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Numero do processo: 13889.000240/2007-92
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Feb 25 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Apr 10 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/03/2002 a 30/06/2002
CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO POSTERIOR A 09/06/2015. DIREITO NEGADO. JURISPRUDÊNCIA STF. RE 566.621/RS E SUMULA CARF 91.
Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplica-se o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador.
Numero da decisão: 9202-007.586
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo.
Nome do relator: RITA ELIZA REIS DA COSTA BACCHIERI
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/03/2002 a 30/06/2002 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO POSTERIOR A 09/06/2015. DIREITO NEGADO. JURISPRUDÊNCIA STF. RE 566.621/RS E SUMULA CARF 91. Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplica-se o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo.
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PEDIDO DE RESTITUIÇÃO POSTERIOR A 09/06/2015. DIREITO NEGADO. JURISPRUDÊNCIA STF. RE 566.621/RS E SUMULA CARF 91. Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 88 9. 00 02 40 /2 00 7- 92 Fl. 180DF CARF MF 2 Relatório Adotando o relatório do acórdão recorrido, esclareço que tratase de Requerimento de Restituição da Retenção – RRR, formalizado em 02/10/2007, no qual a Recorrente pleiteia a restituição de contribuição referente às competências 03/2002, 04/2002 e 06/2002, em razão de indébito caracterizado por retenções realizadas com base no artigo 31 da Lei n. 8.212/91 e não compensadas na própria competência. Após o trâmite processual, a 4ª Câmara / 3ª Turma Ordinária deu provimento ao recurso voluntário para, aplicando ao caso do entendimento vinculante do REsp 1.002.932/SP e do RE 566.621, e considerado que os pagamentos ocorreram antes da entrada em vigor da Lei Complementar nº. 118/05, reconhecer ao contribuinte o direito à restituição. O acórdão 2403001.531 recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/03/2002 a 30/06/2002 PREVIDENCIÁRIO. PRESCRIÇÃO. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CINCO MAIS CINCO. Nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, para os pagamentos efetuados antes da vigência da LC n. 118/05, o direito de pleitear a restituição de tributo pago a maior extingue se em 5 (cinco) anos, contados a partir da homologação tácita ou expressa, nos termos do art. 168, I, do CTN. Recurso Voluntário Provido Após negativa de conhecimento dos seus embargos de declaração, a Fazenda Nacional interpõe Recurso Especial. Cintado como paradigma os acórdãos 110300.588 e 210101.894, suscita que "enquanto o acórdão recorrido entendeu pelo prazo decenal para pedido de restituição efetuado após a vigência da LC 118/2005, os acórdãos paradigmas seguiram a orientação do STF de modo congruente com as diretrizes impostas quanto às formas diferenciadas de contagem do prazo prescricional, em observância à vacatio legis da Lei Complementar nº 118/2005, concluindo ser aplicável o prazo de cinco anos contados de cada pagamento indevido". Contrarrazões do Contribuinte pugnando pela manutenção do acórdão por seus próprios fundamentos. É o relatório. Voto Conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Relatora O recurso preenche os requisitos formais exigidos razão pela qual, ratifico os fundamentos do despacho de admissibilidade e dele conheço. Conforme muito bem apontado pela Recorrente a matéria em questão já foi pacificada pelo Supremo Tribunal Federal por meio do RE 566.621/RS julgado em sede de Fl. 181DF CARF MF Processo nº 13889.000240/200792 Acórdão n.º 9202007.586 CSRFT2 Fl. 3 3 repercussão geral. Para o tribunal o prazo prescricional para restituição/compensação de tributos sujeitos ao lançamento por homologação cujos pedidos tenham sido protocolizados antes da vigência da Lei Complementar nº 118/2005 estão sujeitos ao prazo de 10 anos contados do fato gerador. Vale citar a ementa do acórdão: DIREITO TRIBUTÁRIO – LEI INTERPRETATIVA – APLICAÇÃO RETROATIVA DA LEI COMPLEMENTAR Nº 118/2005 – DESCABIMENTO – VIOLAÇÃO À SEGURANÇA JURÍDICA – NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DA VACACIO LEGIS – APLICAÇÃO DO PRAZO REDUZIDO PARA REPETIÇÃO OU COMPENSAÇÃO DE INDÉBITOS AOS PROCESSOS AJUIZADOS A PARTIR DE 9 DE JUNHO DE 2005. Quando do advento da LC 118/05, estava consolidada a orientação da Primeira Seção do STJ no sentido de que, para os tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo para repetição ou compensação de indébito era de 10 anos contados do seu fato gerador, tendo em conta a aplicação combinada dos arts. 150, § 4º, 156, VII, e 168, I, do CTN. A LC 118/05, embora tenha se autoproclamado interpretativa, implicou inovação normativa, tendo reduzido o prazo de 10 anos contados do fato gerador para 5 anos contados do pagamento indevido. Lei supostamente interpretativa que, em verdade, inova no mundo jurídico deve ser considerada como lei nova. Inocorrência de violação à autonomia e independência dos Poderes, porquanto a lei expressamente interpretativa também se submete, como qualquer outra, ao controle judicial quanto à sua natureza, validade e aplicação. A aplicação retroativa de novo e reduzido prazo para a repetição ou compensação de indébito tributário estipulado por lei nova, fulminando, de imediato, pretensões deduzidas tempestivamente à luz do prazo então aplicável, bem como a aplicação imediata às pretensões pendentes de ajuizamento quando da publicação da lei, sem resguardo de nenhuma regra de transição, implicam ofensa ao princípio da segurança jurídica em seus conteúdos de proteção da confiança e de garantia do acesso à Justiça. Afastandose as aplicações inconstitucionais e resguardandose, no mais, a eficácia da norma, permitese a aplicação do prazo reduzido relativamente às ações ajuizadas após a vacatio legis, conforme entendimento consolidado por esta Corte no enunciado 445 da Súmula do Tribunal. O prazo de vacatio legis de 120 dias permitiu aos contribuintes não apenas que tomassem ciência do novo prazo, mas também que ajuizassem as ações necessárias à tutela dos seus direitos. Inaplicabilidade do art. 2.028 do Código Civil, pois, não havendo lacuna na LC 118/08, que pretendeu a aplicação do novo prazo na maior extensão possível, descabida sua aplicação por analogia. Além disso, não se trata de lei geral, tampouco impede iniciativa legislativa em contrário. Reconhecida a inconstitucionalidade art. 4º, segunda parte, da LC 118/05, considerandose válida a aplicação do novo prazo de 5 anos tãosomente às ações ajuizadas após o decurso da vacatio legis de 120 dias, ou seja, a partir de 9 de junho de 2005. Fl. 182DF CARF MF 4 Aplicação do art. 543B, § 3º, do CPC aos recursos sobrestados. Recurso extraordinário desprovido. Adotando o entendimento acima este Conselho Administrativo editou, em sessão plenária de 09/12/2003, a Súmula CARF nº 91 que possui o seguinte teor: Súmula CARF nº 91: Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. Diante do exposto e ainda considerando o art. 45, inciso VI do Regimento Interno deste Conselho, devese negar ao contribuinte o direito a restituição de pagamentos efetuados antes de 02/10/2002, uma vez que o pedido em questão foi apresentado em 02/10/2007. Assim, voto por dar provimento ao Recurso Especial. (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Fl. 183DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10218.900415/2009-30
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 13 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 08 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2006
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE DO DESPACHO DECISÓRIO.
Rejeita-se preliminar de nulidade do Despacho Decisório, quando não configurado vício ou omissão de que possa ter decorrido o cerceamento do direito de defesa
ESTIMATIVAS. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. COMPENSAÇÃO. ADMISSIBILIDADE.
Somente são dedutíveis do IRPJ apurado no ajuste anual as estimativas pagas em conformidade com a lei. O pagamento a maior de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento e, com o acréscimo de juros à taxa SELIC, acumulados a partir do mês subsequente ao do recolhimento indevido, pode ser compensado, mediante apresentação de DCOMP. Eficácia retroativa da Instrução Normativa RFB n° 900/2008.
RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. ANÁLISE INTERROMPIDA EM ASPECTOS PRELIMINARES.
Inexiste reconhecimento implícito de direito creditório quando a apreciação da restituição/compensação restringe-se a aspectos preliminares, como a possibilidade do pedido. A homologação da compensação ou deferimento do pedido de restituição, uma vez superada esta preliminar, depende da análise da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pela autoridade administrativa que jurisdiciona a contribuinte.
Numero da decisão: 1402-003.680
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário com base na súmula CARF nº 84 (Revisada) para afastar a vedação da compensação pretendida pela recorrente e determinar o retorno dos autos à Unidade Local para nova análise do direito creditório pleiteado pela contribuinte. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 10218.900414/2009-95, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edeli Pereira Bessa, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Paulo Mateus Ciccone.
Nome do relator: PAULO MATEUS CICCONE
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camara_s : Quarta Câmara
ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2006 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE DO DESPACHO DECISÓRIO. Rejeita-se preliminar de nulidade do Despacho Decisório, quando não configurado vício ou omissão de que possa ter decorrido o cerceamento do direito de defesa ESTIMATIVAS. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. COMPENSAÇÃO. ADMISSIBILIDADE. Somente são dedutíveis do IRPJ apurado no ajuste anual as estimativas pagas em conformidade com a lei. O pagamento a maior de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento e, com o acréscimo de juros à taxa SELIC, acumulados a partir do mês subsequente ao do recolhimento indevido, pode ser compensado, mediante apresentação de DCOMP. Eficácia retroativa da Instrução Normativa RFB n° 900/2008. RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. ANÁLISE INTERROMPIDA EM ASPECTOS PRELIMINARES. Inexiste reconhecimento implícito de direito creditório quando a apreciação da restituição/compensação restringe-se a aspectos preliminares, como a possibilidade do pedido. A homologação da compensação ou deferimento do pedido de restituição, uma vez superada esta preliminar, depende da análise da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pela autoridade administrativa que jurisdiciona a contribuinte.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário com base na súmula CARF nº 84 (Revisada) para afastar a vedação da compensação pretendida pela recorrente e determinar o retorno dos autos à Unidade Local para nova análise do direito creditório pleiteado pela contribuinte. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 10218.900414/2009-95, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edeli Pereira Bessa, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Paulo Mateus Ciccone.
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NULIDADE DO DESPACHO DECISÓRIO. Rejeitase preliminar de nulidade do Despacho Decisório, quando não configurado vício ou omissão de que possa ter decorrido o cerceamento do direito de defesa ESTIMATIVAS. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. COMPENSAÇÃO. ADMISSIBILIDADE. Somente são dedutíveis do IRPJ apurado no ajuste anual as estimativas pagas em conformidade com a lei. O pagamento a maior de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento e, com o acréscimo de juros à taxa SELIC, acumulados a partir do mês subsequente ao do recolhimento indevido, pode ser compensado, mediante apresentação de DCOMP. Eficácia retroativa da Instrução Normativa RFB n° 900/2008. RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. ANÁLISE INTERROMPIDA EM ASPECTOS PRELIMINARES. Inexiste reconhecimento implícito de direito creditório quando a apreciação da restituição/compensação restringese a aspectos preliminares, como a possibilidade do pedido. A homologação da compensação ou deferimento do pedido de restituição, uma vez superada esta preliminar, depende da análise da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pela autoridade administrativa que jurisdiciona a contribuinte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário com base na súmula CARF nº 84 (Revisada) para AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 21 8. 90 04 15 /2 00 9- 30 Fl. 168DF CARF MF Processo nº 10218.900415/200930 Acórdão n.º 1402003.680 S1C4T2 Fl. 3 2 afastar a vedação da compensação pretendida pela recorrente e determinar o retorno dos autos à Unidade Local para nova análise do direito creditório pleiteado pela contribuinte. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 10218.900414/200995, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Rogério Borges, Caio Cesar Nader Quintella, Edeli Pereira Bessa, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Paulo Mateus Ciccone. Relatório Tratase de julgamento de Recurso Voluntário interposto face v. acórdão da DRJ que julgou improcedente a manifestação de inconformidade da Recorrente. Tratase de declaração de compensação transmitida em 31/07/2006 pela contribuinte acima identificada, na qual indicou crédito de R$ R$ 83.820,88 resultante de pagamento indevido ou a maior originário de DARF relativo à receita de código 2362, do período de apuração de 10/2005, no valor originário de R$ R$ 83.820,88 para compensar com débito de R$ R$ 18.110,46. A Delegacia de origem, em análise datada de 09.04.2009, asseverou que "analisadas as informações prestadas no documento (...), foi constatada a improcedencia do crédito informado no PER/DCOMP por tratarse de pagamento a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período". Assim, não homologou a compensação declarada. Cientificada em 08/05/2009, a interessada apresentou, em 05.06.2009, manifestação de inconformidade na qual alega: a) Tanto a descrição dos fatos como o enquadramento legal estão equivocados, pois os valores apontados no PER/DCOMP não foram antecipações, mas recolhimentos indevidos ou a Fl. 169DF CARF MF Processo nº 10218.900415/200930 Acórdão n.º 1402003.680 S1C4T2 Fl. 4 3 maior, efetuados com código incorreto, fato que evidencia a total improcedência do enquadramento legal indicado pela fiscalização, que utilizou até mesmo dispositivo inexistente na época da compensação. b) O débito da compensação não homologada deverá permanecer com a exigibilidade suspensa. c) Ainda que se tratase de antecipação, a vedação trazida no bojo da MP 449/08, que introduziu dispositivo antes inexistente no art. 74 da Lei 9.430/96, somente poderia surtir efeito posterior a sua vigência, mas nunca atingir fatos pretéritos. Refere e transcreve decisão judicial, concluindo que deve prevalecer o entendimento no sentido de que não são aplicáveis limitações à compensação relativa a valores recolhidos antes da lei limitadora, aduzindo que no caso da presente manifestação de inconformidade, tanto os créditos em favor da requerente quanto os débitos que se quer quitar são de datas anteriores à MP 449/08. Ainda que se admita que a lei possa limitar a utilização de crédito pelo contribuinte, mesmo assim, somente depois que a lei limitadora entrar em vigor é que a restrição começará a valer, mas nunca antes da lei estabelecer as limitações ao uso do crédito do contribuinte. Após analisar a documentação, a DRJ proferiu v. acórdão mantendo integralmente o decidido no r. Despacho Decisório, nos seguintes termos: Afastou as questões relativas a erro na Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal. Afastou o requerimento de suspensão de exigibilidade do crédito em discussão. Afastou a aplicação de jurisprudência proferida pelo TRF em processos de terceiros. Em relação ao mérito: No caso presente, temse que ao efetivar sua compensação a interessada indicou como crédito pagamento correspondente a estimativas mensais. Ocorre que, nos termos da legislação relativa à apuração do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas (IRPJ), aplicável à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) por força do art. 30 da Lei n° 9.430/19962 os recolhimentos efetuados pelas pessoas jurídicas optantes pelo lucro real, no decorrer dos meses do ano civil, caracterizam, em princípio, antecipações do tributo devido no final do período anual de apuração. Ou seja, o sujeito passivo, ao exercer a opção prevista no artigo 2o da Lei n° 9.430/1996, fica obrigado aos recolhimentos mensais por estimativa, com base na receita Fl. 170DF CARF MF Processo nº 10218.900415/200930 Acórdão n.º 1402003.680 S1C4T2 Fl. 5 4 bruta, devendo, ao final do anocalendário, proceder à apuração do tributo devido, oportunidade em que poderá, então, deduzir os valores anteriormente recolhidos por estimativa. Transcrevase, acerca do tema, o disposto nos artigos 220 a 232, do Regulamento do Imposto de Renda RIR/1999, como seguem." [...] Logo, a pessoa jurídica sujeita à tributação com base no lucro real, que opte pelo recolhimento de estimativas, poderá suspender ou reduzir o pagamento do tributo devido em cada mês, desde que demonstre, por intermédio de balanços ou balancetes mensais transcritos no Livro Diário, que o valor acumulado já pago excede o valor do tributo calculado com base no lucro real do período em curso. O levantamento de balanços ou balancetes mensais equivale ao próprio ajuste efetuado entre o mês de janeiro e o mês de levantamento do balanço ou balancete (comparandose o tributo calculado com base no lucro real do período de referência de janeiro até o mês de levantamento do balanço/balancete com o tributo já recolhido). Notese que ao final do anocalendário, acaso o contribuinte apure saldo negativo do tributo, poderá pleitear a restituição ou a compensação deste mesmo saldo, nos termos e condições constantes do art. 6o , § Io , da Lei n° 9.430/19963. Constatase, pois, que a regra geral é no sentido de que o contribuinte leve os valores recolhidos a título de estimativa à composição do saldo do IRPJ/CSLL apurado em 31 de dezembro. Em assim sendo, o recolhimento de estimativas mensais, exatamente nos valores calculados segundo os critérios determinados pela Lei n° 9.430/1996, não pode ser considerado, a priori, como pagamento indevido ou a maior, mesmo quando haja apuração de prejuízo fiscal ao final do exercício (este sim passível de repetição). Assinalese que o art. 10 da IN SRF n° 460, de 18/10/2004, e o art. 10 da IN SRF n° 600, de 28/12/2005, enquanto vigentes, determinaram que o pagamento indevido ou a maior de imposto de renda ou de CSLL, a título de estimativa mensal, somente poderia ser utilizado na dedução do IRPJ ou da CSLL devida ao final do período de apuração em que houve a retenção ou pagamento indevido ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou de CSLL do período. Segue transcrita a disposição contida na IN SRF n° 600/2005. É o relatório Voto Conselheiro Paulo Mateus Ciccone, Relator Fl. 171DF CARF MF Processo nº 10218.900415/200930 Acórdão n.º 1402003.680 S1C4T2 Fl. 6 5 O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1402003.679, de 13/12/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10218.900414/2009 95, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1402003.679): Recurso Voluntário: O Recurso Voluntário é tempestivo, trata de matéria de competência desta Corte Administrativa e preenche todos os demais requisitos de admissibilidade previstos em lei, portanto, dele tomo conhecimento. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, o que for decidido no presente litígio será aplicado aos demais processos vinculados. Segundo o r. Despacho Decisório proferido nos autos do processo em epigrafe, o crédito que a Recorrente pretende compensar não foi homologado nos seguintes termos: Analisadas as informações prestadas no documento acima identificado, foi constatada a improcedência do crédito informado no PER/DCOMP por tratarse de pagamento a título de estimativa mensal de pessoa jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) devido ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período. Tal fundamentação do r. Despacho Decisório não se coaduna com o entendimento do verbete da Súmula 84 do E. CARF/MF que descreve o seguinte: É possível a caracterização de indébito, para fins de restituição ou compensação, na data do recolhimento de estimativa. (Súmula revisada conforme Ata da Sessão Extraordinária de 03/09/2018, DOU de 11/09/2018). Esta mesma situação dos autos, já foi analisada nos processos cujas decisões fundamentaram a elaboração do verbete da Súmula CARF/MF 84, conforme pode se verificar nas ementas de alguns dos v. acórdão abaixo colacionadas: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE DO DESPACHO DECISÓRIO. Fl. 172DF CARF MF Processo nº 10218.900415/200930 Acórdão n.º 1402003.680 S1C4T2 Fl. 7 6 Rejeitase preliminar de nulidade do Despacho Decisório, quando não configurado vício ou omissão de que possa ter decorrido o cerceamento do direito de defesa. ESTIMATIVAS. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. COMPENSAÇÃO. ADMISSIBILIDADE. Somente são dedutíveis do IRPJ apurado no ajuste anual as estimativas pagas em conformidade com a lei. O pagamento a maior de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento e, com o acréscimo de juros à taxa SELIC, acumulados a partir do mês subsequente ao do recolhimento indevido, pode ser compensado, mediante apresentação de DCOMP. Eficácia retroativa da Instrução Normativa RFB n° 900/2008. RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. ANÁLISE INTERROMPIDA EM ASPECTOS PRELIMINARES. Inexiste reconhecimento implícito de direito creditório quando a apreciação da restituição/compensação restringe se a aspectos preliminares, como a possibilidade do pedido. A homologação da compensação ou deferimento do pedido de restituição, uma vez superada esta preliminar, depende da análise da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pela autoridade administrativa que jurisdiciona a contribuinte. Recurso Voluntário Provido em Parte. Desta forma, de acordo com a jurisprudência consolidada deste E. Tribunal acima colacionada, não resta dúvida de que merece reforma o v. acórdão (assim como o r. Despacho Decisório), vez que lícita e viável a postura procedimental da Recorrente. Assim, como em momento algum foi feita a devida analise do direito creditório em discussão, relativamente a alegação de recolhimento a maior/indevido de IRPJ no respectivo período de apuração, entendo que os autos devem retornar a Unidade de Origem, para verificar a existência do crédito objeto dos autos. Diante do exposto, entendo que o r. Despacho Decisório e o v. acórdão recorrido devem ser reformados, eis que a fundamentação de ambas decisões para não homologar a compensação em análise contraria a Súmula 84 deste E. CARF/MF, devendo os autos retornarem para a Unidade de Origem para que se verifique a existência do crédito que a Recorrente pretende compensar. É como voto. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por dar Fl. 173DF CARF MF Processo nº 10218.900415/200930 Acórdão n.º 1402003.680 S1C4T2 Fl. 8 7 provimento parcial ao recurso voluntário com base na súmula CARF nº 84 (Revisada) para afastar a vedação da compensação pretendida pela recorrente e determinar o retorno dos autos à Unidade Local para nova análise do direito creditório pleiteado pela contribuinte. (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Fl. 174DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.944982/2013-61
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 29 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Apr 24 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 3201-001.556
Decisão:
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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decisao_txt : Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
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(assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior. Relatório A interessada apresentou pedido de ressarcimento de contribuição não cumulativa, cumulado com compensação de débitos próprios. O pedido foi indeferido pela unidade de origem e não foram homologadas as compensações vinculadas. Irresignada, a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, onde afirma que houve erros graves nas planilhas elaboradas pela fiscalização, contesta as glosas efetuadas e defende a legitimidade de seu pleito. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Florianópolis julgou improcedente a manifestação de inconformidade, nos termos do Acórdão nº 07039.487. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 80 .9 44 98 2/ 20 13 -6 1 Fl. 1384DF CARF MF Processo nº 10880.944982/201361 Resolução nº 3201001.556 S3C2T1 Fl. 3 2 Inconformada, a contribuinte apresentou, no prazo legal, o recurso voluntário ora em apreço, por meio do qual alega, em síntese que: As glosas sobre as aquisições de sebo bovino e crédito presumido foram objeto de contestação em processo administrativo próprio, e o pleito já foi lá deferido; O acórdão discutido deixou de se manifestar sobre a oposição a determinadas glosas, de tal sorte que deve ser anulado; Não se justificam as glosas mantidas em relação aos itens especificados na reclamação.; Deve incidir taxa Selic sobre o ressarcimento. É o relatório. Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução nº 3201001.553, de 29 de janeiro de 2019, proferido no julgamento do processo 10880.944979/201348, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevemse, como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão (Resolução nº 3201001.553): "Presentes os demais requisitos de admissibilidade, entendemos que o recurso deve ser conhecido. A Recorrente apresentou pedido de ressarcimento da Cofins referente ao 1º trimestre 2012 (origem na receita de mercado externo). Indeferido, apresentou manifestação de inconformidade, ao final considerada improcedente pela DRJ (antes de proferido o acórdão recorrido, em face dos argumentos de defesa, a DRJ baixou os autos em diligência, mediante mero despacho. A Informação Fiscal de fls. 1242 e ss. manteve, no entanto, o indeferimento de todo o valor pleiteado). Noticiam os autos que há muitos outros processos do mesmo Recorrente, tratando da mesma matéria: pedidos de ressarcimento. E vemos, também, que, para o mesmo período de apuração, há diferentes processos, pleiteando, separadamente, créditos de PIS/Cofins, com origem em operações do mercado interno, mercado externo e crédito presumido. Nesse contexto, voto por CONVERTER O JULGAMENTO EM DILIGÊNCIA, a fim de que a unidade preparadora reúna todos os processos do mesmo período (mercado interno, mercado externo e crédito presumido), tanto de PIS como de Cofins, ainda que em algum deles já tenha decisão transitado em julgado." Fl. 1385DF CARF MF Processo nº 10880.944982/201361 Resolução nº 3201001.556 S3C2T1 Fl. 4 3 Importante frisar que as situações fática e jurídica presentes no processo paradigma encontram correspondência nos autos ora em análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu por converter o julgamento em diligência, para que a unidade preparadora reúna todos os processos do mesmo período (mercado interno, mercado externo e crédito presumido), tanto de PIS como de Cofins, ainda que em algum deles já tenha decisão transitado em julgado. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 1386DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.003809/2008-87
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Feb 25 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Mar 25 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Ano-calendário: 2005
DÉBITO DECLARADO EM DCOMP. COBRANÇA EM PROCESSO ADMINISTRATIVO PRÓPRIO. LANÇAMENTO INDEVIDO.
Débito declarados em Declaração de Compensação - DCOMP apresentada antes do início da Fiscalização, são considerados como confessados e não devem ser objeto de lançamento de ofício pela Autoridade Fiscal, ainda mais quando já se encontram em análise e exigência em procedimento próprio. A declaração do sujeito passivo quanto à existência de obrigação tributária constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do referido crédito, sendo improcedente o lançamento dos referidos valores por parte do Fisco.
Numero da decisão: 9202-007.584
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
Assinado digitalmente
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício.
Assinado digitalmente
Pedro Paulo Pereira Barbosa - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício).
Nome do relator: PEDRO PAULO PEREIRA BARBOSA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF Ano-calendário: 2005 DÉBITO DECLARADO EM DCOMP. COBRANÇA EM PROCESSO ADMINISTRATIVO PRÓPRIO. LANÇAMENTO INDEVIDO. Débito declarados em Declaração de Compensação - DCOMP apresentada antes do início da Fiscalização, são considerados como confessados e não devem ser objeto de lançamento de ofício pela Autoridade Fiscal, ainda mais quando já se encontram em análise e exigência em procedimento próprio. A declaração do sujeito passivo quanto à existência de obrigação tributária constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do referido crédito, sendo improcedente o lançamento dos referidos valores por parte do Fisco.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento. Assinado digitalmente Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em exercício. Assinado digitalmente Pedro Paulo Pereira Barbosa - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício).
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Anocalendário: 2005 DÉBITO DECLARADO EM DCOMP. COBRANÇA EM PROCESSO ADMINISTRATIVO PRÓPRIO. LANÇAMENTO INDEVIDO. Débito declarados em Declaração de Compensação DCOMP apresentada antes do início da Fiscalização, são considerados como confessados e não devem ser objeto de lançamento de ofício pela Autoridade Fiscal, ainda mais quando já se encontram em análise e exigência em procedimento próprio. A declaração do sujeito passivo quanto à existência de obrigação tributária constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do referido crédito, sendo improcedente o lançamento dos referidos valores por parte do Fisco. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. Assinado digitalmente Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício. Assinado digitalmente Pedro Paulo Pereira Barbosa Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 38 09 /2 00 8- 87 Fl. 417DF CARF MF 2 Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). Relatório Cuidase de Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional em face do Acórdão nº 2202003.291, proferido na Sessão de 10 de março de 2016, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Anocalendário: 2005 LANÇAMENTO DE OFÍCIO. CANCELAMENTO. VALOR DECLARADO EM DCOMP, EMBORA NÃO DECLARADO EM DCTF. Deve ser cancelado o lançamento de ofício do imposto, quando resta devidamente comprovado que foi declarado em DCOMP, antes do início do procedimento fiscal, embora não declarado em DCTF. A compensação declarada em DCOMP extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação, e constitui confissão de dívida, sendo instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados. A decisão foi assim registrada: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. O recurso visa rediscutir a seguinte matéria: lançamento de débitos confessados em declaração de compensação apresentada antes do início da fiscalização. Em exame preliminar de admissibilidade, a Presidente da Segunda Câmara, da Segunda Seção do CARF deu seguimento ao apelo, nos termos do Despacho de efls. 408 a 411. Em suas razões recursais a Fazenda Nacional aduz, em síntese, que, nas circunstâncias particulares do caso, em que o crédito foi confessado por meio de DCOMP, não se vislumbra qualquer óbice em que seja efetuado o lançamento; que o fato de ter apresentado Declaração de Compensação não cria vedação à atuação funcional do agente púbico; que no caso de depósito do montante integral a jurisprudência entende da mesma forma que é devido o lançamento; que à luz da jurisprudência que colaciona não se justifica o cancelamento da exigência, posto que a existência de prévia declaração em DCOMP não impede a autoridade fiscal de efetuar o lançamento. Cientificado do Acórdão Recorrido, do Recurso Especial da Procuradoria e do Despacho que lhe deu seguimento em 16/05/2017 (AR, efls. 414), o contribuinte não apresentou Contrarrazões. Fl. 418DF CARF MF Processo nº 19515.003809/200887 Acórdão n.º 9202007.584 CSRFT2 Fl. 3 3 É o relatório. Voto Conselheiro Pedro Paulo Pereira Barbosa Relator O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade. Dele conheço. Quanto ao mérito, a matéria devolvida para análise por este Colegiado cinge se à definição sobre a necessidade/validade de lançamento para exigência de crédito tributário confessado por meio de DCOMP. De fato, é incontroverso que a DCOMOP constitui confissão de dívida dos débitos ali declarados, conforme art. 74, § 6º, da lei nº 9.430, de 1.996. Confirase: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. [...] § 2o A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. [...] § 6o A declaração de compensação constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados. § 7o Não homologada a compensação, a autoridade administrativa deverá cientificar o sujeito passivo e intimálo a efetuar, no prazo de 30 (trinta) dias, contado da ciência do ato que não a homologou, o pagamento dos débitos indevidamente compensados. § 8o Não efetuado o pagamento no prazo previsto no § 7o, o débito será encaminhado à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional para inscrição em Dívida Ativa da União, ressalvado o disposto no § 9º. § 9o É facultado ao sujeito passivo, no prazo referido no § 7o, apresentar manifestação de inconformidade contra a não homologação da compensação. (Destaquei) Ora, embora seja complexa a natureza jurídica do lançamento tributário, é incontroverso o fato de que uma de suas principais finalidades é tornar exigível o crédito Fl. 419DF CARF MF 4 tributário. Isto é, embora a obrigação tributária nasça com a ocorrência do fato gerador, o crédito correspondente somente é exigível após o lançamento. O Sistema Tributário Nacional, todavia, certamente em nome de uma melhor funcionalidade do sistema, instituiu a chamada modalidade do lançamento por homologação, em que transfere para o próprio contribuinte o ônus de apurar o tributo devido e realizar o seu pagamento, independentemente de qualquer iniciativa por parte da autoridade administrativa, nos termos do art. 150, do CTN. Nesses casos, não há lançamento a ser feito pela autoridade administrativa, senão no caso de "revisão" do procedimento de apuração realizado pelo sujeito passivo, constituindose a apuração feita pelo sujeito passivo e informada em declaração própria por ele apresentada, confissão de dívida, suficiente para que o Fisco proceda à cobrança. Sem tal revisão, restará homologado o procedimento/pagamento, no prazo de cinco anos a contar do fato gerador, nos termos do § 4º, do mesmo art. 150. Pois bem, sendo a DCOMP instrumento de confissão de dívida, penso que operase em relação aos débitos nela declarados o mesmo que nos demais casos de lançamento por homologação: é instrumento suficiente à cobrança do crédito nela declarado, sendo desnecessário e indevido o lançamento. Essa questão já foi apreciada pela 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, que adotou esse mesmo entendimento, conforme Acórdão nº 9303003.897, proferido na Sessão de 19 de maio de 2016, de relatoria da Conselheira Vanessa Marini Cecconello, assim ementado: DÉBITO DECLARADO EM DCOMP. COBRANÇA EM PROCESSO ADMINISTRATIVO PRÓPRIO. LANÇAMENTO INDEVIDO. Débito declarados em declaração de compensação DCOMP apresentada antes do início da Fiscalização, são considerados como confessados e não devem ser objeto de lançamento de ofício pela Autoridade Fiscal, ainda mais quando já se encontram em análise e exigência em procedimento próprio. A declaração do Sujeito Passivo quanto à existência de obrigação tributária constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do referido crédito, sendo improcedente o lançamento dos referidos valores por parte do Fisco. Improcedente, portanto, o lançamento referente a débitos confessados em DCOMP, sem prejuízo do prosseguimento da cobrança em relação aos débitos confessados. Ante o exposto, conheço do recurso e, no mérito, negolhe provimento. Assinar digitalmente Pedro Paulo Pereira Barbosa Relator Fl. 420DF CARF MF Processo nº 19515.003809/200887 Acórdão n.º 9202007.584 CSRFT2 Fl. 4 5 Fl. 421DF CARF MF
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Numero do processo: 13851.001192/2004-34
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 13 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri Mar 29 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 2001
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO NO JULGADO.
Constatada omissão no acórdão, acolhem-se os embargos de declaração para que sejam sanados os vícios apontados.
Numero da decisão: 2201-005.048
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher parcialmente os Embargos de Declaração formalizados pelo contribuinte, para, sem efeitos infringentes, sanar a omissão apontada no Acórdão nº 392-00.068, de 18 de novembro de 2008, nos termos do voto da relatora.
Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Presidente
Débora Fófano dos Santos - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Débora Fófano dos Santos, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Douglas Kakazu Kushiyama, Sheila Aires Cartaxo Gomes (Suplente Convocada), Marcelo Milton da Silva Risso e Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente). Ausente o conselheiro Daniel Melo Mendes Bezerra.
Nome do relator: DEBORA FOFANO
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OMISSÃO NO JULGADO. Constatada omissão no acórdão, acolhemse os embargos de declaração para que sejam sanados os vícios apontados. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher parcialmente os Embargos de Declaração formalizados pelo contribuinte, para, sem efeitos infringentes, sanar a omissão apontada no Acórdão nº 39200.068, de 18 de novembro de 2008, nos termos do voto da relatora. Carlos Alberto do Amaral Azeredo Presidente Débora Fófano dos Santos Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Débora Fófano dos Santos, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Douglas Kakazu Kushiyama, Sheila Aires Cartaxo Gomes (Suplente Convocada), Marcelo Milton da Silva Risso e Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente). Ausente o conselheiro Daniel Melo Mendes Bezerra. Relatório Tratase de embargos de declaração (fls. 170/178) opostos pelo contribuinte com fulcro no artigo 32 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972 e artigo 65 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), aprovado AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 85 1. 00 11 92 /2 00 4- 34 Fl. 203DF CARF MF Processo nº 13851.001192/200434 Acórdão n.º 2201005.048 S2C2T1 Fl. 204 2 pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, alegando omissões no acórdão nº 392 00.068, proferido em sessão de 18 de novembro de 2008, pela Segunda Turma Especial do Terceiro Conselho de Contribuintes (fls. 157/160). O processo referese à crédito tributário lançado de ofício consubstanciado no auto de infração (fls. 04, 26/36), no qual é cobrado o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR, nos termos do artigo 15 da Lei nº 9393/96, apurado em revisão interna da DITR/2001, relativo ao imóvel denominado "Fazenda Tamanduá", localizado no município de Matão SP, com área total de 7.644,1 ha, cadastrado na SRF sob o nº 0.777.6845, no valor de R$ 26.560,00 (vinte e seis mil e cinquenta reais e trinta e dois centavos), acrescido de multa de lançamento de oficio e de juros de mora, calculados até 29/10/2004, perfazendo um crédito tributário total de R$ 60.056,40 (sessenta mil e cinquenta e seis reais e quarenta centavos). Inconformada com o supracitado lançamento tributário, a interessada apresentou Impugnação (fls. 41/47), a qual foi apreciada pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Campo Grande/MS, em sessão de 02 de março de 2007, que proferiu o Acórdão nº 0411.524 1ª Turma da DRJ/CGE (fls. 104/112), julgando procedente o lançamento. Da decisão exarada pelo órgão julgador a quo, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário (fls. 117/128). De acordo com despacho de encaminhamento (fl. 155) o processo foi julgado em sessão plenária de 18/11/2008, com decisão proferida no acórdão nº 39200068, porém sem anexação do referido acórdão ao presentes autos, retornando à 1ª Câmara / 3ª Seção para saneamento. Em despacho s/nº de 17/04/2018, o presidente da 3ª Seção de Julgamento designou, com fundamento no artigo 17, inciso III, do Anexo II à Portaria MF nº 343, de 2015, que aprovou o Regimento Interno do CARF, o conselheiro suplente Marcos Roberto da Silva para formalizar referido acórdão (fl. 156). O acórdão nº 39200.068, de 18 de novembro de 2008, negou provimento ao recurso voluntário (fls. 157/160). Cientificado da decisão o contribuinte opôs embargos de declaração (fls. 170/178). Submetido à análise de admissibilidade, a presidente da 2ª Seção de Julgamento o CARF, por meio do despacho s/nº de 22/11/2018 (fls. 199/201), acolheu "parcialmente os Embargos de Declaração opostos pelo contribuinte, relativamente à alegação de omissão quanto aos requisitos de validade do laudo técnico apresentado". Uma vez que a turma prolatora do acórdão embargado foi extinta, os autos foram redistribuídos e sorteados a esta conselheira. É o relatório. Voto Conselheira Débora Fófano dos Santos Relatora Primeiramente, o recurso é tempestivo uma vez que cientificada do acórdão em 18/07/2018 (fl. 167) os embargos foram opostos em 23/07/2018 (fls. 170/178) com fundamento no artigo 65 do Anexo II do RICARF. O Embargante alegou ter havido no acórdão nº 39200.068 (fls. 157/160) omissão quanto à análise da preliminar de nulidade do lançamento e quanto aos requisitos de Fl. 204DF CARF MF Processo nº 13851.001192/200434 Acórdão n.º 2201005.048 S2C2T1 Fl. 205 3 validade do laudo técnico apresentado. Os embargos de declaração foram acolhidos parcialmente, relativamente à alegação de omissão quanto aos requisitos de validade do laudo técnico apresentado (fls. 199/201). Segue abaixo transcrição da ementa do acórdão embargado: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2001 VALOR DA TERRA NUA. PROVA. Diante da ausência de elementos probatórios convincentes para justificar o Valor da Terra Nua pretendido pelo contribuinte, há que se adotar o VTN fixado pelo Fisco, apurado em consonância com a lei. Recurso Voluntário Negado." Em relação à matéria acolhida, a relatora se manifestou deste modo em seu despacho de admissão de embargos (fls. 200/201): "Quanto à segunda alegação omissão quanto aos requisitos de validade do laudo técnico apresentado a Embargante argumenta que, ao analisar o laudo técnico apresentado, o relator afirmou que "apesar de conter informações a respeito do imóvel, o valor ali registrado não seguiu os requisitos previstos pela ABNTNBR 8799. Outro ponto identificado no laudo refere se as características formais que, apesar de assinado por engenheiro agrônomo, não possuía o respectivo ART". Aduz ainda que o acórdão seria omisso por deixar de especificar qual a base legal ou regulamentar que determinaria o cumprimento das Normas ABNTNBR 8799 para a validade do Laudo Técnico apresentado, bem como a necessidade de apresentação de ART. Destaca que já havia indicado em seu Recurso Voluntário que tais exigências não encontrariam amparo legal na legislação que rege a matéria. Em síntese, a alegação é no sentido de que o acórdão embargado não teria indicado a base legal ou regulamentar que exigiria o cumprimento dos referidos requisitos, para que o laudo apresentado pudesse ser considerado, portanto haveria omissão a esse respeito. Compulsando o voto condutor do acórdão embargado, verifica se que nele se destaca a necessidade de observância de alguns requisitos para a validade do laudo técnico de avaliação, concluindose pela sua inobservância, verbis: O laudo técnico de avaliação para determinação do VTN deve ser acompanhado de cópia da Anotação de Responsabilidade Técnica ART, devidamente registrada no CREA, efetuado por perito (engenheiro civil, agrônomo ou florestal), bem como deve apresentar os requisitos da NBR 8799 da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT, demonstrando os métodos de avaliação e as fontes pesquisadas que levaram o engenheiro a alcançar o valor atribuído ao imóvel. Fl. 205DF CARF MF Processo nº 13851.001192/200434 Acórdão n.º 2201005.048 S2C2T1 Fl. 206 4 Analisando o Laudo Técnico apresentado pela recorrente em sede de impugnação verificase que, apesar de conter informações a respeito do imóvel, o valor ali registrado não seguiu os requisitos previstos pela ABNTNBR 8799. Outro ponto identificado no laudo referese às características formais que, apesar de assinado por engenheiro agrônomo, não possuía o respectivo ART. Com efeito, esses foram os mesmos argumentos da decisão de 1ª instância, contra os quais a ora Embargante apresentou diversas alegações em seu Recurso Voluntário (efls. 125). Assim, verifica se que, em sede recursal, houve o questionamento acerca da ausência de base legal para a exigência imposta pelo Fisco, todavia tal alegação não foi esclarecida no acórdão embargado, confirmandose, assim, a alegada omissão." Quando do julgamento da impugnação a 1ª Turma da DRJ/CGE relatou o que segue (fls. 104/112): "(...) 17. As declarações apresentadas pelos contribuintes estão sujeitas à revisão sistemática, mediante utilização de malhas, objeto da Instrução Normativa IN/SRF n° 094, de 24 de dezembro de 1997. Portanto, no caso do contribuinte ser contemplado pela malha, deve, quando intimado, prestar todo esclarecimento e provas do que,havia declarado. No caso em análise, a contribuinte foi intimada a apresentar Laudo Técnico, emitido por engenheiro agrônomo/florestal para comprovar o Valor da Terra Nua (VTN), de R$ 12.230.560,00, o que representa R$ 1.600,00 para a região agrícola de Araraquara/SP. Em atendimento à solicitação, apenas foi informado pelo representante legal da impugnante que o valor médio do hectare, tomado como base, foi fornecido pelo Instituto de Economia Agrícola e Coordenação de Assistência Técnica IEA/CAT1, de acordo com a orientação da Federação de São Paulo, na circular n° 134/97. (...) 22. Para o caso aqui tratado, a Norma de Execução Conjunta SRF/COTEC/COSAR/COFIS/COSIT n° 9900004, que aprova as instruções para os procedimentos de análise e acertos das Declarações do ITR, Exercício 2001, incidentes em Malha, prevê que, para alterar o valor da terra nua, o interessado deve apresentar laudo técnico de avaliação, acompanhado de cópia da Anotação de Responsabilidade Técnica ART, devidamente registrada no CREA, efetuado por perito (engenheiro civil, agrônomo ou florestal), com os requisitos da NBR 8799 da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT, demonstrando os métodos avaliatórios e as fontes pesquisadas que levaram à convicção do valor atribuído ao imóvel. Alternativamente, admitese a apresentação de Avaliação efetuada pelas Fazendas Públicas Estaduais (Exatorias) ou Municipais, assim como aquelas efetuadas pela EMATER, com Fl. 206DF CARF MF Processo nº 13851.001192/200434 Acórdão n.º 2201005.048 S2C2T1 Fl. 207 5 os mesmos requisitos exigidos para o Laudo Técnico já citado. (grifos nossos) 23. O procedimento utilizado pela fiscalização para apuração do Valor da Terra Nua VTN, com base no SIPT, é com fulcro no art. 14 da Lei n.° 9.393/1996. Utilizase tal procedimento quando, após intimado, o contribuinte não apresenta elementos suficientes para comprovar o valor por ele declarado, da mesma forma que tal valor fica sujeito à revisão quando o contribuinte logra comprovar que seu imóvel possui características que o distingam dos demais imóveis do mesmo município. (...) 26. O Laudo Técnico apresentado (fls. 47/50), apesar de ter sido elaborado por engenheiro agrônomo, encontrase desacompanhada de ART. Embora no documento contenham algumas informações sobre o imóvel, porém não é suficiente para comprovar o valor ali registrado, porque não foram observados os requisitos da ABNT. O profissional limitouse a avaliar o imóvel sem demonstrar a origem dos valores utilizados. (...)" Por sua vez, o ora Embargante insurgiuse no recurso voluntário alegando (fl. 125): "(...) Todavia, o entendimento adotado pela r. decisão recorrida está totalmente equivocado. Isso porque não consta na Lei n. 9393/96 qualquer dispositivo que condicione a validade dos laudos técnicos ao cumprimento das normas da ABNT. Aliás, não consta na referida lei sequer uma norma que condicione a prova do valor da terra nua à elaboração de laudo técnico. Sendo assim, para que possa produzir os respectivos efeitos, basta que o laudo técnico seja elaborado por profissional devidamente qualificado e que ele contenha todas as informações necessárias à comprovação do valor da terra nua. (...)" O artigo 9º do Decreto nº 4.449, de 2002, assim dispõe sobre a identificação do imóvel rural: "Art. 9o A identificação do imóvel rural, na forma do § 3o do art. 176 e do § 3o do art. 225 da Lei no 6.015, de 1973, será obtida a partir de memorial descritivo elaborado, executado e assinado por profissional habilitado e com a devida Anotação de Responsabilidade Técnica ART, contendo as coordenadas dos vértices definidores dos limites dos imóveis rurais, georreferenciadas ao Sistema Geodésico Brasileiro, e com precisão posicional a ser estabelecida em ato normativo, inclusive em manual técnico, expedido pelo INCRA." Fl. 207DF CARF MF Processo nº 13851.001192/200434 Acórdão n.º 2201005.048 S2C2T1 Fl. 208 6 A possibilidade do arbitramento do preço da terra nua está prevista no artigo 14 da Lei nº 9.393, de 19961. A Receita Federal do Brasil, por meio da Portaria SRF nº 447, de 2002, instituiu o Sistema de Preços de Terras – SIPT, alimentado com informações das Secretarias de Agricultura ou entidades correlatas, bem como com os valores da terra nua da base de declarações do ITR. Assim, em tese, o SIPT só é utilizado quando, após intimado, o contribuinte não apresenta elementos suficientes para comprovar o valor por ele declarado. Caso o contribuinte não concorde com os valores do SIPT, deverá apresentar laudo técnico comprovando o valor que entende devido. Os critérios a serem comprovados por laudo são os previstos no artigo 12, § 1º, inciso II da Lei nº 8.629, de 19932 e deverá ser elaborado por profissional habilitado, com ART anotado no CREA. Cumpridas essas exigências legais, o valor do laudo técnico deverá prevalecer sobre o valor arbitrado para a determinação do VTN. O Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea)3 emite as normativas que regulamentam e regem o exercício profissional da Engenharia, Agronomia, Geologia, Geografia e Meteorologia, dos tecnólogos e dos técnicos industriais e 1 Lei nº 9.393, de 19 de dezembro de 1996. Dispõe sobre o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR, sobre pagamento da dívida representada por Títulos da Dívida Agrária e dá outras providências. Art. 14. No caso de falta de entrega do DIAC ou do DIAT, bem como de subavaliação ou prestação de informações inexatas, incorretas ou fraudulentas, a Secretaria da Receita Federal procederá à determinação e ao lançamento de ofício do imposto, considerando informações sobre preços de terras, constantes de sistema a ser por ela instituído, e os dados de área total, área tributável e grau de utilização do imóvel, apurados em procedimentos de fiscalização. § 1º As informações sobre preços de terra observarão os critérios estabelecidos no art. 12, § 1º, inciso II da Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, e considerarão levantamentos realizados pelas Secretarias de Agricultura das Unidades Federadas ou dos Municípios. (...) 2 Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993. Dispõe sobre a regulamentação dos dispositivos constitucionais relativos à reforma agrária, previstos no Capítulo III, Título VII, da Constituição Federal. Art. 12. Considerase justa a indenização que reflita o preço atual de mercado do imóvel em sua totalidade, aí incluídas as terras e acessões naturais, matas e florestas e as benfeitorias indenizáveis, observados os seguintes aspectos: (Redação dada Medida Provisória nº 2.18356, de 2001) I localização do imóvel; (Incluído dada Medida Provisória nº 2.18356, de 2001) II aptidão agrícola; (Incluído dada Medida Provisória nº 2.18356, de 2001) III dimensão do imóvel; (Incluído dada Medida Provisória nº 2.18356, de 2001) IV área ocupada e ancianidade das posses; (Incluído dada Medida Provisória nº 2.18356, de 2001) V funcionalidade, tempo de uso e estado de conservação das benfeitorias. (Incluído dada Medida Provisória nº 2.18356, de 2001) § 1o Verificado o preço atual de mercado da totalidade do imóvel, procederseá à dedução do valor das benfeitorias indenizáveis a serem pagas em dinheiro, obtendose o preço da terra a ser indenizado em TDA. (Redação dada Medida Provisória nº 2.18356, de 2001) § 2o Integram o preço da terra as florestas naturais, matas nativas e qualquer outro tipo de vegetação natural, não podendo o preço apurado superar, em qualquer hipótese, o preço de mercado do imóvel. (Redação dada Medida Provisória nº 2.18356, de 2001) § 3o O Laudo de Avaliação será subscrito por Engenheiro Agrônomo com registro de Anotação de Responsabilidade Técnica ART, respondendo o subscritor, civil, penal e administrativamente, pela superavaliação comprovada ou fraude na identificação das informações. (Incluído dada Medida Provisória nº 2.18356, de 2001) 3 O Confea surgiu oficialmente com esse nome em 11 de dezembro de 1933, por meio do Decreto nº 23.569, promulgado pelo então presidente da República, Getúlio Vargas e considerado marco na história da regulamentação profissional e técnica no Brasil. Em sua concepção atual, o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia é regido pela Lei 5.194 de 1966, e representa também os geógrafos, geólogos, meteorologistas, tecnólogos dessas modalidades, técnicos industriais e agrícolas e suas especializações, num total de centenas de títulos profissionais. Disponível em: http://www.confea.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=917 Fl. 208DF CARF MF Processo nº 13851.001192/200434 Acórdão n.º 2201005.048 S2C2T1 Fl. 209 7 agrícolas e o funcionamento do Confea e dos Creas. Neste sentido, a Resolução nº 345, de 27 julho de 19904 estabelece que: "Art. 4º Os trabalhos técnicos indicados no artigo anterior, para sua plena validade, deverão ser objeto de Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) exigida pela Lei nº 6.496, de 07 dezembro de 1977." No que tange às normas da ABNT, estas não são por si cogentes, apenas fixam diretrizes, possuindo força vinculante apenas quando a lei ou dispositivo normativo assim o determinar. O que se exige do laudo de avaliação é que se baseie em elementos de boa técnica e metodologia aceitável capaz de aferir, no caso, o preço justo. No âmbito da Receita Federal do Brasil, a Norma de Execução Conjunta SRF/COTEC/COSAR/COFIS/COSIT n° 99000045 determina que para alterar o valor da terra nua, o interessado deve apresentar laudo técnico de avaliação, acompanhado de cópia da Anotação de Responsabilidade Técnica ART, devidamente registrada no CREA, efetuado por perito (engenheiro civil, agrônomo ou florestal), com os requisitos da NBR 8799 da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT6, demonstrando os métodos avaliatórios e as fontes pesquisadas que levaram à convicção do valor atribuído ao imóvel. No caso em apreço, como referido anteriormente além da própria lei, também no âmbito da Receita Federal do Brasil existe norma específica e vinculante, determinando os requisitos do laudo. Em que pese as alegações do ora Embargante, o laudo por ele apresentado não cumpre os requisitos básicos, a saber: i) não atende ao disposto no artigo 12, § 3º da Lei nº 8.629, de 1993 e na Norma de Execução Conjunta SRF/COTEC/COSAR/COFIS/COSIT n° 9900004; ii) as informações são insuficientes para comprovar o valor ali registrado, limitandose a avaliar o imóvel sem demonstrar a origem dos valores utilizados e iii) não foi acompanhado de cópia de Anotação de Responsabilidade Técnica ART, sendo este requisito de validade, nos termos do citado artigo 4º da Resolução nº 345, de 1990 do Confea. Deste modo, reiterando o acima exposto, a base legal e normativa para a exigência imposta pelo Fisco encontrase na própria lei que dispõe sobre o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR (artigo 14 da Lei nº 9.393, de 1996), seguindo os critérios estabelecidos no artigo 12 da Lei nº 8.629, de 1993 e na Norma de Execução Conjunta SRF/COTEC/COSAR/COFIS/COSIT n° 9900004. CONCLUSÃO Pelos motivos expostos, votamos por acolher parcialmente os embargos de declaração do contribuinte para, sem efeitos infringentes, sanar a omissão apontada no acórdão 4 Dispõe quanto ao exercício por profissional de Nível Superior das atividades de Engenharia de Avaliações e Perícias de Engenharia. 5 Aprova as instruções para os procedimentos de análise das Declarações do ITR, Exercício 2001, incidentes em Malha. 6 A NBR/8799 publicada em 01/02/1995 fixa as condições exigíveis para avaliação de imóveis rurais dos seus frutos e dos direitos sobre os mesmos e foi cancelada em 31/05/2004, substituída pela ABNT NBR 146533:2004. Fl. 209DF CARF MF Processo nº 13851.001192/200434 Acórdão n.º 2201005.048 S2C2T1 Fl. 210 8 nº 39200.068, de 18 de novembro de 2008, quanto aos requisitos de validade do laudo técnico apresentado, nos termos do voto em epígrafe. Débora Fófano dos Santos Relatora Fl. 210DF CARF MF
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Numero do processo: 13819.002995/2004-11
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Mar 19 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Apr 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/10/1999 a 30/11/2002
CONCOMITÂNCIA ENTRE PROCESSO ADMINISTRATIVO E JUDICIAL. RECONHECIMENTO. SÚMULA CARF Nº 01.
Consoante determina a Súmula CARF nº 01, deve haver o reconhecimento da existência de concomitância quando a ação judicial e o processo administrativo tenham o mesmo objeto. E o comando vai além, permitindo a análise, pelo órgão de julgamento administrativo, tão somente de matéria distinta da constante no processo judicial. Entende-se por objeto da demanda aquilo que com ela se pretende alcançar.
O reconhecimento da existência de concomitância implica que não haverá decisão no contencioso administrativo sobre a matéria de mérito do auto de infração que também está sendo discutida na esfera judicial, inclusive tornando-se insubsistentes eventuais julgados já proferidos, mesmo os favoráveis à Contribuinte.
De outro lado, havendo o trânsito em julgado da demanda judicial de forma favorável ao Sujeito Passivo, extinguindo a obrigação tributária, como é o caso dos presentes autos, a declaração de concomitância não traz qualquer prejuízo às partes, pois caberá à Administração Tributária cumprir a decisão judicial definitiva de mérito.
Numero da decisão: 9303-008.239
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama e Érika Costa Camargos Autran, que lhe deram provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Vanessa Marini Cecconello - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício).
Nome do relator: VANESSA MARINI CECCONELLO
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AÇÃO JUDICIAL Recorrente ROLLSROYCE BRASIL LTDA Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/10/1999 a 30/11/2002 CONCOMITÂNCIA ENTRE PROCESSO ADMINISTRATIVO E JUDICIAL. RECONHECIMENTO. SÚMULA CARF Nº 01. Consoante determina a Súmula CARF nº 01, deve haver o reconhecimento da existência de concomitância quando a ação judicial e o processo administrativo tenham o mesmo objeto. E o comando vai além, permitindo a análise, pelo órgão de julgamento administrativo, tão somente de matéria distinta da constante no processo judicial. Entendese por objeto da demanda aquilo que com ela se pretende alcançar. O reconhecimento da existência de concomitância implica que não haverá decisão no contencioso administrativo sobre a matéria de mérito do auto de infração que também está sendo discutida na esfera judicial, inclusive tornandose insubsistentes eventuais julgados já proferidos, mesmo os favoráveis à Contribuinte. De outro lado, havendo o trânsito em julgado da demanda judicial de forma favorável ao Sujeito Passivo, extinguindo a obrigação tributária, como é o caso dos presentes autos, a declaração de concomitância não traz qualquer prejuízo às partes, pois caberá à Administração Tributária cumprir a decisão judicial definitiva de mérito. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidas as AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 81 9. 00 29 95 /2 00 4- 11 Fl. 3857DF CARF MF Processo nº 13819.002995/200411 Acórdão n.º 9303008.239 CSRFT3 Fl. 3.858 2 conselheiras Tatiana Midori Migiyama e Érika Costa Camargos Autran, que lhe deram provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Vanessa Marini Cecconello Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício). Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela Contribuinte ROLLSROYCE BRASIL LTDA (efls. 3.664 a 3.679), com fulcro no art. 67, do Anexo II, do Regimento Interno do Conselho de Contribuintes, aprovado pela Portaria MF n.º 256/2009, buscando a reforma do Acórdão nº 340100.816 (efls. 3.643 a 3.651), proferido pela 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Terceira Seção de Julgamento, em 01/07/2010, no sentido de não conhecer da matéria submetida à discussão na via judicial e, na parte conhecida, dar provimento parcial para declarar a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário referente aos períodos de apuração anteriores a 12/1999. O acórdão foi assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/10/1999 a 30/11/2002 OPÇÃO PELA VIA JUDICIAL. DESISTÊNCIA DA ESFERA ADMINISTRATIVA. SÚMULA CARF N° 1, DE 2009. No termos da Súmula CARF n° 1, de 2009, importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de oficio, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a Fl. 3858DF CARF MF Processo nº 13819.002995/200411 Acórdão n.º 9303008.239 CSRFT3 Fl. 3.859 3 apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/10/1999 a 30/11/2002 DECADÊNCIA. CINCO ANOS A CONTAR DO FATO GERADOR. SÚMULA VINCULANTE DO STF N° 8/2008. Editada a Súmula vinculante do STF n° 8/2008, segundo a qual é inconstitucional o art. 45 da Lei n° 8.212/91, o prazo para a Fazenda proceder ao lançamento da Cofins e do PIS é de cinco anos a contar da ocorrência do fato gerador, nos termos dos art. 150, § 4°, do Código Tributário Nacional, independentemente de ter havido o pagamento antecipado exigido por esse artigo. AÇÃO JUDICIAL. LANÇAMENTO PARA PREVENIR A DECADÊNCIA. POSSIBILIDADE. Medida judicial que suspende a exigibilidade do crédito tributário não impede o lançamento, que se não efetivado em tempo hábil será atingido pela decadência. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/10/1999 a 30/11/2002 VALOR NÃO CONFESSADO EM DCTF. NECESSIDADE DE LANÇAMENTO. Não é nulo o Auto de Infração lavrado para constituir crédito tributário declarado em DCTF com a exigibilidade suspensa antes da IN SRF SRF n° 482, de 21/12/2004, porque antes de sua edição a DCTF só tinha como confessado o valor do saldo a pagar, apurado após dedução dos pagamentos, das compensações e dos valores com exigibilidade suspensa. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. LEGALIDADE. SÚMULA CARF N° 4, DE 2009. Nos termos da Súmula CARP n° 4, de 2009, a partir de 1° de abril de 1995 os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil são devidos, no período de inadimplência, A. taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Recurso não conhecido em parte, face opção pela judicial, e dado provimento parcial na parte conhecida. O Colegiado a quo entendeu por não conhecer do recurso voluntário no que tange às matérias que foram submetidas ao exame do Poder Judiciário constitucionalidade da ampliação da base de cálculo do PIS, na forma do art. 3º, §1º, da Lei n.º 9.718/98; e, na parte conhecida, deu provimento parcial ao recurso para declarar a decadência do direito de a Fl. 3859DF CARF MF Processo nº 13819.002995/200411 Acórdão n.º 9303008.239 CSRFT3 Fl. 3.860 4 Fazenda Pública constituir o crédito tributário referente aos períodos de apuração anteriores a 12/1999. Na sequência, não resignada com a decisão na parte que lhe foi desfavorável, a Contribuinte ROLLSROYCE BRASIL LTDA interpôs recurso especial (efls. 3.664 a 3.679) suscitando divergência com relação ao não conhecimento de parte do recurso voluntário, concernente à matéria submetida a crivo do Poder Judiciário por meio do Mandado de Segurança n.º 1999.61.14.0030307, cuja decisão favorável ao Sujeito Passivo transitou em julgado. Para comprovar o dissenso interpretativo, colacionou como paradigma o acórdão n.º 340200.185. Consoante despacho de admissibilidade s/nº, de 22/09/2015 (efls. 3.839 a 3.840), proferido pelo Ilustre Presidente da 4ª Câmara, foi dado seguimento ao recurso especial de divergência da Contribuinte, pois comprovada a divergência jurisprudencial. A Fazenda Nacional, devidamente intimada, apresentou contrarrazões ao recurso especial (efls. 3.842 a 3.847), postulando a sua negativa de provimento. O presente processo foi distribuído a essa Relatora, estando apto a ser relatado e submetido à análise desta Colenda 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais 3ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF. É o Relatório. Voto Conselheira Vanessa Marini Cecconello, Relatora Admissibilidade O recurso especial de divergência interposto pela Contribuinte atende aos requisitos de admissibilidade constantes no art. 67 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015 (anteriormente Portaria MF n.º 256/2009), devendo, portanto, ter prosseguimento. Mérito No mérito, cingese a controvérsia à análise da existência de concomitância entre o processo administrativo e o mandado de segurança nº 1999.61.14.0030307 impetrado pela Contribuinte tendo por objeto a questão da constitucionalidade da ampliação da base de cálculo do PIS, na forma do art. 3°, § 1º, da Lei n° 9.718/98. Fl. 3860DF CARF MF Processo nº 13819.002995/200411 Acórdão n.º 9303008.239 CSRFT3 Fl. 3.861 5 Nesse contexto, o auto de infração (efls. 2.294 a 3.300) foi lavrado para exigência das diferenças de PIS, do anocalendário de 1999 a 2004, incluindo os montantes em discussão na via judicial, referentes às Receitas Financeiras. O Auto de Infração foi lavrado com "sua exigibilidade suspensa" e sem multa de ofício, nos termos do art. 63 da Lei n.º 9.430/96, com o objetivo de evitar a decadência dos débitos tributários. No desenrolar do processo administrativo, após a interposição do recurso voluntário e antes da prolação do Acórdão pelo Colegiado a quo, sobreveio o trânsito em julgado do mandado de segurança, em 10/08/2007 (efl. 3.609), com resultado final favorável à Contribuinte, nos autos do Recurso Extraordinário nº 488.568, no qual foi reconhecida a inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo do PIS promovida pelo art. 3º, §1º da Lei n.º 9.718/98. O trânsito em julgado foi noticiado pela Contribuinte na petição e documentos juntados às efls. 3.607 a 3.614. Portanto, o objetivo da Contribuinte ao impetrar o mandado de segurança, no qual obteve êxito, era ver liberadas as mercadorias sem o pagamento dos tributos incidentes na importação, tendo em vista seu caráter de filantropia. Referidos impostos e contribuições, com os respectivos juros e multa de ofício, foram lançados pela Autoridade Fiscal com o intuito de prevenir a decadência do direito da Fazenda Nacional proceder à sua cobrança na hipótese de ser julgada improcedente a demanda judicial. Verificase, assim, a concomitância de matérias entre o processo administrativo e o processo judicial, nos termos da Súmula CARF nº 01: Súmula CARF nº 01: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Determina a súmula, portanto, o reconhecimento da existência de concomitância quando a ação judicial e o processo administrativo tenham o mesmo objeto. E o comando vai além, permitindo a análise, pelo órgão de julgamento administrativo, tão somente de matéria distinta da constante no processo judicial. Entendese por objeto da demanda aquilo que com ela se pretende alcançar. O reconhecimento da existência de concomitância implica que não haverá decisão no contencioso administrativo sobre a matéria de mérito do auto de infração que também está sendo discutida na esfera judicial, inclusive tornandose insubsistentes eventuais julgados já proferidos, mesmo os favoráveis à Contribuinte. De outro lado, havendo o trânsito em julgado da demanda judicial de forma favorável ao Sujeito Passivo, extinguindo a obrigação tributária, como é o caso dos presentes autos, a declaração de concomitância não traz qualquer prejuízo às partes, pois caberá à Administração Tributária cumprir a decisão judicial definitiva de mérito. Fl. 3861DF CARF MF Processo nº 13819.002995/200411 Acórdão n.º 9303008.239 CSRFT3 Fl. 3.862 6 Para elucidar a argumentação expendida, colacionase ainda trechos do Parecer Normativo Cosit nº 07, de 22 de agosto de 2014, ato da Administração Tributária tratando do tema da concomitância: "Da identidade de objetos dos processos administrativo e judicial 9. Poderseia questionar quanto à definição da expressão “mesmo objeto” a que se reportam o ADN Cosit nº3, de 1996, a Súmula nº1 do CARF e a Portaria MF nº341, de 2011. Aqui, fazse mister diferenciar o objeto da relação jurídica substancial ou primária do objeto da relação jurídica processual. Aquele consiste no bem da vida sobre o qual recaem os interesses em conflito, in casu, o patrimônio do contribuinte; este, por sua vez, diz respeito ao serviço que o Estado tem o dever de prestar, e nos procedimentos de que este se utiliza para tanto, resultando no proferimento de decisões administrativas ou judiciais em cada processo, guardando relação de instrumentalidade com a real demanda do autor (JUNIOR, Nelson Nery; NERY, Rosa Maria de Andrade. Constituição Federal Comentada. 2. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009. p. 179). 9.1. Assim, só produz o efeito de impedir o curso normal do processo administrativo a existência de processo judicial para o julgamento de demanda idêntica, assim caracterizada aquela em que se verificam as mesmas partes, a mesma causa de pedir (fundamentos de fato – ou causa de pedir remota e de direito – ou causa de pedir próxima) e o mesmo pedido (postulação incidente sobre o bem da vida) a chamada teoria dos três eadem, conforme definida no art. 301, § 2ºda Lei nº5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil – CPC), o qual ora se aplica por analogia. 9.2. Levase em consideração o objeto da relação jurídica substancial; se a discussão judicial se refere a questões instrumentais do processo administrativo, contra as quais se insurge o sujeito passivo da obrigação tributária, não há que se falar em desistência da instância administrativa nem em definitividade da decisão recorrida, quando nesta se discute alguma questão de direito material. Se, no entanto, a discussão administrativa gira em torno de alguma questão processual, como a tempestividade da impugnação, por exemplo, questão esta também levada à apreciação judicial, configurase a renúncia à esfera administrativa quanto a este ponto específico. 9.3. Seguindo esse raciocínio, encontrase entendimento na doutrina e na jurisprudência de que só se caracteriza a identidade de ações quando se verificam as mesmas partes, o mesmo pedido e a mesma causa de pedir: 19. Identidade de ações: caracterização. As partes devem ser as mesmas, não importando a ordem delas nos pólos das ações em análise. A causa de pedir, próxima e remota [...], deve ser a mesma nas ações, para que se as tenha como idênticas. O pedido, imediato e mediato, deve ser o mesmo: bem da vida e tipo de sentença judicial. Somente quando os três elementos, com suas seis subdivisões, forem iguais é que as ações serão idênticas. (JUNIOR, Nelson Nery; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código de Processo Civil Comentado. 11. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010. p. 595) Litispendência. Identidade de pedidos. A identidade de pedidos não caracteriza a litispendência. Somente se verifica a litispendência com a Fl. 3862DF CARF MF Processo nº 13819.002995/200411 Acórdão n.º 9303008.239 CSRFT3 Fl. 3.863 7 identidade de ações: as mesmas partes, o mesmo pedido e a mesma causa de pedir. (TRF5 ª, 1ª T., Ap 17299RN, rel. Juiz Ridalvo Costa, v.u., j. 10.12.1992, STJ 47/583) 9.4. Vale reproduzir o seguinte excerto do Parecer PGFN/Cocat nº 2/2013: 49. Dito disso, conferimos ao instituto da concomitância no PAF o mesmo tratamento da litispendência no processo civil, pois a verificação da ausência desses dois pressupostos negativos têm como finalidade precípua evitar o processamento de causas iguais quando houver: (i) identidade das partes, (ii) da causa de pedir e (iii) do pedido (art. 301, §§ 1ºe 2º, do CPC; e Súmula nº1/CARF). 50. Com efeito, na linha do que foi afirmado no item 26, tanto a concomitância quanto a litispendência constituem requisitos de validade objetivos extrínsecos da relação processual. São pressupostos negativos, ou seja, fatos que não podem ocorrer para que o procedimento se instaure validamente. Representam acontecimentos estranhos à relação jurídica processual (daí o adjetivo "extrínseco") que, uma vez existentes, impedem a formação válida do processo (procedimento). (grifos conforme original) 9.5. Feitos esses esclarecimentos, e à vista da terminologia utilizada nos normativos retromencionados, adotarseá, neste parecer, o entendimento de que a expressão “mesmo objeto” diz respeito àquilo sobre o qual recairá o mérito da decisão, quando sejam idênticas as demandas. Portanto, temse como critérios de aplicação da impossibilidade do prosseguimento do curso normal do processo administrativo, em vista da concomitância com processo judicial, tanto o pedido como a causa de pedir, e não somente o pedido. 9.6. Seguindo essa lógica, caso o processo administrativo fiscal contenha pedido mais abrangente que o do processo judicial, ele deve ter seguimento somente em relação à parte que não esteja sendo discutida judicialmente. Se, por exemplo, a ação judicial requer a anulação de um lançamento em relação a determinada multa, mas nada diz sobre a base de cálculo do tributo, e a impugnação administrativa tratar também da discussão sobre a base de cálculo, esta parte deverá ser objeto de julgamento administrativo. 10.A prevalência, nesses casos, do curso do processo judicial se deve ao princípio constitucional da unicidade de jurisdição, insculpido no art. 5º, inciso XXXV, da Constituição Federal (“a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou monopólio do controle jurisdicional, não sendo necessário que se configure a efetiva lesão a direito, bastando a simples ameaça para que se dê o ingresso em juízo. Ademais, o caráter de não definitividade das decisões administrativas consiste na possibilidade de sua apreciação pelo Judiciário. Registrese, ainda, a desnecessidade do esgotamento da via administrativa para o acesso ao Poder Judiciário, como ocorria no sistema constitucional revogado (CF/1967, art. 153, § 4º). (CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 26. ed. São Paulo: Malheiros, 2010. p. 312). 10.1. Outra justificativa que se pode invocar para a inadmissibilidade da concomitância entre as discussões sobre a mesma matéria nas instâncias judicial e administrativa, sob pena de se admitir um dispêndio desnecessário de recursos públicos, além do risco de se obterem decisões conflitantes, passa Fl. 3863DF CARF MF Processo nº 13819.002995/200411 Acórdão n.º 9303008.239 CSRFT3 Fl. 3.864 8 pelo princípio da economia processual, o qual, segundo lecionam Cintra, Grinover e Dinamarco (CINTRA, Antônio Carlos de Araújo; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria Geral do Processo. 26. ed. São Paulo: Malheiros, 2010. p. 79), “preconiza o máximo resultado na atuação do direito com o mínimo emprego possível de atividades processuais”. Tratase do mesmo princípio que inspira os efeitos do instituto da litispendência no processo civil (arts. 219, 267 e 301 do CPC)." [...] Nessa esteira, é declarada a concomitância, consoante termos da Súmula CARF nº 01, e determinado à Administração Fazendária o cumprimento do comando judicial transitado em julgado no mandado de segurança nº 1999.61.14.0030307, reconhecendo a inconstitucionalidade do alargamento da base de cálculo do PIS prevista no art. 3º, §1º, da Lei n.º 9.718/98, devendo ser excluídas da incidência as receitas financeiras e, por conseguinte, extinguindose a cobrança do crédito tributário objeto do auto de infração. Diante do exposto, é negado provimento ao recurso especial da Contribuinte para reconhecer a concomitância entre a esfera administrativa e judicial nos termos da Súmula CARF n.º 01 e, ainda, determinar o cumprimento da decisão judicial transitada em julgado. É o voto. (assinado digitalmente) Vanessa Marini Cecconello Fl. 3864DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10670.720478/2013-43
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 30 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Mar 13 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2011
DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. EXIGÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO EFETIVO PAGAMENTO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE.
A legislação do Imposto de Renda determina que as despesas com tratamentos de saúde declaradas pelo contribuinte para fins de dedução do imposto devem ser comprovadas por meio de documentos hábeis e idôneos, podendo a autoridade fiscal exigir que o contribuinte apresente documentos que demonstrem a real prestação dos serviços e o efetivo desembolso dos valores declarados, para a formação da sua convicção.
Numero da decisão: 2002-000.710
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros Thiago Duca Amoni (relator) e Virgílio Cansino Gil, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez.
(assinado digitalmente)
Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente e redatora designada
(assinado digitalmente)
Thiago Duca Amoni - Relator.
Participaram das sessões virtuais não presenciais os conselheiros Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil, Thiago Duca Amoni e Mônica Renata Mello Ferreira Stoll.
Nome do relator: THIAGO DUCA AMONI
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2011 DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. EXIGÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO EFETIVO PAGAMENTO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. A legislação do Imposto de Renda determina que as despesas com tratamentos de saúde declaradas pelo contribuinte para fins de dedução do imposto devem ser comprovadas por meio de documentos hábeis e idôneos, podendo a autoridade fiscal exigir que o contribuinte apresente documentos que demonstrem a real prestação dos serviços e o efetivo desembolso dos valores declarados, para a formação da sua convicção.
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DESPESAS MÉDICAS. EXIGÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO EFETIVO PAGAMENTO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. A legislação do Imposto de Renda determina que as despesas com tratamentos de saúde declaradas pelo contribuinte para fins de dedução do imposto devem ser comprovadas por meio de documentos hábeis e idôneos, podendo a autoridade fiscal exigir que o contribuinte apresente documentos que demonstrem a real prestação dos serviços e o efetivo desembolso dos valores declarados, para a formação da sua convicção. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros Thiago Duca Amoni (relator) e Virgílio Cansino Gil, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente e redatora designada (assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni Relator. Participaram das sessões virtuais não presenciais os conselheiros Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil, Thiago Duca Amoni e Mônica Renata Mello Ferreira Stoll. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 67 0. 72 04 78 /2 01 3- 43 Fl. 85DF CARF MF Processo nº 10670.720478/201343 Acórdão n.º 2002000.710 S2C0T2 Fl. 86 2 Relatório Notificação de lançamento Trata o presente processo de notificação de lançamento – NL (efls. 41 a 46), relativa a imposto de renda da pessoa física, pela qual se procedeu a glosa de despesas médicas indevidamente deduzidas. Tal autuação gerou lançamento de imposto de renda pessoa física suplementar de R$ 6.462,50, acrescido de multa de ofício no importe de 75%, bem como juros de mora. Impugnação A notificação de lançamento foi objeto de impugnação, às efls. 02 a 38 dos autos, que, conforme decisão da DRJ: Inconformada, a contribuinte apresentou impugnação ao lançamento, em 15/03/12, mediante as alegações relatadas a seguir: Discorda da glosa e estaria apresentando comprovação do efetivo pagamento e da prestação dos serviços. A impugnação foi apreciada na 3ª Turma da DRJ/BSB que, por unanimidade, em 27/08/2014, no acórdão 0363.228 às efls. 40 a 46, julgou a impugnação parcialmente procedente. Recurso Voluntário Ainda inconformada, a contribuinte apresenta Recurso Voluntário, às efls. 68 a 78, alegando, em síntese, que os recibos anexados são idôneos e comprovam as despesas médicas. Juntou ainda os cheques que comprovam o efetivo pagamento das mencionadas despesas. Suscita a aplicação do princípio da boa fé do contribuinte. Fl. 86DF CARF MF Processo nº 10670.720478/201343 Acórdão n.º 2002000.710 S2C0T2 Fl. 87 3 Voto Vencido Conselheiro Thiago Duca Amoni Relator Pelo que consta no processo, o recurso é tempestivo, já que a contribuinte foi intimada do teor do acórdão da DRJ em 30/09/2014, efls. 66, e interpôs o presente Recurso Voluntário em 30/10/2014, efls. 68, posto que atende aos requisitos de admissibilidade e, portanto, dele conheço. O contribuinte foi autuado pela dedução indevida das despesas médicas com o profissional Raimundo Nonato de Freitas, no importe de R$23.500,00: A DRJ manteve parcialmente a autuação pela glosa de despesa com a sob fundamento de que o contribuinte não colacionou aos autos prova do efetivo pagamento de todas as despesas médicas com o profissional apontado, como se vê: Com a impugnação, foram trazidas cópias de cheques emitidos ao odontólogo prestador dos serviços, Raimundo Nonato de Freitas Júnior (fls.19/39), comprovando ter arcado com despesas que montam a R$12.000,00. Apesar de o profissional afirmar ter recebido R$11.500,00 em espécie, não foram trazidos aos autos documentos que comprovem essa alegação, ou que teria havido saques em valores compatíveis com os valores envolvidos. Assim, serão restabelecidas despesas médicas no montante de R$12.000,00. As despesas com médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais são dedutíveis da base de cálculo do imposto de renda da pessoa física, seja para tratamento do próprio contribuinte ou de seus dependentes, desde que devidamente comprovadas, conforme artigo 8º da Lei nº 9.250/95 e artigo 80 do Decreto nº 3.000/99 Regulamento do Imposto de Renda/ (RIR/99): Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o ano calendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: Fl. 87DF CARF MF Processo nº 10670.720478/201343 Acórdão n.º 2002000.710 S2C0T2 Fl. 88 4 a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias; : Art. 80. Na declaração de rendimentos poderão ser deduzidos os pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea "a"). §1ºO disposto neste artigo (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, §2º): I aplicase, também, aos pagamentos efetuados a empresas domiciliadas no País, destinados à cobertura de despesas com hospitalização, médicas e odontológicas, bem como a entidades que assegurem direito de atendimento ou ressarcimento de despesas da mesma natureza; II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica CNPJ de quem os recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento (grifos nossos) O trecho em destaque é claro quanto a idoneidade de recibos e notas fiscais, desde que preenchidos os requisitos legais, como meios de comprovação da prestação de serviço de saúde tomado pelo contribuinte e capaz de ensejar a dedução da despesa do montante de IRPF devido, quando da apresentação de sua DAA. O dispositivo em comento vai além, permitindo ainda que, caso o contribuinte tomador do serviço, por qualquer motivo, não possua o recibo emitido pelo profissional, a comprovação do pagamento seja feita por cheque nominativo ou extratos de conta vinculados a alguma instituição financeira. Assim, como fonte primária da comprovação da despesa temos o recibo e a nota fiscal emitidos pelo prestador de serviço, desde que atendidos os requisitos legais. Na falta destes, pode, o contribuinte, valerse de outros meios de prova. Ademais, o Fisco tem a sua disposição outros instrumentos para realizar o cruzamento de dados das partes contratantes, devendo prevalecer a boafé do contribuinte. Nesta linha, no acórdão 2001000.388, de relatoria do Conselheiro deste CARF José Alfredo Duarte Filho, temos: Fl. 88DF CARF MF Processo nº 10670.720478/201343 Acórdão n.º 2002000.710 S2C0T2 Fl. 89 5 (...) No que se refere às despesas médicas a divergência é de natureza interpretativa da legislação quanto à observância maior ou menor da exigência de formalidade da legislação tributária que rege o fulcro do objeto da lide. O que se evidencia com facilidade de visualização é que de um lado há o rigor no procedimento fiscalizador da autoridade tributante, e de outro, a busca do direito, pela contribuinte, de ver reconhecido o atendimento da exigência fiscal no estrito dizer da lei, rejeitando a alegada prerrogativa do fisco de convencimento subjetivo quanto à validade cabal do documento comprobatório, quando se trata tão somente da apresentação da nota fiscal ou do recibo da prestação de serviço. O texto base que define o direito da dedução do imposto e a correspondente comprovação para efeito da obtenção do benefício está contido no inciso II, alínea “a” e no § 2º, do art. 8º, da Lei nº 9.250/95, regulamentados nos parágrafos e incisos do art. 80 do Decreto nº 3.000/99 – RIR/99, em especial no que segue: Lei nº 9.250/95. (...) É clara a disposição de que a exigência da legislação especificada aponta para o comprovante de pagamento originário da operação, corriqueiro e usual, assim entendido como o recibo ou a nota fiscal de prestação de serviço, que deverá contar com as informações exigidas para identificação, de quem paga e de quem recebe o valor, sendo que, por óbvio, visa controlar se o recebedor oferecerá à tributação o referido valor como remuneração. A lógica da exigência coloca em evidência a figura de quem fornece o comprovante identificado e assinado, colocandoo na condição de tributado na outra ponta da relação fiscal correspondente (dedução tributação). Ou seja: para cada dedução haverá um oferecimento à tributação pelo fornecedor do comprovante. Quem recebe o valor tem a obrigação de oferecêlo à tributação e pagar o imposto correspondente e, quem paga os honorários tem o direito ao benefício fiscal do abatimento na apuração do imposto. Simples assim, por se tratar de uma ação de pagamento e recebimento de valor numa relação de prestação de serviço. Ocorre, neste caso, uma correspondência de resultados de obrigação e direito, gerados nessa relação, de modo que o contribuinte que tem o direito da dedução fica legalmente habilitado ao benefício fiscal porque de posse do documento comprobatório que lhe dá a oportunidade do desconto na apuração do tributo, confiante que a outra parte se quedará Fl. 89DF CARF MF Processo nº 10670.720478/201343 Acórdão n.º 2002000.710 S2C0T2 Fl. 90 6 obrigada ao oferecimento à tributação do valor correspondente. Somese a isso a realidade de que o órgão fiscalizador tem plenas condições e pleno poder de fiscalização, na questão tributária, com absoluta facilidade de identificação, tão somente com a informação do CPF ou CNPJ, sobre a outra banda da relação pagador recebedor do valor da prestação de serviço. O dispositivo legal (inciso III, do § 1º, art. 80, Dec. 3.000/99) vai além no sentido de dar conforto ao pagador dos serviços prestados ao prever que no caso da falta da documentação, assim entendido como sendo o recibo ou nota fiscal de prestação de serviço, poderá a comprovação ser feita pela indicação de cheque nominativo pelo qual poderia ter sido efetuado o pagamento, seja por recusa da disponibilização do documento, seja por extravio, ou qualquer outro motivo, visto que pelas informações contidas no cheque pode o órgão fiscalizador confrontar o pagamento com o recebimento do valor correspondente. Além disso, é de conhecimento geral que o órgão tributante dispõe de meios e instrumentos para realizar o cruzamento de informações, controlar e fiscalizar o relacionamento financeiro entre contribuintes. O termo “podendo” do texto legal consiste numa facilitação de comprovação dada ao pagador e não uma obrigação de fazêlo daquela forma." Ainda, há várias outras jurisprudências deste Conselho que corroboram com os fundamentos até então apresentados: Processo nº 16370.000399/200816 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2001000.387 – Turma Extraordinária / 1ª Turma Sessão de 18 de abril de 2018 Matéria IRPF DEDUÇÃO DESPESAS MÉDICAS Recorrente FLÁVIO JUN KAZUMA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2005 DESPESAS MÉDICAS GLOSADAS. DEDUÇÃO MEDIANTE RECIBOS. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS QUE JUSTIFIQUEM A INIDONEIDADE DOS COMPROVANTES. Recibos de despesas médicas têm força probante como comprovante para efeito de dedução do Imposto de Renda Pessoa Física. A glosa por recusa da aceitação dos recibos de despesas médicas, pela autoridade fiscal, deve estar sustentada em indícios consistentes e elementos que indiquem a falta de idoneidade do documento. A ausência de elementos que indique a falsidade ou incorreção dos recibos os torna válidos para comprovar as despesas médicas incorridas. Fl. 90DF CARF MF Processo nº 10670.720478/201343 Acórdão n.º 2002000.710 S2C0T2 Fl. 91 7 MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. RECONHECIMENTO DO DÉBITO. Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo contribuinte. Processo nº 13830.000508/200923 Recurso nº 908.440 Voluntário Acórdão nº 220201.901 – 2ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 10 de julho de 2012 Matéria Despesas Médicas Recorrente MARLY CANTO DE GODOY PEREIRA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2006 DESPESAS MÉDICAS. RECIBO. COMPROVAÇÃO. Recibos que contenham a indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas CPF ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica CNPJ de quem prestou os serviços são documentos hábeis, até prova em contrário, para justificar a dedução a título de despesas médicas autorizada pela legislação. Os recibos que não contemplem os requisitos previstos na legislação poderão ser aceitos para fins de dedução, desde que seja apresenta declaração complementando as informações neles ausentes. Às efls. 76 a 78 há os recibos emitidos pelo profissional Raimundo Nonato de Freitas, no importe de R$23.500,00 que cumprem todos os requisitos elencados na legislação. Ainda, às efls. 75 há declaração do profissional ratificando a prestação de serviços. Feitas estas considerações, conheço do presente Recurso Voluntário para, no mérito, darlhe provimento. (assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni Fl. 91DF CARF MF Processo nº 10670.720478/201343 Acórdão n.º 2002000.710 S2C0T2 Fl. 92 8 Voto Vencedor Conselheira Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Redatora designada Divirjo do i. relator quanto à possibilidade de restabelecimento das despesas médicas somente à vista dos recibos e declarações emitidas pelo profissional, visto que foi exigida da recorrente a comprovação quanto à efetiva prestação do serviço e seu efetivo pagamento. Em relação às despesas médicas, são dedutíveis da base de cálculo do IRPF os pagamentos efetuados pelos contribuintes a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea "a"), desde que devidamente comprovados. No que tange à comprovação, a dedução a título de despesas médicas é condicionada ainda ao atendimento de algumas formalidades legais: os pagamentos devem ser especificados e comprovados com documentos originais que indiquem nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) ou Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) de quem os recebeu (art. 8º, § 2º, inc. III, da Lei 9.250, de 1995). Esta norma, no entanto, não dá aos recibos valor probante absoluto, ainda que atendidas todas as formalidades legais. A apresentação de recibos de pagamento com nome e CPF do emitente têm potencialidade probatória relativa, não impedindo a autoridade fiscal de coletar outros elementos de prova com o objetivo de formar convencimento a respeito da existência da despesa. Nesse sentido, o artigo 73, caput e § 1º do RIR/1999, autoriza a fiscalização a exigir provas complementares se existirem dúvidas quanto à existência efetiva das deduções declaradas: Art. 73. Todas as deduções estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (Decretolei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). § 1º Se forem pleiteadas deduções exageradas em relação aos rendimentos declarados, ou se tais deduções não forem cabíveis, poderão ser glosadas sem a audiência do contribuinte. (Decreto lei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 4º. (Grifei). Sobre o assunto, seguem decisões emanadas da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) e da 1ª Turma, da 4ª Câmara da 2ª Seção do CARF: IRPF. DESPESAS MÉDICAS.COMPROVAÇÃO. Fl. 92DF CARF MF Processo nº 10670.720478/201343 Acórdão n.º 2002000.710 S2C0T2 Fl. 93 9 Todas as deduções declaradas estão sujeitas à comprovação ou justificação, mormente quando há dúvida razoável quanto à sua efetividade. Em tais situações, a apresentação tãosomente de recibos e/ou declarações de lavra dos profissionais é insuficiente para suprir a não comprovação dos correspondentes pagamentos. (Acórdão nº9202005.323, de 30/3/2017) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2011 DEDUÇÃO. DESPESAS MÉDICAS. APRESENTAÇÃO DE RECIBOS. SOLICITAÇÃO DE OUTROS ELEMENTOS DE PROVA PELO FISCO. Todas as deduções estão sujeitas à comprovação ou justificação, podendo a autoridade lançadora solicitar motivadamente elementos de prova da efetividade dos serviços médicos prestados ou dos correspondentes pagamentos. Em havendo tal solicitação, é de se exigir do contribuinte prova da referida efetividade. (Acórdão nº9202005.461, de 24/5/2017) IRPF. DEDUÇÃO DE DESPESAS MÉDICAS. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DA EFETIVA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS E DO CORRESPONDENTE PAGAMENTO. A Lei nº 9.250/95 exige não só a efetiva prestação de serviços como também seu dispêndio como condição para a dedução da despesa médica, isto é, necessário que o contribuinte tenha usufruído de serviços médicos onerosos e os tenha suportado. Tal fato é que subtrai renda do sujeito passivo que, em face do permissivo legal, tem o direito de abater o valor correspondente da base de cálculo do imposto sobre a renda devido no ano calendário em que suportou tal custo. Havendo solicitação pela autoridade fiscal da comprovação da prestação dos serviços e do efetivo pagamento, cabe ao contribuinte a comprovação da dedução realizada, ou seja, nos termos da Lei nº 9.250/95, a efetiva prestação de serviços e o correspondente pagamento. (Acórdão nº2401004.122, de 16/2/2016) Portanto, os recibos médicos não são uma prova absoluta para fins da dedução. Nesse sentido, entendo possível a exigência fiscal de comprovação do pagamento da despesa ou, alternativamente, a efetiva prestação do serviço médico, por meio de receitas, exames, prescrição médica. Na verdade, é não só direito mas também dever da Fiscalização exigir provas adicionais quanto à despesa declarada em caso de dúvida quanto a sua efetividade ou ao seu pagamento. A legislação tributária reproduzida outorga essa Fl. 93DF CARF MF Processo nº 10670.720478/201343 Acórdão n.º 2002000.710 S2C0T2 Fl. 94 10 competência ao agente fiscal. Negar tal permissão significa avançar indevidamente sobre a condução da ação fiscalizadora estatal, restringindo o dever legal de investigação dos fatos, devidamente autorizado pela norma regulamentar. Ao se beneficiar da dedução da despesa em sua Declaração de Ajuste Anual, o contribuinte deve se acautelar na guarda de elementos de provas da efetividade dos pagamentos e dos serviços prestados. Inexiste qualquer disposição legal que imponha o pagamento sob determinada forma em detrimento do pagamento em espécie, mas, ao optar por pagamento em dinheiro, o sujeito passivo abriu mão da força probatória dos documentos bancários, restando prejudicada a comprovação dos pagamentos. Acrescentese que, na ausência de comprovantes bancários, poderia ter juntado prontuários e receituários médicos ou exames realizados, mas a contribuinte nada apresentou nesse sentido. Importa salientar que não é o Fisco quem precisa provar que as despesas médicas declaradas não existiram, mas o contribuinte quem deve apresentar as devidas comprovações quando solicitado, visto que o uso de deduções em sua declaração de ajuste reduz a base de cálculo do IR. Esclareçase que a exigência da comprovação da efetividade do pagamento não conflita com a presunção de boafé do contribuinte, porquanto não se cogita, naquele momento, da existência de máfé na conduta do fiscalizado, mediante a prática de atos de falsidade, que levaria à aplicação de penalidade majorada. Por fim, a alegação de que dispõe de renda suficiente não socorre a recorrente, visto que lhe foi exigida a comprovação do efetivo pagamento dessas despesas. Assim, na ausência da comprovação exigida, não há reparos a se fazer à decisão de piso. Isto posto, nego provimento ao recurso voluntário. É como voto. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Fl. 94DF CARF MF
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Numero do processo: 10380.720577/2016-33
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 13 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Mar 07 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/10/2011 a 31/12/2014
NULIDADE. LANÇAMENTO.
Estando devidamente circunstanciado no lançamento fiscal as razões de fato e de direito que o amparam, e não verificado cerceamento de defesa, carecem motivos para decretação de sua nulidade.
RECONHECIMENTO DA CONDIÇÃO DE SEGURADO EMPREGADO. COMPETÊNCIA DA FISCALIZAÇÃO TRIBUTÁRIA.
Insere-se no âmbito da competência da autoridade fiscal o reconhecimento da condição de segurado empregado, para fins de incidência de contribuições previdenciárias, não se consubstanciando tal feito em desconsideração de interpostas pessoas jurídicas envolvidas.
PAGAMENTOS A TÍTULO DE CESSÃO DE DIREITOS AUTORAIS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE SUA NATUREZA.
É necessária a comprovação da existência de efetiva criação intelectual para fins de que os pagamentos realizados a título de contraprestação por cessão de direitos autorais sejam assim reconhecidos, para fins fiscais.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM. NÃO CONFIGURAÇÃO.
A imputação de responsabilidade solidária por interesse comum na situação de fato que constitui fatos geradores de contribuições carece de demonstração do benefício concreto, da pessoa jurídica apontada como solidária, decorrente do atuação infringente das normas tributárias, por parte do contribuinte.
MULTA QUALIFICADA. SIMULAÇÃO.
Constatada a interposição meramente formal de pessoas jurídicas com vistas a dissimular os vínculos jurídicos materialmente estabelecidos, e pagamentos a título de cessão de direitos autorais sem o devido respaldo fático, impõe-se a aplicação de multa de ofício qualificada.
Numero da decisão: 2202-004.959
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento integral ao recurso voluntário da Fundação CPqD, afastando sua condição de responsável solidária pelo crédito tributário, e em dar provimento parcial ao recurso voluntário do contribuinte, para excluir da base de cálculo do lançamento os valores associados à pessoa jurídica Ivia Ltda., discriminados na fl. 834 dos autos. Votou pelas conclusões o conselheiro Virgílio Cansino Gil.
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros Marcelo de Sousa Sáteles, Martin da Silva Gesto, Ricardo Chiavegatto de Lima, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Rorildo Barbosa Correa, Virgílio Cansino Gil (suplente convocado), Leonam Rocha de Medeiros e Ronnie Soares Anderson. Ausente a conselheira Andrea de Moraes Chieregatto.
Nome do relator: RONNIE SOARES ANDERSON
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LANÇAMENTO. Estando devidamente circunstanciado no lançamento fiscal as razões de fato e de direito que o amparam, e não verificado cerceamento de defesa, carecem motivos para decretação de sua nulidade. RECONHECIMENTO DA CONDIÇÃO DE SEGURADO EMPREGADO. COMPETÊNCIA DA FISCALIZAÇÃO TRIBUTÁRIA. Inserese no âmbito da competência da autoridade fiscal o reconhecimento da condição de segurado empregado, para fins de incidência de contribuições previdenciárias, não se consubstanciando tal feito em desconsideração de interpostas pessoas jurídicas envolvidas. PAGAMENTOS A TÍTULO DE CESSÃO DE DIREITOS AUTORAIS. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE SUA NATUREZA. É necessária a comprovação da existência de efetiva criação intelectual para fins de que os pagamentos realizados a título de contraprestação por cessão de direitos autorais sejam assim reconhecidos, para fins fiscais. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. INTERESSE COMUM. NÃO CONFIGURAÇÃO. A imputação de responsabilidade solidária por interesse comum na situação de fato que constitui fatos geradores de contribuições carece de demonstração do benefício concreto, da pessoa jurídica apontada como solidária, decorrente do atuação infringente das normas tributárias, por parte do contribuinte. MULTA QUALIFICADA. SIMULAÇÃO. Constatada a interposição meramente formal de pessoas jurídicas com vistas a dissimular os vínculos jurídicos materialmente estabelecidos, e pagamentos AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 38 0. 72 05 77 /2 01 6- 33 Fl. 2503DF CARF MF 2 a título de cessão de direitos autorais sem o devido respaldo fático, impõese a aplicação de multa de ofício qualificada. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento integral ao recurso voluntário da Fundação CPqD, afastando sua condição de responsável solidária pelo crédito tributário, e em dar provimento parcial ao recurso voluntário do contribuinte, para excluir da base de cálculo do lançamento os valores associados à pessoa jurídica Ivia Ltda., discriminados na fl. 834 dos autos. Votou pelas conclusões o conselheiro Virgílio Cansino Gil. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros Marcelo de Sousa Sáteles, Martin da Silva Gesto, Ricardo Chiavegatto de Lima, Ludmila Mara Monteiro de Oliveira, Rorildo Barbosa Correa, Virgílio Cansino Gil (suplente convocado), Leonam Rocha de Medeiros e Ronnie Soares Anderson. Ausente a conselheira Andrea de Moraes Chieregatto. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Brasília (DF) DRJ/BSB, que julgou procedente autos de infração lavrados contra o epigrafado (fls. 02/283), correspondendo a contribuições referentes a segurados e à parte patronal, isto é, contribuição da empresa, do financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa e de outras entidades — terceiros (INCRA, SALÁRIO EDUCAÇÃO, SESI, SENAI e SEBRAE), bem como à multa por descumprimento de obrigação acessória, face à apresentação de GFIP com informações incorretas ou omissas. A decisão de piso assim sintetizou (fls. 2320/2325) o Relatório Fiscal (fls. 92/121): De acordo com o Relatório Fiscal, as situações que constituem os fatos geradores das obrigações principais são as prestações de serviços realizadas por pessoas naturais cujos vínculos trabalhistas foram demonstrados nos itens 4.1 e 4.2. Da Contratação de Serviços Prestados por Pessoas Jurídicas Pela análise dos contratos de prestação de serviços apresentados pela empresa, a fiscalização conclui que embora a prestação de serviço fosse intermediada por uma outra pessoa jurídica, quem o Instituto Atlântico verdadeiramente contratava eram as pessoas naturais que prestavam o serviço e que o objeto do contrato está previsto no contrato firmado entre o Instituto Atlântico e seus clientes, ou seja, as pessoas naturais foram contratadas para desempenhar as mesmas funções que os empregados do Instituto realizam em sua atividade fim. O item 4.1 do Relatório Fiscal relaciona várias informações extraídas dos contratos e de seus anexos, as quais corroboram essas afirmações. Fl. 2504DF CARF MF Processo nº 10380.720577/201633 Acórdão n.º 2202004.959 S2C2T2 Fl. 2.504 3 Além das informações extraídas dos contratos e de seus anexos, foram anexadas comunicações internas do Instituto Atlântico, presentes no mesmo arquivo "Contratos", que comprovam o vínculo empregatício das pessoas naturais com o Instituto Atlântico, essas também listadas no item 4.1 do Relatório Fiscal. Destaca ainda a fiscalização que, além disso, todas as pessoas naturais que foram remuneradas por pessoas jurídicas trabalhavam na atividade fim da empresa e que é vedada à terceirização na atividade fim de uma empresa, segundo Súmula 331 do TST, além de desenvolverem as atividades previstas nos contratos que o Instituto Atlântico celebrou com seus clientes. Segue o esclarecendo que não desconsiderou a existência das pessoas jurídicas relacionadas no Relatório Fiscal (documento “PF por PJ”), apenas considerou que elas foram usadas para dissimular o real vínculo empregatício que o Instituto Atlântico mantinha com as pessoas naturais prestadoras dos serviços. O documento "PF por PJ" demonstra os beneficiários de cada uma das pessoas jurídicas citadas, enquanto que consulta nos sistemas informatizados da Receita Federal do Brasil (GFIPWEB, Portal DIPJ, Portal IRPF e Portal DIRF) demonstram que os profissionais citados não eram empregados nem sócios das empresas para as quais prestaram serviços. Este documento foi elaborado pelo próprio contribuinte e continha algumas omissões, estas omissões foram completadas com informações provenientes das notas fiscais emitidas. Foi constatado, nos casos nos quais mais de uma pessoa é relacionada como prestador do serviço que essas pessoas não mantêm nenhum tipo de vínculo com a pessoa jurídica contratada, ou seja, não são empregados, tampouco sócios das empresas, demonstrando que seu vínculo se dá na verdade diretamente com o Instituto Atlântico, sendo usada uma ou mais pessoas jurídicas contratadas apenas para disfarçar a verdadeira relação. Ainda conforme o relato fiscal, muitas destas pessoas foram remuneradas por mais de uma empresa em diferentes meses em um curto período de tempo, não mantendo vínculo com nenhuma delas. Em outros casos, a empresa somente foi utilizada até que o profissional pudesse abrir uma empresa em seu próprio nome. Esta alta rotatividade de empregadores, aliada ao fato de prestarem serviços sempre ao mesmo tomador demonstra que este é o verdadeiro empregador. Da Contratação de Pessoas Naturais através de Cessão de Direitos Autorais Também foi constatado pela fiscalização, pelo exame da contabilidade da empresa e dos contratos de cessão de direitos autorais e outros documentos apresentados, que a empresa mantinha a contratação de pessoas naturais através de Cessão de Direitos AutoraisCDA. Informa o relato fiscal que os cargos e as funções que várias pessoas que recebiam através de contratos de cessão de direitos autorais desempenhavam no Instituto Atlântico são incompatíveis com essa forma de remuneração, seja porque representam o Instituto Atlântico perante terceiros, seja por assumirem funções de direção, chefia, gerência ou liderança, demonstrando que o real vínculo é estabelecido entre o Instituto Atlântico e as pessoas naturais relacionadas no item 4.2 do Relatório Fiscal. Segue acrescentando que isso vem confirmar que todas essas pessoas, tanto aquelas que foram contratadas somente na modalidade de cessão de Fl. 2505DF CARF MF 4 direitos autorais, quanto àquelas que também possuíam vínculo empregatício, são empregadas da empresa e suas remunerações são fatos geradores de contribuições previdenciárias. Analisando as Atas de Reunião de Diretoria, a fiscalização verificou que o Instituto Atlântico tinha o objetivo de reduzir seus encargos, através da adoção de cesta flexível de benefícios e remuneração por cessão de direitos autorais CDA. Na exposição realizada, foram sugeridas "formas alternativas de remuneração", entre elas a "CLT Flex: modalidade mais utilizada é 30% na carteira e 70% “por fora” e "CDA modelo de Cessão de Direitos Autorais é dissociado do contrato de trabalho e tem validade de 5 anos". Esclarece que a expressão CLT Flex é conhecido jargão do mundo jurídico e constitui, de forma resumida, no pagamento de parte dos salários sob a forma de utilidades ou de uma maneira mais clara, "por fora". Neste tipo de contratação as empresas "dividem parte do salário 'por dentro' (CLT) e o restante entre benefícios, como alimentação, vestuário, moradia, educação, assistência médica, reembolso transporte, direitos autorais, propriedade intelectual etc. é pago” por fora “. Adverte que "a contratação flex é apenas uma entre as várias fraudes utilizadas atualmente para fugir das imposições legais e direitos dos trabalhadores, como exigir que o colaborador emita notas como PJ (pessoa jurídica), se associe a uma cooperativa ou, ainda, que emita RPA (Recibo de Pagamento a Autônomo), por exemplo. Afirma que restou claramente caracterizada a contratações de pessoas naturais como prestadores de serviços Pessoas Jurídicas (PJ) e por meio de cessão de direitos autorais (CDA), sendo que esses prestadores de serviços (PJ e CDA) são de fato empregados da empresa. Conclui a autoridade lançadora que estas foram as práticas elisivas adotadas pela empresa. Essas constatações irregulares levam à conclusão de que o Instituto Atlântico agiu de forma premeditada e estava ciente da real natureza das contratações realizadas e sua única motivação foi financeira, visando unicamente à redução de seus custos, independentemente da adequação da forma com a realidade fática. Dos Fatos Geradores Lançados Constituem fatos geradores as remunerações pagas às pessoas naturais intermediadas por pessoas jurídicas (PJ) e as remunerações pagas a pessoas naturais através de cessão de direitos autorais (CDA), no estabelecimento matriz e na filial 0003. A fiscalização demonstrou nos subitens 4.1 e 4.2 do Relatório Fiscal que se tratam de remunerações pagas a empregados. Os Anexos I, II e III detalham os beneficiários, suas remunerações e as contribuições a cargo dos próprios segurados. Para as competências de 03/2012 a 07/2013, as contribuições apuradas foram apenas às previstas na Lei 8.212/1991, artigos 20 e 22, inciso II e as destinadas a outras entidades ou fundos, uma vez que as contribuições previstas no art. 22, I da Lei 8.212/1991 foram substituídas pelas contribuições previstas no art. 7° da Lei 12.546/2011, nesse período. Para o período de 01/2011 a 02/2012 e de 08/2013 a 12/2014, as contribuições apuradas foram às previstas na Lei 8.212/1991, artigos 20 e 22, incisos I e II, assim como as destinadas a outras entidades ou fundos. Do Reenquadramento do CNAE Fl. 2506DF CARF MF Processo nº 10380.720577/201633 Acórdão n.º 2202004.959 S2C2T2 Fl. 2.505 5 A fiscalização efetuou o reenquadramento do Instituto Atlântico no CNAE correto da empresa, qual seja: CNAE 62.015/00 Desenvolvimento de programas de computador sob encomenda. O Instituto Atlântico utilizou em seu cadastro junto à Receita Federal do Brasil o CNAE "72.10000 Pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências físicas e naturais", condizente com o seu Estatuto Social. Também foi utilizado este CNAE no preenchimento da GFIP. Todavia, analisando os contratos firmados entre o Instituto Atlântico e seus clientes, restou comprovado que a atividade majoritariamente desenvolvida pelo Instituto Atlântico e na qual estão empregados quase todos os seus profissionais é a produção de programas de computador sob encomenda, assim como manutenção e aplicação de testes sob os mesmos, cujo fato restou demonstrado nos diversos contratos anexados pela fiscalização, aos autos. Da Substituição das Contribuições Previdenciárias A empresa teve as contribuições previdenciárias previstas no art. 22, incisos I e III da Lei 8.212/1991 substituídas pela contribuição incidente sobre a receita bruta total, à alíquota de 2,5%, de 03/2012 a 06/2012, e de 2,0%, de 07/2012 em diante, de acordo com o art. 7°, I da Lei 12.546/2011. Pela análise do SPED Contribuições da empresa e sua DCTF, a fiscalização verificou que o Instituto Atlântico agiu de acordo com a lei somente até julho de 2013, considerandose submetida à substituição tributária prevista na Lei 12.546/2011. Contudo, segundo a memória de cálculo das contribuições incidentes sobre a receita bruta e a DCTF da empresa, esta deixou de informar em DCTF e de recolher em DARF parte destas contribuições, consoante detalhado no item 7.2 do Relatório Fiscal. Da Apresentação de GFIP com Informações Incorretas A empresa informou incorretamente o campo CNAE na GFIP de todos os estabelecimentos em todas as competências, conforme relatado no item 5 do Relatório Fiscal. Também o FAP foi informado erroneamente na GFIP em todos os estabelecimentos como "1", quando o correto seria "0,5", de 01/2011 a 02/2013. Além destes erros, a empresa preencheu incorretamente os campos relativos à compensação indevida no período de 12/2011 a 02/2012: valor solicitado, valor compensado, valor a compensar, competência inicial da compensação e competência final da compensação. Em decorrência dessa infração, foi aplicada a multa no valor de R$ 500,00 por cada competência (valor mínimo). Como os erros foram observados em todas as 48 competências, a multa totalizou R$ 24.000,00. Da Multa de Ofício Qualificada A multa de ofício foi duplicada (150%) na forma prevista no art. 44, §1° da Lei n° 9.430/1996, em virtude da conduta dolosa da empresa, na figura de seu superintendente que, autorizado por seu Presidente e Diretores, propôs a adoção da chamada "CLT Flex", bem assim como pela contratação de pessoal por meio de Fl. 2507DF CARF MF 6 cessão de direitos autoraisCDA, quando os fatos demonstraram que se tratam de pessoas naturais com vínculos empregatícios, fatos estes que se amoldam perfeitamente na definição de fraude prevista no art. 72 da Lei n° 4.502/1964. Da Responsabilidade Solidária Tributária A fiscalização atribuiu à Fundação CPqD, CNPJ 02.641.663/000110 responsabilidade solidária pelos créditos constituídos no presente lançamento, com base art. 124, I do Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172, de 1966). Tal responsabilidade decorreu da caracterização da existência de interesse comum nos casos nos quais a Fundação CPqD foi contratada juntamente com o Instituto Atlântico, tendo em vista que ambas as empresas conjugaram esforços (mãodeobra) para a execução dos serviços, conforme relatado no item 9 do Relatório Fiscal. Conforme relato fiscal, foi constatado que existe verdadeira confusão entre as duas empresas, além dos membros da diretoria e superintendente possuírem vínculo com ambas empresas, várias propostas comerciais foram assinadas por pessoas que não são ligadas ao Instituto Atlântico e fornecem email de contato da Fundação CPqD, além do que a contratação de prestadores de serviço conta com a participação do CPqD, e as reuniões da assembleia geral e da diretoria são realizadas no domicílio do CPqD, além de outros fatos relatados no Relatório fiscal. As situações que constituem os fatos geradores das obrigações principais são as prestações de serviços realizadas por pessoas naturais cujos vínculos trabalhistas foram caracterizados nos itens 4.1 e 4.2 do Relatório Fiscal. Demonstrada a existência de interesse comum na situação que constitui o fato gerador das contribuições previdenciárias, atraise a norma do art. 124, I do Código Tributário Nacional, razão pela qual a Fundação CPqD tornase responsável solidária pelos créditos constituídos no presente processo. O recorrente e a responsável solidária Fundação CPqD Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações apresentaram impugnações (fls. 2190/2244 e 2247/2281, respectivamente), porém a exigência foi mantida no julgamento de primeiro grau (fls. 2318/361). O contribuinte interpôs recurso voluntário (fls. 2401/2430) em 20/10/2016, reiterando as alegações da impugnação, que sintetiza da seguinte maneira: a) Presença de vício quanto ao motivo do ato administrativo de lançamento, pois não se observaram todos os elementos conformadores do art.142 do CTN, notadamente a descrição do fato gerador e a determinação da matéria tributável, considerandose que a autoridade administrativa fiscal sequer juntou os elementos probatórios suficientes à demonstração da caracterização do ilícito. b) A inexistência de "pejotização". A regular contratação de empresas prestadoras de serviços. c) Esclarecimentos sobre cessão de direitos autorais (CDA). Peculiaridades do setor em que o contribuinte atua. Procedimento regular. d) O descabimento da alegada necessidade de reenquadramento do CNAE, além da não apresentação de GFIP com informações corretas. e) Em ad argumantandum tantum, tratouse sobre o despropósito da multa qualificada, sobretudo pela falta de comprovação de dolo. Fl. 2508DF CARF MF Processo nº 10380.720577/201633 Acórdão n.º 2202004.959 S2C2T2 Fl. 2.506 7 f) A inexistência de responsabilidade solidária entre o Instituto Atlântico e a Fundação CPq D. Além disso, aduziu terem sido ignoradas razões de impugnação pela decisão a quo, havendo violação aos princípios da ampla defesa, do contraditório e da não surpresa, considerando a fundamentação daquela omissa e genérica quanto à "pejotização", à contratação das prestadoras de serviços, à cessão de direitos autorais, às peculiaridades do setor, à apresentação de GFIPs com informações incorretas, à multa qualificada e à responsabilidade solidária. Irresignase, ainda, com relação ao indeferimento da perícia e ao que entende ser a não aplicação de precedentes, pleiteando, ao final, a reforma do julgado de modo a desconstituir o crédito tributário. Já a responsável solidária postou seu recurso voluntário (fls. 2450/2462) em 27/10/2016, defendendo que ela não pertence ao mesmo grupo econômico que o autuado, havendo mera parceria entre ambos em algumas vendas e que não há provas do interesse comum na situação configuradora de fato gerador. Por seu turno, a PGFN apresentou suas contrarrazões às fls. 2469/2499. É o relatório. Voto Conselheiro Ronnie Soares Anderson, Relator O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. No que tange ao entendimento de que as razões de impugnação foram ignoradas pela decisão de primeira instância, não prospera a inconformidade do recorrente. O contribuinte imputa à decisão, bem como ao lançamento, uma série de adjetivos que evidenciariam estarem eles imbuídos de inaceitável nível de generalismo, sustentando que não foram analisados seus argumentos a contento. Não obstante, como verseá ao longo desta fundamentação, as peças eivadas de "generalismos" com as quais se defronta nestes autos são na verdade de lavra do recorrente, ou seja, sua impugnação e recurso voluntário. Com efeito, o acórdão contestado abordou todas as principais questões levantadas na impugnação, ou seja, a nulidade do lançamento, a irregular contratação de serviços prestados por pessoas jurídicas, a análise individualizada da presença de relação de emprego, a existência de simulação, a cessão de direitos autorais, o reenquadramento do CNAE, o descumprimento de obrigação acessória, a existência de responsabilidade solidária, a qualificação da multa e os efeitos da jurisprudência. Eventual irresignação do autuado quanto à avaliação das provas constantes no processo, ou com a suficiência dessas provas para alcançar as conclusões do Fisco, é nítida e incontestavelmente matéria de mérito, em nada se confundindo com matéria de nulidade. Fl. 2509DF CARF MF 8 Ademais, o julgador não está obrigado a refutar, um a um, todos os argumentos deduzidos pelo recorrente, basta apreciar com clareza, ainda que de forma sucinta, as questões essenciais e suficientes ao julgamento, conforme jurisprudência consolidada nas Cortes Superiores (EDcl no AgRg no REsp nº 1.338.133/MG, REsp nº 1.264.897/PE, AgRg no Ag 1.299.462/AL, EDcl no REsp nº 811.416/SP). Anotese que tal posicionamento não foi alterado com o advento do CPC/2015, consoante precedentes daquele sodalício, tais como os EDcl no REsp nº 1.322.791/DF (j. 15/12/2016). Melhor sorte não favorece aos argumentos de que o auto de infração conteria nulidade, por "inobservância dos pressupostos intrínsecos do lançamento". Ora, não é apontado qual dos elementos do procedimento administrativo do lançamento, delineados no art. 142 do CTN ocorrência do fato gerador, apuração da matéria tributável, cálculo do montante devido, identificação do sujeito passivo que teria sido não devidamente caracterizado, tampouco denotado descumprimento dos requisitos formais constantes dos arts. 10 e 11 do Decreto nº 70.235/72. De fato, o foco das alegações vertidas pelo recorrente contra a autuação parece ser similar ao contido em seu arrazoado questionando o acórdão da DRJ, ou seja, o de que o enfrentamento do caso concreto foi genérico. Reiterese, mais uma vez, que tal gênero de linha argumentativa, a aventar sutilmente a insuficiência de prova ou das razões de convencimento, diz respeito à questão de fundo, não se consubstanciando em nulidade. Ademais, compulsando os autos, e frente às milhares de páginas de elementos de prova carreados no curso do procedimento fiscal e o detalhado relatório fiscal de fls. 92/121, fica deveras difícil concluir que dito procedimento padece de generalidade tal a ponto de dar azo a declaração de sua nulidade. Impende registrar, como remate, que não se vislumbra na espécie qualquer das hipóteses ensejadoras da decretação de nulidade do lançamento consignadas no art. 59 do Decreto nº 70.235/72, havendo sido todos os atos do procedimento lavrados por autoridade competente, sem qualquer prejuízo ao direito de defesa do contribuinte, o qual recorre evidenciando pleno conhecimento das exigências que lhe são imputadas. Superando as questões de nulidade, tenho que os tópicos de mérito relativos à irregular contratação de serviços prestados por pessoas jurídicas, e à cessão de direitos autorais foram muito bem enfrentados no julgamento a quo, e, não divergindo das razões lá ventiladas, transcrevo, em sua essência, os respectivos trechos da fundamentação, de modo a que integrem este voto, devendo ser ressalvado, que, ao final, serão feitas observações adicionais sobre o caso em apreço, por parte deste relator: Da Irregular Contratação de Serviços Prestados por Pessoas Jurídicas. O contribuinte nega a existência de pejotização e afirma que foi regular a contratação de empresas prestadoras de serviços. Sustenta que o lançamento fundou se em situação fáticojurídica inexistente, quais sejam: a existência de segurados empregados prestando serviços, de forma fraudulenta, como se pessoas jurídicas fossem. O cerne da autuação consistiu na desqualificação de negócios jurídicos firmados pelo autuado com pessoas jurídicas regularmente constituídas (prestação de Fl. 2510DF CARF MF Processo nº 10380.720577/201633 Acórdão n.º 2202004.959 S2C2T2 Fl. 2.507 9 serviços). De acordo com o relato fiscal, tais negócios constituem autêntica relação de emprego, na forma do art. 12, inciso I, da Lei n° 8.212/91, impondose a incidência imperativa das normas previdenciárias. A fiscalização constatou, da análise dos contratos de prestação de serviços, notas fiscais e esclarecimentos prestados pela empresa autuada e pelos prestadores, a existência de relação de emprego entre o contribuinte e os profissionais que lhe prestaram serviços por meio dessas empresas contratadas. Observou que os serviços prestados são inerentes à atividade fim da empresa contratante e que, em muitos casos, as contratadas prestaram serviços exclusivamente ao contribuinte. Além dos empregados registrados no próprio Instituto Atlântico, este apresentou diversos prestadores de serviço contratados através de outras pessoas jurídicas (PJ), e prestadores de serviços cuja contratação se deu através de "Contrato de Cessão de Direitos Autorais de Obras Futuras” (CDA). A chamada "Pejotizacão" é um artifício jurídico utilizado por certos empregadores, que exigem do empregado à constituição de uma pessoa jurídica, a fim de alterar a natureza do contrato e, assim, exonerarse dos encargos fiscais e previdenciários, bem como dos direitos inerentes às relações empregatícias. O artigo 9° da CLT dispõe que serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na legislação trabalhista. Extraise do Relatório Fiscal que, pela análise dos contratos de prestação de serviços apresentados pela impugnante no decorrer do procedimento fiscal, a fiscalização constatou que, na verdade os contratos eram feitos com as pessoas naturais. Vejase excerto do Relatório Fiscal: (...) Embora o contrato previsse que o objeto da contratação estaria descrito e caracterizado no próprio contrato, em uma seção chamada de "Adendo", observase que esta seção também é idêntica entre todos os contratados, e informa apenas que "o objetivo da prestação de serviço é o Apoio Operacional para o desenvolvimento de sistemas pela CONTRATADA à CONTRATANTE, para atendimento do CLIENTE CONTRATANTE, de acordo com as especializações profissionais descritas no item II deste Adendo". Vale esclarecer que o item II do Adendo não descreve nada do serviço, porém apresenta duas importantes informações: o preço do serviço por hora, e a mais importante, o prestador do serviço, que é quase sempre o mesmo durante toda a prestação. Os documentos intitulados "Adendos I", "Adendos II", "Adendos III" e "Adendos IV" foram extraídos dos contratos firmados e comprovam o que alegamos. (...) Diante dessas informações, cabe concluir que embora a prestação de serviço fosse intermediada por uma outra pessoa jurídica, quem o Instituto Atlântico verdadeiramente contratava eram as pessoas naturais que prestavam o serviço e que a atividade fim é objeto do contrato firmado entre o Instituto Atlântico e seus clientes. Fl. 2511DF CARF MF 10 O que a fiscalização constatou foi que pessoas naturais foram contratadas para desempenhar as mesmas funções que os empregados do Instituto realizam em sua atividade fim. Algumas informações presentes nos contratos foram citadas pela fiscalização e corroboram esta conclusão, conforme excerto do Refisc: (...) os documentos elaborados quando do reajuste dos contratos se referiam ao prestador pelo nome da pessoa natural e sua matrícula e não pelo nome da pessoa jurídica, além do que a justificativa para o reajuste se referia a qualidades pessoais do prestador e não da empresa. Documento intitulado "Alteração da Situação PJ" comprova o alegado; os contratos mais antigos previam o pagamento de horasextras benefício restrito aos empregados. O documento "HE em contratos de PJ" comprova este fato; condições de segurança e jornada diária de trabalho contratualmente idênticas às dos empregados do Instituto, fato demonstrado pelo documento "Condições de Trabalho" em anexo. (...) O Instituto Atlântico alega que a fiscalização fez menção genérica às relações jurídicas mantidas pelo contribuinte, sem qualquer análise individual e casuística dos contratos firmados. Ao contrário do que afirma o impugnante, o Relatório Fiscal (item 4.1) demonstra a análise individualizada de cada uma das empresas contratadas e dos respectivos beneficiários pessoas naturais. Vejamse excertos do Relatório Fiscal: (...) Outra importante informação pode ser observada justamente nos casos nos quais mais de uma pessoa é relacionada como prestador do serviço: estas pessoas não mantêm nenhum tipo de vínculo com a pessoa jurídica contratada, ou seja, não são empregados, tampouco sócios das empresas, demonstrando que seu vínculo se dá na verdade diretamente com o Instituto Atlântico, sendo usada uma ou mais pessoas jurídicas contratadas apenas para disfarçar a verdadeira relação. E mais, muitas destas pessoas foram remuneradas por mais de uma empresa em diferentes meses em um curto período de tempo, não mantendo vínculo com nenhuma delas. Em outros casos, a empresa somente foi utilizada até que o profissional pudesse abrir uma empresa em seu próprio nome. Esta alta rotatividade de empregadores, aliada ao fato de prestarem serviços sempre ao mesmo tomador demonstra que este é o verdadeiro empregador. Os fatos a seguir demonstram o alegado: a empresa A.J.Ferreira foi utilizada para remunerar o senhor Aurindo Jorge Ferreira de 01/2011 a 12/2014. Porém em 06/2012, a senhora Vanessa Alexandra da Silva foi remunerada por esta empresa sem nunca ter sido sócia dela ou sua empregada. Mais ainda, em 03/2013, a empresa remunerou os senhores Rondineli Moura Machado e Vandewilly Oliveira da Silva, senhores estes que nunca foram nem empregados nem sócios da A.J.Ferreira. O mais interessante é que estes dois senhores no mês seguinte passaram a ser remunerados por suas próprias empresas, suas homônimas e criadas justamente em 18/03/2013 e 04/03/2013, respectivamente. Disto se conclui que estes senhores já trabalhavam para o Instituto Atlântico, mas para evitar a incidência de tributos previdenciários e trabalhistas, foi Fl. 2512DF CARF MF Processo nº 10380.720577/201633 Acórdão n.º 2202004.959 S2C2T2 Fl. 2.508 11 utilizada uma pessoa jurídica encobrir o real vínculo, contudo, como as suas próprias empresas ainda não estavam regulares, eles foram remunerados durante o primeiro mês por outra pessoa jurídica. (...) O senhor Alexander Pimentel de Lima foi remunerado pela empresa Alleasy Consultoria em Informática até 01/2013, mesmo sem possuir vínculo com ela, quando passou a ser remunerado por sua própria empresa a AZPL Consultoria em TI, criada em 16/10/2012. Já o senhor Raphael Mendes de Oliveira foi remunerado pela Alleasy até 09/2012, mesmo sem possuir vínculo com a empresa, e a partir de 10/2012 passou a ser remunerado através de sua recém criada empresa (17/09/2012) hômonima (…)O senhor Jeferson Mendes Lopes recebeu em 03/2011 e 04/2011 pela empresa APPIS.com mesmo sem possuir vínculo com a mesma, passando a receber a partir de 05/2011 por empresa de sua titularidade, chamada JML Sys Serviços de Informática, constituída em 30/03/2011. (...)A senhora Maria Lidalva Daniel Barbosa foi remunerada pela empresa Tecnocuca Informática de 09/2012 a 03/2013 e em 06/2013, mesmo sem possuir vínculo com esta empresa. Passou a receber pela empresa Techminds de 04/2013 a 03/2014, empresa da qual é sócia desde 08/03/2013. (...) Assim, resta demonstrado que as empresas, assim como os beneficiários encontramse todos identificados no item 4.1 do relatório fiscal e na planilha denominada “PF por PJ” anexa aos autos. O documento "PF por PJ" demonstra os beneficiários de cada uma das pessoas jurídicas citadas, enquanto que consulta nos sistemas informatizados da Receita Federal do Brasil (GFIPWEB, Portal DIPJ, Portal IRPF e Portal DIRF) demonstram que os profissionais citados não eram empregados nem sócios das empresas para as quais prestaram serviços. Este documento foi elaborado pelo próprio contribuinte e continha algumas omissões, estas omissões foram completadas com informações provenientes das notas fiscais emitidas, de acordo com informações extraídas do Relatório Fiscal. No caso da empresa IVIA, questionado na defesa, verificase que a fiscalização relacionou na planilha “PF por PJ” cada pessoa física beneficiária da empresa IVIA na prestação de serviços de desenvolvimento de software, indicando os nomes e os respectivos valores. Sem razão à impugnante em seus argumentos. Outro questionamento do Instituto Atlântico consiste na alegação de que o agente fiscal acusou a presença de seguradosempregados sem demonstrar, com clareza e de forma individualizada, a presença dos requisitos exigidos pela legislação de regência para que tal figura seja identificada. Examinando o Refisc, verificase que além das informações extraídas dos contratos e de seus anexos, foram anexadas comunicações internas do Instituto Atlântico, destacandose: (...) analisando a relação de destinatários dos benefícios mantidos pelo Instituto Atlântico aos seus empregados, foram encontrados os Fl. 2513DF CARF MF 12 nomes de diversas pessoas que não mantinham vínculo com o mesmo e eram remuneradas por outras pessoas jurídicas: o senhor Alexander Molinari Teixeira foi reembolsado pela participação em curso em 04/2013, quando teria sido remunerado pela empresa Dados Transporte e Serviços; a senhora Aline Chaves Freitas foi reembolsada pela participação em curso em 06/2014, quando teria sido remunerada pela empresa Techminds; o senhor Amaurilo Santos da Silva foi reembolsado por despesas realizadas devido a deslocamento a serviço em 02/2012, sendo sempre tratado por seu nome e chamado de colaborador, nunca se referindo à empresa da qual ele era titular, a Appis.com; a senhora Ana Sofia Cysneiros Marçal foi reembolsada por despesas realizadas em 06/2012, sendo sempre tratada por seu nome e chamada de colaboradora, nunca se referindo à empresa da qual ela era titular, a Softi Consultoria. Além disto, foi beneficiada com o pagamento de curso; o senhor Arthur Landim Carvalho Costa foi beneficiado com o reembolso de telefone celular em 02/2011, quando era titular da empresa A.L.C Costa; o senhor Aurindo Jorge Ferreira teve custeada sua viagem a serviço em 12/2011, sendo sempre tratado por seu nome e chamado de funcionário, nunca se referindo à empresa da qual ele era titular, a A.J.Ferreira; o senhor Edson Ricardo de Andrade Silva foi beneficiado com o reembolso de telefone celular em 10/2011, quando era titular da empresa Edson Ricardo de Andrade Silva; o Instituto Atlântico pagou telefones celulares para as empresas L.K. Lima Carvalho, A.L.C Costa, Factory Technologies; o senhor Filipe Bastos Machado foi beneficiado com o reembolso de telefone celular em 03/2011, quando era titular da empresa M&M Tecnologia; a senhora Germana Gladys Marques de Almeida teve custeada sua viagem a serviço em 12/2011, sendo sempre tratada por seu nome e chamada de funcionário, nunca se referindo à empresa da qual ele era titular, a Germana Gladys Marques de Almeida. Além disto, esta senhora teve o pagamento de hospedagem e de telefonia celular efetuado pelo Instituto Atlântico; o senhor Gilson Roberto Sousa Moura foi beneficiado com o reembolso de cursos, com seguro de vida, planos de saúde e odontológico, previdência privada (SISTEL) quando teria sido remunerado pela empresa Soft Work; o senhor Hildenilson Andrade Albano teve custeada sua viagem a serviço em 12/2011, sendo sempre tratado por seu nome e chamado de funcionário, nunca se referindo à empresa da qual ele era titular, a HS Informática; o senhor José Lobo de Brito Junior teve custeada sua viagem a serviço em 03/2011, sendo sempre tratado por seu nome e chamado de funcionário, nunca se referindo à empresa da qual era sócio, a Think Works; Fl. 2514DF CARF MF Processo nº 10380.720577/201633 Acórdão n.º 2202004.959 S2C2T2 Fl. 2.509 13 a senhora Juliane Castro Oliveira foi beneficiada com o reembolso de curso em 03/2012, com planos de saúde e odontológico, previdência privada (SISTEL) quando teria sido remunerada pela empresa Soft Work; a senhora Luísa Karinne Lima Carvalho foi beneficiada com pagamento de celular, custeio de viagens, custeio de treinamentos, plano odontológico mesmo sendo titular da empresa Tech Solutions. Além disto, o Instituto Atlântico reconhece o pagamento de alimentação durante "horário extra de trabalho"; Como prova dessas alegações, foram anexados pela fiscalização os comprovantes fornecidos pela empresa com os gastos relativos a plano de saúde, plano odontológico, seguro de vida, previdência privada, telefonia móvel, fornecimento de cursos e treinamentos e os diversos reembolsos de viagens. Ademais, os cargos e as funções que várias pessoas que teriam recebido por outras pessoas jurídicas desempenhavam no Instituto Atlântico são incompatíveis com a terceirização, seja por demonstrarem que representam o Instituto Atlântico perante terceiros, seja por assumirem funções de direção, chefia, gerência ou liderança, demonstrando que o real vínculo é estabelecido entre o Instituto Atlântico e as pessoas naturais. Os fatos citados demonstram vínculo direto de subordinação, caso em que haverá relação de emprego com o contratante (Instituto Atlântico), servindo as empresas contratadas de mero disfarce na tentativa de afastar a vinculação empregatícia. Diante disso, temse que os negócios praticados pelo Instituto Atlântico constituem autêntica relação de emprego, na forma do art. 12, inciso I, da Lei n° 8.212/91, impondose a incidência imperativa das normas previdenciárias. De acordo com o art. 142 do Código Tributário Nacional, compete à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível, dispondo seu parágrafo único que a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Da análise dos fatos apresentados, verificase a existência de uma simulação no procedimento de terceirização adotado pela autuada em relação às empresas apontadas no REFISC. (...) Na definição de Clóvis Beviláqua, a simulação é uma declaração enganosa da vontade, visando produzir efeito diverso do ostensivamente indicado (Código Civil dos Estados Unidos do Brasil Comentado – 15ª Edição). O Código Civil Brasileiro de 2002 traz, no § 1o, do art. 167, as hipóteses em que fica configurada a ocorrência de simulação: Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. § 1º Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: Fl. 2515DF CARF MF 14 I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; II contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós datados E, conforme demonstrado nos autos, a situação verificada pela auditoria fiscal se enquadra perfeitamente no dispositivo legal antes transcrito. Segundo Orlando Gomes, ocorre simulação quando em um negócio jurídico se verifica intencional divergência entre a vontade real e a vontade declarada, com o fim de enganar terceiro (Introdução ao Estudo do Direito – 7ª Edição). A teor do art. 118, inciso I do CTN, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. Em respeito ao Princípio da Verdade Material e pelo poderdever de buscar o ato efetivamente praticado pelas partes, a Administração, ao verificar a ocorrência de simulação, pode superar o negócio jurídico simulado para aplicar a lei tributária aos verdadeiros participantes do negócio. A desconsideração de atos jurídicos não é ato privativo do Poder Judiciário. Esse é o entendimento fixado na jurisprudência do Conselho de Contribuintes e de nossos tribunais, conforme julgados cujos trechos transcrevo abaixo: (...) Restou demonstrado, pela fiscalização, que as contratações utilizados pela impugnante apontadas no Relatório Fiscal e seus anexos, tinham por objetivo simular negócio jurídico, no qual a intenção das partes é uma, a forma jurídica adotada é outra. A fiscalização discorre, em seu relatório fiscal, sobre cada empresa prestadora, apontando os motivos pelos quais entendeu que houve simulação na forma da prestação dos serviços. Observase, nos contratos firmados, a existência de cláusula que garante ao contratado utilizarse das instalações do contratante para a execução dos serviços, inclusive arquivos, telefones, material de consumo, hardware e softwares, por exemplo. Os fatos narrados pela autoridade lançadora reforçam a convicção de que a impugnante se utilizou de empresa interposta para atingir seus objetivos, pois não é crível que ela cederia suas instalações, sem qualquer ônus, para uma empresa independente. Em muitos casos o serviço é prestado exclusivamente à impugnante, conforme comprovam as notas fiscais sequenciais e em alguns contratos não consta o valor dos serviços a serem prestados. Já em outros consta o valor fixo, a ser pago mensalmente. Demonstra o relatório fiscal que as pessoas naturais relacionadas no REFISC, eram beneficiadas com reembolsos de cursos, seguro de vida, planos de saúde e odontológico, previdência privada (SISTEL) com pagamentos de celulares, custeio de viagens, custeio de treinamentos, pagamentos de horas extras, dentre outros. Fl. 2516DF CARF MF Processo nº 10380.720577/201633 Acórdão n.º 2202004.959 S2C2T2 Fl. 2.510 15 A autuada não nega essas constatações fiscais, apenas se defende tentando demonstrar que a terceirização é lícita. Entretanto, o que foi constatado na ação fiscal foi uma simulação nos serviços de terceirização, e isso não é lícito, não encontrando amparo legal. A simulação, no caso em apreço, está clara quando muitos dos sócios das empresas contratadas já trabalham para a contratante como empregados, prestam serviços exclusivos à impugnante, utilizandose das instalações da contratante, para executar serviços relacionados com a atividade fim da autuada. (...) Cabe concluir, portanto, que as pessoas físicas que prestaram serviços à autuada por meio de pessoas jurídicas interpostas são segurados empregados do Instituto Atlântico. O inconformismo da impugnante não procede, já que restou comprovado que os empresários das empresas citadas são, na verdade, empregados da autuada. Restou comprovada, nos autos, a ocorrência de todos os requisitos necessários para a caracterização da relação de emprego, exigidos pelo art. 12, I, "a" da Lei n º 8.212/91 c/c art. 9º, I, "a", do RPS, aprovado pelo Decreto n º 3.048/99, quais sejam, a nãoeventualidade (habitualidade), a remuneração e a subordinação. Assim, verificada a ocorrência dos requisitos da relação de emprego, agiu a fiscalização em conformidade com ditames legais e enquadrou corretamente os trabalhadores na categoria de segurado empregado para efeitos da legislação previdenciária. Nas relações trabalhistas deve prevalecer a situação fática e não a incorretamente formalizada: o denominado princípio da primazia da realidade sobre a forma. Por esse princípio a realidade fática prevalece sobre qualquer instrumento formal utilizado para documentar o contrato, pois as circunstâncias e o cotidiano na relação empregatícia podem ser diversas daquilo que ficou documentado, podendo por isso gerar mais obrigações e direitos entre as partes. A essência do ato jurídico é o fato e não a forma. (...) Da Cessão de Direitos Autorais – CDA Acerca da cessão de direitos autorais, alega o contribuinte que o procedimento foi regular e que a fiscalização não observou as particularidades do setor em que o contribuinte atua. A legislação aplicável aos direitos autorais permite expressamente que empregado e empregador, ou pessoas que não mantenham tal vínculo, entabulem contratos dessa natureza, inexistindo qualquer dúvida quanto à sua legalidade. A lei que regulamenta a propriedade intelectual dos programas de computadores (Lei 9609/98), em seu artigo 4° dispõe: Salvo estipulação em contrário, pertencerão exclusivamente ao empregador, contratante de serviços ou órgão público, os direitos relativos ao programa de computador, desenvolvido e elaborado durante a vigência de contrato ou de vinculo estatutário, expressamente destinado à pesquisa e desenvolvimento, ou em que a atividade do empregado, Fl. 2517DF CARF MF 16 contratado de serviço ou servidor seja prevista, ou ainda, que decorra da própria natureza dos encargos concernentes a esses vínculos. Assim, se um empregado foi contratado por uma empresa com a função de desenvolver um software e usou de ferramentas, conhecimento, tecnologia dessa empresa, não teria direito algum sobre os programas desenvolvidos em suas atividades na empresa. Entendese que a sua remuneração já é tida como a retribuição pelo trabalho prestado. A propriedade intelectual somente será do empregado quando ele desenvolver um projeto que não tenha ligação com o contrato de trabalho, utilizando recursos próprios. Há que se dizer, então, que pertence à empresa contratante os direitos autorais relativos aos softwares desenvolvidos por seus empregados, contratados ou não para a função de programador, desde que usando recursos da empresa contratante. Caso contrário, se a criação do empregado não tiver vinculo algum com a empresa que o contratou, a propriedade intelectual será do criador. No caso de empresas especializadas na criação e desenvolvimento de softwares o assunto tem que ser tratado já na contratação, com a elaboração de um claro e objetivo contrato de trabalho, que observe as peculiaridades da atividade. (...) Contudo, em um caso ou no outro, é necessária a demonstração da existência de uma obra realizada, que sua realização não se desenvolveu no âmbito do contrato de trabalho, ou seja, que as atribuições do contrato de trabalho são diferentes das necessárias ao desenvolvimento da obra e que a remuneração está intrinsecamente ligada à obra realizada. Analisando os contratos de cessão de direitos autorais e outros documentos, a fiscalização demonstrou que todas as pessoas envolvidas no lançamento, tanto aquelas que foram contratadas somente nesta modalidade, quanto àquelas que também possuíam vínculo empregatício, são empregadas da empresa e suas remunerações são fatos geradores de contribuições previdenciárias, como segue: existem dois tipos de contrato: o primeiro, que previa o pagamento da remuneração de acordo com a produção de cada pessoa e o segundo no qual a remuneração mensal era uniforme. Embora houvesse esta diferença formal, na essência os contratos eram iguais, pois na verdade não havia nenhuma prestação de contas, além do que a remuneração era uniforme ao longo da prestação, independente da produção supostamente realizada. Além do que todos os contratos são iguais em sua essência, demonstrando que todas as pessoas estão em situações idênticas; observouse na planilha "obras_cda_2011_2014", elaborada pela própria empresa, que diversas pessoas com as quais a empresa firmou contrato de CDA trabalharam simultaneamente em diversos projetos, contudo, sua remuneração foi sempre uniforme e vinculada a apenas um dos projetos, demonstrando que a remuneração era fixa e não dependia da produção realizada, mas do serviço prestado, característica da remuneração dos empregados; comparandose as duas planilhas elaboradas pela empresa, "obras_cda_2011_2014" e "alocações", a primeira informando a remuneração de cada CDA e o projeto no qual trabalhou por mês, e a segunda informando as horas alocadas a cada CDA por Fl. 2518DF CARF MF Processo nº 10380.720577/201633 Acórdão n.º 2202004.959 S2C2T2 Fl. 2.511 17 projeto, percebese que a remuneração de todos eles foi uniforme, não havendo prestação de contas da produção realizada, demonstrando que apenas importou se o serviço foi ou não prestado, característica dos contratos empregatícios; consoante demonstra o arquivo elaborado pela empresa "obras_cda_2011_2014", com exceção dos senhores Antônio Afonso Lolegi Junior, Débora Lopes dos Santos, Érika da Silva Lhamas, Mônica Becari Pelegrini das Chagas, Róbson Domingos Carneiro e Róbson Moura, todos as demais pessoas trabalhavam nos projetos dos clientes do Instituto Atlântico, desempenhando funções e ocupando cargos típicos de seus empregados e na atividade fim da empresa; mesmo as pessoas antes citadas, desempenhavam funções e ocupavam cargos típicos dos empregados, com a única diferença de que trabalhavam desenvolvendo projetos a serem usados na área administrativa do próprio Atlântico, mas mesmo assim se tratava de atividade própria dos empregados e dentro das competências para as quais foram contratados; observase que diversos profissionais foram contratados com o projeto já em andamento, ao passo que outros tiveram seus contratos encerrados antes da conclusão do projeto demonstrando que o que fora contratado não foi uma obra, mas apenas o serviço; Além destes fatos, os cargos e as funções que várias pessoas que recebiam através de contratos de cessão de direitos autorais desempenhavam no Instituto Atlântico são incompatíveis com esta forma de remuneração, seja porque representam o Instituto Atlântico perante terceiros, seja por assumirem funções de direção, chefia, gerência ou liderança, demonstrando que o real vínculo é estabelecido entre o Instituto Atlântico e as pessoas naturais. As pessoas citadas no Relatório Fiscal desempenhavam funções e ocupavam cargos típicos dos empregados, com a única diferença de que trabalhavam desenvolvendo projetos a serem usados na área administrativa do próprio Atlântico, mas mesmo assim se tratava de atividade própria dos empregados e dentro das competências para as quais foram contratados. A fiscalização verificou, ainda, que diversos profissionais foram contratados com o projeto já em andamento, ao passo que outros tiveram seus contratos encerrados antes da conclusão do projeto, demonstrando que o que fora contratado não foi uma obra, mas apenas o serviço; que a própria empresa confundiuse diversas vezes, ora remunerando as pessoas através de CDA, ora através de PJ, mas sempre exercendo as mesmas funções e ocupando os mesmos cargos, demonstrando que o vínculo é sempre o mesmo, o de empregado. Além do que, no caso sob exame, não restou comprovada a existência de obra realizada pelas pessoas naturais contratadas mediante CDA. Ainda, de acordo com o Relatório fiscal, analisando os objetos de criação relacionados pela empresa, a fiscalização verificou que todos se encontram nas atribuições e competências relativas ao contrato de trabalho e são idênticas aos objetos contratados pelo Instituto Atlântico com seus clientes. Vejamse excertos do Relatório fiscal: Fl. 2519DF CARF MF 18 Analisando as Atas de Reunião de Diretoria, mais precisamente a 3a Reunião da Diretoria do Ano de 2009, realizada nos dias 10 e 11 de agosto de 2009, percebese claramente que o Instituto Atlântico tinha o objetivo de reduzir seus encargos, através da adoção de "cesta flexível de benefícios e remuneração por cessão de direitos autorais". Segundo a agenda da reunião, tal assunto seria discutido na gestão de RH: CDA e modelos flexíveis de remuneração “. Na exposição realizada, foram “sugeridas”formas alternativas de remuneração", entre elas a "CLT Flex: modalidade mais utilizada é 30% na carteira e 70% 'por fora'" e "CDA modelo de Cessão de Direitos Autorais é dissociado do contrato de trabalho e tem validade de 5 anos". A expressão CLT Flex é conhecido jargão do mundo jurídico e constitui, de forma resumida, no pagamento de parte dos salários sob a forma de utilidades ou, de uma maneira mais clara, "por fora". Artigo publicado na revista Exame ("Artigo Exame") estabelece que neste tipo de contratação as empresas "dividem parte do salário 'por dentro' (CLT) e o restante entre benefícios, como alimentação, vestuário, moradia, educação, assistência médica, reembolso transporte, direitos autorais, propriedade intelectual etc. é pago por fora". Este mesmo artigo adverte que "a contratação flex é apenas uma entre as várias fraudes utilizadas atualmente para fugir das imposições legais e direitos dos trabalhadores, como exigir que o colaborador emita notas como PJ (pessoa jurídica), se associe a uma cooperativa ou, ainda, que emita RPA, por exemplo". Estas foram práticas elisivas adotadas pelo Instituto Atlântico. Do exposto, percebese que o Instituto Atlântico agiu de forma premeditada e estava ciente da real natureza das contratações realizadas e sua única motivação foi financeira, visando unicamente à redução de seus custos, independentemente da adequação da forma com a realidade. Vejamse excertos do Relatório Fiscal: (...)Analisando primeiramente os ensinamentos de Godinho, percebese claramente a existência de subordinação jurídica entre o Instituto Atlântico e seus prestadores de serviços CDA e PJ através de suas três manifestações: a clássica pode ser verificada na análise do organograma da empresa e nas funções desempenhadas pelas pessoas naturais. Todas elas desempenhavam funções (desde analistas, programadores, engenheiros, arquitetos de software, designers) alocadas a determinados projetos os quais sempre eram administrados por gerentes, aos quais obrigatoriamente se reportavam. Conforme visto, vários destes prestadores eram eles próprios os gerentes técnicos ou mesmo gerentes dos projetos, apresentando superioridade hierárquica aos outros prestadores e a muitos empregados; a manifestação objetiva é identificada nas atividades desenvolvidas por cada um de seus prestadores, todas dentro das atividadesfim da empresa, colaborando decisivamente para a consecução de seus objetivos institucionais; já a manifestação estrutural é identificada na segregação funcional que cada prestador tinha, desempenhando dentro de cada projeto um papel bem definido e vinculado à dinâmica operativa da atividade do tomador de serviços. Fl. 2520DF CARF MF Processo nº 10380.720577/201633 Acórdão n.º 2202004.959 S2C2T2 Fl. 2.512 19 Dessa forma, entendemos que os serviços prestados (CDA e PJ) foram realizados por empregados da empresa e todos se encontram nas atribuições e competências relativas ao contrato de trabalho e são idênticas aos objetos contratados pelo Instituto Atlântico com seus clientes, de modo que toda retribuição pelos serviços prestados integra o salário e constitui base de cálculo das contribuições destinadas à Seguridade Social. Todos os rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, via de regra, são considerados salários de contribuição, somente ficando afastada a incidência de contribuições nas hipóteses previstas no parágrafo 9º do artigo 28 da Lei 8.212/91. Uma vez presentes os requisitos da relação de emprego (pessoalidade, subordinação, não eventualidade, onerosidade (art. 12, inciso I, alínea “a”, da Lei 8.212/1991, e artigos 2º e 3º da CLT), a remuneração pelos serviços prestados constituise em base de cálculo das contribuições destinadas à Seguridade Social). A análise supra é cuidadosa e revela a superficialidade das repetidas qualificações de generalidade tanto do lançamento, com relação ao qual foram acima transcritos trechos demonstrando o detalhamento da ação fiscal, quanto da decisão atacada, articulada e bem fundamentada, como visto. Impende observar que o principal mote ao qual o contribuinte parece aterse, é, na realidade, a compreensão de que a fiscalização deveria ter efetuado análise individualizada e pormenorizada, por prestador de serviço, da existência de vínculo empregatício. A respeito, cabe esclarecer ser amplamente aceita na jurisprudência administrativa, como técnica usual de análise de ampla quantidade de informações por parte da fiscalização, a metodologia da amostragem, pela qual são selecionados grupos com vistas a delinear as características de um conjunto maior, vide, ilustrativamente, os Acórdãos de nos 20177693 (j. 16/06/2004), 110100.008 (j. 11/03/2009), 330200079 (j. 132/08/2009), 1801 00.413 (j. 14/12/2010), 1402000.462 (j. 25/02/2012) e 1803000.915 (j. 26/06/2011). Desse modo, ainda que o Fisco tivesse coletado as informações relativas a apenas uma parte das pessoas físicas que foram pagas via pessoas jurídicas interpostas, ou tivessem recebido verbas a título de cessão de direitos autorais, isso por si só não seria motivo suficiente a macular suas conclusões, se coerentes, representativas e não contestadas de modo hábil pelo autuado. Porém o que se verifica no particular é que sequer de amostragem se trata. De fato, foram reunidos amplos e sólidos elementos probatórios, todos consistentes em corroborar a percepção dos fatos tal como apreendida pela autoridade fazendária. Nessa senda, basta compulsar os autos para verificar a presença, dentre outros, dos seguintes documentos comprobatórios de pagamentos efetuados pelo autuado, relativos a pessoas físicas reconhecidas como seus empregados: pagamentos de despesas odontológicas fls. 787 e ss; listagem de reembolso de mestrados, cursos de aperfeiçoamento, etc. fls. 1008 e ss; reembolsos de despesas de viagem fls. 1021 e ss; seguro coletivo fls. 1095 e ss; planos de telefonia, fls. 1112 e ss. Fl. 2521DF CARF MF 20 Por sua vez, várias das pessoas físicas que, em tese ou formalmente, seriam titulares ou colaboradoras de pessoas jurídicas prestadoras de serviços, divulgavam nas redes sociais e em seus currículos Lattes possuírem vínculo laboral efetivo com o recorrente (ver fls. 403 e ss). Sintomática, aliás, é a correspondência eletrônica colacionada à fl. 677, direcionada a funcionário da empresa autuada, que exemplifica a prática simulatória por ela adotada para furtarse ao cumprimento dos encargos sociais, trabalhistas e tributários: (...) Conforme solicitado, abri uma empresa (Softwork) apenas para cadastrar os colaboradores do Ia, como sócios, atendendo todas as nossas necessidades legais [sic]. Com isso tive de obedecer todos os trâmites legais junto aos órgãos para liberação de talão de nota fiscal. (...) Estou terminando toda a documentação da Softwork, para que você tenha uma empresa "chave" onde possa contar e ficar despreocupado em suas futuras contratações. Ou seja, confessadamente, a abertura da empresa foi destituída de intento negocial, visando apenas cadastrar pessoas físicas empregadas e ocupantes de cargo gerencial do recorrente como "sócios" de pessoas jurídicas aparentes. Tal exemplo é apenas um dentre outros tantos, presentes na documentação carreada pela fiscalização, da conduta sistemática do recorrente quanto à política remuneratória e fiscal. Abrase parênteses para afastar a incidência do art. 129 da Lei nº 11.196/05, pois esta, consoante reiteradas decisões judiciais e precedentes administrativos ver, exemplificativamente, TST, AIRR 98161.2010.5.10.0006 (j. 29/10/2012) , e CARF, Acórdãos nº 2401003.146 (j. 13/08/2013) e nº 2402005.270 (j. 11/05/2016) sujeita o prestador de serviços intelectuais à legislação fiscal aplicável às pessoas jurídicas, tãosomente quando a pessoa física que passa a exerce atividade do gênero sob aquele manto o faz não apenas sob o ponto de vista formal, como simulacro, mas sim materialmente, com autonomia que a distingue, de maneira incisiva, da relação de cunho laboral, o que não se verifica no particular, de acordo com o já exposto. E deve ser reforçado que a possibilidade de prestação desse gênero de serviços via pessoas jurídicas encontra limites na observância do princípio da primazia da realidade, segundo o qual deve ser priorizada a verdade material observada no contexto das prestação de serviços, e não os seus aspectos formais. Nesse sentido, impõe trazer à colação a redação do parágrafo único do art. 129 da Lei nº 11.196/05, e respectivos motivos para o veto: Parágrafo único.O disposto neste artigo não se aplica quando configurada relação de emprego entre o prestador de serviço e a pessoa jurídica contratante, em virtude de sentença judicial definitiva decorrente de reclamação trabalhista. Razões do veto Fl. 2522DF CARF MF Processo nº 10380.720577/201633 Acórdão n.º 2202004.959 S2C2T2 Fl. 2.513 21 O parágrafo único do dispositivo em comento ressalva da regra estabelecida no caput a hipótese de ficar configurada relação de emprego entre o prestador de serviço e a pessoa jurídica contratante, em virtude de sentença judicial definitiva decorrente de reclamação trabalhista. Entretanto, as legislações tributária e previdenciária, para incidirem sobre o fato gerador o cominado em lei, independem da existência de relação trabalhista entre o tomador do serviço e o prestador do serviço. Ademais, a condicionante da ocorrência do fato gerador à existência de sentença judicial trabalhista definitiva não atende ao princípio da razoabilidade. Vêse então que a verificação da realidade material da relação jurídica regrada formalmente pela norma em evidência não carece de exame do poder judicante para ser submetida aos ditames da legislação tributária, bem como à análise das autoridades fazendárias competentes, estas com base no art. 142 do Código Tributário Nacional (CTN), no art. 2º da Lei nº 11.457/07, e no § 2º do art. 229 do Decreto nº 3.048/99 (Regulamento da Previdência Social RPS), o qual regra que "Se o Auditor Fiscal da Previdência Social constatar que o segurado contratado como contribuinte individual, trabalhador avulso, ou sob qualquer outra denominação, preenche as condições referidas no inciso I do caput do art. 9º, deverá desconsiderar o vínculo pactuado e efetuar o enquadramento como segurado empregado". Mencionese sobre tal competência, por oportuno, as sucessivas decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ), tais como as prolatadas nos REsp de nos 236.279, 515.521, 575.086 e 894.571/SP, restando então claro não haver falar, no particular, de necessidade de desconsideração da pessoa jurídica. Não é demasiado lembrar, ainda, que em caso de constatação de fraudes nas relações trabalhistas, o art. 9º da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) regra que são nulos de pleno direito os atos praticados para viabilizálos, havendo, por outra via, amparo normativo no inciso VII do art. 149 do CTN para a imputação do gravame tributário nessas situações. Inexiste, em decorrência, qualquer mácula na ação fiscal no que tange à competência para o reconhecimento, seja da existência de relações jurídicas aptas a atrair a incidência das contribuições previdenciárias, seja de eventual fraude envolvendo tais relações. Noutro giro, causa espécie que, a despeito das várias dezenas de pessoas jurídicas caracterizadas minuciosamente como veículos para terceirização da prestação de serviços por pessoas físicas diretamente ao autuado (ver fls. 97/101 do Relatório Fiscal), ele apeguese, com o mínimo de qualidade, unicamente ao caso da empresa Ivia Ltda., mediante o qual busca apontar pretensos erros na análise da fiscalização. Com esse objetivo, cingese a colacionar em seu recurso informações do sítio dessa empresa na internet, a qual, aparentemente, possui outros clientes e atua no mercado há certo tempo. Cumpre esclarecer que foram considerados como componentes da base de cálculo de contribuições previdenciárias apenas três pagamentos a tal empresa (fl. 834), sendo que dois deles associados a Emanuel Santos Lima, pessoa não citada no Relatório Fiscal, e um a Antônio Heinz, o qual, conforme esse documento, foi remunerado por outras pessoas jurídicas, sem ter nenhum vínculo com elas. Fl. 2523DF CARF MF 22 Sem embargo, consulta ao dito sítio da empresa IVIA na internet (www.ivia.com.br), efetuada em 26/09/2018, dá respaldo às alegações do autuado no sentido de que se trata de empresa formalizada e ativa no mercado de informática desde 1996, sendo difícil com esteio em apenas três pagamentos, e à míngua de comprovação adicional devidamente circunstanciada nos autos, vinculálos à pagamento laboral por parte do recorrente. Cabe então, excluir tais pagamentos, com relação aos quais o recorrente trouxe elementos, ainda que indiciários, de equívoco na imputação fiscal. Fazse isso, contudo, sem que resulte tal feito em sombra de dúvida sobre o lançamento em sua parcela amplamente majoritária, pois, como já enfatizado, está bem amparado nas provas constantes do processo. Quanto às empresas Tecnocuca e Techminds, citadas de passagem na peça recursal, temse como bem caracterizada a sua utilização como empresas de fachada para acobertar o verdadeiro vínculo com o tomador de serviço, conforme elucida o seguinte trecho do relatório fiscal (fl. 94): as empresas Tecnocuca e Techminds foram utilizadas sucessiva e alternadamente para remunerar as seguintes pessoas: Aline Chaves Freitas, David Bandeira de Melo, Francisco Raphael Bezerra Ribeiro, Francisco Thiago de Araújo Costa Mota, Guilherme Leite Amaral Falcão, Joaquim Pedro Matias Neto, Jocélio Otávio Araújo da Cunha, Maria Lidalva Daniel Barbosa, Paulo Pessoa de Carvalho Filho. Enquanto a Tecnocuca foi utilizada até 03/2013 e exatamente em 06/2013, a Techminds foi utilizada em 04/2013, 05/2013 e a partir de 07/2013, fato cuja estranheza salta aos olhos, se não vejamos: um grupo, não apenas uma pessoa, trabalha em uma determinada empresa, este grupo passa a trabalhar em outra empresa nos dois meses seguintes, no terceiro mês, retorna à empresa original, para a partir do quarto voltar à segunda empresa. E o mais curioso, sempre prestando serviços para o mesmo tomador. Para nós está claro que este grupo na verdade trabalha para o tomador do serviço, sendo as duas empresas prestadoras utilizadas para encobrir os vínculos verdadeiros; Vejase a respeito, também, as explicações contidas às fls. 98/99 do precitado relatório, e os pagamentos discriminados às fls. 860/867, tudo em consonância com o modus operandi do recorrente amplamente descrito pela autoridade fiscal. Nesse diapasão, e voltando o foco para as pretensas cessões de direitos autorais, é preciso destacar que não foi apresentada pelo epigrafado qualquer evidência de que as pessoas físicas destinatárias de pagamentos a tal título tenham desenvolvido criação intelectual sistema ou código fonte de programa de computador, dada a atividade da empresa que os justificasse. Vale lembrar que, nos termos da legislação aplicável, pertencem exclusivamente ao empregador os direitos relativos ao software desenvolvido e elaborado no curso da vigência do contrato de trabalho, com recursos, equipamentos e suporte de informações tecnológicas daquele. E, ainda que haja estipulação contratual em sentido diverso, frisese que, sendo situação que foge ao padrão no âmbito de empresas que atuam na área de informática, deve estar bem circunstanciada a existência efetiva da criação ou aprimoramento intelectual a embasar os direitos autorais pagos, sob pena de sobressair o caráter remuneratório. E repitase, o contribuinte não traz prova de qualquer cunho apta respaldar o entendimento de que teriam havido criações do gênero, apenas ilações, digase agora, assaz genéricas. Fl. 2524DF CARF MF Processo nº 10380.720577/201633 Acórdão n.º 2202004.959 S2C2T2 Fl. 2.514 23 O que se conclui é que não seria difícil ao recorrente fazer prova de suas alegações, seja juntando aos autos elementos mínimos de prova das criações intelectuais dos beneficiários de pagamentos de direitos autorais, seja demonstrando, de modo circunstanciado, eventuais equívocos argumentativos ou nas valorações dos documentos levados a efeito pela fiscalização quanto à condição de segurados empregados, sendo que aquela, repitase, devidamente analisou, de modo específico e detalhado, o caso concreto. No tocante ao tema enquadramento do CNAE, não foi trazida adução específica no recurso voluntário, só mera remissão a ter sido impugnado tal aspecto do procedimento fiscal. Desse modo, apenas por cautela, cabe referir que são abundantes as provas constantes nos autos, tais como contratos do recorrente com terceiras pessoas jurídicas (fls. 1302 e ss, 1454 e ss), natureza do trabalho desenvolvido pelos contratados, e até mesmo publicações internas da própria empresa (fls. 388 e ss), a corroborar o entendimento de que seu real CNAE em nada guarda similaridade com o declarado em GFIP (72.10000 Pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências físicas e naturais), mas sim com o de nº 62.015/00 Desenvolvimento de programas de computador sob encomenda. Daí, correto o procedimento da fiscalização realizando o correspondente reenquadramento. Não prospera também, a irresignação do autuado quanto à multa por descumprimento de obrigação acessória, tendo em vista a apresentação de GFIP com informações incorretas. Poderia ter ele evidenciado erro nos cálculos da fiscalização, porém resumiu se a lançar dúvidas sobre a análise da GFIP pelo Fisco a qual concluiu haver CNAE, FAPs e compensações incorretas em todos os meses sem qualquer detalhamento, parecendo esquecer se que, na medida em que o lançamento foi amparado nas GFIP por ele entregues, teria toda a facilidade de demonstrar a correção das informações prestadas nesse documento, e contestar eficazmente a autuação. Mais uma vez, entretanto, quedouse inerte em providência do gênero. Quanto ao cálculo, parece ter dificuldade em compreender que o valor mínimo de multa aplicada, de R$ 500,00, é associado a cada GFIP com incorreções, forte no art. 32A, inciso I, c/c o § 3º, inciso II da Lei de Custeio. As GFIPs são transmitidas mensalmente, então se o período sujeito ao lançamento abrange 48 meses, como é o caso, e em todos eles se verificaram incorreções, como constatado pela fiscalização e não contestado habilmente pelo recorrente, a multa consequente alcança o total de R$ 24.000,00. Sem reparos, portanto, o lançamento relativo à multa por descumprimento de obrigação acessória. Na mesma trilha, há que se reconhecer ter sido bem aplicada a qualificação da multa de ofício. A fiscalização logrou demonstrar ter sido conduta deliberada da empresa conforme, dentre outros variados elementos de prova, ata de reunião de diretoria e correspondências eletrônicas constantes nos autos mascarar a existência de relação de emprego perante as pessoas físicas, por meio de empresas interpostas, nas quais aquelas constavam formalmente como sócios ou empregados. E, curiosamente, na espécie, haviam casos em que as pessoas que tinham vínculo material de natureza empregatícia com o Fl. 2525DF CARF MF 24 recorrente, mas acabavam por ser remuneradas por várias pessoas jurídicas sequencialmente, sequer mantendo liame formalizado com elas. Isso, sem falar no procedimento também intencional de efetuar pagamentos a título de direitos autorais, sem qualquer respaldo fático para tanto, com vistas a diminuir a parcela remuneratória sobre a qual incidiriam as contribuições previdenciárias. Observese que, por se tratar de conduta objetivando dissimular os vínculos efetivamente estabelecidos, os elementos de prova, ainda que indiciários e há elementos de natureza mais contundente na espécie, que reste registrado devem ser avaliados em seu conjunto, o qual corrobora as conclusões da autoridade lançadora. Assim, constatada a divergência entre os atos jurídicos formais praticados e os fatos realmente ocorridos, há que se reconhecer a existência de simulação com intuito de fraudar as relações de trabalho e obstar o conhecimento do fisco do fato gerador das precitadas contribuições. Prevalece, por conseguinte, o convencimento de que o recorrente incidiu em fraude, nos termos delineados no art. 72 da Lei nº 4.502/64. Justificada, então, a qualificação da multa de ofício levada a efeito no lançamento. dado o disposto no art. 44 da Lei nº 9.430/96 Já no que concerne à responsabilização solidária da Fundação CPqD, entendo assistir razão aos recorrentes. É inegável que a fiscalização se esmerou em buscar elementos com vistas a fortalecer a convicção de que a mencionada fundação teria interesse comum na situação de fato que constitui os fatos geradores das obrigações, objetivando dar supedâneo à aplicação do art. 124, inciso I, do CTN, afirmando que "as decisões estratégicas e executivas são tomadas por empregados da Fundação CPqD, ainda que neste último caso os seus contratos estejam suspensos", "existe verdadeira confusão entre as empresas, conforme visto, além dos membros da diretoria e superintendente possuírem vínculo com ambas as empresas", etc. Além disso, ressaltou haver o desenvolvimento de contratos em conjunto/parceria pelas mencionadas empresas, tais como os acertados com a CAESB, CHESF, ISBAN, OI, etc. Contudo, deixou de mencionar que em vários dos contratos estabelecidos entre o Instituto Atlântico e seus tomadores de serviço (fls. 1302 e ss), não há qualquer referência à mencionada fundação, devendo ser ressaltado que eventual participação em grupo econômico, de fato ou de direito comum, não foi suporte normativo para a imputação de responsabilidade solidária no lançamento. Vide nesse sentido, os contratos firmados com o Banco Fibra S/A., Toyota Leasing do Brasil S/A., LG Eletronics do Brasil, Gnatus Equipamentos MédicoOdontológicos Ltda., etc. Cabe admitirse que as empresas estão ligados por laços históricos, que aparentemente atuam de maneira estratégica em conjunto, mas além de não estarem vinculadas formalmente, o interesse econômico comum na dissimulação da relação de emprego com os terceirizados não se vislumbra nesses casos bem caracterizado, na medida em que não há ou melhor, não restou suficientemente demonstrado benefícios mais concretos ou diretos desse procedimento da autuada, nas atividades ou mesmo no incremento do patrimônio da fundação. Nessa esteira, tenho que a imputação da responsabilidade solidária de maneira ampla, tal como levada a efeito pela fiscalização, não reflete de maneira adequada o conjunto de provas contidas nos autos, motivo pelo qual deve ser afastada. Fl. 2526DF CARF MF Processo nº 10380.720577/201633 Acórdão n.º 2202004.959 S2C2T2 Fl. 2.515 25 Necessário explicar ainda que este Colegiado observa os arts. 62 e 72 do Anexo II do RICARF para fins de vinculação a eventuais precedentes, sejam eles administrativos ou judiciais, salvo, é claro, a existência de decisões provenientes da seara judicante, envolvendo as mesmas partes e aplicáveis à controvérsia específica analisada nos autos. Como fecho, deve ser anotado que a rejeição do pedido de realização de diligência e/ou perícia foi devidamente fundamentada pela DRJ, consoante se depreende da leitura do tópico correspondente à fl. 2359/2360. Despicienda de todo, aliás, a realização de diligência, pois os elementos de prova constantes nos autos são suficientes o bastante para a adequada compreensão da lide por parte do julgador, incidindo, no caso, o comando do caput do art. 18 do Decreto nº 70.235/72 E, no que se refere especificamente ao pedido de perícia, para cogitarse de seu acatamento, ele requer, dado o disposto no art. 16, inciso IV, § 1º do Decreto nº 70.235/72, a indicação do endereço e qualificação profissional do perito por parte do recorrente, o que não se verificou. Ante o exposto, voto por dar provimento integral ao recurso voluntário da Fundação CPqD, afastando sua condição de responsável solidária pelo crédito tributário, e por dar provimento parcial ao recurso voluntário do contribuinte, para excluir da base de cálculo do lançamento os valores associados à pessoa jurídica Ivia Ltda., discriminados na fl. 834 dos autos. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Fl. 2527DF CARF MF
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Numero do processo: 13851.900220/2006-60
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Aug 17 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Mar 14 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 1201-000.541
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do relator do processo paradigma. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo nº 13851.900234/2006-83, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa- Redator ad hoc
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa (presidente), Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar e Gisele Barra Bossa.
Nome do relator: ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do relator do processo paradigma. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo nº 13851.900234/2006-83, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa- Redator ad hoc Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa (presidente), Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar e Gisele Barra Bossa.
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do relator do processo paradigma. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo nº 13851.900234/200683, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Redator ad hoc Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa (presidente), Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, José Carlos de Assis Guimarães, Luis Henrique Marotti Toselli, Rafael Gasparello Lima, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar e Gisele Barra Bossa. Relatório Na condição de Presidente da 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento, no uso das atribuições conferidas pelo art. 17, III, do Anexo II do RICARF, designome Redator ad hoc para formalizar a Resolução nº 1201000.541, de 17/08/2018, referente ao presente processo, julgado na sistemática de recursos repetitivos de que trata o art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 38 51 .9 00 22 0/ 20 06 -6 0 Fl. 99DF CARF MF Processo nº 13851.900220/200660 Resolução nº 1201000.541 S1C2T1 Fl. 3 2 2015, tendo em vista que a então Presidente da Turma, Conselheira Ester Marques Lins de Sousa, deixou de fazêlo, em virtude de sua aposentadoria. O contribuinte interpôs seu tempestivo Recurso Voluntário, considerando que acórdão, proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, ratificou o despacho decisório, não homologando a Declaração de Compensação (DCOMP) de Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) pela inexistência do crédito de pagamento indevido ou a maior. De acordo com referido despacho decisório, o pagamento informado como origem do crédito foi integralmente utilizado para quitação de outro débito do contribuinte, "não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP". Entretanto, o contribuinte afirma no seu recurso que existia crédito compensável, como indicado na PER/DCOMP, porém, não foi homologado pela ausência de retificação da Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), inerente ao 1º trimestre de 2002. O contribuinte retificou a mencionada Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), por fim, requerendo o provimento do Recurso Voluntário para homologar a pretendida compensação. É o relatório. Voto Lizandro Rodrigues de Sousa Redator ad hoc O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução nº 1201000.535 , de 17/08/2018, proferida no julgamento do Processo nº 13851.900234/2006 83, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução nº 1201000.535): Inicialmente, quando da sua Manifestação de Inconformidade, o contribuinte anexou uma cópia da DCTF, versão retificadora, pertinente ao 4º trimestre de 2002, presumindo que era suficiente para homologação da sua Declaração de Compensação (DCOMP). Noentanto, o acórdão recorrido concluiu pela inexistência do direito de crédito, vez que "exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento a maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes, confrontandoo com os registros contábeis e fiscais efetuados com base na documentação pertinente e análise da situação fática, de modo a se conhecer qual seria o montante de tributo devido e comparálo ao pagamento efetuado." O artigo 170 do Código Tributário Nacional preceitua que "A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a Fl. 100DF CARF MF Processo nº 13851.900220/200660 Resolução nº 1201000.541 S1C2T1 Fl. 4 3 compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública". Portanto, imprescindível a certeza e a liquidez do crédito compensável, facultando ao contribuinte que impugne a não homologação formalizada através de despacho decisório, instruindo sua manifestação com as provas em contrário, garantindo, assim, o exercício pleno do contraditório e da ampla defesa. O processo administrativo tributário é regido por normas específicas, principalmente, o Decreto nº 70.235/1972, a Lei nº 9.430/1996 e o Decreto nº 7.574/2011, orientado pelos princípios que norteiam a Administração Pública, incluindo a moralidade, eficiência e impessoalidade. Conquanto submetido ao regime de apuração pelo lucro real, inicialmente, o contribuinte não demonstrou o pagamento a maior do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), mediante a idônea escrituração contábil e fiscal, motivando, assim, a retificação da Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF). Ressalvase que a "escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza.", conforme o artigo 923 do Regulamento do Imposto sobre a Renda (RIR), instituído pelo Decreto nº 3.000/1999. O ônus do contribuinte era que demonstrasse seu indébito, por exemplo, com Livro de Apuração do Lucro Real (LALUR), balanço patrimonial, Livro Diário e/ou Livro Razão, justificando a redução do valor devido e pelo próprio declarado de Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), considerando os artigos 7º, § 4º, e 8º, inciso I, do Decretolei nº 1.598/1977: Art 7º O lucro real será determinado com base na escrituração que o contribuinte deve manter, com observância das leis comerciais e fiscais. (...) § 4º Ao fim de cada períodobase de incidência do imposto o contribuinte deverá apurar o lucro líquido do exercício mediante a elaboração, com observância das disposições da lei comercial, do balanço patrimonial, da demonstração do resultado do exercício e da demonstração de lucros ou prejuízos acumulados. Art 8º O contribuinte deverá escriturar, além dos demais registros requeridos pelas leis comerciais e pela legislação tributária, os seguintes livros: I de apuração de lucro real, no qual: I de apuração do lucro real, que será entregue em meio digital, e no qual: (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) serão lançados os ajustes do lucro líquido do exercício, de que tratam os §§ 2º e 3º do artigo 6º; b) será transcrita a demonstração do lucro real (§ 1º); Fl. 101DF CARF MF Processo nº 13851.900220/200660 Resolução nº 1201000.541 S1C2T1 Fl. 5 4 b) será transcrita a demonstração do lucro real e a apuração do Imposto sobre a Renda; (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) c) serão mantidos os registros de controle de prejuízos a compensar em exercícios subseqüentes (art. 64), de depreciação acelerada, de exaustão mineral com base na receita bruta, de exclusão por investimento das pessoas jurídicas que explorem atividades agrícolas ou pastoris e de outros valores que devam influenciar a determinação do lucro real de exercício futuro e não constem de escrituração comercial (§ 2º). Posteriormente, quando da interposição do Recurso Voluntário, o contribuinte esclareceu a origem do seu crédito de Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ): A Recorrente, equivocadamente, apurou os valores a recolher de CSLL e IRPJ em cada trimestre calendário fracionando o recolhimento nos três meses seguintes. Ocorre que na apuração dos valores devidos, houve por recolher valor a maior, resultado em oneração indevida e pagamento a maior. A origem desses créditos pode ser comprovada através dos lançamentos contábeis realizados e toda escrituração da apuração fiscal realizada aqui apresentada. Outrossim, o Recurso Voluntário anexou: (i) Balancete analítico trimestral, incluindo o período de 01.07.2002 a 30.09.2002; (ii) Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ), versão Fl. 102DF CARF MF Processo nº 13851.900220/200660 Resolução nº 1201000.541 S1C2T1 Fl. 6 5 original, referente ao anocalendário de 2002, com Imposto de Renda a pagar de R$ 44.422,98 e; (iii) Documento de Arrecadação de Receitas Federais (DARF), período de apuração de 30.09.2002, concernente à 3ª quota do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), apurado no 3º trimestre/2002, com valor principal de R$ 18.791,90. A prova documental instruirá a impugnação "precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual", consoante o artigo 16, § 4º, do Decreto nº 70.235/1972, exceto (I) demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; (II) refirase a fato ou a direito superveniente e; (III) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Art. 16. A impugnação mencionará: I a autoridade julgadora a quem é dirigida; II a qualificação do impugnante; III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir;(Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) IV as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito.(Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) V se a matéria impugnada foi submetida à apreciação judicial, devendo ser juntada cópia da petição.(Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) (...) § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que:(Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior;(Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) b) refirase a fato ou a direito superveniente;(Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos.(Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) O erro da Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), retificado após o despacho decisório, não é determinante para o indeferimento da Declaração de Compensação (DCOMP), prevalecendo a verdade material, como se extrai do Parecer Normativo da CoordenaçãoGeral de Tributação (COSIT) nº 02/2015: Fl. 103DF CARF MF Processo nº 13851.900220/200660 Resolução nº 1201000.541 S1C2T1 Fl. 7 6 "Assunto. NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. RETIFICAÇÃO DA DCTF DEPOIS DA TRANSMISSÃO DO PER/DCOMP E CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. POSSIBILIDADE. IMPRESCINDIBILIDADE DA RETIFICAÇÃO DA DCTF PARA COMPROVAÇÃO DO PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR." As informações declaradas em DCTF – original ou retificadora – que confirmam disponibilidade de direito creditório utilizado em PER/DCOMP, podem tornar o crédito apto a ser objeto de PER/DCOMP desde que não sejam diferentes das informações prestadas à RFB em outras declarações, tais como DIPJ e Dacon, por força do disposto no§ 6º do art. 9º da IN RFB nº 1.110, de 2010, sem prejuízo, no caso concreto, da competência da autoridade fiscal para analisar outras questões ou documentos com o fim de decidir sobre o indébito tributário. Não há impedimento para que a DCTF seja retificada depois de apresentado o PER/DCOMP que utiliza como crédito pagamento inteiramente alocado na DCTF original, ainda que a retificação se dê depois do indeferimento do pedido ou da não homologação da compensação, respeitadas as restrições impostas pela IN RFB nº 1.110, de 2010. Retificada a DCTF depois do despacho decisório, e apresentada manifestação de inconformidade tempestiva contra o indeferimento do PER ou contra a não homologação da DCOMP, a DRJ poderá baixar em diligência à DRF. Caso se refira apenas a erro de fato, e a revisão do despacho decisório implique o deferimento integral daquele crédito (ou homologação integral da DCOMP), cabe à DRF assim proceder. Caso haja questão de direito a ser decidida ou a revisão seja parcial, compete ao órgão julgador administrativo decidir a lide, sem prejuízo de renúncia à instância administrativa por parte do sujeito passivo. O procedimento de retificação de DCTF suspenso para análise por parte da RFB, conforme art. 9ºA da IN RFB nº 1.110, de 2010, e que tenha sido objeto de PER/DCOMP, deve ser considerado no julgamento referente ao indeferimento/não homologação do PER/DCOMP. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a sua homologação, o julgamento referente ao direito creditório cuja lide tenha o mesmo objeto fica prejudicado, devendo o processo ser baixado para a revisão do despacho decisório. Caso o procedimento de retificação de DCTF se encerre com a não homologação de sua retificação, o processo do recurso contra tal ato administrativo deve, por continência, ser apensado ao processo administrativo fiscal referente ao direito creditório, cabendo à DRJ analisar toda a lide. Não ocorrendo recurso contra a não homologação da retificação da DCTF, a autoridade administrativa deve comunicar o resultado de sua análise à DRJ para que essa informação seja considerada na análise da manifestação de inconformidade contra o indeferimento/não homologação do PER/DCOMP. A não retificação da DCTF pelo sujeito passivo impedido de fazêla em decorrência de alguma restrição contida na IN RFB nº 1.110, de 2010, Fl. 104DF CARF MF Processo nº 13851.900220/200660 Resolução nº 1201000.541 S1C2T1 Fl. 8 7 não impede que o crédito informado em PER/DCOMP, e ainda não decaído, seja comprovado por outros meios. O valor objeto de PER/DCOMP indeferido/não homologado, que venha a se tornar disponível depois de retificada a DCTF, não poderá ser objeto de nova compensação, por força da vedação contida no inciso VI do § 3º do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996. Entendo que não há necessidade de conversão do presente julgamento em diligência ou qualquer outra perícia (artigo 29 do Decreto nº 70.235/1972), visto que se restringe à análise sobre os documentos constituírem ou não a imprescindível prova de certeza e de liquidez do crédito, ainda que trazidos aos autos somente com Recurso Voluntário. Avaliando a prova documental existente no recurso, valorizando o princípio da verdade material, notase: 1. O contribuinte demonstrou, com balancete analítico trimestral, vários lançamentos contábeis, que validariam as informações da Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ) e da planilha denominada "Da Comprovação Exaustiva da Origem dos Créditos". 2. A Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ), versão original, referente ao anocalendário de 2002, consignou o Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) a pagar de R$ 44.422,98. 3. Por fim, o contribuinte anexou um único Documento de Arrecadação de Receitas Federais (DARF), período de apuração de 30.09.2002, equivalente à 3ª quota do declarado Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), com valor principal de R$ 18.791,90. Em resumo, o Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) devido foi de R$ 44.422,98, porém, o Recorrente comprovou o pagamento apenas da 3ª quota de R$ 18.791,90, não demonstrando o adimplemento superior ao montante exigível. A Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), versão retificadora, embora em um primeiro momento resultasse no despacho decisório, que não homologou a declaração de compensação, não influenciou nessa conclusão, limitada à prova documental sobre o crédito, acostada no Recurso Voluntário. Entendo que é indispensável a conversão do presente julgamento em diligência, com fundamento no artigo 29 do Decreto nº 70.235/1972, visto que demanda uma análise sobre se os documentos, anexados ao Recurso Voluntário, constituem a necessária prova de certeza e de liquidez do crédito. Adicionalmente, presumível que o Recorrente adimpliu as demais quotas do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), caracterizando o pagamento a maior, suscetível de restituição e compensação. Isto posto, voto pela conversão do julgamento em diligência, solicitando o retorno dos autos à unidade de origem, a fim de que emita um relatório sobre as informações e os documentos anexados ao Recurso Voluntário, por fim, opinando pela existência do crédito de Fl. 105DF CARF MF Processo nº 13851.900220/200660 Resolução nº 1201000.541 S1C2T1 Fl. 9 8 Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ), oriundo do pagamento a maior, argumentado pelo Recorrente. Finalizada esta diligência, ressalvo a necessidade de promover a ciência do contribuinte sobre o "Relatório Conclusivo", fixando o prazo de 30 (trinta) dias para sua manifestação, antes do retorno dos autos para novo julgamento deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF). Voto por converter o julgamento do recurso em diligência., solicitando o retorno dos autos à unidade de origem, a fim de que emita um relatório sobre as informações e os documentos anexados ao Recurso Voluntário, por fim, opinando pela existência do crédito de Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ), Período de Apuração 31/03/2002, oriundo do pagamento a maior, argumentado pelo Recorrente. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto do relator do processo paradigma. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Fl. 106DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16682.720355/2015-11
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 17 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Mar 12 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/03/2010 a 31/12/2010
PEJOTIZAÇÃO. CARACTERIZAÇÃO DE SEGURADO.
Não há cerceamento do direito de defesa em razão de a fiscalização sustentar que determinadas provas se aplicam a inúmeros segurados, eis que a questão é saber se a prova apresentada é hábil ou não para comprovar todos os vínculos imputados.
CARACTERIZAÇÃO DE SEGURADO EMPREGADO. COMPETÊNCIA.
A fiscalização tem competência para constatar a existência de vínculo empregatício para os efeitos de apuração das contribuições devidas à Seguridade Social, sem que isto configure, sob qualquer perspectiva, invasão à competência da Justiça do Trabalho.
SÚMULA CARF N° 108
Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. PEJOTIZAÇÃO. FRAUDE. GENERALIZAÇÃO DA CONDUTA. IMPOSSIBILIDADE.
Para a aplicação de penalidade mais gravosa é necessária a demonstração pela autoridade lançadora da intenção firme do infrator de praticar a conduta ilícita perante o Fisco, não deixando margem de dúvida a respeito da existência do dolo. Segundo o conjunto probatório dos autos, a contratação de pessoa jurídica para prestar serviços de representação comercial não pode ser considerada fraudulenta de forma genérica, como subterfúgio para dissimulação de relação de emprego, conforme pretendeu o agente de fiscalização. Quando não evidenciada a ocorrência das condições que autorizam a majoração da multa de ofício até o importe de 150%, cabe afastar a qualificação da penalidade, reduzindo-a ao patamar básico de 75%.
Numero da decisão: 2401-005.952
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, rejeitar as preliminares e dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir da base de cálculo do lançamento a remuneração imputada às pessoas físicas listadas na conclusão do voto do relator e para excluir a qualificadora da multa, reduzindo-a ao percentual de 75%. Vencidos os conselheiros Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite, que davam provimento ao recurso. Vencidos em primeira votação os conselheiros José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro (relator), Marialva de Castro Calabrich Schlucking e Miriam Denise Xavier, que davam provimento parcial ao recurso voluntário em menor extensão apenas para retificar a base de cálculo do lançamento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Cleberson Alex Friess.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro - Relator.
(assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Rayd Santana Ferreira, Marialva de Castro Calabrich Schlucking, Andrea Viana Arrais Egypto, Matheus Soares Leite e Miriam Denise Xavier
Nome do relator: JOSE LUIS HENTSCH BENJAMIN PINHEIRO
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camara_s : Quarta Câmara
ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/03/2010 a 31/12/2010 PEJOTIZAÇÃO. CARACTERIZAÇÃO DE SEGURADO. Não há cerceamento do direito de defesa em razão de a fiscalização sustentar que determinadas provas se aplicam a inúmeros segurados, eis que a questão é saber se a prova apresentada é hábil ou não para comprovar todos os vínculos imputados. CARACTERIZAÇÃO DE SEGURADO EMPREGADO. COMPETÊNCIA. A fiscalização tem competência para constatar a existência de vínculo empregatício para os efeitos de apuração das contribuições devidas à Seguridade Social, sem que isto configure, sob qualquer perspectiva, invasão à competência da Justiça do Trabalho. SÚMULA CARF N° 108 Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. PEJOTIZAÇÃO. FRAUDE. GENERALIZAÇÃO DA CONDUTA. IMPOSSIBILIDADE. Para a aplicação de penalidade mais gravosa é necessária a demonstração pela autoridade lançadora da intenção firme do infrator de praticar a conduta ilícita perante o Fisco, não deixando margem de dúvida a respeito da existência do dolo. Segundo o conjunto probatório dos autos, a contratação de pessoa jurídica para prestar serviços de representação comercial não pode ser considerada fraudulenta de forma genérica, como subterfúgio para dissimulação de relação de emprego, conforme pretendeu o agente de fiscalização. Quando não evidenciada a ocorrência das condições que autorizam a majoração da multa de ofício até o importe de 150%, cabe afastar a qualificação da penalidade, reduzindo-a ao patamar básico de 75%.
turma_s : Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, rejeitar as preliminares e dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir da base de cálculo do lançamento a remuneração imputada às pessoas físicas listadas na conclusão do voto do relator e para excluir a qualificadora da multa, reduzindo-a ao percentual de 75%. Vencidos os conselheiros Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite, que davam provimento ao recurso. Vencidos em primeira votação os conselheiros José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro (relator), Marialva de Castro Calabrich Schlucking e Miriam Denise Xavier, que davam provimento parcial ao recurso voluntário em menor extensão apenas para retificar a base de cálculo do lançamento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Cleberson Alex Friess. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier - Presidente. (assinado digitalmente) José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro - Relator. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess - Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Rayd Santana Ferreira, Marialva de Castro Calabrich Schlucking, Andrea Viana Arrais Egypto, Matheus Soares Leite e Miriam Denise Xavier
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CARACTERIZAÇÃO DE SEGURADO. Não há cerceamento do direito de defesa em razão de a fiscalização sustentar que determinadas provas se aplicam a inúmeros segurados, eis que a questão é saber se a prova apresentada é hábil ou não para comprovar todos os vínculos imputados. CARACTERIZAÇÃO DE SEGURADO EMPREGADO. COMPETÊNCIA. A fiscalização tem competência para constatar a existência de vínculo empregatício para os efeitos de apuração das contribuições devidas à Seguridade Social, sem que isto configure, sob qualquer perspectiva, invasão à competência da Justiça do Trabalho. SÚMULA CARF N° 108 Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. PEJOTIZAÇÃO. FRAUDE. GENERALIZAÇÃO DA CONDUTA. IMPOSSIBILIDADE. Para a aplicação de penalidade mais gravosa é necessária a demonstração pela autoridade lançadora da intenção firme do infrator de praticar a conduta ilícita perante o Fisco, não deixando margem de dúvida a respeito da existência do dolo. Segundo o conjunto probatório dos autos, a contratação de pessoa jurídica para prestar serviços de representação comercial não pode ser considerada fraudulenta de forma genérica, como subterfúgio para dissimulação de relação de emprego, conforme pretendeu o agente de fiscalização. Quando não evidenciada a ocorrência das condições que autorizam a majoração da multa de ofício até o importe de 150%, cabe afastar a qualificação da penalidade, reduzindoa ao patamar básico de 75%. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 68 2. 72 03 55 /2 01 5- 11 Fl. 5862DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.863 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, rejeitar as preliminares e dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir da base de cálculo do lançamento a remuneração imputada às pessoas físicas listadas na conclusão do voto do relator e para excluir a qualificadora da multa, reduzindoa ao percentual de 75%. Vencidos os conselheiros Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Matheus Soares Leite, que davam provimento ao recurso. Vencidos em primeira votação os conselheiros José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro (relator), Marialva de Castro Calabrich Schlucking e Miriam Denise Xavier, que davam provimento parcial ao recurso voluntário em menor extensão apenas para retificar a base de cálculo do lançamento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Cleberson Alex Friess. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente. (assinado digitalmente) José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Relator. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Rayd Santana Ferreira, Marialva de Castro Calabrich Schlucking, Andrea Viana Arrais Egypto, Matheus Soares Leite e Miriam Denise Xavier Relatório O presente processo envolve Recurso Voluntário contra decisão da 9ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto que, por unanimidade de votos, julgou procedente em parte impugnação apresentada contra o Auto de Infração n° 51.067.1861 (contribuições do art. 22, I e II, da Lei n° 8.212, de 1991, nas competências 03/2010 e 12/2010, a totalizar, com juros e multa qualificada, R$ 9.852.325,30) e o AI n° 51.067.1870 (contribuições SalárioEducação, INCRA, SENAC, SESC e SEBRAE nas competências 03/2010 e 12/2010, a totalizar, com juros e multa qualificada, R$ 2.465.823,56). Do Relatório Fiscal (fls. 30/142), em apertada síntese, se extrai: a) Além dos AIOPs n° 51.067.1861 e n° 51.067.1870, foram lavrados os AIOAs n° 51.067.1888 (Lei 8.212, de 1991, art. 33, §§ 2o e 3o) n° 51.067.1896 (Lei 8.212, de 1991, art. 32, III e § 11). Fl. 5863DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.864 3 b) A empresa não apresentou todos os contratos de representação comercial. Os contratos apresentados em meio papel constam em cópias no Anexo VII, ressaltandose que há diversos contratos nãoassinados pelo responsável legal da ZAMBONI ou pelo responsável do Prestador. Os contratos possuem praticamente a mesma estrutura, com cláusulas idênticas ou semelhantes, alterando, por prestador, o ramo de comercialização das mercadorias e as áreas de atuação. Com lastro no conjunto dos contratos apresentados, foi elaborada a Planilha constante do "Anexo I Prestadores de Serviço Total" (fls. 143/194). c) A empresa apresentou planilha no formato Excel, denominada "Arquivo Para Fiscal.xlsx" relacionando os pagamentos efetuados de 01/2010 a 12/2010 aos prestadores de serviço por representação comercial relacionados em anexo ao TIPF, inclusive aqueles para os quais não forneceu, em 23/04/2014, cópia do respectivo contrato. Todas as Notas foram emitidas para o estabelecimento 05.103.939/000286. d) Com base nas cláusulas contratuais, foi emitido TIF em 10/11/2014 solicitando, em relação a 59 prestadores de serviço de representação comercial selecionados por amostragem, que a empresa apresentasse os seguintes documentos: (1) Relação de classificação de produtos e clientes fornecida a cada prestadora para venda, acompanhada das regras e instruções para comercialização dos produtos c artigos, concessões e autorizações para abatimentos, descontos e dilações; (2) Formulários ou planilhas de avaliação e controle dos prestadores de serviço relacionados em Anexo, inclusive relatórios de metas individuais, produtividade efetiva por prestador e total de vendas, fornecidos ou não via "palmtop", como descrito nas cláusulas dos contratos apresentados; (3) Cálculo das comissões pagas a cada representante das empresas relacionadas, durante todo o período, com as deduções feitas por eventuais pedidos não pagos ou cancelados c considerando as categorias de mercadorias discriminadas nos contratos. O cálculo deverá ser acompanhado das informações sobre as faturas de negócios e relação de recebimentos que definam o valor das comissões devidas, como explicitado nas cláusulas que discriminam as "OBRIGAÇÕES DA REPRESENTADA". No mesmo TIF, foram solicitadas ainda explicações sobre a maneira como ocorre a prestação de contas das vendas efetuadas, incluindo, mas não limitado a: (4) comunicação por "palmtop" entre a mesma e seus prestadores de serviço como funciona, a quem pertence a aparelhagem utilizada, como e em que periodicidade são processadas as informações e que tipo de relatórios ou "logs" são gerados; (5) fornecimento, pelo representante, das informações gerais sobre o andamento dos negócios qual a periodicidade deste fornecimento, se há reuniões para prestação de contas ou avaliação do serviço, se há treinamento para vendas, e se há assistência ou supervisão pessoal nos locais ou zonas de atuação discriminadas nos contratos. Havendo reuniões, apresentar todas as atas no período de apuração supracitado, exclusivamente onde tenham estado presentes os representantes dos prestadores relacionados em Anexo. Em relação ao item (1) foram apresentadas: Planilha de Classe de Clientes e Planilha de Classe de Produtos. A empresa alegou, em cartaresposta que acompanhou a documentação, que estas planilhas (Anexo VI Respostas da Fl. 5864DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.865 4 Empresa) são os documentos de clientes e produtos fornecidos a cada representante; Em relação ao item (2), a empresa nada apresentou. Em relação ao item (3), apresentou planilhas referentes aos representantes comerciais relacionados em anexo ao TIF de 07/11/2014, compactadas em arquivo em formato RAR, mas que só continham dados da Receita Bruta de vendas de cada representante, por competência de 2010, e os valores das Notas Fiscais de comissão pagas, que já constavam de Planilha apresentada cm 23/04/2014, com desconto de Imposto de Renda. Não apresentou o cálculo das comissões, com ou sem deduções, apesar de explicar que "(...) o pagamento das comissões sobre venda dos representantes ê realizado mensalmente, após a apuração dos títulos pagos de seus clientes, e nos termos do contrato de prestação de serviços firmado. A única exceção à este método é a operação de venda feita por "VENDOR" (financiamento bancário), caso em que a comissão é apurada pela venda do período, isto ê, de forma independente da liquidação do título bancário", citando dispositivos da Lei n. 4.886/1965 para justificar sua resposta. As planilhas, fornecidas em formato Excel e com numeração interna da empresa, de A058 a A986, foram reunidas num único arquivo, que faz parte do Anexo VI Respostas da Empresa. Em relação aos itens (4) e (5) a empresa só respondeu ao contido no (4) (...) que a aparelhagem utilizada na comunicação ("palmtop") entre a Requerente e seus prestadores de serviço pertence à Requerente e funciona da seguinte forma: Diariamente, a Requerente envia aos seus representantes comerciais, mediante o uso de Tablet. iodas as condições comerciais de venda, os quais, por sua vez, nos termos daquelas instruções, iniciam os projetos de venda, agindo com total autonomia sobre a carteira de clientes e a aplicação de descontos. Após a venda realizada, o representante realiza a transmissão eletrônica dos pedidos para a Requerente. Uma vez transmitidos os pedidos, são gerados relatórios ("logs") nos quais irá constar o pedido enviado, o pedido faturado e aquele pendente", (grifo nosso). Considerando ser inviável que um representante comercial pudesse trabalhar exclusivamente com os dados contidos nas Planilhas de Produtos e Clientes apresentadas pela autuada, diligenciouse em 15/12/2014 à 74a Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, na Av. Gomes Freire, n° 471, Centro, Rio de Janeiro, RJ, de onde vieram os Ofícios desencadeadores da fiscalização para pedido de vistas ao Processo n° 014570015.2009.5.01.0074. Dos autos do processo judicial arquivado foram extraídos: (a) "Atribuições do Representante" e "Atribuições dos Analistas", onde constam diretrizes da ZAMBONI a serem observadas por seus representantes comerciais e onde se menciona, entre outros, a existência de Analista de Vendas, Supervisor Eletrônico, palestras, cursos e treinamentos, reuniões de equipes de vendas e elaboração de relatórios; (b) Relatório de Lucratividade Por Cliente, onde consta a relação das vendas efetuadas pelo Autor do Processo, Michel Carlos Mendonça (Breno's Representações), no período de 01/06/2007 a 30/09/2007, com o respectivo cálculo de cada comissão, além de percentual de participação na venda; (c) Relatório de Volume de Vendas Mensal, do Analista Marcus Machado, onde estão listados representantes comerciais que estariam sob a supervisão deste Analista, e o quanto venderam no mês de 05/2002; (d) Relatório Mensal de Positivação de Clientes e Mix de Produtos, do Analista Marcus Machado, onde estão classificados representantes comerciais que estariam sob a Fl. 5865DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.866 5 supervisão deste Analista, o percentual de atendimento aos respectivos clientes e o percentual de produtos vendidos, do mês de 06/2002; (e) Ponto de Vendas Ranking Distribuição, do Analista Américo, onde se classifica a quantidade de produtos de determinado fornecedor vendida, por representante vinculado ao Analista citado, no mês de 10/1999. Além dos documentos supracitados, retiramos do Processo n° 0145700 15.2009.5.01.0074 um relatório de vendas e comissões do sistema VENDOR, de 05 a 12/2007, mencionado pela empresa nas explicações fornecidas para cálculo das comissões, conforme o item 5.1.10, alínea "c". Todos os documentos extraídos constam do Anexo XIV Documentos Extraídos de Processos. Considerando que tais documentos foram aceitos como prova no processo trabalhista, concluiuse que a ZAMBONI possuía regras e instruções específicas para representantes comerciais, relatórios de vendas, produtividade e outros similares, o suficiente para ter fornecido os documentos e explicações solicitados no TIF emitido cm 07/11/2014. Desta forma, foi lavrado novo TIF cm 29/12/2014, mencionando o conteúdo do Ofício n° 0619/2011 e suas implicações nas verificações efetuadas neste procedimento fiscal, além de relacionarmos em Anexo ao TIF os documentos extraídos do Processo conforme o item 5.1.13, a título de demonstração e numerados de I a V, respectivamente, reintimando a empresa a apresentar os mesmos documentos que havíamos solicitado (itens 1 a 3, supra) e o esclarecimento do item (5). Em 08/01/2015, a ZAMBONI, não fazendo qualquer menção à documentação extraída do Processo n° 014570015.2009.5.01.0074 e anexada ao TIF, apresentou: (a) em relação ao solicitado conforme item 5.1.7, alínea "a" As mesmas Planilhas de Classe de Clientes e de Classe de Produtos apresentadas em 25/11/2014; (b) em relação ao solicitado conforme item 5.1.7, alínea "b" A empresa, mais uma vez, nada apresentou a respeito; (c) cm relação ao solicitado conforme item 5.1.7, alínea "c" As mesmas Planilhas com a Receita Bruta dos representantes relacionados em Anexo, apresentadas em 25/11/2014, além das mesmas explicações genéricas sobre o cálculo das comissões, tornando a não apresentar os dados da maneira em que foram solicitados. Na mesma cartaresposta que acompanhou a documentação (Anexo VI Respostas da Empresa), em resposta às explicações solicitadas limitouse a responder que "...no que tange ao andamento dos negócios, ocasionalmente, de 15 (quinze) em 15 (quinze) dias ou uma vez por mês, são realizadas reuniões entre os supervisores e os representantes comerciais de sua zona (geográfica)". Nada mais disse, nem apresentou atas das reuniões, conforme intimado. Disse, ainda, que "(...) afora esses momentos, em que são analisados os negócios efetuados, não há relação diária entre os representantes comerciais e a Requerente, agindo os mesmos com total autonomia no que toca o andamento das negociações de venda", o que, de imediato, contradiz a informação prestada em 25/11/2014, conforme destacada no item 5.1.11, de que são enviadas diariamente aos representantes, por meio do "tablet/palmtop", todas as condições comerciais de venda. Em 04/03/2015, foi emitido novo TIF, recapitulando todos os Termos de Intimação já emitidos cm solicitação dos documentos relacionados no item (1 ) a (3), e o que a empresa apresentou e deixou de apresentar nas ocasiões anteriores (25/11/2014 e 08/01/2015), fazendo nova referência ao Processo n° 014570015.2009.5.01.0074 e aos Anexos do TIF de 29/12/2014, e Fl. 5866DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.867 6 reintimando mais uma vez a sua apresentação. Incluímos ainda a solicitação das informações até então não prestadas: de que maneira ocorreu a prestação de contas das vendas efetuadas, no que tange ao fornecimento, pelo representante, das informações gerais sobre o andamento dos negócios, ou seja, qual a periodicidade deste fornecimento, se havia treinamento para vendas, e se havia assistência ou supervisão pessoal nos locais ou zonas de atuação discriminadas nos contratos, de acordo com as Atribuições definidas no Anexo I do TIF de 29/12/2014 ("Atribuições do Representante" c "Atribuições dos Analistas"). Quanto às reuniões que já afirmou existirem, em 08/01/2015, que apresentasse todas as atas no período de apuração supracitado, exclusivamente onde tenham estado presentes os representantes dos prestadores relacionados em Anexo ao TIF. A empresa solicitou prorrogação do prazo para entrega da documentação, o que foi concedido em resposta por correio eletrônico de 09/03/2015 (Anexo VI Respostas da Empresa). Finalmente, em 13/03/2015, a ZAMBONI apresentou, em resposta, as Relações de Produtos e Clientes, de onde constam discriminados os nomes de todos os clientes e produtos vinculados a cada prestador de serviço por representação comercial, ou seja, exatamente o que havíamos solicitado nos TIF's de 07/11/2014 e 29/12/2014, e que nada têm a ver com as planilhas inicialmente apresentadas. Quanto ao restante da documentação e explicações solicitadas, nada apresentou a respeito, limitandose a afirmar que "(...)a Requerente se reporta aos documentos já fornecidos a esta d. Fiscalização, certa de se tratar de documentação suficiente a atender as demandas da Ação Fiscal". Devido ao tamanho dos arquivos apresentados, as Planilhas de Produtos e Clientes mencionadas neste item seguem anexas ao Processo n° 16682720.355/201511 em arquivo compactado e não paginável, da forma como foram apresentadas. e) Com base nos contratos e demais elementos colhidos, destaca: (1) dos 573 representantes comerciais em questão, 483 (quatrocentos e oitenta e três) têm sede no município de Além Paraíba – MG, sendo que destes, 436 dividemse em apenas 07 endereços; (2) conforme verificado nas DIRF, 249 representantes prestam serviços apenas à autuada, outros 179 apenas à autuada e à empresa Doarbelleza Produtos de Beleza Ltda, cujo volume de vendas é sensivelmente inferior; (3) conforme a DIPJ, 339 representantes tiveram suas declarações do IRPJ preenchidas pela mesma pessoa, cujo escritório ficava num dos 07 endereços acima mencionados, que concentram a maioria dos representantes comerciais; (4) a respeito desses 07 endereços, diligências ao local revelaram: um imóvel residencial fechado; um imóvel comercial com galpão para depósito de materiais no primeiro pavimento e uma indicação de “escola” no segundo, também fechado; um endereço cuja localização não foi localizada no logradouro em questão, o qual é ocupado, predominantemente, por imóveis residenciais; um imóvel no qual funciona o escritório de contabilidade Contec; um imóvel ocupado pelo escritório de contabilidade Certa Escritas Contábeis Ltda (nos dois casos, tratamse de escritórios responsáveis pelos representantes comerciais que ali estão formalmente sediados); um imóvel ocupado pelo Supermercado Vila Ltda, tendo sido informado pelo Sr. Alexandre Guerini, filho do proprietário, que os representantes comerciais ali sediados, bem como os sediados em 02 endereços residenciais que lhes pertencem, são de sua responsabilidade, e Fl. 5867DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.868 7 que tal prática de utilizar endereços próximos à autuada, visava a comodidade das vendas, além de benefícios relacionados ao ISS; (5) em nenhum dos endereços foi encontrado qualquer sócio das empresas de representação comercial; (6) nos endereços visitados não existia indícios de qualquer atividade relacionada à representação comercial; (7) outros 06 empresas de representação tinham seu domicílio no endereço do escritório C Macedo Contabilidade e Advocacia, no município de Caratinga – MG; (8) verificouse que nenhum desses representantes comerciais tem sua área de atuação em Além Paraíba ou Caratinga; (9) 15 empresas de representação têm endereços conflitantes entre o que consta em seus contratos e o cadastro da RFB; (10) 09 empresas de representação apresentam conflitos entre os CPF indicados nos contratos e aqueles que constam no cadastro da RFB; (11) 69 empresas de representação possuem contratos firmados com a autuada com data igual ou anteriores à da respectiva constituição societária. f) Requisitos caracterizadores do vínculo empregatício. (1) Pessoalidade: os contratos eram firmados pelas pessoas físicas que efetivamente prestavam os serviços à autuada, verificandose inclusive, caso em que o vendedor que realmente efetuava as vendas, assinava pela empresa de representação, embora não fosse seu representante legal, comprovando que o que importava era a pessoalidade na prestação dos serviços; embora exista previsão contratual, não há indicação de trabalho por prepostos, não tendo sido apresentados os relatórios de atividades que poderiam indicar tal situação; a autuada, por vezes, se referia aos seus representantes utilizando os nomes das pessoas físicas, embora se tratassem de pessoas jurídicas; e nenhum das empresas de representação possuía empregados no período do crédito tributário constituído. (2) Onerosidade: os valores pagos aos representantes comerciais foram considerados como base de cálculo das contribuições lançadas. (3) Habitualidade: embora inicialmente tenha dito que existia relação diária com os representantes comerciais, a autuada depois afirmou que eram enviados via tablet/palmtop, informações diárias e como não apresentou os relatórios dessas atividades, não foi possível verificar a realidade; a necessidade do trabalho contínuo dos representantes afasta a nãoeventualidade; em atenção à continuidade das atividades, a fiscalização não considerou os representantes que receberam pagamentos em menos de 03 (três) competências. (4) Subordinação: as empresas de representação tinham seus endereços fora da sua área de atuação e próximos ao domicílio da autuada e o mesmo contador fez as declarações de IRPJ de todas as empresas que estavam “sob sua responsabilidade”; houve contrato de representação anterior à constituição da empresa de representação; a autuada, embora atuasse no comércio atacadista, não possuía em 2010 qualquer vendedor registrado como seu empregado, terceirizando para os representantes comerciais sua atividadefim; as empresas de representação comercial possuíam metas de vendas, e se sujeitavam à fiscalização e cobrança de produtividade pela autuada, conforme relatórios presentes na citada reclamatória trabalhista; a autuada possuía 415 empregados no cargo de “analista de vendas” que controlavam as atividades das empresas de representação comercial; constava no documento “Atribuições do representante” as seguintes obrigações: seguir normas e procedimentos da empresa, manter a assiduidade nas visitas aos clientes, atingir metas e Fl. 5868DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.869 8 desafios, dentre outras; o fato de que a maioria das empresas de representação prestava serviços apenas para a autuada; localizadas 31 ações perante a Justiça do Trabalho com reconhecimento de vínculo empregatício; trechos desses processos judiciais evidenciam vínculo de natureza empregatícia; dos depoimentos dos reclamantes e suas testemunhas extrai se: (a) a empresa de representação comercial foi constituída com parente; (b) há obrigação, pela ré, de se abrir uma empresa, como condição para iniciar a prestação de serviços, com o contador de Além Paraíba, onde a ré tem a sua sede; (c) não se pode fazer substituir por terceiros nas vendas; (d) há horário de trabalho estipulado pela ré, de acordo com o funcionamento dos clientes; (e) os representantes recebiam ligações do Supervisor para saber o andamento dos serviços; (f) as rotas de atuação e visitação de clientes eram prédefinidas pela ré; (g) o trabalho era monitorado todos os dias pelo supervisor da rota, que eventualmente acompanhava os vendedores nas visitas aos clientes; (h) em caso de ausência às reuniões mensais, os representantes eram advertidos; (i) as notas fiscais eram emitidas pelo próprio contador que fazia a contabilidade para todos os vendedores; (j) o representante poderia indicar clientes, encaminhando a documentação para a ré, a quem realmente cabia a decisão se o cliente poderia ou não ser cadastrado; (k) a fiscalização do trabalho era feita através da produção do palmtop; (l) as vendas de maior vulto deveriam ser autorizadas pelo gerente; (m) o vendedor era avaliado em razão do horário de trabalho, da assiduidade, da presença em reuniões, da participação de cursos, do cumprimento das ordens dos supervisores, do cumprimento de metas; das testemunhas da autuada extraise: (a) quem fiscaliza a meta determinada pela ré ao representante comercial é o analista de vendas; (b) não há como ajustar preço e a ré confere ao represente qual é a sua margem de desconto; (c) todos os colegas de trabalho das testemunhas constituíram firmas com esse contador José Francisco, para que pudessem ser representantes comerciais; (d) há uma avaliação e, após aprovação, dáse entrada nos documentos para abrir a empresa, e, depois de aberta, começar a fazer as vendas; (e) o supervisor da ré costuma telefonar durante a jornada. g) Ainda que os dados e provas considerados para a caracterização do vínculo empregatício só foram conclusivos em relação às pessoas físicas que constam do Anexo I, e são vinculadas às empresas de representação comercial ali relacionadas e constantes dos contratos apresentados. Embora não se possa afastar completamente a existência de relação de emprego entre a ZAMBONI e as demais pessoas físicas vinculadas às demais empresas de representação que lhe prestaram serviço nas competências de 03/2010 a 12/2010, não consideramos conclusivo o conjunto de dados a elas pertencente, circunstância agravada pelo fato de a empresa não ter apresentado diversos documentos solicitados. Diante da pejotização, a ensejar levantamento com base na relação de notas fiscais apresentadas pela empresa, foi efetuada a aferição indireta. g) Por tudo o que foi verificado durante a ação fiscal e nas diversas ações trabalhistas de reconhecimento de vínculo empregatício, não se pode dizer que a autuada, na condição de contribuinte, não tivesse conhecimento dos fatos geradores que tentou, intencionalmente, modificar. Não é ilegal Fl. 5869DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.870 9 contratar representantes comerciais, porém, forçar a criação destes representantes, pessoas jurídicas, através de contadores contratados, a quase totalidade com sede em município onde tem seu principal estabelecimento, quando a operação por eles efetuada constituiu real relação de emprego, demonstra que a conduta do contribuinte não foi obra de engano ou caso fortuito. Tratase de simulação voluntária e com consciência plena da ilicitude do ato, mascarando o fato gerador das contribuições previdenciárias que incidiriam sobre as remunerações pagas aos vendedores, na condição de empregados. Caracterizase então, a fraude, por meio de simulação, descrita no Art. 72 da Lei n° 4502/64, sendo as multas de ofício qualificadas. A empresa autuada apresentou impugnação (fls. 4309/4378) alegando, em síntese, que: a) Pagou as autuações decorrentes do descumprimento de obrigações acessórias, valendose da redução das multas. b) Incompetência para o reconhecimento de vínculo por ser competência privativa da Justiça do Trabalho (Constituição, art. 114, IX). c) Há ofensa ao princípio da coisa julgada, diante da ação trabalhista transitada em julgado sem reconhecimento de vinculo. Se reconhecido o vínculo, as contribuição devem ser executadas pela Justiça do Trabalho, podendo o lançamento resultar em bitributação. Logo, devem ser excluídos da base de cálculo os valores relativos às pessoas físicas que ajuizaram reclamatórias d) Impossibilidade de desconsideração dos contratos de representação comercial por ausência de fundamento legal e por ser não ser autoaplicável o art. 116, parágrafo único, do CTN. d) Fundamentos legais invocados não dão suporte ao procedimento realizado. Não é o caso de aferição indireta, eis que valores lançados constam da contabilidade. Logo, houve ofensa ao princípio da estrita legalidade tributária. e) Há prejuízo ao direito de defesa ao se reunir 441 casos em um único processo. f) Não há vinculo empregatício. Foram respeitadas as disposições legais da representação comercial autônoma, estando amparada pelo art. 129 da Lei n° 11.196, de 2005. g) A representação comercial autônoma é próxima da relação de emprego, a exigir análise caso a caso, sobretudo quanto à subordinação, estando incorreto o procedimento generalizado promovido pela fiscalização. MEsmo que a apreciação coletiva dos vínculos fosse possível, os fatos invocados são insuficientes: os endereços das empresas de representação e de seus contadores não comprovam subordinação, pois não tratam das atividades cotidianas dos representantes; a distância do domicílio da autuada em relação às áreas de atuação dos representantes demonstra a autonomia Fl. 5870DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.871 10 destes, que não precisavam comparecer constantemente na sede da autuada; a exclusividade não demonstra subordinação, sendo expressamente admitida na Lei n° 4.886/65; boa parte dos representantes teve outras fontes de rendimentos, não podendo ser a exclusividade, em relação a estes, utilizada para justificar a suposta subordinação; a subordinação também não decorre da ausência de empregados trabalhando para autuada na função de vendedores, pois existiam mais de 600 (seiscentos) empregados trabalhando na atividadefim da empresa, sendo estratégica a decisão da autuada quanto à forma adotada na consecução de seus objetivos; relatórios e analistas que acompanhavam as atividades dos representantes estão em conformidade com a Lei n° 4.886/65 e não denotam a existência de subordinação jurídica, mas das organização e coordenação das atividades desenvolvidas, necessárias para sua viabilização, o que representa mera “subordinação empresarial” decorrente dos negócios realizados e que não caracteriza relação de natureza empregatícia; a existência de metas não importa em subordinação, pois se tratam de meros parâmetros e seu descumprimento não importa em punições ou advertências; se há decisões judiciais desfavoráveis à autuada, também existem outras que lhes são favoráveis, o que demonstra que cada caso possui suas peculiaridades transcreve trechos de inúmeros processos judiciais, concluindo que a Justiça, diante dos elementos dos quais se valeu a fiscalização, não reconheceu a relação de natureza empregatícia. h) O MPT arquivou dos procedimentos relacionados ao tema e, posteriormente, uma Ação Civil Pública foi julgada improcedente. i) Não houve fraude. A situação em questão pode, quando muito, ser considerada controvertida, dada a proximidade das figuras do representante comercial autônomo e do empregado, mas jamais fraudulenta. Assim, indevida a qualificação da multa. j) Indevida a incidência de juros sobre a multa de ofício. Em face da Resolução 143.702, de 08 de junho de 2016 (fls. 4613/4620/), a fiscalização emitiu a Informação Fiscal de fls. 4695/4698, relatando dentre as pessoas físicas envolvidas no lançamento cinco tiveram reclamatórias trabalhistas transitado em julgado sem vínculo de emprego reconhecido. Ao se manifestar (fls. 4764/4797), a empresa acrescentou reclamatórias transitadas antes e depois do lançamento e mais com decisões reconhecendo inexistência de vinculo ainda não transitadas em julgado. Acrescenta que em 18/09/2017, transitou em julgado a decisão proferida na Ação Civil Pública 001158805.2015.5.01.0073, movida pelo MPT do Rio de Janeiro, a deixar de reconhecer a existência de vínculos trabalhistas em relação aos representantes comerciais autônomos contratados pela autuada e destaca que, em referida ação civil pública, foi invocado o procedimento fiscal que resultou nas presentes autuações, tendo o MPT feito referência a diversos elementos apontados no Relatório Fiscal. Por fim, questiona a cobrança das contribuições destinadas ao INCRA e ao SEBRAE. Do Acórdão prolatado pela Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (fls. 5372/5393), em síntese, se extrai:´ a) Não serão analisadas as alegações referentes às contribuições destinadas ao SEBRAE e INCRA por era a impugnação o momento processual oportuno Fl. 5871DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.872 11 para formular tais argumentos, nos termos do artigo 16, III do Decreto 70.235/72. b) Em que pese a argüição de incompetência, é prerrogativa da fiscalização, pautada no princípio da primazia da realidade, de caracterizar o vínculo empregatício para fins do lançamento das contribuições previdenciárias, o que se faz com fundamento no artigo 229, § 2° do RPS que em conjunto com o artigo 142 do CTN e artigo 33 da Lei 8.212/91. Assim, o procedimento fiscal não importa na aplicação da norma geral antielisiva prevista no artigo 116, parágrafo único do CTN, mas de se considerar que, nos termos do artigo 142 do CTN, compete à fiscalização verificar a ocorrência do fato gerador e identificar o sujeito passivo, não se atendo às formalidades que revestem os atos praticados, mas à sua essência. Não é a situação regular do ponto de vista formal embasada em contratos de prestação de serviços entabulados entre a autuada e as prestadoras de serviços e na situação regular de tais representantes do ponto de vista formal, inclusive com inscrição no conselho da categoria que deve prevalecer quando a realidade dos fatos se mostra diferente. Diante do veto do parágrafo único do art 129 da Lei 11.196/2005, evidenciase que a fiscalização não depende do provimento jurisdicional para só então considerar a situação real verificada, sob pena de afronta ao art. 142 do CTN. A contratação de prestadores de serviços na condição de pessoas jurídicas somente é legal de acordo com o art 129 da Lei 11.196/2005 – quando não se caracterizam vínculos empregatícios, independentemente da natureza intelectual ou não do serviço. c) Não há que se falar em prejuízo ao exercício do direito de defesa ou exigir no caso presente a demonstração individualizada da situação de cada trabalhador, já que é possível verificar certas características relevantes que são comuns a todos os representantes comerciais, de modo que esses elementos padronizados permitem se chegar às mesmas conclusões em relação a todos os trabalhadores d) A atuação dos gerentes, supervisores e analistas, que por diversas formas interferiam na autonomia das atividades dos representantes; a exigência para que os representantes “abrissem” suas empresas de representação comercial, concentrando toda a escrita contábil e fiscal dessas empresas em escritórios que, na verdade, prestavam serviços à autuada; as cláusulas padronizadas existentes nos contratos de representação comercial, são elementos comuns e que demonstram, em relação a todos os representantes comerciais, que suas atividades eram desempenhadas, de fato, em verdadeiras relações de empregos. A obrigatoriedade de abrir a empresa e de utilizar os serviços dos escritórios indicados pela autuada, demonstram uma ausência de autonomia incompatível com o que se poderia esperar de qualquer atividade empresarial. o fato de que as sedes das empresas de representação comercial correspondiam aos endereços dos escritórios de contabilidade revela uma realidade meramente formal, inexistindo estrutura minimamente independente dessas empresas. Distância entre autuada e locais de atuação é compatível com relação de emprego. Confusão de tratamento entre pessoas físicas e jurídicas indica pessoalidade, bem como ausência de prepostos. Fl. 5872DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.873 12 Nenhum desses fatos, constatado isoladamente, demonstra a existência dos vínculos empregatícios, o que se dá mediante sua análise conjunta. A exclusividade, embora não seja elemento determinante na caracterização do vínculo empregatício, reforça a constatação da dependência. Outro aspecto de destaque é a inserção dos trabalhos prestados na estrutura organizacional da autuada (subordinação estrutural e objetiva). Em alguns casos a Justiça do Trabalho não reconheceu o vínculo. Devem ser excluídos. Contudo, o fato de não ter a Justiça do Trabalho reconhecido, em determinados casos, a existência do vínculo empregatício, não afasta a possibilidade de que a fiscalização, diante dos elementos analisados no transcorrer do procedimento fiscal, assim conclua (respeitando a coisa julgada), nem que tal trabalho seja feito conjuntamente em relação a todos os trabalhadores que se enquadrem nas mesmas condições de trabalho. Além disso, em inúmeros casos houve o reconhecimento de vínculo pela Justiça do Trabalho. e) Os valores que serviram de base de cálculo foram extraídos da contabilidade da autuada. Contudo, tais valores não foram devidamente escriturados como verbas remuneratórias, justificandose a fundamentação conferida pela fiscalização, com base no artigo 33, §§ 3o e 6o da Lei n° 8.212/91, referente à aferição indireta da base de cálculo a partir de tais elementos, nada havendo a ser retificado nesse sentido. f) Com fulcro no art. 145, I, do CTN, excluise do lançamento os segurados para os quais há decisão judicial transitada em julgado não reconhecendo vínculo, sendo irrelevante se antes ou depois do lançamento (itens 149, 240, 49, 167, 181, 259, 307, 87, 135, 28, 427, 431, 132, 220, 66, 324, 187, 69 e 63 do Anexo I). g) O presente crédito tributário e as reclamações trabalhistas possuem objetos distintos, já que aqui estão sendo lançadas as contribuições incidentes sobre as remunerações pagas aos representantes comerciais caracterizados como empregados, enquanto nas ações trabalhistas, estes indivíduos estão pleiteando os direitos trabalhistas incidentes sobre essas remunerações, tais como férias, décimo terceiro salário, aviso prévio indenizado e outros, de modo que as contribuições decorrentes das decisões proferidas nesses processos incidem sobre tais verbas, e não sobre as comissões que já foram pagas pela autuada e até por esse motivo, não fazem parte do pleito dos reclamantes (Súmula Vinculante STF n° 53; e Súmula TST n° 368, I). Ademais, a autuada não demonstrou a existência de qualquer valor referente às presentes contribuições que tivessem sido cobrados/executados nas ações trabalhistas nas quais houve o reconhecimento de vínculos empregatícios. h) Os inquéritos civis representam apenas a fase investigatória anterior ao ajuizamento da Ação Civil Pública e o seu arquivamento não impede a apuração dos fatos geradores pela fiscalização, já que seu resultado não importa em coisa julgada. Com relação à Ação Civil Pública 0011588 05.2015.5.01.0073, movida pelo MPT do Rio de Janeiro, na qual restou decidido o não reconhecimento de vínculos trabalhistas em relação aos representantes comerciais autônomos contratados pela autuada, importante destacar que a improcedência desta ação deuse por falta de provas, logo tem Fl. 5873DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.874 13 aplicação o artigo 16 da Lei 7.347/85, não havendo que se falar em coisa julgada. i) O expediente da autuada consistiu na criação e utilização de pessoas jurídicas diversas para formalizar os vínculos com os trabalhadores que lhes prestaram serviços, de fato, na condição de segurados empregados, não havendo que se falar nesse caso, ante a clareza dos fatos, em situação controvertida que poderia ser interpretada de outra maneira. Logo, cabível a qualificação da multa de ofício. j) As multas integram o crédito tributário lançado, não havendo motivo para que se faça distinção na aplicação dos ditames trazidos pelo artigo 161 do CTN, quanto à incidência dos juros moratórios. Intimada em 09/05/2018, (fls. 5439), a empresa apresentou o recurso voluntário (fls. 5476/5607), em 04/06/2018 (fls. 5460), do qual, em se extrai: a) Há invasão da competência da Justiça do trabalho ao se considerar sócio de pessoa jurídica empregado, sendo a relação de emprego premissa do lançamento (Constituição, art. 114, IX; princípios segurança jurídica e harmonia entre poderes; Súmula Vinculante n° 22). b) Falta de amparo legal. Não se observou o princípio da primazia da realidade, pois se tratou de forma generalizada todos os serviços prestados e as decisões da Justiça do Trabalho revelam ser fundamental a averiguação caso a caso. O art. 142 do CTN não autoriza desconsideração de atos e negócios jurídicos regularmente praticados, só estabelecendo a competência de se constituir o crédito tributário, sendo igualmente genérico o art. 33 da Lei n° 8.212, de 1991. A previsão de desconsideração só consta do art. 229, § 2°, do Regulamento da Previdência Social, havendo afronta aos arts. 150, I, da Constituição e 97 e 108 do CTN. Não há lei tributária autorizando a desconsideração ou requalificação para fins tributários e o parágrafo único do art. 116 do CTN veicula norma não autoaplicável. c) Falta de comprovação dos vínculos empregatícios e cerceamento do direito de defesa. Diante dos contratos de representação comercial autônoma, é do fisco o ônus de provar a relação de emprego. Em um único processo se desconsideram 441 contratos e cada vinculo de emprego imputado é heterogêneo a demandar investigação individual específica. Na forma lavrada, há cerceamento do direito de defesa pelo prejuízo da análise individual de cada fato. Além disso, a oitiva de testemunhas não é aceita na primeira instância do contencioso administrativo, o que corrobora o cerceamento de direito de defesa. A premissa em que se baseou a fiscalização (mantida pela decisão) de que certas "características relevantes" seriam comuns a todos os representantes comerciais não se sustenta, na medida em que, havendo decisões judiciais transitadas em julgado declarando a inexistência do vínculo empregatício entre pessoas físicas incluídas no Anexo I dos autos e a recorrente. A existência de decisão trabalhista desfavorável apenas confirma que cada caso é um caso, tendo inclusive a decisão invocado ação de trabalhador não constante do Anexo I. Qualquer conclusão coletiva nega o princípio da primazia da realidade. O Fl. 5874DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.875 14 próprio MPT no Inquérito Civil n° 139/2008 concluiu pela impossibilidade de responsabilização da recorrente já que a matéria demanda análise individualizada, a ser promovida caos a caso. No mesmo sentido, ata de audiência nº 00207/2005 e doutrina. O fato de o fisco possuir mais ferramentas de investigação, não conferidas aos trabalhadores em geral, não é suficiente para embasar a parcela remanescente do crédito tributário, pois livros contábeis e documentos fiscais não estão mais próximos da realidade fática. A Justiça do Trabalho apreciou tais elementos adicionais na Ação Civil Pública e o desfecho também foi favorável ao recorrente, tendo o MPT juntado a íntegra do Relatório Fiscal do processo 16682.720355/201511. Não passaram despercebidos pela sentença os argumentos da Fiscalização: "Após a abertura do Inquérito, o MPT afirma que apurou que a reclamada contava com poucos funcionários em seu quadro e nenhum empregado com função de vendedor externo. Intimou, dessa forma, representantes comerciais vinculados à reclamada para prestarem depoimento e concluiu que: Ademais, faz referência a um processo administrativo fiscal no qual a DEMAC (Delegacia Especial da Receita Federal do Brasil de Maiores Contribuintes) constatou que: a) Os contratos de representação comercial possuíam praticamente a mesma estrutura, com cláusulas idênticas ou semelhantes, alterando, por prestador, o ramo de comercialização das mercadorias (produtos alimentícios, do higiene/limpeza ou perfumaria) e as áreas de atuação. b) Dos 573 representantes comerciais, 483 têm sede no município de Além Paraíba, MG. Desses 436 têm endereços idênticos, divididos em sete ocorrências. c) Da declaração do imposto de Renda retido na fonte DIRF 249 dentre os prestadores só recebem pagamentos da ZAMBONI, de acordo com a DIRF's entregues no ano de 2010.Outros 194, têm outros vínculos de pagamento além da ZAMBONI, sendo 179 destes recebem pagamentos somente da ZAMBONI e da empresa DOARBELLEZA PRODUTOS DE BELEZA LTDA (EMBELLEZE) em valores sensivelmente inferiores aos recebidos da primeira. d) Do sistema de Declarações de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica DIPJ 339 dentre os prestadores tiveram suas DIPJ do ano calendário de 2010 preenchidas pela mesma pessoa: JOSE FRANCISCO DE SOUZA SANTOS, CPF° 197.747.37687, cujo nome consta em websites de procura e guias telefônicos com endereço igual a diversos representantes comerciais. e) Nenhum representante comercial relacionado tem os municípios de Alto paraíba e Caratinga como área de atuação, embora as sedes de todos eles sejam nas duas cidades. As áreas de atuação são tão longínquas, como por exemplo Bangu e Barra da Tijuca. Além disso, a grande maioria dos endereços vinculados ao CPF do responsável das empresas não é da cidade de AlémParaíba. Por fim, ressaltase que o fato de muitos representantes comerciais da empresa reclamada terem sede na cidade de Além Paraíba não constitui Fl. 5875DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.876 15 elemento vá 1i do para desconstruir a figura do representante autônomo, uma vez que o que importa, de fato, é a atuação destes agentes. Devo registrar que não passou por desapercebido o objeto social da acionada, que compra da indústria, faz a logística e revende grandes volumes, atravessando no atacado produtos, que são distribuídos na rede de comércio em geral. 0 fato da atividade dos representantes comerciais atuarem com habitualidade e serem necessárias à consecução da atividade final na acionada, não descaracterizam, nem colocam em xeque o cumprimento e os requisitos da Lei de Representação Comercial. Todos os contratos de atividade que envolvam a prestação de serviços se apresentam com características comuns entre eles e com diferenças poucas e muitas vezes sutil", (grifos e destaques da RECORRENTE) Após analisados todos os fatos e provas acostados aos autos da ACF não só o relatório fiscal com teor idêntico ao do presente caso, mas também as demais provas apresentadas pelas partes e colhidas em Juízo, tais como a oitiva de testemunhas de acusação e de defesa , o entendimento que prevaleceu na referida sentença foi o de que não há subordinação na relação entre a RECORRENTE e os representantes comerciais autônomos. Entre as testemunhas de defesa ouvidas na ACP n° 001158805.2015.5.01.0073, está MARCO AURÉLIO SENRA MARENDINO, que foi indevidamente caracterizado como empregado da RECORRENTE pelos AUTOS (item 356 do Anexo I dos AUTOS) . Cumpre transcrever os seguintes trechos do seu depoimento, constantes da sentença ora em comento, que também derruba por completo a premissa adotada pela Fiscalização (e mantida pela DECISÃO) de que todos os serviços de representação comercial autuados teriam sido prestados pelos sócios das pessoas jurídicas contratadas com a presença dos elementos inerentes à relação de emprego: "Destacase também o depoimento da testemunha Marco Aurélio Senra Marendino, primeira testemunha arrolada pela empresa, a qual aduziu que: "nos últimos 10 anos desenvolveu a função de representante comercial; que como representante faz seu próprio horário, que as vezes fica 2 a 3 dias sem trabalhar, mas tem meta; que as metas lhe são dadas mensalmente esse não bater meta deixa de ganhar comissão, prêmios; que o cliente novo ó angariado polo próprio representante; que atualmente , mas já trabalhou com outras empresas; que fazia representação comercial de outros produtos (arroz, carvão); que o depoente não se recorda o nome das empresas que representava; que o próprio RCA define a ordem de atendimento à clientes; que uma vez o representantes comerciais, depoente e outros (grupo de 10 pessoas) contrataram um feirante para ter férias e o referido feirante o substituiu; que os próprios representantes comerciais pagavam do próprio bolso o feirante , lhe davam una parte da comissão; que sc não bater a meta não há qualquer punição, não lhe retiram o cliente; que não há obrigação de comparecimento diário ou mensal na empresa, mas o RCA não é obrigado a comparecer; que já deixou de ir a várias e nunca ficou mal visto; que não recebe ordens do analista ; que sua relação com o analista é no sentido de recorrer ao mesmo nas dificuldades do_ dia a dia, um volume maior de negociação, um cliente bloqueado para vendas no sistema, problemas de entrega; que quando o RCA não bate meta é informado pelo analista ; que as vezes o analista dá sugestão para melhorar; que o depoente recebe em média de comissão o valor de RS 30.000,00 ao mês, pois vende bastante", (grifos da RECORRENTE) Fl. 5876DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.877 16 A sentença concluiu, ainda, que a inexistência de subordinação entre os representantes comerciais e a RECORRENTE poderia ser aferida a partir do depoimento da própria testemunha de acusação: "Ademais, a testemunha indicada pelo autor declina que haviam metas estabelecidas pela reclamada, contudo, não havia punição para quem não as atingissem e sequer havia ameaças no sentido de desligamento do representante comercial autônomo". O MPT/RJ interpôs recurso ordinário e em 21.06.2017, a 6ª Turma do TRT da 1ª Região, por unanimidade de votos, negou provimento ao RO do MPT/RJ, mantendo o entendimento da sentença de que, diante das provas acostadas aos autos, não ficou caracterizado o vinculo de emprego nas contratações envolvendo os representantes comerciais autônomos, tampouco fraude à lei. Embargos de declaração não alteraram o entendimento, tendo transitado em julgado. A DECISÃO sustentou que, como a improcedência dessa ACP ajuizada no estado do RJ teria se dado por falta de provas, a decisão judicial nela proferida {transitada em julgado) não importaria em coisa julgada, nos termos do art. 16 da Lei n° 7.347, de 24.07.1985. . Primeiramente, não há no processo qualquer nova prova colhida pela Fiscalização que não tenha sido examinada nos autos da ACP. De fato, como visto exaustivamente acima, o relatório fiscal com teor idêntico ao do processo em epigrafe, com todos os fatos e elementos nele narrados, foi juntado e nominalmente citado pelas decisões judiciais proferidas nos autos da ACP, com trânsito em julgado a favor da RECORRENTE. Além disso, a ACP demonstra não haver verossimilhança na alegação fiscal, derrubando a premissa equivocada na qual os autos e a decisão se basearam. A comprovação da subordinação deve ser feita individualmente, caso a caso, não sendo possível autuação de forma generalizada (Acórdão 2401004.641, de 14/03/2017; e Acórdão 230100.131, de 04/03/2009). Portanto, a premissa de que todas as pessoas físicas do Anexo I prestaram serviços com as mesmas características não se sustenta, em face das decisões da Justiça do Trabalho transitadas em julgado. d) Inexistência de relação de emprego. Na representação comercial autônoma também podem estar presentes pessoalidade, nãoeventualidade e onerosidade e inclusive serviços intelectuais podem ser prestados por pessoa jurídica em caráter personalíssimo (Lei n° 4.886, de 1965, arts. 27, c e i, 32, §4°, 33§2° e 41; e Lei n° 11.196, art. 129). Independentemente de as empresas contratadas terem ou não empregados próprios, há, nos auto, transcrição do testemunho dado na ACP n° 001158805.2015.5.01.0073 por MARCO AURÉLIO SENRA MARENDINO (caracterizado empregado da RECORRENTE no item 356 do Anexo I dos AUTOS), que compromete a alegação genérica feita pelo Fisco e pela DECISÃO quanto à presença do elemento da pessoalidade: (...) que o próprio RCA define a ordem de atendimento à clientes; que uma vez os representantes comerciais, depoente e outros (grupo de 10 pessoas) contrataram um feirante para ter férias e o referido feirante o substituiu; que os próprios representantes comerciais pagavam do próprio bolso o feirante, lhe davam uma parte da comissão (...)" Fl. 5877DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.878 17 Notese que em todos os contratos de representação comercial consta cláusula autorizando o desempenho das atividades por intermédio de sócios ou eventuais prepostos. A propósito da inexistência de vínculo empregatício entre a empresa e o representante comercial contratado para lhe prestar serviços por meio de sua pessoa jurídica, na forma da lei específica, ainda que relacionados á atividadefim da contratante, confiramse o disposto nos arts. 442B da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e 4°A da Lei n° 6.019, de 03.01.1974, ambos com a redação dada pela Lei n° 13.467, de 13.07.2017: "Art. 442B. A contratação do autônomo, cumpridas por este todas as formalidades legais, com ou sem exclusividade, de forma contínua ou não, afasta a qualidade de empregado prevista no art. 32 desta Consolidação". "Art. 42A. Considerase prestação de serviços a terceiros a transferência feita pela contratante da execução de quaisquer de suas atividades, inclusive sua atividade principal, à pessoa jurídica dê direito privado prestadora de serviços que possua capacidade econômica compatível com a sua execução. (...) § 2º Não se configura vínculo empregatício entre os trabalhadores, ou sócios das empresas prestadoras de serviços, qualquer que seja o seu ramo, e a empresa contratante". No que se refere ao elemento da onerosidade, temse que ele não foi caracterizado no caso concreto, pois os preços dos serviços eram devidos e foram pagos às pessoas jurídicas contratadas, e não a seus sócios, não sendo fixos/certos. As pessoas jurídicas e não as físicas receberam remuneração. a Lei n° 4.886, de 1965, estabelece regras muito próximas da subordinação jurídica (arts. 19, e, 27, d, e 29). Por isso, a diferenciação demanda a análise de caso a caso, como bem evidencia a doutrina e as decisões da Justiça do Trabalho favoráveis ao recorrente. A prestação de serviços em locais distantes da recorrente corrobora a ausência de subordinação, já que não precisam comparecer com frequência à sede da recorrente. Ter na recorrente a única fonte pagadora não caracteriza vínculo, tanto que a lei admite exclusividade. Além disso, quase metade das pessoas jurídicas recebeu rendimentos de outra fonte pagadora. Apesar de não ter vendedor empregado, tinha mais de 600 empregados relacionados à sua atividade fim, inclusive assistentes e promotores de vendas, sendo esta uma estratégia válida. A existência de relatórios com informações sobre vendas realizadas, o contato entre a RECORRENTE e os representantes comerciais através de palmtop e a presença de empregados com cargos de analistas de vendas também não comprovam a existência de subordinação, porque a própria Lei n° 4.886/65 prevê a obrigação de o representante comercial fornecer ao representado todas as informações detalhadas sobre o andamento dos negócios (art. 28), devendo prestar contas, apresentar recibos e relatórios pertinentes (art. 19, alínea "e"), além de, regra geral, não poder agir em desacordo com as instruções do representado, nem dar descontos sem a sua prévia autorização (art. 29). A sujeição do prestador de serviços autônomos de representação comercial a traços organizacionais do empreendimento econômico beneficiário das atividades de intermediação negocial faz parte da necessária coordenação de condutas voltada ao êxito econômico, não configurando subordinação jurídica. As metas não configuram o vínculo Fl. 5878DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.879 18 empregatício, pois se trata de mero parâmetro a ser almejado pelos representantes, sem que haja qualquer punição ou advertência no caso de não atingimento, conforme testemunho colhido nos autos da ACP n° 001158805.2015.5.01.0073 e já citado acima, entre outras decisões judiciais julgadas a favor da RECORRENTE, juntadas ao presente processo. Havendo decisões trabalhistas favoráveis e desfavoráveis, não há como, de forma genérica, concluir pelo vínculo de emprego para 441 pessoas. Transcrevese excertos de vinte e cinco decisões favoráveis ao recorrente e que enfrentaram pontos suscitados pela fiscalização (fls. 5435/5467). Assim, a Justiça do Trabalho concluiu, por exemplo, que a utilização de palmtop, a existência de relatório de vendas e a estipulação de metas sem punição ou advertência no caso de não atingimento não são elementos suficientes para caracterizar subordinação, em face da Lei n° 4.886, de 1965. A inexistência de vínculo decorreu, entre outros, pela Justiça do Trabalho ter detectado: (1) os representantes comerciais não estavam submetidos a nenhum tipo de controle de horário (como, por exemplo, marcação de ponto ou exigência de jornada mínima de trabalho) e não havia obrigatoriedade de comparecimento diário ou semanal nas dependências da RECORRENTE; e/ou (2) a RECORRENTE não aplicava qualquer punição aos representantes comerciais que não alcançassem as metas, nem àqueles que não comparecessem, por meio de seus sócios, empregados ou prepostos, ás reuniões que ocorriam esporadicamente; e/ou (3) a RECORRENTE não interferia diretamente no contato entre os representantes comerciais e os clientes por eles captados ou não; e/ou (4) não havia exclusividade entre os representantes comerciais e a RECORRENTE; e/ou (5) a RECORRENTE não estabelecia rotas de venda nem fazia avaliação de assiduidade; e/ou (6) a RECORRENTE não arcava com as despesas de locomoção, entre outras necessárias à consecução das atividades dos representantes comerciais autônomos. No julgamento do Acórdão 2401003.146, de 13/08/2013, já se entendeu que a emissão de comandos para a execução de tarefas previstas em contratos é natural em uma relação entre pessoas jurídicas, tomadora e prestadora de serviços regidas pela lei civil, estando a subordinação mais ligada ao controle da rotina dos empregados (escala de trabalho, possibilidade de penalidades previstas na CLT etc). Logo, não há vinculo de emprego. e) Retificações. Antes mesmo do Acórdão recorrido ter sido prolatado, mais dois processos trabalhistas transitaram em julgado declarando inexistência de vinculo, não tendo sido considerados pela DRJ. Como o presente processo ainda não transitou em julgado administrativo, as decisões judiciais transitadas em julgado não consideradas no Acórdão de piso devem ser reconhecidas e o lançamento cancelado (itens 161 e 207 do Anexo I). Mesmo as com recurso judicial pendente, existem decisões judiciais válidas e eficazes a serem consideradas (itens 6, 109, 166, 218, 221, 227, 264, 312, 375 e 406 do Anexo I). Ademais, deveriam ser excluídos da base de cálculo todos o aqueles que ajuizaram reclamatórias trabalhistas, pois: (1) a decisão judicial não reconhecendo vínculo deverá prevalecer; (2) havendo decisão final ou acordo homologado reconhecendo vínculo, as contribuição serão executadas de ofício pela Justiça do Trabalho. Devem ser excluídos da base de cálculo os pagamentos efetuados à pessoa jurídica da qual MARCO Fl. 5879DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.880 19 AURÉLIO SENRA MARENDINO (item 356 do Anexo I dos AUTOS), tendo em vista que seu sócio em depoimento perante à Justiça do Trabalho, transcrito na sentença juntada às fls. 5014 e 5022, deixa claro que não há vínculo empregatício entre ele e a RECORRENTE. Devem ser excluídos também da base de cálculo os pagamentos para pessoas jurídicas relacionadas no Anexo III dos AUTOS, na medida em que a fiscalização reconhece não ter havido exclusividade e exclusividade seria elemento de reforço para caracterizar o vínculo de emprego. Logo, a falta, no mínimo, gera dúvida acerca do vínculo de emprego. f) Não houve fraude ou simulação. A situação em questão pode, quando muito, ser considerada controvertida, dada a proximidade das figuras do representante comercial autônomo e do empregado, mas jamais fraudulenta. A mera desconsideração do vínculo civil em prol do contrato de trabalho não caracteriza, por si só, dolo fraude ou simulação (Acórdãos n° 9202 004351, de 24/07/2016, n° 920201.127, de 19/10/2010 e n° 2401002.924, de 12/03/2013). A própria fiscalização reconhece que quase metade das empresas recebeu rendimentos de outras fontes e inúmeras decisões judiciais reconheceram a inexistência de vínculo de emprego, inclusive para pessoas físicas constantes do Anexo I, tendo apreciado reconhecido como insuficientes os mesmos elementos invocados pela fiscalização. No mesmo sentido, restou julgada a ACP n° 001158805.2015.5.01.0073, a prevalecer o entendimento de não ter havido fraude. Além disso, nos estados de MG e ES os inquéritos civis foram arquivados. A forma genérica do lançamento também afasta a caracterização do intuito de fraude ou simulação, em especial diante da proximidade existente entre o representante comercial autônomo (Lei n° 4.886, de 1965, art. 1°; Lei n° 11.196, de 2005, art. 129) e o subordinado. Assim, indevida a qualificação da multa. Além disso, a multa de 150% é confiscatória, conforme jurisprudência do STF. g) Contribuições ao INCRA e SEBRAE. Considerando a existência de repercussão geral reconhecida (RE n° 630.898 e RE 603.624) pede que futura decisão do STF seja observada e reproduzida (Regimento Interno do CARF, art. 62, § 2°). h) Juros sobre multa. O art. 161 do CTN não prevê a possibilidade de cobrança de juros sobre a multa de ofício. A inteligência do parágrafo único do art. 16 do DL n° 2.323, de 1997, os afastam, bem como jurisprudência. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Tempestividade. Intimada em 09/05/2018, a recorrente observou o prazo recursal de trinta dias ao interpor suas razões recursais em 04/06/2018 (fls. 5460). Presentes as condições de admissibilidade, tomo conhecimento do recurso voluntário. Fl. 5880DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.881 20 Invasão de competência. A defesa alega ser apenas a Justiça do Trabalho competente para o reconhecimento de relação de emprego, havendo violação dos princípios da segurança jurídica e harmonia entre poderes, bem com ofensa à Súmula Vinculante n° 22. De plano, devemos ponderar que o presente colegiado é incompetente para afastar norma legal sob alegação de inconstitucionalidade por violação de princípios constitucionais (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 26A) e que a Súmula Vinculante n° 22 não versa sobre a matéria em questão, como podemos verificar: Súmula Vinculante 22 A Justiça do Trabalho é competente para processar e julgar as ações de indenização por danos morais e patrimoniais decorrentes de acidente de trabalho propostas por empregado contra empregador, inclusive aquelas que ainda não possuíam sentença de mérito em primeiro grau quando da promulgação da Emenda Constitucional 45/2004. Mesmo na esfera trabalhista, a argumentação da recorrente não prospera, eis que a iterativa e notória jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho é pacífica no sentido de não ser a Justiça do Trabalho a única competente para reconhecer a relação de emprego, como podemos observar: RECURSO DE EMBARGOS EM RECURSO DE REVISTA. INTERPOSIÇÃO SOB A ÉGIDE DA LEI 11.496/2007. AÇÃO ANULATÓRIA DE AUTO DE INFRAÇÃO. TERCEIRIZAÇÃO ILÍCITA. VÍNCULO DE EMPREGO. INOBSERVÂNCIA DAS DISPOSIÇÕES CONTIDAS NO ART. 41 DA CLT. RECONHECIMENTO PELO FISCAL DO TRABALHO. INVASÃO DE COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA DO TRABALHO. INOCORRÊNCIA. 1. O Colegiado Turmário deu provimento ao recurso de revista da União, para "reconhecer a atribuição do fiscal do trabalho para declarar a existência de vínculo de emprego". Consignou que "não invade a esfera da competência da Justiça do Trabalho a declaração de existência de vínculo de emprego feita pelo auditor fiscal do trabalho, por ser sua atribuição verificar o cumprimento das normas trabalhistas, tendo essa declaração eficácia somente quanto ao empregador, não transcendendo os seu efeitos subjetivos para aproveitar, sob o ponto de vista processual, ao trabalhador. Assim, verificado pelo fiscal de trabalho que há relação de emprego entre a empresa tomadora de serviço e o trabalhador, não há óbice na cobrança do FGTS pela União, em razão de tal atribuição estar prevista no art. 23 da Lei 8.036/90". 2. Decisão embargada em consonância com a jurisprudência desta Corte Superior, firme no sentido de que o reconhecimento de eventual terceirização ilícita e da decorrente formação de vínculo de emprego com o tomador de serviços , para fins de lavratura de auto de infração em decorrência da inobservância das disposições contidas no art. 41 da CLT, é atribuição do Auditor Fiscal do Trabalho, nos moldes dos arts. 626 e 628 da CLT e 11 da Lei 10.592/2002, não havendo falar em invasão da Fl. 5881DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.882 21 competência da Justiça do Trabalho. Recurso de embargos conhecido e não provido. ( EEDRR 13114048.2005.5.03.0011 , Relator Ministro: Hugo Carlos Scheuermann, Data de Julgamento: 19/02/2015, Subseção I Especializada em Dissídios Individuais, Data de Publicação: DEJT 27/02/2015) RECURSO DE REVISTA. AÇÃO ANULATÓRIA. AUTO DE INFRAÇÃO. RECONHECIMENTO DE VÍNCULO DE EMPREGO POR AUDITOR FISCAL DO TRABALHO. APLICAÇÃO DE MULTA. INVASÃO DE COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA DO TRABALHO. NÃO CONFIGURAÇÃO. A Constituição Federal, em seu art. 21, XXIV, disciplina que compete à União, organizar, manter e executar a inspeção do trabalho, e o art. 14, XIX, c, da Lei n° 9.649/1998 determina que compete ao Ministério do Trabalho e Emprego a fiscalização do trabalho, bem como a aplicação das sanções previstas em normas legais ou coletivas. Por outro lado, conforme disciplinado pela Lei nº 10.593/2002, cabe ao auditor fiscal do trabalho assegurar a aplicação de dispositivos legais e regulamentares de natureza trabalhista. Por conseguinte, concluise que o agente de fiscalização é competente para identificar a existência de relação de emprego irregular e, constatandoa, aplicar as sanções legalmente cabíveis. Recurso de revista conhecido e provido. ( RR 16180098.2008.5.11.0010 , Relatora Ministra: Dora Maria da Costa, Data de Julgamento: 05/11/2014, 8ª Turma, Data de Publicação: DEJT 07/11/2014) Por outro lado, nos termos do art. 33 da Lei n° 8.212, de 1991, na redação da Lei nº 11.941, de 2009, compete à Secretaria da Receita Federal do Brasil o planejamento, a execução, o acompanhamento e a avaliação das atividades relativas à tributação, fiscalização, arrecadação, cobrança e recolhimento das contribuições devidas a outras entidades e fundos: Art. 33. À Secretaria da Receita Federal do Brasil compete planejar, executar, acompanhar e avaliar as atividades relativas à tributação, à fiscalização, à arrecadação, à cobrança e ao recolhimento das contribuições sociais previstas no parágrafo único do art. 11 desta Lei, das contribuições incidentes a título de substituição e das devidas a outras entidades e fundos. Incumbe à Receita Federal, portanto, a execução da atividade de fiscalização das contribuições em tela. Tal atividade envolve o dever de efetuar a constituição do crédito tributário por meio do lançamento, conforme disposto no art. 142 do Código Tributário Nacional: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Fl. 5882DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.883 22 Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. A competência funcional para efetuar o lançamento é do AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil, por força da Lei n° 10.593, de 2002, in verbis: Art. 6° São atribuições dos ocupantes do cargo de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil: (Redação dada pela Lei nº 11.457, de 2007) I no exercício da competência da Secretaria da Receita Federal do Brasil e em caráter privativo: (Redação dada pela Lei nº 11.457, de 2007) a) constituir, mediante lançamento, o crédito tributário e de contribuições; (Redação dada pela Lei nº 11.457, de 2007) Portanto, colhendo provas, o AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil exerceu o poderdever de efetuar o lançamento das contribuições que reputou devidas. A jurisprudência não trabalhista é pacífica desde o tempo da fiscalização do INSS no sentido de reconhecer a competência da fiscalização previdenciária, atualmente exercida pela Secretaria da Receita Federal do Brasil e pelo AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil, para caracterizar trabalhador como segurado empregado, como podemos constatar: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INSS. FISCALIZAÇÃO DE EMPRESA. CONSTATAÇÃO DE EXISTÊNCIA DE VÍNCULO EMPREGATÍCIO NÃO DECLARADO. COMPETÊNCIA. AUTUAÇÃO. POSSIBILIDADE. VIOLAÇÃO AO ART. 535 DO CPC. INOCORRÊNCIA. I Não prospera a tese de suposta afronta ao art. 535 do CPC, eis que o Tribunal a quo ao apreciar a demanda manifestouse sobre todas as questões pertinentes à litis contestatio, fundamentando seu proceder de acordo com os fatos apresentados e com a interpretação dos regramentos legais que entendeu aplicáveis, demonstrando as razões de seu convencimento. II O INSS, "ao exercer a fiscalização acerca do efetivo recolhimento das contribuições por parte do contribuinte, possui o dever de investigar a relação laboral entre a empresa e as pessoas que a ela prestam serviços. Caso constate que a empresa erroneamente descaracteriza a relação empregatícia, a fiscalização deve proceder a autuação, a fim de que seja efetivada a arrecadação" (REsp nº 515.821/RJ, Rel. Min. FRANCIULLI NETTO, DJ de 25.04.2005). III Destaquese que remanesce hígida a competência da Justiça do Trabalho na chancela da existência ou não do aludido vínculo empregatício, na medida em que: "O juízo de valor do fiscal da previdência acerca de possível relação trabalhista omitida pela empresa, a bem da verdade, não é definitivo e poderá ser contestado, seja administrativamente, seja judicialmente" (REsp nº 575.086/PR, Rel. Min. CASTRO MEIRA, DJ de 30.03.2006). Fl. 5883DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.884 23 IV Recurso especial provido. (REsp 859.956/RJ, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 10/10/2006, DJ 26/10/2006, p. 266) COMPETÊNCIA FISCALIZATÓRIA DO INSS. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. VÍNCULO EMPREGATÍCIO. RECONHECIMENTO. FIM TRIBUTÁRIO E NÃO TRABALHISTA. 1A jurisprudência consolidou o entendimento que, cumprindo as atribuições que lhe foram outorgadas pela lei, o INSS possui competência para, diante das situações fáticas encontradas pela fiscalização, caracterizar como empregatícias as relações mantidas entre a empresa e seus trabalhadores, para os fins de recolhimento de contribuições previdenciárias. Vide os seguintes julgados: RESP 200602188458, Humberto Martins, STJ Segunda Turma, 13/10/2008; AGRESP 200602279329, Francisco Falcão, STJ Primeira Turma, 12/04/2007; REsp 515821/RJ, Rel. Ministro Franciulli Neto, Segunda Turma, julgado em 14.12.2004, DJ 25.04.2005 p. 278). 2 (...). 7 Apelação improvida. (AC 201050010134130, Desembargador Federal LUIZ ANTONIO SOARES, TRF2 QUARTA TURMA ESPECIALIZADA, EDJF2R Data::02/09/2013.) TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. ALEGADA NULIDADE DA NFLD. ENQUADRAMENTO DOS EMPREGADOS. ATRIBUIÇÃO. 1. Compete à autoridade fiscal verificar a ocorrência do fato gerador e efetuar o lançamento, conforme art142, do CTN66. 2. O fiscal previdenciário pode, diante dos fatos, considerar como " empregados" os trabalhadores que a empresa tratava como "autônomos", não cabendo a alegação de invasão de competência da Justiça do Trabalho, a quem compete julgar dissídios entre empregadores e empregados ( art114, CF88 ). 3. Apelação improvida. (TRF4, AMS 97.04.398891, Primeira Turma, Relator Fernando Quadros da Silva, publicado em 27/01/1999) Afastase, destarte, a preliminar de invasão da competência da Justiça do Trabalho. Falta de amparo legal. Evidentemente, quando estabeleceu o dever de a autoridade fiscal efetuar o lançamento, o legislador teve como objetivo a identificação do verdadeiro fato gerador, a fim de determinar a real matéria tributável, prevalecendo a essência sobre a forma. Nesse sentido, deve ser lido o art. 142 do CTN. Desse modo, sempre que possível, a autoridade deve buscar a verdade material, em detrimento dos aspectos formais dos negócios e atos jurídicos praticados. Nesse sentido, dispõe o Regulamento da Previdência Social RPS, aprovado pelo Decreto n° 3.048, de 1999: Fl. 5884DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.885 24 Art. 229. O Instituto Nacional do Seguro Social é o órgão competente para: (...) §2º Se o Auditor Fiscal da Previdência Social constatar que o segurado contratado como contribuinte individual, trabalhador avulso, ou sob qualquer outra denominação, preenche as condições referidas no inciso I do caput do art. 9º, deverá desconsiderar o vínculo pactuado e efetuar o enquadramento como segurado empregado. Tanto é assim que a ocorrência de simulação está prevista como uma das hipóteses que ensejam o lançamento de ofício, conforme previsto no art. 149, VII, do CTN: Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: (...) VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; Diante desses dispositivos, o AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil é autoridade competente para lançar as contribuições sobre folha de pagamento e pertinentes multas por descumprimento de obrigação acessória, sob o fundamento de a prova colhida, no seu entender, ser suficiente para o exercício do poderdever de desconsiderar os vínculos formalmente pactuados em prol da efetiva relação jurídica consubstanciada no plano fático, a caracterizar a figura do segurado empregado. Nesse contexto normativo, não há se falar em ilegalidade do art. 229, § 2°, do RPS e nem em afronta aos arts. 150, I, da Constituição e 97 e 108 do CTN. Além disso, reitere se que o art. 149, VII, autoriza o lançamento em tela, não sendo o caso de se aplicar o art. 116, parágrafo único, do CTN. A suficiência ou não da prova apresentada para gerar ou não convicção em relação todos os trabalhadores objeto de lançamento é matéria de mérito e com ele será apreciada. Logo, não prospera preliminar de falta de amparo legal também sob o prisma de ofensa ao princípio da primazia da realidade. Cerceamento do direito de defesa e falta de comprovação dos vínculos. O fato de em um mesmo Auto de Infração a base de cálculo das contribuições lançadas tomar em consideração 441 segurados empregados não tem o condão de ensejar o cerceamento do direito de defesa. Pelo contrário, o artificial desdobramento em 441 Autos de Infração é que geraria tumulto e manifesto cerceamento ao direito de defesa. O presente colegiado é incompetente para acolher a alegação de cerceamento do direito de defesa em razão de o processo administrativo fiscal não contempla a oitiva de testemunhas, eis que equivaleria a reconhecer a inconstitucionalidade do regramento traçado pela legislação federal por ofensa ao princípio constitucional da ampla defesa (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 26A; e Súmula CARF n° 2). No entender da recorrente, a fiscalização teria partido de premissa equivocada para efetuar generalização, conforme evidenciariam arquivamentos de inquéritos civis e decisões trabalhistas favoráveis à recorrente. Não há cerceamento do direito de defesa em razão de a fiscalização sustentar que determinadas provas se aplicam a todas os 441 segurados. A questão é saber se a prova apresentada é hábil ou não para comprovar todos os vínculos imputados e será abordada no próximo tópico. Fl. 5885DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.886 25 Inexistência de relação de emprego. O contrato de representação comercial autônomo pode ser executado com pessoalidade ou não. Segundo a fiscalização, haveria pessoalidade por pessoas físicas firmarem os contratos em nome das pessoas jurídicas. O argumento é inconsistente, pois toda pessoa jurídica assina um contrato por meio de uma pessoa física com poderes para tanto. Ao que parece apenas um contrato teria sido assinado pela pessoa física prestadora dos serviços no âmbito da pessoa jurídica, mas que não seria seu representante legal. A situação isolada não pode ser generalizada como prova da presença de pessoalidade para todos os 441 casos, ainda mais por poder ser facilmente explicada pela existência de eventual procuração, circunstância não excluída pela fiscalização. O fato de nenhuma das 441 empresas possuir empregados é indicativo de pessoalidade e o fato de a empresa não ter apresentado relatório das atividades a revelar o efetivo exercício da possibilidade contratual de se valer de prepostos também é um indício ainda mais quando se considera o alto grau de controle da recorrente sobre a prestação de serviços, reconhecendo a própria impugnante haver "subordinação empresarial", bem como é indício de pessoalidade a circunstância de, por vezes, a recorrente se referia às empresas utilizandose do nome das pessoas físicas. Nesse contexto, é razoável se concluir pela presença da pessoalidade, não sendo possível se generalizar o testemunho de Marco Aurélio Senra Marendino, não tendo o mesmo especificado quem seriam os outros dez representantes. Onerosidade houve, eis que foram efetivados pagamentos para as pessoas jurídicas. A não eventualidade se configura diante da própria natureza do trabalho desenvolvido, tendo a fiscalização desconsiderado os representantes que receberam pagamentos em menos de três competências. Exclusividade não descaracteriza e nem caracteriza o contrato de emprego e nem a representação comercial autônoma. Portanto, no caso concreto, a presença ou não da subordinação jurídica constituise no elemento decisivo para a caracterização ou não da figura do segurado empregado. A pessoa jurídica ou o trabalhador autônomo devem organizar e dirigir atividade econômica própria, obrigandose pela produção de determinado resultado ou pela realização de todos os esforços cabíveis para sua obtenção. Na representação comercial autônoma, há coordenação e colaboração para com a atividadefim do negócio do contratante. Nesse sentido, temos o disposto nos arts. 19, e, 27, d, 28 e 29 da Lei n°4.886, de 1965. Contudo, o representante comercial autônomo deve ser capaz de gerir autonomamente a prestação de serviços e para tanto precisa dispor de capacidade organizativa e econômica própria ainda que modesta. Nesse contexto, parte da doutrina sustenta haver parasubordinação e não efetivamente autonomia. Segundo a fiscalização, as empresas foram criadas e/ou mantidas para ocultar a prestação de serviços subordinados. Em face das diligências empreendidas pela fiscalização durante o procedimento fiscal, consubstanciadas no Termo de Constatação de fls. 4233/4253, confirmase a ausência de estrutura organizacional nos locais informados como sede para fins cadastrais das empresas especificadas no Anexo I sob os seguintes números: 2,3,4,5,7,8, 9,10,11,12,13,14,15,16,17,18,19,20,21,22,23,25,26,27,29,31,32,34,35,36,37,40,41,43,44,45,46, 47,48,50,51,52,54,55,56,57,58,59,60,61,62,64,65,67,68,70,71,73,74,75,76,77,79,80,82,83,84,8 5,86,89,90,91,92,93,94,95,96,97,98,99,100,101,102,103,104,105,107,108,109,111,112,113,114 ,115,116,117,118,119,120,121,122,123,124,125,126,127,128,129,130,131,133,134,136,137,13 8,139,140,141,142,143,144,145,146,147,148,150,151,152,153,154,155,156,157,158,159,160,1 61,162,163,164,166,168,169,170,171,172,173,175,176,177,178,179,180,182,185,186,188,189, 190,191,193,195,196,197,198,199,200,201,202,203,204,205,206,207,208,209,210,211,212,213 ,214,215,216,218,219,221,222,223,224,225,226,227,228,229,230,231,232,233,234,235,236,23 7,238,239,241,242,243,244,245,246,247,248,249,250,251,252,253,254,255,256,257,260,261,2 Fl. 5886DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.887 26 62,263,264,265,266,267,268,269,270,271,272,273,274,275,276,277,278,279,280,281,282,283, 284,285,287,288,289,290,291,292,293,294,295,296,297,298,299,300,302,303,304,305,306,308 ,309,310,311,312,313,315,316,317,318,319,320,321,322,323,325,326,327,328,329,331,332,33 3,334,335,336,337,338,339,340,341,342,343,344,345,347,348,349,350,351,352,354,355,357,3 58,359,360,361,362,363,364,365,366,367,368,369,370,371,372,373,374,375,376,377,378,379, 382,383,384,385,386,387,388,389,390,391,392,393,394,395,396,397,398,399,400,401,403,406 ,407,408,409,410,411,412,413,414,415,416,417,418,419,420,421,422,423,424,425,426,428,42 9,430,432,433,434,435,436,437,438,439,440 e 441. A ausência de estrutura empresarial na sede das empresas, cujo endereço muitas vezes situase em imóveis não localizados ou de cunho não comercial ou em local vinculado a contador, inclusive residência particular do contador ou de endereço de Supermercado de pai do contador, apresentase como manifesto indicativo de fraude. Todas essas empresas são de Além Paraíso. Para as empresas com sede cadastral em Caratinga, constantes do Anexo I (183, 314 e 380), a fiscalização não efetuou diligência. Entretanto, com lastro em pesquisa na internet (Anexo XII) constatou que o endereço é pertinente a Escritório de Contabilidade e Advocacia, a concluir pela ausência de estrutura organizacional. Notese ainda que, em regra, o endereço cadastral é o mesmo constante dos contratos sociais. Excetuamse apenas as constantes dos itens 1, 81, 92, 145, 194, 217, e 306 do Anexo I. Contudo, apenas as dos itens 1, 81, 194 e 217 não tem como local informado um dos visitados pela fiscalização ou informado como residência particular de contador. Para os seguintes itens 1, 6, 30, 33, 38, 39, 42, 53, 72, 81, 88, 106, 110, 165, 174, 184, 192, 194, 217, 258, 286, 301, 305, 330, 346, 353, 356, 381, 402, 404 e 405 do Anexo I a fiscalização concluiu haver ausência de estrutura empresarial a partir do fato de as empresas terem sede em Além Paraíba e/ou a área de atuação do representante ser distante da sede da empresa. Considero, entretanto, que estas duas premissas são insuficientes para se sustentar a ausência de estrutura empresarial para as pessoas jurídicas especificadas nos referidos itens do Anexo I. Todos os vendedores da recorrente eram formalmente representantes comerciais autônomos pessoas jurídicas. A atividadefim de vendedor foi totalmente terceirizada. As funções de analista de vendas, gerente de vendas, promotores e auxiliares de vendas permaneceram ocupadas por empregados. Essa pode ser uma estratégia válida. Contudo, para tanto, os representantes comerciais devem ser efetivamente autônomos. No entender da empresa, a pesada estrutura de controle dos vendedores autônomos pessoas jurídicas (analistas de vendas, contato palmtop e relatórios sobre vendas) evidenciaria apenas subordinação empresarial e não subordinação jurídica trabalhista Acrescenta que a sujeição a traços organizacionais da contratante para a coordenação das atividades não seria subordinação, tanto que a Lei n°4.886, de 1965, admitiria exigência de informações sobre os negócios, dever de observar instruções e de prestar contas etc. Os contratos de RCA eram padronizados e paralelamente haviam documentos de orientação das atividades, documentos cuja autoria e conteúdo não restaram impugnados. No documento, "Atribuições do Representante" (fls. 3578) consta: Fl. 5887DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.888 27 1. Representar a Empresa junto aos clientes, sendo o Consultor responsável pelas vendas, merchandising, e acompanhar cobrança. 2. Seguir as normas e procedimentos implantados pela Empresa. 3. Manter assiduidade constante aos nossos clientes, mantendo a Empresa informada sobre 'o seu roteiro de trabalho atualizado. 4. Exercer o trabalho de consultoria junto aos clientes. Þ Checar estoque e gôndolas Þ Cuidar da exposição dos produtos Þ Aplicar material de merchandising Þ Apresentar catálogo Demonstrar empatia Þ Ser o "Solucionador de Problemas" que o cliente precisa. 5. Responder aos formulários e elaborar relatórios solicitados pela Empresa. 6. Manter o Analista de Vendas informados sobre o Mercado. 7. Manterse organizado; zelar pelo material de trabalho. Planejar as visitas aos clientes no dia anterior verificando a situação de crédito e buscando o melhor roteiro para obter melhores resultados e redução de custos. 8. Acompanhar e responsabilizarse pelas ações e desempenho de seus subagentes. mantendoos informados sobre as campanhas, materiais promocionais e outras diretrizes da Empresa. 9. Atingir metas e desafios. 10. Apresentação pessoal, postura e ética profissional. Do documento, "Gerar itens de controle para estruturar programa de educação e treinamento para Equipe de Vendas" (fls. 3579) consta: Pontuar a performance de cada representante de acordo com as necessidades/ expectativas da empresa: 1. Avaliação de Consultoria ao Cliente . Þ Empatia e respeito. Þ Apresentação de catálogo. Þ Checar estoque e gondolas. Þ Cuidar da exposição de produtos. Þ Aplicar material de merchandising. Þ Ser o "Solucionador de Problemas" que o cliente precisa. 2. Cumprimento das solicitações feitas pela Empresa. Ex.Compromisso da semana. Supervisor eletrônico. 3. Pontualidade nos compromissos da Empresa. 4. Frequência e participação em cursos, palestras e eventos promovidos pela Empresa. Fl. 5888DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.889 28 5. Envolvimento dos clientes em cursos, treinamentos e outros eventos promovidos pela Empresa. 6. Equipamentos para trabalho ( cuidados e apresentação ) Do documento, "Atribuições dos Analistas" (fls. 3580/3581), constam as seguintes atividades a serem desempenhadas: Implantar e acompanhar a execução de projetos, programas e planos inerentes a sua área de atuação Definir tática de procedimentos capazes de orientar seus subordinados nos trabalhos de coletas de dados, implantação e execução dos serviços. Incumbirse de gerenciar sua Equipe de Vendas e outros funcionários subordinados. Executar tarefas do mesmo grau de complexidade e responsabilidade, a critério de sua gerência. Manter Feedback (informações) constante com o grupo e Empresa, de uma maneira geral. Executar serviços de Informática dentro das rotinas de trabalho. Tomar decisões com segurança e sem exitar. Admissão e demissão de subordinados dentro de sua área de atuação Transcrever relatórios inerentes a sua gerência imediata. Fixar metas para o Desenvolvimento profissional dos subordinados. . Desenvolver Projetos de.treinamentos em equipe. Fazer operações complexas ligados diretamente a Diretoria. Promover negociações com indústrias e fornecedores Autonomia e responsabilidade estão proporcionalmente ligadas as atribuições de cada função; acrescido de bom senso, liberdade de expressão e respeito. Acompanhamento de Campanhas Acompanhamento de Mix Medir desempenho da Equipe / Representante X Desempenho da empresa Avaliar com Credito e Cobrança e através do histórico do cliente, solicitações de revisão de Limite Crédito e solicitações de Vendedor. 10. Interagir Compras X Equipe de Vendas buscando e trazendo informações do mercado. Fl. 5889DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.890 29 11. Acompanhar desempenho da Logística sendo elo de ligação' para resolução / pi informação dos problemas do campo. 12. Avaliação do cadastro de clientes do Representantes X seu potencial e desempenho. 13. Manter a equipe informada e motivada sobre as diretrizes da Empresa. 14. Avaliar o trabalho da consultoria do representante no campo. 15. Conhecer e divulgar para clientes e representantes os projetos desenvolvidos pela Empresa. 16. Promover reuniões periódicas com sua equipe. Recrutar, treinar e dispensar representantes do quadro da Empresa com a participação e conhecimento dos Recursos Humanos, Gerência e Diretoria. No documento "Avaliação Trimestral do Representante Zamboni" consta (fls. 3631): Pontos a serem observados: 1. Segue as orientações do analista e da Empresa? 2. Apresentação pessoal: postura e ética profissional. 3. Melhoramento de mix 4. Cumprimento de metas de vendas ( Objetivos ) 5. Distribuições específicas ( Ex.: VDB / Alliance ) 6. Compromissos da semana 7. Presença e participação nas reuniões. 8. Frequência em cursos, palestras e eventos promovidos pela Empresa. 9. Assiduidade no trabalho. 10.:Empatia e respeito "com e pelo" cliente. 11. Consultoria: · Merchandising · Exposição de produtos · Checkout de gôndolas e estoque · Solução de problemas do cliente 12. Iniciativa para resolução de problemas. 13. Apresentação de catálogo 14. Retorno de formulários e solicitações da empresa. Das fls. 3584/3616, dentre outros, constam Relatórios extraídos do "Sistema de Gestão Comercial" em que considerando o Analista de Vendas e cada um das empresas de RCA a ele vinculadas se entabulam dados , ranking de pontos de vendas, por representante do Analista de Vendas. Há também relatório de dados do volume mensal de vendas, da posição de clientes e mix de produtos mensal. Do "Sistema de Vendas", são apresentados relatórios com o controle de evolução do representante considerando mês/ano, objetivo e objetivo realizado, mix e mix realizado, clientes e clientes visitados. Neste ponto, destaquese que o controle de clientes visitados atesta o controle de assiduidade. Além disso, ressaltese que tais documentos foram extraídos de reclamatória trabalhista, eis que a autuada mesmo intimada não os exibiu. Fl. 5890DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.891 30 Verificase, portanto, que a empresa era extremamente organizada e possuía sistema de controle aprimorado, como revelam esses relatórios e a documentação sobre as atribuições dos representantes, dos analistas de vendas e acerca do treinamento da equipe de vendas. Diante disso, fica evidente a deliberada não colaboração para com a fiscalização, eis que diversos relatórios restaram não apresentados, sendo que deles dispunha conforme evidenciam documentos em questão obtidos a partir de reclamatória trabalhista. Especificamente a documentação pertinente ao "Sistema de vendas", atesta a existência de metas e um rígido acompanhamento da realização ou não pelos representantes comerciais. Há documentação demonstrando que o atendimento das metas ensejava premiação (fls. 3628/3630). Segundo a defesa, não atingir a meta não tinha por consequência penalidades, mas somente deixar de perceber comissões e prêmios conforme testemunho Marco Aurélio Senra Marendino. Não há prova direta de punição por não se bater a meta. As reclamatórias indicam haver fiscalização/informação/advertência, a variar conforme o depoimento ou testemunho, mas não são claras quanto haver punição diversa de advertência. Contudo, a existência de penalidades aflora da comunicação escrita de gerente de vendas com vendedores revelando que a não observância de venda casada seria falta gravíssima e ensejadora de consequências (fls. 3666). Os termos da redação são claros no sentido de se tratar de referência a uma penalidade pela não observância de um comportamento ilegal por ofensivo ao direito do consumidor. Poderia ser conduta isolada, contudo toda a comunicação escrita extraída pela fiscalização das reclamatórias trabalhistas (fls. 3621/3627, 3665/3667) demonstra ingerência na atividade cotidiana dos representantes, a transbordar de uma mera coordenação. Notese que a comunicação via Palmtop ou tablet era constante, havendo atualização diária como reconhecido pela autuada perante a fiscalização. Ainda que a comunicação escrita extraída das reclamatórias envolva poucos trabalhadores, temos de ter em mente que a comunicação em tela foi empreendida pelos representantes com os analistas e gerentes empregados da autuada e que a fiscalização solicitou (fls. 4181/4185) para a autuada informar acerca dos relatórios e logs de tais comunicações, mas nada foi apresentado. Diante da não colaboração da fiscalizada, entendo como cabível a extensão de tal prova para todos os representantes em que se apurou provas de ausência de estrutura empresarial em Além Paraíba e Caratinga. Ponto fundamental reside ainda em que, diante dos documentos acima transcritos, o analista de vendas tinha a atribuição expressa de recrutar, treinar, promover reuniões periódicas com sua equipe, manter Feedback (informações) constante com o grupo e Empresa e dispensar representantes do quadro da Empresa com a participação e conhecimento dos Recursos Humanos, Gerência e Diretoria. Portanto, em face do conjunto probatório, é razoável se concluir pela existência de um poder de controle dos trabalhadores; poder incompatível com uma mera "subordinação empresarial" de empresas aparentemente sem qualquer estrutura empresarial. Ausência de controle de horário e não obrigação de comparecimento diário/semanal nas dependências do contratante não têm o condão de descaracterizar o trabalho subordinado externo (CLT, art. 62, I). Fl. 5891DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.892 31 Há certa generalização no raciocínio do Relatório Fiscal quando invoca os depoimentos e testemunhos colhidos nas reclamatórias trabalhistas. De todo modo, a recorrente dispõe de decisões que lhe são favoráveis no âmbito da Justiça do Trabalho e que em alguns pontos destoam das decisões invocadas pela fiscalização (inexistência de advertências com cunho punitivo, forma de estabelecimento de rotas, quem arcaria com despesas etc). Contudo, no caso concreto, além dos testemunhos e depoimentos invocados pela fiscalização, a prova documental sobre as atribuições dos representantes e dos analistas, sobre o programa de educação e treinamento das equipes de vendas e sobre a avaliação trimestral do representante Zamboni, os relatórios dos sistemas de gestão comercial e de vendas obtidos e a não apresentação de documentação solicitada pela fiscalização, existente em face do constante das reclamatórias, associado ao fato de as empresas do Anexo não aparentarem possuir estrutura empresarial própria têm o condão de gerar convicção de não haver a parasubordinação da Lei n° 4.886, de 1965, mas a subordinação jurídica da Consolidação das Leis do Trabalho. Considero, destarte, não provada a existência de subordinação em relação aos trabalhadores arrolados nos itens 1, 6, 30, 33, 38, 39, 42, 53, 72, 81, 88, 106, 110, 165, 174, 184, 192, 194, 217, 258, 286, 301, 305, 330, 346, 353, 356, 381, 402, 404 e 405 do Anexo I, eis que para se gerar a referida convicção todas essas provas indiciárias, no meu entender, devem ser convergentes. Na Ação Civil Pública, foi relevante o testemunho de Marco Aurélio Senra Marendino e a recorrente sistematicamente o invoca para desqualificar a prova colhida pela fiscalização. Devemos ponderar, contudo, que a empresa de Marco Aurélio Senra Marendino se encontra dentre as que a fiscalização presumiu a ausência de estrutura empresarial simplesmente por se situar em Além Paraíba e por ser a área de atuação distante da sede. Logo, não se pode postular a aplicação do testemunho do Sr. Marco Aurélio Senra Marendino para as empresas em que se constatou a ausência de estrutura empresarial, já tendo o mesmos sido excluído do lançamento (item 356 do Anexo I). Como o lançamento se lastreia em provas indiciárias, considero como acertada a decisão de se excluir do lançamento a base de cálculo pertinente aos trabalhadores para os quais há decisão judicial trabalhista transitada em julgado não reconhecendo o vínculo de trabalho subordinado. Deixo consignado, entretanto, compreender que as decisões judiciais trabalhistas em questão a rigor não vinculam a União, eis que a mesma não é parte das reclamatórias trabalhistas, sendo eventualmente chamada a se manifestar tão somente sobre a natureza das parcelas em acordo homologado judicialmente ou sobre os cálculos das contribuições sociais executadas de ofício no âmbito da Justiça do Trabalho (CLT, arts. 832, §§ 4° e 5°, e 879, § 3°). A decisão de arquivamento dos inquéritos civis e de improcedência por falta de prova na ação civil pública igualmente não vinculam a União por não fazer parte daqueles procedimentos e nem ser parte da ação, bem como de a mesma ter sido decidida nos moldes do art. 16 da Lei n° 7.347, de 1985. Retificações. Em relação aos itens 161 e 207 do Anexo I, o recorrente apresenta prova (fls. 5617/5645) demonstrando o trânsito em julgado de decisão não Fl. 5892DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.893 32 reconhecendo vínculo de emprego nas ações trabalhistas propostas por Marcelo Peixoto Henrique e Jumara Fonseca Pereira. Logo, devem ser excluídos do lançamento. Em relação aos itens 6, 109, 166, 218, 221, 227, 264, 312, 375 e 406 do Anexo I, o recorrente carreou aos autos prova demonstrando a existência de decisões favoráveis sem transito em julgado. Consulta à página do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região e do Tribunal Superior do Trabalho revela o trânsito em julgado de decisão favorável ao recorrente em relação às seguintes demandas: Processo nº 010135051.2016.5.01.0411 de Antonio Rozergio da Costa (item 6); Processo n° 1072819.2015.5.01.0068 de Israel Fonseca de Lyra Júnior (item 166); e Processo n° 001208375.2015.5.01.0032 de Francisco Carlos Soares Gomes (item 221). Logo, também devem ser excluídos do lançamento os itens 6, 166 e 221. Notese que o item 6 já havia sido excluído sob outro fundamento. Por outro lado, foram reformadas as decisões favoráveis ao recorrente em relação às seguintes demandas: Processo nº 001175444.2015.5.01.0006 de Sergio Roberto Lemos de Melo (item 227); e Processo nº 010055639.2017.5.01.0041 de Sergio Ricardo Fonseca Pereira (item 375). Além disso, foi cancelada a decisão favorável ao recorrente no Processo nº 010156564.2016.5.01.0431 de Emanuelly Silva Coelho (item 264) e determinada a prolação de nova sentença. O fato de o trabalhador ajuizar reclamatória trabalhista não impede o presente lançamento. Como bem destacou a decisão de piso, as reclamatórias trabalhistas e o presente lançamento possuem objetos distintos, eis que aqui são lançadas contribuições sobre valores já pagos e nas reclamatórias trabalhistas sobre o valores demandados judicialmente, a gerar condenação (Súmula Vinculante STF n° 53; e Súmula TST n° 368, I), não tendo a autuada apresentado prova em contrário. Como já dito, exclusividade não é elemento caracterizador da relação de emprego e nem da relação de trabalho autônomo. O fato de a pessoa jurídica representante comercial obter rendimento de fonte diversa não tem o condão de afastar a caracterização de que em relação à recorrente o vínculo se formou não com a pessoa jurídica, mas com o trabalhador. Fraude ou simulação. Não houve mera descaracterização de vínculo de natureza civil. Durante a fiscalização a autuada omitiu documentação, mesmo tendo sido intimada com prova de existência de tal documentação em face das provas colhidas junto aos processos trabalhistas. A prova documental sobre as atribuições dos representantes e dos analistas, sobre o programa de educação e treinamento das equipes de vendas e sobre a avaliação trimestral do representante Zamboni amealhada a partir das reclamatórias comprova o propósito doloso de adotar prática executiva diversa da manifestação de vontade formalizada nos contratos de representação autônoma com o escopo de modificar características essenciais do fato gerador de modo a reduzir o montante devido, a preencher o suporte fático do art. 72 da Lei n° 4.502, de 1964. Correta, destarte, a qualificação da multa. Não infirmam tal constatação a percepção por parte das empresas de rendimentos de fonte diversa e nem a decisão emitida no âmbito da Ação Civil Pública lastreada no entendimento de as provas apresentadas serem insuficientes. A adoção de provas indiciárias não impede a qualificação da multa, eis que se trata de prova admitida em direito. Por fim, o presente colegiado é incompetente para declarar inconstitucionalidade de lei por ofensa ao princípio constitucional do não confisco (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 26A; e Súmula CARF n° 2). Fl. 5893DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.894 33 Terceiros. Em relação às contribuições para o INCRA e SEBRAE (RE n° 630.898 e RE 603.624), não há decisão vinculante a ser reproduzida. Juros de mora. Mesmo em caso de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, o art. 161, caput, do CTN não dispensa a incidência dos juros de mora. Há exceção apenas na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito (CTN, art. 161, § 2°). O artigo 61, § 3º, da Lei 9.430, de 1996, não tem o condão de afastar o regramento traçado no CTN. Além disso, o art. 5° do Decretolei n° 1.736, de 1979, é taxativo: Art 5º A correção monetária e os juros de mora serão devidos inclusive durante o período em que a respectiva cobrança houver sido suspensa por decisão administrativa ou judicial. Por fim, a matéria já se encontra Sumulada no âmbito do CARF, como podemos constatar: Súmula CARF n° 108 Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. Acórdãos Precedentes: CSRF/0400.651, de 18/09/2007; 10322.290, de 23/02/2006; 10323.290, de 05/12/2007; 10515.211, de 07/07/2005; 106 16.949, de 25/06/2008; 30335.361, de 21/05/2018; 1401 00.323, de 01/09/2010; 910100.539, de 11/03/2010; 9101 01.191, de 17/10/2011; 920201.806, de 24/10/2011; 9202 01.991, de 16/02/2012; 1402002.816, de 24/01/2018; 2202 003.644, de 09/02/2017; 2301005.109, de 09/08/2017; 3302 001.840, de 23/08/2012; 3401004.403, de 28/02/2018; 3402 004.899, de 01/02/2018; 9101001.350, de 15/05/2012; 9101 001.474, de 14/08/2012; 9101001.863, de 30/01/2014; 9101 002.209, de 03/02/2016; 9101003.009, de 08/08/2017; 9101 003.053, de 10/08/2017; 9101003.137 de 04/10/2017; 9101 003.199 de 07/11/2017; 9101003.371, de 19/01/2018; 9101 003.374, de 19/01/2018; 9101003.376, de 05/02/2018; 9202 003.150, de 27/03/2014; 9202004.250, de 23/06/2016; 9202 004.345, de 24/08/2016; 9202005.470, de 24/05/2017; 9202 005.577, de 28/06/2017; 9202006.473, de 30/01/2018; 9303 002.400, de 15/08/2013; 9303003.385, de 25/01/2016; 9303 005.293, de 22/06/2017; 9303005.435, de 25/07/2017; 9303 005.436, de 25/07/2017; 9303005.843, de 17/10/2017. Isso posto, voto por conhecer e, rejeitando as preliminares, dar provimento em parte ao recurso voluntário para excluir da base de cálculo a remuneração imputada às seguintes pessoas físicas: item 1 RENATO PRUDENCIO DE BARROS, item 6 ANTONIO ROZERGIO DA COSTA, item 30 ELIZIANE PEREIRA ALVES MENDES, item 33 ANDERSON DUARTE DE SOUZA, item 38 BRUNO CAMARGO DAVID, item 39 ANDERSON SCHUTZ ESTEVES, item 42 ADRIANA BARROS GONCALVES, item 53 CARLOS ALBERTO SOARES CRUZ, item 72 ADRIANO DOS SANTOS PEREIRA, item 81 DENISE DAS NEVES CONCEICAO DA SILVA, item 88 DAVI FERREIRA, item 106 Fl. 5894DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.895 34 DIRLENE MENEZES DIAMANTINO GOMES, item 110 SABRINA FERNANDES BRUM, item 161 MARCELO PEIXOTO HENRIQUE, item 165 JOSE CARLOS LOPES GUEDES, item 166 ISRAEL FONSECA DE LYRA JUNIOR, item 174 CINTHIA DE OLIVEIRA CARVALHO, item 184 JULIO CESAR SENRA MARENDINO, item 192 ELDO RODRIGUES JASBICK JUNIOR, item 194 CESAR AUGUSTO CARVALHO SALIM JUNIOR, item 207 JUMARA FONSECA PEREIRA, item 217 LEANDRO LIRIO FERNANDES GUIMARAES, item 221 FRANCISCO CARLOS SOARES GOMES, item 258 MARCIO MACHADO DA SILVA, item 286 MAUREMBERG MOREIRA, item 301 WALLACE PEREIRA SENRA, item 305 UIDSON DAS GRACAS SILVA, item 330 RENATA RODRIGUES BARBOSA, item 346 RENATA CRUZ DA SILVA ALVES, item 353 ALCION CORREA MACEDO, item 356 MARCO AURELIO SENRA MARENDINO, item 381 SANDRO MOTA SIMAS QUEIROZ, item 402 TATIANE SOARES PIMENTA, item 404 MARCELA DA MOTTA FERREIRA FIGUEIRA e item 405 LUIZ ALAN CORREA FIGUEIRA II. (assinado digitalmente) José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Relator Voto Vencedor Cleberson Alex Friess Redator designado. Peço vênia ao I. Relator para divergir parcialmente do seu voto, na parte em que manteve a qualificação da multa de ofício. Segundo a autoridade fiscal, criouse artificialmente pessoas jurídicas para ocultar a prestação de serviços de representação comercial na condição de segurado empregado. No caso em apreço, a fiscalização caracterizou o vínculo como segurado empregado dos sócios das pessoas jurídicas contratadas pela empresa recorrente para lhe prestar os serviços de representação comercial (fls. 30/142). O lançamento fiscal não está lastreado em provas diretas da presença de todos os elementos inerentes à relação empregatícia, mas sim em provas indiciárias, em especial quanto à subordinação do trabalhador. Para fins de comprovação da subsunção do fato à norma de incidência tributária, não há óbice na utilização de um conjunto de indícios sérios e convergentes que, ao final, são dotados de força probatória para a aplicação da lei tributária. É a hipótese dos autos, segundo prevaleceu no colegiado. Não há alteração na distribuição do ônus da prova, porque as partes continuam com a obrigação de comprovar os fatos relacionados às suas afirmações, garantindo ao sujeito passivo a ampla defesa e contraditório, na forma da legislação que rege o processo administrativo fiscal. Para fins de afastar o conjunto probatório carreado pela fiscalização quanto à relação tributária, caberia ao interessado juntar ao processo administrativo elementos convincentes da inocorrência dos fatos colhidos pelo agente fazendário, inclusive a demonstração da falta de identidade fática da situação de cada prestação de serviço. No Fl. 5895DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.896 35 entanto, o sujeito passivo pouco fez nesse sentido, mesmo no universo de mais de 400 prestadores. Destaco que a empresa recorrente optou em não colaborar e deixou de apresentar durante o procedimento de fiscalização, ou mesmo na fase do contencioso administrativo, diversos contratos de representação comercial, rotinas de treinamento e planilhas de avaliação e controle dos prestadores de serviços, inclusive os relatórios de metas individuais e produtividade de vendas, todos documentos que estavam em seu poder e poderiam, em tese, corroborar os fatos que pretendia fazer no processo administrativo. Por outro lado, quando se está diante de aplicação de penalidade mais gravosa, é dever unicamente do agente lançador a produção da prova das circunstâncias materiais que autorizam a duplicação da multa de ofício. Como sabido, em matéria de penalidade, incabível a presunção de fraude ou simulação. Embora a autoridade fiscal assegure que a empresa autuada agiu consciente e intencionalmente com a finalidade de simular a prestação de serviços através da contratação de pessoas jurídicas, o acervo probatório reunido nos autos demonstrase insuficiente para confirmar a intenção firme de praticar a conduta ilícita perante o Fisco, a qual implica a demonstração do dolo. Assumindo os riscos inerentes ao negócio, a autuada mantinha organização em que os seus vendedores eram formalmente representantes comerciais autônomos, na condição de pessoa jurídica. A Lei nº 4.886, de 9 de dezembro de 1965, que regula as atividades de representantes comerciais autônomos, prevê a possibilidade da atividade por meio de pessoa jurídica. As ilações da fiscalização sobre a existência de fraude estão fortemente apoiadas em extração de dados a partir de prova oral produzida pelas partes em reclamatórias trabalhistas, num exercício de generalização de depoimentos e testemunhos, já que baseado em casos específicos do grupo de prestadores de serviços, procedimento que pede cautela e equilíbrio na aplicação de sanção penal. É certo que o emprego de provas indiciárias não representa entrave intransponível para a aplicação da multa de ofício qualificada. Porém, os fatos não podem deixar margem de dúvida a respeito da existência do dolo no universo de contratações apontadas pela autoridade fiscal, visto que a fiscalização imputou a multa exarcebada sobre todos os segurados caracterizados como empregados vinculados às pessoas jurídicas descritas no Anexo I do Relatório Fiscal. Para concluir pela ilicitude na utilização de pessoa jurídica, a autoridade fiscal parte do pressuposto que as contratações configuram, desde a origem, dissimulações de relação empregatícia, tendo se efetivado da mesma forma camuflada, em que havia obrigação de abertura e/ou utilização de pessoa jurídica como condição para contratação da prestação de serviços de representação comercial, tudo sob a orientação de profissional de contabilidade vinculado à empresa autuada (itens 8.3 e 8.4, do Relatório Fiscal). Não obstante, interessante anotar que uma parte das pessoas jurídicas recebeu, em alguma medida, rendimentos de outra fonte pagadora no anocalendário de 2010. Fl. 5896DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.897 36 Além disso, há decisões proferidas pela Justiça do Trabalho, algumas com trânsito em julgado, em que prevaleceu o entendimento de ausência de vínculo de emprego e subordinação jurídica do reclamante, tampouco fundamento para caracterização de fraude à lei trabalhista na contratação. Na própria seara administrativa reconheceuse, como neste acórdão e em primeira instância, pela necessidade de admitirse a exclusão do lançamento fiscal no que tange à base de cálculo pertinente a trabalhadores para os quais existia decisão judicial trabalhista transitada em julgado, na hipótese de não validação do liame de trabalho subordinado. Nesse cenário, entendo que a contratação de pessoa jurídica para prestar serviços de representação comercial não pode ser considerada fraudulenta de forma genérica, como subterfúgio para dissimulação de relação de emprego, conforme pretendeu o agente de fiscalização. Como aspecto relevante para a conduta ilícita da autuada, a fiscalização descreve que a maior parte dos representantes comerciais, constituídos sob a forma de pessoa jurídica, indicou um mesmo município como sede para fins cadastrais, distribuídos em apenas 7 (sete) endereços distintos, cujo preenchimento das declarações fiscais era realizado aparentemente pelo mesmo escritório. A ausência de estrutura empresarial ficou evidenciada pelo localização dos imóveis, alguns não localizados, de cunho residencial ou vinculado a escritório de contabilidade. Obviamente tais aspectos podem representar uma ou mais irregularidade na constituição de pessoa jurídica, o que sugere o aprofundamento da investigação fiscal, mas daí entender pela manifesta fraude tributária praticada pela recorrente no regime de contratação de pessoa jurídica é um passo adiante, que exige perfeita demonstração da conduta do sujeito passivo. Com efeito, os elementos colhidos pela autoridade tributária não são capazes de confirmar a existência de uma política organizacional da empresa autuada, devidamente estruturada, voltada à contratação proposital do trabalho de pessoa física representante de vendas através da interposição fraudulenta de pessoa jurídica. Não se desconhece a desigualdade presente na realidade socioeconômica entre empresário/trabalhador, porém não induz à fraude em qualquer caso, até porque não se pode descartar a iniciativa do próprio representante comercial no estabelecimento de vínculo sob o regime de contratação de pessoa jurídica, considerando as particularidades do caso concreto. Acrescento que a representação comercial exige, muitas vezes, uma estrutura física mínima para a mediação da realização de negócios mercantis, que pode ser compartilhada com outros profissionais. A prova documental sobre as atribuições dos representantes e dos analistas, sobre o programa de educação e treinamento das equipes de vendas e sobre a avaliação trimestral do representante Zamboni, conforme mencionado pelo I. Relator, é elemento que reforça a linha de raciocínio da existência de vínculo tributário como segurado empregado. Contudo, não se presta para invocar o propósito doloso da utilização de pessoas jurídicas de forma generalizada, para todos os casos do Anexo I. Fl. 5897DF CARF MF Processo nº 16682.720355/201511 Acórdão n.º 2401005.952 S2C4T1 Fl. 5.898 37 Por fim, a omissão na entrega de documentos e/ou prestação de esclarecimentos durante o procedimento fiscal não autoriza a qualificação da multa de ofício, que pode, eventualmente, justificar o agravamento da penalidade. Logo, uma vez não evidenciado pelo conjunto probatório a ocorrência das condições que autorizam a majoração da multa de ofício até o importe de 150%, nos moldes propostos pelo agente fiscal, cabe afastar a qualificação da penalidade, reduzindoa ao patamar básico de 75%. Conclusão Ante o exposto, DOU PARCIAL PROVIMENTO ao recurso voluntário para excluir a qualificadora da multa, reduzindoa ao percentual de 75%. Ademais disso, conforme unanimidade de votos, acompanho o I. Relator quanto à exclusão da base de cálculo do lançamento em relação à remuneração imputada às pessoas físicas listadas na conclusão do seu voto. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Fl. 5898DF CARF MF
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