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Numero do processo: 10166.721268/2014-53
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 28 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon May 06 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2011
CERCEAMENTO DE DEFESA INEXISTÊNCIA Não ocorre cerceamento de defesa quando consta na autuação a clara descrição dos fatos e circunstâncias que o embasaram, respaldados nos enquadramentos legais que, no entendimento da autoridade fiscal ensejariam as glosas das despesas declaradas e do imposto suplementar apurado.
IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. DEDUÇÃO. PENSÃO ALIMENTÍCIA JUDICIAL. FILHOS MAIORES DE 24 ANOS.
A pensão alimentícia judicial é dedutível na apuração do imposto de renda devido, quando restar comprovado seu efetivo pagamento, como também o atendimento das normas do Direito de Família, em virtude do cumprimento de decisão judicial, acordo homologado judicialmente ou, a partir de 28 de março de 2008, da escritura pública a que se refere a Lei nº 5.869, de 1973, art. 1.124-A.
O fundamento da obrigação alimentar muda com a maioridade civil do alimentando, deslocando-se do "dever de sustento" próprio do poder de família para o dever de solidariedade resultante do parentesco, quando os filhos maiores provam não estarem em condições de prover a respectiva subsistência ou, se até os 24 anos de idade, frequentarem curso técnico ou de graduação universitária (Lei nº 10.406, de 2002, arts. 5º, caput e § único, incisos I a V; 1.565; 1.566, inciso IV; 1.630; 1.631, caput; 1.632; 1.634, inciso I; 1.635, inciso III; 1.694, caput e § 1º; 1.695; 1.703; e 1.708, caput e § único).
Mantém-se a glosa da despesa de pensão alimentícia judicial que o contribuinte não comprova ter cumprido os requisitos exigidos para a respectiva dedutibilidade.
Numero da decisão: 2003-000.031
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, por maioria, em negar provimento, vencido o conselheiro Wilderson Botto (relator), que lhe deu provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Francisco Ibiapino Luz.
Sheila Aires Cartaxo Gomes - Presidente.
Wilderson Botto - Relator
Francisco Ibiapino Luz - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Sheila Aires Cartaxo Gomes (Presidente), Wilderson Botto e Francisco Ibiapino Luz
Nome do relator: WILDERSON BOTTO
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IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. DEDUÇÃO. PENSÃO ALIMENTÍCIA JUDICIAL. FILHOS MAIORES DE 24 ANOS. A pensão alimentícia judicial é dedutível na apuração do imposto de renda devido, quando restar comprovado seu efetivo pagamento, como também o atendimento das normas do Direito de Família, em virtude do cumprimento de decisão judicial, acordo homologado judicialmente ou, a partir de 28 de março de 2008, da escritura pública a que se refere a Lei nº 5.869, de 1973, art. 1.124A. O fundamento da obrigação alimentar muda com a maioridade civil do alimentando, deslocandose do "dever de sustento" próprio do poder de família para o “dever de solidariedade” resultante do parentesco, quando os filhos maiores provam não estarem em condições de prover a respectiva subsistência ou, se até os 24 anos de idade, frequentarem curso técnico ou de graduação universitária (Lei nº 10.406, de 2002, arts. 5º, caput e § único, incisos I a V; 1.565; 1.566, inciso IV; 1.630; 1.631, caput; 1.632; 1.634, inciso I; 1.635, inciso III; 1.694, caput e § 1º; 1.695; 1.703; e 1.708, caput e § único). Mantémse a glosa da despesa de pensão alimentícia judicial que o contribuinte não comprova ter cumprido os requisitos exigidos para a respectiva dedutibilidade. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 72 12 68 /2 01 4- 53 Fl. 111DF CARF MF 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, por maioria, em negar provimento, vencido o conselheiro Wilderson Botto (relator), que lhe deu provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Francisco Ibiapino Luz. Sheila Aires Cartaxo Gomes Presidente. Wilderson Botto Relator Francisco Ibiapino Luz Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Sheila Aires Cartaxo Gomes (Presidente), Wilderson Botto e Francisco Ibiapino Luz Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra o acórdão nº 1677.189 da 19ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo (SP) DRJ/SPO (fls. 53/61), que julgou improcedente impugnação apresentada pelo contribuinte em face da lavratura da Notificação de Lançamento IRPF objeto do presente feito, mantendose incólume e o crédito tributário exigido, conforme ementa abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2011 GLOSA DE DEDUÇÃO DE PENSÃO ALIMENTÍCIA. REGRAS DO DIREITO DE FAMÍLIA. MAIORIDADE. CONSUMAÇÃO. LIBERALIDADE. CONSENTIMENTO TÁCITO. O poder familiar extinguese com a maioridade. A legislação tributária não autoriza a dedução de pensão alimentícia a filho maior e capaz se a sentença judicial fundamentada, exarada na época da menoridade não determinou expressamente a manutenção do pagamento após a maioridade do alimentando. Interpretase literalmente a lei que outorga isenção. Inteligência do Artigo 111 do CTN, Artigo 1566, IV; 1590; 1630; e 1635, III do Código Civil. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A decisão de primeira instância assim contextualizou a notificação de lançamento e os fatos envolvidos (fls. 54), cujas infrações apuradas referemse a deduções indevidas de pensão alimentícia e despesas médicas: Tratase de notificação de lançamento de fls. 21/27, relativa ao exercício 2011, ano calendário 2012, no valor total de 20.753,31 consolidado em 03/02/2014. De acordo com a descrição dos fatos, o contribuinte incorreu em dedução indevida de pensão alimentícia judicial no valor de R$ 48.888,92 por ausência de previsão legal. Nesse montante, Fl. 112DF CARF MF Processo nº 10166.721268/201453 Acórdão n.º 2003000.031 S2C0T3 Fl. 112 3 está incluída a parcela referente ao 13º pagos acumuladamente que são de tributação exclusiva. A autoridade administrava aduz às fls. 23, que: “A pensão alimentícia estende aos filhos maiores de 21 anos (até 24 anos) se universitários ou quando comprovada a incapacidade física ou mental para o trabalho. Portanto, foram glosadas as deduções com pensões alimentícias relativas a LARISSE GOMES DA COSTA CASTRO (data de nascimento 14/05/1983, ou seja, 27 anos no ano calendário 2010) – valor glosado: 40.356,10.” Também foi efetuada glosa de dedução indevida de despesas médicas no valor de R$ 180,00 por se tratar de despesa com vacina. A ciência ocorreu em 10/02/2014, fls. 47. Cientificado, o contribuinte apresentou impugnação parcial tempestiva (fls. 3/20), deixando de se insurgir contra as glosas (i) de rendimentos sujeitos à tributação exclusiva na fonte referente ao 13º salário, indevidamente lançados como pensão alimentícia no valor de R$ 8.8532,82, e (ii) da despesa médica no valor de R$ 180,00 (despesas com vacinas), a qual foi julgada improcedente (fls. 53/61), conforme se depreende da ementa alhures transcrita. O contribuinte, devidamente intimado por AR da decisão proferida (17/05/2017) (fls. 67), apresentou (em 29/05/0217) Recurso Voluntário (Fls. 71/108), alegando em síntese: (i) em sede de preliminar, a ocorrência de parcial cerceamento de defesa, diante da ausência de enquadramento legal específico na notificação de lançamento estabelecendo a vedação à dedução da pensão alimentícia da espécie dos autos; e (ii) no mérito, insurgiu contra as deduções glosadas, repisando as alegações da impugnação, em relação à pensão alimentícia paga à sua filha/alimentanda Larisse Gomes da Costa Castro, por força de acordo judicial homologado nos autos da ação de Separação Consensual nº 58.743/95, que tramitou perante a 3ª Vara de Família de Brasília (DF). Instruiu a peça recursal, dentre outros, com os seguintes documentos: (i) peças processuais extraídas da ação judicial nº 58.743/95 (fls. 81/92); (ii) Informe de rendimentos fornecidos pela fonte pagadora (fls. 93); (iii) Escritura Pública de Doação da Nua Propriedade de Imóvel com Reserva de Usufruto (fls. 100/101); (vi) Declaração de Ajuste Anual 2011/2012 (fls. 95/99); e (v) Declaração de Informações Socioeconômicas e Fiscais/DEFIS 2015/2016 (fls. 102/107), declarações estas da filha/alimentada Larissa Gomes da Costa Castro. Este recurso compôs lote sorteado para este relator em Sessão Pública. É o relatório. Voto Vencido Wilderson Botto Relator Fl. 113DF CARF MF 4 O recurso é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, razões por que dele conheço e passo à sua análise. DA PRELIMINAR Alega o Recorrente que os dispositivos legais norteadores do enquadramento legal da autuação, contidos na notificação de lançamento não estabelecem nenhuma vedação à dedução com pensão alimentícia a filho que atingiu a maioridade, de modo que não pôde se defender de forma cabal, restando cerceado parcialmente o seu direito de defesa. Contudo, razão não lhe assiste. Da leitura da autuação podese claramente apurar que a notificação fiscal expedida está amparada nos fatos descritos e nos fundamentos que, no entender da autoridade fiscal, ensejaram as glosas das despesas declaradas e a apuração do imposto devido, tudo norteado com a indicação dos dispositivos legais motivadores do lançamento (fls. 21/28). Contém, ainda, o lançamento realizado, a clara descrição do fato gerador da obrigação, da matéria tributável, do montante do tributo devido, da identificação da autoridade competente, do sujeito passivo, dos dispositivos legais que lhe deram suporte e da penalidade aplicável, de maneira a oportunizar ao contribuinte o pleno exercício do seu consagrado direito de defesa e contraditório, sob pena de nulidade. Não se pode olvidar também que a ação fiscal foi conduzida e revisada por servidor competente, gerando a autuação motivada, cujo resultado foi cientificado ao contribuinte, sendo concedido o prazo legal para apresentação de defesa. Assim, do ponto de vista procedimental, a fiscalização transcorreu dentro da restrita legalidade inexistindo qualquer inobservância ao direito de defesa que, digase de passagem, em detrimento das alegações deduzidas, foi exercida com regularidade, importando em afirmar que não houve nenhum prejuízo para o direito de defesa e do contraditório do recorrente, ser exercidos a tempo e modo. Por outro giro, a ação fiscal que originou o lançamento, constituise procedimento de natureza indeclinável para o agente fiscal, dado o caráter obrigatório e vinculante que se reveste a atividade administrativa do lançamento, nos termos do art. 142, parágrafo único do CTN (Lei nº 5.172/66), que assim dispõe: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Por tais razões, é de se concluir que o lançamento procedido, mantido incólume pela decisão recorrida, apresentase formalmente incensurável, portanto essencialmente pleno. Nada obstante, cabe ressaltar, por pertinente, que a matéria aqui suscitada – suposta vedação à dedução da pensão alimentícia paga a filhos maiores de 21 anos – se confunde com as alegações de mérito e com ele serão apreciadas oportunamente. Fl. 114DF CARF MF Processo nº 10166.721268/201453 Acórdão n.º 2003000.031 S2C0T3 Fl. 113 5 Portanto, rejeito a preliminar suscitada, por ausência de cerceamento de defesa. MÉRITO 1 Da glosa da despesa com pensão alimentícia: O Recorrente deduziu o valor de R$ 40.356,10 relativo a despesas com pensão alimentícia pagas a sua filha/alimentada Larissa Gomes da Costa Castro (fls. 23). A DRJ/SPO, por sua vez, entendeu que a dedução foi indevida, pois o Recorrente não comprovou, nem nos autos e nem na fase fiscalizatória, estar a alimentanda em comento, maior de 24 anos, de fato impossibilitada de prover a própria mantença ou incapacitada para o trabalho, tratandose, os pagamentos de pensão alimentícia realizados, de mera liberalidade, não se sujeitando aos critérios de dedutibilidade da legislação do imposto de renda, ainda que decorrentes de decisão judicial e cabalmente comprovados nos autos (fls. 53/61). Neste ponto, vale transcrever o bem fundamentado voto vencedor trazido Acórdão nº 2201003.406, proferido nos autos Processo nº 13014.720475/201501, cujas razões de decidir perfilho – e que se amolda ao caso concreto – onde a ilustre Conselheira Redatora designada, Dione Jesabel Wasilewski, com clareza e percuciência assim manifestou suas convicções: “Presto minha homenagem à percuciente construção feita pelo relator em seu voto, contudo não concordo com os seus termos e conclusões. Este voto trata da possibilidade de dedução de pensão alimentícia paga a filho com mais de 21 anos e que não comprove curso em faculdade ou ensino técnico superior ou impossibilidade para trabalho ou para prover a própria mantença. As atividades legislativa e executiva são expressões do poder político do Estado, a primeira responsável pela edição de normas de caráter geral e abstrato que inovam na ordem jurídica e a segunda, vocacionada a resolver os casos concretos de acordo coma ordem jurídica vigente. Mesmo o poder regulamentar conferido ao executivo deve ser exercido dentro dos estreitos limites impostos pelas leis, sendo pacífico o entendimento de que ele não é autorizado, sob pena de se configurar invasão de competência, a extrapolar essas fronteiras criando regras inovadoras. Se o poder regulamentar está contido pela rigidez desses contornos, que se dirá da atividade da Administração Pública, já definida como aquela a quem compete aplicar a lei de ofício. Fl. 115DF CARF MF 6 Na hipótese em questão, a norma que confere ao contribuinte o direito à dedução da pensão alimentícia da base de cálculo do imposto de renda tem a seguinte redação (Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995): Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: f) às importâncias pagas a título de pensão alimentícia em face das normas do Direito de Família, quando em cumprimento de decisão judicial, inclusive a prestação de alimentos provisionais, de acordo homologado judicialmente, ou de escritura pública a que se refere o art. 1.124A da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil; (...) Essas regras são diferentes daquelas relativas à dedução dos filhos como dependentes. Para cada uma dessas situações, dedução como dependente ou dedução de pensão alimentícia, existem condições legais próprias a serem atendidas, que expressam verdadeiros ônus para os contribuintes, mas são também expressões de direitos a serem respeitados pela Administração. Ao estender as regras criadas textualmente para as situações de dependência para as de dedução da pensão alimentícia, a Administração onera os contribuintes nesta situação de forma que extrapola os limites impostos pela investigação sintática (literalidade). E este é o critério fixado pelo Código Tributário Nacional como o adequado para a interpretação das normas dessa natureza (Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, art. 111), que tanto serve para limitar o exercício do direito, como para definir o ônus imposto como condição para ele. Ou seja, a literalidade da norma tanto serve para impedir a extensão, como a redução do seu significado. É certo que o CTN autoriza o emprego da analogia quando houver ausência de disposição expressa" (art. 108, I), ressalvando que, do emprego da analogia, não poderá resultar na exigência de tributo não previsto em lei (art. 108, § 1º). Mas, ao se indagar sobre a possibilidade de integração da norma, por analogia, no caso concreto em análise, não é possível superar nem o primeiro obstáculo estabelecido pelo CTN, pois, indubitavelmente, há norma específica regulando a matéria. Fl. 116DF CARF MF Processo nº 10166.721268/201453 Acórdão n.º 2003000.031 S2C0T3 Fl. 114 7 A meu ver, criar condições que não podem ser extraídas do texto legal significar inovar no ordenamento jurídico, e inovar no ordenamento jurídico é legislar sobre direito tributário, atividade estranha à esfera de competência desse órgão. Isso não quer dizer que a administração está fadada a admitir as deduções a título de pensão alimentícia sem qualquer valoração do caso concreto. Pelo contrário, há um espaço a ser preenchido na verificação da adequação do caso concreto ao preceito geral e abstrato. Assim, para que haja o direito à dedução não basta, por exemplo, que haja um acordo homologado judicialmente. É necessário investigar quais foram as condições estabelecidas como pressupostos para sua validade e se essas condições ainda se mantém (aplicação da cláusula rebus sic stantibus). De forma que, se a pensão foi justificada pelo estado de desemprego involuntário, ou pelo fato do filho estar se dedicando à formação acadêmica, ou pelo casal estar separado de fato, ou por doença do beneficiário da pensão ou de seu filho/cônjuge a exigir atenção integral daquele, pode ser feita a verificação da continuidade dessas condições como pressuposto de eficácia do acordo ou da sentença. A fiscalização também pode e deve conferir se há efetivamente pagamento da pensão. Para tanto, é necessário que haja prova da transferência dos recursos e que estes foram integrados de forma definitiva ao patrimônio do beneficiário. Não comprovado pagamento, não há direito à dedução. A verificação do atendimento dessas condições deve ser feita pela fiscalização e caso constate a existência de irregularidade, ela deve estar suficientemente escrita no auto de infração, com a demonstração dos seus elementos de fato e de direito. Se o lançamento não aponta esses elementos, faltalhe fundamentação. Na hipótese em questão, o auto utilizou como fundamento para glosa da dedução com pensão judicial (fls 34) o não atendimento aos critérios estabelecidos para dedução de dependente. Esse critério não é idôneo para fundamentar essa glosa e outro não pode ser manejado nessa sede recursal sob pena de cerceamento do direito de defesa. Fl. 117DF CARF MF 8 Dessa forma, com todo respeito àqueles que pensam de maneira diferente, entendo que, em relação à dedução da pensão alimentícia, a atividade fiscal está limitada a verificar: a existência do acordo/sentença/escritura pública; se seus pressupostos de validade continuam a existir (condições expressamente fixadas em seu texto) e se houve efetivo pagamento. Se as normas existentes não forem boas o suficiente para regular as situações concretas da vida, especialmente considerando as grandes mudanças verificadas nas últimas décadas em relação à organização e funcionamento familiar, o caminho a ser trilhado é provocar o debate em sociedade e a criação, via legislativa, de regras mais adequadas aos fins visados pelo Estado. Em vista do exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário, reformando a decisão recorrida e restabelecendo o direito à dedução da pensão alimentícia no valor de R$ 9.682,53.” (grifos e destaques nossos) Assim, não se pode olvidar que acordão recorrido buscou suprir o que o lançamento realizado, de fato, deveria ter feito, ou seja, fundamentar a glosa e investigar a situação vivenciada pela beneficiária da pensão Larisse Gomes da Costa Castro. E isso deveria constar do lançamento, o que não ocorreu. A par dos fatos, restou incontroverso que não foram solicitados os esclarecimentos necessários acerca da condição vivenciada pela alimentada, cuja informações eram necessárias à condução dos trabalhos fiscais, optando, o Fisco, em escorar a indedutibilidade das pensões alimentícias pagas pelo Recorrente, sob o fundamento de que ocorreu a glosa dos valores “por falta de comprovação, ou por falta de previsão legal para sua dedução” uma vez que “a pensão alimentícia judicial estende aos filhos de 21 anos (até 24 anos) se universitários ou quando comprovada a incapacidade física ou mental para o trabalho”, conforme se depreende da “Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal” da autuação recorrida De sorte que, ancorado na legislação de regência, é permitido ao contribuinte deduzir do imposto de renda os valores pagos a título de pensão alimentícia, quando em cumprimento de determinação judicial ou acordo homologado em juízo. Por outro giro, diante dos documentos carreados aos autos, me convenço que a alimentada, de fato, não auferia recursos outros para prover o seu sustento, além da pensão alimentícia que recebe do Recorrente, cujo valor recebido oferece a tributação (Declaração de Ajuste Anual de 2011/2012 fls. 95/99). Também não possui bens imóveis livres, haja vista que figura apenas como “nu proprietária” e em condomínio com seu irmão José Lucas Gomes da Costa Castro, de um imóvel residencial recebido em doação também do Recorrente (Escritura Pública de Doação da Nua Propriedade de Imóvel com Reserva de Usufruto fls. 100/101), não auferindo qualquer rendimento advindo do imóvel. Fl. 118DF CARF MF Processo nº 10166.721268/201453 Acórdão n.º 2003000.031 S2C0T3 Fl. 115 9 Anotese, por fim, que a microempresa por ela constituída, denominada Lari Castro Comercio de Vestuário Ltda – ME, está inoperante, e permaneceu durante o ano de 2016 sem efetuar qualquer atividade operacional, não operacional, financeira ou patrimonial (DEFIS 2016/2017 fls. 102/107). Destarte, após detida análise dos autos, reconheço que restaram atendidos os requisitos para dedutibilidade dos valores pagos à título de pensão alimentícia, razão pela qual afasto a glosa efetuada. CONCLUSÃO Em razão do exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário, para rejeitar a preliminar de cerceamento de defesa, e no mérito DARLHE PROVIMENTO, nos termos do voto em epígrafe, a fim que seja restabelecida a dedução de pensão alimentícia, no valor de R$ 40.356,10, responsabilidades estas atribuídas por força de acordo homologado judicialmente, glosadas da base de cálculo do imposto de renda, anocalendário 2010, exercício 2011. Wilderson Botto – Relator Voto Vencedor Conselheiro Francisco Ibiapino Luz Peço especial vênia ao nobre relator para discordar da inferência de que "não foram solicitados os esclarecimentos necessários acerca da condição vivenciada pela alimentada, cuja informações eram necessárias à condução dos trabalhos fiscais", como também da conclusão, embora concordando com a tese paradigmática do eminente voto. Como se há verificar, a presente análise tratará de indagações acerca das circunstâncias em que o pagamento de pensão alimentícia a filho maior de idade estará resguardado pelas normas do Direito de família, condição necessária para a dedutibilidade pretendida pelo Recorrente. Nessa perspectiva, verificando a jurisprudência deste Conselho sobre reportado assunto, constatamos haver três suposições postas como respostas possíveis para a problemática suscitada, as quais guiarão as diretrizes do diagnóstico que se busca realizar. Assim entendido, o escopo do presente estudo está a compreender aquilo que efetivamente diz reportada norma tributária, como se passa o que alí está dito e de que modo a situação fática a ela se subsume. A primeira hipótese, representada pelo Acórdão nº 2201003.406 da 1º Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção do CARF, em síntese, infere: A administração não dispõe de competência para estender as regras da dedução com dependente às de pensão alimentícia, estando a atividade fiscal limitada a certificar se do efetivo pagamento e do cumprimento das normas do Direito de família. Eis as evidências que sustentam patenteada inferência: Fl. 119DF CARF MF 10 1. a administração pública deverá aplicar a lei de ofício, sendolhe vedado exceder aos limites por ela impostos, porquanto legislar sobre direito tributário se traduz atividade estranha à sua esfera de competência; 2. a Lei impõe regras próprias e distintas para a dedutibilidade de dependente e pensão alimentícia, cujo ônus atribuído ao contribuinte também implica direitos que lhes deve ser respeitados pela administração pública; 3. ao estender as regras da dedução com dependente para a de pensão alimentícia, a administração onera os contribuintes, por ultrapassar os limites legais impostos, contexto vedado pelo art. 111 do CTN, já que a legalidade ali imposta tanto serve para limitar direitos do contribuinte, como para definir o ônus a ele imposto pela administração; 4. a administração deverá valorar a adequação do caso concreto ao preceito legal abstrato, aí se incluindo as motivações por que referida pensão foi concedida. A exemplo: formação acadêmica, desemprego involuntário, incapacidade laborativa, etc. Por conseguinte, a atividade fiscal está limitada a verificar: a existência do acordo/sentença/escritura pública; se seus pressupostos de validade continuam a existir (condições expressamente fixadas em seu texto) e se houve o efetivo pagamento. A segunda hipótese, representada pelo Acórdão nº 9202007.117 da 2ª Turma da CSRF do CARF, em síntese, afirma: Enquanto não cancelada judicialmente, a despesa com pensão alimentícia concedida dentro das normas do Direito de família é dedutível, independentemente da idade atingida pelo alimentando. Eis suas evidências de origem: 1. no Direito de família, a pensão alimentícia se conforma com a necessidade do alimentando e a possibilidade do alimentante, definidas caso a caso, independentemente da idade de seu beneficiário; 2. ainda que afastadas as causas justificadoras de sua concessão, a pensão alimentícia deverá continuar sendo paga até a respectiva exoneração judicial Súmula 209 (sic) do STJ; 3. não havendo limite de idade para o Direito Civil, não há que se exigila para fins de dedução tributária. Portanto não se deve confundir limite de idade para fins da relação de dependência no imposto de renda com aquele destinado à concessão de pensão alimentícia. A terceira hipótese, representada pelo Acórdão nº 2401005.793 da 1º Turma Ordinária da 4ª Câmara da 2ª Seção do CARF, em síntese, sustenta: A pensão alimentícia concedida conforme normas do Direito de família, assim como o abatimento com dependentes estão vinculadas à concepção de dependência econômica, motivo por que a dedução da primeira está condicionada à observância das regras de dedutibilidades da segunda, ainda que vigente o comando judicial. Eis as evidências de sua gênese: Fl. 120DF CARF MF Processo nº 10166.721268/201453 Acórdão n.º 2003000.031 S2C0T3 Fl. 116 11 1. mencionada dedução não está condicionada apenas ao decidido ou ratificado judicialmente, já que afasta a interpretação isolada do dispositivo legal; 2. a lei tributária pressupõe a prestação de alimentos como sendo obrigação alimentar decorrente do poder familiar ou derivado da relação de parentesco ou conjugal; 3. a conferência do cumprimento de requisitos estipulados na legislação tributária para a dedução da pensão alimentícia não implica negação de validade do decidido ou acordado judicialmente. Oportuno registrar que a acepção do enfrentamento das reportadas questões se dará apenas em tese, não sendo os respectivo casos concretos abordados, porquanto alheios ao escopo do presente estudo. Dessa forma definida, entendemos razoável sistematizar a pensão alimentícia sob os seguintes horizontes: 1. da legislação tributária Lei nº 9.250, de 1995, arts. 4º, inciso III; 8º, inciso II, alíneas "a", "b", "c" e "f", §§ 2º, inciso II, e 3º, e 35, caput; e Decreto nº 3.000, de 1999, art. 78, §§ 4º e 5º (vigente até 22/11/2018, quando foi revogado pelo Decreto nº 9.580, de 2018); 2. do Direito Civil Lei nº 10.406, de 2002, arts. 5º, caput; 1.565; 1.566, inciso IV; 1.694, caput; 1.695 e 1.708, caput e § único. Pensão alimentícia na perspectiva da legislação tributária Posta assim a questão, confirase o ordenamento presente na Lei nº 9.250, de 1995, arts. 4º, inciso III; 8º, inciso II, alíneas "a", "b", "c" e "f", §§ 2º, inciso II, e 3º, e 35, caput: Art. 4º. Na determinação da base de cálculo sujeita à incidência mensal do imposto de renda poderão ser deduzidas: [...] III a quantia, por dependente, de: [...] Art. 8º A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: [...] II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados [...] a médicos [...]; b) pagamentos de despesas com instrução [...]; c) à quantia, por dependente, de: [...] Fl. 121DF CARF MF 12 f) às importâncias pagas a título de pensão alimentícia em face das normas do Direito de Família, quando em cumprimento de decisão judicial, inclusive a prestação de alimentos provisionais, de acordo homologado judicialmente, ou de escritura pública a que se refere o art. 1.124A da Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973 Código de Processo Civil; [...] § 2º O disposto na alínea a do inciso II: [...] II restringese aos pagamentos efetuados pelo contribuinte, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes; [...] § 3o As despesas médicas e de educação dos alimentandos, quando realizadas pelo alimentante em virtude de cumprimento de decisão judicial, de acordo homologado judicialmente ou de escritura pública a que se refere o art. 1.124A da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 Código de Processo Civil, poderão ser deduzidas pelo alimentante na determinação da base de cálculo do imposto de renda na declaração, observado, no caso de despesas de educação, o limite previsto na alínea b do inciso II do caput deste artigo. (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008) Art. 35. Para efeito do disposto nos arts. 4º, inciso III, e 8º, inciso II, alínea c, poderão ser considerados como dependentes [...]. (grifo nosso) Registrese, ainda, que o Decreto nº 3.000, de 1999, art. 78, §§ 4º e 5º vigente até 22/11/2018, quando foi revogado pelo Decreto nº 9.580, de 2018 ao regular o mandamento legal presente no § 3º acima disposto, esclarece: Art. 78. Na determinação [...], poderá ser deduzida a importância paga a título de pensão alimentícia [...]. [...] § 4º Não são dedutíveis da base de cálculo mensal as importâncias pagas a título de despesas médicas e de educação dos alimentandos, quando realizadas pelo alimentante em virtude de cumprimento de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, § 3º). § 5º As despesas referidas no parágrafo anterior poderão ser deduzidas pelo alimentante na determinação da base de cálculo do imposto de renda na declaração anual, a título de despesa médica (art. 80) ou despesa com educação (art. 81) (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, § 3º). Consoante interpretação literal do ordenamento legal acima, a dedutibilidade atinente à pensão alimentícia judicial na apuração do imposto de renda devido terá de acatar tão somente os seguintes requisitos: 1. a comprovação do efetivo pagamento da obrigação (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea "f"); Fl. 122DF CARF MF Processo nº 10166.721268/201453 Acórdão n.º 2003000.031 S2C0T3 Fl. 117 13 2. a comprovação do atendimento das normas do Direito de Família, em virtude do cumprimento de decisão judicial, acordo homologado judicialmente ou, a partir de 28 de março de 2008, da escritura pública a que se refere a Lei nº 5.869, de 1973, art. 1.124A (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea "f"); 3. as quantias pagas a título de despesa médica e de educação dos alimentandos, quando em virtude de decisão judicial ou acordo homologado judicialmente, podem ser dedutíveis desde que em suas respectivas "rubricas", obedecido o limite legal anual desta última, e não como pensão alimentícia propriamente (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, § 3º). Nessa concepção, plausível evidenciar as 03 (três) rubricas distintas apropriadas para a declaração das deduções com alimentando, quais sejam: 1. "pensão alimentícia judicial", destinada para declaração do pagamento da obrigação de alimento propriamente (art. 8º, inciso II, alínea "f"); 2 "despesa médica", destinada para a declaração do pagamento dos dispêndios a tal título, em cumprimento das normas do Direito de família (art. 8º, inciso II, § 3º); 3. "despesa com educação", destinada para a declaração do pagamento dos dispêndios dessa designação, em cumprimento das normas do Direito de família (art. 8º, inciso II, § 3º). Conforme se depreende do até então exposto, aludida ordem legal somente vai além do objeto da presente análise pensão alimentícia exclusivamente quanto às despesas médica e com educação de alimentando (art. 8º, § 3º). Nesse panorama, remete tais deduções para os preceitos dispostos nas alíneas "a" e "b" do apontado art. 8º, II, respectivamente, quedando silente quanto à alínea "c" desse mesmo artigo, que trata da dedução com dependentes. Ademais, de igual modo, não se observa qualquer referência direta ao art. 35 da citada matriz legal, o qual define quem poderá ser dependente para fins de dedutibilidade do imposto devido. A par disso, é forçoso crer ser razoável interpretação sistêmica que pretenda condicionar a dedutibilidade de pensão alimentícia ao cumprimento das regras destinadas àquela com dependentes, porque inexistente correlação entre uma e a outra. Afinal, o comando funcional ali presente art. 8º inciso II, alínea "f", § 3º assim o quis, já que extremamente preciso ao remeter a disciplina da primeira ao cumprimento das normas do Direito de família, excepcionando apenas as condicionantes para a dedutibilidade das despesas médica e de instrução com alimentando. Como visto, a vinculação da dedução de pensão alimentícia ao atendimento das condições de dependência não está estabelecida no supracitado art. 8º, inciso II, alínea "f", o qual preserva sua autonomia normativa. Assim sendo, embora pareça que ela ali está parcialmente prevista, via § 3º, a isso fazendo referência indireta, crível se interpretar tratarse do pagamento de despesas médica e com educação de alimentando, e não da dedução de dependente. Logo, a referência indireta apontada mediante especificado parágrafo (§ 3º) sujeita pretendidas dedutibilidades somente à obrigatoriedade de serem declaradas em suas próprias rubricas, como também ser respeitado o limite anual da despesa com instrução própria ou de dependente. Fl. 123DF CARF MF 14 Pensão alimentícia na perspectiva do Direito Civil Assimilado o que efetivamente disse citada norma tributária, oportuno trazer a configuração que a Lei nº 10.406, de 2002, arts. 5º, caput e § único, incisos I a V; 1.565; 1.566, inciso IV; 1.630; 1.631, caput; 1.632; 1.634, inciso I; 1.635, inciso III; 1.694, caput e § 1º; 1.695; 1.703; e 1.708, caput e § único; dá ao referenciado assunto. Nestes termos: Art. 5o A menoridade cessa aos dezoito anos completos, quando a pessoa fica habilitada à prática de todos os atos da vida civil. (grifo nosso) Parágrafo único. Cessará, para os menores, a incapacidade: I pela concessão dos pais, ou de um deles na falta do outro, mediante instrumento público, independentemente de homologação judicial, ou por sentença do juiz, ouvido o tutor, se o menor tiver dezesseis anos completos; II pelo casamento; III pelo exercício de emprego público efetivo; IV pela colação de grau em curso de ensino superior; V pelo estabelecimento civil ou comercial, ou pela existência de relação de emprego, desde que, em função deles, o menor com dezesseis anos completos tenha economia própria. Art. 1.565. Pelo casamento, homem e mulher assumem mutuamente a condição de consortes, companheiros e responsáveis pelos encargos da família. (grifo nosso) Art. 1.566. São deveres de ambos os cônjuges: [...] IV sustento, guarda e educação dos filhos; (grifo nosso) Art. 1.630. Os filhos estão sujeitos ao poder familiar, enquanto menores. (grifo nosso) Art. 1.631. Durante o casamento e a união estável, compete o poder familiar aos pais; na falta ou impedimento de um deles, o outro o exercerá com exclusividade. (grifo nosso) Art. 1.632. A separação judicial, o divórcio e a dissolução da união estável não alteram as relações entre pais e filhos senão quanto ao direito, que aos primeiros cabe, de terem em sua companhia os segundos. (grifo nosso) Art. 1.634. Compete a ambos os pais, qualquer que seja a sua situação conjugal, o pleno exercício do poder familiar, que consiste em, quanto aos filhos: I dirigirlhes a criação e a educação; (grifo nosso) Art. 1.635. Extinguese o poder familiar: [...] III pela maioridade; (grifo nosso) Fl. 124DF CARF MF Processo nº 10166.721268/201453 Acórdão n.º 2003000.031 S2C0T3 Fl. 118 15 Art. 1.694. Podem os parentes, os cônjuges ou companheiros pedir uns aos outros os alimentos de que necessitem para viver de modo compatível com a sua condição social, inclusive para atender às necessidades de sua educação. § 1o Os alimentos devem ser fixados na proporção das necessidades do reclamante e dos recursos da pessoa obrigada. (grifo nosso) Art. 1.695. São devidos os alimentos quando quem os pretende não tem bens suficientes, nem pode prover, pelo seu trabalho, à própria mantença, e aquele, de quem se reclamam, pode fornecê los, sem desfalque do necessário ao seu sustento. (grifo nosso) Art. 1.703. Para a manutenção dos filhos, os cônjuges separados judicialmente contribuirão na proporção de seus recursos. Art. 1.708. Com o casamento, a união estável ou o concubinato do credor, cessa o dever de prestar alimentos. Parágrafo único. Com relação ao credor cessa, também, o direito a alimentos, se tiver procedimento indigno em relação ao devedor. (grifo nosso) Igualmente relevante, seguem excertos da Lei nº 5.478, de 1968, que dispõe sobre a ação de alimentos: Art. 15. A decisão judicial sobre alimentos não transita em julgado e pode a qualquer tempo ser revista, em face da modificação da situação financeira dos interessados. Art. 21. O art. 244 do Código Penal passa a vigorar com a seguinte redação: "Art. 244. Deixar, sem justa causa, de prover a subsistência do cônjuge, ou de filho menor de 18 anos ou inapto para o trabalho ou de ascendente inválido ou valetudinário, não lhes proporcionando os recursos necessários ou faltando ao pagamento de pensão alimentícia judicialmente acordada, fixada ou majorada; deixar, sem justa causa, de socorrer descendente ou ascendente gravemente enfermo: Pena Detenção de 1 (um) ano a 4 (quatro) anos [...]; Art. 27. Aplicamse supletivamente nos processos regulados por esta lei as disposições do Código de Processo Civil. Preliminarmente, como se há verificar, a solução do imbróglio está em saber até onde o pagamento de pensão alimentícia resulta do cumprimento da obrigação de alimentos, e não de liberalidade do alimentante. Aquela, dedutível na apuração do imposto devido, porque decorrente do atendimento das normas do Direito de Família, em virtude do cumprimento de decisão judicial, acordo homologado judicialmente ou escritura pública referida na Lei nº 5.869, de 1973; esta, indedutível, por falta de previsão legal. Fl. 125DF CARF MF 16 Nessa ótica, apropriome do entendimento exarado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), responsável por uniformizar a interpretação da lei federal, solucionando definitivamente os litígios civis e criminais, exceto quando a contenda envolva matéria constitucional ou da justiça especializada. Confirase: CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE ALIMENTOS. LITISCONSÓRCIO PASSIVO NECESSÁRIO. EXISTÊNCIA. CURSO SUPERIOR CONCLUÍDO. REALIZAÇÃO DE PÓS GRADUAÇÃO. NECESSIDADE/POSSIBILIDADE. Os alimentos devidos em razão do poder familiar ou do parentesco, são instituídos, sempre, intuitu personae, para atender os ditames do art. 1.694 do Código Civil que exige a verificação da necessidade de cada alimentado e a possibilidade do alimentante, razão pela qual, quando fixados globalmente, ainda assim, consistem em obrigações divisíveis, com a presunção salvo estipulação da sentença em sentido contrário que as dívidas são iguais, 2. O advento da maioridade não extingue, de forma automática, o direito à percepção de alimentos, mas esses deixam de ser devidos em face do Poder Familiar e passam a ter fundamento nas relações de parentesco, em que se exige a prova da necessidade do alimentado. 3. O estímulo à qualificação profissional dos filhos não pode ser imposto aos pais de forma perene, sob pena de subverter o instituto da obrigação alimentar oriunda das relações de parentesco, que tem por objetivo, tão só, preservar as condições mínimas de sobrevida do alimentado. 4. Em rigor, a formação profissional se completa com a graduação, que, de regra, permite ao bacharel o exercício da profissão para a qual se graduou, independentemente de posterior especialização, podendo assim, em tese, prover o próprio sustento, circunstância que afasta, por si só, a presunção iuris tantum de necessidade do filho estudante. 5. Persistem, a partir de então, as relações de parentesco, que ainda possibilitam a percepção de alimentos, tanto de descendentes quanto de ascendentes, porém desde que haja prova de efetiva necessidade do alimentado. 6. Recurso especial não provido. (STJ Recurso Especial nº 1505079/MG (2015/00015001), 3ª Turma do STJ, Rel. Nancy Andrighi, 13.12.2016, unânime, DJe 01.02.2017) (grifo nosso) RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVIL. FAMÍLIA. ALIMENTOS. MAIORIDADE. SÚMULA Nº 358/STJ. NECESSIDADE. PROVA. CONTRADITÓRIO. 1. O advento da maioridade não extingue, de forma automática, o direito à percepção de alimentos, os quais passam a ter fundamento nas relações de parentesco, em que se exige a prova da necessidade do alimentado, que não foi produzida no caso concreto. 2. Incumbe ao interessado, já maior de idade, nos próprios autos e com amplo contraditório, a comprovação de que não consegue prover a própria subsistência sem os alimentos ou, ainda, que frequenta curso técnico ou universitário. 3. Recurso especial parcialmente conhecido e nesta parte provido para determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem. (STJ REsp 1587280 / RS Recurso Especial 2014/03329230, 3ª Turma do STJ, Rel. Ricardo Vilas Bôas Cuevas, 05.05.2016, unânime, DJe 13.05.2016) (grifo nosso) Fl. 126DF CARF MF Processo nº 10166.721268/201453 Acórdão n.º 2003000.031 S2C0T3 Fl. 119 17 PROCESSUAL CIVIL. CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE ALIMENTOS. CURSO SUPERIOR CONCLUÍDO. NECESSIDADE. REALIZAÇÃO DE PÓSGRADUAÇÃO. POSSIBILIDADE. 1. O advento da maioridade não extingue, de forma automática, o direito à percepção de alimentos, mas esses deixam de ser devidos em face do Poder Familiar e passam a ter fundamento nas relações de parentesco, em que se exige a prova da necessidade do alimentado. 2. É presumível, no entanto, presunção iuris tantum , a necessidade dos filhos de continuarem a receber alimentos após a maioridade, quando frequentam curso universitário ou técnico, por força do entendimento de que a obrigação parental de cuidar dos filhos inclui a outorga de adequada formação profissional. 3. Porém, o estímulo à qualificação profissional dos filhos não pode ser imposto aos pais de forma perene, sob pena de subverter o instituto da obrigação alimentar oriunda das relações de parentesco, que tem por objetivo, tão só, preservar as condições mínimas de sobrevida do alimentado. 4. Em rigor, a formação profissional se completa com a graduação, que, de regra, permite ao bacharel o exercício da profissão para a qual se graduou, independentemente de posterior especialização, podendo assim, em tese, prover o próprio sustento, circunstância que afasta, por si só, a presunção iuris tantum de necessidade do filho estudante. 5. Persistem, a partir de então, as relações de parentesco, que ainda possibilitam a percepção de alimentos, tanto de descendentes quanto de ascendentes, porém desde que haja prova de efetiva necessidade do alimentado. 6. Recurso especial provido. (STJ Recurso Especial nº 1218510/SP (2010/01846617), 3ª Turma do STJ, Rel. Nancy Andrighi, 27.09.2011, unânime, DJe 03.10.2011) (grifo nosso) AGRAVO REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE EXONERAÇÃO DE ALIMENTOS. MAIORIDADE. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA NECESSIDADE. REVISÃO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 7/STJ. AGRAVO IMPROVIDO. 1. Nos termos da jurisprudência desta Corte, em se tratando de filho maior, a pensão alimentícia é devida pelo seu genitor em caso de comprovada necessidade ou quando houver frequência em curso universitário ou técnico, por força do entendimento de que a obrigação parental de cuidar dos filhos inclui a outorga de adequada formação profissional. Porém, é ônus do alimentado a comprovação de que permanece tendo necessidade de receber alimentos. Precedentes. 2. Agravo regimental a que se nega provimento. (STJ AgRg nos EDcl no AREsp 791322 / SP. AGRAVO REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL 2015/02473118 , Terceira Turma do STJ, Relator Marco Aurélio Bellizze, 19/05/2016, unânime, DJe 01/06/2016) (grifo nosso) Súmula 358 O cancelamento de pensão alimentícia de filho que atingiu a maioridade está sujeito à decisão judicial, mediante contraditório, ainda que nos próprios autos. (Súmula 358, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 13/08/2008, DJe 08/09/2008, REPDJe 24/09/2008) Fl. 127DF CARF MF 18 AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. DIVÓRCIO. ALIMENTOS. FILHA MAIOR DE IDADE. LEGITIMIDADE ATIVA. PEDIDOS. CUMULAÇÃO. POSSIBILIDADE. SÚMULA Nº 568/STJ. ART. 538 DO CPC/1973. MULTA. CABIMENTO. 1. Recurso especial interposto contra acórdão publicado na vigência do Código de Processo Civil de 1973 (Enunciados Administrativos nºs 2 e 3/STJ).2. A filha maior de idade tem legitimidade ativa para postular alimentos do seu genitor.3. A obrigação alimentar do pai em relação aos filhos não cessa automaticamente com o advento da maioridade, a partir da qual subsiste o dever de assistência fundada no parentesco sanguíneo, devendo ser dada a oportunidade ao alimentando de comprovar a impossibilidade de prover a própria subsistência ou a necessidade da pensão por frequentar curso técnico ou universitário. Precedentes.4. [...]. 6. Agravo interno não provido. (STJ AgInt no Agravo em Recurso Especial Nº 970.461 RS (2016/02205013), 3ª Turma do STJ, Rel. Ricardo Vilas Bôas Cuevaghi. j. 27.02.2018, unânime, DJe 08.03.2018) (grifo nosso) Oportuno ressaltar que a doutrina não diverge do STJ, conforme se pode verificar nos excertos transcritos na sequência, da lavra de Maria Berenice Dias e de Flávio Tartuce. Confirmase: Flávio Tartuce Manual de Direito Civil, 2015: No caso de menores, a obrigação alimentar é extinta quando atingem a maioridade. Entretanto, por questão de justiça, essa extinção não ocorre de forma automática, sendo necessária uma ação de exoneração. (grifo nosso) Maria Berenice Dias Manual de Direito das Famílias, 2015: Distingue a doutrina obrigação alimentar do dever de sustento, que se vincula ao poder familiar e diz respeito ao filho menor de idade (CC 1.566 III e 1.568). Uma vez cessado o poder familiar, pela maioridade ou emancipação, termina o ciclo do dever de sustento e começa o vínculo da obrigação alimentar. Dita mudança de natureza, no entanto, não enseja o fim da obrigação, que precisa ser desconstituída judicialmente. No entanto, para persistir o encargo, indispensável a prova da necessidade do credor. [...] Enquanto o filho se encontra sob o poder familiar, o pai não lhe deve alimentos, o dever é de sustento. Tratase de obrigação com assento constitucional (CF 229): os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores. Esses são os deveres inerentes ao poder familiar (CC 1.634 e ECA 22): sustento, guarda e educação. Entre sustento e alimentos há considerável diferença. A obrigação de sustento é imposta a ambos os pais. Tratase de obrigação de fazer que não possui relação com a guarda. Normalmente a obrigação alimentar é imposta ao não guardião [...]. Fl. 128DF CARF MF Processo nº 10166.721268/201453 Acórdão n.º 2003000.031 S2C0T3 Fl. 120 19 O encargo de prestar alimentos é obrigação de dar, representada pela prestação de certo valor em dinheiro. Os alimentos estão submetidos a controles de extensão, conteúdo e forma de prestação. Fundamentalmente, achamse condicionados pelas necessidades de quem os recebe e pelas possibilidades de quem os presta (CC 1.694, § 1º). Enquanto os filhos são menores, a presunção de necessidade é absoluta, ou seja, juris et de jure. Tanto é assim que, mesmo não requeridos alimentos provisórios, deve o juiz fixálos (LA 4º). O adimplemento da capacidade civil, aos 18 anos (CC 5º), ainda que enseje o fim do poder familiar, não leva à extinção automática do encargo alimentar. Após a maioridade é presumível a necessidade dos filhos de continuarem a perceber alimentos. No entanto, a presunção passa a ser juris tantum, enquanto os filhos estiverem estudando, pois compete aos pais o dever de assegurar lhes educação (CC 1.694). Posta assim a questão, consoante os preceitos transcritos anteriormente, sintetizase, abaixo, o modo como se apresentam as normas do Direito de família, para as quais a legislação tributária remeteu a disciplina da pensão alimentícia dedutível: 1. o casamento, a união estável ou o concubinato do alimentando, como também seu comportamento indigno em relação ao alimentante são as únicas hipóteses previstas em lei de supressão automática do pagamento da pensão alimentícia. Logo, nas demais circunstâncias, manifestada cessação estará condicionada, obrigatoriamente, à prévia ponderação entre a necessidade do alimentando e a possibilidade do alimentante (art. 1.708, caput e § único); 2. há duas categorias autônomas de obrigação alimentar a que estão sujeitos os pais em relação aos filhos, independentemente da situação conjugal estabelecida, quais sejam: (a) a suportada na obrigação legal de exercício do poder familiar atinente aos filhos menores de idade, aí se incluindo o dever de sustento, guarda e educação (arts. 1.565; 1.566, inciso IV; 1.630; 1.631, caput; 1.632; 1.634, inciso I e 1.703); (b) a padecida no dever de solidariedade entre parentes, que a lei impõe aos pais, no sentido de prestarem assistência aos filhos maiores de idade que ainda careçam da ajuda para sobreviver (arts. 1.694, caput e § 1º, e 1.695); 3. citadas obrigações têm naturezas distintas, pois enquanto a fundamentada no "dever de sustento" dos filhos menores de idade carrega em si a presunção da necessidade dos alimentos em virtude da incapacidade civil do alimentando; aquela assentada no "dever solidário" do parentesco demanda prévia prova de sua efetiva necessidade por parte do suposto necessitado; 4. a maioridade do alimentando cessa o poder familiar, implicando extinção da causa justificadora do dever obrigacional de sustento, mas o cancelamento de reportada imposição carece de decisão judicial, mediante contraditório (STJ, Súmula nº 358); Fl. 129DF CARF MF 20 5. afastada a causa da obrigação de sustento pela maioridade do credor da pensão, cabe ao seu devedor peticionar mencionado cancelamento em ação exoneratória autônoma ou incidentalmente nos próprios autos onde foram convencionados os alimentos; 6. o devedor da pensão tem o direito de optar por não provocar o judiciário em face da maioridade civil do filho que completou 18 (dezoito) anos de idade, caracterizando se como sendo decorrentes de mera liberalidade os pagamentos efetivados dali em diante. Afinal, quem decide acerca do binômio "necessidade" x "possibilidades" é o juiz, ainda que se trate do maior com até 24 (vinte e quatro) anos frequentando curso técnico ou graduação universitária; 7. entendese como prova suficiente para afastar citada liberalidade a comprovação do pedido exoneratório, em ação autônoma ou nos próprios autos, onde o encargo foi fixado, enquanto o magistrado não decidir a questão; 8. a jurisprudência e a doutrina se alinham no sentido de que o filho maior com até 24 (vinte e quatro) anos de idade tem direito à assistência baseada no dever de solidariedade entre parentes, desde que prove a impossibilidade de prover a própria subsistência ou a necessidade da pensão por frequentar curso técnico ou de graduação universitária; 9. dita pensão no dever de solidariedade entre parentes não alcança o capaz com 25 (vinte e cinco) anos ou mais de idade, como também aquele maior com até 24 (vinte e quatro) anos, já graduado, mas cursando pósgraduação; 10. autorizada judicialmente a continuidade do pagamento de pensão alimentícia ao credor maior de idade por impossibilidade de prover a própria subsistência ou porque frequentando curso técnico ou de graduação universitária muda o fundamento da obrigação alimentar, que deixa de ser decorrente do “dever de sustento” (arts. 1.565 e 1.566, inciso IV); e passa a ter como base o “dever de solidariedade” resultante do parentesco (arts. 1.694, caput e § 1º, e 1.695); 11. na dedutibilidade de pensão alimentícia paga a filho maior de idade, quando a autoridade fiscal intima o contribuinte a comprovar o cumprimento das normas do Direito de família, estar se exigindo a validação do encargo decorrente do dever de solidariedade entre parentes, e não no de sustento, já afastado com a maioridade civil. A título de exemplo, intimação supostamente expedida em 2014 exigindo a comprovação de pensão declarada em 2010, época em que o credor já tinha atingido a maioridade, referese ao decidido ou acordado a partir de análise do binômio "necessidade x possibilidade" por parte do magistrado em face de petição exoneratória do alimentante, nada se referindo ao dever de sustento próprio do filho menor. Admitida a compreensão dada pelo Direito de família à presente questão, quanto às hipóteses representativas dos entendimentos dados ao assunto neste Conselho, com todas as vênias que possam nos dar os ilustres julgadores que pensaram diferente, inferimos por discordar das teses apontadas nas segunda e terceira proposições. Nestes termos: 1. Contrapondo a tese da segunda hipótese, temse: Fl. 130DF CARF MF Processo nº 10166.721268/201453 Acórdão n.º 2003000.031 S2C0T3 Fl. 121 21 (a) a restrição para a dedutibilidade se apresenta perante a natureza da pensão concedida (no dever de sustento ou de solidariedade entre parentes), e não sobre o pagamento em si, pois este ocorre por mera liberalidade do alimentante, quando o filho atinge a maioridade civil e o devedor opta por não peticionar judicialmente anunciada exoneração; (b) somente existe pensão alimentícia de duas naturezas, a fixada no dever de sustento do menor cuja necessidade é legalmente presumida e aquela decorrente do dever de solidariedade entre parentes em que a determinação é precedida de ponderação do binômio "necessidade" x "possibilidade" por parte do juiz. A primeira não se transmudando automaticamente para a segunda, porquanto dependente de petição exoneratória do alimentante. Logo, afastados os dois contextos, um pelo alcance da maioridade do credor (pensão no dever de sustento); o outro pela ausência de provocação judicial para a ponderação do já citado binômio (pensão no dever de solidariedade entre parentes), para a legislação tributária, nada mais ocorreu, senão pagamento continuado por mera liberalidade do devedor; (c) há, sim, limite de idade para o pagamento de pensão alimentícia no Direito Civil, definido pelo atingimento da maioridade do filho que completa 18 anos (dever de sustento). Contudo, a jurisprudência do STJ tem acatado a extensão do citado encargo até o limite de 24 (vinte e quatro) anos, excepcionalmente no caso do credor frequentar curso técnico ou de graduação universitária. Esta não mais no dever de sustento, em que a necessidade é presumida, mas, sim, no dever de solidariedade se provada ser necessária; 2. Contrapondo a tese da terceira hipótese, temse: (a) o eixo conceitual presente no art. 8º da Lei nº 9.250, de 1995, por si só já afasta o condicionamento da dedução de pensão alimentícia ao cumprimento dos preceitos específicos na relação de dependência; (b) considerando que a definição legal deve abranger o todo definido e tão somente ele, como correlacionar pensão alimentícia com relação de dependência, se a própria Lei assim não se pronunciou; (c) pensar de modo diverso implicaria considerar perfeito o lançamento fiscal com enquadramento legal de pensão alimentícia deduzida indevidamente (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea "f") e descrição dos fatos apontando descumprimento das regras de dependência, cujo enquadramento legal está na alínea "c" dos mesmos artigo e inciso. Visto o que efetivamente disse a norma tributária e como se dá o que lá foi dito, oportuno o entendimento do modo como a situação fática se subsume aos preceitos legalmente estabelecidos. Nesse mister, conforme se observa na Notificação e Lançamento (fls. 23), a glosa discutida na presente lide está fundamentada na falta de atendimentos das normas do Direito de família, porquanto a sentença judicial apresentada, datada de 09/04/1996, tratava de obrigação alimentar prestada no dever de sustento à alimentanda menor de idade Larisse Gomes da Costa Castro, já com 27 anos na data do fato gerador da reportada autuação (ano calendário de 2010). Fl. 131DF CARF MF 22 A esse respeito, entendemos que a "investigação" transcorreu dentro do modo esperado, pois, consoante já se mencionou, na dedutibilidade de pensão alimentícia paga a filho maior de idade, quando a autoridade fiscal intima o contribuinte a comprovar o cumprimento das normas do Direito de família, estar se exigindo a validação do encargo decorrente do dever de solidariedade entre parentes, e não no de sustento, já afastado com a maioridade civil. Por conseguinte, no caso, o Recorrente teria de ter apresentado nova decisão judicial ou acordo homologado judicialmente, decorrente de parametrização do binômio "necessidade" da filha maior de idade versos "possibilidade" do alimentante, o que não existe nos autos. Conclusão Ante o exposto, conheço do presente Recurso, rejeito a preliminar nele suscitada e, no mérito, NEGOLHE provimento, restando mantida a glosa de pensão alimentícia judicial no valor de R$ 40.356,10. Francisco Ibiapino Luz Redator designado Fl. 132DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10660.901009/2009-66
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu May 09 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed May 29 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2005
COMPENSAÇÃO. INDÉBITO DE ESTIMATIVA. SÚMULA CARF Nº 84.
É possível a caracterização de indébito, para fins de restituição ou compensação, na data do recolhimento de estimativa, nos termos da Súmula CARF nº 84.
Superado o óbice preliminar que fundamentou a negativa de homologação da compensação pretendida, faz-se necessário o retorno dos autos à unidade de jurisdição da contribuinte para verificação, através de despacho decisório complementar, da existência, suficiência e disponibilidade do crédito.
Numero da decisão: 9101-004.177
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, com retorno dos autos à Unidade de Origem.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo - Presidente
(assinado digitalmente)
Viviane Vidal Wagner - Relatora
Participaram do presente julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Fabiano Alves Penteado, Viviane Vidal Wagner, Lívia De Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva (suplente convocado) e Adriana Gomes Rêgo (Presidente). Ausente o conselheiro Demetrius Nichele Macei, substituído pelo conselheiro Daniel Ribeiro Silva.
Nome do relator: VIVIANE VIDAL WAGNER
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, com retorno dos autos à Unidade de Origem. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo - Presidente (assinado digitalmente) Viviane Vidal Wagner - Relatora Participaram do presente julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Fabiano Alves Penteado, Viviane Vidal Wagner, Lívia De Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva (suplente convocado) e Adriana Gomes Rêgo (Presidente). Ausente o conselheiro Demetrius Nichele Macei, substituído pelo conselheiro Daniel Ribeiro Silva.
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INDÉBITO DE ESTIMATIVA Recorrente PASTIFICIO SANTA AMALIA S/A Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2005 COMPENSAÇÃO. INDÉBITO DE ESTIMATIVA. SÚMULA CARF Nº 84. É possível a caracterização de indébito, para fins de restituição ou compensação, na data do recolhimento de estimativa, nos termos da Súmula CARF nº 84. Superado o óbice preliminar que fundamentou a negativa de homologação da compensação pretendida, fazse necessário o retorno dos autos à unidade de jurisdição da contribuinte para verificação, através de despacho decisório complementar, da existência, suficiência e disponibilidade do crédito. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento, com retorno dos autos à Unidade de Origem. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente (assinado digitalmente) Viviane Vidal Wagner Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 66 0. 90 10 09 /2 00 9- 66 Fl. 431DF CARF MF Processo nº 10660.901009/200966 Acórdão n.º 9101004.177 CSRFT1 Fl. 432 2 Participaram do presente julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Fabiano Alves Penteado, Viviane Vidal Wagner, Lívia De Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva (suplente convocado) e Adriana Gomes Rêgo (Presidente). Ausente o conselheiro Demetrius Nichele Macei, substituído pelo conselheiro Daniel Ribeiro Silva. Relatório PASTIFICIO SANTA AMALIA S/A recorre a este Colegiado, por meio de recurso especial de divergência, em face de decisão que restou assim ementada: Acórdão nº 140200.719, DE 29/09/2011 ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2005 MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL (MPF). INEXIGIBILIDADE.O MPF não é exigível em análise de Dcomp, só o sendo quando se tratar de ação fiscal. ESTIMATIVA IRPJ. COMPENSAÇÃO. O pagamento efetuado a título de estimativa de IRPJ não pode ser objeto de compensação antes do final do anocalendário, devendo ser usado para dedução da contribuição anual devida ou na composição do saldo negativo de recolhimentos do período, a ser utilizado a partir de janeiro do anocalendário seguinte. [...] Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Dos autos se extrai que a unidade de origem desconsiderou o crédito informado no PER/DCOMP por tratarse de pagamento a titulo de estimativa mensal de pessoa Jurídica tributada pelo lucro real, caso em que o recolhimento somente pode ser utilizado na dedução do Imposto de Renda da Pessoa Juridica (IRPJ) ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) devida ao final do período de apuração ou para compor o saldo negativo de IRPJ ou CSLL do período (despacho decisório às fls.31 do vol.1). Esse entendimento foi confirmado pela decisão de primeira instância (fls.86 e ss. do vol.1). Inconformado, o contribuinte apresentou recurso voluntário ao CARF e o colegiado a quo decidiu, por unanimidade de votos, negarlhe provimento, por também entender que somente haveria a possibilidade de compensação de indébitos de estimativa ao final do exercício. Cientificado desse acórdão, o contribuinte, tempestivamente, apresentou Recurso Especial à Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF (efls.152213) suscitando dissenso jurisprudencial em relação aos seguintes acórdãos paradigmas, assim ementados: Fl. 432DF CARF MF Processo nº 10660.901009/200966 Acórdão n.º 9101004.177 CSRFT1 Fl. 433 3 Acórdão nº 180100.489, de 22.02.2011: RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. ADMISSIBILIDADE. Somente são dedutíveis do IRPJ apurado no ajuste anual as estimativas pagas em conformidade com a lei. O pagamento a maior de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento e, com o acréscimo de juros à taxa SELIC, acumulados a partir do mês subseqüente ao do recolhimento indevido, pode ser compensado, mediante apresentação de DCOMP. Eficácia retroativa da Instrução Normativa RFB n°. 900/2008. RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. ANÁLISE INTERROMPIDA EM ASPECTOS PRELIMINARES. Inexiste reconhecimento implícito de direito creditório quando a apreciação da restituição/compensação restringese a aspectos como a possibilidade do pedido. A homologação da compensação ou deferimento do pedido de restituição, uma vez superada esta questão, depende da análise da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pela autoridade administrativa que jurisdiciona a contribuinte. Acórdão nº 140100.420, de 26.01.2011: ESTIMATIVA APURADA POR MEIO DE BALANÇO OU BALANCETE SUSPENSÃO REDUÇÃO. IRPJ. CSLL. RECOLHIMENTO INDEVIDO. RESTITUIÇÃO. POSSIBILIDADE. A apuração do montante a ser pago a cada mês a título de estimativa não se faz pela mera composição do percentual de estimativa com a receita bruta; mas sim pela composição do percentual de estimativa com a receita bruta, deduzido o montante pago no mês anterior apurado segundo o balancete de suspensão/redução. Dessa feita, caso o contribuinte recolha, à título de estimativa, montante superior àquele devido segundo o balancete por ele registrado, referido excesso não será levado à composição do tributo adiantado para fins do ajuste anual, tratandose, pois, de tributo pago indevidamente, podendo o mesmo ser restituído. IN SRF n° 460/04. IN n° 600/05. A vedação das instruções normativas em reconhecer a possibilidade de devolução de valores pagos indevidamente a título de estimativa e que não integraram o crédito de tributo pago no curso do ano pelo regime de balancete suspensão/redução quando do ajuste anual, torna referidas instruções normativas ilegais. Recurso voluntário provido. O recurso especial foi admitido pelo Presidente da Câmara, através do despacho de admissibilidade de efls. 396400. Cientificada desse despacho, a PFN apresentou petição (efls.402) informando que deixa de deixa de apresentar contrarrazões ao recurso especial em função do teor da Súmula n.º 84 do CARF. É o relatório. Fl. 433DF CARF MF Processo nº 10660.901009/200966 Acórdão n.º 9101004.177 CSRFT1 Fl. 434 4 Voto Conselheira Viviane Vidal Wagner Relatora Conhecimento Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF, a teor do art. 67 do Anexo II do RICARF aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015. Preenchidos os requisitos, o recurso especial do contribuinte é conhecido nos termos do despacho de admissibilidade de efls. 396400. Mérito O presente litígio diz respeito à possibilidade de aproveitamento de indébitos a título de estimativa de IRPJ e/ou CSLL como direito creditório em declarações de compensação. Esse tema foi objeto de amplos debates neste órgão de julgamento colegiado e decisões reiteradas no mesmo sentido deram origem à Súmula CARF nº 84, atualmente com efeito vinculante a toda a Administração Pública, de seguinte teor: Súmula CARF nº 84 É possível a caracterização de indébito, para fins de restituição ou compensação, na data do recolhimento de estimativa. (Súmula revisada conforme Ata da Sessão Extraordinária de 03/09/2018, DOU de 11/09/2018). (Vinculante, conforme Portaria ME nº 128, de 01/04/2019, DOU de 02/04/2019). Portanto, considerase possível a formação e o aproveitamento em compensações de indébitos de estimativa, desde que o sujeito passivo comprove, perante a autoridade administrativa que o jurisdiciona: (a) o erro cometido no cálculo ou no recolhimento da estimativa; (b) a sua adequação para a formação do indébito; e (c) a correspondente disponibilidade, mediante prova de que já não se valeu desse indébito para liquidação do IRPJ devido no ajuste anual ou para formação do correspondente saldo negativo. Isso impõe a reforma do acórdão recorrido pelo reconhecimento do direito em tese, mas sem homologar a compensação no presente caso, por ausência de análise do crédito pela autoridade preparadora, conforme relatado. Fl. 434DF CARF MF Processo nº 10660.901009/200966 Acórdão n.º 9101004.177 CSRFT1 Fl. 435 5 Afastada a tese impeditiva, ou seja, superado o óbice preliminar que fundamentou a negativa de homologação da compensação pretendida, fazse necessário o retorno dos autos à unidade de jurisdição do contribuinte para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do crédito declarado na compensação, através de um despacho decisório complementar. Caso o despacho decisório complementar não resulte na homologação total das compensações promovidas, será facultado ao contribuinte uma nova manifestação de inconformidade, submetida desde o início ao rito previsto no Decreto nº 70.235/72, que disciplina o processo administrativo fiscal, possibilitandolhe a discussão do mérito da compensação, ao menos, nas duas instâncias administrativas de julgamento (DRJ e CARF). Conclusão Por todo o exposto, voto no sentido de conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento, com retorno dos autos à Unidade de Origem do contribuinte para verificação da existência, suficiência e disponibilidade do crédito. (assinado digitalmente) Viviane Vidal Wagner Fl. 435DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13839.002355/2008-98
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 08 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed May 29 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2002, 2003, 2004, 2005, 2006
MUDANÇA DE MODELO DE ENTREGA DA DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL.
Em se tratando de Declaração de Rendimentos da pessoa física, após o prazo previsto para sua entrega, não será admitida retificação que tenha por objetivo a troca de modelo.
MULTA QUALIFICADA. DOLO.
Caracterizada o dolo do contribuinte em sonegar, é cabível a qualificação da multa de ofício.
PRINCÍPIO CONSTITUCIONAIS E LEGALIDADE
O CARF não é competente para se manifestar-s acerca de inconstitucionalidade ou legalidade de norma vigente no ordenamento jurídico.
Numero da decisão: 2402-007.250
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(documento assinado digitalmente)
Denny Medeiros da Silveira- Presidente.
(documento assinado digitalmente)
Paulo Sergio da Silva - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Denny Medeiros da Silveira (Presidente), Gregório Rechmann Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luís Henrique Dias Lima, Maurício Nogueira Righetti, Paulo Sergio da Silva, Renata Toratti Cassini e Thiago Duca Amon (suplente convocado).
Nome do relator: PAULO SERGIO DA SILVA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2002, 2003, 2004, 2005, 2006 MUDANÇA DE MODELO DE ENTREGA DA DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. Em se tratando de Declaração de Rendimentos da pessoa física, após o prazo previsto para sua entrega, não será admitida retificação que tenha por objetivo a troca de modelo. MULTA QUALIFICADA. DOLO. Caracterizada o dolo do contribuinte em sonegar, é cabível a qualificação da multa de ofício. PRINCÍPIO CONSTITUCIONAIS E LEGALIDADE O CARF não é competente para se manifestar-s acerca de inconstitucionalidade ou legalidade de norma vigente no ordenamento jurídico.
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Em se tratando de Declaração de Rendimentos da pessoa física, após o prazo previsto para sua entrega, não será admitida retificação que tenha por objetivo a troca de modelo. MULTA QUALIFICADA. DOLO. Caracterizada o dolo do contribuinte em sonegar, é cabível a qualificação da multa de ofício. PRINCÍPIO CONSTITUCIONAIS E LEGALIDADE O CARF não é competente para se manifestars acerca de inconstitucionalidade ou legalidade de norma vigente no ordenamento jurídico. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (documento assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira Presidente. (documento assinado digitalmente) Paulo Sergio da Silva Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 9. 00 23 55 /2 00 8- 98 Fl. 602DF CARF MF Processo nº 13839.002355/200898 Acórdão n.º 2402007.250 S2C4T2 Fl. 603 2 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Denny Medeiros da Silveira (Presidente), Gregório Rechmann Junior, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luís Henrique Dias Lima, Maurício Nogueira Righetti, Paulo Sergio da Silva, Renata Toratti Cassini e Thiago Duca Amon (suplente convocado). Relatório Tratase de recurso voluntário (fls. 574) pelo qual o recorrente se indispõe contra decisão em que a autoridade de piso considerou improcedente impugnação apresentada contra lançamento de IRPF no valor de R$ 42.431,38 (acrescidos de juros e multa), incidente sobre glosa de dedução indevida despesas médicas, de dedução indevida com dependentes, dedução indevida de despesas com instrução e dedução indevida de despesas com plano de previdência privada, declaradas nas DIRPF dos exercícios de 2003 a 2007. Consta da decisão recorrida o seguinte resumo sobre as alegações apresentadas à autoridade de piso: Ao analisar o caso, em 14.01.2009 (fls 548), entendendo a autoridade de piso: 1) que a impugnação foi parcial; 2) que não cabe a modificação do modelo da declaração após a sua escolha (realizada pelo próprio contribuinte) e envio ao banco de dados do fisco; e 2) que Fl. 603DF CARF MF Processo nº 13839.002355/200898 Acórdão n.º 2402007.250 S2C4T2 Fl. 604 3 foi correta a aplicação da multa de ofício na forma qualificada; considerou a impugnação improcedente, mantendo o crédito lançado. Irresignado, o contribuinte apresentou o recurso voluntário, trazendo em síntese, os mesmos argumentos da impugnação, reforçando apenas a tese de que tem direto a apresentar declaração simplificada relativa aos fatos geradores lançados, a fim de obter 20% de dedução da base de calculo apurada. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Sergio da Silva, Relator. Da admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos requisitos legais para sua admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. Da possibilidade de troca do modelo de declaração Sobre a alegação do contribuinte de que a fiscalização desconsiderou ou considerou nulas as informações fiscais enviadas no modelo completo, relativas aos exercícios objeto de lançamento, tais argumentos são equivocados, pois foi justamente do confronto entre as informações prestadas pelo contribuinte, contidas na Declaração de AJuste Anual (DAA) e as informações colhidas pela fiscalização durante o procedimento fiscal é que resultou o auto de infração em apreço. Ademais, após a escolha do modelo de declaração e seu envio efetivo ao banco de dados do Administração Tributária, esgotado o prazo de envio, não é mais possível ao contribuinte mudar a sua opção original, como bem pontuou a decisão recorrida (fls 548): Assim, esgotado o prazo de envio, não mais é possível a troca de modelo de declaração, mormente quando realizado procedimento fiscal de ofício, visando verificar a existência de omissões de informações pelo contribuinte e eventuais débitos tributários decorrentes, como ocorreu no caso em apreço. Fl. 604DF CARF MF Processo nº 13839.002355/200898 Acórdão n.º 2402007.250 S2C4T2 Fl. 605 4 Portanto, não assiste razão ao contribuinte quanto a este item. Da multa de ofício qualificada Quanto ao pedido do contribuinte para que seja afastada a qualificadora da multa e aplicada tãosomente no percentual básico de 75%, por não restar demonstrado nos autos dolo específico na conduta do contribuinte, tais argumentos não encontram respaldo no auto de infração aplicado, pois o Termo de Constatação, às folha 27 e seguintes, descreve claramente a conduta dolosa do contribuinte, conforme se verificar nos seguintes trechos do documentos, abaixo destacados: Ademais, conforme pontuado na decisão recorrida, erros são circunstâncias pontuais e esporádicas e não condutas reincidentes abrangendo vários exercícios, fato que Fl. 605DF CARF MF Processo nº 13839.002355/200898 Acórdão n.º 2402007.250 S2C4T2 Fl. 606 5 reforça o entendimento quanto à existência de dolo na conduta o contribuinte, sendo correto, portanto, o entendimento da auditoria de qualificar a multa aplicada. Por fim, quanto à alegada ofensa ao princípios da capacidade contributiva e que está ocorrendo enriquecimento sem causa pela União, ante o percentual da multa aplicada, devese esclarecer que a Instância Administrativa não é a sede adequada para esse tipo de exame, cuja competência é exclusiva do Poder Judiciário, pois a partir do momento em que a norma passa a fazer parte do ordenamento jurídico, cabe à Administração tãosomente aplicar a regra legal vigente. Conclusão Ante o exposto, voto por CONHECER do recurso voluntário e, no mérito, NEGARLHE PROVIMENTO, mantendo o crédito tributário discutido. Assinado digitalmente Paulo Sergio da Silva – Relator Fl. 606DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13227.900242/2014-04
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 24 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu May 16 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/10/2010 a 31/12/2010
CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. REGIME MONOFÁSICO. AQUISIÇÃO DE COMBUSTÍVEIS. DIREITO A CRÉDITO. FRETE. REVENDA. VAREJISTA. POSSIBILIDADE.
O artigo 3º, inciso I das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 garante o direito ao crédito correspondente aos produtos adquiridos para revenda, mas excetua textualmente o direito ao crédito da aquisição de combustíveis, os quais são tributados pela Contribuições pelo regime monofásico (artigo 3º, inciso I, alínea "b"). Tal exceção, contudo, não invalida o direito ao crédito referente ao frete pago pelo comprador do combustível para revenda, que compõe o custo de aquisição do produto (art. 289, §1º do RIR/99). Isto porque o frete é uma operação autônoma em relação à aquisição do combustível, paga à transportadora, na sistemática de incidência da não-cumulatividade. Sendo os regimes de incidência distintos, do produto (combustível) e do frete (transporte), permanece o direito ao crédito referente ao frete pago pelo comprador do combustível para revenda.
CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO. BENS DE PEQUENO VALOR OU DE VIDA ÚTIL INFERIOR A UM ANO. BENFEITORIAS.
Os materiais de construção adquiridos em grande quantidade (concreto, areia, ferragens, pisos, forros e revestimentos, materiais para instalações elétricas e hidráulicas) utilizados em construção, benfeitoria ou reforma, devem ser ativados, independentemente do custo unitário, tendo em vista a sua utilização conjunta e incorporação ao imóvel (artigo 79 e 81, inciso II do Código Civil). Dessarte, os dispêndios com materiais de construção, assim como se dá com as benfeitorias, devem ser contabilizados no ativo imobilizado e, como tais, somente geram direito de crédito da Contribuição ao PIS e COFINS na forma de depreciação.
CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. ALUGUÉIS DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS VINCULADOS A BENFEITORIAS.
Os dispêndios com aluguéis de máquinas e equipamentos destinados à realização de benfeitorias devem ser contabilizados no ativo imobilizado e, como tais, somente geram direito de crédito de PIS e Cofins na forma de depreciação.
CRÉDITOS DE PIS/COFINS. RESSARCIMENTO. TAXA SELIC. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 125.
Por expressa vedação legal, não incide atualização monetária sobre créditos da Contribuição ao PIS e da COFINS, nos termos dos artigos 13 e 15, VI, da Lei nº 10. 833, de 2003.
Numero da decisão: 3402-006.472
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para reverter as glosas referentes aos gastos com frete na aquisição de combustíveis para revenda. Vencidos os Conselheiros Maria Aparecida Martins de Paula, Pedro Sousa Bispo e Waldir Navarro Bezerra que negavam provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente
(assinado digitalmente)
Thais De Laurentiis Galkowicz - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Cynthia Elena de Campos, Thais De Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Nome do relator: THAIS DE LAURENTIIS GALKOWICZ
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/10/2010 a 31/12/2010 CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. REGIME MONOFÁSICO. AQUISIÇÃO DE COMBUSTÍVEIS. DIREITO A CRÉDITO. FRETE. REVENDA. VAREJISTA. POSSIBILIDADE. O artigo 3º, inciso I das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 garante o direito ao crédito correspondente aos produtos adquiridos para revenda, mas excetua textualmente o direito ao crédito da aquisição de combustíveis, os quais são tributados pela Contribuições pelo regime monofásico (artigo 3º, inciso I, alínea "b"). Tal exceção, contudo, não invalida o direito ao crédito referente ao frete pago pelo comprador do combustível para revenda, que compõe o custo de aquisição do produto (art. 289, §1º do RIR/99). Isto porque o frete é uma operação autônoma em relação à aquisição do combustível, paga à transportadora, na sistemática de incidência da não-cumulatividade. Sendo os regimes de incidência distintos, do produto (combustível) e do frete (transporte), permanece o direito ao crédito referente ao frete pago pelo comprador do combustível para revenda. CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO. BENS DE PEQUENO VALOR OU DE VIDA ÚTIL INFERIOR A UM ANO. BENFEITORIAS. Os materiais de construção adquiridos em grande quantidade (concreto, areia, ferragens, pisos, forros e revestimentos, materiais para instalações elétricas e hidráulicas) utilizados em construção, benfeitoria ou reforma, devem ser ativados, independentemente do custo unitário, tendo em vista a sua utilização conjunta e incorporação ao imóvel (artigo 79 e 81, inciso II do Código Civil). Dessarte, os dispêndios com materiais de construção, assim como se dá com as benfeitorias, devem ser contabilizados no ativo imobilizado e, como tais, somente geram direito de crédito da Contribuição ao PIS e COFINS na forma de depreciação. CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. ALUGUÉIS DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS VINCULADOS A BENFEITORIAS. Os dispêndios com aluguéis de máquinas e equipamentos destinados à realização de benfeitorias devem ser contabilizados no ativo imobilizado e, como tais, somente geram direito de crédito de PIS e Cofins na forma de depreciação. CRÉDITOS DE PIS/COFINS. RESSARCIMENTO. TAXA SELIC. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 125. Por expressa vedação legal, não incide atualização monetária sobre créditos da Contribuição ao PIS e da COFINS, nos termos dos artigos 13 e 15, VI, da Lei nº 10. 833, de 2003.
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REGIME MONOFÁSICO. AQUISIÇÃO DE COMBUSTÍVEIS. DIREITO A CRÉDITO. FRETE. REVENDA. VAREJISTA. POSSIBILIDADE. O artigo 3º, inciso I das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 garante o direito ao crédito correspondente aos produtos adquiridos para revenda, mas excetua textualmente o direito ao crédito da aquisição de combustíveis, os quais são tributados pela Contribuições pelo regime monofásico (artigo 3º, inciso I, alínea "b"). Tal exceção, contudo, não invalida o direito ao crédito referente ao frete pago pelo comprador do combustível para revenda, que compõe o custo de aquisição do produto (art. 289, §1º do RIR/99). Isto porque o frete é uma operação autônoma em relação à aquisição do combustível, paga à transportadora, na sistemática de incidência da nãocumulatividade. Sendo os regimes de incidência distintos, do produto (combustível) e do frete (transporte), permanece o direito ao crédito referente ao frete pago pelo comprador do combustível para revenda. CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO. BENS DE PEQUENO VALOR OU DE VIDA ÚTIL INFERIOR A UM ANO. BENFEITORIAS. Os materiais de construção adquiridos em grande quantidade (concreto, areia, ferragens, pisos, forros e revestimentos, materiais para instalações elétricas e hidráulicas) utilizados em construção, benfeitoria ou reforma, devem ser ativados, independentemente do custo unitário, tendo em vista a sua utilização conjunta e incorporação ao imóvel (artigo 79 e 81, inciso II do Código Civil). Dessarte, os dispêndios com materiais de construção, assim como se dá com as benfeitorias, devem ser contabilizados no ativo imobilizado e, como tais, somente geram direito de crédito da Contribuição ao PIS e COFINS na forma de depreciação. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 22 7. 90 02 42 /2 01 4- 04 Fl. 307DF CARF MF 2 CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. ALUGUÉIS DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS VINCULADOS A BENFEITORIAS. Os dispêndios com aluguéis de máquinas e equipamentos destinados à realização de benfeitorias devem ser contabilizados no ativo imobilizado e, como tais, somente geram direito de crédito de PIS e Cofins na forma de depreciação. CRÉDITOS DE PIS/COFINS. RESSARCIMENTO. TAXA SELIC. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº 125. Por expressa vedação legal, não incide atualização monetária sobre créditos da Contribuição ao PIS e da COFINS, nos termos dos artigos 13 e 15, VI, da Lei nº 10. 833, de 2003. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para reverter as glosas referentes aos gastos com frete na aquisição de combustíveis para revenda. Vencidos os Conselheiros Maria Aparecida Martins de Paula, Pedro Sousa Bispo e Waldir Navarro Bezerra que negavam provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente (assinado digitalmente) Thais De Laurentiis Galkowicz Relatora Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Cynthia Elena de Campos, Thais De Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto em face da decisão proferida pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento (“DRJ”) de Fortaleza, que julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pela Contribuinte, sobre crédito relativo à Contribuição ao PIS e a COFINS. Por bem consolidar os fatos ocorridos até a decisão da DRJ, com riqueza de detalhes, colaciono o relatório do Acórdão recorrido in verbis: Tratase de Manifestação de Inconformidade contra Despacho Decisório emitido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de JiparanáRO (fls. 32), que deferiu parcialmente/indeferiu o crédito pleiteado pelo contribuinte através do PER n° 12540.55831.280211.1.1.118127. Através do referido PER, o contribuinte solicitou o ressarcimento de R$ 92.603,02, a título de Cofins Não Fl. 308DF CARF MF Processo nº 13227.900242/201404 Acórdão n.º 3402006.472 S3C4T2 Fl. 334 3 Cumulativo Mercado Interno do período de apuração 4º Trimestre/2010, com a subsequente compensação de débitos, através de DCOMP, tendo a RFB reconhecido o crédito de R$ 0,00. A diferença se de deu em razão das glosas dos seguintes créditos: 1. créditos indevidos sobre gastos com frete na aquisição de combustíveis para revenda; 2. créditos indevidos sobre gastos com a realização de benfeitorias; 3. créditos indevidos sobre locações de máquinas e equipamentos utilizados em benfeitorias; 4. créditos indevidos apurados sobre a aquisição de bens para revenda sujeitos à incidência monofásica; 5. créditos indevidos apurados sobre a devolução de vendas de bens sujeitos à incidência monofásica; As glosas se deram no âmbito de procerdimento auditoria levada a efeito para apurar os créditos de PIS e Cofins declarados pelo contribuinte em DACON no ano calendário 2010. As glosas foram objeto de Manifestação de Inconformidade nos processos abaixo discriminados. Esses processos, por tratarem de matérias conexas, decorrentes dos mesmos fatos, estão sendo julgados conjuntamente na presente sessão. O detalhamento e a fundamentação das glosas, bem como a apuração dos saldos credores/devedores de PIS e Cofins, mês a mês, constam do Relatório Fiscal de fls. 36/217. A relação das notas fiscais objeto de glosa consta dos Anexos I a IV. Fl. 309DF CARF MF 4 Ciente do Despacho Decisório, o contribuinte apresentou tempestivamente, conforme Despacho de fl. 246, a Manifestação de Inconformidade de fls. 3/31, alegando em síntese que: Do direito de crédito: a Recorrente realiza a venda de gasolinas, óleo diesel e demais combustíveis, sendo seus produtos destinadas ao mercado interno e tributados à alíquota zero para PIS e Cofins, conforme determina a legislação vigente; a Recorrente, com base no artigo 3º das Leis 10.637/2002 para PIS e artigo 3º da Lei 10.833/2003 para COFINS, realizou créditos sobre insumos e serviços necessários a atividade que exerce. No entanto, cabe ressaltar, que não se apropriou de créditos sobre a aquisição de combustíveis, já que estes são tributados pelo regime monofásico e não dão direito a créditos; considerando que seu produto final é tributado à alíquota zero, com base no artigo 17 da Lei 11.033/2004 e artigo 16 da Lei 11.116/2005 a empresa protocolou através do programa Perdcomp os pedidos de ressarcimento dos créditos vinculados a saídas para o mercado interno, bem como apresentou para o período a Dacon a fim de demonstrar a apuração das contribuições para o PIS e a Cofins; Créditos indevidos sobre gastos com frete na aquisição de combustíveis para revenda: o agente fiscal transcreveu toda esta legislação para dizer que há vedação expressa para desconto de créditos sobre aquisições de combustíveis e, por extensão, também “não há como permitir o desconto de créditos em relação ao frete, o qual compõe o custo de aquisição de tais bens (combustíveis)” (cfe Relatório Fiscal – pg 21); a redação da norma que exclui os combustíveis da base de crédito é clara. E com base nesta norma que a Recorrente não tomou créditos de PIS e Cofins sobre as aquisições de combustíveis. No entanto, em momento alguma qualquer norma relativa ao PIS e Cofins disciplinou qualquer regra acerca de custo ou insumos/serviços vinculados; o artigo 3º das leis 10.637/2002 e 10.833/2003 autoriza expressamente que as empresas submetidas ao regime não cumulativo poderão creditarse de “bens e serviços utilizados como insumos na prestação de serviços, na produção, na fabricação de bens ou produtos destinados à venda”; o frete é um insumo necessário e imprescindível para a realização da atividade comercial a que se propõem a Recorrente. o frete é uma operação comercial totalmente independente da compra do combustível, tem fornecedores distintos e Fl. 310DF CARF MF Processo nº 13227.900242/201404 Acórdão n.º 3402006.472 S3C4T2 Fl. 335 5 documentos fiscais (NFs) distintos, de forma que o pagamento deste serviço independe da operação “compra de combustível”; a Receita Federal, através da IN 404/2004, conceituou insumo para fins de créditos de Cofins e atribuiu o conceito que se aplica ao IPI, pois conceituou insumos apenas para empresas que realizam a fabricação de algum produto. Ao editar tal norma, a RFB foi além do seu dever de normatizar, ao tentar impor um conceito restritivo e oriundo das regras de IPI, já que o conceito estabelecido pela IN remete à fabricação ou produção, desgaste e alteração; a questão já foi tema de decisões do CARF e de tribunais judiciais que em suas decisões entenderam que os créditos de PIS/Cofins devem abranger todo custo ou despesa necessária à atividade da empresa; da mesma forma que vem decidindo o CARF e os Tribunais, as Soluções de Consulta da Receita Federal também dispõem neste sentindo, reconhecendo inclusive o frete sobre compras como insumo. Créditos indevidos sobre gastos com a realização de benfeitorias: a empresa trata como benfeitorias as definidas nos §§ 2º e 3º do artigo 96 do Novo Código Civil, Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002, a saber: “São necessárias as que têm por fim conservar o bem ou evitar que se deteriore” ou ainda, “podem facilitar seu uso”; todas as manutenções e reparos necessários à conservação das instalações, prédio e reformas da estrutura física da empresa, necessárias e utilizadas para realização da atividade fim da empresa, são lançados a título de benfeitorias; o regulamento do Imposto de Renda – RIR/99 em seu artigo 301, define o tratamento dado as pequenas despesas e dita que os custos de aquisição cujo valor sejam de até R$ 326,61 ou se de valor maior e que sua vida útil seja de até um ano podem ser lançadas diretamente como custos, sem serem imobilizadas; as benfeitorias são de valores inferiores ao limite ou de vida útil menos que um ano, foram lançadas direto como custos no mês incorrido, portanto não sofrem depreciação; para que funcione adequadamente e o cliente se sinta bem, constantemente são realizados benfeitorias em todo o empreendimento; Fl. 311DF CARF MF 6 como há grande movimentação de veículos pesados no pátio, como o calçamento é a base de lajota, constantemente são realizados reparos no pátio e nos muros que cercam o estabelecimento, com a utilização de pó de pedra, areias, cimentos, brita, etc. e com geração de entulhos; na área de abastecimento, como já afirmado, caminhões de grande porte circulam nas rampas, constantemente há reparos, com a utilização de ferragens, cimento, brita, pinturas em geral, sinalizações, troca de telhas da cobertura, manutenção em forros de PVC, gerando entulhos, etc; no que se refere aos banheiros destinados aos motoristas, sempre ocorre quebra de pias e vasos sanitários, culminado com sua troca, manutenção de chuveiros, hidráulica, lâmpadas, instalações elétricas, pisos, revestimentos, telhados, peças de reposição do aquecimento solar, pinturas em geral, etc. com geração de entulhos; esta é a destinação dos materiais adquiridos pela empresa, a título de benfeitorias, em que são utilizadas na manutenção de todas as instalações e que são úteis e necessárias para a conservação do patrimônio e realização da venda; estas pequenas manutenções/reparos denominados benfeitorias no caso em análise são efetuados sem projeto de execução, de forma que os documentos que comprovam sua realização são as notas fiscais e cupons fiscais de pagamentos de materiais e serviços, todas já apresentados ao Auditor e integrantes a este processo; na verdade, benfeitorias são obras ou gastos realizados na coisa imóvel, com a finalidade de conservála, melhorála ou embelezála, com o intuito na atividade comercial, em dar boa aparência ao ambiente e atrair o cliente. Se essas obras ou gastos mudassem a natureza da coisa imóvel, aí sim deveria haver um projeto, não podendo então ser consideradas como benfeitorias e sim como imobilizações e sofreriam a depreciação ou a amortização em caso de bens de terceiros; Créditos indevidos sobre locações de máquinas e equipamentos utilizados em benfeitorias. o Auto de Infração glosou integralmente os valores dos aluguéis de máquinas e equipamentos pagos à Pessoas Jurídicas; o art. 3° inciso IV das Leis nºs 10.637/2002 (PIS) e 10.833/2003 (Cofins) é expresso em admitir o desconto de crédito de de “aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa”; no entanto, o agente fiscal fundamentou sua glosa no fato de tais máquinas e equipamentos terem sido alugados para realização das benfeitorias em prédios próprios e de terceiros e nesta condição deveriam estas despesas ter sido imobilizadas e os créditos tomados através dos encargos e depreciação e amortização; Fl. 312DF CARF MF Processo nº 13227.900242/201404 Acórdão n.º 3402006.472 S3C4T2 Fl. 336 7 a legislação é clara quando autoriza a realização de créditos sobre aluguéis de máquinas e equipamentos, desde que pagos à pessoa jurídica. Somente isso; a legislação que autoriza o lançamento de créditos sobre aluguéis de máquinas e equipamentos pagos a pessoas jurídicas não estabelece qual deverá ser a contabilização de tal serviço, tampouco determina o que deve ser imobilizado ou não; Créditos indevidos apurados sobre a aquisição de bens para revenda sujeitos à incidência monofásica: a Recorrente equivocadamente considerou como tributadas alguns tipos de mercadorias que tem incidência monofásica para PIS e Cofins, conforme apontou o agente fiscal em seu relatório, no qual relacionou os itens excluídos; é correta a referida exclusão, se confirmada a tomada de créditos de produtos monofásicos. Mas também será correta a análise da base de débitos, já que a Recorrente oferecia a tributação todos os produtos sobre os quais tomava crédito; em momento algum, o Auditor Fiscal manifestouse no Relatório Fiscal acerca dos pagamentos indevidos efetuados pela Recorrente. Também não apresentou qualquer demonstrativo de cálculo que pudessem contemplar tais ajustes; assim, para que a glosa de tais itens esteja correta é preciso que se analisem os tipos de produtos, se monofásicos ou não e, também a base de débitos, para que o ajuste seja correto; desta forma, é justo e correto que tais valores sejam revistos, tanto em relação ao débito quanto em relação ao crédito; desde já requerse tal ajuste, para que a empresa não seja duplamente prejudicada, tendo em vista que o Despacho Decisório em debate excluiu o crédito e manteve o débito. Créditos indevidos apurados sobre a devolução de vendas de bens sujeitos à incidência monofásica: indevidamente a recorrente tomou créditos sobre devolução de mercadorias que tem incidência monofásica para PIS e Cofins conforme apontou o agente fiscal em seu relatório, no qual relacionou os itens excluídos; a contabilização dos créditos na devolução de vendas de mercadorias sujeitas à incidência monofásica é prova de que a empresa tributou indevidamente esses produtos na saída; Fl. 313DF CARF MF 8 desta forma, é justo e correto que tais valores sejam revistos, tanto em relação ao débito quanto em relação ao crédito; desde já requerse tal ajuste, para que a empresa não seja triplamente prejudicada, tendo em vista que o Despacho Decisório em debate excluiu o crédito e manteve o débito. Das compensações. como a Requerente faz jus ao crédito na integralidade solicitada, requer igualmente na integralidade a homologação das compensações realizadas e não homologadas ou homologadas parcialmente por insuficiência ou inexistência de crédito no Despacho Decisório; Suspensão da exigibilidade dos débitos: de acordo com o art. 151, inciso II do CTN, o débito deve ter sua exigibilidade suspensa; Ao final, requer a Recorrente. 1. Seja acolhido a presente Manifestação de Inconformidade; 2. Seja Reformado o Despacho Decisório ora guerreado para o fim de Reconhecer os créditos da Recorrente de COFINS NÃO CUMULATIVO no montante de 92.603,02referente ao 4º Trimestre/2010, eis que apurados na forma da legislação em vigor e de direito; 3. Que sejam incluídos no montante da base de cálculo de créditos os valores relativos ao insumo frete sobre compras de mercadorias destinadas à venda, eis que compõem o custo dos produtos comercializados pela Recorrente, foram por ela suportados e atendem a condição de Insumo conforme determina a legislação de regência da matéria. 4. Que seja determinada a inclusão na base de créditos dos valores lançados a título de benfeitorias em imóveis próprios e de terceiros, eis que atendem o conceito de benfeitoria e a legislação de regência. 5. Que sejam incluídos no montante da base de créditos os valores pagos a título de locação de máquinas e equipamentos pagos a Pessoas Jurídicas, eis que legítimos, conforme comprovam os documentos anexados pela Recorrente, e que atendem a legislação de regência da matéria; 6. Que, seja determinada também a revisão da base de cálculo dos débitos, para o fim de ajustar os valores efetivamente devidos, já que a Recorrente tributou todos os produtos sobre os quais tomou crédito, inclusive os supostamente sujeitos a regime monofásico e da devolução de vendas de tais produtos; 7. Que em relação a todos os itens acima sejam afastadas interpretações equivocadas e diversas das constantes nas Leis Fl. 30 29 10.633/2002 e 10.833/2003, eis que tais normas são claras e não cabe a agente fiscal criar novas regras; Fl. 314DF CARF MF Processo nº 13227.900242/201404 Acórdão n.º 3402006.472 S3C4T2 Fl. 337 9 8. Que seja determinada a imediata suspensão da exigência do crédito tributário em face das disposições do artigo 151 do Código Tributário Nacional até que seja proferido despacho decisório definitivo; Sobreveio então o Acórdão da 5ª Turma da DRJ/FOR, negando provimento à manifestação de inconformidade da Contribuinte, cuja ementa foi lavrada nos seguintes termos: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/10/2010 a 31/12/2010 PIS/COFINS. EMPRESA DISTRIBUIDORA OU REVENDEDORA. FRETE NA AQUISIÇÃO DE COMBUSTÍVEIS. Os distribuidores e varejistas de combustíveis, tributados à alíquota zero de PIS e Cofins nas vendas, em razão do regime monofásico, não podem creditarse dos custos de frete incidentes na compra dos combustíveis. BENFEITORIAS. Os dispêndios com benfeitorias, sejam elas necessárias, úteis ou voluptuárias, devem ser contabilizados no ativo imobilizado e, como tais, somente geram direito de crédito de PIS e Cofins na forma de depreciação. BENFEITORIAS. BENS DE PEQUENO VALOR OU DE VIDA ÚTIL INFERIOR A UM ANO. Os materiais de construção adquiridos em grande quantidade (concreto, areia, ferragens, pisos, forros e revestimentos, materiais para instalações elétricas e hidráulicas) utilizados em construção, benfeitoria ou reforma, devem ser ativados, independentemente do custo unitário, tendo em vista a sua utilização conjunta e incorporação ao imóvel (art 43 do CC). ALUGUÉIS DE MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS VINCULADOS A BENFEITORIAS. Os dispêndios com aluguéis de máquinas e equipamentos destinados à realização de benfeitorias devem ser contabilizados no ativo imobilizado e, como tais, somente geram direito de crédito de PIS e Cofins na forma de depreciação. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. DILIGÊNCIA/PERÍCIA. Nos processos em que se discute direito creditório, sua comprovação incumbe ao contribuinte, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes. Não se presta a diligência ou perícia a suprir deficiência probatória, seja do contribuinte ou do fisco. Irresignada, a Contribuinte interpôs Recurso Voluntário a este Conselho, em que repisa os argumentos apresentados em sua manifestação de inconformidade. Contudo, não foram objeto de recurso: i) a exclusão dos créditos sobre bens para revenda sujeitos à incidência monofásica da Contribuição ao PIS e da COFINS; ii) a exclusão dos créditos sobre devolução de vendas de bens sujeitos à incidência monofásica da Contribuição ao PIS e da COFINS. Ademais, foi apresentado novo tópico acerca do direito à atualização dos créditos pleiteados pela taxa Selic. Fl. 315DF CARF MF 10 É o relatório. Voto Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, Relatora Os requisitos de admissibilidade do recurso voluntário encontramse devidamente preenchidos, de modo que passo a apreciação do mérito. Mas antes, saliento que este processo está sendo julgado conjuntamente com os demais processos de ressarcimento, bem como com o auto de infração lavrado contra a Recorrente, sendo que as razões adotadas neste último são aqui aplicadas. 1. Créditos indevidos sobre gastos com frete na aquisição de combustíveis para revenda A Recorrente é empresa dedicada preponderantemente ao comércio varejista de combustíveis e lubrificantes, conforme se depreende do seu Contrato Social e é salientado pela autoridade lançadora no Relatório fiscal, nos seguintes termos: "a atividade comercial da contribuinte, consiste, resumidamente, na revenda de combustíveis e lubrificantes (Matriz – Vilhena/RO e Filial 1 – Porto Velho/RO), com exceção da Filial 2 – Vilhena/RO, denominada “Fazenda Batista”, que tem como atividade principal o reflorestamento." É então dentro desse específico setor da economia que deve ser analisada a tributação da Contribuição ao PIS e da COFINS no presente caso. Pois bem. Os combustíveis (gasolina, óleo diesel, querosene de aviação e outros) a partir de 1º de julho de 2000 são tributados pelas referidas Contribuições pela modalidade monofásica, incidindo uma única vez no fabricante ou importador, desonerando a receita da venda desses produtos nos distribuidores e varejistas. Como é consabido, a incidência monofásica tem por objetivo concentrar a incidência tributária, de modo que são aplicadas aos produtores ou importadores alíquotas diferenciadas, superiores às básicas, enquanto os demais (atacadistas e verejistas) são tributados à alíquota zero. Cumpre destacar que a incidência monofásica não se confunde com o instituto da substituição tributária, uma vez que nesta última as receitas estão obrigatoriamente sujeitas ao regime cumulativo, o que não acontece na primeira. Dessa forma, mesmo dentro da sistemática monofásica, os produtos sujeitos às alíquotas diferenciadas poderão estar sujeitos ao regime cumulativo ou não cumulativo, de acordo com o regime de tributação da pessoa jurídica (presumido ou real, respectivamente). Ou seja, a incidência monofásica não é exceção à aplicação do regime não cumulativo e, consequentemente, no desconto de créditos inerente à essa modalidade de tributação. 1 Contudo, há regras na legislação que precisam ser observadas. Quando ocorre a tributação concentrada no início da cadeia produtiva, não haverá a apuração de créditos e débitos nas etapas posteriores. 1 BERGAMINI, Adolpho. et alii. Manual do PIS e da COFINS. São Paulo: Fiscosoft Editora Ltda, 2013, pp. 367 a 369. Fl. 316DF CARF MF Processo nº 13227.900242/201404 Acórdão n.º 3402006.472 S3C4T2 Fl. 338 11 Por isso é que, com relação aos varejistas, acertadamente o artigo 3º, inciso I das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 garante o direito ao crédito correspondente aos produtos adquiridos para revenda, mas excetua o direito ao crédito da aquisição de combustíveis (dentre outros produtos), os quais são tributados pela Contribuições pelo regime monofásico (artigo 3º, inciso I, alínea "b"). Vejamos: Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: a) no inciso III do § 3o do art. 1o desta Lei; e b) nos §§ 1o e 1oA do art. 2o desta Lei; Assim, não há dúvida de que não poderia a Recorrente tomar crédito dos combustíveis que adquire para revenda. E corretamente não o fez. Tal exceção ao creditamento dos produtos atingidos pela monofasia, contudo, não invalida o direito ao crédito referente ao frete pago pelo comprador do combustível para revenda. Explico. Mas antes de tudo, ressalto que não se discute aqui o direito ao crédito segundo a regra do artigo 3º, inciso II, das Leis n. 10.637/2002 (PIS) e 10.833/2003 (COFINS), na condição de insumo necessário. Com efeito, a discussão em torno do que seriam insumos para fins de apuração de créditos da não cumulatividade das Contribuições não guarda relação com o caso dos autos, vez que o inciso II do artigo 3º cuida de hipótese de bens e serviços, utilizados como insumo, na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Essa, contudo, não é a situação da Recorrente, que pagava o frete na aquisição de bem destinado para a revenda. A revenda, enquanto operação comercial (como o atacado e o varejo), não se confunde com a prestação de serviços ou com a produção de bens, como de longa data vaticinam a Receita Federal, este Conselho e o Poder Judiciário. O direito ao crédito do frete referente à compra de mercadorias para revenda, aplicável ao presente caso decorre, isto sim, do próprio inciso I do artigo 3º das Leis n. 10.637/2002 (PIS) e 10.833/2003 (COFINS) Tratando especificamente do frete de empresas varejistas, a doutrina já se manifestou em diversas ocasiões, exatamente no sentido do seu resguardo pelo supracitado dispositivo legal (inciso I do artigo 3º da Lei n. 10/.833/2003 e 10.837/2002). As palavras de Marco Aurélio Greco2 sobre o tema são as seguintes: Assim, quando uma empresa adquire para revenda determinado bem e contrata o respectivo transporte, este faz parte indissociável da aquisição a que se refere o inciso "I", 2 PIS e COFINS Fretes pagos para o transporte de Mercadorias. in PEIXOTO, Marcelo Magalhães e MOREIRA JUNIOR, Gilberto de Castro (coords). PIS e COFINS à luz da jurisprudência do CARF Conselho Administrativo de Recursos Fiscais Volume 2. São Paulo: MP Editora, 2013, p 356. Fl. 317DF CARF MF 12 ainda que seja um dispêndio separado do preço do bem em sentido técnico. Realmente, só tem sentido adquirir para revender se o comprador receber o que comprou, pois, sem isto, não poderá garantir a entrega ao cliente. Portanto, para quem compra para revenda, o direito ao crédito de PIS/COFINS sobre o frete pago para que o bem chegue em seu estabelecimento está abrangido pelo inc. I do art. 3º da Lei n. 10.833/2003. A conclusão, de fato, não poderia ser outra. Afinal, o frete compõe o custo de aquisição do produto, conforme dispõe o artigo 289, §1º do RIR/99, vigente à época dos fatos: Art. 289. O custo das mercadorias revendidas e das matérias primas utilizadas será determinado com base em registro permanente de estoques ou no valor dos estoques existentes, de acordo com o Livro de Inventário, no fim do período de apuração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 14). § 1º O custo de aquisição de mercadorias destinadas à revenda compreenderá os de transporte e seguro até o estabelecimento do contribuinte e os tributos devidos na aquisição ou importação Nesse sentido, a própria Receita Federal já se manifestou em algumas oportunidades sobre o direito ao crédito decorrente do frete contratado na aquisição de produtos para revenda: Solução de Consulta Nº 234, de 13 de Agosto de 2007 Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS O contribuinte poderá descontar créditos calculados em relação aos bens adquiridos para revenda ou utilizados como insumos na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. O valor do frete incidente na compra destes bens integra o custo de aquisição, podendo, portanto, compor a base de cálculo na apuração dos créditos da COFINS. Dispositivos Legais: Lei Nº 10.833, de 2003, art. 3º; RIR/99, art. 289,§ 1º e Instrução Normativa SRF Nº 247, de 2002, art. 66. Assunto: Contribuição para o PIS O contribuinte poderá descontar créditos calculados em relação aos bens adquiridos para revenda ou utilizados como insumos na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. O valor do frete incidente na compra destes bens integra o custo de aquisição, podendo, portanto, compor a base de cálculo na apuração dos créditos do PIS. Dispositivos Legais: Lei Nº 10.637, de 2002; Lei Nº 10.833, de 2003,arts. 15 e 16; RIR/99, art. 289, § 1º e Instrução Normativa SRF Nº 247, de 2002, art. 66. (grifamos). SOLUÇÃO DE CONSULTA Nº 15 de 27 de Fevereiro de 2007 Fl. 318DF CARF MF Processo nº 13227.900242/201404 Acórdão n.º 3402006.472 S3C4T2 Fl. 339 13 ASSUNTO: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins EMENTA: FRETES NA AQUISIÇÃO Os custos de transporte até o estabelecimento do contribuinte, pagos ou creditados a pessoa jurídica domiciliada no País, integram custo de aquisição de mercadorias destinadas à revenda, constituindo base de cálculo dos créditos a serem descontados das contribuições devidas. ICMSSUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA Para fins de determinação da base de cálculo da contribuição, independentemente de qual seja o regime de cobrança desta, o contribuinte substituto do ICMS pode excluir da receita bruta o respetivo valor cobrado a título de substituição tributária destacado em nota fiscal, visto não ter a natureza de receita própria. (grifamos) Daí é que a própria autoridade fiscal, ao lavrar o presente auto de infração, justificou a glosa no fato de que, por estar o combustível sujeito ao regime monofásico e não gerar direito a crédito de PIS e Cofins na aquisição pelo revendedor, do mesmo modo, não geraria direito a crédito o frete respectivo, já que compõe o custo de aquisição do combustível. Ou seja, admite que, caso inexistente a questão da monofasia com a vedação ao crédito do produto, seria o caso de se reconhecer o crédito relativo ao frete contratado pela varejista. Assim, o raciocínio da autoridade é claro: o frete segue a mesma sorte do produto transportado, no que diz respeito ao direito ao creditamento. Entretanto, há um erro na premissa adotada e, consequentemente, na conclusão que se chegou no lançamento tributário. Vejamos. A Recorrente adquire mercadorias para revenda (combustíveis), porém a empresa vendedora não entrega os produtos no seu pátio mais especificamente, em seus tanques. Dessa forma, ela precisa contratar serviços de fretes de outra pessoa jurídica (transportadora) para que o produto chegue até seus estabelecimentos e que possa ser destinado à venda. Este frete, enquanto receita da transportadora, é tributado pela Contribuição ao PIS e pela COFINS. Em outras palavras, no caso do frete pago pelo comprador, há duas notas fiscais distintas. Uma para a distribuidora e outra para o transportador. A Distribuidora é sujeita ao regime monofásico, mas o transportador é tributado pelo regime não cumulativo. Nesses termos, fica evidente que o frete é uma operação autônoma em relação a aquisição do combustível. Tratase, em verdade, de operação comercial com a transportadora, na sistemática de incidência da nãocumulatividade, sendo que, repitase, a sua receita pela transportadora é tributada pela Contribuições. Vejase que, efetivamente, a Recorrente contrata empresa transportadora para proceder o frete, emitindo nota fiscal específica para essa operação (distinta daquela emitida pela distribuidora de combustível), conforme informações constantes do Anexo I do auto de infração. Tais dispêndios, portanto, são custo de aquisição de serviços de fretes e não custo de aquisição de combustível. Ou seja, muito embora estejam relacionadas como acima mencionado, já que o custo do frete integra o custo de aquisição do bem para revenda, nos Fl. 319DF CARF MF 14 termos do artigo 289, §1º do RIR/99 são operações distintas, com fornecedores distintos, e o mais importante, regimes de incidência distintos. Dessarte, devem ser analisadas de forma separada no que tange ao direito crédito da Contribuição ao PIS e da COFINS. 3 Traçada tal premissa, fica clara a conclusão no sentido de que, sendo os regimes de incidência distintos, do produto (combustível, no modelo monofásico, pago ao distribuidor) e do frete (transporte, na nãocumulatividade, pago à empresa transportadora), não há que se falar que o destino do crédito do frete segue o mesmo daquele da mercadoria, como fez a autoridade fiscal ao fundamentar o lançamento tributário. Pelo contrário. Justamente em razão da distinção de regimes, permanece o direito ao crédito referente ao frete pago pelo comprador do combustível para revenda, nos termos do artigo 3º, inciso I das Leis 10.833/2003 e 10.637/2002, assim como existe para qualquer outro atacadista ou varejista que trabalhe com produtos tributados na sistemática da não cumulatividade. Não há na legislação nada que impeça tal creditamento para empresas como a Recorrente, já que inexiste critério de discrímem, em relação ao frete, do presente caso em comparação com qualquer outra empresa atacadista ou varejista. Inclusive, o raciocínio aqui empregado é o mesmo daquele adotado em outros julgamentos deste Conselho a respeito da possibilidade de tomada de crédito das Contribuições relativamente ao frete de produtos não tributados. Destaco a seguir passagem do voto da Conselheira Maysa De Sá Pittondo Deligne, no Acórdão 3402003.520, a respeito do tema: "Entretanto, ao contrário do que afirmou a fiscalização, o direito ao crédito pelo serviço de transporte prestado (frete) não se condiciona à tributação do bem transportado, inexistindo qualquer exigência nesse sentido na legislação. A restrição ao crédito se refere, APENAS, ao bem/serviço não tributado ou sujeito à alíquota zero (art. 3º, §2º, II, Leis n.º 10.637/2002 e n.º 10.833/2003), e não aos serviços tributados que possam ser a eles relacionados, como o caso: "Art. 3º (...) § 2o Não dará direito a crédito o valor: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) II da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição. (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004)" (grifei) Como evidenciado pela fiscalização, não se discute aqui a natureza da operação sujeita ao crédito (frete na aquisição de bens para revenda, tributado e assumido pelo adquirente). O que se discute, apenas, é a suposta impossibilidade de tomada do crédito em razão do bem transportado ser sujeito à alíquota zero, restrição esta não trazida na Lei. Nesse sentido, vejamse outros acórdãos deste E. Conselho: 3 Não é demais reavivar a passagem da doutrina de Marco Aurélio Greco alhures transcrita, que confirma que tecnicamente os dispêndios com o produto e com o frete não se confundem: "assim, quando uma empresa adquire para revenda determinado bem e contrata o respectivo transporte, este faz parte indissociável da aquisição a que se refere o inciso "I", ainda que seja um dispêndio separado do preço do bem em sentido técnico." Fl. 320DF CARF MF Processo nº 13227.900242/201404 Acórdão n.º 3402006.472 S3C4T2 Fl. 340 15 "(...) CRÉDITOS. FRETE DE BENS QUE CONFIGURAM INSUMOS. SERVIÇO DE TRANSPORTE QUE CONFIGURA INSUMO, INDEPENDENTE DO BEM TRANSPORTADO ESTAR SUJEITO À CONTRIBUIÇÃO. O frete de um produto que configure insumo é, em si mesmo, um serviço aplicado como insumo na produção. O direito de crédito pelo serviço de transporte não é condicionado a que o produto transportado esteja sujeito à incidência das contribuições. Recurso Voluntário Provido em Parte Direito Creditório Reconhecido em Parte" (Processo n.º 13971.005212/200994 Sessão de 20/08/2014. Relator Alexandre Kern. Acórdão n.º 3403003.164. Voto Vencedor do Conselheiro Ivan Allegretti. Maioria grifei) "Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005 (...) COFINS. NÃOCUMULATIVIDADE. SERVIÇOS VINCULADOS A AQUISIÇÕES DE BENS COM ALÍQUOTA ZERO. CREDITAMENTO. POSSIBILIDADE. É possível o creditamento em relação a serviços sujeitos a tributação (transporte, carga e descarga) efetuados em/com bens não sujeitos a tributação pela contribuição." (Processo n.º 10950.003052/200656. Sessão de 19/03/2013. Relator Rosaldo Trevisan. Acórdão n.º 3403001.938. Maioria grifei) A mesma premissa adotada pela fiscalização no presente caso, mantida pela decisão de primeira instância, foi afastada com veemência e clareza pelo I. Conselheiro Relator Rosaldo Trevisan em seu voto no julgamento do último acórdão acima ementado: "A fiscalização não reconhece o crédito por ausência de amparo normativo, e afirma que o frete e as referidas despesas integram o custo de aquisição do bem, sujeito à alíquota zero (por força do art. 1o da Lei no 10.925/2004), o que inibe o creditamento, conforme a vedação estabelecida pelo inciso II do § 2o do art. 3o da Lei no 10.637/2002 (em relação à Contribuição para o PIS/Pasep), e pelo inciso II do § 2o do art. 3o da Lei no 10.833/2003 (em relação à Cofins): (...) Contudo, é de se observar que o comando transcrito impede o creditamento em relação a bens não sujeitos ao pagamento da contribuição e serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição. Não trata o dispositivo de serviços sujeitos a tributação efetuados em/com bens não sujeitos a tributação (o que é o caso do presente processo). Improcedente assim a subsunção efetuada pelo julgador a quo no sentido de que o fato de o produto não ser tributado “contaminaria” também os serviços a ele associados. Vejase que é possível um bem não sujeito ao pagamento das contribuições ser objeto de uma operação de transporte tributada. E que o dispositivo legal citado não trata desse assunto" (grifei). Cito ainda no mesmo sentido, os Acórdãos nº 3403 001.944, de 09 de março de 2013 e 3302004.886, de 25 de outubro de 2017. Fl. 321DF CARF MF 16 Por tudo quanto exposto, voto no sentido de reverter as glosas referentes aos fretes de combustíveis. 2. Créditos indevidos sobre gastos com a realização de benfeitorias A glosa aqui tratada se deu porque, segundo a fiscalização, a Contribuinte se creditou da Contribuição ao PIS e da Cofins na aquisição de bens do ativo imobilizado diretamente sob forma de custo no mês em que incorrido, quando na realidade, deveria creditarse na forma de dapreciação futura. De outra parte, Recorrente afirma que as compras eram destinadas à benfeitorias necessárias à suas atividades e que, como tais, geram direito de crédito na forma de custos. Ou seja, a divergência repousa não no direito ao crédito em si, mas na forma de sua apropriação. A matéria em discussão é disciplinada pelo artigo 3° das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003, abaixo transcritos na parte que interessa à solução da presente lide: Lei 10.637, de 30 de dezembro de 2002 Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI (...) VII edificações e benfeitorias em imóveis de terceiros, quando o custo, inclusive de mão deobra, tenha sido suportado pela locatária; (...) § 1º O crédito será determinado mediante a aplicação da alíquota prevista no caput do art. 2º desta Lei sobre o valor: (...) III dos encargos de depreciação e amortização dos bens mencionados nos incisos VI e VII do caput, incorridos no mês; _________________________ Lei 10.833, de 29 de dezembro de 2003 Fl. 322DF CARF MF Processo nº 13227.900242/201404 Acórdão n.º 3402006.472 S3C4T2 Fl. 341 17 Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI (...) VII edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, utilizados nas atividades da empresa; (...) §1º Observado o disposto no § 15 deste artigo, o crédito será determinado mediante a aplicação da alíquota prevista no caput do art. 2º desta Lei sobre o valor: (...) III dos encargos de depreciação e amortização dos bens mencionados nos incisos VI e VII do caput, incorridos no mês; Pela leitura dos dispositivos, vemos que existem duas formas de geração de crédito excludentes entre si. Os bens adquiridos como insumos (inciso II) geram direito de crédito diretamente sobre o custo incorrido no mês (§ 1º, inciso I). Enquanto isso, no caso dos bens do ativo imobilizado, o direito de crédito se dá na forma de futura depreciação (§ 1º, inciso III). É certo que o ativo imobilizado (artigo 179, inciso IV da Lei n. 6.404/76) 4 compreende os bens de natureza duradoura, destinados ao funcionamento normal da sociedade e do seu empreendimento, assim como os direitos exercidos com essa finalidade. 5 Em outras palavras, o ativo imobilizado compreende os bens e direitos necessários ao exercício contínuo das atividades da pessoa jurídica (vide artigo 301 do RIR/99 e CPC n. 27), aí incluídos aqueles que tem finalidade unicamente administrativa, ou seja, que não são empregados diretamente na produção ou na comercialização de mercadorias e de serviços, ou ainda, na locação, integram o ativo permanente. Também não há dúvidas de que as instalações prediais da empresa e, por conseguinte, as benfeitorias nelas realizadas, se inserem no conceito de ativos imobilizados. Logo, seus créditos de PIS e Cofins devem, em regra, ser calculados sobre a depreciação, conforme preconiza o citado artigo 3º, §1º, inciso III das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003. 4 Art. 179. As contas serão classificadas do seguinte modo: (...) IV – no ativo imobilizado: os direitos que tenham por objeto bens corpóreos destinados à manutenção das atividades da companhia ou da empresa ou exercidos com essa finalidade, inclusive os decorrentes de operações que transfiram à companhia os benefícios, riscos e controle desses bens; 5 In: FIPECAFI. Manual de Contabilidade das Sociedades por Ações. São Paulo. Atlas, p. 198. Fl. 323DF CARF MF 18 Somente seria possível a contabilização de bens ativáveis como custos se o valor unitário do bem fosse inferior a R$ 326,61 ou se sua vida útil inferior a um ano. No caso de bens valor unitário inferior a R$ 326,61, a contabilização como custo depende ainda de que atividade exercida não exija utilização de um conjunto desses bens. Tudo isso nos termos do artigo 301 do RIR/99, vigente à época dos fatos aqui tratados. In verbis: Art. 301. O custo de aquisição de bens do ativo permanente não poderá ser deduzido como despesa operacional, salvo se o bem adquirido tiver valor unitário não superior a trezentos e vinte e seis reais e sessenta e um centavos, ou prazo de vida útil que não ultrapasse um ano. § 1º Nas aquisições de bens, cujo valor unitário esteja dentro do limite a que se refere este artigo, a exceção contida no mesmo não contempla a hipótese onde a atividade exercida exija utilização de um conjunto desses bens. § 2º Salvo disposições especiais, o custo dos bens adquiridos ou das melhorias realizadas, cuja vida útil ultrapasse o período de um ano, deverá ser ativado para ser depreciado ou amortizado. Portanto, e como bem posto pela decisão Recorrida, em se tratando de bens corpóreos adquiridos para a manutenção das atividades da empresa, sua contabilização deverá ocorrer obrigatoriamente em conta do imobilizado, pouco importando se a aquisição se destina a manutenção, reparo, ampliação de instalações, com ou sem projetos, seja benfeitoria necessária, útil ou voluptuária. Ainda sobre o artigo 301 do RIR/99, friso que, conforme se verifica dos autos e se confirma nas palavras da própria Recorrente, os bens objeto de glosa são em sua grande maioria materiais de construção (areia, cimento, brita, ferragens, tintas, telhas, forros de PVC, vasos sanitários, instalações elétricas e hidráulicas, pisos, revestimentos, etc), aos quais não se aplica a regra do valor unitário prevista no art. 301 do RIR/99, tendo em vista sua utilização conjunta e/ou incorporação ao imóvel. É o que concluímos pela jurisprudência administrativa a respeito da matéria: ACÓRDÃO 1º Conselho de Contribuintes n°: 10193.676 de 07/11/2001 IRPJ. CUSTOS E DESPESAS OPERACIONAIS. BENS DO ATIVO DEDUZIDOS COMO DESPESAS. Os materiais de construção adquiridos em grande quantidade (concreto, areia, ferragens, pisos, forros e revestimentos, materiais para instalações elétricas e hidráulicas) utilizados na construção de muros de arrimo, benfeitorias e reformas, devem ser ativados, independentemente do custo unitário tendo em vista a sua utilização conjunta e incorporação ao imóvel (art 43 do CC). Tal conclusão se alinha com os artigos 79 e 81, inciso II do Código Civil de 2002, os quais esclarecem que não perdem o caráter de imóveis os materiais provisoriamente separados de um prédio para nele se reempregarem. Corroborando tudo quanto exposto, temos que permitir que os contribuintes tomem crédito dos gastos com os materiais para obras de benfeitorias no momento em que incorrem nessas despesas, significaria conceder o crédito em duplicidade, pois o mesmo será apropriado também no futuro, via depreciação da benfeitoria que estará contabilizada no ativo imobilizado, uma vez concluída a obra. Fl. 324DF CARF MF Processo nº 13227.900242/201404 Acórdão n.º 3402006.472 S3C4T2 Fl. 342 19 Finalmente, destaco que a jurisprudência desse Conselho vai no mesmo sentido das razões aqui adotadas, conforme se infere da ementa a seguir colacionada: Ementa(s) PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2004 a 31/03/2004 PRINCÍPIOS DA VERDADE MATERIAL, DO INFORMALISMO MODERADO E DA AMPLA DEFESA. OFENSA. INOCORRÊNCIA. Inocorre ofensa aos princípios da verdade material, do informalismo moderado e da ampla defesa quando a Administração tributária atua em conformidade com a legislação tributária, material e processual, bem como com as informações e os elementos probatórios presentes nos autos. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2004 a 31/03/2004 NÃO CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. INSUMOS. Na não cumulatividade das contribuições sociais, o elemento de valoração é o total das receitas auferidas, o que engloba todo o resultado das atividades que constituem o objeto social da pessoa jurídica, e o direito ao creditamento alcança todos os bens e serviços, úteis ou necessários, utilizados como insumos diretamente na produção, e desde que efetivamente absorvidos no processo produtivo que constitui o objeto da sociedade empresária. MATERIAL DE EMBALAGEM. DIREITO AO CRÉDITO. No regime da não cumulatividade da contribuição para o PIS e da Cofins, há direito à apuração de créditos sobre as aquisições de bens utilizados na embalagem para transporte, cujo objetivo é a preservação das características do produto vendido. MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS UTILIZADOS NA PRODUÇÃO. SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO. DIREITO A CRÉDITO. Os valores referentes a serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, para manutenção das máquinas e equipamentos empregados na produção de bens destinados à venda, abarcando as peças de reposição, podem compor a base de cálculo dos créditos a serem descontados da contribuição não cumulativa, desde que respeitados todos os demais requisitos legais atinentes à espécie. BENS DO ATIVO IMOBILIZADO. MÁQUINAS E EQUIPAMENTOS UTILIZADOS NA PRODUÇÃO. BENFEITORIAS. DEPRECIAÇÃO. AMORTIZAÇÃO. DIREITO A CRÉDITO. Em relação aos bens do ativo imobilizado, com expectativa de utilização no processo produtivo por mais de um ano, e aos Fl. 325DF CARF MF 20 serviços de mão de obra e materiais da construção civil, comprovadamente prestados por pessoas jurídicas domiciliadas no País, os créditos serão calculados com base no valor do encargo de depreciação/amortização incorrido no período, observados os demais requisitos exigidos pela lei. CREDITAMENTO. BENS CONSUMIDOS DURANTE O PROCESSO PRODUTIVO. INSUMOS. Dão direito a crédito as aquisições de insumos consumidos durante o processo produtivo na marcação das matériasprimas e dos produtos finais fabricados, bem como na proteção das máquinas utilizadas no setor produtivo. (Acórdão 380303.205, Sessão de 17 de julho de 2012) Assim, encaminho o meu voto no sentido de que, de fato, os créditos da Contribuição ao PIS e da COFINS foram apropriados de forma equivocada pela Recorrente, já que não poderiam ter sido tomados como custos no mês em que incorrido, mas sim na forma de depreciação futura. Portanto, deve ser mantida a glosa dos créditos sobre gastos com a realização de benfeitorias. 3. Créditos indevidos sobre locações de máquinas e equipamentos utilizados em benfeitorias A glosa aqui tratada diz respeito à locação de caçambas, máquinas e outros equipamentos utilizados em construção civil. Com efeito, em resposta à intimação da Fiscalização, a Contribuinte informou que tais bens foram locados para utilização na limpeza e preparação de realização de benfeitorias do imóvel, bem como na retirada de entulho de tais obras. Diante desses elementos, entendeu a autoridade fiscal que os dispêndios integram os custos de benfeitorias em imóvel próprio e de terceiro, portanto, deveriam ser contabilizadas no ativo imobilizado, para posterior depreciação, e somente nesta condição seriam válidos os créditos da Contribuição ao PIS e da Cofins, com fulcro no artigo 3º, inciso IV das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2002. É a literalidade do TVF, o qual reproduzo abaixo: 3.4.3 Créditos indevidos sobre locações de máquinas e equipamentos utilizados em benfeitorias. Analisando a documentação apresentada, verificouse a existência de valores referentes a locação de caçambas, máquinas e outros equipamentos utilizados em construções civis, valores estes que foram informados no DACON na Linha 6 “Despesas de Aluguéis de Máquinas e Equipamentos Locados de Pessoa Jurídica”. Em função disso, intimouse a contribuinte, por meio do TIF nº 3, de 08/12/14, para justificar em qual atividade da empresa é utilizado o bem locado. Em resposta, a contribuinte informou que tais bens foram locados para utilização na limpeza e preparação da realização de benfeitorias do imóvel, bem como na retirada de entulhos decorrentes de tais obras. O Art. 3º, IV, da Lei 10.637/2002 e o Art. 3º, IV, da Lei 10.833/2003 permitem o desconto de créditos apurados em relação à locação de prédios, máquinas e equipamentos, desde Fl. 326DF CARF MF Processo nº 13227.900242/201404 Acórdão n.º 3402006.472 S3C4T2 Fl. 343 21 que pagos a pessoas jurídicas e utilizados nas atividades da empresa. Lei 10.637, de 30 de dezembro de 2002 Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) IV aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; _______________________________ Lei 10.833, de 29 de dezembro de 2003 Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) IV aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; Entretanto, em que pese o permissivo legal acima transcrito, entendemos que tais gastos integram o custo das benfeitorias realizadas e que, portanto, deveriam ter o mesmo tratamento a elas atribuído, qual seja, a contabilização no imobilizado para posterior depreciação ou amortização. Com relação a benfeitorias, a estas cotas de depreciação e/ou amortização é que a lei permite a apuração de créditos de PIS e COFINS. Desse modo, pelas mesmas razões expostas no tópico 3.4.2 Créditos indevidos sobre gastos com a realização de benfeitorias, foram glosadas as despesas efetuadas com a locação de bens utilizados na preparação, limpeza e remoção de entulhos decorrentes das obras de benfeitorias realizadas pela contribuinte, cuja relação completa encontrase no Anexo III desse relatório, que resultou nos valores mensais constantes da tabela abaixo. (...) (grifei) Pois bem. É verdade que os valores gastos pela Recorrente com aluguel de máquinas e equipamento para a construção de benfeitorias deve seguir a mesma sorte das obras, ou seja, ser contabilizado no ativo imobilizado. Isto porque nas normas contábeis a esse respeito (NBC TG 27), segundo o princípio do reconhecimento dos custos de um item do ativo imobilizado, "esses custos incluem custos incorridos inicialmente para adquirir ou construir item do ativo imobilizado e os custos incorridos posteriormente para renoválo, substituir suas partes, ou dar manutenção a ele" (item 10). Fl. 327DF CARF MF 22 Ademais, na parte de mensuração no reconhecimento segundo a qual o reconhecimento como ativo deve ser mensurado pelo seu custo está claro que integram os elementos do custo "quaisquer custos diretamente atribuíveis para colocar o ativo no local e condição necessárias para o mesmo ser capaz de funcionar da forma pretendida pela administração" (item 16, b). Dentre os exemplos de custos diretamente atribuíveis, estão os "custos de preparação do local" (item 17, b). Por essas razões, assim como ocorre com os materiais de construção tratados no item anterior, os alugueis de máquinas e equipamentos para a edificação de benfeitorias deve ser contabilizado no ativo imobilizado tão logo a obra seja finalizada, iniciandose o período de depreciação fiscal e, consequentemente, o direito a tomada de crédito da Contribuição ao PIS e da COFINS segundo a legislação sobre o tema, qual seja o inciso VI do artigo 3º das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003, conjuntamente com o seu §1º, inciso III. Com efeito, a legislação de regência da Contribuição ao PIS e da COFINS permite a apuração de créditos em relação a "máquinas e equipamentos" em duas situações distintas. A primeira é aquela tratada no inciso IV do artigo 3º das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003, a qual versa sobre o aluguel das referidas máquinas e equipamentos, condicionando que os valores pagos a título da locação sejam destinados à pessoa jurídica, para a consecução de atividades da empresa. Aqui, a lei diz somente que os gastos com aluguel devem estar direcionados à atividade da empresa, de modo que o crédito não está necessariamente ligado ao setor fabril ou a prestação de serviços. Portanto, mesmo a despesa com aluguel relativa à área administrativa das empresas ou aquelas tidas por empresas comerciais pode gerar crédito da Contribuição ao PIS e da COFINS (vide Solução de Consulta DISIT/SRRF 08 n. 492, de 31 de dezembro de 2009 6 e Acórdão 3301005.016, de 28 de agosto de 20187). Na apropriação de créditos nos termos do inciso IV, estes serão calculados no momento do dispêndio sobre o valor da locação, sendo que esse montante estará contabilizado como custo da sociedade. Já a segunda situação vem disciplinada pelo inciso VI do mesmo artigo, o qual autoriza a apuração de créditos de “máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos ou fabricados para locação a terceiros, ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços”. Aqui, portanto, falase em 6 Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep CRÉDITO. ALUGUEL DE PRÉDIOS. No cálculo da contribuição para o PIS/Pasep apurada pelo regime nãocumulativo podem ser descontados créditos relativos ao valor dos aluguéis de prédios utilizados nas atividades da empresa, aí compreendidas tanto suas atividades industriais, comerciais e de prestação de serviço, quanto suas atividades administrativas, desde que esses aluguéis sejam pagos a pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil. Dispositivos Legais: Lei nº 10.637, de 2002, art. 3º, inciso IV e § 3º. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins CRÉDITO. ALUGUEL DE PRÉDIOS. No cálculo da Cofins apurada pelo regime nãocumulativo podem ser descontados créditos relativos ao valor dos aluguéis de prédios utilizados nas atividades da empresa, aí compreendidas tanto suas atividades industriais, comerciais e de prestação de serviço, quanto suas atividades administrativas, desde que esses aluguéis sejam pagos a pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil. Dispositivos Legais: Lei nº 10.833, de 2003, art. 3º, inciso IV e § 3º. 7 (...) REGIME NÃO CUMULATIVO. DESPESAS COM ALUGUEL DE MAQUINAS E EQUIPAMENTOS. DESCONTO DE CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. Se o disposto no art. 3º, IV, da Lei 10.833/2003, não restringiu o desconto de créditos da Cofins apenas às despesas de aluguéis de máquinas e equipamentos ao processo produtivo da empresa, não cabe ao intérprete restringir a utilização de créditos somente aos alugueis de máquinas e equipamentos utilizados no processo produtivo.(...) Fl. 328DF CARF MF Processo nº 13227.900242/201404 Acórdão n.º 3402006.472 S3C4T2 Fl. 344 23 máquinas e equipamentos que serão contabilizados no ativo imobilizado da sociedade. Nesse caso, o legislador restringiu o direito a tomada de crédito, ao estabelecer que as situações que permitem a sua apuração estão adstritas aos bens adquiridos ou fabricados para: a) locação a terceiros; b) utilização da produção de bens destinados à venda; ou c) utilização na prestação de serviços. Ou seja, não é todo e qualquer bem destinado ao ativo imobilizado que dará direito ao crédito das Contribuições, mas tão somente aqueles destinados a uma das três citadas finalidades estabelecidas pela lei (vide Acórdãos 3301002.806 e 3102002.166 deste Conselho). 8 Apurarseá os créditos nos moldes do inciso VI de acordo com a depreciação dos bens corpóreos adquiridos, contabilizados no ativo imobilizado. A decisão recorrida estabelece a distinção dos regimes, dando exemplos didáticos sobre sua aplicação. São seus dizeres: A interpretação integrada do art. 3° das Leis nºs 10.637/2002 (PIS) e 10.833/2003 (Cofins) deve levar à seguinte conclusão: os aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa, são sim, em regra, passiveis de créditos calculados a partir dos valores pagos nessas operações, desde que não ativáveis, hipótese em que o crédito será calculado sobre a depreciação. À evidência, as máquinas e equipamentos a que se refere o inciso IV, passiveis de crédito, são aquelas utilizadas nas atividades operacionais da empresa. Assim, por exemplo, se um posto de gasolina utiliza bombas de combustíveis locadas de terceiro, essa locação será contabilizada como custo e, por óbvio, poderá ser objeto de crédito de PIS e Cofins, calculado sobre o valor da locação, na forma do inciso IV. 8 A jurisprudência deste Conselho é tranquila a respeito do tema, conforme é possível depreender das ementas abaixo colacionadas: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/02/2008 a 28/02/2008 PIS/PASEP. REGIME DA NÃOCUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO PELA AQUISIÇÃO DE BENS DESTINADOS AO ATIVO IMOBILIZADO E NÃO UTILIZADOS NA PRODUÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. O inciso VI do artigo 3º das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 vincula o creditamento em relação a máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado além de seu emprego para locação a terceiros a seu uso na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços. Portanto, o legislador restringiu o creditamento da contribuição à aquisição de bens diretamente empregados na industrialização das mercadorias (ou na prestação de serviços), não sendo razoável admitir que seja passível do cômputo de créditos a aquisição irrestrita de bens necessários ao exercício das atividades da empresa como um todo. (...) (Processo 13603.724612/201113, Acórdão 3301002.806) Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/07/2008 a 30/09/2008 (...) ENCARGOS DE DEPRECIAÇÃO. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. APROPRIAÇÃO DE CRÉDITOS. IMPOSSIBILIDADE. Não é admissível o direito à apropriação de créditos da Cofins não cumulativa sobre os encargos de depreciação de bens do ativo imobilizado se não foi comprovado pelo contribuinte que os bens depreciados foram utilizados na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços, ou utilizados nas atividades da empresa, no caso de edificações e benfeitorias, e que foram adquiridos a partir de 1/4/2004. (Processo n. 11080.931975/201116. Acórdão 3102002.166). Fl. 329DF CARF MF 24 Por outro lado, se esse mesmo posto de gasolina aluga andaimes de terceiros para a execução de uma obra de ampliação de suas instalações, o valor dessa locação deverá ser contabilizado no ativo imobilizado e, por conseguinte, não gerará direito de crédito de PIS e Cofins sobre o custo de locação, mas sobre a depreciação do imóvel. Traçada tal conceituação, fica realmente claro que a fiscalização motivou o lançamento pelo fato de que as despesas com aluguel de máquinas e equipamentos "integram o custo das benfeitorias realizadas e que, portanto, deveriam ter o mesmo tratamento a elas atribuído, qual seja, a contabilização no imobilizado para posterior depreciação ou amortização". Ou seja, atribuiu como fundamento jurídico da autuação o comando do inciso VI do artigo 3º das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003. Desse modo, assim como concluído no item anterior, encaminho o meu voto no sentido de que, de fato, os créditos da Contribuição ao PIS e da COFINS foram apropriados de forma equivocada pela Recorrente, já que não poderiam ter sido tomados como custos no mês em que incorrido, mas sim na forma de depreciação futura. Portanto, deve ser mantida a glosa dos créditos sobre gastos com o aluguel de máquinas para a realização de benfeitorias. 4. Da suspensão da exigibilidade. Com relação ao pedido de suspensão da exigibilidade do crédito tributário constituído nos presentes autos, com fundamento no art. 151 do CTN, o mesmo carece de objeto, pois atendido está. 5. Correção do valor do crédito pela Taxa Selic No que se refere ao pedido de correção do valor do crédito pela Taxa Selic, tratase de matéria preclusa, já que não foi apresentada em manifestação de inconformidade. (artigo 17 do Decreto nº 70.235/72). De toda sorte, os artigos 13 e 15, inciso VI da Lei nº 10.833/2003 colocam expressa vedação legal a tal pretensão, em relação tanto à COFINS como à Contribuição ao PIS. Destaco seu conteúdo: Art. 13. O aproveitamento de crédito na forma do § 4o do art. 3o, do art. 4o e dos §§ 1o e 2o do art. 6o, bem como do § 2o e inciso II do § 4o e § 5o do art. 12, não ensejará atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores. Art. 15. Aplicase à contribuição para o PIS/PASEP não cumulativa de que trata a Lei no 10.637, de 30 de dezembro de 2002, o disposto: (...) VI no art. 13 desta Lei. Inclusive, tal matéria é objeto da Súmula CARF n. 125, cujo teor transcrevo abaixo: No ressarcimento da Cofins e da Contribuição para o PIS não cumulativas não incide correção monetária ou juros, nos termos dos artigos 13 e 15, VI, da Lei nº 10.833, de 2003. Portanto, afasto a pretensão da Recorrente sobre a correção dos créditos pleiteados pela Taxa Selic. Fl. 330DF CARF MF Processo nº 13227.900242/201404 Acórdão n.º 3402006.472 S3C4T2 Fl. 345 25 Dispositivo Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento parcial ao recurso voluntário, para cancelar as glosas referentes aos gastos com frete na aquisição de combustíveis para revenda. Thais De Laurentiis Galkowicz Fl. 331DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13706.001217/2006-35
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 27 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Apr 30 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2015
IRPF. OMISSÃO DE RENDIMENTOS DE ALUGUEL.
Qualquer rendimento auferido pela pessoa física, salvo exceções legalmente previstas, seja oriundo do trabalho, do capital ou da combinação de ambos, entra na base de cálculo para incidência do imposto de renda, conforme redação do artigo 37 do Regulamento de Imposto de Renda (RIR/99 - Decreto nº 3.000/99).
JUROS - TAXA SELIC - SÚMULA CARF Nº 108
Sobre o valor do débito tributário, a 1ª Seção do STJ (Resp 879844) aplicando o instituto dos recursos repetitivos, consolidou a tese da incidência do índice de correção monetária e de juros de mora na atualização dos débitos tributários. Este CARF tem o mesmo entendimento, sumulando a incidência da SELIC sobre a multa de ofício.
Numero da decisão: 2002-000.887
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencida a conselheira Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez que lhe negou provimento.
(assinado digitalmente)
Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente
(assinado digitalmente)
Thiago Duca Amoni - Relator.
Participaram das sessões virtuais não presenciais os conselheiros Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil e Thiago Duca Amoni. Ausente a conselheira Mônica Renata Mello Ferreira Stoll.
Nome do relator: THIAGO DUCA AMONI
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2015 IRPF. OMISSÃO DE RENDIMENTOS DE ALUGUEL. Qualquer rendimento auferido pela pessoa física, salvo exceções legalmente previstas, seja oriundo do trabalho, do capital ou da combinação de ambos, entra na base de cálculo para incidência do imposto de renda, conforme redação do artigo 37 do Regulamento de Imposto de Renda (RIR/99 - Decreto nº 3.000/99). JUROS - TAXA SELIC - SÚMULA CARF Nº 108 Sobre o valor do débito tributário, a 1ª Seção do STJ (Resp 879844) aplicando o instituto dos recursos repetitivos, consolidou a tese da incidência do índice de correção monetária e de juros de mora na atualização dos débitos tributários. Este CARF tem o mesmo entendimento, sumulando a incidência da SELIC sobre a multa de ofício.
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OMISSÃO DE RENDIMENTOS DE ALUGUEL. Qualquer rendimento auferido pela pessoa física, salvo exceções legalmente previstas, seja oriundo do trabalho, do capital ou da combinação de ambos, entra na base de cálculo para incidência do imposto de renda, conforme redação do artigo 37 do Regulamento de Imposto de Renda (RIR/99 Decreto nº 3.000/99). JUROS TAXA SELIC SÚMULA CARF Nº 108 Sobre o valor do débito tributário, a 1ª Seção do STJ (Resp 879844) aplicando o instituto dos recursos repetitivos, consolidou a tese da incidência do índice de correção monetária e de juros de mora na atualização dos débitos tributários. Este CARF tem o mesmo entendimento, sumulando a incidência da SELIC sobre a multa de ofício. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencida a conselheira Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez que lhe negou provimento. (assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente (assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 70 6. 00 12 17 /2 00 6- 35 Fl. 94DF CARF MF 2 Participaram das sessões virtuais não presenciais os conselheiros Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (Presidente), Virgílio Cansino Gil e Thiago Duca Amoni. Ausente a conselheira Mônica Renata Mello Ferreira Stoll. Relatório Notificação de lançamento Trata o presente processo de notificação de lançamento – NL (efls. 04 a 14), relativa a imposto de renda da pessoa física, pela qual se procedeu autuação pela omissão de rendimentos recebidos a título de aluguel de pessoa jurídica. Tal omissão gerou lançamento de imposto de renda pessoa física suplementar de R$ 3.830,70, acrescido de multa de ofício no importe de 75%, bem como juros de mora. Impugnação A notificação de lançamento foi objeto de impugnação, às efls. 02 e 28 dos autos: Cientificada do Auto de Infração em 28/03/2006 , fls. 12 e 23 , o contribuinte protocolizou impugnação em 24/04/2006, alegando que cometeu um engano no preenchimento de sua Declaração de Ajuste Anual , onde os valores dos aluguéis recebidos de pessoa jurídica no valor de R$15.600,00 referentes ao imóvel situado na Rua Pedro Guedes n° 20 , Maracanã, Rio de Janeiro, foram lançados indevidamente , no item Rendimentos Tributáveis recebidos de Pessoas Físicas e do Exterior pelo Titular. A impugnação foi apreciada na 3ª Turma da DRJ/RJOII que, por unanimidade, em 13/04/2009, no acórdão 1324.217, às efls. 53 a 55, julgou à unanimidade, a impugnação improcedente. Recurso voluntário Ainda inconformado , o contribuinte apresentou recurso voluntário,às efls. 61 a 89, no qual alega, em síntese: · cometeu erro ao preencher sua DAA, vez que valor de R$ 15.600,00 foi informado no campo incorreto, não havendo qualquer omissão de rendimentos; · apresentou declaração retificadora, corrigindo o erro. É o relatório. Voto Fl. 95DF CARF MF Processo nº 13706.001217/200635 Acórdão n.º 2002000.887 S2C0T2 Fl. 95 3 Conselheiro Thiago Duca Amoni Relator Pelo que consta no processo, o recurso é tempestivo, já que o contribuinte foi intimado do teor do acórdão da DRJ em 10/06/2009, efls. 58, e interpôs o presente Recurso Voluntário em 09/07/2009, efls. 61, posto que atende aos requisitos de admissibilidade e, portanto, dele conheço. Conforme os autos, o lançamento tributário foi baseado na omissão de rendimentos de alugueis e royalties recebidos de pessoas jurídicas, mais especificamente da PRODUTOS MÉDICOS LTDA , CNPJ 02.377.474/000182, no valor de R$15.600,00. A DRJ assim se posicionou: A alegação do impugnante , de erro no preenchimento da Declaração de ajuste anual , não é suficiente para afastar a presunção de veracidade de que se reveste a DIRPF/2003 apresentada .Neste caso , caberia ao contribuinte trazer aos autos a prova de seus argumentos, porém no presente não há nenhum elemento que efetivamente comprove a alegação do mesmo. Em vista do exposto , voto por julgar procedente o lançamento , devendo ser mantido o resultado apurado pela Fiscalização.. Qualquer rendimento auferido pela pessoa física, salvo exceções legalmente previstas, seja oriundo do trabalho, do capital ou da combinação de ambos, entra na base de cálculo para incidência do imposto de renda, como se vê pela redação do artigo 37 do Regulamento de Imposto de Renda (RIR/99 Decreto nº 3.000/99): Art. 37. Constituem rendimento bruto todo o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados (Lei nº 5.172, de 1966, art. 43, incisos I e II, e Lei nº 7.713, de 1988, art. 3º, § 1º). Parágrafo único. Os que declararem rendimentos havidos de quaisquer bens em condomínio deverão mencionar esta circunstância (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 66). Art. 38. A tributação independe da denominação dos rendimentos, títulos ou direitos, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem dos bens produtores da renda e da forma de percepção das rendas ou proventos, bastando, para a incidência do imposto, o benefício do contribuinte por qualquer forma e a qualquer título (Lei nº 7.713, de 1988, art. 3º, § 4º). Fl. 96DF CARF MF 4 Parágrafo único. Os rendimentos serão tributados no mês em que forem recebidos, considerado como tal o da entrega de recursos pela fonte pagadora, mesmo mediante depósito em instituição financeira em favor do beneficiário. Ainda, conforme jurisprudência deste CARF: IMPOSTO DE RENDA DAS PESSOAS FÍSICAS — São rendimentos da pessoa física para fins de tributação do Imposto de Renda aqueles provenientes do trabalho assalariado, as remunerações por trabalho prestado no exercício de empregos, cargos, funções e quaisquer proventos ou vantagens percebidos tais como salários, ordenados, vantagens, gratificações, honorários, entre outras denominações. (Acórdão n°: 9202 002.451 – 08/11/2012) Os aluguéis devem der tributados de acordo com a Tabela Progressiva do Imposto de Renda das pessoas físicas e a responsabilidade pelo recolhimento depende da natureza jurídica do locatário: · Se pessoa jurídica, caberá a sociedade empresária recolher o imposto de renda na fonte. O locatário informa em sua DAA a razão social, CNPJ, o valor do aluguel recebido no ano e o imposto retido na fonte, no campo "Rendimentos Tributáveis Recebidos de Pessoa Jurídica pelo Titular"; · Se pessoa física, o locatário deve declarar o valor recebido no item "Rendimentos Tributáveis Recebidos de Pessoa Física e do Exterior", dentro da aba "carnêleão". O artigo 631 do RIR/99 trata da primeira hipótese: Art. 631. Estão sujeitos à incidência do imposto na fonte, calculado na forma do art. 620, os rendimentos decorrentes de aluguéis ou royalties pagos por pessoas jurídicas a pessoas físicas. Já a segunda hipótese é regida pelo artigo 106 do mesmo Regulamento: Art. 106. Está sujeita ao pagamento mensal do imposto a pessoa física que receber de outra pessoa física, ou de fontes situadas no exterior, rendimentos que não tenham sido tributados na fonte, no País, tais como (Lei nº 7.713, de 1988, art. 8º, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 24, § 2º, inciso IV): Fl. 97DF CARF MF Processo nº 13706.001217/200635 Acórdão n.º 2002000.887 S2C0T2 Fl. 96 5 I os emolumentos e custas dos serventuários da Justiça, como tabeliães, notários, oficiais públicos e outros, quando não forem remunerados exclusivamente pelos cofres públicos; II os rendimentos recebidos em dinheiro, a título de alimentos ou pensões, em cumprimento de decisão judicial, ou acordo homologado judicialmente, inclusive alimentos provisionais; III os rendimentos recebidos por residentes ou domiciliados no Brasil que prestem serviços a embaixadas, repartições consulares, missões diplomáticas ou técnicas ou a organismos internacionais de que o Brasil faça parte; IV os rendimentos de aluguéis recebidos de pessoas físicas. Ainda, poderão ser abatidos dos valores dos alugueis recebidos, conforme artigo 632 do RIR/99: Art. 632. Não integrarão a base de cálculo para incidência do imposto, no caso de aluguéis de imóveis (Lei nº 7.739, de 1989, art. 14): I o valor dos impostos, taxas e emolumentos incidentes sobre o bem que produzir o rendimento; II o aluguel pago pela locação do imóvel sublocado; III as despesas para cobrança ou recebimento do rendimento; IV as despesas de condomínio. Ainda, nos termos da Instrução Normativa da Secretaria da Receita Federal nº 1.500/14, temos: Art. 30. Para determinação da base de cálculo sujeita ao recolhimento mensal obrigatório (carnêleão) de que trata o Capítulo IX, no caso de rendimentos de aluguéis de imóveis pagos por pessoa física, devem ser observadas as mesmas disposições previstas nos arts. 31 a 35. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1756, de 31 de outubro de 2017) Parágrafo único. Ressalvado o disposto no inciso II do caput do art. 11, o valor locativo do imóvel cedido gratuitamente (comodato) será tributado na DAA. Fl. 98DF CARF MF 6 Art. 31. No caso de aluguéis de imóveis pagos por pessoa jurídica, não integrarão a base de cálculo para efeito de incidência do imposto sobre a renda: I o valor dos impostos, taxas e emolumentos incidentes sobre o bem que produzir o rendimento; II o aluguel pago pela locação do imóvel sublocado; III as despesas pagas para sua cobrança ou recebimento; e IV as despesas de condomínio. § 1º Os encargos de que trata o caput somente poderão reduzir o valor do aluguel bruto quando o ônus tenha sido do locador. § 2º Quando o aluguel for recebido por meio de imobiliárias, por procurador ou por qualquer outra pessoa designada pelo locador, será considerada como data de recebimento aquela em que o locatário efetuou o pagamento, independentemente de quando tenha havido o repasse para o beneficiário. O contribuinte, em sede de Recurso Voluntário, alega que cometeu erro no preenchimento de sua DAA, não havendo qualquer tipo de omissão de rendimentos. Informa que declarou R$20.213,00 (R$15.600,00 de aluguel recebido de pessoa jurídica e R$4.623,00 de aluguel recebido de pessoa física), valor total recebido de alugueis, no campo de rendimentos tributáveis recebidos de pessoas físicas. Às efls. 38, de fato, há declarado o valor de R$20.213,00 no campo acima mencionado, sendo que, a meu sentir, não houve intenção do contribuinte em omitir rendimentos, havendo apenas erro material no preenchimento de sua DAA. Por todo exposto, voto por conhecer do presente Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte e darlhe provimento. (assinado digitalmente) Thiago Duca Amoni Fl. 99DF CARF MF Processo nº 13706.001217/200635 Acórdão n.º 2002000.887 S2C0T2 Fl. 97 7 Fl. 100DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.973046/2009-81
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 08 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue May 28 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Ano-calendário: 2002
PEDIDO DE COMPENSAÇÃO E RESTITUIÇÃO DE TRIBUTOS. ÔNUS DA PROVA.
Ao contribuinte pertence o ônus da prova de comprovar os fatos, em sede de pleito de compensação ou restituição de tributos, a teor do que dispõe o art.333 do CPC c/c o art. 923 do Decreto nº 3.000/99.
COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. INOCORRÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE DIREITO LÍQUIDO E CERTO. ART.170 CTN.
Não se reconhece o direito creditório quando o contribuinte não logra comprovar com documentos hábeis e idôneos que houve pagamento indevido ou a maior. O artigo 170 do Código Tributário Nacional determina que só podem ser objeto de compensação, créditos líquidos e certos.
PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. DÉBITO JÁ INCLUÍDO EM PARCELAMENTO. IMPOSSIBILIDADE
A inclusão em parcelamento, de débitos confessados e renunciados, impedem o reconhecimento, na esfera administrativa, de eventual direito creditório, devendo essa pretensão ser perseguida na esfera judicial.
Numero da decisão: 2401-006.493
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário.
Miriam Denise Xavier Presidente
(assinado digitalmente)
(assinado digitalmente)
Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier (Presidente), Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Matheus Soares Leite, Rayd Santana Ferreira e Marialva de Castro Calabrich Schlucking.
.
Nome do relator: LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA
1.0 = *:*
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camara_s : Quarta Câmara
ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF Ano-calendário: 2002 PEDIDO DE COMPENSAÇÃO E RESTITUIÇÃO DE TRIBUTOS. ÔNUS DA PROVA. Ao contribuinte pertence o ônus da prova de comprovar os fatos, em sede de pleito de compensação ou restituição de tributos, a teor do que dispõe o art.333 do CPC c/c o art. 923 do Decreto nº 3.000/99. COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. INOCORRÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE DIREITO LÍQUIDO E CERTO. ART.170 CTN. Não se reconhece o direito creditório quando o contribuinte não logra comprovar com documentos hábeis e idôneos que houve pagamento indevido ou a maior. O artigo 170 do Código Tributário Nacional determina que só podem ser objeto de compensação, créditos líquidos e certos. PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. DÉBITO JÁ INCLUÍDO EM PARCELAMENTO. IMPOSSIBILIDADE A inclusão em parcelamento, de débitos confessados e renunciados, impedem o reconhecimento, na esfera administrativa, de eventual direito creditório, devendo essa pretensão ser perseguida na esfera judicial.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Miriam Denise Xavier Presidente (assinado digitalmente) (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier (Presidente), Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Matheus Soares Leite, Rayd Santana Ferreira e Marialva de Castro Calabrich Schlucking. .
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ÔNUS DA PROVA. Ao contribuinte pertence o ônus da prova de comprovar os fatos, em sede de pleito de compensação ou restituição de tributos, a teor do que dispõe o art.333 do CPC c/c o art. 923 do Decreto nº 3.000/99. COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. INOCORRÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE DIREITO LÍQUIDO E CERTO. ART.170 CTN. Não se reconhece o direito creditório quando o contribuinte não logra comprovar com documentos hábeis e idôneos que houve pagamento indevido ou a maior. O artigo 170 do Código Tributário Nacional determina que só podem ser objeto de compensação, créditos líquidos e certos. PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. DÉBITO JÁ INCLUÍDO EM PARCELAMENTO. IMPOSSIBILIDADE A inclusão em parcelamento, de débitos confessados e renunciados, impedem o reconhecimento, na esfera administrativa, de eventual direito creditório, devendo essa pretensão ser perseguida na esfera judicial. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 97 30 46 /2 00 9- 81 Fl. 98DF CARF MF 2 Miriam Denise Xavier – Presidente (assinado digitalmente) (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier (Presidente), Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Matheus Soares Leite, Rayd Santana Ferreira e Marialva de Castro Calabrich Schlucking. . Relatório Tratase de Declaração de Compensação Eletrônica – PER/DCOM nº.40902.44137.141005.1.3.044080 (fl. 02/04) , pelo qual a Recorrente pretende aproveitar um suposto crédito de Pagamento Indevido ou a Maior, no valor de R$ 45.749,65, na data de transmissão, utilizando o DARF, código de receita 0481, no valor de R$ 70.399,56, PA 09/2005, com vencimento em 14/10/2005, e pagamento feito em 11/10/2002. O Despacho Decisório de fls. 07, não homologou a compensação dos débitos informados no presente PER/DCOMP, porque o valor do crédito não foi reconhecido. Conforme consta dos autos o contribuinte, em sede de manifestação de inconformidade, informou que teria incluído indevidamente no parcelamento especial (PAES) o débito que já tinha sido pago. Afirmou, ainda, que, ao invés de solicitar a revisão dos débitos consolidados no PAES, preferiu considerar como “pagamento a maior” o valor recolhido em 11/10/2002, razão pela qual solicitou o pedido de compensação em debate. Diante desses fatos, e com base na legislação de regência, a fiscalização concluiu pela não homologação das compensações, em face da total falta de certeza e liquidez do direito creditório. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo lavrou Decisão Administrativa contextualizada no Acórdão nº 1639.512 da 7ª Turma da DRJ/SP1, às fls. 42/47, julgando improcedente a Manifestação de Inconformidade do Contribuinte, fundamentandose nos elementos a seguir: a) que o contribuinte não trouxe aos autos qualquer documento que pudesse demonstrar, de forma inequívoca, a identidade entre os débitos confessados e pagos (11/10/2002) e o débito incluído no PAES (02/10/2002), não sendo possível acatar a alegação acerca da existência de pagamento indevido ou a maior; Fl. 99DF CARF MF Processo nº 10880.973046/200981 Acórdão n.º 2401006.493 S2C4T1 Fl. 3 3 b) tendo em vista que, segundo o Contribuinte, o erro se encontra na inclusão do débito no parcelamento, ele deveria ter solicitado a revisão da consolidação dos débitos no âmbito do PAES e não Pedido de Compensação; c) que haveria prejuízo para os cofres públicos, caso fosse aceito o procedimento adotado pelo contribuinte, pois a União estaria aceitando trocar um pagamento que já se encontra em seus cofres por um parcelamento, em relação ao qual não possui qualquer garantia de adimplemento. Além disso, teria que restituir o pagamento efetuado com atualização pela taxa SELIC, enquanto que o débito incluído no parcelamento especial seria atualizado com as benesses previstas pela legislação; d) e pelo fato de que o débito originalmente incluído no PAES foi transferido para o parcelamento previsto pela Lei nº 11.941/2009, não sendo possível afirmar que ele se encontra quitado no presente momento. Conforme documento juntado aos autos, o contribuinte desistiu do PAES, em 18/11/2009, para incluir o saldo devedor no parcelamento previsto pela Lei nº 11.941/2009.Quando da rescisão do PAES, diversos débitos já haviam sido extintos pelo pagamento das prestações. No entanto, o débito ora sob análise ainda se encontrava em aberto o que permitiu concluir que ele faz parte do montante parcelado sob o regime previsto pela Lei nº 11.941/2009.É verdade que o contribuinte já efetuou, e continua efetuando, o pagamento das prestações deste último parcelamento. Ocorre que, quando um parcelamento está ativo, os débitos nele incluídos perdem temporariamente sua “identidade”, passando a fazer parte de um montante consolidado. As prestações pagas, então, irão amortizar este montante. Sendo assim, não é possível determinar, no presente momento, se o débito de IRRF (0481) referente ao período de 02/10/2002 já se encontra quitado, o que reforça o entendimento de que não é possível considerar o pagamento efetuado em DARF como “indevido ou a maior”para realizar eventual compensação. Inconformada, a empresa apresentou Recurso Voluntário às fls. 50/56 alegando em síntese que: a)Conforme expressamente disciplinou o §3°, art. 1° da Lei n 10.684/03, a consolidação do PAES ocorreria no mês do pedido do parcelamento, sem qualquer menção a faculdade de retificação desta consolidação em momento posterior; bf) Não se localiza em nenhum momento de toda a legislação fiscal editada para disciplinar e operacionalizar o parcelamento em questão a possibilidade de revisão dos débitos consolidados, motivo pelo qual não se pode conceber do argumento aventado por esta Receita quando da prolação da decisão por ora recorrida no sentido de que o procedimento adotado pela Recorrente (de solicitar a compensação administrativa do pagamento realizado) teria sido equivocado na medida em que deveria ter procedido a um possível pedido de revisão dos débitos consolidados no PAES; Fl. 100DF CARF MF 4 c) ainda que admitida a possibilidade de revisão dos débitos consolidados no parcelamento em questão certo é que o parcelamento restou consolidado em 2003 sendo certo que a Recorrente percebeuse do equívoco incorrido apenas no ano de 2005, ou seja, 2 anos após ter indicado os débitos no parcelamento e liquidado ainda que parcialmente tais débitos, não havendo assim o que se falar em exclusão de débitos que já estavam sendo pagos; d) justamente por inexistir procedimento legal que regulamentasse o pedido de revisão dos débitos consolidados, e uma vez indicado por duas vezes o mesmo débito para pagamento é que restou como única opção para a Recorrente valerse do procedimento de compensação nos moldes noticiados nestes autos; e) outro ponto importante é que inexiste qualquer benefício financeiro para a Recorrente em detrimento da Fazenda Nacional;ao contrário, a ausência do pedido de retificação da consolidação do parcelamento e sim o pedido de ressarcimento do pagamento realizado via DARF resultou em benefício econômico para o Fisco federal o qual, ao invés de receber tão somente o montante relacionado ao tributo foi contemplado com o pagamento de multa e juros (ainda que reduzidos em razão dos benefícios do parcelamento) que sequer eram devidos; f) não bastassem todos os argumentos acima apresentados, certo é que a manutenção da decisão de indeferimento do despacho decisório por ora analisado nestes autos importará no evidente enriquecimento sem causa da União a qual, na verá computado em seus cofres o pagamento em duplicidade de um mesmo débito tributário; g) a negativa do reconhecimento do crédito pleiteado pela Recorrente nestes autos sob a mera justificativa de que o procedimento por ela adotado estaria incorreto (ou seja, que ao invés de pleitear a restituição do pagamento em DARF deveria esta ter solicitado a retificação da consolidação do parcelamento firmado) não pode subsistir diante do fato de que a União estaria valendose de um suposto equívoco incorrido pela Recorrente para justificar um procedimento irregular ainda maior: a retenção indevida de dois pagamentos decorrentes do mesmo fato gerador; h) decorridos mais de 10 anos da adesão ao parcelamento firmado estaria apenas agora argumentando esta Receita que o procedimento supostamente correto a ser adotado pela Recorrente deveria ter sido outro, procedimento este que, registrese, sequer pode ser adotado agora uma vez que transcorridos todos os prazos legais previstos pelo direito tributário; i) ainda não se pode olvidar em reconhecer a expressa ofensa ao princípio da moralidade administrativa, por meio do qual a Administração e seus agentes têm de atuar na conformidade dos princípios éticos da lealdade e da boafé.(cita jurisprudências administrativas e doutrina a reforçar esse entendimento). Fl. 101DF CARF MF Processo nº 10880.973046/200981 Acórdão n.º 2401006.493 S2C4T1 Fl. 4 5 É o relatório Voto Conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora DOS PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE 1. DA ADMISSIBILIDADE A Recorrente foi cientificada da r. decisão em debate no dia 03/05/2013 conforme AR às fls. 94/95, e o presente Recurso Voluntário foi apresentado, TEMPESTIVAMENTE, no dia 27/05/2013 (fl. 50/56), razão pela qual CONHEÇO DO RECURSO VOLUNTÁRIO já que presentes os requisitos de sua admissibilidade 1. DOS FATOS Tratase de Declaração de Compensação apresentada pela Recorrente buscando utilizar um crédito de pagamento a maior relacionado a imposto de renda retido na fonte (IRRF código receita 0481) apurados e devidos no mês de outubro de 2002; Ao optar pelo parcelamento disciplinado pela Lei n° 10.684/03 (PAES) a Recorrente alega que incluiu equivocadamente, os débitos de IRRFonte por ela já recolhidos em outubro de 2002. Alega ainda que, constatado o equívoco incorrido e já impossibilitada de promover a reconsolidação do parcelamento então aderido, optou por transmitir a PER/DCOMP objeto destes autos. Todavia, a Receita Federal indeferiu a declaração de compensação apresentada pela Recorrente sob o argumento de que o contribuinte não trouxe aos autos qualquer documento que pudesse demonstrar, de forma inequívoca, a identidade entre os débitos confessados e pagos (11/10/2002) e o débito incluído no PAES (02/10/2002), não sendo possível acatar a alegação acerca da existência de pagamento indevido ou a maior; outra fundamentação importante foi que tendo em vista que, segundo o Recorrente, o erro se encontrava na inclusão do débito no parcelamento, assim ele deveria ter solicitado a revisão da consolidação dos débitos no âmbito do PAES e não ter realizado o Pedido de Compensação. Alegou ainda que haveria prejuízo para os cofres públicos, caso fosse aceito o procedimento adotado pelo contribuinte e por fim, que não é possível considerar o pagamento efetuado em DARF como “indevido ou a maior”para realizar eventual compensação, tendo em vista que o contribuinte desistiu do primeiro parcelamento e ingressou no parcelamento da Lei nª 11.941/2009, não sendo possível determinar, no presente momento, se o débito de IRRF (0481) referente ao período de 02/10/2002 já se encontra quitado para realizar eventual compensação. Em sede de Recurso Voluntário a Empresa se insurgiu basicamente contra o fato de inexistir menção qualquer menção à faculdade de retificação de consolidação, em momento posterior, na Lei nº 10.684/03, que justamente por inexistir procedimento legal que regulamentasse o pedido de revisão dos débitos consolidados, e uma vez indicado por duas Fl. 102DF CARF MF 6 vezes o mesmo débito para pagamento é que restou como única opção para a Recorrente valer se do procedimento de compensação nos moldes noticiados nestes autos. Outro ponto importante é que inexiste qualquer benefício financeiro para a Recorrente em detrimento da Fazenda Nacional;ao contrário, a ausência do pedido de retificação da consolidação do parcelamento e sim o pedido de ressarcimento do pagamento realizado via DARF resultou em benefício econômico para o Fisco federal o qual, ao invés de receber tão somente o montante relacionado ao tributo foi contemplado com o pagamento de multa e juros (ainda que reduzidos em razão dos benefícios do parcelamento) que sequer eram devidos. E por fim, que a manutenção da decisão de indeferimento do despacho decisório por ora analisado nestes autos importará no evidente enriquecimento sem causa da União, e em expressa ofensa ao princípio da moralidade administrativa, por meio do qual a Administração e seus agentes têm de atuar na conformidade dos princípios éticos da lealdade e da boafé. Conforme se verifica, alguns fundamentos da decisão a quo, não foram refutados em sede recursal pela Recorrente, razão pela qual, não serão enfrentados por este Colegiado. 2. DO MÉRITO Inicialmente impende salientar que não há nos autos qualquer documento que possa demonstrar, de forma inequívoca, a existência de pagamento indevido ou a maior apto a justificar o pedido de compensação realizado pela Recorrente. O presente litígio tem como núcleo um débito de Imposto de Renda Retido na Fonte – Juros e Comissões em Geral (código 0481). Nos termos dos arts. 702 e 703 do RIR/99, estão sujeitas à incidência do imposto na fonte as importâncias pagas, creditadas, entregues, empregadas ou remetidas ao exterior, por fonte localizada no Brasil, a título de juros e comissões. Ocorrendo os fatos descritos nos dispositivos mencionados, o sujeito passivo deve apurar e recolher o imposto devido na data de ocorrência do fato gerador, em obediência ao disposto no art. 865, I, do RIR/99. Esclareçase, ainda, que se trata de tributação exclusiva na fonte e o tributo possui fato gerador diário. Impende salientar que ao contribuinte pertence o ônus de comprovar os fatos, em sede de pleito de compensação ou restituição de tributos, a teor do que dispõe o art.333 do CPC c/c o art. 923 do Decreto nº 3.000/99. Em especial no caso concreto, quando se trata de demonstrar que efetivamente os pagamentos juntados às fls. 30 e 32, realmente eram indevidos ou foram realizados à maior, o que não ocorreu no caso concreto. É necessário, a teor do que dispõe o artigo 170 do CTN, que o crédito seja líquido e certo, e essa certeza e liquidez não foi demonstrada nos presentes autos, nem tampouco contraditada após a decisão da DRJ afirmando sua inexistência. Dessa forma, antes que seja necessário enfrentar os argumentos expostos no Recurso Voluntário, a questão posta nos autos já está decidida, tendo em vista que não há como reconhecer o direito creditório referente a pagamento indevido ou maior da Recorrente, pela já caracterizada falta de certeza e liquidez do direito pleiteado. Assim, resta prejudicada qualquer análise sobre qual a via deveria ser eleita, qual o procedimento deveria ter sido adotado em relação ao débito confessado no PAES, se ter solicitado a revisão da consolidação dos débitos no âmbito do PAES ou se ter realizado o Pedido de Compensação, bem como as demais questões dessas decorrentes, as quais não fazem sentido serem analisadas nos presentes autos, já que a via eleita é inadequada. Fl. 103DF CARF MF Processo nº 10880.973046/200981 Acórdão n.º 2401006.493 S2C4T1 Fl. 5 7 A teor do que dispôs o § 2º do artigo 1º da Lei nº 10.684/03, para a concessão do parcelamento os débitos são confessados de forma irretratável e irrevogável, logo não há, s.m.j, na via administrativa como rever o débito consolidado, razão pela qual inexiste previsão de procedimento nesse sentido na legislação mencionada. Se a Recorrente confessou de forma irretratável e irrevogável, ainda que por erro que ela deu causa, não pode, administrativamente, buscar reparação, via compensação ou via revisão de consolidação. Ao aderir o parcelamento o Contribuinte faz confissão de dívida e renuncia eventuais discussões sobre o débito. Assim, a Recorrente deveria ter apresentado sua demanda à época em que entendeu ter direito a eventual restituição de valores, perante o Judiciário, apresentando seus argumentos de enriquecimento sem causa da União, alegando expressa ofensa ao princípio da moralidade administrativa, e solicitando o que entendesse de direito em relação à restituição dos valores que entendesse devidos. Não podendo transferir agora, no momento presente, a consequência da condução de sua estratégia de defesa à Administração Pública. 3. CONCLUSÃO Pelos motivos expendidos, voto para CONHECER do recurso e, no mérito, NEGARLHE PROVIMENTO, pela falta de certeza e liquidez do direito creditório pleiteado nos termos do relatório e voto. É como voto. (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa. Fl. 104DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12448.729101/2016-61
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 10 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri May 24 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2011, 2012, 2013
RECEITAS DE SERVIÇOS DE PESSOA JURÍDICA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA EFETIVA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS. ARTIFÍCIO PARA REGULARIZAR, FRAUDULENTAMENTE, RECURSOS DE ORIGEM ILÍCITA AUFERIDOS POR PESSOA FÍSICA.
A inércia do impugnante em comprovar, de forma inequívoca, mediante a apresentação de documentação hábil e idônea, a efetiva prestação de serviços por pessoa jurídica, importa em concluir que se trata de artifício desenvolvido para regularizar, fraudulentamente, recursos de origem ilícita auferidos por pessoa física.
RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA.
A constituição do crédito, como rendimentos recebidos por pessoa física, visa assegurar a correta tributação, nos moldes da legislação do imposto de renda, quando demonstrado que foi o contribuinte o real beneficiário dos valores recebidos.
DECADÊNCIA.
A regra contida no §4º do art. 150 do Código Tributário Nacional é excepcionada nos casos em que se comprovar a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, passando a prevalecer o prazo previsto no inciso I do art. 173, em que o prazo decadencial se inicia no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que a constituição do crédito tributário poderia ter sido efetuada.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. HIPÓTESES DE SONEGAÇÃO E FRAUDE. POSSIBILIDADE.
A omissão de rendimentos na declaração de ajuste anual, comprovada a ocorrência de sonegação e fraude, hipóteses previstas nos arts. 71 e 72 da Lei nº 4.502/64, autoriza a qualificação da multa de ofício.
Numero da decisão: 2301-005.989
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam, os membros do colegiado, por maioria de votos, em rejeitar as preliminares, vencido o conselheiro Wesley Rocha que acolheu a preliminar de cerceamento do direito de defesa em razão da carência de fundamentação legal; por unanimidade, afastar a decadência e, no mérito, por maioria de votos, em NEGAR PROVIMENTO ao recurso, vencido o conselheiro Wesley Rocha que votou pelas conclusões quanto ao lançamento, votou por excluir do lançamento os valores dos tributos pagos nas pessoas jurídicas e votou por excluir da base de cálculo os valores devolvidos no âmbito do acordo de colaboração premiada
João Maurício Vital - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Antônio Sávio Nastureles, Wesley Rocha, Reginaldo Paixão Emos, Virgílio Cansino Gil (suplente convocado), Cleber Ferreira Nunes Leite, Marcelo Freitas de Souza Costa, José Alfredo Duarte Filho (suplente convocado) e João Maurício Vital (Presidente). Ausente a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato, substituída pelo conselheiro Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: JOAO MAURICIO VITAL
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2011, 2012, 2013 RECEITAS DE SERVIÇOS DE PESSOA JURÍDICA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA EFETIVA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS. ARTIFÍCIO PARA REGULARIZAR, FRAUDULENTAMENTE, RECURSOS DE ORIGEM ILÍCITA AUFERIDOS POR PESSOA FÍSICA. A inércia do impugnante em comprovar, de forma inequívoca, mediante a apresentação de documentação hábil e idônea, a efetiva prestação de serviços por pessoa jurídica, importa em concluir que se trata de artifício desenvolvido para regularizar, fraudulentamente, recursos de origem ilícita auferidos por pessoa física. RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA. A constituição do crédito, como rendimentos recebidos por pessoa física, visa assegurar a correta tributação, nos moldes da legislação do imposto de renda, quando demonstrado que foi o contribuinte o real beneficiário dos valores recebidos. DECADÊNCIA. A regra contida no §4º do art. 150 do Código Tributário Nacional é excepcionada nos casos em que se comprovar a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, passando a prevalecer o prazo previsto no inciso I do art. 173, em que o prazo decadencial se inicia no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que a constituição do crédito tributário poderia ter sido efetuada. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. HIPÓTESES DE SONEGAÇÃO E FRAUDE. POSSIBILIDADE. A omissão de rendimentos na declaração de ajuste anual, comprovada a ocorrência de sonegação e fraude, hipóteses previstas nos arts. 71 e 72 da Lei nº 4.502/64, autoriza a qualificação da multa de ofício.
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FALTA DE COMPROVAÇÃO DA EFETIVA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS. ARTIFÍCIO PARA REGULARIZAR, FRAUDULENTAMENTE, RECURSOS DE ORIGEM ILÍCITA AUFERIDOS POR PESSOA FÍSICA. A inércia do impugnante em comprovar, de forma inequívoca, mediante a apresentação de documentação hábil e idônea, a efetiva prestação de serviços por pessoa jurídica, importa em concluir que se trata de artifício desenvolvido para regularizar, fraudulentamente, recursos de origem ilícita auferidos por pessoa física. RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA. A constituição do crédito, como rendimentos recebidos por pessoa física, visa assegurar a correta tributação, nos moldes da legislação do imposto de renda, quando demonstrado que foi o contribuinte o real beneficiário dos valores recebidos. DECADÊNCIA. A regra contida no §4º do art. 150 do Código Tributário Nacional é excepcionada nos casos em que se comprovar a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, passando a prevalecer o prazo previsto no inciso I do art. 173, em que o prazo decadencial se inicia no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que a constituição do crédito tributário poderia ter sido efetuada. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. HIPÓTESES DE SONEGAÇÃO E FRAUDE. POSSIBILIDADE. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 44 8. 72 91 01 /2 01 6- 61 Fl. 10290DF CARF MF 2 A omissão de rendimentos na declaração de ajuste anual, comprovada a ocorrência de sonegação e fraude, hipóteses previstas nos arts. 71 e 72 da Lei nº 4.502/64, autoriza a qualificação da multa de ofício. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam, os membros do colegiado, por maioria de votos, em rejeitar as preliminares, vencido o conselheiro Wesley Rocha que acolheu a preliminar de cerceamento do direito de defesa em razão da carência de fundamentação legal; por unanimidade, afastar a decadência e, no mérito, por maioria de votos, em NEGAR PROVIMENTO ao recurso, vencido o conselheiro Wesley Rocha que votou pelas conclusões quanto ao lançamento, votou por excluir do lançamento os valores dos tributos pagos nas pessoas jurídicas e votou por excluir da base de cálculo os valores devolvidos no âmbito do acordo de colaboração premiada João Maurício Vital Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Antônio Sávio Nastureles, Wesley Rocha, Reginaldo Paixão Emos, Virgílio Cansino Gil (suplente convocado), Cleber Ferreira Nunes Leite, Marcelo Freitas de Souza Costa, José Alfredo Duarte Filho (suplente convocado) e João Maurício Vital (Presidente). Ausente a conselheira Juliana Marteli Fais Feriato, substituída pelo conselheiro Virgílio Cansino Gil. Relatório Tratase de lançamento do imposto de renda de pessoa física incidente sobre rendimentos omitidos recebidos de pessoas jurídicas e de fontes pagadoras situadas no exterior, referentes aos exercícios de 2011, 2012 e 2013. Também foi constituído o crédito tributário relativo às multas por falta do recolhimento do carnêleão. Foram arrolados como responsáveis solidárias as empresas Faercom Energia Ltda e Oildrive Consultoria em Energia e Petróleo Ltda. Segundo a Autoridade Lançadora, o recorrente, Júlio Faerman, atuava pessoalmente, junto à Petrobras S/A, como representante dos interesses das empresas Single Buoy Mooring Offshore N.V (SBM) e suas subsidiárias, Alusa Engenharia Ltda e RollsRoyce Energy Systems Inc. Os pagamentos pelas atuações do recorrente eram recebidos, no Brasil, por intermédio das empresas Faercom e Oildrive. Parte dos pagamentos era recebida no exterior, em contas offshore. Por bem explicarem os fatos, reproduzo, doravante, trechos do relatório que instruiu o acórdão recorrido: I Procedimento Fiscal. De acordo com o TCF e anexos, parte integrante do AI, juntados às fls. 2.123/2.174, a ação fiscal iniciouse pelo Mandado de Procedimento Fiscal nº 07.1.08.002016 001635, na modalidade diligência. Posteriormente, em 1/6/2016, o contribuinte foi cientificado da conversão do procedimento fiscal de diligência em fiscalização, com a emissão do Mandado de Procedimento Fiscal – Fiscalização nº 07.1.08.002016002380. Fl. 10291DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.241 3 Nos procedimentos de diligência e fiscalização, foi solicitado ao contribuinte que apresentasse planilha relacionando todos os recebimentos auferidos no exterior, no período de 1/1/2010 a 31/12/2012, em nome próprio ou por intermédio de pessoas jurídicas das quais era sócio ou possuía qualquer relação. Em resposta, declarou que não auferiu receita de terceiro em nome próprio no exterior. Informou que recebeu valores por empresas vinculadas, direta ou indiretamente ao declarante, constantes de suas declarações de imposto de renda. Esclareceu que os valores foram pagos em razão da efetiva prestação de serviços pelas empresas Faercom Energia Ltda e Oildrive Consultoria em Energia à Petróleo Brasileiro S A – Petrobras, decorrentes de cessão parcial de direitos e obrigações dos subcontratos celebrados entre a Faercom ou Oildrive, com aquiescência dos tomadores de serviços. As empresas estrangeiras passaram a prestar serviços cabíveis no exterior, em contrapartida, sendo remuneradas por tais serviços. Em uma planilha, discriminou os valores recebidos em contas offshore de serviços de representação exclusiva do fiscalizado: Jandell Investmentes Ltda; Bien Faire Inc.; e Journey Advisors Ltda, todas sediadas nas Ilhas Virgens Britânicas. Em outra planilha, consta os valores recebidos em contas offshore decorrentes de representações do fiscalizado e de seu sócio: Bien Faire Inc.; Journey Advisors Ltda e Boslandschap Services CV, esta última localizada nos países baixos, cujo controle era detido pela Tori Management Corporation, sediada na República do Panamá e cujo capital pertencia, na proporção de 50/50, ao fiscalizado e a seu sócio (Luís Eduardo Campos Barbosa da Silva). Acrescentou que os serviços prestados no exterior compreendiam acompanhamento e progresso de conversão de cada unidade nos estaleiros estrangeiros, participação em discussões e reuniões técnicas sobre os contratos, acompanhamento de implantação de projetos e entrega de equipamentos, entre outros serviços para cumprimento dos prazos assumidos pelas representadas. Intimado para esclarecer valores pagos a Pedro Barusco, Paulo Roberto Carneiro, Jorge Zelada e Robert Zubiate [os três primeiros, diretores da Petrobras, Robert Zubiate era executivo da SBM na América Latina]; apresentar documentação referente a transferências bancárias; a que título foram realizados os pagamentos à Zelada através da conta Boslandschap Services; sua relação com a Faercom Energia Ltda e informações de valores recebidos da Faercom a título de Lucros e dividendos, acompanhadas de documentação, o fiscalizado informou que não possuía documentação comprobatória das transferências questionadas. Não soube informar a motivação dos pagamentos efetuados à Zelada, por meio da conta Boslandschap Services, pois eram referentes a atividades vinculadas a seu sócio Luís Eduardo. Fl. 10292DF CARF MF 4 Os pagamentos feitos pela Faercom a seus filhos/enteados decorrem de doação de seus direitos sobre lucros que fazia jus, na qualidade de usufrutuário. Em 29/9/2016, o fiscalizado foi intimado a fornecer informações se houve transferência de recursos da empresa Alusa Engenharia Ltda (doravante Alusa) para suas contas mantidas no exterior e que identificasse pagamentos efetuados a Pedro Barusco (Barusco) decorrentes de contratos celebrados entre a Alusa e Subsea7 com a Petrobras. Respondeu que não houve recebimento de valores pagos pela Alusa no exterior. Em razão do contrato firmado entre Alusa e Petrobras, foi realizado um único pagamento a Barusco relativo a negócio desenvolvido por seu sócio, Luís Eduardo. Em 2005, foi pago a Barusco valor relacionado ao contrato da Subsea7 com a Petrobras. II – Origem das informações utilizadas. Esclarece a auditoria fiscal que as informações utilizadas em seu relatório foram obtidas na denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público Federal do Rio de Janeiro – MPF/RJ, fls. 254/352, decorrente do Processo Investigatório Criminal (PIC) MPF/PR/RJ 1.30.001.000837/201468, Procedimento Criminal nº 002278156.2014.4.02.5101 (inquérito policial nº 002/2014 DFIN/DICOR/DPF; informações constantes de diversos Termos de Declaração prestados pelo fiscalizado ao MPF, decorrente do Acordo de Colaboração assinado em 13/5/2015 e homologado pelo judiciário em 10/6/2015, fls. 378/482; demais procedimentos correlatos contra o fiscalizado e outros denunciados e pelas informações apresentadas pelo próprio contribuinte em respostas às intimações no curso deste procedimento fiscal. O acesso e compartilhamento das informações utilizadas pela fiscalização da Receita Federal do Brasil RFB foram autorizadas pelos juizes competentes da Justiça Federal, fls. 374/375 e 377; bem como o acesso e compartilhamento de informações referentes a Pedro José Barusco Filho, fls. 515/519. III – Histórico. A Petrobras, na extração de petróleo, utilizase de navios plataforma conhecidos como FPSO (flutuação, produção, armazenamento e carregamento), afretados de fornecedoras, em destaque, a empresa holandesa Single Buoy Mooring Offshore (SBM), com sede principal em Mônaco. O contribuinte, profissional no ramo da engenharia do petróleo, trabalhou na Petrobras entre 1964 e 1970/71. Era o representante e consultor, no Brasil, da SBM e suas subsidiárias. Cedeu a integralidade das cotas da empresa Faercom Energia Ltda, constituída em 1995, para seus filhos e enteados, passando à condição de administrador e usufrutuário das cotas da empresa. Afirmou o fiscalizado, em Termo de Declaração prestado ao MPF/PR/RJ, que recebia comissões, sendo 1% no Brasil, Fl. 10293DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.242 5 utilizando a Faercom, com emissão de notas fiscais, e o restante era recebido em contas localizadas em bancos suíços em nome de empresas offshore, pertencentes a ele (Bien Faire, Jandell, Journey Advisors e hades), constituídas na Ilhas Virgens Britânicas. Foi iniciada uma parceria entre o contribuinte e Luís Eduardo Campos Barbosa da Silva. Posteriormente, o fiscalizado e Luís Eduardo formalizaram a sociedade Oildrive, distribuída na seguinte proporção: Luís Eduardo 49% e 51% à Faercom. A participação nos resultados da empresa eram repartidos na proporção de 50% para cada sócio, conforme esclareceu Luís Eduardo em Termo de Colaboração/Delação. Apurando denúncias de pagamento de vantagens indevidas pela SBM, Júlio, com suas empresas, foi apontado como principal intermediário das vantagens indevidas pagas pela SBM a funcionários da Petrobras. O Ministério Público holandês concluiu que a SBM efetuou pagamentos em contas das empresas offshore, constituídas em paraísos fiscais, controladas por Júlio e seu sócio, sem a existência de contrato e sem emissão de documentos comerciais ou fiscais referentes aos valores recebidos. Apontou fortes indícios de pagamentos indevidos do agente de vendas da SBM no país a funcionários brasileiros, como: comissões elevadas pagas ao agente de venda; divisão do pagamento das comissões ao mesmo agente entre sua empresa no Brasil e empresas offshore e documentos indicando que o representante comercial da SBM tinha acesso a documentos sigilosos do cliente. Constatada, também, a existência de pagamentos no Brasil, pela SBM às empresas Faercom e Oildrive. As contas constituídas em nome de empresas offshore eram utilizadas para receber grande parte das comissões pagas pela SBM. Estas contas eram utilizadas para transferir recursos para contas em bancos suíços em nome de outras empresas offshore cujos beneficiários eram empregados da Petrobras. Os valores eram transferidos para garantir tratamento diferenciado à SBM em sua relação comercial com a Petrobras, tais como vantagens em contratos firmados, acesso a informações sigilosas da Petrobras, favorecendo a SBM em processos de licitação, adoção de soluções técnicas vendidas pela SBM, tráfico de influências pela atuação dos empregados com poder decisório e pagamento de aditivos aos serviços contratados. Em razão das denúncias, o MPF/RJ ofereceu representação criminal contra o contribuinte por diversos crimes, tais como: corrupção ativa, “lavagem” de dinheiro, manutenção de depósito em conta não declarada no exterior e formação de quadrilha. O investigado manifestou intenção de colaborar com a apuração dos crimes e assumir todos os ilícitos praticados através de Acordo de Colaboração Premiada, de 13/5/15, fls. 378/394, Fl. 10294DF CARF MF 6 homologado em 10/6/15, fls. 395/396, pela Justiça Criminal Federal do Rio de Janeiro. IV – Esquema existente na Petrobras (propina/operadores). Informações extraídas da Denúncia criminal apresentada pelo MPF/RJ evidenciam a ocorrência de pagamento de propinas, na Petrobras, de forma endêmica e institucionalizada. Como principais agentes, os representantes da SBM no Brasil, Júlio Faerman e Luís Eduardo, mantinham relacionamentos com vários funcionários da Petrobras para garantir o fechamento de contratos de interesse da SBM, solução de pendências, tráfico de influência e fornecimento de informações privilegiadas. As propinas acordadas eram pagas ao longo da execução do contrato, decorrentes dos pagamentos realizados pela Petrobras, tornando essencial a existência da figura do “operador/representante”. Os funcionários da Petrobras envolvidos no esquema, apontados na Denúncia criminal do MPF/RJ são Pedro Barusco Filho (Barusco), Paulo Roberto Buarque Carneiro (Carneiro) e Jorge Luís Zelada (Zelada), funcionários da Petrobras e o sócio de Faerman, Luís Eduardo Campos Barbosa da Silva. Barusco, que ocupava cargo com poder decisório na estrutura da Petrobras, em seus Termos de Declaração/Colaboração, esclarece que, nos contratos firmados entre a Petrobras e a SBM (representada por Júlio), houve solicitação e oferecimento de pagamento de vantagens indevidas. E que era ele (Barusco) que tratava com os “operadores financeiros”, pessoas que representavam os fornecedores da Petrobras para operacionalizar os pagamentos de propina, sendo pessoas de notável qualificação no mercado de petróleo. Nos Termos de Colaboração/Delação, o fiscalizado aponta Carneiro, que exercia função gratificada na Petrobras, como pessoa que recebia pagamento por viabilizar as contratações de interesse das representadas de Faerman. Já Zelada atuava na prospecção de novos negócios para a Oildrive e que repassasse informações internas que pudessem favorecer suas representadas no fechamento de contratos com a Petrobras em troca de uma remuneração mensal. Os documentos eram recebidos de Zelada, dentro de um pen drive, por Luís Eduardo, repassados para a SBM. Tais informações foram confirmadas por Luís Eduardo em seus Termos de Colaboração/Delação. O contribuinte confirma em sua delação que os pagamentos de propinas a Barusco, Carneiro e Zelada, de forma institucionalizada, aconteciam no exterior, valendose contas offshore. Os pagamentos aos funcionários da Petrobras tinham como objetivo a obtenção de vantagens. Os executivos da SBM tinham conhecimento dos pagamentos realizados por Júlio, mas os destinatários dos pagamentos, os valores e onde eram realizados os pagamentos era decidido por Júlio. Como já relatado, tais pagamentos tinham origem em contas mantidas pelo fiscalizado no exterior. V – Criação e manutenção de contas no exterior – Sonegação. Fl. 10295DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.243 7 Segundo relato da auditoria fiscal, nos contratos com a Petrobras, a empresa SBM, representada por Júlio Faerman, efetuava pagamento de propina aos funcionários da Petrobras para obter tratamento privilegiado nas questões relativas aos contratos. Nos termos de colaboração prestados ao MPF, o fiscalizado identificou as contas bancárias (do próprio beneficiário) utilizadas para recebimento de suas comissões. Empresas cujas contas bancárias foram identificadas pelo contribuinte como sendo do próprio beneficiário, ou co beneficiário, com o objetivo de movimentação dos recursos no exterior: conta HADES (conjunta com Luís Eduardo); BOSLANCHAP (conjunta com Luís Eduardo) para recebimento de valores da Subsea 7; TORI (conjunta com Luís Eduardo); BIENFAIRE; valores recebidos da SBM eram nas contas JANDELL, BIENFAIRE e JOURNEY, Luís Eduardo recebia da SBM na HADES. Segundo a autoridade lançadora, TCF fls. 2.149, Júlio afirmou em seus depoimentos: “...quando recebia 3% pela contratação da SBM, 1% vinha sempre oficializado para o Brasil e 2% ia para empresa offshore no exterior.” “Suas empresas no exterior tinham sede nas Ilhas Virgens e não possuíam empregados.” “Nunca fez qualquer pagamento a funcionários da Petrobras no Brasil, até porque o depoente sabia que no Brasil tudo deveria ser feito em total observância das leis brasileiras.” Em seus termos/declaração, o fiscalizado demonstra total familiaridade e pleno conhecimento da forma de atuação dos bancos estrangeiros responsáveis pelas aberturas das contas offshore em paraísos fiscais. Para impedir o conhecimento das autoridades, realizava os pagamentos em contas no exterior. Conclui a autoridade lançada que, nos depoimentos prestados e nas provas apresentadas não deixam dúvidas de que o fiscalizado montou uma estrutura de recebimentos (comissões) e pagamentos (propinas) utilizandose de contas no exterior para, de um lado, ocultar a existência de rendimentos tributáveis e, por outro lado, consumar o crime de corrupção ativa. VI – Valores recebidos por intermédio da FAERCOM e OILDRIVE. Percebeu a autoridade lançadora que os negócios que envolviam a SBM, representada por Júlio e a Petrobras, através de Barusco, Carneiro e Zelada, estavam contaminados pela corrupção e tráfico de influência de forma essencial, sendo impossível dissociar os negócios que foram realizados de forma justa e honesta, se é que existiram. Fl. 10296DF CARF MF 8 Os recebimentos atribuídos à FAERCOM e à OILDRIVE eram justificados com contratos de representação comercial firmados entre as empresas e a SBM. Os valores eram recebidos, em parte no Brasil, pelas empresas do fiscalizado (Faercom e Oildrive) e a outra parte em contas de empresas offshore em bancos suíços. Em suas declarações ao MPF, Júlio esclarece que a cada projeto da Petrobras era assinado um subcontrato entre a FAERCOM e a SBM, com previsão de cessão da comissão desta empresa com outra empresa. Parte da comissão devida a esta prestação de serviços de representação poderia ser paga a outras empresas (offshore). Intimada, a empresa Faercom (de propriedade de Júlio, sócia da Oildrive com 51% de participação) não apresentou os subcontratos, evidenciado acordos verbais entre o fiscalizado e a SBM, demonstrando o caráter pessoal dos serviços prestados. O contribuinte, em seus depoimentos prestados ao MPF declara que, nos cinco contratos (FPSO2; FPSO Espadarte; FPSO Brasil; FPSO Marlim Sul e FPSO Capixaba, explicação da auditoria) o depoente atuou por meio da Faercom, no Brasil, enquanto no exterior, a prestação e remuneração dos serviços eram feitos através das empresas offshore. Estas offshore não tinham contratos com a SBM, nem emitiam nota fiscal, apenas em 2011, o depoente passou emitir recibos a pedido da SBM. Explicou que recebia 3% pela contratação da SBM, sendo que 1% era oficializado para o Brasil e 2% para as empresas offshore no exterior. Os percentuais das comissões variavam em cada FPSO. A auditoria fiscal relata que o recebimento parte no Brasil e parte no exterior foi constatado durante todo o período fiscalizado. Os valores recebidos no Brasil foram oferecidos à tributação através das pessoas jurídicas, justificadas por notas fiscais e contratos de câmbio. As notas fiscais eram emitidas apenas para atendimento à legislação brasileira e seguindo as instruções de faturamento enviados pela SBM. Esclarece a auditoria que os valores recebidos no Brasil, amparados por contrato entre as pessoas jurídicas do fiscalizado e a SBM, tiveram como beneficiário final o próprio Júlio, usufrutuário das cotas da empresa que recebia os valores pela distribuição de lucros. Visavam dar legalidade aos serviços prestados à SBM e receber os rendimentos na forma de lucros distribuídos pelas pessoas jurídicas (isentos de tributação). Atuou da mesma forma por intermédio da FAERCOM e da OILDRIVE. Utilizandose da Oildrive seriam prestados serviços para duas outras empresas: Rolls Royce e Alusa (subsidiárias da SBM). Pelos depoimentos dos envolvidos, os contratos firmados entre a Alusa e a Rolls Royce com a Petrobras estavam contaminados pelos mesmos crimes cometidos nos contratos firmados com a SBM. Fl. 10297DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.244 9 VII – Decadência. Com base no relatório fiscal, o contribuinte incorreu em crime de sonegação e fraude, devendo ser observado o prazo para o lançamento determinado no art. 173, I do Código Tributário Nacional – CTN. Sendo o fato gerador do imposto de renda pessoa física complexivo, sua ocorrência se completa no último dia do ano calendário. Para os rendimentos percebidos no anocalendário de 2010, o lançamento poderia ocorrer a partir de 1/1/2011, assim, o prazo decadencial estabelecido no art. 173, I do CTN, iniciouse em 1/1/2012, terminandose em 31/12/2016. VIII – Infrações tributárias – Omissões de rendimentos recebidos no Brasil através da Faercom e Oildrive. Os valores pagos pela SBM às empresas FAERCOM e OILDRIVE, no Brasil e, no exterior, às empresas offshore têm como origem comum a retribuição pela capacidade de Júlio obter contratos e vantagens para a empresa junto à Petrobras, valendose de pagamento de propinas a funcionários da estatal. Salienta a fiscalização: “Não há como atribuir legalidade a parte dos valores recebidos, pois sem a execução dos crimes citados os contratos não se consumariam nem existiriam os respectivos pagamentos que possibilitassem o repasse de comissões”. (TCF, fls. 2.156) Segundo relato da autoridade lançadora, ficou demonstrado que o fiscalizado utilizavase da Faercom e Oildrive para justificar parte dos valores recebidos pelos serviços prestado à SBM, com o objetivo de beneficiarse de tributação favorecida na pessoa jurídica em relação à devida por pessoa física. Além do benefício tributário, tentava legalizar recursos obtidos de forma ilegal, caracterizando lavagem de dinheiro. Os valores pagos pela SBM e suas subsidiárias, por serviços prestados valendose da Faercom para recebimento, dos quais o fiscalizado é o real beneficiário, foram fornecidos pela Faercom, em resposta ao TDPF nº 0800100/2015/000137, planilhas 1, 2 e 3 do TCF, fls. 2.164/2.166. Os valores pagos pela SBM e suas subsidiárias (Alusa e Roll Royce), em benefício próprio do fiscalizado, foram fornecidos pela Oildrive em atendimento ao TDPF nº 0800100/2015/00012 9, conforme planilhas 4, 5 e 6, integrantes do TCF, referentes ao anoscalendário 2010, 2011 e 2012, fls. 2.167/2.169. Foi considerado recebido pelo fiscalizado 50% dos valores brutos pagos pela SBM e suas subsidiárias (Alusa e Rolls Royce) à Oildrive. Esclarece a fiscalização que os valores retidos na fonte em nome da Oildrive a título de imposto/contribuição referente aos pagamentos citados não foram deduzidos na apuração do Fl. 10298DF CARF MF 10 imposto devido pelo contribuinte, por não ser possível efetuar compensação de tributos em nome de terceiros. IX – Omissão de rendimentos tributáveis recebidos no exterior. Foram apurados, também, rendimentos recebidos pelo contribuinte no exterior, nos anoscalendário 2010, 2011 e 2012, não declarados à autoridade tributária brasileira, referentes a pagamentos efetuados pelas empresas estrangeiras SBM, Alusa e Rolls Royce, através de depósitos em bancos suíços, em contas cujos titulares eram empresas offshore. Os valores recebidos no exterior, não oferecidos à tributação brasileira, provenientes de infração penal contra a Administração Pública, tiveram a natureza, origem, localização, movimentação e propriedade ocultada e dissimulada, inclusive com utilização de sociedades constituídas em paraísos fiscais, especialmente na Ilhas Virgens Britânicas. A base de cálculo para incidência do imposto de renda foi a totalidade dos valores depositados pelas empresas nas contas no exterior (conforme planilhas 7, 8, 9, 10, 11, integrantes do TCF, 2010, 2011 e 2012), fls. 2.170/2.174. O fato de utilizar parte destes valores para remunerar funcionários da Petrobras não altera o valor da base de cálculo do imposto, e nem havendo previsão legal para dedução de qualquer despesa. As planilhas 7, 8, 9, referentes, respectivamente, aos anos calendário 2010, 2011 e 2012, contém valores recebidos no exterior em contas offshore, mantidas pelo fiscalizado. As planilhas 10 e 11, referentes aos anoscalendário 2010 e 2011, contém valores recebidos no exterior em contas offshore, mantidas pelo fiscalizado conjuntamente com Luís Eduardo. Os valores recebidos no exterior, em dólares americanos, foram convertidos para Reais (artigos 5º e 6º da Lei nº 9.250/95), conforme especificado em planilhas integrantes do TCF, 2010, 2011 e 2012, fls. 2.159. X – Falta de recolhimento do imposto de renda mensal (carnê leão) –Multa isolada. O não oferecimento dos rendimentos recebidos do exterior, passíveis de incidência de imposto mensal (carnêleão), e a falta de recolhimento do imposto mensal devido, sujeita o infrator à multa de 50% do valor devido e não recolhido mensalmente, conforme art. 44, inciso II, alínea “a”, da Lei nº 9.430/96. XI – Dolo e multa qualificada. Na denúncia efetuada pelo MPF e nos fatos relatados pela autoridade fiscal, ficou demonstrado que o contribuinte, com plena consciência das conseqüências de seus atos, pagou vantagens indevidas e solicitou favores a funcionários da Petrobras. Abriu contas no exterior usando nomes de empresas offshore para recebimento de valores a ele destinados e ocultou rendimentos, bens e direitos nas declarações de rendimentos prestadas à Receita Federal do Brasil – RFB. Fl. 10299DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.245 11 Em virtude das condutas praticadas e relatadas com detalhes no TCF e anexos, parte integrante do AI, juntados às fls. 2.123/2.163, é cabível a aplicação da multa qualificada de 150% prevista no art. 44, inciso II, da Lei nº 9.430/96 e alterações posteriores. Entende a autoridade lançadora que ficou configurado o crime de sonegação, no caso dos rendimentos recebidos no exterior e evidente intuito de fraude, no caso dos rendimentos recebidos no Brasil com utilização da Faercom e Oildrive, conforme definido nos artigos 71 e 72 da Lei nº 4.502/64, bem como indícios de crime contra a ordem tributária previstos no art. 1º da Lei 8.137/90. XII – Sujeição passiva solidária – Interesse comum no fato gerador. A responsabilidade solidária imputada à Faercom e Oildrive está descrita no art. 124, inciso I, do CTN. O contribuinte, em seus Termos de Colaboração, descreve sua atuação por intermédio da Faercom e, posteriormente, em conjunto com Luís Eduardo, por intermédio da Oildrive para fechamento de contratos de suas representadas com a Petrobras. Júlio Faerman e sua esposa, sócios da Faercom, desde 1995, cederam a integralidade das cotas da sociedade a seus filhos e enteados, a título de adiantamento de legítima, em 18/6/95. Ato contínuo, registraram usufruto sob a totalidade das cotas da sociedade, e conseqüentemente sobre os lucros distribuídos, do qual renunciaram na 10ª alteração contratual em 30/8/2013. A participação societária da Oildrive está distribuída em nome dos sócios Faercom (51% do capital) e Luís Eduardo (49% do capital). O administrador designado é Júlio Faerman, com amplos poderes para a prática dos atos de gestão. A remuneração devida à pessoa física de Júlio recebida no Brasil era oferecida à tributação como se fossem receitas da Faercom ou da Oildrive e repassadas à pessoa física do contribuinte como lucros distribuídos (isentos de tributação). Foi lavrada Representação Fiscal para Fins Penais, conforme estabelece a Portaria 2.439/2010 e alterações posteriores, pelo fato, em tese, de configuração de crime contra a ordem tributária previsto no art. 1º, inciso I, da Lei nº 8.137/90. O sujeito passivo foi cientificado do encerramento total do procedimento fiscal, com recebimento do AI e seus anexos (TCF e planilhas), via postal, conforme AR de fls. 2.213/2.214, recebido no endereço do destinatário em 6/12/2016, fls. 2.211. Os sujeitos passivos solidários, Júlio Faerman; Faercom Energia Ltda e Oildrive Consultoria em Energia e Petróleo Ltda apresentaram impugnação em conjunto, por meio de Fl. 10300DF CARF MF 12 procurador, conforme instrumento de fls. 2.250/2.320, em 5/1/2017, procuração e documentos de fls. 2.321/2.324. Impugnação. Alegam tempestividade da defesa apresentada e fazem um breve resumo dos fatos que ensejaram a lavratura do AI impugnado. Entendem que deve haver uma distinção entre os fatos confessados e apurados no processo criminal, referentes à corrupção na Petrobras sob investigação, e a atuação de Júlio e da Faercom e, posteriormente, da Oildrive, sob o comando conjunto de Júlio e de Luís Eduardo, no mercado de óleo e gás. Ressaltam que a Faercom e Oildrive foram objeto de investigação conduzida pela equipe especial de fiscalização da Delegacia da Receita Federal do Brasil em Barueri/SP, quando foram apresentados documentos comprobatórios de sua regular existência, dos contratos celebrados com seus clientes, as notas fiscais emitidas na prestação de serviços e a efetiva prestação de tais serviços. Os auditores fiscais tiveram acesso a toda a documentação apresentada pela Faercom e Oildrive, no entanto, embora relevante para esta decisão, a documentação comprobatória da efetiva prestação dos serviços da Oildrive (e, anteriormente, à Faercom) não foi juntada aos autos deste processo. Os impugnantes reapresentam todos os emails, atas de reuniões, relatórios técnicos e demais documentos que comprovam de forma inequívoca a efetiva prestação, pela Faercom e pela Oildrive, dos serviços que ensejaram os pagamentos por elas recebidos no Brasil, em decorrência dos serviços prestados à SBM, à Alusa e à RollsRoyce. Afirmam que a prestação de tais serviços, que deram origem aos pagamentos à Faercom, Oildrive e às sociedades estrangeiras está comprovada até mesmo no procedimento criminal contra Júlio e Luís Eduardo. O caso de fornecimento de equipamentos e serviços do grupo SBM à Petrobras, que geraram valores pagos à Oildrive (e, anteriormente à Faercom) e às sociedades estrangeiras é absolutamente diverso do caso de corrupção de agentes da Petrobras. Descrevem os serviços prestados à SBM, conduzidos no Brasil por Júlio e Luís Eduardo através da Faercom (anteriormente por Júlio) e Oildrive, bem como as atividades desenvolvidas no exterior, através das sociedades estrangeiras, em síntese: identificação de projetos; demonstração de interesse no projeto; acompanhamento do processo licitatório; andamento do projeto; reuniões; cumprimento dos termos acordados no contrato; entrega de equipamentos; acompanhamento operacional das unidades e discussões técnicas e comerciais durante a execução dos serviços, etc... Fazem um breve histórico profissional de Júlio Faerman e o início da relação com o grupo SBM. Fl. 10301DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.246 13 Aduzem ser regular a constituição e a operação da Faercom (sociedade de Júlio e sua esposa em 1995). A Faercom não é um mero veículo para viabilizar e ocultar prática de ilícitos e nem para reduzir obrigação tributária. Relatam fatos que entendem comprovar a prestação de serviços à SBM por Júlio, através da Faercom, de forma regular e de acordo com a legislação brasileira, com recolhimento de todos os tributos incidentes sobre tais prestações de serviços. Descrevem a qualificação profissional de Luís Eduardo e sua parceria com Júlio, concretizada com a criação da Oildrive em 2006. Aduzem a regular constituição e operações da Oildrive, com participação dividida em 51% para a Faercom e 49% para Luís Eduardo. Os fatos demonstram que a Oildrive opera regularmente, como pessoa jurídica, que não pode ser confundida com as pessoas físicas de Júlio e Luís Eduardo. A desconsideração de sua personalidade jurídica pretendida pelos AFRFB simplesmente não se justifica. Fazem relatos das relações comerciais de Júlio, Luís Eduardo e Oildrive com a SBM, Alusa e RollsRoyce, bem como dos serviços prestados no Brasil pela Oildrive. Nas relações comerciais entre a SBM e a Faercom (posteriormente a Oildrive) havia previsão de cessão a terceiros, de direitos e obrigações referentes a projetos contratados, mediante autorização da SBM. Assim, os serviços prestados no Brasil, remunerados pela SBM eram pagos para a Faercom/Oildrive. E parte das obrigações que foram cedidas às sociedades estrangeiras escolhidas por Júlio e Luís Eduardo, que viriam ser cumpridas no exterior, eram lá remuneradas. A contratação da Alusa previa a prestação de serviços exclusivamente no Brasil, tais como identificação de oportunidades de negócios, de investimentos, assessoramento em reuniões técnicas, negociações, obras, etc... Citam os impugnantes, os documentos apresentados na fiscalização para comprovar a prestação dos serviços à Alusa, tais como: email (s), atas de reuniões, atas de esclarecimentos de propostas, etc... A RollsRoyce contratou a Oildrive para assessorála nos negócios firmados no Brasil. Apresenta documentos que comprovam a prestação de serviços pela Oildrive à RollsRoyce, tais como: atas de reuniões, email (s) e correspondências entre as empresas (Oildrive e RollsRoyce). Afirmam que todos os recebimentos da Oildrive decorrerem da efetiva prestação de serviços no Brasil. Foram emitidas notas fiscais, já analisadas pela fiscalização e constantes dos autos deste processo, e integram a receita bruta de cada ano de recebimento, portanto, já tributadas na forma da lei. Fl. 10302DF CARF MF 14 Ressaltam que os serviços prestados à Alusa e à RollsRoyce decorrem dos contratos celebrados pela Oildrive, prestados no Brasil, pagos somente à Oildrive, e jamais geraram pagamentos no exterior. Pedem o cancelamento do imposto lançado incidente sobre os valores recebidos por essas duas empresas (Alusa e RollsRoyce) de seus representados, em decorrência de os serviços prestados no país já terem sofrido tributação. Esclarecem que as relações comerciais entre a Faercom (posteriormente a Oildrive) e a SBM eram regidas por contrato “guardachuva”, que fixava as condições básicas da prestação de serviços, mas deixava em aberto a remuneração exata relativa a cada projeto. Os serviços incluíam atividades no Brasil e no exterior. A remuneração, em termos percentuais sobre os valores devidos pela Petrobras à SBM, era objeto de aditivos. O contrato “guardachuva” permitia a cessão parcial ou total das obrigações da Faercom/Oildrive, autorizada pela SBM, às sociedades estrangeiras, que serviam para a prestação dos serviços intelectuais e personalíssimos de Júlio e de Luís Eduardo. O fato de a maior parte dos serviços serem prestados no exterior, explica porque a Faercom e a Oildrive ficavam com a menor parte da remuneração, enquanto as sociedades estrangeiras recebiam a maior parte. A remuneração era devida à Faercom/Oildrive ou às sociedades estrangeiras somente se a SBM fosse vitoriosa na licitação e a remuneração era devida durante o prazo de vigência do contrato de afretamento ou de venda. Através destes recursos, as sociedades estrangeiras arcavam com seus custos operacionais e destinavam parte para remunerar algumas pessoas da Petrobras, pelas razões já informadas às autoridades brasileiras no âmbito da Colaboração Premiada. A constituição de sociedades estrangeiras, cessionárias de parte dos direitos e obrigações relativas ao contrato celebrado com a SBM para prestar serviços no exterior não é ilegal, e o lucro por elas gerado não é tributável no Brasil. O contribuinte já havia informado em suas declarações (anoscalendário 2010, 2011 e 2012) o que lhe competia, sobre as sociedades estrangeiras. Esclarecem que Júlio já sofreu perdimento de parte da quantia recebida pelas sociedades estrangeiras para repasse a agentes da Petrobras e por estes valores terem sido devolvidos na íntegra (US$54 milhões) ao governo brasileiro, não podem sofrer qualquer tributação nele ou nas sociedades estrangeiras. A comprovação da prestação de serviços de Júlio e Luís Eduardo no exterior, através das sociedades estrangeiras, encontrase juntada no Anexo I (atas de reuniões, visitas, vistorias, discussões e emails). Alegam ser descabida e ilegal a tentativa de deslocar ou reclassificar os rendimentos brutos auferidos pela Faercom e Fl. 10303DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.247 15 Oildrive para atribuílos a Júlio, aplicando as normas tributáveis das pessoas físicas. Os serviços decorrem da efetiva prestação dos serviços pela Faercom/Oildrive, legalmente constituídas, com existências e contabilidades regulares. A desconsideração das personalidades jurídicas da Faercom/Oildrive viola a lei, pois não ocorreu qualquer confusão patrimonial entre a Faercom/Oildrive e os respectivos sócios, nem desvio de suas finalidades que pudesse justificar prévia decisão judicial (que não foi prolatada) para a desconsideração de sua personalidade jurídica, conforme preceitua o art. 50 do Código Civil. Citam o art. 129 da Lei nº 11.196/2005, dispondo que é permitido pela legislação a prestação de serviços por pessoa jurídica, quando a contratação pelos representados tenha sido a presença, nos quadros societários e/ou gestão de Júlio e Luís Eduardo, pessoas altamente qualificadas tecnicamente e com notório conhecimento no setor do mercado de óleo e gás, com capacidade para contribuir com conhecimento de caráter intelectual ou personalíssimo. Transcrevem trechos de decisões do Carf neste sentido. Concluem que não há presente no caso, qualquer elemento que autorize o deslocamento ou a reclassificação dos rendimentos recebidos pela Faercom/Oildrive em razão de serviços por estas prestados com vistas a atribuílos a Júlio. Pedem a anulação do AI referente à omissão de rendimentos recebidos de pessoas jurídicas para afastar a incidência do tributo lançado e a correspondente multa. O que foi dito sobre a prestação de serviços no Brasil para Faercom/Oildrive se aplica quanto à prestação de serviços no exterior por Luís Eduardo e por Júlio através das sociedades estrangeiras. A abertura de sociedades estrangeiras, para prestação personalíssima dos serviços de natureza intelectual junto à SBM, está autorizada pelo art. 129 da Lei nº 11.196/2005. Estas sociedades, com a aquiescência da SBM, se tornaram cessionárias de parte dos serviços que tinham de ser prestados no exterior por Luís Eduardo e Júlio, referentes aos projetos iniciados com a prestação, no Brasil, pela Faercom/Oildrive. É ilegal a tentativa de deslocar ou reclassificar as receitas brutas de sociedades estrangeiras para a pessoa física do contribuinte, visto que não há previsão legal para sua desconstituição por autoridade fiscal, como pretende a autuação. Transcrevem trechos de decisões do CARF sobre o assunto. Pedem a anulação do AI, pelos motivos expostos, no lançamento de omissão de rendimentos recebidos de fontes no exterior. Fl. 10304DF CARF MF 16 Por todo o exposto, ficou cabalmente demonstrada a inocorrência de dolo, fraude ou simulação, portanto, quanto à decadência do direito de lançamento pelo fisco deve ser aplicado o prazo de cinco anos, a contar do fato gerador, art. 150, §4º do CTN. Alternativamente, se os pedidos anteriores forem negados, as autoridades fiscais estariam impedidas de efetuar o lançamento de ofício do IRPF incidente sobre todos os rendimentos auferidos (omissão de rendimentos recebidos de PJ e de fontes no exterior) até 6/12/2011, portanto, a anulação da exigência de fatos ocorridos de 1/1/10 a 6/12/11. E, ainda, alternativamente, se entenderem que os impugnantes agiram com dolo, fraude ou simulação, para fins de argumentação, o prazo decadencial (art. 173, I, do CTN), no caso de rendimentos sujeitos ao recolhimento mensal do art. 106 do RIR, sendo o contribuinte obrigado a fazer o lançamento por homologação até o último dia útil do mês subsequente àquele em que os rendimentos foram auferidos, está decaído o direito de constituição de crédito referente a fatos geradores ocorridos no anocalendário de 2010. Pedem a anulação das exigências sobre omissão de rendimentos recebidos de PJ e sobre rendimentos recebidos de fontes no exterior, com relação a fatos geradores ocorridos no ano calendário de 2010. Entendem os impugnantes que não se pode aplicar a multa qualificada de 150% sobre o IRPF lançado, na forma do art. 44, II, da Lei nº 9.430/96, pois a autoridade lançadora não fez referência, no AI, a um único elemento de prova que demonstrasse que Júlio tivesse dolosamente praticado ato ou omissão tendente a impedir ou retardar o conhecimento por parte das autoridades fiscais: a) dos recebimentos das remunerações pagas à Faercom e Oildrive em razão da prestação de serviços no país; b) dos recebimentos de remuneração pelas sociedades estrangeiras em razão da prestação de serviços no exterior. Para se aplicar a multa qualificada, conforme jurisprudência uníssona do Carf, é necessário que a autoridade lançadora comprove ter havido conduta dolosa por parte do contribuinte tendente a ocultar a ocorrência do fato gerador. A autoridade lançadora limitouse a citar depoimentos que, no entendimento dos auditores, corroboravam sua tese, ignorando milhares de páginas de indiscutíveis evidências contrárias. Todos os elementos necessários à investigação dos fatos estavam disponíveis para a autoridade fiscal nas declarações feitas pela Faercom, pela Oildrive e por Júlio, nada escondeu maliciosamente, falsificado, adulterado, antedatado ou pós datado. Pedem a anulação da imposição da multa de 150% sobre as infrações sujeitas à tabela progressiva. Fl. 10305DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.248 17 Ainda que assistisse razão quanto ao deslocamento ou reclassificação dos rendimentos recebidos pela Faercom/Oildrive para atribuílos a Júlio, o que se admite somente para fins de argumentação, pedese que haja imputação do montante recolhido pela Faercom e pela Oildrive a título de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins para que se deduza tal montante do valor do IRPF lançado. Tal imputação é devida sob pena de configurarse bis in idem, vedado constitucionalmente. A imputação de responsabilidade solidária à Faercom e à Oildrive pela totalidade da exigência contida no AI é absurda e não merece prosperar. Segundo entendimento do Carf, o interesse comum referido no art. 124, I, do CTN, configurase apenas quando um ato jurídico realizado por uma pessoa gere para terceiro os mesmos direitos e deveres gerados para a pessoa que o realizou. A solidariedade não é um meio de inclusão de terceiro no polo passivo da obrigação tributária, mas mecanismo de gradação da responsabilidade daqueles que já compõem o polo passivo. Não há interesse comum jurídico entre Júlio e a Faercom/Oildrive pelos serviços prestados no Brasil, cuja remuneração já constituiu fato gerador do IRPJ, da CSLL, do PIS e da Cofins, devidamente oferecido à tributação pelas Faercom/Oildrive. É impossível explicar que as sociedades Faercom/Oildrive tenham, em conjunto com Júlio, praticado fato gerador do IRPF. Quanto às remunerações recebidas de sociedades estrangeiras, em decorrência da prestação de serviços no exterior, a Faercom e a Oildrive não prestaram tais serviços e nem se beneficiaram economicamente deles. Pedese o cancelamento da atribuição de solidariedade entre a Faercom e a Oildrive e Júlio, inclusive no tocante às remunerações recebidas pelas sociedades estrangeiras. Em virtude do perdimento de bens no âmbito da Colaboração Premiada, decorrente da prestação de serviços através das sociedades estrangeiras, considerado pelo MPF como objeto e/ou proveito de ilícito, todo o restante dos bens declarados por Júlio foi, implicitamente, isentado de suspeita ou alegação de ilicitude, o que inclui todos os valores mantidos no Brasil auferidos por trabalho legítimo realizado por intermédio da Faercom e Oildrive. Uma das condições primordiais para a validade do acordo (Colaboração Premiada) era que o produto e/ou proveito das infrações penais conhecidas (isto é, os pagamentos efetuados para funcionários da Petrobras) fossem recuperados em favor da União. Fl. 10306DF CARF MF 18 A autoridade fiscal pretende tributar o referido montante, perdido em favor da União, sugerindo que tais valores, recebidos pelas sociedades estrangeiras, fizessem parte da base de cálculo do imposto supostamente devido pela pessoa física de Júlio. O fato gerador do IRPF é a aquisição de disponibilidade econômica ou jurídica por parte do contribuinte. Entretanto, Júlio perdeu a totalidade dos proveitos adquiridos em razão de ilícitos praticados, no âmbito da Colaboração Premiada, sem ter jamais adquirido formalmente a sua livre disponibilidade. Tributar um acréscimo de disponibilidade patrimonial que não existe, vez que os recursos foram perdidos, é simplesmente absurdo. Devem ser desconsiderados para fins de cômputo da base de cálculo do imposto lançado os proveitos que Júlio efetivamente perdeu no âmbito da Colaboração Premiada. Os impugnantes citam condutas que entendem que são arbitrárias e condenáveis no exercício da atividade pelos agentes públicos encarregados da fiscalização. Reservamse no direito de requererem o que entenderem de direito para o resguardo de seus direitos ao justo processo de lei. Em razão de todo o exposto, os impugnantes requerem que a impugnação seja acolhida e cancelado o AI e o débito nele consubstanciado. Especificamente requerem: a) anulação do AI no que se refere à reclassificação dos rendimentos recebidos pela Faercom e Oildrive e pelas sociedades estrangeiras, com vistas a atribuílos a Júlio; b) alternativamente, anulação do AI pelo instituto da decadência, com relação aos alegados fatos geradores ocorridos de 1/1/10 a 6/12/11, ou dos fatos geradores ocorridos no ano calendário 2010; c) anulação da imposição da multa de 150%; d) se todos os pedidos anteriores forem negados, pedem a imputação do montante recolhido pela Faercom e pela Oildrive a título de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins, para que seja deduzido do valor do IRPF lançado; e) seja cancelada a atribuição de solidariedade entre a Faercom e a Oildrive com Júlio, inclusive sobre as remunerações recebidas pelas sociedades estrangeiras; e f) seja desconsiderada da base de cálculo do imposto lançado os proveitos que Júlio efetivamente perdeu no âmbito da Colaboração Premiada (US$54 milhões), decorrentes da prestação de serviços através das sociedades estrangeiras. A impugnação (efls. 2250 a 2320) foi julgada improcedente (efls. 9932 a 9967). Fl. 10307DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.249 19 Foi interposto recurso voluntário (efls. 9983 a 10104), subscrito por Júlio Faerman, Faercom Energia Ltda. e Oildrive Consultoria em Energia e Petróleo Ltda., que em nada inovou, em relação à impugnação, quanto às causas de pedir e aos pedidos. É o relatório. Voto O Conselheiro João Maurício Vital, Relator. O recurso é tempestivo e dele conheço. Os questionamentos podem ser assim resumidos: a) preliminarmente, os recorrentes alegaram nulidade do lançamento por impossibilidade de reclassificação dos negócios jurídicos das pessoas jurídicas para a pessoa física do autuado; b) como prejudicial de mérito, alegaram a decadência e, c) no mérito, alegaram a inexistência de fato gerador em face da devolução de valores avençada no Termo de Acordo de Colaboração Premiada (e fls. 378 a 396), a ausência de responsabilidade solidária das empresas Faercom e Oildrive e a improcedência da qualificação da multa de ofício e, adjetivamente, pugnaram pelo aproveitamento dos tributos pagos pela Faercom e pela Oildrive. Em relação ao que consta da impugnação, destaco que a única razão nova apresentada no recurso voluntário (efls. 9991 e 9992, itens 38 a 40 do recurso voluntário) é a alegação de que os julgadores de primeira instância não teriam apreciado devidamente as provas juntadas na inauguração da lide e, inclusive, não teriam admitido como provas os contratos apresentados. Não é o que percebo. Destaco os seguintes trechos da decisão recorrida que aludem às provas analisadas: Na impugnação apresentada, não houve indicação expressa de quais fatos, que compuseram o lançamento, se tratavam de serviços efetivamente prestados de forma lícita. Também, não houve apresentação de provas que pudessem fazer a suposta distinção entre serviços prestados, dos serviços confessados como corrupção na Petrobras. ......................................................................................................... Desta forma, simples alegações não produzem efeitos contra os fatos narrados pelo fisco nesta autuação. O interessado não logrou comprovar, de forma inequívoca, por meio de apresentação de documentação hábil e idônea, como ocorreu no curso do procedimento fiscal, a efetividade dos alegados serviços de intermediação de negócios prestados pelas pessoas jurídicas das quais é sócio. Fl. 10308DF CARF MF 20 Não é razoável admitir que as receitas das pessoas jurídicas sejam oriundas da prestação de serviços sem o detalhamento expresso do que fora prestado, sendo imprescindível a apresentação do contrato com a descrição precisa dos serviços, detalhamento das etapas e procedimentos a serem realizados. A comprovação da efetividade dos serviços prestados exige a apresentação, a título de exemplo, dos papéis de trabalhos utilizados, pesquisas e levantamentos efetuados, propostas e estudos técnicos realizados, relatórios dos serviços executados e avaliação dos resultados alcançados, de forma a que não exista dúvida de que os serviços foram efetivamente prestados e estão de acordo com as condições estipuladas no contrato firmado entre as partes. O contrato celebrado entre a Oildrive e Alusa, de prestação de serviços de consultoria comercial na empresa Petrobras e suas afiliadas, encontrase juntados às fls. 1.353/1.355, datado de 7/11/2006, e aditivos de fls. 1.356/1.359, com prorrogação de prazo de vigência até 7/11/12. Como se pode constatar, nenhum dos citados documentos possui registro público. Os aditivos sequer possuem todas as assinaturas dos signatários. Nas fls. 1.376/1.386, contém o contrato celebrado entre SBM e Oildrive, redigido em inglês, com data de 2/6/2006, também sem registro oficial. Pois bem, analisando as provas juntadas pelos recorrentes em conjunto com todos os elementos dos autos, sobretudo os depoimentos do próprio Júlio Faerman, concluo que nada deve ser reparado no acórdão recorrido. Faço minhas considerações gerais antes de apreciar as razões do recurso. Júlio Faerman é pessoa de reconhecida competência técnica no ramo de petróleo e gás. Foi empregado da Petrobras entre 1964 e 1971. Segundo o próprio recorrente (efl. 2126), foi fundador das empresas Faercom, em 1995, e Oildrive, em 2006. Atuou como representante, junto à Petrobras, desde 1975, da empresa IMODCO que, após arranjos societários, foi fundida com a Single Buoy Mooring Offshore N.V. (SBM) 1, permanecendo, o recorrente, como o único representante dessa empresa no Brasil. Por tudo o que a defesa juntou aos autos, para mim está claro que Júlio Faerman agia, antes de mais nada, como representante e operador da SBM e de outras empresas para, mediante o pagamento de propina a altos empregados da Petrobras, obter contratos de fornecimento de serviços. Obviamente, dado o seu conhecimento técnico e as relações que mantinha com empregados da Petrobras, usufruía de pleno acesso às instalações para, pessoalmente, na condição de representante da empresa contratada, supervisionar e acompanhar a execução das obras e serviços. Os vários emails e registros de reuniões, as fotos, os vídeos de depoimentos que os recorrentes juntaram, quando analisados à vista das palavras do próprio recorrente, deixamme claro que o "serviço" prestado à SBM e outras empresas do ramo era, sobretudo, a obtenção dos contratos com a Petrobras por meio do pagamento de propina e, a partir daí, o 1 A SBM é fornecedora, à Petrobras, de naviosplataforma, conhecidos no setor por FPSO (floating, production, storage and offloading) desde a década de 80. Com a ampliação da exploração de petróleo e gás na camada do présal, essa tecnologia passou a ser mais utilizada pela estatal brasileira. Fl. 10309DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.250 21 acompanhamento da execução desses contratos por Júlio Faerman, sempre pessoalmente ou, no caso da Oildrive, em conjunto com seu sócio, Luis Eduardo. As notas fiscais apresentadas pela defesa são tão genéricas quanto à descrição dos serviços (por exemplo, as notas fiscais emitidas pela Faercom, que sequer discriminavam os serviços efls. 921 a 1039), muitos deles desamparados de contratos formais, que não há como deixar de atribuir à Faercom e à Oildrive a alcunha de empresas "noteiras". Somese a isso o fato de a maior parte dos pagamentos efetuados no exterior sequer possuírem documento fiscal, invoice ou contratos para justificálos. Para consumar e dar forma jurídica às avenças, o recorrente se escudou nas empresas Faercom e Oildrive, quanto aos valores recebidos no Brasil; quanto aos valores recebidos no exterior, tudo ocorreu por intermédio de contas offshore. Portanto, essas empresas nada mais eram do que parte da estrutura necessária para que o recorrente levasse a cabo sua verdadeira atividade profissional: obter ilicitamente contratos em favor de suas representadas, sobretudo a SBM, e garantir que os serviços fossem executados no interesse das contratadas. E é isso que as provas juntadas aos autos demonstram: o recorrente, sempre pessoalmente, tratava diretamente com os diretores da estatal brasileira, concedendolhes favores escusos, para ter sucesso nos procedimentos licitatórios, dentre outras facilidades, e para atuar, dentro das instalações da contratante, na garantia dos interesses de seus clientes. Pelas palavras do próprio recorrente, a conclusão a que se chega é que os seus negócios junto à Petrobras ocorriam impulsionados por propina aos funcionários da estatal. O recorrente afirmou, em inúmeras passagens de seus nove de depoimentos (efls. 419 a 482) prestados no âmbito da ação penal, que efetuava pagamentos de vantagens para facilitar os negócios de seu interesse. A título de exemplo, cito alguns trechos: Em todos os cinco contratos mencionados, o depoente atuou por meio da FAERCOM, que atuava no Brasil, enquanto, no exterior, a prestação e remuneração dos serviços eram feitos através de companhias offshore. Essas offshore não tinham contarto com a SBM e nem emitiam nota fiscal ou fatura para a empresa holandesa, sendo que apenas em 2011 o depoente passou a emitir recibos, a pedido da SBM. (...) A título de exemplo, mencionou que quando recebia 3% pela contratação da SBM, 1% vinha sempre oficializado para o Brasil e 2% ia para empresa offshore no exterior. (efl. 420) (Sem grifo no original.) Sobre as tratativas iniciais entre o depoente e CARNEIRO [Paulo Roberto Buarque Carneiro, empregado da Petrobras] quanto a pagamentos que faria a CARNEIRO, tem, a dizer que acreditava não haver qualquer problema, pois seria uma retribuição voluntária pelo trabalho executado para viabilizar as contratações, uma espécie de remuneração pelo sucesso nas pesquisas de novas tecnologias. Pelo fato de CARNEIRO não ser funcionário público, não havia ilegalidade na realização de pagamentos retributivos a este empregado. Fez os pagamentos a CARNEIRO no exterior, pois não havia como fazer esses pagamentos no Brasil a CARNEIRO, pela falta de um contrato com ele e por sua condição de pessoa física. Assinala que CARNEIRO nunca pediu nem insinuou a intenção de começar a receber esses pagamentos, entretanto concordou em entrar em Fl. 10310DF CARF MF 22 contato com um banco Suíço para recebimento dos valores. Efetuou pagamentos a CARNEIRO no exterior, acredita que inicialmente em 1999, perdurando tais pagamentos até o início de 2012. Os pagamentos a CARNEIRO foram depositados em conta na Suíça, em offshore cujo nome é Aquarius. Os valores saíram de suas contas Jandell, Bienfaire e Valinor, conforme extratos que entregará. Diz que não houve pagamentos a CARNEIRO vindos de contas suas com Luis Eduardo ou de contas apenas de Luis Eduardo. Os valores pagos chegaram ao montante de cerca de US$ 8.500.000,00, sendo relativos às contratações do FPSO 2, FPSO Brasil, FPSO Espadarte, FPSO Marlim Sul e FPSO Capixaba. Desde o início desses projetos, CARNEIRO trabalhou junto com o declarante para possibilitar o desenvolvimento de tecnologia de FPSO, utilizando turret e swivel. (efls. 425 e 426) (Sem grifo no original.) ......................................................................................................... Acrescentou que houve pagamentos a Robert Zubiate, no mesmo período de CARNEIRO, também no percentual de 0,25% e depositado em offshore. Zubiate insinuou junto ao depoente que teria direito a uma retribuição da SBM pelas pesquisas tecnológicas que desenvolveram. A SBM, em especial Didier Keller, tinha conhecimento desses repasses a Zubiate e CARNEIRO, especialmente porque Keller chegou a trabalhar na California (sic), mais próximo a Zubiate. (efls. 426) ......................................................................................................... O declarante teceu comentários em relação à plataforma P57, onde teria havido a interveniência de Pedro Barusco na decisão da Petrobras sobre a participação da SBM na concorrência. Esclareceu que, certa vez, em seu escritório no Rio, participou de uma teleconferência com Duque, Barusco e Didier Keller, na qual esse último disse que pensava em desistir de participar da concorrência da P57, já que o número de funcionários da Petrobras fiscalizando o contrato atrapalharia o cumprimento dos prazos acordados, prejudicando o recebimento da remuneração em tempo hábil. Afirmou que, nesta ocasião, Barusco e Duque afirmaram que esse número seria reduzido ao mínimo necessário, para garantir as exigências da G.T.D (general technical description), o que convenceu Didier a permanecer na concorrência. Afirmou que o próprio depoente aconselhou Didier a conversar com Barusco antes de desistir na (sic) concorrência. (efls. 427 e 428) ......................................................................................................... Afirmou que, mais do que nunca, Didier Keller sabia que parte dos valores recebidos pelo depoente no exterior em função do contrato referente à P57 era repassada a funcionários da Petrobras, e presume que também sabia que tais pagamentos eram feitos a BARUSCO, em razão da posição que este ocupava e do montante dos valores envolvidos. (efl. 446) ......................................................................................................... Sobre as tratativas iniciais entre o depoente e ZELADA quanto a pagamentos que faria a ZELADA, tem a dizer que a sugestão do Fl. 10311DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.251 23 pagamento partiu do depoente e de seu sócio [Luis Eduardo, sócio de Júlio Faerman na empresa Oildrive], em uma reunião em um restaurante no Rio cujo nome não se lembra. Foi acordado previamente pelo declarante e Luis Eduardo, juntamente com ZELADA, que este seria remunerado caso beneficiasse os interesses da Jurong [estaleiro localizado em AracruzES], sem especificação do valor. O declarante viabilizou o pagamento no exterior, apresentando ZELADA ao banco suíço Safra. ZELADA ajudou principalmente oferecendo argumentos que a Petrobras costumava acatar em disputas desse tipo. (efl. 430) A disputa do Jurong com a Petrobras girava em torno de 122 milhões de dólares, sendo que, com a ajuda de ZELADA, a Jurong foi vitoriosa em mais de 60 milhões de dólares, não sabendo se a decisão foi da Diretoria de Serviços ou da DiretoriaExecutiva. Pela atuação no caso, o declarante e seu sócio Luis Eduardo receberam cerca de US$ 6,7 milhões, que foram pagos no exterior, na conta Tori, no banco suíço Safra, vindos de Humberto Loureiro. Naquela oportunidade, ZELADA foi remunerado com cerca de US$ 6,4 milhões, retirados da importância de R$ (sic) 6,7 milhões. Portanto, o declarante e seu sócio ficaram com cerca de 300 mil dólares, relativos a esse caso. (efls. 430 e 431) ......................................................................................................... Sobre o acesso a documentos confidenciais da Petrobras por meio de ZELADA, tem a dizer que recebeu informações, inclusive confidenciais, que passou à SBM, mas nunca recebeu documentos diretamente do ZELADA. Recebia esses documentos de Luis Eduardo, sendo que este não comentava como os tinha obtido. Um pendrive contendo a documentação era disponibilizado pelo Luis Eduardo, não sabendo dizer se a obtenção dessa documentação estava relacionada ao pagamento mensal de US$ 20 mil feito por Luis Eduardo a ZELADA. (efl. 432) ......................................................................................................... (...) Como o pedido de BARUSCO não surtiu efeito [Barusco havia sugerido a contratação, pela SBM, do engenheiro da Odebrecht João Antônio Bernardi], pois a SBM não aceitou a contratação de João Antônio, BARUSCO exigiu, sutilmente, uma participação financeira nos negócios da SBM com a Petrobras. Possivelmente, a exigência em comento teria acontecido dias depois dessa negativa da SBM, em 1996/1997, no escritório de BARUSCO, na Petrobras. BARUSCO induzia que Paulo Roberto Carneiro ganhava alguma participação, o que o motivou a exigir comissão para ele. O declarante afirma que concordou com a exigência de BARUSCO, vindo a estabelecer o percentual de 0,25% de comissão a ser paga a BARUSCO. (...) Afirma que tanto o depoente quanto os executivos da SBM estavam convencidos de que se não fosse paga comissão ao BARUSCO, este certamente criaria empecilhos ao relacionamento comercial Fl. 10312DF CARF MF 24 entre a SBM e a Petrobras, inclusive impedido (sic) a contratação de novos negócios entre essas empresas. Os contatos relacionados ao FPSO 2 [primeira FPSO contratada] realizados com BARUSCO começaram imediatamente após este voltar de férias e num período aproximado de um mês houve a decisão de se vir a pagar a comissão a BARUSCO. Dessa forma, firmouse o primeiro compromisso de pagamento entre o depoente e BARUSCO. ......................................................................................................... Sobre as tratativas iniciais entre o depoente e BARUSCO quanto a pagamentos que faria a BARUSCO, tem a dizer que recebia comissão pela FAERCOM de 1%, originária da SBM, e 2,5% no exterior, por intermédio da PETROSERV (que, por sua vez, recebia da SBM no exterior), vindo a utilizar um percentual desses valores recebidos no exterior para remunerar BARUSCO, Zubiate e Paulo Roberto Carneiro, cada um no percentual de 0,25%. A PETROSERV recebia 5% de comissão da SBM, de onde retirava os 2,5% para remunerar o depoente. Efetuou pagamentos a BARUSCO no exterior, a partir do recebimento de valores relacionados às comissões recebidas pela contratação do FPSO 2, sendo esses valores depositados em contas informadas por BARUSCO, perdurando tais pagamentos durante todo o período do cumprimento do contrato referente à FPSO 2. Os valores pagos eram da ordem de milhares de dólares, desconhecendo seu montante. Nunca fez qualquer pagamento a funcionário da Petrobras no Brasil, até porque o depoente sabia que no Brasil tudo deveria ser feito em total observância às leis brasileiras. (efl. 437) (Sem grifo no original.) ......................................................................................................... (...) Esclareceu que os pagamentos a Paulo Roberto Buarque Carneiro, Zubiate e Barusco se iniciaram na mesma época, coincidindo com o início dos pagamentos da SBM para a Petroserv, embora tenham sido pactuados em momentos distintos. (efl. 438) ......................................................................................................... Afirmou que, a partir da FPSO Espadarte [segunda FPSO contratada] ocorreu, a seu ver, uma institucionalização do pagamento de propina, uma vez que, na visão do depoente, não havia mais qualquer razão para que tais pagamentos prosseguissem, ressaltando que BARUSCO nada fez em relação ao contrato da FPSO Espadarte, salvo suas atribuições normais junto à Petrobras. Indagado porque (sic) então tais pagamentos prosseguiram, respondeu que em decorrência do risco de que sua interrupção afetasse negativamente os projetos futuros da SBM no Brasil, principalmente junto à Petrobras. (efls. 439 e 440) A terceira contratação que beneficiou BARUSCO foi referente à FPSO Brasil, na época do afundamento da P36. (...) Apesar de não ter [havido] qualquer participação na contratação da FPSO Brasil, BARUSCO, que era Chefe do Setor na Engenharia Naval, Fl. 10313DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.252 25 também recebeu comissão no mesmo percentual de 0,25%. Esclareceu que o Gerente do Contrato da FPSO e o Chefe do Campo de Roncador não respondiam a BARUSCO. Nessa contratação o depoente recebia da SBM 1% no Brasil e 2,5% no exterior. (efl. 440) A quarta contratação em que teve contato com BARUSCO foi no FPSO Marlim Sul, possivelmente em 2004. (...) Como BARUSCO declarara que agiria em favor da BW [concorrente derrotada na licitação pela SBM, que ofereceu menor preço] em detrimento da SBM, o depoente decidiu não pagar qualquer valor a BARUSCO relativo ao contrato da FPSO Marlim Sul. O relacionamento do depoente com BARUSCO não ficou abalado. (efl. 441) ......................................................................................................... A quinta contratação foi do FPSO Capixaba, Foi a última das unidades contratadas pela Petrobras à SBM na época que a FAERCOM atuava como representante exclusiva no Brasil. Da mesma forma que as anteriores, à medida que a SBM recebia da Petrobras e efetuava os pagamentos ao depoente, o percentual de 0,25% era repassado a BARUSCO. Diferente do que ocorreu com a contratação de Marlim Sul, houve um restabelecimento, por parte de BARUSCO, da solicitação dos pagamentos de propina, provavelmente por ter reconhecido o seu erro em apostar em outra concorrente. Indagado, informou que BARUSCO procurou o depoente e disse que esperava que a SBM vencesse a concorrência, o que bastou para que o depoente entendesse que os pagamentos deveriam continuar. (efls. 441 e 442) A SBM sempre disponibilizava o numerário que o depoente afirmava ser necessário ao desenvolvimento dos projetos, não exigindo que o mesmo desse justificativas para isso. Nessa argumentação perante a SBM, o depoente costumava ser bastante apoiado por Zubiate. (efl. 442) Relatou que as comissões pagas pela SBM foram em valores e percentuais diferentes em cada uma das FPSOs. (efl. 442) ......................................................................................................... Sobre a fase posterior ao afretamento dos FPSO, o depoente citou que foram celebradas três contratações nas quais foram pagas a BARUSCO comissões de 1%: (i) turret da P53, (ii) duas monobóias da PRA1; (iii) aquisição da P57. Nas duas primeiras contratações, a SBM remunerava a Faercom e o depoente, que repassavam 50% à Oiladvise [empresa de Luis Eduardo, sócio de Júlio Faerman]. No contrato referente à P57, os pagamentos foram feitos pela SBM diretamente à Oildrive. (e fls. 442 e 443) Nestes últimos três contratos, BARUSCO já ocupava o cargo de Gerente Executivo na Diretoria de Serviços, e sua atitude mudou, pois, como dito, ele passou a exigir o pagamento de comissão no percentual de 1% [anteriormente era 0,25%], Fl. 10314DF CARF MF 26 dizendo que "precisava" receber esses valores, dando a entender que repassaria parte dele a mais alguém. Na reunião em que BARUSCO exigiu que sua comissão passasse a ser de 1% estavam presentes o depoente e Luis Eduardo. (efl. 443) ......................................................................................................... Esclareceu que nos contratos do Turret e das monoboias, a comissão da Faercom era de 10%, sendo 5% pagos no Brasil e 5% no exterior, na conta Hades (conta que o depoente mantinha em conjunto com Luis Eduardo), da qual saíam os pagamentos destinados a funcionários da Petrobras. No contrato da P57, a comissão paga pela SBM à Oildrive era de 3%, sendo 1% como sempre no Brasil e 2% na conta Bienfaire, titularizada pelo depoente, que se encarregava de repassar parcela deles para a conta Tori, do depoente e Luis Eduardo. Os pagamentos para BARUSCO saíam aleatoriamente da conta Bienfaire e da conta Tori. (efl. 444) ......................................................................................................... Referiuse ao pagamento da quantia de US$ 300 mil para o reforço da campanha da candidata Dilma, em 2010, o qual já foi relatado em termo de depoimento anterior, sendo esta a única oportunidade em que percebeu, à época, benefício para setores políticos em relação a pagamentos a BARUSCO. (efl. 447) ......................................................................................................... Sobre eventual recebimento de outras vantagens que não financeiras por BARUSCO, o depoente admitiu que este deu presentes de Natal, como vinhos e outros, com recursos oriundos da SBM, o que era comumente oferecido para empregados da Petrobras. (efl. 448) ......................................................................................................... (...) perguntado sobre o relacionamento com os empregados dos bancos suíços, disse que havia relacionamentos diferentes, citando um empregado do Republic que não se lembra o nome, sendo que seu relacionamento com Denise Kos e com Roth foi totalmente diferente, pois havia amizade com Denise e até com Roth, pessoas a quem seguiu quando esses mudaram de bancos; que foi diferente com Steiger, pessoa que lhe foi, por assim dizer, imposta pelo banco Pictet, e foi a primeira pessoa a noticiar indício de lavagem de dinheiro às autoridades suíças, sendo que o depoente nunca imaginou que fazia lavagem, embora soubesse da sonegação fiscal, pois não declarou esses valores no exterior à Receita (...) (efl. 474) ......................................................................................................... (...) que percebe que era muito fácil pra SBM fazer certas coisas, por exemplo, o depoente simplesmente dizia para ele (sic) mandarem seus pagamentos para certa conta e eles faziam (...); que a SBM nunca questionou suas comissões (...); já na época do présal, quando já havia uma equipe da SBM no Brasil, houve acordo de que sua comissão viria a ser cancelada no exterior, tendo em vista que seu trabalho diminuiria, porém mantendose Fl. 10315DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.253 27 a mesma no Brasil (1%); que essa baixa redução indica que eles sabiam que o depoente pagava empregados da Petrobras no exterior (...); que a SBM só passou a se preocupar com compliance a partir das denúncias de propinas na Guiné Equatorial (...) (efl. 476) ......................................................................................................... (...) que houve pagamentos a Barusco (SBM e Progres Ugland), Carneiro (SBM) e Zelada (jurong), conforme depoimentos já prestados anteriormente (...) (efl. 480) A Autoridade Lançadora demonstrou, com absoluta lucidez, que Júlio Faerman atuava como operador das empresas que representada, sobretudo a SBM (efl. 2146): Todo o esquema para beneficiar as empresas representadas pelo fiscalizado e que contratavam com a Petrobrás (sic) baseavase na obrigação, por parte da contratada, de efetuar pagamento de propina aos funcionários da estatal para obter tratamento privilegiado nas questões relativas a estes contratos. Estes "acordos", no caso da SBM, eram intermediados por Júlio Faerman. Além da sua vasta experiência como técnico da área de petróleo e gás, Júlio Faerman possuía o "know how" necessário para movimentar recursos no exterior, afastandoos do conhecimento das autoridades brasileiras e estrangeiras. Este conhecimento qualificouo como "operador" da SBM dentro do esquema montado na Petrobrás (sic). Cumpre, também, reproduzir elucidativo trecho do Termo de Constatação Fiscal (efls. 2129 e 2130): Em 12/11/2014, o Ministério Público holandês anunciou um acordo criminal extrajudicial com a SBM Offshore pelo caso de corrupção em países estrangeiros (mencionando especificamente Guiné Bissau, Angola e Brasil). Em relação ao Brasil, o MP holandês apontou fortes indícios de pagamentos indevidos do agente de vendas da SBM no país a funcionários brasileiros, identificando: comissões elevadas pagas ao agente de vendas, divisão do pagamento das comissões ao mesmo agente entre sua empresa no Brasil e empresas offshore e, finalmente, documentos indicando que seu representante comercial tinha acesso a documentos sigilosos do cliente. As investigações efetuadas pelo MPF concluem que a SBM efetuou pagamentos em contas das empresas offshore, constituídas em paraísos fiscais, controladas por Júlio Faerman e Luis Eduardo, sem a existência de qualquer contrato e sem que essas empresas emitissem documentos comerciais ou fiscais referentes aos valores recebidos. A SBM também efetuou pagamentos no Brasil às empresas Faercom e Oildrive. Júlio Faerman e seu sócio na Oildrive, Luis Eduardo se utilizava das contas constituídas em nome de empresas offshore para receber grande parte das comissões pagas pela SBM. Fl. 10316DF CARF MF 28 O fiscalizado se valia dessas contas para transferir recursos para contas em bancos suíços em nome de outras empresas offshore cujos beneficiários eram empregados da Petrobrás (sic). Os valores transferidos visavam [a] garantir tratamento diferenciado à SBM em sua relação comercial com a Petrobrás (sic). Através desses pagamentos aos funcionários da estatal, tanto a SBM quanto o fiscalizado obtiveram diversas vantagens nos contratos firmados com a Petrobrás (sic). Como exemplo o acesso a informações sigilosas da empresa, em favorecimento em processos de licitação , o tratamento diferenciado à SBM nos processos de contratação junto à Petrobrás (sic), a adoção de soluções técnicas vendidas pela SBM, o tráfico de influências manifesto pela atuação dos empregados com poder decisório na resolução de controvérsias e o pagamento de aditivos aos serviços contratados. ......................................................................................................... No curso do Processo Criminal (...), o então investigado, Júlio Faerman, manifestou intenção de colaborar com a apuração dos crimes e assumir (ou assumiu?) todos os ilícitos praticados através do Acordo de Colaboração Premiada. Enfim, contestada a nova razão apresentada pelos recorrentes e feitas as considerações gerais sobre o caso, invoco o § 3º do art. 57 do Regimento Interno do Carf (Ricarf) para transcrever a decisão de primeira instância, com a qual concordo e assumo como meus próprio fundamentos de decidir: Rendimentos recebidos por pessoa física, utilizandose de pessoa jurídica no Brasil e no exterior. Os impugnantes entendem que deve haver uma distinção entre os fatos confessados e apurados no processo criminal, referentes à corrupção na Petrobras, e a atuação de Júlio, por intermédio da Faercom e posteriormente pela Oildrive, sob o comando conjunto de Júlio e de Luís Eduardo, no mercado de óleo e gás. Na impugnação apresentada, não houve indicação expressa de quais fatos, que compuseram o lançamento, se tratavam de serviços efetivamente prestados de forma lícita. Também, não houve apresentação de provas que pudessem fazer a suposta distinção entre serviços prestados, dos serviços confessados como corrupção na Petrobras. Alegam que a Oildrive e a Faercom já foram fiscalizadas pela Receita Federal do Brasil – RFB, com comprovação da regularidade de sua existência, dos contratos celebrados e das notas fiscais emitidas pelos serviços efetivamente prestados. Cumpre destacar que a simples alegação de regularidade em procedimento fiscal anterior não é capaz de invalidar ou desconstituir os valores considerados omissão de rendimentos recebidos das Pessoas Jurídicas – PJ, Faercom e Oildrive, que foram imputados à pessoa física de Júlio. Nos sistemas informatizados da RFB, há registro de uma única fiscalização anterior procedida na PJ Oildrive, CNPJ Fl. 10317DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.254 29 07.849.757/000101, quando foram examinados os tributos Pis e Cofins, referente ao anocalendário de 2009, estranho ao período apurado neste processo (2010, 2011 e 2012). Já em relação à Faercom, CNPJ 00.680.858/000144, o período objeto de fiscalização foi o anocalendário 2006, referente aos tributos IRPJ e IRRF. No mesmo sentido, o período fiscalizado não coincide com os anoscalendário objeto de análise neste processo (2010, 2011 e 2012). As diligências procedidas nas duas sociedades empresárias (Oildrive e Faercom), no ano de 2015, foram motivadas pela denominada Operação LavaJato, e subsidiaram as fiscalizações perpetradas nas pessoas físicas dos sócios das referidas PJ. Diligências são ações destinadas a coletar informações ou outros elementos de interesse da administração tributária, inclusive para atender exigência de instrução processual. Portanto, diligência não é conclusiva quanto à regularidade dos fatos coletados e examinados. Assim, sem razão os impugnantes em afirmar que a RFB já comprovou a regularidade das PJ em ações de fiscalizações anteriores. Já foram analisados pela fiscalização, no curso do procedimento fiscal, os documentos juntados pelos impugnantes tendentes a comprovar a regularidade dos supostos serviços prestados pela Faercom e Oildrive que ensejaram os pagamentos por elas recebidos no Brasil, da SBM, Alusa e RollsRoyce, tais como e mails, atas de reuniões, relatórios técnicos, entre outros. Conforme preceitua o Decreto nº 70.235/72 a obrigatoriedade do agente do fisco em provar a ocorrência do ilícito fiscal, caput do art. 9º, também impõe ao sujeito passivo o ônus de provar o que alega, redação contida no inciso III do art. 16, sob pena de, não o fazendo, se sujeitar à infração apurada no lançamento. Art. 9o A exigência do crédito tributário e a aplicação de penalidade isolada serão formalizados em autos de infração ou notificações de lançamento, distintos para cada tributo ou penalidade, os quais deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito.(Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) [...] Art. 16. A impugnação mencionará: [...] III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir;(Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) Fl. 10318DF CARF MF 30 Desta forma, simples alegações não produzem efeitos contra os fatos narrados pelo fisco nesta autuação. O interessado não logrou comprovar, de forma inequívoca, por meio de apresentação de documentação hábil e idônea, como ocorreu no curso do procedimento fiscal, a efetividade dos alegados serviços de intermediação de negócios prestados pelas pessoas jurídicas das quais é sócio. Não é razoável admitir que as receitas das pessoas jurídicas sejam oriundas da prestação de serviços sem o detalhamento expresso do que fora prestado, sendo imprescindível a apresentação do contrato com a descrição precisa dos serviços, detalhamento das etapas e procedimentos a serem realizados. A comprovação da efetividade dos serviços prestados exige a apresentação, a título de exemplo, dos papéis de trabalhos utilizados, pesquisas e levantamentos efetuados, propostas e estudos técnicos realizados, relatórios dos serviços executados e avaliação dos resultados alcançados, de forma a que não exista dúvida de que os serviços foram efetivamente prestados e estão de acordo com as condições estipuladas no contrato firmado entre as partes. O contrato celebrado entre a Oildrive e Alusa, de prestação de serviços de consultoria comercial na empresa Petrobras e suas afiliadas, encontrase juntados às fls. 1.353/1.355, datado de 7/11/2006, e aditivos de fls. 1.356/1.359, com prorrogação de prazo de vigência até 7/11/12. Como se pode constatar, nenhum dos citados documentos possui registro público. Os aditivos sequer possuem todas as assinaturas dos signatários. Nas fls. 1.376/1.386, contém o contrato celebrado entre SBM e Oildrive, redigido em inglês, com data de 2/6/2006, também sem registro oficial. De acordo com o Código Civil, Lei nº 10.406, de 10/1/2002, o instrumento particular vale entre as partes, mas para valer perante terceiros, como é o caso da Fazenda Pública, o contrato de prestação de serviços e seus aditivos deveriam ter sido registrados no cartório de títulos e documentos, conforme determina o art. 221 do Código Civil. Art. 221. O instrumento particular, feito e assinado, ou somente assinado por quem esteja na livre disposição e administração de seus bens, prova as obrigações convencionais de qualquer valor; mas os seus efeitos, bem como os da cessão, não se operam, a respeito de terceiros, antes de registrado no registro público. Fl. 10319DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.255 31 Parágrafo único. A prova do instrumento particular pode suprirse pelas outras de caráter legal. A autoridade lançadora, com base na narrativa da Denúncia criminal do MPF/RJ, nas informações constantes de diversos Termos de Declaração prestados pelo fiscalizado ao MPF, decorrente do Acordo de Colaboração, demais procedimentos correlatos contra o fiscalizado e outros denunciados e pelas informações apresentadas pelo próprio contribuinte em respostas às intimações no curso deste procedimento fiscal, assim descreveu no item VII –1 – Dos valores recebidos por intermédio da Faercom e Oildrive do TCF, fls. 2.151/2.152: Percebese que o ambiente de negócios que envolvia a SBM, representada por Júlio Faerman, e a Petrobras, através de Barusco, Carneiro e Zelada estava contaminado pela corrupção e tráfico de influência de forma essencial, sendo impossível dissociar os negócios que foram realizados de forma justa e honesta, se é que existiram. Os valores pagos pela SBM e suas subsidiárias, que o contribuinte valeuse da Faercom para recebimento, foram fornecidos pela própria Faercom, em resposta ao TDPF nº 0800100/2015/000137, conforme reproduzido nas planilhas 1, 2 e 3 do TCF, integrantes do AI (fls. 2.164/2.166). Os valores pagos pela SBM e suas subsidiárias (Alusa e Roll Royce), em benefício do fiscalizado, foram fornecidos pela Oildrive em atendimento ao TDPF nº 0800100/2015/000129, conforme planilhas 4, 5 e 6, do TCF, integrantes do AI (fls. 2.167/2.169). Observandose que através da Oildrive, foram prestados serviços a Rolls Royce e Alusa. Os documentos juntados pelos impugnantes, após ciência do AI, fls. 2.325/3.913, não são capazes de desconstituir o crédito apurado neste processo. Em análise dos documentos, podese ver: projetos das empresas representadas pelo contribuinte nos contratos celebrados com a Petrobras, email enviados entre o fiscalizado e as empresas envolvidas, atas de reuniões técnicas, convites em procedimentos licitatórios da Petrobras, contratos de consórcios entre as empresas, contratos firmados entre as empresas, negociações de prazo, entre outros. Reiterese a citação dos agentes fiscais que realizaram todo o trabalho de diligência e auditoria nas pessoas físicas e jurídicas elencadas neste AI, já reproduzidas no relatório: “Não há como atribuir legalidade a parte dos Fl. 10320DF CARF MF 32 valores recebidos, pois sem a execução dos crimes citados os contratos não se consumariam nem existiriam os respectivos pagamentos que possibilitassem o repasse de comissões”. (TCF, fls. 2.156) Para assegurar o pagamento das vantagens indevidas, todos os elementos de provas apresentados pelo contribuinte se fizeram necessários, tais como reuniões técnicas, os participantes das negociações trocavam correspondências, físicas ou virtuais, necessariamente havia acompanhamento de todas as etapas dos processos licitatórios, entre outros procedimentos inerentes ao cumprimento do acordado entre as partes. No contexto dos autos, o contribuinte foi intimado para identificar a efetiva prestação de serviços, com propósito lícito, e não cuidou de trazer nada que pudesse esclarecer tais fatos. Nos Termos de Declarações de Júlio Faerman, prestadas ao MPF, juntados às fls. 402/482, cujo compartilhamento com a RFB foi autorizado judicialmente, fls. 377, em vários trechos, Júlio afirmou expressamente que houve pagamento de vantagens indevidas a funcionários da Petrobras, por favorecimento na celebração de contratos firmados entre a SBM e suas subsidiárias com a Petrobras. Citese os seguintes trechos das declarações feitas por Júlio ao MPF: A cada projeto da Petrobras era assinado um subcontrato entre a FAERCOM e a SBM, no qual havia a previsão de possibilidade de cessão da FAERCOM para outra empresa, que parte da comissão devida em virtude da prestação de serviços de representação poderia ser paga a outras empresas, tendo sido utilizadas para isso as empresas offshore. Esclareceu que não havia contratos entre as offshore e a SBM. Houve um acordo com a SBM, por meio de Didier Keller, para pagamento no exterior de parte dos valores devidos contratualmente à FAERCOM. (fls. 421) [...] Efetuou pagamentos a CARNEIRO no exterior, acredita que inicialmente em 1999, perdurando tais pagamentos até o início de 2012. Os pagamentos a CARNEIRO foram depositados em conta na Suíça, em offshore cujo nome é Aquarius. Os valores saíram de suas contas Jandell, Bienfaire e Valinor, conforme extratos que entregará. ........Os valores dos pagamentos a CARNEIRO equivaliam a 0,25% dos contratos. Os valores pagos chegaram ao montante de cerca de US$8.500.000,00, sendo relativos às contratações do FPSO 2, FPSO Basil, FPSO Espadarte, FPSO Marlim Sul e FPSO Capixaba.(fls. 425/426) [...] Fl. 10321DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.256 33 Acrescentou que houve pagamentos a Robert Zubiate, no mesmo período de CARNEIRO, também no percentual de 0,25% e depositado em offshore. (fls. 426) [...] A disputa do Jurong com a Petrobras girava em torno de 122 milhões de dólares, sendo que, com a ajuda de ZELADA, a Jurong foi vitoriosa em mais de 60 milhões de dólares....Pela autuação no caso, o declarante e seu sócio Luís Eduardo receberam cerca de US$6,7 milhões, que foram pagos no exterior, na conta Tori, no banco suíço Safra, vindos de Humberto Loureiro. Naquela oportunidade, ZELADA foi remunerado com cerca de US$6,4 milhões, retirados da importância de US$6,7 milhões. Portanto, o declarante e seu sócio ficaram com cerca de 300 mil dólares relativos a esse caso. (fls. 430/431) [...] Sobre o acesso a documentos confidenciais da Petrobras por meio de ZELADA, tem a dizer que recebeu informações, inclusive confidenciais que passou à SBM, mas nunca recebeu documentos diretamente do ZELADA. Recebia esses documentos de Luís Eduardo, sendo que este não comentava como os tinha obtido. Um pendrive contendo a documentação era disponibilizado pelo Luís Eduardo, não sabendo dizer se a obtenção dessa documentação estava relacionada ao pagamento mensal de US$20 mil feito por Luís Eduardo à ZELADA. (fls. 432) [...] Sobre as tratativas iniciais entre o depoente e BARUSCO quanto a pagamentos que faria a BARUSCO, tem a dizer que recebia comissão pela FAERCOM de 1% no Brasil, originária da SBM, e 2,5% no exterior, por intermédio da PETROSERV (que, por sua vez, recebia da SBM no exterior), vindo a utilizar um percentual desses valores recebidos no exterior para remunerar BARUSCO, Zubiate e Paulo Roberto Carneiro, cada um no percentual de 0,25%. A PETROSERV recebia 5% de comissão da SBM, de onde retirava os 2,5% para remunerar o depoente.(fls 437) [...] Informou o depoente quanto à autuação dos executivos da SBM no pagamento à agentes da Petrobras do Brasil tem a dizer que a SBM nada pagou aos agentes da Petrobras enquanto o depoente a representava no Brasil, tendo todos os pagamentos a Pedro Barusco e Paulo Roberto Carneiro partido das contas do depoente; esclarece todavia que há elementos, evidências, de que eles sabiam desses pagamentos; ...(fls. 450). Fl. 10322DF CARF MF 34 [...] Didier Keller sabia desses pagamentos a empregados da Petrobras porque em momento posterior, nos projetos posteriores ele perguntava quanto ele precisaria receber no exterior como complementação do 1% do Brasil; que, com a resposta do depoente, sem maiores formalidades eram emitidas ordens para esses depósitos no exterior;...(fls. 453) [...] ....que o depoente esclarece que os valores internalizados como pagamentos da SBM à FAERCOM/OILDRIVE (referentes ao 1% do contrato guardachuva) eram feitos via BACEN, convertidos para Real no câmbio do dia, sendo a nota fiscal emitida em reais com referência aos dólares transferidos;....(fls. 475) Na denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público Federal do Rio de Janeiro – MPF/RJ, fls. 254/352, em face do contribuinte, está relatado o esquema de pagamento de vantagens indevidas, conforme a seguir reproduzido: [...] Suas comissões variavam desde 3% até 10%, dependendo do tipo de contrato da SBM com a Petrobras ou outra empresa, do material fornecido e/ou da existência ou não de licitação. Invariavelmente, FAERMAN recebia 1% no Brasil em contas da FAERCOM, com emissão de faturas e registro no Banco Central, enquanto o restante a SBM transferia para contas na Suíça, de empresas offshore pertencentes a FAERMAN, constituídas principalmente nas Ilhas Virgens Britânicas e no Panamá, na maioria dos casos pelos próprios bancos suíços como o J. Safra, o Pictet e o Lambard Odier. Dessas contas na Suíça, FAERMAN orientava os bancos a transferirem recursos para empregados da Petrobras, tendo como fundamento os contratos da estatal com SBM, cuja alta direção não só aquiescia com os pagamentos como montou essa estrutura financeira para viabilizálos. Aos menos um deles, ZUBIATE, VicePresidente para as Américas, recebeu na Suíça transferências de FAERMAN em virtude de contratos entre a SBM e a Petrobras. (fls.260) [...] A OILDRIVE passou a ocupar o papel da FAERCOM nos contratos com a SBM, ao passo que na Suíça FAERMAN e LUÍS EDUARDO constituíram, sempre com auxílio dos bancos locais, contas em nome de empresas offshore cuja titularidade partilhavam.(fls. 261) Inferese das declarações acima reproduzidas e de tudo que consta dos autos, que o fiscalizado e seu sócio Luís Fl. 10323DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.257 35 Eduardo recebiam comissão, por intermédio da Faercom/Oildrive, de 1% sobre o valor dos contratos celebrados entre a SBM e Petrobras no Brasil. A SBM pagava também, no exterior como complementação do 1% do Brasil, outro percentual (de 2%, 2,5%, 4%, 5%, conforme combinado em cada projeto), para pagamento de propina a funcionários da Petrobras, pelas vantagens obtidas nas negociações dos contratos. Júlio descreve a forma como os valores das comissões eram internalizados, no Brasil, como sendo pagamentos da SBM à Faercom/Oildrive (referentes ao 1% do contrato guardachuva). Ato contínuo, as notas fiscais eram emitidas em reais no valor dos dólares transferidos via Banco Central. Tal declaração comprova, cabalmente, que os valores não eram pagos a título de serviços prestados, mas sim como remuneração indevida por sua intermediação pessoal em ações ilícitas durante a execução dos contratos entre a SBM e Petrobras. No relatório da fiscalização, está claro que os valores pagos em nome da Faercom/Oildrive, amparados pelo contrato firmado com a SBM, bem como o de representação com a Alusa e Rolls Royce, foram considerados destinados efetivamente a Júlio e seu sócio Luís Eduardo, como remuneração pelos resultados e negócios, que seus poderes de influência dentro da Petrobras, geraram para as empresas representadas. Diante das constatações feitas pela auditoria fiscal, durante o trabalho fiscal, de que o fiscalizado representava a SBM e suas subsidiárias, utilizandose de práticas permeadas por corrupção e tráfico de influência, e, diante da ausência de provas capazes de identificar de forma cabal a existência da efetiva prestação de serviços lícitos, não há como este colegiado vislumbrar a ocorrência de operações realmente prestadas pelas pessoas jurídicas Faercom e Oildrive. Desse modo, esta autoridade julgadora, ao confrontar os argumentos produzidos pelo autuado e a motivação adotada pela fiscalização, e por tudo que dos autos consta, conclui que o sujeito passivo foi o destinatário das vantagens indevidas pagas no Brasil, devendo ser mantido o lançamento de omissão de rendimentos recebidos no Brasil através da Faercom/Oildrive. A fiscalização, no item X.2 – Omissão de rendimentos tributáveis recebidos no exterior , fls. 2.157/2.159, apurou que o impugnante recebeu rendimentos no exterior, nos anoscalendário 2010, 2011 e 2012, valores não Fl. 10324DF CARF MF 36 declarados à autoridade tributária brasileira. Tais valores foram pagos pelas empresas SBM, Alusa e RollsRoyce, através de depósitos em bancos suíços em contas cujos titulares eram empresas offshore. Assim relata a autoridade fiscal, fls. 2.157: Tais valores, provenientes de infração penal contra a Administração Pública, tiveram sua natureza, origem, localização, movimentação e propriedade ocultada e dissimulada, inclusive com a utilização de sociedades constituídas em paraísos fiscais, em especial nas Ilhas Virgens Britânicas. Em depoimento, afirma Júlio que as empresas no exterior não tinham empregados, conforme extraído das fls. 421 do TCF. E, ainda, que os pagamentos a funcionários da Petrobras não eram feitos no Brasil, pois sabia que no Brasil tudo deveria ser feito em total observância das leis brasileiras. Podese ver que as contas mantidas pelo impugnante e seu sócio no exterior, por intermédio de sociedades estrangeiras fictícias, eram utilizadas para pagamento de vantagens indevidas a empregados da Petrobras, conforme corroboram os fatos narrados pela fiscalização. As constatações presentes na denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público Federal do Rio de Janeiro – MPF/RJ, especificamente nas fls. 334, foram endossadas pela fiscalização da RFB. O MPF concluiu que os denunciados, entre eles Júlio Faerman, praticou o delito de lavagem de dinheiro, pois os valores movimentados eram provenientes de crimes de corrupção, em detrimento da Administração Pública. E pelo fato de o denunciado receber e manter valores no exterior, sem declará los oportunamente ao Banco Central (tampouco à Receita Federal), consumaria o crime de evasão de divisas na modalidade de manter depósitos no exterior não declarados à repartição federal competente. Reclassificação de receita tributada na pessoa jurídica para rendimentos de pessoa física. Alegam ser ilegal deslocar ou reclassificar os rendimentos brutos auferidos pela Faercom/Oildrive para atribuílos ao sócio Júlio, aplicando as normas tributáveis das pessoas físicas. O AI não desconsiderou a personalidade jurídica das pessoas jurídicas Faercom/Oildrive, nem das sociedades estrangeiras das quais o impugnante é sócio para aplicar a tributação das pessoas físicas como alega em sua defesa. Conforme se verifica no TCF, o entendimento da autoridade fiscal foi no sentido de que o produto auferido em razão dos contratos firmados pela Faercom/Oildrive e pelas sociedades estrangeiras e os contratantes eram rendimentos da pessoa física do impugnante, sócio das empresas. Por essa razão, procedeuse à constituição do crédito, imputando ao contribuinte fiscalizado a infração de omissão de rendimentos recebidos de PJ e do exterior, de modo Fl. 10325DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.258 37 a assegurar a correta tributação dos rendimentos recebidos em função dos referidos contratos. Não houve em nenhum momento a alegada desconsideração da personalidade jurídica da Faercom/Oildrive/sociedades estrangeiras. As empresas permaneceram com suas personalidades jurídicas, detentoras de CNPJ regulares. O que ocorreu foi o entendimento de que os rendimentos que originalmente foram oferecidos à tributação nas PJ eram, de fato, rendimentos dos sócios das referidas sociedades empresárias. Logo, não há que se falar em desconsideração da personalidade jurídica das empresas Faercom/Oildrive, nem das sociedades estrangeiras. Sonegação e fraude. Preliminar de decadência. Multa qualificada. Sonegação e Fraude. Neste voto, com amparo na apuração dos fatos realizada pela autoridade lançadora, foram examinadas as condutas praticadas pelo contribuinte em relação (i) ao recebimento de vantagens indevidas no Brasil por intermédio de pessoas jurídicas e (ii) ao recebimento de rendimentos no exterior, por meio de empresas offshore. Para as infrações indicadas no parágrafo anterior, o agente do fisco levou em consideração as informações contidas no Termo de Acordo de Colaboração Premiada, firmado junto ao Ministério Público Federal, fls. 397/482, com a participação de defesa técnica, onde o autuado confessou a prática de crimes contra a Administração Pública tributária, de corrupção (pagamento de vantagens indevidas a empregados da Petrobras), de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, dentre outros. Outras infrações foram apuradas no curso do procedimento fiscal, quando o sujeito passivo, intimado pela fiscalização, não conseguiu demonstrar que as pessoas jurídicas das quais era sócio havia efetivamente realizado a prestação de serviços. O valor total de rendimentos omitidos nos anoscalendário 2010, 2011 e 2012, apurados no procedimento fiscal foi superior a R$ 47.000.000,00 (Quarenta e sete Milhões de Reais), conforme demonstrado no Item X do TCF e seus anexos (fls. 2.123/2.163). No referido termo, ficou demonstrado que Júlio Faerman atuava de forma contínua, coordenada e consciente com a finalidade específica de obter vantagens nos contratos firmados entre suas representadas e a Petrobras, através do cometimento de diversos crimes: fraudes em licitações, corrupção ativa, “lavagem” de dinheiro, manutenção de depósito em conta não declarada no exterior. O fiscalizado utilizavase da Faercom Energia Ltda, CNPJ 00.680.858/000144, da qual era usufrutuário de 50% das cotas e administrador, e da Oildrive Consultoria em Energia e Fl. 10326DF CARF MF 38 Petróleo Ltda, CNPJ 07.849.757/000101, da qual participava por intermédio da Faercom e também era administrador, para lavagem de valores recebidos decorrentes dos contratos firmados por intermédio de sua atuação ilícita. Além dessa prática, Júlio Faerman recebeu, no curso dos anos calendários 2010, 2011 e 2012, rendimentos no exterior que não foram declarados à autoridade tributária brasileira. Tais valores, provenientes de infração penal contra a Administração Pública, tiveram sua natureza, origem, localização, movimentação e propriedade ocultada e dissimulada, pela utilização de contas em nomes de offshore constituídas em paraísos fiscais, em especial nas Ilhas Virgens Britânicas, das quais o fiscalizado era o real beneficiário, e que só foram declaradas à Receita Federal do Brasil após sua descoberta na Operação Lava Jato. Do que foi exposto até aqui, é patente que o contribuinte, ao movimentar e se beneficiar de recursos em divisas estrangeiras no exterior, à revelia do Sistema Financeiro Nacional, agiu com o intuito doloso de impedir o conhecimento por parte do fisco da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, representada pela disponibilidade econômica dos respectivos rendimentos tributáveis. Os fatos anteriormente narrados também permitem apontar que o sujeito passivo, conscientemente, omitiu do fisco recursos derivados de vantagens indevidas, provenientes do esquema de corrupção apurado na denominada "Operação LavaJato", valendose da escrituração e declaração de receitas de prestação de serviços fictícios por pessoa jurídica, com o objetivo de impedir o conhecimento do fato gerador do imposto sobre a renda de pessoa física. Assim, no lançamento fiscal em discussão, não se verifica mera inadimplência de tributo, mas, sim, a prática de várias condutas queridas e desejadas com o intuito deliberado de violar a lei tributária e com pleno conhecimento de sua ilicitude – dolo , de forma a impedir o conhecimento pela administração tributária da ocorrência do fato gerador do imposto de renda, no caso dos rendimentos recebidos no exterior (infração descrita no item X.2) – sonegação , sem, obviamente, informar os rendimentos tributáveis na declaração de ajuste anual, e evidente intuito de fraude, no caso dos rendimentos recebidos no Brasil com utilização da Faercom e Oildrive (infração descrita no item X.1), subsumindose às hipóteses descritas nos arts. 71 e 72 da Lei nº 4.502, de 1964, assim como indícios de crimes contra a ordem tributária previstos no art. 1º da Lei nº 8.137/90. Lei nº 4.502/1964 Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; Fl. 10327DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.259 39 II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento. Lei nº 8.137/90 Art. 1° Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo, ou contribuição social e qualquer acessório, mediante as seguintes condutas: (Vide Lei nº 9.964, de 10.4.2000) I omitir informação, ou prestar declaração falsa às autoridades fazendárias; A materialidade das condutas praticadas pelo contribuinte se ajusta perfeitamente à norma contida nos arts. 71 e 72 da Lei nº 4.502, de 1964, sendo que os elementos subjetivos – sonegação e fraude são investigados no momento das práticas das infrações tributárias, anosbase 2010 a 2012, não importando que, no futuro, o interessado confesse suas atitudes contrárias ao ordenamento jurídico e facilite o trabalho de apuração do imposto devido. Na esfera penal, a confissão espontânea, perante a autoridade, da autoria do crime, é circunstância atenuante a ser observada na dosimetria da pena (Art. 65, III, "d", do Código Penal). Na seara tributária, não há previsão legal para que a confissão interfira ou se imponha ao lançamento fiscal. Nos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, a lei determina que o contribuinte apure e pague o tributo por ele devido, com garantia à administração tributária de fiscalizar a atividade do contribuinte, homologandoa ou dela discordando, com o lançamento de ofício da diferença detectada. O prazo decadencial para se efetuar o lançamento do tributo é, em regra, aquele previsto no art. 173, I, do Código Tributário Nacional, segundo o qual o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após cinco anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; Para os tributos sujeitos a lançamento por homologação, incide a regra do §4º do art. 150 do Código Tributário Nacional, onde Fl. 10328DF CARF MF 40 o prazo decadencial para o lançamento de eventuais diferenças é de cinco anos a contar do fato gerador. Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. [...] § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. A regra contida no mencionado §4º do art. 150 é excepcionada nos casos em que se comprovar a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, passando a prevalecer o prazo previsto no inciso I do art. 173 do Código Tributário Nacional. A descrição contida nos tópicos anteriores não deixa dúvida de que o autuado agiu dolosamente com o intuito de sonegar a ocorrência do fato gerador do imposto de renda, razão pela qual não se pode empregar no caso concreto a dicção contida no §4º do art. 150 do Código Tributário Nacional, como quer os impugnantes. O termo inicial para a contagem do prazo qüinqüenal, de acordo com o art. 173, I, do CTN, é o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido feito. No caso, o fisco somente poderia efetuar o lançamento após a data da entrega da declaração, que informou os dados para cálculo do imposto sobre a renda auferida no anocalendário de 2010. Iniciado o prazo decadencial em 1/1/2012, o prazo final para a constituição do crédito ocorreu em 31/12/2016. Desse modo, o AI lavrado em 1/12/2016 (fls. 2.175) e com ciência do interessado em 6/12/2016 (fls. 2.213), referente aos anoscalendário 2010 a 2012, não ultrapassou o período previsto no art. 173, I, do Código Tributário Nacional. Entendem os impugnantes que estaria decaído o direito de constituição do crédito para fatos geradores ocorridos em 2010, em relação à infração Omissão de rendimentos recebidos de fontes no exterior, sujeitos ao recolhimento mensal do art. 106 do RIR. Cumpre destacar que não se pode confundir a obrigação de apuração e recolhimento mensal do carnêleão, com a obrigação de declarar rendimentos recebidos de fontes no exterior. Nos termos do art. 8º, I, da Lei nº 9.250/95, a base de cálculo do imposto é a soma de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário. Como se sabe, o fato gerador do imposto de renda é complexivo ou periódico, pois abrange a disponibilidade Fl. 10329DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.260 41 econômica ou jurídica adquirida em determinado período. No caso das pessoas físicas, esse período termina no último dia do ano civil (31 de dezembro). Se aplicada a regra do art. 173, I do CTN e considerando que a ocorrência do fato gerador da omissão de rendimentos recebidos de fontes no exterior, durante todo o ano de 2010, foi em 31/12/2010, o prazo decadencial começaria a contar no primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado. Sabendose que o lançamento somente poderia ser feito no ano de 2011, o primeiro dia do exercício seguinte é 1/1/2012, terminando o prazo para a constituição do crédito em 31/12/2016. Para a infração “Falta de recolhimento do IRPF devido a título de carnêleão”, no AI, fls. 2.181/2.183, foi apurada infração para o fato gerador ocorrido em 31/12/2010, cuja obrigatoriedade de pagamento do imposto é até o último dia útil do mês subseqüente àquele em que os rendimentos foram percebidos (art. 852 do RIR/99), portanto, vencimento em 31/01/2011. Assim, o prazo decadencial começaria a contar no primeiro dia do exercício seguinte ao que o lançamento poderia ter sido efetuado. Podendose lançar em 2011, o primeiro dia do exercício seguinte é 1/1/2012, terminando o prazo para a constituição do crédito em 31/12/2016. Desta forma, para todas as infrações lançadas, seja omissão de rendimentos recebidos de PJ, omissão de rendimento recebidos de fontes no exterior e falta de recolhimento do IRPF devido a título de carnêleão, a Fazenda Pública constituiu o crédito tributário dentro do prazo estabelecido no art. 173, I do CTN. Isto posto, rejeito a preliminar de decadência. Multa qualificada. Caracterizada a infração à legislação tributária, há de se exigir multa e juros de mora, além do imposto devido. A Lei nº 9.430, de 1996, ao cuidar da multa, assim dispôs: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) [...] § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas Fl. 10330DF CARF MF 42 ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) No caso em discussão, consoante razões até aqui expostas, deve ser mantida a qualificação da multa de ofício aplicada, pois a materialidade da conduta do contribuinte e dos responsáveis solidários se ajustam perfeitamente à norma contida nos artigos 71 e 72 da Lei nº 4.502, de 64. Os fatos anteriormente apontados levam à conclusão de que o sujeito passivo, conscientemente, omitiu do fisco os numerários recebidos no exterior, bem como valeuse da escrituração e declaração de receitas de prestação de serviços fictícios por pessoa jurídica, com o objetivo de impedir o conhecimento pela autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador do imposto sobre a renda de pessoa física. As Declarações de Ajuste Anual relativas aos anosbase 2010 a 2012, fls. 2/51, contém valores completamente incompatíveis com aqueles apurados no AI. A intenção deliberada de impedir o conhecimento do fisco da ocorrência do fato gerador, utilizandose de pessoas jurídicas, caracteriza as hipóteses previstas nos arts. 71 e 72 da Lei nº 4.502, de 64. Assim, refuto os argumentos contrários ao emprego da multa qualificada. Dedução dos tributos pagos na PJ na apuração do IRPF. Na hipótese de deslocamento ou reclassificação dos rendimentos recebidos pela Faercom/Oildrive para atribuí los a Júlio, os impugnantes pedem que haja a imputação do montante recolhido pela Faercom/Oildrive a título de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins para que se deduza tal montante do valor do IRPF lançado, sob pena de configurarse bis in idem, vedado constitucionalmente. No âmbito da legislação tributária não há qualquer permissivo legal ou normativo que autorize a autoridade lançadora a proceder nos termos do que preconizou o autuado em sua defesa. A devolução do tributo pago indevidamente exige a atuação voluntária do contribuinte, nos termos do art. 168 do CTN. Art. 168. O direito de pleitear a restituição extinguese com o decurso do prazo de 5 (cinco) anos, contados: A Lei nº 9.430/96, ao prever a possibilidade de compensação de tributos, restringiu tal opção a débitos próprios do sujeito passivo, não admitindo a compensação Fl. 10331DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.261 43 nas hipóteses em que o crédito seja de terceiros. É a norma que se extrai dos dispositivos adiante reproduzidos: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão.(Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) (grifos não originais) § 1º A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pelo sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados.(Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) [...] § 12. Será considerada não declarada a compensação nas hipóteses: (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) (grifei) [...] II em que o crédito:(Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) a) seja de terceiros;(Incluída pela Lei nº 11.051, de 2004) (grifos não originais) Na administração tributária federal, o pedido de devolução ou compensação de tributo pago indevidamente deve observar as normas sobre restituição, compensação, ressarcimento e reembolso definidas na Instrução Normativa RFB nº 1.300/2012. Assim, entendo improcedente a pretensão deduzida na defesa. Responsabilidade solidária. Entendem os impugnantes que a imputação de responsabilidade solidária à Faercom/Oildrive pela totalidade da exigência contida no AI não merece prosperar, pois a Faercom/Oildrive, em conjunto com Júlio, não praticou fato gerador do IRPF. E, quanto às remunerações recebidas de sociedades estrangeiras, em decorrência da prestação de serviços no exterior, a Faercom/Oildrive não prestou tais serviços e nem se beneficiou economicamente de tais valores. Fl. 10332DF CARF MF 44 Nos termos da norma contida no caput do art. 142 do Código Tributário Nacional, o lançamento fiscal deve identificar o sujeito passivo, conceito este que engloba as figuras do contribuinte e dos responsáveis tributários, por remissão realizada ao disposto no art. 121, parágrafo único, incisos I e II, do mesmo código. Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal dizse: I contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. (grifei) [...] O contribuinte é a pessoa que pratica o ato ou negócio ou que está na situação indicada por lei como geradora da obrigação tributária ou, ainda, aquele que demanda o serviço público, que sofre o exercício do poder de polícia ou que tem o seu imóvel valorizado pela obra pública. A previsão estabelecida no inciso I do art. 124 do CTN, quando definiu que são solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal solidariedade de fato natural, pode ser observada, por exemplo, nos grupos econômicos, nas sociedades em comum e também nas sociedades conjugais. Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; [...] Conforme razões adiante expostas, será demonstrado que os rendimentos recebidos através das pessoas jurídicas Faercom/Oildrive, das quais o contribuinte é sócio, foram vertidos em proveito da pessoa física do impugnante. Fl. 10333DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.262 45 O interesse comum do sócio Júlio com as sociedades Faercom/Oildrive no recebimento de vantagens indevidas provenientes do esquema de corrupção apurado na "Operação Lava Jato" resultou na devolução do valor equivalente a US$54,000,000.00 (cinqüenta e quatro milhões de dólares) em benefício do País, parte do total depositado em contas no exterior, Cláusula 8ª do Termo de Acordo de Colaboração Premiada, fls. 378/394, celebrado com o MPF/RJ. Relata a autoridade lançadora, que a participação societária da Oildrive está distribuída em nome dos sócios Faercom (51% do capital) e Luís Eduardo (49% do capital), mas a participação nos resultados das empresa eram repartidos na proporção de 50% para cada sócio. A Faercom Energia Ltda, constituída em 1995, teve suas cotas cedidas para os filhos e enteados de Júlio, passando (Júlio) à condição de administrador e usufrutuário das cotas da empresa. A remuneração recebida pelo impugnante (Júlio) no Brasil era oferecida à tributação como se fosse receita da Faercom/Oildrive e repassada à pessoa física do contribuinte como lucros distribuídos (isentos de tributação). Portanto, o interesse comum se evidencia pelo ajuste perpetrado entre as partes – contribuinte e Faercom/Oildrive em almejar a sonegação de imposto de renda na pessoa física por meio da distribuição de lucros numa pessoa jurídica, com isenção de imposto de renda, valendose da prestação de serviços fictícios, de forma a ocultar o recebimento de vantagens indevidas pelo autuado, o que configura o abuso da forma das mencionadas empresas. Quanto à infração de omissão de rendimentos recebidos de fontes no exterior, pela pessoa física do impugnante, o interesse comum, preceituado no art. 124, I, do CTN, encontrase nas constatações a seguir expostas. Foi solicitado ao contribuinte, Júlio, por meio do TIF nº 001, de 19/4/16, fls. 52/55, que elaborasse planilha relacionando os recebimentos auferidos pelo sujeito passivo no exterior, no período de 1/1/10 a 31/12/13, em nome próprio ou por intermédio de PJ das quais era sócio ou possuía qualquer tipo de ligação. Em resposta, fls. 56/60, o contribuinte afirmou que, no período em referência, o declarante não auferiu qualquer receita de terceiro, em nome próprio, no exterior, entretanto, foram recebidos valores no exterior, por empresas vinculadas direta ou Fl. 10334DF CARF MF 46 indiretamente a ele, constantes de suas declarações de imposto de renda. Afirmou ainda: [...] 7. Esses valores foram pagos em razão da efetiva prestação de serviços pelas empresas abaixo especificadas com relação a fornecimento de plataformas e outros equipamentos para a Petróleo Brasileiro S.A – Petrobras. Eles decorrem da cessão parcial de direitos e obrigações dos subcontratos celebrados entre a Faercom Energia Ltda. (CNPJ nº 00.680.858/000144) ou a Oildrive Consultoria em Energia e Petróleo Ltda. (CNPJ nº 07.849.757/0001 01), conforme o caso, e os respectivos tomadores dos serviços, as quais deram a sua aquiescência à referida cessão parcial ou da contratação direta da respectiva representada, conforme o caso. 8. Em conseqüência, as empresas estrangeiras em questão passaram a prestar os serviços cabíveis no exterior e, em contrapartida, foram remuneradas por tais serviços. As empresas Faercom (administrada por Júlio, sócia da Oildrive com 51% de participação) e Oildrive foram intimadas a apresentar os referidos subcontratos, para respaldar os valores recebidos no exterior por cessão de direitos dos contratos firmados pelas pessoas jurídicas, termo de intimação, fls. 767/772, reposta Faercom de fls. 770/772 e termo de intimação de fls. 1.692/1.696, resposta da Oildrive de fls. 1.694/1.696. No entanto, nada apresentaram, o que evidenciou a existência apenas de acordos verbais entre o fiscalizado e a SBM, em caráter pessoal dos serviços prestados. Ficando patente o interesse comum entre o contribuinte e a Faercom/Oildrive em ocultar, também, os rendimentos recebidos no exterior. Os fatos narrados anteriormente demonstram que o interesse comum entre as partes (contribuinte e Faercom/Oildrive) não se limitava ao resultado da exploração da atividade econômica ensejadora do fato gerador da obrigação tributária, irrelevante para gerar a responsabilidade solidária, mas, sim, o fato de as partes terem interesse jurídico comum para fugir à tributação do imposto sobre a renda de pessoa física. Assim, no caso sob análise, mostrase adequada a atribuição de responsabilidade solidária a Faercom Energia Ltda. (CNPJ nº 00.680.858/000144) e Oildrive Consultoria em Energia Petróleo Ltda, CNPJ 07.849.757/000101, pela totalidade do crédito tributário, conforme lavrado neste AI. Perdimento de bens no âmbito da Colaboração Premiada. Por fim, não assiste razão aos impugnantes quanto ao pedido de desconsideração, na base de cálculo do imposto lançado, dos valores devolvidos ao Erário no âmbito da Colaboração Premiada, conforme Cláusula 8ª, fls. 386, equivalente a US$54,000,000.00. O fato gerador do imposto sobre a renda de pessoa física surgiu no momento em que as vantagens indevidas recebidas no Fl. 10335DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.263 47 exterior ou no Brasil tinham como destinatário, única e exclusivamente, o autuado, conforme preceitua o art. 43 do CTN. Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. § 1º A incidência do imposto independe da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção.(Incluído pela Lcp nº 104, de 2001) § 2º Na hipótese de receita ou de rendimento oriundos do exterior, a lei estabelecerá as condições e o momento em que se dará sua disponibilidade, para fins de incidência do imposto referido neste artigo.(Incluído pela Lcp nº 104, de 2001) A expropriação dos valores angariados pelo contribuinte em prol da União, em razão da prática de diversos ilícitos criminais, não pode, de forma alguma ser considerada como pagamento de tributo, mas, sim, como uma das condições aceitas por Júlio, que se obrigou a devolver tais recursos detidos no exterior, conforme especificado na Cláusula 8ª, do Termo de Acordo de Colaboração Premiada, fls. 378/394, celebrado com o MPF/RJ. A perda, em favor da União, de todos os bens, direitos e valores relacionados, direta ou indiretamente, à prática dos crimes previstos na Lei de Lavagem de Dinheiro ( Lei nº 9.613, de 3 de março de 1998), está prevista no dispositivo a seguir reproduzido. Art. 7º São efeitos da condenação, além dos previstos no Código Penal: I a perda, em favor da União e dos Estados, nos casos de competência da Justiça Estadual , de todos os bens, direitos e valores relacionados, direta ou indiretamente, à prática dos crimes previstos nesta Lei, inclusive aqueles utilizados para prestar a fiança, ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de boafé; (Redação dada pela Lei nº 12.683, de 2012) Segundo a lição de Guilherme de Souza Nucci , a norma contida no inciso I do art. 7º é uma figura equiparada ao disposto no art. 91, II, do Código Penal. Luiz Regis Prado , por sua vez, ao comentar o art. 91, II, alínea "b", do Código Penal, assinala que se trata de um efeito extrapenal genérico, de aplicação Fl. 10336DF CARF MF 48 automática, independente de qualquer declaração expressa do ato decisório, e tem por fim vedar o indevido locupletamento patrimonial por parte do agente. Art. 91 São efeitos da condenação: (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) [...] II a perda em favor da União, ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de boafé: (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) [...] b) do produto do crime ou de qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido pelo agente com a prática do fato criminoso. Assim, não se admite a tese invocada pelos impugnantes de deduzir da base de cálculo do imposto apurado neste AI, os valores já expropriados em favor da União. Jurisprudência administrativa. Por derradeiro, em relação às citações de jurisprudências do Carf sobre as matérias suscitadas em sua defesa, cumpre esclarecer que as decisões proferidas nos processos administrativos invocados somente fazem efeitos entre as partes daqueles julgados. Nenhuma decisão administrativa, com efeito vinculante, foi colacionada para que esta autoridade julgadora tivesse o dever legal de acatar neste voto. Voto por rejeitar a preliminar de decadência argüida, manter o vínculo de responsabilidade solidária e, no mérito, pela improcedência da impugnação e manutenção integral do crédito tributário. Quanto aos documentos juntados após a impugnação e o recurso voluntário (efls. 10186 a 10223 e 10226 a 10239), deles não conheço, pois o litígio se instaura na impugnação, nos termos do art. 14 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, precluindose o direito de fazêlo depois. Conclusões Voto por rejeitar a preliminar de nulidade por impossibilidade de reclassificação dos negócios jurídicos, rejeitar a alegação de decadência e, no mérito, negar provimento ao recurso. João Maurício Vital Relator Fl. 10337DF CARF MF Processo nº 12448.729101/201661 Acórdão n.º 2301005.989 S2C3T1 Fl. 10.264 49 Fl. 10338DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 37005.000293/2007-70
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue May 07 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Jun 05 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS
Período de apuração: 01/03/2006 a 31/03/2006
CRÉDITO INEXISTENTE. COMPENSAÇÃO INDEVIDA. GLOSA.
É vedada a compensação de contribuições previdenciárias se ausentes os atributos de liquidez e certeza do crédito compensado. A compensação de contribuições previdenciárias com créditos não materialmente comprovados será objeto de glosa, revertendo ao sujeito passivo o ônus da prova em contrário.
Recurso Voluntário Negado
Direito Creditório Não Reconhecido
Numero da decisão: 2402-007.203
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Thiago Duca Amoni, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior (Relator), que deram provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Denny Medeiros da Silveira - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Denny Medeiros da Silveira, Luis Henrique Dias Lima, João Victor Ribeiro Aldinucci, Paulo Sérgio da Silva, Thiago Duca Amoni (Suplente Convocado), Maurício Nogueira Righetti, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior.
Nome do relator: DENNY MEDEIROS DA SILVEIRA
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COMPENSAÇÃO INDEVIDA. GLOSA. É vedada a compensação de contribuições previdenciárias se ausentes os atributos de liquidez e certeza do crédito compensado. A compensação de contribuições previdenciárias com créditos não materialmente comprovados será objeto de glosa, revertendo ao sujeito passivo o ônus da prova em contrário. Recurso Voluntário Negado Direito Creditório Não Reconhecido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Thiago Duca Amoni, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior (Relator), que deram provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Denny Medeiros da Silveira, Luis Henrique Dias Lima, João Victor Ribeiro Aldinucci, Paulo Sérgio da Silva, Thiago Duca Amoni (Suplente Convocado), Maurício Nogueira Righetti, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na Sistemática dos Recursos Repetitivos prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015. Nessa prumada, adoto o relatório objeto do Acórdão nº 2402-007.201 - 4ª AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 37 00 5. 00 02 93 /2 00 7- 70 Fl. 96DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 2402-007.203 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 37005.000293/2007-70 Câmara/2ª Turma Ordinária, de 8 de maio de 2019, proferido no âmbito do processo n° 37005.000291/2007-81 - K. M. ENGENHARIA LTDA, paradigma deste julgamento. Acórdão nº 2402-007.201 - 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária "Trata-se de Recurso Voluntário interposto em face da decisão da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento que julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pelo sujeito passivo. O Contribuinte protocolizou Requerimento de Restituição de Retenção – RRR com o objetivo de reaver valores supostamente retidos na forma do art. 31 da Lei n° 8.212/91, com a redação dada pela Lei n° 9.711/98, equivalente ao percentual de 11% (onze por cento) incidente sobre o valor bruto da nota fiscal de prestação de serviço mediante cessão de mão-de-obra. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento julgou improcedente a manifestação de inconformidade interposta pelo Contribuinte, Cientificado, o Contribuinte apresentou recurso voluntário, reiterando os termos da manifestação de inconformidade. É o relatório." Voto Conselheiro Denny Medeiros da Silveira - Relator. Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Nesse contexto, ao presente litígio aplica-se o decidido no Acórdão nº 2402-007.201 - 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 8 de maio de 2019, proferido no âmbito do processo n° 37005.000291/2007-81 - K. M. ENGENHARIA LTDA, paradigma ao qual o presente processo encontra-se vinculado. Transcreve-se, a seguir, nos termos regimentais, o inteiro teor dos votos vencido e vencedor proferidos, respectivamente, pelos Conselheiros Gregório Rechmann Junior e Maurício Nogueira Righetti, dignos Relator e Redator Designado da decisão paradigma suso citada, reprise-se, Acórdão nº 2402-007.201 - 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 8 de maio de 2019. Acórdão nº 2402-007.201 - 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Voto Vencido "Conselheiro Gregório Rechmann Junior - Relator O recurso é tempestivo e atende os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, deve ser conhecido. Trata-se, o presente caso, conforme exposto no relatório supra, de Requerimento de Restituição de Retenção – RRR com o objetivo de reaver valores retidos na forma do art. 31 da Lei n° 8.212/91, com a redação dada pela Lei n° 9.711/98, equivalente ao percentual de 11% (onze por cento) incidente sobre o valor bruto da nota fiscal de prestação de serviço executados mediante cessão de mão de obra. Fl. 97DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 2402-007.203 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 37005.000293/2007-70 À época dos fatos (recolhimento das retenções previdenciárias e requerimento de restituição), o art. 31 da Lei nº 8.212/91 encontrava-se vigente com a redação dada pela Lei nº 9.711/98: Art. 31. A empresa contratante de serviços executados mediante cessão de mão-de-obra, inclusive em regime de trabalho temporário, deverá reter onze por cento do valor bruto da nota fiscal ou fatura de prestação de serviços e recolher a importância retida até o dia dois do mês subsequente ao da emissão da respectiva nota fiscal ou fatura, em nome da empresa cedente da mão-de-obra, observado o disposto no § 5º do art. 33. (Redação dada pela Lei nº 9.711, de 1998). § 1º O valor retido de que trata o caput, que deverá ser destacado na nota fiscal ou fatura de prestação de serviços, será compensado pelo respectivo estabelecimento da empresa cedente da mão-de- obra, quando do recolhimento das contribuições destinadas à Seguridade Social devidas sobre a folha de pagamento dos segurados a seu serviço. (Redação dada pela Lei nº 9.711, de 1998). § 2º Na impossibilidade de haver compensação integral na forma do parágrafo anterior, o saldo remanescente será objeto de restituição. (Redação dada pela Lei nº 9.711, de 1998). De início, é necessário enfatizar que, no caso em análise, a retenção e o recolhimento da contribuição previdenciária pela empresa tomadora de serviço são fatos tidos como incontroversos no processo. De fato, a negativa para o requerimento de restituição apresentado pelo contribuinte, registre-se, está embasada nas supostas infrações apuradas pela fiscalização em decorrência de ação fiscal, como se infere, pois, da Informação Fiscal, in verbis: INFORMAÇÃO FISCAL "1 - Em cumprimento ao contido no Mandado de Procedimento Fiscal - Fiscalização - MPF-F n° 06.1.04.00-2008-01338-3, emitido em 28/11/2008, o procedimento fiscal teve início em 11/12/2008 com a entrega do Termo de Início de Procedimento Fiscal - TIPF, na empresa. Este MPF-F foi prorrogado em 28/03/2009, posteriormente em 27/05/2009, e finalmente em 14/07/2009. 2 - Processo referente à obra matricula CEI 50.017.38066/72 - Reforma de 725,19 m2 de área em edificação no SENAI para transferência do Centro de Treinamento da MRS LOGÍSTICA conforme Anotação de Responsabilidade Técnica — ART n° 1- 3100496 datado de 07/03/2005, entre 11. outros documentos. 3 - A empresa deixou de escriturar em títulos próprios de sua contabilidade todos os fatos geradores de contribuições previdenciárias, de forma discriminada, durante todo o período de 01/01/2004 a 31/03/2007, bem como as contribuições devidas pela empresa e as descontadas dos segurados empregados. 4 - Pela análise dos contratos de prestação de serviços, das notas fiscais emitidas pela empresa, das planilhas de materiais aplicados As obras, e das notas fiscais de materiais adquiridos apresentadas durante a ação fiscal, constata-se que a empresa deixou de lançar Fl. 98DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 2402-007.203 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 37005.000293/2007-70 em títulos próprios de sua contabilidade, de forma discriminada, em épocas próprias, na forma da Lei, várias notas fiscais emitidas e de materiais adquiridos. 5 - Pelos motivos descritos acima, e melhor detalhados no Relatório Fiscal do Auto de Infração de Obrigações Principais, todas as obras fiscalizadas no período, tiveram o valor da remuneração da mão-de-obra aferida com base na Nota Fiscal ou na área construída. 6 - Especificamente na obra acima referenciada, não foi levantado crédito fiscal. A obra foi considerada regular. Porém não restou saldo a ser restituído. 7 - Na ação fiscal foram lavrados 3 (três) AIOP e 4 (quatro) AIOA: 7.1 - AI — DEBCAD N° 37.173.559-9 - CFL 34 7.2 - AI — DEBCAD N° 37.173.560-2 - CFL 37 7.3 - AI — DEBCAD N° 37.173.561-0 - CFL 38 7.4 - AI — DEBCAD N° 37.173.562-9 - CFL 22 7.5 - AI — DEBCAD N°37.173.563-7 - AIOP EMPRESA 7.5 - AI — DEBCAD N° 37.173.564-5 - AIOP TERCEIROS 7.6 - AI — DEBCAD N° 37.173.565-3 - AIOP SEGURADOS 8 - Pelo exposto, sou de parecer que o pedido de restituição a que se refere este processo, seja indeferido." Neste sentido, assim se manifestou a DRJ: "A decisão que indeferiu o pedido de restituição teve por fundamento, os relatos constantes dos itens 3 e 4 da Informação Fiscal de fls. 37, essencialmente quanto a não apresentação e a apresentação deficiente da contabilidade de 2004 a 2006 (AIOA CFL 38), e a ausência de escrituração ou a escrituração sem respeito à previsão legal de contabilizar em título próprios todos os fatos geradores de contribuição previdenciária, bem como as contribuições devidas pela empresa e as descontadas dos segurados empregados. (AIOA CFL 34), motivos que levaram o Auditor Fiscal a desconsiderar a contabilidade da empresa e arbitrar através de aferição indireta os valores das remunerações empregadas, entre outras, na obra de construção civil CEI 50.017.38066/72 — Obra da MRS Logística S/A, de sua responsabilidade. O Relatório Fiscal do Auto de Infração de Obrigação Principal, itens 5 e 6, do Titulo III, juntado as fls.57/65 comprova que a empresa não possuía escrituração contábil regular nos anos de 2004/2004 e 2006, e ainda, a observação do auditor em planilhas por ele elaboradas, afirma que vários processos de restituição foram deferidos, entre outros, pelo motivo de ter a empresa, juntado ao requerimento, declaração de que possui escrituração contábil regular. Assim, pelo fato de o interessado ter a obrigação de escriturar os Livros Diário e Razão, é através deles que deverá demonstrar, na forma prevista na legislação, a existência dos créditos que alega Fl. 99DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 2402-007.203 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 37005.000293/2007-70 possuir. Enfim, cabe ao requerente, o ônus da prova dos fatos constitutivos do seu direito, consoante o que prevê o artigo 333 do Código de Processo Civil — CPC. As alegações apresentadas pela requerente na Manifestação de Inconformidade, não prosperam e não surtem os efeitos necessários a desconsiderar as constatações realizadas pelo auditor fiscal relatadas na Informação e no Relatório Fiscal, que para análise deste processo, independem do resultado final do julgamento dos processos de créditos tributários impugnados. Desta forma, por tudo já exposto na Informação fiscal do auditor, conclui-se que não foram cumpridas todas as exigências contidas nas orientações internas vigentes, para que o requerente viesse a fazer jus à restituição pleiteada, com alteração da decisão de indeferimento do pedido." O Recorrente, reiterando os termos da manifestação de inconformidade, sustenta que o pedido de restituição administrativa jamais poderia ter sido indeferido. Isto porque, como os recursos protocolados pela Recorrente contra os referidos Autos de Infração ainda não foram definitivamente julgados, o Chefe da Seção de Orientação e Análise Tributária - SAORT nunca poderia decidir pela improcedência do requerimento formulado, vez que ainda não se sabe o resultado definitivo dos recursos administrativos interpostos. Razão assiste à Recorrente, tendo em vista que: (i) não existe controvérsia sobre a retenção e o recolhimento das contribuições previdenciárias pelos tomadores de serviços; (ii) não foi apontada, pela fiscalização, nenhuma infração ao art. 206 e seguintes da Instrução Normativa DC/INSS nº 100, de 18.12.2003, dispositivos normativos que regulam o pedido de restituição; (iii) a própria fiscalização reconhece que, em relação à obra objeto do Requerimento de Restituição de Retenção em análise, não foi constatada nenhuma irregularidade; (iv) os autos de infração que foram lavrados em 2009, foram lavrados em decorrência de irregularidades apuradas em outras obras e não naquela referente à matrícula CEI 50.017.38066/72; (v) ainda que as autuações emitidas em 2009 se referissem à obra referente ao RRR em análise, as mesmas não teriam o condão de elidir o pleito do contribuinte: - por se tratarem de exigências precárias, impugnadas administrativamente pelo contribuinte, pendentes de decisão final no âmbito deste Conselho; - nos pedidos de restituição ou nas compensações, não se considera como débito para fins de cumprimento dos requisitos um suposto inadimplemento de contribuições previdenciárias sobre parcelas não reconhecidas como integrantes da base de cálculo e identificada pela fiscalização no mesmo procedimento de exame do direito pleiteado pelo contribuinte. Somente créditos tributários previamente constituídos e devidamente conhecidos do contribuinte podem ser considerados débitos a obstar a restituição ou compensação (acórdão nº 2301004.838, de 21/09/2016, Rel. Julio Cesar Vieira Gomes) Fl. 100DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 2402-007.203 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 37005.000293/2007-70 (vi) o pedido de restituição regularmente instruído não pode ter seu seguimento obstado por meros indícios de irregularidade na apuração das contribuições previdenciárias, tal como já decidido por este CARF: PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. RETENÇÃO DE ONZE POR CENTO DO VALOR DA MÃO DE OBRA CONTIDA EM NOTA FISCAL DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇO. É cabível a restituição, ao prestador dos serviços, do valor excedente da retenção de onze por cento sobre notas fiscais de prestação de serviços em relação ao valor das contribuições previdenciárias incidentes sobre a folha de pagamento, observados todos os requisitos e procedimentos impostos pela legislação. (acórdão nº 2301004.880, de 19/01/2017, Rel. Andrea Brose Adolfo) xxx PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. RETENÇÃO 11%. IMPOSSIBILIDADE DE INDEFERIMENTO DO PEDIDO APENAS EM RAZÃO DA EXISTÊNCIA DE SUPOSTOS INDÍCIOS DE IRREGULARIDADE NO RECOLHIMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS DEVIDAS PELA REQUERENTE. Entendendo o servidor, quando da análise do pedido de restituição, que há indícios de recolhimento a menor de contribuições previdenciárias pela empresa requerente, deve comunicar este fato ao departamento responsável pela fiscalização, para que seja realizada diligência na empresa a fim de investigar esses indícios e, sendo o caso, proceder à lavratura do competente auto de infração. Não pode o fisco, simplesmente, indeferir o pedido de restituição por supostos indícios de irregularidades. Da mesma forma, supostas irregularidades quanto à contabilização das receitas obtidas pela Recorrente em razão dos serviços por ela prestados, e das despesas incorridas nesses serviços, não são suficientes para o indeferimento do pedido de restituição. (acórdão nº 2301004.206, de 04/11/2014, Rel. Manoel Coelho Arruda Junior) Conclusão Por todo o exposto, voto por conhecer e dar provimento ao recurso voluntário interposto pela Recorrente, de modo a deferir o Requerimento de Restituição de Retenção – RRR. (assinado digitalmente) Gregório Rechmann Junior" Voto Vencedor "Conselheiro Maurício Nogueira Righetti - Redator Designado Não obstante as vigorosas razões de decidir do Relator, peço licença para dele discordar. O fisco procedeu à fiscalização do contribuinte em tela, no que toca às obras sob sua responsabilidade, durante o período de 01/2004 a 03/2007. Fl. 101DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 2402-007.203 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 37005.000293/2007-70 Durante o procedimento, identificou-se diversas inconsistências que se estendiam e/ou afetavam todas as obras, na medida em que parte das inconsistências acabou repercutindo na empresa como um todo, a exemplo da contabilização de seu livro caixa e da elaboração de suas folhas de pagamento em arquivo digital. Vejamos: "A empresa registrou em Livro Caixa vários lançamentos a débito da conta CAIXA e a crédito de SERVIÇOS DIVERSOS, valores recebidos onde o histórico é o seguinte: "VALOR RESGATADO CONFORME EXTRATO N°XXXX" Após análise constata-se que tratam-se de recebimentos relativos às notas fiscais emitidas. A empresa exibiu os Livros Caixa relativos aos anos de 2004 e 2005, e o Livro Diário de 2006, onde constata-se a omissão de lançamentos de diversos fatos contábeis, como notas fiscais emitidas e notas fiscais de materiais adquiridos para aplicação nas obras de sua responsabilidade. A escrituração contábil além de não discriminar com clareza e precisão todos os fatos contábeis, não os registra em centros de custos específicos para cada obra. As notas fiscais de materiais adquiridos e aplicados nas obras conforme planilhas apresentadas, muitas não estão escrituradas e outras são lançadas em datas divergentes da sua emissão. O arquivo digital no padrão do MANAD (Manual dos Arquivos Digitais), no que se refere a folhas de pagamentos, existem várias inconsistências entre as Bases Mestre e Itens (Base Mestre nula em contrapartida a uma Base Itens com rubricas integrantes de Salário-de-Contribuição). Devido aos vários equívocos ocorridos na escrituração contábil, conforme descrito nos itens 4 e 5 deste relatório, o arquivo digital relativo ao período de 06/2005 a 06/2006 foi exibido com incorreções e omissões. A empresa deixou de exibir os arquivos digitais no padrão MANAD relativos aos períodos de 01/2004 a 05/2005 e de 06/2006 a 03/2007." Ao final, concluiu o Fiscal, a partir análise dos contratos de prestação de serviços, das notas fiscais emitidas pela empresa, das planilhas de materiais aplicados às obras, e das notas fiscais de materiais adquiridos apresentadas durante a ação fiscal, que o recorrente deixou de lançar em títulos próprios de sua contabilidade, de forma discriminada, em épocas próprias, na forma da Lei, várias notas fiscais emitidas e de materiais adquiridos. E ainda, que os lançamentos relativos a pagamentos de salários, rescisões de contrato-de-trabalho e salários a pagar, não discriminariam todas as rubricas integrantes desses títulos. Os lançamentos contábeis também não discriminariam as contribuições devidas pela empresa. (Art. 225, inciso II, § 13, incisos I e II do Decreto n° 3.048, de 06/05/1999). Ante os fatos acima constatados, e quanto a eles parece-me não haver controvérsia, a Fiscalização procedeu, corretamente, à aferição indireta da remuneração da mão-de-obra com base da área construída ou nas notas fiscais emitidas. Finda a apuração, chegou-se a dois grandes grupos de obras: i) aquelas tidas por irregulares, eis que a contribuição devida suplantou o total dos recolhimentos, aqui incluídas as retenções. Para esse grupo foram efetuados os competentes lançamentos que se encontram submetidos ao contencioso administrativo; e ii) aquelas tidas por regulares, na medida Fl. 102DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 2402-007.203 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 37005.000293/2007-70 em que após o aproveitamento dos valores recolhidos, aqui novamente incluídas as retenções, não se teria apurado valor a pagar ou a restituir. Para esse segundo grupo, a discussão acerca do acerto do procedimento fiscal está se dando, a rigor, exclusivamente no próprio processo de restituição, a exemplo do caso em análise. Nesse rumo, é de se destacar que, quando a fiscalização atestou a "regularidade" da obra, o fez no sentido de que não teria sido apurado crédito tributário após o cotejo entre a contribuição apurada a partir do arbitramento da remuneração da mão-de-obra e o valor retido pelo tomador, e não necessariamente que o recorrente faria jus à restituição do valor retido. Confira-se: "Especificamente na obra acima referenciada, não foi levantado crédito fiscal. A obra foi, considerada regular. Porém não restou saldo a ser restituído." Isto porque, com já dito, após a aferição indireta da remuneração, quando se efetuou a apuração da contribuição devida com os valores recolhidos e/ou retido, a autoridade fiscal acabou por valer-se do recolhimento então pleiteado nesses autos. Confira-se novamente: "1.4.3 — Todos os recolhimentos existentes no conta-corrente da empresa, na matriz e nas obras conforme matriculas discriminadas no item 1 do Titulo li deste Relatório, foram deduzidos do débito apurado, no estabelecimento respectivo. " Por fim, peço licença para discordar do entendimento do relator no sentido de que "o pedido de restituição regularmente instruído não poderia ter seu seguimento obstado por meros indícios de irregularidade na apuração das contribuições previdenciárias". A aferição da liquidez e certeza do crédito ressarcível ou restituível deve ser promovida pelo agente público, por óbvio, após a apresentação do correspondente Pedido de Restituição/Ressarcimento e antes da emissão do competente Despacho Decisório. Não há na legislação tributária prazo específico imposto ao fisco para que promova tal análise. Quer dizer com isso que, ainda que não houvesse mais a possibilidade de se efetuar eventual lançamento por força da decadência, tal circunstância não asseguraria ao requerente, automaticamente, o direito a ver restituído/ressarcido eventual valor envolvido naquela competência. Nesse sentido, o julgamento a seguir ementado: "COMPENSAÇÃO. CRÉDITO DE SALDO NEGATIVO ORIGINADO EM ANOS ANTERIORES. APRECIAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA. GLOSA DE SALDO NEGATIVO SEM TRIBUTO A PAGAR. DECADÊNCIA. INAPLICABILIDADE. Quando o crédito utilizado na compensação tem origem em saldos negativos de anos anteriores, há que se proceder com análise da apuração de cada um dos anos-calendário pretéritos, que serviram para a composição do saldo negativo utilizado como direito creditório. Trata- se de apreciação no qual não se aplica contagem de decadência, vez que se restringe à verificação da liquidez e certeza do crédito tributário. Caso resulte em glosa de saldo negativo sem desdobramento em tributo a pagar, não se constitui em lançamento de ofício, razão pela qual não se submete à contagem do prazo decadencial. Trata-se de situação Fl. 103DF CARF MF Fl. 9 do Acórdão n.º 2402-007.203 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 37005.000293/2007-70 complemente diferente daquela em que a glosa do saldo negativo tem como resultado tributo a pagar, ocasião na qual o correspondente lançamento de ofício só poderá ser efetuado caso esteja dentro do prazo decadencial previsto na legislação tributária. Acórdão 9101.003-994, de 18/1/19." Forte no exposto, VOTO no sentido de NEGAR provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Maurício Nogueira Righetti. " Nesse contexto, pelas razões de fato e de Direito ora expendidas, voto por CONHECER do Recurso Voluntário para, no mérito, NEGAR-LHE PROVIMENTO. (documento assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira - Relator. Fl. 104DF CARF MF
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Numero do processo: 10320.900325/2006-29
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 10 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Apr 25 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2000
MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE NÃO CONHECIDA. NÃO INSTAURAÇÃO DA FASE LITIGIOSA DO PROCEDIMENTO.
A manifestação de inconformidade não conhecida não instaura a fase litigiosa do procedimento, não suspende a exigibilidade do crédito tributário e nem pode ser objeto de decisão, por não se subordinar ao processo administrativo fiscal.
A manifestação de inconformidade em procedimento de Per/DComp deve ter como objeto a matéria contra a não homologação da compensação.
Numero da decisão: 1003-000.601
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Carmen Ferreira Saraiva Relatora e Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva (Presidente), Bárbara Santos Guedes, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça e Wilson Kazumi Nakayama.
Nome do relator: CARMEN FERREIRA SARAIVA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2000 MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE NÃO CONHECIDA. NÃO INSTAURAÇÃO DA FASE LITIGIOSA DO PROCEDIMENTO. A manifestação de inconformidade não conhecida não instaura a fase litigiosa do procedimento, não suspende a exigibilidade do crédito tributário e nem pode ser objeto de decisão, por não se subordinar ao processo administrativo fiscal. A manifestação de inconformidade em procedimento de Per/DComp deve ter como objeto a matéria contra a não homologação da compensação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva – Relatora e Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva (Presidente), Bárbara Santos Guedes, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça e Wilson Kazumi Nakayama. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 32 0. 90 03 25 /2 00 6- 29 Fl. 57DF CARF MF Processo nº 10320.900325/200629 Acórdão n.º 1003000.601 S1C0T3 Fl. 57 2 A Recorrente formalizou o Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) nº 41799.09220.151003.1.3.049517, em 15.10.2003, fls. 2024, utilizandose do crédito relativo ao pagamento a maior efetuado pelo Sistema Integrado de Pagamentos de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte – Simples, código 6106, do mês de janeiro do anocalendário de 2000 no valor de R$2.349,73 arrecadado em 10.02.2000, para compensação dos débitos ali confessados. Consta no Despacho Decisório Eletrônico, fl. 02, que as informações relativas ao reconhecimento do direito creditório foram analisadas das quais se concluiu pelo indeferimento do pedido: Limite do crédito analisado, correspondente ao valor do crédito original na data de transmissão informado no PER/DCOMP: 2.349,73 A partir nas características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando credito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. [...] Diante da inexistência do crédito, NÃO HOMOLOGO a compensação declarada. [...] Enquadramento legal: Arts. 165 e 170 da Lei n° 5.172. de 25 de outubro de 1956 (CTN). Art. 74 da Lei 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Cientificada, a Recorrente apresentou a manifestação de inconformidade. Está registrado na ementa do Acórdão da 3ª Turma/DRJ/FOR/CE nº 0816.536, de 13.11.2009, fls. 2729: MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. [...] Acordam os membros da 3ª Turma de Julgamento, por unanimidade de votos, não conhecer da manifestação de inconformidade. Notificada em 08.01.2010, fl. 31, a Recorrente apresentou o recurso voluntário em 04.02.2010, fls. 32, esclarecendo a peça atende aos pressupostos de admissibilidade. Discorre sobre o procedimento fiscal contra o qual se insurge. Relativamente aos fundamentos de fato e de direito aduz que: Em 10 de agosto de 2009, foi pedido a reanálise dos referidos PER/DCOMPS em referência, que fosse considerado apenas um débito em virtude do mesmo está em duplicidade, e a extinção deste, por ter sido pago. Pedimos que seja feito um confronto com todos os arquivos que consta na Receita Federal do Brasil, que dessa forma será comprovado a duplicidade desse débito. Pois é difícil termos dois débitos do mesmo fato gerador, da mesma natureza, no mesmo vencimento e do mesmo valor. Fl. 58DF CARF MF Processo nº 10320.900325/200629 Acórdão n.º 1003000.601 S1C0T3 Fl. 58 3 O despacho decisório informa que foram localizados os créditos, mas usados integralmente para quitar débitos, gostaríamos que fosse informado qual mês foi alocado esse débito. Mediante o exposto e documentos acostados, pedimos que seja anulado o referido débito. É o Relatório. Voto Conselheira Carmen Ferreira Saraiva, Relatora O recurso voluntário apresentado pela Recorrente é tempestivo, conforme previsto no Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972. A Recorrente discorda do procedimento fiscal. As garantias ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa com os meios e recursos a ela inerentes são asseguradas aos litigantes em processo administrativo (incisos LIV e LV do art. 5º da Constituição Federal). Por esta razão há previsão de que a pessoa jurídica seja intimada para apresentar sua defesa formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar ao órgão preparador no prazo de trinta dias como condição de procedibilidade de instauração da fase litigiosa do procedimento (art. 14, art. 15 e art. 23 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). Sobre o não conhecimento da manifestação de inconformidade pela decisão primeira instância de julgamento, o Decreto nº 7.574, de 29 de setembro de 2011, determina: Art.56. A impugnação, formalizada por escrito, instruída com os documentos em que se fundamentar e apresentada em unidade da Secretaria da Receita Federal do Brasil com jurisdição sobre o domicílio tributário do sujeito passivo, bem como, remetida por via postal, no prazo de trinta dias, contados da data da ciência da intimação da exigência, instaura a fase litigiosa do procedimento (Decreto no 70.235, de 1972, arts. 14 e 15). [...] Por seu turno, a Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, delimita o objeto da lide no caso de Per/DComp: Art. 74. [...] § 7o Não homologada a compensação, a autoridade administrativa deverá cientificar o sujeito passivo e intimálo a efetuar, no prazo de 30 (trinta) dias, contado da ciência do ato que não a homologou, o pagamento dos débitos indevidamente compensados. [...] § 9o É facultado ao sujeito passivo, no prazo referido no § 7o, apresentar manifestação de inconformidade contra a não homologação da compensação. [...] Fl. 59DF CARF MF Processo nº 10320.900325/200629 Acórdão n.º 1003000.601 S1C0T3 Fl. 59 4 § 18. No caso de apresentação de manifestação de inconformidade contra a não homologação da compensação, fica suspensa a exigibilidade da multa de ofício de que trata o § 17, ainda que não impugnada essa exigência, enquadrandose no disposto no inciso III do art. 151 da Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional. A manifestação de inconformidade em procedimento de Per/DComp deve ter como objeto a matéria contra a não homologação da compensação. Na petição a Recorrente não apresenta matéria especificamente contra a não homologação da compensação, mas tão somente que há duplicidade de exigência do débito confessado. Assim, a manifestação de inconformidade foi considerada não conhecida, e por essa razão não foi instaurada a fase litigiosa do procedimento, não há suspensão da exigibilidade do crédito tributário e nem pode ser objeto de decisão, por não se subordinar ao processo administrativo fiscal (art. 14, art. 15 e art. 21 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972 e § 11 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996). Consta no Acórdão da 3ª Turma/DRJ/FOR/CE nº 0816.536, de 13.11.2009, fls. 2729, cujos fundamentos de fato e direito são acolhidos de plano nessa segunda instância de julgamento (art. 50 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999): A manifestação de inconformidade apresentada é tempestiva, contudo, necessário se torna verificar, no presente caso, se tal peça de defesa reúne os demais requisitos formais de admissibilidade. Inicialmente, deve ser demarcado o objeto de litígio, urna vez que não houve contestação por parte da defendente em relação a não homologação de crédito originado por pagamento a maior de SIMPLES, informado na DCOMP n° 41799.09220.151003.1.3.049517, conforme Manifestação de Inconformidade à folha 01 do presente processo. Consta da IN RFB n° 900/2008, art. 66, §4°, a seguir transcrito, que a manifestação de inconformidade deverá seguir o rito processual do Decreto n° 70.235/72: [...] Devese, dessa forma, considerar como matérias nãolitigiosas, nos termos dos arts. 16 e 17 do Decreto n° 70.235, de 06 de março de 1972, com as alterações das Leis nos 8.748, de 1993, e 9.532, de 1997. nos seguintes termos: [...] Na situação em epígrafe, a referida peça impugnatória não atende as normas disciplinadoras do Processo Administrativo Fiscal, pois, a defesa alega unicamente o fato do débito informado na DCOMP ter sido objeto de parcelamento junto a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional e encontrarse efetivamente quitado. O interessado, em momento algum, contesta o fato do crédito informado na DCOMP não ter sido homologado, tampouco rechaça a fundamentação do Despacho Decisório, de inexistência do crédito informado (ver fls. 01 e 15). Conforme tela de consulta ao sistema SINCOR,TRATAPAGTO,CONSPAGTO (consulta dados de pagamento) anexada as fls. 26, o Pagamento Indevido ou a Maior já foi totalmente restituído ao contribuinte e/ou utilizado para quitar débitos do próprio contribuinte. Em relação ao cancelamento do débito informado nas DCOMP's, informamos que cabe a unidade preparadora verificar se já houve pagamento do mesmo, vez que o presente processo trata apenas do crédito, estando o débito controlado por outro processo. Fl. 60DF CARF MF Processo nº 10320.900325/200629 Acórdão n.º 1003000.601 S1C0T3 Fl. 60 5 Assim, ante o exposto, encaminho meu voto no sentido de não conhecer da manifestação de inconformidade apresentada. Sobre o não conhecimento da manifestação de inconformidade pela decisão primeira instância de julgamento, o art. 16 e o art. 17 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, bem como o § 11 do art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, determinam que a manifestação de inconformidade deve mencionar os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir, sendo considerada não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada na peça de defesa. Sobre os débitos encaminhados à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional para inscrição em Dívida Ativa da União, a Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, determina: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão. § 1o A compensação de que trata o caput será efetuada mediante a entrega, pela sujeito passivo, de declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. [...] § 3o Além das hipóteses previstas nas leis específicas de cada tributo ou contribuição, não poderão ser objeto de compensação mediante entrega, pela sujeito passivo, da declaração referida no § 1o: [...] III os débitos relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal que já tenham sido encaminhados à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional para inscrição em Dívida Ativa da União; Nesse sentido, não podem ser objeto de Per/DComp o débito encaminhado à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional para inscrição em Dívida Ativa da União, conforme a própria Recorrente comprova à fl. 05. No que se refere a duplicidade de exigência de débitos, o Parecer Normativo Cosit nº 08, de 03 de setembro de 2014, prevê: Conclusão 81. Em face do exposto, concluise que: a) a revisão de ofício de lançamento regularmente notificado, para reduzir o crédito tributário, pode ser efetuada pela autoridade administrativa local para crédito tributário não extinto e indevido, no caso de ocorrer uma das hipóteses previstas nos incisos I, VIII e IX do art. 149 do CTN, quais sejam: quando a lei assim o determine, aqui incluídos o vício de legalidade e as ofensas em matéria de ordem pública; erro de fato; fraude ou falta funcional; e vício formal especial, desde que Fl. 61DF CARF MF Processo nº 10320.900325/200629 Acórdão n.º 1003000.601 S1C0T3 Fl. 61 6 a matéria não esteja submetida aos órgãos de julgamento administrativo ou já tenha sido objeto de apreciação destes; b) a retificação de ofício de débito confessado em declaração, para reduzir o saldo a pagar a ser encaminhado à PGFN para inscrição na Dívida Ativa, pode ser efetuada pela autoridade administrativa local para crédito tributário não extinto e indevido, na hipótese da ocorrência de erro de fato no preenchimento da declaração; c) a revisão de ofício de despacho decisório que não homologou compensação pode ser efetuada pela autoridade administrativa local para crédito tributário não extinto e indevido, na hipótese de ocorrer erro de fato no preenchimento de declaração (na própria Dcomp ou em declarações que deram origem ao débito, como a DCTF e mesmo a DIPJ, quando o crédito utilizado na compensação se originar de saldo negativo de IRPJ ou de CSLL), desde que este não esteja submetido aos órgãos de julgamento administrativo ou já tenha sido objeto de apreciação destes; d) compete à autoridade administrativa da unidade da RFB na qual foi formalizada a exigência fiscal proceder à revisão de ofício do lançamento, inclusive para as revisões relativas à tributação previdenciária; e) o despacho decisório é o instrumento adequado para que a autoridade administrativa local efetue a revisão de ofício de lançamento regularmente notificado, a retificação de ofício de débito confessado em declaração, e a revisão de ofício de despacho decisório que decidiu sobre reconhecimento de direito creditório e compensação efetuada; f) a revisão de ofício nas hipóteses aqui tratadas não se insere nas reclamações e recursos de que trata o art. 151, III, do CTN, regulados pelo Decreto nº 70.235, de 1972, tampouco a ela se aplica a possibilidade de qualquer recurso, uma vez que, ainda que possa ser originada de uma provocação do contribuinte, é procedimento unilateral da Administração, e não um processo para solução de litígios; g) todavia, para os casos de reconhecimento de direito creditório e de homologação de compensação alterados em virtude de revisão de ofício do despacho decisório que tenha implicado prejuízo ao contribuinte, em atenção ao devido processo legal, deve ser concedido o prazo de trinta dias para o sujeito passivo apresentar manifestação de inconformidade e, sendo o caso, recurso voluntário, no rito processual do Decreto nº 70.235, de 1972, enquadrandose o débito objeto da compensação no disposto no inciso III do art. 151 do CTN. Por conseguinte, a revisão de ofício cabe a autoridade administrativa, nos termos do caput do art. 149 do Código Tributário Nacional, do art. 270 do Anexo I do Regimento Interno da Receita Federal do Brasil (RFB), aprovado pela Portaria MF nº 430, de 09 de outubro de 2017. Fl. 62DF CARF MF Processo nº 10320.900325/200629 Acórdão n.º 1003000.601 S1C0T3 Fl. 62 7 A preclusão é impedimento de se usar determinada faculdade processual pela sua não utilização na ordem legal, ou seja, é a perda do direito de manifestarse, isto é, a perda da capacidade de praticar os atos processuais por não têlos feito na oportunidade devida ou na forma prevista. Admitida a legalidade do ato, questões não provocadas a debate em primeira instância, quando se instaura a fase litigiosa do procedimento administrativo, com a apresentação da petição impugnativa inicial, constituem matérias preclusas das quais não pode o segundo grau de recurso tomar conhecimento, por afrontar o princípio do duplo grau de jurisdição a que está submetido o processo administrativo fiscal (art. 17 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972). Temse que nos estritos termos legais este entendimento está de acordo com o princípio da legalidade a que o agente público está vinculado (art. 37 da Constituição Federal, art. 116 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, art. 2º da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, art. 26A do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972 e art. 62 do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de julho de 2015). Em assim sucedendo, voto em não conhecer do recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva Fl. 63DF CARF MF
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Numero do processo: 11080.735231/2012-53
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Mar 19 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri May 17 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2009
JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA.
Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício (Súmula CARF nº 108).
Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2009
COBRANÇA DE PEDÁGIO VIA BONIFICAÇÃO NA FORMA DE DESCONTO. COMISSÃO DE VENDAS. RECEITA TRIBUTÁVEL.
A conhecida prática da cobrança de pedágio pelas grandes redes varejistas para que passem a fazer pedidos a determinado fornecedor, acertada previamente em contrato, via bonificação na forma de desconto não constante da Notas Fiscais, tem natureza, lato sensu, de comissionamento de vendas, sendo, portanto, receita tributável.
DESCONTOS COMERCIAIS PRÉ-ACORDADOS CONCEDIDOS PARA CUSTEIO INDIRETO DAS ATIVIDADES DO ADQUIRENTE. RECEITAS TRIBUTÁVEIS.
Compõem a base de cálculo da contribuição, por representarem receitas do adquirente, os descontos, não constantes das Notas Fiscais, pré-acordados em negociações com fornecedores, para custeio indireto da sua atividade operacional, o que se dá mesmo quando se pressupõe uma contraprestação, se não houver a correspondência econômica entre o valor pago e o serviço prestado.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2009
COBRANÇA DE PEDÁGIO VIA BONIFICAÇÃO NA FORMA DE DESCONTO. COMISSÃO DE VENDAS. RECEITA TRIBUTÁVEL.
A conhecida prática da cobrança de pedágio pelas grandes redes varejistas para que passem a fazer pedidos a determinado fornecedor, acertada previamente em contrato, via bonificação na forma de desconto não constante da Notas Fiscais, tem natureza, lato sensu, de comissionamento de vendas, sendo, portanto, receita tributável.
DESCONTOS COMERCIAIS PRÉ-ACORDADOS CONCEDIDOS PARA CUSTEIO INDIRETO DAS ATIVIDADES DO ADQUIRENTE. RECEITAS TRIBUTÁVEIS.
Compõem a base de cálculo da contribuição, por representarem receitas do adquirente, os descontos, não constantes das Notas Fiscais, pré-acordados em negociações com fornecedores, para custeio indireto da sua atividade operacional, o que se dá mesmo quando se pressupõe uma contraprestação, se não houver a correspondência econômica entre o valor pago e o serviço prestado.
Numero da decisão: 9303-008.247
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Vanessa Marini Cecconello.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício).
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2009 JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício (Súmula CARF nº 108). Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2009 COBRANÇA DE PEDÁGIO VIA BONIFICAÇÃO NA FORMA DE DESCONTO. COMISSÃO DE VENDAS. RECEITA TRIBUTÁVEL. A conhecida prática da cobrança de pedágio pelas grandes redes varejistas para que passem a fazer pedidos a determinado fornecedor, acertada previamente em contrato, via bonificação na forma de desconto não constante da Notas Fiscais, tem natureza, lato sensu, de comissionamento de vendas, sendo, portanto, receita tributável. DESCONTOS COMERCIAIS PRÉ-ACORDADOS CONCEDIDOS PARA CUSTEIO INDIRETO DAS ATIVIDADES DO ADQUIRENTE. RECEITAS TRIBUTÁVEIS. Compõem a base de cálculo da contribuição, por representarem receitas do adquirente, os descontos, não constantes das Notas Fiscais, pré-acordados em negociações com fornecedores, para custeio indireto da sua atividade operacional, o que se dá mesmo quando se pressupõe uma contraprestação, se não houver a correspondência econômica entre o valor pago e o serviço prestado. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2009 COBRANÇA DE PEDÁGIO VIA BONIFICAÇÃO NA FORMA DE DESCONTO. COMISSÃO DE VENDAS. RECEITA TRIBUTÁVEL. A conhecida prática da cobrança de pedágio pelas grandes redes varejistas para que passem a fazer pedidos a determinado fornecedor, acertada previamente em contrato, via bonificação na forma de desconto não constante da Notas Fiscais, tem natureza, lato sensu, de comissionamento de vendas, sendo, portanto, receita tributável. DESCONTOS COMERCIAIS PRÉ-ACORDADOS CONCEDIDOS PARA CUSTEIO INDIRETO DAS ATIVIDADES DO ADQUIRENTE. RECEITAS TRIBUTÁVEIS. Compõem a base de cálculo da contribuição, por representarem receitas do adquirente, os descontos, não constantes das Notas Fiscais, pré-acordados em negociações com fornecedores, para custeio indireto da sua atividade operacional, o que se dá mesmo quando se pressupõe uma contraprestação, se não houver a correspondência econômica entre o valor pago e o serviço prestado.
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ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2009 JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício (Súmula CARF nº 108). ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2009 COBRANÇA DE “PEDÁGIO” VIA BONIFICAÇÃO NA FORMA DE DESCONTO. COMISSÃO DE VENDAS. RECEITA TRIBUTÁVEL. A conhecida prática da cobrança de “pedágio” pelas grandes redes varejistas para que passem a fazer pedidos a determinado fornecedor, acertada previamente em contrato, via bonificação na forma de desconto não constante da Notas Fiscais, tem natureza, lato sensu, de comissionamento de vendas, sendo, portanto, receita tributável. DESCONTOS COMERCIAIS PRÉACORDADOS CONCEDIDOS PARA CUSTEIO INDIRETO DAS ATIVIDADES DO ADQUIRENTE. RECEITAS TRIBUTÁVEIS. Compõem a base de cálculo da contribuição, por representarem receitas do adquirente, os descontos, não constantes das Notas Fiscais, préacordados em negociações com fornecedores, para custeio indireto da sua atividade operacional, o que se dá mesmo quando se pressupõe uma contraprestação, se não houver a correspondência econômica entre o valor pago e o serviço prestado. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2009 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 73 52 31 /2 01 2- 53 Fl. 3462DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.463 2 COBRANÇA DE “PEDÁGIO” VIA BONIFICAÇÃO NA FORMA DE DESCONTO. COMISSÃO DE VENDAS. RECEITA TRIBUTÁVEL. A conhecida prática da cobrança de “pedágio” pelas grandes redes varejistas para que passem a fazer pedidos a determinado fornecedor, acertada previamente em contrato, via bonificação na forma de desconto não constante da Notas Fiscais, tem natureza, lato sensu, de comissionamento de vendas, sendo, portanto, receita tributável. DESCONTOS COMERCIAIS PRÉACORDADOS CONCEDIDOS PARA CUSTEIO INDIRETO DAS ATIVIDADES DO ADQUIRENTE. RECEITAS TRIBUTÁVEIS. Compõem a base de cálculo da contribuição, por representarem receitas do adquirente, os descontos, não constantes das Notas Fiscais, préacordados em negociações com fornecedores, para custeio indireto da sua atividade operacional, o que se dá mesmo quando se pressupõe uma contraprestação, se não houver a correspondência econômica entre o valor pago e o serviço prestado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidas as conselheiras Tatiana Midori Migiyama, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Vanessa Marini Cecconello. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício). Relatório Tratase de Recursos Especiais de Divergência interpostos pela Procuradoria da Fazenda Nacional (fls. 3.081 a 3.096) e pelo contribuinte (fls. 3.167 a 3.200), contra o Acórdão 3401003.443, proferido pela 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 3ª Sejul do CARF (fls. 3.050 a 3.079), sob a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Fl. 3463DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.464 3 Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2009 CONTAS CREDORAS. BONIFICAÇÕES. DESCONTOS. CARÁTER CONTRAPRESTACIONAL. COFINS. BASE DE CÁLCULO. EXCLUSÃO. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTO. As contas credoras que indicam ingresso de valores relacionados a bonificações e descontos, que não figuram em notas fiscais, e revelam caráter contraprestacional, não encontram guarida legal para exclusão da base de cálculo da COFINS. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP CONTAS CREDORAS. BONIFICAÇÕES. DESCONTOS. CARÁTER CONTRAPRESTACIONAL. COFINS. BASE DE CÁLCULO. EXCLUSÃO. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTO. As contas credoras que indicam ingresso de valores relacionados a bonificações e descontos, que não figuram em notas fiscais, e revelam caráter contraprestacional, não encontram guarida legal para exclusão da base de cálculo .... ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO JUROS MORATÓRIOS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL. NÃO CABIMENTO. É incabível a aplicação da taxa SELIC sobre a multa de ofício, por ausência de previsão legal (artigo 61 da Lei nº 9.430/1996). No seu Recurso Especial, ao qual foi dado seguimento (fls. 3.098 a 3.100), a PGFN defende a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. O contribuinte apresentou Contrarrazões (fls. 3.120 a 3.130). Ao Recurso Especial do contribuinte, em um primeiro Exame de Admissibilidade (fls. 3.286 a 3.295), não foi dado seguimento. Contra esta decisão, foi interposto Agravo (fls. 3.318 a 3.335), que foi acolhido em parte (fls. 3.345 a 3.351), mas, em novo exame (fls. 3.352 a 3.357), a decisão também foi denegatória. Em razão de um segundo Agravo (fls. 3.368 a 3.390), foi dado seguimento parcial (fls. 3.410 a 3.418), nos seguintes termos: "REJEITO o agravo relativamente às matérias 'descontos são incondicionais' 'e não devem estar previstos na nota fiscal' e confirmo a negativa de seguimento ao recurso especial nessa parte. ACOLHO o agravo e DOU seguimento ao recurso especial relativamente à matéria 'descontos não representam receita ou acréscimo patrimonial' e 'descontos não decorrem de prestação de serviços da recorrente a seus fornecedores". A Fazenda Nacional apresentou Contrarrazões (fls. 3.448 a 3.459). É o Relatório. Fl. 3464DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.465 4 Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator Preenchidos todos os requisitos e respeitadas as formalidades regimentais, conheço dos Recursos Especiais. No mérito: 1) Recurso Especial da Fazenda Nacional (Incidência de juros sobre a multa de ofício) O assunto não é mais passível de discussão no CARF, pois existe Súmula a respeito: Súmula CARF nº 108: Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. 2) Recurso Especial do Contribuinte (Tributação dos "descontos comerciais") O assunto já foi muito debatido no CARF, estando a jurisprudência desta Turma espelhada no Acórdão nº 9303005.849, de 17/10/2017, de outra rede de supermercados, do qual o redator designado para fazer o Voto Vencedor foi o ilustre Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza (o mesmo foi decidido para a Contribuição para o PIS/Pasep): ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/08/2008 a 31/12/2009 DESCONTOS INCONDICIONAIS. EXIGÊNCIA DE QUE CONSTEM DA NOTA FISCAL. Os descontos incondicionais consideramse parcelas redutoras do preço quando constarem da nota fiscal de venda dos bens e não dependerem de evento posterior à emissão desses documentos. RECEITA FINANCEIRA. CONCEITO. Receita financeira é aquela decorrente de uma aplicação (lato sensu) financeira, sendo uma das formas o pagamento antecipado. Não se enquadram nesta categoria os descontos puramente comerciais. COBRANÇA DE “PEDÁGIO” VIA BONIFICAÇÃO NA FORMA DE DESCONTO. COMISSÃO DE VENDAS. RECEITA TRIBUTÁVEL. Fl. 3465DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.466 5 A conhecida prática da cobrança de “pedágio” pelas grandes redes varejistas para que simplesmente passem a fazer pedidos (em qualquer quantidade, à sua revelia) a determinado fornecedor, acertada previamente em contrato, via bonificação na forma de desconto não constante da Notas Fiscais, tem natureza, lato sensu, de comissionamento de vendas, sendo, portanto, receita tributável. DESCONTOS COMERCIAIS PRÉACORDADOS CONCEDIDOS PARA CUSTEIO INDIRETO DAS ATIVIDADES DO ADQUIRENTE. RECEITAS TRIBUTÁVEIS. Compõem a base de cálculo da contribuição, por representarem receitas do adquirente, os descontos, não constantes das Notas Fiscais, préacordados em negociações com fornecedores, para custeio indireto (em explícita opção, prevista em contrato, ao direto, em dinheiro) da sua atividade operacional, o que se dá mesmo quando se pressupõe uma contraprestação, se não houver a correspondência econômica entre o valor pago e o serviço prestado. Estamos aqui diante de uma rede de supermercados que foi adquirida pela gigante mundial WALMART, a qual adota a mesma prática nas “bandeiras” que adquiriu (BOMPREÇO, BIG, e outras), que é o de pactuar, em contratos padronizados com os seus fornecedores (vide exemplo de “Acordo Geral de Fornecimento”, Anexos e Aditivos, com a MELITTA, às fls. 248 a 267), uma série de concessões, oferecendo em troca fidelidade nas compras e prestações de interesse mútuo – muitas vezes mais voltados aos do próprio adquirente. Isto está resumido ao início do Relatório Fiscal (fls 028 a 042): “3. PRÁTICA COMERCIAL Com o objetivo de possibilitar um maior entendimento da natureza e operacionalidade dos diversos valores cobrados por parte da WMS, destacamos os seguintes atos praticados: A WMS e seus fornecedores estabelecem nos contratos de fornecimento de mercadorias, a obrigatoriedade dos fornecedores de pagar ou conceder "desconto", em dinheiro, um percentual sobre as compras feitas dos seus produtos. Destacamos algumas contrapartidas da WMS aos tais descontos: a) Utilização do Centro de Distribuição representa um desconto recebido do vendedor do produto, por conta do custo de sua distribuição entre os diversos estabelecimentos e pelo uso da frota própria. Os vendedores do produto concordam com o pagamento do percentual porque seria mais oneroso efetuar entregas periódicas nas dezenas lojas do grupo. b) Prêmio de fidelidade e objetivo de crescimento representa um percentual de desconto sobre o valor das compras, decorrente do volume conforme o volume de vendas. O valor é negociado entre as partes e serve para custear promoções feitas pelas marcas dos produtos dentro dos supermercados, Fl. 3466DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.467 6 localização especial na loja, jornais promocionais, degustação e ilhas com destaques para os produtos. Cabe ressaltar que os referidos "descontos" não constam nas notas fiscais dos produtos. O desconto é concedido diretamente no pagamento via banco. Outrossim, o montante de "desconto", que é feito pela WMS ao pagar o fornecedor, varia de 0,10% a 10,25%, conforme os contratos em questão, notadamente pelas promoções de preço que fazem. 4. CONTABILIZAÇÃO NA WMS A WMS contabiliza a compra do produto pelo valor da nota fiscal, utilizando este valor na apuração do crédito do PIS e da COFINS por serem na sistemática nãocumulativa, e simultaneamente ao contabilizar a receita do valor do "desconto" em outras rubricas, as quais não foram consideradas na base de cálculo, geram um desequilíbrio na apuração da base de cálculo.” Em um exemplo numérico (isto para os descontos comerciais): Um produto foi vendido à WMS por R$ 10.000,00, constando da Nota Fiscal este mesmo valor – portanto, integral, com prazo de pagamento de 30 dias. Em razão de um acordo prévio (formalizado em contrato) que previa um desconto de 15 % em todas as operações, o cliente, no vencimento, somente pagava R$ 8.500,00. A WMS creditavase integralmente (PIS/Cofins) sobre os R$ 10.000,00, contabiliza o desconto (R$ 1.500,00) em Contas de Receita (são diversas, a depender no que iria despender este percentual), mas não oferecia à tributação – ou seja, não incluía na base de cálculo – o que deu azo aos lançamentos de ofício. Da mesma forma que fez o Dr. Charles no Acórdão utilizado aqui desde logo para retratar a Jurisprudência desta Turma, transcrevo excertos do Voto Condutor da DRJ/Recife, em um Processo do BOMPREÇO (nº 10480.722794/201559, decisão mantida no CARF – Acórdão nº 3401004.011, de 28/09/2017) – que é (mais que) abrangente e também adoto como razões de decidir: “19. Discutese aqui se seria ou não receita da adquirente a concessão de bonificações na forma de descontos pelos fornecedores da tradicional rede de supermercados BOMPREÇO, com um poder de compra indiscutível, ainda mais depois de ter sido adquirida pela gigante WALMART, uma das maiores empresas do mundo. 20. A exigência da concessão destas bonificações, notadamente dadas na forma de descontos ..., é prática cada vez mais corrente adotada pelas grandes redes varejistas, conhecida como cobrança de “pedágio” / “rapel”. 20.1. Isto é de conhecimento geral (não se inova com fatos de domínio público). Com uma rápida pesquisa na Internet encontramse vários artigos a respeito, como os que obtive Fl. 3467DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.468 7 através do GOOGLE, um deles publicado na revista EXAME, na Edição nº 0768 – que inclusive foi matéria de capa ..., e outro publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 18/01/2004 ..., ambos intitulados “A Ditadura do Varejo” 20.2. O simples fato de o supermercado passar a adquirir os produtos de determinada marca pode ensejar (e, em regra, enseja) a exigência deste desconto, caracterizandose aí o verdadeiro “pedágio”. 20.3. Os exemplos talvez mais conhecidos de “parcerias” são a exposição dos produtos em locais privilegiados, as promoções e as propagandas, a realização de eventos (até, há poucos anos atrás, desfiles de blocos carnavalescos), a presença de funcionários dos fornecedores repondo e organizando as mercadorias, mas há outros que não são visíveis, como o chamado “enxoval de novas lojas”, que consiste em bonificações para o custeio da abertura de novos pontos de venda, todos eles figurando, de uma ou de outra forma, nos "Acordos Comerciais" ..., que são a nossa melhor fonte de análise da natureza dos mesmos ... 20.4. Não é arriscado dizer que hoje o setor de compras é mais importante para os grandes varejistas que o setor de vendas. O preço de venda é pautado pela concorrência. As vantagens obtidas nas compras é que fazem a grande diferença. 21. Colocado este panorama, vamos à discussão sobre a inclusão ou não destas bonificações, via descontos, na base de cálculo das contribuições. 22. A Constituição Federal de 1988 previa, em seu art. 195, I, a competência tributária da União para instituir uma contribuição para a seguridade social sobre o faturamento, competência esta que foi alargada pela Emenda Constitucional nº 20/98, para englobar “a receita ou o faturamento” – tudo combinado, no caso da Contribuição para o PIS, com o art. 239. 22.1. Certamente não foi por um motivo sem maior importância que esta mudança foi implementada, já que demandou uma Emenda à Constituição Federal. 22.1.1. Quis o constituinte derivado que as contribuições em tela – as quais, em conjunto, têm enorme peso na arrecadação federal e são de importância capital para a saúde, previdência e assistência social – tivessem o maior campo de incidência possível (obviamente respeitados outros princípios constitucionais, dentro de uma interpretação sistemática), abrangendo todos os ingressos na pessoa jurídica que se subsumissem ao conceito de receita, e não só o faturamento, definido, basicamente, como venda de bens e serviços. 23. Mesmo não sendo a doutrina fonte do Direito, são bastante razoáveis alguns dos argumentos vazados nas citações trazidas na Impugnação. Receitas são, efetivamente, acréscimos ao patrimônio. Fl. 3468DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.469 8 23.1. Mas o patrimônio pode ser tanto acrescido pelo aumento do ativo, sem contrapartida no passivo, como pela redução do passivo, sem contrapartida no ativo. 23.1.1. Francisco Velter e Luiz Roberto Missagia (in Manual de Contabilidade, Editora Impetus, Rio de Janeiro, 2003) ensinam que receitas: São os ingressos de elementos para o ativo, sejam de disponibilidades ou de direitos, geralmente correspondentes a um esforço produtivo da empresa, ou ainda de redução de obrigações com terceiros. Provocam o aumento da situação líquida. Exemplo 1: A empresa vende mercadorias à vista para um cliente. Com isso, haverá uma entrada de dinheiro no caixa da empresa, que corresponde a um bem (dinheiro). Há, então, um aumento no ativo que teve como origem uma receita gerada pela venda de um produto ou mercadoria. É o que chamamos de receita de vendas. Exemplo 2: A empresa recebe um perdão de uma dívida com um fornecedor. Neste caso, haverá uma redução do passivo exigível (obrigações com terceiros), oriunda do perdão da dívida. Também é considerada uma receita. 23.2. Então, pouco importa se a receita é auferida em decorrência de um pagamento feito por um cliente ou de um desconto dado por um fornecedor. 24. Ainda sobre o conceito de receita, não vejo que exista um “conceito fiscal”, apartado do econômico, pois a lei não diz que este conceito abrange todos os ingressos classificados como tal na contabilidade, independentemente da sua natureza. 24.1. O avesso é que é verdadeiro: o que impera, para a identificação da matéria tributável, é a natureza do ingresso, independentemente da denominação utilizada na sua contabilização. 24.2. E os AuditoresFiscais em nenhum momento dizem que incluíram lançamentos na base de cálculo somente porque eles estão contabilizados no grupo das receitas; fizeramno porque entenderam que têm natureza de receitas. (...) 25. De todo modo, desprezando a forma, o que interessa à solução da lide é se as rubricas incluídas na base de cálculo pelos autuantes têm ou não natureza de receita. 26. A discussão versa muito sobre a dicotomia desconto “incondicional” x desconto “condicional”. O desconto incondicional deve constar da Nota Fiscal e o desconto condicional depende da implementação de uma condição futura e incerta. Fl. 3469DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.470 9 26.1. In casu, nenhuma destas condições se verifica. Que natureza, então, teriam estes descontos ?? 26.2. Pelos contratos, acompanhados da forma de contabilização e pagamento (que, repito, são nossa fonte primeira e mais rica de análise), vêse que não se trata, na realidade, de um só desconto, ou seja, de um só “tipo”. 27. Mas uma coisa é absolutamente inconteste (ainda que não tivéssemos os contratos): condicional, nenhum deles é. O contribuinte repisa por diversas vezes que já sabe exatamente quanto vai ter de desconto se comprar da Empresa X, pois isto já está acertado previamente em contrato. Se o período de vigência do contrato, por exemplo, é o ano de 20YZ e a soma dos descontos nele previstos é de 10 %, o BOMPREÇO sabe que qualquer compra que fizer àquele fornecedor naquele ano (seja uma, seja dez, seja mil, não há número de pedidos estabelecido) terá este desconto, tanto é que, de imediato, assim que a mercadoria entra, já registra o valor líquido como o efetivo custo, lançando parcelas do desconto, por “tipo”, em rubricas próprias. 27.1. Perfeitamente caracterizado, então, está que a concessão do desconto independe de qualquer evento futuro e incerto. 28. Afastase desde logo também a alegação, ainda que a título de eventualidade, de que seriam descontos financeiros, ou seja, admitindose que fossem receitas, seriam receitas financeiras (sujeitas, à época, à alíquota zero). 28.1. Sendo elas decorrentes de um desconto, a existência de um condicionante lhe é intrínseca, como ocorre no tradicionalíssimo desconto pelo pagamento antecipado – é posterior à venda e não há certeza de que ele ocorra. 28.2. Ao contrário do que muitos pensam, o desconto puramente comercial obtido não é receita financeira. Receita financeira é aquela decorrente de algum investimento financeiro. Pode ser uma aplicação em um fundo de investimentos, um empréstimo (mútuo) ou um pagamento antecipado. Tudo é decorrente da disponibilidade financeira e da decisão de utilizála em uma aplicação (lato sensu) financeira. 29. Nos restaria, então, somente uma opção: os descontos seriam incondicionais. Assim, deveriam constar da Nota Fiscal. 29.1. O desconto incondicional é expressamente excluído da base de cálculo das contribuições (devidas pelo fornecedor), mas nem precisaria o legislador fazêlo, pois desconto concedido incondicionalmente, na realidade, não é desconto: é preço e, como tal, tem que constar da Nota Fiscal e não pode depender de evento posterior à emissão do documento. 29.2. A IN/SRF nº 51/78, efetivamente, definiu descontos incondicionais da seguinte forma: Fl. 3470DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.471 10 4.2 – Descontos incondicionais são parcelas redutoras do preço de venda, quando constarem da nota fiscal de venda dos bens ou da fatura de serviços e não dependerem de evento posterior à emissão desses documentos. 29.3. E, conjecturando, não consigo ver razão plausível para a existência desta figura nas relações comerciais, a não ser na época dos famigerados congelamentos de preços, em que alguns vendedores colocavam na Nota Fiscal um preço bem superior ao realmente praticado, com um desconto – muitas vezes absurdo –, para poder depois, disfarçadamente, promover um reajuste (esta inclusive foi uma das razões que levou à combatida inclusão na base de cálculo do IPI dos descontos incondicionais, pela Lei nº 7.798/89). 29.4. O argumento utilizado pela Impugnante de que não figura, ainda que incondicional, o desconto na Nota Fiscal, para que os outros fornecedores não tomem conhecimento das condições dadas aos seu concorrentes, para fins comerciais, não deixa de ser plausível (ainda que esta prática não garanta que estas informações não “vazem”, pois muita gente que hoje trabalha – amanhã não trabalha mais – no BOMPREÇO e no seu fornecedor têm acesso a estas informações, inclusive por outros meios, como os próprios Contratos). 29.5. Mas, para fins tributários, a mercadoria está sendo vendida pelo valor líquido, e, “maquiado” na forma de desconto, está o ganho previamente obtido em contratos comerciais, nos percentuais que o fornecedor aceita “contribuir”. 29.6. Não há sentido em se falar em redução do custo de aquisição se o desconto não estiver na Nota Fiscal. Uma coisa está umbilicalmente ligada à outra. 29.7. É o que diz a Solução de Consulta Cosit nº 34, de 21/11/2013, que tem por uma das bases a já citada IN/SRF nº 51/78: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA – IRPJ BASE DE CÁLCULO. DESCONTOS CONDICIONAIS E INCONDICIONAIS. Os descontos incondicionais consideramse parcelas redutoras do preço de vendas, quando constarem da nota fiscal de venda dos bens ou da fatura de serviços e não dependerem de evento posterior à emissão desses documentos; esses descontos não se incluem na receita bruta da pessoa jurídica vendedora e, do ponto de vista da pessoa jurídica adquirente dos bens ou serviços, constituem redutor do custo de aquisição, não configurando receita. Os descontos condicionais são aqueles que dependem de evento posterior à emissão da nota fiscal, usualmente, do pagamento da compra dentro de certo prazo, e configuram despesa financeira para o vendedor e receita financeira para o comprador. Fl. 3471DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.472 11 Dispositivos Legais: Lei nº 8.981, de 1995, art. 31; Decreto nº 3.000, de 1999 (Regulamento do Imposto de Renda RIR/1999), arts. 373 e 374; Instrução Normativa SRF nº 51, de 1978, item 4.2. 30. Como são operacionalizados os descontos em discussão? 30.1. Exemplificando (creio que, já à exaustão), a Nota Fiscal do fornecedor é emitida pelo valor “cheio”, de R$ 10.000,00, mas o BOMPREÇO já sabe que pagará somente R$ 8.000,00, pois teria pactuado previamente, em contrato, a concessão, pelo vendedor, de uma bonificação, a um ou demais títulos, na forma de um desconto total de 20 %. A diferença, de R$ 2.000,00, é contabilizada, de imediato (assim que a mercadoria é recebida) em uma ou mais contas do grupo das receitas. 30.2. O desconto então não é dado na Nota Fiscal. Não preenche, portanto, um dos requisitos básicos para que seja considerado incondicional. 31. Para o fornecedor seria mais vantajoso emitir a Nota Fiscal pelo valor líquido, pois aí o desconto de R$ 2.000,00 não comporia a base de cálculo das contribuições (por ele devidas). 31.1. Por outro lado, o custo resulta menor para o adquirente quando o desconto não consta da Nota Fiscal e o creditamento PIS/Cofins, quando cabível, se dá pelo valor “cheio” (R$ 10.000,00), prática confirmada pela Fiscalização e demonstrada e comprovada pelo próprio contribuinte, no conjunto documental que trouxe extemporaneamente. 31.1.1. Quer então o BOMPREÇO “o melhor dos mundos”: que os valores recebidos através de descontos não sejam tributados (no adquirente, pois no fornecedor o são), mas que os mesmos gerem créditos – repiso, quando cabível, em função da mercadoria adquirida – das mesmas contribuições. 32. E como são contabilizados estes descontos ?? 32.1. Se fosse mera redução do custo de aquisição, qual a razão de distribuir este desconto em diversas contas, a grande maioria de receitas ?? A resposta está nos Contratos. 32.2. Lá vemos que, na realidade, o desconto é composto de diversas parcelas, com características bastante específicas. Tratemos aqui das que interessam ao caso concreto ...” Aqui, faço um “parênteses” na transcrição, para colocar exemplos das contas objeto das autuações da WMS, detalhados no Relatório Fiscal: Desconto de Fidelidade Básico; Desconto Fidelidade Escalão; Propaganda e Publicidades; Propaganda Institucional; Fl. 3472DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.473 12 Despesa Extra com Eventos MKT; Desconto Promoção Aniversário Desconto de Abertura de Lojas; Aluguel de Espaço (Lojas) Aluguel de Espaço Institucional; Desconto de Centralização; Verba de Reposição Promotores; Desconto de Não Devolução. Retomo a transcrição: 32.3. Vêse, assim, que todas “tem endereço definido”, ou seja: ou são comissões; ou são prêmios; ou são custeio, direto ou indireto, das atividades do BOMPREÇO. Isto, sem dúvida, não é mera redução de custos. É receita, sim, tributável. 32.4. Assim, não por acaso estes ganhos são alocados em diversas contas de receita. É para fins gerenciais, sim, mas para que o gestor saiba de quanto dispõe em cada rubrica, para fazer o seu planejamento. 33. Mais gritante é quando o BOMPREÇO dá a opção de a contribuição ser em dinheiro “vivo” ou na forma de descontos. Ora, pagamento em dinheiro é custeio (direto) e, se há a opção de sêlo feito na forma de descontos, estes também o são (somente que de forma indireta). Se tanto faz ser em dinheiro ou em desconto, “desconto = dinheiro”, ou seja, tudo é custeio. Lógica pura e simples. 33.1. E o próprio contribuinte reconhece isto de forma explícita, quando explica o que seriam os valores registrados na CONTA 420312 – RECEITAS DE PROMOÇÕES ..., ao dizer que “São meramente bonificações concedidas sem a realização de compras com os fornecedores, participação em publicidade, aniversário, conforme acordo comercial firmado”. 33.2. Se o financiamento for em dinheiro ninguém discute que é tributável, pois é um ganho, recebido “na veia”. Por que os descontos, que são mera opção à contribuição em dinheiro, não o seriam ?? 33.3. Ainda, dentro da mesma linha de pensamento, imaginese que o BOMPREÇO precisa despender R$ 100.000,00 para realizar um evento. Se este valor fosse retirado do obtido com as vendas de produtos, estas, da mesma forma, comporiam a base de cálculo das contribuições. Ninguém também discute isto. Por que, sendo a mesma disponibilidade decorrente de uma bonificação dada pelo fornecedor, ainda mais com “endereço certo”, ela não seria tributável ?? (...) Fl. 3473DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.474 13 34.2. Em uma visão tradicional e mais ampla, este desconto está mais para uma comissão sobre vendas. Numa visão mais pragmática, um verdadeiro “Pedágio” – “Pague para se utilizar das minhas lojas” (não deixa também de ser uma comissão de vendas, ainda que sui generes). 35. A tentativa de obter o melhor preço possível na mesa de negociação vem desde a préhistória, mas o que vemos estampado nos contratos “ganhaperde” analisados é algo relativamente novo – que inclusive não é abertamente admitido pelos supermercados, pois é prática execrada pelo mercado. Assim, o assunto ainda não foi suficientemente dissecado pela doutrina e pela jurisprudência. 35.1. E não é de se estranhar que surja algo diferente (cada vez mais, no ritmo que as coisas se desenvolvem hoje em dia), que não se enquadra perfeitamente em nenhuma das categorias “tradicionais”, porque as relações comerciais entre as grandes redes varejistas e os seus fornecedores têm características muito peculiares. 35.2. Não sou eu quem está aqui a inventar novas categorias de descontos. Quem se reinventa é o mercado. Quando a Lei Complementar nº 07/70 instituiu o Programa de Integração Social, os supermercados começavam a despontar no Brasil: comprávamos ainda no armazém da esquina ou na feira. De lá para cá, houve uma inversão de papéis. Antes a indústria ditava as regras; hoje é o varejo que o faz. Do outro lado da mesa de negociação efetivamente estão outros gigantes, como NESTLÉ e AMBEV, mas a “quedadebraço” tem pendido, há um bom tempo, para o lado dos supermercados (as indústrias têm cada vez mais procurado alternativas que não passem pelas prateleiras dos grandes varejistas – como a pulverização das vendas para as lojas de conveniência/vizinhança/farmácias –, mas os grandes ainda têm importância capital). 35.2.1. Tanto isto é verdade que é notório que são os varejistas os maiores responsáveis pelo controle da inflação, pela feroz concorrência que praticam, em um ramo no qual as margens de lucro são muito estreitas. 35.2.2. Com a estabilização da economia (isto, há algum tempo), grandes conglomerados multinacionais passaram a investir no Brasil, adquirindo a maior parte das tradicionais redes locais. A concentração do varejo então se tornou uma grande “dor de cabeça” para os fabricantes – em especial os menores (muitas vezes nem tão menores assim), que dependem dos supermercados para escoar a sua produção e terem “visibilidade”, e aí têm que se submeter a crescentes exigências, chegando até a vender sistematicamente com prejuízo para as maiores redes e mesmo a abrir mão de suas marcas – em detrimento da dos supermercados, ou, ao final, não "suportando a situação", virem até a ser adquiridos por eles. 35.3. E os industriais detentores das grandes marcas enfrentam ainda outro problema, que é a proliferação de marcas Fl. 3474DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.475 14 concorrentes (até mesmo, como já dito, as marcas dos próprios supermercados, que mandam industrializar produtos de grande giro por encomenda). Antigamente, LEITE MOÇA era sinônimo de leite condensado e BRAHMA era sinônimo de cerveja. Não é mais assim, então, mesmos estes fabricantes não têm este poder todo de negociação que se pensa, frente aos “ditadores do varejo”. 35.4. No primeiro dos contratos analisados, celebrado com a BIMBO DO BRASIL – que, conforme pesquisa feita por mim no Google, em notícia de agosto de 2014, é filial da maior empresa de panificação do mundo (no Brasil, é detentora das marcas de produtos como pães Pullman, Nutella e Plus Vita) –, já vemos, repiso, que se trata de um contratopadrão – em que não há propriamente um pacto, mas uma adesão –, no qual o aderente é chamado genericamente de “parceirofornecedor” (e, somente na amostragem trazida, também se encontram fornecedores bastante conhecidos, como LATICÍNIO FACO, YAKULT e EDITORA ABRIL). 35.4.1. Esta “parceria” significa que a cada compra e venda não existe somente a obrigação do fornecedor de entregar o bem e do varejista de pagar o preço, mas também de o vendedor pagar um “pedágio” (ou comissão, como queiram) e ainda colaborar no custeio das atividades do comprador. 35.4.2. O fornecedor (se quiser se manter no mercado) não é tão livre assim para escolher se quer celebrar o contrato (melhor dizendo – se quer "colaborar"), mas para que e com quanto vai contribuir, dentro de um "menu" de opções préestabelecido pelo comprador. 35.5. É uma parceria bastante sui generes, pois lendo cuidadosamente o contrato, não se encontra uma cláusula sequer que dê direitos ao “parceirofornecedor”. (...) 36. Como já dito, penso que os descontos ligados tãosomente ao fato do varejista passar a vender determinada marca, são, sim, “pedágios” (na visão tradicional, comissões de vendas). 37. No caso da disponibilização de locais privilegiados nas gôndolas para a colocação dos produtos de determinada marca, em que o desconto é conhecido como “bônus de display” ou tarifa “pay to stay” (pague para ficar), estamos diante de uma verdadeira locação. 38. Em alguns casos, o financiamento puro e simples (e até direto, quando em dinheiro), sem uma contraprestação, é inconteste, como acontece com as Verbas de Aniversário e Inaugurações/Reinaugurações. 39. Em outros, há uma mitigação de financiamento com valor pago em troca de uma contraprestação, como é o caso das Verbas de Propaganda. Fl. 3475DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.476 15 39.1. Assim, algumas destas “bonificações” também podem ser vistas como tendo uma natureza contraprestacional, o que pode ser traduzido, em termos bastante simples, como “Me dê um desconto X que eu te faço Y”. 39.2. Os serviços de propaganda efetivamente são visíveis nas inserções comerciais na televisão, nos folhetos e em eventos – como o “Bloco da Parceria”, que saía todos os domingos de Carnaval aqui em Recife, no qual se utilizavam camisetas com a marca BOMPREÇO e diversas outras, justamente as “parceiras”. 39.3. Na minha visão, no entanto, falta um componente essencial para que se veja nestas relações comerciais uma prestação de serviços, na concepção tradicional: não há correspondência econômica necessária entre o valor pago e o serviço prestado. 39.3.1. O contratopadrão traz campos em branco a serem preenchidos pelo fornecedor, com valores ou percentuais sobre as notas fiscais, sem estabelecer quanto será a contrapartida (nada garante, por exemplo, que seus produtos figurem em todos os folhetos promocionais, ou uma vez por mês, ou uma vez por ano; isto fica a critério do BOMPREÇO, de acordo, fundamentalmente, com os seus interesses). É como se fosse a contribuição para um "fundo". 40. Não há como negar que há também interesse dos fornecedores nesta “Parceria” (um tanto “forçada”, mas não deixa de ser), pois, obviamente, eles precisam de alguém que venda, e cada vez mais e com mais abrangência territorial, os seus produtos. E a visibilidade trazida pelo fato de estarem como se em uma vitrine, nas prateleiras de uma grande rede varejista ou nos seus folders de propaganda ou até na televisão, indiscutivelmente é desejada por qualquer fabricante que seja, tomando o lugar dos seus concorrentes e promovendo a fidelização da clientela. 40.1. E, a depender do evento, é muito importante a participação de quem pretende ser um dos destaques no mercado. 40.2. Mas, para o BOMPREÇO (que é o que nos interessa) o objetivo é sempre o mesmo: alavancar o seu crescimento e a sua lucratividade. 40.2.1. As organizações fazem propaganda também dos seus fornecedores, é verdade, mas não necessariamente visando o interesse dos mesmos. No caso de uma varejista que vende de tudo, ele precisa colocar algum produto na grande maioria das suas propagandas (à exceção das puramente institucionais), senão elas não fazem sentido. E a propaganda, na mais das vezes, é somente um chamariz para que o cliente venha até a loja, para comprar o que quer que seja (é perfeitamente possível que na venda dos produtos anunciados não haja vantagem, ou até prejuízo). Fl. 3476DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.477 16 40.2.2. O varejista não está lá tão preocupado com o que acontece com os seus fornecedores, pois seu mercado não é como de uma concessionária de veículos, que depende de um único fabricante (se ele “afundar”, ela vai junto). 40.2.3. É evidente que todo supermercado quer e precisa ter produtos da NESTLÉ em suas prateleiras. Mas se a NESTLÉ desaparecer (ou for vendida a preços pouco competitivos), outra toma seu lugar. Ao invés de LEITE MOÇA, o BOMPREÇO vai vender bem mais LEITE ITAMBÉ, ou qualquer outro (que talvez até lhe financie com mais “vontade”). 40.2.3. A preocupação do WALMART é com o CARREFOUR, com o PÃO DE AÇÚCAR. 41. De toda forma, seja comissão de vendas, seja para simples custeio, seja também em troca de alguma prestação, são receitas, tributáveis. 41.1. E, na seara tributária não é só prevalente, como determinante, a tipicidade, pois o comando legal não comporta discricionariedade, devendo o agente fiscal – sob pena de responsabilidade funcional –, identificada a ocorrência de um fato que se subsume precisamente à hipótese de incidência abstratamente prevista na lei, lançar o tributo, se já não tiver o contribuinte cumprido com a obrigação tributária (arts. 3º, 142 e 150 do CTN). 41.2. Sendo assim, não importa para o Direito Tributário o manto sobre o qual está envolta uma transação comercial, mas se, em sua essência, encerra ou não um fato imponível, razão pela qual há que ser mantida, na íntegra, esta parcela da autuação.” À vista do exposto, voto por dar provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional e negar provimento ao Recurso Especial do Contribuinte. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Declaração de Voto Conselheira Vanessa Marini Cecconello Com a devida vênia ao sempre bem fundamentado voto do Ilustre Conselheiro Relator, Rodrigo da Costa Pôssas, ousouse divergir do seu entendimento tão somente quanto ao recurso especial da Contribuinte, para dar provimento ao mesmo, consoante razões expressas na presente declaração de voto. Fl. 3477DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.478 17 A matéria em debate no presente litígio e que foi objeto do apelo especial da Contribuinte 'descontos não representam receita ou acréscimo patrimonial' e 'descontos não decorrem de prestação de serviços da recorrente a seus fornecedores" não é nova neste Colegiado. Consoante bem apontado pelo nobre Relator, caso idêntico foi objeto do Acórdão n.º 9303005.849, de 17/10/2017, de outra rede de supermercados, e cuja relatoria foi desta Conselheira que agora declara as razões de seu voto, com fulcro nos mesmos fundamentos que embasaram seu voto, importante que se diga, vencido, naquela ocasião: [...] No mérito, a controvérsia posta nos presentes autos cingese à definição da natureza dos descontos pactuados entre a Contribuinte e seus fornecedores e das bonificações recebidas em mercadorias, para fins de composição da base de cálculo das contribuições para o PIS e para a COFINS dos períodos de apuração compreendidos entre janeiro de 2008 a dezembro de 2009. Conforme relatado, o acórdão nº 3301002.148 proferido pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento (fls. 3.761 a 3.772), negou provimento ao recurso voluntário interposto pela CIA. ZAFFARI, restando consignado na fundamentação o entendimento de que: (i) "receita é toda entrada bruta de benefícios econômicos durante o período que ocorre no curso das atividades ordinárias de uma empresa e que implica aumento do seu patrimônio líquido, excluídos os ingressos decorrentes de contribuições dos proprietários, acionistas ou cotistas"; (ii) "as receitas tributadas pelo autuante, decorrentes da prestação de serviços de propaganda, de descontos obtidos e de mercadorias bonificadas, integram o faturamento da recorrente", atraindo a incidência do PIS e da COFINS não cumulativas; e (iii) "as receitas decorrentes de descontos incondicionais destacados nas respectivas notas fiscais, inclusive, sob o título de mercadorias bonificadas, não foram tributados pelo autuante, assim como os descontos de natureza financeira. Somente foram tributadas as mercadorias bonificadas e os descontos recebidos sob condição, acertados em contrato e/ ou por avarias e perdas". Por meio do recurso especial, a Contribuinte insurgese em face da decisão que negou provimento ao recurso voluntário, tendo sido admitido tão somente com relação à possibilidade de não incidência do PIS e COFINS sobre as receitas decorrentes dos descontos obtidos e das mercadorias bonificadas. Alega a Contribuinte em suas razões recursais que os descontos concedidos pelos fornecedores e as mercadorias bonificadas não compõem a receita da pessoa jurídica, constituindose em redutores de custo na aquisição das mercadorias, não havendo, portanto, receita tributável pelo PIS e pela COFINS. O ponto principal a ser verificado é se os descontos obtidos pelo Sujeito Passivo junto aos seus fornecedores e o recebimento de mercadorias bonificadas, e que culminaram com a obtenção de Fl. 3478DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.479 18 redução do valor do preço das faturas/duplicatas a pagar, integram ou não a base de cálculo do PIS e da COFINS. No Relatório de Ação Fiscal (fls. 3.590 a 3.615), restou consignado pela Fiscalização que a Contribuinte excluiu da base de cálculo do PIS e da COFINS "as receitas lançadas a crédito nas contas nº 3.1.07.30 (Propaganda), nº 3.4.01.06 (Descontos Obtidos) e nº 5.1.01.23 (Mercadorias Bonificadas)". Houve o lançamento pela Autoridade Fiscal dos valores entendidos como devidos sobre as receitas não incluídas nas bases de cálculo, consoante fundamentos lançados no Termo de Verificação Fiscal. O entendimento da Fiscalização foi referendado pelas decisões de 1ª e 2ª instâncias no presente processo administrativo, sendo objeto agora de análise por meio de recurso especial. Feitas essas ponderações, necessário se faz estabelecer conceitos e premissas que nortearão o julgamento do tema. Tendo em vista que as Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003 estabeleceram como base de cálculo para as contribuições do PIS e da COFINS, respectivamente, o total das receitas auferidas no mês pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil, pertinente elucidar o conceito do termo "receita". O Supremo Tribunal Federal, ao analisar o tema sob o prisma do disposto no art. 195, I, b, da Constituição Federal, no julgamento do recurso extraordinário nº 606.107/RS, de relatoria da Ministra Rosa Weber, definiu que receita é "o ingresso financeiro que se integra no patrimônio na condição de elemento novo e positivo, sem reservas ou condições". Acrescentou, ainda, a Relatora que a contabilidade constituise em ferramenta empregada para fins tributários, mas moldada por princípios e regras próprios do Direito Tributário. Segue abaixo transcrita a ementa do referido julgado no que interessa: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. IMUNIDADE. HERMENÊUTICA. CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO INCIDÊNCIA. TELEOLOGIA DA NORMA. EMPRESA EXPORTADORA. CRÉDITOS DE ICMS TRANSFERIDOS A TERCEIROS. I Esta Suprema Corte, nas inúmeras oportunidades em que debatida a questão da hermenêutica constitucional aplicada ao tema das imunidades, adotou a interpretação teleológica do instituto, a emprestarlhe abrangência maior, com escopo de assegurar à norma supralegal máxima efetividade. II A interpretação dos conceitos utilizados pela Carta da República para outorgar competências impositivas (entre os quais se insere o conceito de “receita” constante do seu art. 195, I, “b”) não está sujeita, por óbvio, à prévia edição de lei. Tampouco está condicionada à lei a exegese dos dispositivos que estabelecem imunidades tributárias, como aqueles que fundamentaram o acórdão de origem (arts. 149, § 2º, I, e 155, § Fl. 3479DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.480 19 2º, X, “a”, da CF). Em ambos os casos, tratase de interpretação da Lei Maior voltada a desvelar o alcance de regras tipicamente constitucionais, com absoluta independência da atuação do legislador tributário. III – A apropriação de créditos de ICMS na aquisição de mercadorias tem suporte na técnica da não cumulatividade, imposta para tal tributo pelo art. 155, § 2º, I, da Lei Maior, a fim de evitar que a sua incidência em cascata onere demasiadamente a atividade econômica e gere distorções concorrenciais. IV O art. 155, § 2º, X, “a”, da CF – cuja finalidade é o incentivo às exportações, desonerando as mercadorias nacionais do seu ônus econômico, de modo a permitir que as empresas brasileiras exportem produtos, e não tributos , imuniza as operações de exportação e assegura “a manutenção e o aproveitamento do montante do imposto cobrado nas operações e prestações anteriores”. Não incidem, pois, a COFINS e a contribuição ao PIS sobre os créditos de ICMS cedidos a terceiros, sob pena de frontal violação do preceito constitucional. V – O conceito de receita, acolhido pelo art. 195, I, “b”, da Constituição Federal, não se confunde com o conceito contábil. Entendimento, aliás, expresso nas Leis 10.637/02 (art. 1º) e Lei 10.833/03 (art. 1º), que determinam a incidência da contribuição ao PIS/PASEP e da COFINS não cumulativas sobre o total das receitas, “independentemente de sua denominação ou classificação contábil”. Ainda que a contabilidade elaborada para fins de informação ao mercado, gestão e planejamento das empresas possa ser tomada pela lei como ponto de partida para a determinação das bases de cálculo de diversos tributos, de modo algum subordina a tributação. A contabilidade constitui ferramenta utilizada também para fins tributários, mas moldada nesta seara pelos princípios e regras próprios do Direito Tributário. Sob o específico prisma constitucional, receita bruta pode ser definida como o ingresso financeiro que se integra no patrimônio na condição de elemento novo e positivo, sem reservas ou condições. VI O aproveitamento dos créditos de ICMS por ocasião da saída imune para o exterior não gera receita tributável. Cuidase de mera recuperação do ônus econômico advindo do ICMS, assegurada expressamente pelo art. 155, § 2º, X, “a”, da Constituição Federal. VII Adquirida a mercadoria, a empresa exportadora pode creditarse do ICMS anteriormente pago, mas somente poderá transferir a terceiros o saldo credor acumulado após a saída da mercadoria com destino ao exterior (art. 25, § 1º, da LC 87/1996). Porquanto só se viabiliza a cessão do crédito em função da exportação, além de vocacionada a desonerar as empresas exportadoras do ônus econômico do ICMS, as verbas respectivas qualificamse como decorrentes da exportação para efeito da imunidade do art. 149, § 2º, I, da Constituição Federal. Fl. 3480DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.481 20 VIII Assenta esta Suprema Corte a tese da inconstitucionalidade da incidência da contribuição ao PIS e da COFINS não cumulativas sobre os valores auferidos por empresa exportadora em razão da transferência a terceiros de créditos de ICMS. IX Ausência de afronta aos arts. 155, § 2º, X, 149, § 2º, I, 150, § 6º, e 195, caput e inciso I, “b”, da Constituição Federal. (grifouse) Na definição consagrada pelo STF, portanto, receita é o ingresso no patrimônio sem que haja reservas ou condições a serem implementadas, nitidamente não se enquadrando no caso dos descontos pactuados pela Contribuinte e seus fornecedores. De outro lado, o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) aprovou o Pronunciamento Técnico CPC 30 (R1) Receitas, em 19/10/2012, definindo receita como o "aumento nos benefícios econômicos durante o período contábil sob a forma de entrada de recursos ou aumento de ativos ou diminuição de passivos que resultam em aumentos do patrimônio líquido da entidade e que não sejam provenientes de aporte de recursos dos proprietários da entidade". O pronunciamento foi referendado pela CVM por meio da Deliberação nº 692/12. Conforme consta no item 10 do CPC nº 30, as bonificações ou os descontos deverão ser deduzidos da receita pela sociedade no momento do registro contábil: Mensuração da receita 9. A receita deve ser mensurada pelo valor justo da contraprestação recebida ou a receber. 10. O montante da receita proveniente de uma transação é geralmente acordado entre a entidade e o comprador ou usuário do ativo e é mensurado pelo valor justo da contraprestação recebida, deduzida de quaisquer descontos comerciais e/ou bonificações concedidos pela entidade ao comprador. (grifouse) Ainda no âmbito das normas contábeis, o Pronunciamento Técnico CPC 16 Estoques, aprovado pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) em 08/05/2009, e referendado pela CVM Deliberação nº 575/09 alt. 624/10, ao tratar dos custos de aquisição do estoque, estabelece que os "descontos comerciais, abatimentos e outros itens semelhantes devem ser deduzidos na determinação do custo de aquisição", conforme se depreende da leitura dos seus itens 9, 10 e 11: Mensuração de estoque 9. Os estoques objeto deste Pronunciamento devem ser mensurados pelo valor de custo ou pelo valor realizável líquido, dos dois o menor. Custos do estoque Fl. 3481DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.482 21 10. O valor de custo do estoque deve incluir todos os custos de aquisição e de transformação, bem como outros custos incorridos para trazer os estoques à sua condição e localização atuais. Custos de aquisição 11. O custo de aquisição dos estoques compreende o preço de compra, os impostos de importação e outros tributos (exceto os recuperáveis junto ao fisco), bem como os custos de transporte, seguro, manuseio e outros diretamente atribuíveis à aquisição de produtos acabados, materiais e serviços. Descontos comerciais, abatimentos e outros itens semelhantes devem ser deduzidos na determinação do custo de aquisição. (grifouse) Portanto, em consonância com as definições jurídica e contábil de receita e a regulação de estoques, os descontos comerciais, por estarem vinculados às operações de aquisições, constituem se em redutores de custos do estoque para o adquirente, sendo incabível o seu enquadramento como receitas. Nessa esteira, uma vez que também se deve identificar a natureza jurídica das vantagens obtidas pela Recorrente nas concessões feitas pelos seus fornecedores no cumprimento dos acordos comerciais, importa estabelecer o conceito de "bonificações", as quais possuem rigorosamente o mesmo regime jurídico dos descontos comerciais. A matéria foi tratada com propriedade pelo ilustre Conselheiro João Carlos Cassuli Junior, ao proferir o acórdão nº 3402002.210, em sessão de julgamento realizada no dia 26/09/2013, o qual se reproduz em parte, passando a integrar as razões deste voto: [...] as bonificações, sejam elas veiculadas mediante abatimento de preço, em moeda com objetivo de “rebache de preço” ou em mercadoria, serão sempre descontos condicionais ou incondicionais. Ou seja, têm sempre natureza jurídica de desconto, e como tal deve ser tratadas pelo Direito, seja Privado seja Tributário, cabendo, então, aprofundar a investigação do conceito, conteúdo e alcance do que venha a ser bonificação ou desconto, e os correspondentes tratamentos determinados pelo ordenamento pátrio, para se aquilatar os efeitos tributários que deles devam emanar. [...] Conhecidas as regras contábeis vigentes no Brasil segundo os CPC nºs 16 e 30, de 2009 e Deliberações CVM nºs 575 e 597, de 05 de junho e 15 de Setembro de 2009, respectivamente, assim como as regras internacionais contábeis, às quais o Brasil está em convergência especialmente após a edição da Lei nº 11.638/07 (que promoveu significativas alterações na Lei nº 6.404/76 – LSA´s.), resta claro que as bonificações e descontos comerciais obtidos têm tratamento contábil de redução de custos, sendo que devem ser reconhecidos à conta de resultado ao final do período, se o desconto corresponder a produtos já efetivamente comercializados, ou à conta redutora de estoques, Fl. 3482DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.483 22 se o desconto referirse a mercadorias ainda não comercializadas pela entidade. Não podem ser reconhecidas como receita pelo vendedor assim como não são custos pelo comprador. A pretensão de reconhecer as bonificações ou descontos como receita pelo comprador, contrariaria inteiramente os princípios contábeis geralmente aceitos, pois ao mesmo tempo seria receita do vendedor (que não a pôde deduzir por proibição fiscal – já que não tratase de “desconto incondicional) e do comprador. Essas são, portanto, as regras que devem ser observadas no tocante aos efeitos contábeis, e, consequentemente, a nível de Direito Societário e na relação da sociedade com seus sócios e com terceiros, para fins de análise das demonstrações financeiras das entidades, decorrendo daí uma gama imensa de efeitos que permeiam todo o mercado. Ou seja, segundo as melhores práticas contábeis, os registros das bonificações e descontos comerciais devem ser tratados com redutores de custos, excluídos que estão das receitas. [...] (grifouse) O entendimento da Ciência Contábil de que a bonificação ou desconto comercial devem ser classificados como redução de custo, exerce influência no Direito Tributário, em especial no tema quanto à incidência das contribuições para o PIS e a COFINS. Essa interpretação decorre das normas contidas nos artigos 109 e 110 do Código Tributário Nacional (CTN), in verbis: Art. 109. Os princípios gerais de direito privado utilizamse para pesquisa da definição, do conteúdo e do alcance de seus institutos, conceitos e formas, mas não para definição dos respectivos efeitos tributários. Art. 110. A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias. Portanto, o conteúdo dos institutos custo e receita, grandezas de natureza econômica, devem ser interpretados pelas regras que lhes são próprias, não podendo ser alteradas para o único fim da incidência tributária. Nessa senda, é do Direito Privado, por meio da Legislação Societária, a competência para dar a definição de custo e receita, para isso sendo ainda relevante o disposto no DecretoLei nº. 1.598/77, in verbis: Art 6º Lucro real é o lucro líquido do exercício ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou autorizadas pela legislação tributária. § 1º O lucro líquido do exercício é a soma algébrica de lucro operacional (art.11), dos resultados não operacionais, do saldo Fl. 3483DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.484 23 da conta de correção monetária (art. 51) e das participações, e deverá ser determinado com observância dos preceitos da lei comercial.” (grifouse). Por sua vez, a legislação comercial ou societária, para a definição, conteúdo e alcance de seus institutos, conceitos e formas dos elementos componentes das demonstrações financeiras, amparase nos Princípios e Normas Contábeis, nos termos do art. 177 da Lei nº 6.404/76 Lei das Sociedades Anônimas: Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. § 1º As demonstrações financeiras do exercício em que houver modificação de métodos ou critérios contábeis, de efeitos relevantes, deverão indicála em nota e ressaltar esses efeitos. § 2º A companhia observará exclusivamente em livros ou registros auxiliares, sem qualquer modificação da escrituração mercantil e das demonstrações reguladas nesta Lei, as disposições da lei tributária, ou de legislação especial sobre a atividade que constitui seu objeto, que prescrevam, conduzam ou incentivem a utilização de métodos ou critérios contábeis diferentes ou determinem registros, lançamentos ou ajustes ou a elaboração de outras demonstrações financeiras. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) I – (revogado); (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) II – (revogado). (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 3º As demonstrações financeiras das companhias abertas observarão, ainda, as normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários e serão obrigatoriamente submetidas a auditoria por auditores independentes nela registrados. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) § 4º As demonstrações financeiras serão assinadas pelos administradores e por contabilistas legalmente habilitados. §5º As normas expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários a que se refere o § 3o deste artigo deverão ser elaboradas em consonância com os padrões internacionais de contabilidade adotados nos principais mercados de valores mobiliários. (Incluído pela Lei nº 11.638,de 2007) § 6º As companhias fechadas poderão optar por observar as normas sobre demonstrações financeiras expedidas pela Comissão de Valores Mobiliários para as companhias abertas. (Incluído pela Lei nº 11.638,de 2007) § 7º (Revogado). (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) Fl. 3484DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.485 24 Ainda, no exercício da competência que lhe foi outorgada pela legislação societária, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) editou as Deliberações CVM nºs 575 e 597/2009, que aprovaram os CPC´s nºs 16 e 30, respectivamente, estabelecendo normas sobre a definição, o conteúdo e o alcance dos institutos de direito societário de sua competência, dentre eles o custo e a receita, e determinando que as bonificações e/ou descontos comerciais não integram a receita da entidade societária, pois se trata de redução de custos dos estoques. Portanto, as bonificações e/ou descontos comerciais obtidos pela entidade não compõem a receita da pessoa jurídica, devendo, inclusive, ser deduzidas da mesma para fins de composição das demonstrações financeiras. Nessa linha relacional, importa consignar que os artigos 1ºs das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, ao regularem as bases de cálculo do PIS e da COFINS, elegeramna como a totalidade das receitas de pessoa jurídica, independentemente de sua classificação contábil. Isso significa dizer que a tributação recairá sobre o que efetivamente se constitui como receita, e não sobre outra grandeza que a ela não se amolde em termos de definição, conteúdo e forma, interpretação esta que se faz em consonância com as diretrizes estabelecidas nos artigos 195, inciso I, alínea "a" e 239, ambos da Constituição Federal. Se, de um lado, a determinação contida nos arts. 1ºs das Leis nºs 10.637/02 e 10.833/03 de que a incidência das contribuições para o PIS e a COFINS darseá sobre a receita, independente da classificação contábil, visa inibir fraudes eventualmente praticadas pelos Contribuintes para mascarar valores tributáveis, de outro também se presta a impedir que haja a tributação de valores que não sejam efetivamente receita nos termos da Legislação Comercial. Na análise jurídica de cada lançamento da sociedade deverá prevalecer a essência sobre a forma, que, em outras palavras, significa averiguarse se aquela grandeza é ou não receita. A matéria vem sendo enfrentada no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, fazendose pertinente trazer a ementa e alguns trechos de decisão proferida em caso análogo ao dos presentes autos: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/10/1999 a 30/06/2004 COFINS. MERCADORIAS RECEBIDAS EM BONIFICAÇÃO. NÃOINCIDÊNCIA. O recebimento de mercadorias em bonificação implica mera redução do respectivo custo unitário de aquisição. Redução de custo não equivale a receita e, portanto, não pode ser fato Fl. 3485DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.486 25 gerador da COFINS, nem mesmo após a vigência da EC nº 20/98. Recurso Provido. Trechos do acórdão de relatoria do nobre Conselheiro Marcos Tranchesi Ortiz, que embora trate apenas de bonificações recebidas em mercadorias, deixa claro que o tratamento jurídico equiparase ao fenômeno dos descontos obtidos pelo comprador do fornecedor, também discutido nos presentes autos: [...] A questão reside em saber se mercadorias recebidas como bonificação consideramse receitas para os fins das Leis n as 9318/98 e 10,833/03. A bonificação consiste em uma política de relacionamento comercial pela qual o fornecedor entrega ao adquirente uma quantidade de itens do produto vendido maior do que a quantidade contratada, sem acréscimo do preço total. Tal se dá como forma de estimular a fidelização entre as partes, de reconhecer a relevância da compra realizada pelo adquirente, enfim, de cultivar e fomentar a relação com um parceiro comercial qualquer. Tratase, a meu ver, de fenômeno de idêntica natureza jurídica a do desconto obtido. Neste, o fornecedor mantém a quantidade vendida, mas reduz o preço total (portanto, ajustase o fator "preço"). Nas bonificações, o fornecedor mantém o preço, mas aumenta a quantidade vendida (portanto, ajustase o fator "quantidade"). Numa e noutra hipóteses, a ocorrência relevante é a mesma: a redução do valor unitário do produto adquirido no âmbito de um mesmo negócio jurídico. E eis o fundamental redução de custo não equivale a geração de receita. A confusão conceitual entre redução de custo e receita não trazia maiores distorções quando apenas o resultado da pessoa jurídica era tributado. Nesse ambiente, era mesmo indiferente considerar um desconto obtido como receita ou como estorno de custo, pois qualquer desses lançamentos — receita e estorno — repercutiria igualmente na apuração do resultado tributável. Contudo, no momento em que, com a edição da EC n° 20/98, a receita passa a ser uma grandeza econômica elegível como base imponível autônoma, então a distinção rigorosa entre esses dois fenômenos tornase imperiosa. Nesse sentido, o alerta de Hugo de Brito Machado: "Agora, porém, como existem contribuições que incidem sobre a receita bruta, tornouse da maior relevância a adequada identificação dos descontos obtidos dos fornecedores de bens ou Fl. 3486DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.487 26 serviços, posto que se escriturar esses descontos como redução de custos evita que os valores respectivos integrem a base de cálculo daquelas contribuições" (Os descontos obtidos e a base de cálculo das contribuições Pis/Cofins, in RDDT n" 134, p.45). Marco Aurélio Greco também enfatiza a necessidade de distinção teórica entre redução de custo e receita, considerando que apenas a segunda materialidade constitui base possível das contribuições securitárias: "Ou seja, não está abrangido pela competência constitucional o conjunto formado por aquelas figuras que digam respeito a despesas da pessoa jurídica (.) O conceito constitucional também não alcança aquelas eventualidades que interfiram com as despesas para diminuí las" (Cofins na Lei 9.718/98 — Variações cambiais e regime de alíquota acrescida, in RDDT nº 50, p. 130) Ainda se disputa na doutrina o alcance semântico do termo receita, por exemplo, se o ganho deve ou não decorrer da atividade produtiva do sujeito. Mas não parece haver dúvida quanto à necessidade de que o sujeito perceba um ingresso de recursos, financeiros em sua esfera patrimonial. Nesse sentido, as definições concebidas, respectivamente, por Geraldo Ataliba, José Souto Maior Borges e José Antonio Minatel: "O conceito de receita referese a uma entrada. Entrada é todo dinheiro que ingressa nos cofres de determinada entidade. Nem toda entrada é receita. Receita é a entrada que passa a pertencer à entidade" (in ISS — Base Imponível. Estudos e pareceres de direito tributário, 1' vol. São Paulo: RT, 1978, p. 85)" "Para a receita total vigora, então, um critério material e substancial infraconstitucional — é o ingresso efetivo de dinheiro ou 'variações positivas' no patrimônio das empresas, é dizer: decorrentes ou não dos seus resultados operacionais" (As contribuições sociais (Pis/Cofins) e a jurisprudência do STF, in RDDT n" 118, p. 80). "Anunciamos ser receita [_] o ingresso de recursos financeiros no patrimônio da pessoa jurídica, em caráter definitivo proveniente dos negócios jurídicos que envolvam o exercício da atividade empresarial, que corresponda à contraprestação pela venda de mercadorias. " (in Conteúdo do conceito jurídico de receita. São Paulo MP Editora, 200,5, p, 124). Pois os eventos redutores de custos se afastam do conceito de receita já por lhes faltarem esse requisito essencial à figura. [...] Enfim, as mercadorias recebidas em bonificação não repercutem na base imponível da contribuição ao PIS e da COFINS no momento em que são recebidas, mas sim quando, posteriormente, são vendidas, proporcionando o ingresso de recursos financeiros representado pelo preço da venda. [...] Por tudo isso, entendo que as mercadorias recebidas como bonificações não integram a base de cálculo de PIS e de COFINS. [...] Fl. 3487DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.488 27 O precedente acima corrobora os argumentos expendidos nesse voto. Embora trate de bonificação em mercadorias, o regime jurídico aplicável é o mesmo dos descontos comerciais, pois ambos são tratados nos CPC´s nºs 16 e 30, referendados pelas Deliberações CVM nºs 575 e 597/2009, respectivamente, além de conterem na sua essência o fato do vendedor oferecer vantagem ao comprador para incrementar as vendas, preenchendo o conceito de bonificação. Tal conceito foi reconhecido pela própria Administração Tributária no Parecer CST/SIPR nº 1.386/1982 e na IN SRF nº 51/78, nos quais está consignado que as bonificações e os descontos comerciais são vantagens ofertadas pelo vendedor ao comprador. Independente da forma como se der a vantagem (bonificação ou desconto comercial) entrega de mercadoria, em moeda para rebaixe de preço ou em desconto na duplicata a vencer estáse diante de redução de custos de aquisição de produtos, não havendo de se falar em ingresso de recursos novos no caixa da pessoa jurídica. Assim, nos termos da legislação comercial, não se constituem em receita, mas apenas reduzem o custo de aquisição do estoque naquela relação comercial que o varejista mantém com o fornecedor, possibilitando ao adquirente adotar medidas que fomentem a venda daqueles bem, sendo atrativo também ao fornecedor que terá maior volume de vendas. Nesse diapasão, os contratos celebrados entre a ora Recorrente e os seus fornecedores, que prevêem regras para aumento das vendas, atendem a objetivos mútuos das partes. São nítidos acordos comerciais que estabelecem regaras para o preenchimento de condições (ou não) para a obtenção de descontos e/ou bonificações (ou não) em operações comerciais, não havendo prestação de serviços de uma parte a outra, ou mesmo previsão de penalidade do Sujeito Passivo a ser aplicada ao fornecedor se cometer alguma infração. São instrumentos jurídicos que tratam de redução de custos, não se enquadrando no conceito de receitas. Prosseguindose, dos termos contratuais, notase haver a concessão dos descontos comerciais e/ou bonificações se atendidos os requisitos ali estabelecidos. A sistemática adotada nos contratos enquadrase no conceito de bonificações ou descontos comerciais, os quais não estão abrangidos pelo conceito de receitas, mas delas devem ser deduzidos por serem redutores de estoque, tudo conforme disposto no art. 177 da Lei nº. 6.404/76, nos CPC´s nºs 16 e 30 e nas Deliberações CVM nºs 575 e 597/2009. De outro lado, é sabido que somente os descontos incondicionais são excluídos por lei das bases de cálculo do PIS e da COFINS, e não há pretensão de que ali também sejam incluídas as bonificações e/ou descontos comerciais. Pretendese, outrossim, afastar da tributação pelo PIS e COFINS grandezas que não são definidas como receitas pela própria legislação comercial, Fl. 3488DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.489 28 estando, inclusive, excluídas do seu âmbito de incidência pelo próprio caput dos arts. 1ºs das Leis nºs 10.637/02 e 10.833/03, pela sua natureza de redução de custos do estoque. Sob o ponto de vista econômico, o registro contábil das bonificações e/ou descontos comerciais como redutores de custo não acarreta prejuízos à arrecadação tributária, importando apenas na postergação da tributação sobre a vantagem comercial que o comerciante obteve junto ao fornecedor, isso porque quando se der a venda das mercadorias, pelo preço final, a diferença entre a compra por um preço mais baixo e o preço de venda, aumentará o valor agregado, sobre o qual se dará a tributação. Concluise que: (i) os contratos entabulados pela Recorrente com os seus fornecedores, por serem lícitos e livremente pactuados pelas partes, devem ter seus efeitos preservados pelo ordenamento jurídico; (ii) o conteúdo econômico dos referidos pactos consiste na redução de custos dos produtos adquiridos pelo Sujeito Passivo e decorrência dos acordos, não podendo subsistir a autuação para incidência de PIS e COFINS sobre montantes que não são receitas da pessoa jurídica e (iii) as bonificações e os descontos comerciais não possuem natureza jurídica de receita e, por isso, não devem ser tributados pelo PIS e pela COFINS na sistemática nãocumulativa. Na eventualidade de não se admitir os descontos e/ou bonificações pactuados pelo Sujeito Passivo com seus fornecedores como simples redutores de custo de estoque, a autuação não subsiste pois os mesmos caracterizarseiam como descontos incondicionais. Nesse ponto, pertinente transcreverse parte do bem lançado voto da Ilustre Conselheira Tatiana Midori Migiyama, proferido nos autos do processo administrativo nº 10480720722201062, que passa a integrar as presentes razões de decidir: [...] Eis que, no que tange aos descontos incondicionais, temse em síntese que, se assim forem considerados, devem ser registrados como parcelas redutoras do preço de vendas: Não compondo, portanto, a receita bruta da pessoa jurídica vendedora; Constituindo redutor do custo de aquisição para a pessoa jurídica adquirente dos bens. Dessa forma, a correta conceituação dos descontos como condicionais ou incondicionais tornase crucial para o direcionamento tributário. Nessa seara, notase que, para que seja definido o desconto como desconto incondicional, devese observar se a sua Fl. 3489DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.490 29 concessão é dependente de evento posterior, sendo concedido independentemente de qualquer condição ou situação. Ou seja, se para a sua concessão, não houve obrigatoriedade de o adquirente praticar qualquer ato subsequente ao da compra dos bens. Ademais, é de se insurgir também, independentemente de os descontos incondicionais não comporem a receita bruta da pessoa jurídica, de que os descontos incondicionais não integram a base de cálculo das contribuições, nos termos do art. 1º, § 3º, inciso V, alínea “a”, da Lei 10.637/02 e art. 1º, §3º, inciso V, alínea “a”, da Lei 10.833/03, da pessoa jurídica vendedora. E, por conseguinte, para a pessoa jurídica adquirente dos bens ou serviços, constituiriam parcela redutora do custo de aquisição, não configurando em sua natureza como receita. Nesse sentido, cabe destacar o entendimento da Solução de Consulta nº 130, de 3 de maio de 2012, da SRRF 8ª Região Fiscal/SP (D.O.U. de 26.06.2012): “Assunto: Contribuição para o PIS/PASEP BASE DE CÁLCULO DO TRIBUTO. BONIFICAÇÕES EM MERCADORIAS VINCULADAS A OPERAÇÃO DE VENDA. As bonificações em mercadorias, quando vinculadas à operação de venda, concedidas na própria Nota Fiscal que ampara a venda, e não estiverem vinculadas à operação futura, por se caracterizarem como redutoras do valor da operação, constituemse em descontos incondicionais, previstos na legislação de regência do tributo como valores que não integram a sua base de cálculo e, portanto, para sua apuração, podem ser excluídos da base cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep. BASE DE CÁLCULO. BONIFICAÇÕES EM MERCADORIAS A TÍTULO GRATUITO, DESVINCULADAS DE OPERAÇÃO DE VENDA. A base de cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep e definida legalmente como o valor do faturamento, entendido este como o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil. Nos casos em que a bonificação em mercadoria é concedida por liberalidade da empresa vendedora, sem vinculação a operação de venda e tampouco vinculada a operação futura, não há como caracterizála como desconto incondicional, pois não existe valor de operação de venda a ser reduzido. Por não haver atribuição de valor, pois que a Nota Fiscal que acompanha a operação tem natureza de gratuidade, natureza jurídica de doação, não há receita e, portanto, não há que se falar em fato gerador do tributo, pois a receita bruta não será auferida. Fl. 3490DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.491 30 Dessa forma, a bonificação em mercadorias, de forma gratuita, não integra a base de cálculo da Contribuição para o PIS/Pasep. Dispositivos Legais: Artigo 195 da CF/88; Artigo 1º Lei nº 10.637, de 2002 e Parecer CST/SIPR nº 1.386, de 1982.” Não obstante aos critérios jurídicos a serem observados para o enquadramento do desconto como incondicional, proveitoso trazer que a Receita Federal do Brasil condiciona o referido enquadramento, à descrição desse desconto na nota fiscal de venda dos bens ou fatura de serviços independentemente de serem concedidos sem a dependência de evento posterior à emissão de nota fiscal. Tal condicionamento ao enquadramento como desconto incondicional está refletido na IN SRF 51/78 que traz expressamente que “são considerados descontos ou abatimentos incondicionais as parcelas redutoras do preço de venda, quando constarem da nota fiscal de venda dos bens ou da fatura de serviços e não dependerem, para sua concessão, de evento posterior à emissão desses documentos.” Porém, independentemente do condicionamento dado pela Receita Federal do Brasil de que, para serem enquadrados como incondicionais deverão descrever os descontos em notas fiscais, é de se constatar que o evento jurídico puro, sem contaminação, outorga a caracterização do desconto como condicional ou não – sem a remissão da vinculação e descrição do desconto em nota fiscal do bem adquirido, apenas refletindo a não dependência a evento posterior à emissão desses documentos. Tanto é assim, que a própria legislação – Lei 10.833/03 e Lei 10.637/02 também são omissas quanto à observância dessa condição ao disporem que o desconto incondicional está excluído da base de cálculo do PIS e da Cofins. É de se lembrar ainda que a LC 87/96 – que dispõe sobre o ICMS, traz somente que não seria base de cálculo desse imposto os descontos concedidos sob condição – não fazendo nenhuma vinculação à descrição da nota fiscal. Tanto é assim que em 2010, a 1ª turma do STJ havia aprovado súmula determinando que os descontos incondicionais concedidos nas atividades comerciais não se incluem na base de cálculo do ICMS – não trazendo também qualquer condição à descrição na nota fiscal para exclusão da base de cálculo desse tributo. Sabese que os dizeres da Súmula 57 contempla expressamente que “Os descontos incondicionais nas operações mercantis não se incluem na base de cálculo do ICMS”. E que tal Súmula teve como motivação o decidido, sob o rito de recurso repetitivo, em REsp 1.111.156/SP de relatoria do Ministro Humberto Martins assim ementado (Grifos Meus): “TRIBUTÁRIO – ICMS – MERCADORIAS DADAS EM BONIFICAÇÃO – ESPÉCIE DE DESCONTO Fl. 3491DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.492 31 INCONDICIONAL – INEXISTÊNCIA DE OPERAÇÃO MERCANTIL – ART. 13 DA LC 87/96 – NÃO INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DO TRIBUTO. 1. A matéria controvertida, examinada sob o rito do art. 543C do Código de Processo Civil, restringese tãosomente à incidência do ICMS nas operações que envolvem mercadorias dadas em bonificação ou com descontos incondicionais; não envolve incidência de IPI ou operação realizada pela sistemática da substituição tributária. 2. A bonificação é uma modalidade de desconto que consiste na entrega de uma maior quantidade de produto vendido em vez de conceder uma redução do valor da venda. Dessa forma, o provador das mercadorias é beneficiado com a redução do preço médio de cada produto, mas sem que isso implique redução do preço do negócio. 3. A literalidade do art. 13 da Lei Complementar n. 87/96 é suficiente para concluir que a base de cálculo do ICMS nas operações mercantis é aquela efetivamente realizada, não se incluindo os "descontos concedidos incondicionais". 4. A jurisprudência desta Corte Superior é pacífica no sentido de que o valor das mercadorias dadas a título de bonificação não integra a base de cálculo do ICMS. 5. Precedentes: AgRg no REsp 1.073.076/RS, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 25.11.2008, DJe 17.12.2008; AgRg no AgRg nos EDcl no REsp 935.462/MG, Primeira Turma, Rel. Min. Francisco Falcão, DJe 8.5.2008; REsp 975.373/MG, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 15.5.2008, DJe 16.6.2008; EDcl no REsp 1.085.542/SP, Rel. Min. Denise Arruda, Primeira Turma, julgado em 24.3.2009, DJe 29.4.2009. Recurso especial provido para reconhecer a nãoincidência do ICMS sobre as vendas realizadas em bonificação. Acórdão sujeito ao regime do art. 543C do Código de Processo Civil e da Resolução 8/2008 do Superior Tribunal de Justiça.” Frisese ainda o resultado da discussão acerca da natureza dos descontos envolvendo PIS e Cofins no STJ, dado em Agravo em Recurso Especial 556050 RS 2014/01878520 sob a relatoria do Ministro Herman Benjamin (Grifos meus): “DECISÃO Tratase de Agravo contra inadmissão de Recurso Especial (art. 105, III, "a", da CF) interposto contra acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região assim ementado: TRIBUTÁRIO. PIS E COFINS. DESCONTOS INCONDICIONAIS. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO. PERÍCIA CONTÁBIL. Fl. 3492DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.493 32 O desconto incondicional é aquele concedido independente de qualquer condição futura, ou seja, não é necessário que o adquirente pratique ato subsequente ao de compra para a fruição do benefício. A exclusão dos descontos incondicionais concedidos a seus clientes da base de cálculo do PIS e da COFINS tem previsão legal tanto no regime comum de apuração do PIS e da COFINS, quanto na sistemática da nãocumulatividade (art. 3º, § 2º, inc. I, da Lei nº 9.718/98 e art. 1º, § 3º, inc. V, a, das Leis nº 10.637/03 e 10.833/03). No caso, restou demonstrado, por intermédio de perícia contábil, que as vendas realizadas pela parte autora foram abrangidas pela concessão de descontos, bem como a inexistência de imposição de condição para concessão da bonificação ora discutida aos seus clientes. Logo, os valores relativos aos descontos incondicionais concedidos aos seus clientes merecem ser excluídos da base de cálculo do PIS e da COFINS. Os Embargos de Declaração foram acolhidos em parte, somente para fins de prequestionamento (fl. 1834). A recorrente, nas razões do Recurso Especial, sustenta que ocorreu violação do art. 535, II, do CPC, do art. 123 do CTN, do art. 3º, § 2º, I, da Lei 9.718/98, do art. 1º, § 3º, V, alínea "a", das Leis 10.637/2003 e 10.833/2003. Alega, em síntese: Todavia, entende a Fazenda Nacional, com base na IN SRF 51/78, que se faz necessário o preenchimento de dois requisitos para a configuração de “descontos incondicionais”, a saber: a) que o desconto conste na nota fiscal e b) que não dependa de evento posterior à emissão desta. (...) Ora, relativamente ao requisito de constar o desconto concedido pela autora. Nesse sentido, vale, inclusive, destacar trecho do que consta da petição inicial: (...) Os fatos no caso em apreço são claros: a autora não destacou os referidos descontos incondicionais nas notas fiscais; celebrou contratos com os seus clientes para a concessão de tais descontos, ficando estes, obviamente, vinculados à pontualidade dos pagamentos das duplicatas emitidas na negociação, caso contrário não incidiriam. Bem observadas as respostas do perito judicial, é exatamente essa a conclusão que se extrai. (fls. 1843 1850, eSTJ) Contraminuta apresentada às fls. 18971906, eSTJ. É o relatório. Fl. 3493DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.494 33 Decido. Constato que não se configura a ofensa ao art. 535 do Código de Processo Civil, uma vez que o Tribunal de origem julgou integralmente a lide e solucionou a controvérsia, tal como lhe foi apresentada. Não é o órgão julgador obrigado a rebater, um a um, todos os argumentos trazidos pelas partes em defesa da tese que apresentaram. Deve apenasenfrentar a demanda, observando as questões relevantes e imprescindíveis à sua resolução. Nesse sentido: REsp 927.216/RS, Segunda Turma, Relatora Ministra Eliana Calmon, DJ de 13/8/2007; e REsp 855.073/SC, Primeira Turma, Relator Ministro Teori Albino Zavascki, DJ de 28/6/2007. O acórdão recorrido consignou: A parte autora sustenta que, inobstante conceda desconto incondicional no preço dos produtos, emite as notas fiscais de venda das mercadorias com seu valor integral, constando tais descontos nos documentos de cobrança por ela emitidos (duplicatas de compra e venda mercantil, boletos bancários, etc.). Defende que os valores constantes nesses últimos documentos de cobrança são os que correspondem aos ingressos de receitas ao seu patrimônio e, consequentemente, base de cálculo para cobrança do PIS e da Cofins. O desconto incondicional é aquele concedido independente de qualquer condição futura, ou seja, não é necessário que o adquirente pratique ato subsequente ao de compra para a fruição do benefício. A exclusão dos descontos incondicionais concedidos a seus clientes da base de cálculo do PIS e da COFINS tem previsão legal tanto no regime comum de apuração do PIS e da COFINS, quanto na sistemática da nãocumulatividade (art. 3º, § 2º, inc. I, da Lei nº 9.718/98 e art. 1º, §3º, inc. V, a, das Leis nº 10.637/03 e 10.833/03). Frisase que, como bem observado pela magistrada a quo, inexiste controvérsia acerca do direito material, qual seja, a possibilidade de exclusão da base de cálculo da contribuição ao PIS e da COFINS dos valores relativos aos descontos incondicionais. O Fisco, valendose da legislação aplicável ao imposto de renda (IN n.º 51/78), entende necessário o preenchimento de dois requisitos: que o desconto conste na nota fiscal e que não dependa de evento posterior à emissão desta. Importante ressaltar que não há qualquer óbice a que se utilize, subsidiariamente, a referida legislação, uma vez que compatível com as contribuições ora discutidas. Fl. 3494DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.495 34 Relativamente ao requisito de constar o desconto concedido expressamente na nota fiscal, tenho que a questão restou superada quando do julgamento da apelação anterior, na qual se anulou a sentença para possibilitar a apresentação de outras provas para demonstrar a concessão dos descontos incondicionais, tais como duplicatas, boletos bancários, etc., nas quais se pudesse aferir os valores efetivamente cobrado nas operações de compra e venda. Com efeito, o preenchimento incorreto ou lacunoso das notas fiscais não obsta o reconhecimento dos descontos em questão, bastando a comprovação de que estão vinculados a uma operação onerosa. Nesse sentido leciona Roque Antônio Carraza (CARRAZA, Roque Antônio. ICMS. 8ª. ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p.110) em caso análogo: Podem, portanto, as empresas recuperar os créditos de ICMS correspondentes ao valor das mercadorias bonificadas ainda que a vantagem dada aos adquirentes tenha sido documentada em notas fiscais em separado. Basta, apenas, que tenham como comprovar que as bonificações estão vinculadas a operações de vendas mercantis efetivamente realizadas. [..] Logo, impõese a reforma da sentença para reconhecer o direito da parte autora de excluir da base de cálculo do PIS e da COFINS os valores relativos aos descontos incondicionais concedidos aos seus clientes, bem como para reconhecer o seu direito à restituição dos valores recolhidos indevidamente nos 5 (cinco) anos que precederam o ajuizamento da ação. (Fls. 18071.809, eSTJ) [...]” Com efeito, essa decisão clarificou que a caracterização do desconto como incondicional, inclusive para fins de PIS e Cofins, não deve estar condicionada, tal como entende a autoridade fazendária, a descrição do referido desconto na nota fiscal de aquisição dos bens, vez que considerou ilegal a IN 51/78. Sendo assim, se os descontos incondicionais juridicamente se enquadrarem como tais, independentemente da descrição na nota fiscal, é de se permitir a exclusão da base de cálculo das contribuições para a pessoa jurídica vendedora e, por conseguinte, considerar como parcela redutora do custo de aquisição para a adquirente. Para o adquirente devese considerar o desconto incondicional como parcela redutora do custo de aquisição, em respeito também ao item 11 da Resolução CFC nº 1170/2009: “O custo de aquisição dos estoques compreende o preço de compra, os impostos de importação e outros tributos (exceto os Fl. 3495DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.496 35 Em linha eventual, para a hipótese de ser interpretar que os descontos obtidos ou as bonificações recebidas como crédito em conta seriam receitas, o que destoa da legislação comercial e tributária, devese abordar se podem ser considerados como receitas financeiras e, como tal, sujeitos à alíquota zero das contribuições do PIS e da COFINS. Nesse raciocínio, são compreendidos somente os descontos comerciais veiculados sob a forma de "descontos obtidos", não sendo possível a aplicação para as mercadorias bonificadas. Se os descontos obtidos fossem receitas, deveriam ser enquadrados como recuperáveis perante o fisco), bem como os custos de transporte, seguro, manuseio e outros diretamente atribuíveis à aquisição de produtos acabados, materiais e serviços. Descontos comerciais, abatimentos e outros itens semelhantes devem ser deduzidos na determinação do custo de aquisição”. receitas financeiras, sujeitas à alíquota zero das contribuições ao PIS e à COFINS. Para serem caracterizados os descontos como receitas financeiras basta que seja concedido um abatimento no preço a pagar de uma obrigação futura, independentemente do motivo, não sendo necessário que decorra de uma obtenção de desconto pelo cálculo de um "juro negativo". A legislação do imposto de renda pessoa jurídica, por meio do art. 373 do RIR/99, conceitua receita financeira nos seguintes termos: Receita Art. 373. Os juros, o desconto, o lucro na operação de reporte e os rendimentos de aplicações financeiras de renda fixa, ganhos pelo contribuinte, serão incluídos no lucro operacional e, quando derivados de operações ou títulos com vencimento posterior ao encerramento do período de apuração, poderão ser rateados pelos períodos a que competirem. Nos termos do dispositivo legal citado, não só os juros, mas também os descontos são considerados como receitas financeiras, e assim para aqueles que entenderem se constituírem os descontos obtidos em receitas, no caso devese qualificar os abatimentos recebidos como receitas financeiras, e, como tal, sujeitos à alíquota zero das contribuições conforme Decreto nº 5.146/2004, vigente no período de 30.7.04 até 9.5.05 e no Decretonº 5.442/05 (que revogou o Decreto 5.164/04) – vigente no período de 9.5.05, produzindo efeitos até 1º.7. 15. Ora, tendo em vista que o presente caso envolve o período de apuração de 01/01/2008 a 31/12/2009, devese considerar as disposições dos Decretos acima referidos. Segue abaixo transcrição dos termos do Decreto 5.164/04, publicado no DOU de 30.7.04: Fl. 3496DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.497 36 “Art. 1o Ficam reduzidas a zero as alíquotas da Contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS incidentes sobre as receitas financeiras auferidas pelas pessoas jurídicas sujeitas ao regime de incidência nãocumulativa das referidas contribuições. Parágrafo único. O disposto no caput não se aplica às receitas financeiras oriundas de juros sobre capital próprio e as decorrentes de operações de hedge. Art. 2º O disposto no art. 1º aplicase, também, às pessoas jurídicas que tenham apenas parte de suas receitas submetidas ao regime de incidência nãocumulativa. Art. 3o Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação, produzindo efeitos a partir de 2 de agosto de 2004. Brasília, 30 de julho de 2004; 183º da Independência e 116º da República. Este texto não substitui o publicado no DOU de 30.7.2004 Edição Extra” Transcrevese, ainda, o teor do Decreto nº 5.442/05, que revogou o Decreto 5.164/04: “Art. 1º Ficam reduzidas a zero as alíquotas da Contribuição para o PIS/PASEP e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS incidentes sobre as receitas financeiras, inclusive decorrentes de operações realizadas para fins de hedge, auferidas pelas pessoas jurídicas sujeitas ao regime de incidência não cumulativa das referidas contribuições. Parágrafo único. O disposto no caput: I não se aplica aos juros sobre o capital próprio; II aplicase às pessoas jurídicas que tenham apenas parte de suas receitas submetidas ao regime de incidência nãocumulativa da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS. Art. 2º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação, produzindo efeitos a partir de 1o de abril de 2005. Art. 3º Fica revogado o Decreto no 5.164, de 30 de julho de 2004, a partir de 1º de abril de 2005. Brasília, 9 de maio de 2005; 184o da Independência e 117o da República. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA Antonio Palocci Filho Este texto não substitui o publicado no DOU de 9.5.2005 Edição extra.” Fl. 3497DF CARF MF Processo nº 11080.735231/201253 Acórdão n.º 9303008.247 CSRFT3 Fl. 3.498 37 Com tais dispositivos, tornase claro também que se não fossem enquadrados como desconto incondicional – deveriam ser tratados, a rigor, como receita financeira. O que, em respeito à sistemática do PIS e Cofins observada pelo sujeito passivo, no presente caso, considerando o período em discussão, devese aplicar a alíquota zero dessas contribuições às referidas receitas financeiras. No entanto, entendese superado este aspecto, pois que, como já explicitado, no caso em concreto, as vantagens obtidas pela Recorrente caracterizamse como “redução de custos”, devendo assim ser tratadas pelo Direito Tributário. [...] Diante do exposto, deuse provimento ao recurso especial da Contribuinte, divergindose do I. Relator tão somente com relação a esse ponto; e deuse provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional, com base nos mesmos fundamentos do voto do Relator. É o Voto. (assinado digitalmente) Vanessa Marini Cecconello Fl. 3498DF CARF MF
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