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Numero do processo: 13956.000549/2003-16
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Aug 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Sep 19 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Data do fato gerador: 31/07/2003
COMPENSAÇÃO. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. ARTIGO 151, III DO CTN. POSSIBILIDADE.
O art. 151, III, do CTN, redação anterior à Lei n. 10.833/2003, já previa que "as reclamações e os recursos, nos termos das leis reguladoras do processo tributário administrativo, suspendem a exigibilidade do crédito tributário".
A lei nº10.833/2003, não traz hipóteses de suspensão da exigibilidade. Aplicação da interpretação autêntica.
DECLARAÇÕES DE COMPENSAÇÃO DIVERSAS. PENDENTE DE DECISÃO FINAL EM PROCESSO DIVERSO. CONEXÃO.
Nos termos do artigo 55,caput, do Código de Processo Civil, Reputam-se conexas 2 (duas) ou mais ações quando lhes for comum o pedido ou a causa de pedir.
Numero da decisão: 9303-005.549
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Demes Brito - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: DEMES BRITO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Data do fato gerador: 31/07/2003 COMPENSAÇÃO. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. ARTIGO 151, III DO CTN. POSSIBILIDADE. O art. 151, III, do CTN, redação anterior à Lei n. 10.833/2003, já previa que "as reclamações e os recursos, nos termos das leis reguladoras do processo tributário administrativo, suspendem a exigibilidade do crédito tributário". A lei nº10.833/2003, não traz hipóteses de suspensão da exigibilidade. Aplicação da interpretação autêntica. DECLARAÇÕES DE COMPENSAÇÃO DIVERSAS. PENDENTE DE DECISÃO FINAL EM PROCESSO DIVERSO. CONEXÃO. Nos termos do artigo 55,caput, do Código de Processo Civil, Reputam-se conexas 2 (duas) ou mais ações quando lhes for comum o pedido ou a causa de pedir.
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: 31/07/2003 COMPENSAÇÃO. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. ARTIGO 151, III DO CTN. POSSIBILIDADE. O art. 151, III, do CTN, redação anterior à Lei n. 10.833/2003, já previa que "as reclamações e os recursos, nos termos das leis reguladoras do processo tributário administrativo, suspendem a exigibilidade do crédito tributário". A lei nº10.833/2003, não traz hipóteses de suspensão da exigibilidade. Aplicação da interpretação autêntica. DECLARAÇÕES DE COMPENSAÇÃO DIVERSAS. PENDENTE DE DECISÃO FINAL EM PROCESSO DIVERSO. CONEXÃO. Nos termos do artigo 55,caput, do Código de Processo Civil, Reputamse conexas 2 (duas) ou mais ações quando lhes for comum o pedido ou a causa de pedir. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 95 6. 00 05 49 /2 00 3- 16 Fl. 104DF CARF MF Processo nº 13956.000549/200316 Acórdão n.º 9303005.549 CSRFT3 Fl. 105 2 Demes Brito Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência interposto pela Fazenda Nacional com fundamento no art. 67 e §§ do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF nº256/09, contra ao acórdão nº380200.290, proferido pela 2 Turma Especial do Conselho de Contribuintes, que decidiu dar provimento ao Recurso Voluntário, para reconhecer a suspensão da exigibilidade dos débitos informados até o julgamento definitivo do processo administrativo nº 13956.000267/200220, momento em que, após juntada por anexação, deve ser realizada eventual compensação dos débitos aqui declarados com saldo de crédito porventura existente após decisão final do processo nº 13956.000267/200220. Transcrevo, inicialmente, excerto do relatório da decisão de primeiro grau: "O contribuinte em epígrafe pediu o ressarcimento do crédito presumido apurado no período em epígrafe, no valor de R$ 606.461,13, a ser utilizado na compensação dos débitos declarados nesse processo e no de nº 13956.000351/2002 43 apensado ao presente. Consta nos autos que o crédito tributário que se pretendeu compensar referese (sic) crédito presumido de IPI referente ao 4° trimestre de 2001. A DRF em Maringá não homologou a compensação declarada no presente processo sob o fundamento de que inexiste saldo credor para a compensação pretendida, dado o indeferimento do crédito no processo administrativo 13956.000267/200220. Regulamente cientificada da nãohomologação, a empresa apresentou manifestação de inconformidade alegando em suma que a homologação da compensação está sob condição resolutiva, que consiste na decisão do processo que deu origem ao crédito. A cobrança do crédito compensado não está de acordo coma (sic) a legislação vigente e contraria o entendimento da doutrina e também da jurisprudência. Acrescentou que a decisão que indeferiu o pedido de ressarcimento de IPI está sujeita à reexame pela Delegacia de Julgamento, conforme manifestação de inconformidade protocolada naqueles autos e, por este motivo, ficaria vedado ao Fisco fazer qualquer exigência em relação aos tributos compensados com o crédito objeto do referido processo, uma vez que o litígio regularmente instaurado suspende a exigibilidade dos créditos tributários até decisão final irrecorrivel. Por fim, solicitou a suspensão da exigibilidade dos débitos em questão. Fl. 105DF CARF MF Processo nº 13956.000549/200316 Acórdão n.º 9303005.549 CSRFT3 Fl. 106 3 A DRJ não acolheu as alegações do contribuinte e indeferiu a solicitação. O acórdão recorrido restou assim ementado: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Data do fato gerador: 14/02/2003 DECLARAÇÕES DE COMPENSAÇÃO DIVERSAS. MESMO CRÉDITO. REUNIÃO. Os Pedidos de Restituição ou de Ressarcimento e as Declarações de Compensação (Dcomp) que tenham por base o mesmo crédito, ainda que apresentados em datas distintas, devem ser reunidos em um único processo administrativo. COMPENSAÇÃO. DÉBITO. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE. A partir de 31/10/2003, com a edição da MP nº 135 convertida na Lei nº 10.833/03 –, a manifestação de inconformidade e o recurso suspendem a exigibilidade do débito objeto de compensação nãohomologada. Aplicação do princípio tempus regit actum, tendo como referência a data da intimação do despacho decisório. RECURSO VOLUNTÁRIO PROVIDO". Da decisão vergastada, a Fazenda Nacional opôs embargos de declaração suscitando contradição. O Colegiado a quo rejeitou os aclaratórios por entender que inexiste qualquer contradição. Não se conformando com tal decisão, a Fazenda Nacional interpõe o presente Recurso, sustentando que não esta correto o acórdão recorrido, pois pelo principio do tempus regit actum, a data a ser considerada seria a do encontro de contas (30/10/2002) e não a data da intimação do despacho decisório. Para comprovar a divergência jurisprudencial, aponta como paradigmas os acórdão nº 2801 00.431, de 13/04/2010. Em seguida, por ter sido comprova a divergência, o Presidente da 2ºCâmara da 3º Seção do CARF deu seguimento ao recurso. A Contribuinte não apresentou contrarrazões. É o relatório. Fl. 106DF CARF MF Processo nº 13956.000549/200316 Acórdão n.º 9303005.549 CSRFT3 Fl. 107 4 Voto Conselheiro Demes Brito Relator O Recurso foi tempestivamente apresentado e atende os demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. A matéria divergente posta a esta E.Câmara Superior, diz respeito se deve ser mantido ou não o indeferimento da compensação em atenção ao princípio do tempus regit actum, cuja data a ser considerada seria ou não do encontro de contas (14/02/2003) ou a data da intimação do despacho decisório. Passo a decidir. Tratase de pedido de ressarcimento de crédito presumido de IPI referente ao 4º Trimestre de 2001. A DRF em Maringá não homologou a compensação declarada no presente processo sob o fundamento de que inexiste saldo credor para a compensação pretendida, dado o indeferimento do crédito no processo administrativo nº 13956.000267/2002 20. Regularmente cientificada da nãohomologação, a Contribuinte apresentou manifestação de inconformidade alegando em suma que a homologação da compensação está sob condição resolutiva, que consiste na decisão do processo que deu origem ao crédito. A cobrança do crédito compensado não está de acordo coma a legislação vigente e contraria o entendimento da doutrina e também da jurisprudência. Acrescentou ainda, que a decisão que indeferiu o pedido de ressarcimento de IPI está sujeita à reexame pela Delegacia de Julgamento, conforme manifestação de inconformidade protocolada naqueles autos e, por este motivo, ficaria vedado ao Fisco fazer qualquer exigência em relação aos tributos compensados com o crédito objeto do referido processo, uma vez que o litígio regularmente instaurado suspende a exigibilidade dos créditos tributários até decisão final irrecorrível. Com efeito, a decisão recorrida deu provimento ao Recurso Voluntário para suspender a exigibilidade do débito objeto de compensação não homologada com fundamento na MP 135/03, posteriormente convertida na Lei n° 10.833/2003, data anterior a intimação do despacho decisório. Dispôs ainda, que pelo principio do tempus regit actum, deve ser aplicada a referida lei ao caso concreto tendo como referência a data da intimação do despacho decisório. Sem embargo, neste processo não se analisa a possibilidade ou não da compensação realizada, posto que tal matéria está sendo tratada no Processo Administrativo n° 13956.000267/200220, já objeto de decisão deste Conselho em sede de recurso voluntário, motivo pelo qual, no processo ora analisado, questionase tãosomente a possibilidade de manterse o seu deslinde independente de ainda não haver decisão administrativa final naquele processo administrativo. Deste modo, questionase a possibilidade de manter o andamento deste processo, no sentido de cobrarse um débito que ainda não está definitivamente constituído, já Fl. 107DF CARF MF Processo nº 13956.000549/200316 Acórdão n.º 9303005.549 CSRFT3 Fl. 108 5 que ainda não há decisão definitiva no Processo Administrativo n° 13956.000267/200220. Ou seja, o débito que aqui está sendo cobrado decorrerá da decisão naquele processo administrativo. Compulsando aos autos, verifico que o protocolo da Declaração de Compensação se deu em 14/02/2003 (fl. 01) e Contribuinte foi intimada do despacho decisório de não homologação da declaração de compensação em 08/06/2005 (fl. 28). A decisão recorrida entendeu que, a partir de 31/10/2003, com a edição da MP nº 135 convertida na Lei nº 10.833/03 a suspensão da exigibilidade de débito compensado tornouse possível uma vez que a declaração de compensação feita pelo contribuinte passou a ter caráter de confissão de dívida e ser instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados. Destarte, em que pese a discussão sobre os efeitos da suspensão da exigibilidade do crédito tributário vinculado a pedido de compensação formulado antes da vigência da Lei nº 10.833/2003, que alterou o artigo 74 da lei nº 9.430/96, penso que o pedido de compensação deve ser analisado sob a égide da legislação então vigente, diametralmente oposto do defende a Fazenda Nacional, a qual entende que o pedido de compensação realizado antes da Lei nº 10.833/03, não constitui confissão de divida, razão pela qual o crédito deve ser lançado, não sendo possível suspender a exigibilidade. Neste passo, o artigo 151, III, do Código Tributário Nacional CTN, norma complementar, editada antes da lei nº 10.833/2003, dispõe que:"as reclamações e os recursos, nos termos das leis reguladoras do processo tributário administrativo, suspendem a exigibilidade do crédito tributário". Quanto a tese de que a declaração de compensação só teria o condão de suspender a exigibilidade do crédito tributário antes ou partir da Lei n. 10.833/2003, não se sustenta, considerando que os efeitos da suspensão da exigibilidade já estavam garantidas pelo artigo 151, III, do CTN. No que tange a leitura da lei nº10.833/2003, esta ao meu sentir, não traz hipóteses de suspensão, com efeito, da leitura dos dispositivos para melhor técnica deve ser empregada a interpretação autêntica. Neste caso, entendo que não se aplica regra do tempus regit actum, tendo em vista, que à época dos fatos, havia dispositivo legal (artigo 151, III do CTN) que determinava o efeito de suspender à exigibilidade do crédito vinculado a declaração de compensação. Neste mesmo sentido, o STJ no julgamento do AgRg no Recurso Especial nº 1.146.374 PR (2009/01219748) decidiu que o pedido de compensação na esfera administrativa, mesmo anteriormente à nova redação do art. 74 da Lei 9.430/96, suspende a exigibilidade do crédito tributário porque enquanto pendente discussão administrativa. In verbis: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. COMPENSAÇÃO. RECURSO Fl. 108DF CARF MF Processo nº 13956.000549/200316 Acórdão n.º 9303005.549 CSRFT3 Fl. 109 6 ADMINISTRATIVO. CAUSA DE SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO, NOS TERMOS DO ART. 151, III, DO CTN. NÃO INFLUÊNCIA DA LEI N. 10.833/2003, QUE ALTEROU O ART. 74 DA LEI N. 9.430/1996. 1. Caso em que se discute a atribuição do efeito de suspensão da exigibilidade do crédito tributário ao pedido de compensação formulado antes da vigência da Lei n. 10.833/2003, que alterou o art. 74 da Lei n. 9.430/1996. 2. Agravo regimental no qual se sustenta que "o pedido de compensação, bem como a manifestação contra não homologação do mesmo, devem ser analisados à luz da legislação então vigente", razão pela qual defendese que o pedido de compensação, realizado antes da Lei n. 10.833/2003, não é causa de suspensão da exigibilidade do crédito tributário. 3. O art. 151, III, do CTN, cuja redação é bem anterior à Lei n. 10.833/2003, já previa que "as reclamações e os recursos, nos termos das leis reguladoras do processo tributário administrativo, suspendem a exigibilidade do crédito tributário". 4. Conquanto não se desconheça as controvérsias jurisprudenciais sobre a matéria, não se pode entender como razoável a interpretação dada pela Fazenda Nacional de que o pedido de compensação só teria o condão de suspender a exigibilidade do crédito tributário a partir da Lei n. 10.833/2003, uma vez que esse efeito já estava previsto no art. 151, III, do CTN. 5. A Lei n. 10.833/2003 não traz nova hipótese de suspensão, mas tão somente dita, previamente, a interpretação que deve ser feita da lei. É a chamada interpretação autêntica. 6. Assim, no caso, não se está diante da hipótese da regra do tempus regit actum, pois, à época, já havia disposição legal que respaldava a atribuição do efeito de suspender à exigibilidade do crédito tributário ao pedido de compensação. 7. O STJ já enfrentou o tema e decidiu que "o pedido de compensação na esfera administrativa, mesmo anteriormente à nova redação do art. 74 da Lei 9.430/96, suspende a exigibilidade do crédito tributário porque enquanto pendente discussão administrativa, a dívida carece de certeza (existência) e exigibilidade" (REsp 972.531/AL, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 6/10/2009, DJe 27/11/2009). 8. Agravo regimental não provido. Fl. 109DF CARF MF Processo nº 13956.000549/200316 Acórdão n.º 9303005.549 CSRFT3 Fl. 110 7 Nestes termos, nego provimento ao Recurso da Fazenda Nacional, reconheço a suspensão da exigibilidade dos débitos informados até o julgamento definitivo do Recurso Especial, processo nº 13956.000267/200220, por se tratar de matéria conexa, nos termos do artigo 55, do Código de Processo Civil, devendo ser compensado os débitos declarados do presente processo com saldo de crédito existente após decisão final do processo nº 13956.000267/200220. É como voto. (assinado digitalmente) Demes Brito Fl. 110DF CARF MF
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Numero do processo: 10840.001615/2005-38
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Aug 16 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Oct 06 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do fato gerador: 31/03/2005
PIS. REGIME NÃO-CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMOS. CRÉDITO. INSUMO DE INSUMO. IMPOSSIBILIDADE
A legislação das Contribuições Sociais não cumulativas - PIS/COFINS - informa de maneira exaustiva todas as possibilidades de aproveitamento de créditos. Não há previsão legal para creditamento sobre despesas com serviços de transporte de funcionários, veículos, combustíveis e lubrificantes, todos vinculados ao custeio agrícola (produção de cana-de-açúcar).
Numero da decisão: 9303-005.538
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama (relatora), Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(Assinado digitalmente)
Tatiana Midori Migiyama - Relatora
(Assinado digitalmente)
Andrada Márcio Canuto Natal Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: TATIANA MIDORI MIGIYAMA
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Data do fato gerador: 31/03/2005 PIS. REGIME NÃO-CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMOS. CRÉDITO. INSUMO DE INSUMO. IMPOSSIBILIDADE A legislação das Contribuições Sociais não cumulativas - PIS/COFINS - informa de maneira exaustiva todas as possibilidades de aproveitamento de créditos. Não há previsão legal para creditamento sobre despesas com serviços de transporte de funcionários, veículos, combustíveis e lubrificantes, todos vinculados ao custeio agrícola (produção de cana-de-açúcar).
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama (relatora), Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama - Relatora (Assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
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REGIME NÃOCUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMOS. CRÉDITO. INSUMO DE INSUMO. IMPOSSIBILIDADE A legislação das Contribuições Sociais não cumulativas PIS/COFINS informa de maneira exaustiva todas as possibilidades de aproveitamento de créditos. Não há previsão legal para creditamento sobre despesas com serviços de transporte de funcionários, veículos, combustíveis e lubrificantes, todos vinculados ao custeio agrícola (produção de canadeaçúcar). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama (relatora), Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Relatora (Assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal – Redator designado AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 84 0. 00 16 15 /2 00 5- 38 Fl. 240DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional contra o Acórdão nº 3301001.289, da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, que, por unanimidade de votos, deu provimento parcial ao recurso, consignando a seguinte ementa: “ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do fato gerador: 31/03/2005 PIS. NÃOCUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. AGROINDÚSTRIA. PRODUÇÃO DE ÁLCOOL E AÇÚCAR. INSUMOS. Geram direito a crédito do PIS não cumulativo as despesas com bens e serviços, utilizados como insumo na produção da empresa, no caso, transporte de cana e transporte de olhadura; Transporte, pago a pessoa jurídica, de trabalhadores rurais envolvidos na atividade de corte da cana de açúcar e as aquisições de combustíveis e lubrificantes utilizados no maquinário agrícola ligado ao corte e carregamento da cana de açúcar, assim como, nos caminhões que transportam a cana da lavoura até a unidade industrial, por se tratarem de bens ou serviços utilizados em etapas da produção do açúcar e do álcool PIS. CRÉDITO PRESUMIDO AGROINDÚSTRIA. O crédito presumido da agroindústria, previsto no artigo 8º, da Lei 10.925/04, somente poderá ser deduzido das contribuições para o PIS e a COFINS, não prevendo a norma a compensação com outros débitos. Recurso voluntário provido parcialmente” Fl. 241DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 4 3 Irresignada, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial contra o r. acórdão que deu provimento parcial ao recurso voluntário, entendendo que as despesas com bens e serviços utilizados como insumo na produção da empresa transporte de cana e transporte de olhadura, transporte pago a pessoa jurídica, de trabalhadores rurais envolvidos na atividade e as aquisições de combustíveis e lubrificantes usados no maquinário agrícola ligado ao corte e carregamento da cana de açúcar, bem como nos caminhões que transportam a cana da lavoura até a atividade industrial geram crédito do PIS não cumulativo. Traz que decisão ora recorrida, ao alargar o conceito de insumos dado pelo art. 3º da Lei 10.833/2003 c/c o disposto na IN SRF 247/2002, em razão de uma interpretação equivocada, acabou por criar dispensa de pagamento de tributo não prevista em lei. O que, requer, assim, que seja reformado o acórdão recorrido. Em Despacho às fls. 195 a 199, foi dado seguimento ao recurso especial. Contrarrazões ao recurso especial foram apresentadas pelo sujeito passivo, que trouxe, entre outros, que: · Os dispêndios incorridos ora em debate efetivamente estão atrelados ao seu processo produtivo, delimitandose, assim, o correto alcance do conceito de "insumo" para fins de apropriação dos créditos das contribuições; · Relacionados ao processo produtivo combustíveis, lubrificantes, transportes dos cortadores de cana de canadeaçúcar configuramse como despesas incorridas nas etapas de produção, em atenção à sua linha de produção que se inicia com o corte da cana e finaliza com a confecção do produto final. Em 10.8.17, foi juntado aos autos os seguintes documentos: · Memorando: ü Solicitando a análise de pedido de desistência parcial de julgamento apresentado pelo sujeito passivo em 25.9.2015, para inclusão de saldo devedor na consolidação do parcelamento da Lei 12.996/14; Fl. 242DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 5 4 ü Ressaltando que o sujeito passivo pretende incluir na citada consolidação somente o valor de R$ 18,69, referente a parte do débito de PIS de código 8109 – vencido em 15.6.2005. · Planilha com os dados da desistência. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Tatiana Midori Migiyama Relatora Depreendendose da análise do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, entendo que devo conhecêlo, eis que atendidos os critérios de conhecimento trazidos pelo art. 67 do RICARF/2015 – com alterações posteriores. O que concordo com o despacho de exame de admissibilidade. Contrarrazões devem ser consideradas, eis que tempestivas. Recordo apenas que o recurso especial interposto pela Fazenda Nacional traz discussão acerca da constituição ou não de crédito sobre gastos com transporte de funcionários e com combustíveis e lubrificantes, Ventiladas tais considerações, passo a discorrer a priori sobre o conceito de insumos. Primeiramente, sobre os critérios a serem observados para a conceituação de insumo para a constituição do crédito do PIS e da Cofins trazida pela Lei 10637/02 e Lei 10.833/03, não é demais enfatizar que se trata de matéria controvérsia. Vêse que a Constituição Federal não outorgou poderes para a autoridade fazendária para se definir livremente o conteúdo da não cumulatividade. Fl. 243DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 6 5 O que, por conseguinte, concluo que a devida observância da sistemática da não cumulatividade exige que se avalie a natureza das despesas incorridas pelo contribuinte – considerando a legislação vigente, bem como a natureza da sistemática da não cumulatividade. Sempre que estas despesas/custos se mostrarem essenciais ao exercício de sua atividade, devem implicar, a rigor, no abatimento de tais despesas como créditos descontados junto à receita bruta auferida. Importante elucidar que no IPI se tem critérios objetivos (desgaste durante o processo produtivo em contato direto com o bem produzido ou composição ao produto final), enquanto, no PIS e na COFINS essa definição sofre contornos subjetivos. Tenho que, para se estabelecer o que é o insumo gerador do crédito do PIS e da COFINS, ao meu sentir, tornase necessário analisar a essencialidade do bem ao processo produtivo da recorrente, ainda que dele não participe diretamente. Continuando, frisese tal entendimento que vincula o bem e serviço para fins de instituição do crédito do PIS e da Cofins com a essencialidade no processo produtivo o Acórdão 3403002.765 – que, por sua vez, traz em sua ementa: "O conceito de insumo, que confere o direito de crédito de PIS/Cofins nãocumulativo, não se restringe aos conceitos de matéria prima, produto intermediário e material de embalagem, tal como traçados pela legislação do IPI. A configuração de insumo, para o efeito das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, depende da demonstração da aplicação do bem e serviço na atividade produtiva concretamente desenvolvida pelo contribuinte." Vêse que na sistemática não cumulativa do PIS e da COFINS o conteúdo semântico de insumo é mais amplo do que aquele da legislação do IPI, porém mais restrito do que aquele da legislação do imposto de renda, abrangendo os “bens” e serviços que integram o custo de produção. Fl. 244DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 7 6 Ademais, vêse que, dentre todas as decisões do CARF e do STJ, é de se constatar que o entendimento predominante considera o princípio da essencialidade para fins de conceituação de insumo. Não obstante à jurisprudência dominante, importante discorrer sobre o tema desde a instituição da sistemática não cumulativa das r. contribuições. Em 30 de agosto de 2002, foi publicada a Medida Provisória 66/02, que dispôs sobre a sistemática não cumulativa do PIS, o que foi reproduzido pela Lei 10.637/02 (lei de conversão da MP 66/02) que, em seu art. 3º, inciso II, autorizou a apropriação de créditos calculados em relação a bens e serviços utilizados como insumos na fabricação de produtos destinados à venda. É a seguinte a redação do referido dispositivo: “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI;” Em relação à COFINS, temse que, em 31 de outubro de 2003, foi publicada a MP 135/03, convertida na Lei 10.833/03, que dispôs sobre a sistemática não cumulatividade dessa contribuição, destacando o aproveitamento de créditos decorrentes da aquisição de insumos em seu art. 3º, inciso II, em redação idêntica àquela já existente para o PIS/Pasep, in verbis (Grifos meus): “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] Fl. 245DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 8 7 II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei nº10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004)”. Posteriormente, em 31 de dezembro de 2003, foi publicada a Emenda Constitucional 42/2003, sendo inserida ao ordenamento jurídico o § 12 ao art. 195: “Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições: [...] §12 A lei definirá os setores de atividade econômica para os quais as contribuições incidentes na forma dos incisos I, b; e IV do caput, serão não cumulativas.” Com o advento desse dispositivo, restou claro que a regulamentação da sistemática da não cumulatividade aplicável ao PIS e à COFINS ficaria sob a competência do legislador ordinário. Vêse, portanto, em consonância com o dispositivo constitucional, que não há respaldo legal para que seja adotado conceito excessivamente restritivo de "utilização na produção" (terminologia legal), tomandoo por "aplicação ou consumo direto na produção" e para que seja feito uso, na sistemática do PIS/Pasep e Cofins não cumulativos, do mesmo conceito de "insumos" adotado pela legislação própria do IPI. Nessa lei, há previsão para que sejam utilizados apenas subsidiariamente os conceitos de produção, matéria prima, produtos intermediários e material de embalagem previstos na legislação do IPI. Fl. 246DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 9 8 Ademais, a sistemática da não cumulatividade das contribuições é diversa daquela do IPI, visto que a previsão legal possibilita a dedução dos valores de determinados bens e serviços suportados pela pessoa jurídica dos valores a serem recolhidos a título dessas contribuições, calculados pela aplicação da alíquota correspondente sobre a totalidade das receitas por ela auferidas. Não menos importante, vêse que, para fins de creditamento do PIS e da COFINS, admite se também que a prestação de serviços seja considerada como insumo, o que já leva à conclusão de que as próprias Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 ampliaram a definição de "insumos", não se limitando apenas aos elementos físicos que compõem o produto. Nesse ponto, Marco Aurélio Grego (in "Conceito de insumo à luz da legislação de PIS/COFINS", Revista Fórum de Direito Tributário RFDT, ano1, n. 1, jan/fev.2003, Belo Horizonte: Fórum, 2003) diz que será efetivamente insumo ou serviço com direito ao crédito sempre que a atividade ou a utilidade forem necessárias à existência do processo ou do produto ou agregarem (ao processo ou ao produto) alguma qualidade que faça com que um dos dois adquira determinado padrão desejado. Sendo assim, seria insumo o serviço que contribua para o processo de produção – o que, podese concluir que o conceito de insumo efetivamente é amplo, alcançando as utilidades/necessidades disponibilizadas através de bens e serviços, desde que essencial para o processo ou para o produto finalizado, e não restritivo tal como traz a legislação do IPI. Frisese que o raciocínio de Marco Aurélio Greco traz, pra tanto, os conceitos de essencialidade e necessidade ao processo produtivo. O que seria inexorável se concluir também pelo entendimento da autoridade fazendária que, por sua vez, validam o creditamento apenas quando houver efetiva incorporação do insumo ao processo produtivo de fabricação e comercialização de bens ou prestação de serviços, adotando o conceito de insumos de forma restrita, em Fl. 247DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 10 9 analogia à conceituação adotada pela legislação do IPI, ferindo os termos trazidos pelas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, que, por sua vez, não tratou, tampouco conceituou dessa forma. Resta, por conseguinte, indiscutível a ilegalidade das Instruções Normativas SRF 247/02 e 404/04 quando adotam a definição de insumos semelhante à da legislação do IPI. As Instruções Normativas da Secretaria da Receita Federal do Brasil que restringem o conceito de insumos, não podem prevalecer, pois partem da premissa equivocada de que os créditos de PIS e COFINS teriam semelhança com os créditos de IPI. Isso, ao dispor: · O art. 66, § 5º, inciso I, da IN SRF 247/02 o que segue (Grifos meus): “Art. 66. A pessoa jurídica que apura o PIS/Pasep não cumulativo com a alíquota prevista no art. 60 pode descontar créditos, determinados mediante a aplicação da mesma alíquota, sobre os valores: [...] § 5º Para os efeitos da alínea "b" do inciso I do caput, entende se como insumos: (Incluído) I utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda: (Incluído) a. Matérias primas, os produtos intermediários, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado; (Incluído) b. Os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na prestação do serviço. (Incluído) Fl. 248DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 11 10 [...]” · art. 8º, § 4ª, da IN SRF 404/04 (Grifos meus): “Art. 8 º Do valor apurado na forma do art. 7 º, a pessoa jurídica pode descontar créditos, determinados mediante a aplicação da mesma alíquota, sobre os valores: [...] § 4 º Para os efeitos da alínea "b" do inciso I do caput, entende se como insumos: utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda: a) a matériaprima, o produto intermediário, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado; b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na produção ou fabricação do produto; II utilizados na prestação de serviços: a) os bens aplicados ou consumidos na prestação de serviços, desde que não estejam incluídos no ativo imobilizado; e b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no país, aplicados ou consumidos na prestação do serviço. [...]” Tais normas infraconstitucionais restringiram o conceito de insumo para fins de geração de crédito de PIS e COFINS, aplicandose os mesmos já trazidos pela legislação do IPI. O que entendo que a norma infraconstitucional não poderia extrapolar essa conceituação frente a intenção da instituição da sistemática da não cumulatividade das r. contribuições. Fl. 249DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 12 11 Considerando que as Leis 10.637/02 e 10.833/03 trazem no conceito de insumo: a. Serviços utilizados na prestação de serviços; b. Serviços utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; c. Bens utilizados na prestação de serviços; d. Bens utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; e. Combustíveis e lubrificantes utilizados na prestação de serviços; f. Combustíveis e lubrificantes utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Vêse claro, portanto, que não poderseia considerar para fins de definição de insumo o trazido pela legislação do IPI, já que serviços não são efetivamente insumos, se considerássemos os termos dessa norma. Não obstante, depreendendose da análise da legislação e seu histórico, bem como intenção do legislador, entendo também não ser cabível adotar de forma ampla o conceito trazido pela legislação do IRPJ como arcabouço interpretativo, tendo em vista que nem todas as despesas operacionais consideradas para fins de dedução de IRPJ e CSLL são utilizadas no processo produtivo e simultaneamente tratados como essenciais à produção. Ora, o termo "insumo" não devem necessariamente estar contidos nos custos e despesas operacionais, isso porque a própria legislação previu que algumas despesas não operacionais fossem passíveis de creditamento, tais como Despesas Financeiras, energia elétrica utilizada nos estabelecimentos da empresa, etc. O que entendo que os itens trazidos pelas Leis 10.637/02 e 10.833/03 que geram o creditamento, são taxativos, inclusive porque demonstram claramente as despesas, e não somente os custos que deveriam ser objeto na geração do crédito dessas contribuições. Eis que, se fossem exemplificativos, nem poderiam estender a conceituação de insumos as despesas operacionais que nem compõem o produto e serviços – o que até Fl. 250DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 13 12 prejudicaria a inclusão de algumas despesas que não contribuem de forma essencial na produção. Com efeito, por conseguinte, podese concluir que a definição de “insumos” para efeito de geração de crédito das r. contribuições, deve observar o que segue: · Se o bem e o serviço são considerados essenciais na prestação de serviço ou produção; · Se a produção ou prestação de serviço são dependentes efetivamente da aquisição dos bens e serviços – ou seja, sejam considerados essenciais. Tanto é assim que, em julgado recente, no REsp 1.246.317, a Segunda Turma do STJ reconheceu o direito de uma empresa do setor de alimentos a compensar créditos de PIS e Cofins resultantes da compra de produtos de limpeza e de serviços de dedetização, com base no critério da essencialidade. Para melhor transparecer esse entendimento, trago a ementa do acórdão (Grifos meus): “PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. VIOLAÇÃO AO ART. 538, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 98/STJ. CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS NÃOCUMULATIVAS. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. ART. 3º, II, DA LEI N. 10.637/2002 E ART. 3º, II, DA LEI N. 10.833/2003. ILEGALIDADE DAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS SRF N. 247/2002 E 404/2004. 1. Não viola o art. 535, do CPC, o acórdão que decide de forma suficientemente fundamentada a lide, muito embora não faça considerações sobre todas as teses jurídicas e artigos de lei invocados pelas partes. 2. Agride o art. 538, parágrafo único, do CPC, o acórdão que aplica multa a embargos de declaração interpostos notadamente com o propósito de prequestionamento. Súmula n. 98/STJ: "Embargos de Fl. 251DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 14 13 declaração manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório ". 3. São ilegais o art. 66, §5º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 247/2002 Pis/Pasep (alterada pela Instrução Normativa SRF n. 358/2003) e o art. 8º, §4º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 404/2004 Cofins, que restringiram indevidamente o conceito de "insumos" previsto no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e n. 10.833/2003, respectivamente, para efeitos de creditamento na sistemática de nãocumulatividade das ditas contribuições. 4. Conforme interpretação teleológica e sistemática do ordenamento jurídico em vigor, a conceituação de "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, não se identifica com a conceituação adotada na legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, posto que excessivamente restritiva. Do mesmo modo, não corresponde exatamente aos conceitos de "Custos e Despesas Operacionais" utilizados na legislação do Imposto de Renda IR, por que demasiadamente elastecidos. 5. São "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, todos aqueles bens e serviços pertinentes ao, ou que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços, que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração importa na impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a atividade da empresa, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço daí resultantes. 6. Hipótese em que a recorrente é empresa fabricante de gêneros alimentícios sujeita, portanto, a rígidas normas de higiene e limpeza. No ramo a que pertence, as exigências de condições sanitárias das instalações se não atendidas implicam na própria impossibilidade da produção e em substancial perda de qualidade do produto resultante. A assepsia é essencial e imprescindível ao desenvolvimento de suas atividades. Não houvessem os efeitos desinfetantes, haveria a Fl. 252DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 15 14 proliferação de microorganismos na maquinaria e no ambiente produtivo que agiriam sobre os alimentos, tornandoos impróprios para o consumo. Assim, impõese considerar a abrangência do termo "insumo" para contemplar, no creditamento, os materiais de limpeza e desinfecção, bem como os serviços de dedetização quando aplicados no ambiente produtivo de empresa fabricante de gêneros alimentícios. 7. Recurso especial provido.” Aquele colegiado entendeu que a assepsia do local, embora não esteja diretamente ligada ao processo produtivo, é medida imprescindível ao desenvolvimento das atividades em uma empresa do ramo alimentício. Em outro caso, o STJ reconheceu o direito aos créditos sobre embalagens utilizadas para a preservação das características dos produtos durante o transporte, condição essencial para a manutenção de sua qualidade (REsp 1.125.253). O que, peço vênia, para transcrever a ementa do acórdão: “COFINS – NÃO CUMULATIVIDADE – INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA – POSSIBILIDADE – EMBALAGENS DE ACONDICIONAMENTO DESTINADAS A PRESERVAR AS CARACTERÍSTICAS DOS BENS DURANTE O TRANSPORTE, QUANDO O VENDEDOR ARCAR COM ESTE CUSTO – É INSUMO NOS TERMOS DO ART. 3º, II, DAS LEIS N. 10.637/2002 E 10.833/2003. 1. Hipótese de aplicação de interpretação extensiva de que resulta a simples inclusão de situação fática em hipótese legalmente prevista, que não ofende a legalidade estrita. Precedentes. 2. As embalagens de acondicionamento, utilizadas para a preservação das características dos bens durante o transporte, deverão ser consideradas como insumos nos termos definidos no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003 sempre que a operação de venda incluir o transporte das mercadorias e o vendedor arque com estes custos.” Fl. 253DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 16 15 Tornase necessário se observar o princípio da essencialidade para a definição do conceito de insumos com a finalidade do reconhecimento do direito ao creditamento ao PIS/Cofins nãocumulativos. Sendo assim, entendo não ser aplicável o entendimento de que o consumo de tais bens e serviços sejam utilizados DIRETAMENTE no processo produtivo, bastando somente serem considerados como essencial à produção ou atividade da empresa. Passadas tais considerações, ressurgindo ao caso vertente, é de se recordar que o sujeito passivo exerce atividade agroindustrial, tendo como objeto social a fabricação de açúcar e o álcool, sendo imprescindível para o exercício dessa atividade a observância de todas as etapas relativas ao processo produtivo, que abrange o plantio, o corte, o carregamento, o transporte, a pesagem e amostragem, a produção do açúcar e álcool, a distribuição e a venda deste produto. Notase que, para tanto, desde a colheita e recebimento da canadeaçúcar até o empacotamento e armazenamento do açúcar, diversas etapas são vislumbradas no processo de produção, tornando necessária a verificação de todos os dispêndios efetivamente incorridos na produção, para se entender tais custos serem essenciais à atividade/produção do sujeito passivo. Sendo assim, considerando que as etapas de corte, carregamento e transporte da cana até o estabelecimento industrial são representativas e envolvem grande parte dos custos operacionais necessários para o exercício da atividade de produção, é de se constatar que, nessa etapa, se faz essencial o transporte de trabalhadores rurais para o corte de canade açúcar, eis o acesso restrito a essas áreas de produção. Diferentemente de mero transporte de funcionários da residência para o “trabalho” – local da prestação de serviço. Dessa forma, concordo com o acórdão recorrido que considerou que na atividade de usinagem de cana de açúcar, o transporte dos funcionários até o local do corte da cana de açúcar é uma atividade integrante, porquanto necessária, do processo produtivo. Situação em que o transporte do funcionário não configura pagamento de um benefício ao Fl. 254DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 17 16 empregado, mas a contratação de um serviço que viabiliza a produção, integrando o processo produtivo. No que tange aos gastos com combustíveis, lubrificantes utilizados nos veículos de transporte e maquinário do sujeito passivo, sendo por vezes constatado nos autos pelo Colegiado do acórdão recorrido serem vinculados à atividade/produção do sujeito passivo, é de se manter o direito ao crédito das contribuições – em respeito ao art. 3º, inciso II, da Lei 10.637/02: “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; [...]” Não obstante, considerando memorando e planilha juntados aos autos do processo em 10.8.17, informando sobre a desistência parcial, apenas atento que deve, após esse julgamento, a unidade competente analisar se há crédito tributário passível de desistência parcial, tal como exposto pelo sujeito passivo. Ademais, importante trazer que se deve aplicar o art. 78 do RICARF/2015: “Art. 78. Em qualquer fase processual o recorrente poderá desistir do recurso em tramitação. § 1º A desistência será manifestada em petição ou a termo nos autos do processo. § 2º O pedido de parcelamento, a confissão irretratável de dívida, a extinção sem ressalva do débito, por qualquer de suas modalidades, ou a propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda Nacional, de ação judicial com o mesmo objeto, importa a desistência do recurso. Fl. 255DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 18 17 § 3º No caso de desistência, pedido de parcelamento, confissão irretratável de dívida e de extinção sem ressalva de débito, estará configurada renúncia ao direito sobre o qual se funda o recurso interposto pelo sujeito passivo, inclusive na hipótese de já ter ocorrido decisão favorável ao recorrente. § 4º Havendo desistência parcial do sujeito passivo e, ao mesmo tempo, decisão favorável a ele, total ou parcial, com recurso pendente de julgamento, os autos deverão ser encaminhados à unidade de origem para que, depois de apartados, se for o caso, retornem ao CARF para seguimento dos trâmites processuais. § 5º Se a desistência do sujeito passivo for total, ainda que haja decisão favorável a ele com recurso pendente de julgamento, os autos deverão ser encaminhados à unidade de origem para procedimentos de cobrança, tornandose insubsistentes todas as decisões que lhe forem favoráveis. ” Em vista de todo o exposto, voto por negar provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. É o meu voto. (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Voto Vencedor Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal, Redator designado. Com todo respeito ao voto da ilustre relatora, mas discordo de suas conclusões. A discussão gira em torno do conceito de insumos para fins do creditamento da contribuição para o PIS no regime da nãocumulatividade previsto na Lei 10.637/2002. Como visto a relatora aplicou o entendimento, bastante comum no âmbito do CARF, de que para dar direito ao crédito basta que o bem ou o serviço adquirido seja essencial para o exercício da atividade produtiva por parte do contribuinte. É uma interpretação bastante Fl. 256DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 19 18 tentadora do ponto de vista lógico, porém, na minha opinião não tem respaldo na legislação que trata do assunto. Confesso que já compartilhei em parte deste entendimento, adotando uma posição intermediária quanto ao conceito de insumos. Porém, refleti melhor, e hoje entendo que a legislação do PIS/Cofins traz uma espécie de numerus clausus em relação aos bens e serviços considerados como insumos para fins de creditamento, ou seja, fora daqueles itens expressamente admitidos pela lei, não há possibilidade de aceitálos dentro do conceito de insumo. O objeto de discussão no recurso do contribuinte é quanto a possibilidade de manutenção de créditos da não cumulatividade do PIS e da Cofins sobre despesas com serviços de transporte de funcionários, veículos, combustíveis e lubrificantes. O acórdão recorrido entendeu pela possibilidade de tal creditamento, afirmando que tais itens integram o conceito de insumos utilizados na produção dos bens produzidos e vendidos pelo produtor/vendedor. A Fazenda Nacional insurgese contra esta possibilidade argumentando em apertada síntese pela falta de previsão legal para a concessão dos créditos nesta hipótese. Porém, como já dito, adoto um conceito de insumos bem mais restritivo do que o conceito da essencialidade, adotados pelo acórdão recorrido e pelo voto vencido. Nesse sentido, importante transcrever o art. 3º da Lei nº 10.637/2002, que trata das possibilidades de creditamento do PIS: Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega Fl. 257DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 20 19 dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) III (VETADO) IV – aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; V valor das contraprestações de operações de arrendamento mercantil de pessoa jurídica, exceto de optante pelo Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte SIMPLES; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) VI máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos ou fabricados para locação a terceiros ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) VII edificações e benfeitorias em imóveis de terceiros, quando o custo, inclusive de mãodeobra, tenha sido suportado pela locatária; VIII bens recebidos em devolução, cuja receita de venda tenha integrado faturamento do mês ou de mês anterior, e tributada conforme o disposto nesta Lei. IX energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) X valetransporte, valerefeição ou valealimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica que explore as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção. (Incluído pela Lei nº 11.898, de 2009) XI bens incorporados ao ativo intangível, adquiridos para utilização na produção de bens destinados a venda ou na prestação de serviços. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) (...) § 2o Não dará direito a crédito o valor: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) I de mãodeobra paga a pessoa física; e (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) II da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição. (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) Fl. 258DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 21 20 § 3o O direito ao crédito aplicase, exclusivamente, em relação: I aos bens e serviços adquiridos de pessoa jurídica domiciliada no País; II aos custos e despesas incorridos, pagos ou creditados a pessoa jurídica domiciliada no País; III aos bens e serviços adquiridos e aos custos e despesas incorridos a partir do mês em que se iniciar a aplicação do disposto nesta Lei. (...) Ora, segundo este dispositivo legal, somente geram créditos da contribuição custos com bens e serviços utilizados como insumo na fabricação dos bens destinados a venda. Note que o dispositivo legal descreve de forma exaustiva todas as possibilidades de creditamento. Fosse para atingir todos os gastos essenciais à obtenção da receita não necessitaria ter sido elaborado desta forma, bastava um único artigo ou inciso. Não necessitaria ter descido a tantos detalhes. No presente caso é incontroverso que as despesas com serviços de transporte de funcionários, veículos, combustíveis e lubrificantes não foram utilizados diretamente na produção dos bens produzidos/vendidos. Tais gastos foram incorridos com o custeio agrícola da canadeaçúcar e não com a fabricação do bens industrializados e vendidos pelo produtor/vendedor. Não discordo da conclusão do acórdão recorrido de que os gastos com aqueles bens e serviços estão vinculados às atividades do contribuinte. Mas o legislador restringiu a possibilidade de creditamento do PIS e da Cofins aos insumos utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda e na prestação de serviços. Portanto considerando que tais gastos não se enquadram no conceito de insumos nem foram utilizadas diretamente na fabricação dos produtos (açúcar e álcool) não é possível tal creditamento. Assim, por se tratar de despesas com bens e serviços que não foram utilizados no processo de produção dos bens produzidos/vendidos, mas no custeio agrícola da canadeaçúcar, as glosas dos créditos da contribuição, efetuadas pela autoridade administrativa, devem ser mantidas. Fl. 259DF CARF MF Processo nº 10840.001615/200538 Acórdão n.º 9303005.538 CSRFT3 Fl. 22 21 Diante do exposto, voto por dar provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal Fl. 260DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13116.901299/2012-16
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 14 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Data do fato gerador: 31/12/2005
PROUNI. ISENÇÃO FISCAL. INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO. TERMO DE ADESÃO. ALCANCE.
A isenção prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 é comprovada com o Termo de Adesão da instituição ao ProUni - Programa Universidade para Todos. Quanto às contribuições, alcança tão somente o PIS e a COFINS sobre receitas, excluído o PIS sobre a folha de salário.
COMPENSAÇÃO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INSUFICIÊNCIA.
O reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendo-se necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes. In casu, a recorrente não logrou êxito em se desincumbir do ônus de provar seu direito líquido e certo.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3201-002.909
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado).
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado).
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ISENÇÃO FISCAL. INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO. TERMO DE ADESÃO. ALCANCE. A isenção prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 é comprovada com o Termo de Adesão da instituição ao ProUni Programa Universidade para Todos. Quanto às contribuições, alcança tão somente o PIS e a COFINS sobre receitas, excluído o PIS sobre a folha de salário. COMPENSAÇÃO. LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INSUFICIÊNCIA. O reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes. In casu, a recorrente não logrou êxito em se desincumbir do ônus de provar seu direito líquido e certo. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Winderley Morais Pereira, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisário, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Orlando Rutigliani Berri (Suplente convocado), Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 11 6. 90 12 99 /2 01 2- 16 Fl. 79DF CARF MF Processo nº 13116.901299/201216 Acórdão n.º 3201002.909 S3C2T1 Fl. 3 2 Relatório UNIÃO BRASILIENSE DE EDUCAÇÃO E CULTURA transmitiu PER/DCOMP alegando indébito da contribuição para o PIS. A repartição de origem emitiu Despacho Decisório Eletrônico indeferindo o Pedido de Restituição, em virtude de o pagamento informado ter sido integralmente utilizado para quitação de débitos declarados pelo contribuinte, não restando crédito disponível para a restituição pleiteada. Em Manifestação de Inconformidade, o declarante informou que o direito creditório tinha por fundamento a isenção da contribuição para o PIS decorrente da adesão ao Programa Universidade para Todos ProUni, nos termos da Solução de Consulta nº 86 – SRRF/1ª RF/Disit, de 2 de junho de 2009, em que se reafirmou o direito à isenção durante o período de vigência do Termo de Adesão (art. 5º da Medida Provisória nº 213/2004). Nos termos do Acórdão nº 14053.541, a Manifestação de Inconformidade foi julgada improcedente, tendo a DRJ fundamentado sua decisão no fato de inexistir comprovação, por meio de documentação contábil e fiscal, do direito creditório pleiteado e por não ter havido a comprovação da adesão da instituição ao ProUni, nos termos do art. 8º da Lei nº 11.096/2005. Em seu recurso voluntário, a Recorrente repisa suas razões de defesa, destacando a existência a seu favor de solução de consulta da Receita Federal assegurando o direito à isenção, o que, segundo ela, tornava "legalmente desnecessária" a exigência de comprovação de sua adesão ao programa. Argumenta, ainda, que, nos casos da espécie, é "faticamente impossível" a apresentação de documentos, por se tratar o pedido de restituição de procedimento eletrônico. Na sequência, sustenta a absoluta desnecessidade dos elementos de prova exigidos pela Delegacia de Julgamento, quais sejam, folhas de salário e contabilidade, por se tratar de questão aperfeiçoada e superada ante a homologação da base de cálculo da contribuição por parte da Fiscalização, tendo em vista que constou do despacho decisório que o valor declarado encontravase exato e perfeito. Supletivamente, pugna, caso o CARF entenda necessário, pela realização de diligência junto à repartição de origem, para que a autoridade administrativa oficie o Ministério da Educação com vistas a elucidar os termos no quais se manteve a sua adesão ao ProUni no período sob comento. É o relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator Fl. 80DF CARF MF Processo nº 13116.901299/201216 Acórdão n.º 3201002.909 S3C2T1 Fl. 4 3 O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3201002.885, de 28/06/2017, proferido no julgamento do processo nº 13116.900001/201412, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3201002.885): O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade devendo, portanto, ser conhecido. O dispositivo legal que trata da isenção de impostos e contribuições às instituições de ensino que aderirem ao Prouni é o art. 8º da Lei nº 11.096/2005, reproduzido no que se aplica ao caso (grifei): Art. 8o A instituição que aderir ao ProUni ficará isenta dos seguintes impostos e contribuições no período de vigência do termo de adesão: (Vide Lei nº 11.128, de 2005) (...) III Contribuição Social para Financiamento da Seguridade Social, instituída pela Lei Complementar n° 70, de 30 de dezembro de 1991; e IV Contribuição para o Programa de Integração Social, instituída pela Lei Complementar n° 7, de 7 de setembro de 1970. § 1° A isenção de que trata o caput deste artigo recairá sobre o lucro nas hipóteses dos incisos I e II do caput deste artigo, e sobre a receita auferida, nas hipóteses dos incisos III e IV do caput deste artigo, decorrentes da realização de atividades de ensino superior, proveniente de cursos de graduação ou cursos seqüenciais de formação específica. § 2° A Secretaria da Receita Federal do Ministério da Fazenda disciplinará o disposto neste artigo no prazo de 30 (trinta) dias. § 3° A isenção de que trata este artigo será calculada na proporção da ocupação efetiva das bolsas devidas. (Incluído pela Lei nº 12.431, de 2011). A Lei foi regulamentada pelo Decreto nº 5.493, de 18/07/2005, com os dispositivos que se aplicam ao caso transcritos (grifei): Art. 1o O Programa Universidade para Todos PROUNI, de que trata a Lei no 11.096, de 13 de janeiro de 2005, destinase à concessão de bolsas de estudo integrais e bolsas de estudo parciais de cinqüenta por cento ou de vinte e cinco por cento, para estudantes de cursos de graduação ou seqüenciais de formação específica, em instituições privadas de ensino superior, com ou sem fins lucrativos, que tenham aderido ao PROUNI nos termos da legislação aplicável e do disposto neste Decreto. Parágrafo único. O termo de adesão não poderá abranger, para fins de gozo de benefícios fiscais, cursos que exijam formação prévia em nível superior como requisito para a matrícula. Art. 2o O PROUNI será implementado por intermédio da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação. Fl. 81DF CARF MF Processo nº 13116.901299/201216 Acórdão n.º 3201002.909 S3C2T1 Fl. 5 4 § 1o A instituição de ensino superior interessada em aderir ao PROUNI firmará, em ato de sua mantenedora, termo de adesão junto ao Ministério da Educação. (...) Art. 12. Havendo indícios de descumprimento das obrigações assumidas no termo de adesão, será instaurado procedimento administrativo para aferir a responsabilidade da instituição de ensino superior envolvida, aplicandose, se for o caso, as penalidades previstas. (...) A Secretaria da Receita Federal em cumprimento ao disposto no § 2º do art. 8º acima, editou a Instrução Normativa SRF nº 456/2004, posteriormente revogada pela IN RFB nº 1.394/2013, que dispunha, no que se aplica ao caso (grifei): Art. 1º A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (ProUni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória nº 213, de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, das seguintes contribuições e imposto: I Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins); II Contribuição para o PIS/Pasep; (...) § 1º A isenção de que trata o caput recairá sobre o lucro na hipótese dos incisos III e IV, e sobre o valor da receita auferida na hipótese dos incisos I e II, decorrentes da realização de atividades de ensino superior, proveniente de cursos de graduação ou cursos seqüenciais de formação específica. § 2º Para fins do disposto nos incisos III e IV do caput a instituição de ensino deverá apurar o lucro da exploração referente às atividades sobre as quais recaia a isenção, observado o disposto no art. 2º e na legislação do imposto de renda. (...) Art. 3º Para usufruir da isenção, a instituição de ensino deverá demonstrar em sua contabilidade, com clareza e exatidão, os elementos que compõem as receitas, custos, despesas e resultados do período de apuração, referentes às atividades sobre as quais recaia a isenção segregados das demais atividades. (...) O termo de adesão foi previsto no art. 5º da Lei nº 11.096/2005, in verbis (grifei): Art. 5o A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, poderá aderir ao Prouni mediante assinatura de termo de adesão, cumprindolhe (...) § 1o O termo de adesão terá prazo de vigência de 10 (dez) anos, contado da data de sua assinatura, renovável por iguais períodos e observado o disposto nesta Lei. Fl. 82DF CARF MF Processo nº 13116.901299/201216 Acórdão n.º 3201002.909 S3C2T1 Fl. 6 5 (...) Art. 7o As obrigações a serem cumpridas pela instituição de ensino superior serão previstas no termo de adesão ao Prouni, no qual deverão constar as seguintes cláusulas necessárias: (...) Art. 9o O descumprimento das obrigações assumidas no termo de adesão sujeita a instituição às seguintes penalidades: (...) Art. 16. O processo de deferimento do termo de adesão pelo Ministério da Educação, nos termos do art. 5o desta Lei, será instruído com a estimativa da renúncia fiscal, no exercício de deferimento e nos 2 (dois) subseqüentes, a serusufruída pela respectiva instituição, na forma do art. 9o desta Lei, bem como o demonstrativo da compensação da referida renúncia, do crescimento da arrecadação de impostos e contribuições federais no mesmo segmento econômico ou da prévia redução de despesas de caráter continuado A recorrente alega a desnecessidade de apresentação de qualquer documento que comprove sua regular adesão ao Prouni sob o fundamento de que o documento é totalmente eletrônico e a própria Lei nº 11.096/2005 em seu art. 11, § 1º, remete a competência para tais verificações e exigências ao Ministério da Educação. Não é o que se extrai da leitura dos dispositivos acima. O termo de adesão é documento a ser firmado no qual se inserem requisitos de participação no referido Programa. Os diversos dispositivos transcritos (Lei, Decreto e Instrução Normativa) apontam para vários elementos a serem inseridos no Termo que permitiram não somente a adesão da instituição de ensino, mas o controle de sua permanência, enquanto regular e vigente, a aplicação de penalidade, e, principalmente ao que interessa ao presente litígio, a isenção de contribuições. Dessa forma, a exibição do documento "Termo de Adesão" é essencial ao gozo do benefício fiscal de isenção das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins Ao contrário do que alega a recorrente, o termo de Adesão, ainda que eletrônico, prevê o ato de sua assinatura, para que se dê a devida validade e autenticidade. Realmente é emitido no âmbito do Ministério da Educação, o que demonstra não estar nos sistemas internos (informatizados) da Secretaria da Receita Federal; e, se de fato materializado apenas em formato eletrônico em razão de sua essencialidade, é de se presumir a possibilidade de sua impressão, típica das emitidas por órgãos públicos, com chave de segurança para confirmação da autenticidade. Ademais, documento oficial, que confere benefícios tributários de outra ordem, e firmado entre partes Ministério da Educação e instituição de ensino privada há de ser mantido pela parte interessada para o gozo dos benefícios previstos no Termo. Fl. 83DF CARF MF Processo nº 13116.901299/201216 Acórdão n.º 3201002.909 S3C2T1 Fl. 7 6 Nada obstante, o que a recorrente argumenta para a não apresentação do Termo de adesão ao Prouni outros recorrentes em situação idêntica não se escusaram do cumprimento de singelo mister. Vejase exemplo de julgado proferidos neste Conselho em que se demonstrou a possibilidade fática de apresentar e comprovar a adesão e mantença no Programa (grifei): Autoridade Julgadora de 1ª Instância bem observou ainda que o contribuinte em questão comprovou nos autos (fls. 3.325) a adesão ao Programa Universidade para Todos, trecho que merece ser reproduzido por ser de extrema valia: "60. Para comprovar a adesão ao PROUNI o contribuinte anexou aos autos cópia do correio eletrônico do MEC (fls. 3.118) e cópia do Termo de Adesão (fls. 3.119 a 3.273). (Acórdão nº 3402001.704, processo nº 19515.000260/200879, relatoria do cons. João Carlos Cassuli Junior, sessão de 22/03/2012) Não se pode concluir de outra forma, senão a que a recorrente não se dignou a comprovar a existência e aposição de assinatura no Termo de Adesão e a regular fruição do Programa que aderiu. Tenho que este fundamento é suficiente para negar provimento ao recurso voluntário; contudo, há de se tecer ainda argumentos pertinentes ao ônus probatório a cargo a de quem pleiteia direito seu. Antes, porém, analisase as demais teses suscitadas no recurso voluntário que visam seu provimento Sustenta ainda a desnecessidade de apresentação das folhas de salário e respectivamente contabilidade pois entende que no despacho decisório há o reconhecimento expresso de que a base de cálculo encontrase "exata e perfeita", além de "devidamente homologada". Quanto à exigência de apresentação de documentos fiscais e contábeis, assentou o voto condutor do acórdão recorrido que deveria também ter juntado a folha de salários, a fim de demonstrar a base de cálculo do PIS, e os livros fiscais que demonstrassem os lançamentos relativos a ela. Ora, em que pese a ressaltava da DRJ, com a qual concordo, que a isenção do PIS prevista no art. 8º da Lei nº 11.096/2005 não alcança a parcela que incide sobre a folha de salários, a Solução de Consulta nº 86 – SRRF/1ª RF/Disit, de 2 de junho de 2009 proferiu entendimento cuja interpretação errônea da contribuinte adiante será enfrentado lhe é favorável quanto à isenção do PISfolha de salários. Ad argumentandum tantum, justamente firmada no entendimento favorável que extraiu do ato expedido pela autoridade, a recorrente pleiteia a restituição do PISfolha de salários, código de receita "8301". Se há o entendimento de que faz jus à esta isenção deveras tem o ônus de fazer prova documental de seu pretenso direito, qual seja, a apresentação dos documentos e livros atinentes à rubrica "salários" para que se comprove qual sua dimensão (quantificação) na base de cálculo. Fl. 84DF CARF MF Processo nº 13116.901299/201216 Acórdão n.º 3201002.909 S3C2T1 Fl. 8 7 Por fim, assevera que a controvérsia quanto ao direito à isenção está superado pela conclusão da indigitada Solução de Consulta, que entende terlhe assegurado a isenção do PIS sobre folha de salários. Mais uma vez, sem razão a contribuinte. A Solução de Consulta expressamente consignou que a isenção alcança a Contribuição para o PIS, nada dispondo acerca do PIS folha de salários. Digase que na elaboração da peça a consulente, ora recorrente, apenas informou ter realizada a adesão ao Prouni, sem qualquer comprovação naquele autos de consulta, e apresenta seu entendimento de que a isenção alcançaria o PIS folha de salários, para ao final requerer a manifestação do Órgão quanto ao seu entendimento. Eis a cartaconsulta: Entendo que ao fundamentar a solução da consulta, a autoridade que a proferiu fez constar em seus fundamentos a legislação que trata da incidência do PIS sobre a folha de salários, à alíquota de 1%, deixando assente a tributação sobre esta rubrica, com a transcrição do art. 13 e incisos III e IV, da Medida Provisória nº 2.15835/2001. Colacionou os dispositivos que tratam da isenção do PIS sobre a receita auferida pela instituição de educação que aderir e assim se mantém no Prouni. Transcreveu os arts. 8º caput e incisos, I a IV, §§ 1º e 2º da Lei nº 11.096/2005; arts. 1º caput e incisos, I a IV, §§ 1º e 2º, e 3º caput e parágrafo único da IN SRF nº 456/2004, para em seguida enunciar no mesmo tópico "fundamentos" que: " 5. Ante os dispositivos acima expostos, verificase que a instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (Prouni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória n° 213, de 2004, Fl. 85DF CARF MF Processo nº 13116.901299/201216 Acórdão n.º 3201002.909 S3C2T1 Fl. 9 8 ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS." Conclui a solução da consulta com o enunciado: Conclusão 6. Em face do exposto, concluise que a instituição privada de ensino superior com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao programa Universidade para Todos (prouni) nos termos dos arts. 5º da Medida Provisória nº 213, de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS. Completase os fatos com a apresentação da ementa da Solução de Consulta SRRF/1ªRF/Disit nº 86, de 2 de junho de 2009: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ementa: PIS. PROUNI. INCIDÊNCIA. A instituição privada de ensino superior, com fins lucrativos ou sem fins lucrativos não beneficente, que aderir ao Programa Universidade para Todos (Prouni) nos termos dos arts. 5o da Medida Provisória nº 213. de 2004, ficará isenta, no período de vigência do termo de adesão, da Contribuição para o PIS. Dispositivos Legais: art.13 da Medida Provisória n° 2.15835/2001; art.8° da Lei n° 11.096/2005; arts. 1º e 3o da Instrução Normativa nü 456/2004. Não vislumbro imprecisão no Ato que poderia dar a interpretação de que toda e qualquer incidência do PIS a que se sujeitam as entidades aderentes ao Prouni estaria isenta. A uma, os dispositivos legais da ementa da solução de consulta informam a legislação aplicada, primeiro, a que dispõe acerca do Pis folha de salários tributado à alíquota de 1% e após, a que trata do PIS alcançado pela isenção; a duas, porque nos fundamentos, a autoridade trouxe a legislação que faz distinção entre PISfolha de salário tributada à alíquota de 1%, e o PIS sobre receitas isentos nos termos e requisitos das legislação; a três, a omissão do termo "PIS sobre folha de salários" não tem o condão de fazêlo incluir na isenção pelo motivo a seguir; a quatro, nos termos do art. 111 caput e inciso II do CTN, "interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre outorga de isenção"; a cinco, não caberia a autoridade fiscal ou administrativa contrariar preceito legal. Por fim, sacramentando o entendimento do não alcance da isenção ao PIS sobre folha de salários, o Órgão Central da Secretaria da Receita Federal editou a Solução de Divergência Cosit nº 1, de 2015, publicada no D.O.U de 24/12/2015, com a ementa: SOLUÇÃO DE DIVERGÊNCIA Nº 1, DE 10 DE FEVEREIRO DE 2015. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP EMENTA: INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR. PROUNI. CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP INCIDENTE SOBRE A FOLHA Fl. 86DF CARF MF Processo nº 13116.901299/201216 Acórdão n.º 3201002.909 S3C2T1 Fl. 10 9 DE SALÁRIOS. A isenção de que trata o art. 8º da Lei nº 11.096, de 2005, não se aplica à Contribuição para o PIS/Pasep incidente sobre a folha de pagamentos da pessoa jurídica que adere ao Prouni. DISPOSITIVOS LEGAIS: Lei nº 9.532, de 1997, art. 12; Decreto nº 4.524, de 2002, arts. 9º e 46; Lei nº 11.096, de 2005, art. 8º; DecretoLei nº 5.172 (CTN), de 1966, art. 111,II; Instrução Normativa RFB nº 1.394, de 2013 e Medida Provisória (MP) nº 2.15835, de 2001. O último argumento da recorrente referese à eventual realização de diligência, oficiandose ao Ministério da Educação acerca da sua manutenção no Prouni, acaso não seja superada os fundamentos ante aduzidos que entende suficiente ao direito à restituição pleiteada decorrente do pagamento indevido da Contribuição. Primeiramente, desnecessária a providência pois como assentado neste voto os fundamentos antecedentes são suficientes para negar provimento ao recurso. Não há dúvidas intransponíveis nos autos que necessitam de serem completadas para decidir o litígio. Nos processos, como o presente, que tratam de solicitação de restituição e compensação, a comprovação do direito aos créditos incumbe ao postulante. É seu dever carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, em especial quando necessário à fruição de benefício tributário de isenção. Caso essa comprovação houvesse sido feita, e ainda restasse dúvida ao julgador quanto a permanência regular e temporal no Programa, cabível seria a diligência. Assim, incabível a solicitação de diligência dirigida ao Ministério da Educação para apresentação do Termo de Adesão, documento primário e essencial ao compromisso assumido e firmado pela instituição educacional que requer o gozo dos benefícios do Prouni e que não se dignou a apresentar aos autos. Até esse ponto, restou assente que a recorrente não apresentou o Termo de Adesão ao Prouni, folhas de salário e escrituração contábil; e não permaneceu silente quanto às exigências. Em todas as peças recursais impugnação e recurso voluntário sustentou a desnecessidade desse dever, pois entendeu que o despacho decisório e a solução de consulta reconheceram expressamente seu direito à isenção do PIS relativo ao Programa, sem colacionar qualquer documento seu aos autos. A ausência de elementos probantes viola a regra jurídica adotada pelo direito pátrio de que a prova compete à pessoa que alega o fato, conforme se depreende do abaixo transcrito artigo 16, caput, III, do Decreto n° 70.235, de 1972 (PAF), que regulamenta o processo administrativo fiscal no âmbito federal, e do artigo 373, do Código de Processo Civil,verbis: Decreto n° 70.235, de 1972: Art. 16. A impugnação mencionará: III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir. Lei nº 13.105/2015 CPC Fl. 87DF CARF MF Processo nº 13116.901299/201216 Acórdão n.º 3201002.909 S3C2T1 Fl. 11 10 "Art. 373. 0 ônus da prova incumbe: I — ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II — ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor." Cabe assinalar que o reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige a averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento indevido ou a maior de tributo, fazendose necessário verificar a exatidão das informações a ele referentes, confrontandoas com os registros contábeis e fiscais efetuados com base na documentação pertinente, com análise da situação fática, de modo a se conhecer qual seria o tributo devido e comparálo ao pagamento efetuado. As Declarações (DCTF, DCOMP e DACON, PER/DCOMP), os documentos fiscais e contábeis e aqueles pertinentes a benefícios tributários, celebrados com órgãos públicos, são produzidos e celebrados pelo próprio contribuinte ou com sua participação, de sorte que, havendo inconsistências ou omissões, impõe a obrigação da recorrente em comprovar os fatos mediante a escrituração contábil e fiscal, sustentada em documentos, tendo em vista que, apenas os créditos líquidos e certos comprovados inequivocamente pelo contribuinte são passíveis de compensação tributária, conforme preceituado no artigo 170 da Lei nº 5.172/66 (Código Tributário Nacional/CTN). Conclusão Por todo o exposto a recorrente não se desincumbiu do ônus de provar o alegado direito líquido e certo, decorrente de suposto pagamento a maior ou indevido de PIS. Assim, não encontro razão para modificar a decisão a quo e VOTO no sentido de NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO VOLUNTÁRIO e NÃO RECONHECER O DIREITO CREDITÓRIO. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, negase provimento ao recurso voluntário, para não reconhecer o direito creditório em litígio. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 88DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12448.720993/2014-73
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 09 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Sep 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2010, 2011
IRPF. GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE DIREITOS. TERMO INICIAL DO PRAZO DECADENCIAL.
Em se tratando de pessoas físicas, a qual se aplica o regime de caixa, antes do efetivo recebimento dos valores decorrentes de alienação com pagamento diferido (a prazo), não há falar em acréscimo patrimonial a justificar a apuração do ganho de capital. O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos, sendo esse recebimento o marco para a contagem do prazo decadencial.
OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. LUCROS SOCIETÁRIOS ORIGINÁRIOS DA APLICAÇÃO DO MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL EM HOLDINGS. INCORPORAÇÃO REVERSA. AUMENTO DO CUSTO DE AQUISIÇÃO EM DESCOMPASSO COM O PARÁGRAFO ÚNICO DO ART. 10 DA LEI 9.249, de 1995 (ART. 135 DO RIR 99).
A capitalização de lucros societários, não tributados, sem substrato econômico e meros reflexos da aplicação do método de equivalência patrimonial em holdings puras, seguidas de correspondentes incorporações reversas, não se subsume ao parágrafo único do art. 10 da Lei 9.249, de 1995 (art. 135 do RIR 99), para fins de majoração do custo da aquisição de ações a serem alienadas e consequente apuração de ganho de capital.
BENEFÍCIOS FISCAIS INSTITUÍDOS PELO ART. 10 DA LEI 9.249, de 1995. DISTRIBUIÇÃO OU CAPITALIZAÇÃO DOS LUCROS.
O lucro que foi distribuído ao sócio/acionista, passando a integrar o patrimônio econômico deste como rendimento isento, não pode ser utilizado, concomitantemente, para a capitalização de lucros na sociedade que o distribuiu.
DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS EM SOCIEDADES QUE APURAM O LUCRO REAL. LIMITES AOS BENEFÍCIOS FISCAIS QUE VERSAM SOBRE O LUCRO.
No caso de sociedades que apurem o lucro real, o montante do lucro que pode ser distribuído encontra limite no lucro real, somente o qual, por ser elemento da hipótese de incidência do imposto sobre a renda, pode ser objeto de benefícios fiscais, como isenção do imposto em caso de sua distribuição aos sócios/acionistas ou majoração do custo de aquisição de ações.
MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. SUJEITO PASSIVO SEM CONTROLE DOS ATOS QUE DERAM ORIGEM À ATUAÇÃO.
Não tendo o sujeito passivo poder para determinar ou impedir os atos que deram origem ao auto de infração, descabe a aplicação da multa qualificada.
JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC.
A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual, assim,devem incidir os juros de mora à taxa Selic.
Numero da decisão: 2301-005.107
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado: (a) por unanimidade de votos reduzir a multa qualificada ao percentual de 75%; (b) por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário em relação à matéria juros sobre a multa; vencidos os conselheiros Fábio Piovesan Bozza, Alexandre Evaristo Pinto e Wesley Rocha; (c) por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário nas demais questões; vencido o conselheiro Alexandre Evaristo Pinto, que votou por cancelar integralmente o lançamento; acompanhou pelas conclusões o conselheiro Fábio Piovesan Bozza.
Solicitaram apresentar declaração de votos os conselheiros Fábio Piovesan Bozza e Alexandre Evaristo Pinto.
Fez sustentação o Dr. Maurício Pereira Faro, OAB/RJ 112.417.
JOÃO BELLINI JÚNIOR Presidente e Relator.
EDITADO EM: 25/08/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrea Brose Adolfo, Fabio Piovesan Bozza, João Maurício Vital, Alexandre Evaristo Pinto, Denny Medeiros Silveira, Wesley Rocha, Thiago Duca Amoni e João Bellini Júnior (Presidente).
Nome do relator: JOAO BELLINI JUNIOR
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2010, 2011 IRPF. GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE DIREITOS. TERMO INICIAL DO PRAZO DECADENCIAL. Em se tratando de pessoas físicas, a qual se aplica o regime de caixa, antes do efetivo recebimento dos valores decorrentes de alienação com pagamento diferido (a prazo), não há falar em acréscimo patrimonial a justificar a apuração do ganho de capital. O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos, sendo esse recebimento o marco para a contagem do prazo decadencial. OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. LUCROS SOCIETÁRIOS ORIGINÁRIOS DA APLICAÇÃO DO MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL EM HOLDINGS. INCORPORAÇÃO REVERSA. AUMENTO DO CUSTO DE AQUISIÇÃO EM DESCOMPASSO COM O PARÁGRAFO ÚNICO DO ART. 10 DA LEI 9.249, de 1995 (ART. 135 DO RIR 99). A capitalização de lucros societários, não tributados, sem substrato econômico e meros reflexos da aplicação do método de equivalência patrimonial em holdings puras, seguidas de correspondentes incorporações reversas, não se subsume ao parágrafo único do art. 10 da Lei 9.249, de 1995 (art. 135 do RIR 99), para fins de majoração do custo da aquisição de ações a serem alienadas e consequente apuração de ganho de capital. BENEFÍCIOS FISCAIS INSTITUÍDOS PELO ART. 10 DA LEI 9.249, de 1995. DISTRIBUIÇÃO OU CAPITALIZAÇÃO DOS LUCROS. O lucro que foi distribuído ao sócio/acionista, passando a integrar o patrimônio econômico deste como rendimento isento, não pode ser utilizado, concomitantemente, para a capitalização de lucros na sociedade que o distribuiu. DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS EM SOCIEDADES QUE APURAM O LUCRO REAL. LIMITES AOS BENEFÍCIOS FISCAIS QUE VERSAM SOBRE O LUCRO. No caso de sociedades que apurem o lucro real, o montante do lucro que pode ser distribuído encontra limite no lucro real, somente o qual, por ser elemento da hipótese de incidência do imposto sobre a renda, pode ser objeto de benefícios fiscais, como isenção do imposto em caso de sua distribuição aos sócios/acionistas ou majoração do custo de aquisição de ações. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. SUJEITO PASSIVO SEM CONTROLE DOS ATOS QUE DERAM ORIGEM À ATUAÇÃO. Não tendo o sujeito passivo poder para determinar ou impedir os atos que deram origem ao auto de infração, descabe a aplicação da multa qualificada. JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC. A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual, assim,devem incidir os juros de mora à taxa Selic.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 78; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2148; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C3T1 Fl. 2 1 1 S2C3T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 12448.720993/201473 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2301005.107 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 5 de julho de 2017 Matéria IMPOSTO SOBRE A RENDA DA PESSOA FÍSICA Recorrente ALESSANDRO MONTEIRO MORGADO HORTA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2010, 2011 IRPF. GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE DIREITOS. TERMO INICIAL DO PRAZO DECADENCIAL. Em se tratando de pessoas físicas, a qual se aplica o regime de caixa, antes do efetivo recebimento dos valores decorrentes de alienação com pagamento diferido (a prazo), não há falar em acréscimo patrimonial a justificar a apuração do ganho de capital. O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos, sendo esse recebimento o marco para a contagem do prazo decadencial. OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. LUCROS SOCIETÁRIOS ORIGINÁRIOS DA APLICAÇÃO DO MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL EM HOLDINGS. INCORPORAÇÃO REVERSA. AUMENTO DO CUSTO DE AQUISIÇÃO EM DESCOMPASSO COM O PARÁGRAFO ÚNICO DO ART. 10 DA LEI 9.249, de 1995 (ART. 135 DO RIR 99). A capitalização de lucros societários, não tributados, sem substrato econômico e meros reflexos da aplicação do método de equivalência patrimonial em holdings puras, seguidas de correspondentes incorporações reversas, não se subsume ao parágrafo único do art. 10 da Lei 9.249, de 1995 (art. 135 do RIR 99), para fins de majoração do custo da aquisição de ações a serem alienadas e consequente apuração de ganho de capital. BENEFÍCIOS FISCAIS INSTITUÍDOS PELO ART. 10 DA LEI 9.249, de 1995. DISTRIBUIÇÃO OU CAPITALIZAÇÃO DOS LUCROS. O lucro que foi distribuído ao sócio/acionista, passando a integrar o patrimônio econômico deste como rendimento isento, não pode ser utilizado, concomitantemente, para a capitalização de lucros na sociedade que o distribuiu. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 44 8. 72 09 93 /2 01 4- 73 Fl. 1594DF CARF MF 2 DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS EM SOCIEDADES QUE APURAM O LUCRO REAL. LIMITES AOS BENEFÍCIOS FISCAIS QUE VERSAM SOBRE O LUCRO. No caso de sociedades que apurem o lucro real, o montante do lucro que pode ser distribuído encontra limite no lucro real, somente o qual, por ser elemento da hipótese de incidência do imposto sobre a renda, pode ser objeto de benefícios fiscais, como isenção do imposto em caso de sua distribuição aos sócios/acionistas ou majoração do custo de aquisição de ações. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. SUJEITO PASSIVO SEM CONTROLE DOS ATOS QUE DERAM ORIGEM À ATUAÇÃO. Não tendo o sujeito passivo poder para determinar ou impedir os atos que deram origem ao auto de infração, descabe a aplicação da multa qualificada. JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC. A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual, assim,devem incidir os juros de mora à taxa Selic. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado: (a) por unanimidade de votos reduzir a multa qualificada ao percentual de 75%; (b) por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário em relação à matéria juros sobre a multa; vencidos os conselheiros Fábio Piovesan Bozza, Alexandre Evaristo Pinto e Wesley Rocha; (c) por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário nas demais questões; vencido o conselheiro Alexandre Evaristo Pinto, que votou por cancelar integralmente o lançamento; acompanhou pelas conclusões o conselheiro Fábio Piovesan Bozza. Solicitaram apresentar declaração de votos os conselheiros Fábio Piovesan Bozza e Alexandre Evaristo Pinto. Fez sustentação o Dr. Maurício Pereira Faro, OAB/RJ 112.417. JOÃO BELLINI JÚNIOR – Presidente e Relator. EDITADO EM: 25/08/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrea Brose Adolfo, Fabio Piovesan Bozza, João Maurício Vital, Alexandre Evaristo Pinto, Denny Medeiros Silveira, Wesley Rocha, Thiago Duca Amoni e João Bellini Júnior (Presidente). Fl. 1595DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 3 3 Relatório Tratase de recurso voluntário em face do Acórdão 09555.316, exarado pela 4ª Turma da DRJ em Juiz de Fora (efls. 1392 a 1425). DO LANÇAMENTO O auto de infração (efls. 1180 a 1185 e 329 a 366) é referente ao imposto sobre a renda da pessoa física (IRPF), e diz respeito à omissão de ganho de capital na alienação de ações/quotas não negociadas em Bolsa, atinente aos anos de 2010 e 2011, pelo qual é exigido crédito tributário de R$3.084.030,88, sendo R$1.107.928,88 de imposto, ao qual é acrescido juros de mora e multa proporcional. Os fatos geradores se referem aos períodos de apuração março de 2010, setembro de 2010, março de 2011 e julho de 2011, referente às parcelas remanescentes da alienação pelo contribuinte de suas ações no Banco Pactual S/A (doravante, Banco Pactual), CNPJ 30.306.294/000145, ao grupo UBS Brasil (doravante, UBS), ocorrida no ano de 2006. O custo de aquisição das ações alienadas, bem como o ganho de capital, já foram apurados no procedimento fiscal consolidado no processo 12448.735988/201112, no qual houve o lançamento referente às parcelas recebidas em 2006 e 2009, cujo lançamento, fundamentado na mesma situação fática, teve como objeto a glosa do custo de aquisição das ações do Banco Pactual, de propriedade do contribuinte, precedida por reorganização societária ocorrida entre sociedades holdings, as quais detinham todas as ações do Banco Pactual. Nesse processo, o recurso voluntário foi julgado pela 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara (Acórdão 2202002.258) e em 10/05/2016 a CSRF julgou recursos especiais do contribuinte e da PGFN, prolatando o Acórdão 9202003.959, que recebeu as seguintes ementas: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2006, 2009 OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. DUPLICIDADE DE CAPITALIZAÇÃO DE LUCROS E RESERVAS. Constatada a majoração artificial do custo de aquisição da participação societária alienada, mediante a capitalização de lucros e reservas oriundos de ganhos avaliados por equivalência patrimonial nas sociedades investidoras, seguida de incorporação reversa e nova capitalização, em inobservância à correta interpretação a ser dada ao art. 135 do Decreto no 3.000, de 1999, devem ser expurgados os acréscimos indevidos, com a conseqüente tributação do novo ganho de capital apurado. JUROS DE MORA INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC. É cabível a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, com base na Taxa Selic, tendo Fl. 1596DF CARF MF 4 em vista que o crédito tributário compreende o tributo e a multa de oficio proporcional. Recurso Especial do Contribuinte negado Recurso Especial do Procurador provido Passo a descrever a ação fiscal empreendida no citado processo 12448.735988/201112, conforme relatada às efls. 329 a 366. A ação fiscal teve como escopo a análise da operação de alienação das AÇÕES DO BANCO PACTUAL S/A (Banco Pactual), CNPJ n° 30.306.294/000145, ocorrida no anocalendário de 2006, das quais o sujeito passivo detinha parte minoritária. A operação de alienação das ações do Banco Pactual pelos acionistas pessoas físicas, ocorrida em dezembro de 2006, foi precedida por reorganização societária de sociedades holdings, as quais detinham todas as ações do Banco Pactual. Essa reorganização societária teve como finalidade transferir a propriedade das mencionadas ações diretamente às pessoas físicas alienantes (que antes da reorganização detinham a propriedade indireta sobre as ações do Banco Pactual, em atendimento ao Contrato de Compra e Venda das Ações do Banco Pactual S/A, firmado em 09/05/2006 com a adquirente UBS AG. As informações a seguir evidenciadas foram extraídas das DIPJs das referidas empresas referentes ao período mencionado, bem como das atas registradas na Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro. GRUPO PACTUAL O Grupo Pactual, antes da reorganização societária, era formado pelas seguintes pessoas jurídicas: NOME EMPRESARIAL CNPJ BANCO PACTUAL S/A 30.306.294/000145 PACTUAL S/A 02.220.758/000160 PACTUAL HOLDINGS S/A 02,220.757/000116 NOVA PACTUAL PARTICIPAÇÕES LTDA (PACTUAL PARTICIPAÇÕES S/A) 02.220.756/000171 PACTUAL PARTICIPAÇÕES LTDA 02.244.808/000140 As pessoas jurídicas integrantes do Grupo Pactual apresentaram a seguinte evolução patrimonial, no período de 2005/2006: NOME EMPRESARIAL Patrimônio Líquido 31/12/2005 Patrimônio Líquido 2006 BANCO PACTUAL S/A 625.223.115,04 1.200.480.531, PACTUAL S/A 535.103.542,23 1.149.597.660,18 PACTUAL HOLDING S/A 147.009.935,61 248.464.012,98 PACTUAL PARTICIPAÇÃO S/A / NOVA PACTUAL PART. LTDA. 471.521.906,90 817.026.864,44 A REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA A estrutura societária antes da reorganização societária era a seguinte: Fl. 1597DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 4 5 De acordo com a fiscalização, a referida reorganização consistiu na extinção das holdings que detinham participação societária no Banco Pactual, por meio de sucessivas incorporações às avessas, culminando com a alienação das ações do Banco Pactual diretamente pelos acionistas pessoas físicas da instituição; nessa reorganização societária se verificou a majoração ilícita do custo das ações alienadas, gerando, como consequência, a redução indevida do ganho de capital tributável obtido pelo acionista pessoa física. Ao final da reorganização, a estrutura societária pode ser assim representada: Mediante contrato celebrado em 09/05/2006 entre a pessoa jurídica UBS AG, a pessoa jurídica Pactual S.A (controladora direta do Banco Pactual, doravante nominada de PSA) e as pessoas físicas que possuíam participação indireta sobre o patrimônio do Banco Pactual, ficou definido, entre outras cláusulas, que as holdings detentoras de todas as ações do Banco Pactual seriam extintas por meio de reorganização societária, para que os sócios pessoas físicas assumissem a condição de proprietários diretos das ações negociadas. O pagamento pela compra das ações do Banco Pactual foi dividido em parcelas, sendo a primeira paga na data de “Fechamento” da compra e venda das ações, ocorrido em dezembro de 2006 e a segunda em data posterior denominada de “Pagamento Diferido”. Além desses pagamentos, os alienantes das ações receberiam ainda outros valores denominados “Pagamentos Especiais; Usufruto”. DO PROCESSO DE INCORPORAÇÃO DAS HOLDINGS Os atos de reorganização societária compreenderam: Fl. 1598DF CARF MF 6 (a) Na Pactual Participações Ltda. • em 28/12/2004 – aumento do capital social da Pactual Participações Ltda. (de agora em diante denominada Pactual Participações) de R$210.000.000,66 (de R$125.000.321,05 para R$335.000.321,71), mediante capitalização de parte dos lucros retidos na conta lucros acumulados da sociedade; • em 31/12/2005 – aumento do capital social da Pactual Participações de R$130.000.000,00 (de R$335.000.321,71 para RS465.000.320,61), mediante capitalização dos lucros detidos na reserva de lucros da sociedade; • na mesma data houve a incorporação da Pactual Participações pela investida Pactual Participações S.A. (que em 13/01/2006 passou a denominarse Nova Pactual Participações Ltda., doravante nominada de Nova Pactual); de acordo com o laudo de avaliação, o valor contábil do patrimônio líquido da incorporada (Pactual Participações) em 31/12/2005 era R$471.518.034,89 e a parcela incorporada estava avaliada em R$53.828.392,27; • em 10/02/2006, o capital social da incorporadora, já denominada Nova Pactual, foi aumentado em R$43.149.272,40 (de R$26.969.514,00 para R$70.118.786,40) mediante a emissão de 431.500.224 ações, sem valor nominal; R$10.679.119,87 foram alocados à reserva de capital; seu capital social (R$ 70.118.786,40) foi dividido em 539.375.280 ações, sendo 179.795.097 quotas com direito a voto (quotas A) e 359.580.183 quotas sem direito a voto (quotas B), no valor de R$ 0,13 cada uma. (b) Na Pactual Participações S.A.: • em 31/12/2005, como visto, a Pactual Participações S.A. incorporou a Pactual Participações Ltda; • em 13/01/2006, a Pactual Participações S.A. transformouse na Nova Pactual Participações; • em 10/02/2006, o capital social da Nova Pactual foi aumentado em R$43.149.272,40 (de R$26.969.514,00 para R$70.118.786,40); • em 13/10/2006, a Nova Pactual aumentou seu capital social (4ª Alteração do Contrato Social) em R$686.000.000,00 (de R$70.118.786,40 para R$756.118.786,40), mediante capitalização dos créditos detidos pelos sócios quotistas contra a sociedade; • na mesma data, a Nova Pactual foi incorporada por Pactual S.A.; o valor contábil do patrimônio líquido da incorporada (Nova Pactual) a ser vertido para a incorporadora (PSA), já deduzido do investimento da incorporada (Nova Pactual) na incorporadora (PSA), foi de R$33.593.148,46; o capital social da PSA foi aumentado em R$33.593.148,46, com a emissão de 15.881.552 novas ações ordinárias e 91.992.505 novas ações preferenciais, todas nominativas e sem valor nominal, com preço de emissão de aproximadamente R$0,31 por ação, a serem atribuídas aos quotistas da incorporada, em substituição das quotas por eles detidas de emissão da incorporada, que foram extintas (com base no art. 226, § 1º, da Lei n° 6.404, de 1976); o capital social da incorporadora PSA passou de R$64.248.147,47 para R$97.841.295,93, o qual ficou dividido em 137.989.757 ações, sendo 45.997.252 ações ordinárias e 91.992.505 ações preferenciais, todas nominativas e sem valor nominal. Fl. 1599DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 5 7 3 na Pactual Holdings S.A.: • em 13/10/2006, a Pactual Holdings S.A. (Pactual Holdings) aumentou seu capital social em R$202.500.000,00 (R$ 31.299.033,50 para R$ 233.799.033,50), sendo R$200.000.000,00, mediante a capitalização de créditos detidos contra a sociedade, e R$ 2.000.000,00 mediante a capitalização da reserva legal; foram emitidas 202.500.000 ações ordinárias, todas nominativas e sem valor nominal, pelo preço de emissão de R$1,00 por ação, todas subscritas pelos acionistas da companhia, na proporção de 50% para cada um; • na mesma data, a Pactual Holdings foi incorporada por PSA; o montante global do acervo líquido da sociedade, já deduzido de seu investimento na PSA a valor contábil, em 31/08/2006 foi de R$29.749.957,22; seus acionistas receberam novas ações de emissão da PSA em substituição às ações que detinham na Pactual Holdings, observada a mesma proporção de suas respectivas participações no capital social desta última; • o capital social da incorporadora PSA passou de R$34.498.190,25 para R$64.248.147,47, o qual ficou dividido em 137.989.757 ações, sendo 45.997.252 ações ordinárias e 91.992.505 ações preferenciais, todas nominativas e sem valor nominal. 4 na PSA: • em 13/10/2006, como já visto, a PSA incorporou a Pactual Holdings; o capital social da PSA, aumentou R$29.749.957,22, (de R$34.498.190,25 para R$64.248.147,47), o qual ficou dividido em 137.989.757 ações, sendo 45.997.252 ações ordinárias e 91.992.505 ações preferenciais, todas nominativas e sem valor nominal. • em 13/10/2006, a PSA incorporou a Nova Pactual, com aumento do capital social em R$33.593.148,46 (de R$64.248.147,47 para R$97.841.295,93), o qual ficou dividido em 137.989.757 ações, sendo 45.997.252 ações ordinárias e 91.992.505 ações preferenciais, todas nominativas e sem valor nominal. • em 1º/11/2006, a PSA aumentou seu capital social em R$3.862.542,92 (de R$97.841.295,93 para R$101.703.838,85), com a emissão de duas ações preferenciais, ambas nominativas e sem valor nominal, pelo preço de emissão de R$1.931.271,46 por ação, subscritas pelos acionistas André Santos Esteves e Gilberto Sayão da Silva, na proporção de uma ação para cada um, e integralizadas mediante a capitalização de créditos por eles detidos contra a sociedade. Com o aumento, o capital ficou dividido em 137.989.759 ações, sendo 45.997.252 ações ordinárias e 91.992.507 ações preferenciais; • em 03/11/2006, a PSA aumentou seu capital social em R$996.087.876,00, passando este de (R$101.698.838,85 para R$ 1.097.786.714,85), com a emissão de 996.087.876 ações, das quais 332.034,116 ordinárias e 664.053.760 preferenciais, todas nominativas sem valor nominal, pelo preço de emissão de R$1,00 por ação, totalmente subscritas pelos acionistas da companhia e integralizadas, no mesmo ato, mediante a capitalização de créditos detidos pelos acionistas contra esta, no mesmo valor do aumento de capital ora deliberado; • em 1º/12/2006, a PSA foi incorporada pelo Banco Pactual; o montante global do patrimônio líquido da PSA, a valor contábil, em 10/11/2006, foi de R$1.149.597.660,18, não havendo modificação do capital social do Banco Pactual; restou consignado em ata o cancelamento das ações de emissão do Banco Pactual de titularidade Fl. 1600DF CARF MF 8 de PSA, sendo atribuídas novas ações ordinárias do Banco Pactual aos acionistas da companhia, pessoas físicas descritas na ata, nas exatas proporções de suas respectivas participações no capital social de PSA, dentre as quais o acionista fiscalizado. A partir do último evento societário, os acionistas pessoas físicas passaram a ter participação direta no Banco Pactual, detendo as ações que, posteriormente, foram alienadas. Observase um padrão nos eventos societários descritos: após o incremento dos respectivos patrimônios líquidos das companhias em decorrência dos ajustes de equivalência patrimonial originados pelo lucro do Banco Pactual (que em 2006 praticamente dobrou seu patrimônio líquido), todas as companhias investidoras (Pactual Participações Ltda, Nova Pactual e PSA) tiveram seus lucros e reservas capitalizados e posteriormente foram incorporadas pelas suas investidas. A análise, partindo do início das operações, com foco nas empresas que foram incorporadas, chega a mesma conclusão: a) a Pactual Participações Ltda., com capital social, em 31/12/2003, de R$125.000.321,05, aumentou seu capital social em R$210.000.000,00 e R$130.000.000,00, respectivamente nos anos de 2004 e 2005; antes de ser incorporada, em 31/12/2005, pela Pactual Participações S.A., possuía patrimônio líquido de R$471.518.034,89, sendo composto de capital social de R$465.000.321,71 e de lucros acumulados R$6.517.713,18; assim, o que ainda poderia ser capitalizado seria o valor dos lucros acumulados. Na data da incorporação, o patrimônio líquido da incorporadora Pactual Participações S/A era de R$416.693.514,93; todo esse valor referiase ao investimento feito pela Pactual Participações Ltda, que naquela data, era de R$417.689.642,62. Com o patrimônio da incorporada (Pactual Participações Ltda.) vertido para a incorporadora (Pactual Participações S.A.), no valor de R$53.828.392,27, o patrimônio líquido desta passou a ser de R$471.521.034,89, praticamente o mesmo valor do patrimônio da incorporada naquela data, de R$471.518.034,89. Somente a parcela de R$6.517.713,18 poderia ser capitalizada ou distribuída a título de dividendos. No anocalendário de 2006, já com a nova denominação, a Nova Pactual Participações Ltda. teve lucro de R$420.217.358,87, que somado à parcela de R$6.517.713,18, chegase ao valor de R$426.735.072,05, que poderia ser distribuído ou capitalizado. Os dividendos distribuídos no período totalizaram R$760.712.401,33, todavia parte, R$686.000.000,00, foi utilizada para o aumento de capital, e a outra parte, R$74.712.401,33, foi efetivamente distribuída aos quotistas. Assim, a Nova Pactual Participações Ltda poderia ter capitalizado apenas R$352.022.670,72, que representa a diferença entre os valores de R$426.735.072,05 e R$ 74.712.401,33. Dessa forma, o patrimônio líquido da Nova Pactual, antes de ser incorporado, corresponderia a R$817.026.864,44 (R$ 471.521.034,89 + R$ 352.022.670,72 6.517.713,18), justamente o valor que consta em sua DIPJ. Fl. 1601DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 6 9 b) a Pactual Holdings S/A com capital social, em 31/12/2005, de R$31.299.033,50, aumentou seu capital social, no ano de 2006, em R$202.500.000. Antes de ser incorporada, em 13/10/2006, pela Pactual S.A., possuía patrimônio líquido de R$248.464.012,98, sendo composto de capital social no valor de R$233.799.033,50, reserva de capital no valor de R$9.034.410,30, reserva de lucros no valor de R$576.166,80, e lucros acumulados no valor de R$5.054.402,38; assim, o que ainda poderia ser capitalizado seria o valor total dos lucros acumulados e das reservas, no montante de R$14.664.979,48. c) em 13/10/2006, Pactual S.A. incorporou suas investidoras Nova Pactual Participações Ltda. e Pactual Holdings S.A. Nessa data, o patrimônio dessas duas sociedades representa o patrimônio da incorporadora/investida. No evento, as investidoras são extintas. Até ser incorporada pelo Banco Pactual, em 01/12/2006, a PSA continuou a auferir receitas por conta de sua participação no Banco Pactual (resultado de equivalência patrimonial); no ano de 2006, seu resultado de participação societária foi de R$618.152.606,54; isso significa que caso as investidoras tivessem operado até a data de 01/12/2006, o seu resultado de participação societária seria o mesmo da investida. todavia, a Nova Pactual e a Pactual Holdings operaram até 13/10/2006 e tiveram como resultado de participação societária, respectivamente, R$420.241.324,40 e R$117.326.018,02, totalizando R$537.567.342,42. Assim, a diferença de R$80.585.264,12 (R$618.152.606,54 R$537.567.342,42) corresponde à parcela que poderia ser capitalizada pela PSA. Dessa forma, o custo das ações alienadas, em 01/12/2006, eqüivaleria a R$ 1.146.076.141,54, que representa a soma das seguintes parcelas: • O Patrimônio Líquido da Nova Pactual Participações Ltda em 13/10/2006, no valor de R$ 817.026.864,44, conforme item "a"; • O Patrimônio Líquido da Pactual Holdings S/A em 13/10/2006, no valor de R$248.464.012,98, conforme item "b"; • O valor de R$80.585.264,12, parcela que poderia ser incorporada pela PSA, conforme item "c". Essas três parcelas, que totalizam R$1.146.076.141,54, mais ajustes no resultado, representam o patrimônio líquido da PSA, que correspondeu, em 01/12/2006, ao montante de R$1.149.610.206,41. Portanto, nos processos de incorporação houve majoração irregular no custo das ações alienadas, e o custo total dessas ações equivalem ao montante de R$1.149.610.206,41, que representa o patrimônio líquido da Pactual S/A em 01/12/2006, que detinha 100% das ações do Banco Pactual. Os fatos apresentados definem o princípio de que as ações/quotas recebidas pelo sócio/acionista, em decorrência do aumento de capital subscrito pela sociedade fundida, incorporada ou cindida, continuam sendo basicamente as mesmas de antes, ainda que qualitativamente tenha sofrido alteração. Pelo o exposto, concluise que o custo da ação alienada por cada acionista terá como base a participação de cada um deles no capital social da Pactual S/A em 01/12/2006. Fl. 1602DF CARF MF 10 Todavia, o contrato de compra e venda do Banco Pactual, na cláusula 6.13, determinava que entre a data da celebração do negócio, 09/05/2006, e a data de sua efetivação, os lucros auferidos seriam objeto de distribuição aos antigos proprietários, de tal forma que em 22/02/2007 os acionistas alienantes, àquela época exacionistas, receberam de dividendos o montante de R$290.754.000,06, correspondente aos lucros auferidos no período compreendido entre 09/05/2006 e 01/12/2006. Porém, para que pudessem ser distribuídos estes R$290.754.000,06: (a) deveriam estar incluídos no patrimônio líquido da PSA e (b) não poderia jamais haver a capitalização desses mesmos recursos financeiros. É evidente, portanto, que os R$290.754.000,06, que foram objeto de distribuição, não poderiam integrar o custo de aquisição das ações vendidas. Mesmo assim tais dividendos (R$290.754.000,06) foram distribuídos aos alienantes em 22/02/2007, proporcionalmente as suas participações individuais na PSA, conforme Ata da Reunião da Diretoria do Banco UBS Pactual S/A, de 05/02/2007, e declarações apresentadas pela empresa e pelas pessoas físicas alienantes. Essa parcela deve ser deduzida do custo de aquisição apurado, com o que se chega ao custo individualizado do alienante: NOME Nº AÇÕES PERCENTUAL DO CAPITAL SOCIAL CUSTO DAS AÇÕES ALESSANDRO MONTEIRO 34.022.332 3,00% 25.650.412,21 TOTAL 1.134.077.635 100,00% 858.876.206,35 Assim, em decorrência dessa reorganização, no período compreendido dezembro de 2005 a dezembro de 2006 (alienação do Banco Pactual), verificouse discrepância entre a evolução da riqueza da instituição financeira alienada, que aumentou 89% (de R$635.223.115,04 para R$1.200.480.531,05), e o acréscimo patrimonial do custo das respectivas ações pertencentes ao recorrente, que cresceu 385%. O aumento do custo de 89% está plenamente justificado e fundamentado no artigo 135 do Decreto 3.000, de 1999 (RIR 99). O que se contesta é o acréscimo excedente. A explicação para o aumento excedente é que o custo das ações alienadas do Banco Pactual na Declaração de Ajuste do contribuinte foi aumentado tanto na capitalização dos lucros obtidos por ganho de equivalência patrimonial da holding Nova Pactual, no valor de R$31.492.296,00, quanto na capitalização dos dividendos da sucessora e incorporadora PSA, no montante de R$29.882.639,00. O sujeito passivo (a) recebeu novas ações em troca das extintas, por ocasião da extinção da Nova Pactual, mantendo assim, em sua propriedade a mesma parcela que detinha indiretamente do Banco Pactual, entidade que concentrava a riqueza econômica e financeira do grupo empresarial, como também (b) aumentou o custo de aquisição de tais ações por meio de dividendos não distribuídos. Ocorre que os dividendos capitalizados são os mesmos, na medida em que as reservas e lucros capitalizados por Nova Pactual e PSA nada mais são do que o resultado da equivalência patrimonial do Banco Pactual. INFORMAÇÕES PRESTADAS PELO CONTRIBUINTE As repostas do contribuinte ao termo de início de fiscalização foram consolidados na seguinte planilha: Fl. 1603DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 7 11 Tabela 1 Valores em R$ 1) Quantidade de ações alienadas 34.022.332 2) Data da alienação 01/12/2006 3) Valor recebido da alienação 2006 61.138.205,50 4) Valor recebido Total 157.308.613,84 5) Percentual recebido 38,8651% 6) Custo das ações alienadas 77.333.247,52 7) Custo das ações alienadas referentes à parcela recebida [77.333.247,52 x 38,8651%] 30.055.643,98 8) Ganho de capital 2006 31.082.561,52 9) IR sobre o ganho de capital [ 15% ] (Valor pago em 2006) 4.662.380,14 10) Custo das ações alienadas diferido [valor correspondente à parcela a ser recebida em 2011 a principio] 47.277.603,54 11) Valor Recebido em 2009 71.170.459,38 12) Ganho de Capital Apurado pelo fiscalizado 36.175.944,50 13) IR sobre o ganho de capital (15%) (Valor pago em 2009) 5.426.391,68 De acordo com o contribuinte, o custo das ações alienadas apresentou a seguinte composição: SOCIEDADES Custo das quotas/ações em 31.12.2005 (R$) Lucros/dividendos capitalizados em 2006 (R$) Custo das quotas/ações acumulado em 1º.12.2006 (R$) Nova Pactual 15.958.462,52 31.492.296,00 47.450.758,52 Pactual S/A 29.882.639,00 29.882.639,00 TOTAL 15.958.462,52 61.374.785,00 77.333.397,52 A DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL SIMPLIFICADA DA PESSOA FÍSICA Na declaração de ajuste anual simplificada (DAA) de 2007, anocalendário 2006, o recorrente declarou a tributação exclusiva na fonte do ganho de capital apurado em razão da venda de suas ações do Banco Pactual em 2006, bem como os dividendos recebidos das pessoas jurídicas extintas na reorganização societária, utilizados na composição do custo das referidas ações vendidas: 31.12.2006 ﴾em R$﴿ Rendimentos isentos e não tributáveis 64.162.983,57 Rendimentos sujeitos à tributação exclusiva definitiva 28.733.899,14 Lucros e dividendos recebidos 63.420.525,05 Consta do demonstrativo da apuração dos ganhos de capital dessa DAA a venda de 34.022.332 ações do Banco Pactual, ao custo médio ponderado/unitário de R$1,0168834 por ação. Assim, em 2006 o contribuinte, cumulativamente: (a) aumentou o custo das ações do Banco Pactual, mediante capitalização de lucros nas holdings a serem incorporadas, montante de R$61.374.785,00, sendo R$31.492.296,00 na Nova Pactual e R$29.882.639,00 na PSA e (b) recebeu rendimentos isentos decorrentes do recebimento de lucros/dividendos destas mesmas sociedades, no valor de R$64.162.983,57. A GLOSA DE CUSTOS DAS AÇÕES DO BANCO PACTUAL Como referido, foi apurado custo total das ações de R$858.876.206.35, ao qual se chegou diminuindo os R$290.734.000,06, distribuídos a título de dividendos, do valor Fl. 1604DF CARF MF 12 do patrimônio líquido da PSA, R$1.149.610.206,41. Destes, o contribuinte possuía 3%, ou seja, R$25.650.412,21, custo de aquisição de suas ações no Banco Pactual. Com base no exposto, foi considerado indevido o acréscimo no custo das ações do Banco Pactual alienadas, no valor de R$51.682.835,31, sendo o valor do custo das ações reduzido de R$77.333.247,52 para R$25.650.412,21. Eis o demonstrativo do ganho de capital: Tabela 3 DEMONSTRATIVO DO GANHO DE CAPITAL Data da alienação 01.12.06 Quantidade de ações ordinárias nominativas alienadas. 34.022.332 Valor da alienação R$157.308.613,84 Custo de aquisição das ações do Banco Pactuai S/A. R$25.650.412,21 Ganho de capital (total) R$131.658.201,63 Valor recebido pela venda em 2006 (38,8651%) R$61.138.205,50 Custo das ações correspondente à parcela recebida (38,8651% x RS 25.650.412,21) R$9.969.058,35 Ganho de capital correspondente à parcela recebida em 2006 R$51.169.147,15 Valor do IR devido (15% x R$ 11.088,027,90) R$7.675.372,07 Valor do I R apurado pelo sujeito passivo de acordo com o programa de ganho de capital da Receita Federal. RS4.662.380,14 Diferença sobre o IR devido em 2006 R$ 3.012.991,03 Valor recebido pela venda em 2009 (45,2425%) R$71.170.459,38 Custo das ações correspondente à parcela recebida em 2009 (45,2425% x R$ 25.650.412,21) R$11.604.887,74 Ganho de capital correspondente à parcela recebida em 2009 R$ 59.565.571,64 Valor do IR devido (15% x R$ 59.565.571,64) R$ 8.934.835,74 Valor do IR apurado pelo sujeito passivo de acordo com o programa de ganho de capital da Receita Federal. R$5.426.391,6"8 Diferença sobre o IR devido em 2009 R$ 3.508.444,06 Dessa forma, o Ganho de Capital total correspondeu ao valor de R$131.658.201,63. Calculase, assim, o montante do Imposto de Renda incidente sobre o Ganho de Capital. Tabela 4 DIFERENÇA DO GANHO DE CAPITAL APURADO em 2006 Ganho de capital apurado pela fiscalização R$51.169.147,15 Ganho apurado pelo contribuinte R$31.082,534,27 Diferença R$ 20.086.612,88 x Alíquota 15% Imposto sobre a diferença R$3.012.991,93 Tabela 4 DIFERENÇA DO GANHO DE CAPITAL APURADO em 2009 Ganho de capital apurado pela fiscalização R$59.565.571,64 Ganho apurado pelo contribuinte R$36.175.944,53 Diferença R$ 23.389.627,11 x Alíquota 15% Imposto sobre a diferença R$ 3.508.444,06 FINAL DA TRANSCRIÇÃO DO RELATÓRIO DA AÇÃO FISCAL PRECEDENTE, PROCESSO 12448.735988/201112. INFRAÇÕES APURADAS NO PRESENTE PROCEDIMENTO FISCAL OMISSÃO DE GANHOS DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES Fl. 1605DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 8 13 Conforme reproduzido, apurouse que o custo de aquisição da totalidade das ações do Banco Pactual S/A. alienadas pelo contribuinte foi de R$25.650.412,21. a) PARCELAS RECEBIDAS NO ANO CALENDÁRIO DE 2010; Em sua declaração de ajuste referente ao exercício 2011/anocalendário 2010, o contribuinte declarou o ganho de capital correspondente às duas parcelas recebidas em março/2010 e setembro /20I0, cujos cálculos estão reproduzidos a seguir: Mês Valor Recebido Custo de aquisição declarado Ganho de capital declarado Imposto Declarado e pago Março 5.618.720,48 2.762.724,86 2.855.995,62 428.399,34 Setembro 5.618.720,48 2.762.724,86 2.855.995,62 428.399,34 Total 11.237.440,96 5.525.449,72 5.711.991,24 856.798,68 O custo de aquisição considerado pelo contribuinte é diferente do custo de aquisição apurado pela fiscalização. A diferença do ganho de capital apurada e do imposto decorrente da aplicação da alíquota de 15% sobre o ganho de capital estão expostos na tabela a seguir: Mês Valor Recebido % do Valor de Venda total (R$ 157.308.613,84) (A) Custo de aquisição apurado (B = A * R$ 25.650.412,21) Ganho de Capital apurado (C = A B ) Março 5.618.720,48 3,5718% 916.176,76 4.702.543,72 Setembro 5.618.720,48 3,5718% 916.176,76 4.702.543,72 Total 11.237.440,96 7,1436% 1.832.353,52 9.405.087,44 Mês Ganho de capital (C) Imposto apurado (D= 15% xC ) Imposto Recolhido (E) Diferença a Recolher (D E) Março 4.702.543,72 705.381,56 428.399,34 276.982,22 Setembro 4.702.543,72 705.381,56 428.399,34 276.982,22 Total 9.405.087,44 1.410.763,12 856.798,68 553.964,44 b) ANO CALENDÁRIO DE 2011; Em sua declaração de ajuste referente ao exercício 2012/anocalendário 2011, o contribuinte declarou o ganho de capital correspondente às duas parcelas recebidas em março/2011 e julho/2011 cujos cálculos estão reproduzidos a seguir: Mês Valor Recebido Custo de aquisição declarado Ganho de capital declarado Imposto declarado e pago Março 5.618.720,48 2.762.724,86 2.855.995,62 428.399,34 Julho 5.618.720,48 2.762.724,86 2.855.995,62 428.399,34 Total 11.237.440,96 5.525.449,72 5.711.991,24 856.798,68 O custo de aquisição considerado pelo contribuinte é diferente do custo de aquisição apurado pela fiscalização. A diferença do ganho de capital apurada bem como o imposto decorrente da aplicação da alíquota de 15% estão expostos na tabela a seguir: Mês Valor Recebido % do Valor de Venda total (R$ 157.308.613,84) (A) Custo de aquisição apurado (B = A * R$ 25.650.412,21) Ganho de Capital apurado (C A B) Março 5.618.720,48 3,5718% 916.176,76 4.702.543,72 Julho 5.618.720,48 3,5718% 916.176,76 4.702.543,72 Total 11.237.440,96 7,1436% 1.832.353,52 9.405.087,44 Mês Ganho de capital (C) Imposto apurado Imposto Diferença a Fl. 1606DF CARF MF 14 (D= 15% xC ) Recolhido (E) Recolher (D E ) Março 4.702.543,72 705.381,56 428.399,34 276.982,22 Julho 4.702.543,72 705.381,56 428.399,34 276.982,22 Total 9.405.087,44 1.410.763,12 856.798,68 553.964,44 Em resumo, a fiscalização, apurou diferenças entre os valores de IR declarados e os efetivamente devidos sobre o ganho de capital correspondentes às parcelas remanescentes recebidas pelo contribuinte nos anos calendários de 2010 e 201, como demonstrado a seguir: Ano Mês Valor a Recolher Valor Recolhido Diferença a Recolher 2010 Março 705.381,56 428.399,34 276.982,22 2010 Setembro 705.381,56 428.399,34 276.982,22 2011 Março 705.381,56 428.399,34 276.982,22 2011 Julho 705.381,56 428.399,34 276.982,22 Total 2.821.526,24 1.713.597,36 1.107.928,88 Esses valores foram objeto de lançamento em Auto de infração. QUALIFICAÇÃO DA MULTA A multa foi qualificada por entender a fiscalização que os fatos narrados demonstraram o intuito de reduzir o imposto devido através da majoração do custo de suas ações. CONCLUSÃO O crédito tributário apurado foi de R$3.084.030,83, sendo R$1.107.928,88 de imposto, R$314.208,63 de juros e R$1.661.893,32 de multa proporcional passível de redução. IMPUGNAÇÃO Na impugnação, foram alegadas, em síntese (efls. 1200 a 1254) as razões a seguir descritas (assumo como meu, neste tópico, o relatório do acórdão recorrido): Em relação à decadência do direito de lançar, discorre o impugnante que: No caso do IMPUGNANTE, a alienação das ações do BANCO ocorreu em 01.12.2006; logo, como decorridos mais de 7 anos entre esta data e a data da ciência do AUTO, em 11.02.2014, o crédito tributário nele lançado está extinto por decadência. É irrelevante, para fins de contagem do prazo decadencial, que o pagamento do preço de venda tenha sido feito de forma parcelada ou à vista. O fato gerador do IRPF sobre ganho de capital, reiterese, é a operação que importa na alienação de bens e direitos; no caso, a celebração do contrato de compra e venda ocorrida em 01.12.2006, e não o recebimento de parcelas do preço pelo IMPUGNANTE. Tal conclusão é confirmada pelo art. 140 do RIR e pelo art. 31 da Instrução Normativa SRF ("IN") n° 84, de 11.10.2001, que expressamente dispõem que, nas alienações a prazo, o ganho Fl. 1607DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 9 15 de capital é apurado como se a venda fosse à vista. Os dispositivos acima mencionados são do seguinte teor: "Art. 140. Nas alienações a prazo, o ganho de capital deverá ser apurado como venda à vista e tributado na proporção das parcelas recebidas em cada mês, considerandose a respectiva atualização monetária, se houver (Lei n° 7.713, de 1988, art. 21). § 1° Para efeito do disposto no caput, deverá ser calculada a relação percentual do ganho de capital sobre o valor de alienação que será aplicada sobre cada parcela recebida. § 2° O valor pago a titulo de corretagem poderá ser deduzido do valor da parcela recebida no mês do seu pagamento. (...)" "Art. 31. Nas alienações a prazo, o ganho de capital é apurado como se a venda fosse efetuada à vista e o imposto é pago periodicamente, na proporção da parcela do preço recebida, até Oúltimo dia útil do mês subseqüente ao do recebimento. Parágrafo único. O imposto devido, relativo a cada parcela recebida, é apurado aplicandose: 1 o percentual resultante da relação entre o ganho de capital total e valor total da alienação sobre o valor da parcela recebida; II a alíquota de quinze por cento sobre o valor apurado na forma do inciso I." Tratase de fato gerador instantâneo, no qual o tributo é devido no momento em que o sujeito passivo pratica a conduta típica (alienação do bem ou direito); no caso, a venda das ações do BANCO, através do contrato de 2006. Por fim, no momento da lavratura do AUTO/2011 (26.10.2011), o IMPUGNANTE já havia recebido todas as parcelas a que tinha direito pela alienação dos seus investimentos no BANCO; portanto, o IRPF incidente sobre o ganho decorrente da operação já poderia ter sido integralmente exigido pela fiscalização no AUTO/2011. A lavratura do AUTO para exigir o IRPF que poderia ter sido exigido já no AUTO/2011 configura verdadeira revisão de lançamento tributário, o que, nos termos do parágrafo único do art. 149 do CTN, só pode ser feita enquanto não extinto o direito do fisco de constituir o crédito tributário. Como o AUTO só foi lavrado em 07/02/2013, mais de 7 anos após a ocorrência do fato gerador, ainda que se considere legitimo o AUTO/2011, já caducou o direito de a fiscalização revisar o lançamento e, consequentemente, de exigir o IRPF com relação às parcelas residuais recebidas pelo IMPUGNANTE em 2010 e 2011. Fl. 1608DF CARF MF 16 Em relação ao Auto de Infração, aduz o impugnante, em síntese que: Antes da reestruturação, o impugnante era titular de investimentos representativos de 2,18% da Nova Pactual Participações Ltda (NPP), sociedade holding titular de investimentos representativos de 78,18% do capital de Pactual S.A. (PSA), também uma sociedade holding e titular de investimentos representativos de 100% do capital do Banco Pactual. Os demais 21,82% do capital social da NPP eram de propriedade de Pactual Holdings S.A., sociedade holding na qual o Impugnante não tinha qualquer participação. Após a implementação da reestruturação, o Impugnante considerou que o custo de seus investimentos no Banco Pactual passou a ser de R$ 77.333.247,52 e esse foi o valor utilizado como base para a quantificação de seu ganho de capital. O Auto de Infração indica, como enquadramento legal, uma série de dispositivos que apenas contêm regras gerais relativas à apuração e à tributação dos ganhos de capital auferidos por pessoas físicas, entretanto, não há a indicação do dispositivo legal que teria sido infringido, o que nem poderia ser feito, pois os efeitos da reestruturação decorreram justamente da aplicação dos dispositivos legais em vigor. Em relação às operações que precederam a venda do Banco Pactual e do propósito das mesmas, afirma o impugnante, em síntese, que: O Grupo Pactual era composto por três holdings, existentes há mais de 10 anos e constituídas em uma época em que os acionistas sequer cogitavam alienar seus investimentos no Banco Pactual. Os objetivos das holdings eram exclusivamente os de organizar o exercício do controle do Banco Pactual e propiciar uma distribuição adequada de seus resultados. Dessa forma, a alienação do Banco Pactual a terceiros faria com que as holdings se tornassem totalmente desnecessárias. O caminho trilhado pelos acionistas para se tornarem vendedores do Banco Pactual foi o mais lógico, rápido e econômico dentre todos disponíveis, sendo o acréscimo do custo de seus investimentos mera consequência de aplicação das normas em vigor. Havia algumas opções para a realização do negócio diretamente pelos acionistas, tendo sido a opção pela incorporação reversa das holdings pelo Banco Pactual a mais conveniente do ponto de vista prático, operacional, negocial e fiscal. Desde que o art. 8° da Lei n° 9.532/1997 definiu os efeitos fiscais das incorporações inversas, as incorporações de holdings têm sido a primeira opção para a eliminação de empresas cuja existência se torna desnecessária. A rapidez com que as holdings foram eliminadas bem demonstra a eficiência da opção adotada pelos acionistas. Fl. 1609DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 10 17 Assim, não procede a assertiva constante do TVF de que a Reestruturação foi realizada com o objetivo de ser utilizada pelos acionistas para aumentar indevidamente o custo de aquisição de seus investimentos no Banco Pactual. Em relação aos efeitos das incorporações inversas, assevera o impugnante, em resumo, que: A Lei n° 6.404/1976 (LSA) define, em seu art. 227, a incorporação como a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações. Como regra, cabe à incorporadora aumentar seu capital social, sendo o aumento realizado pelo patrimônio líquido da incorporada e tocando aos acionistas desta última as ações representativas desse aumento de capital (art. 224, inciso I). A incorporadora recebe um conjunto patrimonial e paga aos acionistas da incorporada pelo mesmo, em ações representativas do aumento de seu capital. Não se apuram resultados na substituição de ações da incorporada por ações da incorporadora e, por essa razão, as ações da incorporadora recebidas pelos acionistas da incorporada tem o mesmo custo de seus investimentos na incorporada, declarados extintos na incorporação. O conjunto patrimonial destinado à realização do aumento de capital corresponde à diferença entre o valor dos ativos e das obrigações da incorporada, isto é, ao seu patrimônio líquido. A parcela do patrimônio líquido da incorporada representada por lucros ou reservas de lucro, por exemplo, transformase em capital da incorporadora no processo de incorporação. Por essa razão, é indiferente que, antes da incorporação, os lucros da incorporada sejam ou não capitalizados. Nas incorporações inversas, a capitalização de lucros das incorporadas nos processos de incorporação por vezes não é perceptível de imediato, pois pode ocorrer de o capital da incorporadora permanecer o mesmo antes e depois da operação. Com efeito, tomeWe, por exemplo, situação em que: (i) a incorporadora/controlada tenha sido constituída no ano I, com o capital de RS 100.000,00; (ii) sua única acionista seja a incorporada/controladora, uma empresa sem nenhum passivo cujo único ativo sejam os investimentos na incorporadora/controlada (R$ 100.000,00); (iii) a incorporadora/controlada tenha auferido lucros de R$ 50.000,00 e promovido a capitalização dos mesmos. Na incorporação, caberia à incorporadora/controlada aumentar seu capital em R$ 150.000,00 (valor de patrimônio líquido da incorporada/controladora), atribuindo as ações representativas desse aumento aos acionistas da incorporada/controladora; em contrapartida desse aumento, os ativos da incorporada/controladora seriam transferidos à incorporadora/controlada mas, como a legislação brasileira Fl. 1610DF CARF MF 18 não confere às ações representativas do capital da própria emitente a natureza de um ativo, as referidas ações seriam declaradas extintas e o capital social da incorporadora/controlada permaneceria inalterado. Assim, a situação patrimonial da incorporadora/controlada seria exatamente a mesma, antes e depois da incorporação. Mesmo quando o capital da incorporadora/controlada permanece inalterado após a incorporação, ocorre aumento de seu capital e desaparecem as contas que refletem os lucros e reservas da controladora/incorporada, cuja capitalização seria apta a gerar acréscimo de custo para seus acionistas. Antes da incorporação, os acionistas da investidora/incorporada seriam titulares de ações de empresa apta a distribuir dividendos no valor de R$ 50.000,00, quando tivesse disponibilidades de caixa, e em condições de capitalizar seus lucros, elevando para RS 150.000,00 o custo dos investimentos. Com a incorporação da investidora/incorporada, seus acionistas passariam a participar de empresa (a investida/incorporadora) sem lucros disponíveis e com capital social de RS 150.000,00. Assim, se o custo dos investimentos dos acionistas da investidora/incorporada não fosse elevado para R$ 150.000,00, eles perderiam, com a incorporação, a oportunidade de receber dividendos ou mesmo bonificações que possibilitassem o aumento do custo de seus investimento até o montante do patrimônio líquido da invertida/incorporadora; ou seja, se o custo não fosse ajustado, o acionista passaria a registrar um deságio nos seus investimentos. Esse fato evidencia, por si só, a ocorrência da capitalização dos lucros das incorporadas nos processos de incorporação e justifica o ajuste do custo dos investimentos dos acionistas da incorporada, com base no § único do art. 130 ou no art. 135 do RIR. Não fosse a distribuição e capitalização prévia de lucros, a incorporação faria com que as quotas da incorporadora (Pactual S.A.), destinadas aos quotistas da Nova Pactual Participações Ltda em substituição de suas participações na mesma, fossemlhes atribuídas na proporção do capital social, fazendo com que os lucros acumulados até então fossem distribuídos também nesta proporção. Os lucros de Nova Pactual foram distribuídos em bases desproporcionais e reaplicados na empresa, acertando as participações dos acionistas no patrimônio líquido antes da incorporação. O capital de Participações foi aumentado em R$ 686.000.000,00, mediante a conversão de créditos detidos por seus quotistas, créditos estes decorrentes do direito ao recebimento de lucros e, como nela se observa, a capitalização dos referidos lucros gerou significativa alteração nos percentuais de participações dos acionistas no capital da referida empresa. Fl. 1611DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 11 19 As capitalizações de lucros verificadas antes das incorporações não representaram mero artifício para elevação do custo dos investimentos dos acionistas, pois (i) essa elevação ocorreria independentemente da capitalização prévia dos lucros e, no caso concreto, (ii) era essencial à adequada distribuição dos lucros de Participações. Em relação aos efeitos ao aumento do custo resultante da reestruturação, discorre o impugnante, em abreviação, que: Nas incorporações inversas, os acionistas da incorporada recebem ações da incorporadora por custo idêntico ao das ações da incorporada por eles detidas. Por outro lado, ocorre capitalização de lucros ou reservas eventualmente existentes na incorporada, passando o novo custo de aquisição das ações dos acionistas da incorporada a corresponder ao valor original de seu investimento, acrescido do montante dos lucros e reservas de lucros da incorporada, capitalizados no processo de incorporação. O aumento do custo de aquisição dos investimentos do Impugnante no Banco Pactual se verificaria, quer houvesse deliberação expressa e específica no sentido da capitalização dos lucros das holdings como houve quer não. Em se tratando da alienação de quotas ou ações e em sendo o alienante uma pessoa física, o custo de aquisição corresponde ao custo original do investimento acrescido do montante dos lucros e reservas de lucros capitalizados, nos termos do § 1° do art. 130 e do art. 135 do RIR. A legislação em vigor prevê que a capitalização de lucros gera acréscimo de custo para os acionistas pessoas físicas, sem cogitar da natureza do lucro. O ajuste do custo dos investimentos do Impugnante decorre da aplicação da lei e não há como rejeitálo. A Fiscalização limitase a alegar que houve uma interpretação incorreta do art. 135 do RIR, por parte do Impugnante. Isso evidencia que, na verdade, o Auto baseiase no inconformismo da Fiscalização quanto às consequências que a aplicação da lei trouxe no caso concreto. As distorções apresentadas através dos quadros demonstrativos do TVF decorrem do texto da lei. De certa forma, a própria fiscalização reconhece esse fato, quando, para demonstrar a distorção, apresenta exemplos elaborados rigorosamente a partir da aplicação da lei. Os ganhos de equivalência patrimonial integram o resultado do exercício da investidora, e, conforme estabelece o §6° do art. 202 da LSA, os lucros do exercício devem ser integralmente distribuídos, ressalvada a possibilidade de serem retidos, nos termos dos arts. 193 a 197 da mesma lei. Fl. 1612DF CARF MF 20 A opção de eliminaremse holdings mediante incorporações reversas era o caminho lógico, natural e admitido por lei para viabilizar a venda das ações do BANCO pelos ACIONISTAS e o aumento do custo das ações do IMPUGNANTE foi mera conseqüência da adoção dessa opção, legítima e essencial à realização do negócio, digase de passagem. O art. 22 da Lei n° 9.249/95, admite que, nas extinções de pessoas jurídicas, os bens de sua propriedade sejam restituídos a seus sócios ou acionistas pelos correspondentes valores contábeis. Não cabe à fiscalização deixar de aplicar a lei por considerar que ela gera distorções injustificáveis. O 1° Conselho de Contribuintes já decidiu que "a existência de falhas na legislação" não pode ser suprimida pelo julgador, ou, ainda, que "não cabe à autoridade fiscal ignorar o preceito representativo da vontade do legislador". Os efeitos da aplicação do art. 135 do RIR/99 ao caso concreto não podem ser neutralizados por meio de sua mera interpretação; uma alteração legislativa se impõe. Em relação aos efeitos à nulidade do auto por ter arbitrado o ganho de capital, afirma o impugnante, em síntese, que: O custo original dos investimentos do IMPUGNANTE em PARTICIPAÇÕES era de R$ 15.958.462,52, tendo sido por ele ajustado em duas oportunidades: (a) na primeira delas, quando ocorreu a capitalização de lucros de PARTICIPAÇÕES, empresa na qual o IMPUGNANTE tinha investimentos diretos mesmo antes da REESTRUTURAÇÃO; essa capitalização de lucros gerou um acréscimo de custo para o IMPUGNANTE no valor de R$ 31.492.296,00; e (b) na segunda, quando ocorreu a capitalização de lucros da PACTUAL, ou seja, da empresa que veio a incorporar PARTICIPAÇÕES; esse aumento de capital gerou novo acréscimo de custo para o IMPUGNANTE, desta feita no valor de R$ 29.882,639,00. Como já demonstrado, para efeitos de quantificação de ganhos e perdas de capital, o montante dos lucros capitalizados somase ao custo dos investimentos a que correspondem, ainda que tais lucros tenham decorrido do reconhecimento de ganhos decorrentes da aplicação do MEP. Assim, após a capitalização dos lucros existentes em PARTICIPAÇÕES, o custo dos investimentos do IMPUGNANTE atingiu R$ 47.450.758,52 (custo original do investimento acrescido das bonificações provenientes de PARTICIPAÇÕES). Esse é, pois, o valor que deveria ter servido de ponto de partida para quantificação do ganho de capital auferido na venda das ações do BANCO, caso os efeitos da REESTRUTURAÇÃO fossem negados. Notese que, mesmo que tivesse ocorrido um processo de "incorporações tradicionais", e não reversa, ou mesmo que PARTICIPAÇÕES houvesse sido vendida a UBS BRASIL, os R$ 47.450,758,52 acima referidos corresponderiam ao custo mínimo dos investimentos do IMPUGNANTE; mas não é isso Fl. 1613DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 12 21 que ocorre no AUTO. Os lucros capitalizados por PARTICIPAÇÕES, empresa na qual o IMPUGNANTE tinha investimentos diretos, assim como o custo original de seus investimentos foram simplesmente desconsiderados na determinação de seu ganho de capital. Assim, autonomamente aos argumentos já apresentados os quais demonstram claramente que a autuação não pode prosperar o AUTO também não pode ser mantido em razão do método utilizado pela autoridade fiscal para apurar o custo dos investimentos do IMPUGNANTE no BANCO, que configurou verdadeiro arbitramento na apuração do ganho de capital. Os ganhos de capital resultam do confronto do preço de alienação do bem com o seu respectivo custo de aquisição. Em se tratando de participações societárias, as quotas ou ações recebidas em razão da capitalização de lucros têm custo específico, qual seja, o montante do lucro capitalizado que corresponder ao sócio ou ao acionista, conforme disposto no art. 135 do RIR. A metodologia adotada pela autoridade fiscal inovou ao arbitrar o custo de aquisição do IMPUGNANTE ignorando completamente o art. 135 do RIR/99. Como visto, em total desacordo com o texto normativo, a fiscalização desconsiderou tanto o custo inicial do IMPUGNANTE quanto as capitalizações de lucros em PARTICIPAÇÕES e PACTUAL, tratando como custo do investimento o valor decorrente da aplicação do percentual da participação indireta do IMPUGNANTE no BANCO no patrimônio liquido ajustado de PACTUAL. Com efeito, a fiscalização sustenta, no TVF, que o custo das ações do BANCO vendidas pelos ACIONISTAS deveria ser definido com base no valor do capital de PACTUAL (praticamente idêntico ao valor de seu patrimônio líquido), dele expurgada uma parcela dos lucros do BANCO que, por força do contrato de venda de suas ações seria distribuída aos ACIONISTAS, em razão de usufruto então constituído. Vale dizer, a fiscalização arbitra o custo de aquisição dos investimentos do IMPUGNANTE, observandose um critério sem qualquer base legal. Notese, em especial, que a participação indireta do IMPUGNANTE no BANCO antes da REESTRUTURAÇÃO era de 2,15%. Assim, para atingir a participação de 3,00% do capital do BANCO, existente à época da alienação, foi destinada ao IMPUGNANTE uma participação correspondente a praticamente 4,59%. Assim, autonomamente aos argumentos já apresentados os quais demonstram claramente que a autuação não pode prosperar o AUTO também não pode ser mantido em razão do método utilizado pela autoridade fiscal para apurar o custo dos investimentos Fl. 1614DF CARF MF 22 do IMPUGNANTE no BANCO, que configurou verdadeiro arbitramento na apuração do ganho de capital. Isto é, essa parcela dos lucros que o RECORRENTE recebeu e capitalizou em PARTICIPAÇÕES, incontestavelmente apta a gerar acréscimo de custo para o IMPUGNANTE, foi desconsiderada. E, como os resultados eram distribuídos desproporcionalmente, ao arbitrar o custo do IMPUGNANTE, a fiscalização não poderia, simplesmente, eliminar os efeitos desta distribuição desproporcional de lucros. Vêse, então, que a fiscalização simplesmente (i) desprezou o custo de aquisição original do investimento do IMPUGNANTE; (ii) ignorou os valores dos lucros legal, como se o custo de aquisição, na alienação das ações por parte do IMPUGNANTE, fosse o valor resultante da aplicação do seu percentual de participação na empresa vendida sobre o patrimônio liquido contábil ajustado da sua controladora direta sequer existente à época, tendo em vista a incorporação de PACTUAL pelo BANCO, reduzido dos valores pagos ao IMPUGNANTE no ano seguinte à alienação, a titulo de usufruto. Ironicamente, o fiscal autuante sustenta que capitalização de lucros derivados da aplicação do MEP não é uma operação apta a gerar acréscimo de custo para a pessoa física, mas, ao final, na hora de quantificar o imposto que supostamente seria devido pelo IMPUGNANTE, criou sem qualquer base legal uma sistemática até certo ponto equivalente ao MEP, mas para pessoas físicas. Ora, pessoas físicas não têm contabilidade, e em muito menos a obrigação de registrar os seus investimentos com base no MEP; elas sequer têm conhecimento, na maioria dos casos, do valor de patrimônio liquido de seus investimentos. O critério para a apuração do custo a ser adotado pelas pessoas físicas é aquele previsto no art. 135 do RIR/99, qual seja, somar os valores de todo e qualquer lucro (gerado a partir de 1996) que seja capitalizado. A lavratura do auto de infração não se coaduna com o referido art. 135, e mais: não se coaduna com nenhum outro dispositivo legal. É mera tentativa de se corrigir distorção econômica que a lei não considerou relevante. Assim, mesmo que fosse dado aos tribunais administrativos deixar de aplicar a lei em razão de distorções econômicas que ele poderia gerar, o AUTO é improcedente. Em relação à inexistência de fraude de abuso de direito, afiança o impugnante, em resumo, que: Depreendese do Auto que a fraude não estaria presente em ato específico, mas sim no resultado que, com a Reestruturação, o impugnante procurou atingir, qual seja, uma injustificada redução do montante do imposto a pagar. A Reestruturação não foi realizada com esse propósito específico e seria levada a efeito, independentemente da economia fiscal que dela decorreu. O Auto não nega efeitos à Fl. 1615DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 13 23 Reestruturação, apenas rejeita um dos efeitos fiscais, qual seja, o cômputo no custo dos investimentos dos lucros capitalizados por Participações. Assim, não há que se falar em fraude à lei, abuso de forma ou ilícito semelhante, mas sim em aplicação inadequada das normas legais que versam sobre a determinação do custo de investimentos, para efeitos de determinação de ganhos de capital. Mesmo que os atos fossem praticados com abuso de direito, não poderiam ser classificados como fraudulentos e qualificados como ilícitos de natureza penal, pois para que haja abuso de direito os atos que sejam assim classificados devem observar a legislação em vigor. Se não observaram, o ilícito será de outra natureza. Em 2001, a RFB reconheceu publicamente que a legislação em vigor não lhe oferecia armas para combater o planejamento fiscal, o que levou o Congresso a publicar a Lei Complementar 104/2001 que introduziu no CTN o parágrafo único do art. 116, que depende ainda de regulamentação. O escopo das referidas normas foi atingir atos que, embora lícitos, fossem praticados com abuso de forma ou de direito. Aqueles praticados com observância da lei, mas com abuso de forma não podem ser rejeitados pela fiscalização, na medida em que a norma que lhe atribui esse poder ainda carece de regulamentação ou pelo menos não representam fraude ou simulação. Não há no TVF, elemento que possa caracterizar a alegada fraude. Questiona o impugnante: onde está a informação falsa oferecida à fiscalização? Onde está a omissão quanto a fato que deveria ser obrigatoriamente declarado à fiscalização? Também não á ui i única indicação de que os atos praticados foram ilógicos ou menos convenientes, em termos negociais, do que outros. O único ponto suscetível de comportar discussão está na aplicação das regras do art. 130 e 135 do RIR. Se permanecer o entendimento de que o referido dispositivo legal não engloba a capitalização de lucros derivados da aplicação da MEP, o custo dos investimentos do impugnante no Banco foram superdimensionados, mas apenas por equívoco na interpretação da lei. Mas alegar que a Reestruturação foi concebida com evidente intuito de fraude é um absurdo. Jamais se poderia ver fraude em procedimentos com as características da Reestruturação. Transcreve o Impugnante doutrina a respeito da matéria e destaca, por fim, que a participação do impugnante era extremamente reduzida, não tendo ele votos suficientes para fazer com que a Reestruturação ocorresse dessa ou daquela forma. Fl. 1616DF CARF MF 24 Não se alegue que a mera intenção do sujeito passivo de obter economia tributária caracterizaria "dolo" capaz de deflagrar a multa qualificada. A participação do impugnante era extremamente reduzida, não tendo ele votos suficientes para fazer com que a Reestruturação ocorresse dessa ou daquela forma. Em relação à inaplicabilidade da multa qualificada, assevera o impugnante, em síntese, que: A aplicação da multa de 150% só justificase quando há evidente intuito de fraude, ou seja, quando o contribuinte age de máfé e com claro propósito de violar conscientemente a lei. A jurisprudência administrativa reserva a multa majorada apenas para casos em que haja tentativas de enganar, esconder, iludir a fiscalização. (Apresenta uma série de exemplos de acórdãos) Por outro lado, jurisprudência administrativa é uníssona em rejeitar a qualificação da multa quando não for demonstrada pela autoridade fiscal, com precisão, a existência de falsidade ou omissões que a justifiquem. São citadas a Súmula n° 14 do Carf e diversas decisões proferidas pelo órgão administrativo. Assim, tendo em vista que a fiscalização não comprovou e sequer apontou um único ato praticado pelo impugnante que pudesse configurar a fraude, fica evidente que não se verificaram no caso concreto os pressupostos para aplicação da multa qualificada. Se o impugnante acreditava e acredita que a lei permitia a elevação do custo de seus investimentos, seu procedimento, ainda que equivocado, não denota consciente intuito de fraude. Em relação aos juros sobre a multa, aduz o impugnante, em abreviação, que: É descabida a incidência de juros sobre a multa porque isso implicaria numa indireta majoração da própria penalidade e não se pode falar em mora na exigência de multa. O pedido consistiu em julgar improcedente o auto de infração, com a extinção do crédito tributário dele decorrente. DECISÃO RECORRIDA A DRJ julgou a impugnação improcedente em acórdão que recebeu as seguintes ementas: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2011, 2012 ENQUADRAMENTO LEGAL GENÉRICO. Fl. 1617DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 14 25 O fato de constarem do auto de infração vários dispositivos legais concernentes a aspectos gerais relativos à tributação dos rendimentos de ganho de capital não macula o lançamento, quando restar caracterizado que não houve prejuízo ao contribuinte, seja porque a descrição da infração lhe possibilita ampla defesa, seja porque a impugnação apresentada revela pleno conhecimento da infração imputada. GANHO DE CAPITAL. FATO GERADOR. ALIENAÇÃO A PRAZO. DECADÊNCIA. O fato gerador do IRPF incidente sobre o ganho de capital, no caso de alienação a prazo, somente se completa quando do efetivo recebimento do valor referente à venda do bem ou direito, momento a partir do qual se inicia a contagem do prazo decadencial para o lançamento do crédito tributário, exceto no caso de dolo, fraude ou simulação, em que a contagem do prazo decadencial tem início no primeiro dia do exercício subsequente àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. CAPITALIZAÇÃO DE LUCROS E RESERVAS. MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. IMPOSSIBILIDADE DE MÚLTIPLO PROVEITO DO MESMO LUCRO. OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. É indevida a capitalização de lucros apurados na empresa investidora através do Método de Equivalência Patrimonial, quando este mesmo lucro permanece inalterado na empresa investida, disponível nesta como lucros e/ou reservas de lucros tanto para que se efetuem capitalizações como para retiradas pelos sócios. Constatada a majoração artificial do custo de aquisição da participação societária alienada, mediante a capitalização indevida de lucros e reservas oriundos de ganhos avaliados por equivalência patrimonial nas sociedades investidoras, devem ser expurgados os acréscimos indevidos com a consequente tributação do novo ganho de capital apurado. MULTA QUALIFICADA. EVIDENTE INTUITO DE FRAUDE. É aplicável a multa qualificada quando restar caracterizado o evidente intuito de fraude do Contribuinte no sentido de impedir ou retardar, total ou parcialmente a ocorrência do fato gerador do Imposto de Renda, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais. JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE MULTA DE OFÍCIO. Considerando que a multa de ofício é classificada como débito para com a União, decorrente de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Fl. 1618DF CARF MF 26 Federal do Brasil, é correta a incidência dos juros de mora sobre os valores da multa de ofício não pagos, a partir de seu vencimento. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A ciência dessa decisão ocorreu em 07/11/2014 (termo de vista de processo, efl. 1427). RECURSO VOLUNTÁRIO Em 05/12/2014, foi apresentado recurso voluntário (efls. 1434 a 1482), sendo reiterados, em síntese, os termos da impugnação, e, ainda, que: (a) a venda das ações do Banco Pactual ao UBS acarretou a lavratura de auto de infração contra mais de 60 acionistas, sob a mesma alegação de que o custo de aquisição de seus investimentos havia sido quantificado a maior; entretanto, não há a menor convergência da Receita Federal do Brasil (RFB) quanto ao critério para apuração correta do custo de aquisição dos investimentos; (b) assim, (i) no auto de infração, a RFB afirma que o custo deveria ser equivalente ao valor da participação indireta dos acionistas no capital de PSA em 01.12.2006, após deduzido o montante dos dividendos distribuídos pelo Banco Pactual com base em instrumento de usufruto; (ii) em outros autos de infração, a RFB afirma que caberia ao recorrente reduzir o custo de seus investimentos quando ocorresse a incorporação da NPP pela PSA e, com base nesse entendimento, desconsiderou o aumento de custo dos investimentos do recorrente resultante da capitalização de lucros de Pactual Participações; (iii) nos processos 1448.735961/201120; 12448.735957/201161; 12448.735950/201140; 12448735952/201139; e 12448735954/201128, a RFB afirma que o custo de aquisição dos investimentos dos acionistas corresponderia ao custo médio ponderado das ações (art. 16, § 5º da IN SRF n° 84, de 11.10.2001), multiplicado pelo número de ações alienadas ao UBS, sem levar em consideração os efeitos das capitalizações de lucros ocorridas em 31.12.2005 e em 2006; e, finalmente, (iv) no processo 15504.724125/201196, a RFB considera legítimo apenas o acréscimo de custo decorrente da capitalização de lucros da NPP; essa diversidade de critérios na quantificação do ganho de capital dos acionistas evidencia que o lançamento baseouse exclusivamente no efeito econômico gerado pela reestruturação e não na lei, o que é inaceitável. O pedido consiste em que seja reformada a decisão para que o auto de infração seja julgado improcedente e seja extinto ao crédito tributário. É o relatório. Voto Conselheiro Relator João Bellini Júnior O recurso voluntário é tempestivo e aborda matéria de competência desta Turma. Portanto, dele tomo conhecimento. Da decadência Fl. 1619DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 15 27 O recorrente afirma ter ocorrido a decadência do poderdever de lançar, uma vez que, no caso de tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo para efetuar o lançamento é de 5 anos contados do fato gerador. O fato gerador do ganho de capital é a alienação do bem ou direito. A alienação ocorreu em 01/12/2006, logo, em 12/02/2014, o crédito lançado estaria extinto por decadência, uma vez que a data do pagamento do preço é irrelevante para fins de contagem de decadência. Fiscalizar o ganho de capital ocorrido em 2010 e 2011 corresponde a revisão de lançamento, o que é vedado no direito tributário. Não lhe assiste razão. O caso em questão trata de alienação com data de pagamento diferida (a prazo), com pagamento parcial. Quanto à regra decadencial a ser aplicada ao caso concreto, o art. 62A do Ricarf obriga a utilização da regra do REsp nº 973.733 – SC, decidido na sistemática do art. 543C do Código de Processo Civil de 1973, o que faz com que as regras estabelecidas no art. 150, §4º, do CTN, somente devam ser adotadas: (a) nos casos em que o sujeito passivo antecipar o pagamento e, cumulativamente, (b) não for comprovada a existência de dolo, fraude ou simulação; nas demais situações prevalece os ditames do art. 173. Os rendimentos que compõem o ganho de capital estão sujeitos à tributação exclusiva/definitiva (art. 117 do Decreto 3.000, de 1999 – RIR 99) e não integram os rendimentos sujeitos ao ajuste anual. Decorrentemente, os pagamentos vinculados a rendimentos a serem computados no ajuste anual (como carnêleão, IRRF etc) não são antecipação do pagamento do ganho de capital e, portanto, não atraem a aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, §4º, do CTN. Somente se subsumem ao art. 150, § 4º, pagamentos respeitantes ao pagamento do próprio ganho de capital, considerado individualmente, pois a sua tributação, como já ressaltado, é exclusiva e definitiva. Assim, em regra, na tributação do ganho de capital não há falar em ocorrência de pagamento antecipado. Nesse mesmo sentido: IRPF. DECADÊNCIA. TRIBUTOS LANÇADOS POR HOMOLOGAÇÃO. MATÉRIA DECIDIDA NO STJ NA SISTEMÁTICA DO ART. 543C DO CPC. GANHO DE CAPITAL. REGRA DO ART. 150, §4o, DO CTN, APENAS QUANDO EXISTIR PAGAMENTO PARCIAL. O art. 62A do RICARF obriga a utilização da regra do REsp nº 973.733 SC, decidido na sistemática do art. 543C do Código de Processo Civil, o que faz com a ordem do art. 150, §4º, do CTN, só deva ser adotada nos casos em que o sujeito passivo antecipar o pagamento e não for comprovada a existência de dolo, fraude ou simulação, prevalecendo os ditames do art. 173, nas demais situações. Em regra, no ganho de capital, não há que se falar em ocorrência de pagamento antecipado, pois sua tributação se dá em separado, não integrando o ajuste anual, sendo que os pagamentos que podem ser computados no ajuste anual não se aproveitam para trazer a regra de decadência para o art. 150, §4o, do CTN. Fl. 1620DF CARF MF 28 (...) Recurso especial provido. (Ac. 9202003.003, Relator Luiz Eduardo de Oliveira Santos.) (Grifouse.) Porém, neste processo houve pagamento parcial do imposto referente ao ganho de capital apurado pela fiscalização em 2010 e 2011. Assim, aplicável a regra do art. 150, §4º, do CTN. Quanto ao termo inicial para a contagem do prazo decadencial, como visto, tratase de alienação com data de pagamento diferida (a prazo); em tais casos, a jurisprudência deste CARF se assentou no sentido de o fato gerador do imposto sobre a renda de pessoa física (IRPF) se realiza com o efetivo pagamento da parcela acordada pelas partes, devendo este ser o momento para contagem do prazo decadencial. Isso porque ao imposto sobre a renda (inclusive o ganho de capital) devido pela pessoa física é aplicável o regime de caixa; o imposto é devido à medida em que os rendimentos e ganhos foram percebidos, pelo que, antes do efetivo recebimento dos valores não há falar em acréscimo patrimonial a justificar a incidência do imposto de renda ou do ganho de capital; por estrita decorrência lógica, não há fato gerador do ganho de capital enquanto não auferido o efetivo valor da parcela prometida, uma vez que a promessa de receber valores, que é evento futuro e incerto, não é fato gerador do IRPF. São claras as disposições dos arts. 2º e 21 da Lei 7.713, de 1988 nesse sentido: Art. 2º. O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos. (Grifouse.) Art. 21. Nas alienações a prazo, o ganho de capital será tributado na proporção das parcelas recebidas em cada mês, considerandose a respectiva atualização monetária, se houver. (Grifouse.) Como o fato gerador do ganho de capital ocorre com o efetivo recebimento do rendimento (regime de caixa), o fisco não possui o poder de constituir o crédito tributário antes disso, motivo pelo qual a fluência do prazo decadencial somente se inicia com o recebimento dos valores pela pessoa física. Nesse sentido, os seguintes acórdãos da CSRF: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2005, 2006, 2007, 2008 IRPF GANHO DE CAPITAL ALIENAÇÃO DE AÇÕES A PRAZO. FATO GERADOR APURAÇÃO DA DECADÊNCIA Nas vendas a prazo o fato gerador do Imposto de Renda se realiza com o efetivo pagamento da parcela acordada pelas partes, devendo este ser o momento para contagem do prazo decadencial. (Ac. 9202003.820, 08 de março de 2016) (Grifou se.) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Fl. 1621DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 16 29 Exercício: 2007, 2008, 2009, 2010 IRPF GANHO DE CAPITAL VENDA DE IMÓVEL A PRAZO. COMPROVANTE DE PAGAMENTO DE PARTE DO IMPOSTO. APLICAÇÃO DO ART. 150, §4º DO CTN. Nas vendas a prazo o fato gerador do Imposto de Renda se realiza com o efetivo pagamento da parcela acordada pelas partes, devendo este ser o momento para contagem do prazo decadencial. Havendo comprovação nos autos da ocorrência do pagamento do imposto, ainda que parcial, devese aplicar o art. 150, §4º do CTN, tomandose como termo inicial para o prazo decadencial a data da ocorrência dos fatos geradores. (Ac. 9202003.771, de 16/02/2016, relatora Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri) (Grifouse.) A consequência de se considerar ocorrido o fato gerador do ganho de capital no momento da efetivação do negócio e não no recebimento dos valores, atenta contra o texto expresso dos arts. 2º e 21 da Lei 7.713, de 1988 e implicaria na perversa situação de a pessoa física ser obrigada a pagar imposto sobre o ganho de capital antecipadamente ao recebimento dos pagamentos, e mesmo que não os recebesse jamais. Por outro lado, não configura a revisão do lançamento o procedimento fiscal destinado a apurar o ganho de capital ocorrido em 2010 e 2011, uma vez que o procedimento anterior destinouse a apurar o ganho de capital em anos anteriores, 2006 e 2009. Assim, como o primeiro pagamento objeto do auto de infração foi realizado em março de 2010 e tendo a ciência ocorrido em 12/02/2014, não há falar em decadência do poderdever de lançar o crédito tributário. DO LANÇAMENTO A matéria não é nova neste CARF. Vários foram os julgados que analisaram as operações que culminaram na alienação de participações societárias do Banco Pactual à UBS. Cito, como exemplo, os acórdãos 210201.938, 2202002.164, 2202002.165, 2202 002.166, 2202002.167, 2202002.258, 2202002.260, 2202002.262, 2202002.263, 2202 002.428 e 2802003.285. Desses, apenas o primeiro dos acórdãos citados (referido pelo recorrente em seu recurso) considerou totalmente indevido o lançamento; os demais deram parcial provimento ao recurso voluntário apenas para cancelar a qualificadora da multa. Em 10/05/2016, como visto, a CSRF manteve, no julgamento do Acórdão 9202003.959, o valor do custo de aquisição das ações do contribuinte, estabelecido no 12448.735988/201112. A jurisprudência da CSRF foi reafirmada em outros acórdãos, quais sejam: ACÓRDÃO DATA RELATOR/REDATOR 9202003.698 16/02/2016 LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS 9202003.699 16/02/2016 LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS 9202003.700 16/02/2016 LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS 9202003.767 12/04/2016 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA 9202003.768 12/04/2016 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA Fl. 1622DF CARF MF 30 9202003.764 13/04/2016 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA 9202003.766 13/04/2016 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA 9202003.765 13/04/2016 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA 9202003.821 13/04/2016 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA 9202003.960 04/08/2016 HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Redatordesignado. 9202003.961 04/08/2016 HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Redatordesignado. 9202005.239 22/02/2017 RITA ELIZA REIS DA COSTA BACCHIERI 9202005.237 22/02/2017 HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Redatordesignado 9202005.236 22/02/2017 HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Redatordesignado 9202005.235 22/02/2017 HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Redatordesignado 9202005.235 22/02/2017 HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR Redatordesignado 9202005.240 22/02/2017 ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA Esta 1ª Turma da 3ª Câmara também já analisou a questão diversas vezes, nos acórdãos 2301004.475, 2301004.476, 2301004.477, 2301004.478, 2301004.479, 2301 004.480, 2301004.481, 2301004.482 e 2301004.483, decidindo, por unanimidade, tão somente cancelar a qualificadora da multa. Cito como exemplo: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Anocalendário: 2006, 2009 OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. LUCROS SOCIETÁRIOS ORIGINÁRIOS DA APLICAÇÃO DO MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL EM HOLDINGS. INCORPORAÇÃO REVERSA. AUMENTO DO CUSTO DE AQUISIÇÃO EM DESCOMPASSO COM O PARÁGRAFO ÚNICO DO ART. 10 DA LEI 9.249, de 1995 (ART. 135 DO RIR 99). A capitalização de lucros societários, não tributados, sem substrato econômico e meros reflexos da aplicação do método de equivalência patrimonial em holdings puras, seguidas de correspondentes incorporações reversas, não ampara a aplicação do parágrafo único do art. 10 da Lei 9.249, de 1995 (art. 135 do RIR 99), para fins de majoração do custo da aquisição de ações a serem alienadas e consequente apuração de ganho de capital. O lucro que é tributado, e, por decorrência, pode ser objeto de benefícios fiscais, como isenção ou majoração do custo de aquisição de ações é o lucro fiscal, e não o lucro societário. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. SUJEITO PASSIVO SEM CONTROLE DOS ATOS QUE DERAM ORIGEM À ATUAÇÃO. Não tendo o sujeito passivo poder para determinar ou impedir os atos que deram origem ao auto de infração, descabe a aplicação da multa qualificada. JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO.TAXA SELIC. A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual, assim,devem incidir Fl. 1623DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 17 31 os juros de mora à taxa Selic. (Ac. 2301004.476, relator João Bellini Júnior) Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Anocalendário: 2006, 2009 GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. LUCROS ORIGINÁRIOS DA APLICAÇÃO DO MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL EM HOLDINGS. INCORPORAÇÃO REVERSA. AUMENTO DO CUSTO DE AQUISIÇÃO. O fato de cada uma das transações dentro do grupo societário, isoladamente e do ponto de vista formal, ostentar legalidade, não garante a legitimidade do conjunto de operações, quando restar comprovada que o aumento do custo das ações de acionistas pessoas físicas se deu através de planejamento tributário que capitalizou dividendos em duplicidade, pois são meros reflexos da aplicação do método de equivalência patrimonial nas holdings, seguidas de correspondentes incorporações reversas, com o fim de majoração do custo da aquisição de ações a serem alienadas e consequente apuração de ganho de capital, por configurar conduta abusiva e dissociada dos fins visados pela legislação pertinente. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. MULTA QUALIFICADA. AUSÊNCIA DE DOLO ESPECÍFICO. No planejamento tributário, quando identificada a convicção do contribuinte de estar agindo segundo o permissivo legal, sem ocultação da prática e da intenção final dos seus negócios, não há como ser reconhecido o dolo necessário à qualificação da multa, elemento este constante do caput dos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/64. JUROS DE MORA COM BASE NA TAXA SELIC SOBRE A MULTA DE OFÍCIO APLICABILIDADE O art. 161 do Código Tributário Nacional CTN autoriza a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, isto porque a multa de ofício integra o "crédito" a que se refere o caput do artigo. É legitima a incidência de juros sobre a multa de ofício, sendo que tais juros devem ser calculados pela variação da SELIC. (Ac. 2301004.480, relatora Alice Grecchi) Feitas essas breves considerações, passo à análise do caso concreto. DO TRIBUTO LANÇADO Quanto às demais questões de mérito, o recurso voluntário deve ser provido parcialmente, apenas para afastar a qualificadora da multa, pelos mesmos fundamentos já colacionados por ocasião do julgamento já realizado pela CSRF a respeito dos pagamentos recebidos pelo recorrente nos anos de 2006 e 2009, complementados pelas razões que passo a expor. Fl. 1624DF CARF MF 32 ENTENDIMENTO DA CSRF Transcrevo, assumindo como razões de decidir, as razões do conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos, relator, na CSRF, do Processo 12448.736152/2011 5, julgado em 27/01/2016: a.I Delimitação do Problema Vejamos aqui o dispositivo central da discussão: o parágrafo único do art. 10 da Lei n° 9.249, de 26 de dezembro 1995, base legal do art. 135 do Decreto n° 3.000, de 1999, expressamente referido no auto de infração, in verbis: Art. 10. ... Parágrafo único. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista. Com base nesse dispositivo, o aumento de capital, realizado por uma pessoa jurídica, por incorporação de lucros, implica o aumento proporcional do custo de aquisição da participação societária de seus proprietários. Para exemplificar essa determinação, considere uma participação societária correspondente a 100% do capital de uma pessoa jurídica (detida por dois sócios, pessoas físicas), adquirida por R$ 1.000,00. Considere, também, que essa pessoa jurídica, em seguida, tenha auferido um lucro de R$ 100,00 e o tenha capitalizado. Considere, por fim, que os sócios tenham alienado essa participação societária a terceiros por R$ 1.500,00. Nesse caso, em que pese os sócios terem adquirido a participação societária por R$ 1.000,00 e, posteriormente, a alienado por R$ 1.500,00, o ganho de capital apurado não seria de R$ 500,00, mas apenas de R$ 400,00. Isso porque os lucros de R$ 100,00, capitalizados, têm o condão de aumentar o custo de aquisição da participação societária e, consequentemente, de diminuir o ganho de capital. Dessa forma, de uma maneira simples e apressada, poderseia concluir que qualquer capitalização de lucros implicaria um aumento do custo da correspondente participação societária. Ocorre que essa interpretação, no entender deste conselheiro, é literal e, considerando exclusivamente o parágrafo único do art. 10 da Lei n° 9.249, de 1995, gera incoerências no sistema jurídico e disfuncionalidades na tributação de operações. Para ilustrar a questão, vejamos uma situação, em tudo semelhante à anterior, porém em que os sócios tenham decidido criar uma holding controladora da pessoa jurídica operacional, que por sua vez, passaria a ser subsidiária integral da holding. Nesse caso: Fl. 1625DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 18 33 inicialmente, teríamos os sócios, como proprietários da Holding, e esta reconhecendo em seu ativo uma participação societária na pessoa jurídica operacional, avaliada em R$ 1.000,00 por equivalência patrimonial; em seguida, com a pessoa jurídica operacional auferindo lucros de R$ 100,00, a Holding (por equivalência patrimonial) iria refletir esse lucro no valor de sua participação societária, o que resultaria no reconhecimento de lucros, também no valor de R$ 100,00; prosseguindo, a holding capitalizaria o lucro por ela reconhecido por equivalência patrimonial e, consequentemente, os proprietários atualizariam o valor da participação societária, para R$ 1.100,00; em momento posterior, a pessoa jurídica operacional incorporaria a holding, mantendo porém os lucros, de R$ 100,00, em seu patrimônio líquido e, somente então, capitalizaria esses lucros, permitindo que os proprietários atualizassem, mais uma vez, o valor da participação societária, agora para R$ 1.200,00; por fim, com os proprietários alienando sua participação societária por R$ 1.500,00, seria apurado um ganho de capital de apenas R$ 300,00. Repare que, em que pese os sócios terem adquirido a participação societária por R$ 1.000,00 e, posteriormente, alienado essa participação societária por R$ 1.500,00, o ganho de capital apurado não foi de R$ 500,00, nem de R$ 400,00, mas de apenas R$ 300,00. Isso ocorreu porque os lucros de R$ 100,00, reconhecidos na Holding por equivalência patrimonial foram capitalizados, aumentando o custo de aquisição da participação societária e, posteriormente, os mesmos lucros de R$ 100,00, auferidos pela pessoa jurídica operacional, em função de suas atividades, também foram capitalizados, aumentando mais uma vez o custo de aquisição da participação societária. Consequentemente, vemos aqui o ganho de capital reduzido duas vezes. Ora, essa situação é em essência igual à anterior: (a) uma participação societária adquirida por mil reais, (b) a correspondente empresa operacional que aufere 100 de lucro e (c) a venda dessa participação societária por mil e 500 reais. Mas apenas pela interposição de uma holding na estrutura societária do grupo econômico, o ganho de capital ficaria reduzido. E o pior, se ao invés de uma holding existissem duas ou mais, o ganho de capital seria mais reduzido ainda. Portanto, essa aplicação direta do parágrafo único a qualquer incorporação de lucros leva à inerente conclusão de que, em se existindo várias holdings interpostas entre os proprietários e a Fl. 1626DF CARF MF 34 pessoa jurídica, o ganho de capital pode ficar artificialmente reduzido, até a zero ou ainda a valores negativos. E adicionalmente, com essa interpretação, a capitalização de lucros apenas nas Holdings, além de permitir que o ganho de capital fosse reduzido, permitiria que o lucro registrado na pessoa jurídica fosse, posteriormente, distribuído isento, aos proprietários ou então aos futuros adquirentes. O que se discute aqui é o efeito da aplicação da legislação tributária em situações como essa, de capitalização de lucros em uma pessoa jurídica que detenha participação em outras pessoas jurídicas, para fins de cálculo do custo das ações ou cotas dessa primeira pessoa jurídica. Delimitados os problemas a serem enfrentados, passo agora à análise da legislação de regência. a.II Interpretação da Legislação Com efeito, a capitalização de lucros nada mais é do que uma operação que substitui o seguinte procedimento: (i) a distribuição do lucro, pela pessoa jurídica a seus proprietários, (ii) o imediato aumento de capital da pessoa jurídica, no valor do lucro distribuído e (iii) a subscrição e integralização do aumento de capital, por esses mesmos proprietários, com os recursos antes recebidos a título de distribuição de lucro. Por outro lado, o método da equivalência patrimonial tem por objetivo refletir no patrimônio de uma pessoa jurídica controladora (ou coligada) de outra, o patrimônio e consequentemente o resultado da investida. Com efeito, ele serve para refletir a situação da investida no patrimônio da investidora. Esclarecendo a questão, Modesto Carvalhosa, em Comentário à Lei de Sociedades Anônimas (Saraiva São Paulo, 1998) ensina que: de início todos os investimentos (inclusive de empresas controladas) eram registrados pelo custo e os respectivos lucros somente eram reconhecidos quando da distribuição de lucros ou dividendos, já no caso de prejuízos, no máximo era aceito o reconhecimento de uma provisão para perdas no investimento; com influência anglosaxã, surgiu a figura da consolidação de balanços e, consequentemente, de reconhecimento do lucro de pessoas jurídicas controladas no patrimônio da controladora; estendendose esse raciocínio a todos os investimentos relevantes, surgiu a equivalência patrimonial, para dar o mesmo efeito da consolidação, trazendose para uma linha do ativo da investidora, uma parte do patrimônio (e do resultado) da investida. Nesse mesmo sentido, no dizer de Eliseu Martins, em Iniciação à Equivalência Patrimonial Considerando Algumas Regras Novas da CVM (IOB São Paulo 1997) o Método da Equivalência Fl. 1627DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 19 35 Patrimonial é a consolidação de patrimônios em uma linha. A propósito, lembramos que, no procedimento de consolidação, para apresentação da efetiva situação patrimonial, os lucros refletidos por equivalência patrimonial no patrimônio das investidoras devem ser eliminados. Realizaremos, agora, a análise jurídica da legislação, sem perder de vista essas características ontológicas (a) da operação de capitalização de lucros e (b) do método da equivalência patrimonial. Para fins de contextualização histórica da questão, cumpre referir que, nos termos da legislação anteriormente vigente, a capitalização de lucros, assim como a distribuição de ações bonificadas, não tinha qualquer efeito na determinação do custo de aquisição da participação societária dos proprietários da pessoa jurídica. Com efeito, naquele período: o lucro distribuído era passível de tributação; e consequentemente, o custo de aquisição das participações societárias não era alterado quando da capitalização de lucros pela pessoa jurídica, inclusive no caso de distribuição de ações bonificadas, cujo valor de aquisição devia ser considerado como igual a zero. Nesse sentido, cabe referência aos arts. 727 e 810 do Decreto 1.041, de 1994. (a) Art. 727 lucros distribuídos até 1988 eram tributados: Art. 727. Os dividendos, bonificações em dinheiro, lucros e outros interesses, apurados em balanço de períodobase encerrado até 31 de dezembro de 1988, pagos por pessoa jurídica, inclusive sociedade em conta de participação, a pessoa física residente ou domiciliada no País, estão sujeitos à incidência de imposto exclusivamente na fonte, à alíquota de (DecretosLeis n°s 1.790/80, art. 1°, 2.065/83, art. 1°, I, a, e 2.303/86, art. 7° parágrafo único): (b) Art. 810 o custo de participações societárias resultantes de aumento de capital por incorporação de lucro era igual a zero: Art. 810. O custo de aquisição de títulos e valores mobiliários, de quotas de capital ... § 2° O custo é considerado igual a zero (Lei n° 7.713/88, art. 16, § 4°): a) no caso de participações societárias resultantes de aumento de capital por incorporação de lucros ou reservas, apurados até 31 de dezembro de 1988; Reparase aqui a coerência dos dispositivos acima referidos. Como, na época, a distribuição de lucros era tributada, a Fl. 1628DF CARF MF 36 capitalização do lucro não alterava o custo de aquisição da participação societária. Assim, quando a participação societária fosse alienada, o valor do lucro capitalizado seria alcançado pelo ganho de capital. Ora, a partir de 1996, temos uma clara mudança de tratamento na distribuição de lucro, que passou a não ser tributada, nem na fonte, nem na declaração de ajuste, nos termos do disposto no art. 10, da Lei n° 9.249, de 1995. Assim: o lucro distribuído deixou de ser tributado; e consequentemente, o custo de aquisição das participações societárias passou a ser alterado quando da capitalização de lucros distribuíveis pela pessoa jurídica, inclusive no caso de distribuição de ações bonificadas, cujo valor de aquisição devia ser considerado igual ao desse lucro capitalizado. A seguir, encontrase reproduzido o caput do art. 10 da Lei n° 9.249, de 1995, e seu respectivo parágrafo. Art. 10. Os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, presumido ou arbitrado, não ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte, nem integrarão a base de cálculo do imposto de renda do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. Parágrafo único. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista. Reparase, da mesma forma que no sistema vigente anteriormente, a coerência dos dispositivos acima referidos. Como a distribuição de lucros deixou de ser tributada, a capitalização do lucro distribuível passou a alterar o custo de aquisição da participação societária. Assim, quando a participação societária fosse alienada, o valor do lucro (distribuível isento e capitalizado) não seria alcançado pelo ganho de capital. Portanto, conhecendo a razão histórica do surgimento da legislação, (que foi a alteração de tributação para não tributação da distribuição de lucros), para compreensão da legislação, (a) afastamos a aplicação da interpretação literal e (b) entendemos como mandatória a aplicação da interpretação histórico/teleológica (acima discutida) e, sobretudo, da interpretação sistemática dos dispositivos relativos ao método da equivalência patrimonial, à distribuição e à capitalização de lucros. Ressaltese aqui que todos esses métodos de interpretação convergem. Especificamente quanto à interpretação sistemática é muito fácil perceber que não se deve considerar somente a leitura do parágrafo, mas também (e sobretudo) a leitura do caput do Fl. 1629DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 20 37 próprio artigo 10 da Lei n° 9.249, de 1995. Aliás, essa é uma regra hermenêutica básica, o parágrafo deve sempre se referir ao caput, sendo que sua consideração em separado gera problemas de contexto e, o que é pior, gera a famosa falácia de ênfase em que, se acentuando um aspecto da realidade, acabase por negar a própria realidade. Ora, no caput, é referido que os lucros ou dividendos pagos ou creditados é que não estarão sujeitos à incidência do imposto de renda. Portanto, interpretando o parágrafo nos limites do que dispõe o caput, concluímos facilmente que a capitalização de lucros que tem o condão de alterar o custo de aquisição de participações societárias é aquela referente a lucros passíveis de efetiva distribuição aos sócios ou acionistas sem tributação. Por seu turno, conforme já colocado no início desse voto, temos que o método da equivalência patrimonial teve por objetivo o reconhecimento de lucros de investidas, mesmo antes de sua distribuição. Não se está aqui negando a existência de um lucro decorrente do ajuste de equivalência patrimonial, mas não podemos deixar de levar em conta o fato de o lucro não é efetivamente distribuído mais de uma vez. Com efeito, o lucro decorrente do ajuste por equivalência patrimonial, é somente o reflexo do lucro auferido pela pessoa jurídica operacional (investida), esse último sim, passível de efetiva distribuição. Comprovando a conclusão acima, sabemos que a distribuição de lucro, registrado em decorrência do ajuste de equivalência patrimonial implica a necessidade de contratação de empréstimos ou distribuição de recursos aportados a título de capital. Pois bem, devemos nos lembrar de que a própria operação de capitalização de lucros foi concebida como um atalho para substituição do complexo procedimento de (i) a distribuição do lucro, pela pessoa jurídica a seus proprietários, (ii) o imediato aumento de capital da pessoa jurídica, no valor do lucro distribuído e (iii) a subscrição e integralização do aumento de capital, por esses mesmos proprietários, com os recursos antes recebidos a título de distribuição de lucro. Agora, a partir do que se encontra acima colocado, é possível chegarmos a uma conclusão quanto ao procedimento de aplicação da legislação, no tocante à atualização do custo da participação societária, em função da capitalização de lucros pela pessoa jurídica. Considerando que a efetiva distribuição de lucros deve se dar a partir da pessoa jurídica operacional, essa distribuição, seguida de subscrição de aumento de capital nas empresas componentes de um grupo econômico (a pessoa jurídica operacional e suas holdings) deve ter por efeito patrimonial o aumento de capital em toda a cadeia de entidades relacionadas societariamente. Por óbvio não é possível distribuir mais de uma vez o mesmo lucro (o lucro e seus reflexos por equivalência patrimonial), Fl. 1630DF CARF MF 38 portanto também não deve ser aceitável, pelo menos para fins fiscais, capitalizálo mais de uma vez. A conclusão acima é inevitável, porque: as disponibilidades passíveis de distribuição estão no patrimônio da pessoa jurídica operacional, que somente pode distribuir o lucro para sua proprietária direta, a holding; já, a holding, somente pode distribuir o lucro aos acionistas, pessoas físicas, após o recebimento dos recursos da pessoa jurídica operacional; os acionistas, por sua vez, somente podem aumentar capital na holding, em que possuem participação direta; e por fim, a holding, com os recursos recebidos, poderá aumentar capital da pessoa jurídica operacional. Ora, consequentemente, somente haverá capitalização de lucros efetivamente distribuíveis caso todas as pessoas jurídicas da cadeia societária (holdings e empresa operacional) realizem a capitalização. Ao contrário, caso ocorra apenas a capitalização dos lucros de holdings, o parágrafo único do art. 10 da Lei n° 9.249, de 1995, não incide, devendo ser mantido o valor da participação societária pelos proprietários, até mesmo porque os efetivos lucros da pessoa jurídica operacional ainda poderão ser distribuídos sem tributação (para os próprios sócios) ou para futuros adquirentes. E, ainda, quando houver holdings mistas, com operações próprias, a capitalização de seus lucros, sem que tenha ocorrido a correspondente capitalização dos lucros das investidas, somente poderá ter efeito parcial na atualização do custo da participação societária de seus sócios. Isso é facilmente calculado com base na memória de cálculo abaixo: ( ) Lucro Existente no Patrimônio Líquido da Holding () Lucro/Reservas Existentes na Investida (*) % de participação (=) Lucro passível de distribuição pela Holding (/) Lucro Existente no Patrimônio Líquido da Holding (=) Percentual aceitável para aumento do custo da participação (*) Valor do aumento de custo considerando o total do lucro capitalizado pela Holding (=) Valor aceitável para aumento do custo Reparase que a memória de cálculo acima é simples, utilizando somente as quatro operações matemáticas e os dados constantes dos balancetes da holding e da correspondente investida, na data da capitalização de lucros. Ela atende a aplicação do disposto no Art. 10 da Lei n° 9.249, de 1995, tanto no caso de holdings mistas (com operações próprias), como no caso de distribuição diferenciada de lucros (em percentual diferente daquele da participação societária do acionista). Fl. 1631DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 21 39 a.III Aplicação da Legislação ao Caso dos Autos Verifico que, no caso dos autos, somente houve capitalização de lucros nas holdings, tendo sido mantido sem capitalização todo o lucro da pessoa jurídica operacional. Com efeito, no caso dos autos: ocorreram duas capitalizações seguidas de lucros, ambos reconhecidos em decorrência da aplicação do método de equivalência patrimonial às participações societárias de duas holdings (a NOVA PACTUAL e a PACTUAL) e não houve a capitalização dos lucros auferidos pela pessoa jurídica operacional (o BANCO PACTUAL); somente houve glosa da atualização do custo de participação societária, para uma das capitalizações de lucro, mais especificamente, para a capitalização ocorrida em NOVA PACTUAL em 13.10.2006, no valor de R$ 30.233.762,00. Portanto, a autoridade autuante entendeu indevida apenas a atualização de custo da participação em decorrência de uma das capitalizações de lucro, em razão da aplicação a ela, pelo autuado, do disposto no art. 135 do Decreto no 3.000, de 26 de março de 1999. Porém, de acordo com a interpretação já apresentada por este conselheiro, entendese que ambas deveriam ter sido glosadas. Isso porque o lucro da pessoa jurídica operacional (ou seja, o lucro efetivamente auferido pelo BANCO PACTUAL) continuou mantido em seu patrimônio líquido, após as incorporações reversas, e consequentemente permaneceu passível de distribuição isenta aos adquirentes, ou terceiros (até mesmos os próprios alienantes), conforme acordo entre as partes. De fato, os alienantes venderam aos adquirentes do Banco o direito de receber os lucros isentos de tributação ou de repasse desse valor a terceiros. Ora, como, (a) em primeiro lugar, a capitalização de lucros que tem o condão de alterar o custo da participação societária é somente aquela relativa aos lucros efetivamente distribuíveis isentos de tributação e como, (b) em segundo lugar, a distribuição de lucros com isenção de tributação foi, no caso, efetivamente transferida (aos adquirentes do banco, ou terceiros por eles determinados), (c) podemos concluir que as capitalizações de lucros realizadas não podem ter qualquer efeito no custo da participação alienada. Portanto, como não foram glosados os dois aumentos de custo, que no entender deste conselheiro seria indevidos, resta desnecessária a aplicação da memória de cálculo de segregação de eventuais operações próprias das Holdings, que são apenas residuais, conforme afirmado por ambas as partes e assim, não teriam o condão de reduzir o valor lançado. Pelo contrário, caso fosse aplicado o procedimento de cálculo defendido por este Fl. 1632DF CARF MF 40 conselheiro, o valor do tributo devido seria maior do que o originalmente lançado. Por conta das discussões travadas em plenário sobre o tema, penso ser necessário aqui fazer um esclarecimento quanto à dúvidas sobre a eventual ocorrência de alteração do critério jurídico do lançamento por esta decisão. Tenho plena convicção de que não se está aqui alterando critério jurídico, porque no lançamento e na respectiva impugnação encontramse claramente fixados os limites da lide e não foram alterados. Com efeito, o fato e a acusação em debate estão perfeitamente descritos no termo de verificação fiscal e, na decisão, é precisamente esse fato que se analisa: i. o fato é a alienação de participações societárias, ii. a acusação é de insuficiência do recolhimento do tributo por erro na apuração do ganho de capital, por se entender que a capitalização de lucros refletidos em sociedades investidoras, pelo método da equivalência patrimonial, não teria o condão de alterar o custo da participação societária alienada. iii. o que se apresenta aqui, sem qualquer inovação quanto ao fato analisado e a acusação originalmente feita, é o fundamento que este conselheiro entende ser suficiente para julgamento da acusação, em face das alegações do sujeito passivo. Diferente seria o caso em que há uma acusação verificada insubsistente mas, por conta de outra infração, fosse mantido o tributo lançado, situação que não ocorre aqui. Cumpre lembrar que o julgador não está vinculado ao fundamento das partes, somente não pode exarar uma decisão extrapetita, o que, conforme acima esclarecido, não ocorreu. Finalmente, quanto ao pedido subsidiário da recorrente de não aplicação de penalidade e juros de mora, a partir do disposto no parágrafo único do art. 100 do Código Tributário Nacional e da observância à Instrução Normativa SRF no 84, de 11 de outubro de 2001, é de se ressaltar que, em nenhum momento, tal normativo dá suporte à interpretação do art. 135 do RIR/99 defendida pela autuada, a qual, na forma acima disposta, se entende aqui como totalmente equivocada. Assim, é de se manter a multa de ofício aplicada pela autoridade lançadora, bem como os juros de mora incidentes sobre o principal e sobre a multa de ofício, neste último caso em linha com o explicitado seguir, quando da análise do recurso especial de iniciativa da Fazenda Nacional. a.i Conclusão Como a exigência original foi apenas de parte do valor que este conselheiro, nos termos da fundamentação deste voto, entende devido, e considerando a impossibilidade de reformatio in pejus voto por NEGAR provimento ao recurso especial de iniciativa do contribuinte, para manter o crédito tributário reconhecido como devido pela decisão a quo, inclusive a multa de ofício no patamar mantido pelo acórdão recorrido, bem como a Fl. 1633DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 22 41 incidência de juros de mora sobre o principal e sobre a mencionada multa. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA NORMA ISENTIVA DE LUCROS DA PESSOA FISICA Embora já abordada no Acórdão nº 9202003.698, retrotranscrito, convém resgatar, em maiores detalhes, a evolução histórica da norma isentiva de lucros, para que fique clara a interpretação finalística e históricosistemática que fundamenta meu voto. Utilizome das palavras do conselheiro Ronnie Soares Anderson, relator do acórdão 2802003.285: Previamente à edição desse diploma (art. 10 da Lei 9.249, de 1995), a regra era tributar os lucros e os dividendos exclusivamente na fonte ou oferecer tais rendimentos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste. Com vistas a evitar que houvesse dupla tributação sobre os mesmos rendimentos, ou seja, para que os lucros fossem tributados tão somente quando de sua apuração pela pessoa jurídica, e não quando de sua distribuição para os beneficiários dos dividendos, adveio no ordenamento o dispositivo legal acima transcrito. O Ministro da Fazenda apresentou no item 12 do Projeto de Lei n° 913/05, que resultou na edição da Lei n° 9.249/95, a seguinte justificativa no que concerne ao art.10: 12. Com relação à tributação dos lucros e dividendos, estabelecese a completa integração entre a pessoa física e a pessoa jurídica, tributandose esses rendimentos exclusivamente na empresa e isentandoos quando do recebimento pelos beneficiários. Além de simplificar os controles e inibir a evasão, esse procedimento estimula, em razão da equiparação de tratamento e das alíquotas aplicáveis, o investimento nas atividades produtivas. A partir de então os dividendos passaram a ser isentos, o que poderia ensejar a preferência pela sua distribuição frente à sua retenção e reinvestimento, dando azo à descapitalização das empresas. Para evitar tal situação, e estimular a retenção dos lucros de modo a possibilitar a realização de investimentos e formação bruta de capital sem endividamento perante terceiros, com o consequente crescimento da economia e geração de empregos, o regramento do parágrafo único do art. 10 da Lei n° 9.249/95 previu uma “compensação” para que os sócios não decidissem priorizar a distribuição de lucros. Com efeito, para que os lucros não fossem distribuídos como dividendos aos sócios mas sim incorporados mediante aumento de capital da empresa, foi possibilitado o ajuste no custo de aquisição das participações societárias dos acionistas, na proporção em que fossem aqueles capitalizados, balizandose assim o alcance do benefício legal da isenção dos dividendos. (Grifouse.) Fl. 1634DF CARF MF 42 DESTINAÇÃO DOS LUCROS: ISENÇÃO NA DISTRIBUIÇÃO E AUMENTO DO CUSTO DE AQUISIÇÃO NA CAPITALIZAÇÃO A regra questionada, o art. 135 do RIR 99, tem seu fundamento legal no parágrafo único do art. 10 da Lei 9.249, de 1995, o qual deve ser lido em conjunto com o seu caput (art. 654 do RIR 99), para a adequada compreensão do contexto no qual tal disposição veio à baila. Reproduzo os artigos: Lei 9.249, de 1995 RIR 99 Art. 10. Os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, presumido ou arbitrado, não ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte, nem integrarão a base de cálculo do imposto de renda do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. (Grifouse.) Art. 654. Os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, não estão sujeitos à incidência do imposto na fonte, nem integram a base de cálculo do imposto do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior (Lei nº 9.249, de 1995, art. 10). (Grifouse.) Parágrafo único. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista. (Grifouse.) Art. 135. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital ou incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista (Lei nº 9.249, de 1995, art.10, parágrafo único). (Grifouse.) Verificase a simetria entre os textos, sendo suas únicas diferenças: (a) o art. 654 do RIR 99 não cita as pessoas jurídicas tributadas com base no lucro presumido ou arbitrado e (b) para o RIR 99, a regra do art. 135 se aplica a qualquer aumento de capital, e não somente ao aumento de capital por incorporação de lucros, como previsto no parágrafo único do art. 10 da Lei 9.249, de 1995. Tais diferenças são irrelevantes no caso concreto, pois tratase de caso envolvendo distribuição e capitalização de lucros de pessoas jurídicas tributadas pelo lucro real e os aumentos de capital ocorreram por incorporação de lucros; ambas as hipóteses estão previstas tanto no art. 10 da Lei 9.249, de 1995 quanto nos arts. 654 e 135 do RIR 99. Passando à análise da norma, friso ser evidente que não se pode interpretar a regulação da norma isentiva, procedida pelo RIR 99, arts. 654 e 135, em descompasso com a própria norma legal que lhe deu origem, carreada pelo art. 10 da Lei 9.249, de 1995. O texto normativo versa sobre o tratamento tributário a ser dado aos lucros (ou dividendos), em razão de sua destinação; assim, os lucros podem, alternativamente: (a) ou serão distribuídos; nesse caso, incide a regra isencional (art. 10 da Lei 9.249, de 1995 e art. 654 do RIR 99); da distribuição dos lucros decorre, necessariamente, a proporcional redução no patrimônio líquido da sociedade, o que irá gerar, por ocasião da alienação das ações, um maior ganho de capital; Fl. 1635DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 23 43 (b) ou serão incorporados ao capital social (capitalizados); nesse caso, incide a regra pela qual o custo de aquisição das quotas ou ações que couberem ao sócio/acionista será igual à parcela do lucros ou reserva capitalizado (art. 10, parágrafo único da Lei 9.249, de 1995 e art. 135 do RIR 99); do acréscimo no custo de aquisição das ações decorre, necessariamente, a redução do ganho de capital, por ocasião da alienação das ações. A redução no ganho de capital é conseqüência lógica do não exercício do direito de receber dividendos isentos de imposto de renda. Se por um lado uma sociedade não pode distribuir lucros em montantes superiores à sua efetiva riqueza, também o sócio/acionista não pode aumentar o custo de aquisição de suas ações em valores superiores aos relativos ao incremento do patrimônio líquido da sociedade. E de modo algum pode, com base nos mesmos lucros efetivos (o que exclui, em sua conceituação, lucros sem representação econômica, reflexos, fictícios) cumulativamente, (a) capitalizar os lucros e (b) recebêlos, de modo a justificar rendimentos isentos. EVOLUÇÃO PATROMONIAL Durante o procedimento de fiscalização, essa registrou: (Pergunta da fiscalização) 10. Todos os valores recebidos a título de distribuição de lucros, dividendos e juros sobre o capital próprio auferidos durante o anocalendário de 2006, especificando as respectivas sociedades que efetuaram as distribuições com a indicação dos percentuais de participação correspondentes, segregando os valores que foram efetivamente recebidos dos que representaram créditos contra as sociedades que tenham sido capitalizados. Resposta: O quadro a seguir resume os eventos corridos no anocalendário de 2006. Empresa Pagadora %d e participação Valor pago ou distribuído em RS Natureza Destinação dos recursos Nova Pactual Participações Ltda 1,2675% R$ 33.537.868,05 Lucros crédito capitalizado na NPP de R$31.492,296,00 Pactuai S/A (PSA) 3,0000% R$ 29.882.639,00 Dividendos crédito capiitaüzado na PSA Banco Pactuai S/A 3,0000% R$ 1.024.980,09 JCP (valor bruto) efetivo recebimento Porém, como visto o recorrente ao menos em duas ocasiões, cumulativamente, recebeu rendimentos isentos a título de lucros/dividendos e capitalizou tais lucros (ou parte destes), fato este que motivou o presente lançamento: 31.12.2006 (em RS) Rendimentos isentos e não tributáveis 64.162.983,57 Rendimentos sujeitos à tributação exclusiva definitiva 28.733.899,14 Lucros e dividendos recebidos 63.420.525,05 Como decorrência sua evolução patrimonial expressa a dupla utilização dos lucros: Fl. 1636DF CARF MF 44 Vejamos em detalhes os lucros e dividendos que foram recebidos e capitalizados: 1. INCORPORAÇÃO DA NOVA PACTUAL PELA PSA, em 13/10/2006, com o recebimento de ações na mesma proporção que detinha na holding extinta; essa operação foi precedida, na mesma data, pela distribuição desproporcional dos lucros apurados pela Nova Pactual e pela capitalização desses mesmos lucros com a integralização de novas quotas da Nova Pactual – primeira majoração do custo de aquisição de sua participação societária, baseada no art. 135 do RIR 99: RECEBIMENTO DOS LUCROS ASSEMBLÉIA DOS SÓCIOS QUOTISTAS DA NPP, EM 13/06/2006 Fl. 1637DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 24 45 CAPITALIZAÇÃO DOS LUCROS 4ª ALTERAÇÃO DO CONTRATO SOCIAL DA NPP, EM 13/10/2006 2. DISTRIBUIÇÃO E CAPITALIZAÇÃO DOS LUCROS PELA PSA, em 03/11/2006 – segunda majoração do custo de aquisição de sua participação societária, baseada no art. 135 do RIR 99, evento preparatório da incorporação da PSA pelo Banco Pactual, em 1º/12/2006, com o recebimento, nesta ocasião, pelas pessoas físicas, de participação na mesma proporção que detinham na holding extinta: Fl. 1638DF CARF MF 46 REUNIÃO DE DIRETORIA DA PSA, EM 03/11/2006 ASSEMBLEIA GERAL EXTRAORDINÁRIA DA PSA, EM 03/11/2006 Fl. 1639DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 25 47 INFORMAÇÕES PRESTADAS À FISCALIZAÇÃO: A evolução do custo das ações do Banco Pactual, obtida a partir das informações prestadas na DAAS e nas respostas às intimações fiscais é a seguinte: Ora, como visto, não é possível distribuir e capitalizar os mesmos lucros. Uma vez distribuídos os lucros e utilizados para justificar acréscimo patrimonial pelo recebimento do rendimentos isentos, devem ser estornados os efeitos de sua incorporação ao capital social das respectivas sociedades. No caso concreto, esse dupla utilização dos lucros serviu para fomentar um acréscimo no custo das ações alienadas pertencentes ao recorrente o da ordem de 385%, enquanto que o aumento do patrimônio líquido do Banco Pactual, entidade que concentrava toda a riqueza efetiva do grupo, foi de 89%. Ou seja, tal procedimento levou a uma total discrepância entre a evolução da riqueza da instituição financeira alienada com o acréscimo patrimonial do custo das respectivas ações pertencentes aos seus acionistas. Tal dúplice utilização dos lucros não encontra suporte legal. Fl. 1640DF CARF MF 48 Tais razões, por si só, são suficientes para o desprovimento do recurso voluntário; porém, a seguir passo a analisar as operações do ponto de vista do grupo empresarial, demonstrando que os lucros e reservas só podem ter impacto no custo das ações e, portanto, na tributação da operação de alienação, quando corresponderem à efetiva riqueza gerada e acumulada pelo grupo societário. No caso em tela, tal riqueza encontravase concentrada no Banco Pactual. DAS REGRAS CONTÁBEIS APLICÁVEIS A GRUPOS DE SOCIEDADES Estabelecido o contexto no qual o art. 10 da Lei 9.249, de 1995, deve ser entendido e aplicado, passo a demonstrar que a interpretação do recorrente não se ampara sequer nas regras contábeis que estabelecem a apuração dos resultados societários de grupo econômico, pois está em desacordo com os pronunciamentos técnicoscontábeis emitidos pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis, bem como com os Princípios de Contabilidade, aprovados pelo Conselho Federal de Contabilidade. Como já referido, o Banco Pactual era controlado por uma holding, a Pactual S.A (PSA), que, por sua vez, era controlada por ouras duas holdings, a Nova Pactual e a Pactual Holdings.. Na definição de Houaiss, holding é uma “empresa que detém a posse majoritária de ações de outras empresas, ger. denominadas subsidiárias, centralizando o controle sobre elas. De modo geral a holding não produz bens e serviços, destinandose apenas ao controle de suas subsidiárias.” (Dicionário Houaiss Eletrônico, versão monousuário 2009.3). Essa definição é condizente com a afirmação do recorrente de que “Os objetivos das holdings eram exclusivamente os de organizar o exercício do controle do Banco (Pactual) e propiciar uma distribuição adequada de seus resultados” (item 3.3 do recurso voluntário) e de que “As holdings não tinham outra função que não as acima mencionadas e sua existência esteve sempre vinculada à participação do Grupo Pactual no BANCO” (item 3.4 do recurso voluntário). O esclarecimento de que as holdings não produzem bens e serviços demonstra a impossibilidade dessas, por si só, gerarem lucro econômico, material, distribuível e/ou capitalizável, passível de aumentar o custo de aquisição das cotas/ações de seus sócios/acionistas. Quanto ao método da equivalência patrimonial, esse nada mais é do que modo de avaliação do investimento de determinada sociedade. De acordo com Sérgio de Iudícibus, “o conceito básico do método da equivalência patrimonial é fundamentado no fato de que os resultados e quaisquer outras variações patrimoniais da investida sejam reconhecidos (contabilizados) na investidora no momento de sua geração na investida, independentemente de serem ou não distribuídos por esta” (Manual de contabilidade societária. Sérgio de Iudícibus et. al. São Paulo: Atlas, 2010, p. 170) (Grifouse.) Por esse critério, “as empresas reconhecem os seus resultados de seus investimentos nessas entidades no momento em que tais resultados são gerados naquelas empresas, e não somente quando são distribuídos na forma de dividendos, como ocorre no método de custo”. (Idem, p. 170.) Como já referido, o MEP é de uso obrigatório na avaliação de investimentos de controladas (art. 248 da Lei 6.404, de 1976). Desse modo, os resultados auferidos pelo Banco Pactual se refletiam em suas controladoras pela aplicação do método de equivalência Fl. 1641DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 26 49 patrimonial (MEP) (e não pelo método do custo), por força do disposto no art. 248 da Lei 6.404, de 1976, que possuía, à época dos fatos (2006), a seguinte redação: Art. 248. No balanço patrimonial da companhia, os investimentos relevantes (artigo 247, parágrafo único) em sociedades coligadas sobre cuja administração tenha influência, ou de que participe com 20% (vinte por cento) ou mais do capital social, e em sociedades controladas, serão avaliados pelo valor de patrimônio líquido, de acordo com as seguintes normas: I o valor do patrimônio líquido da coligada ou da controlada será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação levantado, com observância das normas desta Lei, na mesma data, ou até 60 (sessenta) dias, no máximo, antes da data do balanço da companhia; no valor de patrimônio líquido não serão computados os resultados não realizados decorrentes de negócios com a companhia, ou com outras sociedades coligadas à companhia, ou por ela controladas; II o valor do investimento será determinado mediante a aplicação, sobre o valor de patrimônio líquido referido no número anterior, da porcentagem de participação no capital da coligada ou controlada; III a diferença entre o valor do investimento, de acordo com o número II, e o custo de aquisição corrigido monetariamente, somente será registrada como resultado do exercício: a) se decorrer de lucro ou prejuízo apurado na coligada ou controlada; b) se corresponder, comprovadamente, a ganhos ou perdas efetivos; c) no caso de companhia aberta, com observância das normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários. (Grifouse.) Percebase que a regra societária é cristalina: o resultado em controladas somente será registrado como resultado do exercício (na controladora) se corresponder, comprovadamente, a ganhos ou perdas efetivos. Ora, no grupo Pactual o “ganho efetivo” era proporcionado somente pelo Banco Pactual; portanto, havia vedação legal para que seu resultado fosse refletido em toda a cadeia societária. Isso porque as normas contáveis prestigiam o Primazia da essência sobre a forma. O que não observa a realidade é fictício, e deve ter seus efeitos expurgados da contabilidade, que deve refletir a realidade econômica das sociedades, e não deve refletir ficção econômica (lucros ou prejuízos fictícios). Passo a discorrer sobre o assunto. As normas contábeis, outrora regidos pela Deliberação 29, de 1986, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), conjuntamente com os Princípios da Contabilidade, aprovados pelas Resoluções nº 750, de 1993, nº 774, de 1994 e nº 785, de 1995, do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), atualmente são elaboradas pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC). Fl. 1642DF CARF MF 50 O CPC adotou integralmente o documento do International Accouting Standards Board (IASB), denominado Framework for the Preparation and Presentation of Financial Statements e emitiu seu Pronunciamento Conceitual Básico – Estrutura Conceitual para a Elaboração e Apresentação das Demonstrações Contábeis (CPC 00). De acordo com Iudícibus (idem, p. 31) esse pronunciamento possui “maior aderência ao conceito da Primazia da Essência Sobre a Forma”, “bandeira essa levada praticamente ao extremo pelo IASB (...) representado no Brasil pelo Pronunciamento Técnico CPC 26 – Apresentação das Demonstrações Contábeis”. (Grifouse.) Convém ressaltar que, mesmo antes da entrada em vigor dos pronunciamentos técnicos do CPC, a Resolução nº 750, de 1993 do Conselho Federal de Contabilidade já previa a prevalência da essência sobre a forma (art. 1º, § 2º): Art. 1º Constituem PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE CONTABILIDADE (PFC) os enunciados por esta Resolução. §1º A observância dos Princípios Fundamentais de Contabilidade é obrigatória no exercício da profissão e constitui condição de legitimidade das Normas Brasileiras de Contabilidade (NBC). §2º Na aplicação dos Princípios Fundamentais de Contabilidade há situações concretas e a essência das transações deve prevalecer sobre seus aspectos formais. (Grifouse.) É disso que se trata. Primazia da essência sobre a forma. O lucro distribuível e capitalizável é o lucro já tributado, portanto econômico, com poder de compra, e não o lucro escritural, que existe somente em face da existência de holdings controladas e controladoras, mas que não produzem riqueza. Pretender que lucro escritural, sem substrato econômico, não tributado previamente, seja distribuível e/ou capitalizável fere não somente o sentido finalístico e históricosistemático do art. 10 da Lei 9.249, de 1995, mas também as normas técnicas contábeis do CPC. No presente caso, é fato incontroverso, estamos diante de um grupo econômico: o próprio recorrente se refere ao “Grupo Pactual”. Os grupos econômicos são definidos pelo CPC 36 como constituído pela “controladora e todas as suas controladas” e isso, de acordo com Iudícibus (idem, p. 649) “independe de o grupo estar ou não constituído formalmente, nos termos do Capítulo XXI da Lei 6.404, de 1976”. Em grupos econômicos, como no caso em apreço, a particularidade da situação de uma sociedade exercer controle sobre outra(s) faz com que o balanço consolidado seja considerado mais fidedigno que cada balanço individual. Em razão disso, há “países que exigem, e o IASB (International Accouting Standards Board), exige assim também, que quando há investimento em controlada, o balanço individual nem seja apresentado, e sim diretamente o balanço consolidado, e a equivalência vai aparecer no consolidado apenas para os investimentos em não controladas”. (Idem, p. 171.) (Grifouse.) Mais uma vez a busca pela primazia da realidade. Se uma sociedade produz lucro, como no caso em questão, as holdings controladoras serão lucrativas, mas o lucro é somente um, gerado pela sociedade geradora de riqueza. A questão é elementar: se o lucro escritural pudesse gerar efeitos de aumentar riqueza, bastaria criar mais e mais holdings controladoras, e viver da pujança do lucro infinito. Fl. 1643DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 27 51 Como lembra Iudícibus, “efetivamente, a análise individual das diversas demonstrações contábeis faz perder a visão do conjunto, do desempenho global do grupo. As inúmeras transações realizadas entre empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico necessitam ser eliminadas nas demonstrações consolidadas, obtendose, assim, apenas os valores apurados em função de operações efetuadas com terceiros alheios ao grupo”. (Idem, p. 649.) Os investimentos em controladas devem ser consolidados. (Idem, p. 650). (Grifouse.) Ainda de acordo com o Professo Emérito da FEA/USP, mesmo nos casos em que a legislação brasileira ainda não obrigue a apresentação da consolidação das demonstrações contábeis em grupos econômicos, tais “demonstrações contábeis consolidadas são as únicas que refletem a real posição financeira, a formação de seu resultado operacional e a origem e aplicações de seus recursos financeiros”. (Idem, p. 651.) (Grifouse.) No entender de Iudícibus, as demonstrações contábeis individuais da controladora, mais do que limitadas, “são muitas vezes enganosas, e não atendem ao objetivo primordial de bem informar da contabilidade nem atendem aos princípios fundamentais as contabilidade”. (Idem, p. 652.) (Grifouse.) Por isso, “com a emissão do CPC 36, há um enorme avanço, porque todas as sociedades por ações, mesmo as fechadas, agora estão obrigadas à publicação das demonstrações consolidadas (...) quando tiverem investimentos em controladas. Até as limitadas, se divulgarem informações, terão que fazêlo, já que esse Pronunciamento foi aprovado pelo Conselho Federal de Contabilidade, que tem poderes sobre os profissionais contábeis brasileiros”. (Idem, p. 652.) Nesse sentido, o CPC 36 exige que os seguintes procedimentos sejam adotados: B86. Demonstrações consolidadas devem: (a) combinar itens similares de ativos, passivos, patrimônio líquido, receitas, despesas e fluxos de caixa da controladora com os de suas controladas; (b) compensar (eliminar) o valor contábil do investimento da controladora em cada controlada e a parcela da controladora no patrimônio líquido de cada controlada (o Pronunciamento Técnico CPC 15 explica como contabilizar qualquer ágio correspondente); (c) eliminar integralmente ativos e passivos, patrimônio líquido, receitas, despesas e fluxos de caixa intragrupo relacionados a transações entre entidades do grupo (resultados decorrentes de transações intragrupo que sejam reconhecidos em ativos, tais como estoques e ativos fixos, são eliminados integralmente). Os prejuízos intragrupo podem indicar uma redução no valor recuperável de ativos, que exige o seu reconhecimento nas demonstrações consolidadas. O Pronunciamento Técnico CPC 32 – Tributos sobre o Lucro se aplica a diferenças temporárias, que surgem da eliminação de lucros e prejuízos resultantes de transações intragrupo. (Grifouse.) Fl. 1644DF CARF MF 52 É de se registrar que os lucros ou dividendos recebidos pela controladora não constituem receita, mas sim redução do da conta do investimento: Como o investimento em controlada é avaliado pelo método da equivalência patrimonial, os dividendos recebidos não estarão contabilizados em receita, mas sim como redução da conta do investimento, e, portanto, não haverá eliminação a fazer na Demonstração do Resultado do Exercício. (Idem, p. 659.) (Grifouse.) Do mesmo modo, o Pronunciamento Técnico CPC 18 (R2), o qual regulamenta “Investimento em Coligada, em Controlada e em Empreendimento Controlado em Conjunto Correlação às Normas Internacionais de Contabilidade – IAS 28 (IASB – BV 2012)”, determina que, avaliados pelo MEP, o investimento em controlada (neste caso, no balanço individual) deve ser inicialmente reconhecido pelo custo e o seu valor contábil será aumentado ou diminuído pelo reconhecimento da participação do investidor nos lucros ou prejuízos do período, gerados pela investida após a aquisição. A participação do investidor no lucro ou prejuízo do período da investida deve ser reconhecida no resultado do período do investidor. As distribuições recebidas da investida reduzem o valor contábil do investimento (item 10). (Grifouse.) A participação de grupo econômico em empreendimento controlado em conjunto é dada pela soma das participações mantidas pela controladora e suas outras controladas no investimento, sendo que “quando empreendimento controlado em conjunto tiver investimentos em controladas, o lucro, deve ser aqueles reconhecidos nas demonstrações contábeis do empreendimento controlado em conjunto (incluindo a participação detida pelo empreendimento controlado em conjunto no lucro, após a realização dos ajustes necessários para uniformizar as práticas contábeis”, e que “esse mesmo procedimento deve ser aplicado à figura da controlada no caso das demonstrações contábeis individuais” (item 27). É reafirmado o princípio da primazia da realidade, cuja observância leva à eliminação dos resultados entre sociedades controladoras e controladas (item 27) e que a participação do investidor nos resultados resultantes das transações intragrupo deve ser eliminada (item 28). Convém notar que, embora com as resoluções CPC as demonstrações contábeis consolidadas tenham alcançado estado ímpar de importância, essas já eram previstas pela Resolução CFC nº 784, de 1995, a seguir transcrita: 2.1.2 Da soma ou da agregação de patrimônios O Patrimônio da Entidade corolário de notável importância, notadamente pelas suas repercussões de natureza prática: as somas e agregações de patrimônios de diferentes Entidades não resultam em nova Entidade. Tal fato assume especial relevo por abranger as demonstrações contábeis consolidadas de Entidades pertencentes a um mesmo grupo econômico, isto é, de um conjunto de Entidades sob controle único. A razão básica é a de que as Entidades cujas demonstrações contábeis são consolidadas mantém sua autonomia patrimonial, pois seus Patrimônios permanecem de sua propriedade. Como não há transferência de propriedade, não pode haver formação de novo patrimônio, condição primeira da existência jurídica de uma Entidade. O segundo ponto a ser considerado é o de que a consolidação se refere às demonstrações contábeis, mantendo Fl. 1645DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 28 53 se a observância dos Princípios Fundamentais de Contabilidade no âmbito das Entidades consolidadas, resultando em uma unidade de natureza econômicocontábil, em que os qualificativos ressaltam os dois aspectos de maior relevo: o atributo de controle econômico e a fundamentação contábil da sua estruturação. (Grifouse.) Quanto à afirmação do recorrente de que capitalização dos lucros (societários) em bases desproporcionais, promovida pela Nova Pactual, era necessária para a distribuição dos resultados, volto a lembrar que para distribuir ou capitalizar lucros (societários), proporcionalmente ou não, é necessário que tais lucros sejam efetivos, tenham substrato econômico, não sejam meramente escriturais/fictícios (Princípio da Primazia da Realidade). Isso posto, entendo que houve aumento indevido do custo de aquisição das ações do Banco Pactual, por meio de prática de reconhecimentos de lucros escriturais, sem substrato econômico, advindos de contabilização manifestamente abusiva e contrária aos princípios da contabilidade e aos pronunciamentos técnicos do Comitê de Pronunciamentos Contábeis, e utilizandose de interpretação do art. 10 da Lei 9.249, de 1995 (art. 135 do RIR 99), que desborda de sua interpretação finalística e históricosistemática. DETERMINAÇÃO DO LUCRO REAL No caso de pessoas jurídicas, “a determinação do lucro real será precedida da apuração do lucro líquido de cada período de apuração com observância das disposições das leis comerciais que apuram lucro real” (art. 247, § 1º, do RIR) (Grifouse.). Assim, há intensa comunicação entre o lucro real (fiscal) e o lucro líquido (societário); porém, lucro real e lucro societário são institutos diversos. O lucro real é o lucro líquido (societário) do período de apuração ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou autorizadas (art. 247 do RIR). Quando se trata de tributação ou de sua exclusão, no caso, a isenção (art. 176 do CTN), as regras aplicáveis são as fiscais, de apuração ou exclusão de tributos, e não as regras societárias. Já vimos que a legislação societária é contundente, no sentido de expurgar do lucros societário os investimentos apurados pelo método da equivalência patrimonial que não correspondam a ganhos (ou perdas) efetivos (art. 248, III, “b”, da Lei 6.404, de 1976). Vimos também que, de acordo com as regras societárias, “os lucros ou dividendos recebidos pela controladora não constituem receita, mas sim redução do da conta do investimento”. A legislação fiscal também é específica neste sentido, determinando que os lucros ou dividendos distribuídos pela controlada deverão ser registrados pelo contribuinte como diminuição do valor de patrimônio líquido do investimento, e não influenciarão as contas de resultado (receitas e despesas) (RIR 99, art. 388, §1º). Ademais, de acordo com o art. 399 do RIR 99, a contrapartida do ajuste do valor do investimento (de que trata o art. 388), por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real. RIR 99: Fl. 1646DF CARF MF 54 Ajuste do Valor Contábil do Investimento Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (Grifou se.) § 1º Os lucros ou dividendos distribuídos pela coligada ou controlada deverão ser registrados pelo contribuinte como diminuição do valor de patrimônio líquido do investimento, e não influenciarão as contas de resultado (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22, parágrafo único). (Grifouse.) (...) Contrapartida do Ajuste do Valor do Patrimônio Líquido Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (Grifouse.) § 1º Não serão computadas na determinação do lucro real as contrapartidas de ajuste do valor do investimento ou da amortização do ágio ou deságio na aquisição de investimentos em sociedades estrangeiras coligadas ou controladas que não funcionem no País (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, parágrafo único, e DecretoLei 1.648, de 1978, art. 1º, IV). Ou seja, caso se optasse por distribuir os lucros da sociedade operacional (Banco Pactual), os lucros ou dividendos distribuídos por este seriam registrados como diminuição do valor de patrimônio líquido do investimento na PSA, e não influenciariam as contas de resultado (receitas e despesas) nem seriam computados na determinação do lucro real. DO LUCRO REAL COMO LIMITE À ISENÇÃO AOS LUCROS DISTRIBUÍDOS OU CAPITALIZADOS É princípio basilar no direito tributário que o poder de isentar, que é modo de exclusão do crédito tributário (CTN, art. 175, I) deriva do poder de tributar; somente que pode constituir legitimamente o crédito tributário pode prever as hipóteses de isenção. Como meio de exclusão do crédito tributário, a isenção somente pode incidir, por óbvio, nas situações em que o crédito tributário poderia ser constituído (se não incidissem as regras isencionais); assim, presentes os aspectos do fato gerador (material, temporal, espacial, pessoal), o crédito tributário não será constituído em razão e por incidência das regras de isenção; por conseguinte, as regras de isenção não incidem se ausentes um ou alguns dos aspectos do fato gerador, uma vez que, se o tributo não pode ser constituído por não se encontrarem presentes elementos essenciais do fato gerador, o caso é simplesmente de ausência de incidência tributária, e não de isenção. No caso das pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, o lucro societário (também chamado de lucro líquido do exercício) não é elemento material do fato Fl. 1647DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 29 55 gerador, mas, tão somente, apenas um antecedente lógico do lucro real (Lei nº 8.981, de 1995, art. 37, § 1º). Assim, não existe regra isencional que incida sobre o lucro líquido, mas somente sobre o lucro real. Se muitos não se apercebem da relevância jurídica dessa questão é porque, de regra, em termos práticos, o lucro real é maior, em termos quantitativos, do que o lucro líquido. Tal realidade se deve a que, no cálculo do lucro real, são adicionados ao lucro líquido diversos custos, despesas, encargos, perdas, provisões, participações (RIR 99, art. 249, I) e resultados, rendimentos, receitas e quaisquer outros valores não incluídos na apuração do lucro líquido (RIR 99, art. 249, II). As exclusões do lucro líquido permitidas pela legislação fiscal (art. 250 do RIR 99), de regra são inferiores do que as adições. Tal fato foi demonstrado pelo Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil, Antonio Jose Praga de Souza, ex conselheiro deste CARF, em sua dissertação de mestrado intitulada “Imposto de Renda no Brasil: estudo de distorções, em especial algumas relacionadas à distribuição de lucros das empresas (http://www.mestradoprofissional.gov.br/ sites/images/mestrado/turma2/antoniojosepragadesouza.pdf, p. 23), o qual, ao analisar a questão da Isenção do Imposto de Renda na distribuição de lucro contábil (não tributado) concluiu: O resultado obtido em relação ao Lucro Real foi um indicador negativo, revelando que os lucros distribuídos [contabilmente] são sempre inferiores aos efetivamente tributados. Isso já era esperado, pois, a legislação do IRPJ estabelece uma série de adições a serem feitas do lucro líquido contábil da empresa para determinação do lucro real. (Grifouse.) Pois bem, ser o lucro societário, utilizado para a distribuição, de regra, inferior ao lucro real, não o torna passível de sofrer a incidência da regra isencional, pois, como visto, tal lucro não é aspecto material da hipótese de incidência do imposto sobre a renda. Também nesse sentido, o Parecer/PGFN/CAT/Nº 202/2013 (disponível em http://dados.pgfn.fazenda.gov.br/dataset/pareceres/resource/2022013): (...) 29. A Lei nº 11.638, de 2007, em conjunto com a Lei nº 11.941, de 2009, provocam impacto no art. 10 da Lei nº 9.245, de 1995, porque cindiram o conceito, até então coincidente, entre lucro tributável e lucro distribuível. (...) (...) 30. É verdade que antes dessa dicotomia de escriturações, poderia haver caso de distribuição de parcela que não foi considerada na tributação e que, portanto, não estava ao abrigo da isenção do art. 10, porém apenas no caso de distribuição de valor não escriturado. Tanto assim o é que a IN SRF nº 93, de 24 de dezembro de 1997, prescreve:(...) (Grifouse.) Como que (a) tanto o lucro líquido quanto o lucro real possuem expressão econômica, e (b) é passível de isenção apenas o lucro real, podese afirmar que, em termos monetários a “isenção aos lucros societários” distribuídos se limita ao montante do lucro real. Fl. 1648DF CARF MF 56 No cálculo do lucro real, mesmo que tenham sido desobedecidas as diversas regras societárias que determinam, em grupos societários, o expurgo, nas demonstrações financeiras, dos efeitos enganosos decorrentes do cálculo do valor do investimento pelo método da equivalência patrimonial, a legislação fiscal art. 389 do RIR 99 determina a exclusão do resultado positivo da investida (no caso, Banco Pactual) na apuração do lucro real, o que anula, por completo, o efeito que essas receitas poderiam ter. Decorrentemente, não há: (a) lucro real derivado de tais resultados positivos a ser distribuído ou capitalizado pelos sócios, nem, decorrentemente, (b) elevação do custo de aquisição das ações derivada desse resultado positivo. Não há falar, portanto, de subsunção à regra isentiva carreada pelo art. 10 da Lei 9.249, de 1995. Verifiquese, nesse prisma, a exposição de motivos da Lei 9.249, de 1995, item 12: 12. Com relação à tributação dos lucros e dividendos, estabelecese a completa integração entre a pessoa física e a pessoa jurídica, tributandose esses rendimentos exclusivamente na empresa e isentandoos quando do recebimento pelos beneficiários. Além de simplificar os controles e inibir a evasão, esse procedimento estimula, em razão da equiparação de tratamento e das alíquotas aplicáveis, o investimento nas atividades produtivas. (Grifouse.) Assim, também sob o ângulo da distribuição de lucros é procedente a glosa no aumento do custo de aquisição das ações. Esse entendimento está de acordo com a jurisprudência firmada pelo STF na ADI 2588 (referida indiretamente pelo recorrente), que trata da tributação de lucros no exterior (art. 74 da MP 215835, de 2001, referida diretamente pelo recorrente): caso o lucro real auferido no exterior por uma controlada seja oferecido à tributação na controladora sediada no Brasil (caso, por exemplo, de lucros auferidos por sociedades sediadas em paraísos fiscais), ele é apto a se subsumir à isenção do art. 10 da Lei 9249, de 1995; caso o lucro real auferido no exterior não seja oferecido à tributação no Brasil (caso, por exemplo, de lucros auferidos no exterior por coligadas não sediadas em paraísos fiscais), o montante deste lucro não é apto a se subsumir à isenção do art. 10 da Lei 9249, de 1995. DA ALEGAÇÃO DE ARBITRAMENTO DO CUSTO DAS AÇÕES O recorrente afirma que foram utilizados diferentes critérios nos lançamentos dos diversos acionistas do Banco Pactual. Tais critérios seriam os adotados: (1) expurgo dos efeitos da capitalização na Nova Pactual ou PSA; (2) expurgo dos efeitos da capitalização na Nova Pactual e na PSA; (3) o cálculo do custo médio ponderado das ações. Como amplamente exposto no meu voto, considero correto o expurgo dos efeitos da capitalização na Nova Pactual e na PSA no custo de aquisição das ações do contribuinte, como realizado no presente caso. Fl. 1649DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 30 57 Nos casos (1) e (2), citados pelo recorrente como exemplos de critérios diversos, houve sim, e, a meu juízo, por equívoco, a utilização de critérios mais benéficos para os respectivos contribuintes, uma vez que apenas foram expurgados os efeitos da capitalização na Nova Pactual ou na PSA. A utilização de expurgos em montante insuficiente em alguns processos, estranhos à presente lide, em nada favorece o contribuinte, já que, no presente caso, foi utilizado o critério correto. Quanto ao critério (3), cálculo do custo médio ponderado das ações, nada tem a ver com critério de fiscalização no lançamento, mas diz respeito ao cálculo do custo das ações, determinado pela legislação tributária (art. 16 da Lei 7713, de 1988 e do art. 16 da IN SRF 84, de 2001) em toda e qualquer aquisição de ações. De acordo com tais textos, “O custo de aquisição de títulos e valores mobiliários, de quotas de capital e dos bens fungíveis será a média ponderada dos custos unitários, por espécie, desses bens” (§ 2º do art. 16 da Lei 7.713, de 1988). Ademais, a necessidade de os lucros serem tributados (bancos devem obrigatoriamente apurar o lucro real, por disposição do art. 14, II, da Lei 9718, de 1998) emerge mais uma vez do texto do § 3º do art. 16 da Lei 7.713, de 1988, que refere “No caso de participação societária resultantes de aumento de capital por incorporação de lucros e reservas, que tenham sido tributados na forma do art. 36 desta Lei, o custo de aquisição é igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista beneficiário”. (Grifouse.) Vejamos o texto de tais normas. Lei 7.713, de 1988 Art. 16. O custo de aquisição dos bens e direitos será o preço ou valor pago, e, na ausência deste, conforme o caso: I o valor atribuído para efeito de pagamento do imposto de transmissão; II o valor que tenha servido de base para o cálculo do Imposto de Importação acrescido do valor dos tributos e das despesas de desembaraço aduaneiro; III o valor da avaliação do inventário ou arrolamento; IV o valor de transmissão, utilizado na aquisição, para cálculo do ganho de capital do alienante; V seu valor corrente, na data da aquisição. § 1º O valor da contribuição de melhoria integra o custo do imóvel. § 2º O custo de aquisição de títulos e valores mobiliários, de quotas de capital e dos bens fungíveis será a média ponderada dos custos unitários, por espécie, desses bens. § 3º No caso de participação societária resultantes de aumento de capital por incorporação de lucros e reservas, que tenham Fl. 1650DF CARF MF 58 sido tributados na forma do art. 36 desta Lei, o custo de aquisição é igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista beneficiário. § 4º O custo é considerado igual a zero no caso das participações societárias resultantes de aumento de capital por incorporação de lucros e reservas, no caso de partes beneficiárias adquiridas gratuitamente, assim como de qualquer bem cujo valor não possa ser determinado nos termos previsto neste artigo. (Grifouse.) IN SRF 84, de 2001 Participações societárias Art. 16. Na hipótese de integralização de capital mediante a entrega de bens ou direitos, considerase custo de aquisição da participação adquirida o valor dos bens ou direitos transferidos, constante na Declaração de Ajuste Anual ou o seu valor de mercado. § 1o Se a transferência não se fizer pelo valor constante na Declaração de Ajuste Anual, a diferença a maior é tributável como ganho de capital. § 2o No caso de ações ou quotas recebidas em bonificação, em virtude de incorporação de lucros ou reservas ao capital social da pessoa jurídica, considerase custo de aquisição da participação o valor do lucro ou reserva capitalizado que corresponder ao acionista ou sócio, independentemente da forma de tributação adotada pela empresa. § 3o Para efeito de apuração de ganho de capital na alienação de participações societárias, o custo de aquisição das ações ou quotas é apurado pela média ponderada dos custos unitários, por espécie, desses títulos. § 4o O custo médio ponderado de cada ação ou quota: I é igual ao resultado da divisão do valor total de aquisição das ações ou quotas em estoque pela quantidade total de ações ou quotas em estoque, inclusive bonificadas; II multiplicado pela quantidade de ações ou quotas alienadas, constitui o custo de aquisição para efeito da apuração do ganho de capital; III multiplicado pelo número de ações ou quotas remanescente, constitui o valor do estoque desses títulos. § 5o A cada aquisição ou baixa devem ser ajustadas as quantidades em estoque e os custos total e médio ponderado, por espécie, das ações ou quotas. (Grifouse.) Sublinho que a apuração do custo médio das ações com base em seu valor corrente, na data de apuração, na forma dos dispositivos citados (art. 16 da Lei 7.713, de 1988 e art. 16 da IN SRF 84, de 2001) é determinação legal e constante no Decreto 3.000, de 1999 (RIR 99), arts. 129 e 130 (citado no auto de infração), e, decorrentemente, utilizado pelo Fl. 1651DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 31 59 programa da Declaração de Ajuste Anual para o cálculo do ganho de capital (ver, por exemplo, efl. 08). Gizo que, na forma do art. 16, § 4º, da Lei 7713, de 1988, é imprescindível quantificar o valor das ações recebidas pelos contribuintes, sob pena de ser igual a zero o valor do custo de aquisição a ser considerado. DEMAIS ALEGAÇÕES DO RECORRENTE Por sua vez, o Acórdão CARF 10196.570, citado pelo recorrente, trata de uma situação específica e diferente, no qual não foi obedecida a regra do art. 388, § 1º (já transcrita), que determina, em caso de reavaliação de bens do ativo, a baixa da reserva mediante redução do investimento, como se verifica à leitura de sua ementa: RESERVA DE REAVALIAÇÃO DE INVESTIMENTO EM CONTROLADA — ALIENAÇÃO DE INVESTIMENTO — NECESSIDADE DE REALIZAÇÃO DA RESERVA — A reavaliação de bens do ativo gera o aumento de seu valor contábil e, por conseguinte, diminui o ganho de capital apurado na sua alienação. Com o intuito de que haja a compensação contábil e fiscal, o valor da reserva deverá ser computado na determinação do lucro real do períodobase em que o contribuinte alienar ou liquidar o investimento. Se o Contribuinte, na alienação de seu investimento, computou em seu custo de aquisição o valor da reavaliação, o fato da investida ter realizado sua reserva no mesmo anocalendário não afasta a tributação no Contribuinte. A realização da reserva pela investida apenas autorizaria a baixa da reserva, mediante a redução do valor do investimento. Se o investimento foi alienado sem o ajuste e redução em seu valor, a reserva, no Contribuinte, deve de fato ser realizada, considerando os efeitos no resultado fiscal da alienação do investimento, com o aumento da perda ou redução do ganho. Ademais, em se tratando de isenção ou redução de base de cálculo, a Constituição Federal, art. 150, § 6º, exige que a matéria seja regulada por lei específica, que não existe no caso de capitalização de lucros societários: Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: (...) § 6º Qualquer subsídio ou isenção, redução de base de cálculo, concessão de crédito presumido, anistia ou remissão, relativos a impostos, taxas ou contribuições, só poderá ser concedido mediante lei específica, federal, estadual ou municipal, que regule exclusivamente as matérias acima enumeradas ou o correspondente tributo ou contribuição, sem prejuízo do disposto Fl. 1652DF CARF MF 60 no art. 155, § 2.º, XII, g. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 3, de 1993). Em resumo, a prática do recorrente não encontra amparo em qualquer ato legal ou infralegal por ele citado. Passo a analisar a legislação citada pelo recorrente. O art. 8º da Lei 9.532, de 1997, trata de situação diversa, ou seja, a incorporação, fusão ou cisão, na qual haja participação societária adquirida com ágio ou deságio. Inaplicável ao presente caso também a Instrução Normativa 77, de 1986, que “expede normas para efeitos de adaptação de legislação do imposto de renda em vigor ao regime de tributação das pessoas jurídicas estabelecido na Lei nº 7.450/85”. O seu subitem 5.9, citado pelo recorrente, refere que “ao aumento do capital da sucessora com a incorporação de lucros e reservas da sucedida, aplicamse as normas dos artigos 376 e 377 do RIR/80”; tais arts. 376 e 377 do RIR/80 regulamentavam, por sua vez, o art. 63, §§ 3º e 4º, do DecretoLei 1598, de 1977, dispondo, nas palavras do recorrente, que “se a pessoa jurídica restituísse capital aos sócios nos cinco anos subsequentes à capitalização de lucros, o montante do capital restituído seria tratado como dividendo”. O item 5 da IN 77, de 1986 (no qual se insere o já analisado subitem 5.9) trata das normas a serem observadas nos “casos de incorporação, fusão e cisão de que trata o artigo 33 da Lei nº 7.450/85”. É matéria estranha ao caso em análise. Igualmente inaplicável ao presente caso é o art. 33 da Lei 7.450, de 1985, que trata do balanço a ser levantado pela pessoa jurídica a ser incorporada, fusionada ou cindida, para determinar o lucro real na data da incorporação, fusão ou cisão; porém, percebase que (re)afirmase a regra de que é o lucro real (e não o societário) que deve ser levado em conta para fins dos efeitos tributários da distribuição ou da capitalização de lucros, inclusive no caso de uma incorporação: Art. 33. A pessoa jurídica incorporada, fusionada ou cindida deve levantar balanço e demonstração de resultados e determinar o lucro real na data da incorporação, fusão ou cisão, observado o seguinte: (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.323, de 1987) (Grifouse.) I o lucro real apurado será convertido em número de OTN pelo valor desta na data da incorporação, fusão ou cisão; (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.323, de 1987) II a declaração de rendimentos deverá ser apresentada até o último dia útil do mês subseqüente à ocorrência do evento; (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.323, de 1987) Também desbordam do caso concreto o art. 22 da Lei n° 9.249/95 e o art. 29, III, da Instrução Normativa SRF 84, de 2001. O primeiro, ao referir que “os bens e direitos do ativo da pessoa jurídica, que forem entregues ao titular ou a sócio ou acionista a título de devolução de sua participação no capital social, poderão ser avaliados pelo valor contábil ou de mercado”; o segundo, que determina a exclusão, para fins da determinação do ganho de capital da pessoa física dos ganhos de capital decorrentes de “restituição de participação no capital social mediante a entrega à pessoa física, pela pessoa jurídica, de bens e direitos de seu ativo, avaliados pelo valor contábil ou de mercado”. Fl. 1653DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 32 61 No caso em exame, não houve “restituição de participação no capital social mediante a entrega à pessoa física, pela pessoa jurídica, de bens e direitos de seu ativo”, mas recebimento de participação no capital social da incorporadora (controlada) em substituição à participação que o recorrente detinha na incorporada (controladora) e posterior ganho de capital na alienação das ações. É evidente a diferença entre os institutos jurídicos da “restituição de participação no capital social” e do recebimento de participação no capital em substituição a outro, que deixa de existir em face de incorporação; ademais, no respeitante à isenção (matéria tratada neste processo), o art. 111, “II”, da Lei 5.172, de 1966 (CTN), exige o uso da interpretação literal: Art. 111. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre: (...) II outorga de isenção; O entendimento professado até este momento está em consonância com o vem reiteradamente decidindo a CSRF. O capítulo seguinte trata de razões outras pelas quais o lançamento deve ser mantido, ressaltando que: (a) as razões até aqui expostas são suficientes para negar provimento ao recurso voluntário na questão do ganho de capital; (b) as razões a seguir expostas, por si só, são suficientes para se chegar à mesma conclusão. CONCLUSÕES Com base nas considerações retro, considero correto o procedimento adotado de se expurgar os efeitos da capitalização nas sociedades do Grupo Pactual no custo de aquisição das ações do contribuinte. DA MULTA QUALIFICADA No tangente à multa qualificada, sua imposição é dependente da existência, por parte do contribuinte, do dolo de praticar a sonegação ou a fraude, nos termos dos arts. 71 a 73 da Lei 4.502, de 1964, em face da remissão efetuada pelo art. 44 da Lei 9.430, de 1996: Lei 9.430, de 1996 Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (...) II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. Fl. 1654DF CARF MF 62 Lei 4.502, de 1964 Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Ora, independentemente da configuração, ou não, de simulação na cadeia de operações de compra e venda do Banco Pactual à UBS AG, o contribuinte, detendo tão somente 3,00% das ações do Banco Pactual (termo de verificação fiscal, efl. 341), não poderia influenciar o modo como foi procedido o negócio. Se dolo houve, a justificar a imposição de multa qualificada, foi por parte de quem detinha o controle do Banco Pactual, e não por parte dos acionistas minoritários, que não podem decidir como se fará o negócio. Da mesmo forma, não é razoável a alegação da tentativa de impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária se as operações que deram origem às parcelas lançadas especialmente o contrato no qual eram previstos os pagamentos – já eram de conhecimento da fiscalização, em razão de procedimento fiscal anterior. Por esses motivos, entendo que a multa deve ser desqualificada, reduzida ao percentual de 75%. DA INCIDÊNCIA DOS JUROS SOBRE A MULTA O recorrente alega que é descabida a incidência de juros sobre a multa porque isso implicaria numa indireta majoração da própria penalidade e não se pode falar em mora na exigência de multa. Não assiste razão ao recorrente. Para o deslinde da questão, devese discernir os conceitos de tributo e de crédito tributário veiculados no Código Tributário Nacional (CTN). Tributo é definido em seu art. 3°: Art. 3°. Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada. Fl. 1655DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 33 63 Por sua vez, os artigos 113, § 1°, 139 e 142 do CTN dispõem sobre o crédito tributário: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1° A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. (Grifouse.) Assim, a multa, apesar de não ser tributo, integra o crédito tributário e, em vista desse fato, se subsume ao tratamento dispensado ao crédito tributário pelo CTN. O art. 161 do CTN estabelece que, ao crédito tributário não pago no vencimento, devem ser acrescidos os juros moratórios à taxa disposta em lei ou, em sua falta, à taxa de um por cento ao mês: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. (Grifouse.) Assim, ao contrário do que alega o interessado, o CTN determina a incidência de juros de mora sobre a multa lançada de ofício. A expressão “sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis” esclarece que a imposição de juros e de multa não são excludentes entre si. A previsão legal da incidência de juros sobre as multas de ofício constou nas Leis 9.430, de 1996 e 10.522, de 2002, que disciplinaram o assunto de maneira diversa ao que acontecia até então. Vejamos, inicialmente, o que diz o § 3° do art. 61 da Lei 9.430, de 1996: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1° de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (...) Fl. 1656DF CARF MF 64 §3° Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3° do art. 5°, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Por sua vez, os arts. 29 e 30 da Lei 10.522, de 2002, resultante da conversão da Medida Provisória 162131, de 1998 (reedição da Medida Provisória 154217, de 18 de dezembro de 1996, arts. 25 e 26), dispõem: Art. 29. Os débitos de qualquer natureza para com a Fazenda Nacional e os decorrentes de contribuições arrecadadas pela União, constituídos ou não, cujos fatos geradores tenham ocorrido até 31 de dezembro de 1994, que não hajam sido objeto de parcelamento requerido até 31 de agosto de 1995, expressos em quantidade de Ufir, serão reconvertidos para real, com base no valor daquela fixado para 1° de janeiro de 1997. (...) Art. 30. Em relação aos débitos referidos no art. 29, bem como aos inscritos em Dívida Ativa da União, passam a incidir, a partir de 1° de janeiro de 1997, juros de mora equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia Selic para títulos federais, acumulada mensalmente, até o último dia do mês anterior ao do pagamento, e de 1% (um por cento) no mês de pagamento. A multa de ofício proporcional, lançada em função de infração à legislação tributária de que resulta falta de pagamento de tributo, é débito decorrente de tributos e contribuições, estando a eles vinculada. Logo, as expressões “débitos decorrentes de tributos e contribuições” e “débitos de qualquer natureza”, utilizadas, respectivamente, nas Leis 9.430/1996 e 10.522/2002, incluem a multa de ofício. Também tratam especificadamente do assunto, determinando a cobrança de juros sobre a multa, os pareceres MF/SRF/COSIT/COOPE/SENOG n° 28, de 1998 e PGFN/CAT nº 1834, de 2013: Parecer MF/SRF/COSIT/COOPE/SENOG n° 28 3. (...). Assim, desde 01.01.97, as multas de ofício que não forem recolhidas dentro dos prazos legais previstos estão sujeitas à incidência de juros de mora equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais, acumulada mensalmente, até o último dia do mês anterior ao do pagamento, e de um por cento no mês de pagamento, desde que estejam associadas a: a) fatos geradores ocorridos a partir de 01.01.97; b) fatos geradores que tenham ocorrido até 31.12.94, se não tiverem sido objeto de pedido de parcelamento até 31.08.95. Parecer PGFN/CAT nº 1834, de 2013 21.Por todo o exposto, respondendo à consulta apresentada pela ProcuradoriaRegional da Fazenda Nacional da 3ª Região, por meio da Consulta Interna identificada pelo nº. Fl. 1657DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 34 65 20138000CI00002, que veicula questionamentos a respeito da incidência de juros de mora sobre créditos tributários resultantes de multa de ofício aplicada pela RFB, referentes a fatos geradores ocorridos em 1995 e 1996, entendemos, salvo melhor juízo, que há incidência dos mencionados juros de mora sobre as multas de ofício, seja por aplicação do § 1º do artigo 161 do CTN, seja por determinação de norma legal específica, o que se resume nas seguintes situações: a) para a hipótese de haver créditos ainda não inscritos em dívida ativa (sob administração da RFB), decorrentes de fatos geradores ocorridos em 1995 e 1996, em razão da ausência de lei específica, incidirá a norma geral prevista no § 1º do artigo 161 do CTN, aplicandose o índice de 1% ao mês; b) para os créditos inscritos em dívida ativa da União (sob administração da PGFN), aplicase a taxa SELIC a partir de 31 de agosto de 1995, data de início da vigência do § 8º, inserido no artigo 84 da Lei nº. 8.981, de 1995, por determinação do artigo 16 da MP nº. 1.110, de 1995, objeto de sucessivas reedições e confirmado pelo artigo 17 da Lei nº. 10.522, de 2002; e c) para os créditos inscritos em dívida ativa da União, referentes a fatos geradores ocorridos entre 1 de janeiro e 30 de agosto de 1995, por ausência de norma legal específica, aplicase o índice de 1% ao mês, com base no § 1º do artigo 161 do CTN. Também nesse sentido a jurisprudência da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF): JUROS MORATÓRIOS INCIDENTES SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC. A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre a qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. (Acórdão 9202003.700) JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Recurso da Fazenda Nacional Provido. Recurso da Contribuinte Improvido. (Nº Acórdão 9101000.539) Conclusão Voto, portanto, por (a) considerar não ocorrida a decadência do poderdever de lançar o crédito tributário e (b) DAR PARCIAL PROVIMENTO ao recurso, reduzindo a multa qualificada ao percentual de 75% e mantendo o lançamento nas demais questões. Fl. 1658DF CARF MF 66 (assinado digitalmente) João Bellini Júnior Relator Declaração de Voto Conselheiro Fábio Piovesan Bozza Peço vênia para apresentar algumas breves considerações sobre a fundamentação de alguns tópicos, em razão do caráter controvertido da matéria e da recorrência desses casos no colegiado. Destaco que a presente declaração de voto foi preparada tendo em vista processo com o maior número de intercorrências, a exemplo das alegações de decadência e de insubsistência da multa qualificada. Portanto, a declaração de voto deverá ser ajustada, “mutatis mutandis”, à matéria controvertida nos presentes autos. Decadência A verificação do eventual transcurso do prazo decadencial para a constituição do crédito tributário por parte da fiscalização depende de alguns fatores, a saber: (i) a determinação do momento em que ocorre o fato gerador do IR sobre o ganho de capital das pessoas físicas nas alienações a prazo; (ii) a existência ou não de dolo, fraude ou simulação nas operações realizadas pelo Recorrente; e (iii) a existência ou não de pagamento antecipado. Aspecto temporal da hipótese de incidência do IRPF sobre o ganho de capital nas alienações a prazo Tratase de questão controvertida, com escassa manifestação doutrinária e com divergência jurisprudencial. De um lado, advogase que o fato gerador do imposto nessas circunstâncias ocorre por ocasião da alienação do bem, havendo somente um diferimento do pagamento do tributo para o momento do recebimento da parcela do preço pelo alienante. De outro lado, defendese que o fato gerador do IRPF continua a seguir a regra geral do regime de caixa, o qual somente ocorre com o efetivo recebimento de cada parcela do preço. A diferença entre uma e outra posição é significativa e não se restringe à decadência, podendo afetar também a determinação da lei tributária vigente no tempo (art. 144 do CTN). No caso ora analisado, contudo, a questão limitase à decadência. As principais normas relacionadas com o tema são as seguintes (grifamos): Lei nº 7.713/88 Fl. 1659DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 35 67 Art. 2º O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos. (...) Art. 21. Nas alienações a prazo, o ganho de capital será tributado na proporção das parcelas recebidas em cada mês, considerandose a respectiva atualização monetária, se houver. Lei nº 8.981/95 Art. 21. O ganho de capital percebido por pessoa física em decorrência da alienação de bens e direitos de qualquer natureza sujeitase à incidência do Imposto de Renda, à alíquota de quinze por cento. § 1º O imposto de que trata este artigo deverá ser pago até o último dia útil do mês subseqüente ao da percepção dos ganhos. § 2º Os ganhos a que se refere este artigo serão apurados e tributados em separado e não integrarão a base de cálculo do Imposto de Renda na declaração de ajuste anual, e o imposto pago não poderá ser deduzido do devido na declaração. RIR/99 Art. 140. Nas alienações a prazo, o ganho de capital deverá ser apurado como venda à vista e tributado na proporção das parcelas recebidas em cada mês, considerandose a respectiva atualização monetária, se houver (Lei nº 7.713, de 1988, art. 21). § 1º Para efeito do disposto no caput, deverá ser calculada a relação percentual do ganho de capital sobre o valor de alienação que será aplicada sobre cada parcela recebida. § 2º O valor pago a título de corretagem poderá ser deduzido do valor da parcela recebida no mês do seu pagamento. Instrução Normativa SRF nº 84/2001 Art. 31. Nas alienações a prazo, o ganho de capital é apurado como se a venda fosse efetuada à vista e o imposto é pago periodicamente, na proporção da parcela do preço recebida, até o último dia útil do mês subseqüente ao do recebimento. Parágrafo único. O imposto devido, relativo a cada parcela recebida, é apurado aplicandose: Fl. 1660DF CARF MF 68 I – o percentual resultante da relação entre o ganho de capital total e valor total da alienação sobre o valor da parcela recebida; II – a alíquota de quinze por cento sobre o valor apurado na forma do inciso I. A aquisição de disponibilidade jurídica ou econômica da renda ou dos proventos de qualquer natureza, aludida pelo art. 43 do CTN, não representa um instante unívoco. Ao contrário, ela encontrase inserida em um espectro de possibilidades, demandando definição por parte do legislador ordinário. A realização dessa riqueza pode ocorrer em diversos momentos, como a celebração do negócio jurídico, a tradição do bem, o recebimento do preço etc. Compete, assim, ao legislador ordinário definir tal instante, observados os limites estabelecidas pela Constituição Federal e pelo CTN. E assim o fez o legislador ordinário ao editar a Lei nº 7.713/88, conformandose com tais balizas. O art. 21 da Lei nº 7.713/88, ao tratar da tributação do ganho de capital sobre alienações a prazo, afirma que a tributação ocorre “na proporção das parcelas recebidas”. Considero que tal prescrição não excepciona a regra geral do regime de caixa, consagrada pelo art. 2º da Lei nº 7.713/88 e ratificada pelo art. 21 da Lei nº 8.981/95. A regulamentação infralegal (art. 140 do RIR/99 e art. 31 da IN 84/2004) não destoa da lei – e nem poderia – ao estabelecer, respectivamente, a forma de apuração da base de cálculo e o momento da ocorrência do fato gerador do imposto: “o ganho de capital deverá ser apurado como venda à vista e tributado na proporção das parcelas recebidas em cada mês”. O fato de a base de cálculo reportarse a evento (alienação) ocorrido em momento distinto do aspecto temporal da obrigação tributária (recebimento da parcela) não é um impedimento, sequer uma novidade na legislação brasileira. Dois exemplos ilustram esse fato. Primeiro, a contribuição ao PIS, cujo fato gerador ocorria no momento em que auferido o faturamento do mês, mas a base de cálculo reportavase ao faturamento do sexto mês anterior (art. 6º, parágrafo único da Lei Complementar nº 7/70). Segundo, o IRPF no ajuste anual, cujo fato gerador ocorre em 31 de dezembro, mas a base de cálculo abarca os rendimentos percebidos e as despesas dedutíveis pagas durante todo o anocalendário (art. 7º, 8º e 25 da Lei nº 9.250/95) Na verdade, a técnica empregada pelo art. 21 da Lei nº 7.713/88 busca delimitar a composição do ganho de capital ao valor de venda do bem, ao respectivo custo de aquisição e à eventual correção monetária existente no momento da alienação, não abarcando outras verbas porventura acordadas, como eventuais juros incidentes sobre a parcela, que ficam sujeitos à tributação específica. Por outro lado, a tese do diferimento (ocorrência do fato gerador no momento da alienação) não se afigura adequada, justamente porque deriva de uma interpretação do conteúdo da lei feita às avessas, a partir das disposições do seu decreto regulamentador (“o ganho de capital deverá ser apurado como venda à vista”) 1. 1 Além disso, a tese do diferimento cria situações, no mínimo, inusitadas. Se o fato gerador do IR sobre o ganho de capital nas alienações de bens a prazo ocorre no momento da alienação (de modo simplificado, na celebração Fl. 1661DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 36 69 Em suma, o aspecto temporal da hipótese de incidência do IRPF sobre o ganho de capital nas alienações a prazo continua a ser o recebimento do preço (percepção da renda), e não o negócio jurídico da alienação (celebração do contrato de compra e venda). A existência ou não de dolo, fraude ou simulação nas operações Tal como o conselheiro relator, não vislumbro a existência de dolo, fraude ou simulação nas operações de reorganização societária promovidas. E diversas são as razões: (a) a estrutura societária com as empresas “holdings” já era preexistente, não havendo interposição fraudulenta de pessoas; (b) a extinção dessas empresas “holdings”, por meio de sucessivas incorporações reversas, refletiu o poder de escolha assegurada constitucionalmente aos particulares pela autonomia privada, observou o ordenamento jurídico e atendeu com eficiência ao compromisso assumido pelos vendedores com o comprador, demonstrando a existência de propósito negocial, quer na sua vertente de causa jurídica (a qual adoto2), quer na acepção de motivação extratributária; (c) todas as operações foram devidamente escrituradas e arquivadas no registro público, não havendo ocultação de atos; (d) o tempo na realização da reorganização societária foi adequado para alcançar a estrutura requerida pelo comprador no fechamento do negócio (“closing”), com a observância das autorizações governamentais necessárias à validade e à eficácia da operação; (e) não houve desfazimento de nenhuma etapa do procedimento de reorganização societária, nem neutralização dos respectivos efeitos, circunstância que afasta alegações de existência de pacto simulatório prévio entre as partes; (f) a conduta do Recorrente, mesmo diante de uma interpretação a meu ver equivocada sobre o alcance do art. 135 do RIR/99, pode ser qualificada como erro de direito, mas não como ato doloso, fraudulento ou simulado. Afasto, portanto, a acusação de simulação. A existência ou não de pagamento antecipado Não houve propriamente antecipação do pagamento do tributo (porque o IRPF incidente sobre o ganho de capital não está sujeito ao ajuste anual), mas sim pagamento a menor. Em conclusão, aplicandose a regra disposta no art. 150, § 4º do CTN, constatase que o lançamento do IRPF sobre a parcela do preço recebida em 01/12/2006 do contrato), então restaria ao “recebimento do preço” o papel de mero vencimento da obrigação tributária, o qual poderia nunca ocorrer, frustrando a participação do Estado sobre riqueza já auferida pelo contribuinte. Isso porque, diferentes de outros tributos, a Lei nº 7.713/89 não indicou momento em que o diferimento estaria automaticamente interrompido. 2 BOZZA, Fábio Piovesan. Planejamento tributário e autonomia privada. São Paulo: Quartier Latin. 2015. Fl. 1662DF CARF MF 70 encontrase extinto pelos efeitos da decadência, uma vez que a ciência do auto de infração aconteceu em 14/12/2011. O lançamento sobre a outra parcela do preço, recebida em dezembro/2009, não se encontra decaída. Art. 135 do RIR/99 O mérito da autuação envolve a atualização do custo de aquisição de participações societárias detida por pessoa física, em decorrência da capitalização de lucros e reservas na pessoa jurídica investida, conforme o disposto no art. 135 do Regulamento do Imposto de Renda (RIR/99): Art. 135. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital ou incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista (Lei nº 9.249, de 1995, art.10, parágrafo único) O Recorrente defende que a capitalização de lucros reconhecidos pelas empresas “holdings” de acordo com o método de equivalência patrimonial (MEP) é mera consequência das operações de reestruturação societária realizadas. E a legislação fiscal prevê que a capitalização de lucros e reservas gera acréscimo de custo para o acionista pessoa física, sem cogitar da natureza do lucro. Realmente, pelo MEP, os lucros (ou prejuízos) deverão ser registrados como receita (ou despesa) da empresa investidora no momento da sua geração, independentemente da formalização do ato de distribuição, afetando o valor contábil do investimento constante do ativo, na subconta de equivalência patrimonial; posteriormente, o registro contábil dos dividendos distribuídos não deverá transitar pelas contas de resultado da investidora, havendo mero lançamento permutativo entre contas do balanço patrimonial (geralmente debitandose a conta caixa ou bancos e creditandose a subconta de equivalência patrimonial). Referida sistemática de mensuração, portanto, não se esgota no fluxo financeiro de recursos, nem se limita aos efeitos dos atos jurídicos da pessoa jurídica investida. Busca, ademais, controlar e monitorar a performance das diversas entidades envolvidas, antecipando fluxos de caixa futuros ou oportunidades de negócio. O viés econômico do resultado de equivalência patrimonial, todavia, não lhe retira o efeito de interferir no resultado contábil da investidora, de forma positiva (receita) ou negativa (despesa). Consequentemente, o lucro contábil oriundo da aplicação do MEP não é meramente gráfico, nem se reduzia a uma informação econômica para os interessados, podendo ser objeto de distribuição de dividendos pela sociedade investidora. Os resultados positivos de equivalência integram o lucro da pessoa jurídica investidora e são passíveis de distribuição. Tanto assim que a Lei das S/A criou um mecanismo para evitar a incompatibilidade entre a distribuição do dividendo obrigatório e o reconhecimento do lucro pelo MEP. Por meio da reserva de lucros a realizar (art. 197)3, é possível excluir da base dos dividendos a parcela do lucro ainda não realizada financeiramente. 3 Art. 197. No exercício em que o montante do dividendo obrigatório, calculado nos termos do estatuto ou do art. 202, ultrapassar a parcela realizada do lucro líquido do exercício, a assembléiageral poderá, por proposta dos órgãos de administração, destinar o excesso à constituição de reserva de lucros a realizar. (Redação dada pela Lei nº 10.303, de 2001) Fl. 1663DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 37 71 Para fins fiscais, todavia, os efeitos do MEP deveriam ser diferentes, conforme já tive oportunidade de manifestar opinião a respeito4: Para ser considerada constitucionalmente válida e eficaz, a incidência tributária deve recair sobre um fatosigno presuntivo de riqueza, de natureza econômica ou jurídica, que traduza a manifestação de capacidade contributiva, com razoável margem de segurança e não configure confisco. Em sua essência, o resultado de equivalência patrimonial, embora evidencie um fato econômico, não representa a aquisição de um direito ou a assunção de uma obrigação por parte da sociedade investidora, de maneira definitiva e incondicional. Não revela a aquisição de disponibilidade econômica ou jurídica de renda, exigida pelo art. 43 do CTN para permitir a incidência do imposto de renda. Traduz, isto sim, mero ajuste contábil, provisório e aproximado de potencial renda, ainda não realizada. Aliás, é importante enfatizar que o MEP revela exatamente os lucros não distribuídos pela investida. O resultado de equivalência patrimonial, portanto, não reúne os requisitos suficientes e necessários à tributação (resultado positivo) ou à dedução fiscal (resultado negativo). Por essa razão, o legislador brasileiro conferiu, corretamente, tratamento fiscal neutro aos resultados de equivalência patrimonial pelos tributos incidentes sobre a renda e sobre a receita. Há quem defenda que estas previsões legislativas apenas declaram ou reconhecem hipóteses de nãoincidência tributária, e não introduzem propriamente normas de isenção. Contudo, o artigo doutrinário denunciava que a desejada neutralidade fiscal já não era integral no âmbito legal, justamente no tema ora em debate: Em eventual alienação ou baixa do investimento, as oscilações patrimoniais da sociedade investida, desde o momento da aquisição, estarão refletidas no valor contábil do investimento em decorrência da aplicação do MEP, o qual constitui referência para apuração de ganho ou perda de capital (art. 33 do Decretolei n. 1.598/77). Quer dizer, no momento em que a sociedade investidora efetuar a alienação ou a liquidação das participações societárias, o montante que servirá de base para se definir a existência de ganho ou perda de capital será o valor contábil do investimento atualizado pelas variações do MEP, e § 1º Para os efeitos deste artigo, considerase realizada a parcela do lucro líquido do exercício que exceder da soma dos seguintes valores: I – o resultado líquido positivo da equivalência patrimonial (art. 248); e II – o lucro, rendimento ou ganho líquidos em operações ou contabilização de ativo e passivo pelo valor de mercado, cujo prazo de realização financeira ocorra após o término do exercício social seguinte. (Redação dada pela Lei nº 11.638,de 2007) § 2º A reserva de lucros a realizar somente poderá ser utilizada para pagamento do dividendo obrigatório e, para efeito do inciso III do art. 202, serão considerados como integrantes da reserva os lucros a realizar de cada exercício que forem os primeiros a serem realizados em dinheiro. 4 BOZZA, Fábio Piovesan. “Tratamento fiscal do ágio na aquisição de investimento”. Revista Dialética de Direito Tributário nº 178. São Paulo: Dialética. 2010. Fl. 1664DF CARF MF 72 não o custo de aquisição incorrido na data da aquisição das ações ou quotas. Posteriormente, a desejada neutralidade fiscal do MEP sofreu novo revés, agora no âmbito judicial. Por ocasião do julgamento da ADI nº 2.588, o plenário do Supremo Tribunal Federal decidiu, por maioria apertada, que o resultado positivo da avaliação dos investimentos brasileiros no exterior pelo MEP corresponde ao acréscimo patrimonial exigido pelo art. 43 do CTN e que sua disponibilidade seria econômica, resultante da contabilização pelo regime de competência. De qualquer modo, considero que a questão envolvendo a interpretação do art. 135 do RIR/99 não está limitada à determinação da natureza do resultado positivo de equivalência patrimonial. A sistemática do MEP não justifica como o custo de aquisição das ações do Recorrente, depois de algumas operações de reestruturação societária, possa superar o montante dos próprios lucros gerados pelo banco. Não justifica, porque não pode. Se pudesse, seria um benefício fiscal, redutor do ganho de capital na eventual alienação. Mas esse não é o caso. O fato é que o art. 135 do RIR/99 encontrase na confluência de dois regimes distintos de reconhecimento de resultados: o regime de competência, no caso das pessoas jurídicas, e o regime de caixa, no caso das pessoas físicas. Cada um deles exerce influência sobre o alcance do dispositivo. A mera literalidade não basta. É preciso também compreender a sua finalidade. E a finalidade do art. 135 do RIR/99, a meu ver, foi possibilitar o aumento do custo de aquisição das participações societárias sem o necessário fluxo financeiro entre a pessoa jurídica investida e a pessoa física investidora, representado pelo pagamento de dividendos e pelo subsequente aumento de capital social. Ausente o art. 135, o aumento do referido custo de aquisição estaria condicionado a tal périplo. E esse pareceme ser o parâmetro adequado para se elucidar a função do dispositivo. Por isso, ao se interpretar o art. 135 do RIR/99 não apenas literalmente, mas também sistemática e finalisticamente, concluo que o aumento do custo de aquisição das participações societárias dependeria da capitalização dos lucros em toda a cadeia de empresas, desde o banco até as empresas “holdings”, de modo equivalente ao que aconteceria se tivesse havido o mencionado périplo financeiro entre as empresas investidas e a pessoa física investidora. Adicionalmente, vale enfatizar que os lucros sequer foram capitalizados no banco, o que justificaria, a meu ver, toda e qualquer glosa de aumento do custo de aquisição das participações da pessoa física investidora vinculado ao MEP (respeitado os limites do lançamento fiscal). No caso concreto, o dispositivo parece ter sido interpretado apenas em sua literalidade, sem considerar os aspectos sistemático e finalístico acima elencados, redundando em uma diminuição indevida do ganho de capital tributável. Em vista do exposto, acompanho o voto do eminente conselheiro relator, pelas suas conclusões. Multa de Ofício Qualificada Fl. 1665DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 38 73 Por não vislumbrar a ocorrência de dolo, fraude ou simulação nas operações conduzidas pelo Recorrente, nos termos já antecipados no tópico relativo à decadência, acompanho o voto do conselheiro relator também nessa parte. Juros de Mora sobre Multa de Ofício A regra veiculada pelo art. 61 da Lei nº 9.430/96 referese à incidência de acréscimos moratórios sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições. A multa de ofício não decorre de tributo ou contribuição, mas do descumprimento do dever legal de declarálo e de pagálo. Consequentemente, afigurase inaplicável a cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício lançada. Nesse ponto, divirjo do voto do conselheiro relator. Fábio Piovesan Bozza Fl. 1666DF CARF MF 74 Declaração de Voto Conselheiro Alexandre Evaristo Pinto Com o devido respeito, divirjo do voto do ilustre relator, uma vez que entendo que inexiste proibição legal ao aumento do custo de aquisição das ações da pessoa física objeto do presente processo. O imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza é de competência da União Federal conforme artigo 153, III, da Constituição Federal, sendo que as normas gerais do referido imposto foram estabelecidas pelos artigos 43 a 45 do Código Tributário Nacional. Segundo o artigo 45 do Código Tributário Nacional, o contribuinte do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza é o titular da disponibilidade econômica ou jurídica da renda ou proventos adquiridos, sem prejuízo de atribuir a lei essa condição ao possuidor, a qualquer título, dos bens produtores de renda ou dos proventos tributáveis. Nessa linha, há diversas leis federais que determinam casos de titularidade de renda ou proventos por pessoas físicas residentes no Brasil ou não, configurandoas como contribuintes do imposto de renda, assim como há diversas outras leis federais que determinam casos de titularidade renda ou proventos por pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil não, também as configurando como contribuintes do imposto de renda. Diante de tal cenário, o imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza irá abranger tanto contribuintes pessoas físicas quanto contribuintes pessoas jurídicas. Em estudo pioneiro no Direito Brasileiro sobre as implicações tributárias da tributação pelo imposto de renda tanto das pessoas jurídicas quanto das pessoas físicas, Henry Tilbery destacava a importância de que os governos instituíssem mecanismos para extirpar ou mitigar os efeitos do “bis in idem” decorrente da possibilidade teórica da tributação pelo mesmo ente tributante de uma mesma renda tanto no âmbito da pessoa jurídica quanto no âmbito da pessoa física, conforme pode ser observado no trecho abaixo: “Independentemente da questão da justificativa teórica da tributação dos lucros em nível das pessoas jurídicas, surge o problema crucial de que esses lucros, quando já tributados na pessoa jurídica, sofrem novamente a incidência do imposto de renda nas pessoas físicas dos sócios, quando distribuídos. Não se trata de bitributação, no sentido jurídico correto da palavra, mas de “bis in idem”, isto é, o mesmo poder tributante, dentro dos limites de sua competência, grava duas vezes a mesma matéria”. (TILBERY, Henry. Imposto de Renda – Pessoas Jurídicas – Integração entre Sociedade e Sócios. São Paulo: Atlas, 1985. p. 40) Nessa linha, Henry Tilbery irá analisar à luz das finanças públicas e do direito comparado diferentes métodos de integração entre a renda das pessoas jurídicas e das pessoas físicas, sendo que destacamos que os dois principais métodos são os seguintes: (i) método de integração parcial de exclusão dos dividendos recebidos (“dividend received exclusion”), pelo qual os dividendos recebidos na pessoa física não seriam incluídos nos rendimentos tributáveis da pessoa física sócia ou acionista da pessoa jurídica que distribuiu aqueles dividendos; e (ii) método da integração parcial pelo método da retenção (“withholding Fl. 1667DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 39 75 method”), pelo qual o imposto pago na pessoa jurídica seria considerado uma retenção que seria feita pela pessoa jurídica em nome das pessoas físicas sócias ou acionistas, que incluiriam os dividendos brutos como rendimentos tributáveis, podendo descontar o montante retido na fonte do imposto por elas devidos. A Lei nº 9.249/95 adotou claramente o método de integração parcial de exclusão dos dividendos recebidos, isto é, o método de isenção na distribuição e recebimento dos dividendos, conforme pode ser observado em seu artigo 10: “Art. 10. Os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real, presumido ou arbitrado, não ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte, nem integrarão a base de cálculo do imposto de renda do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. Parágrafo único. No caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista”. Vale ressaltar que a Lei nº 12.973/14 revogou o parágrafo único do artigo 10 da Lei nº 9.249/95, acrescentando os parágrafos 1º a 3º ao referido artigo, no entanto, considerando que o período do referido processo abrange os exercícios 2010 e 2011, o parágrafo único era o dispositivo normativo válido para o momento. Com relação ao caput do artigo 10 da Lei nº 9.249/95, é possível observar que (i) os lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, (ii) pagos ou creditados pelas pessoas jurídicas (iii) tributadas com base no lucro real, presumido ou arbitrado, (iv) não ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte, (v) nem integrarão a base de cálculo do imposto de renda do beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. Ao dispor sobre lucros ou dividendos calculados com base nos resultados apurados a partir do mês de janeiro de 1996, verificase que a isenção pretendida irá abranger os resultados apurados a partir de janeiro de 1996. Inexiste qualquer vinculação de que os referidos lucros ou dividendos tenham sido efetivamente tributados, bastando que eles tenham sido apurados de acordo com a legislação comercial e contábil. Não poderia ser diferente, uma vez que a determinação e apuração do lucro contábil é matéria de direito privado e não de direito tributário, sendo que a legislação tributária pode sim determinar ajuste ao lucro contábil para determinação da base de cálculo do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido, nos termos do artigo 6º do DecretoLei nº 1.598/77. Nesse sentido, já lecionava Bulhões Pedreira à luz de legislação anterior do imposto de renda, conforme pode ser observado abaixo: “Lucro distribuído pressupõe, por conseguinte, lucro realizado pela pessoa jurídica que o distribui. Ou, como diz o DL 5.844, art. 8º, lucro distribuído é Fl. 1668DF CARF MF 76 rendimento que, antes de pertencer a essa categoria já constitui lucro sujeito a tributação proporcional em poder da pessoa jurídica que o distribui. Não é necessário que tenha sido efetivamente tributado. Basta que, por sua natureza, se caracteriza como tributável na pessoa jurídica. Por exemplo: se a pessoa jurídica goza de isenção de imposto proporcional e esta isenção não aproveita aos seus sócios, os seus lucros embora não tenham sido efetivamente tributados, quando distribuídos integram a categoria comentada”. (BULHÕES PEDREIRA, José Luiz. Imposto de Renda. Rio de Janeiro: APEC Editora, 1969. Seção 7 – 2) Embora o referido comentário tenha sido feito à luz de legislação anterior, concordamos com o referido entendimento para a legislação vigente, uma vez que não há disposição determinando que somente o lucro tributado será distribuído com isenção do imposto de renda e será considerado rendimento isento pelo beneficiário. Aliás, se tal dispositivo fosse assim interpretado, teríamos a situação de que todos os lucros distribuídos por uma sociedade “holding” pura seriam tributados quando da sua distribuição e recebimento pelos sócios, uma vez que uma “holding” pura somente teria rendimentos de dividendos ou de equivalência patrimonial, que não são, a princípio, tributáveis. O artigo 10 da Lei nº 9.249/95 também dispõe que a isenção alcança os lucros ou dividendos pagos ou creditados por pessoas jurídicas. Em outras palavras, a isenção alcança não só o pagamento, mas também o crédito do lucro ou dividendo, na situação em que a distribuição do lucro ou dividendo é deliberada e aprovada em reunião de sócios ou assembleia de acionistas. A isenção também alcança os lucros e dividendos pagos ou creditados por pessoa jurídica, independentemente do regime tributário de imposto de renda, alcançando os regimes do lucro real, presumido ou arbitrado. Por fim, a isenção alcança tanto a distribuição dos lucros ou dividendos, isto é, não haverá recolhimento de imposto de renda na fonte sobre tal distribuição, assim como alcança o recebimento de tais lucros ou dividendos pelo beneficiário, pessoa física ou jurídica, domiciliado no País ou no exterior. Passando ao então vigente parágrafo único do artigo 10 da Lei nº 9.249/95, cumpre destacar que ele determinada que “no caso de quotas ou ações distribuídas em decorrência de aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, ou de reservas constituídas com esses lucros, o custo de aquisição será igual à parcela do lucro ou reserva capitalizado, que corresponder ao sócio ou acionista”. Em outras palavras, o referido dispositivo permite que haja aumento do custo de aquisição de quotas ou ações detidas pela pessoa físicas mediante aumento de capital por incorporação de lucros apurados a partir de janeiro de 1996. Tal dispositivo vem a facilitar o aumento do custo de aquisição das quotas ou ações por incorporação de lucros, sem que haja necessidade de pagamento dos dividendos para que as pessoas físicas integralizem o montante relativo aos dividendos recebidos em aumento de capital da pessoa jurídica que lhes pagou os referidos dividendos. Ocorre que no caso concreto não houve aumento de capital por incorporação dos lucros apurados a partir do mês de janeiro de 1996, tal qual previsto no parágrafo único do Fl. 1669DF CARF MF Processo nº 12448.720993/201473 Acórdão n.º 2301005.107 S2C3T1 Fl. 40 77 artigo 10 da Lei nº 9.249/95, mas houve crédito do lucro ou dividendo nos termos do caput do parágrafo único do artigo 10 da Lei nº 9.249/95, que prevê a isenção dos lucros ou dividendos “pagos ou creditados”. Assim, houve deliberação e aprovação da distribuição dos lucros ou dividendos, ainda que eles não tenham sido efetivamente pagos, mas eles foram creditados aos acionistas. Logo, não há que se falar em cumulativo (i) recebimento dos dividendos lucros nos termos do artigo 10 da Lei nº 9.249/95e (ii) capitalização dos lucros nos termos do parágrafo único do artigo 10 da Lei nº 9.249/95. A deliberação e aprovação dos lucros ou dividendos pelos sócios fazem com que aqueles lucros apurados sejam realocados do Patrimônio Líquido para o Passivo, uma vez que se constituem em Obrigações líquidas e certas a serem pagas aos sócios. Nessa linha, como passo subsequente, os sócios e acionistas das empresas envolvidas decidem converter o Ativo (Dividendos a Receber, que integram os Bens e Direitos daquelas pessoas físicas em contrapartida aos Rendimentos Isentos de tais dividendos creditados) que eles detêm contra a sociedade, integralizandoo ao capital social de tais empresas. Sob a ótica das pessoas jurídicas, elas tiveram a conversão de um Passivo (Dividendos a Pagar, já deliberados e aprovados, portanto, uma obrigação líquida e certa) em Capital Social. Nesse sentido, houve para as pessoas físicas tanto rendimentos isentos decorrentes do crédito de Dividendos a Receber quanto uma subsequente integralização de capital mediante entrega do Ativo “Dividendos a Receber” ao capital social das pessoas jurídicas que anteriormente haviam creditado tais dividendos, sendo que a entrega de tal Ativo “líquido e certo” configura causa sim de aumento do custo de aquisição das ações e quotas. A título ilustrativo, ninguém duvidaria de que a conversão de um empréstimo bancário ao capital social de uma pessoa jurídica não configuraria custo de aquisição para a instituição financeira que decidiu realizar tal conversão e trocou o Ativo “Empréstimo a Receber” pelo Ativo “Investimento na Pessoa Jurídica”. Vale lembrar ainda que toda a capitalização de tais créditos de Dividendos a Receber (sob a ótica dos sócios e acionistas pessoas física) está fartamente documentada conforme pode ser observada nas próprias atas de Assembleias e Reuniões apresentadas no próprio vencedor. Também entendo não ser relevante analisar o caso à luz das regras contábeis aplicáveis a grupos de sociedades. Em que pese haja um farto regramento contábil para as demonstrações consolidadas, nas quais inclusive são retirados os efeitos de muitas transações efetivas realizadas entre partes relacionadas, não há dúvida de que as normas tributárias relativas ao imposto de renda adotaram a tributação com base nas demonstrações individuais. Houve até tentativa de tributação em conjunto das sociedades de um grupo no artigo 30 do DecretoLei nº 1.598/77, no entanto, o referido dispositivo foi revogado expressamente pelo DecretoLei nº 1.648/77 sem que tivesse entrado sequer em vigência. Fl. 1670DF CARF MF 78 Diante de tal cenário, entendo que o contribuinte não infringiu nenhuma lei tributária ao praticar os atos que foram objeto do presente auto de infração, mas apenas se valeu de lacunas existentes nas normas brasileiras que tratam da integração entre a tributação do imposto de renda da pessoa jurídica e o imposto de renda da pessoa física. Voto, portanto, por (a) considerar não ocorrida a decadência do poderdever de lançar o crédito tributário e (b) dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Alexandre Evaristo Pinto Fl. 1671DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.000047/2008-13
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Mon Jul 03 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Aug 04 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2003
PROCESSO DE EMBALAGEM. AGREGAÇÃO DE VALOR. BEM APLICADO À PRODUÇÃO.
Não comporta relativização a agregação de valor de bem importado para fins de subsunção à hipótese prevista para adoção do método PRL-60 na apuração de preços de transferência. Demonstrado nos autos de maneira incontroversa que o insumo importado passou por processo de embalagem para ser colocado à disposição do consumidor final, incontestável a agregação de valor do produto.
IN/SRF 243/2002. ILEGALIDADE. INEXISTÊNCIA.
Não há que se falar em ilegalidade na IN SRF nº 243/2002, cujo modelo matemático é uma evolução das instruções normativas anteriores. A metodologia leva em conta a participação do valor agregado no custo total do produto revendido. Adotando-se a proporção do bem importado no custo total, e aplicando-se a margem de lucro presumida pela legislação para a definição do preço de revenda, encontra-se um valor do preço parâmetro compatível com a finalidade do método PRL 60 e dos preços de transferência.
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. LEI 9.430 DE 1996. MECANISMO DE COMPARABILIDADE. PREÇOS PRATICADO E PARÂMETRO. INCLUSÃO. FRETE, SEGURO E TRIBUTOS INCIDENTES NA IMPORTAÇÃO.
Operação entre pessoas vinculadas (no qual se verifica o preço praticado) e a operação entre pessoas não vinculadas, na revenda (no qual se apura o preço parâmetro) devem preservar parâmetros equivalentes. Analisando-se o método do PRL, a comparabilidade entre preços praticado e parâmetro, sob a ótica do § 6º do art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, opera-se segundo mecanismo no qual se incluem na apuração de ambos os preços os valores de frete, seguros e tributos incidentes na importação.
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. LEI 12.715, DE 2012. MECANISMO DE COMPARABILIDADE. PREÇOS PRATICADO E PARÂMETRO. EXCLUSÃO. FRETE, SEGURO E TRIBUTOS INCIDENTES NA IMPORTAÇÃO.
Com a Lei nº 12.715, de 2012 (conversão da MP nº 563, de 2012) o mecanismo de comparabilidade passou por alteração em relação à Lei nº 9.430, de 1996, no sentido de se excluir da apuração dos preços praticado e parâmetro os valores de frete, seguros (mediante atendimento de determinadas condições) e tributos incidentes na importação.
Numero da decisão: 9101-002.952
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em negar-lhe provimento (i) em relação à ilegalidade da IN 243/2002, por maioria de votos, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento e (ii) em relação ao frete e seguros, por voto de qualidade, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Acordam ainda, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram do recurso e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento parcial, para restabelecer a apuração do método PRL-60 para todos os produtos, com exceção do "DPRIVAN PFS 10 MG/ML 50MLCX1 SER VD", para o qual se aplica o método PRL-20, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros Cristiane Silva Costa e Luís Flávio Neto.
(assinado digitalmente)
Marcos Aurélio Pereira Valadão Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em exercício).
Nome do relator: ANDRE MENDES DE MOURA
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FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003 PROCESSO DE EMBALAGEM. AGREGAÇÃO DE VALOR. BEM APLICADO À PRODUÇÃO. Não comporta relativização a agregação de valor de bem importado para fins de subsunção à hipótese prevista para adoção do método PRL60 na apuração de preços de transferência. Demonstrado nos autos de maneira incontroversa que o insumo importado passou por processo de embalagem para ser colocado à disposição do consumidor final, incontestável a agregação de valor do produto. IN/SRF 243/2002. ILEGALIDADE. INEXISTÊNCIA. Não há que se falar em ilegalidade na IN SRF nº 243/2002, cujo modelo matemático é uma evolução das instruções normativas anteriores. A metodologia leva em conta a participação do valor agregado no custo total do produto revendido. Adotandose a proporção do bem importado no custo total, e aplicandose a margem de lucro presumida pela legislação para a definição do preço de revenda, encontrase um valor do preço parâmetro compatível com a finalidade do método PRL 60 e dos preços de transferência. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. LEI 9.430 DE 1996. MECANISMO DE COMPARABILIDADE. PREÇOS PRATICADO E PARÂMETRO. INCLUSÃO. FRETE, SEGURO E TRIBUTOS INCIDENTES NA IMPORTAÇÃO. Operação entre pessoas vinculadas (no qual se verifica o preço praticado) e a operação entre pessoas não vinculadas, na revenda (no qual se apura o preço parâmetro) devem preservar parâmetros equivalentes. Analisandose o método do PRL, a comparabilidade entre preços praticado e parâmetro, sob a ótica do § 6º do art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, operase segundo AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 00 00 47 /2 00 8- 13 Fl. 2998DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 2.999 2 mecanismo no qual se incluem na apuração de ambos os preços os valores de frete, seguros e tributos incidentes na importação. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. LEI 12.715, DE 2012. MECANISMO DE COMPARABILIDADE. PREÇOS PRATICADO E PARÂMETRO. EXCLUSÃO. FRETE, SEGURO E TRIBUTOS INCIDENTES NA IMPORTAÇÃO. Com a Lei nº 12.715, de 2012 (conversão da MP nº 563, de 2012) o mecanismo de comparabilidade passou por alteração em relação à Lei nº 9.430, de 1996, no sentido de se excluir da apuração dos preços praticado e parâmetro os valores de frete, seguros (mediante atendimento de determinadas condições) e tributos incidentes na importação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, em negarlhe provimento (i) em relação à ilegalidade da IN 243/2002, por maioria de votos, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento e (ii) em relação ao frete e seguros, por voto de qualidade, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Acordam ainda, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que não conheceram do recurso e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento parcial, para restabelecer a apuração do método PRL60 para todos os produtos, com exceção do "DPRIVAN PFS 10 MG/ML 50MLCX1 SER VD", para o qual se aplica o método PRL20, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros Cristiane Silva Costa e Luís Flávio Neto. (assinado digitalmente) Marcos Aurélio Pereira Valadão – Presidente em exercício (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em exercício). Fl. 2999DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.000 3 Relatório São Recursos Especiais interpostos pela ASTRAZENECA DO BRASIL LTDA. (efls. 2642 e segs) e pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional PGFN (efls. 2550/2562) em face da decisão proferida no Acórdão nº 1402001.467 (efls. 2529/2545), pela 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Primeira Seção, na sessão de 08/10/2013, no qual foi negado provimento ao recurso de ofício e dado provimento parcial ao recurso voluntário. Resumo das matérias A autuação fiscal (efls. 581/605 e 636/647) tratou de verificar os cálculos efetuados pelo Contribuinte, no anocalendário de 2003, de preços de transferência, conforme previsto nos arts. 18 a 24 da Lei n° 9.430, de 1996, com a alteração da Lei n° 9.959, de 27 de janeiro de 2000 e pela IN SRF n° 243, 2002. A autoridade autuante decidiu desclassificar a adoção do método PRL20 efetuada pela Contribuinte, por entender que o produto importado não estaria sendo revendido diretamente, mas submetido a processo de produção com colocação de embalagem para comercialização, razão pela qual apurou o preço de transferência mediante aplicação do PRL60, além de promover no cálculo a inclusão dos valores de frete, seguros e tributos incidentes na importação. Por consequência, foram também realizados ajustes em razão de compensação indevida de prejuízos fiscais para os anoscalendário de 2004 e 2005. Foram lavrados autos de infração de IRPJ e CSLL. A Contribuinte apresentou impugnação (efls. 750/797). O lançamento fiscal foi julgado procedente em parte (efls. 1082/1108) pela primeira instância (DRJ), apenas para efetuar ajustes na apuração do preço praticado. Tendo o crédito tributário exonerado ultrapassado o limite de alçada, foi efetuada remessa necessária (recurso de ofício). Foi interposto pela contribuinte recurso voluntário (efls. 1113/1164). A turma ordinária do CARF decidiu (efls. 2529/2545) negar provimento ao recurso de ofício e dar provimento parcial ao recurso voluntário, para cancelar a exigência relativa ao PRL60, com exceção da apuração realizada para o produto LISINOPRIL. A PGFN interpôs recurso especial (efls. 2550/2562), para devolver a matéria (1) bens importados aplicados ou não à produção e consequente desclassificação do PRL20 e adoção do PRL60. O despacho de exame de admissibilidade (efls. 2621/2626) deu seguimento ao recurso. Cientificada (efl. 2640) a Contribuinte apresentou contrarrazões (efls. 2978/2996). A Contribuinte interpôs recurso especial (efls. 2642/2672), para devolver as matérias (2) Ilegalidade da IN SRF nº 243, de 2002 e (3) Inclusão de Fretes, Seguros e Impostos na Apuração do Preço Praticado. O despacho de exame de admissibilidade (efls. 2921/2935) deu seguimento ao recurso. A PGFN apresentou contrarrazões (efls. 2937/2956). A seguir, maiores detalhes sobre a fase contenciosa. Da Fase Contenciosa A contribuinte apresentou impugnação (efls. 750/797). ). O lançamento fiscal foi julgado procedente em parte (efls. 1082/1108) pela 5ª Turma da DRJ/São Paulo I, Fl. 3000DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.001 4 apenas para efetuar ajustes na apuração do preço praticado em razão de valores e quantidades relativos ao estoque inicial, e por decorrência parte de glosa de compensação de prejuízos fiscais, nos termos do Acórdão nº 1620.588 (efls. 1082/1108), conforme ementa a seguir. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003, 2004, 2005 PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. AGREGAÇÃO DE VALOR. O método do Preço de Revenda menos Lucro mediante a utilização da margem de lucro de vinte por cento não pode ser aplicado nas hipóteses em que haja, no País, agregação de valor ao custo dos bens, não configurando, assim, simples processo de revenda dos mesmos. MÉTODO PRL60. CÁLCULOS SEGUNDO INSTRUÇÃO NORMATIVA. ALEGAÇÃO DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. À esfera administrativa não cabe apreciar questões relativas à legalidade ou inconstitucionalidade de normas jurídicas, competência esta exclusiva do Poder Judiciário. Por força de sua vinculação ao texto da norma legal e ao entendimento que a ele dá o Poder Executivo, deve limitarse a aplicála, sem emitir qualquer juízo de valor acerca da sua legalidade, constitucional idade ou outros aspectos de sua validade. MÉTODO PRL. PREÇOS PRATICADOS. FRETE, SEGURO E TRIBUTOS. Na apuração dos preços praticados segundo o método PRL, devese incluir o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador, e os tributos incidentes na importação. MÉTODO PRL. PREÇOPARÂMETRO. Para efeito de apuração do preçoparâmetro segundo o método PRL, somente devem ser considerados os preços praticados pela empresa com compradores não vinculados. CÁLCULO DO PREÇO PRATICADO. ESTOQUE INICIAL. Na determinação do preço praticado (média ponderada) devem ser computados os valores e as quantidades relativos aos estoques existentes no início do período de apuração. Esse preço praticado deve ser utilizado para o cálculo dos ajustes relativos a todas as unidades consumidas no ano, independentemente de haverem sido importadas nesse ano ou em anos anteriores. Desconsiderandose, dessa forma, a segregação efetuada pela fiscalização em "ajuste do estoque inicial' e "ajuste das importações do ano" recalculase o ajuste total e exonerase parcialmente a exigência. Fl. 3001DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.002 5 COMPENSAÇÃO INDEVIDA DE PREJUÍZOS. EXONERAÇÃO PARCIAL. Exonerandose parcialmente a tributação a título de preços de transferência, exonerase parcialmente a exigência a título de compensação indevida de prejuízos. CSLL. DECORRÊNCIA. O decidido quanto ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica aplica se à tributação dele decorrente. Em razão do crédito tributário exonerado, foi efetuada remessa necessária. Foi interposto recurso voluntário (efls. 1113 e segs) pela Contribuinte. A 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Primeira Seção, na sessão de 08/10/2013, decidiu negar provimento do recurso de ofício e dar provimento parcial ao recurso voluntário, para cancelar a exigência relativa ao PRL60, com exceção da apuração realizada para o produto LISINOPRIL. Entendeu a decisão recorrida que a autoridade fiscal não teria trazido aos autos elementos de prova suficientes para desclassificar a utilização do método PRL20 efetuada pela Contribuinte e, apesar de os produtos terem passado por processo de embalagem, não restou demonstrado que tal procedimento implicaria em transformação do produto a ponto de descaracterizar a operação de revenda. Nesse sentido, foi afastada a autuação para todos os produtos, exceto para o LISINOPRIL, do qual a própria Contribuinte admitiu que estava submetido a processo de produção. Segue a ementa transcrita: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003, 2004, 2005 PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL60. AJUSTE, IN/SRF 243/2002. ILEGALIDADE. INEXISTÊNCIA. Descabe a argüição de ilegalidade na IN SRF nº 243/2002 cuja metodologia busca proporcionalizar o preço parâmetro ao bem importado aplicado na produção. Assim, a margem de lucro não é calculada sobre a diferença entre o preço líquido de venda do produto final e o valor agregado no País, mas sobre a participação do insumo importado no preço de venda do produto final, o que viabiliza a apuração do preço parâmetro do bem importado com maior exatidão, em consonância ao objetivo do método PRL 60 e à finalidade do controle dos preços de transferência. PREÇO PARÂMETRO. EXCLUSÃO DO VALOR CORRESPONDENTE A FRETES, SEGUROS E IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. IMPROCEDÊNCIA. Como decorrência de disposição legal e da necessidade de se comparar grandezas semelhantes, na apuração do preço parâmetro devem ser incluídos os valores correspondentes a frete, seguro e imposto sobre importação, cujo ônus tenha sido do importador Fl. 3002DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.003 6 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício. Por maioria de votos, da provimento parcial ao recurso voluntário para cancelar a exigência referente aos ajustes efetuados pelo método PRL60, exceto em relação ao produto Lisinopril. Vencidos os Conselheiros Carlos Pelá e Paulo Roberto Cortez que davam provimento integral. A PGFN interpôs recurso especial (efls. 2550/2562), protestando sobre o entendimento de decisão recorrida de ter afastado a (1) bens importados aplicados ou não à produção e consequente desclassificação do PRL20 e adoção do PRL60. Discorre que os bens importados não foram objeto de simples revenda, na medida em que houve colocação de embalagem, ou seja, teria havido agregação de valor ao produto. Por consequência, como a legislação de preços de transferência não faz referência à submissão das mercadorias importadas a um processo de industrialização, mas apenas a uma aplicação a uma fase de produção local, a colocação de embalagem já seria suficiente para descaracterizar a operação direta de revenda. O despacho de exame de admissibilidade (efls. 2621/2626) deu seguimento ao recurso. Na sessão de maio de 2017, quando o processo foi pautado e iniciado o julgamento, não constava nos autos digitais a apresentação de contrarrazões por parte da Contribuinte. Contudo, na sustentação oral realizada durante a sessão, informou o patrono que havia sido apresentada a peça processual, tendo trazido ao Colegiado comprovante do protocolo. Diante de tal fato, o processo foi retirado de pauta, para apreciação das contrarrazões, e a peça processual foi devidamente incluída nos autos digitais do eprocesso. Nas contrarrazões (efls. 2978/2996), protesta a Contribuinte, inicialmente, pelo não cabimento do recurso especial interposto pela PGFN. Primeiro, porque entende que se trata de reanálise de matéria de fato, que não seria possível por parte do Colegiado da CSRF. Isso porque o cerne da discussão durante todo o processo teve por objeto verificar que a embalagem dos produtos importados não teria implicado na modificação do estado original do insumo, ou seja, não haveria que se falar em novo produto e por consequência se justificaria a adoção do PRL20. Na realidade, a decisão recorrida entendeu que caberia à autoridade fiscal ter aprofundado a investigação para concluir se os efeitos da embalagem colocada implicaria de fato em uma modificação do bem importado. Portanto, se o próprio CARF reconhece que a matéria objeto do recurso especial é de fato, e não de direito, não cabe uma análise por parte da CSRF. Segundo, porque o acórdão paradigma nº 130200.915 trata de situação fática diversa da Contribuinte, vez que trata da desconsideração da aplicação do método do PRL20 decorrente do acondicionamento de produtos importados a granel para posterior venda no mercado interno, enquanto que no presente caso o acondicionamento e reacondicionamento versa sobre produtos importados prontos e acabados em vários estágios de acondicionamento. Quanto ao mérito, entende a Contribuinte pela legitimidade da aplicação do método PRL20 para produtos que passam por processo de acondicionamento. Discorre que os processos de embalagem no Brasil são realizados em atendimento das normas sanitárias estabelecidas pela ANVISA e para atendimento de normas de relação de consumo e não tem por objetivo alterar a Fl. 3003DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.004 7 natureza dos produtos. Entende que a mera agregação de valor não é produção, e que o art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, não autoriza a aplicação da legislação do IPI. Ademais, a própria Receita Federal reconhece a aplicação do PRL20 para produtos que passam por acondicionamento, conforme o Guia de Perguntas e Respostas da DIPJ do exercício de 2004. Ao final, cita jurisprudência do CARF que confirma seu entendimento. A Contribuinte também interpôs recurso especial (efls. 2642/2672), para devolver as matérias (2) Ilegalidade da IN SRF nº 243, de 2002 e (3) Inclusão de Fretes, Seguros e Impostos na Apuração do Preço Praticado. Discorre que a sistemática de cálculo do PRL60 com base na IN SRF nº 243, de 2002, é ilegal e gera uma série de problemas e discrepâncias, e que o Congresso Nacional e a Receita Federal já reconheceram tal ilegalidade, com a edição da MP 563 posteriormente convertida na Lei nº 12.715, de 2012. Entende que o método da IN SRF nº 243, de 202, exige margem de lucro de 150% sobre os custos não sujeitos ao controle de transferência, e que pela sistemática da instrução normativa é economicamente mais racional importar produto acabado do que produzir no Brasil. Registra que as instruções normativas não tem força de lei e não podem criar obrigação diversa da prevista em diploma legal. Protesta sobre a ilegitimidade da adoção do método de preço CIF para o cálculo do preço praticado, e que a Fazenda confirmou tal assertiva com a edição da MP 563 (convertida na Lei nº 12.715, de 2012) ao modificar a redação do § 6º e incluir o § 6ºA no art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, que estabelece que não integram o custo os tributos incidentes na importação e os gastos incorrido no desembaraço aduaneiro. Entende que a Fiscalização não poderia ter incluído os valores de frete, seguros e tributos incidentes na importação no cálculo do preço praticado vez que as regras do preço de transferência visam regular operações realizadas entre partes relacionadas, o que não ocorre no caso concreto, no qual as operações se deram entre partes não relacionadas. O despacho de exame de admissibilidade (efls. 2921/2935) deu seguimento ao recurso. A PGFN apresentou contrarrazões (efls. 2937/2956), discorrendo que a IN SRF nº 243, de 2002, apresenta método em consonância com o art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, e que a inclusão dos valores de frete, seguro e imposto de importação encontramse previstas no diploma legal. É o relatório. Voto Conselheiro André Mendes de Moura, Relator. Sobre a admissibilidade do recurso especial da PGFN, protesta a Contribuinte pelo seu não conhecimento em contrarrazões. Entendo que não lhe assiste razão. Primeiro, porque, ao contrário do que aduz a Contribuinte, a matéria é de direito, e não de fato. O que discute é se, a partir do momento em que o insumo importado passa por um procedimento de embalagem, independente da natureza ou complexidade do processo, podese concluir que se consumou uma modificação do estado do produto, nos Fl. 3004DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.005 8 termos da legislação tributária, suficiente para afastar a aplicação do método PRL20 e adoção do PRL60, utilizado, na hipótese de bens importados aplicados à produção. A apreciação do direito implica, necessariamente, em exercício de interpretação que o julgador deve realizar em face dos fatos narrados nos autos, buscando a subsunção à norma. O fato de o Colegiado da decisão recorrida entender que, para firmar sua convicção, caberia uma diligência por parte da autoridade autuante para demonstrar que o produto importado teria sofrido a alteração prevista no art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, consiste em operação hermenêutica própria do julgador, e inserese na aplicação do direito, e não vincula a Câmara Superior de Recursos Fiscais. Assim, caso o presente Colegiado entenda que a diligência complementar nos termos da decisão recorrida é prescindível, e que os elementos nos autos já são suficientes para apreciar a matéria, não há nenhum óbice para que, diante dos documentos já constantes no processo, efetue a apreciação devida para cada item e se verifique, diante do processo de embalamento submetido, se os produtos importados foram aplicados à produção. Aqui se trata de caso em que, para se viabilizar a operação de subsunção à norma, é inevitável que se realize exame preliminar, qual seja, se de fato ocorreu o processo de embalagem. Não se rediscute os fatos, mas sim sua aplicação à norma tributária. Obviamente, na operação de cognição, caso se verifique que determinado produto não foi submetido a processo de embalagem, automaticamente tornase fora do escopo da apreciação. Portanto, o presente Colegiado, diante dos mesmos fatos, tem a competência para interpretar a norma sob uma outra perspectiva, desde que a matéria seja devolvida nos termos do art. 67, Anexo II, do Regimento Interno do CARF RICARF. E, precisamente nesse contexto, verificase que o acórdão paradigma nº 1302 000.915, mostra suficiente para demonstrar a divergência necessária com a decisão recorrida: PREÇO DE TRANSFERÊNCIA MÉTODO DE PREÇO DE REVENDA MENOS LUCRO PRL PRODUTOS IMPORTADOS A GRANEL ACONDICIONAMENTO E EMBALAGEM. O acondicionamento dos medicamentos importados a granel em embalagens para venda no mercado interno altera a apresentação do produto e caracteriza processo de industrialização que agrega valor ao produto final, impondose o ajuste no preço de transferência utilizandose a margem de lucro de 60%, quando for adotado o método de Preço de Revenda Menos Lucro (PRL60%). E não há que se falar que os presentes autos tratam de situação distinta da tratada pelo paradigma. Vale transcrever excerto do relatório: 2.1. A autoridade discordou da aplicação do método de PRL 20% a determinados produtos importados a granel pela contribuinte. Nos termos do artigo 12 da IN SRF 243/02, entendeu que: “ a importação de comprimidos e cápsulas a granel, cujo acabamento em produto final foi feito no Brasil, são produtos semiacabados, pois, no Brasil, sofreram complemento de produção como o processo de "blisterização" e embalagens, em diversas formas de apresentação, para colocação em condições de venda do produto". Fl. 3005DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.006 9 Ora, a matéria discutida no paradigma é a mesma dos presentes autos. Para sepultar a questão, transcrevo comentário do voto vencedor: A premissa adotada pelo voto vencido, ao acolher as razões recursais, é a de que a importação de produtos a granel para acondicionamento, embalagem e venda no Brasil não se confunde com industrialização. Embora reconheça que o termo produção, empregado na lei, “equivale à fabricação que por sua vez equivale à industrialização”, sustenta que “somente seriam considerados industrializados os produtos substancialmente modificados com a criação de um novo produto para revenda, diferente daquele que foi importado. Industrializar é transformar, no caso dos produtos farmacêuticos, adicionar um princípio ativo que modifica o ‘remédio’”. Assim, o “mero” acondicionamento e embalagem não representariam qualquer tipo de transformação do “remédio”. Atendido, portanto, requisito de admissibilidade previsto no art. 67, Anexo II do RICARF. Nesse sentido, conheço do recurso especial interposto pela PGFN. Em relação ao recurso especial da Contribuinte, adoto as razões dos Despachos de Exame de Admissibilidade de efls. 2921/2935, com fulcro no art. 50, § 1º da Lei nº 9.784, de 1999 1, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, para conhecêlo. Foram devolvidas as matérias (1) bens importados aplicados ou não à produção e consequente desclassificação do PRL20 e adoção do PRL60, objeto do recurso da PGFN, e (2) Ilegalidade da IN SRF nº 243, de 2002 e (3) Inclusão de Fretes, Seguros e Impostos na Apuração do Preço Praticado, itens (2) e (3) objeto do recurso da Contribuinte. Passo ao exame do mérito, iniciando pelo recurso especial da PGFN. I. Bens importados aplicados ou não à produção. Desclassificação do PRL20 e adoção do PRL60 A matéria devolvida pretende apreciar se os produtos importados analisados na autuação fiscal, com exceção do LISINOPRIL, encontramse enquadrados na hipótese de bens aplicados à produção, que ensejaria a adoção do método PRL60, ou não, devendo se submeter ao método PRL20. Vale transcrever o art.18 da Lei nº 9.430, de 1996 (redação vigente à época da autuação), na parte que interessa à lide: 1 Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: (...) V decidam recursos administrativos; (...) § 1º A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato. Fl. 3006DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.007 10 Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (...) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: (...) d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. Fato incontroverso é que os produtos em análise submeteramse a processo de colocação de embalagem. Transcrevo excerto da decisão recorrida sobre o assunto (efl. 2536). Nesse ponto, concordo com a recorrente quando afirma que generalizar o alcance da agregação de valor para definir o método de ajuste adequado tornaria quase impraticável a utilização do PRL20. Cabe então avaliar se o processo de colocação de embalagem, pois é essa a atividade sob exame, caracterizaria a utilização do bem no processo produtivo. Em primeiro lugar, convém esclarecer que entender ou não o processo de embalagem como industrialização mostrase irrelevante no presente caso. Não está em discussão a definição legal para efeito de incidência do IPI, mas sim os efeitos da colocação de embalagem como modificadora do estágio original do bem e o impacto na margem de lucro daí decorrente. No análise feita pela Fiscalização no procedimento fiscal e corroborada na diligência, a autoridade lançadora enfatiza a agregação de valor para justificar a desqualificação do método PRL20. Com já esclarecido acima, tal hipótese, por si só, não daria ensejo à utilização do método PRL60. Quanto à utilização do bem no processo produtivo, o Fisco baseouse nos registros contábeis onde haveria uma mudança de codificação do bem após o embalamento o que implicaria na assunção, pelo sujeito passivo, de que o produto original teria se transformado em outro com características distintas. Fl. 3007DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.008 11 Com todo respeito que merece a autoridade lançadora pelo exaustivo trabalho de levantamento e verificação de dados, penso que tal entendimento está na esfera da hipótese. Até porque poderseia supor que a forma de registro do sujeito passivo envolve questões de controle interno. Em função da matéria sob exame, caberia um aprofundamento da diligência com verificações que permitissem em primeiro lugar a descrição do processo de embalagem para cada um dos produtos avaliados e como conseqüência uma avaliação precisa quanto à caracterização ou não desse procedimento como modificador do estado original do bem. Ratificase: a questão aqui tratada não é de direito mas fática. A colocação de embalagem pode ou não implicar na alteração do estado original do bem de forma a justificar a utilização do método PRL60 para ajuste dos preços de transferência. No presente caso, tratandose de indústria farmacêutica essa possibilidade é até mais significativa. Entretanto, nem a ação fiscal nem o procedimento de diligência lograram trazer elementos de prova suficientes a demonstrarem essa circunstância, que representava a questão primordial a ser dirimida nos autos. (grifei) Com a devida vênia à interpretação dada pela decisão recorrida, o processo de embalagem do produto é fundamental para a apreciação do presente caso. Na realidade, é o cerne da autuação fiscal. O fato de os registros contábeis registrarem uma alteração na codificação do nome do produto original após o processo de embalagem, apresentase como mais uma evidência de que o produto importado passou, sim, por um processo de transformação. Devese observar também que a primeira instância promoveu diligência para solicitar à autoridade fiscal esclarecimentos complementares sobre a desclassificação do método PRL20. O resultado da diligência fiscal não deixa dúvidas (efls. 1042/1046): Os itens importados em questão não foram vendidos diretamente. Os mesmos foram requisitados, via ordem de produção (de acordo com os dados constantes do arquivo eletrônico "7 f Ordens de Produção.xls", entregue em resposta ao Termo de Início de Fiscalização), para gerar um item fabricado, com código de estoque distinto, o qual, este sim, foi posteriormente vendido. Ademais, esses itens são separadamente controlados no Livro de Registro de Inventário, de acordo com os dados constantes do arquivo eletrônico "7 (b) Livro de Inventário.xls", entregue em resposta ao Termo de Início de Fiscalização. Aqui, pois, não há que se falar em revenda pura, pois, além de tudo, são produtos com códigos distintos e sujeitos a controle de estoques distintos. Desde o início da fiscalização em comento;ficou evidenciado que a própria impugnante distingue a revenda direta, discriminando os itens diretamente revendidos (estes são mantidos com a mesma codificação de origem, como aqueles referidos no tópico anterior), em relação aos demais itens que Fl. 3008DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.009 12 passam pelo processo produtivo para se transformarem em produtos com características distintas do item importado e passíveis de serem colocados à venda, seja em razão de necessidades do mercado, seja em cumprimento à legislação que rege a área farmacêutica. (...) Observase que os itens 15021, 15022, 15033, 15035, 15036 e 15055 deram origem a 2 produtos distintos, cada. Aqui, muito menos, há que se falar em revenda direta. Ademais, vêse que a agregação de valor em alguns itens importados, como o NEXIUM 20MG BULK (código 15035) e o LOSEC MUPS 20MG BULK (código 15055), por exemplo, chega a aproximadamente 20% em relação aos respectivos custos dos produtos efetivamente vendidos. Ora! A legislação referese a custo — e o custo de R$ 0,01 de um rótulo em um produto de R$ 10,00 é agregação! A legislação não discrimina a agregação grande da agregação pequena, ou a agregação proporcionalmente relevante da agregação não relevante. Dúvida não há de que não se trata do mesmo bem. Além do incremento no custo, as diferenças entre os itens importados de vinculadas e os produtos finais objeto de venda pela impugnante ficam ainda mais evidenciadas a partir da descrição da apresentação dos produtos finais, conforme tabela abaixo, elaborada de acordo com as respectivas bulas (fls.802 a 852): (...) (grifei) Na realidade, a colocação das embalagens para os produtos é confirmada pela Contribuinte. Nas contrarrazões apresentadas, vale transcrever quadro no qual se relata os procedimentos a que os produtos se submeteram após a importação (efls. 2988), elaborado com base em documentos apresentados ainda na primeira instância, por ocasião da apresentação da impugnação: Produto Importado pela Recorrida Descrição do Procedimento da Embalagem ZOLADEX 3,6MG DEPOT CXC/1 O produto é recebido em embalagem primária. A Recorrida realiza testes de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens que serão remetidas ao consumidor. Tais embalagens consistem em blisters, pouchs, frascos envasados entre outras. ARIMIDEX BLISTER 14COMP O produto é recebido em embalagem primária. A Recorrida realiza testes de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens que serão remetidas ao consumidor. Tais embalagens consistem em blisters, pouclis, frascos envasados entre outras. ZOLADEX LA O produto é recebido em embalagem primária. A Recorrida Fl. 3009DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.010 13 Produto Importado pela Recorrida Descrição do Procedimento da Embalagem DEPOT CX C/l realiza testes de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens que serão remetidas ao consumidor. Tais embalagens consistem em blisters, pouchs, frascos envasados entre outras. LOSEC 40MG INJ A Recorrida realiza teste de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens que serão remetidas ao consumidor final. BUDECORT AQUA 32 MCG SPRAY O produto é recebido em embalagem primária. A Recomda realiza testes de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens que serão remetidas ao consumidor. Taís embalagens consistem em blisters, pouchs, frascos envasados entre outras. DPRIVAN PFS 10 MG/ML 50MLCX1 SER VD O produto é importado em condições finais de comercialização. A Recorrida apenas realiza testes de controle de qualidade, distribuição e armazenamento do produto. TOMUDEX 2MG Nossa atividade consiste em realizar testes/análises e colocar o produto em embalagens individuais de isopor e fita para a proteção contra quebras. Produto tóxico. BUDECORT AQUA 64 MCG O produto é recebido em embalagem primária. A Recorrida realiza testes de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens que serão remetidas ao consumidor. Tais embalagens consistem em blisters, pouchs, frascos envasados entre outras. CASODEX 50MG BULK O produto é importado em graneis. A Recorrida apenas realiza testes de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens primárias (blisters) e na embalagem secundária (cartucho) na forma a qual será a será apresentado ao consumidor. ZOLADEX 3,6MG DEPOT CX C/l O produto é recebido em embalagem primária, A Recorrida realiza testes de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens que serão remetidas ao consumidor. Tais embalagens consistem em blisters, pouchs, frascos envasados entre outras. SPLENDIL 5MG BULK O produto é importado em graneis. A Recorrida apenas realiza testes de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens primárias (blisters) e na embalagem secundária (cartucho) na forma a qual será a será apresentado ao consumidor. Fl. 3010DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.011 14 Produto Importado pela Recorrida Descrição do Procedimento da Embalagem ATACAND 8MG BULK O produto é importado em graneis. A Recorrida apenas realiza testes de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens primárias (blisters) e na embalagem secundária (cartucho) na forma a qual será a será apresentado ao consumidor. ATACAND 16MG BULK O produto é importado em graneis. A Recorrida apenas realiza testes de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens primárias (blisters) e na embalagem secundária (cartucho) na forma a qual será a será apresentado ao consumidor. ATACAND HCT 16 MG BULK O produto é importado em graneis. A Recorrida apenas realiza testes de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens primárias (blisters) e na embalagem secundária (cartucho) na forma a qual será a será apresentado ao consumidor. NEXIUM 20MG BULK O produto é importado em graneis. A Recorrida apenas realiza testes de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens primárias (blisters) e na embalagem secundária (cartucho) na fonna a qual será a será apresentado ao consumidor. NEXIUM40MG BULK O produto é importado em graneis. A Recorrida apenas realiza testes de controle de qualidade e coloca o produto em embalagens primárias (blisters) e na embalagem secundária (cartucho) na forma a qual será a será apresentado ao consumidor. (Grifei) Quanto ao produto "DPRIVAN PFS 10 MG/ML 50MLCX1 SER VD", no qual aduz a Contribuinte que é importado em condições finais de comercialização, vale transcrever declaração da farmacêutica responsável (efl. 845): Declaramos para os devidos fins que o produto Diprivan PFS 10mg/ml é importado e sofre, nas instalações da AstraZeneca do Brasil, situada na Rod Raposo Tavares km26,9, Cotia SP, processo de colocação de selo de segurança no cartucho e testes de controle de qualidade, sem qualquer alteração na natureza do produto importado. (Grifei) De fato, não se fala em colocação de embalagem, razão pela qual se trata de produto sobre o qual não se aplica o PRL60. Fl. 3011DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.012 15 Por outro lado, para os demais produtos, as declarações da mesma farmacêutica são claras ao atestar que os bens importados passaram por um processo de embalagem. Tratase de fato incontroverso. Por sua vez, também é incontroversa a agregação de valor. E a autoridade julgadora administrativa não dispõe de margem de discricionariedade para dizer que, a depender do "peso" da agregação do valor, poderseia entender que o bem não teria sido aplicado à produção nos termos do art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996. A matéria em debate já foi tratada pelo presente Colegiado, pelos Acórdãos nº 9101002.198 (sessão de 1º/2/2016, "NOVARTIS"), nº 9101002.316 (sessão de 3/05/2016, "NOVARTIS"), e 9101002.416 e 9101002.417 (sessão de 17/08/2016, " PFIZER"). Foram precisamente situações no qual se discutiu se o processo de embalagem do insumo importado é suficiente para caracterizar a agregação do valor e a aplicação do bem à produção. Vale reproduzir excerto do voto do Acórdão nº 9101002.198, da Conselheira Adriana Gomes Rego, que com clareza notável discorre sobre o assunto. Evidente que após esta última etapa de produção foi agregado valor ao produto inicialmente importado. A embalagem foi totalmente realizada em suas unidades no Brasil, utilizando mão de obra local, maquinário específico, imobilizado em suas indústrias, com aposição de sua marca ao produto. Tudo isso tem valor e pode ser estimado; se representa 10%, 15% ou qualquer outro percentual do produto final, não importa para efeitos legais, porque ao tempo dos fatos, a legislação só apresentava dois percentuais: ou se tratava de revenda, ou de produção. Não há meiotermo. E, como dito, de revenda não se trata. A embalagem do produto poderia ter sido feita ainda no exterior, mas não o foi até por questões óbvias: sai muito mais barato para a empresa transportar os comprimidos a granel para localmente embalálos do que importálos definitivamente prontos. Isso é fato, eis que em termos de volume, a mesma quantidade de comprimidos a granel representa muito menos do que se já estivesse acondicionado em caixas, gerando um custo de transporte muito maior. A própria mão de obra utilizada no Brasil sabese ser muito mais barata do que nos países de primeiro mundo de onde se origina o produto importado. Convém registrar, ainda, que não se trata de mera embalagem para transporte, mas de apresentação comercial do produto, da qual resulta agregação de valor em relação ao produto importado à granel. A aposição da marca SANDOZ na embalagem (caso dos comprimidos importados pela interessada), com sua exposição à venda, por si só também agrega valor ao mesmo, eis que se traduz em marca conhecida globalmente pela gama e qualidade dos produtos ofertados. Por conseguinte, não se trata de mera revenda dos produtos na forma como foram importados, sendo inaplicável o método PRL20 (...) (grifei) Fl. 3012DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.013 16 O didático voto destaca aspectos relevantes na agregação do valor: não há "meiotermo", ou se fala em agregação ou não; e não há que se falar que o processo de embalagem teria um custo mínimo, porque é fundamental para a apresentação comercial do produto, trazendo ao conhecimento do consumidor a empresa que é a responsável pela fabricação do produto e se constituindo em fator relevante na composição do preço final. Na mesma medida, o voto do Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão (Acórdão nº 9101002.316) expõe que a agregação de valor ao produto não comporta relativização: Acondicionar bens importados para revenda significa viabilizar a sua comercialização na forma das normas pertinentes, como, no caso, alocandoos em embalagens primárias, secundárias, blísteres e caixas de papelão, e adicionandolhes bulas e lacres, tudo segundo especificações técnicas do órgão fiscalizador competente. Há um inegável valor agregado ao custo dos bens importados não vem ao caso se muito ou pouco , que, mesmo que não os transforme em espécie nova, não pode ser desconsiderado para efeito de definição da adequada margem de lucro a ser aplicada nos procedimentos dos preços de transferência. Por outro lado, é inadmissível que seja dado o mesmo tratamento fiscal a situações distintas, em que os bens importados são meramente revendidos, nas exatas condições em que recebidos (PRL 20), e em que esses mesmos bens importados são manipulados antes de ser postos à venda (PRL 60), com a consequente agregação de valor ao custo dos bens importados, inexistente naquele primeiro caso. A adoção de entendimento diverso provocaria, em última análise, no caso do Preço de Revenda menos Lucro, sérias distorções na apuração do preço praticado e, consequentemente, do preço parâmetro, ao simplesmente se olvidar da existência daquela agregação de valor efetivamente ocorrida. Ao afirmar, a recorrente, que não é toda e qualquer agregação de valor ao custo dos bens importados que implicaria a aplicação do método PRL 60, está, ela, inadvertidamente, pretendendo distinguir onde a lei não distinguiu. A questão não é o tipo de agregação de valor, mas a sua existência ou não. E, no presente caso, é inequívoca a sua existência. A agregação de valor ao custo dos bens importados, assim existente, ocasiona, naturalmente, a majoração do preço de revenda, em relação à hipótese em que não haja essa agregação, o que, evidentemente, denota a clara impossibilidade de aplicação do PRL20, nessas circunstâncias, sob pena de como já se disse deturparse o cálculo do preço praticado e do preço parâmetro. Dessa forma, ao contrário do que entende a recorrente, toda e qualquer agregação de valor ao custo dos bens importados implica, necessariamente, a aplicação do método PRL 60, posto que, do contrário, ocorreriam inevitáveis inconsistências em se aplicar um método que, em sua formulação original, não admite qualquer valor agregado (PRL 20). (grifei) Fl. 3013DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.014 17 Nesse sentido, diante do fato incontroverso de que os produtos passaram por processo de embalagem, evento devidamente assentado nos registros contábeis da empresa, e que demonstra a agregação do valor de maneira incontestável, cabe ser restabelecida a autuação fiscal. Assim, voto no sentido de dar provimento ao recurso especial da PGFN. Passo à apreciação do recurso especial da Contribuinte. II. IN SRF nº 243, de 2002 x Art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996 Sobre a ilegalidade da IN SRF nº 243, de 2002, em face do art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, tratase de matéria já bastante debatido, sendo objeto de profundas análises pela jurisprudência e pela doutrina. A normatização dos preços de transferência no Brasil inserese no contexto do fenômeno da globalização, em que a competição se desenvolve em escala global, e por consequência as empresas vem empreendendo esforços no sentido de reduzir a tributação das operações internacionais. Nesse contexto, vem sendo desenvolvidos mecanismos de planejamento, nem sempre adequados, dentre os quais o conhecido como transfer pricing, no qual são realizadas operações de compra e venda entre empresas vinculadas com sítio em países diferentes, no qual as fiscalizações tributárias tem verificado, em determinadas ocasiões, a utilização de preços artificiais, de modo a deslocar a tributação para países com carga tributária menor. Para monitorar tal sistemática, controles tem sido desenvolvidos pelos países, no sentido de comparar as operações transnacionais entre empresas e suas vinculadas, com operações no qual as mesmas empresas transacionam com outras sem qualquer espécie de vínculo. Verificase, assim, se o preço praticado nas operações entre a empresa e suas vinculadas tem similitude com o preço de mercado negociado entre empresas independentes, adotandose o princípio do arm's lenght. Não por acaso, a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) editou convençãomodelo sobre os preços de transferência, no sentido de que, uma vez não observado o preço arm’s length nas transações entre empresas vinculadas em diferentes países, tem o Fisco a prerrogativa de tributar o lucro que teria sido obtido pela empresa em condições regulares de negociação, a preço de mercado. O assunto também foi tratado pela Organização das Nações Unidas, no Conselho Econômico e Social, resultando na elaboração do UN Practical Manual for Developing Countries 2. No Brasil, a matéria referente aos preços de transferência foi introduzida pelo legislador por meio dos artigos 18 a 24 da Lei nº 9.430, de 1996, dispondo sobre operações relativas à importação e exportação de bens, serviços e direitos. Certamente que o legislador brasileiro, ao positivar a matéria, levou em consideração a realidade e as particularidades do país, mas não se pode deixar de verificar a 2 United Nations Practical Manual on Transfer Pricing for Developing Countries, http://www.un.org/esa/ffd/documents/UN_Manual_TransferPricing.pdf. Acesso em 15/03/2016. Fl. 3014DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.015 18 adoção das diretrizes das organizações internacionais, principalmente sob a égide do princípio do arm's length. E, delimitando a discussão do presente voto às operações de importação, tratadas no caso concreto, observase que foram adotados pelo legislador brasileiro os métodos PIC (Preços Independentes Comparados), PRL (Preço de Revenda Menos Lucro) e CPL (Custo de Produção mais Lucro), inspirados, respectivamente, nos métodos internacionais Comparable Uncontrolled Price (CUP), Resale Price Method e o Cost Plus Method. Especificamente em relação ao método PRL, vale transcrever a redação em vigor à época dos fatos objeto da autuação: Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (...) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: (Redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000) 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; (Redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000) 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. (Redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000) Foram empreendidas grandes discussões em torno dos limites que a administração tributária teria que obedecer para encontrar um modelo matemático compatível com as diretrizes estabelecidas pela lei. E de fato, em razão da complexidade da matéria, foram editados vários atos administrativos, buscando encontrar um modelo adequado para a devida apuração do preço parâmetro. Debates intensos se sucederam analisando se os atos administrativos, editados com base no art. 100, inciso I do CTN 3, extrapolaram os limites da lei. 3 Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; (...) Fl. 3015DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.016 19 Assunto tratado pela jurisprudência e doutrina, pelo vênia para transcrever as valiosas lições de Luís Eduardo Schoueri 4 : 3.11 Em certas circunstâncias, a regulamentação dos preços de transferência pode, sim, exigir a edição de ato administrativo para que se torne viável sua aplicação. (...) 3.12.2 Com efeito, a mera leitura dos dispositivos que tratam dos preços de transferência na Lei nº 9.430/96 revela que sua disciplina foi bastante enxuta. O legislador limitouse a definir os métodos aplicáveis e as consequências de os preços praticados superarem os limites legais. (...) 3.12.2.2 Obviamente, se a Instrução Normativa extrapolar a lei, será esta, e nunca aquela, que prevalecerá. Mas como saber se a Instrução Normativa ultrapassou a lei? 3.12.3 Surge, aqui, a importância do princípio do arm's lenght. Como já ficou esclarecido, é este princípio o bastião de constitucionalidade da Lei nº 9.430/96 5 Os ajustes impostos por esta lei se consideram constitucionais porque concretizam aquela princípio. 3.12.4 Nesse passo, surge a seguinte regra: a regulamentação da Lei nº 9.430/96 estará conforma a própria lei se estiver concretizando o princípio arm's length. 3.12.5 Quando, por outro lado, a regulamentação da Lei nº 9.430/96 emprestarlhe interpretação que se afaste do referido princípio, então há que se investigar a existência de outro princípio que justifique tal construção normativa. O desvio poderá indicar a concretização de outro valor constitucional, igualmente prestigiado pelo Ordenamento. Tal será o caso, por exemplo, quando a norma, desviandose do princípio arm's length, tiver sua justificativa em sua função indutora, ao buscar fomentar o desenvolvimento da economia nacional. 3.12.6 Não se encontrando a norma assim construída apoiada nem no princípio arm's length nem em outro fundamento constitucional, então tal interpretação será repudiada, denunciandose a ilegalidade da Instrução Normativa. Exemplos de tal afastamento não faltam. (grifei) Não obstante o autor, no decorrer de sua obra, entender pela ilegalidade da IN SRF nº 243, de 2002, entendo que a premissa colocada, no sentido de se verificar se o ato normativo concretizou o princípio do arm's length, mostrase como uma referência a ser prestigiada. 4 SCHOUERI, Luís Eduardo. Preços de Transferência no Direito Tributário Brasileiro 3. ed. rev. a atual. São Paulo : Dialética, 2013, p. 5759 5 Cf. Ricardo Lobo Torres, "O Princípio Arm's Length, os Preços de Transferência e a Teoria de Interpretação do Direito Tributário", Revista Dialética de Direito Tributário nº 48, setembro de 1999, pp. 122135 (123) Fl. 3016DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.017 20 A redação do artigo em debate foi construída de maneira a amparar diferentes modelos matemáticos, desde que estejam em consonância com o princípio arm's length. E é precisamente o que se verifica no decorrer das instruções normativas editadas visando regulamentar o previsto no art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996. De fato, optou o legislador, ao positivar a matéria, dispor sobre diretriz a ser seguida pelo método, e não adentrar na fórmula matemática, que, por consequência, foi tarefa delegada a tarefa para o ato administrativo complementar. Natural, portanto, movimento no sentido de se buscar um modelo matemático adequado à realidade e ao espírito da norma. Tanto que a lei primeiro foi regulamentada pela IN SRF nº 113, de 2000, depois pela IN SRF nº 32, de 2001, e, sem seguida, pela IN SRF nº 243, de 2002. Discussões foram empreendidas no sentido de compreender com quem a expressão do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção estaria fazendo referência, se à redação dada pelo art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996 (1) do caput do inciso II, PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos:, ou (2) da alínea "d", "1", sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e (...). No primeiro caso, discorreuse que se trataria de erro técnica legislativa inapropriada, ou seja, a expressão do valor agregado estaria correta, mas deveria estar inserida como uma nova alínea. Na segunda situação, falouse em erro gramatical, no sentido de que não se quis dizer do valor agregado, e sim o valor agregado, que estaria concordando com a expressão deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e (...) 6. Aplicandose as orientações do modelo matemático proposto pela IN SRF nº 32, de 2001, quaisquer das interpretações conduziram a uma distorção na apuração do preço parâmetro, principalmente em razão do tratamento conferido ao valor agregado, considerado de maneira isolada, completamente desconectado do processo produtivo. Admitindose a técnica legislativa inapropriada, a fórmula teria os seguintes contornos: PP = PL 0,6xPL VA Desenvolvendo a equação, terseia: PP = 0,4xPL VA onde PP: preço parâmetro, PL: preço líquido de revenda, VA: valor agregado no país. Percebese PP e VA na condição de grandezas inversamente proporcionais. Com um VA elevado, o preço parâmetro poderia atingir um valor negativo. Ao ser tratado de maneira isolada, descontextualizada do processo produtivo, conferiuse ao valor agregado um peso desproporcional na equação. Ou seja, o modelo matemático não se prestaria a refletir a realidade da situação em análise. 6 GREGÓRIO, Ricardo Marozzi. Preços de Transferência: uma avaliação da sistemática do método PRL. In: Tributos e Preços de Transferência. 3º vol. São Paulo: Dialética, 2009. p. 170195. Fl. 3017DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.018 21 Por outro lado, admitindose um erro gramatical, terseia a fórmula: PP = PL 0,6x(PL VA) Desenvolvendo a equação: PP = 0,4xPL + 0,6xVA onde PP: preço parâmetro, PL: preço líquido de revenda, VA: valor agregado no país. Neste caso a distorção seria tão evidente quanto a anterior, mas para um outro extremo. O PP e o VA estariam na condição de grandezas diretamente proporcionais. Da mesma maneira que na equação anterior, foi conferido ao valor agregado um peso desproporcional na equação. Percebese que, agregandose valor ao produto produzido no país, eventual distorção no preço do produto importado seria completamente neutralizada. O resultado implicaria em ausência de ajuste do preço do preço parâmetro mesmo diante da manipulação dos preços de produtos importados, quando o valor agregado respondesse por uma proporção significativa do produto. Várias demonstrações foram elaboradas, visando credenciar ou descredenciar a validade das fórmulas diante de vários casos concretos. Fato é que, com a IN SRF nº 243, de 2002, a nova fórmula desenhada mostrouse, indiscutivelmente, mais adequada e apta a refletir com maior realidade a metodologia do PRL, levando em consideração que a diminuição do valor agregado, a ser aplicada sobre o preço de revenda do bem ou direito, darseá de maneira proporcional, na medida da participação do custo do bem importado em relação ao preço do custo total do bem. Define com clareza que o valor agregado é parte da composição do custo total do bem, e não uma grandeza isolada, como na equação da IN SRF nº 32, de 2001. Não poderia ser diferente. O custo total é resultado da soma do custo do bem importado e do valor agregado no país. O valor agregado integra o custo, vez que agrega ao produto uma qualidade, um diferencial, que, por consequência, irá compor o custo total7. Assim, construiuse a fórmula no sentido de encontrar a proporção do custo do bem importado em relação ao custo total, dividindose o custo do bem importado pela soma do custo bem importado e o valor agregado: (custo do bem importado) / (custo do bem importado + valor agregado). A proporção encontrada foi aplicada para o cômputo do preço de transferência. Vale transcrever o § 11, do art. 12, da IN SRF nº 243, de 2002: § 11. Na hipótese do § 10, o preço parâmetro dos bens, serviços ou direitos importados será apurado excluindose o valor agregado no País e a margem de lucro de sessenta por cento, conforme metodologia a seguir: I preço líquido de venda: a média aritmética ponderada dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; 7 Ver Acórdão nº 9101002.175 (p. 22), do Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão. Fl. 3018DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.019 22 II percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no custo total do bem produzido: a relação percentual entre o valor do bem, serviço ou direito importado e o custo total do bem produzido, calculada em conformidade com a planilha de custos da empresa; III participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido: a aplicação do percentual de participação do bem, serviço ou direito importado no custo total, apurado conforme o inciso II, sobre o preço líquido de venda calculado de acordo com o inciso I; IV margem de lucro: a aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a " participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido" , calculado de acordo com o inciso III; V preço parâmetro: a diferença entre o valor da " participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido" , calculado conforme o inciso III, e a margem de lucro de sessenta por cento, calculada de acordo com o inciso IV. (grifei) O modelo matemático proposto pode ser apresentado na seguinte equação: PP = PLxPPart 0,6xPLxPPart Considerando PLxPPart = PBProd, então a fórmula seria: PP = PBProd 0,6xPBProd, ou PP = 0,4 x PBProd onde PP: preço parâmetro; PL: preço líquido de venda, PPart: percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido e PBProd: participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido. Destrinchando os elementos da equação, o PL (preço líquido de venda) é definido nos seguintes termos: PL = média aritmética ponderada de PV D I C onde PV: preços de venda do bem produzido, D: descontos incondicionais concedidos, I: impostos e contribuições sobre as vendas, C: comissões e corretagens pagas, e N: quantidade de produtos importados Por sua vez, o PPart (percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido), é definido por: CII PPart = CTBP Fl. 3019DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.020 23 ou, ainda, por: CII PPart = CII + valor agregado onde CII: custo do valor do bem, serviço ou direito importado e CTBP: o custo total do bem produzido, resultado da soma entre o CII e o valor agregado. A diminuição do valor agregado, pretendida pela lei, foi modelada na equação pela introdução do valor agregado no denominador da divisão. Quanto maior a participação no valor agregado, obviamente, menor a participação do preço do produto importado na composição do custo total e, por isso, menor a sua colaboração na composição do preço de transferência. Observase que, numa situação limite, se não houvesse valor agregado (que receberia o valor zero), o percentual de participação do produto importado seria CII dividido por CII, resultando em 1, ou seja, 100%. Registrese que se trata de situação hipotética, que se presta a mostrar a validade do modelo proposto, isso porque a legislação trata da situação em que não há agregação de valor no art. 18, inciso II, alínea "d", item 2 da Lei nº 9.430, de 1996. Retomando à equação, de acordo com a definição da instrução normativa, a PBProd (participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido) é assim definida: CII PBProd = (média aritmética ponderada de PV D I C) x CTBP Enfim, o Preço Parâmetro, definido no inciso V, § 11, do art. 12, da IN SRF nº 243, de 2002, é a diferença entre a PBProd e o percentual de margem de lucro aplicado sobre o PBProd. Ou seja: PP = PBProd margem de lucro x PBProd Desenvolvendo a fórmula, temse: PP = PBProd x (1 margem de lucro) Observase que o PBProd é o preço de revenda do produto importado, calculado a partir de sua participação no preço de revenda do produto produzido que teve agregação de valor no país. E, aplicandose o percentual de presunção de margem de lucro de 60%: PP = PBProd x (1 0,6) PP = 0,4 x PBProd Fl. 3020DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.021 24 No mencionado UN Practical Manual for Developing Countries 8, ao discorrer sobre o Resale Price Method (que se trata do PRL), a fórmula empregada é a mesma. Vale transcrever o item 6.2.6.3 do documento: 6.2.6.3. . Consequently, under the RPM the starting point of the analysis for using the method is the sales company. Under this method the transfer price for the sale of products between the sales company (i.e. Associated Enterprise 2) and a related company (i.e. Associated Enterprise 1) can be described in the following formula: TP = RSP x (1 GPM), where: TP = the Transfer Price of a product sold between a sales company and a related company; RSP = the Resale Price at which a product is sold by a sales company to unrelated customers; and GPM = the Gross Profit Margin that a specific sales company should earn, defined as the ratio of gross profit to net sales. Gross profit is defined as Net Sales minus Cost of Goods Sold. Na equação TP = RSP x (1 GPM), TP é o preço praticado, RSP é o preço de revenda do produto importado, e o GPM o percentual de presunção de lucro aplicado sobre o preço de revenda. Vale transcrever, novamente, a fórmula empregada pela IN SRF nº 243, de 2002: PP = PBProd x (1 margem de lucro), onde PP é o preço praticado, PBProd é o preço de revenda do insumo importado levandose em consideração sua participação no preço de revenda total do produto, e a margem de lucro é o percentual de presunção do lucro aplicado sobre o preço de revenda. Aplicandose nas fórmulas o percentual de presunção de lucro de 60%, temos: UN Practical Manual for Developing Countries IN SRF 243, de 2002 TP = RSP x (1 0,6) TP = 0,4 x RSP, onde RSP é o preço de revenda do produto importado e o TP é o preço de transferência. PP = PBProd x (1 0,6) PP = 0,4 x PBProd, onde PBProd é o preço de revenda do produto importado e PP é o preço de transferência. 8 United Nations Practical Manual on Transfer Pricing for Developing Countries, http:www.un.org/esa/ffd/documents/UN_Manual_TransferPricing.pdf. Acesso em 15/03/2016. Fl. 3021DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.022 25 Percebese que o modelo matemático adotado pela IN SRF nº 243, de 2002, guarda consonância com os padrões internacionais, e não foge das diretrizes estabelecidas pelo art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996. Na realidade, a normatização empreendida pela instrução normativa foi uma evolução do modelo matemático perseguido pela lei. Primeiro, porque considerou, acertadamente, que a apuração do custo total do produto revendido consiste na soma do preço produto importado e mais o valor agregado no país, tornado possível calcular a efetiva participação do preço do produto importado na composição do custo total do produto revendido, base sobre a qual se aplica o preço de revenda e a margem de lucro presumida. Segundo, tratase de modelo em harmonia com as diretrizes internacionais, estabelecidas com sob a égide do princípio do arm's length. Tampouco há que se falar que os preços de transferência, no Brasil, tiveram como outro objetivo, além do princípio do arm's length, ser instrumento de fomento à indústria nacional, razão pela qual se poderia recepcionar entendimento de que teria havido o erro gramatical na redação da lei, o que conduziria o preço parâmetro à fórmula "PP = PL 0,6x(PL VA)". A exposição de motivos da Lei nº 9.430, de 1996, ao discorrer sobre os artigos 18 a 24, esclarece que a norma é instrumento de combate à elisão internacional: As normas contidas nos artigos 18 a 24 representam significativo avanço da legislação nacional face ao ingente processo de globalização experimentado pelas economias contemporâneas. No caso específico, em conformidade com as regras adotadas da OCDE. São propostas normas que possibilitem o controle dos denominados “Preços de Transferência”, de forma a evitar a prática, lesiva aos interesses nacionais, de transferências de recursos para o Exterior, mediante a manipulação dos preços pactuados nas importações ou exportações de bens, serviços ou direitos, em operações com pessoas vinculadas, residentes ou domiciliadas no Exterior. De qualquer maneira, há que se considerar que o modelo preconizado pela OCDE trata de diretrizes, sem o condão de retirar a autonomia que cada país tem para dispor sobre a matéria em seu ordenamento jurídico. (grifei) Tratase de norma com objetivo primordial de corrigir distorções entre o preço praticado nas operações de uma empresa e suas vinculadas, adotandose como parâmetro o preço de mercado negociado entre empresas independentes, em referência clara ao princípio do arm's length. Não há, portanto, que se falar em ilegalidade da IN SRF nº 243, de 2002, em face do disposto no art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996. A jurisprudência vem ratificando tal entendimento. Recentemente, na sessão de janeiro de 2016, o presente Colegiado julgou, por maioria de votos, pela legalidade da IN SRF nº 243, de 2002, tendo o Acórdão nº 9101002.175 apresentado a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Fl. 3022DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.023 26 Anocalendário: 2003 PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL60. AJUSTE, IN/SRF 243/2002. ILEGALIDADE. INEXISTÊNCIA. Descabe a argüição de ilegalidade na IN SRF nº 243/2002 cuja metodologia busca proporcionalizar o preço parâmetro ao bem importado aplicado na produção. Assim, a margem de lucro não é calculada sobre a diferença entre o preço líquido de venda do produto final e o valor agregado no País, mas sobre a participação do insumo importado no preço de venda do produto final, o que viabiliza a apuração do preço parâmetro do bem importado com maior exatidão, em consonância ao objetivo do método PRL 60 e à finalidade do controle dos preços de transferência. O voto faz referência a jurisprudência judicial, como, por exemplo, da Terceira Turma Tribunal Regional Federal da 3ª Região, que decidiu rever seu entendimento anterior e decidir pela legalidade da sistemática do PRL 60 estabelecida na IN SRF nº 243/2002, por unanimidade de votos, no julgamento do processo nº 2003.61.00.0173814/SP: APELAÇÃO EM MANDADO DE SEGURANÇA. MÉTODO DE PREÇO DE REVENDA MENOS LUCRO PRL. LEI Nº 9.430/96. INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF 243/02. APLICABILIDADE. 1. Caso em que a impetrante pretende apurar o Método de Preço de Revenda menos Lucro PRL, estabelecido na Lei n.º 9.430/96, sem se submeter às disposições da IN/SRF n.º 243/02. 2. Em que pese sejam menos vantajosos para a impetrante, os critérios da Instrução Normativa n. 243/2002 para aplicação do método do Preço de Revenda Menos Lucro (PRL) não subvertem os paradigmas do art. 18 da Lei n. 9.430/1996. 3. Ao considerar o percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no custo total do bem produzido, a IN 243/2002 nada mais está fazendo do que levar em conta o efetivo custo daqueles bens, serviços e direitos na produção do bem, que justificariam a dedução para fins de recolhimento do IRPJ e da CSLL. 4. Apelação improvida. (Divulgado no Diário Eletrônico da Justiça Federal da 3ª Região, em 18/2/2011. A Terceira Turma rejeitou os embargos opostos contra o acórdão, e manteve a orientação pela legalidade da IN nº 243/2002, em 5/5/2011.) Vale também transcrever ementa de decisão do processo nº 2003.61.00.0061258/SP, da Sexta Turma do TRF3: TRIBUTÁRIO TRANSAÇÕES INTERNACIONAIS ENTRE PESSOAS VINCULADAS MÉTODO DO PREÇO DE REVENDA MENOS LUCRO PRL 60 APURAÇÃO DAS BASES DE CÁLCULO DO IRPJ E DA CSLL EXERCÍCIO DE Fl. 3023DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.024 27 2002 LEIS NºS. 9.430/96 E 9.959/00 E INSTRUÇÕES NORMATIVAS/SRF NºS. 32/2001 E 243/2002 PREÇO PARÂMETRO MARGEM DE LUCRO VALOR AGREGADO LEGALIDADE INOCORRÊNCIA DE OFENSA A PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DEPÓSITOS JUDICIAIS. 1. Constitui o preço de transferência o controle, pela autoridade fiscal, do preço praticado nas operações comerciais ou financeiras realizadas entre pessoas jurídicas vinculadas, sediadas em diferentes jurisdições tributárias, com vista a afastar a indevida manipulação dos preços praticados pelas empresas com o objetivo de diminuir sua carga tributária. 2. A apuração do lucro real, base de cálculo do IRPJ, e da base de cálculo da CSLL, segundo o Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL, era disciplinada pelo art. 18, II e suas alíneas, da Lei nº 9.430/96, com a redação dada pela Lei nº 9.959/00 e regulamentada pela IN/SRF nº 32/2001, sistemática pretendida pela contribuinte para o ajuste de suas contas, no exercício de 2002, afastandose os critérios previstos pela IN/SRF nº 243/2002. 3. Contudo, ante à imprecisão metodológica de que padecia a IN/SRF nº 32/2001, ao dispor sobre o art. 18, II, da Lei nº 9.430/96, com a redação que lhe deu a Lei nº 9.959/00, a qual não espelhava com fidelidade a exegese do preceito legal por ela regulamentado, baixou a Secretaria da Receita Federal a IN/SRF nº 243/2002, com a finalidade de refletir a mens legis da regramatriz, voltada para coibir a evasão fiscal nas transações comerciais com empresas vinculadas sediadas no exterior, envolvendo a aquisição de bens, serviços ou direitos importados aplicados na produção. 4. Destarte, a IN/SRF nº 243/2002, sem romper os contornos da regramatriz, estabeleceu critérios e mecanismos que mais fielmente vieram traduzir o dizer da lei regulamentada. Deixou de referirse ao preço líquido de venda, optando por utilizar o preço parâmetro daqueles bens, serviços ou direitos importados da coligada sediada no exterior, na composição do preço do bem aqui produzido. Tal sistemática passou a considerar a participação percentual do bem importado na composição inicial do custo do produto acabado. Quanto à margem de lucro, estabeleceu dever ser apurada com a aplicação do percentual de 60% sobre a participação dos bens importados no preço de venda do bem produzido, a ser utilizada na apuração do preço parâmetro. Assim, enquanto a IN/SRF nº 32/2001 considerava o preço líquido de venda do bem produzido, a IN/SRF nº 243/2002, considera o preço parâmetro, apurado segundo a metodologia prevista no seu art. 12, §§ 10, e 11 e seus incisos, consubstanciado na diferença entre o valor da participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido, e a margem de lucro de sessenta por cento. Fl. 3024DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.025 28 5. O aperfeiçoamento fezse necessário porque o preço final do produto aqui industrializado não se compõe somente da soma do preço individuado de cada bem, serviço ou direito importado. À parcela atinente ao lucro empresarial, são acrescidos, entre outros, os custos de produção, da mão de obra empregada no processo produtivo, os tributos, tudo passando a compor o valor agregado, o qual, juntamente com a margem de lucro de sessenta por cento, mandou a lei expungir. Daí, a necessidade da efetiva apuração do custo desses bens, serviços ou direitos importados da empresa vinculada, pena de a distorção, consubstanciada no aumento abusivo dos custos de produção, com a consequente redução artificial do lucro real, base de cálculo do IRPJ e da base de cálculo da CSLL a patamares inferiores aos que efetivamente seriam apurados, redundar em evasão fiscal. 6. Assim, contrariamente ao defendido pela contribuinte, a IN/SRF nº 243/2002, cuidou de aperfeiçoar os procedimentos para dar operacionalidade aos comandos emergentes da regra matriz, com o fito de determinarse, com maior exatidão, o preço parâmetro, pelo método PRL60, na hipótese da importação de bens, serviços ou direitos de coligada sediada no exterior, destinados à produção e, a partir daí, comparandose o com preços de produtos idênticos ou similares praticados no mercado por empresas independentes (princípio arm's length), apurarse o lucro real e as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. 7. Em que pese a incipiente jurisprudência nos Tribunais pátrios sobre a matéria, ainda relativamente recente em nosso meio, temna decidido o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, do Ministério da Fazenda, não avistando o Colegiado em seus julgados administrativos qualquer eiva na IN/SRF nº 243/2002. Confirase a respeito o Recurso Voluntário nº 153.600 processo nº 16327.000590/200460, julgado na sessão de 17/10/2007, pela 5ª Turma/DRJ em São Paulo, relator o conselheiro José Clovis Alves. No mesmo sentido, decidiu a r. Terceira Turma desta Corte Regional, no julgamento da apelação cível nº 001738130.2003.4.03.6100/SP, Relator o e. Juiz Federal Convocado RUBENS CALIXTO. 8. Outrossim, impõese destacar não ter a IN/SRF nº 243/2002, criado, instituído ou aumentado os tributos, apenas aperfeiçoou a sistemática de apuração do lucro real e das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, pelo Método PRL60, nas transações comerciais efetuadas entre a contribuinte e sua coligada sediada no exterior, reproduzindo com maior exatidão, o alcance previsto pelo legislador, ao editar a Lei nº 9.430/96, com a redação dada pela Lei nº 9.959/2000, visando coibir a elisão fiscal. [...] (Divulgado no Diário Eletrônico da Justiça Federal da 3ª Região, em 1/9/2011. Grifos nossos) Portanto, não há que se falar em ilegalidade na IN SRF nº 243/2002, cujo modelo matemático é uma evolução das instruções normativas anteriores. A metodologia leva em conta a participação do valor agregado no custo total do produto revendido. Fl. 3025DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.026 29 Adotandose a proporção do bem importado no custo total, e aplicando a margem de lucro presumida pela legislação para a definição do preço de revenda, encontrase um valor do preço parâmetro compatível com a finalidade do método PRL 60 e dos preços de transferência. E não há que falar que a Lei nº 12.715, de 2012 (convertida pela MP nº 563, de 2012), ao reproduzir dispositivos da IN SRF nº 243, de 2002, em tese teria o condão de "confirmar" a ilegalidade da instrução normativa. Tal assertiva não resiste a uma análise mais precisa da exposição de motivos da medida provisória: 62. Entre essas alterações, merecem destaque as seguintes: a) substituição dos atuais métodos do Preço de Revenda menos Lucro PRL20 e PRL60, aplicáveis, respectivamente, a hipóteses nas quais os bens importados sejam exclusivamente revendidos ou sejam submetidos a processos produtivos no Brasil, a um único método de cálculo de preço parâmetro, o que fará com que os controles em questão não mais sejam relevantes na tomada de decisões quanto à forma de atuação das entidades sujeitas aos controles de preços de transferência no Brasil, bem como eliminará inúmeros litígios concernentes à conceituação do que venha a ser “submissão a processo produtivo no País”, fator este de enorme insegurança jurídica no que toca à matéria; b) aplicação, para fins de cálculo do PRL, de margens de lucro diferenciadas por setores da atividade econômica;(grifei) c) não consideração de montantes pagos a entidades não vinculadas ou a pessoas não residentes em países de tributação favorecida ou ainda a agentes que não gozem de regimes fiscais privilegiados a título de fretes, seguros, gastos com desembaraço e impostos incidentes sobre as operações de importação para fins de cálculo do preço parâmetro pelo método PRL, vez que tais montantes não são suscetíveis de eventuais manipulações empreendidas com o intuito de esvaziar a base tributária brasileira; No que concerne ao PRL 20 e PRL 60, deixa clara a exposição de motivos que o cerne da alteração em relação à lei anterior é o estabelecimento de um único método de cálculo de preço parâmetro, entendendo ser uma melhoria em relação à situação pretérita, no qual havia diferença de tratamento entre (i) os bens importados exclusivamente revendidos e (ii) aqueles submetidos a processos produtivos no Brasil. Discorre, de maneira expressa, sobre a preocupação com litígio que provocava a "conceituação" da expressão “submissão a processo produtivo no País”, o que, de acordo com o legislador, tratavase de "fator este de enorme insegurança jurídica". Ora, não se fala, em nenhum momento, em se dissipar qualquer eventual dúvida sobre a legalidade do art. 18 da IN SRF nº 243, de 2002. Tanto que, na sequência, discorre a exposição de motivos sobre a aplicação de margens de lucro diferenciadas por setores de atividade econômica, e sobre nova sistemática na apuração do preço de transferência para os valores a título de fretes, seguros, gastos com desembaraço e impostos incidentes sobre as operações de importação. Observase que a exposição de motivos expressamente se manifestou quando entendeu que a lei alterou a norma tributária relativa aos preços de transferência, ou seja, na Fl. 3026DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.027 30 adoção de um único método de cálculo de preço parâmetro para o PRL, na definição de margens de lucro diferenciadas por setores de atividade econômica e na sistemática para a inclusão de fretes, seguros, gastos com desembaraço e impostos incidentes sobre as operações de importação no preço praticado. Por outro lado, na medida em que não discorreu sobre o método adotado pelo 18 da IN SRF nº 243, de 2002, confirmou a interpretação dada pela norma complementar, tanto que positivou o entendimento na nova redação da lei. E se o legislador aproveitou a oportunidade para positivar, em texto legal, interpretação dada pela IN SRF nº 243, de 2002, tratase de procedimento que em nada altera a norma tributária em análise (método de cálculo do preço parâmetro pelo PRL 60), sob uma perspectiva substancial (material). A alteração é apenas no campo formal, tomandose como referência a data de vigência da Lei nº 12.715, de 2012: antes, a norma tinha previsão em lei e em norma complementar (instrução normativa autorizada pelo art. 100 do CTN 9); após, a previsão apenas em lei. Portanto, entendo não haver reparos ao procedimento da Fiscalização na utilização da IN SRF nº 243, de 2002. III. Inclusão de Fretes, Seguros e Tributos no Preço Praticado. Para discorrer sobre a matéria "indevida inclusão de fretes, seguros e impostos no preço praticado para fins de comparação com o preço parâmetro", cabe transcrever a redação do art. 18, da Lei nº 9.430, de 1996, caput e § 6º, dada antes da alteração promovida pela Lei nº 12.715, de 2012, transcrito na sequência: Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: I Método dos Preços Independentes Comparados PIC: [...] II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: [...] III Método do Custo de Produção mais Lucro CPL: [...] (...) § 6º Integram o custo, para efeito de dedutibilidade, o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador e os tributos incidentes na importação. Primeira constatação é que a comparabilidade é o valor principal a ser tutelado na matéria atinente aos preços de transferência. E, recusar a aplicação da comparabilidade é o mesmo que ignorar o princípio do arm's length. A operação entre pessoas vinculadas (no qual se verifica o preço praticado) e a operação entre pessoas não vinculadas, na revenda (no qual se apura o preço parâmetro) devem preservar parâmetros equivalentes. E, quanto ao caso em análise, concernente aos valores de 9 Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; (...) Fl. 3027DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.028 31 frete, seguros e tributos incidentes na importação, só dois mecanismos podem ser seguidos: (1) incluindose na apuração dos preços praticado e parâmetro os valores de frete, seguros e tributos incidentes na importação, ou (2) excluindose na apuração dos preços praticado e parâmetro os valores de frete, seguros e tributos incidentes na importação. Precisamente nesse contexto se justifica a existência do § 6º do art. 18, da Lei nº 9.430, de 1996, porque apresenta um tratamento diferente daquele previsto na regra geral para a apuração do custo contábil pelo art. 13 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art 13 O custo de aquisição de mercadorias destinadas à revenda compreenderá os de transporte e seguro até o estabelecimento do contribuinte e os tributos devidos na aquisição ou importação. § 1° O custo de produção dos bens ou serviços vendidos compreenderá obrigatoriamente: a) o custo de aquisição de matériasprimas e quaisquer outros bens ou serviços aplicados ou consumidos na produção, observado o disposto neste artigo. Não há coincidência na construção do sistema de tributação. Como regra geral de dedutibilidade, incluemse os de transporte e seguro até o estabelecimento do contribuinte e os tributos devidos na aquisição ou importação. Por isso, a legislação de preços de transferência, para buscar um parâmetro de comparação adequado entre preço praticado e preço parâmetro, teve que expressamente se manifestar, por meio do § 6º do art. 18, da Lei nº 9.430, de 1996, para esclarecer que a regra geral de dedutibilidade não seria aplicável. Ou seja, para fins de apuração do preço de transferência, os valores de frete, seguro e tributos incidentes na importação não são dedutíveis, devendo integrar o custo. Portanto, como se pode observar, a redação do § 6º do art. 18, da Lei nº 9.430, de 1996 consagra o mecanismo de inclusão, na apuração dos preços praticado e parâmetro, dos valores de frete, seguros e tributos incidentes na importação. Inclusive, a IN SRF nº 243, de 2002, não vacila sobre o entendimento: Art. 4º (...) § 4º Para efeito de apuração do preço a ser utilizado como parâmetro, calculado com base no método de que trata o art. 12, serão integrados ao preço praticado na importação os valores de transporte e seguro, cujo ônus tenha sido da empresa importadora, e os de tributos não recuperáveis, devidos na importação. Em suma, sob a égide do art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, não restam dúvidas sobre o assunto: integram o custo (apuração do preço praticado), para efeito de dedutibilidade (registrase a exceção à regra geral disposta no art. 13 do DecretoLei nº 1.598, de 1977), o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador e os tributos incidentes na importação. Fl. 3028DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.029 32 E não há que se falar que a nova redação dada pela Lei nº 12.715, de 2012, teria alterado tal entendimento. Pelo contrário, confirmou que a comparabilidade sempre foi o valor principal a ser tutelado. Basta observar nova redação dada ao § 6º em debate, e ao novel § 6º A: § 6º Não integram o custo, para efeito do cálculo disposto na alínea b do inciso II do caput, o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador, desde que tenham sido contratados com pessoas: (Redação dada pela Lei nº 12.715, de 2012) I não vinculadas; e (Incluído pela Lei nº 12.715, de 2012) II que não sejam residentes ou domiciliadas em países ou dependências de tributação favorecida, ou que não estejam amparados por regimes fiscais privilegiados. (Incluído pela Lei nº 12.715, de 2012) § 6ºA. Não integram o custo, para efeito do cálculo disposto na alínea b do inciso II do caput, os tributos incidentes na importação e os gastos no desembaraço aduaneiro. (Incluído pela Lei nº 12.715, de 2012) Primeiro, ao se revogar a redação antiga do § 6º, eliminase a restrição colocada ao preço praticado aplicável sobre a regra de dedutibilidade geral do art. 13 do DecretoLei nº 1.598, de 1977. Ou seja, passase a permitir a exclusão dos valores de frete, seguro e tributos na importação na apuração do preço praticado. Ou seja, os dispêndios voltam a seguir a regra geral e passam a ser dedutíveis. E, na mesma medida, com a nova redação do § 6º e o novo § 6ºA, determinase que na apuração do preço parâmetro pelo método PRL, não serão mais considerados os valores de frete, seguro (mediante atendimento de determinadas condições) e tributos na importação na apuração do preço praticado. Ora, no ordenamento anterior à redação da Lei nº 12.715, de 2012, o § 6º dirigiase ao preço praticado, e estabelecia exceção à regra geral de dedutibilidade, determinando pela inclusão dos valores de frete, seguro e tributos na importação, vez que, na determinação do preço parâmetro, tais dispêndios eram considerados. Como já dito, a comparabilidade se operava mediante o mecanismo de inclusão dos valores de frete, seguro e tributos na importação na determinação dos preços praticado e preço parâmetro. Por sua vez, com a redação da Lei nº 12.715, de 2012, operacionalizouse caminho inverso. O § 6º e § 6ºA dirigemse ao preço parâmetro. Revogase a restrição à regra de dedutibilidade geral (art. 13 do DecretoLei nº 1.598, de 1977), ou seja, na determinação do preço praticado passa a ser permitida a exclusão dos valores de frete, seguro e tributos na importação. E, precisamente por isso, a nova redação do § 6º e § 6ºA determina que passam a não integrar a apuração do preço parâmetro os valores de frete, seguro e tributos na importação. A comparabilidade passa a ser operada mediante o outro mecanismo: a exclusão dos valores de frete, seguro e tributos na importação na determinação dos preços praticado e preço parâmetro. Fl. 3029DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.030 33 Preservada, portanto, a comparabilidade entre os preços parâmetro e praticado. Portanto, voto no sentido de negar provimento ao recurso da Contribuinte em relação à matéria "indevida inclusão de fretes, seguros e impostos no preço praticado para fins de comparação com o preço parâmetro". IV. Conclusão Diante do exposto, voto no sentido de conhecer dos recursos da Contribuinte e da PGFN. No mérito, voto no sentido de negar provimento ao recurso especial da Contribuinte, e dar provimento parcial ao recurso especial da PGFN, restabelecendose o método PRL60 para todos os produtos, com exceção do "DPRIVAN PFS 10 MG/ML 50MLCX1 SER VD", para o qual se aplica o método PRL20. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 3030DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.031 34 Declaração de Voto Conselheira Cristiane Silva Costa. Não tendo sido apresentada no prazo regimental10, considerase não formulada a declaração de voto. 10 RICARF, Anexo II: Art. 63. As decisões dos colegiados, em forma de acórdão ou resolução, serão assinadas pelo presidente, pelo relator, pelo redator designado ou por conselheiro que fizer declaração de voto, devendo constar, ainda, o nome dos conselheiros presentes e dos ausentes, especificandose, se houver, os conselheiros vencidos e a matéria em que o foram, e os impedidos. (...) § 6º As declarações de voto somente integrarão o acórdão ou resolução quando formalizadas no prazo de 15 (quinze) dias do julgamento. § 7º Descumprido o prazo previsto no § 6º, considerase não formulada a declaração de voto. Fl. 3031DF CARF MF Processo nº 16561.000047/200813 Acórdão n.º 9101002.952 CSRFT1 Fl. 3.032 35 Declaração de Voto Conselheiro Luís Flávio Neto. Não tendo sido apresentada no prazo regimental11, considerase não formulada a declaração de voto. 11 RICARF, Anexo II: Art. 63. As decisões dos colegiados, em forma de acórdão ou resolução, serão assinadas pelo presidente, pelo relator, pelo redator designado ou por conselheiro que fizer declaração de voto, devendo constar, ainda, o nome dos conselheiros presentes e dos ausentes, especificandose, se houver, os conselheiros vencidos e a matéria em que o foram, e os impedidos. (...) § 6º As declarações de voto somente integrarão o acórdão ou resolução quando formalizadas no prazo de 15 (quinze) dias do julgamento. § 7º Descumprido o prazo previsto no § 6º, considerase não formulada a declaração de voto. Fl. 3032DF CARF MF
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Numero do processo: 19515.003690/2007-61
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 14 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Sep 22 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2001, 2002, 2003
IRPF. PRAZO DECADENCIAL E FIXAÇÃO DO TERMO INICIAL DE CONTAGEM. PRESUNÇÃO LEGAL DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITO BANCÁRIO DE ORIGEM NÃO COMPROVADA.
Nos termos da Súmula CARF nº 38, o fato gerador do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, relativo à omissão de rendimentos apurada a partir de depósitos bancários de origem não comprovada, ocorre no dia 31 de dezembro do ano-calendário.
ART. 6º DA LEI COMPLEMENTAR Nº 105/2001. POSSIBILIDADE DE O FISCO REQUISITAR INFORMAÇÕES BANCÁRIAS DO CONTRIBUINTE DIRETAMENTE ÀS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. DESNECESSIDADE DE PRÉVIA AUTORIZAÇÃO JUDICIAL.
Consoante consagrado no julgamento do Recurso Extraordinário nº 601.134/SP, com repercussão geral, pelo plenário do STF, ocorrido em 24/02/2016, afigura-se constitucional o disposto no art. 6º da Lei Complementar nº 105/2001, que permite aos Fiscos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, quando houver processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames forem considerados indispensáveis pela autoridade administrativa competente, requisitar informações bancárias do contribuinte diretamente às instituições financeiras, sem necessidade de prévia autorização judicial.
PROVA INDIRETA. FORÇA PROBANTE DOS INDÍCIOS.
A prova direta representa, de forma imediata, a ocorrência do fato com implicações jurídicas. Já a prova indireta baseia-se na existência de outros fatos secundários (indícios) que, por indução lógica, levam à conclusão sobre a ocorrência ou não do fato principal de relevância jurídica. E para que ocorra a referida indução lógica, o quadro de indícios deve ser preciso, grave e harmônico entre si.
IRPF. PRESUNÇÃO LEGAL DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS. LANÇAMENTO COM BASE EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS.
O art. 42 da Lei nº 9.430/1996 autoriza a presunção de omissão de rendimentos tributáveis com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações.
Se o ônus da prova, por presunção legal, é do contribuinte, cabe a ele a demonstração da origem dos recursos utilizados para acobertar seus depósitos bancários, a qual não pode ser substituída por meras alegações.
Numero da decisão: 2301-005.140
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos: (a) não conhecer o recurso voluntário quanto à arguição de inconstitucionalidade, (b) rejeitar as preliminares, e, (c) no mérito, quanto às demais alegações, por conhecê-lo e dar parcial provimento ao recurso voluntário, para acolher a alegação de decadência relativamente ao ano-calendário 2001, rejeitando todos os demais argumentos. Fez sustentação oral o Dr. Fernando L. Lobo d'Eça, OAB/SP 66.899. Após a leitura do voto do relator, o patrono solicitou a palavra para fazer esclarecimentos de fatos, o que lhe foi negado; demandado pelo conselheiro relator, foi concedida a palavra ao patrono, que fez os esclarecimentos pretendidos.
(assinado digitalmente)
João Bellini Junior Presidente
(assinado digitalmente)
Fábio Piovesan Bozza Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrea Brose Adolfo, Fabio Piovesan Bozza, João Mauricio Vital, Alexandre Evaristo Pinto, Denny Medeiros da Silveira (suplente), Wesley Rocha, Thiago Duca Amoni (suplente), João Bellini Junior (presidente).
Nome do relator: FABIO PIOVESAN BOZZA
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PRAZO DECADENCIAL E FIXAÇÃO DO TERMO INICIAL DE CONTAGEM. PRESUNÇÃO LEGAL DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITO BANCÁRIO DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. Nos termos da Súmula CARF nº 38, o fato gerador do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, relativo à omissão de rendimentos apurada a partir de depósitos bancários de origem não comprovada, ocorre no dia 31 de dezembro do anocalendário. ART. 6º DA LEI COMPLEMENTAR Nº 105/2001. POSSIBILIDADE DE O FISCO REQUISITAR INFORMAÇÕES BANCÁRIAS DO CONTRIBUINTE DIRETAMENTE ÀS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. DESNECESSIDADE DE PRÉVIA AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. Consoante consagrado no julgamento do Recurso Extraordinário nº 601.134/SP, com repercussão geral, pelo plenário do STF, ocorrido em 24/02/2016, afigurase constitucional o disposto no art. 6º da Lei Complementar nº 105/2001, que permite aos Fiscos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, quando houver processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames forem considerados indispensáveis pela autoridade administrativa competente, requisitar informações bancárias do contribuinte diretamente às instituições financeiras, sem necessidade de prévia autorização judicial. PROVA INDIRETA. FORÇA PROBANTE DOS INDÍCIOS. A prova direta representa, de forma imediata, a ocorrência do fato com implicações jurídicas. Já a prova indireta baseiase na existência de outros fatos secundários (indícios) que, por indução lógica, levam à conclusão sobre a ocorrência ou não do fato principal de relevância jurídica. E para que ocorra AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 36 90 /2 00 7- 61 Fl. 1164DF CARF MF 2 a referida indução lógica, o quadro de indícios deve ser preciso, grave e harmônico entre si. IRPF. PRESUNÇÃO LEGAL DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS. LANÇAMENTO COM BASE EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS. O art. 42 da Lei nº 9.430/1996 autoriza a presunção de omissão de rendimentos tributáveis com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Se o ônus da prova, por presunção legal, é do contribuinte, cabe a ele a demonstração da origem dos recursos utilizados para acobertar seus depósitos bancários, a qual não pode ser substituída por meras alegações. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos: (a) não conhecer o recurso voluntário quanto à arguição de inconstitucionalidade, (b) rejeitar as preliminares, e, (c) no mérito, quanto às demais alegações, por conhecêlo e dar parcial provimento ao recurso voluntário, para acolher a alegação de decadência relativamente ao anocalendário 2001, rejeitando todos os demais argumentos. Fez sustentação oral o Dr. Fernando L. Lobo d'Eça, OAB/SP 66.899. Após a leitura do voto do relator, o patrono solicitou a palavra para fazer esclarecimentos de fatos, o que lhe foi negado; demandado pelo conselheiro relator, foi concedida a palavra ao patrono, que fez os esclarecimentos pretendidos. (assinado digitalmente) João Bellini Junior – Presidente (assinado digitalmente) Fábio Piovesan Bozza – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrea Brose Adolfo, Fabio Piovesan Bozza, João Mauricio Vital, Alexandre Evaristo Pinto, Denny Medeiros da Silveira (suplente), Wesley Rocha, Thiago Duca Amoni (suplente), João Bellini Junior (presidente). Relatório Conselheiro Relator Fábio Piovesan Bozza Em julgamento o recurso voluntário interposto por Fernando Janine Ribeiro contra o acórdão de primeira instância, proferido pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo/SP (DRJ/São Paulo). Fl. 1165DF CARF MF Processo nº 19515.003690/200761 Acórdão n.º 2301005.140 S2C3T1 Fl. 3 3 A fiscalização lavrou auto de infração contra o ora Recorrente com o intuito de exigir o recolhimento de Imposto de Renda Pessoa Física – IRPF e consectários legais sobre depósitos bancários de origem não comprovada em contas de depósito ou de investimento, mantida em instituições financeiras no Brasil e no exterior, relativos aos anoscalendários 2001, 2002 e 2003. Por bem descrever os fatos, transcrevo o relatório do acórdão recorrido: Contra o contribuinte acima qualificado foi lavrado, em 06/12/2007, o Auto de Infração de fls. 932 a 937 e anexos de fls. 928 a 937, relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física, exercícios 2002, 2003 e 2004 (anoscalendário 2001 a 2003), por intermédio do qual lhe é exigido crédito tributário no montante de R$ 20.098.954,52, dos quais R$ 8.109.245,48 correspondem a imposto, R$ 6.081.934,10, à multa proporcional, e R$ 5.907.774,94, a juros de mora, calculados até 30/11/2.007. Conforme Termo de Verificação Fiscal (fls. 912 a 927) e Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal (fl. 934), o procedimento fiscal resultou na apuração da seguinte infração: DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA OMISSÃO DE RENDIMENTOS CARACTERIZADA POR DEPÓSITOS BANCÁRIOS COM ORIGEM NÃO COMPROVADA Omissão de rendimentos caracterizada por valores creditados em conta de depósito ou de investimento, mantidas em instituições financeiras, em relação aos quais o contribuinte, regularmente intimado, não comprovou, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações, conforme demonstrado no Termo Verificação. Fato Gerador Valor Tributável (R$) Multa (%) 31/12/2.001 3.337.637,67 75,00 31/12/2.002 25.685.789,72 75,00 31/12/2.003 492.738,81 75,00 Enquadramento legal: Art. 849 do RIR/99; Art. 42 da Lei n° 9.430/96; Art.4° da Lei n° 9.481/97; Art. 1° da Lei n° 9.887/1.999; Art. 1° da Medida Provisória n° 22/2002 convertida na Lei n° 10.451/2002. Cientificado do Auto de Infração em 08/12/2007 (fl. 941), o contribuinte apresentou, em 27/12/2007, a impugnação de fls. 942 a 961 alegando, em síntese, que: Fl. 1166DF CARF MF 4 • Preliminarmente, houve cerceamento de seu direito de defesa em função de que as informações e documentos fornecidos por autoridades externas e internas, que supostamente embasaram a presente autuação, não foram oferecidas ao conhecimento do contribuinte, juntamente com o Auto de Infração. • Assim, ignorando totalmente a existência, a origem, a autenticidade e o conteúdo de tais informações, não é possível examinar, conferir e contestar sua existência, prejudicando sua defesa. • Assim, a ação fiscal ora impugnada se mostra ilegal e nula de pleno direito, por ter sido instaurada com preterição aos direitos de defesa e ao princípio do contraditório. • Ainda como preliminar alega que teria ocorrido a decadência quanto à tributação de operações ocorridas entre janeiro de 2001 a dezembro de 2002. • Sendo o lançamento do imposto de renda por homologação, isso significa dizer que tendo sido notificado em 10/12/2007, somente poderia o lançamento abranger operações realizadas até 10/12/2002. • Cita inúmeras ementas de acórdãos do Conselho de Contribuintes com o intuito de embasar suas alegações. • Quanto ao mérito, aduz que, mesmo relativamente às operações não abrangidas pela decadência, houve ilegalidade por parte da fiscalização ao não respeitar os limites legais estabelecidos pela Lei n° 9.430/96 (R$ 12.000,00 mensal e R$ 80.000,00 anual). • Acrescenta ainda que seria ilegal o lançamento lastreado em extratos de movimentação bancária, violando o sigilo bancário do requerente e contrariando flagrantemente a Jurisprudência Judicial cristalizada na Súmula 182 do Tribunal Federal de Recursos e ainda a Jurisprudência Administrativa. • Quanto ao lançamento relativo às movimentações de recursos no exterior, alega que os supostos elementos recebidos do Ministério da Justiça, além de nada provarem contra ele, sequer poderiam ser utilizados como prova no presente processo, conforme artigo 7.1 do Acordo Internacional de Cooperação firmado com os Estados Unidos. • Como se não bastasse a sua prevalência sobre a legislação interna à qual necessariamente se submete o lançamento, ao aceitar a assistência fornecida, o estado brasileiro obrigouse a respeitar a reserva de especialidade feita pelos Estados Unidos quanto à utilização e compartilhamento de documentos, sendo ilícita as provas obtidas desta forma. • Se pudesse se emprestar qualquer efeito probatório aos aludidos elementos, estes somente comprovam que os recursos financeiros movimentados no exterior eram da empresa "Chettiar Business" e não de sua pessoa natural. • Ante à impossibilidade fática e legal de se imputar ao contribuinte o suposto acréscimo patrimonial, desde logo se Fl. 1167DF CARF MF Processo nº 19515.003690/200761 Acórdão n.º 2301005.140 S2C3T1 Fl. 4 5 evidencia a total ilegitimidade passiva do requerente, o que nulifica o presente auto de infração. • Finalmente alega ser ilegal a aplicação cumulativa dos juros moratórios de 1% ao mês e da taxa SELIC, todos sobre o valor corrigido do suposto débito, sendo tal cobrança confiscatória (bis in idem). A ciência do auto de infração ocorreu em 08/12/2007. Irresignado, o Recorrente apresentou impugnação, a qual foi julgada parcialmente procedente pela DRJ/São Paulo. A ementa do julgado encontrase redigida nos seguintes termos: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSO FÍSICA IRPF Anocalendário: 2001, 2002, 2003 PRELIMINAR.CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. PRINCÍPIO INQUISITÓRIO. Os trabalhos de fiscalização não se submetem aos princípios do contraditório e da ampla defesa uma vez que ainda não formalizado processo administrativo tributário. Formalizado o Auto de Infração e instaurada a fase litigiosa com a impugnação válida, devem ser observados tais princípios, situação verificada in concreto. Ademais, o contribuinte tomou conhecimento do inteiro teor das infrações que lhe são imputadas, possibilitando o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa. Preliminar rejeitada. PRELIMINAR DE DECADÊNCIA A instauração de procedimento de oficio pelo Fisco, no prazo de 5 (cinco) anos contados da ocorrência do fato gerador, consistente na intimação do contribuinte para apresentar esclarecimentos e/ou comprovações acerca das matérias objetos do futuro lançamento, afasta a inércia da Fazenda Pública e a possibilidade da homologação tácita do lançamento, consubstanciando a figura do lançamento de ofício, cujo termo inicial para a contagem do prazo decadencial de 5 (cinco) anos é o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido realizado. Preliminar rejeitada. PRELIMINAR. QUEBRA DO SIGILO BANCÁRIO. Havendo procedimento administrativo regularmente instaurado, não constitui quebra do sigilo bancário a obtenção, pelos órgãos fiscais tributários do Ministério da Fazenda e dos Estados, de dados sobre a movimentação bancária dos contribuintes com base em valores da CPMF. Preliminar rejeitada. PRELIMINAR. ILEGITIMIDADE PASSIVA. Fl. 1168DF CARF MF 6 Na presença de comprovação de que o contribuinte foi o beneficiário dos depósitos efetuados em contascorrentes de sua titularidade e que foram objeto da presente autuação, há que se refutar a argumentação de ilegitimidade passiva. Preliminar rejeitada. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS A nãocomprovação da origem dos recursos financeiros creditados em contas correntes no Brasil e no exterior, não informados nas respectivas declarações de ajuste anuais, autoriza a autuação lastreada na apuração de omissão de rendimentos. LIMITES PARA TRIBUTAÇÃO DE DEPÓSITOS BANCÁRIOS Não serão tributados os valores de créditos inferiores a R$ 12.000,00, desde que seu somatório, no anocalendário, seja inferior a R$ 80.000,00, considerandose a totalidade das contas de depósito, cuja titularidade seja do contribuinte. JUROS DE MORA. TAXA REFERENCIAL SELIC. Havendo previsão legal para a aplicação da taxa SELIC, não cabe à Autoridade Julgadora exonerar a cobrança dos juros de mora legalmente estabelecida. Lançamento Procedente em Parte Ainda irresignado, o Recorrente interpôs recurso voluntário, reafirmando, em essência, os argumentos da impugnação, a saber: (i) nulidade do acórdão recorrido por não ter analisado as questões postas em debate; (ii) cerceamento ao direito de defesa; (iii) ilegalidade do lançamento “ex officio” por abranger período em que já se operou a decadência nos termos do art. 150, §4º do CTN; (iv) ilegalidade do lançamento “ex officio” por abranger "informações" de valor mensal inferior ao admitido pela Lei n° 9.430/96; (v) ilegalidade do lançamento de IRPF com base exclusivamente em extratos de movimentos bancários já proclamada pela jurisprudência judicial e administrativa; (vi) erro de fato e a ilegalidade do lançamento de IRPF sobre rendimentos de terceiro beneficiário das supostas contas externas; (vii) ilegalidade da exigência cumulada de juros moratórios e taxa Selic sobre o suposto débito. É o relatório. Fl. 1169DF CARF MF Processo nº 19515.003690/200761 Acórdão n.º 2301005.140 S2C3T1 Fl. 5 7 Voto Conselheiro Relator Fábio Piovesan Bozza A intimação do acórdão de primeira instância ocorreu em 21/11/2008 e o recurso voluntário foi interposto em 12/12/2008. Por ser tempestivo e por cumprir com as formalidades legais, dele tomo conhecimento. Preliminar de Nulidade do Acórdão Recorrido O Recorrente alega nulidade do acórdão recorrido por supostamente não ter analisado e decidido sobre as seguintes questões trazidas na impugnação: a) a nulidade "ab initio" do procedimento fiscal e das requisições de informações sobre movimentação financeira (RMF), pela supressão de "informações" fornecidas à fiscalização ao conhecimento do contribuinte; b) a ilegalidade do lançamento “ex officio” por abranger período em que já se operou a decadência nos termos do art. 150, §4º do CTN; c) a ilegalidade do lançamento “ex officio” por abranger "informações" de valor mensal inferior ao admitido pela Lei n° 9.430/96; d) a ilegalidade do lançamento de IRPF com base exclusivamente em extratos de movimentos bancários já proclamada pela jurisprudência judicial e administrativa; e) a ilegitimidade passiva do Recorrente, o erro de fato, a ilicitude da "prova" e a ilegalidade do lançamento de IRPF sobre rendimentos de terceiro beneficiário das supostas contas externas; f) a ilegalidade da exigência cumulada de juros moratórios e "taxa Selic" sobre o suposto débito. Ao compulsar o acórdão recorrido, verifico que todas essas questões, ao contrário do alegado no recurso voluntário, foram sim apreciadas pela DRJ/São Paulo. A questão (c) supra foi, inclusive, acolhida. Por essa razão, rejeito a preliminar de nulidade do acórdão recorrido. Preliminar de Nulidade do Lançamento por Cerceamento do Direito de Defesa Alega o Recorrente ter sido surpreendido pela auditoria, sem que a fiscalização lhe desse conhecimento sobre os elementos que embasaram a autuação, prejudicando sua defesa. Todavia, tratase de questão já suscitada na impugnação, analisada e devidamente esclarecida pelo acórdão recorrido. Fl. 1170DF CARF MF 8 De acordo os seguintes trechos do relatório fiscal, diversos elementos disponibilizados pelas autoridades norteamericanas e pela Polícia Federal brasileira à Receita Federal foram encaminhados ao Recorrente, juntamente com os diversos termos de intimação: Considerando a alegação de que desconhece totalmente a existência da conta "Crescent City Ltd", foi lavrado em 08/02/2007, o Termo de Intimação Fiscal n° 03 (lis. 706 a 729), por meio do qual foram encaminhadas documentações cadastrais e cartão de assinatura identificando o fiscalizado e Joacyr Revnaldo como diretores da citada empresa. Foram, também, encaminhados os extratos de movimentações financeiras, que serviram de base para a elaboração da relação contida no Termo de Intimação Fiscal n° 02, sendo novamente intimado a comprovar a origem dos recursos financeiros movimentados naquela conta. (...) Foram, também, encaminhadas cópias de documentos disponibilizados pelo Departamento da Polícia Federal, relativos a empresa "Chettiar Business Inc." (...) Os elementos que embasaram a ação fiscal acompanharam as intimações e Termo de Continuidade, enviados ao contribuinte, porém, não houve qualquer manifestação posterior ao encaminhamento da documentação. Por essa razão, rejeito a preliminar de nulidade da autuação fiscal. Decadência O Recorrente alega o transcurso do prazo decadencial para os lançamentos ocorridos até dezembro/2002. A seu ver, o prazo iniciouse a partir da ocorrência do fato gerador mensal, nos termos do art. 150, § 4º do CTN. Contudo, a matéria já se encontra pacificada no âmbito deste CARF, devendo a contagem da decadência de lançamentos sobre omissões de rendimentos com base em depósitos de origem não comprovada iniciar no final do anocalendário, consoante dispõe a Súmula CARF nº 38, de observância obrigatória pelos conselheiros deste órgão administrativo: Súmula CARF nº 38: O fato gerador do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, relativo à omissão de rendimentos apurada a partir de depósitos bancários de origem não comprovada, ocorre no dia 31 de dezembro do anocalendário. Considerando que não houve imputação de fraude, dolo ou simulação por parte da fiscalização (tanto que a multa de ofício lançada foi de 75%) e que há notícia de antecipação de pagamentos do IRPF (antecipações sofridas na fonte efls. 9), aplicável à espécie o disposto no art. 150, §4º do CTN. Assim, fixado o termo inicial, percebese que o transcurso do prazo decadencial de cinco anos para lançamento de omissões ocorridas no anocalendário 2001 (iniciado em 31/12/2001 e findo em 31/12/2006) já havia se completado no momento da ciência do auto de infração, ocorrida em 12/12/2007. Fl. 1171DF CARF MF Processo nº 19515.003690/200761 Acórdão n.º 2301005.140 S2C3T1 Fl. 6 9 Nesse sentido, considero que os lançamentos tributários realizados pela fiscalização apenas com relação ao anocalendário de 2001 encontramse decaídos. Acolho, portanto, parcialmente a arguição de decadência. Depósitos Bancários de Origem não Comprovada O principal dispositivo legal que embasa a autuação é o art. 42 da Lei nº 9.430/96, o qual possui a seguinte redação: Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. § 1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I – os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II – no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 1.000,00 (mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano calendário, não ultrapasse o valor de R$ 12.000,00 (doze mil reais). (Vide Medida Provisória nº 1.5637, de 1997) (Vide Lei nº 9.481, de 1997) § 4º Tratandose de pessoa física, os rendimentos omitidos serão tributados no mês em que considerados recebidos, com base na tabela progressiva vigente à época em que tenha sido efetuado o crédito pela instituição financeira. § 5º Quando provado que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento. (Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) § 6º Na hipótese de contas de depósito ou de investimento mantidas em conjunto, cuja declaração de rendimentos ou de informações dos titulares tenham sido apresentadas em Fl. 1172DF CARF MF 10 separado, e não havendo comprovação da origem dos recursos nos termos deste artigo, o valor dos rendimentos ou receitas será imputado a cada titular mediante divisão entre o total dos rendimentos ou receitas pela quantidade de titulares.(Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) O Recorrente apresente diversas objeções sobre o mérito do lançamento. Primeiro. Contesta a validade do auto de infração fazendo menção a súmulas e precedentes judiciais e administrativos. Acontece que a jurisprudência mencionada no recurso voluntário, como a Súmula TFR nº 182 (“é ilegítimo o lançamento do imposto de renda arbitrado com base apenas em extratos ou depósitos bancários”), fundamentase em legislação já revogada e anterior à edição do art. 42 da Lei nº 9.430/96, não sendo, destarte, aplicável ao presente caso. A seguinte súmula CARF, vigente e de observância obrigatória pelos julgadores do CARF, assevera o seguinte: Súmula CARF nº 26: A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. Segundo. Contesta a validade do auto de infração ao alegar desrespeito aos limites legais estabelecidos pela Lei n° 9.430/96 (R$ 12.000,00 mensal e R$ 80.000,00 anual). Todavia, tratase de questão já analisada – e corretamente acolhida – pelo acórdão recorrido, nos seguintes termos: Após tal procedimento, há que se verificar se o valor total dos créditos ocorridos no mês (valor recomposto como explicado acima) é maior ou menor que R$ 12.000,00. Se for maior, o valor será tributado normalmente. Entretanto, se ainda houver valores abaixo de R$ 12.000,00, eles serão somados dentro do anocalendário e só serão excluídos se o total for inferior a R$ 80.000,00. Caso ultrapasse este montante, todos os depósitos, mesmo que sejam inferiores a R$ 12.000,00 serão mantidos na tributação. Esclareçase que, nos depósitos relacionados acima, não houve valores inferiores a R$ 12.000,00 que, totalizados, ultrapassaram o limite anual de R$ 80.000,00. (...) Assim, quanto à tributação de valores inferiores ao limite estipulado na legislação de regência, cabe razão ao requerente, e deverão ser excluídos da tributação os seguintes valores, sendo que entre parênteses foram destacados os depósitos que, agrupados, formaram o total a ser excluído, conforme tabelas de fl. 895 e 924: (...) Referido posicionamento do acórdão recorrido encontrase em linha com o entendimento sumulado por este órgão: Súmula CARF nº 61: Os depósitos bancários iguais ou inferiores a R$ 12.000,00 (doze mil reais), cujo somatório não Fl. 1173DF CARF MF Processo nº 19515.003690/200761 Acórdão n.º 2301005.140 S2C3T1 Fl. 7 11 ultrapasse R$ 80.000,00 (oitenta mil reais) no anocalendário, não podem ser considerados na presunção da omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada, no caso de pessoa física. Não havendo outro ponto a ser analisado, considero a irresignação prejudicada, posto que já acolhida, em seus termos, pelo acórdão recorrido. Terceiro. Com relação aos depósitos de origem não comprovada em instituições financeiras norteamericanas, o Recorrente alega desrespeito ao art. 7.1 do Acordo Internacional de Assistência Judiciária em Matéria Penal, firmado entre Brasil e Estados Unidos da América. De acordo com o Recorrente, a referida cláusula teria a seguinte redação: "o estado requerente não poderá usar qualquer informação ou prova obtida por força do presente acordo em investigação, inquérito, ação penal ou procedimentos outros que não aqueles descritos na solicitação sem o prévio consentimento da autoridade central do estado requerido." No entanto, a redação constante do Decreto nº 3.810/01 é um pouco diferente e com sentido diverso daquele sustentado pelo Recorrente. Tratase do decreto que “promulga o Acordo de Assistência Judiciária em Matéria Penal entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América, celebrado em Brasília, em 14 de outubro de 1997, corrigido em sua versão em português, por troca de Notas, em 15 de fevereiro de 2001” (grifos nossos): Artigo VII Restrições ao Uso 1. A Autoridade Central do Estado Requerido pode solicitar que o Estado Requerente deixe de usar qualquer informação ou prova obtida por força deste Acordo em investigação, inquérito, ação penal ou procedimentos outros que não aqueles descritos na solicitação, sem o prévio consentimento da Autoridade Central do Estado Requerido. Nesses casos, o Estado Requerente deverá respeitar as condições estabelecidas. No presente caso, o Estado Requerido (Estados Unidos da América) não requereu ao Estado Requerente (Brasil) que deixasse de usar qualquer informação ou prova que tenha conexão com o presente processo administrativo. Além disso, as informações tanto da conta Chettiar Business Inc. quanto da conta Crescent City Ltd. foram devidamente encaminhadas às autoridades fiscais pelo MM. Juízo da 2ª Vara Federal Criminal de Curitiba (efls. 5359; 345351). Quarto. O Recorrente afirma não ser o efetivo titular nem beneficiário das contas bancárias nas instituições norteamericanas, mas mero procurador e/ou executivo contratado para administrálas. Alega que os verdadeiros titulares das contas bancárias eram as empresas “offshore” Chettiar Business Inc. e Crescent City Ltd., constituídas nas Ilhas Virgens Britânicas. Para fortalecer sua argumentação, o Recorrente faz referência ao acórdão nº 2201002.581, proferido por este CARF em 04/11/2014, no processo administrativo que Fl. 1174DF CARF MF 12 veicula a autuação contra o outro diretor dessas empresas, Sr. Joacyr Reinaldo. De acordo com o entendimento majoritário daquela turma, a acusação de omissão de rendimentos por depósito de origem não comprovada no exterior foi considerada insubsistente, em virtude de a fiscalização não ter provado que as contas bancárias eram de efetiva titularidade do autuado. O julgado possui a seguinte ementa: OMISSÃO DE RENDIMENTOS. LANÇAMENTO COM BASE EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS. INTERPOSIÇÃO DE PESSOA. CONDIÇÃO DE PROCURADOR. A determinação dos rendimentos omitidos, tomando por base depósitos bancários de origem não comprovada, somente pode ser efetuada em relação a terceiro não titular da conta quando restar comprovado por indícios veementes e convincentes que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem efetivamente a tal terceiro e não ao titular da conta. Pois bem. A presunção do art. 42 aplicase em relação ao titular da conta bancária. Inicialmente, é considerado titular aquela pessoa indicada nos dados cadastrais. Mas pode ocorrer que o efetivo titular, isto é, aquele que se beneficia dos atributos de correntista de instituição financeira, seja pessoa diversa daquela constante dos registros bancários. Nesse caso, a prova da efetiva titularidade caberá ou ao correntista formalmente indicado se, por iniciativa própria, pretender se desvencilhar dos efeitos da presunção legal; ou ao Fisco, se pretender lançar tributo contra outrem. Tal entendimento encontrase plasmado em súmula deste CARF: Súmula CARF nº 32: A titularidade dos depósitos bancários pertence às pessoas indicadas nos dados cadastrais, salvo quando comprovado com documentação hábil e idônea o uso da conta por terceiros. Também é importante distinguir o efetivo titular da conta bancária (condição necessária à aplicação do art. 42 da Lei nº 9.430/96) do efeito beneficiário dos recursos nela creditados (circunstância atinente à natureza jurídica dos valores depositados e sobre o qual recai a presunção legal). Uma vez provada a titularidade da conta, compete ao respectivo titular regulamente intimado provar, mediante documentação hábil e idônea, que os recursos creditados não são rendimentos tributáveis omitidos. Pode ocorrer de a comprovação da titularidade da conta não ser feita por meio de prova direta, mas sim por prova indireta. A produção de prova indireta deve ser baseada na existência de outros fatos (indícios) que, por indução lógica, levam à conclusão sobre a ocorrência do fato principal. A natureza da prova indireta, entretanto, sujeitaa a diferentes graus de crença. Por isso, o quadro de indícios deve ser preciso, grave e harmônico, isto é: (a) preciso: o fato controvertido deve ter ligação direta com o fato conhecido, podendo dele extrair consequências claras e efetivamente possíveis, a ponto de rechaçar outras possíveis soluções; (b) grave: resultante de uma forte probabilidade e capacidade de induzir à persuasão; e Fl. 1175DF CARF MF Processo nº 19515.003690/200761 Acórdão n.º 2301005.140 S2C3T1 Fl. 8 13 (c) harmônico: com os indícios concordantes entre si e não contraditórios, os quais convergem para a mesma solução, de modo a aumentar o grau de confirmação lógica sobre uma dada ilação. No presente caso, não obstante o Recorrente fundamente a sua defesa na ilegitimidade passiva – uma vez que a documentação acostada comprovaria a sua condição de mero procurador/administrador das contas bancárias no exterior – afigurame que, primeiro, a titularidade do Recorrente sobre as duas contas bancárias no exterior restou suficientemente provada pela fiscalização nos presentes autos, de acordo com os fatos arrolados a seguir, quando conjuntamente considerados; e, segundo, o Recorrente não conseguiu se desvencilhar da presunção do art. 42 da Lei nº 9.430/96, segundo a qual os valores creditados em tais contas possuem a natureza jurídica de rendimentos tributáveis omitidos: (i) a constituição de sociedades em jurisdição de tributação favorecida (“paraíso fiscal”), cuja titularidade é apenas comprovada por ações ao portador (efls. 382); (ii) o Recorrente e seu sócio Joacyr Reinaldo eram as únicas pessoas naturais a encabeçar as transações das duas empresas “offshore”, não havendo participação comprovada de qualquer outra pessoa; (iii) o Recorrente efetuava o controle da movimentação financeira, com ordem para remessa de cópia dos extratos para o seu escritório (efls. 78); (iv) contradição das informações prestadas pelo Recorrente (1) na petição endereçada à Justiça norteamericana com o objetivo de desbloquear valores retidos, em que declara ser conhecedor das transações da Chettiar Business Inc. (efls. 148149); e (2) no depoimento à Justiça Federal brasileira, em que declara desconhecer as operações da empresa (efls. 884); (v) existência de movimentação de valores de ou para contas de outros investigados na operação policial (Informação do MPF às efls. 139 140, Laudo de Exame EconômicoFinanceiro do Instituto Nacional de Criminalística às efls. 160); (vi) contradição das informações prestadas pelo Recorrente (1) às autoridades fiscais brasileiras, quando declara desconhecimento completo sobre a conta bancária em nome da Crescent City Ltd. (efls. 713) e (2) cópia dos seguintes documentos constantes dos autos e enviados ao Recorrente: documentos cadastrais do banco, com assinatura (efls. 362364; 392; 394; 396; 404), deliberações societárias, com assinatura (efls. 378; 386), declaração ao governo norteamericano indicando como beneficiário efetivo tanto a empresa como o próprio Recorrente (efls. 398); (vii) depoimento do Recorrente perante a Justiça Federal em Curitiba/PR, no qual o depoente é qualificado como experiente operador do mercado financeiro, supostamente contratado por um advogado norteamericano para administrar as transações financeiras de clientes estrangeiros Fl. 1176DF CARF MF 14 interessados em investir no Brasil, por meio das contas bancárias Chettiar Business e Crescent City, mas que (1) possuía contato apenas telefônico com o referido advogado; (2) não possuía qualquer documento que comprovasse a sua condição de executivo ou procurador das empresas “offshore”; (3) não possuía qualquer documento de controle das transações bancárias; (4) desconhecia a origem dos recursos desses clientes (efls. 884). Por essas razões, rejeito a alegação do Recorrente, nessa parte. Cobrança Simultânea de Juros Moratórios Reclama o Recorrente quanto à legalidade da aplicação simultaneamente dos juros moratórios de 1% ao mês e da taxa SELIC. Considera tal cobrança arbitrária, ilegal e inconstitucional, por exigir concomitantemente duas verbas de caráter moratório. No entanto, considero que a irresignação do Recorrente não deve prosperar, por dois motivos, ambos apoiados em entendimentos sumulados pelo CARF, de observância obrigatório pelos seus conselheiros: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia – SELIC para títulos federais. Além disso, a cobrança dos juros não é simultânea, mas sucessiva. No mês em que incide SELIC não incide os juros de 1% ao mês, e viceversa. Por isso, rejeito a alegação do Recorrente. Conclusão Em face do exposto, voto por não conhecer o recurso voluntário quanto à arguição de inconstitucionalidade e, quanto às demais alegações, por conhecêlo, acolher a preliminar de decadência relativamente ao anocalendário 2001, rejeitando as demais preliminares e, no mérito, rejeitar todos argumentos. É como voto. (assinado digitalmente) Fábio Piovesan Bozza – Relator Fl. 1177DF CARF MF Processo nº 19515.003690/200761 Acórdão n.º 2301005.140 S2C3T1 Fl. 9 15 Fl. 1178DF CARF MF
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Numero do processo: 11080.732187/2013-19
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 15 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Sep 11 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2008, 2009
DECADÊNCIA. FORMAÇÃO DE ÁGIO EM PERÍODOS ANTERIORES AO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA.
Somente pode se falar em contagem do prazo decadencial após a data de ocorrência dos fatos geradores, não importando a data contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura.
O art. 113, § 1º, do CTN aduz que A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador e o papel de Fisco de efetuar o lançamento, nos termos do art. 142 do Estatuto Processual, nada mais é do que o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente.
Não é papel do Fisco auditar as demonstrações contábeis dos contribuintes a fim de averiguar sua correição à luz dos princípios e normas que norteiam as ciências contábeis. A preocupação do Fisco deve ser sempre o reflexo tributário de determinados fatos, os quais, em inúmeras ocasiões, advém dos registros contábeis.
Ressalte-se o § 4º do art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972, prevê que seja efetuado o lançamento também nas hipóteses em que, constatada infração à legislação tributária, dela não resulte exigência de crédito tributário.
O prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008, 2009
OPERAÇÕES SOCIETÁRIAS ENTRE EMPRESAS LIGADAS E CONTROLADAS POR SÓCIO COMUM. AVALIAÇÃO UNILATERAL DE PATRIMÔNIO. ÁGIO INTERNO. REPERCUSSÃO TRIBUTÁRIA INDEVIDA.
O ágio somente pode ser admitido quando decorrente de transações envolvendo partes independentes, condição necessária à formação de um preço justo para os ativos envolvidos. Nos casos em que seu aparecimento acontece no bojo de transações entre entidades sob o mesmo controle societário, não é possível reconhecer uma mais-valia no investimento, pois não resulta de um processo imparcial de valoração, num ambiente de livre mercado e de independência entre as empresas. O ágio gerado internamente não tem consistência econômica ou contábil, configurando geração artificial de resultado, cujo registro contábil é inadmissível. Nessa situação, a despesa com a amortização do ágio é indedutível.
FUNDAMENTO ECONÔMICO. RENTABILIDADE COM BASE EM PREVISÃO DE RESULTADO NOS EXERCÍOS FUTUROS DA INVESTIDA. DEMONSTRATIVO PRÉVIO LAUDO TÉCNICO PRODUZIDO POSTERIORMENTE Á AQUISIÇÃO DO INVESTIMENTO. INEFICÁCIA.
São ineficazes os laudos, desacompanhados de demonstrativo prévio à operação ode aquisição dos investimentos, elaborados após a operação de aquisição dos investimentos, não amparando o registro contábil do ágio com fundamento na previsão de resultado de exercícios futuros.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC. Precedentes das três turmas da Câmara Superior - Acórdãos 9101-001.863, 9202-003.150 e 9303-002.400. Precedentes do STJ - AgRg no REsp 1.335.688-PR, REsp 1.492.246-RS e REsp 1.510.603-CE.
CSLL E IRPJ. IDENTIDADE DE MATÉRIA FÁTICA. AUSÊNCIA DE ARGUMENTOS ESPECÍFICOS.
Quando o lançamento de IRPJ e o de CSLL recaírem sobre a mesma base fática há de ser dada a mesma decisão quando ausentes argumentos específicos em relação à exigência de CSLL.
Numero da decisão: 1301-002.562
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, (i) por unanimidade de votos, rejeitar a arguição de decadência, e, em relação ao mérito da exigência, negar provimento ao recurso voluntário. Em relação ao mérito, os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Bianca Felicia Rothschild acompanharam o relator com base em seu primeiro fundamento; (ii) por voto de qualidade, negar provimento quanto ao pedido de não incidência de juros sobre a multa de ofício, vencidos os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Bianca Felicia Rothschild.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Flávio Franco Correa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto.
Nome do relator: FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2008, 2009 DECADÊNCIA. FORMAÇÃO DE ÁGIO EM PERÍODOS ANTERIORES AO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA. Somente pode se falar em contagem do prazo decadencial após a data de ocorrência dos fatos geradores, não importando a data contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura. O art. 113, § 1º, do CTN aduz que A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador e o papel de Fisco de efetuar o lançamento, nos termos do art. 142 do Estatuto Processual, nada mais é do que o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente. Não é papel do Fisco auditar as demonstrações contábeis dos contribuintes a fim de averiguar sua correição à luz dos princípios e normas que norteiam as ciências contábeis. A preocupação do Fisco deve ser sempre o reflexo tributário de determinados fatos, os quais, em inúmeras ocasiões, advém dos registros contábeis. Ressalte-se o § 4º do art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972, prevê que seja efetuado o lançamento também nas hipóteses em que, constatada infração à legislação tributária, dela não resulte exigência de crédito tributário. O prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2008, 2009 OPERAÇÕES SOCIETÁRIAS ENTRE EMPRESAS LIGADAS E CONTROLADAS POR SÓCIO COMUM. AVALIAÇÃO UNILATERAL DE PATRIMÔNIO. ÁGIO INTERNO. REPERCUSSÃO TRIBUTÁRIA INDEVIDA. O ágio somente pode ser admitido quando decorrente de transações envolvendo partes independentes, condição necessária à formação de um preço justo para os ativos envolvidos. Nos casos em que seu aparecimento acontece no bojo de transações entre entidades sob o mesmo controle societário, não é possível reconhecer uma mais-valia no investimento, pois não resulta de um processo imparcial de valoração, num ambiente de livre mercado e de independência entre as empresas. O ágio gerado internamente não tem consistência econômica ou contábil, configurando geração artificial de resultado, cujo registro contábil é inadmissível. Nessa situação, a despesa com a amortização do ágio é indedutível. FUNDAMENTO ECONÔMICO. RENTABILIDADE COM BASE EM PREVISÃO DE RESULTADO NOS EXERCÍOS FUTUROS DA INVESTIDA. DEMONSTRATIVO PRÉVIO LAUDO TÉCNICO PRODUZIDO POSTERIORMENTE Á AQUISIÇÃO DO INVESTIMENTO. INEFICÁCIA. São ineficazes os laudos, desacompanhados de demonstrativo prévio à operação ode aquisição dos investimentos, elaborados após a operação de aquisição dos investimentos, não amparando o registro contábil do ágio com fundamento na previsão de resultado de exercícios futuros. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC. Precedentes das três turmas da Câmara Superior - Acórdãos 9101-001.863, 9202-003.150 e 9303-002.400. Precedentes do STJ - AgRg no REsp 1.335.688-PR, REsp 1.492.246-RS e REsp 1.510.603-CE. CSLL E IRPJ. IDENTIDADE DE MATÉRIA FÁTICA. AUSÊNCIA DE ARGUMENTOS ESPECÍFICOS. Quando o lançamento de IRPJ e o de CSLL recaírem sobre a mesma base fática há de ser dada a mesma decisão quando ausentes argumentos específicos em relação à exigência de CSLL.
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FORMAÇÃO DE ÁGIO EM PERÍODOS ANTERIORES AO DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. INOCORRÊNCIA. Somente pode se falar em contagem do prazo decadencial após a data de ocorrência dos fatos geradores, não importando a data contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura. O art. 113, § 1º, do CTN aduz que “A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador” e o papel de Fisco de efetuar o lançamento, nos termos do art. 142 do Estatuto Processual, nada mais é do que o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente. Não é papel do Fisco auditar as demonstrações contábeis dos contribuintes a fim de averiguar sua correição à luz dos princípios e normas que norteiam as ciências contábeis. A preocupação do Fisco deve ser sempre o reflexo tributário de determinados fatos, os quais, em inúmeras ocasiões, advém dos registros contábeis. Ressaltese o § 4º do art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972, prevê que seja efetuado o lançamento “também nas hipóteses em que, constatada infração à legislação tributária, dela não resulte exigência de crédito tributário.” O prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008, 2009 OPERAÇÕES SOCIETÁRIAS ENTRE EMPRESAS LIGADAS E CONTROLADAS POR SÓCIO COMUM. AVALIAÇÃO UNILATERAL AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 73 21 87 /2 01 3- 19 Fl. 1106DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.107 2 DE PATRIMÔNIO. ÁGIO INTERNO. REPERCUSSÃO TRIBUTÁRIA INDEVIDA. O ágio somente pode ser admitido quando decorrente de transações envolvendo partes independentes, condição necessária à formação de um preço justo para os ativos envolvidos. Nos casos em que seu aparecimento acontece no bojo de transações entre entidades sob o mesmo controle societário, não é possível reconhecer uma maisvalia no investimento, pois não resulta de um processo imparcial de valoração, num ambiente de livre mercado e de independência entre as empresas. O ágio gerado internamente não tem consistência econômica ou contábil, configurando geração artificial de resultado, cujo registro contábil é inadmissível. Nessa situação, a despesa com a amortização do ágio é indedutível. FUNDAMENTO ECONÔMICO. RENTABILIDADE COM BASE EM PREVISÃO DE RESULTADO NOS EXERCÍOS FUTUROS DA INVESTIDA. DEMONSTRATIVO PRÉVIO LAUDO TÉCNICO PRODUZIDO POSTERIORMENTE Á AQUISIÇÃO DO INVESTIMENTO. INEFICÁCIA. São ineficazes os laudos, desacompanhados de demonstrativo prévio à operação ode aquisição dos investimentos, elaborados após a operação de aquisição dos investimentos, não amparando o registro contábil do ágio com fundamento na previsão de resultado de exercícios futuros. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC. Precedentes das três turmas da Câmara Superior Acórdãos 9101001.863, 9202003.150 e 9303 002.400. Precedentes do STJ AgRg no REsp 1.335.688PR, REsp 1.492.246RS e REsp 1.510.603CE. CSLL E IRPJ. IDENTIDADE DE MATÉRIA FÁTICA. AUSÊNCIA DE ARGUMENTOS ESPECÍFICOS. Quando o lançamento de IRPJ e o de CSLL recaírem sobre a mesma base fática há de ser dada a mesma decisão quando ausentes argumentos específicos em relação à exigência de CSLL. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, (i) por unanimidade de votos, rejeitar a arguição de decadência, e, em relação ao mérito da exigência, negar provimento ao recurso voluntário. Em relação ao mérito, os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Bianca Felicia Rothschild acompanharam o relator com base em seu primeiro fundamento; (ii) por voto de qualidade, negar provimento quanto ao pedido de não incidência de juros sobre a multa de ofício, vencidos os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Bianca Felicia Rothschild. Fl. 1107DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.108 3 (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Flávio Franco Correa, José Eduardo Dornelas Souza, Roberto Silva Júnior, Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro, Milene de Araújo Macedo, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Fl. 1108DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.109 4 Relatório DELL COMPUTADORES DO BRASIL S/A recorre a este Conselho, com fulcro no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, objetivando a reforma do acórdão nº 1264.914 da 8ª Turma da Delegacia de Julgamento no Rio de Janeiro I que julgou improcedente a impugnação apresentada. Por bem refletir o litígio até aquela fase, adoto o relatório da decisão recorrida, complementandoo ao final: Trata o presente processo de autos de infração de Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), no valor de R$ 3.761.529,21, e de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), no valor de R$ 1.354.150,52, lavrados contra o interessado acima qualificado, pela Equipe de Fiscalização Maiores Contribuintes – EFMAC 10, da Superintendência Regional Receita Federal – 10ª RF, referente aos anoscalendário de 2008 e 2009. Sobre os valores lançados incidiu multa de ofício de 75% (setenta e cinco por cento) e demais encargos de juros moratórios. A infração apurada foi a seguinte: IRPJ Indedutibilidade da amortização de ágio. CSLL Lançamento decorrente da fiscalização do Imposto de Renda Pessoa Jurídica, cuja infração ocasionou insuficiência na determinação da base de cálculo desta contribuição. No Relatório da Ação Fiscal elaborado pela fiscalização consta o seguinte. Em 1999, quando o Grupo Dell decidiu estabelecerse no Brasil, com localização em Eldorado do Sul – RS, por algum motivo julgado necessário ou conveniente, dividiu as operações em duas empresas com CNPJs distintos. A maior parte concentrada na Dell Computadores, e uma menor parcela das vendas atribuídas à Dell Comercial. Essa separação era visível pelo aspecto formal, pois as referidas pessoas jurídicas estavam localizadas no mesmo endereço, possuíam os mesmos sócios, com mesmo percentual de participação, e tendo as mesmas pessoas como administradores. As operações societárias de interesse começaram em 31/12/2002. A situação antecedente, em 30/12/2002, era a seguinte: DELL COMPUTADORES DO BRASIL LTDA (DELL COMPUTADORES): capital social integralizado de R$ 2.053.565,00, sendo 99,99% pertencente a Dell Computer Holding I SGPS Unipessoal Ltda (DCH I), e 0,01% pertencente Fl. 1109DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.110 5 a Dell Computer Holding II SGPS Unipessoal Ltda (DCH II), ambas localizadas na Zona Franca da Madeira – República de Portugal. DELL COMERCIAL DO BRASIL LTDA (DELL COMERCIAL): capital social integralizado de R$ 187.000,00, sendo 99,00% pertencente a Dell Computer Holding I SGPS Unipessoal Ltda (DCH I), e 1,00% pertencente a Dell Computer Holding II SGPSUnipessoal Ltda (DCH II), ambas localizadas na Zona Franca da Madeira – República de Portugal. Em 31/12/2002, a Dell Comercial integraliza capital na Dell Computadores utilizandose de crédito contábil que detinha em relação à investida. A Dell Comercial ingressa no capital daquela com a subscrição e integralização de 33.262.031 novas quotas, no valor total de R$ 33.262.031,00, passando a deter 94,19% do capital. Apesar de constar em alteração de contrato social de 31/12/2002 (registro na JUCERGS de 14/02/2003), os registros contábeis constaram apenas em 02/01/2003. Em 30/11/2003, utilizandose do saldo remanescente da conta ativa de crédito com a PJ ligada, a Dell Comercial aumenta sua participação no capital social de Dell Computadores, integralizando 17.622.791 novas cotas com valor unitário de R$ 1,00, totalizando R$ 17.622.791,00. Com isso, o percentual de participação no capital passou a ser de 96,12%, equivalente a R$ 50.884.822,00. A composição societária permanece a mesma, mudando apenas os percentuais. Em função da empresa Dell Computadores apresentar Patrimônio Líquido (PL) negativo, antes dos aportes de capital, a totalidade do investimento feito pela Dell Comercial foi contabilizado como ágio. Em 31/12/2003, atos societários das duas empresas deliberam pela incorporação total de Dell Comercial por Dell Computadores. Assim, a então controlada incorpora a controladora, trazendo no acervo contábil o valor do ágio registrado quando dos aportes de capital. Com a extinção da Dell Comercial, as quotas de capital que detinha na Dell Computadores (interessado) foram transferidas para as holdings controladoras, na mesma proporção da anterior participação indireta. Na contabilidade entregue em meio digital, a fiscalização observou que, em 15/01/2003, na Dell Comercial, a conta contábil 131011057 ADTO FUT AUMENTO CAPITAL (Ativo Investimentos) apresentava um saldo inicial de R$ 44.957.147,86. Na mesma data, identificou o seguinte lançamento: Dia 15/01/2003 D 131011036 DELL COMPUTADORES (Ativo Investimentos).................... 33.262.031,00 C 131011057 ADTO FUT AUMENTO CAPITAL (Ativo Investimentos).................... 33.262.031,00 Histórico: Integralização Capital da Dell Computadores Ao final do mês de janeiro, foi feita equivalência patrimonial e o valor do investimento é transformado em ágio: Fl. 1110DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.111 6 Dia 31/01/2003 D 131011058 AGIO OUTROS FUND ECONOMIC (Ativo Investimentos).................... 33.262.031,00 C 131011036 DELL COMPUTADORES (Ativo Investimentos).................... 33.262.031,00 Histórico: Vlr ref Agio S/Invest. na Dell Computadores Este último lançamento, convertendo a totalidade do valor de investimento em ágio, decorre da existência de Patrimônio Líquido (PL) negativo na empresa investida (Dell Computadores). O balanço de 31/12/2002, constante da DIPJ retificadora da Dell Computadores, já traz o valor de R$ 44.957.147,86 referente a “adiantamento para futuro aumento de capital” dentro do grupo Patrimônio Líquido, e mesmo assim o saldo deste ficou a descoberto em R$ 9.070.961,42. Ainda na análise da conta 131011057 – ADTO FUT AUMENTO CAPITAL, na contabilidade da Dell Comercial, a fiscalização observou que, no decorrer do ano de 2003, houve vários registros a crédito desta conta, tendo concluído que a Dell Computadores estaria pagando despesas que seriam da Dell Comercial. Com o segundo aporte de capital ocorrido em 30/11/2003, o saldo da conta foi zerado. Depois disso, durante o mês de dezembro, continuaram a ser registradas quitações de despesas pela Dell Computadores. A fiscalização inferiu que, apesar do nome dado à conta (Adiantamento para Futuro Aumento de Capital), essa seria na verdade uma conta corrente entre empresas ligadas que abrigaria empréstimos e créditos de compra e venda de um lado, e quitação de dívidas com terceiros de outro lado. A fiscalização identificou um único registro de saída de recursos da Dell Comercial para a Dell Computadores em 2003, dia 13/11, no valor de R$ 9.607.627,55, cujo histórico é “EMPREST PARA DELL COMPUTADORES LTDA”. No Dia 01/12/2003, a conta ADTO FUT AUMENTO CAPITAL, traz um segundo lançamento de investimento na Dell Computadores, a seguir detalhado: Dia 01/12/2003 D 131011058 AGIO OUTROS FUND ECONOMIC (Ativo Investimentos)... 17.622.791,00 C 131011057 ADTO FUT AUMENTO CAPITAL (Ativo Investimentos)....... 17.622.791,00 Histórico: Integral Capital na Dell Computadores A contabilização foi feita diretamente à conta de Ágio, pois o PL da investida continuava negativo. Fl. 1111DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.112 7 Após os dois registros de integralização de capital na Dell Computadores pela Dell Comercial (33.262.031,00 em 31/12/2002 e 17.622.791,00 em 30/11/2003), esta passou a deter 96,12% de um total de R$ 52.938.387,00, ou seja, R$ 50.884.822,00, consistindo este último valor na soma do ágio registrado na Dell Comercial. A partir de 15/01/2003, ainda na Dell Comercial, o ágio relativo ao primeiro investimento (33.262.031,00) passou a ser amortizado à razão de 1/120 por mês, totalizando R$ 3.187.611,29 de amortização ao final de 2003. Em 31/12/2003, são registrados os atos de incorporação da Dell Comercial pela Dell Computadores. A contabilidade da Dell Comercial, apresentada em meio digital não traz os lançamentos de encerramento pela incorporação. Na Dell Computadores, os registros de incorporação são feitos em 01/01/2004, quando foi criada a conta “243012081 CONTA DE INCORPORACAO”, dentro do subgrupo ADTO FUT AUMENTO CAPITAL (PL). No rol dos demais saldos contábeis incorporados está o relativo ao ágio, pela parcela não amortizada de R$ 47.697.210,71 (R$ 50.884.822,00 R$ 3.187.611,29). Durante todo o ano de 2004, a Dell Computadores amortizou o saldo de ágio à razão de 1/120, creditando a conta 135011135 AGIO OUTROS FUND ECONOMIC (Ativo Diferido) e debitando a conta de resultado 381023125 AMORT AGIO INVESTIMENTOS, o saldo de despesas desta foi levado à apuração do lucro contábil, sem adição para fins de apuração do lucro real. No ano de 2005, começou com o mesmo procedimento do ano anterior, porém, no decorrer do ano foram feitas duas alterações: 1º) a partir de março foi criada uma conta específica para amortização do ágio (135991315 AMORT AGIO OUTROS FUND ECONOMICOS) dentro do Ativo Diferido, assim o saldo das amortizações já ocorridas e as novas parcelas passaram a constar a crédito desta conta e a débito de resultado, com o restabelecimento de todo o valor original na conta do ágio; 2º) a partir de julho de 2009 as amortizações passaram a razão de 1/60 e não mais a 1/120, com fora até então. Nos anos seguintes (2006, 2007 e 2008) continuaram as amortizações a 1/60, com dois lançamentos em cada mês, um relativo ao primeiro aporte de capital (33.262.031,00/ 60 = 554.367,18), e outro correspondente ao segundo aporte (17.622.791,00/ 60 = 293.713,18), totalizando R$ 10.176.964,32 de despesa em cada ano. Em 2009, prosseguiu a rotina até março. Em abril esgotouse a amortização relativa ao ágio do primeiro aumento de capital . A partir de maio continuaram os lançamentos para reconhecer a parcela relativa ao ágio do segundo aporte (293.713,18). Em outubro/09 foi inserida na contabilidade a amortização da última parcela. O aproveitamento do referido ágio para fins fiscais foi de R$ 50.884.822,00, sendo que nos anos fiscalizados atingiu as seguintes somas: AC 2008 = 10.176.964,32 e AC 2009 = 4.869.152,46. A fiscalização reporta que as empresas Dell Comercial e Dell Computadores tinham uma conta corrente que registrava pagamentos de despesas da primeira por parte da segunda, e, no sentido inverso, repasses de recursos para a Dell Computadores com o histórico registrado de “empréstimo”, além de ajustes de operações de compra e venda. Fl. 1112DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.113 8 As duas empresas em voga faziam parte de um mesmo grupo econômico, com os mesmos controladores e administradores, e como eram constituídas na forma de responsabilidade limitada, não havia necessidade de submeter seus atos a uma assembleia. Assim, por mera liberalidade dos mesmos sócios, que controlavam ambas as sociedades, decidiuse transferir recursos da Dell Comercial para a Dell Computadores, e nesta registrar como aumento de capital. Em função do Patrimônio Líquido da investida encontrarse negativo, na equivalência patrimonial o valor aportado foi convertido em ágio. A fiscalização salienta que se tentou fazer com que o ágio originado dos aportes de capital ganhasse fundamentos de expectativa de rentabilidade futura, quando na verdade decorria de outras razões econômicas. Tudo isso, visando o enquadramento na redação do artigo 386 do RIR/99. Os motivos, sob o aspecto formal, para o não cabimento do fundamento ser considerado como “expectativas de rentabilidade futura” são os seguintes: 1º motivo) os investimentos de capital da Dell Comercial na Dell Computadores resultam de decisão intragrupo, em preparo à futura extinção da primeira pela incorporação. Em nenhum momento se vislumbrava a real intenção de compra do controle da Dell Computadores. Em mais de uma resposta às intimações, a Dell deixa claro que as operações em comento se tratam de reestruturação intragrupo, sem intenção efetiva de compra de participação no capital da investida. Termo de Intimação 12 – item 4.2: 4.2 O referido laudo de avaliação emitido em 2003 chegou a um resultado estimado de valor de mercado da Dell Computadores na quantia de R$ 467.269.000,00, enquanto que o outro emitido em 2005 estimou o valor da empresa em R$ 658.145.000,00. Com os dois aportes de capital na Dell Computadores, a Dell Comercial passou a ter 96,12% do capital social daquela. Mesmo se tomarmos por referência o valor de avaliação mais baixo entre os dois laudos (467.269.000,00), 96,12% disso equivale a RS 449.139.000,00. O que motivou a autorização da venda do capital da Dell Computadores por 50 milhões de reais, enquanto que a avaliação a valor de mercado era de no mínimo 449 milhões de reais? Resposta Dell: Não se trata de venda, mas de capitalização de investimento. A operação realizada não foi uma operação de venda, mas uma operação de incorporação, voltada ao estabelecimento de uma estrutura que atendesse a uma estratégia de maior eficiência administrativa e operacional para a empresa. A afirmação acima corrobora que não existiu efetivamente uma operação de compra do controle da Dell Computadores, mas uma operação de incorporação. A transformação dos saldos de empréstimos da Dell Comercial para a Dell Computadores em aumento de capital nesta (capitalização) fez parte desta reestruturação intragrupo. Não há que se falar em existência de ágio motivado pela expectativa de rentabilidade futura, pois já se sabia previamente que aquele investimento não teria futuro, já que a intenção desde o início estava voltada para a descontinuidade da Dell Comercial. Fl. 1113DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.114 9 2º motivo) No momento dos atos societários e dos lançamentos contábeis não existiam quaisquer laudos justificando a expectativa de rentabilidade futura, conforme impõe o § 3º do art. 20 do Decreto 1598/77 (§ 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração). O § 3º do art. 20 do Decreto 1598/77 determina que se o fundamento do ágio for o contido na alínea “b” do § 2º do mesmo artigo (valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros), o lançamento contábil deverá ter por documento suporte “demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração”. No presente caso, quando dos registros contábeis dos ágios, não existiam laudos que embasassem os lançamentos correspondentes. Tanto é verdade, que a empresa deu o título à conta de “AGIO OUTROS FUND ECONOMIC”. Somente no futuro, percebendose que o fundamento utilizado não daria direito a dedutibilidade, foram encomendados os referidos laudos na tentativa de mudar a fundamentação. A Dell apresentou dois laudos de avaliação a valor presente com base em expectativas de resultados futuros emitidos pela empresa Deloitte Touche Tohmatsu Consultores Ltda. Porém estes não guardam relação de data e valor com as integralizações de capital. O primeiro aporte de capital, que constou de alteração contratual de 31/12/2002 e registro contábil de 15/01/2003, teve laudo emitido somente em agosto/05, ou seja, quase três anos depois do ocorrido. Tanto o período de emissão, quanto a data base para estimativa do valor presente são extemporâneos. A avaliação de R$ 658.145.000,00 teve como referência o dia 30/06/2005. Na primeira integralização de capital, a Dell Comercial passou a ter 94% do capital da Dell Computadores. Para ter essa participação “pagou” R$ 33.262.031,00. Se aplicar o mesmo percentual na avaliação constante do laudo, chegaria a R$ 618.656.300,00. É gritante a diferença entre a avaliação e o valor integralizado. A mesma situação ocorre com o segundo aporte de capital, no valor de R$ 17.622.791,00, onde a formalização do contrato social ocorreu em 30/11/2003 e o registro contábil é de 01/12/2003. A avaliação constante do laudo é de apenas 02/03/2004. O valor presente da Dell Computadores, estimado nesta data, foi de R$ 467.269.000,00. É gritante a diferença entre a avaliação e o valor integralizado. É evidente a ineficácia destes laudos, pois deixam de cumprir os requisitos formais por serem extemporâneos. 3º motivo) Falta de adequação dos registros contábeis às normas da CVM que tratam da modalidade de ágio com base na “expectativa de rentabilidade futura. As notas explicativas às Demonstrações Financeiras da empresa Dell Comercial, apuradas por ocasião da incorporação (31/12/2003), afirmam que Fl. 1114DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.115 10 “As demonstrações financeiras foram elaboradas de acordo com o disposto na Lei das Sociedades por Ações (Lei nº 6.404/76), de forma condizente com normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários e complementados por instruções específicas desse órgão”. No entanto, deixouse de constituir a devida provisão, exigida pelo Art. 6º, § 1º, “a” da Instrução CVM 319/99, com redação dada pela Instrução CVM 349 de 06/03/2001. O fato de a Dell declarar que seguia as normas da CVM e, ao mesmo tempo, deixar de constituir a referida provisão, mais uma vez ratifica o entendimento de que o fundamento do ágio não era o de rentabilidade futura. Ademais, em todos os lançamentos mensais de amortização do ágio, ao longo dos anos 2004 a 2009, o histórico dos lançamentos descreve a referida despesa como “ágio out fund economics”. Além de não terem sido cumpridas as necessárias formalidades para caracterização do aumento de capital como sendo ágio e o subsequente aproveitamento fiscal, relata a fiscalização que as operações evidenciaram a inexistência material de ágio. A legislação fiscal (art. 385 do RIR/1999) e societária (Instrução CVM 247/1996) referemse à efetiva compra de uma participação societária, com real vontade de investir, e não meras formalidades entre partes ligadas. A Dell Brasil foi dividida em dois CNPJs como mero desmembramento formal. Na prática era um único empreendimento com atividades no mesmo endereço. Dentro dessa unidade administrativa, havia repasses registrados em contas correntes contábeis entre ambas pessoas jurídicas. A estas contas, nos livros de 2003, foi dado o nome de Adiantamento para Futuro Aumento de Capital. Pela visualização das DIPJs retificadoras, essa conta existiria desde 2000, apresentando um saldo inicial, em 2003, de R$ 44.957.147,86, no Ativo Realizável a Longo Prazo da Dell Comercial, e em contrapartida, o mesmo valor constava dentro do PL da Dell Computadores – conta Adto Fut Aumento de Capital. Inicialmente, do nome dado à conta contábil entre as PJs, observase a existência de equívoco, pois foi denominada de “adiantamento para futuro aumento de capital”. Ora, somente se pode aumentar algo existente. A Dell Comercial não era sócia da Dell Computadores, logo não poderia estar transferindo recursos a título de “aumento” de capital. As planilhas demonstrativas dos registros contábeis, desde 2000, entregues em resposta ao Termo de Intimação 17, apontam as operações que teriam somado para a formação do saldo de 44 milhões existente na conta Adto Fut. Aumento Capital, no início de 2003. Destes documentos, constatase a existência de duas contas em 2002, uma de mútuos (1.2.1.04.1126 – MUTUOS) e outra de AFAC (1.3.1.01.1057 ADTO FUT AUMENTO CAPITAL), sendo os saldos aglutinados nesta última ao final daquele exercício. Dentre os lançamentos apresentados para 2002, chama atenção um ajuste inserido na conta de Mútuos, no valor de R$ 18.623.000,00, tendo como contrapartida conta de Clientes, com o seguinte histórico: “AJUSTE DE CLIENTES DE 1999 A 2002” (fl. 275 e 282). Esse registro teria sido efetuado em 29/12/2002, ou seja, dois dias antes do primeiro aporte de capital Fl. 1115DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.116 11 (31/12/2002). Essa alteração de saldo não constou da DIPJ original, mas apenas da retificadora. Ademais, observandose os lançamentos contidos nos registros contábeis da referida conta Adto Fut. Aumento Capital, no ano de 2003, a fiscalização constatou a existência de um conta corrente, onde a Dell Computadores pagava despesas da Dell Comercial, enquanto esta remetia recursos financeiros para a primeira. Dessas remessas feitas restou um saldo positivo na Dell Comercial (saldo de 2002 + lctos de 2003), o qual foi usado para registrar integralização de capital na Dell Computadores, e ágio na investidora – motivado pelo PL negativo da investida. A fiscalização constatou que, apesar do título da conta ser “Adto Fut Aumento de Capital”, os históricos, muitas vezes, descrevem as transferências financeiras como “EMPREST MUTUO DELL COMERCIAL LTDA” ou “MUTUO ENTRE EMPRESAS”. A fiscalização constatou também que materialmente houve repasses financeiros e créditos de operações de compra e venda da Dell Comercial para a Dell Computadores, originados de excedente de capital de giro, cuja fonte principal eram subvenções estatais (conta 242012056 – BENEFICIO FUDOPEM/FITEC – conta do PL da DELL COMERCIAL – Reserva de Subvenções). Posteriormente estes recursos foram capitalizados na Dell Computadores, os quais foram transformados em novas cotas de capital atribuídas às holdings controladoras. A fiscalização relata que foram efetuados diversos ajustes na contabilidade e nas DIPJs em períodos imediatamente anteriores aos registros de aporte de capital, sem os quais não haveria saldo suficiente para sustentar o primeiro aporte de capital que foi contabilizado em 15/01/2003 (com contrato social assinado em 31/12/2002) no valor de R$ 33.262.031,00. Nesse sentido, considerando que a contabilidade deve refletir a real situação econômicofinanceira da empresa, e considerando que as citadas transações entre as partes deixaram de gerar quaisquer novas riquezas, nos lançamentos de incorporação da Dell Comercial, deverseia ter excluído a totalidade do ágio, em contrapartida de redução dos valores de reserva de subvenções e lucros acumulados oriundos da incorporada, pois foram estas as origens da capitalização. A Fiscalizada utilizouse de repasses de recursos da Dell Comercial para a Dell Computadores, oriundos de subvenções estatais e de lucros acumulados, para aumentar o capital social nesta última (operação intragrupo). Aduz, ainda, que na geração do ágio amortizado pela Fiscalizada, não há partes independentes, mas somente pessoas jurídicas pertencentes ao mesmo grupo econômico, sob controle comum. A operação não redundou em ingresso de novos recursos na Dell Brasil. Houve apenas transferências de capital de giro de uma empresa ligada para outra. O ágio interno em voga tem origem em uma construção contábil, que decorreu da interposição da Dell Comercial entre a Dell Computadores e as efetivas controladoras (Dell Computer Holding I e II SGPS Unipessoal Ltda), sem que se alterasse o verdadeiro controlador. Não houve alienação ou aquisição do controle da Dell Computadores, a qual sempre foi controlada direta ou Fl. 1116DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.117 12 indiretamente pela referidas holdings, que representariam o Grupo norte americano Dell Inc. Foram as holdings que ao final obtiveram a vantagem de aumento de capital. Cita o Manual de Contabilidade Societária da Fipecafi, editado em 2010, sob as novas normas contábeis brasileiras de convergência com as normas internacionais de contabilidade, onde os autores reiteram sua discordância quanto ao reconhecimento de ágio gerado internamente; Menciona o art. 6º da Instrução CVM 319/99 e o Ofício Circular CVM/SNC/SEP nº 1, de 14 de fevereiro de 2007, que tratou de esclarecer que é inadmissível o reconhecimento de ágio gerado entre as partes de um mesmo grupo econômico, sem independência; frisa que as operações envolvendo ágio com fundamento em expectativa de rentabilidade futura, dentro do mesmo grupo econômico, afrontam diretamente o Princípio Contábil do Registro pelo Valor Original, emanado da Resolução CFC 750/93 – o qual adota o custo histórico como base de valor. O uso de meras formalidades, entre empresas ligadas, sem suporte econômico (registro de ágio interno), sem propósito negocial na tentativa de aplicar o tratamento previsto na legislação para o verdadeiro ágio, é irregular e inaceitável tanto pelas normas contábeis e societárias, quanto pela legislação tributária. No caso em questão, fica patente a utilização desta manobra com o objetivo único de buscar o benefício fiscal previsto no art. 7° da Lei 9.532/97. São insubsistentes, portanto, os efeitos fiscais na apuração da base de cálculo de IRPJ e CSLL da Fiscalizada, decorrentes da amortização do suposto ágio herdado na incorporação de Dell Comercial do Brasil Ltda, cuja origem foram as subscrições de capital na Dell Computadores – formalizadas em contrato social nas datas de 31/12/2002 e 30/11/2003, pelos motivos expostos acima, que em suma são: Inexistência de fundamentação do ágio em expectativa de rentabilidade, no momento dos registros contábeis. Ocorrência de ágio apenas sob o aspecto formal – materialmente há apenas repasses financeiros entre empresas ligadas, com origens em subvenções estatais e lucros acumulados. Ágio interno em operações intragrupo econômico, com inocorrência de geração de riqueza. O sujeito passivo utilizandose indevidamente da previsão do disposto no Art. 7º, III da Lei 9.532/97, c/c Art. 386, III do Decreto 3000/99 Regulamento do Imposto de Renda, reduziu as bases de cálculo do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido nos valores apresentados abaixo: Anocalendário 2008: R$ 10.176.964,32 Anocalendário 2009: R$ 4.869.152,53 Inconformado, o interessado apresentou impugnação, em 09/01/2014, alegando, em síntese, o seguinte: Preliminarmente Fl. 1117DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.118 13 . que ocorreu decadência do direito do Fisco de questionar o ágio já registrado há mais de 5 (cinco) anos, conforme regra de decadência prevista no artigo 173, I, do Código Tributário Nacional. . que, considerando que o ágio relacionado à aquisição da participação societária na Dell Computadores foi registrado pela Dell Comercial em 31 de janeiro de 2003, a autoridade fiscal não poderia questionálo em dezembro de 2013, mais de 10 anos depois. . que, a despeito de a amortização do ágio ter gerado efeitos tributários nos anos de 2003 a 2009, é incontestável o fato de as autoridades fiscais estarem questionando, em sua essência, um ato praticado e declarado ao Fisco em 2003. . que o antigo Conselho de Contribuintes reconheceu a impossibilidade de questionamento de informações declaradas em DIPJ após o decurso do prazo quinquenal; cita ementas de acórdãos do CC. . que devese reconhecer a impossibilidade de questionamento do ágio relativo à aquisição da participação societária ocorrida e declarada em 2003. No mérito . que a Dell iniciou as suas atividades no Brasil no ano de 1999, sendo que à época, as operações foram divididas em duas empresas distintas: a Dell Computadores e a Dell Comercial. . que, embora estas empresas possuíssem os mesmos sócios (Dell Computar Holding I SGPS Unipessoal Ltda. e Dell Computar Holding II SGPS Unipessoal Ltda.), há que se refutar a infundada alegação da d. autoridade fiscal no sentido de que a separação das empresas era meramente formal, uma vez que cada empresa tinha o seu propósito negocial específico. . que as atividades de fabricação de computadores no território nacional era realizado através da Dell Computadores, e as de importação de computadores e componentes era realizado pela Dell Comercial. . que entre os anoscalendário de 2002 e 2003, passou por uma reestruturação societária que culminou na consolidação dos negócios do grupo Dell no Brasil em uma só entidade operacional. . que, em 31/12/2002, a Dell Comercial integralizou capital na Dell Computadores utilizando crédito contábil que detinha em relação à mesma. Assim, a Dell Comercial ingressou no capital da Dell Computadores com a subscrição e integralização de 33.262.031 novas quotas no valor total de R$ 33.262.031,00, passando a deter 94,19% do capital desta. . que, em 30/11/2003, utilizandose de saldo remanescente da conta ativa de crédito com a Dell Computadores, a Dell Comercial aumentou sua participação no capital social integralizando 17.622.791 novas quotas com valor unitário de R$ 1,00 (um real), passando para 96,12% o percentual da sua participação no capital social. . que, em 31/12/2003, a Dell Computadores, ora Impugnante, incorporou a Dell Comercial, ato este que foi devidamente refletido na 23ª Alteração ao Fl. 1118DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.119 14 Contrato Social da Impugnante e nos instrumentos de Distrato Social e Resolução de Quotistas e de Justificativa e Protocolo de Incorporação da Dell Comercial. . que, em relação ao 1º motivo apontado pela fiscalização no Relatório Fiscal (“os investimentos de capital da Dell Comercial na Dell Computadores resultam de decisão intragrupo, em preparo à futura extinção da primeira pela incorporação. Em nenhum momento se vislumbrava a real intenção de compra do controle da Dell Computadores”), para afastar o direito à amortização de ágio, inexiste na legislação pátria ou mesmo nas ciências contábeis e de administração de negócios qualquer regra que diga que não haverá ágio ou registro de ágio em investimentos e operações realizadas entre empresas de um mesmo grupo econômico; que o ágio não decorre de uma vontade, mas de um fato: diferença entre valor pago e valor patrimonial da participação adquirida. . que, em relação ao 2º motivo apontado pela fiscalização no Relatório Fiscal (“No momento dos atos societários e dos lançamentos contábeis não existiam quaisquer laudos justificando a expectativa de rentabilidade futura, conforme impõe o § 3º do art. 20 do Decreto 1598/77 (§ 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração)), para afastar o direito à amortização de ágio, há que se salientar a flagrante impropriedade do mesmo, pois baseiase em aspectos formais que não influem e sequer dizem respeito a formação do ágio. Tais aspectos formais seriam a alegada emissão de laudo de avaliação da empresa após a aquisição dos investimentos pela Dell Comercial e o fato de os registros contábeis terem sido realizados em conta com a denominação "AGIO OUTROS FUND ECONÔMICOS". . que nas Notas Explicativas das Demonstrações Financeiras da Dell Comercial, elaboradas quando da sua incorporação (31/12/2003), e arquivadas na Junta Comercial, consta expressamente que o ágio correspondente aos investimentos da Dell Comercial na Dell Computadores estava baseado em Expectativa de Lucros Futuros. . que o fundamento econômico do ágio aproveitado por determinado contribuinte não é determinado pelo nome das contas contábeis em que o mesmo foi registrado, mas sim pela real motivação que ensejou o pagamento de um valor maior pela participação adquirida do que aquele registrado pelo valor do patrimônio líquido da entidade. . que, no caso concreto, prevalece o fundamento econômico apresentado nas demonstrações financeiras da Dell Comercial, não podendo o nome da conta em que registrado os valores do ágio ser considerado como fator preponderante para a determinação do verdadeiro fundamento econômico do ágio pago pela referida empresa na aquisição da participação na Dell Computadores. . que há se esclarecer que a razão pela qual a Dell Comercial pagou ágio estava baseada na rentabilidade futura, pois esta conhecia o potencial da Dell Computadores e, por isso, sabia que o valor que estava sendo pago pela participação adquirida era superior ao valor do patrimônio liquido, mas, por outro lado, muito inferior ao valor de mercado da empresa. E os laudos de avaliação realizados vieram a confirmar isso. Fl. 1119DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.120 15 . que, em relação aos laudos de avaliação da Dell Computadores apresentados, inicialmente há que se esclarecer que foram realizados 3 (três) laudos. Dois laudos em março de 2004, ou seja, contemporâneos à data da incorporação, e o terceiro laudo (de agosto de 2005) foi encomendado posteriormente justamente para fins de reavaliação do valor da empresa a fim de dar suporte à alteração do prazo de amortização que foi realizada pela empresa. . que, com relação aos laudos de março de 2004, apenas um deles foi entregue à d. autoridade fiscal, pois no decorrer da fiscalização (2011) a empresa estava recebendo a solicitação de uma quantidade extremamente relevante de solicitações de informações e documentos da d. autoridade fiscal. . que, desta forma, apresenta nesse momento o laudo de avaliação econômico financeira da Dell Computadores para a database de 31 de dezembro de 2002 (Doc. 05), o qual, assim como os demais laudos já constantes no presente processo, demonstra o fundamento econômico do ágio apurado com base na expectativa de lucros futuros. . que todas as avaliações realizadas confirmaram que o valor da Dell Computadores era inclusive muito superior aquele considerado pelas partes na data da transação, situação que comprova a absoluta materialidade do ágio registrado. . que é inverídica a alegação da fiscalização de que "não havia avaliação suporte em época própria para os lançamentos dos ágios", especialmente quando demonstrada a existência dos laudos em 02 de março de 2004 para suportar os lançamentos registrados em 15 de janeiro de 2003 e 01 de dezembro de 2003. . que os laudos foram realizados à mesma época da incorporação. E mesmo que assim não o fosse, o que se admite para fins de argumentação, não existia à época dos fatos qualquer determinação na lei que obrigasse que a demonstração fosse realizada em determinado prazo. . que a redação do § 3o, do art. 20 do Decretolei n° 1.598/77 (cuja redação foi reproduzida no art. 385 do RIR/99), vigente à época dos fatos, sequer exigia a presença de laudo. Tal exigência foi estabelecida apenas pela nova redação do referido dispositivo determinada pela Medida Provisória n° 627 de 11.11.2013, a qual, por ser posterior aos fatos tratados no presente processo, evidentemente não pode ser exigida da Impugnante. . que há que se perceber que o laudo realizado em março de 2004 é contemporâneo à data do segundo aporte realizado pela Dell Comercial na Dell Computadores, eis que entregue apenas 3 meses e alguns dias depois da data da segunda integralização (30/11/2003). Assim, na pior das hipóteses, a alegação de inexistência de laudo realizada pela d. autoridade fiscal só pode ser admitida em relação ao ágio contabilizado com base na primeira integralização de capital ocorrida no caso concreto. . que, em relação ao 3º motivo apontado pela fiscalização no Relatório Fiscal (“As notas explicativas às Demonstrações Financeiras da empresa Dell Comercial, apuradas por ocasião da incorporação (31/12/2003), afirmam que “As demonstrações financeiras foram elaboradas de acordo com o disposto na Lei das Sociedades por Ações (Lei nº 6.404/76), de forma condizente com normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários e complementados Fl. 1120DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.121 16 por instruções específicas desse órgão”. No entanto, deixouse de constituir a devida provisão, exigida pelo Art. 6º, § 1º, “a” da Instrução CVM 319/99, com redação dada pela Instrução CVM 349 de 06/03/2001”), para afastar o direito à amortização de ágio, é sabido que as disposições das Instruções da CVM são de cumprimento obrigatório apenas para as companhias abertas e não para sociedades empresariais limitadas . que, quando afirma que elaborou suas demonstrações financeiras de acordo com o disposto na regulamentação aplicável às sociedades por ações, referiu se aos aspectos do tratamento contábil que a referida contabilização determina sobre o assunto (contabilização em conta específica do ativo diferido). Evidentemente que isto não se aplicaria à obrigação de constituição de provisão, a qual representaria um procedimento totalmente desnecessário para uma companhia limitada como a Impugnante. . que, mais importante do que a improcedência dos motivos formais apresentados pela d. autoridade fiscal no auto de infração impugnado, é verificar que a expectativa de lucros futuros, em que baseada a amortização do ágio realizada, efetivamente se concretizou; que os resultados do exercícios subsequentes confirmaram (em valores muito superiores, inclusive) a expectativa de lucros futuros considerada quando do pagamento do ágio nos aportes realizados pela Dell Comercial. . que, o fato de as empresas pertencerem a um mesmo grupo econômico não tem qualquer implicação na validade dos negócios jurídicos. Cita o art. 104 do Código Civil/2002. . que inexiste na legislação tributária qualquer disposição que impossibilite a apuração do ágio em operações realizadas por empresas de um mesmo grupo econômico. Cita ementas do CARF . que o Relatório Fiscal se apega nas normas de contabilidade para sustentar que o valor do ágio deveria ser eliminado quando ocorrido em operações entre empresas sob controle comum. No entanto, há que se diferenciar o tratamento contábil do tratamento fiscal dado ao assunto. . que, no caso, verificase uma nítida distinção entre o tratamento contábil e fiscal dado ao ágio decorrente de aquisição de participações. Todavia, para fins de tributação é o tratamento fiscal que prevalece. Cita voto proferido por Conselheiro da 1ª Turma, da 1ª Câmara, do CARF. . que as referências feitas pelo Relatório Fiscal às normas contábeis (Manual Fipecafi, Resoluções CFC, Pronunciamento CPC) são indevidas, uma vez que não podem ser adotadas para afastar o tratamento fiscal determinado pela legislação tributária pertinente. . que inexiste qualquer restrição à aplicação dos artigos 385 e 386 do RIR/1999 a aquisições de participações societárias realizadas entre empresas relacionadas. . que, no que se refere à alegação da d. autoridade fiscal, de que falta "materialidade" ao ágio aproveitado, percebese mais um argumento sem o mínimo fundamento legal. Fl. 1121DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.122 17 . que a d. autoridade fiscal sustenta que a legislação ao referir "aquisição da participação" e "aquisição do investimento" estaria tratando de "efetiva compra de uma participação societária, com real vontade de investir, e não meras formalidades entre partes ligadas". . que a d. autoridade sustenta que os saldos dos créditos da Dell Comercial frente à Dell Computadores foram registrados através de declarações retificadoras e na véspera da data da primeira integralização de capital. No que tange à segunda integralização de capital, sustenta que o Patrimônio Líquido ("PL") da Dell Comercial também foi alterado às vésperas da data da integralização e, ainda, formado em boa parte por valores atinentes a subvenções recebidas a título de incentivo fiscal de ICMS. . que o ajuste realizado pela Dell Comercial para fins de aumentar o PL antes da integralização de capital não é vedado por lei. Ou seja, se a empresa possuía lucros acumulados e excedente de capital de giro, agiu dentro da lei ao decidir registrar esses valores (bens) no seu PL para, na sequência, capitalizá los em outra empresa. . que o fato de parte do excedente de capital de giro ser decorrente de subvenções estatais, concedidas a título de desconto de ICMS, em nada altera a realidade. Não há na legislação fiscal qualquer disposição de vede a utilização de capital decorrente de incentivos fiscais para a realização de investimentos, de forma que fica evidenciado que a Impugnante agiu dentro dos limites do seu direito. . que soam estranhas as alegações da d. autoridade fiscal, uma vez que o auto de infração não está calcado em alegações de simulação ou abuso de direito. . que, caso fosse a intenção da d. autoridade fiscal acusar a Impugnante de ter simulado ou dissimulado algum negócio jurídico, essa acusação deveria ter sido apresentada às claras, com a devida motivação e fundamentação legal, o que certamente não ocorreu no presente caso. . que isso, por si só, já seria suficiente para afastar qualquer pretensa alegação de "inexistência material de ágio", ainda mais quando a própria autoridade fiscal reconhece que "podese concluir que materialmente houve repasses financeiros e créditos de operações de compra e venda da Dell Comercial para a Dell Computadores". . que, a efetiva transferência de recursos da Dell Comercial para a Dell Computadores, recursos esses posteriormente transformados em pagamento de participações societárias subscritas pela primeira na segunda, demonstra irrefutavelmente que houve a aquisição dessas participações; o valor por elas pago e o próprio ágio consistente na diferença entre o valor pago e o valor patrimonial desses investimentos não são simulações, são reais. É fato irrefutável, que não pode ser negado simplesmente porque envolve empresas do mesmo grupo econômico. . que as partes tinham o direito de realizar empréstimos de parte a parte a qualquer tempo, mesmo que se tratem de empresas relacionadas. Da mesma forma, tinham o direito de transformar uma dívida em integralização de capital. Assim, não há que se questionar o propósito da integralização realizada, especialmente quando o próprio Fisco reconhece que "materialmente houve repasses financeiros e créditos de operações de compra Fl. 1122DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.123 18 e venda da Dell Comercial para a Dell Computadores". O fato é que houve uma integralização de capital, a qual não poderia receber tratamento diverso do que uma "aquisição de participação" por parte da Dell Comercial. . que logrou encontrar alguns documentos (Guia de Informação e Apuração do ICMS, quadro de funcionários e consumo de energia elétrica próprios, serviços técnicos de manutenção dos computadores comercializados, serviços de logística contratados, despesas aduaneiras de suas importações e de serviços de despachante aduaneiro DOC 07) que comprovam a materialidade das operações da Dell Comercial, afastando, assim, por completo, a alegação da d. autoridade fiscal no sentido de "mero desmembramento formal" entre as empresas. . que as questões levantadas (mesmo endereço, administração, realizações de empréstimos de parte a parte) são operações comuns ocorridas no diaadia de boa parte das empresas coligadas e, portanto, não passam de insinuações que não tem o condão de afastar a materialidade e o propósito negocial da Dell Comercial. . que devese reconhecer que os arts. 43 e 61 da Lei n° 9.430/96 não dão guarida à cobrança de juros de mora Selic sobre as multas de ofício de 75% impostas. Cita ementas de acórdãos do CARF. Protesta pela juntada de documentos necessários à comprovação dos argumentos lançados na presente impugnação. Analisando a impugnação apresentada o colegiado a quo julgoua improcedente, restando assim redigida sua a ementa do julgado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2008, 2009 JUNTADA POSTERIOR DE DOCUMENTOS. A prova documental deverá ser apresentada na impugnação, precluindo o direito do interessado em fazêlo em outro momento processual, a menos que demonstre, com fundamentos, a impossibilidade de apresentação por motivo de força maior; refirase a fato ou direito superveniente ou destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. AUDITORIA FISCAL. VERIFICAÇÃO DE FATOS, OPERAÇÕES, REGISTROS E ELEMENTOS PATRIMONIAIS COM REPERCUSSÃO TRIBUTÁRIA FUTURA. POSSIBILIDADE. O Fisco pode verificar fatos, operações e documentos passíveis de registros contábeis e fiscais, devidamente escriturados ou não, referentes a períodos de apuração atingidos pela decadência, em face de comprovada repercussão no futuro, qual seja, na apuração de lucro líquido ou real de períodos não atingidos pela decadência. Os ajustes decorrentes desse procedimento somente podem implicar em alterações nos resultados tributáveis de períodos não decaídos. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008, 2009 FUNDAMENTO ECONÔMICO. RENTABILIDADE COM BASE EM PREVISÃO DE RESULTADO NOS EXERCÍOS FUTUROS DA INVESTIDA. Fl. 1123DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.124 19 LAUDO TÉCNICO PRODUZIDO POSTERIORMENTE Á AQUISIÇÃO DO INVESTIMENTO. INEFICÁCIA. Os laudos acostados aos autos, elaborados após a operação de aquisição dos investimentos, para amparar o registro contábil do ágio com fundamento na previsão de resultado de exercícios futuros, não são contemporâneos aos fatos, e, portanto, são ineficazes. A dedutibilidade do ágio com base em expectativa de rentabilidade futura exige que o valor de aquisição do investimento esteja lastreado em laudo prévio. OPERAÇÕES SOCIETÁRIAS ENTRE EMPRESAS LIGADAS E CONTROLADAS POR SÓCIO COMUM. AVALIAÇÃO UNILATERAL DE PATRIMÔNIO. ÁGIO INTERNO. REPERCUSSÃO TRIBUTÁRIA INDEVIDA. O ágio somente pode ser admitido quando decorrente de transações envolvendo partes independentes, condição necessária à formação de um preço justo para os ativos envolvidos. Nos casos em que seu aparecimento acontece no bojo de transações entre entidades sob o mesmo controle societário, não é possível reconhecer uma maisvalia no investimento, pois não resulta de um processo imparcial de valoração, num ambiente de livre mercado e de independência entre as empresas. O ágio gerado internamente não tem consistência econômica ou contábil, configurando geração artificial de resultado, cujo registro contábil é inadmissível. Nessa situação, a despesa com a amortização do ágio é indedutível. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2008, 2009 CSLL. DECORRÊNCIA. Aplicase ao lançamento tido como decorrente as mesmas razões de decidir do lançamento matriz, em razão de sua íntima relação de causa e efeito, na medida em que não há fatos ou elementos novos a ensejar conclusões diversas. JUROS DE MORA JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora. A Recorrente foi intimada da decisão em 23 de abril de 2014 (fl. 1.016), apresentando em 22 de maio de 2014 recurso voluntário de fls. 1.0231.061, reafirmando, em resumo, os termos de sua de sua impugnação. A Procuradoria Geral da Fazenda Nacional apresentou contrarrazões de fls. 1.0651.102, pugando pela manutenção integral da decisão recorrida. É o relatório. Fl. 1124DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.125 20 Voto Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Relator. 1 ADMISSIBILIDADE O recurso voluntário apresentado é tempestivo e assinado por procurador devidamente habilitado. Preenchidos os demais pressupostos de admissibilidade, dele, portanto, tomo conhecimento. 2 RECURSO VOLUNTÁRIO O litígio diz respeito à glosa de despesa de amortização de ágio. Segundo a autoridade fiscal autuante, o ágio registrado não teria sido pautado na expectativa de rentabilidade futura do investimento supostamente adquirido, decorrendo tão somente de operações meramente formais e praticadas entre partes relacionadas. Devidamente cientificada do lançamento, a recorrente apresentou impugnação, aduzindo, em resumo: decadência do direito do Fisco de questionar o ágio; legalidade e legitimidade das operações realizadas; validade das operações realizadas entre partes ligadas; impossibilidade de aplicação de juros SELIC sobre a multa de ofício. 2.1 PRELIMINAR DE MÉRITO – ARGUIÇÃO DE DECADÊNCIA Aduz a recorrente que o direito de o Fisco analisar as operações que deram origem ao ágio amortizado já estaria decaído quando da sua ciência do lançamento (10/12/2013), uma vez que os fatos em questão ocorreram em 31/12/2002 e 30/11/2003. Para a recorrente, o início da contagem do prazo decadencial teria se iniciado a partir das operações societárias que deram origem ao registro do ágio, e não somente a partir da efetiva amortização do ágio. O tema não é novo no CARF. E a jurisprudência absolutamente esmagadora entende que, para início da contagem do prazo decadencial, devese ater à data de ocorrência dos fatos geradores, e não à data de contabilização de fatos passados que possam ter repercussão futura. Até mesmo porque o art. 113, § 1º, do CTN aduz que “A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador” e o papel de Fisco de efetuar o lançamento, nos termos do art. 142 do Estatuto Processual, nada mais é do que o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente. Portanto, o lançamento, dado seu caráter constitutivo do crédito tributário, mas declaratório da obrigação, somente pode ser realizado após a ocorrência do fato gerador e, consequentemente, o surgimento da obrigação tributária. Não é papel do Fisco auditar as demonstrações contábeis dos contribuintes a fim de averiguar sua correição à luz dos princípios e normas que norteiam as ciências Fl. 1125DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.126 21 contábeis. A preocupação do Fisco deve ser sempre o reflexo tributário de determinados fatos, os quais, em inúmeras ocasiões, advêm dos registros contábeis. Ressaltese o § 4º do art. 9º do Decreto nº 70.235, de 1972, prevê que seja efetuado o lançamento “também nas hipóteses em que, constatada infração à legislação tributária, dela não resulte exigência de crédito tributário.” Se por hipótese, o contribuinte mantivesse o ágio em seu ativo e não o amortizasse, não teria ocorrido o fato gerador, e, na ausência de infração à legislação tributária, não haveria que se falar em lançamento, pois mesmo nos casos em que do lançamento não resulte exigência de crédito tributário, a constatação de infração à legislação tributária é condição sine qua non para formalização do lançamento. Com efeito, o prazo decadencial somente tem início após a ocorrência do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN), ou após o primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado nas hipóteses do art. 173, I, do CTN. Considerandose que a exigência diz respeito a fatos geradores ocorridos a partir do anocalendário de 2008 (fato gerador em 31 de dezembro de 2008), e a ciência do lançamento se deu em 10 de dezembro de 2013, portanto, menos de 5 anos após a ocorrência do fato gerador, não há que se falar em decadência. Desse modo, voto por rejeitar a arguição de decadência cuja tese implicaria contagem do prazo decadencial a partir da formação do ágio, e não de sua efetiva amortização. 2.2 MÉRITO Inicialmente, as empresas estrangeiras DELL COMPUTAR HOLDING I SGPS UNIPESSOAL LTDA (DCH I) e DELL COMPUTAR HOLDING II SGPS UNIPESSOAL LTDA (DCH II) detinham a totalidade das quotas das empresas brasileiras DELL COMERCIAL DO BRASIL LTDA (DELL COMERCIAL) e DELL COMPUTADORES DO BRASIL LTDA (DELL COMPUTADORES – ora recorrente). Em 31/12/2002 e 30/11/2003 DELL COMERCIAL subscreve e integraliza aumento de capital em DELL COMPUTADORES, no total de R$ 50.884.822,00. Tal integralização se deu mediante capitalização de crédito que DELL COMERCIAL detinha em face de DELL COMPUTADORES. No momento de tal operação DELL COMPUTADORES apresentava patrimônio líquido negativo, e por essa razão DELL COMERCIAL registrou todo o valor investido como ágio. Um mês após a segunda integralização de capital DELL COMPUTADORES (controlada direta) incorpora DELL COMERCIAL (controladora direta), passando a amortizar o ágio e deduzilo fiscalmente, nos termos dos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/97. Antes de adentrar na análise do concreto, fazse necessária uma breve análise da legislação que a matéria, em especial o disposto nos artigos 385, 391, 426 e 386 do RIR/1999. Art. 385 – O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): Fl. 1126DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.127 22 I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. §1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, §1º). §2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, §2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. §3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, §3º).” [grifo nosso] Art. 391 As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426).” [grifos nossos] Art. 426 O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior.” Conforme se observa, de acordo com o disposto no art. 391 do RIR/1999, a regra geral é de que as despesas com amortização de ágio – nos termos do art. 385 do Fl. 1127DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.128 23 RIR/1999 – não possam ser deduzidas na apuração do lucro líquido para fins de determinação do lucro real. Contudo, o ágio ativado, de acordo com permissão contida no art. 426 do RIR/1999, poderá ser utilizado como custo no momento da alienação ou liquidação do investimento em coligada ou controlada. Contudo, o art. 386 do RIR/99 traz hipóteses distintas nos casos de confusão patrimonial entre investida e investidora em razão de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio: Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do §2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do §2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração. §1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §1º). §2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §2º): I o ágio em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; II o deságio em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. §3º O valor registrado na forma do inciso II (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §3º): I será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; Fl. 1128DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.129 24 II poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. §4º Na hipótese do inciso II do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos ou contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §4º). §5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §5º). §6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. §7º Sem prejuízo do disposto nos incisos III e IV, a pessoa jurídica sucessora poderá classificar, no patrimônio líquido, alternativamente ao disposto no §2º deste artigo, a conta que registrar o ágio ou deságio nele mencionado (Lei nº 9.718, de 1998, art. 11). Nessa senda, para que o ágio com fundamento em rentabilidade futura possa compor o resultado do período, o regulamento do imposto de renda impõe ou a alienação do investimento – nesse caso, na forma de custo de aquisição , ou mediante amortização, desde que haja incorporação, fusão ou cisão entre investidora e investida (art. 386, caput e inciso III), ainda que de forma reversa (art. 386, § 6º, II). Essa amortização poderá ser realizada à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração (art. 386, inciso III, do RIR/1999). Por outro lado, na hipótese de a pessoa jurídica absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio, cujo fundamento seja fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas, o ágio não poderá ser amortizado (art. 386, inciso II, do RIR/1999). Feita essa explanação, passo à análise do caso concreto. De acordo com as operações retratadas nos autos, podese concluir não ter havido qualquer aquisição de quotas da DELL COMPUTADORES que pudesse justificar o registro de ágio. A subscrição de quotas pela DELL COMERCIAL foi realizada com o objetivo final de fusionar duas empresas brasileiras em uma única empresa, sendo que essas duas empresas sempre estiveram sob o controle do mesmo grupo estrangeiro. A etapa de subscrição das quotas de DELL COMPUTADORES realizada por DELL COMERCIAL foi tão somente uma etapa intermediária na operação orquestrada, pois de antemão já se sabia que essa operação seria cancelada ao final. Fl. 1129DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.130 25 Conforme já abordado, o surgimento do ágio se dá a partir da diferença positiva entre o custo de aquisição pago por uma pessoa jurídica na aquisição de uma participação societária e o valor de patrimônio líquido da empresa investida, exatamente nos termos do artigo 20 do DecretoLei nº 1.598/1977, base legal do artigo 385 do RIR/99. Sob o ponto de vista econômico, o que justifica o cômputo do ágio é a aquisição, por parte da investidora, de uma nova riqueza. Desde a edição do DecretoLei nº 1.598/1977 a legislação passou a prever três hipóteses para justificar o ágio com base nessa nova riqueza adquirida: o valor de mercado dos ativos da investida, rentabilidade futura ou outras razões econômicas, hipóteses um tanto alteradas após a edição da Lei nº 12.973/2014, alterações essas irrelevantes para o caso em apreço. Nos termos já abordados neste voto, para que o ágio com fundamento em rentabilidade futura possa compor o resultado do período, o regulamento do imposto de renda impõe ou a alienação do investimento – nesse caso, na forma de custo de aquisição , ou mediante amortização, desde que haja incorporação, fusão ou cisão entre investidora e investida (confusão patrimonial), ainda que de forma reversa (artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, base legal do art. 386, caput e inciso III, do RIR/99 e do art. 386, § 6º, II, do RIR/99). Em outras palavras, o legislador previu uma presunção de perda de investimento e autorizou a amortização do ágio tal como o investimento tivesse efetivamente sido liquidado. Não é demais relembrarmos que os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1977 foram editadas no contexto da privatização, tendo como pressuposto permitir que o ágio que seria pago na aquisição de controle das estatais fosse deduzido das bases de cálculo de IRPJ e de CSLL nos períodos seguintes. A suposta mais valia registrada pela recorrente é conhecida como “ágio interno” ou “ágio de si mesmo”, hipótese em que há uma reavaliação espontânea de uma participação societária dentro de um grupo empresarial, sendo que essa “mais valia” gerada sem a participação de partes independentes e decorrente dessa reavaliação passa a ser aproveitada fiscalmente pela própria pessoa jurídica reavaliada. Em resumo, a pessoa jurídica reavalia seu patrimônio, gerando um registro de ágio que, momentos após, passa a ser amortizado e deduzido das bases de cálculo de IRPJ e de CSLL. Nesse sentido, correta a conclusão da decisão recorrida ao afirmar que o reconhecimento de um ágio gerado dentro de um mesmo grupo econômico não encontra respaldo nas ciências contábeis, não havendo que se falar em reconhecimento de uma mais valia de um investimento quando originado de transação dos sócios com eles mesmos, uma vez que a ausência de substância econômica na operação, bem como de não resultar de um processo imparcial de valoração, num ambiente de livre mercado e de independência entre as duas empresas. Corroborando tal raciocínio, impendese destacar pronunciamento da CVM repudiando o registro do “ágio de si mesmo”, conforme consigna o Ofício Circular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007: OFÍCIOCIRCULAR/CVM/SNC/SEP nº 01/2007 Fl. 1130DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.131 26 Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2007 Aos Senhores Diretores de Relações com Investidores e Auditores Independentes ASSUNTO: Orientação sobre Normas Contábeis pelas Companhias Abertas Prezados Senhores, Os OfíciosCirculares emitidos pela área técnica da CVM têm como objetivo principal divulgar os problemas centrais e esclarecer dúvidas sobre a aplicação das Normas de Contabilidade pelas Companhias Abertas e das normas relativas aos Auditores Independentes. Esse ofíciocircular também procura incentivar a adoção de novos procedimentos e divulgações, bem como antecipar futura regulamentação por parte da CVM e, em alguns casos, esclarecer questões relacionadas às normas internacionais emitidas pelo IASB. A CVM vem, ao longo dos anos da sua atuação, buscando aperfeiçoar e manter atualizado o seu arcabouço normativo contábil, sempre com a participação de segmentos interessados do mercado ou da profissão contábil. Cumpre destacar a importante colaboração recebida da Comissão Consultiva de Normas Contábeis da CVM, que conta com representantes da ABRASCA, APIMEC, CFC, IBRACON, FIPECAFI/USP e colaboradores especialmente nomeados pela CVM, além dos professores Ariovaldo dos Santos (USP), José Augusto Marques (UFRJ) e Natan Szuster (UFRJ) e, agora, do Comitê de Pronunciamentos Contábeis CPC, recentemente instalado. omissis 20.1.7 “Ágio” gerado em operações internas A CVM tem observado que determinadas operações de reestruturação societária de grupos econômicos (incorporação de empresas ou incorporação de ações) resultam na geração artificial de “ágio”. Uma das formas que essas operações vêm sendo realizadas, iniciase com a avaliação econômica dos investimentos em controladas ou coligadas e, ato contínuo, utilizarse do resultado constante do laudo oriundo desse processo como referência para subscrever o capital numa nova empresa. Essas operações podem, ainda, serem seguidas de uma incorporação. Outra forma observada de realizar tal operação é a incorporação de ações a valor de mercado de empresa pertencente ao mesmo grupo econômico. Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômicocontábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial, supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há o dispêndio para se obter algo de terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Fl. 1131DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.132 27 Não é concebível, econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como “arm’s length”. Portanto, é nosso entendimento que essas transações não se revestem de substância econômica e da indispensável independência entre as partes, para que seja passível de registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade. [grifos nossos] No mesmo sentido, assim se manifestou o Comitê de Pronunciamentos Contábeis por meio da Orientação Técnica OCPC 02/2008, item 50: É importante lembrar que só pode ser reconhecido o ativo intangível ágio por expectativa de rentabilidade futura se adquirido de terceiros, nunca o gerado pela própria entidade (ou mesmo conjunto de empresas sob controle comum). E o adquirido de terceiros só pode ser reconhecido, no Brasil, pelo custo, vedada completamente sua reavaliação. Em situações como essas, este colegiado vem decidindo pela correição dos lançamentos realizados, como se observa, por exemplo, no Acórdão 1301002.415, de lavra do I. Conselheiro Roberto Silva Junior, cujo excerto de interesse da ementa do julgado reproduzo a seguir: ÁGIO INTERNO. FALTA DE SUBSTÂNCIA ECONÔMICA. INDEDUTIBILIDADE. O ágio nascido de operações entre empresas integrantes do mesmo grupo econômico é indedutível da base de cálculo do IRPJ, dada a ausência de substância econômica. [...] No mesmo sentido assim se decidiu no Acórdão 1301002.233, de lavra do I. Conselheiro Marcos Paulo Leme Brisola Caseiro: DESPESAS COM AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. EMPRESAS DE MESMO GRUPO ECONÔMICO. INDEDUTIBILIDADE. A dedutibilidade da amortização do ágio somente é admitida quando este surge em negócios entre partes independentes,condição necessária à formação de um preço justo para os ativos envolvidos. Nos casos em que seu aparecimento acontece no bojo de negócios entre entidades sob o mesmo controle, o ágio não tem consistência econômica ou contábil, o que obsta que se admitam suas consequências fiscais. [...] No caso concreto, estamos diante de situação muito semelhante. Por oportuno, peço vênia para valerme da ilustração gráfica elaborada pela PGFN em suas contrarrazões: Fl. 1132DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.133 28 Analisando a operação levada a efeito pela recorrente, constatase que a reestruturação societária foi realizada tão somente com o objetivo de registro de ágio, uma vez que as efetivas controladoras situadas no exterior mantiveramse as mesmas, antes e depois da reestruturação societária. Resta evidente, assim, a inexistência de qualquer alienação do controle da recorrente (DELL COMPUTADORES) para terceiros. Na realidade, DELL COMPUTADORES mantevese durante todo o período sob controle, direto ou indireto, das holdings situadas no exterior, representantes do grupo norte americano Dell Inc. Tendo em vista as características expostas dessa mais valia gerada internamente, não há que se falar em ausência de base legal para exigência de CSLL, mas sim falta de base legal que o valor contabilizado a título de ágio baseado em rentabilidade, mas gerado internamente, possa ser amortizado para fins de determinação da base de cálculo da CSLL. Frisase que a própria ciência contábil repele tal contabilização, o que, por si só, não justificaria a redução do lucro líquido do período, ponto de partida para a determinação da base de cálculo da CSLL. Além do primeiro fundamento ("ágio interno") utilizado alhures para negar se provimento ao recurso voluntário, ainda um segundo fundamento que, por si só, já seria suficiente para manterse a exigência: a validade, ou não, dos documentos apresentados pela recorrente que atestariam o fundamento econômico do ágio baseado na rentabilidade futura do investimento. Não há controvérsia nos autos a respeito da data da geração dos ágios (31/12/2002 e 30/11/2003), datas das aquisições dos investimentos e de seus registros. De acordo com o § 3º do art. 385 do RIR/99 o lançamento do ágio baseado em valor de mercado de bens do ativo da investida ou com base em sua rentabilidade futura deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Entendo não ser necessário, no caso concreto, discutir se há ou não necessidade de um laudo para que tal obrigação seja cumprida, pois, a toda evidência, é explícita a exigência legal de ao menos de um estudo prévio, ou, nos termos da lei, uma “demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração”, documento em momento algum apresentado pela recorrente. O argumento de que por serem empresas do mesmo grupo já saberia qual a rentabilidade futura esperada de DELL COMPUTADORES não lhe socorre: a lei exige tal documento, e, certamente, laudo elaborado mais de um ano após a integralização de capital com ágio não é hábil a comprovar a rentabilidade futura alegada. Convém ressaltar que o art. 37 da Lei nº 9.430/96 determina que os comprovantes da escrituração da pessoa jurídica, relativos a fatos que repercutam em Fl. 1133DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.134 29 lançamentos contábeis de exercícios futuros, deverão ser conservados até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios. Conforme bem argumentado pela decisão recorrida, os laudos apresentados pela recorrente foram elaborados vários meses após a operação de aquisição dos investimentos, para amparar o registro contábil do ágio com fundamento na previsão de resultado de exercícios futuros, não são contemporâneos aos fatos, e, portanto, são ineficazes. Isso porque a dedutibilidade do ágio com base em expectativa de rentabilidade futura exige que o valor de aquisição do investimento esteja lastreado em documento prévio, o que, efetivamente, não ocorreu no caso concreto. Além disso, há de se ressaltar que o valor presente de DELL COMPUTADORES de acordo com o laudo apresentado em 02/03/2004 era de R$ 467.269.000,00, valor absolutamente em descompasso com a integralização de capital total de pouco mais de R$ 50 milhões, o que denota, a toda evidência, a imprestabilidade do laudo extemporâneo para justificar o ágio pago em duas integralizações de capital distintas, a primeira realizada 14 meses antes, e a segunda, três meses antes da elaboração de tal documento. Por essas razões a exigência já se mostra acertada, podendose negar provimento ao recurso da recorrente em relação à amortização do ágio. Nesse cenário, não se faz necessária a análise dos demais elementos apresentados pela autoridade fiscal a respeito do registro do ágio, em sua escrituração contábil, não como ágio com fundamento em rentabilidade futura, mas sim com base em outros fundamentos econômicos. Deixo claro que, mesmo que o contribuinte tivesse apresentado documento prévio apto a demonstrar que houve desembolso de ágio baseado em rentabilidade futura, a sua dedução não seria possível, uma vez que esse ágio decorreu de operações societárias meramente formais, praticadas entre partes relacionadas ("ágio interno"), primeiro fundamento de meu voto. Assim sendo, voto por manter a glosa de amortização do ágio na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL. 2.3 DA INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO Por fim, alegou a recorrente que a cobrança de juros sobre a multa de ofício seria ilegal. Observase, inicialmente, que a questão tem sido objeto intenso debate pela Câmara Superior, haja vista que, num lapso de poucos meses, ocorreram votações em sentidos opostos, ambos decididos por maioria apertada de votos, como se verifica dos acórdãos n° 910100539, de 11/03/2010, e n° 910100.722, de 08/11/2010. Abstraindose de argumentos finalísticos, como o enriquecimento ilícito do Estado, os quais fogem à alçada deste tribunal administrativo, conforme determina a Súmula CARF n° 2, expõese os fundamentos considerados suficientes para justificar a cobrança nos Fl. 1134DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.135 30 presentes autos, com espelho no acórdão n° 910100539, de 11/03/2010, de lavra da Conselheira Viviane Vidal Wagner: O conceito de crédito tributário, nos termos do art. 139 do CTN, comporta tanto tributo quanto penalidade pecuniária. Uma interpretação literal e restritiva do caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96, que regula os acréscimos moratórios sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, pode levar à equivocada conclusão de que estaria excluída desses débitos a multa de ofício. Contudo, uma norma não deve ser interpretada isoladamente, especialmente dentro do sistema tributário nacional. No dizer do jurista Juarez Freitas (2002, p.70), "interpretar uma norma é interpretar o sistema inteiro: qualquer exegese comete, direta ou obliquamente, uma aplicação da totalidade do direito". Merece transcrição a continuidade do seu raciocínio: "Não se deve considerar a interpretação sistemática como simples instrumento de interpretação jurídica. É a interpretação sistemática, quando entendida em profundidade, o processo hermenêutico por excelência, de tal maneira que ou se compreendem os enunciados prescritivos nos plexos dos demais enunciados ou não se alcançará compreendêlos sem perdas substanciais. Nesta medida, mister afirmar, com os devidos temperamentos, que a interpretação jurídica é sistemática ou não é interpretação." (A interpretação sistemática do direito, 3.ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 74). Daí, por certo, decorrerá uma conclusão lógica, já que interpretar sistematicamente implica excluir qualquer solução interpretativa que resulte logicamente contraditória com alguma norma do sistema. O art. 161 do CTN não distingue a natureza do crédito tributário sobre o qual deve incidir os juros de mora, ao dispor que o crédito tributário não pago integralmente no seu vencimento é acrescido de juros de mora, independentemente dos motivos do inadimplemento. Nesse sentido, no sistema tributário nacional, a definição de crédito tributário há de ser uniforme. De acordo com a definição de Hugo de Brito Machado (2009, p.172), o crédito tributário "é o vínculo jurídico, de natureza obrigacional, por força do qual o Estado (sujeito ativo) pode exigir do particular, o contribuinte ou responsável (sujeito passivo), o pagamento do tributo ou da penalidade pecuniária (objeto da relação obrigacional)." Fl. 1135DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.136 31 A obrigação tributária principal referente à multa de ofício, a partir do lançamento, convertese em crédito tributário, consoante previsão do art. 113, §1°, do CTN: Art. 113 A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1° A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito tributário dela decorrente. (destacouse) A obrigação principal surge, assim, com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, o que inclui a multa de ofício proporcional. A multa de ofício é prevista no art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996, e é exigida "juntamente com o imposto, quando não houver sido anteriormente pago''" (§1°). Assim, no momento do lançamento, ao tributo agregase a multa de ofício, tornandose ambos obrigação de natureza pecuniária, ou seja, principal. A penalidade pecuniária, representada no presente caso pela multa de ofício, tem natureza punitiva, incidindo sobre o montante não pago do tributo devido, constatado após ação fiscalizatória do Estado. Os juros moratórios, por sua vez, não se tratam de penalidade e têm natureza indenizatória, , compensarem o atraso na entrada dos recursos que seriam de direito da União. A própria lei em comento traz expressa regra sobre a incidência de juros sobre a multa isolada. Eventual alegação de incompatibilidade entre os institutos é de ser afastada pela previsão contida na própria Lei n° 9.430/96 quanto à incidência de juros de mora sobre a multa exigida isoladamente. O parágrafo único do art. 43 da Lei n° 9.430/96 estabeleceu expressamente que sobre o crédito tributário constituído na forma do caput incidem juros de mora a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. O art. 61 da Lei n° 9.430, de 1996, ao se referir a débitos decorrentes de tributos e contribuições, alcança os débitos em geral relacionados com esses tributos e contribuições e não apenas os relativos ao principal, entendimento, dizia então, reforçado pelo fato de o art. 43 da mesma lei prescrever expressamente a incidência de juros sobre a multa exigida isoladamente. Nesse sentido, o disposto no §3° do art. 950 do Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR/99) exclui a equivocada interpretação de que a multa de mora prevista no caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96 poderia ser aplicada concomitantemente com a multa de ofício. Fl. 1136DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.137 32 Art.950. Os débitos não pagos nos prazos previstos na legislação específica serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento por dia de atraso (Lei n° 9.430, de 1996, art. 61). §1°A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do imposto até o dia em que ocorrer o seu pagamento (Lei n° 9.430, de 1996, art. 61, §1°). §2°O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento (Lei n°9.430, de 1996, art. 61, §2°). §3°A multa de mora prevista neste artigo não será aplicada quando o valor do imposto já tenha servido de base para a aplicação da multa decorrente de lançamento de ofício. A partir do trigésimo primeiro dia do lançamento, caso não pago, o montante do crédito tributário constituído pelo tributo mais a multa de ofício passa a ser acrescido dos juros de mora devidos em razão do atraso da entrada dos recursos nos cofres da União. No mesmo sentido já se manifestou a Câmara Superior de Recursos Fiscais quando do julgamento do Acórdão n° CSRF/0400.651, julgado em 18/09/2007, com a seguinte ementa: JUROS DE MORA MULTA DE OFÍCIO OBRIGAÇÃO PRINICIPAL A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de ofício proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. Cabe referir, ainda, a Súmula Carf n° 5: "São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral." Diante da previsão contida no parágrafo único do art. 161 do CTN, buscase na legislação ordinária a norma complementar que preveja a correção dos débitos para com a União. Para esse fim, a partir de abril de 1995, temse a taxa Selic, instituída pela Lei n° 9.065, de 1995. Fl. 1137DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.138 33 No âmbito do Poder Judiciário, a jurisprudência é forte no sentido da aplicação da taxa de juros Selic na cobrança do crédito tributário, como se vê no exemplo abaixo: REsp 1098052 / SP RECURSO ESPECIAL2008/02395728 Relator(a) Ministro CASTRO MEIRA (1125) Órgão Julgador T2 SEGUNDA TURMA Data do Julgamento 04/12/2008 Data da Publicação/Fonte DJe 19/12/2008 Ementa PROCESSUAL CIVIL. OMISSÃO. NÃOOCORRÊNCIA. LANÇAMENTO. DÉBITO DECLARADO E NÃO PAGO. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. DESNECESSIDADE. TAXA SELIC. LEGALIDADE. 1. É infundada a alegação de nulidade por maltrato ao art. 535 do Código de Processo Civil, quanto o recorrente busca tãosomente rediscutir as razões do julgado. 2. Em se tratando de tributos lançados por homologação, ocorrendo a declaração do contribuinte e na falta de pagamento da exação no vencimento, a inscrição em dívida ativa independe de procedimento administrativo. 3. É legítima a utilização da taxa SELIC como índice de correção monetária e de juros de mora, na atualização dos créditos tributários (Precedentes: AgRg nos EREsp 579.565/SC, Primeira Seção, Rel. Min. Humberto Martins, DJU de 11.09.06 e AgRg nos EREsp 831.564/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Eliana Calmon, DJU de 12.02.07). No âmbito administrativo, a incidência da taxa de juros Selic sobre os débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal foi pacificada com a edição da Súmula CARF n° 4, de observância obrigatória pelo colegiado, por força de norma regimental (art. 72 do RICARF), nos seguintes termos: Súmula CARF n° 4: A partir de 1° de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. No que se refere ao período de 01/01/1995 a 31/12/1996, sustentam alguns que o Parecer MF/SRF/Cosit nº 28/98 teria deixado claro não ser exigível a incidência de juros sobre a multa de ofício tendo em vista as disposições do inciso I, do art. 84, da Lei nº 8.981/95. Fl. 1138DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.139 34 O mencionado Parecer, ainda que conclua pela incidência dos juros sobre a multa de ofício para fatos geradores ocorridos a partir de 01/01/1997, de fato manifestase nos termos dessa tese. Entretanto, constatase que o referido Ato Administrativo não levou em consideração a alteração legislativa trazida pela MP nº 1.110, de 30/08/95, que acrescentou o § 8º ao art. 84, da Lei 8.981/95, e que estendeu os efeitos do disposto no caput aos demais créditos da Fazenda Nacional cuja inscrição e cobrança como Dívida Ativa da União seja de competência da Procuradoria da Fazenda Nacional. Cumpre esclarecer ainda que as três turmas da Câmara Superior, em decisões recentes, vêm confirmando a incidência de juros moratórios sobre a multa de ofício (Acórdãos 9101001.863, 9202003.150 e 9303002.400). Por fim, corroborando o aqui exposto, o STJ vem firmando entendimento no mesmo sentido, entendendo que os juros moratórios incidem sobre a multa de ofício, conforme se observa na ementa a seguir reproduzida: DIREITO TRIBUTÁRIO. INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE MULTA FISCAL PUNITIVA. É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário. Precedentes citados: REsp 1.129.990 PR, DJe 14/9/2009, e REsp 834.681MG, DJe 2/6/2010. AgRg no REsp 1.335.688PR, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 4/12/2012. Ressaltase ainda que, em recentes julgados o STJ decidiu que, no âmbito do parcelamento especial previsto na Lei nº 11.941/2009, as remissões previstas em tal dispositivo legal para as multas de mora e de ofício não autorizam aplicações de reduções superiores às fixadas na mesma lei (45%) para os juros de mora incidentes sobre tais penalidades, ou seja, visto sob outro enfoque, reafirmouse o entendimento de que incidem juros moratórios sobre as multas de mora e de ofício. Tal exegese pode ser observada no REsp 1.492.246/RS (Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, segunda turma, julgado em 02/06/2015, DJe 10/06/2015) e no REsp 1.510.603–CE (Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 20/08/2015), em relação ao qual transcrevese a seguir sua ementa: TRIBUTÁRIO. PARCELAMENTO. 11.941/2009. REMISSÃO DE MULTA EM 100%. DESINFLUÊNCIA NA APURAÇÃO DOS JUROS DE MORA. PARCELAS DISTINTAS. PRECEDENTE. 1. "Em se tratando de remissão, não há qualquer indicativo na Lei n. 11.941/2009 que permita concluir que a redução de 100% (cem por cento) das multas de mora e de ofício estabelecida no art. 1º, §3º, I, da referida lei implique uma redução superior à de 45% (quarenta e cinco por cento) dos juros de mora estabelecida nos mesmo inciso, para atingir uma remissão completa da rubrica de juros (remissão de 100% de juros de mora), como quer o contribuinte " (REsp 1.492.246/RS, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 02/06/2015, DJe 10/06/2015.). 2. Consequentemente, a Lei n. 11.941/2009 tratou cada parcela componente do crédito tributário (principal, multas, juros de mora e encargos) de forma distinta, de modo que a redução percentual dos juros moratórios incide sobre as multas tão somente após a apuração atualizada desta rubrica (multa). Recurso Fl. 1139DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.140 35 especial provido. REsp 1.510.603–CE, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 20/08/2015. Assim sendo, voto por manter tal exigência. Fl. 1140DF CARF MF Processo nº 11080.732187/201319 Acórdão n.º 1301002.562 S1C3T1 Fl. 1.141 36 3 CONCLUSÃO Isso posto, voto por rejeitar a arguição de decadência, e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Fl. 1141DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.979301/2009-08
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 17 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Aug 16 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2003
PEDIDO DE PERÍCIA.
No âmbito do Processo Administrativo Fiscal, as provas documentais devem ser apresentadas na impugnação, a não ser que isso seja impraticável, nos termos do art. 16, §§ 4º e 5º, do Decreto nº 70.235/1972. O pedido de realização de perícia é uma faculdade da autoridade julgadora, que deve assim proceder apenas se entender imprescindível à solução da lide.
COMPENSAÇÃO. REQUISITOS.
A certeza e liquidez do crédito são requisitos indispensáveis para a compensação autorizada por lei. A mera alegação da existência do crédito, desacompanhada de prova da sua origem, não autoriza a homologação da compensação.
Numero da decisão: 1201-001.723
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Roberto Caparroz de Almeida - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, Gustavo Guimarães da Fonseca (Suplente) e José Carlos de Assis Guimarães.
Nome do relator: ROBERTO CAPARROZ DE ALMEIDA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2003 PEDIDO DE PERÍCIA. No âmbito do Processo Administrativo Fiscal, as provas documentais devem ser apresentadas na impugnação, a não ser que isso seja impraticável, nos termos do art. 16, §§ 4º e 5º, do Decreto nº 70.235/1972. O pedido de realização de perícia é uma faculdade da autoridade julgadora, que deve assim proceder apenas se entender imprescindível à solução da lide. COMPENSAÇÃO. REQUISITOS. A certeza e liquidez do crédito são requisitos indispensáveis para a compensação autorizada por lei. A mera alegação da existência do crédito, desacompanhada de prova da sua origem, não autoriza a homologação da compensação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, Gustavo Guimarães da Fonseca (Suplente) e José Carlos de Assis Guimarães. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 97 93 01 /2 00 9- 08 Fl. 60DF CARF MF Processo nº 10880.979301/200908 Acórdão n.º 1201001.723 S1C2T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de processo administrativo decorrente de pedido de compensação de crédito tributário com determinado débito de responsabilidade do próprio contribuinte. A DCOMP, após análise eletrônica, gerou a emissão de Despacho Decisório que não homologou o pleito do contribuinte, sob a alegação de inexistência de crédito. Segundo o despacho, o pagamento indicado pelo contribuinte não possuiria saldo disponível para compensação, uma vez que já foi integralmente utilizado para quitação de outro débito tributário apurado pelo contribuinte. Inconformada com a exigência, a interessada apresentou manifestação de inconformidade, alegando que o crédito é sim legítimo, pois decorrente de pagamento de tributo indevido. Tramitado o feito, a DRJ julgou improcedente a manifestação de inconformidade, sob o entendimento de que a contribuinte não teria comprovado o seu direito creditório. Intimada da decisão de primeira instância, a Recorrente interpôs recurso voluntário. Reitera os argumentos contidos na manifestação de inconformidade e pede perícia para verificar o crédito. É o relatório. Voto Roberto Caparroz de Almeida, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1201001.692, de 17.05.2017, proferido no julgamento do Processo nº 10880.691176/200907, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1201001.692): De acordo com o despacho decisório, o crédito pleiteado pela Recorrente não existiria, uma vez que teria sido utilizado para quitar outros débitos de sua responsabilidade. Também por esse mesmo motivo, e adotada a premissa de que a Recorrente não comprovou o direito líquido e certo do direito creditório, a decisão de primeiro grau não homologou a compensação. Fl. 61DF CARF MF Processo nº 10880.979301/200908 Acórdão n.º 1201001.723 S1C2T1 Fl. 4 3 Por ocasião do recurso voluntário, a Recorrente não apresenta nenhum esclarecimento ou prova complementar ou adicional, requerendo que seja feita perícia a fim de comprovar a origem do crédito alegado. No âmbito do Processo Administrativo Fiscal, a produção de prova pericial deve ser determinada pela autoridade julgadora quando imprescindível à solução da lide. Tratase de medida que busca esclarecer eventuais dúvidas dos julgadores, que possuem a faculdade, e não a obrigatoriedade, de se valerem ou não de tal expediente. Nessa situação particular, a solução da presente demanda não requer uma perícia em sentido técnico, limitando se a análise ou não do direito creditório na forma pela qual o processo está instruído. Isso porque as autoridades julgadoras devem apreciar as provas conforme produzidas no processo. E no âmbito do Processo Administrativo Fiscal, como se sabe, a produção de provas documentais deve ser feita na impugnação, a não ser que isso seja impraticável, nos termos do art. 16, §§ 4º e 5º, do Decreto nº 70.235/1972, in verbis: “Art. 16. A impugnação mencionará: [...] § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos § 5º A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior”. Nesse sentido, entendo que o pedido de perícia requerido pela interessada não merece ser acolhido. A interessada, na verdade, ao requerer uma perícia, busca, de forma indevida, livrarse de seu ônus de prova o direito creditório alegado. Com efeito, a comprovação da liquidez e certeza do crédito constitui ônus da contribuinte, conforme prescreve o artigo 170 do CTN, in verbis: “Artigo 170 A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda Pública.” Grifei. Resta patente, portanto, que a Recorrente já deveria ter trazido aos autos os documentos comprobatórios do pretenso crédito Fl. 62DF CARF MF Processo nº 10880.979301/200908 Acórdão n.º 1201001.723 S1C2T1 Fl. 5 4 tributário, não podendo valerse de um pedido de perícia para afastar este ônus. Ademais, convém assinalar que alegações genéricas sobre a origem do direito creditório, desacompanhadas de documentos hábeis, são incapazes de fazer prova acerca da liquidez e certeza do crédito. Nesse caso concreto, a Recorrente não apresentou sua escrituração contábil, apurações fiscais, cópia de pedido de restituição, relatório de auditoria independente ou qualquer outra documentação pertinente a fazer prova do crédito que pleiteia. Pelo contrário, as alegações e documentos trazidos aos autos não são capazes de provar o direito creditório que o contribuinte busca ser reconhecido. O que se tem no caso, pois, é uma compensação cujo crédito não restou efetivamente comprovado, prejudicando o direito correlato de compensação. Vale assinalar que a jurisprudência do CARF admite a possibilidade de compensação de indébito, mas desde que haja comprovação cabal quanto à liquidez e certeza do crédito pleiteado. É o que se verifica dos julgados abaixo: “RESTITUIÇÃO DO INDÉBITO TRIBUTÁRIO. PROVA. ÔNUS. O ônus da prova do crédito tributário pleiteado no Per/Dcomp Pedido de Restituição é da contribuinte (artigo 333, I, do CPC). Não sendo produzida nos autos, indeferese o pedido e não homologase a compensação pretendida entre crédito e débito tributários.” (Ac. 1102000.890. Sessão de 14/08/2013). “DESPACHO DECISÓRIO E DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. São válidos o despacho decisório e a decisão que apresentam todas as informações necessárias para o entendimento do contribuinte quanto aos motivos da nãohomologação da compensação declarada. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. RETIFICAÇÃO DE DCTF. PROVA DO INDÉBITO. O direito à repetição de indébito não está condicionado à prévia retificação de DCTF que contenha erro material. A DCTF (retificadora ou original) não faz prova de liquidez e certeza do crédito a restituir. Na apuração da liquidez e certeza do crédito pleiteado, devese apreciar as provas apresentadas pelo contribuinte”. (Ac. 3302 002.383. Sessão de 02/11/2013). “PER/DCOMP. RETIFICAÇÃO DA DCTF. PROVA DO DIREITO CREDITÓRIO. AUSÊNCIA. COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. O contribuinte, a despeito da retificação extemporânea da Dctf, tem direito subjetivo à compensação, desde que apresente prova da liquidez e da certeza do direito de crédito. A simples retificação, desacompanhada de qualquer prova, não autoriza a homologação da compensação” (Ac. 3802002.076. Sessão de 14/08/2013). Nesse sentido, e em face do que foi exposto, CONHEÇO do Recurso para NEGARLHE provimento. Fl. 63DF CARF MF Processo nº 10880.979301/200908 Acórdão n.º 1201001.723 S1C2T1 Fl. 6 5 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida Fl. 64DF CARF MF
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Numero do processo: 15983.001194/2009-68
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jun 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Sep 11 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2006
APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-005.556
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Patrícia da Silva - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro E Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Joao Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
Nome do relator: PATRICIA DA SILVA
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PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 98 3. 00 11 94 /2 00 9- 68 Fl. 1791DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro E Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Joao Victor Ribeiro Aldinucci (suplente convocado), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência, previsto nos arts. 67 e seguintes do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, interposto pela Fazenda Nacional em face da decisão da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 2ª Seção, consubstanciada no Acórdão n° 2301003.114 que: I) Por unanimidade de votos: a) deu provimento ao recurso, na questão do auxílio alimentação, nos termos do voto da Relatora; b) negou provimento ao Recurso nas demais alegações da Recorrente, nos termos do voto do(a) Relator(a); e II) Por maioria de votos: a) deu provimento parcial ao Recurso, no mérito, para que seja aplicada a multa prevista no Art. 61, da Lei nº 9.430/1996, se mais benéfica à Recorrente. Segue abaixo a ementa e o dispositivo da decisão recorrida: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2006 CONTRIBUIÇÃO A TERCEIRAS ENTIDADES Toda empresa está obrigada a recolher a contribuição devida aos Terceiros, incidente sobre a totalidade da remuneração paga aos segurados empregados AUSÊNCIA DE CERCEAMENTO DE DEFESA Não há que se falar em nulidade por cerceamento de defesa quando os relatórios que integram o AI trazem todos os elementos que motivaram a sua lavratura e expõem, de forma clara e precisa, a ocorrência do fato gerador da contribuição previdenciária, elencando todos os dispositivos legais que dão suporte ao procedimento do lançamento. AUXÍLIO ALIMENTAÇÃO IN NATURA NÃO INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA Não há incidência de contribuição previdenciária sobre os valores de alimentação fornecidos in natura, conforme entendimento contido no Ato Declaratório nº 03/2011 da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional PGFN. MULTA MORATÓRIA. PENALIDADE MAIS BENÉFICA. O não pagamento de contribuição previdenciária constituía, antes do advento da Lei nº 11.941/2009, descumprimento de obrigação tributária punida com a multa de mora do art. 35 da Fl. 1792DF CARF MF Processo nº 15983.001194/200968 Acórdão n.º 9202005.556 CSRFT2 Fl. 1.792 3 Lei nº 8.212/1991. Revogado o referido dispositivo e introduzida nova disciplina pela Lei 11.941/2009, devem ser comparadas as penalidades anteriormente prevista com a da novel legislação (art. 35 da Lei nº 8.212/1991 c/c o art. 61 da Lei nº 9.430/1996), de modo que esta seja aplicada retroativamente para os fatos geradores ocorridos até 11/2008, caso seja mais benéfica ao contribuinte (art. 106, II, “c” do CTN). Não há que se falar na aplicação do art. 35A da Lei nº 8.212/1991 combinado com o art. 44, I da Lei nº 9.430/1996, já que estes disciplinam a multa de ofício, penalidade inexistente na sistemática anterior à edição da MP 449/2008, somente sendo possível a comparação com multas de mesma natureza. O processo foi encaminhado para a Fazenda Nacional, em 09/10/2013, para cientificação em até trinta dias, nos termos da Portaria MF nº 527/2010. A Fazenda Nacional interpôs, tempestivamente, em 08/11/2013, o Recurso Especial onde aponta divergência jurisprudencial entre o acórdão recorrido e outros julgados em relação à matéria cesta de multas. Tratase de auto de infração de obrigação principal lavrado posteriormente à vigência da MP 449/08 para a exigência de contribuições previdenciárias destinadas ao custeio da Seguridade Social. No que toca à multa, a autoridade fiscal registrou que foram efetuados cálculos, por competência, para verificação da multa mais benéfica ao contribuinte: se a da legislação anterior (arts. 35 e 32 da Lei nº 8.212/91, na redação antiga) ou a da legislação atual (art. 35A da Lei nº 8.212/91, introduzido pela Lei nº 11.941/2009). Como resultado, aplicou se, para cada competência, a multa mais benéfica (sistemática anterior ou atual), em face do que dispõe o art. 106 do CTN. Em análise de recuso voluntário, a Turma recorrida deu parcial provimento à insurgência do contribuinte para determinar o recálculo da multa nos termos do que dispõe: a redação do art. 35 da Lei nº 8.212/91 em relação a todo o período em cobrança. Cientificado o contribuinte ofereceu contrarrazões pugnando pela manutenção do acórdão combatido. Voto Conselheira Patrícia da Silva Relatora Entendo cumpridos os requisitos de admissibilidade motivo pelo qual conheço do Recurso Especial da Fazenda Nacional. Neste caso a controvérsia é relativa às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. Fl. 1793DF CARF MF 4 A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35 A, penalidade única combinando as duas condutas. Fl. 1794DF CARF MF Processo nº 15983.001194/200968 Acórdão n.º 9202005.556 CSRFT2 Fl. 1.793 5 A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou Fl. 1795DF CARF MF 6 omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao Fl. 1796DF CARF MF Processo nº 15983.001194/200968 Acórdão n.º 9202005.556 CSRFT2 Fl. 1.794 7 raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação Fl. 1797DF CARF MF 8 acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: Fl. 1798DF CARF MF Processo nº 15983.001194/200968 Acórdão n.º 9202005.556 CSRFT2 Fl. 1.795 9 I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35 A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Fl. 1799DF CARF MF 10 Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Fl. 1800DF CARF MF
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Numero do processo: 10280.723721/2013-79
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 23 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008, 2009
BENEFÍCIO FISCAL. REDUÇÃO DO IRPJ. FRUIÇÃO. O benefício fiscal de redução do IRPJ, fundamentado no artigo 1º da Medida Provisória nº 2.199-14/ 2001, com as alterações promovidas pela Lei nº 11.196/2005, cuja expedição do laudo constitutivo do direito ocorreu após o ano calendário subsequente ao de início de operação do projeto beneficiado, tem termo inicial de fruição no ano-calendário de expedição do laudo.
SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTO. CRÉDITOS PRESUMIDOS DE ICMS. EXISTÊNCIA DE VINCULAÇÃO E SINCRONISMO. CARACTERIZAÇÃO. Os valores correspondentes ao benefício fiscal de redução de ICMS, decorrentes da obtenção de créditos presumidos, que possuam vinculação, ainda que indireta, com a aplicação dos recursos em bens ou direitos referentes à implantação ou expansão de empreendimento econômico, caracterizam como subvenção para investimento, podendo ser excluída na determinação do lucro real.
PIS/COFINS. BASE DE CÁLCULO. SUBVENÇÕES. O Pis e a Cofins têm como fato gerador o faturamento (receita bruta) mensal auferido pela pessoa jurídica, sendo irrelevante o tipo de atividade exercida ou a classificação contábil adotada para suas receitas. As subvenções obtidas do poder público, dentro das quais está inserido o crédito presumido de ICMS, independentemente de sua classificação contábil, são receitas do subvencionado, devendo, portanto, integrar a base de cálculo das contribuições sociais.
Numero da decisão: 1401-001.838
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, em dar provimento PARCIAL ao recurso, nos seguintes termos: I) Por maioria de votos, dar provimento à subvenção para investimentos para efeito de tributação IRPJ, CSLL. Vencidos os Conselheiros Abel Nunes de Oliveira Neto e Antonio Bezerra Neto; II) Por maioria de votos, negar provimento à subvenção para investimentos para efeito de tributação do PIS e da Cofins. Vencidas as Conselheiros Yoshihara Arcangelo Zanin e Livia De Carli Germano; III) Por unanimidade de votos, negar provimento em relação à isenção do IRPJ sobre lucro da exploração. O Conselheiro José Roberto Adelino da Silva declarou-se impedido de votar. Designado o Conselheiro Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa para redigir voto vencedor.
(assinado digitalmente)
Antonio Bezerra Neto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Luciana Yoshihara Zanin - Relatora.
(assinado digitalmente)
Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa - Redator designado.
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Antonio Bezerra Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Livia De Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto e Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
Nome do relator: LUCIANA YOSHIHARA ARCANGELO ZANIN
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REDUÇÃO DO IRPJ. FRUIÇÃO. O benefício fiscal de redução do IRPJ, fundamentado no artigo 1º da Medida Provisória nº 2.19914/ 2001, com as alterações promovidas pela Lei nº 11.196/2005, cuja expedição do laudo constitutivo do direito ocorreu após o ano calendário subsequente ao de início de operação do projeto beneficiado, tem termo inicial de fruição no anocalendário de expedição do laudo. SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTO. CRÉDITOS PRESUMIDOS DE ICMS. EXISTÊNCIA DE VINCULAÇÃO E SINCRONISMO. CARACTERIZAÇÃO. Os valores correspondentes ao benefício fiscal de redução de ICMS, decorrentes da obtenção de créditos presumidos, que possuam vinculação, ainda que indireta, com a aplicação dos recursos em bens ou direitos referentes à implantação ou expansão de empreendimento econômico, caracterizam como subvenção para investimento, podendo ser excluída na determinação do lucro real. PIS/COFINS. BASE DE CÁLCULO. SUBVENÇÕES. O Pis e a Cofins têm como fato gerador o faturamento (receita bruta) mensal auferido pela pessoa jurídica, sendo irrelevante o tipo de atividade exercida ou a classificação contábil adotada para suas receitas. As subvenções obtidas do poder público, dentro das quais está inserido o crédito presumido de ICMS, independentemente de sua classificação contábil, são receitas do subvencionado, devendo, portanto, integrar a base de cálculo das contribuições sociais. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, em dar provimento PARCIAL ao recurso, nos seguintes termos: I) Por maioria de votos, dar provimento à subvenção para AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 0. 72 37 21 /2 01 3- 79 Fl. 1203DF CARF MF 2 investimentos para efeito de tributação IRPJ, CSLL. Vencidos os Conselheiros Abel Nunes de Oliveira Neto e Antonio Bezerra Neto; II) Por maioria de votos, negar provimento à subvenção para investimentos para efeito de tributação do PIS e da Cofins. Vencidas as Conselheiros Yoshihara Arcangelo Zanin e Livia De Carli Germano; III) Por unanimidade de votos, negar provimento em relação à isenção do IRPJ sobre lucro da exploração. O Conselheiro José Roberto Adelino da Silva declarouse impedido de votar. Designado o Conselheiro Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa para redigir voto vencedor. (assinado digitalmente) Antonio Bezerra Neto Presidente. (assinado digitalmente) Luciana Yoshihara Zanin Relatora. (assinado digitalmente) Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa Redator designado. Participaram do presente julgamento os Conselheiros Antonio Bezerra Neto, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Livia De Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto e Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pela contribuinte em face do Acórdão nº 1657.911 3ª Turma da DRJ/SPO que manteve o lançamento, ao julgar improcedente a impugnação apresentada, mantendo o crédito tributário exigido, relativo à glosa de subvenção relativa a benefício fiscal consistente em crédito presumido de ICMS. Transcrevo abaixo partes do Relatório do Acórdão Recorrido, que bem descreve os fatos ocorridos no feito: Em decorrência de ação fiscal levada a efeito junto ao contribuinte acima identificado e, em razão de irregularidades apuradas, foram lavrados 4 (quatro) Autos de Infração, com ciência dada em 19/12/2013. 2. Por meio dos Autos, foram constituídos os seguintes créditos tributários: IRPJ ⇒ ⇒ R$21.152.794,38; CSLL R$5.567.861,40; PIS ⇒ R$1.037.579,69 e COFINS ⇒ R$4.779.155,85. 3. Totalizaram, portanto, tais lançamentos, a importância de R$32.537.391,32, aí incluídos os valores dos tributos, das multas de ofício e dos juros de mora (estes calculados até 29/11/2013). Os enquadramentos legais utilizados para fundamentar as autuações encontramse nos respectivos autos de infração. 4. As infrações referemse à: (i) Subvenções para custeio (crédito presumido de ICMS) registradas, incorretamente, diretamente em reserva de lucros e não consideradas na apuração do lucro real; (ii) Inobservância dos requisitos legais para apuração de benefício fiscal na área da SUDAM. 5. A fiscalização apresenta nos Autos de Infração IRPJ/CSLL, no Fl. 1204DF CARF MF Processo nº 10280.723721/201379 Acórdão n.º 1401001.838 S1C4T1 Fl. 1.204 3 001 OUTROS RESULTADOS NÃO OPERACIONAIS SUBVENÇÕES PARA INVESTIMENTOS E DOAÇÕES De acordo com cópias de documentos que nos foram apresentados, em atendimento ao Termo de Inicio de Procedimento Fiscal, lavrado em 13/03/2013, constatase que a empresa requereu, junto ao Governo do Estado do Pará, o "restabelecimento" da concessão de crédito presumido de 95% (noventa e cinco por cento) calculado sobre o ICMS apurado, correspondentes as saídas dos produtos por ela fabricados dentro do Estado, ou seja, pleiteando apenas a convalidação dos mesmos benefícios fiscais e condições estabelecidas no Projeto original. Assim, a empresa obteve, junto ao governo do Estado, a concessão de beneficios formalizados através do Decreto 2.667, de 15 de dezembro de 2006, o qual prolongou seus efeitos por 08 (oito) anos, contados a partir de 18/12/2006 (data da publicação no DOE). Em exames na contabilidade da empresa (apresentada em meio magnético), optante pelo Lucro Real Anual no ano calendário 2009, constatamos Subvenção para Investimentos, registradas nas contas 31010301208, 31010901205 e 31012501204, cujos valores encontramse discriminados nas Planilhas anexas INCENTIVO FISCAL DE ICMS, e totalizam R$29.452.571,71. Verificouse ainda que o referido valor foi adicionado aos resultados da empresa a titulo de Subvenções para Investimento, conforme Ficha 07A Demonstração de Resultados, Item 32, da Declaração de IRPJ do período citado e, considerando a classificação do benefício fiscal como Subvenção para Investimento, a empresa excluiu da apuração do Lucro Real (Ficha 09 A Item 51, da citada Declaração de IRPJ), igual valor, ou seja, o montante de R$29.452.571,71. Entretanto, observase através das cópias dos docs. supra referidos (originais não foram disponibilizados à fiscalização), a inexistência de vinculação dos valores oriundos da redução do ICMS à aquisição de bens ou direitos pela empresa, isto é, não está a mesma, obrigada a qualquer contrapartida em aquisição de bens ou direitos para usufruir do incentivo fiscal do ICMS. A inexistência dessa vinculação descaracteriza as condições estabelecidas pelo artigo 443 do Regulamento do Imposto de Renda/1999, para gozo do benéfico tratamento de subvenção para investimento, visto não se enquadrar no conceito de estimulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos previsto no mesmo. Como se trata apenas de prorrogação de prazo do beneficio fiscal, todos os investimentos previstos, no Projeto original, ora prorrogado, anteriores ao ano calendário 2009, foram realizados, não havendo, por conseguinte, qualquer investimento adicional a ser considerado. Desse modo, o valor do incentivo apurado pela empresa tratase, indubitavelmente da Subvenção para Custeio, tratada no artigo 392 do diploma legal acima referido. Portanto, ao registrar o valor referente as subvenções diretamente em conta do Patrimônio Liquido (Reservas de Lucros Doações e Subvenções para Investimento, Ficha 37A Item 33, DIPJ ano calendário 2009), sem que as condições especificas estabelecidas pela legislação fossem atendidas e, não considerando o valor dessas subvenções na apuração do lucro real, a empresa infringiu a legislação do Imposto de Renda, razão pela qual tributase o montante de R$29.452.571,71 , conforme Planilhas Incentivo fiscal do ICMS acima citadas e Planilha Demonstrativo de Consolidação das Subvenções Contabilizadas e Declaradas pela Pessoa Jurídica (todas anexas ao presente auto de infração). Fl. 1205DF CARF MF 4 5.1. Tais subvenções também foram oferecidas, de ofício, à tributação do PIS e da Confins (Apuração Reflexa – Incidência NãoCumulativa). 002 EMPRESAS INSTALADAS NA ÁREA DA SUDAM ISENÇÃO INOBSERVÂNCIA DOS REQUISITOS LEGAIS Conforme consta na Ficha 10 Item 11, de sua Declaração de IRPJ, ano calendário 2008, o contribuinte apurou beneficio fiscal de ISENÇÃO/REDUÇÃO do Imposto sobre o Lucro Real PJ, com base no Lucro da Exploração, no total de R$2.617.687,85, valor esse deduzido do Imposto de Renda do citado período, segundo informado na Ficha 12A Item 10 da referida Declaração de IRPJ. Entretanto, foi constatado que o sujeito passivo não obteve o reconhecimento do benefício da redução do imposto de renda e adicionais não restituíveis que abrangiam períodos até o ano calendário 2009, tanto que, na apuração do imposto alusivo ao ano calendário 2009, conforme consta da DIPJ apresentada (Ficha 12 A – Item 10), cuja cópia se encontra em anexo, a empresa não considerou qualquer valor de redução. Intimada a apresentar o Laudo Constitutivo que lhe concedia o beneficio (Termo de Intimação de 04/12/2013 anexo), o sujeito passivo, através de seu expediente de 12/12/2013 (anexo), declarou o seguinte: "Nosso Laudo Concessivo válido para a empresa COMPAR Companhia Paraense de Refrigerantes é o de n° 071/2010, onde o início do prazo de fruição do benefício darseá no ano calendário 2010 e término no ano calendário 2019. Portanto foi utilizado indevidamente no ano calendário 2008 e informado incorretamente na DIPJ Ficha 10, Linhas 11 e 15". Pela constatação de que o contribuinte não atende os requisitos legais necessários à fruição/gozo do incentivo fiscal, visto que, conforme Laudo supra referido, a eficácia do mesmo não retroage ao ano calendário 2008, e, seus efeitos terem validade somente a partir do ano de sua concessão (ano calendário 2010), procedese a glosa do valor do benefício fiscal, no montante de R$2.617.685,85, pleiteado pelo sujeito passivo em sua Declaração de IRPJ, ano calendário 2008 (Ficha 12A Item 10), conforme Auto de Infração lavrado nesta data. Apreciadas as Impugnações, o lançamento foi julgado procedente, nos termos da ementa abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008, 2009 CRÉDITOS PRESUMIDOS DE ICMS. SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTO. NÃO ATENDIMENTO DA LEGISLAÇÃO. Para que seja caracterizado como subvenção para investimento, os créditos presumidos do ICMS devem estar vinculados a aplicação destes recursos diretamente em bens e direitos referentes à implantação ou expansão de empreendimento econômico. Não havendo esta vinculação, como no caso em discussão, tais recursos devem ser tributados pelo IRPJ e CSLL. BENEFÍCIO FISCAL. REDUÇÃO DO IRPJ. MOMENTO DE USUFRUIR. O benefício fiscal de redução do IRPJ, fundamentado no artigo 1° da Medida Provisória n° 2.19914/2001, com as alterações promovidas pela Lei n° 11.196/2005, cuja expedição do laudo constitutivo do direito ocorreu após o anocalendário subseqüente ao de início de operação do projeto beneficiado, tem termo inicial de fruição no anocalendário de expedição do laudo. No Fl. 1206DF CARF MF Processo nº 10280.723721/201379 Acórdão n.º 1401001.838 S1C4T1 Fl. 1.205 5 presente caso, no anocalendário de 2008, a empresa não tinha obtido, ainda, o referido laudo. Logo, não poderia ter usufruído o beneficio fiscal. AUTOS REFLEXOS. O decidido quanto ao IRPJ aplicase igualmente à tributação dele decorrente. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Inconformada, a autuada interpôs Recurso Voluntário com vistas a obter a reforma do julgado, repisando em suma os argumentos suscitados na impugnação. Era o der essencial a ser relatado. Passo a decidir Voto Vencido Conselheiro Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin O recurso reúne as condições de admissibilidade, dele tomo conhecimento. Considerados os argumentos da Recorrente, temse que o objeto da lide reside na natureza do crédito presumido de ICMS de 95% (noventa e cinco por cento) concedido pelo Governo do Estado do Pará, calculado sobre o ICMS apurado, correspondentes as saídas dos produtos por ela fabricados dentro do Estado, ou seja, pleiteando apenas a convalidação dos mesmos benefícios fiscais e condições estabelecidas no Projeto original. Assim, a empresa obteve, junto ao governo do Estado, a concessão de benefícios formalizados através do Decreto 2.667, de 15 de dezembro de 2006, o qual prolongou seus efeitos por 08 (oito) anos, contados a partir de 18/12/2006 (data da publicação no DOE). A autoridade autuante entende que se caracteriza como subvenção para custeio, cujo valor deve integrar o lucro real e a base de cálculo da CSLL. Isso porque, em seu entender, o benefício não reuniria as características necessárias para que seja tratado como subvenção para investimento, as quais, nos termos do Parecer Normativo do Coordenador do Sistema de Tributação CST 112/1979, são: a) a intenção do subvencionador de destinálas para investimentos; b) a efetiva e específica aplicação da subvenção, pelo beneficiário, nos investimentos previstos na implantação ou expansão do empreendimento econômico projetado; e c) o beneficiário da subvenção ser a pessoa jurídica titular do empreendimento econômico. Fl. 1207DF CARF MF 6 Da subvenção para investimento e da análise do desiderato do benefício fiscal. Subvenção de investimento, por tudo o que se relatou, é, em meu entendimento, aquela que, ao ser concedida pelo órgão público, tenha por finalidade proporcionar incrementos de investimentos no respectivo domínio de abrangência, nos termos definidos pela legislação outorgante. Ao contrário da subvenção de custeio – que busca somente auxiliar o beneficiado na sustentação de suas expensas ordinárias, em decorrência da relevância estratégica e socioeconômica da empresa –, a subvenção para investimento tem por escopo, de fato, estimular a expansão do ramo em questão, mediante várias formas – inclusive desoneração fiscal – que possibilitem a instalação ou a expansão de empreendimento econômico proeminente. Para caracterização da subvenção para investimento, irrelevante é a análise da destinação real dada aos fundos correlatos. O regime contábil a ser outorgado aos montantes desta espécie está prescrito pela legislação, sem margens de escape. Logo, a verificação do escopo investidor da concessão da subvenção deve ser feita de maneira abstrata, desvinculada do emprego prático dos importes subvencionados. Reiterese: a subvenção se toma para investimento, então, se este é o escopo visionado pela entidade pública concedente. Devese analisar, pois, se a instituição do incentivo tem por fim desenvolver o setor ou a região abrangidos, de um lado, ou se tem simples finalidade não desenvolvimentista, de auxílio ao contribuinte no suporte de suas expensas usuais. Este é o derradeiro e único critério de diferenciação, consoante a melhor interpretação da lei. é a origem dos recursos empregados na implantação ou na expansão do empreendimento econômico do subvencionado. Pois bem. O objetivo desenvolvimentista de promoção de investimentos está acentuadamente presente nos casos de benefícios unilaterais de ICMS, concedidos pelos Estados da Federação. Outra razão não há, afinal, para a implementação destes instrumentos de renúncia fiscal, senão a atração de investimentos para o Estado, a serem operacionalizados por meio da instalação de novos empreendimentos econômicos ou da expansão dos preexistentes. Nesse contexto, o programa de incentivos fiscais criado pelo Estado do Pará apenas cria uma obrigação para os contribuintes poderem gozar dos créditos presumidos. Tal dever não implica em que os valores subvencionados devam ser investidos somente nessa seara, sob pena de tributação, como quis afirmar a d. Representação Fiscal. Afinal de contas, ainda que inexistisse essa prévia condição, continuaria o benefício a apresentar feições de subvenção para investimento, haja vista ser este o fim visionado pela entidade pública concessora. Impende deixar esclarecida, em tal cenário, segundo bem lembrado pela recorrente, a diferença que existe entre o escopo da subvenção para investimento, de um turno, e as contrapartidas requeridas, do contribuinte, para o aproveitamento do incentivo, de outro. Fl. 1208DF CARF MF Processo nº 10280.723721/201379 Acórdão n.º 1401001.838 S1C4T1 Fl. 1.206 7 Como se explicou antes, a concessão de créditos presumidos de ICMS, por sua própria natureza, apresenta objetivo de promoção de investimentos no Estado, mediante atração de empreendimentos econômicos interessados na menor carga tributária vicejante. Eventualmente, segundo ocorrido in casu, pode acontecer de o Estado subvencionador prescrever condições precedentes para o gozo da benesse – que, inclusive, podem se materializar mediante a obrigatoriedade de realização de aportes em determinada esfera. Tal situação não tange, entretanto, à finalidade do incentivo, que remanesce a mesma. Os prévios requisitos postos à tomada dos créditos presumidos de ICMS nada versam acerca do desiderato indutivo de investimento. Por essa razão, não influem sobre a caracterização da subvenção, em uma de suas duas modalidades, haja vista representarem somente critérios de determinação da oportunidade da renuncia orçamentária. Em recente julgamento (citar acórdão Komlog), a D. Conselheira Livia...., teceu as seguintes considerações acerca dos benefícios fiscais concedidos pelo Programa Pró Emprego criado pelo Estado de Santa Catarina, bastante acertadas ao meu ver: O simples fato de um beneficio fiscal não reunir as características de subvenção para investimento não significa que ele deva automaticamente ser tratado como subvenção para custeio. Existe a terceira via, que é a possibilidade de não se tratar de uma subvenção no sentido estrito do termo. Conforme observa Bulhões Pedreira, as subvenções para custeio consistem em “transferências de renda”, enquanto que as subvenções para investimento são “transferências de capital” (BULHÕES PEDREIRA, José Luiz. “Imposto sobre a Renda – Pessoas Jurídicas”, Vol. I, Rio de Janeiro: Justec, 1979, pág. 551 e Vol II p. 685). Nessa linha, o Parecer Normativo CST 112/79, tanto ao conceituar subvenção para custeio quanto para investimento, faz menção à transferência de recursos, vejase: "(...) SUBVENÇÃO PARA CUSTEIO ou SUBVENÇÃO PARA OPERAÇÃO são expressões sinônimas. SUBVENÇÃO PARA CUSTEIO é a transferência de recursos para uma pessoa jurídica com a finalidade de auxiliála a fazer face ao seu conjunto de despesas. SUBVENÇÃO PARA OPERAÇÃO é a transferência de recursos para uma pessoa jurídica com a finalidade de auxiliála nas suas operações, ou seja, na consecução de seus objetivos sociais." "(...) SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTO é a transferência de recursos para uma pessoa jurídica com a finalidade de auxiliála, não nas suas despesas, mais sim, na aplicação específica em bens ou direitos para implantar ou expandir empreendimentos econômicos. Essa concepção está inteiramente de acordo com o próprio § 2º do art. 38. do D. L. 1.598/77. 2.12 Observase que a SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTO apresenta características bem marcantes, exigindo até mesmo perfeita sincronia da intenção do subvencionador com a ação do subvencionado. Não basta apenas o "animus" de subvencionar para investimento. Impõese, também, a efetiva e específica aplicação da subvenção, por parte do beneficiário, nos investimentos previstos na implantação ou expansão do empreendimento econômico projetado. Por outro lado, a simples Fl. 1209DF CARF MF 8 aplicação dos recursos decorrentes da subvenção em investimentos não autoriza a sua classificação como SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTO." Este mesmo diploma, ao tratar especificamente das isenções e reduções de impostos, observa que, "Tecnicamente, na linguagem orçamentária, a isenção ou redução de impostos jamais poderiam ser intituladas de subvenção.". E, mais adiante, ressalta: "o auxílio obtido pelo comprador com a isenção, evidenciado pelo não desembolso financeiro, integra o giro do negócio e dele dispõe o beneficiário como lhe aprouver. A rigor, sequer são SUBVENÇÕES as isenções desse tipo, representado efetivamente uma redução no custo do bem adquirido" (grifamos). O PN CST 112/1979 continua, ressaltando que, em alguns casos específicos, a redução ou isenção de impostos pode ser enquadrada como subvenção para investimento. Cita então alguns exemplos todos eles, destaquese, envolvendo a efetiva transferência de recursos ao beneficiário valendo destacar o seguinte: "Há, também, uma modalidade de redução do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias (ICM), utilizada por vários Estados da Federação como incentivo fiscal, que preenche todos os requisitos para ser considerada como SUBVENÇÃO PARA INVESTIMENTO. A mecânica do benefício fiscal consiste no depósito, em conta vinculada, de parte do ICM devido em cada mês. Os depósitos mensais, obedecidas as condições estabelecidas, retornam à empresa para serem aplicados na implantação ou expansão de empreendimento econômico." (grifamos) O próprio PN CST 112/1979 alerta para o risco das generalizações e para a importância do exame específico do benefício: "É oportuna a advertência para o risco de generalizar as conclusões do item anterior para todos os casos de retorno do ICM. O contribuinte deverá ter cuidado de examinar caso por caso e verificar se estão presentes, todos os requisitos exigidos. Um retorno de ICM, por exemplo, como prêmio ao incremento das vendas, em relação às de período anterior, acima de determinado percentual, não será uma subvenção para investimento." Daí a conclusão deste diploma de que "As ISENÇÕES ou REDUÇÕES de impostos só se classificam como subvenções para investimento, se presentes todas as características (...)". Ora, se é verdade que, estando presentes as características das subvenções para investimento, a isenção ou redução de impostos será considerada como tal, isso não autoriza concluir que, não estando presentes tais características, tratase de subvenção para custeio. Pode ser que não se trate de subvenção, como ocorre, por exemplo, quando o beneficiário não recebe quaisquer recursos do poder público. A distinção é importante em termos orçamentários porque, nos termos da Lei 4.320/1964, a transferência de recursos está na esfera da despesa pública e depende de dotação orçamentária. O crédito presumido de ICMS, por outro lado, não importa transferência de recursos, tratandose de benefício fiscal que não exige dotação orçamentária e que é caracterizado como renúncia de receita por parte do governo, nos exatos termos do artigo 14, §1o da Lei de Responsabilidade Fiscal LC 101/00 (grifamos): Art. 14. A concessão ou ampliação de incentivo ou benefício de natureza tributária da qual decorra renúncia de receita deverá estar acompanhada de estimativa do impacto orçamentáriofinanceiro no exercício em que deva iniciar sua vigência e nos dois seguintes, atender ao disposto na lei de diretrizes orçamentárias e a pelo menos uma das seguintes condições: (...) Fl. 1210DF CARF MF Processo nº 10280.723721/201379 Acórdão n.º 1401001.838 S1C4T1 Fl. 1.207 9 §1o A renúncia compreende anistia, remissão, subsídio, crédito presumido, concessão de isenção em caráter não geral, alteração de alíquota ou modificação de base de cálculo que implique redução discriminada de tributos ou contribuições, e outros benefícios que correspondam a tratamento diferenciado. Acontece que a legislação tributária tratou de forma equivalente, inclusive no mesmo dispositivo legal, tanto as subvenções para investimento em sentido estrito (i.e., transferências de recursos por parte do poder público revestidas das características mencionadas no PN CST 112/1979) quanto as reduções e isenções de tributos. O artigo 443 do RIR/99 por acaso denomina tanto as primeiras quanto as últimas de subvenções seriam, no caso, subvenções em sentido amplo, não técnico. Vejase: Art. 443. Não serão computadas na determinação do lucro real as subvenções para investimento, inclusive mediante isenção ou redução de impostos concedidas como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos, e as doações, feitas pelo Poder Público, desde que (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 38, § 2º, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso VIII): I registradas como reserva de capital que somente poderá ser utilizada para absorver prejuízos ou ser incorporada ao capital social, observado o disposto no art. 545 e seus parágrafos; ou II feitas em cumprimento de obrigação de garantir a exatidão do balanço do contribuinte e utilizadas para absorver superveniências passivas ou insuficiências ativas. Mas o fato de o art. 443 do RIR/99 ter dado o mesmo tratamento fiscal e ter denominado como "subvenção para investimento tanto" as subvenções em sentido estrito (i.e., transferências de recursos por parte do poder público revestidas das características mencionadas no PN CST 112/1979) quanto recursos que não são tecnicamente subvenções (i.e., as reduções e isenções e tributos) não faz com que estes últimos tenham que cumprir os requisitos impostos (e muitas vezes apenas possíveis) às primeiras. Isso poderia resultar em impor condição impossível ao contribuinte. Assim, no caso de isenções e reduções de tributos, o artigo 443 do RIR/99 é aplicável independentemente do preenchimento das condições previstas no Parecer Normativo do Coordenador do Sistema de Tributação CST 112/1979* aplicáveis exclusivamente às subvenções stricto sensu, ou seja, às transferências de recursos por parte do poder público (despesa pública): *quais sejam: (i) intenção do subvencionador de destinálas para investimentos; (ii) efetiva e específica aplicação da subvenção, pelo beneficiário, nos investimentos previstos na implantação ou expansão do empreendimento econômico projetado; e (iii) o beneficiário da subvenção ser a pessoa jurídica titular do empreendimento econômico. Vale notar que, de acordo com a contabilidade em vigor antes das modificações promovidas pela adoção dos padrões contábeis internacionais, a subvenção para investimento e as reduções e isenções de tributos (ou seja, as "subvenções em sentido amplo", nos termos do art. 443 do RIR/99) podiam ser contabilizadas de duas maneiras: a contrapartida do aumento do ativo ou redução do passivo podia ser registrada como receita, ou como reserva de capital. Fl. 1211DF CARF MF 10 No entanto, com as modificações providas pela Lei nº 11.638/2007 no artigo 182 da Lei nº 6.404/1976, a possibilidade de se contabilizar esse valor em conta de reserva de capital deixou de existir, fazendo com que o referido montante passasse a ser contabilizado apenas contra resultado. Porém, objetivando a manutenção do tratamento tributário anteriormente dispensado aos valores que eram contabilizados como reserva de capital, o artigo 18 da Lei nº 11.941/2009 estabeleceu que, após a apuração do lucro, os valores correspondentes às subvenções para investimento e às reduções e isenções de tributos seriam destinados à conta de reserva de incentivos fiscais, até o limite do lucro líquido do exercício. Logo, mesmo após a extinção da possibilidade de contabilização da subvenção para investimento e das reduções e isenções de tributos na conta de reserva de capital, ainda assim esses valores não compunham a base tributária do IRPJ e da CSLL, em conformidade com o supracitado artigo 18. Neste cenário não houve, salvo prova em contrário, qualquer desvio de destinação, que afrontasse a legislação pertinente. Por fim, há ainda de se ressaltar que a incidência do IRPJ e da CSLL aos créditos presumidos de ICMS consubstanciaria ilegítima inferência da União nos assuntos estaduais. Afinal, corresponderia esta conduta a apropriação parcial, pela primeira, do resultado financeiro da renúncia fiscal engendrada pelos Estados. Com tal comportamento só se pode anuir na específica situação da subvenção de custeio – que, por não ser distinta de qualquer outra receita disponibilizada ao suporte de despesas, jamais poderia ter tratamento tributário diferenciado dos demais rendimentos exacionáveis. O cenário tormentoso da guerra fiscal, é oportuno pisar, não precisa ser agravado pela intervenção federal. Só potencializaria a insegurança jurídica a possibilidade de o Fisco da União mitigar incentivos fiscais estaduais unilateralmente outorgados. O que ocorreria, por exemplo, se o contribuinte fosse obrigado a recolher o ICMS outrora exonerado, em derivação de decisão do Supremo Tribunal Federal que considerasse inconstitucional o benefício estadual? Estariam os cofres federais adstritos a devolver os indébitos de IRPJ e de CSLL computados sobre tais subvenções? De tudo o que se expôs, dessumemse as seguintes conclusões: i. As subvenções para investimento se diferenciam das subvenções de custeio, tão somente, na medida em que as primeiras são concedidas com o fito de estimular investimentos regionais ou setoriais, mediante instalação ou expansão – inclusive qualitativa – de empreendimentos econômicos; ii. Ao contrário do quanto aduzido pelo Parecer Normativo CST nº 112/78, a caracterização de benefício fiscal como subvenção para investimento não pressupõe a aplicação direta e exclusiva das cifras subvencionadas a projeto de investimento predeterminado; iii. Os créditos presumidos de ICMS em estudo, outorgados têm natureza clara de subvenção para investimento em seu sentido amplo. A previsão de incentivos de tal espécie, afinal, tem objetivo claro de promover a atração de investimentos para o Estado Fl. 1212DF CARF MF Processo nº 10280.723721/201379 Acórdão n.º 1401001.838 S1C4T1 Fl. 1.208 11 concessor. Irrelevante é a análise das contrapartidas compelidas ao contribuinte, postas como précondições à fruição da benesse. Acrescento que em relação a situação aqui versada, tratando do mesmo contexto envolvendo a Recorrente, porém em ano calendário anterior, há o Acórdão 1402001.277, proferido pela 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária em 04 de dezembro de 2012, que reconheceu a subvenção pleiteada com base nos seguintes fundamentos: "A recorrente esclareceu, ainda no curso do procedimento fiscal (fl. 22), que o benefício fiscal foi concedido por meio do Decreto nº 2.667/2006 do Governo do Estado do Pará (fl 134136), por sua vez originado do “Projeto de Redução de ICMS — Revisão e Prorrogação do Beneficio Fiscal” (fls. 93113). Em sua impugnação volta a repetir o argumento. O Decreto nº 2.667/2006 concedeu (à recorrente), por prazo de 8 anos e efeitos a partir de 18/12/2006, crédito presumido de 95%, calculado sobre o ICMS apurado, correspondente às saídas dos produtos fabricados no Estado do Pará pela empresa (art. 1º). Dos fatos trazidos pelas partes, podese concluir que o lançamento diz respeito à adição ao resultado dos créditos presumidos de ICMS recebidos pela recorrente no curso do ano calendário 2007, créditos concedidos por meio do Decreto Estadual nº 2.667/2006. O Ofício nº 613/2011GS/ SEDECT (fl. 137), a Secretaria de Estado de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia do Estado do Pará apresentou o pedido proposto pela recorrente para restabelecimento do crédito presumido de ICMS de 95% (fl. 138), baseado no“Projeto de Redução de ICMS — Revisão e Prorrogação do Beneficio Fiscal” (fls. 93113, 152226). O “Projeto de Redução de ICMS — Revisão e Prorrogação do Beneficio Fiscal” (fls. 93113) esteja vinculado ao benefício fiscal, ainda assim seria possível sua caracterização como subvenção para investimento. Explicase: O Projeto apresentado tinha por objetivo “melhorar o nível de eficiência operacional, através do aumento de produtividade” (fl. 80). Para atingir este objetivo a empresa se propôs: 1. Elevar, em seis anos, seu nível de produção de 920.000 hl/ano para 1.100.000 hl/ano (fls. 6162); 2. Destinar, ainda, 15% de sua capacidade instalada de envasamento para introduzir uma linha de produção que apresentasse maior lucratividade operacional (fl. 62); 3. Elevar, em seis anos, a mão de obra empregada na produção de 761 para 800 empregados (fl. 71); 4. Renovar parte do ativo imobilizado, depreciado pelo uso (fl. 80); Ao contrário do entendimento da decisão recorrida, podese sim concluir que o beneficio fiscal em questão tinha por finalidade a expansão do empreendimento econômico, e na melhora dos níveis de produtividade, daí se tratar de subvenção para investimento, conforme asseverado nos memoriais do contribuinte. (verbis). Fl. 1213DF CARF MF 12 “(... ) as subvenções recebidas do Estado do Pará através dos Decretos nº 507/2003 e 1.594/2005, além de devidamente fundamentadas no Interesse Público, foram concedidas com base em “Projeto de Redução de ICMS – Revisão e Prorrogação de Benefício Fiscal”, submetido pela Recorrente ao Estado visando a expansão no atendimento do mercado consumidor do Pará, tanto por meio do aumento de sua produtividade, como através de uma maior eficiência em produção e distribuição. Tais objetivos se encontravam em total consonância com a Lei nº 6.489/2002, que dispõe sobre a Política de Incentivos ao Desenvolvimento Sócio Econômico do Estado do Pará, regulamentada pelo Decreto 5.615/2002, a qual esclarece que os objetivos e fins pretendidos pelo Estado na concessão do benefício à Recorrente eram “(...) a consolidação, no Estado do Pará, de processo de desenvolvimento econômico moderno e competitivo (...)”, através de benefício ESPECÍFICO para as empresas que “promovam inovação tecnológica”, “modernização ou diversificação de empreendimentos ou de estabelecimentos já existentes e a aquisição de máquinas e equipamentos de geração mais moderna do que os já possuídos, operando no Estado”. Importante mencionar que através de Projeto aprovado pelo Estado do Pará no ano de 1999 a Recorrente modernizou seu parque fabril e no ano de 2003 apresentou o Projeto de Redução de ICMS – Revisão e Prorrogação de Benefício Fiscal, vez que o problema da empresa não era mais a modernização da fábrica, mas MELHORAR O NÍVEL DE EFICIÊNCIA OPERACIONAL ATRAVÉS DO AUMENTO DE PRODUTIVIDADE E, CONSEQUENTEMENTE, EXPANSÃO DO EMPREENDIMENTO ECONÔMICO. Isso significava ELEVAR SUA PRODUÇÃO, com o consequente AUMENTO DO NÍVEL DE UTILIZAÇÃO DE SUA CAPACIDADE INSTALADA, realizando INVESTIMENTOS ESPECIALMENTE EM VASILHAMES E EM SUA ESTRUTURA DE DISTRIBUIÇÃO ESPECIALMENTE EM VEÍCULOS, que permitiriam a venda e distribuição desta produção em um maior mercado consumidor, ocorrendo, desta forma, A EXPANSÃO DO EMPREENDIMENTO ECONÔMICO. Para tanto, previa: (i) um crescimento da mão de obra ao longo de 06 (seis) anos FLS. 33 DO PROJETO Quadro II.3 – Mão de Obra necessária a Produção Programada; (ii) a renovação de parte do ativo imobilizado depreciado pelo uso FLS. 42 DO PROJETO Quadro II.4 do Projeto – Imobilizações Fixas Existentes e Quadro II.5 do Projeto – Depreciação, amortização, manutenção e seguros do ativo imobilizado, o que dispensaria novas imobilizações fixas e (iii) a utilização integral de sua capacidade instalada, vez que operava com uma capacidade ociosa de 30% FLS. 23 DO PROJETO 2.5 – Programa Anual de Produção e Vendas. Com base em tais premissas, a utilização do benefício centrouse na aquisição e reposição de bens de direitos em operação, assim resumidas em comparação com as imobilizações fixas existentes no ano de 2003 (CONFORME FLS. 43 DO PROJETO): Fl. 1214DF CARF MF Processo nº 10280.723721/201379 Acórdão n.º 1401001.838 S1C4T1 Fl. 1.209 13 Veja, que OS INVESTIMENTOS REALIZADOS PELA RECORRENTE SOMENTE NO ANO DE 2007 QUASE SE EQUIVALERAM FINANCEIRAMENTE ÀS IMOBILIZAÇÕES FIXAS EXISTENTES NO ANO DE 2003. Destacase, ainda, que paralelamente aos investimentos realizados em “bens e direitos em operação”, a Impugnante manteve programa de investimentos em seu Imobilizado: bens e direitos em operações: R$ 11.940.295,19 e bens e direitos em andamento: R$ 1.445.332,06. Com efeito, levandose em conta o valor dos incentivos fiscais recebidos no ano de 2007 (R$ 19.043.515,55) em comparação com os investimentos realizados em “bens e direitos em operação” (quadro explicativo) e no seu “imobilizado” (acima destacados), concluise que OS INVESTIMENTOS QUASE SE IGUALARAM FINANCEIRAMENTE AOS INCENTIVOS RECEBIDOS DO ESTADO DO PARÁ, O QUE POR SI SÓ DEMONSTRA O COMPROMETIMENTO DA RECORRENTE COM O PROJETO APRESENTADO. Neste ponto, importante ressalvar que o fato dos investimentos no ano de 2007 não terem se igualado ou superado o incentivo recebido, em nada descaracteriza a subvenção de investimento, até mesmo porque nos anos anteriores estes investimentos foram maiores que os incentivos recebidos, conforme se verifica através dos documentos juntados no Processo Administrativo nº 10280.722993/200975. O aumento da produção através da compra de máquinas e equipamentos, com a utilização integral de sua capacidade instalada, juntamente com a compra de vasilhames para o envasamento da produção e a compra de novos veículos para a distribuição destas bebidas em um mercado consumidor maior, DEMONSTRAM QUE HOUVE SIM A EXPANSÃO DO EMPREENDIMENTO ECONÔMICO. Sendo assim, havendo a intenção do Estado do Pará em conceder recursos para investir na modernização, dinamização, diversificação e consolidação da indústria local, somado ao fato de ter a Recorrente aplicado, efetiva e especificamente, a subvenção nos investimentos previstos no Projeto de Redução de ICMS – Revisão e Prorrogação de Benefício Fiscal para a expansão do empreendimento econômico, inconteste o enquadramento dos valores por ela recebidos no ano de 2007 como SUBVENÇÃO DE INVESTIMENTO. Sublinhese que as subvenções recebidas pela Recorrente se encontram em consonância com o entendimento deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, assim como, com o que prescreve o §2º do artigo 38 do Decreto Lei 1.598/77 e artigo 443 do RIR/99, vez que houve a efetiva e específica aplicação da subvenção nos investimentos para a expansão do empreendimento econômico previstos no Projeto de Redução de ICMS. O que se constata da análise da decisão recorrida é que esta NÃO ANALISOU AS PROVAS ACOSTADAS AOS AUTOS, já que aduz que “o benefício fiscal em questão não tinha por finalidade a expansão do empreendimento econômico”, o que restou afastado no Recurso Voluntário e demonstrado acima. Além disso, IGNOROU O TEXTO DAS NORMAS EDITADAS PELO ESTADO DO PARÁ E TAMPOUCO ANALISOU O PROJETO DE INVESTIMENTOS DA RECORRIDA, não atentando para a intenção específica do Estado em subvencionar a modernização, o desenvolvimento e a consolidação da indústria local. (...)” (Os grifos são do original). Fl. 1215DF CARF MF 14 Uma vez comprovado que a contribuinte ao tempo que aumentou sua produção/produtividade; também realizou aquisições de ativos em valor acima das subvenções recebidas, consoante registrado no Balanço Contábil do ano de 2007 transcrito na DIPJ da empresa (fl. 519), há que se concluir que os valores foram mesmos destinados a investimentos". Por tais motivos, julgo improcedentes os lançamentos do IRPJ e da CSLL e, por se basearem na mesma infração, afasto também as multas isoladas por estimativas. Ainda em relação aos valores lançados à título de PIS e COFINS, observo que o crédito presumido do ICMS em questão não se qualifica como receita, mas como incentivo fiscal para a redução do ICMS devido, não compondo a base de cálculo daquelas contribuições. Neste sentido, segue o Acórdão 9303002.618, da 3a. Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, de Relatoria da Conselheira Maria Tereza Martinez Lopez, de 12 de novembro de 2013. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2005 INCENTIVO FISCAL. CRÉDITO FISCAL DO ICMS. BASE DE CÁLCULO. NÃO INCLUSÃO. Não compõe o faturamento ou receita bruta, para fins de tributação do PIS, o valor do incentivo fiscal concedido pelo Estado sob forma de crédito fiscal, para redução na apuração do ICMS devido. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 28/02/2004 a 31/12/2005 INCENTIVO FISCAL. CRÉDITO FISCAL DO ICMS. BASE DE CÁLCULO. NÃO INCLUSÃO. Não compõe o faturamento ou receita bruta, para fins de tributação da Cofins, o valor do incentivo fiscal concedido pelo Estado sob forma de crédito fiscal, para redução na apuração do ICMS devido. Recurso Especial do Procurador Negado. Acórdão no qual a D. Relatora faz as interessantes considerações: Receita não é todo e qualquer ingresso que a empresa tem. Assim, por exemplo, não se cogita que a integralização de capital social seja tributada pela COFINS, mesmo sendo um ingresso de valor para a empresa. Receita surge como decorrência direta da atividade fim desenvolvida pela empresa e, ainda, ter vinculação com o resultado desta atividade. Assim, voltase a afirmar, não é qualquer ingresso que constitui uma receita. [...] Fl. 1216DF CARF MF Processo nº 10280.723721/201379 Acórdão n.º 1401001.838 S1C4T1 Fl. 1.210 15 De se observar, a partir desta definição, a receita ainda traz consigo a característica de ser o produto que vem de fora do patrimônio empresarial, mas que é derivado de dentro, por decorrer de atos, operações ou atividades da empresa, ou do emprego de recursos que compõem esse patrimônio, e de que resulte algum benefício direto para a pessoa que o remunera por isso. Nesse seguir, oriento meu voto no sentido de excluir os valores dos incentivos estaduais concedidos sob a forma de crédito presumido do ICMS pelo Estado do Pará na área da SUDAN da base de incidência do PIS e da COFINS. Desta forma, o crédito presumido de ICMS outorgado à Recorrente consiste em redução de tributo que apenas pode ser considerado subvenção para investimento na acepção ampla deste termo, de acordo com art. 443, I do RIR/99. Neste sentido, não se exige a aplicação direta e exclusiva dos recursos subvencionados a projetos determinados, requisito aplicável apenas às subvenções para investimento em sentido estrito (despesa pública). De fato, tal requisito pode inclusive afigurar se na prática impossível no caso das reduções e isenções de tributo eis que, em não havendo a transferência de valores por parte do poder público, o beneficiário do incentivo não recebe recursos subvencionados passíveis de serem assim aplicados. LUCRO DA EXPLORAÇÃO O benefício fiscal de redução do IRPJ, fundamentado no artigo 1º da Medida Provisória nº 2.19914/ 2001, com as alterações promovidas pela Lei nº 11.196/2005, cuja expedição do laudo constitutivo do direito ocorreu após o ano calendário subsequente ao de início de operação do projeto beneficiado, tem termo inicial de fruição no ano calendário de expedição do laudo. No caso dos autos, temse demonstrado que o laudo foi expedido em 2010 com término previsto para 2019, ao passo que a Recorrente usufruiu dos benefícios em 2007, antes mesmo do laudo concessivo, razão pela qual, nego provimento ao recurso em relação a esse item. Diante do exposto, dou provimento parcial ao recurso voluntário. Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin Relatora Voto Vencedor Em que pese o voto da I. Conselheira, peço licença para dela divergir quanto à sua proposta de exoneração da tributação do PIS e da COFINS, incidentes sobre o crédito presumido de ICMS. Percebo que a relatora parte de premissa distinta, da que me sirvo pra formar minha convicção quanto à tributação das subvenções originadas a partir de crédito presumido de ICMS. Repito trecho de seu voto quanto ao entendimento esposado pela relatora: Fl. 1217DF CARF MF 16 Ainda em relação aos valores lançados à título de PIS e COFINS, observo que o crédito presumido do ICMS em questão não se qualifica como receita, mas como incentivo fiscal para a redução do ICMS devido, não compondo a base de cálculo daquelas contribuições. Não obstante entendimento da I. relatora, parto de premissa distinta, pois entendo que o crédito presumido de ICMS corresponde a subvenção que, por sua vez, tem natureza de receita (operacional ou não operacional). Pois bem. Conforme consignado na Solução de Divergência nº 15/2003, o crédito presumido de ICMS tem natureza de subvenção, pois corresponde a “um auxílio que não importa em qualquer exigibilidade para o seu recebedor, ou seja, o patrimônio da empresa beneficiária é enriquecido com recursos vindos de fora sem que isto importe na assunção de uma dívida ou obrigação”. De acordo com o Pronunciamento Conceitual Básico (R1) Estrutura Conceitual para Elaboração e Divulgação de Relatório ContábilFinanceiro, aprovado pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis – CPC, em seu item 4.25 do Capítulo 4, os elementos de receita são definidos como “aumentos nos benefícios econômicos durante o período contábil, sob a forma da entrada de recursos ou do aumento de ativos ou diminuição de passivos, que resultam em aumentos do patrimônio líquido, e que não estejam relacionados com a contribuição dos detentores dos instrumentos patrimoniais”. Da conjugação das normas acima, concluo que as subvenções têm natureza de receita, independentemente de sua classificações em custeio ou investimento. Em continuidade, verifico que a recorrente se sujeitou ao regime não cumulativo do PIS e da COFINS, em razão da apuração do IRPJ pelo lucro real. Sendo assim, deve seguir regramento contido no caput, no § 1º e no § 2º do art. 1º da Lei 10.637/2002 (Pis) e 10.833/2003 (Cofins) para apuração das referidas contribuições: Lei nº 10.637/2002 Art. 1º A contribuição para o PIS/Pasep tem como fato gerador o faturamento mensal, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil § 1º Para efeito do disposto neste artigo, o total das receitas compreende a receita bruta da venda de bens e serviços nas operações em conta própria ou alheia e todas as demais receitas auferidas pela pessoa jurídica. § 2º A base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep é o valor do faturamento, conforme definido no caput. Lei nº 10.833/2003 Art. 1º A Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS, com a incidência nãocumulativa, tem como fato gerador o faturamento mensal, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil. Fl. 1218DF CARF MF Processo nº 10280.723721/201379 Acórdão n.º 1401001.838 S1C4T1 Fl. 1.211 17 § 1º Para efeito do disposto neste artigo, o total das receitas compreende a receita bruta da venda de bens e serviços nas operações em conta própria ou alheia e todas as demais receitas auferidas pela pessoa jurídica. § 2º A base de cálculo da contribuição é o valor do faturamento, conforme definido no caput. Conforme apresentado no item 15 da Solução de Divergência COSIT nº 15, de 1º de setembro de 2003, “As subvenções têm natureza de receitas e são, de ordinário, tributáveis, tanto que foram classificadas pela legislação do Imposto de Renda como ‘Outros Resultados Operacionais’, na modalidade subvenção corrente para custeio ou operação (art. 335 do RIR, de 1994 ou art. 392 do RIR, de 1999), ou como ‘Resultados não Operacionais’, na modalidade subvenção para investimento, de que trata o art. 391 do RIR, de 1994 ou art. 443 do RIR, de 1999. Para que a receita não seja tributada pelo PIS e pela COFINS, deve a lei permitir sua exclusão da base das contribuições. Os §§ 3º, dos arts. 1º, das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/2003, respectivamente, com as redações vigentes à época dos fatos, relacionaram as receitas excluídas das bases de cálculo das contribuições: Lei 10.637/2002 § 3o Não integram a base de cálculo a que se refere este artigo, as receitas: I decorrentes de saídas isentas da contribuição ou sujeitas à alíquota zero; II (VETADO) III auferidas pela pessoa jurídica revendedora, na revenda de mercadorias em relação às quais a contribuição seja exigida da empresa vendedora, na condição de substituta tributária; IV de venda de álcool para fins carburantes; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) (Vide Medida Provisória nº 413, de 2008) (Revogado pela Lei nº 11.727, de 2008). V referentes a: a) vendas canceladas e aos descontos incondicionais concedidos; b) reversões de provisões e recuperações de créditos baixados como perda, que não representem ingresso de novas receitas, o resultado positivo da avaliação de investimentos pelo valor do patrimônio líquido e os lucros e dividendos derivados de investimentos avaliados pelo custo de aquisição, que tenham sido computados como receita. VI – não operacionais, decorrentes da venda de ativo imobilizado (Incluído pela Lei nº 10.684, de 30.5.2003). VII decorrentes de transferência onerosa a outros contribuintes do Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Fl. 1219DF CARF MF 18 Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação ICMS de créditos de ICMS originados de operações de exportação, conforme o disposto no inciso II do § 1º do art. 25 da Lei Complementar nº 87, de 13 de setembro de 1996. (Incluído pela Medida Provisória nº 451, de 2008). (Incluído pela Lei nº 11.945 de 2009). Lei nº 10.833/2003 § 3o Não integram a base de cálculo a que se refere este artigo as receitas: I isentas ou não alcançadas pela incidência da contribuição ou sujeitas à alíquota 0 (zero); II nãooperacionais, decorrentes da venda de ativo permanente; III auferidas pela pessoa jurídica revendedora, na revenda de mercadorias em relação às quais a contribuição seja exigida da empresa vendedora, na condição de substituta tributária; IV de venda de álcool para fins carburantes; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) (Vide Medida Provisória nº 413, de 2008) (Revogado pela Lei nº 11.727, de 2008). V referentes a: a) vendas canceladas e aos descontos incondicionais concedidos; b) reversões de provisões e recuperações de créditos baixados como perda que não representem ingresso de novas receitas, o resultado positivo da avaliação de investimentos pelo valor do patrimônio líquido e os lucros e dividendos derivados de investimentos avaliados pelo custo de aquisição que tenham sido computados como receita. VI decorrentes de transferência onerosa a outros contribuintes do Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação ICMS de créditos de ICMS originados de operações de exportação, conforme o disposto no inciso II do § 1o do art. 25 da Lei Complementar no 87, de 13 de setembro de 1996. (Incluído pela Medida Provisória nº 451, de 2008). (Incluído pela Lei nº 11.945 de 2009). Como a citada receita de crédito presumido de ICMS não está dentre aquelas reconhecidas nos dispositivos legais acima, restou configurada sua tributação em relação à Contribuição para o Pis e à COFINS. Conclusão Fl. 1220DF CARF MF Processo nº 10280.723721/201379 Acórdão n.º 1401001.838 S1C4T1 Fl. 1.212 19 Por todo o exposto, voto no sentido de NEGAR provimento ao recurso voluntário no que se refere ao pedido de exoneração do PIS e da COFINS referentes à subvenção decorrente de crédito presumido de ICMS. Em relação aos demais aspectos, a decisão se deu conforme o voto da I. Relatora. É como voto! (assinado digitalmente) Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa Fl. 1221DF CARF MF
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