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Numero do processo: 12267.000198/2008-45
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 04 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Jun 24 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Período de apuração: 01/08/2000 a 30/09/2002
RECURSO DE OFÍCIO. INADMISSIBILIDADE. INFERIOR AO VALOR DE ALÇADA. NÃO CONHECIMENTO.
O recurso de ofício não preenche condições de admissibilidade, posto que, não atinge o valor de alçada, hoje fixado em R$ 2.500.000,00 pela Portaria MF nº 63, de 09 de fevereiro de 2017.
ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS
Período de apuração: 01/10/2002 a 30/09/2006
CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. SEGURO DE VIDA COLETIVO. PARECER PGFN/CRJ N° 2119/2011 APROVADO PELO MINISTRO DA FAZENDA. ART. 62, §1°, II, C, DO RICARF.
Não incide contribuição previdenciária sobre valor pago a título de seguro de vida em grupo, independentemente da existência ou não de convenção ou acordo coletivo de trabalho.
Os membros das turmas de julgamento do CARF devem observar em suas decisões a existência de dispensa legal de constituição ou Ato Declaratório da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda, autorizando a dispensa de apresentação de contestação, de interposição de recursos e a desistência dos já interpostos.
Numero da decisão: 2201-005.166
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício, em razão do limite de alçada. Quanto ao recurso voluntário, por unanimidade de votos, em dar-lhe provimento.
(documento assinado digitalmente)
Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Daniel Melo Mendes Bezerra, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Francisco Nogueira Guarita, Douglas Kakazu Kushiyama, Débora Fófano Dos Santos, Sávio Salomão de Almeida Nóbrega, Marcelo Milton da Silva Risso e Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente)
Nome do relator: RODRIGO MONTEIRO LOUREIRO AMORIM
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INADMISSIBILIDADE. INFERIOR AO VALOR DE ALÇADA. NÃO CONHECIMENTO. O recurso de ofício não preenche condições de admissibilidade, posto que, não atinge o valor de alçada, hoje fixado em R$ 2.500.000,00 pela Portaria MF nº 63, de 09 de fevereiro de 2017. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/10/2002 a 30/09/2006 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. SEGURO DE VIDA COLETIVO. PARECER PGFN/CRJ N° 2119/2011 APROVADO PELO MINISTRO DA FAZENDA. ART. 62, §1°, II, C, DO RICARF. Não incide contribuição previdenciária sobre valor pago a título de seguro de vida em grupo, independentemente da existência ou não de convenção ou acordo coletivo de trabalho. Os membros das turmas de julgamento do CARF devem observar em suas decisões a existência de dispensa legal de constituição ou Ato Declaratório da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda, autorizando a dispensa de apresentação de contestação, de interposição de recursos e a desistência dos já interpostos. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício, em razão do limite de alçada. Quanto ao recurso voluntário, por unanimidade de votos, em dar-lhe provimento. (documento assinado digitalmente) Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Presidente (documento assinado digitalmente) Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim - Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 26 7. 00 01 98 /2 00 8- 45 Fl. 260DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 2201-005.166 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12267.000198/2008-45 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Daniel Melo Mendes Bezerra, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Francisco Nogueira Guarita, Douglas Kakazu Kushiyama, Débora Fófano Dos Santos, Sávio Salomão de Almeida Nóbrega, Marcelo Milton da Silva Risso e Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente) Relatório Cuida-se de Recurso Voluntário de fls. 224/228, interposto contra decisão da DRJ no Rio de Janeiro I/RJ, de fls. 178/189, que julgou procedente em parte o lançamento de contribuições previdenciária parte patronal, SAT/RAT e para terceiros (DEBCAD nº 37.123.001-2) incidente sobre o seguro de vida coletivo (Levantamento SEG), conforme auto de infração de fls. 2/42, consolidado em 22/10/2007, relativo às competências de 08/2000 a 09/2006, com ciência da RECORRENTE em 23/10/2007, conforme assinatura no auto de infração à fl. 2. O crédito tributário objeto do presente processo administrativo foi apurado no valor de R$ 4.097.144,29, já inclusos juros de mora (até o mês da lavratura) e multa de mora no percentual de 30%. Foi também lavrada a multa pela apresentação de GFIPs com dados não correspondentes aos fatos geradores de todas as contribuições previdenciárias (art. 32, §5º, da Lei nº 8.212/91 – CFL 68), a qual é objeto do processo nº 12267.000199/2008-90 (DEBCAD nº 37.123.005-5). De acordo com o Relatório Fiscal acostado às fls. 49/52, a RECORRENTE excluiu do Salário-de-Contribuição o montante referente ao Seguro de Vida pago aos empregados sem previsão nos acordos coletivos de trabalho, presentes na conta “616.101.2100- 020 – Seguro de Vida Acidentes Pessoais” escriturada no livro razão do contribuinte. Nos termos da fiscalização, estes valores apenas não integrariam o salário de contribuição caso fossem pagos em cumprimento a acordo ou convenção coletiva de trabalho, nos termos do art. 214, §9º, XXV, do Decreto nº 3.048/1999. Os valores indevidamente recolhidos, presentes na conta “616.101.2100-020 - Seguro de Vida Acidentes Pessoais” estão acostados nas planilhas de fls. 53/117. A fiscalização afirmou que “nesta conta eram lançadas as despesas com os pagamentos das faturas emitidas pelas seguradoras, bem como as parcelas a cargo dos empregados. Constituíam despesas a cargo da empresa a diferença entre os valores escriturados como ‘Entrada de faturas seguro vida grupo ac. como Ref' e os escriturados como ‘A prop. Prov Folha’, que se referem a parcela a cargo dos empregados”. Destaca-se que, em razão da flutuação dos pagamentos presentes nesta conta contábil, a fiscalização solicitou que o RECORRENTE apresentasse um discriminativo dos valores mensais pagos relativos a cada competência. Contudo, foi informado que não seria possível tal discriminação, razão pela qual o lançamento foi realizado tomando como base a média mensal das despesas, obtida utilizando-se o montante anual pago, conforme planilha abaixo: Fl. 261DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 2201-005.166 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12267.000198/2008-45 Da Impugnação Intimado pessoalmente do lançamento em 23/10/2007 (fl. 2), o RECORRENTE apresentou Impugnação de 124/131 em 22/11/2007. Ante a clareza e precisão didática do resumo da Impugnação elaborada pela DRJ no Rio de Janeiro I/RJ, adota-se, ipsis litteris, tal trecho para compor parte do presente relatório: 4. A Notificada impugnou as cobranças relativas a competências anteriores a janeiro de 2002, posto que já fulminadas pela decadência. 5 Alegou, ainda, a Notificada que: 5. No Supremo Tribunal Federal e Superior Tribunal de Justiça, foi consolidada jurisprudência reconhecendo a inconstitucionalidade dos arts. 45 e 46 da Lei n° 8.212/1991 e, por conseguinte, rejeitando o prazo decadencial de 10 (dez) anos para o lançamento das contribuições previdenciárias. Ambos os Tribunais entendem que o direito de lançar contribuições a Seguridade Social decai no prazo de 5 (cinco) anos, previsto no art. 173 do Código Tributário Nacional. Art. 173. O direito de a Fazendo Pública constituir o crédito tributário extingue- se após 5 (cinco) anos, contados: I — do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. 6. Argumenta a Notificada que: Possuem natureza salarial as verbas ou utilidades recebidas pelo empregado como retribuição pela execução de seu trabalho. Com o seguro de vida em grupo, ocorre exatamente o contrário, pois é pago, indistintamente, para todos os empregados da empresa, que nada usufruem desse valor pago. O beneficiário só receberá a indenização da seguradora quando cessar a capacidade laborativa pelo óbito ou invalidez permanente, ou seja, quando o empregado não mais disponibilizar seus serviços ao empregador. Assim reconhecem os Tribunais Regionais Federais, que possuem competência para julgar as ações relativas ás contribuições arrecadadas pelo INSS ... 7. Após transcrever jurisprudência do TRF da 3ª Região, a Notificada argui que a legislação trabalhista é cristalina quanto à natureza não salarial do seguro de vida em grupo, conforme previsão do art. 458, § 2°, da Consolidação das Leis do Trabalho: Art. 458. (.) Fl. 262DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 2201-005.166 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12267.000198/2008-45 § 2º Para os efeitos previstos neste artigo, não serão considerados como salário as seguintes utilidades concedidas pelo empregador: (.) V— seguros de vida e de acidentes pessoais 8. A Notificada argumentou ainda que a legislação previdenciária afasta, expressamente, a incidência de contribuição previdenciária sobre os valores pagos pelo empregador a titulo de seguro de vida para todos os empregados da empresa, nos termos do artigo 28, § 9°, letra "p": Art. 28 (..) § 9° Não integram o salário-de-contribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (-) p) o valor das contribuições efetivamente pago pela pessoa jurídica relativo a programa de previdência complementar, aberto ou fechado, desde que disponível a totalidade de seus empregados e dirigentes, observados, no que couber, os arts. 9° e 468 da CLT. 9. Segundo a Notificada, cabe destacar que o seguro de vida em grupo possui natureza de previdência complementar, por assegurar meio de manutenção ao beneficiário e sua família, em caso de incapacidade ou morte, nos termos do artigo 3° da Lei 8.212/1991. 10. Em seguida a Notificada colaciona decisões judiciais com o fim de demonstrar que o Superior Tribunal de Justiça possui jurisprudência consolidada no sentido da não incidência de contribuição previdenciária sobre os valores pagos pelo empregador a titulo de seguro de vida em grupo. 11. É o relatório. Da Decisão da DRJ Quando do julgamento do caso, a DRJ no Rio de Janeiro I/RJ, às fls. 178/189, julgou procedente em parte o lançamento, através de acórdão com a seguinte ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/08/2000 a 30/09/2006 Ementa: CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. SEGURO DE VIDA EM GRUPO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. Tratando-se de parcela cuja não incidência esteja condicionada ao cumprimento de requisitos previstos na legislação previdenciária, o pagamento em desacordo com a legislação de regência está sujeito A tributação. INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL Ê inconstitucional o artigo 45 da Lei n° 8.212/1991 que prevê o prazo de 10 anos para que a Seguridade Social apure e constitua seus créditos, por invadir area reservada à lei complementar, vulnerando, dessa forma, o artigo 146, III, b, da Constituição Federal. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DECADÊNCIA. Fl. 263DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 2201-005.166 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12267.000198/2008-45 A decadência do direito de apurar e constituir o crédito tributário previdenciário, no lançamento por homologação, se da em (05) cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador, nos termos do artigo 150, § 4°, do Código Tributário Nacional — CTN. Lançamento Procedente em Parte No mérito a DRJ reconheceu a procedência em parte da impugnação, entendendo pela decadência parcial do crédito previdenciário, no que se refere às competências de 08/2000 a 09/2002, pois aplicou ao caso a contagem do prazo estabelecida pelo art. 150, §4º, do CTN, já que “constam recolhimentos da Notificada em todas as competências que compõem o período de 08/2000 a 09/2002 (englobando as contribuições previdenciárias e de terceiros)” (fl. 185). Desta forma, excluiu os referidos valores do lançamento, conforme Discriminativo de Débito Retificado de fls. 165/177, o qual passou a corresponder ao valor de R$ 1.628.871,33, acrescido de juros (R$ 714.481,02) e multa moratória (R$ 488.661,33), correspondendo ao total de R$ 2.832.013,68. Em razão do exposto, a DRJ Recorreu de Ofício ao CARF. Do Recurso Voluntário A RECORRENTE, intimada da decisão da DRJ em 07/10/2009, conforme acompanhamento dos correios de fls. 194 (confirmada pela própria RECORRENTE à fl. 224), apresentou o Recurso Voluntário de fls. 224/228 em 03/11/2009. Em suas razões de recurso, o RECORRENTE reiterou o alegado em sua Impugnação aplicável à parte mantida do lançamento. Este recurso voluntário compôs lote, sorteado para este relator, em Sessão Pública. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Relator. O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos legais, razões por que dele conheço. DO RECURSO DE OFÍCIO Em face do acórdão proferido pela DRJ no Rio de Janeiro I/RJ houve Recurso de Ofício, uma vez que foi reconhecida a decadência de parte do crédito lançado, com a sua consequente exoneração. Preliminarmente devo apontar que o recurso de ofício não preenche condições de admissibilidade, posto que não atinge o valor de alçada, hoje fixado em R$ 2.500.000,00 pela Fl. 264DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 2201-005.166 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12267.000198/2008-45 Portaria MF nº 63, de 09 de fevereiro de 2017, tendo em vista que o valor do crédito tributário exonerado foi de R$ 1.265.130,61. Considerando que tal valor de alçada deve ser aferido na data de apreciação do recurso de ofício, consoante as disposições da Súmula CARF nº 103, não conheço do recurso de ofício interposto. DO RECURSO VOLUNTÁRIO Mérito Como visto no relatório, o débito em comento tem origem na ausência de recolhimento de contribuições previdenciárias sobre os valores pagos a título de seguro de vida em grupo. Nos termos do relatório fiscal (49/52), esses valores apenas não integrariam o salário de contribuição caso o seu pagamento fosse realizado em decorrência de acordo ou convenção coletiva de trabalho, nos termos do Decreto nº 3.048/1999, art. 214, §9º, XXV. Assim, considerando que a RECORRENTE não possuía nenhum acordo ou convenção coletiva de trabalho respaldando o pagamento de tais valores, foi lançado o auto de infração. Como cediço, o presente caso não merece maiores digressões. Isso porque, o Ato Declaratório nº 12/2011 (decorrente do Parecer PGFN/CRJ n° 2.119/11), emitido pela Procuradoria da Fazenda Nacional, autorizou a dispensa de apresentação de contestação e de interposição de recursos nas ações judiciais que discutam a incidência das contribuições sociais previdenciárias sobre o prêmio do seguro de vida em grupo contratado pelo empregador em favor de grupo de empregados, sem que haja a individualização do montante que beneficia a cada um deles: ATO DECLARATÓRIO Nº 12 /2011 A PROCURADORA-GERAL DA FAZENDA NACIONAL, no uso da competência legal que lhe foi conferida, nos termos do inciso II do art. 19, da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002, e do art. 5º do Decreto nº 2.346, de 10 de outubro de 1997, tendo em vista a aprovação do Parecer PGFN/CRJ/Nº 2119 /2011, desta Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, pelo Senhor Ministro de Estado da Fazenda, conforme despacho publicado no DOU de 09/12/2011, DECLARA que fica autorizada a dispensa de apresentação de contestação, de interposição de recursos e a desistência dos já interpostos, desde que inexista outro fundamento relevante: “nas ações judiciais que discutam a incidência de contribuição previdenciária quanto ao seguro de vida em grupo contratado pelo empregador em favor do grupo de empregados, sem que haja a individualização do montante que beneficia a cada um deles.” (...) Por força da aprovação do Ministro da Fazenda, tal entendimento foi ratificado perante o CARF, nos termos do art. 62, §1°, II, c, da Portaria MF n° 343/15, que aprovou o Regimento Interno deste CARF: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Fl. 265DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 2201-005.166 - 2ª Sejul/2ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 12267.000198/2008-45 § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: [...] II que fundamente crédito tributário objeto de: [...] c) Dispensa legal de constituição ou Ato Declaratório da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda, nos termos dos arts. 18 e 19 da Lei n° 10.522, de 19 de julho de 2002; Assim, como não poderia deixar de ser, é pacífico no CARF a aplicação do entendimento exarado pela Procuradoria no Parecer da PGFN/CRJ n° 2.119/11, conforme demonstra os julgados abaixo: CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. SEGURO DE VIDA COLETIVO. AUSÊNCIA DE ACORDO OU CONVENÇÃO COLETIVA DE TRABALHO. PARECER PGFN/CRJ N° 2119/2011 APROVADO PELO MINISTRO DA FAZENDA. ART. 62, §1°, II, C, DO RICARF. Não incide contribuição previdenciária sobre valor pago a título de seguro de vida em grupo, independentemente da existência ou não de convenção ou acordo coletivo de trabalho. Nos termos do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria/MF 343, de 2015, art. 62 §1°, inciso II, os membros das turmas de julgamento do CARF devem observar em suas decisões a existência de dispensa legal de constituição ou Ato Declaratório da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda, nos termos dos artigos 18 e 19 da Lei n° 10.522, de 19 de julho de 2002. (Acórdão nº 2201-004.797, 4/12/2018) CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. SEGURO DE VIDA COLETIVO. AUSÊNCIA DE ACORDO OU CONVENÇÃO COLETIVA DE TRABALHO. NÃO INCIDÊNCIA. PARECER PGFN/CRJ N. 2.119/2011 APROVADO PELO MINISTRO DA FAZENDA. ATO DECLARATÓRIO N. 12. ART. 62, § 1º, II, ALÍNEA "C", DO RICARF. Não incide contribuição previdenciária sobre valor pago à título de seguro de vida em grupo, independentemente da existência ou não de convenção ou acordo coletivo de trabalho. (Acórdão nº 2402-006.103, 4/4/2018) (Grifou-se) Ante o exposto, sem maiores considerações, voto por dar provimento ao recurso voluntário. CONCLUSÃO Em razão do exposto, voto por NÃO CONHECER do Recurso de Ofício, em razão do limite de alçada, e por DAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, nos termos do voto acima. (documento assinado digitalmente) Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim Fl. 266DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13210.720074/2018-70
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue May 21 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Jun 12 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2016
DEDUÇÕES. DESPESAS MÉDICAS.
É passível de dedução da base de cálculo do Imposto de Renda a despesa médica declarada e devidamente comprovada por documentação hábil e idônea.
Numero da decisão: 2002-001.069
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencida a conselheira Mônica Renata Mello Ferreira Stoll que lhe negou provimento.
(assinado digitalmente)
Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente e Relatora
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: CLAUDIA CRISTINA NOIRA PASSOS DA COSTA DEVELLY MONTEZ
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2016 DEDUÇÕES. DESPESAS MÉDICAS. É passível de dedução da base de cálculo do Imposto de Renda a despesa médica declarada e devidamente comprovada por documentação hábil e idônea.
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DEDUÇÕES. DESPESAS MÉDICAS. Recorrente ALBERTINO LOPES Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2016 DEDUÇÕES. DESPESAS MÉDICAS. É passível de dedução da base de cálculo do Imposto de Renda a despesa médica declarada e devidamente comprovada por documentação hábil e idônea. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencida a conselheira Mônica Renata Mello Ferreira Stoll que lhe negou provimento. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 21 0. 72 00 74 /2 01 8- 70 Fl. 65DF CARF MF Processo nº 13210.720074/201870 Acórdão n.º 2002001.069 S2C0T2 Fl. 66 2 Relatório Notificação de lançamento Trata o presente processo de notificação de lançamento – NL (fls. 16/20), relativa a imposto de renda da pessoa física, pela qual se procedeu a alterações na declaração de ajuste anual do contribuinte acima identificado, relativa ao exercício de 2017. Essa alteração implicou na redução do imposto a restituir de R$8.351,38 para R$6.158,42. A notificação noticia a dedução indevida de despesas médicas, no valor de R$7.974,40, consignando que o contribuinte não apresentou documentação comprobatória da despesa declarada. Impugnação Cientificada ao contribuinte em 7/5/2018, a NL foi objeto de impugnação, em 16/5/2018, às fls. 2/5 dos autos, na qual o contribuinte alegou que seriam despesas médicas próprias, indicando a juntada de documentação comprobatória. A impugnação foi apreciada na 7ª Turma da DRJ/RJO que, por unanimidade, julgou a impugnação improcedente (fls. 26/30). Recurso voluntário Ciente do acórdão de impugnação em 13/11/2018 (fl. 32), o contribuinte, em 7/12/2018 (fl. 35), apresentou recurso voluntário, às fls. 35/47 e 50/61, no qual alega, em apertado resumo, que é agregado do plano de saúde de sua irmã, Ivonete Lopes da Silva, e que ela não deduz as despesas dele em sua declaração de ajuste. Voto Conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Relatora Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade, assim, dele tomo conhecimento. Mérito O litígio recai sobre a dedução de despesa médica. A despesa foi glosada por falta de documentação comprobatória no curso da ação fiscal. Fl. 66DF CARF MF Processo nº 13210.720074/201870 Acórdão n.º 2002001.069 S2C0T2 Fl. 67 3 Em sua impugnação, o contribuinte juntou demonstrativo de fl.5, consignando o pagamento em seu benefício do valor declarado. O colegiado de primeira instância manteve a glosa, registrando que seria imprescindível a comprovação da transferência dos recursos para a titular do plano. Em seu recurso, o recorrente informa que a titular do plano é sua irmã e que ela não teria se utilizado da dedução. São dedutíveis da base de cálculo do IRPF os pagamentos efetuados pelos contribuintes a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, hospitais e plano de saúde, relativos ao próprio tratamento e ao de seus dependentes (Lei nº 9.250, de 1995, art. 8º, inciso II, alínea "a"), desde que devidamente comprovados (art. 73, do RIR/1999). O documento de fl. 5 consigna que se trata de plano de saúde familiar e consigna o pagamento de R$7.974,40 em benefício do recorrente. Às fls. 50/61, foi juntada a declaração de ajuste da titular do plano. Do exame desse documento, confirmase a existência de vínculo familiar entre o recorrente e a titular do plano de saúde (irmã). Diante dos documentos juntados e da legislação de regência, é de se reconhecer ao recorrente o direito a deduzir a dedução declarada, sendo de se cancelar sua glosa. Conclusão Pelo exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Fl. 67DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10380.906227/2012-39
Turma: Terceira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 04 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Jun 24 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO
Ano-calendário: 2011
PER/DCOMP. COMPROVAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA. INEXATIDÃO MATERIAL.
O procedimento de apuração do direito creditório não prescinde comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de direito creditório pleiteado.
Somente podem ser corrigidas de ofício ou a pedido as informações declaradas no caso de verificada a circunstância objetiva de inexatidão material e congruentes com os demais dados constantes nos registros internos da RFB.
Numero da decisão: 1003-000.736
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Carmen Ferreira Saraiva Relatora e Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva (Presidente), Bárbara Santos Guedes, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça e Wilson Kazumi Nakayama.
Nome do relator: CARMEN FERREIRA SARAIVA
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ementa_s : ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2011 PER/DCOMP. COMPROVAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA. INEXATIDÃO MATERIAL. O procedimento de apuração do direito creditório não prescinde comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de direito creditório pleiteado. Somente podem ser corrigidas de ofício ou a pedido as informações declaradas no caso de verificada a circunstância objetiva de inexatidão material e congruentes com os demais dados constantes nos registros internos da RFB.
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secao_s : Primeira Seção de Julgamento
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva Relatora e Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva (Presidente), Bárbara Santos Guedes, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça e Wilson Kazumi Nakayama.
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IInntteerreessssaaddoo FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2011 PER/DCOMP. COMPROVAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA. INEXATIDÃO MATERIAL. O procedimento de apuração do direito creditório não prescinde comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de direito creditório pleiteado. Somente podem ser corrigidas de ofício ou a pedido as informações declaradas no caso de verificada a circunstância objetiva de inexatidão material e congruentes com os demais dados constantes nos registros internos da RFB. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva – Relatora e Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carmen Ferreira Saraiva (Presidente), Bárbara Santos Guedes, Mauritânia Elvira de Sousa Mendonça e Wilson Kazumi Nakayama. Relatório A Recorrente formalizou o Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) nº 03596.12534.310712.1.3.04-5111 em 31.07.2012, e-fls. 02-06, utilizando-se do crédito relativo ao pagamento a maior de Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), código 0220, do quarto trimestre do ano-calendário de 2011 no valor de R$5.373,55 contido no DARF de R$1.255.446,88 arrecadado em 31.01.2012, apurado pelo regime de tributação do lucro real para compensação dos débitos ali confessados. Consta no Despacho Decisório Eletrônico, e-fls. 07-08, que as informações relativas ao reconhecimento do direito creditório foram analisadas das quais se concluiu pelo indeferimento do pedido: A análise do direito creditório está limitada ao valor do "crédito original na data de transmissão" informado no PER/DCOMP, correspondendo a 5.373,55 AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 38 0. 90 62 27 /2 01 2- 39 Fl. 268DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 1003-000.736 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10380.906227/2012-39 A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. [...] Diante da inexistência do crédito, NÃO HOMOLOGO a compensação declarada. [...] Enquadramento legal: Arts. 165 e 170, da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN). Art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996 Cientificada, a Recorrente apresentou as manifestações de inconformidade. Está registrado na ementa do Acórdão da 4ª Turma/DRJ/BSB/DF nº 03-59.749, de 20.03.2014, e-fls. 132-136: APRESENTAÇÃO DE DECLARAÇÃO RETIFICADORA. PROVA INSUFICIENTE PARA COMPROVAR EXISTÊNCIA DE CRÉDITO DECORRENTE DE PAGAMENTO A MAIOR. Para se comprovar a existência de crédito decorrente de pagamento a maior, comparativamente com o valor do débito devido a menor, é imprescindível que seja demonstrado na escrituração contábil-fiscal, baseada em documentos hábeis e idôneos, a diminuição do valor do débito correspondente a cada período de apuração. A simples entrega de declaração retificadora, por si só, não tem o condão de comprovar a existência de pagamento indevido ou a maior. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE CRÉDITO. A compensação de créditos tributários (débitos do contribuinte) só pode ser efetuada com crédito líquido e certo do sujeito passivo, sendo que a compensação somente pode ser autorizada nas condições e sob as garantias estipuladas em lei; no caso, o crédito pleiteado é inexistente. Manifestação de Inconformidade Improcedente Notificada em 24.04.2014, e-fl. 138, a Recorrente apresentou o recurso voluntário em 28.04.2014, e-fls. 140-264, esclarecendo a peça atende aos pressupostos de admissibilidade. Discorre sobre o procedimento fiscal contra o qual se insurge. Relativamente aos fundamentos de fato e de direito aduz que: A. DO DIREITO 1. A contribuinte constatou que havia recolhido a maior o Imposto de Renda da Pessoa Jurídica - IRPJ ref. ao mês de dezembro/2011. A contribuição devida era de R$1.671.994,13 [...], que foi pago em 31/01/2012, conforme abaixo: - R$137.718,23 através do PerDcomp nº 12031.76158.310112.1.3.04-1202 - homologado; - R$106.958,02 através do PerDcomp nº 21802.63672.310112.1.3.04-7240 - em análise; - R$63.868,67 através do PerDcomp nº 17397.38970.310112.1.3.04-9905 - em análise; Fl. 269DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 1003-000.736 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10380.906227/2012-39 - R$43.049,80 através do PerDcomp nº 35378.12040.310112.1.3.04-4267 - em análise; - R$29.838,95 através do PerDcomp nº 27926.91061.310112.1.3.04-7410 - homologado; - R$16.562,55 através do PerDcomp nº 19783.76621.310112.1.3.04-5502 - em análise; - R$13.820,27 através do PerDcomp nº 31681.85855.310112.1.3.04-1102 - em análise; - R$3.588,54 através do PerDcomp nº 17425.92154.310112.1.3.04-6160 - em análise; - R$2.875,26 através do PerDcomp nº 04690.01796.310112.1.3.04-6477 - em análise; - R$2.667,94 através do PerDcomp nº 13529.06357.310112.1.3.04-8607 - em análise; - R$696,25 através do PerDcomp nº 28254.70005.310112.1.3.04-8132 - em análise; - R$622,97 através do PerDcomp nº19452.80134.310112.1.3.04-0957 - em análise; - R$578,06 através do PerDcomp nº 01331.44442.310112.1.3.04-0117 - em análise; e, - R$1.255.446,88 através do DARF Código 0220, perfazendo um total de R$ 1.678.292,39 [...], que gera um crédito por pagamento a maior de R$6.298,26 [...]. B. DOS FATOS Com base nesse crédito tributário acima mencionado devidamente atualizado, a contribuinte realizou no dia 25/04/2012 através do PerDcomp nº 20703.22272.250412.1.3.04-1007 a compensação complemento da Cofins referente a Outubro/2011, cujo valor devidamente atualizado até a data de envio do referido PerDcomp somou R$948,47 [...], restando um saldo de crédito original para posterior utilização de R$5.373,25 [...]. No dia 31/07/2012 através do PerDcomp nº 03596.12534.310712.1.3.04-5111 efetuou a compensação da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL referente ao 2º trimestre/2012, no valor de R$5.623,96 [...], utilizando o saldo de crédito original de R$5.373,25 [...], devidamente atualizado até a data de envio do referido Pedido de Compensação. No que concerne ao pedido conclui que: C. DA CONCLUSÃO 1.Diante de todo exposto, a Recorrente requer: [...] Que seja homologado o PerDcomp [...]. É o Relatório. Voto Conselheira Carmen Ferreira Saraiva, Relatora Fl. 270DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 1003-000.736 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10380.906227/2012-39 O recurso voluntário apresentado pela Recorrente atende aos requisitos de admissibilidade previstos nas normas de regência, em especial no Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972. Assim, dele tomo conhecimento. A Recorrente discorda do procedimento fiscal. O sujeito passivo que apurar crédito relativo a tributo administrado pela RFB, passível de restituição, pode utilizá-lo na compensação de débitos. A partir de 01.10.2002, a compensação somente pode ser efetivada por meio de declaração e com créditos e débitos próprios, que ficam extintos sob condição resolutória de sua ulterior homologação. Também os pedidos pendentes de apreciação foram equiparados a declaração de compensação, retroagindo à data do protocolo (art. 165, art. 168, art. 170 e art. 170-A do Código Tributário Nacional, art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996 com redação dada pelo art. 49 da Medida Provisória nº 66, de 29 de agosto de 2002, que entrou em vigor em 01.10.2002 e foi convertida na Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002). Posteriormente, ou seja, em 31.10.2003, ficou estabelecido que a Per/DComp constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados, bem como que o prazo para homologação tácita da compensação declarada é de cinco anos, contados da data da sua entrega. Ademais, o procedimento se submete ao rito do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, inclusive para os efeitos do inciso III do art. 151 do Código Tributário Nacional (§1º do art. 5º do Decreto-Lei nº 2.124, de 13 de junho de 1984, art. 17 da Medida Provisória nº 135, de 30 de outubro de 2003 e art. 17 da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003). O pressuposto é de que a pessoa jurídica deve manter os registros de todos os ganhos e rendimentos, qualquer que seja a denominação que lhes seja dada independentemente da natureza, da espécie ou da existência de título ou contrato escrito, bastando que decorram de ato ou negócio. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor dela dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (art. 195 do Código Tributário Nacional, art. 51 da Lei nº 7.450, de 23 de dezembro de 1985, art. 6º e art. 9º do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977 e art. 37 da Lei nº 8.981, de 20 de novembro de 1995). Instaurada a fase litigiosa do procedimento, a Recorrente deve detalhar os motivos de fato e de direito em que se basear expondo de forma minuciosa os pontos de discordância e suas razões e instruindo a peça de defesa com prova documental pré-constituída imprescindível à comprovação das matérias suscitadas. Por seu turno, a autoridade julgadora, orientando-se pelo princípio da verdade material na apreciação da prova, deve formar livremente sua convicção mediante a persuasão racional decidindo com base nos elementos existentes no processo e nos meios de prova em direito admitidos. Os diplomas normativos de regências da matéria, quais sejam o art. 170 do Código Tributário Nacional e o art. 74 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, deixam clara a necessidade da existência de direto creditório líquido e certo no momento da apresentação do Per/DComp, hipótese em que o débito confessado encontrar-se-ia extinto sob condição resolutória da ulterior homologação. O Per/DComp delimita a amplitude de exame do direito creditório alegado pela Recorrente quanto ao preenchimento dos requisitos de liquidez e de certeza necessários à extinção de débitos tributários. Apenas nas situações comprovadas de inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e erros de escrita ou de cálculos podem ser corrigidas de ofício ou a requerimento da Fl. 271DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 1003-000.736 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10380.906227/2012-39 Requerente. O erro de fato é aquele que se situa no conhecimento e compreensão das características da situação fática tais como inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e os erros de escrita ou de cálculos. A Administração Tributária tem o poder/dever de revisar de ofício o procedimento quando se comprove erro de fato quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória. A este poder/dever corresponde o direito de a Recorrente retificar e ver retificada de ofício a informação fornecida com erro de fato, desde que devidamente comprovado. O conceito de erro material apenas abrange a inexatidão quanto a aspectos objetivos, não resultantes de entendimento jurídico, como um cálculo errado, a ausência de palavras, a digitação errônea, e hipóteses similares. Somente podem ser corrigidas de ofício ou a pedido as informações declaradas no caso de verificada a circunstância objetiva de inexatidão material e congruentes com os demais dados constantes nos registros internos da RFB (art. 32 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972 e incisos I e III do art. 145 e inciso IV do art. 149 do Código Tributário Nacional). Por inexatidão material entendem-se os pequenos erros involuntários, desvinculados da vontade do agente, cuja correção não inove o teor do ato formalizado, tais como a escrita errônea, o equívoco de datas, os erros ortográficos e de digitação. Diferentemente o erro de direito, que não é escusável, diz respeito à norma jurídica disciplinadora e aos parâmetros previstos nas normas de regência da matéria. Cabe a Recorrente produzir o conjunto probatório nos autos de suas alegações, já que o procedimento de apuração do direito creditório não prescinde comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de direito creditório pleiteado. Para que haja o reconhecimento do direito creditório é necessário um cuidadoso exame do pagamento a maior de tributo, uma vez que é absolutamente essencial verificar a precisão dos dados informados em todos os livros de escrituração obrigatórios por legislação fiscal específica bem como os documentos e demais papéis que serviram de base para escrituração comercial e fiscal (art. 170 do Código Tributário Nacional). Conforme determinam os §§ 1º e 3º do art. 9º do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, a escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do sujeito passivo dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais, exceto nos casos em que a lei, por disposição especial, atribua a ele o ônus da prova de fatos registrados na sua escrituração. A Recorrente tem o ônus de instruir os autos com documentos hábeis e idôneos que justifiquem a retificação das informações. Nesse sentido também vale ressaltar o disposto no art. o art. 195 do Código Tributário Nacional e o art. 4º do Decreto-Lei nº 486, de 03 de março de 1969, que preveem, em última análise, "que os livros obrigatórios de escrituração comercial e fiscal e os comprovantes dos lançamentos neles efetuados serão conservados até que ocorra a prescrição dos créditos tributários decorrentes das operações a que se refiram." Verifica-se que todos os documentos constantes nos autos foram analisados, tais como Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), bem como os Pedidos de Ressarcimento ou Restituição/Declarações de Compensação (Per/DComp) incluindo aqueles não objeto de análise nos presentes autos, e-fls. 10-127 e 140-264. As informações constantes na peça de defesa não podem ser consideradas, pois não foram produzidos no processo elementos de prova mediante assentos contábeis e fiscais que evidenciem as alegações ali constantes, nos termos do art. 145 e art. 147 do Código Tributário Nacional, bem como art. 15, art. 16 e art. 29 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, que estabelecem critérios de adoção do princípio da verdade material. Observe-se que não foram carreados aos autos pela Recorrente os dados Fl. 272DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 1003-000.736 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10380.906227/2012-39 essenciais a produzir um conjunto probatório robusto da liquidez e certeza dos direitos creditórios pleiteados. Consta no Acórdão da 4ª Turma/DRJ/BSB/DF nº 03-59.749, de 20.03.2014, e-fls. 132-136, cujos fundamentos de fato e direito são acolhidos de plano nessa segunda instância de julgamento (art. 50 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999): O exame do mérito, no caso em tela, implica exame da efetividade e suficiência do alegado direito creditório para efeitos da pretendida restituição, não se limitando, portanto, à análise de consistência de declarações. Nos termos do art. 156, II, do Código Tributário Nacional (CTN), a compensação tributária é uma modalidade de extinção do crédito tributário, mediante a qual se promove o encontro de duas relações jurídicas: (i) a relação jurídica de indébito tributário, na qual o contribuinte tem o direito de exigir, e o Estado tem o dever de restituir determinada quantia ao contribuinte; e (ii) a relação jurídica tributária, na qual o Estado tem o direito de exigir, e o contribuinte o dever de recolher determinada quantia aos cofres públicos (crédito tributário). O art. 170 do CTN, por seu turno, dispõe que “a lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública”. Portanto, o reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional exige averiguação da liquidez e certeza do suposto pagamento a maior de tributo. A fim de comprovar a certeza e liquidez do crédito, a interessada deve, sob pena de preclusão, instruir sua manifestação de inconformidade com documentos que respaldem suas afirmações, considerando o disposto no artigo 16 do Decreto nº 70.235/1972: [...] Faz prova a favor do sujeito passivo a escrituração mantida com observância das disposições legais, contudo deve estar embasada em documentos hábeis, segundo sua natureza, no caso, o contribuinte deveria fundamentar seus lançamentos contábeis com o comprovante da retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora. Veja-se o Decreto 7.574/2011, artigos 26 a 27, transcrito a seguir: Art. 26. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do sujeito passivo dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (Decreto-Lei n º 1.598, de 26 de dezembro de 1977, art. 9º, § 1º) Parágrafo único. Cabe à autoridade fiscal a prova da inveracidade dos fatos registrados com observância do disposto no caput (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 9º, § 2º). Art. 27. O disposto no parágrafo único do art. 26 não se aplica aos casos em que a lei, por disposição especial, atribua ao sujeito passivo o ônus da prova de fatos registrados na sua escrituração (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 9º, § 3º). No caso em análise, a contribuinte esclarece que teria constatado que teria recolhido o IRPJ do período em valor maior do que o efetivamente apurado, mas que não teria retificado a DCTF do período. Apresenta demonstrativo no intuito de comprovar suas alegações. Nota-se, então, que o crédito que a interessada alega possuir seria decorrente de apuração de valor devido a menor, apurado em data posterior à época da entrega das declarações originais. Fl. 273DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 1003-000.736 - 1ª Sejul/3ª Turma Extraordinária Processo nº 10380.906227/2012-39 A declaração do contribuinte em DCTF é confissão de dívida, que confere liquidez e certeza à obrigação tributária. Neste momento processual, para se comprovar a liquidez e certeza do crédito informado na Declaração de Compensação é imprescindível que seja demonstrada na escrituração contábil-fiscal da contribuinte, baseada em documentos hábeis e idôneos, a diminuição do valor do débito correspondente a cada período de apuração. Ainda, neste caso, o ônus da prova recai sobre a contribuinte interessada, que deve trazer aos autos elementos que não deixem nenhuma dúvida quanto ao fato questionado. A respeito do tema, dispõe o Código de Processo Civil, em seu art. 333: [...] Logo, a simples entrega de declarações retificadoras, por si só, não tem o condão de comprovar a existência de pagamento a maior, que teria originado o crédito pleiteado pela contribuinte em sua Declaração de Compensação. As informações prestadas à RFB por meio de declarações ou demonstrativos previstos na legislação (DCTF, DIPJ, Dacon ou PER/DCOMP) situam-se na esfera de responsabilidade do próprio contribuinte, a quem cabe demonstrar, mediante adequada instrução probatória dos autos, os fatos eventualmente favoráveis às suas pretensões, consoante disciplina instituída pelo já citado artigo 16, inciso III, do PAF. Dessa forma, na hipótese de ter ocorrido erro no valor do débito confessado na DCTF, esta circunstância deveria ter sido documentalmente provada pela interessada por ocasião da apresentação da manifestação de inconformidade. No caso em concreto, a manifestante não juntou nos autos seus registros contábeis e fiscais, acompanhados de documentação hábil, para infirmar a motivo que levou a autoridade fiscal competente a não homologar a compensação ou comprovar inclusão indevida de valores na base de cálculo, erro material na apuração do imposto e reduções de valores da base de cálculo de débito confessado em DCTF. Assim, uma vez não comprovada nos autos a existência de direito creditório líquido e certo do contribuinte contra a Fazenda Pública passível de compensação, não há o que ser reconsiderado na decisão dada pela autoridade administrativa. Tem-se que nos estritos termos legais este entendimento está de acordo com o princípio da legalidade a que o agente público está vinculado (art. 37 da Constituição Federal, art. 116 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, art. 2º da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, art. 26-A do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972 e art. 62 do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de julho de 2015). Em assim sucedendo, voto em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva Fl. 274DF CARF MF
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Numero do processo: 10830.917931/2011-91
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 24 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Jun 24 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 3201-001.976
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência.
(assinado digitalmente)
Paulo Roberto Duarte Moreira - Presidente Substituto e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcelo Giovani Vieira, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Leonardo Correia Lima Macedo, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Marcos Roberto da Silva (suplente convocado em substituição ao conselheiro Charles Mayer de Castro Souza), Tatiana Josefovicz Belisário, Laércio Cruz Uliana Junior e Paulo Roberto Duarte Moreira (Presidente Substituto). Ausente, justificadamente, o conselheiro Charles Mayer de Castro Souza.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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(assinado digitalmente) Paulo Roberto Duarte Moreira Presidente Substituto e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcelo Giovani Vieira, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade, Leonardo Correia Lima Macedo, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Marcos Roberto da Silva (suplente convocado em substituição ao conselheiro Charles Mayer de Castro Souza), Tatiana Josefovicz Belisário, Laércio Cruz Uliana Junior e Paulo Roberto Duarte Moreira (Presidente Substituto). Ausente, justificadamente, o conselheiro Charles Mayer de Castro Souza. Relatório Trata o presente de PER/DCOMP apresentada eletronicamente, que restou indeferida, consoante razões consignadas no Despacho Decisório que instrui os autos. Cientificado do Despacho Decisório, o interessado apresenta manifestação de inconformidade alegando, em síntese, o que se segue: que o despacho decisório é nulo porque não buscou a verdade material que é o elemento fundamental da validade dos atos administrativos; que o valor recolhido a título de COFINS se tornou indevido por ter incidido sobre as demais receitas nãooperacionais uma vez que o § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/98, que havia dado suporte à referida exigência foi declarado inconstitucional; RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 30 .9 17 93 1/ 20 11 -9 1 Fl. 66DF CARF MF Processo nº 10830.917931/201191 Resolução nº 3201001.976 S3C2T1 Fl. 3 2 que as informações constantes na DCTF não são válidas porque o cálculo do débito declarado considerou as prescrições contidas no dispositivo declarado inconstitucional; que para provar o alegado, juntou cópia da ficha Razão com o registro das “outras receitas” que foram, também, tomadas como base de cálculo para a incidência das contribuições declaradas inconstitucionais e cópia da ficha Razão da conta de Cofins e PIS a recolher, na qual há o registro da apuração dessas contribuições sobre as demais receitas, cujos valores foram recolhidos nos DARF indicados nos PER/Dcomp; que no caso das provas contábeis apresentadas serem insuficientes para formar o juízo que seja determinada a realização de diligência; A DRJ julgou improcedente a impugnação. O Recurso Voluntário da Recorrente foi interposto de forma hábil e tempestiva, contendo, em breve síntese, os seguintes argumentos: I Dos Fatos A Recorrente expõe que o objeto do presente processo consiste no pedido de restituição (PER) decorrente da declaração de inconstitucionalidade do § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/98 (REsp 346.084/PR), que permitia a incidência do PIS/COFINS sobre toda e qualquer receita do contribuinte. II Do Direito A Recorrente relata que os fundamentos da negativa do pedido de restituição são dois: no despacho decisório, foi o de utilização integral do pagamento na quitação de débitos do contribuinte; na decisão recorrida, foi o da ausência de provas da base de cálculo da COFINS que se pretende restituir. Em seguida discorre sobre a PER/DCOMP como tendo força constitutiva e autônoma. Conclui afirmando que houve pagamento a maior vinculado a DARF. A Recorrente alega que não pode ser responsabilizada pela não apresentação de DCTF retificadora. Nessa linha, o despacho decisório seria nulo pois não buscou a verdade material. A decisão ora recorrida também não observou o princípio da verdade material. Alega a legitimidade do crédito pleiteado em razão dos valores indevidamente recolhidos. Relata a inconstitucionalidade do § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/98, que erroneamente considerou como base de cálculo a receita bruta. Cita jurisprudência do CARF. Passa a descrever os efeitos da declaração de inconstitucionalidade e alegar quanto a invalidade das declarações preenchidas com base no dispositivo declarado inconstitucional. Sustenta que o débito confessado em DCTF está majorado, pois foi apurado de forma inválida. Argumenta quanto a superficialidade do exame centrado apenas na DCTF. No tocante a prova do crédito requerido, a Recorrente alega que juntou a folha do livro razão. Em continuidade, diz que uma simples análise da DIPJ evidencia que o valor recolhido a título de COFINS foi indevido. Fl. 67DF CARF MF Processo nº 10830.917931/201191 Resolução nº 3201001.976 S3C2T1 Fl. 4 3 A Recorrente tem plena certeza das razões e provas acostadas aos autos, e em caso de dúvidas requer a realização de diligência fiscal. Elenca os quesitos para a diligência. É o relatório. Voto Paulo Roberto Duarte Moreira, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resoluçãonº 3201001.968, de 24 de abril de 2019, proferido no julgamento do processo 10830.917911/201110, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevemse, como solução deste litígio, nos termos regimentais, os entendimentos que prevaleceram naquela decisão (Resolução nº 3201001.968): "Inicialmente cabe reforçar o alegado pela Recorrente quanto a declaração de inconstitucionalidade do §1º do artigo 3º da Lei n.º 9.718/98 em decisão plenária do STF. Além disso, o mesmo foi revogado pela Lei n.º 11.941/09, não havendo, portanto, mais que se falar na ampliação da base de cálculo da COFINS às receitas financeiras. Assim o ponto relativo a inconstitucionalidade está pacificado. O cerne do presente processo está, todavia, na capacidade de comprovação do crédito por parte da Recorrente. No processo administrativo fiscal, incumbe à interessada o ônus processual de provar o direito resistido. Assim, para o caso concreto que trata de pedido de restituição, as alegações constantes da manifestação de inconformidade devem ser acompanhadas de provas suficientes que confirmem a liquidez e certeza do crédito pleiteado. Isto porque, com relação a prova dos fatos e o ônus da prova, dispõem o artigo 36, caput, da Lei nº 9.784/99 e o artigo 373, inciso I, do Código de Processo Civil, que cabe à Recorrente, autora do processo administrativo de restituição/compensação, o ônus de demonstrar o direito que pleiteia. Nesse ponto, a Recorrente acredita ser suficiente a apresentação de folha do livro razão e da DIPJ. Diante da existência de escrituração do contribuinte, comprovada por meio da apresentação do livro Razão, bem como da apresentação da DIPJ, surge a dúvida quanto ao recolhimento indevido sobre receitas financeiras da COFINS. Neste contexto, a teor do que preconiza o art. 373 do diploma processual civil, teve a manifesta intenção de provar o seu direito creditório, sendo que tal procedimento, também está pautado pela boa fé. Fl. 68DF CARF MF Processo nº 10830.917931/201191 Resolução nº 3201001.976 S3C2T1 Fl. 5 4 Estabelecem os arts. 16, §§4º e 6 e 29 do Decreto 70.235/72: "Art. 16. A impugnação mencionará: (...) § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (...) § 6º Caso já tenha sido proferida a decisão, os documentos apresentados permanecerão nos autos para, se for interposto recurso, serem apreciados pela autoridade julgadora de segunda instância." "Art. 29. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias." O CARF possui o reiterado entendimento de ser possível, em casos como o presente, a conversão do feito em diligência. Neste sentido cito os seguintes precedentes desta Turma: "Não obstante, no Recurso Voluntário, a recorrente trouxe demonstrativos e balancetes contábeis. Ainda que não tenha trazido os respectivos lastros, entendo que a nova prova encontra abrigo na dialética processual, como exigência decorrente da decisão recorrida, e por homenagem ao princípio da verdade material, em vista da plausibilidade dos registros dos balancetes. Assim, e com base no artigo 29, combinado com artigo 16, §§4º e 6º, do PAF– Decreto 70.235/72, proponho a conversão do julgamento em diligência, para que o Fisco tenha a oportunidade de aferir a idoneidade dos balancentes apresentados no Recurso Voluntário, em confronto com os respecivos livros e lastros, conforme o Fisco entender necessário e/ou cabível, e produção de relatório conclusivo sobre as bases de cálculo corretas. Após, a recorrente deve ser cientificada, com oportunidade para manifestação, e o processo deve retornar ao Carf para prosseguimento do julgamento." (Processo nº 10880.685730/200917; Resolução nº 3201001.298; Relator Conselheiro Marcelo Giovani Vieira; sessão de 17/07/2018) Assim, entendo que há dúvida razoável no presente processo acerca da liquidez, certeza e exigibilidade do direito creditório, o que justifica a conversão do feito em diligência, não sendo prudente julgar o recurso em prejuízo da Recorrente, sem que as questões aventadas sejam dirimidas. Fl. 69DF CARF MF Processo nº 10830.917931/201191 Resolução nº 3201001.976 S3C2T1 Fl. 6 5 Diante do exposto, voto pela conversão do julgamento em diligência à repartição de origem, para que aprecie a documentação colacionada com o Recurso Voluntário, com a reanálise do despacho decisório considerando a documentação juntada, bem como, em sendo o entendimento da unidade de origem proceda a intimação da Recorrente para no prazo de 30 (trinta) dias, renovável uma vez por igual período, a apresentar outros documentos, porventura, ainda necessários aptos a comprovar os valores pretendidos. Deve, ainda, a autoridade administrativa informar se levando em conta o livro razão, bem como a DIPJ, há o direito creditório alegado pela Recorrente. Isto posto, deve ser oportunizada à Recorrente o conhecimento dos procedimentos efetuados pela repartição fiscal, inclusive do relatório elaborado pela fiscalização, com abertura de vistas pelo prazo de 30 (trinta) dias, prorrogável uma vez por igual período, para que se manifeste, para, na sequência, retornarem os autos a este colegiado para prosseguimento do julgamento." Importante frisar que as situações fática e jurídica presentes no processo paradigma encontram correspondência nos autos ora em análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu por converter o julgamento em diligência à repartição de origem, para que aprecie a documentação colacionada com o Recurso Voluntário, com a reanálise do despacho decisório considerando a documentação juntada, bem como, em sendo o entendimento da unidade de origem proceda a intimação da Recorrente para no prazo de 30 (trinta) dias, renovável uma vez por igual período, a apresentar outros documentos, porventura, ainda necessários aptos a comprovar os valores pretendidos. Deve, ainda, a autoridade administrativa informar se levando em conta o livro razão, bem como a DIPJ, há o direito creditório alegado pela Recorrente. Isto posto, deve ser oportunizada à Recorrente o conhecimento dos procedimentos efetuados pela repartição fiscal, inclusive do relatório elaborado pela fiscalização, com abertura de vistas pelo prazo de 30 (trinta) dias, prorrogável uma vez por igual período, para que se manifeste, para, na sequência, retornarem os autos a este colegiado para prosseguimento do julgamento. (assinado digitalmente) Paulo Roberto Duarte Moreira . Fl. 70DF CARF MF
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Numero do processo: 16007.000317/2010-04
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 08 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Thu Jul 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE (IRRF)
Ano-calendário: 2006
COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO. SERVIÇOS PRESTADOS A PESSOA JURÍDICA COMPENSAÇÃO.
O valor recebido pelas cooperativas de trabalho, por serviços prestados por meio de seus associados, a outra pessoa ainda que não associado, é ato cooperativo e poderá ser objeto de pedido compensação, respeitadas as condições previstas em lei.
Como no presente caso não existe relação direta entre os valores recebidos, que geraram as retenções sofridas, e os valores pagos aos profissionais, que ocasionou as retenções, as compensações não se enquadram na previsão legal do art. 45 da Lei n° 8.541/1992, não havendo previsão legal para a compensação realizada.
Numero da decisão: 2401-006.453
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 16007.000313/2010-18, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Declarou-se impedido de participar do julgamento o conselheiro Matheus Soares Leite.
(documento assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Presidente e Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Rayd Santana Ferreira, Marialva de Castro Calabrich Schlucking, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Miriam Denise Xavier (Presidente).
Nome do relator: MIRIAM DENISE XAVIER
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SERVIÇOS PRESTADOS A PESSOA JURÍDICA COMPENSAÇÃO. O valor recebido pelas cooperativas de trabalho, por serviços prestados por meio de seus associados, a outra pessoa ainda que não associado, é ato cooperativo e poderá ser objeto de pedido compensação, respeitadas as condições previstas em lei. Como no presente caso não existe relação direta entre os valores recebidos, que geraram as retenções sofridas, e os valores pagos aos profissionais, que ocasionou as retenções, as compensações não se enquadram na previsão legal do art. 45 da Lei n° 8.541/1992, não havendo previsão legal para a compensação realizada. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 16007.000313/2010-18, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Declarou-se impedido de participar do julgamento o conselheiro Matheus Soares Leite. (documento assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier – Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Rayd Santana Ferreira, Marialva de Castro Calabrich Schlucking, Andréa Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa e Miriam Denise Xavier (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 00 7. 00 03 17 /2 01 0- 04 Fl. 182DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 2401-006.453 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16007.000317/2010-04 Fl. 183DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 2401-006.453 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16007.000317/2010-04 Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do Acórdão nº 2401-006.440, de 08 de maio de 2019 - 4ª Câmara/1ª Turma Ordinária, proferido no âmbito do processo n° 16007.000313/2010-18, paradigma deste julgamento. “Trata-se de Recurso Voluntário interposto em face da decisão da 4ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo - SP (DRJ/SPO) que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, por não restar comprovada a liquidez e certeza do crédito informado em declaração de compensação, não homologando as compensações vinculadas. O presente processo trata do pedido de compensação declarado em PER/DCOMP e devidamente transmitida, que utilizou os créditos de IRRF código 3280 - IRRF - Serviços pessoais prestados por associados de cooperativas de trabalho, para a compensação de débito de IRRF 0588 - Rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício. Foi emitido o Despacho Decisório DRF/SJR/SP reconhecendo parcialmente o direito creditório referente ao IRRF, apenas referente ao IRRF código 3280 - IRRF - Serviços pessoais prestados por associados de cooperativas de trabalho, e homologada a compensação declarada na DCOMP apresentada originalmente, até o limite do direito creditório reconhecido. O Contribuinte tomou ciência do Despacho Decisório e, inconformado com a decisão proferida, tempestivamente, apresentou sua Manifestação de Inconformidade instruída com os documentos constantes dos autos. O Processo foi encaminhado para 4ª Turma da DRJ/SPO que decidiu por unanimidade pelo INDEFERIMENTO da Manifestação de Inconformidade. O Contribuinte tomou ciência do Acórdão proferido pela DRJ/SPO, e inconformado com a decisão prolatada, tempestivamente, interpôs seu Recurso Voluntário onde, em síntese, aduz que: 1. O Fisco não reconheceu parte dos créditos pleiteados pelo simples fato das fontes pagadoras não terem declarado as retenções corretamente; 2. Na documentação fornecida constam as retenções glosadas, identificando as fontes pagadoras e individualizando as faturas que amparam a declaração de compensação apresentada; 3. Os comprovantes de rendimentos obtidos de algumas fontes pagadoras provam que elas se equivocaram na identificação correta dos códigos das retenções ou na identificação do Contribuinte como beneficiário, ou ainda, declararam parcialmente os valores; Fl. 184DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 2401-006.453 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16007.000317/2010-04 4. Efetivamente houve retenção do imposto e que, a rigor, o simples destaque do imposto nas notas fiscais já demonstra a certeza das retenções; 5. O Contribuinte não tem como exigir os documentos das fontes pagadoras, pois lhe falta poder de polícia, portanto cabe ao Fisco o ônus de provar a ausência dos créditos glosados, quer em homenagem ao Princípio Constitucional da Ampla Defesa ou para evitar enriquecimento sem causa da União. Finaliza seu Recurso requerendo seu provimento para que seja reconhecido o direito creditório referente à parcela de crédito glosada. É o relatório.” Voto Conselheira Miriam Denise Xavier, Relatora. Este processo foi julgado na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplica-se o decidido no Acórdão nº 2401-006.440, de 08 de maio de 2019 - 4ª Câmara/1ª Turma Ordinária, proferido no âmbito do processo n° 16007.000313/2010-18, paradigma deste julgamento. Transcreve-se, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido na susodita decisão paradigma, a saber, Acórdão nº 2401-006.440, de 08 de maio de 2019 - 4ª Câmara/1ª Turma Ordinária: Acórdão nº 2401-006.440 - 4ª Câmara/1ª Turma Ordinária “Juízo de admissibilidade O Recurso Voluntário foi apresentado dentro do prazo legal e atende aos requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Mérito A Recorrente se insurge contra a homologação parcial da compensação por ela efetuada, aduzindo que algumas tomadoras de serviços apresentaram código equivocado do IRRF, quando deveriam ter apresentado o código 3280 (Remuneração sobe Serviços Prestados por Associação de Cooperativa de Trabalho), ou mesmo deixando de identificar a contribuinte como beneficiária, ou ainda declarando valores parcialmente. Afirma que é isento do IRPJ quando da prática de atos cooperados e que a compensação das retenções com o Código Receita 1708 são aplicáveis apenas às demais pessoas jurídicas tendo em vista a isenção a que tem direito. Segundo a autoridade fiscal, verificou-se que os demais créditos informados na PER/DCOMP não relacionados ao código 3280, não foram reconhecidos pelo fato das referidas fontes pagadoras não terem declarado o interessado como beneficiário total ou parcialmente, ou ainda, não terem declarado os rendimentos e a retenção no código 3280, mas, em códigos diversos conforme pesquisas ao sistema DIRF. Fl. 185DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 2401-006.453 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16007.000317/2010-04 O Código Tributário Nacional estabelece a compensação como uma das modalidades de extinção do crédito tributário (art. 156, II), cujo procedimento ocorre entre créditos líquidos e certos, com débitos vencidos e vincendos do sujeito passivo (art. 170), através de estipulação legal e que se encontra disciplinado através da Lei nº 9.430/96. No tocante à possibilidade de compensação de IRRF por cooperativas de trabalho, cabe destacar que o art. 64 da Lei nº 8.981/95 deu nova redação ao art. 45 da Lei nº 8.541/92, nos seguintes termos: Art. 45. Estão sujeitas à incidência do Imposto de Renda na fonte, à alíquota de 1,5%, as importâncias pagas ou creditadas por pessoas jurídicas a cooperativas de trabalho, associações de profissionais ou assemelhadas, relativas a serviços pessoais que lhes forem prestados por associados destas ou colocados à disposição. (Redação dada pela Lei nº 8.981, de 1995) § 1º O imposto retido será compensado pelas cooperativas de trabalho, associações ou assemelhadas com o imposto retido por ocasião do pagamento dos rendimentos aos associados. (Redação dada pela Lei nº 8.981, de 1995) § 2º O imposto retido na forma deste artigo poderá ser objeto de pedido de restituição, desde que a cooperativa, associação ou assemelhada comprove, relativamente a cada ano-calendário, a impossibilidade de sua compensação, na forma e condições definidas em ato normativo do Ministro da Fazenda. (Redação dada pela Lei nº 8.981, de 1995) A IN RFB nº 900/2008 estabelecia a forma como o IRRF incidente sobre pagamento de trabalho, associação de profissionais ou assemelhada, poderia ser utilizado, durante o ano-calendário da retenção, na compensação do IRRF incidente sobre os pagamentos de rendimentos aos cooperados ou associados, conforme destaque a seguir transcrito: Art. 41. O crédito do IRRF incidente sobre pagamento efetuado a cooperativa de trabalho, associação de profissionais ou assemelhada poderá ser por ela utilizado, durante o ano-calendário da retenção, na compensação do IRRF incidente sobre os pagamentos de rendimentos aos cooperados ou associados. § 1º O crédito mencionado no caput que, ao longo do ano-calendário da retenção, não tiver sido utilizado na compensação do IRRF incidente sobre os pagamentos efetuados aos cooperados ou associados poderá ser objeto de pedido de restituição após o encerramento do referido ano-calendário, bem como ser utilizado na compensação de débitos relativos aos tributos administrados pela RFB. § 2º A compensação de que trata o caput e o § 1º será efetuada pela cooperativa de trabalho, associação de profissionais ou assemelhada na forma prevista no § 1º do art. 34. Notoriamente, é indubitável a possibilidade de compensação direta entre o IRRF pelos tomadores de serviços e o IRRF quando dos pagamentos (repasses) aos associados das cooperativas de trabalho, como a Recorrente. Destaque-se que a Lei nº 5.764/71, que definiu a Política Nacional de Cooperativismo, institui o regime jurídico das sociedades cooperativas, dispõe o seguinte: Art. 79. Denominam-se atos cooperativos os praticados entre as cooperativas e seus associados, entre estes e aquelas e pelas cooperativas entre si quando associados, para a consecução dos objetivos sociais. Fl. 186DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 2401-006.453 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16007.000317/2010-04 Parágrafo único. O ato cooperativo não implica operação de mercado, nem contrato de compra e venda de produto ou mercadoria. No entanto, dentro das atividades da contribuinte, há a prática de outros atos que não os eminentemente os cooperativos, tais como pagamentos efetuados por contratos com preço pré-determinado ou por outros serviços. Vejamos o que preceitua a Lei nº 9.656/98: Art. 1º Submetem-se às disposições desta Lei as pessoas jurídicas de direito privado que operam planos de assistência à saúde, sem prejuízo do cumprimento da legislação específica que rege a sua atividade, adotando-se, para fins de aplicação das normas aqui estabelecidas, as seguintes definições: (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.177- 44, de 2001) I - Plano Privado de Assistência à Saúde: prestação continuada de serviços ou cobertura de custos assistenciais a preço pré ou pós estabelecido, por prazo indeterminado, com a finalidade de garantir, sem limite financeiro, a assistência à saúde, pela faculdade de acesso e atendimento por profissionais ou serviços de saúde, livremente escolhidos, integrantes ou não de rede credenciada, contratada ou referenciada, visando a assistência médica, hospitalar e odontológica, a ser paga integral ou parcialmente às expensas da operadora contratada, mediante reembolso ou pagamento direto ao prestador, por conta e ordem do consumidor; (Incluído pela Medida Provisória nº 2.177- 44, de 2001) O Superior Tribunal de Justiça já definiu que as operações realizadas diretamente (e não através de seus cooperados) com terceiros não associados, embora indiretamente se busque a consecução do objeto social da cooperativa, consubstanciam atos não-cooperativos. Vejamos: PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. DIREITO TRIBUTÁRIO. COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO. UNIMED. CONCEITO DE ATO COOPERATIVO TÍPICO. SERVIÇOS PRESTADOS A TERCEIROS. ATOS NÃO COOPERATIVOS. INCIDÊNCIA DAS CONTRIBUIÇÕES AO PIS E COFINS SOBRE OS ATOS NEGOCIAIS. TEMA JÁ JULGADO PELO REGIME DO ART. 543-C, DO CPC, E DA RESOLUÇÃO STJ 08/08. 1. A jurisprudência deste STJ já se firmou no sentido de que é legítima a incidência do PIS e da COFINS, tendo como base de cálculo o faturamento das cooperativas de trabalho médico, sendo que por faturamento deve ser compreendido o conceito que restou definido pelo STF como receita bruta de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviços de qualquer natureza, por ocasião do julgamento da ADC 01/DF. Precedentes: REsp 635.986/PR, Segunda Turma, Rel. Min. Eliana Calmon, DJe de 25.9.2008; REsp 1081747 / PR, Segunda Turma, Rel. Min. Eliana Calmon, 15.10.2009. 2. O fornecimento de serviços a terceiros não cooperados e o fornecimento de serviços a terceiros não associados inviabiliza a configuração como atos cooperativos, devendo ser tributados normalmente. Precedentes: REsp 635.986/PR, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe 25.9.2008; REsp 746.382/MG, Rel. Min. Humberto Martins, DJ de 9.10.2006; REsp 1096776/PB, Segunda Turma, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 19/08/2010; AgRg no REsp 751.460/MG, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 13.2.2009; AgRg no AgRg no REsp 1033732/SP, Rel. Ministro Francisco Falcão, Primeira Turma, DJe 1.12.2008; EDcl nos EDcl no REsp 875.388/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, DJe 29.10.2008. 3. O tema referente à tributação pelo IRPJ dos atos praticados pela cooperativa com terceiros não associados já foi objeto de julgamento em sede de recurso especial representativo da controvérsia REsp. n. 58.265 / SP, Primeira Seção, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 09.12.2009. Fl. 187DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 2401-006.453 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16007.000317/2010-04 4. No referido julgamento, embora se estivesse apreciando a hipótese específica voltada ao Imposto de Renda e não às contribuições ao PIS e COFINS, nas razões de decidir restou firmado o pressuposto de que "[...] as operações realizadas com terceiros não associados (ainda que, indiretamente, em busca da consecução do objeto social da cooperativa), consubstanciam 'atos não-cooperativos', cujos resultados positivos devem integrar a base de cálculo do imposto de renda" (REsp. n. 58.265 / SP, Primeira Seção, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 09.12.2009). 5. Desse modo, definido que se tratam de atos não-cooperativos, não há que se falar em isenção do IRPJ, da CSLL e das contribuições ao PIS e COFINS por aplicação do art. 79, da Lei n. 5.764/71. 6. Observar que nos recursos representativos da controvérsia REsp. n. 1.141.667/RS e REsp. n. 1.164.716/MG, pendentes de julgamento, e RE 598.085-RJ o que se discute não é o conceito de ato cooperativo típico (tema já abordado no recurso representativo da controvérsia REsp. n. 58.265/SP, Primeira Seção, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 09.12.2009), mas sim o confronto da isenção para o ato cooperativo típico previsto no art. 79, da Lei n. 5.764/71 com o estabelecido pelo art. 15, da Medida Provisória n. 2.158-35, que restringiu as exclusões da base de cálculo das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS somente a determinados valores ali especificados. 7. Agravo regimental não provido. (AgRg no REsp 786.612/RS, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 17/10/2013, DJe 24/10/2013) Conforme bem ressaltado pela decisão de piso e verificado no bojo do processo administrativo, “não foi, outrossim, confirmado qualquer tipo de erro por parte da fonte pagadora, o que poderia ter sido provado pela empresa com a juntada de documentos de sua escrituração, como notas fiscais, livro Razão e Diário, e, ainda, elementos caracterizadores de ato cooperado, lembrando que o ônus da prova no processo que trata de compensação é do contribuinte (art. 170 do CTN, art. 333 do CPC e art. 16 do PAF).” Assim, a compensação realizada pela contribuinte não está abrangida pelo art. 64 da Lei nº 8.981/1995, modificado pelo art. 45 da Lei nº 8.541, de 1992, tendo em vista que não restou comprovado que se trata de importâncias creditadas por pessoas jurídicas a cooperativas de trabalho, relativas a serviços pessoais que lhes forem prestados por associados destas ou colocados à disposição. Com efeito, in casu, não há subsunção do fato à norma do art. 45 da Lei 8.541/92, posto que não se enquadra exclusivamente como atividade cooperada dado o exercício de atividades diversas que não se confundem com as receitas decorrentes da prestação de serviços profissionais de medicina ou correlatos. Destaque-se ainda que as retenções foram realizadas com código da receita 1708 - Remuneração Serviços Prestados por Pessoa Jurídica e 0916 – Prêmios e Sorteios em Geral, Títulos de Capitalização, Prêmios de Proprietários e Criadores de Cavalos de Corrida e Prêmios em Bens e Serviços, sendo que a Recorrente não comprovou se tratar de retenção com o código 3280 - Remuneração sobe Serviços Prestados por Associação de Cooperativa de Trabalho. Dessa forma, a compensação pleiteada pelo contribuinte no presente caso só é aplicável para os casos em que a retenção do Imposto de Renda ocorrer sobre serviços pessoais prestados pelos cooperados. Como não há relação direta entre os valores recebidos, que geraram as retenções sofridas, e os valores pagos aos profissionais, que Fl. 188DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 2401-006.453 - 2ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 16007.000317/2010-04 ocasionou as retenções, as compensações não se enquadram na previsão legal do art. 45 da Lei n° 8.541/1992. Destarte, não há previsão legal que ampare as compensações declaradas. Assim, as retenções sofridas somente poderiam ser utilizadas na dedução do IRPJ devido ou para compor o saldo negativo de IRPJ ao final do período de apuração, cabendo ainda ao contribuinte a restituição do indébito, respeitadas as regras pertinentes a ela pertinentes. Conclusão Ante o exposto, CONHEÇO do Recurso Voluntário e NEGO-LHE PROVIMENTO..” Ante o exposto, CONHEÇO do Recurso Voluntário e NEGO-LHE PROVIMENTO. (documento assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Fl. 189DF CARF MF
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Numero do processo: 36662.000273/2006-10
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 04 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Jul 15 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS
Período de apuração: 01/01/2001 a 31/12/2004
PREVIDENCIÁRIO. CUSTEIO. AUTO DE INFRAÇÃO. DIRIGENTE DE ÓRGÃO PÚBLICO. ART. 41. LEI Nº 8.212/91. MP Nº 449/08. REVOGAÇÃO. RETROATIVIDADE BENIGNA. APLICAÇÃO.
O art. 65, I, da MP nº 449/08 revogou o art 41 da Lei n° 8.212/91, não havendo mais fundamento legal para a responsabilização pessoal do dirigente de órgão público pelas infrações a obrigações previdenciárias acessórias, revogação essa que, por conceder ao contribuinte tratamento mais benéfico em relação à multa, deve ser aplicado de forma retroativa, nos termos do art. 106 do CTN.
Recurso Voluntário Provido
Direito Creditório Exonerado
Numero da decisão: 2402-007.342
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Denny Medeiros da Silveira - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Paulo Sergio da Silva, Denny Medeiros da Silveira (presidente), João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Gabriel Tinoco Palatinic (suplente convocado), Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior.
Nome do relator: DENNY MEDEIROS DA SILVEIRA
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CUSTEIO. AUTO DE INFRAÇÃO. DIRIGENTE DE ÓRGÃO PÚBLICO. ART. 41. LEI Nº 8.212/91. MP Nº 449/08. REVOGAÇÃO. RETROATIVIDADE BENIGNA. APLICAÇÃO. O art. 65, I, da MP nº 449/08 revogou o art 41 da Lei n° 8.212/91, não havendo mais fundamento legal para a responsabilização pessoal do dirigente de órgão público pelas infrações a obrigações previdenciárias acessórias, revogação essa que, por conceder ao contribuinte tratamento mais benéfico em relação à multa, deve ser aplicado de forma retroativa, nos termos do art. 106 do CTN. Recurso Voluntário Provido Direito Creditório Exonerado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira - Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Paulo Sergio da Silva, Denny Medeiros da Silveira (presidente), João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Gabriel Tinoco Palatinic (suplente convocado), Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 36 66 2. 00 02 73 /2 00 6- 10 Fl. 242DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 2402-007.342 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 36662.000273/2006-10 Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na Sistemática dos Recursos Repetitivos prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015. Nessa prumada, adoto o relatório objeto do Acórdão nº 2402-007.323 - 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 4 de junho de 2019, proferido no âmbito do processo n° 13558.001477/2007-32 - OSIAS ERNESTO LOPES, paradigma deste julgamento. Acórdão nº 2402-007.323 - 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária "Cuida o presente de Recurso Voluntário em face de acórdão que julgou improcedente a impugnação apresentada pelo sujeito passivo. O lançamento, consubstanciado no DEBCAD 37.033.758-1, refere-se a multa pessoal aplicada sobre o Secretário de Administração do município de Itabuna em virtude de ter deixado de declarar em GFIP fatos geradores de contribuições previdenciárias nas competências de 3/2002 a 9/2004, infringindo, assim sendo, o disposto no art. 32, IV, § 5º da Lei 8.212/91. Regularmente impugnado o lançamento, a instância de piso julgou-o procedente, por meio do acórdão assim ementado: Fl. 243DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 2402-007.342 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 36662.000273/2006-10 Em seu recurso voluntário, o recorrente estruturou sua defesa nos seguintes tópicos: I - Ilegitimidade da parte: Prevalência da Lei Nacional. Ausência na Lei Orgânica do município de Itabuna de regra expressa, clara, específica delegando responsabilidades sobre GFIP a secretário municipal. Diretor de Departamento - Natural delegado de funções e encargos. Da jurisprudência no âmbito administrativo. A condição de agente político do secretário municipal - suas conseqüências - responsabilidades. Sobre o Decreto Municipal nº 5.932/01 (art 46) - quanto à responsabilidade do diretor de RH no cumprimento de atividades básicas relativas à legislação de pessoal. II - Da irretroatividade da Lei Processual - aplicação da lei nova - prejuízo ao recorrente - nulidade processual. III - Da satisfação dada à solicitação constante da TIAF. IV - Do caso fortuito ou de força maior. V - Do papel auditorial da secretaria do planejamento e finanças. VI - Do princípio constitucional da proporcionalidade. VII - Da correção das irregularidades dentro do prazo original do decreto nº 3.048/91. VIII - Do entendimento jurisprudencial das cortes judiciais sobre a questão. Mais a frente, em 22.7.09, o recorrente apresentou nova petição, por meio da qual encaminhou outros documentos, bem como passou a sustentar a revogação do artigo 41 da Lei 8.212/91. É o relatório." Convém salientar que as referências específicas presentes no relatório do acórdão paradigma suso transcrito são exclusivas do Processo Administrativo Fiscal nº 13558.001477/2007-32, não guardando relação com o presente repetitivo. Relatados sumariamente os fatos relevantes. Fl. 244DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 2402-007.342 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 36662.000273/2006-10 Voto Conselheiro Denny Medeiros da Silveira - Relator. Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015. Nesse contexto, ao presente litígio aplica-se o decidido no Acórdão nº 2402-007.323 - 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 4 de junho de 2019, proferido no âmbito do processo n° 13558.001477/2007-32 - OSIAS ERNESTO LOPES, paradigma ao qual o presente processo encontra-se vinculado. Transcreve-se, a seguir, nos termos regimentais, o inteiro teor do voto condutor proferido pelos Conselheiro Maurício Nogueira Righetti, digno Relator da decisão paradigma suso citada, reprise-se, Acórdão nº 2402-007.323 - 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 4 de junho de 2019. Acórdão nº 2402-007.323 - 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária "Conselheiro Maurício Nogueira Righetti - Relator O contribuinte teria tomado ciência do acórdão recorrido em 29.8.08 e apresentou seu Recurso Voluntário, tempestivamente, em 23.9.08. Observados os demais requisitos para admissibilidade, dele passo a conhecer. A multa impingida, de natureza objetiva, tinha espeque, à época, no artigo 41 da Lei 8.212/91, que possuía a seguinte redação: Art. 41. O dirigente de órgão ou entidade da administração federal, estadual, do Distrito Federal ou municipal, responde pessoalmente pela multa aplicada por infração de dispositivos desta Lei e do seu regulamento, sendo obrigatório o respectivo desconto em folha de pagamento, mediante requisição dos órgãos competentes e a partir do primeiro pagamento que se seguir à requisição Nesse rumo, a considerar que teria havido o descumprimento do dever instrumental determinado pelo artigo 32 da Lei 8.212/91, aplicou-se a multa prevista em seu § 5º. Ocorre que com o posterior advento da Medida Provisória 449/2008, houve a expressa revogação daquele artigo 41 da Lei 8.212/91, revogação esta, mantida pela Lei 11.941/2009, produto de sua conversão. É certo que o ato do lançamento deve-se reportar sempre a lei vigente à época da sua produção. Contudo, há situações em que o próprio CTN, especificamente em seu art. 106, autoriza excepcionalmente que fatos passados sejam regulados pela legislação futura. Vejamos: Art 106 - A lei aplica-se a ato ou fato pretérito: Fl. 245DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 2402-007.342 - 2ª Sejul/4ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 36662.000273/2006-10 1 - em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação da penalidade à infração dos dispositivos interpretados; 11- tratando-se de ato não definitivamente julgado: quando deixe de defini-lo como infração; quando deixe de tratá-lo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo;e quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua Prática Com efeito, forço concluir que não mais subsiste fundamento legal para a exigência da multa à época aplicada. No mesmo sentido, o enunciado da Súmula CARF nº 65, verbis: Súmula CARF nº 65: Inaplicável a responsabilidade pessoal do dirigente de órgão público pelo descumprimento de obrigações acessórias, no âmbito previdenciário, constatadas na pessoa jurídica de direito público que dirige. Face ao exposto, VOTO no sentido de CONHECER do recurso para DAR-LHE provimento. (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti" Alertamos, uma vez mais, que as referências específicas presentes no voto condutor do acórdão paradigma encimado são exclusivas do Processo Administrativo Fiscal nº 13558.001477/2007-32, não havendo relação com o presente repetitivo, aqui se aplicando, tão somente, a decisão de mérito lá proferida. Nesse contexto, pelas razões de fato e de Direito ora expendidas, voto por CONHECER do Recurso Voluntário para, no mérito, DAR-LHE PROVIMENTO. (documento assinado digitalmente) Denny Medeiros da Silveira - Relator. Fl. 246DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10850.909844/2011-21
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 18 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Fri Jul 19 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Período de apuração: 01/11/2000 a 30/11/2000
FALTA DE RETIFICAÇÃO DA DCTF.
Nos pedidos de restituição e compensação PER/DCOMP, a falta de retificação da DCTF do período em análise não é impedimento para deferimento do pedido, desde que o contribuinte demonstre no processo administrativo fiscal, por meio de prova idônea, contábil e fiscal, a existência da liquidez e certeza do crédito pleiteado.
COMPENSAÇÃO. PEDIDO ORIGINAL. MODIFICAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE.
Além da restrição constante na legislação tributária de retificação da declaração de compensação após o despacho decisório, não se pode admitir a alteração do pedido original por meio da manifestação de inconformidade, por questões relativas à própria delimitação da lide com o pedido, do devido processo legal e da segurança jurídica.
O litígio instaurado a partir da apresentação de manifestação de inconformidade presta-se exclusivamente a discutir a não homologação da compensação declarada, não havendo espaço para análise da procedência de créditos diversos dos alegados por ocasião da transmissão da declaração de compensação.
A declaração de compensação só pode ser retificada em razão de erro material e tem como data limite a expedição do despacho decisório que decide originalmente acerca da homologação ou não da compensação.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/11/2000 a 30/11/2000
CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE DO §1º DO ART. 3º DA LEI Nº 9.718/98.
A declaração de inconstitucionalidade do §1º, do art. 3º, da Lei nº 9.718/98, não afasta a incidência do PIS em relação às receitas operacionais decorrentes das atividades empresariais. A noção de faturamento do RE 585.235/MG deve ser compreendida no sentido estrito de receita bruta das vendas de mercadorias e da prestação de serviços, ou seja, a soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais, consoante interpretação iniciada pelo RE 609.096/RS, submetidos à repercussão geral. Em consequência, inclui-se no conceito de faturamento, previsto na Lei 9.718/98, todos aqueles valores que são cobrados dos consorciados por determinação contratual, ainda que contabilmente registrados como "recuperação de despesas".
Recurso Voluntário Provido em Parte
Direito Creditório Reconhecido em Parte
Numero da decisão: 3402-006.699
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para excluir as parcelas nos termos da diligência fiscal. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Cynthia Elena de Campos e Thais De Laurentiis Galkowicz que acompanharam o relator pelas conclusões e davam provimento em maior extensão para afastar a exigência referente às contas 7193000602 ("Ressarcimento desp. legais judiciais"), 7193000603 (Recuperação de despesas), 7193000605 (Recuperação de despesas) e 7193000606 (Recuperação de multa). A Conselheira Maysa de Sá Pittondo Deligne manifestou interesse em apresentar declaração de voto.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Pedro Sousa Bispo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (Presidente), Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Cynthia Elena de Campos e Thais De Laurentiis Galkowicz.
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Período de apuração: 01/11/2000 a 30/11/2000 FALTA DE RETIFICAÇÃO DA DCTF. Nos pedidos de restituição e compensação PER/DCOMP, a falta de retificação da DCTF do período em análise não é impedimento para deferimento do pedido, desde que o contribuinte demonstre no processo administrativo fiscal, por meio de prova idônea, contábil e fiscal, a existência da liquidez e certeza do crédito pleiteado. COMPENSAÇÃO. PEDIDO ORIGINAL. MODIFICAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. Além da restrição constante na legislação tributária de retificação da declaração de compensação após o despacho decisório, não se pode admitir a alteração do pedido original por meio da manifestação de inconformidade, por questões relativas à própria delimitação da lide com o pedido, do devido processo legal e da segurança jurídica. O litígio instaurado a partir da apresentação de manifestação de inconformidade presta-se exclusivamente a discutir a não homologação da compensação declarada, não havendo espaço para análise da procedência de créditos diversos dos alegados por ocasião da transmissão da declaração de compensação. A declaração de compensação só pode ser retificada em razão de erro material e tem como data limite a expedição do despacho decisório que decide originalmente acerca da homologação ou não da compensação. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/11/2000 a 30/11/2000 CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE DO §1º DO ART. 3º DA LEI Nº 9.718/98. A declaração de inconstitucionalidade do §1º, do art. 3º, da Lei nº 9.718/98, não afasta a incidência do PIS em relação às receitas operacionais decorrentes das atividades empresariais. A noção de faturamento do RE 585.235/MG deve ser compreendida no sentido estrito de receita bruta das vendas de mercadorias e da prestação de serviços, ou seja, a soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais, consoante interpretação iniciada pelo RE 609.096/RS, submetidos à repercussão geral. Em consequência, inclui-se no conceito de faturamento, previsto na Lei 9.718/98, todos aqueles valores que são cobrados dos consorciados por determinação contratual, ainda que contabilmente registrados como "recuperação de despesas". Recurso Voluntário Provido em Parte Direito Creditório Reconhecido em Parte
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para excluir as parcelas nos termos da diligência fiscal. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Cynthia Elena de Campos e Thais De Laurentiis Galkowicz que acompanharam o relator pelas conclusões e davam provimento em maior extensão para afastar a exigência referente às contas 7193000602 ("Ressarcimento desp. legais judiciais"), 7193000603 (Recuperação de despesas), 7193000605 (Recuperação de despesas) e 7193000606 (Recuperação de multa). A Conselheira Maysa de Sá Pittondo Deligne manifestou interesse em apresentar declaração de voto. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra - Presidente. (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (Presidente), Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Cynthia Elena de Campos e Thais De Laurentiis Galkowicz.
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Nos pedidos de restituição e compensação PER/DCOMP, a falta de retificação da DCTF do período em análise não é impedimento para deferimento do pedido, desde que o contribuinte demonstre no processo administrativo fiscal, por meio de prova idônea, contábil e fiscal, a existência da liquidez e certeza do crédito pleiteado. COMPENSAÇÃO. PEDIDO ORIGINAL. MODIFICAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. Além da restrição constante na legislação tributária de retificação da declaração de compensação após o despacho decisório, não se pode admitir a alteração do pedido original por meio da manifestação de inconformidade, por questões relativas à própria delimitação da lide com o pedido, do devido processo legal e da segurança jurídica. O litígio instaurado a partir da apresentação de manifestação de inconformidade prestase exclusivamente a discutir a não homologação da compensação declarada, não havendo espaço para análise da procedência de créditos diversos dos alegados por ocasião da transmissão da declaração de compensação. A declaração de compensação só pode ser retificada em razão de erro material e tem como data limite a expedição do despacho decisório que decide originalmente acerca da homologação ou não da compensação. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/11/2000 a 30/11/2000 CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE DO §1º DO ART. 3º DA LEI Nº 9.718/98. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 0. 90 98 44 /2 01 1- 21 Fl. 177DF CARF MF 2 A declaração de inconstitucionalidade do §1º, do art. 3º, da Lei nº 9.718/98, não afasta a incidência do PIS em relação às receitas operacionais decorrentes das atividades empresariais. A noção de faturamento do RE 585.235/MG deve ser compreendida no sentido estrito de receita bruta das vendas de mercadorias e da prestação de serviços, ou seja, a soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais, consoante interpretação iniciada pelo RE 609.096/RS, submetidos à repercussão geral. Em consequência, incluise no conceito de faturamento, previsto na Lei 9.718/98, todos aqueles valores que são cobrados dos consorciados por determinação contratual, ainda que contabilmente registrados como "recuperação de despesas". Recurso Voluntário Provido em Parte Direito Creditório Reconhecido em Parte Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para excluir as parcelas nos termos da diligência fiscal. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Cynthia Elena de Campos e Thais De Laurentiis Galkowicz que acompanharam o relator pelas conclusões e davam provimento em maior extensão para afastar a exigência referente às contas 7193000602 ("Ressarcimento desp. legais judiciais"), 7193000603 (“Recuperação de despesas”), 7193000605 (“Recuperação de despesas”) e 7193000606 (“Recuperação de multa”). A Conselheira Maysa de Sá Pittondo Deligne manifestou interesse em apresentar declaração de voto. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra (Presidente), Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Cynthia Elena de Campos e Thais De Laurentiis Galkowicz. Relatório Por bem relatar os fatos, adoto o relatório do acórdão recorrido com os devidos acréscimos: PORTOBENS ADMINISTRADORA DE CONSÓRCIOS LTDA contribuinte requerente), com fulcro no art. 15 do Decreto nº 70.235 de 1972 (PAF), apresenta manifestação de inconformidade ao despacho que indeferiu o pleito consubstanciado nos processos abaixo relacionados: Fl. 178DF CARF MF Processo nº 10850.909844/201121 Acórdão n.º 3402006.699 S3C4T2 Fl. 178 3 Tais processos estão sendo juntados por “apensação”, considerando principal o de nº 10850721148201195, visando otimizar os procedimentos processuais e lavratura de atos relativos a todos eles, haja vista tratarse do mesmo contribuinte e mesma matéria em litígio. Tratamse pedidos de reconhecimento de direito creditório, formalizados mediante “Pedidos de Ressarcimento ou Restituição Eletrônicos – Declaração de Compensação” – PERDCOMP juntados aos autos dos aludidos processos. Em todos os pedidos a contribuinte registra que se trata de recolhimento indevido ou a maior, a exemplo da PERDCOMP de fls. 109 e seguintes do “processo principal” transmitida em 28/11/2008 que se refere ao recolhimento da Cofins relativo ao período de apuração de novembro/2004. Consoante despachos decisórios da DRF de Origem, a exemplo de fls. 462 e seguintes do “processo principal”, proferido em 14/6/2011, todos os pleitos foram indeferidos em face da apuração da inexistência do crédito, ou seja, os pagamentos que se alega foram realizados a maior já se encontravam alocados a débitos declarados e confessados pelo próprio contribuinte. A autoridade tributária destaca que a luz do CTN, o contribuinte pode pleitear a restituição de quantias pagas de forma indevida ou a maior, no prazo de 5 anos do recolhimento, desde que faça prova do crédito pretendido. Ocorre que, aplicandose os preceitos e disposições da Instrução Normativa SRF nº 600/2005 e alterações posteriores, que disciplinaram a aplicação das normas legais sobre a matéria, tratadas na Lei 9.430/1996 e alterações, nenhum direito creditório restou apurado. Cientificada, a contribuinte apresentou manifestações de inconformidade, fls. 287 e seguintes do processo principal alegando que: apresentou diversos pedidos administrativos de restituição de recolhimentos a maior do PIS/Cofins; porém, a despeito da evidente inconstitucionalidade do art. 3° do parágrafo único da Lei 9.718, que sequer chegou a ser abordada no despacho decisório, os pedidos foram indeferidos sob o fundamento de inexistência do credito; Fl. 179DF CARF MF 4 ao proceder dessa forma a autoridade tributária deixou de cumprir o art.65 da Instrução Normativa 900/2008 que determina a realização de diligências para verificar a exatidão das informações prestadas, logo, deixou de aprofundar na investigação dos fatos; no caso, a autoridade sequer tomou conhecimento das razões que justificam a restituição; é definitiva a decisão do Supremo Tribunal Federal que afastou a aplicação do art. 3° do parágrafo único da Lei n° 9.718/1998, portanto cumpre escoimar o alargamento da base de calculo do PIS/Cofins para alcançar outras receitas que as oriundas das vendas de mercadorias e prestação de serviços; Ao final requer seja reconhecido o direito creditório pleiteado nos aludidos processos anexando memória de cálculo dos valores que entende fazer jus. Ato contínuo, a DRJRIBEIRÃO PRETO (SP) julgou a Manifestação de Inconformidade do Contribuinte nos seguintes termos: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008 RECONHECIMENTO DE DIREITO CREDITÓRIO. NECESSIDADE DA EXISTÊNCIA DE CRÉDITO. A restituição, tal qual a compensação, pressupõe a existência de crédito do devedor para com o credor. No momento em que o sujeito passivo não retificou a DCTF, DIPJ, DACON e a própria escrita contábil, não fez com que se materializasse o valor que alega ter recolhido a maior, cujo montante pretende seja reconhecido. DCTF. INSTRUMENTO HÁBIL À CONSTITUIÇÃO DE CRÉDITO TRIBUTÁRIO. RETIFICAÇÃO. PRAZO QUINQUENAL. O débito confessado por meio de DCTF só pode ser alterado mediante retificação desta, que deve ocorrer no prazo de cinco anos. A DCTF entregue pelo sujeito passivo constitui instrumento por meio do qual o contribuinte informa o valor do crédito tributário apurado em favor do Fisco. Havendo erro na apuração a parte interessada tem prazo de cinco anos para retificála. O prazo quinquenal de que trata o artigo 149, parágrafo único, do CTN, é aplicável tanto ao Fisco quanto ao contribuinte. Decorrido o prazo de cinco anos não é permitido ao sujeito passivo retificar a DCTF para alterar o valor apurado no passado, objetivando diminuir o imposto a pagar e fazer aflorar créditos a serem utilizados por meio de restituição ou compensação. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Fl. 180DF CARF MF Processo nº 10850.909844/201121 Acórdão n.º 3402006.699 S3C4T2 Fl. 179 5 Em seguida, devidamente notificada, a Empresa interpôs o presente recurso voluntário pleiteando a reforma do acórdão. No Recurso Voluntário, a empresa suscitou as mesmas questões de mérito, repetindo as argumentações apresentadas na Manifestação de Inconformidade. Este Colegiado, em sessão realizado no dia 21 de fevereiro de 2017, resolveu converter o julgamento em diligência por entender que o processo não se encontrava maduro para julgamento pois necessitava dos esclarecimentos quanto a natureza das receitas auferidas pela empresa, bem como que fosse informado quais delas deveriam ser excluídas da base de cálculo das contribuições por força do RE 585.235, julgado sob sistemática de repercussão geral. Cumprida a solicitação do Colegiado, o processo foi a mim distribuído por sorteio, tendo em vista que o Conselheiro Relator originário (Carlos Daniel), neste ínterim, foi nomeado Conselheiro de outra Seção de julgamento do CARF. É o relatório. Voto Conselheiro Pedro Sousa Bispo O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele se deve conhecer. A matéria aqui discutida é recorrente aqui neste Colegiado, visto que todos aqueles que recolheram contribuições sociais ao PIS e a COFINS com a base de cálculo ampliada pelo §1º do artigo 3º da Lei nº 9718/98 passaram a ingressar administrativamente, dentro do interregno legal do direito à restituição, buscando reaver os valores pagos indevidamente. No caso concreto, o processo de pedido de compensação formulado pelo contribuinte, por meio de PER/DCOMPs, não foi homologado pela DRF SÃO JOSÉ DO RIO PRETO porque foi constatado que inexistia crédito disponível suficiente relativo ao DARF indicado e visto que todo o valor estaria alocado para extinguir débitos declarados na DCTF apresentada, conforme o constante do despacho decisório em anexo. Visando comprovar o seu direito creditório, o contribuinte juntou ao seu Recurso Voluntário planilhas e livro Diário que indicam, supostamente, a existência de receitas estranhas ao conceito de faturamento na apuração da base de cálculo do PIS e da COFINS. Este Colegiado, em sessão realizada no dia 21 de fevereiro de 2017, resolveu converter o julgamento em diligência por entender que o processo não se encontrava maduro para julgamento pois necessitava dos esclarecimentos a seguir indicados: I) Que a DRF intime o contribuinte a apresentar os livros contábeis e a documentação fiscal necessária à identificação da Fl. 181DF CARF MF 6 natureza das receitas que compuseram a base de cálculo das contribuições sociais do período cuja restituição pleiteia o Recorrente. II) Após o recebimento e análise da documentação a ser entregue pelo Recorrente, a autoridade fiscalizadora deverá elaborar relatório discriminando a parcela da base de cálculo correspondente às receitas excluídas por força do Recurso Extraordinário RE 585.235, julgado sob sistemática de Repercussão Geral, calculando o valor do tributo correspondente. A DRF de origem analisou detalhadamente cada rubrica contábil reivindicada pela Recorrente, que supostamente não comporia a base de cálculo das contribuições (PIS e COFINS) por força da declaração de inconstitucionalidade do §1º do artigo 3º da Lei nº 9718/98. Em suma, concluiu o Auditor Fiscal que o contribuinte concorda que devem ser incluídas na base de cálculo da COFINS e do PIS as receitas referentes ao recebimento das taxas de inscrição e taxas de administração, porém, de forma divergente ao entendido pela Recorrente, afirma que nas rubricas analisadas, as referentes as contas contábeis abaixo indicadas deveriam compor o faturamento para efeito de incidência das referidas contribuições: Em seguida, foram refeitos os cálculos do período em análise, com base no demonstrativo e registros contábeis que lhes foram apresentados, incluindo na base de cálculo todas as receitas operacionais e excluindo aquelas receitas financeiras e estranhas ao conceito de faturamento, onde apurouse o PIS a pagar apurado na diligência do período de apuração de 30/11/2000 em confronto com o pagamento do período informado na Perdcomp, obtendose o valor recolhido a maior, conforme planilha juntada nas fls. 152. Por fim, apurou na mesma planilha o valor do crédito reconhecido em cada Perdcomp constante do processo em epígrafe, limitandose o reconhecimento do crédito até o valor pedido. Preliminarmente, cabe esclarecer que, não obstante a Recorrente não ter retificado a DCTF relativamente ao débito que originaria o alegado pagamento indevido, as turmas colegiadas do CARF têm expressado o seguinte entendimento sobre essa questão, ao Fl. 182DF CARF MF Processo nº 10850.909844/201121 Acórdão n.º 3402006.699 S3C4T2 Fl. 180 7 qual concordo: Nos pedidos de restituição e compensação PER/DCOMP, a falta de retificação da DCTF do período em análise não é impedimento para deferimento do pedido, desde que o contribuinte demonstre no processo administrativo fiscal, por meio de prova idônea, contábil e fiscal, a existência da liquidez e certeza do crédito pleiteado (Acórdão nº 3301005.595, de 13 de dezembro de 2018, Rel. Salvador Cândido Brandão Junior). No mérito, a Recorrente se insurge contra a inclusão das receitas constantes na tabela anteriormente indicada na base de cálculo das contribuições ao PIS e à COFINS, pois, no seu entender, tais receitas são estranhas ao conceito de faturamento, não estando de acordo com o julgado do STF no RE 585.235/MG. Ressalta que, no referido Recurso Extraordinário, o parágrafo primeiro do art. 3º da Lei nº 9.718, de 1998, norma conhecida como alargamento da base de cálculo dessas contribuições, foi reconhecido como inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Assim, conclui ser inconstitucional a cobrança da Cofins e do PIS sobre os valores indevidos na base de cálculo do faturamento, notadamente os valores registrados nas contas contábeis: n. 7193000602 – “Ressarcimento desp. legais judiciais”; n. 7193000603 – “Recuperação de despesas”; n. 7193000605 – “Recuperação de despesas”; n. 7193000606 – “Recuperação de multa”; e n. 7193000607 – “Receitas Diversas”. Temse o alcance do termo faturamento ou receita bruta como a soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais, consoante assentado no RE nº 585.2351/MG, no qual reconheceuse a repercussão geral do tema concernente ao alargamento da base de cálculo do PIS e da COFINS prevista no §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, e reafirmouse a jurisprudência consolidada pela Corte Suprema nos leading cases. Transcrevese a ementa: "EMENTA. RECURSO. Extraordinário. Tributo. Contribuição social. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, §1º da Lei nº 9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE nº 346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ DE 1º.9.2006; REs nº 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, DJ de 15.8.2006). Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Sessão Plenária, sob a Presidência do Senhor Ministro Gilmar Mendes, na conformidade da ata de julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade, em resolver questão de ordem no sentido de reconhecer a repercussão geral da questão constitucional, reafirmar a jurisprudência do Tribunal acerca da inconstitucionalidade do § 1º do artigo 3º da Lei 9.718/98 e negar provimento ao recurso da Fazenda Nacional, tudo nos termos do voto do Relator. Vencido, parcialmente, o Senhor Ministro Marco Aurélio, que entendia ser necessária a inclusão do processo em pauta. Em seguida, o Tribunal, por maioria, aprovou proposta do Relator para edição de súmula vinculante sobre o tema, e cujo teor será deliberado nas próximas sessões, vencido o Senhor Ministro Marco Aurélio, que reconhecia a necessidade de encaminhamento da proposta à Comissão de Jurisprudência. Votou o Presidente, Ministro Gilmar Mendes. Ausentes, justificadamente, o Senhor Ministro Celso de Mello, a Fl. 183DF CARF MF 8 Senhora Ministra Ellen Gracie e, neste julgamento, o Senhor Ministro Joaquim Barbosa. Brasília, 10 de setembro de 2008 Ministro Cezar Peluso, Relator" No voto, o Ministro Cezar Peluso deixou consignado que: “1. O recurso extraordinário está submetido ao regime de repercussão geral e versa sobre tema cuja jurisprudência é consolidada nesta Corte, qual seja, a inconstitucionalidade do §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, que ampliou o conceito de receita bruta, violando, assim, a noção de faturamento pressuposta na redação original do art. 195, I, b, da Constituição da República, e cujo significado é o estrito de receita bruta das vendas de mercadorias e da prestação de serviços de qualquer natureza, ou seja, soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais....” (negrito nosso) Nesse passo, cabe a este Colegiado decidir se as rubricas contábeis citadas guardam identidade com o conceito de faturamento, entendido este como a soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais, em sintonia com o assentado no RE nº 585.2351/MG. Inicialmente, oportuno fazer algumas considerações sobre a natureza jurídica das recuperações de despesas/custos, pois a Recorrente argui que essas rubricas contábeis sequer possuem natureza de receitas. Entendo que o conceito mais adequado para receita é como o ingresso econômico representado por um aumento de ativo ou diminuição de passivo que resultam em aumentos de patrimônio líquido e que não sejam provenientes de aporte de recursos dos proprietários da entidade. Nesse sentido, diversamente ao argumentado pela Recorrente, entendo que as recuperações de custos/despesas são conceitualmente receitas, devendo compor o faturamento ou receita bruta, e sua exclusão da base de cálculo da base de cálculo das contribuições deveria ser veiculada em lei, o que não se identifica na legislação vigente. Confirmando esta natureza, transcrevo o artigo 44 da Lei nº 4.506/1964: Art. 44. Integram a receita bruta operacional: I O produto da venda dos bens e serviços nas transações ou operações de conta própria; II O resultado auferido nas operações de conta alheia; III As recuperações ou devoluções de custos, deduções ou provisões; IV As subvenções correntes, para custeio ou operação, recebidas de pessoas jurídicas de direito público ou privado, ou de pessoas naturais. (negrito nosso) Fl. 184DF CARF MF Processo nº 10850.909844/201121 Acórdão n.º 3402006.699 S3C4T2 Fl. 181 9 Dessa forma, no caso ora analisado, o fato da Recorrente aduzir que algumas das rubricas contábeis consideradas pela Fiscalização têm natureza de redução de custos/despesa, isso não afasta a sua natureza de receita, conforme expressamente dispõe o inciso III do artigo 44 da Lei nº 4.506/1964. Nesse mesmo sentido, há decisão do CARF caracterizando como receita a recuperação de despesas/custo, a teor do Acórdão nº 3302003.653, cuja ementa transcrevese a seguir: BASE DE CÁLCULO. RECUPERAÇÃO DE DESPESAS. As receitas decorrentes de recuperação de despesas não podem ser excluídas da base de cálculo das contribuições PIS/Cofins, por falta de previsão legal. (Acórdão nº 3302003.653 de 22 de fevereiro de 2017 da Terceira Câmara, Segunda Turma, da Terceira Seção) No presente caso, observase que todos os valores recebidos à título de recuperação de custos/despesas estão acordados em contrato padrão, abaixo reproduzido, e integram os valores pagos habitualmente à Recorrente pelos consorciados. Além disso, como bem pontuado pela Autoridade Fiscal, as administradoras de consórcios tem como receita principal a taxa de administração, mas podem também receber outros valores, desde que previstos nos contratos de adesão, inclusive recuperação de custos/despesas, multas e juros moratórios pagos pelos consorciados no caso de atraso nos pagamentos das parcelas contratadas. Em conseqüência, tais valores devem ser considerados receitas operacionais pois são habituais e típicos do negócio desenvolvido pela empresa. Abaixo, transcrevese cláusula do contrato social do contribuinte, que denota o seu objeto social, bem como, é reproduzido parcialmente o contrato padrão utilizado nos negócios do contribuinte no período analisado: Contrato Social Contrato Padrão de Negócios Fl. 185DF CARF MF 10 Dessa forma, mesmo que se afaste o § 1º do art. 3º da Lei 9.718/98, julgado inconstitucional na sistemática dos repetitivos no RE nº 585.2351/MG, ainda assim os valores registrados nas rubricas contábeis aqui discutidas integram o faturamento da empresa, entendido este como "a soma das receitas provenientes das atividades empresariais". Ademais, para aqueles que entendem, em tese, que recuperação de custos/despesas não têm natureza jurídica de receita, oportuno aqui esclarecer que nos autos não restou comprovada esta natureza (recuperação custo/despesa) dos valores ora discutidos. O Contribuinte não demonstrou, por meio de documentos, a existência de correspondência direta entre os custos/despesas de incorridos e os reembolsos recebidos pela Empresa. Assim, as argumentações teóricas sobre o tema expostas pela Recorrente não vieram lastreadas por documentos comprobatórios suficientes, tais como as planilhas de custos/despesas incorridos em correspondência com os valores recebidos. Como se sabe, o momento adequado para apresentação da prova documental pela empresa é na impugnação, precluindo o direito da Recorrente fazêlo em outro momento processual, a menos em caso de impossibilidade de apresentação por motivo de força maior, ou se refira a direito ou fato superveniente, ou se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos (§4° do art. 16 do Decreto n.° 70.235/72, inserido pela Lei n.° 9.532/97) , situações essas que não foram identificadas no presente processo. Por fim, tendo em vista que todas as Perdcomps do processo foram apresentadas dentro do interstício de 5(cinco)anos da data dos pagamentos, não foi observada a ocorrência de prescrição. Dessa feita, deve ser reconhecida a existência de direito creditório da Recorrente do período de apuração de 30/11/2000, na forma indicada no DEMONSTRATIVO DE APURAÇÃO DO PIS e do valor do CRÉDITO PASSÍVEL DE RECONHECIMENTO elaborada pela fiscalização, constante do campo crédito reconhecido (fls. 152), devendo compor a base de cálculo da contribuição as contas abaixo relacionadas, conforme consta na Informação Fiscal (fls.153 a 157): 7173500501 TAXA DE ADMINISTRAÇÃO 7193000602 RESSARC DESP LEGAIS JUDIC 7193000603 RECUPERAÇÃO DE DESPESAS 7193000605 RECUPERAÇÃO DE DESPESAS 7193000606 RECUPERAÇÃO DE MULTA Fl. 186DF CARF MF Processo nº 10850.909844/201121 Acórdão n.º 3402006.699 S3C4T2 Fl. 182 11 7193000607 RECEITAS DIVERSAS Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento parcial ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Pedro Sousa Bispo Relator Declaração de Voto Conselheira Maysa de Sá Pittondo Deligne. Em sessão, manifestei interesse em apresentar declaração de voto para elucidar as questões pelas quais entendo que o provimento parcial do recurso voluntário deveria ser concedido em maior extensão, para abranger as parcelas que não se enquadram no conceito de faturamento. Não obstante o I. Relator tenha buscado diferenciar os conceitos de receita e faturamento, entendo que estes conceitos ficaram mesclados em seu voto, com todo respeito. Importante, com isso, traçar uma distinção entre os conceitos de receita e faturamento.1 Como é assente, com a edição da Lei 9.718/98 e a indicação pelo legislador ordinário de que o faturamento ou receita bruta da pessoa jurídica corresponderia à “totalidade das receitas auferidas pela pessoa jurídica” (art. 3º, § 1º, da Lei 9.718/98), foi instaurada uma extensa discussão na doutrina e na jurisprudência quanto ao conceito de faturamento indicado, à época, no art. 195, I, da CF/88, em sua redação originária, como materialidade suscetível de tributação pelas contribuições securitárias. Essa discussão ganhou ainda maior relevância com a publicação, em dezembro de 1998, da EC 20/98, pela qual foi alterada a redação do art. 195, I, CF/88 para indicar, além do faturamento, o termo receita como uma materialidade suscetível de tributação pelas contribuições securitárias no art. 195, I, ‘b’, CF/88. O conceito constitucional de faturamento incorporado pelo texto constitucional, depreendido do DecretoLei 2.397/87 ao definir a base de cálculo do extinto FINSOCIAL é o produto da venda de mercadorias e/ou da prestação de serviços auferidos 1 Para maiores considerações, na seara doutrinária, vide: DELIGNE, Maysa de Sá Pittondo. Receita como elemento de incidência do PIS e da COFINS: conceito jurídico x conceito contábil. In: MURICI, Gustavo Lanna; CARDOSO, Oscar Valente; RODRIGUES, Raphael Silva. (Org.). Estudos de direito processual e tributário em homenagem ao Ministro Teori Zavascki. Belo Horizonte: D'Plácido, 2018, p. 841861. Fl. 187DF CARF MF 12 pelas pessoas jurídicas. 2 Esse foi o entendimento adotado pelo Supremo Tribunal Federal no RE 346.084, um dos primeiros precedentes quanto à inconstitucionalidade do mencionado § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, segundo o qual o conceito de faturamento, sinônimo de receita bruta, não pode ser considerado como todas as receitas auferidas pela pessoa jurídica referindo se, apenas, “à venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e serviços”3. Posteriormente, especialmente em função da discussão envolvendo o faturamento das instituições financeiras, a expressão “totalidade das receitas auferidas com a venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e serviços” passou a ser indicada na jurisprudência como “a soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais”4, ou seja, aquelas auferidas exclusivamente no exercício de seu objeto social. Vejase que, ao contrário do que pretende aduzir o relator em seu voto, o exercício da atividade empresarial deve guardar relevância com o objeto social da pessoa jurídica para se enquadrar no conceito de faturamento. Essa necessária correspondência com o exercício da atividade social da pessoa jurídica é depreendida, inclusive, do conceito legislativo de receita bruta introduzido pela Lei n.º 12.973/2014 que alterou o art. 12 do DecretoLei no 1.598/19775, indicando que a receita bruta é aquela auferia pela pessoa jurídica no exercício do objeto social principal, dentre as quais aquelas auferidas com a venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e serviços, bem como as receitas auferidas em função da realização de operações de conta alheia.6 As polêmicas em torno do conceito de faturamento foram igualmente relevantes para sedimentar o conceito de receita indicado no texto constitucional, tomado como o gênero no qual se inclui o faturamento, abrangendo todos os valores recebidos, a qualquer título, pela pessoa jurídica7. Assim, os conceitos de receita e faturamento não se confundem. A manifestação de José Souto Maior Borges traz uma clara distinção entre os dois conceitos: “Faturamento e receita são pois conceitos inconfundíveis. O faturamento é um mero instrumento formal de segurança nas relações jurídicomercantis (atesta uma 2 Conforme: LEÃO, Martha Toribio. A incidência das contribuições sociais sobre as receitas financeiras das instituições financeiras e a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. Revista Dialética de Direito Tributário, São Paulo, n. 214, p. 97, jul. 2013. ÁVILA, Humberto. Contribuição social sobre o faturamento. Cofins. Base de cálculo. Distinção entre receita e faturamento. Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. Revista Dialética de Direito Tributário, São Paulo, n. 107, p. 104, ago. 2004. 3 BRASIL. STF. RE 346084, Relator Ministro Ilmar Galvão, Relator para o acórdão Ministro Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 09/11/2005, publicado em 01/09/2006. 4 BRASIL. STF. Agravo Regimental no RE 371258, Relator Min. Cezar Peluso, Segunda Turma, julgado em 03/10/2006, DJ 27/10/2006. E ainda, BRASIL, STF. Agravo Regimental no RE 816363, Relator Ministro Ricardo Lewandowski, Segunda Turma, julgado em 05/08/2014, Pulicado em 15/08/2014. 5 “Art. 12. A receita bruta compreende: I o produto da venda de bens nas operações de conta própria; II o preço da prestação de serviços em geral; III o resultado auferido nas operações de conta alheia; e IV as receitas da atividade ou objeto principal da pessoa jurídica não compreendidas nos incisos I a III.” 6 Sem adentrar nos pormenores desta inovação legislativa, o conceito constitucional de faturamento, vigente à época da promulgação da Constituição, não pode ser alterado por legislação infraconstitucional, qual seja, a soma das receitas auferidas com a venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e serviços. Dentre outros, é criticável a previsão do art. 12, §5º, DecretoLei no 1.598/1977, que extrapolou o conceito constitucional de receita ao exigir a inclusão dos tributos sobre ela incidentes. Sobre o tema vide SANTOS, Ramon Tomazela. Notas sobre a ampliação do conceito de receita bruta pela Lei n.º 12.973/2014 e as receitas financeiras das instituições financeiras e sociedades seguradoras. Revista Dialética de Direito Tributário, São Paulo, n. 228, p. 136154, set. 2014. 7 BRASIL, STF. RE 474132, Relator Ministro Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, julgado em 12/08/2010, publicado em 30/11/2010. Fl. 188DF CARF MF Processo nº 10850.909844/201121 Acórdão n.º 3402006.699 S3C4T2 Fl. 183 13 compra e venda ou serviço prestado). Mas a receita (totalidade dos ingressos) pode decorrer de operações não faturáveis pela empresa [...]. Tratase, pois da relação de implicação dogmática entre o gênero (todas as receitas da empresa) e a espécie (o faturamento). Faturáveis são apenas os ingressos vinculados a compra e venda mercantil e serviços prestados pelas empresas”8. Uma vez que o presente processo se refere à análise da Lei n. 9.718/98, necessário avaliar se as parcelas discutidas pelo sujeito passivo se enquadram no conceito de faturamento, e não de receita. Atentandose para as parcelas em discussão relacionadas ao ressarcimento de custos e despesas incorridas com terceiros junto aos consorciados (“Ressarcimento desp. legais judiciais”, “Ressarcimento vendas de cotas”; “Recuperação de despesas”), elas igualmente não se enquadram no conceito de faturamento, não decorrendo do exercício do objeto social da pessoa jurídica. Como elucidado na diligência fiscal realizada, esses valores se apresentam como verdadeiros reembolsos arcados pela pessoa jurídica, não configurando como receita própria de sua atividade. Tratamse de valores de titularidade de terceiro, arcada pela pessoa jurídica para repassar integralmente aos seus consorciados. Não se tratando de receita própria, essas contas contábeis não representam seja faturamento seja receita da pessoa jurídica. Não correspondem, por conseguinte, à “aquisição de direito novo”, como evidenciado no acórdão 3802001.868, de 23/07/2013: “Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – Cofins Período de apuração: 01/12/2005 a 31/12/2005 CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS. NÃO INCIDÊNCIA. A cessão de créditos de ICMS não se constitui em base de cálculo da contribuição, por se tratar esta operação de mera mutação patrimonial, não representando receita. RECUPERAÇÃO DE CUSTOS E DESPESAS. NÃO INCIDÊNCIA. Os ingressos que a pessoa jurídica perceba a título de efetiva recuperação de custos e despesas não constituem receita para fins de tributação por meio da COFINS, notadamente por significarem mero estorno daqueles dispêndios anteriormente incorridos e não, como seria indispensável, aquisição de direito novo. RECURSO VOLUNTÁRIO PROVIDO.” (grifei) Da mesma forma, as contas relacionadas à “Recuperação de multas” igualmente não refletem o exercício da atividade principal da pessoa jurídica, tratandose de receita de natureza financeira aferida em razão do descumprimento dos contratos. O objetivo social do Consórcio é remunerado pela taxa de administração, sendo que o recebimento de multas pelo descumprimento do contrato não é um objetivo por ela vislumbrado. Por fim, insta frisar que acompanho o relator quanto às contas contábeis 7193000606 “Receitas Diversas” em razão da ausência de provas para confirmar a natureza das receitas aferidas. 8 BORGES, José Souto Maior. As contribuições sociais (PIS/Cofins) e a jurisprudência do STF. Revista Dialética de Direito Tributário, São Paulo, n. 118, p. 80, jul. 2005. Fl. 189DF CARF MF 14 Diante do exposto, voto pelo provimento do recurso voluntário em maior extensão, para afastar da base de cálculo das contribuições as contas às contas 7193000602 ("Ressarcimento desp. legais judiciais"), 7193000603 (“Recuperação de despesas”), 7193000605 (“Recuperação de despesas”) e 7193000606 (“Recuperação de multa”), e garantir o direito de crédito da contribuição equivalente, quanto às parcelas excluídas, relativas às contas indicadas no resultado deste julgamento. É como declaro meu voto. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne Fl. 190DF CARF MF
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Numero do processo: 10680.936592/2016-17
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jun 17 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Jul 24 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do fato gerador: 24/06/2010
COMPENSAÇÃO DE OFÍCIO. DISCORDÂNCIA DO CONTRIBUINTE. CRÉDITO TRIBUTÁRIO COM EXIGIBILIDADE SUSPENSA NOS TERMOS DO ART. 151 DO CTN. RETENÇÃO DO VALOR A SER RESSARCIDO. IMPOSSIBILIDADE. COMPENSAÇÃO VOLUNTÁRIA. HOMOLOGAÇÃO. STJ. RECURSO REPETITIVO. ART. 62, §2º DO RICARF.
Não se pode impor compensação de ofício ou reter valores passíveis de ressarcimento, nos termos do parágrafo único do artigo 73 da Lei n° 9.430/1996 c/c § 4º do art. 89 da Instrução Normativa RFB nº 1.717/2017, quando os débitos do contribuinte para com o Fisco estiverem com exigibilidade suspensa nos termos do art. 151 do CTN. Deve ser homologada a compensação voluntária declarada. Reprodução do entendimento firmado pelo STJ no Resp n°1.213.082/PR, julgado sob a sistemática dos recursos repetitivos, por força do §2° do art. 62 do RICARF.
Numero da decisão: 3401-006.480
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, Fernanda Vieira Kotzias, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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DISCORDÂNCIA DO CONTRIBUINTE. CRÉDITO TRIBUTÁRIO COM EXIGIBILIDADE SUSPENSA NOS TERMOS DO ART. 151 DO CTN. RETENÇÃO DO VALOR A SER RESSARCIDO. IMPOSSIBILIDADE. COMPENSAÇÃO VOLUNTÁRIA. HOMOLOGAÇÃO. STJ. RECURSO REPETITIVO. ART. 62, §2º DO RICARF. Não se pode impor compensação de ofício ou reter valores passíveis de ressarcimento, nos termos do parágrafo único do artigo 73 da Lei n° 9.430/1996 c/c § 4º do art. 89 da Instrução Normativa RFB nº 1.717/2017, quando os débitos do contribuinte para com o Fisco estiverem com exigibilidade suspensa nos termos do art. 151 do CTN. Deve ser homologada a compensação voluntária declarada. Reprodução do entendimento firmado pelo STJ no Resp n°1.213.082/PR, julgado sob a sistemática dos recursos repetitivos, por força do §2° do art. 62 do RICARF. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, Fernanda Vieira Kotzias, Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 68 0. 93 65 92 /2 01 6- 17 Fl. 45DF CARF MF 2 Relatório Tratase de recurso voluntário em face da decisão da Delegacia de Julgamento em Curitiba que julgou improcedente a manifestação de inconformidade, conforme ementa abaixo transcrita: (...) DCOMP. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. NÃO HOMOLOGAÇÃO. CRÉDITO INTEGRALMENTE RECONHECIDO EM PER. DISCORDÂNCIA QUANTO À COMPENSAÇÃO EM PROCEDIMENTO DE OFÍCIO. Correta a não homologação da declaração de compensação vinculada a pedido de restituição deferido parcialmente e a manifesta discordância do contribuinte quanto aos procedimentos de compensação de ofício, tendo em vista que o direito creditório reconhecido encontrase retido até que os débitos existentes em nome do contribuinte para com a Fazenda Pública sejam liquidados. Cientificada do acórdão de piso, a empresa interpôs Recurso Voluntário, sustentando que: a) o crédito utilizado na compensação já foi reconhecido pela autoridade administrativa, como consta expressamente da decisão recorrida; b) o crédito não deve ser objeto de retenção, com fundamento no parágrafo único do artigo 73 da Lei n° 9.430/1996 c/c § 4º do art. 89 da Instrução Normativa RFB nº 1.717/2017, em razão da discordância da Recorrente quanto à realização da compensação de ofício, pois os débitos estão com exigibilidade suspensa conforme a certidão positiva com efeitos de negativa apresentada; c) as normas que preveem a retenção de créditos em razão da negativa de se proceder à compensação de ofício de débitos com exigibilidade suspensa contrariam o art. 151 do Código Tributário Nacional e o art. 146, III, ‘b’ da Constituição, que confere a tal código a competência para dispor sobre crédito tributário; d) deve ser reproduzida pelo Conselho a tese formulada pelo STJ no REsp n° 1.213.082/PR, julgado sob a sistemática dos recursos repetitivos, que considera ilegal a compensação de ofício de débitos com exigibilidade suspensa na forma do art. 151 do CTN, por força do §2° do art. 62 do RICARF. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevsan, Relator Fl. 46DF CARF MF Processo nº 10680.936592/201617 Acórdão n.º 3401006.480 S3C4T1 Fl. 3 3 O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 3401006.346, de 17 de junho de 2019, proferido no julgamento do Processo nº 10680.925847/201616. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 3401006.346): "A controvérsia posta nos autos, acerca da não homologação da compensação declarada no PER/DCOMP nº 17327.68767.220416.1.3.040501, reside especificamente na possibilidade de o Fisco reter os créditos que a Recorrente pretende compensar em razão da discordância desta quanto à realização de sua compensação de ofício com outros débitos da empresa, os quais se encontram com exigibilidade suspensa, nos termos do art. 151 do CTN. A fiscalização aplicou à espécie o parágrafo único do artigo 73 da Lei n° 9.430/1996 c/c § 4º do art. 89 da Instrução Normativa RFB nº 1.717/2017, a seguir reproduzidos: Lei 9.430, de 27 de dezembro de 1996 (...) Art. 73. A restituição e o ressarcimento de tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil ou a restituição de pagamentos efetuados mediante DARF e GPS cuja receita não seja administrada pela Secretaria da Receita Federal do Brasil será efetuada depois de verificada a ausência de débitos em nome do sujeito passivo credor perante a Fazenda Nacional. (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) I (revogado); (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) II (revogado). (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) Parágrafo único. Existindo débitos, não parcelados ou parcelados sem garantia, inclusive inscritos em Dívida Ativa da União, os créditos serão utilizados para quitação desses débitos, observado o seguinte: (Incluído pela Lei nº 12.844, de 2013) I o valor bruto da restituição ou do ressarcimento será debitado à conta do tributo a que se referir; (Incluído pela Lei nº 12.844, de 2013) II a parcela utilizada para a quitação de débitos do contribuinte ou responsável será creditada à conta do respectivo tributo. (Incluído pela Lei nº 12.844, de 2013) Instrução Normativa RFB nº 1.717 de 2017 (...) Da Compensação de Ofício Fl. 47DF CARF MF 4 Art. 89. A restituição e o ressarcimento de tributos administrados pela RFB ou a restituição de pagamentos efetuados mediante DARF e GPS cuja receita não seja administrada pela RFB será efetuada depois de verificada a ausência de débitos em nome do sujeito passivo credor perante a Fazenda Nacional. § 1º Existindo débito, ainda que consolidado em qualquer modalidade de parcelamento, inclusive de débito já encaminhado para inscrição em Dívida Ativa da União, de natureza tributária ou não, o valor da restituição ou do ressarcimento deverá ser utilizado para quitálo, mediante compensação em procedimento de ofício. § 2º A compensação de ofício de débito parcelado restringese aos parcelamentos não garantidos. § 3º Previamente à compensação de ofício, deverá ser solicitado ao sujeito passivo que se manifeste quanto ao procedimento no prazo de 15 (quinze) dias, contados do recebimento de comunicação formal enviada pela RFB, sendo o seu silêncio considerado como aquiescência. § 4º Na hipótese de o sujeito passivo discordar da compensação de ofício, a autoridade da RFB competente para efetuar a compensação reterá o valor da restituição ou do ressarcimento até que o débito seja liquidado. (grifo nosso) Assim, verificada a existência de débitos e ante a discordância da Recorrente quanto à realização da compensação de ofício, os valores a serem restituídos foram retidos até a liquidação dos débitos em aberto e, com isso, indeferido o pedido de compensação por ausência de saldo disponível, procedimento que veio a ser confirmado pela decisão recorrida. A Recorrente se insurge contra tal procedimento, sob a alegação de que seus débitos em aberto estariam com exigibilidade suspensa nos termos do art. 151 do CTN, fazendo prova do alegado mediante juntada de certidão positiva com efeitos de negativa. Deste modo, procederse à compensação de ofício de créditos tributários com exigibilidade suspensa significaria extinguir compulsoriamente créditos sequer exigíveis, tendo a Instrução Normativa RFB nº 1.717/2017 exorbitado de seu poder regulamentar ao contrariar o art. 151 do CTN e a própria Constituição Federal em seu art. 146, III, b, que atribui competência à lei complementar para dispor sobre crédito tributário. Sobre o tema, o STJ já se manifestou, sob a sistemática dos recursos repetitivos (tema 484), no Resp. n° 1.213.082/PR, cujo ementa reproduzo: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA (ART. 543C, DO CPC). ART. 535, DO CPC, AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO. COMPENSAÇÃO DE OFÍCIO PREVISTA NO ART. 73, DA LEI N. 9.430/96 E NO ART. 7º, DO DECRETOLEI N. 2.287/86. CONCORDÂNCIA TÁCITA E RETENÇÃO DE VALOR A SER RESTITUÍDO OU RESSARCIDO PELA SECRETARIA DA Fl. 48DF CARF MF Processo nº 10680.936592/201617 Acórdão n.º 3401006.480 S3C4T1 Fl. 4 5 RECEITA FEDERAL. LEGALIDADE DO ART. 6º E PARÁGRAFOS DO DECRETO N. 2.138/97. ILEGALIDADE DO PROCEDIMENTO APENAS QUANDO O CRÉDITO TRIBUTÁRIO A SER LIQUIDADO SE ENCONTRAR COM EXIGIBILIDADE SUSPENSA (ART. 151, DO CTN). 1. Não macula o art. 535, do CPC, o acórdão da Corte de Origem suficientemente fundamentado. 2. O art. 6º e parágrafos, do Decreto n. 2.138/97, bem como as instruções normativas da Secretaria da Receita Federal que regulamentam a compensação de ofício no âmbito da Administração Tributária Federal (arts. 6º, 8º e 12, da IN SRF 21/1997; art. 24, da IN SRF 210/2002; art. 34, da IN SRF 460/2004; art. 34, da IN SRF 600/2005; e art. 49, da IN SRF 900/2008), extrapolaram o art. 7º, do DecretoLei n. 2.287/86, tanto em sua redação original quanto na redação atual dada pelo art. 114, da Lei n. 11.196, de 2005, somente no que diz respeito à imposição da compensação de ofício aos débitos do sujeito passivo que se encontram com exigibilidade suspensa, na forma do art. 151, do CTN (v.g. débitos inclusos no REFIS, PAES, PAEX, etc.). Fora dos casos previstos no art. 151, do CTN, a compensação de ofício é ato vinculado da Fazenda Pública Federal a que deve se submeter o sujeito passivo, inclusive sendo lícitos os procedimentos de concordância tácita e retenção previstos nos §§ 1º e 3º, do art. 6º, do Decreto n. 2.138/97. Precedentes: REsp. Nº 542.938 RS, Primeira Turma, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 18.08.2005; REsp. Nº 665.953 RS, Segunda Turma, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 5.12.2006; REsp. Nº 1.167.820 SC, Segunda Turma, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 05.08.2010; REsp. Nº 997.397 RS, Primeira Turma, Rel. Min. José Delgado, julgado em 04.03.2008; REsp. Nº 873.799 RS, Segunda Turma, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 12.8.2008; REsp. n. 491342/PR, Segunda Turma, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 18.05.2006; REsp. Nº 1.130.680 RS Primeira Turma, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 19.10.2010. 3. No caso concreto, tratase de restituição de valores indevidamente pagos a título de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica IRPJ com a imputação de ofício em débitos do mesmo sujeito passivo para os quais não há informação de suspensão na forma do art. 151, do CTN. Impõese a obediência ao art. 6º e parágrafos do Decreto n. 2.138/97 e normativos próprios. 4. Recurso especial parcialmente provido. Acórdão submetido ao regime do art. 543C, do CPC, e da Resolução STJ n. 8/2008. (REsp 1213082/PR, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 10/08/2011, DJe 18/08/2011) Fl. 49DF CARF MF 6 No julgado, a Corte reconheceu a ilegalidade da imposição de compensação de ofício aos débitos com exigibilidade suspensa por força do art. 151 do CTN e, in casu, verificase que a certidão apresentada às fls. 27/28 menciona expressamente que os débitos da Recorrente estão com exigibilidade suspensa nos termos do art. 151 do CTN. Desta feita, impende a aplicação do §2° do art. 62 do RICARF para reproduzir o entendimento do STJ, a fim de possibilitar a compensação pleiteada, ressalvandose a necessidade de renovação da certidão positiva com efeitos de negativa por ocasião da liquidação deste julgado para se verificar a permanência do requisito de suspensão da exigibilidade dos débitos. Ante o exposto, voto por CONHECER do Recurso Voluntário e, no mérito, DAR PROVIMENTO ao mesmo." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o colegiado decidiu por CONHECER do Recurso Voluntário e, no mérito, DAR PROVIMENTO ao mesmo. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevsan Fl. 50DF CARF MF
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Numero do processo: 10805.725776/2017-81
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed May 22 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Jun 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2013 a 31/12/2013
BASE DE CÁLCULO. AGÊNCIAS DE VIAGENS E TURISMO.
A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos.
Os valores recebidos dos consumidores e repassados efetivamente aos fornecedores dos serviços prestados não configuram receita bruta da agência de turismo, independentemente do fato da agência emitir nota fiscal/fatura/boleto pelo valor integral do negócio, ou do consumidor contratar unicamente com a agência.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2013 a 31/12/2013
BASE DE CÁLCULO. AGÊNCIAS DE VIAGENS E TURISMO.
A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos.
Os valores recebidos dos consumidores e repassados efetivamente aos fornecedores dos serviços prestados não configuram receita bruta da agência de turismo, independentemente do fato da agência emitir nota fiscal/fatura/boleto pelo valor integral do negócio, ou do consumidor contratar unicamente com a agência.
Numero da decisão: 3401-006.207
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan - Presidente.
(assinado digitalmente)
Lázaro Antônio Souza Soares - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Lazaro Antônio Souza Soares, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado), Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan (Presidente).
Nome do relator: LAZARO ANTONIO SOUZA SOARES
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2013 a 31/12/2013 BASE DE CÁLCULO. AGÊNCIAS DE VIAGENS E TURISMO. A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Os valores recebidos dos consumidores e repassados efetivamente aos fornecedores dos serviços prestados não configuram receita bruta da agência de turismo, independentemente do fato da agência emitir nota fiscal/fatura/boleto pelo valor integral do negócio, ou do consumidor contratar unicamente com a agência. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2013 a 31/12/2013 BASE DE CÁLCULO. AGÊNCIAS DE VIAGENS E TURISMO. A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Os valores recebidos dos consumidores e repassados efetivamente aos fornecedores dos serviços prestados não configuram receita bruta da agência de turismo, independentemente do fato da agência emitir nota fiscal/fatura/boleto pelo valor integral do negócio, ou do consumidor contratar unicamente com a agência.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2013 a 31/12/2013 BASE DE CÁLCULO. AGÊNCIAS DE VIAGENS E TURISMO. A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Os valores recebidos dos consumidores e repassados efetivamente aos fornecedores dos serviços prestados não configuram receita bruta da agência de turismo, independentemente do fato da agência emitir nota fiscal/fatura/boleto pelo valor integral do negócio, ou do consumidor contratar unicamente com a agência. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2013 a 31/12/2013 BASE DE CÁLCULO. AGÊNCIAS DE VIAGENS E TURISMO. A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Os valores recebidos dos consumidores e repassados efetivamente aos fornecedores dos serviços prestados não configuram receita bruta da agência de turismo, independentemente do fato da agência emitir nota fiscal/fatura/boleto pelo valor integral do negócio, ou do consumidor contratar unicamente com a agência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 80 5. 72 57 76 /2 01 7- 81 Fl. 1775DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.775 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Presidente. (assinado digitalmente) Lázaro Antônio Souza Soares Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mara Cristina Sifuentes, Tiago Guerra Machado, Lazaro Antônio Souza Soares, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado), Carlos Henrique de Seixas Pantarolli, Oswaldo Gonçalves de Castro Neto, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco e Rosaldo Trevisan (Presidente). Relatório 1. Trata o presente processo de Auto de Infração de PIS/Pasep, no valor total de R$60.380.608,67, e de COFINS, no valor total de R$278.679.733,10, ambos lavrados em 30/11/2017, com ciência do sujeito passivo por meio do seu Domicílio Tributário Eletrônico (DTE) em 01/12/2017, conforme "Termo de Ciência por Abertura de Mensagem" à fl. 1.270. 2. A descrição dos fatos verificados e das infrações tributárias apuradas consta no Termo de Verificação Fiscal (TVF), às fls. 1.222/1.253, in verbis: 1. INTRODUÇÃO A contribuinte fiscalizada é empresa de capital aberto, constituída na forma de sociedade anônima, sujeita a acompanhamento diferenciado por parte da Receita Federal. Em seu estatuto constam como objeto social, entre outros, a intermediação de serviços de viagem e turismo, assim como a prática de todas as atividades inerentes às operadoras de turismo. (...) O procedimento fiscal foi instaurado para verificação da base de cálculo das contribuições do PIS e da COFINS no ano calendário 2013. Neste período, enquanto a movimentação bancária da empresa apresentou um volume de créditos de quase R$ 6,2 bilhões, a contribuinte declarou uma receita decorrente da prestação de serviços de viagens e turismo de R$ 651,9 milhões como sendo a base de cálculo para aquelas contribuições dentro do regime cumulativo, informada nos Demonstrativos de Apuração de Contribuições Sociais DACON, o que representa cerca de 10% dos créditos financeiros obtidos pela fiscalizada. (...) Fl. 1776DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.776 3 A questão já foi debatida nos procedimentos fiscais nº 0811400 201200487, 201400146, 201500162 e 201600185, resultando nos autos de infração constantes nos processos nº 10805.722021/201481, 10805.723698/201437, 10805.723996/201516 e 10805.724816/201696, respectivamente, cujos lançamentos foram mantidos na DRJ e se encontram para julgamento no CARF, sendo que o de nº 10805.723698/201437 já foi mantido também pelo CARF. A infração cometida pela contribuinte, que originou os presentes Autos de Infração, é a de utilização de base de cálculo incorreta, resultando em falta de declaração e recolhimento das contribuições do PIS e da COFINS no regime cumulativo no ano de 2013. (...) 3. HISTÓRICO REDUÇÃO DA RECEITA SOB ALEGAÇÃO DE REPASSES Não é de hoje a questão da incidência das contribuições para o PIS e a COFINS sobre o faturamento decorrente da prestação de serviços de agência de viagens e turismo da fiscalizada. A contribuinte alega que apenas parte de seus recebimentos são tributáveis, uma vez que os valores pagos a terceiros não comporiam a receita tributável, ao contrário do entendimento da Receita Federal que considera como base de cálculo, o total da receita bruta auferida na sua atividade comercial (arts. 2º e 3º da Lei 9.718/98). A contribuinte já teve oportunidade de expor suas alegações em procedimentos fiscais anteriores (anexo), dos quais destacamos, em especial, o último de nº 0811400201600185 que deu origem ao processo administrativo de nº 10805.724816/201696. (...) Na mesma resposta, esclarece que a diferenciação entre “Agência de Viagens” e “Operadora Turística”, disposta pelo art. 5º da Lei nº 12.974/2014, diz respeito às atividades de assessoramento, planejamento e organização de atividades e programas turísticos, privativas das Operadoras Turísticas, mas que em ambos os casos existe também a atividade de “venda comissionada ou intermediação remunerada na comercialização de passagens, passeios, viagens e excursões, nas modalidades aérea, aquaviária, terrestre, ferroviária e conjugadas”. A respeito desta última atividade, a contribuinte ressalta que o artigo 27 da Lei nº 11.771/2008 faz distinção entre a agência de turismo que exerce a atividade de intermediação remunerada entre fornecedores e consumidores, da agência de turismo que fornece os serviços turísticos diretamente. (...) Fl. 1777DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.777 4 De uma maneira geral, a contribuinte alega que é intermediadora de serviços de turismo e que são os fornecedores que os prestam diretamente. Assim, sua receita estaria restrita às comissões recebidas de fornecedores ou taxas de serviço cobradas dos clientes e os valores repassados a terceiros não comporiam a base de cálculo das contribuições do PIS e da COFINS. 4. SERVIÇOS PRESTADOS, RECEITAS AUFERIDAS E SEUS DOCUMENTOS (...) Tomese, por exemplo, a reserva nº 114939822, referente ao contrato nº 2770002345, abaixo demonstrados pela contribuinte, dos quais os demais exemplos seguem basicamente a mesma sistemática: (...) Neste resumo, percebese que o contrato foi celebrado no valor total de R$ 3.677,12 (valor do recibo) a ser recebido pela fiscalizada em 10 parcelas de R$ 367,71. O contrato abrange valores de hospedagem (fornecedor), receptivo, bilhete aéreo e serviço do agente em um total de R$ 2.976,21 correspondentes às despesas com os fornecedores da fiscalizada, a qual emite nota fiscal apenas da diferença de R$ 700,91, considerada por ela como sua receita de prestação de serviços. Além deste resumo, a contribuinte apresentou demonstrativo dos lançamentos contábeis relacionados a este contrato em que se observa que o valor total do contrato foi debitado na conta 112010001 – RECURSOS EM TRANSITO DE TERCEIROS e creditado na conta 219010001 – CONTRATOS NÃO EMBARCADOS, conforme lançamento identificado pela contribuinte como nº 1 e confirmado pela sua ECD – Escrituração Contábil Digital. (...) A emissão da nota fiscal, como dito anteriormente, foi feita pela contribuinte pela diferença entre o total recebido por ela e o total dos dispêndios pagos aos fornecedores, conforme lançamento por ela mesma identificado pelo nº 6 em seu demonstrativo. Na ECD podese verificar o mesmo lançamento como sendo a apropriação da receita considerada pela fiscalizada, bem como os lançamentos dos tributos incidentes apenas sobre este valor. (...) As despesas de hospedagem, por exemplo, no valor de R$1.576,00 foram cobradas da fiscalizada diretamente pela empresa HOTÉIS PONTA VERDE LTDA, conforme sua NFS 56848: (...) Fl. 1778DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.778 5 Foram localizados na ECD – Livro Diário os lançamentos contábeis relativos a esta reserva/contrato (anexo). Este exemplo de contrato demonstra claramente a divergência de entendimento entre a empresa contribuinte e a fiscalização, uma vez que o valor integral do contrato de R$ 3.677,12 não foi considerado como receita bruta, nem transitou em conta de receita, mas foi lançado (a débito) na conta contábil transitória 112010001 – RECURSOS EM TRANSITO DE TERCEIROS, a qual foi contrapartida (a crédito) à medida em que os valores parcelados eram pagos pelo cliente e recebidos pela contribuinte. Somente o valor de R$ 700,91, considerado como receita pela contribuinte após os pagamentos a seus fornecedores, foi registrado na conta de receita 311010001 – COMISSÃO NA VENDA DE EXCURSÕES e oferecido à tributação das contribuições do PIS e da COFINS. (...) Ainda com relação ao primeiro exemplo aqui detalhado da reserva nº 114939822, referente ao contrato nº 2770002345, percebase que o vencimento da fatura dos serviços aéreos ocorreu em 03/02/2013, com pagamento em 04/02/2013 e registro contábil no dia seguinte, no entanto, até aquele momento, a fiscalizada sequer havia recebido a primeira parcela de pagamento, efetuada pelo cliente apenas na data de 18/02/2013. A quitação das despesas de hospedagem e de receptivo foram realizados pela fiscalizada, integralmente, inclusive com outras faturas, em 15/04/2013, período em que o cliente estava pagando sua 3ª parcela de um total de 10, ou seja, quando ainda faltavam 7 parcelas a receber, a fiscalizada já havia arcado com todas as despesas com seus fornecedores. Uma vez que não se pode repassar aquilo que ainda não foi recebido, a partir do momento em que a operadora arca com todos os custos e despesas antes mesmo do recebimento, ela está assumindo o risco do negócio, agindo diretamente em seu nome e por sua conta e não apenas intermediando o negócio em nome de terceiros. Além disso, mesmo quando o chamado repasse é feito após o recebimento, é possível verificar que todas as notas fiscais, faturas e boletos foram emitidos pelos fornecedores de hospedagem, receptivo e companhia aérea para cobrança direta no nome da fiscalizada e não em nome do cliente. As características de antecipar valores que ainda não recebeu e tratar em seu próprio nome com os fornecedores, diferenciamse de uma simples intermediação, ou do recebimento de uma comissão, devendo o total de recursos recebidos de seus clientes serem considerados como receita bruta de sua atividade comercial. Fl. 1779DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.779 6 (...) 5. CONTRATOS CELEBRADOS COM OS CLIENTES Como dito há pouco, todas as notas fiscais, faturas, boletos e demais documentos emitidos pelos fornecedores de serviços de hospedagem, aéreo e outros, têm como sacado e destinatário o nome da fiscalizada e não o nome do cliente. A relação com o fornecedor é com a fiscalizada. Em análise dos contratos celebrados com seus clientes, verifica se que constam apenas a identificação da contribuinte e agência de viagens franqueada como parte contratada. Não há identificação de nenhuma outra parte contratada da rede hoteleira ou companhia aérea. É até possível afirmar que as agências de turismo constantes nos contratos como franqueadas eram as intermediadoras do serviço que era ofertado pela empresa fiscalizada. Este fato revela existir obrigação contratual apenas entre o cliente e a empresa fiscalizada e suas agências e não entre o cliente e os fornecedores dos serviços. Mais uma vez, a contribuinte está agindo diretamente em seu nome e por sua conta e não apenas intermediando um negócio. Para o cliente, quem está sendo contratada é a empresa fiscalizada, de quem espera que os serviços sejam efetiva e corretamente prestados. Não é intenção, nem prática, do cliente cobrar a prestação dos serviços diretamente de algum fornecedor uma vez que ele contratou a fiscalizada e, para isso, efetuou o pagamento integral do contrato a ela. Apesar do pagamento ser efetuado integralmente à fiscalizada; esta emite para seu cliente, uma nota fiscal em um valor correspondente a uma pequena parte do total pago. Outro ponto relevante a ser observado é o constante na cláusula 3.2 dos contratos apresentados: “3.2. DO PAGAMENTO PARCELADO. Ficam as CONTRATADAS, desde logo, autorizadas pelo CONTRATANTE a cederem o crédito decorrente da operação de parcelamento para instituições financeiras de sua confiança, as quais ficarão subrogadas plenamente no direito de receber o valor das parcelas, da forma que vier a ser definida no ato do parcelamento.” Um credor só pode ceder um determinado crédito que seja seu, conforme dispõe o artigo 286 da Lei nº 10.406/2002 (Código Civil), o que demonstra que o preço total do contrato pertence à fiscalizada, não se confundindo com as obrigações que esta tem com seus fornecedores. Fl. 1780DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.780 7 A cláusula 3.3 que trata de eventual inadimplência do cliente também demonstra que é a fiscalizada a detentora dos direitos de cobrança do valor total do contrato. “3.3. INADIMPLÊNCIA DO CONTRATANTE. A impontualidade no pagamento de qualquer parcela, independentemente do motivo, poderá dar ensejo à inscrição do nome do CONTRATANTE nos órgãos restritivos de crédito, bem como ensejar a cobrança do débito com acréscimo de juros e correção monetária, despesas com cobranças, além de honorários advocatícios e custas judiciais se necessário o ingresso em juízo. Se a viagem não houver iniciado, fica o CONTRATANTE ciente que as CONTRATADAS poderão cancelar as reservas realizadas ou cancelar a carta de crédito emitida, gerando, nessa situação, as penalidades estabelecidas para Rescisão, conforme disposto na cláusula 4.2.3. das Condições Gerais de Contratação.” Ainda analisando os contratos com os clientes, estes remetem ao site da empresa, www.cvc.com.br, para detalhamento das chamadas “CONDIÇÕES GERAIS PARA AQUISIÇÃO DE SERVIÇOS DE TURISMO”. Dentre estas condições cabe destacar a cláusula 4.2.1 e 4.2.1.1 (g): “4.2.1. Caso o CONTRATANTE opte pela Alteração da contratação inicial, poderá a sua escolha (a) usufruir de um novo roteiro, bilhete ou serviço turístico contratado no momento da alteração ou (b) obter uma carta de crédito para usufruir dos serviços turísticos em momento posterior, por uma única vez, no prazo de 18(dezoito) meses. 4.2.1.1 (...) (g) o CONTRATANTE continuará responsável pelo pagamento dos serviços turísticos na forma contratada, exceto se houver antecipação da data de embarque, hipótese em que a CVC avaliará o impacto no risco do crédito concedido ao CONTRATANTE de modo que a CVC possa negarse a efetivar a alteração desejada ou possa propor uma revisão dos valores e do número de parcelas existente.” Nestas cláusulas fica claro que quem gerencia o negócio por completo é a própria fiscalizada. Ela não apenas intermedeia alguns serviços turísticos. Não atua como mera repassadora de valores. A fiscalizada tem a discricionariedade de inclusive, exigidas algumas condições, alterar o roteiro e demais serviços turísticos de seus fornecedores. Ela tem a faculdade de, se preciso, alterar o destino e conceder carta de crédito para um momento posterior, o que demonstra que os valores recebidos na sua totalidade representam um crédito de sua propriedade, o qual pode ser concedido em favor de seus clientes de acordo com a sua própria avaliação. Fl. 1781DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.781 8 As cláusulas contratuais evidenciam que a fiscalizada não era mera agência de viagem, que agenciava a venda de um serviço turístico e era remunerada por uma comissão, mas pessoa jurídica que ofertava e promovia o serviço turístico em seu nome e era, portanto, titular do preço recebido. 6. CONTRATOS CELEBRADOS COM OS FORNECEDORES DE SERVIÇOS AÉREOS (...) Para atender o solicitado, a contribuinte entregou contratos e acordos comerciais celebrados com várias companhias aéreas para a venda de passagens por agências de viagens e turismo, bem como alguns contratos de fretamento de aeronaves. Em sua resposta, a contribuinte alega que tais contratos e acordos permitem seu acesso direto aos sistemas informatizados das companhias aéreas fornecedoras, nos quais são indicados os preços e disponibilidade no momento do acesso, e que, portanto, faz apenas a intermediação da venda dos bilhetes. Em que pesem os argumentos trazidos, a própria celebração, em si, de contratos e acordos com as companhias aéreas demonstra a constituição de uma relação jurídica e obrigacional entre os fornecedores e a fiscalizada, e não entre os fornecedores e os clientes finais. Fica claro que é a fiscalizada que efetiva e diretamente compra os bilhetes aéreos em seu nome, tendo para isso, inclusive, tratamento e condições especiais de preço e acesso aos sistemas de seus fornecedores, não agindo como uma simples intermediadora nem recebendo comissão. As cláusulas contratuais revelam que a fiscalizada não somente é a única parte contratada, mas é quem se obriga e responde perante as companhias aéreas. Ao agir em seu nome, a fiscalizada arca com os riscos inerentes ao negócio de oferecer passagens aéreas aos seus clientes. CONTRATO GOL “1.1. (...). Em caso de subcontratação pela AGÊNCIA, será a mesma solidariamente responsável com as partes sub contratadas (AGÊNCIA de viagens ou outras), responsabilizandose especialmente pela sua coordenação e gerenciamento, nos termos e obrigações aqui contraídas, respondendo perante a VRG como única e exclusiva parte pelo aqui acordado. 2.3. As tarifas praticadas, os horários e itinerários dos vôos, os prazos e forma de pagamento pelas passagens, os prazos de faturamento e liquidação dos débitos entre a VRG e a AGÊNCIA ou entre a VRG e qualquer outra AGÊNCIA, são parte integrante da política comercial da VRG e poderão ser Fl. 1782DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.782 9 alterados, unilateralmente pela VRG de acordo com as nuances do mercado.” ACORDO COMERCIAL TAM “Considerando que: A TAM é empresa concessionária de transporte aéreo regular de passageiros em âmbito nacional; A AGÊNCIA deseja comprar bilhetes de passagens aéreas da TAM em condições especiais de operadora. 1.1 – Este acordo tem por objetivo oferecer condições comerciais especiais, respeitadas as normas estabelecidas pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), para que a AGÊNCIA possa oferecer aos seus clientes pacotes turísticos. Dentro das condições estabelecidas, temos valores líquidos (net/net) aplicados de acordo com as regras informadas neste instrumento. 1.2 – As partes acordam que, periodicamente, será realizada uma apuração dos montantes apresentados, podendo ser realizada uma revisão das condições comerciais apresentadas. (...) 2.4. A TAM poderá solicitar a qualquer tempo a AGÊNCIA comprovante que certifique que o bilhete aéreo foi parte integrante de um pacote turístico, por exigência da ANAC ou por auditoria interna da TAM. ACORDO DE INCENTIVO (AIR FRANCE, KLM E ALITÁLIA) Artigo 1 (...) Durante a vigência deste acordo, a Agência (assim como suas filiadas) promoverá as Transportadoras como transportadoras preferenciais junto aos clientes da Agência. Todas as regras e tarifas das transportadoras e todos os termos e condições da nomeação da Agência para vender passagens de cada Transportadora deverão se aplicar a todas as passagens emitidas pela Agência (e afiliadas da Agência) (...) Artigo 6 – Obrigações da Agência (...) Acordo Comercial com Agência Online A Agência reconhece que na qualidade de agência associada à IATA, ela é inteiramente responsável pelos bilhetes emitidos sob seu office id e/ou PCC. CONTRATO DE TARIFA AMERICAN AIRLINES DECLARAÇÃO DA OPERADORA A Operadora declara que seu IATA foi autorizado e cadastrado para comercializar a tarifa neta designada às operadoras. Fl. 1783DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.783 10 COMISSÃO IATA A Operadora trabalhará somente com a tarifa neta disponibilizada no sistema, não acrescida de incentivo ou comissão. O campo de comissão obrigatoriamente deverá ser zerado no ato da emissão. ACORDO DE DESEMPENHO ETIHAD AIRWAYS 2. GRUPO DA AGÊNCIA DE VIAGEM A agência de Viagem deseja estender este Acordo para vendas por seu(s) escritório(s), afiliada(s) e franquia(s) conforme especificamente definido no Anexo 1. ACORDO COMERCIAL SOUTH AFRICAN 8. Em contrapartida à concessão das condições especiais deste contrato, a Operadora se compromete em atingir uma meta de vendas (bilhetes voados) de USD 2.500.000,00, em emissões de bilhetes aéreos SAA no período entre 01 de Abril de 2013 a 31 de Março de 2014.” COTAÇÃO DE GRUPOS – TURKISH “INFORMAÇÕES GERAIS Para a Turkish Airlines é considerado grupo o número mínimo de 16 passageiros; Qualquer alteração de datas, itinerário ou número de passageiros após a confirmação do grupo por parte de nosso controle, poderá inviabilizar a negociação final; OBSERVAÇÕES É de responsabilidade do agente de viagens verificar todas as documentações de seu cliente (...) REEMBOLSO DO VMPD DE SINALIZAÇÃO 3) Caso a redução do nº de passageiro da reserva leve ao número de passageiros menor que 16 (dezesseis) pessoas, o depósito não será reembolsado. ACORDO COMERCIAL TAP OBJETO Cláusula 1 ª – O presente Acordo tem por objeto a concessão de descontos, pela TAP, com a finalidade de atendimento, pela AGÊNCIA, exclusivamente em suas lojas, agentes autorizados e canais de vendas online, nos termos e condições abaixo, que mutuamente se outorgam e aceitam cumprir e respeitar. Cláusula 6ª – Os descontos são aplicáveis apenas aos valores dos bilhetes aéreos e, portanto, não incidem sobre taxas aeroportuárias, combustível e segurança, assim como quaisquer Fl. 1784DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.784 11 outros tipos de encargos ou impostos governamentais ou paraestatais de qualquer natureza, que são de responsabilidade exclusiva da AGÊNCIA. Também foram entregues contratos de fretamento de aeronaves pela fiscalizada, os quais revelam mais uma importante área de atuação de uma grande empresa que não pode ser considerada mera intermediadora de valores. Como sabido, contratos de fretamento envolvem o fretador, responsável por disponibilizar uma aeronave em condições de realizar viagens durante o tempo acordado, e o afretador que vai empregar a aeronave nos limites do contrato e pagar o frete. É mais um exemplo bastante claro de que a fiscalizada afretadora comercializa bilhetes aéreos com seus clientes por sua conta e risco. (...) Cabe também relembrar que nas notas fiscais, faturas e demais documentos analisados no item 4, verificouse que os “repasses” da fiscalizada às companhias aéreas eram, muitas vezes, realizados antes dos pagamentos serem totalmente efetuados pelos clientes e, em alguns casos, antes mesmo do pagamento da primeira parcela, demonstrando não somente a negociação em seu próprio nome, mas também a gestão e financiamento de sua própria atividade comercial. As cláusulas e expressões de venda direta de bilhetes, bem como as de fretamento de aeronaves, contidas nos vários contratos celebrados confirmam o ponto principal da divergência de entendimento entre fiscalizada e fiscalização, uma vez que para esta última fica claro o estabelecimento de uma relação entre as companhias aéreas e a fiscalizada, a qual age em seu próprio nome e administra os recursos recebidos de acordo com sua conveniência e discricionariedade. 7. ATUAÇÃO HISTÓRICA DA CVC COMO OPERADORA TURÍSTICA (...) Da leitura das informações obtidas pelo site da empresa, podese concluir que a fiscalizada não é uma agência de turismo qualquer, mas a maior operadora de turismo da América Latina, com fretamento de aviões e navios e grande volume de vendas de pacotes turísticos. A estas informações somese os fatos relevantes de que a fiscalizada realizou a abertura de seu capital, sendo a primeira operadora de viagens do Brasil a ser listada na Bolsa de Valores, bem como chegou a praticar seu próprio câmbio, fixandoo em R$ 1,99 em meados do ano de 2013. Este último fato citado demonstra que a fiscalizada chegou a poder arcar com eventuais variações cambiais, uma vez que, Fl. 1785DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.785 12 como já dito, agiu em seu nome e por sua conta e risco. Ao cobrar um preço que poderia ser diferente do “repassado” aos seus fornecedores, a empresa revela que o preço recebido de seus clientes era de sua propriedade, bem como as obrigações com seus fornecedores era de sua total responsabilidade, o que diferencia de uma mera intermediadora de valores. 8. DECISÕES E JULGAMENTOS ADMINISTRATIVOS Desnecessário discorrer mais sobre a divergência de entendimento entre a empresa contribuinte e a Receita Federal, uma vez que existem decisões e julgados que tratam do mesmo assunto no âmbito administrativo dos órgãos centrais da Receita Federal, das Delegacias de Julgamento da Receita Federal e também no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF. Por economia processual, foram selecionados apenas exemplos da manifestação do entendimento da Receita Federal em nível nacional pela Coordenação Geral de Tributação – COSIT e de julgamentos do CARF para demonstração do posicionamento adotado. Os acórdãos dos julgamentos das DRJ não foram transcritos, pois seria redundante apresentálos. SOLUÇÃO DE DIVERGÊNCIA COSIT Nº 3, de 30 de Abril de 2012 (...) ACÓRDÃO 3101001.747 – CARF 1ª Câmara – 1 ª Turma 14/10/2014 (...) ACÓRDÃO 3302004.818 – CARF 3ª Câmara – 2ª Turma 24/10/2017 (...) 9. CONCLUSÃO (...) Da análise dos contratos celebrados entre a empresa fiscalizada e seus clientes, a fiscalização verificou existir obrigação contratual apenas entre eles e não entre os clientes e os fornecedores dos serviços contratados pela fiscalizada. Como já dito, o cliente contratou os serviços da empresa fiscalizada, a quem pagou o preço integral e de quem espera o cumprimento integral de suas obrigações, o que indica que a fiscalizada oferta os vários serviços turísticos em seu próprio nome e por sua própria conta. Este fornecimento direto de serviços é confirmado pelo fato de que a fiscalizada financia e gerencia os valores totais contratados, seja porque antecipa o pagamento de seus Fl. 1786DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.786 13 fornecedores antes do recebimento total das parcelas (às vezes, antes mesmo do vencimento da primeira parcela), seja porque detém todos os direitos de cobrança e propriedade dos valores recebidos, os quais podem, inclusive, serem cedidos a instituições financeiras, se assim convir à fiscalizada. Algumas cláusulas contratuais que permitem alterar e fornecer um novo roteiro, um novo bilhete, um novo serviço turístico e até carta de crédito aos seus clientes, evidenciam que a fiscalizada não era mera agência de viagem, repassadora de valores e remunerada por uma comissão, mas pessoa jurídica que ofertava e promovia o serviço turístico em seu nome e era, portanto, titular do preço recebido. De outro lado, os contratos celebrados entre a empresa fiscalizada e seus fornecedores também indicam relação jurídica apenas entre eles e não entre os clientes e os fornecedores dos serviços contratados pela fiscalizada. A documentação recebida, notas fiscais, faturas, boletos e demais documentos emitidos pelos fornecedores de serviços de hospedagem, aéreo e outros, têm como sacado e destinatário o nome da fiscalizada e não o nome do cliente. Em especial, os contratos com companhias aéreas revelam expressões que indicam que a fiscalizada adquire diretamente os bilhetes aéreos com preços e em condições especiais com acesso aos sistemas de seus fornecedores, bem como realiza fretamento de aeronaves, nos quais se responsabiliza pelas informações prestadas aos clientes, eventuais danos causados por estes, inclusive ações judiciais e extrajudiciais, e pelo pagamento integral ainda que os passageiros não compareçam, não agindo como uma simples intermediadora. A própria atuação histórica da empresa fiscalizada de abrir seu capital na Bolsa de Valores e fixar um câmbio próprio especial para venda de seus serviços não condiz com uma mera agência de viagens, que recebe comissões, mas como uma grande operadora turística que oferta seus serviços em nome próprio, organizandoos e auferindo receitas correspondentes ao preço total pago por seus cientes, e cujos “repasses” feitos aos seus fornecedores representam o custo de sua atividade comercial. Na verdade, a tentativa de redução ou exclusão de receitas da base de cálculo das contribuições do PIS e da COFINS não é fato novo nem exclusivo de operadoras turísticas. Muitos são os contribuintes de diversas áreas de atuação que pretendem transformar as contribuições do PIS/COFINS em uma espécie de apuração de lucro real do Imposto de Renda, capaz de deduzir aquilo que entendem como custos e despesas da pessoa jurídica, ou mesmo excluir valores que tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica, a exemplo do inciso III do §2º do artigo 3º da Lei nº 9.718/98, que foi revogado pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Fl. 1787DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.787 14 Esta também foi a tentativa, específica da área de turismo, ao incluir o artigo 46 na já citada Lei nº 11.771/2008, que tinha a seguinte redação: "Art. 46. Para efeito de interpretação do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718, de 27 de novembro de 1998, do inciso I do caput do art. 25 e do inciso I do caput do art. 29 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, do art. 31 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e do art. 20 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, considerase receita bruta dos serviços de intermediação o preço da comissão recebida dos fornecedores ou o valor que agregar ao preço de custo destes fornecedores." (g.n.) A tentativa era de usar o conceito de preço do serviço de intermediação, exatamente como definido pelo §2º do artigo 27 da Lei nº 11.771/2008, como sendo o conceito de receita bruta para a base de cálculo das contribuições do PIS e da COFINS. Ocorre que o citado artigo 46 foi vetado pela Presidência da República, que em suas razões de veto, traz o seguinte esclarecimento: (...) O objetivo era o de definir a receita bruta, mencionada na legislação do PIS/COFINS (Lei nº 9.718/98), com o conceito particular de preço de serviço de intermediação de agências de turismo, trazido pela Lei nº 11.771/2008. A tributação sobre valor agregado sequer está prevista no sistema tributário nacional, sendo que o artigo 46 foi considerado como verdadeira renúncia fiscal, contrária ao interesse público e, por este motivo, vetado. Portanto, além da atividade da fiscalizada ser a prestação de serviços turísticos em seu próprio nome, o preço do serviço de intermediação, definido pelo §2º do artigo 27 da Lei nº 11.771/2008, não deu amparo legal, nem redefiniu o conceito de receita bruta trazido pelo artigo 3º da Lei nº 9.718/98. (...) 11. ENCERRAMENTO Tendo em vista o exposto, a receita bruta da fiscalizada foi considerada pela totalidade dos valores auferidos de seus clientes, uma vez que os serviços de turismo foram prestados em seu próprio nome e por sua própria conta. Em razão disto, foi constatada a omissão de receitas no ano 2013 e apurados os saldos das contribuições do PIS e da COFINS a pagar, juntamente com os devidos acréscimos legais, resultando nos Autos de Infração, os quais seguem juntamente e dos quais este termo é parte integrante. Fl. 1788DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.788 15 3. O contribuinte, irresignado, apresentou Impugnação em 29/12/2017, às fls. 1.277/1.328, nos seguintes termos: III. AS NULIDADES DA AUTUAÇÃO 10. Preliminarmente, há nulidades que merecem ser brevemente apontadas e que devem levar ao imediato cancelamento da presente autuação. III. 1. Erro na apuração das contribuições devidas na autuação 11. Como se verá adiante, a D. Fiscalização Federal partiu de uma série de premissas – obviamente equivocadas – para concluir que a Requerente seria a fornecedora direta dos serviços turísticos. (...) 12. Ao lavrar a autuação, a D. Fiscalização Federal simplesmente calculou 3,65% sobre a totalidade dos valores recebidos dos clientes, e deduziu os valores da base de cálculo declarada pela Requerente, conforme se extrai das informações às fls. 1251/1252 e da planilha de cálculo contida às fls. 1252. 13. No entanto, ainda que totalmente equivocada, a premissa adotada pela D. Fiscalização Federal deveria levar à outra forma de cálculo do PIS/COFINS supostamente devido. Isso porque, se a D. Fiscalização Federal desenquadrou a atividade da Requerente como agência de turismo, afirmando que a Requerente realizaria a prestação de serviços turísticos diretamente, em seu próprio nome, então as receitas auferidas com essa prestação não mais estariam sujeitas ao regime cumulativo, mas sim ao regime nãocumulativo das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003. 14. Em razão disso, a D. Fiscalização Federal deveria ter desenquadrado 99% das receitas da Requerente do regime cumulativo e procedido ao recálculo das receitas no regime não cumulativo, com a conseqüente apuração dos créditos devidos nos termos do artigo 3º das mencionadas Leis. (...) III.2. Infrações divergentes atribuídas ao mesmo fato 16. Ainda, é importante destacar que a D. Fiscalização Federal lavrou os Autos de Infração com base em dispositivos bastante genéricos da legislação do PIS/COFINS, a saber: (...) 17. Se não bastasse a utilização de dispositivos genéricos, como se pode notar acima, nos Autos de Infração a D. Fiscalização Federal enquadrou a infração como omissão, mas, no Termo de Verificação Fiscal, indicou como infração a utilização de base de cálculo incorreta. Confirase: Fl. 1789DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.789 16 (...) 21. Por essa razão, resta claro que os Autos de Infração são nulos e merecem ser cancelados, em face da falta de clareza, imprecisão, atribuição de infrações confusas atribuídas e própria incoerência lógica, que prejudicaram imensamente a Requerente. IV. A NECESSÁRIA COMPREENSÃO DOS FATOS: A CARACTERIZAÇÃO DA REQUERENTE COMO INTERMEDIADORA DE SERVIÇOS TURÍSTICOS (...) IV.1. A atividade de intermediação de serviços turísticos exercida pela Requerente 23. No âmbito de suas atividades de intermediação e conforme será detalhado no próximo item, a Requerente mantém uma rede de contatos com os fornecedores dos serviços turísticos, que são os hotéis, as companhias aéreas, dentre outros. O propósito principal da Requerente é promover o oferecimento dos serviços turísticos prestados por tais fornecedores aos turistas, que são – evidentemente – os tomadores e beneficiários daqueles serviços turísticos. 24. Ainda, é importante esclarecer que, dentro da estrutura de negócios da Requerente, a Requerente atua por intermédio de agências filiais (“lojas filiais”) ou agências terceirizadas (“lojas terceirizadas”), com as quais firmou Contratos de Franquia Empresarial, responsáveis pelo oferecimento dos serviços turísticos por ela intermediados. 25. Assim, os clientes da Requerente tem basicamente duas opções para a aquisição dos serviços turísticos por ela intermediados (i) adquirilos diretamente em seu site eletrônico (ecommerce) ou (ii) adquirilos presencialmente em uma loja física, filial ou terceirizada. 26. Cabe frisar que a natureza e extensão do serviço de intermediação realizado pela Requerente são definidas, de forma exata, pelo artigo 27 da Lei nº 11.771, de 17.9.2008 (“Lei nº 11.771/2008” Lei Geral do Turismo): (...) 27. Como se pode notar, o artigo 27 da Lei nº 11.771/2008 prevê que a agência de turismo é a pessoa jurídica que: (i) realiza a intermediação entre fornecedores e consumidores de serviços turísticos; ou (ii) fornece os serviços turísticos diretamente aos consumidores. 28. O § 3º do artigo 27 da Lei nº 11.771/2008 esclarece que as atividades de intermediação das agências de turismo compreendem a oferta, a reserva e a venda dos serviços turísticos fornecidos por terceiros aos consumidores. Frisese desde logo que a própria legislação indica que a atividade Fl. 1790DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.790 17 realizada pela Requerente – que compreende, como vimos, a oferta, reserva e venda é caracterizada como atividade de intermediação realizada por agência de viagem. 29. Ainda, importante destacar que a legislação acima citada indica expressamente (§ 2º) as formas de remuneração das Agências de Turismo, prevendo a possibilidade de que seja (i) cobrada comissão dos fornecedores; (ii) agregado valor ao preço de custo dos serviços disponibilizados pelos fornecedores; e/ou (iii) cobrada taxa de serviço do consumidor pelos serviços prestados. 30. Neste ponto, é também importante notar que agregar valor ao serviço prestado pelos fornecedores na sua intermediação aos clientes é forma expressa de remuneração das Agências de Turismo prevista na legislação, motivo pelo qual a adoção deste procedimento jamais pode ser utilizado – como quer fazer crer a D. Fiscalização – para desnaturar a natureza da atividade de intermediação realizada pela Requerente. (...) 38. Sendo assim, seja a Agência de Viagens ou a Agência de Viagens e Turismo/Operadora Turística, a caracterização da espécie de serviço por ela realizado não é determinável a priori, mas sim como base nas atividades que são, de fato, realizadas. Se a Agência de Viagens ou a Agência de Viagens e Turismo/Operadora Turística tiver como propósito a organização e oferecimento de serviços turísticos prestados por terceiros aos clientes/passageiros (passagens áreas, hospedagem etc.), remunerandose por qualquer das forma previstas na legislação e não executando diretamente os serviços, estará realizando a atividade de intermediação de que trata a legislação do setor. V.2. O mercado de turismo e as atividades específicas realizadas pela Requerente 39. Considerando os conceitos legais e os aspectos fáticos acima expostos, é certo que a Requerente é uma Agência de Viagens e Turismo/Operadora Turística que realiza a intermediação entre fornecedores e passageiros, por meio das lojas filiais ou lojas terceirizadas, de serviços turísticos prestados por terceiros. 40. Em que pese a notoriedade da natureza das atividades da Requerente, que sabidamente não presta serviços turísticos diretamente – de outra sorte, estaria também listada entre as companhias aéreas ou redes hoteleiras e não somente entre as agências de viagem –, a D. Fiscalização insiste – ano após ano – em tentar descaracterizar a notória natureza da atividade da Requerente. 42. A Requerente atua no setor de turismo há mais de 45 anos, mercado de funcionamento dinâmico e com características próprias, tendo em vista a grande quantidade de prestadores de serviços e fornecedores. Dado a sua longa história e Fl. 1791DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.791 18 credibilidade, a CVC formaliza o relacionamento com seus parceiros por intermédio de contratos, acordos e/ou meras permissões de acesso diretamente nos sistemas informatizados de seus respectivos parceiros, permitindolhe a comercialização, como intermediária, dos serviços por eles prestados. (a) Intermediação na venda de passagens em vôos regulares e hotéis 43. Inicialmente, importante dizer que, na prática, a Requerente apresenta ao cliente as opções disponibilizadas pelas companhias aéreas e pelos hotéis e realiza a reserva e a comercialização dos serviços turísticos de forma praticamente instantânea, no exato momento em que acessa os sistemas por eles disponibilizados. 44. Ainda, notese que a Requerente comercializa tanto serviços turísticos de forma isolada – somente bilhetes aéreos, por exemplo – como também em conjunto, situação em que a Requerente realiza intermediação na venda de passagens em vôos regulares e hotéis em uma única reserva. 45. Na praxe mercadológica, quando os serviços turísticos são vendidos em uma única reserva, são comumente denominados de “pacotes dinâmicos”, dada a possibilidade de que sejam organizados para comercialização com os clientes na forma e configuração por eles desejada e de acordo com a disponibilidade e precificação dada pelos fornecedores de forma dinâmica e variável a cada momento. 46. Esta significativa parcela da atividade da Requerente, portanto, não se confunde com os escassos pacotes a preços fixos por ela disponibilizados ou com as operações de fretamento de aeronaves e navios. 47. Nesse contexto, oportuno esclarecer que os vôos fretados corresponderam, no ano de 2013, à apenas 11% do total de serviços turísticos intermediados pela Requerente aos seus clientes. Desta forma, no período ora questionado, a intermediação na comercialização de passagens em vôos regulares das companhias aéreas, hotéis e outros serviços de turismo – i.e., sem qualquer relação com vôos fretados e contratos/acordos a eles relativos – correspondeu ao total de 89% das operações envolvendo a intermediação na prestação de serviços de turismo, onde o acesso aos produtos ocorre no exato momento da reserva diretamente nos sistemas dos fornecedores. 48. Além disso, importante repisar que dado o dinamismo do mercado, com variações constantes nos preços e disponibilidade de assentos e quartos que podem ser oferecidos pela Requerente aos clientes, de acordo com a determinação das efetivas prestadoras desse serviço (i.e., companhias aéreas e/ou hotéis), a atividade de intermediação realizada pela CVC se dá essencialmente mediante o acesso de sistemas informatizados disponibilizados pelas próprias empresas áreas ou mediante imputação de disponibilidade/preço pelos fornecedores nos Fl. 1792DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.792 19 próprios sistemas da Requerente, nos quais são indicados os preços e disponibilidade no exato momento do acesso e sobre os quais a Requerente não tem qualquer gestão. (...) 50. Assim, embora possam ser encontradas nos contratos de intermediação expressões que indicam a compra e venda de passagens aéreas, na prática a Requerente, de forma sistêmica, apresenta ao cliente as opções disponíveis junto as companhias aéreas, realiza a reserva e a intermediação na venda destes bilhetes no exato momento em que o cliente acessa o sistema (na loja ou no site) para consulta, ou seja, não existe qualquer estoque em poder da Requerente. 51. De forma a ilustrar essa sistemática, na qual a Requerente realiza a intermediação da comercialização do serviço de transporte aéreo prestado pelas companhias de acordo com as condições, disponibilidade e preços por ela determinados, a Requerente transcreve abaixo trecho de alguns contratos firmados juntados ao presentes autos: (...) 53. De forma a ratificar a natureza das relações entre partes, bem como confirmar a disponibilização à CVC de acesso aos sistemas eletrônicos das próprias companhias aéreas para verificação de disponibilidade/preços e posterior comercialização dos serviços por elas prestado aos seus clientes, a CVC anexa à presente cartas elaboradas pelas companhias aéreas ratificando a extensão, conteúdo e alcance dos contratos/acordos mantidos (docs. nºs 14 a 18). A título exemplificativo, confirase o teor da Carta emitida pela TAM: “LATAM Airlines Group S.A. (“LATAM”) vem, conforme solicitado, informar que autoriza a CVC Operadora e Agência de Turismo S.A. (“CVC”) a acessar em bases regulares os assentos nos vôos nacionais e internacionais operados pela LATAM por intermédio dos sistema informatizados desta empresa, para que intermedeie os serviços de transporte aéreo prestados pela LATAM aos seus clientes de acordo com as tarifas em vigor no momento da reserva no sistema e com a disponibilidade de assentos aéreos” 54. Ainda a respeito dos contratos relacionados à intermediação na comercialização de passagens aéreas regulares, é relevante registrar que o repasse dos valores devidos às companhias aéreas em função da comercialização pela CVC do serviço por elas prestado ocorre, como se pode verificar dos documentos ora juntados, sempre posteriormente à sua efetiva comercialização aos clientes. 55. Frisese que além dos contratos e documentos ora disponibilizados, a CVC possui documentação adicional relativa a intermediação de passagens aéreas, tais como dados completos dos bilhetes emitidos pelas companhias aéreas em Fl. 1793DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.793 20 nome do passageiro, faturas emitidas pelas companhias aéreas onde constam a relação individualizada dos bilhetes aéreos, Notas Fiscais de intermediação e os contratos individualizados de intermediação entre os clientes e CVC, os quais foram entregues no curso da Fiscalização. 56. Hotéis. A sistemática na intermediação e comercialização de quartos de hotéis parceiros se dá de forma essencialmente equivalente à venda de passagens aéreas, descrita acima. Marcado também por elevado dinamismo na disponibilidade e preços indicados pelos fornecedores, a atividade de intermediação realizada pela CVC se dá mediante o acesso de sistemas informatizados disponibilizados pelos próprios hotéis ou mediante imputação de disponibilidade/preço pelos fornecedores nos próprios sistemas da Requerente, nos quais são indicados os preços e disponibilidade no exato momento do acesso e sobre os quais a Requerente não tem qualquer gestão. (...) 60. De forma a ilustrar essa sistemática, na qual a Requerente realiza a intermediação da comercialização do serviço de hospedagem prestado por cada um dos hotéis de acordo com as condições, disponibilidade e preços determinados, a CVC também anexa à presente, a título ilustrativo, cartas elaboradas por alguns hotéis ratificando a extensão, conteúdo e alcance da atividade de intermediação realizada pela Requerente (docs. nºs 26 e 27): 61. Nesse contexto, inclusive, é válido mencionar que, ao acessar os sistemas informatizados, as lojas (ou os próprios clientes, caso realizam a aquisição dos serviços turísticos direto pela internet) podem constatar a indisponibilidade de determinados serviços turísticos e nesse cenário, portanto, as lojas/internet não conseguem realizar reservas para os turistas. 62. Os próprios sistemas indicam a (in)disponibilidade e, em alguns casos, as lojas recebem avisos expressos dos fornecedores nesse sentido (o comumente chamado no mercado de “stop sales”), conforme exemplo abaixo: Fl. 1794DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.794 21 (...) (b) Intermediação envolvendo vôos fretados e hospedagem a eles relativos 64. Considerando que as hipóteses de fretamento foram objeto de questionamento específico pela D. Fiscalização, tomando a parte pelo todo para concluir pela descaracterização das atividades da Requerente de forma absolutamente inaceitável, a Requerente abordará esse item em maiores detalhes mais adiante, ao explorar individualmente cada um dos questionamentos levantados pelas DD. Autoridades Fiscais. 65. Ainda assim, vale registrar desde já que, mesmo nestes casos, a natureza da atividade da Requerente não se altera, na medida em que o fato de a Requerente se comprometer contratualmente a pagar pelos assentos do vôo fretado é prática de mercado e visa apenas preservar os interesses das grandes companhias aéreas, que, afinal, dispõe de suas aeronaves para possibilitar que a Requerente possa oferecer um grande volume de passagens aos seus clientes. Não significa e nem permite concluir, porém, que a Requerente está operando tal serviço ou o está realizando em seu nome, Fl. 1795DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.795 22 como examinaremos mais detidamente adiante. Vale também destacar que a CVC pode cancelar um vôo com determinada antecedência, que varia entre cada companhia aérea, sem nenhuma penalidade. (c) Conclusões preliminares (...) 67. (...) Confirase abaixo o volume enorme de serviços turísticos que é disponibilizado na base de dados da Requerente quando realiza a pesquisa para efeitos de oferecer os serviços aos seus clientes: 68. Como não poderia deixar de ser, não existe qualquer estoque de reservas em poder da Requerente ou reservas antecipada de assentos ou diárias. Como poderia a Requerente reservar 17 mil vôos por semana, apenas para deixálos disponíveis se e quando houvesse interesse? Como poderia a Requerente adquirir por sua conta e risco, como quer a D. Fiscalização, diárias em cerca de 15 mil hotéis, apenas para têlos “em estoque”, caso algum cliente queira (ou não) adquirir esses serviços? Não haveria qualquer sentido comercial, financeiro e mesmo lógico em reservar imensa quantidade de vôos e diárias! O negócio certamente não se sustentaria nos absurdos termos que a D. Fiscalização busca indicar. 69. Nesse aspecto, cabe aclarar que a atividade prestada pela CVC não difere em nada daquela prestada por uma pequena agência de viagem. Não se trata, portanto, de qualquer compra de passagens ou diárias para composição de estoque da Requerente e posterior revenda, mas sim a mera e pura intermediação na comercialização destas passagens conforme autorizado pelos efetivos prestadores dos serviços de transporte aéreo e pelos hotéis, de acordo com os preços por ele determinados. Fl. 1796DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.796 23 70. Assim, verificada a disponibilidade nos sistemas eletrônicos, de acordo com os preços definidos pelos próprios prestadores, a Requerente intermedeia a comercialização do serviço turístico e firma com o cliente Contrato de Intermediação de Serviços Turismo (doc. nº 28), cujo objeto é expresso, conforme se vê abaixo: “2. DO OBJETO. Intermediação pelas CONTRATADAS de serviços de turismo prestados por fornecedores contratados, conforme descrito no quadro a seguir.” 71. Nesse momento, o turista também recebe os vouchers ou e tickets e, posteriormente, a Requerente emite a nota fiscal pelo valor do serviço de intermediação realizado, que em regra correspondente à diferença entre o total do preço pago pelo turistas e o total dos repasses aos fornecedores de serviços turísticos, remunerandose por uma das formas expressamente permitidas pela legislação, qual seja, a agregação de valor no preço de custo dos serviços turísticos intermediados. (...) 75. Sendo assim, é evidente que, ao contrário do que alega a D. Fiscalização Federal, a Requerente não presta os serviços turísticos diretamente, por sua conta e risco. É técnica, jurídica e faticamente incorreto firmar que a Requerente opera em nome próprio, pois a sua atividade é, claramente, de mera intermediação dos serviços turísticos. 76. Se assim fosse, estaria também listada entre as companhias aéreas ou redes hoteleiras e não somente entre as agências de viagem. Mas, de fato, nenhum dos clientes da Requerente afirmaria que voou para um determinado destino pela “CVC”, mas sim pela “Companhia Aérea A”, “Linhas Aéreas B” ou outra qualquer. Da mesma forma, nenhum dos clientes da Requerente diria que se hospedou no “Hotel CVC” durante a sua estadia em determinada cidade, mas sim no “Hotel X”, no “Resort Y” ou na “Pousada Z”. 77. A Requerente não opera aviões, não administra hotéis, não navega barcos ou navios, nem tampouco presta serviço de transporte terrestre, etc. É absolutamente impossível, dada as limitações operacionais, regulatórias, financeiras e de toda e qualquer ordem, que a Requerente preste diretamente, em seu nome e risco, os serviços turísticos aos passageiros. (...) 79. A D. Fiscalização faz um enorme esforço para convencer que a Requerente presta/oferece ela própria serviços turísticos “em seu nome”, produtos turísticos, não realizando a intermediação de negócios. Tamanho esforço é absolutamente em vão: é notório no mercado que a CVC não é companhia aérea, operadora de cruzeiros, nem muito menos rede hoteleira; não há que se falar em quaisquer “produtos”; não há qualquer prestação direta aos turistas. Há, sim, pura intermediação de Fl. 1797DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.797 24 serviços prestados por fornecedores, os quais têm, obviamente, direta relação comercial com os turistas. (...) IV.3. As equivocadas e inverídicas premissas fáticas adotadas pela D. Fiscalização Federal para descaracterização da atividade da Requerente (1) “Antecipação” dos repasses aos fornecedores X Intermediação de serviços turísticos 82. Para argumentar que a Requerente prestaria os serviços turísticos em seu nome e por sua conta e risco, a D. Fiscalização Federal alega que, na maioria dos contratos e documentos analisados, a Requerente anteciparia o repasse dos valores devidos aos prestadores dos serviços turísticos, antes do efetivo recebimento do montante pelo cliente. Nessa linha de raciocínio, às fls. 1234 do Termo de Verificação Fiscal, a D. Fiscalização Federal junta planilha com supostos exemplos de turistas que adquiram os serviços turísticos de forma parcelada, indicando que, na maioria das vezes, a Requerente acaba repassando os valores totais aos fornecedores antes de receber parte do preço dos serviços intermediados dos turistas (já que pagos de forma parcelada). 83. Tal fato, no entanto, em nada desnatura a natureza da atividade da Requerente. Os pagamentos realizados pela Requerente são feitos sempre posteriormente à compra dos clientes, como a análise dos documentos juntados aos autos podem facilmente comprovar. 84. No caso dos hotéis, o repasse relativo aos serviços de hospedagem contratados pelos clientes é realizado, via de regra, 30 dias após o check out dos turistas! No caso das companhias aéreas, o repasse é realizado 13 dias após a compra do cliente! Em outras palavras, e como demonstrado à saciedade acima, a Requerente, a pedido dos seus clientes e com autorização dos fornecedores dos serviços turísticos, reserva e comercializa as passagens/estadias e realiza o repasse do preço destes serviços após a sua efetiva confirmação, aproximando o tomador (cliente) ao prestador (fornecedor do serviço turístico) e caracterizando por completo a atividade de intermediação. 85. O fato de o pagamento ser realizado pelo cliente de forma parcelada é apenas uma comodidade e diferencial que a Requerente oferece, relacionada à forma de pagamento e não à natureza da atividade. Embora o cliente possa parcelar os valores, a Requerente já detém um crédito contra o cliente – única e exclusivamente relacionado ao serviço turístico por ele já tomado (seja pela hospedagem, seja pelo embarque) e por ela intermediado. 86. Assim, eventuais repasses antecipados no tempo não fazem com que os valores dos repasses tenham sua natureza jurídica alterada, passando de receitas de terceiros (de titularidade dos Fl. 1798DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.798 25 fornecedores dos serviços turísticos) para receitas da própria Requerente. Ao final, quando do pagamento integral pelos turistas, os valores quitados serão utilizados justamente para ajustar os valores antecipados pela Requerente, deixando clara a vinculação e a natureza de intermediação dos serviços prestados. 87. Portanto, considerando a quantidade enorme de fornecedores de serviços turísticos no Brasil e no mundo e a quantidade de turistas brasileiros que são intermediados pela Requerente, é óbvio que a Requerente é plenamente hábil, em certas ocasiões, a antecipar os repasses aos fornecedores, diante da absoluta necessidade atender os clientes no tempo, modo e lugar desejados. O fato de que, como mencionado, a maior parte dos pacotes e serviços turísticos são intermediados e pagos pelos turistas em várias parcelas fornece justamente um fluxo de caixa constante para que a Requerente possa realizar repasses aos fornecedores sem ainda ter recebido integralmente os valores dos turistas. (...) (2) Destinatário indicado nas Notas Fiscais/Faturas x Intermediação de serviços turísticos 89. Ainda buscando justificar a autuação, a D. Fiscalização Federal alegou também que as notas fiscais, faturas, boletos e demais documentos indicariam como sacada / tomadora / destinatária a Requerente, e não dos turistas (fls. 1234). Por isso, no seu entender, “a relação com o fornecedor é com a fiscalizada” (fls. 1235). 90. Contudo, o fato de os fornecedores (efetivos prestadores dos serviços aos clientes) emitirem as Notas Fiscais ou outros documentos contra a Requerente, por razões legais, estritamente operacionais e/ou alheias à sua vontade, não afeta nem desnatura a essência da atividade de intermediação realizada pela Requerente. 91. Um interessante exemplo desta circunstância são os faturamentos relacionados às passagens aéreas. Em relação às passagens aéreas, como é sabido, as companhias não emitem notas fiscais contra os passageiros por expressa determinação legal, na medida em que os bilhetes aéreos as substituem e são considerados, para todos os efeitos legais, como documentos fiscais válidos. 92. Desse modo, as faturas comerciais emitidas pelas companhias aéreas contra a Requerente somente formalizam os valores que deverão ser repassados aos efetivos prestadores dos serviços de transporte aéreo usufruídos pelos turistas. Os bilhetes aéreos – que, para todos os fins, substituem as notas fiscais, por expressa disposição legal – são emitidos contra cada um dos turistas, os verdadeiros tomadores de tais serviços. Fl. 1799DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.799 26 93. Ademais, é comum que, por questões financeiras, a Requerente efetue repasses únicos agregando diversos bilhetes aéreos – inclusive como pontuado pela D. Fiscalização Federal às fls. 1230, ao analisar o caso de um pagamento na ordem de mais de R$ 5 milhões para a TAM – circunstância que mais uma vez nada indica em relação à natureza das atividades da Requerente. 94. Assim, por mera praticidade, as companhias aéreas acabam emitindo faturas e demais documentos comerciais em nome da Requerente, porém, como vimos e não poderia deixar de ser, emitem os bilhetes – que, repitase, para todos os efeitos fiscais e por expressa disposição de lei substituem as Notas Fiscais – contra os passageiros! A D. Fiscalização parece ignorar ou desconhecer a lei! 95. No que diz respeito aos hotéis, o fato de eventualmente emitirem notas fiscais/faturas contra a Requerente se deve essencialmente a questões operacionais. Muitas vezes, buscando reduzir a burocracia no cumprimento de suas obrigações acessórias – circunstância naturalmente alheia à Requerente hotéis optam por emitir Notas Fiscais ou faturas contra a Requerente – inclusive congregando várias diárias em diversos períodos, evitandose a necessidade de corretamente emitir Notas Fiscais individuais contra cada um dos milhares de hospedes cuja estadia possa ter sido intermediada pela Requerente. (...) 99. Se não bastasse, a D. Fiscalização Federal ainda alegou, às fls. 1236, que os contratos firmados com os clientes não fariam expressa referência aos fornecedores dos serviços turísticos. Em razão disso, concluiu, de forma inverídica, que inexistiria relação comercial entre os fornecedores e os turistas a ser intermediada pela Requerente. 100. Ora, os Contratos de Intermediação de Serviços Turísticos firmados com os turistas trazem, de forma clara, a descrição da natureza do serviço prestado pela Requerente, bem como apontam quem são as companhias aéreas ou os hotéis que de fato prestam os serviços turísticos (doc. nº 28 acima): Fl. 1800DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.800 27 101. Assim, não restam dúvidas nos Contratos de Intermediação de Serviços Turísticos de quem são os fornecedores dos serviços turísticos prestados aos turistas! Além disso, conforme consta nas Condições Gerais (doc. nº 29), a Requerente claramente indica aos turistas que os serviços turísticos são prestados por terceiros, como se vê abaixo: (...) (3) “Ingerência” nos serviços turísticos X Intermediação Fl. 1801DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.801 28 104. Às fls. 1236/1239, a D. Fiscalização Federal se vale da análise isolada de algumas cláusulas contratuais para argumentar que (i) a Requerente compraria os bilhetes aéreos em seu nome, tendo tratamento e condições específicas de preço e acesso aos sistemas dos fornecedores; e ainda (ii) a Requerente poderia ceder direito de cobrança, alterar o roteiro e o destino das viagens, dentre outras faculdades, conforme acordado com os turistas. Ambas as premissas – absolutamente indevidas – justificariam a conclusão da D. Fiscalização Federal no sentido de que a sua atividade não seria de intermediação, já que a Requerente promoveria os serviços turísticos em seu próprio nome, sendo titular do preço recebido. 105. Quanto ao primeiro questionamento levantado, é importante mencionar que o fato de a Requerente ter acesso aos sistemas informatizados das companhias aéreas e dos hotéis, por meio dos quais consegue reservar serviços turísticos com tarifas eventualmente mais vantajosas que aquelas praticadas diretamente pelos prestadores quando realizam venda diretas aos tomadores (i.e., sem qualquer intermediação), não altera a natureza de intermediação da sua atividade. 106. Ora, não é o preço a que se intermedia a comercialização dos serviços turísticos que determina a natureza de sua atividade. O acesso a preços inferiores se deve essencialmente ao volume de operações que intermedia, o que em qualquer mercado permite acesso a preços inferiores. O único efeito gerado pela obtenção destes preços é permitir que a Requerente agregue mais valor (repitase, hipótese de remuneração expressamente autorizada em lei) e gere maiores margens de lucro tributados para o seu negócio. A sistemática de intermediação para reserva (de acordo com a disponibilidade e preços, ainda que inferiores, determinados pelo prestador) e comercialização, conforme indicada à saciedade acima, em nada é alterada e conseqüentemente, tampouco a natureza da atividade praticada. 107. No que se refere ao segundo questionamento, cabe esclarecer que embora em alguns contratos isolados (essencialmente aqueles relacionados aos vôo fretados) a Requerente se reserve o direito de alterar ou fornecer novos roteiros em situações particulares, na maioria das vezes (como vimos acima, em cerca de 11% das suas operações), o direito de alteração é atribuído única e exclusivamente ao turista, conforme se extrai das Condições Gerais (doc. nº 29): Fl. 1802DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.802 29 108. Ainda, a D. Fiscalização Federal apontou, às fls. 1235/1236, que, nos termos dos Contratos de Intermediação de Serviços Turísticos e nas Condições Gerais, a Requerente tem o direito de ceder o “crédito decorrente da operação de parcelamento para instituições financeiras de sua confiança” e que, em função disso, a totalidade do preço pago pelos turistas seria de sua titularidade. 109. Em alguns casos específicos, que representam cerca de 25% do total dos pacotes pagos em parcelas, a Requerente de fato cede, em especial ao Banco Santander S.A., o crédito a que faz jus. Isso não significa, porém, que a natureza jurídica dos valores repassados aos fornecedores deixa de ser receitas de terceiros e passa a ser custos da atividade da Requerente. Trata se de mera operação financeira praticada ocasionalmente pela Requerente. 110. Ainda, segundo a D. Fiscalização Federal, em caso de alteração dos serviços turísticas pelo próprio turista, a Requerente poderia avaliar o impacto no risco de crédito concedido, e eventualmente negar a alteração pretendida. Ora, tratase de mera previsão contratual que visa apenas desestimular a troca de serviços turísticos adquiridos e que claramente não importa em qualquer atividade de fornecimento direto de serviços turísticos. 111. Por fim, a D. Fiscalização Federal mencionou às fls. 1235/1236 que, em caso de inadimplência, o Contrato de Aquisição prevê que a Requerente poderá adotar as providências para cobrança do preço devido. Nada mais natural! Como a Requerente é responsável pelos repasses aos fornecedores, na prática das suas operações acaba assumindo tal dever, o que não significa que os valores pagos pelos turistas, na sua integralidade, correspondem à sua própria receita. Continuam sendo receitas pertencentes a terceiros, as quais a Requerente se reserva o direito de cobrar judicialmente justamente para arcar com a sua obrigação contratual de repasse junto aos fornecedores. Notese que a maior parte das vendas realizadas – cerca de 50% – é realizada por intermédio de cartão de crédito, situação em que inexiste inadimplência. Fl. 1803DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.803 30 112. Como se pode perceber, a D. Fiscalização Federal se apegou a cláusulas contratuais específicas que foram analisadas parcialmente e fora do contexto dos contratos como um todo e sem considerar a realidade do negócio específico, construindo premissas indevidas para tentar justificar a absurda autuação ora combatida. (4) Fretamento de aeronaves x Intermediação de serviços turísticos (...) 115. Em primeiro lugar, é importante esclarecer que os contratos de fretamento firmados entre a Requerente e os prestadores dos serviços turísticos são instrumentos por meio dos quais a CVC consegue garantir o seu direito de intermediar a oferta da totalidade das passagens aéreas em casos específicos. 116. A esse respeito, em regra os contratos de fretamento são firmados justamente para a intermediação na oferta de passagens aéreas em alta temporada, tratandose de estratégia negocial para que a Requerente intermedeie com exclusividade a oferta em tempos de demanda quase absoluta em relação a certos destinos específicos. 117. Assim, justamente por meio dos fretamentos, a Requerente consegue garantir a disponibilidade de assentos aéreos para determinados destinos cuja demanda é consideravelmente alta, em certos períodos em que os vôos regulares não são suficientes para atender a demanda dos clientes. (...) 120. Diferentemente do que alega a D. Fiscalização Federal, a operação do vôos fretados (recebimento de passageiros, atendimento durante o vôo, recepção no destino, etc.) fica única e exclusivamente a cargo da companhia aérea. Toda tripulação é composta de funcionários da companhia aérea e toda gestão do vôo (compra de insumos, alimentos, manutenção, gestão de escala etc.) é de total responsabilidade da companhia aérea. (...) 122. Além disso, notese que todos os contratos de fretamento prevêem a possibilidade de cancelamento dos vôos com diferentes antecedências, de sorte que eventuais fretamentos cuja intermediação na oferta dos assentos disponíveis não se realize por qualquer motivo, não precisam ser necessariamente arcados pela Requerente, diferentemente do que faz crer a D. Fiscalização Federal. Vale fazer referência novamente ao contrato com a AZUL: (...) 128. Assim, considerando que os contratos de fretamento representam apenas uma parcela inferior a 11% das operações Fl. 1804DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.804 31 praticadas pela Requerente, na remota hipótese de entenderse que a integralidade dos valores pagos pelos consumidores nessa modalidade de vendas está sujeita à tributação pelo PIS/COFINS, a D. Fiscalização Federal deveria lavrar autuação para exigir exclusivamente tais valores, não podendo tomar a parte pelo todo e autuar a Requerente como se todas as suas operações envolvessem tãosomente contratos de afretamento. (5) “Operadora” de turismo x Intermediação de serviços turísticos 129. A D. Fiscalização Federal ainda tentou argumentar às fls. 1245 que, na qualidade de agência de turismo operadora de serviços turísticos, a Requerente não seria “mera intermediadora de valores”. (...) 131. Notese que, no Termo de Verificação Fiscal, a D. Fiscalização Federal discorre longamente, nos itens 7 e 8, sobre a atuação histórica da Requerente como a maior operadora de turismo do Brasil e da América Latina, para induzir à conclusão de que, sendo operadora e atuando com volume tão relevante de operações, a Requerente não realizaria a intermediação de serviços turísticos. 132. Nada mais falacioso! Como visto, o fato de determinado contribuinte caracterizarse como Agência de Viagens e Turismo/Operadora Turística, como é o caso da Requerente, não significa que tal empresa oferece os serviços turísticos diretamente aos clientes/passageiros. A tentativa de atribuir à expressão “operadora” o seu sentido coloquial para desnaturar a natureza jurídica da Requerente beira a máfé. Repitase: a legislação é expressa ao indicar que as Agências de Viagens e Turismo/Operadoras Turísticas, assim como toda e qualquer Agência de Viagens, realiza a intermediação remunerada na comercialização de programas, serviços, roteiros e itinerários de viagens. 133. Buscando justificar a desarrazoada autuação (embasada em ainda mais absurdos argumentos), a D. Fiscalização Federal alegou que, com base em notícia em sites, a Requerente “realizou a abertura de seu capital, sendo a primeira operadora de viagens do Brasil a ser listada na Bolsa de Valores, bem como chegou a praticar seu próprio câmbio, fixandoo em R$1,99 em meados do ano de 2013”. No seu entender, “esse último fato citado demonstra que a fiscalizada chegou a poder arcar com eventuais variações cambiais, uma vez que, como dito, agiu em seu nome e por sua conta e risco”. 134. Pasmem! A D. Fiscalização busca justificar a autuação com base no tamanho da Requerente. Ora, o fato de a Requerente ter aberto seu capital na Bolsa de Valores em nada agrega para a presente análise, somente mostra o volume de suas operações e reflete, como mencionado acima, a sua capacidade financeira e Fl. 1805DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.805 32 importância no mercado. Informação absolutamente irrelevante para a presente discussão. 135. Por sua vez, a alegação de que a Requerente fixaria a sua própria taxa de câmbio foi baseada em informações extraídas da mídia que de fato indicam tal “poder” da Requerente e mostram total e absoluto desconhecimento do mercado, das práticas de marketing e da legislação. 136. Naturalmente, a Requerente não pratica seu próprio câmbio, até porque tal é impossível como sabe, ou deveria saber, o I. Auditor Fiscal. Tratase tãosomente, o que o mínimo conhecimento de estratégias de venda/marketing comprovaria, de uma estratégia de marketing para aumentar volume de vendas: em cenários de aumento do dólar em relação ao real, ao invés de “revelar” ao mercado a sua capacidade de negociar com os fornecedores descontos significativos, a Requerente divulga a sua capacidade de “fixar” a taxa de câmbio. 137. É evidente, até para os mais leigos, que nenhuma empresa no Brasil consegue “fixar sua própria taxa de câmbio”, pois desde 1999 o regime cambial adotado é flutuante, ou seja, o mercado é quem define as taxas de câmbio. Apenas o Banco Central do Brasil tem a legitimidade para intervir de forma direta no câmbio. 138. Dada a sua magnitude, a Requerente tem sim capacidade de negociar e obter bons preços de assentos aéreos e diárias em hotéis inclusive em momentos de depreciação da moeda brasileira em relação às moedas estrangeiras, o que é sim divulgado na mídia, de forma estratégia, como a “fixação” do câmbio. Mas o fato de a Requerente conseguir negociar com a sua extensa rede de fornecedores de serviços turísticos em nada altera a natureza jurídica da sua atividade de intermediação. (6) Soluções de Consultas e outras decisões administrativas confirmariam as autuações 139. Alegando “economia processual”, a D. Fiscalização Federal se limitou a citar apenas “alguns” exemplos de manifestação da RFB e do CARF às fls. 1245/1248. Primeiramente, a D. Fiscalização Federal faz referência à Solução de Divergência nº 3, de 30.4.2012, cuja ementa foi abaixo transcrita: “Ementa: Para fim de cálculo da receita bruta de que trata o § 1º do art. 3º da Lei Complementar nº 123, de 2006, a receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos a atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Caso o serviço seja prestado pela própria agência de turismo ou em seu nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes.. (...)”. (Secretaria da Receita Federal do Brasil, Solução de Divergência nº 3, de 30.4.2012). (não destacado no original). Fl. 1806DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.806 33 140. Essa Solução de Divergência tem sido reiteradamente utilizada pela D. Fiscalização Federal nas autuações lavradas contra a Requerente para suportar as cobranças, mas as conclusões ali delineadas confirmem a absoluta correção dos procedimentos adotados pela Requerente. 141. Como se pode facilmente notar de sua leitura, a RFB expressamente consigna que no caso de agência de turismo que realiza a atividade de intermediação, exatamente como é o caso da Requerente, a receita tributável corresponderá apenas à comissão ou ao adicional por ela recebido. (...) 144. Portanto, em verdade, a Solução de Divergência citada pela D. Fiscalização Federal comprova exatamente o contrário, ou seja, que os procedimentos da Requerente para a determinação da sua base tributável pelo PIS/COFINS foram absolutamente regulares. 145. Claramente a D. Fiscalização Federal deturpa, propositadamente, a orientação da RFB a seu favor, ignorando por completo a essência da atividade de intermediação desenvolvida pela Requerente no caso em questão. 146. Inclusive, o mesmo entendimento contido na referida Solução de Divergência nº 3/2012 tem sido reiterado pela RFB: (...) 149. Assim, inexiste qualquer precedente negativo e definitivo do CARF ou da CSRF em relação à Requerente. Muito pelo contrário! A D. Fiscalização Federal, de forma intencional, esqueceu de mencionar, justamente, que no passado o CARF já examinou autuação idêntica à presente lavrada contra a própria Requerente, ocasião em que reconheceu expressamente a improcedência da cobrança de PIS/COFINS sobre valores repassados. Esta sim, convenientemente esquecida, é decisão final e irrecorrível! 103. Na sessão de 19.8.2014, a 4ª Câmara da 2ª Turma Ordinária da Terceira Seção de Julgamento do CARF, por unanimidade, cancelou autuação lavrada contra a Requerente em razão da suposta infração ora discutida (insuficiência de recolhimento de PIS/COFINS devido à exclusão dos repasses a terceiros da base de cálculo das contribuições). Confirase: (...) V. A NÃO INCIDÊNCIA DE PIS/COFINS SOBRE OS VALORES REPASSADOS A TERCEIROS 161. Apenas para que não restem dúvidas, é importante esclarecer que a jurisprudência do CARF e do Poder Judiciário já está pacificada no sentido de que receitas de terceiros não devem sofrer tributação pelo PIS/COFINS. Fl. 1807DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.807 34 162. Especificamente no caso de agências de turismo, vale ressaltar que o CARF vem há muito tempo se posicionando no sentido de que, tratandose de atividade de intermediação de serviços turísticos, como ocorre no presente caso, é incabível a tributação sobre os valores recebidos e repassados a terceiros, como refletem as decisões abaixo transcritas: (...) 163. Inclusive, a questão foi pacificada pela Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF, por meio do Acórdão nº 9101 002.359 publicado em 29.8.2016. Confirase a ementa do julgado: (...) 166. A CSRF examinou a questão à luz da Lei Geral do Turismo, ressaltando que a legislação atribui como espécies de preço de serviço das agências de turismo, além da comissão, o valor por elas agregado ao preço de custo dos serviços intermediados e a taxa de serviço cobrada do consumidor destes serviços. 167. Assim, a CSRF entendeu que, quando as agências de turismo recebem o preço integral dos “serviços que oferecem”, que abrange a remuneração delas, agências, e o valor a pagar aos fornecedores desses serviços, temse como receita bruta somente os valores decorrentes dessa atividade de intermediação (comissão, valor agregado ao preço de custo dos serviços e taxa de serviço cobrada do consumidor), confirase: (...) 168. Por fim, a CSRF concluiu que, ainda que as agências de turismo recebam integral e conjuntamente o preço dos serviços turísticos e o preço de sua comissão / valor agregado / taxa de serviço, apenas esse último configura a sua receita bruta. 169. Vale ainda destacar que os Tribunais Superiores também têm reconhecido que a receita das agências de turismo intermediadoras engloba somente as comissões auferidas, conforme se verifica, a título ilustrativo, da ementa abaixo transcrita: 4. A 2ª Turma da DRJPorto Alegre (DRJPOA), em sessão datada de 16/03/2018, exarou o Acórdão nº 10061.693, às fls. 1.604/1.620, sendo a Impugnação considerada improcedente por unanimidade dos votos. o Acórdão restou assim ementado: OPERADORA DE TURISMO. RECEITA BRUTA. A receita auferida por operadora de turismo que elabore e opere seus próprios pacotes turísticos ou mesmo ofereça outros produtos isoladamente, como passagens, hospedagens e demais serviços turísticos, mas sempre comercializados em seu próprio nome, terá sua receita bruta incluindo a totalidade dos valores auferidos de seus clientes. Fl. 1808DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.808 35 NOTA FISCAL DE SAÍDA. FORÇA PROBANTE. As notas fiscais fazem prova das operações comerciais realizadas, tendo em vista a sua força probante. 5. Vale ressaltar ainda que na Impugnação constava pedido para apresentação posterior de documentos probatórios, mas a DRJ entendeu que os elementos fundamentais para a solução da lide se encontram basicamente na contabilidade, não sendo admissível qualquer dificuldade de acesso na busca dessas informações ou dos respectivos documentos comprobatórios e, com base § 4º, do art. 16, do Decreto nº 70.235/72, considerou precluso o direito à apresentação de documentos. 6. Posteriormente à entrega de sua Impugnação, o contribuinte peticionou a juntada de alguns documentos, os quais foram juntados aos autos. São declarações de companhias aéreas e de hotéis referentes a operações junto ao Impugnante, sendo que tais documentos, conforme consta do Acórdão da DRJ, não alterariam em nada as conclusões do voto. 7. Tomando ciência da decisão da DRJ em 23/03/2018, conforme "TERMO DE CIÊNCIA POR ABERTURA DE MENSAGEM" à fl. 1.628, o contribuinte apresentou o Recurso Voluntário de fls. 1.631/1.700 em 20/04/2018, conforme "TERMO DE SOLICITAÇÃO DE JUNTADA" à fl. 1.629. Nesta peça recursal, reitera, basicamente, os mesmos argumentos da Impugnação, pedindo o cancelamento da autuação e, subsidiariamente, a não incidência de juros moratórios sobre a multa de ofício. Anexou parecer do Prof. Fábio Ulhoa Coelho. 8. Em 27/06/2018 a PGFN apresentou Contrarrazões ao Recurso Voluntário, afastando as argüições de nulidade e, no mérito, firmando seu entendimento, pelas razões que expõe, no sentido de negar provimento ao recurso. 9. É o relatório. Voto Conselheiro Lázaro Antônio Souza Soares, Relator 10. O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche as demais condições de admissibilidade, por isso dele tomo conhecimento. I DA ARGÜIÇÃO DE NULIDADE 11. Com relação ao primeiro argumento de defesa, que versa sobre "erro na apuração das contribuições devidas", entendo que tal fato não enseja a nulidade da autuação. Com efeito, as hipóteses de nulidade já estão devidamente elencadas nos incisos I e II do art. 59 do Decreto nº 70.235/72, e não vislumbro a devida subsunção do suposto "erro na apuração" a nenhuma destas. Fl. 1809DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.809 36 12. Se restar comprovado, entretanto, que houve erro na apuração das contribuições, tendo sido estas calculadas pelo regime cumulativo quando, no entender da defesa, deveriam ter sido pelo regime nãocumulativo, o caso que se apresenta é de improcedência do lançamento, e não de nulidade. De toda sorte, entendo que tal argumento deve ser analisado no presente julgamento para ambas as situações, tanto de nulidade como de improcedência, pois tendo sido a matéria fática suscitada pela defesa, o seu devido enquadramento como nulidade ou improcedência cabe ao julgador, em atenção ao princípio de que o julgador conhece o direito, sendo dever da parte apenas alegar a ocorrência do fato (Iura Novit Curia). 13. De início, devese delimitar a abrangência da defesa, a qual se voltou, totalmente, para a impugnação do lançamento em relação aos serviços turísticos de transporte aéreo de passageiros e de hotelaria. Não houve, como alegado pela defesa, o desenquadramento, pelo Fisco, da atividade da Recorrente como agência de turismo para a de prestação de serviços turísticos diretamente, mesmo porque a agência de turismo pode realizar todas estas atividades, de acordo com o seu Contrato Social e com a lei. O que fez a Autoridade Fiscal foi incluir determinados valores que transitaram pela Contabilidade do Recorrente como receitas próprias de suas atividades, tendo em vista que uma mesma pessoa jurídica pode desempenhar suas atividades em setores variados da Economia, não lhe sendo impostas restrições legais para tanto. 14. Antes mesmo desta ação fiscal, o Recorrente já estava submetido ao regime misto de apuração do PIS/COFINS, determinado pela art. 10 da Lei nº 10.833/2003, que excetuou da apuração nãocumulativa as receitas decorrentes de determinadas operações: Art. 10. Permanecem sujeitas às normas da legislação da COFINS, vigentes anteriormente a esta Lei, não se lhes aplicando as disposições dos arts. 1º a 8º: (...) XVI as receitas decorrentes de prestação de serviço de transporte coletivo de passageiros, efetuado por empresas regulares de linhas aéreas domésticas, e as decorrentes da prestação de serviço de transporte de pessoas por empresas de táxi aéreo; (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) XXI – as receitas auferidas por parques temáticos, e as decorrentes de serviços de hotelaria e de organização de feiras e eventos, conforme definido em ato conjunto dos Ministérios da Fazenda e do Turismo. (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) XXIV as receitas decorrentes da prestação de serviços das agências de viagem e de viagens e turismo. (Incluído pela Lei nº 10.925, de 2004) 15. Como se depreende da leitura dos dispositivos legais acima transcritos, o argumento do Recorrente só é válido para as receitas decorrentes de prestação de serviço de transporte coletivo de passageiros efetuado por empresas regulares de linhas aéreas internacionais, bem como para o transporte coletivo de passageiros efetuado por vôos Fl. 1810DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.810 37 fretados (não regulares). Em relação às receitas da venda de passagens em voos regulares domésticos e/ou hospedagem, observase que, assim, como as receitas decorrentes da prestação de serviços das agências de viagem e de viagens e turismo, estas tem o PIS e a COFINS apurados pelo regime cumulativo. Logo, para tais receitas não ocorreu o alegado erro na apuração das contribuições. 16. Neste cenário, as conclusões aqui alcançadas devem servir de premissa à análise da questão principal, que reside em identificar quais receitas devem ou não compor a base de cálculo para apuração das contribuições devidas pelo Recorrente. Assim, exclusivamente para as receitas decorrentes de prestação de serviço de transporte coletivo de passageiros efetuado por empresas regulares de linhas aéreas internacionais, bem como para o transporte coletivo de passageiros efetuado por vôos fretados (não regulares), voto pela improcedência do pedido de nulidade, mas pela procedência de sua exclusão da base de cálculo da autuação, devido a erro material na apuração dos tributos. 17. O segundo argumento se refere à utilização de dispositivos genéricos da legislação das contribuições como base legal, bem como o enquadramento da infração como omissão, sendo que, no Termo de Verificação Fiscal, foi indicada como infração a utilização de base de cálculo incorreta, o que violaria o teor do artigo 142 do CTN. 18. O fato descrito pelo Recorrente poderia ensejar a nulidade da autuação por preterição (cerceamento) do direito de defesa, nos moldes previstos no art. 59, inciso II, do Decreto nº 70.235/72. Entretanto, não vejo qualquer cerceamento ao direito de defesa do contribuinte, que apresentou sua defesa de forma plena, abordando todas as questões suscitadas pela acusação fiscal, demonstrando sua perfeita compreensão sobre as infrações que lhe estavam sendo imputadas. Os dispositivos legais indicados pela Autoridade Fiscal são pertinentes aos fatos, e não verifico qualquer hipótese na qual possam ter limitado, confundido ou dificultado a defesa. 19. Além disso, a omissão de receita sujeita às contribuições conduz, obviamente, à utilização de base de cálculo incorreta. A Autoridade Fiscal sempre deixou bem claro qual era a acusação fiscal, e a utilização de termos ou expressões que traduzam a mesma infração em nada atrapalha o contribuinte. Ao meu ver, inclusive, pelo menos neste caso concreto, deixa mais cristalina qual a conduta infracional identificada. 20. Assim, em relação a este segundo argumento, voto pela improcedência do pedido de nulidade formulado pelo recorrente. II DO MÉRITO 21. Compulsando os autos, verifico que a lide posta a julgamento neste processo tem uma única questão a ser resolvida, qual seja, determinar se os serviços turísticos comercializados pelo Recorrente são por este diretamente fornecidos, ou se são prestados por fornecedores (terceiros), realizando o Recorrente meramente a intermediação entre estes fornecedores e os consumidores finais. 22. Isto porque, caso os serviços turísticos vendidos tenham sido fornecidos diretamente pelo Recorrente, toda a receita proveniente de sua comercialização deve compor a base de cálculo das contribuições; por outro lado, se tais serviços foram prestados Fl. 1811DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.811 38 por fornecedores terceiros, tendo a participação do Recorrente na operação se limitado à intermediação entre estes e seus consumidores, então apenas a comissão recebida dos fornecedores ou o valor que agregar ao preço de custo desses fornecedores, facultandose à agência de turismo cobrar taxa de serviço do consumidor pelos serviços prestados, será tomada como receita própria, sujeita à incidência do PIS e da COFINS. 23. Dentro deste panorama, a Autoridade Tributária entendeu que 100% das operações de comercialização efetuadas no ano de 2013 pelo Recorrente se referia a serviços turísticos por ele diretamente fornecidos e, assim, todos os valores recebidos dos consumidores seriam receita própria e deveriam compor a base de cálculo das contribuições. 24. O Recorrente, por sua vez, alega justamente o contrário, que 100% das operações de comercialização efetuadas no ano de 2013 se referia a serviços turísticos prestados por seus fornecedores e, assim, apenas as comissões recebidas destes ou o valor que agregou ao preço de custo destes serviços seriam receita própria e poderiam compor a base de cálculo das contribuições. 25. Esta divergência de entendimento decorre do fato de existir tratamentos jurídicos distintos para estas receitas, como determinado pelo art. 27 da Lei nº 11.771, de 2008: Subseção III Das Agências de Turismo Art. 27. Compreendese por agência de turismo a pessoa jurídica que exerce a atividade econômica de intermediação remunerada entre fornecedores e consumidores de serviços turísticos ou os fornece diretamente. § 1º São considerados serviços de operação de viagens, excursões e passeios turísticos, a organização, contratação e execução de programas, roteiros, itinerários, bem como recepção, transferência e a assistência ao turista. § 2º O preço do serviço de intermediação é a comissão recebida dos fornecedores ou o valor que agregar ao preço de custo desses fornecedores, facultandose à agência de turismo cobrar taxa de serviço do consumidor pelos serviços prestados. § 3º As atividades de intermediação de agências de turismo compreendem a oferta, a reserva e a venda a consumidores de um ou mais dos seguintes serviços turísticos fornecidos por terceiros: I passagens; II acomodações e outros serviços em meios de hospedagem; e III programas educacionais e de aprimoramento profissional. § 4º As atividades complementares das agências de turismo compreendem a intermediação ou execução dos seguintes serviços: Fl. 1812DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.812 39 I obtenção de passaportes, vistos ou qualquer outro documento necessário à realização de viagens; II transporte turístico; III desembaraço de bagagens em viagens e excursões; IV locação de veículos; V obtenção ou venda de ingressos para espetáculos públicos, artísticos, esportivos, culturais e outras manifestações públicas; VI representação de empresas transportadoras, de meios de hospedagem e de outras fornecedoras de serviços turísticos; VII apoio a feiras, exposições de negócios, congressos, convenções e congêneres; VIII venda ou intermediação remunerada de seguros vinculados a viagens, passeios e excursões e de cartões de assistência ao viajante; IX venda de livros, revistas e outros artigos destinados a viajantes; e X acolhimento turístico, consistente na organização de visitas a museus, monumentos históricos e outros locais de interesse turístico. § 5º A intermediação prevista no § 2º deste artigo não impede a oferta, reserva e venda direta ao público pelos fornecedores dos serviços nele elencados. 26. Sobre o tema, já se manifestou a própria Secretaria da Receita Federal (RFB), através da Solução de Consulta nº 17 SRRF10/Disit, com a seguinte Ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP AGÊNCIA DE TURISMO. RECEITA. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO. A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Caso o serviço seja prestado pela própria agência de turismo ou em seu nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS AGÊNCIA DE TURISMO. RECEITA. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO. Fl. 1813DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.813 40 A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Caso o serviço seja prestado pela própria agência de turismo ou em seu nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes. 27. Essa mesma linha tem sido seguida por este Conselho, conforme as seguintes decisões da Câmara Superior de Recursos Fiscais: a) Acórdão nº 9101002.359 – 1ª Turma, Sessão de 16/06/2016: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ AGÊNCIA DE VIAGENS E TURISMO. RECEITA BRUTA. A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos a atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, será o correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Caso o serviço seja prestado pela própria agência de turismo ou em seu nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes. Os valores recebidos dos consumidores e repassados efetivamente aos fornecedores dos serviços prestados não configuram receita bruta da agência de turismo. b) Acórdão nº 9303006.315 – 3ª Turma, Sessão de 20/02/2018: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP PIS.AGÊNCIA DE TURISMO. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO. A receita auferida por agência de turismo por meio de intermediação de negócios relativos a atividade turística, prestados por conta em nome de terceiros, será o correspondente à comissão ou ao adicional percebido em razão da intermediação de serviços turísticos. Caso o serviço seja prestado pela própria agência de turismo ou em seu nome, sua receita bruta incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes. Somente devem ser considerados como receita, para fins do PIS e da COFINS, os bens e direitos que impliquem efetivo aumento patrimonial, vale dizer, que realmente influenciem o resultado do período, tendo sido recebidos com a finalidade de se agregarem ao patrimônio existente. Fl. 1814DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.814 41 28. Por fim, o próprio Poder Judiciário também tem seguido essa linha, conforme decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região na Apelação Cível nº 0005761 20.2014.4.03.6105/SP, Relatora Desembargadora Federal Consuelo Yoshida, publicada em 08/02/2017: 5. A impetrante, empresa que exerce atividade de agência de viagens e turismo, objetiva o reconhecimento do direito de calcular como receita bruta, apenas os valores decorrentes de receitas próprias de prestação de serviços, excluídos os valores de terceiros, repassados aos fornecedores de serviços a título de pagamento de passagens, hotéis, traslados, passeios, viagens, excursões, hospedagem, para efeito de determinação da base de cálculo do SIMPLES. 6. A base de cálculo a ser utilizada para a tributação do SIMPLES encontrase prevista no art. 3º, §1º, da Lei Complementar 123/2006, que menciona, expressamente o produto de duas contas, distinguindoas entre a conta própria, das operações realizadas em nome da empresa, na qual se incluem as vendas de bens e serviços e a conta alheia, realizada em nome de terceiros, na qual se incluem o preço dos serviços prestados e o resultado nas operações, excluindose os descontos incondicionais e vendas canceladas. 7. Destarte, na conta própria, considerase o valor da venda de bens e serviços, objeto da empresa, realizadas em seu nome próprio, e, na conta alheia, de aquisição de bens e serviços a serem efetivamente realizados por outras empresas, destacase o preço dos serviços prestados pela impetrante e o resultado da operação, que consistiria, essencialmente, na comissão ou eventuais adicionais por ela percebidos nestas operações, excluídos, assim, os valores pertencentes aos terceiros, pagos pelos clientes e destinados aos fornecedores ou prestadores do serviço final, inexistindo qualquer menção legal que imponha a inclusão do valor total destas contas para a apuração da receita bruta da empresa. Precedente jurisprudencial. 8. Portanto, no caso em espécie, a receita bruta considerada para a base de cálculo do SIMPLES deve englobar apenas os valores das receitas próprias e os valores da prestação de serviços e comissões decorrentes das operações realizadas em conta alheia. 9. Assim, a parte do pedido referente à não inclusão na base de cálculo, de valores, inclusive nos casos em que o serviço seja prestado pela própria agência ou em seu nome, fica rejeitado, diante de toda a análise realizada e à míngua de fundamentação legal. 29. Como se vê, resta pacífico que, no caso específico de agências de viagens, ou de viagens e turismo (operadoras), a base de cálculo do PIS/COFINS será apenas a receita auferida por meio de intermediação de negócios relativos à atividade turística, prestados por conta e em nome de terceiros, correspondente à comissão ou ao adicional percebido. Caso o serviço seja prestado pela própria agência de turismo ou em seu nome, também incluirá a totalidade dos valores auferidos de seus clientes. Fl. 1815DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.815 42 30. Portanto, como dito inicialmente, o litígio posto em análise concentra se unicamente em identificar quais operações foram realizadas por conta própria e quais o foram em conta alheia. Para classificar todas as receitas do contribuinte como provenientes de serviços prestados pela própria agência ou em seu nome, a Autoridade Tributária utilizou como fundamento a sua interpretação de diversos fatos jurídicos elencados no Termo de Verificação, os quais foram todos rebatidos pelo Recorrente. Passo, a seguir, à análise destes fundamentos. II.1 DA RELAÇÃO ENTRE O RECORRENTE E SEUS CLIENTES E PRESTADORES DE SERVIÇO DA ANTECIPAÇÃO DE VALORES AOS PRESTADORES 31. Alega a Fiscalização que os prestadores de serviço (companhias aéreas, hotéis, locadoras de carro, etc) cobram os valores a eles devidos diretamente do Recorrente, e não dos consumidores. Todas as notas fiscais, faturas, boletos e demais documentos emitidos pelos fornecedores de serviços têm como sacado e destinatário o nome da fiscalizada e não o nome do consumidor (cliente da Recorrente). 32. Sustenta o Fisco que existe obrigação contratual apenas entre o cliente e a empresa fiscalizada (e suas agências subcontratadas), e não entre o cliente e os fornecedores dos serviços. O Recorrente estaria agindo diretamente em seu nome e por sua conta e não apenas intermediando um negócio. Para o cliente, quem está sendo contratada é a empresa fiscalizada, de quem espera que os serviços sejam efetiva e corretamente prestados. 33. Conclui, assim que as características de antecipar valores que ainda não recebeu e tratar em seu próprio nome com os fornecedores, diferenciamse de uma simples intermediação, ou do recebimento de uma comissão, devendo o total de recursos recebidos de seus clientes serem considerados como receita bruta de sua atividade comercial. 34. Inicialmente, devese ter fixada a premissa de que a Autoridade Fiscal em momento algum descaracterizou a atividade do Recorrente como sendo de agência de turismo, inclusive aplicando a este as regras previstas no art. 27 da Lei nº 11.771/2008, específicas para este ramo de atividade. O Recorrente chegou a alegar esta possibilidade, a qual foi rechaçada expressamente pela decisão da DRJ, que confirmou a inexistência de tal descaracterização. 35. Logo, resta incontroverso nos autos que as relações estabelecidas entre o Recorrente, os fornecedores de serviços turísticos e os consumidores destes mesmos serviços são regidas pelas regras estabelecidas para a modalidade dos contratos de agência, positivadas no Código Civil brasileiro nos arts. 710 a 721: CAPÍTULO XII Da Agência e Distribuição Art. 710. Pelo contrato de agência, uma pessoa assume, em caráter não eventual e sem vínculos de dependência, a obrigação de promover, à conta de outra, mediante retribuição, a realização de certos negócios, em zona determinada, caracterizandose a distribuição quando o agente tiver à sua disposição a coisa a ser negociada. Fl. 1816DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.816 43 Parágrafo único. O proponente pode conferir poderes ao agente para que este o represente na conclusão dos contratos. (...) Art. 713. Salvo estipulação diversa, todas as despesas com a agência ou distribuição correm a cargo do agente ou distribuidor. (...) Art. 716. A remuneração será devida ao agente também quando o negócio deixar de ser realizado por fato imputável ao proponente. Art. 717. Ainda que dispensado por justa causa, terá o agente direito a ser remunerado pelos serviços úteis prestados ao proponente, sem embargo de haver este perdas e danos pelos prejuízos sofridos. Art. 718. Se a dispensa se der sem culpa do agente, terá ele direito à remuneração até então devida, inclusive sobre os negócios pendentes, além das indenizações previstas em lei especial. (...) Art. 721. Aplicamse ao contrato de agência e distribuição, no que couber, as regras concernentes ao mandato e à comissão e as constantes de lei especial. 36. Sobre esta modalidade contratual, Maria Helena Diniz, em sua obra Curso de Direito Civil Brasileiro, vol 03, 33ª ed., 2017, à pág. 450, assim preceitua: A pessoa que se obriga a agenciar propostas ou pedidos em favor de outra recebe a denominação de agente ou representante comercial (...). (...) O contrato de representação comercial pertence ao gênero contratos de intermediação, do qual o mais peculiar é a corretagem, com o qual não de confunde, visto que enquanto a corretagem é uma atividade eventual em relação ao comitente, agindo o corretor no interesse das duas partes, o representante comercial age, permanente, profissional e habitualmente, em prol da empresa representada. Quem praticar ato isolado ou esporádico de representação comercial poderá ser considerado simples corretor de mercadorias, mas nunca representante comercial, não tendo, portanto, direito à proteção legal na cobrança de seu eventual crédito. 37. Como visto no parágrafo único do art. 710 do CC, há previsão expressa no sentido de que o proponente (fornecedor dos serviços) pode conferir poderes ao agente para que este o represente na conclusão dos contratos, o que significa que o agente pode Fl. 1817DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.817 44 ter autonomia para realizar todas as etapas da negociação, até a sua conclusão, o que implica a assinatura do contrato e o recebimento do pagamento respectivo. 38. Além disso, a Lei Geral do Turismo, a Lei nº 11.771/2008, em seu art. 27, § 3º, que a VENDA a consumidores de passagens e acomodações e outros serviços em meios de hospedagem está compreendida entre as atividades de intermediação de agências de turismo: § 3º As atividades de intermediação de agências de turismo compreendem a oferta, a reserva e a venda a consumidores de um ou mais dos seguintes serviços turísticos fornecidos por terceiros: I passagens; II acomodações e outros serviços em meios de hospedagem; e III programas educacionais e de aprimoramento profissional. 39. Ora, se o Recorrente tem poderes para conclusão dos contratos e previsão legal para não apenas ofertar, como também vender serviços turísticos prestados por terceiros, nada há como usar tais fatos como fundamento para afirmar que não está havendo intermediação, mas sim fornecimento de serviços diretamente, ou seja, por sua própria conta e risco. 40. O contrato, de fato, deve ser assinado entre o Recorrente e o consumidor final dos serviços, e entre estes deve ocorrer o pagamento. O Recorrente está, de fato, agindo diretamente em seu nome e por sua conta na atividade de intermediação, mas não na prestação dos serviços. Ao assumir tal função econômica, obviamente obrigase perante o seu cliente, sendo vedado pelo Código de Defesa do Consumidor que busque se eximir atribuindo responsabilidade unicamente ao fornecedor do serviço. Todos os envolvidos na cadeia turística tem que assumir sua parcela de responsabilidades, sem que isso desnature o papel desempenhado por cada ator econômico. 41. Vejase que, para além da expressa permissão legal, há fatores históricos e comerciais que devem ser levados em conta na análise dos fatos pois, ao final, as próprias leis nada mais são do que o reflexo das necessidades da sociedade, sendo alteradas de acordo com mudanças de costumes, evolução tecnológica, etc, com a finalidade de regular atividades que, na maioria das vezes, já passaram a existir antes das leis, e que demandam do legislador a sua atenção para que todos tenham acesso e compreensão sobre como devem ser estabelecidas as relações. Exemplo bastante conhecido e recente são os debates legislativos para regulamentar a atividade de transporte de pessoas por meio de aplicativos de celular, tais como Uber, 99 Táxi, dentre outros, inclusive na seara tributária. 42. Assim, há 15 ou 20 anos, ainda era comum a existência de lojas físicas para a venda de passagens aéreas, concomitantemente às vendas por telefone e internet. Da mesma forma, algumas grandes redes hoteleiras também dispunham de tal infraestrutura. Com o passar do tempo, os custos de se manter esse modelo de vendas se mostrou inviável economicamente, alavancando ainda mais as atividades das agências de turismo no que diz respeito às vendas físicas. Fl. 1818DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.818 45 43. É que tais agências vendem não apenas as passagens de uma ou outra companhia aérea, ou alguns poucos hotéis, mas sim ofertam praticamente todas as possibilidades de vôos e de hospedagem aos clientes, que lá decidem qual a melhor empresa aérea, qual o melhor hotel, melhores horários, destinos, etc, muitas vezes com a ajuda dos funcionários destas empresas, que realizam toda a orientação sobre quais as opções que podem vir a satisfazer o seu cliente. 44. Fácil constatar que esse sistema é muito mais lógico, pois diminui sensivelmente os custos dos fornecedores de serviços (apesar de alguns, por estratégias próprias, manterem lojas físicas para efetuar vendas diretas). Não há necessidade de cada fornecedor manter sua própria estrutura física de vendas. Se para grandes empresas aéreas isso já representava um custo estupendo, imaginese a dificuldade para que uma pequena pousada pudesse ser ocupada por um cliente em outro Estado da Federação, que às vezes sequer conhece o destino para onde irá viajar. 45. Nesse contexto, não há como se exigir das agências que elaborem todos os contratos e os remetam, periodicamente, a algum preposto de cada empresa aérea, locadora de veículos, ou meio de hospedagem, para assinálos e posteriormente remetêlos de volta à agência para conclusão da negociação. Há ainda, a questão sobre em qual momento deveria ocorrer o pagamento; antes ou após tal assinatura? E como se daria? Por acaso cada uma das milhares de empresas teria que disponibilizar à agência uma máquina de cartão de crédito para a conclusão das vendas? Ou teria que disponibilizar uma conta corrente para que fosse feito um depósito? E como proceder em casos de parcelamento? 46. Tais questionamentos, obviamente, parecem, a esta altura, completamente desprovidos de um mínimo de razoabilidade. O procedimento que é público e notório, de conhecimento geral, é aquele no qual as agências realizam toda a negociação, inclusive fornecendo nota fiscal e assinando contratos, bem como recebendo as importâncias devidas, tudo isso em nome de terceiros, fornecedores de serviços, realizando a intermediação entre seus clientes consumidores e as empresas prestadoras dos serviços. 47. Através de seus controles internos, após concretizada a negociação e recebido o pagamento, seja à vista ou parcelado, em prazos previamente consignados, o Recorrente repassa os valores a cada fornecedor, descontados da sua comissão, taxa, ou do valor que agregou ao serviço. Tal procedimento não apenas é o lógico, não apenas é aquele viável economicamente, mas também é plenamente permitido pela legislação, sem importar em qual alteração de sua natureza jurídica de mera intermediação. 48. O Fisco não apresentou qualquer dispositivo legal que impedisse as partes deste negócio de assim procederem. No gozo de sua plena liberdade de pactuação, agências de turismo e fornecedores de serviços realizam, dia após dia, suas atividades seguindo este mesmo padrão. O Recorrente, em sua Contabilidade, registra como receitas próprias as comissões e, em contas transitórias, as receitas em conta alheia, a serem repassadas, e que nunca lhe pertenceram. 49. Tal atividade pode ser claramente diferenciada da venda direta, que é realizada por praticamente todos os prestadores de serviços turísticos, por diversos meios, como telefonia ou internet, e em alguns casos, até mesmo por lojas físicas também. Quando, por exemplo, um consumidor acessa o site de uma empresa aérea, ou de um hotel, realiza a reserva e efetua o pagamento, não há intermediação alguma. A venda foi direta, sem participação de um agente. Fl. 1819DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.819 46 50. Poderiase afirmar que o serviço turístico estaria sendo fornecido diretamente pela própria agência caso estivesse sendo oferecido um vôo da CVC, e não da LATAM, GOL, etc. Ou a hospedagem fosse ocorrer em uma pousada ou hotel pertencente à agência, ou a locação de carros de uma frota que também fosse de propriedade da agência. Se algum desses serviços é oferecido por outra empresa, sobre a qual a agência não possui controle sobre a oferta dos serviços, não arca diretamente com os custos destes nem corre o risco da empreitada, não vejo como afirmar que não está fazendo apenas a sua intermediação. 51. A Autoridade Fiscal, assim como a DRJ, entendem que, para que ocorra a intermediação, o pagamento deve ser recebido pelo fornecedor do serviço, que irá posteriormente pagar à agência sua comissão, o qual também deverá emitir os contratos em seu nome, assim como a nota fiscal. Como dito, tal procedimento não tem qualquer sentido econômico, não há nenhuma norma legal determinando que deva ocorrer dessa forma, pelo contrário, a legislação que rege a matéria não permite que uma empresa emita contratos e notas fiscais em nome de terceiros, além de permitir expressamente que a intermediação se dê nos moldes em que é praticada pelo Recorrente. Da forma como entendem a Fiscalização e a DRJ, a operação não será de intermediação, mas sim de venda direta. 52. Destaquese que a própria RFB, ao disciplinar a retenção de tributos nos pagamentos efetuados pelos órgãos da administração pública direta e indireta a outras pessoas jurídicas pelo fornecimento de bens e serviços, através da Instrução Normativa RFB nº 1.234, de 11/01/2012 (que revogou a Instrução Normativa nº 480, de 2004), admite este modelo de intermediação de negócios, como se pode verificar dos seus dispositivos normativos: Art. 1º A retenção de tributos nos pagamentos efetuados pelos órgãos da administração pública federal direta, autarquias e fundações federais, empresas públicas, sociedades de economia mista e demais pessoas jurídicas que menciona a outras pessoas jurídicas pelo fornecimento de bens e serviços, obedecerá o disposto nesta Instrução Normativa. (...) CAPÍTULO IX DAS SITUAÇÕES ESPECÍFICAS Seção I Das Agências de Viagens e Turismo Art. 12. Nos pagamentos correspondentes a aquisições de passagens aéreas e rodoviárias, despesas de hospedagem, aluguel de veículos e prestação de serviços afins, efetuados por intermédio de agências de viagens, a retenção será feita sobre o total a pagar a cada empresa prestadora do serviço e, quando for o caso, à Empresa Brasileira de InfraEstrutura Aeroportuária (Infraero). § 1º A agência de viagens apresentará documento de cobrança à unidade pagadora, do qual deverão constar: Fl. 1820DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.820 47 I o nome e o número de inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) da empresa prestadora do serviço; II no caso de venda de passagens: a) o número e o valor do bilhete, excluídos a taxa de embarque, o pedágio e o seguro; b) o número de inscrição no CNPJ da Infraero e, em destaque, o valor da taxa de embarque; e III o nome do usuário do serviço. (...) § 5º Como forma de comprovação da retenção de que trata este artigo, o órgão ou a entidade que efetuar o pagamento deverá fornecer, por ocasião do pagamento, à agência de viagem, cópia do Darf ou de qualquer outro documento que comprove que as retenções foram efetuadas em nome das empresas prestadoras do serviço. § 6º Para fins de prestação de contas, as agências de viagem repassarão às empresas prestadoras dos serviços de transporte o valor líquido recebido, já deduzido das retenções efetuadas em nome destas e da Infraero, acompanhado do comprovante referido no § 5º. § 7º As empresas de transporte aéreo repassarão à Infraero o valor referente à taxa de embarque recebido das empresas de turismo, já deduzido das retenções efetuadas em nome destas, acompanhado do comprovante de retenção referido no § 5º. 53. Como se depreende da leitura dos dispositivos acima, não há qualquer dúvida sobre o enquadramento das operações aqui discutidas como uma intermediação. Já no caput deste art. 12, falase em "pagamentos correspondentes a aquisições de passagens aéreas e rodoviárias, despesas de hospedagem, aluguel de veículos e prestação de serviços afins, efetuados por intermédio de agências de viagens". 54. No § 1º, consta que "A agência de viagens apresentará documento de cobrança à unidade pagadora", fazendo cair por terra o argumento da Fiscalização de que, pelo fato de que "as notas fiscais, faturas, boletos e demais documentos emitidos pelos fornecedores de serviços têm como sacado e destinatário o nome da fiscalizada e não o nome do consumidor", isso indicaria se tratar de uma venda direta. Como se vê, apesar de o artigo em comento tratar de aquisições de serviços "por intermédio de agências de viagens", é este intermediário quem emite o documento de cobrança ao órgão público, inexistindo qualquer relação direta com os fornecedores de serviços. 55. Por fim, os §§ 6º e 7º deixam bem claro que são as agências de viagem que recebem o valor total do pagamento, com a obrigação de repassar às empresas prestadoras dos serviços o valor líquido recebido, já deduzido das retenções. Até mesmo as empresas aéreas atuam na intermediação com a Infraero, pois o § 7º determina que estas "repassarão à Infraero o valor referente à taxa de embarque recebido das empresas de turismo". Fl. 1821DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.821 48 56. O Poder Judiciário já se manifestou sobre o tema, conforme decisão do Tribunal Regional Federal da 5ª Região na Apelação Cível nº 379417/PE, Relator Desembargador Federal Francisco Wildo, 6ª Turma, publicada em 07/02/2017: Tratase de apelação de sentença que julgou parcialmente procedente pedido formulado por EXATA TURISMO E VIAGENS LTDA, visando à suspensão da retenção na fonte do IR e das contribuições para a CSLL, COFINS e PIS nos pagamentos efetuados por órgãos, autarquias e fundações da Administração Pública Federal pelo fornecimento de bens ou prestação de serviços. (...) Apelação do autor que se insurge quanto à retenção do IRPJ sob o argumento de que tal tributo não lhe pertence, estando, assim, recolhendo imposto que é devido por outra pessoa jurídica em completa divergência com a sua capacidade contributiva e com o alcance da norma do SIMPLES. Pugna pelo reconhecimento da ilegalidade da IN nº 480/2004, na espécie. Apelação da Fazenda Nacional sustentando ser devida a retenção em comento ante uma interpretação sistemática da Lei nº 10.833/03, que prevê a possibilidade de desconto na fonte dos tributos sobre os pagamentos efetuados por entes estatais a pessoas jurídicas, inclusive, as optantes pelo SIMPLES. Ademais, enfatizou que os tributos em tela não são devidos pelas agências de turismo, vez que os contribuintes são as empresas aéreas ou rodoviárias. (...) In casu, a requerente é uma agência de turismo, pessoa jurídica de direito privado, que tem como uma de suas atividades o fornecimento de passagens aéreas. Insurgese contra a retenção na fonte de tributos, quando do pagamento realizado por entes estatais decorrente de aquisições de bilhetes de viagem, sob o argumento de que é optante do SIMPLES, o que torna não exigível o desconto em comento. (...) No meu entender, é legítima a previsão contida no art. 10 da IN/SRF nº 480/2004, que possibilita a retenção daquelas contribuições sociais na ocasião de aquisições de passagens áreas por ente estatal mesmo que à agência de viagem optante do SIMPLES, vez que, nesses casos, as empresas de turismo atuam como meras intermediárias dessa compra, sabido que o serviço de transporte pretendido será efetivamente prestado pela empresa área, consoante já se afirmou linhas atrás. Nessa vereda, para fins de suspensão da exigibilidade dos tributos em testilha, é irrelevante o fato de a empresa requerente ser optante da sistemática do SIMPLES, vez que, não é ela quem verdadeiramente arca com o ônus do pagamento dessas exações, não se podendo invocar as Fl. 1822DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.822 49 disposições contidas tanto na Lei nº 10.833/03, quanto na IN/SRF 480/2004, que se reportam a não exigência da referida retenção. Ao que se observa, o que existe é tãosomente o recolhimento imediato desses tributos por ocasião do pagamento feito pelas empresas tomadoras de serviço como uma forma de simplificar o mecanismo arrecadatóriofiscalizatório do Fisco e de elidir, bem assim, a adoção de práticas de sonegação. 57. O caso acima relatado apresenta uma contradição no posicionamento da PGFN. Em entendimento diametralmente oposto ao sustentado no processo que ora se julga, a Procuradoria argumentou que o órgão pagador deveria proceder às retenções de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS nos pagamentos efetuados à agência de turismo, independente do fato desta ser optante do SIMPLES (regime tributário pelo qual não são devidas as citadas retenções), pois tais valores não lhe pertencem, mas sim às empresas que efetivamente irão prestar os serviços. Afirmou que os tributos em tela não são devidos pelas agências de turismo, vez que os contribuintes são as empresas aéreas ou rodoviárias. E, com este argumento, obteve decisão final transitada em julgado acolhendo sua tese. 58. Em relação ao argumento de antecipação de recursos, isso só demonstra que os valores pagos pertencem aos fornecedores, e não à CVC. Fosse um custo desta, por um serviço prestado em seu nome, não haveria sentido em fazer adiantamentos. Nada impede que a empresa, especialmente em virtude do seu porte econômico, realçado pelo próprio autuante (como se verá adiante), antecipe, com seus recursos, as parcelas das vendas de seus parceiros, para aguardar o recebimento dos clientes. Não foram esclarecidos maiores detalhes da operação, mas sabese que esta é uma prática comum de comércio, podendo a CVC promover essa antecipação efetuando deságio, ou simplesmente procurando estreitar laços de parceria, a fim de obter melhores condições de negociação no valor das passagens, aumentando sua margem de ganhos. Afinal, agregar valor ao preço de custo dos seus fornecedores é parte do preço do serviço de intermediação, conforme previsto no art. 27, § 2º, da Lei nº 11.771/2008: § 2º O preço do serviço de intermediação é a comissão recebida dos fornecedores ou o valor que agregar ao preço de custo desses fornecedores, facultandose à agência de turismo cobrar taxa de serviço do consumidor pelos serviços prestados. 59. A Autoridade Fiscal ainda relaciona uma série de argumentos, sintetizados a seguir: a) "Para o cliente, quem está sendo contratada é a empresa fiscalizada, de quem espera que os serviços sejam efetiva e corretamente prestados". A escolha de qual o meio de que se valerá o consumidor é uma decisão que lhe cabe exclusivamente. Pode o consumidor se sentir mais seguro ao realizar uma viagem após ser devidamente esclarecido, pessoalmente, por um agente de turismo, sobre seu destino, empresa aérea, melhores horários, melhor local para se hospedar, e demais informações. Assim, natural que o consumidor busque contratar a CVC para realizar a busca pelos melhores destinos, companhias aéreas e hotéis, confiando em sua expertise. Além disso, como já visto, a intermediação dos serviços turísticos não se dá com a agência apresentando o consumidor a um representante dos seus fornecedores para que estes possam iniciar as tratativas para a finalização do contrato e recebimento do pagamento. Fl. 1823DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.823 50 Esta forma de intermediação é típica dos corretores, que não se confunde com a agência, como já alertado por Maria Helena Diniz, e cujo modalidade de contrato está prevista em capítulo do Código Civil diverso daquele referente às agências e distribuidoras: CAPÍTULO XIII Da Corretagem Art. 722. Pelo contrato de corretagem, uma pessoa, não ligada a outra em virtude de mandato, de prestação de serviços ou por qualquer relação de dependência, obrigase a obter para a segunda um ou mais negócios, conforme as instruções recebidas. Art. 723. O corretor é obrigado a executar a mediação com diligência e prudência, e a prestar ao cliente, espontaneamente, todas as informações sobre o andamento do negócio. (Redação dada pela Lei nº 12.236, de 2010 ) Parágrafo único. Sob pena de responder por perdas e danos, o corretor prestará ao cliente todos os esclarecimentos acerca da segurança ou do risco do negócio, das alterações de valores e de outros fatores que possam influir nos resultados da incumbência. (Incluído pela Lei nº 12.236, de 2010 ) Art. 724. A remuneração do corretor, se não estiver fixada em lei, nem ajustada entre as partes, será arbitrada segundo a natureza do negócio e os usos locais. Art. 725. A remuneração é devida ao corretor uma vez que tenha conseguido o resultado previsto no contrato de mediação, ou ainda que este não se efetive em virtude de arrependimento das partes. Art. 726. Iniciado e concluído o negócio diretamente entre as partes, nenhuma remuneração será devida ao corretor; mas se, por escrito, for ajustada a corretagem com exclusividade, terá o corretor direito à remuneração integral, ainda que realizado o negócio sem a sua mediação, salvo se comprovada sua inércia ou ociosidade. Art. 727. Se, por não haver prazo determinado, o dono do negócio dispensar o corretor, e o negócio se realizar posteriormente, como fruto da sua mediação, a corretagem lhe será devida; igual solução se adotará se o negócio se realizar após a decorrência do prazo contratual, mas por efeito dos trabalhos do corretor. Art. 728. Se o negócio se concluir com a intermediação de mais de um corretor, a remuneração será paga a todos em partes iguais, salvo ajuste em contrário. Art. 729. Os preceitos sobre corretagem constantes deste Código não excluem a aplicação de outras normas da legislação especial. Fl. 1824DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.824 51 b) "Apesar do pagamento ser efetuado integralmente à fiscalizada; esta emite para seu cliente, uma nota fiscal em um valor correspondente a uma pequena parte do total pago". Como visto à exaustão, a legislação determina que este é o procedimento a ser seguido, e não aquele pretendido pelo AuditorFiscal e pela DRJ. O documento de cobrança emitido (faturas ou boletos) é no valor total da aquisição, para que o pagamento possa ser realizado, mas como a maior parte deste valor será repassado, pois não pertence à agência de turismo, seria ilegal que emitisse nota fiscal própria do valor integral. A nota fiscal deve ser emitida por cada empresa em referência ao valor do bem vendido ou do serviço prestado, e no presente caso o serviço é a intermediação de serviços turísticos, cujo preço já foi tratado alhures. Vale destacar que a IN RFB nº 1.234/2012 foi alterada pela IN RFB nº 1.540, de 05/01/2015, a qual deu nova redação aos incisos I e II do § 1º do art. 12: §1º Para fins do disposto no caput, a agência de viagem apresentará documento de cobrança ao órgão ou à entidade observandose o seguinte: (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1540, de 05 de janeiro de 2015) I apresentará fatura e nota fiscal em seu nome somente em relação ao valor cobrado pela intermediação da comercialização do bilhete de passagem ou pela prestação do serviço de agenciamento de viagens na venda de passagens aos órgãos e entidades públicas, os quais se sujeitam à retenção de que trata o art. 3º; (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1540, de 05 de janeiro de 2015) II apresentará à contratante faturas de sua emissão, separadas por prestador do serviço, das quais deverão constar: (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1540, de 05 de janeiro de 2015) a) o nome e o número de inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) da empresa prestadora do serviço e o número e valor da nota fiscal, no caso de despesas de hospedagem, aluguel de veículos e prestação de serviços afins; (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1540, de 05 de janeiro de 2015) b) o nome e o número de inscrição no CNPJ da empresa prestadora do serviço e o número e valor do bilhete de passagem aérea ou rodoviária emitido pela empresa transportadora, excluídos a tarifa de embarque, o pedágio e o seguro, no caso de venda de passagens; (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1540, de 05 de janeiro de 2015) c) Existência da seguinte cláusula entre a CVC e seus consumidores: "Ficam as CONTRATADAS, desde logo, autorizadas pelo CONTRATANTE a cederem o crédito decorrente da operação de parcelamento para instituições financeiras de sua confiança", demonstra que o preço total do contrato pertence à fiscalizada, não se confundindo com as obrigações que esta tem com seus fornecedores. Fl. 1825DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.825 52 Tratase de operação extremamente corriqueira, regulada pelo Código Civil e por lei especial: cessão de crédito. Possibilita ao empresário facilitar a venda do seu produto ou serviço, ao oferecer parcelamento, mas recebendo o valor de imediato, mediante um desconto ao negociar a cessão destes créditos com instituições financeiras. Como o contrato é assinado pelo consumidor unicamente com a CVC, nada de anormal na existência desta cláusula, para possibilitar a cessão integral do crédito, inclusive pelos fornecedores do serviço. O que define a quem pertence o preço total não é a existência desta cláusula, mas sim as cláusulas referentes aos pagamentos e serviços contratados, tanto entre a CVC e o consumidor quanto entre a CVC e seus fornecedores. d) Existência da seguinte cláusula entre a CVC e seus consumidores: "A impontualidade no pagamento de qualquer parcela, independentemente do motivo, poderá dar ensejo à inscrição do nome do CONTRATANTE nos órgãos restritivos de crédito", demonstra que quem gerencia o negócio por completo é a própria fiscalizada. Tratase de cláusula comum a praticamente qualquer contrato. Sendo a venda realizada pela CVC, como lhe permite a legislação que trata da intermediação, é óbvio que ela deve inserir tal cláusula para resguardar seu crédito. A Recorrente está gerindo o seu negócio de intermediação, e não o negócio de hotelaria nem de transporte aéreo. Imagino que gerenciar por completo o negócio de hotelaria e de transporte aéreo implicaria em definir preços unilateralmente, contratar e demitir funcionários (estabelecer sua política de pessoal), vender a própria empresa, auferir os lucros das atividades, ter o controle dos recursos, patrimônio, enfim, todas as atividades inerentes a quem está efetivamente gerenciando um negócio, o que não parece ser o caso da CVC em relação aos negócios de seus fornecedores. e) "A própria celebração, em si, de contratos e acordos com as companhias aéreas demonstra a constituição de uma relação jurídica e obrigacional entre os fornecedores e a fiscalizada, e não entre os fornecedores e os clientes finais". Entendo que o modelo de intermediação de negócios funciona exatamente desta forma, com contratos de compra e venda entre a agência e o consumidor, e contratos para oferta dos serviços entre a agência e os fornecedores dos serviços. Se o contrato fosse formalizado entre consumidor e fornecedor direto do serviço, não haveria mais que se falar em intermediação, mas em venda direta, como ocorre, por exemplo, quando um consumidor procura diretamente este fornecedor, por telefone ou pelo site da internet, sem utilizar nenhum serviço prestado pela agência. f) "É a fiscalizada que efetiva e diretamente compra os bilhetes aéreos em seu nome, tendo para isso, inclusive, tratamento e condições especiais de preço e acesso aos sistemas de seus fornecedores". O AuditorFiscal não logrou êxito em comprovar qualquer compra e venda de passagens entre a CVC e empresas aéreas. O que comprovou foi a existência de contratos que possibilitam à agência comercializar passagens, com valores préfixados para vendas realizadas por sua intermediação. Não há qualquer prova de que a CVC realiza previamente a compra das passagens para posterior revenda. Na verdade, o que consta nos autos é a prova de que a Fl. 1826DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.826 53 agência somente contabilizava valores a serem repassados aos seus fornecedores após a venda destes serviços a algum consumidor. Como a legislação permite que o preço do serviço de intermediação seja composto pelo valor que a agência agregar ao preço de custo dos fornecedores, nada há de irregular em negociar valores que possibilitem à agência uma maior margem de lucro, restando claro que esta maior lucratividade irá compor a base de cálculo das contribuições. O acesso direto aos sistemas de seus fornecedores é condição para que exista o negócio de intermediação. A legislação expressamente permite que o agente realize a conclusão do negócio, o que somente pode ocorrer com este acesso direito aos sistemas estando garantido não apenas à CVC, mas a todas as agências de turismo. Basta ter em mente que quanto efetiva a venda de uma passagem ou a reserva de uma hospedagem, é necessário que seja feito este bloqueio nos sistemas, para que não apenas o fornecedor, mas todas as outras agências possam ter conhecimento se ainda existem ou não vagas disponíveis. Sem estar garantido tal acesso, as agências iriam, inevitavelmente, comercializar serviços que poderiam estar esgotados, muitas vezes porque outra agência, ou o próprio fornecedor, poderia ter, há questão de minutos, comercializado o último bilhete ou o último quarto disponível. g) "Ao agir em seu nome, a fiscalizada arca com os riscos inerentes ao negócio de oferecer passagens aéreas aos seus clientes". Mais uma vez, não é verdadeira a afirmação feita. O risco assumido pela agência é aquele inerente ao negócio de intermediação. Caso um vôo não seja realizado pela companhia aérea, com passagens comercializadas pela agência, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) permite a este cobrar tanto da agência quanto da companhia aérea eventuais danos morais e materiais. Entretanto, cabe à agência ação de regresso contra seu fornecedor, inclusive para pleitear a comissão pela intermediação, como previsto no art. 716 do Código Civil: Art. 716. A remuneração será devida ao agente também quando o negócio deixar de ser realizado por fato imputável ao proponente. Da mesma forma, caso um fornecedor entre em Falência ou Recuperação Judicial, tal medida não se estende à agência, a qual, repitase, não arca com os riscos inerentes ao negócio de oferecer passagens aéreas aos seus clientes, mas unicamente com os riscos inerentes à intermediação desta oferta. h) "(...) a fiscalizada não é uma agência de turismo qualquer, mas a maior operadora de turismo da América Latina (...). A estas informações somese os fatos relevantes de que a fiscalizada realizou a abertura de seu capital, sendo a primeira operadora de viagens do Brasil a ser listada na Bolsa de Valores (...). Este último fato citado demonstra que a fiscalizada chegou a poder arcar com eventuais variações cambiais, uma vez que, como já dito, agiu em seu nome e por sua conta e risco. O fato do Recorrente ser a maior operadora de turismo da América Latina, ou ser a primeira operadora de viagens do Brasil a ser listada na Bolsa de Valores, não ajuda o Fisco a comprovar que os serviços são fornecidos diretamente ao consumidor, não ocorrendo a Fl. 1827DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.827 54 simples intermediação. Não vislumbro qualquer correlação entre estes fatos e a consequencia que a Autoridade Fiscal lhes pretende atribuir. Quanto à fixação da cotação do dólar em R$1,99, também me parece evidente tratarse unicamente de uma ação de marketing do Recorrente, visando a impulsionar as suas vendas. A agência pode livremente estabelecer suas margens de lucro, bem como estabelecer acordos com seus fornecedores para promover seus serviços. O Recorrente já avaliou o preço de venda que resultará desta oferta, e entendeu que lhe será vantajoso realizar tal negócio, lembrando ainda que os efeitos desta "cotação" é muito mais psicológico do que real; o AuditorFiscal não trouxe qualquer informação sobre os preços finais (ainda que não teria maior importância para seu intento), o que poderia demonstrar que, mesmo com essa cotação, o preço do Recorrente poderia ser até maior do que o de seus concorrentes, bastando informar um valor maior em dólar, a compensar a fixação da cotação. II.2 DOS FRETAMENTOS DE AERONAVES 60. O Recorrente afirma que, mesmo nas operações em que realiza o fretamento de aeronaves para a oferta dos chamados "vôos charter" em suas agências e subcontratadas, está agindo como mero intermediário entre o consumidor e seus fornecedores. Contudo, entendo que não assiste razão ao Recorrente. 61. Com efeito, a partir do momento em está oferecendo passagens que não estão disponíveis para venda direta pela companhia aérea que irá operacionalizar o vôo, o qual terá rota, horários e periodicidade definidos pela agência, não estando disponível a outras operadoras de turismo; assumindo o custo do fretamento através de contrato em que se obriga a realizar seu pagamento independentemente de quantas passagens sejam vendidas, bem como eventuais multas pelo cancelamento do vôo, entendo que a iniciativa da oferta da rota foi definida pela agência, por sua conta e risco, não podendo ser caracterizada tal ação como uma intermediação. Há, claramente, o fornecimento direto de um serviço turístico. 62. Entretanto, conforme analisado no parágrafo 16 deste voto, o transporte coletivo de passageiros efetuado por vôos fretados (não regulares), foi excluído da base de cálculo da autuação, devido a erro material na apuração dos tributos. Tivesse sido feita sua apuração corretamente pelo regime não cumulativo, com a apropriação dos créditos a que teria direito o contribuinte, deveria ser mantida essa parcela da autuação. II.3 DAS DECISÕES ADMINISTRATIVAS 63. A Autoridade Tributária indicou decisões administrativas deste CARF no sentido de corroborar com sua tese mas, como bem identificado pelo Recorrente, não indicou também as decisões que lhe eram contrárias. Trago, a seguir, decisões da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) na linha defendida pelo Recorrente: a) Câmara Superior de Recursos Fiscais Acórdão nº 9303006.315 – 3ª Turma, Sessão de 20/02/2018, Recurso Especial do Contribuinte: Fl. 1828DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.828 55 Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal e Luiz Eduardo de Oliveira Santos, que não conheceram do recurso e, no mérito, por unanimidade de votos em darlhe provimento. Por outro lado, o voto vencido, o qual este relator acompanhou, deu provimento ao Recurso da Contribuinte, por entender que: "somente devem ser considerados como receita, para fins do PIS e da COFINS, os bens e direitos que impliquem efetivo aumento patrimonial, vale dizer, que realmente influenciem o resultado do período, tendo sido recebidos com a finalidade de se agregarem ao patrimônio existente. Isto não ocorre com os valores que forem identificáveis como pertencentes a terceiros nas próprias datas de seus recebimentos (por força de lei ou de contrato e conforme registros contábeis pertinentes), independentemente destes terceiros integrarem a relação jurídica existente entre o pagador e o recebedor/transmitente dos recursos. (...) Tecnicamente, para fins contábeis, determina o item7 da Norma Brasileira de Contabilidade NBC TG nº 30 que “Receita é o ingresso bruto de benefícios econômicos durante o período proveniente das atividades ordinárias da entidade que resultam no aumento do seu patrimônio líquido, exceto as contribuições dos proprietários”, definição está igualmente constante da Norma de Pronunciamentos Contábeis CPC 30. No, entanto, no que importa ao presente julgamento é que receita implica, necessariamente, bens e direitos recebidos com a finalidade de se agregarem ao patrimônio existente. Pretender classificar como receita meros ingressos de recursos que não sejam de titularidade do contribuinte implica desnaturar o seu conceito técnico, em clara violação ao quanto disposto no artigo 195, I, “b” da Constituição Federal, nas Leis nºs. 9.718/98, 10.637/2007 e 10.833/2003, e no artigo 110 do CTN. (...) Compulsando aos autos, verifico que a Contribuinte dedicase a intermediação de venda de pacotes turísticos, passagens, reservas em hotéis etc. Não localizo a prestação de serviços de alimentação em hotéis, locação de veículos, etc. sendo portanto, impossível a Contribuinte prestar todos esses serviços para seus clientes, até porque a empresa não é detentora de hotéis e locadora de automóveis. Como se vê, os valores recebidos dos clientes, perfaz exclusivamente a comissão devida pela intermediação de negócios turísticos, a qual é contabilizada como receita da empresa. Os demais valores em litígio, referente às passagens aéreas, diárias de hotel, serviço de transfer, não transitam pela contas de resultado da Contribuinte, sendo contabilizado de Fl. 1829DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.829 56 modo separado, como valores de terceiros, para serem repassados posteriormente para seus efetivos titulares. Para melhor elucidar a controvérsia, por exemplo: o consumidor acessa o portal da Contribuinte, adquire uma passagem para Ilhas Maldivas, ida e volta, reserva um hotel 5 estrelas, aluga um carro para o período de sua estada. A Compra perfaz o valor de R$100.000.00 ( cem mil reais). A Contribuinte é proprietária da Companhia aérea? É proprietária do hotel? É proprietária da locadora de veículos? Não! A Contribuinte vai receber o valor referente a comissão da venda, o valor bruto será repassado para os prestadores de serviço, logo não se configura receita bruta da Contribuinte, somente a receita referente a comissão de venda. b) Câmara Superior de Recursos Fiscais Acórdão nº 9101 002.359 – 1ª Turma, Sessão de 16/06/2016, Recurso Especial do Procurador: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer o Recurso Especial da Fazenda Nacional, e no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencida a conselheira Adriana Gomes Rego. (...) A questão trazida em sede de Recurso Especial diz respeito ao conceito de receita bruta da atividade de agência de turismo. Conforme relatado, o entendimento prevalecente do acórdão recorrido, em síntese, é que a intermediação de vendas e serviços pela agência de turismo configura operação em conta alheia, de modo que os valores recebidos a esse titulo não configuram receita, mas somente ingresso contábil de recursos. Tal conclusão extraise do voto vencedor condutor do acórdão recorrido, (efl. 1764) ipsis litteris: Peço vênia para divergir do entendimento do ilustre Conselheiro Relator sobre o conceito de receitas nas atividades desenvolvidas pela Contribuinte, a qual, de forma incontroversa, presta serviços a consumidores pessoas físicas e jurídicas de agência de turismo. A intermediação na venda de passagens aéreas, passeios, viagens e excursões, bem como a intermediação remunerada na reserva de acomodações em meios de hospedagem, são operações da agência de turismo em conta alheia. Por conta de tal fato, os valores recebidos dos consumidores e imediatamente repassados aos respectivos fornecedores não caracterizam receita, mas tãosomente ingresso de recursos em sua contabilidade. A receita da agência, nesse particular, corresponde ao preço da agência, vulgo comissão ou corretagem, cujo valor é significativamente inferior ao Fl. 1830DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.830 57 montante das despesas contratadas perante terceiros em nome de seus clientes. Entenderse em sentido contrário implicaria intuitivamente inviabilizar a atividade de agência de turismo, muitas das quais vinculadas ao próprio SIMPLES, pois é sabido que a comissão em referência seria no mais das vezes bastante inferior à carga tributária incidente sobre o valor integral da operação realizada com o cliente e hotéis, restaurantes, outras agências, etc. Apenas se estivesse presente a prova inequívoca de que a Contribuinte vendia diretamente, por incontroversa sub contratação, operação de viagens e excursões, hipótese inocorrente no caso e excepcional para o setor, é que a base de cálculo dos tributos lançados poderia incluir o que o ilustre Conselheiro Relator atribui o conceito de "custos da atividade". Por tais fundamentos, voto no sentido de dar provimento ao recurso da Contribuinte. A Recorrente, discordando do entendimento acima, afirma que em consonância com o acórdão paradigma n° 930301.8210, os valores repassados por agência a terceiros configuram receita bruta, considerandose que a importância total consignada em nota fiscal/fatura representa o valor dos serviços prestados pelo emitente ao seu destinatário. (...) A questão exsurge sobre a receita das agências de turismo, quando recebem o preço integral dos serviços que vendem, o qual abrange a remuneração delas, agências, e o valor a pagar aos fornecedores desses serviços. (...) Depreendese do § 2º do art.27, acima transcrito, que restam explicitadas como espécies de preço de serviço das agências de turismo, além da comissão, o valor por elas agregado ao preço de custo dos serviços intermediados e a taxa de serviço cobrada do consumidor destes serviços. Com efeito, quando as agências de turismo recebem o preço integral dos serviços que vendem, o qual abrange a remuneração delas, agências, e o valor a pagar aos fornecedores desses serviços, temse como receita bruta somente os valores decorrentes dessa atividade de intermediação (comissão, valor agregado ao preço de custo dos serviços e taxa de serviço cobrada do consumidor). De outro modo, no caso em que a agência de turismo fornece diretamente os serviços turísticos ao consumidor diretamente ou sob contratação, não mera intermediação temse como receita bruta, o preço integral de venda permitida apenas a dedução das vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos. (...) Fl. 1831DF CARF MF Processo nº 10805.725776/201781 Acórdão n.º 3401006.207 S3C4T1 Fl. 1.831 58 Nessa senda é a decisão recorrida, que não merece reparo, a cujos fundamentos também adoto como razão de decidir. Por todo o exposto, NEGO provimento ao Recurso Especial do procurador da Fazenda Nacional. III CONCLUSÃO 64. Assim, pelos fundamentos acima expostos, voto por conhecer e dar provimento integral ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Lázaro Antônio Souza Soares Relator Fl. 1832DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10932.720085/2015-73
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 11 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Mon Jul 08 00:00:00 UTC 2019
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ)
Ano-calendário: 2010, 2011
SUJEIÇÃO PASSIVA. SÓCIO ADMINISTRADOR. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA TRIBUTÁRIA.
Provado pela fiscalização nos autos do processo que o sócio administrador agiu com excesso de poderes e/ou com infração à lei, a teor do art.135 do CTN, ao lado da sociedade contribuinte dos tributos, é também responsável pelos créditos correspondentes.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS.
Comprovado nos autos como verdadeiros sócios da pessoa jurídica, pessoas físicas, acobertadas por terceiras pessoas ("laranjas") que apenas emprestavam o nome para que este realizasse operações em nome da pessoa jurídica, gerindo, na prática, seus negócios e suas contas correntes bancárias, fica caracterizada a hipótese prevista no art. 124, I, do Código Tributário Nacional, pelo interesse comum na situação que constituía o fato gerador da obrigação principal.
SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA.
São solidariamente responsáveis as pessoas físicas que participem efetivamente do processo decisório para engendrar operações com o objetivo de reduzir a carga tributária, demonstrando o interesse comum ao auferir, direta ou indiretamente, os benefícios delas decorrentes.
GRUPO ECONÔMICO. CARACTERIZAÇÃO. SOLIDARIEDADE COMPROVADA.
Da análise dos autos o interesse comum das solidárias está absoluta e expressamente comprovados na medida em que, não só existia de fato um grupo empresarial, mas sim uma unicidade empresarial.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE. INTERESSE COMUM. CONFUSÃO PATRIMONIAL.
Caracteriza a confusão patrimonial de esferas patrimoniais típica do interesse comum previsto no artigo 124, I, do CTN, com a conseqüente responsabilização solidária, beneficiar-se pela utilização da estrutura legal e dos resultados da empresa, apropriando-se do patrimônio por ela gerado ilegalmente. No caso dos autos resta demonstrado o interesso jurídico e econômico, bem como o nexo entre as partes.
PRINCÍPIO DA INDIVIDUALIZAÇÃO DA PENA. INSTITUTOS DE DIREITO PENAL. INAPLICABILIDADE AO DIREITO TRIBUTÁRIO. JULGAMENTO ADMINISTRATIVO. ATIVIDADE VINCULADA E OBRIGATÓRIA.
A lei não confere discricionariedade à autoridade julgadora administrativa para aplicar, no âmbito do Direito Tributário, institutos próprios do Direito Penal, face tratar-se de atividade vinculada e obrigatória, estando subordinado aos comandos que estiverem expressamente previstos em lei.
REGIME DE TRIBUTAÇÃO. ARBITRAMENTO. IMPROCEDÊNCIA. RESTABELECIMENTO DO LANÇAMENTO ANO DE 2011.
A desconsideração de custos lastreados em notas fiscais inidôneas, independentemente do montante glosado, não dá causa ao arbitramento do lucro, vez que a adoção da referida sistemática devolve ao contribuinte o direito de deduzir parcela desses mesmos dispêndios, o que, à luz da moralidade e da legalidade, não é aceitável.
LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PAGAMENTO ANTECIPADO. DOLO. DECADÊNCIA. NÃO OCORRÊNCIA.
Na ausência de pagamento antecipado, ou quando caracterizada a ocorrência de dolo por parte do sujeito passivo, o prazo decadencial rege-se pelo disposto no art. 173, I, do CTN.
MULTA DE OFÍCIO. EFEITO CONFISCATÓRIO. RAZOABILIDADE. PROPORCIONALIDADE. SÚMULA 02. CARF.
Os princípios constitucionais da proporcionalidade, razoabilidade e vedação ao confisco são dirigidos ao legislador, cabendo à autoridade administrativa apenas aplicar a multa, nos moldes da legislação que a instituiu. Inteligência da Súmula CAR n. 2.
MULTA DE OFÍCIO. PERCENTUAL. LEGALIDADE. SUBSTITUIÇÃO POR MULTA DE 100%. IMPOSSIBILIDADE.
Os percentuais da multa de ofício, exigível em lançamento de ofício, são determinados expressamente em lei, descabendo a substituição por multa moratória em patamar diverso (100%). Súmula 02. CARF.
MULTA QUALIFICADA. APLICABILIDADE
Restou comprovado que a complexa operação criminosa foi realizada de forma dolosa mediante fraude e simulação, com o objetivo de sonegar tributos.
PEDIDO DE PERÍCIA CONTÁBIL. PRESCINDIBILIDADE INDEFERIMENTO.
Indefere-se pedido de perícia que, apesar de que apresente seus motivos e contenha a formulação de quesitos e a indicação do perito, seja prescindível para a composição da lide.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA.
A decisão relativa ao auto de infração do IRPJ deve ser igualmente aplicada no julgamento dos autos de infração reflexos da CSLL, PIS e COFINS uma vez que os lançamentos estão apoiados nos mesmos elementos de convicção, salvo em relação à matéria específica de cada tributo.
Numero da decisão: 1401-003.491
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário da autuada e dos responsáveis solidários, vencidos os conselheiros Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Letícia Domingues Costa Braga e Eduardo Morgado Rodrigues que divergiram em relação ao responsável Paulo Henrique Escobar Cerqueira. Em relação ao recurso de ofício, acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso, vencida a conselheira Letícia Domingues Costa Braga que lhe negou provimento
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente
(assinado digitalmente)
Cláudio de Andrade Camerano - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Carlos André Soares Nogueira, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga e Eduardo Morgado Rodrigues.
Nome do relator: CLAUDIO DE ANDRADE CAMERANO
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FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2010, 2011 SUJEIÇÃO PASSIVA. SÓCIO ADMINISTRADOR. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA TRIBUTÁRIA. Provado pela fiscalização nos autos do processo que o sócio administrador agiu com excesso de poderes e/ou com infração à lei, a teor do art.135 do CTN, ao lado da sociedade contribuinte dos tributos, é também responsável pelos créditos correspondentes. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. INTERPOSIÇÃO DE PESSOAS. Comprovado nos autos como verdadeiros sócios da pessoa jurídica, pessoas físicas, acobertadas por terceiras pessoas ("laranjas") que apenas emprestavam o nome para que este realizasse operações em nome da pessoa jurídica, gerindo, na prática, seus negócios e suas contas correntes bancárias, fica caracterizada a hipótese prevista no art. 124, I, do Código Tributário Nacional, pelo interesse comum na situação que constituía o fato gerador da obrigação principal. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. São solidariamente responsáveis as pessoas físicas que participem efetivamente do processo decisório para engendrar operações com o objetivo de reduzir a carga tributária, demonstrando o interesse comum ao auferir, direta ou indiretamente, os benefícios delas decorrentes. GRUPO ECONÔMICO. CARACTERIZAÇÃO. SOLIDARIEDADE COMPROVADA. Da análise dos autos o interesse comum das solidárias está absoluta e expressamente comprovados na medida em que, não só existia de fato um grupo empresarial, mas sim uma unicidade empresarial. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE. INTERESSE COMUM. CONFUSÃO PATRIMONIAL. Caracteriza a confusão patrimonial de esferas patrimoniais típica do interesse comum previsto no artigo 124, I, do CTN, com a conseqüente responsabilização solidária, beneficiar-se pela utilização da estrutura legal e AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 2. 72 00 85 /2 01 5- 73 Fl. 7821DF CARF MF Fl. 2 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 dos resultados da empresa, apropriando-se do patrimônio por ela gerado ilegalmente. No caso dos autos resta demonstrado o interesso jurídico e econômico, bem como o nexo entre as partes. PRINCÍPIO DA INDIVIDUALIZAÇÃO DA PENA. INSTITUTOS DE DIREITO PENAL. INAPLICABILIDADE AO DIREITO TRIBUTÁRIO. JULGAMENTO ADMINISTRATIVO. ATIVIDADE VINCULADA E OBRIGATÓRIA. A lei não confere discricionariedade à autoridade julgadora administrativa para aplicar, no âmbito do Direito Tributário, institutos próprios do Direito Penal, face tratar-se de atividade vinculada e obrigatória, estando subordinado aos comandos que estiverem expressamente previstos em lei. REGIME DE TRIBUTAÇÃO. ARBITRAMENTO. IMPROCEDÊNCIA. RESTABELECIMENTO DO LANÇAMENTO ANO DE 2011. A desconsideração de custos lastreados em notas fiscais inidôneas, independentemente do montante glosado, não dá causa ao arbitramento do lucro, vez que a adoção da referida sistemática devolve ao contribuinte o direito de deduzir parcela desses mesmos dispêndios, o que, à luz da moralidade e da legalidade, não é aceitável. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PAGAMENTO ANTECIPADO. DOLO. DECADÊNCIA. NÃO OCORRÊNCIA. Na ausência de pagamento antecipado, ou quando caracterizada a ocorrência de dolo por parte do sujeito passivo, o prazo decadencial rege-se pelo disposto no art. 173, I, do CTN. MULTA DE OFÍCIO. EFEITO CONFISCATÓRIO. RAZOABILIDADE. PROPORCIONALIDADE. SÚMULA 02. CARF. Os princípios constitucionais da proporcionalidade, razoabilidade e vedação ao confisco são dirigidos ao legislador, cabendo à autoridade administrativa apenas aplicar a multa, nos moldes da legislação que a instituiu. Inteligência da Súmula CAR n. 2. MULTA DE OFÍCIO. PERCENTUAL. LEGALIDADE. SUBSTITUIÇÃO POR MULTA DE 100%. IMPOSSIBILIDADE. Os percentuais da multa de ofício, exigível em lançamento de ofício, são determinados expressamente em lei, descabendo a substituição por multa moratória em patamar diverso (100%). Súmula 02. CARF. MULTA QUALIFICADA. APLICABILIDADE Restou comprovado que a complexa operação criminosa foi realizada de forma dolosa mediante fraude e simulação, com o objetivo de sonegar tributos. PEDIDO DE PERÍCIA CONTÁBIL. PRESCINDIBILIDADE INDEFERIMENTO. Indefere-se pedido de perícia que, apesar de que apresente seus motivos e contenha a formulação de quesitos e a indicação do perito, seja prescindível para a composição da lide. Fl. 7822DF CARF MF Fl. 3 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. A decisão relativa ao auto de infração do IRPJ deve ser igualmente aplicada no julgamento dos autos de infração reflexos da CSLL, PIS e COFINS uma vez que os lançamentos estão apoiados nos mesmos elementos de convicção, salvo em relação à matéria específica de cada tributo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário da autuada e dos responsáveis solidários, vencidos os conselheiros Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Letícia Domingues Costa Braga e Eduardo Morgado Rodrigues que divergiram em relação ao responsável Paulo Henrique Escobar Cerqueira. Em relação ao recurso de ofício, acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso, vencida a conselheira Letícia Domingues Costa Braga que lhe negou provimento (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente (assinado digitalmente) Cláudio de Andrade Camerano - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Carlos André Soares Nogueira, Abel Nunes de Oliveira Neto, Cláudio de Andrade Camerano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga e Eduardo Morgado Rodrigues. Relatório Tratam-se de Recursos Voluntário e de Ofício interpostos em face do acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Recife (PE), que julgou procedente em parte a impugnação administrativa apresentada pelo contribuinte em virtude de supostas infrações a legislação tributária, exigindo-se o Imposto de Renda Pessoa Jurídica, Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido, Contribuição para o PIS e COFINS, acrescidos de juros de mora e multa de oficio de 150%, cujo crédito tributário total importou em R$ 34.429.220,64, conforme demonstrativo de fls.5.933. DO AUTO DE INFRAÇÃO DE IRPJ Fl. 7823DF CARF MF Fl. 4 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Fl. 7824DF CARF MF Fl. 5 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 DO TERMO DE VERIFICAÇÃO E CONSTATAÇÃO FISCAL Um breve resumo A Fiscalização constatou que a autuada ANSESIL simulava compra de mercadorias e/ou matérias primas de várias empresas, as chamadas "noteiras", que não possuíam existência de fato, conforme diligências realizadas "in loco." Que a ANSESIL teria transacionado, por meio de notas fiscais emitidas de forma fraudulenta, um valor da ordem de R$ 46.193.050,41 em 2010 e durante o ano de 2011 teria sido da ordem de R$ 20.267.120,43, conforme mostrado na contabilidade apresentada via SPED. Que a ANSESIL foi constituída em 14/05/2010, em São Paulo - SP, "em nome das interpostas pessoas EVERSON CHIRICO MARTINEZ [...] e ANSELMO SILVA LIMA" e que, em alterações societárias posteriores, permaneceu apenas o primeiro sócio com 95% de participação societária. Informam ainda, com relação a este sócio majoritário, que esta pessoa, que reside em humilde residência (foto no Termo) teria apresentado DIRPF do ano de 2009 com rendimentos próximos a R$ 7.000,00 no ano, sendo que posteriormente à constituição da ANSESIL, apresentou na DIRPF do ano de 2011, um apartamento e um carro totalizando R$ 96.000,00 e rendimentos da ANSESIL. Levando-se em conta que a ANSESIL apresentou movimentação financeira da ordem de R$ 82.932.000,00, concluem que os sócios seriam "interpostas pessoas ('laranjas') para acobertar os reais beneficiários de estrondosa riqueza movimentada pela referida pessoa jurídica, ao arrepio do pagamento de impostos e contribuições." DAS DECLARAÇÕES - DIPJ Que a ANSESIL apresentou sua DIPJ dos anos-calendário de 2010 e 2011 pela regras do Lucro Real Trimestral, sendo que a do ano de 2010 foi entregue com valores zerados e a de 2011 com prejuízos em todos os trimestres. DA CONTABILIDADE Após várias intimações para apresentação de arquivos/livros contábeis e fiscais, além de extratos bancários, dos anos de 2010 e 2011, a intimada apresentou Livro Diário e Razão e cópias incompletas de extratos bancários (de 2011) e não apresentando os extratos do ano de 2010, sendo necessária a solicitação de RMF à instituição financeira, onde puderam constatar que constava no cartão de assinatura do BRADESCO a assinatura de EVERSON CHIRICO MARTINEZ. Que estiveram no endereço da ANSESIL e constataram que ninguém se encontrava no local. Do Termo Fiscal constam várias intimações para a Contribuinte no sentido de que refizesse sua contabilidade do ano de 2010, mas não a fez totalmente, tendo permanecido com Fl. 7825DF CARF MF Fl. 6 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 sua contabilidade via SPED sem a movimentação diária e com movimentação bancária incompleta. A partir dos dados da contabilidade, que continha registro de lançamentos de forma sintética de compras, a ANSESIL foi intimada em 02/09/2014 a comprovar o efetivo pagamento das compras relacionadas na Tabela 1 - COMPRAS DE MERCADORIAS COM SUBSTITUIÇÃO TRIBUTÁRIA - ANO DE 2011 (anexo ao termo), reintimada em 16/09/2014, 29/10/2014 e em 14/01/2015, além de apresentar a respectiva baixa contábil. Ainda, neste Termo de Intimação datado de 14/01/2015, foi intimada também, a exemplo da intimação para o ano de 2011, a comprovar o efetivo pagamento das compras registradas no ano de 2010. Por meio do Termo Fiscal de 27/03/2015, a ANSESIL foi informada e intimada a apresentar esclarecimentos, uma vez que foi identificada como destinatária de notas fiscais emitidas pelas empresas ali relacionadas, no período de 2011, s quais apresentavam várias irregularidades. Eis o relato fiscal: DA ANÁLISE FEITA PELA FISCALIZAÇÃO DOS CITADOS FORNECEDORES Dogma Indústria e Comércio de Metais Ltda. - empresa constituída em 2009, tendo movimentado R$ 924 mil em instituições financeiras, tendo dado saída de R$ 45,8 milhões em notas fiscais eletrônicas; não tem registro de funcionários; não localizada em seu endereço de cadastro; nunca entregou DIPJ, GFIP e DCTF; Teknoya Comércio Atacadista de Metais Ltda. Fl. 7826DF CARF MF Fl. 7 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 - empresa inexistente de fato; constituída em 2009, tendo simulado transações com a ANSESIL, que trata-se de empresa "noteira", quadro societário composto de interpostas pessoas, jamais apresentou DIPJ, GFIP, DIRF e DCTF, nada recolhido de impostos; Fontiny Comércio de Metais Ltda. - constituída em 2011, quadro societário composto por "analfabetos"; empresa inexistente de fato; nunca apresentou DIPJ, GFIP, DIRF e DCTF, nada recolhido de impostos; HSPAMBIENT Reciclagem de Metais e Plásticos Ltda. - empresa constituída em 2011, com movimentação de R$ 52 milhões no sistema financeiro nacional em 2012, tendo emitido R$ 128 milhões em notas fiscais eletrônicas nos anos de 2011 e 2012; empresa inexistente de fato; omissa em relação à entrega de DIPJ. nada recolhido de impostos e sem registro de vínculos empregatícios; quadro societário composto de interpostas pessoas; MURION Comércio de Metais Ltda. - empresa constituída em 17/06/2010, empresa inexistente de fato; omissa em relação à entrega de DIPJ, GFIP e DCTF; nada recolhido de impostos e sem registro de vínculos empregatícios; quadro societário composto de interpostas pessoas; KROMAL Indústria e Comércio de Metais Ltda. - empresa constituída em 2009, não possui registro de movimentação financeira, mas emitiu R$ 100 milhões em notas fiscais eletrônicas entre 2011 e 2012; empresa inexistente de fato (no endereço cadastral encontrava-se um ferro velho); omissa em relação à entrega de DIPJ; nada recolhido de impostos e sem registro de vínculos empregatícios; quadro societário composto de interpostas pessoas; Fundição Sideral Comércio de Metais Ltda. - ME - empresa constituída em 2009, não possui registro de movimentação financeira ou funcionários registrados, não foram encontradas entre 2011 e 2013 notas fiscais eletrônicas expedidas por esta empresa, entretanto, por meio de dados obtidos de terceiros (DIPJ), verificou- se que esta empresa fornecia insumos e mercadorias à várias empresas; empresa inexistente de fato; omissa em relação à entrega de DIPJ; nada recolhido de impostos e sem registro de vínculos empregatícios; quadro societário composto de interpostas pessoas; Mega Metal Indústria e Comércio de Metais Ltda. - ME - empresa constituída em 2009, não possui registro de movimentação financeira ou funcionários registrados, não foram encontradas entre 2011 e 2013 notas fiscais eletrônicas expedidas por esta empresa, entretanto, por meio de dados obtidos de terceiros (DIPJ), verificou- se que esta empresa fornecia insumos e mercadorias à várias empresas; empresa inexistente de fato; omissa em relação à entrega de DIPJ; nada recolhido de impostos e sem registro de vínculos empregatícios; quadro societário composto de interpostas pessoas; Fl. 7827DF CARF MF Fl. 8 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Quadro consolidado do montante de notas fiscais emitidas para a ANSESIL: FORNECEDOR NOTAS FISCAIS EMITIDAS PARA A ANSESIL ANO DE 2010 - R$ ANO DE 2011 - R$ DOGMA 3.663.607,02 3.834.197,35 TEKNOYA 19.507.671,05 6.876.505,56 FONTINY - 5.267.800,28 HSPAMBIENT - 4.121.152,97 MURION 2.361.568,91 - KROMAL 2.972.117,51 78.793,07 FUNDIÇÃO SIDERAL 10.531.275,21 - MEGA METAL 7.156.810,72 - Ainda, conforme consta no Termo de Verificação e Constatação Fiscal: 7. "Modus OPerandi" Fl. 7828DF CARF MF Fl. 9 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Fl. 7829DF CARF MF Fl. 10 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 9. CONSTITUIÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO 9.1. DECADÊNCIA [...] Não seria aplicável a regra de decadência prevista no parágrafo 4º do art.150 do CTN, haja vista ter ocorrido fraude no lançamento consubstanciado neste auto de infração, razão pela qual foi aplicada a multa qualificada no percentual de 150%, causa excludente da aplicação do citado dispositivo legal, e da consequente incidência da regra estabelecida pelo caput do art.173 do CTN. [...] 9.3. APURAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO E VALOR DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO 9.3.1. ANO DE 2010 Eis o relato fiscal: 9.3.2. ANO DE 2011 Fl. 7830DF CARF MF Fl. 11 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 [...] 9.4. QUALIFICAÇÃO DA MULTA E REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS 9.5. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA [...] Fl. 7831DF CARF MF Fl. 12 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Ainda, no item 9.5.1. DO MENTOR INTELECTUAL DA FRAUDE, a autoridade autuante descreve toda a situação que a teria levado a responsabilizar as pessoas físicas JOÃO NATAL CERQUEIRA, RAFAEL ESCOBAR CERQUEIRA, PAULO HENRIQUE ESCOBAR CERQUEIRA, JOÃO ANDRÉ ESCOBAR CERQUEIRA e PAULO CÉSAR VERLY DA CRUZ, "por terem ficado configurados como reais beneficiários das operações da empresa e, portanto, pessoalmente responsáveis pelas infrações à lei cometidas nas operações da empresa ora autuada." Em face da extensão dos fatos e situações, planilhas que envolvem tal questão, entendo ser de mais fácil assimilação se os apresentarmos diretamente quando do Voto. 9.6. CRÉDITO TRIBUTÁRIO APURADO Cientes da autuação fiscal, a empresa autuada e os interessados (sujeitos passivos responsabilizados) apresentaram IMPUGNAÇÕES ADMINISTRATIVAS. A autuada ANSESIL IND. E COMÉRCIO DE PAPÉIS LTDA. e seu sócio EVERSON CHIRICO MARTINEZ apresentaram idênticas impugnações, que a seguir se resume uma delas: - no item II - Os fatos norteadores da presente demanda, um breve resumo da autuação; - no item III - Dos aspectos relacionados à incidência do PIS-COFINS-IRPJ e CSLL, descreve o funcionamento do regime não cumulativo do PIS e da COFINS, e de regras de apuração de lucro real e presumido e CSLL; No item IV - Uma breve noção acerca da alegação de abertura de contas correntes bancárias, afirma que o fato de ter uma conta bancária na mesma agência das Fl. 7832DF CARF MF Fl. 13 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 empresas tidas como "noteiras" nada significa, uma vez que aquela agência movimenta grande parte dos recebíveis dos maiores sucateiros do Brasil. No item V - Dos aspectos inerentes à Declaração de Inidoneidade por parte do Fisco - Aplicação da Súmula 509 do STJ, discorre longamente sobre inidoneidade de documentos, fazendo menção a aproveitamento de IPI, que não é o caso dos autos. No item VI - Dos estabelecimentos comerciais sede das empresas que mantinham relação comercial com a Recorrente, em resumo alega que se as empresas mantinham ou não estabelecimento próprio para o exercício de suas atividades não seria um problema que lhe diz respeito; No item VII - A presunção por parte do Fisco dos valores pretensamente sonegados/omitidos pela Recorrente, traz posições doutrinárias acerca do conceito de presunção, dirigindo sua argumentação ao que dispõe o art.42 da Lei nº 9.430/96, dispositivo legal que sequer foi aventado nos autos. No item VIII - Da aplicação das Multas Moratória e Punitiva e a infringência do princípio da vedação ao confisco, discorre longamente acerca da cobrança de multas de ofício, com transcrições de decisões judiciais acerca dos percentuais de aplicação de multa de 75% e de 150%. Argumentos da Contribuinte: Fl. 7833DF CARF MF Fl. 14 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 No item IX - As incongruências perpetradas pelo Fisco e as inconsistências presentes no Auto de Infração ora objeto de Impugnação/Contestação, discorre sobre natureza das provas, verdade material e princípios do processo administrativo fiscal (PAF), para concluir que "não há qualquer respaldo legal para a exigência fiscal do pretenso crédito tributário, já que desprovido de qualquer fundamento jurídico a sua exigência." No item X - O ônus da prova e os limites ao livre convencimento do julgador, reitera alegações acerca das prova, de regras do PAF, a livre convicção do julgador e que sua decisão deve ser fundamentada, posições doutrinárias, onde, por fim, arremata: No item XI - Dos fatos controversos apontados pelo Fisco e diversos da realidade da Recorrente - Invenção Fiscal, alega que a auditoria fiscal faz menção de que a Recorrente teria se relacionado com certas empresas (que menciona), mas que na verdade não teve transação comercial com as empresas citadas; [Nota do relator: as empresas citadas pela Recorrente não fazem parte do lançamento tributário] No item XII - As empresas mencionadas no presente auto de infração e a demonstração efetiva da relação entre Estas e a Recorrente, relata que promoverá um relatório e documentos acerca de sua relação com as empresas citadas no auto de infração, nos termos do art.16 do Decreto 70.235/72; No item XIII - A descabida alegação do Fisco quanto aos dados descobertos no exame das fitas magnéticas dos bancos, argumenta que o Fisco alegou que o pagamento das duplicatas teria se efetivado por cheques que eram descontados em vez de serem depositados, Fl. 7834DF CARF MF Fl. 15 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 discorre acerca da definição de duplicatas, fatura, sua utilização, que a foram adotada pelos fornecedores (destino dos cheques) não estaria em sua alçada; No item XIV - Da responsabilidade do sócio Everson Chirico Martinez como sujeito passivo por responsabilidade tributária - incoerência e ilegalidade em face da legislação pátria, discorre longamente acerca do instituto da pessoa jurídica e sua autonomia em relação às pessoas naturais que a compõem, separação patrimonial com a pessoa física, comenta artigos do CTN sobre a responsabilidade solidária, posições doutrinárias. decisões judiciais, onde por fim finaliza: No item XV - Dos aspectos relacionados à quebra do sigilo bancário da Recorrente - inconstitucionalidade, que há decisões contraditórias e que o STF ainda não se posicionou sobre o tema; No item XVI - Da relação da Recorrente com as empresas citadas no mencionado auto de infração e conceituadas como pelo Fisco como fornecedoras inidôneas, conclui que: Fl. 7835DF CARF MF Fl. 16 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 DAS IMPUGNAÇÕES DOS RESPONSÁVEIS SOLIDÁRIOS DA IMPUGNAÇÃO DE PAULO HENRIQUE ESCOBAR II - Das preliminares No item II.1 - Da preliminar de decadência - aplicabilidade da regra do art.150 do CTN, parágrafo 4º, entende que teria havido a decadência das exigências relativas aos anos de 2010 e 2011, pois foi notificado do lançamento apenas em setembro de 2015. No item II.2 - Da impossibilidade de imputar responsabilidade tributária solidária utilizando-se simultaneamente das hipóteses dos arts.124, I e 135, III, ambos do CTN, alega: Fl. 7836DF CARF MF Fl. 17 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 III - Ilegitimidade passiva do Impugnante No item III.1 - Inocorrência da hipótese do art.124, I do CTN, ausência de interesse comum - que, “inexiste no Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal qualquer imputação ao Impugnante da condição de sócio de fato ou administrador da empresa autuada. Dessa forma seria impossível se cogitar na presença do mencionado interesse comum por parte do Impugnante na situação que constitui o fato gerador das obrigações principais daquela empresa." Afirma que “...partindo da conjectura de que o Impugnante seria partícipe do suposto esquema fraudulento, entendeu o Fisco que este também deveria ser responsabilizado pelos créditos tributários da ANSESIL INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE PAPÉIS LTDA. empresa autuada, independentemente de sua participação nos fatos geradores que ensejaram a constituição do referido crédito.” Argumenta que não se demonstrou e não existe qualquer participação dos Impugnantes nos fatos geradores dos tributos lançados e que na responsabilidade de que trata o art. 124, I, do CTN "o contribuinte do imposto é a pessoa que guarda relação pessoal e direta com a situação que constitua o fato gerador, ou seja, a empresa ANSESIL INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE PAPÉIS LTDA." Fl. 7837DF CARF MF Fl. 18 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Sustenta que: A solidariedade irá decorrer da participação da pessoa responsabilizada na realização do fato gerador, de modo que esta tenha executado, por si mesma, os fatos geradores da obrigação tributária, em concurso com outras. Nesta hipótese, o sujeito passivo será contribuinte em relação ao seu quinhão na participação do fato gerador, e será, ao mesmo tempo, responsável solidário pelo quinhão dos demais correalizadores do fato gerador. A solidariedade prevista no art. 124, I, CTN, exige que tenha havido a PRÁTICA CONJUNTA do fato gerador por duas ou mais pessoas que são contribuintes, portanto, não se revestindo da qualidade de contribuinte, resta afastada qualquer possibilidade de imputação da referida responsabilidade ao Impugnante. No presente caso, quando a empresa autuada adquiriu e fez circular, mesmo que ficticiamente, a mercadoria, ou quando auferiu renda, não se pode considerar que o Impugnante teria também, pessoalmente, realizado a materialidade tributária. Quem praticou estes atos foi apenas a pessoa jurídica. Ainda que terceiros possam ter recebido benefícios econômicos advindos da realização daquele fato gerador, não o praticaram. A prática pessoal do fato gerador de forma conjunta é requisito intransponível para a caracterização do interesse jurídico comum, e sem haver o interesse comum, não há solidariedade com base no artigo 124, I, CTN. Cita jurisprudência administrativa e judicial. Comenta que o STJ reconhece que o eventual INTERESSE ECONÔMICO de uma pessoa no fato gerador não é suficiente para caracterizar a solidariedade prevista no art. 124, I, CTN, sendo imprescindível a existência de um INTERESSE JURÍDICO – o que pressupõe a participação da pessoa responsabilizada na situação que constitui o fato gerador. No item III.2 - Inconsistência dos fatos indicados no trabalho fiscal para tentar fundamentar a sujeição passiva solidária, após descrever e reproduzir excertos do Termo Fiscal, conclui: Fl. 7838DF CARF MF Fl. 19 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 No item III.3 - Ausência de comprovação dos suposto redirecionamento dos recursos financeiros aos "reais beneficiários", sua conclusão, apesar de mencionar outras empresas, é a mesma do item anterior; No item III.4 - Dúvida quanto à autoria da infração, aplicabilidade do princípio in dubio pro contribuinte, previsto no art.112 do CTN, entende que o auto de infração é um ato jurídico administrativo que tem como pressuposto ou motivo a ocorrência de um ilícito e não se compreende a aplicação de penalidade quando não há certeza e segurança da autoria e/ou materialidade do ilícito tributário, nos termos do art. 112 do CTN, devendo tal entendimento se aplicar também à imputação de responsabilidade solidária à terceiros. Defende que, no caso, a imputação de responsabilidade tributária solidária aos Impugnantes foi baseada em meras presunções e indícios, patente é a sua ilegitimidade passiva. Argumenta que o Fisco não logrou comprovar a efetiva participação dos impugnantes no suposto “esquema de fraude” e que por isso deve-se aplicar o princípio in dúbio pro contribuinte para determinar sua exclusão do pólo passivo. No item IV - Improcedência dos lançamentos de IRPL/CSLL relativos ao ano de 2011, obrigatoriedade de se adotar o arbitramento de lucro, entende que o ano de 2011, a exemplo do procedimento adotado pelo Fisco em relação ao ano de 2010, também deveria ser objeto de arbitramento em função da alegada imprestabilidade da contabilidade da autuada. No item V - Improcedência dos lançamentos de PIS e COFINS relativos ao ano de 2011, obrigatoriedade de se adotar o arbitramento de lucro, entende que " uma vez que o trabalho fiscal não adotou corretamente o arbitramento, com a adoção do regime CUMULATIVO para a apuração das referidas contribuições, resta demonstrada a improcedência dos autos de infração." Fl. 7839DF CARF MF Fl. 20 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 No item VI. Ilegitimidade de multa qualificada em relação ao impugnante, aplicação do princípio da personalização da pena e Confisco, alega que “... nunca participou do quadro societário, e muito menos da administração da contribuinte autuada, não tendo o mesmo, portanto, qualquer comando no cumprimento das suas obrigações tributárias principais e acessórias.” Entende que "o Impugnante, mesmo na condição de responsável tributário solidário, não poderia jamais ser responsabilizado pelo pagamento de multa qualificada por se tratar de pessoa estranha à contabilidade desta, que nunca teve acesso aos documentos da autuada." Que a qualificação da multa decorre de situação personalíssima vinculada à pessoa jurídica autuada, que não se comunica com os responsáveis tributários solidário, que não respondem por esta parcela do crédito tributário em virtude do princípio da personalização da pena, segundo o qual somente aquele que deu ensejo ao ilícito pode se sujeitar às sua sanções. Suscita, ainda, a aplicação do Princípio da Individualização da pena, previsto no art. 5º, inciso XLV, da Constituição Federal, segundo o qual nenhuma pena passará da pessoa do condenado. Cita jurisprudência. Argumenta que a multa qualificada no percentual de 150% padece de constitucionalidade, ao se apresentar superior ao próprio tributo exigido, tendo efeito confiscatório. Cita jurisprudência judicial, inclusive o julgamento, pelo STF, da ADI 551-RJ; Requer seja determinada a exclusão da multa qualificada nos montantes exigidos em razão da aplicação do princípio da individualização da pena ou, no mínimo, determinada a redução da multa aplicadas ao limite dos valores exigidos. No item VII - Da prova pericial, consideram que o pleno conhecimento da matéria depende da realização de um perícia técnica, cujos quesitos foram formulados e indicado o seu assistente técnico. DA IMPUGNAÇÃO DE JOÃO ANDRÉ ESCOBAR CERQUEIRA DA IMPUGNAÇÃO DE RAFAEL ESCOBAR CERQUEIRA Itens idênticos aos relatoriados na Impugnação de Paulo Escobar Cerqueira: - II.1 - Da preliminar de decadência - aplicabilidade da regra do art.150 do CTN, parágrafo 4; - II.2 - Da impossibilidade de imputar responsabilidade tributária solidária utilizando-se simultaneamente das hipóteses dos arts.124, I e 135, III, ambos do CTN; III - Ilegitimidade passiva do Impugnante / III.1 - Inocorrência da hipótese do art.124, I do CTN, ausência de interesse comum; Fl. 7840DF CARF MF Fl. 21 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 No item III.2 - Inconsistência dos fatos indicados no trabalho fiscal para tentar fundamentar a sujeição passiva solidária, após descrever e reproduzir excertos do Termo Fiscal, conclui: No item III.3 - Dúvida quanto à autoria da infração, aplicabilidade do princípio in dubio pro contribuinte, previsto no art.112 do CTN; No item IV e V - Improcedência dos lançamentos relativos ao ano de 2011/obrigatoriedade de arbitramento de lucros; No item VI - Ilegitimidade da multa qualificada, aplicação do princípio da personalização da pena, inconstitucionalidade; VII - requerimento de prova pericial; DA IMPUGNAÇÃO DE RAFAEL ESCOBAR CERQUEIRA Na impugnação de Rafael Escobar Cerqueira, o item VI, além de repetir os itens já relatoriados na impugnação de Paulo Henrique Escobar Cerqueira, acrescenta: No item VI - Ausência de individualização do crédito tributário, valores irrisórios apontados, supostos indícios da participação do Impugnante, ofensa ao princípio da insignificância, alegando, em apertada síntese, que o valor de R$ 237.009,24 mostra-se ínfimo em relação aos valores rastreados e "tampouco há qualquer comprovação de que os ínfimos valores recebidos pelo Impugnante de outras empresas que não a empresa autuada tenha sido anteriormente por esta transferidos àquela." DA IMPUGNAÇÃO DE JOÃO NATAL CERQUEIRA Fl. 7841DF CARF MF Fl. 22 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Na impugnação de João Natal Cerqueira, além de repetir os itens já relatoriados na impugnação de Paulo Henrique Escobar Cerqueira, acrescenta: No item VI - Ausência de individualização do crédito tributário, valores irrisórios apontados, supostos indícios da participação do Impugnante, ofensa ao princípio da insignificância, alegou, em apertada síntese, que o valor de R$ 164.000.00 mostra-se ínfimo em relação aos valores rastreados e "tampouco há qualquer comprovação de que os ínfimos valores recebidos pelo Impugnante de outras empresas que não a empresa autuada tenha sido anteriormente por esta transferidos àquela." DA IMPUGNAÇÃO DE PAULO CESAR VERLY DA CRUZ No item III.1 - Nulidade da Exigência Fiscal - Divergência entre a capitulação legal e a motivação do lançamento, alega que no demonstrativo dos responsáveis tributários o Fisco aponta como fundamento legal o art.135, inc. III do CTN, entretanto na motivação menciona o art.124, inc.I do CTN; que ambos não podem ser invocados, pois regulam situações diferentes. No item IV.1 - Ilegitimidade Passiva do Impugnante, alega que nunca houve vínculo entre a pessoa física e a pessoa jurídica, no que tange a administração desta por aquela, onde, após descrever o procedimento fiscal, arremata: No item IV.1.2. Inaplicabilidade do art.124, inc.I do CTN, face à ausência de interesse nas situações que constituíram os fatos geradores das obrigações tributárias, alega que no caso dos autos "sequer um interesse financeiro restou comprovado, uma vez que nem o Relatório Geral de Auditoria, nem o Termo de Verificação Fiscal do Auto de Infração ora analisado conseguiram estabelecer um link objetivo entre Impugnante e ANSESIL, ou entre aquele e os fornecedores desta." No item IV.1.3 - Lançamento unicamente lastreado em presunções e inexistência de prova do seu envolvimento com a suposta fraude fiscal, tampouco que se beneficiou com o produto ilícito, cita e transcreve a posição de quatro empresas mencionadas pela fiscalização, apesar de não haver qualquer relação com a responsabilidade solidária que lhe foi atribuído e nem de figurarem na autuação. Fl. 7842DF CARF MF Fl. 23 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 No item IV.1.4 - Aplicação necessária do art.112 do CTN, lembra que em "pairando dúvida a respeito da formatação do ilícito quanto ao envolvimento do Impugnante, é de se aplicar o disposto no art.112 do CTN, com a sua exclusão do polo passivo da autuação. No item IV.2.1 - Incoerência na apuração das Bases Tributáveis, inobservância, arbitramento, alega que, a exemplo do ano de 2010, o ano de 2011 também deveria ser objeto de arbitramento de lucro. No item IV.2.2 - Acerca da presunção de inidoneidade das operações tidas por fictícias, pode-se resumir sua alegação no seguinte texto: No item IV.2.2 - Vício insanável do procedimento de apuração da base tributável - movimento circular dos valores tomados como base de cálculo de tributação, de se reproduzir parte de sua argumentação: [Transcreve o art.42 da Lei nº 9.430/96, dispositivo estranho à fundamentação da autuação] No item IV.2.3 - Desproporcionalidade dos recursos tomados por base no lançamento tributário, alegou, em síntese: Fl. 7843DF CARF MF Fl. 24 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 No item IV.3 - Inexigibilidade da multa qualificada, praticamente repete os mesmos argumentos dos demais responsáveis solidários: No item V - Da eventual perícia técnica-contábil, considera que o pleno conhecimento da matéria depende da realização de um perícia técnica, cujos quesitos foram formulados e indicado o seu assistente técnico. DA DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA O Acórdão ora Recorrido (11-54.381 - 3ª Turma da DRJ/REC) recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2010, 2011 NULIDADE. REQUISITOS ESSENCIAIS. Fl. 7844DF CARF MF Fl. 25 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Tendo sido regularmente oferecida a ampla oportunidade de defesa, com a devida ciência do auto de infração, e não provada violação das disposições previstas na legislação de regência, restam insubsistentes as alegações de nulidade do procedimento fiscal. NULIDADE. ERRO NO ENQUADRAMENTO LEGAL Eventual erro na citação do enquadramento legal de determinada infração não causa nulidade do auto de infração quando, através da descrição dos fatos, é possível à pessoa jurídica compreender as razões de autuação e exercer seu direito defesa. ALEGAÇÃO. COMPROVAÇÃO. A impugnação deve estar instruída com todos os documentos e provas que possam fundamentar as contestações de defesa. Não têm valor as alegações desacompanhadas de documentos comprobatórios, quando for este o meio pelo qual devam ser provados os fatos alegados. ATIVIDADE VINCULADA. ARGUIÇÃO DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA DAS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS PARA APRECIAÇÃO. As autoridades administrativas estão obrigadas à observância da legislação tributária vigente no País, sendo incompetentes para a apreciação de arguições de inconstitucionalidade e ilegalidade de atos regularmente editados. PEDIDO DE PERÍCIA E DILIGÊNCIA. DESNECESSIDADE. INDEFERIMENTO. Indefere-se o pedido de perícia quando os documentos integrantes dos autos revelam-se suficientes para formação de convicção e consequente julgamento do feito. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2010, 2011 LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PAGAMENTO ANTECIPADO. DOLO. DECADÊNCIA. Na ausência de pagamento antecipado, ou quando caracterizada a ocorrência de dolo por parte do sujeito passivo, o prazo decadencial rege-se pelo disposto no art. 173, I, do CTN. CONDUTA DOLOSA. MULTA QUALIFICADA. Caracterizada a conduta dolosa do sujeito passivo, aplica-se a multa qualificada prevista na legislação de regência. QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO. REPASSE DE INFORMAÇÕES SOBRE MOVIMENTAÇÃO BANCÁRIA. A Lei Complementar nº 105, de 2001, prevê expressamente que o repasse, pelas instituições financeiras, de informações solicitadas com suporte em seu art. 6º não configura violação ao dever de sigilo. Fl. 7845DF CARF MF Fl. 26 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 CRÉDITO TRIBUTÁRIO. SÓCIO DE FATO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. São solidariamente responsáveis pelo crédito tributário as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, incluindo-se na hipótese os sócios de fato da pessoa jurídica. SÓCIO GERENTE. EXCESSO DE PODERES, INFRAÇÃO DE LEI E CONTRATO SOCIAL. CRÉDITOS RESULTANTES. RESPONSABILIDADE. O sócio gerente é responsável pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. ARBITRAMENTO DO LUCRO. O lucro será arbitrado quando a escrituração a que estiver obrigado o contribuinte revelar evidentes indícios de fraudes ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para identificar a efetiva movimentação financeira, inclusive bancária, ou para determinar o lucro real. NOTAS FISCAIS INIDÔNEAS. GLOSA DE CUSTOS. Glosam-se os valores contabilizados como custos quando o sujeito passivo não comprova, mediante documentação hábil e idônea, a efetiva aquisição e pagamento das mercadorias. GLOSA DE CUSTOS. TOTALIDADE. Se a glosa dos custos representa a totalidade dos custos declarados, impõe-se a desclassificação da escrituração comercial e fiscal apresentada, e, consequentemente, a adoção do Lucro Arbitrado. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. PIS. COFINS. Estende-se aos lançamentos decorrentes, no que couber, a decisão prolatada no lançamento matriz, em razão da estreita relação de causa e efeito que os vincula. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS ANO-CALENDÁRIO: 2010, 2011 REGIME NÃO CUMULATIVO. LUCRO ARBITRADO. IMPOSSIBILIDADE. A pessoa jurídica tributada pelo imposto de renda com base no lucro arbitrado permanece sujeita ao regime cumulativo no que importa à Cofins. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP ANO-CALENDÁRIO: 2010, 2011 REGIME NÃO CUMULATIVO. LUCRO ARBITRADO. IMPOSSIBILIDADE. A pessoa jurídica tributada pelo imposto de renda com base no lucro arbitrado permanece sujeita ao regime cumulativo no que importa à Contribuição ao PIS. Fl. 7846DF CARF MF Fl. 27 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Acórdão Acordam os membros da 3ª Turma de Julgamento, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares de nulidade e decadência, indeferir o pedido de perícia e, no mérito, considerar procedente em parte a impugnação, para: I – Manter integralmente o crédito tributário relativamente ao ano-calendário 2010, inclusive com a aplicação da multa de 150%; II – Exonerar o crédito tributário relativamente ao ano-calendário 2011; III – Confirmar a imputação de responsabilidade solidária dos Senhores Everson Chirico Martinez, João Natal Cerqueira, Rafael Escobar Cerqueira, Paulo Henrique Escobar Cerqueira, João André Escobar Cerqueira e Paulo César Verly da Cruz, bem assim confirmar a revelia do Senhor Anselmo Silva Lima. Recorre-se de ofício ao Egrégio Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, nos termos da Portaria MF nº 3, de 3 de janeiro de 2008, esclarecendo-se que, quanto ao crédito exonerado, este acórdão só será definitivo após o julgamento em segunda instância. DOS RECURSOS VOLUNTÁRIOS De Ansesil Indústria e Comércio de Papéis Ltda. e Everson Chirico Martinez No Recurso Voluntário apresentado, tem-se as seguintes alegações: - Da inconstitucionalidade de considerar movimentação bancária para a constituição de fato gerador do imposto; - Da multa com efeitos confiscatório/vedação constitucional; - Da decadência; - Confissão: Fl. 7847DF CARF MF Fl. 28 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Nos Recursos Voluntários apresentados por Paulo Henrique Escobar Cerqueira, Rafael Escobar Cerqueira, João André Escobar Cerqueira e Paulo Cesar Verly da Cruz, tem-se, praticamente, naquilo que se refere com a atribuição de responsabilidade solidária, as mesmas razões já trazidas na impugnação administrativa, e eventuais novas considerações serão detalhadas no Voto. ANSELMO SILVA LIMA, sócio da Autuada, não apresentou impugnação. Em sessão realizada em 14 de maio de 2019, o presente processo foi retirado de pauta por conta de fato superveniente trazido pelo representante do espólio do Sr.JOÃO NATAL CERQUEIRA, responsável solidário, que ora retorna para julgamento em face da juntada aos autos do pertinente recurso voluntário, então apresentado e solicitado a sua juntada em 14 de maio de 2019. Também ora se anexou memorial trazido, cópia do recurso voluntário, mas contém Certidão de Óbito de João Natal Cerqueira e Procuração. Recurso Voluntário: Espólio de JOÃO NATAL CERQUEIRA: No item preliminar de decadência - entende que, pela aplicabilidade da regra do art.150 do CTN, parágrafo 4º, teria havido a decadência das exigências relativas aos anos de 2010 e 2011, pois foi notificado do lançamento apenas em setembro de 2015; ainda, que "a ocorrência de fraude pela empresa autuada não alcança o falecido João Natal Cerqueira, inexistindo qualquer comprovação de prática dolosa, em relação à sua pessoa.". No item Da impossibilidade de imputar responsabilidade tributária solidária utilizando-se simultaneamente das hipóteses dos arts.124, I e 135, III, ambos do CTN, alega: Fl. 7848DF CARF MF Fl. 29 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 - em outra preliminar, alega cerceamento de direito de defesa, uma vez que a decisão recorrida indeferiu a solicitação de perícia então formulada pelo falecido João Natal Cerqueira; No item Ilegitimidade passiva do falecido João Natal Cerqueira - Inocorrência da hipótese do art.124, I do CTN, ausência de interesse comum: - que, “compulsando o Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal verifica-se que inexiste qualquer comprovação ou indício da existência de uma relação direta entre o falecido João Natal Cerqueira e a empresa autuada" Afirma que “...partindo da conjectura de que o falecido João Natal Cerqueira seria partícipe de um suposto esquema fraudulento envolvendo a empresa autuada, entendeu a autoridade fiscal que o falecido João Natal Cerqueira deveria ser responsabilizado pelos créditos tributários da empresa autuada ANSESIL INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE PAPÉIS LTDA. independentemente de sua participação nos fatos geradores que ensejaram a constituição do referido crédito.” Sustenta que: A solidariedade irá decorrer da participação da pessoa responsabilizada na realização do fato gerador, de modo que esta tenha executado, por si mesma, os fatos geradores da obrigação tributária, em concurso com outras. Nesta hipótese, o sujeito passivo será contribuinte em relação ao seu quinhão na participação do fato gerador, e será, ao mesmo tempo, responsável solidário pelo quinhão dos demais correalizadores do fato gerador. A solidariedade prevista no art. 124, I, CTN, exige que tenha havido a PRÁTICA CONJUNTA do fato gerador por duas ou mais pessoas que são contribuintes, portanto, não se revestindo da qualidade de contribuinte, resta afastada qualquer possibilidade de imputação da referida responsabilidade ao falecido João Natal Cerqueira. Fl. 7849DF CARF MF Fl. 30 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 No presente caso, quando a empresa autuada adquiriu e fez circular, mesmo que ficticiamente, a mercadoria, ou quando auferiu renda, não se pode considerar que o falecido João Natal Cerqueira.teria também, pessoalmente, realizado a materialidade tributária. Quem praticou estes atos foi apenas a pessoa jurídica. Ainda que terceiros possam ter recebido benefícios econômicos advindos da realização daquele fato gerador, não o praticaram. A prática pessoal do fato gerador de forma conjunta é requisito intransponível para a caracterização do interesse jurídico comum, e sem haver o interesse comum, não há solidariedade com base no artigo 124, I, CTN. Cita jurisprudência administrativa e judicial. Comenta que o STJ reconhece que o eventual INTERESSE ECONÔMICO de uma pessoa no fato gerador não é suficiente para caracterizar a solidariedade prevista no art. 124, I, CTN, sendo imprescindível a existência de um INTERESSE JURÍDICO – o que pressupõe a participação da pessoa responsabilizada na situação que constitui o fato gerador. No item Inconsistência dos fatos indicados no trabalho fiscal para tentar fundamentar a sujeição passiva solidária, após descrever e reproduzir excertos do Termo Fiscal, enumera os pontos indicados pela Fiscalização que, "teoricamente, justificariam a imputação de responsabilidade passiva solidária ao falecido João natal Cerqueira.": Fl. 7850DF CARF MF Fl. 31 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 - item 1: Ausência de envolvimento da empresa Nature Emp. e Part. Ltda.; - que o Termo Fiscal menciona que o falecido João Natal Cerqueira participa com 99,99% do quadro societário da NATURE; mas que não há nenhuma prova do envolvimento deste empresa com a suposta fraude fiscal; - item 2: da relação com a empresa CIMEELI COM. E IND. DE METAIS E LIGAS LTDA.; - que em todo o período fiscalizado, o falecido João Natal Cerqueira não exerceu a administração da sociedade; que a CIMEELI jamais transacionou com a ANSESIL nos anos de 2010 e 2011; item 3: inexistência de participação na empresa KOPRUM (então denominada Comércio de Metais Jardinópolis Ltda.); - que o falecido João Natal Cerqueira sequer era sócio da referida empresa; que é uma arbitrariedade fiscal do trabalho fiscal ao tentar justificar a equivocada imputação de responsabilidade solidária ao falecido João Natal Cerqueira; Fl. 7851DF CARF MF Fl. 32 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 item 4: inexistência de participação na empresa EMPÓRIO DE METAIS desde o ano de 2002: que se retirou totalmente da sociedade em 15/04/2002; item 5: indevida suposição de que seria um dos reais beneficiários da suposta fraude; - que, compulsando os Termo Fiscal, trata-se de somente seis depósitos da empresa autuada ANSESIL que tem o Recorrente como beneficiário, cuja soma perfaz o montante de R$ 164.000,00, que seria um valor ínfimo em comparação ao volume de operações na suposta fraude fiscal; No item Ausência de comprovação dos suposto redirecionamento dos recursos financeiros aos "reais beneficiários": que a lógica fiscal é falha, ao trabalhar com Fl. 7852DF CARF MF Fl. 33 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 suposições, não demonstrando o "modus operandi" do suposto redirecionamento dos recursos financeiros hipoteticamente recebidos pelas empresas KOPRUM, CIMEELI e EMPÓRIO DE METAIS aos integrantes da "Família Cerqueira"; No item Dúvida quanto à autoria da infração, aplicabilidade do princípio in dubio pro contribuinte, previsto no art.112 do CTN, entende que o auto de infração é um ato jurídico administrativo que tem como pressuposto ou motivo a ocorrência de um ilícito; - nesse contexto, não se compreende a aplicação de penalidade quando não há certeza e segurança da autoria e/ou materialidade do ilícito tributário, nos termos do art. 112 do CTN; - defende que, no caso, a imputação de responsabilidade tributária solidária ao falecido João Natal Cerqueira foi baseada em meras presunções e indícios, patente é a sua ilegitimidade passiva; - argumenta que o Fisco não logrou comprovar a efetiva participação do falecido João Natal Cerqueira no suposto “esquema de fraude” e que por isso deve-se aplicar o princípio in dúbio pro contribuinte para determinar sua exclusão do pólo passivo. Voto Conselheiro Cláudio de Andrade Camerano Preenchidos os requisitos legais de admissibilidade dos recursos voluntários apresentados, deles se toma o devido conhecimento. Do Recurso Voluntário da Autuada e de Everson Chirico Martinez Relativamente à questão de quebra de sigilo bancário e inconstitucionalidade da legislação, a DRJ já se encarregou de debelar tais alegações, a seguir reproduzidas e as adoto como razão de decidir: I- Das Alegações de Ilegalidade e Inconstitucionalidade de Normas 15. Cumpre deixar assente, já de antemão, que não compete à autoridade administrativa o exame de arguições quanto à legalidade e constitucionalidade de normas insertas no ordenamento jurídico, competência esta atribuída em caráter privativo ao Poder Judiciário. À autoridade administrativa tributária cumpre observar a norma nos termos em que editada, em conformidade com o que estatui o art. 142 do CTN. 16. A esse respeito, assim expressou-se o Parecer Normativo CST nº 329/70: Iterativamente tem esta Coordenação se manifestado no sentido de que a argüição de inconstitucionalidade não pode ser oponível na esfera administrativa, por transbordar os limites de sua competência o julgamento da matéria, do ponto de vista constitucional. Fl. 7853DF CARF MF Fl. 34 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 17. A questão também está pacificada no âmbito do CARF: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. [...] 24. A alegação de que houve quebra ilegal do sigilo bancário não procede. O procedimento fiscal se deu em conformidade com o previsto no art. 6º da Lei Complementar nº 105, de 2001, regulamentado pelo Decreto nº 3.724, de 10 de janeiro de 2001. 25. Nos termos dos supracitados diplomas, a Receita Federal está autorizada a requisitar informações às instituições financeiras acerca da movimentação bancária dos contribuintes, independentemente de consentimento judicial, desde que, como no caso em tela, haja procedimento fiscal em curso e os exames sejam considerados indispensáveis. Tal procedimento não configura quebra de sigilo bancário, consoante disposição expressa nesse sentido veiculada no art. 1º, § 3º, da Lei Complementar nº 105, de 2001: Art. 1º As instituições financeiras conservarão sigilo em suas operações ativas e passivas e serviços prestados. [...] § 3º Não constitui violação do dever de sigilo: [...] III – o fornecimento das informações de que trata o § 2º do art. 11 da Lei nº 9.311, de 24 de outubro de 1996; (...) VI – a prestação de informações nos termos e condições estabelecidos nos artigos 2o, 3o, 4o, 5o, 6o, 7o e 9 desta Lei Complementar. (g.n.) 26. De mais a mais, informa-se que, em sessão do dia 23 de fevereiro de 2016, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a constitucionalidade do art. 6º da Lei Complementar nº 105, de 2001. [...] 29. De rejeitar-se, portanto, a preliminar de nulidade. Quanto à alegação de decadência, também a DRJ já se manifestou e de maneira correta e adequada, posição que adoto pelos seus próprios fundamentos: 33. Penso que a ocorrência de fraude foi demonstrada pela autoridade lançadora, que aplicou a multa qualificada prevista para tais casos, o que aqui será acatado, como se examinará adiante. Presente a ressalva contida na parte final do transcrito § 4º do art. 150 do CTN, afasta-se a aplicação desta regra especial, subordinando-se a contagem do prazo quinquenal à regra geral de decadência, insculpida no art. 173, I, do CTN. Fl. 7854DF CARF MF Fl. 35 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 34. Todavia, mesmo se não provado o evidente intuito de fraude, o que se cogita para argumentar, ainda assim não teria ocorrido a decadência do direito de constituir o crédito tributário no caso vertente. 35. É que, nos termos do CTN, os atos de iniciativa do sujeito passivo somente se aperfeiçoam com o pagamento do imposto antes do exame pela autoridade administrativa. Desta forma, constitui premissa inafastável, para que se caracterize o lançamento por homologação, a de que tenha havido pagamento antecipado do tributo. Inexistindo pagamento antecipado, ainda que insuficiente para satisfazer todo o crédito tributário, não se poderá falar em homologação, vez que não consumados os atos necessários ao pronunciamento da autoridade tributária. 36. Nesse sentido, a conclusão da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional – PGFN através do Parecer nº 1.617/2008, aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda: (...) 49. (...) d) para fins de cômputo do prazo de decadência, não tendo havido qualquer pagamento, aplica-se a regra do art. . 173, inc. I do CTN, pouco importando se houve ou não declaração, contando-se o prazo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; e) para fins de cômputo do prazo de decadência, tendo havido pagamento antecipado, aplica-se a regra do § 4º do art. 150 do CTN; (g.n.) f) para fins de cômputo do prazo de decadência, todas as vezes que comprovadas as hipóteses de dolo, fraude e simulação deve-se aplicar o modelo do inciso I, do art. 173, do CTN; (...) 38. No caso dos autos, constata-se que a contribuinte não efetuou nenhum recolhimento de IRPJ, CSLL, PIS ou Cofins apurados no ano-calendário 2010. Não tendo havido o pagamento antecipado do tributo, a contagem do prazo decadencial segue a regra geral prevista no art. 173, I, do CTN, o que implica concluir que, no caso concreto, em que os fatos geradores ocorreram a partir de junho de 2010, a decadência somente operaria efeitos a partir de 1º de janeiro de 2016, enquanto o lançamento foi cientificado à contribuinte em 1º de setembro de 2015. 39. De afastar-se, por conseguinte, também a preliminar de decadência. Relativamente à confissão do Sr. Everson Chirico Martinez, de que apenas atendeu apelo do Sr. João Natal Cerqueira para permanecer no quadro societário da autuada, de que era apenas funcionário que recebia salário mínimo, de se dizer que, conforme consta no Termo Fiscal, após a constituição da empresa, apresentou declaração de rendimentos IRPF para o ano de 2011 com rendimentos recebidos da autuada e bens no valor de R$ 96.000,00. Ainda, o Sr. Everson Chirico Martinez constava no cartão de assinaturas do BRADESCO: Fl. 7855DF CARF MF Fl. 36 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Ainda, no RELATÓRIO GERAL DE AUDITORIAS, fls.5537 a 5650, que integra o presente processo, verificaram a existência, como já mencionado no Termo Fiscal, de 22 empresas que se interligavam, criadas para favorecimento de um grupo de pessoas, como, por exemplo, na empresa METALAZUL COMÉRCIO DE METAIS LTDA. (relacionada no Quadro, item 7.10 do Termo Fiscal) , onde constataram que esta empresa era inexistente de fato, seus sócios de direito, Alexandre Junior da Silva e Jailson Teles de Carvalho, eram "laranjas" e havia esta empresa movimentado recursos em contas-correntes bancárias no total de R$ 27.209.839,00. No rastreamento dos cheques desta empresa, contatamos que seu controle administrativo estava à cargo do nacional EVERSON CHIRICO MARTINEZ, CPF 142510368-59 e portador da cédula de identidade RG n.37.409.703-3, que atua também como “testa-de-ferro” na empresa ANSESIL COMÉRCIO DE PAPÉIS LTDA, inscrita no CNPJ/MF sob o n.11.972.706/0001-31. Diversos eram os cheques emitidos por esta empresa inexistente de fato, constituída sorrateiramente em nome dos inocentes “ALECSANDRO” e “JAILSON”, que de fato eram administradas por EVERSON CHIRICO, inclusive no verso desses cheques constavam a sua assinatura, o número de sua cédula de identidade e a expressão anotada pelos caixas da respectiva agência bancária: “autorizado por Everson”, demonstrando que este, na sua função de segundo escalão dentro dessa extensa organização criminosa, possuía o chamado “domínio do fato”. (DOCTO. 09) [...] Nas análises que efetuamos em vários cheques emitidos pela METALAZUL, sacados contra o Banco Bradesco S\A, constatamos que vários deles possuíam anotações feitas pelos respectivos caixas da agência bancária, com a expressão: “autorizado Everson”, demonstrando indícios de ser EVERSON CHIRICO que assinava tais cheques e mantinha o controle da conta - corrente 007220-6 mantida na Agência 2914 Central P. Shop SP, do Banco Bradesco S\A. Cheques emitidos pela METALAZUL também constava como favorecido o próprio EVERSON CHIRICO, inclusive sacado mediante a sua assinatura, número da cédula de identidade e assinatura no verso do referido cheque. (DOCTO. 09 ) O Sr. Everson Chirico Martinez detinha poderes junto ao Banco, além de ser sócio gerente da autuada, estando correta a atribuição de responsabilidade tributária, ratificada pela decisão de piso: 92. No Termo de Verificação Fiscal, informa a autoridade lançadora que o ora impugnante, na condição de sócio administrador à época dos fatos geradores, praticou atos ilícitos com intuito doloso, em razão do que foi responsabilizado solidariamente pelo crédito tributário. Fl. 7856DF CARF MF Fl. 37 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 93. A arguição da defesa é no sentido de que o sócio não pode ser responsabilizado pelas dívidas da sociedade, salvo se praticar atos ilícitos. 94. Conforme se assentou nas premissas ora adotadas, o sócio de direito só pode ser responsabilizado solidariamente se detiver poderes de gerência e se tiver praticado ato ilícito no exercício dessa gerência, na forma do art. 135, III, do CTN. 95. Foi o que ocorreu na espécie. O impugnante, sendo sócio-gerente da autuada, praticou ato ilícito no exercício da função, conforme concluí anteriormente neste voto quando do exame das infrações e da multa qualificada.[...]. 96. Deve, assim, ser confirmado o vínculo de responsabilidade solidária do impugnante pelo crédito tributário. Foram apenas estas as questões trazidas pelos Recorrentes a este Colegiado, de forma que as apresentadas na impugnação e não reiteradas no recurso reputam-se definitivas, com exceção do cancelamento do crédito tributário lançado do ano de 2011 promovido pela DRJ, que adiante comentarei. Então, as seguintes questões restaram definitivas, conforme decidido pela instância de piso: 41. Como informa a fiscalização, a Delegacia da Receita Federal – DRF em Nova Iguaçu identificou diversas pessoas jurídicas domiciliadas no Rio de Janeiro e em São Paulo que, nos anos calendário 2010 e 2011, apresentaram milhares de notas fiscais de vendas com indícios de serem inexistentes. Por inserir-se no contexto do relatório e estar domiciliada na circunscrição fiscal da DRF/São Bernardo do Campo, a ora impugnante foi objeto de ação fiscal por parte dessa delegacia, resultando no processo que presentemente se examina. 42. Constatou-se que a Ansesil simulava haver adquirido mercadorias e/ou matérias-primas de empresas ditas “noteiras” que atuavam como fornecedoras, sem, contudo, existirem de fato. 43. Foram então glosadas as compras consideradas fictas, dado que amparadas em notas fiscais emitidas de forma fraudulenta, as quais representaram 88% e 86% das compras totais realizadas respectivamente nos anos-calendário 2010 e 2011. 44. Alegam as defesas: (i) que as transações efetivamente ocorreram, tendo a fiscalização presumido a inidoneidade das notas fiscais, (ii) que não é responsável por erro ou fraude cometido por outras empresas e (iii) que a declaração de inidoneidade das empresas não pode gerar efeitos retroativos. 45. A alegação de que as transações efetivamente ocorreram carece de provas a sustentá-la. Não obstante intimado e reintimado, o sujeito passivo contribuinte não apresentou contratos de compra e venda, duplicatas, comprovação dos pagamentos, conhecimentos de transporte, registros no estoque, nem qualquer prova de que as mercadorias efetivamente ingressaram no seu estabelecimento. 46. A falta de comprovação persiste agora na fase de impugnação, vez que as defesas não juntaram nenhuma prova da efetividade das operações. Como é Fl. 7857DF CARF MF Fl. 38 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 sabido, alegar e não provar é o mesmo que não alegar, e o Decreto 70.235, de 1972, estabelece, em seu art. 15, que a impugnação deve ser instruída com os documentos em que se fundamentar. 47. A meu ver, tais razões já justificariam a glosa dos custos, independentemente de se averiguar a idoneidade dos fornecedores. 48. Cabe aqui um esclarecimento. A glosa dos custos não se deu em razão de declaração formal de inidoneidade das empresas emitentes das notas fiscais glosadas, e sim pela sua não comprovação e pela inexistência real das operações, em face do que queda sem propósito a discussão proposta pela defesa acerca da irretroatividade de tal ato. 49. O que consta dos autos é que a Receita Federal, através da fiscalização e das constatações obtidas pelo Escritório de Pesquisa e Investigação da 7ª Região Fiscal, concluiu pela inexistência das empresas ditas fornecedoras. Tal fato, a par da falta de comprovação das operações por parte da autuada, reforça não só a justeza das glosas, mas também revela um esquema fraudulento envolvendo as operações, o que motivou a exigência dos tributos com acréscimo de multa qualificada. 50. São as seguintes as observações relacionadas aos fornecedores que conduzem à conclusão de que as operações eram fictas: I - inexistência física dos estabelecimentos; II – inexistência de funcionários registrados; III – ausência de recolhimento de tributos e de apresentação de declarações desde a fundação, não obstante as vultosas quantias expressas nas notas fiscais de venda; IV – sócios com perfil econômico-financeiro incompatível com os recursos supostamente negociados pela empresa, destituídos de patrimônio, sem entrega de declarações de IRPF, em alguns casos analfabetos, sem título de eleitor, o que denuncia fortes indícios de que sejam interpostas pessoas. 51. Concluo, assim, pela procedência da glosa de custos. VII - Da Tributação 52. Inicialmente, é necessário aclarar que não procedem as arguições dos impugnantes acerca da norma contida no art. 42 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1966. Transcreva-se referido dispositivo: Art. 42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. (...) 53. Como se vê, e por tudo o que se relatou, a matéria é estranha aos autos, porquanto a tributação não se deu em face de depósitos bancários de origem não comprovada, e sim em face da glosa de custos não comprovados. De sorte que, Fl. 7858DF CARF MF Fl. 39 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 ao revés do que reclamam as defesas, as movimentações bancárias não operaram influência alguma na base de cálculo dos tributos ora exigidos. 54. Da mesma forma, não se vislumbra nexo no argumento de que a empresa, por não ser indústria, não se submeteria à tributação do IRPJ, da CSLL, do PIS e da Cofins, pois é óbvio que não é somente a indústria que está sujeita a tais tributos. O argumento guardaria alguma lógica se se tratasse de lançamento do IPI. Como também está em curso um processo relativo ao IPI, conforme relatei no início, é de se crer que a defesa confundiu-se quanto às matérias dos processos. VII. 1 – Ano-Calendário 2010 55. Constatou a fiscalização que, em relação ao ano-calendário 2010, a pessoa jurídica apresentou a DIPJ adotando a tributação pelo Lucro Real, com apuração trimestral, com valores zerados. Suas compras, segundo as notas fiscais por ela utilizadas, importaram em R$ 52.189.682,47, das quais R$ 46.193.050,41 (88%) foram consideradas fictas pela fiscalização. 56. A autoridade fiscal, à vista da imprestabilidade da escrituração para a determinação do Lucro Real, efetuou o lançamento com base no Lucro Arbitrado, em conformidade com o que estabelece o art. 530, II, do Regulamento do Imposto de Renda de 1999. As razões consignadas para tanto, e que considero justificadoras do arbitramento, foram: I – Livros Diário e Razão sem as formalidades necessárias; II – movimentação nos Livros Diário e Razão sem discriminação, apenas mencionando o Livro de Registro de Entradas/Saídas; III – não constam movimentações diárias, nem movimentações financeiras completas nos citados livros; IV – o sujeito passivo, apesar de intimado e reintimado, não refez sua contabilidade. 57. O arbitramento do lucro, para apuração do IRPJ e da CSLL, teve por base a receita bruta obtida através das notas fiscais de saídas emitidas pela autuada. As notas fiscais se acham discriminadas no anexo I aos autos de infração (fls. 5.743/5.771) e não foram contestadas pelos impugnantes. 58. O PIS e a Cofins reflexos foram apurados pelo regime cumulativo, nos termos das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003: Lei nº 10.637, de 2002 – que dispõe sobre a não cumulatividade do PIS (...) Art. 8º. Permanecem sujeitas às normas da legislação da contribuição para o PIS/Pasep, vigentes anteriormente a esta Lei, não se lhes aplicando as disposições dos arts. 1º a 6º: (...) Fl. 7859DF CARF MF Fl. 40 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 II – as pessoas jurídicas tributadas pelo imposto de renda com base no lucro presumido ou arbitrado; (...) Lei nº 10.833, de 2003 – que dispõe sobre a não cumulatividade da Cofins (...) Art. 10. Permanecem sujeitas às normas da legislação da COFINS, vigentes anteriormente a esta Lei, não se lhes aplicando as disposições dos arts. 1º a 8º: (...) II - as pessoas jurídicas tributadas pelo imposto de renda com base no lucro presumido ou arbitrado; 59. Correta, pois, a formalização das exigências do PIS e da Cofins segundo o regime cumulativo. 60. De se manter, pelo que se expôs, os valores lançados do IRPJ, da CSLL, do PIS e da Cofins. [...] VIII - Da Multa Qualificada 73. A multa no percentual de 150% tem esteio no art. 44, II, da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, com a redação dada pela Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (...) § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (g.n.) 74. Transcrevam-se os arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502, de 1964: Art . 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Fl. 7860DF CARF MF Fl. 41 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Art . 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação Tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. 75. Considerou a autoridade autuante “ter sido indiscutivelmente dolosa a prática reiterada e sistemática de contabilizar pagamentos e operações comerciais fictícias com empresas inidôneas e inexistentes, porquanto conforme um sistema de agir incompatível com as excludentes de negligência ou boa-fé”. 76. Arguem os impugnantes que não restou comprovada a hipótese para a qualificação, além de arguirem que seu montante não pode superar o valor do tributo. Postulam, ainda, a redução para o percentual de 20%. 77. Como demonstrado acima, a aplicação da multa de 150% está claramente prevista no art. 44, II, da Lei nº 9.430, de1996, com a redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007. Contrariamente, inexiste previsão legal, em se tratando de multa de ofício, para a aplicação do percentual de 20%. 78. Quando do exame sob o tópico “das infrações”, já concluí ter havido esquema fraudulento a envolver as operações. Restou provada, nos autos, a utilização de documentação fiscal inidônea para suportar a contabilização de custos inexistentes, o que caracteriza a hipótese prevista no art. 72 da Lei nº 4.502, de 1964. 79. Deve, por conseguinte, ser mantida a exasperação da multa. Do Recurso de Ofício Relativamente ao ano calendário de 2011, a decisão de piso promoveu o cancelamento das exigências de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, acatando a defesa dos Impugnantes no sentido de que este ano também deveria, a exemplo do considerado no ano de 2010, ser objeto de arbitramento. Assim se posicionou a DRJ: 68. Como se vê, os custos glosados, cujos valores serviram de base ao cálculo do IRPJ e da CSLL no AC 2011, corresponderam a 85% das vendas brutas, a mais de 100% das vendas líquidas e a mais do que a totalidade dos custos e das compras levados ao resultado do exercício na DIPJ, o que evidencia o desacerto na sistemática da tributação adotada no lançamento, qual seja, o Lucro Real, em que a base de cálculo é o lucro líquido ajustado. 69. No presente caso, tem-se que a escrituração deveria ter sido reputada imprestável para a apuração do Lucro Real, em face do que se impunha a tributação com base no Lucro Arbitrado, nos termos do art. 530 do vigente Regulamento do Imposto de Renda: Fl. 7861DF CARF MF Fl. 42 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Art. 530. O imposto, devido trimestralmente, no decorrer do ano-calendário, será determinado com base nos critérios do lucro arbitrado, quando (Lei nº 8.981, de 1995, art. 47, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 1º ): (...) II - a escrituração a que estiver obrigado o contribuinte revelar evidentes indícios de fraudes ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para: (...) b) determinar o lucro real; Transcreve ementas de julgados do extinto CC e datadas de 2006/2007, que seriam favoráveis à tese que defendeu. Discordo, entretanto, do entendimento dado pela decisão de 1ª instância. De se mostrar. Primeiramente, no ano calendário de 2010, a autoridade autuante concluiu pela imprestabilidade da escrituração contábil da Contribuinte, conforme seu relato no Auto de Infração: Agora, com relação ao ano calendário de 2011, a autoridade autuante aceitou a escrituração da Contribuinte (não tinha todos os vícios apontados naquela de 2010), tendo apenas glosado os custos das compras das empresas (fornecedoras inidôneas) consideradas inexistentes. Eis seu relato: Fl. 7862DF CARF MF Fl. 43 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Em processo onde participei como relator/julgador em uma decisão da DRJ/FLNS/SC, havia autuação e solicitação semelhante na impugnação, tendo o CARF entendido que, mesmo com o altíssimo percentual de custos glosados, não caberia o arbitramento de lucro. Eis os argumentos proferidos no Acórdão 1301-001.079, de 06 de novembro de 2012, processo 11516.006348/2009-63, relatoria de Wilson Fernandes Guimarães: Ementa: REGIME DE TRIBUTAÇÃO. ARBITRAMENTO. IMPROCEDÊNCIA. Independentemente do montante glosado, a desconsideração de custos lastreados em notas fiscais inidôneas não dá causa ao arbitramento do lucro, vez que a adoção da referida sistemática devolve ao contribuinte o direito de deduzir parcela desses mesmos dispêndios, o que, à luz da moralidade e da legalidade, não é aceitável. Voto [...] Em regra, nas situações em que parcela significativa do custo é objeto de glosa por parte da Fiscalização, deve-se, de fato, arbitrar o lucro da fiscalizada, vez que em tais circunstâncias a aferição do lucro real resta comprometida. Também como regra geral, o arbitramento em referência se dá pela ausência de comprovação dos custos, isto é, não foi apresentada a documentação que serviu de suporte para os registros contábeis ou a documentação apresentada não é considerada hábil para fins de dedutibilidade. No caso vertente, contudo, não se trata de falta de apresentação ou de documentação julgada não hábil, mas, sim, de inserção de registros de custos suportados por documentos inidôneos (“frios”). Enquanto na primeira situação (custos não comprovados), o arbitramento se justifica, eis que não é razoável supor que as receitas tenham sido auferidas sem que a empresa tenha incorrido em dispêndios, na segunda (inserção de documentos inidôneos), o arbitramento do lucro significaria, em razão da Fl. 7863DF CARF MF Fl. 44 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 aplicação do percentual, o aproveitamento de custos comprovadamente inidôneos. Diante da natureza da receita auferida pela fiscalizada (revenda de mercadorias), mesmo restando comprovado que a maior parte do custo apropriado na apuração do resultado fiscal está lastreada em documentos inidôneos, admitir-se-ia, a partir do arbitramento, o cômputo de parcela significativa destes custos inidôneos na determinação do lucro real. O Recorrente, buscando chamar a atenção para o montante de custo glosado, o que, para ele, justificaria o arbitramento do lucro, diz que 93,97% do custo das mercadorias vendidas (CMV) foi desconsiderado, o que não deixa de ser verdade (R$ 43.810.432,59 glosados, de um total de R$ 46.621.684,56 de CMV). Porém, se considerarmos o valor total dos custos e despesas apropriados, esta relação passa a ser de 63% (R$ 43.810.432,59 de R$ 70.085.581,89). Pelas razões expostas, não encontro reparo a ser feito na forma de tributação adotada pela autoridade fiscal. Pelos bons fundamentos trazidos no acórdão supra, que adoto, não procede o cancelamento das exigências tributárias lançadas e relativas ao ano de 2011, razão pela qual voto por dar provimento ao recurso de ofício. DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA Do recurso voluntário de PAULO HENRIQUE ESCOBAR CERQUEIRA. No recurso voluntário, repetem-se algumas argumentações já abordadas na Impugnação, trazendo algumas modificações em alguns tópicos: DA ILEGITIMIDADE PASSIVA DO RECORRENTE. INCONSISTÊNCIA DOS FATOS INDICADOS PELA FISCALIZAÇÃO PARA TENTAR FUNDAMENTAR A SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA DO RECORRENTE. NECESSIDADE DE REFORMA DO ACÓRDÃO RECORRIDO: Afirma que o acórdão recorrido se deixa convencer pelas mirabolantes construções trazidas no trabalho fiscal, esquivando-se de enfrentar os argumentos fáticos e de direito trazidos em defesa do Recorrente, na sua Impugnação, os quais comprovam a sua cabal ilegitimidade passiva,..."”. Diz que “o RELATÓRIO GERAL DE AUDITORIAS não conseguiu demonstrar qualquer mínima ingerência do Recorrente em qualquer das empresas investigadas e integrantes do suposto "esquema delituoso", o que também é prova indispensável, requisito inafastável para lhe ser imputada a condição de um dos "reais beneficiários" da fraude investigada”. ILEGITIMIDADE PASSIVA DO RECORRENTE. EQUÍVOCOS APURADOS PELO RECORRENTE EM RELAÇÃO AOS FATOS ACUSATÓRIOS APONTADOS NAS TRANSAÇÕES ENTRE AS EMPRESAS KOPRUM E PERFIBRÁS PELO SIMPLES CONFRONTO COM OS DOCUMENTOS ANEXADOS AOS PRESENTES AUTOS PELO PRÓPRIO FISCO. ILEGALIDADE E INCONSISTÊNCIA DO TRABALHO FISCAL: Aduz que “TODAS AS TRANSFERÊNCIAS E CHEQUES DESTINANDO VALORES À KOPRUM Fl. 7864DF CARF MF Fl. 45 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA, ENTÃO DENOMINADA COMÉRCIO DE METAIS JARDINÓPOLIS LTDA, OCORRERAM ANTERIORMENTE À REFERIDA EMPRESA PERTENCER À DENOMINADA FAMÍLIA "CERQUEIRA", POSSUINDO DIVERSA COMPOSIÇÃO SOCIETÁRIA E INEXISTINDO QUALQUER LIGAÇÃO COM O ORA RECORRENTE. Conforme se comprova pelas já anexadas cópias do Contrato Social e Primeira Alteração Contratual, levada a registro na Junta Comercial do Estado de Minas Gerais em 13/10/2010, a empresa KOPRUM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA, então denominada COMÉRCIO DE METAIS JARDINÓPOLIS LTDA, no ano calendário 2009, tinha a seguinte composição societária: Francisco Luiz Cantarino Collares e Ana Maria Simim Collares”. Antes de adentrar-se nas questões trazidas no recurso, notadamente aquelas de direito, mister verificar/entender as situações descritas no Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal que motivaram a inclusão do Recorrente no polo passivo como responsável solidário, nos termos do art.124, inciso I do CTN. A DRJ, em seu voto condutor, assim se manifestou: 104. Dentre os impugnantes, não consta, no Termo de Verificação Fiscal, recebimento de recursos diretamente por Paulo Henrique Escobar Cerqueira e João André Escobar Cerqueira. Não obstante, ambos se beneficiaram do esquema por participarem da empresa Electra, sócia da empresa Tellus, que, por sua vez, tem participação na empresa KOPRUM, beneficiária de várias e vultosas transferências de recursos. No recurso voluntário de Paulo Henrique Escobar Cerqueira, podemos resumir seus argumentos, por meio da reprodução de alguns excertos: Fl. 7865DF CARF MF Fl. 46 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Outras alegações foram trazidas, mas em grande parte citando outras empresas que não fazem parte do contexto do atual lançamento, contra a ANSESIL. No Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal, em seu item 9.5.2. Do retorno de recursos aos reais beneficiários e suas empresas, encontram-se elencadas as situações que motivaram a inclusão das já mencionadas pessoas arroladas no polo passivo como responsáveis solidários. Neste item estão os detalhes dos repasses financeiros para várias empresas e pessoas físicas, não havendo uma separação da situação que envolva cada um dos envolvidos/arrolados na autuação como responsáveis solidário, mas isto não dificulta e nem impede de se constatar o eventual envolvimento das empresas/pessoas físicas, nos termos do descrito neste item. No caso específico que estamos ora tratando, a DRJ sustenta que o Recorrente tinha participação em tal esquema, por ter participação societária na empresa Electra, sócia da empresa Tellus, e ser administrador na empresa KOPRUM. Neste item 9.5.2, a autoridade autuante revela que, naquilo que se refere à autuada ANSESIL, os recursos foram direcionados pela Autuada, por meio de cheques para várias empresas, principalmente à empresa PERFIBRÁS IND. E COM. LTDA, sendo que esta redirecionava recursos para, dentre outros destinos, também para a empresa KOPRUM (antiga Comércio de Metais Jardinópolis Ltda.). Conforme planilha no item 9.5.2: Fl. 7866DF CARF MF Fl. 47 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 O Recorrente alegou também que estas transferências efetivadas à KOPRUM foram realizadas em período anterior à sua participação nesta sociedade: Pode não ter sido mais administrador, apesar de só constar a afirmação nos autos, mas tinha participação indireta na KOPRUM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA. (antiga Comércio de Metais Jardinópolis Ltda.), conforme Relatório Geral de Auditoria: ELECTRA EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA, inscrita no CNPJ sob o n.º 10.461.488/0001-08, constituída em 07/11/2008, tendo como quadro societário os nacionais PAULO HENRIQUE ESCOBAR CERQUEIRA, CPF 060046146-00 com 33,33% de participação societária, RAFAEL ESCOBAR CERQUEIRA – CPF 070444786-03 COM 33,33% de participação societária e JOÃO ANDRÉ ESCOBAR CERQUEIRA, com 33,33% de participação societária respectivamente. (DOCTO. 174) Fl. 7867DF CARF MF Fl. 48 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 ELECTRA EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA., por sua vez, participava do quadro societário da XPTO ASSESSORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA., com 50% de participação, a qual fazia parte do quadro societário da KOPRUM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA. com 99,99% de participação. Conforme relatoriado, não se tratam de autuações isoladas, mas de um conjunto de autuações realizadas a partir de um amplo procedimento investigatório denominado "Operação Corrosão". Esta mesma Turma Ordinária apreciou outros lançamentos oriundos do mesmo procedimento fiscalizatório, em que faziam parte os mesmos solidários. Trata-se do PAF 10932.720105/2015-14, lavrado contra a PERFIBRAS e 10932.720090/2015-86, lavrado contra CLS METAIS INDUSTRIA E COMÉRCIO DE METAIS - EIRELI. Oportuno transcrever excerto de decisão relativa a esta última empresa, quando se apreciava a questão da responsabilidade solidária então atribuída a Paulo Henrique Escobar Cerqueira, nos termos do voto do Conselheiro Relator Daniel Ribeiro Silva (Acórdão 1401- 003.003, em sessão de 21 de novembro de 2018): Nesse sentido é que se faz necessário, verificar o nexo e a confusão patrimonial identificada pela autoridade fiscal. Pois bem. Neste ponto é que, conforme absolutamente comprovado, o Sr. PAULO HENRIQUE ESCOBAR CERQUEIRA e os demais solidários foram reais beneficiários de repasses realizados por diversas empresas do analisado esquema criminoso, entre elas a ALUMINIBRAS, que recebeu repasses da CLS, sem qualquer real contrapartida, vez que a autuada é empresa inexistente de fato. Assim, a meu ver, existe clara confusão patrimonial entre a autuada e a responsável solidária, além de um nexo comum entre as partes. [...] Desta feita, mais do que meros indícios de existência de interesse comum, entendo restar cabalmente comprovado não só o interesse jurídico e o nexo, uma vez que a CLS funcionava como empresa noteira e repassadora de valores para os reais destinatário, entre eles o responsável solidário. [...] Isto porque, apesar de citadas no Relatório Geral de Auditorias, no presente lançamento a atribuição da responsabilização solidária do recorrente se deu em razão da demonstração de repasses para a ALUMINIBRAS, empresa que fazia repasses para o responsável solidário. [o grifo não pertence ao original] Quer-se com isto mostrar que naquele processo ficou comprovada a confusão patrimonial e os repasses para o Recorrente, exatamente como o ora analisado. Neste processo em que ora apresento meu voto, verifica-se o mesmo modus operandi: cheques enviados, no caso, pela ANSESIL para a PERFIBRÁS e daí eram direcionados recursos para a KOPRUM (antiga Comércio de Metais Jardinópolis Ltda.) Fl. 7868DF CARF MF Fl. 49 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Quanto às supostas identidades entre as transferências de recursos da ANSESIL para PERFIBRÁS e da STARMETAL'S (em outro processo) para a PERFIBRÁS, de se dizer que nos autos deste processo tem-se a indicação dos CHEQUES ANSESIL para PERFIBRÁS, tendo o Recorrente se limitado a reproduzir a tabela apenas dos recursos enviados para a PERFIBRÁS, os quais teriam sido os mesmos desses autos. Ora, o que a planilha CHEQUES ANSESIL PARA PERFIBRÁS E OUTROS comprova é que os cheques ali indicados foram para a PERFIBRÁS, sendo que a tabela seguinte RECURSOS ENVIADOS DA PERFIBRÁS, tem o condão de mostrar que a PERFIBRÁS recebia cheques da ANSESIL e os redirecionava para a KOPRUM (que se denominava COM. DE METAIS JARDINÓPOLIS LTDA.) Se os CHEQUES STAR METALS (então considerados no outro processo) fossem os mesmos cheques indicados na planilha CHEQUES ANSESIL, aí sim, poderia se questionar a sua dupla utilização, entretanto, tal não se verifica nos autos. Isto vale para as mesmas situações, relativamente com as outras empresas citadas no recurso. Ocorre que, restou comprovado que, dentre os reais destinatários dos valores movimentados pela ANSESIL estavam a empresa PERFIBRÁS e daí para a KOPRUM, da qual restou absolutamente comprovado que o Sr. PAULO HENRIQUE ESCOBAR CERQUEIRA era o real beneficiário com recebimentos realizados pelas citadas empresas. Do enquadramento Legal: art.124, inciso I do CTN Existe nesse caso, clara demonstração de confusão patrimonial e nexo causal da atuação do envolvido com o esquema de sonegação, realizado através de fraude e simulação. O responsável é um dos reais beneficiários dos valores movimentados no referido esquema, razão pela qual claramente aplicável a hipótese de responsabilização prevista no inc. I do art. 124 do CTN. Neste ponto, trago parte da decisão sobre o assunto, em outro processo que já mencionei anteriormente, do Conselheiro Daniel Ribeiro Silva e relativo a este mesmo Recorrente (apesar de ser outra empresa autuada, a situação é a mesma, o mesmo modus operandi, como já ressaltei), que adoto integralmente por bem fundamentar a matéria: Fl. 7869DF CARF MF Fl. 50 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 É fato que, como regra, o tributo deve ser cobrado da pessoa que pratica o fato gerador. Nessas condições, surge o sujeito passivo direto (contribuinte). Em certos casos, no entanto, o Estado pode ter necessidade de cobrar o tributo de uma terceira pessoa, que não o contribuinte, que será o sujeito passivo indireto (“responsável tributário”). [...] o CTN (Lei Complementar), atribui hipóteses em que, tendo o objetivo de assegurar o recebimento do crédito, terceiros podem se tornar responsáveis. Exatamente o que ocorreu no caso concreto. Argumenta o Recorrente que para fins de aferição do interesse comum seria necessário que o responsável participasse da relação jurídica que deu origem ao fato gerador. Pois bem. Esse fundamento não é novo neste CARF. Ademais, em análise da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, é possível verificar que a corte, de forma pacífica, entende que a aplicação do artigo 124, inciso I, do CTN só pode ocorrer quando o interesse comum na realização do fato gerador seja o interesse jurídico, que pressupõe a prática conjunta do fato, o que afasta a responsabilidade pela simples circunstância de uma sociedade pertencer ao mesmo grupo econômico de outra. Por outro lado, é interessante notar que os casos analisados pelo STJ, que levaram a formação deste entendimento, são bem antigos e não enfrentam o redirecionamento aos grupos econômicos de fato envolvidos em suspeita de fraude, simulações ou abuso de personalidade jurídica. Por outro lado, é interessante notar que os casos analisados pelo STJ, que levaram a formação deste entendimento, são bem antigos e não enfrentam o redirecionamento aos grupos econômicos de fato envolvidos em suspeita de fraude, simulações ou abuso de personalidade jurídica. O que se verifica é que a análise de casos mais complexos que envolvem grupos econômicos de fato, por vezes envolvidos em fraude, tem sido obstada pela aplicação cada vez mais alargada da Súmula 07, que impede o STJ de averiguar matéria de fato em Recurso Especial. Assim, independente da fundamentação das instâncias inferiores, a corte tem mantido as decisões sem adentrar no mérito. Como bem pontua o Ex Conselheiro Marcos Neder: "Importante ressaltar que o simples fato de pertencer a um grupo de sociedades não pode, por si só, levar a uma tributação solidária das empresas. A atribuição de responsabilidade tributária solidária a uma sociedade por fatos geradores praticados por outras empresas do grupo é excepcional e regulada restritivamente na lei tributária. Apenas quando uma sociedade tem comprovadamente interesse comum na situação que constitua o fato gerador será possível a imposição da responsabilidade solidária com base no art. 124 do Código Tributário Nacional (CTN). Vigora em nosso ordenamento a diretriz geral de preservação da autonomia jurídica dos integrantes do grupo de sociedades (personalidade Fl. 7870DF CARF MF Fl. 51 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 própria) e da impossibilidade de a responsabilidade tributária transbordar da sociedade que realizou o fato gerador. (...) O fato jurídico suficiente à constituição da solidariedade não pode ser o mero interesse de fato, mas sim o interesse jurídico que surge a partir de direitos e deveres comuns entre pessoas numa mesma relação jurídica privada que constitui o fato gerador. Para isso, é indispensável o órgão aplicador comprovar o interesse comum na relação jurídica subjacente que serve como suporte para o surgimento do fato gerador do tributo." De fato, a análise do alcance e do conceito da terminologia "interesse comum" é absolutamente tormentosa, e não poderia ser mais vago. Alguns interpretes ao analisar de forma estrita o texto legalentendem que ao se referir ao interesse comum na situação que constitua o fato gerador, o CTN delimitou tal responsabilidade ao chamado interesse ou vínculo jurídico. E parece que foi essa linha que seguiu o STJ, ressaltando, é claro, que a referida corte firmou tal entendimento em situações menos complexas, e não tem adentrado ao mérito em novas análises. É difícil, para não dizer impossível, separar algumas situações em que o interesse econômico não dependa, necessariamente, do interesse jurídico na relação que constitua o fato gerador. Ou ainda, que tal interesse ou vínculo jurídico, também não resulte, necessariamente de um interesse no resultado econômico. De fato, a interpretação de tal dispositivo não pode ser tão alargada ao ponto de, aceitando a subjetividade do termo legal adotado, se atribuir de forma indiscriminada responsabilidade solidária a qualquer contribuinte que de alguma forma tenha obtido algum resultado econômico. Afinal, como se dizer que um fornecedor legítimo da autuada, não tenha interesse no sucesso da sua atuação (mesmo que indiretamente resultante de sonegação), para poder fornecer maiores volumes de mercadorias. Claro que este não é o objeto do legislador, e nem o meu entendimento. Entretanto, não vejo como restringir absolutamente a aplicação do dispositivo legal, a situações em que o responsável solidário tenha participado diretamente do fato ou situação que gerou o fato gerador. Quem participa diretamente de tal situação, é sempre o contribuinte de fato. A participação do responsável é, e sempre será, indireta. Entretanto, necessário que exista nexo entre a conduta da devedora solidária e a suposta infração, não necessariamente a realização do próprio fato gerador. Exatamente por isso é necessário aferir caso a caso, a existência desse nexo, razão pela qual não se pode adotar de maneira indiscriminada a posição majoritariamente manifestada pelo STJ. E nesse sentido, diante da grande incerteza quanto ao alcance de tal definição, como não poderia deixar de ser diferente, são várias as posições manifestadas em julgamentos deste CARF, não havendo um entendimento uníssono, até pela Fl. 7871DF CARF MF Fl. 52 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 necessidade de avaliação dos fatos verificados e provas produzidas em cada caso. Na linha das decisões que afastam a responsabilidade solidária por interesse comum, a tese majoritária é a aplicação do entendimento majoritário do STJ de forma direta, a exemplo do Acórdão n. 1402-001.886 (julgado em 27/11/2014) de Relatoria do Conselheiro Fernando Brasil, em que o mesmo defende que a responsabilidade solidária não é meio de inclusão de terceiro na lide, mas elemento de graduação dos que já compõem o polo passivo. Diz ainda que, para haver interesse comum, a situação jurídica realizada por alguém, gera os mesmos direitos e deveres para outra. Com a devida vênia ao Nobre e brilhante colega Conselheiro, não concordo com a posição manifestada. Entendo que ele se refira à solidariedade decorrente da realização direta do fato gerador. Nesse caso não estaríamos falando de terceiro responsável, mas do próprio contribuinte ou contribuintes de fato. Por sua vez, na linha contrária, também diversas decisões mantendo a responsabilidade solidária por interesse comum em situações em que exista fraude ou abuso de personalidade jurídica, confusão patrimonial, grupo econômico ou a demonstração de um nexo entre a atuação do solidário e a ocorrência da infração. Ressalte-se, tal linha argumentativa não adota o entendimento restrito do mero interesse econômico, afinal de contas, como já me manifestei, entendo que toda e qualquer pessoa que tenha qualquer tipo de relação econômica com o contribuinte tem, de certa forma, interesse econômico. Entretanto, na análise de caso a caso outros fatos e provas confirmam o nexo, mesmo que indireto, do responsável solidário. É o caso do entendimento manifestado nos Acórdãos 1102-001.102 (julgado em 06/05/2014) e 1102-001.032 (julgado em 11/03/2014), do Conselheiro Ricardo Marozzi, no qual verificou que as pessoas físicas eram titulares de fato e beneficiárias dos recursos fornecidos pelo contribuinte, tendo interesse imediato na situação que constitui o fato gerador. Nessa linha, em havendo a confusão patrimonial, elas se beneficiaram diretamente e tinham interesse no fato que constitui o fato gerador. Também nesse sentido é o Acórdão 1102-001.301 (julgado em 03/03/2015) do Conselheiro Ricardo Marozzi: RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. SOLIDARIEDADE. INTERESSE COMUM. CONFUSÃO PATRIMONIAL.Caracteriza a confusão patrimonial de esferas pessoais típica do interesse comum previsto no artigo 124, I, do CTN, com a conseqüente responsabilização solidária, beneficiar-se pela utilização da estrutura legal e da conta bancária de titularidade da empresa contribuinte. Seguindo a mesma linha da confusão patrimonial, o Conselheiro Marcos Takata no Acórdão 1103-00.188 (julgado em 18/05/2010), em que detectou confusão patrimonial nas atividades desenvolvidas por duas pessoas jurídicas. Fl. 7872DF CARF MF Fl. 53 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Outras situações também são ventiladas para fins de manutenção da responsabilidade solidária por interesse comum (fraude, abuso de direito, desconsideração de personalidade jurídica, etc). Nesse sentido é que se faz necessário, verificar o nexo e a confusão patrimonial identificada pela autoridade fiscal. Pois bem. Neste ponto é que, conforme absolutamente comprovado, o Sr. PAULO HENRIQUE ESCOBAR CERQUEIRA e os demais solidários foram reais beneficiários de repasses realizados por diversas empresas do analisado esquema criminoso, entre elas a ALUMINIBRAS, que recebeu repasses da CLS, sem qualquer real contrapartida, vez que a autuada é empresa inexistente de fato. Assim, a meu ver, existe clara confusão patrimonial entre a autuada e a responsável solidária, além de um nexo comum entre as partes. Desta feita, mais do que meros indícios de existência de interesse comum, entendo restar cabalmente comprovado não só o interesse jurídico e o nexo, uma vez que a CLS funcionava como empresa noteira e repassadora de valores para os reais destinatário, entre eles o responsável solidário. [Nota deste Relator: onde se lê ALUMINIBRÁS, substitua por PERFIBRÁS e onde está escrito CSL, substitua por ANSESIL]. Assim, não há como acolher os argumentos trazidos pelo Recorrente. Relativamente à outras empresas citadas no Relatório Geral de Auditorias, de se dizer que no presente lançamento a atribuição da responsabilização solidária do recorrente se deu em razão da demonstração de cheques para empresas que, comprovadamente, faziam repasses para o responsável solidário. Não são, portanto, argumentos aplicáveis ao presente lançamento. Pode ser que o Recorrente tenha trazidos fatos e argumentos apresentados em outros lançamentos, mas que não o aproveitam no lançamento ora em análise. Pelo exposto, correta a responsabilidade solidária atribuída a PAULO HENRIQUE ESCOBAR CERQUEIRA. Do recurso voluntário do Espólio de JOÃO NATAL CERQUEIRA A questão da decadência já foi devidamente comentada neste Voto, cujos argumentos anteriormente expostos estendem-se às alegações trazidas neste recurso voluntário. Conforme consta no Relatório Geral de Auditorias - "Operação Corrosão", parte integrante das peças fiscais de autuação, e Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal, o Sr. João Natal Cerqueira era um dos mentores intelectuais da fraude já amplamente reproduzida e descrita no relatório do presente Voto. Fl. 7873DF CARF MF Fl. 54 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Conforme relatoriado, a ANSESIL promovia a simulação de pagamentos a empresas inexistentes e/ou inidôneas, através da emissão de cheques e os recursos retornavam às contas correntes de várias pessoas/empresas, notadamente as pessoas integrantes da família Cerqueira, como já constatado anteriormente e adiante comentado em relação a outros integrantes da família, ora tidos também como responsáveis solidários. No Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal, consta que os recursos retornavam para João Natal Cerqueira, sócio das empresas KOPRUM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA., EMPÓRIO DE METAIS LTDA., CIMEELI COMÉRCIO E INDÚSTRIA DE METAIS E LIGAS LTDA. e NATURE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA. No recurso voluntário, o Recorrente esclarece que, relativamente à empresa KOPRUM, "sequer era sócio da referida empresa em todo o período fiscalizado, não participando de seu quadro societário e tampouco nomeado o seu administrador..." De se ver. KOPRUM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA.: KOPRUM tinha como sócia a XPTO ASSESSORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA. com 99,99%, a qual, por sua vez tinha como sócias as empresas ELECTRA EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA. e DAMP ASSESSORIA E PARTICIPAÇÃO LTDA, cada uma com 50%. ELECTRA tinha em seu quadro societário as pessoas de Paulo Henrique Escobar Cerqueira (33,33%), Rafael Escobar Cerqueira (33,33%) e João André Escobar Cerqueira (33,33%) e DAMP tinha em seu quadro familiares de Paulo Cesar Verly da Cruz. Como se vê, de fato o Recorrente não participava do quadro societário da KOPRUM (que possuía a denominação antiga de COMÉRCIO DE METAIS JARDINÓPOLIS LTDA.), entretanto, a KOPRUM recebeu recursos provenientes de várias empresas, dentre elas a autuada a ANSESIL. No caso, conforme consta no item 9.5.2. do Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal, vários recursos foram direcionados pela autuada ANSESIL à empresa PERFIBRÁS (empresa do grupo e já autuada), por meio de cheques, e daí foram para a COMÉRCIO DE METAIS JARDINÓPOLIS LTDA. (antiga denominação de KOPRUM), RAFAEL ESCOBAR EMPREENDIMENTOS e para o Sr. JOÃO NATAL CERQUEIRA (transferência da importância de R$ 200.000,00). Ainda, conforme consta no item 9.5.2. do Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal, constatou-se que recursos foram direcionados pela autuada ANSESIL à empresa FRAGA, por meio de cheques, e daí foram para EMPÓRIO DE METAIS, RAFAEL ESCOBAR CERQUEIRA e JOÃO NATAL CERQUEIRA: Fl. 7874DF CARF MF Fl. 55 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 No recurso voluntário, o Recorrente alega que havia se retirado da empresa EMPÓRIO METAIS LTDA.desde 2002. Conforme consta no Relatório Geral de Auditorias, a empresa EMPÓRIO DE METAIS LTDA. tinha em seu quadro societário as pessoas de PAULO CESAR VERLY DA CRUZ e JOÃO NATAL CERQUEIRA (em Doc.178, acostado aos autos, o Recorrente teria sido excluído do quadro societário em 18/06/2004). Entretanto, conforme consta no item 9.5.2. do Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal, constatou-se que vários recursos financeiros foram direcionados pela autuada ANSESIL à empresa INGAÍ ALUMÍNIO E METAIS COMERCIAL LTDA., por meio de cheques, a qual destinava recursos para CIMEELI COMÉRCIO DE METAIS E LIGAS LTDA. e JOÃO NATAL CERQUEIRA: Fl. 7875DF CARF MF Fl. 56 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 A empresa CIMEELI tinha como quadro societário a empresa NATURE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA., com 99,99% e JOÃO NATAL CERQUEIRA com 0,01%, entretanto na composição societária de NATURE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA o Sr. JOÃO NATAL CERQUEIRA participava com 99,99% e o outro integrante do esquema o Sr.PAULO CESAR VERLY DA CRUZ COM 0,01%. Se a CIMEELI era uma sociedade anônima e se denominava ALCICLA e o Recorrente diz que era um mero acionista, e que depois esta passou a ser limitada, pouco importa, o fato é que o Sr. JOÃO NATAL CERQUEIRA, recebeu recursos da ANSESIL por meio da empresa INGAÍ, que os repassava à CIMEELI. De forma que não é uma verdade absoluta a afirmação do Recorrente de que CIMEELI não tinha recebido recursos da ANSESIL. Fl. 7876DF CARF MF Fl. 57 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Continuando, ainda conforme consta no item 9.5.2. do Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal, ficou constatado que outros recursos foram direcionados pela autuada ANSESIL à empresa ALUMIBRÁS INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE ALUMÍNIO E METAIS LTDA., por meio de cheques, e daí foram para EMPÓRIO DE METAIS, JOÃO NATAL CERQUEIRA, RAFAEL ESCOBAR EMPREENDIMENTOS, ESCOBAR CERQUEIRA COM. CEÍCULOS e COM. DE METAIS JARDINÓPOLIS LTDA.: Fl. 7877DF CARF MF Fl. 58 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Da mesma forma, o mesmo modus operandi, com mais uma empresa, no caso, a empresa STAR METAL'S INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA., onde constataram que também a autuada ANSESIL direcionava recursos (cheques) a esta empresa e daí eram redirecionados a RAFAEL ESCOBAR CERQUEIRA, JOÃO NATAL CERQUEIRA E EMPORIO DE METAIS: Quanto à alegação de supostas identidades entre as transferências de recursos da ANSESIL para PERFIBRÁS e da STARMETAL'S (em outro processo) para a PERFIBRÁS, de se dizer que nos autos deste processo tem-se a indicação dos CHEQUES ANSESIL para PERFIBRÁS, tendo o Recorrente se limitado a reproduzir a tabela apenas dos recursos enviados para a PERFIBRÁS, os quais teriam sido os mesmos desses autos. Fl. 7878DF CARF MF Fl. 59 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Ora, o que a planilha CHEQUES ANSESIL PARA PERFIBRÁS E OUTROS comprova é que os cheques ali indicados foram para a PERFIBRÁS, sendo que a tabela seguinte RECURSOS ENVIADOS DA PERFIBRÁS, tem o condão de mostrar que a PERFIBRÁS recebia cheques da ANSESIL e os redirecionava para a KOPRUM (que se denominava COM. DE METAIS JARDINÓPOLIS LTDA.) Se os CHEQUES STAR METALS (então considerados no outro processo) fossem os mesmos cheques indicados na planilha CHEQUES ANSESIL, aí sim, poderia se questionar a sua dupla utilização, entretanto, tal não se verifica nos autos. Isto vale para as mesmas situações, relativamente com as outras empresas citadas no recurso. Ainda, como visto, restou constatado que, dentre os reais destinatários dos valores movimentados pela ANSESIL estavam a empresa PERFIBRÁS e daí para a KOPRUM, (que se denominava COM. DE METAIS JARDINÓPOLIS LTDA.), da qual restou absolutamente comprovado, por tudo ora exposto, que o Sr. JOÃO NATAL CERQUEIRA era um dos reais beneficiários com recebimentos realizados pelas citadas empresas. Quanto à alegação de que teria recebido R$ 164.000,00 em seis depósitos, provenientes da ANSESIL, que tal soma seria irrisória se comparada com os valores da suposta fraude fiscal e, ainda, que "os autos de infração em tela teriam que quantificar as parcelas dos respectivos créditos tributários exigidos sob a responsabilidade de cada obrigado", oportuno trazer aos autos excerto da decisão da DRJ/BHE, Acórdão 02-072.165, em que foi parte a Contribuinte CLS METAIS INDUSTRIA E COMÉRCIO DE METAIS - EIRELI, processo 10932.720090/2015-86, empresa que também fazia integrante do esquema fraudulento ora visto: Do princípio da insignificância De início cabe registrar que o princípio da insignificância deve ser afastado sempre que forem observadas condutas que atentem contra bens jurídicos de maior proteção no ordenamento jurídico, independentemente dos valores envolvidos. Nesse contesto, não se aplica tal princípio no caso de roubo, já que envolve violência, e tampouco no caso de contrabando, pois não é o valor material que se considera nesta espécie, mas os valores éticos e jurídicos que o sistema normativo-penal resguarda, conforme já decidiu o STF no julgamento do Hábeas Corpus (HC) 121916. Nessa linha, a fraude fiscal também não deve ser alcançada pelo princípio da insignificância, pois envolve conduta dolosa com o objetivo de eximir-se do pagamento, necessário para fazer frente às necessidades da sociedade. Tal conduta vale-se da sonegação, fraude ou conluio que não guardam coerência com conduta minimamente ofensiva do agente, ausência de risco social da ação, reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e inexpressividade da lesão jurídica. Tanto é que no caso concreto a multa foi qualificada e elaborou-se a representação fiscal para fins penais contra os recorrentes . Verifica-se, ainda, no TVF, o registro de que várias empresas do ramo não suportaram a concorrência desleal com os seus concorrentes e entraram em processo falimentar. Ou seja, a conduta é de maior gravidade. Ademais, os recorrentes estão se apegando apenas e tão somente aos valores que eventualmente tenham auferido como pessoas físicas. Ocorre que, mesmo aqueles que não obtiveram proveito pessoal no caso sob análise, restaram Fl. 7879DF CARF MF Fl. 60 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 beneficiados pelos valores que transitaram pelas empresas de que são sócios e saliente-se que estas tem em seu quadro societário os aqui relacionados como responsáveis solidário. Nesse contexto, os valores dos quais os recorrentes se beneficiaram já foram evidenciados neste voto. De todas as formas, o fato de os recorrentes terem se beneficiado apenas com parte dos valores movimentados pela autuada não é justificativa para aplicação do princípio da insignificância e afastá-los do pólo passivo. Se assim o fosse, todos os casos em que houvesse a indicação de responsáveis tributários o Fisco teria que demonstrar que estes se beneficiaram em valores correspondentes à infração apurada, o que nem de longe se cogita. A indicação dos valores percebidos por cada um dos recorrentes serve para demonstrar que eles eram os reais beneficiários dos recursos, demonstrando a participação dos mesmos na sociedade, bem como a participação deles na fraude identificada. Nessa linha, a responsabilidade tributária implica em responder pelo crédito tributário apurado, independentemente do benefício econômico mensurado, podendo, inclusive, todo o crédito tributário ser cobrado apenas de um dos responsáveis tributários, a teor do parágrafo único do art.124 do CTN, in verbis: "Art. 124. São solidariamente obrigadas: I - as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; II - as pessoas expressamente designadas por lei. Parágrafo único. A solidariedade referida neste artigo não comporta benefício de ordem." (negritou-se). Destarte, não deve ser acolhida a alegação do princípio da insignificância no caso concreto. Pelo exposto, correta a responsabilidade solidária atribuída ao Espólio de JOÃO NATAL CERQUEIRA. Do recurso voluntário de JOÃO ANDRÉ ESCOBAR CERQUEIRA A DRJ, em seu voto condutor, assim se manifestou: 104. Dentre os impugnantes, não consta, no Termo de Verificação Fiscal, recebimento de recursos diretamente por Paulo Henrique Escobar Cerqueira e João André Escobar Cerqueira. Não obstante, ambos se beneficiaram do esquema por participarem da empresa Electra, sócia da empresa Tellus, que, por sua vez, tem participação na empresa KOPRUM, beneficiária de várias e vultosas transferências de recursos. Pode não ser administrador como afirmou, mas era sócio da ELECTRA que participava na KOPRUM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA. (antiga Comércio de Metais Jardinópolis Ltda.), conforme Relatório Geral de Auditoria: Fl. 7880DF CARF MF Fl. 61 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 ELECTRA EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA, inscrita no CNPJ sob o n.º 10.461.488/0001-08, constituída em 07/11/2008, tendo como quadro societário os nacionais PAULO HENRIQUE ESCOBAR CERQUEIRA, CPF 060046146-00 com 33,33% de participação societária, RAFAEL ESCOBAR CERQUEIRA – CPF 070444786-03 COM 33,33% de participação societária e JOÃO ANDRÉ ESCOBAR CERQUEIRA, com 33,33% de participação societária respectivamente. (DOCTO. 174) ELECTRA EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA., por sua vez, participava do quadro societário da XPTO ASSESSORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA., com 50% de participação, a qual fazia parte do quadro societário da KOPRUM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA. (antiga COMÉRCIO DE METAIS JARDINÓPOLIS LTDA.) com 99,99% de participação. Como visto, trata-se da mesma situação verificada (mesmas planilhas) com o Recorrente Paulo Henrique Escobar Cerqueira, cujas conclusões estendem-se a este. Pelo exposto, correta a responsabilidade solidária atribuída a JOÃO ANDRÉ ESCOBAR CERQUEIRA Do recurso voluntário de RAFAEL ESCOBAR CERQUEIRA Relativamente a RESPONSABILIDADE de RAFAEL ESCOBAR CERQUEIRA, tem-se que no item 9.5.2 do Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal, a autoridade autuante revela que, naquilo que se refere à autuada ANSESIL, os recursos foram direcionados pela Autuada, por meio de cheques para várias empresas, no caso, às empresas FRAGA COMÉRCIO DE METAIS E PLÁSTICOS LTDA., sendo que os recursos por esta recebidos foram direcionados, dentre outros destinos, também para a empresa KOPRUM (antiga Comércio de Metais Jardinópolis Ltda.). Conforme planilha no item 9.5.2: Fl. 7881DF CARF MF Fl. 62 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Em outras planilhas, neste mesmo item, constam relação de cheques enviados pela ANSESIL para ALUMIBRÁS, STAR METALS e daí para RAFAEL ESCOBAR CERQUEIRA. Ainda, ANSESIL enviava cheques diretamente para RAFAEL ESCOBAR CERQUEIRA: Pelo exposto, correta a responsabilidade solidária atribuída a RAFAEL ESCOBAR CERQUEIRA. Do recurso voluntário de PAULO CESAR VERLY DA CRUZ Relatório Geral de Auditoria: IDENTIFICAÇÃO DOS REAIS BENEFICIÁRIOS Após a organização criminosa promoverem a simulação dos pagamentos dos títulos a essas empresas inidôneas, partícipes das fraudes, com a emissão dos cheques e emissão das notas fiscais, bem como as respectivas contabilizações desses eventos, visando transparecer plena legalidade aos olhos dos Fiscos estaduais e Federal, já que haviam várias empresas constituídas em diversos pontos do território nacional, os recurso retornavam às contas correntes daqueles que possuíam o chamado “domínio do fato”, ou seja, o clã da família CERQUEIRA, o patriarca, João Natal Cerqueira e seu sócio PAULO CESAR VERLY DA CRUZ , bem como às empresas de direito e de fato desse nefasto grupo econômico sorrateiro e dissimulado, às empresas: PAULO CESAR VERLY DA CRUZ e JOÃO NATAL CERQUEIRA participavam de várias empresas (como sócios e/ou administradores), citadas tanto no Relatório Geral de Auditoria, quanto no Termo Fiscal. A empresa CIMEELI COMÉRCIO E INDÚSTRIA DE METAIS E LIGAS LTDA., tinha em seu quadro societário a empresa NATURE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA., com 99,99% de participação societária, que, por sua vez, tinha em seu quadro societário as pessoas de PAULO CESAR VERLY DA CRUZ e JOÃO NATAL CERQUEIRA, os quais eram sócios também da EMPÓRIO DE METAIS LTDA.. Tem-se que no item 9.5.2 do Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal, a autoridade autuante revela que, naquilo que se refere à autuada ANSESIL, os recursos Fl. 7882DF CARF MF Fl. 63 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 foram direcionados pela Autuada, por meio de cheques para várias empresas, no caso, à empresa FRAGA COMÉRCIO DE METAIS E PLÁSTICOS LTDA., sendo que os recursos por esta recebidos eram direcionados, dentre outros destinos, para a empresa EMPÓRIO DE METAIS LTDA. Conforme planilha no item 9.5.2: Ainda, no item 9.5.2 do Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal, naquilo que se refere à autuada ANSESIL, é evidenciado que os recursos foram direcionados pela Autuada, por meio de cheques para outra empresa, no caso, à empresa INGAÍ ALUMÍNIO E METAIS COMERCIAL LTDA., sendo que os recursos por esta recebidos eram também direcionados, dentre outros destinos, para a empresa CIMEELI COM. DE METAIS E LIGAS LTDA., empresa controlada por NATURE EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA., com 99,99% de participação societária, que, por sua vez, tinha em seu quadro societário as pessoas de PAULO CESAR VERLY DA CRUZ e JOÃO NATAL CERQUEIRA, Conforme planilha no item 9.5.2: Fl. 7883DF CARF MF Fl. 64 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 Fl. 7884DF CARF MF Fl. 65 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 E assim, também foram constatadas emissões de cheques pela ANSESIL para empresas outras (ALUMIBRÁS IND. E COM. DE ALUMÍNIO E METAIS LTDA., STAR METAL'S IND. E COM. LTDA. e MARALIDAN EMPREENDIMENTOS LTDA.), as quais destinavam/redirecionavam os recursos à EMPÓRIO DE METAIS e/ou PAULO CESAR VERLY DA CRUZ, conforme planilhas no já citado item 9.5.2. Pelo exposto, correta a responsabilidade solidária atribuída a RAFAEL ESCOBAR CERQUEIRA. ALEGAÇÕES RECURSAIS EM COMUM DOS RECORRENTES Quanto à nulidade por cerceamento do direito de defesa em razão da não realização de perícia, igualmente não pode ser acolhida. O deferimento da realização de diligências ou perícias faz parte da competência do julgador, sendo dispensável quando entender desnecessária, como foi o caso dos autos. Também não há como se aplicar o art. 112 do CTN vez que entendo não haver dúvidas quanto a participação e benefício dos responsáveis solidários no esquema criminoso. Quanto à alegação de simultaneidade dos arts.124, I e art.135, inc.III, ambos do CTN, como enquadramento legal da responsabilidade solidária, de se dizer que não se tem motivos para se entender desta forma, pois está muito claro no Auto de Infração/Responsáveis Solidários que, com exceção da Contribuinte Autuada e de seu sócio de direito, às demais pessoas físicas constou a atribuição de responsabilidade solidária de fato, com base no art.124, inciso I, CTN. Quanto à alegação da decadência e da Multa Qualificada, a DRJ já se pronunciou em entendimentos que já reproduzi (e acatei) no Voto, quando alegada pela Contribuinte, de forma que o que ali foi posto é aplicável aos demais Recorrentes. Ainda, devo acrescentar que, relativamente à multa aplicada de 150% (multa qualificada), os Recorrentes, com exceção do espólio de João Natal Cerqueira, suscitaram a aplicação do PRINCÍPIO DA INDIVIDUALIZAÇÃO DA PENA, que, entretanto, trata-se de um instituto de direito penal, sendo inaplicável ao DIREITO TRIBUTÁRIO. A lei não confere discricionariedade à autoridade julgadora administrativa para aplicar, no âmbito do Direito Tributário, institutos próprios do Direito Penal, face tratar-se de atividade vinculada e obrigatória, estando subordinado aos comandos que estiverem expressamente previstos em lei. Fl. 7885DF CARF MF Fl. 66 do Acórdão n.º 1401-003.491 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 10932.720085/2015-73 CONCLUSÃO Em face de tudo que foi exposto, voto no sentido de (i) dar provimento ao Recurso de Ofício e (ii) negar provimento aos Recursos Voluntários da Autuada e dos Responsáveis Solidários. (assinado digitalmente) Cláudio de Andrade Camerano Fl. 7886DF CARF MF
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