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Numero do processo: 12585.000263/2010-54
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Oct 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jan 17 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 3401-001.547
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, para que a unidade preparadora da RFB tome as seguintes providências: (i) manifeste-se sobre o documento novo (laudo da Escola Superior da Agricultura da USP); (ii) verifique se as receitas decorrentes de vendas a empresas comerciais exportadoras com o fim específico de exportação culminaram em efetivas exportações, ou se foram apenas realizadas vendas no mercado interno; (iii) analise a origem dos créditos registrados fora da competência da emissão da nota fiscal e dos extemporâneos, para que se possa aferir se constituem insumos ou não, com a devida quantificação; (iv) elabore relatório circunstanciado e conclusivo a respeito dos procedimentos realizados; e (v) cientifique a interessada do resultado da diligência, concedendo-lhe prazo de 30 (trinta) dias para manifestação, após o qual devem ser os autos remetidos ao CARF, para julgamento.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan Presidente e Redator Ad Hoc.
Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Marcos Antonio Borges (suplente convocado), Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, André Henrique Lemos, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente). Ausente justificadamente a Conselheira Mara Cristina Sifuentes.
Nome do relator: ANDRE HENRIQUE LEMOS
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, para que a unidade preparadora da RFB tome as seguintes providências: (i) manifestese sobre o documento novo (laudo da Escola Superior da Agricultura da USP); (ii) verifique se as receitas decorrentes de vendas a empresas comerciais exportadoras com o fim específico de exportação culminaram em efetivas exportações, ou se foram apenas realizadas vendas no mercado interno; (iii) analise a origem dos créditos registrados fora da competência da emissão da nota fiscal e dos extemporâneos, para que se possa aferir se constituem insumos ou não, com a devida quantificação; (iv) elabore relatório circunstanciado e conclusivo a respeito dos procedimentos realizados; e (v) cientifique a interessada do resultado da diligência, concedendolhe prazo de 30 (trinta) dias para manifestação, após o qual devem ser os autos remetidos ao CARF, para julgamento. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan – Presidente e Redator Ad Hoc. Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Marcos Antonio Borges (suplente convocado), Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, André Henrique Lemos, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). Ausente justificadamente a Conselheira Mara Cristina Sifuentes. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 25 85 .0 00 26 3/ 20 10 -5 4 Fl. 6932DF CARF MF Processo nº 12585.000263/201054 Resolução nº 3401001.547 S3C4T1 Fl. 6.933 2 Relatório Versam os autos sobre análise e acompanhamento de Pedido Eletrônico de Ressarcimento (PER) de créditos de PIS nãocumulativa, vinculados a receitas de exportação relativas ao 2o trimestre de 2008 e de Declarações de Compensação (DCOMP) onde se pretendem compensar vários débitos com o crédito oriundo do ressarcimento. Após realizar as devidas análises e verificações, a DERAT/SP exarou Despacho Decisório, indeferindo o pedido de ressarcimento e não homologando as compensações declaradas, vinculadas ao pretenso crédito. Desafiando o referido Despacho Decisório, a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, juntado documentos, e argumentando que: 1) Índice de rateio proporcional relativamente às receitas de exportação e do mercado interno: A fiscalização alterou o índice de rateio proporcional dos créditos da Cofins calculados sobre custos e despesas comuns à receita do mercado, interno e de exportação. Seu entendimento era de que o momento do embarque da mercadoria é o parâmetro a ser considerado para a apuração dos valores exportados a cada mês, conforme o art.1º do Ato Declaratório Interpretativo SRF nº 22, de 5 de novembro de 2002. Considerou como receita de exportação os valores constantes no SISCOMEX conforme a data de embarque das mercadorias, extraindo os dados do sistema DWAduaneiro. Contudo, resta totalmente equivocado o entendimento fiscal, quer em razão de que o ADI SRF nº 22/2002 não é aplicável na apuração de créditos de COFINS nãocumulativa, quer por este entendimento não possuir base legal, bem como violar as normas de apuração da contribuição. Ademais, a interpretação fiscal colidiria com o §3º do art.6º, c/c§8º do art.3º da Lei nº 10.833 de 2003, que dispõe que o rateio será proporcional ao auferimento de receitas, sem impor que tenha havido o embarque da mercadoria ao exterior para que as receitas auferidas fossem consideradas exportação. 2) Momento de apuração de créditos decorrentes de bens e serviços utilizados como insumos: no DD foram glosados créditos de COFINS ao fundamento de que a empresa teria reconhecido o crédito fora do período de sua apuração. A Fiscalização sustenta que a data da emissão da Nota Fiscal é o parâmetro correto para a apuração mensal dos créditos (...) referentes a bens e serviços utilizados como insumo. No entanto, no momento da emissão de uma NF não há como sustentar que o bem foi adquirido pela empresa, pois esta aquisição somente se dará no momento da efetiva entrega material do bem, quando ocorre a tradição da coisa, sendo manifestamente ilegítimo considerar este momento como sendo a data em que se adquire o bem, notadamente para fins tributários. O procedimento da empresa está correto ao reconhecer o crédito da COFINS no regime da não cumulatividade no momento da entrada em seu estabelecimento do insumo adquirido, quando efetivamente recebe a NF emitida pelo vendedor. É nesse momento que há a efetiva tradição da coisa, podendo ser considerado o bem adquirido. No que tange aos serviços, somente após a efetiva conclusão dos serviços é que o prestador passa a ter o direito à retribuição que é imanente a este tipo de contrato. Apenas com a prestação encerrada é que se pode considerar como adquiridos os serviços. No caso concreto, a empresa reconheceu o crédito de eventuais serviços no momento em que recebeu do prestador a NF demonstrando a conclusão do trabalho. É neste momento que o serviço é adquirido pelo contratante e surge para o prestador o direito de receber a retribuição. Antes do trabalho finalizado somente existe uma expectativa de direito sobre a prestação de serviços, até porque em caso de inadimplência o contratante não poderá exigir do contratado Fl. 6933DF CARF MF Processo nº 12585.000263/201054 Resolução nº 3401001.547 S3C4T1 Fl. 6.934 3 a obrigação de fazer, mas tão somente uma indenização. Desta forma, o procedimento da empresa atendeu de forma precisa a legislação em comento, razão pela qual deve ser acolhida sua manifestação de inconformidade. 3) Aproveitamento do crédito em meses subsequentes Desnecessidade de retificação de DACON e DCTF: o Fisco nega a possibilidade de aproveitamento do crédito em período subsequente, denominando aproveitamento de créditos extemporâneos. Depois diz ser possível esse aproveitamento, condicionandoo, entretanto, à retificação de DACON/DCTF pela empresa. Neste particular o equívoco da autuação é manifesto. As leis da nãocumulatividade em momento algum fixaram período para o contribuinte exercer o direito potestativo de descontar o crédito. Não há obrigação de realização do desconto/aproveitamento no mesmo mês de referência de determinação do crédito. A referência a determinado mês (§ 1º do art. 3º da Lei nº 10.833/2003) delimita apenas o valor do crédito apurado naquele mês, mas não limita o aproveitamento do crédito mediante o desconto com o débito àquele mês. A norma legal é expressa ao dizer que o aproveitamento do crédito pode se dar em determinado mês, sendo este o mês de aquisição dos bens/serviços utilizados como insumo – quando efetivamente surge o direito ao crédito – ou, se não utilizado naquele mês, poderá sêlo nos meses subsequentes. Não há nenhuma regra determinando a escrituração e, consequentemente, o aproveitamento do crédito em determinado mês. Simplesmente não existe norma jurídica neste sentido. Na nãocumulatividade não se pode dizer que há aproveitamento extemporâneo de créditos, visto que inexiste um período definido para o aproveitamento, podendo este se dar no mês em que surgiu o direito ao crédito, no mês de aquisição dos bens/serviços utilizados como insumo, ou em meses subsequentes, dependendo dos contribuintes. Além disso, o DACON, por ser de natureza declaratória e não constitutiva, não pode restringir o direito da empresa ao crédito, razão pela qual deve ser acolhida a manifestação da empresa. 4) Glosa de créditos sobre bens e serviços utilizados como insumos: a) inaplicabilidade das INs SRF nºs 247/2002 e 404/2004 (...) b) créditos sobre bens/serviços insumos (...) c) insumos glosados indevidamente: (...) d) crédito sobre a formação de florestas – ativo imobilizado exaustão: (...) e) crédito decorrente de produtos adquiridos de terceiros (...) f) crédito sobre fretes: (...) 5) Créditos vinculados à receita de exportação: (...) 6) Conclusões: a) é inaplicável ao caso o ADI SRF nº 22/2002 para apuração do índice de rateio proporcional no que tange às receitas de exportação e mercado interno, haja vista que referida norma trata de norma isentiva; b) a empresa reconheceu créditos de bens e serviços utilizados como insumo no seu processo produtivo no momento oportuno, ou seja, no momento da entrada em seu estabelecimento, do insumo adquirido, pois operouse a tradição da coisa; c) ainda que assim não fosse, a legislação faculta ao contribuinte a possibilidade de aproveitar os créditos de bens e serviços em meses subsequentes (§ 4º do art. 3º das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003), o que foi desconsiderado pelo Fisco; d) é inaplicável ao caso as IN SRF nº 247/2002 e 404/2004, pois trazem em seu bojo equivoco conceito de insumo relativo a nãocumulatividade do IPI, restringindo, sem qualquer base legal, o direito creditório da empresa; e) a empresa tem direito a créditos de PIS/COFINS, seja em razão dos bens e serviços serem parte indispensável do processo produtivo (insumos), seja em razão Fl. 6934DF CARF MF Processo nº 12585.000263/201054 Resolução nº 3401001.547 S3C4T1 Fl. 6.935 4 das reservas florestais, mesmo estando classificadas contabilmente como ativo imobilizado, sujeitos à exaustão, pois quando da sua utilização, serão também insumos; f) também ensejam créditos aqueles bens ou serviços adquiridos de terceiros, inclusive no caso vertente; g) os fretes suportados durante todo o processo de produção ensejam direito ao crédito, inclusive aqueles destinados à aquisição de matériaprima, destinados à transporte dos produtos em fase de produção entre os estabelecimentos da própria empresa, bem como aqueles que foram realizados durante o processo de formação das reservas florestais que compõe o ativo imobilizado, pois esses se constituem custos de produção; h) todos os custos vinculados à receita de exportação, considerando que se trata de empresa exportadora de pasta de celulosa, conferem crédito de PIS/COFINS. 7) Pedidos: a) requer a realização de diligência e perícia, nos termos do inciso IV do art. 16 do Decreto nº 70.235/1972. Tal diligência/perícia é necessária para a comprovação da real natureza de cada bem/serviço adquiridos pela empresa, como eles são empregados no processo produtivo, que estes são efetivamente usados nos estabelecimentos produtores e industriais, que são custos de produção, que foram contabilizados como tal, dentre outras informações indispensáveis para assegurar o direito ao crédito, bem como buscar a verdade material. Indica peritos e formula quesitos; b) diante da robusta comprovação de que os gastos realizados pela empresa são efetivamente indispensáveis, necessários à produção de seus bens destinados à venda, requer, em preliminar, a nulidade do DD e, por conseguinte, o acolhimento de sua manifestação. Devem ser reconhecidos na integralidade os créditos que foram glosados, seja com fundamento no valor de aquisição dos bens/serviços utilizados como insumos para a produção da celulosa, seja baseado nos encargos de exaustão, ou no conceito de insumo, analogicamente. E assim restou ementado o Acórdão exarado pela DRJ/PORTO ALEGRE, sobre o contencioso: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL PEDIDO DE DILIGÊNCIA OU PERÍCIA. PRESCINDIBILIDADE. Não se justifica a realização de perícia/diligência quando presentes nos autos elementos suficientes para formar a convicção do julgador. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. COMPROVAÇÃO DO DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. CONTRIBUINTE. No âmbito específico dos pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, é ônus do contribuinte/pleiteante a comprovação minudente da existência do direito creditório pleiteado. DESPACHO DECISÓRIO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Restando consignado no Despacho Decisório, de forma clara e concisa, o motivo do não reconhecimento do direito creditório pleiteado, bem como da não homologação das compensações tencionadas, deve ser afastada a pretensão de declaração de nulidade do ato administrativo. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO ENTENDIMENTOS ADMINISTRATIVOS E MANIFESTAÇÕES DOUTRINÁRIAS. EFEITOS. NÃO VINCULAÇÃO. Fl. 6935DF CARF MF Processo nº 12585.000263/201054 Resolução nº 3401001.547 S3C4T1 Fl. 6.936 5 As referências a entendimentos de segunda instância administrativa ou a manifestações da doutrina especializada, não vinculam os julgamentos emanados pelas Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP REGIME NÃOCUMULATIVO. INSUMOS. CONCEITO. Para ser considerado insumo, o bem ou o serviço, desde que adquirido de pessoa jurídica, deve ter sido consumido, desgastado, ou ter perdidas as suas propriedades físicas ou químicas em razão de ação diretamente exercida sobre o produto em elaboração. REGIME NÃOCUMULATIVO. APURAÇÃO DE CRÉDITOS. RATEIO PROPORCIONAL. Na determinação dos créditos da nãocumulatividade passíveis de ressarcimento/compensação, há de se fazer o rateio proporcional entre as receitas obtidas com operações de exportação e de mercado interno (tributadas e NT). REGIME NÃOCUMULATIVO. EXPORTAÇÃO. FATO GERADOR. ASPECTO TEMPORAL. A receita de exportação deve ser reconhecida na data do embarque dos produtos vendidos para o exterior. REGIME NÃOCUMULATIVO. INSUMOS PARA FORMAÇÃO DE FLORESTAS. INCORPORAÇÃO AO ATIVO IMOBILIZADO. DESCONTO DE CRÉDITO COMO EXAUSTÃO. IMPOSSIBILIDADE. Os custos de formação de floresta são incorporados ao valor desse bem registrado no ativo imobilizado, valor que, na medida da utilização da floresta, deve ser objeto de encargos de exaustão, que não dão direito a crédito por falta de previsão legal. REGIME NÃOCUMULATIVO. DESPESAS COM FRETES. CONDIÇÕES DE CREDITAMENTO. Observada a legislação de regência, a regra geral é que em se tratando de despesas com serviços de frete, somente dará direito à apuração de crédito o frete contratado relacionado a operações de venda, onde ocorra a entrega de bens/mercadorias vendidas diretamente aos clientes adquirentes, desde que o ônus tenha sido suportado pela pessoa jurídica vendedora. Inconformada com a r. decisão, a empresa, após ter ciência do Acórdão em 28/05/2015, conforme Termo de Ciência por Abertura de Mensagem, interpôs Recurso Voluntário, em 29/06/2015, no qual reiterou seus argumentos da manifestação de inconformidade, combatendo ponto a ponto a decisão de piso e especificando a essencialidade de cada insumo glosado. Juntou laudo técnico da Escola Superior de Agricultura da USP, que descreve todo o processo produtivo da operação florestal e da fase de indústria da celulose, tratando as duas como interdependentes. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Redator Ad Hoc O voto a seguir reproduzido é de lavra do Conselheiro André Henrique Lemos, relator original do processo, que, conforme Portaria CARF no 143, de 30/11/2018, teve o mandato extinto antes da formalização do resultado do presente julgamento. O texto do voto, in Fl. 6936DF CARF MF Processo nº 12585.000263/201054 Resolução nº 3401001.547 S3C4T1 Fl. 6.937 6 verbis, foi retirado da pasta da sessão de julgamento, repositório oficial do CARF, onde foi disponibilizado pelo relator original aos demais conselheiros. O Recurso Voluntário reúne os pressupostos legais para interposição, dele, portanto, tomo conhecimento. A matéria a ser enfrentada no presente processo já o foi em outro processo (PAF 12585.000259/201096), onde a Primeira Turma Ordinária da 3ª Câmara deste CARF decidiu, à unanimidade de votos, que fosse o julgamento convertido em diligência (Resolução nº 3301 000.808). Em ambos os processos se tem a empresa Fibria Celulose S/A como Recorrente e a Fazenda Nacional como Recorrida. Também há identidade quanto ao objeto, qual seja Pedido Eletrônico de Ressarcimento (PER) de créditos de PIS/Cofins nãocumulativa, vinculados a receitas de exportação. Também os argumentos e discussões e documentos trazidos em ambos os processos são os mesmos. Diferem apenas com relação à competência, pois o processo já analisado se refere ao 4º trimestre de 2006. Conforme relatado, diversos foram os motivos das glosas dos créditos pleiteados pela Recorrente, as quais são resumidas em 4 (quatro) grandes grupos: (i) Método de Apropriação de Custos – Rateio proporcional; (ii) Momento de apuração dos insumos e serviços como créditos; (iii) Aproveitamento de créditos extemporâneos; e (iv) Insumos da nãocumulatividade. Um dos pontos controvertidos nestes autos é o conceito de insumo para fins de creditamento no âmbito do regime de apuração nãocumulativa das contribuições do PIS e da COFINS. Para corroborar seus argumentos sobre a essencialidade à tomada de créditos, a descrição do processo produtivo, desde a sua operação florestal até a entrega da madeira para a indústria, e ainda, a fase industrial da celulose e do papel, a Recorrente juntou, como já se disse, laudo técnico elaborado pela Escola Superior de Agricultura da USP, o que, na assentada da referida Resolução, entendeuse ser um fato novo, demandando a manifestação da autoridade fiscal, em respeito ao princípio do contraditório. Comungase da decisão tomada na aludida Resolução, fazendo esta, parte integrante do presente, evitando a repetição dos referidos fundamentos. Pelo exposto, assim como já definido na Resolução 3301000.808, voto pela conversão do julgamento em diligência, para que a unidade de origem: (i) manifestese sobre o documento novo (laudo da Escola Superior da Agricultura da USP); (ii) verifique se as receitas decorrentes de vendas a empresas comerciais exportadoras com o fim específico de exportação culminaram em efetivas exportações, ou se foram apenas realizadas vendas no mercado interno; (iii) analise a origem dos créditos registrados fora da competência da emissão da nota fiscal e dos extemporâneos, para que se possa aferir se constituem insumos ou não, com a devida quantificação; (iv) elabore relatório circunstanciado e conclusivo a respeito dos procedimentos realizados; e (v) Fl. 6937DF CARF MF Processo nº 12585.000263/201054 Resolução nº 3401001.547 S3C4T1 Fl. 6.938 7 cientifique a interessada do resultado da diligência, concedendolhe prazo de 30 (trinta) dias para manifestação, após o qual devem ser os autos remetidos ao CARF, para julgamento. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 6938DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10909.721930/2016-04
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jan 14 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri Mar 01 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 06/09/2015
NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. RETORNO DOS AUTOS À DRJ PARA NOVA DECISÃO.
Há de ser decretada a nulidade de decisão recorrida por preterição do direito de defesa do contribuinte, quando esta possuir vício de motivação, tendo deixado de analisar fundamentos específicos e peculiares ao presente caso e essenciais à solução da contenda (art. 59 do Decreto nº 70.235/1972).
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 3002-000.547
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher a preliminar suscitada e decretar a nulidade do acórdão recorrido, com retorno dos autos à DRJ para que seja proferida nova decisão em que sejam analisados os argumentos e documentos constantes da impugnação administrativa apresentada.
(assinado digitalmente)
Larissa Nunes Girard - Presidente
(assinado digitalmente)
Maria Eduarda Alencar Câmara Simões - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões (Relatora), Carlos Alberto da Silva Esteves e Alan Tavora Nem.
Nome do relator: MARIA EDUARDA ALENCAR CAMARA SIMOES
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 06/09/2015 NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. RETORNO DOS AUTOS À DRJ PARA NOVA DECISÃO. Há de ser decretada a nulidade de decisão recorrida por preterição do direito de defesa do contribuinte, quando esta possuir vício de motivação, tendo deixado de analisar fundamentos específicos e peculiares ao presente caso e essenciais à solução da contenda (art. 59 do Decreto nº 70.235/1972). Recurso Voluntário Provido em Parte.
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RETORNO DOS AUTOS À DRJ PARA NOVA DECISÃO. Há de ser decretada a nulidade de decisão recorrida por preterição do direito de defesa do contribuinte, quando esta possuir vício de motivação, tendo deixado de analisar fundamentos específicos e peculiares ao presente caso e essenciais à solução da contenda (art. 59 do Decreto nº 70.235/1972). Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher a preliminar suscitada e decretar a nulidade do acórdão recorrido, com retorno dos autos à DRJ para que seja proferida nova decisão em que sejam analisados os argumentos e documentos constantes da impugnação administrativa apresentada. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard Presidente (assinado digitalmente) Maria Eduarda Alencar Câmara Simões Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões (Relatora), Carlos Alberto da Silva Esteves e Alan Tavora Nem. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 90 9. 72 19 30 /2 01 6- 04 Fl. 189DF CARF MF 2 Relatório A seguir, transcrevo o relatório constante da decisão da DRJ, à fl. 84 dos autos: Versa o processo sobre a controvérsia instaurada em razão da lavratura pelo fisco de auto de infração para exigência de penalidade prevista no artigo 107, inciso IV, alínea “e” do Decretolei nº 37/1966, com a redação dada pela Lei nº 10.833/2003. Os fundamentos para esse tipo de autuação nesse conjunto de processos administrativos fiscais são os seguintes: As empresas responsáveis pela desconsolidação da carga lançaram a destempo o conhecimento eletrônico, pois segundo a IN SRF nº 800/2007 (artigo 22), o prazo mínimo para a prestação de informação acerca da conclusão da desconsolidação é de 48 horas antes da chegada da embarcação no porto de destino do conhecimento genérico. Caso não se concluindo nesse prazo é aplicável a multa. Devidamente cientificada, a interessada traz como alegações, além das preliminares de praxe, acerca de infringência a princípios constitucionais, prática de denúncia espontânea, ilegitimidade passiva, ausência de motivação, tipicidade, e que tragam ao auto de infração a ineficiência e a desconstrução do verdadeiro cerne da autuação que foi o descumprimento dos prazos estabelecidos em legislação norteadora acerca do controle das importações, a argumentação de que de fato as informações constam do sistema, mesmo que inseridas, independente da motivação, após o momento estabelecido no diploma legal pautado pela autoridade aduaneira. O contribuinte argumentou, em sua impugnação, em síntese: i) ilegitimidade passiva, por impossibilidade de responsabilizarse o agente marítimo por ato de responsabilidade do transportador; ii) ocorrência da denúncia espontânea; iii) o prazo exigido seria em dias e não em horas, e, com base nisso, a empresa teria cumprido tal prazo; iv) necessidade de aplicação dos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, considerando que o prazo teria sido cumprido e as informações teriam sido prestadas antes do início de procedimento fiscalizatório, inexistindo prejuízo à fiscalização. Requereu, ao fim, em preliminar, o reconhecimento de sua ilegitimidade passiva e a ocorrência da denúncia espontânea, e, no mérito, o julgamento pela improcedência do lançamento. Juntou, com a impugnação, os documentos de fls. 46/77. Ao analisar o caso, a DRJ entendeu, por unanimidade de votos, julgar improcedente a impugnação. Em seus fundamentos, o acórdão (fls. 82/87) consignou, inicialmente, deixar de acolher preliminares aduzidas pelo contribuinte e quaisquer argumentos de ausência de tipicidade, motivação, legitimidade ou responsabilidade do contribuinte, ou ocorrência de denúncia espontânea. Em seguida, discorreu sobre a necessidade de se respeitar os prazos estabelecidos no artigo 22 da IN SRF 800/2007 para possibilitar o controle aduaneiro. Prosseguiu afirmando que os registros devem representar fielmente as mercadorias para se possibilitar que a aduana defina no tratamento a ser dado em cada caso, racionalizando os procedimentos e agilizando o despacho. Concluiu que o julgador administrativo está adstrito ao Decretolei 37/66, que prevê as penalidades administrativas. O contribuinte foi intimado acerca desta decisão em 16/02/2018 (vide Termo de ciência por abertura de mensagem à fl. 94 dos autos) e, insatisfeito com o seu teor, interpôs, Fl. 190DF CARF MF Processo nº 10909.721930/201604 Acórdão n.º 3002000.547 S3C0T2 Fl. 187 3 tempestivamente (vide Termo de análise de solicitação de juntada à fl. 96, que indica o registro da juntada em 16/03/18), Recurso Voluntário (fls. 114/137). Em seu recurso, o contribuinte alegou, inicialmente, a nulidade do acórdão por ausência de suficiente fundamentação. Na sequência, repisou os argumentos constantes de sua impugnação, que são: i) ilegitimidade passiva, por impossibilidade de responsabilizarse o agente marítimo por ato de responsabilidade do transportador; ii) ocorrência da denúncia espontânea; iii) o prazo de 5 dias exigido pela legislação seria em dias e não em horas, e, com base nisso, a empresa teria cumprido tal prazo; iv) necessidade de aplicação dos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, considerando que o prazo teria sido cumprido e as informações teriam sido prestadas antes do início de procedimento fiscalizatório, inexistindo prejuízo à fiscalização. Ao fim, requereu, preliminarmente, o reconhecimento da nulidade do acórdão e o retorno dos autos á instância de origem para prolação de decisão fundamentada. Ainda em preliminar, o reconhecimento de sua ilegitimidade passiva para o processo. No mérito, pediu o julgamento pela improcedência do lançamento. Juntou, com o recurso, os documentos de fls. 97/113 e 138 a 162. O contribuinte apresentou novo requerimento (fl. 165) de regularização do presente processo nos sistemas da Receita Federal, argumentando que apresentou seu recurso tempestivamente e que não há cabimento para constar como devedora. Juntou os documentos de fls. 166/183. Os autos, então, vieramse conclusos para fins de análise do Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte. É o relatório Voto Conselheira Maria Eduarda Alencar Câmara Simões Relatora: O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. 1. Da nulidade do acórdão recorrido O Recorrente inicia a argumentação do seu Recurso Voluntário dispondo sobre como o acórdão recorrido deixou de se manifestar sobre vários pontos de sua impugnação administrativa. Destacou o contribuinte, inclusive, que a decisão proferida nos presentes autos é idêntica às que foram prolatadas nos autos dos Processos Administrativos n°s 10907.722502/201368, 12466.720219/201797 e 12466.720629/201657 (Doc. 02), ao passo que os casos possuem questões fáticas e de direito distintas. Mencionou, ainda, que a DRJ sequer alterou a informação relativa ao fato de que a multa ora combatida não está relacionada ao descumprimento de prazo para prestação de informações de um conhecimento eletrônico, mas de uma escala no SISCARGA. Fl. 191DF CARF MF 4 Requereu, portanto, o reconhecimento da nulidade da decisão recorrida e o retorno dos autos à DRJ, para que, em novo julgamento, analise fundamentadamente os seus argumentos. Ao analisar o caso, entendo que assiste razão ao contribuinte quanto ao seu pleito preliminar. Isso porque, da leitura do acórdão recorrido, verificase que este, de fato, deixou de analisar as particularidades do caso concreto, tendo proferido decisão genérica, cujos fundamentos não se adequam à hipótese sob análise. É o que será devidamente elucidado em sucessivo. O acórdão recorrido relata da seguinte forma o conteúdo da impugnação apresentada: Devidamente cientificada, a interessada traz como alegações, além das preliminares de praxe, acerca de infringência a princípios constitucionais, prática de denúncia espontânea, ilegitimidade passiva, ausência de motivação, tipicidade, e que tragam ao auto de infração a ineficiência e a desconstrução do verdadeiro cerne da autuação que foi o descumprimento dos prazos estabelecidos em legislação norteadora acerca do controle das importações, a argumentação de que de fato as informações constam do sistema, mesmo que inseridas, independente da motivação, após o momento estabelecido no diploma legal pautado pela autoridade aduaneira. Como se vê, há, em alguns pontos, clara dissonância entre o efetivo conteúdo da impugnação apresentada e a narração constante do acórdão recorrido. Consoante acima narrado, o contribuinte argumentou em sua impugnação, em síntese: i) ilegitimidade passiva, por impossibilidade de responsabilizarse o agente marítimo por ato de responsabilidade do transportador; ii) ocorrência da denúncia espontânea; iii) o prazo exigido seria em dias e não em horas, e, com base nisso, a empresa teria cumprido tal prazo; iv) necessidade de aplicação dos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, considerando que o prazo teria sido cumprido e as informações teriam sido prestadas antes do início de procedimento fiscalizatório, inexistindo prejuízo à fiscalização. O acórdão recorrido, então, assim consignou: (i) que não acolheria as preliminares aduzidas pelo contribuinte, visto que as arguições de inconstitucionalidade ou ilegalidade não estão afetas ao julgador administrativo; (ii) afastou o argumento de ocorrência de denúncia espontânea, sob o fundamento de que este instituto não seria aplicável ao caso concreto; (iii) afastou os argumentos de ausência de tipicidade, motivação, legitimidade ou responsabilidade do contribuinte, por entender que não se coadunavam com a hipótese dos autos. Como se vê, há argumentos constantes da impugnação apresentada que não foram analisados pela DRJ, em especial o argumento de mérito descrito no item iii) acima, qual seja, que o prazo de 5 dias previsto no art. 22, I, da IN 800/07 deveria ser contado em dias e não em horas. Da leitura do acórdão recorrido, verificase que a DRJ não discorreu uma única linha sobre este fundamento apresentado. Ao analisar o caso, o acórdão recorrido discorreu sobre a necessidade de se respeitar os prazos estabelecidos no artigo 22 da IN SRF 800/2007 para possibilitar o controle aduaneiro, prosseguiu afirmando que os registros devem representar fielmente as mercadorias para se possibilitar que a aduana defina no tratamento a ser dado em cada caso, racionalizando os procedimentos e agilizando o despacho e concluiu que o julgador administrativo está adstrito ao Decretolei 37/66, que prevê as penalidades administrativas. Contudo, não travou Fl. 192DF CARF MF Processo nº 10909.721930/201604 Acórdão n.º 3002000.547 S3C0T2 Fl. 188 5 qualquer consideração acerca da argumentação trazida pelo contribuinte em sua impugnação no sentido de que este prazo deveria ser contado em dias e não em horas. Ou seja, verificase que o acórdão recorrido, de fato, julgou a presente contenda de forma genérica, sem que tivesse feito qualquer consideração acerca das particularidades alegadas pelo contribuinte neste caso concreto. No meu entender, portanto, a decisão recorrida revestese de vício intransponível de motivação, apta a configurar a preterição do direito de defesa do contribuinte, nos moldes do art. 59 do Decreto nº 70.235/1972, in verbis: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993). Isso porque, além de ter incluído argumentos não levantados pelo contribuinte em sua impugnação administrativa, deixou de analisar fundamentos específicos e peculiares ao presente caso, essenciais à solução da presente contenda. 2. Da conclusão Diante do acima exposto, voto no sentido de dar provimento parcial ao Recurso Voluntário interposto, para fins de, acolhendo a preliminar levantada, decretar a nulidade do acórdão recorrido, determinando, por consequência, que os autos retornem àquela instância de julgamento, para que seja proferida nova decisão, em que sejam analisados todos os argumentos constantes da impugnação administrativa apresentada. É como voto. (assinado digitalmente) Maria Eduarda Alencar Câmara Simões Relatora Fl. 193DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10510.004193/2008-37
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jan 29 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Feb 20 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 9202-000.215
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Dipro/Cojul, para que o presente processo seja apensado ao de nº 10510.004191/2008-48, com posterior devolução à relatora, para julgamento conjunto na CSRF, se for o caso.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora
Participaram do presente julgamento os conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA
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DE DESENVOLVIMENTO DE RECURSOS HÍDRICOS E IRRIGAÇÃO DO SERGIPE COHIDRO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Dipro/Cojul, para que o presente processo seja apensado ao de nº 10510.004191/200848, com posterior devolução à relatora, para julgamento conjunto na CSRF, se for o caso. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo – Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira – Relatora Participaram do presente julgamento os conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 05 10 .0 04 19 3/ 20 08 -3 7 Fl. 753DF CARF MF Processo nº 10510.004193/200837 Resolução nº 9202000.215 CSRFT2 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Auto de Infração (fls. 10/12) AI68, DEBCAD: 37.157.7349, lavrado em 01/09/2008, com fito de constituir o crédito tributário por descumprimento de obrigação acessória, no valor de R$ 85.554,75 (oitenta e cinco mil, quinhentos e cinquenta e quatro reais, setenta e cinco centavos), por ter a empresa acima identificada apresentado Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e de Informações à Previdência Social (GFIP), nas competências 01/2004 a 12/2004, sem incluir a totalidade das remunerações pagas a segurados empregados, a contribuintes individuais e por serviços prestados por cooperados mediante cooperativa de trabalho e contribuições descontadas de segurados que lhe prestaram serviço nas competências acima indicadas. De acordo com o Relatório Fiscal do Auto de Infração, a apresentação de GFIP pelo contribuinte encontrase em desconformidade com o que dispõe a Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, art. 32, inciso IV, bem como parágrafo 5º, combinado com o art. 225, inciso IV, do Regulamento da Previdência Social (RPS), aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 06 de maio de 1999. A autuada apresentou impugnação, tendo a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador/BA julgado a impugnação improcedente, mantendo o crédito tributário em sua integralidade. Apresentado Recurso Voluntário pela autuada, os autos foram encaminhados ao CARF para julgamento do mesmo. Em sessão plenária de 19/06/2013, foi dado provimento parcial ao Recurso Voluntário, prolatandose o Acórdão nº 2803002.449 (fls. 698), com o seguinte resultado: “Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso, no sentido de reformar a decisão a quo e o lançamento em questão para: a) decretar a sua nulidade parcial e dos créditos lançados a título de diferença de enquadramento (reenquadramento) das alíquotas de SAT, por vício material; b) que a aplicação da sanção seja regida pela multa estabelecida no artigo 32A, I, da Lei nº 8.212/1991, com a redação da Lei nº 11.941/2009, desde que mais favorável ao contribuinte em relação à aplicação do art. 32, IV, §§1º e 3º, da Lei nº 8.212/1991, com redação anterior à Medida Provisória nº 449/2008, vedada a interpretação conjunta com os artigos 35A da Lei nº 11.941/2009. Vencido o Conselheiro Helton Carlos Praia de Lima, quanto à alíquota SAT. O acórdão encontrase assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/04/2000 a 31/05/2010 INFORMAR FATOS GERADORES DE CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS EM GFIP. Deixar de informar em GFIP os fatos geradores de todas as contribuições previdenciárias constitui infração ao artigo 32, Inciso IV, da Lei n° 8.212/1991, na redação dada pela Lei n°9.528/1997, e artigo 225, IV, do Decreto n. 3.048/1999. Fl. 754DF CARF MF Processo nº 10510.004193/200837 Resolução nº 9202000.215 CSRFT2 Fl. 4 3 AUTO DE INFRAÇÃO. RECLASSIFICAÇÃO DE SAT NÃO FUNDAMENTADA NOS AUTO DE INFRAÇÃO. ATIVIDADE PREPONDERANTE PELO NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS. FISCALIZAÇÃO IN LOCO. NULIDADE POR VÍCIO MATERIAL. O reenquadramento de alíquota do SAT realizada pela fiscalização deve ser motivada com demonstração fática da atividade preponderante dos estabelecimentos na correspondência do número dos seus funcionários em cada atividade. A ausência de análise in loco é causa de nulidade por vício material. RETROATIVIDADE BENIGNA. GFIP. LEI N º 11.941/09. REDUÇÃO DA MULTA. As multas referentes a declarações em GFIP foram alteradas pela lei nº 11.941/09 o que, em tese, beneficia o infrator. Foi acrescentado o art. 32A à Lei n º 8.212/91. Conforme previsto no art. 106, inciso II do CTN, devese aplicar a norma mais benigna ao contribuinte. Recurso Voluntário Provido Em Parte – Crédito Tributário Mantido em Parte O processo foi encaminhado para ciência da Fazenda Nacional em 19/08/2013, para cientificação em até 30 dias, nos termos da Portaria MF nº 527/2010. A Fazenda Nacional interpôs em 02/10/2013, portanto tempestivamente, Recurso Especial (fls. 709). Em seu recurso visa à rediscussão das seguintes matérias: a) SAT – auto enquadramento da empresa; e b) retroatividade benigna Obrigação Acessória. Ao Recurso Especial foi dado seguimento, conforme o Despacho s/nº, da 2ª Seção de Julgamento, de 27/04/2017 (fls. 728), de acordo com os paradigmas 2402002.953 para o item “a” e 9202002.086 para o item “b”. O recorrente traz como alegações: em relação ao item “a” SAT: auto enquadramento da empresa, que, de acordo com o inciso II do art. 22 da Lei 8.212/91, a Empresa encontrase obrigada a recolher a contribuição destinada ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho. Ressalta que o Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Dec. nº 3.048/99, dispõe que, por atividade preponderante, para os fins colimados pela Lei de Custeio da Seguridade Social, deve ser considerada a atividade que ocupa o maior número de segurados empregados e trabalhadores avulsos; e na mesma oportunidade, imputa a responsabilidade pelo autoenquadramento às pessoas jurídicas, in verbis: “Art. 202. A contribuição da empresa, destinada ao financiamento da aposentadoria especial, nos termos dos arts. 64 a 70, e dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho corresponde à aplicação dos seguintes percentuais, incidentes sobre o total da remuneração paga, devida ou creditada a qualquer título, no decorrer do mês, ao segurado empregado e trabalhador avulso: Fl. 755DF CARF MF Processo nº 10510.004193/200837 Resolução nº 9202000.215 CSRFT2 Fl. 5 4 I – um por cento para a empresa em cuja atividade preponderante o risco de acidente do trabalho seja considerado leve; II – dois por cento para a empresa em cuja atividade preponderante o risco de acidente do trabalho seja considerado médio; ou III – três por cento para a empresa em cuja atividade preponderante o risco de acidente do trabalho seja considerado grave. [...]§3º Considerase preponderante a atividade que ocupa, na empresa, o maior número de segurados empregados e trabalhadores avulsos. §4º A atividade econômica preponderante da empresa e os respectivos riscos de acidentes do trabalho compõem a Relação de Atividades Preponderantes e correspondentes Graus de Risco, prevista no Anexo V. §5º É de responsabilidade da empresa realizar o enquadramento na atividade preponderante, cabendo à Secretaria da Receita Previdenciária do Ministério da Previdência Social revêlo a qualquer tempo. (Redação dada pelo Decreto nº 6.042, de 2007). §6º Verificado erro no autoenquadramento, a Secretaria da Receita Previdenciária adotará as medidas necessárias à sua correção, orientará o responsável pela empresa em caso de recolhimento indevido e procederá à notificação dos valores devidos. (Redação dada pelo Decreto nº 6.042, de 2007).” Diz que a leitura do referido dispositivo legal é de extrema relevância para o deslinde da controvérsia, na medida em que aponta a atribuição concedida à Secretaria da Receita Previdenciária para rever as incorreções existentes no enquadramento da empresa no CNAE. Salienta que, neste contexto, considerando que se trata de uma alteração realizada de ofício, pode se fazer a verificação in loco a fim de comprovar de forma veemente os fundamentos para tanto; mas que, esta não é a hipótese dos autos. Diz que no caso em análise, não há reenquadramento algum; e que a empresa realizou o autoeenquadramento e apontou como atividade econômica preponderante na Classificação Nacional de Atividades Econômicas o código 01.61.0.99, cuja alíquota de grau de risco é 3%, e que, contudo, no período em análise, realizou recolhimentos de SAT com alíquota de 1% sem qualquer justificativa plausível para tanto, alegando apenas que a modificação da natureza jurídica da empresa teria ensejado a alteração do grau de risco, não obstante a manutenção de todas as atividades da sucedida. Explica que o lançamento se deu tão somente sobre a diferença não recolhida (2%). Destaca que não há esteio para a contribuinte se beneficiar de sua própria torpeza ao realizar o autoeenquadramento na alíquota de 3% e ainda entender necessária a comprovação pela fiscalização de que se encontra em tal alíquota com a verificação in loco, inclusive. Alega que se a contribuinte considerava que a alíquota estava incorreta, deveria, antes de qualquer procedimento fiscal, requerer a alteração do enquadramento e não alegar tal Fl. 756DF CARF MF Processo nº 10510.004193/200837 Resolução nº 9202000.215 CSRFT2 Fl. 6 5 aspecto em defesa de lançamento que visa à cobrança dos valores relativos alíquota por ela mesma declarada. Em relação ao item “b” retroatividade benigna obrigação acessória, o recorrente requer seja dado total provimento ao presente recurso, para reformar o acórdão recorrido no ponto em que determinou a aplicação do art. 32A da Lei nº 8.212/91, em detrimento do art. 35A, do mesmo diploma legal, para que seja esposada a tese de que a autoridade preparadora deve verificar, na execução do julgado, qual norma mais benéfica: se as duas multas anteriores (arts. 35, II, e 32, §5º, da norma revogada) ou a do art. 35A da MP nº 449/2008. Cientificado do Acórdão nº 2803002.449, do Recurso Especial da Fazenda Nacional e do Despacho de Admissibilidade admitindo o Resp da PGFN, em 01/06/2017, o contribuinte não apresentou contrarrazões. É o relatório. Fl. 757DF CARF MF Processo nº 10510.004193/200837 Resolução nº 9202000.215 CSRFT2 Fl. 7 6 Voto Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora. Pressupostos de Admissibilidade O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, conforme despacho de Admissibilidade, fls. 728. Não havendo qualquer questionamento acerca do conhecimento e concordando com os termos do despacho proferido, passo a apreciar o mérito da questão. Do Conhecimento Cingese a controvérsia em relação a duas matérias:a) SAT – auto enquadramento da empresa; e b) retroatividade benigna Obrigação Acessória. Contudo, conforme mencionado no relatório desse voto, tratase de Auto de Infração (fls. 10/12) AI68, DEBCAD: 37.157.7349, lavrado em 01/09/2008, com fito de constituir o crédito tributário por descumprimento de obrigação acessória, por ter a empresa acima identificada apresentado Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e de Informações à Previdência Social (GFIP), nas competências 01/2004 a 12/2004, sem incluir a totalidade das remunerações pagas a segurados empregados, a contribuintes individuais e por serviços prestados por cooperados mediante cooperativa de trabalho e contribuições descontadas de segurados que lhe prestaram serviço nas competências acima indicadas. Resultado dos AIOP correlatos Com vista a atribuir liquidez e certeza ao presente AIOA, cuja lavratura está diretamente relacionada ao resultado dos AIOP lavrados durante o mesmo procedimento fiscal e que indicaram inclusive a diferença de enquadramento da alíquota SAT devese primeiramente, identificar o resultado das Obrigações Principais correlatas. Conforme consta do Relatório Fiscal da Infração (fl. 13/19) e corroborado com a informação do Termo de encerramento da ação fiscal (fl.12), durante o procedimento fiscal foram lavrados os seguintes AI: · NFLD 37.157.7322 PAD 10510.004191/200848 Fatos Geradores de obrigações principais, levantamentos: CMU COOPERMULT COOP DE TRABALHO; NCI CONT INDIV OMITIDOS EM GFIP; NFP EMPREGADOS OMITIDOS EM GFIP; NST DIFERENCA ALIQUOTA SAT; · NFLD 37.157.7349 PAD 10510.004193/200837 AI 68 OMISSÃO EM GFIP; · NFLD 37.157.7357 PAD 10510.004194/200881 AI 91 GFIP COM FATOS GERADORES INCORRETOS; · NFLD 37.157.7330 PAD 10510.004192/200892 Fatos Geradores de obrigações principais, VALORES DESCONTADOS E NÃO RECOLHIDOS. Fl. 758DF CARF MF Processo nº 10510.004193/200837 Resolução nº 9202000.215 CSRFT2 Fl. 8 7 Contudo, conforme consulta ao sistema eprocesso por meio do CNPJ do contribuinte, identificase que não existe julgamento no âmbito do CARF do AI de obrigação pincipal que norteia a presente autuação, mais especificamente: NFLD 37.157.7322 PAD 10510.004191/200848. Neste caso, inviavel qualquer pronunciamento em relação a procedência da multa por omissão em GFIP relacionado ao reenquadramento do SAT, bem como aos demais fatos geradores. Sabese, que o resultado da obrigação principal vincula o resultado do AIOA, razão pela qual deve o presente processo ser apensado ao processo principal NFLD 37.157.7322 PAD 10510.004191/200848, para que seja verificada a possibilidade de priorização de sorteio deste último, bem como, pelo princípio da eficiência, a apensação e julgamento conjunto com os demais atrelados ao mesmo procedimento fiscal. Após o julgamento do processo principal na Câmara Ordinária e estando os autos regularmente vinculados, devese retornar o presente processo a esta relatora na 2ª Turma da CSRF para prosseguimento do julgamento, bem como os principais caso hajam recursos especiais em relação aos mesmos. Conclusão Face o exposto, voto no sentido de CONVERTER O JULGAMENTO EM DILIGÊNCIA à DIPRO/COJUL, para que o presente processo seja apensado ao de nº 10510.004191/200848, com posterior devolução à relatora, para julgamento conjunto na CSRF, se for o caso. É como voto. (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. Fl. 759DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.675377/2009-59
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jan 23 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 11/07/2005
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL - ÔNUS DA COMPROVAÇÃO DA EXISTÊNCIA DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO LÍQUIDO E CERTO.
O direito creditório consistente em pagamentos indevidos somente pode ser reconhecido se o contribuinte comprova sua liquidez e certeza por meio da apresentação de guias e demonstrativos das bases de cálculo, devidamente suportados pelos livros contábeis.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3302-006.250
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram do julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad e Rodolfo Tsuboi (suplente convocado).
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 11/07/2005 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL ÔNUS DA COMPROVAÇÃO DA EXISTÊNCIA DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO LÍQUIDO E CERTO. O direito creditório consistente em pagamentos indevidos somente pode ser reconhecido se o contribuinte comprova sua liquidez e certeza por meio da apresentação de guias e demonstrativos das bases de cálculo, devidamente suportados pelos livros contábeis. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram do julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad e Rodolfo Tsuboi (suplente convocado). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 67 53 77 /2 00 9- 59 Fl. 175DF CARF MF Processo nº 10880.675377/200959 Acórdão n.º 3302006.250 S3C3T2 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada, mantendo a decisão da repartição de origem de não homologação da Declaração de Compensação, relativa a alegado crédito da contribuição (PIS/Cofins), em razão da inexistência do crédito declarado. Em sua Manifestação de Inconformidade, o contribuinte juntou documentos e alegou que o crédito pleiteado não havia sido considerado em razão da declaração errônea de débitos efetuada em DCTF não retificada. A Delegacia de Julgamento (DRJ), por meio do acórdão nº 1630.452, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, não reconhecendo o crédito sob o argumento de inexistência de documentos que justificassem a alteração dos valores originalmente registrados em DCTF. Cientificado da decisão de primeira instância, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário, repisando os argumentos de defesa encetados na Manifestação de Inconformidade e arguindo que recolhera tributo a maior e que a mera ausência de DCTF retificadora não teria o condão de eclipsar todas as demais provas trazidas aos autos. Afirmou que o crédito da contribuição decorria de pagamento a maior relativo a receitas de licenciamento de programas de computador importados (regime não cumulativo) e às demais receitas de serviços de informática (regime cumulativo). Argumentou, ainda, que, considerando o recolhimento da contribuição somente no regime não cumulativo, apurara crédito relativo à diferença entre o valor recolhido e o valor devido, utilizandose parcela desse crédito para compensar débito de sua titularidade (com a devida inclusão de juros e multa de mora). O Recorrente trouxe ainda aos autos as notas fiscais acompanhadas de relatório vinculandoas aos serviços prestados. É o Relatório. Fl. 176DF CARF MF Processo nº 10880.675377/200959 Acórdão n.º 3302006.250 S3C3T2 Fl. 4 3 Voto Paulo Guilherme Déroulède, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido no Acórdão nº 3302006.249, de 28/11/2018, proferida no julgamento do processo nº 10880.675384/200951, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 3302006.249): 1. DA ADMISSIBILIDADE O presente Recurso Voluntário foi apresentado de forma tempestiva (efls. 62), revestese dos demais requisitos legais, razão pela qual dele conheço. 2. DO MÉRITO RECURSAL A Recorrente insurgese contra o ato (Despacho Decisório efls. 02, de 23.10.2009) que não homologou a compensação declarada. Em sua Manifestação de Inconformidade de uma folha (efls. 13) e acompanhado apenas do contrato social da empresa e da DCTF, a Contribuinte se limitou a afirmar que: Do Mérito A empresa solicita que o PER/DCOMP n°. 32391.03401.230207.1.3.049499 de 23/02/2007 seja homologado. Senhor julgador, são estes, em síntese, os pontos de discordância apontados nesta Manifestação de Inconformidade: a) A empresa possui crédito de Pagamento indevido ou a maior b) Os débitos foram compensados corretamente c) Alterar o lançamento na DCTF Dezembro/2005 do valor incorreto de R$ 1.237.221,85 para o valor correto devido de R$ 1.117.672,58, no código 5856 referente a Cofins na pagina 22. III Documentos Anexados Estão anexados a esta Manifestação de Inconformidade os seguintes documentos: (DCTF DEZEMBRO/2005; DARF no valor de R$ 1.237.221,85, Despacho Decisório n°8498606506 de 23/10/2009, CNPJ, Contrato Social e Documentos do representante legal). A Recorrente não trouxe à Manifestação de Inconformidade qualquer outro documento que pudesse minimamente demonstrar o seu direito ou mesmo a mera plausibilidade de sua alegação, sua verossimilhança, também chamada fumaça de direito. Assim, ao prolatar o Acórdão 1630.679, a DRJ admitiu que "... não pode ser acatada a mera alegação de erro de preenchimento desacompanhada de elementos de prova que justifique a alteração dos valores registrados em DCTF." Entendeu a DRJ que "... o prazo para apresentação de provas documentais visando esclarecer o eventual equivoco cometido no Fl. 177DF CARF MF Processo nº 10880.675377/200959 Acórdão n.º 3302006.250 S3C3T2 Fl. 5 4 preenchimento de DCTF finda na data da apresentação da Manifestação de Inconformidade, precluindo o direito do Contribuinte fazêlo em outra oportunidade. (...) Nessas circunstâncias, não comprovado o erro cometido no preenchimento da DCTF, com documentação hábil, idônea e suficiente, a alteração dos valores declarados anteriormente não pode ser acatada, pelo que se mantém procedente a não homologação da compensação requerida." Este colegiado possui entendimento consolidado no sentido de que o momento para a apresentação da documentação demonstrativa do seu direito a crédito é o da apresentação da Manifestação de Inconformidade. CRÉDITO. FALTA DE COMPROVAÇÃO O direito creditório consistente em pagamentos indevidos somente pode ser reconhecido, se o contribuinte comprova sua liquidez e certeza, por meio da apresentação de guias e demonstrativos das bases de cálculo, devidamente suportados pelos livros contábeis. (Acórdão n. 3301004.857 prolatado no bojo do processo 15582.000109/201009, publicado no dia 25.07.2018, Rel. Marcelo Costa Marques D. Oliveira.) A retificação das DCTF e DCOMP após a emissão do Despacho Decisório, por si só, não é suficiente para a demonstração do direito creditório invocado. É ônus do interessado demonstrar a certeza e liquidez de seu crédito, apresentando os documentos e elementos de sua contabilidade que demonstram referido direito. Se é verdade que o princípio da verdade material norteia o processo administrativo fiscal, também é certo que existem outros princípios em colisão como a duração razoável do processo, a certeza da aplicação do direito e a eficiência da administração pública que, cotejados em conjunto pelo rito do processo administrativo fiscal, estabelecem momentos e prazos para a prática dos atos, sob pena da perpetuação do processo administro pois, a todo momento cada uma das partes poderia reiniciar o procedimento desde o início. Por este motivo, voto no sentido de negar provimento ao presente Recurso Voluntário. Ressaltese que, não obstante o processo paradigma se referir apenas à Cofins, a decisão ali tomada se aplica nos mesmos termos à Contribuição para o PIS. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 178DF CARF MF
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Numero do processo: 16062.720157/2015-55
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 16 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Jan 31 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2009, 2010, 2011, 2012, 2013
MULTA REGULAMENTAR. DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS AOS SÓCIOS POR EMPRESA EM DÉBITO NÃO GARANTIDO.
As pessoas jurídicas, enquanto estiverem em débito, não garantido, por falta de recolhimento de imposto no prazo legal, não poderão dar ou atribuir participação nos lucros a seus sócios ou quotistas, importando a sua desobediência em multa aos diretores e demais membros da administração superior que tiverem recebido as importâncias indevidas.
DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS. MULTA. PERCENTUAL. LEGISLAÇÃO.
A multa a ser aplicada, no caso de distribuição de lucros, estando a empresa em débito não garantido para com a União, corresponde a 50% do montante distribuído a cada diretor e demais membros da administração superior, nos termos da legislação de regência.
Numero da decisão: 2402-006.861
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Votaram pelas conclusões os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci e Gregório Rechmann Junior.
Julgamento iniciado na sessão de 4/12/18, com início às 9h, e concluído na sessão de 17/1/19, com início às 14h
(assinado digitalmente)
Denny Medeiros da Silveira - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Denny Medeiros da Silveira, Gregório Rechmann Junior, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luís Henrique Dias Lima, Mauricio Nogueira Righetti, e Renata Toratti Cassini.
Nome do relator: DENNY MEDEIROS DA SILVEIRA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2009, 2010, 2011, 2012, 2013 MULTA REGULAMENTAR. DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS AOS SÓCIOS POR EMPRESA EM DÉBITO NÃO GARANTIDO. As pessoas jurídicas, enquanto estiverem em débito, não garantido, por falta de recolhimento de imposto no prazo legal, não poderão dar ou atribuir participação nos lucros a seus sócios ou quotistas, importando a sua desobediência em multa aos diretores e demais membros da administração superior que tiverem recebido as importâncias indevidas. DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS. MULTA. PERCENTUAL. LEGISLAÇÃO. A multa a ser aplicada, no caso de distribuição de lucros, estando a empresa em débito não garantido para com a União, corresponde a 50% do montante distribuído a cada diretor e demais membros da administração superior, nos termos da legislação de regência.
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DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS AOS SÓCIOS POR EMPRESA EM DÉBITO NÃO GARANTIDO. As pessoas jurídicas, enquanto estiverem em débito, não garantido, por falta de recolhimento de imposto no prazo legal, não poderão dar ou atribuir participação nos lucros a seus sócios ou quotistas, importando a sua desobediência em multa aos diretores e demais membros da administração superior que tiverem recebido as importâncias indevidas. DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS. MULTA. PERCENTUAL. LEGISLAÇÃO. A multa a ser aplicada, no caso de distribuição de lucros, estando a empresa em débito não garantido para com a União, corresponde a 50% do montante distribuído a cada diretor e demais membros da administração superior, nos termos da legislação de regência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Votaram pelas conclusões os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci e Gregório Rechmann Junior. Julgamento iniciado na sessão de 4/12/18, com início às 9h, e concluído na sessão de 17/1/19, com início às 14h (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira Presidente e Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 06 2. 72 01 57 /2 01 5- 55 Fl. 519DF CARF MF Processo nº 16062.720157/201555 Acórdão n.º 2402006.861 S2C4T2 Fl. 506 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Denny Medeiros da Silveira, Gregório Rechmann Junior, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luís Henrique Dias Lima, Mauricio Nogueira Righetti, e Renata Toratti Cassini. Relatório Trata o presente processo do Auto de Infração de Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) de fls. 2 a 10, referente aos anoscalendário de 2009 a 2013, cuja ciência ao contribuinte se deu em 7/7/15. Por bem descrever os fatos ocorridos até a decisão de primeira instância, transcrevemos os seguintes excertos do Acórdão nº 0267.213, da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) de Belo Horizonte/MG, fls. 263 a 276: De acordo com o Auto de Infração, fls. 02/215, o motivo da autuação foi o recebimento de lucros de empresa em débito não garantido perante o Fisco Federal e/ou Previdência Social (INSS), por falta de recolhimento de tributo no prazo legal. A distribuição de lucros foi informada pela pessoa jurídica em sua declaração (DIPJ) e confirmada nas declarações do sujeito passivo (DIRPF). Consta das fls. 14 a 27 dos autos, Termo de Solidariedade e Responsabilidade Tributária – Grupo econômico – Fato gerador comum – Infração à lei – Lucros fictícios, onde a fiscalização detalha os passos seguidos e informa que durante os procedimentos de auditoria interna de DCTF previstos na IN RFB 1.110/2010, art. 8º, § 1º, realizados no contribuinte CBS (CNPJ 57.170.375/000117), verificouse que esse constitui uma única unidade administrativa e produtiva, sendo na realidade a mesma pessoa jurídica, ou ao menos levando a solidariedade à pessoa jurídica ELOS (CNPJ 04.868.082/000141). [...] O termo acostado às fls. 201 a 205 detalha a forma de aplicação da multa, legislação aplicável e cálculos efetuados para se chegar a seu montante e demais informações do procedimento realizado. Cientificado do lançamento, o contribuinte apresentou a impugnação de fls. 217 a 241, alegando, em síntese que: Vício no auto de infração por inexistência de notificação para que o contribuinte prestasse esclarecimentos antes da autuação; Nulidade pela ausência de requisitos mínimos da autuação; Ilegitimidade do sócio; Inexistência de repasse de valores; Fl. 520DF CARF MF Processo nº 16062.720157/201555 Acórdão n.º 2402006.861 S2C4T2 Fl. 507 3 Possibilidade de realizar distribuição de capital pelo impugnante; Caráter confiscatório da multa aplicada. Ao julgar a impugnação, a DRJ de Belo Horizonte/MG, por unanimidade de votos, conclui pela sua improcedência, consignando a seguinte ementa em sua decisão: CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Os procedimentos da autoridade fiscalizadora têm natureza inquisitória, não se sujeitando necessariamente ao contraditório os atos lavrados nesta fase. Somente depois de lavrado o auto de infração e instalado o litígio administrativo é que se pode falar em obediência aos ditames do princípio do contraditório e da ampla defesa. MULTA REGULAMENTAR. DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS AOS SÓCIOS POR EMPRESA EM DÉBITO NÃO GARANTIDO. As pessoas jurídicas, enquanto estiverem em DÉBITO, não GARANTIDO, por falta de recolhimento de imposto no prazo legal, não poderão dar ou atribuir participação nos lucros a seus sócios ou quotistas, importando a sua desobediência em multa aos diretores e demais membros da administração superior que houverem recebido as importâncias indevidas. INTIMAÇÃO PARA PRESENÇA DE PROCURADORES NO JULGAMENTO. Não há previsão legal na legislação que cuida do processo administrativo fiscal para a intimação para presença de procuradores em sessão de julgamento de primeira instância. A legislação de regência do processo administrativo fiscal não prevê a sustentação oral como meio de prova, ao contrário, a impugnação deve ser formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar. Cientificado da decisão de primeira instância, em 5/2/16, segundo o Aviso de Recebimento (AR) de fl. 280, o contribuinte, por meio de seus advogados (procuração de fls. 242 e 243), interpôs o recurso voluntário de fls. 282 a 302, em 3/3/16, no qual apenas repete e reforça argumentos da sua impugnação, nos seguintes termos, em síntese: DA ILEGITIMIDADE DO SÓCIO O Recorrente é sócio da empresa ELOS DO BRASIL LTDA. e foi autuado em razão da alegada distribuição de lucros do qual não poderia ocorrer, eis que a empresa do alegado GRUPO, qual seja a CBS, possuiria débitos junto ao Fisco Nacional. Todavia, o Recorrente não possui qualquer vínculo societário com a referida empresa, situação que determina maior legalidade ao ato, na medida em que não tinha nenhuma obrigação legal ou fática de saber acerca dos fatos que em tese impediriam a transferência de lucro. Fl. 521DF CARF MF Processo nº 16062.720157/201555 Acórdão n.º 2402006.861 S2C4T2 Fl. 508 4 [...] A responsabilidade do Recorrente inexiste no presente caso, na medida em que não poderia contribuir em nada para a ocorrência do fato gerador da empresa CBS do qual o tributo não foi pago. Inexistiu qualquer participação do Recorrente que determinasse a autuação pessoal, o que retira o caráter de legalidade em razão a multa imposta contra si. DA INEXISTÊNCIA DE REPASSSE DE VALORES A AutoridadeFiscal autuou o Recorrente, todavia, não observou fatos que delineiam a não incidência na norma sob comento, notadamente em razão da falta de transferência de valores, conforme se comprova através da documentação anexa. O Recorrente por meio de lançamento contábil em razão dos lucros obtidos de sua atividade empresarial, realizou tão somente a movimentação de seu patrimônio líquido ativo, para o seu patrimônio passivo a longo prazo. Em razão da movimentação contábil, onde houve a transferência somente do patrimônio ativo para o passivo, sem qualquer efetiva transferência de valores aos sócios, conforme declaração realizada tanto pela empresa, quanto pelo Recorrente em declaração de imposto de renda pessoa física. [...] Por meio dos argumentos lançados, verificamos que não houve a incidência do fato determinado pela lei, eis que o substrato fático necessário não se fez presente. A finalidade da lei é coibir a transferência de valores aos sócios em prejuízo ao ente tributante (União), fato que não ocorreu, determinando a insubsistência do auto. DA POSSIBILIDADE DE REALIZAR DISTRIBUIÇÃO DE CAPITAL PELO RECORRENTE [...] Quando pensamos na hipótese de incidência da norma, devemos observar que o lucro distribuído deve ser aquele do período do qual há o débito, não sendo cabível a imposição da multa, quando há distribuição de lucro anteriormente auferido pela pessoa jurídica que realizou a distribuição de lucro, como ocorreu no presente caso. Com isso, chegamos à conclusão de que a distribuição do lucro que foi obtido em momento anterior a existência do débito, não pode determinar a imposição de multa, porquanto o que se distribui é lucro pretérito, do qual poderia ter sido distribuído anteriormente e por motivo estratégico não o foi, mas que se tivesse sido distribuído não haveria a imposição da multa. Fl. 522DF CARF MF Processo nº 16062.720157/201555 Acórdão n.º 2402006.861 S2C4T2 Fl. 509 5 Quando aplicamos o entendimento acima apresentado, observamos que o ato jurídico perfeito está sendo respeitado, porque o direito já existia anteriormente, somente foi utilizado no momento ao qual o titular do direito entendeu ser melhor, como ocorreu no presente caso. [...] Os próprios débitos constituídos que determinam a aplicação da multa conforme consta do auto de infração são posteriores ao ano de 2011, o que por si só já determina a minoração da multa nos termos apresentados. Não bastasse isso, observamos que os lucros distribuídos são aqueles anteriores à 2009, lucros que foram obtidos com as atividades exercidas de 2003 a 2008, fato que não foi observado pela autoridade fiscal que preferiu impor a multa ao Recorrente. [...] Outro ponto que não foi observado para a imposição da multa é de que a ELOS não possuía qualquer débito para que o lucro não pudesse ser distribuído, o que retira da mesma forma a ilegalidade. A proibição legal quanto à distribuição de lucro é determinada pela lei, onde não há possibilidade de analogia ou interpretação extensiva para a aplicação da punição, onde a pena deve estar restrita ao agente não podendo passar da esfera desta. DO PERCENTUAL DA MULTA APLICADA O § 2º do Artigo 32 a Lei 4.357/1964, determina a imposição da multa limitada a 50% (cinquenta por cento) do débito não garantido, onde não houve qualquer critério para a aplicação da multa sob comento. De primeiro é necessário observar que a multa aplicada não observou os critérios objetivos da lei, porquanto não foi observado qual o valor que estava garantido e com isso o percentual que deveria incidir. Ademais, os lucros distribuídos foram realizados pela importância de R$ 3.734.836,60 (Três Milhões, Setecentos e Trinta e Quatro Mil, Oitocentos e Trinta e Seis Reais e Sessenta Centavos), sendo que a multa aplicada somente ao Recorrente é superior ao dobro. Com a alegação acima formulada observamos o caráter de confisco da imposição da multa que é superior ao lucro transferido, o que determina desproporcionalidade da mesma. (Grifos no original) É o relatório. Fl. 523DF CARF MF Processo nº 16062.720157/201555 Acórdão n.º 2402006.861 S2C4T2 Fl. 510 6 Voto Conselheiro Denny Medeiros da Silveira – Relator. Da admissibilidade O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235, de 6/3/72. Assim, dele tomo conhecimento. Da alegada ilegitimidade do sócio O Recorrente alega ser sócio da empresa ELOS DO BRASIL LTDA. e que não possuiria qualquer vínculo societário com a empresa CBS, razão pela qual não teria “obrigação legal ou fática de saber acerca dos fatos que em tese impediriam a transferência de lucro”, bem como que não poderia ter contribuindo para a ocorrência do fato gerador da empresa CBS, do qual o tributo não foi pago. Pois bem, vejamos o que restou consignado na decisão recorrida, a respeito da legitimidade do sócio: O impugnante, de fato, é sócio da empresa Elos e não é sócio da empresa CBS. No entanto, conforme [...] extensamente demonstrado pela autoridade lançadora no Termo de Solidariedade e Responsabilidade Tributária – Grupo econômico, o impugnante é responsável solidário pelo crédito tributário em razão de sua participação no grupo econômico ElosCBSDR, por ter participação societária na empresa Elos, que fez a referida distribuição de lucros. Como ficou plenamente demonstrado no referido termo, a verdadeira origem do lucro recebido pelo impugnante está no conjunto de empresas que formam o grupo econômico e não apenas em uma das empresas. No caso, o lançamento da multa regulamentar para o impugnante não pode ser alterado, pois a empresa que distribuiu os lucros pertence ao grupo econômico e assim nenhum sócio do grupo pode alegar desconhecimento das atividades empresariais das empresas que o compõe. Assim, a alegação de ilegitimidade passiva do impugnante não se sustenta, devendo ser mantido o lançamento da multa regulamentar efetuado em seu nome. Como se vê na transcrição acima, a decisão a quo esclarece que o Recorrente, em que pese não ser sócio direto da empresa CBS que distribuiu lucro enquanto em débito com a Fazenda Pública , é sócio da empresa ELOS, a qual compõe um grupo econômico com as empresas CBS e DR, segundo se observa nas seguintes informações, dentre várias outras, prestadas pela fiscalização no Termo de Solidariedade e Responsabilidade Tributária de fls. 14 a 27: Fl. 524DF CARF MF Processo nº 16062.720157/201555 Acórdão n.º 2402006.861 S2C4T2 Fl. 511 7 O grupo econômico CBSELOS é assumido pelo contribuinte em sua página na internet (www.cbselos.com.br); Verificando os registros no CNPJ, verificamos que os sócios administradores são os mesmos, conforme as telas abaixo do sistema CNPJ, sendo que a ELOS possui um sócio não comum com a CBS e a DR: CBS 014.292.46871 EDUARDO DIEZ 49 SOCIOADMINIST FONTE: PGDPAR INCLUIDO: 27/02/1987 ULT. ALT: 11/08/2010 949.855.96868 OSWALDO REZENDE FILHO 49 SOCIOADMINIST FONTE: PGDPAR INCLUIDO: 31/07/1988 ULT. ALT: 11/08/2010 857.935.74891 ROSANA APARECIDA MESQUITA CARNAVAL 05 ADMINISTRADOR FONTE: QSA INCLUIDO: 03/06/2003 ELOS 857.935.74891 ROSANA APARECIDA MESQUITA CARNAVAL 49 SOCIOADMINIST FONTE: QSA INCLUIDO: 27/12/2001 ULT. ALT: 13/08/2010 132.143.19884 ALEXANDRE ZANOLINI GENICOLA 49 SOCIOADMINIST FONTE: QSA INCLUIDO: 27/12/2001 ULT. ALT: 02/01/2004 014.292.46871 EDUARDO DIEZ 49 SOCIOADMINIST FONTE: QSA INCLUIDO: 27/12/2001 ULT. ALT: 02/01/2004 949.855.96868 OSWALDO REZENDE FILHO A filial 000303 da ELOS funciona no mesmo local que a CBS, conforme os registros no CNPJ; Em procedimento fiscal foi apurado que TODO o faturamento da ELOS é oriundo da CBS; Portanto fica claro que a ELOS é apenas parte da CBS, sendo que o produto vendido pela CBS é industrializado pela ELOS, configurando o interesse comum de ambas; A ELOS por não possuir débitos próprios (declarados em seu CNPJ, sem levar em consideração a solidariedade) com a União Fl. 525DF CARF MF Processo nº 16062.720157/201555 Acórdão n.º 2402006.861 S2C4T2 Fl. 512 8 (Lei 4.357/64, Art.32) distribui lucros aos sócios, ao contrário da CBS que possui dividas elevadas para com a União; Portanto os lucros obtidos e distribuídos pela ELOS são diretamente decorrentes da falta de pagamento de impostos por parte da CBS, uma vez que a mesma é solidária, conforme a previsão legal do CTN, 124, I; A DR (CNPJ: 06.038.594/000106) na “trilogia” do grupo econômico seria a que possui o patrimônio imobilizado do grupo, ou seja, os imóveis os “blindando” de possíveis execuções por parte da União; Os sócios da DR são os mesmos sócios da CBSELOS; O patrimônio da DR serve como garantia aos empréstimos da CBS; Notemos TODOS os imóveis registrados da DR se referem a imóveis de uso da CBSELOS, demonstrando sua única função como empresa patrimonial. Como se percebe nas informações prestadas pela fiscalização, a relação entre as três empresas do grupo econômico é muito próxima e direta, razão pela qual não vemos ser possível o desconhecimento dos sócios acerca das dívidas da empresa CBS e nem que os lucros distribuídos pela ELOS decorram da falta de pagamento de impostos pela CBS. Logo, mostrase absolutamente insustentável a alegação do Recorrente de que não teria obrigação legal ou fática de saber acerca dos fatos que impediriam a transferência de lucro. Sendo assim, não vemos retoques a serem feitos na decisão recorrida. Da alegada inexistência de repasse de valores Segundo o Recorrente, por meio de lançamento contábil em razão dos lucros obtidos de sua atividade empresarial, realizou tão somente a movimentação de seu patrimônio líquido ativo, para o seu patrimônio passivo a longo prazo, havendo, pois, somente a transferência do patrimônio ativo para o passivo, sem qualquer efetiva transferência de valores aos sócios, conforme declaração realizada tanto pela empresa, quanto pelo Recorrente em declaração de imposto de renda pessoa física. Em primeiro grau de julgamento, assim discorreu a DRJ quanto a alegada inexistência de repasses: Na peça de defesa, o contribuinte não questiona a caracterização do grupo econômico. Ele alega que não houve repasse de valores sendo que a empresa realizou somente a movimentação de seu patrimônio líquido ativo para o seu patrimônio passivo a longo prazo. No entanto, não são apresentadas provas cabais dessa alegação tais como cópias de livros Diário e Razão, acompanhados de toda a documentação que deu suporte às movimentações, de todas as empresas do grupo ou outros elementos suficientes a demonstrar a alegação. Fl. 526DF CARF MF Processo nº 16062.720157/201555 Acórdão n.º 2402006.861 S2C4T2 Fl. 513 9 Junto a peça de defesa do processo principal, foram trazidos apenas balanços patrimoniais de vários anos da empresa Elos, onde fica demonstrado que essa empresa teve lucros significativos em todos os anos. Não foram trazidos os balanços das outras empresas do grupo econômico para permitir a análise completa do grupo. Os lucros recebidos foram declarados pelos sócios em suas declarações de ajuste anual. Assim, descabida a alegação de que não houve repasse e sim movimentação de um campo contábil para outro. Da transcrição acima, temse que o Recorrente não carreou aos autos, junto com sua impugnação, elementos de prova necessários para demonstrar sua alegação, tais como livros Diário e Razão de todas as empresas do grupo econômico, com os documentos das movimentações, ou outros elementos capazes de fazer a demonstração. Todavia, compulsando os elementos de prova que acompanham seu recurso voluntário, fls. 303 a 496, percebese que o Recorrente instruiu o processo apenas com documentos da ELOS, tais como DIPJ, Balanço Patrimonial, Demonstração do Resultado do Exercício e Razão Analítico, sem trazer à baila qualquer documento das demais empresas do grupo econômico, o que inviabiliza, no presente julgamento, a verificação quanto à alegada mera movimentação entre ativo e passivo. Ademais, com base nos documentos constantes dos autos, constatase que a empresa ELOS teve lucro nos anoscalendário sob exame e que o Recorrente declarou, em suas Declarações Anuais e Ajuste (DAAs), fls. 160 a 200, ter recebido lucros dessa empresa. Sendo assim, mantemos a decisão de primeira instância quanto a esse item do recurso voluntário. Da alegada possibilidade de distribuição de capital Segundo o Recorrente, o lucro distribuído corresponde a lucro pretérito (2003 a 2008), do qual poderia ter sido distribuído anteriormente e por motivo estratégico não o foi, mas que se tivesse sido distribuído não haveria a imposição da multa, uma vez que na época não tinha débito. Aduz, ainda, que o débito em questão diz respeito à empresa CBS e não deveria passar da esfera dessa. Pois bem, tendo em vista que o Recorrente repete as alegações recursais, sem trazer qualquer razão nova, nos termos do art. 57, § 3º, Anexo II, do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9/6/15, com redação dada pela Portaria MF nº 329, de 4/6/17, transcreveremos, no presente voto, as razões de decidir da decisão de primeira instância, com as quais concordamos e adotamos: A auditoria fiscal fundamentou o lançamento da multa regulamentar pela distribuição de lucros por pessoa jurídica em débito não garantido por falta de recolhimento de imposto no prazo legal nos artigos 889 e 975 do Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999 – Regulamento do Imposto de Renda RIR/1999, os quais têm como matriz legal o artigo 32 da Lei nº 4.357, de 1964, alterado pela Lei nº 11.051, de 2004: Fl. 527DF CARF MF Processo nº 16062.720157/201555 Acórdão n.º 2402006.861 S2C4T2 Fl. 514 10 [...] Notese que a condição legal que determina a aplicação da multa regulamentar consiste na existência de débito não garantido, que no caso concreto foi demonstrada pela autoridade fiscal que salienta na fl. 03 dos autos que a Distribuição dos lucros foi informada pela pessoa jurídica em sua declaração (DIPJ), e confirmada nas declarações do sujeito passivo (DIRPF). É importante esclarecer que a norma instituidora da citada multa dispõe que a pessoa jurídica estará impedida de distribuir lucro enquanto estiver em débito, não garantido, por falta de recolhimento de imposto no prazo legal, de modo que a conduta vedada se aperfeiçoa no momento em que são distribuídos os lucros aos sócios, no caso, os anoscalendário 2009 a 2013. Quanto à expressão “débito não garantido”, temse que na legislação tributária federal, como regra, não exige garantia, ressalvadas algumas garantias previstas na legislação aduaneira e o depósito administrativo, que é uma faculdade do contribuinte, de forma que tendo o sujeito passivo efetuado o depósito ou prestado garantia por exigência da legislação tributária, estaria eximido da aplicação da penalidade de que se trata. Assim, deveria a pessoa jurídica, previamente à distribuição de lucros, procurar a Repartição Fazendária para prestar a garantia do débito de modo espontâneo, a fim de que não lhe fosse imputada ou a um de seus diretores, a penalidade de que ora se trata. Observase que a fiscalização realizou uma minuciosa pesquisa interna da situação cadastral, social e econômica das empresas do grupo e das atividades de industrialização desenvolvidas entre elas, demonstrando por meio do Termo de Solidariedade e Responsabilidade Tributária, a união entre as empresas ali citadas. Os débitos das empresas estão descritos no referido termo, fl. 11 e fls. 14/27, inclusive constando ali depoimentos dos próprios sócios afirmando que a empresa DR recebe valores referentes a Elos e CBS (pé da fl. 24). Da leitura atenta desse termo, fica patente que as referidas empresas trabalham em uníssono e constituem um verdadeiro grupo econômico, sendo que os débitos para com a União ficam centralizados em uma empresa, enquanto se distribui os lucros aos sócios, por meio de outra. [...] A defesa alega também que para valer a norma essa deveria incidir sobre a distribuição do lucro que ocorre no período para o qual há débito e que por isso a distribuição de lucro obtido em momento anterior a existência do débito não pode determinar a Fl. 528DF CARF MF Processo nº 16062.720157/201555 Acórdão n.º 2402006.861 S2C4T2 Fl. 515 11 imposição de multa. Afirma que os lucros distribuídos são aqueles anteriores à 2009, lucros que foram obtidos com as atividades exercidas de 2003 a 2008, fato que não foi observado pela autoridade fiscal. Também essa alegação não se sustenta. A interpretação da lei em comento é de que a empresa ou o grupo não pode distribuir lucros aos sócios estando, no momento dessa distribuição, com débitos não garantidos perante a União. Na lei não há referência sobre o momento da obtenção dos referidos lucros. A definição desses momentos (obtenção e distribuição) é uma prerrogativa da própria empresa e de seus sócios que definem essas datas de acordo com seu plano estratégico de administração e com sua conveniência. As meras alegações do impugnante a respeito das datas de distribuição dos lucros e dos valores que ainda teria a distribuir trazidos na peça de defesa, não tem o condão de modificar o lançamento aqui em análise que é conclusivo de que houve distribuição de lucros havendo débitos do grupo econômico não garantidos junto à União. Do percentual da multa aplicada O Recorrente alega que a multa aplicada não teria observado os critérios objetivos da lei”, porquanto não teria sido observado qual o valor que estava garantido e com isso o percentual que deveria incidir. Alega, também, que teria sido aplicada multa em relação ao Recorrente em valor “superior ao dobro”, com caráter de confisco, o que determinaria a sua desproporcionalidade. Em que pese a defesa, aqui também não procedem as alegações recursais. Primeiramente, vajamos o que dispõe a Lei 4.357, de 16/7/64, com redação dada pela Lei 11.051, de 29/12/04, a respeito da multa ora em análise: Art 32. As pessoas jurídicas, enquanto estiverem em débito, não garantido, para com a União e suas autarquias de Previdência e Assistência Social, por falta de recolhimento de impôsto, taxa ou contribuição, no prazo legal, não poderão: [...] b) dar ou atribuir participação de lucros a seus sócios ou quotistas, bem como a seus diretores e demais membros de órgãos dirigentes, fiscais ou consultivos; § 1º A inobservância do disposto neste artigo importa em multa que será imposta: (Redação dada pela Lei nº11.051, de 2004) [...] Fl. 529DF CARF MF Processo nº 16062.720157/201555 Acórdão n.º 2402006.861 S2C4T2 Fl. 516 12 II aos diretores e demais membros da administração superior que receberem as importâncias indevidas, em montante igual a 50% (cinqüenta por cento) dessas importâncias. (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) Conforme se observa nos dispositivos acima, a multa a ser aplicada, no caso de distribuição de lucros realizada em desacordo com o art. 32, corresponde a 50% do montante distribuído a cada diretor e demais membros da administração superior. Quanto à alegação de que a multa aplicada teria caráter confiscatório e seria desproporcional, impende ressaltar que o princípio do nãoconfisco, estabelecido na Constituição Federal de 1988, é dirigido ao legislador. Tal princípio orienta a feitura da lei, que deve observar a capacidade contributiva e não pode dar ao tributo a conotação de confisco. Não observado esse princípio, a lei deixa de integrar o mundo jurídico, por inconstitucional. Além do mais, independente do seu quantum, a multa ora imposta decorre de lei e deve ser aplicada, pela autoridade tributária, sempre que for identificada a subsunção da norma punitiva à conduta, haja vista o disposto no art. 142, § único, do CTN: Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Sendo assim, uma vez positivada a norma, é dever da autoridade tributária aplicála sem perquirir acerca da justiça ou injustiça dos efeitos dela decorrentes. Portanto, improcedem as alegações recursais quanto à multa aplicada. Conclusão Isso posto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira Fl. 530DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 17335.720442/2017-43
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jan 24 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2015
MATÉRIA IMPUGNADA NO RECURSO VOLUNTÁRIO DISTINTA DA MATÉRIA DO LANÇAMENTO DO PROCESSO. NÃO CONHECIMENTO.
Matéria defendida em sede de Recurso Voluntário não diz respeito ao lançamento, impondo-se o não conhecimento, por inexistir pretensão resistida.
MOLÉSTIA GRAVE. REQUISITOS. SÚMULA CARF 43 E 63. NÃO PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS. DEVIDO O LANÇAMENTO.
Súmula CARF nº 43: Os proventos de aposentadoria, reforma ou reserva remunerada, motivadas por acidente em serviço e os percebidos por portador de moléstia profissional ou grave, ainda que contraída após a aposentadoria, reforma ou reserva remunerada, são isentos do imposto de renda.
Súmula CARF nº 63: Para gozo da isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios.
Rendimentos recebidos de trabalho assalariado não comportam a isenção pleiteada, sendo devido o lançamento. Devido o lançamento.
Numero da decisão: 2301-005.779
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário, nos termos do voto da relatora.
João Maurício Vital - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Juliana Marteli Fais Feriato - Relatora.
(assinado digitalmente)
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Maurício Vital (Presidente em Exercício), Antônio Sávio Nastureles, Alexandre Evaristo Pinto, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll (suplente convocada para substituir o conselheiro Reginaldo Paixão Emos), Wesley Rocha, Sheila Aires Cartaxo Gomes (suplente convocada para substituir o conselheiro João Bellini Junior), Marcelo Freitas de Souza Costa e Juliana Marteli Fais Feriato. Ausentes justificadamente os conselheiros João Bellini Junior e Reginaldo Paixão Emos.
Nome do relator: JULIANA MARTELI FAIS FERIATO
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NÃO CONHECIMENTO. Matéria defendida em sede de Recurso Voluntário não diz respeito ao lançamento, impondose o não conhecimento, por inexistir pretensão resistida. MOLÉSTIA GRAVE. REQUISITOS. SÚMULA CARF 43 E 63. NÃO PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS. DEVIDO O LANÇAMENTO. Súmula CARF nº 43: Os proventos de aposentadoria, reforma ou reserva remunerada, motivadas por acidente em serviço e os percebidos por portador de moléstia profissional ou grave, ainda que contraída após a aposentadoria, reforma ou reserva remunerada, são isentos do imposto de renda. Súmula CARF nº 63: Para gozo da isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Rendimentos recebidos de trabalho assalariado não comportam a isenção pleiteada, sendo devido o lançamento. Devido o lançamento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 17 33 5. 72 04 42 /2 01 7- 43 Fl. 92DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário, nos termos do voto da relatora. João Maurício Vital Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Juliana Marteli Fais Feriato Relatora. (assinado digitalmente) Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Maurício Vital (Presidente em Exercício), Antônio Sávio Nastureles, Alexandre Evaristo Pinto, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll (suplente convocada para substituir o conselheiro Reginaldo Paixão Emos), Wesley Rocha, Sheila Aires Cartaxo Gomes (suplente convocada para substituir o conselheiro João Bellini Junior), Marcelo Freitas de Souza Costa e Juliana Marteli Fais Feriato. Ausentes justificadamente os conselheiros João Bellini Junior e Reginaldo Paixão Emos. Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fl. 56/58) interposto em face da decisão da DRJ (fls. 44/47) proferida pela 19ª Turma da DRJ/RJO, Acórdão 1297.586 de 13 de abril de 2018, que indeferiu a Impugnação e determinou a procedência do lançamento, acordão sem Ementa, nos termos da Portaria RFB nº 2.724, de 27 de setembro de 2017. Conforme consta da Notificação de Lançamento juntado aos autos nas fls. 21/26, lavrado em 04/12/2017, contra o Contribuinte foi lançado o recolhimento de imposto sobre a renda de pessoa física (IRPF) relativamente ao anocalendário de 2015, diante da omissão de rendimentos tributáveis com vínculo empregatício sujeitos à tabela progressiva no valor de R$324.911,31, não sendo deferida a isenção do imposto de renda pleiteado pela mesma, por moléstia grave; assim como foram glosadas as deduções indevidamente declaradas a título de Contribuição a Previdência Oficial, no valor de R$32.161,80. Nas fls. 03/04 a Contribuinte apresenta sua impugnação, na qual pugna a revisão do lançamento, visto que os rendimentos recebidos correspondem a trabalho onde a pessoa física discute moléstia grave em processo administrativo de n. 10166729540201796; que é indevida a glosa da dedução com o dispêndio de previdência oficial e indevida a glosa da compensação do IRPF retido na fonte. Nas fls. 15 consta do exame realizado pela Contribuinte em que há a indicação que a mesma é portadora de Hepatite C viral. A DRJ indeferiu o pedido da Contribuinte, visto que: Fl. 93DF CARF MF Processo nº 17335.720442/201743 Acórdão n.º 2301005.779 S2C3T1 Fl. 93 3 · Com relação à primeira infração (apuração de rendimentos indevidamente considerados como isentos por moléstia grave no montante de R$324.911,31) a legislação determina que apenas os proventos de aposentadoria ou reforma é que podem estar sujeitos à isenção por moléstia grave, sendo que não ocorre com os rendimentos provenientes de trabalho assalariado, como é o presente caso (o rendimento que a contribuinte reputou isento não possui natureza de provento de aposentadoria, reforma ou pensão, mas sim de trabalho assalariado, conforme consta do extrato da DIRF à fl. 43); · Com relação às infrações de dedução indevida de contribuição à previdência oficial e compensação indevida de imposto de renda retido na fonte, a contribuinte não logrou comprovar os valores informados na DIRPF/2015. Todavia, a Fiscalização já acatou tanto a dedução de previdência oficial no valor de R$32.161,80, como a compensação de IRRF de R$69.406,20, ambos relacionados aos rendimentos lançados e constantes da DIRF de fl. 43. Tal fato pode ser nitidamente observado no demonstrativo de cálculo da notificação à fl. 25. Dessa forma, não há qualquer reparo a ser efetuado no presente lançamento. Nas fls. 56 a Contribuinte apresenta seu Recurso Voluntário, no qual: · Que a contribuinte possui Hepatopatia Grave (Hepatite C Crônica) desde o ano 2000, sendo a Contribuinte aposentada desde janeiro de 2017, fazendo jus a isenção a partir dessa data; · Que as fontes pagadoras informaram em DIRF que os rendimentos pagos à Contribuinte eram tributáveis, visto que não tinham conhecimento da isenção da doença que lhe garante o não pagamento do IRPF, porem ao fazer o DIRPF 2017/2018 a mesma lança os valores como isento, uma vez que possui os requisitos para usufruir do não pagamento dos referidos impostos, razão pela qual haverá uma inconsistência nas declarações (da contribuinte e da fonte pagadora); · Buscase com o presente processo a homologação dos lançamentos alocados na declaração de forma isenta, servindo para que o fisco corrija e homologue os referidos pedidos; · Requer a restituição dos valores do Exercício 2017, Ano Calendário 2016 no valor de R$83.316,38; e do Exercício 2018, Ano Calendário 2017 no valor de R$48.685,94, totalizando em R$132.0002,32. · Na fl. 61 há a declaração da Fonte Pagadora em que atesta que a Contribuinte é aposentada conforme Portaria do DiretorGeral n. 3 de 2017 publicada no DOU em 09/01/2017; na fl. 62 há a juntada do Laudo Médico elaborado pela Secretaria de Estado de Saúde do Governo do Distrito Federal em que há atesta que a contribuinte é portadora do vírus Hepatite C (CID B 18.2) desde 2000, sintomática e Fl. 94DF CARF MF 4 atualmente se encontra com cirrose hepática compensada, sendo a infecção crônica; na fl. 64 consta o Laudo Médico oficial. Este é o relatório. Voto Conselheira Relatora Juliana Marteli Fais Feriato Admissibilidade Conforme consta da fl. 51, a Contribuinte tomou ciência da decisão em 05/07/2018, apresentando Recurso Voluntário em 01/08/2018 (fls.56), portanto tempestivo. Entretanto, não conheço do Recurso Voluntário por faltar interesse de agir no mesmo, sendo este um dos requisitos de admissibilidade, preliminar que se confunde com o mérito do presente julgamento. Isto, pois não se verifica pretensão resistida no presente caso. O lançamento diz respeito ao Lançamento por rendimentos indevidamente considerados como isentos por moléstia grave referente ao Exercício de 2015, ano calendário 2014. O Recurso Voluntário, em nenhum momento contestou o lançamento referente ao Exercício de 2015, ano calendário 2014, apenas requer o reconhecimento e a restituição dos valores do Exercício 2017, Ano Calendário 2016 (no valor de R$83.316,38) e do Exercício 2018, Ano Calendário 2017 (no valor de R$48.685,94), tendo em vista que, segundo a própria contribuinte, a mesma se aposentou em janeiro de 2017, fazendo jus a isenção a partir dessa data. Portanto, a Contribuinte não impugnou em nenhum momento, em seu Recurso Voluntário, o presente lançamento, referente ao Exercício de 2015, ano calendário 2014, razão pela qual não há pretensão resistida, impondo o não conhecimento do mesmo. Apenas por amor ao debate, verificase que o lançamento foi regular. No que consiste à isenção por moléstia grave, conforme constata a Legislação (Lei nº 7.713/88, art. 6º, XIV), as pessoas portadoras de doenças graves são isentas do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física (IRPF) desde que preencham cumulativamente, os seguintes requisitos: Art. 6º Ficam isentos do imposto de renda os seguintes rendimentos percebidos por pessoas físicas: XIV – os proventos de aposentadoria ou reforma motivada por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, hepatopatia grave, estados avançados da doença de Paget Fl. 95DF CARF MF Processo nº 17335.720442/201743 Acórdão n.º 2301005.779 S2C3T1 Fl. 94 5 (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome da imunodeficiência adquirida, com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma Portanto para a concessão da isenção necessário que o rendimento seja proveniente de aposentadoria/provendo e que o Contribuinte seja portador de qualquer das doenças elencadas no artigo. Além disto, necessária a apresentação de Laudo Pericial Oficial, conforme exigência do Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, no art. 39, XXXIII e §4º que assim determina: Art. 39. Não entrarão no cômputo do rendimento bruto XXXIII os proventos de aposentadoria ou reforma, desde que motivadas por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, estados avançados de doença de Paget (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome de imunodeficiência adquirida, e fibrose cística (mucoviscidose), com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma § 4º Para o reconhecimento de novas isenções de que tratam os incisos XXXI e XXXIII, a partir de 1º de janeiro de 1996, a moléstia deverá ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, devendo ser fixado o prazo de validade do laudo pericial, no caso de moléstias passíveis de controle. § 5° As isenções a que se referem os incisos XXXI e XXXIIIaplicamse aos rendimentos recebidos a partir: 1 do mês da concessão da aposentadoria, reforma ou pensão; II do mês da emissão do laudo ou parecer que reconhecer amoléstia, se esta for contraída após a aposentadoria, reforma oupensão; III da data em que a doença foi contraída, quando identificadano laudo pericial. Sobre o tema, observase as Súmulas deste R. Conselho Administrativo: Súmula CARF nº 43: Os proventos de aposentadoria, reforma ou reserva remunerada, motivadas por acidente em serviço e os percebidos por portador de moléstia profissional ou grave, ainda que contraída após a aposentadoria, reforma ou reserva remunerada, são isentos do imposto de renda. Fl. 96DF CARF MF 6 Súmula CARF nº 63: Para gozo da isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. No presente caso, no período apurado (Exercício de 2015, ano calendário 2014), constatase que a Contribuinte não preenche o primeiro requisito – rendimentos provenientes de aposentadoria. A mesma afirma em seu Recurso Voluntário que se aposentou apenas em janeiro de 2017, inclusive com prova documental deste fato (doc. Fl. 61). Portanto, os proventos recebidos no período apurado (Exercício de 2015, ano calendário 2014), não são provenientes de aposentadoria ou reforma, mas sim de trabalho assalariado e devido o lançamento. Com relação ao primeiro requisito, observase que a Contribuinte é aposentada pelo Estado de São Paulo, recebendo da São Paulo Previdência o valor de R$ 155.171,82 anualmente, à título de aposentadoria, inclusive não sendo este o motivo para o indeferimento da isenção na DRJ. Com relação às infrações de dedução indevida de contribuição à previdência oficial e compensação indevida de imposto de renda retido na fonte, verificase que a própria Fiscalização acatou a dedução de previdência oficial no valor de R$32.161,80, assim como acatou a compensação de IRRF de R$69.406,20, ambos relacionados aos rendimentos lançados e constantes da DIRF de fl. 43, conforme se constata no demonstrativo de cálculo da notificação à fl. 25, ou seja, não há pretensão resistida. Dessa forma, não há qualquer reparo ou litigio em relação aos termos do acordão da DRJ. Ante ao exposto, não se conhece do Recurso Voluntário. CONCLUSÃO Ante o exposto, voto por NÃO CONHECER do Recurso Voluntário. É como voto. Juliana Marteli Fais Feriato Relatora. (assinado digitalmente) Fl. 97DF CARF MF Processo nº 17335.720442/201743 Acórdão n.º 2301005.779 S2C3T1 Fl. 95 7 Fl. 98DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10680.722908/2013-42
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Oct 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jan 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Ano-calendário: 2009
PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. COMPENSAÇÃO. LIMITE. CRÉDITO DISPONÍVEL INVOCADO.
O sujeito passivo que apurar crédito do qual tenha direito à restituição ou a ressarcimento poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios, respeitado o limite do crédito disponível invocado.
Numero da decisão: 3401-005.448
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan Presidente e Redator Ad Hoc.
Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Marcos Antonio Borges (suplente convocado), Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, André Henrique Lemos, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente). Ausente justificadamente a Conselheira Mara Cristina Sifuentes.
Nome do relator: ANDRE HENRIQUE LEMOS
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2009 PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. COMPENSAÇÃO. LIMITE. CRÉDITO DISPONÍVEL INVOCADO. O sujeito passivo que apurar crédito do qual tenha direito à restituição ou a ressarcimento poderá utilizá-lo na compensação de débitos próprios, respeitado o limite do crédito disponível invocado.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Redator Ad Hoc. Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Marcos Antonio Borges (suplente convocado), Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, André Henrique Lemos, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente). Ausente justificadamente a Conselheira Mara Cristina Sifuentes.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 5; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1438; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C4T1 Fl. 132 1 131 S3C4T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10680.722908/201342 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3401005.448 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 22 de outubro de 2018 Matéria PER PIS/COFINS DDE Recorrente BHMÁQUINAS IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO S.A. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Anocalendário: 2009 PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. COMPENSAÇÃO. LIMITE. CRÉDITO DISPONÍVEL INVOCADO. O sujeito passivo que apurar crédito do qual tenha direito à restituição ou a ressarcimento poderá utilizálo na compensação de débitos próprios, respeitado o limite do crédito disponível invocado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan – Presidente e Redator Ad Hoc. Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Marcos Antonio Borges (suplente convocado), Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, André Henrique Lemos, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Cássio Schappo e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). Ausente justificadamente a Conselheira Mara Cristina Sifuentes. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 68 0. 72 29 08 /2 01 3- 42 Fl. 132DF CARF MF 2 Relatório Versam os autos sobre PER/DCOMP de COFINS, anocalendário 2009, com Despacho Decisório Eletrônico DDE que, diante da inexistência de crédito, não homologou a compensação declarada, pois de acordo com o DARF descrito no PER/DCOMP, foram localizados um ou mais pagamentos, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. A empresa presentou Manifestação de Inconformidade na qual defendeu que as diferenças apontadas nos DDE referemse a não retificação das DCTF dos períodos analisados, razão pela qual retificou as Declarações, apresentando diferenças e créditos para cada período. Disse também que apresentou DACON retificadores muito antes das DCTF retificadoras, os quais poderiam ter sido confrontados oportunamente. Sobreveio decisão da DRJ/BHE, a qual, por unanimidade de votos de votos julgou procedente a manifestação de inconformidade, para reconhecer o direito creditório e homologar a compensação declarada até o limite do crédito reconhecido, nos termos da ementa abaixo transcrita: PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. CRÉDITO COMPROVADO. O sujeito passivo que apurar crédito do qual tenha direito à restituição ou a ressarcimento poderá utilizálo na compensação de débitos próprios. A Contribuinte tomou ciência da referida decisão por meio AR, em 11/06/2013, vindo a interpor recurso voluntário em 11/07/2013, basicamente defendendo que possui suficiência de créditos não só para satisfazer os eventuais débitos existentes como também para compensálos com os débitos indicados no PER/DCOMP. Posteriormente, houve despacho para que houvesse explicação do porquê da mudança de numeração do processo, sobrevindo Despacho de Encaminhamento com o seguinte teor: Em atendimento ao Despacho de Devolução emitido pela Terceira Câmara da 3ª Seção do CARF, informamos que foi criado novo número de processo para prosseguimento do pleito do contribuinte em razão de o Acórdão da DRJ/BHE ter julgado a Manifestação de Inconformidade Procedente, o que ocasionou o encerramento do processo no SIEFPROCESSO. Porém , o crédito reconhecido pela DRJ não foi suficiente para quitar os débitos informados na DCOMP e o contribuinte apresentou Recurso Voluntário alegando que "os pagamentos existentes eram suficientes para liquidar o débito apurado". Por não ser possível informar o questionamento no SIEF, foi criado o presente processo, vinculado no SIEF ao processo de crédito original. Retornese ao CARF para prosseguimento. Por fim, com o mesmo objeto e partes, pulverizados entre PIS e COFINS, alterandose apenas o anocalendário e número do PER/DCOMP, noticiese que há 18 (dezoito) processos, todos apreciados nesta sessão de julgamento, incluído o presente: (1) 10680.722899/201390, (2) 10680.722898/201345, (3) 10680.722900/201386, (4) Fl. 133DF CARF MF Processo nº 10680.722908/201342 Acórdão n.º 3401005.448 S3C4T1 Fl. 133 3 10680.722901/201321, (5) 10680.722902/201375, (6) 10680.722908/201342, (7) 10680.722907/201306, (8) 10680.722896/201356, (9) 10680.722905/201317, (10) 10680.722904/201364, (11) 10680.722897/201309, (12) 10680.722892/201378, (13) 10680.722893/201312, (14) 10680.722894/201367, (15) 10680.722903/201310, (16) 10680.722895/201310, (17) 10680.722906/201353 e (18) 10680.722949/201339. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Redator Ad Hoc O voto a seguir reproduzido é de lavra do Conselheiro André Henrique Lemos, relator original do processo, que, conforme Portaria CARF no 143, de 30/11/2018, teve o mandato extinto antes da formalização do resultado do presente julgamento. O texto do voto, in verbis, foi retirado da pasta da sessão de julgamento, repositório oficial do CARF, onde foi disponibilizado pelo relator original aos demais conselheiros. Na versão inicial, o relator propunha a conversão em diligência, mas, após os debates no colegiado, adotou posicionamento pela negativa de provimento, como aclarado adiante. O recurso voluntário interposto é tempestivo, logo, dele tomo conhecimento. Viuse que a DRJ/BHE, à unanimidade de votos, julgou procedente a manifestação de inconformidade para reconhecer o direito creditório e homologar a compensação até o limite do crédito reconhecido e que a Contribuinte recorreu quanto à parte do crédito que diz existir, mas que a Administração entende inexistente, como sintetizado na parte final do acórdão da DRJ/BHE: As verificações efetuadas nos sistemas da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) e nos autos desse processo confirmam os fatos relatados e podem ser assim consolidadas: Fl. 134DF CARF MF 4 Em face do exposto, voto por julgar PROCEDENTE a manifestação de inconformidade apresentada para: • reconhecer como pagamento indevido ou a maior a importância de R$ 121.027,48; • homologar a compensação em litígio até o limite do crédito reconhecido, observadas as normas legais estabelecidas. A DRF de origem, para fins de operacionalização nos sistemas da RFB, deverá atentar para a existência de DComp relacionadas à utilização do crédito acima apurado. Pelo que se percebe da tabela, antes da ciência do despacho decisório, DCTF e DACON indicavam débitos distintos. Após o despacho decisório, a DCTF foi retificada e ambas as declarações passaram a espelhar um mesmo débito, de R$ 4.105,66, com pagamento, em DARF de R$ 125.133,14, resultando em crédito de R$ 121.027,48, insuficiente para homologar integralmente as compensações. A empresa alega, em recurso voluntário, que os pagamentos efetuados para a competência foram de R$ 162.177,28. Ocorre que a compensação demandada pela empresa invoca o pagamento de R$ 125.133,14 (dos quais apenas R$ 121.027,48 estão disponíveis), não cabendo a análise, neste processo administrativo, de crédito distinto do solicitado pela postulante da compensação. Tal análise, ainda que em procedimento próprio, distinto, obedecidos os prazos para a demanda, acarretaria nova apuração, e comprovação da certeza e da liquidez necessárias à compensação, a cargo do postulante. O sujeito passivo que apurar crédito do qual tenha direito à restituição ou a ressarcimento poderá utilizálo na compensação de débitos próprios, desde que respeitado o limite do crédito disponível invocado. Fl. 135DF CARF MF Processo nº 10680.722908/201342 Acórdão n.º 3401005.448 S3C4T1 Fl. 134 5 Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 136DF CARF MF
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Numero do processo: 13766.000102/2007-08
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jan 14 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Ano-calendário: 2001
ADI SRF Nº 16/2002. SIMPLES FEDERAL. DCTF. ATRASO NA ENTREGA. MULTA. INTIMAÇÃO.
Nos casos de microempresa que não tenha realizado formalmente a opção pelo Simples Federal, mas que vinha fazendo recolhimentos nessa sistemática e apresentando declarações simplificadas (ADI SRF nº 16/2002), a multa por falta de entrega ou por entrega em atraso de DCTF só pode ser aplicada se tiver havido prévia intimação do contribuinte.
Numero da decisão: 1002-000.520
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Ailton Neves da Silva - Presidente.
(assinado digitalmente)
Breno do Carmo Moreira Vieira - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ailton Neves da Silva (presidente da Turma), Breno do Carmo Moreira Vieira, Leonam Rocha de Medeiros e Ângelo Abrantes Nunes.
Nome do relator: BRENO DO CARMO MOREIRA VIEIRA
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Ano-calendário: 2001 ADI SRF Nº 16/2002. SIMPLES FEDERAL. DCTF. ATRASO NA ENTREGA. MULTA. INTIMAÇÃO. Nos casos de microempresa que não tenha realizado formalmente a opção pelo Simples Federal, mas que vinha fazendo recolhimentos nessa sistemática e apresentando declarações simplificadas (ADI SRF nº 16/2002), a multa por falta de entrega ou por entrega em atraso de DCTF só pode ser aplicada se tiver havido prévia intimação do contribuinte.
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ATRASO NA ENTREGA DA DCTF. Recorrente DALTIO VASCONCELOS DISTRIBUIDORA LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Anocalendário: 2001 ADI SRF Nº 16/2002. SIMPLES FEDERAL. DCTF. ATRASO NA ENTREGA. MULTA. INTIMAÇÃO. Nos casos de microempresa que não tenha realizado formalmente a opção pelo Simples Federal, mas que vinha fazendo recolhimentos nessa sistemática e apresentando declarações simplificadas (ADI SRF nº 16/2002), a multa por falta de entrega ou por entrega em atraso de DCTF só pode ser aplicada se tiver havido prévia intimação do contribuinte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Ailton Neves da Silva Presidente. (assinado digitalmente) Breno do Carmo Moreira Vieira Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 76 6. 00 01 02 /2 00 7- 08 Fl. 42DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ailton Neves da Silva (presidente da Turma), Breno do Carmo Moreira Vieira, Leonam Rocha de Medeiros e Ângelo Abrantes Nunes. Relatório Tratase de retorno de diligência, nos termos da Resolução n° 1002000.005, proferida por esta Turma Extraordinária em sessão de 07 de março de 2008 (efls. 28 e 29). Em homenagem à economia processual, reproduzo o Relatório produzido naquela oportunidade: Foram distribuídos os autos para análise de controvérsia envolvendo a cobrança de penalidade acessória, consubstanciada em multa por atraso na entrega da Declaração de Débitos e Créditos Federais DCTF. In casu, há exigências vinculadas ao 1º, 2º, 3º e 4º trimestre do anocalendário de 2001, perfazendo um total a pagar no valor de R$ 2.870,23 (dois mil oitocentos e setenta reais e vinte e três centavos) (efl. 7). Diante da constituição dos lançamentos, protocolouse impugnação (efls. 2/3) alegando em síntese que, durante o período de 01/01/1997 a 31/12/2004, houve recolhimento de tributos pela sistemática do Simples Federal tão somente para fins de obtenção de Certidão Negativa de Débitos Federais CND, uma vez que não haveria enquadramento em situação de obrigatoriedade à apresentação de DCTF. Aproveitouse a arrazoado para pedir a inclusão retroativa na modalidade simplificada de pagamento. A reclamação administrativa foi então conhecida, fazendo com que a 15ª Turma da DRJ/RJ I proferisse o Acórdão nº 1219.100 (efls. 16/18) que, por unanimidade de votos, determinou a manutenção integral do crédito tributário, com a ressalva de que, mediante os elementos coletados nos sistemas da RFB, ainda haveria processo de revisão de exclusão de Simples pendente de análise, referente ao período dos lançamentos de ofício. Notadamente, entendeuse à época que não haveria empecilho para o julgamento. Ato contínuo, irresignada com a decisão a quo, a autuada interpôs recurso voluntário (efls. 23/24), reiterando os mesmos argumentos rechaçados na impugnação. Os autos seguiram em diligência, observando o seguinte escopo: Mercê do reexame da decisão de piso, carecem os autos de evidências a ponto de formar convicção a respeito da forma de tributação que restou definitiva para o anocalendário 2001. Em verdade a própria Delegacia de Julgamento suscita essa dúvida ao deixar consignado: O pedido efetuado em 01.02.2007 de inclusão retroativa ao SIMPLES (fl.08) foi de revisão da decisão de exclusão do Fl. 43DF CARF MF Processo nº 13766.000102/200708 Acórdão n.º 1002000.520 S1C0T2 Fl. 43 3 SIMPLES, não suspendendo os efeitos da referida decisão (Ato Declaratório de Exclusão), de forma que o referido processo, ainda pendente de julgamento, não obsta o presente julgamento.(grifei) De fato, compreendo como premente esclarecimento advindo da unidade de origem. Tomo por base que a 1ª instância julgadora faz menção a processo administrativo, então com pendência de julgamento, cujo objeto discutiria a exclusão do Simples do ano calendário de 2001. Compulsando o processo, não há elementos que definam essa situação. Considerando que este aspecto seja crucial para estabelecer a legitimidade da exigência alojada neste processo, decido por sobrestar o presente julgamento, de modo que os autos retornem à origem com a finalidade de que sejam prestadas informações acerca do regime de tributação correspondente ao ano calendário 2001. Em retorno da diligência, adimplindo por completa a solicitação desta Turma Extraordinária e com inegável rapidez, a Delegacia da Receita Federal do Brasil em Vitória/ES informou o que segue (efl. 38): Nessa oportunidade, juntouse, também, o requerimento do Contribuinte, no qual postulava a inclusão retroativa ao SIMPLES, leiase (efl. 34): Fl. 44DF CARF MF 4 Tal requerimento foi acatado pelo parecer SEORT/DRF/VIT n° 2168/2010 (efls. 35 à 37), refletido no consequente Despacho Decisório: É o relatório. Voto Conselheiro Breno do Carmo Moreira Vieira Relator O presente Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Passo à análise dos pontos suscitados no Recurso. Quanto ao mérito, observo que assiste razão ao Recorrente. Sabese que aqueles outrora enquadrados na modalidade do SIMPLES Federal não eram obrigados a cumprir com a obrigação acessória calcada na entrega da DCTF. Ademais, quedase ausente qualquer intimação expressa para a entrega desta, conforme demanda o Ato Declaratório Interpretativo SRF nº 16, de 2 de outubro de 2002. Aliás, a situação retratada pelo Contribuinte já encontra amparo na jurisprudência do CARF, pelo que cito o teor do Voto do Conselheiro Roberto Silva Junior, Fl. 45DF CARF MF Processo nº 13766.000102/200708 Acórdão n.º 1002000.520 S1C0T2 Fl. 44 5 proferido no Acórdão n° 1301002.823 (unânime), na sessão de 13 de março de 2018, adotandoo desde já como razões de decidir, em cumprimento aos ditames do §1º do art. 50 da Lei nº 9.784/1999 e em atenção ao disposto no §3º do art. 57 do RICARF: O lançamento contra o qual a recorrente se insurge referese à multa por atraso na entrega de DCTF. O argumento central do recurso é de que a recorrente, estando incluída no regime das microempresas, não se via obrigada a apresentar DCTF; mas, por orientação errônea, as apresentou a fim de eliminar pendências que impediam certidão de regularidade fiscal. A DRF confirmou que a recorrente se comportara, ao longo de determinado período, como se fosse optante do Simples, muito embora apenas a partir de janeiro de 2004 constasse dos sistemas da Receita Federal a inclusão da recorrente naquele regime. O problema aqui é semelhante ao de outras microempresas que erraram no momento de formalizar a opção pelo regime diferenciado de tributação instituído pela Lei nº 9.317/1996. Em 1997, ocorreu uma alteração no regime tributário das microempresas, que deixou de ser o da Lei nº 7.256/1984, e passou a ser o da Lei nº 9.317/1996, denominado desde então de Simples. A transição de uma sistemática para outra fezse com alguns percalços. Seja por má interpretação das orientações emanadas da Receita Federal, ou seja por falta de clareza dos formulários a que os contribuintes estavam obrigados para fazer a opção pela nova sistemática de tributação, o fato incontestável é que muitos contribuintes deixaram de fazer a opção pelo Simples ou o fizeram de modo equivocado e, por isso, não ingressaram formalmente no regime. Porém, esses mesmos contribuintes, supondo estarem incluídos no Simples, passaram a recolher os tributos nessa sistemática e a apresentar a chamada declaração simplificada. Tudo isso, sem qualquer obstáculo dos sistemas da Receita Federal, o que acabou gerando nos contribuintes a convicção de que se encontravam regularmente incluídos no regime das microempresas e em dia com as obrigações tributárias, tanto a principal quanto a acessória. Anos depois, o erro viria a ser constatado, no mais das vezes, quando o contribuinte solicitava uma certidão negativa. Mas, nesse momento, já não era fácil corrigir o erro, pois implicava vários procedimentos, entre os quais novas declarações, pedidos de restituição de valores pagos, recolhimentos individuais de impostos e contribuições que não foram feitos na data do respectivo vencimento etc. O problema assumiu tal proporção, pelo número de contribuintes apanhados nessa teia, que a Receita Federal se viu impelida a editar um ato normativo conferindo a Delegados e Inspetores o poder de convalidar situações fáticas já Fl. 46DF CARF MF 6 consumadas, para com efeito retroativo incluir no Simples determinados contribuintes. Com esse objetivo, foi editado o Ato Declaratório Interpretativo SRF nº 16, de 2 de outubro de 2002, com a seguinte redação: Artigo único. O Delegado ou o Inspetor da Receita Federal, comprovada a ocorrência de erro de fato, pode retificar de ofício tanto o Termo de Opção (TO) quanto a Ficha Cadastral da Pessoa Jurídica (FCPJ) para a inclusão no Simples de pessoas jurídicas inscritas no Cadastro Nacional das Pessoas Jurídicas (CNPJ), desde que seja possível identificar a intenção inequívoca de o contribuinte aderir ao Simples. Parágrafo único. São instrumentos hábeis para se comprovar a intenção de aderir ao Simples os pagamentos mensais por intermédio do Documento de Arrecadação do Simples (Darf Simples) e a apresentação da Declaração Anual Simplificada. A própria Administração reconheceu que, na grande maioria dos casos, havia boafé dos contribuintes. E, assim sendo, admitiu a possibilidade de ter havido erro na formalização do ato jurídico. O erro não seria um vício de vontade, mas na forma de manifestála. Entendeu a Administração que a vontade havia de prevalecer sobre a forma, desde que fosse possível, pelo comportamento do contribuinte, perceber, de modo inequívoco, que a vontade se dirigia, desde o início, para a opção pelo Simples. É óbvio que a solução preconizada no ADI SRF nº 16/2002 tinha como pressuposto inarredável o fato de o contribuinte não se enquadrar em nenhuma hipótese de vedação ao ingresso no regime das microempresas. No caso em exame, constatase que a recorrente fez recolhimentos na sistemática do Simples e que os débitos não recolhidos se encontram parcelados (fls. 27 a 29 e 225 a 227). Por outro lado, a recorrente apresentou declarações simplificadas relativas aos anos 1999 a 2002 e 2004 a 2006 (fl. 228). Portanto, cumpriu as obrigações tributárias principais e acessórias na certeza de que estava incluído no regime. Ademais, nada há nos autos que indique a existência de algum elemento impeditivo ao ingresso no referido regime de tributação. Essas circunstâncias já autorizariam, com base no ADI SRF nº 16/2002, à inclusão retroativa da recorrente no Simples. Mas este processo não cuida de inclusão retroativa, mas sim de multa por atraso na entrega da DCTF. Ocorre, entretanto, que essa declaração, a DCTF, não é exigível de quem está no Simples. Portanto, para ser coerente com a posição assumida pela própria Receita Federal no ADI SRF nº 16, só se poderia admitir multa por atraso na entrega de DCTF, no caso concreto, se houvesse intimação expressa nesse sentido, com prazo assinalado para o cumprimento da obrigação acessória. Apenas Fl. 47DF CARF MF Processo nº 13766.000102/200708 Acórdão n.º 1002000.520 S1C0T2 Fl. 45 7 para as DCTFs entregues após o decurso do prazo fixado na intimação caberia a multa por atraso. Ou seja, a Administração teria de externar as razões pelas quais não procedera conforme o ADI, mesmo estando presentes as circunstâncias indicadas no parágrafo único do referido ato declaratório, e então intimar o contribuinte a apresentar as DCTFs. No caso em tela, não há notícia de que a recorrente tenha sido intimada a apresentar qualquer declaração. Portanto, a multa não é cabível. Conclusão Com tudo o que foi exposto nos tópicos anteriores, resta claro que os argumentos esposados pelo Recorrente merecem ser acolhidos. Portanto, VOTO pelo PROVIMENTO do Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Breno do Carmo Moreira Vieira Relator Fl. 48DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.002021/2005-19
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Sep 12 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Feb 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2001
DECRETO-LEI 4.657/1942, LINDB, ART. 24. INAPLICABILIDADE AO CASO.
O artigo 24, do Decreto-Lei nº 4.657/1942 (LINDB), incluído pela Lei nº 13.655/2018, não se aplica, em tese, ao caso dos autos.
ADMISSIBILIDADE. DIVERGÊNCIA DE INTERPRETAÇÃO NA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA.
Os fundamentos para decidir o acórdão paradigma são suficientes para a reforma do acórdão recorrido, razão pela qual resta demonstrada a divergência na interpretação da legislação tributária, requisito de admissibilidade previsto no RICARF para o conhecimento do recurso especial.
PREMISSA. INSTITUTO JURÍDICO-TRIBUTÁRIO.
O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e trata-se de instituto jurídico-tributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica.
APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO.
São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformam-se em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão).
DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO.
A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constitui-se em espécie do gênero despesa, e, naturalmente, encontra-se submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99, submetendo-se aos testes de necessidade, usualidade e normalidade.
DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS.
Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica.
CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO.
A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontram-se atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica.
AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE.
Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Deve-se consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolida-se cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, toma-se o momento em que o contribuinte aproveita-se da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável ao caso e estabelecer o termo inicial para contagem do prazo decadencial.
Numero da decisão: 9101-003.745
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do art. 24 da LINDB, vencidos os conselheiros André Mendes de Moura, Flávio Franco Corrêa e Viviane Vidal Wagner, que não conheceram. Acordam, ainda, por maioria de votos, quanto ao mérito do art. 24 da LINDB, em não aplicá-lo ao caso concreto, vencido o conselheiro Luís Flávio Neto, que entendeu que aplicava em tese e que, como pressuposto para aplicá-lo ao caso concreto, haveria necessidade de abrir vista à PGFN para analisar os acórdãos trazidos aos autos pelo contribuinte. Votaram pelas conclusões os conselheiros André Mendes Moura, Flávio Franco Corrêa, Viviane Vidal Wagner, e Rafael Vidal de Araújo, que não o aplicavam em tese, e o conselheiro Demetrius Nichele Macei, que aplicava em tese, mas não ao caso concreto em razão de irretroatividade. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer do Recurso Especial com base no primeiro paradigma, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa (relatora), Luis Flávio Neto, Gerson Macedo Guerra e Demetrius Nichele Macei, que não conheceram do recurso. No mérito, (i) quanto à amortização do ágio, por voto de qualidade, acordam em dar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa (relatora), Luis Flávio Neto, Gerson Macedo Guerra e Demetrius Nichele Macei, que lhe negaram provimento e (ii) quanto à multa qualificada, por maioria de votos, acordam em entender que o colegiado de origem não apreciou a matéria, vencido o conselheiro Luís Flávio Neto. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em determinar o retorno dos autos ao colegiado de origem, a fim de que se aprecie as seguintes matérias: multa qualificada e CSLL. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro André Mendes de Moura. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros André Mendes Moura, Flávio Franco Corrêa, Luís Flávio Neto, Demetrius Nichele Macei e Rafael Vidal de Araújo.
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Cristiane Silva Costa Relatora
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Luis Flávio Neto, Viviane Vidal Wagner, Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei e Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício).
Nome do relator: CRISTIANE SILVA COSTA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2001 DECRETO-LEI 4.657/1942, LINDB, ART. 24. INAPLICABILIDADE AO CASO. O artigo 24, do Decreto-Lei nº 4.657/1942 (LINDB), incluído pela Lei nº 13.655/2018, não se aplica, em tese, ao caso dos autos. ADMISSIBILIDADE. DIVERGÊNCIA DE INTERPRETAÇÃO NA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. Os fundamentos para decidir o acórdão paradigma são suficientes para a reforma do acórdão recorrido, razão pela qual resta demonstrada a divergência na interpretação da legislação tributária, requisito de admissibilidade previsto no RICARF para o conhecimento do recurso especial. PREMISSA. INSTITUTO JURÍDICO-TRIBUTÁRIO. O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e trata-se de instituto jurídico-tributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO. São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformam-se em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO. A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constitui-se em espécie do gênero despesa, e, naturalmente, encontra-se submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99, submetendo-se aos testes de necessidade, usualidade e normalidade. DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO. A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontram-se atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Deve-se consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolida-se cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, toma-se o momento em que o contribuinte aproveita-se da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável ao caso e estabelecer o termo inicial para contagem do prazo decadencial.
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2001 DECRETOLEI 4.657/1942, LINDB, ART. 24. INAPLICABILIDADE AO CASO. O artigo 24, do DecretoLei nº 4.657/1942 (LINDB), incluído pela Lei nº 13.655/2018, não se aplica, em tese, ao caso dos autos. ADMISSIBILIDADE. DIVERGÊNCIA DE INTERPRETAÇÃO NA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. Os fundamentos para decidir o acórdão paradigma são suficientes para a reforma do acórdão recorrido, razão pela qual resta demonstrada a divergência na interpretação da legislação tributária, requisito de admissibilidade previsto no RICARF para o conhecimento do recurso especial. PREMISSA. INSTITUTO JURÍDICOTRIBUTÁRIO. O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e tratase de instituto jurídicotributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO. São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 20 21 /2 00 5- 19 Fl. 10713DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.714 2 A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constituise em espécie do gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99, submetendose aos testes de necessidade, usualidade e normalidade. DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO. A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontram se atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Devese consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolidase cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, tomase o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável ao caso e estabelecer o termo inicial para contagem do prazo decadencial. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do art. 24 da LINDB, vencidos os conselheiros André Mendes de Moura, Flávio Franco Corrêa e Viviane Vidal Wagner, que não conheceram. Acordam, ainda, por maioria de votos, quanto ao mérito do art. 24 da LINDB, em não aplicálo ao caso concreto, vencido o conselheiro Luís Flávio Neto, que entendeu que aplicava em tese e que, como pressuposto para aplicálo ao caso concreto, haveria necessidade de abrir vista à PGFN para analisar os acórdãos trazidos aos autos pelo contribuinte. Votaram pelas conclusões os conselheiros André Mendes Moura, Flávio Franco Corrêa, Viviane Vidal Wagner, e Rafael Vidal de Araújo, que não o aplicavam Fl. 10714DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.715 3 em tese, e o conselheiro Demetrius Nichele Macei, que aplicava em tese, mas não ao caso concreto em razão de irretroatividade. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em conhecer do Recurso Especial com base no primeiro paradigma, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa (relatora), Luis Flávio Neto, Gerson Macedo Guerra e Demetrius Nichele Macei, que não conheceram do recurso. No mérito, (i) quanto à amortização do ágio, por voto de qualidade, acordam em dar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa (relatora), Luis Flávio Neto, Gerson Macedo Guerra e Demetrius Nichele Macei, que lhe negaram provimento e (ii) quanto à multa qualificada, por maioria de votos, acordam em entender que o colegiado de origem não apreciou a matéria, vencido o conselheiro Luís Flávio Neto. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em determinar o retorno dos autos ao colegiado de origem, a fim de que se aprecie as seguintes matérias: multa qualificada e CSLL. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro André Mendes de Moura. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros André Mendes Moura, Flávio Franco Corrêa, Luís Flávio Neto, Demetrius Nichele Macei e Rafael Vidal de Araújo. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa – Relatora (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Luis Flávio Neto, Viviane Vidal Wagner, Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei e Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Fl. 10715DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.716 4 Relatório Tratase de processo originado pela lavratura de Auto de Infração de IRPJ, CSLL, PIS, COFINS e IRFonte, pelas seguintes infrações, relacionadas ao ano de 2001, (i omissão de receitas (receitas não contabilizadas e passivo fictício – conforme Termos de Verificação Fiscal I e III); (ii) glosa de custos quanto a bens ou serviços vendido, despesas indedutíveis e de despesas financeiras (conforme TVFs II, IV, V e VI). (fls. 282, volume 2). Ademais, foi lançada multa de ofício no percentual de 75% quanto à quase totalidade das infrações, impondose multa qualificada de 150% quanto ao ágio. Ressaltese trecho do Termo de Verificação Fiscal nº 2, que trata do ágio e multa qualificada, ainda em discussão nestes autos (fls. 240/250, volume 2, pdf. 37): A Abril S A e Havas fizeram aporte de capital na empresa Serra das Araras Participações Ltda., em 25/08/99 aumentando o capital social desta mediante no valor de R$ 126.671.893,00, mediante transferência das quotas adquiridas junto aos quotista da Editora Ática, tornando assim, quotista controladora com 92.5% do capital social e da Editora Scipione. Nesta operação a empresa Serras da Araras registrou um ágio sobre investimentos decorrente do aquisição da Editora Scipione no valor de R$ 54.960.739,99. Em ato continuo as quotas recebidas da empresa Serra das Araras foram utilizadas para aumento do social da empresa JVHA, como será demonstrado abaixo. A empresa Serras das Araras foi constituída em 09/07/99, com capital social inicial de R$ 99,00, o qual foi subscrito e, a integralização ocorreria dentro de 24 meses de acordo com as necessidades financeiras desta, tendo como sócios quotistas os(as) Srs(as). Maria Eduarda Ribeiro Fischer, Antonio Basílio P.C.Albuquerque e Jean Roy Jr., estabelecida a Avenida Rio Branco, n.85 12 andar (parte) na Cidade do Rio de Janeiro, cabendo salientar que os quotistas são membros do Escritório de Advocacia Gouvêa Vieira e, a empresa Serras das Araras tem o mesmo endereço deste. A empresa AROEIRA EDUCAÇÃO S.A foi constituída em 09/07/98, atual denominação social de PORTELCOM NORDESTE CELULAR S A, com o capital inicial de R$ 1.000,00, estabelecida a Avenida Rio Branco, 85 14 (parte) na Cidade do Rio de Janeiro. Após a dominação social inicial, através da AGE de 05/08/99 passou denominarse JVHA PARTICIPAÇÕES S A e em 20/12/01 para JJVA PARTICIPAÇÕES S A, conforme AGE desta data. Cabe salientar que o endereço é mesmo do Escritório de Advocacia Gouveia Vieira, e na AGE de 09/07/98 secretariou a mesma a Sra. Maria Eduarda Ribeiro Fischer, isto é, a sócia quotista da empresa Serra das Araras Participações Ltda, como mencionado no parágrafo anterior. Fl. 10716DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.717 5 (...) Estamos diante de atos simulados com o único intuito de reduzir a base de cálculo do imposto de renda sobre o lucro e da contribuição social sobre o lucro líquido, uma vez que desde a aquisição das participações societárias das empresas Atiça e Scipione, os sócios das mesmas continuam sendo Abril S A e Havas S.A. e, a administração e controle das operações são feitas por funcionários que portam crachás com a logomarca da ABRIL e estão em processo de transferência física para o prédio da EDITORA ABRIL. (...) Diante do exposto, concluímos que o ÁGIO AMORTIZADO contabilizado durante o ano calendário de 2001 como despesa operacional, decorrente da aquisição de investimento, o qual, transitou pela empresa SERRA DAS ARARAS com a única finalidade desta ser incorporada no ano seguinte, transferindo o ágio pago pelos acionistas para ser amortizado como despesa operacional das investidas, traduz em DESPESAS NÃO DEDUTÍVEIS, para fins de apuração do lucro real e da base de calculo da contribuição social sobre o lucro liquido. Cabe salientar que as únicas operações realizadas pela empresa SERRA DAS ARARAS, foram o registro dos investimentos efetuados na Ática e na Scipione em 1999 e posteriormente de 2000 e, a cisão total desta e por conseguinte sua extinção no ano de 2000. O Contribuinte optou pelo pagamento do IRPJ com base no lucro real anual no ano calendário de 2001, tendo levantado balancetes mensais para fins de pagamento/suspensão dos valores devidos como estimativa do IRPJ e da CSLL. II – DO ENQUADRAMENTO LEGAL O contribuinte infringiu os Artigos 247, 249, inciso I, 251 e parágrafo único, e 299, do RIR/99. A multa de ofício é qualificada tendo em vista os atos simulados, de acordo com o disposto no artigo 44, inciso II, da Lei n. 9.430/94. O contribuinte apresentou Impugnação Administrativa (fls. 323, volume 2, pdf 120), reiterando as razões de defesa por petição às fls. 8.753, após intimação para regularização quanto à representação processual. (pdf. 2, volume 39). A Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo decidiu pela manutenção parcial do lançamento, conforme acórdão do qual se destaca ementa (fls. 8.859, pdf. 107, volume 39): ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2001 NULIDADE. PASSIVO FICTÍCIO. BASE DE CÁLCULO. INOCORRÊNCIA. Fl. 10717DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.718 6 Não é causa de nulidade suposto erro na determinação da base de cálculo, no caso, tomar o saldo da conta como base de cálculo, em lançamento de passivo fictício. Preliminar indeferida. GLOSA DE DESPESAS FINANCEIRAS NÃO NECESSÁRIAS. BASE DE CÁLCULO. INOCORRÊNCIA. Não é causa de nulidade suposta falta de causalidade entre o motivo do lançamento e o método de cálculo, no caso, calcular a despesaf inanceirad esnecessária tomando como base de cálculo os juros simples sobre as médias simples entre os saldos iniciais e finais de cada mês da matéria prima própria em poder de terceiros, emprestada sem a cobrança de encargos financeiros, sendo a taxa utilizada a dos contratos de mútuo entre o interessado e o terceiro. Preliminar indeferida. GLOSA DE DESPESAS FINANCEIRAS NÃO NECESSÁRIAS. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. A própria impugnação demonstra que o interessado compreendeu a infração que lhe foi imputada e como foi apurado o valor tributável. Preliminar indeferida. DILIGÊNCIA PARA JUNTADA POSTERIOR DE PROVAS. GLOSA DE DESPESAS. DIREITOS AUTORAIS. Indeferese o pedido, pois a prova documental deve ser apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo posteriormente, exceto se demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior, ou em razão de fato ou direito superveniente, ou que se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. A instância administrativa não se manifesta a respeito de suposta inconstitucionalidade e/ou ilegalidade da legislação tributária. ASSUNTO: NORMAS TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2001 GERAIS DE DIREITO DECADENCIA. PASSIVO FICTICIO. BASE DE CÁLCULO. SALDO DA CONTA. OBRIGAÇÕES PROVENIENTES DE PERÍODOS JÁ DECAÍDOS. LNOCORRÊNCIA. A presunção legal de omissão de receita caracterizada por passivo fictício tanto no caso de obrigação cuja existência não foi comprovada, como no de irregular manutenção no passivo decorre da lógica contábil de que tais procedimentos têm por objetivo impedir o surgimento de saldo credor de caixa. Portanto, o dever de comprovar a obrigação mantida no passivo Fl. 10718DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.719 7 em período não decaído permanece, mesmo tendo ela sido registrada em período já decaído, sob pena de não se poder aplicar a presunção legal ao passivo de longo prazo. Preliminar indeferida. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2001 RECEITA NÃO CONTABILIZADA. MÚTUO DE MATÉRIA PRIMA. ATIVO DO MUTUANTE INFERIOR AO CORRETO. O saldo da conta "estoque em poder de terceiros" inferior ao correto, na ausência de prova em contrário, autoriza a presunção humana de que tal diferença resulta de receita não contabilizada. Lançamento procedente. OMISSÃO DE RECEITAS. PASSIVO FICTÍCIO. FORNECEDORES Excluise do valor tributável a parcela comprovada por meio de documentos hábeis coincidentes em datas e valores. Lançamento procedente em parte. JUROS A PAGAR. "VENDOR". Excluise do valor tributável a parcela comprovada por meio de documentos hábeis coincidentes em datas e valores. Lançamento procedente em parte MATERIAL DE TERCEIROS. Mantémse o valor tributável, visto que a parcela comprovada de créditos por meio de documentos hábeis coincidentes em datas e valores não foi suficiente para justificar a existência de saldo credor nessa conta. Lançamento procedente. GLOSA DE CUSTOS. ERRO NA APROPRIAÇÃO DE CUSTOS EM 2000. AJUSTES DE ESTOQUES EM 2001. DÉBITO A DESPESA VEDADO PELA LEI DAS S/A. AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL PARA EXCLUSÃO NO LALUR. O erro na apropriação de custos no anocalendário de 2000, detectado no ano seguinte que indevidamente onerou os estoques finais do anocalendário de 2000, diminuindo o CPV e aumentando o lucro na mesma proporção no mesmo ano calendário deve ter seus efeitos contábeis (ajustes) registrados pelo crédito ao estoque inicial de 2001, cuja contrapartida é débito à conta de Lucros Acumulados Ajustes de Exercícios Anteriores, nos termos da Lei das S/A, que veda expressamente que a retificação de erros de períodos anteriores transite por conta de resultado. Não há previsão legal para excluir tais ajustes no LALUR, em 2001, pois tais valores referemse ao ano anterior. O procedimento tributário apropriado ao fato teria sido retificar a DIPJ do anocalendário de 2000, excluindo tais Fl. 10719DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.720 8 valores no LALUR e, se fosse o caso, pedir restituição e/ou compensação dos valores pagos a maior. Lançamento procedente. GLOSA DE DESPESAS. DIREITOS AUTORAIS. Excluise do valor tributável a parcela comprovada por meio de documentos hábeis coincidentes em datas e valores. Lançamento procedente em parte GLOSA DE DESPESA NÃO NECESSÁRIA. ÁGIO. AMORTIZAÇÃO. ABSORÇÃO DO ÁGIO PAGO NA AQUISIÇÃO DO SEU PRÓPRIO CONTROLE, POR MEIO DE ATOS SOCIETÁRIOS DIVERSOS SEM PROPÓSITO NEGOCIAL. SIMULAÇÃO. MULTA QUALIFICADA. Provada de forma indireta a existência de simulação na transferência do ágio para a própria empresa antes adquirida, por meio de atos societários posteriores sem qualquer propósito negocial, a despesa com a amortização do ágio é indedutível, por desnecessária, mantendose a multa qualificada (150%), em vista da conduta dolosa do sujeito passivo buscando impedir ou retardar o conhecimento, por parte da autoridade Fiscal, da ocorrência do fato gerador da obrigação principal, sua natureza ou circunstâncias materiais, conforme disposto nos artigos 71 a 73 da Lei n° 4.502/64, configurando o evidente intuito de fraude à lei tributária. Lançamento procedente. GLOSA DE DESPESA FINANCEIRA NÃO NECESSÁRIA. JUROS DE MÚTUO FINANCEIRO OBTIDO DE TERCEIRO. MÚTUO GRACIOSO DE MATÉRIA PRIMA AO TERCEIRO. BASE DE CÁLCULO. A obtenção de empréstimos financeiros junto a terceiro, obviamente onerosos, ao mesmo tempo em que há concessão de empréstimos de matéria prima a terceiro, graciosamente, evidencia a desnecessidade de parte das despesas financeiras, cuja exata dimensão é o valor dos juros simples contratuais dos mútuos aplicados sobre a média simples dos estoques iniciais e finais de cada mês de matéria prima emprestada ao terceiro. Lançamento procedente. AUTOS REFLEXOS. CSLL. PIS. COFLNS. O voto referente ao IRPJ aplicase aos seus reflexos. Quanto aos temas devolvidos a este Colegiado para conhecimento, decidiu a DRJ pela manutenção da autuação (ágio e multa qualificada). O processo foi remetido ao CARF com recurso de ofício quanto à parte exonerada do lançamento, como também pela interposição de recurso voluntário pelo contribuinte. O recurso voluntário consta às fls. 8.984 (pdf 35, volume 40), com alegação a respeito dos seguintes temas: Fl. 10720DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.721 9 (i) Nulidade do acórdão recorrido, pois não teriam sido analisadas razões apresentadas em impugnação administrativa, além de provas apresentadas àquela ocasião; (ii) Nulidade do lançamento, diante de erro na base de cálculo; (iii) Regularidade dos lançamentos contábeis quanto às receitas supostamente não contabilizadas (materiais emprestados à Ática), sem que existisse omissão de receitas; (iv) Questiona o lançamento a título de presunção por passivo fictício, como também quanto às obrigações com fornecedores e juros a pagar “de Vendor”; (v) Quanto aos materiais de terceiros, sucessivamente, contesta critério da fiscalização para apurar a base de cálculo, alega comprovad a aquisição de materiais de terceiros; (vi) Impugna, ainda, a glosa de custos de bens ou serviços vendidos, além das despesas com direitos autorais; (vii) Alega ausência de simulação quanto ao ágio, a regularidade da dedução, nos termos da legislação vigente (fls. 9082, pdf. 134 e seguintes); (viii) Questiona a glosa de despesas financeiras; (ix) Impugna a exigência de multa qualificada, na medida em que não comprovado o intuito de fraude, como exige a legislação federal; (x) Na eventualidade de manutenção de lançamento, pede seja afastada a cobrança da CSLL, por falta de previsão legal para a adição; (xi) A necessária dedução do PIS e da COFINS da base de cálculo do IRPJ e CSLL; (xii) Pede, ainda, seja afastada a cobrança dos juros SELIC. A Procuradoria apresentou contrarrazões ao recurso voluntário (fls. 10.417, volume XLVI) O contribuinte apresentou desistência parcial parte do valor discutido nos autos (relacionados aos Termos de Verificação Fiscal I III IV e V). Nesta oportunidade, expressamente pede a continuidade da discussão do processo quanto à glosa de ágio (TVF II); (ii) glosa de despesas financeiras (TVF VI), dentre outros débitos então identificados (fls. 10.439 – pdf. 88). O Presidente da 2ª Câmara da Primeira seção determinou a restituição do processo à DERAT diante de desistência de recurso voluntário (fls. 10.475 – pdf 124). Diante disso, os débitos parcelados foram apartados para o processo nº 16151000.185/201120 (fls. 10.478) A 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Primeira Seção de Julgamento julgou os temas sem desistência do contribuinte, em acórdão cuja ementa se reproduz a seguir: Fl. 10721DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.722 10 Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2001 Ementa: PASSIVO NÃO COMPROVADO. OMISSÃO DE RECEITA. Correta a tributação, como receita omitida, do saldo das contas de passivo quando não demonstrada com documentação hábil e idônea a origem dos valores. Em sentido contrário, deve ser excluído da exigência a parcela devidamente comprovada através de documentos trazidos aos autos com as peças de defesa. GLOSA DE DESPESAS COM DIREITOS AUTORAIS. COMPROVAÇÃO. Deve ser mantida a glosa das despesas em relação as quais o sujeito passivo não logrou comprovar, ainda que intimado a fazêlo. Por outro lado, é de restabelecer a dedução face aos valores devidamente demonstrados. DESPESAS COM ÁGIO. DEDUTIBILIDADE. SIMULAÇÃO. INOCORRÊNCIA. É dedutível a despesa com ágio quando demonstradas nos autos a veracidade da operação e a causa do negócio jurídico, sendo justificável a utilização de “empresa veículo” em face das peculiaridades da operação. AUTO DE INFRAÇÃO. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. Descabe a imputação da multa qualificada por dedução indevida de ágio, quando não houve questionamento em relação à existência desse ágio bem como pelo fato de que a operação de “transporte” do ágio para a controlada, ainda que inaceitável quanto às conseqüências tributárias da dedutibilidade, teve como escopo justamente aquilo que foi realizado: a transferência do ágio para redução do resultado tributável. Não ficou demonstrado qualquer objetivo diverso daquele refletido pela operação. Em síntese, a Turma decidiu por negar provimento ao recurso de ofício e dar provimento parcial ao recurso voluntário para cancelar a exigência referente à glosa de despesas com ágio (Termo de Verificação nº 2). Os autos foram remetidos à Procuradoria em 25/10/2012 (fls. 10.549), que apresentou embargos de declaração em 16/11/2012 (fls. 10.553/10.555). O D. Presidente da 2ª Turma da 4ª Câmara (Dr. Leonardo de Andrade Couto) acolheu os embargos de declaração apresentados, tratando da preclusão para debate sobre a dedução de PIS e COFINS da base de cálculo do IRPJ e CSLL. Diante disso, os autos forma remetidos à Procuradoria em 27/12/2012 (fls. 10.560), que interpôs recurso especial em 14/01/2013 (fls. 10.562). Neste recurso, sustenta Fl. 10722DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.723 11 divergência na interpretação da lei tributária a respesito da dedutibilidade com despesa com ágio e multa qualificada, identificando os seguintes acórdãos paradigmas: (i) 10323.290 (Processo Administrativo nº 18471.001782/200536); (ii) 120200.753 (Processo Administrativo nº 11065.002149/200931) O então Presidente da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento deu seguimento ao recurso especial (fls.10.588/10.591), em decisão da qual se reproduz trecho a seguir: Aludido recurso, interposto tempestivamente, está manejado em relação às matérias: “legitimidade da dedutibilidade da despesa com ágio” e “inaplicabilidade da multa qualificada quando não demonstrado intuito doloso”, assim ementado (...) Da contraposição dos fundamentos expressos nas ementas e nos votos condutores dos acórdãos, evidenciase que a Recorrente logrou êxito em comprovar a ocorrência do alegado dissenso jurisprudencial, pois em situações fáticas semelhantes, chegouse a conclusões distintas. A divergência é patente: no acórdão recorrido considerouse legitima a dedução da despesa oriunda de ágio, quando devidamente demostrado a veracidade e a causa do negócio jurídico, sendo justificável a utilização de empresa veículo diante da peculiaridade do caso, bem como o não cabimento da majoração da multa de ofício para 150%, uma vez que não restou comprovado finalidade diversa da consignada na operação apresentada. Por seu turno, no paradigma, a decisão foi no sentido de manter a glosa da despesa e a qualificação da multa por entender que o ágio oriundo de aquisição de aquisição societária decorreu da prática de atos simulados por interposta pessoa, com objetivo exclusivo de reduzir incidência de tributo. (...) Com fundamento nas razões acima expendidas, nos termos dos art.18, III, c/c art.68, §1º, do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais ADMITO o recurso especial interposto.. O contribuinte apresentou contrarrazões ao recurso em 27/01/2014 (fls. 10.594), nas quais alega: (i) Ausência de divergência entre acórdão recorrido e paradigmas, que impediria o conhecimento do recurso especial. Sustenta que no acórdão recorrido não haveria o reconhecimento de simulação, enquanto no acórdão paradigma 10323.290 “a holding só serviu para criar o ágio e não tinha qualquer substância”, havendo a incorporação no dia seguinte. Ademais, neste primeiro paradigma não teria havido a comprovação do ágio, tendo sido utilizado “integralmente contra o ganho de capital na venda de ativos, e não em razão da incorporação da investida ou da investidora”; Fl. 10723DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.724 12 (ii) Quanto ao segundo acórdão paradigma (120200.753), haveria “reorganização societária entre empresas do mesmo grupo econômico”; (iii) O contribuinte questiona o conhecimento do recurso especial, ainda, quanto à multa qualificada, que teria sido afastada por decorrência. Assim, não haveria cotejo analítico com acórdão paradigma. Menciona que o primeiro acórdão paradigma (10323.290) sequer teria tratado de multa qualificada, enquanto o segundo (120200.753) tem contornos fáticos bastante distintos; (iv) No mérito, sustenta a regularidade da amortização do ágio, eis que não foi questionada a efetiva aquisição das empresas Ática e Scipione, por partes não relacionadas, com pagamento de valor que superava o patrimônio líquido, como tampouco quanto à existência do ágio, grandeza, natureza e forma de amortização; (v) A utilização de holding Serra das Araras teve por finalidade deter participações societárias, como usualmente é feito por empresas de grande porte; (vi) A incorporação reversa é prevista expressamente pelo artigo 386, §6º, do RIR/1999; (vii) Menciona julgamento da mesma empresa no processo nº 19515.002198/200515 (acórdão 10197027); (viii) No mérito, questiona também a multa qualificada; (ix) Subsidiariamente, questiona a exigência da CSLL, sustentando a inexistência de vedação legal para sua dedutibilidade, como também a cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício. Após a apresentação de contrarrazões, o contribuinte foi formalmente intimado do acórdão da Turma a quo, como também recurso especial da Procuradoria, devidamente admitido (fls. 10.670). O contribuinte apresentou petição com memoriais, reiterando as razões expostas anteriormente e, ainda, pedindo a aplicação do artigo 24, da LINDB. Nesse sentido, apresenta relação com acórdãos do CARF que embasariam a aplicação do artigo 24. É o relatório. Fl. 10724DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.725 13 Voto Vencido Conselheira Cristiane Silva Costa, Relatora Art. 24 LINDB Conheço da alegação sobre aplicabilidade do artigo 24, tratandose de fato novo trazido pela parte, considerando que as contrarrazões foram apresentadas em janeiro de 2014 e apenas em 2018 foi incluído tal dispositivo na LINDB (DecretoLei nº 4.657/1942). Passo a apreciar sua aplicação ao caso dos autos. O artigo 24, do DecretoLei 4.657/1942), com redação conferida pela Lei nº 13.655/2018, prescreve: Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público. Em reunião de julgamento no mês de agosto de agosto, entendi inaplicável ao caso dos autos, notadamente porque o contribuinte que pleiteou sua aplicação não teria demonstrado a "jurisprudência administrativa majoritária". Nesse contexto, o contribuinte apresentou no último dia 28 de agosto de 2018, petição mencionada no relatório onde, dentre outras alegações, apresenta jurisprudência predominante no CARF no decorrer dos anos 2007 a 2015. Primeiramente, é necessário interpretar o caput do artigo 24, da LINDB, quando menciona a validade do "ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado" se trataria dos atos particulares, como pretende o contribuinte Recorrido; ou se apenas se aplicariam aos atos administrativos, como sustenta a Procuradoria. Com efeito, a LINDB não se restringe a atos administrativos, afinal, rege todo o Direito Brasileiro, inclusive ao Direito Tributário. Sem que o legislador tenha inserido específica restrição para aplicação exclusiva em outro ramo de Direito, não cabe aos julgadores fazêlo. A despeito de sua possível aplicação ao Direito Tributário, não poderia ser aplicado tal regramento, fruto de alteração pela Lei nº 13.655, de forma retroativa. Afinal, a Fl. 10725DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.726 14 partir da vigência da referida Lei, foi inserida no sistema a norma que atribui o efeito de vinculação às decisões administrativas "majoritárias". Ademais, o contribuinte apresenta anexo I, contendo "jurisprudência majoritária do CARF até 2015" com acórdãos em que foi cancelada a glosa das despesas de ágio: 10196.125, 10516.774, 10197.027, 110100.064, 1201000.285, 110100.354, 1101 000404, 120100548, 1301000711, 140200802, 1201000.659, 140200.993, 1200.689, 1402001.264, 1402001.310, 1102000.873, 1301001.224, 1402001.409. Ocorre que todos estes acórdãos foram proferidos depois dos fatos em discussão nestes autos (2001) inexistindo jurisprudência majoritária em 2001 que pudesse orientar a decisão do contribuinte quanto à amortização do ágio. Nesse sentido o parágrafo único do artigo 24 é expresso ao exigir: " amplo conhecimento público". Assim, mesmo que se admitisse a aplicação retroativa pretendida, seria necessária a publicação de jurisprudência majoritária antes da ocorrência do fato gerador. Por tais razões, entendo inaplicável o artigo 24, da LINDB ao caso dos autos. Nos termos do artigo 63, §8º, do RICARF (Portaria MF 343/2015) consigno que fui acompanhada, pelas conclusões pela maioria deste Colegiado, entendendo o voto prevalecente pela inaplicabilidade do citado artigo 24, mesmo em tese, ao caso dos autos. Nesse sentido, constam declarações de voto dos Conselheiros André Mendes Moura, Flávio Franco Corrêa e Rafael Vidal de Araújo, que adoto como razão de decidir para justificar o voto vencedor pelas conclusões. Conhecimento ÁGIO O recurso especial da Procuradoria é tempestivo, tendo sido indicados 2 (dois) acórdãos paradigmas: 10323.290 e 120200.753, admitidos pelo Presidente de Câmara. Apenas para facilitar a análise, lembro que a mesma operação teve caso analisado por esta Turma da CSRF, que concluiu pelo voto de qualidade pelo conhecimento do recurso especial interposto pela Procuradoria quanto aos mesmos paradigmas (10323.290 e 120200.753), como se verifica do acórdão nº 9101002.428, de relatoria do Conselheiro Rafael Vidal de Araújo, envolvendo a Editora Ática. À ocasião, restei vencida no conhecimento e no mérito. De toda sorte, reavalio a questão conforme razões a seguir: O contribuinte alega, em suas contrarrazões, que não haveria similitude fática entre acórdãos recorridos e o caso dos autos, na medida os acórdãos paradigmas não teriam tratado do principal fundamento do acórdão recorrido, que é a existência de propósito negocial que justifica a transferência do ágio à “veículo”. Destaco trecho da ementa do primeiro acórdão paradigma (10323.290): AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. INCORPORAÇÃO DE PESSOA JURÍDICA CONTROLADORA POR SUA CONTROLADA. ANO CALENDÁRIO 2002. Fl. 10726DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.727 15 É permitida a amortização de ágio nas situações em que uma pessoa jurídica absorve patrimônio de outra, em conseqüência de incorporação, na qual detenha participação societária adquirida com ágio, apurado segundo o disposto no artigo 385 do RIR/99, inclusive no caso de incorporação da controladora por sua controlada. Tratandose de fundamento econômico lastreado em previsão de resultados nos exercícios futuros, a amortização se dá nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados posteriormente à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no máximo, para cada mês do período de apuração. INCORPORAÇÃO DE EMPRESA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. NECESSIDADE DE PROPÓSITO NEGOCIAL UTILIZAÇÃO DE "EMPRESA VEÍCULO". Não produz o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo a incorporação de pessoa jurídica, em cujo patrimônio constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, sem qualquer finalidade negocial ou societária, especialmente quando a incorporada teve o seu capital integralizado com o investimento originário de aquisição de participação societária da incorporadora (ágio) e, ato ' continuo, o evento da incorporação ocorreu no dia seguinte. Nestes casos, resta caracterizada a utilização da incorporada como mera "empresa veículo" para transferência do ágio à incorporadora. O relatório do primeiro paradigma (10323.290) revela os contornos fáticos da operação então analisada: A infração intitulada "Ganhos e perdas de Capital alienação/baixa de bens do ativo permanente" foi assim detalhada pela autoridade fiscal (fls. 101): "Em 01.01.2000 a Brepa Comércio e Participação Ltda., CNPJ 49.740.038/000190 adquiriu esta empresa conforme contrato entre ela e os seus antigos sócios, por R$ 3.399.000,00, valor atribuído às quotas. A diferença do preço foi contabilizada a titulo de ágio, no total de R$ 669.286.468,30, com base na rentabilidade futura e conforme Laudo de Avaliação. Em 01 10 2000 a Brepa subscreve capital de nova sociedade, Rivierepar, transferindo seu investimento em RDC a título de capital de empresa Em sua contabilidade o investimento permanece em valores iguais, mudando apenas o nome da sociedade investida de RDC para Rivierepar. Nesta mesma data a RDC incorpora a Rivierepar, transferindo para sua contabilidade o único bem da Rivierepar, ou seja, o valor do ágio pago pela Brepa por ocasião em que adquiriu a RDC e a Reserva de Ágio. A RDC trouxe para dentro da empresa a mais valia atribuída a seus bens. Em 01.01.2001 a Brepa transfere o seu investimento RDC para o Carrefour. Em 30.9.2002, o Carrefour, sécia controladora, compra os imóveis que compõem os supermercados e os Estoques pelo preço estipulado em Laudo de Avaliação = R$376.951.818,00. Os fatos acima descritos mostram que a empresa Rivierepar foi criada para servir ao Fl. 10727DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.728 16 propósito de transferir o ágio e a reserva de ágio para a RDC. Ao assumir seu próprio ágio a RDC contabilizou indevidamente um fato jurídico estranho a ela. Não há na legislação qualquer previsão normativa que suporte a contabilização do ágio na RDC. Somente ocorre ágio ou deságio na aquisição de participação societária de terceiros. A subscrição é sempre em outra empresa. O artigo 20 do Dec. Lei 1.598/77, reproduzido no art. 385, inciso II, parágrafo 2°, inciso II do RIR/99 estabelece a norma legal pela qual o sujeito passivo da obrigação está expressamente identificado. E aquele que adquire participação em sociedade em volume que o classifique como sócio coligado ou controlador, com ágio ou deságio. A falta de conexão entre o sujeito e o fato descrito na norma impede a realização da hipótese de incidência. A transferência do ágio ao comprador Carrefour constitui flagrante irregularidade gerando como efeito fiscal a apuração a menor do ganho de capital pela indevida consideração do valor do ágio como parcela do custo na apuração do resultado da alienação realizada. Diante deste panorama fático, decidiu a Turma prolatora do primeiro acórdão paradigma (10323.290), conforme voto do ExConselheiro Aloysio José Percínio da Silva: No mérito, discutese a regularidade da "transferência" do ágio contabilizado na RIVIEREPAR, controladora incorporada, para a recorrente, controlada incorporadora, numa operação comumente denominada "incorporação às avessas", além do tratamento desse ágio como custo na apuração do resultado da venda dos estabelecimentos da recorrente ao CARREFOUR. Ágio, no sentido aqui levado em conta, corresponde à diferença positiva entre o valor pago na aquisição da participação societária e o seu valor patrimonial, em função da adoção do método de avaliação de investimento com base na equivalência patrimonial. O custo da aquisição deve ser registrado na contabilidade observandose o desdobramento do seu valor nos seus dois componentes (valor patrimonial e ágio), em subcontas distintas, segundo prescreve o art. 385 1 do Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto 3.000/99 RIR/99. O § 2° do referido artigo exige que conste do lançamento contábil a indicação do fundamento econômico da formação do sobrevalor, entre os seguintes(...) As amortizações do ágio não são dedutíveis para fins de determinação do lucro real, excetuandose o caso de alienação ou liquidação do investimento, em que integrará o valor contábil do investimento na apuração do resultado da operação, mesmo que amortizado na escrituração comercial e desde que devidamente controlado no Lalur, conforme art. 391 e 426 do RIR/99. Por outro lado, o art. 386 do Regulamento autoriza a amortização nas situações em que uma pessoa jurídica Fl. 10728DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.729 17 absorve patrimônio de outra, em conseqüência de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio, apurado segundo o disposto no artigo 385. No caso tratado nestes autos, de fundamento econômico lastreado em previsão dos resultados nos exercícios futuros, o item III do dispositivo regulamentar permite a amortização nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados posteriormente à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no máximo, para cada mês do período de apuração. Conforme lembrado pela recorrente, o registro contábil desse ágio em conta de ativo diferido encontra respaldo no art. 10, II, da IN SRF 11/99. No § 6° do referido art. 386 encontrase determinação para aplicação das suas disposições inclusive quando o investimento não for obrigatoriamente avaliado pelo valor do patrimônio líquido ou a pessoa jurídica incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. A acusação fiscal não contemplou indicação de quaisquer irregularidades na constituição do ágio quando d aaquisição de quotas do capita da recorrente pela BREPA. As infrações especificadas pela autroidade fiscal dizem respeito a: a) transferência do valor correspondente ao ágio pago pela BREPA na aquisição de participação societária na recorrente para ela própria, mediante a utilização de empresa criada unicamente para esse fim (Rivierepar); b) Dedução indevida do valor transferido na apuração da venda dos estabelecimentos ao CARREFOUR como custo na apuração do resultado da operação. Quanto à primeira infração, a integralização de capital da RIVIEREPAR pela BREPA com o investimento na RDC, seguida de incorporação da primeira por sua controlada, ora recorrente, logo no dia seguinte, ratificam a afirmação da autoridade fiscal de que "a empresa Rivierepar foi criada para servir ao propósito de transferir o ágio e a reserva de ágio para a RDC". Da descrição dos fatos e elementos de prova constantes dos autos bem se percebe a ausência de qualquer propósito negocial ou societário na incorporação realizada, restando caracterizada a utilização da incorporada como mera "empresa veículo" para transferência do ágio para a incorporadora, apenas com o fim almejado de redução do ganho tributável resultante da venda dos estabelecimentos ao CARREFOUR. Observese que, abstraindose do contexto de fato a incorporação, a reserva de ágio não comporia o patrimônio da RDC, ora recorrente. A meu ver, o caso concreto deveria ser enquadrado como simulação, acompanhada da aplicação de multa qualificada. Entretanto, a autoridade fiscal impôs apenas a multa ordinária de 75%. Fl. 10729DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.730 18 Como se verifica, acórdão recorrido tem contexto fático distinto, mas analisa a exigência de ganho de capital, sem que tenha analisado a dedutibilidade à luz do artigo 299, do RIR/1999, dispositivo que fundamentou o auto de infração nos presentes autos. Diante disso, não conheço do recurso especial quanto ao primeiro paradigma (10323.290). Segundo Paradigma: 120200753 Passo à análise do segundo acórdão paradigma (nº 120200.753), lembrando a sua ementa: DESPESAS COM AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. OPERAÇÃO INTERNA. SIMULAÇÃO. GLOSA. A criação de ágio por meio de reorganização societária entre empresas do mesmo grupo econômico, pautada em fortes indícios, além de prova direta da ocorrência de simulação revelase artificial e não gera direito à dedução das respectivas despesas de amortização. O relatório deste segundo paradigma (120200753) revela o contexto fático julgado pela Turma: De acordo com o Relatório do Trabalho Fiscal (fls. 590 a 624), a autuação decorreu da desconsideração de diversas operações societárias simuladas que permitiram a amortização do ágio com o objetivo de redução da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, tendo sido aplicada a multa de ofício qualificada (150%), nos termos do art. 72 da Lei nº 4.502/64 e exigida a multa isolada (50%) decorrente da falta de recolhimento das estimativas de IRPJ e CSLL, uma vez que o contribuinte optou pela apuração anual do IRPJ e da CSLL nos anoscalendário 2006, 2007 e 2008. O inteiro teor do acórdão paradigma 120200.753 confirma a situação bastante similar à tratada nos presentes autos: Logo, a necessidade de uma aquisição onerosa de terceiros para formação do ágio deve ser considerada no exame das operações de reorganização societária, para fins de incidência tributária, já que tais operações podem ser utilizadas como instrumento de planejamento tributário, desde que demonstrem os fundamentos econômicos da operação (benefícios operacionais), o que não ocorre quando se adquire de partes interligadas. Por lhe faltar fundamentação econômica, a reestruturação entre empresas do mesmo grupo econômico, engendrada com o objetivo de reduzir a tributação, não pode ser oponível ao Fisco, como é o caso dos autos. (...) Diante de todo o exposto em relação à infração, resta evidenciado que os negócios jurídicos foram praticados de forma simulada, nos termos do § 1º do art. 167 do Código Civil. Fl. 10730DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.731 19 Verificouse que, a partir do engrendramento de operações societárias complexas e simuladas, incluindo a participação de interposta pessoa (JOFECRED), pretendeu a recorrente, intencionalmente, subtrairse à tributação, o que tornou tais operações ilegais, uma vez que o ordenamento jurídico brasileiro não permite a evasão tributária por meio de simulação. Cabe referir que situação bem semelhante à presente foi analisada no Acórdão nº 10196.724, julgado na sessão de 28/05/2008, de relatoria da ilustre exConselheira Sandra Maria Faroni, restando decidido o seguinte: Assim, tendo sido constatada situação que se enquadra como fraudulenta, nos termos do art. 72 da Lei nº 4.602/64, perfeitamente cabível a multa qualificada de 150% prevista no art. 44, §1º, da Lei nº 9.430/96. Lembro que a Turma a quo interpretou que seria dedutível o ágio, diante da justificativa para a utilização de "empresa veículo": DESPESAS COM ÁGIO. DEDUTIBILIDADE. SIMULAÇÃO. INOCORRÊNCIA. É dedutível a despesa com ágio quando demonstradas nos autos a veracidade da operação e a causa do negócio jurídico, sendo justificável a utilização de “empresa veículo” em face das peculiaridades da operação. Colaciono a seguir as razões pelas quais o Redator Designado, ex Conselheiro Carlos Pelá, entendeu pela regularidade da dedução: Contanos o Termo de Verificação Fiscal que a empresa Serra das Araras foi constituída para registrar as aquisições das participações das empresas Editora Ática e Editora Scipione (esta última a Recorrente neste processo). Aponta que as operações foram realizadas para registrar o aporte de ativos (participações societárias na Ática e Scipione), efetuado pelas empresas Abril e Havas, com a finalidade exclusiva de efetuar a incorporação no ano seguinte, e, por conseguinte, amortizar o ágio pago na aquisição da Ática e Scipione, reduzindo assim o resultado tributável de ambas. Não houve qualquer questionamento quanto à efetiva aquisição das empresas Ática e Scipione, que eram detidas por. Da mesma forma, não houve qualquer questionamento no que tange à existência do ágio pago, a grandeza e a natureza desse ágio, bem como a forma de sua amortização na base de cálculo do IRPJ e da CSLL da Recorrente. Vale dizer, não se contesta que houve uma compra e venda entre partes nãorelacionadas, com pagamento de valor que supera aquele registrado no patrimônio líquido. Também é fato incontroverso que o ágio, cuja natureza apontada é de rentabilidade futura, foi amortizado respeitando a limitação legal de 1/60 avos pela Recorrente após a incorporação da Serra das Araras. Fl. 10731DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.732 20 Diante dessa situação, entendo que deve ser afastada a existência da alegada simulação ou dissimulação por parte da Recorrente, quer pelo fato de que as operações foram efetivamente praticadas (compra e venda de Ática e Scipione por terceiros e posterior incorporação da empresa que registrou o investimento pelas investidas), quer pelo fato de que o ordenamento jurídico não veda a utilização de empresas veículo, mormente na situação em que se faz necessária, no âmbito societário, ou pelo menos aconselhável, a utilização de holding para agrupar e controlar investimentos de empresas não relacionadas. A utilização de empresa veículo, apesar de não vedada no ordenamento jurídico, enseja, sem sombra de dúvidas, a manutenção do lançamento, quando ela é utilizada para simular uma associação encobrindo uma compra e venda de um negócio, a fim de evitar o pagamento do ganho de capital pelo vendedor. Nada mais óbvio, o ganho deve ser tributado. Totalmente diferente é o efeito causado pelo ganho de capital antes efetivamente apurado. Se o vendedor apura ganho de capital e em contrapartida isso representa ágio para os compradores, esses têm o direito, assegurado por lei, de amortizar esse ágio. Nessa medida, a existência de empresa veículo não muda esse direito. Ainda que existissem diversas empresas veículo, de existência efêmera, o que não é o caso, o direito permaneceria inalterado. E por quê? Porque não se tratam de dois sócios (simulados), em que na verdade um é comprador e outro vendedor, mas sim de um momento posterior à compra e venda, que se deu de forma efetiva, entre partes nãorelacionadas. Ou seja, a própria investida pode amortizar o ágio pago na sua aquisição em face do lucro gerado por suas atividades, bastando para tanto a incorporação reversa, prevista em lei. Diferentemente do caso em que se utiliza “empresa veículo” para deixar de tributar o ganho de capital, na amortização do ágio o que importa é que se verifique o ágio e que a sua natureza seja de rentabilidade futura; tenha ocorrido uma alienação efetiva, com mais valia apurada, cuja natureza é de rentabilidade futura e que, no caso da amortização pela própria investida, ela seja de fato a empresa adquirida e amortize o ágio existente à razão de 1/60 avos para efeito do cálculo da tributação de sua atividade O voto vencido, do exConselheiro Leonardo de Andrade Couto, revela que efetivamente o ponto em discussão seria a artificialidade na participação em operações societárias pela Serra das Araras ("empresa veículo"): No entendimento da Fiscalização, essas operações representaram atos simulados com o objetivo de transferir o ágio para a Editora Scipione para que essa faça a dedução do valor correspondente e reduza o resultado tributável. (...) Fl. 10732DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.733 21 Nessa questão sou obrigado a concordar com a decisão recorrida no sentido de que a Serra das Araras não tem as características de uma holding. Uma holding ou sociedade gestora de participações sociais é uma empresa criada para gerir outra empresa ou grupo de empresas que geralmente não produz quaisquer bens ou serviços. Tratase de uma concentração de empresas na forma de uma sociedade financeira que tem como missão controlar coordenar e orientar todas as atividades porque possui uma parte geralmente significativa do capital social das filiais. A holding define e decide o caminho que o grupo deverá seguir delineando uma estratégia comum para todas empresas. A sua criação é habitualmente determinada por aspectos de racionalização e maior eficiência operacional e financeira. Como gestora do grupo cabelhe efetuar o planejamento financeiro administrativo e jurídico dos investimentos assim como gerir todas as atividades. A Serra das Araras teve existência apenas formal num curto período, onde não exerceu qualquer atividade de gestão ou controle estratégico. No que se refere à necessidade de um veículo de investimento para a empresa estrangeira é argumento que também não merece guarida, tendo em vista que a Editora Scipione já havia sido adquirida pela Havas (e também pela Abril) quando houve a transferência do controle para a Serra das Araras. Do até aqui exposto, não vislumbrei o evidente propósito e substrato negocial suscitado pela recorrente para justificar a utilização da empresa Serra das Araras como veículo de investimento nos termos mencionados na peça de defesa. O TVF reforça que se trata de participação de "empresa veículo" (Serra das Araras), o que macularia o ágio decorrente da aquisição do investimento: Diante do exposto, concluímos que o ÁGIO AMORTIZADO contabilizado durante o ano calendário de 2001 como despesa operacional, decorrente da aquisição de investimento, o qual, transitou pela empresa SERRA DAS ARARAS com a única finalidade desta ser incorporada no ano seguinte, transferindo o ágio pago pelos acionistas para ser amortizado como despesa operacional das investidas, traduz em DESPESAS NÃO DEDUTÍVEIS, para fins de apuração do lucro real e da base de calculo da contribuição social sobre o lucro liquido. Cabe salientar que as únicas operações realizadas pela empresa SERRA DAS ARARAS, foram o registro dos investimentos efetuados na Ática e na Scipione em 1999 e posteriormente de 2000 e, a cisão total desta e por conseguinte sua extinção no ano de 2000. Percebese que não há qualquer similitude fática entre o segundo acórdão paradigma (120200753), no qual foi julgado ágio gerado internamente, sendo determinante para a Turma prolatora deste paradigma a falta de independência entre as partes, verbis: "necessidade de uma aquisição onerosa de terceiros para formação do ágio deve ser Fl. 10733DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.734 22 considerada no exame das operações de reorganização societária, para fins de incidência tributária, já que tais operações podem ser utilizadas como instrumento de planejamento tributário, desde que demonstrem os fundamentos econômicos da operação (benefícios operacionais), o que não ocorre quando se adquire de partes interligadas" (trecho do acórdão). Assim, não conheço do recurso especial quanto ao segundo paradigma (120200753), considerando o contexto fático bastante distinto, tratando o primeiro paradigma de operação entre empresa do mesmo grupo. Concluo, assim, por não conhecer o recurso especial quanto ao tema ágio. Conhecimento: multa qualificada O contribuinte também questiona o conhecimento do recurso espeical quanto à multa qualificada, eis que teria sido afastada por decorrência. Assim, não haveria cotejo analítico com acórdão paradigma. Menciona que o primeiro acórdão paradigma (10323.290) sequer teria tratado de multa qualificada, enquanto o segundo (120200.753) tem contornos fáticos bastante distintos. Consta da ementa do acórdão recorrido o afastamento da multa qualificada: AUTO DE INFRAÇÃO. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO. Descabe a imputação da multa qualificada por dedução indevida de ágio, quando não houve questionamento em relação à existência desse ágio bem como pelo fato de que a operação de “transporte” do ágio para a controlada, ainda que inaceitável quanto às conseqüências tributárias da dedutibilidade, teve como escopo justamente aquilo que foi realizado: a transferência do ágio para redução do resultado tributável. Não ficou demonstrado qualquer objetivo diverso daquele refletido pela operação. O dispositivo do acórdão não menciona expressamente o julgamento da multa qualificada: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício e rejeitar a preliminar de nulidade suscitada no recurso voluntário. No mérito, por maioria de votos, rejeitar a argüição de preclusão suscitada pelo relator em relação à dedução do PIS e da Cofins na base de cálculo do IRPJ e da CSLL e dar provimento parcial ao recurso para cancelar a exigência referente à glosa de despesas com ágio (Termo de Verificação nº 2). Vencido o Conselheiro Leonardo de Andrade Couto. Por unanimidade de votos, acatar a dedução do PIS e Cofins na base de cálculo do IRPJ e da CSLL, restabelecer a dedução no valor de R$ 1.881.756,09 referentes a direitos autorais (Termo de Verificação nº 5) e cancelar a exigência correspondente à glosa de despesas financeiras (Termo de Verificação nº 6). Designado o Fl. 10734DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.735 23 Conselheiro Carlos Pelá para redigir o voto vencedor. Os Conselheiros Moisés Giacomelli Nunes da Silva e Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira farão declaração de voto. O voto vencedor, do exConselheiro Carlos Pelá, tampouco trata da multa qualificada, a despeito de constar referência na ementa. Entendo, assim, que o tema não foi julgado pelo Colegiado a quo. Assim, entendo necessário o pronunciamento da Turma de origem caso dado provimento ao recurso especial da Procuradoria , até mesmo para evitar supressão de instância. Passo, assim, à análise do mérito deste recurso. Dedutibilidade do ágio Antes de adentrar o mérito, lembro que a operação ora em julgamento já foi apreciada por esta Turma da CSRF, embora com composição um pouco distinta, em 18/08/2016 conforme acórdão nº 9101002.428, de relatoria do Conselheiro Rafael Vidal de Araújo. O julgamento de mérito foi resolvido por voto de qualidade, verbis: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2000, 2001, 2002 TRANSFERÊNCIA DE ÁGIO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da "confusão patrimonial" a pessoa jurídica investidora originária, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na "mais valia" do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição. Ainda que o ágio tenha sido criado em operação envolvendo terceiros independentes e efetivo pagamento do preço, se houver a transferência do ágio registrado na investidora originária para outra empresa, pertencente ao mesmo grupo econômico, por meio de operações meramente contábeis e sem circulação de riqueza, não mais se torna possível o pretendido aproveitamento tributário do ágio. TRIBUTAÇÃO REFLEXA Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos, aplicase à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ. PROCESSO ADMINISTRATIVO TRIBUTÁRIO FEDERAL PROCURADORIA DA FAZENDA NACIONAL. INTIMAÇÃO PESSOAL. RECURSO ESPECIAL TEMPESTIVO. Fl. 10735DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.736 24 O prazo para a interposição de recursos pela Procuradoria da Fazenda Nacional, quando não intimada pessoalmente, contase nos termos dos §§ 8º e 9º do Decreto n. 70.235/1972. O Termo de Verificação Fiscal, em síntese, efetuou a glosa da despesa com amortização do ágio porque utilizadas empresa “veículo” (Serrra das Araras) para a qual foi transferido o ágio, constatando o Ilustre Auditor Fiscal que: A Abril S A e Havas fizeram aporte de capital na empresa Serra das Araras Participações Ltda., em 25/08/99 aumentando o capital social desta mediante no valor de R$ 126.671.893,00, mediante transferência das quotas adquiridas junto aos quotista da Editora Ática, tornando assim, quotista controladora com 92.5% do capital social e da Editora Scipione. Nesta operação a empresa Serras da Araras registrou um ágio sobre investimentos decorrente do aquisição da Editora Scipione no valor de R$ 54.960.739,99. Em ato continuo as quotas recebidas da empresa Serra das Araras foram utilizadas para aumento do social da empresa JVHA, como será demonstrado abaixo. A empresa Serras das Araras foi constituída em 09/07/99, com capital social inicial de R$ 99,00, o qual foi subscrito e, a integralização ocorreria dentro de 24 meses de acordo com as necessidades financeiras desta, tendo como sócios quotistas os(as) Srs(as). Maria Eduarda Ribeiro Fischer, Antonio Basílio P.C.Albuquerque e Jean Roy Jr., estabelecida a Avenida Rio Branco, n.85 12 andar (parte) na Cidade do Rio de Janeiro, cabendo salientar que os quotistas são membros do Escritório de Advocacia Gouvêa Vieira e, a empresa Serras das Araras tem o mesmo endereço deste. A empresa AROEIRA EDUCAÇÃO S.A foi constituída em 09/07/98, atual denominação social de PORTELCOM NORDESTE CELULAR S A, com o capital inicial de R$ 1.000,00, estabelecida a Avenida Rio Branco, 85 14 (parte) na Cidade do Rio de Janeiro. Após a dominação social inicial, através da AGE de 05/08/99 passou denominarse JVHA PARTICIPAÇÕES S A e em 20/12/01 para JJVA PARTICIPAÇÕES S A, conforme AGE desta data. Cabe salientar que o endereço é mesmo do Escritório de Advocacia Gouveia Vieira, e na AGE de 09/07/98 secretariou a mesma a Sra. Maria Eduarda Ribeiro Fischer, isto é, a sócia quotista da empresa Serra das Araras Participações Ltda, como mencionado no parágrafo anterior. (...) Estamos diante de atos simulados com o único intuito de reduzir a base de cálculo do imposto de renda sobre o lucro e da contribuição social sobre o lucro líquido, uma vez que desde a aquisição das participações societárias das empresas Atica e Scipione, os sócios das mesmas continuam sendo Abril S A e Havas S.A. e, a administração e controle das operações são feitas por funcionários que portam crachás com a logomarca da ABRIL e estão em processo de transferência física para o prédio da EDITORA ABRIL. (...) Fl. 10736DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.737 25 Diante do exposto, concluímos que o ÁGIO AMORTIZADO contabilizado durante o ano calendário de 2001 como despesa operacional, decorrente da aquisição de investimento, o qual, transitou pela empresa SERRA DAS ARARAS com a única finalidade desta ser incorporada no ano seguinte, transferindo o ágio pago pelos acionistas para ser amortizado como despesa operacional das investidas, traduz em DESPESAS NÃO DEDUTÍVEIS, para fins de apuração do lucro real e da base de calculo da contribuição social sobre o lucro liquido. Cabe salientar que as únicas operações realizadas pela empresa SERRA DAS ARARAS, foram o registro dos investimentos efetuados na Ática e na Scipione em 1999 e posteriormente de 2000 e, a cisão total desta e por conseguinte sua extinção no ano de 2000.. Diante disso, tratarei no presente voto da possibilidade de surgimento de ágio com a utilização de "empresa veículo" para transferência do ágio. O lançamento tributário e o acórdão recorrido tratam da interpretação do s artigos artigo 7º e 8º, da Lei nº 9.532/1997. Lembro o teor do artigo 7º, da Lei nº 9.532/1997: Art. 7º A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: (Vide Medida Provisória nº 135, de 30.10.2003) I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "c" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2° do art. 20 do Decretolei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998) (...) § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão. § 2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar: a) o ágio, em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; Fl. 10737DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.738 26 b) o deságio, em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. § 3º O valor registrado na forma do inciso II do caput: a) será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; b) poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. § 4º Na hipótese da alínea "b" do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos e contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente. § 5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito. E a previsão do artigo 8º, da Lei nº 9.532/1997, verbis: Art. 8º O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: a) o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. Em comentários aos citados dispositivos legais, Marcos Vinicius Neder e Lavínia Moraes de Almeida Nogueira Junqueira tratam da possibilidade de holding e incorporação reversa, sem prejuízo do reconhecimento do ágio dedutível: A Lei nº 9.532/1997 expressamente veio a permitir a dedução do ágio, no caso da "incorporação reversa", algo que não estava claro na legislação anterior. Ou seja, o ágio passou a ser dedutível também no momento em que a investida incorpora a investidora. Tratase, claramente, da incorporação da investidora direta. Essa permissão expressa que autoriza deduzir o ágio na "incorporação reversa" teve como objetivo estimular o interesse da iniciativa privada na aquisição de participação societária em empresas públicas em fase de privatização. (...)" A Lei não proibiu o aproveitamento do ágio no caso de incorporação de empresas holdings, constituídas pelos controladores indiretos com o propósito de adquirir, consolidar e gerir a participação na empresa investida. Não apenas isso não foi proibido como foi expressamente autorizado, na medida Fl. 10738DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.739 27 em que a Lei permitiu a dedução do ágio no caso da incorporação reversa pela empresa investida na empresa que nela detém a participação acionária e estimulou os processos de privatização (...) A norma tributária, ao conceder o incentivo tributário de aproveitamento do ágio na Lei 9.532/1997, não fez restrição ao uso de holdings, muito pelo contrário as incentivou, como comentamos anteriormente, inclusive ao permitir a dedução do ágio na incorporação reversa. Assim, a mera existência da Instrução CVM 349/2001, que dispõe sobre o tratamento contábil do ágio na incorporação reversa de holdings em empresas de capital aberto, e a existência dos procedimentos contábeis nela sugeridos não afetam em nada a possibilidade de dedução do ágio na incorporação reversa da holding. (...) A Lei não restringiu a apuração ou a dedução fiscal de ágio quando a empresa incorporada, adquirente do investimento, fosse empresa pura de holding, ou quando a empresa tivesse recebido recursos de seu sócio ou acionista em aumento de capital, ou ainda quando tivesse recebido a participação acionária em subscrição de ações de sua emissão. Logo, o tratamento de todas essas hipóteses, quando da incorporação reversa da holding Y, é alcançado, de forma equivalente, pela Lei" (Análise do Tratamento Contábil e Fiscal do Ágio em Estrutura de Aquisição ou Titularidade de Sociedades quanto há a Interposição de Holding, in Controvérsias JurídicoContábeis, 4ª Volume, São Paulo, Dialética, 2013, fls. 161, 162 e 179). Destaco, ainda, trecho do voto vencedor no acórdão recorrido, do ex Conselheiro Carlos Pelá, cujas razões adoto para decidir: Contanos o Termo de Verificação Fiscal que a empresa Serra das Araras foi constituída para registrar as aquisições das participações das empresas Editora Ática e Editora Scipione (esta última a Recorrente neste processo). Aponta que as operações foram realizadas para registrar o aporte de ativos (participações societárias na Ática e Scipione), efetuado pelas empresas Abril e Havas, com a finalidade exclusiva de efetuar a incorporação no ano seguinte, e, por conseguinte, amortizar o ágio pago na aquisição da Ática e Scipione, reduzindo assim o resultado tributável de ambas. Não houve qualquer questionamento quanto à efetiva aquisição das empresas Ática e Scipione, que eram detidas por. Da mesma forma, não houve qualquer questionamento no que tange à existência do ágio pago, a grandeza e a natureza desse ágio, bem como a forma de sua amortização na base de cálculo do IRPJ e da CSLL da Recorrente. Vale dizer, não se contesta que houve uma compra e venda entre partes nãorelacionadas, com pagamento de valor que supera aquele registrado no patrimônio líquido. Também é fato incontroverso que o ágio, cuja natureza apontada é de rentabilidade futura, foi amortizado respeitando a Fl. 10739DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.740 28 limitação legal de 1/60 avos pela Recorrente após a incorporação da Serra das Araras. Diante dessa situação, entendo que deve ser afastada a existência da alegada simulação ou dissimulação por parte da Recorrente, quer pelo fato de que as operações foram efetivamente praticadas (compra e venda de Ática e Scipione por terceiros e posterior incorporação da empresa que registrou o investimento pelas investidas), quer pelo fato de que o ordenamento jurídico não veda a utilização de empresas veículo, mormente na situação em que se faz necessária, no âmbito societário, ou pelo menos aconselhável, a utilização de holding para agrupar e controlar investimentos de empresas não relacionadas. Adoto as razões do acórdão recorrido, acima colacionado, para confirmar a legitimidade do ágio tratado nos autos, sem que se vislumbre artificialidade na criação da empresa acima citadas. Acrescento que é legítima a transferência de ágio em operação societária, fundamentandose a hipótese no artigo 248, da Lei nº 6.404/1976 e no artigo 20, do Decreto nº 1.598/1976. Desde a original redação, a Lei nº 6.404/1976 obrigava que o investimento adquirido fosse avaliado pelo método de equivalência patrimonial. O artigo 20, do Decreto nº 1.598/1976, em redação vigente ao tempo dos fatos em discussão, regulava o desdobramento do custo de aquisição em ágio por rentabilidade futura: Art. 20 – O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I – valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Fl. 10740DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.741 29 § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Consta do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto nº 3.000/1999) reprodução da disposição legal em seu artigo 385, verbis: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Ao tratar do ágio sobre expectativa de rentabilidade futura, o artigo 20, do Decreto nº 1.598/1976 como também sua reprodução no RIR/99 trata indistintamente das hipóteses de aquisição da participação, sem qualquer restrição. Portanto, a exigência da aplicação do método de equivalência patrimonial decorre da própria lógica do artigo 248, da Lei nº 6.404/1976, como também do conceito adotado pelo artigo 20, do Decreto nº 1.598/1976. A transferência de ágio por meio de operações societárias devidamente registradas , portanto, decorre da regular transferência de investimento em observância a estas normas. Ressalto que o artigo 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, ao tratar da confusão patrimonial como condição da amortização do ágio não tem qualquer referência ao "investidor original". A exigência legal é de investimento adquirido com ágio, que poderá ser deduzido quando houver a confusão patrimonial pela empresa que detenha o investimento adquirido, ou mesmo pela própria investida caso ocorra incorporação reversa. Tenho manifestado neste Colegiado a minha posição sobre a dispensabilidade de confusão patrimonial (fundada pelos artigos 7º e 8º, acima citados) entre investidora original e investida original, na medida em que a legislação não atribui interpretação restritiva nesse Fl. 10741DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.742 30 sentido. Afinal, há que se ponderar se a origem do ágio é legítima (com a existência de partes independentes, pagamento, demonstração da rentabilidade futura, etc.). Nesse contexto, uma vez demonstrada a legítima origem do ágio, não há restrição legal à sua transferência juntamente com o investimento a ele relacionado. Diante disso, voto por negar provimento ao recurso especial da Procuradoria, adotando razões de decidir do acórdão recorrido. Conclusão Conforme razões expostas, conheço da alegação a respeito do artigo 24 da LINDB, afastando a sua aplicação no caso dos autos. Além disso, voto por não conhecer o recurso especial da Procuradoria. No mérito, tendo sido vencia no conhecimento, voto por negar provimento ao recurso especial, mantendo o acórdão recorrido. Caso vencida também no mérito, voto pela baixa dos autos à Turma Ordinária para julgamento do temas não apreciado, qual seja, a multa qualificada e CSLL, considerando que todos os demais temas do recurso voluntário já foram julgados. (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Voto Vencedor Conselheiro André Mendes de Moura, Redator designado. Não obstante o substancioso voto o I. conselheira, peço vênia para discordar em relação à admissibilidade e ao mérito, na matéria relativa a despesa de amortização de ágio. Sobre a admissibilidade, vale, inicialmente, apresentar breve relato das operações societárias: ABRIL E HAVAS detém quotas da ATICA E SCIPIONE (adquirida com ágio); as quotas da ATICA e SCIPIONE são utilizadas para aumentar o capital da SERRA DAS ARARAS, pessoa jurídica constituída com capital social de R$100,00. Capital social da SERRA DAS ARARAS passou para R$126.671.893,00, com repasse do ágio; as quotas da SERRA DAS ARARAS foram utilizadas para aumentar capital social da JVHA, criada com capital social de R$1.000,00; ocorre a cisão total da SERRA DAS ARARAS, com sua extinção e versão do acervo líquido mediante incorporação na ATICA e SCIPIONE, que recepcionaram o ágio. Fl. 10742DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.743 31 Entende a SCIPIONE que restou consumada a hipótese de incidência prevista nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, para amortização da despesa de ágio. Como bem registrado pela I. relatora, o Colegiado 1 apreciou situação semelhante ao caso concreto nos autos do processo nº 19515.002198/200515, que tratou do ágio aproveitado pela ATICA, em que foram analisados os mesmos paradigmas dos presentes autos, nº 10323.290 e 120200.753, ocasião em que se entendeu ter restado demonstrada a divergência em relação ao Acórdão nº 10323.290. Nos presentes autos, discutese o ágio aproveitado pela SCIPIONE. Assim, tendo em vista que os presentes autos tratam exatamente da mesma operação relativa aos autos do processo nº 19515.002198/200515, que já foi objeto de apreciação pelo Colegiado no Acórdão nº 9101002.428, adoto as razões de decidir do julgamento realizado: A fim de analisar a procedência dos argumentos da recorrida, examinese inicialmente o que traz a ementa do Acórdão nº 103 23.290, na parte que interessa à presente análise: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2002 (...) AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. INCORPORAÇÃO DE PESSOA JURÍDICA CONTROLADORA POR SUA CONTROLADA. ANOCALENDÁRIO 2002. É permitida a amortização de ágio nas situações em que uma pessoa jurídica absorve patrimônio de outra, em conseqüência de incorporação, na qual detenha participação societária adquirida com ágio, apurado segundo o disposto no artigo 385 do RIR/99, inclusive no caso de incorporação da controladora por sua controlada. Tratandose de fundamento econômico lastreado em previsão de resultados nos exercícios futuros, a amortização se dá nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados 1 Julgamento realizado na sessão de 18 de agosto de 2016, Ac. nº 9101002.428, com o seguinte resultado: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de não conhecimento do Recurso Especial da Fazenda Nacional. Por unanimidade de votos, em conhecer o recurso com relação à tempestividade e, por voto de qualidade, em conhecêlo com relação à divergência, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Nathalia Correia Pompeu e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, que não o conheceram. E, no mérito: i) por voto de qualidade, acordam em dar provimento ao recurso para restabelecer a autuação fiscal pela glosa da despesa de amortização de ágio e seus reflexos tributários, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Nathalia Correia Pompeu e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa; e, ii) com relação à qualificação da multa e CSLL, por maioria de votos, em darlhe provimento com retorno dos autos à turma a quo para julgamento, vencido o conselheiro Luís Flávio Neto, que solicitou apresentar declaração de voto. (...) Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: MARCOS AURÉLIO PEREIRA VALADÃO (Presidente em Exercício), ANDRE MENDES DE MOURA, ADRIANA GOMES REGO, RAFAEL VIDAL DE ARAÚJO, MARCOS ANTÔNIO NEPOMUCENO FEITOSA, LUIS FLÁVIO NETO, CRISTIANE SILVA COSTA, NATHÁLIA CORREIA POMPEU. Fl. 10743DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.744 32 posteriormente à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no máximo, para cada mês do período de apuração. INCORPORAÇÃO DE EMPRESA. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. NECESSIDADE DE PROPÓSITO NEGOCIAL. UTILIZAÇÃO DE “EMPRESA VEÍCULO”. Não produz o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo a incorporação de pessoa jurídica, em cujo patrimônio constava registro de ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, sem qualquer finalidade negocial ou societária, especialmente quando a incorporada teve o seu capital integralizado com o investimento originário de aquisição de participação societária da incorporadora (ágio) e, ato contínuo, o evento da incorporação ocorreu no dia seguinte. Nestes casos, resta caracterizada a utilização da incorporada como mera “empresa veículo” para transferência do ágio à incorporadora. (...) A princípio, da análise do trecho transcrito, não se vislumbra diferença relevante entre os contextos fáticos tratados pela decisão paradigma e pelo acórdão recorrido. A primeira parte da ementa simplesmente reproduz o teor de dispositivos legais, sem adentrar na questão da subsunção do fato à norma. Já a segunda parte reproduzida aborda a situação fática julgada, mencionando características também encontradas no acórdão recorrido: utilização de "empresaveículo"; integralização de capital em uma empresa com investimento originário de aquisição de participação societária em outra. As diferenças notadas a princípio não permitem concluir pela diversidade relevante de contextos fáticos. No caso paradigma, ocorreu a incorporação tradicional, da controlada pela controladora, enquanto o caso objeto dos presentes autos consistiu em uma incorporação reversa, da controladora pela controlada. Nos termos do §6º do art. 386 do RIR/1999, mencionado pela recorrida em suas contrarrazões, ambas as operações operam os mesmos efeitos para fins de aproveitamento tributário do ágio. Além disso, no Acórdão nº 10323.290, verificase que foi muito exíguo o intervalo de tempo transcorrido entre a integralização de capital social na controlada (com ações da controladora acompanhadas do respectivo ágio) e o processo de incorporação: um dia. Já no acórdão recorrido, entre a aquisição com ágio da EDITORA ÁTICA e a incorporação, pela mesma empresa, de parcela cindida do patrimônio da SERRA DAS ARARAS, passouse pouco mais de um ano. Obviamente o tempo de um dia, quando comparado ao de um ano, levanta maiores suspeitas a respeito da falta de propósito negocial do conjunto de operações. De toda forma, só a análise do caso concreto é que permite concluir se o prazo de um ano está ou não inserido em um cenário de reorganização societária sem lógica negocial. Assim, a diferença verificada em relação aos tempos transcorridos entre as operações também não é relevante Fl. 10744DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.745 33 para se concluir que os contextos fáticos dos acórdãos apresentam diferenças importantes. Por fim, a ementa permite verificar que a conclusão do Acórdão nº 10323.290 foi pela impossibilidade de aproveitamento fiscal do ágio, por se ter entendido que a utilização de "empresa veículo", sem qualquer finalidade negocial ou societária, não produz o efeito tributário almejado pelo sujeito passivo, qual seja, aquele previsto pelo art. 386 do RIR/1999. Esta conclusão efetivamente conflita com aquela alcançada no acórdão recorrido, em que se entendeu que a utilização da empresa tida como "veículo" (neste caso, a SERRA DAS ARARAS) não caracterizaria vício ou simulação capaz de descaracterizar a situação prevista no art. 386 do RIR/1999 para fins de dedutibilidade das despesas de amortização do ágio. É o que se depreende do seguinte trecho extraído do voto condutor do acórdão recorrido, que declara que a operação prevista na lei poderia ocorrer pela simples incorporação da SERRA DAS ARARAS pela recorrida: "Importante destacar que o ágio pago na aquisição da participação acionária na Editora Ática poderia ter sido utilizado independentemente dos atos societários considerados simulados pela fiscalização, bastando, por exemplo, que a própria Edita Ática incorporasse a SERRA DAS ARARAS. Destaquese, ainda, que o ágio pago na aquisição da participação acionária na Editora Ática, e seu fundamento econômico, não foi objeto de questionamento pela fiscalização." Registrese que a empresa SERRA DAS ARARAS, embora figurasse entre as adquirentes originais da recorrida, não dispunha à época de recursos próprios suficientes para participar efetivamente do processo de aquisição, ocorrido em 20/08/1999. Esta empresa contava com capital social de somente R$99,00 (noventa e nove reais) até 25/08/1999, data em que foram admitidos como seus sócios a ABRIL e a HAVAS, que aumentaram seu capital social para R$126.671.893,00 (cento e vinte e seis milhões, seiscentos e setenta e um mil e oitocentos e noventa e três reais), integralizados pela entrega de quotas da recorrida acompanhadas do respectivo ágio. Assim, conforme será analisado de forma detalhada mais adiante, a utilização da empresa SERRA DAS ARARAS no conjunto de operações examinado nos presentes autos a caracterizou como o que se costuma chamar de "empresa veículo". A pessoa jurídica foi empregada para receber recursos das reais adquirentes e, posteriormente, para transportar o ágio registrado no processo de aquisição para o interior do patrimônio da adquirida. Considerando tal fato, concluise que o acórdão recorrido, ao defender que a recorrida poderia ter simplesmente incorporado a empresa SERRA DAS ARARAS para fins de fazer jus ao direito à utilização tributária do ágio, entende que a simples utilização Fl. 10745DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.746 34 de "empresaveículo" não desnatura o acesso à possibilidade prevista no art. 386 do RIR/1999. Resta então configurada, a meu ver, entre o acórdão recorrido e o Acórdão nº 10323.290, divergência jurisprudencial apta a provocar o conhecimento do recurso especial em relação à matéria "dedutibilidade das despesas de amortização de ágio". Não procedem os argumentos trazidos pela recorrida a respeito de uma pretensa ausência de similitude fática entre os acórdãos. Não é verdade que o ágio discutido no acórdão paradigma só exista em razão da utilização de "empresaveículo". Esta empresa se prestou à "transferência do ágio" para o patrimônio da pessoa jurídica cuja rentabilidade futura o justificou na origem, exatamente como no caso estudado pelo acórdão recorrido. Também não procede a afirmação de que a discussão a respeito do ágio travada no Acórdão nº 10323.290 diria respeito apenas à sua utilização para integração ao custo de aquisição e consequente redução do ganho de capital apurado na venda de ativos. Embora este assunto realmente seja abordado no acórdão paradigma, ali também existe a discussão a respeito da possibilidade de dedução de despesas de amortização do ágio posterior à incorporação da investida ou da investidora. Além disso, a diferença, apontada pela recorrida, acerca do reconhecimento da existência de finalidade negocial ou societária na utilização da "empresaveículo" (o acórdão recorrido a reconhece; a decisão paradigma, não) configura, na minha opinião, já aspecto da divergência interpretativa exigida para a admissibilidade do recurso especial, e não diversidade de contextos fáticos. Diante de situações fáticas idênticas, uma Turma ou Câmara responsável pelo julgamento administrativo poderia entender que restou demonstrado propósito negocial suficiente para que determinada empresa fosse considerada necessária às operações societárias promovidas, enquanto outra Turma ou Câmara poderia ter entendimento diverso, no sentido de que a participação daquela empresa nas operações visou unicamente a transferência artificial do ágio com o objetivo de possibilitar seu posterior aproveitamento fiscal. Reitero, portanto, minha conclusão de que foi comprovada a existência de divergência jurisprudencial entre o acórdão recorrido e o Acórdão nº 10323.290 no que diz respeito ao tema da "dedutibilidade das despesas de amortização do ágio". Como se pode observar, tanto o paradigma, como o recorrido, discutem a utilização de empresas com natureza temporária, que serviram de instrumento para receptar o ágio e na sequência serem objeto de operações de incorporação, fusão ou cisão no sentido de buscar, de maneira deliberada, a hipótese de incidência prevista nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, visando buscar a amortização de despesa de ágio. Fl. 10746DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.747 35 Caso se aplique, nos presentes autos, conclusão do paradigma, no sentido de que o ágio não poderia ser aproveitado, porque a hipótese de incidência deuse mediante a utilização de "empresaveículo", o acórdão recorrido seria reformado, vez que nos presentes autos deuse o aproveitamento do ágio com a utilização da pessoa jurídica "SERRA DAS ARARAS", com as mesmas características de uma empresa rotulada como "empresa veículo", com operações meramente formais, servindo preponderantemente para registrar a contabilização do ágio e posterior cisão para verter o acervo líquido, mediante incorporação nos investimentos "ATICA" e "SCIPIONE". Nesse sentido, voto para conhecer do recurso especial da PGFN. Passo ao exame do mérito. Para a devida apreciação, propõese, inicialmente, discorrer sobre uma análise histórica e sistêmica sobre o tema, para depois tratar do caso concreto. 1. Conceito e Contexto Histórico Podese entender o ágio como um sobrepreço pago sobre o valor de um ativo (mercadoria, investimento, dentre outros). Tratandose de investimento decorrente de uma participação societária em uma empresa, em brevíssima síntese, o ágio é formado quando uma primeira pessoa jurídica adquire de uma segunda pessoa jurídica um investimento em valor superior ao seu valor patrimonial. O investimento em questão são ações de uma terceira pessoa jurídica, que são avaliadas pelo método contábil da equivalência patrimonial. Ou seja, a empresa A detém ações da empresa B, avaliadas patrimonialmente em 60 unidades. A empresa C adquire, junto à empresa A, as ações da empresa B, por 100 unidades. A empresa C é a investidora e a empresa B é a investida. Fato é que emergem dois critérios para a apuração do ágio. Adotandose os padrões da ciência contábil, apesar das ações estarem avaliadas patrimonialmente em 60 unidades, deveriam ainda ser objeto de majoração, ao ser considerar, primeiro, se o valor de mercado dos ativos tangíveis seria superior ao contabilizado. Assim, supondose que, apesar do patrimônio ter sido avaliado em 60 unidades, o valor de mercado seria de 70 unidades, considerase para fins de apuração 70 unidades. Segundo, caso se constate a presença de ativos intangíveis sem reconhecimento contábil no valor de 12 unidades, temse, ao final, que o ágio, denominado goodwill, seria a diferença entre o valor pago (100 unidades) e o valor de mercado mais intangíveis (60 + 10 + 12 = 82 unidades). Ou seja, o ágio passível de aproveitamento pela empresa C, decorrente da aquisição da empresa B, mediante atendimento de condições legais, seria no valor de 18 unidades. Ocorre que o legislador, ao editar o DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977, resolveu adotar um conceito jurídico para o ágio próprio para fins tributários. Isso porque positivou no art. 20 do mencionado decretolei que o denominado ágio poderia ter três fundamentos econômicos, baseados: (1) no sobrepreço dos ativos; e/ou (2) na expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido e/ou (3) no fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. E, posteriormente, os arts. 7º e 8º Fl. 10747DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.748 36 da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, autorizaram a amortização do ágio nos casos (1) e (2), mediante atendimento de determinadas condições. Na medida em que a lei não determinou nenhum critério para a utilização dos fundamentos econômicos, consolidouse a prática de se adotar, em praticamente todas as operações de transformação societária, o reconhecimento do ágio amparado exclusivamente no caso (2): expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido. O ágio passou a ser simplesmente a diferença entre o custo de aquisição e o valor patrimonial do investimento. Assim, voltando ao exemplo, a empresa C, investidora, ao adquirir ações da empresa investida B avaliadas patrimonialmente em 60 unidades, pelo valor de 100 unidades, poderia justificar o sobrepreço de 40 unidades integralmente com base no fundamento econômico de expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido. Na realidade, a legislação tributária ampliou o conceito do goodwill. E como darseia o aproveitamento do ágio? Em duas situações. Na primeira, quando a empresa C realizasse o investimento, por exemplo, ao alienar a empresa B para uma outra pessoa jurídica. Assim, se vendesse a empresa B para a empresa D por 150 unidades, apuraria um ganho de 50 unidades. Isso porque, ao patrimônio líquido da empresa alienada, de 60 unidades, seria adicionado o ágio de 40 unidades. Assim, a base de cálculo para apuração do ganho de capital seria a diferença entre 150 e 100 unidades, perfazendo 50 unidades. Na segunda, no caso de a empresa C (investidora) e a empresa B (investida) promoverem uma transformação societária (incorporação, fusão ou cisão), de modo em que passem a integrar uma mesma universalidade. Por exemplo, a empresa B incorpora a empresa C, ou, a empresa C incorpora a empresa B. Nesse caso, o valor de ágio de 40 unidades poderia passar a ser amortizado, para fins fiscais, no prazo de sessenta meses, resultando em uma redução na base de cálculo do IRPJ e CSLL a pagar. Naturalmente, no Brasil, em relação ao ágio, a contabilidade empresarial pautouse pelas diretrizes da contabilidade fiscal, até a edição da Lei nº 11.638, de 2007. O novo diploma norteouse pela busca de uma adequação aos padrões internacionais para a contabilidade, adotando, principalmente, como diretrizes a busca da primazia da essência sobre a forma e a orientação por princípios sobrepondose a um conjunto de regras detalhadas baseadas em aspectos de ordem escritural 2. Nesse contexto, houve um realinhamento das normas contábeis no Brasil, e por consequência do conceito do goodwill. Em síntese, ágio contábil passa (melhor dizendo, volta) a ser a diferença entre o valor da aquisição e o valor patrimonial justo dos ativos (patrimônio líquido ajustado pelo valor justo dos ativos e passivos). E recentemente, por meio da Lei nº 12.973, de 13/05/2014, o legislador promoveu uma aproximação do conceito jurídicotributário do ágio com o conceito contábil da Lei nº 11.638, de 2007, além de novas regras para o seu aproveitamento, que não são objeto de análise do presente voto. 2 IUDÍCIBUS, Sérgio de. Manual de contabilidade das sociedades por ações: (aplicável às demais sociedades), 1ª ed. São Paulo : Editora Atlas, 2008, p. 31. Fl. 10748DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.749 37 Enfim, resta evidente que o conceito do ágio tratado para o caso concreto, disciplinado pelo art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, alinhase a um conceito jurídico determinado pela legislação tributária. Tratase, portanto, de instituto jurídicotributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. 2. Aproveitamento do Ágio. Hipóteses Apesar de já ter sido apreciado singelamente no tópico anterior, o destino que pode ser dado ao ágio contabilizado pela empresa investidora merece uma análise mais detalhada. Há que se observar, inicialmente, como o art. 219 da Lei nº 6.404, de 1.976 trata das hipóteses de extinção da pessoa jurídica: Art. 219. Extinguese a companhia: I pelo encerramento da liquidação; II pela incorporação ou fusão, e pela cisão com versão de todo o patrimônio em outras sociedades. E, ao se tratar de ágio, vale destacar, mais uma vez, os dois sujeitos, as duas partes envolvidas na sua criação: a pessoa jurídica investidora e a pessoa jurídica investida, sendo a investidora é aquela que adquiriu a investida, com sobrepreço. Não por acaso, são dois eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). Podese dizer que os eventos (1) e (2) guardam correlação, respectivamente, com os incisos I e II da lei que dispõe sobre as Sociedades por Ações. 3. Aproveitamento do Ágio. Separação de Investidora e Investida No primeiro evento, tratase de situação no qual a investidora aliena o investimento para uma terceira empresa. Nesse caso, o ágio passa a integrar o valor patrimonial do investimento para fins de apuração do ganho de capital e, assim, reduz a base de cálculo do IRPJ e da CSLL. A situação é tratada pelo DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977, arts. 391 e 426 do RIR/99: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação Fl. 10749DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.750 38 do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). (...) Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. (...) (grifei) Assim, o aproveitamento do ágio ocorre no momento em que o investimento que lhe deu causa foi objeto de alienação ou liquidação. 4. Aproveitamento do Ágio. Encontro entre Investidora e Investida Já o segundo evento aplicase quando a investidora e a investida transformaremse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). O ágio pode se tornar uma despesa de amortização, desde que preenchidos os requisitos da legislação e no contexto de uma transformação societária envolvendo a investidora e a investida. Contudo, sobre o assunto, há evolução legislativa que merece ser apresentada. Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as Fl. 10750DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.751 39 seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada períodobase a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão 3. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. 3 Ver Acórdão nº 1101000.841, da 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara do CARF, da relatora Edeli Pereira Bessa., p. 15. Fl. 10751DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.752 40 E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 1997 4, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI5 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. (...) Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. 4 Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 5 SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo : Dialética, 2012, p. 66 e segs. Fl. 10752DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.753 41 Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista 6 que trabalhou na edição da MP 1.602, de 1997: O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. (...) Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegouse a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.602, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização. E qual foram as novidades trazidas pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997? Primeiro, há que se contextualizar a disciplina do método de equivalência patrimonial (MEP). Isso porque o ágio aplicase apenas em investimentos sociedades coligadas e controladas avaliado pelo MEP, conforme previsto no art. 384 do RIR/99. O método tem como principal característica permitir uma atualização dos valores dos investimentos em coligadas ou controladas com base na variação do patrimônio líquido das investidas. 6 Relatório da Comissão Mista publicada no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18024, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. Fl. 10753DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.754 42 As variações no patrimônio líquido da pessoa jurídica investida passam a ser refletidas na investidora pelo MEP. Contudo, os aumentos no valor do patrimônio líquido da sociedade investida não são computados na determinação do lucro real da investidora. Vale transcrever os dispositivos dos arts. 387, 388 e 389 do RIR/99 que discorrem sobre o procedimento de contabilização a ser adotado pela investidora. Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): (...) Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) Resta nítida a separação dos patrimônios entre investidora e investida, inclusive as repercussões sobre os resultados de cada um. A investida, pessoa jurídica independente, em razão de sua atividade econômica, apura rendimentos que, naturalmente, são por ela tributados. Por sua vez, na medida em que a investida aumenta seu patrimônio líquido em razão de resultados positivos, por meio do MEP há uma repercussão na contabilidade da investidora, para refletir o acréscimo patrimonial realizado. A conta de ativos em investimentos é debitada na investidora, e, por sua vez, a contrapartida, apesar de creditada como receita, é excluída na apuração do Lucro Real. Com certeza, não faria sentido tributar os lucros na investida, e em seguida tributar o aumento do patrimônio líquido na investidora, que ocorreu precisamente por conta dos lucros auferidos pela investida. E esclarece o art. 385 do RIR/99 que se a pessoa jurídica adquirir um investimento avaliado pelo MEP por valor superior ou inferior ao contabilizado no patrimônio líquido, deverá desdobrar o custo da aquisição em (1) valor do patrimônio líquido na época da aquisição e (2) ágio ou deságio. Para a devida transparência na mais valia (ou menor valia) do investimento, o registro contábil deve ocorrer em contas diferentes: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e Fl. 10754DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.755 43 II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). (grifei) Como se pode observar, a formação do ágio não ocorre espontaneamente. Pelo contrário, deve ser motivado, e indicado o seu fundamento econômico, que deve se amparar em pelo menos um dos três critérios estabelecidos no § 2º do art. 385 do RIR/99, (1) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, (2) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros (3) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. E, conforme já dito, por ser a motivação adotada pela quase totalidade das empresas, todos os holofotes dirigemse ao fundamento econômico com base em expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Tratase precisamente de lucros esperados a serem auferidos pela controlada ou coligada, em um futuro determinado. Por isso o adquirente (futuro controlador) se propõe a desembolsar pelo investimento um valor superior ao daquele contabilizado no patrimônio líquido da vendedora. Por sua vez, tal expectativa deve ser lastreada em demonstração devidamente arquivada como comprovante de escrituração, conforme previsto no § 3º do art. 385 do RIR/99. E, finalmente, passamos a apreciar os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, consolidados no art. 386 do RIR/99. Como já dito, em eventos de transformação societária, quando investidora absorve o patrimônio da investida (ou vice versa), adquirido com ágio ou deságio, em razão de cisão, fusão ou incorporação, resolveu o legislador disciplinar a situação: Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado Fl. 10755DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.756 44 segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do § 2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do § 2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração.(...) (grifei) Fica evidente que os arts. 385 e 386 do RIR/99 guardam conexão indissociável, constituindose em norma tributária permissiva do aproveitamento do ágio nos casos de incorporação, fusão ou cisão envolvendo o investimento objeto da mais valia. 5. Amortização. Despesa. Definido que o aproveitamento do ágio pode darse por meio de despesa de amortização, mostrase pertinente apreciar do que trata tal dispêndio. No RIR/99 (DecretoLei nº 3.000, de 26/03/1999), o conceito de amortização encontrase no Subtítulo II (Lucro Real), Capítulo V (Lucro Operacional), Seção III (Custos, Despesas Operacionais e Encargos). O artigo 299 do diploma em análise trata, no art. 299, na Subseção I, das Disposições Gerais sobre as despesas: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). Fl. 10756DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.757 45 § 3º O disposto neste artigo aplicase também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Para serem dedutíveis, devem as despesas serem necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, e serem usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Por sua vez, logo após as Subseções II (Depreciação de Bens do Ativo Imobilizado) e III (Depreciação Acelerada Incentivada), encontra previsão legal a amortização, no art. 324, na Subseção IV do RIR/99 7. Percebese que a despesa de amortização de ágio constituise em espécie do gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99. 6. Despesa Em Face de Fatos Construídos Artificialmente No mundo real os fatos nascem e morrem, decorrentes de eventos naturais ou da vontade humana. O direito elege, para si, fatos com relevância para regular o convívio social. No que concerne ao direito tributário, são escolhidos fatos decorrentes da atividade econômica, financeira, operacional, que nascem espontaneamente, precisamente em razão de atividades normais, que são eleitos porque guardam repercussão com a renda ou o patrimônio. São condutas relevantes de pessoas físicas ou jurídicas, de ordem econômica ou social, ocorridas no mundo dos fatos, que são colhidas pelo legislador que lhes confere uma qualificação jurídica. Por exemplo, o fato de auferir lucro, mediante operações espontâneas, das atividades operacionais da pessoa jurídica, amoldase à hipótese de incidência prevista pela norma, razão pela qual nasce a obrigação do contribuinte recolher os tributos. Da mesma maneira, a pessoa jurídica, no contexto de suas atividades operacionais, incorre em dispêndios para a realização de suas tarefas. Contratase um prestador de serviços, comprase uma mercadoria, operações necessárias à consecução das atividades da empresa, que surgem naturalmente. 7 Art. 324. Poderá ser computada, como custo ou encargo, em cada período de apuração, a importância correspondente à recuperação do capital aplicado, ou dos recursos aplicados em despesas que contribuam para a formação do resultado de mais de um período de apuração (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, e DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 15, § 1º). § 1º Em qualquer hipótese, o montante acumulado das quotas de amortização não poderá ultrapassar o custo de aquisição do bem ou direito, ou o valor das despesas (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, § 2º). § 2º Somente serão admitidas as amortizações de custos ou despesas que observem as condições estabelecidas neste Decreto (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, § 5º). § 3º Se a existência ou o exercício do direito, ou a utilização do bem, terminar antes da amortização integral de seu custo, o saldo não amortizado constituirá encargo no período de apuração em que se extinguir o direito ou terminar a utilização do bem (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, § 4º). § 4º Somente será permitida a amortização de bens e direitos intrinsecamente relacionados com a produção ou comercialização dos bens e serviços (Lei nº 9.249, de 1995, art. 13, inciso III). Fl. 10757DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.758 46 Ocorre que, em relação aos casos tratados relativos á amortização do ágio, proliferaramse situações no qual se busca, especificamente, o enquadramento da norma permissiva de despesa. Tratamse de operações especialmente construídas, mediante inclusive utilização de empresas de papel, de curtíssima duração, sem funcionários ou quadro funcional incompatível, com capital social mínimo, além de outras características completamente atípicas no contexto empresarial, envolvendo aportes de substanciais recursos para, em questão de dias ou meses, serem objeto de operações de transformação societária. Tais eventos podem receber qualificação jurídica e surtir efeitos nos ramos empresarial, cível, contábil, dentre outros. Situação completamente diferente ocorre no ramo tributário. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Impossível estender atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas, independente sua espécie, derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. A pessoa jurídica recebe tratamento diferenciado no sistema de tributação (com diferentes opções para apurar seus resultados) porque, essencialmente, tem um efeito multiplicador para a sociedade. A pessoa jurídica emprega pessoas, contrata fornecedores, movimenta a economia, multiplica os agentes de produção, e por isso dispõe de bases de cálculo e alíquotas diferentes das aplicadas para a pessoa física. Ora, as pessoas jurídicas devem fabricar produtos, e não despesas fictícias. Admitindose uma construção artificial do suporte fático, consumarseia um tratamento desigual, desarrazoado e desproporcional, que afronta o princípio da capacidade contributiva e da isonomia, vez que seria conferida a uma determinada categoria de despesa uma premissa completamente diferente, uma liberalidade não aplicável à grande maioria dos contribuintes. 7. Hipótese de Incidência Prevista Para a Amortização Realizada análise do ágio sob perspectiva do gênero despesa, cabe prosseguir com a apreciação da legislação específica que trata de sua amortização. Vale recapitular os dois eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida (investida) com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). E repetir que estamos, agora, tratando da segunda situação. Cenário que se encontra disposto nos arts. 7º e 8º da Lei n° 9.532, de 1997, e nos arts. 385 e 386 do RIR/99, do qual transcrevo apenas os fragmentos de maior interesse para o debate: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, Fl. 10758DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.759 47 por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): (...) III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (...) (grifei) Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 8. 8 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ª ed. São Paulo : Malheiros Editores, 2010, p. 51 e segs. Fl. 10759DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.760 48 Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, coordenou e comandou os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado "transferido" para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Fl. 10760DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.761 49 Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoase o encontro de contas entre o real investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI9, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente 9 SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 10761DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.762 50 do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveita se da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Registrese que a consumação do aspecto temporal não se confunde com o termo inicial do prazo decadencial. Isso porque, partindose da construção da norma conforme operação no qual "Se A é, B deveser", onde a primeira parte é o antecedente, e a segunda é o consequente, a consumação da hipótese de incidência localizase no antecedente. Ou seja, "Se A é", indica que a hipótese de incidência, no caso concreto, mediante aperfeiçoamento dos aspectos pessoal, material e temporal, concretizouse em sua plenitude. Assim, passase para a etapa seguinte, o consequente ("B deveser"), no qual se aplica o regime de tributação a que encontra submetido o contribuinte (lucro real trimestral ou anual), efetuase o lançamento fiscal com base na repercussão que as glosas despesas de ágio indevidamente amortizadas tiveram na apuração da base de cálculo, e, por consequência, determinase o termo inicial para contagem do prazo decadencial. 8. Consolidação Considerandose tudo o que já foi escrito, entendo que a cognição para a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos pela norma encontramse atendidos e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado. A primeira verificação parece óbvia, mas, diante de todo o exposto até o momento, observase que a discussão mais relevante inserese precisamente neste momento, situado antes da subsunção do fato à norma. Falase insistentemente se haveria impedimento para se admitir a construção de fatos que buscam se amoldar à hipótese de incidência de norma de despesa. O ponto é que, independente da genialidade da construção empreendida, da reorganização societária arquitetada e consumada, a investidora originária prevista pela norma não perderá a condição de investidora originária. Quem viabilizou a aquisição? De onde vieram os recursos de fato? Quem efetuou os estudos de viabilidade econômica da investida? Quem tomou a decisão de adquirir um investimento com sobrepreço? Respondo: a investidora originária. Ainda que a pessoa jurídica A, investidora originária, para viabilizar a aquisição da pessoa jurídica B, investida, tenha (1) "transferido" o ágio para a pessoa jurídica C, ou (2) efetuado aportes financeiros (dinheiro, mútuo) para a pessoa jurídica C, a pessoa jurídica A não perderá a condição de investidora originária. Podese dizer que, de acordo com as regras contábeis, em decorrência de reorganizações societárias empreendidas, o ágio legitimamente passou a integrar o patrimônio da pessoa jurídica C, que por sua vez foi incorporada pela pessoa jurídica B (investida). Fl. 10762DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.763 51 Ocorre que a absorção patrimonial envolvendo a pessoa jurídica C e a pessoa jurídica B não tem qualificação jurídica para fins tributários. Isso porque se trata de operação que não se enquadra na hipótese de incidência da norma, que elege, quanto ao aspecto pessoal, a pessoa jurídica A (investidora originária) e a pessoa jurídica B (investida), e quanto ao aspecto material, o encontro de contas entre a despesa incorrida pela pessoa jurídica A (investidora originária que efetivamente incorreu no esforço para adquirir o investimento com sobrepreço) e as receitas auferidas pela pessoa jurídica B (investida). Mostrase insustentável, portanto, ignorar todo um contexto histórico e sistêmico da norma permissiva de aproveitamento do ágio, despesa operacional, para que se autorize "pinçar" os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, promover uma interpretação isolada, blindada em uma bolha contábil, e se construir uma tese no qual se permita que fatos construídos artificialmente possam alterar a hipótese de incidência de norma tributária. Caso superada a primeira verificação, cabe prosseguir com a segunda verificação, relativa a aspectos de ordem formal, qual seja, se a demonstração que o contribuinte arquivar como comprovante de escrituração prevista no art. 20, § 3º do Decreto Lei nº 1.598, de 27/12/1977 (1) existe e (2) se mostra apta a justificar o fundamento econômico do ágio. Há que se verificar também (3) se ocorreu, efetivamente, o pagamento pelo investimento. Enfim, referese a terceira verificação a constatar se toda a operação ocorreu dentro de padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes, distante de situações que possam indicar ocorrência de negociações eivadas de ilicitude, que poderiam guardar repercussão, inclusive, na esfera penal, como nos crimes contra a ordem tributária previstos nos arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137, de 1990. 9. Sobre o Caso Concreto Feitas as considerações, passo a analisar o caso concreto. A operação societária é bem descrita pela decisão da DRJ: Abril S/A e Havas S/A (esta do grupo francês Vivendi) possuíam quotas da Ed. Ática e da Ed. Scipione e aportaram tais quotas como aumento de capital da empresa Serra das Araras, sendo que nesta operação a Serra das Araras recebeu o ágio anteriormente pago pela aquisição da Ed. Scipione, no valor de R$ 54.960.739,99; as quotas recebidas da Serra das Araras foram aportadas como aumento de capital da empresa JVHA (atual Aroeira Educação S/A), de forma que Abril S/A, Havas S/A e JVHA (esta controlada por Abril S/A e Havas S/A) permaneceram durante algum tempo como quotistas da Serra das Araras até sua cisão total com a versão do seu acervo liqüido mediante incorporação na Ed. Ática e na Ed. Scipione; advogados do Escritório Gouvêa Vieira participaram inicialmente da Serra das Araras, que tinha o mesmo endereço do Escritório; um advogado do referido Escritório permaneceu por algum tempo como sócio, junto com a JVHA; uma advogada Fl. 10763DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.764 52 do mesmo Escritório secretariou AGE da JVHA em seu início, tendo esta empresa o mesmo endereço do citado Escritório; (...) Transcrevo novamente os fatos sob apreciação, em breve síntese: ABRIL E HAVAS detém quotas da ATICA E SCIPIONE (adquirida com ágio); as quotas da ATICA e SCIPIONE são utilizadas para aumentar o capital da SERRA DAS ARARAS, pessoa jurídica constituída com capital social de R$100,00. Capital social da SERRA DAS ARARAS passou para R$126.671.893,00, com repasse do ágio; as quotas da SERRA DAS ARARAS foram utilizadas para aumentar capital social da JVHA, criada com capital social de R$1.000,00; ocorre a cisão total da SERRA DAS ARARAS, com sua extinção e versão do acervo líquido mediante incorporação na ATICA e SCIPIONE. Entende a SCIPIONE que restou consumada a hipótese de incidência prevista nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, para amortização da despesa de ágio. Diante de todo o escrito no presente voto, a operação em análise não passa pela primeira verificação (vide item 8 do voto). Quanto ao aspecto pessoal, cabe verificar quem é efetivamente a pessoa jurídica investidora e a pessoa jurídica investida. As pessoas jurídicas investidoras são a ABRIL e a HAVAS, detentoras do investimento adquirido com pagamento de sobrepreço, realizado em valor superior ao do patrimônio líquido. O investidor é aquele que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, coordenou e comandou os estudos de rentabilidade futura do investimento a ser adquirido e desembolsou os recursos para a aquisição (vide item 7 do voto). Por sua vez, as pessoas jurídicas investidas são a ATICA e a SCIPIONE. Ocorre que os eventos de incorporação deramse entre a SERRA DE ARARAS e a ATICA e a SCIPIONE, ou seja, sem a presença das reais investidoras, ABRIL e a HAVAS. O fato de o ágio ter sido recepcionado pela SERRA DAS ARARAS não lhe confere, na acepção do dispositivo normativo em análise, em nenhum momento, a condição de investidora. Nesse sentido, o aproveitamento da despesa de amortização de ágio promovido pela Contribuinte deuse sem respaldo legal, vez que não se consumou a hipótese de incidência prevista nos arts. 7º e 8·da Lei nº 9.532, de 1997. Por si só, tal aspecto já se mostra suficiente para restabelecer a glosa de despesa de amortização do ágio. Irretocáveis as constatações do Termo de Verificação Nº 02 (efls. 246/247): Fl. 10764DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.765 53 Tendo em vista os elementos apresentados pelo contribuinte podemos afirmar: a) Os acionistas controladores da empresa Editora Atica S A, são Abril S A e Havas S/A, desde a aquisição da participação em 1999; b) A empresa Serra das Araras Participações Ltda., foi constituída em 1999 única e exclusivamente para registrar as aquisições das participações societárias das Empresas Atica e Scipione; c) A empresa JVHA Participações S A foi constituída para encobrir a participação direta das empresas Abril S A e Havas, nas empresas Atica e Scipione d) As empresas JVHA e Serra das Araras funcionaram no mesmo endereço do Escritório Gouvêa Vieira, na Cidade do Rio de Janeiro, e posteriormente a JVHA transferiu sua sede para a Cidade de São Paulo, também, onde funciona o Escritório Gouvêa Vieira; e) As operações descritas nos itens anteriores (letras A e B), foram realizadas para no primeiro momento registrar o aporte de ativos (participações societárias na Atica e Scipione) efetuado pelas empresas Abril e Havas, com a finalidade exclusiva de efetuar a incorporação no ano seguinte e, por conseguinte amortizar o ágio pago pelos acionistas da Atica e Scipione, reduzindo assim o resultado tributável de ambas; f) Os protocolos de justificação nada esclarecem a essência (substancia) dos atos, tratandose apenas de atos societários que abordam apenas os aspectos quanto a forma de realização dos mesmos. Estamos diante de atos simulados com o único intuito de reduzir a base de calculo uma vez que desde a aquisição das participações societárias das empresas Atica e Scipione, os sócios das mesmas continuam sendo Abril S.A e Havas S.A. e, a administração e controle das operações são feitas por funcionários que portam crachás com a logomarca da ABRIL e estão em processo de transferência física para o prédio da EDITORA ABRIL. (Grifei) Mostrouse cirúrgica a autuação fiscal, ao constatar que, desde a aquisição das participações societárias das empresas Atica e Scipione, os sócios das mesmas continuam sendo Abril S.A e Havas S.A. Ou seja, são os reais investidores a ABRIL e a HAVAS, que não participaram do evento de incorporação previsto pela legislação tributária que autoriza a amortização da despesa de ágio. É incontestável que as operações societárias engendradas, em sequência, tiveram como objetivo deliberado buscar o enquadramento na hipótese de incidência que autoriza a dedutibilidade da despesa. Fl. 10765DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.766 54 Constatase, com nitidez, a construção artificial do suporte fático, para que se pudesse amoldar à hipótese de incidência de despesa de amortização do ágio (item 6 do voto). Portanto, voto no sentido de dar provimento ao recurso especial da PGFN. Registrese que, nos termos do voto da I. relatora, os autos devem retornar para a turma a quo para apreciação da multa qualificada e da CSLL. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 10766DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.767 55 Declaração de Voto Conselheiro Flávio Franco Corrêa O artigo 24 da LINDB, inserido pela Lei nº 13.655/2018, tem o seguinte teor: "Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas.(Incluído pela Lei nº 13.655, de 2018) Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público." Entende o contribuinte que a Fiscalização não poderia autuálo, por ter seguido jurisprudência da época do ato, que qualifica como jurisprudência administrativa majoritária para fins de enquadramento legal como "orientações gerais". O dispositivo se refere à "validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado". Com efeito, o pagamento antecipado extingue o crédito tributário, ainda que sob condição resolutória. Enquanto pendente a condição resolutória, o efeito extintivo do pagamento deve ser reconhecido. Não fosse assim, o artigo 3º da Lei Complementar nº 118/2005 não teria estabelecido que a extinção do crédito tributário, para efeitos de interpretação do artigo 168, inciso I, do CTN, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, ocorre no momento do pagamento antecipado. Faço essa alusão ao pagamento do contribuinte para desvendar se a expressão "ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado" protege o contribuinte, por ter optado por certas práticas com o intento de obter efeitos tributários favoráveis, em sintonia com o que diz corresponder à jurisprudência administrativa da ocasião. Em declaração de voto no acórdão nº 1301003.284, o Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto muito apropriadamente esclarece essa dúvida: "Causa maior dúvida, entretanto, o alcance de "ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa", em razão de uma peculiaridade gramatical da língua portuguesa. A perplexidade reside, precisamente, no alcance semântico do adjetivo Fl. 10767DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.768 56 "administrativa", se em relação apenas a "norma", ou se afeta os demais substantivos. Tratase de um caso especial de concordância nominal, no qual o adjetivo é posposto aos substantivos, em que a regra culta autoriza que o adjetivo concorde, em gênero e número, com o substantivo mais próximo ou com todos eles (assumindo a forma masculino plural, se houver substantivos de ambos os gêneros). Por exemplo, são gramaticalmente corretas e de idêntico significado as frases: A noiva exigiu o vestido e a maquiagem perfeita para o casamento. A noiva exigiu a maquiagem e o vestido perfeito para o casamento. A noiva exigiu o vestido e a maquiagem perfeitos para o casamento. A despeito da regra, a utilização do adjetivo flexionado em número, concordando com todos os substantivos, traz um evidente ganho de clareza, afastando dúvidas sobre o alcance dele a todos ou apenas ao último termo. A relevância da dúvida é patente, pois o ato do contribuinte, em cumprimento da obrigação de apuração do crédito tributário, não tem natureza de ato administrativo (diferentemente do lançamento tributário, realizado exclusivamente por autoridade administrativa, nos termos do art. 142 do CTN3) em sendo o adjetivo "administrativa" referente exclusivamente a "norma", então tanto o ato administrativo quanto o privado estariam abrangidos pelo dispositivo, caso contrário, apenas os atos administrativos, como o lançamento, estariam sujeitos à vedação de revisão. Em caso de dúvidas na interpretação, a própria LINDB nos dá diretrizes, em seu art. 5º, ao determinar que "Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum." com isso, não se quer dizer que a intenção do legislador mens legislatoris deve se sobrepor ao texto legal e seu sentido próprio adquirido dentro do sistema jurídico, mas sim que, em caso de dúvida sobre este sentido, o recurso à finalidade que se pretendia alcançar é admitida para esclarecer o conteúdo e alcance da norma. Em 2015, o Senado Federal editou obra denominada "Segurança Jurídica e Qualidade das Decisões Públicas: desafios de uma sociedade democrática", que compilou estudos sobre o Projeto de Lei nº 349/2015, posteriormente convertido na Lei nº 13.655/2018. Neste trabalho, diversos professores que participaram na elaboração do projeto de lei apresentaram as razões para os dispositivos, sendo digno de nota trecho da autoria dos Professores Floriano Azevedo e Egon Bockmann: Fl. 10768DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.769 57 O projeto de lei apresentado ao Senador Antonio Anastasia para atualizar a Lei de Introdução traz algumas boas indicações de como lidar com a atual realidade. Ao invés de perseguir um positivismo fechado e fora do tempo, a iniciativa propõe a inclusão de uma série de artigos à Lei de Introdução das Normas ao Direito Brasileiro, voltadas a balizar a interpretação e aplicação do direito público. Sem tolher a atuação dos órgãos administrativos, jurisdicionais ou de controle, o projeto coloca parâmetros de estabilidade e previsibilidade às relações com a Administração Pública. Nesse sentido, os autores deixa [sic] claro que a lei busca regular o tratamento de atos, contratos, ajustes, processos e normas administrativos, que tenham sido constituídos levando se em conta a orientação geral vigente na época, como forma de resguardálos do controle posterior por novos critérios ou novas interpretações. Isso fica claro em outros artigos da mesma obra, como este da lavra de Marçal Justen Filho: A ação visa o exame de ato administrativo concreto, nas suas diversas manifestações. Assim, poderá versar sobre ato administrativo unilateral ou bilateral. Poderá envolver inclusive aspecto específico de ato administrativo, tal como o preço ou quaisquer outros valores contemplados para constituir despesa ou receita da Administração Pública. Mais enfático ainda é Egon Bockmann: O artigo 26 determina que as decisões (administrativas, controladoras e/ou judiciais isto é, todos os atos de aplicação do Direito) que porventura invalidem atos e negócios jurídicos administrativos pretéritos (ato, contrato, ajuste, processo ou norma pouco importa o nome) tenham de levar em consideração seus efeitos futuros. Assim, parece haver entre todos os autores que participaram da elaboração da lei um alinhamento no sentido do alcance do art. 24 da LINDB apenas aos atos administrativos, e não a quaisquer atos privados, ainda que relevantes na relação entre Administração Pública e o cidadãocontribuinte. Esse ponto foi expressamente afirmado pelo Prof. Carlos Ari Sundfeld, um dos autores da lei, nos seguintes termos: O art. 24 proíbe que a administração tributária dê aplicação retroativa a nova interpretação sobre a legislação tributária, de modo que nenhuma REVISÃO DE VALIDADE DE ATO SINGULAR DA AUTORIDADE (o lançamento, por exemplo) pode ser feita por mudança da orientação geral a respeito. Aliás, como se sabe, a proibição da irretroatividade da nova interpretação vai além dos simples casos de invalidação de atos administrativos, pois está prevista em termos amplos na Lei Federal de Processo Administrativo (art. 2º, parágrafo único, XIII) e no Código Tributário (art. 100, II, III e parágrafo único, e art. 146) Fl. 10769DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.770 58 Por mais que o ato apuração do tributo seja do contribuinte em relação à Receita Federal, que deverá homologálo, isso não o torna um ato administrativo, cuja definição clássica de Hely Lopes Meirelles já acentuava seus caracteres: "Ato administrativo é toda manifestação unilateral de vontade da Administração Pública que, agindo nessa qualidade, tenha por fim imediato adquirir, resguardar, transferir, modificar, extinguir e declarar direitos, ou impor obrigações aos administrados ou a si própria". A leitura do caput do art. 24 da LINDB deixa claro que a sua aplicação pressupõe a existência de pelo menos três atos (em sentido lato) distintos: Ato 01 "Ato administrativo." Ato 02 "Ato de revisão na esfera administrativa" . Ato 03 " Ato de aplicação do art. 24 da LINDB, para anular o Ato 02". Essa é a estrutura de aplicação do art. 24 é a revisão da revisão. Mas antes disso, fica absolutamente claro que o primeiro ato, revisado pelo ato 02 e reestabelecido pelo ato 03, precisa ser necessariamente um ato administrativo. No lançamento por homologação, o Ato 01 é um ato do particular de declaração do fato gerador e apuração do tributo devido, dotado de natureza constitutiva do crédito tributário, e o Ato 02 será a revisão feita pela Administração Tributária, com eventual lançamento, pretendendo o Contribuinte que o Ato 03 seja realizado através do processo administrativo tributário (DRJ, CARF e CSRF). Como se vê, essa estrutura claramente não é compatível com a literalidade do art. 24 da LINDB, por se tratar de ato particular, e não ato administrativo." A brilhante elucidação do Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto vai ao encontro da posição que já defendi, em manifestações orais nas sessões de julgamento nesta Câmara Superior, quando expressei que o substantivo "revisão", que inicia o artigo 24 da LINDB introduzido pela Lei nº 13.655/2018, significa um segundo olhar sobre o que já foi visto. Isso implica que seja o mesmo ato antes visto e regularmente aprovado. Segundo o artigo 24 da LINDB, essa aprovação não pode ser posteriormente revista à luz de orientações posteriores, pois coloca em risco a segurança jurídica. Contribuintes têm vindo a esta Câmara para pleitear que não seja revisto o que sequer foi visto antes. O ato cujos efeitos tributários são examinados neste momento não foi objeto de anterior aprovação pela Administração Tributária. Aliás, se já houvesse sido aprovado, teria a proteção da coisa administrativa definitivamente julgada, nos termos do artigo 42 do Decreto nº 70.235/1972, ou das decisões administrativas com eficácia vinculante, em consonância com o artigo 146 c/c artigo 100, inciso II, ambos do CTN. Portanto, o artigo 24 da LINDB não diz respeito ao ato de espontânea subsunção à lei realizado pelo contribuinte. Este ato, além de ser privado, não foi precedentemente examinado. Fl. 10770DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.771 59 Por essa razão, entendo que o artigo 24 da LINDB não se aplica ao contribuinte que pleiteia sua proteção com a alegação de realizara a espontânea subsunção à lei tributária, em consonância com a interpretação que prevalecia na jurisprudência da época. É como voto. (assinado digitalmente) Flávio Franco Corrêa Declaração de voto Conselheiro Luís Flávio Neto. O patrono do contribuinte suscita que o art. 24 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro – LINDB (DecretoLei nº 4.657/1942), introduzido pela Lei nº 13.655/2018, determinaria o cancelamento da exigência fiscal discussão Alega o contribuinte que, à época da prática dos atos pertinentes à autuação fiscal, o seu agir seria convergente com jurisprudência majoritária do CARF, com a incidência da aludida norma veiculada pelo art. 24 da LINDB. Apresenta, ainda, levantamento jurisprudencial que supostamente evidenciaria a existência de decisões majoritárias considerando válidas operações muito semelhantes às praticadas. Tratase de enunciado prescritivo recentemente sancionado e a sociedade vem discutindo intensamente o seu conteúdo normativo e a sua eficácia para questões tributárias. Há, então, um primeiro passo a ser percorrido antes de adentrarse (ou não) na análise quanto à incidência da norma do art. 24 da LINDB ao caso ora sob julgamento: a delimitação da norma geral e abstrata veiculada pelo enunciado em questão. Contudo, para que se possa compreender os efeitos do art. 24 da LINDB, é preciso ter claro qual regime jurídico assistia o contribuinte antes de sua introdução pela Lei nº 13.655/2018. Dessa forma, organizo a presente declaração de voto da seguinte forma: 1. O regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF antes da Lei nº 13.655/2018; 2. O regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF após a Lei nº 13.655/2018; 3. A aplicação do regime jurídico de proteção na confiança da jurisprudência do CARF ao caso concreto. Fl. 10771DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.772 60 1. O regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF antes da Lei nº 13.655/2018 O tema sob análise está intimamente relacionado à concepção de justiça fiscal, pois coloca em debate questões nucleares ao sistema tributário ideal, atinentes à segurança jurídica, à proteção da confiança, à boafé objetiva e à moralidade pública. Tratase do princípio da não surpresa no Direito Tributário, que requer, entre outras coisas, a proteção da confiança em entendimentos emanados da administração fiscal. A ideia central é que o contribuinte, ao pautar os seus atos em determinadas modalidades de atos da administração fiscal, potencialmente capazes de lhe gerar legítimas expectativas de cumprimento, não tenha a sua confiança arbitrariamente frustrada, com a imposição incerta de prejuízo surpresa. Do contrário, como adverte HUMBERTO ÁVILA10, “o seu investimento, em vez de orientado e respeitado pelo Direito, transformarseia em jogo de azar”. Antes de adentrarse no regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF existente antes da edição da Lei nº 13.655/2018, é relevante compreender a dimensão e a eficácia da proibição de comportamentos contraditórios em outros ramos do Direito, notadamente no Direito privado e administrativo. A incursão é útil para que se possa ter claro como tal princípio encontrase enraizado no ordenamento pátrio vigente. 1.1. Nemo potest venire contra factum proprium no Direito privado e administrativo. A investigação no âmbito do Direito privado e do Direito administrativo demonstra que a repulsa à perpetração de desvantagens derivadas de comportamentos contraditórios pressupõe: (i) o “factum proprium”, consubstanciado na conduta de uma das partes (“A”), dotada de algumas especificidades; (ii) a legítima expectativa da outra parte (“B”), cuja confiança seja protegida pelo Direito; (iii) o comportamento contraditório daquela primeira (“A”); (iv) capaz de gerar um dano a esta segunda (“B”).11 O princípio nemo potest venire contra factum proprium não foi homenageado com cláusulas gerais expressas nas codificações brasileiras do Direito privado. No Código Civil de 2002, há apenas a tutela de comportamentos contraditórios em temas que, ainda que fundamentais, são aplicáveis a situações específicas12. Não obstante, sob a égide do princípio da boafé objetiva e da proteção da confiança, não é novidade para os Tribunais brasileiros a existência e eficácia de norma geral de repulsa à obtenção de vantagens derivadas de comportamentos contraditórios. Já nos idos 1978, o Supremo Tribunal Federal (“STF”), ao decidir questão relacionada ao regime de bens decorrente de matrimonio contraído no exterior, adotou como argumento de decisão a “infração ao princípio geral de direito segundo o qual não pode a parte ‘venire contra factum proprium’”13. O levantamento dos julgamentos sobre a matéria demonstra que os Tribunais de diversas regiões do país têm enfrentado com considerável intensidade questões em que o princípio nemo potest venire contra factum proprium se mostra determinante. Entre estes, o Tribunal de Justiça 10 ÁVILA, Humberto. Segurança jurídica no Direito Tributário – entre permanência, mudança e realização. Tese apresentada no concurso de professor titular de Direito Tributário da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2009, p. 48795. 11 Vide, nesse sentido: SCHREIBER, Anderson. A proibição de comportamento contraditório: tutela da confiança e venire contra factum proprium. 2. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2007, p. 284285. 12 Vide: Código Civil. Arts. 174, 475, 476 e 477. 13 BRASIL. STF. RE 86787, Relator Min. Leitão de Abreu, Segunda Turma, julgado em 20.10.1978, DJ 04.05.1979. Fl. 10772DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.773 61 do Distrito Federal e Territórios (“TJDFT”) fornece exemplos interessantes, com o reconhecimento da vedação a comportamentos inesperados de uma das partes da relação jurídica, com surpresa e prejuízos à outra parte14. Em suas decisões, este Tribunal tem afirmado que a “vedação do comportamento contraditório (venire contra factum proprium) é decorrente do princípio da boafé objetiva e visa impedir que uma das partes, após ter gerado uma expectativa na outra, aja de forma incoerente com a conduta anterior”15, ou, ainda, que a “proibição do venire contra factum proprium ou teoria dos atos próprios visa proteger a parte contra aquele que deseja exercer um status jurídico em contradição com um comportamento assumido anteriormente”16. Ao tratar da cobrança de taxas decorrentes do estabelecimento de propriedade condominial, o TJDFT consignou que “há de se ter em mente que a ninguém é dado se beneficiar da sua própria torpeza (‘venire contra factum proprium’)”. 17 Em outro caso, ao analisar punições pelo atraso na entrega do imóvel pronto e acabado por empresa construtora, o TJDF concluiu que “a tentativa de eximirse de obrigação imposta pela própria ré em contrato de adesão ofende os princípios da probidade e da boafé, que os contratantes são obrigados a guardar durante a execução e conclusão do contrato (CC 422), e incorre em comportamento contraditório (venire contra factum proprium), proibido pelo ordenamento jurídico”.18 Como se pode observar, as decisões em questão, que combatem danos perpetrados por comportamentos contraditórios, em geral buscam fundamento jurídico nos princípios da segurança jurídica, probidade e boafé objetiva, com respaldo na tradicional doutrina do Direito privado. A boafé pode ser analisada sob duas perspectivas: objetiva e subjetiva. A boafé subjetiva corresponderia a um estado psicológico, em que o sujeito não teria conhecimento de transgressões (crença de não ofensa ao Direito), colocandose em discussão convicções do indivíduo. Por sua vez, pela perspectiva da boafé objetiva, a questão seria outra: o comportamento do sujeito se conformaria a imperativos éticos, com a adoção de modelos de conduta social? Enquanto o Código Civil de 1916 prestigiou a boafé subjetiva, o novo Código adotou como constante a sua modalidade objetiva, com destaque aos arts. 113 e 422 do Código Civil19, este último veiculando verdadeira cláusula geral da boafé20. Esse arcabouço jurídico torna a norma “nemo potest venire contra factum proprium”, ainda que implícito nas codificações, cogente no âmbito do Direito privado. E isso é de grande relevância ao presente estudo: a existência de dispositivos positivados no Código Civil, para a tutela de comportamentos contraditórios específicos, não prejudica a 14Vide: Pesquisa temática de jurisprudência no sitio do TJDFT na internet. www.tjdft.jus.br/institucional/jurisprudencia/jurisprudenciae...dotjdft1/principiosdocdc/principiovenirecontrafactum proprium , acesso em 27.06.2016. 15 BRASIL. TJDFT. Acórdão n. 930746, 20150020147372AGI, Relator: MARIA DE FATIMA RAFAEL DE AGUIAR, 3ª TURMA CÍVEL, Data de Julgamento: 16/03/2016, Publicado no DJE: 07/04/2016. 16 BRASIL. TJDFT. Acórdão n. 928319, 20140111993895APC, Relator: ALFEU MACHADO, Revisor: ROMULO DE ARAUJO MENDES, 1ª Turma Cível, Data de Julgamento: 16/03/2016, Publicado no DJE: 13/04/2016. 17 BRASIL. TJDFT. Acórdão n. 926744, 20150710112775APC, Relator: ANA MARIA DUARTE AMARANTE BRITO, 6ª TURMA CÍVEL, Data de Julgamento: 02/03/2016, Publicado no DJE: 17/03/2016. 18 BRASIL. TJDFT. Acórdão n. 923696, 20150310113102APC, Relator: SERGIO XAVIER DE SOUZA ROCHA, Revisor: JAMES EDUARDO DA CRUZ DE MORAES OLIVEIRA, 4ª TURMA CÍVEL, Data de Julgamento: 24/02/2016, Publicado no DJE: 13/04/2016. 19 Merecem menção, ainda, os arts 4o, III, e art. 51, IV, do Código de Defesa do Consumidor. 20 Vide: RUBINSTEIN, Flávio. BoaFé Objetiva no Direito Financeiro e Tributário Série Doutrina Tributária Vol. III São Paulo: Quartier Latin, 2010, p. 5051. Fl. 10773DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.774 62 existência ou eficácia jurídica dessa norma, que permanece a irradiar efeitos sobre as hipóteses não contempladas pelas referidas regras positivadas. Tal como se dá no âmbito do Direito privado, são caros ao Direito administrativo os princípios da segurança jurídica, da boafé, da proteção da confiança e da moralidade pública.21 Acrescese, contudo, que há mandamento constitucional a ser considerado. O art. 37 da Constituição Federal determina que a administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedeçam aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. ARRUDA ALVIM22 suscita que “esta alusão à moralidade, que consta do texto constitucional, parece justificarse na medida em que o venire contra factum proprium tem, igualmente, como a moral, substância ética”. Ao menos dois julgados do e. Superior Tribunal de Justiça (“STJ”) são emblemáticos na evidenciação de que essa norma geral da proibição de comportamentos contraditórios tem cogência no âmbito do Direito administrativo. No primeiro deles23, o Tribunal concluiu que não seria permitido à Fazenda Pública, “décadas após a venda do imóvel realizada por funcionário de alto escalão em nome da Administração, vir a juízo pleitear a nulidade dos títulos”, sob o fundamento de que, se mácula havia no título, “essa foi causada pelo próprio poder público, o qual não pode invocar o suposto equívoco do seu secretário de Estado, para prejudicar aquele que legitimamente adquiriu a propriedade, pagando para tanto”. Em um segundo julgado24, o STJ fez referência à teoria dos atos próprios, para condenar o comportamento contraditório da administração pública. O Tribunal analisou caso em que um município celebrou contrato de promessa de compra e venda de lote de sua propriedade, mas suscitou como causa de anulação do negócio um vício na regularização do loteamento, que havia sido promovido pela própria municipalidade. Em seus fundamentos, adotou o Ministro RUY ROSADO DE AGUIAR como fundamento de decidir, in verbis: “Sabese que o princípio da boafé deve ser atendido também pela administração pública, e até com mais razão por ela, e o seu comportamento nas relações com os cidadãos pode ser controlado pela teoria dos atos próprios, que não lhe permite voltar sobre os próprios passos depois de estabelecer relações em cuja seriedade os cidadãos confiaram.” A proibição de contradição em relação aos atos próprios da administração pública corresponde a uma das consequências jurídicas que defluem da boafé enquanto núcleo de princípios como da moralidade administrativa e da segurança jurídica. Essa perspectiva é bem apresentada por PAULO MODESTO25, que suscita o dever do “sujeito titular de direitos ou prerrogativas públicas de respeitar a aparência criada por sua própria conduta anterior nas relações jurídicas subsequentes, ressalvando a confiança gerada em terceiros, regra fundamental para a estabilidade e segurança no tráfego jurídico”. O administrado, por 21 Nesse sentido, vide: FACCI. Lucio Picanço. A proibição de comportamento contraditório no âmbito da administração pública: a tutela da confiança nas relações jurídicoadministrativas. Disponível em http://www.agu.gov.br/page/download/index/id/7450652, acesso em 28.06.2016. 22 ALVIM, Arruda. Juiz federal. Lista tríplice. Alegada inobservância do art. 93, II, da Constituição Federal. Revista de direito Constitucional e Internacional, vol. 36, Jul – Set/2001, p. p. 288 – 306. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 288 – 306. 23 BRASIL. STJ. REsp 47.015/SP, Rel. Ministro ADHEMAR MACIEL, SEGUNDA TURMA, julgado em 16.10.1997, DJ 09.12.1997. 24 BRASIL. STJ. REsp 141.879/SP, Rel. Ministro RUY ROSADO DE AGUIAR, QUARTA TURMA, julgado em 17.03.1998, DJ 22/06/1998. 25 Nesse sentido, vide: MODESTO, Paulo. Controle jurídico do comportamento ético da administração pública no brasil. Revista de Direito administrativo. Rio de Janeiro, 209, jul./set. 1997, p. 7678. Fl. 10774DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.775 63 conseguinte, não pode ser punido caso o agente administrativo vier a “emitir novo ato em contradição manifesta com o sentido objetivo dos seus atos anteriores, ferindo o dever de coerência para com o outro sujeito da relação sem apresentar justificação razoável”. Há, com isso, reciprocidade à presunção de legitimidade e legalidade de que gozam os atos administrativos. Se estes devem ser considerados a priori como legítimos e conforme o melhor direito (presunção relativa), os contribuintes têm razões evidentes para seguilos até que sejam desconstituídos ou reformados. Como uma via de mão dupla, deve haver proteção às condutas condizentes com a interpretação administrativa. 1.2. Nemo potest venire contra factum proprium no Direito tributário Ao mesmo tempo em que a certeza do Direito é fundamental, “a interpretação é inesgotável, o que importa reconhecer que os processos de geração de sentido continuam, incessantemente”26. De um mesmo texto legislado, interpretações variadas podem dar origem a normas jurídicas diferentes. Não são raras as vezes que compreensões antagônicas são sustentadas por parte do fisco e do contribuinte. No âmbito do Direito tributário, o relacionamento entre a administração pública e o particular ganha cores ainda mais vivas, posto que rotineiro e, nos dias atuais, de intensidade elevada. Nesse ambiente, é essencial que o cidadãocontribuinte tenha condições de pautarse de boafé na forma como a administração fiscal interpreta e aplica reiteradamente uma certa norma jurídica para, assim, organizar as suas atividades e os seus investimentos, sem o risco de vir a ser tributado de forma mais severa ou mesmo punido caso adote tais diretrizes. A passagem do status de súdito para cidadão racional garante ao indivíduo o direito à previsibilidade de seus atos, de tal forma que, ao conhecer a perspectiva do fisco sobre o Direito posto, seja possível ter segurança jurídica quanto às consequências que devem ser experimentadas a partir das condutas praticadas. Quando o fisco emite um ato administrativo, tornando transparente a sua interpretação quanto à mais correta aplicação do Direito a uma determinada situação, instalase um farol em meio à tempestade de incertezas em que muitas vezes navegam os particulares: o contribuinte passa a ter a legítima expectativa quanto à forma como a outra parte da relação jurídicotributária deverá atuar. Sob um ponto de vista pragmático, tais atos administrativos, dotados de presunção de legitimidade, têm o potencial de induzir grande parte da coletividade a adotar igual interpretação sem maiores questionamentos. Aplicamse, também no Direito tributário, os mesmos princípios suscitados acima, na análise de outros ramos do Direito, traduzidos em uma norma geral de não autuação de condutas condizentes com interpretações oficiais do fisco. O elevado grau de complexidade do Direito tributário brasileiro, contraposto ao direito fundamental à segurança jurídica, exige que se atribua relevância às interpretações manifestadas pela administração tributária, com a proteção da legítima confiança do contribuinte e a consequente proibição de comportamentos contraditórios pela administração fiscal. 26 CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de direito tributário. São Paulo : Saraiva, 2000, prefácio à 13a edição. Fl. 10775DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.776 64 A validade, a vigência e a eficácia das normas tributárias, como bem suscita HUMBERTO ÁVILA27, devem ser investigadas sob “perspectiva que conjugue equilibradamente o modo, o ritmo e a intensidade do exercício dos direitos fundamentais com o modo, o ritmo e a intensidade da atuação estatal”. A segurança jurídica, nessa condição de princípiocondição, torna essencial a preservação da confiança e da nãosurpresa quanto aos atos administrativos: “o Estado não pode nem se afastar injustificadamente das suas próprias posições, nem pode deixar de atribuir tratamento uniforme a todos os cidadãos”, afinal, “como os atos administrativos se revestem de força normativa, também a confiança daqueles que acreditaram na sua aparência de legitimidade deve ser protegida”, leciona ÁVILA. A segurança jurídica, na feliz colocação de LEANDRO PAULSEN28, representa “valor supremo” do Estado Democrático, como “qualidade daquilo que está livre de perigo, livre de risco, protegido, acautelado, garantido, do que se pode ter certeza ou, ainda, daquilo em que se pode ter confiança, convicção”, encontrando dimensões variadas, entre as quais a “confiança no tráfego jurídico”, que prescreveria a proteção da boafé e da aparência. A tutela da boafé e da legítima confiança, com a consequente proibição de comportamentos contraditórios da administração fiscal, também encontra fundamento no princípio da legalidade, cuja proteção se estende àqueles que utilizam o Direito como fundamento para o direcionamento de livre arbítrio que lhes é inerente.29 Leciona SACHA CALMON NAVARRO COELHO30 que, “dado que ninguém está obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa a não ser em virtude de lei, a segurança jurídica a que faz jus o contribuinte entronca diretamente com a tese ou princípio da ‘proteção da confiança’.” Assim como ocorre em outras searas, não se poder dizer que a norma nemo potest venire contra factum proprium seja novidade na jurisprudência tributária. Uma decisão emblemática sobre o tema foi proferida pelo STF31 nos anos 90. No caso, em um período de inflação galopante, uma determinada empresa formalizou consulta a um fisco estadual, questionando o momento correto para a apuração e recolhimento do ICMS. Ao receber a solução da consulta, com a ressalva de que a sua não obediência daria ensejo a autuação fiscal, o particular passou a obedecêla sem questionamentos. Tempos depois, ao perceber que concorrentes adotavam entendimento diverso e que isso lhes imprimia substancial vantagem financeira, realizou nova consulta ao fisco, sendo surpreendido com diametral mudança de entendimento por parte deste. O contribuinte, então, ajuizou ação judicial para ser indenizado pelos danos causados por comportamentos contraditórios da administração, que ofenderiam a proteção à confiança e à boafé. A Suprema Corte brasileira decidiu que “a relação jurídica Estado/contribuinte há de repousar, sempre, na confiança mútua, devendo ambos atuarem com responsabilidade, fieis ao ordenamento jurídico em vigor”. Com fundamento na proteção da confiança e da boafé, o Estado foi condenado a indenizar os prejuízos causados. O relator, 27 ÁVILA, Humberto. Segurança jurídica no Direito Tributário – entre permanência, mudança e realização. Tese apresentada no concurso de professor titular de Direito Tributário da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2009, p. 486; 491; 765. 28 PAULSEN, Leandro. Curso de direito tributário completo. 4 ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2012, p. 98 e seg. 29 Nesse sentido, vide: ÁVILA, Humberto. Segurança jurídica no Direito Tributário – entre permanência, mudança e realização. Tese apresentada no concurso de professor titular de Direito Tributário da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2009, p. 48795. 30 COELHO, Sacha Calmon Navarro. Curso de direito tributário brasileiro, 12ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2012, p. 397 e seg. 31 BRASIL. STF. RE 131741, Relator Min. MARCO AURÉLIO, SEGUNDA TURMA, julgado em 09.04.1996, DJ 24.05.1996. Fl. 10776DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.777 65 Ministro Marco Aurélio, destacou ter o contribuinte “demonstrado inegável confiança no fisco e, portanto, havendo adotado postura de absoluta boafé”. O e. STJ32, por meio de recurso especial representativo de recursos repetitivos, determinou a aplicação da referida norma para a proteção da expectativa do contribuinte à adesão a parcelamentos tributários. Conforme a decisão da Corte, “o titular do direito subjetivo que se desvia do sentido teleológico (finalidade ou função social) da norma que lhe ampara (excedendo aos limites do razoável) e, após ter produzido em outrem uma determinada expectativa, contradiz seu próprio comportamento”, ofende “a máxima nemo potest venire contra factum proprium”. Notese que, à semelhança das outras searas jurídicas analisadas, a norma geral de proibição de comportamentos contraditórios tem sido aplicada pelo Poder Judiciário como válida, vigente e eficaz no Direito tributário, muitas vezes independentemente de positivação quanto a situações específicas. Há, contudo, algumas regras positivadas para tutela de algumas hipóteses de comportamentos contraditórios da administração fiscal. Em especial, o art. 100 do Código Tributário Nacional (“CTN”), legitimado pela Constituição como fonte primária apta a veicular normas gerais de Direito tributário, prescreve a exclusão de “penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo” caso o contribuinte obedeça a normas complementares consubstanciadas em atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas (inciso I), decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa (inciso II), em práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas (inciso III) ou, ainda, em convênios que entre si celebrem os entes federados (inciso IV).33 Décadas atrás, tomando como exemplo as circulares, portarias, instruções e ordens de serviço, RUBENS GOMES DE SOUSA34, um dos mais notórios idealizadores do CTN, lecionava tratarse de fontes secundárias do Direito tributário que, “definindo o ponto de vista da administração pública, ajudam a entender o sentido e o alcance da lei, devendo ser levados em consideração pelo juiz para esse efeito, e podendo ser invocados em sua defesa pelos particulares, quando tenham agido de acordo com eles, ou quando os funcionários pretendam agir diversamente e em prejuízo do particular”. Independentemente da roupagem que lhes sejam atribuídos (portaria, instrução normativa, “perguntas e respostas”, ato declaratório, solução de consulta etc.), atos administrativos vocacionados à informação da coletividade quanto à interpretação fazendária geram legítimas expectativas de cumprimento na esfera de direitos de cada contribuinte. Em face desse status jurídico, o particular poder clamar por segurança jurídica e reclamar a proteção da boafé e da confiança no caso de comportamento contraditório por parte do fisco (norma geral de não autuação de condutas condizentes a tais atos). 32 BRASIL. STJ. REsp 1143216/RS, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 24.03.2010, DJe 09.04.2010. 33 Vide: MANNINO, Enrico Estefan; ZEITUNE, Daniel Duque Estrada. Nãotributação da variação cambial positiva pelo PIS e Cofins – observância às práticas reiteradas da Fazenda Pública – proibição ao comportamento próprio contraditório – venire contra factum proprium”. In: Revista Dialética de Direito Tributário v. 99. São Paulo: Dialética, 2003, p. 124132. 34 SOUSA, Rubens Gomes de. Compêndio de Legislação Tributária. Rio de Janeiro: Edições Financeiras S.A., 1964, p. 5152. Fl. 10777DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.778 66 Em relação a atos dessa natureza, parece clara a incidência do art. 100 do CTN. Até que os contribuintes sejam devidamente conscientizados quanto à alteração de interpretação da administração fiscal, aqueles que adotarem a interpretação manifestada não poderão ser punidos ou cobrados de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. Algumas observações são fundamentais quanto aos enunciados prescritivos do art. 100 do CTN. A norma em questão tem como escopo uma porção limitada de hipóteses, com caráter não exaustivo e com a possibilidade de uma situação subsumirse a mais de um de seus incisos. Em comum, nos incisos do art. 100 do CTN, o legislador elegeu como critério de discrímen atos administrativos não direcionados especificamente ao contribuinte, mas com potencialidade de criar na coletividade a expectativa de cumprimento da norma tributária de determinada maneira, com a imposição de tributos e acessórios de forma contraditória com seu próprio entendimento. Importante gama de situações, portanto, está fora do escopo do art. 100 do CTN, o que é um dado muito relevante. Ocorre que, assim como se dá no âmbito do Direito privado, em que previsões específicas no Código Civil não impedem a fruição do princípio nemo potest venire contra factum proprium às situações não abrangidas por estas, uma série de hipóteses que não estejam sob o escopo do art. 100 do CTN podem gozar, por eficácia direta de princípios jurídicos, da proteção da norma geral de não autuação de condutas condizentes com interpretações oficiais do fisco. Também é preciso ter claro que o art. 100 do CTN não prescreve um privilégio aos contribuintes. Essa visão poderia transmitir uma falsa ideia de benevolência opcional consentida pelo legislador, ofuscando a norma geral de proibição de comportamentos contraditórios que, conforme se verifica, encontra fundamento de validade imediatamente em princípios como segurança jurídica, boafé, proteção da confiança e moralidade pública. Na verdade, o art. 100 do CTN, ao regular as hipóteses sob o seu escopo, restringe a eficácia normativa dessa norma geral. Esse caráter restritivo é evidenciado por seu parágrafo único, que protege o particular apenas contra a imposição de “penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo”, mas permite a cobrança do débito principal. Não fosse a tutela expressa de tais hipóteses pelo legislador, o venire contra factum proprium poderia ser diretamente reclamado pelo contribuinte para a discussão inclusive do tributo (principal). No acórdão n. 930301.355, ao reconhecer que uma determinada decisão administrativa teria induzido o contribuinte à adoção de uma classificação fiscal para certas mercadorias importadas e, assim, à apuração dos tributos de importação com alíquotas reduzidas, a CSRF compreendeu incabível tanto a imposição de penalidades quanto a própria cobrança dos tributos (débito principal). A aludida decisão restou assim ementada: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 14/01/1998, 17/12/1999 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. CONTRIBUINTE. ENTENDIMENTO FIXADO PELA PRÓPRIA FISCALIZAÇÃO EM OUTRO AUTO DE INFRAÇÃO. INCIDÊNCIA DO ARTIGO 100, PARÁGRAFO ÚNICO DO CTN. PROIBIÇÃO DO VENIRE CONTRA FACTUM PROPRIUM. Fl. 10778DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.779 67 Não procede a autuação, com base em errônea classificação fiscal de produto importado pelo contribuinte, quando esta classificação se baseia em entendimento fixado pela própria fiscalização em outra autuação, relativa ao mesmo produto. Incidência do principio da proibição do "venire contra factum proprium", que veda que as partes, numa da relação jurídica, adote comportamentos contraditórios. Recurso Especial do Procurador Negado. CARF. 3ª Turma da CSRF. Acórdão nº 930301.355. Sessão de 02.02.2011. A decisão em questão tem o mérito de evidenciar a carga normativa dos princípios da segurança jurídica, da confiança e da boafé, com a eficácia da norma geral de não autuação de condutas condizentes com interpretações oficiais do fisco a hipóteses não contempladas pelos arts. 100 ou 112 do CTN e, portanto, não sujeitas às restrições prescritas em seus enunciados. Em situações como essa, embora o art. 146 do CTN autorize alterações de ofício nos critérios jurídicos em relação a períodos de apuração diversos, o sistema jurídico excepciona a hipótese em que o contribuinte evidencie ter adotado como norte uma determinada interpretação com base no critério jurídico anteriormente manifestado pela autoridade administrativa. Notese que, embora o art. 146 do CTN se refira à autoridade administrativa “no exercício do lançamento”, também decisões adotadas pelo CARF estão submetidas ao seu comando, como já lecionava Aliomar Baleeiro, ao afirmar que, “embora o Código não se refira especificamente à hipótese, o art. 146 é inteiramente aplicável, pois, em uma decisão dessa natureza, os critérios jurídicos de julgamento são ainda mais certos e definidos, configurando precedente intransponível, a nortear o comportamento da Fazenda e do contribuinte para o futuro”. Por fim, merece especial destaque a decisão recentemente proferida pelo e. STF, na sessão de 24.04.2018, no julgamento do Segundo Ag.Reg. no Recurso Extraordinário com Agravo 951.533 – ES, em que analisouse, diretamente com base no princípio da segurança jurídica, quais os efeitos da mudança brusca da jurisprudência, compreendendose que “o princípio da segurança jurídica, no entanto, impede a aplicação da nova orientação ao caso concreto”. Colhemse os seguintes fundamentos do voto vencedor proferido pelo i. Ministro Dias Toffoli35, in verbis: “Com a devida vênia, entendo que a tese de número 2, acima identificada, merece ser acolhida com base diretamente no princípio da segurança jurídica. Vejamos. Conforme consta dos autos, até o julgamento do EREsp nº 435.835/SC, acórdão publicado em 4/6/07, o STJ entendia que o prazo prescricional relativo à pretensão de restituição de tributo declarado inconstitucional tinha início a partir da data da declaração de inconstitucionalidade da exação pelo Supremo Tribunal Federal ou da resolução do Senado Federal. Com o julgamento daqueles embargos de divergência, a Corte Superior mudou sua jurisprudência, passando a consignar que, independentemente de declaração de inconstitucionalidade, deveria prevalecer, para efeito de fixação do prazo prescricional, a tese conhecida como “cinco mais cinco”, isto é, no caso de tributos sujeitos a homologação, cinco anos contados a partir do fato gerador mais cinco anos contados da data da homologação tácita. 35 Fonte: Conjur. Fl. 10779DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.780 68 Em face disso, interpôsse o recurso extraordinário sob a alegação de afronta ao princípio da segurança jurídica, uma vez que a mudança jurisprudencial não teria sido acompanhada de qualquer espécie de regra de adaptação, passando a ser aplicada, de imediato, não só às ações movidas após o referido julgamento, mas também àquelas que já haviam sido ajuizadas, respeitandose o prazo prescricional anteriormente consolidado. Desse modo, por força unicamente daquela guinada jurisprudencial, diversos contribuintes que já haviam ingressado em juízo e contavam com decisões favoráveis nas instâncias ordinárias – observandose o prazo prescricional anterior – teriam visto suas pretensões ser automaticamente fulminadas, apesar de nunca terem ficado inertes. A parte ora recorrente é um desses contribuintes. Resta saber se seria possível a Corte, em sede de recurso extraordinário, conceder, com base diretamente no princípio da segurança jurídica (confiança no tráfego jurídico e acesso à Justiça), espécie de provimento que, ao cabo, resulte em modulação temporal dos efeitos da decisão proferida pelo STJ no julgamento dos embargos de divergência. Para o Relator, isso não seria admissível, em razão, notadamente, de dois motivos: a) não existiria direito absoluto à manutenção de jurisprudência, “de sorte a obrigar o EstadoJuiz a manter seus posicionamentos eternamente estáveis”, especialmente quando se leva em conta que aquele entendimento anterior do STJ não estava sedimentado em enunciado de súmula nem havia sido proferido segundo a sistemática dos recursos repetitivos; b) seria necessário o reexame do conjunto fático e probatório constante dos autos, o que é vedado, de acordo com a Súmula nº 279 da Corte. Com a devida vênia, entendo que esses argumentos, embora sejam geralmente aplicáveis aos apelos extremos em que se discute a modulação de efeitos de decisão proferida por instâncias inferiores, não o são ao caso em tela. É importante ter em mente que não se pleiteia, por meio da tese ora em discussão, a manutenção ad eternum do entendimento prevalecente na Corte Superior anteriormente ao julgamento daquele caso paradigmático (EREsp nº 435.835/SC). O que se requer é que, com base diretamente no princípio da segurança jurídica, a mudança brusca da jurisprudência acerca do prazo prescricional não alcance a presente ação, a qual estava em curso na data do julgamento ou da publicação do acórdão (4/6/07), questão constitucional passível de análise em sede de recurso extraordinário. (...) Pois bem. No caso, verificase que o Tribunal Regional Federal da 2ª Região superou a arguição de prescrição, aplicando o entendimento então consolidado no STJ de que o prazo prescricional para se postular a repetição de indébito no caso concreto somente teria início com a declaração de inconstitucionalidade da norma pelo Supremo Tribunal Federal. Em seguida, aquele Tribunal adentrou no mérito para assentar que o Decretolei nº 2.295/86 se revelara, desde sua edição, incompatível com a Emenda Constitucional nº 01/69, devendo os recolhimentos realizados e comprovados nos autos ser restituídos, na medida em que a cobrança não tinha suporte legal. Vale também destacar, no tocante ao mérito da discussão, que o tributo questionado na ação foi declarado inconstitucional pelo Tribunal Pleno do Supremo Tribunal Fl. 10780DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.781 69 Federal no julgamento do RE nº 408.830/ES, Relator o Ministro Carlos Velloso, sessão de 15/4/04, DJ de 4/6/04: “CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO. I.B.C. CAFÉ: EXPORTAÇÃO: COTA DE CONTRIBUIÇÃO. D.L. 2.295, DE 21.11.86, ARTIGOS 3º E 4º. C.F./1967, ART. 21, § 2º, I; C.F., 1988, ART. 149. I. Não recepção, pela C.F./88, da cota de contribuição nas exportações de café: D.L. 2.295/86, arts. 3º e 4º. Precedentes do S.T.F. II. Inconstitucionalidade da cota de contribuição do I.B.C. D.L. 2.295/86, arts. 2º e 4º frente à C.F./67, art. 21, I, ex vi do disposto no inciso I do § 2º do mesmo art. 21. III. R.E. conhecido e improvido” (RE nº 408.830/ES, Tribunal Pleno, Relator o Ministro Carlos Velloso, DJ de 4/6/04). Por fim, observo que a matéria devolvida ao Superior Tribunal de Justiça pelo recurso especial interposto referiuse exclusivamente à questão do termo inicial do prazo prescricional. Foi nesses termos estritos que o Superior Tribunal de Justiça deu provimento ao recurso especial, assentando a tese de que a prescrição do direito de pleitear a restituição/compensação relativamente aos tributos sujeitos a lançamento por homologação ocorrerá após expirado o prazo de cinco anos contados a partir do fato gerador, acrescido de mais cinco anos da data da homologação tácita (tese dos dez anos). O princípio da segurança jurídica, no entanto, impede a aplicação da nova orientação ao caso concreto.” É forçoso concluir, portanto, que mesmo antes da edição da Lei nº 13.655/2018 já vigia normas cogentes de proteção da confiança na jurisprudência tributária. A jurisprudência do CARF naturalmente não está imune a norma. 1.3. No âmbito federal, qual norma de proteção da confiança do contribuinte na jurisprudência do CARF existia antes da Lei nº 13.655/2018? As normas de âmbito constitucional ou aquelas veiculadas por lei complementar (Constituição Federal, art. 146) têm o potencial de estabelecer “normas gerais em matéria tributária”, no sentido de que são vocacionadas à tutela de relações no âmbito dos Municípios, Estados, Distrito Federal e União. Por sua vez, cada ente federado detém a competência para estabelecer critérios próprios para vivificar o princípio da não surpresa com relação ao seu âmbito de atuação fiscal. Na ausência de lei complementar sobre a matéria, cada ente federado é competente para regular a matéria, com o exercício de “competência legislativa plena, para atender a suas peculiaridades”, mas a “superveniência de lei federal sobre normas gerais suspende a eficácia da lei” em questão, “no que lhe for contrário” (Constituição Federal, art. 24, inciso I, § 1º, § 2º, § 3º e § 4º). Por sua vez, caso exista lei complementar sobre o tema, ainda assim cada ente federado possuirá competência para legislação sobre a matéria, seja para atribuir maior efetividade aos mesmos critérios adotados em normas gerais ou, ainda, para estabelecer padrões ainda mais elevados de proteção da confiança que aqueles previstos em normas gerais. Assim, a enunciação leis ordinárias representa declaração expressa de qual grau de proteção à confiança é reconhecida pelo respectivo ente federado como mandatória independentemente de questionamentos. Nesse cenário, para o julgamento do caso concreto, é preciso verificar qual a interação entre as aludidas normas gerais, aplicáveis indistintamente a todos os entes federados, e aquelas com eficácia apenas sobre as relações jurídicotributárias de âmbito federal, por Fl. 10781DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.782 70 decorrerem de veículos normativos editados pela própria União para regular o seu âmbito de atuação fiscal. Entre situações dessa natureza, é possível cogitar, por exemplo, soluções de consultas formuladas pelo contribuinte ou, ainda, decisões em processos administrativos de que este seja parte. As consultas fiscais, na bem formulada explicação de JOSÉ SOUTO MAIOR BORGES36, têm justificativa no “estado de incerteza objetiva”, do qual decorreria “instabilidade incompatível com o valor constitucional da segurança jurídica”, asseguradas pelo direito à segurança nas relações entre fisco e contribuinte, instrumentalizado pelo direito de petição garantido pela Constituição Federal, art. 5º, XXXIV, “a”. Embora possa haver controvérsia quanto à obrigatoriedade de o contribuinte observar a solução da consulta a ele endereçada37, parece indiscutível a vinculação da administração fiscal perante o aludido consulente. Indiscutível, ainda, é a possibilidade de a administração fiscal rever o entendimento esposado em soluções de consulta, devendo respeitar, contudo, a forma legal requerida e, ainda, proibição à retroatividade e à frustração de legítima expectativa de cumprimento38. No âmbito da União, a legislação tributária federal39 reconhece a possibilidade de alteração do entendimento manifestado pela administração em consulta de particular quanto à classificação fiscal ou à aplicação da legislação tributária e aduaneira a uma determinada hipótese fática, prescrevendo as respectivas consequências jurídicas. Notese que, cumprindo com o que requer princípios como segurança jurídica, boafé, proteção da confiança e moralidade pública, o legislador federal expressamente obriga que se mantenha o entendimento manifestado pela administração fiscal até a data da notificação do contribuinte quanto à nova compreensão quanto à classificação fiscal mais adequada à mercadoria em questão (irretroatividade).40 No caso de solução de consulta atinente à aplicação da legislação tributária e aduaneira, o legislador igualmente preserva a expectativa de direitos do contribuinte gerada pela manifestação original da administração fiscal, mas possibilita que nova interpretação passe a surtir efeitos tanto a partir da ciência ao consulente como da sua publicação pela imprensa oficial, o que exige maiores atenções.41 Interessa notar que, quer seja por força dos princípios analisados, quer seja por normas atualmente prescritas pelo legislador ordinário (âmbito federal), o nemo potest venire contra factum proprium vincula a administração fiscal que responde a solução de consulta, com a proteção do contribuinte contra prejuízo surpresa que lhe seja imposto por comportamentos contraditórios de autoridades administrativas. 36 BORGES, José Souto Maior. Sobre a preclusão da faculdade de rever resposta prócontribuinte em consulta fiscal e descabimento de recurso pela Administração fiscal. Revista Dialética de Direito Tributário v. 154. São Paulo: Dialética, 2008, p. 78. 37 Sobre a questão, vide: SCHOUERI, Luís Eduardo. Algumas reflexões sobre a consulta em matéria fiscal. Revista Direito Tributário Atual v. 14, São Paulo: Resenha Tributária/IBDT, 1995, p. 1314. BORGES, José Souto Maior. Sobre a preclusão da faculdade de rever resposta prócontribuinte em consulta fiscal e descabimento de recurso pela Administração fiscal. Revista Dialética de Direito Tributário v. 154. São Paulo: Dialética, 2008, p. 77. 38 Vide: SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. São Paulo : Saraiva, 2011, p. 116. 39 Vide: Lei n. 9.430/96, Decreto n. 70.235/72 e Decreto n. 7.574/2011. 40 Vide: Lei n. 9.430/96, art. 50, Decreto n. 7.574/2011, art. 99. 41 Vide: Lei n. 9.430/96, art. 48, Decreto n. 7.574/2011, art. 100. Fl. 10782DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.783 71 Mas são as decisões do CARF que ora demandam maior atenção. Em geral, atos administrativos individualizados, como decisões do CARF direcionadas a um determinado contribuinte, não apresentam a priori eficácia perante terceiros. Não obstante, fatores especialmente relacionados com a constância e/ou hierarquia destes atos são potencialmente capazes de criar legítimas expectativas de cumprimento em toda coletividade. Assim, decisões do CARF enunciadas com constante convergência ou, ainda, pela Câmara Superior de Recursos Fiscais (“CSRF”), cuja função é justamente a uniformização jurisprudencial. Decisões dessa natureza geram inegáveis expectativas de como a administração fiscal aplica o Direito tributário, pois apresentam elevada eloquência para a transmissão de mensagem à sociedade que, de boafé, poderá compreender como agir para estar em conformidade com as exigências da administração fiscal. Mostrase mandatória, portanto, a garantia do nemo potest venire contra factum proprium. Nesse seguir, atos administrativos de caráter individualizado, mas com potencial de gerar expectativas de cumprimento na coletividade, podem ser qualificadas sob o escopo dos incisos II e/ou III do art. 100, bem como do art. 112, ambos do CTN. Notese que os aludidos incisos não apresentam hipóteses hermeticamente fechadas, podendose cogitar da aplicação de um ou mais deles para a tutela de uma mesma situação. O art. 100, III, do CTN, atribui o status de norma complementar aos “critérios costumeiramente adotados pela administração tributária, relativamente à forma de aplicação do Direito Tributário”42. Para que as decisões sob exame se enquadrem nessa moldura, deve haver razoável constância decisória (reiteração de precedentes) capaz de criar expectativa de cumprimento na coletividade. Registrese, então, ser bastante controversa como seria aferível a aludida constância decisória, o que pode explicar a baixa eficácia concreta da norma, bem como justificar as providências adotadas pela União para atribuir maior concretude à proteção da confiança do contribuinte. Notese, ainda, que o art. 927 do novo Código de Processo Civil43 (“Novo CPC”) reconhece a importância de decisões individuais para a criação de legítimas expectativas de cumprimento em toda coletividade, com a determinação para que os tribunais deem publicidade a seus precedentes, organizandoos por questão jurídica decidida e divulgandoos, preferencialmente, na internet. Já conforme prescreve o art. 926 do Novo CPC, os tribunais devem uniformizar a jurisprudência e mantêla estável, íntegra e coerente, inclusive com a edição de súmulas. Sob pena de ofensa a esse enunciado prescritivo, é preciso adotar como pressuposto que decisões proferidas por uma instância uniformizadora da interpretação do tribunal administrativo, como é o caso da CSRF, serão repetidas em casos semelhantes, com a manutenção da jurisprudência estável, íntegra e coerente. As legítimas expectativas de estabilidade, integridade e coerência, geradas a partir do pronunciamento uniformizador de um tribunal administrativo, devem gozar, portanto, da proteção do Direito contra comportamentos contraditórios de autoridades fiscais. Notese que o art. 112 do CTN obriga que o intérprete considere fatores como “natureza”, “circunstâncias materiais do fato” e “punibilidade”. Em caso de “dúvida” que circunde os referidos fatores, a norma que prevê penalidades deve ser aplicada “da maneira mais favorável ao acusado”. Não se pode negar que a constância de precedentes de um tribunal 42 GRAU, Eros Roberto. Conceito de tributo e fontes do direito tributário. São Paulo: IBDT, 1975, p. 56. 43 Lei n. 13.105/2015. Fl. 10783DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.784 72 administrativo, ou decisão do seu órgão máximo de julgamento, sejam geradoras por excelência de expectativas de cumprimento ou, ao menos, de dúvidas razoáveis por parte dos contribuintes. Tais decisões, produzidas para o controle da legalidade dos lançamentos tributários, tão logo se tornam públicas, passam a influenciar a tomada de decisões do mais cauteloso dos contribuintes. O particular que, de boafé, se preocupar em ser diligente e cumprir com todos os seus deveres perante o fisco brasileiro, sem dúvida precisará contar com o auxílio de um consultor tributário (“compliance cost”), que terá como parte fundamental de seu trabalho verificar diligentemente como a administração fiscal, especialmente por seus órgãos decisórios, aplica os enunciados legais que influenciam o caso sob a sua análise. Há um relacionamento interessante entre os arts. 100 e 112 do CTN. Se, por um lado, o art. 112 deixa em aberto quais critérios podem ser utilizados para que o aplicador verifique se há a “dúvida” que lhe obriga a interpretar a penalidade da forma mais favorável ao acusado, por outro, o art. 100 do CTN não exclui das decisões administrativas colegiadas a serventia de se prestarem à aferição da referida “dúvida” e da razoabilidade da conduta adotada pelo contribuinte. Notese que o legislador complementar exige que exista “dúvida”, o que não é afastada simplesmente pela existência de uma decisão isolada divergente de uma série constante de decisões em um sentido convergente. Novamente registrese ser bastante controversa como seria aferível a aludida “dúvida”, o que pode explicar a baixa eficácia concreta também da norma do art. 112 do CTN, bem como pode justificar providências adotadas pela União para atribuir maior concretude à proteção da confiança do contribuinte. Adotandose o CARF como exemplo, um julgado de suas Turmas Ordinárias, que destoe de uma série constante de decisões, terá inclusive um papel importante no processo de estabilização do Direito tributário. Tal decisão divergente enseja a atuação da CSRF para a uniformização da jurisprudência administrativa e, diante de sua decisão uniformizadora, a sociedade poderá compreender com mais certeza quais condutas são (ou têm sido) legitimadas pela administração fiscal, como um aceno de segurança jurídica àqueles que seguirem o mesmo caminho. Nesse seguir, caso o contribuinte trilhe o sentido indicado por uma constância de decisões de um tribunal administrativo ou, ainda, enunciadas por seu órgão máximo de julgamento, o ordenamento jurídico lhe garante alguma proteção. Caso aquele tribunal administrativo posteriormente altere o seu padrão de entendimento sobre o tema em questão, então será preciso reconhecer que haveria, na vigência do entendimento pretérito, ao menos a “dúvida” requerida pelo art. 112 do CTN. Por sua vez, de forma ainda mais específica, o art. 100, II, do CTN, erigiu “as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa” com status de normas complementares, desde que a lei lhes atribua “eficácia normativa”. Confirmando essa hipótese, o art. 76, II, “a”, da Lei n. 4.502/64, atribui eficácia normativa a determinadas decisões de tribunais administrativos para afastar a aplicação de penalidades aos contribuintes que lhe adotarem como diretriz para a condução de seus atos, tornando explícita a incidência da norma do art. 100, II, do CTN. O legislador ordinário, contudo, estabeleceu critérios e consequências próprias à norma geral de proibição de comportamentos contraditórios. Por meio do art. 76, II, “a”, da Lei n. 4.502/64, o legislador ordinário se satisfez com uma única decisão da CSRF como requisito para a demonstração da razoabilidade Fl. 10784DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.785 73 da conduta do acusado capaz de lhe garantir proteção jurídica contra comportamentos contraditórios da administração fiscal (“decisão irrecorrível de última instância administrativa, proferida em processo fiscal”). Não se exigiu constância de entendimento do CARF, pois o legislador adotou o singular (“decisão irrecorrível”) para fazer referência àquilo que serviria de escusa à aplicação de penalidade, enfatizando que o contribuinte não necessita ser parte do procedimento administrativo que deu origem à decisão paradigmática (“seja ou não parte o interessado”). A Lei n. 4.502/64, art. 76, II, “a”, assim, apenas declara a garantia do nemo potest venire contra factum proprium, com caráter meramente pedagógico ou didático44. Contudo, em comparação com o CTN, ao tornar imprestável a pluralidade das decisões convergentes, satisfazendose apenas uma decisão da CSRF, o legislador ordinário, pode ser considerado restritivo, pois a constância de decisões de Turmas Ordinárias já poderia ser suficiente para a incidência da norma do art. 100 do CTN. São, contudo, controvertidas algumas questões sobre a eficácia da Lei n. 4.502/64, art. 76, II, “a”, a exemplo de sua aplicação restrita ao IPI ou, ainda, de sua vigência no sistema jurídico atual.45 Somese a todo esse arcabouço jurídico enunciado pela União para a tutela de sua própria seara de atuação a Lei n. 9.784/1999, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, cujo art. 2º assim dispõe: Art. 2. A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. Parágrafo único. Nos processos administrativos serão observados, entre outros, os critérios de: (...) XIII interpretação da norma administrativa da forma que melhor garanta o atendimento do fim público a que se dirige, vedada aplicação retroativa de nova interpretação. Nesse cenário, fica mais claro que, mesmo antes da edição da Lei nº 13.655/2018 já vigia normas cogentes de proteção da confiança na jurisprudência tributária, especialmente aquela produzida no âmbito do CARF. 2. O regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF após a Lei nº 13.655/2018. Diante da possibilidade da competência detida pela União (tal como ocorre em relação aos demais entes federados), está em questão se o art. 24 da LINDB, introduzido pela Lei nº 13.655/2018, (i) seria ou não aplicável ao processo administrativo fiscal e; (ii) caso 44 Há no sistema jurídico normas cuja função é meramente pedagógica, declaratória, didática. Tais normas não são, em absoluto, imprescindíveis, já que não lhes cabe mais do que repisar de forma mais clara e eficaz à sociedade algum mandamento já existente no ordenando jurídico. A importância de normas gerais e abstratas meramente pedagógicas pode estar relacionada com a necessidade de se lembrar aos aplicadores do Direito a sua cogência, de modo que, quanto menor a eficácia social das normas do sistema jurídico, mais pertinência pode vir a ter enunciados prescritivos meramente pedagógicos, didáticos. 45 Entre as questões geralmente suscitadas, destacamse: Haveria proporcionalidade na suposta distinção do legislador, em tutelar exclusivamente as relações jurídicotributárias atinentes ao IPI? A não reprodução desse dispositivo no Regulamento do IPI evidencia a sua revogação? Fl. 10785DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.786 74 aplicável, qual seria o seu conteúdo normativo em face de processos sob julgamento neste Tribunal. Para solução da primeira questão, é salutar verificar que, de todos os dispositivos introduzidos Lei nº 13.655/2018 à LINDB, apenas o art. 22 parece não ser aplicável ao à matéria tributária, por expressa disposição legal. Ocorre que o aludido dispositivo trata expressamente apenas da interpretação de normas sobre gestão pública. Por sua vez, os demais dispositivos parecem irradiar efeitos mais amplos, inclusive com eficácia sobre o processo administrativo fiscal. Afinal, é possível afirmar que, ao se decidir com base em valores jurídicos abstratos, os Conselheiros do CARF não precisam considerar as consequências práticas da decisão ou, ainda, motivála com a necessidade e adequação da medida (art. 20)? Ao decretar a invalidação de determinado ato, os Conselheiros do CARF não devem indicar de modo expresso suas consequências jurídicas e administrativas (art. 21)? O CARF, antes de enunciar o seu atual regimento interno, procedeu prévia consulta pública, oportunizando a apresentação de uma série de sugestões advindas de diversos setores da sociedade: não estaria este Tribunal justamente vivificando as normas da LINDB (art. 29)? Portanto, permissa vênia, parece ser bastante preocupante negar a priori a aplicação das normas introduzidas pela Lei nº 13.655/2018 ao processo administrativo tributário. Qual seria, então, o conteúdo normativo desses dispositivos em face de processos sob julgamento neste Tribunal? Não se pode interpretar os arts. 23 e 24 da LINDB de forma isolada, desconectados do sistema jurídico em que deverão ser aplicados. A regra em análise encontra raízes “nemo potest venire contra factum proprium” que, no âmbito do Direito tributário brasileiro, é sucedânea dos princípios da segurança jurídica, proteção da confiança, boafé e proibição de comportamentos contraditórios. Em especial, dois enunciados prescritivos introduzidos pela Lei nº 13.655/2018 à LINDB devem ser considerados para a presente decisão: Art. 23. A decisão administrativa, controladora ou judicial que estabelecer interpretação ou orientação nova sobre norma de conteúdo indeterminado, impondo novo dever ou novo condicionamento de direito, deverá prever regime de transição quando indispensável para que o novo dever ou condicionamento de direito seja cumprido de modo proporcional, equânime e eficiente e sem prejuízo aos interesses gerais. Parágrafo único. (VETADO). Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público. Fl. 10786DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.787 75 Conforme dispõe o art. 23, a decisão administrativa que estabelecer interpretação ou orientação nova, impondo ônus mais elevado do que aquele que seria exigido a partir da interpretação anteriormente mantida pelo Tribunal, “deverá prever regime de transição quando indispensável para que o novo dever ou condicionamento de direito seja cumprido de modo proporcional, equânime e eficiente e sem prejuízo aos interesses gerais”. Tratase, assim como se dá com o art. 24 da LINDB, de regramento de busca estabelecer critérios mínimos de segurança jurídica no Direito brasileiro. De certo modo, algumas decisões adotadas por este Colegiado da CSRF têm aplicado o conteúdo normativo do art. 23 da LINDB antes mesmo de sua introdução, a exemplo do acórdão n. 9101002.940. No caso, para o cálculo de ajustes de preços de transferência, até 2001, a inclusão de frete e seguro, cujo ônus tenha sido da empresa importadora, e dos tributos não recuperáveis, devidos na importação, foi interpretada pela administração fiscal como uma opção e não um dever do contribuinte. Nesse julgamento, compreendeu a maioria da 1ª Turma da CSRF que a alteração de interpretação anteriormente adotada pela administração fiscal e esposada pela IN SRF 38/97, objeto de revisão pela IN SRF 32/2001, deveria respeitar como critério de transição mínimo o princípio da anterioridade, ainda que a sua aplicação geralmente seja relacionada apenas à criação ou majoração de novos tributos por meio de lei. O art. 23 da LINDB tem o mérito de afastar quaisquer dúvidas quanto ao acerto da referida decisão deste Colegiado, que adotou “medida indispensável para que o novo dever ou condicionamento de direito seja cumprido de modo proporcional, equânime e eficiente e sem prejuízo aos interesses gerais”. Afinal, é interesse geral que os atos administrativos, como a instruções normativas, que veiculam orientações quanto à forma como a administração fiscal aplicará a lei tributária, gozem de confiança mínima por parte dos administrados; não seria conforme o princípio da eficiência administrativa que tais atos pudessem ser alterados repentinamente, gerando situações não equânimes e desproporcionais, dentro de um mesmo exercício fiscal, para contribuintes que se encontram em situação semelhante. Caso a citada decisão proferida pelo acórdão n. 9101002.940 viesse a se torna Súmula do CARF com efeito vinculante a toda a administração fiscal, teríamos um exemplo de eficácia plena da norma do art. 23 da LINDB. Por sua vez, enquanto o art. 23 da LINDB busca tutelar as relações jurídicas surgidas após a alteração de determinados entendimentos pela autoridade administrativa com função decisória, o art. 24 do aludido Diploma se volta para situações ocorridas antes da referida alteração interpretativa. Tais normas, portanto, se complementam. Assim, conforme o art. 24 da LINDB, a análise, pelo CARF, da validade e das consequências tributárias de um determinado ato, deve levar em conta as orientações gerais da época em que este foi praticado, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, que se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Por “orientação geral” compreendese as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral, a exemplo de soluções de consulta da COSIT, prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público (por exemplo, “perguntas e respostas”, soluções de consultas a contribuintes específicos proferidas de forma reiterada) ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária. Fl. 10787DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.788 76 É essencial notar que a abstração do art. 24 da LINDB permite que este abarque variedade considerável de hipóteses. Assim, uma primeira sequência de atos tutelados pela LINDB pode ser assim esquematizado: 1. Ato do particular praticado no mercado e com possíveis conotações econômicas; 2. Ato do particular de constituição do crédito tributário em decorrência do ato praticado (“1”) com a interpretação influenciada por jurisprudência majoritária do CARF ou por outras orientações capazes de gerar legítimas expectativas de cumprimento (por exemplo, soluções de consulta da COSIT, soluções de consultas a contribuintes específicos proferidas de forma reiterada etc.); 3. Lançamento de ofício em desacordo com a jurisprudência à época em os atos foram realizados pelo particular; 4. Ato de revisão na esfera administrativa pelo CARF. Possível aplicação da proteção da confiança prescrita pela LINDB. Entre outras sequências de atos possíveis, essa merece destaque, por ser justamente alegada pelo contribuinte no presente caso. Compreendo, portanto, possível, em tese, a aplicação da norma de proteção da confiança veiculada pela LINDB ao caso concreto. Digo “em tese” tendo em vista a necessidade de verificação da existência de jurisprudência majoritária do CARF quanto à matéria em litígio à época em que atos foram praticados, o que será tratado no tópico “3”, a seguir. 2.1. Entendimentos quanto à não aplicação do art. 24 da LINDB no âmbito do CARF. Nesses primeiros momentos em que a Lei nº 13.655/2018 vem a lume, algumas respeitáveis posições vêm sendo apresentadas para afastar a aplicação da LINDB no âmbito do CARF. Em especial, aparentemente a interpretação estritamente literal tem levado a esse entendimento, permissa máxima vênia, equivocado. A análise gramatical do art. 24 da LINDB pode colocar em dúvida o sentido de “ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa”, especialmente se o alcance adjetivo “administrativa” alcançaria apenas a “norma” ou se afetaria os demais substantivos, inclusive “ato”. Dizse que a relevância da dúvida reside no fato de que o ato do contribuinte de constituição do crédito tributário não teria natureza de “ato administrativo”. Assim, ainda que o referido lançamento tributário realizado pelo contribuinte houvesse seguido estritamente a orientações gerais consubstanciadas em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, ou ainda em prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público, o aludido “ato” não gozaria da proteção conferida pelo art. 24 da LINDB. Entre outros possíveis exercícios gramaticais que poderiam intentados, a aludida posição prefere aquela que conduz à interpretação mais restritiva da proteção da confiança veiculada pela norma em questão. Aparentemente, adotandose esse entendimento, o art. 24 da LINDB apenas seria aplicável nas hipóteses de atos administrativos, inclusive de lançamento tributário, Fl. 10788DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.789 77 praticados integralmente por agentes administrativos, sem qualquer participação do particular. Lançamentos de ofício (CTN, art. 149), realizados em face da não homologação de lançamentos realizados pelo particular (CTN, art. 150), estariam fora do âmbito de incidência do art. 24 da LINDB. Vide, por exemplo, acórdão n. 1301003.284, com destaque ao seguinte trecho de sua ementa: QUESTÃO DE ORDEM. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. ARTIGO 24 DA LINDB. APLICABILIDADE. A LINDB é norma válida, vigente e eficaz, cuja aplicação depende, sobremaneira, da adequação do caso concreto às suas previsões normativas, cabendo ao CARF aplicála nos casos cabíveis. Entretanto, o art. 24 da LINDB não se aplica no caso de revisão de ato de particular, constitutivo do crédito tributário, no contexto do lançamento por homologação, por ser cabível apenas nas hipóteses em que o ato revisado tem natureza administrativa. Dizse, ainda, que não se pode interpretar o parágrafo único do art. 24 da LINDB ignorandose o seu caput. Assim, conjugandose uma interpretação gramatical restritiva atribuída ao caput do aludido dispositivo, o comando e os critérios contidos no parágrafo único desse dispositivo tornarseiam inaplicáveis aos casos submetidos a este Tribunal. Com o devido respeito e com a abertura ao diálogo que, penso eu, devem permanentemente presidir a mente daqueles que se dedicam à árdua tarefa de interpretar o Direito tributário brasileiro, divirjo dos aludidos entendimentos. Compreendo que, entre outras, algumas questões não podem ser esquecidas ao se interpretar o disposto no art. 24 da LINDB: como a jurisprudência do STJ consolidou o entendimento de que o ato do contribuinte faz as vezes do “ato” requerido pelo art. 142 do CTN para a constituição do crédito tributário (“2.2.1”, a seguir); a interpretação sistemática do dispositivo (“2.2.2”, a seguir) e; o regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF antes da Lei nº 13.655/2018, que restou aprimorado por esta (“1.3”, acima). 2.1.1. A jurisprudência do STJ quanto ao lançamento tributário com a participação do particular. Conforme visto acima, uma das possíveis interpretações restritivas do art. 24 da LINDB parte do entendimento de que aludido dispositivo apenas incidiria sobre “atos administrativos”, o que não alcançaria lançamentos tributários que contassem com a participação de particulares. Ainda que esta seja uma das construções gramaticais possível em face da literalidade do art. 24 da LINDB, não me parece que seja a mais acertada. O e. STJ dedicou décadas de discussão quanto à interpretação mais adequada a ser atribuída ao art. 142 do CTN, que possui a seguinte redação: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Fl. 10789DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.790 78 Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. A interpretação literal do art. 142 do CTN poderia conduzir ao entendimento de que exclusivamente agente da administração fiscal seriam competentes para a constituição do crédito tributário. Atos do particular, como a apresentação de declarações com a apuração do tributo, não seriam hábeis à constituição do crédito tributário pelo lançamento. No entanto, compreendeuse que a aludida interpretação não encontraria guarida no ordenamento tributário brasileiro. Coube ao e. STJ atribuir aos enunciados prescritivos do CTN organicidade normativa compreendendo o particular como agente colaborativo e protagonista na atividade de constituição do crédito tributário conduzida pela autoridade administrativa. O e. STJ editou a Súmula n. 436, com a seguinte redação: A entrega de declaração pelo contribuinte reconhecendo débito fiscal constitui o crédito tributário, dispensada qualquer outra providência por parte do fisco. (Súmula 436, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 14/04/2010, DJe 13/05/2010) O núcleo dessa orientação jurisprudencial consiste justamente em reconhecer que, a despeito do art. 142 do CTN, o contribuinte é sujeito ativo na atividade – de natureza eminentemente administrativa – de constituição do crédito tributário, “dispensada qualquer outra providência por parte do fisco”. O aludido núcleo tem pulverizado consequências normativas sobre uma série de questões, como por exemplo a expedição de certidões positivas ou negativas de débitos tributários ou contagem de prazos de prescrição. Nesse sentido, vale observar os acórdãos do REsp 1143094/SP e do REsp 1123557/RS, ambos afetados pelo regime dos recursos repetitivos: PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. VERIFICAÇÃO DE DIVERGÊNCIAS ENTRE VALORES DECLARADOS NA GFIP E VALORES RECOLHIDOS (PAGAMENTO A MENOR). TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO (CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA). DESNECESSIDADE DE LANÇAMENTO DE OFÍCIO SUPLETIVO. CRÉDITO TRIBUTÁRIO CONSTITUÍDO POR ATO DE FORMALIZAÇÃO PRATICADO PELO CONTRIBUINTE (DECLARAÇÃO). RECUSA AO FORNECIMENTO DE CERTIDÃO NEGATIVA DE DÉBITO (CND) OU DE CERTIDÃO POSITIVA COM EFEITOS DE NEGATIVA (CPEN). POSSIBILIDADE. 1. A entrega de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF, de Guia de Informação e Apuração do ICMS GIA, ou de outra declaração dessa natureza, prevista em lei, é modo de constituição do crédito tributário, dispensando a Fazenda Pública de qualquer outra providência conducente à formalização do valor declarado (Precedente da Primeira Seção submetido ao rito do artigo 543C, do CPC: REsp 962.379/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, DJe 28.10.2008). 2. A Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP) foi definida pelo Decreto 2.803/98 (revogado pelo Decreto 3.048/99), consistindo em declaração que compreende os dados da empresa e dos trabalhadores, os fatos geradores de contribuições previdenciárias e valores devidos ao INSS, bem como as remunerações dos trabalhadores e valor a ser recolhido a título de FGTS. As informações prestadas na GFIP servem como base de cálculo das contribuições arrecadadas pelo INSS. 3. Portanto, a GFIP é um dos modos de constituição do créditos devidos à Seguridade Social, consoante se dessume da leitura do artigo 33, § 7º, da Lei Fl. 10790DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.791 79 8.212/91 (com a redação dada pela Lei 9.528/97), segundo o qual "o crédito da seguridade social é constituído por meio de notificação de débito, autodeinfração, confissão ou documento declaratório de valores devidos e não recolhidos apresentado pelo contribuinte". 4. Deveras, a relação jurídica tributária inaugurase com a ocorrência do fato jurídico tributário, sendo certo que, nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, a exigibilidade do crédito tributário se perfectibiliza com a mera declaração efetuada pelo contribuinte, não se condicionando a ato prévio de lançamento administrativo, razão pela qual, em caso de nãopagamento ou pagamento parcial do tributo declarado, afigurase legítima a recusa de expedição da Certidão Negativa ou Positiva com Efeitos de Negativa (Precedente da Primeira Seção submetido ao rito do artigo 543C, do CPC: REsp 1.123.557/RS, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 25.11.2009). 5. Doutrina abalizada preleciona que: " GFIP. Apresentada declaração sobre as contribuições previdenciárias devidas, resta formalizada a existência do crédito tributário, não tendo mais, o contribuinte inadimplente, direito à certidão negativa. Divergências de GFIP. Ocorre a chamada 'divergência de GFIP/GPS' quando o montante pago através de GPS não corresponde ao montante declarado na GFIP. Valores declarados como devidos nas GFIPs e impagos ou pagos apenas parcialmente, ensejam a certificação da existência do débito quanto ao saldo. Há o que certificar. Efetivamente, remanescendo saldo devedor, consideraseo em aberto, impedindo a obtenção de certidão negativa de débito. Em tendo ocorrido compensação de valores retidos em notas fiscais, impende que o contribuinte faça constar tal informação da GFIP, que tem campo próprio para retenção sobre nota fiscal/fatura. Não informando, o débito estará declarado e em aberto, não ensejando a obtenção de certidão negativa." (Leandro Paulsen, in "Direito Tributário Constituição e Código Tributário à Luz da Doutrina e da Jurisprudência", Ed. Livraria do Advogado e Escola Superior da Magistratura Federal do Rio Grande do Sul, 10ª ed., 2008, Porto Alegre, pág. 1.264). 6. In casu, restou assente, no Tribunal de origem, que: No caso dos autos, a negativa da autoridade coatora decorreu da existência de divergência de GFIP?s, o que, ao contrário do afirmado pela impetrante, caracteriza a existência de crédito tributário da Fazenda Pública, fator impeditivo à expedição da Certidão Negativa de Débitos. (...) Nessa esteira, depreendese que o crédito tributário derivado de documento declaratório prescinde de qualquer procedimento administrativo ou de notificação ao contribuinte para que se considere constituído, uma vez que a declaração do sujeito passivo equivale ao lançamento, tornando o crédito tributário formalizado e imediatamente exigível. A Guia de Recolhimento de Fundo de Garantia e Informações à Previdência Social GFIP é documento fiscal declaratório, do qual devem constar todos os dados essenciais à identificação do valor do tributo relativo ao exercício competente. Assim, a GFIP é suficiente à constituição do crédito tributário e, na hipótese de ausência de pagamento do tributo declarado ou pagamento a menor, enseja a inscrição em dívida ativa, independentemente de prévia notificação ou instauração de procedimento administrativo fiscal. (...) Também não faz jus o apelado à Certidão Positiva de Débito com efeitos de Negativa prevista no artigo 206 do CTN, considerando que embora cabível nos casos em que há crédito tributário constituído e exigível, este deverá estar com a exigibilidade suspensa de acordo com qualquer das hipóteses elencadas nos artigos 151 e 155 do CTN, ou em cobrança executiva, devidamente garantido por penhora, o que não restou demonstrado no presente caso." 7. Consequentemente, revelase legítima a recusa da autoridade impetrada em expedir certidão negativa de débito (CND) ou de certidão positiva com efeitos de negativa (CPEN) quando a autoridade tributária verifica a ocorrência de pagamento a menor, em virtude da existência de divergências entre os valores declarados na Fl. 10791DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.792 80 Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social (GFIP) e os valores efetivamente recolhidos mediante guia de pagamento (GP) (Precedentes do STJ: AgRg no Ag 1.179.233/SP, Rel. Ministro Castro Meira, Segunda Turma, julgado em 03.11.2009, DJe 13.11.2009; AgRg no REsp 1.070.969/SP, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 12.05.2009, DJe 25.05.2009; REsp 842.444/PR, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 09.09.2008, DJe 07.10.2008; AgRg no Ag 937.706/MG, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 06.03.2008, DJe 04.03.2009; e AgRg nos EAg 670.326/PR, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Seção, julgado em 14.06.2006, DJ 01.08.2006). 8. Hipótese que não se identifica com a alegação de mero descumprimento da obrigação acessória de informar, mensalmente, ao INSS, dados relacionados aos fatos geradores da contribuição previdenciária (artigo 32, IV e § 10, da Lei 8.212/91). 9. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 1143094/SP, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 09/12/2009, DJe 01/02/2010) TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ART. 543C, DO CPC. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO, DECLARADO E NÃO PAGO PELO CONTRIBUINTE. NASCIMENTO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. CERTIDÃO POSITIVA COM EFEITOS DE NEGATIVA DE DÉBITO. IMPOSSIBILIDADE. 1. A entrega da Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF constitui o crédito tributário, dispensando a Fazenda Pública de qualquer outra providência, habilitandoa ajuizar a execução fiscal. 2. Consequentemente, nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, o crédito tributário nasce, por força de lei, com o fato gerador, e sua exigibilidade não se condiciona a ato prévio levado a efeito pela autoridade fazendária, perfazendose com a mera declaração efetuada pelo contribuinte, razão pela qual, em caso do não pagamento do tributo declarado, afigurase legítima a recusa de expedição da Certidão Negativa ou Positiva com Efeitos de Negativa. (Precedentes: AgRg no REsp 1070969/SP, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, julgado em 12/05/2009, DJe 25/05/2009; REsp 1131051/SP, Rel. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, julgado em 06/10/2009, DJe 19/10/2009; AgRg no Ag 937.706/MG, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 06/03/2008, DJe 04/03/2009; REsp 1050947/MG, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 13/05/2008, DJe 21/05/2008; REsp 603.448/PE, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, SEGUNDA TURMA, julgado em 07/11/2006, DJ 04/12/2006; REsp 651.985/RS, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 19/04/2005, DJ 16/05/2005) 3. Ao revés, declarado o débito e efetuado o pagamento, ainda que a menor, não se afigura legítima a recusa de expedição de CND antes da apuração prévia, pela autoridade fazendária, do montante a ser recolhido. Isto porque, conforme dispõe a legislação tributária, o valor remanescente, não declarado nem pago pelo contribuinte, deve ser objeto de lançamento supletivo de ofício. 4. Outrossim, quando suspensa a exigibilidade do crédito tributário, em razão da pendência de recurso administrativo contestando os débitos lançados, também não resta caracterizada causa impeditiva à emissão da Certidão de Regularidade Fiscal, Fl. 10792DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.793 81 porquanto somente quando do exaurimento da instância administrativa é que se configura a constituição definitiva do crédito fiscal. 5. In casu, em que apresentada a DCTF ao Fisco, por parte do contribuinte, confessando a existência de débito, e não tendo sido efetuado o correspondente pagamento, interditase legitimamente a expedição da Certidão pleiteada. Sob esse enfoque, correto o voto condutor do acórdão recorrido, in verbis: "No caso dos autos, há referências de que existem créditos tributários impagos a justificar a negativa da Certidão (fls. 329/376). O débito decorreria de diferenças apontadas entre os valores declarados pela impetrante na DCTF e os valores por ela recolhidos, justificando, portanto, a recusa da Fazenda em expedir a CND." 6. Recurso Especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 1123557/RS, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 25/11/2009, DJe 18/12/2009) Assim, ainda que, entre os possíveis exercícios gramaticais que podem intentados, adotese a interpretação que se restringe a eficácia do art. 24 da LINDB apenas aos “atos administrativos”, o “procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente” indubitavelmente inclui hipóteses em que há participação do contribuinte. 2.1.2. A interpretação sistemática do art. 24 da LINDB. A consideração da jurisprudência do e. STJ quanto aos lançamentos tributários realizados com a participação do contribuinte constitui um exercício de interpretação sistemática, na busca de organicidade do sistema. Mas outros exercícios igualmente vocacionados a essa busca também são úteis à interpretação do art. 24 da LINDB. É relevante considerar que já havia, no ordenamento brasileiro, normas de proteção do contribuinte que se baseava na jurisprudência mesmo antes da Lei nº 13.655/2018, o que que restou aprimorado por esta. A decisão recentemente proferida pelo e. STF, na sessão de 24.04.2018, no julgamento do Segundo Ag.Reg. no Recurso Extraordinário com Agravo 951.533 – ES assim demonstra. Nesse contexto, a LINDB tem o mérito de introduzir critérios mais objetivos para a identificação das hipóteses em que o sistema jurídico pátrio não tolera a perpetração de desvantagens derivadas de comportamentos contraditórios da administração fiscal, pressupondo: (i) o “factum proprium”, consubstanciado na conduta da administração fiscal, inclusive por meio do CARF, dotada de algumas especificidades; (ii) a legítima expectativa do contribuinte, cuja confiança é protegida pelo Direito; (iii) o comportamento contraditório da administração fiscal, consubstanciado na alteração de interpretação quanto às mesmas normas e fatos semelhantes; (iv) capaz de gerar um dano ao particular. Também é relevante considerar a interpretação conjunta do caput do art. 24 da LINDB com o seu parágrafo único. É certo que não se pode interpretar o parágrafo único do art. 24 da LINDB ignorandose o seu caput. Entretanto, é igualmente certo que não se pode atribuir ao caput desse dispositivo interpretação que torne sem eficácia o seu parágrafo único: ao se referir a “prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público”, o legislador busca preservar direitos do particular orientado por interpretações da administração fiscal (especialmente acórdãos do CARF) quanto estas se tornam de “conhecimento público”. Há Fl. 10793DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.794 82 práticas administrativas, ainda que reiteradas, que jamais se tornam de “conhecimento público”, restando reclusas ao conhecimento daqueles que tem o privilégio de vivenciar a rotina do serviço público: a norma do art. 24 da LINDB não se aplica a tais hipóteses. Ao tratar de normas de Direito Público – a justificativa do projeto de lei deixa isso claro – naturalmente a aplicação de normas tributárias, que se encontram nessa seara, devem analisadas com vistas aos referidos dispositivos da LINDB. Tratase de um pacto social da sociedade com o Poder Público e a sua relativização decorrente de interpretação excessivamente restritiva pareceme bastante preocupante. 2.2. O momento de aplicação da norma veiculada pelos arts. 23 e 24 da LINDB. Uma última questão foi considerada pelo Colegiado no julgamento para o qual a presente declaração de voto é apresentada: ainda que a proteção da confiança dos particulares estabelecida pela LINDB seja aplicável aos julgamentos do CARF, a aludida norma apenas alcançaria entendimentos favoráveis firmados a partir da sua edição, pois esta não poderia “retroagir” a proteção de contribuintes que, no passado, conduziram as suas atividades induzidos pela jurisprudência então reinante. Permissa vênia, penso que o aludido raciocínio não encontra respaldo nas normas em análise. O comando normativo se dirige ao julgador, que deverá aplicála no momento em que o caso lhe é apresentado para julgamento. As disposições da LINDB sob análise fazem surgir o tema da irretroatividade justamente para impedir que novas interpretações do CARF (ou melhor, posteriores à ocorrência do fato gerador) possam ser aplicadas de forma contraditória à orientação geral observada pelo particular quando decidiu agir da forma como agiu. Tratase, portanto, da proibição da retroatividade de novas interpretações administrativas mais severas e onerosas ao contribuinte que aquelas existentes quando da prática de seus atos. 3. A aplicação do regime jurídico de proteção na confiança da jurisprudência do CARF ao caso concreto. Conforme exposto, lêse do art. 24 da LINDB que a revisão, pelo CARF, da validade e consequências tributárias um determinado ato, deve levar em conta as orientações gerais da época em que este foi praticado, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Por “orientação geral” compreendese as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral, a exemplo de soluções de consulta da COSIT, prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público (por exemplo, “perguntas e respostas”, soluções de consultas a contribuintes específicos proferidas de forma reiterada) ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária. A norma busca tutelar não apenas atos praticados diretamente pela administração pública, mas também atos praticados pelo contribuinte perante a administração pública. Tratase de interpretação não apenas possível, mas consentânea inclusive com o regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF antes da Lei nº 13.655/2018, que restou aprimorado por esta, que estabelece critérios mais objetivos para a aplicação. Fl. 10794DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.795 83 No caso concreto, compreendo que a norma do art. 24 da LINDB pode ser aplicada se restar caracterizada a existência de jurisprudência administrativa majoritária e convergente com os atos à época em que foram praticados. Tendo em vista que o contribuinte apresentou petição nos autos com uma relação de decisões que supostamente seriam capazes de evidenciar o cumprimento também desse requisito, compreendo necessária a concessão de prazo à PFN para que se manifeste a respeito, em homenagem aos princípios do contraditório e da ampla defesa. (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto Declaração de voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo. CONHECIMENTO DO ART. 24 DA LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO Quanto ao conhecimento acompanhei a relatora pelas razões que se seguem. Dois, entre outros, são os requisitos imprescindíveis para conhecimento de uma matéria em sede de especial: 1) prequestionamento; 2) existência de acórdão paradigma decidindo de forma diversa ao recorrido. A Lei nº 13.655, de 25 de abril de 2018, foi publicada em 26 de abril de 2018. Então, antes disso seria impossível trazêla aos autos. Ganham relevo então duas datas: a data da interposição do recurso e a data do acórdão recorrido. Para as decisões recorridas anteriores à 26 de abril de 2018, podese dispensar o prequestionamento da matéria. Para os recursos interpostos antes de 26 de abril de 2018, também podese dispensar a existência de acórdão paradigma. Assim, a matéria deve ser conhecida. MÉRITO DO ART. 24 DA LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO Fl. 10795DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.796 84 Quanto ao mérito acompanhei a relatora apenas pelas conclusões (que o art. 24 da LINDB) não se aplica; entretanto, enquanto ela entendeu por não aplicalo ao caso concreto, eu não o aplico em tese. Fiz uma extensa pesquisa nos tribunais do país: STJ, STF, TCU, TCE’s, os cinco TRF’s, e, ainda, pesquisei por meio do site jusbrasil.com.br a jurisprudência destes mesmos tribunais e também dos TJ’s de todos os estados do país. Mas, como a matéria é muito recente, praticamente quase nada se encontra. Quando se fala em LINDB, a referência é, 99% dos casos, sobre os seus artigos 2º até o 6º. Com referência ao artigo 24, de fato, localizei somente os seguintes casos: no TCU (1 caso): TC 014.919/20109 no TJ/SP (2 casos): Apelação nº 105861023.2016.8.26.0053 e Apelação nº 102306030.2017.8.26.0053 TRF/4 (1 caso): Agravo de Instrumento nº 502621631.2018.4.04.0000/PR Na decisão do TRF/4, que trata de agravo do contribuinte Arcelormittal contra decisão que indeferiu o pedido de antecipação de tutela na ação ordinária, que diz respeito a um PAF (nº 10980.722071/201276, envolvendo amortização de ágio com investimento de empresa estrangeira em “holdingveículo” brasileira), o art. 24 da LINDB é citado apenas no relatório, como um dos argumentos do agravante (Arcelormittal). Entretanto, apesar de a decisão negar provimento ao agravo, na fundamentação do voto não é feita referência alguma sequer ao art. 24. E, no caso do TJ/SP, as duas decisões são absolutamente idênticas entre si, mesmo apelante etc, tanto que seus números são sucessivos (Voto nº 12.331 e Voto nº 12.332). Mais adiante comento sobre as decisões do TCU, do TJ/SP, e do TRF/4. Além destas decisões, temos ainda os dois casos do CARF, (Acórdão 9202 006.996 e Resolução 9101000.058), além de seis outras Resoluções que localizei (duas da turma 1301, e quatro da turma 1402), todas decididas por unanimidade, para dar ciência à PGFN para se manifestar sobre o art. 24, ou seja, nos mesmos termos da Resolução 9101 000.058, sem nada de relevante a acrescentar. 1. Comentários gerais sobre a questão de mérito. Transcrevese abaixo o artigo 24 da LINDB, nela incluído pela Lei nº 13.655/2018: “Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência Fl. 10796DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.797 85 judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público.” Observase que a norma tem como objeto a “revisão ... quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa”, sendo vedado que tal “revisão” leve a que “se declarem inválidas situações plenamente constituídas”. Nada obstante a inusual redação do dispositivo, cuja terminologia empregada tem sido objeto das mais variadas críticas (as quais, contudo, não cabe aqui relatar), é possível interpretar que dita “revisão” possa ser compreendida como a decisão, monocrática ou colegiada, a ser proferida no âmbito de qualquer uma das três esferas nele mencionadas (administrativa, controladora ou judicial). Justamente por abranger todas as três mencionadas esferas, não há que se falar, a priori, em inaplicabilidade das suas disposições ao CARF, visto ser este um órgão colegiado decisório administrativo. Neste aspecto, portanto, concebese que a dita “revisão” poderia, ao menos em tese, ser procedida pelo CARF, quando do julgamento de processo administrativo fiscal. Entretanto, o pressuposto para a eventual aplicação, in concreto, do dispositivo legal, pelo CARF, é justamente o fato de se estar diante de algum ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, cuja validade, consoante nos informa o próprio dispositivo, ora estaria sendo questionada (revisada), no âmbito da decisão administrativa a ser proferida. O uso do termo “revisão”, aliás, somente faz sentido se considerado o pressuposto de que tal ato, contrato, ajuste, processo, ou norma, já tivesse a sua validade anteriormente reconhecida, ou, ao menos, presumida. Caso contrário, não há sentido algum em se falar em revisão quanto à sua validade. Ora, tal atributo (validade) é inerente justamente às manifestações exaradas pela Administração, as quais, como se sabe, se presumem válidas, até prova em contrário. Analisando os termos empregados no texto legal, de pronto verificase que não há possibilidade alguma de o CARF estar sendo contemplado no dispositivo com relação a normas administrativas, por exemplo. Isto porque é sabido que não é atribuição do CARF declarar a invalidade de norma emanada pela Administração. O CARF, aliás, sequer é competente para esta finalidade, sendo tal competência restrita ao Poder Judiciário. Da mesma forma, facilmente se rejeita a aplicabilidade do dispositivo em questão, ao CARF, no que diz respeito a qualquer procedimento que pudesse implicar a “revisão” de ajuste administrativo. Tratase de termo absolutamente estranho às atribuições e competências do CARF. Restaria apenas, então, analisar a possibilidade de sua aplicação ao CARF em se tratando de ato ou contrato administrativo ou de processo administrativo. Analisemos inicialmente o ato administrativo, nele englobando também o contrato administrativo. Fl. 10797DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.798 86 De acordo com a vetusta definição dada por Hely Lopes Meirelles46, ato administrativo é “toda manifestação unilateral de vontade da Administração Pública que, agindo nessa qualidade, tenha por fim imediato adquirir, resguardar, transferir, modificar, extinguir e declarar direitos, ou impor obrigações aos administrados ou a si própria.” Quando bilaterais, tais atos constituem os chamados contratos administrativos. Os elementos, ou requisitos, do ato administrativo são: competência (sujeito competente), forma, objeto, motivo e finalidade. A ausência de qualquer um desses elementos torna o ato inválido, e, bem assim, incapaz de produzir os seus efeitos. Ainda na dicção do saudoso mestre, um dos atributos do ato administrativo é a sua presunção de legitimidade. É esta presunção de legitimidade que “autoriza a imediata execução ou operatividade dos atos administrativos, mesmo que arguidos de vícios ou defeitos que os levem à invalidade”47. Os atos administrativos, portanto, gozam da presunção de validade, até a eventual prova em contrário. Tal entendimento, aliás, é pacífico na doutrina e jurisprudência pátrias, dispensando maiores considerações. Apenas a título exemplificativo, segue ementa de duas decisões do STF a respeito do tema (um acórdão em RE e uma decisão monocrática em ACO): “Ementa: Mandado de Segurança. Prova. Presunção de legitimidade dos atos da administração, até prova em contrário. Aspectos particulares do caso. Não caracterizada negativa de vigência do art. 209 do Código de Processo Civil. Dissídio jurisprudencial não comprovado. Recurso não conhecido.” (RE nº 75.567/SP, Relator Min. Djaci Falcão, julgado em 20.11.1973, disponível em http://stf.jus.br) “Como se sabe, os atos administrativos gozam da presunção de legitimidade e veracidade. Dessa forma, reputase válido o procedimento discriminatório adotado pela União quando aquele que o inquina de invalidade não demonstra de que forma a conduta da Administração teria sido desempenhada fora dos limites admitidos em direito. A respeito da presunção de validade e veracidade dos atos administrativos, vejase o seguinte trecho elaborado por Lucas Rocha Furtado: “A importância da presunção de legitimidade está ligada à consequência que dela decorre. Quando se afirma que o ato administrativo se presume legítimo, significa que tanto os administradores públicos quanto os particulares afetados pelo ato devem darlhe cumprimento. […] [a] legitimidade se mantém até que seja afastada por decisão judicial ou pela própria administração pública.” (FURTADO, Lucas Rocha. Curso de Direito Administrativo, 4ª edição, revista e atualizada. Belo Horizonte: Fórum, 2013, p. 216). (ACO nº 480, Relator Min. Luiz Fux, julgado em 11.05.2015, publicado no DJe em 13.05.2015, disponível em http://stf.jus.br) Neste diapasão, passase a tentar vislumbrar algumas situações em que se poderia cogitar da aplicação do art. 24 da LINDB ao CARF. Inicialmente, considerese a possibilidade de o ato administrativo objeto da “revisão” quanto à sua validade, de que trata o caput, seja o lançamento de ofício efetuado. Cediço que o lançamento está definido no artigo 142 do Código Tributário Nacional como um procedimento administrativo. 46 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro, 20ª Ed., Malheiros, São Paulo: 1995, pág. 133. 47 MEIRELLES, pág. 141. Fl. 10798DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.799 87 Entretanto, não são poucos os autores que definem o lançamento como um ato administrativo, uma vez que possui todos os elementos que o caracterizam (sujeito competente, forma, objeto, motivo e finalidade). Aliomar Baleeiro48, por exemplo, entende que o lançamento é um ato praticado pelo Fisco. Diz ele que o lançamento é “o ato, ou a série de atos, de competência vinculada, praticado por agente competente do Fisco para verificar a realização do fato gerador em relação a determinado contribuinte, apurando qualitativa e quantitativamente o valor da matéria tributável, segundo a base de cálculo, e, em consequência, liquidando o quantum do tributo a ser cobrado”. Na jurisprudência, igualmente, encontramse referências ao lançamento como uma espécie de ato administrativo. Neste sentido, por exemplo, o seguinte precedente do STJ: “TRIBUTÁRIO. LANÇAMENTO FISCAL. REQUISITOS DO AUTO DE INFRAÇÃO E ÔNUS DA PROVA. O lançamento fiscal, espécie de ato administrativo, goza de presunção de legitimidade; essa circunstância, todavia, não dispensa a Fazenda Pública de; demonstrar, no correspondente Auto de Infração, a metodologia seguida para o arbitramento do imposto exigência que nada tem a ver com a inversão, do ônus da prova, resultando da natureza do lançamento fiscal, que deve ser motivado. Recurso Especial não conhecido.” (REsp. nº 48.516SP, Relator Min. Ari Pargendler, julgado em 23.09.1997, DJ 13.10.1997) grifouse “8. O Tribunal a quo julgou a lide com base nos seguintes fundamentos (fl. 139, eSTJ): “Analisando os autos, observo que fora lavrado o Auto de Infração nº 0307703, que autuou a Autora por causa da remessa de mercadorias com utilização de nota fiscal inidônea, sendo a infração enquadrada no artigo 188 do RICMS, aplicando a penalidade prevista na Lei 3.796/96. De acordo com a parca documentação juntada e o mínimo de prova produzida, não se vislumbra lastro probatório competente para ilidir ato administrativo vinculado, no caso, Auto de Infração, o qual possui presunção de legitimidade e veracidade, tributos estes pertinentes aos atos administrativos. A empresa autora limitouse a apenas (...)” (REsp. nº 1.697.908SE, Relator Min. Herman Benjamin, julgado em 17.10.2017, DJe 23.10.2017) grifouse Pois bem. Superadas eventuais divergências doutrinárias, e considerandose, então o lançamento de ofício como um ato administrativo, ao qual estaria fazendo referência o art. 24 da LINDB, a leitura do comando contido no caput deste dispositivo legal levaria a uma situação em tudo prejudicial ao administrado, isto se, conforme dito, se considerar que o art. 24 da LINDB seria aplicável a tal hipótese, no âmbito dos julgamentos do CARF. De fato. Se considerado o lançamento de ofício como sendo o ato administrativo objeto da “revisão” quanto à sua validade, então o dispositivo estaria a vedar que, por força de mudança posterior de “orientação geral” (tal qual definida no seu parágrafo único), o CARF viesse a declarar inválida a “situação plenamente constituída” por meio daquele ato (o lançamento). Uma vez mais: o lançamento (ato administrativo a ser “revisado” pelo CARF quanto à sua validade) não poderia, nos termos do art. 24, ser declarado inválido com base em mudança posterior (ao lançamento) de “orientação geral”. Salta aos olhos a total inadequação do art. 24 da LINDB a esta hipótese (lançamento de ofício como sendo o ato administrativo a ser objeto de “revisão” pelo CARF). 48 BALEEIRO, Aliomar. Direito tributário brasileiro. 10ª ed., Rio de Janeiro: Forense,1996. Fl. 10799DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.800 88 Dito de outra forma, simplesmente não há como conformar o dispositivo a esta hipótese, a proposição simplesmente não faz sentido algum. Isto sem olvidar ainda que o lançamento de ofício, de qualquer sorte, e por certo, não constitui “plenamente” (aqui entendido como “definitivamente”) situação alguma. Invertendo um pouco o raciocínio, considerese agora outro tipo de ato administrativo, um que vise a reconhecer um direito do administrado (ao contrário do lançamento, que visa a impor uma obrigação ao administrado), e tentese conformar a aplicação do art. 24 da LINDB ao julgamento do CARF, nesta hipótese, considerando ser este (o ato de reconhecimento do direito) o ato administrativo a ser objeto de “revisão”. Por exemplo, considerese a expedição de um ato administrativo que tenha formalmente reconhecido a isenção de determinado contribuinte a certo tributo. Sabese que, em caso de verificação, a posteriori, da falta de preenchimento das condições, pelo beneficiário, ou do descumprimento, por ele, dos requisitos previstos na lei ou contrato para a concessão do benefício, o crédito tributário devido pode ser cobrado, consoante as disposições dos arts. 176, 179 e 155, do CTN. Mas estas hipóteses de descumprimento das condições ou requisitos aqui mencionadas, e retratadas no CTN, nada tem a ver com a invalidade (nulidade) daquele ato administrativo de concessão do benefício. Aliás, o lançamento de ofício em questão é efetuado, quando o caso, sem que seja declarada a nulidade daquele ato. Portanto, nesta hipótese, não seria igualmente o CARF a autoridade “revisora” da validade daquele ato concessivo. O CARF, quando muito, estará “revisando” a validade do ato administrativo de lançamento, e não a validade do ato concessivo do benefício, matéria esta que refoge inteiramente à sua competência. Nem mesmo nas hipóteses em que o reconhecimento do direito do administrado vem inserido no bojo do próprio ato administrativo a ser objeto de “revisão” pelo CARF, dentro de um processo administrativo fiscal, é possível vislumbrarse a aplicação do art. 24 da LINDB. Explicando: considerese as hipóteses de reconhecimento do direito do contribuinte à restituição de tributos, e/ou do direito à compensação, que constam ordinariamente em despachos decisórios das unidades administrativas, despachos estes os quais seriam então, eventualmente, “revistos” pelo CARF. Ora, cediço que nestes processos (restituição/compensação de tributos), toda a parte do despacho decisório, ou mesmo da decisão de primeira instância, em que é reconhecido o direito do contribuinte à restituição ou compensação, simplesmente não é objeto de recurso de ofício. Tratase de matéria que simplesmente não pode, portanto, ser objeto de apreciação (“revisão”) pelo CARF. O CARF somente será chamado a “revisar”, se o caso, a parte do despacho decisório em que não foi reconhecido o direito e em que se pode, então, estar a cobrar algum tributo devido. Nesta hipótese, valem aqui as mesmas observações feitas quanto ao lançamento de ofício: ou se conclui que a pretensão de aplicação do art. 24 da LINDB à hipótese seria de todo prejudicial ao administrado, ou, noutro giro, se conclui, como aqui se propugna, que este dispositivo não possui aplicação tampouco a esta hipótese. Fl. 10800DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.801 89 Uma vez mais, portanto, salta aos olhos a total inadequação do art. 24 da LINDB também a esta hipótese (ato administrativo de reconhecimento de direito do administrado como o ato a ser objeto de “revisão” pelo CARF). Com algum esforço, é possível vislumbrar alguma situação envolvendo um ato administrativo de reconhecimento de direito do administrado, em que o CARF poderia, ao menos em tese, e sensibilizado pelo art. 24 da LINDB, proferir uma decisão favorável ao sujeito passivo. Vejamos. Retornese ao caso do contribuinte que teve reconhecido, pela administração, o seu direito à isenção de determinado tributo, e considerese uma hipótese que não se refira à falta de preenchimento das condições e/ou ao descumprimento, pelo beneficiário, dos requisitos legais ou contratuais, situações estas já contempladas no CTN. Ou seja, considerese uma situação em que a própria Administração, por motivos diversos dos aqui mencionados, decida pela nulidade daquele seu ato administrativo concessivo do benefício. A esta declaração de nulidade daquele ato, com efeitos ex tunc, poderia, eventualmente, seguirse um lançamento de ofício cobrando do contribuinte o tributo considerado devido, em face da inexistência da mencionada isenção. Nesta hipótese, portanto, é possível vislumbrar que, na defesa administrativa contra este lançamento de ofício (inclusive perante o CARF, portanto), seja arguido pelo sujeito passivo que deveriam ter sido levadas em conta pela Administração, quando da invalidação do ato concessivo da isenção, as “orientações gerais” da época (mencionadas no parágrafo único do art. 24, e.g., a jurisprudência ou a prática administrativa reiterada) relativas a situações semelhantes ou tais quais aquela em que se encontrava o sujeito passivo. Pois bem. Supondose que o sujeito passivo logre êxito em sua demonstração de que as referidas “orientações gerais” da época lhe asseguravam o direito ao benefício, podese conceber uma situação em que o CARF, portanto, em consideração ao quanto disposto no art. 24 da LINDB, concluísse pelo cancelamento do auto de infração lavrado. Interessante observar, contudo, que, no exemplo acima mencionado, era a própria Administração quem, ao “revisar” a validade do ato concessivo do benefício, deveria ter observado o art. 24 da LINDB, e, se o caso, evitado de declarar a sua nulidade, considerando que aquele ato teria “plenamente constituído” uma situação de isenção. O CARF, conforme dito, não é o órgão “revisor” da validade daquele ato concessivo do benefício, e nem tampouco do ato que declarou a nulidade do ato concessivo. E, ademais, na “revisão” do ato administrativo de lançamento de ofício, tampouco seria o caso de o CARF declarar a nulidade (invalidade) deste ato (o próprio lançamento), senão apenas de decidir — em consideração ao quanto disposto no art. 24 da LINDB e às provas eventualmente feitas pelo contribuinte neste sentido — pelo cancelamento do auto de infração lavrado. Resta patente, portanto, a enorme dificuldade de se tentar vislumbrar hipóteses em que o CARF seria chamado a aplicar o art. 24 da LINDB aos processos administrativos fiscais em litígio. Fl. 10801DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.802 90 Noutra vertente de interpretação quanto ao comando contido no art. 24 da LINDB, advogam alguns que o próprio lançamento de ofício seria, na verdade, o ato de “revisão” administrativa quanto à validade de, por exemplo, um outro ato (este praticado pelo particular), sendo que o dispositivo proclamaria a vedação a que o lançamento de ofício, nesta “revisão” do ato praticado pelo particular, declarasse a invalidade da “situação plenamente constituída” por aquele ato do particular. Tratase, com todas as vênias, de uma construção extremamente engenhosa, e completamente desprovida de sentido. O lançamento, de acordo com o art. 142 do CTN, é o “procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível”. Simplesmente não há como considerar o lançamento como ato de “revisão” da validade de atos praticados por particulares. Tratarseia de uma definição de lançamento até hoje não encontrada em nenhuma obra doutrinária séria a se dedicar à este tema. Nem o lançamento (e nem o CARF, ao julgar o lançamento), revisam atos dos particulares ou declaram inválidas “situações plenamente constituídas”. No lançamento fiscal (assim como o CARF, no julgamento), a autoridade, quando muito, averigua se os atos praticados pelo particular revelam substância econômica ou propósito negocial próprios, ou se foram praticados atos/contratos puramente formais, se configuram simulação ou ofensa velada à norma tributária de regência (fraude à lei fiscal), tudo com vistas a estabelecer as consequências tributárias advindas daqueles atos. Mas isto é feito sem que seja declarada a nulidade dos atos praticados, mesmo porque a competência para tal finalidade, sabese, é exclusiva do Poder Judiciário. Além da completa inadequação do conceito de lançamento à idéia de “revisão” de atos, para eventualmente declarar a sua invalidade, ou, ainda, a invalidade de alguma “situação plenamente constituída” por meio daquele ato (seja qual for o entendimento que se queira dar a tal expressão), fato é que os defensores de tal esdrúxula proposta desconsideram, ainda, a redação do próprio texto legal, que insere o vocábulo “administrativa” logo após as expressões nele mencionadas (“ato, contrato, ajuste, processo ou norma”). Alguém poderia objetar que a palavra “administrativa” concorda, gramaticalmente, apenas com o vocábulo “norma”, mas não com os demais. Pois bem. Apesar da deficiente redação do dispositivo legal, neste aspecto, simplesmente não faz sentido algum imaginar que administrativa seria apenas a norma. Fosse assim e teríamos, então, a situação em que o art. 24 aplicarseia indistintamente à revisão de todo e qualquer ato, contrato, ajuste, ou processo, independente de ser uma ato da administração ou do particular, mas que, com relação às normas, aplicarseia somente às administrativas, mas não às normas legais, por exemplo. Impossível não se detectar aí uma contradição lógica, em que, por um lado, se amplia enormemente o âmbito de aplicação do dispositivo, ao mesmo tempo em que, por outro, se o restringe a uma espécie específica de norma. Fl. 10802DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.803 91 E tudo isto ainda sem se deixar de observar a inadequação de alguns dos vocábulos ali mencionados a atos que não envolvam a Administração, mas tão somente particulares (ajuste, por exemplo). Muito mais sensato, portanto, é concluir que o dispositivo em questão diz respeito a atos administrativos, contratos administrativos, ajustes administrativos, processos administrativos, e normas administrativas. Aliás, outra evidência de que a palavra “administrativa”, no dispositivo em questão, está vinculada a todos os vocábulos que lhe antecedem, encontrase, por exemplo, no artigo 25 da LINDB, o qual foi vetado quando da conversão do projeto de lei na Lei nº 13.655/2018. Transcrevese, a seguir, o seu teor, seguido da mensagem de veto presidencial49: Art. 25 do DecretoLei nº 4.657, de 4 de setembro de 1942, acrescido pelo art. 1º do projeto “Art. 25. Quando necessário por razões de segurança jurídica de interesse geral, o ente poderá propor ação declaratória de validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, cuja sentença fará coisa julgada com eficácia erga omnes. § 1º A ação de que trata o caput deste artigo será processada conforme o rito aplicável à ação civil pública. § 2º O Ministério Público será citado para a ação, podendo absterse, contestar ou aderir ao pedido. § 3º A declaração de validade poderá abranger a adequação e a economicidade dos preços ou valores previstos no ato, contrato ou ajuste.” Razões do veto “A ação declaratória preconizada pelo dispositivo, cuja sentença terá eficácia para todos, inclusive podendo dispor a respeito de preço e valores, poderá acarretar em excessiva demanda judicial injustificada, tendo em vista a abrangência de cabimento para a impetração da ação por ‘razões de segurança jurídica de interesse geral’ o que, na prática, poderá contribuir para maior insegurança jurídica. Ademais, há omissão quanto à eficácia de decisões administrativas ou de controle anteriores à impetração da ação declaratória de validade, uma vez que a atuação judicial pode se tornar instrumento para a mera protelação ou modificação dessas deliberações, representando, também, violação ao Princípio Constitucional da Independência e Harmonia entre os Poderes.” Vejase que o dispositivo propunha possibilidade de o ente público vir a propor uma ação declaratória de validade exatamente daquelas mesmas coisas (ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa). Percebase que a redação é idêntica àquela adotada no artigo 24. Considerandose a máxima obviedade de que somente caberia ao ente público propor uma ação declaratória de validade com relação aos seus próprios atos, e não aos atos de terceiros, assoma com absoluta clareza a impossibilidade de se dissociar a palavra “administrativa” dos vocábulos que lhe antecedem, nada obstante a já, conforme dito, deficiente redação do dispositivo legal. 49 disponível em http://www.planalto.gov.br Fl. 10803DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.804 92 E, quando considerado que a dita “revisão” a que se refere o caput do artigo 24 há que incidir sobre atos, contratos, ajustes, processos, ou normas, emanados pela própria Administração ou celebrados com a sua participação, então resta inescapável a conclusão pela total impossibilidade de que o lançamento de ofício possa ser considerado como o ato veiculador da “revisão” que é mencionado no dispositivo. Isto porque o lançamento, conforme cediço, não é instrumento apto a “revisar” a validade de tais manifestações da própria Administração. Portanto, por qualquer ótica que se analise o dispositivo, revelase extremamente difícil, ou mesmo impossível, conformálo ao tipo de situações que se apresentam para julgamento no CARF. A enorme dificuldade que se encontra ao se tentar vislumbrar hipóteses em que o CARF seria chamado a aplicar o art. 24 da LINDB aos processos administrativos fiscais em litígio traz consigo a questão de se tentar determinar, então, para quais situações, afinal, foi concebido o art. 24 da LINDB. Pois bem. Na verdade, não apenas o art. 24, mas todos os artigos inseridos na LINDB pela Lei nº 13.655/2018 refletem o declarado propósito do projeto de lei apresentado pelo senador Antonio Anastasia, que é fruto da pesquisa feita pelos professores Carlos Ari Sundfeld e Floriano de Azevedo Marques Neto, e publicada na obra “Contratações Públicas e Seu Controle”, dedicada exclusivamente a este tema. Neste sentido, confirase a justificativa apresentada pelo senador Anastasia no Projeto de Lei do Senado nº 349, de 201550: “Como fruto da consolidação da democracia e da crescente institucionalização do Poder Público, o Brasil desenvolveu, com o passar dos anos, ampla legislação administrativa que regula o funcionamento, a atuação dos mais diversos órgãos do Estado, bem como viabiliza o controle externo e interno do seu desempenho. Ocorre que, quanto mais se avança na produção dessa legislação, mais se retrocede em termos de segurança jurídica. O aumento de regras sobre processos e controle da administração têm provocado aumento da incerteza e da imprevisibilidade e esse efeito deletério pode colocar em risco os ganhos de estabilidade institucional. Em razão disso, os professores Carlos Ari Sundfeld e Floriano de Azevedo Marques Neto elaboraram projeto de lei, que ora é acolhido, fruto de projetos de pesquisa mais amplos desenvolvidos por pesquisadores da Sociedade Brasileira de Direito Público em parceria com a Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas. O resultado desse trabalho foi publicado na obra “Contratações Públicas e Seu Controle”, pela Editora Malheiros, ano 2013.” (grifouse) E, ainda, mais adiante: “Conforme esclareceram os referidos professores, o projeto em apreço propõe medidas para neutralizar importantes fatores de distorção da atividade jurídico decisória pública. São eles: O alto grau de indeterminação de grande parte das normas públicas; 50 disponível em https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias//materia/134033 Fl. 10804DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.805 93 A relativa incerteza, inerente ao Direito, quanto ao verdadeiro conteúdo de cada norma; A tendência à superficialidade na formação do juízo sobre complexas questões jurídicopúblicas; A dificuldade de o Poder Público obter cumprimento voluntário e rápido de obrigação por terceiros, contribuindo para a inefetividade das políticas públicas; A instabilidade dos atos jurídicos públicos, pelo isco potencial de invalidação posterior, nas várias instâncias de controle. Os efeitos negativos indiretos da exigência de que as decisões e controles venham de processos (que demoram, custam e podem postergar cumprimento de obrigações); O modo autoritário como, na quase totalidade dos casos, são concebidas e editadas normas pela Administração Pública. (SUNDFELD, Carlos Ari. MARQUES NETO, Floriano de Azevedo. Contratações Públicas e Seu Controle. 2013: Malheiros, p. 278) Com efeito, as diretrizes propostas pelos ilustres professores Carlos Ari Sundfeld e Floriano Marques Neto podem ser assim resumidas: Consagram alguns novos princípios gerais a serem observados pelas autoridades nas decisões baseadas em normas indeterminadas (arts. 20 e 21); Conferem aos particulares o direito à transição adequada quando da criação de novas situações jurídicas passivas (art. 22); Estabelecem o regime jurídico para negociação entre autoridades públicas e particulares (art. 23); Criam a ação civil pública declaratória de validade, com efeito erga omnes, para dar estabilidade a atos, contratos, ajustes, processos e normas administrativas (art. 24); Impedem a invalidação de atos em geral por mudança de orientação (art. 25); Disciplinam os efeitos da invalidação de atos em geral, para tornálos mais justos (art. 26); Impedem a responsabilização injusta de autoridade em caso de revisão de suas decisões (art. 27); Impõem a consulta pública obrigatória para a edição de regulamentos administrativos (art. 28); e: Determinam a compensação, dentro dos processos, de benefícios ou prejuízos injustos gerados para os envolvidos (art. 29) (SUNDFELD, Carlos Ari. MARQUES NETO, Floriano de Azevedo. Contratações Públicas e Seu Controle. 2013: Malheiros, p. 280)” (grifouse) Resta claro, portanto, qual é o âmbito de aplicação do art. 24 em questão. É direcionado a órgão ou autoridade (administrativa, controladora, ou judicial) que tenha por finalidade revisar a validade (legitimidade) do ato administrativo, ou do contrato Fl. 10805DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.806 94 administrativo, ou do ajuste celebrado com a Administração, ou do processo administrativo, ou, por fim, das normas administrativas. Em total sintonia com o contexto dentro do qual foi gestada a Lei nº 13.655/2018, bem assim com a sua redação, é possível constatar situações em que o artigo 24 possui aplicação, sem maior dificuldade de compreensão e/ou necessidade de se recorrer a raciocínios extremamente engenhosos (e assaz enganosos). O art. 24 da LINDB possui aplicação no caso de estar o órgão ou autoridade decisória (administrativa, controladora, ou judicial) diante de um ato administrativo que tenha gerado uma situação consolidada em favor do administrado, tais como, por exemplo, quando a Administração emite uma licença de funcionamento, ou assina um contrato com o particular, ou autoriza um pagamento, ou edita uma instrução normativa. Nestes casos é que o art. 24 da LINDB veda que a “mudança posterior de orientação geral” sobre a validade daqueles atos afete (invalide) a situação plenamente constituída (consolidada) que a própria Administração gerou, com relação àquele administrado. Este é, com clareza e nitidez, o espectro de aplicação do art. 24 da LINDB. Vejase como a sua redação se encaixa com perfeição à hipótese, sem a necessidade de raciocínios complexos, inovadores, e absolutamente descolados das finalidades às quais a lei se destina. Resumindo o quanto aqui se expôs, temse, portanto, que o único ponto em que se poderia considerar o CARF como órgão inserido nas disposições deste artigo seria na hipótese de se tratar o lançamento de ofício como o ato administrativo passível de “revisão” quanto à sua validade. E isto porque é tão somente este o ato administrativo que cabe ao CARF “revisar” quanto à validade. O CARF, conforme dito, seguramente não se constitui em instância “revisora” de qualquer uma das outras coisas mencionadas no dispositivo (ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa). E, por fim, ocorre ainda que, mesmo considerandose o CARF como instância de “revisão” do lançamento de ofício, o comando estabelecido no dispositivo em questão tampouco faz sentido algum, conforme ao norte já demonstrado. Por todos os motivos expostos é que se entende que o art. 24 da LINDB não possui aplicação, concretamente, aos julgamentos realizados no âmbito do CARF. A tentativa de pugnar pela aplicação do art. 24 da LINDB aos julgamentos no CARF, em especial aos processos que tratam de complexos planejamentos tributários desenvolvidos exclusivamente pelos particulares, é fruto tão somente da engenhosidade do raciocínio empregado por quem o defende, na tentativa de fazer conformar, a fórceps, o dispositivo legal em questão a uma situação que nele não se encaixa. Ademais, o desenvolvimento da presente declaração de voto está totalmente de acordo com o Direito, partindo inicialmente da redação do texto legal, interpretandoo às situações reais, e depois utilizando os contextos sistemáticos e históricos como vetores de interpretação. Não se trata simplesmente de advogar a “imunidade” do CARF a tal dispositivo, como de forma rasa (e, porque não dizer, desrespeitosa) se manifestou, por exemplo, um dos autores da proposta que deu origem à Lei nº 13.655/2018. Fl. 10806DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.807 95 Afirmou o digno professor que o entendimento externado pelo CARF, de que o artigo 24 da LINDB seria aplicável apenas à administração pública, e não aos processos administrativos fiscais, seria “a coisa mais despropositada que eu já ouvi em relação à Lei” e que “se essa norma se aplica ao processo administrativo, porque a imunidade [do CARF]?” Conforme visto, não é que o CARF seja “imune” a um dispositivo inserido na lei de introdução às normas do direito brasileiro (o que o torna, a priori, aplicável em todas as esferas decisórias) e, ademais, no qual ainda expressamente consta ser ele aplicável às “esferas administrativa, controladora ou judicial”. Tratase sim, conforme visto, de total inadequação da redação do dispositivo às situações que são objeto de julgamento pelo CARF. Apenas isto. No mesmo sentido do quanto aqui exposto, colhese, por exemplo, a seguinte manifestação do Juiz Federal e Doutor em Direito pela Universidade de Salamanca (Espanha) Andrei Pitten Velloso, em artigo recentemente publicado51: “Em que pesem as opiniões contrárias, o artigo 24 não é pertinente às operações de planejamento tributário. Isso porque versa sobre a revisão da validade de atos administrativos, ao passo que as operações de planejamento tributário são consubstanciadas por atos dos contribuintes, cuja validade não é, em geral, questionada: controvertese apenas acerca da sua oponibilidade ao Fisco.” (grifouse) Encerro, com isto, minhas considerações gerais sobre o tema, votando no sentido de não aplicar, em tese, o art. 24 da LINDB ao processo administrativo fiscal. 2. Passo a comentar as decisões encontradas no TRF4, TCU, TJSP, CARF, e algumas manifestações nestes processos. 2.1. Sobre o Agravo de Instrumento nº 502621631.2018.4.04.0000/PR, no TRF4: Este caso, conforme visto, seria interessante, porque o caso tratava, na origem de processo fiscal (PAF nº 10980.722071/201276), no qual foi discutida a amortização de ágio com investimento de empresa estrangeira feito em uma “holdingveículo” brasileira (empresa Arcelormittal, acórdão nº 9101003.060). O impetrante, no caso, aduzia o argumento de que “o artigo 24, da LINDB, determina a análise do cenário jurisprudencial à época da lavratura do AIIm pela Receita Federal”. Ou seja, de que seria o auto de infração o ato “revisor” do ato praticado pelo contribuinte. O magistrado, contudo, ao negar provimento ao agravo, disse apenas que “Não é inequívoca a prova do direito alegado, não lhe outorgando verossimilhança”, nada mencionando especificamente acerca do art. 24 da LINDB. 2.2. Sobre o TC 014.919/20109, no TCU: Tratase de embargos de declaração contra o Acórdão 768/2018Plenário, que, entre outras coisas, determinou a “instauração de quatro processos apartados de tomada 51 Mudança retroativa de jurisprudência e segurança jurídica: as repercussões das inovações da LINDB nas decisões relativas a operações de planejamento tributário. 03/07/2018. Artigo disponível em http://www.cartaforense.com.br Fl. 10807DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.808 96 de contas especial (...) com vistas à quantificação dos débitos e identificação dos responsáveis pelos indícios de dano ao erário apurados nos Contratos 007/2008, 008/2008, 009/2009 e 010/2010, relativos aos lotes 1 a 4 de construção do Arco Metropolitano do Rio de Janeiro”. Portanto, uma situação envolvendo contratos públicos, ou seja, exatamente o tipo de situação considerado na elaboração do malfadado projeto de lei... Neste caso, um dos interessados, nos embargos ao acórdão, arguiu a aplicação do art. 24 da LINDB. Interessante observar que o administrado, pela sua manifestação, também entende que o art. 24 diz respeito à revisão de atos emanados da Administração, exatamente conforme aqui proposto. Confirase: “Nesse sentido, cumpre trazer o artigo 24, recém introduzido na LINDB, o qual condiciona a revisão de determinado conteúdo emanado pela esfera administrativa à manutenção de orientação expressa anteriormente.” (grifou se) Para refutar a aplicação do art. 24 da LINDB ao caso concreto analisado pelo TCU nos embargos, o relator, Ministro Benjamin Zymler, argumentou, em síntese, o seguinte. Primeiro, que a decisão objeto dos embargos (o Acórdão 768/2018Plenário) foi proferida antes da publicação da Lei nº 13.655/2018, assim, não caberia se falar em nulidade do acórdão por conta de legislação superveniente. Em segundo, porque, ainda que o acórdão tivesse sido exarado após (na decisão, o relator equivocadamente escreve antes) a edição da Lei nº 13.655/2018, ele não seria nulo, “visto que o julgado não apresentou nenhuma mudança jurisprudencial sobre o tema em questão”. Afirma o relator, na sequência, o seguinte: “25. Há décadas a jurisprudência desta Corte de Contas considera irregular a celebração de contratos administrativos por preços superiores aos de mercado 26. O fato é que as condições praticadas nos ajustes auditados têm sido questionadas desde a época da fiscalização, em 2010. Como ressaltado na decisão recorrida, o Tribunal determinou solução provisória a respeito da adoção de preços de indenização de jazida, no valor de R$ 5,84/m3, a ser adotado enquanto não fosse concluído o estudo determinado (Acórdão 3.451/2012Plenário). Jamais os valores contratuais tiveram sua regularidade reconhecida pela TCU. 27. Também não se pode atribuir ao caso em análise as caraterísticas de um ato jurídico perfeito ou de uma situação plenamente constituída. Nesse sentido, cito trecho do voto condutor do Acórdão 1.304/2017Plenário, de minha relatoria: 54. Dispõe a Carta Magna que a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada, o que nos leva e perquirir se realmente uma decisão condenatória do TCU poderia obrigar o particular ressarcir o erário em vista de superfaturamento por preços excessivos observado no contrato. 55. Ocorre que um contrato eivado por sobrepreço não é um ato jurídico perfeito, assim entendido como aquele já realizado, acabado segundo a lei vigente ao tempo em que se efetuou, satisfazendo todos os requisitos formais para gerar a plenitude dos seus efeitos. Fl. 10808DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.809 97 56. Dentre outras causas elencadas no art. 166 do Código Civil, considerase nulo o negócio jurídico quando for ilícito o seu objeto; o motivo determinante, comum a ambas as partes, for ilícito; não revestir a forma prescrita em lei; for preterida alguma solenidade que a lei considere essencial para a sua validade; tiver por objetivo fraudar lei imperativa; e a lei taxativamente o declarar nulo, ou proibirlhe a prática, sem cominar sanção. O objeto do negócio jurídico administrativo é a contratação segundo os preceitos da Lei 8.666/1993. Por isso, o contrato com sobre preço afigurase ilícito, na medida em que não se adequa à Lei. 57. Nesse sentido, é oportuno colacionar diversos dispositivos legais que caracterizam como ilícito a contratação pela Administração Pública por preço superior ao de mercado, a começar pela própria lei 8.666/1993, em seu art. 96: (...)” Verificase, portanto, que o TCU considera o artigo 24 aplicável ao tipo de processo lá discutido (o que confere, também, com as nossas considerações feitas), nada obstante o TCU tenha, no caso concreto, rejeitado a conformação dos fatos à hipótese prevista no artigo. 2.3. Sobre a Apelação nº 105861023.2016.8.26.0053, no TJSP: Tratase, no caso, de vantagem funcional de natureza indenizatória (Auxílio saúde) que era conferida aos funcionários da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, sem que fosse necessária a efetiva comprovação da realização dos gastos. Esta desnecessidade de comprovação estava estabelecida no Ato nº 12/2012 da Mesa então vigentes. Contudo, os Atos nº 18/2013 e nº 20/2014 passaram a exigir tal comprovação, e daí começaram a exigir dos funcionários a comprovação dos gastos ocorridos naqueles anos em que não havia tal obrigatoriedade. Aqui houve, pelo TJ, a aplicação direta das disposições do art. 24 da LINDB, justamente para considerar como situações plenamente constituídas aquelas em que os funcionários, confiantes nas disposições de ato administrativo anterior, não possuíam mais (ou nunca possuíram) os comprovantes daqueles gastos. Transcrevese abaixo o parágrafo do voto em que a aplicação do art. 24 da LINDB ao caso é analisada: “No caso em apreço, é possível divisar que os pagamentos efetuados correspondem a atos administrativos produzidos de acordo com as exigências normativas de então, que geraram efeitos favoráveis aos servidores, e que tem por objeto presumido a organização da vida financeira básica que se relaciona com a estabilidade jurídica e tranquilidade existencial, tudo a recomendar, em nome da concretização da segurança jurídica e da legítima confiança, o respeito às situações plenamente constituídas a que se refere o art. 24 da LINDB.” (grifouse) Verificase, portanto, que o TJSP aplicou o art. 24 da LINDB precisamente em uma situação de natureza tal qual aquela em que, nas considerações aqui ao norte feitas, entendemos aplicável o dispositivo. Ou seja, no caso de uma “situação plenamente constituída” por força e obra de um ato administrativo que a gerou. 2.4. Sobre a Manifestação da PGFN no caso relativo à Resolução nº 9101000.058 Fl. 10809DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.810 98 As considerações da PGFN, em linhas gerais, não destoam das aqui feitas, nada obstante algumas coisas aqui trazidas não constem da manifestação da PGFN, e vice versa. A PGFN destaca o viés do projeto de lei (controle das contratações públicas) e também defende que o art. 24 se dirige “à revisão de ato, processo ou norma emanados da própria Administração, bem como de contrato ou ajuste entabulados entre a Administração e o particular”. Tal como aqui feito. Também afirma que o lançamento não configura procedimento de “revisão”, “não sendo de seu escopo revisar atos nem declarar inválida qualquer situação prévia plenamente constituída”, mas tão somente apurar as consequências tributárias advindas daqueles atos. Tal como aqui feito. Ao enfrentar o argumento da parte contrária, de que o lançamento pudesse ser o ato veiculador da “revisão” prevista no art. 24, a PGFN acrescenta um argumento, não feito nas considerações gerais aqui ao norte, de que o dispositivo violaria a previsão constitucional de que tal matéria (lançamento) somente poderia ser veiculada por lei complementar. A PGFN fez dois “algoritmos” que me pareceram úteis, que são bastante procedentes e que estão em linha com as considerações gerais feitas anteriores. O primeiro, para sintetizar a que tipo de situação se aplica o art. 24: “Noutras palavras, o dispositivo abrange a seguinte situação: 1 – A Administração praticou um ato, firmou um contrato ou ajuste, estabeleceu um processo ou publicou uma norma, seguindo orientação então vigente; 2 – Este ato, contrato, ajuste, processo ou norma gerou uma situação plenamente constituída em favor do administrado; 3 – A Administração altera sua orientação sobre a validade do ato, contrato, ajuste, processo ou norma, por ela praticado, procedendo à sua revisão; 4 – A revisão levará em conta a orientação anterior, sob a qual o ato da Administração foi praticado, evitando declarar a invalidade daquelas situações plenamente constituídas em consequência daquele ato.” Este algoritmo reflete com precisão a situação tratada na Apelação do TJSP (auxílio saúde). O segundo algoritmo, para sintetizar o absurdo da argumentação de que seria o lançamento o ato de “revisão” dos atos de particulares: “Segundo essa interpretação, a norma se prestaria a reger a seguinte situação: 1 – A Administração praticou um lançamento, seguindo orientação então vigente; Fl. 10810DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.811 99 2 – Este ato de lançamento gerou uma situação plenamente constituída (?); 3 – A Administração (órgão julgador da impugnação/recurso) altera sua orientação sobre a validade do lançamento (?), procedendo à sua revisão; 4 – A revisão levará em conta a orientação anterior, sob a qual o lançamento foi praticado, evitando declarar a invalidade daquelas situações plenamente constituídas (?).” Por fim, a PGFN aborda ainda mais outra interpretação do dispositivo que, conforme informa, teria sido feita no âmbito do CARF: a de que a validade do lançamento estaria vinculada à jurisprudência existente à época dos fatos fiscalizados, e não à época em que praticado o ato objeto de revisão (no caso, o próprio lançamento). Ou seja, a decisão que “revisa” o lançamento, no CARF, teria de levar em conta o “direito do contribuinte de não ser autuado à luz das orientações gerais porventura existentes à época em que praticados os fatos fiscalizados”. Neste aspecto, a PGFN, além de destacar que a interpretação proposta está “completamente dissociada do texto legal”, diz que isto equivale a afirmar que “a Lei 13.655/2018 estaria conferindo ‘eficácia normativa’ à jurisprudência majoritária anterior, enquadrandoa no CTN como norma tributária complementar (art. 100, II)”, o que seria um total despropósito, porque, neste caso, as ditas “orientações gerais” estariam vinculando a atuação do próprio auditor autuante, e, ademais, indevidamente engessando o órgão julgador, pois este “jamais poderia contrariar a jurisprudência que o antecedeu no julgamento de determinada matéria”. São considerações bastante interessantes, que vão além daquelas nos comentários gerais. 2.5. Sobre o caso HELIO LANIADO (Acórdão nº 9202006.996) Neste caso, o art. 24 foi trazido como questão de ordem, por conselheira presente à sessão, quando faltava, aparentemente, apenas um único voto a ser proferido. Nada obstante o acórdão registre que a questão de ordem não foi conhecida, fato é que ela foi analisada, e bastante, no bojo do voto, tendo a aplicação do art. 24 sido rejeitada por dois fundamentos: (i) pelo estágio em que se encontrava o processo (uma única linha sobre o assunto); e (ii) pela absoluta inaplicabilidade da Lei nº 13.655, de 2018, à atividade judicante do CARF (todo o restante da fundamentação). Em síntese, defendeu acertadamente a relatora, a Dra. Maria Helena Cotta Cardozo, que a lei é de natureza essencialmente administrativa e voltada aos órgãos de controle (CGU, TCU, CADE, etc), citando como reforço a Nota Técnica Conjunta nº 1/2018, do Ministério Público Federal (que solicitava o veto integral ao projeto, ressaltese, embora apenas alguns específicos dispositivos tenham, ao final, sido vetados). Assim, sustenta que a aplicação desta lei ao CARF, quando muito, “restringirseia às suas atividades essencialmente administrativas, afetas à sua SecretariaExecutiva, quanto a eventuais contratos, convênios e atos congêneres, inerentes ao próprio funcionamento do Órgão”. E que, não sendo o CARF um “órgão de controle”, não há como aplicar a lei ao CARF. Fl. 10811DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.812 100 Adicionadas essas considerações quanto à parca jurisprudência existente até o momento, que são úteis para uma melhor compreensão da aplicabilidade do artigo em discussão, reafirmo as considerações anteriores. Ressalto ainda que, na data do presente julgamento (11/09/2018), já havia sido publicado o Acórdão nº 1301003.284, mas não tive tempo de aprofundálo, pois publicado na data de ontem (10/09/2018). Assim, em resumo, voto no sentido de NÃO APLICAR, EM TESE, O ART. 24 DA LINDB ao processo administrativo fiscal. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Declaração de voto Conselheiro André Mendes de Moura. Sobre a matéria LINDB, votei com a I. relatora pelas conclusões. Apresento meus fundamentos para a decisão. Foram empreendidos debates bastante substanciosos a respeito da aplicação do art. 24, do DecretoLei nº 4.657, de 1942 (LINDB), com redação dada pela Lei nº 13.655, de 2018), ao processo administrativo tributário, na esfera federal. Transcrevo o dispositivo em questão: Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público. Fl. 10812DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.813 101 A tese seria no sentido de que a validade do ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa (cuja produção estiver completada) deve levar em conta as orientações gerais da época em que se concretizou o fato com repercussão administrativa/jurídica. As orientações gerais abrangem (1) interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral, ou (2) jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, ou (3) aquelas adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público. Assim, não caberia eventual revisão do ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, caso não atendidos os requisitos expostos. Nesse contexto, no âmbito do CARF, no julgamento dos processos administrativos tributários federais, o Colegiado estaria vinculado ao art. 24 da LINDB, ao apreciar as matérias devolvidas em sede recursal. Caso a matéria em litígio trate de discutir sobre validade de ato/contrato/ajuste/processo/norma, e a interpretação da legislação tributária empregada pela parte processual esteja em consonância com as orientações gerais (interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral, ou jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, ou aquelas adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público) vigentes à época em que se deu a construção do suporte fático que teve como consequência jurídica o lançamento fiscal, estaria o CARF submetido estritamente ao dispositivo da LINDB. Tal entendimento não encontra sustentação no contencioso administrativo tributário federal. Isso porque o art. 24 da LINDB trata da revisão do ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa. Ocorre que a atividade judicante, ao exercer a missão de resolver o litígio posto pela parte, não realiza a revisão, mas sim o reexame da matéria apresentada para discussão. A revisão envolve cognição ampla e sem restrições da matéria, seja qual for a sua natureza (ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa). A título de exemplo, no âmbito tributário, o Código Tributário Nacional (CTN) trata da revisão de ofício do ato de lançamento, no art. 149: Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: I quando a lei assim o determine; II quando a declaração não seja prestada, por quem de direito, no prazo e na forma da legislação tributária; III quando a pessoa legalmente obrigada, embora tenha prestado declaração nos termos do inciso anterior, deixe de atender, no prazo e na forma da legislação tributária, a pedido de esclarecimento formulado pela autoridade administrativa, recusese a prestálo ou não o preste satisfatoriamente, a juízo daquela autoridade; IV quando se comprove falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória; Fl. 10813DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.814 102 V quando se comprove omissão ou inexatidão, por parte da pessoa legalmente obrigada, no exercício da atividade a que se refere o artigo seguinte; VI quando se comprove ação ou omissão do sujeito passivo, ou de terceiro legalmente obrigado, que dê lugar à aplicação de penalidade pecuniária; VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; VIII quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior; IX quando se comprove que, no lançamento anterior, ocorreu fraude ou falta funcional da autoridade que o efetuou, ou omissão, pela mesma autoridade, de ato ou formalidade especial. Parágrafo único. A revisão do lançamento só pode ser iniciada enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública. O que se observa é que, para a revisão do ato, não se fala em limites apresentados pela parte, no sentido de restringir a análise. A revisão pode dispor sobre o ato em sua plenitude. Pode envolver em um refazimento completo do ato, ou um refazimento parcial. A revisão pode ser de ordem quantitativa ou qualitativa. O ato original realizado pela parte (por exemplo, lançamento por homologação), pode ser revisado pelo Estado, por meio do lançamento de ofício, em sua integralidade. O ato de lançamento original, por homologação, efetuado pela parte, pode ter previsto uma hipótese de incidência, e o ato da lançamento revisional pode dispor sobre várias hipóteses de incidência. A revisão é ampla, e uma vez atendidos requisitos normativos (como os dispostos nos incisos I a IX do art. 149 do CTN), passa a encontrar limites apenas de ordem temporal, nos prazos extintivos de direito previstos na legislação. Não é o que ocorre a partir do momento em que se instaura a fase contenciosa, disposta no art. 25 do DecretoLei nº 70.235, de 1972 (PAF): Art. 25. O julgamento do processo de exigência de tributos ou contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal compete: (...) (Grifei) O julgamento submetese a normas próprias de direito processual. Assim, deparase o julgador com limites de cognição para apreciar o litígio. Só se encontra sob a competência da atividade judicante a matéria que é devolvida para apreciação por uma das partes, que se encontra irresignada com a situação apresentada e busca satisfazer sua pretensão resistida. Não cabe a revisão integral de todo o auto de infração, mas apenas a apreciação das matérias que foram contestadas pela parte. Se o lançamento de ofício, objeto de contestação pela parte, tipifica as infrações A, B e C, e a impugnação apresentada protesta apenas sobre a infração A, a apreciação do juiz fica restrita à infração A. Caso a atividade judicante exercesse a atividade de Fl. 10814DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.815 103 revisão, poderia o juiz se debruçar sobre todo o lançamento de ofício, para apreciar as infrações A, B e C, independente da manifestação da parte irresignada sobre as infrações B e C. Mas não é o caso. Foram estabelecidas normas próprias de natureza processual, precisamente para delimitar com precisão a insatisfação da parte e buscar a solução do litígio com a maior celeridade possível, e evitar discussões fora do contexto do objeto da contenda. Foram construídos institutos de ordem processual, para dispor com clareza sobre a atividade de decidir e seu escopo. Nesse contexto, o julgamento operase em face da matéria devolvida, ou seja, apenas sobre matéria que foi objeto de protesto pela parte. Assim, não se pode dizer que se concretiza uma revisão do ato, que envolve uma apreciação ampla e irrestrita. O que se produz é o reexame, que consiste na apreciação sobre a matéria devolvida. Nesse contexto, no âmbito do contencioso administrativo tributário federal, o PAF tratou de dispor sobre a abrangência do litígio, para delimitar com precisão as fronteiras do reexame na atividade judicante exercida no âmbito administrativo. Transcrevo os arts. 17 e 21: Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. (...) Art. 21. Não sendo cumprida nem impugnada a exigência, a autoridade preparadora declarará a revelia, permanecendo o processo no órgão preparador, pelo prazo de trinta dias, para cobrança amigável. § 1º No caso de impugnação parcial, não cumprida a exigência relativa à parte não litigiosa do crédito, o órgão preparador, antes da remessa dos autos a julgamento, providenciará a formação de autos apartados para a imediata cobrança da parte não contestada, consignando essa circunstância no processo original. Ora, caso o contencioso administrativo do PAF entendesse que o contencioso administrativo fiscal exerceria a atividade de revisão, não teria razão a existência dos dispositivos. Bastaria a parte apresentar impugnação protestando sobre matéria A, para que o julgador pudesse se pronunciar sobre matéria B e C, situação no qual estaria realizando a revisão do lançamento de ofício, ato que não encontra limites na apreciação. Contudo, permitese ao julgador apenas a apreciação da matéria devolvida em impugnação. Inclusive, dispõe o art. 21 do PAF que, em relação à matéria não impugnada, será providenciada a cobrança da parte não contestada. Tratase de matéria preclusa. Ou seja, matéria que não pode ser mais objeto de reexame. Por sua vez, dispõe o PAF que o julgamento em sede recursal é realizado, inicialmente, pelas Turmas Ordinárias do CARF, mediante apreciação de recurso de ofício Fl. 10815DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.816 104 (reexame necessário, submetido a limite de alçada de exoneração de crédito tributário, art. 3452) e voluntário, nos termos do art. 25, inciso II 53. E, na mesma medida que na primeira instância, a apreciação dos recursos em sede recursal também é restrita à matéria devolvida, conforme dispõe sobre o recurso voluntário, o art. 33 do PAF: Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão. (Grifei) Sendo a interposição de recurso voluntário parcial, a apreciação em sede recursal versará apenas sobre a matéria devolvida para discussão. A interposição de recurso especial, para a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), também encontra limites processuais específicos, devendo restar demonstrada a divergência na interpretação da legislação tributária entre decisões de diferentes turmas de julgamento, conforme disposto no art. 37 do PAF e no regimento interno do órgão, e delimitando estritamente os limites da apreciação por parte do Colegiado: Art. 37. O julgamento no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais farseá conforme dispuser o regimento interno. (...) § 2º Caberá recurso especial à Câmara Superior de Recursos Fiscais, no prazo de 15 (quinze) dias da ciência do acórdão ao interessado: I – (VETADO) (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) II – de decisão que der à lei tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra Câmara, turma de Câmara, turma especial ou a própria Câmara Superior de Recursos Fiscais. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) Ainda há o requisito do prequestionamento, previsto no Regimento Interno do CARF 54 (RICARF), Anexo II: 52 Art. 34. A autoridade de primeira instância recorrerá de ofício sempre que a decisão: I exonerar o sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa de valor total (lançamento principal e decorrentes) a ser fixado em ato do Ministro de Estado da Fazenda. II deixar de aplicar pena de perda de mercadorias ou outros bens cominada à infração denunciada na formalização da exigência. (...) 53 Art. 25. O julgamento do processo de exigência de tributos ou contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal compete: (...) II – em segunda instância, ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão colegiado, paritário, integrante da estrutura do Ministério da Fazenda, com atribuição de julgar recursos de ofício e voluntários de decisão de primeira instância, bem como recursos de natureza especial. (...) 54 O RICARF tem amparo no art. 37 do PAF: Fl. 10816DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.817 105 Art. 67 (...) § 5º O recurso especial interposto pelo contribuinte somente terá seguimento quanto à matéria prequestionada, cabendo sua demonstração, com precisa indicação, nas peças processuais. Sobre o assunto já se manifestou o presente Colegiado, ocasião em que não foi apreciada questão relativa a decadência porque não foi prequestionada, nos termos do Acórdão nº 9101003.439, da sessão de 7 de fevereiro de 201855, assim ementado: AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE. REQUISITO PARA ADMISSIBILIDADE. NÃO CONHECIMENTO. O recurso especial interposto pelo contribuinte somente terá seguimento quanto à matéria prequestionada, cabendo sua demonstração, com precisa indicação, nas peças processuais. Requisito de admissibilidade previsto no Regimento Interno do CARF, tanto no vigente (Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, Anexo II, art. 67, § 5º) quanto no anterior (Portaria nº 256, de 22/06/2009, Anexo II, art. 67, § 3º). Precedentes no STJ no sentido de que o prequestionamento é necessário inclusive no caso de matéria de ordem pública (AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 1.553.221 SP, AgInt nos EDcl no AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 932.947 SP e RCD no AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 938.531 SP). Recurso não conhecido. Como se pode observar, para que a matéria tenha seguimento deve atender aos requisitos de admissibilidade previstos na norma processual. Não se admite ressuscitar matérias que já se encontram preclusas. Caso se entendesse que o julgamento exerceria a atividade de revisão, restariam esvaziados os institutos construídos no sentido de se delimitar o objeto de exame na fase litigiosa. Não haveria que se falar em preclusão, matéria não impugnada, cobrança de matéria não contestada, devolução parcial, divergência, prequestionamento, dentre outros. Ora, resta evidente que a atividade exercida pelos órgãos do contencioso administrativo tributário federal, consiste em reexaminar a matéria devolvida, e não efetuar uma revisão no lançamento de ofício em sua integralidade. Art. 37. O julgamento no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais farseá conforme dispuser o regimento interno. 55 Decisão proferida por maioria de votos, conforme resultado: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que conheceram do recurso. Votou pelas conclusões a conselheira Cristiane Silva Costa. (...) Participaram do presente julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo. Fl. 10817DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.818 106 Nesse contexto, o art. 25 do PAF, ao dispor sobre o julgamento, trata do exercício de reexame, e não de revisão o processo. Portanto, considerando que a atividade judicante, inclusive no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, consiste em efetuar o reexame da matéria devolvida, e não a revisão de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, firmo convicção no sentido da inaplicabilidade do art. 24 da LINDB aos julgamentos realizados pelo CARF. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Declaração de Voto Conselheiro Demetrius Nichele Macei. A presente declaração de voto se presta a esclarecer posicionamento deste conselheiro quanto a aplicabilidade do artigo 24, da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro LINDB. Introdutoriamente, temse que o artigo 24 foi acrescentado ao DecretoLei nº 4.657/1942, em abril de 2018, pela Lei nº 13.655/2018, focado na segurança jurídica e eficiência na criação e na aplicação do direito público. Por se tratar de recente mudança legislativa, reproduzo abaixo o mencionado dispositivo legal: Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. (Incluído pela Lei nº 13.655, de 2018) Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público. (Incluído pela Lei nº 13.655, de 2018) Antes mesmo de sua publicação o dispositivo legal sob análise já vinha levantando dúvidas no meio jurídico quanto ao seu cabimento e alcance. Com a publicação da Lei nº 13.655/2018, as dúvidas antes eminentemente teóricas, ganharam séria pertinência pelos efeitos práticos possíveis da aplicação do artigo 24. Justamente pelo ineditismo desta matéria, Fl. 10818DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.819 107 não há precedentes para analisar tal objeto, razão pela qual entendo ser fundamental, neste momento, a interpretação do dispositivo na mesma trilha axiológica de sua criação ou seja: a Segurança Jurídica. Partindose, então, deste pressuposto, penso que, em tese, o artigo 24, da LINDB, se aplica sim ao processo administrativo fiscal. O processo administrativo tributário é, antes de tudo, processo administrativo. Não havendo regra expressa em sentido diverso, ou norma especial que possa ser antinômica ao texto do artigo 24, não vejo como excetuar. O caput do artigo 24 define expressamente quais são as esferas em que a revisão de validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa poderá ocorrer, são elas: administrativa, controladora ou judicial. Disto, ainda mais se considerarmos que se trata de artigo previsto em Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, ou seja, regras mínimas que devem ser observadas por todo o ordenamento jurídico, temse que o artigo 24 deverá ser aplicado sim no processo administrativo fiscal, cujo ato a ser revisado é o lançamento tributário, considerado aquele realizado exclusivamente pela autoridade administrativa. Não desconheço recente manifestação em meio jornalístico do professor Floriando de Azevedo Marques, que juntamente com o professor Carlos Ari Sundfeld, sobre as alterações na LINDB, afirmando que sua aplicação ao processo fiscal é mandatória. 56 Com todo o respeito aos ilustres juristas, não creio que a "interpretação autêntica" seja a mais adequada para a solução da questão, mesmo sendo, sem dúvida, algo a considerar. Quanto a alegação de que as novas alterações seriam destinadas apenas aos gestores da Administração Pública, temos, por exemplo, os artigos 20 e 21, da Lei nº 13.655/2018, que nos traduzem conteúdo mais amplo. Vejase: "Art. 20. Nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decidirá com base em valores jurídicos abstratos sem que sejam consideradas as consequências práticas da decisão. Parágrafo único. A motivação demonstrará a necessidade e a adequação da medida imposta ou da invalidação de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, inclusive em face das possíveis alternativas." "Art. 21. A decisão que, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, decretar a invalidação de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa deverá indicar de modo expresso suas consequências jurídicas e administrativas. Parágrafo único. A decisão a que se refere o caput deste artigo deverá, quando for o caso, indicar as condições para que a regularização ocorra de modo proporcional e equânime e sem prejuízo aos interesses gerais, não se podendo impor aos sujeitos atingidos ônus ou perdas que, em função das peculiaridades do caso, sejam anormais ou excessivos." 56:https://www.jota.info/tributoseempresas/tributario/lindbflorianoentrevistacarf06082018 – acesso em setembro/2018. Fl. 10819DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.820 108 Ora, tais artigos normatizam as tomadas de decisão também nas esferas administrativa, controladora e judicial, e notese que em todas estas previsões o legislador preferiu não especificar por ramo tais esferas, sendo este mais um motivo pelo qual entendo ser correta a aplicação do artigo 24 na esfera administrativa fiscal, haja vista a dicção genérica dos dispositivos legais quanto às esferas que devem garantir a segurança jurídica e eficiência na criação e na aplicação do direito público. Por coerência, se os artigos da Lei nº 13.655/2018 se aplicam ao gênero – administrativo, controlador, judicial – também deverão ser aplicados às espécies, no caso, fiscal. Mais especificamente, quanto ao artigo 24, esta lógica se intensifica, pois quem pratica o ato de revisão do ato do lançamento fiscal é justamente a autoridade administrativa e judicial julgadora. No que compete ao CARF, inclusive, o que quase sempre está em jogo é a validade ou não do auto de infração, materialização do lançamento fiscal. Adicionese a tal argumento, o fato de que toda e qualquer matéria no Direito Tributário ser de ordem pública, ou seja, o intuito louvável da nova lei de assegurar a segurança jurídica e eficiência na criação e na aplicação do direito público, indubitavelmente abarca a esfera administrativa fiscal, pois se trata de indispensável esferas que cria e aplica o direito público ao caso concreto. Diante, do exposto, ainda que sucintamente, declaro que, em tese, é plenamente cabível a aplicação do artigo 24, da LINDB, ao processo administrativo fiscal. Contudo, entendo não ser possível a aplicação do retromencionado dispositivo ao presente processo, em razão da do “princípio da irretroatividade das leis”. Clarifico. Percebase que o artigo 24 só passou a ter vigência com a publicação da Lei nº 13.655/2018, que se deu em abril de 2018, isto quer dizer que qualquer pleito embasado neste dispositivo legal anterior a abril de 2018, não deverá ser considerado pela autoridade administrativa, tampouco pela judicial, porque tal atitude violaria princípio de direito intertemporal. Mesmo não havendo dispositivo expresso na Constituição, a doutrina nos auxilia em muito quanto a definição do princípio da irretroatividade das leis, como, por exemplo, a lição de Ricardo Freire Soares, explicando que o princípio da irretroatividade das leis e atos normativos resulta de dois importantes princípios de direito intertemporal, quais sejam: o princípio da seguranca̧ jurídica, com a preservação das situações já consolidadas sob a vigência da normatividade jurídica anterior, e o princípio de que o tempo rege o ato (tempus regit actum). Segundo o autor: “No sistema jurídico brasileiro, desponta a irretroatividade como a regra geral em matéria de direito intertemporal. Tal entendimento deflui tanto do art. 5o, XXXVI, da Constituicã̧o Federal de 1988 – ao estabelecer que a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada – quanto do art. 6o da Lei de Introducã̧o às Normas do Direito Brasileiro, ao preceituar que a lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada.” Fl. 10820DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.821 109 Existem exceções a esta regra, por exemplo, no Direito Penal, em que, por força constitucional, a lei penal não retroagirá, exceto para beneficiar o réu."57 Reforça tal ensinamento a posição de Hugo de Brito Machado, em artigo denominado “A irretroatividade da lei tributária como garantia do contribuinte”. Confirase: “A irretroatividade é da essen̂cia do Direito, e assim podemos afirmar que o princípio da irretroatividade das leis é tão antigo quanto a própria civilizaçaõ, e sempre o encontramos reconhecido por todos os povos em todos os tempos. Entretanto, como nada é absoluto, a irretroatividade deve comportar exceções. A exceçaõ, que é a retroatividade, há de conviver com a regra, que é a irretroatividade, de forma a viabilizarem, ambas, o objetivo essencial do Direito, que é a limitacã̧o do poder. Especialmente do poder estatal. Assim é que, nas relações entre o particular e o Estado, a retroatividade só pode ser admitida quando favoreça o primeiro, ou, em outras palavras, quando fortaleça o instrumento limitador do poder.” 58 Nesta medida, a irretroatividade das leis mesmo não expressa é regra que deflui naturalmente do nosso sistema constitucional. E mesmo não sendo absoluta, para que ocorra a retroatividade, a meu ver, isso também depende de manifestação expressa do legislador ou deve enquadrarse diretamente nas exceções, também expressamente previstas, como o caso, por exemplo, do artigo 106 do Código Tributário Nacional CTN. A propósito, a LIDNB não "criou", por assim dizer, o principio da Segurança Jurídica. Ele já integra o ordenamento há mais de século. Para ilustrar: em matéria tributária, temos o inciso III, do artigo 100 do CTN, que independentemente de lei expressa, prevê que a autoridade administrativa deve considerar como norma cogente as práticas reiteradas da administração pública, para os casos em que, por exemplo, o contribuinte agiu conforme a legislação vigente à época dos fatos... o que obriga a fiscalização federal no momento de realizar o lançamento tributário. Há mecanismos disponíveis no ordenamento jurídico que viabilizam o cumprimento da Segurança Juridica, diuturnamente discutidos no âmbito deste E. Conselho. Por outro lado, não seria justo nem razoável que se exija do agente da administração que realizou o lançamento de ofício há anos o dever de observar, num exercício de "futurologia", os estritos termos do recém publicado artigo 24 da LIDNB. Ou seja, devemos interpretar a legalidade do lançamento de acordo com os princípios e regras vigentes à época de sua realização que, por sua vez, irradiarão efeitos para o contexto da época da ocorrência dos fatos geradores. Entendo finalmente que o debate terá inicio justamente agora, para os lançamentos tributários posteriores a abril de 2018, em que a fiscalização terá de interpretar e aplicar (ou deixar de aplicar) o artigo 24 da LINDB. Tal interpretação naturalmente passará 57 SOARES, Ricardo Freire. Elementos de teoria geral do direito. 4ª edição. São Paulo: Saraiva, 2017. p. 6061 58 COÊLHO, Sacha Calmon (coord.). Segurança Jurídica. São Paulo: Forense, 04/2013. p.233. Fl. 10821DF CARF MF Processo nº 19515.002021/200519 Acórdão n.º 9101003.745 CSRFT1 Fl. 10.822 110 pelo crivo das instâncias julgadoras, administrativas e judiciais. As controvérsias administrativas, se existirem, e se forem divergentes entre as turmas ordinárias do CARF, serão então submetidas a este E. Conselho. É diante de tais constatações que não se deve aplicar a Lei nº 13.655/2018 para o caso concreto, devendo seus efeitos operarem de modo prospectivo, ou seja, somente para os lançamentos tributários que ocorrerem partir de abril de 2018, o que não é o caso sob análise. É a declaração. (assinado digitalmente) Demetrius Nichele Macei Fl. 10822DF CARF MF
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Numero do processo: 14751.720030/2016-23
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jan 10 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012
RECURSO VOLUNTÁRIO INTERPOSTO FORA DO PRAZO LEGAL. INTEMPESTIVIDADE RECONHECIDA.
É de 30 (trinta) dias o prazo para interposição de Recurso Voluntário pelo contribuinte, conforme prevê o art. 33, caput, do Decreto-lei n. 70.235/72. O não cumprimento do aludido prazo impede o conhecimento do recuso interposto em razão da sua intempestividade.
Numero da decisão: 2201-004.810
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário em razão de sua intempestividade.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Presidente.
(assinado digitalmente)
Douglas Kakazu Kushiyama - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Daniel Melo Mendes Bezerra, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Douglas Kakazu Kushiyama,, Debora Fofano, Marcelo Milton da Silva Risso e Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente).
Nome do relator: DOUGLAS KAKAZU KUSHIYAMA
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012 RECURSO VOLUNTÁRIO INTERPOSTO FORA DO PRAZO LEGAL. INTEMPESTIVIDADE RECONHECIDA. É de 30 (trinta) dias o prazo para interposição de Recurso Voluntário pelo contribuinte, conforme prevê o art. 33, caput, do Decreto-lei n. 70.235/72. O não cumprimento do aludido prazo impede o conhecimento do recuso interposto em razão da sua intempestividade.
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INTEMPESTIVIDADE RECONHECIDA. É de 30 (trinta) dias o prazo para interposição de Recurso Voluntário pelo contribuinte, conforme prevê o art. 33, caput, do Decretolei n. 70.235/72. O não cumprimento do aludido prazo impede o conhecimento do recuso interposto em razão da sua intempestividade. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso voluntário em razão de sua intempestividade. (assinado digitalmente) Carlos Alberto do Amaral Azeredo Presidente. (assinado digitalmente) Douglas Kakazu Kushiyama Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Daniel Melo Mendes Bezerra, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Douglas Kakazu Kushiyama,, Debora Fofano, Marcelo Milton da Silva Risso e Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 14 75 1. 72 00 30 /2 01 6- 23 Fl. 2005DF CARF MF 2 Tratase de Recurso Voluntário de fls. interposto contra decisão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Brasília (DF), de fls. 249/257, a qual julgou procedente o lançamento de Contribuições Sociais Previdenciárias, referente ao período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012, acrescido de multa e juros de mora. O presente processo trata de Autos de Infração de Obrigação Principal (AIOP), lavrados em desfavor da empresa acima qualificada, incluindo os seguintes debcad's: 1) AIOP 51.081.3569 (fls. 03/28), lavrado em 22/02/2016 no valor original (sem juros e multa) de R$3.577.642,18 relativo ao período de 01/2011 a 12/2012 onde foram cobradas as contribuições previdenciárias patronais, destinadas ao custeio da Seguridade Social e ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrentes dos riscos ambientais do trabalho (SAT/RAT), incidentes sobre a comercialização de produtos rurais. Os fatos geradores foram identificados nos levantamentos: R1 COMPRA PROD. RURAL (SUBROGAÇÃO); R2 VENDA PROD. RURAL (M. INTERNO); R3 VENDA PROD. RURAL (MI/COM EXP). Neste auto de Infração também foram exigidas contribuições incidentes sobre a remuneração de empregados, alocados na atividade de prestação de serviço, identificados no levantamento E4 REM. EMPREGADOS(PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS). 2) AIOP 51.081.3577 (fls. 29/51), lavrado em 22/02/2016 no valor original (sem juros e multa) de R$154.003,62 relativo ao período de 01/2011 a 12/2012 onde foram cobradas as contribuições previdenciárias dos segurados empregados, destinadas ao custeio da Seguridade Social relativa incidentes sobre a remuneração. Os fatos geradores foram identificados nos levantamentos: E1 REM EMPREGADOS (FOPAGXGFIP); E2 REM EMPREGADOS (FOPAGXGFIP); E3 REM EMPREGADOS (FOPAG X CONT); E4 REM EMPREGADOS (PREST SERV). 3) AIOP 51.081.3585 (fls. 52/67), lavrado em 22/02/2016 no valor original (sem juros e multa) de R$1.894.659,73 relativo ao período de 01/2011 a 12/2012, onde foram cobradas as contribuições sociais patronais, destinadas ao custeio das outras entidades e fundos SALÁRIO EDUCAÇÃO; SENAR; INCRA. Os fatos geradores foram identificados nos levantamentos já descritos no item 1 (AIOP 51.081.3569). 4) AIOP 51.081.3593 (fls. 68/1030, lavrado em 22/02/2016 no valor original (sem juros e multa) de R$2.039.560,73 relativo ao período de 01/2011 a 12/2012, onde foram cobradas as contribuições sociais patronais, destinadas ao custeio das outras entidades e fundos SALÁRIO EDUCAÇÃO; SENAR; INCRA; SENAI; SESI; SEBRAE. Os fatos geradores foram identificados nos levantamentos já descritos no item 2 (AIOP 51.081.3577) e ainda R2 Fl. 2006DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.972 3 VENDA PRODUTO RURAL (M. INTERNO) e R4 VENDA PRODUTO RURAL (MESENAR). No Relatório Fiscal de fls.119/137, sustentando o procedimento fiscal, o auditor explica que: Os Autos de Infração foram lavrados em decorrência da não comprovação do recolhimento das seguintes contribuições não declaradas em Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social – GFIP, destinadas à seguridade social e a outras entidades e fundos: a) Contribuições incidentes sobre remunerações pagas, devidas ou creditadas a empregados alocados na atividade de prestação de serviço, previstas no art. 22, incisos I e II da Lei nº 8.212, de 24/07/1991. b) Contribuições incidentes sobre as receitas da comercialização da produção rural, previstas no art. 22A, incisos I e II, da Lei 8.212, de 24/07/1991, acrescentado pela lei nº 10.256, de 09/07/2001. c) Contribuições incidentes sobre o valor da produção rural adquirida de pessoas físicas, previstas no art. 25, incisos I e II, da Lei nº 8.212, de 24/07/1991, cuja obrigação de recolher é da empresa adquirente, conforme art. 30, inciso III, da Lei nº 8.212, de 24/07/1991. d) Contribuições dos segurados empregados, previstas no art. 20 da Lei nº 8.212/1991, cuja obrigação de arrecadar e recolher é da empresa, nos termos do art. 30, inciso I, alíneas “a” e “b”, da Lei nº 8.212/1991. e) Contribuições incidentes sobre remunerações pagas, devidas ou creditadas a segurados empregados, sobre o valor da aquisição de produtos rurais de pessoas físicas e sobre as receitas de vendas da produção rural nos mercados interno e externo, destinadas a outras entidades e fundos: FNDE, INCRA, SENAI, SESI, SEBRAE e SENAR. As atividades previstas no objeto social da Usina Coruripe são de: produção e comércio de açúcar, álcool, melaço e demais derivados da canadeaçúcar; importação e exportação de produtos relacionados com suas atividades; produção e comércio de energia elétrica e de todos os derivados oriundos da geração de energia elétrica; produção e aquisição de canade açúcar de terceiros; prestação de serviços". Esclarece o Auditor que a empresa dedicase à industrialização de canadeaçúcar, tanto da produção própria como da produção adquirida de terceiros, e sendo assim, está enquadrada no conceito de agroindústria, (art. 22A, da lei 8.212, de 24/07/1991) sendo enquadrada no FPAS 833 (setor industrial) e FPAS 604 (setor rural), bem como que a substituição da base de Fl. 2007DF CARF MF 4 cálculo da contribuição previdenciária (valor da comercialização da produção rural) prevista nos incisos I e II do art. 22 da mesma Lei 8.212/1991 não alcança as atividades relacionadas à prestação de serviço. Registra que no período fiscalizado, 01/2011 a 12/2012, a empresa foi enquadrada nos seguintes códigos FPAS: FPAS 604: Folha de pagamento do setor rural; FPAS 833: Folha de pagamento do setor industrial; FPAS 744: Comercialização da produção rural; FPAS 787: Prestação de serviço. Na apuração dos valores exigidos no presente processo, a fiscalização informa que realizou a comparação entre os arquivos digitais da folha de pagamento e a GFIP onde não foram encontradas diferenças na contribuição dos segurados e nos valores das remunerações não declaradas nas GFIP, conforme demonstrado na Planilha – Anexo I (fls. 139/204). As GFIP consideradas pela fiscalização encontramse indicado no Anexo II fls. 205/206, bem como foram deduzidos os valores recolhidos à época, conforme explicitado no Relatório de Apropriação dos Documentos Apresentados RADA. Do exame das contas contábeis relativas às rubricas que integram a base de cálculo da folha de pagamento, registra o Auditor que as comparando com as lançadas na folha de pagamento comprovouse a existência de diferença, as quais foram justificadas pela empresa como sendo decorrentes "de rubricas sem incidência que teriam sido lançados indevidamente nessas contas" Aduz o auditor que utilizando a planilha contendo as divergências apresentadas pela empresa, subtraídos os valores correspondentes aos lançamentos de rubricas sem incidência, foram apuradas as divergências indicadas no item 24 do Relatório Fiscal correspondendo ao levantamento E3. Informa a fiscalização que também na contabilidade, verificou a existência de valores lançados como receitas de prestação de serviços nas contas 9915 SERVIÇOS e 305003 PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS MIP.RELAC. Intimado a apresentar os contratos de prestação de serviço, as folhas de pagamento do pessoal alocado nessa atividade, e cópias das Guias da Previdência Social – GPS, correspondentes, a empresa apresentou cópias de relatórios gerenciais da empresa CORURIPE ENERGÉTICA S/A, CNPJ 04.808.949/000173, intitulados “Relatório de Retenção do INSS”, nos quais constam os valores mensais pagos por prestação de serviço, os nomes das empresas prestadoras e os valores retidos em favor do INSS, dentre as quais, à USINA CORURIPE com valor mensal de R$ 63.824,60 e valor retido de R$ 7.020,71. Aduz que os serviços prestados pela USINA CORURIPE à CORURIPE ENERGETICA são de “manutenção da ETE e da estação termoelétrica” e que os valores recolhidos pela CORURIPE ENERGETICA foram compensados pela USINA CORURIPE. Considerando que as receitas decorrentes da prestação de serviço não são alcançadas pela substituição prevista no art. 22 Fl. 2008DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.973 5 A, consoante §§ 2º e 3º do art. 22A da Lei 8.212/1991, portanto incidem as contribuições previstas no art. 22 da mesma lei, ou seja, sobre o valor das remunerações, a fiscalização informa que tais receitas foram excluídas da base de cálculo das contribuições incidentes sobre as receitas da comercialização da produção rural. Como não foram apresentadas as folha de pagamento e GFIP, por tomador de serviço, conforme previsto no art. 175. §2º, IV e §3º da IN 971/2009, a fiscalização informa que a remuneração da mão de obra foi aferida tendo como parâmetro o valor das Notas Fiscais, no percentual de 40%. As bases de cálculo e as contribuições apuradas, foram lançadas no código de levantamento E4, nos valores demonstrados no item 39 do Relatório Fiscal. Registra o auditor que os valores retidos e recolhidos pela tomadora dos serviços, CORURIPE ENERGÉTICA, não foram considerados, em virtude de já terem sido compensados em GFIP, pela USINA CORURIPE, conforme descrito no item 40 do Relatório Fiscal. Com relação às contribuições incidentes sobre a aquisição de produto rural de pessoas físicas, canadeaçúcar para industrialização, conforme previsto no art. 25, incisos I e II da Lei 8.212/1991, a Fiscalização esclarece que foram confrontadas as notas fiscais eletrônicas de entrada com os valores declarados em GFIP e que foram encontradas, nos meses 02/2011 e 11/2011, no estabelecimento 12.229.415/0014 35, as divergências listadas no item 43 do Relatório Fiscal e descritas no levantamento R1. Para verificação da regularidade do recolhimento das contribuições incidentes sobre as receitas da comercialização da produção rural no mercado interno, previstas no art. 22A da Lei 8.212/1991, foram confrontadas as notas fiscais eletrônicas, a contabilidade e a GFIP, relativas aos produtos e subprodutos rurais: açúcar cristal, açúcar demerara, álcool etílico anidro carburante, álcool etílico hidratado carburante, bagaço hidrolisado, bagaço in natura, canadeaçúcar, energia elétrica, etanol anidro combustível, etanol hidratado combustível, levedura, melaço, muda de canadeaçúcar, óleo diesel, soja, torta filtro e vapor direto. As diferenças apuradas foram descritas no Anexo VI (fls.937/943) e explicadas no item 53 do Relatório Fiscal, onde a fiscalização destacou que: a) Nos meses 06/2011, 07/2011 e 08/2011 foram deduzidos na contabilidade, pela fiscalização, os valores de R$ 1.457.029,86, R$ 1.235.868,87 e 501.563,19, cujo estorno no valor total de R$ 3.194.461,92 ocorreu em 31/08/2011, envolvendo as contas 300004 VENDA PROD.FAB.PROP.MITERCEIROS (débito) e 264003 FATURAMENTO ANTECIPADOLP (crédito); Fl. 2009DF CARF MF 6 b) As notas fiscais 42705 (R$ 321.294,88), 42703 (R$ 710.000,00) e 42716 (R$ 108.204,48), do mês 09/2011 e a nota fiscal 42819 (R$ 167.303,52), do mês 10/2011, venda de etanol às empresas IPIRANGA e PETROBRÁS, conforme a planilha – Anexo V, CFOP 5922 e 6922, tributadas por PIS e COFINS, não foram localizadas na contabilidade; c) As notas fiscais 1161 (R$ 132.235,69) e 64359 (R$ 1.224.692,98), do mês 07/2012, venda de açúcar a ALL AMÉRICA LATINA LOGÍSTICA, conforme a planilha – Anexo V, CFOP 6949, tributadas por ICMS, IPI e COFINS, não foram localizadas na contabilidade; d) Nos meses 06/2011, 08/2011, 01/2012 e 02/2012, as notas fiscais emitidas para empresa CARNEIRINHO AGROINDUSTRIAL, em valores totais de R$ 539.092,09, R$ 25.192,51, R$ 1.424.859,32 e R$ 6.395.193,32, CFOP 5124, conforme dados da Planilha – Anexo V e do Quadro VI a seguir, são referentes à industrialização de álcool por encomenda realizada pela Usina Coruripe para a Usina Carneirinho. Essas notas fiscais contemplam duas operações: a receita da industrialização, que é tributada, e a devolução simbólica do melaço, sem incidência. As receitas da industrialização de álcool, que foram lançadas na conta 305003 PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS MIP.RELAC, foram consideradas, tanto pela fiscalização como pelo sujeito passivo, na base de cálculo das contribuições previstas no art. 22A da Lei 8.212/91. Para definição das bases de cálculo da comercialização da produção rural no mercado interno, a fiscalização informa que foram considerados os valores das notas fiscais de vendas (Planilha – Anexo V), subtraídos dos valores da remessa simbólica do melaço (Cfe. Quadro VI) e das deduções da receita (Planilha AnexoVII). Explica que as bases apuradas foram confrontadas com os valores da comercialização da produção rural da pessoa jurídica declaradas em GFIP. As divergências encontradas, valores não declarados em GFIP, conforme demonstrado na Planilha – Anexo VIII e que foram lançadas no código de levantamento R2. No tocante à exportação de produtos foram apresentados para a fiscalização os registro de exportação, declaração de exportação, conhecimento de embarque, memorando de exportação e notas fiscais correspondentes. Esses documentos foram cotejados com a contabilidade e levaram a Fiscalização a concluir que as exportações foram feitas por meio de empresas comerciais exportadoras em funcionamento no Brasil e foram tratados pela empresa como vendas ao mercado externo. Ressalta o Fisco que as notas fiscais eletrônicas foram listado no item 61 do Relatório Fiscal e estão relacionadas na Planilha – Anexo IX(Fls.953) Na oportunidade destaca que a nota fiscal nº 46204, no valor de R$ 91.414,44, não foi localizada na contabilidade. A Fiscalização, em conformidade com o disposto no art. 149,§2º I, da Constituição Federal que dispõe que "a imunidade nas receitas de exportação é aplicada somente quando a produção é Fl. 2010DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.974 7 comercializada diretamente com adquirente domiciliado no exterior, bem como, a receita decorrente da comercialização com empresa constituída e em funcionamento no país, é considerada receita proveniente do comércio interno e não de exportação, independentemente da destinação dada ao produto" considerou as venda a título de exportação como sendo feitas de modo indireto, e, portanto, como operação no comércio interno, sujeitas à incidência de contribuição previdenciária substitutivas cujos valores se encontram indicados no item 65 do Relatório Fiscal e lançados no levantamento R4. Cientificada da autuação a empresa oferece em 28/03/2016 a impugnação de fls. 1254/1288 onde, em preliminar, pede a conexão de todos os processos decorrentes do procedimento fiscal nº 04.4.01.00201000912, iniciado em 02/04/2015 e o reconhecimento da decadência dos lançamentos efetuados até 25/02/2011, considerando que a constituição do crédito deuse em 25/02/2016, ex vi do disposto no art. 150§4º do CTN. No mérito, após resumir os fatos que motivaram a autuação e transcrever as planilhas elaboradas pela fiscalização, diz que as diferenças nas bases de cálculo relativas às contribuições incidentes sobre a remuneração dos empregados, decorrentes do batimento de GFIP x Folha de pagamento, não procedem haja vista que correspondem à não inclusão na GFIP da rubrica Aviso Prévio Indenizado conforme disposto no art. 6º da Instrução Normativa 925 de 06/03/2009. Contudo, registra que efetuou o pagamento em GPS. Apresenta exemplos relativos à competência 01/2012 no CNPJ 0010/01, 1. Alega, ainda, a existência de equivoco da fiscalização nas competências 01/2012 e 02/2012 do estabelecimento 12.229.415/001788 e 05/2012 do estabelecimento 12.229.415/001001, pois se devem ao pagamento de folha complementar. Apresenta cópia integral da GFIP, em que se pode ver que a remuneração dos empregados é igual ao valor da divergência apontada na Planilha Anexo I do Relatório Fiscal; bem como anexa o cálculo de apuração e a GPS complementar paga, e a primeira folha da GFIP "complementada", além da apuração e GPS recolhida. 1.1 Conclui que "não há qualquer débito da IMPUGNANTE em relação ao "código de levantamento" El Contribuições incidentes sobre remunerações de empregados, resultantes de discrepâncias verificadas entre folha de pagamento e GFIP (FPAS 604) e E2Contribuições incidentes sobre remunerações de empregados, resultantes de discrepâncias verificadas entre folha de pagamento e GFIP (FPAS 833); devendo o Auto de Infração nº 51.081.3577 ser considerado insubsistente no que diz respeito às contribuições incidentes sobre a remuneração de empregados, tanto a devida por substituição (retenção do segurado) como a devida aos Terceiros. Como consequência, o lançamento deverá ser anulado". Fl. 2011DF CARF MF 8 2.Quanto às divergências apuradas entre a Folha de pagamento X Contabilidade a autuada diz in verbis: ...mês 04/2012, do valor total apontado, R$ 39.790,35 corresponde à folha de pagamento da empresa Carneirinho Agroindustrial S.A. que foi incorporada pela S. A. Usina Coruripe Açúcar e Álcool em 31/03/2012; tais fatos estão bem documentados e fundamentados no processo nº 14751 720.031/201678, conexo a este. Por isso o valor da folha de pagamentos da empresa de CNPJ 07.767.691/000100, incorporada, foi reconhecido na contabilidade da incorporadora; como prova do valor, juntamos o Anexo IV, compreendido pelas principais folhas da GFIP da incorporada, o resumo contábil indicando R$ 33.123,75 de base de INSS sobre remuneração (incluindo Aviso Prévio Indenizado) e R$ 6.666,60 de base de INSS sobre 13º, a memória de cálculo da contribuição e a GPS recolhida. Assim, vemos que do valor apontado para a competência 04/2012, R$39.790,35 não corresponde a qualquer divergência; estando este valor na folha de pagamentos da empresa incorporada, e foi apurado em GFIP e recolhido em GPS sob o CNPJ da Carneirinho Agroindustrial S.A. Quanto à divergência da competência 05/2012, corresponde ao reconhecimento neste mês das folhas complementares de 01/2011 a 02/2012 (decorrente :de fiscalização do MTE), no valor total de R$ 237.879,13 filial 12.229.415/001788 e da folha correspondente ao dissídio da empresa Carneirinho Agroindustrial S.A., no valor de ft$ 2.899,28. Assim, como sem esses valores a contabilidade estava R$ 18.059,49 menor que a folha, com o incremento desses lançamentos (R$ 240.778,41) passou a apresentar saldo positivo de R$ 222.718,92 o valor da suposta divergência. Faz prova da folha decorrente do pagamento do dissídio da empresa incorporada os documentos do Anexo VI: GPS recolhida; memória de cálculo e resumo contábil. Por fim, do valor apontado para o mês 06/2012, R$ 11.705,69 correspondem a premio de participação no resultado PLR no estabelecimento 12.229.415/000110; portanto, não tendo natureza remuneratória, não constou da folha. 3.Sobre o item "Contribuições incidentes sobre remuneração de empregados alocados nas atividades de prestação de serviços" a autuada pede o cancelamento do referido auto alegando "BIS in IDEM" sob o argumento de que todos os empregados da IMPUGNANTE estão em Folha ,de pagamento sobre os FPAS 604 ou 833, visto que esta é Agroindústria, as contribuições dos Segurados e a contribuição dos Terceiros já foram informadas em GFIP sob estes FPAS e recolhidas nas respectivas GPS". 4. Com relação às Contribuições incidentes sobre a produção rural (canadeaçúcar) adquirida de pessoas físicas a empresa explica que pagou em abril/2010 a diferença de preço da cana deaçúcar adquirida na safra 09/2010, no valor de R$ Fl. 2012DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.975 9 5.937.599,17; porém, por erro operacional, as notas fiscais foram emitidas somente em 02/2011, Contudo, apesar das NFs terem sido emitidas em 02/2011, a contabilidade reconheceu a despesa e a obrigação com o INSS (no mês de sua ocorrência 04/2010). Diz que informou em GFIP o valor de R$ 9.231.769,61 (5.937.599,17 + 3.294.170,44) e recolheu, respectivamente, R$ 136.564,78 e R$ 75.765,92 em GPS. 5. No tocante à divergência do mês 11/2011 assevera que os valores foram informados em GFIP e pagos em GPs no mês 12/2011. Alega que no Livro Razão juntado (Anexo VIII) é possível verificar o valor da retenção da contribuição social do produtor rural pessoa física, devida pela impugnante por sub rogação, bem como está contabilizado na conta 232014, no período de 08 a 09/12/2011 (Saldo final saldo inicial =) R$ 1.060.546,93 R$ 576.853,13 = R$ 483.693,80. 5.1 Ressalta que o pagamento da contribuição está contabilizado na mesma conta 232014, no período 12 e 19/01/2012: um pagamento de R$ 14.530,51 (depósito judicial) e outro de R$ 469.835,38. A diferença é o estorno (AdemarINSS sobre forn. cana ref. recibo 628 de 11/2011). 6. Já com relação às operações de produto rural no mercado interno alega que a fiscalização incluiu como base de cálculo o valor do IPI. Diz in verbis: O valor do IPI foi levantado pela fiscalização, que o indicou na Planilha Anexo VI, e é coincidente, ou maior, que o valor das divergências decorrentes do IPI constante das Nfe; portanto, expurgado das Nfe o valor do IPI, não haveria divergência ou esta seria negativa (GFIP maior que Nfe). Houve, também, divergências decorrentes de operações de saída, que não configuram receita da venda da produção rural; como: saída de resíduo, descarte e remessa de Big Bag. Alem de complemento de preço em operação de exportação indireta; que entendemos não configurar saída em operação interna como exposto no item seguinte. Outro ponto que merece destaque é saída de bagaço com a consequente nota de devolução, anulando a operação; e lançamentos indevidos, pois o valor corresponde à nota fiscal de faturamento antecipado e o valor foi dado à tributação após fabricação do produto e emissão de nota fiscal de remessa. Também houve lançamentos decorrentes da fiscalização não ter encontrou a GFIP; apesar de termos informados. Todos estes pontos estão indicados no citado anexo; e, quando pertinente, juntamos documentos. Portanto, vemos que não prosperam os lançamentos por supostas divergências entre Nfe e GFIP; justificadoras que seriam da incidência de contribuição sobre e receita de venda da produção no mercado interno. Todas as receitas tributáveis estão lançadas em GFIP e recolhidas em GPS. Fl. 2013DF CARF MF 10 7. Sobre a comercialização do produto rural destinada ao comércio exterior mediante empresas em funcionamento no país diz que no texto constitucional, não há qualquer restrição a exportação direta ou indireta, não cabendo ao intérprete e ao legislador infraconstitucional fazêlo. Na peça de impugnação discorre sobre o conceito de imunidade e transcreve decisões judiciais sobre o tema. Em longo arrazoado insurgese contra a incidência das contribuições destinadas aos terceiros e ressalta que a contribuição do SENAR é tipicamente uma contribuição de intervenção no domínio econômico (CIDE), sendo despropositada a classificação da RFB como contribuição de interesse de categorias profissionais e econômicas; por isso, albergada pela imunidade do art. 149, § 22, l da CF/88. Destaca que : Deste modo, vemos que a referida imunidade atinge duas espécies do gênero contribuição, quais sejam a "social" e a "de intervenção no domínio econômico". Outrossim, se verifica que a base econômica desonerada foi o signo "receita" não a qualificando (se bruta ou líquida). Logo, três são os requisitos necessários para que o respectivo contribuinte goze da apontada imunidade. Primeiro é ser sujeito passivo de contribuição "social" ou CIDE; Segundo, devem referidas espécies tributárias onerar a base econômica "receita". E por derradeiro, o terceiro é que a referida "receita" advenha de exportação (ou operação equiparada). A classificação, portanto, feita pela RFB carece do devido amparo doutrinário e jurisprudencial. É inadmissível que o equívoco cometido pelo referido órgão da administração pública obstaculize a concreção de direitos e garantias imanentes contidos na CRFB. Dessa forma, entendese que o sujeito passivo tributário da contribuição destinada ao SENAR (§ 52do art. 22A da Lei n2 8212/1991), sub classificada como CIDE, poderá deixar de oferecer a tributação às receitas advindas das operações de exportação (ou equiparadas), uma vez que a regra imunizante contida no art. 149, § 22, I, as abrange. 8. Por fim, resume o seu pedido nos seguintes itens: a) conhecer a preliminar de DECADÊNCIA e extinguir o lançamento de oficio que abarque o período decaído; ou, Reconhecer a insubsistência dos Autos de Infração n^s 51.081.3569, 51.081.3577, 51.081.3585 e 51.081.3593 e anular os lançamentos deles decorrentes, extinguindose o crédito tributário e seus consectários legais; b) Em homenagem à verdade material e ao impulso oficial, que determine as diligências, perícias, exibições de documentos, depoimentos ou qualquer outra prova em direito admitida que entender necessária à demonstração dos fatos da defesa e suficiente à formação de seu convencimento; c) Que os tributos lançados de ofício nos Autos de Infração vinculados a este processo permaneçam com sua exigibilidade Fl. 2014DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.976 11 suspensa, em conformidade com o art. 151, inciso III, do Código Tributário Nacional, até julgamento final; d) Deferir a juntada de novos documentos, concedendo oportunidade para apresentação de novas provas, caso os DD. Julgadores não considerem os documentos já juntados e fatos narrados suficientes à formação de seu convencimento; e) Aplicação do princípio da fungibilidade, se necessário, encaminhandoo à autoridade competente para o preparo do processo e/ou à autoridade competente para o julgamento; f) Determinar a reunião dos processos por serem conexos, evitandose decisões contraditórias. Considerando que os fatos identificados podiam modificar o procedimento adotado no presente lançamento, esta Relatora entendeu como necessária a emissão de Despacho de Diligência (fls. 1640/1644) com vistas ao retorno do presente processo à autoridade lançadora ( Seção de Fiscalização DRF João Pessoa PB) para manifestação quanto aos fatos narrados. Atendendo à solicitação a Autoridade Lançadora emite o Termo de Encerramento de Diligência Fiscal juntado às fls. 1645/1654, onde, após resumir as alegações do contribuinte, apresentou as conclusões a seguir transcritas, onde, para melhor compreensão, destaco em negrito os títulos dos tópicos e sublinho os trechos conclusivos sobre os itens abordados: Divergências Folha de Pagamento e GFIP (itens 1, 1.1 e 1.2 do Despacho nº 38): Quanto às contribuições incidentes sobre remunerações de empregados, apuradas sobre divergências entre folha de pagamento e GFIP, o sujeito passivo alegou: a) Que as discrepâncias estão relacionadas à rubrica aviso prévio indenizado não declarada em GFIP e equivocadamente considerado pela fiscalização na apuração das bases de cálculo; b) Que mesmo não tendo sido declarado, na GFIP, o aviso prévio indenizado, no estabelecimento 12.229.415/001001, em mês 01/2012, o valor devido foi recolhido; c) Que houve erro da fiscalização na apuração das divergências verificadas nas competências 01/2012 e 02/2012 do estabelecimento 12.229.415/001788 e 05/2012 do estabelecimento 12.229.415/001001, porque as contribuições apuradas são decorrentes do pagamento de folha complementar, cujos valores foram recolhidos. Conforme mencionado no item 17 do Relatório Fiscal (fls. 123) foram confrontados os nomes e remunerações dos segurados incluídos nos arquivos digitais das folhas de pagamento com os dados extraídos da GFIP. As divergências apuradas foram demonstradas na Planilha – Anexo I (fls.139/204). Fl. 2015DF CARF MF 12 Diferentemente do que pretende a autuada, a rubrica aviso prévio indenizado, omitida da GFIP, deveria ter sido declarada. Sobre tal rubrica, que foi computada corretamente, pelo sujeito passivo, na base de cálculo da folha de pagamento, há incidência de contribuição previdenciária, já que foi excluída do rol de rubricas que não integram o saláriodecontribuição, do art. 214, §9º, do Regulamento da Previdência Social – RPS (Decreto 3.048/99), na redação dada pelo Decreto nº 6.727, de 12/01/2009. Quanto ao exemplo trazido aos autos, do estabelecimento 12.229.415/001001, no mês 01/2012, e a afirmação de que mesmo não tendo declarado a rubrica aviso prévio indenizado em GFIP, foi feito o recolhimento correspondente, de R$ 1.575,35, reafirmamos que todos os recolhimentos foram considerados para quitação dos valores devidos declarados em GFIP. Os valores excedentes (sobras), resultantes do confronto GFIP x GPS, como nesse caso, R$ 1.575,27, foram lançados como créditos, conforme demonstrado no Relatório de Apropriação de Documentos Apresentados (fls. 42). Assim, a divergência de R$ 1.035,54, demonstrada na Planilha – Anexo I, foi neutralizada pelo citado recolhimento, razão pela qual não foi lançado nenhum valor nos levantamentos E1 e E2, nesse estabelecimento, no mês 01/2012, conforme relatórios discriminativos de débitos dos Autos de Infração 51.081.3577 (segurados) (fls. 34) e 51.081.3593 (terceiros) (fls. 76). Sobre as competências 01/2012 e 02/2012 do estabelecimento 12.229.415/001788, que foi alegado tratarse de folha complementar, cujos valores teriam sido declarados e recolhidos, cabe informar que os recolhimentos excedentes (sobras), de R$ 2.879,57, em 01/2012 e R$ 1.952,47, em 02/2012, foram lançados como créditos em favor da autuada, conforme demonstrado no Relatório de Apropriação de Documentos Apresentados (fls. 45). Foram subtraídas das divergências apuradas, Planilha – Anexo I, os recolhimentos excedentes (sobras), sendo lançado apenas o valor remanescente de R$ 1,52, no mês 01/2012, no levantamento E1, do Auto de Infração 51.081.3593, conforme relatório Discriminativo do Débito (fls. 86). Sobre a competência, 05/2012, do estabelecimento 12.229.415/001001, foram considerados os valores declarados (GFIP) e recolhidos (GPS), listados no Quadro I a seguir. Em tal competência os valores declarados como devidos (R$ 916.570,68) são superiores aos valores recolhidos (R$ 838.452,55). Assim, os valores demonstrados na Planilha – Anexo I, do Relatório Fiscal, resultantes das divergências entre folha de pagamento (arquivos digitais) e GFIP, no estabelecimento 12.229.415/001001, no mês 05/2012, já que foram omitidos na GFIP, foram corretamente lançadas de ofício, no código de levantamento E2, nos Autos de Infração 51.081.3577 (segurados) e 51.081.3593 (terceiros). Divergências entre Folha de Pagamento e Contabilidade (item 2 do Despacho nº 38): Fl. 2016DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.977 13 Para as contribuições incidentes sobre remunerações de empregados, apuradas sobre divergências entre folha de pagamento e contabilidade, foi argumentado: a) Que a divergência da competência 04/2012 referese à folha de pagamento da empresa Agroindustrial Carneirinho, incorporada em 31/03/2012, cujos valores foram corretamente declarados e recolhidos; b) Que a divergência da competência 05/2012 decorre do pagamento de folhas complementares, referentes a diferenças salariais do período 01/2011 a 02/2012, reconhecidas contabilmente em 05/2012; c) Que a divergência apurada na competência 06/2012 corresponde ao pagamento de verba indenizatória. As divergências apuradas entre folha de pagamento e contabilidade foram apresentadas ao sujeito passivo através do Termo de Intimação Fiscal nº 4 (item 04) (fls. 1207). Dos valores lançados, conforme demonstrado no item 24 do Relatório Fiscal, só houve discrepância entre o apurado pela fiscalização e o apontado na resposta dada pela autuada ao TIF nº 4, no mês 05/2012, conforme explicado nos itens 25 e 26 do Relatório Fiscal. Ao contestar as divergências apuradas nos meses 04/2012, 05/2012 e 06/2012 foram apresentados documentos e esclarecimentos, tais como folhas de pagamentos complementares de diferenças salariais do período 01/2011 a 02/2012, pagas e contabilizadas em 05/2012, não incluídas nos arquivos digitais apresentados à fiscalização (competências 01/2012 e 02/2012) e não informadas por ocasião da solicitação feita através do TIF nº 4, e ainda, valores de folha de pagamento da empresa Agroindustrial Carneirinho, incorporada em 03/2012, e valores pagos a título de indenização registrados na conta – 402006 PRÊMIOS, juntamente com parcelas remuneratórias. Analisandose os documentos e esclarecimentos apresentados, na impugnação, constatouse que são procedentes as alegações do sujeito passivo, razão pela qual os valores lançados nas competências 04/2012, 05/2012 e 06/2012, no estabelecimento 12.229.415/000110, código de levantamento E3, Autos de Infração 51.081.3577 (segurados) e 51.081.3593 (terceiros) devem ser retificados conforme demonstrado no Quadro II a seguir. Valores Lançados Valores Retificados Valores Remanescentes Mês Divergências Valores Excluídos Bases de Cálculo remanescentes Segurados Terceiros Segurado Terceiros Segurado Terceiros abr/12 41.132,51 39.790,35 1.342,16 3.290,60 2.385,69 3.183,23 2.307,84 107,37 77,86 mai/12 222.718,92 222.718,92 XXX 17.817,51 12.917,70 17.817,51 12.912,70 XXX XXX jun/12 12.224,02 11.705,69 518,33 977,92 708,99 936,46 678,93 41,47 30,06 Fl. 2017DF CARF MF 14 Contribuições incidentes sobre atividade de prestação de serviços (item 3 do Despacho nº 38): Quanto às contribuições incidentes sobre remunerações de empregados alocados na atividade de prestação de serviço, foi alegado: a) Que todos os empregados da empresa já estão contemplados nas folhas de pagamento de FPAS 604 e 833; b) Que as contribuições de segurados e terceiros foram declaradas e recolhidas; c) Que no lançamento feito por arbitramento houve bis in idem em relação às contribuições de segurados e terceiros. Todas as informações sobre os lançamentos das contribuições incidentes sobre atividade de prestação de serviço estão consignadas nos itens 28 a 41 do Relatório Fiscal (fls. 124/127). As receitas obtidas na atividade de prestação de serviço estão excluídas da substituição prevista no art. 22A da Lei 8.212/91, de acordo com os §§ 2º e 3º da mesma Lei 8.212/91. Tais receitas não integram a base de cálculo da contribuição previdenciária incidente sobre a receita bruta da comercialização da produção rural. De acordo com a Instrução Normativa RFB nº 971/2009, art. 175, §2º, IV e § 3º, deverão ser elaboradas folhas de pagamentos e GFIPs distintas por tomador, para os empregados alocados na atividade de prestação de serviço. As contribuições patronais incidentes sobre as remunerações desses empregados são calculadas de acordo com o art. 22, incisos I e II da Lei 8.212/91. O sujeito passivo foi intimado através do Termo de Intimação Fiscal nº 4 (item 7) (fls. 1208) a apresentar as folhas de pagamento dos empregados alocados na atividade de prestação de serviço e cópias das guias de recolhimento (GPS) correspondentes. Em resposta ao Termo de Intimação Fiscal nº 4 foram apresentados os seguintes documentos: a) Guias de recolhimento de retenção (GPS código 2631), no valor de R$ 7.020,71, recolhidas pela empresa Coruripe Energética em nome da Usina Coruripe, no CNPJ 12.229.415/001001; b) Nota fiscal nº 221 referente a prestação de serviço; c) Relatório gerencial intitulado “Relatório de Retenção do INSS”, onde constam o valor mensal de R$ 63.824,60 pago a Usina Coruripe e o valor retido de R$ 7.020,71 (INSS). Todos os recolhimentos no código 2631 (retenção) foram compensados em GFIP, conforme mencionado no item 40 Relatório Fiscal (fls. 127). Fl. 2018DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.978 15 Como não foram apresentadas as folhas de pagamento com os nomes e os valores das remunerações dos empregados alocados na atividade de prestação de serviço, as contribuições incidentes sobre tais remunerações foram aferidas indiretamente, com base nos valores das notas fiscais, e lançados por arbitramento, com fundamento no art. 33, §3º da Lei 8.212/91 e art. 233 do Regulamento da Previdência Social– RPS (Decreto 3.048/99). A empresa autuada alega ter havido bis in idem no lançamento das contribuições de segurados e terceiros, asseverando que todos os empregados da empresa estariam contemplados nas folhas de pagamento de FPAS 604 e 833. Entretanto, não foram apresentadas as folhas de pagamento e nem quaisquer documentos, tanto na fiscalização quanto na impugnação, identificando os nomes e as remunerações dos empregados responsáveis pela execução dos serviços de manutenção prestados pela Usina Coruripe a Coruripe Energética. Contribuições sobre a produção rural adquirida de pessoas físicas (itens 4 e 5 do Despacho nº 38): Quanto às contribuições incidentes sobre a comercialização da produção rural adquirida de terceiros pessoas físicas, foi afirmado: a) Que a divergência da competência 02/2011 é inexistente porque houve um “erro operacional” da empresa, um descompasso entre a contabilidade e as notas fiscais, visto que o fato gerador ocorreu em 04/2010 e as notas fiscais foram emitidas apenas em 02/2011; b) Que a divergência da competência 11/2011 é inexistente porque os valores foram declarados e recolhidos na competência 12/2011. Conforme descrito nos itens 42 a 45 do Relatório Fiscal (fls. 127/128), para apuração das contribuições incidentes sobre a comercialização da produção rural adquirida de terceiros, pessoas físicas, foram confrontados os valores das notas fiscais eletrônicas, extraídas do SPED, com os valores declarados em GFIP. Foram lançadas contribuições sobre discrepâncias entre notas fiscais e GFIP, valores não declarados em GFIP e nem recolhidos em GPS, nos meses 02/2011 e 11/2011, no estabelecimento 12.229.415/001435. Os dados das notas fiscais, dos meses 02/2011 e 11/2011, estão consignados na Planilha – Anexo IV, do Relatório Fiscal (fls.368/396). Os lançamentos foram feitos na competência de emissão da nota fiscal que é o documento hábil para comprovar a operação de comercialização da produção rural, cuja emissão deve ser anterior aos registros contábeis e dar suporte aos mesmos, e não o contrário como pretende a autuada. Fl. 2019DF CARF MF 16 É a nota fiscal de entrada, emitida pelo adquirente, que faz prova do destino da produção rural do produtor pessoa física, conforme art. 184, § 2º, I, da Instrução Normativa RFB nº 971/2009. Assim, as contribuições foram lançadas nas competências de ocorrência do fato gerador, 02/2011 e 11/2011, cujas operações de compra da produção rural estão documentadas por documentos válidos, que são as notas fiscais de entrada. As alegações do sujeito passivo não podem ser acatadas, tanto em relação à competência 02/2011, quando afirma ter declarado e recolhido os valores na competência 04/2010, praticamente um ano antes da emissão das notas fiscais, como na competência 11/2011, quando alega ter declarado e recolhido os valores devidos na competência 12/2011, um mês depois. Comercialização da produção rural no mercado interno (item 6 do Despacho nº 38): Ao contestar as contribuições incidentes sobre a comercialização da produção própria no mercado interno, o sujeito passivo tomou por base apenas a Planilha – Anexo VIII do Relatório Fiscal, que é o resultado final, juntou aos autos o Anexo IX (fls. 1457/1478), contendo cópias de algumas notas fiscais e uma planilha contendo as divergências apuradas no Anexo VIII do Relatório Fiscal e as razões pelas quais discorda do entendimento da fiscalização, que em síntese são as seguintes: a) Que o IPI não integra a base de cálculo da contribuição previdenciária; b) Que foram considerados valores não correspondentes à venda de produção rural, tais como: resíduo, descarte e remessa de big bag; c) Que foram considerados indevidamente valores de complementação de preços em exportações indiretas; d) Que foram consideradas indevidamente notas ficais referentes a sinistro/indenização; e) Que foram consideradas indevidamente notas fiscais estornadas; f) Que foram consideradas indevidamente notas fiscais alusivas a faturamento antecipado; g) Que houve lançamentos equivocados porque a fiscalização não localizou a GFIP; h) Que foram consideradas indevidamente nota fiscal de venda de bagaço anulada por nota fiscal de devolução; Os procedimentos adotados para apuração das contribuições incidentes sobre a comercialização da produção rural no mercado interno estão descritos nos itens 46 a 57 do Relatório Fiscal (fls. 128/130). Fl. 2020DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.979 17 Os valores apurados e lançados estão demonstrados nas Planilhas – Anexo V, VI, VII e VIII do Relatório Fiscal (fls. 397/952). As notas fiscais correspondentes à receita da produção rural, que estão relacionadas na Planilha –Anexo V, foram comparadas com a contabilidade, conforme os dados da Planilha – Anexo VI, para fins de conferência e validação dos valores extraídos do SPED. Dos valores, assim apurados, foram deduzidas as devoluções de vendas, com base na contabilidade, conforme demonstrado na Planilha – Anexo VII. Por fim, na Planilha – Anexo VIII, foram demonstrados as bases de cálculo e os valores apurados e lançados, após serem deduzidos os valores da remessa de melaço, em devolução, conforme mencionado no item 53, “d”, do Relatório Fiscal e dos valores declarados em GFIP. O valor do IPI integra a receita bruta da comercialização da produção rural para fins de incidência da contribuição previdenciária substitutiva prevista no art. 22A da Lei 8.212/91 porque não há previsão na mencionada lei para tal exclusão. Com fundamento no art. 150, §6º da CF de 1988 e no art. 97, IV, do CTN, a redução da base de cálculo do tributo deve ser prevista em lei específica, não podendo ser inferida ou realizada por analogia. A Lei 8.212/91, ao tratar especificamente da contribuição da agroindústria no art. 22A, não mencionou a exclusão dos valores de IPI da receita bruta da comercialização da produção, portanto, tal imposto deve obrigatoriamente integrar a base de cálculo da contribuição devida pela agroindústria. Assim, não procede tal alegação................... Como não foram informados os valores individualizados das notas fiscais que somadas totalizariam os valores apontados na planilha do Anexo IX, reproduzidos no Quadro IV e nem foram juntadas cópias das mesmas aos autos. Não ficou demonstrado, pela autuada, quais seriam as notas fiscais utilizadas na apuração das bases de cálculo, listadas na Planilha – Anexo V do Relatório Fiscal, que corresponderiam aos valores atribuídos à remessa de big bag e IPI. Quanto ao IPI devese afastar de pronto a alegação, como foi mencionado, anteriormente, o valor do IPI integra a receita bruta da produção rural para fins de incidência da contribuição previdenciária substitutiva prevista no art. 22A da lei 8.212/91 por não haver previsão de exclusão. Não procede a justificativa apresentada para a divergência de R$ 48.375,39, no estabelecimento 12.229.415/001435, no mês 07/2011, de que a nota fiscal nº 45994, no valor de R$ 48.375,39, não integra a base de cálculo por se tratar de complementação de preço de exportação indireta. Fl. 2021DF CARF MF 18 Como foi mencionado no item 63 do Relatório Fiscal (fls. 131), as exportações indiretas, que são vendas ao exterior realizadas por intermédio de empresas em funcionamento no país, são consideradas vendas no mercado interno, conforme o art. 170 da Instrução Normativa RFB nº 971/2009. Acrescentese, ainda, que a complementação de preço integra a receita bruta da comercialização da produção rural, conforme previsto no art. 171, §1º, da Instrução Normativa RFB nº 971/2009. Também não procedem os argumentos apresentados para justificar a divergência de R$ 1.225.775,26, no estabelecimento 12.229.415/001001, em 07/2012. Para tanto foi afirmado que as notas fiscais 64359, no valor de R$ 1.224.692,88 seria referente a sinistro/indenização e na nota fiscal nº 64682 teria sido considerado indevidamente o valor do IPI, de R$ 1.081,96. Quanto ao IPI da nota fiscal 64682, no valor de R$ 1.081,96, já foi mencionado que não há previsão legal para excluílo da base de cálculo. A nota fiscal nº 64359, no valor de R$ 1.224.692,98, referese à operação de saída de mercadoria, venda de açúcar VHP, foi tributada pelo ICMS (R$ 220.444,75), pelo PIS (R$ 19.245,18) e pela COFINS (R$ 88.644,44). Ademais, conforme o art. 167, III, da Instrução Normativa RFB nº 971/2009, são também considerados fatos geradores os seguintes eventos: a dação em pagamento, a permuta, o ressarcimento, a indenização ou a compensação, feitos com produtos rurais pelo produtor rural. A divergência de R$158.197,21, no estabelecimento 12.229.415/002325, foi explicada como sendo decorrente da nota fiscal 1161, no valor de R$ 132.235,69, por se tratar de sinistro/indenização, do valor de R$ 9.425,81 atribuído a IPI incidente sobre notas fiscais de venda de melaço e da nota fiscal nº 1168, no valor de R$ 16.534,80 que teria sido estornada. A nota fiscal nº 1161, no valor de R$ 132.235,69, semelhante a nota fiscal n° 64359, corresponde à saída de mercadoria, venda de açúcar VHP, foi tributada pelo ICMS (R$ 23.802,42) e pela COFINS (R$ 9.571,35), além do que, mencionando mais uma vez, o art. 167, III, da Instrução Normativa RFB nº 971/2009, considera a dação em pagamento, a permuta, o ressarcimento, a indenização ou a compensação como receita da comercialização da produção rural. O valor de R$ 9.425,81 relativos a IPI sobre notas fiscais de venda de melaço, integra a base de cálculo pelos motivos já mencionados anteriormente. Os dados da nota fiscal 1168, de 11/07/2012, no valor de 16.548,80, foram extraídos do SPED e confirmados no portal da nota fiscal eletrônica no endereço: http://www.nfe.fazenda.gov.br. Os valores foram lançados na contabilidade, em 11/07/2012, a débito da conta 105503 CLIENTES TERCEIROS NO PAIS (R$ 16.534,80) e a crédito das contas 303002 VENDA DE PROD SEMIACABADOMI TERC (R$ 15.747,43) e 230009 IPI A RECOLHER (R$ 787,73). Fl. 2022DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.980 19 As divergências de R$18.248,45, no estabelecimento 12.229.415/002325, em 06/2012 e de R$ 57.498,78, no estabelecimento 12.229.415/001435, em 07/2012, foram atribuídas as notas fiscais 001900 no valor de R$ 18.247,56 e 558591 de R$ 57.497,79, que teriam sido estornadas. Semelhante ao caso da nota fiscal 1168, os dados da nota fiscal nº 001, de 22/06/2012, no valor de R$ 18.247,56 e da nota nº 55859, emitida em 11/07/2012, no valor de R$ 57.497,79 foram extraídos do SPED e confirmados no portal da nota fiscal eletrônica. A nota fiscal nº 001 foi lançada na contabilidade, em 22/06/2012, a débito da conta 105503 CLIENTES TERCEIROS NO PAIS (R$ 18.247,56) e a crédito das contas 303002 VENDA DE PROD SEMIACABADOMI TERC (R$ 18.247,56) e a nota fiscal nº 55859 foi lançada, em 22/06/2012, a débito da conta 105503 CLIENTESMG TERCEIROS NO PAIS (R$ 57.497,79) e a crédito das contas 303002 VENDA DE PROD SEMI ACABADOMI TERC (R$ 57.497,79). Em resumo, a nota fiscal 1168, de 11/07/2012, no valor de 16.548,80, a nota fiscal 001900, de 22/06/2012, no valor de R$ 18.247,56 e a nota fiscal 558591, de 11/07/2012, no valor de R$ 57.497,79, cujos dados foram extraídos do SPED e confirmados no portal da nota fiscal eletrônica (cópias anexas), apontadas como estornadas pela autuada, na impugnação dos valores lançados, são válidas porque não foram canceladas e não foram localizados os lançamentos de estornos na contabilidade. Quanto à alegação de faturamento antecipado, mesmo não tendo sido identificadas pelo sujeito passivo, quais seriam as notas fiscais nessa situação, afirmamos que todas as notas fiscais listadas na Planilha – Anexo V, que deram origem as divergências apuradas e lançadas, conforme demonstrado na Planilha – Anexo VIII, ambas do Relatório Fiscal, correspondem à saída de mercadoria decorrente da comercialização da produção rural própria no mercado interno. Foi argumentado que não existem as divergências apuradas no estabelecimento 12.229.415/001788, de R$ 4.226,33, no mês 05/2012 e no estabelecimento 12.229.415/001605, no valor de R$ 4.159.205,76, no mês 08/2011, porque os valores foram corretamente declarados nas GFIPs nº GVM3UV5O9XU00005 e OZDZVCHFSJ900000 e devidamente recolhidos. Como foi mencionado no item 57 do Relatório Fiscal (fls. 130), apesar de não terem sido localizadas as GFIPs dos estabelecimentos 12.229.415/001605 e 12.229.415/001788, nos meses 08/2011 e 05/2012, os recolhimentos de R$ 118.537,36 e R$ 120,45, correspondentes aos valores apurados como devidos, foram considerados em favor do sujeito passivo, conforme demonstrado no Relatório de Apropriação de Documentos Apresentados (fls.19 e fls. 21). Assim, em nessas competências e nesses estabelecimentos, nenhum valor foi lançado no código de Fl. 2023DF CARF MF 20 levantamento R2, conforme demonstrado no relatório Discriminativo do Débito (fls.13). Para a divergência de R$ 1.373.762,95, apurada no estabelecimento 12.229.415/001435, em 08/2011, foi argumentado que a venda de bagaço feita através da nota fiscal nº 47311, de 03/08/2011, no valor de R$ 1.373.762,58, foi devolvida em sua totalidade através da nota fiscal nº 5557, de 31/08/2011, no valor de R$ 1.373.762,58. Cabe ressalvar que as devoluções de vendas foram extraídas da contabilidade, conforme demonstrado na Planilha – Anexo VII. No mês 08/2011 as devoluções, pela contabilidade, totalizaram R$ 19.404,00. Entretanto, com base nas cópias das notas fiscais de venda e devolução de vendas, juntadas aos autos no Anexo IX e confirmadas no portal da nota fiscal eletrônica no endereço http://www.nfe.fazenda.gov.br, entendemos ser procedente a alegação do sujeito passivo e que os valores lançados no estabelecimento 12.229.415/001435, em 08/2011, no código de levantamento R2, nos Autos de Infração 51.081.3569 (rural e SAT) e 51.081.3585 (terceiros), devem ser retificados, conforme o Quadro VI a seguir: Valores Lançados Valores Retificados Mês Divergência Valor Retificado Rural GILRAT Terceiros Rural GILRAT Terceiros ago/11 1.373.762,95 1.373.762,95 34.344,07 1.373,76 3.434,41 34.344,07 1.373,76 3.434,41 A autuada teve ciência dos do Termo de Encerramento da Diligência por meio de sua Caixa Postal, por seu procurador 382.653.20400 JOÃO HAROLDO DA SILVA LOBO, na data de 10/03/2017 10:38:57, data em que se considera feita a intimação nos termos do art. 23, § 2º, inciso III, alínea 'b' do Decreto nº 70.235/72, e aberto o prazo de 30 dias para nova manifestação. Em 11/04/2017, a autuada junta às fls. 1680/1698 dos autos, nova peça de impugnação, onde reafirma que a rubrica Aviso Prévio indenizado, conforme manual da GFIP, não precisa ser declarado. Diz que não está discutindo se a verba integra ou não o salário de contribuição, pois com a revogação do item "f", do § 9º, do art. 214 do Decreto 3.048/99, a RFB passou a exigilo, no entanto, com base no art. 65 da IN 925/2009 o referido valor não deve ser declarado na GFIP , portanto não existiu omissão de fato gerador. Afirma que tais valores foram recolhidos em GPS. Cita exemplo, confirmando o recolhimento e destaca o seguinte; Apresentamos como exemplo uma das diversas divergências apontadas e, ainda que a divergência do exemplo não tenha sido objeto de lançamento, tal exercício investigativo deveria ter sido feito pela fiscalização para todos os lançamentos de ofício; pois, deixamos claro que o valor das contribuições dos segurados e Terceiros, para o valor do Aviso Prévio Indenizado dos empregados do estabelecimento 12.229.415/001001, na competência 01/2012 foi R$ 1.575,27, e, como podemos ver em nosso Anexo I (coluna M: Diferença recolhido x apurado; linha Fl. 2024DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.981 21 02) o valor recolhido a maior em relação ao apurado foi R$ 1.575,35. Tanto é verdade, que para essa competência a fiscalização encontrou recolhimento a maior nesse exato valor. Diz que no RADA os créditos apontados pela fiscalização correspondem às contribuições sobre o aviso prévio indenizado e seu 13º, procedimento que acontece em todos os levantamentos E1 e E2. Ressalta que : Apesar de não ter sido detalhado o modo como foi encontrado o crédito lançado no RADA, podemos supor que correspondeu à operação de subtração dos valores recolhidos em GPS dos valores lançados em GFIP; caso a fiscalização tenha feito isso, os meses em que não foram encontrados recolhimentos a maior seriam aqueles em que houve recolhimento a menor de contribuição por subrogação, devida pelo produtor rural pessoa física. O motivo do recolhimento a menor dessa contribuição substitutiva é porque alguns produtores rurais eram detentores de liminares que impediam a retenção e recolhimento pela adquirente; tais inconsistências decorrentes do não recolhimento do "Funrural" já foram objeto de vários procedimentos fiscais da RFB, e somente foi solucionado o problema com a edição do Ato Declaratório Executivo CODAC nº 06, de 23 fevereiro de 2015, quando passamos a elaborar GFIP específica para a comercialização da produção de pessoa física com tutela provisória ou definitiva, excludente do "Funrural". Demonstrando, exemplificativamente, que recolhemos a maior em todas competências em que houve pagamento de API e seu 139, juntamos aos autos a planilha do "Anexo I Contestação à Diligência Fiscal", que aponta para a filial 12.229.415/0016 05, em 2012, o valor apurado x recolhido, para cada Contribuição; nesta planilha vemos que para a contribuição sobre a folha (833) o valor recolhido é, via de regra, maior que o apurado, configurando tal saldo positivo no já exaustivamente falado recolhimento do valor apurado para o API e seu 139, e, o valor recolhido por subrogação (Cana 744) é, via de regra, menor que o apurado, em razão de estarmos impedidos de reter e recolher em razão de liminares que alguns produtores detinham. Ainda, juntamos as GPS correspondentes ao API (as Guias de depósito judicial correspondente ao valor a menor recolhido por subrogação serão juntadas posteriormente, o que desde já se requer). Portanto, vemos que o RADA não identificou crédito nas competências em que houve lançamento em razão do recolhimento a menor para a contribuição por subrogação; mas, as GPSs provam que recolhemos a título de API valor suficiente para anular as divergências e extinguir o crédito tributário. Fl. 2025DF CARF MF 22 Isso posto, requeremos que os créditos do RADA sejam reavaliados sob essa ótica, confirmando o recolhimento a maior a título de API e seus 13?. No item 1.4 da peça de impugnação informa que a exigência é ilegal , em razão da formalização da ação judicial nº 467556.2015.4.01.3802, onde foi concedida liminar que antecipou os efeitos da sentença e suspendeu a exigibilidade dos créditos tributários correspondentes. Portanto, requer a exclusão total dos Levantamentos E1 e 2 dos autos DEBCAD 51.081.3577 E 51.081.3593 Arremata o tema lembrando a emissão do da NOTA PGFN/CRJ/N° 485/2016, de 30 de maio de 2016 (aprovada em 2 de junho de 2016), que com esteio no artigo 19, inciso V, parágrafos 4º, 5º e 7° da Lei nº 10.522, de 2002, e no artigo 3º, parágrafo 3º da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 1, de 2014, o aviso prévio indenizado, exceto seu reflexo no 13º salário, não integra a base de cálculo para fins de incidência das contribuições sociais previdenciárias incidentes sobre a folha de salários. Com relação a folha complementar reconhece "que houve erro por não considerar as folhas complementares das competências 01/2012 e 02/2012 do estabelecimento 12.229.415/001788 e 05/2012 do estabelecimento 12.229.415/001001; pois realmente foi compensado o crédito apurado para o estabelecimento 12.229.415/0017 88 e, para o estabelecimento 12.229.415/001001 a folha complementar está indicada no Anexo II do Relatório Fiscal e a divergência diz respeito somente a API e seu 13º." Com relação à contribuições incidentes sobre a atividade de prestação de serviços reclama de bis in idem, em face da contribuição substitutiva sobre o valor da comercialização do produto rural, diz que todos os empregados da autuada, incluindo os que foram utilizados na atividade de prestação de serviços estão em Folha de pagamento sobre os FPAS 604 ou 833, visto ser a atividade da autuada Agroindústria e a prestação de serviços à Coruripe Energética S.A. foi fato isolado. Diz in verbis: Estando os empregados utilizados na prestação de serviços lotados na indústria, sua remuneração foi informada sob o FPAS 833 e as contribuições desses Segurados e a contribuição dos Terceiros foram recolhidas nas respectivas GPS; inclusive, a contribuição de terceiros foi recolhida com alíquota superior, visto que para o FPAS 833 é 5,8% e para o FPAS 787 é 5,2%. Por desconhecimento da norma, o que não podemos escusar, deixamos de elaborar folha distinta e informar em GFIP com o FPAS 787; mas, não há qualquer registro contábil, em folha digital (MANAD) ou folha em meiopapel, que indique o Fl. 2026DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.982 23 pagamento de folha não incluída nas GFIPs sob o FPAS 604 e 833, tanto que as divergências inicialmente apontadas entre a contabilidade e a folha foram sanada. Assim, se não há qualquer indício de que tenha havido omissão da remuneração dos empregados utilizados na prestação de serviço nos FPAS 604 e 833, a contribuição devida por substituição tributária (Segurados contribuintes) e de Terceiros já foi efetivamente paga. ............ Para coadunar esse entendimento, juntamos no Anexo II tabela com os empregados que realizaram o serviço de manutenção da ETE e da estação termoelétrica, além da folha correspondente ao período da prestação do serviço; empregados esses incluídos na relação de empregados das GFIPs apresentadas de 01/2011 a 12/2012, sob o FPAS 833. Isso posto, ainda que nosso desconhecimento da norma tenha acarretado descumprimento de obrigação acessória e culminado no não pagamento da contribuição patronal sobre a remuneração desses empregados, o lançamento de ofício das contribuições dos Segurados e dos Terceiros decorrente da remuneração dos empregados que utilizados na prestação de serviços deverá ser cancelado e o auto de infração insubsistente neste particular. No tocante a contribuição rural de aquisição de pessoas físicas, insiste que a divergência em 02/2011 foi reconhecida contabilmente, declarada em GFIP e recolhida em GPS no mês 04/2010, mês da ocorrência do fato gerador e que "o erro está na emissão futura das notas fiscais, não na falta de declaração ou pagamento da contribuição". Cita norma do Conselho de Contabilidade que rege a situação. Sobre a competência 11/2011 destaca que: Contribuindo com o entendimento foram no mesmos anexo a GPS e as guias de depósito judicial, além dos documentos internos de apuração do INSS da cana adquirida de fornecedores pessoas físicas. Ainda, juntaremos nesta contestação relação das notas fiscais de canadeaçúcar adquirida nos meses 11/2011 e 12/2011. Deste modo, vemos que o valor das aquisições e suas respectivas obrigações para com a Previdência estão contabilizadas, informadas em GFIP e recolhidas em GPS (ou depositadas em juízo); assim, não há que se falar em lançamento complementar de ofício, devendo o lançamento ser cancelado e o Auto de Infração insubsistente quanto a este lançamento. Portanto, não há divergência, apenas descompasso entre o fato e a emissão das respectivas notas fiscais, sendo que apuramos e Fl. 2027DF CARF MF 24 pagamos (divergência do mês 02/2011) quando da ocorrência do fato gerador (comercialização); pois o fato gerador não é a emissão de nota fiscal. Já a divergência do mês 11/2011 foi decorrente de lançamento e pagamento no mês posterior. Sobre as divergência decorrentes de remessa de big bag e faturamento antecipado discorre sobre a não inclusão do IPI na base de cálculo da contribuição sobre a comercialização rural e diz que está juntando aos autos "planilhas (Anexo III Contestação à Diligência Fiscal) que identificam inclusive chave de acesso ao SPED as notas fiscais que correspondem à remessas de big bag e, também, aos valores relativos ao ICMS ST, na certeza de que devem ser excluídos da base de cálculo das contribuições". Com relação à divergência referente a sinistro/indenização, IPI, Nota Fiscal Estornada aduz que: Pelo exposto, a natureza de operação e o respectivo CFOP, as informações complementares e, inclusive, o destinatário (empresa do ramo de transporte e logística), demonstram claramente que não se tratam de operações de venda de açúcar, mas que são notas fiscais emitidas para o fim de indenização pelo açúcar objeto de sinistro e sua baixa no estoque. Quanto ao fato de serem destacados o ICMS e o IPI, é porque há previsão legal. O fato gerador do IPI é a saída do estabelecimento industrial (art. 35, II, RIPI/2010), não importando as finalidades ou o título jurídico da operação de saída da mercadoria, conforme prevê o art. 39 do RIPI/2010,..... Por fim resume os seus pleitos nos seguintes itens: a) Reconhecer a insubsistência dos Autos de Infração nº 51.081.3577 e 51.081.3593 quanto ao código de levantamento El, E2 e E3 (esse parcialmente reconhecido pela fiscalização como indevido), e anular os lançamentos deles decorrentes, extinguindose o crédito tributário e seus consectários legais; b)Reconhecer a insubsistência dos Autos de Infração nº 51.081.3577, 51.081.3593, 51.081.3585 e 51.081.3569 quanto ao código de levantamento E4 (contribuições dos segurados e terceiros), e anular os lançamentos deles decorrentes, extinguindose o crédito tributário e seus consectários legais; c)Reconhecer a insubsistência dos Autos de Infração nº 51.081.3585 e 51.081.3569 quanto ao código de levantamento RI, e anular os lançamentos deles decorrentes, extinguindose o crédito tributário e seus consectários legais; d) Reconhecer a insubsistência dos Autos de Infração nº 51.081.3593, 51.081.3585 e 51.081.3569 quanto ao código de levantamento R2, e anular os lançamentos deles decorrentes, extinguindose o crédito tributário e seus consectários legais; Fl. 2028DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.983 25 e) Em homenagem à verdade material e ao impulso oficial, que determine as diligências, perícias, exibições de documentos, depoimentos ou qualquer outra prova em direito admitida que entender necessária à demonstração dos fatos da defesa e suficiente à formação de seu convencimento; f)Deferir a juntada de novos documentos, concedendo oportunidade para apresentação de novas provas, caso os DD. Julgadores não considerem os documentos já juntados e fatos narrados suficientes à formação de seu convencimento; Da Decisão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Juiz de Fora (MG) Quando da apreciação do caso, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora (MG) julgou parcialmente procedente a autuação, conforme ementa abaixo (fl. 1830/1831): ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/02/2011 a 30/12/2012 DECADÊNCIA Existindo pagamento a decadência e contada da data da ocorrência do fato gerador que tem como marco inicial o mês em que ocorrer a comercialização da produção rural. AÇÃO JUDICIAL. CONCOMITÂNCIA. RENÚNCIA ÀS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS. A propositura pelo sujeito passivo de ação judicial, por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento, que tenha por objeto idêntica matéria sobre o qual trate o processo administrativo, importa renúncia ao contencioso administrativo. SENAR. NATUREZA JURÍDICA. CONTRIBUIÇÃO DEVIDA INCIDENTE SOBRE AS RECEITAS DECORRENTES DE EXPORTAÇÃO. É devida a contribuição destinada ao SENAR incidente sobre receitas decorrentes de exportação, em virtude de a sua natureza jurídica ser de contribuição de interesse de categorias profissionais ou econômicas, não alcançada pela imunidade. PRODUÇÃO RURAL DESTINADA A EXPORTAÇÃO VENDIDA NO COMÉRCIO INTERNO. IMUNIDADE. INOCORRÊNCIA Fl. 2029DF CARF MF 26 Por se tratar de operação de mercado interno e não negócio realizado diretamente com o importador, não se inclui na imunidade tributária prevista no art. 149, § 2°, I, da Constituição Federal, a produção rural quando vendida para empresa comercial exportadora, ainda que com o fim específico de exportação, devendo incidir a contribuição previdenciária sobre o valor da respectiva receita. AFERIÇÃO INDIRETA DA BASE DE CÁLCULO. RECUSA, SONEGAÇÃO OU APRESENTAÇÃO DEFICIENTE DE DOCUMENTOS OU INFORMAÇÕES. CABIMENTO. A recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação ou sua apresentação deficiente, constituise motivo justo, bastante, suficiente e determinante para a apuração, por aferição indireta, das contribuições sociais efetivamente devidas, cabendo à empresa o ônus da prova em contrário. JUNTADA DE DOCUMENTOS. PRAZO. As provas e documentos que o interessado possuir devem ser apresentadas juntamente com a impugnação. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Do Recurso Voluntário A Recorrente, devidamente intimada da decisão, conforme termo de registro de mensagem na caixa postal na data de 01/08/2017 (fl. 1876). Ciência por decurso de prazo em 16/08/2017 (fl. 1877). Termo de perempção em 18/09/2017 (fl. 1879), o contribuinte apresentou o recurso voluntário de fls. 1902/1945 em 26/09/2017, praticamente repetindo os argumentos apresentados em sede de impugnação. Este recurso compôs lote sorteado para este relator em Sessão Pública. É o relatório do necessário. Voto Conselheiro Relator Douglas Kakazu Kushiyama Conforme relatado acima, a Recorrente, devidamente intimada da decisão, conforme termo de registro de mensagem na caixa postal na data de 01/08/2017 (fl. 1876). Ciência por decurso de prazo em 16/08/2017 (fl. 1877). Termo de perempção em 18/09/2017 (fl. 1879), o contribuinte apresentou o recurso voluntário de fls. 1902/1945 em 26/09/2017, praticamente repetindo os argumentos apresentados em sede de impugnação, alegando que a contagem dos prazos deveriam ser feitas conforme disposto no Código de Processo Civil, conforme segue: Fl. 2030DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.984 27 Sendo assim, resta patente a intempestividade do presente recurso de modo que este não merece ser conhecido. A Recorrente apresentou preliminar de tempestividade nos seguintes termos: Isto porque prevê o art. 15 do novo Código de Processo Civil, Lei n° 13.105, de 16/03/2015, que na ausência de normas que regulem processos administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente. A aplicação supletiva de uma norma pode ocorrer quando se faz necessário decidir algo que não esteja anteriormente legislado, ou seja, onde exista omissão de regramento ou ausência de previsão legal. Já a aplicação subsidiária não se trata de omissão, mas sim, de uma norma que necessite de uma complementação ou renovação, para que se tenha uma decisão mais adequada ao caso. Nessa esteira, o novo CPC foi pensado para ser uma norma integrativa, de universalização, onde devemos adotar a mesma linha de raciocínio na aplicação do direito em diversas esferas, seja ela, judicial, administrativa ou até mesmo legislativa, buscando com isso a coerência jurisprudencial e a tão sonhada segurança jurídica. Em relação aos prazos processuais, prevê o art. 219 e seu parágrafo único, do CPC/2015: Art. 219. Na contagem de prazo em dias, estabelecido por lei ou pelo juiz, computarseão somente os dias úteis. Parágrafo único. O disposto neste artigo aplicase somente aos prazos processuais. Como mencionado acima, o Novo CPC estabelece que na contagem dos prazos fixados em dias computarseão apenas os dias úteis, isto é, ficam excluídos da contagem os sábados, domingos e feriados. A esse respeito, cumpre evidenciar que, anteriormente, a existência de feriados apenas era relevante para o termo inicial e final do prazo (como ainda prevê o parágrafo único do art. 5º, do Decreto n° 70.235/1972, citado acima). A partir de agora, diferentemente, mesmo os feriados ao longo do prazo influenciam na contagem e, consequentemente, na análise de tempestividade ou não de determinada manifestação processual. Uma importante peculiaridade do Novo CPC é a previsão de que a contagem de prazos em dias úteis aplicase apenas aos "prazos processuais" (Novo CPC, art. 219, § único), excluindo, assim, os prazos de natureza material, que continuam a ser contabilizados em dias corridos. Fl. 2031DF CARF MF 28 São prazos materiais, por exemplo, na área da legislação do inquilinato, o prazo de 90 dias para desocupação do prédio dado pelo adquirente ao locatário; o prazo de 30 dias para o fiador se exonerar do encargo, os casos previstos em lei; o prazo de 30 dias para o locatário exercer o direito de preferência na aquisição do imóvel etc. Não há na lei definição do que seja prazo processual. O que sabemos é que o prazo processual pressupõe existência de um processo, assim entendido como meio de solução da lide, administrativa ou judicialmente. Vejamos, agora, os prazos no âmbito do processo administrativo tributário. Na generalidade das legislações dos entes componentes da Federação não há dispositivos versando sobre contagem contínua dos prazos, ou da contagem de apenas dias úteis, pelo que, torna aplicável subsidiariamente o art. 219 do novo CPC. Se examinarmos o Decreto nº 70.235/72 que rege o processo administrativo fiscal da União verificaremos, dentre outros, os seguintes prazos: a) "Não sendo cumprida a exigência, nem sendo impugnada a exigência, a autoridade preparadora declarará a revelia, permanecendo o processo no órgão preparador, pelo prazo de trinta dias, para cobrança amigável" (art. 21). b) Dispõe o § 22, do art. 23: "Considerase feita a intimação: [...] II — no caso do inciso II do caput deste artigo, na data do recebimento ou, se omitida, quinze dias após a data da expedição da intimação; III — por meio eletrônico: a) 15 (quinze) dias contados da data registrada no comprovante de entrega no domicílio tributário do sujeito passivo; IV — quinze dias após a publicação do edital, se este for o meio utilizado"; c) "Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro de trinta dias seguinte à ciência da decisão" (art. 33). Dessas três hipóteses em qual ou quais delas aplicase a contagem do prazo considerando apenas os dias úteis? Quanto à hipótese "c" está claro que se aplica o art. 219 do novo CPC, por se tratar de prazo processual para apresentação de recurso voluntário. Nas demais hipóteses, a contagem deve ser de forma contínua, pois, o prazo de permanência do processo na repartição pública (letra b), bem como, o prazo em que se considera feita a intimação nos casos mencionados na letra "c" podem ser entendidos como sendo prazos materiais, apesar de pressupor a existência do processo. É que nessas hipóteses não configuram prazos processuais a cargo das partes litigantes. Concluise, dessa forma, que não havendo disposição nas normas processuais administrativas federais, aplicase o disposto no art. 219 c/c art. 15 do novo CPC, supra mencionados. Fl. 2032DF CARF MF Processo nº 14751.720030/201623 Acórdão n.º 2201004.810 S2C2T1 Fl. 1.985 29 Assim, o prazo de 30 dias para apresentação do recurso voluntário, cuja fluência teria se iniciado no dia 17/08/2017, teria seu encerramento no dia 28/09/2017. Pois, de acordo com o Novo CPC, a contagem do prazo seria apenas de dias úteis, excluindose sábados, domingos e feriados; portanto, tempestivo é o presente Recurso Voluntário. Apesar do longo arrazoado, suas alegações não merecem prosperar, pois o artigo 15 do Código de Processo Civil é expresso: Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente. Ou seja, se não houvesse norma prevendo sobre a contagem do prazo, nem sobre o prazo do recurso, poderiase cogitar a aplicação do disposto no artigo 219 do Código de Processo Civil. Neste sentido, aplicável a contagem do prazo conforme previsto no artigo 5º combinado com o artigo 33, do Decreto nº 70.235/1972: Art. 5º Os prazos serão contínuos, excluindose na sua contagem o dia do início e incluindose o do vencimento. Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão. Sendo assim, apresentado o Recurso Voluntário após o prazo de trinta dias seguidos da ciência da decisão, o recurso é intempestivo. Conclusão Em razão do exposto, não conheço do recurso voluntário pela patente intempestividade. (assinado digitalmente) Relator Douglas Kakazu Kushiyama Fl. 2033DF CARF MF
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