISTO PINTO e MARIA ANSELMA COSCRATO DOS SANTOS.
Nome do relator: JULIO CESAR VIEIRA GOMES
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Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência para que seja dada ciência ao contribuinte, nos termos da Resolução anterior. Acompanhou o julgamento pela Recorrente, a Dra. Laís Barufi, OAB/DF 42.417. Andrea Brose Adolfo PresidenteSubstituta Julio Cesar Vieira Gomes Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: ANDREA BROSE ADOLFO, JULIO CESAR VIEIRA GOMES, FABIO PIOVESAN BOZZA, JORGE HENRIQUE BACKES, ALEXANDRE EVARISTO PINTO e MARIA ANSELMA COSCRATO DOS SANTOS. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 3 73 11 .0 02 12 5/ 20 07 -5 5 Fl. 363DF CARF MF Processo nº 37311.002125/200755 Resolução nº 2301000.646 S2C3T1 Fl. 240 2 Relatório Tratase de Auto de Infração lavrado pela inobservância da obrigação tributária de declaração de todos os fatos geradores em GFIP. A ciência do auto de infração se deu em 07/06/2006 que trouxe como fundamentos os fatos descritos às fls. 253 e s. Contra a decisão, o recorrente interpôs recurso voluntário, onde se reiteram as alegações trazidas na impugnação, fls. 256 e s., em síntese: a) nulidade na autuação por vício de fundamentação e no mandado de procedimento fiscal; e b) não há incidência sobre as parcelas objeto da autuação: PLR e pagamentos a cooperativas de trabalho. Também que não procede a existência de folha de pagamento complementar e diferenças de GILRAT. Foi constatado que os mesmos fatos geradores foram objeto de lançamentos de obrigação principal: 37311.000236/200727 (NFLD 35.767.5258); 37311.002121/200777 (NFLD 35.767.5266), 37311.002124/200719 (NFLD 35.767.5304) e 37311.007847/200615 (NFLD 35.767.5274). Assim, o julgamento fora convertido em diligência para que se buscasse informações sobre os processos principais, fls. 258 e s. Em resposta, a fiscalização informou que os processos estão tramitando no CARF, fls. 272 e s. Em consulta ao eprocesso foi possível constatar o resultado nos processos de obrigação principal: a) 37311.000236/200727 (NFLD 35.767.5258) antes de julgamento do recurso voluntário o recorrente desistiu do recurso e providenciou seu pagamento; b) 37311.002121/200777 (NFLD 35.767.5266) o julgamento do recurso voluntário foi por negar provimento ao recurso por unanimidade de votos; c) 37311.002124/200719 (NFLD 35.767.5304) no julgamento do recurso voluntário, a turma decidiu pela nulidade do lançamento; após, em recurso especial foi dado provimento ao recurso da Fazenda Nacional para que o recurso voluntário fosse reexaminado. Antes do novo exame o recorrente desistiu do recurso e providenciou seu pagamento; e d) 37311.007847/200615 (NFLD 35.767.5274) após julgamento do recurso voluntário por negar provimento, o recorrente providenciou seu pagamento. É o Relatório. Fl. 364DF CARF MF Processo nº 37311.002125/200755 Resolução nº 2301000.646 S2C3T1 Fl. 241 3 Voto Conselheiro Julio Cesar Vieira Gomes, Relator Os autos foram remetidos diretamente a este CARF, fls. 358 e s., sem que fosse aberto prazo ao recorrente para manifestação. Com o atual Código de Processo Civil, Lei nº 13.105, de 16/03/2015 ficou mais evidenciada a necessidade de se oportunizar o direito de manifestação para todos os interessados sobre matéria de fato ou direito suscitada por uma das partes e que possa fazer parte dos fundamentos da decisão: Art. 9o Não se proferirá decisão contra uma das partes sem que ela seja previamente ouvida. ... Art. 10. O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matéria sobre a qual deva decidir de ofício. ... Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente. Na dúvida quanto a necessidade de contraditório sobre toda e qualquer informação trazidas aos autos por uma das partes, a regra acima veio a esclarecer também no âmbito do processo administrativo a aplicação do artigo 12, inciso II do Decreto nº 7.574, de 29/09/2011: Art. 12. São nulos (Decreto nº 70.235, de 1972, art. 59): I os atos e os termos lavrados por pessoa incompetente; e II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Assim, considerando o presente caso em que a informação trazida em diligência é justamente sobre um fato relevante para o deslinde da questão, entendo que o recorrente tem direito de manifestação. Diante do exposto, voto no sentido de converter o julgamento em diligência para que seja oportunizado ao recorrente o direito de manifestação no prazo de 30 dias sobre o resultado da diligência. É como voto. Julio Cesar Vieira Gomes Fl. 365DF CARF MF
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Numero do processo: 11128.729198/2013-10
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 30 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed May 31 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Data do fato gerador: 13/10/2008
MULTA REGULAMENTAR. SISCOMEX CARGA. REGISTRO EXTEMPORÂNEO DOS DADOS DA CARGA. IMPOSIÇÃO DA MULTA. POSSIBILIDADE.
A prestação de informação a destempo sobre a carga transportada no Siscomex Carga configura a infração regulamentar definida na alínea e do inciso IV do artigo 107 do Decreto-lei 37/1966, com redação dada pelo artigo 77 da Lei 10.833/2003, sancionada com a multa regulamentar fixada no referido preceito legal.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 13/10/2008
MULTA REGULAMENTAR. INFRAÇÃO ADUANEIRA. PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO EXTEMPORÂNEA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE.
1. O instituto da denúncia espontânea é incompatível com o descumprimento extemporâneo de obrigação acessória concernente à prestação de informação ou entrega de documentos à administração aduaneira, uma vez que tal fato configura a própria infração.
2. A multa por atraso na prestação de informação, no Siscomex, sobre dados de embarque de mercadoria exportada não é passível de denúncia espontânea, porque o fato infringente consiste na própria denúncia da infração.
AGENTE DE CARGA. INOBSERVÂNCIA DO PRAZO PARA PRESTAR INFORMAÇÃO. RESPONSABILIDADE PELA MULTA APLICADA. POSSIBILIDADE.
O agente de carga, na condição de representante do transportador e a este equiparado para fins de cumprimento da obrigação de prestar informação sobre a carga transportada no Siscomex Carga, tem legitimidade passiva para responder pela multa aplicada por infração por atraso na prestação de informação sobre a carga transportada por ele cometida.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 13/10/2008
INFORMAÇÃO INTEMPESTIVA. ALEGAÇÃO DE PROBLEMA NO ACESSO AO SISTEMA DE REGISTRO. AUSÊNCIA DE PROVAS. AFASTAMENTO DA PENALIDADE. IMPOSSIBILIDADE.
A mera alegação de que o atraso na prestação de informação sobre veículo, operação ou carga foi motivado por impossibilidade de acesso sistema (Siscomex Carga), desprovida comprovação do fato, segundo as regras de contingência estabelecidas, não configura condição suficiente para afastar a aplicação da multa cominada.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3302-004.044
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Ricardo Paulo Rosa - Presidente e Relator
Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Domingos de Sá Filho, José Fernandes do Nascimento, Lenisa Rodrigues Prado, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Walker Araújo e Ricardo Paulo Rosa.
Nome do relator: RICARDO PAULO ROSA
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Data do fato gerador: 13/10/2008 MULTA REGULAMENTAR. SISCOMEX CARGA. REGISTRO EXTEMPORÂNEO DOS DADOS DA CARGA. IMPOSIÇÃO DA MULTA. POSSIBILIDADE. A prestação de informação a destempo sobre a carga transportada no Siscomex Carga configura a infração regulamentar definida na alínea e do inciso IV do artigo 107 do Decreto-lei 37/1966, com redação dada pelo artigo 77 da Lei 10.833/2003, sancionada com a multa regulamentar fixada no referido preceito legal. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 13/10/2008 MULTA REGULAMENTAR. INFRAÇÃO ADUANEIRA. PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO EXTEMPORÂNEA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. 1. O instituto da denúncia espontânea é incompatível com o descumprimento extemporâneo de obrigação acessória concernente à prestação de informação ou entrega de documentos à administração aduaneira, uma vez que tal fato configura a própria infração. 2. A multa por atraso na prestação de informação, no Siscomex, sobre dados de embarque de mercadoria exportada não é passível de denúncia espontânea, porque o fato infringente consiste na própria denúncia da infração. AGENTE DE CARGA. INOBSERVÂNCIA DO PRAZO PARA PRESTAR INFORMAÇÃO. RESPONSABILIDADE PELA MULTA APLICADA. POSSIBILIDADE. O agente de carga, na condição de representante do transportador e a este equiparado para fins de cumprimento da obrigação de prestar informação sobre a carga transportada no Siscomex Carga, tem legitimidade passiva para responder pela multa aplicada por infração por atraso na prestação de informação sobre a carga transportada por ele cometida. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 13/10/2008 INFORMAÇÃO INTEMPESTIVA. ALEGAÇÃO DE PROBLEMA NO ACESSO AO SISTEMA DE REGISTRO. AUSÊNCIA DE PROVAS. AFASTAMENTO DA PENALIDADE. IMPOSSIBILIDADE. A mera alegação de que o atraso na prestação de informação sobre veículo, operação ou carga foi motivado por impossibilidade de acesso sistema (Siscomex Carga), desprovida comprovação do fato, segundo as regras de contingência estabelecidas, não configura condição suficiente para afastar a aplicação da multa cominada. Recurso Voluntário Negado.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Data do fato gerador: 13/10/2008 MULTA REGULAMENTAR. SISCOMEX CARGA. REGISTRO EXTEMPORÂNEO DOS DADOS DA CARGA. IMPOSIÇÃO DA MULTA. POSSIBILIDADE. A prestação de informação a destempo sobre a carga transportada no Siscomex Carga configura a infração regulamentar definida na alínea “e” do inciso IV do artigo 107 do Decretolei 37/1966, com redação dada pelo artigo 77 da Lei 10.833/2003, sancionada com a multa regulamentar fixada no referido preceito legal. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 13/10/2008 MULTA REGULAMENTAR. INFRAÇÃO ADUANEIRA. PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO EXTEMPORÂNEA. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. 1. O instituto da denúncia espontânea é incompatível com o descumprimento extemporâneo de obrigação acessória concernente à prestação de informação ou entrega de documentos à administração aduaneira, uma vez que tal fato configura a própria infração. 2. A multa por atraso na prestação de informação, no Siscomex, sobre dados de embarque de mercadoria exportada não é passível de denúncia espontânea, porque o fato infringente consiste na própria denúncia da infração. AGENTE DE CARGA. INOBSERVÂNCIA DO PRAZO PARA PRESTAR INFORMAÇÃO. RESPONSABILIDADE PELA MULTA APLICADA. POSSIBILIDADE. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 12 8. 72 91 98 /2 01 3- 10 Fl. 132DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 3 2 O agente de carga, na condição de representante do transportador e a este equiparado para fins de cumprimento da obrigação de prestar informação sobre a carga transportada no Siscomex Carga, tem legitimidade passiva para responder pela multa aplicada por infração por atraso na prestação de informação sobre a carga transportada por ele cometida. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 13/10/2008 INFORMAÇÃO INTEMPESTIVA. ALEGAÇÃO DE PROBLEMA NO ACESSO AO SISTEMA DE REGISTRO. AUSÊNCIA DE PROVAS. AFASTAMENTO DA PENALIDADE. IMPOSSIBILIDADE. A mera alegação de que o atraso na prestação de informação sobre veículo, operação ou carga foi motivado por impossibilidade de acesso sistema (Siscomex Carga), desprovida comprovação do fato, segundo as regras de contingência estabelecidas, não configura condição suficiente para afastar a aplicação da multa cominada. Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Ricardo Paulo Rosa Presidente e Relator Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Domingos de Sá Filho, José Fernandes do Nascimento, Lenisa Rodrigues Prado, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Walker Araújo e Ricardo Paulo Rosa. Relatório Tratase de processo referente à exigência de multa pelo descumprimento da obrigação de prestar informação sobre veículo, operação realizada ou carga transportada, na forma e no prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Nos termos do relatado no acórdão recorrido, de acordo com a descrição dos fatos constante no Auto de Infração, a autuada concluiu a destempo a desconsolidação das cargas relativas ao conhecimento eletrônico (CE) genérico ali identificado (MasterHouse Bill of LadingMHBL), em razão de ter informado com atraso o CE agregado (House Bill of LadingHBL) especificado. Para demonstrar a irregularidade apurada, a autoridade lançadora também apresentou dados referentes à embarcação, viagem, escala, data da atracação, manifesto eletrônico relativos à carga cujo atraso na informação deu ensejo ao lançamento. Na sequência a fiscalização discorreu sobre o Siscomex Carga e sua norma regente, a IN RFB nº 800/2007, destacando a abrangência do termo transportador nela utilizado, e os prazos estabelecidos para prestar as informações exigidas (arts. 22 e 50 da referida IN, e art. 64 do ADE Corep nº 3/2008). Fl. 133DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 4 3 Em seguida, falou da responsabilidade legal do transportador e da penalidade aplicável em caso de descumprimento da obrigação em foco (arts. 37 e 107, IV, “e”, do DecretoLei nº 37/1966), enfatizando a natureza objetiva dessa responsabilidade, que independe da intenção do agente ou responsável, bem como da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato (art. 94 do DL 37/1966). A autoridade lançadora prosseguiu seu relato explanando acerca da motivação da obrigação imposta, destacando sua importância na definição prévia de procedimentos a serem aplicados, objetivando proporcionar maior segurança e racionalidade ao controle aduaneiro de cargas. Foi descrita a nova sistemática de controle implementada a partir de 2002, quando a fiscalização aduaneira passou a ter foco mais abrangente, de forma a alcançar não apenas os importadores e exportadores, mas todos os intervenientes envolvidos nas operações de comércio exterior. Dando seguimento, a fiscalização comentou sobre a interpretação da norma que prescreve a multa imposta. Foi considerado que, com base no art. 112 do CTN, deve ser considerada a conclusão veiculada na Solução de Consulta Interna Cosit nº 8/2008, relativamente à quantidade de multas a serem aplicadas. No tópico seguinte, intitulado “DA APLICAÇÃO DA PENALIDADE IMPOSTA”, foi feita detalhada abordagem a respeito da denúncia espontânea e chegada à conclusão que, apesar de sua aplicabilidade ter sido estendida às penalidades de natureza administrativa (Lei nº 12.350/2010), não foram atendidos os requisitos próprios desse instituto. Para reforçar seu entendimento, a autoridade lançadora recorreu à doutrina e também à jurisprudência administrativa e judicial. Na sequência a fiscalização falou sobre a materialidade da infração, que considerou devidamente caracterizada, e sobre os intervenientes aduaneiros designados pela legislação, tendo em vista o disposto no art. 76, § 2º, da Lei nº 10.833/2003 e nos arts. 3º a 5º da IN RFB nº 800/2007. Concluiu que, com base na documentação juntada aos autos, era a autuada, na condição de consignatária do citado CE genérico, a responsável por prestar as informações relativas aos correspondentes CEs agregados incluídos com atraso. A penalidade foi formalizada no Auto de Infração em debate. Cientificado da exação, o sujeito passivo, apresentou impugnação alegando, em síntese: a) Ilegitimidade passiva. O prazo estabelecido pela IN RFB n° 800/2007 não se aplica à impugnante, que na condição de agente de carga, não se confunde com a atividade do transportador, que é o sujeito das obrigações instituídas pela referida Norma. A classificação da impugnante como tal distorce conceito de direito privado, o que é expressamente vedado pelo art. 110 do CTN. b) Denúncia espontânea. Conforme se depreende dos autos, ainda que a destempo, as informações foram prestadas pela própria impugnante, antes do início de fiscalização. Assim não é cabível a multa exigida, pois se aplica ao caso o instituto da denúncia espontânea, consoante dispõe o art. 102, § 2º, do DecretoLei nº 37/1966, com a redação dada pela Lei nº 12.350/2010. Fl. 134DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 5 4 c) Inaplicabilidade de multa no período de contingência do Siscomex Carga. As operações objeto da autuação ocorreram no chamado “período de contingência”, em que o cumprimento dos prazos da IN RFB nº 800/2007 não era exigido, já que o Siscarga não estava integralmente disponível para utilização pelos agentes e desconsolidadores. Dessa forma, evidenciado que a impugnante não poderia agir de outra forma, a aplicação de multa no presente caso afronta, além do princípio da inexigibilidade de conduta diversa, o da razoabilidade, que impõe à Administração Pública o dever de agir com bom senso, prudência e moderação, levando em conta a relação de proporcionalidade entre os meios empregados e a finalidade a ser alcançada, bem como as circunstâncias que envolvem a prática do ato. Ao final a impugnante pedia o cancelamento do lançamento. Sobreveio a decisão de primeira instância, em que, por unanimidade de votos, os integrantes do Colegiado de primeiro grau rejeitaram a preliminar de ilegitimidade passiva e, no mérito, julgaram a impugnação improcedente e mantiveram integralmente a exigência fiscal, nos termos do Acórdão 0833.487. Após ciência ao acórdão de primeira instância, a autuada protocolou recurso voluntário em que reafirmou as razões de defesa suscitadas na peça impugnatória. Em aditamento, alegou que o acórdão recorrido não dera aos fatos em análise a correta interpretação, aplicando equivocadamente a legislação vigente; e que os argumentos expostos na impugnação foram refutados por simples negativa, sem que se levantassem razões jurídicas hábeis a infirmálos. É o relatório. Voto Conselheiro Ricardo Paulo Rosa, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3302004.022, de 29 de março de 2017, proferido no julgamento do processo 11128.730402/201345, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3302004.022): O recurso é tempestivo, trata de matéria da competência deste Colegiado e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. O litígio cingese aos seguintes pontos: a) ilegitimidade passiva da recorrente; b) impossibilidade de aplicação da multa durante o período de contingência do Siscomex Carga; e c) excludente de responsabilidade por denúncia espontânea da infração. Previamente a análise controvérsia, cabe destacar que a aplicação da penalidade em apreço foi motivada pela prática da infração tipificada, genericamente, na alínea “e” do inciso IV do artigo 107 do Decretolei 37/1966, com redação dada pelo art. 77 da Lei 10.833/2003, a seguir transcrito: Fl. 135DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 6 5 Art. 107. Aplicamse ainda as seguintes multas: (...) IV de R$ 5.000,00 (cinco mil reais): (...) e) por deixar de prestar informação sobre veículo ou carga nele transportada, ou sobre as operações que execute, na forma e no prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, aplicada à empresa de transporte internacional, inclusive a prestadora de serviços de transporte internacional expresso portaa porta, ou ao agente de carga; (...) E em relação à prestação de “informação sobre veículo ou carga nele transportada, ou sobre as operações que execute” no Siscomex Carga, para conferir efetividade a referida norma penal em branco, foi editada a Instrução Normativa RFB 800/2007, que estabeleceu a forma e o prazo para a prestação das referidas informações. De acordo com a Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal que integra o presente Auto de Infração (fls. 01/05), a conduta que motivou a imputação da multa em apreço foi a prestação da informação a destempo, no Siscomex Carga, dos dados relativos ao conhecimento eletrônico (HBL) CE 150805190343826, vinculado à operação de desconsolidação do Conhecimento Eletrônico SubMaster (MHBL) CE 150805184751721, conforme explicitado no trecho que segue transcrito: O Agente de Carga CEVA FREIGHT MANAGEMENT DO BRASIL LTDA, CNPJ 03.229.138/000406, concluiu a desconsolidação relativa ao Conhecimento Eletrônico Sub Master (MHBL) CE 150805184751721 a destempo às 09h52min do dia 09/10/2008, segundo o prazo previamente estabelecido pela Secretaria da Receita Federal do Brasil RFB, para o seu conhecimento eletrônico agregado (HBL) CE 150805190343826. A carga objeto da desconsolidação em comento foi trazida ao Porto de Santos acondicionada nos Containers NYKU7940080, NYKU7104578 e NYKU7149079, pelo Navio M/V CAPE CHARLES, em sua viagem 101W, no dia 07/10/2008, com atracação registrada às 18h26min. Os documentos eletrônicos de transporte que ampararam a chegada da embarcação para a carga são Escala 08000222050, Manifesto Eletrônico 1508501842589, Conhecimento Eletrônico Master MBL 150805183878000, Conhecimento Eletrônico SubMaster MHBL 150805184751721 e Conhecimento Eletrônico Agregado HBL 150805190343826. Especificamente, no que tange à prestação de informação sobre a conclusão da operação de desconsolidação, os prazos permanentes e temporários foram estabelecidos, respectivamente, no art. 22, “d”, III, e art. 50, parágrafo único, da Instrução Normativa RFB 800/2007, que seguem transcritos. Art. 22. São os seguintes os prazos mínimos para a prestação das informações à RFB: Fl. 136DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 7 6 [...] III as relativas à conclusão da desconsolidação, quarenta e oito horas antes da chegada da embarcação no porto de destino do conhecimento genérico. [...] Art. 50. Os prazos de antecedência previstos no art. 22 desta Instrução Normativa somente serão obrigatórios a partir de 1º de abril de 2009. (Redação dada pela IN RFB nº 899, de 29 de dezembro de 2008) Parágrafo único. O disposto no caput não exime o transportador da obrigação de prestar informações sobre: I a escala, com antecedência mínima de cinco horas, ressalvados prazos menores estabelecidos em rotas de exceção; e II as cargas transportadas, antes da atracação ou da desatracação da embarcação em porto no País. (grifos não originais) No caso, como as informações sobre a operação de desconsolidação ocorreu antes de 1º de abril de 2009, a recorrente estava obrigada a cumprir o prazo estabelecido no norma temporária, inscrita no inciso II do parágrafo único do art. 50 destacado. Os extratos colacionados aos autos, contendo o registro da conclusão referida operação de desconsolidação, comprovam que a informação fora prestada pela recorrente fora do prazo estabelecido no citado preceito normativo, ou seja, as informações foram prestadas somente às 09h52min do dia 9/10/2008 (data/hora da inclusão no Siscomex Carga do conhecimento eletrônico agregado HBL 150805190343826), portanto, após a atracação da embarcação no Porto de Santos, ocorrida no dia 07/10/2008, às 18h26min. Logo, fica claramente evidenciado que a recorrente praticou a conduta infracionária em apreço. Além disso, não resta qualquer dúvida que a conduta praticada pela recorrente subsumese perfeitamente à hipótese da infração descrita nos referidos preceitos legal e normativo. Aliás, em relação à materialidade da mencionada infração inexiste controvérsia nos autos. Apresentadas essas breves considerações, passase a analisar as razões de defesa suscitadas pela recorrente. Da ilegitimidade passiva A recorrente alegou que, na condição de agente de carga, no período compreendido entre a data da vigência da Instrução Normativa RFB 800/2007 até 1º de abril de 2009, ela não estava obrigada a respeitar o prazo estabelecido no art. 22 da citada IN, nem o prazo estabelecido no inciso II do parágrafo único do art. 50 do citado ato, sob o argumento de que este último preceito normativo aplicavase apenas ao transportador. A alegação da recorrente não procede, porque, embora o disposto no parágrafo único do art. 50 da referida IN tenha se referido apenas ao Fl. 137DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 8 7 transportador, não se pode olvidar que, para fins de cumprimento de obrigação acessória perante o Siscomex Carga, o termo transportador compreende o agente de carga e demais pessoas jurídicas que presta serviços de transporte e emite conhecimento de carga, discriminadas no inciso IV do § 1º do art. 2º da Instrução Normativa RFB 800/2007, a seguir transcrito: Art. 2º Para os efeitos desta Instrução Normativa definese como: [...] V transportador, a pessoa jurídica que presta serviços de transporte e emite conhecimento de carga; [...] § 1º Para os fins de que trata esta Instrução Normativa: [...] IV o transportador classificase em: a) empresa de navegação operadora, quando se tratar do armador da embarcação; b) empresa de navegação parceira, quando o transportador não for o operador da embarcação; c) consolidador, tratandose de transportador não enquadrado nas alíneas "a" e "b", responsável pela consolidação da carga na origem; (Redação dada pela Instrução Normativa RFB nº 1.473, de 2 de junho de 2014) d) desconsolidador, no caso de transportador não enquadrado nas alíneas “a” e “b”, responsável pela desconsolidação da carga no destino; e (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1473, de 02 de junho de 2014) e) agente de carga, quando se tratar de consolidador ou desconsolidador nacional; [...] Além disso, há expressa menção na alínea “e” do inciso IV do artigo 107 do Decretolei 37/1966, com redação dada pelo artigo 77 da Lei 10.833/2003, que o agente de carga responde pela referida penalidade, se prestar informação sobre a carga fora do prazo estabelecido. No caso em tela, é fato incontroverso que, em relação às operações de desconsolidação que executou, a recorrente atuou como representante do transportador estrangeiro, no País. Logo, dada essa condição, era dela a responsabilidade de proceder o registro tempestivo, no Siscomex Carga, dos dados sobre as operações que executou em nome da empresa de navegação representada. Dessa forma, tratandose de infração à legislação aduaneira e tendo em vista que a recorrente concorreu para a prática da questionada infração, induvidosamente, ela deve responder pela correspondente Fl. 138DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 9 8 penalidade aplicada, conforme dispõe o inciso I do art. 95 do Decretolei nº 37, de 1966, a seguir transcrito: Art. 95 Respondem pela infração: I conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie; [...]. Assim, na condição de agente e, portanto, mandatário do transportador estrangeiro, a recorrente estava obrigada a prestar, tempestivamente, as informações no Siscomex Carga sobre a carga transportada pelo seu representado. Em decorrência dessa atribuição e por ter cumprido a destempo a dita obrigação, a autuada foi quem cometeu a infração capitulada na alínea “e” do inciso IV do artigo 107 do Decretolei 37/1966, com redação dada pelo artigo 77 da Lei n° 10.833, de 2003, por conseguinte, deve responder pela infração em apreço. Por fim, cabe ainda ressaltar que, os termos do caput do art. 94 do Decreto lei 37/1966, no âmbito da legislação aduaneira, constitui infração toda ação ou omissão, voluntária ou involuntária, que “importe inobservância, por parte da pessoa natural ou jurídica, de norma estabelecida neste Decretolei, no seu regulamento ou em ato administrativo de caráter normativo destinado a completá los”. Com base nessas consideração, resta demonstrado que a recorrente deve ser mantida polo passivo da autuação, porque há expressa previsão legal que nesse sentido. Da inaplicabilidade da multa na fase de contingência do Siscomex Carga. Em relação a esse ponto, a recorrente alegou que não havia que se falar em aplicação ou descumprimento dos prazos estabelecidos pela “IN RFB 800/2007, vez que ao operador não restava qualquer alternativa para a imputação das informações no sistema”. Segundo a recorrente, a exigência do cumprimento de uma obrigação sem que lhe fosse oferecidos os meios indispensáveis para tanto feriria o princípio da razoabilidade e o instituto da inexigibilidade de conduta diversa. Este Relator está de pleno acordo com a recorrente de que imputar infração ao usuário do Sistema por descumprimento de obrigação que ele não cumpriu ou não poderia cumprir por falhas operacionais ou ausência de meios necessários, revelase, nitidamente, irrazoável e desproporcional, conforme alegado. Porém, como se trata de alegação que envolve situação de natureza fática, a recorrente tinha o dever de comprovála, o que não ocorreu no caso em tela. E na distribuição do ônus prova, prevista o art. 373, II, da Lei 13.105/2015, que instituiu o vigente Código de Processo Civil (CPC), que corresponde ao art. 333, II, do CPC anterior, por ser fato relevante para isentar a recorrente da exigência, não era suficiente a simples alegação de que não havia meios para prestar informações sobre a carga. Dada a alegada impossibilidade, cabia a recorrente o dever prová la, o que não ocorreu. Neste sentido, prevendo a possibilidade de falhas de funcionamento, na fase inicial de implantação do sistema, foram fixados os procedimentos a serem adotados pelos usuários, nos termos dos arts. 1º, 2º e 4º, III da IN RFB 835/2008, a seguir transcritos: Fl. 139DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 10 9 Art. 1º Na impossibilidade de acesso ao Siscomex Carga, por mais de duas horas consecutivas, em virtude de problemas de ordem técnica do sistema, ou na ocorrência de fatores operacionais que prejudiquem o fluxo de comércio exterior, as operações relativas ao controle de embarcações e cargas em portos alfandegados, conforme estabelecido na Instrução Normativa RFB nº 800, de 27 de dezembro de 2007, observarão os procedimentos previstos nesta Instrução Normativa. Art. 2º Compete ao chefe da unidade da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), no âmbito de sua jurisdição, reconhecer a impossibilidade de acesso ao sistema, por razões de ordem técnica, e autorizar a adoção dos procedimentos de contingência. Parágrafo único. A data e a hora da restauração do acesso ao sistema deverá ser registrada nos documentos de autorização, para fins de auditoria e controle. Art. 4º Na hipótese do art. 2º, restaurado o acesso ao sistema: [...] III relativamente à informação dos manifestos, conhecimento eletrônico (CE) e itens, o transportador deverá informar todos os manifestos, CE e itens no sistema, relacionálos e solicitar à RFB a baixa dos bloqueios decorrentes da informação após o prazo estabelecido. [...] (grifos não originais) Assim, como a recorrente não trouxe aos autos nenhum elemento de prova, em que demonstrado a impossibilidade de acesso ao Sistema, conforme procedimentos disciplinados nos referidos preceitos normativos, a alegação suscitada não tem qualquer relevância. A recorrente alegou ainda que era descabida a exigência de prova da indisponibilidade do Sistema, porque a própria edição da IN RFB 835/2008 já constituía prova de que o Sistema não funcionava adequadamente. Essa alegação também não procede, porque não é verdade que a referida IN reconheceu a impossibilidade de funcionamento do Sistema, mas, na possibilidade dessa situação vir a ocorrer e, caso ocorresse, o usuário deveria adotar os procedimentos nela estabelecidos com vistas a resguardálo da imposição de qualquer sanção. Da denúncia espontânea da infração. A recorrente alegou a denúncia espontânea da infração cometida, para excluir a multa que lhe fora aplicada, sob o argumento de que as informações foram prestadas antes de qualquer ato da fiscalização, portanto, em conformidade com o previsto no art. 102, § 2º, do Decretolei 37/1966, com redação dada pela Lei 12.350/2010, a seguir reproduzido: Art. 102 A denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do imposto e dos acréscimos, excluirá Fl. 140DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 11 10 a imposição da correspondente penalidade. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) [...] § 2º A denúncia espontânea exclui a aplicação de penalidades de natureza tributária ou administrativa, com exceção das penalidades aplicáveis na hipótese de mercadoria sujeita a pena de perdimento. (Redação dada pela Lei nº 12.350, de 2010) A alegação da recorrente não procede, porque a denúncia da infração, no caso em tela, não restou configurada, haja vista que, embora realizada antes do “início de qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização, relacionados com a infração” (CTN, art. 138, parágrafo único), no caso em tela, as informações foram prestadas após a “entrada do veículo procedente do exterior”, o que afasta a aplicação da referida excludente de responsabilidade, segundo preceitua o art. 683, § 3º, do Decreto 6.759/2009 (Regulamento Aduaneiro de 2009 RA/2009), que tem o mesmo teor do art. 612, § 3º, do Decreto 4.543/2002, Regulamento Aduaneiro (RA/2002) anterior, vigente à época dos fatos, in verbis: Art. 612. A denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso [...] § 3º Depois de formalizada a entrada do veículo procedente do exterior não mais se tem por espontânea a denúncia de infração imputável ao transportador. (grifos não originais) Porém, ainda que tal restrição não se aplicasse à infração em apreço, o que se admite apenas para argumentar, melhor sorte não teria a recorrente, porque a infração em apreço, inequivocamente, não é passível de denúncia espontânea, pela razões aduzidas no voto da lavra deste Conselheiro que serviu de fundamento da decisão consignada no Acórdão nº 3102002.187, de 26 março de 2014, cujos excertos relevantes, que aqui adotase como fundamento de decidir, seguem transcritos: Da denúncia espontânea da infração. Alegou a recorrente que, no caso em tela, era incabível a aplicação de qualquer penalidade, porque às informações sobre a carga transportada fora feita a tempo e antes de qualquer intimação ou de qualquer outra notificação porventura expedida pela fiscalização aduaneira, o que configurava denúncia espontânea da infração, nos termos do art. 138 do CTN e do art. 102 do Decretolei nº 37, de 1966. Não procede a alegação da recorrente, pois, no caso em comento, não se aplica o instituto da denúncia espontânea da infração previsto no art. 138 do CTN e tampouco o específico da infração a legislação aduaneira estabelecido no art. 102 do Decretolei n° 37, de 1966, com as novas redações dadas pelo Decretolei nº 2.472, de 01 de setembro de 1988 e pela Lei nº 12.350, de 20 dezembro de 2010, a seguir reproduzido: Art. 102 A denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do imposto e dos acréscimos, excluirá a Fl. 141DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 12 11 imposição da correspondente penalidade. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) § 1º Não se considera espontânea a denúncia apresentada: (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) a) no curso do despacho aduaneiro, até o desembaraço da mercadoria; (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) b) após o início de qualquer outro procedimento fiscal, mediante ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, tendente a apurar a infração. (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) § 2o A denúncia espontânea exclui a aplicação de penalidades de natureza tributária ou administrativa, com exceção das penalidades aplicáveis na hipótese de mercadoria sujeita a pena de perdimento. (Redação dada pela Lei nº 12.350, de 2010) (grifos não originais) O objetivo da norma em destaque, evidentemente, é estimular que o infrator informe espontaneamente à Administração aduaneira a prática das infrações de natureza tributária e administrativa instituídas na legislação aduaneira. Nesta última, incluída todas as obrigações acessórias ou deveres instrumentais (segundo alguns) que tenham por objeto as prestações positivas (fazer ou tolerar) ou negativas (não fazer) instituídas no interesse fiscalização das operações de comércio exterior, incluindo os aspectos de natureza tributária, administrativo, comercial, cambial etc. Não se pode olvidar que, para aplicação do instituto da denúncia espontânea, é condição necessária que a infração de natureza tributária ou administrativa seja passível de denunciação à fiscalização pelo infrator. Em outras palavras, é requisito essencial da excludente de responsabilidade em apreço que a infração seja denunciável. No âmbito da legislação aduaneira, em consonância com o disposto no retrotranscrito preceito legal, as impossibilidades de aplicação dos efeitos da denúncia espontânea podem decorrer de circunstância de ordem lógica (ou racional) ou legal (ou jurídica). No caso de impedimento legal, é o próprio ordenamento jurídico que veda a incidência da norma em apreço, ao excluir determinado tipo de infração do alcance do efeito excludente da responsabilidade por denunciação espontânea da infração cometida. A título de exemplo, podem ser citadas as infrações por dano erário, sancionadas com a pena de perdimento, conforme expressamente determinado no § 2º, in fine, do citado art. 102. A impossibilidade de natureza lógica ou racional ocorre quando fatores de ordem material tornam impossível a denunciação espontânea da infração. São dessa modalidade as infrações que Fl. 142DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 13 12 têm por objeto as condutas extemporâneas do sujeito passivo, caracterizadas pelo cumprimento da obrigação após o prazo estabelecido na legislação. Para tais tipos de infração, a denúncia espontânea não tem o condão de desfazer ou paralisar o fluxo inevitável do tempo. Compõem essa última modalidade toda infração que tem o atraso no cumprimento da obrigação acessória (administrativa) como elementar do tipo da conduta infratora. Em outras palavras, toda infração que tem o fluxo ou transcurso do tempo como elemento essencial da tipificação da infração. São dessa última modalidade todas as infrações que têm no núcleo do tipo da infração o atraso no cumprimento da obrigação legalmente estabelecida. A título de exemplo, pode ser citado a conduta do transportador de registrar extemporaneamente no Siscomex os dados das cargas embarcadas, infração objeto da presente autuação. Veja que, na hipótese da infração em apreço, o núcleo do tipo é deixar de prestar informação sobre a carga no prazo estabelecido, que é diferente da conduta de, simplesmente, deixar de prestar a informação sobre a carga. Na primeira hipótese, a prestação intempestiva da informação é fato infringente que materializa a infração, ao passo que na segunda hipótese, a mera prestação de informação, independentemente de ser ou não a destempo, resulta no cumprimento da correspondente obrigação acessória. Nesta última hipótese, se a informação for prestada antes do início do procedimento fiscal, a denúncia espontânea da infração configurase e a respectiva penalidade é excluída. De fato, se registro extemporâneo da informação da carga materializasse a conduta típica da infração em apreço, seria de todo ilógico, por contradição insuperável, que o mesmo fato configurasse a denúncia espontânea da correspondente infração. De modo geral, se admitida a denúncia espontânea para infração por atraso na prestação de informação, o que se admite apenas para argumentar, o cometimento da infração, em hipótese alguma, resultaria na cobrança da multa sancionadora, uma vez que a própria conduta tipificada como infração seria, ao mesmo tempo, a conduta configuradora da denúncia espontânea da respectiva infração. Em consequência, ainda que comprovada a infração, a multa aplicada seria sempre inexigível, em face da exclusão da responsabilidade do infrator pela denúncia espontânea da infração. Esse sentido e alcance atribuído a norma, com devida vênia, constitui um contrassenso jurídico, uma espécie de revogação da penalidade pelo intérprete e aplicador da norma, pois, na prática, a sanção estabelecida para a penalidade não poderá ser aplicada em hipótese alguma, excluindo do ordenamento jurídico qualquer possibilidade punitiva para a prática de infração desse jaez. Fl. 143DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 14 13 [...].1 (destaques do original) No mesmo sentido, o entendimento manifestado pela 3ª Turma da CSRF, por meio do Acórdão nº 9303003.552, cujo enunciado da ementa segue reproduzido: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Data do fato gerador: 07/06/2006 PENALIDADE ADMINISTRATIVA. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO OU PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÕES. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. A modificação introduzida pela Lei 12.350, de 2010, no § 2º do artigo 102 do Decretolei 37/66, que estendeu às penalidades de natureza administrativa o excludente de responsabilidade da denúncia espontânea, não se aplica nos casos de penalidade decorrente do descumprimento dos prazos fixados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil para prestação de informações à administração aduaneira. Recurso Especial do Contribuinte Negado. 2 No âmbito dos Tribunais Regionais Federais (TRF), o entendimento tem sido o mesmo. A título de exemplo, citase trechos do enunciado da ementa e do voto condutor do do TRF da 4ª Região, proferido no julgamento da Apelação Cível nº 500599981.2012.404.7208/SC, que seguem parcialmente transcritos: EMBARGOS À EXECUÇÃO FISCAL. MULTA DECORRENTE DA INFORMAÇÃO INTEMPESTIVA DE DADOS DE EMBARQUE. AGENTE MARÍTIMO. LEGITIMIDADE PASSIVA. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA AUTÔNOMA. INAPLICABILIDADE DA DENÚNCIAESPONTÂNEA. MULTA. PROPORCIONALIDADE E RAZOABILIDADE. VALOR QUE NÃO OFENDE O PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO DE CONFISCO. 1. O agente marítimo assume a condição de representante do transportador perante os órgãos públicos nacionais e, ao deixar de prestar informação sobre veículo ou carga transportada, concorre diretamente para a infração, daí decorrendo a sua responsabilidade pelo pagamento da multa, nos termos do artigo 95, I, do DecretoLei nº 37, de 1966.2. Não se aplica a denúncia espontânea para os casos de descumprimento de obrigações tributárias acessórias autônomas.3. A finalidade punitiva e dissuasória da multa justifica a sua fixação em valores mais elevados, sem que com isso ela ofenda os princípios da razoabilidade, proporcionalidade e vedação ao confisco. [...] Voto. 1 BRASIL. CARF, 3ª Seção, 1ª Câmara, 2ª Turma Ordinária, Ac. 3102002.187, de 26/03/2014, rel. José Fernandes do Nascimento. 2 BRASIL. CARF, CSRF, 3ª Turma, Ac. 9303003.552, de26/04/2016, rel. Rodrigo da Costa Pôssas. Fl. 144DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 15 14 [...] Não é caso, também, de acolhimento da alegação de denúncia espontânea. A Lei nº 12.350, de 2010, deu ao artigo 102, § 2º, do DecretoLei nº 37, de 1966, a seguinte redação: [...] Bem se vê que a norma não é inovadora em relação ao artigo 138 do CTN, merecendo, portanto, idêntica interpretação. Nesse sentido, é pacífico o entendimento no sentido de que a denúncia espontânea não se aplica para os casos em que a infração seja à obrigação tributária acessória autônoma. [...]3. Também com base no mesmo entendimento, a questão tem sido decidida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), conforme confirma, a título de exemplo, o recente acórdão proferido no julgamento do REsp 1613696/SC, cujo enunciado da ementa segue transcrito: O art. 107 do Decretolei 37, de 1966, por sua vez, estabelece a penalidade de multa, no caso de descumprimento da obrigação acima mencionada. Oportuno anotar, ainda, que a declaração do embarque das mercadorias é obrigação acessória e sua apresentação intempestiva caracteriza infração formal, cuja penalidade não é passível de ser afastada pela denúncia espontânea.”. 4 Com base nessas considerações, afastase a alegada excludente de responsabilidade por denúncia espontânea, suscitada pela recorrente. Da conclusão. Por todo o exposto, votase por NEGAR PROVIMENTO ao recurso, para manter na íntegra o acórdão recorrido." Ressaltese que, da mesma forma que ocorreu no caso do paradigma, no presente processo: a) a conduta que motivou a imputação da multa em apreço foi a prestação da informação a destempo, no Siscomex Carga, dos dados relativos a conhecimento eletrônico (HBL), vinculado à operação de desconsolidação do Conhecimento Eletrônico SubMaster (MHBL), Conhecimentos Eletrônicos cujos números constam da descrição dos fatos do Auto de Infração deste; b) as informações sobre a operação de desconsolidação ocorreram antes de 1º de abril de 2009, o que sujeita a recorrente a cumprir o prazo estabelecido na norma temporária, inscrita no inciso II do parágrafo único do art. 50 da Instrução Normativa RFB 800/2007; 3 BRASIL. TRF4. 2ª Turma. Apelação Cível nº 500599981.2012.404.7208/SC. rel. Des. Rômulo Pizzolatti, j. 10.12.2013. 4 BRASIL. STJ. REsp 1613696/SC. Rel. Min. Herman Benjamim. Decisão Monocrática de 2/9/2016. Fl. 145DF CARF MF Processo nº 11128.729198/201310 Acórdão n.º 3302004.044 S3C3T2 Fl. 16 15 c) os extratos colacionados aos autos, contendo o registro da conclusão da referida operação de desconsolidação, comprovam que a informação fora prestada pela recorrente fora do prazo estabelecido no citado preceito normativo, ou seja, após a atracação da embarcação no Porto de Santos, ficando claramente evidenciado que a recorrente praticou a conduta infracionária em apreço. Desta forma, os fundamentos adotados para manter exigência da penalidade no caso do paradigma, também justificam sua manutenção nos presentes autos. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. assinado digitalmente Ricardo Paulo Rosa Fl. 146DF CARF MF
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Numero do processo: 19647.017449/2008-03
Turma: Terceira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 02 00:00:00 UTC 2012
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2005 ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI. O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2). DO ARBITRAMENTO . O arbitramento se faz necessário sempre que a autoridade fiscal não detém outra alternativa para apurar os tributos devidos, tomando em conta as informações fornecidas à Secretaria de Fazenda Estadual, através das guias de ICMS como único documento presente de toda a escrita contábil da empresa. A empresa que não manifesta interesse em recompor a sua escrita contábil, ainda que intimada a apresentar o restante da documentação, não pode alegar a nulidade do arbitramento.
Numero da decisão: 1803-001.520
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado.
Nome do relator: Meigan Sack Rodrigues
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O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2). DO ARBITRAMENTO . O arbitramento se faz necessário sempre que a autoridade fiscal não detém outra alternativa para apurar os tributos devidos, tomando em conta as informações fornecidas à Secretaria de Fazenda Estadual, através das guias de ICMS como único documento presente de toda a escrita contábil da empresa. A empresa que não manifesta interesse em recompor a sua escrita contábil, ainda que intimada a apresentar o restante da documentação, não pode alegar a nulidade do arbitramento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. (Assinado Digitalmente) Selene Ferreira de Moraes Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 64 7. 01 74 49 /2 00 8- 03 Fl. 375DF CARF MF Impresso em 14/02/2013 por MARISTELA DE SOUSA RODRIGUES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 06/02/201 3 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 19647.017449/200803 Acórdão n.º 1803001.520 S1TE03 Fl. 112 2 (Assinado Digitalmente) Meigan Sack Rodrigues Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Selene Ferreira de Moraes (Presidente), Sérgio Rodrigues Mendes, Walter Adolfo Maresch, Viviani Aparecida Bacchmi, Meigan Sack Rodrigues e Victor Humberto da Silva Maizman. Relatório Tratase, o presente feito, de auto de infração para cobrança de créditos tributários de IRPJ e CSLL, acrescidos de multa de ofício e juros de mora, referente ao ano calendário de 2005. Importa referir que a empresa recorrente foi intimada, por diversas vezes, a apresentar livros contábeis e fiscais, extratos bancários, comprovantes de financiamentos, de empréstimos e demais documentos, bem como atualizar informações sobre seu endereço, sem surtir efeito. A autuação tomou por base os valores informados na Guia de Informações e Apuração do ICMS CIAM, e declaradas à SEFAZ, mas não informadas ao fisco federal e cuja movimentação financeiras mostrouse divergente. Ocorre que novamente a empresa quedouse silente, sem qualquer resposta. De outra ponta, constatouse que a empresa recorrente também se encontrava omissa em relação a entrega da DIPJ/2006. Nas DCTF semestrais do período em comento não constam informações de IRPJ e CSLL, bem como não foi detectado qualquer recolhimento. Atenta a autoridade fiscalizadora na a falta de apresentação dos Livros Diário, Razão e LALUR, restou a impossibilidade de apurar o lucro real para o período fiscalizado. Assim, restou arbitrado o lucro para o fim de se apurar o IRPJ do ano calendário de 2005. Já no que diz respeito à multa qualificada de 150%, a autoridade coatora refere que está fundamentada nos arts. 71 e 72 da Lei n° 4.502/64, já que a empresa, mesmo tendo sido intimada por diversas vezes a apresentar os Livros contábeis e fiscais, que possibilitasse a apuração da receita de vendas de mercadorias e de ter concedido prazo para a mesma realizar a escrituração dos Livros solicitados, a recorrente deixou de apresentálos. Prossegue referindo que de acordo com os dados constantes no Sistema de Informações Tributárias – SEFAZ/PE, a empresa recorrente apresentou, través da GIAM uma receita tributária considerável, sem contudo ter recolhido IRPJ ou CSLL sobre essas receitas. Fl. 376DF CARF MF Impresso em 14/02/2013 por MARISTELA DE SOUSA RODRIGUES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 06/02/201 3 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 19647.017449/200803 Acórdão n.º 1803001.520 S1TE03 Fl. 113 3 A recorrente apresentou DCTF semestrais referente ao período, mas não informou débitos referentes a IRPJ e CSLL. Ademais, foi constatada a ausência de apresentação da DIPJ/2006, referente ao ano calendário de 2005. Desse modo, a autoridade fiscal entendeu que todos os fatos relatados acima revelam que ocorreu por parte da empresa recorrente a intenção de omitir do fisco federal, reiteradamente, o conhecimento dos valores dos tributos. Em ato contínuo, foi elaborada Representação para fins penais. Devidamente cientificada, a empresa recorrente apresenta suas razões, em seara de Impugnação, de forma tempestiva, alegando, em apertada síntese, que houve cerceamento do direito de defesa, haja vista que a mesma foi intimada no dia 04.10.2008 (um sábado), dirigindose à repartição da Receita Federal pertinente no dia 10.10.2008 (uma sexta feira) para requerer cópia do inteiro teor do processo que só lhe foi disponibilizado no dia 29.10.2008, ou seja, três dias antes de vencer o prazo para a apresentação da Impugnação. Atenta para o fato que se tratam de mais de duzentas folhas no processo para serem analisadas em um curto espaço de tempo e, em função disso, protocolou pedido à Receita Federal de origem para que dilatassem o prazo para a apresentação da Impugnação. Requer a empresa também a nulidade do feito por ausência de intimação válida, já que desde 2005 não funcionava no endereço antigo, tendo efetuado a alteração societária e registrada na JUCEPE. Aduz que a Receita Federal detinha conhecimento do novo endereço, conforme se depreende das fls. 104. Com isso, afere a recorrente que seus representantes não teriam recebido as intimações. De igual modo, aduz a nulidade do auto por inexistência de Mandado de Procedimento Fiscal e ausência de intimação pessoal acerca do início da Ação Fiscal. Obseva ser indispensável, à validade do procedimento fiscal, o Mandado de Procedimento Fiscal – MPF contento todos os elementos previstos na legislação, posto que se houvesse sido expedido o MPF e realizado a intimação pessoa do responsável pela empresa, restariam resolvidas as questões sem a necessidade do lançamento de ofício por arbitramento e a imposição da multa qualificada. Quanto ao mérito a recorrente frisa que nas informações prestadas à Secretaria de Fazenda estariam incluídos valores que não integrariam a base de cálculo do IRPJ e da CSLL, a exemplo de "vendas canceladas, descontos incondicionais concedidos e imposto nãocumulativos cobrados destacadamente do comprador ou contratante dos quais o vendedor dos bens ou o prestador dos serviços seja mero depositário", conforme art. 31, parágrafo único, da Lei n° 8.981/95. Ainda, salienta que deveria ter sido excluídos, da receita bruta considerada, os valores de ICMS destacados nas notas fiscais e recolhidos antecipadamente por substituição tributária. Afere que informações decorrentes de depósitos bancários, além de não poderem ser utilizadas em razão do sigilo bancário, não se prestariam a comprovar a disponibilidade econômica de proventos ou rendas. No que diz respeito ao arbitramento, a empresa recorrente entende ser o mesmo indevido, vez que caberia ao fisco provar tais omissões, examinando e analisando as declarações e documentos fiscais do contribuinte por inteiro, não podendo se valer de presunções. Salienta que o arbitramento não justifica a aplicação da penalidade exarcebada, conforme decisões proferidas pelo CARF, requerendo justificativas minuciosas. Fl. 377DF CARF MF Impresso em 14/02/2013 por MARISTELA DE SOUSA RODRIGUES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 06/02/201 3 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 19647.017449/200803 Acórdão n.º 1803001.520 S1TE03 Fl. 114 4 Ao se referir à multa qualificada, a empresa recorrente afere que a aplicação da multa baseouse no art. 44, II da Lei 9.430/96 que referese ao percentual de 50%, podendo alcançar no máximo 100% do valor do tributo. Assim, não tendo a fiscalização demonstrado a intenção de omitir receitas, visto que as demais contribuições federais, estaduais e municipais foram regularmente adimplidas. E por fim, a recorrente novamente pugna pelo aditamento à impugnação, realização de perícia, a fim de realizar recálculos e juntada posterior de provas. A autoridade julgadora de primeira instância entendeu por bem manter parte do lançamento, tão somente quanto à qualificação da multa. Pedido de Aditamento à Impugnação e Juntada de Novos Documentos Aduz que não encontra guarida o pedido de aditamento à Impugnação e juntada de novos documentos, por estar em descompasso com o disciplinado nos artigos 15 e 16 do Decreto 70.235/72. Salienta que a empresa requisitou as cópias do processo cinco dias depois de ter recebido a intimação e que até a presente data não juntou ao feito nenhum documento, em seara de aditamento à Impugnação, tal como deferido. Refere que não há previsão legal para a devolução do prazo da impugnação, mas que a empresa recorrente poderia ter juntado provas posteriores e não o fez. Razão esta que não dá respaldo ao pedido da mesma de dilatar o prazo da defesa. Pedido de Perícia Já quanto ao pedido de perícia, frisa que não basta pedir, imperioso o se faz demonstrar a sua real necessidade. Ainda, aduz que a realização de perícia demanda não só a exposição dos motivos que a justifiquem, mas também a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados e demais itens elencados no artigo 16, IV e §1° do decreto 70.235/72, sendo considerado não formulado quando deixar de atender aos mesmos. Validade das Intimações Ao se referir a esse item da defesa, a autoridade de primeira instância cita trecho do Termo de Verificação Fiscal, no qual consta que a empresa recorrente não funcionava no domicilio fiscal eleito e que em diligência efetuada no endereço foi constatado o funcionamento de outra empresa no local. Porém, atenta o julgador que não haveria nenhuma nulidade caso as intimações houvessem sido remetidas aquele endereço, já que cumpria à empresa recorrente efetuar a alteração oportuna e necessária junto à Secretaria da Receita Federal, tal como disciplina os artigos 22 da IN RFB n° 748/2007 e artigo 23 do Decreto 70.235/72. Esclarece que a autoridade fiscalizadora, no intuito de aprofundar as investigações e oportunizar defesa à empresa, realizou consulta à Junta Comercial do Estado de Pernambuco JUCEPE, onde verificou que a sede do contribuinte havia sido transferida para outra localidade, o endereço para o qual passaram a ser remetidas as intimações e destaca que é Fl. 378DF CARF MF Impresso em 14/02/2013 por MARISTELA DE SOUSA RODRIGUES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 06/02/201 3 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 19647.017449/200803 Acórdão n.º 1803001.520 S1TE03 Fl. 115 5 o mesmo endereço constante no "Instrumento Particular de Procuração" (f1.274), por meio do qual o sócioadministrador, Sr. Frederico Rufino Ferreira, constituiu como seus procuradores os advogados que subscreveram a impugnação. No mesmo caminho, entende o julgador não ser procedente o argumento de defesa de que para serem válidas as intimações por via postal devem ser recebidas pelo representante da empresa. Isso porque entende ser válida a intimação postal realizada no domicilio fiscal eleito pelo contribuinte, ainda que o recebedor não seja o representante legal da empresa. Cita jurisprudência do CARF e do poder Judiciário. O julgador a quo atenta quanto ao início da ação fiscal, posto existir nos autos Aviso de Recebimento AR (n.25) relativo à remessa do Termo de Início de Fiscalização (fls.23/24) àquele endereço. Assim, entende que não há que se falar em nulidade das intimações e dos autos de infração. Do Mandado de Procedimento Fiscal Quanto a este ponto, o julgador refere que a defesa aponta, sem razão, a inexistência de MPF, posto que de acordo com a primeira frase do Termo de Verificação Fiscal (fl.14), consignouse que "A ação fiscal está fundada no Mandado de Procedimento Fiscal no 04.101.002008001716, direcionada ao exame do imposto de renda da pessoa jurídica do ano calendário 2005". A identificação do MPF também constou dos Termos remetidos à empresa recorrente, inclusive dos relativos ao início e encerramento da ação fiscal; do "Demonstrativo de Emissão e Prorrogação de MPF" (fl.22), cuja exatidão das informações podia ser verificada na intemet; bem como dos próprios autos de infração. De qualquer modo, ressalta o julgador que impropriedades relacionadas ao MPF não atingem os lançamentos tributários, já que a questão resolvese essencialmente a partir da competência legal do AuditorFiscal para realizálos. Assim, deixa de mencionar as respectivas normas que a regem, porque a matéria não é controversa nos autos. Cita jurisprudência do CARF e o artigo 10 do Decreto 70.235/72 para dar supedâneo aos seus argumentos de que o auto não se encontra nulo. Mérito Quanto ao mérito, o julgador de primeira instância aborda o tema referindo que apesar de asseverar que nas vendas informadas à Secretaria de Fazenda do Estado de Pernambuco estariam incluídos valores (vendas canceladas, descontos incondicionais concedidos e ICMS destacado nas notas fiscais e recolhido antecipadamente por substituição tributária) que, na sua ótica, deveriam ser excluídos da receita bruta considerada, a defesa não anexou prova a respeito. Já no que diz respeito à impossibilidade de se ter violado o sigilo bancário e de que os ingressos nas contas correntes poderem constituir fato gerador tributário no caso sob exame, o julgador aduz que o relato fiscal é cristalino quando aponta que a movimentação bancária no período apenas serviu como mero suplemento, perfeitamente dispensável, para a caracterização da omissão de receitas constatada por meio de declarações da própria empresa Fl. 379DF CARF MF Impresso em 14/02/2013 por MARISTELA DE SOUSA RODRIGUES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 06/02/201 3 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 19647.017449/200803 Acórdão n.º 1803001.520 S1TE03 Fl. 116 6 ao fisco estadual. Observa que o fato gerador não se relaciona a depósitos bancários, mas se caracteriza em razão da empresa ter concretamente auferido receitas, sendo os autos de infração consequências de o respectivo lucro delas decorrente não ter sido objeto de tributação pelo fisco federal, justificandose portanto os lançamentos de ofício, nos termos do Código Tributário Nacional. E, afirma que de presunção não se trata. Já quanto ao arbitramento, o julgador a quo refere que o mesmo fundamenta se no artigo 530, III, do RIR/99. Cita jurisprudência do CARF quanto à possibilidade do arbitramento no caso concreto. Relembra que a empresa foi intimada várias vezes a apresentar livros contábeis e fiscais, mas que mantevese silente, impossibilitando com isso conhecer o lucro real, não restando outra alternativa senão proceder ao arbitramento, que se caracteriza por ser uma forma de apuração do lucro ao lado das apurações pelo lucro real e pelo lucro presumido reservada pela legislação a hipóteses bem específicas e delimitadas. Portanto, os subscritores da impugnação, equivocamse quando sustentam que o fisco não poderia arbitra lucro sem antes analisar a documentação em sua totalidade. Isso porque entende que a fiscalização não teria como debruçarse sobre declarações, livros e documentos se nada lhe foi entregue. Prossegue referindo que tal conduta fiscal foi obstada exatamente por quem a reclama. Multa Qualificada Na decisão de primeira instância o relator do processo restou vencido quanto à qualificação da multa, no percentual de 150%. Isso porque o voto vencedor entendeu que a premissa inafastável para a exasperação da multa é a ocorrência do dolo, ou seja, exigese que esteja presente o propósito deliberado de praticar o ilícito tributário, o que não restou comprovado. Observa que as razões que levaram a fiscalização a exigir a multa qualificada foram i) a falta de apresentação dos livros fiscais e contábeis, ii) a apresentação de DCTF sem apuração de IRPJ e CSLL e iii) a falta de apresentação da DIPJ/2006. A falta de apresentação dos livros da escrituração acarreta diversas consequências, tais como o arbitramento do lucro, procedimento este corretamente adotado pela fiscalização. Pode, também, caracterizar a omissão de receitas e pode, ainda, ensejar a aplicação da multa majorada em 50%, neste último caso se comprovado o voluntário desatendimento às intimações da autoridade fiscal. A infração, todavia, não configura, em si, a conduta dolosa imprescindível a justificar a aplicação da multa no percentual de 150%. Afere que a não apresentação da DIPJ, por sua vez, representa mero descumprimento de obrigação acessória, irregularidade para a qual a legislação prevê penalidade específica. E quanto ao fato de a contribuinte não haver informado débitos do IRPJ e da CSLL em DCTF, igualmente entende não ser prova de dolo. Atenta que a circunstância de a empresa haver auferido receitas, tendoas informado ao Fisco estadual, não quer necessariamente dizer que haja omitido para a Receita Federal a apuração do IRPJ e da CSLL, haja vista que, por ser optante do lucro real, a empresa pode ter recebimentos e não apurar imposto ou contribuição social a pagar. Ainda, o voto vencedor acrescenta que, conforme dispõe a Instrução Normativa SRF n° 482/2004, vigente durante o anocalendário em questão, os débitos informados em DCTF, se não pagos, seriam enviados para inscrição em Dívida Ativa, com os Fl. 380DF CARF MF Impresso em 14/02/2013 por MARISTELA DE SOUSA RODRIGUES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 06/02/201 3 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 19647.017449/200803 Acórdão n.º 1803001.520 S1TE03 Fl. 117 7 devidos acréscimos moratórios. Assim, como a DCTF constitui confissão de dívida, os débitos nela declarados são cobrados acrescidos de juros e de multa de mora, e não com multa de ofício. Por fim, entende que resulta daí que, a prevalecer o entendimento de que a falta de declaração do IRPJ e da CSLL em DCTF já ensejaria a aplicação da multa de 150%, estaríamos diante da situação em que a multa de 75% seria sempre inaplicável. Isto porque, nessa visão, ou o contribuinte informa o débito na DCTF, que, se não pago, serlheá cobrado com multa de mora, ou, não o informando em DCTF, serlheá cobrado com acréscimo da multa qualificada de 150%. Devidamente cientificada da decisão de primeira instância, a empresa recorrente apresenta suas razões em seara de recurso voluntário, de forma tempestiva, aduzindo as mesmas razões já apresentadas em seara de Impugnação. É o relatório Voto Conselheira Meigan Sack Rodrigues, Relatora O recurso preenche os requisitos de sua admissibilidade e dele tomo conhecimento. Tratase, o presente feito, de auto de infração de IRPJ e CSLL, do ano calendário de 2005. A autuação se deu em função dos valores, terem sido levados ao conhecimento do fisco estadual (SEFAZ), através das Guias de Informações e Apuração do ICMS GIAM, mas não informadas ao fisco federal. A empresa recorrente argumenta, em preliminar, nulidades ao feito, que serão abordadas na sequência: Pedido de Aditamento à Impugnação e Juntada de Novos Documentos Aduz a empresa que foi intimada do auto de infração no dia 04.10.2008, um sábado, sendo que seu prazo para impugnar começou a fluir no dia 06.10.2008, segunda feira. No dia 10.10.2008, sexta feira, a recorrente protocolou pedido de cópia do processo, que somente foi atendida 20 dias depois, no dia 29.10.2008 e que isso lhe ocasionou cerceamento do direito de defesa, encurtando com isso o prazo para apresentar provas, juntar documentos, refazer seus cálculos, etc. A empresa recorrente protocolou pedido de dilação de prazo para apresentar Impugnação que foi negado. Foi concedido à empresa recorrente tão somente complementar a Impugnação, em fase posterior, com a juntada de documentação pertinente ao feito. Fl. 381DF CARF MF Impresso em 14/02/2013 por MARISTELA DE SOUSA RODRIGUES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 06/02/201 3 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 19647.017449/200803 Acórdão n.º 1803001.520 S1TE03 Fl. 118 8 A autoridade de primeira instância argumentou que essa preliminar não merece procedência, haja vista que a empresa perdeu cinco dias do seu prazo até pedir as cópias e que ela não mostrouse interessada em juntar documentos e novas provas, mesmo lhe sendo oportunizado esse direito em seara de complementação à Impugnação. Referente à essa preliminar, entendo que não merece procedências as argumentações dadas pela empresa, haja vista que a mesma, além dos cinco dias iniciais, ainda teve mais cinco dias finais, de posse de toda a cópia do processo, para a elabora da sua peça defensiva. Ademais, temse que o presente Conselho está jungido às normas que disciplinam o procedimento administrativo e estas são claras ao ofertar o prazo de 30 dias para a apresentação da Impugnação. Certo que a Secretaria da Receita Federal de origem lhe comunicou a possibilidade de juntar a documentação que entendesse necessária e oportuna em momento posterior, caso a empresa não o fizesse no prazo da impugnação, garantindo a mesma o direito ora pleiteado. Ocorre que a recorrente até a presente data não fez jus desse benefício, não tendo anexado nenhum documento a mais do que o já feito na época da Impugnação. Nesse contexto, temse que se empresa realmente pretendesse juntar documentos que lhe garantisse um caminho diferente em sua defesa, esta já teria o feito. Assim, tenho que a empresa não empenhou seus esforços para demonstrar suas razões, alegadas na impugnação, antes intenta valerse tão somente do tempo exíguo da entrega das cópias do processo, para reabrir prazo da impugnação ou mesmo anular o presente feito. No caso concreto, temse que a empresa teve acesso ao processo, obteve as cópias e ainda prazo para apresentar defesa, vez que recebeu as cópias no dia 29.10.2008 e o prazo para a Impugnação expirava na data de 04.11.2008, não caracterizando o cerceamento do direito de defesa. Pedido de Perícia, Validade do MPF e Validade das Intimações De igual modo, entendo improcedente o pedido de perícia formulado pela empresa recorrente. Isso porque, no decorrer de toda a fiscalização, mesmo tendo sido intimada e reintimada, por diversas vezes, a empresa recorrente não demonstrou interesse em esclarecer os fatos que estavam sendo apurados, limitandose, ao final, a formular o pedido de perícia. O pedido de perícia somente é cabível quando verificada a necessidade da sua realização. Para tanto, a empresa recorrente deveria ter fomentado o pedido, juntando ao feito requisitos que o validassem, demonstrando a sua real importância. Ocorre que ao longo do processo fiscalizatório a empresa mantevese indiferente à ideia de ver esclarecida a demanda, mesmo tendo sido intimada por diversas vezes a apresentar documentos que esclarecessem as questões abordadas. Assim, tomando em conta que cumpria à empresa a busca pela verdade material e da mesma forma cabia a ela apresentar a documentação requisitada pela fiscalização, em não o fazendo, não há que se falar em realização de perícia somente agora, em momento posterior. Já no que diz respeito às argumentações quanto a falta de validade do Mando de Procedimento Fiscal e das Intimações, entendo que a discussão encontrase mais do que Fl. 382DF CARF MF Impresso em 14/02/2013 por MARISTELA DE SOUSA RODRIGUES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 06/02/201 3 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 19647.017449/200803 Acórdão n.º 1803001.520 S1TE03 Fl. 119 9 esclarecida pela autoridade julgadora que me precedeu. Isso porque, o mandado de procedimento fiscal, embora seja uma ordem interna para organização da administração, restou demonstrado sua constância nos termos remetidos à recorrente, inclusive no Termo de início e de encerramento da ação fiscal, esvaziando a demanda nesse contingente. Quanto à validade das intimações, importa que se atente para o fato de que todas as intimações foram feitas levando em conta o endereço fornecido pela empresa à Secretaria da Receita Federal. É dever da empresa manter atualizado o cadastro, junto ao órgão, tal como disciplina a norma disposta no artigo 23 do Decreto 70.235/72, senão vejamos: Art. 23. Farseá a intimação: I pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar; II por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo; III por meio eletrônico, com prova de recebimento, mediante a) envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou b) registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo. § 1º Quando resultar improfícuo um dos meios previstos no caput deste artigo ou quando o sujeito passivo tiver sua inscrição declarada inapta perante o cadastro fiscal, a intimação poderá ser feita por edital publicado: I no endereço da administração tributária na internet; II em dependência, franqueada ao público, do órgão encarregado da intimação; ou III uma única vez, em órgão da imprensa oficial local. § 2° Considerase feita a intimação: I na data da ciência do intimado ou da declaração de quem fizer a intimação, se pessoal; II no caso do inciso II do caput deste artigo, na data do recebimento ou, se omitida, quinze dias após a data da expedição da intimação; III se por meio eletrônico: a) quinze dias contados da data registrada no comprovante de entrega no domicílio tributário do sujeito passivo; Fl. 383DF CARF MF Impresso em 14/02/2013 por MARISTELA DE SOUSA RODRIGUES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 06/02/201 3 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 19647.017449/200803 Acórdão n.º 1803001.520 S1TE03 Fl. 120 10 b) na data em que o sujeito passivo efetuar consulta no endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, se ocorrida antes do prazo previsto na alínea “a”; ou c) na data registrada no meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo; IV 15 (quinze) dias após a publicação do edital, se este for o meio utilizado. § 3º Os meios de intimação previstos nos incisos do caput deste artigo não estão sujeitos a ordem de preferência. § 4º Para fins de intimação, considerase domicílio tributário do sujeito passivo: I o endereço postal por ele fornecido, para fins cadastrais, à administração tributária; e II o endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, desde que autorizado pelo sujeito passivo. § 5º O endereço eletrônico de que trata este artigo somente será implementado com expresso consentimento do sujeito passivo, e a administração tributária informarlheá as normas e condições de sua utilização e manutenção. § 6º As alterações efetuadas por este artigo serão disciplinadas em ato da administração tributária. § 7º Os Procuradores da Fazenda Nacional serão intimados pessoalmente das decisões do Conselho de Contribuintes e da Câmara Superior de Recursos Fiscais, do Ministério da Fazenda na sessão das respectivas câmaras subseqüente à formalização do acórdão. § 8º Se os Procuradores da Fazenda Nacional não tiverem sido intimados pessoalmente em até 40 (quarenta) dias contados da formalização do acórdão do Conselho de Contribuintes ou da Câmara Superior de Recursos Fiscais, do Ministério da Fazenda, os respectivos autos serão remetidos e entregues, mediante protocolo, à Procuradoria da Fazenda Nacional, para fins de intimação. § 9º Os Procuradores da Fazenda Nacional serão considerados intimados pessoalmente das decisões do Conselho de Contribuintes e da Câmara Superior de Recursos Fiscais, do Ministério da Fazenda, com o término do prazo de 30 (trinta) dias contados da data em que os respectivos autos forem entregues à Procuradoria na forma do § 8º deste artigo. Observase do artigo citado que, além de ser dever da empresa manter o seu cadastro atualizado junto à administração, também poderão as intimações serem recebidas, independente de ser o responsável pela empresa a assinar, desde que entregues no endereço da Fl. 384DF CARF MF Impresso em 14/02/2013 por MARISTELA DE SOUSA RODRIGUES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 06/02/201 3 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 19647.017449/200803 Acórdão n.º 1803001.520 S1TE03 Fl. 121 11 empresa. Consta que todas as intimações foram devidamente entregues nos endereços da empresa recorrente, todas foram assinadas, por essa razão não observo nenhum vício que anule o presente feito, como pretende a recorrente. Do Mérito Argumenta a empresa que seu sigilo bancário foi afligido. No entanto, verificase que a presente autuação se deu com base nos dados que a própria empresa tornou pública, quando forneceu a Secretaria da Fazenda Estadual de Pernambuco, através das suas guias de ICMS. A presente autuação se perfez no encontro de informações entre as declarações ofertadas ao fisco estadual que divergem das que foram ofertadas ao fisco federal, em nada se tratando dos extratos bancários da empresa recorrente. Ainda que os extratos bancários tenham sido examinados, a autuação não se realizou com base em depósitos bancários e tão pouco levando em consideração os dados constantes nestes documentos. Antes a autuação lavradas existiria independentemente dos extratos bancários terem sido requisitados às Instituições Bancárias ou não. De qualquer sorte, entendo que as discussões a respeito da quebra de sigilo bancárias, em função de preceitos constitucionais, estão jungidas à competência do Poder Judiciário. A esfera administrativa não possui alçada para julgar preceitos constitucionais, tão pouco afastar lei vigente sob esse argumento. Tudo como bem disciplina a Súmula CARF n° 02: “O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2).” Já quanto à questão referente ao arbitramento, tenho como bem realizado o trabalho elaborado pela fiscalização. A empresa foi intimada a apresentar sua escrita contábil e fiscal, com o intuito de que o arbitramento não fosse utilizado. Ocorre que na falta completa de instrumento para apuração dos valores a serem tributados, já que a empresa não apresentou seus livros e tomando em conta as divergências nas informações prestadas aos fisco estadual e ao fisco federal na DIPJ, restou apenas a alternativa do arbitramento. Por essa razão não procedem os argumentos da empresa de que o fisco não considerou as vendas canceladas, descontos incondicionais concedidos e ICMS destacado nas notas fiscais e recolhido antecipadamente por substituição tributária, já que cumpria à empresa recorrente demonstrar todo o alegado, mas não anexou um só documento nesse sentido. A alegação da empresa deve vir embasada em provas para que se faça força junto à administração, ainda mais quanto à matéria tributária, onde tudo depende de registro. Neste sentido, não pode a mesma imporse contra o arbitramento, referindo ser medida injusta, já que não considera toda a documentação contábil, quando a própria empresa deixa de apresentar seus livros fiscais e contábeis, ainda que intimada a fazêlo. Fl. 385DF CARF MF Impresso em 14/02/2013 por MARISTELA DE SOUSA RODRIGUES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 06/02/201 3 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES Processo nº 19647.017449/200803 Acórdão n.º 1803001.520 S1TE03 Fl. 122 12 Da multa qualificada No tocante à multa qualificada entendo que a decisão de primeira instância, proferida pelo voto vencedor, assiste razão. Por entender que essa matéria já foi decidida em primeira instância e não possui mais razões de divergência, deixo de abordar o tema. Diante do exposto, voto por NEGAR provimento ao recurso. É o voto. (Assinado Digitalmente) Meigan Sack Rodrigues Relatora Fl. 386DF CARF MF Impresso em 14/02/2013 por MARISTELA DE SOUSA RODRIGUES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES, Assinado digitalmente em 06/02/201 3 por SELENE FERREIRA DE MORAES, Assinado digitalmente em 30/12/2012 por MEIGAN SACK RODRIGUES
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Numero do processo: 14485.003262/2007-10
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu May 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Jul 06 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1999 a 31/08/2006
PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS REQUISITOS DA LEI Nº 10.101/2000. CELEBRAÇÃO DO ACORDO APÓS O INÍCIO DO PERÍODO DE APURAÇÃO.
As regras para percepção da PLR devem constituir-se incentivo à produtividade. Regras estabelecidas no decorrer do período de aferição não estimulam esforço adicional.
Numero da decisão: 9202-005.512
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas quanto à anterioridade da assinatura do acordo. No mérito, na parte conhecida, por voto de qualidade, acordam em dar-lhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem a fim de que seja discutida a apuração da base de cálculo, vencidos os conselheiros Patrícia da Silva, Ana Paula Fernandes, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que não conheceram do recurso e negaram-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/1999 a 31/08/2006 PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS REQUISITOS DA LEI Nº 10.101/2000. CELEBRAÇÃO DO ACORDO APÓS O INÍCIO DO PERÍODO DE APURAÇÃO. As regras para percepção da PLR devem constituir-se incentivo à produtividade. Regras estabelecidas no decorrer do período de aferição não estimulam esforço adicional.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas quanto à anterioridade da assinatura do acordo. No mérito, na parte conhecida, por voto de qualidade, acordam em dar-lhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem a fim de que seja discutida a apuração da base de cálculo, vencidos os conselheiros Patrícia da Silva, Ana Paula Fernandes, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que não conheceram do recurso e negaram-lhe provimento. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
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Recorrente PROCURADORIA DA FAZENDA NACIONAL Interessado ITAÚ SEGUROS S.A. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/1999 a 31/08/2006 PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS REQUISITOS DA LEI Nº 10.101/2000. CELEBRAÇÃO DO ACORDO APÓS O INÍCIO DO PERÍODO DE APURAÇÃO. As regras para percepção da PLR devem constituirse incentivo à produtividade. Regras estabelecidas no decorrer do período de aferição não estimulam esforço adicional. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas quanto à anterioridade da assinatura do acordo. No mérito, na parte conhecida, por voto de qualidade, acordam em darlhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem a fim de que seja discutida a apuração da base de cálculo, vencidos os conselheiros Patrícia da Silva, Ana Paula Fernandes, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que não conheceram do recurso e negaramlhe provimento. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 14 48 5. 00 32 62 /2 00 7- 10 Fl. 841DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). Relatório Trata o presente processo de Auto de Infração de Obrigação Principal AIOP DEBCAD nº 37.120.9986, às efls. 02 a 26, cientificado à contribuinte em 27/12/2007 (efl. 02), com relatório fiscal da infração às efls. 45 a 51. A autuação foi lavrada para exigir os créditos relativos a contribuições sociais destinadas ao custeio da Previdência Social, parcelas relativas à parte dos segurados empregados, da empresa, as destinadas ao financiamento dos benefícios em razão da incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho (GILRAT) e terceiros (INCRA e FNDE), relativas às remunerações dos seus empregados, rubrica participação nos lucros e resultados, sem atender a todos os requisitos exigidos pela legislação. O crédito lançado atingiu o montante de R$ 28.955.047,72, consolidado na data de 26/12/2007. O lançamento de obrigação principal foi impugnado, às efls. 146 a 161, em 24/01/2008. Já a 21ª Turma da DRJ/SPI, em 22/04/2008, no acórdão nº 1616.944, às efls. 184 a 202, por unanimidade, julgou o lançamento procedente, mantendo o crédito tributário exigido. Inconformada, em 04/12/2008, a contribuinte, interpôs recurso voluntário, às efls. 212 a 228. Esse recurso voluntário foi apreciado pela 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Segunda Seção de Julgamento em 15/10/2013, resultando no acórdão 240103.227, às efls. 469 a 479, que, por unanimidade de votos, anulou a decisão de primeira instância, por não ter esta apreciado questões da impugnação que levariam ao cerceamento de defesa da contribuinte. Em face da nulidade do acórdão nº 1616.944, a impugnação foi então apreciada pela 14ª Turma da DRJ/SPO, em 28/05/2014, tendo resultado no acórdão 1658.203, às efls. 511 a 554, que considerou a impugnação procedente em parte, mantendo parcialmente o crédito tributário lançado. O acórdão reconheceu a decadência de competências que iam até 08/2001 implicando retificação dos valores da NFLD para R$ 20.789.221,62. Também em relação ao acórdão nº 1616.944, em 24/07/2014, a contribuinte interpôs recurso voluntário, às efls. 560 a 587, que em apertada síntese traz os seguintes argumentos,extraídos do relatório do acórdão do recurso voluntário: 1. Preliminarmente, a decadência dos créditos tributários até o período de 11/2002, nos termos do art.. 150, § 4º do CTN. 2. A Convenção Coletiva em favor dos bancários fixa participação nos resultados e não nos lucros, sendo isso admitido pela Lei nº 10.101/2000, tal fixação foi feita por simplicidade; esse tratamento é adequado, mormente em face de acordo entre as partes que há de ser respeitado; ainda que se considere tal parcela fixa como um abono anual, sobre ela tampouco incidiria a contribuição previdenciária, tendo em vista o disposto no art. 28, §9°, "e", 7, da Lei n. 8212/91. Fl. 842DF CARF MF Processo nº 14485.003262/200710 Acórdão n.º 9202005.512 CSRFT2 Fl. 842 3 3. Atendidos as demais normas estabelecidas, não há impedimento legal à concomitância de mais de um plano de participação em lucros e resultados, principalmente sendo um em âmbito nacional, de uma determinada categoria e outro regional, dentro de determinada empresa. 4. A Lei nº 10.101/2000 tampouco prevê data limite para fins de ratificação por assinatura de acordo ou convenção; seu art. 2º, no § 1º, afirma que podem existir outros critérios a serem considerados, entre eles o pacto prévio do programa. 5. Diferentemente do que alega a fiscalização, há documentos que comprovam a participação dos empregados na elaboração de regras do programa de participação nos lucros,inclusive escritura pública de um funcionário da recorrente nesse sentido; constam também atas que demonstram a eleição de membros de comissão para elaboração de acordo. 6. O próprio CARF reconhece em acórdãos que a época do registro dos acordos pode ser flexibilizada, desde que as tratativas estejam em andamento e sejam conhecidas pelos empregados,não havendo limite ou sanção definidos em lei pelo inadimplemento, desde que atendidos os parâmetros substantivos do caput do art. 2º da Lei nº 10.100/2000; além disso, houve o arquivamento dos acordos de PLR de 2003 e 2006 com o SIndicato dos Securitários do Estado de São Paulo. 7. Uma vez mais, a existência de planos segregados e restritos a determinados empregados é admitida pela legislação, havendo isonomia formal na convenção coletiva, com regras objetivas quanto à diferenciação; além disso, a DRJ em sua decisão teria inovado, em relação ao relatório fiscal, ao tratar do pagamento de lucros e resultados a administradores, tratandoos como remuneração, o que levaria a vício insanável do acórdão. 8. Haveria erro na quantificação da base de cálculo pela soma de parcelas de antecipação da PLR ao total devido a esse título, erro esse não sanado por diligência que fora solicitada, e que agora importaria em nulidade por cerceamento do direito de defesa; caso não seja declarada a nulidade, pleiteia a realização de perícia para sanar o lançamento. 9. Seria inconstitucional a contribuição ao INCRA incluída na autuação, já tendo sido reconhecida no STF e agora exigida em sede de repercussão geral. Esse recurso voluntário foi apreciado pela 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Segunda Seção de Julgamento em 20/01/2015, resultando no acórdão 2402004.478, às e fls. 729 a 747, que tem a seguinte ementa: DECADÊNCIA. O Supremo Tribunal Federal, através da Súmula Vinculante n° 08, declarou inconstitucionais os artigos 45 e 46 da Lei n° 8.212, de 24/07/91. Tratandose de tributo sujeito ao lançamento por homologação, que é o caso das contribuições previdenciárias, Fl. 843DF CARF MF 4 devem ser observadas as regras do Código Tributário Nacional CTN. Assim, comprovado nos autos o pagamento parcial, aplicase o artigo 150, §4°; caso contrário, aplicase o disposto no artigo 173, I. Entendese como pagamento parcial o recolhimento da contribuição previdenciária sobre outras parcelas remuneratórias que compõem a folha de pagamento da empresa (Súmula CARF nº 99). PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. Uma vez que os segurados tinham prévio conhecimento das metas e demais requisitos durante parte do período de apuração para o benefício, a data de assinatura do acordo não é motivo para se afastar a imunidade de contribuição previdenciária sobre a participação nos lucros ou resultados da empresa. Recurso Voluntário Provido. O acórdão teve o seguinte teor: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. RE da Fazenda Nacional Cientificada do acórdão, em 03/02/2015 (efl. 748), a Procuradoria da Fazenda Nacional, em 16/03/2015, manejou recurso especial de divergência (efls. 749 a 765) ao citado acórdão. A Procuradora Indica duas matérias na divergência: a) Necessidade de que o acordo seja celebrado no ano anterior ao exercício: o paradigma entende que o acórdão deve ser sempre celebrado previamente ao exercício, para que haja atendimento à finalidade da lei de estimular a busca das metas e não criar uma remuneração indireta, enquanto o recorrido não vê mácula caso assim não se proceda; b) ausência de regras claras e objetivas pagamento de valor fixo: o recorrido não vê irregularidade no acordo, pois admite o pagamento de valor fixo a todos os empregados, sem a fixação de qualquer meta, como se observa no Acordo Coletivo de 2004; já o paradigma, não admite a ausência de fixação de metas para que seja possível o pagamento de valores fixos, por desvincular os pagamentos aos resultados e lucros da empresa, que é a finalidade da legislação. Foram indicados como paradigmas das divergências: o acórdão nº 2401 00.545 e nº 240102.251, para a matéria a), e nº 2803003.689 e nº 2301002.859, para matéria b). Por fim, a Procuradora requer o conhecimento e o provimento do recurso especial de divergência para reformar o acórdão, restabelecendose a integralidade do lançamento. Fl. 844DF CARF MF Processo nº 14485.003262/200710 Acórdão n.º 9202005.512 CSRFT2 Fl. 843 5 O RE da Fazenda foi apreciado pela Presidente da 4ª Câmara da Segunda Seção de Julgamento do CARF, nos termos dos arts. 67 e 68 Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria n° 343 de 09/06/2015, por meio do despacho às efls. 768 a 778, datado de 05/04/2016. Nesse despacho, entendeuse por ver reconhecida a divergência apenas em relação a necessidade de assinatura do acordo no ano anterior ao exercício e com relação a existência de pagamentos de valor fixo desnaturando a finalidade da legislação. Não conheceu de divergência relativamente à ausência de regras claras e objetivas, por inexistir similitude da situação fática e jurídica entre paradigmas e recorrido nesse ponto. Na mesma data, houve despacho do Presidente da Câmara Superior de Recursos Fiscais Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF, em reexame de admissibilidade do recurso especial, às efls. 779 e 780, que manteve na íntegra ao despacho da Presidente da 4ª Câmara. Contrarrazões da contribuinte Em 05/05/2016 (efl. 789), a contribuinte foi intimada (efl. 787) do acórdão de recurso voluntário nº 2402004.478, do recurso especial de divergência da Fazenda Nacional e dos despachos de exame e reexame da admissibilidade do recurso especial, apresentando contrarrazões, em 13/05/2016, às efls. 792 a 803. Em relação às duas matérias admitidas no recurso especial, contraargumenta em relativamente à admissibilidade e ao mérito. a) Necessidade de assinatura do acordo no ano anterior ao exercício a.1) Admissibilidade O acórdão paradigma nº 2401000.245 não trata de simples ausência de assinatura do acordo em período anterior ao exercício, mas de inexistência de acordo prévio ao exercício, omissão absoluta em estabelecer o direito substantivo e regras adjetivas em acordo, sendo a questão formal (assinatura) aspecto secundário, obter dictum na decisão. No acórdão paradigma 2401002.251, não se aceita os acordos por inexistir até mesmo menção a datas de formalização do plano de participação, não sendo o caso do acórdão a quo, para o qual há regras previamente definidas e conhecidas, reproduções de acordos passados, que seriam simplesmente formalizados. a.2) Mérito No tocante ao mérito, reafirma que a formalização com assinatura prévia não é exigência legal, a complexidade do processo das negociações e a falta de controle sobre ele tirariam a efetividade da lei se houvesse tal limitação e, além disso, a assinatura é anterior aos pagamentos das parcelas finais. Ao final da apuração do resultado, constatada a existência de lucro, pagavase a última parcela da PLR convencionada, com base no critério convencionado. b) Pagamento de valor fixo b.1) Admissibilidade Fl. 845DF CARF MF 6 O acórdão paradigma nº 2803003.689 afirma que valores fixos de lucros e resultados configuram verba salarial, sem que interprete a legislação, fundamente ou justifique minimamente a tese, para que se saiba a razão desse entendimento. Relativamente ao acórdão 2301002.859, o argumento é de que apesar de tratar de pagamentos de valores fixos, esses seriam possíveis se houvesse metas claramente definidas a serem atingidas. Já no recorrido também se admitiria a existência de pagamentos fixos, como elemento do programa, na forma de antecipação, sujeito a ajuste após avaliação final, com existência de regra adjetiva claramente fixada. Ambos teriam o mesmo sentido, admitir o pagamento fixo em face de regras adjetivas que estipulem metas; ausente a divergência. b.2) Mérito Não haveria impedimento legal a pagamento de parcela fixa. Além disso, quando a lei admite os planos de participação por meio de convenções coletivas, permitiria também regras adjetivas mais gerais, flexíveis, com universalidade suficiente para atender todas as empresas do ramo. Se assim não for, com exigências de maior detalhamento se estará inviabilizando a convenção coletiva como meio adequado para atendimento aos programas de participação em lucros e resultados. Ao final, expõe a necessidade de, em caso de reforma do acórdão recorrido, que lhe seja dado o ensejo interpor recurso, tendo em vista que entende existente duplicidade no lançamento, que geraria nulidade do decisão de primeira instância, não acatada no acórdão a quo, e como o resultado do acórdão recorrido lhe fora favorável, não havia porque manifestar se em recurso naquela oportunidade. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos Relator Pelo que consta no processo, o recurso é tempestivo. De pronto há que se desconsiderar a solicitação do sujeito passivo de que, em caso de reforma do acórdão recorrido, fosse aberto novo prazo para interpor novo recurso acerca de eventual duplicidade no lançamento, que no entendimento do recorrido geraria nulidade do decisão de primeira instância, não acatada no acórdão a quo. Em que pese o resultado do acórdão recorrido terlhe sido favorável, caso fosse do interesse da parte que esta Câmara Superior conhecesse da matéria, deveria ter trazido comprovação de divergência, o que não ocorreu no caso. Admissibilidade No que tange a admissibilidade questionada em contrarrazões, vejamos, em separado cada uma das matérias. a) Necessidade de que o acordo seja celebrado no ano anterior ao exercício Quanto à primeira divergência, que era, na verdade, a necessidade de que o acordo seja celebrado no ano anterior ao exercício e não apenas a falta de assinatura nos acordos, como entendeu a contribuinte. Fl. 846DF CARF MF Processo nº 14485.003262/200710 Acórdão n.º 9202005.512 CSRFT2 Fl. 844 7 Me parece evidente que a celebração do acordo em ano anterior depende não apenas da existência de tais assinaturas, mas do conhecimento e tratativa prévios que devem ocorrer. Todavia, sem as assinaturas, não há acordo celebrado e, assim, a divergência resta suficientemente comprovada. Portanto, conheço do recurso especial da Fazenda Nacional quanto a esta matéria. b) Pagamento de valor fixo Com relação à desnaturação da natureza da verba, por determinação do pagamento de um valor fixo, previsto na convenção coletiva, há questão de conhecimento a ser discutida. No acórdão paradigma n° 2301002.859, o pagamento do valor fixo era independente de haver, ou não, lucro, conforme se extrai da leitura de seu relatório: No caso dos autos, os valores autuados referemse à parcela fixa, prevista no valor de R$ 950,00 paga a todos os empregados da empresa, tendo como único critério estar o empregado em efetivo exercício em 31/12/2003. Ora, esse valor fixo foi previsto independentemente do alcance de qualquer meta individual ou coletiva. Ainda que seja possível a previsão de pagamento de PLR sem que haja lucro, com vinculação apenas em resultados determinados, deveriam estes ter sido dispostos no PLR como critério para pagamento do valor fixo de R$ 950,00, o que não ocorreu no caso. Não existe vinculação com qualquer meta, lucro ou resultado, o que impede o reconhecimento de que aquela verba teria feição de participação nos lucros e resultados da empresa. (grifos na transcrição) De forma semelhante, no acórdão paradigma n° 2803003.689, o pagamento do valor fixo também era independente de haver, ou não, lucro, conforme se extrai da leitura do excerto abaixo: No tangente aos critérios serem claros ou não há várias nuancias [SIC]. Efetivamente, a pactuação de valores fixos de pagamento aos funcionários, desnatura a finalidade da legislação, que vincula tais pagamentos aos resultados e lucros da empresa. A determinação de valores fixos, desnatura a forma definida em lei, que determina no art. 2º, da Lei n. 10.101/2001 e art. 28, §9º, j, da Lei n. 8.212/1991, que são claros a vinculação dos valores aos lucros ou ao resultado. Assim, tais valores fixos efetivamente são remuneração (contraprestação) pelos serviços, na forma do art. 28, I, da Lei n. 8.212/1991, constituindo hipótese de incidência das contribuições previdenciárias em questão. Fl. 847DF CARF MF 8 Contudo, no acórdão recorrido, o pagamento estava determinado por um valor padrão, fixado em 40% do saláriobase, adicionado à quantia de R$ 304,00, porém limitado a dez por cento do lucro da pessoa jurídica. Vejamos o excerto da convenção coletiva, que estava reproduzido na decisão recorrida: CONVENÇÃO COLETIVA DE TRABALHO ESPECÍFICA SOBRE PARTICIPAÇÃO DOS EMPREGADOS NOS LUCROS OU RESULTADOS DAS EMPRESAS DE SEGUROS PRIVADOS E DE CAPITALIZAÇÃO EM 2004. ... Independentemente da apuração do balanço do exercício encerrado em 31/12/2004, todos os empregadores pagarão aos empregados, em efetivo, exercício em 31/12/2004, de uma única vez, até a data do pagamento da remuneração de janeiro de 2005, a importância de R$ 750,00 (setecentos e cinqüenta reais). ... Cláusula terceira As Empresas que em seus balanços de 31/12/2004 apresentem lucros líquidos ou resultados, e que tenham disponibilidade financeira, efetuarão até 31/07/2005, o pagamento, de uma única vez, de uma segunda parcela equivalente a 40% (quarenta por cento) do saláriobase resultante da Convenção Coletiva de Trabalho de 2005, acrescido do valor fixo de R$ 304,00 (trezentos e quatro reais) aos empregados admitidos até 31/12/03 e em efetivo exercício em 31/12/2004, valor total esse limitado ao máximo de R$ 3.689,00 (três mil, seiscentos e oitenta e nove reais). Parágrafo 1° O total do pagamento previsto no "caput" fica limitado a 10% (dez por cento) do lucro líquido do exercício de 2004. Desse total serão deduzidos os R$ 750,00 (setecentos e cinqüenta reais) concedidos a titulo de antecipação em janeiro de 2005. Parágrafo 2° As Empresas que apresentarem prejuízo demonstrado no seu balanço anual encerrado em 31/12/2004 estão isentas do pagamento da PLR prevista neste "caput". (Grifos na transcrição) No entender deste conselheiro, há diferença fática essencial entre o recorrido e os paradigmas: enquanto, no recorrido, temos um valor máximo definido, que pode ser reduzido a zero, mas nunca ultrapassar 10% do lucro da pessoa jurídica, nem a quantia correspondente a 40% do saláriobase acrescida de R$ 304,00; nos paradigmas, temos um valor fixo determinado que não está limitado ou vinculado a qualquer parâmetro, tampouco ao lucro da pessoa jurídica. Por esses motivos, voto por não conhecer do recurso, quanto a esta matéria. Fl. 848DF CARF MF Processo nº 14485.003262/200710 Acórdão n.º 9202005.512 CSRFT2 Fl. 845 9 Pelas razões expostas conheço em parte do recurso especial de divergência da Fazenda com relação apenas à primeira matéria admitida pelo Presidente da Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF, qual seja, a data da celebração do acordo, em face do período de apuração dos resultados. Mérito a) Necessidade de que o acordo seja celebrado no ano anterior ao exercício De acordo com o previsto no art. 28 da Lei n ° 8.212/1991, para o segurado empregado entendese por saláriodecontribuição a totalidade dos rendimentos pagos, a qualquer título, conforme a seguir reproduzido: Art.28. Entendese por saláriodecontribuição: I para o empregado e trabalhador avulso: a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa; (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 10/12/97). (Grifei.). A legislação previdenciária é clara quando destaca, em seu art. 28, §9º, quais as verbas que não integram o salário de contribuição. Tais parcelas, relacionadas em numerus clausus, não sofrem incidência de contribuições previdenciárias, seja por sua natureza indenizatória ou assistencial. Reparase que, nos termos a seguir colocados, a participação nos lucros ou resultados somente não integra o saláriodecontribuição, quando paga ou creditada de acordo com lei específica: Art. 28 (...) § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 10/12/97) j) a participação nos lucros ou resultados da empresa, quando paga ou creditada de acordo com lei específica; (Grifei.) Pois bem, a referida lei específica é a Lei n° 10.101, de 2000, e o procedimento descrito em seu art. 2º, abaixo reproduzido, estabelece que: (a) os instrumentos decorrentes da negociação devem conter regras claras e (b) serem pactuados previamente. Art. 2º A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: Fl. 849DF CARF MF 10 I comissão escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria; I comissão paritária escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria;(Redação dada pela Lei nº 12.832, de 2013) (Produção de efeito) II convenção ou acordo coletivo. §1º Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo, podendo ser considerados, entre outros, os seguintes critérios e condições: I índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa; II programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente. (Grifei.) Em vista da legislação acima, com relação à formalização do PLR, considero que a assinatura do acordo em data posterior à do período de apuração dos lucros ou resultados a serem distribuídos, já é suficiente para darlhe natureza tributável. Isso porque retira da verba paga uma de suas características essenciais: a recompensa pelo esforço conjunto entre o capital e o trabalho, para alcance de metas; o que traria competitividade à empresa e, em última análise, ao país. Entendo que o acordo necessita ser assinado antes de iniciado o período a que se refere, porquanto a PLR tem por finalidade incentivar o trabalhador a incrementar sua produtividade, situandoa acima do que lhe é usual ou ordinário. Sem que o acordo se dê antes de iniciado o período, não haveria como o trabalhador saber, com precisão, em quanto deveria aumentar o seu esforço para alcançar metas e qual o possível efeito financeiro que isto lhe acarretaria. A fim de que o trabalhador não fique ao talante do empregador, e, ao mesmo tempo, que o empregador tenha assegurado o necessário incremento de produtividade para justificar o compartilhamento do seu lucro, o acordo deve ser celebrado antes da vigência do período em que vigorará, de modo a que as partes iniciem esse tempo conhecedores de todas as regras a cumprirem. Essa interpretação, além de estar em consonância com a teleologia da Participação nos Lucros ou Resultados, é totalmente adstrita às normas de hermenêutica em Direito Tributário. Ora, para que se afaste a tributação de pagamentos havidos em face da existência de prestação de serviços, mormente da relação decorrente de contrato de trabalho e seus acessórios, a interpretação das normas tributárias há que ser literal, ou seja, restritiva. Isso decorre da orientação que se tira do art. 111 do Código Tributário Nacional CTN. Assim, não vejo como afastar a exigência de que o pacto prévio deva ser comprovado de forma inequívoca e não é o que se descortina no presente processo. Fl. 850DF CARF MF Processo nº 14485.003262/200710 Acórdão n.º 9202005.512 CSRFT2 Fl. 846 11 No caso concreto, a formalização ocorreu em pactos firmados até meses após o início da vigência dos acordos, conforme destacado no relatório fiscal (efls. 47 e 48): 10. Em relação aos programas próprios, embora definam metas a serem cumpridas, estas metas também não foram pactuadas previamente entre empresa e empregados. Tratase apenas òe formalização de decisões tomadas pela empresa relativas ao pagamento de gratificações aos empregados, como se conclui a partir dos seguintes fatos: a) Os acordos não são pactuados previamente, pois a assinatura e o conhecimento das regras por parte dos empregados ocorrem no decorrer do ano, muitas vezes meses após o início de vigência dos mesmos. Por exemplo: o programa de 1998 só foi conhecido dos empregados em julho/1998, conforme folhas de assinaturas; o programa de 1999 foi assinado em 13/09/1999; para 2003, a empresa apresentou cinco programas, assinados em 10/04/03, 29/08/03, 31/10/03 e dois em 06/11/03. Desta forma, como seria possível o comprometimento dos funcionários com metas que só vão conhecer praticamente no final do ano? b) Em razão de serem retroativos, os programas criam um paradoxo: estabelecem metas referentes a períodos cujos resultados já aconteceram, e não podem ser modificados, por mais que se esforcem os empregados. Exemplificando: em email de 25/06/04, o Gerente de Emissão e Aceitação informa os indicadores e os resultados até maio 2004, para a elaboração das metas relativas ao período de janeiro a dezembro/2004, formalizadas nos programas assinados em julho e agosto daquele ano. c) A empresa não apresentou atas de reuniões de negociação e acompanhamento, nem tampouco comprovou a eleição dos membros da comissão de empregados que assinaram o acordo. No entanto, encontramos evidências de que não é feita nenhuma negociação entre empresa e empregados, mas a simples apresentação e formalização do programa previamente preparado pela empresa, como segue; · Em email de 28/06/04, o Gerente acima citado apresenta os nomes dos funcionários para compor a comissão que assinará o programa de 2004, solicitando a validação dos mesmos. Sendo indicados pela gerência e aprovados por seu superior, estes funcionários deveriam compor a comissão de representantes da empresa e não a dos empregados, que, afinal, ficam sem representação efetiva neste suposto acordo. · Em email de 12/07/04, a Gerente de Desenvolvimento Organizacional solicita a formalização de mudanças de metas para apresentação e assinatura do Regulamento da PPR de 2004 e em 19/07/04, o Gerente de Emissão e Aceitação informa: "Amanhã estaremos apresentando os indicadores do PPR 2004 para comissão interna que assinaram o acordo". Portanto, fica claro que o Fl. 851DF CARF MF 12 programa é apenas apresentado pronto para uma comissão indicada pela própria empresa para formalizar o programa. d) A empresa também não comprovou o arquivamento dos programas no sindicato na época própria. Embora contenham assinatura do diretor sindical, há evidências de que o programa sofre alterações sem a participação dos empregados e sem o conhecimento do sindicato, como verificamos neste email de 04/08/04, da Gerência de Call Center: "Conforme nossos entendimentos, seguem abaixo os indicadores com METAS ANUAIS dos Áreas Atendimento a Clientes e Televendas, a serem confirmadas junto ao Sindicato. Internamente, estaremos alinhando nosso discurso para reunião com os representantes das áreas." Esta comunicação resulta de outra anterior, de 07/07/04, em que a Gerente solicita alteração das metas, mesmo sem anuência do sindicato, que ""ao autoriza o estabelecimento de meta semestral", porque os resultados do primeiro semestre não tinham sido satisfatórios. A Gerente solicita uma avaliação do jurídico e informa que "temos o precedente de em 2003 termos assumido avaliação de resultados semestral". (Negritos e sublinha do original) Por fim, não há que se falar em conhecimento prévio do pacto como um atenuante na norma legalmente posta, visto que, na norma, não há previsão dessa possibilidade. Por essas razões, discordo da decisão do acórdão recorrido e considero acertado o lançamento das contribuições sobre os valores a título de PLR que não se cingiram às disposições legais. Por fim, em que pese não caber nova discussão do colegiado a quo quanto à eventual nulidade, como ele ainda não se manifestou quanto à apuração da base de cálculo em face de alegada duplicidade do valor considerado no lançamento, entendo ser necessário que os autos retornem para discussão quanto à apuração da base de cálculo. Conclusão Pelo exposto, voto no sentido de conhecer em parte do recurso especial de divergência da Procuradora da Fazenda Nacional, apenas no que tange à necessidade de que o acordo seja celebrado anteriormente ao período de aferição dos resultados, para darlhe provimento na parte conhecida, com retorno ao colegiado a quo, para apreciação das alegações quanto à apuração da base de cálculo. (Assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 852DF CARF MF Processo nº 14485.003262/200710 Acórdão n.º 9202005.512 CSRFT2 Fl. 847 13 Fl. 853DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13558.901127/2009-30
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 30 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue May 30 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 29/12/2005
MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. PRECLUSÃO.
Considera-se preclusa a matéria não impugnada e não discutida na primeira instância administrativa.
DCTF. CONFISSÃO DE DÍVIDA. RETIFICAÇÃO.
A DCTF é instrumento formal de confissão de dívida, e sua retificação, posteriormente a procedimento fiscal, exige comprovação material.
VERDADE MATERIAL. ÔNUS DA PROVA. DILIGÊNCIA.
As alegações de verdade material devem ser acompanhadas dos respectivos elementos de prova. O ônus de prova é de quem alega. A busca da verdade material não se presta a suprir a inércia do contribuinte que tenha deixado de apresentar, no momento processual apropriado, as provas necessárias à comprovação do crédito alegado.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3201-002.656
Decisão: ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator.
Participaram do presente julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, José Luiz Feistauer de Oliveira, Marcelo Giovani Vieira, Mércia Helena Trajano D'Amorim, Cássio Schappo, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Tatiana Josefovicz Belisário.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 29/12/2005 MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. PRECLUSÃO. Considera-se preclusa a matéria não impugnada e não discutida na primeira instância administrativa. DCTF. CONFISSÃO DE DÍVIDA. RETIFICAÇÃO. A DCTF é instrumento formal de confissão de dívida, e sua retificação, posteriormente a procedimento fiscal, exige comprovação material. VERDADE MATERIAL. ÔNUS DA PROVA. DILIGÊNCIA. As alegações de verdade material devem ser acompanhadas dos respectivos elementos de prova. O ônus de prova é de quem alega. A busca da verdade material não se presta a suprir a inércia do contribuinte que tenha deixado de apresentar, no momento processual apropriado, as provas necessárias à comprovação do crédito alegado. Recurso Voluntário Negado
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decisao_txt : ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator. Participaram do presente julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, José Luiz Feistauer de Oliveira, Marcelo Giovani Vieira, Mércia Helena Trajano D'Amorim, Cássio Schappo, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Tatiana Josefovicz Belisário.
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PRECLUSÃO. Considerase preclusa a matéria não impugnada e não discutida na primeira instância administrativa. DCTF. CONFISSÃO DE DÍVIDA. RETIFICAÇÃO. A DCTF é instrumento formal de confissão de dívida, e sua retificação, posteriormente a procedimento fiscal, exige comprovação material. VERDADE MATERIAL. ÔNUS DA PROVA. DILIGÊNCIA. As alegações de verdade material devem ser acompanhadas dos respectivos elementos de prova. O ônus de prova é de quem alega. A busca da verdade material não se presta a suprir a inércia do contribuinte que tenha deixado de apresentar, no momento processual apropriado, as provas necessárias à comprovação do crédito alegado. Recurso Voluntário Negado ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente e Relator. Participaram do presente julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira, José Luiz Feistauer de Oliveira, Marcelo Giovani Vieira, Mércia Helena Trajano D'Amorim, Cássio Schappo, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Tatiana Josefovicz Belisário. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 55 8. 90 11 27 /2 00 9- 30 Fl. 54DF CARF MF Processo nº 13558.901127/200930 Acórdão n.º 3201002.656 S3C2T1 Fl. 3 2 Relatório PORTO SEGURO VEICULOS LTDA transmitiu PER/DCOMP alegando indébito da contribuição social (PIS ou Cofins). A repartição de origem emitiu Despacho Decisório Eletrônico não homologando a compensação, em virtude de o pagamento informado ter sido integralmente utilizado para quitação de débitos declarados pelo contribuinte, não restando crédito disponível para a compensação declarada. Em Manifestação de Inconformidade, a contribuinte alegou, em síntese, que parte do pagamento declarado era indevido. A Manifestação de Inconformidade foi julgada improcedente, nos termos do Acórdão 1522.463. A DRJ fundamentou sua decisão no fato de que o recolhimento alegado como origem do crédito encontravase integralmente alocado para a quitação de débito confessado, não se tendo por caracterizado o alegado pagamento indevido ou a maior, dada a inexistência de comprovação de erro no preenchimento da DCTF. Em seu recurso voluntário a Recorrente alega, em resumo, que a legislação não se encontra autorizada a alterar conceitos adotados na Constituição Federal, não sendo possível, por conseguinte, a ampliação da base de cálculo das contribuições sociais (PIS e Cofins), uma vez que, no período de apuração sob comento, a base de cálculo se restringia ao faturamento, ou seja, ao resultado das vendas de mercadorias e da prestação de serviços, dada a inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo das contribuições promovido pela Lei 9.718/1998. É o relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3201002.640, de 30/03/2017, proferido no julgamento do processo 13558.901073/200911, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201002.640): O Recurso Voluntário é tempestivo, e não verificando outros óbices, tomo conhecimento dele. A recorrente alega que a parcela do Darf que considera indevida seria referente à ampliação da base de cálculo da Cofins, promovida pela Lei 9.718/98. Fl. 55DF CARF MF Processo nº 13558.901127/200930 Acórdão n.º 3201002.656 S3C2T1 Fl. 4 3 Dois obstáculos impedem o provimento solicitado. O primeiro é que toda a argumentação quanto à base de cálculo da Cofins não foi feita na Manifestação de Inconformidade, e por isso, tal matéria encontrase atingida por preclusão, conforme art. 17 do PAF – Decreto 70.235/721, combinado com art. 74, §§ 9º, 10 e 11 da Lei 9.430/962. O segundo obstáculo é que o crédito pretendido não foi demonstrado e provado. Com efeito, o débito de Cofins, no valor integral do Darf, foi confessado em DCTF. A DCTF é o instrumento formal para confissão de débito, no lançamento por homologação (Decretolei 2.124/84), de modo que o crédito tributário representado pelo valor integral do Darf foi formalmente constituído. Estando o crédito tributário formalmente constituído, para que se pudesse retificálo seria necessária prova de sua inexatidão. Seria preciso demonstrar, documentalmente, a composição da Base de Cálculo e as deduções permitidas em lei, com os livros oficiais, tais como Diário, Razão, ou qualquer escrituração ou documento legal que se revista do caráter de prova. Ora, o ônus da prova cabe ao interessado (art. 36 da Lei 9.784/993, art. 373,I do CPC4). Sem tais elementos, se mostra impossível desconstituir o que formalmente foi constituído. Também considero inaplicável o pedido de diligência. Com efeito, a recorrente já teve duas oportunidades para demonstrar seu direito material: 1 – após a ciência do Despacho Decisório, e 2 – após a ciência do Acórdão de manifestação de inconformidade. Permitir agora uma terceira oportunidade malfere o art. 16, § 4º do PAF Decreto 70.235/72: §4º – A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; 1 Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. 2 § 9o É facultado ao sujeito passivo, no prazo referido no § 7º, apresentar manifestação de inconformidade contra a nãohomologação da compensação. (Redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003) § 10. Da decisão que julgar improcedente a manifestação de inconformidade caberá recurso ao Conselho de Contribuintes. (Redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003) § 11. A manifestação de inconformidade e o recurso de que tratam os §§ 9º e 10 obedecerão ao rito processual do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e enquadramse no disposto no inciso III do art. 151 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional, relativamente ao débito objeto da compensação. 3 Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei. 4 Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; Fl. 56DF CARF MF Processo nº 13558.901127/200930 Acórdão n.º 3201002.656 S3C2T1 Fl. 5 4 c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Não se verificando nenhuma dessas exceções, não pode agora o processo ser submetido a nova fase probatória, nas quais se mostrariam necessárias verificações fiscais, batimentos, etc, que não tiveram lugar no tempo próprio. Desse modo, e ainda por homenagem aos princípios da preclusão probatória, do ônus probatório, da impulsão oficial do processo e da celeridade, não vislumbro espaço para determinação de diligência. Assim, o crédito solicitado não pode ser deferido, em vista dos dois fundamentos expostos, cada um per se suficiente para o desprovimento. Pelo exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, negase provimento ao recurso voluntário, para não reconhecer o direito creditório em litígio e manter a não homologação das compensações. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 57DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.684723/2009-90
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon May 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jun 19 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Data do fato gerador: 31/01/2007
ESTIMATIVAS. COMPENSAÇÃO. ADMISSIBILIDADE.
Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Súmula CARF nº 84.
RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. ANALISE INTERROMPIDA EM ASPECTOS PRELIMINARES.
Inexiste reconhecimento implícito de direito creditório quando a apreciação da restituição/compensação pelos colegiados anteriores restringiram-se a aspectos preliminares, como a impossibilidade do pedido. A homologação da compensação ou deferimento do pedido de restituição, uma vez superada esta preliminar, depende da análise da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pela autoridade administrativa que jurisdiciona o contribuinte.
Numero da decisão: 1301-002.414
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso para afastar a preliminar com base na súmula CARF nº 84 e devolver os autos à unidade de origem para que prossiga na análise da liquidez, certeza e suficiência do direito creditório alegado.
(assinado digitalmente)
Waldir Veiga Rocha Presidente
(assinado digitalmente)
José Eduardo Dornelas Souza - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Junior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Waldir Veiga Rocha.
Nome do relator: JOSE EDUARDO DORNELAS SOUZA
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ementa_s : Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Data do fato gerador: 31/01/2007 ESTIMATIVAS. COMPENSAÇÃO. ADMISSIBILIDADE. Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Súmula CARF nº 84. RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. ANALISE INTERROMPIDA EM ASPECTOS PRELIMINARES. Inexiste reconhecimento implícito de direito creditório quando a apreciação da restituição/compensação pelos colegiados anteriores restringiram-se a aspectos preliminares, como a impossibilidade do pedido. A homologação da compensação ou deferimento do pedido de restituição, uma vez superada esta preliminar, depende da análise da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pela autoridade administrativa que jurisdiciona o contribuinte.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso para afastar a preliminar com base na súmula CARF nº 84 e devolver os autos à unidade de origem para que prossiga na análise da liquidez, certeza e suficiência do direito creditório alegado. (assinado digitalmente) Waldir Veiga Rocha Presidente (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Junior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Waldir Veiga Rocha.
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COMPENSAÇÃO. ADMISSIBILIDADE. Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Súmula CARF nº 84. RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. ANALISE INTERROMPIDA EM ASPECTOS PRELIMINARES. Inexiste reconhecimento implícito de direito creditório quando a apreciação da restituição/compensação pelos colegiados anteriores restringiramse a aspectos preliminares, como a impossibilidade do pedido. A homologação da compensação ou deferimento do pedido de restituição, uma vez superada esta preliminar, depende da análise da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pela autoridade administrativa que jurisdiciona o contribuinte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso para afastar a preliminar com base na súmula CARF nº 84 e devolver os autos à unidade de origem para que prossiga na análise da liquidez, certeza e suficiência do direito creditório alegado. (assinado digitalmente) Waldir Veiga Rocha Presidente (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 68 47 23 /2 00 9- 90 Fl. 130DF CARF MF Processo nº 10880.684723/200990 Acórdão n.º 1301002.414 S1C3T1 Fl. 131 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros Flávio Franco Corrêa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Junior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Waldir Veiga Rocha. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte acima identificado contra o acórdão 1628.146, da 5ª Turma da DRJ/SP1, de 01 de dezembro de 2010, que, naquela oportunidade, apreciou a manifestação de inconformidade apresentada pelo contribuinte, entendendo, por unanimidade de votos, julgáa improcedente. Colhese dos autos que através do Despacho Decisório de fls., não foi homologada a Declaração de Compensação (Dcomp) transmitida pela interessada em 08/05/2007, que indicava como crédito o pagamento indevido/a maior de CSLL no montante de R$ 1.129.384,72, sob o fundamento de que se tratava de pagamento a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, cujo recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do IRPJ ou da CSLL devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período, nos termos do artigo 10 da IN SRF 600/2005. Na fundamentação do referido despacho, consta que: Analisadas as informações prestadas no documento acima identificado, foi constatada a Improcedência do crédito Informado no PER/DCOMP por tratarse de pagamento a titulo de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Liquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. Ciente desta decisão, e com ela não concordando, a recorrente encaminhou manifestação de inconformidade, na qual argúi, em síntese, o seguinte: A contribuinte, pessoa jurídica tributada pelo lucro real, procedeu ao levantamento do balanço de redução na competência de dezembro de 2006, levada à transcrição em seu livro Diário. Em 31/12/2007, a contribuinte pagou o valor de R$ 1.129.384,72 como sendo o valor devido do referido período de apuração. Ocorre que tal pagamento foi indevido, já que da apuração realizada a contribuinte era detentora de saldo negativo de R$ 4.500.306,93, conforme consta da Ficha 17 da DIPJ do período. Assim, conforme documentação anexa, materializada nas obrigações acessórias (DCTF e DIPJ) e na própria escrituração contábil da contribuinte, podese constatar que o pagamento efetivamente promovido pela contribuinte, materializado em DARF no valor de R$ 1.129.384,72, foi indevido. Entretanto, a autoridade fiscal equivocadamente equiparou a situação como sendo de saldo negativo de tributo, ou, em outras palavras, que a contribuinte estaria tentando compensar excesso de recolhimento em meses antecedentes, apurado por Fl. 131DF CARF MF Processo nº 10880.684723/200990 Acórdão n.º 1301002.414 S1C3T1 Fl. 132 3 meio de balanços de suspensão, durante o próprio anocalendário, o que não é verdade. Jamais se pretendeu, e não se fez, a compensação de eventuais excessos de recolhimentos apurados por meio de balancetes de suspensão. Fora compensado o excesso de recolhimento por vicio flagrante no preenchimento e recolhimento do DARF naquele período. Assim, não prospera o único motivo apontado pela autoridade fiscal que inibiria o direito da contribuinte aproveitar pagamento indevido, vez que não compensou saldo negativo, mas, sim, mero pagamento indevido, sendo indiscutível o seu direito ao indébito, vez que se amolda perfeitamente ao que prescreve o artigo 74 da Lei n° 9.430/96 c/c o artigo 2° da IN SRF n° 210/2002, e é situação diversa de aproveitamento de saldo negativo de tributo. Ao analisar a manifestação apresentada, a 5ª Turma da DRJ/SP1, na sessão realizada em 01 de dezembro de 2010 e, mediante o Acórdão nº 1628.146, indeferiu a solicitação, conforme ementa a seguir transcrita: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE 0 LUCRO LIQUIDO CSLL Data do fato gerador: 31/01/2007 ESTIMATIVA MENSAL. PAGAMENTO INDEVIDO. UTILIZAÇÃO. A pessoa jurídica tributada pelo lucro real que efetuar pagamento indevido ou a maior a titulo de estimativa mensal somente poderá utilizar o valor pago na dedução do tributo devido ao final do período de apuração. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Ciente do acórdão recorrido, e com ele inconformado, a recorrente apresentou, tempestivamente, recurso voluntário, através de patrono legitimamente constituído, pugnando por provimento, onde apresenta argumentos que serão a seguir analisados. É o Relatório. Voto Conselheiro José Eduardo Dornelas Souza, Relator O recurso é tempestivo e atende aos pressupostos regimentais, portanto, dele conheço. Trata o presente processo de declaração de compensação, em que o crédito apontado para o referido encontro de contas está representado por suposto PAGAMENTO A MAIOR OU INDEVIDO de CSLL. O indeferimento do pleito está consubstanciado no entendimento de que, tratandose de antecipação obrigatória (ESTIMATIVA), o eventual pagamento a maior ou Fl. 132DF CARF MF Processo nº 10880.684723/200990 Acórdão n.º 1301002.414 S1C3T1 Fl. 133 4 indevido só pode ser aproveitado na determinação do resultado correspondente ao final do período de apuração. Em virtude do entendimento nas instâncias precedentes de que o aproveitamento de antecipações obrigatórias só pode ser feito na apuração final do resultado fiscal, hoje superado em face do que prevê a Súmula CARF nº 84, observo que nenhum juízo foi feito acerca do pagamento efetuado pela Recorrente apresentar, efetivamente e à época em que foi realizado, PAGAMENTO A MAIOR ou INDEVIDO. Nos termos do preconizado pelo art. 2º da Lei nº 9.430, de 1996, a pessoa jurídica sujeita a tributação com base no lucro real tem a opção de promover o pagamento do imposto mensalmente, de forma estimada, com base na RECEITA BRUTA. O art. 35 da Lei nº 8.891, de 1995, recepcionado pela Lei nº 9.430/96, admite que o recolhimento com base na receita bruta possa ser suspenso ou reduzido, desde que o contribuinte demonstre, por meio de balanços ou balancetes mensais, que o valor acumulado já pago excede o calculado com base no lucro real do período em curso. Resta evidente, assim, que, para que o pagamento seja caracterizado como tendo sido feito a maior ou indevidamente, é necessário, primeiro, definir qual a forma adotada pelo contribuinte para calcular o recolhimento mensal, se com base na RECEITA BRUTA ou com suporte em BALANÇOS OU BALANCETES DE SUSPENSÃO OU REDUÇÃO, e, depois, confrontálo com o que foi apurado à época em que a ESTIMATIVA era devida. Obviamente, se o contribuinte recolhe a ESTIMATIVA com base na RECEITA BRUTA e, em momento posterior, levanta um BALANÇO DE SUSPENSÃO E REDUÇÃO que aponta para PREJUÍZO FISCAL no período acumulado, descabe falar em pagamento a maior ou indevido, eis que o recolhimento foi efetuado com base na legislação de regência, vez que o contribuinte simplesmente deixou de exercer a opção prevista pelo art. 35 da Lei nº 8.981/95 (elaboração de BALANÇO DE SUSPENSÃO/REDUÇÃO). No caso vertente, o único fundamento das decisões que não homologaram as compensações declaradas nos autos foi a impossibilidade jurídica do pleito. Mas, em face do que prevê a Súmula CARF nº 84, verificase possível o aproveitamento de indébitos e estimativas em pedidos de restituição ou declarações de compensação. Assim, como a autoridade administrativa centrou sua decisão, exclusivamente, na impossibilidade do pedido, e assim não analisou a efetiva existência de crédito, superada esta questão, necessário se faz a apreciação do mérito pela autoridade administrativa competente, quanto aos demais requisitos para homologação da compensação. Embora em situações anteriores estava convencido de que a conversão em diligência seria a decisão mais acertada para fins de resolver esta lide, nas ricas e sempre oportunas discussões do Colegiado, alterei minha decisão para, se for o caso, reconhecer parte do pedido, evitandose como isso, eventuais alegações de supressão de instâncias. Ante o exposto, voto no sentido de DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso voluntário do contribuinte, para, aplicando a Súmula CARF nº 84, reconhecer a possibilidade de formação de indébitos em recolhimentos por estimativa, mas sem homologar a compensação por ausência de análise do mérito pela unidade de origem, com o conseqüente retorno dos autos à jurisdição da contribuinte, para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pretendido em compensação. Fl. 133DF CARF MF Processo nº 10880.684723/200990 Acórdão n.º 1301002.414 S1C3T1 Fl. 134 5 (assinado digitalmente) José Eduardo Dornelas Souza Fl. 134DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.720042/2011-14
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Apr 05 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jun 19 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Exercício: 2007, 2008, 2009, 2010, 2011
AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO INTERNO. GLOSA.
Deve ser mantida a glosa da despesa de amortização de ágio que foi gerado internamente ao grupo econômico, sem qualquer dispêndio, e para o qual não houve demonstração do fundamento econômico.
ENCERRAMENTO DE ATIVIDADES. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS. LIMITE DOS 30% DO LUCRO REAL.
Inexiste previsão legal para se proceder à compensação de prejuízos (trava), além do percentual de 30% do lucro real, ainda que a pessoa jurídica esteja no encerramento das suas atividades.
MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE.
A alteração legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44, da Lei nº 9.430, de 1996, deixa clara a possibilidade de aplicação de duas penalidades em caso de lançamento de ofício frente a sujeito passivo optante pela apuração anual do lucro tributável. A redação alterada é direta e impositiva ao firmar que "serão aplicadas as seguintes multas". A lei ainda estabelece a exigência isolada da multa sobre o valor do pagamento mensal ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa no ano-calendário correspondente, não havendo falar em impossibilidade de imposição da multa após o encerramento do ano-calendário.
No caso em apreço, não tem aplicação a Súmula CARF nº 105, eis que a penalidade isolada foi exigida após alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Exercício: 2007, 2008, 2009, 2010, 2011
LANÇAMENTOS REFLEXOS OU DECORRENTES.
Pela íntima relação de causa e efeito, aplica-se o decidido ao lançamento principal ou matriz de IRPJ também ao lançamento reflexo ou decorrente de CSLL.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Exercício: 2007, 2008, 2009, 2010, 2011
MULTA QUALIFICADA. ÁGIO INTERNO. OCORRÊNCIA DE FRAUDE.
A consecução de atos que culminaram com a supressão ilícita de tributos, obtida através da dedução de despesa com amortização de ágio interno, evidencia conduta dolosa tendente a impedir a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal ("fraude", na inteligência do art. 72 da Lei n° 4.502, de 1964). Impõe-se, assim, a qualificação da multa de ofício.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
Numero da decisão: 9101-002.759
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Cristiane Silva Costa, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em negar-lhe provimento (i) por maioria de votos, quanto ao ágio, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), José Eduardo Dornelas Souza, que acompanhou o relator pelas conclusões e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; (ii) por maioria de votos, quanto à concomitância da multa, vencidos o relator, a conselheira Cristiane Silva Costa, que o acompanhou pelas conclusões e o conselheiro José Eduardo Dornelas Souza, que lhe deram provimento; (iii) por voto de qualidade, quanto à trava de 30%, vencidos o relator e os conselheiros Cristiane Silva Costa, José Eduardo Dornelas Souza e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; e (iv) por voto de qualidade, quanto aos juros sobre a multa, vencidos o relator e os conselheiros Cristiane Silva Costa, José Eduardo Dornelas Souza e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Adriana Gomes Rego.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente
(assinado digitalmente)
Luís Flávio Neto - Relator
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rego - Redatora Designada
Participaram do presente julgamento os Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flavio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Jose Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra, Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente).
Nome do relator: LUIS FLAVIO NETO
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GLOSA. Deve ser mantida a glosa da despesa de amortização de ágio que foi gerado internamente ao grupo econômico, sem qualquer dispêndio, e para o qual não houve demonstração do fundamento econômico. ENCERRAMENTO DE ATIVIDADES. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS. LIMITE DOS 30% DO LUCRO REAL. Inexiste previsão legal para se proceder à compensação de prejuízos (trava), além do percentual de 30% do lucro real, ainda que a pessoa jurídica esteja no encerramento das suas atividades. MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. A alteração legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44, da Lei nº 9.430, de 1996, deixa clara a possibilidade de aplicação de duas penalidades em caso de lançamento de ofício frente a sujeito passivo optante pela apuração anual do lucro tributável. A redação alterada é direta e impositiva ao firmar que "serão aplicadas as seguintes multas". A lei ainda estabelece a exigência isolada da multa sobre o valor do pagamento mensal ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa no anocalendário correspondente, não havendo falar em impossibilidade de imposição da multa após o encerramento do anocalendário. No caso em apreço, não tem aplicação a Súmula CARF nº 105, eis que a penalidade isolada foi exigida após alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Exercício: 2007, 2008, 2009, 2010, 2011 LANÇAMENTOS REFLEXOS OU DECORRENTES. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 00 42 /2 01 1- 14 Fl. 9993DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 9.994 2 Pela íntima relação de causa e efeito, aplicase o decidido ao lançamento principal ou matriz de IRPJ também ao lançamento reflexo ou decorrente de CSLL. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 2007, 2008, 2009, 2010, 2011 MULTA QUALIFICADA. ÁGIO INTERNO. OCORRÊNCIA DE FRAUDE. A consecução de atos que culminaram com a supressão ilícita de tributos, obtida através da dedução de despesa com amortização de ágio interno, evidencia conduta dolosa tendente a impedir a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal ("fraude", na inteligência do art. 72 da Lei n° 4.502, de 1964). Impõese, assim, a qualificação da multa de ofício. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Cristiane Silva Costa, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado) e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em negarlhe provimento (i) por maioria de votos, quanto ao ágio, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), José Eduardo Dornelas Souza, que acompanhou o relator pelas conclusões e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; (ii) por maioria de votos, quanto à concomitância da multa, vencidos o relator, a conselheira Cristiane Silva Costa, que o acompanhou pelas conclusões e o conselheiro José Eduardo Dornelas Souza, que lhe deram provimento; (iii) por voto de qualidade, quanto à trava de 30%, vencidos o relator e os conselheiros Cristiane Silva Costa, José Eduardo Dornelas Souza e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; e (iv) por voto de qualidade, quanto aos juros sobre a multa, vencidos o relator e os conselheiros Cristiane Silva Costa, José Eduardo Dornelas Souza e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Adriana Gomes Rego. (assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto – Presidente (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto Relator (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rego Redatora Designada Fl. 9994DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 9.995 3 Participaram do presente julgamento os Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flavio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Jose Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra, Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Relatório Tratase de recurso especial interposto por VOTORANTIM CIMENTOS S/A (doravante “contribuinte”), bem como pela PROCURADORIA DA FAZENDA NACIONAL (doravante "PFN"), em face do acórdão nº 1302001.687 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”), proferido pela então 2a Turma Ordinária, 3a Câmara (doravante “Turma a quo”). Colhese do acórdão a quo o seguinte relato quanto ao presente caso: "VOTORANTIM CIMENTOS S/A, já qualificada nestes autos, foi autuada e intimada a recolher crédito tributário no valor total de R$ 115.957.681,95, discriminado no Demonstrativo Consolidado do Crédito Tributário do Processo, à fl. 3. Os vários autos de infração reunidos no presente processo constituem créditos tributários de IRPJ e CSLL, além de multas exigidas isoladamente por falta de recolhimento de IRPJ e CSLL sobre bases estimadas. Releva destacar que parte dos créditos tributários é exigida da interessada na qualidade de contribuinte. Outra parte dos créditos lhe é exigida na qualidade de sucessora, por incorporação, de Engemix S/A. Finalmente, uma terceira parte dos créditos tributários do processo é exigida da interessada na qualidade de sucessora, por incorporação, de Votorantim Cimentos Brasil Ltda., por sua vez sucessora por incorporação de Itapisserra Mineração S/A. As infrações identificadas pelo Fisco estão minuciosamente descritas no Termo de Verificação Fiscal de fls. 8930/8984. Segue apertada síntese. ADIÇÕES NÃO COMPUTADAS NA APURAÇÃO DO LUCRO REAL – GLOSA DE DESPESAS COM AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO ORIGINADO NA ENGEMIX PARTICIPAÇÕES S/A Valor não adicionado ao Lucro Líquido do período, para a determinação do Lucro Real, relativo a despesa indedutível de amortização de ágio registrado pela Cimefor Comercial Importadora e Exportadora Ltda., CNPJ 00.480.565/000113, relativo a subscrição de capital, anocalendário 2001, na Engemix Participações S/A, CNPJ 02.405.472/000150, com ágio de aproximadamente R$ 200 milhões. Em 31/10/2005, a Cimefor foi incorporada pela Engemix S/A, CNPJ 60.405.446/0001 28. A partir de janeiro de 2006 a Engemix S/A passou a amortizar o ágio à razão de 1/60 mensais, sendo que as despesas relativas a essa amortização foram registradas na contabilidade da Engemix S/A até novembro de 2008, pois em 30/12/2008 ela foi incorporada pela Votorantim Cimentos Ltda. (fiscalizada). ∙ A esta infração foi aplicada a multa qualificada de 150%. ∙ IRPJ – Fatos geradores praticados pela incorporada Engemix S/A: 31/12/2006, 31/12/2007 e 30/11/2008 – Infração 0001, fls. 8814/8816. Fl. 9995DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 9.996 4 ∙ CSLL – Fatos geradores praticados pela incorporada Engemix S/A: 31/12/2006, 31/12/2007 e 30/11/2008 – Infração 0001, fls. 8841/8842 (reflexo da infração do IRPJ). ∙ IRPJ – Fatos geradores praticados pela própria fiscalizada, após a incorporação da Engemix S/A: 31/12/2008, 31/03/2009, 30/06/2009, 30/09/2009, 31/12/2009 e 31/12/2010 – Infração 0001, fl. 8858. ∙ CSLL – Fatos geradores praticados pela própria fiscalizada, após a incorporação da Engemix S/A: 31/12/2008, 31/03/2009, 30/06/2009, 30/09/2009, 31/12/2009 e 31/12/2010 – Infração 0001, fl. 8886 (reflexo da infração do IRPJ). SALDO INSUFICIENTE – COMPENSAÇÃO INDEVIDA DE PREJUÍZO OPERACIONAL COM RESULTADO DA ATIVIDADE GERAL ∙ O sujeito passivo compensou prejuízos operacionais em montante superior ao saldo desse prejuízo. Esta infracã̧o decorre da glosa de despesas com amortização de ágio, anteriormente descrita. ∙ A esta infracã̧o foi aplicada multa de 75%. ∙ IRPJ – Fatos geradores praticados pela incorporada Engemix S/A: 30/12/2008 – Infracã̧o 0002, fls. 8814/8816. ∙ CSLL – Fatos geradores praticados pela incorporada Engemix S/A: 30/12/2008 – Infracã̧o 0002, fls. 8841/8842 (análoga à infração do IRPJ). INOBSERVÂNCIA DO LIMITE DE COMPENSAÇÃO – COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO OPERACIONAL SEM A OBSERVÂNCIA DO LIMITE DE 30%. ∙ O sujeito passivo compensou prejuízos fiscais, sem observar o limite de compensação de 30% do Lucro Líquido ajustado pelas adições e exclusões previstas e autorizadas pela legislação de regência. ∙ A esta infracã̧o foi aplicada multa de 75%. ∙ IRPJ – Fatos geradores praticados pela incorporada Engemix S/A: 30/12/2008 – Infracã̧o 0003, fls. 8814/8816. ∙ CSLL – Fatos geradores praticados pela incorporada Engemix S/A: 30/12/2008 – Infracã̧o 0003, fls. 8841/8842 (análoga à infração do IRPJ). INOBSERVÂNCIA DO LIMITE DE COMPENSAÇÃO – COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO OPERACIONAL SEM A OBSERVÂNCIA DO LIMITE DE 30%. ∙ A sociedade Itapisserra Mineração S/A, CNPJ n° 51.011.955/000185, compensou prejuízos fiscais, sem observar o limite de compensação de 30% do Lucro Liquido ajustado pelas adições e exclusões previstas e autorizadas pela legislação de regen̂cia, por ocasião de sua incorporação pela sociedade Votorantim Cimentos Brasil Ltda., CNPJ n° 96.824.594/000124, a qual, em 31/08/2010, foi incorporada pela sua controladora Votorantim Cimentos S/A, CNPJ n° 01.637.895/000132 (fiscalizada). ∙ A esta infracã̧o foi aplicada multa de 75%. ∙ IRPJ – Fatos geradores praticados pela Itapisserra Mineracã̧o S/A: 30/12/2006 – Infracã̧o 0001, fls. 8918/8919. ∙ CSLL – Fatos geradores praticados pela Itapisserra Mineração S/A: 30/10/2006 – Infracã̧o 0001, fl. 8924 (análoga à infracã̧o do IRPJ). MULTA OU JUROS ISOLADOS – FALTA DE RECOLHIMENTO DO IRPJ (CONTRIBUIÇÃO SOCIAL) SOBRE BASE DE CÁLCULO ESTIMADA. Fl. 9996DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 9.997 5 ∙ Falta de pagamento do Imposto de Renda Pessoa Jurídica (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) incidente sobre a base de cálculo estimada em função de balanços de suspensão ou redução. Esta infração decorre da glosa de despesas com amortização de ágio, anteriormente descrita. ∙ A multa foi exigida isoladamente no percentual de 50% do valor da estimativa não recolhida. ∙ IRPJ – Fatos geradores praticados pela incorporada Engemix S/A: 31/07/2006, 30/09/2007, 31/07/2008, 31/08/2008, 30/09/2008, 31/10/2008 e 30/11/2008 – Infracã̧o 0004, fls. 8814/8816. ∙ CSLL – Fatos geradores praticados pela incorporada Engemix S/A: 31/07/2006, 30/09/2007, 31/07/2008, 31/08/2008, 30/09/2008, 31/10/2008 e 30/11/2008 – Infracã̧o 0001, fls. 8832/8833 (análoga à infração do IRPJ). ∙ IRPJ – Fatos geradores praticados pela própria fiscalizada, após a incorporacã̧o da Engemix S/A: 31/12/2008, 31/01/2010, 28/02/2010, 31/03/2010, 30/04/2010, 31/05/2010, 30/06/2010, 31/07/2010, 31/08/2010, 31/10/2010 e 31/12/2010 – Infracã̧o 0004, fl. 8814/8816. ∙ CSLL – Fatos geradores praticados pela própria fiscalizada, após a incorporação da Engemix S/A: 31/12/2008, 31/01/2010, 28/02/2010, 31/03/2010, 30/04/2010, 31/05/2010, 30/06/2010, 31/07/2010, 31/08/2010, 31/10/2010 e 31/12/2010 – Infracã̧o 0001, fls. 8906/8907 (análoga à infração do IRPJ). A ciência dos lançamentos ocorreu em 26/12/2011, conforme Aviso de Recebimento à fl. 8986. As razões de impugnação foram sintetizadas pelo Relator do processo em primeira instância conforme a seguir transcrito: Notificada das autuações em 26/12/2011 (fls. 8986), a contribuinte apresentou impugnação ao feito fiscal em 16/01/2012 (fls. 9370/9536), alegando, em síntese, o quanto se segue: (i) Em 1998, o grupo Votorantim adquiriu do grupo Rossi participação societária de 25% na empresa Geral de Concreto S.A, que concentrava as atividades de concretagem, sobretudo desempenhadas pela empresa Engemix S.A, sua controlada, operação objeto de análise pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica, por meio do Ato de Concentração n° 08012.007680/9851, no qual se deixa claro que a empresa Geral de Concreto passou, neste momento, a ser detida pelo grupo Rossi (acionista controlador) e pelos grupos Votorantim e Real (por meio da Cia. Cimento Portland Itaú, cujos acionistas majoritários eram a Votorantim Cimentos Ltda. 70,90% e o Banco Real de Investimentos 19,73%); (ii) Os grupos empresariais envolvidos na negociação são absolutamente distintos e não relacionados, tendo ocorrido confusão entre “ágio de subscrição”, correspondente ao fenômeno regulado nos artigos 13, §2° e 182, §1°, alínea "a" da Lei n° 6.404/1976, que serve de instrumento para permitir a injeção de capital na empresa sem que tal aporte prejudique a divisão política percentual das participações societárias, não guardando esta reserva de capital de ágio equivalência numérica com o fenômeno do ágio de investimento; o "ágio" registrado pelo investidor jamais será igual ao "ágio" registrado na empresa receptora do investimento, simplesmente porque se está falando de fenômenos distintos (com pressupostos e cálculos distintos); (iii) O ágio de investimento, por sua vez, é regulado no artigo 248 da Lei das S.A, complementado pelo artigo 20 do DecretoLei n° 1.598/1977, e decorre basicamente da aplicação do método da equivalen̂cia patrimonial para fins da avaliacã̧o contábil de investimentos em empresas coligadas e controladas; Fl. 9997DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 9.998 6 (iv) O ágio de R$ 189.705.174,24 é resultado da aquisição do controle da EngemixPar, mas mais especificamente decorre da transferen̂cia da integralidade das atividades de concretagem para o grupo Votorantim, a qual se aperfeico̧ou com a cisão da EngemixPar, mediante ato que se iniciou em 2002, no qual o grupo Rossi entregou a totalidade da empresa EPGE Participacõ̧es Ltda. à Cimefor, retirandose das atividades de concretagem. Esta cisão dependeu de aprovação de todos os titulares de acõ̧es da Engemix Participacõ̧es (cf. art. 229, §5° da Lei n° 6.404/1976), não havendo como se negar que a cisão ocorreu entre partes independentes (grupos Votorantim e Rossi), em condições de mercado; (v) Tanto a subscricã̧o de capital pela Cimefor quanto a posterior cisão da EngemixPar, com a consequente tomada dos negócios de concretagem pelo grupo Votorantim, são atos negociais indubitavelmente realizados entre partes não relacionadas; (vi) Em decorren̂cia da cisão, a Cimefor obteve a totalidade do negócio de concretagem, exercido precipuamente pela Geral de Concreto (futuramente denominada Engemix S.A.), tendo adquirido a integralidade de negócios e marcas da Engemix, Concrelix e Concremaster, passando o grupo Rossi a se dedicar exclusivamente à construção de imóveis, enquanto a antiga EngemixPar adotou a denominação de Engeplano Participacõ̧es S.A; (vii) O ágio amortizado pela contribuinte de R$ 189.705.174,24 é resultado da aquisicã̧o do controle e tomada das atividades de concretagem para o grupo Votorantim, sendo que o valor inicialmente registrado de R$ 227.327.489,00 não foi, ao final, o montante aproveitado para fins de amortizacã̧o fiscal porque, em razão de outros atos de reorganização societária ocorridos ao longo de alguns anos, tal valor de ágio acabou reduzido a R$ 189.705.174,24; (viii) Embora a amortização do ágio registrado pela Cimefor tenha se iniciado em 2006, o ágio em si foi gerado nas operações societárias datadas de 18/12/2001 (fls. 30) e 15/01/2002, quando foi consolidado (fls. 34) e considerando que o fato gerador do IRPJ e da CSLL se materializa no dia 31 de dezembro de cada ano, o prazo que a administração tributária teve para analisálo se esgotou em 31/12/2007; assim, embora a amortizacã̧o do ágio tenha se iniciado em 2006, o Fisco não pode mais questionála, uma vez que os autos de infração foram lavrados somente em 26/12/2011, quando já transcorrido o prazo de decadência/preclusão de cinco anos contados do fato originário do ágio; (ix) Considerando que a multa isolada é cobrada mensalmente, por cada uma das estimativas mensais não recolhidas, o fato gerador dessa penalidade também é mensal, de forma que uma vez que a fiscalizada foi intimada em 26/12/2011, todas as multas referentes a período anterior a cinco anos contados retroativamente dessa data foram alcançadas pela decadência, isto é, as multas relativas aos períodos de apuracã̧o que vão até 25/12/2006 não podem ser cobradas da Impugnante, razão pela qual requer também o cancelamento da multa isolada do período de 31/07/2006, tanto relativo ao IRPJ quanto à CSLL; (x) Em 31/10/2006, a empresa Itapisserra Mineração S.A. (CNPJ 51.011.955/000185 "Itapiserra") foi incorporada, tendo, por ocasião do levantamento do seu último balanco̧ previamente à incorporação, compensado integralmente o prejuízo fiscal e a base de cálculo negativa de CSLL acumulados, sendo que o Fisco somente poderia questionar tal procedimento até 31/10/2011, devendo também ser reconhecida a decaden̂cia desta parte da autuação; (xi) Houve erro no cálculo das penalidades referentes ao ano de 2006, pois caso fossem devidas as estimativas de IRPJ, estaria sujeita à multa de R$446.822,52, ao invés dos R$695.665,56 lançados, situação que se reflete também em relação à Fl. 9998DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 9.999 7 CSLL, bem como foi somada à base de cálculo do lançamento o valor de R$4.892,535,77, sem a devida fundamentacã̧o; (xii) A fundamentacã̧o do auto de infracã̧o é eivada de contradições, pois ora o problema é a suposta dependência das partes, ora a falta de pagamento, ora a incorporacã̧o ter sido feita de forma reversa, ora a suposta falta de propósito negocial, cerceando o direito de defesa da Impugnante, razão pela qual deve ser decretado sua nulidade; (xiii) Conforme já mencionado, o ágio em discussão se originou da subscrição de capital da EngemixPar, controlada da RossiPar, pela Cimefor (empresa do grupo Votorantim) para a aquisição de seu controle, tendo sido consolidado com a cisão da EngemixPar, demonstrando que as partes envolvidas eram independentes; (xiv) As normas contábeis utilizadas pelo Sr. Agente Fiscal, a exemplo dos OfíciosCirculares/ CVM/SNC/SEP n° 01/2006 e n° 01/2007, da Resolução CFC n° 1.110/2007 e Pronunciamento Técnico CPC04, embora determinantes no âmbito da Ciência Contábil, não produzem efeitos no âmbito do Direito Tributário e, ainda que fossem aplicáveis, tratam do denominado “ágio interno”, o que não foi gerado na transacã̧o em análise; (xv) Como é de conhecimento da própria fiscalização, a Concrefor foi criada a partir da cisão da EngemixPar, operação que objetivou segregar a atividade de concretagem do grupo Rossi e transferila ao grupo Votorantim, não podendo a Concrefor ser caracterizada como “empresa veículo”, notadamente porque ela não foi criada para servir de meio para o transporte do ágio de um lugar a outro, o que sucederia se ela tivesse sido criada pela Cimefor mediante a transferência da participação detida na EngemixPar, o que não aconteceu; (xvi) A Impugnante esclarece que os arts. 7o e 8o da Lei n° 9.532/97 permitem a incorporacã̧o de empresa controladora por sua controlada, sendo autorizada, inclusive, a amortizacã̧o do ágio registrado pela investidora; (xvii) A Impugnante traz à baila cópias de notas promissórias (Doc. 5), bem como de cheques correspondentes a sua liquidação, demonstrando que: o ágio decorrente da operação de subscrição de ações da EngemixPar foi efetivamente pago; o pagamento foi feito a pessoa não integrante do grupo Votorantim, pois os cheques foram descontados a favor da Engeplano, atual denominação da Engemix Par, a qual recebeu injeção de recursos da Cimefor mediante aumento de capital; as notas promissórias e seus descontos correspondem respectivamente a uma contratação de passivo e sacrifícios de ativos, caracterizando despesa incorrida e, ainda que não tivesse ocorrido pagamento, a regra fiscal de dedutibilidade de despesas com amortização de ágio possui requisitos próprios, os quais, de forma particular, (i) não exigem o pagamento como pressuposto para possibilitar sua amortização futura e (ii) não se sujeitam às regras gerais de dedutibilidade de despesas, tal como pretendido pela fiscalizacã̧o, consoante previstos nos artigos 385 e 386 do RIR/1999; (xviii) O autuante aponta uma divergência entre um ágio de R$ 200.048.701,00 e um valor constante do laudo de avaliação da Engemix Participações, que corresponde ao VPL de R$ 151.501,00 mil, calculado na página 26 do referido laudo (fls. 2942) e comentado na página 30 (fls. 2946), elaborado apenas com vistas aos negócios de concretagem, cujo enfoque foram os fluxos de caixas oriundos das empresas de concretagem Engemix S/A (que é a Geral de Concreto), Concrelix e Concremaster; (xix) A avaliacã̧o de tais atividades resultou em um VPL de R$ 281.705,7 mil (cf. página 26 do laudo), afirmandose, na página 30, que 53,78% de tais negócios de concretagem valem R$ 151.501,3 mil; Fl. 9999DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.000 8 (xx) Comparandose, portanto, o valor das atividades das empresas de concretagem (R$ 281 milhões) e o valor total desembolsado pela Cimefor para adquirir referido negócio (R$ 276 milhões), não é possível imaginar onde possa haver a apontada divergência, sendo que os problemas supostamente identificados pelo r. Auditor Fiscal decorrem tão somente do fato de se ter assumido que o ágio amortizável para fins fiscais é o ágio de subscrição; (xxi) O Auditor Fiscal, por um equívoco, entendeu que o valor de R$ 230 milhões teriam sido considerados na demonstracã̧o dos fluxos de caixa futuros (tabela 5.2), mas tal valor somente serviu para o cálculo do período de payback e da Taxa Interna de Retorno TIR (tabela 5.3), sendo que somente a primeira é que interessa para a finalidade de demonstração do ágio (na forma do art. 384, §3° do RIR/99) e sua amortização fiscal; (xxii) Em momento algum o Sr. Agente Fiscal define quais seriam os parâmetros para se constatar a ausen̂cia ou não de propósito negocial, cujo conceito não possui amparo legal para ser utilizado como forma de desconstituicã̧o de operações e o lançamento de ofício de tributos e multas; (xxiii) Admitindose o “propósito negocial" como um conceito aplicável que, segundo as lições do professor Luís EDUARDO SCHOUERI corresponderia à conformidade entre a intenção da parte e a causa do negócio jurídico, de fato, fica evidente sua existência, pois se verificou uma conformidade entre a intenção da Cimefor de adquirir o ramo da atividade de concretagem e a causa desse negócio jurídico de aquisição do controle da EngemixPar e posterior reestruturação societária; (xxiv) As Leis n° 8.981/95 e 9.065/95 permitem ao contribuinte compensar, nos exercícios seguintes, o saldo remanescente dos prejuízos fiscais e das bases negativas não utilizados em razão da limitação de 30%, ao pressuposto da continuidade das atividades da pessoa jurídica, o que não se sucede quando há seu "desaparecimento" por meio de incorporacã̧o, como é o caso dos autos, não restando às sociedades incorporadas outra alternativa que não a compensação integral dos prejuízos fiscais e das bases negativas existentes na data da incorporacã̧o, cabendo ainda destacar que o procedimento adotado pela d. Fiscalizacã̧o está em desconformidade com o artigo 189 da Lei n° 6.404/76, que torna obrigatória a dedução dos prejuízos acumulados na apuracã̧o do resultado do exercício; (xxv) A incorporação da Itapisserra ocorreu em 2006 e a da Engemix S.A em 2008, época em que era pacífico o entendimento do Tribunal Administrativo de que, por ocasião da incorporação, a empresa incorporada poderia compensar integralmente os seus resultados negativos, conforme verificado nos acórdãos n°s 10195.872, 10709.243 10196916, 101122596, 10807.456, 10806.683, 10806.682, 10513.508, 0104258, 0105100, 10707856, 10323.594, 10514.633, 10194.515, 40105.100, 10709.447, não restando dúvidas, portanto, de que a Itapiserra e a Engemix S.A., se é que agiram em desacordo com a lei, incorreram, quando muito, em erro de proibição, não havendo que se falar em reprovabilidade da sua conduta, pelo que deve ser afastada a multa de 75% imposta pela fiscalização; (xxvi) Há três razões fundamentais pelas quais não se deve exigir multa isolada da Impugnante, quais sejam: inadequação lógica do dispositivo legal relativo à multa isolada com o caso concreto (em que se verifica a exigência de tributo), impossibilidade de se penalizar duplamente um mesmo fato "ilícito" e, de se exigir a multa isolada em períodos em que se verificou prejuízo fiscal; (xxvii) A subscrição de ações se deu de forma direta, sem interposição de empresa veículo, nem se está se falando em empresas de fachada, tampouco foi provado a Fl. 10000DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.001 9 falta de propósito negocial, não havendo provas nos autos da ocorrência de dolo e/ou fraude nas operações societárias analisadas, razão pela qual deve ser afastada a qualificação da multa de ofício; (xxviii) Ainda que se entendesse que a amortização do ágio se dera de forma fraudulenta, apenas a título de argumentação, não pode a Impugnante, na condição de sucessora por incorporação da Engemix S.A, ser penalizada com multa qualificada, consoante art. 5º, XLV da CF/1988, pois na época da subscrição das ações da EngemixPar, a acionista controladora dessa empresa era a RossiPar, empresa do grupo Rossi, que em nada se confunde com o grupo Votorantim; (xxix) De acordo com o art. 113, § 3º do CTN, se apenas a penalidade pecuniária decorrente do descumprimento da obrigação acessória é que se converte em obrigação principal, somente esta se enquadra no conceito de crédito tributário de que trata o art. 139 do Codex, o que significa que as multas aplicadas nos lançamentos de ofício (nos termos do art. 44 da Lei n° 9.430/96), por não decorrerem do descumprimento de obrigações acessórias, não constituem crédito tributário e, assim, não sofrem a incidência dos juros de mora, já que o art. 161 do CTN é expresso no sentido de que apenas o "crédito tributário " não pago no vencimento é que é acrescido de juros de mora; Ao final, pede pela improcedência dos lançamentos. A 1ª Turma da DRJ em São Paulo I / SP analisou a impugnação apresentada pela contribuinte e, por via do Acórdão nº 1645.657, de 10/04/2013 (fls. 9193/9244), considerou procedente em parte o lançamento, com a seguinte ementa: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário:2006, 2007, 2008, 2009, 2010 FATOS PASSADOS. REPERCUSSÃO EM EXERCÍCIOS FUTUROS. FISCALIZAÇÃO. POSSIBILIDADE. ESCRITURAÇÃO. DOCUMENTOS. GUARDA. PRAZO DECADENCIAL. O contribuinte está sujeito à fiscalização de fatos ocorridos em períodos passados quando eles repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, devendo conservar os documentos de sua escrituração, até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios. DECADÊNCIA. IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA. APURAÇÃO. ESTIMATIVAS. DEDUÇÃO. PAGAMENTO. A extinção do imposto de renda da pessoa jurídica apurado no encerramento de períodobase mediante dedução de recolhimentos mensais estimados caracteriza, neste exato montante, pagamento antecipado para fins de contagem do prazo decadencial, aplicandose a regra contida no artigo 150 do CTN, desde que ausentes o dolo, fraude ou simulação. MULTA ISOLADA. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. A multa isolada decorrente de constatação de falta de recolhimento de estimativas somente é exigível de ofício, razão pela qual está sujeita ao prazo decadencial previsto no artigo 173, inciso I do Código Tributário Nacional. MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS. MULTA DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. POSSIBILIDADE. FATOS IMPONÍVEIS DISTINTOS. É cabível aplicação de multa isolada decorrente de falta de pagamento de estimativas mensais de imposto concomitantemente com multa proporcional Fl. 10001DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.002 10 incidente sobre aquele devido e não pago ao final do período de apuração anual, haja vista cuidarem de reprimendas a comportamentos distintos. MULTA DE OFÍCIO. INCORPORAÇÃO. RESPONSABILIDADE DO SUCESSOR O processo de reorganização societária, mormente o promovido por cisões e incorporações dentro do mesmo grupo econômico, não elide a responsabilidade tributária da sucessora em relação à multa de natureza fiscal decorrente de infração tributária cometida por empresa sucedida. INFRAÇÃO. CONSCIÊNCIA. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. A falta de demonstração do fundamento econômico do ágio registrado em operação de subscrição de capital e seu pagamento, a omissão da fiscalizada em apresentar os registros contábeis de todas as pessoas jurídicas envolvidas na operação, a apresentação de documentos sem assinaturas, formam conjunto probatório a indicar que a fiscalizada tinha conhecimento de que lhe faltaria legitimidade para aproveitar o benefício da amortização fiscal do ágio, qualificando a conduta e fundamentando a exasperação da multa de ofício. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao do vencimento. CRÉDITO VENCIDO. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. Os créditos tributários vencidos e ainda não pagos devem ser acrescidos de juros de mora equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic). ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 INCORPORAÇÃO. PESSOA JURÍDICA. EXTINÇÃO. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS. LIMITE DE 30% DO LUCRO LÍQUIDO AJUSTADO. APLICAÇÃO. A compensação de prejuízos fiscais por pessoa jurídica extinta por incorporação sujeitase ao limite de 30% do lucro líquido ajustado do exercício de encerramento. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. A decisão proferida em relação aos fatos que levaram à manutenção do IRPJ impõese também à CSLL, naquilo que for cabível, uma vez que ambos os lançamentos estão assentados nos mesmos elementos de prova. Por relevante, esclareço que o provimento parcial da impugnação alcançou as seguintes matérias e valores: a) Afastamento da integralidade dos créditos tributários exigidos da interessada na qualidade de sucessora, por incorporação, de Votorantim Cimentos Brasil Ltda., por sua vez sucessora por incorporação de Itapisserra Mineração S/A., em razão da decadência. Fl. 10002DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.003 11 b) Redução da multa exigida isoladamente por falta de recolhimento do IRPJ, correspondente ao mês de julho/2006, de R$ 695.663,56 para R$ 215.875,04. c) Exclusão de R$ 4.892.535,77, em 30/12/2008, da base de cálculo da infração do IRPJ intitulada “Inobservância do Limite de Compensação – Compensação de prejuízo operacional sem a observação do limite de 30%”. Nos demais aspectos, o lançamento foi mantido. RECURSO VOLUNTÁRIO Ciente da decisão de primeira instância em 22/07/2013, conforme Aviso de Recebimento à fl. 9297, a contribuinte apresentou recurso voluntário em 21/08/2013 conforme carimbo de recepção à folha 9298. No recurso interposto (fls. 9298/9360), a interessada discorre, por tópicos, sobre os seguintes assuntos, em síntese: A – Glosa da Amortização de Ágio A.1 – Definição e Delimitação da Lide A recorrente busca esclarecer, em tese, a distinção entre o ágio registrado na sociedade investida e aquele registrado na sociedade investidora, em um hipotético aumento de capital com subscrição de novas ações. Com relação ao caso concreto, reafirma que o ágio registrado pela investida EngemixPar (R$ 200.048.701,00) é distinto, em natureza e valor, daquele registrado pela investidora Cimefor (R$ 189.705.174,24). Passa, então, a explicar que o ágio efetivamente amortizado, de R$ 189.705.174,24, teria surgido em razão de uma operação de cisão parcial a que se submeteu a EngemixPar. A explicação é detalhada no parágrafo 18 do recurso, às fls. 9304/9308. A interessada procura delimitar a lide, tal como instaurada a partir dos autos de infração e do Termo de Verificação Fiscal. Por sua ótica, a DRJ teria lançado mão de fundamentos estranhos ao lançamento como razões de decidir. Aduz que as razões jurídicas que teriam fundamentado a conclusão do fisco originalmente seriam, apenas: (a) “ágio de si mesmo” não passível de reconhecimento contábil nem de amortização para fins fiscais; (b) falta de pagamento do ágio; (c) ausência de propósito negocial; (d) falta de custo. A recorrente traz jurisprudência administrativa sobre sua tese e esclarece que passará a se defender nos estritos limites da lide. A.2 – Preliminar de decadência No que toca ao ágio registrado pela Cimefor, esclarece que, muito embora a amortização tenha se iniciado em 2006, o ágio em si teria sido gerado nas operações societárias datadas de 18/12/2001 e 15/01/2002. Nessa última data teria sido consolidado o ágio, informado ao fisco mediante a entrega das competentes DIPJs. Alega, então, que na data de lavratura dos autos de infração (26/12/2011) já teria ocorrido a decadência do direito do Fisco questionar a legalidade do ato societário que deu origem ao ágio. Essa conclusão independe da aplicação do art. 150, § 4º, ou do art, 173, I, ambos do CTN. A.3 – Questões de Mérito (a) No que toca à acusação de “ágio de si mesmo” ou “ágio interno”, a interessada afirma sua inexistência, e acrescenta que a DRJ já havia reconhecido o fato. Subsidiariamente, busca demonstrar a inexistência de ágio interno, em suas palavras (grifos no original): Fl. 10003DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.004 12 51. É fato notório e amplamente divulgado que o grupo empresarial Votorantim e o grupo empresarial Rossi são absolutamente distintos e que as transações que foram praticadas entre eles desde 1998 (a venda de 25% da empresa Geral de Concreto S.A. para o Grupo Votorantim, o investimento conjunto em um grupo de empresas por meio da EngemixPar, e, sobretudo, a cisão de que decorreu a formação do ágio em discussão) constituíram negócios jurídicos realizados entre partes independentes. 52. Vale prestar atenção, neste passo, ao fato de que a cisão da EngemixPar foi fruto de um contrato, celebrado entre a Cimefor e a RossiPar (partes independentes), cujo escopo foi exatamente a segregação das divisões da Engemix Par (concretagem e construção civil), assim como a repartição do acervo líquido entre as sociedades resultantes da cisão (Doc. 4). A recorrente procura esclarecer detalhes das operações societárias, ressaltando a independência entre as partes, e conclui que a acusação relativa à formação de ágio interno não procede e deve ser rejeitada. (b) No que toca à acusação de falta de pagamento de ágio, a recorrente afirma que o capital subscrito na EngemixPar foi efetivamente integralizado por meio de dação de créditos, forma permitida tanto pela ata da assembleia geral que aprovou o aumento de capital quanto no boletim de subscrição de ações. Esclarece que, após a fase impugnatória, teria logrado encontrar as notas promissórias endossadas à EngemixPar devidamente datadas e assinadas (Doc. 5). Com isso, cairiam por terra quaisquer dúvidas que pudessem ser levantadas quanto à validade e eficácia desses documentos como instrumento de pagamento do capital subscrito pela Cimefor. Adicionalmente, a recorrente passa a fazer referência aos lançamentos contábeis da EngemixPar e da Cimefor como confirmação adicional do uso das promissórias como meio de integralização do capital. Finalmente, acrescenta que as notas promissórias foram honradas pelo emitente (Cimento Rio Branco S.A.) (c) Quanto à acusação de falta de propósito negocial, a recorrente sustenta que: “(i) em momento algum o agente fiscal define quais seriam os parâmetros para se constatar a ausência ou não de propósito negocial; (ii) tal conceito não possui amparo legal para ser utilizado como forma de desconstituição de operações e o lançamento de oficio de tributos e multas e (iii) admitindose o ‘propósito negocial’ como um conceito aplicável ao presente caso, ele restou devidamente comprovado por tudo que se expôs até o momento”. Em apoio a sua tese, colaciona doutrina de Paulo Ayres Barreto e Luís Eduardo Schoueri (sic) e acrescenta que, no caso concreto, “fica evidente a existência de propósito negocial nos atos societários ora analisados, pois, de fato, existiu uma conformidade entre a intenção da Cimefor de adquirir o ramo da atividade de concretagem e a causa desse negócio jurídico de aquisição do controle da EngemixPar e posterior reestruturação societária”. A DRJ teria reconhecido esse propósito negocial, mas equivocadamente teria qualificado a operação como “casasepara”. A interessada aduz que, se houvesse feito uma aquisição direta, o ágio seria apurado de maneira idêntica ao que ocorreu, ou até seria maior. “[...] o fato de a DRJ entender que as operações realizadas poderiam denotar o gozo de vantagens fiscais indevidas pelo Grupo Rossi não implica que a Recorrente tenha se beneficiado de qualquer maneira”. Nessa linha de raciocínio, entende afastada a acusação de falta de propósito negocial nas operações societárias sob exame. (d) No que toca ao aspecto “custo”, a recorrente afirma que, em nenhum momento, a legislação societária ou tributária exige o “sacrifício de ativos” ou a Fl. 10004DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.005 13 “contratação de passivo” para o registro e conseqüente amortização de ágio. As regras específicas dos arts. 385 e 386 do RIR/99 não estabelecem tais condições. A interessada discorre sobre esses dispositivos legais e acrescenta: 102. Assim não fosse, rememorase que o pagamento da parcela questionada pela autoridade fiscal foi devidamente demonstrado. Ademais, considerandose a operação societária que, especificamente, deu origem ao ágio amortizado, exsurge evidente que a extinção da participação que a Cimefor detinha na EngemixPar corresponde a um “sacrifício”, a um dispêndio, o qual dá origem, na contabilidade, ao registro de custo. [...] Também aqui, a recorrente entende demonstrada a insubsistência do argumento da fiscalização, no que se refere à suposta ausência de custo das participações adquiridas pela Cimefor. A.4 – Outras Questões A interessada passa a discorrer sobre o laudo de avaliação, buscando esclarecer, quanto a uma alegada divergência de valores, que o laudo teria feito duas análises: a primeira para calcular o valor da empresa (estipulado em VPL) e a segunda para analisar o período de payback e determinar a taxa interna de retorno (TIR). Somente a primeira seria relevante para fins de demonstrar o ágio (na forma do art. 184, § 3º, do RIR/99) e sua amortização. Afirma que a DRJ teria inovado, ao considerar uma suposta sinergia entre os Grupos Votorantim e Rossi, derivada do estabelecimento de uma joint venture. Além de questionar essa inovação, entende a recorrente que a avaliação do laudo em nenhum momento teria sido influenciada por tal suposta sinergia. Sob o título Aplicação de diretrizes extraídas da Ciência Contábil, a interessada combate o uso de normas contábeis, especialmente instruções CVM, para constituição de créditos tributários de IRPJ e CSLL. A recorrente discorre sobre o conceito de empresa veículo, e conclui que “a Concrefor jamais poderia ser caracterizada como empresa veículo, notadamente porque ela não foi criada para servir de meio para o transporte de ágio de um lugar a outro”. No que toca à incorporação reversa, a recorrente lembra que tal prerrogativa é expressamente admitida em lei (arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997) e seria pacífico no tribunal administrativo. Assim, a incorporação da Cimefor pela Engemix S/A não seria irregularidade capaz de invalidar as operações em questão. Sobre a multa qualificada, a recorrente afirma a inexistência dos pressupostos da qualificação da penalidade e combate a conclusão do acórdão recorrido sobre essa matéria. Aduz que a autoridade fiscal afirmaria tão somente o descumprimento de condições materiais requeridas pela lei para a amortização do ágio, e que não haveria qualquer acusação de simulação. Ademais, sustenta que a multa qualificada por suposta infração, praticada por pessoa jurídica já extinta, da qual a interessada é sucessora, não poderia se transmitir da sucedida à sucessora. B – Trava de 30% A interessada reitera suas razões acerca da inaplicabilidade da trava de 30% no balanço de incorporação. C – Multa Isolada A interessada reitera suas razões sobre a incompatibilidade da exigência de multa isolada cumulada com a multa de ofício. D – Juros de Mora A interessada reitera suas razões pela não incidência de juros moratórios sobre a multa de ofício. Fl. 10005DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.006 14 CONTRARRAZÕES AO RECURSO VOLUNTÁRIO A Fazenda Nacional, por seu Procurador, com base no § 2º do art. 48 do Regimento Interno do CARF em vigor, apresentou suas contrarrazões (fls. 9653/9712) ao recurso voluntário interposto pela contribuinte. Seus argumentos podem ser sintetizados como segue: Inicialmente, a Fazenda Nacional esclarece que o foco de suas razões será a análise dos principais atos e reorganizações societárias realizadas pela contribuinte e demais pessoas que participaram das operações. Passa, então, a detalhar, sob sua ótica, as operações que originaram o ágio na Cimefor. Sua conclusão é de que o ágio em discussão nos presentes autos não foi gerado na integralização de aumento de capital da Engemix Participações e, consequentemente, somente pode ter surgido em operações societárias realizadas entre empresas do Grupo Votorantim, tratandose, pois, de “ágio interno”, tal qual afirmado pela fiscalização. Na sequência, tece considerações acerca da decadência, concluindo que “apenas quando se verifica a ocorrência do fato gerador é que surge contra o Fisco o prazo para a homologação dos dados que dão origem aos créditos que serão constituídos”. Reputa, assim, correta a decisão da DRJ quanto a este ponto. A Fazenda Nacional aduz razões sobre o “benefício fiscal previsto nos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, e 385 e 386 do RIR/99”. Com base na doutrina de Edmar Oliveira Andrade Filho e em pronunciamentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), chega à conclusão que segue (grifo no original): Mostrase, com as premissas aqui expostas, a necessidade de o ágio suportado por uma empresa com a aquisição de uma participação societária ter como origem um propósito econômico real, um efetivo substrato econômico, assim como cumprir incondicionalmente todos os requisitos impostos pela legislação aplicável (arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e 385 e 386 do RIR/99) para ter reconhecida como dedutível a despesa com a sua amortização. A presença concomitante de todos esses aspectos é imprescindível ao reconhecimento da existência dessa figura econômica e contábil, assim como para a sua dedutibilidade na apuração do IRPJ e da CSLL. A aquisição de um investimento por meio de mera escrituração artificial, sem a sua real materialização no mundo econômico, e sem observar os requisitos impostos pela lei que concede o benefício fiscal, não é hábil a gerar um ágio cuja despesa de amortização será dedutível na apuração do IRPJ e da CSLL. Acrescenta, ainda, que o laudo apresentado não serviria como fundamento econômico da operação. Sustenta que o ágio de R$ 189.705.174,00 efetivamente amortizado pela Engemix S.A. (sucessora da Cimefor) não corresponde ao valor apurado pelo laudo de avaliação apresentado e não estaria, de fato, sustentado por laudo algum. Também seria relevante a característica do laudo apresentado, que levaria em conta, ao determinar o valor de rentabilidade futura, uma joint venture entre os grupos Rossi e Votorantim. Ao ser desfeito o vínculo entre os grupos, o fundamento da rentabilidade futura também se perderia. Afinal, a Fazenda Nacional conclui que o ágio amortizado não cumpre as condições e requisitos impostos pelo art. 386 do RIR/99. No que toca aos demais aspectos do litígio, a Fazenda Nacional aduz razões sobre: (i) a impossibilidade de compensação integral dos prejuízos fiscais pela empresa sucedida; (ii) a possibilidade de aplicação concomitante de multa de ofício e isolada; (ii) a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Fl. 10006DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.007 15 A Fazenda Nacional requer, então, que seja negado provimento ao recurso voluntário da contribuinte. RECURSO DE OFÍCIO Como o sujeito passivo foi exonerado de crédito tributário (principal e multa) em valor superior ao limite de alçada (R$ 1.000.000,00), a Turma Julgadora também recorreu de ofício a este Colegiado. À época, esse procedimento era disciplinado pelo art. 34 do Decreto nº 70.235/1972, com as alterações introduzidas pela Lei nº 9.532/1997, e, ainda, pela Portaria MF nº 3/2008. É o Relatório." A Turma a quo decidiu, a) por unanimidade, negar provimento ao recurso de ofício; b) por maioria, dar provimento parcial ao recurso voluntário para: b.1) cancelar as multas isoladas do fato gerador de 31/07/2006; b.2) reduzir o percentual de multa de ofício de 150% para 75%. A aludida decisão restou assim ementada: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Exercício: 2007, 2008, 2009, 2010, 2011 DECADÊNCIA. AUSÊNCIA DE DOLO, FRAUDE E SIMULAÇÃO. PRESENÇA DE PAGAMENTO. APLICAÇÃO DO ART. 150, § 4º, DO CTN. Correta a decisão de primeira instância que reconheceu a decadência do direito da Fazenda Nacional de constituir créditos tributários para tributos sujeitos a lançamento por homologação, ausentes dolo, fraude ou simulação, e presente o pagamento antecipado a que se refere a lei. ÁGIO FORMADO EM PERÍODO ANTERIOR. GLOSA DE AMORTIZAÇÃO NO PERÍODO FISCALIZADO. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Não há que se falar em decadência do direito da Fazenda Nacional de constituir créditos tributários se, tanto da aplicação do art. 150, § 4º, do CTN, quanto da aplicação do art. 173, I, do mesmo código, resulta que o lançamento ocorreu dentro do prazo quinquenal. Nenhuma relação tem com essas conclusões o fato de que o Fisco examinou e glosou (nos períodos fiscalizados) a amortização de ágio, cuja formação ocorreu em períodos anteriores. No que tange às multas exigidas isoladamente, a aplicação do art. 173, I, do CTN conduz à mesma conclusão. SUCESSÃO. OBRIGAÇÃO ANTERIOR E LANÇAMENTO POSTERIOR. RESPONSABILIDADE DA SOCIEDADE SUCESSORA. DECISÃO DO STJ EM SEDE DE RECURSOS REPETITIVOS. EMPRESAS PERTENCENTES AO MESMO GRUPO ECONÔMICO. SÚMULA CARF Nº 47. A responsabilidade tributária de que trata o art. 132 do CTN não está limitada aos tributos devidos pelos sucedidos, mas abrange as multas que, por representarem penalidade pecuniária de caráter objetivo, acompanham o passivo do patrimônio adquirido pelo sucessor. O descumprimento da obrigação principal faz com que a ela se agregue, imediatamente, a obrigação consistente no pagamento da multa tributária. A responsabilidade do sucessor abrange, nos termos do artigo 129 do CTN, os créditos definitivamente constituídos, em curso de constituição ou "constituídos posteriormente aos mesmos atos, desde que relativos a obrigações tributárias surgidas até a referida data", que é o caso dos autos. Decisão do STJ em sede de recursos repetitivos (art. 543C do CPC), nos Edcl no REsp nº 923.012MG. Tal conclusão se aplica, ainda com mais motivos, diante da constatação de que sucessora e sucedida pertenciam ao mesmo grupo econômico à época do evento sucessório, impondose a aplicação da Súmula CARF nº 47. JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC. Fl. 10007DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.008 16 A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. MULTA ISOLADA. ESTIMATIVAS. INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO. FATOS GERADORES ANTERIORES À LEI Nº 11.488/2007. SÚMULA CARF Nº 105. IMPROCEDÊNCIA. A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44, § 1º, inciso IV, da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurados no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Aplicação da Súmula CARF nº 105. MULTA ISOLADA. ESTIMATIVAS. INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO. FATOS GERADORES POSTERIORES À LEI Nº 11.488/2007. PROCEDÊNCIA. Ao optar pela apuração anual do IRPJ e da CSLL, o contribuinte deve se sujeitar às regras estabelecidas para essa forma alternativa de apuração, particularmente a obrigatoriedade dos recolhimentos por estimativa. No caso concreto, ao serem glosadas despesas tidas por indedutíveis, as bases de cálculo mensais foram recalculadas pelo Fisco, evidenciandose a insuficiência de recolhimento das estimativas mensais. A sanção é aplicável pelo descumprimento do dever legal de antecipar o tributo. Procedente a multa exigida isoladamente, lançada com fundamento no inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430/1996, com a redação dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488/2007. Em face do aludido acórdão, a PFN interpôs recurso especial (efls. 9782 e seg.), o qual foi integralmente admitido por despacho (efls. 9797 e seg. ). Em seu recurso, requer a PFN o reestabelecimento da multa de 150% (reduzida para 75% no acórdão a quo), arguindo, em síntese: “se o ágio não foi gerado na integralização de aumento de capital da ENGEMIX PARTICIPAÇÕES, somente pode ter surgido em operações societárias realizadas entre empresas do GRUPO VOTORANTIM. Dessa maneira, fica evidente que não se configurou o primeiro elemento essencial quando se trata do pagamento e registro de ágio, qual seja: negócio comutativo realizado entre partes independentes”; “Da análise global da reorganização societária realizada, da visão do “filme como um todo”, notase que o único substrato econômico existente é aquele oriundo da amortização do ágio na conta de resultado da ENGEMIX S.A., após as incorporações realizadas em 31/10/2005. Em outros termos, após a incorporação, a única transferência de riquezas é aquela que se dá do Estado, o qual concede um benefício indevido, para a ENGEMIX S.A., que reduz sua tributação de forma simulada”; “O evidente intuito doloso nos ilícitos tributários cometidos pelos dirigentes das pessoas físicas envolvidas, executado pela Contribuinte Recorrente, resta caracterizado pelo fato de ela saber desde o início que as empresas envolvidas seriam incorporadas por ela mesma. O objetivo único do aumento de capital era gerar um ágio que posteriormente seria utilizado para reduzir a tributação da empresa resultante da incorporação”; Fl. 10008DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.009 17 “Como pode ser visto, tais condicõ̧es de validade aos negócios entre coligadas não foram observadas pela Contribuinte em epígrafe e seu grupo econômico. Não houve qualquer filtro de sinceridade com a realidade”; “Destarte, a sonegação está caracterizada nos autos uma vez que a Contribuinte fiscalizada, por meio da reorganizacã̧o societária, retardou parcialmente o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária. Com a simulação praticada, o sujeito passivo tentou amortizar a perda de um investimento inexistente”; “A simulação, correspondida pela atitude dolosa da Contribuinte em reduzir o montante do imposto devido, está mais do que comprovada ante os inúmeros fatos aqui apontados. Assim, por meio da criação de um ágio artificial, a Recorrente reduziu indevidamente o pagamento do IRPJ e da CSLL ao longo dos anoscalendário envolvidos”. O contribuinte apresentou contrarrazões, arguindo, em síntese, que (fls. 9825 e seg. do eprocesso): O recurso especial não deve ser conhecido, pois tem como objetivo a revisão de questões fáticas; “Pretende a Fazenda Nacional, como se nota, revisitar a questão da ocorrência, ou não, no caso em tela, de “ágio interno”, isto é, aquele gerado em operações envolvendo partes relacionadas. Ocorre, porém, que esta alegação foi afastada já pelo DRJ, e não foi confirmada pelo acórdão recorrido. Com efeito, o voto do Conselheiro Relator (vencido) afirma ter sugerido “ágio interno” na operação objeto deste processo, mas tal conclusão não foi ratificada pela maioria do colegiado.”; “No trecho acima descrito, indaga a Fazenda Nacional se o propósito negocial do ágio se enquadraria naquele previsto no artigo 386 do RIR/99, ou seja, a expectativa de rentabilidade futura da sociedade investida. Acontece que, se falta a demonstração disto que se chamou “propósito negocial” (o mais preciso seria “fundamento econômico), então a consequência daí decorre é a glosa da amortização do ágio, não atestação do evidente intuito de fraude. Confundese, Recurso Especial, os requisitos que autorizam a amortização com aqueles que, eventualmente, poderiam caracterizar o evidente intuito de fraude.”; “A questão do pagamento relacionase à própria amortização do ágio, não à qualificação da penalidade. Esta questão poder ser utilizada, no caso em que já estivesse comprovada a simulação, como um reforço desta constatação. Mas, na hipótese, como na presente, em que não há nem mesmo acusação formalizada de simulação, quanto menos prova direta neste sentido, ela em nada contribui com a conclusão de que teria havido evidente intuito de fraude. Aliás, este aspecto merece ser destacado: no caso em tela, não há nem mesmo acusação de simulação.”; “Não há, no TVF, a acusação quanto a caracterização de simulação. Há, no TVF, a legação que a Recorrida teria realizado atos movidos por motivação exclusivamente tributárias (alegada falta de propósito negocial). Esta acusação somente teria fundamento se o fisco demonstrasse que no lugar do Fl. 10009DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.010 18 negócio jurídico “A”, as partes teriam celebrado o negócio jurídico “B”; e o negócio jurídico “B”, por seu turno, estaria sujeito a um regime jurídico tributário distinto (mais gravoso). Mas, no caso presente, a autoridade fiscal (assim como a Fazenda Nacional faz no Recurso Especial) limitouse afirmar que a suposta falta de propósito negocial seria fundamento da glosa na amortização do ágio.”; Por sua vez, cientificado o acórdão proferido pela Turma a quo, o contribuinte opôs embargos de declaração (efls. 9837 e seg. ), os quais foram rejeitados (efls. 9849 e seg.). O contribuinte, então, interpôs recurso especial (efls. 9870 e seg.), o qual foi parcialmente admitido por despacho (efls. 9920 e seg.; efls. 9934 e seg.), com o conhecimento das seguintes matérias: (i) glosa da amortização de ágio ágio interno, (ii) trava de 30% na incorporação, (iii) concomitância da multa isolada por falta/insuficiência de recolhimento de estimativas com a multa de oficio e (iv) incidência dos juros de mora sobre a multa de oficio. Em relação a essas matérias, suscita o contribuinte, em síntese: “7. Três são as principais razões que justificam a reforma do Acórdão Recorrido neste particular [glosa da amortização do ágio]: i. embora tenha considerado que o ágio amortizado surgiu no âmbito de uma operação de “casa e separa”, o Acórdão Recorrido não atribui a esta tratamento próprio de uma alienação, em que o ágio forçosamente é apurado (a despeito do cabimento da tributação do ganho de capital correspondente); ii. assumindose, como fez o Acórdão Recorrido, que a reorganização societária do grupo a que pertence a Recorrente deu origem a um ágio interno, nem por isto se justifica a conclusão de que este não é amortizável para fins fiscais; e iii. as alegações constantes do Acórdão Recorrido acerca do cálculo e da demonstração do ágio, a despeito de serem meros reforços retóricos da acusação de “artificialidade” do ágio interno, não podem servir de base para manutenção do Lançamento, pois não compõem a lide, nos limites em que determinaram o AIIM e a impugnação.”; “37. Diante do exposto, não há como manterse o Acórdão Recorrido, no que ele condena a formação de ágio. O ágio não pode ser considerado artificial, porque, afinal de contas, o que está por trás de toda a operação é simplesmente uma venda e compra de participação societária (assim decidiu o colegiado a quo). O ágio também não pode ser considerado interno, porque, se é verdade, como estatui o despacho monocrático de admissibilidade dos embargos de declaração, que “as operações foram engendradas de tal forma a permitir benefícios a ambas as partes”, então o que está em jogo é o exato contrário do ágio interno. “Ágio interno” surge no ambiente restrito do grupo empresarial, logo, não beneficia ou prejudica qualquer terceiro; se o ágio debatido foi apurado ao cabo de uma operação que beneficiou o Grupo Rossi, então ele não é interno, nem tem como sêlo. “51. A acusação de que o ágio terseia formado “internamente” no presente caso não pode justificar a manutenção do AIIM por três ordens de razões, saber: i. Os grupos envolvidos na transação que gerou o ágio são independentes; ii. não há restrição contábil ao registro do ágio apurado nestas circunstâncias; iii. o direito positivo não autoriza a desconsideração do ágio gerado nestas circunstâncias.”; Fl. 10010DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.011 19 “123. Portanto, não resta às sociedades incorporadas alternativa que não a compensação integral dos prejuízos fiscais e das bases negativas existentes na data da incorporação. A imposição da limitação de 30% a essas empresas implica a tributação não apenas do seu lucro, mas também do seu patrimônio. E isso é inadmissível, uma vez que a limitação de 30% tem por finalidade manter a arrecadação anual de tributos, e não deturpar o seu fato gerador, de forma a onerar o patrimônio dos contribuintes.”; “139. Ocorre que, no presente caso, há duas razões fundamentais pelas quais não se deve exigir multa isolada da Recorrente, quais sejam: (i) a inadequação lógica do dispositivo legal relativo à multa isolada com o caso concreto (em que se verifica a exigência de tributo); (ii) a impossibilidade de se penalizar duplamente um mesmo fato “ilícito”.”; “163. O crédito tributário decorrente da obrigação penal tributária, por já ser penalidade, não está sujeito a ulterior sanção. Logo, é mister concluir que não se inclui, esta categoria de crédito tributário, na moldura hermenêutica do artigo 161. Assim não fosse, deverseia supor, para que se mantivesse a coerência do dispositivo, que a imposição de penalidades sobre aquela; deveria assumir, então, que o artigo estaria ressalvando a possibilidade de multa sobre multa, veiculada em uma norma que trata incidentalmente essa questão.” A PFN apresentou contrarrazões, arguindo, em síntese, que (efls. 9937 e seg.): “A compreensão desse fato mostra a fragilidade da tese da contribuinte, no sentido de que o ágio se originou de uma operação entre partes independentes. Em primeiro lugar, importante ressaltar que patrimônio cindido da ENGEMIX PARTICIPAÇÕES pertencia à CIMEFOR. Esse fato é incontroverso, bastando lembrar que, justamente por causa da referida cisão parcial, foram extintas as quotas da ENGEMIX PARTICIPAÇÕES que pertenciam à CIMEFOR. Nesse contexto, temse que a CIMEFOR resolveu aplicar o acervo líquido cindido da ENGEMIX PARTICIPAÇÕES para integralizar o capital social da CONCREFOR – pessoa jurídica que integrava o GRUPO VOTORANTIM.” “Nesse ponto, vale lembrar que o ágio registrado em decorrência da integralização do aumento de capital da ENGEMIX PARTICIPAÇÕES, ocorrida em 18/12/2001, correspondia a 92.383.653,27. Contudo, conforme atestado pela própria recorrente, não foi esse ágio que acabou sendo amortizado pelas pessoas jurídicas do GRUPO VOTORANTIM. Nessa perspectiva, a conclusão é óbvia: se o ágio não foi gerado na integralização de aumento de capital da ENGEMIX PARTICIPAÇÕES, somente pode ter surgido em operações societárias realizadas entre empresas do GRUPO VOTORANTIM. Por essa razão, correto o entendimento da Fiscalização ao asseverar que se trata de “ágio interno”. Com efeito, não tendo a recorrente demonstrado que o ágio é oriundo das operações efetivadas entre o GRUPO VOTORANTIM e o GRUPO ROSSI, forçoso concluir que o ágio somente pode ter como origem as reorganizações societárias internas do GRUPO VOTORANTIM.” “Assim, para gozar da dedutibilidade preconizada no art. 386 do RIR/99, não basta a pessoa jurídica, por exemplo, simplesmente incorporar uma controlada na qual detenha participação societária com ágio. Entre as condições e requisitos previstos, deve essa pessoa jurídica ter efetivamente suportado o ágio por ele registrado, ou seja, o ágio deve existir, deve ter propósito negocial e substrato econômico a justificar a sua origem. Além disso, o ágio deve também ter como fundamento econômico a rentabilidade futura da controlada, respaldado por um laudo que ateste esse fundamento econômico, devendo o documento ser arquivado como comprovante da escrituração do ágio. Por fim, a sua amortização deverá obedecer o Fl. 10011DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.012 20 mínimo de 1/60 para cada mês do período de apuração. Vale destacar, por último, que, para existir, o ágio ou deságio deve sempre ter como origem um propósito negocial (aquisição de um investimento) e, assim, um substrato econômico (transação comercial). Somente registros escriturais, por exemplo, não podem ensejar o nascimento dessa figura econômica e contábil. Por propósito negocial, entendese a lógica econômica que levou ao surgimento do ágio ou deságio, ou seja, a razão negocial que ensejou a aquisição de um investimento por valor superior ou inferior àquele que custou originalmente ao alienante. Há esse propósito quando, por exemplo, uma empresa adquire participação societária de outra com ágio com o intuito de auferir os prováveis resultados positivos que esta última terá no futuro; ou, quando uma empresa adquire participação societária de outra com deságio porque a alienante precisava aumentar emergencialmente a liquidez de seu ativo.” “Em relação ao ágio aqui discutido, verificase que a contribuinte não trouxe aos autos um documento hábil a demonstrar o fundamento econômico para o pagamento de ágio por rentabilidade futura da ENGEMIX PARTICIPAÇÕES. Isso porque, segundo a autoridade fiscal, o laudo juntado pela contribuinte apresentou um ágio de R$ 200 milhões, valor que diverge do montante de ágio que a CIMEFOR teria pago no aumento de capital da ENGEMIX PARTICIPAÇÕES (R$ 92.383.653,27). Além disso, o próprio valor de R$ 200 milhões teria sido considerado para apurar arentabilidade futura da ENGEMIX PARTICIPAÇÕES, o que foi apontado pela autoridade fiscal como uma consideração do ágio “em si mesmo”. Não bastasse isso, ainda que se considere o valor de ágio efetivamente amortizado pela ENGEMIX S.A. (sucessora da CIMEFOR) foi de R$ 189.705.174,00, montante que também não corresponde ao valor apurado pelo laudo de avaliação. Significa dizer que o laudo não serve como fundamento para o ágio descrito acima – que teoricamente foi pago na operação. Dessa maneira, temse que o valor do ágio, criado a partir do laudo de avaliação, não corresponde à realidade das empresas envolvidas nas reorganizações societárias. Nesse ponto, convém salientar que não se está questionando as conclusões apresentadas pelo laudo. Apenas tentase demonstrar que o ágio de R$ 189.705.174,00 – que acabou sendo lançado nos livros contábeis da contribuinte – é absolutamente distinto do ágio de 200 milhões. Considerando que o laudo apresentado pela contribuinte serve de fundamento somente para ágio de R$ 200 milhões, forçoso concluir que o ágio registrado pela contribuinte não está fundamentado em nenhum Laudo de Avaliação.” “Nesse contexto, ao contrário do que pontua a recorrente, a Lei nº 8.981, de 1995, e a Lei nº 9.065, de 1995, não estabeleceram qualquer exceção quanto à regra de 30% para a compensação dos prejuízos fiscais relativamente à hipótese de extinção da empresa. Diante disso, o silêncio dessas normas, quanto à extinção da pessoa jurídica detentora de prejuízos fiscais acumulados, sob nenhum aspecto pode significar a autorização para compensação integral. Isso porque, como não é prevista nenhuma exceção, devese entender que o limite de 30% aplicase a todas as situações possíveis, sem exceção.” “Por outro lado, vale destacar que não há óbice a que sejam aplicadas ao contribuinte faltante, diante de duas infrações tributárias distintas, duas penalidades que possuam a mesma base de cálculo. Isso porque a proibição do bis in idem pretende evitar a dupla penalização por um mesmo ato ilícito, e não, propriamente, autilização de uma mesma medida de quantificação para penalidades diferentes, decorrentes do cometimento de atos ilícitos também diferentes.” “O fato de estar sendo exigido do contribuinte a multa de ofício decorrente do não Fl. 10012DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.013 21 pagamento de tributo (ou de recolhimento a menor), não afasta a incidência da multa isolada – prevista na alínea “b” do inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 – tendo em vista que a lei não dispensa a cobrança de penalidade nesses casos. Sob essa ótica, vêse que a exoneração da multa isolada corresponderia a uma hipótese de dispensa de multa não prevista na legislação, qual seja: a cobrança concomitante de multa de ofício decorrente do não pagamento ou pagamento a menor do tributo. Dessa forma, em respeito ao princípio da legalidade, esse entendimento não pode ser admitido.” “Neste ponto, duas conclusões já se apresentam. A primeira delas é que não há respaldo legal para uma interpretação supostamente literal do art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, que restrinja a incidência de juros de mora ao valor de tributos e contribuições. Entender dessa forma significaria suprimir indevidamente a expressão “decorrente de tributos e contribuições”. Portanto, literal por literal, é de prevalecer a interpretação que considera a incidência de juros moratórios sobre os tributos e quantias decorrentes, a exemplo da multa de ofício. (Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições...). A segunda conclusão diz respeito à necessidade de lembrarmos as finalidades da lei para alcançar a efetiva compreensão do comando legal. Nessa perspectiva, relevante registrar que as multas possuem duas finalidades precípuas: uma finalidade punitiva, em razão da prática de uma conduta reprovada pelo ordenamento jurídico; e uma finalidade educativa, na medida em que o contribuinte transgressor, bem como os demais contribuintes, serão compelidos a não repetir a conduta juridicamente indesejada.” Notese que a PFN não apresenta oposição ao conhecimento do recurso especial interposto pelo contribuinte. Concluise, com isso, o relatório. Voto Vencido Conselheiro Luís Flávio Neto Relator RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE Em seu recurso especial, o contribuinte apresentou analiticamente argumentos para a demonstração da divergência jurisprudencial arguida, cumprindo com o que requer o art. 67 do RICARF. Quanto à parte em que o recurso especial foi conhecido, compreendo que o despacho de admissibilidade bem analisou os requisitos de admissibilidade, não merecendo reparos. 1. Glosa da amortização de ágio. O ágio a que diz respeito a aludida glosa teve origem em operação de cisão societária. Antes da referida cisão, dois grupos empresariais distintos mantiveram investimentos na empresa Geral de Concretos S.A: o Grupo Votorantim, com aprox. 53% e o Grupo Rossi, com aprox. 47%. Após a cisão, o Grupo Votorantim passou a deter o investimento em Geral de Concretos e, assim, no setor de concretagem, enquanto que o Grupo Rossi ficou com as empresas de outros segmentos. Nessa operação de cisão, contudo, foram atribuídos ao Grupo Votorantim acervo líquido avaliado em aprox. R$ 49 milhões, apurandoaprox. R$ 227 milhões de ágio. Fl. 10013DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.014 22 1.1. A amortização fiscal das despesas de ágio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura. A palavra “ágio” conduz à ideia de um sobrepreço que se paga por algo, um valor superior a determinado parâmetro.1 Um exemplo simplificado é útil para situar essa ideia geral. Na década de 90, em plena transformação da indústria automobilística brasileira, era comum que as concessionárias levassem meses para receber da fábrica os automóveis adquiridos por seus clientes. O cliente comum, ansioso para receber o automóvel em que empenhava as suas economias, era submetido a uma longa e angustiante espera mesmo após já ter concretizado a compra. As concessionárias, então, vislumbraram nisso uma oportunidade: adquiriam antecipadamente alguns automóveis novos, assumindo o risco (baixo, devido à elevada procura) de não os vender. Assim, aos clientes eram apresentadas duas possibilidades: (i) a aquisição do veículo pelo preço de tabela, com a espera de alguns meses até a entrega pela fábrica ou; (ii) a aquisição do veículo em estoque (entrega imediata), com o acréscimo um determinado valor sobre o preço da tabela, a título de “ágio”. Notese que, ao optar pelo veículo em estoque e o pagamento do “ágio” referido, o adquirente realizaria o pagamento de um sobrepreço com o objetivo de desfrutar da posse do veículo antecipadamente, ao que estaria destituído dessa fruição imediata caso optasse por desembolsar apenas o preço de tabela do bem. Já o vendedor, por sua vez, seria recompensado pelo risco assumido e pelo adiantamento à fábrica do custo do automóvel. O “ágio”, nesse simplório exemplo outrora corriqueiro no mercado automobilístico brasileiro do varejo, ilustra bem quão normal é o pagamento de sobrepreços, bem como que este pode ser justificado por motivos distintos sob as perspectivas dos dois polos do negócio jurídico (adquirente e alienante). O ágio analisado no presente processo administrativo se refere à aquisição de participação societária relevante em empresas (investidas) por outras empresas (investidoras). No período atinente ao caso ora sob julgamento, como se verá a seguir, o legislador reconhecia como justificativa negocial para o ágio (ou deságio) a expectativa de rentabilidade futura da empresa investida, o valor de mercado de bens do ativo da empresa investida superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, o fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. 1.1.1. A identificação do ágio pelo Método de Equivalência Patrimonial (“MEP) Quando uma pessoa jurídica possui participação societária relevante em outra (controlada ou coligada), deve refletir em sua contabilidade tal investimento, avaliandoo conforme o método da equivalência patrimonial (doravante “MEP”). “Ágios” e “deságios” são itens evidenciados nas demonstrações contábeis pelo MEP: à época dos fatos presentes nestes autos, era exigido de companhias investidoras que evidenciassem o fato de que que parte do investimento mantido em empresa controlada ou coligada não se justificaria pelo valor patrimonial desta, mas sim por um ágio despendido quando de sua aquisição, considerando o fundamento pelo qual se incorreu neste.2 Nos idos de 1976, a Lei n. 6.404 (“Lei das SA”) regulou a adoção do MEP, especialmente em seu art. 248: 1 Vide: SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo: Dialética, 2012, p. 13 e seg. 2 Após a Lei 12.943/2014, que se aplica a período posterior ao dos presentes autos, o ágio por expectativa de rentabilidade futura se tornou residual ao valor justo dos ativos da investida. Fl. 10014DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.015 23 “Art. 248. No balanço patrimonial da companhia, os investimentos relevantes (artigo 247, parágrafo único) em sociedades coligadas sobre cuja administração tenha influência, ou de que participe com 20% (vinte por cento) ou mais do capital social, e em sociedades controladas, serão avaliados pelo valor de patrimônio líquido, de acordo com as seguintes normas: (…)” A legislação brasileira passou a prever que as pessoas jurídicas que detivessem investimentos em controladas ou coligadas, ao realizar escrituração pelo MEP, deveriam desdobrar o custo destas em: (i) valor do patrimônio líquido existente no momento da aquisição da respectiva empresa investida e; (ii) ágio ou deságio eventualmente presente na aludida aquisição: Decretolei n. 1.598/77 Art. 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Avaliação do Investimento no Balanço Art 21 Em cada balanço o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no artigo 248 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e as seguintes normas: I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até 2 meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda. II se os critérios contábeis adotados pela coligada ou controlada e pelo contribuinte não forem uniformes, o contribuinte deverá fazer no balanço ou balancete da coligada ou controlada os ajustes necessários para eliminar as diferenças relevantes decorrentes da diversidade de critérios; III o balanço ou balancete da coligada ou controlada levantado em data anterior à do balanço do contribuinte deverá ser ajustado para registrar os efeitos relevantes de fatos extraordinários ocorridos no período; Fl. 10015DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.016 24 IV o prazo de 2 meses de que trata o item I aplicase aos balanços ou balancetes de verificação das sociedades, de que trata o § 4º do artigo 20, de que a coligada ou controlada participe, direta ou indiretamente. V o valor do investimento do contribuinte será determinado mediante a aplicação, sobre o valor de patrimônio líquido ajustado de acordo com os números anteriores, da porcentagem da participação do contribuinte na coligada ou controlada. O ágio (ou deságio) lançado no ativo permanente da empresa investidora, na conta de investimento (ativo diferido), seria amortizado mediante débito ou crédito em seu lucro líquido. A referida amortização, no entanto, seria meramente contábil, não podendo (ainda) gerar efeitos fiscais. Ainda do ponto de vista da contabilidade, vale observar que o desdobramento do referido ágio também pode ser observado sob a perspectiva da pessoa jurídica investida, embora tais registros contábeis não apresentem qualquer importância para a questão em análise. Notese que a apuração ou mesmo amortização contábil do aludido ágio por expectativa de rentabilidade futura, escriturada pela empresa investidora em função do MEP, sempre se manteve neutra para fins tributários nas diversas alterações legislativas atinentes à matéria. Essa foi a regra estabelecida pelo Decretolei 1.598/77: Art. 25 As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o artigo 20 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no artigo 33. Contudo, como será analisado no subtópico seguinte, a amortização fiscal do ágio, à fração 1/60 ao mês, passou a ser possível a partir da edição da Lei n. 9.532/97, que previu uma fórmula operacional básica a ser seguida pelo contribuinte para a dedutibilidade da referida despesa. 1.1.2. A norma de dedutibilidade fiscal das despesas de amortização de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. Com a edição da Lei n. 9.532/97, o legislador ordinário alterou sensivelmente as consequências tributárias do ágio por expectativa de rentabilidade futura. A partir de então, passou a ser possível o aproveitamento do ágio à fração 1/60 ao mês, desde o momento em que o ágio escriturado pela investidora viesse a ser confrontado, em um mesmo acervo patrimonial, com os lucros advindos da empresa investida que justificaram o pagamento desse sobrepreço por expectativa de rentabilidade futura. A possibilidade de amortização das despesas de ágio por expectativa de rentabilidade futura, da forma prescrita pela Lei n. 9.532/97, depende do cumprimento de uma fórmula operacional básica, que pressupõe o fenômeno societário da absorção patrimonial, com a reunião (por incorporação, fusão ou cisão) do patrimônio da pessoa jurídica investidora com a pessoa jurídica investida, a fim de que o aludido ágio registrado naquela seja emparelhado com os lucros gerados por esta. Concretizada a absorção patrimonial exigida pelo legislador, o ágio apurado em aquisição precedente pode ser amortizado, com a redução da base de cálculo do tributo, no mínimo em 60 meses, nos balanços levantados após a ocorrência de um desses eventos, ainda que a incorporada ou cindida seja a investidora (incorporação reversa). É o que se observa dos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97: Art. 7º. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: Fl. 10016DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.017 25 I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "c" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2° do art. 20 do Decretolei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração3; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados durante os cinco anos calendários subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no mínimo, para cada mês do período de apuração. § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão. § 2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar: a) o ágio, em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; b) o deságio, em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. § 3º O valor registrado na forma do inciso II do caput: a) será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; b) poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. § 4º Na hipótese da alínea "b" do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos e contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente. § 5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito. Art. 8º. O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: a) o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. Analiticamente, nos termos da Lei n. 9.532/97, a hipótese de incidência da norma que atribui consequências tributárias ao ágio incorrido por expectativa de rentabilidade futura requer que seja executada uma fórmula operacional básica, a saber: 3 Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998. Fl. 10017DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.018 26 Aquisição de investimento, por quaisquer das formas em Direito admitidas, com contraprestação de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura; Fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição; Desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial da investida e ágio ou deságio incorrido pelo MEP; A amortização do ágio deve se processar contra os lucros da empresa investida (cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição); Absorção da pessoa jurídica a que se refira o ágio ou deságio (investida) pela pessoa jurídica investidora (ou viceversa); Exclusão de até 1/60 do ágio ao mês na apuração da base de cálculo do tributo. Os arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97 prescreveram que, na hipótese de aquisição de investimento relevante com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, com a correta adoção do MEP para apuração pela investidora do patrimônio líquido da investida e do correspondente ágio, acompanhada da fórmula operacional básica estipulada em lei para a absorção, pela pessoa jurídica investidora, do acervo patrimonial da controlada ou coligada que justificou o ágio incorrido em sua aquisição (ou vice versa), então a consequência jurídico tributária deve ser a amortização da fração de 1/60 por mês do ágio por expectativa de rentabilidade futura contra as receitas da empresa investida (cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição). No ambiente jurídico em questão, para que o contribuinte fizesse jus à dedutibilidade do ágio, deveria preencher os referidos critérios. No presente caso, então, para que a fiscalização tributária logre êxito na glosa de despesas de ágio excluídas da base de cálculo do tributo, deverá demonstrar a simulação ou outras formas de não cumprimento de algum desses requisitos. 1.2. Aquisição de investimento de partes relacionadas. A Lei n. 12.973/2014 prescreveu a regra de que operações de aquisição de participação acionária entre partes dependentes não devem ter efeitos fiscais para fins amortização de ágio. Contudo, o presente caso não é regido por essa Lei, tendo em vista que os fatos se reportam a período muito anterior à sua edição. Essa distinção quanto às normas aplicáveis ao caso é relevante. Ocorre que, até a edição da Lei n. 12.973/2014, não havia na legislação brasileira vedação expressa ou mesmo qualquer referência a essa figura que, no jargão, tornouse popular chamar “ágio interno”. Por se tratar de um rótulo, que surgiu da experiência diante de situações concretas e não da Lei n. 9.532/97, é preciso compreender a sua extensão e as consequência jurídicas que emanam da qualificação de uma operação como “ágio interno”, sem perder de vista as peculiaridades da situação concreta ora trazida a esta CSRF. Em termos muito gerais, o chamado “ágio interno” consiste em situações nas quais não se encontram presentes partes estranhas entre si, não ligadas, não relacionadas, não dependentes. Em geral, há a transmissão do investimento em uma pessoa jurídica para outra, pertencente ao mesmo grupo empresarial. Dizse, então, que o ágio foi constituído “internamente”, sem a participação de agentes externo. Fl. 10018DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.019 27 Assim como operações realizadas entre partes independentes societariamente podem se revelar artificiais (com conluio, por exemplo), quando se está diante de operações rotuladas de “ágio interno”, é necessário investigar as suas peculiaridades, a fim de atribuir lhes a qualificante “válido” ou “inválido”. Enquanto o primeiro, ágio interno válido, mantém incólume a possibilidade de amortização fiscal, o ágio interno inválido não gera qualquer direito à dedutibilidade dessas despesas. Nas ponderadas palavras de MARCOS SHIGUEO TAKATA4, “há ágios internos e ‘ágios internos’ ”. A pedra de toque deste julgamento, portanto, consiste em qualificar o caso concreto como ágio interno válido (operações juridicamente existentes) ou ágio interno inválido (operações simuladas). 2.1. O “ágio interno válido”, cujos efeitos jurídicos devem ser reconhecidos pela administração tributária. É compreensível que operações realizadas entre partes relacionadas permaneçam no radar da fiscalização tributária, tendo em vista a maior facilidade para a manipulação de atos cometidos intramuros. No entanto, no presente caso, a presença de partes relacionadas não é determinante ou mesmo relevante para a amortização fiscal do ágio por expectativa de rentabilidade futura. Essa assertiva encontra fundamento ao menos em duas evidências jurídicas, com as quais é convergente uma evidência de natureza contábil. Sob a perspectiva da contabilidade, ELISEU MARTINS e SÉRGIO DE IUDÍCIBUS5 suscitam que a máxima contábil, de que “só se ativa o ágio por rentabilidade futura quando fruto de uma transação, jamais quando ele é criado pela própria entidade”, demanda a questão do que seja “entidade”. Esclarecem os professores que, enquanto países como EUA adotam a tradição da elaboração de balanços consolidados, no Brasil e em uma série de outros países o balanço consolidado é exceção, sendo a regra o balanço individual. Como conclusão, então, seria possível o reconhecimento de ágio gerado em operação entre entidades distintas, ainda que pertencentes ao mesmo grupo empresarial. O argumento contábil, então, restringe substancialmente a extensão de situações abrangidas pelo rótulo “ágio interno”. A partir de tal constatação, LUÍS EDUARDO SCHOUERI e ROBERTO CODORNIZ LEITE PEREIRA6 acertadamente suscitam que “o substantivo ‘ágio’, para receber o adjetivo ‘interno’, teria que ser necessariamente gerado nas estritas fronteiras de uma entidade contábil o que, no Brasil, só ocorreria nas hipóteses de ágio interno artificial, desde que, evidentemente, resta caracterizada a simulação da operação, pois, neste caso, não mais haverá duas pessoas distintas participando da operação, mas, tão somente, uma”. Em boa medida, essa tradição contábil brasileira reflete o contexto jurídico vigente no Brasil ao tempo dos fatos deste processo administrativo. Por essa razão, há convergência com duas evidências jurídicas quanto à irrelevância de ligação entre as partes da operação de aquisição de investimento com ágio, tal como aquela que está sob julgamento: (i) o princípio da legalidade e o completo silêncio do legislador (período anterior à Lei n. 12.973/2014) e; (ii) todos os requisitos exigidos pelo legislador para a apuração e amortização 4 TAKATA, Marcos Shigueo. Ágio Interno sem Causa ou “Artificial” e Ágio Interno com Causa ou Real – Distinções necessárias, in Controvérsias jurídicocontábeis (aproximações e distanciamentos), vol. 3 (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo: Dialética, 2012, p. 194. 5 MARTINS, Eliseu; IUDÍCIBUS, Sérgio de. Ágio interno é um mito?, in Controvérsias jurídicocontábeis: aproximações e distanciamentos (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo: Dialética, 2013. 6 SCHOUERI, Luís Eduardo; PEREIRA, Roberto Codorniz Leite. O ágio interno na jurisprudência do CARF e a (des)proporcionalidade do art. 22 da Lei n. 12.973/2014, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 363. Fl. 10019DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.020 28 fiscal do ágio podem potencialmente ser cumpridos em operações realizadas entre partes ligadas. A primeira evidência jurídica referidas, atinente ao princípio da legalidade, decorre da inexistência de qualquer reação do legislador competente à hipótese de realização de operações entre partes ligadas, especialmente no que pertine à amortização de eventual ágio por expectativa de rentabilidade futura apurado. O reclamo por uma lei para a restrição à liberdade de empresa do contribuinte não necessita de maiores justificativas. As restrições às liberdades fundamentais, quando permitidas, devem ser veiculadas por lei que expresse com clareza a decisão do legislador competente. A exigência de clareza decorre também dos princípios da segurança jurídica, certeza do direito e confiança, pelos quais se requer que o legislador estabeleça os critérios para que a sua decisão restritiva seja executada pela administração fiscal. Tais critérios devem fornecer caracteres que possibilitem ao executor da lei, sem arbítrios, segregar situações qualificáveis como legítimas de outras, consideradas vedadas, não toleradas. Nas situações em que partes ligadas, relacionadas, dependentes sejam critérios para segregar situações legitimamente geradoras de direitos de outras, nas quais o Direito tributário não reconhece as mesmas consequências, esses conceitos devem ser claramente delimitados pelo legislador. Por não se tratar de conceito vulgar, mas sim técnico, é imprescindível delimitação legal. Um bom exemplo pode ser colhido da sistemática dos preços de transferência prevista pela Lei n. 9.430/96, aplicável exclusivamente na hipóteses “operações efetuadas com pessoa vinculada” (art. 18). Como não poderia ser diferente, em seu art. 23, a da Lei n. 9.430/96 expressamente prescreve os critérios para que os contribuintes e a administração fiscal identifiquem quando há e quando não há vinculação entre as partes envolvidas na operação. O mesmo se dá em relação à matéria objeto deste recurso especial. A Lei n. 12.973/2014, em seu art. 22, passou a prescrever que, em operações ocorridas a partir de sua edição, a apuração de ágio (good will) apenas poderá se dar na hipótese de “aquisição de participação societária entre partes não dependentes”. Por não se tratar de conceito vulgar, mas técnico, o legislador necessariamente deveria definir critérios para identificar a referida dependência, o que o fez no art. 25 da aludida lei, como segue: “Art. 25. Para fins do disposto nos arts. 20 e 22, consideramse partes dependentes quando: I o adquirente e o alienante são controlados, direta ou indiretamente, pela mesma parte ou partes; II existir relação de controle entre o adquirente e o alienante; III o alienante for sócio, titular, conselheiro ou administrador da pessoa jurídica adquirente; IV o alienante for parente ou afim até o terceiro grau, cônjuge ou companheiro das pessoas relacionadas no inciso III; ou V em decorrência de outras relações não descritas nos incisos I a IV, em que fique comprovada a dependência societária. Parágrafo único. No caso de participação societária adquirida em estágios, a relação de dependência entre o(s) alienante(s) e o(s) adquirente(s) de que trata este artigo deve ser verificada no ato da primeira aquisição, desde que as condições do negócio estejam previstas no instrumento negocial.” Fl. 10020DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.021 29 Sobre esse ponto, a Lei n. 12.973/2014 contrasta e torna o silêncio da Lei n. 9.532/97 ainda mais eloquente: apenas a partir da edição dessa nova lei passou a ser vedada a apuração fiscal de ágio na aquisição de participação societária entre partes dependentes. Inovouse o sistema jurídico, com o estabelecimento de critérios para identificação de operações alcançadas pela referida restrição legal. Como até o 2014 o legislador não vedava a apuração de ágio em reestruturações societárias realizadas entre partes relacionadas, considerando tal fator como a priori irrelevante, a Lei n. 9.532/97 não prescreveu quaisquer critérios para distinguir situações em que as partes fossem ligadas ou independentes. A ausência de critérios prescritos pelo legislador, por exemplo quanto ao grau de dependência admitido (ou, o grau de independência exigido), impossibilita que o intérprete adote arbitrariamente requisitos subjetivos e apriorísticos. Nesse seguir, nos casos ocorridos antes da edição da Lei n. 12.973/2014, sob pena de ofensa à legalidade, não pode haver discriminação de operações pelo fato exclusivo de não haver a participação de terceiros independentes na operação, inclusive por não haver parâmetros legais para a delimitação de conceito de dependência no bojo da Lei n. 9.532/97. A segunda evidência jurídica, que deve ser considerada no julgamento deste recurso especial, consiste na constatação de que todos os requisitos exigidos pela Lei n. 9.532/97, para a apuração e amortização fiscal do ágio, podem potencialmente ser cumpridos em operações em que partes ligadas estejam presentes ou não. Como é sabido, no período dos fatos geradores atinentes ao presente caso, vigia norma segundo a qual “apenas” seriam relevante os seguintes critérios para se aferir a possibilidade ou não da amortização fiscal do ágio: (i) aquisição de investimento em pessoa jurídica com contraprestação de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura; (ii) fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição; (iii) desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial da investida e ágio ou deságio incorrido; (iv) absorção da pessoa jurídica a que se refira o ágio ou deságio (investida) pela pessoa jurídica investidora (ou viceversa), de forma que a amortização do ágio se processe contra os lucros da empresa investida (cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição) e, ainda, (v) deve ser respeitado o limite quantitativo de 1/60 ao mês para a amortização do ágio. O requisito (i) deve ser aferido a partir das regras de aquisição de participação societária prescritas no âmbito do Direito privado. Dessa forma, a aquisição de participação societária, referida pelo art. 7o da Lei n. 9.532/97, poderá se dar por quaisquer das formas em Direito admitidas. Nesse universo de possibilidades para aquisição de participação societária, em caráter não exaustivo, podem ser citados exemplos como doação, permuta ou alienação realizadas pelo proprietário das ações de uma pessoa jurídica, bem como a integralização de dinheiro, de bens imóveis, de bens móveis ou mesmo direitos relacionados a bens intangíveis (marcas, patentes, direitos de imagem etc), entre outas, realizadas como contribuição ao capital social da pessoa jurídica. O requisito (ii), requerido pela Lei n. 9.532/97, consiste, como se viu, em sacrifícios econômicos ou financeiros para a aquisição da participação societária com sobrepreço (ágio). Não requereu o legislador que houvesse fluxo de moeda na operação, o que restringiria a apuração de ágio para fins fiscais apenas às hipóteses de integralização de dinheiro ao capital social de pessoa jurídica ou, ainda, à alienação de participação societária em troca de dinheiro. Na verdade, o legislador não distinguiu sacrifícios financeiros ou Fl. 10021DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.022 30 econômicos inerentes a quaisquer das formas em Direito admitidos para a aquisição de participações societárias. Em relação a esse requisito, o que distingue o ágio interno válido do ágio interno inválido é a artificialidade das operações realizadas. O ágio interno válido pressupõe que a avaliação das ações, pois se mentirosa fosse, estarseia simulando o sacrifício econômico que corresponde ao requisito (ii) para a amortização fiscal do ágio. Diante da simulação da transmissão desses direitos que, na verdade, inexistem, não há como admitirse a apurado e amortizado fiscal do ágio. O requisito (iii), atinente ao desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial da investida e ágio incorrido, pode igualmente ser cumprido. Na apuração do MEP, se for o caso, o custo de aquisição do investimento deve ser desdobrado no valor patrimônio líquido da empresa investida e no sobrepreço incorrido, justificado por expectativa de rentabilidade futura. Não é demais repetir que, como o ágio interno válido tem como condição a verdade dos atos praticados, a expectativa de rentabilidade futura deve ser real. Dito de outro modo, as avaliação, os laudos ou outros meios de prova utilizados pelo contribuinte para justificar o sobrepreço incorrido não podem ser inconsistentes, artificiais. O OfícioCircular/CVM/SNC/SEP n. 01/2007 não representa óbice para o cumprimento desse requisito no presente caso. Conforme esse pronunciamento, para o registro, mensuração e evidenciação do ágio pela contabilidade, seria necessário independência entre as partes da operação. A recomendação em questão, contudo, seria aplicável exclusivamente às companhias de capital aberto, de forma a sequer influenciar o caso ora em análise, em que está em cena empresa de capital fechado. Por sua vez, para o cumprimento do requisito (iv), que consiste na absorção da pessoa jurídica a que se refira o ágio ou pela pessoa jurídica investidora (ou viceversa), naturalmente seria totalmente indiferente anterior operação de aquisição entre partes ligadas. Portanto, também não há óbice potencial ao cumprimento desse requisito. Finalmente, o requisito (v) exige o respeito ao limite quantitativo de 1/60 do ágio ao mês na apuração da base de cálculo do tributo, cujo cumprimento, naturalmente, independe da questão ora sob análise. Nesse cenário, como até a edição da Lei n. 12.973/2014 seria possível a existência de ágio interno válido, oponível ao fisco, é ilegal reputar como ilegítima operação de aquisição de investimento exclusivamente por esta ter sido realizada entre partes ligadas, à revelia da demonstração da prática de atos simulados pelo contribuinte. O repertório de precedentes do CARF traz exemplos de casos envolvendo ágio interno reputado de válido, nos quais verificouse inexistir simulação, como se observa das ementas a seguir: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008 ÁGIO. REQUISITOS DO ÁGIO. O art. 20 do DecretoLei n° 1.598, de 1997, retratado no art. 385 do RIR/1999, estabelece a definição de ágio e os requisitos do ágio, para fins fiscais. 0 ágio é a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor patrimonial das ações adquiridas. Os requisitos são a aquisição de participação societária e o fundamento econômico do valor de aquisição. Fundamento econômico do ágio é a razão de ser da mais valia sobre o valor patrimonial. A legislação fiscal prevê as formas como este fundamento econômico pode ser expresso (valor de mercado, rentabilidade futura, e outras razões) e como deve ser determinado e documentado. Fl. 10022DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.023 31 ÁGIO INTERNO. A circunstância da operação ser praticada por empresas do mesmo grupo econômico não descaracteriza o ágio, cujos efeitos fiscais decorrem da legislação fiscal. A distinção entre ágio surgido em operação entre empresas do grupo (denominado de ágio interno) e aquele surgido em operações entre empresas sem vinculo, não é relevante para fins fiscais. ÁGIO INTERNO. INCORPORAÇÃO REVERSA. AMORTIZAÇÃO. Para fins fiscais, o ágio decorrente de operações com empresas do mesmo grupo (dito ágio interno), não difere em nada do ágio que surge em operações entre empresas sem vinculo. Ocorrendo a incorporação reversa, o ágio poderá ser amortizado nos termos previstos nos arts. 7° e 8° da Lei n° 9.532, de 1997. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008 ART. 109 CTN. ÁGIO. ÁGIO INTERNO. É a legislação tributária que define os efeitos fiscais. As distinções de natureza contábil (feitas apenas para fins contábeis) não produzem efeitos fiscais. O fato de não ser considerado adequada a contabilização de ágio, surgido em operação com empresas do mesmo grupo, não afeta o registro do ágio para fins fiscais. DIREITO TRIBUTÁRIO. ABUSO DE DIREITO. LANÇAMENTO. Não há base no sistema jurídico brasileiro para o Fisco afastar a incidência legal, sob a alegação de entender estar havendo abuso de direito. O conceito de abuso de direito é louvável e aplicado pela Justiça para solução de alguns litígios. Não existe previsão do Fisco utilizar tal conceito para efetuar lançamentos de oficio, ao menos até os dias atuais. O lançamento é vinculado a lei, que não pode ser afastada sob alegações subjetivas de abuso de direito. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. ELISÃO. EVASÃO. Em direito tributário não existe o menor problema em a pessoa agir para reduzir sua carga tributária, desde que atue por meios lícitos (elisão). A grande infração em tributação é agir intencionalmente para esconder do credor os fatos tributáveis (sonegação). ELISÃO. Desde que o contribuinte atue conforme a lei, ele pode fazer seu planejamento tributário para reduzir sua carga tributária. O fato de sua conduta ser intencional (artificial), não traz qualquer vicio. Estranho seria supor que as pessoas só pudessem buscar economia tributária licita se agissem de modo casual, ou que o efeito tributário fosse acidental. SEGURANÇA JURÍDICA. A previsibilidade da tributação é um dos seus aspectos fundamentais. (Acórdão n. 1101000.708 Processo n. 10680.724392/201028) Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2005, 2006, 2007, 2008, 2009 DECADÊNCIA. NÃOHOMOLOGAÇÃO DAS DECLARAÇÕES APRESENTADAS. Verificado que o lançamento tributário versou nãohomologação às declarações apresentadas, cujas bases de cálculo foram impactadas pela despesa considerada indedutível, verificase que a insurgência fiscal não se dá no tocante à contabilização da despesa, mas, quanto à sua utilização. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE. ERRO OU DEFICÊNCIA NO ENQUADRAMENTO LEGAL. NÃO OCORRÊNCIA. Tendo em vista que a Fiscalização discriminou detidamente os fatos imputados, permitindo à Recorrente exercitar, com plenitude e suficiência, sua defesa técnica e bem fundamentada, verificase a total ausência de prejuízo ao contribuinte, bem como de pecha capaz de inquinar de nulidade o feito. INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADE. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. ARTIGOS 7º E 8º DA LEI Nº 9.532/97. PLANEJAMENTO FISCAL INOPONÍVEL AO FISCO. INOCORRÊNCIA. A efetivação da reorganização societária, mediante a utilização de empresa veículo, não resulta economia de tributos diferente da que seria obtida sem a utilização da empresa veículo e, por conseguinte, não pode ser qualificada de planejamento fiscal inoponível ao fisco. O “abuso de direito” pressupõe que o exercício do direito tenha se dado em prejuízo do direito de terceiros, não podendo ser invocada Fl. 10023DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.024 32 se a utilização da empresa veículo, exposta e aprovada pelo órgão regulador, teve por objetivo proteger direitos (os acionistas minoritários), e não violálos. Não se materializando excesso frente ao direito tributário, pois o resultado tributário alcançado seria o mesmo se não houvesse sido utilizada a empresa veículo, nem frente ao direito societário, pois a utilização da empresa veículo deuse, exatamente, para a proteção dos acionistas minoritários, descabe considerar os atos praticados e glosar as amortizações do ágio. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. LANÇAMENTO DECORRENTE Repousando o lançamento da CSLL nos mesmos fatos e mesmo fundamento jurídico do lançamento do IRPJ, as decisões quanto a ambos devem ser a mesma. (Acórdão n. 1301001.224. Processo n. 16327.001482/201052) Nesse cenário, como norma prescrita pelo legislador competente (até a edição da Lei n. 12.973/2014), deve ser reconhecido o ágio gerado por operação real, não simulada, independentemente de haver sido conduzida entre partes relacionadas, ligadas, dependentes. 2.2. O “ágio interno inválido”: definição de “simulação” e critérios legais para a qualificação do caso concreto. Os casos rotulados de “ágio interno inválido” são operações societárias realizadas exclusivamente dentro dos muros do grupo empresarial, consideradas sem causa legítima, fictícias, artificiais, simuladas. O que os torna ilegítimos não é a realização de operações entre partes ligadas, mas a simulação que contamina tais operações, com o dolo de evadir tributos. Ao julgar o presente caso, a análise criteriosa esperada deste Tribunal requer esta consideração. Nesse labor, é preciso rejeitar silogismos circulares, capazes de comprometer a correta aplicação das normas tributárias pertinentes. Não se pode assumir que operações realizadas entre partes dependentes sejam, apenas por essa razão, viciadas. Nos presentes autos, compreendo ser juridicamente mandatório que o lançamento tributário apenas se mantenha caso se logre demonstrar que a amortização fiscal do ágio, tal como levada a termo, seja parte de um processo engendrado por meio de atos simulados, com o dolo específico de deduzir indevidamente despesas para a evasão de tributos. São conhecidas decisões deste Tribunal quanto ao ágio interno inválido, em que restou caracterizada a simulação e, por consequência, foram negados os efeitos fiscais de aquisições realizadas entre partes relacionadas, com a atração, por dever funcional do agente fiscal (ato vinculado e não discricionário), da aplicação de multa de 150%. Como exemplo, vale observar o seguinte precedente: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anoscalendário: 2001 e 2002 Ementas: NULIDADE REEXAME DE FATOS JÁ VALIDADOS EM FISCALIZAÇÃO ANTERIOR A Secretaria da Receita Federal não valida ou invalida fatos, mas analisa sua repercussão frente à legislação tributária e exige o tributo porventura deles decorrentes. No caso, a repercussão tributária dos fatos só surgiu com a amortização do suposto ágio. ATOS SIMULADOS. PRESCRIÇÃO PARA SUA DESCONSTITUIÇÃO. No campo do direito tributário, sem prejuízo da anulabilidade (que opera no plano da validade), a simulação nocente tem outro efeito, que se dá plano da eficácia: os atos simulados não têm eficácia contra o fisco, que não necessita, portanto, demandar judicialmente sua anulação. INCORPORAÇÃO DE SOCIEDADE. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO NA AQUISIÇÃO DE AÇÕES. SIMULAÇÃO. A reorganização societária, para ser legítima, deve decorrer de atos efetivamente existentes, e não apenas artificial e formalmente revelados em documentação ou na escrituração mercantil ou fiscal. A caracterização dos atos como simulados, e não reais, autoriza a glosa da amortização do ágio contabilizado. MULTA QUALIFICADA A simulação Fl. 10024DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.025 33 justifica a aplicação da multa qualificada. COMPARTILHAMENTO DE DESPESAS DEDUTIBILIDADE. Para que sejam dedutíveis as despesas com comprovante em nome de uma outra empresa do mesmo grupo, por terem sido as mesmas rateadas, é imprescindível que, além de atenderem os requisitos previstos no Regulamento do Imposto de Renda, fique justificado e comprovado o critério de rateio. BENS DE NATUREZA PERMANENTE DEDUZIDO COMO DESPESA. Não caracterizada a infração pelo fisco, não prospera a glosa das despesas contabilizadas. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Se nenhuma razão específica justificar o contrário, aplicase ao lançamento tido como reflexo as mesmas razões de decidir do lançamento matriz. Recurso voluntário e de ofício negados. (LIBRA TERMINAL 35 S/A. Acórdão n. 159.490. Processo n. 18471.000947/200633) Vale também observar que o nosso Colegiado (1a Turma da CSRF), por unanimidade, recentemente julgou caso de ágio interno inválido (acórdão n. 9101002.427). Naquele caso, restou evidenciada a simulação do sacrifício econômico alegadamente incorrido pelo contribuinte e a artificialidade do laudo de expectativa de rentabilidade futura. Fezse necessário, portanto, descortinar a real situação jurídica, de forma a evidenciar a ausência de fundamento para a amortização fiscal do ágio. Tendo em vista a estrutura engendrada com o intuito doloso de evadir tributos, mantevese, naquele caso, ainda, a qualificação da multa para o percentual de 150%. 1.3. Aplicação das normas jurídicas ao caso concreto. Para a solução do caso concreto, conforme fundamentos acima expostos, é preciso verificar as evidencias aferidas no acórdão a quo, a fim de verificar a prática de atos simulados pelo contribuinte, engendrados com o dolo de evadir tributos, o que ensejaria inadmissibilidade da amortização das despesas com ágio e todas as demais consequências. O acórdão a quo expressamente assentou, in verbis (efls. 9746 e seg.): “Apenas por enquanto, vamos admitir que a participacã̧o da Cimefor na EngemixPar, avaliada em sua contabilidade por R$ 276 milhões, tenha correspondido a efetivo desembolso ou sacrifício de ativos em momentos anteriores. Como se viu, esse investimento foi extinto em troca das quotas da Concrefor, cujo valor de patrimônio líquido era de R$ 49 milhões, por decisão dos acionistas da EngemixPar, não sendo demais lembrar que a Cimefor era, nesse momento, a sócia controladora, com 53,79% das ações. A Cimefor, pois, decidiu pela extinção das ações de sua titularidade na EngemixPar, trocando R$ 276 milhões por R$ 49 milhões. Observese que, neste momento, se confirma a afirmação do Fisco de que o ágio amortizado foi gerado internamente a um mesmo grupo econômico. No momento da formacã̧o do ágio ora discutido, a Cimefor era sócia majoritária e controladora da Engemix Par, e a decisão sobre a cisão parcial, da forma como levada a efeito e com os valores envolvidos, certamente decorreu de ato direto da Cimefor, integrante do grupo Votorantim, o qual viria, futuramente, a ser o único beneficiário da amortização desse ágio. Muito embora, no momento do lançamento, o Fisco não tivesse a visão mais clara que agora se tem sobre o ocorrido, a falta de ligação entre o ágio gerado em momentos anteriores a 15/01/2002 e aquele efetivamente amortizado a partir de 2006, juntamente com a obscuridade até então reinante sobre os diversos eventos societários, conduziu à conclusão de que o ágio somente poderia ter sido gerado internamente ao grupo, conclusão que agora se mostra correta. Ainda assim, se poderia cogitar, como afirma a interessada, que a troca de R$ 276 milhões (investimento na EngemixPar) por R$ 49 milhões (valor patrimonial da Concrefor) pudesse ser justificada, do ponto de vista econômico, por haver um valor muito maior embutido na nova empresa Concrefor. A argumentação da recorrente Fl. 10025DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.026 34 se baseia no Laudo de Avaliação de Rentabilidade Futura da Engemix Participacõ̧es S/A (fls. 2917/2947). Suas pretensões, entretanto, não resistem à análise daquele documento. O laudo apresentado foi elaborado pela PCS Consultores em novembro de 2001, com o objetivo de embasar a subscricã̧o de capital da EngemixPar, feita pela Cimefor, em 18/12/2001. O valor presente líquido ali considerado (fl. 2946, R$ 151 milhões divididos por 53,79% = R$ 281 milhões) se refere à totalidade da EngemixPar após a subscricã̧o de capital analisada, não se encontrando no laudo qualquer menção, ainda que hipotética, à iminente cisão parcial da EngemixPar, que viria a ocorrer menos de um mês depois, em 15/01/2002. O laudo considera, ainda, injeção de R$ 230 milhões no caixa da EngemixPar (em decorren̂cia do aumento de capital subscrito pela Cimefor), premissa que não se mantém com a cisão parcial. Parece claro que o valor presente líquido, calculado pela consultora com base na rentabilidade futura da EngemixPar, leva em conta a integralidade de seu capital social, bem assim a presença, em sua estrutura produtiva, das controladas expressamente mencionadas no laudo (Engemix S/A2, Concrelix S/A e Concremaster Ltda.). Não vejo como se possa entender que a totalidade da rentabilidade futura prevista para a EngemixPar teria acompanhado a parcela cindida de R$ 49 milhões que resultou na criação da Concrefor, se outra parcela de R$ 245 milhões do patrimônio ficou na (nova) EngemixPar póscisão. Além disso, para a parcela cindida somente for transferido o controle da subsidiária EPGE (e indiretamente, da Geral de Concreto S/A, posteriormente Engemix S/A, e Transerve), enquanto que com a EngemixPar pós cisão ficaram as controladas Itabens, Concrelix S/A e Concremaster Ltda. Muito menos é possível cogitar de qualquer proporcionalização dos valores. Seria necessário um laudo específico para rentabilidade futura da parcela cindida (Concrefor), que não encontro nos autos. Concluo, então, que a diferença entre o valor do investimento da Cimefor na EngemixPar (inclusive ágio) extinto por ocasião da cisão parcial da investida (R$ 276 milhões) e o valor do investimento recebido em substituição àquele (R$ 49 milhões) não pode ser tida como embasada em expectativa de rentabilidade futura da investida, por desatender aos requisitos legais, em especial, a ausência de demonstrativo específico para essa finalidade, tempestivamente elaborado e arquivado como comprovante da escrituração. Em decorrência, sua amortização para fins fiscais não pode ser admitida. (...) E que não se alegue, como parece entender a recorrente, que as bases do lanca̧mento teriam sido alteradas. O lanca̧mento foi feito com as informações e documentos fornecidos ao Fisco durante o procedimento de fiscalização e pareceme evidente que a então fiscalizada não teve qualquer preocupação em esclarecer o efetivamente ocorrido, seja informando corretamente a origem do ágio questionado pelo Fisco, seja apresentando todos os documentos e registros contábeis pertinentes. Glosadas as amortizações, por indedutibilidade de tais despesas, caberia à interessada trazer aos autos provas inquestionáveis da origem e formacã̧o do ágio, de sua dedutibilidade para fins fiscais e, finalmente, de sua transmissão via eventos societários até a Engemix S/A e a Votorantim Cimentos S/A. Não foi o que sucedeu. No que toca à origem e formação do ágio, encontrase razoavelmente esclarecido o ocorrido em 15/01/2002, momento da cisão parcial da Engemix Par. A dedutibilidade, para fins fiscais, resta claramente prejudicada pelo anteriormente exposto, a falta de laudo ou demonstrativo específico que permita classificar a diferença de valores como ágio baseado em expectativa de rentabilidade futura, única hipótese que poderia levar à amortizacã̧o dedutível. Fl. 10026DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.027 35 Finalmente, quanto à transmissão do ágio de R$ 227 milhões em 15/01/2002 até resultar em ágio de R$ 189 milhões no início de 2006, careceria também de maiores esclarecimentos e provas sobre os alegados ajustes ocorridos ao longo dos anos e dos diversos eventos societários. Em conclusão, à luz do que se vê agora, constatase que: (i) o ágio efetivamente amortizado é de fato interno, pois gerado em operacã̧o societária artificial, quando a sócia controladora da sociedade cindida (EngemixPar) era a Cimefor, pertencente ao grupo Votorantim, único beneficiário da posterior amortização desse ágio; (ii) o artificialismo se estende ao valor atribuído à parcela cindida: buscase utilizar um laudo elaborado para o todo com a finalidade de atribuir valor a uma parte, deixando de lado a relevante parcela do patrimônio que seguiu com a EngemixPar póscisão. As premissas do laudo foram alteradas, pelo que não se pode admitir que suas conclusões continuem vigentes, nem se pode imputar a rentabilidade futura atribuída a um conjunto a uma parcela desmembrada desse conjunto. As amortizações de ágio restam claramente indedutíveis, devendo ser glosadas para fins de determinacã̧o das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, mantendose o lançamento, quanto a este ponto.” Quanto à primeira divergência suscitada no recurso especial (“glosa da amortização de ágio ágio interno”), é necessário concluir que não se está diante de ágio interno. Isso porque as partes das operações relevantes para a formação do ágio não eram relacionadas (não havia um grupo, mas dois distintos), sendo relevante destacar que houve efetiva alteração de controle das companhias. Nesse cenário, este julgamento deve ser conduzido afastandose as máculas que poderiam surgir pela caracterização do ágio interno. Mas ainda que assim não fosse, conforme se fundamentou, não se poderia adotar a premissa de que qualquer operação realizada entre partes dependentes é a priori reputada como inválida e inoponível ao fisco. Em todos os casos, importar verificar se os requisitos prescritos pelo legislador foram preenchidos. É preciso concordar que houve sacrifício econômico, com sobrepreço, para a aquisição de investimento relevante. Na operação de cisão parcial, dois grupos independentes realizaram negócio jurídico, em que um deles restou com parcela do negócio adquirida com sacrifício de um sobrepreço (a recorrente). Após a cisão, aprovada por ambos os grupos independentes, o Grupo Votorantim passou a deter o investimento em Geral de Concretos e, assim, no setor de concretagem, enquanto que o Grupo Rossi ficou com as empresas de outros segmentos. Nessa operação de cisão, contudo, foram atribuídos ao Grupo Votorantim acervo líquido avaliado em valor inferior ao seu sacrifício incorrido. É legítimo que a parte que incorreu em sobrepreço em operação de cisão que o reconheça e aplique as consequências tributárias dai decorrentes. No que se refere à demonstração dos fundamentos econômicos do ágio em questão, é relevante notar não ter sido objeto de contestação pela fiscalização, que suscitou apenas divergências de valores e ausência do que chamou de "propósito negocial". Se houve o sacrifício com sobrepreço no caso concreto (como se verificou acima), a expectativa de rentabilidade futura justificada pelos laudos apresentados na defesa do contribuinte não podem ser desconsiderada como o fez a decisão recorrida. Foi ainda cumprida a exigência do efetivo desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial e o ágio por expectativa de rentabilidade futura. Igualmente foi cumprida a exigência do art. 8o, “b”, da Lei 9.532/97, com a absorção patrimonial da pessoa jurídica que detinha o investimento adquirido com ágio. Fl. 10027DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.028 36 Também foi cumprida a exigência de que a amortização do ágio apurado pela investidora se processasse contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. Por todo o exposto, afastandose as questões relacionadas ao suposto ágio interno e demais questões levantadas, resta compreender que foram cumpridos os requisitos para o reconhecimento e aproveitamento fiscal do ágio, merecendo provimento o recurso especial do contribuinte quanto à matéria do ágio. 2. A "trava de 30%" para a compensação de prejuízos fiscais (base de cálculo negativa) na hipótese de incorporação Outro ponto do recurso especial ora em exame consiste em saber se, na hipótese de uma pessoa jurídica, submetida ao lucro real, apresentar lucros no exercício em que vier a ser extinta por incorporação (art. 227, § 3º, da Lei n. 6.404/64), poderá compensar integralmente, em sua última declaração de rendimentos, o seu saldo de prejuízos fiscais (IRPJ) e de base negativa (CSL) acumulado de exercícios anteriores, sem a “trava de 30%” que seria aplicável caso a sua existência fosse continuada (arts. 15 e 16 da Lei nº 9.065/95). Para a melhor compreensão do tema, suponhase, por hipótese, que uma empresa inicie as suas atividades no “ano 1”, com o capital social integralizado pelos sócios de $4.000, obtendo prejuízo no “ano 2” de $ 1.000, prejuízo no “ano 3” de $1.000 e lucro no “ano 4” de $3.000. O gráfico a seguir ilustra essa sequência de resultados: 0 1 2 3 4 5 6 Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Patrimônio Prejuízo Lucro Figura 01. Formação de prejuízos fisc a is seguida de período lucra vo. Nos anos “1”, “2” e “3”, naturalmente não haveria IRPJ ou CSL devidos sob a sistemática do lucro real. Tais tributos, por sua vez, poderiam incidir no “ano 4”, para a tributação dos resultados positivos obtidos. No entanto, para a apuração do referido resultado positivo, o contribuinte poderia considerar os resultados negativos obtidos nos exercícios anteriores, tendo em vista a necessária comunicação entre estes. Conforme a sistemática estabelecida pelos arts. 15 e 16 da Lei nº 9.065/95, no “ano 4” e também em todos os próximos exercícios em que obtivesse resultados positivos, o contribuinte poderia compensar até 30% de seus lucros com os prejuízos fiscais (IRPJ) e bases negativas (CSL) apurados naqueles anos “1”, “2” e “3”. É o que ilustra o gráfico a seguir: Fl. 10028DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.029 37 0 1 2 3 4 5 6 Ano 4 Patrimônio Prejuízo Lucro Lucro tributável Patrimônio inicial Saldo de prejuízos acumulados compensáveis em exercícios futuros (“ano 5”, “ano 6” etc) Compensação de prejuízos fis c a is Figura 02. “Trava de 30%”. Aplicação às empresas em con nua a vidade. Não há dúvida que legislador garantiu ao contribuinte o direito de compensar a totalidade do prejuízo fiscal (IRPJ) e base negativa (CSL), mas diluiu o seu exercício durante o tempo de atividade da empresa. A questão que se coloca no presente recurso especial consiste em saber como deve proceder o contribuinte quando não houver a aludida continuidade em suas atividades, especialmente em face de extinção por incorporação. Assim, no caso concreto ora em análise, a empresa possuía saldo de prejuízo fiscal (IRPJ) e base negativa (CSL) acumulado de exercícios anteriores. No ano em que foi extinta em razão de incorporaçã, o contribuinte havia obtido lucros e, em sua última declaração de rendimentos, os compensou com o aludido saldo. Diante da impossibilidade prosseguir compensando prejuízo fiscal (IRPJ) e base negativa (CSL) em exercícios futuros (pois, com a extinção, estes não existiriam), a contribuinte compreendeu inaplicável a “trava dos 30%”. A interpretação sustentada pelo contribuinte conduziria à tributação da renda, dos lucros obtidos durante o exercício de suas atividades, de tal forma que apenas o efetivo acréscimo patrimonial seria tributado pelo IRPJ e da CSL, deixando a salvo desses tributos aquilo que corresponderia efetivamente ao seu patrimônio (o que, de fato, não é hipótese de incidência do IRPJ e da CSL). Com vistas ao exemplo exposto nas figuras acima, a interpretação sustentada pelo contribuinte pode ser representada da seguinte forma: 0 1 2 3 4 5 6 Ano 4 Patrimônio Prejuízo Lucro Compensação de prejuízos fisc a is sem a “trava de 30%” Lucro tributável Patrimônio inicial Figura 03. “Trava de 30%”. Interpretação do contribuinte. Por um lado, é muito diferente a interpretação adotada pelo i. agente fiscal na lavratura do AIIM, bem como pela PFN em sua manifestação perante esta CSRF. Por esta, na hipótese de incorporação, fusão ou cisão, o contribuinte perderia até 70% do saldo de prejuízo Fl. 10029DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.030 38 fiscal (IRPJ) e base negativa (CSL), de tal forma que referidos tributos incidiriam sobre o patrimônio da empresa. É o que ilustra o gráfico a seguir: 0 1 2 3 4 5 6 Ano 4 Patrimônio Prejuízo Lucro Lucro tributável Patrimônio inicial Parcela do patrimônio tributada pelo IRPJ e CSL. Compensação de prejuízos fisc a is com “trava de 30%" Figura 04. “Trava de 30%”. Interpretação da PFN. É importante sublinhar que o presente caso não trata de “incorporação às avessas” ou de compensação de prejuízos da empresa incorporada contra os lucros da empresa incorporadora, as quais são tuteladas pelos arts. 513 e 514 do RIR/99. No presente caso, o saldo de prejuízo fiscal (IRPJ) e de base negativa (CSL), apurado pela empresa incorporada foi compensado com os lucros obtidos por ela, em sua última declaração de rendimentos entregues em função de sua extinção por incorporação. 2.1. A tributação dos “acréscimos patrimoniais” do contribuinte. Na Constituição brasileira, há expressa e detalhada repartição de competências tributárias entre os entes federados, a qual estabelece quais signos presuntivos de capacidade contributiva podem ser onerados privativamente por cada um dos entes federados. A “renda” e o “lucro”, no caso, podem ser tributados exclusivamente pela União. Saber o sentido de “renda” e “lucro” é, então, essencial para a boa aplicação das normas constitucionais de distribuição de competência tributária e das normas de incidência tributária em sentido estrito. Isso explica as constantes discussões ao seu respeito, especialmente em torno de teorias como da “renda como acréscimo patrimonial” e da “renda produto (ou “teoria fonte”). A teoria da renda como acréscimo patrimonial pode ser compreendida a partir do caso Antártica7, julgado pelo Supremo Tribunal Federal cinco anos após a promulgação da Constituição de 1988, em que esteve em foco o conceito de “renda” presente no sistema tributário de 19648. Acompanhando o voto do Min. Carlos Velloso, houve unanimidade no Plenário do Tribunal quanto ao entendimento de que “o conceito implica reconhecer a existência de receita, lucro, proveito, ganho, acréscimo patrimonial que ocorrem mediante o ingresso ou o auferimento de algo, a título oneroso”. Notese que, caso se adote um conceito de “renda” que a identifique como o produto (“teoria da rendaproduto” ou “teoria da fonte”), apenas o fruto, o produto dos bens 7 CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. RENDA CONCEITO. Lei n. 4.506, de 30.XI.64, art. 38, C.F./46, art. 15, IV; CF/67, art. 22, IV; EC 1/69, art. 21, IV. CTN, art. 43. I. Rendas e proventos de qualquer natureza: o conceito implica reconhecer a existência de receita, lucro, proveito, ganho, acréscimo patrimonial que ocorrem mediante o ingresso ou o auferimento de algo, a título oneroso. C.F., 1946, art. 15, IV; CF/67, art. 22, IV; EC 1/69, art. 21, IV. CTN, art. 43. II. Inconstitucionalidade do art. 38 da Lei 4.506/64, que institui adicional de 7% de imposto de renda sobre lucros distribuídos. III. R.E. conhecido e provido. (STF, RE 117887, Relator Min. CARLOS VELLOSO, Tribunal Pleno, julgado em 11/02/1993, DJ 23041993) 8 Anterior ao atual Código Tributário Nacional. Fl. 10030DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.031 39 de capital ou do trabalho poderiam ser considerados “renda”. Sob tal perspectiva, estaria excluído do conceito de renda quaisquer ganhos e perdas de capital obtidos pela alienação da fonte produtora da renda, já que, metaforicamente, a tributação alcançaria apenas os frutos da árvore, mas não a alienação da árvore em si.9 2.1.1. O papel da lei complementar para a definição de “renda” tributável. No atual sistema jurídico brasileiro, o debate sobre qual o conceito de renda tributável deve considerar que o art. 146 da Constituição Federal atribui à lei complementar a competência para estabelecer normas gerais, especialmente sobre a definição dos fatos geradores, bases de cálculo e contribuintes dos impostos discriminados no texto constitucional. Assim, embora não haja delimitação expressa na Constituição quanto ao signo “renda” para fins tributários, o art. 43 do CTN veicula norma que permite que o legislador ordinário se valha ao menos de duas significações possíveis: (i) o inciso I, ao se referir à “renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos”, se aproxima da teoria da rendaproduto; (ii) o inciso II, ao se referir a “proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior”, se aproxima da teoria da renda acréscimo patrimonial. Em ambos os casos, o conceito estabelecido pelo CTN exige que haja a aquisição de disponibilidade econômica ou jurídica sobre a renda, a fim de que seja possível a tributação. O legislador complementar exige que haja a “aquisição de disponibilidade”, pouco importando ser ela “econômica” ou “jurídica”. O legislador ordinário deve eleger hipóteses de incidência do imposto de renda que estejam compreendidas nos referidos moldes estabelecidos pela Constituição e pelo CTN. 2.1.2. A decisão do legislador ordinário: a lógica da determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSL e a não tributação de situações que não geram acréscimo patrimonial. Independentemente das predileções doutrinarias quanto ao mais adequado conceito de “renda” e embora se possa argumentar que a Lei Complementar tenha outorgado possibilidades mais amplas, não há dúvida que o legislador ordinário utiliza sistematicamente, como diretriz central para a tributação da renda, a teoria da renda enquanto acréscimo patrimonial. A constatação é pragmática: as regras do imposto de renda brasileiro, de forma geral, conduzem a uma base tributável que tende ao acréscimo patrimonial realizado pelo contribuinte em um determinado intervalo de tempo. Na sistemática do lucro real, aplicável no caso, a base de cálculo adotada pelo legislador ordinário corresponde ao lucro líquido do período de apuração ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou autorizadas por lei. O lucro líquido, no caso, será apurado com observância das disposições das leis comerciais. É o que prescreve o art. 247 do Decreto 3.000/99 (doravante “RIR/99”), que veicula o Regulamento do Imposto de Renda, com a sistematização de toda a legislação esparsa: Art. 247. Lucro real é o lucro líquido do período de apuração ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou autorizadas por este Decreto (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 6º). § 1º A determinação do lucro real será precedida da apuração do lucro líquido de cada período de apuração com observância das disposições das leis comerciais (Lei nº 8.981, de 1995, art. 37, § 1º). (...) 9 Vide, sobre o tema: LANG, Joachim. The influence of tax principles on the taxation of income from capital, p. 1821; BELSUNCE, HORACIO GARCÍA. El concepto de rédito en la doctrina y en el derecho tributario. Depalma : Buenos Aires, 1967, p. 88 e seguintes. Fl. 10031DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.032 40 Por meio das “adições”, são incluídos à base de cálculo do tributo valores deduzidos na apuração contábil e que não são dedutíveis para fins fiscais, a exemplo de uma despesa indedutível de multa de trânsito. Com as “exclusões”, são excluídos da base de cálculo do tributo as receitas apuradas pela contabilidade que não sejam passíveis de tributação, a exemplo de dividendos isentos recebidos. Finalmente, pela “compensação”, o resultado tributável passível de tributação no período de apuração é diminuído pelos resultados negativos apurados em períodos anteriores. Especialmente em relação aos prejuízos fiscais, o RIR/99 reflete em seus arts. 519 e 510 das regras vigentes sobre a matéria: CAPÍTULO XIV COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS Disposições Gerais Art. 509. O prejuízo compensável é o apurado na demonstração do lucro real e registrado no LALUR (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 64, § 1º, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 6º, e parágrafo único). § 1º A compensação poderá ser total ou parcial, em um ou mais períodos de apuração, à opção do contribuinte, observado o limite previsto no art. 510 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 64, § 2º). § 2º A absorção, mediante débito à conta de lucros acumulados, de reservas de lucros ou capital, ao capital social, ou à conta de sócios, matriz ou titular de empresa individual, de prejuízos apurados na escrituração comercial do contribuinte não prejudica seu direito à compensação nos termos deste artigo (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 64, § 3º). Prejuízos Fiscais Acumulados até 31 de dezembro de 1994 e Posteriores Art. 510. O prejuízo fiscal apurado a partir do encerramento do anocalendário de 1995 poderá ser compensado, cumulativamente com os prejuízos fiscais apurados até 31 de dezembro de 1994, com o lucro líquido ajustado pelas adições e exclusões previstas neste Decreto, observado o limite máximo, para compensação, de trinta por cento do referido lucro líquido ajustado (Lei nº 9.065, de 1995, art. 15). § 1º O disposto neste artigo somente se aplica às pessoas jurídicas que mantiverem os livros e documentos, exigidos pela legislação fiscal, comprobatórios do montante do prejuízo fiscal utilizado para compensação (Lei nº 9.065, de 1995, art. 15, parágrafo único). § 2º Os saldos de prejuízos fiscais existentes em 31 de dezembro de 1994 são passíveis de compensação na forma deste artigo, independente do prazo previsto na legislação vigente à época de sua apuração. § 3º O limite previsto no caput não se aplica à hipótese de que trata o inciso I do art. 470. A sistemática do lucro real, portanto, cristaliza a diretriz adotada pelo legislador ordinário de tributar os acréscimos patrimoniais, ainda que ajustes sejam realizados à apuração contábil. 2.2. A evolução legislativa a respeito da compensação de prejuízos fiscais (IRPJ) e de base negativa (CSL) Na sistemática do lucro real, a compensação de prejuízos fiscais é elemento essencial da diretriz erigida pelo legislador para a tributação da renda enquanto acréscimo patrimonial. A investigação da evolução legislativa sobre a matéria nos últimos 80 anos demonstra que o legislador ordinário jamais negou o direito do contribuinte à Fl. 10032DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.033 41 compensação da totalidade de seu saldo de prejuízos fiscais (IRPJ) ou de base negativa (CSL). Nos idos de 1947, a Lei n. 154 regulou a compensação de prejuízos fiscais, nos seguintes termos: Art. 10. O prejuízo verificado num exercício, pelas pessoas jurídicas, poderá se deduzido, para compensação total ou parcial, no caso da inexistência de fundos de reserva ou lucros suspensos dos lucros reais apurados dentro dos três exercícios subseqüentes. Parágrafo único. Decorridos os três exercícios, não será permitida a dedução, nos seguintes, do prejuízo porventura não compensado. A norma então estabelecida prescreveu que: i) o lucro apurado em um determinado exercício poderia ser integralmente compensado com prejuízos acumulados de exercícios anteriores; ii) o contribuinte teria 3 anos para utilizar o prejuízo fiscal verificado em um determinado exercício. Em 1976, o DecretoLei n. 1.493 trouxe ligeira alteração na regulamentação da matéria, estendendo o prazo prescricional de aproveitamento dos prejuízos fiscais: Art. 12. O prejuízo verificado num exercício a partir do períodobase relativo ao exercício de 1977 poderá ser compensado total ou parcialmente, com os lucros contábeis apurados dentro dos 4 (quatro) exercícios subseqüentes. § 1º Entendese como prejuízo, para os fins de Imposto de Renda o verificado na apuração contábil da pessoa jurídica no períodobase, diminuído dos custos despesas operacionais e encargos não dedutíveis. § 2º Decorridos 4 (quatro) exercícios, não será permitida a dedução, nos seguintes de prejuízos porventura não compensados. A norma em questão vigorou no sistema jurídico brasileiro até 1995, alterou pouco a sistemática anterior, prescrevendo que: i) lucro apurado em um determinado exercício poderiam ser integralmente compensados com prejuízos acumulados de exercícios anteriores; ii) o contribuinte teria 4 anos (e não mais 3 anos) para utilizar o prejuízo fiscal verificado em um determinado exercício. Notese que, sob a égide da norma vigente até 1995, inexistia discussão quanto à possibilidade de compensação integral dos prejuízos acumulados na última declaração de rendimentos da empresa extinta por incorporação. Afinal, a possibilidade de compensação integral, em um único período, era garantida inclusive às empresas em continuidade. Em 1987, o DecretoLei n. 2.341 regulou operações como as chamadas “incorporações às avessas” e situações específicas de aproveitamento de prejuízos fiscais em restruturações societárias, com a limitação, em especial, da compensação de prejuízos fiscais da empresa incorporada contra lucros da incorporadora. Aludidas normas estão refletidas nos ars. 513 e 514 do RIR/99: Mudança de Controle Societário e de Ramo de Atividade Art. 513. A pessoa jurídica não poderá compensar seus próprios prejuízos fiscais se entre a data da apuração e da compensação houver ocorrido, cumulativamente, modificação de seu controle societário e do ramo de atividade (DecretoLei nº 2.341, de 29 de junho de 1987, art. 32). Incorporação, Fusão e Cisão Art. 514. A pessoa jurídica sucessora por incorporação, fusão ou cisão não poderá compensar prejuízos fiscais da sucedida (DecretoLei nº 2.341, de 1987, art. 33). Fl. 10033DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.034 42 Parágrafo único. No caso de cisão parcial, a pessoa jurídica cindida poderá compensar os seus próprios prejuízos, proporcionalmente à parcela remanescente do patrimônio líquido (DecretoLei nº 2.341, de 1987, art. 33, parágrafo único). Em 1991, diante do novo cenário econômico e da sistemática então adotada de apuração mensal do IRPJ, a compensação de prejuízos fiscais foi objeto de nova regulação pela Lei n. 8.383/91: Art. 38. A partir do mês de janeiro de 1992, o imposto de renda das pessoas jurídicas será devido mensalmente, à medida em que os lucros forem auferidos. § 1° Para efeito do disposto neste artigo, as pessoas jurídicas deverão apurar, mensalmente, a base de cálculo do imposto e o imposto devido. (…) § 7° O prejuízo apurado na demonstração do lucro real em um mês poderá ser compensado com o lucro real dos meses subseqüentes. § 8° Para efeito de compensação, o prejuízo será corrigido monetariamente com base na variação acumulada da Ufir diária. A Lei n. 8.383/91, como se vê, manteve o reconhecimento do direito à compensação integral dos prejuízos fiscais, mas deixou de prescrever prazo de prescrição ao seu exercício. Mas, logo em 1992, foi enunciada a Lei n. 8.541, que também manteve o reconhecimento do direito à compensação integral dos prejuízos fiscais, mas estabeleceu prazo para o seu exercício: Art. 12. Os prejuízos fiscais apurados a partir de 1° de janeiro de 1993 poderão ser compensados, corrigidos, monetariamente, com o lucro real apurado em até quatro anoscalendários, subseqüentes ao ano da apuração. Finalmente, em 1995, foi editada a nova tutela à compensação de prejuízos fiscais, que permanece vigente até a atualidade e é aplicável ao presente caso. Sucedendo a 8.981/95, a Lei n. 9.065/1995, em seus arts. 15 e 16, veicula norma de diferimento dos prejuízos fiscais acumulados (IRPJ) e de base de cálculo negativa (CSL), pela qual o contribuinte poderá aproveitálos em sua totalidade, mas diluídos no decorrer de seu período de existência: Art. 15. O prejuízo fiscal apurado a partir do encerramento do anocalendário de 1995, poderá ser compensado, cumulativamente com os prejuízos fiscais apurados até 31 de dezembro de 1994, com o lucro líquido ajustado pelas adições e exclusões previstas na legislação do imposto de renda, observado o limite máximo, para a compensação, de trinta por cento do referido lucro líquido ajustado. Parágrafo único. O disposto neste artigo somente se aplica às pessoas jurídicas que mantiverem os livros e documentos, exigidos pela legislação fiscal, comprobatórios do montante do prejuízo fiscal utilizado para a compensação. Art. 16. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro, quando negativa, apurada a partir do encerramento do anocalendário de 1995, poderá ser compensada, cumulativamente com a base de cálculo negativa apurada até 31 de dezembro de 1994, com o resultado do período de apuração ajustado pelas adições e exclusões previstas na legislação da referida contribuição social, determinado em anoscalendário subseqüentes, observado o limite máximo de redução de trinta por cento, previsto no art. 58 da Lei nº 8.981, de 1995. Parágrafo único. O disposto neste artigo somente se aplica às pessoas jurídicas que mantiverem os livros e documentos, exigidos pela legislação fiscal, comprobatórios da base de cálculo negativa utilizada para a compensação. Fl. 10034DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.035 43 Como se pode observar da evolução dos dispositivos legais que regulam a matéria nos últimos 80 anos, em nenhum momento o legislador negou o direito do contribuinte à compensação da totalidade de seu prejuízo fiscal. A ordenamento jurídico: Em alguns períodos da história, embora tenha estabelecido prazos ao exercício do direito, garantiu ao contribuinte o aproveitamento integral de prejuízos fiscais acumulados em ato único, inclusive (norma revogada); Vedou a compensação de prejuízos fiscais da empresa incorporada contra lucros da incorporadora, sem restringir de qualquer forma a compensação de prejuízos fiscais da empresa incorporada contra os seus próprios lucros (norma vigente); Garantiu ao contribuinte o aproveitamento da totalidade dos prejuízos fiscais (IRPJ) e bases negativas (CSL) acumulados de exercícios anteriores, mas diluiu o exercício desse direito no período de existência do contribuinte, sem prazo de prescrição (norma vigente). A Lei n. 9.065/1995, em seus arts. 15 e 16, veiculam norma de diferimento dos prejuízos fiscais acumulados (IRPJ) e de base de cálculo negativa (CSL), pela qual o contribuinte poderá aproveitálos integralmente, mas diluídos no decorrer de seu período de existência: 2.3. A “trava dos 30%”: norma de diferimento da compensação dos prejuízos fiscais. A norma dos arts. 15 e 16 da Lei n. 9.065/95 regula a compensação de prejuízos acumulados (IRPJ) e bases negativas (CSL), sopesando os interesses de caixa da União com a diretriz central para a tributação da renda enquanto acréscimo patrimonial. Com vistas aos interesses de caixa da União, a norma postergou, adiou, diferiu o exercício do direito do contribuinte à compensação de prejuízos fiscais (IRPJ) e base negativa (CSL), de forma a manter um fluxo arrecadatório mais contínuo. Sob essa perspectiva, a sua explicação tem raízes mais no Direito financeiro e na necessidade de superávit nos orçamentos públicos anuais do que necessariamente no Direito tributário. Houvesse o legislador cumulado a “trava de 30%” a algum prazo de prescrição para a compensação dos prejuízos fiscais acumulados (por exemplo, 4 ou 5 anos), poderíamos ter, aí, um problema sistêmico. Ocorre que, nessa hipótese, o legislador poderia entrar em contradição com a diretriz de renda enquanto acréscimo patrimonial. O diferimento em questão, contudo, não nega o direito do contribuinte ao aproveitamento da integralidade de seus prejuízos acumulados. Pelo contrário, ao afastar a limitação temporal ao seu aproveitamento, garantindo ao contribuinte valerse do tempo que for necessário até esgotar todo o seu estoque de prejuízos fiscais acumulados (IRPJ) e bases negativas (CSL), o legislador ordinário justamente reconhece que o aludido saldo poderá ser esgotado em sua totalidade. O legislador ordinário prescreveu norma pela qual os prejuízos fiscais acumulados serão diluídos nos períodos de apuração em que o contribuinte apresentar lucros, indefinidamente, até que se esgote todo o seu saldo de prejuízos. O pressuposto de incidência da norma é, então, a continuidade da pessoa jurídica, pois somente assim o diferimento e o aproveitamento integral diluído no tempo seria possível. A exposição de motivos da medida provisória posteriormente convertida na Lei n. 9.065/95 é relevante para essa análise, in verbis: Fl. 10035DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.036 44 “Arts. 15 e 16 do Projeto: decorrem de Emenda do Relator, para restabelecer o direito à compensação de prejuízos, embora com as limitações impostas pela Medida Provisória n. 812/94 (Lei 8.981/95). Ocorre hoje ‘vacatio legis’ em relação à matéria. A limitação de 30% garante uma parcela expressiva de arrecadação, sem retirar do contribuinte o direito de compensar, até integralmente, num mesmo ano, se essa compensação não ultrapassar o valor do resultado positivo”. (negrito acrescido) Também é de grande relevância a análise desenvolvida pelo TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JR.10 em face da eludida exposição de motivos, in verbis: “O recurso à E.M. é um importante indício da chamada mens legis. De um lado, ali se evidencia o objetivo do legislador: limitar, quantitativamente, sem retirar o direito de compensar até integralmente num mesmo ano. O exercício do direito à compensação do prejuízo, pela E.M., é que sofre uma limitação quantitativa. Não o próprio direito. Tanto que, como não há limite temporal para esse exercício do direito, e se trata até expressamente de prejuízo fiscal apurado a partir do encerramento do anocalendário de um ano (1995), que poderá ser compensado, cumulativamente com os prejuízos fiscais apurados em anos anteriores (até 31 de dezembro de 1994), com lucros auferidos em anos subsequentes, a simples postergação, à evidência, abrese espaço para a consideração de um âmbito de inferen̂cia ilocutiva: não poder haver perda ou eliminação do direito à compensação. É a lei que estabelece a garantia da plena utilização do saldo de prejuízos. Tratase de significado indireto (ilocução), isto é, por meio de uma elocução (assercã̧o do direito de compensar, com limite quantitativo) o legislador assevera algo expressamente. Mas mediante essa asserção também realiza uma ação que não chega a asseverar: sem limitação de tempo, a garantia de utilizacã̧o é plena”. (negrito acrescido) No entanto, diante da ausência de continuidade da pessoa jurídica, tornase jurídica e faticamente impossível a diluição dos prejuízos fiscais em exercícios, sendo lícito ao contribuinte concentrar a sua compensação pelo término do diferimento. Nesse caso, o único limite aplicável à compensação de prejuízos fiscais acumulados, na hipótese de extinção da sociedade por incorporação, consiste nos lucros auferidos pela empresa no ano de sua extinção. Assim, caso uma pessoa jurídica com prejuízos fiscais acumulados de $2.000 venha a obter, no ano de sua extinção, lucro de $ 1.000, restaria um saldo de prejuízos acumulados de $1.000, que não poderia vir a ser aproveitado por mais ninguém, incluindose a incorporadora (DecretoLei n. 2.341/87, art. 33). Ocorre que, em termos gerais, dois fatores interferem na velocidade e na grandeza com que se dará o aproveitamento do prejuízo fiscal acumulado: Prosperidade do contribuinte: Quanto maiores forem os lucros líquidos obtidos pelo contribuinte, proporcionalmente maior será a fatia do prejuízo que poderá ser compensada. Assim, caso uma pessoa jurídica com prejuízos fiscais acumulados de $100 obtiver desempenho que lhe proporcione lucro líquido de $1.000 após adições e exclusões previstas na legislação, tenha ela perspectiva de continuidade ou não, poderá compensar em um único ato todo esse seu estoque de prejuízos. 10 FERRAZ JUNIOR, TERCIO SAMPAIO. DA COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS OU DA TRAVA DE 30%, IN REVISTA FÓRUM DE DIREITO TRIBUTÁRIO RFDT, ANO 10, N. 60. BELO HORIZONTE, 2012, P. 212. Fl. 10036DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.037 45 Vitalidade do contribuinte (ou continuidade da pessoa jurídica): A diluição dos prejuízos fiscais acumulados nos períodos de apuração futuros pressupõe que a vitalidade do contribuinte proporcione a continuidade de suas atividades (aliada à sua prosperidade, que lhe garantirá lucros passíveis de compensação). Conjugando tais fatores, a norma dos arts. 15 e 16 da Lei n. 9.065/95 poderá apresentar as seguintes consequências em variados cenários: baixa prosperidade vs. continuidade da entidade: com a adoção da “trava dos 30%”, o saldo de prejuízos fiscais acumulados será consumido mais lentamente e até que os lucros gerados sejam suficientes para a sua compensação integral, sem limite temporal; elevada prosperidade vs. continuidade da entidade: com a adoção da “trava dos 30%”, o saldo de prejuízos fiscais acumulados será rapidamente consumido em face dos lucros gerados; elevada prosperidade vs. extinção da entidade: o saldo de prejuízos fiscais acumulados poderá ser integralmente consumido em face dos lucros gerados, sem a adoção da “trava dos 30%” na última declaração de rendimento da empresa extinta; baixa prosperidade vs. extinção da entidade: o estoque de prejuízos fiscais acumulados poderá ser integralmente consumido em face dos lucros gerados, sem a adoção da “trava dos 30%” na última declaração de rendimento da empresa extinta, mas como não seriam suficientes para absorver todo o prejuízo de exercícios anteriores, haverá saldo residual não aproveitado. Para a solução do caso concreto, devemos verificar qual interpretação dos arts. 15 e 16 da Lei n. 9.065/95 – a do contribuinte ou a da PFN – melhor se amolda a esse arcabouço normativo e, em especial, à diretriz da renda enquanto acréscimo patrimonial adotada pelo legislador. É forçoso reconhecer que a interpretação sustentada pelo contribuinte realmente se alinha à diretriz da tributação da renda enquanto acréscimo patrimonial. A “Figura 03”, acima, evidencia que, diante da impossibilidade de continuidade das atividades da empresa por conta de sua extinção por incorporação, deve haver o acerto final de contas, com a compensação do saldo de prejuízos fiscais (IRPJ) e bases negativas (CSL) da incorporada contra os seus próprios lucros. Tal interpretação coincide com aquela adotada pelo e. STJ em uma série de julgados (vide no tópico “1.4”, abaixo). Assim, por exemplo, nos acórdãos do REsp 516849/CE, do AgRg no REsp 944.427/SP e do AgRg no REsp 516.849/CE, a Primeira Turma daquele Tribunal reconheceu como pressuposto de legitimidade da “trava dos 30%” exatamente a manutenção do direito do contribuinte à compensação da totalidade de seus prejuízos, ainda que o seu exercício seja diluído no tempo: o legislador “diferiu a dedução para exercícios futuros, de forma escalonada”. Na mesma linha, a Segunda Turma do e. STJ, em acórdãos como do REsp 993.975/SP e do REsp 1.132.256/SP, concluiu que a norma em questão “diferiu a dedução para exercícios futuros, de forma escalonada, começando pelo percentual de 30%, sem afronta aos arts. 43 e 110 do CTN”, bem como que “a legalidade do Fl. 10037DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.038 46 diferimento não atingiu direito adquirido, porque não existia o direito à dedução dos prejuízos de uma única vez, mas, sim, à dedução integral, hipóteses que não se confundem” (grifamos). Nos termos adotados pelo e. STJ, ao diferir o aproveitamento integral dos prejuízos acumulados (IRPJ) e da base negativa (CSL), o legislador estabeleceu um escalonamento, de forma que as empresas que apresentem continuidade – como ocorre em geral – devem observar a “trava dos 30%”. Coerentemente, esse percentual poderá ser superior na hipótese de não haver continuidade da pessoa jurídica, como se dá com a sua extinção por incorporação, fusão ou cisão. É digno de nota o voto da i. Min. Eliana Calmon, no REsp 993.975/SP, in verbis: “Pela legislação do imposto de renda, vigente até 30∕12∕94, era possível às empresas contribuintes compensar integralmente os prejuízos fiscais e as bases de cálculo negativas apuradas e registradas no Livro de Apuração do Lucro Real (LALUR), como previsto nos arts. 6º e 64 do DL nº 1.598∕77 e art. 12 da Lei 8.541∕92. Em 31∕12∕94, pela MP nº 812∕94, convertida na Lei nº 8.981∕95, limitouse a autorização da dedução do prejuízo compensável ao percentual de 30%, a partir de 1º de janeiro de 1995, conforme se observa dos arts. 42 e 58 do mencionado diploma legal. Apesar de limitada a dedução de prejuízos para o exercício de 1995, não existia empecilho de que os 70% restantes fossem abatidos nos anos seguintes, até o seu limite total, sendo integral a dedução. A prática do abatimento total dos prejuízos afasta o sustentado antagonismo da lei limitadora com o CTN, porque permaneceu incólume o conceito de renda, com o reconhecimento do prejuízo, cuja dedução apenas restou diferida. O diferimento da dedução, a meu ver, não descaracterizou o crédito, tendo sido somente manipulado pelo fisco, segundo critérios de política econômica e fiscal arrecadatória. A limitação, que no meu ponto de vista, constitui em empréstimo compulsório, é aquela que obsta a devolução de um valor tomado do contribuinte injustamente, como ocorreu em relação à correção monetária das demonstrações financeiras, quando a Lei 8.200∕91, em reconhecendo a ilegalidade da correção estipulada no balanço de 1989, permitiu a devolução escalonada. Na hipótese dos autos, diferentemente, não tomou o fisco valor do contribuinte. O contribuinte é que teve frustrada uma expectativa de ganho com o desenvolvimento de sua atividade empresarial e suportou prejuízos, tendo direito de abater as perdas nos anos posteriores, dentro de um limite que não seja devastador para o fisco, que já contava com exações vindas da atividade empresarial. (...) Uma outra argumentação, comum nas ações onde é defendida a tese do direito à dedução integral dos prejuízos, é a de que foi vulnerado o art. 110 do CTN, eis que não poderia a Lei nº 8.981∕95 subverter o conceito de renda. Como visto no início deste voto, entretanto, não houve subversão alguma, porque não se olvidou o prejuízo, mas apenas foi ele disciplinado de tal forma que se tornou escalonado.” Por sua vez, a “Figura 04” acima evidencia que, diante da impossibilidade de continuidade, com a extinção da pessoa jurídica por incorporação, a interpretação sustentada pela PFN conduziria à tributação do patrimônio e não da renda. Caso essa interpretação seja adotada, não se tributária o acréscimo patrimonial (teoria da rendaacréscimo Fl. 10038DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.039 47 patrimonial), mas o próprio patrimônio; não se tributaria o produto do capital (teoria da renda produto), mas o próprio capital investido pelos sócios. Das duas interpretações apresentadas, apenas a sustentada pela PFN tem o condão de desvirtuar a diretriz de renda enquanto acréscimo patrimonial eleita pelo legislador ordinário e, em afronta aos arts. 43 e 44 do CTN, transformar o IRPJ e a CSL em tributos incidentes sobre a propriedade. Tudo isso à revelia de decisão do Congresso Nacional, pois o legislador ordinário não pode ser acusado de ter cerceado o direito do contribuinte ao aproveitamento da totalidade de seus prejuízos fiscais (IRPJ) e bases negativas (CSL) quando, na verdade, apenas diluiu o seu exercício no tempo de existência da pessoa jurídica. Esse também é o entendimento majoritário da doutrina. Destacase trecho do erudito estudo publicado por TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JR.11 sobre o tema, in verbis: “Assim, de um lado, a opção do legislador é garantir/autorizar a compensação de prejuízos à condição de uma limitação quantitativa (asserção expressa), manifestando um direito de compensar prejuízos, sem limitação temporal (asserção implícita). Promover esse bem (direito de compensar prejuízos até o seu limite total, sendo integral a dedução) constitui, de outro, o objetivo, cujo fundamento, que Schauer (ver acima) chama de justificação da regra, aponta para respeito à isonomia, na medida em que se observa que uma periodicidade estanque, que terminaria por impedir a compensação de prejuízos anteriores com lucros posteriores, conduziria a um tratamento mais oneroso de determinados contribuintes (que praticassem atividades de maior risco, a exigir período maior de investimento até o surgimento de resultados positivos), o que violaria a igualdade. Aparece aqui aquela tensão (ver Schauer anteriormente citado) entre a regra (ao limite de 30%, prejuízos fiscais poderão ser compensados) e sua justificação (princípio da isonomia), que conduz, mediante teleologia, a novas generalizações. Isto é, ao teor da norma “é autorizado compensar prejuízos fiscais, desde que não ultrapasse o limite de 30%”, a generalização que a fundamenta (seu telos, seu objetivo: compensação de prejuízos até seu esgotamento total por exigência da isonomia) faz surgir significados indiretos, ali presentes em forma ilocutiva: a restrição quantitativa não deve implicar perda do direito de compensar prejuízos, até porque a ausência de restrição temporal significa possibilidade de transferência para períodos posteriores até o seu esgotamento. Ou seja, partese da exigência de uma periodicidade estanque (até 30% no período) para uma nova generalização da regra por forca̧ da sua justificação: a periodicidade anual dos tributos não impede, ao contrário, autoriza a compensacã̧o de prejuízos acumulados, em períodos subsequentes. Pois bem, e dessa nova generalizacã̧o (que atende, com base em isonomia, à diferença entre contribuintes) segue outra: o aproveitamento integral dos prejuízos, num único período, por sociedade incorporada, dada a impossibilidade de seu aproveitamento integral, diferido no tempo. Notese, na tensão regra/fundamento, passamos de uma generalizacã̧o (direito de compensar, até integralmente, num mesmo ano, se essa compensação não ultrapassar o valor do resultado positivo) para uma segunda (não existia empecilho de que os 70% restantes fossem abatidos nos anos seguintes, até o seu limite total, sendo integral a deducã̧o) e dessa, para uma terceira (ressalvada a situação dos que de fato ou de direito estão impedidos ou impossibilitados de realizar o diferimento no tempo). Nos termos de Schauer, antes referidos, na segunda generalização temos uma sobreinclusão, na terceira, uma subinclusão, ambas dentro da mesma ratio legis.” (grifos do original) 11 FERRAZ JUNIOR, TERCIO SAMPAIO. DA COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS OU DA TRAVA DE 30%, IN REVISTA FÓRUM DE DIREITO TRIBUTÁRIO RFDT, ANO 10, N. 60. BELO HORIZONTE, 2012, P. 212. Fl. 10039DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.040 48 Sequer é possível sustentar que sustentar que o princípio da legalidade exigiria disposição expressa quanto à possibilidade de compensação integral dos prejuízos fiscais na hipótese em análise: o referido princípio, aplicado em conjunto com muitos outros na maior medida possível, como o da capacidade contributiva, justamente corroboram à norma da não aplicação da trava dos 30% nos casos em que a continuidade da pessoa jurídica resta impossibilitada pela extinção da pessoa jurídica. Na mesma linha, ao examinar a questão, IVES GANDRA DA SILVA MARTINS12 concluiu, in verbis: “a) não há lacuna na lei que limitou a 30% a compensação de prejuízos fiscais, pois apenas dedicada a empresas em funcionamento, como o STJ e a exposição de motivos das MPs e projetos de conversão em lei resultantes esclareceram; b) a lei objetivou, exclusivamente, distender, no tempo, o aproveitamento de prejuízo, MAS NÃO eliminálo, em havendo lucros; (...) A lei que permite a compensação do prejuízo determina QUE TODO O PREJUÍZO SERÁ COMPENSADO, DISTENDIDO NO TEMPO (SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA E EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS DA LEI). A conclusão lógica é que se não há mais tempo para aproveitálo, em havendo lucros na extinção, a lei permite seu aproveitamento, de uma só vez, para que não haja tributação sobre um “não acréscimo patrimonial” vedado pelo CTN (arts. 43 e 44) e pelo artigo 150, inciso I, da Lei Suprema, que impõe o princípio da legalidade para a incidência tributária”. No presente voto, então, não se afastam os arts. 15 e 16 da Lei n. 9.065/95, bem como não se infirma a constitucionalidade13 de tais dispositivos no presente voto. Pelo contrário, aplicase ao caso concreto a norma prescrita pelo legislador ordinário, que encerra o ciclo de diferimento do direito à compensação de prejuízos fiscais (IRPJ) e bases negativas (CSL) com a extinção da pessoa jurídica. Interpretação diversa, tal qual a sustentada pela PFN, macularia a cobrança tributária de flagrante ilegalidade. 2.4. A jurisprudência do CARF e do Poder Judiciário sobre o tema. O e. STF ainda não possui decisões a respeito do tema em análise. Não se pode confundir o presente caso com a discussão existente perante aquele Corte, afetada inclusive pelo rito da repercussão geral14, quanto à (in)constitucionalidade da “trava de 30%” em todos e quaisquer casos. Como foi dito, neste processo administrativo, inclusive por respeito ao RICARF15, assumese como legítima a “trava dos 30%” nos termos estabelecidos pelo legislador ordinário, o qual não prescreveu a sua aplicação às hipóteses de extinção da pessoa jurídica por incorporação, fusão ou cisão. 12 SILVA MARTINS, Ives Gandra da. Incorporação de empresa com extinção da incorporada Possibilidade de aproveitamento do prejuízo além de 30%, acesso em: http://www.fiscosoft.com.br/a/4qc6/incorporacaodeempresacom extincaodaincorporadapossibilidadedeaproveitamentodoprejuizoalemde30ivesgandradasilvamartins 13 Não cabe no bojo deste processo administrativo analisar possíveis inconstitucionalidades da tributação da permute, o que é reservado ao Poder Judiciário, conforme o RICARF, art. 62: “Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicaçaõ ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade” 14 IMPOSTO DE RENDA DE PESSOA JURÍDICA E CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO PREJUÍZO COMPENSAÇÃO LIMITE ANUAL. Possui repercussão geral controvérsia sobre a constitucionalidade da limitação em 30%, para cada anobase, do direito de o contribuinte compensar os prejuízos fiscais do Imposto de Renda sobre a Pessoa Jurídica e a base de cálculo negativa da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido artigos 42 e 58 da Lei nº 8.981/95 e 15 e 16 da Lei nº 9.065/95. (STF, RE 591.340 RG, Relator Min. MARCO AURÉLIO, julgado em 09/10/2008) 15 RICARF, art. 62. Fl. 10040DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.041 49 Por sua vez, na linha da jurisprudência do e. STJ, a legalidade da “trava dos 30%” pressupõe a garantia ao contribuinte de que poderá aproveitar a totalidade dos seus prejuízos fiscais (IRPJ) ou de sua base negativa (CSL). No âmbito da 1a Turma do e. STJ, destacamse as seguintes decisões: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. APELAÇÃO INTEMPESTIVA. REMESSA OFICIAL. EFEITO DEVOLUTIVO. PRECLUSÃO. INTERESSE DO PODER PÚBLICO. CSSL. IMPOSTO DE RENDA. PREJUÍZOS FISCAIS. LIMITES DA COMPENSAÇÃO. LEI N. 8.981/95. LEGALIDADE. 1. O recurso especial é cabível contra acórdão que, constatando a intempestividade do recurso voluntário da Fazenda, decidiu a controvérsia apenas em sede de remessa ex offício, tendo em vista que o reexame necessário tratase de instituto criado em benefício do Poder Público. Precedente: (Resp 435.645, Rel. Ministro Franciulli Netto, DJU de 19.05.03). 2. "A limitação da compensação em 30% (trinta por cento) dos prejuízos fiscais acumulados em exercício anteriores, para fins de determinação da base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro (CSSL) e do Imposto de Renda, não se encontra eivada de ilegalidade." (ERESP 429730/RJ, Primeira Seção, DJ de 11.04.2005). 3. Afastase, inclusive a alegação de afronta a direito adquirido. (REsp 885.893/RJ, DJ 01.03.2007). 4. A Lei 8.981/95, ao estabelecer a aludida limitação, "não alterou os conceitos de renda e de lucro, nem tampouco ofendeu os arts. 43 e 110 do CTN, porquanto o art. 52 da mencionada lei diferiu a dedução para exercícios futuros, de forma escalonada" (AgRg no REsp 516849/CE, Relatora Ministra Denise Arruda, Primeira Turma, DJ de 03.04.2006). 5. Agravo regimental desprovido. (STJ, AgRg no REsp 944.427/SP, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 23/04/2009) PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. APELAÇÃO INTEMPESTIVA. REMESSA OFICIAL. EFEITO DEVOLUTIVO. PRECLUSÃO. INTERESSE DO PODER PÚBLICO. CSSL. IMPOSTO DE RENDA. PREJUÍZOS FISCAIS. LIMITES DA COMPENSAÇÃO. LEI N. 8.981/95. LEGALIDADE. 1. O recurso especial é cabível contra acórdão que, constatando a intempestividade do recurso voluntário da Fazenda, decidiu a controvérsia apenas em sede de remessa ex offício, tendo em vista que o reexame necessário tratase de instituto criado em benefício do Poder Público. Precedente: (Resp 435.645, Rel. Ministro Franciulli Netto, DJU de 19.05.03). 2. "A limitação da compensação em 30% (trinta por cento) dos prejuízos fiscais acumulados em exercício anteriores, para fins de determinação da base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro (CSSL) e do Imposto de Renda, não se encontra eivada de ilegalidade." (ERESP 429730/RJ, Primeira Seção, DJ de 11.04.2005). 3. Afastase, inclusive a alegação de afronta a direito adquirido. (REsp 885.893/RJ, DJ 01.03.2007). 4. A Lei 8.981/95, ao estabelecer a aludida limitação, "não alterou os conceitos de renda e de lucro, nem tampouco ofendeu os arts. 43 e 110 do CTN, porquanto o art. 52 da mencionada lei diferiu a dedução para exercícios futuros, de forma Fl. 10041DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.042 50 escalonada" (AgRg no REsp 516849/CE, Relatora Ministra Denise Arruda, Primeira Turma, DJ de 03.04.2006). 5. Agravo regimental desprovido. (AgRg no REsp 944.427/SP, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 23/04/2009, DJe 25/05/2009) PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS. IMPOSTO DE RENDA. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO. MP 812/94. LEIS 8.981/95 E 9.065/95. LIMITAÇÃO DE 30%. LEGALIDADE. PRECEDENTES DO STJ. AGRAVO DESPROVIDO. 1. Esta Corte, em diversas oportunidades, manifestouse no sentido da legalidade da limitação de trinta por cento (30%) na compensação de prejuízos fiscais, sob o fundamento de que a Lei 8.981/95, que estabeleceu essa limitação, não alterou os conceitos de renda e de lucro, nem tampouco ofendeu os arts. 43 e 110 do CTN, porquanto o art. 52 da mencionada lei diferiu a dedução para exercícios futuros, de forma escalonada. 2. É legal essa limitação, em relação à compensação de prejuízos fiscais verificados até o dia 31.12.1994, a partir do exercício de 1995, não havendo contrariedade ao princípio da anterioridade. 3. Agravo regimental desprovido. (STJ, AgRg no REsp 516.849/CE, Rel. Ministra DENISE ARRUDA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 14/03/2006, DJ 03/04/2006, p. 228) No âmbito da 2a Turma do e. STJ, destacamse as seguintes decisões: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO – CONTRARIEDADE AO ART. 535 DO CPC NÃO CARACTERIZADA – IMPOSTO DE RENDA E CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO – DEDUÇÃO DE PREJUÍZOS – LIMITAÇÃO DA LEI Nº 8.981/95: LEGALIDADE. 1. Não ocorre ofensa ao art. 535, II, do CPC, se o Tribunal de origem decide, fundamentadamente, as questões essenciais ao julgamento da lide. 2. A limitação estabelecida na Lei 8.981/95 não alterou o conceito de lucro ou de renda, porque não se imiscuiu nos resultados da atividade empresarial. 3. O art. 52 do mencionado diploma legal diferiu a dedução para exercícios futuros, de forma escalonada, começando pelo percentual de 30%, sem afronta aos arts. 43 e 110 do CTN. 4. A legalidade do diferimento não atingiu direito adquirido, porque não existia o direito à dedução dos prejuízos de uma única vez, mas, sim, à dedução integral, hipóteses que não se confundem. 5. Controvérsia já pacificada pela Primeira Seção desta Corte. 6. Recurso especial não provido. (STJ, REsp 993.975/SP, Rel. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, julgado em 06/08/2009) PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO – IMPOSTO DE RENDA E CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO – DEDUÇÃO DE PREJUÍZOS – LIMITAÇÃO DA LEI Nº 8.981∕95: LEGALIDADE. 1. A limitação estabelecida na Lei 8.981∕95 não alterou o conceito de lucro ou de renda, porque não se imiscuiu nos resultados da atividade empresarial. Fl. 10042DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.043 51 2. O art. 52 do mencionado diploma legal diferiu a dedução para exercícios futuros, de forma escalonada, começando pelo percentual de 30%, sem afronta aos arts. 43 e 110 do CTN. 3. A legalidade do diferimento não atingiu direito adquirido, porque não existia o direito à dedução dos prejuízos de uma única vez, mas, sim, à dedução integral, hipóteses que não se confundem. 4. Controvérsia já pacificada pela Primeira Seção desta Corte. 5. Recurso especial não provido. (STJ, REsp 1.132.518/PR, Rel. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, julgado em 15/12/2009) PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO – IMPOSTO DE RENDA E CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO – DEDUÇÃO DE PREJUÍZOS – LIMITAÇÃO DA LEI Nº 8.981∕95: LEGALIDADE. 1. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do recurso extraordinário 232.084 9, relator o Ministro Relator Ilmar Galvão, decidiu que Medida Provisória nº 812∕94, convertida na Lei 8.981∕95, foi publicada no dia 31.12.94, a tempo, portanto, de incidir sobre o resultado financeiro do exercício, encerrado no mesmo dia, sendo irrelevante, para tanto, que o último dia do ano de 1994 tenha recaído num sábado, se não se acha comprovada a nãocirculação do Diário Oficial da União naquele dia. 2. A limitação estabelecida na Lei 8.981∕95 não alterou o conceito de lucro ou de renda, porque não se imiscuiu nos resultados da atividade empresarial. 3. O art. 52 do mencionado diploma legal diferiu a dedução para exercícios futuros, de forma escalonada, começando pelo percentual de 30%, sem afronta aos arts. 43 e 110 do CTN. 4. A legalidade do diferimento não atingiu direito adquirido, porque não existia o direito à dedução dos prejuízos de uma única vez, mas, sim, à dedução integral, hipóteses que não se confundem. 5. Controvérsia já pacificada pela Primeira Seção desta Corte. 6. Recurso especial parcialmente conhecido e não provido. (STJ, REsp 1.132.256/SP, Rel. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, julgado em 17/09/2009) No âmbito do CARF, é possível divisar dois momentos distintos em sua jurisprudência. A primeira compreende o período entre 2001 e 2009, enquanto que a segunda teve início em meados de 2009/2010. No acórdão n. 10806682, de 20.9.2001, a 8ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, por unanimidade, julgou ser válida a compensação dos prejuízos fiscais sem a “trava dos 30%” na hipótese de extinção por incorporação: “INCORPORAÇÃO — DECLARAÇÃO FINAL DA INCORPORADA — LIMITAÇÃO DE 30% NA COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS — INAPLICABILIDADE No caso de compensação de prejuízos fiscais na última declaração de rendimentos da incorporada, não se aplica a . norma de limitação a 30% do lucro líquido ajustado. Ainda em 2001, o acórdão n. 10193438, da 1ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, por maioria de votos, julgou que a compensação dos prejuízos, mesmo na hipótese de extinção por incorporação, deveria respeitar a “trava dos 30%”: Fl. 10043DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.044 52 “IRPJ COMPESAÇÃO DE PREJUÍZOS A regra legal que estabeleceu o limite de 30% do lucro líquido ajustado para compensação de prejuízos não contém exceção para as empresas que sejam objeto de incorporação. INOBSERVÂNCIA DO PERÍODO DE COMPETÊNCIAPOSTERGAÇÃO — Não há previsão legal para exigência de multa de mora sobre o imposto postergado MULTA RESPONSABILIDADE DO SUCESSOR POR INCORPORAÇÃO — Inexigível da empresa sucessora a multa por infrações tributárias cometidas pela incorporada, se o lançamento foi formalizado após a incorporação.” A incipiente divergência foi sufragada logo em 2002, quando a CSRF julgou a questão. Assim, no acórdão n. 0104258, de 2.12.2002, a CSRF, por maioria, julgou válida a compensação dos prejuízos fiscais sem a “trava dos 30%” na hipótese de extinção por incorporação: “COMPENSAÇÃO PREJUÍZO E BASE NEGATIVA – No caso de incorporação, uma vez que vedada a transferência de saldos negativos, não há impedimento legal para estabelecer limitação, diante do encerramento da empresa incorporada.” As decisões que se seguiram, tanto das Turmas Ordinárias quanto da CSRF, navegaram em águas tranquilas, firmes na compreensão de que seria válida a compensação dos prejuízos fiscais sem a “trava dos 30%” na hipótese de extinção por incorporação. Por unanimidade, o acórdão da CSRF n. 0105100, de 19.10.2004, confirmou tal entendimento: “IRPJ – COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO – LIMITE DE 30% EMPRESA INCORPORADA – À empresa extinta por incorporação não se aplica o limite de 30% do lucro líquido na compensação do prejuízo fiscal.” Destacamse as seguintes decisões das Turmas Ordinárias que se seguiram, boa parte por unanimidade de votos: IRPJ – COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO – LIMITE DE 30% EMPRESA INCORPORADA – À empresa extinta por incorporação não se aplica o limite de 30% do lucro líquido na compensação do prejuízo fiscal. (Acórdão n. 10807456, de 2.7.2003, da 8ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, por unanimidade) IRPJ – COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS. LIMITE LEGAL. BALANÇO DE CISÃO. LIMITAÇÃO DE 30% NA COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS – O artigo 33 do Decretolei no 2.341/87 determina que a pessoa jurídica sucessora por incorporação, fusão ou cisão não poderá compensar prejuízos fiscais da sucedida, dispondo seu parágrafo único que, no caso de cisão parcial, a pessoa jurídica cindida poderá compensar os seus próprios prejuízos, proporcionalmente à parcela remanescente do patrimônio líquido. Em relação à parcela proporcional ao patrimônio líquido transferido, a limitação retiraria a possibilidade de compensação. Por essa razão, no balanço da cisão, a parcela de prejuízos proporcional ao patrimônio transferido pode ser compensada independentemente da limitação de 30%. (Acórdão n. 10194515, de 17.3.2004, da 1ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, por unanimidade) COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS — EMPRESAS EM LIQUIDAÇÃO EXTRAJUDICIAL A jurisprudência do Conselho que afasta a limitação só alcança a compensação feita na declaração final de extinção.” (Acórdão n. 10195856, de 9.11.2006, da 1ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, por maioria de votos) IRPJ – COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO FISCAL – LIMITE DE 30% – EMPRESA INCORPORADA. A lei não traz qualquer exceção a regra que limita a Fl. 10044DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.045 53 compensação dos prejuízos fiscais à 30% do lucro líquido ajustado. Entretanto, havendo o encerramento das atividades da pessoa jurídica em razão de incorporação, não haverá meios dos prejuízos serem utilizados em anos subseqüentes, como determina a legislação. Neste caso, temse como legítima a compensação da totalidade do prejuízo fiscal, sem a limitação de 30%. (Acórdão n. 10195872, de 9.11.2006, da 1ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, por unanimidade) IRPJ COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZO LIMITE DE 30% EMPRESA INCORPORADA À empresa extinta por incorporação não se aplica o limite de 30% do lucro líquido na compensação do prejuízo fiscal. (Acórdão CSRF/01 05.100, em Sessão de 19 de outubro de 2004, publicado no DOU de 28/02/2002). (Acórdão n. 10709.243, de 05.12.2007, a 7ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, por unanimidade) CSL — INSTITUIÇÃO FINANCEIRA EM PROCESSO DE EXTINÇÃO (REGIME DE LIQUIDAÇÃO ORDINÁRIA) — TRAVA. DE 30% NA COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS — INAPLICABILIDADE — A denominada trava de 30% na compensação de prejuízos, que pressupõe o principio de continuidade da empresa, não pode ser aplicada quando a sociedade se encontra em processo de extinção em razão do regime de liquidação ordinária em que se encontra. (Acórdão n. 10707.856, de 11.11.2007, a 7ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, por unanimidade) IRPJ. CSLL. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS E BASES DE CÁLCULO NEGATIVAS APURADAS EM PERÍODOS ANTERIORES. CISÃO. INAPLICABILIDADE DA LIMITAÇÃO. Constitui pressuposto da aplicação da limitação à compensação de prejuízos fiscais e bases negativas acumuladas a continuidade das atividades do contribuinte e a paulatina apropriação dos prejuízos. Nas hipóteses de cisão, fusão e incorporação, com a conseqüente extinção da personalidade jurídica da sucedida, não se faz possível a aplicação do limitador, vez que tal determinaria o fenecimento do direito do contribuinte. (Acórdão n. 10709.447, de 13.8.2008, a 7ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, por maioria de votos) COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS – TRAVA – CISÃO – Em relação à parcela proporcional ao patrimônio líquido transferido, a limitação retiraria a possibilidade de compensação. Por essa razão, no balanço da cisão, a parcela do prejuízo proporcional ao patrimônio transferido pode ser compensada independentemente da limitação de 30% do lucro líquido ajustado. (Acórdão n. 10196509, de 22.1.2008, a 1ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, por unanimidade). Notese que, em 02.10.2009, por voto de qualidade, a CSRF alterou esse entendimento até então corrente, como se observa no acórdão n. 910100401: IRPJ, DECLARAÇÃO FINAL. LIMITAÇÃO DE 30% NA COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS. O prejuízo fiscal apurado poderá ser compensado com o lucro real, observado o limite máximo, para a compensação, de trinta por cento do referido lucro real. Não há previsão legal que permita a compensação de prejuízos fiscais acima deste limite, ainda que seja no encerramento das atividades da empresa. 3. Concomitância da multa isolada por falta/insuficiência de recolhimento de estimativas com a multa de oficio. Para a solução da divergência ora em análise, é preciso saber se a multa isolada pela não apuração e recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e CSL deve ser Fl. 10045DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.046 54 cobrada cumulativamente com a multa de ofício, na hipótese de auto de infração lavrado após o término do exercício fiscal. Conforme a Súmula CARF n. 82, “após o encerramento do anocalendário, é incabível lançamento de ofício de IRPJ ou CSLL para exigir estimativas não recolhidas”. A inteligência dessa súmula decorre da constatação de que as estimativas, recolhidas ou não, seriam meras antecipações do tributo, cujo fato gerador ocorreria efetivamente ao final do exercício (em regra, 31 de dezembro). O legislador tributário, ao estruturar a sistemática de apuração do IRPJ/CSL pelo lucro real anual, foi coerente com essa metodologia: 1) durante o exercício fiscal, o contribuinte deve apurar e recolher estimativas mensais. Se no curso do exercício fiscal a fiscalização constatar que o contribuinte não apurou e recolheu referidas antecipações, deverá lavrar auto de infração para a cobrança de tais valores acrescidos da multa correspondente (multa isolada), salvo na hipótese de apresentação de balanços de suspensão ou redução, 2) após o fim do exercício fiscal, nenhuma estimativa ou penalidades correspondentes se mostram exigíveis. O contribuinte deve apurar o IRPJ/CSL e recolher os valores devidos. Se após o término do exercício fiscal a fiscalização constatar que o contribuinte não apurou e recolheu o IRPJ/CSL, deverá lavrar auto de infração para a cobrança de tais valores, com a imposição da multa correspondente (multa de ofício). O legislador tributário, ao estruturar a sistemática de apuração do IRPJ/CSL pelo lucro real anual, naturalmente não exigiu a cumulação da exigência das estimativas e do IRPJ/CSL após o término do exercício fiscal. Da mesma forma, o legislador coerentemente não exige a cumulação das multas, o que, entre outros princípios, ofenderia a proibição da consunção. No caso da multa isolada sob julgamento, o seu critério temporal está adstrito ao momento em que estimativa seria exigível, ou seja, até a ocorrência do fato gerador dos tributos, consumado no término do exercício fiscal. Após esse marco temporal, o bem jurídico em questão (estimativas mensais) deixa de ser exigível, bem como a corresponde penalidade que busca garantir a seu cumprimento espontâneo pelo contribuinte também deixa de ter pertinência jurídica. Após 31.12, competirá à fiscalização exigir não mais estimativas, mas o recolhimento do efetivo tributo (IRPJ e CSL) por ventura devido e não recolhido ao seu tempo, com a multa de ofício cabível em razão desse atraso (qualificada, se for o caso). Apenas na hipótese de a fiscalização exigir estimativas não apuradas e recolhidas no curso do próprio exercício fiscal é que se mostra cabível tanto a exigência dessas antecipações quanto a imposição da correspondente multa pelo não cumprimento desta. Merecem destaque algumas decisões proferidas por esta CSRF, que igualmente compreenderam inaplicável aludida multa isolada após o encerramento do exercício fiscal: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Exercício: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003 MULTA ISOLADA FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA O artigo 44 da Lei nº 9.430/96 preceitua que a multa de ofício deve ser calculada sobre a totalidade ou diferença de tributo, materialidade que não se confunde com o valor calculado sob base estimada ao longo do ano. O tributo devido pelo contribuinte surge quando é o lucro apurado em 31 de dezembro de cada ano. Improcede a aplicação de penalidade pelo nãorecolhimento de estimativa quando a fiscalização Fl. 10046DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.047 55 apura, após o encerramento do exercício, valor de estimativas superior ao imposto apurado em sua escrita fiscal ao final do exercício. Recurso especial negado. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Período de apuração: 2001 MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA. O artigo 44 da Lei IV 9.430/96 preceitua que a multa de oficio deve ser calculada sobre a totalidade ou diferença de tributo, materialidade que não se confunde com o valor calculado sob base estimada ao longo do ano. O tributo devido pelo contribuinte surge quando é o lucro apurado em 31 de dezembro de cada ano. Improcede a aplicação de penalidade pelo nãorecolhimento de estimativa quando a fiscalização apura, após o encerramento do exercício, valor e estimativas superior ao imposto apurado em sua escrita fiscal ao final do exercício. (Acórdão n. 9101000.575, de 18.05.2010) Assunto: Processo Administrativo Fiscal Anocalendário: 2004, 2005 MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA. O artigo 44 da Lei n° 9.430/96 preceitua que a multa de oficio deve ser calculada sobre a totalidade ou diferença de tributo, materialidade que não se confunde com o valor calculado sobre base estimada ao longo do ano. A jurisprudência da CSRF consolidouse no sentido de que não cabe a aplicação da multa isolada após o encerramento do período. Ante esse entendimento, não se sustenta a decisão que mantém a exigência da multa sobre o valor total das estimativas não recolhidas. (Acórdão n. 9101001.547, de 22.01.2013) Compreendo que tais fundamentos seriam suficientes para dar provimento ao recurso especial interposto pelo contribuinte. Há, no entanto, uma questão fundamental que deve ser enfrentada, tendo em vista o seu caráter vinculante. Fazse necessário decidir se a Súmula CARF n. 105 é aplicável também aos períodos posteriores à edição da Lei n. 11.488/2007, de forma a ter eficácia sobre o julgamento do presente caso: Súmula CARF n. 105: A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44, § 1º, inciso IV, da Lei n. 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Para tanto, é preciso analisar os efeitos trazidos pela Lei nº 11.488/2007 sobre o 44 da Lei nº 9.430/96, de forma a verificar se a Súmula CARF n. 105 permanece aplicável aos períodos posteriores a 2007. Em sua redação original, o art. 44 da Lei n. 9.430/96 assim prescrevia: Art. 44. Nos casos de lançamento de oficio, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; §1° As multas de que trata este artigo serão exigidas: I juntamente com o tributo ou a contribuição, quando não houverem sido anteriormente pagos; (...); IV isoladamente, no caso de pessoa jurídica sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido, na forma do art. 2°, que deixar Fl. 10047DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.048 56 de fazêlo, ainda que tenha apurado base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente. Com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 11.488/2007, o dispositivo passou a dispor: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (…) b) na forma do art. 2o desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. Para a edição de súmulas, tanto nos termos do RICARF vigente à época da enunciação da Súmula CARF n. 105 (08.12.2014) quanto do atual, são levados à apreciação dos Conselheiros deste Tribunal julgados sobre a matéria, considerados capazes de possibilitar a “mais precisa percepção possível não apenas da questão de direito cuja relevância há de se aferir, como também do conflito em que ela se insere”16. Os casos selecionados devem propiciar a ventilação dos mais relevantes argumentos quanto à interpretação que deve ser atribuída à legislação federal, pois a norma decorrente da súmula deverá ser aplicada a todos os demais casos que apresentem questão de direito equivalente. Por esse arcabouço jurídico, atribuise à súmula do CARF a feição de precedente com “força necessária para servir como ratio decidendi para o juiz subsequente”17. Por essa sistemática, os fundamentos adotados nos acórdãos paradigmáticos que provocaram a edição da súmula passam a ser aplicáveis, de forma obrigatória, a todos os demais casos que vierem a ser submetidos ao CARF. Para a solução do presente caso, é preciso compreender essa relação de complementariedade: a ratio decidendi dos acórdãos paradigmas não se desprendem da respectiva súmula, nem esta deve ser aplicável a hipóteses que não estariam abrangidas pelos aludidos paradigmas. Em outras palavras, como a súmula é norma geral e concreta18 que veicula a ratio decidendi outrora presente em reiterados acórdãos individuais e concretos, a sua aplicação é mandatória e restrita às situações que sejam equivalentes àquelas tratadas nos referidos acórdãos paradigmáticos. A aplicação de uma súmula a um caso concreto pressupõe que as premissas fáticas e as normas questionadas neste sejam equivalentes às premissas fáticas e às normas questionadas nos paradigmas que ensejaram a súmula. No caso, duas ratio decidendi podem ser abstraídas dos fundamentos dos paradigmas da Súmula n. 105 do CARF. A primeira delas é que, pelo critério da consunção, nas autuações realizadas após o término do exercício fiscal, a penalidade atinente à multa isolada pela não apuração e recolhimento de estimativas mensais deve ser absorvida pela 16 TALAMINI, Eduardo. Julgamento de recursos no STJ ‘por amostragem’. Informativo Justen, Pereira Oliveira e Talamini, 2008. Disponível em www.justen.com.br/informativo. 17 À semelhança do que ocorre com os recursos repetitivos do STJ. A respeito destes, vide: MESQUITA, José Ignácio Botelho et al. A repercussão geral e os recursos repetitivos: economia, direito e política, In: Revista de Processo, São Paulo, v. 38, n. 220, p. 1332, jun. 2013, p. 29. 18 Vide, sobre o tema: CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: fundamentos jurídicos da incidência. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 3541. Fl. 10048DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.049 57 multa de ofício. É o que se observa dos seguintes acórdãos que serviram de inspiração à Súmula n. 105: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Anocalendário: 1998 (...) MULTA ISOLADA APLICAÇÃO CONCOMITANTE COM A MULTA DE OFICIO — Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de oficio pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. (CSRF, 9101001.307, de 24/04/2012) IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2002 APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFÍCIO E MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de ofício pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. (CARF, 3ª Turma Especial, 1ª Seção, 1803001.263, de 10/04/2012) Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Anocalendário: 2001 Ementa: APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFICIO E MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA — Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de oficio pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. (CSRF, 9101001.261, de 22/11/2011) Neste último acórdão, houve a transcrição integral dos fundamentos adotados em outro julgamento da CSRF, que restou assim ementado: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Exercício. 1999, 2000, 2001, 2002, 2003 Fl. 10049DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.050 58 Ementa: APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFICIO E MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA — Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de oficio pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. Recurso especial negado. (CSRF/0105.838, de 15.04.2008) A segunda ratio decidendi, que se abstrai dos paradigmas que inspiraram a Súmula CARF n. 105, consiste no não cabimento de lançamento de multa isolada cuja base de cálculo seja coincidente ou esteja inserida na base de cálculo das multas de ofício. É o que se observa de suas respectivas ementas, a seguir transcritas: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Exercício: 2000, 2001 Ementa: MULTA ISOLADA. ANOSCALENDÁRIO DE 1999 e 2000. FALTA DE RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFICIO EXIGIDA EM LANÇAMENTO LAVRADO PARA A COBRANÇA DO TRIBUTO. Incabível a aplicação concomitante da multa por falta de recolhimento de tributo sobre bases estimadas e da multa de oficio exigida no lançamento para cobrança de tributo, visto que ambas penalidades tiveram como base o valor das glosas efetivadas pela Fiscalização. Recurso Especial do Procurador conhecido e não provido. (CSRF, 9101001.203, de 17/10/2011) Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte IRRF Exercício: 2001 IRFONTE. AFASTAMENTO. O próprio lançamento tributário em razão da desconsideração do planejamento fiscal já atribuiu as respectivas saídas de valores a causa e seus beneficiários. MULTA ISOLADA. ANOCALENDÁRIO DE 2000. FALTA DE RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFICIO EXIGIDA EM LANÇAMENTO LAVRADO PARA A COBRANÇA DO TRIBUTO. Incabível a aplicação concomitante da multa por falta de recolhimento de tributo sobre bases estimadas e da multa de oficio exigida no lançamento para cobrança de tributo, visto que ambas penalidades tiveram como base o valor da receita omitida apurado em procedimento fiscal. Recurso especial do Procurador negado. (CSRF, 9101001.238, de 21/11/2011) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2000, 2001 (...) LANÇAMENTO DE OFÍCIO. PENALIDADE. MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. Devem ser exoneradas as multas isoladas por falta de recolhimento de estimativas, uma vez que, cumulativamente foram exigidos os tributos com multa de ofício, e a Fl. 10050DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.051 59 base de cálculo das multas isoladas está inserida na base de cálculo das multas de ofício, sendo descabido, nesse caso, o lançamento concomitante de ambas. (...) (CARF, 1ªC/2ªTO, 110200.748, de 09/05/2012) Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2003 DECADÊNCIA. MULTA ISOLADA. ESTIMATIVAS NÃO RECOLHIDAS. A regra geral para contagem do prazo decadencial para constituição do crédito tributário, no caso de penalidades, está prevista no artigo 173, I do CTN, apresentandose regular a exigência formalizada dentro deste prazo. Por sua vez, em relação aos tributos, havendo antecipação de recolhimentos o prazo é contado na forma do art. 150, §4o. do CTN. MULTA DE OFICIO ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS CONCOMITANTE COM A MULTA DE OFICIO. INAPLICABILIDADE. É inaplicável a penalidade quando existir concomitância com a multa de oficio sobre o ajuste anual (mesma base). (...) (CARF, 4ªC/2ªTO, 1402001.217, de 04/10/2012) Em todos esses julgados, portanto, compreendeuse não ser cabível o lançamento de multa isolada, quando: pelo critério da consunção, nas autuações realizadas após o término do exercício fiscal, a penalidade atinente à multa isolada pela não apuração de estimativas mensais deva ser absorvida pela multa de ofício; a sua base de cálculo seja coincidente ou esteja inserida na base de cálculo das multas de ofício. Os referidos fundamentos permanecem aplicáveis mesmo após a edição da Lei n. 11.488/2007, o que obriga este Colegiado à aplicação da Súmula CARF n. 105, que não possui restrição temporal em seu enunciado. Em primeiro lugar, não há dúvidas que a referida súmula consagrou o princípio da consunção, que justamente serviu de fundamento aos acórdãos que a inspiraram. É o que se observa dos fundamentos do acórdão 0105.838, proferido pela CSRF em 15.04.2008, da relatoria do então Conselheiro MARCOS VINICIUS NEDER DE LIMA, in verbis: “Quando várias normas punitivas concorrem entre si na disciplina jurídica de determinada conduta, é importante identificar o bem jurídico tutelado pelo Direito. Nesse sentido, para a solução do conflito normativo, devese investigar se uma das sanções previstas para punir determinada conduta pode absorver a outra, desde que o fato tipificado constitui passagem obrigatória de lesão menor, de um bem de mesma natureza para a prática da infração maior. No caso sob exame, o não recolhimento da estimativa mensal pode ser visto como etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. A primeira conduta é, portanto, meio de execução da segunda. Com efeito, o bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. Assim, a interpretação do conflito de normas deve prestigiar a relevância do bem jurídico e não exclusivamente a grandeza da pena cominada, pois o ilícito de Fl. 10051DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.052 60 passagem não deve ser penalizado de forma mais gravosa que o ilícito principal. É o que os penalistas denominam ‘principio da consunção’. Segundo as lições de Miguel Reale Junior: ‘pelo critério da consunção, se ao desenrolar da ação se vem violar uma pluralidade de normas passandose de uma violação menos grave para outra mais grave, que é o que sucede no crime progressivo, prevalece a norma relativa ao crime em estágio mais grave...’. E prossegue ‘no crime progressivo portanto, o crime mais grave engloba o menos grave, que não é senão um momento a ser ultrapassado, uma passagem obrigatória para se alcançar uma realização mais grave’. Assim, não pode ser exigida concomitantemente a multa isolada e a multa de oficio na hipótese de falta de recolhimento de tributo apurado no final do exercício e também pela falta de antecipação sob a forma estimada. Cobrase apenas a multa de oficio por falta de recolhimento de tributo.” Repitase: mesmo após as alterações introduzidas pela Lei n. 11.488/2007 ao art. 44 da Lei n. 9.430/96, a teoria da consunção permanece plenamente aplicável à matéria sob julgamento. Esse é, inclusive, o entendimento que vem sendo adotado pelo Superior Tribunal de Justiça (doravante “STJ”), como se observa do seguinte julgado: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. VIOLAÇÃO DO ART. 535 DO CPC. DEFICIÊNCIA DA FUNDAMENTAÇÃO. SÚMULA 284/STF. MULTA ISOLADA E DE OFÍCIO. ART. 44 DA LEI N. 9.430/96 (REDAÇÃO DADA PELA LEI N. 11.488/07). EXIGÊNCIA CONCOMITANTE. IMPOSSIBILIDADE NO CASO. 1. Recurso especial em que se discute a possibilidade de cumulação das multas dos incisos I e II do art. 44 da Lei n. 9.430/96 no caso de ausência do recolhimento do tributo. 2. Alegação genérica de violação do art. 535 do CPC. Incidência da Súmula 284 do Supremo Tribunal Federal. 3. A multa de ofício do inciso I do art. 44 da Lei n. 9.430/96 aplicase aos casos de "totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata". 4. A multa na forma do inciso II é cobrada isoladamente sobre o valor do pagamento mensal: "a) na forma do art. 8° da Lei no 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; (Incluída pela Lei nº 11.488, de 2007) e b) na forma do art. 2° desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (Incluída pela Lei n. 11.488, de 2007)". 5. As multas isoladas limitamse aos casos em que não possam ser exigidas concomitantemente com o valor total do tributo devido. 6. No caso, a exigência isolada da multa (inciso II) é absorvida pela multa de ofício (inciso I). A infração mais grave absorve aquelas de menor gravidade. Princípio da consunção. Recurso especial improvido. (STJ, REsp 1.496.354/PR, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 17/03/2015, DJe 24/03/2015) Em seu voto, acompanhado pela unanimidade da Segunda Turma da 1a Seção do STJ, o i. Ministro HUMBERTO MARTINS, relator do referido julgado, assim explicitou os fundamentos, in verbis: Fl. 10052DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.053 61 “Sistematicamente, notase que a multa do inciso II do referido artigo somente poderá́ ser aplicada quando não possível a multa do inciso I. Destacase que o inadimplemento das antecipações mensais do imposto de renda não implicam, por si só, a ilação de que haverá tributo devido. Os recolhimentos mensais, ainda que configurem obrigações de pagar, não representam, no sentido técnico, o tributo em si. Este apenas será apurado ao final do ano calendário, quando ocorrer o fato gerador. As hipóteses do inciso II, "a" e "b", em regra, não trazem novas hipóteses de cabimento de multa. A melhor exegese revela que não são multas distintas, mas apenas formas distintas de aplicação da multa do art. 44, em consequência de, nos caso ali descritos, não haver nada a ser cobrado a título de obrigação tributária principal. As chamadas "multas isoladas", portanto, apenas servem aos casos em que não possam ser as multas exigidas juntamente com o tributo devido (inciso I), na medida em que são elas apenas formas de exigência das multas descritas no caput. Esse entendimento é corolário da lógica do sistema normativotributário que pretende prevenir e sancionar o descumprimento de obrigações tributárias. De fato, a infração que se pretende repreender com a exigência isolada da multa (ausência de recolhimento mensal do IRPJ e CSLL por estimativa) é completamente abrangida por eventual infração que acarrete, ao final do ano calendário, o recolhimento a menor dos tributos, e que dê azo, assim, à cobrança da multa de forma conjunta. Em se tratando as multas tributárias de medidas sancionatórias, aplicase a lógica do princípio penal da consunção, em que a infração mais grave abrange aquela menor que lhe é preparatória ou subjacente. O princípio da consunção (também conhecido como Princípio da Absorção) é aplicável nos casos em que há uma sucessão de condutas típicas com existência de um nexo de dependência entre elas. Segundo tal preceito, a infração mais grave absorve aquelas de menor gravidade. Sob este enfoque, não pode ser exigida concomitantemente a multa isolada e a multa de ofício por falta de recolhimento de tributo apurado ao final do exercício e também por falta de antecipação sob a forma estimada. Cobrase apenas a multa de oficio pela falta de recolhimento de tributo.” Em decisão posterior, no REsp 1.499.389/PB, o STJ novamente vivificou o princípio da consunção para afastar a cumulação da multa de ofício com a multa isolada, em período posterior à Lei n. 11.488/2007. A referida decisão restou assim ementada: TRIBUTÁRIO. MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO. ART. 44 DA LEI N. 9.430/96 (REDAÇÃO DADA PELA LEI N. 11.488/07). EXIGÊNCIA CONCOMITANTE. IMPOSSIBILIDADE NO CASO. PRECEDENTE. 1. A Segunda Turma desta Corte, quando do julgamento do REsp nº 1.496.354/PR, de relatoria do Ministro Humberto Martins, DJe 24.3.2015, adotou entendimento no sentido de que a multa do inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430/96 somente poderá ser aplicada quando não for possível a aplicação da multa do inciso I do referido dispositivo. 2. Na ocasião, aplicouse a lógica do princípio penal da consunção, em que a infração mais grave abrange aquela menor que lhe é preparatória ou subjacente, de forma que não se pode exigir concomitantemente a multa isolada e a multa de ofício por falta de recolhimento de tributo apurado ao final do exercício e também por falta de antecipação sob a forma estimada. Cobrase apenas a multa de oficio pela falta de recolhimento de tributo. 3. Agravo regimental não provido. Fl. 10053DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.054 62 (STJ, AgRg no REsp 1499389/PB, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 17/09/2015, DJe 28/09/2015) É fundamental notar que a ratio decidendi presente nos referidos julgados do STJ, que se detiveram às alterações introduzidas pela Lei n. 11.488/2007, não é distinta daquela adotada pelo CARF em seus reiterados julgados proferidos na vigência da redação original do art. 44 da Lei n. 9.430/96 e que motivaram a edição da Súmula n. 105. Nesse seguir, após as alterações introduzidas pela Lei n. 11.488/2007, o mesmo dilema quanto à consunção, anteriormente enfrentado pelo CARF e solucionado pela Súmula n. 105, permanece presente. Além disso, também a segunda ratio decidendi da Súmula CARF n. 105 permanece aplicável mesmo após a edição da Lei n. 11.488/2007, atinente à impossibilidade da base de cálculo da multa isolada estar inserida na base de cálculo das multas de ofício. Notese que, no acórdão 110200.748, também citado acima entre os paradigmas da Súmula n. 105, a então Conselheira ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA consignou que o fundamento para a proibição da cumulação da multa de ofício com a multa isolada se daria pelo fato da base de cálculo desta estar compreendida na base de cálculo daquela, in verbis: “No caso destes autos, constatase que o valor da base de cálculo da multa isolada está inserido na base de cálculo da multa de ofício. Levandose em conta que é o bem público que deve ser protegido, aplicar a multa proporcional cumulativamente com a multa isolada, por falta de recolhimento da estimativa sobre os valores apurados, em procedimento fiscal, sobre base de cálculo de idêntico valor, implicaria admitir que, sobre o imposto apurado de oficio, se aplicaria duas punições, que significaria em relação à falta, a imposição de penalidade desproporcional ao proveito obtido.” (grifos acrescidos) Como se pode observar, a ratio decidendi adotada nesse julgado, proferido com vistas à redação original da Lei n. 9.430/96, continua perfeitamente aplicável às normas sancionatórios veiculadas pela Lei n. 11.488/2007: enquanto a redação original previa que as bases de cálculo da multa isolada e da multa de ofício seriam idênticas, com a redação vigente a partir de 2007, não há mais necessária coincidência, embora seja certo que o valor da base de cálculo da multa isolada permanece inserido na base de cálculo da multa de ofício. 4. (Não) Incidência dos juros de mora sobre a multa de oficio Outro ponto em disputa no recurso especial do contribuinte é não incidência dos juros de mora sobre a multa de oficio. A questão reside mais precisamente na norma que se constrói a partir de seu art. 161 do CTN. Cumprindo o papel previsto no art. 146 da Constituição Federal, esse dispositivo estabelece norma geral, aplicável a todos os entes da federação, quanto à incidência de juros de mora, no percentual de 1%, sobre o crédito não integralmente pago no vencimento. Expressamente, contudo, o seu § 1° resguarda a cada um dos entes federados a competência para estabelecer regramento próprio. Cada ente federado, por meio de seu respectivo Poder Legislativo, poderá prescrever regramento próprio, com taxa de juros diferente daquela prevista na norma geral (1%) ou, por exemplo, prever a incidência de juros de mora tanto sobre o débito principal quanto sobre as multas ou, ainda, estabelecer que os juros incidam apenas sobre o valor do débito principal, mas não sobre o das multas. A União, no caso, é exemplo de unidade federativa que, de longa data, produz regramentos próprios quanto à incidência de juros de mora sobre o crédito não Fl. 10054DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.055 63 integralmente pago no vencimento. Assim o fazendo, a União encontra resguardo jurídico no art. 161 do CTN, mas afasta a eficácia da norma geral veiculada neste dispositivo. Portanto, para a solução do caso concreto, a questão não se esgota com a compreensão da norma geral veiculada pelo CTN. É necessário saber qual o tratamento foi atribuído pelo legislador ordinário à materia, o que obriga que se considere o teor da Lei nº 9.430/1996, que dispõe: Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Como se pode observar, valendose de sua competência, o legislador ordinário decidiu: prever a incidência de juros de mora sobre multas isoladas pagos em atraso (Lei n. 9.430/96, art. 43); prever a incidência de juros de mora sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições pagos em atraso (Lei n. 9.430/96, art. 61); não prever nada quanto à incidência de juros de mora sobre multas de ofício. A evolução legislativa demonstra que não se trata de um silêncio insignificante, mas expressão de decisão consciente do legislador. As leis que se sucederam, em especial, o Decretolei n. 2.232/87, a Lei n. 7.691/88, a Lei n. 7.738/89, a Lei n. 7.799/89, a Lei n. 8.218/91, a Lei n. 8.383/91, a Lei n. 8.981/95, a Lei n. 9.430/96, a Lei n. 10.522/02, demonstram que a decisão do legislador variou no tempo, por vezes determinando a incidência de juros sobre a multa de ofício, por vezes a excluindo. Há uma diferenciação relevante: o dispositivo não estabelece, por si, a incidência de alguma taxa de juros sobre a multa, mas possibilita que leis específicas a estabeleça.19 Essa retrospectiva é relevante para constatar que o legislador competente não agiu ao acaso: tratase de silêncio eloquente do legislador que, ao tutelar a matéria, deixou conscientemente de prever a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. 19 Nesse sentido, vide, por exemplo: FAJERSZTAJN, Bruno. Exigência de juros de mora sobre as multas de ofício no âmbito da Secretaria da Receita Federal, in Revista Dialética de Direito Tributário v. 132. São Paulo : Dialética, 2006, p. 27 e seg. Fl. 10055DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.056 64 Embora o entendimento ora exposta tenha restado vencido no julgamento do presente caso, este já foi o entendimento adotado por este Tribunal administrativo, inclusive no âmbito da 1ª Turma da CSRF, como se observa dos seguintes exemplos: RECURSO ESPECIAL – CONHECIMENTO. Não deve ser conhecido o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional quando inexiste similitude fática entre o acórdão paradigma e o acórdão recorrido. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO INAPLICABILIDADE Os juros de mora só incidem sobre o valor do tributo, não alcançando o valor da multa ofício aplicada. (Processo nº 10680.002472/200723. Acórdão n. 9101000.722. CSRF, 15.12.2010.) JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFICIO INAPLICABILIDADE Os juros de mora só incidem sobre o valor do tributo, não alcançando o valor da multa aplicada. (Processo nº 16327.004079/200275. Acórdão n. 10196.008. TO, 01.03.2007) INCIDÊNCIA DE JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO INAPLICABILIDADE Não incidem os juros com base na taxa Selic sobre a multa de oficio, vez que o artigo 61 da Lei n.° 9.430/96 apenas impõe sua incidência sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições. Igualmente não incidem os juros previstos no artigo 161 do CTN sobre a multa de oficio. (Processo nº 10980.013431/200605. Acórdão nº 10196.607, TO, 06.03.2008) JUROS DE MORA. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TAXA SELIC. — É cabível, no lançamento de oficio, a cobrança de juros de mora sobre o tributo ou contribuição, calculados com base na variação acumulada da Taxa Selic. Referidos juros não incidem sobre a multa de oficio lançada juntamente com o tributo ou contribuição, decorrente de fatos geradores ocorridos a partir de 1/01/1997, por absoluta falta de previsão legal. (Processo nº 16327.004252/200235. Acórdão nº 20216.397, TO, data da publicação 14.06.2005) (grifo nosso) Nesse seguir, voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao recurso especial interposto pelo contribuinte, de forma a reconhecer a não incidência de juros sobre a multa de ofício. RECURSO ESPECIAL DA PFN Mantendose a autuação quanto a glosa de despesas de ágio, fazse necessário analisar o recurso especial interposto pela PFN, quanto à desqualificação de multa de ofício levada a termo pela decisão a quo. Quanto ao conhecimento do recurso especial, compreendo que este deve ser admitido. Não assiste razão ao contribuinte quando suscita que o recurso especial interposto pela PFN teria o condão de apenas revisitar os fatos. Requer a PFN que seja atribuído o tratamento jurídico que compreende cabível em face de situação fática descrita pelo acórdão a quo. Em seu recurso especial, a PFN apresentou analiticamente argumentos para a demonstração da divergência jurisprudencial arguida, cumprindo com o que requer o art. 67 do RICARF. Compreendo que o despacho de admissibilidade bem analisou os requisitos de admissibilidade, não merecendo reparos. No mérito, contudo, compreendo assistir razão ao contribuinte quando sustenta não estar caracterizada a prática de atos simulados capazes de tornar inoponíveis, sob a perspectiva tributária, os efeitos jurídicos das operações realizadas. O que restou caracterizado, até aqui, foi a aquisição de investimento em pessoa jurídica, com sacrifícios Fl. 10056DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.057 65 econômicos correspondentes às ações integralizadas, bem como sobrepreço (ágio) incorrido e que foi amortizado. A análise do TVF demonstra que a imputação da multa qualificada (150%) tomou por base o entendimento circular de que, por se tratar de "ágio interno", a operação fraudulenta e, portanto, o ágio não seria dedutível, bem como a multa deveria ser qualificada. Há dois problemas que não podem ser superados no lançamento tributário em tela: i) nem o raciocínio em questão é correto, pois o reconhecimento fiscal do ágio apurado entre partes relacionadas não era vedado antes da Lei 12.973/2014, nem tampouco as operações praticadas no caso concreto foram praticadas entre empresas do mesmo grupo; ii) a "fraude" não pode ser presumida pura e simplesmente pelas operações relacionadas nos autos, mas deveria ser demonstrada. Por derradeiro, embora o fiscal tenha expressamente fundamentado a qualificação da multa na ausência de causa econômica, propósito negocial ou vantagens extra tributárias, é forçoso reconhecer que todos esses elementos encontramse presentes nos autos. É contundente a constatação de que dois grupos empresariais distintos alcançaram efetivos reposicionamentos no setor de concretagem justamente em decorrência das operações que deram ensejo ao ágio fiscal em discussão. Compreendo que não merecem reparos os fundamentos presentes no voto vencedor da decisão recorrida, in verbis: "No caso dos autos, houve a aplicação da multa qualificada (150%) com fundamento no art art. 44, inciso I e § 1º, da Lei nº 9.430/1996. Segundo o preceito legal supracitado, a multa qualificada deve ser aplicada quando constatada a ocorrência de quaisquer das circunstâncias dos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. Nestas circunstâncias, há de restar comprovado de maneira inquestionável a demonstração dos requisitos necessários para qualificação da multa, qual seja, dolo de fraude, sonegação ou conluio, o que a meu ver não se vislumbra no presente caso. Contudo, os elementos presentes nos autos não possibilitam a comprovação, inequívoca, do dolo na conduta da recorrente, comprovação esta que possibilitaria a aplicação da multa qualificada. (...) Neste contexto há de se asseverar que não há possibilidade de presunção da fraude ou simulação, pois os fatos que a caracterizem devem estar presentes e perfeitamente identificados nos autos, seja na conduta do recorrente seja em omissões deliberadas. Há grande distância entre a conduta do recorrente daquelas que carecem de penalidade qualificada, como movimentações bancárias através de terceiros “laranjas”, falecidos, adulteração de comprovantes, falsificação documental, falsidade ideológica, notas fiscais falsas ou calçadas, notas de empresas inexistentes, subfaturamentos na exportação entre outros. A possibilidade de registrar o ágio pago em operações de investimento, bem como realizar sua amortização, encontra respaldo em previsão legislativa (Lei n.º 9.532/97, art.s 7º e 8º, reproduzidos no art. 386, do RIR/99). Ou seja, o procedimento realizado pela recorrente é normal e corriqueiro no meio empresarial, tal como a análise de tais operações pela RFB para fins de considerálas legítimas ou não, bem como dedutível ou indedutível o ágio. Fl. 10057DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.058 66 Portanto, seria um absurdo considerar todo o ágio amortizado pelo contribuinte mas considerado indedutível pela RFB como uma operação simulada e, assim, cabível de aplicação da multa qualificada. Ademais, todas as operações foram reveladas pela própria recorrente através do atendimento das intimações que, mesmo parcialmente, colocou à disposição da fiscalização todas as informações possíveis e que possuía. As operações não foram dissimuladas ou ocultadas, sendo inclusive respaldadas por laudo do CADE, devidamente registradas nas atas das Assembleias Gerais, dentre outros documentos, tudo juntado aos autos e disponibilizado à fiscalização. Portanto, após discutidos os autos na sessão de julgamento, a Turma decidiu por maioria por afastar a aplicação da multa qualificada no presente caso, pois não se encontram demonstrados o dolo de fraude, sonegação ou conluio necessário para que se sustente a sanção majorada". Por todo o exposto, voto no sentido de CONHECER e DAR PROVIMENTO ao recurso especial do contribuinte, bem como CONHECER e NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial interposto pela PFN. (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto Voto Vencedor Conselheira Adriana Gomes Rêgo Relatora Em que pesem os argumentos do eminente Relator, peço vênia para divergir quanto à apreciação tanto do recurso da Fazenda Nacional (tema da qualificação da multa de ofício), quanto da Contribuinte (temas do ágio, limite de 30% na compensação de prejuízo, multa isolada por falta de recolhimento de estimativas e juros de mora sobre a multa de ofício), conforme tópicos a seguir. Recurso da Contribuinte Ágio Com a devida vênia, divirjo do Relator quando afirma não se estar diante de caso de ágio interno. Ora, como bem concluiu o acórdão recorrido, fazendo percuciente análise das operações societárias levadas a cabo, o ágio cuja dedução da amortização pela Recorrente foi glosada pela Fiscalização surgiu em operação intragrupo, que pode ser assim resumida: a) a empresa CIMEFOR era a sócia majoritária e controladora da empresa ENGEMIXPAR, detendo 53,79% de suas ações; b) em 15/01/2002, a ENGEMIXPAR foi cindida parcialmente, sendo vertida parcela de seu patrimônio, avaliada em R$ 49 milhões, para nova sociedade denominada CONCREFOR; c) para contrabalançar a parcela de patrimônio vertida da ENGEMIXPAR para a CONCREFOR, o capital da ENGEMIXPAR foi reduzido, com a extinção das ações suas que pertenciam à CIMEFOR. Esse investimento estava contabilizado no valor de R$ 159 milhões (patrimônio líquido) + R$ 117 milhões (ágio), totalizando R$ 276 milhões. Com a extinção desse investimento, também foi extinto o ágio correspondente (de R$ 117 milhões). Fl. 10058DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.059 67 Em decorrência da transação acima descrita, a CIMENFOR passou a contabilizar investimento na CONCREFOR pelo valor patrimonial de R$ 49 milhões, além de (novo) ágio de R$ 227 milhões (= R$ 276 milhões – R$ 49 milhões). Assim, o ágio (de R$ 227 milhões) surgido nas antes descritas operações que envolveram a cisão da ENGEMIXPAR não se confunde com o ágio anterior (de R$ 117 milhões), correspondente à participação que a CIMEFOR detinha na ENGEMIXPAR, ágio esse que foi extinto quando da extinção da participação da CIMEFOR na ENGEMIXPAR. Confiramse excertos do acórdão recorrido que bem descrevem as operações levadas a cabo e a contabilização correspondente (sublinhouse): Referidos documentos, acompanhados dos esclarecimentos a eles correspondentes, permitem nova e mais abrangente compreensão do efetivamente ocorrido, que procuro sintetizar a seguir: a) O ágio amortizado a partir de 2006 pela Engemix S/A e, posteriormente, pela Votorantim Cimentos S/A, foi formado na operação societária ocorrida em 15/01/2002, especificamente a cisão parcial sofrida pela EngemixPar. b) No momento imediatamente anterior à cisão parcial da EngemixPar, a empresa que seria cindida possuía dois sócios: um deles era a Cimefor, pertencente ao grupo Votorantim, com 53,79% das ações. O investimento estava registrado na contabilidade da Cimefor como R$ 159 milhões (investimento na EngemixPar) mais R$ 117 milhões (ágio), totalizando R$ 276 milhões. c) Depreendese, daí, que o valor de patrimônio líquido da investida EngemixPar seria de R$ 294 milhões (R$ 159 milhões divididos por 53,79%). Da mesma forma, podese chegar ao valor do investimento que deveria estar contabilizado na outra sócia da EngemixPar, a RossiPar: R$ 135 milhões (R$ 294 milhões – R$ 159 milhões), correspondentes a 46,21% das ações da investida EngemixPar. d) No momento da cisão parcial da EngemixPar, a sócia majoritária e controladora era a Cimefor, com 53,79% das ações. Não obstante, por tudo que se descreverá a seguir, é de se crer que a outra sócia, RossiPar, pertencente ao grupo Rossi, tenha participado com prazer das operações, dadas as vantagens tributárias que também ela obteve (as quais não são objeto do presente processo nem desta discussão). e) A cisão parcial fez segregar parcela do patrimônio da EngemixPar, avaliada em R$ 49 milhões, destinada à criação de nova sociedade, denominada Concrefor Participações Ltda. De especial interesse, compondo a parcela vertida, as quotas sociais da EPGE Participações Ltda. f) Para contrabalançar a parcela do patrimônio vertida, a EngemixPar decidiu promover redução do capital, com a extinção das ações pertencentes à Cimefor (que não tinham valor nominal). Em substituição, entregou à antiga sócia a integralidade das quotas sociais da EPGE Participações. Ressalto: A Cimefor detinha ações da EngemixPar, sem valor nominal, cujo valor de patrimônio líquido era de R$ 159 milhões, e ainda com um ágio registrado de R$ 117 milhões. Por sua decisão, essa participação foi extinta, sendo substituída por quotas de nova sociedade cujo valor de patrimônio líquido era de R$ 49 milhões. g) Foi nessa operação que surgiu o ágio que veio a ser, após diversos outros eventos societários, amortizado pela Engemix S/A e pela Votorantim Cimentos. Em 15/01/2002, no momento da cisão parcial da EngemixPar, a contabilidade da Cimefor fez registrar: (i) a extinção do investimento na EngemixPar (R$ 159 milhões) e do correspondente ágio (R$ 117 milhões), visto que suas ações na EngemixPar foram extintas; (ii) o novo investimento, desta vez na Concrefor, pelo valor patrimonial das quotas recebidas (R$ 49 milhões); e, finalmente (iii) ágio no Fl. 10059DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.060 68 novo investimento, por diferença entre o valor total do investimento extinto e o valor patrimonial do novo investimento, recebido em substituição ao anterior (R$ 276 milhões – R$ 49 milhões = R$ 227 milhões). h) O ágio de R$ 227 milhões, registrado em 15/01/2002 na contabilidade da Cimefor, teria ainda sofrido diversos ajustes, por conta de eventos societários posteriores, até chegar ao saldo de R$ 189 milhões de reais em 2005, valor este que passou a ser amortizado, a partir de 2006, pela Engemix S/A. A recorrente traz um quadro, à fl. 9308 de seu recurso, supostamente coletando e reproduzindo diversos lançamentos contábeis que teriam sido feitos pela Cimefor, até resultar o saldo de R$ 189 milhões. Diante desse entendimento dos fatos, algumas considerações se impõem. A primeira diz respeito ao ágio (R$ 117 milhões), registrado na contabilidade da Cimefor até 15/01/2002, por investimento na EngemixPar. Tal ágio teria sido formado em dois momentos anteriores, a saber: (i) R$ 24,9 milhões em 09/12/2001, quando a Cimefor promoveu aumento de capital, subscrito pela Companhia de Cimento Portland Itaú, e recebeu como pagamento do capital subscrito ações da EngemixPar com o referido ágio. Essa parcela não veio à baila durante a fiscalização, e sobre ela pouco se falou, inclusive ao longo deste processo, mas ressaltese que sua formação, em momento anterior a 2001, não foi discutida. (ii) R$ 92 milhões em 18/12/2001, quando a EngemixPar promoveu aumento de capital, subscrito com ágio pela Cimefor. A soma dessas parcelas constitui o ágio de R$ 117 milhões que se encontrava na contabilidade da Cimefor em 15/01/2002. Esse ágio foi extinto juntamente com o investimento na EngemixPar, por ocasião da cisão parcial desta última. Não foi esse o ágio que veio a ser amortizado. As operações de que aqui se trata se deram, sim, dentro de grupo empresarial, haja vista que a CIMEFOR controlava a ENGEMIXPAR da qual foi vertido, por cisão, o patrimônio que deu origem à CONCREFOR. E foi do ágio (de R$ 227 milhões) surgido nas antes descritas operações que envolveram a cisão da ENGEMIXPAR, e não o anterior, extinto, que decorreram as amortizações cuja despesa foi glosada pela Fiscalização no presente processo. Vale transcrever trecho do acórdão recorrido que aborda com clareza esse aspecto: Observese que, neste momento, se confirma a afirmação do Fisco de que o ágio amortizado foi gerado internamente a um mesmo grupo econômico. No momento da formação do ágio ora discutido, a Cimefor era sócia majoritária e controladora da EngemixPar, e a decisão sobre a cisão parcial, da forma como levada a efeito e com os valores envolvidos, certamente decorreu de ato direto da Cimefor, integrante do grupo Votorantim, o qual viria, futuramente, a ser o único beneficiário da amortização desse ágio. Muito embora, no momento do lançamento, o Fisco não tivesse a visão mais clara que agora se tem sobre o ocorrido, a falta de ligação entre o ágio gerado em momentos anteriores a 15/01/2002 e aquele efetivamente amortizado a partir de 2006, juntamente com a obscuridade até então reinante sobre os diversos eventos societários, conduziu à conclusão de que o ágio somente poderia ter sido gerado internamente ao grupo, conclusão que agora se mostra correta. Não se sustenta, portanto, a alegação de que o ágio de que decorreram as despesas com amortização glosadas não é interno a grupo econômico. Não prevalece, também, a alegação de que, ainda que surgido dentro de grupo econômico, não se pode afastar a dedutibilidade das despesas com amortização correspondentes. Fl. 10060DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.061 69 Esta 1ª Turma da CSRF tem sistematicamente afastado a dedutibilidade de despesas com amortização de ágio surgido internamente a grupo econômico. Citemse, por exemplo, os acórdãos de nºs 9101002.388, 9101002.389, 9101002.390, e 9101002.391 (de 13 de julho de 2016) e 9101002.550 (de 7 de fevereiro de 2017), todos de minha relatoria. O tema foi enfrentado também na oportunidade que essa Turma julgou o processo de nº 10469.721945/201003, na sessão de 6 de abril de 2016 (acórdão nº 9101002.303, de relatoria do Conselheiro André Mendes de Moura). Naquela oportunidade restou reformado o único acórdão aceito como paradigma por ocasião do juízo de admissibilidade do recurso especial que ora se aprecia (acórdão nº 1101000.841). Trago, assim, as razões do já referido acórdão nº 9101002.550, em que figurei como Relatora e fui acompanhada por maioria, no qual se demonstra a indedutibilidade das despesas com amortização ágio surgido internamente em grupo econômico, sem qualquer dispêndio: Apreciando as razões trazidas pela Recorrente, entendo que não lhe assiste razão, uma vez que a Lei nº 9.532, de 1997, em seus artigos 7º e 8º, jamais pode ser interpretada como permissiva de dedutibilidade de uma despesa que foi “inventada”! E aqui chamo a atenção que o que classifico de “invenção” é incontroverso pois, em que pese a Recorrente argumentar pela legitimidade do ágio, em nenhum momento demonstrou que houve pagamento ou qualquer transferência de recursos relativa ao ágio que aproveitou. Ora, o argumento de que antes da edição da Medida Provisória nº 627, de 2013, a legislação não vedava o ágio surgido de operações intragrupo, e, assim, o tratamento do ágio no limite do que dispõem os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, daria guarida a situações como a do presente processo improcede. Isso porque a lei em questão trata expressamente de participações adquiridas com ágio ou deságio e ágio, o que pressupõe um pagamento (ou que se arque com um dispêndio) maior do que um valor de contabilizado (como deságio pressupõe pagamento a menor), reforçandose ainda, quando o caput do art. 7º faz referência ao DecretoLei nº 1.598, de 1977, o qual, também de forma expressa, define o ágio como diferença entre custo de aquisição e o valor do PL ao tempo dessa aquisição: Lei nº 9.532, de 1997: Art. 7º A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: ......................................................................................................... III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2° do art. 20 do Decretolei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998). (negritei) Decretolei nº 1.598, de 1977 (redação vigente ao tempo dos fatos geradores): Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e Fl. 10061DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.062 70 II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. (negritei) Aliás, a definição de Custo de Aquisição trazida pelo Manual de Contabilidade das Sociedades por Ações elaborado pela FIPECAFI (item 10.3.2.a, da 7ª ed., 2008), não deixa dúvidas: “a) CUSTO DE AQUISIÇÃO O custo de aquisição é o valor efetivamente despendido na transação por subscrição relativa a aumento de capital, ou ainda pela compra de ações de terceiros, quando a base do custo é o preço total pago. Vale lembrar que esse valor pago é reduzido dos valores recebidos a título de distribuição de lucros (dividendos), dentro do período de seis meses após a aquisição das cotas ou ações da investida.” (Grifei) Ou seja, os valores a serem registrados como custo de aquisição, como preço pago, deve corresponder ao valor despendido, pago, nas transações com agentes externos, para obtenção do investimento. Ainda do referido Manual, 7ª ed., destaco todas as menções feitas a valor pago e aquisição de ações, no sentido de demonstrar o que a teoria contábil considera custo de aquisição e ágio: “11.7.1 – Introdução e Conceito Os investimentos, como já vimos, são registrados pelo valor da equivalência patrimonial e, nos casos em que os investimentos foram feitos por meio de subscrições em empresas coligadas ou controladas, formadas pela própria investidora, não surge normalmente qualquer ágio ou deságio. Vejase, todavia, caso especial no item 11.7.6. Todavia, no caso de uma companhia adquirir ações de uma empresa já existente, pode surgir esse problema. O conceito de ágio ou deságio, aqui, não é o da diferença entre o valor pago pelas ações e seu valor nominal, mas a diferença entre o valor pago e o valor patrimonial das ações, e ocorre quando adotado o método da equivalência patrimonial. Dessa forma, há ágio quando o preço de custo das ações for maior que seu valor patrimonial, e deságio, quando for menor, como exemplificado a seguir. 11.7.2 Segregação Contábil do Ágio ou Deságio Ao comprar ações de uma empresa que serão avaliadas pelo método da equivalência patrimonial, devese, já na ocasião da compra, segregar na Contabilidade o preço total de custo em duas subcontas distintas, ou seja, o valor da equivalência patrimonial numa subconta e o valor do ágio (ou deságio) em outra subconta.(...) 11.7.3 Determinação do Valor do Ágio ou Deságio a)GERAL Para permitir a determinação do valor do ágio ou deságio, é necessário que, na data base da aquisição das ações, se determine o valor da equivalência patrimonial do investimento, para o que é necessária a elaboração de um Balanço da empresa da qual se compraram as ações, preferencialmente na mesma database da compra das ações ou até dois meses antes dessa data. Todavia, se a aquisição for feita com base num Balanço de negociação, poderá ser utilizado esse Balanço, mesmo que com defasagem superior aos dois meses mencionados. Ver exemplos a seguir. b) DATABASE Na prática, esse tipo de negociação é usualmente um processo prolongado, levando, às vezes, a meses de debates até a conclusão das negociações. A database da contabilização da compra é a da efetiva transmissão dos direitos de tais ações aos Fl. 10062DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.063 71 novos acionistas; a partir dela, passam a usufruir dos lucros gerados e das demais vantagens patrimoniais.(...) 11.7.4 Natureza e Origem do Ágio ou Deságio (...) c) ÁGIO POR VALOR DE RENTABILIDADE FUTURA Esse ágio (ou deságio) ocorre quando se paga pelas ações um valor maior (menor) que o patrimonial, em função de expectativa de rentabilidade futura da coligada ou controlada adquirida. Esse tipo de ágio ocorre com maior frequência por envolver inúmeras situações e abranger diversas possibilidades. No exemplo anterior da Empresa B, os $ 100.000.000 pagos a mais na compra das ações representam esse tipo de ágio e devem ser registrados nessa subconta específica. Sumariando, no exemplo anterior, a contabilização da compra das ações pela Empresa A, por $ 504.883.200, seria (...). 11.7.5 Amortização do Ágio ou Deságio CONTABILIZAÇÃO V – Amortização do ágio (deságio) por valor de rentabilidade futura O ágio pago por expectativa de lucros futuros da coligada ou controlada deve ser amortizado dentro do período pelo qual se pagou por tais futuros lucros, ou seja, contra os resultados dos exercícios considerados na projeção dos lucros estimados que justifiquem o ágio. O fundamento aqui é o de que, na verdade, as receitas equivalentes aos lucros da coligada ou controlada não representam um lucro efetivo, já que a investidora pagou por eles antecipadamente, devendo, portanto, baixar o ágio contra essas receitas. Suponha que uma empresa tenha pago pelas ações adquiridas um valor adicional ao do patrimônio líquido de $ 200.000, correspondente a sua participação nos lucros dos 10 anos seguintes da empresa adquirida. Nesse caso, tal ágio deverá ser amortizado na base de 10% ao ano. (Todavia, se os lucros previstos pelos quais se pagou o ágio não forem projetados em uma base uniforme de ano para ano, a amortização deverá acompanhar essa evolução proporcionalmente).(...) Nesse sentido, a CVM determina que o ágio ou o deságio decorrente da diferença entre o valor pago na aquisição do investimento e o valor de mercado dos ativos e passivos da coligada ou controlada deverá ser amortizada da seguinte forma (...). 11.7.6 Ágio na Subscrição (...) por outro lado, vimos nos itens anteriores ao 11.7 que surge o ágio ou deságio somente quando uma empresa adquire ações ou quotas de uma empresa já existente, pela diferença entre o valor pago a terceiros e o valor patrimonial de tais ações ou quotas adquiridas dos antigos acionistas ou quotistas. Poderíamos concluir, então, que não caberia registrar um ágio ou deságio na subscrição de ações. Entendemos, todavia, que quando da subscrição de novas ações, em que há diferença entre o valor de custo do investimento e o valor patrimonial contábil, o ágio deve ser registrado pela investidora. Essa situação pode ocorrer quando os acionistas atuais (Empresa A) de uma empresa B resolvem admitir novo acionista (Empresa X) não pela venda de ações já existentes, mas pela emissão de novas ações a serem subscritas, pelo novo acionista. Ou quando um acionista subscreva aumento de capital no lugar de outro. O preço de emissão das novas ações, digamos $ 100 cada, representa a negociação pela qual o acionista subscritor está pagando o valor patrimonial contábil da Fl. 10063DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.064 72 Empresa B, digamos $ 60, acrescido de uma maisvalia de $ 40, correspondente, por exemplo, ao fato de o valor de mercado dos ativos da Empresa B ser superior a seu valor contabilizado. Tal diferença representa, na verdade, uma reavaliação de ativos, mas não registrada pela Empresa B, por não ser obrigatória. Notemos que, nesse caso, não faz sentido lógico que o novo acionista ou mesmo o antigo, ao fazer a integralização do capital, registre seu investimento pelo valor patrimonial das suas ações e reconheça a diferença como perda não operacional. Na verdade, nesse caso, o valor pago a mais tem substância econômica bem fundamentada e deveria ser registrado como um ágio, baseado no maior valor de mercado dos ativos da Empresa B.” (Grifei) É bem verdade que no item 38.6.1.2, ao tratar da Incorporação Reversa com Ágio Interno, o referido Manual, ao analisar o art. 36 da Lei nº 10.637, de 2002, aduz que o referido diploma legal admitia a reavaliação de participações societárias, quando da integralização de ações subscritas, com o diferimento da tributação do IRPJ e da CSLL e concluem os autores da obra: “Questionase, desse modo, a racionalidade econômica do art. 36 da Lei nº 10.637, de 2002, pelo lado do ente tributante, que permite que grupos econômicos, em operações de combinação de negócios, criem artificialmente, ágios internamente, por intermédio da constituição de ‘sociedades veículos’, que surgem e são extintas em curso lapso temporal, ou pela utilização de sociedades de participação denominadas ‘casca’, com finalidade meramente elisiva. Do ponto de vista tributário, à luz do art. 36, e dependendo da forma pela qual a operação é realizada, a Fazenda pública perde porque permite a dedutibilidade da quota de ágio amortizada para fins de IRPJ e base de cálculo da CSLL e difere a tributação do ‘ganho de capital’ registrado pela companhia que subscreve e integraliza aumento de capital em ‘sociedade veículo’ ou de participação ‘casca’, a ser em seguida incorporada”. Com a devida vênia aos autores, é de se verificar, e como a própria Recorrente aduz, que existe permissão legal, sim, de integralização de capital social com ações de outra empresa, que há permissão legal de avaliação de investimentos em sociedades coligadas e controladas com o desdobramento do custo de aquisição em reavaliação; contudo, o que não há é autorização legal para, em virtude dessa integralização, lançar em contrapartida o desdobramento do custo como ágio, pois, em operações internas, sem que um terceiro se disponha a pagar uma maisvalia, não há ágio; a contrapartida é uma reavaliação de ativos. E é isso que os autores confundem quando tratam do art. 36 da Lei nº 10.637, de 2002, porque essa lei sequer fala em ágio. Assim, o que esse dispositivo, trazido, aliás, pela Recorrente na defesa da dedutitibilidade do ágio gerado, tratava é da possibilidade de diferimento do ganho de capital, quando uma companhia A, que possui participação societária em B, resolve constituir C, subscrevendo capital com ações reavaliadas de B. Ocorre que essa reavaliação de B, quando as operações ocorrem dentro de um mesmo grupo, constitui, tão somente, uma reavaliação. A lei não autoriza que a contrapartida da reavaliação seja uma conta de ágio. Só existe ágio se um terceiro se dispõe a reconhecer esse sobrepreço e a pagar por ele. Sem onerosidade, descabe falar em maisvalia. E é nessa linha que os autores acabam concluindo às fls. 599 e 600 da 7ª edição: “Para admitirse o registro da parcela legalmente dedutível do ágio gerado internamente, devese enxergála tecnicamente, abstraindo outras questões, similarmente a um ativo fiscal diferido advindo de estoques de prejuízos fiscais e de bases negativas de contribuição social. Poderseia advogar que seu registro encontra amparo no fato de haver uma evidência persuasiva de sua substância econômica: um diploma legal que corrobora o seu surgimento. E ainda dentro dessa corrente de pensamento, seria admitido como critério de mensuração Fl. 10064DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.065 73 contábil inicial, por analogia, o mesmo dispensado a um ativo fiscal diferido advindo de estoques de prejuízos fiscais e de bases negativas de contribuição social, qual seja, mensuração a valores de saída, utilizando o método do fluxo de benefícios futuros trazidos a valor presente, no limite de benefícios nominais projetados para dez anos. Por outro lado, haveria também como refutar o registro da parcela legalmente dedutível do ágio gerado internamente, ao se enxergála tecnicamente como um intangível gerado internamente. Dentro do Arcabouço Conceitual Contábil em vigor, considerando a mensuração a valores de entrada, não se admite o reconhecimento de um ativo que não seja por seu custo de aquisição. Um intangível gerado internamente, como no caso em comento, embora gere benefícios econômicos inquestionáveis para uma dada entidade, tem o seu reconhecimento contábil obstado por uma simples razão: a ausência de custo para ser confrontado com benefícios gerados e permitir, com isso, a apuração de lucros consentâneos com a realidade econômica da entidade. (...) Só que, no caso desses créditos tributários derivados de operações societária entre empresas sob controle comum, não há, na essência, e também na figura das demonstrações consolidadas, qualquer desembolso que lhes dê suporte. Direitos obtidos sem custo, como direitos autorais, por exemplo, não são contabilizados; o goodwill (fundo de comércio) desenvolvido sem custo ou com custo diluído ao longo de vários anos na forma de despesas já reconhecidas também não é contabilizado; patentes criadas pela empresa são registradas apenas pelo seu custo etc. Por que os direitos de pagar menos tributos futuros, advindos de operações com ausência de propósito negocial e permeadas por abuso de forma, seriam registrados? Essas seriam discussões no campo técnico e conceituai a serem travadas. Contudo, estimulando um pouco mais o debate, devese atentar para uma questão sobremaneira crucial para a Contabilidade. Do ponto de vista institucional e moral da profissão contábil, e por que não político, admitirse o registro do ativo fiscal implica estimular o surgimento de uma indústria do ágio? Assim, à parte possíveis controvérsias conceituais, o procedimento mais adequado, técnica e eticamente, é não se proceder ao reconhecimento do ativo fiscal diferido nessas operações."(Grifei) Por oportuno, trago ainda a versão do Manual de Contabilidade Societária, após as normas internacionais e os pronunciamentos do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (edição de 2010, pág. 442), que reforça ainda mais o que entendiam os autores do Manual: "Considerando que na época não havia uma normatização contábil similar ao CPC 15, a consequência direta da prática desse tipo de incorporação (reversa) era a geração de um benefício fiscal bem como o reconhecimento contábil de um ágio gerado internamente (contra o qual, nós, os autores deste Manual, sempre nos insurgimos). Dessa forma, era fortemente criticada a racionalidade econômica do art. 36 da Lei ne 10.637/02, que permitia que grupos econômicos, em operações de combinação de negócios (sob controle comum) criassem artificialmente ágios internamente por intermédio da constituição de "sociedades veículo", que surgem e são extintas em curto lapso de tempo, ou pela utilização de sociedades de participação denominadas "casca", com finalidade meramente elisiva. Nesse sentido, vale lembrar que a CVM vedava fortemente esse tipo de prática (vide OfícioCircular CVM SNC/SEP nQ 01/2007), uma vez que a operação se realizava entre entidades sob controle comum e, portanto, careciam de substância econômica (nenhuma riqueza era gerada efetivamente em tais operações). Além disso, o ágio fundamentado em rentabilidade futura (goodwill) proveniente de combinações entre entidades sob controle comum era eliminado nas demonstrações consolidadas da controladora final, tornando inconsistente o reconhecimento desse tipo de ágio gerado internamente (na ótica do grupo econômico não houve geração de riqueza). Fl. 10065DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.066 74 Atualmente, o art. 36 da Lei na 10.637/02 foi revogado pela Lei na 11.196/05 (art. 133, inciso III), bem como com a entrada em vigor do CPC 15, para fins de publicação de demonstrações contábeis, não mais será possível reconhecer contabilmente um ágio gerado internamente em combinações de negócio envolvendo entidades sob controle comum." Convém observar que tudo isso foi escrito antes mesmo da MP nº 627, de 2013! É importante também destacar que o próprio Conselho Federal de Contabilidade estabeleceu, por meio da Resolução nº CFC nº 750, de 1993, que as essências das transações devem prevalecer sobre a forma, e que a avaliação dos componentes patrimoniais deve ser efetuada com base nos valores de entrada, considerandose como tais aqueles resultantes do consenso com os agentes externos ou da imposição destes, senão vejamos: Art. 1º. Constituem PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE CONTABILIDADE (PFC) os enunciados por esta Resolução. § 1º. A observância dos Princípios Fundamentais de Contabilidade é obrigatória no exercício da profissão e constitui condição de legitimidade das Normas Brasileiras de Contabilidade (NBC). § 2º. Na aplicação dos Princípios Fundamentais de Contabilidade há situações concretas e a essência das transações deve prevalecer sobre seus aspectos formais. (...) Art. 7º. Os componentes do patrimônio devem ser registrados pelos valores originais das transações com o mundo exterior, expressos a valor presente na moeda do País, que serão mantidos na avaliação das variações patrimoniais posteriores, inclusive quando configurarem agregações ou decomposições no interior da ENTIDADE. Parágrafo único. Do Princípio do REGISTRO PELO VALOR ORIGINAL resulta: I a avaliação dos componentes patrimoniais deve ser feita com base nos valores de entrada, considerandose como tais os resultantes do consenso com os agentes externos ou da imposição destes; II – uma vez integrado no patrimônio, o bem, direito ou obrigação não poderão ter alterados seus valores intrínsecos, admitindose, tãosomente, sua decomposição em elementos e/ou sua agregação, parcial ou integral, a outros elementos patrimoniais; III – o valor original será mantido enquanto o componente permanecer como parte do patrimônio, inclusive quando da saída deste; IV – os Princípios da ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA e do REGISTRO PELO VALOR ORIGINAL são compatíveis entre si e complementares, dado que o primeiro apenas atualiza e mantém atualizado o valor de entrada V – o uso da moeda do País na tradução do valor dos componentes patrimoniais constitui imperativo de homogeneização quantitativa dos mesmos.” (Grifei). O Conselho Federal de Contabilidade editou, ainda, a Resolução CFC nº 1.110/2007 para aprovar a NBC T 19.10 – Redução ao Valor Recuperável de Ativos, aplicável aos exercícios encerrados a partir de dezembro de 2008, cujo item 120 determina expressamente: “120. O reconhecimento de ágio decorrente de rentabilidade futura gerado internamente (goodwill interno) é vedado pelas normas nacionais e internacionais. Assim, qualquer ágio dessa natureza anteriormente registrado precisa ser baixado”. O Comitê de Pronunciamentos Contábeis, também repudiou o ágio interno por meio do CPC nº 04, aprovado em 2010, que, ao se manifestar sobre ativo intangível, dedicou os itens 48 a 50 para tratar do “Ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente”, deixando bastante claro que tal ágio sequer deve ser reconhecido como ativo: Fl. 10066DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.067 75 Ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente 48. O ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente não deve ser reconhecido como ativo. 49. Em alguns casos incorrese em gastos para gerar benefícios econômicos futuros, mas que não resultam na criação de ativo intangível que se enquadre nos critérios de reconhecimento estabelecidos no presente Pronunciamento. Esses gastos costumam ser descritos como contribuições para o ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente, o qual não é reconhecido como ativo porque não é um recurso identificável (ou seja, não é separável nem advém de direitos contratuais ou outros direitos legais) controlado pela entidade que pode ser mensurado com confiabilidade ao custo.(Grifei) Também em 2010, o Conselho Federal de Contabilidade por meio da Resolução CFC nº 1.303, de 2010, aprovou a NBC TG 04, que tem como base o mencionado Pronunciamento Técnico CPC 04 já acima transcrito : Ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente 48. O ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente não deve ser reconhecido como ativo. 49. Em alguns casos incorrese em gastos para gerar benefícios econômicos futuros, mas que não resultam na criação de ativo intangível que se enquadre nos critérios de reconhecimento estabelecidos na presente Norma. Esses gastos costumam ser descritos como contribuições para o ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente, o qual não é reconhecido como ativo porque não é um recurso identificável (ou seja, não é separável nem advém de direitos contratuais ou outros direitos legais) controlado pela entidade que pode ser mensurado com confiabilidade ao custo. 50. As diferenças entre valor de mercado da entidade e o valor contábil de seu patrimônio líquido, a qualquer momento, podem incluir uma série de fatores que afetam o valor da entidade. No entanto, essas diferenças não representam o custo dos ativos intangíveis controlados pela entidade. (Grifei) Também a Comissão de Valores Mobiliários, por meio do OfícioCircular CVM/SNC/SEP nº 1, de 2007, no item 20.1.7 tratou o ágio interno nos seguintes termos: 20.1.7 “Ágio” gerado em operações internas A CVM tem observado que determinadas operações de reestruturação societária de grupos econômicos (incorporação de empresas ou incorporação de ações) resultam na geração artificial de “ágio”. Uma das formas que essas operações vêm sendo realizadas, iniciase com a avaliação econômica dos investimentos em controladas ou coligadas e, ato contínuo, utilizarse do resultado constante do laudo oriundo desse processo como referência para subscrever o capital numa nova empresa. Essas operações podem, ainda, serem seguidas de uma incorporação. Outra forma observada de realizar tal operação é a incorporação de ações a valor de mercado de empresa pertencente ao mesmo grupo econômico. Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômicocontábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial, supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há o dispêndio para se obter algo de terceiros. Fl. 10067DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.068 76 Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Não é concebível, econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como “arm’s length”. Portanto, é nosso entendimento que essas transações não se revestem de substância econômica e da indispensável independência entre as partes, para que seja passível de registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade. (Grifei) Em 2011, inclusive, o Comitê quando aprova o CPC nº 15, que trata das demonstrações contábeis acerca da combinação de negócios e seus efeitos, deixa expresso que o Pronunciamento não alcança a combinação de negócios de entidades ou negócios sob controle comum: Objetivo 1. O objetivo deste Pronunciamento é aprimorar a relevância, a confiabilidade e a comparabilidade das informações que a entidade fornece em suas demonstrações contábeis acerca de combinação de negócios e sobre seus efeitos. Para esse fim, este Pronunciamento estabelece princípios e exigências da forma como o adquirente: reconhece e mensura, em suas demonstrações contábeis, os ativos identificáveis adquiridos, os passivos assumidos e as participações societárias de não controladores na adquirida; reconhece e mensura o ágio por expectativa de rentabilidade futura (goodwill adquirido) advindo da combinação de negócios ou o ganho proveniente de compra vantajosa;e determina quais as informações que devem ser divulgadas para possibilitar que os usuários das demonstrações contábeis avaliem a natureza e os efeitos financeiros da combinação de negócios. ........................................................................................................ Combinação de negócios de entidades sob controle comum – aplicação do item 2(c) B1. Este Pronunciamento não se aplica a combinação de negócios de entidades ou negócios sob controle comum. A combinação de negócios envolvendo entidades ou negócios sob controle comum é uma combinação de negócios em que todas as entidades ou negócios da combinação são controlados pela mesma parte ou partes, antes e depois da combinação de negócios, e esse controle não é transitório. B2. Um grupo de indivíduos deve ser considerado como controlador de uma entidade quando, pelo resultado de acordo contratual, eles coletivamente têm o poder para governar suas políticas financeiras e operacionais de forma a obter os benefícios de suas atividades. Portanto, uma combinação de negócios está fora do alcance deste Pronunciamento quando o mesmo grupo de indivíduos tem, pelo resultado de acordo contratual, o poder coletivo final para governar as políticas financeiras e operacionais de cada uma das entidades da combinação de forma a obter os benefícios de suas atividades, e esse poder coletivo final não é transitório. E não é só isso. Até o voto proferido no acórdão nº 110100.708 (o qual, aliás, foi reformado pelo acórdão nº 9101002.388, de minha relatoria), a jurisprudência do Fl. 10068DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.069 77 CARF também trilhava o mesmo caminho, isto é, o CARF não admitia a dedutibilidade da amortização de ágio surgido em operações internas ao grupo econômico, nem com o uso de empresas veículos, conforme acórdãos trazidos pela Fazenda em suas contrarrazões, todos de decisões unânimes na matéria ágio: 101 96724, 10323.290, 10517.219. Por conseguinte, não se pode afirmar agora, como faz a Recorrente, que o ágio interno só deixou de ser dedutível a partir da Lei nº 12.973, de 2014, ou melhor, da MP nº 627, de 2013, da qual referida lei resultou por conversão. Na verdade, a nova lei, ao dispor expressamente assim, nada mais fez do que explicitar que, por óbvio, ágio pressupõe sobrepreço pago por partes independentes, ou seja, a indedutibilidade do ágio interno para fins fiscais decorre do fato de ele não ser aceito sequer contabilmente. Aliás, é nesta linha que se verifica já na própria exposição de motivos da MP nº 637, de 2013, que ora colaciono: EM nº 00187/2013 MF Brasília, 7 de Novembro de 2013 Excelentíssima Senhora Presidenta da República, Submeto à apreciação de Vossa Excelência a Medida Provisória que altera a legislação tributária federal e revoga o Regime Tributário de Transição RTT instituído pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, bem como dispõe sobre a tributação da pessoa jurídica domiciliada no Brasil, com relação ao acréscimo patrimonial decorrente de participação em lucros auferidos no exterior por controladas e coligadas e de lucros auferidos por pessoa física residente no Brasil por intermédio de pessoa jurídica controlada no exterior; e dá outras providências. 1. A Lei nº 11.638, de 28 de dezembro de 2007, alterou a Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976 Lei das Sociedades por Ações, modificando a base de cálculo do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica IRPJ, da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL, da Contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS. A Lei nº 11.941, de 2009, instituiu o RTT, de forma opcional, para os anoscalendário de 2008 e 2009, e, obrigatória, a partir do anocalendário de 2010. 2. O RTT tem como objetivo a neutralidade tributária das alterações trazidas pela Lei nº 11.638, de 2007. O RTT define como base de cálculo do IRPJ, da CSLL, da Contribuição para o PIS/PASEP, e da COFINS os critérios contábeis estabelecidos na Lei nº 6.404, de 1976, com vigência em dezembro de 2007. Ou seja, a apuração desses tributos tem como base legal uma legislação societária já revogada. 3. Essa situação tem provocado inúmeros questionamentos, gerando insegurança jurídica e complexidade na administração dos tributos. Além disso, traz dificuldades para futuras alterações pontuais na base de cálculo dos tributos, pois a tributação tem como base uma legislação já revogada, o que motiva litígios administrativos e judiciais. 4. A presente Medida Provisória tem como objetivo a adequação da legislação tributária à legislação societária e às normas contábeis e, assim, extinguir o RTT e estabelecer uma nova forma de apuração do IRPJ e da CSLL, a partir de ajustes que devem ser efetuados em livro fiscal. Além disso, traz as convergências necessárias para a apuração da base de cálculo da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS. (...) 15.9. O art. 20, com o intuito de alinhálo ao novo critério contábil de avaliação dos investimentos pela equivalência patrimonial, deixando expressa a sua aplicação a outras hipóteses além de investimentos em coligadas e controladas, e registrando Fl. 10069DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.070 78 separadamente o valor decorrente da avaliação ao valor justo dos ativos líquidos da investida (maisvalia) e a diferença decorrente de rentabilidade futura (goodwill). O § 3º determina que os valores registrados a título de maisvalia devem ser comprovados mediante laudo elaborado por perito independente que deverá ser protocolado na Secretaria da Receita Federal do Brasil ou cujo sumário deve ser registrado em Cartório de Registro de Títulos e Documentos até o último dia útil do décimo terceiro mês subsequente ao da aquisição da participação. Outrossim, em consonância com as novas regras contábeis, foi estabelecida a tributação do ganho por compra vantajosa no período de apuração da alienação ou baixa do investimento; (...) Os arts. 19 e 20 dispõem sobre o tratamento tributário a ser dado à mais ou menos valia que integrará o custo do bem que lhe deu causa na hipótese de fusão, incorporação ou cisão da empresa investida. Tendo em vista as mudanças nos critérios contábeis, a legislação tributária anterior revelouse superada, haja vista não tratar especificamente da mais ou menosvalia, daí a necessidade de inclusão desses dispositivos estabelecendo as condições em que os valores poderão integrar o custo do bem para fins tributários. Os referidos dispositivos devem ser analisados juntamente com o disposto nos arts. 35 a 37. 32. As novas regras contábeis trouxeram grandes alterações na contabilização das participações societárias avaliadas pelo valor do patrimônio líquido. Dentre as inovações introduzidas destacamse a alteração quanto à avaliação e ao tratamento contábil do novo ágio por expectativa de rentabilidade futura, também conhecido como goodwill. O art. 21 estabelece prazos e condições para a dedução do novo ágio por rentabilidade futura (goodwill) na hipótese de a empresa absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detinha participação societária adquirida com goodwill, apurado segundo o disposto no inciso III do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977. Esclarece que a dedutibilidade do goodwill só é admitida nos casos em que a aquisição ocorrer entre empresas independentes. (Grifei) É importante destacar que esse novo regramento contido na Lei nº 12.973/2014 é decorrente dos novos métodos e critérios contábeis introduzidos pelas Leis nº 11.638/2007 e 11.941/2009, e pelos pronunciamentos contábeis decorrentes. No que diz respeito à questão de ágio, ocorreram mudanças significativas, como a nova definição de coligada (alteração do art. 243 da Lei nº 6.404/76), a alteração sobre o Método da Equivalência Patrimonial (art. 248 da Lei nº 6.404/79), além da edição de atos pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis CPC sobre o assunto (em especial, o CPC nº 18 – “Investimento em Coligada, em Controlada e em Empreendimento Controlado em Conjunto” e CPC nº 15 – “Combinação de Negócios”, acima já citado). De acordo com essa nova concepção contábil, o ágio (que passou a ser denominado de goodwill) é determinado como sendo o excedente pago, após os ativos líquidos da investida serem avaliados a “valor justo” (conceito que aliás é bem mais amplo do que “valor de mercado”). Em razão dessa alteração, o custo de aquisição do investimento passou a ser desdobrado em: a) valor do patrimônio líquido da investida; b) mais ou menos valia; e c) ágio por rentabilidade futura (goodwill). Por tudo isso, é de se perceber que não é possível se fazer uma associação exata entre a nova sistemática de identificação e apuração do ágio com a anterior. De forma que, o que era ágio antes, pode ser agora somente “mais valia”, mesmo que anteriormente tivesse sido identificado como decorrente de expectativa de rentabilidade futura. A possibilidade de se apurar uma “menos valia” também influi na existência ou não do ágio. Além disso, as situações em que o Método da Fl. 10070DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.071 79 Equivalência Patrimonial se torna obrigatório também foram alteradas, o que tem influência direta sobre a necessidade ou não de se determinar a existência de ágio. Portanto, é um grande equívoco de interpretação se utilizar das disposições contidas no art. 7º da Lei 9.532/1997, a partir do constante nos arts. 20 a 22 da Lei nº 12.973/2014, uma vez que disciplinam efeitos tributários de procedimentos contábeis totalmente distintos. Equivocada, também, a alegação, trazida pela Recorrente, de que sem as disposições da MP nº 627, de 2013, a dedutibilidade da amortização de ágio como o que aqui se trata estaria autorizada. Como se viu, a medida provisória em questão e a lei na qual foi convertida não alteram os efeitos tributários de procedimentos contábeis antes vigentes e que assim permanecem, mas conferem tratamento tributário a procedimentos contábeis advindos no bojo de nova concepção contábil, significativamente diferente da anterior. Isso não impede, no entanto, que, como se fez alhures, se diga que a nova lei explicita o óbvio, ou seja, que o ágio pressupõe sobrepreço pago por partes independentes. Não fossem apenas as diferenças antes mencionadas, o fato mais curioso ainda é que o próprio conceito de partes dependentes estabelecido pelo art. 25 da novel Lei nº 12.973, de 2014 é bem mais amplo do que o conceito de ágio interno: Art. 25. Para fins do disposto nos arts. 20 e 22, consideramse partes dependentes quando: I o adquirente e o alienante são controlados, direta ou indiretamente, pela mesma parte ou partes; II existir relação de controle entre o adquirente e o alienante; III o alienante for sócio, titular, conselheiro ou administrador da pessoa jurídica adquirente; IV o alienante for parente ou afim até o terceiro grau, cônjuge ou companheiro das pessoas relacionadas no inciso III; ou V em decorrência de outras relações não descritas nos incisos I a IV, em que fique comprovada a dependência societária. Ou seja, não apenas as operações que envolvem duas pessoas jurídicas sob controle comum caracterizamse como partes dependentes: a nova lei incluiu as pessoas físicas, com situações, por exemplo, em que o alienante é parente ou afim até o terceiro grau do sócio acionista da empresa. Assim, passa a ser possível a existência de um ágio contábil (diferente do ágio interno), mas que ao teor da nova legislação, a sua dedutibilidade fica vedada. Por oportuno, também considero equivocado o entendimento de quem concebe que existe um ágio fiscal e um ágio contábil, ou que a legislação societária permitiu algo diferente da contabilidade nesse aspecto. É que a legislação tributária, no artigo 20 do DecretoLei nº 1.598/77, trata do ágio apurado na aquisição de participações em Sociedades Coligadas ou Controladas Avaliado pelo Valor de Patrimônio Líquido nos seguintes termos (destaque acrescido): Desdobramento do Custo de Aquisição Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e Fl. 10071DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.072 80 II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Essas disposições contidas no art. 20 do Decretolei nº 1.598/77 estão em perfeita sintonia com as normas contábeis contemporâneas à expedição do Decretolei nº 1.598/77, conforme se pode constatar no disposto na Instrução CVM nº 01 de 27 de abril de 1978, conforme destaco: (...) Desdobramento do custo de aquisição de investimento XX Para efeito de contabilização, o custo de aquisição de investimento em coligada ou em controlada deverá ser desdobrado e os valores resultantes desse desdobramento contabilizados em subcontas separadas: a) equivalência patrimonial baseada em balanço patrimonial ou em balancete de verificação levantado até, no máximo, sessenta dias antes da data da aquisição pela investidora ou pela controladora, consoante o disposto no Inciso XI b) ágio ou deságio na aquisição, representado pela diferença para mais ou para menos, respectivamente, entre o custo de aquisição do investimento e a equivalência patrimonial. XXI o ágio ou deságio computado na ocasião da aquisição do investimento deverá ser contabilizado com indicação do fundamento econômico que o determinou: a) diferença para mais ou para menos entre o valor de mercado de bens do ativo e o valor contábil desses mesmos bens na coligada ou na controlada; b) diferença para mais ou para menos na expectativa de rentabilidade baseada em projeção do resultado de exercícios, futuros; c) fundo de comércio, intangíveis ou outras razões econômicas. XXII O ágio ou o deságio decorrente da diferença entre o valor de mercado de bens do ativo e o valor contábil na coligada ou na controlada desses mesmos bens deverá ser amortizado na proporção em que for sendo realizado na coligada ou na controlada por depreciação, por amortização ou por exaustão dos bens, ou por baixa em decorrência de alienação ou de perecimento desses mesmos bens. XXIII O ágio ou o deságio decorrente da expectativa de rentabilidade deverá ser amortizado no prazo e na extensão das projeções que o determinaram ou quando houver baixa em decorrência de alienação ou de perecimento do investimento antes de haver terminado o prazo estabelecido para amortização. (...) Portanto, o ágio a que se refere a legislação fiscal é exatamente o mesmo tratado pela legislação societária, possuindo conteúdo puramente econômico/contábil. Fl. 10072DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.073 81 Analisando agora o voto vencedor do único acórdão paradigma aceito no exame de admissibilidade do presente recurso, cujo entendimento a Recorrente pede seja aqui aplicado (acórdão nº 110100.841, o qual, como antes referido, foi reformado por esta 1ª Turma da CSRF por meio do acórdão nº 9101002.303), verificase que lá o Relator afirma que é um “grave erro confundir fundamento econômico com pagamento”. Esse “fundamento econômico”, no que diz respeito ao ágio, encontravase disposto no Decretolei nº 1.598, de 1977, art. 20, §2º, nos seguintes termos (redação vigente à época dos fatos): § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico : valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas.(Negritei) Como se pode depreender, o legislador chamou de “fundamento econômico” do lançamento contábil do ágio, as três “justificativas” acima listadas, e, de fato, não é a partir dessa definição que se está a dizer que é preciso haver pagamento, ou melhor, que é preciso ter havido um custo arcado. A razão para existência do pagamento, ou de um custo arcado, está no próprio conceito de ágio, cujo inciso II desse mesmo art. 20 definiu como diferença entre custo de aquisição e o valor que consta do PL. O voto vencedor do paradigma em questão também deixa consignado que “aquisição é gênero, do qual a compra ou a troca, por exemplo, são espécies”. De fato, a compra e venda é apenas uma das formas de aquisição. Porém, “custo de aquisição”, seja qual for a forma como se dá essa aquisição, pressupõe “ônus”, “dispêndio”. E é aqui que está o equívoco desse voto vencedor: conceber que a lei não exige “ônus”, “dispêndio” para quem está adquirindo a participação societária. De outra banda, o voto vencedor em questão aduz que a Fiscalização não questiona laudo de reavaliação, alegação que também faz a ora Recorrente quando consigna em seu recurso que o Fisco não o impugnou em qualquer instância. Ocorre que a impossibilidade de se admitir a formação de ágio sem que tenha havido qualquer é argumento maior e anterior ao próprio laudo, de forma que nem o laudo, nem o registro contábil do ágio fazem prova dos fatos escriturados pelo contribuinte. Isso porque o laudo representa tão somente uma reavaliação de ativos e nenhum registro contábil faz prova a favor de quem o escritura, sem a documentação comprobatória que o lastreia, nos termos do art. 923 do RIR/99 (art. 9º, §1º, do DecretoLei nº 1.598, de 1977). E, ainda assim, é preciso observar a já citada Resolução nº CFC nº 750, de 1993, que as essências das transações devem prevalecer sobre a forma. Ora, qual o valor de um laudo que reflete uma rentabilidade futura, sem que haja um terceiro que reconheça essa projeção e arque com o ônus de pagar um valor maior? Como se pode defender isso entre partes pertencentes a um mesmo grupo? Vejase que indispensabilidade de que haja dispêndio para que a amortização do ágio seja dedutível foi ressaltada na presente autuação fiscal como se vê no excereto a seguir do Termo de Verificação Fiscal (efls. 8.930 e ss.): Fl. 10073DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.074 82 Outro importante fator a impossibilitar a dedução da amortização do ágio no presente processo é a ausência de demonstração da fundamentação econômica do ágio, como exige o art. 20, §2º, do Decretolei nº 1.598, de 1977. Ora, não se pode aceitar como fundamento do ágio surgido com a cisão da ENGEMIXPAR laudo de operação societária anterior (de subscrição de capital), a qual deu azo a ágio anterior, extinto junto com a participação societária correspondente quando da cisão (conforme anotado no início do presente voto) e no qual nenhuma referência à essa operação (de cisão) é feita. Tal aspecto não passou desapercebido no acórdão recorrido, que assim deixou consignado: Ainda assim, se poderia cogitar, como afirma a interessada, que a troca de R$ 276 milhões (investimento na EngemixPar) por R$ 49 milhões (valor patrimonial da Concrefor) pudesse ser justificada, do ponto de vista econômico, por haver um valor muito maior embutido na nova empresa Concrefor. A argumentação da recorrente se baseia no Laudo de Avaliação de Rentabilidade Futura da Engemix Participações S/A (fls. 2917/2947). Suas pretensões, entretanto, não resistem à análise daquele documento. O laudo apresentado foi elaborado pela PCS Consultores em novembro de 2001, com o objetivo de embasar a subscrição de capital da EngemixPar, feita pela Cimefor, em 18/12/2001. O valor presente líquido ali considerado (fl. 2946, R$ 151 milhões divididos por 53,79% = R$ 281 milhões) se refere à totalidade da EngemixPar após a subscrição de capital analisada, não se encontrando no laudo qualquer menção, ainda que hipotética, à iminente cisão parcial da EngemixPar, que viria a ocorrer menos de um mês depois, em 15/01/2002. O laudo considera, ainda, injeção de R$ 230 milhões no caixa da EngemixPar (em decorrência do aumento de capital subscrito pela Cimefor), premissa que não se mantém com a cisão parcial. Parece claro que o valor presente líquido, calculado pela consultora com base na rentabilidade futura da EngemixPar, leva em conta a integralidade de seu capital social, bem assim a presença, em sua estrutura produtiva, das controladas expressamente mencionadas no laudo (Engemix S/A, Concrelix S/A e Concremaster Ltda.). Fl. 10074DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.075 83 Pelo exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Especial da Contribuinte no que se refere à presente matéria, mantendose a glosa das despesas com amortização de ágio. Recurso da Fazenda Qualificação da Multa de Ofício Tendo acompanhado o Relator quanto ao conhecimento do recurso fazendário, divirjo, no entanto, quanto ao mérito. Mantida a glosa das despesas com amortização de ágio por se ter constatado que se tratava de ágio surgido internamente em grupo econômico, sem qualquer dispêndio e sem demonstração do fundamento econômico, é de se manter também a qualificação da multa de ofício. A conduta dolosa tendente a impedir a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal (o que o art. 72 da Lei n° 4.502, de 1964, classifica como "fraude") é evidenciada no caso presente pela deliberada consecução de atos que culminam com a supressão ilícita de tributos, através da dedução de despesa com amortização mediante ágio surgido artificialmente em operações entre partes que compõem o mesmo grupo econômico (ágio interno), sem que haja qualquer dispêndio. Vejase que esta 1ª Turma da CSRF vem se manifestando pela manutenção da imposição de multa de ofício qualificada em situações em que o ágio interno, surgido de forma artificial, sem que tenha havido qualquer dispêndio, redunda em redução de tributos. Com efeito, tanto no acórdão nº 9101002.503 (de 12 de dezembro de 2016), de minha relatoria, quanto no acórdão de nº 9101002.300 (de 7 de abril de 2016), de relatoria do Conselheiro Rafael Vidal de Araújo, este Colegiado entendeu que restou configurada a fraude, na inteligência do art. 72 da Lei nº 4.502, de 1964, em casos que se assemelham ao presente. Confirase trecho do acórdão nº 9101002.300: Conforme relatado alhures, a PGFN apresentou recurso especial visando à reforma do Acórdão nº 120100.967 na parte em que a 1a Turma Ordinária da 2a Câmara da 1a Seção de Julgamento do CARF decidiu reduzir o percentual da multa de ofício de 150% para 75%. (...) No caso sob análise, a autoridade lançadora entendeu que a conduta da contribuinte teria configurado fraude, conforme definição do art. 72 da Lei nº 4.502/1964: (...) Justificouse tal decisão com base nas seguintes alegações, perfiladas no Termo de Verificações Fiscais: (...) A aplicação da multa qualificada foi excluída por ocasião do julgamento do recurso voluntário interposto pela contribuinte, sob a seguinte fundamentação: "Pois bem, entendo que neste tipo específico de reorganização societária, que encontra previsão no art. 36 da Lei 10.637/2002, sempre remanescerá dúvida razoável acerca de se o sujeito passivo agiu, ou não, dolosamente. De fato, o referido dispositivo legal autoriza esse tipo de reorganização societária única e exclusivamente para possibilitar a reavaliação, na investidora, da participação que mantém em sua investida, reavaliação essa cuja incidência do IRPJ e CSLL devidos pela investidora poderá ser diferida. Fl. 10075DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.076 84 Mas esse tipo de reorganização societária traz como reflexo o surgimento de um "ágio interno", o qual, apesar de contabilizado, não pode ser amortizado nem para fins comerciais nem para efeitos fiscais por não ter sido fruto de uma arm's length transaction. Todavia, a contabilização desse ágio interno na investidora pode levála a erro de direito, concernente à crença da validade jurídica de sua amortização para fins fiscais. A possibilidade de ter a ora autuada incorrido nesse erro de direito não é remota, daí porque, a meu juízo, não há como afirmarse, para além de qualquer dúvida razoável, que a contribuinte agiu dolosamente ao amortizar o "ágio interno". Por fim, em razão de este tipo de reorganização societária estar autorizado por lei, não há que se perquirir sobre a existência de propósito negocial diverso daquele previsto na própria lei, qual seja, a reavaliação do investimento mantido pela investidora." (Grifouse) Com toda a vênia, não vislumbro, no presente caso, dúvida acerca da atuação dolosa da contribuinte. Conforme já foi tratado no tópico que cuidou especificamente da questão da amortização do ágio gerado em operações intragrupo, o art. 36 da Lei nº 10.637/2002 fixa determinado efeito fiscal para operações societárias permitidas não por ele, mas pela legislação civil e comercial e pelas normas contábeis. O efeito fiscal que o dispositivo estabelecia era o diferimento da tributação de IRPJ e de CSSL sobre o ganho de capital proveniente da reavaliação do valor de sociedade investida. O fato de o art. 36 da Lei nº 10.637/2002 mencionar determinada operação de reorganização societária não autoriza os contribuintes a atribuírem a ela efeitos outros que não aqueles especificamente descritos no dispositivo. Além disso, conforme análise desenvolvida no tópico que tratou da amortização do ágio, a própria análise do dispositivo levaria à conclusão de que seu intuito era o de estabelecer a neutralidade tributária da operação. Tal neutralidade não permitia que se chegasse à conclusão de que, embora a tributação do ganho de capital restasse diferida, o ágio contabilizado pudesse ser desde logo amortizável. Prova cabal de que a contribuinte e o grupo econômico a que pertence teriam praticado ação dolosa tendente a impedir a ocorrência de fato gerador de obrigação tributária principal ou a modificar suas características de modo a reduzir o montante devido, o que atrai a aplicação do art. 72 da Lei nº 4.502/1964, é o fato de nenhuma alteração de fato ter ocorrido no controle societário da empresa fiscalizada, após encerrada a reorganização. Ao final de dezembro de 2004, a contribuinte se encontrava submetida ao controle dos mesmos acionistas identificados ao final de setembro daquele ano, com percentuais de participação exatamente iguais aos anteriores. Em virtude principalmente deste fato, concluo que realmente não houve outro propósito a guiar a atuação da contribuinte senão o de simular uma reorganização societária com a finalidade de reduzir o montante de IRPJ e CSLL a ser recolhido nos cinco anos seguintes. Filiome, portanto, ao entendimento exposto pelo Julgador da DRJ, que, em seu voto condutor do acórdão que julgou a impugnação da contribuinte, discorreu: "É inegável que, caso não houvesse criado artificialmente esse ágio desprovido de qualquer fundamento econômico, a impugnante teria recolhido tributos em montantes muito superiores ao que recolheu. Logo, quando contratou consultoria especializada e praticou todos esses atos de reorganização – absolutamente desnecessários e sem qualquer propósito efetivo – para, ao final, permanecer Fl. 10076DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.077 85 tudo do jeito que estava anteriormente, sendo o ágio a única alteração, é evidente que seu objetivo sempre foi aliviar ilicitamente a carga tributária. E se o propósito exclusivo foi obter esse ganho ilícito, o dolo é evidente, ainda que sem utilização dos artifícios grosseiros apontados pela impugnante às fls. 1.078: adulteração de comprovantes, adulteração de notas fiscais, conta bancária em nome fictício, falsidade ideológica, notas calçadas, notas frias, notas paralelas, etc." (Grifouse) Assim, relativamente ao pleito de restabelecimento da multa de ofício em sua versão qualificada, voto por DAR PROVIMENTO ao recurso especial da PGFN. Pelo exposto, voto por DAR PROVIMENTO ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, mantendose a imposição de multa de ofício no percentual qualificado de 150%. Recurso da Contribuinte Limite de 30% na Compensação de Prejuízos Em que pese a laboriosa argumentação do Relator concernente à possibilidade de compensação de prejuízos (trava) além do percentual de 30% do lucro real na hipótese de encerramento de atividades da pessoa jurídica (extinção por incorporação, in casu), tenho que inexiste previsão legal para tal. Peço vênia para transcrever o teor de acórdão de no 9101002.225, de 4 de fevereiro de 2016, de minha relatoria, que bem registra meu entendimento sobre a matéria. Cingese aqui a controvérsia à aplicação ou não do limite de 30% para compensação de prejuízos/bases de cálculo negativas de CSLL no momento da extinção da pessoa jurídica. Em que pese a argumentação de hermenêutica da Recorrente no sentido de que, diante da falta de norma expressa proibitiva de compensação dos prejuízos fiscais/bases negativas acima do limite de 30%, estarseia diante de "silêncio eloquente" e de "norma implícita" autorizativa, entendo não haver exceção para os casos de extinção da pessoa jurídica quanto ao limite imposto pelo permissivo legal de compensação de prejuízos contido nos arts. 15 e 16 da Lei nº 9.065, de 1995, os quais cumpre transcrever: Art. 15. O prejuízo fiscal apurado a partir do encerramento do anocalendário de 1995, poderá ser compensado, cumulativamente com os prejuízos fiscais apurados até 31 de dezembro de 1994, com o lucro líquido ajustado pelas adições e exclusões previstas na legislação do imposto de renda, observado o limite máximo, para a compensação, de trinta por cento do referido lucro líquido ajustado. Produção de efeito (Vide Lei nº 12.973, de 2014) Parágrafo único. O disposto neste artigo somente se aplica às pessoas jurídicas que mantiverem os livros e documentos, exigidos pela legislação fiscal, comprobatórios do montante do prejuízo fiscal utilizado para a compensação. Art. 16. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro, quando negativa, apurada a partir do encerramento do anocalendário de 1995, poderá ser compensada, cumulativamente com a base de cálculo negativa apurada até 31 de dezembro de 1994, com o resultado do período de apuração ajustado pelas adições e exclusões previstas na legislação da referida contribuição social, determinado em anoscalendário subseqüentes, observado o limite máximo de redução de trinta por cento, previsto no art. 58 da Lei nº 8.981, de 1995. Produção de efeito Parágrafo único. O disposto neste artigo somente se aplica às pessoas jurídicas que mantiverem os livros e documentos, exigidos pela legislação fiscal, comprobatórios da base de cálculo negativa utilizada para a compensação. Vejase, a propósito, que é vedado a este tribunal afastar lei vigente. Fl. 10077DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.078 86 Além disso, apenas para título de argumentação, vale assinalar que a limitação imposta pela trava de 30% na compensação, quer no decurso normal das atividades da empresa quer na hipótese de sua extinção, não agride o conceito de renda, vez que, por um lado, o fato gerador do IRPJ/CSLL tem delimitação temporal e, por outro, a possibilidade de compensar prejuízos anteriores é benesse tributária suscetível aos limites que se lhe impõem. Na esteira desse raciocínio, convém trazer à colação voto do Min. Garcia Vieira do Superior Tribunal de Justiça no julgamento do Recurso Especial nº 188.855GO, segundo o qual: "Há que compreenderse que o art. 42 da Lei 8.981/1995 e o art. 15 da Lei 9.065/1995 não efetuaram qualquer alteração no fato gerador ou na base de cálculo do imposto de renda. O fato gerador, no seu aspecto temporal, como se explicará adiante, abrange o período mensal. Forçoso concluir que a base de cálculo é a renda (lucro) obtida neste período. Assim, a cada período corresponde um fato gerador e uma base de cálculo próprios e independentes. Se houve renda (lucro), tributase. Se não, nada se opera no plano da obrigação tributária. Daí que a empresa tendo prejuízo não vem a possuir qualquer “credito” contra a Fazenda Nacional. Os prejuízos remanescentes de outros períodos, que dizem respeito a outros fatos geradores e respectivas bases de cálculo, não são elementos inerentes da base de cálculo do imposto de renda do período em apuração, constituindo, ao contrário, benesse tributária visando minorar a má atuação da empresa nos anos anteriores." E é na linha da “benesse tributária” que o Supremo Tribunal Federal tem tratado a compensação de prejuízos fiscais e bases negativas da CSLL, como se depreende dos RE 344.994/PR e 545.308/SP, e demais julgados posteriores daquela Cortel. Por oportuno, transcrevese: EMENTA: DIREITO TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO. BASE DE CÁLCULO: LIMITAÇÕES À DEDUÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS. ARTIGO 58 DA LEI 8.981/1995: CONSTITUCIONALIDADE. ARTIGOS 5º, INC. II E XXXVI, 37, 148, 150, INC. III, ALÍNEA "B", 153, INC. III, E 195, INC. I E § 6º, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. PRECEDENTE: RECURSO EXTRAORDINÁRIO 344.944. RECURSO EXTRAORDINÁRIO NÃO PROVIDO. 1. Conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal firmado no julgamento do Recurso Extraordinário 344.944, Relator o Ministro Eros Grau, no qual se declarou a constitucionalidade do artigo 42 da Lei 8.981/1995, "o direito ao abatimento dos prejuízos fiscais acumulados em exercícios anteriores é expressivo de benefício fiscal em favor do contribuinte. Instrumento de política tributária que pode ser revista pelo Estado. Ausência de direito adquirido". 2. Do mesmo modo, é constitucional o artigo 58 da Lei 8.981/1995, que limita as deduções de prejuízos fiscais na formação da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro. 3. Recurso extraordinário não provido. (RE 545.308, 8/10/2009, Rel. P/ acórdão Min. Cármen Lúcia) EMENTA Agravo regimental no recurso extraordinário. Demonstrações financeiras. Saldos de prejuízos fiscais do IRPJ e das bases negativas da CSLL. Natureza de benefício fiscal. Correção monetária. Revogação. Questão infraconstitucional. Ausência de previsão legal. Impossibilidade de atuação do Poder Judiciário como legislador positivo. Precedentes da Corte. 1. A questão alusiva à revogação da correção monetária pelo art. 4º da Lei nº 9.249/95 repousa na esfera da legalidade. A afronta ao texto constitucional, se ocorresse, seria meramente reflexa ou indireta. 2. Nos julgamentos do RE nº 344.994/PR e do RE nº 545.308/SP, o Tribunal concluiu que a dedução de prejuízos de exercícios anteriores da base de cálculo do IRPJ e a compensação das bases negativas da CSLL constituem favores fiscais. 3. Impossibilidade de atualização monetária do saldo a ser compensado em períodos Fl. 10078DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.079 87 futuros, por ausência de previsão legal. 4. Agravo regimental não provido. (AgR no RE 807.062, 2/9/2014, Rel. Min. Dias Tóffoli) É oportuno também, nesse passo, ponderar que, se quisesse o legislador ressalvar a possibilidade de, na incorporação, permitir a compensação integral, teria feito de forma expressa, como o fez por ocasião do art. 1º da Lei nº 9.065, de 1995, em relação às empresas inseridas no Befiex. Assim, inexiste fundamentação legal que autorize este colegiado a afastar os arts. 15 e 16 da Lei nº 9.065, de 1995, ao caso concreto. Observese, por fim, que o posicionamento adotado pelo CARF no acórdão nº 9101 00.401 (1ª Turma da CSRF, 2/10/2009, Relatora Ivete Malaquias Pessoa Monteiro), é representativo da posição atual do CARF, que, alinhada com a dicção do STF nos julgados antes mencionados, vai no sentido de que "em sendo a compensação de prejuízos fiscais espécie incentivo fiscal outorgado por lei e não um patrimônio do contribuinte a ser socializado, não se pode ampliar o sentido da lei nem ampliar o seu significado eis que a norma que cuida de benefícios fiscais devem ser interpretadas de forma restritiva, nos termos do artigo 111 do Código Tributário Nacional". Citese como exemplo de julgado mais recente desta 1ª Turma da CSRF a manifestar o mesmo entendimento o acórdão nº 9101001.760 (de 16/10/2013, Redator Designado Marcos Aurélio Pereira Valadão). Voto, portanto, por NEGAR PROVIMENTO ao recurso da Contribuinte em relação à presente matéria. Recurso da Contribuinte Multa Isolada por Falta de Recolhimento de Estimativas No que se refere a este tema, esta 1a Turma da CSRF vem sistematicamente decidindo no sentido de que a alteração legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44, da Lei nº 9.430, de 1996, deixa clara a possibilidade de aplicação de duas penalidades em caso de lançamento de ofício frente a sujeito passivo optante pela apuração anual do lucro tributável. Cabe aqui observar que no presente processo havia também multa isolada por falta de recolhimento de estimativas referente a fatos geradores anteriores à alteração legislativa em comento. A multa para esse período foi, no entanto, cancelada pelo acórdão recorrido e não se encontra aqui sub judice. Tem este colegiado entendido que a redação alterada pela MP nº 351, de 2007, é direta e impositiva ao firmar que "serão aplicadas as seguintes multas" e que a lei estabelece a exigência isolada da multa sobre o valor do pagamento mensal ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa no anocalendário correspondente, não se aplicando o que enuncia a Súmula CARF nº 105 nos casos em que a multa foi constituída com fulcro na nova redação do dispositivo em questão. Repito aqui, assim, argumentação trazida em acórdãos de minha relatoria que abraçam esse entendimento. A lei determina que as pessoas jurídicas sujeitas à apuração do lucro real, apurem seus resultados trimestralmente. Como alternativa, facultou, o legislador, a possibilidade de a pessoa jurídica, obrigada ao lucro real, apurar seus resultados anualmente, desde que antecipe pagamentos mensais, a título de estimativa, que devem ser calculados com base na receita bruta mensal, ou com base em balanço/balancete de suspensão e/ou redução. Observese: Fl. 10079DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.080 88 Lei nº 9.430, de 1996 (redação original): Art. 2º A pessoa jurídica sujeita a tributação com base no lucro real poderá optar pelo pagamento do imposto, em cada mês, determinado sobre base de cálculo estimada, mediante a aplicação, sobre a receita bruta auferida mensalmente, dos percentuais de que trata o art. 15 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, observado o disposto nos §§ 1º e 2º do art. 29 e nos arts. 30 a 32, 34 e 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, com as alterações da Lei nº 9.065, de 20 de junho de 1995. § 1º O imposto a ser pago mensalmente na forma deste artigo será determinado mediante a aplicação, sobre a base de cálculo, da alíquota de quinze por cento. § 2º A parcela da base de cálculo, apurada mensalmente, que exceder a R$ 20.000,00 (vinte mil reais) ficará sujeita à incidência de adicional de imposto de renda à alíquota de dez por cento. § 3º A pessoa jurídica que optar pelo pagamento do imposto na forma deste artigo deverá apurar o lucro real em 31 de dezembro de cada ano, exceto nas hipóteses de que tratam os §§ 1º e 2º do artigo anterior. § 4º Para efeito de determinação do saldo de imposto a pagar ou a ser compensado, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor: I dos incentivos fiscais de dedução do imposto, observados os limites e prazos fixados na legislação vigente, bem como o disposto no § 4º do art. 3º da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995; II dos incentivos fiscais de redução e isenção do imposto, calculados com base no lucro da exploração; III do imposto de renda pago ou retido na fonte, incidente sobre receitas computadas na determinação do lucro real; IV do imposto de renda pago na forma deste artigo. [...] Há aqueles que alegam que as alterações promovidas no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, pela Medida Provisória nº 351, de 22 de janeiro de 2007, posteriormente convertida na Lei nº 11.488, de 2007, não teriam afetado, substancialmente, a infração sujeita à aplicação da multa isolada, apenas reduzindo o seu percentual de cálculo e mantendo a vinculação da base imponível ao tributo devido no ajuste anual. Nesse sentido invocam a própria Exposição de Motivos da Medida Provisória nº 351, de 2007, limitouse a esclarecer que a alteração do art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, efetuada pelo art. 14 do Projeto, tem o objetivo de reduzir o percentual da multa de ofício, lançada isoladamente, nas hipóteses de falta de pagamento mensal devido pela pessoa física a título de carnêleão ou pela pessoa jurídica a título de estimativa, bem como retira a hipótese de incidência da multa de ofício no caso de pagamento do tributo após o vencimento do prazo, sem o acréscimo da multa de mora. E, ainda que se entenda que a identidade de bases de cálculo foi superada pela nova redação do dispositivo legal, para essas pessoas subsistiria o fato de as duas penalidades decorrerem de falta de recolhimento de tributo, o que imporia o afastamento da penalidade menos gravosa. Ora, a vinculação entre os recolhimentos antecipados e a apuração do ajuste anual é inconteste, até porque a antecipação só é devida porque o sujeito passivo opta por postergar para o final do anocalendário a apuração dos tributos incidentes sobre o lucro. Contudo, a sistemática de apuração anual demanda uma punição diferenciada em face de infrações das quais resulta falta de recolhimento de tributo pois, na apuração anual, o fluxo de arrecadação da União está prejudicado desde o momento em que a estimativa é Fl. 10080DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.081 89 devida, e se a exigência do tributo com encargos ficar limitada ao devido por ocasião do ajuste anual, além de não se conseguir reparar todo o prejuízo experimentado à União, há um desestímulo à opção pela apuração trimestral do lucro tributável, hipótese na qual o sujeito passivo responderia pela infração com encargos desde o trimestre de sua ocorrência. Na redação original do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, esta penalidade foi prevista nos mesmos termos daquela aplicável ao tributo não recolhido no ajuste anual, ou seja, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição, inclusive no mesmo percentual de 75%, e passível de agravamento ou qualificação se presentes as circunstâncias indicadas naquele dispositivo legal. Vejase: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Vide Lei nº 10.892, de 2004) § 1º As multas de que trata este artigo serão exigidas: I juntamente com o tributo ou a contribuição, quando não houverem sido anteriormente pagos; [...] III isoladamente, no caso de pessoa física sujeita ao pagamento mensal do imposto (carnêleão) na forma do art. 8º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de fazêlo, ainda que não tenha apurado imposto a pagar na declaração de ajuste; IV isoladamente, no caso de pessoa jurídica sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido, na forma do art. 2º, que deixar de fazêlo, ainda que tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente; V isoladamente, no caso de tributo ou contribuição social lançado, que não houver sido pago ou recolhido. (Revogado pela Medida Provisória nº 1.725, de 1998) (Revogado pela Lei nº 9.716, de 1998) [...] A redação original do dispositivo legal resultou, assim, em punições equivalentes para a falta de recolhimento de estimativas e do ajuste anual. E, decidindo sobre este conflito, a jurisprudência administrativa posicionouse majoritariamente contra a subsistência da multa isolada, porque calculada a partir da mesma base de cálculo punida com a multa proporcional, e ainda no mesmo percentual desta. Frente a tais circunstâncias, o art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, foi alterado pela Medida Provisória nº 351, de 2007, para prever duas penalidades distintas: a primeira de 75% calculada sobre o imposto ou contribuição que deixasse de ser recolhido e declarado, e exigida conjuntamente com o principal (inciso I do art. 44), e a segunda de 50% calculada sobre o pagamento mensal que deixasse de ser efetuado, ainda que apurado prejuízo fiscal ou base negativa ao final do anocalendário, e exigida isoladamente (inciso II do art. 44). Além disso, as hipóteses de qualificação (§1º do art. 44) e agravamento (2º do art. 44) ficaram Fl. 10081DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.082 90 restritas à penalidade aplicável à falta de pagamento e declaração do imposto ou contribuição. Observese: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: a) na forma do art. 8º da Lei no 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. I (revogado); II (revogado); III (revogado); IV (revogado); V (revogado pela Lei nº 9.716, de 26 de novembro de 1998). As conseqüências desta alteração foram apropriadamente expostas pelo Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão no voto condutor do Acórdão nº 9101002.251: Logo, tendo sido alterada a base de cálculo eleita pelo legislador para a multa isolada de totalidade ou diferença de tributo ou contribuição para valor do pagamento mensal, não há mais qualquer vínculo, ou dependência, da multa isolada com a apuração de tributo devido. Perfilhando o entendimento de que não se confunde a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição com o valor do pagamento mensal, apurado sob base estimada ao longo do ano, é vasta a jurisprudência desta CSRF, valendo mencionar dos últimos cinco anos, entre outros, os acórdãos nºs 910100577, de 18 de maio de 2010, 910100.685, de 31 de agosto de 2010, 910100.879, de 23 de fevereiro de 2011, nº 9101001.265, de 23 de novembro de 2011, nº 9101001.336, de 26 de abril de 2012, nº 9101001.547, de 22 de janeiro de 2013, nº 9101001.771, de 16 de outubro de 2013, e nº 9101002.126, de 26 de fevereiro de 2015, todos assim ementados (destaquei): O artigo 44 da Lei nº 9.430, de 1996, preceitua que a multa de ofício deve ser calculada sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição, materialidade que não se confunde com o valor calculado sob base estimada ao longo do ano. Daí porque despropositada a decisão recorrida que, após reconhecer expressamente a modificação da redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 pela Lei nº 11.488, de 2007, e transcrever os mesmos dispositivos legais acima, abruptamente conclui no sentido de que (efls. 236): Portanto, cabe excluir a exigência da multa de ofício isolada concomitante à multa proporcional. Fl. 10082DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.083 91 Em despacho de admissibilidade de embargos de declaração por omissão, interpostos pela Fazenda Nacional contra aquela decisão, e rejeitados, foi dito o seguinte (efls. 247): Por fim, reafirmo a impossibilidade da aplicação cumulativa dessas multas. Isso porque é sabido que um dos fatores que levou à mudança da redação do citado art. 44 da Lei 9.430/1996 foram os julgados deste Conselho, sendo que à época da edição da Lei 11.488/2007 já predominava esse entendimento. Vejamos novamente a redação de parte [das] disposições do art. 44 da Lei 9.430/1996 alteradas/incluídas pela Lei 11.488/2007: [...]. Ora, o legislador tinha conhecimento da jurisprudência deste Conselho quanto à impossibilidade de aplicação cumulativa da multa isolada com a multa de oficio, além de outros entendimentos no sentido de que não poderia ser exigida se apurado prejuízo fiscal no encerramento do anocalendário, ou se o tributo tivesse sido integralmente pago no ajuste anual. Todavia, tratou apenas das duas últimas hipóteses na nova redação, ou seja, deixou de prever a possibilidade de haver cumulatividade dessas multas. E não se diga que seria esquecimento, pois, logo a seguir, no parágrafo § 1º, excetuou a cumulatividade de penalidades quando a ensejar a aplicação dos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964. Bastava ter acrescentado mais uma alínea no inciso II da nova redação do art. 44 da [Lei nº] 9.430/1996, estabelecendo expressamente essa hipótese, que aliás é a questão de maior incidência. Ao deixar de fazer isso, uma das conclusões factíveis é que essa cumulatividade é mesmo indevida. Ora, o legislador, no caso, fez mais do que faria se apenas acrescentasse “mais uma alínea no inciso II da nova redação do art. 44 da [Lei nº] 9.430/1996”. Na realidade, o que, na redação primeira, era apenas um inciso subordinado a um parágrafo do artigo (art. 44, § 1º, inciso IV, da Lei nº 9.430, de 1996), tornouse um inciso vinculado ao próprio caput do artigo (art. 44, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996), no mesmo patamar, portanto, do inciso então preexistente, que previa a multa de ofício. Vejase a redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, dada pela Lei nº 11.488, de 2007 (sublinhei): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinquenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: [...]; Dessa forma, a norma legal, ao estatuir que “nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas”, está a se referir, iniludivelmente, às duas multas em conjunto, e não mais em separado, como dava a entender a antiga redação do dispositivo. Nessas condições, não seria necessário que a norma previsse “a possibilidade de haver cumulatividade dessas multas”. Pelo contrário: seria necessário, sim se fosse esse o caso, que a norma excetuasse essa possibilidade, o que nela não foi feito. Por conseguinte, não há que se falar como pretendeu o sujeito passivo, por ocasião de Fl. 10083DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.084 92 seu recurso voluntário em “identidade quanto ao critério pessoal e material de ambas as normas sancionatórias”. Se é verdade que as duas normas sancionatórias, pelo critério pessoal, alcançam o mesmo contribuinte (sujeito passivo), não é verdade que o critério material (verbo + complemento) de uma e de outra se centre “no descumprimento da relação jurídica que determina o recolhimento integral do tributo devido”. O complemento do critério material de ambas é, agora, distinto: o da multa de ofício é a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição; já o da multa isolada é o valor do pagamento mensal, apurado sob base estimada ao longo do ano, cuja materialidade, como visto anteriormente, não se confunde com aquela. (grifos do original) Destaquese, ainda, que a penalidade agora prevista no art. 44, inciso II da Lei nº 9.430, de 1996, é exigida isoladamente e mesmo se não apurado lucro tributável ao final do anocalendário. A conduta reprimida, portanto, é a inobservância do dever de antecipar, mora que prejudica a União durante o período verificado entre data em que a estimativa deveria ser paga e o encerramento do anocalendário. A falta de recolhimento do tributo em si, que se perfaz a partir da ocorrência do fato gerador ao final do anocalendário, sujeitase a outra penalidade e a juros de mora incorridos apenas a partir de 1º de fevereiro do ano subseqüente20. Diferentes, portanto, são os bens jurídicos tutelados, e limitar a penalidade àquela aplicada em razão da falta de recolhimento do ajuste anual é um incentivo ao descumprimento do dever de antecipação ao qual o sujeito passivo voluntariamente se vinculou, ao optar pelas vantagens decorrentes da apuração do lucro tributável apenas ao final do anocalendário. E foi, justamente, a alteração legislativa acima que motivou a edição da referida Súmula CARF nº 105. Explico. O enunciado de súmula em referência foi aprovado pela 1ª Turma da CSRF em 08 de dezembro de 2014. Antes, enunciado semelhante foi, por sucessivas vezes, rejeitado pelo Pleno da CSRF, e mesmo pela 1ª Turma da CSRF. Vejase, abaixo, os verbetes submetidos a votação de 2009 a 2014: PORTARIA Nº 97, DE 24 DE NOVEMBRO DE 200921 [...] ANEXO I I ENUNCIADOS A SEREM SUBMETIDOS À APROVAÇÃO DO PLENO: [...] 12. PROPOSTA DE ENUNCIADO DE SÚMULA nº : Até a vigência da Medida Provisória nº 351/2007, a multa isolada decorrente da falta ou insuficiência de antecipações não pode ser exigida concomitantemente com a multa de ofício incidente sobre o tributo apurado no ajuste anual. [...] PORTARIA Nº 27, DE 19 DE NOVEMBRO DE 201222 [...] 20 Neste sentido é o disposto no art. 6º, §1º c/c §2º da Lei nº 9.430, de 1996. 21 Diário Oficial da União, Seção 1, p. 112, em 27 de novembro de 2009. 22 Diário Oficial da União, Seção 1, p. 19, em 27 de novembro de 2012. Fl. 10084DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.085 93 ANEXO ÚNICO [...] II ENUNCIADOS A SEREM SUBMETIDOS À APROVAÇÃO DA 1ª TURMA DA CSRF: [...] 17. PROPOSTA DE ENUNCIADO DE SÚMULA nº: Até 21 de janeiro de 2007, descabe o lançamento de multa isolada em razão do não recolhimento do imposto de renda devido em carnêleão aplicada em concomitância com a multa de ofício prevista no art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96. Acórdãos precedentes: 10422036, de 09/06/2006; 3401 00078, de 01/06/2009; 340100047, de 06/05/2009; 10423338, de 26/06/2008; 920200.699, de 13/04/2010; 920201.833, de 25/ 10/ 2011. [...] III ENUNCIADOS A SEREM SUBMETIDOS À APROVAÇÃO DA 2ª TURMA DA CSRF: [...] 22. PROPOSTA DE ENUNCIADO DE SÚMULA nº: Até 21 de janeiro de 2007, descabe o lançamento de multa isolada em razão do não recolhimento do imposto de renda devido em carnêleão aplicada em concomitância com a multa de ofício prevista no art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96. Acórdãos precedentes: 10422036, de 09/06/2006; 3401 00078, de 01/06/2009; 340100047, de 06/05/2009; 10423338, de 26/06/2008; 920200.699, de 13/04/2010; 920201.833, de 25/ 10/ 2011. [...] PORTARIA Nº 18, DE 20 DE NOVEMBRO DE 201323 [...] ANEXO I I Enunciados a serem submetidos ao Pleno da CSRF: [...] 9ª. PROPOSTA DE ENUNCIADO DE SÚMULA Até a vigência da Medida Provisória nº 351, de 2007, incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas e de ofício pela falta de pagamento de tributo apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Acórdãos Precedentes: 9101001261, de 22/11/11; 9101001203, de 22/11/11; 9101001238, de 21/11/11; 9101001307, de 24/04/12; 1402001.217, de 04/10/12; 110200748, de 09/05/12; 1803001263, de 10/04/12. [...] PORTARIA Nº 23, DE 21 DE NOVEMBRO DE 201424 [...] ANEXO I [...] II Enunciados a serem submetidos à 1ª Turma da CSRF: 23 Diário Oficial da União, Seção 1, p. 71, de 27 de novembro de 2013. 24 Diário Oficial da União, Seção 1, p. 12, de 25 de novembro de 2014. Fl. 10085DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.086 94 [...] 13ª. PROPOSTA DE ENUNCIADO DE SÚMULA A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Acórdãos Precedentes: 9101001.261, de 22/11/2011; 9101001.203, de 17/10/2011; 9101001.238, de 21/11/2011; 9101001.307, de 24/04/2012; 1402 001.217, de 04/10/2012; 110200.748, de 09/05/2012; 1803001.263, de 10/04/2012. [...] É de se destacar que os enunciados assim propostos de 2009 a 2013 exsurgem da jurisprudência firme, contrária à aplicação concomitante das penalidades antes da alteração promovida no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, pela Medida Provisória nº 351, de 2007, convertida na Lei nº 11.488, de 2007. Jurisprudência esta, aliás, que motivou a alteração legislativa. De outro lado, a discussão acerca dos lançamentos formalizados em razão de infrações cometidas a partir do novo contexto legislativo ainda não apresentava densidade suficiente para indicar qual entendimento deveria ser sumulado. Considerando tais circunstâncias, o Pleno da CSRF, e também a 1ª Turma da CSRF, rejeitou, por três vezes, nos anos de 2009, 2012 e 2013, o enunciado contrário à concomitância das penalidades até a vigência da Medida Provisória nº 351, de 2007. As discussões nestas votações motivaram alterações posteriores com o objetivo de alcançar redação que fosse acolhida pela maioria qualificada, na forma regimental. Com a rejeição do enunciado de 2009, a primeira alteração consistiu na supressão da vigência da Medida Provisória nº 351, de 2007, substituindoa, como marco temporal, pela referência à data de sua publicação. Também foram separadas as hipóteses pertinentes ao IRPJ/CSLL e ao IRPF, submetendose à 1ª Turma e à 2ª Turma da CSRF os enunciados correspondentes. Seguindose nova rejeição em 2012, o enunciado de 2009 foi reiterado em 2013 e, mais uma vez, rejeitado. Este cenário deixou patente a imprestabilidade de enunciado distinguindo as ocorrências alcançadas a partir da expressão "até a vigência da Medida Provisória nº 351", de 2007, ou até a data de sua publicação. E isto porque a partir da redação proposta havia o risco de a súmula ser invocada para declarar o cabimento da exigência concomitante das penalidades a partir das alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, apesar de a jurisprudência ainda não estar consolidada neste sentido. Para afastar esta interpretação, o enunciado aprovado pela 1ª Turma da CSRF em 2014 foi redigido de forma direta, de modo a abarcar, apenas, a jurisprudência firme daquele Colegiado: a impossibilidade de cumulação, com a multa de ofício proporcional aplicada sobre os tributos devidos no ajuste anual, das multas isoladas por falta de recolhimento de estimativas exigidas com fundamento na legislação antes de sua alteração pela Medida Provisória nº 351, de 2007. Omitiuse, intencionalmente, qualquer referência às situações verificadas depois da alteração legislativa em tela, em razão da qual a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas passou a estar prevista no art. 44, inciso II, alínea "b", Fl. 10086DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.087 95 e não mais no art. 44, §1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, sempre com vistas a atribuir os efeitos sumulares25 à parcela do litígio já pacificada. Assim, a Súmula CARF nº 105 tem aplicação, apenas, em face de multas lançadas com fundamento na redação original do art. 44, §1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, ou seja, tendo por referência infrações cometidas antes da alteração promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, publicada em 22 de janeiro de 2007, e ainda que a exigência tenha sido formalizada já com o percentual reduzido de 50%, dado que tal providência não decorre de nova fundamentação do lançamento, mas sim da retroatividade benigna prevista pelo art. 106, inciso II, alínea "c", do CTN. Neste sentido, vale observar que os precedentes indicados para aprovação da súmula reportamse, todos, a infrações cometidas antes de 2007: Acórdão nº 9101001.261: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Anocalendário: 2001 Ementa: APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFICIO E MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA — Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de oficio pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do anocalendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. 25 Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009, e alterado pela Portaria MF nº 586, de 2010: [...] Anexo II [...] Art. 18. Aos presidentes de Câmara incumbe, ainda: [...] XXI negar, de ofício ou por proposta do relator, seguimento ao recurso que contrarie enunciado de súmula ou de resolução do Pleno da CSRF, em vigor, quando não houver outra matéria objeto do recurso; [...] Art. 53. A sessão de julgamento será pública, salvo decisão justificada da turma para exame de matéria sigilosa, facultada a presença das partes ou de seus procuradores. [...] § 4° Serão julgados em sessões não presenciais os recursos em processos de valor inferior a R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais) ou, independentemente do valor, forem objeto de súmula ou resolução do CARF ou de decisões do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça na sistemática dos artigos 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil. [...] Art. 67. Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à lei tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF. [...] § 2° Não cabe recurso especial de decisão de qualquer das turmas que aplique súmula de jurisprudência dos Conselhos de Contribuintes, da Câmara Superior de Recursos Fiscais ou do CARF, ou que, na apreciação de matéria preliminar, decida pela anulação da decisão de primeira instância. [...] Fl. 10087DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.088 96 Acórdão nº 9101001.203: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Exercício: 2000, 2001 Ementa: MULTA ISOLADA. ANOSCALENDÁRIO DE 1999 e 2000. FALTA DE RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFICIO EXIGIDA EM LANÇAMENTO LAVRADO PARA A COBRANÇA DO TRIBUTO. Incabível a aplicação concomitante da multa por falta de recolhimento de tributo sobre bases estimadas e da multa de oficio exigida no lançamento para cobrança de tributo, visto que ambas penalidades tiveram como base o valor das glosas efetivadas pela Fiscalização. Acórdão nº 9101001.238: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte IRRF Exercício: 2001 [...] MULTA ISOLADA. ANOCALENDÁRIO DE 2000. FALTA DE RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFICIO EXIGIDA EM LANÇAMENTO LAVRADO PARA A COBRANÇA DO TRIBUTO. Incabível a aplicação concomitante da multa por falta de recolhimento de tributo sobre bases estimadas e da multa de oficio exigida no lançamento para cobrança de tributo, visto que ambas penalidades tiveram como base o valor da receita omitida apurado em procedimento fiscal. Acórdão nº 9101001.307: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Anocalendário: 1998 [...] MULTA ISOLADA APLICAÇÃO CONCOMITANTE COM A MULTA DE OFICIO — Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de oficio pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do ano calendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. Acórdão nº 1402001.217: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003 [...] MULTA DE OFICIO ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS MENSAIS CONCOMITANTE COM A MULTA DE OFICIO. INAPLICABILIDADE. É inaplicável a penalidade quando existir concomitância com a multa de oficio sobre o ajuste anual (mesma base). [...] Acórdão nº 1102000.748: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2000, 2001 Fl. 10088DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.089 97 Ementa: [...] LANÇAMENTO DE OFÍCIO. PENALIDADE. MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. Devem ser exoneradas as multas isoladas por falta de recolhimento de estimativas, uma vez que, cumulativamente foram exigidos os tributos com multa de ofício, e a base de cálculo das multas isoladas está inserida na base de cálculo das multas de ofício, sendo descabido, nesse caso, o lançamento concomitante de ambas. [...] Acórdão nº 1803001.263: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2002 [...] APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFÍCIO E MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de ofício pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do ano calendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. Frente a tais circunstâncias, ainda que precedentes da súmula veiculem fundamentos autorizadores do cancelamento de exigências formalizadas a partir da alteração promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, não são eles, propriamente, que vinculam o julgador administrativo, mas sim o enunciado da súmula, no qual está sintetizada a questão pacificada. Digo isso porque esses precedentes têm sido utilizados para se tentar aplicar outra tese no sentido de afastar a multa, qual seja a do princípio da consunção. Ora se o princípio da consunção fosse fundamento suficiente para inexigibilidade concomitante das multas em debate, o enunciado seria genérico, sem qualquer referência ao fundamento legal dos lançamentos alcançados. A citação expressa do texto legal prestase a firmar esta circunstância como razão de decidir relevante extraída dos paradigmas, cuja presença é essencial para aplicação das conseqüências do entendimento sumulado. Há quem argumente que o princípio da consunção veda a cumulação das penalidades. Sustentam os adeptos dessa tese que o não recolhimento da estimativa mensal seria etapa preparatória da infração cometida no ajuste anual e, em tais circunstâncias o princípio da consunção autorizaria a subsistência, apenas, da penalidade aplicada sobre o tributo devido ao final do anocalendário, prestigiando o bem jurídico mais relevante, no caso, a arrecadação tributária, em confronto com a antecipação de fluxo de caixa assegurada pelas estimativas. Ademais, como a base fática para imposição das penalidades seria a mesma, a exigência concomitante das multas representaria bis in idem, até porque, embora a lei tenha previsto ambas penalidades, não determinou a sua aplicação simultânea. E acrescentam que, em se tratando de matéria de penalidades, seria aplicável o art. 112 do CTN. Entretanto, com a devida vênia, discordo desse entendimento. Para tanto, aproveitome, inicialmente do voto proferido pela Conselheira Karem Jureidini Dias na Fl. 10089DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.090 98 condução do acórdão nº 9101001.135, para trazer sua abordagem conceitual acerca das sanções em matéria tributária: [...] A sanção de natureza tributária decorre do descumprimento de obrigação tributária – qual seja, obrigação de pagar tributo. A sanção de natureza tributária pode sofrer agravamento ou qualificação, esta última em razão de o ilícito também possuir natureza penal, como nos casos de existência de dolo, fraude ou simulação. O mesmo auto de infração pode veicular, também, norma impositiva de multa em razão de descumprimento de uma obrigação acessória obrigação de fazer – pois, ainda que a obrigação acessória sempre se relacione a uma obrigação tributária principal, revestese de natureza administrativa. Sobre as obrigações acessórias e principais em matéria tributária, vale destacar o que dispõe o artigo 113 do Código Tributário Nacional: “Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária.” Fica evidente da leitura do dispositivo em comento que a obrigação principal, em direito tributário, é pagar tributo, e a obrigação acessória é aquela que possui características administrativas, na medida em que as respectivas normas comportamentais servem ao interesse da administração tributária, em especial, quando do exercício da atividade fiscalizatória. O dispositivo transcrito determina, ainda, que em relação à obrigação acessória, ocorrendo seu descumprimento pelo contribuinte e imposta multa, o valor devido convertese em obrigação principal. Vale destacar que, mesmo ocorrendo tal conversão, a natureza da sanção aplicada permanece sendo administrativa, já que não há cobrança de tributo envolvida, mas sim a aplicação de uma penalidade em razão da inobservância de uma norma que visava proteger os interesses fiscalizatórios da administração tributária. Assim, as sanções em matéria tributária podem ter natureza (i) tributária principal quando se referem a descumprimento da obrigação principal, ou seja, falta de recolhimento de tributo; (ii) administrativa – quando se referem à mero descumprimento de obrigação acessória que, em verdade, tem por objetivo auxiliar os agentes públicos que se encarregam da fiscalização; ou, ainda (iii) penal – quando qualquer dos ilícitos antes mencionados representar, também, ilícito penal. Significa dizer que, para definir a natureza da sanção aplicada, necessário se faz verificar o antecedente da norma sancionatória, identificando a relação jurídica desobedecida. Aplicamse às sanções o princípio da proporcionalidade, que deve ser observado quando da aplicação do critério quantitativo. Neste ponto destacamos a lição de Helenilson Cunha Pontes a respeito do princípio da proporcionalidade em matéria de sanções tributárias, verbis: “As sanções tributárias são instrumentos de que se vale o legislador para buscar o atingimento de uma finalidade desejada pelo ordenamento jurídico. A análise da constitucionalidade de uma sanção deve sempre ser realizada considerando o objetivo visado com sua criação legislativa. De forma geral, como lembra Régis Fernandes de Oliveira, “a sanção deve guardar proporção com o objetivo de sua imposição”. O princípio da proporcionalidade constitui um instrumento normativoconstitucional através do qual Fl. 10090DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.091 99 podese concretizar o controle dos excessos do legislador e das autoridades estatais em geral na definição abstrata e concreta das sanções”. O primeiro passo para o controle da constitucionalidade de uma sanção, através do princípio da proporcionalidade, consiste na perquirição dos objetivos imediatos visados com a previsão abstrata e/ou com a imposição concreta da sanção. Vale dizer, na perquirição do interesse público que valida a previsão e a imposição de sanção”. (in “O Princípio da Proporcionalidade e o Direito Tributário”, ed. Dialética, São Paulo, 2000, pg.135) Assim, em respeito a referido princípio, é possível afirmar que: se a multa é de natureza tributária, terá por base apropriada, via de regra, o montante do tributo não recolhido. Se a multa é de natureza administrativa, a base de cálculo terá por grandeza montante proporcional ao ilícito que se pretende proibir. Em ambos os casos as sanções podem ser agravadas ou qualificadas. Agravada, se além do descumprimento de obrigação acessória ou principal, houver embaraço à fiscalização, e, qualificada se ao ilícito somarse outro de cunho penal – existência de dolo, fraude ou simulação. A MULTA ISOLADA POR NÃO RECOLHIMENTO DAS ANTECIPAÇÕES A multa isolada, aplicada por ausência de recolhimento de antecipações, é regulada pelo artigo 44, inciso II, alínea “b”, da Lei nº 9.430/96, verbis: [...] A norma prevê, portanto, a imposição da referida penalidade quando o contribuinte do IRPJ e da CSLL, sujeito ao Lucro Real Anual, deixar de promover as antecipações devidas em razão da disposição contida no artigo 2º da Lei nº 9.430/96, verbis: [...] A natureza das antecipações, por sua vez, já foi objeto de análise do Superior Tribunal de Justiça, que manifestou entendimento no sentido de considerar que as antecipações se referem ao pagamento de tributo, conforme se depreende dos seguintes julgados: “TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. IMPOSTO DE RENDA. CSSL. RECOLHIMENTO ANTECIPADO. ESTIMATIVA. TAXA SELIC. INAPLICABILIDADE. 1. "É firme o entendimento deste Tribunal no sentido de que o regime de antecipação mensal é opção do contribuinte, que pode apurar o lucro real, base de cálculo do IRPJ e da CSSL, por estimativa, e antecipar o pagamento dos tributos, segundo a faculdade prevista no art. 2° da Lei n. 9430/96" (AgRg no REsp 694278RJ, relator Ministro Humberto Martins, DJ de 3/8/2006). 2. A antecipação do pagamento dos tributos não configura pagamento indevido à Fazenda Pública que justifique a incidência da taxa Selic. 3. Recurso especial improvido.” (Recurso Especial 529570 / SC Relator Ministro João Otávio de Noronha Segunda Turma Data do Julgamento 19/09/2006 DJ 26.10.2006 p. 277) “AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL TRIBUTÁRIO IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA IRPJ E CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO CSSL APURAÇÃO POR ESTIMATIVA PAGAMENTO ANTECIPADO OPÇÃO DO CONTRIBUINTE LEI N. 9430/96. É firme o entendimento deste Tribunal no sentido de que o regime de antecipação mensal é opção do contribuinte, que pode apurar o lucro real, base de cálculo do IRPJ e da CSSL, por estimativa, e antecipar o pagamento dos tributos, segundo a faculdade prevista no art. 2° da Lei n. 9430/96. Precedentes: REsp 492.865/RS, Rel. Min. Franciulli Netto, DJ25.4.2005 e REsp 574347/SC, Rel. Min. José Delgado, DJ 27.9.2004.Agravo regimental improvido.” (Agravo Regimental No Recurso Especial 2004/01397180 Relator Ministro Humberto Martins Segunda Turma DJ 17.08.2006 p. 341) Fl. 10091DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.092 100 Do exposto, inferese que a multa em questão tem natureza tributária, pois aplicada em razão do descumprimento de obrigação principal, qual seja, falta de pagamento de tributo, ainda que por antecipação prevista em lei. Debates instalaramse no âmbito desse Conselho Administrativo sobre a natureza da multa isolada. Inicialmente me filiei à corrente que entendia que a multa isolada não poderia prosperar porque penalizava conduta que não se configurava obrigação principal, tampouco obrigação acessória. Ou seja, mantinha o entendimento de que a multa em questão não se referia a qualquer obrigação prevista no artigo 113 do Código Tributário Nacional, na medida em que penalizava conduta que, a meu ver à época, não podia ser considerada obrigação principal, já que o tributo não estava definitivamente apurado, tampouco poderia ser considerada obrigação acessória, pois evidentemente não configura uma obrigação de caráter meramente administrativo, uma vez que a relação jurídica prevista na norma primária dispositiva é o “pagamento” de antecipação. Nada obstante, modifiquei meu entendimento, mormente por concluir que tratase, em verdade, de multa pelo não pagamento do tributo que deve ser antecipado. Ainda que tenha o contribuinte declarado e recolhido o montante devido de IRPJ e CSLL ao final do exercício, fato é que caberá multa isolada quando o contribuinte não efetua a antecipação deste tributo. Tanto assim que, até a alteração promovida pela Lei nº 11.488/07, o caput do artigo 44 da Lei nº 9.430/96, previa que o cálculo das multas ali estabelecidas seria realizado “sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição”. Frente a estas considerações, releva destacar que a penalidade em debate é exigida isoladamente, sem qualquer hipótese de agravamento ou qualificação e, embora seu cálculo tenha por referência a antecipação não realizada, sua exigência não se dá por falta de "pagamento de tributo", dado o fato gerador do tributo sequer ter ocorrido. De forma semelhante, outras penalidades reconhecidas como decorrentes do descumprimento de obrigações acessórias são calculadas em razão do valor dos tributos devidos26 e exigidas de forma isolada. Sob esta ótica, o recolhimento de estimativas melhor se alinha ao conceito de obrigação acessória que à definição de obrigação principal, até porque a antecipação do recolhimento é, em verdade, um ônus imposto aos que voluntariamente optam pela apuração 26 Lei nº 10.426, de 2002: Art. 7º O sujeito passivo que deixar de apresentar Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica DIPJ, Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF, Declaração Simplificada da Pessoa Jurídica, Declaração de Imposto de Renda Retido na Fonte DIRF e Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais Dacon, nos prazos fixados, ou que as apresentar com incorreções ou omissões, será intimado a apresentar declaração original, no caso de nãoapresentação, ou a prestar esclarecimentos, nos demais casos, no prazo estipulado pela Secretaria da Receita Federal SRF, e sujeitarseá às seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) I de dois por cento ao mêscalendário ou fração, incidente sobre o montante do imposto de renda da pessoa jurídica informado na DIPJ, ainda que integralmente pago, no caso de falta de entrega desta Declaração ou entrega após o prazo, limitada a vinte por cento, observado o disposto no § 3º; II de dois por cento ao mêscalendário ou fração, incidente sobre o montante dos tributos e contribuições informados na DCTF, na Declaração Simplificada da Pessoa Jurídica ou na Dirf, ainda que integralmente pago, no caso de falta de entrega destas Declarações ou entrega após o prazo, limitada a vinte por cento, observado o disposto no § 3º; III de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidente sobre o montante da Cofins, ou, na sua falta, da contribuição para o PIS/Pasep, informado no Dacon, ainda que integralmente pago, no caso de falta de entrega desta Declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo; e (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) IV de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) [...] Fl. 10092DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.093 101 anual do lucro tributável, e a obrigação acessória, nos termos do art. 113, §2º do CTN, é medida prevista não só no interesse da fiscalização, mas também da arrecadação dos tributos. Vejase, aliás, que as manifestações do Superior Tribunal de Justiça acima citadas expressamente reconhecem este ônus como decorrente de uma opção, e distinguem a antecipação do pagamento do pagamento em si, isto para negar a aplicação de juros a partir de seu recolhimento no confronto com o tributo efetivamente devido ao final do anocalendário. É certo que a Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça já consolidou seu entendimento contrariamente à aplicação concomitante das penalidades em razão do princípio da consunção, conforme evidencia a ementa de julgado recente proferido no Agravo Regimental no Recurso Especial nº 1.576.289/RS: TRIBUTÁRIO. MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO. ART. 44, I E II, DA LEI 9.430/1996 (REDAÇÃO DADA PELA LEI 11.488/2007). EXIGÊNCIA CONCOMITANTE. IMPOSSIBILIDADE NO CASO. PRECEDENTES. 1. A Segunda Turma do STJ tem posição firmada pela impossibilidade de aplicação concomitante das multas isolada e de ofício previstas nos incisos I e II do art. 44 da Lei 9.430/1996 (AgRg no REsp 1.499.389/PB, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 28/9/2015; REsp 1.496.354/PR, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 24/3/2015). 2. Agravo Regimental não provido. Todavia, referidos julgados não são de observância obrigatória na forma do art. 62, §1º, inciso II, alínea "b" do Anexo II do Regimento Interno do CARF aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015. Além disso, a interpretação de que a falta de recolhimento da antecipação mensal é infração abrangida pela falta de recolhimento do ajuste anual, sob o pressuposto da existência de dependência entre elas, sendo a primeira infração preparatória da segunda, desconsidera o prejuízo experimentado pela União com a mora subsistente em razão de o tributo devido no ajuste anual sofrer encargos somente a partir do encerramento do ano calendário. Favorece, assim, o sujeito passivo que se obrigou às antecipações para apurar o lucro tributável apenas ao final do anocalendário, conferindolhe significativa vantagem econômica em relação a outro sujeito passivo que, cometendo a mesma infração, mas optando pela regra geral de apuração trimestral dos lucros, suportaria, além do ônus da escrituração trimestral dos resultados, os encargos pela falta de recolhimento do tributo calculados desde o encerramento do período trimestral. Quanto à transposição do princípio da consunção para o Direito Tributário, vale a transcrição da oposição manifestada pelo Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior no voto condutor do acórdão nº 1302001.823: Da inviabilidade de aplicação do princípio da consunção O princípio da consunção é princípio específico do Direito Penal, aplicável para solução de conflitos aparentes de normas penais, ou seja, situações em que duas ou mais normas penais podem aparentemente incidir sobre um mesmo fato. Primeiramente, há que se ressaltar que a norma sancionatória tributária não é norma penal stricto sensu. Vale aqui a lembrança que o parágrafo único do art. 273 do anteprojeto do CTN (hoje, art. 112 do CTN), elaborado por Rubens Gomes de Sousa, previa que os princípios gerais do Direito Penal se aplicassem como métodos ou processos supletivos de interpretação da lei tributária, especialmente da lei tributária que definia infrações. Esse dispositivo foi rechaçado pela Comissão Especial de 1954 que elaborou o texto final do anteprojeto, sendo que tal dispositivo não retornou ao texto do CTN que veio a ser aprovado pelo Congresso Fl. 10093DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.094 102 Nacional. À época, a Comissão Especial do CTN acolheu os fundamentos de que o direito penal tributário não tem semelhança absoluta com o direito penal (sugestão 789, p. 513 dos Trabalhos da Comissão Especial do CTN) e que o direito penal tributário não é autônomo ao direito tributário, pois a pena fiscal mais se assemelha a pena cível do que a criminal (sugestão 787, p.512, idem). Não é difícil, assim, verificar que, na sua gênese, o CTN afastou a possibilidade de aplicação supletiva dos princípios do direito penal na interpretação da norma tributária, logicamente, salvo aqueles expressamente previstos no seu texto, como por exemplo, a retroatividade benigna do art. 106 ou o in dubio pro reo do art. 112. Oportuna, também, a citação da abordagem exposta em artigo publicado por Heraldo Garcia Vitta27: O Direito Penal é especial, contém princípios, critérios, fundamentos e normas particulares, próprios desse ramo jurídico; por isso, a rigor, as regras dele não podem ser estendidas além dos casos para os quais foram instituídas. De fato, não se aplica norma jurídica senão à ordem de coisas para a qual foi estabelecida; não se pode pôr de lado a natureza da lei, nem o ramo do Direito a que pertence a regra tomada por base do processo analógico.[15 Carlos Maximiliano, Hermenêutica e aplicação do direito, p.212] Na hipótese de concurso de crimes, o legislador escolheu critérios específicos, próprios desse ramo de Direito. Logo, não se justifica a analogia das normas do Direito Penal no tema concurso real de infrações administrativas. A ‘forma de sancionar’ é instituída pelo legislador, segundo critérios de conveniência/oportunidade, isto é, discricionariedade. Competelhe elaborar, ou não, regras a respeito da concorrência de infrações administrativas. No silêncio, ocorre cúmulo material. Aliás, no Direito Administrativo brasileiro, o legislador tem procurado determinar o cúmulo material de infrações, conforme se observa, por exemplo, no artigo 266, da Lei nº 9.503, de 23.12.1997 (Código de Trânsito Brasileiro), segundo o qual “quando o infrator cometer, simultaneamente, duas ou mais infrações, serlheão aplicadas, cumulativamente, as respectivas penalidades”. Igualmente o artigo 72, §1º, da Lei 9.605, de 12.2.1998, que dispõe sobre sanções penais e administrativas derivadas de condutas lesivas ao meio ambiente: “Se o infrator cometer, simultaneamente, duas ou mais infrações [administrativas, pois o disposto está inserido no Capítulo VI – Da Infração Administrativa] serlheão aplicadas, cumulativamente, as sanções a elas cominadas”. E também o parágrafo único, do artigo 56, da Lei nº 8.078, de 11.9.1990, que regula a proteção do consumidor: “As sanções [administrativas] previstas neste artigo serão aplicadas pela autoridade administrativa, no âmbito de sua atribuição, podendo ser aplicadas cumulativamente, inclusive por medida cautelar antecedente ou incidente de procedimento administrativo”.[16 Evidentemente, se ocorrer, devido ao acúmulo de sanções, perante a hipótese concreta, pena exacerbada, mesmo quando observada imposição do mínimo legal, isto é, quando a autoridade administrativa tenha imposto cominação mínima, estabelecida na lei, ocorrerá invalidação do ato administrativo, devido ao princípio da proporcionalidade.] No Direito Penal são exemplos de aplicação do princípio da consunção a absorção da tentativa pela consumação, da lesão corporal pelo homicídio e da violação de domicílio pelo furto em residência. Característica destas ocorrências é a sua previsão em normas diferentes, ou seja, a punição concebida de forma autônoma, dada a possibilidade fática 27 http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=2644 Fl. 10094DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.095 103 de o agente ter a intenção, apenas, de cometer o crime que figura como delitomeio ou delito fim. Já no caso em debate, a norma tributária prevê expressamente a aplicação das duas penalidades em face da conduta de sujeito passivo que motive lançamento de ofício, como bem observado pelo Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão no já citado voto condutor do acórdão nº 9101002.251: [...] Ora, o legislador, no caso, fez mais do que faria se apenas acrescentasse “mais uma alínea no inciso II da nova redação do art. 44 da [Lei nº] 9.430/1996”. Na realidade, o que, na redação primeira, era apenas um inciso subordinado a um parágrafo do artigo (art. 44, § 1º, inciso IV, da Lei nº 9.430, de 1996), tornouse um inciso vinculado ao próprio caput do artigo (art. 44, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996), no mesmo patamar, portanto, do inciso então preexistente, que previa a multa de ofício. Vejase a redação do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, dada pela Lei nº 11.488, de 2007 (sublinhei): Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinquenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: [...]; Dessa forma, a norma legal, ao estatuir que “nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas”, está a se referir, iniludivelmente, às duas multas em conjunto, e não mais em separado, como dava a entender a antiga redação do dispositivo. Nessas condições, não seria necessário que a norma previsse “a possibilidade de haver cumulatividade dessas multas”. Pelo contrário: seria necessário, sim se fosse esse o caso, que a norma excetuasse essa possibilidade, o que nela não foi feito. Por conseguinte, não há que se falar como pretendeu o sujeito passivo, por ocasião de seu recurso voluntário em “identidade quanto ao critério pessoal e material de ambas as normas sancionatórias”. Se é verdade que as duas normas sancionatórias, pelo critério pessoal, alcançam o mesmo contribuinte (sujeito passivo), não é verdade que o critério material (verbo + complemento) de uma e de outra se centre “no descumprimento da relação jurídica que determina o recolhimento integral do tributo devido”. O complemento do critério material de ambas é, agora, distinto: o da multa de ofício é a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição; já o da multa isolada é o valor do pagamento mensal, apurado sob base estimada ao longo do ano, cuja materialidade, como visto anteriormente, não se confunde com aquela. (grifos do original) A alteração legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, portanto, claramente fixou a possibilidade de aplicação de duas penalidades em caso de lançamento de ofício frente a sujeito passivo optante pela apuração anual do lucro tributável. Somente desconsiderandose todo o histórico de aplicação das penalidades previstas na redação original do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, seria possível interpretar que a redação alterada não determinou a aplicação simultânea das penalidades. A redação alterada é direta e impositiva ao firmar que "serão aplicadas as seguintes multas". Ademais, quando o legislador Fl. 10095DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.096 104 estipula na alínea "b" do inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, a exigência isolada da multa sobre o valor do pagamento mensal ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa no anocalendário correspondente, claramente afirma a aplicação da penalidade mesmo se apurado lucro tributável e, por conseqüência, tributo devido sujeito à multa prevista no inciso I do seu art. 44. Acrescentese que não se pode falar, no caso, de bis in idem sob o pressuposto de que a imposição das penalidades teria a mesma base fática. Basta observar que as infrações ocorrem em diferentes momentos, o primeiro correspondente à apuração da estimativa com a finalidade de cumprir o requisito de antecipação do recolhimento imposto aos optantes pela apuração anual do lucro, e o segundo apenas na apuração do lucro tributável ao final do anocalendário. A análise, assim, não pode ficar limitada, por exemplo, à omissão de receitas ou ao registro de despesas indedutíveis, especialmente porque, para fins tributários, estas ocorrências devem, necessariamente, repercutir no cumprimento da obrigação acessória de antecipar ou na constituição, pelo sujeito passivo, da obrigação tributária principal. A base fática, portanto, é constituída pelo registro contábil ou fiscal, ou mesmo sua supressão, e pela repercussão conferida pelo sujeito passivo àquela ocorrência no cumprimento das obrigações tributárias. Como esta conduta se dá em momentos distintos e com finalidades distintas, duas penalidades são aplicáveis, sem se cogitar de bis in idem. Neste sentido, aliás, são as considerações do Conselheiro Alberto Pinto Souza Júnior no voto condutor do Acórdão nº 1302001.823: Ainda que aplicável fosse o princípio da consunção para solucionar conflitos aparentes de norma tributárias, não há no caso em tela qualquer conflito que justificasse a sua aplicação. Conforme já asseverado, o conflito aparente de normas ocorre quando duas ou mais normas podem aparentemente incidir sobre um mesmo fato, o que não ocorre in casu, já que temos duas situações fáticas diferentes: a primeira, o não recolhimento do tributo devido; a segunda, a não observância das normas do regime de recolhimento sobre bases estimadas. Ressaltese que o simples fato de alguém, optante pelo lucro real anual, deixar de recolher o IRPJ mensal sobre a base estimada não enseja per se a aplicação da multa isolada, pois esta multa só é aplicável quando, além de não recolher o IRPJ mensal sobre a base estimada, o contribuinte deixar de levantar balanço de suspensão, conforme dispõe o art. 35 da Lei no 8.981/95. Assim, a multa isolada não decorre unicamente da falta de recolhimento do IRPJ mensal, mas da inobservância das normas que regem o recolhimento sobre bases estimadas, ou seja, do regime. [...] Assim, demonstrado que temos duas situações fáticas diferentes, sob as quais incidem normas diferentes, resta irrefutável que não há unidade de conduta, logo não existe qualquer conflito aparente entre as normas dos incisos I e IV do § 1º do art. 44 e, consequentemente, indevida a aplicação do princípio da consunção no caso em tela. Noutro ponto, refuto os argumentos de que a falta de recolhimento da estimativa mensal seria uma conduta menos grave, por atingir um bem jurídico secundário – que seria a antecipação do fluxo de caixa do governo. Conforme já demonstrado, a multa isolada é aplicável pela não observância do regime de recolhimento pela estimativa e a conduta que ofende tal regime jamais poderia ser tida como menos grave, já que põe em risco todo o sistema de recolhimento do IRPJ sobre o lucro real anual – pelo menos no formato desenhado pelo legislador. Em verdade, a sistemática de antecipação dos impostos ocorre por diversos meios previstos na legislação tributária, sendo exemplos disto, alem dos recolhimentos por estimativa, as retenções feitas pelas fontes pagadoras e o recolhimento mensal Fl. 10096DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.097 105 obrigatório (carnêleão), feitos pelos contribuintes pessoas físicas. O que se tem, na verdade são diferentes formas e momentos de exigência da obrigação tributária. Todos esses instrumentos visam ao mesmo tempo assegurar a efetividade da arrecadação tributária e o fluxo de caixa para a execução do orçamento fiscal pelo governo, impondose igualmente a sua proteção (como bens jurídicos). Portanto, não há um bem menor, nem uma conduta menos grave que possa ser englobada pela outra, neste caso. Ademais, é um equívoco dizer que o não recolhimento do IRPJestimada é uma ação preparatória para a realização da “conduta mais grave” – não recolhimento do tributo efetivamente devido no ajuste. O não pagamento de todo o tributo devido ao final do exercício pode ocorrer independente do fato de terem sido recolhidas as estimativas, pois o resultado final apurado não guarda necessariamente proporção com os valores devidos por estimativa. Ainda que o contribuinte recolha as antecipações, ao final pode ser apurado um saldo de tributo a pagar, com base no resultado do exercício. As infrações tributárias que ensejam a multa isolada e a multa de ofício nos casos em tela são autônomas. A ocorrência de uma delas não pressupõe necessariamente a existência da outra, logo inaplicável o princípio da consunção, já que não existe conflito aparente de normas. Tais circunstâncias são totalmente distintas das que ensejam a aplicação de multa moratória ou multa de ofício sobre tributo não recolhido. Nesta segunda hipótese, sim, a base fática é idêntica, porque a infração de não recolher o tributo no vencimento foi praticada e, para compensar a União o sujeito passivo poderá, caso não demande a atuação de um agente fiscal para constituição do crédito tributário por lançamento de ofício, sujeitarse a uma penalidade menor28. Se o recolhimento não for promovido depois do vencimento e o lançamento de ofício se fizer necessário, a multa de ofício fixada em maior percentual incorpora, por certo, a reparação que antes poderia ser promovida pelo sujeito passivo sem a atuação de um Auditor Fiscal. Imprópria, portanto, a ampliação do conteúdo expresso no enunciado da súmula a partir do que consignado no voto condutor de alguns dos paradigmas. É importante repisar, assim, que as decisões acerca das infrações cometidas depois das alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, não devem observância à Súmula CARF nº 105 e os Conselheiros têm plena liberdade de convicção. Somente a essência extraída dos paradigmas, integrada ao enunciado no caso, mediante expressa referência ao fundamento legal aplicável antes da edição da Medida Provisória nº 351, de 2007 (art. 44, §1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996) , representa o entendimento acolhido pela 1ª Turma da CSRF a ser observado, obrigatoriamente, pelos integrantes da 1ª Seção de Julgamento. Nada além disso. De outro lado, releva ainda destacar que a aprovação de um enunciado não impõe ao julgador a sua aplicação cega. As circunstâncias do caso concreto devem ser 28 Lei nº 9.430, de 1996, art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (Vide Medida Provisória nº 1.725, de 1998) (Vide Lei nº 9.716, de 1998) Fl. 10097DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.098 106 analisadas e, caso identificado algum aspecto antes desconsiderado, é possível afastar a aplicação da súmula. Vejase, por exemplo, que o enunciado da Súmula CARF nº 105 é omisso acerca de outro ponto que permite interpretação favorável à manutenção parcial de exigências formalizadas ainda que com fundamento no art. 44, §1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996. Neste sentido é a declaração de voto da Conselheira Edeli Pereira Bessa no Acórdão nº 1302 001.753: A multa isolada teve em conta falta de recolhimento de estimativa de CSLL no valor de R$ 94.130,67, ao passo que a multa de ofício foi aplicada sobre a CSLL apurada no ajuste anual no valor de R$ 31.595,78. Discutese, no caso, a aplicação da Súmula CARF nº 105 de seguinte teor: A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Os períodos de apuração autuados estariam alcançados pelo dispositivo legal apontado na Súmula CARF nº 105. Todavia, como evidenciam as bases de cálculo das penalidades, a concomitância se verificou apenas sobre parte da multa isolada exigida por falta de recolhimento da estimativa de CSLL devida em dezembro/2002. Importa, assim, avaliar se o entendimento sumulado determinaria a exoneração de toda a multa isolada aqui aplicada. A referência à exigência ao mesmo tempo das duas penalidades não possui uma única interpretação. É possível concluir, a partir do disposto, que não subsiste a multa isolada aplicada no mesmo lançamento em que formalizada a exigência do ajuste anual com acréscimo da multa de ofício proporcional, ou então que a multa isolada deve ser exonerada quando exigida em face de antecipação contida no ajuste anual que ensejou a exigência do principal e correspondente multa de ofício. Além disso, podese interpretar que deve subsistir apenas uma penalidade quando a causa de sua aplicação é a mesma. Os precedentes que orientaram a edição da Súmula CARF nº 105 auxiliam nesta interpretação. São eles: [...] Observase nas ementas dos Acórdãos nº 9101001.261, 9101001.307 e 1803 001.263 a abordagem genérica da infração de falta de recolhimento de estimativas como etapa preparatória do ato de reduzir o imposto no final do ano, e que por esta razão é absorvida pela segunda infração, devendo subsistir apenas a punição aplicada sobre esta. Sob esta vertente interpretativa, qualquer multa isolada aplicada por falta de recolhimento de estimativas sucumbiria frente à exigência do ajuste anual com acréscimo de multa de ofício. Porém, os Acórdãos nº 9101001.203 e 9101001.238, reportamse à identidade entre a infração que, constatada pela Fiscalização, enseja a apuração da falta de recolhimento de estimativas e da falta de recolhimento do ajuste anual, assim como os Acórdãos nº 1402001.217 e 1102000.748 fazem referência a aplicação de penalidades sobre a mesma base, ou ao fato de a base de cálculo das multas isoladas estar contida na base de cálculo da multa de ofício. Tais referências permitem concluir que, para identificação da concomitância, deve ser avaliada a causa da aplicação da penalidade ou, ao menos, o seu reflexo na apuração do ajuste anual e nas bases estimativas. Fl. 10098DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.099 107 A adoção de tais referenciais para edição da Súmula CARF nº 105 evidencia que não se pretendeu atribuir um conteúdo único à concomitância, permitindose a livre interpretação acerca de seu alcance. Considerando que, no presente caso, as infrações foram apuradas de forma independente estimativa não recolhida em razão de seu parcelamento parcial e ajuste anual não recolhido em razão da compensação de bases negativas acima do limite legal e assim resultaram em distintas bases para aplicação das penalidades, é válido concluir que não há concomitância em relação à multa isolada aplicada sobre a parcela de R$ 62.534,89 (= R$ 94.130,67 R$ 31.595,78), correspondente à estimativa de CSLL em dezembro/2002 que excede a falta de recolhimento apurada no ajuste anual. Divergência neste sentido, aliás, já estava consubstanciada antes da aprovação da súmula, nos termos do voto condutor do Acórdão nº 120100.235, de lavra do Conselheiro Guilherme Adolfo dos Santos Mendes: [...] O valor tributável é o mesmo (R$ 15.470.000,00). Isso, contudo, não implica necessariamente numa perfeita coincidência delitiva, pois pode ocorrer também que uma omissão de receita resulte num delito quantitativamente mais intenso. Foi o que ocorreu. Em razão de prejuízos posteriores ao mês do fato gerador, o impacto da omissão sobre a tributação anual foi menor que o sofrido na antecipação mensal. Desse modo, a absorção deve é apenas parcial. Conforme o demonstrativo de fls. 21, a omissão resultou numa base tributável anual do IR no valor de R$ 5.076.300,39, mas numa base estimada de R$ 8.902.754,18. Assim, deve ser mantida a multa isolada relativa à estimativa de imposto de renda que deixou de ser recolhida sobre R$ 3.826.453,79 (R$ 8.902.754,18 – R$ 5.076.300,39), parcela essa que não foi absorvida pelo delito de não recolhimento definitivo, sobre o qual foi aplicada a multa proporcional. Abaixo, segue a discriminação dos valores: Base estimada remanescente: R$ 3.826.453,79 Estimativa remanescente (R$ 3.826.453,79 x 25%): R$ 956.613,45 Multa isolada mantida (R$ 956.613,45 x 50%): R$ 478.306,72 Multa isolada excluída (R$ 1.109.844,27 – R$ 478.306,72: R$ 631.537,55 [...] A observância do entendimento sumulado, portanto, pressupõe a identificação dos requisitos expressos no enunciado e a análise das circunstâncias do caso concreto, a fim de conferir eficácia à súmula, mas não aplicála a casos distintos. Assim, a referência expressa ao fundamento legal das exigências às quais se aplica o entendimento sumulado limita a sua abrangência, mas a adoção de expressões cujo significado não pode ser identificado a partir dos paradigmas da súmula confere liberdade interpretativa ao julgador. Como antes referido, no presente processo a multa isolada por falta de recolhimento das estimativas mensais foi exigida para fatos ocorridos após alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996. Sendo assim e diante do todo o exposto, não só não há falar na aplicação ao caso da Súmula CARF nº 105, como não se pode cogitar da impossibilidade de lançamento da multa isolada por falta de recolhimento das estimativas após o encerramento do anocalendário. Fl. 10099DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.100 108 Como se viu, a multa de 50% prevista no inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 e calculada sobre o pagamento mensal de antecipação de IRPJ e CSLL que deixe de ser efetuado penaliza o descumprimento do dever de antecipar o recolhimento de tais tributos e independe do resultado apurado ao final do anocalendário e da eventual aplicação de multa de ofício. Nessa condição, a multa isolada é devida ainda que se apure prejuízo fiscal ou base negativa de CSLL, conforme estabelece a alínea "b" do referido inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, sendo que não haveria sentido em comando nesse sentido caso não se pudesse aplicar a multa após o encerramento do anocalendário, eis que antes de encerrado o ano sequer pode se determinar se houve ou não prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa de CSLL. No mesmo sentido do entendimento aqui manifestado citamse os seguintes acórdãos desta 1ª Turma da CSRF: 9101002.414 (de 17/08/2016), 9101002.438 (de 20/09/2016) e 9101002.510 (de 12/12/2016). Voto, portanto, por NEGAR PROVIMENTO ao recurso da Contribuinte no que se refere à presente matéria, mantendose o lançamento de multa isolada por falta de recolhimento das estimativas. Recurso da Contribuinte Incidência de juros de mora sobre a multa de ofício Também em relação a esta matéria esta 1a Turma da CSRF vem decidindo em sentido contrário ao manifestado pelo eminente Relator, ou seja, pela incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, conforme argumentação a seguir a qual trouxe em diversos outros acórdãos de minha relatoria (citese, por exemplo, os acórdãos 9101002.501 e 9101 002.510, ambos de 12/12/2016). A Lei nº 9.430, de 1996, estabelece, em seu art. 61, § 3º, que sobre os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal incidirão juros de mora à taxa SELIC. Vejase (sublinhei): Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (...) § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento.(grifo nosso) De outra banda, está estampado na Súmula CARF nº 5 que são devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento. Confirase (sublinhei): Súmula CARF nº 5: São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral. Ora, contrariamente àquilo que alega a Contribuinte, dos arts. 113, § 1º, e 139 do CTN deflui que o crédito tributário, que decorre da obrigação principal, compreende tanto o tributo em si quanto a penalidade pecuniária, o que inclui, à toda evidência, a multa de oficio proporcional de caráter punitivo. Fl. 10100DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.101 109 Vale transcrever os dispositivos: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Sendo assim, outra não pode ser a interpretação da expressão “débitos decorrentes de tributos e contribuições” expressa no retrotranscrito art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, senão a de que abarca a integralidade do crédito tributário, incluindo a multa de oficio proporcional punitiva, constituída por ocasião do lançamento. Resta evidente que a multa de ofício proporcional, lançada juntamente com o tributo devido, se não paga no vencimento, sujeitase a juros de mora por força do disposto no art. 61, caput, da Lei nº 9.430, de 1997. Aliás, se a intenção do legislador fosse limitar a aplicação do art. 61 apenas aos débitos principais de tributos e contribuições, bastaria suprimir o termo "decorrente", como bem pontua o Conselheiro Adolfo dos Santos Medes, no voto condutor do Acórdão nº 1401 001.653: É importante notar que no caput do art. 61, o texto é “débitos [...] decorrentes de tributos e contribuições” e não meramente “débitos de tributos e contribuições”. O termo “decorrentes” evidencia que o legislador não quis se referir, para todas as situações, apenas aos tributos e contribuições em termos estritos. Com base no art. 161, caput, do CTN, a Contribuinte insiste na tese de que os juros devem incidir apenas sobre valor do tributo, e não sobre valor de multa de ofício. Entretanto, o referido artigo estabelece a incidência de juros de mora sobre o "crédito não integralmente pago no vencimento", dispondo o seguinte: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. (Grifei) Não há dúvida de que multa não é tributo, pela própria dicção do art. 3º do CTN: "Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada". Todavia, a coerência interna do CTN evidencia, com clareza, conforme revelam os arts. 113, § 1º, e 139, que a penalidade pecuniária é também objeto da obrigação tributária principal e assim integra o conceito de crédito, objeto da relação jurídica estabelecida entre o Fisco e o sujeito passivo, beneficiandose de todas as garantias a ele asseguradas por lei, inclusive o acréscimo de juros de mora. Adotando estas premissas, o Conselheiro Pedro Paulo Pereira Barbosa também concluiu, no voto condutor do Acórdão nº 220101.630, que, se o art. 113 do CTN incorpora à obrigação principal o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária, e o art. 139 do CTN estipula que o crédito tributário tem a mesma natureza da obrigação principal, é evidente que a penalidade pecuniária integra o conceito de crédito tributário. Em acréscimo, o Conselheiro expõe que: Fl. 10101DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.102 110 Nesse mesmo sentido, no art. 142, que define o procedimento de lançamento, por meio do qual se constitui o crédito tributário, o legislador não esqueceu de mencionar a imposição da penalidade. Da mesma forma, o art. 175, II, ao se referir à anistia como forma de exclusão do crédito tributário, afasta qualquer dúvida que ainda pudesse remanescer sobre a inclusão da penalidade pecuniária no crédito tributário, pois não seria lícito atribuir ao legislador ter dedicado um inciso especificamente para tratar da exclusão do crédito tributário de algo que nele não está contido. Poderseia argumentar em sentido contrário dizendo que, mesmo estando a penalidade pecuniária contida no crédito tributário, ao se referir a “crédito” no artigo 161, o Código não estaria se referindo ao crédito tributário, mas apenas ao tributo. Questionase, por exemplo, o fato de a parte final do caput do artigo fazer referência à imposição de penalidade e, portanto, se os juros seriam devidos, sem prejuízo da aplicação de penalidades, estas não poderiam estar sujeitas aos mesmos juros. Inicialmente, conforme a advertência de Carlos Maximiliano, não vejo como, num artigo de lei, em um capítulo que versa sobre a extinção do crédito tributário e numa seção que trata do pagamento, forma de extinção do crédito tributário, a expressão “o crédito não integralmente pago” possa ser interpretado em acepção outra que não a técnica, de crédito tributário. Sobre a alegada contradição entre a parte inicial e a parte final do dispositivo que essa interpretação ensejaria, penso que tal imperfeição de fato existe. Mas se trata aqui de situação como a que me referi nas considerações iniciais, em que as limitações da linguagem ou mesmo as imperfeições técnicas que o processo legislativo está sujeito produzem textos imprecisos, às vezes obscuros ou contraditórios, mas que tais ocorrências não permitem concluir que a melhor interpretação do texto é aquela que harmoniza a própria estrutura gramatical do texto, e não aquela que melhor harmoniza esse dispositivo com os demais que integram o diploma legal. É interessante notar que em outro artigo do mesmo CTN o legislador incorreu na mesma aparente contradição ao se referir conjuntamente a crédito tributário e a penalidade. Refirome ao art. 157, segundo o qual “a imposição de penalidade não ilide o pagamento integral do crédito tributário”. Uma interpretação apressada poderia levar à conclusão de que a penalidade não é parte do crédito tributário, pois a sua imposição não poderia excluir o pagamento dela mesma. Porém, essa inconsistência gramatical não impediu que a doutrina, de forma uníssona, embora a remarcando, mas não por causa dela, extraísse desse texto a prescrição de que a penalidade não é substitutiva do próprio tributo, estremando nesse ponto o Direito Tributário de certas normas do Direito Civil em que penalidade é substitutiva da obrigação; de que o fato de se aplicar uma penalidade pelo não pagamento do tributo, por exemplo, não dispensa o infrator do pagamento do próprio tributo. [...] Não é preciso grande esforço de interpretação, portanto, para se concluir que o crédito tributário compreende o tributo e a penalidade pecuniária, interpretação que harmoniza os diversos dispositivos do CTN, ao contrário da tese oposta. Acrescentese, supletivamente, que, como se verá com detalhes mais adiante, a legislação ordinária de há muito vem prevendo a incidência dos juros sobre a multa de ofício, sem que se tenha notícia da invalidação dessas normas pelo Poder Judiciário, por falta de fundamento de validade. Concluo, assim, no sentido de que o art. 161 do CTN autoriza a cobrança de juros sobre a multa de ofício. Porém, conforme disposto no seu parágrafo primeiro, esses deverão ser calculados à taxa de 1% ao mês, salvo se lei dispuser de modo diverso, Fl. 10102DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.103 111 o que introduz a segunda questão: a da existência ou não de lei prevendo a incidência de juros sobre a multa de ofício com base na taxa Selic. Argumentam alguns, de outra banda, que o art. 161, caput, do CTN, ao ressalvar a possibilidade de "imposição de penalidades cabíveis" evidenciaria que a referência a "crédito não integralmente pago no vencimento" diz respeito, apenas, ao tributo não recolhido. Cumpre, no entanto, esclarecer que tal ressalva revela, na verdade, que o artigo em tela prestase a permitir a aplicação de multas de caráter moratório em decorrência da impontualidade no pagamento do tributo. Logo, à luz do caput do art. 161 do CTN, não incidem juros de mora sobre multa de mora, logicamente, quando for o caso de sua aplicação. Agora, quanto à multa de ofício, cuja causa não reside na mera impontualidade, esta compõe o crédito devido e, por consequência, sofre a incidência dos juros de mora. Corroborando o entendimento de que o crédito e a obrigação tributária são compostos pelo tributo devido e pelas penalidades eventualmente exigíveis, em 1º de setembro de 2009, a 2ª Turma do Superior Tribunal de Justiça STJ assim decidiu nos autos do Recurso Especial nº 1.129.990/PR, sob a condução do Ministro Castro Meira: TRIBUTÁRIO. MULTA PECUNIÁRIA. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA. LEGITIMIDADE. 1. É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário. 2. Recurso especial provido. Analisouse, no caso, norma estadual questionada sob o argumento de que a multa por inadimplemento de ICMS não integraria o crédito tributário. Interpretando o art. 161 do CTN em conjunto com os arts. 113 e 139 do CTN, o Ministro concluiu que o crédito e a obrigação tributária são compostos pelo tributo devido e pelas penalidades eventualmente exigíveis e, tendo em conta que o art. 161 do CTN ao se referir ao crédito, está tratando de crédito tributário, concluiu que referido dispositivo autoriza a exigência de juros de mora sobre multas. Este foi, aliás, o entendimento da 1ª Turma do Superior Tribunal de Justiça STJ, como se vê no julgamento do Agravo Regimental no Recurso Especial nº 1.335.688/PR, em 4/12/2012, Relator Min. Benedito Gonçalves: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: "É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário." (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min.Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. 2. Agravo regimental não provido Vale destacar o seguinte trecho da decisão: Quanto ao mérito, registrou o acórdão proferido pelo TRF da 4ª Região à fl. 163: "... os juros de mora são devidos para compensar a demora no pagamento. Verificado o inadimplemento do tributo, é possível a aplicação da multa punitiva que passa a integrar o crédito fiscal, ou seja, o montante que o contribuinte deve recolher ao Fisco. Se ainda assim há atraso na quitação da dívida, os juros de mora devem incidir sobre a totalidade do débito, inclusive a multa que, neste momento, constitui crédito titularizado pela Fazenda Pública, não se distinguindo da exação Fl. 10103DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.104 112 em si para efeitos de recompensar o credor pela demora no pagamento."(grifo nosso) Em julgado recente, a 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais decidiu pela incidência de juros de mora sobre a multa de ofício proporcional, conforme se verifica a partir da ementa do Acórdão nº 9101002.514, de 13 de dezembro de 2016, do qual foi relator o Conselheiro Rafael Vidal de Araújo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2004, 2005, 2006 [...] JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. Por ser parte integrante do crédito tributário, a multa de ofício sofre a incidência dos juros de mora, conforme estabelecido no art. 161 do CTN. Precedentes do STJ. Argumentase, ainda, que a previsão específica de incidência de juros de mora sobre multas isoladas contida no art. 43 da Lei nº 9.430, de 1996, seria desnecessária caso o art. 61, § 3º, da mesma lei incluísse as multas, uma vez que elas (multas isoladas) já representariam os "débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal" referidos pelo § 3º do art. 61 em tela. Cumpre observar, no entanto, que o art. 43 em questão trata da hipótese de "Auto de Infração Sem Tributo", cuja designação, por si só, já evidencia dúvida acerca de sua integração ao conceito de "débitos decorrentes de tributos e contribuições" e a consequente necessidade de disposição legal específica para determinar a aplicação de juros de mora sobre as multas aplicadas em tais circunstâncias, distintamente do que ocorre com as multas de ofício proporcionais, sempre exigidas em conjunto com os tributos ou contribuições não declarados e não recolhidos, em claro vínculo de decorrência. Aliás, como bem observa o Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal no voto condutor do Acórdão nº 9303004.407: Tanto é assim, que a própria Lei 9.430/96, em seu art. 43, prevê a incidência de juros Selic quando a multa de ofício é lançada de maneira isolada. Não faria sentido a incidência dos juros somente sobre a multa de ofício exigida isoladamente, pois ambas tem a mesma natureza tributária. De outra banda, é irrelevante o fato destacado pela Recorrente de o art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não fazer parte do capítulo dessa lei que versa os "procedimentos de fiscalização". Se esse dispositivo se encontra no capítulo que versa sobre "acréscimos moratórios", trata dos “débitos decorrentes de tributos e contribuições”, o que abarca, como se viu, a integralidade do crédito tributário, incluindo a multa de oficio proporcional punitiva. Por fim, conforme o antes transcrito § 3º do art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, a taxa aplicável ao débitos de que aqui se trata, aí incluídos, como se viu, os decorrentes da aplicação de multa de ofício, é aquela "a que se refere o § 3º do art. 5º", qual seja a taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC. Vejase: Art. 5º (...) §3º As quotas do imposto serão acrescidas de juros equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, para títulos federais, acumulada mensalmente, calculados a partir do primeiro dia do segundo mês subseqüente ao do encerramento do período de apuração até o último dia do mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento. Fl. 10104DF CARF MF Processo nº 16561.720042/201114 Acórdão n.º 9101002.759 CSRFT1 Fl. 10.105 113 Pelo exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Especial da Contribuinte no que se refere à presente matéria, mantendose a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Fl. 10105DF CARF MF
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